Issuu on Google+

filosofia REVISTA DO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO

ESPECIAL

PERFIL TUDO SOBRE A VIDA DO POLÊMICO FILÓSOFO

FILÓSOFO POP A PRESENÇA DE NIETZSCHE NA MÚSICA E NOS QUADRINHOS IDEIAS UMA ANÁLISE MINUCIOSA DOS PRINCIPAIS CONCEITOS NIETZSCHIANOS RELIGIÃO COM O ANTICRISTO, NIETZSCHE LEVOU AO EXTREMO SEU COMBATE AO CRISTIANISMO

nietzsche

A filosofia desconcertante e crítica de uma dos maiores pensadores da história

NAZISMO A VINCULAÇÃO DO PENSAMENTO NIETZSCHIANO AO NAZISMO É FRUTO DE MÁS INTERPRETAÇÕES

FIE_01_Capa.indd 1

02/08/2010 11:26:04


A FIE_02-03_Anuncio.indd 2

02/08/2010 11:25:26


A FIE_02-03_Anuncio.indd 3

02/08/2010 11:25:26


Editorial

E

sta edição especial da revista Filosofia apresenta em suas páginas a vida e a obra de um dos maiores pensadores da história moderna: o filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche. Escritor poético e apaixonado, filósofo de ideias desconcertantes e originais, Friedrich Nietzsche é autor de uma obra cada vez mais lida e que atinge um público diversificado. Do acadêmico imerso em suas pesquisas ao jovem que adentra ao fascinante universo da filosofia, ninguém passa indiferente aos seus aforismos e conceitos.

Para dar conta da amplitude do pensamento nietzschiano, expresso em obras geniais como Genealogia da moral e Humano, demasiado humano, preparamos um verdadeiro dossiê em que todos os ângulos de sua filosofia são abordados: quem influenciou e foi influenciado por Nietzsche, sua inserção na cultura pop, a sua relação com o niilismo e a religião, além de matérias que analisam os principais conceitos da obra de Nietzsche: Eterno Retorno, Transvaloração dos Valores, Übermensch... Para traçarmos uma radiografia completa, é preciso conhecer também a trajetória do filósofo alemão. Por isso, nada melhor do que um perfil biográfico de Nietzsche, desde a sua infância em Röcken e Naumburg até os últimos suspiros em Weimar. Afinal, a história do homem muitas vezes se confunde como a sua obra. E tanto a vida quanto os livros de Nietzsche merecem o registro. Merecem uma revista como esta que oferecemos a você, leitor. Boa leitura!

REALIZAÇÃO

Editores: Edgar Melo – MTB 47.499 Karina Alméri – MTB 45.403 Editora assistente: Daniel Rodrigues Aurélio e Sheyla Pereira Diretor de arte: Angel Fragallo Coord. de arte: Samuel Moreno Revisão: Cristiane Garcia e Pryscila Grosschädl Diagramação: Edson Ikê, Cleber Gazana, Luciana Toledo e Rodrigo R. Matias Ilustrações: Full Case Colaboradores: Angela Zamora Cilento, Gustavo Henrique Ferreira, Ivan Carlo Andrade de Oliveira, Jefferson Nunes, Jorge Luis Gutiérrez e Matheus Moura

foto:reprodução/wikipedia

www.fullcase.com.br | (11) 5081 6965 filosofia@fullcase.com.br

4 | filosofia especial

FIE_04-05_Editorial.indd 4

02/08/2010 11:24:49


Shutterstock FIE_04-05_Editorial.indd 5

02/08/2010 11:24:52


Sumário

8 12 26 32 38 44 48

Introdução

Cada vez mais lido e estudado, Friedrich Nietzsche é um fenômeno editorial

Biografia

Ecce Homo! A trajetória do filósofo alemão em um perfil biográfico

Pensamento Contemporâneo

A obra de Nietzsche é uma influência decisiva para vários filósofos e escritores contemporâneos

Transvaloração

A tranvaloração/ transmutação de todos os valores é um projeto nietzschiano fundamental

Eterno Retorno

A concepção de Nietzsche sobre o conceito de Eterno Retorno

Tradução

A compreensão adequada do pensamento nietzschiano passa pela qualidade da tradução de suas obras

Nazismo

É correto associar os livros de Nietzsche à doutrina nazista?

6 | filosofia especial

FIE_06-07_Sumario.indd 6

02/08/2010 11:24:13


56 60 68 72 82 88 94 96

Motivação

O pensador crítico da civilização e da moral, acredite, é utilizado de forma terapêutica

Niilismo

O filósofo e escritor Albert Camus analisou o niilismo contido na obra nietzschiana

Literatura

As aproximações estéticas e conceituais entre a filosofia de Nietzsche e os escritores russos do século XIX

Cultura pop

Filósofia somente para eruditos? Que nada! Nietzsche é pop também

Religião

De pequeno luterano à autor de O anticristo, a conturbada relação do filósofo com a religião

Influências

Romantismo, helenismo, Schopenhauer... As influências na formação de Nietzsche

Nietzteca

As principais obras de Nietzsche

Nietzteca

Obras interessantes que versam sobre a vida e a obra do filósofo filosofia especial | 7

FIE_06-07_Sumario.indd 7

02/08/2010 11:24:13


Introdução

Póstumo e... Contemporâneo

“S

Cento e dez anos após a morte de Friedrich Nietzsche, sua obra é cada vez mais lida e estudada. O que explica esse fenômeno? omente os dias vindouros me pertencem. Alguns homens nascem póstumos”. De autoria do filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche, nascido em 1844 na Prussia pré-Unificação alemã, a frase parece profetizar seu destino. Extraída de O Anticristo (escrito em 1888, publicado em 1895), a máxima – uma entre tantas que o tornaram célebre – poderia receber um complemento: “alguns homens nascem póstumos... e contemporâneos”. Mas o termo contemporâneo, se escrito por Nietzsche, tornaria a sua sentença contraditória. Afinal, ele reclamava justamente da falta de compreensão de seus pares de fins do século XIX. Hoje, porém, o contemporâneo lhe cai bem.

Escritor apaixonado e poético, e filósofo de argumentos cortantes, Friedrich Nietzsche não fora, em vida, reconhecido como gostaria – ou deveria. É difícil especular o que passava por sua mente atormentada quando cunhou tal máxima. Provavelmente ele estava entorpecido por uma mistura de amargura e ressentimento, no limite da sanidade, ainda que de certo modo consciente do caráter perene de seu pensamento. Em sua espécie de autobiografia Ecce Homo, manuscrito de 1888 publicado apenas em 1908, Nietzsche não economiza em autoelogios. Os capítulos são organizados em títulos como “Por que sou tão sábio”, “Por que sou tão inteligente” ou “Por que escrevo livros tão bons”. Romário, artilheiro e craque da seleção brasileira tetracampeã mundial em 1994, aprovaria a marra nietzschiana. Aliás, como o baixinho goleador, o filósofo se “garantia”. Embora na época ninguém tenha comemorado seus livros com o entusiasmo que vibramos com gols de Romário contra russos, suecos, camaroneses e holandeses.

No entanto, Nietzsche morreu em Weimar no ano de 1900, o tempo passou e a sentença de O Anticristo, que parecia uma bravata qualquer, revelou-se verdadeira. O autor de Assim falou Zaratustra (1885) e Genealogia da Moral (1887) é cada vez mais lido, seja pelos acadêmicos, aglutinados em grupos de estudo, seja pelo público em geral, que compra seus livros em livrarias, revistarias e até em book-machines instaladas em estações de metrô. Professores de Filosofia, artistas, estudantes, ateus, religiosos, adolescentes, aposentados, gente de direita ou esquerda, todos parecem hipnotizados com a força do pensamento nietzschiano. É impressionante! Há aqueles que adotam seus livros feito uma cartilha de autoajuda e também existem os capazes de moldar os aforismos do filósofo no enquadramento de toda e qualquer ideologia, do nazifascismo ao anarquismo. Há os apreciadores de sua reflexão sobre a condição humana e os admiradores de sua prosa-poética. Como também existem os detratores que esmiuçam os escritos de Nietzsche à procura de sinais

de charlatanismo e incoerência, e que o desacreditam por causa de sua metralhadora giratória disparada a esmo. No que eles têm certa razão, vamos admitir, pois o próprio Nietzsche definiu-se como “dinamite” e gostava do “bom combate”. Goste-se ou não do personagem desta revista especial, uma coisa é certa: ninguém passa imune por sua obra. Mesmo aqueles pouco afeitos aos livros ou à filosofia já citaram ou valeram-se de alguma máxima atribuída à Nietzsche, por vezes engolindo um “s” ou um “z” de seu nome – Nietzche, Nietsche... Que atire a primeira pedra quem nunca fez isso. Esses aforismos invadiram o senso comum e acabaram reescritos ou diluídos a partir da reflexão original. Dois exemplos de frases-clichê provenientes da lavra nietzschiana são “aquilo que não me destrói, fortalece-me” (lembra até um versículo bíblico, não é?) e a campeã em citações no Orkut: “É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante”. Frases reconhecidamente impactantes.

8 | filosofia especial

FIE_08-11_Introducao.indd 8

02/08/2010 11:23:40


Por falar na rede social do Google, mede-se a popularidade de uma personalidade, viva ou morta, pelo número de comunidades criadas para homenageá-la ou detoná-la. E entre os “orkutianos” Nietzsche é um sucesso. Em consulta realizada na manhã de 4 de junho de 2010, detectou-se 367 comunidades com a palavra Nietzsche, fora os derivados. Parte delas dedica-se a discussões sérias, como a Nietzsche Brasil, com mais de 40 mil membros. Mas chama a atenção principalmente as comunidades de gracejos e galhofas: Tendinietzsche, Hello Nietzsche, Assim falava nossos truta, Rinietzsche ou Nietzsche parece o Belchior. Não há prova maior de êxito, de reconhecimento, que ser alvo de paródias humorísticas. E o bafafá na internet somente repercute as vendas de livros, audiolivros e revistas sobre o filósofo da cidade de Röcken. Explicando a posteridade Explica-se, ou melhor, compreende-se o “sucesso” post-mortem de Friedrich Nietzsche por vários ângulos. Um desses ângulos, é o da aceitação de sua obra no meio acadêmico no Brasil e no mundo, fato inversamente proporcional ao ocorrido em seu tempo. Ano após ano, são promovidas palestras, conferências, especializações e cursos livres com temas relacionados à produção nietzschiana. Fundado por Scarlett Zerbetto Marton, professora títular do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo – USP, o Grupo de Estudos Nietzsche (GEN) integra essa tendência é é uma referência brasileira no assunto. O GEN é responsável pela edição da revista Cadernos Nietzsche e da coleção de livros Sendas & Veredas. Até aí, nada de anormal. O resgate de um determinado autor é bastante comum dentro da produção acadêmica. Professores e pesquisadores de instituições de ponta costumam eleger suas preferências intelectuais que podem tanto canonizar como conduzir ao ostracismo pensadores, escritores, artistas, etc. Nesse último século, a bibliografia de Nietzsche teve o seu mérito redimensionado, para cima ou para baixo, inúmeras vezes. Além disso, outros filósofos recebem ou receberam tratamento similar dos grandes centros irradiadores de pensamento e referências e nem por isso atingiram um público mais amplo. De qualquer forma, é inegável que o trabalho de divulgação de Scarlett Marton e do professor da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, Oswaldo Giacoia Jr (autor de um pequeno livro de introdução sobre a vida e a obra de Nietzsche) contribuíram para essa difusão em larga escala. Em resumo, a academia forma professores e profissionais que à sua maneira interferem na sociedade. Mas um fenômeno não se resume a um vértice. Assim como as facilidades do mercado editorial para publicar os livros de Nietzsche – textos de domínio público – não transformam o filósofo em best-seller automaticamente. Mesmo porque o interesse das editoras é ditado por uma relação de diálogo com os leitores. Em suma, nem tudo que vai para as gôndolas dá

O autor de Assim falou Zaratustra (1885) e Genealogia da moral (1887) é cada vez mais lido, seja pelos acadêmicos, aglutinados em grupos de estudo, seja pelo público em geral, que compra seus livros em livrarias, revistarias e até em book-machines instaladas em estações de metrô. Professores de filosofia, artistas, estudantes, ateus, religiosos, adolescentes, aposentados, gente de direita ou esquerda, todos parecem hipnotizados com a força do pensamento nietzschiano. É impressionante!

Orkut Criada em 2004 pelo engenheiro turco Orkut Büyükkokten, a rede social Orkut abriga muitas comunidades relacionadas à Filosofia. Sócrates, Platão, Kant e Sartre dividem com Nietzsche a preferência dos usuários.

filosofia especial | 9

FIE_08-11_Introducao.indd 9

02/08/2010 11:23:40


Introdução

Röcken Cidade natal de Friedrich Nietzsche, Röcken (ou Roecken) está localizada no distrito de Weibenfels, na região da SaxôniaAnhalt, na Alemanha.

retorno financeiro. Novas edições saem do prelo por causa da avidez de quem compra. E os números mostram que o maior marketing do universo não seria capaz de movimentar uma oferta e procura tão supostamente improvável: um filósofo que vende muito. E que não vende apenas um livro, tipo O Príncipe de Maquiavel ou A Arte da Guerra, de Sun Tzu. O provável é encontrar a resposta na própria obra de Nietzsche, nos temas que abordou e na forma como os descreveu. A despeito de seu texto não ser totalmente fácil – para quem vê facilidades em Nietzsche, a sugestão é relê-lo –, também é verdade que seu estilo incisivo e solto contribui para a aceitação dos chamados leitores leigos. Dono de uma verve poética e de certo modo agressiva, um estilo transgressor para a Prússia dos Oitocentos, Nietzsche atirou contra todas as instituições e os valores que nos inquietam, principalmente na juventude: religião, moral, instituições, família, Estado, amor, sociedade, guerra e paz. A violenta, sinuosa e lírica escrita nietzschiana parece conectar-se à mente em embulição dos jovens. Personagem símbolo dessa atração juventude-Nietzsche é Dwayne Hoover. Interpretado pelo ator Paul Dano, Dwayne é irmão da carismática menina Olive Hoover (Abgail Breslin), estrela do filme Pequena Miss Sunshine (2006), vencedor de dois prêmios Oscar. Inteligente, caladão, meio niilista, meio antissocial, Dwayne lia dia e noite Assim falou Zaratustra e usava uma camiseta com os dizeres “Jesus was Wrong”. O espírito questionador do filósofo é um portal do conhecimento. Ao mencionar os jovens, porém, devemos ter cuidado para

não generalizar ou circunscrever Nietzsche a um filão do mercado. Trata-se tão somente de um exemplo. Filosofia e boa vendagem. Bela dupla, não? Que filósofo não gostaria de ser lido, relido, discutido, citado, criticado e apreciado fora do seu pequenino círculo intelectual? Mas essa situação excepcional costuma, infelizmente, gerar ruí­ dos de comunicação, reducionismos, paradoxos, intepretações capengas ou simplesmente inversões de sentido. Na realidade, o estilo Nietzsche de expor suas ideias favorece e estimula esses labirintos. Ainda que tenhamos disponíveis vários meios de mediação – livros de comentadores, revistas especiais -, a adequada compreensão do pensamento nietzschiano nem sempre é partilhada pela maioria dos leitores. Em que pese a paixão presente na linguagem e na filosofia de Nietzsche, a leitura apaixonada distorce conceitos e ideias para cabê-los em nossas convicções. Acadêmico quadradão, cheio de rodapés, mesuras e novehoras, Nietzsche não era. Mas ele era, sim, um profundo estudioso do helenismo, da filosofia dos seus contemporâneos, da música, da literatura e procurava fazer isso se refletir em seus textos. Outsider, sim; “achólogo”, jamais. A amplitude é a força de Nietzsche. A polêmica, seu combustível. E há muitas razões para a sua perenidade em meio ao culto do instantâneo, para a sua atualidade em um mundo cada vez mais confuso. Seus livros são a prova de que ele estava certo ao acreditar-se um homem, isto é, um autor, que nasceu para ser póstumo. Póstumo e nosso contemporâneo!

Há aqueles que adotam seus livros feito uma cartilha de autoajuda e também existem os capazes de moldar os aforismos do filósofo no enquadramento de toda e qualquer ideologia, do nazifascismo ao anarquismo. Há os apreciadores de sua reflexão sobre a condição humana e os admiradores de sua prosa-poética. Como também existem os detratores que esmiuçam os escritos de Nietzsche à procura de sinais de charlatanismo e incoerência, e que o desacreditam por causa de sua metralhadora giratória disparada a esmo 10 | filosofia especial

FIE_08-11_Introducao.indd 10

02/08/2010 11:23:40


Cinco ideias nietzschianas famosas Amor Fati: Do latim, a frase significa “amor ao destino” ou “amor do destino”. Nietzsche utiliza a expressão em alguns de seus escritos, sobretudo em A Gaia Ciência. A visão nietzschiana de “amar ao destino” pretender fazer uma afirmação da vida, das circunstâncias, daquilo que somos. Ao longo do tempo, antes e depois de Nietzsche, outros filósofos, escritores, movimentos artísticos e tradições religiosas serviram-se da frase em registros diversos, quase como uma resposta à angustia da existência. Em tempo: em um episódio da série Arquivo X, a mensagem de abertura “The Truth is Out There” (A Verdade Esta Lá Fora) é trocada por Amor fati. Transvaloração dos valores: O prefixo trans de “transvaloração dos valores” ou “transvaloração de todos os valores”, tradução aproximada de Umwertung aller Werte, já diz tudo sobre seu significado dentro do projeto nietzschiano: ir além, superar a moral vigente construída pelo ascetismo, cristianismo, etc. A concretização do Übermensch passa necessariamente pela etapa de tranvaloração. Existem formas alternativas de se traduzir o Umwertung para o português: transvalorização ou transmutação. Para a maioria dos analistas da obra nietzschiana, a transvaloração é seu projeto filosófico central. Übermensch: Super-homem ou Além-do-homem? Ou seria Além-do-humano? Esses hifens caem ou não? Dúvidas etimológicas e linguisticas à parte, o Übermensch é, ao lado da Vontade de Poder/Vontade de Potência, a ideia que mais despertou controvérsias e interpretações. O “super-homem” nietzschiano justifica desde o grande líder autoritário até o medalhista de ouro olímpico. Mas será que seu sentido é tão imediatista e reducionista assim? É claro que não. Em consonância com o pensamento do filósofo alemão, o Übermensch supera a moral estabelecida, assume a sua condição de criador da vida, livra-se da culpa e vai para além dos paradigmas. Eterno Retorno: O Eterno Retorno nietzschiano alude aos ciclos repetitivos da existência e suas dicotomias que se completam, como felicidade e dor, prazer e ojeriza, guerra e paz, caos e ordem. Criação, destruição e criação se sucedem no curso da vida. A fusão de Apolo e Dionísio, com atenção ao resgate do potencial criador dionisíaco, é aquilo que nos move. Mas não se trata de um ciclo cronologicamente determinado. Tudo oscila e se sucede a cada instante, de modo que os pares aparentemente – mas não realmente – antagônicos se misturam e se completam. Vontade de Poder/Potência: A Vontade de Poder (ou Vontade de Potência, em outras traduções) é a força criativa. Ela é ao mesmo tempo negativa (ao denunciar os enganos morais da civilização) e positiva (ao propor-nos a libertação seguida da recriação). O homem em seu esplendor é dotado de vontade de poder. É preciso sublinhar que, como o amor fati, a vontade de poder também esteve entre as preocupações de pensadores que antecederam e sucederam a Nietzsche. Cada um deles extraiu disso uma ideia, um conceito, um projeto que não exatamente entra em sintonia com a perspectiva nietzschiana.

Sendas & Veredas De acordo com o site do GEN (http://www. fflch.usp.br/df/gen/), a coleção de livros Sendas & Veredas tem o objetivo de “trazer ao público brasileiro trabalhos expressivos acerca da Filosofia de Nietzsche”. Dentre as obras, destaca-se Extravagâncias – ensaios sobre a filosofia de Nietzsche, escrito por Scarlett Marton.

Dwayne Hoover Dwayne passa a maior parte do tempo calado, cumprindo uma espécie de “penitência” para realizar seu sonho de ser aviador. Porém, é detectado nele um problema na vista que o impediria de exercer a função. Dwayne estabelece um bonito diálogo com o tio Frank Ginsberg (Steve Carell), um especialista na obra do escritor francês Marcel Proust (1871-1922).

filosofia especial | 11

FIE_08-11_Introducao.indd 11

02/08/2010 11:23:41


Commons

Biografia

FIE_12-25_PerfilBiografico.indd 12

por Daniel Rodrigues AurĂŠlio*

O jovem Friedrich Nietzsche em 1861

02/08/2010 11:14:38


Ecce Homo!

O

Nascido em uma família de pastores luteranos, Friedrich Nietzsche construiu uma trajetória tortuosa, na qual obrasprimas geniais eram escritas em meio a um turbilhão de doenças e sofrimento amoroso e psicológico

riundo de uma família de protestantes, Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu no dia 15 de outubro de 1844, na cidade de Röcken (Roecken), então pertencente ao Reino da Prússia (em alemão, Königreich Preuβen) e hoje situada na Alemanha unificada. Quando o pequeno Friedrich veio ao mundo, a Prússia era governada por um homônimo de “sangue azul”: Friedrich Wilhelm IV, sucedido em 1861 por Wilhelm I, que viria a ser o 1º soberano do Império Alemão, colosso cuja maior parte territorial pertencia justamente a Prússia.

Filho do casal de luteranos Karl Ludwig, um teólogo formado pela Universität Halle, e frau Franziska Nietzsche (Oehler, quando solteira) que será descrita por Nietzsche em Ecce Homo como “alguma coisa de bem alemão”, Friedrich Nietzsche era descendente de uma linhagem de pastores luteranos bastante cultos. Seu avô paterno, Friedrich Ludwig, era diplomado em Teologia pela Universität Halle e líder religioso em Wollmerstädt. O próprio Nietzsche, no início de Ecce Homo, aventa a hipótese da avó paterna, Erdmuthe Krause, ter frequentado os “círculos goethianos” e sua bisavó aparecer no “no diário do jovem Goethe”. De qualquer forma, a família Nietzsche definitivamente possuia boa ilustração.

* Daniel Rodrigues Aurélio é bacharel em Sociologia e Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e pósgraduado em Globalização e Cultura pela Escola Pós-graduada de Ciências Sociais. É autor de Dossiê Nietzsche (Universo dos Livros, 2009) e editor-assistente das revistas Filosofia Especial Nietzsche e Sociologia Ciência & Vida.

filosofia especial | 13

FIE_12-25_PerfilBiografico.indd 13

02/08/2010 11:14:38


Martin Luther Martin Luther, o Martinho Lutero (1483-1546), foi um teólogo alemão e “pai” da Reforma Protestante. Suas teses chocaram a Igreja Católica, que lançou contra ele a bula de advertência Exsurge Domine. Lutero respondeu com a carta “Liberdade de um cristão”. Ao final da contenda, o papa excomungou Lutero por meio da bula Decet Romanun Pontificem.

A propósito, o local onde se formaram o avô e pai de Nietzsche tem algo de histórico e simbólico para o protestantismo de vertente luterana. Fundada em 1817, a Martin-Luther Universität Halle-Wittenberg surgiu da fusão entre as tradicionais instituições de Halle (de 1694) e Wittenberg (1502). Nesta última, Martin Luther (ou Martinho Lutero, se preferir), o ideólogo da Reforma Protestante, foi professor no departamento de Teologia, após formar-se em Estudos Bíblicos em 1508. Autor das 95 teses que teriam sido publicadas na porta da catedral de Wittenberg em 1517, Martin Luther foi uma figura inspiradora para a família Nietzsche. A formação e atuação missionária dos familiares do futuro filósofo dá uma ideia do nível de religiosidade (e sustentação teórica e dogmática) na criação do jovem. Ainda que tenha, logo no princípio da juventude, deixado de lado o luteranismo de berço, Friedrich Nietzsche aproveitou-se daquela cultura letrada doméstica. Quando menino, parecia até inclinado a seguir o caminho “tradicional” dos Nietzsche e tornar-se pastor. Quis o destino, porém, que o sobrenome da família, tão ligado às coisas da fé na Prússia do século XIX, tenha futuramente se tornado, senão um sinônimo, certamente um dos símbolos do ateísmo e da denúncia contra as práticas das instituições religiosas. “O Evangelho morreu na Cruz”, afirmava. “Deus está morto”, insistia. Mas na transição do jovem criado segundo os valores cristãos para o propagandista furioso do anti-cristianismo, coisa à beça aconteceu. E não aconteceu sem sofrimento e angústia, ao contrário do que Nietzsche por vezes tentou transparecer em seus escritos. No capítulo dois de Ecce Homo, sugestivamente intitulado “Porque sou tão inteligente” (as traduções variam significativamente, é justo lembrar), Nietzsche escreve que “‘Deus’, ‘imortalidade da alma’, ‘redenção’, ‘além’, todos esses são conceitos que nunca levei em conta: nunca com eles sacrifiquei meu tempo, nem mesmo em criança”. Ele pretendia proclamar-se um ateu por “instinto”. Será? Não há dúvidas de que com o passar do tempo, o filósofo inquieto convenceu-se de que “Deus é uma resposta rude, uma indelicadeza contra nós pensadores”. Acontece, no entanto, que romper com valores, costumes e culturas arraigadas quanto aqueles transmitidos por uma religião, não é algo simples e indolor para ninguém. Romper com a sua formação luterana, sem qualquer dilema existencial ou dúvida, aparentemente não corresponde com os fatos. Especialmente quando se é jovem e está em busca de um sentido para a vida. Além do mais, Nietzsche sofria na convivência com as demais crianças aquilo que os psicólogos modernos denominariam “bullying” - evidentemente, conceitos

Ferdinand Henning

Biografia

Friedrich Nietzsche, com 17 anos. fotografado por Ferdinand Henning na cidade de Naumburg, em junho de1862

desse tipo nem passavam pela mente dos educadores de meados do século XIX. A meninada o apelidara de “Pequeno Pastor”, em alusão ao trabalho missionário e liturgico das gerações anteriores a sua, de modo que tal “estigma”, analisado pelo sociólogo canadense Erving Goffman (1922-1982) em Estigma: notas sobre a manipulação de uma identidade deteriorada (1988), exerce uma influência na psicologia do sujeito. De qualquer forma, relacionar conceitos da Sociologia e Psicologia propostas a partir da segunda metade do século XX a um jovem prussiano do século XIX é um tanto arriscado. Será que a alcunha de “Pequeno Pastor” exercia mesmo uma carga negativa? Seja como for, não faltam indícios de que ele, às vésperas de ingressar na universidade, ainda tinha lá suas dúvidas entre seguir ou não as pegadas do pai e do avô. O jeito tímido e ensimesmado ajudou a fazer de Nietzsche um leitor precoce. Inclusive da Bíblia. Seu interesse pelas chamadas escrituras sagradas não tinha motivações meramente religiosas. Ele gostava de examinar o discurso dos versículos, a forma literária da obra, a dimensão filosófica daqueles escritos. Portanto, é a partir da crise provocada pelos questionamentos sobre a fé luterana que Nietzsche é levado a interessar-se por tais estudos. Nascia ali o filósofo que, no futuro, se autointitularia um “homem dinamite”.

14 | filosofia especial

FIE_12-25_PerfilBiografico.indd 14

02/08/2010 11:14:39


Tragédia familiar e mudanças 1849. Por volta dos cinco anos de idade, Friedrich Nietzsche perdeu o pai, que na época contava apenas 36 anos. “Meu pai morreu aos trinta e seis anos; ele era tenro, gentil e mórbido, como um ser predestinado a desaparecer”. Eis o resumo feito por Nietzsche, outra vez em Ecce Homo, do temperamento do finado pastor Karl Ludwig. Uma memória prodigiosa a do filófoso, não é? Traçar um perfil objetivo e seguro do pai, baseado em fragmentos de reminiscências infantis, oferece munição gratuita aos seus críticos. Não seria intelectualmente mais honesto assumir não guardar lembranças dele? A resposta para essa questão é simples: Nietzsche deve ter buscado informações em conversas com a mãe, as tias, os amigos. E as peças do quebracabeça psicológico do pai foram juntadas. Decidida, a viúva Franziska juntou então os dois filhos – Friedrich e Elizabeth – e mudouse para Naumburg, cidade um pouco maior que Röcken, mas também localizada na SaxôniaAnhalt. Naumburg integrava desde a resolução do Congresso de Viena, em 1815, a província da Saxônia, Reino de Prússia. Foram morar com eles duas tias e uma avô. Friedrich Nietzsche transformou-se, assim, numa ilha masculina cercada por um oceano de mulheres. Ao que consta, a convivência era pacífica e amorosa. A casa em que a família Nietzsche residiu na rua Weingarten, número 18, abriga atualmente o Museaum Nietzsche-Haus, o Museu Casa de Nietzsche, uma das atrações turísticas da região. Arredio ao convívio social, pulando de escola em escola, cresceu tendo as mulheres da casa e os livros como companhia. Em 1858, aos 14 anos, obteve uma bolsa de estudos no forte Colégio Real de Pforta, instituição criada em 1137, que fora dirigida por uma ordem monástica católica por cerca de quatro séculos, até que um duque protestante, Henrich IV, assumiu a região da Saxônia em 1539 e seu filho e sucessor, Moritz von Saschsen, reinaugurou em 1543 o educandário. O Landesschule Pforta continua na ativa e seletivo em suas matrículas – em média, restrito a 300 matriculados. Estudaram na instituição, além de Friedrich Nietzsche, nomes como o filósofo Johann Gottlieb Fichte (1762-1814), autor de Fundamentos da doutrina da ciência (1794), livro muito estimado pelos filósofos Georg Wilhelm Friedrich Hegel (17701831) e Arthur Schpenhauer (1788-1860).

Nietzsche era descendente de uma linhagem de pastores luteranos bastante cultos. Seu avô paterno, Friedrich Ludwig, era diplomado em Teologia pela Universität Halle e líder religioso em Wollmerstädt. O próprio Nietzsche, no início de Ecce Homo, aventa a hipótese da avó paterna, Erdmuthe Krause, ter frequentado os “círculos goethianos” e sua bisavó aparecer no “no diário do jovem Goethe”. De qualquer forma, a família Nietzsche definitivamente possuía boa ilustração Em Pforta, o temperamento recluso, já com inclinações questionadoras, contribuiu para que ele se destacasse nos estudos. No texto “O homem que foi um campo de batalha”, a filósofa Scarlett Zerbetto Marton, professora do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Grupo de Estudos Nietzsche (GEN), afirma que “a falta que ele [Nietzsche] sentia da mãe e da irmã Elizabeth era preenchida pelos livros; deixava-se absorver pela leitura por horas a fio”. Scarlett Marton lembra, ainda, que Nietzsche “chegou a elaborar vasto plano de estudos, que englobava desde botânica, geologia e astronomia até latim e hebreu”. Lia os poetas românticos com gosto, sobretudo o britânico Georg Gordon, o Lord Byron (1788-1824) - mais adiante, detonaria com os românticos. Aprofundou-se também em suas pesquisas sobre helenismo e filosofia. E essa tensão entre a origem luterana e o espírito crítico, apurado pela leitura disciplinada, modificou-o completamente. De qualquer forma, permaneciam acesas suas intensas dúvidas quanto a deixar-se tomar de vez pelo ateísmo militante ou seguir a rota familiar. Auto-

ra de vasta e respeitada obra sobre o pensamento nietz­schiano, Scarlett Zerbetto Marton assegura que “[Nietzsche] queria ser pastor como o pai, por isso dedicava-se intensamente à Filosofia”. Ao mesmo tempo em que os resquícios de fé luterana sumiam e ganhava corpo seu lado indomável, o jovem Friedrich Nietzsche começava a pensar com maior seriedade em sua carreira, decididamente voltada para as letras e o saber. Chegou mesmo a ensaiar inscrever-se em Teologia, mas depois de breve passagem pela Universität Bonn, em 1864, optou pela Filologia Clássica – e não por Filosofia, como era de se supor - transferindo-se para a Universität Leipzig, de modo a acompanhar melhor as aulas e conselhos de Friedrich Wilhelm Ritschl (18061876), prestigiado professor de filologia e cultura grega em Bonn e Leipzig. Teologia, Helenismo, Poesia, Filologia. Tudo isso entrou no caldeirão nietzschiano. Mas nada, absolutamente nada, tocou-o mais do que a música, a sua grande paixão. Nesse período universitário, iniciou suas tentativas de compor à semelhança de seus mestres, principalmente Richard Wagner (sobre essa relação, ver o box “Os (ex) bons companheiros”).

filosofia especial | 15

FIE_12-25_PerfilBiografico.indd 15

02/08/2010 11:14:39


Biografia

Commons

Erving Goffman Sociólogo canadense, Erving Goffman (19221982) exerceu uma enorme influência na vertente sociológica do interacionismo simbólico. Escreveu, entre outros, os livros A representação do Eu na vida cotidiana e Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada.

Nietzsche em agosto de 1868

O despertar filosófico Os “bons ventos” de Leipzig ajudaram no florescimento de toda a potência intelectual de Friedrich Nietzsche. Foram alunos da instituição, entre outros, o filósofo, matemático e cientista Gottfried Wilhelm von Leibniz (1646-1716) , de quem Nietzsche curiosamente aproveitará o conceito de Perspectivismo, e o escritor Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), autor de Os sofrimentos do jovem Werther (1774) e verdadeiro ícone da língua e da cultura alemã – em sua memória, foi fundado em 1951, com sede em Munique, o GoetheInstitut (Instituto Goethe), que possui filiais espalhadas em todo o mundo (inclusive com seis centros no Brasil) e tem o objetivo de ensinar a língua e a cultura alemã. O Instituto Goethe é considerado uma das mais bem-sucedidas organizações do gênero. Realmente, a instrospecção reflexiva de Nietzsche, aparada por sua bagagem de capital cultural – nova advertência: esse termo foi cunhado apenas no século XX pela moderna pedagogia francesa e pelo sociólogo Pierre Bourdieu (1930-2002) –, encontrou na academia de Leipzig o ambiente ideal para prosperar. É claro que Nietzsche teve lá seus momentos de festejos e bebedeiras, mas falou alto sua volúpia por conhecimento. Nas salas de aula, e nas noites solitárias em seu dormitório, leu e incansavelmente sobre helenismo, tragédia grega, latim, Ésquilo, Homero, Platão, romantismo, filosofia alemã. Eis a gênese do filósofo: uma miríade de saberes passariam pelo seu rolo compressor de ideias. Embora tenha aproveitado bem a cultura escolar a sua disposição desde os tempos de Pforta, Friedrich Nietzsche não tinha em alta conta o sistema de ensino prussiano e, posteriormente, alemão. É irônico porque em geral a educação germânica é tida como uma das melhores do mundo, e os cerca de 100 prêmios Nobel concedidos a cientistas, literatos e ativistas de origem alemã é um dos indicativos dessa qualidade. Ter estudado em instituições de ponta como em Pforta, Bonn e Leipzig não parece ter sido suficiente para amenizar sua opinião devastadora. Em seus ensaios “intempestivos” (Considerações Extemporâneas ou Considerações Intempestivas), Nietzsche espinafrava a acadêmia germânica e exaltava o ardor autodidata de dois dos homens que mais admirou – embora tenha criticado depois, como convinha a sua personalidade explosiva: o compositor Richard Wagner e o filósofo Arthur Schopenhauer. De fato, se a educação letrada que recebera da família e os privilegiados bancos escolares foram de importância vital para seu pensamento, é igualmente certo que nada disso teria sido possível sem a sua disposição espontânea e permanente para ler, analisar, estudar.

16 | filosofia especial

FIE_12-25_PerfilBiografico.indd 16

02/08/2010 11:14:40


Commons

Lou Andreas-SalomĂŠ, Paul-Ree e Friedrich Nietzsche

filosofia especial | 17

FIE_12-25_PerfilBiografico.indd 17

02/08/2010 11:14:42


Biografia

Acadêmia e Guerra Friedrich Nietzsche passou seus anos universitários em uma época agitadíssima em termos políticos, culturais, científicos e artísticos, tanto no cenário europeu, como nas terras germânicas em vias de se reunirem em uma só bandeira, a do Império Alemão. O mundo moderno, definitivamente, pedia passagem com os movimentos de unificação e formação dos estados nacionais, o fortalecimento da democracia aos moldes iluministas e a crescente industrialização e urbanização por toda a Europa. Os povos germânicos, aqueles que a partir de 1871 seriam enfim representados pela Alemanha unificada sob a liderança do chanceler Otto von Bismarck (18151898), sentiram essas alterações e rupturas na pele. Além do sentido de pertencimento estimulado pela kultur germânica, pelo orgulho bélico alimentado pelas vitórias recentes e pelo empreendedorismo de teutos como o inventor Ernest Werner von Siemens (18161892) e o químico Johann Friedrich Adolf von Bayer (1835-1917), ambos na raíz de duas super-industrias alemãs (Siemens AG e Bayer AG), o Império Alemão criava asas em termos de desenvolvimento e iniciava sua

Nietzsche apaixonado

O filósofo brasileiro Paulo Ghiraldelli Jr., mestre e doutor em Filosofia, publicou recentemente um audiolivro com título sugestivo: Nietzsche apaixonado (Universidade Falada, 2010). A obra de Ghiraldelli Jr. aborda a relação de “amor e ódio” de Nietzsche com a filosofia de Sócrates. O termo “Nietzsche apaixonado”, porém, nos leva a outras divagações. Teria sido Friedrich Nietz­ sche um sedutor? Ou o avesso do Don Juan? Teria ele se apaixonado por alguma senhorita entre um clássico da filosofia e outro? Ao menos uma paixão de Nietzsche é conhecida: Lou Andreas-Salomé (1861-1937), uma bela e brilhante moça, nascida em São Petersburgo, na Rússia, mas de origem e cultura alemãs. Lou Salomé era o tipo de mulher que vivia à frente do seu tempo: teve intensas paixões e cultivou amizades e debates intelectuais com Sigmund Freud (1856-1939), o filósofo Paul Rée (18491901), o poeta Rainer Maria-Rilke (1875-1926) e...Friedrich Nietzsche. Dado a paixões inatingíveis, Nietzsche desenvolveu um afeto pela cativante Salomé. Pediu-a em casamento e ouviu uma sonora recusa. Salomé teria depois um longo relacionamento com Maria-Rilke.

escalada expansionista. Mas, durante a juventude do filósofo, tudo era incipiente, em formação. Algo promissor, mas ainda prestes a se concretizar. Seja por algum sentido de pertencimento a consumí-lo, seja por um simples impulso de virilidade, o universitário Nietzsche alistou-se no Exército da Prússia em 1866. Sua aventura no mundo das forças armadas seria interrompida de forma meio pastelão. Nietzsche caiu de sua montaria, e o acidente debilitou a sua saúde já fragilizada. Retornou então a Leipzig, seu habitat, onde despontava nas rodas intelectuais. Permitiria-se no futuro a cultivar relações – mais de admiração do que de simetria – com o historiador da arte Jacob Burckhardt (1818-1897), professor das universidade da Basileia e Zurique, e Richard Wagner. Com Wagner sustentaria uma relação afetiva, de parceria intelectual, até ela ser interrompida por divergências e acusações por parte de Nietzsche. Depois de formado, Nietzsche cogitou viajar para Paris, passar um período na Cidade Luz, cuja vida artística e urbanismo encantavam o recém-diplomado filólogo que considerava os alemães “uns bonachões”. As temporadas parisienses serviriam para abastecê-lo de cultura, música, fineza. Em trecho de Ecce Homo, no capítulo

Commons

Filologia Clássica De acordo com sua definição formal, a filologia é o estudo da língua, da cultura e da história de uma civilização a partir do exame de seus documentos e escritos. A Filologia Clássica, por sua vez, aborda o período da Antiguidade Clássica. Nietzsche, como se sabe, era um apreciador do latim e do grego antigo.

18 | filosofia especial

FIE_12-25_PerfilBiografico.indd 18

02/08/2010 11:14:43


Sturm

Friedrich Nietzsche e sua mãe

“Porque sou tão inteligente”, Nietzsche demonstrava o quanto achava Paris pós-Barão de Haussmann especial e encantadora. Para ele, “a delicadeza de todos os cinco sentidos artísticos que requer a arte de Wagner, a habilidade de coligir diversos matizes (…) não se encontram senão em Paris”. Afinal, “em nenhum outro lugar”, escrevera o filósofo, “as questões da forma apaixonam tanto”. O plano de deleitar-se em prazeres, em ser um flaneur baudelairiano pelos cafés e boulevares parisienses, enquanto comia croissants e lia Voltaire, teve de ser cancelado. Não por escassez de recursos ou desejo de Nietzsche. Na verdade, por intermédio do professor-tutor Ritschl, foi oferecido a Nietzsche uma vaga de professor de Filologia Clássica na Universidade da Basileia, na Suíça, local em que lecionava o já citado Burckhardt. Era 1869, Nietzsche estava com 24 para 25 anos, e aquele convite tentador foi aceito. O professor Friedrich Wilhelm Nietzsche, de inteligência e erudição incontestáveis, era um tanto heterodoxo e despertava sentimentos controversos. Admirado por uns, repudiado por outros, manteve-se em uma média aceitável. Aos poucos, porém, percebia que sua especialidade, ou melhor, sua vocação, era a filosofia,

O jeito tímido e ensimesmado ajudou a fazer de Nietzsche um leitor precoce. Inclusive da Bíblia. Seu interesse pelas chamadas escrituras sagradas não tinha motivações meramente religiosas. Ele gostava de examinar o discurso dos versículos, a forma literária da obra, a dimensão filosófica daqueles escritos. Portanto, é a partir da crise provocada pelos questionamentos sobre a fé luterana que Nietzsche é levado a interessar-se por tais estudos. Nascia ali o filósofo que, no futuro, se autointitularia um “homem dinamite” filosofia especial | 19

FIE_12-25_PerfilBiografico.indd 19

02/08/2010 11:14:44


Biografia

e não a filologia. Além disso, começara a sentir os efeitos de sua saúde debilitada. Miopia, enxaquecas e dores musculares constantes o atacavam sem dó nem piedade. E o seu estado clínico só fizera agravar após o episódio do cavalo nos exércícios militares na Prússia. Na Basileia, vivia seu cotidiano de preparar e ministrar aulas, apesar de permanecer ligado, por cartas e notícias, com o que acontecia em sua terra natal. Sabia das animosidades crescentes entre França e Reino da Prússia desde 1868, com a crise na Espanha após a abdicação de Isabel II e a disputa pelo trono espanhol. Da hostilidade às armas: em 19 de julho de 1870 declarou-se aberta a Guerra Franco-

Prussiana. Nietzsche, aquele que tripudiava dos “alemães bonachões” - e, obviamente, dos “prussianos bonachões” alistou-se outra vez no Exército prussiano. Serviu no front como enfermeiro de campanha. Friedrich Nietzsche viu tanto sangue, tantas mortes, tanta demência, que nem a vitória prussiana, a assinatura do Tratado de Frankfurt de 1871 e a Unificação da Alemanha (o Segundo Reich) tiveram um impacto motivador em sua vida. Aliás, nota-se em sua filosofia as marcas profundas desse episódio. O filólogo-filósofo regressou à Suíça para retomar seu posto, cuidar de sua saúde – ser enfermeiro de si - e deflagrar, enfim, sua carreira autoral.

Os (ex-) bons companheiros Richard Wagner? Com a palavra, o filósofo de Röcken, Friedrich Wilhelm Nietzsche: “Devo gastar uma palavra para exprimir o meu reconhecimento a quem me recreou mais íntima e docemente: isso é, sem dúvida, a íntima amizade que me ligou a Richard Wagner. Pouco se me dão as relações com os homens, mas por preço algum eu quisera cancelar de minha vida os belos dias de Tribschen, dias de confidência, de ternura, de casos sublimes, de instantes profundos”. “O que nunca poderei perdoar em Wagner? A sua condescendência para com os alemães, a sua adaptação, a ponto de se tornar um bom alemão...Para onde quer que passe, a Alemanha destrói [anula] a cultura...” Os dois excertos acima de Ecce Homo ditam o tom das relações nietzschianas: amor e ódio. Era assim com seus autores de cabeceira, era assim com seus compositores prediletos (ou detestados). Era assim com seu amigo Wilhelm Richard Wagner, o célebre compositor, teórico musical e ensaísta nascido em Leipzig no ano de 1813. Cerca de trinta anos mais jovem que Wagner, Nietzsche enxergava no compositor algo próximo de um Übermensch. A paixão do filósofo pela música e, possivelmente, o desalento por não ser provido dos mesmos dotes musicais do amigo e ídolo, tornou aquela amizade um turbilhão de sentimentos conflitantes. A relação foi iniciada na Basiléia, na época em que Nietzsche era professor universitário. Casado com Cosima, Richard Wagner morava na cidade de Tribschen, na Suiça. O casal Wagner recebia visitas constantes do filósofo alemão. Nietzsche desenvolveria um afeto pela esposa do compositor. Richard Wagner era um homem polêmico. Hipnotizava a plateia com sua genialidade musical, mas escrevia artigos com teor supostamente identificado com o antissemitismo e, no curso da Guerra Franco-Prussiana, passou a ser reconhecido como um “orgulho alemão”. Não por acaso, embora à sua revelia, tornou-se o“compositor oficial”do Terceiro Reich hitlerista. Wagner morreu em Veneza, Itália, no ano de 1883, e naturalmente não pôde dar seu aval àquela apropriação dos nazistas liderados por Adolf Hitler. Com o passar do tempo, surgiu o estranhamento. Wagner cada vez mais revestia suas composições com caracteristicas “nacionalistas” e “cristãs”, ao passo que ele e Cosima assustaram-se com algumas reações do amigo e hóspede constante. A idolatria de Nietzsche a Wagner ruiu de vez após o filósofo assistir a uma apresentação de O anel dos Nibelungos, no teatro de Bayeruth. A estética e o conceito eram aspectos excessivamente prezados e zelados por Nietzsche, e o convencionalismo wagneriano o irritou profundamente. Daí, “de grande benfeitor” da vida de Nietzsche, Wagner transformou em um adversário intelectual. Isso não significou, porém, a perda total da admiração e afeto: a raiva de Nietzsche era direcionada aos seguidores daquela fase “menor” dentro da “obra wagneriana”. No entanto, adepto da crítica sincera e indomável, Nietzsche escreveu artigos em que fustigava o velho amigo.

20 | filosofia especial

FIE_12-25_PerfilBiografico.indd 20

02/08/2010 11:14:45


1845 – A Inglaterra promulga a Lei Bill Aberdeen. A partir dessa decisão, a Marinha Real Britânica passaria a reprimir o tráfico e comércio de escravos. 1846-48 – Estados Unidos e México entram em guerra. Ao final dos confrontos, os EUA anexaram ao seu território as regiões da Califórnia, Texas, Utah, Novo México etc.

Fotos: Commons/Arquivo Filosofia

A Época de Friedrich Nietzsche

1853 – Nasce na cidade de Zundert no dia 30 de março o pintor holandês Vincent Willem van Gogh, autor de trabalhos notáveis como Os comedores de batatas (1885) e Os girassóis (1888). 1856 – Termina a Guerra da Crimeia, envolvendo, de um lado, a derrotada Rússia, do outro a aliança entre França, Inglaterra, Sardenha-Piemonte e o Império Turco-Otomano. 1856 – Nasce, a 6 de maio, o médico neurologista de nacionalidade austríaca e origem judia, Sigmund Freud, considerado o pai da Psicanálise. 1860 – Morre em Frankfurt, Alemanha, o filósofo Arthur Schopenhauer, autor de O mundo como vontade e representação (1819), cuja obra influenciou o pensamento de Nietzsche. 1861-65 – Período da Guerra Civil Americana ou Guerra de Secessão. A luta opunha os estados do Sul (escravistas e latifundiários) aos estados do Norte (industrializados). 1863 – Um jogo de bola, praticado com os pés, é organizado e regrado pela Football Association na Inglaterra: é o futebol, hoje o esporte mais popular do mundo. 1870-71 – Ocorre a Guerra Franco-Prussiana. Nietzsche se alistará como voluntário do exército prussiano. Uma das consequências do episódio é a aceleração da Unificação Alemã. 1870 – Ultimos momentos do processo de Risorgimento (Ressurgimento), movimento de unificação italiana. Roma é instituída como capital do país. 1870 – Nasce em 23 de setembro, em Simbirsk, na Rússia, Vladimir Ilytich Ulianov, o Lênin, líder da Revolução Russa de 1917. 1879 – O físico, cientista e escritor Albert Einstein nasceu em Ulm a 14 de março. Expoente da Teoria da Relatividade, Einstein recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1921. 1882 – O naturalista britânico Charles Robert Darwin morre no dia 19 de abril. Artífice da teoria da evolução e seleção natural, Darwin é autor do clássico A origem das espécies (1859). 1883 – Morre em Londres, no dia 14 de março, o filósofo, economista e historiador alemão Karl Heinrich Marx, autor, entre outros livros, de O capital e A ideologia alemã. 1889 – Em 15 de novembro, é proclamada a República no Brasil. Dias depois, a família real deixa o país e parte para o exílio na cidade de Paris. 1898 – O navio USS Manie é abatido em Havana, Cuba, então colônia espanhola. O evento deflagra a Guerra Hispano-Americana, com vitória final para os EUA.

filosofia especial | 21

FIE_12-25_PerfilBiografico.indd 21

02/08/2010 11:14:48


Biografia

Tratado de Frankfurt Assinado no dia 10 de maio de 1871, o Tratado de Frankfurt pretendia por fim a Guerra Franco-Prussiana com a demarcação dos respectivos territórios. O primeiro documento nesse sentido foi o acordo preliminar de Versalhes, em 26 de fevereiro de 1871.

Mente fértil, mente perturbada? De 1872 a 1888, Nietzsche produziu muito. Debutou com O nascimento da tragédia no espírito da música, lançado em 1872. A repercussão não foi esperada e as críticas, quando existiram, batiam na falta de embasamento científico, quer dizer, de metodologia do autor. À decepção seguiu-se uma onda de incertezas. Nada que o impedisse de continuar a produzir. Dessa época nasceriam duas obras sobre seus autores favoritos, Schopenhauer (Schopenhauer como educador, 1874) e Wagner (Richard Wagner em Bayreuth, 1876), ambas posteriormente publicadas em suas Considerações Extemporâneas ou Intempestivas. Da fase da Basileia viria o livro inaugurador do “padrão Nietzsche” de estética e conteúdo: a primeira edição de Humano, demasiado humano (1878), republicada com textos acrescidos em 1886. Os anos de 1878 e 1879 não foram agradáveis para o filósofo. Seu ceticismo aumentou quando sentiu-se “traí­ do” por Richard Wagner, que teria passado a compor obras de maior ressonância popular, flertando, segundo Nietzsche, com o “cristianismo”. A amizade azedou, aumentando o isolamento de Nietzsche. As dores de cabeça intensificaram-se, a vista enfraquecia, e ele não mais suportava a rotina de cursos e conferências universitárias. Em maio de 1879, não teve outra saída senão requerer a demissão. Demissão aceita e com direito a uma aposentadoria de cerca de 3 ou 4 mil francos, o suficiente para inciar uma época de viagens pela Europa e de produção de obras-primas. Quando verificamos a biografia fundamental sobre Friedrich Nietzsche, a tetralogia de Curt Paul Janz, professor da Universidade da Basileia, produzida na década de 1970, veremos que o biógrafo esquadrinha a vida e obra de Nietzsche em quatro períodos definidos. Vejamos os títulos na tradução consultada em espanhol: Infância y Juventud, Los diez años de Basileia, Los diez años de filosofo errante, Los años de hudimiento. É uma forma sistemática para entendermos sua trajetória. Neste ponto, por exemplo, entramos no que seria o terceiro tomo da monumental obra de Janz. Aposentado, 34 anos, Nietzsche decidira viajar em busca de lugares adequados para cuidar da saúde. Na prática, dava vazão ao seu desejo de abrir-se para o mundo e curar sua inquietação existencial. Ele poderia viver com dignidade em algum cantão suíço ou na Alemanha, mas dedicou-se ao tour europeu. E assim amealhou listas nesses seus tempos de “filosofo errante”. Visitou cidades como Gênova, Veneza e Turim, na Itália, Nice, na França, e as suiças Sils-Maria e Haute-Engadine. Sofreu doenças aos montes (dores estomacais, febres, náuseas, espasmos musculares frequentes), mas leu o que deu na

Embora tenha aproveitado bem a cultura escolar a sua disposição desde os tempos de Pforta, Friedrich Nietzsche não tinha em alta conta o sistema de ensino prussiano e, posteriormente, alemão. É irônico porque em geral a educação germânica é tida como uma das melhores do mundo, e os cerca de 100 prêmios Nobel concedidos a cientistas, literatos e ativistas de origem alemã é um dos indicativos dessa qualidade. Ter estudado em instituições de ponta como em Pforta, Bonn e Leipzig não parece ter sido suficiente para amenizar sua opinião devastadora

22 | filosofia especial

FIE_12-25_PerfilBiografico.indd 22

02/08/2010 11:14:48


TEmpO dE clássicOs Além das obras de Friedrich Nietzsche, o período de 1844 a 1900 foi pródigo em obras-primas da literatura, da filosofia e das ciências. Confira abaixo uma lista com vinte livros que não podem faltar em sua biblioteca.

O conde de Monte Cristo (1844), de Alexandre Dumas

As flores do mal

(1857), de Charles Baudelaire

O capital

Os três mosqueteiros

A ideologia alemã

A desobediência civil (1849), de Henry David Thoureau

(1851), de Herman Melville

Madame Bovary

A origem das espécies

Os miseráveis

Crime e castigo

A educação sentimental

Guerra e Paz

As aventuras de Tom Sawyer

Anna Karenina

As regras do método sociológico

A interpretação dos sonhos

(1844), de Alexandre Dumas

(1857), de Gustave Flaubert

(1867), de Karl Marx

(1869), de Gustave Flaubert

Memórias Póstumas de Brás Cubas

(1881), de Fiódor Dostoiévski

(1881), de Machado de Assis

Os Irmãos Karamazov

(1845-46), de Karl Marx e Friedrich Engels

(1859), de Charles Darwin

(1869), de Liev Tolstói

Germinal

(1885), de Émile Zola

(1862), de Victor Hugo

(1876), de Mark Twain

(1895), de Émile Durkheim

Moby Dick

(1866), de Fiódor Dostoiévski

(1877), de Liev Tolstói

(1899-1900), de Sigmund Freud

filosofia especial | 23

FIE_12-25_PerfilBiografico.indd 23

02/08/2010 11:14:53


Biografia

telha, de Voltaire a Dostoiévski, e escreveu um punhado de futuros clássicos da filosofia, pouco celebradas em sua vida: A gaia ciência (1882), Assim falou Zaratustra (188485), Além do bem e do mal (1886), Genealogia da moral (1887), e assim por diante. O jeitão de Nietzsche não o impediu de ter boas almas a ajudá-lo em suas estadias. Alguns revisavam seus textos (a vista

ia de mal a pior), outros tentavam arranjar-lhe uma companheira... Aquele aspecto bufão e mal-humorado de seus retratos não o impediu de receber gestos de alguma benevolência. De qualquer forma, velhos amigos e colegas acadêmicos deram-lhes às costas quando precisou de um “empurrãzinho” na vida editorial. Mas destes o destino encarregou-se. Todos tornaram-se esquecíveis. Nietzsche, não.

Friedrich Nietzsche passou seus anos universitários em uma época agitadíssima em termos políticos, culturais, científicos e artísticos, tanto no cenário europeu, como nas terras germânicas em vias de se reunirem em uma só bandeira, a do Império Alemão. O mundo moderno definitivamente pedia passagem com os movimentos de unificação e formação dos estados nacionais, o fortalecimento da democracia aos moldes iluministas e a crescente industrialização e urbanização por toda a Europa Loucura, agonia e morte No início de 1889, em seus dias de Turim, Nietzsche teve um diagnóstico de colapso nervoso. Assinava cartas como “Jesus Cristo” e “Crucificado”. Precisou ser internado e interditado. Dias depois, deu entrada em uma clínica psiquiátrica da Basileia, mas não ficou lá muito tempo. Seu caso era dramático, fruto de uma série de abusos e doenças. Em agosto de 1890, foi entregue aos cuidados familiares. Aos cuidados da irmã Elizabeth. Ironia do destino, quando sua obra começou a repercutir – timidamente, é verdade – ele já não podia desfrutar disso por estar em uma situação clinicamente delicada. Em 1897, ciente do que estava por vir, Elizabeth levou-o a Weimar, cidade em que residiram gênios da arte alemã e que hoje é considerada patrimônico cultural pela Unesco. Havia nessa decisão, talvez, uma intenção de aumentar a aura mítica do filósofo “crucificado”. Weimar, 25 de agosto de 1900. O coração angustiado de Friedrich Wilhelm Nietzsche parou de bater. Não

houve luto além do lamento familiar. Sua morte não comoveu o povo. Sua profecia, de certo modo, seria cumprida: “Somente os dias vindouros me pertencem. Alguns homens nascem póstumos”. O homem morreu sem glórias. Mas sua obra perpetuou-se e tornou-se um dos símbolos do pensamento moderno. Nietzsche fotografado por Hans Olde no verão de 1899

Hans Olde

Turim O cineasta brasileiro Julio Bressane imaginou a temporada de Nietzsche em Turim, nos anos de 1888 e 1889, no filme Dias de Nietzsche em Turim (2001). Na obra cinematográfica, o ator Fernando Eiras, no papel do filósofo, vagueia pelas ruas da cidade italiana, enquanto são recitados trechos de Ecce Homo.

24 | filosofia especial

FIE_12-25_PerfilBiografico.indd 24

02/08/2010 11:14:55


Ecce Homo é uma fonte confiável? “Ecce Homo”, gritou o juíz Poncio Pilatos, antes de lavar às mãos, aos presentes na apresentação de um Jesus Cristo ferido, com a coroa de espinhos. “Eis o homem”, é a tradução aproximada para a língua portuguesa da expressão em latim. A multidão estava sedenta por “justiça” contra aquele que, segundo a doutrina cristã, era nada menos que o Divino Salvador. “Quando Jesus saiu, trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura, Pilatos lhes disse: Eis o homem!” (Evangelho de João, 19:5). Antes, Pilatos alertara: “De novo, Pilatos saiu e lhes disse: Vede! Eu vo-lo trago para fora para que saibas que não acho nele crime algum” (João, 19:4). Ao que seria respondido pelos judeus com o “Crufica-o! Crucifica-o” (João, 19:6) e “nós temos uma lei, e segundo essa lei ele deve morrer, porque se fez filho de Deus” (João, 19:7). Nietzsche, todos sabem, era fascinado por essa passagem bíblica. Cruz, crucificação, agonia, Jesus, martírio, julgamento. A escolha de “Ecce Homo” como título de sua autobiografia – uma autobiografia ao estilo nietzschiano, é claro – revela, de certa forma, a sua autoimagem e o quanto ele se considerava um “crucificado”, um injustiçado, para quem só os “dias vindouros”, o “depois de amanhã”, lhe trariam a redenção póstuma. Neste caso, a sua cruzada tinha um lema, que encerra o livreto: “Dionísio contra o Crucifixo (ou Crucificado)”. Escrita entre 1888 e 1889, Ecce Homo: De como a gente se torna o que a gente é ganhou uma edição post mortem de 1908. Os capítulos aparentemente nada modestos “Por que sou tão sábio”, “Por que sou tão inteligente” demonstravam alguma autoironia, e Nietzsche dissimulava ao insistir aos leitores de que não era um “santo”, um “mito filosófico”. Em vão. Toda autobiografia, de gênios ou de tolos, é um recorte, uma seleção, que se por um lado prejudica uma pesquisa biográfica isenta, por outra é reveladora daquilo que Nietzsche, por exemplo, pensava sobre si, sua obra e, acima de tudo, aquilo que ele gostaria de transparecer para a posteridade. Dessa forma, Ecce Homo é transparente até naquilo que oculta. Mas a autobiografia de Nietzsche é uma obra-prima porque não se restringe a um relatório de fatos vividos. É um inventário extraordinário de ideias soltas, insights, sacadas e de brinde traz comentários do filósofo sobre suas principais obras. Um prato cheio e saboroso para pesquisadores, biógrafos e comentadores.

Weimar, 25 de agosto de 1900. O coração angustiado de Friedrich Wilhelm Nietzsche parou de bater. Não houve luto além do lamento familiar. Sua morte não comoveu o povo. Sua profecia, de certo modo, seria cumprida: “Somente os dias vindouros me pertencem. Alguns homens nascem póstumos”. O homem morreu sem glórias. Mas sua obra perpetuouse e tornou-se um dos símbolos do pensamento moderno

Referências AURÉLIO, Daniel Rodrigues. Dossiê Nietzsche. São Paulo: Universo dos Livros, 2009. CADERNOS NIETZSCHE (Acervo do Grupo de Estudos Nietzsche GEN) Disponível em http://www. fflch.usp.br/df/gen/cn/index.html

Acesso em 21/06/2010. GIACÓIA Jr., Oswaldo. Nietzsche – col. Folha Explica. São Paulo: Publifolha, 2000. LEFRANC, Jean. Compreender Nietzsche. Petrópolis: Vozes, 2005.

MARTON, Scarlett. “O Homem que foi um campo de batalha”. In: Assim falou Zaratustra. São Paulo: Martin Claret, 2003. NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo. São Paulo: Escala,2007.

filosofia especial | 25

FIE_12-25_PerfilBiografico.indd 25

02/08/2010 11:14:55


Por jeffersoN NuNes*

Commons

Pensamento contemporâneo

Nietzsche está vivo da sua utilização deturpada pelos nazistas até o florescimento do pós-modernismo, a filosofia nietzschiana influencia algumas das principais correntes do pensamento desde meados do século xx * jefferson Nunes é jornalista

FIE_26-31_InfluenciasNiet.indd 26

02/08/2010 11:12:44


N

ossa sociedade passa por um período conturbado no qual os pilares sociais são derrubados pela velocidade das mudanças. Se de um lado cresce o otimismo diante dos progressos tecnológicos, econômicos e da ciência, surge também um enorme pessimismo diante da perda dos antigos referenciais e da falta de sentido da vida. Nos séculos anteriores, o progresso da civilização europeia despertou um enorme entusiasmo – mas esse sonho se desmanchou ao longo do século XX. Uma época de guerras em escalas monumentais, ditaduras, explosão demográfica, enormes áreas de pobreza, entre outros problemas, forçou o questionamento da ideia de progresso que tanto encantou as gerações anteriores. As utopias foram praticamente varridas, dando lugar à,s distopias de George Orwell, que pintavam um futuro sombrio. No alvorecer do século XX, o sociólogo Oswald Spengler dizia que o Ocidente já havia há muito atingido o seu apogeu, portanto, só lhe restava o declínio. O sonho da década de 1960 afundou em meio às sombrias décadas de 1970 e 1980 e o otimismo do pós-guerra fria caiu diante dos conflitos raciais e religiosos e ao espectro do terrorismo internacional. Este clima influenciou praticamente todos os aspectos da sociedade, caracterizando diretamente o pensamento de nossa época. A partir do século XVII, insuflados pela revolução científica que tomava a Europa, os pensadores passaram a imaginar a sociedade de forma científica, contestando toda a ordem tradicional. Uma nova era de luz, liberdade e igualdade, na qual a razão, e não mais a superstição, guiaria a sociedade. Enquanto na Antiguidade, sociedade e espiritualidade estavam integrados em um único sistema, no período moderno esses dois aspectos da vida passaram a se separar. A instauração da Modernidade trouxe um mal-estar geral para a civilização. Já não era possível encontrar na cultura qualquer resposta para os anseios mais profundos do Homem. A Razão e a Ciência destruíram os recursos espirituais do Ocidente fazendo-o entrar em uma profunda crise espiritual. No início da obra A Vontade de Potência, de

Para Nietzsche, a decadência havia começado com Sócrates, com seu método de questionar tudo e sua negação da espontaneidade dos instintos. A solução para tal crise, portanto, estava na rejeição da razão e no retorno dos profetas, que deveriam, não por meio da razão, mas da determinação, fundar novos valores que iriam guiar os povos e erguer novas civilizações 1888, Nietzsche anuncia o novo clima que estava se formando: “O que relato é a história dos próximos dois séculos. Descrevo o que está vindo, o que não mais pode vir de forma diferente: o advento do niilismo.” Nietzsche utilizou uma abordagem relativista. Valores não podem ser explicados e tornados evidentes através da razão — não são algo

que possa ser demonstrado, mas algo que se afirma. A grandeza do homem não está em sua razão, e sim em sua capacidade de se comprometer e lutar por valores, quaisquer que sejam eles. Para Nietzsche, a decadência havia começado com Sócrates, com seu método de questionar tudo e sua negação da espontaneidade dos instintos. A solução para tal crise, portanto, estava na rejeição da razão e no retorno dos profetas, que deveriam, não por meio da razão, mas da determinação, fundar novos valores que iriam guiar os povos e erguer novas civilizações. As ideias de Nietzsche se fragmentaram, espalhando-se por todo pensamento filosófico contemporâneo, como uma bomba de efeito retardado. Nietzsche e os Nazistas A irmã de Nietzsche, Elizabeth, rejeitou as tentativas de Peter Gast de editar vários manuscritos inéditos, e assumiu o controle total dos arquivos de sua obra. Ela utilizou cartas e outros escritos de Nietzsche para criar a falsa impressão de que sempre esteve próxima da obra do irmão. Elizabeth, com seu sentimento ultranacionalista, assegurou a presença das ideias de Nietz­sche na emergente política do imperialismo alemão durante as Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Devemos levar em conta que o antissemitismo de sua irmã foi o ponto de discórdia e de afastamento entre eles. Pouco antes de sua morte em 1935, Elizabeth agradeceu a Adolf Hitler pela honra que “graciosamente conferiu a seu irmão”. Ironicamente, o ódio sincero de Nietzsche contra o racismo em geral e contra o antissemitismo em particular fora tão efetivamente suprimido por seus maiores proponentes – os nazistas. Durante o julgamento de Nuremberg, Nietzsche foi citado como a figura principal da ideologia nazista. Ele próprio parecia temer profetizar a má utilização de suas ideias (ironicamente) em uma carta a sua irmã, escrita em Veneza em junho de 1884: “Tremo quando penso que todos aqueles que, sem justificação, sem estarem prontos para minhas ideias, invocarão mesmo assim minha autoridade”. Nietzsche sempre observara que os políticos estão mais preocupados com a conveniência

filosofia especial | 27

FIE_26-31_InfluenciasNiet.indd 27

02/08/2010 11:12:44


Foto: Commons/Arquivo Filosofia

Pensamento Contemporâneo

George Orwell Eric Arthur Blair (1903-1950), foi um jornalista, ensaísta e romancista britânico. Sua escrita é marcada por descrições concisas de eventos e condições sociais e o desprezo por todos os tipos de autoridade. É mais conhecido por suas duas obras maiores, 1984, uma crítica ao autoritarismo, e Animal Farm (A Revolução dos Bichos) , uma sátira ao stalinismo. Socialista, vai para a Espanha, em 1936, lutar na Brigada Internacional em apoio ao recém-eleito governo popular. Lutando na Espanha (1938), narra suas experiências na Guerra Civil Espanhola.

do que com a verdade, e o próprio Hitler concorda com isso sem nenhum pudor, no seu livro Mein Kampf (Minha Luta): “O importante não é o que o criador de uma ideia genial quis dizer, mas o que essa ideia se torna na boca de quem a transmite”. A questão do racismo talvez seja a forma mais simples de separar Nietzsche e Hitler. É só fazermos uma comparação entre os pronunciamentos de Hitler em Mein Kampf: “Nosso partido descansa sobre um conceito racial do universo; essa é a parte essencial de sua doutrina, ele trabalha para o triunfo final do racialismo”; como a visão de Nietzsche em uma carta escrita para a irmã em 1887: “Recentemente fui inundado com cartas e panfletos antissemitas; minha repugnância por esse partido (que ficaria muito feliz em utilizar-se do meu nome) é tão pronunciada como poderia ser”. Sobre o nacionalismo, Nietzsche é bastante claro. Poucos escritores tiveram menos respeito por seu País e sua política. Uma carta de 1887, basta para demonstrar tal afirmação: “Sinto-me aparentado apenas com os bem educados franceses e russos, mas de nenhuma forma com a assim chamada elite entre meus próprios compatriotas, que julgam tudo pelo princípio: “A Alemanha acima de tudo”. Nietzsche afirmava que: “Como os valores não podem ser demonstrados, o único critério para defini-los é a convicção com que eles são afirmados. Os valores entram em conflito, através da guerra se necessário, e os que são afirmados com maior convicção prevalecem”. Essas ideias foram utilizadas para fundamentar movimentos como o nazismo e o fascismo, que foram reações ao clima burguês que prevalecia nos países ricos. Nietzsche e a psicanálise Freud tem em comum com Nietzsche o “método da suspeita”. Suas análises da cultura e da consciência apresentam uma história de falsa consciência. A admiração de Freud por Nietzsche aparece em seu desenvolvimento de ideias-chave: “Todos os instintos que não encontram uma válvula para sair de si mesmos voltam-se para dentro (Genealogia da Moral)”, tais observações são claramente o começo da Teoria da Neurose. Nietzsche afirmava através de Zaratrusta que “Todas as verdades suprimidas tornam-se venenosas”. Outra antecipação de Nietzsche foi a da noção freudiana de repressão em sua análise do orgulho contido em Além do Bem e do Mal:“Eu fiz isso, diz minha memória. Eu não posso ter feito isso, diz meu orgulho, que permanece inflexível. Finalmente a memória se submete.” A orientação patológica freudiana – a ideia de que somente por meio do estudo da pessoa anormal podemos

Freud tem em comum com Nietzsche o “método da suspeita”. Suas análises da cultura e da consciência apresentam uma estória de falsa consciência. A admiração de Freud por Nietzsche aparece em seu desenvolvimento de idéias- chave: “Todos os instintos que não encontram uma válvula, para sair de si mesmos voltam se para dentro (Genealogia da Moral)”, tais observações são claramente o começo da Teoria da Neurose aprender a verdadeira natureza da psicologia “normal” – e refletida na proposição de Nietzsche em Humano, Demasiado Humano de que “As naturezas divergentes são da maior importância onde deve haver progresso”. Heidegger e Nietzsche Martin Heidegger (1889-1976) em seu ensaio, O Mundo de Nietzsche, apresenta o filósofo como o

28 | filosofia especial

FIE_26-31_InfluenciasNiet.indd 28

02/08/2010 11:12:45


O Existencialismo Segundo Jean-Paul Sartre (1905-1980), o primeiro princípio do existencialismo é que “a existência precede a essência”. Sartre afirma que cada um de nós deve determinar individualmente nossa identidade. A natureza humana é indeterminada até se realizar os atos de livre escolha. Vivemos condenados a uma “terrível liberdade” de fazer escolhas a cada momento de nossa vida. A ênfase de Nietzsche no papel fundamental da vontade fornece a base do existencialismo – uma filosofia de liberdade desejada e o inescapável fato da escolha humana. Conhecimento e Poder Michel Foucault (1926-1984) é o mais influente herdeiro do método “genealógico” de Nietzsche da análise conceitual. Sua obra, As Palavras e as Coisas, reflete perfeitamente a visão nietzschiana do conhecimento como um projeto essencialmente humano para produzir ordem a partir do caos. Foucault enfatiza que o nosso modo de pensar sobre nós mesmos é finito. Tal ideia é expressa primeiramente na observação de Nietzsche sobre os filósofos em Humano, demasiado humano: “Eles pensam no Homem como uma aeterna veritas (uma verdade eterna), como alguma coisa que permanece constante no meio de todos os fluxos, como uma medida segura das coisas. Tudo que os filósofos declararam sobre o homem é, no entanto, nada mais que um testemunho sobre o homem de um período limitado”. O pensamento de Foucault considerou a relação da genealogia com a história e a filosofia em seu ensaio: Nietzche e a História (1971). Lembramos que Niet­ zsche pedira um estudo de “outras histórias”, que são os fatos anônimos de nossas vidas diárias. Foucault acatou seu pedido e escreveu as micro-histórias da loucura, da sexualidade e da punição.

Nietzsche e o Pós Modernismo A sombra de Nietzsche se estende para grande parte da teoria Pós-Moderna. Jean-Françoais Lyotard (1924-1998) caracterizou de forma notória a condição pós-moderna, como um desarranjo das tradicionais “grandes narrativas” do pensamento progressivo ocidental. Mas agora que o “desejo pela verdade foi forçado a se examinar”, estamos experimentando uma proliferação de teorias filosóficas de proporções epidêmicas. O próprio Nietzsche não teria aprovado: “A fraqueza da personalidade moderna aparece na imensurável expansão da crítica”.

Michel Foucault (19261984) é o mais influente herdeiro do método “genealógico” de Nietzsche da análise conceitual. Sua obra As Palavras e as Coisas, reflete perfeitamente a visão nietzschiana do conhecimento como um projeto essencialmente humano para produzir ordem a partir do caos

Roby

maior crítico da tradição metafísica ocidental representada por Platão: “Através da reviravolta da metafísica realizada por Nietzsche, somente resta à metafísica uma mudança em direção a sua própria desordem e falta de essencialidade”. Tal tradição vista como a ascensão e desenvolvimento do niilismo chegou a uma encruzilhada. Para Heidegger o Ser significa: “O que é dado ao pensamento para pensar”. Em outras palavras, o Ser vai além de qualquer sistema de pensamento. Mas o “ir além” não implica em transcendência no significado definitivo da existência humana no mundo – uma questão de importância cabal para Nietzsche.

Mein Kampf (Minha Luta) É o título do livro de autoria de Adolf Hitler, no qual ele expressou suas ideias antissemitas, racialistas e nacionalistas, adotadas pelo partido nazista. O primeiro volume foi escrito na prisão e editado em 1925, o segundo foi escrito por Hitler já em liberdade e editado em 1926. Mein Kampf tornou-se um guia ideológico e de ação para os nazistas, e ainda hoje influencia os neonazistas, sendo chamado por alguns de “Bíblia Nazista”.

Michel Foucault

filosofia especial | 29

FIE_26-31_InfluenciasNiet.indd 29

02/08/2010 11:12:46


Nietzsche e os pensadores

Jean-Paul Sartre Foi um filósofo francês, escritor e crítico, conhecido representante do existencialismo. Acreditava que os intelectuais têm de desempenhar um papel ativo na sociedade. Era um artista militante e apoiou causas políticas de esquerda com a sua vida e a sua obra. Repeliu as distinções e as funções oficiais e, por esses motivos, recusou-se a receber o Nobel de Literatura de 1964. Sua filosofia dizia que no caso humano, existência precede a essência, pois o homem primeiro existe, depois se define, enquanto todas as outras coisas são o que são, sem se definir, e por isso sem ter uma “essência” posterior à existência.

Commons

Além dos pensadores citados na matérias, outros autores debateram ou foram influênciados pela obra nietzschiana. Dos críticos mordazes aos admiradores, alguns dos principais filósofos, sociólogos e escritores não deixaram conceitos, aforismos e a própria biografia de Nietzsche passar em “brancas nuvens”.

Theodor Adorno (1903-1969), sociólogo, musicólogo e filósofo alemão

Raymond Aron (1905-1983), sociólogo e filósofo francês

Albert Camus (1913-1960), filósofo, escritor e ensaísta francoargelino

Gilles Deleuze (1925-1995), filósofo francês

Jacques Derrida (1930-2004), filósofo francoargelino

Carl Gustav Jung (1875-1961), psiquiatra suiço

Pierre Bourdieu (1930-2002), sociólogo e filósofo francês

Felix Guattari (1930-2002), filósofo e psicoterapeuta francês

Thomas Mann (1875-1955), escritor alemão

Bertrand Russell (1872-1970), filósofo e escritor britânico

Georg Simmel (1858-1918), sociólogo e filósofo alemão

Foto: Commons/Arquivo Filosofia

Pensamento Contemporâneo

30 | filosofia especial

FIE_26-31_InfluenciasNiet.indd 30

02/08/2010 11:12:49


A filosofia especial | 31

FIE_26-31_InfluenciasNiet.indd 31

02/08/2010 11:12:49


Transvaloração

POR Matheus Moura* e Gustavo Henrique Ferreira**

Um conceito central

E

A tranvaloração dos valores é um projeto fundamental dentro do pensamento nietzschiano. Superar as bases da moral vigente era uma obsessão para o filósofo alemão

m meio a toda crítica e análise a respeito do homem um conceito se destaca dentro da obra de Friedrich Wilhelm Nietzsche: o de transvaloração dos valores. De acordo com o pensador, esse conceito pode ser entendido como uma espécie de depuração ou, em outras instâncias, de resgates de valores éticos e morais. Assim, tal noção se consolida no restabelecimento de valores individuais e sociais que, por condições psicológicas, políticas ou ideológicas – há tempos – já não fazem mais parte do homem, não sendo percebidos no âmago dos indivíduos inseridos nos contextos históricos da Modernidade.

Trata-se de uma espécie de superação dos paradigmas atuais ou, com base em conceitos mais de acordo ao pensamento do filósofo, de um niilismo que busque re-significar as reais dimensões do Humano. De todo modo, ao mediar com tal conceito, a luta de Nietzsche se caracteriza em torno da superação da moral do escravo com sua contra parte, o homem livre. Com isso, tal transvaloração se daria nas vias de uma “humanização” ou da consolidação de indivíduos e de sociedades que se estabelecessem nos limites alcançados para “além do humano”. Por outro lado, a transvaloração dos valores, na obra de Nietzsche, vai além. Ela trata de um projeto “humanístico” para superar os valores arraigados pelas religiões e pelas estruturas sociais que delas derivam e que culminam em uma experiência de vida que se atualize. O filósofo, então, trabalha o conceito de vida afirmativa, que seria uma série de dinâmicas a se sustentarem em circuitos antropológicos (com valores éticos e morais) visando à afirmação da vida e não à condução de uma “não-vida” (repleta de privações) como acesso para a “vida eterna”. Contrapondo-se à noção amplamente divulgada e relembrada por religiosos, sem distinção, mas com foco nas doutrinas judaico-cristãs, em missas e cultos repletos de dogmas.

* Matheus Moura é jornalista - ** Gustavo Henrique Ferreira é cientista político social, cineasta, fotógrafo e poeta

32 | filosofia especial

FIE_32-37_NietTransValores.indd 32

02/08/2010 11:10:32


filosofia especial | 33

FIE_32-37_NietTransValores.indd 33

02/08/2010 11:10:36


Transvaloração

Transvaloração dos valores Originalmente em alemão é escrito como Umwertung, termo formado pelo prefixo Um – que denota “movimento circular, queda, retorno, mudança” – e pela palavra Wert – que significa “valor”. O ponto central da transvaloração dos valores é a mudança radical de ponto de vista para outro, seja social ou individual.

Oswaldo Giacóia Jr Doutor em Filosofia pela Freie Universität Berlin (1988), com pós-doutorado pela Freie Universität Berlin (93-94), Viena (97-98) e Lecce (20052006). Atualmente é professor LivreDocente do Departamento de Filosofia-IFCH da Universidade Estadual de Campinas. É um grande especialista na obra de Friedrich Nietzsche.

Neste sentido a transvaloração dos valores se dá no deslocamento da moral do escravo para a moral do guerreiro, da moral do servo para um sistema moral que paute a vida, entendida em perspectiva total, de modo a se alcançar a máxima plenitude em cada existência. Devido a isso, para Nietzsche, deve-se jamais submeter a vida à mediocridade, mas sim a uma atualização da vontade, do desejo, por meio da própria potência intrínseca a cada indivíduo. Para ele, trata-se da moral de um super-homem, de uma moral desfraldada nos limites que se estabelecem nos confins do além-do-homem. Tradução de Umwerthung A respeito de tal tema, Luís Rubira, no artigo “Uma introdução à transvaloração de todos os valores na obra de Nietzsche”, expõe a eficiência tanto dos pressupostos básicos do que se liga a transvaloração quanto a problematização sobre a terminologia (e as traduções) de tal conceito. Ou seja, levanta questões como: o que seria transvaloração ou tresvaloração? Em nota explicativa, no citado estudo, Rubira esclarece dizendo: “Acerca das traduções da palavra alemã Umwerthung, é importante registrar o seguinte: o tradutor espanhol Andrés Sánchez Pascual justifica o emprego de transvaloración por guardar a ideia nietzschiana de ‘trocar e substituir uns valores por outros, a saber, os inventados pelos ressentidos, pelos dimanados da afirmação da vida’. O Diccionario de la lengua española da Real Academia Española explica que o prefixo Trans, do latim trans ‘significa al outro lado; a través de. Puede alternar con la forma tras’.” Rubira continua, ao falar dos tradutores franceses (C. Heim; I. Hildebrand, J. Gratien e J.-C. Hémery), especificamente das Éditions Gallimard que utilizam o termo renversement e transvaluation ou mesmo inversion. Para ele, I. Hildebrand e J. Gratien na tradução da Genealogia da Moral realizam duas traduções para Umwerthung: uma para as ocorrências na Genealogia da Moral, na parte I parágrafos 7 e 8, é usada como renversement, e, na parte III parágrafo 27 já aparece o termo transvaluation. “Jean-Claude Hémery acredita que o prefixo ‘trans-‘ utilizado anteriormente nas traduções francesas, não comporta as ideias de ‘renversement, retournement, changement’, guardadas no prefixo ‘Um-‘ alemão, e opta pelo termo inversion. O tradutor brasileiro Paulo César de Souza indica que o prefixo alemão ‘um- indica movimento circular, retorno, queda ou mudança’ e opta pelo termo tresvaloração posto que ‘tres- é uma variante de trans-, que transmite ideia de movimento para além ou através de’, observando que, no seu entender, ‘tres- expressaria

de modo mais adequado a radicalidade da mudança’; observa, ainda, a importância de manter na tradução do termo Umwerthung a ênfase na palavra valor [Wert]”, explica Rubira. Neste sentido, não só pela dificuldade na tradução, para Luís Rubira, a transvaloração de todos os valores é, provavelmente, a tarefa mais polêmica presente na obra de Nietzsche. Rubira comenta, também, sobre como estão condensadas, em tal conceito, as principais ideias de Friedrich Nietzsche. O autor ressalva ainda que, para uma compreensão acertada do conceito, torna-se imprescindível que se tenha clareza o que, para Nietzsche, se consolida como valor. Desse modo, mesmo que se tenha em mente tudo que se encontra no bojo do niilismo na modernidade, bem como o que se ligue a sua crítica à metafísica e à moral socrática-

Neste sentido a transvaloração dos valores se dá no deslocamento da moral do escravo para a moral do guerreiro, da moral do servo para um sistema moral que paute a vida, entendida em perspectiva total, de modo a se alcançar a máxima plenitude em cada existência. Devido a isso, para Nietzsche, deve-se jamais submeter a vida à mediocridade

34 | filosofia especial

FIE_32-37_NietTransValores.indd 34

02/08/2010 11:10:36


judaica-cristã, deve-se ter conhecimento prévio dos próprios escritos nietzschianos. Contudo, não menos importante se mostram os conceitos de vontade de potência e a teoria das forças. Desta maneira, sobre os elementos chaves para a compreensão da transvaloração de todos os valores, Luís Rubira aponta que, para além do que já se encontra exposto, há de se ter como contrapontos inerentes ao esclarecimento de tal ideia, a noção “do além-dohomem enquanto alvo vislumbrado para escapar ao vazio de sentido decorrente da ‘morte de Deus’; e do maior e mais grave experimento de pensamento da filosofia nietzschiana perante todo e qualquer niilismo, o ‘mais pesado dos pesos’, a doutrina do eterno retorno:

encruzilhada que pode fazer desembocar novamente no niilismo ou conduzir ao incondicional Sim à vida, ao amor fati”, explica. Além do princípio e da maturidade Deste modo, por mais que a expressão transvaloração só tenha aparecido pela primeira vez, em 1886, no livro Para além de Bem e Mal, seus alicerces conceituais se encontram construídos desde as primeiras obras editadas pelo filósofo. Ou seja, desde quando o autor passou a consolidar termos e ideias tais quais além do homem, eterno retorno, niilismo, vontade de potência – noções que se encontram em seus trabalhos produzidos entre 1881 e 1882 já possuíam a gênese do conceito de transvaloração.

Éditions Gallimard É uma editorial independente francesa, fundada em 1911, por Gaston Gallimard e dirigida por Antoine Gallimard. Desde 1930, ativa até hoje.

filosofia especial | 35

FIE_32-37_NietTransValores.indd 35

02/08/2010 11:10:39


Transvaloração

Escravo Para Nietzsche, o escravo é aquele da moral serva da ideologia religiosa judaico-cristã, sendo assim, todos aqueles que se sustentam no pensamento judaico-cristão para justificarem a própria e vida alheia. Além do humano. No caso, a expressão além do homem é mais conhecida nas traduções para o português como “super-homem”, originalmente foi cunhada em alemão como Übermensch e se refere a libertação de consciência da homem para com a religião, em especial a judaico-cristã.

Vale ressaltar o fato de que a transvaloração não retornou aos textos de Nietzsche nem em Zaratustra, nem em A Gaia Ciência, publicados também em 1886. Entretanto, um ano depois com a Genealogia da Moral, tão logo na Primeira Dissertação, Nietzsche aborda a transvaloração judaico-cristã que se abate sobre os valores ancestrais (ou sobre a moral do guerreiro). Assim sendo, sobre tais gêneses conceituais, ainda é possível notar que dos moldes em que a transvaloração surge em Para além de bem e mal, de fato, em nada esta se aproxima das dimensões que ganha no prólogo de Crepúsculo dos ídolos (de 1888). Nesse, a transvaloração se apresenta como uma “ocupação sombria”, “desmesuradamente cheia de responsabilidade”, apura Rubira. Oportunidades nas quais já é possível perceber, como Nietzsche diz no prólogo do Crepúsculo dos ídolos, o “ponto de interrogação tão negro, tão inquietante, que arroja sombras sobre quem o escreve”. Em outras palavras, as reelaborações consolidadas no Crepúsculo dos ídolos já se tornam notórias e perceptíveis, com relação a como a transvaloração se transformaria em um dos principais pilares do pensamento e em um fundamental propósito filosófico de Nietzsche. De sorte que, no decorrer da referida obra é possível verificar como a transvaloração se dignifica a um ataque feroz, sagaz, sarcástico e elaborado ao cristianismo. Sobre tais ataques e sobre tais alvos Oswaldo Giacóia Jr., em seus “Labirintos da alma: Nietzsche e a auto-supressão da moral”, aponta para como o cristianismo é encarado e compreendido por Nietzsche como o “substrato éticoreligioso das mais importantes estimativas de valor do homem moderno”. Para o autor, é o mesmo que dizer como o cristianismo e seus pressupostos socráticos e judaicos mostramse como as matrizes dos demais valores do homem moderno. Esse conjunto de valores, por sua vez, para Nietzsche, se mostra como a expressão máxima da decadência humana e como a comprovação total das incongruências a serem recuperadas, sanadas, resgatadas tão urgente e genealogicamente quanto o possível, dentre outros modos – como o niilismo, vontade de potência, além-do-homem –, por meio da reinterpretação de paradigmas propostos pela transvaloração de todos os valores.

36 | filosofia especial

FIE_32-37_NietTransValores.indd 36

02/08/2010 11:10:43


Vale ressaltar o fato de que a transvaloração não retornou aos textos de Nietzsche nem em Zaratustra, nem em A Gaia Ciência, publicados também em 1886. Entretanto, um ano depois com a Genealogia da Moral, tão logo na Primeira Dissertação, Nietzsche aborda a transvaloração judaico-cristã que se abate sobre os valores ancestrais (ou sobre a moral do guerreiro)

Luís Rubira Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo (2009), sob orientação de Scarlett Marton, entre 2007-2008, fez estágio de estudos na Université de Reims Champagne-Ardenne (França). É Secretário Editorial dos Cadernos Nietzsche e Revisor das publicações da Coleção Sendas & Veredas; membro do Grupo de Estudos Nietzsche (GEN) e do Groupe International de Recherches sur Nietzsche (GIRN). Atualmente é Professor Adjunto de filosofia na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL).

Referências GIACÓIA Jr., Oswaldo. Labirintos da alma: Nietzsche e a auto-supressão da moral. Campinas: Editora da Unicamp, 1997 NIETZSCHE, Friedrich. Para além de Bem e Mal. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005. NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo

dos ídolos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. RUBIRA, Luis. “Uma introdução à transvaloração de todo os valores na obra de Nietzsche”. In: Tempo da Ciência, vol.12, 2º sem., 2005.

filosofia especial | 37

FIE_32-37_NietTransValores.indd 37

02/08/2010 11:10:46


Eterno Retorno

pOr JEffErsOn nunEs*

Eterno Déjà vu?

E

Nietzsche é o filósofo mais popular entre aqueles que têm pouca familiaridade com Filosofia. A explicação para esse fenômeno é simples: Nietzsche ofereceu um remédio para a crise espiritual que aflige o homem moderno. Com o Eterno Retorno, Nietzsche nos apresenta o que seria para ele seu pensamento mais aterrador

STAREMOS PRESOS A CICLOS REPETITIVOS DA VIDA? VIVENDO um número limitado de fatos, que se repetiram no passado, ocorrem no presente, e se repetirão no futuro, como guerras, alegrias, tristezas, etc.? As indagações acima estão contidas num dos conceitos mais famosos da obra de Nietzsche : O Eterno Retorno. O Eterno Retorno é um tema pensado desde o período da Antiguidade grega. Formulado pelos estoicos gregos é considerado por Nietzsche como o símbolo supremo de toda afirmação da vida. Nietzsche o lança como uma espécie de derradeiro desafio para o homem moderno.

Um ser que se encontra perdido na encruzilhada entre dois tipos de niilismo: o niilismo passivo, uma constatação pessimista, uma atitude apática diante da ausência de todos os valores e do absurdo contido na existência; e o outro seria um niilismo ativo, que procura destruir tudo e imprimir valor ao nada. O niilismo é a decorrência inevitável da “morte de Deus”, da orfandade de valores, da esperança traída, e que na época de Nietzsche começava a se mostrar em todos os campos: nas Artes, Literatura, Filosofia e principalmente na Ciência. A descrença nos valores cristãos, a constatação da inexistência de Deus e, por conseqência, a ausência de todo parâmetro moral e espiritual, levava o homem a perder a crença em qualquer valor e a entrar em decadência e aniquilamento.

* Jefferson nunes é jornalista

38 | filosofia especial

FIE_38-43_NietEternoRet.indd 38

02/08/2010 10:59:46


Shutterstock

filosofia especial | 39

FIE_38-43_NietEternoRet.indd 39

02/08/2010 11:00:01


Eterno Retorno

Commons

Foi neste contexto que Nietzsche tomou para si o difícil papel de reformador. Uma espécie de “profeta da transvaloração de valores”, na esperança de salvar o Ocidente da decadência niilista que começava a ganhar corpo. O Eterno Retorno é um conceito não acabado em vida pelo próprio Nietzche. Exposto em vários de seus textos, podendo ser encontrada em Assim falou Zaratustra (aforismo 341 ), em A Gaia Ciência e no aforismo 56 do Além do Bem e do Mal; além de trechos dos seus famosos fragmentos póstumos. Nietzsche considerava sua visão de O Eterno Retorno como seu pensamento mais profundo e, ao mesmo tempo, mais assustador. O Eterno Retorno teria assaltado sua mente durante uma caminhada em 1881, ao contemplar uma formação rochosa. Durante esse passeio, Nietzsche refletiu sobre os sentidos das vivências em alternâncias que se repetem. Como já foi dito em várias de suas obras encontramos pistas do que seria “O Eterno Retorno”. Mas é no seu livro, A Gaia Ciência (1882), um dos mais belos textos antes de Nietzsche sofrer das baixas de sua saúde, que ele nos brinda com a ideia mais nítida do significado de tal conceito: “E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida,

Mircea Eliade. Cosmos e História - O Mito do Eterno Retorno. New York Harper - 1959

O Eterno Retorno, é um tema pensado desde o período da antiguidade grega. formulado pelos estoicos gregos é considerado por Nietzsche como o símbolo supremo de toda afirmação da vida. Nietzsche o lança, como uma espécie de derradeiro desafio para o homem moderno

40 | filosofia especial

FIE_38-43_NietEternoRet.indd 40

02/08/2010 11:00:03


assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes. E não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!’ Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: ‘Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!’ Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: ‘Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?’ Pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?” A indagação que Nietzsche propõe no aforismo acima não significa uma negação da vida, pelo contrário, seria uma afirmação do viver. Não podemos crescer se não experimentarmos o declínio e vice-versa. São faces de uma mesma moeda, sem uma demarcação temporal definida. Nietzsche nos mostra que: “Os homens não têm de fugir à vida como os pessimistas, mas como alegres convivas de um banquete que desejam suas taças novamente cheias dirão à vida: uma vez mais”. – Eis aqui uma bela negação, de Nietzsche ao “pessimismo” de Arthur Schopenhauer. O Eterno Retorno defende a tese de que polos se alternam nas vivências num eterno ciclo de repetição. Criação e destruição, alegria e tristeza, saúde e doença, bem e mal, belo e feio, tudo se vai e tudo retorna. Porém, esses polos não são opostos, complementam-se, pois são faces de uma mesma realidade, são contínuos; fragmentos de um único jogo. Alegria e tristeza, por exemplo, seriam faces de uma única experiência, sentida em graus diferentes. Ao contrário do que muitos acham, a temporalidade como percebemos não está presente no Eterno Retorno. A realidade para Nietzsche não tem uma finalidade, nem um objetivo a cumprir, e por esse motivo as alternâncias de prazer e desprazer se repetiriam durante todo o ciclo da vida. O Eterno Retorno não se reporta a uma demarcação temporal cíclica, exata e cartesiana, mas às nuances de vivências que se complementam e dão o colorido do viver. Com O Eterno Retorno, Nietzsche questiona a ordem das coisas, indica um mundo não feito de polos

Nietzsche considerava sua visão de O Eterno Retorno como seu pensamento mais profundo e ao mesmo tempo, mais assustador. O Eterno Retorno teria assaltado sua mente durante uma caminhada em 1881, ao contemplar uma formação rochosa. Durante esse passeio, Nietzsche refletiu sobre os sentidos das vivências em alternâncias que se repetem

Estoicos Gregos O estoicismo surgiu na Grécia e sua tradição apareceu na Roma por volta do ano 155 a.C. O estoicismo é uma doutrina filosófica criada por Zenão, que afirma que o universo é corpóreo e governado por um Logos de ordem divina.

opostos, e inconciliáveis, mas de faces complementares de uma mesma e múltipla, e única realidade. Logo, bem e mal, angústia e prazer são instâncias complementares da realidade – instâncias que se alternam eternamente. Como a realidade não tem objetivo, ou finalidade (pois se tivesse já a teria alcançado), a alternância nunca finda. Ou seja, considerando-se o tempo infinito e as combinações de forças em conflito que formam cada instante finito, em algum momento futuro tudo se repetirá infinitas vezes. Assim, vemos sempre os mesmos fatos retornarem indefinidamente. Tal conceito leva a uma indagação: amamos ou não amamos a vida? Se tudo retorna, isso seria um dom divino ou uma maldição? Amamos a vida a tal ponto de a querermos, mesmo que tivéssemos de vivê-la infinitas

filosofia especial | 41

FIE_38-43_NietEternoRet.indd 41

02/08/2010 11:00:03


Eterno Retorno

ARTHUR SCHOPENHAUER (1788- 1860) As principais obras do filósofo alemão são O mundo como vontade e representação (1819) e Parerga e Paralipomena (1851). Schopenhauer é conhecido por seu “pessimismo” e por ser um opositor da filosofia hegeliana.

vezes? Sofrendo e gozando da mesma forma e com a mesma intensidade? Seríamos capazes de amar a vida que temos – a única vida que temos – a ponto de querer vivê-la tal e qual como ela é, sem a menor alteração, ao longo da eternidade? Temos tal amor ao nosso destino? Eis a grande indagação que é o Amor Fati ( Amor ao Destino) contido O Eterno Retorno. O importante não seria a possibilidade material de viver novamente num futuro remoto. O importante é o “peso” quase insuportável, que isto dá às pequenas decisões tomadas no dia a dia. A fantasia de viver para sempre a mesma vida é um exercício que torna presente a urgência do cotidiano, afinal, é nele que existimos. QUESTÃO DO UNIVERSO O conceito básico da teoria de O Eterno Retorno em si é bastante simples: se partirmos do princípio que o Universo é um corpo finito (possuindo um número gigantesco, mas finito de elementos básicos) e transcorrido um tempo infinito, então todas as combinações possíveis deste número finito de elementos básicos seriam repetidas de forma infinita. Se observarmos o Universo como um grande baralho cósmico (com um número gigantesco de cartas, mas finito), então o número de combinações advindo da mistura dessas cartas seria finita e seria repetido através da eternidade. Essa hipótese (que na época de Nietzsche era quase inimaginável) nos dias de hoje é muito discutida pela Ciência na Teoria do Big Crunch. Seria a única hipótese que respeitaria a conservação de energia do Universo. Um Universo finito (com um número finito de elementos) poderia se expandir (através de um Big Bang ) e se contrair (através de um Big Crunch) infinitamente, conservando sua energia. O número de combinações desse universo seria algo inimaginável, mas seria finito, e certamente teria de ser repetido infinitamente. Assim, todas as mais insignificantes variantes possíveis na vida de qualquer pessoa, na vida de qualquer animal, de qualquer planta, de qualquer átomo, de qualquer elétron, seriam vividas da mesmíssima forma eternamente. Nietzsche adentra um estado de estupefação e horror diante da aterradora hipótese de O Eterno Retorno. Nada caminharia em uma linha reta. Nada teria um começo, meio ou um fim. Nada tem um princípio ou mesmo um objetivo. Tudo seria um infinito e gigantesco ciclo de repetições, de combinações finitas. Sempre estaríamos em um ponto intermediário desse ciclo. Nunca chegaremos a um fim. Nunca houve um começo.

O cOncEitO bÁsicO da tEOria dE O EtErnO rEtOrnO Em si é bastantE simplEs: sE partirmOs dO princípiO quE O univErsO é um cOrpO finitO (pOssuindO um nÚmErO gigantEscO, mas finitO dE ElEmEntOs bÁsicOs) E transcOrridO um tEmpO infinitO, EntãO tOdas as cOmbinaçÕEs pOssívEis dEstE nÚmErO finitO dE ElEmEntOs bÁsicOs sEriam rEpEtidas dE fOrma infinita Estamos eternamente condenados a repetir exatamente o que eternamente estamos a repetir. Nietzsche nos dá o Eterno Retorno como uma saída, que consiste na busca da criação por meio da destruição. Somente nesta complementação poderemos transcender e reafirmar a vida em detrimento dos valores que teriam envenenado a humanidade e negado a vida, sobretudo àqueles simbolizados na cruz. Não é à toa que o pensamento de Nietzsche tomou proporções mundiais depois da sua visão da teoria do Eterno Retorno. Como podemos não sucumbir ao desespero do vazio niilista depois dessa abismal constatação? Talvez seja isto que levou Heidegger a afirmar que Nietzsche foi o niilista mais contundente dentre todos os niilistas: na esperança de “curar a civilização de um niilismo decadente” cria-se uma hipótese niilista ainda mais aterradora e inescapável.

42 | filosofia especial

FIE_38-43_NietEternoRet.indd 42

02/08/2010 11:00:03


Shutterstock

Big Crunch Em português “Grande Esmagamento” , o Big Crunch é uma teoria segundo a qual o Universo inicia-se no futuro, e contrai-se, devido à atração gravitacional, até entrar em colapso. De acordo com a Cosmologia, essa teoria seria uma espécie de oposição ao Big Bang, pois aponta para um colapso após o fim da expansão.

niEtzschE nOs dÁ O EtErnO rEtOrnO cOmO uma saída, quE cOnsistE na busca da criaçãO pOr mEiO da dEstruiçãO. sOmEntE nEsta cOmplEmEntaçãO pOdErEmOs transcEndEr E rEafirmar a vida Em dEtrimEntO dOs valOrEs quE tEriam EnvEnEnadO a humanidadE E nEgadO a vida, sObrEtudO ÀquElEs simbOlizadOs na cruz filosofia especial | 43

FIE_38-43_NietEternoRet.indd 43

02/08/2010 11:01:06


Tradução

POR Daniel Rodrigues Aurélio*

O valor

da tradução

N

Como a de outros pensadores consagrados, a obra de Nietzsche sofre com as más traduções. Entenda porque essa etapa editorial pode ser determinante para a adequada compreensão de um pensamento

o mundo ideal do conhecimento, todos seríamos capazes de ler e compreender os textos na língua original de grandes escritores, cientistas e pensadores. Na realidade, porém, diversos fatores impedem que a esmagadora maioria das pessoas detenha essa capacidade. Apesar de vivermos em um mundo dito globalizado, a Babel ainda suplanta o esperanto. É, pois, uma tarefa árdua, para não dizer impossível, dominar tantos idiomas e variações de dialeto. Talvez seja o suficiente aprender uns cinco idiomas-chave da cultura ocidental: inglês, alemão, francês, italiano e espanhol. Sem esquecer do latim e do grego, fundamentais para o entendimento integral de vários textos clássicos. E como esquecer a tradição oriental? Melhor então se dedicar ao mandarim, ao japonês, ao persa, ao árabe... Convém admitir que não é fácil, certo?

É claro que existem os poliglotas e suas admiráveis habilidades, mas estes constituem uma minoria frente ao universo total de leitores, por exemplo, do autor tema desta revista, o filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche. Outro detalhe importante, e nele até os poliglotas escorregam, é que para ler adequadamente um autor não basta apenas ser fluente no idioma de origem da obra. A língua, como se sabe, é parte essencial de uma cultura. E como ela é dinâmica em sua rede de signos, significados e ressignificações, é preciso penetrar em suas sutilezas, na sua complexidade de variações semânticas, nas gírias, contextos, ironias. Dessa forma, reduz-se drasticamente a possibilidade de concretização desse nosso universo utópico do saber, no qual não perderíamos sequer uma linha ou entrelinha imaginada pelo autor. Diante dessa nossa incontornável limitação, surge uma figura algo heroica capaz de servir de intermediário, intérprete mesmo, da relação emissor (autor) e receptor (leitor): o tradutor. Profissional praticamente ignorado, relegado ao protocolar crédito em expedientes e fichas catalográficas (exceto quando já goza de prestígio obtido como romancista ou acadêmico), o tradutor tem um papel imprescindível para a * Daniel Rodrigues Aurélio é bacharel em Sociologia e Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e pósgraduado em Globalização e Cultura pela Escola Pós-graduada de Ciências Sociais. É autor de Dossiê Nietzsche (Universo dos Livros, 2009) e editor-assistente das revistas Filosofia Especial Nietzsche e Sociologia Ciência & Vida.

44 | filosofia especial

FIE_44-47_ProblemasTraducao.indd 44

02/08/2010 10:57:55


Domenico Ghirlandaio

PaRa leR aDequaDamente um autOR, nãO basta aPenas seR fluente nO iDiOma De ORigem Da ObRa. a língua, cOmO se sabe, é PaRte essencial De uma cultuRa. e cOmO ela é DinÂmica em sua ReDe De signOs, significaDOs e RessignificaçÕes, é PRecisO PenetRaR em suas sutilezas, na sua cOmPlexiDaDe De vaRiaçÕes semÂnticas filosofia especial | 45

FIE_44-47_ProblemasTraducao.indd 45

02/08/2010 10:58:03


Commons

Tradução

Commons

Liev Tolstói e Ivan Turguêniev Contemporâneo de Tolstói, Turguêniev e Fiódor Dostoiévski, Friedrich Nietzsche era um leitor devotado de literatura russa. A influência dos russos – sobretudo de Dostoiévski – na filosofia nietzschiana é evidente. Vinculado à Nietzsche, o termo “niilismo” aparece no romance Pais e Filhos (1862), de Ivan Turguêniev.

Denise Bottmann Ao denunciar plágios e péssimas traduções, a tradutora e blogueira Denise Bottmann iniciou uma cruzada contra várias editoras brasileiras. A propósito, Denise assina a tradução de Nietzsche (L&PM), de Jean Granier.

comunicação das ideias. Sua função envolve uma série de aspectos que vão além de verter mecanicamente um texto para outro idioma. Não por acaso, os cursos superiores de Letras oferecem concorridas especializações em Tradução com focos específicos em tradução editorial, intérprete de conferências, etc. De todo modo, o “engenho & arte” da tradução não necessariamente se aprende e se desenvolve nos bancos universitários. É um serviço que requer não só um domínio nas línguas envolvidas na operação, como também um excelente conhecimento do assunto em pauta. Veja como é comum, por exemplo, poetas traduzirem poetas – Ivan Junqueira é um mestre no ofício – e assim por diante. Não que isso seja uma obrigação; mas

Profissional praticamente ignorado, relegado ao protocolar crédito em expedientes e fichas catalográficas (exceto quando já goza de prestígio obtido como romancista ou acadêmico), o tradutor tem um papel imprescindível para a comunicação das ideias. Sua função envolve uma série de aspectos que vão além de verter mecanicamente um texto para outro idioma

na medida em que o compromisso do tradutor é interpretar e equilibrar a fidelidade aos textos e ideias com as particularidades da língua-destino, muitas vezes essa é a solução encontrada pelas editoras. Vou dar um exemplo pessoal para ilustrar esse argumento. Semanas atrás, comprei o novo romance do escritor americano Paul Auster, Invisível (Companhia das Letras, 2010), cuja tradução destacada na folha de rosto e na contracapa do livro é de Rubens Figueiredo. Professor de tradução literária, Figueiredo é um romancista e contista premiado, duas vezes vencedor do Prêmio Jabuti, e autor de A festa do Milênio (1990) e As Palavras Secretas (1998). Versátil, assinou ainda ótimas traduções dos escritores russos Liev Tolstói e Ivan Turguêniev. Responsável pelo polêmico “Não gosto de plágio” (www. naogostodeplagio.blogspot.com), blog referência no tema, a experiente tradutora Denise Bottmann indica uma matéria interessante, assinada pelo jornalista Walter Sebastião e publicada no site Divirta-se notícias. Nela, o poeta Paulo Henriques Britto, exímio tradutor, concede um depoimento emocionante: “Toda pessoa que tem alguma formação profissional já leu um livro traduzido, mas nem pensa que quem o escreveu foi o tradutor, não o autor. Como o português é língua de pouco peso na cultura ocidental, grande parte do que lemos, em todas as áreas, é tradução”. A declaração de Britto é uma forma impressionista de trazer à luz um trabalho de bastidor vital. Trabalho que pode tanto valorizar como destruir uma obra. E é por esse ângulo que veremos a obra de Nietzsche. Nietzsche Traduzido Do ponto de vista editorial, é preciso destacar dois pontos a respeito do conjunto da obra de Friedrich Nietz­ sche. 1) Seus livros são de domínio público, pois o filósofo faleceu em Weimar há mais de cem anos; 2) Os títulos de sua autoria vendem muito bem, com constância e para um público que não se restringe ao acadêmico (professores, alunos, pesquisadores). Como não é necessário pagar direitos autorais e a demanda em bancas e livrarias é garantida, o catálogo de Nietzsche tornou-se uma fonte segura de lucratividade para as editoras. Por essa razão, várias edições de um livro como Assim falou [ou falava] Zaratustra são vendidas a preços populares. Essa oferta é positiva por trazer ao leitor não especializado o pensamento de um dos filósofos mais importantes da história moderna. No entanto, tais edições nem sempre possuem uma qualidade aceitável, seja no acabamento dos exemplares, seja na tradução. Feitas quase sempre a partir de fontes secundárias – inglês, francês ou outras versões em português –, tais traduções provocam “ruídos” e “interferências” comunicativas, especial-

46 | filosofia especial

FIE_44-47_ProblemasTraducao.indd 46

02/08/2010 10:58:04


O PensamentO nietzschianO, em si, Dá maRgens a váRias inteRPRetaçÕes. é cuRiOsO cOmO um DeteRminaDO tRechO Ou afORismO PODe seR eDitaDO, tORciDO e DistORciDO De mODO a “justificaR” (?) iDeOlOgias DísPaRes cOmO O anaRquismO e O nazismO. imagine, entãO, quanDO cOnceitOs e iDeias sãO tRaDuziDOs De fORma equivOcaDa Ou imPRecisa

leitores, os profissionais do livro fornecem serviços que sobreviverão a todas as mudanças tecnológicas” (pág. 16). devemos advertir que uma edição popular não necessariamente contém uma tradução ruim ou de má fé. e que erros aqui e ali acontecem. portanto, o ideal – e esse ideal está próximo de ser atingido – é ler com atenção aos comentadores e analistas do pensamento nietzschiano. um antídoto para as más traduções são os livros daqueles estudiosos que leram nietzsche no original e lançam um olhar profundo sobre o seu pensamento. Filósofos do porte de scarlett marton ou oswaldo Giacóia Jr. nos ajudam a eliminar ruídos e iluminar pontos obscuros.

os PensaDores Lançada na década de 1970 pela Abril Cultural (hoje Nova Cultural), a coleção Os Pensadores é um dos maiores êxitos da história do mercado editorial no Brasil. Com capa dura, bom acabamento e colaboradores renomados, a coleção trouxe aos leitores brasileiros textos de grandes filósofos.

Rick Friedman

mente graves no caso de um autor de escrita apaixonada, visceral, poética e sinuosa como nietzsche. o pensamento nietzschiano, em si, dá margens a várias interpretações. É curioso como um determinado trecho ou aforismo pode ser editado, torcido e distorcido de modo a “justificar” (?) ideologias díspares como o anarquismo e o nazismo. imagine, então, quando conceitos e ideias são traduzidos de forma equivocada ou imprecisa. o famoso Übermensch, por exemplo. Qual seria seu correto correspondente em português? super-homem, além-do-homem ou além-do-humano? há defensores para as três variantes. parece algo cosmético, irrelevante, mas não é. “super” e “além” sugerem sutilezas interpretativas que alteram sentidos. particularmente, acho “além-do-humano” mais adequado ao pensamento nietzschiano, embora o “superhomem” tenha se consagrado e, por assim dizer, “popularizado” a partir da tradução, assinada por rubens rodrigues torres Filho, do volume Nietzsche, da coleção “Os pensadores”, publicada pela abril cultural na década de 1970. em situações controversas como esta, prefiro manter a palavra em alemão e puxar uma nota de rodapé explicativa. outro conceito central na obra de nietzsche, de tradução complicada, é o Umwertung aller Werte. aliás, é tão difícil verter o termo para o português que os tradutores optam por palavras que não constam em alguns dicionários. ou seja, eles recorrem aos neologismos transvaloração (de uso corrente) ou transvalorização (raramente utilizado). transmutação – essa sim constante em dicionários – é uma terceira alternativa. mas ao contrário do Übermensch, essas três variantes convergem para um significado similar: transvalorizar, transvalorar, transmutar todos os valores. em suma, o ideal – e o ideal é a nossa meta, por que não? – seria a tradução direta do alemão, feita por um profissional de alto nível, de preferência especializado em filosofia, e com uma criteriosa preparação de texto e revisão técnica posterior. por sinal, convém valorizar a produção editorial de livros e revista. aqueles nomes no crédito e expediente, que poucos leitores se dão ao trabalho de conferir, são os responsáveis diretos pela qualidade do que você lê. daí porque o historiador Robert Darnton, em A Questão dos Livros (companhia das letras, 2010), reflete sobre os “profissionais do livro”: “como insistem os historiadores do livro, autores escrevem textos, mas livros são produzidos por profissionais do livro, e esses profissionais exercem funções que vão muito além de manufaturar e difundir um produto. editores são guardiões de portais, responsáveis por controlar o fluxo do conhecimento. (...) ao selecionar textos, editá-los, permitir sua legibilidade e trazê-los à atenção dos

roBerT DarnTon Historiador especializado em Iluminismo, com foco na história das ideias e dos livros, Robert Darnton é autor de Os best-sellers proibidos da França pré-revolucionária, O grande massacre de gatos, Edição e Sedição e Os dentes falsos de George Washington. É atualmente diretor da Biblioteca da Universidade Harvard.

filosofia especial | 47

FIE_44-47_ProblemasTraducao.indd 47

02/08/2010 10:58:06


Nazismo

POR Angela Zamora Cilento*

Apropriação Indevida Relacionar a obra de Friedrich Nietzsche ao nazismo é um erro, fruto de distorções intencionais e más interpretações. O pensamento do filósofo alemão está para além das simplificações e doutrinas

E

ste artigo objetiva esclarecer os nós tão imbricados desta associação: Nietzsche e o nazismo. Certamente, para os desavisados leitores e no geral, para o senso comum, tal relação é feita quase que imediatamente, o que não é verdade. Nietzsche nunca foi a favor do antissemitismo, como poderemos atestar por meio de vários argumentos. Primeiramente, vamos nos ater ao contexto

histórico. “Os intelectuais alemães, desde o século XVIII, influenciados pelos ideais cosmopolitas das Luzes, concebiam a cultura como algo que se produz independentemente dos limites impostos pelas fronteiras territoriais das diversas nações. Os neo-humanistas alemães, por volta de 1790 retomaram a perspectiva universalista, propondo a cultura e a civilização gregas como modelo mais perfeito

e acabado da realização humana. Exaltavam o espírito germânico por sua identidade com o espírito grego e os ideais da Grécia Antiga.(...) Com o romantismo, temos não só um movimento literário, mas cultural que culminou na elevação do povo alemão” (COSTA, 1996, p. 6). Em outros termos, esse movimento já vem acontecendo muito antes do nascimento do próprio Nietzsche.

*Angela Zamora Cilento é mestre em Filosofia pela PUC-SP e professora de Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie nos cursos de Filosofia, Administração e Comércio Exterior.

48 | filosofia especial

FIE_48-55_NietNazismo.indd 48

02/08/2010 10:56:05


Para reforçar este processo, temos a veiculação das ideias de Gobineau “que pregava a desigualdade das raças e se achavam mescladas à doutrina cristã”. (MARTON, 1985, p. 39) Além disso, temos a circulação da revista Folha de Bayreuth, que propaga as ideias de Gobineau. Não podemos descartar todo esse movimento que culminará, posteriormente, na ascensão do nazismo. O contexto histórico nos permite vislumbrar que este processo é anterior ao nascimento de Nietzsche. Podemos ainda considerar a própria situação econômica da Alemanha. Será interessante previamente discorrermos sobre as mudanças históricas na Europa de 1870 a 1914, ainda que rapidamente, a fim de termos à mão o ponto de partida da análise das figuras da espiritualidade alemã e judaica desta época. A Alemanha, de um Estado semifeudal acabou por se tornar neste período uma das maiores potências industriais com o aço. “Há uma concentração dos capitais bancários e industriais e, constituem-se cartéis poderosos nos ramos têxtil, do carvão, da siderurgia, das indústrias químicas e elétricas (...) A rapidez, a brutalidade, a intencionalidade e o poder esmagador dessa industrialização subvertem as sociedades da Europa central, sua estrutura de classes (ascensão da burguesia, formação do proletariado), seu sistema político e sua hierarquia de valores” (LOWY, 1989, p. 31) Este avanço permitirá à população judaica migrar dos guetos e aldeias para se dirigem ao centro, enriquecendo-se rapidamente, e esta classe agora passa a ter apenas uma aspiração - “assimilar-se, aculturar-se e integrarse na nação germânica” (LOWY,1989, p. 33). Entretanto, ao mesmo tempo em que ascenderam economicamente, assiste-se a uma reação anti-semita – são excluídos da administração, do exército, e da magistratura. Resta-lhes o âmbito universitário e forma-se uma nova categoria social, “a intelectualidade judaica”. (LOWY,1989, p. 35). “A condição é eminentemente contraditória: profundamente assimilados e largamente marginalizados/ ligados à cultura alemã e cosmopolitas, desenraizados, em ruptura com seu meio de origem burguês e voltado aos negócios , rejeitados pela aristocracia rural e tradicional

Denunciando os indícios inconfessáveis das condições de aparecimento, os valores aparecem atrelados à história. A verdadeira problemática da moral consiste na explicitação de toda a evolução do homem no seio da cultura – de como o homem selvagem pode conquistar uma vontade mais durável que o animal, como foi possível torná-lo responsável e ainda ser capaz de prometer por si mesmo no futuro. Em outros termos, as reflexões de Nietzsche estão intrinsecamente ligadas aos princípios da cultura – e ela se constitui basicamente como adestramento e coerção e excluídos do meio natural que os acolhia (a carreira universitária)” (LOWY,1989, p. 35) Certamente, os pensadores posteriores inclusos nesta categoria, sofrerão as drásticas consequências deste processo, como: Buber (1878), Kafka (1883), Ernst Bloch (1885), Lucaks (1885), Franz Rosenweig (1886), Walter Benjamin (1892), Erich Fromm (1900), Leo Lowenthal (1900). O papel da irmã Elizabeth Quanto à associação da figura de Nietzsche ao nazismo, esta se deve à sua irmã Elizabeth, casada com dr. Bernhard Forster, um “notório antissemita” Segundo a professora Scarlett Marton, (MARTON, 1985, p. 106) Elizabeth e seu esposo fundaram uma colônia ariana no Paraguai, “La Nueva Germânia” que não deu certo. Viúva, retorna do Paraguai, obtendo os direitos autorais da mãe, e Nietzsche já demasiadamente afetado pela doença é impo-

tente para tomar qualquer decisão. Como sabemos, Nietzsche sofreu um colapso nervoso em 1889, e ficou em estado de apatia até sua morte em 1900. Elizabeth funda o Nietzsche-Archiv, com a colaboração de Peter Gast, falsificando, adulterando e mutilando vários textos. O Nietzsche-Archiv apresenta uma obra – Vontade de Poder, reunindo aforismos que foram selecionados em favor do pangermanismo e do antissemitismo, como se o nazismo fosse “uma espécie de destino de grandeza do povo alemão, com o auxílio de um clássico da filosofia ocidental” (GIACÓIA, 2000, p. 73). Sua irmã ao permitir e “incentivar a utilização da filosofia nietzschiana pelo III Reich (MARTON, 1985, p.107), será enterrada com honrarias nacionais. O Nietzsche-Archiv foi fechado após a segunda guerra mundial e só houve a possibilidade de resgatar sua filosofia através de denúncias de Battaile e Klossovski, filosofia especial | 49

FIE_48-55_NietNazismo.indd 49

02/08/2010 10:56:05


Nazismo

Elizabeth funda o NietzscheArchiv, com a colaboração de Peter Gast, falsificando, adulterando e mutilando vários textos. O NietzscheArchiv apresenta uma obra – Vontade de Poder, reunindo aforismos que foram selecionados em favor do pangermanismo e do antissemitismo, como se o nazismo fosse ‘uma espécie de destino de grandeza do povo alemão, com o auxílio de um clássico da filosofia ocidental’ (GIACÓIA, 2000, p. 73)

sofia. Este critério é a óptica da vida. Diante do projeto geral da genealogia dos valores, Nietzsche sente a ingente necessidade de “encontrar um critério que possa servir de base suficiente (...) sem que tal critério possa, no entanto, transformar-se em objeto de avaliação por intermédio de um outro valor no qual aquele pudesse ser subsumido” (GIACÓIA, 1988, p. 99). O único critério que se impõe sem sofrer uma nova avaliação é a vida, posto que seu valor é inapreciável. Todos os valores são decorrentes de uma avaliação da qual procede uma interpretação a respeito da vida – os valores são sintomas de afirmação ou negação da vida. Os primeiros correspondem a um aumento de potência: intensificam o desejo de vida, enquanto os segundos o depreciam. “Juízos, juízos de valor sobre a vida, pró ou contra, não podem em última análise, serem verdadeiros: têm valor só como sintomas unicamente como sintomas se devem considerar – em si tais juízos são idiotices. Há, pois, que esticar os dedos e tentar apreender esta surpreendente finesse: o valor da vida não pode ser apreciado.” (NIETZSCHE,1985)(CI, o problema de Sócrates, 2 p. 22) A genealogia não se limita a investigar a origem e a história dos valores – sua proveniência e sua emergência, mas será uma crítica ativa que irá a busca dos princípios de avaliação dos valores, ou seja, pretende averiguar qual é o valor dos valores e esta será sua nova exigência: “Enunciemo-la, esta nova exigência: necessitamos de uma crítica dos valores morais, o próprio valor destes valores deverá ser colocado em questão.” (NIETZSCHE, GM, Prólogo, 6, p.14). Esta crítica supõe que os valores não sejam Heinrich Hoffmann

a partir de 1930, na França. Eles ajudaram a desvencilhar o nome de Nietzsche da propaganda nazista. Hoje, temos a edição crítica de Coli e Montinari “que recuperaram um considerável acervo de textos importantes que, por motivos inconfessáveis haviam sido subtraídos à publicação pelos diretores do Nietzsche-Archiv ou então publicados parcialmente” (GIACÓIA, 2000, p. 77) O próprio Nietzsche várias vezes afirmou veementemente que era absolutamente contra este tipo de posicionamento. Escreve uma carta em 1885: “No fim das contas, não é tanto o Paraguai que me dá a impressão de ter perdido minha irmã. As opiniões de meu cunhado, pelas quais está pronto a viver e a morrer, são, para mim, mais estrangeiras ainda do que o Paraguai” (MARTON, 1985, p. 106) Há ainda outras referências frente ao antissemitismo, em Nietzsche contra Wagner, lemos: “Foi já no verão de 1876, durante o primeiro festival, que me despedi interiormente de Wagner. Eu não tolero nada de ambíguo; depois que Wagner se mudou para a Alemanha, ele transgrediu passo a passo com tudo o que eu desprezo – até mesmo o antissemitismo... Era o momento para dizer adeus: logo tive a prova disso” (NIETZ­ SCHE, 1999, p. 66) Desfeitos os primeiros equívocos, talvez haja algum tempo para elucidar através de sua própria filosofia, passagens que podem aludir a uma má-interpretação de seu pensamento, no que concerne ao tema em questão. Uma das ilustres passagens que merece uma consideração especial quanto ao seu esclarecimento encontra-se na Genealogia da Moral: “Na raiz de todas as raças nobres é difícil não reconhecer o animal de presa, a magnífica ‘besta loura’ que vaga ávida de espólios e vitórias; de quando em quando este cerne oculto necessita desafogo, o animal tem que sair para fora, tem que voltar à selva – nobreza romana, árabe, germânica, japonesa, heróis homéricos, vikings escandinavos: nesta necessidade todos se assemelham. Foram as raças nobres que deixaram na sua esteira a noção de ‘bárbaro” (NIETZSCHE, GM I, 17). A fim de elucidar tal passagem, antes, necessariamente, devemos ressaltar o critério pelo qual Nietzsche desdobra toda sua filo-

50 | filosofia especial

FIE_48-55_NietNazismo.indd 50

02/08/2010 10:56:06


Shutterstock

considerados como se fossem ‘dados’ desde sempre, os valores adquiriram um estatuto de sacralidade, atemporalidade e universalidade. Afirmando o contrário, Nietzsche verifica sua procedência insidiosa no processo de formação da cultura. Os valores não são eternos, mas são um tornar-se, posto que “são ‘resultados’ (‘Gewordenes’) de um laborioso processo formativo, presumivelmente ocorrido na pré-história da espécie e recuperado hipoteticamente pela reflexão filosófica” (GIACÓIA, 1988, p. 186) Denunciando os indícios inconfessáveis das condições de aparecimento, os valores aparecem atrelados à história. A verdadeira problemática da moral consiste na explicitação de toda a evolução do homem no seio da cultura – de como o homem selvagem pode conquistar uma vontade mais durável que o animal, como foi possível torná-lo responsável e ainda ser capaz de prometer por si mesmo no futuro. Em outros termos, as reflexões de Nietzsche estão intrinsecamente ligadas aos princípios da cultura – e ela se constitui basicamente como adestramento e coerção. O senhor e o escravo Toda a investigação arqueológica que se desdobra a partir dessa necessidade – a de questionar o valor dos valores, com o auxílio da filologia, a partir da óptica da vida, resultará na dupla origem dos valores. Este conhecimento determinará dois tipos de homens – o senhor e o escravo. A determinação dos tipos advém da hierarquia que instaura entre eles uma distância, um abismo. Enquanto o primeiro apresenta um modo de ser afirmador, pois parte de si para criar valores e com isso se enaltece; o escravo, pelo

contrário, é negador, pois é impossibilitado de criar valores por si próprio devido ao bloqueio que sofre em sua interioridade. Só pode fazê-lo invertendo e deformando os valores criados pelo senhor em seu próprio benefício. Assim, é a partir da hierarquia que o filósofo pressente que há uma dupla origem dos valores – ‘bom e ruim’ e ‘bom e mau’ – que pertencem a dois tipos de homens, respectivamente, o senhor e o escravo. Ora, a dupla origem dos valores se remete diretamente às interpretações que eles fazem a respeito da vida. O recuo hipotético presente na Genealogia da Moral, servirá para explicitar como se deu a formação do tipo homem – como ele, dentro do seio da cultura, tornou-se um ser maleável e doméstico, estável por meio de uma maquinaria cruel em que estão presentes as penas, os castigos, a implantação do sentimento de culpa que, se por um lado converteu o homem em ser gregário, por outro, deu origem a toda cultura superior, como as artes e a Filosofia. Na verdade, trata-se de investigar o sentido de toda a cultura – que é, de fato “amestrar o animal homem, reduzi-lo a um animal manso e civilizado, doméstico” (NIETZSCHE, 1988, p. 40)(GM I, 11 p. 40) Retomando o parágrafo 11, da primeira dissertação da Genealogia da Moral, temos a primeira referência à ‘besta loura’ e que somente agora, discorridas tais considerações, temos condições de efetivamente esclarecer. A ‘besta loura’, num primeiro momento, refere-se ao animal homem, aquele errante e aventureiro, ainda não foi cerceado pelas malhas da cultura. Num segundo momento, mesmo sendo submetido às normas e leis – em suma, à vida gregária, podemos apreciar a diferença en-

Nazismo Contração do termo “Nationalsozialismus” (Nacional-socialismo, mas que não deve ser confundido com o socialismo), o nazismo é uma doutrina políticoideológica associada à extrema-direita, cujos principais elementos são o pangerma­ nismo (formação da Grande Alemanha), o antissemistismo (aversão aos judeus), crença na superio­ ridade germânica, o totalitarismo (personi­ ficado na figura do führer Adolf Hitler) e a oposição ao liberalis­ mo econômico. O nazismo colocava-se como uma alternativa à democracia liberal e ao comunismo.

filosofia especial | 51

FIE_48-55_NietNazismo.indd 51

02/08/2010 10:56:09


Bundesarchiv

Nazismo

Gobineau Diplomata e escritor francês, Joseph Arthur de Gobineau (18161882), autointitulado “Conde de Gobineau”, foi um dos principais defensores das teorias raciais no século XIX. Escreveu Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas (1885), obra de referência para a apologia da eugenia e do racismo. Suas ideias perderam naturalmente força diante dos fatos.

Peter Gast Peter Gast era o pseudônimo utilizado pelo compositor alemão Johann Heinrich Köselitz (18541918), notório por sua longa amizade com Friedrich Nietzsche, tornada ainda mais forte após o rompimento do filósofo com Richard Wagner. Gast foi responsável, junto de Elizabeth Nietzsche, pelas controversas edições dos aforismos de Nietzsche.

tre os homens, no que tange aos seus valores. O Senhor, ‘a besta loura’, possui valores afirmadores da vida, pois é forte para vivê-la intensamente, é aquele que ousa. Só a ‘besta loura’ pode ser senhor, na medida em que afirma a vida. Ao dizer “Sim”, afirma a si mesmo, torna-s aquilo que se é. Esta possibilidade de ser, ao se exercitar, tornase ato, pois seu antípoda é impotente para agir. Sua felicidade está na ação. Este tipo de homem só pode ser encontrado nas estirpes mais nobres de diversas raças: a germânica, romana, árabe, japonesa, heróis homéricos e vikings. Nestas, há uma característica invariável – preferem levar uma vida digna de ser vivida, mesmo com o risco da morte prematura, do que levarem uma vida medíocre. “Sua indiferença, seu desprezo por segurança, corpo, vida, bem-estar, sua terrível jovialidade e intensidade do prazer no destruir, nas volúpias da vitória e da crueldade” (NIETZSCHE,1988)(GM I,11 p. 39), poderiam facilmente levar o leitor de Nietzsche a uma inferência que não decorre de seu pensamento. Vimos que a vida tem um valor inapreciável e, portanto, todo tipo de vida deve, por princípio, ser valorizada. O que deve ficar claro nesta passagem é que a nobreza característica desses povos, por sua bravura e intrepidez não pode, de forma alguma, ser considerada sob o ponto de vista étnico. Todo o levantamento das características do Senhor deve ser tomado enquanto perfil psicológico, isto é, de como se pode encarar a vida. Em outros termos, o que a genealogia revela é que é impossível tomar este termo em sentido literal, pois ao serem desvelados os traços do senhor, confirma-se um perfil que afirma a vida, mas nunca laços de sangue. Temos a confirmação, logo na sequência, ainda no mesmo parágrafo: “A profunda, gélida desconfiança que o alemão desperta quando alcança o poder, agora novamente – é uma ressonância daquele horror inextinguível com que durante séculos a Europa contemplou a fúria da ‘besta loura’ germânica (embora mal exista uma relação conceitual, menos ainda consanguínea, entre os antigos germanos e nós, alemães) (...) os depositários dos instintos depressores e sedentos de desforra, os descendentes de toda a escravatura europeia e não europeia, de toda população pré-ariana especialmente – eles representam o retrocesso da humanidade!” (NIETZSCHE,1988)(GM I, 11 p. 40) Na verdade, encontramos tanto a bravura destas estirpes nobres, consideradas enquanto perfil psicológico, quanto à advertência de que, quando atingem o poder são perigosas, em especial, os alemães que se pretendem arianos. Para Nietzsche, um retrocesso. Deslocado da investigação genealógica sobre a origem dos valores, o referido parágrafo 11 da Genealogia da Moral, como muitos outros aforismos, certamente

puderam ser lidos e deturpados em sua interpretação. Na verdade, para Nietzsche, o “sentido de toda cultura é o de amestrar o animal homem, reduzi-lo a um animal manso e doméstico.” (NIETZSCHE, 1988)(GM I, 11,p.40). Ao torná-lo civilizado, correu-se o risco de afogamento da ‘besta loura’, isto é, do caráter intempestuoso, imprevisível e autônomo do homem tornarse inibido, um ser manipulável, medíocre, insosso. A comunidade então instaurada terá por diante o poder para promover uma identidade niveladora, atacando toda e qualquer hierarquia, posto que seu ideal é o de igualdade. Ao ser impedido de agir no exterior, o repouso tomará o lugar da ação – ela aparece passivamente como “narcose, entorpecimento, sossego, paz, ‘sabbat’, distensão de ânimo e relaxamento dos membros” (NIETZSCHE, 1988)(GM I, 10, p.36). Tolhido em suas ações, o homem descarregará suas pulsões contra si mesmo, criando valores a partir de um mundo que lhe é oposto e exterior, criando valores a partir de um mundo que lhe é oposto e exterior, substituindo a “relação real de significação por uma relação imaginária” (DELEUZE, 1976, p. 102). Ora, o sujeito impedido de agir será o escravo. Em outras palavras, a ficção do escravo estabelece que se o sujeito se abstiver de agir, ele será tido como meritório, ao passo que ele será culpado pela ação. Neste momento, acredita-se na ficção de que a força possa se abster de agir, conduzindo a questão para um domínio moral, pois tal consideração implica na ideia de que a força é culpada por agir. O homem forte e feliz é culpado pelos fracos por ser assim, enquanto a fraqueza do escravo não pode expressar-se, efetivar-se. Ela é tida como ‘boa’, pois não age. O escravo transforma suas fraquezas em virtudes, mascarando-as. Por exemplo, transforma o não-ter-forças para agir em não-querer agir, em paciência, em bondade. O escravo estabelece uma vingança imaginária contra os fortes. “A fraqueza é mentirosamente mudada em mérito, não há dúvida – (...) e a impotência que não acerta contas é

52 | filosofia especial

FIE_48-55_NietNazismo.indd 52

02/08/2010 10:56:10


mudada em ‘bondade’, a baixeza medrosa em ‘humildade’; a submissão àqueles que se odeia em ‘obediência.” (NIETZSCHE, 1988)(GM I, 14 p. 45/46)

Bundesarchiv

Processo Civilizatório O processo civilizatório, o ‘sentido da cultura’ foi o de adestrar o homem e conseguiu, tornou-o um ser gregário e o tipo escravo contamina e se alastra. Este processo parece aos olhos de Nietzsche “uma vergonha para o homem, e na verdade uma acusação, um argumento contrário à ‘cultura’” (NIETZSCHE, 1988)(GM 1, 11, p. 41). Em outros termos, o temor de Nietzsche se refere ao próprio processo: este tende a um declínio do tipo homem, provocando seu apequenamento, de modo que precisamente a moral seria culpada de que jamais se alcançasse o supremo brilho e potência do tipo. Este seria então o maior dos perigos, pois quando não há nada a temer, nada também resta a admirar. “Pode-se ter inteira razão, ao guardar temor e se manter em guarda contra a ‘besta loura’ que há no fundo de toda a raça nobre. Mas quem não preferiria mil vezes temer, podendo ao mesmo tempo admirar, do que não temer, mas não mais poder se livrar da visão asquerosa dos malogrados, atrofiados, amargurados, envenenados? E não é esse nosso destino? O que constitui hoje a nossa aversão ao ‘homem’? – pois nós sofremos do homem, não há dúvida – não o temor; mas sim, que não

Todas estas considerações nos levam com horror à constatação de que caminhamos exatamente na direção apontada por Nietzsche na Genealogia da Moral. Sua crítica revela a construção de uma sociedade unilateral, onde só cabe o que é bonito, aquilo que está dentro dos padrões – e que padrão é este, senão o germânico?

tenhamos mais o que temer, que o ‘verme’ homem ocupe o primeiro plano e se multiplique; que o homem manso, o incuravelmente medíocre e insosso, já tenha aprendido a se perceber como apogeu e meta – que tenha mesmo um certo direito a se sentir assim.” (NIETZSCHE, 1988)(GM I, 11, p.41) Este ‘verme’: o homem manso, comum, doméstico e civilizado caminha inexoravelmente para a figura do ‘último homem’ mencionado em Zaratustra. E aqui esta figura representa a modernidade, que apesar de todo o desenvolvimento e aparato científico/tecnológico que promete, revela, na verdade, o ponto de maior rebaixamento do ser humano na medida em que o transforma numa “massa impessoal de seres uniformes (...). O bem supremo almejado pelo último-homem – sua concepção de felicidade – é uma combinação de mediocridade, conforto, bem-estar, ausência de sofrimento e grandeza” (GIACÓIA,2000, 56). O último-homem é uma pulga que prolifera em progressão geométrica, onde “todos querem o mesmo, todos são iguais. Quem se sente de outra maneira vai voluntariamente para o hospício. Temos nosso prazerzinho para o dia e nosso prazerzinho para a noite, mas prezamos a saúde. ‘Nós inventamos a felicidade’, dizem os últimos homens e piscam os olhos.” (NIETZSCHE, 1988). Todas estas considerações nos levam com horror à constatação de que caminhamos exatamente na direção apontada por Nietzsche na Genealogia da Moral. Sua crítica revela a construção de uma sociedade unilateral, onde só cabe o que é bonito, aquilo que está dentro dos padrões – e que padrão é este, senão o germânico? A eugenia, na verdade, é uma grande máscara, um grande véu que encobre o abismo do etnocentrismo. Nietzsche previu isso. Tudo que temos hoje, não é senão o desvelar de uma tecnologia que procurar retardar o envelhecimento, o sofrimento e a morte. Estas práticas, se contempladas pelo olhar microcóspico do genealogista mostram a ciência como filha do instinto gregário, do aviltamento da identidade de cada um, em função de que cada um deva se parecer cada vez mais com os outros, dentro deste padrão estabelecido. Este movimento impõe que o homem deve ser como os outros são, e devem ter o que todos têm, como pertencentes fundamentais da ‘felicidade’.

filosofia especial | 53

FIE_48-55_NietNazismo.indd 53

02/08/2010 10:56:11


Nazismo

Processo Civilizatório O sociólogo alemão Norbert Elias (18971990) escreveu um par de livros nos quais reconstitui e discute a questão sócio-histórica do processo civilizatório: O processo civilizador e O processo civilizador 2, ambos publicados no Brasil pela Jorge Zahar.

Definitivamente, o nome de Nietzsche nunca deve ser associado ao nazismo, a não ser enquanto crítica. Cabe, portanto elucidar, desvelando a ideologia de seu contexto histórico: por isso Nietzsche se separa de Wagner; pelos princípios nos quais Nietzsche norteia sua filosofia – o da Vida Referências COSTA, José S. Max Scheler – o personalismo ético. Col. Logos. São Paulo: Editora Moderna, 1996. DELEUZE,G. Nietzsche e a Filosofia. Col. Semeion, Rio de Janeiro: Editora Rio,1976. GIACÓIA, Oswaldo. Nietzsche. São Paulo: Publifolha, 2000. GIACÓIA, Oswaldo. O grande experimento: sobre e oposição entre eticidade e autonomia em Nietzsche. In: Revista Transformação. São Paulo: UNESP, 1988 HALEVY, D. Nietzsche. Uma biografia. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1994 LOWY, Michael. Redenção e utopia. São Paulo: Cia das Letras, 1989. MARTON, Scarlett. Das forças cósmicas aos valores humanos. São Paulo: Brasiliense, 1990. _______. Nietzsche. Col. Encanto Radical. São Paulo: Brasiliense, 1985. NIETZSCHE. Genealogia da Moral. São Paulo: Brasiliense, 1988. _______. Para além do bem e do mal. São Paulo: Cia das Letras, 1992. _______. Crepúsculo dos ídolos. Porto: Ed. Porto, 1985. _______. Assim falava Zaratustra. Lisboa: Guimarães Editores, 1998. _______. Nietzsche contra Wagner. São Paulo: Cia das Letras, 1999. SOUZA, Paulo César. Prefácio - Para Além do Bem e do Mal. São Paulo: Brasiliense, 1992.

Por fim, podemos inferir que, não há como fazer a eleição de apenas um modo de ser ou de uma raça como sendo a única, posto que Nietzsche denuncia uma dupla origem dos valores: somos homens de ‘alma mista’, (como dirá no aforismo 260 de Para Além do Bem e do Mal). Não há, por conseguinte, a pureza dos tipos – não há laços consanguíneos destas estirpes nobres com o homem moderno. Nele habitam traços psicológicos do forte (senhor) e do escravo, eles coexistem dentro do mesmo homem. A ‘besta loura’ deve ser entendida enquanto característica psicológica – guerreira, que não se acomoda, não se acovarda diante da vida, e nunca alguém ‘louro, alto e de olhos azuis’. Se a vida tem um valor inapreciável, sua avaliação deve ser estética, posto que ela é caos, desmesura e sem sentido a priori – a beleza advém da composição dos contrários, tal como se vê em Heráclito, e não a eleição de apenas um dos pares de opostos. A vida deve ser contemplada na multiplicidade das formas, na constatação da existência dos opostos. Ao investigar tais origens, Nietzsche percebe que a modernidade europeia cumulada de bens materiais e de uma “Alemanha cumulada em sua recente glória, percebe com segurança que a característica do século que se aproxima do fim é a queda numa nova Barbárie. Os europeus, orgulhoso de terem elevado as disciplinas do saber, esquecem que há outras, que são disciplinas vitais, regulares do trato social” (HALEVY, 1994, p. 109). Definitivamente, o nome de Nietzsche nunca deve ser associado ao nazismo, a não ser enquanto crítica. Cabe portanto, elucidar, desvelando a ideologia de seu contexto histórico: por isso Nietzsche se separa de Wagner; pelos princípios nos quais Nietzsche norteia sua filosofia – o da Vida; pelo cuidado em não deslocar do contexto certas passagens, conforme vimos a ilustração pelo exemplo, no parágrafo 11 da primeira dissertação de Genealogia da Moral. Somente procedendo dess a maneira, poderemos perceber a grandeza e a perspicácia de Nietzsche, principalmente no que tange às análises realizadas sobre a modernidade.

54 | filosofia especial

FIE_48-55_NietNazismo.indd 54

02/08/2010 10:56:11


A filosofia especial | 55

FIE_48-55_NietNazismo.indd 55

02/08/2010 10:56:11


Motivação

O pensamento de Nietzsche é um dos campeões quando o assunto é citações motivacionais. Até como método terapêutico seus livros servem. Mas será que é correto ler seus aforismos e ideias apenas por este viés?

Terapeuta motivacional?

A

utor dos livros Como Proust pode mudar sua vida (1999), As Consolações da Filosofia (2001) e Os prazeres e desprazeres do trabalho (2009), todos publicados no Brasil pela editora Rocco, o escritor e filósofo suiço Alain de Botton é um dos principais nomes de uma tendência relativamente recente do mercado editorial na divulgação filosófica: utilizar o pensamento dos grandes mestres, sobretudo do cânone ocidental, para explicar de maneira simples e acessível as questões aflitivas da vida cotidiana, de modo a trazer conforto, motivação e “sabedoria” em nossos momentos de dúvidas e angústias humanas, demasiado humanas.

Além de rechear as prateleiras das livrarias com seus best-sellers, Botton produziu para o Channel 4, emissora de televisão do Reino Unido, uma série de documentários baseados na mesma premissa que norteia seu livro As consolações da Filosofia. O escritor, filósofo e documentarista nascido em Zurique selecionou seis pensadores clássicos, dentre eles Sócrates (470/69 a.C – 399 a.C), Epícuro de Samos (341 a.C -270 a.C), Michel de Montaigne (1533-1592) e Arthur Schopenhauer (1788-1860), para abordar sentimentos como a autoconfiança, o amor, a ira e a felicidade. O protagonista do sexto episódio é Friedrich Wilhelm Nietzsche: “Nietzsche e o sofrimento” ou, em tradução alternativa, “Nietzsche e as dificuldades”.

56 | filosofia especial

FIE_56-59_NietAutoAjuda.indd 56

02/08/2010 10:51:17


Quando pensamos na filosofia cheia de “som e fúria” iconoclasta de Nietzsche, temos alguma dificuldade de imaginar seus textos servindo como fonte terapêutica ou motivacional. Mas esse receio não sobrevive a um olhar detido em suas ideias mais poderosas: Amor fati, Übermensch, Vontade de Poder/Potência... Todas elas com “potencial” (com o perdão do trocadilho) para os propósitos de um autor como Alain de Botton. E a despeito da filosofia nietz­schiana ter o intuito de realizar uma crítica à civilização – e aos valores morais e doutrinários que a edificam -, parece ser um caminho inevitável à condução de seu pensamento para um sentido prático e cotidiano, especialmente quando lembramos o magnetismo de suas máximas. “O que não mata, fortalece-me” é uma delas. Não, Friedrich Nietzsche não foi o precursor da auto-ajuda – quantos preconceitos essa palavra carrega, não? Mas seus aforismos seguem, queiram ou não os especialistas, uma tradição filosófica que tem em Lucius Annaeus Sêneca (4 a.C – 65 d.C) um estandarte. Aliás, os gregos e romanos tinham na educação para o bem-viver e na resposta à pergunta “O que é a felicidade?” a razão de suas especulações filosóficas. Em suma, sempre houve na atitude filosófica um propósito para além do debate epistemológico ou fenomenológico. Responder às perguntas que inquietam os homens é o que move os maiores pensadores. A forma como Nietzsche difundiu sua filosofia, por meio de um texto aforismático e literariamente bonito e expressivo, contribuiu para uma miríade de interpretações de terceiros, sejam elas tolas ou convincentes. E uma dessas interpretações aponta em direção às propriedades “clínicas” de sua obra. Ora, o fascínio do pensamento nietzschiano está, em parte, na constante busca de acadêmicos e até de leigos por entender os motivos para Nietzsche ao mesmo tempo ser glorificado pelos apologistas do nazifascismo e recomendado por palestrantes motivacionais. Quantos não vociferam frases fortes do repertório nietzschiano em seus discursos, artigos e palestras? Além disso, nenhum autor, clássico ou obscuro, é capaz de controlar o sentido e a conclusão a qual chegam seus leitores. Nietzsche, coitado, morreu há mais de cem anos e não tem como se defender... Ele, por sinal, de fato aventurou-se em pitacos sobre o amor, a vida, a existência e até nutrição, por vezes tropeçando em lugares-comuns constrangedores já para aquela época, uns aforismos que não soariam deslocados na boca ou nos parágrafos de alguns desses “gurus” e suas fórmulas infalíveis para a felicidade e o sucesso amoroso e profissional. Todavia, é injusto isolar, fatiar e editar os escritos nietzschianos ao sabor das nossas convicções. Basta lembrar a história da coletânea Vontade de Poder, organizada por Peter Gast e pela irmã de Nietzsche, Eli-

A despeito da filosofia nietzschiana ter o intuito de realizar uma crítica à civilização – e aos valores morais e doutrinários que a edificam –, parece ser um caminho inevitável a condução de seu pensamento para um sentido prático e cotidiano, especialmente quando lembramos o magnetismo de suas máximas. “O que não mata, fortalece-me” é uma delas

Channel 4 Fundado em 2 de novembro de 1982, o Channel Four Television Corporation é uma rede de televisão pública do Reino Unido. Ficou conhecida por produzir o documentário Beyond Citizen Kane (Muito além do Cidadão Kane), dirigido por Simon Hartog, contundente denúncia contra a Rede Globo de Televisão, cuja exibição foi censurada no Brasil.

zabeth. Obra esta que, dizem, transformou-se em um manual para os nazistas. Não bastasse as apropriações de sua filosofia, aspectos biográficos de Friedrich Nietzsche também são expostos para fins psicológico-terapeuticos. Exemplo maior é o romance Quando Nietzsche Chorou (Agir, 2009), do psiquiatra e escritor norte-americano Irvin D. Yalom. No livro de ficção, um best-seller mundial, Nietzsche vai parar no divã do médico Josef Breuer em um consultório na Viena do século XIX. Yalom assina obra similar sobre Schopenhauer (A cura de Schopenhauer, Ediouro, 2005), mas nem de longe teve a mesma vendagem. A razão é simples: quem não deseja ver, ainda que hipoteticamente, o “indomável” Nietz­sche no divã e, assim, lidar com seus próprios dilemas?

filosofia especial | 57

FIE_56-59_NietAutoAjuda.indd 57

02/08/2010 10:51:17


Motivação

Lucius Annaeus Sêneca (4.aC – 65 d.C) Filósofo, dramaturgo e escritor, viveu durante o Império Romano e foi um dos expoentes do estoicismo. Em livrarias, bibliotecas e sebos podemos encontrar várias coletâneas com seus pensamentos.

Filosofia no Divã Doutoranda do Instituto Packter, a filósofa clínica Marta Claus concedeu entrevista ao jornalista Matheus Moura, publicada na edição 22 da revista “Conhecimento Prático – Filosofia”. Confira os principais trechos a seguir e entenda mais sobre a Filosofia Clínica. Quais as principais diferenças entre a Filosofia Clínica e a terapia tradicional (Psicoterapia, Psicanálise)? A maior diferença está na metodologia, o modo como se trabalha a pessoa. Acredito que todas as formas de terapia possuem o mesmo objetivo: atender da melhor forma possível as pessoas que nos procuram para que, realmente, possam resolver suas questões. O que difere a Filosofia Clínica é a abordagem com ênfase na escuta, a maneira como se faz o histórico de vida da pessoa. Por exemplo: usamos o mínimo de agendamentos: a pessoa conta a própria história por ela mesma (não direcionamos o que ela deve falar), aqui usamos um método chamado de fenomenologia, que é um método próprio da Filosofia. O filósofo clínico vai refletir junto com a pessoa sobre as questões que apareceram nesse historicidade, e que foram diagnosticadas por meio da montagem da estrutura do pensamento. Quem é o filósofo clínico? Antes de qualquer coisa, é alguém que fez o curso de formação e se preparou para a vida profissional. Mas o filósofo clínico é mais do que isso. A atuação dele abrange os mais diversos campos de trabalho, pois ele pode atuar em empresas, hospitais e onde mais existirem pessoas que precisem de acompanhamento. Pode-se dizer que a Filosofia Clínica é uma doutrina? De forma alguma! Essa questão é interessante porque as pessoas acreditam que ela seja uma doutrina por ter uma metodologia a ser aplicada. Mas se percebe que o outro é que traz as próprias questões e as formas a serem trabalhadas, pois as pessoas se apresentam e são recebidas da maneira como são e não vou passar, por exemplo, a minha doutrina para elas – mesmo porque a Filosofia Clínica não tem doutrina. Existe algo na Filosofia Clínica que se chama “plasticidade”, isso significa que devemos nos adaptar com qualquer método, dentre os vários da Filosofia Clínica, para as diferentes necessidades do indivíduo.

Não misturemos, porém, as estações. Embora tão estigmatizada quanto pelos críticos, a Filosofia Clínica (ver box “Filosofia no Divã”), cuja referência no Brasil é o filósofo e psicanalista gaúcho Lucio Packter, tem uma proposta bem mais sofisticada que a auto-ajuda. Os controversos filósofos clínicos não procuram efeitos imediatistas e mirabolantes do tipo O segredo ou, sabe-se lá, As sete lições do sucesso. Trata-se de uma técnica terapêutica, com métodos e cursos específicos, apesar de enfrentar o nariz torcido de psicólogos e psiquiatras. Mas, tanto na auto-ajuda como na Filosofia Clínica, o pensamento nietzschiano, às vezes um arremedo dele, é um instrumento poderoso e “eficaz”. Auto-ajuda e filosofia Engana-se quem supõe ser a auto-ajuda um mero refúgio de “achólogos” com suas redundâncias e frases feitas. Na verdade, este campo, quer dizer, este nicho mercadológico, incorpora a sua maneira diferentes saberes técnicos, artísticos e filosóficos: Neurolinguística, Psicologia, Psicanálise, Filosofia, História, Literatura, etc. Para o seu público-alvo, aliás, é necessário que o autor ou palestrante tenha alguma “autoridade discursiva”, conforme denominou o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), um carimbo acadêmico ou profissional expresso em notas biográficas. Na capa, cai muitíssimo bem a distinção “PhD”. Dessa forma, podemos até particularmente considerar enganadoras obras de autores como Dale Carnegie (Como fazer amigos e influenciar pessoas) ou Stephen L. Corvey (Sete hábitos das pessoas altamente eficazes), mas seus leitores prezam seus títulos e experiências. Atacados por acadêmicos, que vislumbram neles motivações similares às da auto-ajuda, autores do naipe de Botton ou Lou Marinoff (Mais Platão, menos Prozac, Record, 2001) ou os filósofos clínicos constumam ser acusados de diluir esquemas complexos de pensamento e simplificar conceitos em exagero. Para os avessos à essa filosofia convertida em terapia, não é possível direcionar o pensamento platônico ou nietzschiano, por exemplo, para fins desse tipo. E completam: seus agentes pensam exclusivamente no lucro individual decorrente da venda de livros e da apresentação em palestras, cursos e sessões clínicas. Nessa briga, os dois lados tem suas razões. Os detratores têm seus motivos para ver na filosofia clínica uma versão refinada e chique da auto-ajuda: é real o perigo de tornar rasa a leitura textos clássicos. Parasitar os aforismos de Nietzsche é uma tentação para muitos espertalhões, embora não se possa desmerecer assim a

58 | filosofia especial

FIE_56-59_NietAutoAjuda.indd 58

02/08/2010 10:51:17


iniciativa de um Lúcio Paeckter ou Alain de Botton. Por outro lado, é benéfico e desejável que a filosofia se aproxime da vida cotidiana, e pule os muros da academia. E simplificar nem sempre é sinônimo de perverter. É possível ver em Nietzsche um inspirador para nossas ações e sentimentos do dia a dia? Sim, por que não? Suas

frases e ideias podem ter esse sentido. Agora, transformá-lo em um “guru” e instrumentalizar seu pensamento é perder de vista que Nietzsche desejava ardentemente romper com o estado de coisas e os valores presentes, para então realizar a transvaloração, e não adaptar-se resignadamente, sem insubornidação, à realidade.

É possível ver em Nietzsche um inspirador para nossas ações e sentimentos do dia a dia? Sim, por que não? Suas frases e ideias podem ter esse sentido. Agora, transformálo em um “guru” e instrumentalizar seu pensamento é perder de vista que Nietzsche desejava ardentemente romper com o estado de coisas e aos valores presentes, para então realizar a transvaloração, e não adaptar-se resignadamente, sem insubornidação, à realidade

Michel Foucault Filósofo e epistemólogo francês nascido na cidade de Poitiers, foi professor do Collège de France e autor, entre outros livros, de Vigiar e punir (1975), bastante estudado em cursos de História, Direito, Filosofia e Ciências Sociais.

As pérolas do “guru” Nietzsche Abaixo, selecionamos algumas frases escritas ou atribuídas a Friedrich Nietzsche em sites motivacionais. A julgar pela quantidade encontrada, Nietzsche e seus aforismos reinam no universo das epígrafes e citações em redes sociais. Lembremos que muitas delas revelam deturpações grosseiras de um sentido original, frutos de más traduções ou leituras rasas. Escolhemos colhê-las na internet, e não diretamente dos livros, justamente para mostrar o poder de difusão de seu pensamento – ou do rascunho de sua filosofia. “Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar”

“Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura”

“Não me roube a solidão sem antes me oferecer verdadeira companhia”

“É mais fácil lidar com uma má consciência do que com uma má reputação”

“O que não mata, torna-me mais forte” (Variação: “Aquilo que não mata, fortalece-me”)

“É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante”

“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”

“Só se pode alcançar um grande êxito quando nos mantemos fiéis a nós mesmos”

“Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal”

“O medo é o pai da moralidade”

filosofia especial | 59

FIE_56-59_NietAutoAjuda.indd 59

02/08/2010 10:51:17


Niilismo

por Jorge luis gutiérreZ*

o filósofo do Niilismo em “o homem revoltado”, o filósofo e escritor francês Albert camus analisa o pensamento niilista contido na filosofia de friedrich Nietzsche

60 | filosofia especial

FIE_60-67_NietNiilismo.indd 60

02/08/2010 10:48:30


A

RELAÇÃO DO NIETZSCHE COM O NIILISMO ESTÁ documentada tanto nos próprios escritos de Nietzsche como nas obras que analisam seu pensamento. Para muitos historiadores da filosofia, como por exemplo Franco Volpi em sua conhecida obra “O Niilismo”, Nietzsche é o profeta máximo e o teórico maior do niilismo. E os fragmentos dos anos 1880, publicados no livro “A vontade de Poder”, o lugar no qual o niilismo, para Nietzsche, se torna objeto de uma explícita reflexão filosófica. Esta relação de Nietzsche com o niilismo também foi clara para Albert Camus. No livro “O homem revoltado”, no capítulo II que fala sobre a revolta metafísica, no item “A afirmação Absoluta”, Camus falará sobre “Nietzsche e o niilismo”. E voltará a falar dele no final do livro em “Além do niilismo”, uma espécie de epílogo ou conclusão final.

“É preciso dizer sim ao devir” (Nietzsche)

O homem revoltado foi escrito em 1951. Época na qual ainda estavam fresca na memória da Europa as atrocidades da guerra. As potências vencedoras repartem o mundo. A antiga violência da guerra dá lugar à violência do expansionismo dos vencedores. As atrocidades dos campos de concentração são reveladas e trazidas à luz. Problemas éticos e jurídicos, entre outros, são colocados: com que lei, com que moral, com que ética, com que fundamento, com que direito é possível julgar os criminosos de guerra, e até era possível se perguntar se de fato havia “criminosos de guerra”. Na introdução a “O homem revoltado”, que tem o título “O absurdo e o assassinato”, Camus afirma que “há crimes de paixão e crimes de lógica”. Camus vê como uma evidência da existência destes dois tipos de crimes o fato que o código penal distingue um do outro pela premeditação.

Para Camus, essa época de guerra e de pós-guerra era a época da premeditação e do crime perfeito. Camus diz: “Nossos criminosos não são mais aquelas crianças desarmadas que invocavam a desculpa do amor. São, ao contrário, adultos, e seu álibi é irrefutável: a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes”. Assim, para Camus, a insurreição humana, em suas formas elevadas e trágicas, “não é e nem pode ser um longo protesto contra a morte ou uma acusação veemente a esta condição regida pela pena de morte generalizada”. A revolta torna-se uma ascese cega e a revolução ama a um homem que ainda não existe. É nesse contexto que Camus analisa o niilismo de Nietzsche. E é do que trataremos neste artigo. Primeiramente, o texto “Nietzsche e o niilismo” e logo “Além do niilismo”, textos do livro O homem revoltado.

“Na luz, o mundo continua a ser nosso primeiro e último amor” (Albert Camus)

* jorge luis gutiérrez é doutor e mestre em lógica e filosofia da ciência pela unicamp. atualmente, é professor da universidade mackenzie e professor da faculdade de filosofia de são bento. tem pesquisado, em diálogo com a física, temas como o acaso, a imprevisibilidade, a incerteza, a irreversibilidade e a liberdade humana. e, em diálogo com a literatura, tem pesquisado as relações entre filosofia e poesia. é autor dos livros: fragmentos de ternura, filosofia e desterro, aristóteles em Valladolid (editora mackenzie) e inundada de luz, poemas de amor e filosofia episódica (editora baraúna). é o editor da revista eletrônica pandora brasil (http://revistapandora.sites.uol.com.br/)

filosofia especial | 61

FIE_60-67_NietNiilismo.indd 61

02/08/2010 10:48:30


Niilismo

Franco Volpi O filósofo italiano Franco Volpi (19522009) foi professor na Universidade de Pádua e colaborador do jornal La Repubblica. Estudioso do niilismo e da filosofia alemã escreveu, além de O niilismo, Heidegger e Aristóteles.

Nietzsche e o niilismo Camus declara que o capítulo sobre Nietzsche e o niilismo pode ser considerado como um comentário à Vontade de Poder. O texto começa com uma citação da obra de Nietzsche: “Negamos Deus, negamos a responsabilidade de Deus, somente assim libertaremos o mundo”. Para Camus, com Nietzsche o niilismo torna-se profético e consciente. Nietzsche muda a pergunta “pode-se viver revoltado” por “pode-se viver sem acreditar em nada”. Para Camus, Nietzsche responde afirmativamente a esta pergunta. E a “dúvida metódica” muda em “negação metódica”. Assim, o niilismo adquire um caráter demolidor. Sua missão é demolir valores. Novamente as palavras de Nietzsche: “Para erigir um santuário novo, é preciso demolir um santuário, esta é a lei”. Para Camus, Nietzsche quer provocar uma espécie de crise, uma parada decisiva no problema do ateísmo, porque para Nietzsche o mundo marcha ao acaso e não tem finalidade. Camus lembra, no seu texto, que Nietzsche invejava a fórmula de Stendhal: “a única desculpa de Deus é que ele não existe”. Camus afirma que a filosofia de Nietzsche gira em torno do problema da revolta. Esta filosofia começa sendo uma revolta e seu ponto de partida é o “Deus está morto”. Camus esclarece que Nietzsche não meditou o projeto de matar Deus, mas ele o encontrou morto na alma de seu tempo. Assim, para Camus, “Nietzsche não formulou uma filosofia da revolta, mas construiu uma filosofia da revolta”. O essencial da descoberta de Nietzsche, diz Camus, consiste em dizer que, se a lei eterna não é a liberdade, a ausência da lei o é ainda menos. “Com Nietzsche, a revolta desemboca em ascese”. O niilismo de Nietzsche, diz Camus, tem como objetivo tornar insustentável a situação de seus contemporâneos. O “se nada é verdadeiro, tudo é permitido” de Karamazov, é substituído por “se nada é verdadeiro, nada é permitido”. Para ele a única esperança parece ser chegar ao extremo da contradição. Para Camus, Nietzsche não quer redenção. Junto com reconhecer a fatalidade, Nietzsche diviniza a fatalidade. Para ele, a alegria do viver é a alegria da aniquilação. Nietzsche, continua Camus, retorna aos pré-socráticos: a supressão das causas finais para deixar intacta a eternidade dos princípios. Só é eterna a força sem objetivos e o mundo é divino porque é fortuito. Camus afirma que a revolta em Nietzsche o levou a exaltação do mal. Embora esclareça que foi só em certo sentido e que na mente de Nietzsche trata-se

A relação do Nietzsche com o niilismo está documentada tanto nos próprios escritos de Nietzsche como nas obras que analisam seu pensamento. Para muitos historiadores da filosofia, como por exemplo Franco Volpi em sua conhecida obra O Niilismo, Nietzsche é o profeta máximo e o teórico maior do niilismo

apenas do consentimento orgulhoso da alma diante do inevitável. Nietzsche, continua Camus, era partidário do gosto clássico, da ironia, da impertinência frugal, e era um aristocrata que soube dizer que a aristocracia consiste em praticar a virtude sem se perguntar por quê, e que se deve duvidar de um homem que tivesse necessidade de razões para ser honesto. Nietzsche, de acordo com Camus, era obcecado pela integridade. Para ele a integridade era um instinto, uma paixão. Alias, devemos lembrar que em “O mito de Sísifo”, no primeiro parágrafos, “o absurdo e o suicídio”, Camus lembra que para Nietzsche, um filósofo, para ser estimado, deve pregar com seu exemplo. Camus lamenta a utilização ideológica que nacional-socialismo fez do texto de Nietzsche e diz que jamais conseguiremos reparar a injustiça que lhe foi feita. Para Camus nós devemos ser advogados

62 | filosofia especial

FIE_60-67_NietNiilismo.indd 62

02/08/2010 10:48:31


de Nietzsche porque é impossível confundir Nietz­ sche com Rosenberg. Mas, Camus também afirma que “o próprio movimento que culminou com Nietzsche, e que o sustenta, tem suas leis e sua lógica, talvez expliquem a sangrenta desfiguração que se infligiu a sua filosofia”. Assim, Camus se pergunta se não haverá nada na obra de Nietzsche que possa ser utilizado no sentido do assassinato definitivo e se os matadores, “desde que negassem o espírito a favor da letra, e até mesmo aquilo que na letra continua sendo espírito”, não poderiam encontrar os seus pretextos em Nietzsche. A resposta para Camus é afirmativa. “A resposta deve ser sim”, pois “a partir do momento em que se negligencia o aspecto metódico do pensamento nietzschiano (e não é certo que ele mesmo o tenha sempre observado), a sua lógica revoltada não conhece mais limites”. Para Camus, o assassinato encontra sua justificação na adesão apaixonada que coroa a obra de Nietzsche, pois tudo aceitar pressupõe aceitar o assassinato. O sim nietzschiano, continua Camus, esquecido do não original, renega a própria revolta, ao mesmo tempo em que renega a moral que se recusa a aceitar o mundo como ele é. Para Camus, “Nietzsche clamava por um César romano com alma de Cristo”. A responsabilidade de Nietzsche, diz Camus, está no fato “de ter legitimado, por motivos superiores de método, mesmo que por um instante, no meio do pensamento, esse direito à desonra, do qual Dostoiévski já dizia que, se fosse oferecido aos homens, poder-se-ia estar sempre certo de vê-los correrem e a ele se lançarem”. E essa responsabilidade, mesmo que involuntária, vai ainda mais longe: faz saltar o espírito de revolta da negação do ideal à secularização do ideal. Diz Camus: “O nietzschismo, teoria da vontade de poder individual, estava condenado a inscrever-se numa vontade de poder total. Ele nada era sem o império do mundo. Sem dúvida, Nietzsche odiava os livres-pensadores e os humanitários. Ele utilizava a expressão “liberdade do espírito” em seu sentido mais extremo: a divindade do espírito individual. Mas ele não podia impedir que os livre-pensadores partissem do mesmo fato histórico que ele — a morte de Deus — e que as consequências fossem as mesmas. Nietzsche viu que o humanitarismo efetivamente nada mais era do que um cristianismo privado de justificação superior, que preservava as causas finais rejeitando a causa primeira. Mas ele não se deu conta de que as doutrinas de emancipação socialista, por uma lógica

Quem foi Albert Camus? Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1957, o filósofo, romancista e ensaísta Albert Camus nasceu no dia 7 de novembro de 1913, em Mondovi, na Argélia então ocupada pela França – os argelinos conquistariam sua independência somente em 1962; o filme A batalha de Argel (1965), do cineasta italiano Gillo Pontecorvo (1919-2006) retrata esse período de luta do povo da Argélia contra o colonialismo francês. Após a morte do pai, em uma batalha durante a Primeira Guerra Mundial, Albert Camus mudou-se com a mãe para o bairro de Belcourt, em Argel, palco de violentas manifestações pela independência do país. Camus estudou na Universidade de Argélia, e era o goleiro do time universitário, mas uma tuberculose mudou os rumos de sua trajetória. Licenciado em Filosofia, ingressou no Partido Comunista Francês em 1934 e engajou-se no mundo teatral. No início da década de 1940, já morando na França, passou a colaborar para jornais socialistas e para o Paris soir. Casou-se com Francine Faure, após breve relacionamento com Simone Hie, e publicou, em 1942, dois grandes livros que resumem as temáticas e preocupações presentes em sua ficção e ensaios: O estrangeiro e O mito de Sísifo. A ideia de “absurdismo” (ou “absurdo da existência humana”), uma derivação do existencialismo, estava fortemente impregnada em seus textos. No período da Segunda Guerra Mundial, marcou presença na Resistência Francesa, ao lado do filósofo Jean-Paul Sartre – com quem romperia anos depois. Embora tivesse a saúde debilitada para pegar em armas, Camus editou o jornal Combat. Após o final da guerra, viajou pelo mundo e continuou a publicar seus livros, como A peste (1947) e O homem revoltado (1951), este último já numa fase de reclusão imposta pelo problema da tuberculose. Pai de gêmeos (Catherine e Jean), faleceu vítima de um acidente automobilístico no dia 4 de janeiro de 1960. Tinha apenas 46 anos.

filosofia especial | 63

FIE_60-67_NietNiilismo.indd 63

02/08/2010 10:48:31


Niilismo

Stendhal Stendhal era o pseudônimo do escritor francês Henri-Marie Bayle (1783-1842). Lido por Nietzsche, Stendhal é autor da obra-prima O vermelho e o negro (1830), romance histórico, de traços realistas, cujo subtítulo é “Crônica do século XIX”.

Nietzsche muda a pergunta “pode-se viver revoltado”por “pode-se viver sem acreditar em nada”. Para Camus, Nietzsche responde afirmativamente a esta pergunta. E a “dúvida metódica”muda em “negação metódica”. Assim, o niilismo adquire um caráter demolidor. Sua missão é demolir valores. Novamente as palavras de Nietzsche: “Para erigir um santuário novo, é preciso demolir um santuário, esta é a lei” inevitável do niilismo, deviam tomar a cargo aquilo com que ele próprio havia sonhado — a super-humanidade. (...) De outro modo, lógicos e ambiciosos serão todos aqueles que, corrigindo Nietzsche com a ajuda de Marx, escolherão dizer sim apenas à história, e não mais à criação como um todo. O rebelde que Nietzsche fazia ajoelhar-se diante do cosmos passará a ajoelhar-se diante da história”.

Camus se pergunta: “Que há de espantoso nisso?”. Responde: “Nietzsche pelo menos em sua teoria da super-humanidade, e antes dele Marx, com a sua sociedade sem classes, substituem, ambos, o além pelo mais tarde”. Para Camus, nisso Nietzsche traía os gregos e os ensinamentos de Jesus, que, segundo ele, substituíam o além pelo imediatamente. Para Camus, tanto a revolta de Nietzsche como a revolta de Marx, que acabam igualmente pela adesão a certo aspecto da realidade, vão fundir-se no marxismo-leninismo, encarnando-se na casta, da qual Nietzsche já falava, que devia “substituir o padre, o educador, o médico”. Sobre isto, Camus opina que “A diferença essencial é que Nietzsche, enquanto esperava pelo super-homem, propunha-se a dizer sim a tudo o que existe, e Marx, a tudo o que vem a ser”. E que para Marx “a natureza é aquilo que se subjuga para obedecer à história” enquanto que para Nietzsche é “aquilo a que se obedece para subjugar a história”. Esta é, para Camus a diferença entre o cristão e o grego. Camus cita Nietzsche e diz que este, ao menos, previu o que ia acontecer: “O socialismo moderno tende a criar uma forma de jesuitismo secular, a tornar todos os homens instrumentos”. Camus conclui dizendo que o Marxismo-leninismo aceitou o ônus da vontade de Nietzsche, mediante o desconhecimento de algumas virtudes nietzschianas:“O grande rebelde cria, então, com as próprias mãos, para nele se confinar, o reino implacável da necessidade. Tendo escapado da prisão de Deus, sua primeira preocupação será a de construir a prisão da história e da razão, completando assim o escamoteamento e a consagração desse niilismo que Nietzsche pretendeu dominar”. Além do Niilismo “Compreende-se então que a revolta não pode prescindir de um estranho amor. Aqueles que não encontram descanso nem em Deus, nem na história estão condenados a viver para aqueles que, como eles, não conseguem viver: para os humilhados. Desta forma, ela é pródiga para os homens vindouros. A verdadeira generosidade em relação ao futuro consiste em dar tudo no presente”. Assim começa Camus seu texto “Além do niilismo”. Camus escreve que a revolta é o próprio movimento da vida e que não se pode negá-la sem renunciar à vida. Para ele, a revolta é amor e fecundidade ou então não é nada. E nunca o ressentimento deve ocupar o lugar do amor. Para Camus, é isso o que acontece quando se faz uma revolução sem honra, do cálculo,

64 | filosofia especial

FIE_60-67_NietNiilismo.indd 64

02/08/2010 10:48:32


Friedrich Nietzsche

Facsimile de texto manuscrito de Nietzsche, localizado por Erich Podach filosofia especial | 65

FIE_60-67_NietNiilismo.indd 65

02/08/2010 10:48:36


Niilismo

Marx Autor, entre outros livros, de O capital, A ideologia alemã e Manifesto do Partido Comunista (os dois últimos em parceria com Friedrich Engels), o filósofo, historiador, sociólogo, economista e revolucionário alemão Karl Marx (1818-1883) é o grande teórico do comunismo.

que prefere o homem abstrato ao homem de carne e osso. Escutemos suas palavras: “Tão logo a revolta, esquecida de suas origens generosas, deixa-se contaminar pelo ressentimento, ela nega a vida, correndo para a destruição, fazendo sublevarse a turba zombeteira de pequenos rebeldes, embriões de escravos, que acabam se oferecendo hoje, em todos os mercados da Europa, a qualquer servidão. Ela não é mais revolta nem revolução, mas rancor e tirania”. Lembremos que Camus está escrevendo no período que se seguiu à Segunda Guerra. Nesse momento é necessário reconstruir a Europa, estabelecer as bases para um futuro e criar formas que evitem que essa grande tragédia volte a acontecer. Camus vê que o novo perigo são as revoluções feitas em nome do poder da história. Camus pensa que está vivendo uma época na qual a revolução se tornou uma mecânica assassina e desmedida. Mas há um futuro. Camus olha para esse futuro e escreve: “No fim das trevas, é inevitável, no entanto, uma luz, que já se adivinha — basta lutar para que ela exista. Para além do niilismo, todos nós, em meio aos escombros, preparamos um renascimento”. Camus continua dizendo que a revolta não pretende resolver tudo, mas enfrentar tudo. Era a hora dos homens da Europa abandonarem as sombras e caminharem para o ponto fixo e reluzente, do qual se afastaram. Era a hora de deixar de trocar o presente pelo futuro e a humanidade pela ilusão de poder. Deixar de trocar, diz Camus, a miséria dos subúrbios pela cidade fulgurante e a justiça cotidiana por uma verdadeira terra prometida. A Europa devia voltar a amar a vida e aquilo que existe no mundo e no homem vivo. Escutemos Camus: “Na luz, o mundo continua a ser nosso primeiro e último amor. Nossos irmãos respiram sob o mesmo céu que nós, a justiça está viva. Nasce então a estranha alegria que nos ajuda a viver e a morrer e que, de agora em diante, não recusamos a adiar para mais tarde. Na terra dolorosa, ela é o joio inesgotável, o amargo alimento, o vento forte que vem dos mares, a antiga e a nova aurora. Com ela, ao longo dos combates, iremos refazer a alma deste tempo e uma Europa que nada excluirá.” Todos terão lugar na Europa de renasce. Nietzsche, Marx, Lênin e os mártires de 1905. Nela estarão a força e a energia da Europa que permaneceu viva durante a época desprezível. Todos poderão viver juntos nessa Europa que renascia. Somente era necessário “compreender que eles se corrigem uns aos outros e que, sob o sol, um limite refreia todos”. É necessário que cada um diga aos outros que não é Deus.

Para Camus, o assassinato encontra sua justificação na adesão apaixonada que coroa a obra de Nietzsche, pois tudo aceitar pressupõe aceitar o assassinato. O sim nietzschiano, continua Camus, esquecido do não original, renega a própria revolta, ao mesmo tempo em que renega a moral que se recusa a aceitar o mundo como ele é. Para Camus “Nietzsche clamava por um César romano com alma de Cristo”

66 | filosofia especial

FIE_60-67_NietNiilismo.indd 66

02/08/2010 10:48:36


New York World-Telegram and the Sun Newspaper Photograph Collection

Lembremos que Camus está escrevendo no período que seguiu a Segunda Guerra. Nesse momento é necessário reconstruir a Europa, estabelecer as bases para um futuro e criar formas que evitem que essa grande tragédia volte a acontecer. Camus vê que o novo perigo são as revoluções feitas em nome do poder da história. Camus pensa que está vivendo uma época na qual a revolução se tornou uma mecânica assassina e desmedida. Mas há um futuro. Camus olha para esse futuro e escreve: “No fim das trevas, é inevitável, no entanto, uma luz, que já se adivinha — basta lutar para que ela exista. Para além do niilismo, todos nós, em meio aos escombros, preparamos um renascimento” Referências CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2004

Dostoiévski, Fiódor. Os irmãos Karamazov. São Paulo: Editora 34, 2008;

CAMUS, Albert. O homem revoltado. Rio de Janeiro: Record, 1996.

VOLPI, Franco. O niilismo (Col. Leituras Filosóficas). São Paulo: Loyola, 1999.

filosofia especial | 67

FIE_60-67_NietNiilismo.indd 67

02/08/2010 10:48:40


Literatura

POR Daniel Rodrigues Aurélio*

O filósofo

e os russos Enquanto Nietzsche escrevia suas obras filosóficas, uma série de autores russos produzia verdadeiras obras-primas. Quais foram - se é que existiram - as aproximações entre o pensamento nietzschiano e os romances de Dostoiévski e companhia?

* Daniel Rodrigues Aurélio é bacharel em Sociologia e Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e pós-graduado em Globalização e Cultura pela Escola Pósgraduada de Ciências Sociais. É autor de Dossiê Nietzsche (Universo dos Livros, 2009) e editorassistente das revistas Filosofia Especial Nietzsche e Sociologia Ciência & Vida.

68 | filosofia especial

FIE_68-71_NietLiteraturaRussa.indd 68

02/08/2010 10:47:34


L Eurásia Dá-se o nome de Eurásia à região localizada entre a Europa e a Ásia. Rússia e Turquia, por exemplo, estão geograficamente situados nos dois continentes. Também é comum o termo ser utilizado para designar um supercontinente formado pelo território asiático e europeu. Guerra da Crimeia Conflito bélico que opôs o Império Russo à coalizão formada por Reino Unido, França, PiemonteSardenha e Império Turco-Otomano, a Guerra da Crimeia teve início após a invasão dos russos à Moldávia e à Valaquia (atual Romênia). Os combates desenrolaram-se entre 1853 e 1856. Derrotada, a Rússia aceitou o acordo de paz que previa a devolução de territórios na regiãoda Bessarábia aos turcos.

iev Tolstói, Anton Tchékhov, Nikolai Leskov, Ivan Turguêniev, Nicolai Gogól, Fiódor Dostoiévski... Que bela seleção russa de letras, não é? Todos esses nomes, que hoje compõem a biblioteca básica dos amantes da arte literária, nasceram em meados do século XIX, durante o Império Russo sob o poder da dinastia Romanov – na verdade, uma ramificação da Casa de Oldemburgo, os Holstein-Gottorp-Romanov, que decidiu manter o sobrenome histórico, sinônimo dos czares (tzares) de ferro da potência do Leste Europeu ou, como preferem alguns, da Eurásia. Todos esses literatos acima listados, portanto, eram contemporâneos do filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche, nascido na Prussia em 1844.

Exatamente, leitores e leitoras. Friedrich Nietzsche teve o privilégio de acompanhar em vida – provavelmente durante as venturas e desventuras de seu périplo europeu – o lançamento e a repercussão de obras-primas de literatura russa e universal como Pais e Filhos, de Tuguêniev; Guerra e Paz e Anna Karenina, assinados pela pena magnífica de Tolstói; e a enfiada de clássicos de Dostoiévski, dentre os quais destacam-se Memórias do subsolo, Os Irmãos Karamazov e Crime e Castigo. “Aconteceu na Rússia: num punhado de décadas do século XIX, gêneros literários europeus foram levados a graus de incadescência inéditos”, descreve no artigo “Três gênios e um painel do século XIX” Bruno Barretto Gomide, doutor em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Tolstói, Dostoiévski e Tchekhov, com suas afinidades e diferenças, permitem formar um painel de determinadas correntes da ficção russa do século XIX: representam versões muito particulares do ´grande período´do romance russo e de sua dissolução”, argumenta Gomide, também professor de Literatura e Cultura Russa da Universidade de São Paulo (USP). Não é totalmente seguro afirmar que Nietzsche leu ou interessou-se por todos esses escritores, mas seu apreço por um deles é evidente. O filósofo alemão derramava-se em elogios àquele que considerava um mestre da descrição psicológica: Fiódor Dostoiévski. Não restam dúvidas que os agitos artísticos e contestadores da Rússia oitocentista foram acompanhados com interesse pelo autor de Genealogia da moral. No entanto, qual teria sido o real impacto da literatura russa no pensamento nietzschiano? Existem pontos de contato capazes de demonstrar com precisão o nível dessa influência?

Niilismo Literário A chave mais óbvia para entender essa relação é o niilismo. A Rússia de Tolstói, Dostoiévski e Turguêniev experimentava as consequências de uma série de eventos decisivos em sua história. Em 1812, o Exército Russo forçou o recuo das tropas napoleônicas para fora das fronteiras do império, episódio inspirador para a cultura bélica russa. Décadas depois, os czares fracassaram em seu projeto expansionista e perderam territórios para os turcos após a assinatura do tratado de paz decorrente da Guerra da Criméia (1853-1856). A abolição da servidão no país em 1861, campanha a qual muitos artistas e pensadores aderiram, constribuiu para uma reconfiguração da sociedade, embora a fome e a miséria tenham persistido. Todo esse contexto levouos a um estado profundo de desencantamento, de ceticismo em relação ao futuro e a própria humanidade. Tal sentimento fermentou o niilismo literário praticado, principalmente, por Turguêniev e Dostoiévski. Segundo Barretto Gomide, “tratava-se de uma Rússia que politicamente ainda costurava as amarras da Santa Aliança pós-napoleônica e que nutria, às

Friedrich Nietzsche teve o privilégio de acompanhar em vida – provavelmente durante as venturas e desventuras de seu périplo europeu – o lançamento e a repercussão de obras-primas da literatura russa filosofia especial | 69

FIE_68-71_NietLiteraturaRussa.indd 69

02/08/2010 10:47:35


Literatura

Revolução de 1917 Dividida em duas etapas, em fevereiro e outubro de 1917, a Revolução Russa teve como protagonista o líder do Partido Bolchevique, Vladimir Lênin. Após derrubar o império e instaurar um governo republicano provisório, os bolcheviques fundaram um regime socialista, cujo ápice foi a fundação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), a União Soviética, que vigorou até 1991.

escondidas, grupos de leitura inspirados na filosofia alemã e preocupados em definir a posição exata da Rússia na caminhada histórica dos povos”. Dessa conjuntura nasceria os focos revolucionários que, no início do século XX, promoveriam a Revolução de 1917. Mas esse pedaço da História nem Nietzsche, tampouco a maioria dos escritores da geração de ouro da Rússia, puderam acompanhar de perto. Quando os bolcheviques liderados por Vladimir Lênin derrubaram o czar Nicolau II, Nietzsche e Dostoievski estavam mortos. Do latim nihil (trad. aprox.: “nada”), a expressão niilismo capta bem a “descrença absoluta” sentida pelos escritores russos. Todavia, a palavra não surgiu nesse período; nos tempos da Revolução Francesa, ela já era utilizada para designar quem permanecia alheio a contenda entre o Velho Regime e os revolucionários. A narrativa densa e psicológica dos russos, porém, reproduzia toda a expressividade do modo de pensar niilista. Em Pais e Filhos (1862), Ivan Turguêniev atribui a personagem Ivigueni Bazarov a alcunha de “nihilista”. Coube, porém, a Ivan Karamazov, do romance Os irmãos Karamazov (1879) de Dostoievski, o papel de ícone do espírito

niilista. Espírito que Nietzsche soube compreender e retransmitir à sua maneira em seus livros: por não ser dado à aceitação automática e passiva de estilos, ideias, o pensamento nietzschiano fez uma mediação crítica sem se filiar completamente à doutrina – diria “estado d´alma” - advogada pelos russos. No livro O homem revoltado (1951), o escritor e filósofo franco-argelino Albert Camus dedica um capítulo de seu ensaio a Friedrich Nietzsche. Camus considera-o a consciência crítica do niilismo. “Com Nietzsche, o niilismo torna-se pela primeira vez consciente”, e acrescenta: “[Nietzsche] recruta para a causa do niilismo os valores que tradicionalmente foram considerados freios do niilismo. Principalmente a moral”. Em suma, embora a narrativa dostoievskiana seja, nas palavras de Nietzsche, excelente por perscrutar a natureza humana, o filósofo do Übermensch pretendia ir além de uma negação resignada, por vezes atormentada, dos valores morais. A atitude niilista seria apenas a etapa primeira de um projeto maior, qual seja, a transvaloração dos valores. Nietzsche seria, digamos, um niilista-ativo admirador dos cenários, personagens, climas e temas da literatura russa.

A filosofia nietzschiana recebeu várias influências. fiódor Dostoiévski entraria na condição de descoberta de maturidade, com o qual estabeleceria uma relação de admiração e fruição estética

Admiração por Dostoiévski A filosofia nietzschiana recebeu várias influências. Estudioso da cultura helênica, em especial da tragédia grega, Nietzsche dedicou-se à filologia – disciplina que lecionou -, ao romantismo na juventude, à Schopenhauer e Kant (em nível de debate). Fiódor Dostoiévski entraria na condição de descoberta de maturidade, com o qual estabeleceria uma relação de admiração e fruição estética. Criações dostoievskianas como o narrador de Memórias do subsolo(ou Notas do subterrâneo) são definidas pelo historiador Joseph Frank, seu maior biógrafo, como praticantes de um “amoralismo” muito próximo da perspectiva de Nietzsche.

A despeito de pesar sobre ambos a acusação de antissemitismo e ceticismo, é preciso esclarecer que Dostoievski não inclinou-se ao ateísmo. Liberal, porém arisco a civilização ocidental, o autor de Crime e Castigo não abandonou de vez a fé cristã, como Nietzsche e seu brado “Deus está morto”. Dostoievski preferia colocar suas sentenças na condicional, dando margem à hesitação e as incertezas: “Se Deus está morto, tudo é permitido”. Nascido, criado e formado em berço luterano, Nietzsche optara na juventude e idade adulta pelo implacável combate ao cristianismo, ainda que tivesse uma estranha (reveladora?) fixação pela imagem de Jesus Cristo cruficado. Dessa forma, a ascendência do escritor russo sobre o pensamento do filósofo alemão

fundamenta-se na construção literária, na dimensão psicológica, e não em suas efetivas opiniões políticas, religiosas ou existenciais. Seja como for, ambos representam o cenário convulsivo de dois Impérios. Um em vias de Unificação (Alemanha), o outro prenunciando a sua queda (Russo). Nietzsche escreveu críticas severas à velha e nova ordem alemã, ao passo que Dostoievski, sustentou Joseph Frank, é a personificação dos dilemas da Rússia dos Oitocentos. Como se não bastasse todos esses elementos de aproximação, eles ainda tornaram-se os dois autores muito lidos pelas sucessivas gerações. Crime e Castigo e Assim falou Zatustra estão entre os livros de referência na formação literária e intelectual de todos nós.

70 | filosofia especial

FIE_68-71_NietLiteraturaRussa.indd 70

02/08/2010 10:47:35


Vassilij G. Perov

FiÓDOr DOstOiévski piração liberal contra o czar Nicolau I. Condenado à pena de morte por fuzilamento, no último instante teve a sentença comutada para o regime de trabalhos forçados na Sibéria. Foi libertado em 1854, com a condição de cumprir quatro anos de alistamento em uma batalhão cuja fortaleza encontrava-se no Cazaquistão. Finalmente libertado em 1859, estava proibido de residir em São Petersburgo e Moscou. Casado com Maria Dimítrievna Issáievna desde 1857, recebeu o diagnóstico de epilepsia. Teve alguns casos amorosos, mas já separado de Maria apaixonou-se por Anna Grigórievna Snítkina, contratada para redigir o livro O jogador, ditado por Dostoievski. O relacionamento durou até a morte do autor, em 9 de fevereiro de 1881.

Robert Edwards

Filho do médico Mikail e de Maria Ferodovna, Fiódor Mikhailovich Dostoiévski nasceu em Moscou em 1821. Com a morte precoce da mãe, vitimada por uma tuberculose em 1837, Fiódor Dostoiévski foi enviado à São Petersburgo, então capital cultural do Império Russo, para estudar na Escola Militar de Engenharia. De lá, recebeu a notícia da morte do pai, provavelmente assassinado por seus servos. Em São Petersburgo, o jovem Dostoiévski tomou gosto pela literatura e pelos movimentos políticos. Em 1844, escreveu o primeiro romance, Gente pobre, ainda longe da qualidade atingida em obras posteriores como Crime e Castigo, Os idiotas e Os irmãos Karamázov. O escritor acabou preso em 1849, acusado de participar de uma cons-

CLássiCOs DA LitErAtUrA rUssA

Pais e Filhos (1862) autor: Ivan Turgeniev Edições Bras.: CosacNaify (2004), Martin Claret (2006), Itatiaia (2004)

Crime e Castigo (1866) autor: F. Dostoiévski Edições Bras.: Editora 34 (2001), L&PM (2007), Abril Coleções (2010), Martin Claret (2002)

Guerra e Paz (1865-1869) autor: Liev Tolstói Edições Bras.: L&PM 4 vol. (2007), Itatiaia (2008)

anna Karienina (1873-1877) autor: Liev Tolstói Edições Bras.: CosacNaify (2009)

os irmãos Karamázov (1879) autor: F. Dostoiévski Edições Bras.: Editora 34 (2008), Martin Claret (2003), Ediouro (2001)

rEFErÊNCiAs

alBErT Camus Prêmio Nobel de Literatura em 1957, Albert Camus (19131960) foi um dos maiores escritores e pensadores do seu tempo. Além de O homem revoltado, suas principais obras são O estrangeiro (romance), O mito de Sísifo (ensaio), ambos de 1942, e A peste (1947)

AURÉLIO, Daniel Rodrigues. Dossiê Nietzsche. São Paulo: Universo dos Livros, 2009. CAMUS, Albert. O homem revoltado. Rio de Janeiro: Record, 1996. GOMIDE, Bruno Barretto. “Três gênios e um painel do século XIX”. In: Entrelivros, Duetto Editorial, ano 1, nº 4, 32-40 p.

filosofia especial | 71

FIE_68-71_NietLiteraturaRussa.indd 71

02/08/2010 10:47:37


Cultura Pop

por ivan carlo andrade de oliveira* e jefferson nunes*

nietzsche,

um ícone

p o p

o filósofo alemão teve grande influência sobre a cultura pop, sendo citado em filmes, livros, músicas e histórias em quadrinhos * ivan carlo andrade de oliveira e jefferson nunes são jornalistas

72 | filosofia especial

FIE_72-81_NietPop.indd 72

02/08/2010 11:22:11


C

om a frase “Há homens que nascem póstumos”, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche pretendia deixar claro que sua obra não era destinada ao seu tempo, mas sim ao futuro. E no fundo ele tinha razão. Muitos jovens acabaram se identificando com a obra do autor, sua solidão e seu total desprezo pela humanidade. “Não quero ‘crentes’; acredito

que sou demasiado mau para crer em mim mesmo; eu nunca falo às massas… Tenho grande medo de ser, algum dia, santificado”. O autor não foi santificado, mas de alguma forma o filósofo tornou-se uma espécie de ícone da cultura pop, influenciando de super-heróis a filmes, passando pela música.

filosofia especial | 73

FIE_72-81_NietPop.indd 73

02/08/2010 11:22:14


Cultura Pop

Que venha o Superman Der Übermensch, geralmente traduzido como superman, em inglês, e super-homem, em português, é um conceito central da obra de Friedrich Nietzsche. No começo do século XX, os nazistas apropriaram-se do termo, para forjarem o mito da superioridade ariana, uma interpretação que não estava nos escritos de Nietzsche, que nunca foi anti-semita. Os norte-americanos se apropriam do termo nos quadrinhos, com a criação dos super-heróis. O primeiro deles, o Superman, criação de dois judeus, Joe Shuster e Jerry Siegel era uma antítese do Übermensch alemão, chegando a lutar contra as tropas nazistas e até contra Hitler em pessoa. Aliás, quase todos os heróis mascarados lutaram nas páginas dos gibis contra os alemães e japoneses. Embora seja normalmente lembrado quando se fala no mito do super-homem, o homem de aço tinha

pouco a ver com a filosofia de Nietzsche e se assemelhava muito mais com mitos judaicos e cristãos. Como um Moises, ele é um alienígena salvo de um holocausto (a destruição de seu planeta), que passa a viver entre pessoas que não são seu povo. Encarnando a ideia de messias, ele vem do espaço para nos salvar. Sua subserviência aos poderes estabelecidos e convenções sociais está muito longe da filosofia nietzchiana, encarnada nas chamadas “frases estremecedoras” de Nietzsche, que parecem estar mais perto do herói nazista de Hitler: “A guerra e o valor fizeram coisas mais esplêndidas que o amor ao próximo (…) Eu os digo: a boa guerra justifica toda causa! (…) Que é o bom? Tudo o que eleva no homem a Vontade de Potência (…) Que é o mal? Tudo aquilo cujas raízes residem na debilidade (…) Que os débeis e fracassados pereçam! E que se ajude-os bem a morrer”.

o Cavaleiro das Trevas É uma série em quatro números lançada pela DC Comics em 1996. Escrita e desenhada por Frank Miller, revolucionou os quadrinhos norte-americanos com sua narrativa cinematográfica e adulta. A série se passa numa Gothan City futurista e violenta e tem como protagonista um Batman já idoso, que volta à ação.

Cortesia de Warner Bros. Pictures. TM

O personagem dos comics que mais se assemelha ao termo Übermensch, Batman

74 | filosofia especial

FIE_72-81_NietPop.indd 74

02/08/2010 11:22:16


Talvez o personagem dos comics que mais se assemelha ao termo Übermensch, seja Batman. O milionário Bruce Waine, com 10 anos de idade, assiste ao assassinato dos pais e a partir dali decide dedicar sua vida ao combate do Mal. Batman não possui super poderes, apenas treinamento, inteligência e astucia. Ele se torna um “Super-homem” apenas por que decide levantar a cabeça acima da multidão e “fazer a diferença”

Olhando o Abismo Na obra prima das HQs Watchmen, o autor Alan Moore dessacralizou os super heróis dos comics americanos, injetando doses de cinismo, realidade e principalmente filosofia. Na história, o personagem Rorschach é um justiceiro mascarado que depois de investigar o caso de uma menina estuprada e morta, passa a matar marginais sendo temido e odiado tanto pela policia quanto pelos bandidos. “Olhei para o céu através da fumaça cheia de gordura humana e Deus não estava lá. A escuridão fria e sufocante prossegue eternamente, e nós estamos sós. Vivemos nossas vidas por não termos nada melhor para fazer. Inventamos uma razão depois. Nascemos do esquecimento, criamos crianças tão condenadas ao inferno como nós. Voltamos ao esquecimento. Não há mais nada. A existência é aleatória. Não tem nenhum padrão, salvo aquele que imaginamos depois de encará-la por muito tempo. Nenhum significado, salvo o que escolhemos impor. Este mundo sem leme não é moldado por vagas forças metafísicas. Não é Deus

Watchmen É uma série em quadrinhos escrita por Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons, lançada pela editora DC Comics entre 1986 e 1987. A história se passa numa realidade alternativa em que o surgimento dos superheróis mudou todo o mundo e levou o planeta à beira da destruição atômica. Watchmen é uma obra que permite leituras políticas, sociais, psicológicas, filosóficas e científicas. Rorschach é um dos personagens principais de Watchmen. Trata-se de um vigilante violento e reacionário, que vive como mendigo e investiga um suposto assassino de super-heróis.

Com doses de cinismo, realidade e filosofia, o herói Watchmen

Warner Bros. Pictures. TM

A Sombra do Morcego Talvez o personagem dos comics que mais se assemelha ao termo Übermensch, seja Batman. O milionário Bruce Waine, com 10 anos de idade, assiste ao assassinato dos pais e a partir dali decide dedicar sua vida ao combate do Mal. Batman não possui super poderes, apenas treinamento, inteligência e astucia. Ele se torna um “Super-homem” apenas por que decide levantar a cabeça acima da multidão e “fazer a diferença”. Batman é um super-homem esquizofrênico e sombrio: pode-se rastrear nele a influência do expressionismo alemão e do vampirismo. A “capa” de Batman se assemelha mais à de Drácula que a de Superman. Em obras como Cavaleiro das Trevas, percebemos bem o quanto o ele se assemelha ao Übermensch nietzschiano, em oposição ao Superman. Nesta história futurística, Batman é uma figura que se eleva acima do sistema corrupto, levando consigo um grupo de heróis e pessoas comuns, e chama o homem de aço de escoteiro, por ele sempre obedecer as ordens superiores. O embate entre os dois “Super-homens” nesta história mostra muito da diferença entre os dois personagens. De um lado o Superman, que segue todas as regras e obedece ao sistema, do outro Batman, o “Super-homem” comum sem poderes, mas que não se deixa levar pelos ditames impostos pelo poder e não abre mão de “Jogar sujo” para atingir a vitoria. Batman entendeu que a única forma de vencer o sistema é estando acima de suas regras e limitações, combatendo o poder com suas próprias armas.

filosofia especial | 75

FIE_72-81_NietPop.indd 75

02/08/2010 11:22:17


Ozymandias Adrian Veidt, alterego de Ozymandias, é uma mistura de Alexandre, O Grande e Robert Redford. Inspirado no superherói da Charlton Comics Thunderbolt (“Trovejante” na versão em português), Ozymandias é dotado de extraordinária inteligência, que lhe confere total domínio sobre corpo e mente. Filantropo , carismático e pacifista, Adrian Veidt antecipou a onda anti- super heróis do fim dos anos 70, revelando sua identidade secreta e tornandose uma celebridade adorada por todos, um mega-empresário multibilionário que se fez por conta própria. Obcecado em salvar o mundo ele cria um plano e não mede conseqüências para colocá-lo em prática.

Warner Bros. Pictures. TM

Cultura Pop

Adrian Veidt, alterego de Ozymandias

quem mata as crianças. Não é a sina que as esquarteja ou o destino que as dá de comer aos cães. Somos nós. Apenas nós.”, escreve Rorschach em seu diário no capítulo 7 de Watchmen. Suas palavras ecoam a famosa frase de Nietzsche: “Deus está morto”. Sua morte deixa um vácuo no reino da moralidade e dos valores: não temos mais uma fonte de moral objetiva ou de ordem e de propósito no mundo. Esse vácuo, uma visão de que a vida é essencialmente sem sentido, é chamado de niilismo. Mas não sejamos precipitados ao achar que Rorschach representa o Übermensch apenas por

confrontar sem medo a ausência de sentido. Muito pelo contrário, Rorschach sequer se aproxima do Super-homem de Nietzsche. Em Watchmen, o que mais se aproxima de tal ideal é justamente o “vilão” Ozymandias que resolve tomar alguma atitude em relação ao caos e conformismo do mundo. Entretanto, uma frase do filósofo é usada por Moore para definir Rorchach: “Não olhe para a face do abismo. O abismo poderá olhar de volta para você”. Assim, o violento herói é, de certa forma alguém que vislumbrou o abismo da existência e se deixou dominar por ele.

Homem, um animal doente O dominado, o pequeno, o plebeu, é um ser aviltado. Ele não tem palavra nem se guia pela verdade. Vive de estratagemas, quase todos bem longe do que poderiam ser considerados como dignos ou honrados. Isto, por sua vez, ira fazer com que Nietzsche denuncie a existência de um universo externo ao indivíduo superior, composto, acima dele, por um poderosos discurso moral, religioso e metafísico, repressor, e, abaixo dele, pelo ressentimento do rebanho, que faz com que as pulsões naturais, fonte das suas caracte-

rísticas maiores que alimentam o seu talento e o seu desafio, impossibilitadas de virem a se realizar, voltem-se para o seu interior, corroendo-o, aviltando-o, sufocando-o. E o que diz essa acusação opressora? Que tudo aquilo que percorre no íntimo do humano, que seus instintos e fantasias outras que lhe são sugeridas nos seus sonhos, são em geral pecaminosos, indignos, profanadores de uma pureza que ele deveria preservar para poder salvar-se. Que, dizem-lhe mais, a busca do ser bem dotado pela afirma-

ção pessoal e pelo exercício legitimo das suas qualidades não passa de orgulho, de hybris, de ambição desmedida. O resultado disso, dessa crueldade para com a própria espécie, é que o homem, psicologicamente mutilado, “torna-se um animal doente”. É um ser eternamente atormentado por ter que viver com uma carnalidade e sensualidade latente, exigindo coisas que ele sempre terá que negar, ocultar, contornar e sepultar, obrigando-o a rastejar frente a deuses que o julgam culpado.

76 | filosofia especial

FIE_72-81_NietPop.indd 76

02/08/2010 11:22:21


Nietzsche e as Guitarras A filosofia de Nietzsche encontrou reverberações dentro do gênero musical mais iconoclasta do seculo XX: O rock´n roll. A iconoclastia e a destruição de verdades absolutas da contracultura roqueira do final dos anos 60 casavam muito bem com a filosofia e as idéias nietzschianas. David Bowie, astro do rock e germanófilo assumido, sempre fez citações explicitas do filosofo em suas musicas, como The Superman, na qual falava do nascimento do filho ao mesmo tempo em que citava o Ünbermensch, “Que venha o Superman, que venha ao mundo o Homo Superior”. Patti Smith, poetisa e rockeira novaiorquina, também fez sua homenagem ao filósofo na abertura de sua obra prima Horses (1975). Antes de cantar os versos da canção “Gloria”, ela declama que “Jesus died for somebo-

dys sins, but not mine” [“Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não pelos meus”] numa iconoclastia religiosa digna de Nietzsche. Mas foi a chamada Blank Generation (Geraçao em Branco) quem realmente abraçou o niilismo. A banda Richard Hell and the Voidoids, foi a primeira a cantar sobre o vazio, a falta de sentido no mundo e o No Future. Seu som influenciou bandas inglesas como os Sex Pistols e seu Punk Niilista e o sombrio Joy Division. O punk niilista é aquele que, ao contrário dos anarcopunks, não investe em nenhum projeto a longo prazo, como a revolução ou o anarquismo. Muito pelo contrário, o punk niilista está em consonância com o slogan dos Sex Pistols: no future. Daí a descrença em qualquer bandeira de aglutinação social. Essa modalidade está

David Bowie, astro do rock e germanófilo assumido, sempre fez citações explicitas do filosofo em suas musicas, como The Superman, na qual falava do nascimento do filho ao mesmo tempo em que citava o Ünbermensch, “Que venha o Superman, que venha ao mundo o Homo Superior”

Philippe Carly

Ian Curtis, vocalista da banda Joy Division

Joy Division Foi uma banda póspunk formada em 1976, em Manchester, Inglaterra. A banda acabou em 18 de Maio de 1980 após o suicídio do vocalista, Ian Curtis. Também tinha como integrantes Bernard Sumner (guitarrista e tecladista). Os três integrantes remanescentes formaram o New Order. O Joy Division era caracterizado por densas melodias, marcadas pela bateria quase “militar” de Stephen Morris, e uma tendência para a depressão e a claustrofobia. As letras obscuras e extremamente poéticas de Ian Curtis se tornaram a assinatura do grupo, assim como seu vocal em barítono.

filosofia especial | 77

FIE_72-81_NietPop.indd 77

02/08/2010 11:22:23


Cultura Pop

Black metal É um subgênero musical que evoluiu no início dos anos 80 paralelamente ao death metal, um outro gênero do metal extremo. É um estilo sombrio, cru e agressivo e incorpora em suas letras temas como o satanismo e o paganismo (em particular a mitologia nórdica), em alguns casos neo-nazismo. Algumas bandas consideradas precursoras do estilo são: Venom, Hellhammer, Bathory, Sodom, Celtic Frost, Bulldozer, Destruction e Mercyful Fate. Algumas das bandas mais influentes no início deste estilo foram: Burzum, Darkthrone, Emperor, Immortal, Sarcófago e Mayhem.

apenas interessada na sobrevivência e crê apenas no caos que consome e consumirá a todos. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche inspirou muitas outras bandas, em especial do gênero musical heavy metal. Muitos músicos, particularmente os de black metal, subgênero do heavy metal, consideram-no um iluminador esclarecido por suas idéias niilistas, misantrópicas e anti-cristãs. A banda black metal norueguesa Gorgoroth, sem duvida é uma das mais influenciadas pelas idéias nietzschianas. Os álbuns intitulados “Antichrist” (1996), “Twilight of the Idols” (2003) e a música instrumental “Will to Power” apresentam forte presença da filosofia nietzschiana. Em uma entrevista concedida ao site Metal Crypt, em abril de 2005, o músico norueguês Roger Tiegs que tem o pseudônimo de Infernus, afirma que Nietzsche é a sua principal influência como autor. “Definitivamente, as obras Crepúsculo, O Anticristo e Ecce Homo estão entre os meus 5 livros favoritos.” Outro bom exemplo de influências nietzschianas no metal é o álbum da banda de black e viking metal (novas formas de gênero do metal) Bathory intitulado “Twilight of the Gods”, lançado em 1991, que traz na contra-capa o seguinte trecho de Friedrich Nietzsche, escrito em 1871: “Ó, aquilo que não nos trazem danos em busca da completa liberdade nesta idade moderna de loucura. O homem precisará perguntar para ele mesmo: agora que nós buscamos registrar toda nossa origem, nós temos provado que Deus não existe. Que agora irá dizer-nos que nos dêem ouvidos, quando temos quebrado a

última das leis da natureza, quando gritou ‘liberdade’. Liberdade e realizou nada contra a eliminação da primeira? Pode, de fato, ter medo desta era, para ele não é apenas o momento da verdade e do arrependimento. Por isso também é verdadeiramente .... O crepúsculo dos deuses!” Este fragmento se torna um emblema da era moderna em que, segundo Nietzsche, as pessoas irão perceber que Deus não existe e que nada poderá salvá-las. Será o período da “Decadência dos deuses”, tradução do título do álbum. Na obra de Friedrich Nietzsche nomeada “A Gaia Ciência” (1882), conhecida também como “Alegre Sabedoria”, ou “Ciência Gaiata”, encontramos no terceiro capítulo a famosa frase nietzschiana: “Deus está morto. Deus continua morto. E fomos nós que o matamos”, pronunciado pelo Homem Louco em meio aos mercadores hereges. (A Gaia ciência) Esta citação inspirou vários músicos de bandas de metal. Como exemplo, podemos citar a música chamada “Totengott” (“Deus morto”, em alemão), da banda suíça de metal Celtic Frost. A banda de metal californiana Machine Head compôs uma música intitulada “I’m Your God Now”, também inspirada na frase de Nietzsche. A seguir, um trecho editado e traduzido da música: Sua vida não é sua, você é somente meu escravo Eu sou seu Messias da dor Não há tempo para rezar Porque sou seu Deus agora

Claude Gassian

A poetisa e rockeira novaiorquina Patti Smith, em performance no Roundhouse em Londres

78 | filosofia especial

FIE_72-81_NietPop.indd 78

02/08/2010 11:22:23


Commons

A banda black metal norueguesa Gorgoroth, uma das mais influenciadas pelas idéias nietzschianas

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche inspirou muitas outras bandas, em especial do gênero musical heavy metal. Muitos músicos, particularmente os de black metal, subgênero do heavy metal, consideramno um iluminador esclarecido por suas idéias niilistas, misantrópicas e anti-cristãs filosofia especial | 79

FIE_72-81_NietPop.indd 79

02/08/2010 11:22:27


Cultura Pop

tela grande Em varias produções hollywoodianas figuram citações ou menções ao nome do filósofo: em Gênio Indomável (1997), Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (2004) e A Casa do Lago (2006). Sem dúvida a melhor participação de Nietzsche no cinema está em Pequena Miss Sunshine (2006). O filme é uma comédia de costumes com pitadas de drama, um road movie que contém uma crítica contundente e bem-humorada com relação ao “modismo” da filosofia nietzscheana. No filme, Paul Dano interpreta Dwayne, um garoto que sonha entrar para a aeronáutica e ser piloto de aviões. O jovem também é um “seguidor” do filósofo alemão, tem inclusive uma grande bandeira com o rosto de Nietzsche em seu quarto e aparece em várias cenas usando uma camiseta com a frase: Jesus was wrong. Dwayne fez voto de silêncio até que consiga realizar seu objetivo e comunica-se com sua família apenas através de um pequeno bloco de notas que carrega consigo. Em certo ponto do filme Dwayne escreve para seu tio homossexual: I Hate Everyone. O personagem de Paul Dano é sem dúvida um retrato bem satirizado dos atuais admiradores juvenis de Nietzsche. Nietzsche e citado até no mundo dos games. Os capítulos da famosa trilogia de RPGs da Namco, Xenosaga, ganharam nomes que nos remetem imediatamente ao filósofo. Episode I: Der Wille zur Macht (A Vontade de Potência), Episode II: Jenseits von

Gut und Bose (Além do Bem e do Mal) e Episode III: Also Sprach Zarathustra (Assim Falou Zaratustra). O jogo é considerado por muitos especialistas como um dos mais filosóficos já feitos. Até nos animes as citações do filosofo alemão são utilizadas. O anime shonen-ai (gênero que retrata relações românticas entre homens) Loveless faz referência a filosofia nietzscheana. O personagem principal do anime em questão – Ritsuka, um garoto de 12 anos – é um admirador do filosofo. Uma aparição inusitada de Nietzsche é no famoso vídeo Dance Monkeys Dance de Ernest Cline. A montagem traz uma reflexão muito interessante sobre a condição humana. E também sobre o modismo com que vem sendo tratada a filosofia nietzscheana. Outro exemplo famoso da aparição do filósofo alemão no cinema é o filme Quando Nietzsche chorou (2006), de Pinchas Perry, baseado no romance de Irvin Yalom. Na história, o médico Josef Breuer trata do filósofo quando ele ainda era um desconhecido e estava em depressão por causa de um amor não correspondido. O médico está envolvido emocionalmente com uma de suas pacientes e acaba sendo contaminado pela filosofia de Nietzsche. Muitos críticos destacaram o fato de que, em algumas cenas, o filme cair na comédia involuntária, sendo, portanto, de qualidade duvidosa.

Miracleman, o super-homem nietzschiano Um dos personagens que mais explorou as ideias de Nietzsche nos quadrinhos foi Miracleman na fase escrita por Alan Moore. Essa relação foi tema de um livro, Miracleman – um outro mito ariano, de Márcio Salermo (Marca de Fantasia, 2004). O personagem surgiu em 1954, com o nome de Marvelman, criado por Mike Anglo. Na época o Capitão Marvel fazia grande sucesso na Inglaterra, mas parou de ser publicado por causa de uma pendenga judicial entre Fawcett Comics e a DC Comics, que acusava o personagem de plágio do Super-homem. Sem um de seus heróis mais populares, o editor inglês simplesmente pediu ao artista uma cópia do herói e continuou a publicação. Acervo Ciência & Vida

80 | filosofia especial

FIE_72-81_NietPop.indd 80

02/08/2010 11:22:29


Acervo Ciência & Vida

Ernest Cline É roteirista de cinema e faz poemas nerds sobre sobre geeks, filmes pornô e videogames. Seu vídeo “Dance Monkeys, Dance” ficou famoso na internet por conta do curta homônimo. O Vídeo fala da estupidez e prepotência humana, e alerta sobre muitas das idiotices que cometemos com os outros de nossa espécie.

Marvelman fez um relativo sucesso durante pelo menos duas décadas e foi leitura obrigatória do garoto Alan Moore, que se ofereceu para revitalizar o personagem na década de 1980. As histórias foram publicadas na revista Warrior, e revolucionaram o gênero ao mostrar uma visão adulta dos super-heróis, mas ficou incompleta. Quando Moore se tornou uma celebridade, após o sucesso de Monstro do Pântano e Watchmen, a editora Eclipe convidou-o a terminar a série. Devido a problemas com a Marvel Comics, o nome foi mudado para Miracleman. A edição de estréia da revista deixava bem clara a relação do personagem com o Übermensch. Abaixo de um desenho do herói, vinha uma citação do filósofo alemão: “Eu lhes dou o Super-homem... é ele este raio... é ele este delírio”. A nova versão do herói mostrava que este era cobaia de um plano ultra-secreto do governo britânico para a criação de super-seres. O nome do projeto era Zarasthustra, numa referência direta a um dos mais famosos livros de Nietzsche: Assim falou Zarasthustra. Dessa forma, os três protagonista, Miracleman, Kid Miracleman e Young Miracleman, seriam os superhomens, que se elevam além do homem comum. O fato dos heróis trocarem de lugar com suas contrapartes humanas acaba se tornando uma metáfora disso. Se a relação com as teorias de Nietzsche já eram claras desde dos primeiros capítulos, elas se tornam declaradas a partir da saga Olimpus. Nessa história, segundo Márcio Salermo, o herói percebe que não é outra coisa senão um deus na Terra. Ele é seu próprio deus, dono de

seu destino, capaz de viver e alcançar a felicidade total e quase a vida eterna, através de seu próprio esforço. Miracleman percebe que todos os humanos poderiam ser também super-homens. Só precisava de uma força externa que lhe mostrasse claramente que esse poder existia e podia ser usado. As referências são muitas. Em determinado momento, o herói, em conjunto com seres extraterrestres superpoderosos dançam no espaço. Era uma citação à ideia de Nietzsche, de que a dança ajudava o homem a superar seus limites, não só físicos, mas psicológicos. Em outro trecho, Mike Moran, a contrapartida humana de Miracleman, escala a montanha Glencoe, na Escócia. Chegando ao topo, ele se transforma definitivamente no herói. No livro Assim falou Zarastutra, Nietzsche escreve: “Aquele que escala as montanhas mais altas, ri de todas as tragédias, reais ou imaginárias”. Após enfrentar um enlouquecido Kid Miracleman, que mata quase toda a população de Londres, o herói resolve construir um paraíso na Terra. Acaba com o dinheiro e libera todas as drogas. Agora, todo humano que quiser pode se transformar num super-humano. A saga termina com o herói refletindo, segurando um crânio humano. O texto ecoa o pensamento de Nietzsche: “Ergam suas cabeças, vocês não foram feitos para passar sua existência fitando sarjetas, lama e atoleiro... ergam os olhos e vejam aquilo que assombrava os sonhos e lendas dos homens, desde a primeira vez em que surgimos das florestas e desejamos saber o que poderia vier naquelas distantes colinas azuis, naquelas longínquas montanhas... Oh! Terra, erga seus olhos!”. filosofia especial | 81

FIE_72-81_NietPop.indd 81

02/08/2010 11:22:30


Religião

Reflexões de um anticristo

P

Com a mira apontada principalmente para o cristianismo, e a civilização fundada em sua tradição, Nietzsche tornou-se um dos filósofos fundamentais quando o assunto é crítica à religião.

ensa na biblioteca de um ateu militante e leitor devotado. Agora, imagine quais seriam os títulos indispensáveis – as “leituras de formação”. Charles Darwin (1809-1882) e seu A origem das espécies (1859) não pode faltar. Se o sujeito tiver orientação política à esquerda, provavelmente vai enfileirar nas suas prateleiras as obras completas de Karl Marx (1818-1883), Lênin (1870-1924), Antonio Gramsci (1891-1937) e outros da estirpe. Mas o ateísmo, ou melhor, a crítica contundente à religião e suas instituições, não é uma exclusividade dos marxistas e existem dezenas de autores à direita, inclassificáveis, agnósticos, céticos e ateus. Vamos, então, abrir o leque de opções. O agnosticismo do filósofo romeno Emil Cioran (1911-1995), por exemplo. Esse comporia bem a biblioteca ideal. Assim como as obras do médico neurologista e “pai da psicanálise” Sigmund Freud (1856-1939) e as reflexões do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984). Nomes respeitáveis. E os títulos recentes? Não são poucos, não. E todos tornaram-se best-sellers de alcance global. A demanda por livros questionadores está em alta. A começar pela figura emblemática do cientista Richard Dawkins, festejado professor da Universidade Oxford, autor de obras como deus, um delírio (Companhia das Letras, 2006) e incansável divulgador do darwinismo. Além dele, temos os filósofos e escritores polemistas. Christopher Hitchens (Deus não é grande, Ediouro, 2007), escritor e colunista de várias publicações pelo mundo; o filósofo Sam Harris e seus agitadores Carta a uma nação cristã (Companhia das Letras, 2007) e A morte da fé (Companhia das Letras, 2009); e, Last but not least, o filósofo francês Michel Onfray que escreveu o Tratado de ateologia (WMF Martins Fontes, 2007).

82 | filosofia especial

FIE_82-87_NietReligiao.indd 82

02/08/2010 10:39:02


Shutterstock

filosofia especial | 83

FIE_82-87_NietReligiao.indd 83

02/08/2010 10:39:04


Religião

Charles Darwin Nascido em Shewsbury, na Inglaterra, no ano de 1809, o cientista e naturalista sacudiu as bases da ciência ao propor a paradigmática teoria da evolução e da seleção natural. Esteve presente, durante quatro anos a partir de 1831, em uma expedição científica pela América do Sul a bordo do navio Beagle. Sua obra-prima, A origem das espécies (1859), é um dos livros mais importantes da história.

Ele (Nietzsche) conhecia o cristianismo na intimidade, pois fora educado baseado nesses preceitos. Nietzsche leu, releu, anotou, analisou e esmiuçou a Bíblia, além dos textos dos ideólogos protestantes, com ênfase na forma literária e conteúdo filosóficodogmático desses escritos. Não era, portanto, um pensador que lançava pedras a esmo. Ele sabia quais eram os pontos sensíveis do cristianismo As reclamações logo surgirão. Nossa lista está, obviamente, incompleta. Deixou muita gente importante de fora, embora esta biblioteca imaginária seja composta por títulos mais evidentes, sem explorar nada além do conhecido. Na realidade, esta biblioteca foi montada para acomodar um nome em especial e obrigatório. Aquele que decretou: “Deus está morto”. Sim, ele. O filólogo-filósofo de Röcken, Friedrich Wilhelm Nietzsche, capaz de proclamar, com todas as letras, ser um

ateu por “instinto”. Um ateu nascido em berço protestante que, ao fim da vida, manteve uma impressionante obsessão pela imagem da Cruficação. Nietzsche escreveu um pelotão de livros nos quais, com maior ou menor intensidade, atirou contra as religiões, sobretudo aquelas de tradição oriunda do cristianismo. Com seu estilo bíblico-profético-poético, Assim falou Zaratustra esmigalhava com os clichês religiosos; A Gaia Ciência, Genealogia da Moral e Ecce Homo seguem pelo mesmo caminho. E, para coroar a campanha anti-cristã nietzschiana, um livro de título explícito: O anticristo – ensaio de uma crítica ao Cristianismo. Nesse conjunto de obras acima elencado, o filósofo demonstrava que aniquilar com as doutrinas e rituais não seria suficiente; era necessário superar a ética e as civilizações fundadas na religiosidade, sobretudo nos valores da cristandade. Sem deixar de lado suas convicções, Nietzsche alivia um bocado a barra para outras tradições como o Budismo e o Islamismo. A primeira menção à máxima “Deus está morto” encontra-se em A gaia ciência, e é burilada em ensaios e obras posteriores. Mas circunscrever seu pensamento a um ateísmo militante é empobrecer e reduzi-lo a gritos de guerra. Nietzsche, homem e pensador, teve uma relação muito mais complexa e ampla com a religiosidade. Ele, a propósito, não amparava seu argumento nas teorias científicas em voga na segunda metade do século XIX e nos desdobramentos do evolucionismo darwinista. O filósofo alemão sempre tivera um pé atrás com o racionalismo científico, e tinha lá suas razões. A febre evolucionista era tão forte, tão alta, que surgiram pérolas como o darwinismo social, equívoco extirpado pelas ciências sociais do século XX. O que realmente consternava Nietzsche era a renúncia ao corpo e a vida difundida pelos dogmas cristãos. Separar Apolo e Dionísio daquela maneira era inconcebível. Cristianismo por dentro Como sabemos, Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em uma família de pastores luteranos. Na juventude, às vésperas de entrar para a universidade, chegou a cogitar seriamente dedicar-se ao estudo de Teologia. Ele conhecia o cristianismo na intimidade, pois fora educado baseado nesses preceitos. Nietzsche leu, releu, anotou, analisou e esmiuçou a Bíblia, além dos textos dos ideólogos protestantes, com ênfase na forma literária e conteúdo filosóficodogmático desses escritos. Não era, portanto, um pensador que lançava pedras a esmo. Ele sabia quais eram os pontos sensíveis do cristianismo. Havia um aspecto de angústia existencial nessa cruzada nietzschiana. Se, nas páginas de Ecce Homo ou O anticristo, ele estava

84 | filosofia especial

FIE_82-87_NietReligiao.indd 84

02/08/2010 10:39:04


convicto dos malefícios da moral cristã, e acreditava ser “Deus, uma resposta rude”, antes disso passou por dilemas, aflições e questionamentos. Por rupturas nada fáceis. O passado exercia todo o seu peso, sua carga de tradição e costumes, mas Nietz­ sche não esmoreceu e, ano após ano, firmava a convicção de que a “transvaloração/ transmutação de valores” passava pela queda da hegemonia do cristianismo no Ocidente. Nessa batalha inglória, o filósofo sentia-se claramente em minoria. Quase solitário. Escreveu em O anticristo: “Ponho à parte uns poucos céticos, os tipos decentes na história da Filosofia: o resto não possui a menor noção de integridade intelectual (...)Ao final, com “alemã” inocência, Kant tentou dar um caráter científico a essa forma de corrupção, essa falta de consciência intelec­tual, chamando-a de ‘razão prática’”. Fiel ao seu estilo demolidor, não poupou nem Immanuel Kant (1724-1804), uma “vaca sagrada” da filosofia alemã. E prosseguiu com o massacre: “quando um homem sente que possui uma missão divina, digamos, melhorar, salvar ou libertar a humanidade — quando um homem sente uma faísca divina em seu coração e acredita ser o porta-voz de im-

perativos supranaturais — quando tal missão o inflama, é simplesmente natural que ele se coloque acima dos níveis de julgamento meramente racionais. Sente a si próprio como santificado por essa missão, sente que faz parte de uma ordem superior!” O Kant moralista desagradava a Nietzsche. Muito. E Nietzsche não o perdoava. Não perdoava a Kant nem ao ex-amigo Richard Wagner, e suas composições meio nacionalistas, meio cristãs. E embora no auge da loucura, no fim da vida, tenha se visto como um “crucificado”, tal qual Jesus Cristo, o que poderia numa determinada leitura aproximá-lo de um resquício cristão, Nietzsche foi ao ataque em seus livros. E até propôs o esboço de uma “Lei contra o Cristianismo”, um texto atribuído ao filósofo e incluído em algumas edições de O anticristo. Os artigos são pesados. Chama o calendário cristão de “falso calendário”, o cristianismo de “vício”, arrebenta com padres e locais sagrados da tradição cristã. Palavras como “Deus”, na sua nova ordem pós-cristã, soariam como insultos. E assim vai (veja no box “Lei contra o Cristianismo”).

Richard Dawkins Clinton Richard Dawkins é natural de Nairobi, capital do Quênia. Etólogo e biólogo evolutivo, publicou livros como O gene egoísta (1976 – 2ª ed. 1989), Deus, um delírio (2006) e O maior espetáculo da Terra – as evidências da evolução (2009). Suas conferências e palestras são concorridas. Recentemente, veioao Brasil para participar da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip).

Petardos nietzschianos contra o Cristianismo “Não devemos enfeitar nem embelezar o cristianismo: ele travou uma guerra de morte contra este tipo de homem superior, anatematizou todos os instintos mais profundos desse tipo, destilou seus conceitos de mal e de maldade personificada a partir desses instintos — o homem forte como um réprobo, como “degredado entre os homens”. O cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo e fracassado; forjou seu ideal a partir da oposição a todos os instintos de preservação da vida saudável; corrompeu até mesmo as faculdades daquelas naturezas intelectualmente mais vigorosas, ensinando que os valores intelectuais elevados são apenas pecados, descaminhos, tentações. O exemplo mais lamentável: o corrompimento de Pascal, o qual acreditava que seu intelecto havia sido destruído pelo pecado original, quando na verdade tinha sido destruído pelo cristianismo!” No cristianismo, nem a moral nem a religião têm qualquer ponto de contado com a realidade. São oferecidas causas puramente imaginárias (“Deus”, “alma”, “eu”, “espírito”, “livre arbítrio” — ou mesmo o “não-livre”) e efeitos puramente imaginários (“pecado”, “salvação”, “graça”, “punição”, “remissão dos pecados”). Um intercurso entre seres imaginários (“Deus”, “espíritos”, “almas”); uma história natural imaginária (antropocêntrica; uma negação total do conceito de causas naturais); uma psicologia imaginária (mal-entendidos sobre si, interpretações equivocadas de sentimentos gerais agradáveis ou desagradáveis, por exemplo, os estados donervus sympathicus com a ajuda da linguagem simbólica da idiossincrasia moral-religiosa — “arrependimento”, “peso na consciência”, “tentação do demônio”, “a presença de Deus”); uma teleologia imaginária (o “reino de Deus”, “o juízo final”, a “vida eterna”). — Esse mundo puramente fictício, com muita desvantagem, se distingue do mundo dos sonhos; o último ao menos reflete a realidade, enquanto aquele falsifica, desvaloriza e nega a realidade. (O anticristo: Ensaio de uma crítica ao Cristianismo, tradução de André Dispore Cancian. Os trechos referidos estão disponíveis em http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/anticristo.html )

filosofia especial | 85

FIE_82-87_NietReligiao.indd 85

02/08/2010 10:39:04


Religião

Darwinismo social Em linhas gerais, o darwinismo (ou evolucionismo) social foi uma tentativa, por parte de filósofos e cientistas sociais do século XIX e início do século XX, de utilizarem a teoria da evolução para descrever as sociedades humanas. Muitos atribuem ao próprio Darwin essa aplicação, embora o grande teórico dessa tese tenha sido o filósofo Herbert Spencer (1820-1903).

O luteranismo também não estava à salvo, não. Era um dos pontos centrais de seus disparos. Para Nietz­ sche, Martin Luther, Jean Calvin, e os reformistas fizeram uma revolução pela metade, ou melhor, uma falsa revolução. “Em todas as épocas — por exemplo, no caso de Lutero — “fé” nunca foi mais que uma capa, um pretexto, uma cortina por detrás da qual os instintos faziam seu jogo”. A aparência moderna e popular da reforma protestante, que descentralizou o monopólio da fé outrora pertencente à Igreja Católica e a figura do Sumo Pontífice, não resistiria ao tempo. E Nietzsche arremata: “Com isto, concluo e pronuncio meu julgamento: eu condeno o cristianismo; lanço contra a Igreja cristã a mais terrível acusação que um acusador já teve em sua boca. Para mim ,ela é a maior corrupção imaginável; busca perpetrar a última, a pior espécie de corrupção. A Igreja cristã não deixou nada intocado pela sua depravação; transformou todo valor em indignidade.” Outras religiões “Se o islamismo despreza o cristianismo, tem mil razões para fazê-lo: o islamismo pressupõe homens...” A frase bombástica, uma entre tantas outras de Nietz­sche, deixa transparecer a ideia de que ele baixava a guarda para outras religiões. Impressão errada – ele manteve-se firme à convicção antireligiosa. Mas é inegável que Nietzsche via na civilização organizada de acordo com os preceitos islamicos componentes mais próximos do seu ideal de mundo – no box “Nietzsche e o Islâmismo”, um trecho em que lança elogios à “civilização islâmica” e à “maravilhosa cultura dos mouros”. Outra religião destacada pelo pensamento nietzschiano – esta, fora do eixo da trinca monoteísta judaísmo, islamismo e cristianismo – é o budismo. Nietzsche a situa entre as religiões da decadência, mas adverte que “O budismo é cem vezes mais rea­lista que o cristianismo”. A religião fundada na Índia há mais de 2.500 anos tem princípios que se coadunam ao pensamento nietzschiano. O budismo procura englobar suas práticas e sua moral à natureza e à vida. Fruto de séculos de “especulação filosófica”, aponta Nietzsche, “o Budismo é a única religião genuinamente positiva que pode ser encontrada na História”. Nietzsche aproveita a deixa budista para fustigar os cristãos. Utiliza-se da doutrina do budismo para dizer que só “os mais rebaixados buscam salvação” por meio da liturgia cristã. Chega até a resvalar, seja por conceitos de sua época seja por preconceito

seu, em teorias de superioridade evolutiva. Escorrega feio o filósofo ao propor que “o budismo é uma religião para pessoas em um estágio mais adiantado de desenvolvimento”. Nem o budista mais desatento, mais relaxado em seus estudos, afirmaria-se superior. Não faz parte da natureza, nem da doutrina preconizada por Siddharta Gautama.

Nietzsche sobre o Islamismo Em O anticristo, Friedrich Nietzsche disparou sua metralhadora verbal contra várias religiões, embora tenha poupado fogo para algumas delas. O Islamismo, por exemplo. Nietzsche não analisa a religiosidade dos muçulmanos em si, mas deita elogios à “civilização islâmica”, que faria “o século XIX” do Ocidente cristão “parecer muito pobre”. Confira: “O cristianismo nos fez perder todos os frutos da civilização antiga, e mais tarde nos fez perder os frutos da civilização islâmica. A maravilhosa cultura dos mouros na Espanha, que era fundamentalmente mais próxima aos nossos sentidos e gostos que Roma e Grécia, foi pisoteada - não digo por que tipo de pés. Por quê? Porque devia sua origem aos instintos nobres e viris – porque dizia sim à vida, e à rara e refinada luxuosidade da vida mourisca! Mais tarde, os cruzados combateram algo ante o qual seria mais apropriado que rastejassem – uma civilização que faria mesmo o nosso século XIX parecer muito pobre e “atrasado”. - O que queriam, obviamente, era saquear: o Oriente era rico...Coloquemos à parte os preconceitos! As Cruzadas: piratarias em grande escala, nada mais!”. (O anticristo: Ensaio de uma crítica ao Cristianismo, tradução de André Dispore Cancian. O texto referido está disponível em http://www.ebooksbrasil.org/ eLibris/anticristo.html )

86 | filosofia especial

FIE_82-87_NietReligiao.indd 86

02/08/2010 10:39:04


Nietzsche, homem e pensador, teve uma relação muito mais complexa e ampla com a religiosidade. Ele, a propósito, não amparava seu argumento nas teorias científicas em voga na segunda metade do século XIX e nos desdobramentos do evolucionismo darwinista. O filósofo alemão sempre tivera um pé atrás com o racionalismo científico, e tinha lá suas razões

Jean Calvin O teólogo francês Jean Calvin (15091564), o João Calvino, é um dos personagens principais na consoli­ dação da Reforma Protestante. A variação prostestante difundida pelo teólogo francês ficou conhecida como calvinismo. O presbiterianismo é baseado nas ideias de Jean Calvin. Uma das principais instituições de ensino instaladas no Brasil tem origem presbiteriana: a Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Lei contra o Cristianismo Datada do dia da Salvação: primeiro dia do ano Um (em 30 de Setembro de 1888, pelo falso calendário). Guerra de morte contra o vício: o vício é o cristianismo Artigo Primeiro – Qualquer espécie de antinatureza é vício. O tipo de homem mais vicioso é o padre: ele ensina a antinatureza. Contra o padre não há razões: há cadeia. Artigo Segundo – Qualquer tipo de colaboração a um ofício divino é um atentado contra a moral pública. Seremos mais ríspidos com protestantes que com católicos, e mais ríspidos com os protestantes liberais que com os ortodoxos. Quanto mais próximo se está da ciência, maior o crime de ser cristão. Consequentemente, o maior dos criminosos é o filósofo. Artigo Terceiro – O local amaldiçoado onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco 5 deve ser demolido e transformado no lugar mais infame da Terra, constituindo motivo de pavor para a posteridade. Lá devem ser criadas cobras venenosas. Artigo Quarto – Pregar a castidade é uma incitação pública à antinatureza. Qualquer desprezo à vida sexual, qualquer tentativa de maculá-la através do conceito de “impureza” é o maior pecado contra o Espírito Santo da Vida. Artigo Quinto – Comer na mesma mesa que um padre é proibido: quem o fizer será excomungado da sociedade honesta. O padre é o nosso chandala 6 – ele será proscrito, lhe deixaremos morrer de fome, jogá-lo-emos em qualquer espécie de deserto. Artigo Sexto – A história “sagrada” será chamada pelo nome que merece: história maldita; as palavras “Deus”, “salvador”, “redentor”, “santo” serão usadas como insultos, como alcunhas para criminosos. Artigo Sétimo – O resto nasce a partir daqui. Fonte: Wikipédia.org

filosofia especial | 87

FIE_82-87_NietReligiao.indd 87

02/08/2010 10:39:04


Influências

por Daniel Rodrigues Aurélio*

Afinidades (e discórdias) eletivas

A

Levando ao extremo a sua dialética do amor e ódio, Nietzsche interagiu com a obra de grandes nomes do pensamento e das artes, como Wagner, Schopenhauer e Sócrates

mor e ódio. Admiração sincera e crítica feroz. Assim se define a relação de Friedrich Nietzsche com suas influências e contrapontos notórios: o compositor Richard Wagner, os poetas românticos, Sócrates, Platão, Arthur Schopenhauer, Immanuel Kant, o niilismo dos escritores russos. Leitor abnegado, disciplinado, curioso e criativo, ele dialogava intensamente com suas fontes de estudo, e mesmo aqueles merecedores de suas mais contundentes reprovações, como Sócrates ou Kant, tinham a genialidade reconhecida pelo filósofo de Röcken. E ele não fazia concessões. Richard Wagner, por exemplo, foi idolatrado para em seguida ser refutado pela filosofia nietzschiana. Desse vasto catálogo de pensadores e artistas, todos elevados à categoria de cânones ocidentais, apenas uma tradição manteve-se em alta com Nietzsche ao longo de sua existência: a filosofia e a cultura da “autêntica” Grécia antiga. Aquela Grécia pré-socrática. Aquela do homem trágico. Aquela do helenismo em estado puro: Dionísio, tragédia, ditirambo (um tipo de canto coral). Aquela que Nietzsche clamava pelo resgate. A despeito de ter frequentado instituições educacionais de ponta como aluno (Colégio Real de Pforta e as universidades de Bonn e Lepzig) e professor (Universidade da Basiléia), Friedrich Nietzsche não era um acadêmico na acepção do termo. Ele não era um autor de teses de doutoramento sistemáticas, sob orientação de um professor experiente, tampouco deixou-se levar pelos modismos teóricos e ideológicos do período (positivismo, darwinismo). Sua carreira acadêmica fora abreviada por graves problemas de saúde, mas sua personalidade arredia aos limites da burocracia não se casava ao cotidiano universitário. Nietzsche, por sinal, manifestou em ensaios o seu apreço pelos autodidatas e foi um opositor do sistema de ensino tal qual estava estabelecido no Reino da Prússia e, depois, no Império Alemão.

* Daniel Rodrigues Aurélio é bacharel em Sociologia e Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e pós-graduado em Globalização e Cultura pela Escola Pós-graduada de Ciências Sociais. É autor de Dossiê Nietzsche (Universo dos Livros, 2009) e editorassistente das revistas Filosofia Especial Nietzsche e Sociologia Ciência & Vida.

88 | filosofia especial

FIE_88-93_NietPensaCont.indd 88

02/08/2010 10:36:53


filosofia especial | 89

FIE_88-93_NietPensaCont.indd 89

02/08/2010 10:36:53


Influências

Poetas românticos O romantismo foi um movimento de caráter político, intelectual e sobretudo artístico surgido entre o final do século XVIII e início do XIX. Caracterizouse por uma visão de mundo cética ao racionalismo, escapista e utópica. Na literatura, encontrou em Os sofrimentos do jovem Werther (1774), de Goethe, uma de suas faces.

Quando se fala em “influências” ou, em um termo correlato, “leituras de formação” de Nietzsche, o foco não fica restrito às obras celebradas por Nietzsche. Devem ser incluídos também os autores e movimentos estéticos e intelectuais por ele analisados. Afinal, uma crítica com o grau de sofisticação empregada por Nietzsche é precedida de leituras exaustivas. O disparo resumido em um aforismo ou capítulo de tintas fortes tem sua origem em um conjunto de leituras apurado, medido, comparado, desconstruído. É simplesmente impossível escrever um obra do porte de O anticristo apenas com “achismos” e suposições. Nietzsche mergulou fundo no oceano da Bíblia, nas bases da moral cristã, e para lá emergir com uma braçada de contradições e fragilidades expostas nas páginas das escrituras sagradas. Friedrich Nietzsche, filósofo, pode ter errado em suas análises; pode ter se contradito em um mesmo livro; pode ter exagerado nos adjetivos; mas jamais produziu seus textos pelo caminho mais curto, vazio e preguiçoso – o da crítica pela crítica. Homem Trágico Em uma analogia – meio grosseira – com o conceito do sociólogo alemão Max Weber, o “homem trágico” da boa e velha Grécia seria o “tipo ideal” nietzschiano. E por “boa e velha Grécia” entenda-se o nascedouro mesmo do Helenismo, a idade trágica dos gregos (como Nietzsche intitulou um de seus livros), o Helenismo da tragédia, da poética, do ditirambo. De Dionísio saudado e posicionado em seu lugar devido. Uma época de ouro em que havia o equilíbrio entre o apolíneo e o dionisíaco, época examinada por Nietzsche em seu O nascimento da tragédia no espírito da música (1872), reeditado, com acréscimo, em 1886, sob o título de o Nascimento da tragédia ou o helenismo ou pessimismo. Nietzsche era ávido por cultura helênica. Leu os grandes filósofos, dramaturgos e historiadores gregos: Protágoras, Ésquilo, Homero, Platão, Sófocles, Aristóteles, Sócrates. Sua opção pela Filologia Clássica provavelmente teve o intuito de investigar essa tradição pelo ângulo da documentação escrita. Aliás, o pensameno nietzschiano era tudo, menos covarde, pois ousou tentar balançar do pedestal dois dos três grandes gregos da Filosofia Ocidental: Platão e Sócrates. Acusou-os de ter destruído o homem trágico, ao propor uma concepção antropológica e filosófica baseada na separação entre Bem e Mal. E essa distinção resultaria nos pressupostos do cristianismo, no processo civilizador tal como ele se sucedeu: com escassez de Dionísio e abundância de Apolo. E os dois mestres da filosofia, para Nietzsche, desviavam-se da verdadeira cultura grega. Era quase uma acusação de

Amor e ódio. Admiração sincera e crítica feroz. Assim se define a relação de Friedrich Nietzsche com suas influências e contrapontos notórios: o compositor Richard Wagner, os poetas românticos, Sócrates, Platão, Arthur Schopenhauer, Immanuel Kant, o niilismo dos escritores russos. Leitor abnegado, disciplinado, curioso e criativo, ele dialogava intensamente com suas fontes de estudo assassinato do helenismo, embora em momento algum Nietzsche tenha negado a grandeza de ambos. Era assim que funcionava a dialética nietzschiana. Schopenhauer e o Pessimismo Friedrich Nietzsche introduziu-se à obra do filósofo Arthur Schopenhauer, um filho de comerciantes nascido em Danzig em 1788, a partir de duas leituras: a sua

90 | filosofia especial

FIE_88-93_NietPensaCont.indd 90

02/08/2010 10:36:53


o filósofo Arthur Schopenhauer

própria, é claro, e por intermédio da interpretação de Richard Wagner, admirador confessor do livro O mundo como vontade e representação (1819), talvez a obra mais famosa de Schopenhauer. Arthur Schopenhauer não é apenas o sujeito com cabelo a moda Wolverine das sátiras em redes sociais na internet. Sua obra é uma das mais influentes da história moderna – e não apenas filósofos beneficiaram-se de seus escritos. Músicos (Wagner), dramaturgos (Samuel Beckett), romancistas (Machado de Assis) e, sem dúvida, filósofos (Henri Bergson e Ludwig Wittgenstein) tiveram no pensamento schopenhaueriano uma fonte de inspiração e reflexão. Por uma série de proximidades de estilo e pensamento, Nietzsche logo tornou-se um leitor de Schopenhauer, por sua vez um “discípulo” de Kant. A filosofia em língua alemã vivia seu auge, com direito a polêmicas. Schopenhauer batia firme no modelo da filosofia da história de Hegel, e nesse duelo Nietzsche apoiaria o “filósofo do pessimismo”. Segundo consta, a briga entre Schopenhauer e Hegel teve episódios de baixarias e ironias. Ambos disputavam a matrícula de alunos nos cursos que ministravam na Universidade de Berlim. Com maior experiência e prestígio, Hegel levava muita vantagem.

Desse vasto catálogo de pensadores e artistas, todos elevados à categoria de cânones ocidentais, apenas uma tradição manteve-se em alta com Nietzsche ao longo de sua existência: a filosofia e a cultura da “autêntica” Grécia antiga. Aquela Grécia présocrática. Aquela do homem trágico. Aquela do helenismo em estado puro: Dionísio, tragédia, ditirambo (um tipo de canto coral). Aquela que Nietzsche clamava pelo resgate filosofia especial | 91

FIE_88-93_NietPensaCont.indd 91

02/08/2010 10:36:54


Influências

Commons

Max Weber Autor clássico da sociologia, Max Weber (1864-1920) notabilizou-se também por sua contribuição para o direito, a história e a economia. Foi professor nas universidades de Freiburg e Heidelberg. Suas principais obras são A ética protestante e o espírito do capitalismo (190405) e Economia e sociedade, estes com ensaios publicados postumamente em 1922.

Nietzsche em tempos de Marx Quando Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu, no ano de 1844, o também alemão Karl Marx tinha cerca de 26 anos, era um jovem recémcasado e atuava ativamente como jornalista e em organizações militantes. Seus textos dessa época seriam reunidos sob o título de Manuscritos Econômico-Filosóficos.Em 1870, quando Nietzsche atingira os mesmos 26 anos, Marx, 52 anos, já incendiava a política da Europa com o Manifesto do Partido Comunista de 1848, em co-autoria com Friedrich Engels (1820-1895), e possuia uma obra teórica sólida nos campos da economia, da filosofia e da história, com destaque para

O 18 Brumário de Luis Bonaparte, além do primeiro tomo do que para muitos é sua magnum opus: O capital. Karl Marx e Friedrich Nietzsche. Dois alemães. Dois dos pensadores mais lidos e influentes do mundo moderno. Contemporâneos, apesar da razoável diferença de idade. Haveria alguma ligação teórica possível entre eles? Uma comparação entre as respectivas obras apontaria convergências ou distanciamentos? Vistas a partir do núcleo, e sem a minuciosa lupa da epistemólogos, as teses marxistas e nietzschianas são praticamente antagônicas. Nietzsche advogava a tese da distinção, da afirmação do vida e do indivíduo, do übermensch. Marx propunha um movimento coletivo, proletário, comunista. Marx buscava a teoria e praxis, integrando grupos intelectuais e políticos e participando dos debates e atividades políticas, seja como articulista de jornais, seja no contato próximo com a “classe trabalhadora”. Um contraponto ao progressivo isolamento de Nietzsche. Um ponto de discordância sobre um acontecimento da História da França reflete bem esse antagonismo entre os grandes autores: a Comuna de Paris, de 1871. O levante popular, que resistiu cerca de três meses, foi festejado por Karl Marx como digno e genuíno movimento proletário de autogestão, enquanto para Nietzsche a Comuna não passou de uma balbúrdia de bárbaros inconsequentes. Mas eles não foram contrários em tudo. Em alguns assuntos, não eram como água e óleo. Ainda que com argumentos completamente diferentes, opostos, Karl Marx e Friedrich Nietzsche eram propositores de transformações radicais e acusaram a religião como um dos principais entraves para o desenvolvimento da humanidade. “O comunismo quer abolir estas verdades eternas, quer abolir a religião e a moral”, anotou Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista. Nietzsche rechaçaria o comunismo, mas aceitaria de muitíssimo bom grado a abolição das religiões.

92 | filosofia especial

FIE_88-93_NietPensaCont.indd 92

02/08/2010 10:36:55


O lema “Viver é sofrer” representaria o sumo do pessimismo schopenhaueriano. Esse será o cerne do debate para Nietzsche. Porém, antes é preciso sublinhar uma característica que os unia. Os dois eram estetas, valorizam a música e faziam um culto ao gênio (uma marca remota do romantismo?). Isso deve ter operado em favor da simpatia nietzschiana. Mas existia um ponto de discordia, quer dizer, de ressalvas de Nietzsche. Ele se situa no conceito de vontade. Para Schopenhauer, a vontade é uma representação da existência, é algo externa à vida, enquanto os homens seguem amarrados ao sofrimento. A arte do “gênio” serve como um calmante às dores da existência. Com sua concepção de “vontade de potência”, Friedrich Nietzsche não pensaria em algo assim. A força transformadora da vontade é uma realização para o aqui e o agora. Seja como for, a centralidade da “vontade” na obra dos dois filósofos é um aspecto fundamental. Esse diálogo será produtivo para a obra nietzschiana, na medida em que reparos não significam aversão ou desqualificação. Nietzsche e a Literatura Além da poética e da dramaturgia da “idade trágica” da Grécia, Nietzsche cultivou outras paixões literárias. Os franceses Voltaire e Stendhal estiveram, em diferentes momentos, entre as preferências do filósofo alemão. Mas Nietzsche teve duas opções literárias, uma na juventude, e a outra na maturidade, e que o auxiliaram a crescer como filósofo e escritor: pela ordem, o romantismo e a literatura russa. O românticos, como Schiller e Goethe, eram uma febre para os jovens da época de Nietzsche. Era a expressão estética do momento e Nietzsche não escapou a ela. O filósofo, à época ainda um aspirante à filologia, apreciava especialmente o poeta britânico Lord Byron. Mas, nietzschianamente, com o passar dos anos houve um distânciamento com o movimento. Já a sua relação com a literatura russa, tematizada em matéria nesta revista, tem como principal elemento a questão do niilismo. Os romancistas russos exibiam uma concepção de mundo ceticista, e caíram no gosto de Nietzsche. Destaque para a sintonia com Fiódor Dostoiévski, autor de Crime e Castigo e Os irmãos Karamázov. Mente aberta Ao contrário do que sugere a suposta soberba manifestada em alguns de seus livros, Friedrich Nietzsche foi uma antena aberta pronta para captar os sinais da boa filosofia, da boa arte. Era um pensador com alma – e talento – de artista. E mesmo com os “adversários” Niet-

zsche dedicou-se com respeito. Não era do tipo “não li e não gostei”. Por essa razão, é possível incluir o pensamento socrático, platonico e kantiano no seu rol de influências. Porque a filosofia de Nietzsche era uma filosofia de combate, de diálogo, de aproximação e ruptura. E esse legado de leitura e crítica é tão vital quanto suas idéias, que decorrem justamente desse estilo, desse modo de pensar, dessa atitude filosófica.

Voltaire Nascido em Paris, o filósofo e escritor François-Marie Arouet, pseudônimo Voltaire (1694-1778) foi um dos expoentes do iluminismo. Irônico e satírico, publicou livros como Candido ou o Otimismo (1759) e o Dicionário Filosófico (1764).

Além da poética e da dramaturgia da “idade trágica” da Grécia, Nietzsche cultivou outras paixões literárias. Os franceses Voltaire e Stendhal estiveram, em diferentes momentos, entre as preferências do filósofo alemão. Mas Nietzsche teve duas opções literárias, uma na juventude, e a outra na maturidade, e que o auxiliaram a crescer como filósofo e escritor: pela ordem, o romantismo e a literatura russa

filosofia especial | 93

FIE_88-93_NietPensaCont.indd 93

02/08/2010 10:36:55


NIETZSTECA

Os principais livros de Friedrich Nietzsche O NASCIMENTO DA TRAGÉDIA NO ESPÍRITO DA MÚSICA Título Original: Die Gerbut der Tragödie aus dem Geist der Musik Ano de Produção: 1872 (reeditado, com novo título, em 1886) Lançado quando Nietzsche ainda era professor universitário na Suiça, O nascimento da tragédia é um ensaio de teoria estética, filosofia e história. A partir da tragédia grega, o filósofo faz um exame da civilização. Acrescido do prefácio “Ensaio de Autocrítica” e sob o título O nascimento da tragédia ou Helenismo e pessimismo o livro foi reeditado em 1886.

A FILOSOFIA NA ÉPOCA TRÁGICA DOS GREGOS Título Original: Philosophie in transgichen Zeitalter der Griechen Ano de Produção: 1872-73 Obra pouco conhecida, A filosofia na Época Trágica dos Gregos traz uma análise concisa das ideias e sistemas filosóficos da Grecia Antiga, dos pré-socráticos a Aristóteles, revelando o inesgotável interesse de Nietzsche em relação ao helenismo. Apesar de ser um livro “menor” em sua bibliografia, e quase ignorada pelos leitores, vale por registar os gostos e afinidades do autor.

CONSIDERAÇÕES EXTEMPORÂNEAS (CONSIDERAÇÕES INTEMPESTIVAS) Títulos Original: Unzeitgemässe Betrachtungen Ano de Publicação: 1873-76 As “Extemporâneas” ou “Intempestivas” são um conjunto de quatro ensaios produzidos entre 1873 e 1876 e reunidos em um só volume. São eles “David Strauss, o confessor e o escritor”, “Dos usos e desvantagens da História para a vida”, “Schopenhauer como educador” e “Richard Wagner em Bayreuth”. Também é comum vê-los editados separadamente.

HUMANO, DEMASIADO HUMANO – UM LIVRO PARA ESPÍRITOS LIVRES Título Original: Menschliches, Allzumenschliches, ein Buch für freie Geister Ano de Publicação: 1878 (Segunda Edição: 1886) O filósofo-poeta, enfim, desabrocha. Livra-se das amarras acadêmicas. Arte, Estado-nação, modernidade, razão científica, religião, sociedade, existência. Nada escapa às suas reflexões em forma de aforismos. O lirismo a serviço do pensamento. Uma segunda edição saiu em 1886, acrescida de Opiniões e Máximas e O viajante e sua sombra.

AURORA – REFLEXÕES SOBRE PRECEITOS MORAIS Título Original: Morgenröte – Gedanken über die moralischen Vorurteile Ano de Publicação: 1881 O ideal de um novo mundo, de uma nova moral. É esse o mote de Aurora. Não devemos confundir esse porvir como um modelo ou sistema social, tal como o preconizado pelos “filósofos da história” (Hegel e Marx). Para Nietzsche, trata-se de um encontro do homem com sua verdadeira essência, qual seja, a integração entre o apolíneo e o dionisíaco. 94 | filosofia especial

FIE_94-95_Nietzsteca.indd 94

02/08/2010 10:38:13


A GAIA CIÊNCIA Título Original: Die fröhliche Wissenschaft Ano de Publicação: 1882 (Segunda Edição: 1887) Poesia e experimentação. Ciência gaiata, lúdica, criativa. Nos mais de trezentos aforismos do livro, referências diretas e indiretas a “morte de Deus” e até ao Zaratustra, o protagonista de sua obra-prima. As páginas desta obra mostram um filósofo em pleno exercício de estilo e conteúdo. Um modelo do jeito nietzschiano de filosofar.

ASSIM FALAVA ZARATUSTRA – UM LIVRO PARA TODOS E PARA NINGUÉM Título Original: Also Sprach Zarathustra Ano de Publicação: 1885 Clássico dentre os clássicos de Friedrich Wilhelm Nietzsche, Assim falava [ou falou] Zaratustra é ousadia a cada parágrafo. Todos os principais conceitos de seu pensamento – seu projeto filosófico, por assim dizer – estão elencados nas passagens da obra. O estilo é biblico, poético, grandioso, pretensioso. Estariam os homens preparados para ouvir o mestre?

ALÉM DO BEM E DO MAL – PRELÚDIO A UMA FILOSOFIA DO FUTURO Título Original: Jenseits von Gut und Böse. Vorspiel einer Philosophie der Zukunft Ano de Publicação: 1886 Monográfico e dissertativo, o mais próximo possível do convencional, Nietzsche disparou contra as falácias da moral e da modernidade. Religião, ciência, nada fica de pé diante de sua postura crítica e de seu Übermensch ideal. A acusação de antissemita que pesa contra Nietzsche supostamente resulta de alguns trechos desta obra – por sinal uma das mais vendidas.

GENEALOGIA DA MORAL, UMA POLÊMICA Título Original: Zur Genealogie der Moral, eine Streitschrift Ano de Publicação: 1887 Argumentativo na linha de Além do bem e do mal, o livro A genealogia da moral é uma tentativa de sistematização (sistematização ao modo nietzschiano) dos fundamentos da moral do Ocidente. Há alguma poesia no estilo, mas a ênfase é em categorias analíticas e reconstituição histórica.

O ANTICRISTO – PRAGA CONTRA O CRISTIANISMO Título Original: Der Antichrist. Fluch auf das Christentum Ano de Produção: 1888 (publicado em 1895) Com fúria e energia, Nietzsche procura aniquilar o Cristianismo. Destruir em pedacinhos as religiões. O alvo é menos o Jesus Cristo “histórico” e mais os divulgadores do cristianismo. O filósofo não economiza em adjetivos e acusações. Em edições futuras da obra, será agregado um manuscrito atribuído a Nietzsche, “A Lei contra o Cristianismo”.

ECCE HOMO, DE COMO A GENTE SE TORNA O QUE A GENTE É Título Original: Ecce Homo, Wie man wird, was man ist Ano de Produção: 1888 (publicado em 1908) Ecce Homo! (Eis o homem!). É assim que Poncio Pilatos apresenta Jesus Cristo. Este é o título nada modesto da autobiografia de Friedrich Nietzsche, o “Dionísio Crucificado”. “Por que sou tão sábio” e “Por que sou tão inteligente” estão entre os títulos dos capítulos da obra. Na pena de qualquer autor, soaria arrogante. Na de Nietzsche, parece definir sua filosofia à perfeição. filosofia especial | 95

FIE_94-95_Nietzsteca.indd 95

02/08/2010 10:38:14


NIETZSTECA

Vida e obra de

Friedrich Nietzsche em livros

GiacÓia Explica Ao lado de Scarlett Zerbetto Marton, o filósofo Oswaldo Giacoia Jr, livre-docente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é uma das referências brasileiras quando o assunto é o pensamento nietzschiano. Neste pequeno livro da coleção “Folha Explica”, Giacóia Jr. apresenta de forma sucinta e objetiva a trajetória e principais ideias de Nietzsche. Giacóia mostra ainda que, para entender a sociedade moderna, é fundamental compreendermos o pensamento provocador, criativo e crítico do autor de obras como Além do bem e do mal. Título: Nietzsche - Folha Explica Autor: Oswaldo Giacóia Jr. Editora: Publifolha Coleção: Folha Explica Páginas: 92 Ano: 2000

Civilização e Cultura Baseado em um curso ministrado aos alunos da Universidade de São Paulo, Nietzsche - civilização e cultura é um livro de introdução ao pensamento nietzschiano. Doutor e livre-docente em Filosofia pela USP, com pósdoutorado pela École Normale Superieure de Paris, Carlos Alberto Ribeiro de Moura mostra quais são os focos principais de Nietzsche – a crítica à cultura e à civilização – em um texto preciso, límpido, sem contudo perder a consistência teórica. Título: Nietzsche – civilização e cultura Autor: Carlos Alberto Ribeiro de Moura Editora: WMF Martins Fontes Páginas: 320 Ano: 2005

Eterno Retorno e Psicanálise Doutor em Filosofia pela Universidade de Metz, localizada na França, Rogério Miranda de Almeida realiza uma interessante reflexão sobre a teoria psicanalítica da “compulsão à repetição” relacionando-a a um dos conceitos-chave da obra de Nietzsche: a ideia do Eterno Retorno. Almeida aproveita o gancho para problematizar a abordagem de Walter Kaufmann, Martin Heidegger e Gilles Deleuze sobre o tema. Há, pois, vários pontos de aproximação e distanciamento entre o pensamento nietzschiano e a obra de Sigmund Freud. Título: Nietzsche e Freud – O eterno retorno e compulsão à repetição Autor: Rogério Miranda de Almeida Editora: Loyola Coleção: Leituras Filosóficas Páginas: 240 Ano: 2005

96 | filosofia especial

FIE_96-97_Bibliografia.indd 96

02/08/2010 10:37:39


Política da Linguagem Conhecida por sua participação em programas da Rádio CBN (“Liberdade de Expressão”) e da TV Globo (“Ser ou não ser?”, exibido pelo Fantástico), a psicanalista, poeta e filósofa Viviane Mosé realiza, em sua tese de doutorado editada em livro, uma discussão sobre o processo de produção da linguagem, tendo sempre em vista a obra do filósofo alemão, com o objetivo de ressaltar a importância dos homens repensarem os seus signos de linguagem e comunicação. Título: Nietzsche e a grande política da linguagem Autor: Viviane Mosé Editora: Civilização Brasileira Páginas: 240 Ano: 2005

Nascimento da Tragédia Em O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (1872) – reeditada, em 1886, como O Nascimento da Tragédia, o helenismo ou pessimismo – Friedrich Nietzsche provoca impacto ao propor a oposição entre apolíneo e dionísio, outrora unidos, para explicar a “morte da tragédia” grega praticada pelo “socratismo”. Doutor em Filosofia, Roberto Machado reconstitui essa polêmica trazendo para o público brasileiro documentos e escritos da época. Título: Nietzsche e a polêmica sobre o Nascimento da Tragédia Organizador: Roberto Machado Editora: Jorge Zahar Coleção: Estéticas Páginas: 168 Ano: 2005

Para compreender Nietzsche A coleção Compreender, da Editora Vozes, traz uma série de livros de formato de bolso, mas generosos em números de páginas, sobre grandes filósofos e pensadores como Leibniz, Hume, Marx, Rousseau e Platão. O filósofo francês Jean Lefranc, por exemplo, é autor de dois volumes. Um sobre Arthur Schopenhauer, e este sobre Friedrich Nietzsche. Recomendado para aqueles que estão tomando contato com o pensamento nietzschiano. Título: Compreender Nietzsche Autor: Jean Lefranc Tradução: Lúcia M. Endlich Orth Editora: Vozes Coleção: Compreender Páginas: 328 Ano: 2005

Nietzsche Musical Quem já leu algum texto biográfico sobre Nietzsche, sabe do apreço que o filósofo tinha pela música. Sua intensa relação com o compositor Richard Wagner é uma das fontes para compreender a dimensão que a musicalidade tinha em sua vida. Isso, é claro, está fortemente presente no seu pensamento. O autor Fernando de Moraes Barros procura esclarecer esse vínculo entre a filosofia e a arte musical em Nietzsche. Acompanha CD de áudio. Título: O pensamento musical de Nietzsche Autor: Fernando de Moraes Barros Editora: Perspectiva Coleção: Signus Musica 9 Páginas: 187 Ano: 2007

Extravagâncias Nietzschianas Sob o marca do Grupo de Estudos Nietzsche, o livro Extravagâncias – ensaios sobre a filosofia de Nietzsche reune artigos e ensaios produzidos pela filósofa Scarlet Marton. Professora títular de Filosofia Contemporânea da USP, editora dos “Cadernos Nietzsche” e coordenadora da coleção Sendas & Veredas, Marton brinda os leitores com uma análise erudita do pensamento nietzschiano, fruto de décadas de pesquisa e ensino sobre a obra do filósofo alemão. Título: Extravagâncias – ensaios sobre a filosofia de Nietzsche Autora: Scarlett Marton Editora: Barcarolla e Discurso Editorial Coleção: Sendas & Veredas Páginas: 282 Ano: 2009

filosofia especial | 97

FIE_96-97_Bibliografia.indd 97

02/08/2010 10:37:40


NIETZSTECA

Pensador Mediterrâneo O período de Nietzsche na cidade italiana de Turim constitui uma época fundamental para a compreensão do seu pensamento. Mas este livro organizado pela filósofa Scarlett Marton, professora da Universidade de São Paulo e uma das fundadoras do Grupo de Estudos Nietzsche (GEN), parte de um ângulo diferente da relação Nietzsche-Itália: a recepção dos intelectuais e acadêmicos italianos à obra do autor de Genealogia da Moral e Ecce Homo. Os ensaios reunidos na obra da coleção Sendas & Veredas discutem os “pontos de inflexão” dessa relação. Título: Nietzsche, pensador mediterrâneo: a recepção italiana Organizadora: Scarlett Marton Editora: Unijui e Discurso Editorial Coleção: Sendas & Veredas Páginas: 304 Ano: 2009

Rebelde e Aristocrata Assinada pelo filósofo e professor italiano Domenico Losurdo, Nietzsche, o rebelde aristocrata: biografia intelectual e balanço crítico é uma obra de fôlego que procura realizar um minucioso perfil intelectual do filósofo alemão com base em uma análise crítica de seu legado para o pensamento filosófico. Segundo resenha de Giovanni Semeraro, professor de Filosofia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Losurdo “situa o estudo dos textos e das diversas fases do itinerário intelectual de Nietzsche no contexto do século XIX, um período histórico que ele domina como poucos”. Título: Nietzsche, o rebelde aristocrata Autor: Domenico Losurdo Tradução: Jaime A Clasen Editora: Revan Páginas: 1.108 Ano: 2009

Pensamento Inacabado? Além de trazer um balanço bem fundamentado sobre a filosofia de Friedrich Nietzsche, Nietzsche, do filósofo francês Jean Granier (cuja tradução é assinada por Denise Bottmann, responsável pelo blog “Não gosto de plágio”), tenta explicar os motivos pelos quais a obra do filósofo alemão se encaixa em teorias e ideologias por vezes controversas. A questão central é como debater uma obra incompleta e não raro deturpada e mutilada por terceiros? Título: Nietzsche Autor: Jean Granier Tradução: Denise Bottmann Editora: L&PM Coleção: L&PM Pocket Encyclopaedia Páginas: 128 Ano: 2009

Filósofo Apaixonado Os audiolivros tem se tornado uma ótima alternativa de conhecimento e diversão não só para deficientes visuais, como para aqueles que não dispõem do tempo necessário para concentrar-se nas páginas de um livro. O foco do audiolivro Nietzsche Apaixonado, de autoria do filósofo Paulo Ghiraldelli Jr. é a relação de “amor e ódio” que Nietzsche tinha com a obra de Sócrates. Ghiraldelli Jr., aliás, tem se caracterizado como um dos maiores divulgadores do saber filosófico no Brasil, valendo-se de todas as mídias: livros, revistas, redes sociais, blogs etc. Título: Nietzsche Apaixonado - audiolivro Autor: Paulo Ghiraldelli Jr. Editora: Universidade Falada Coleção: Série Filosofia Formato: MP3 Duração: 2h10min. Ano: 2010

98 | filosofia especial

FIE_96-97_Bibliografia.indd 98

02/08/2010 10:37:40


Filosofia Nietzsche