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A arte de quebrar padrões Ilo Krugli não se maquia num camarim fechado. Não exige nenhum presente absurdo para se preparar para o espetáculo. Tudo o que precisa é de tempo para pintar o rosto, encontrar uma criança. O homem baixo, de cabelos grisalhos, leva quase trinta minutos para dar à face a coloração do céu nublado daquela tarde em Porto Alegre, envolvê-la com tinta azul e enegrecer as olheiras. Não é uma máscara. É simplesmente um detalhe para o artista de 82 anos, cuja trajetória é digna de filme. O homem que começou a trabalhar na adolescência, deixou sua cidade natal aos 20 anos, enfrentou ditaduras – assim mesmo, no plural – na América Latina e fundou um dos maiores grupos de teatro do Brasil é o mesmo que entra em cena dia 5 de maio, no parque da Redenção. O ator e diretor do teatro Ventoforte, grupo de São Paulo, não está em Porto Alegre num domingo por acaso. Ilo é o homenageado da oitava edição do Festival Palco Giratório, projeto realizado pelo SESC. Afinal, passaram-se quase 40 anos desde a fundação do que viria a ser chamado “divisor de águas na dramaturgia infantil brasileira”. Ele é argentino, nasceu em Buenos Aires. Aparentemente, não é um homem solitário, a julgar pelo carinho e admiração de seus colegas de trabalho. Sua arte demonstra necessidade de expressão, de fazer com que as pessoas reavaliem suas perspectivas sociais, independentemente da idade. A mesma arte que foi importante quando precisou criticar os regimes ditatoriais da América do Sul e ainda é, mesmo que em outro contexto, num presente em que as pessoas se olham e não se falam. Com um pincel na mão direita, o artista mira a si mesmo em um pequeno espelho quadrado e laranja. Pensa no quê? Talvez na sua infância, aos quatro anos, quando atravessou pela primeira vez uma rua sozinho. Desde então se dedicou a atravessar fronteiras. Não teve nenhuma formação acadêmica. Filho de imigrantes poloneses, o ator é de origem humilde. Seu pai era tecelão. A mãe, estilista de periferia, criava roupas para muitas pessoas no bairro. Ilo Krugli era um simples artista anônimo, desconhecido, quando se apresentava nas escadas do cortiço em que morava. O artista aprendeu a manusear bonecos com uma professora do primário, que, por sua vez, se instruiu com Javier Villafañe, companheiro de Lorca – poeta espanhol que esteve na Argentina em 1934 e inseriu esse estilo de teatro nos espetáculos – nas apresentações por Buenos Aires. Saiu de casa aos 20 anos,


rumo a Jujuy, na fronteira entre Argentina e Bolívia. Em 1950, começava a viagem pela América Latina, que só terminaria 23 anos depois. É nela que Ilo descobre a censura. “Para fazer arte no período das ditaduras tínhamos que driblar, avaliar os perigos, saber arriscar para conseguir atingir objetivos e sobreviver”. Nem todos os companheiros de teatro de Ilo eram craques, atacantes dribladores. Alguns deles foram presos – outros mortos. Havia muitos zagueiros. As celas e túmulos eram destinos comuns dos artistas naquela época. O próprio fundador do Ventoforte foi detido no Chile, após a ascensão de Pinochet. Para ele, a passagem pelo país dos Andes foi o pior momento. Ainda hoje imagina ser uma pessoa de muita sorte, por ter se encontrado nessa história e permanecido nela. É inevitável que os olhos azuis se tornem frios e molhados ao lembrar essas passagens da vida. O grupo se reúne no centro do palco. Não é um palco clássico. É um gramado com árvores em volta e quatro grandes painéis, que vão ser usados na apresentação, ao fundo. Um círculo formado por pequenos pedaços, que parecem de palha ou madeira, demarca o que deveria ser o espaço cênico – separando-o do público. Não é isso que Ilo quer. Certa vez o grupo foi avisado que deveria saber exatamente onde era o limite entre o espaço dos atores e o da plateia. Ilo respondeu: “Mas vamos descer até o público, chamar as crianças pra cá, incitar pra que elas invadam o palco, olhar para elas e esperar até que falem com a gente”. Por isso, o grupo se dirige para longe, começa a cantar para quem passa. Chama a atenção dos personagens anônimos em que se inspira o teatro: as pessoas comuns. A apresentação começa. Os artistas chegam ao palco e param bruscamente de cantar. Todos imóveis, alguns permanecem por instantes olhando fixamente a expressão das crianças mais próximas. Elas falam ou riem. Aparentemente não ficam constrangidas. O primeiro a pronunciar uma palavra é Juan Velasquez, ator do Ventoforte há dois ou três anos e narrador da peça. Não demora muito para que os demais artistas interajam com o público. Uma criança em especial responde corretamente a maioria das charadas, pois já tinha assistido ao espetáculo. Como prometido, no final da apresentação na capital gaúcha, os artistas convidam as crianças a invadirem o espaço cênico. Para Juan, é nessa fronteira em que se encontra toda a poesia do teatro. “Ali eu alcanço você, te olho, te ensino que tocar o outro não é errado, desde que não seja com maldade”.


Para tocar os outros, Ilo costumava fazer espetáculos em lugares inusitados. Em presídios, apresentava ao público o personagem Mané, que só conseguia se comunicar quando o ator colocava a mão na orelha e o escutava. “É o Mané que tá falando? Ah, ele tá dizendo que esperança é pra esperar”. Os presos aplaudiam, se identificavam com o boneco. O Mané não tinha voz, dependia de alguém para falar por ele, assim como alguém privado de vida social numa cadeia. “Você se identifica com as pessoas cada vez que quebra os padrões. Não que você não as respeite”, explica Juan. Para Ilo, as pessoas têm de manter a linguagem espontânea de expressão. “Se você fizer teatro, desenhar, escrever, cantar, ler a literatura moderna e antiga, entrar em contato com a cultura da humanidade você poderá sair desse maquinismo diário, de não olhar, não falar com ninguém, na rua e até dentro de casa”, propõe o artista. Sua ideia é produzir um teatro comunicativo que promova a educação e a reflexão dos hábitos na modernidade. “É complicado educar-se em um ambiente humilde, mas é igualmente ruim em outro desestruturado, como é uma sociedade sem diálogo”.

A arte de quebrar padrões