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A Tristeza do Barão (Os Cavalheiros III) Dama Beltrán Sinopse Dizem que o amor juvenil nunca se esquece, talvez porque é suficientemente puro e real. Depois de anos procurando Anaís Price, sonhando em têla de novo ao seu lado, Federith Cooper terá que se casar com lady Caroline, que leva o filho de ambos em seu ventre, assim pensa ele. Mas sua vida matrimonial é um inferno, sua esposa rejeita sua presença, sua ternura e inclusive sente repulsa por ele, o homem mais educado e respeitoso de Londres. Federith tenta aceitar a vida que lhe calhou, mas... durante quanto tempo poderá manter aquele comportamento frio e aristocrático que seus pais lhe impuseram desde menino, quando o amor de sua vida


reaparece anos depois? Um verdadeiro amor não desaparece com o tempo, e a promessa que fez de protegê-la, cuidá-la e amá-la, tampouco. Entre na apaixonada vida de Federith Cooper, futuro Barão de Sheiton e último cavalheiro desta série. Meu querido leitor (a) Aqui está o terceiro livro da série Os Cavalheiros. Espero que as palavras que se escondem nestas páginas revelem a vida que tanto esperávamos descobrir do último cavalheiro: Federith Cooper. Como nas anteriores novelas advirto-lhes que tudo o que vai ler a seguir é produto só e exclusivamente da minha imaginação. Esclarecido isto, espero que desfrutem da leitura. Atenciosamente, Dama Beltrán. Para Paola C. Álvarez com muito carinho. Obrigada por continuar ao meu lado e não render-se diante de minhas loucuras. «Sou um homem de palavra. Sempre fui e sempre serei. Prometi que cuidaria de você e, embora

tenha passado muito tempo, mantenho minha promessa». Federith Cooper. Prólogo Londres, 1855. Thowermet, residência de campo da família Cooper.


― Não pare! Asseguro-lhe que falta muito pouco ― a animou segurando-lhe a mão e puxando-a com cuidado. ― Não posso mais, Fed. Estou cansada. ― Tentou chamálo para pedir que diminuísse o passo. As suas pernas não eram tão compridas como as dele, nem tão pouco estava vestida com conforto. Mas Cooper não reparava em detalhes tão pequenos como esses. Se algo lhe interessava, se algo lhe emocionava, esquecia tudo aquilo que tinha ao seu redor e focava em alcançar seu objetivo. ― Desde quando é tão fraca? ― Perguntou fazendo-a parar e fixando seus azulados olhos nela. ― Não sou fraca ― resmungou zangada. ― Sabe disso… ― Então do que se queixa? ― Insistiu divertido. ― Queixo-me, Fed, porque acabo de escapar pela janela do meu quarto, porque me fez correr pelo campo, porque não me diz o que pretende e porque… ― É um segredo… ― interrompeu-a. ― Mas você adorará, prometo-lhe. Agarrou-a novamente, mas desta vez seus dedos enroscaram nos dela. Notou como aceitava seu atrevimento, pois não era apropriado que dois adolescentes tocassem nas mãos com tanta naturalidade. Tampouco era normal que aparecesse sob sua janela e atirasse algumas pedras nos vidros até que Anaís aparecesse. Não era normal que a incitasse a abandonar seu lar às dez horas, que a arrastasse por terrenos escuros, que caminhassem sozinhos, mas pensando bem, nada entre eles era normal. Para ambas as famílias eram crianças brincando, então não lhes davam atenção. Entretanto, os sentimentos dos jovens foram crescendo com o passar do tempo e a brincadeira passou a converter-se numa fase real de suas vidas. Federith assumia com entusiasmo seu papel de salvador e Anaís vivia feliz sob seus cuidados. Era tal a ânsia de protegê-la que nenhum conhecido, salvo seus pais, sabiam sobre a existência da moça.


Nem tinha contado ao seu melhor amigo, William Manners, o futuro duque de Rutland, que obviamente teria gargalhado depois de lhe confessar que, como um cão doméstico guardando o lar em que vive, ele também mostrava seus dentes quando Anaís estava ao seu lado. Aquilo que nasceu como apoio para uma menina medrosa transformou-se em algo que nem ele mesmo podia definir. A única coisa que entendia era que havia se tornado muito possessivo com a jovem e se sentia feliz, livre e afortunado em tê-la. ― Estamos quase chegando ― indicou ao notar como começava a ficar para trás novamente. ― Espero que esta corrida tenha servido para algo. Tenho o vestido manchado, os pés doloridos e meu penteado… ― resmungou. ― Olhe! ― Exclamou apontando com sua mão livre para o céu. Anaís ficou sem fala, não só pelo esforço que representou subir a montanha, mas também por ver a causa pela qual tinha decidido levá-la até ali. Era a primeira vez que a admirava tão formosa, embora de sua janela pudesse vê-la com claridade, naquele lugar parecia como se não existisse distância entre eles e a grandiosa lua. ― É magnífica! ― Disse Anaís com entusiasmo. ― Nunca me pareceu tão próxima, tão extraordinária, tão bela. ― Eu lhe disse ― comentou Cooper orgulhoso. ― Sabia que você adoraria. ― Poderia tocá-la se…? ― Deu uns passos à frente esticando seus braços para tocá-la. Entretanto esqueceu seu propósito ao notar como as mãos de Federith se agarravam à sua cintura. Assombrada por aquele terno contato, virou a cabeça para olhálo. ― Tome cuidado, Anaís. Você pode cair ― lhe advertiu. A moça apreciou o rubor que surgiu no rosto de seu acompanhante ao aventurarse a tocá-la. Embora sua única intenção fosse evitar uma queda, ruborizou-se


exageradamente por um inocente roçar. Retirou com rapidez as mãos de seu corpo, como se a pequena figura da jovem lhe queimasse. Anaís sorriu ao observar o assombro que mostrava na face. Jamais interpretaria um ato tão cândido como algo descarado ou impuro. Isso não era próprio de Federith. Seu Fed, como lhe chamava apesar de lhe insistir que não era uma maneira viril de referir-se a ele, era um moço honesto e decente. Jamais lhe faria mal, pelo contrário, tudo o que fazia era para beneficiá-la. Isso, de certo modo, prejudicou-a, visto que, quando ele estava por perto não prestava atenção aos perigos que a rodeavam. Em mais de uma ocasião, enquanto passeavam por algum caminho, tinha-lhe empurrado para um lado ou outro para que seus pés não ficassem apanhados nas enormes poças criadas pelas chuvas. Livrou-a, várias vezes, de ser atropelada por algum cocheiro imprudente. Até a salvou de ser golpeada por uma pedra que apareceu do céu sem mais nem menos. Naquele momento, depois de deduzir que a pedra bruta cairia sobre sua cabeça, ele a cobriu com seu próprio corpo e a pequena rocha, que parecia um projétil, chocou-se contra as magras costas masculinas. Por duas semanas o pobre Federith esteve queixando-se de uma dor terrível. Quando o escutava queixar-se, entre brincadeiras, equiparava seus lamentos com os que emitiam as damas hipocondríacas, aquelas que iam diariamente às águas termais para que estas aliviassem seus males. Mas um dia, cansado de suas alusões dolorosas, o jovem levantou a camisa e lhe mostrou o resultado que produziu o impacto da pequena pedra. Com lágrimas nos olhos e tremendo depois de descobrir o que escondia o tecido, Anaís decidiu tocar com a ponta de seus dedos aquela monstruosidade e acalmar a ferida com uma suave carícia. Entretanto, justo no momento que conseguiu apalpar a profunda ferida, as manchas que a rodeavam de cor púrpura, Federith soltou a camisa, a arrumou sob a calça e pôs distância entre eles. Aquela ferida consolidou o que já sabia ― nada mal lhe aconteceria se seu Fed permanecesse perto. Mas o que ocorreria depois do amanhecer, quando não se voltassem a ver? ― Sinto como se meu coração desejasse sair do peito ― falou em voz baixa para si, mas Federith sempre atento a tudo sobre Anaís, ouviu-a. ― Pela emoção da lua? É linda, sim. Nesta posição ―


comentou dirigindo um dedo para o satélite como se estivesse desenhando em um quadro ― pode-se ver umas manchas, mas na realidade dizem que são tons do sol… ― Não, Fed, meu coração não se sobressalta pela lua, mas sim por minha partida. ― Voltou-se para ele para encará-lo, por fim o assunto de que evitavam falar. Federith havia ficado tenso e manteve uma figura mais própria de um homem do que de um jovem mal barbeado. Colocou as mãos sobre as costas e começou a caminhar sobre o estreito atalho que havia no topo. ― Ainda não percebi essa decisão… ― respondeu com voz quebrada igual seu coração. Não tinham discutido o assunto para evitar causar danos, embora a partir do dia seguinte não tivesse outra opção. Anaís desapareceria de sua vida ao amanhecer e ele morreria de dor depois do nascer do sol. ― Meus pais dizem que é o melhor para a família. Já não podemos permanecer aqui durante mais tempo ― confessou com pouca força em sua voz. Teria saudades dele, sentiria saudades e, é claro, choraria cada dia por todas as lembranças que tinham construído naqueles cinco anos de amizade. Mas não tinha outra alternativa. Aquele era seu destino, aquela era sua vida: fugir de um lado a outro até que deixasse seus pais. Mas isso só aconteceria mediante o casamento. Anaís o contemplou em silêncio tentando averiguar o que acontecia em sua mente e, se não errava depois de tantos anos de amizade, estaria pensando na verdadeira razão daquela partida. Seus pais tinham dito que o único motivo pelo qual deixavam Londres tão precipitadamente era a saúde de lady Claudine, sua avó materna. Mas a verdade era outra. Na tranquilidade da noite os condes não puderam apaziguar as conversações iradas entre eles, as recriminações, os lamentos, a ira que sua mãe mostrava em cada grito dirigido ao seu marido percorria cada canto do lar. A culpa de tudo o que acontecesse no futuro seria de seu pai. O famoso conde de Kingleton tinha


perdido a fortuna que possuía, a riqueza que lhe proporcionou o título e o dote que recebeu ao casar-se foram dissolvidos. Seu vício ao jogo, à bebida e a manter custosas amantes lhe tinha levado à ruína e agora precisavam viver da caridade que lhe proporcionaria sua avó materna. Uma mulher que Anaís conheceu logo que nasceu, não se dignou a vêla de novo. Embora segundo sua própria mãe, era tão maligna como o próprio diabo. ― Gostaria de ter, ao menos, seis anos a mais. Possivelmente, dessa forma, não lhe obrigariam a partir com eles ― falou com pesar. ― Eles não me deixariam sob a tutela de ninguém e muito menos a sua ― desenhou em seu rosto um pequeno sorriso. Colocou as mãos nas costas como ele fazia e chutou uma pedra que encontrou no caminho. ― Teriam que acabar por concordar… ― resmungou franzindo a testa e convertendo as mãos que colocou sobre as costas em dois duros punhos. Anaís não tinha dúvidas de que o faria. Se ele tivesse a idade apropriada teria se dirigido até a sala da casa onde permaneceria seu pai com alguns copos e o teria enfrentado com sua típica eloquência e justiça até que seu progenitor aceitasse sua pretensão. Para seu bem, para protegê-la, para cuidála como tinha feito desde o momento em que ela o conheceu e lhe perguntou se havia monstros no bosque. ― Sabe se nesse bosque há monstros? ― Seus olhos verdes brilhavam na escuridão devido às lágrimas que retinha. Sua mãe lhe havia dito, em mais de uma ocasião, que as futuras damas não podiam chorar em público. Mas ela queria fazê-lo, posto que aquele jardim estava muito perto de uma alameda bastante assustadora e sentia pavor. ― Não. Porquê? ― Perguntou intrigado. ― Porque estou muito assustada ― se justificou aproximando sua mão da dele.


Por um momento acreditou que, ao ser um menino mais velho que ela, afastaria sua mão e a repudiaria. Mas nada mais longe da verdade, Federith a aceitou e a apertou com força. ― Pois não tema – disse-lhe com uma solenidade imprópria em um menino de somente doze anos. ― Eu sempre estarei aqui para te proteger. ― Promete-me isso? ― Sim ― respondeu com firmeza. E desde esse dia tinha cumprido sua palavra e ela não voltou a sentir medo dos monstros porque, se aparecessem, ele lutaria com eles. ― Federith… ― sussurrou. O moço virou-se para Anaís e, por mais que tentasse apaziguar sua ira, não o conseguiu. Além disso, escutar que ela o chamava por seu nome de batismo lhe destroçava o coração. Naqueles momentos liberava duas batalhas dentro de seu interior, dois combates que arrasavam, pouco a pouco, sua alma, não só partia a jovem por quem estava secretamente apaixonado, mas também por sua pouca idade não podia impedi-la. ― Não, Anaís! ― Exclamou depois de suas divagações iradas. ― Não é certo que os filhos paguem pela irresponsabilidade de seus pais! Deveríamos… ― O que, Fed? O que deveríamos fazer? Acaso não é consciente de que tenho treze anos e você dezessete? O que podem fazer duas pessoas tão jovens? ― Mas, sou muito maduro para minha idade… ― se defendeu. ― É claro que é! Quem é capaz de pensar que não mostra o comportamento típico de um homem de avançada idade, de um futuro barão? ― Em suas palavras não havia ira, e sim desdém Federith elevou a sobrancelha e a olhou com ferocidade. Zombava dele, como sempre. Insistia em irritá-lo ao lhe recordar como ele era


honrado, quão cavalheiresco se comportava frente ao mundo, como cuidava de cada detalhe, cada palavra, cada gesto que realizava. Mas o fazia com todos exceto com ela… não havia nada a ocultar de Anaís. Podia ser ele mesmo quando estava ao seu lado sem envergonhar-se de seus sentimentos, de seus desejos ou de seus anseios. Se ela partisse, se na verdade ia partir ao amanhecer, toda aquela liberação desapareceria e, seu verdadeiro eu ficaria oculto sob chave em algum lugar em seu coração. ― Acha que trazer você aqui é uma atitude digna de um futuro Barão? ― Inquiriu zangado. ― O que pensariam se nos descobrissem, Anaís? ― Mastigou cada palavra que saía de sua boca. No fundo tinha cometido uma loucura e, apesar de ser irracional, estava entusiasmado. Talvez se alguém lhes encontrasse ambas as famílias arranjariam um casamento para evitar um escândalo antes que ela pudesse ser apresentada na sociedade. Possivelmente, dessa forma, impediria que partisse para algum lugar que nem ela mesma conhecia. E, de repente, sem saber porquê, rezou para que aquela atrocidade ocorresse. ― Meu pai me daria uma boa surra. Disso não tenho a menor dúvida e seus pais… ― bem, levar-lhe-iam com rapidez àquele mosteiro no qual passa um mês uma vez por ano ― comentou com firmeza. ― Mas, por sorte, ninguém nos descobrirá. Estamos muito afastados de nossos lares e se escutássemos alguém aproximar-se confio em você para proteger minha honra. ― Não estou muito seguro disso… ― sussurrou apertando a mandíbula. ― Como não…? ― Não precisou terminar a frase, o rosto de Federith dizia tudo. Tinha-a levado ali não só para lhe mostrar a lua, mas também pretendia que os encontrassem. Imaginava que era a única alternativa que restava para permanecerem juntos. Mas ela ainda era muito jovem, acabava de completar treze anos. O que faria ele com uma menina? E se, com o tempo, lamentasse de têla ao seu lado? Sabia, por boatos entre amigas de sua mãe, que um homem não


levava em conta o intelecto de uma mulher. Apoiavam-se mais em como se comportavam em sociedade e na sua beleza. Ela tinha muito de uma coisa e pouco de outra. Graças a Federith enriqueceu sua mente, mas a herança genética de sua mãe afetara seu físico. Mal tinha busto. Sua cintura não era fina, mas sim bem grossa. Suas pernas podiam medir três palmos dos tornozelos aos quadris. Bom, tinha exagerado, melhor dizer cinco palmos. Seu cabelo, mal lhe dava atenção desde que despediram a donzela. Ela mesma o arrumava, e não muito bem. Tinha tentado que sua mãe perdesse algum tempo a lhe mostrar a arte da sedução, mas estava mais interessada em chorar e assumir a desgraça que atender sua filha. Seu nariz era muito pontudo para agraciar um rosto feminino. Num homem, como lhe havia dito sua babá, em mais de uma ocasião, seria muito viril, mas para uma mulher era uma desgraça. A única coisa que valia a pena eram seus olhos e seus lábios. Uns por ser tão verdes como sua jóia preferida, a esmeralda, e os outros por ser voluptuosos, carnudos e com uma cor carmesim tão intensa que dificilmente precisaria pintálos. ― Anaís… ― pronunciou seu nome com sufoco, com amargura, com muitíssimo pesar. Aproximou-se lentamente, tanto que, em vez de sentir que andava uma distância de menos de quatro passos, acreditou percorrer uma longa distância entre Londres e Espanha. ― Federith ― disse outra vez seu nome de batismo. Elevou seu rosto e o olhou apaixonada. Era, sem dúvida, o jovem mais bonito de Londres e seria o homem mais bonito do mundo. Mas ela não estaria ao seu lado quando se convertesse num barão digno e belo. Não teria o prazer de poder dançar com ele quando fosse apresentada para a sociedade. Não desfrutaria de seu cavalheirismo, passeando em seus braços pelas ruas da cidade. Não, não faria nada daquilo que tinha sonhado desde que ele apertou sua mão para aliviar seus temores. Estaria longe, muito longe. ― Não quero que você vá… ― disse baixando a cabeça quando estavam tão perto que podiam tocar-se ao respirar.


― Eu tampouco quero ir ― afirmou com um suave fio de voz. ― Mas tenho que fazê-lo… ― continuou com tom gélido. ― Mas devo fazê-lo… ― repetiu sem mal escutar-se. Aquela proximidade não deveria alterá-la, quase sempre estavam um ao lado do outro, mas desta vez foi diferente. Junto a ela não se encontrava lorde Federith Cooper, futuro barão de Sheiton, um jovem de dezessete anos, o moço que veria terminar os estudos que tinha começado esse mesmo ano, o filho em quem tinham posto todas as suas esperanças os barões, nem tampouco era o menino que andava pelas ruas de Londres mostrando seu impecável comportamento. Era seu Fed. Aquele moço terno, carinhoso, risonho e que se nomeou seu protetor. Uma inexplicável emoção percorreu seu pequeno corpo. Não entendeu o sufoco que sentia ao ver como os olhos azulados se cravavam em sua boca. Não pretenderia…? Não ousaria…? Mas se o fizesse, lhe responderia, porque tinha imaginado muitas vezes como seria beijá-lo. Continuou erguendo seu rosto, tentando aproximar sua boca da dele. Observou como ele suplicava por suas mãos, como começava a fechar seus olhos. Ela também fechou os seus e esperou pelo beijo tão sonhado. ― Devemos ir. Passou muito tempo desde que abandonou seu quarto e muito temo que, se descobrirem que não se encontra lá, sairão em sua busca ― expôs Federith obrigando-se a dar dois passos para trás para pôr certa distância entre eles. Tinha estado perto, muito perto de beijá-la. Sobretudo quando ela fechou seus olhos esperando o contato de sua boca com a dela. Mas não devia fazê-lo. Não podia realizar um ato semelhante posto que, se seus lábios conseguissem unir-se e adquirisse o prazer que sabia que teria, como ia ser capaz de deixála partir? Iria raptá-la. É claro que o faria! E essa mesma noite! Ao separar-se dela, ficou congelada. Como se alguém lhe tivesse retirado a manta para expô-la numa manhã fria. Anaís permaneceu imóvel esperando que ele andasse até ela de novo e terminasse por beijá-la. Mas não, era claro que não. Ele não a ofenderia tocando-a dessa maneira. Seria incapaz de cometer um ato


tão imoral. Federith a podia tirar de sua habitação, conduzi-la pelo campo, segurar sua mão e lhe oferecer a lua, mas era incapaz de beijá-la, de tocá-la além do que seria um mero ato de afeto. Entretanto, e ela? Queria resolver um relacionamento dessa maneira? Queria partir sem ter a lembrança de seus lábios? ― Federith… ― murmurou da mesma forma como quem implora para obter algo que anseia mais que tudo no mundo. Mas ele seguia caminhando, sem responder à sua chamada. ― Federith! ― Gritou desesperada. ― Silêncio! ― Grunhiu zangado. Virou sobre seus pés e, reparou que ela não tinha dado nem um só passo, acabou por avançar até Anaís, segurá-la e arrastá-la de novo. ― Por que está gritando? ― Porque não me responde ― disse ela zangada. Tal como uma menina que não vê atendido seu capricho. Só lhe faltava espernear para lhe oferecer aquilo que tanto mostrava: que era uma pequena mimada. ― Como eu disse, não é oportuno permanecer aqui mais tempo ― disse ele sem diminuir seu aborrecimento. ― Acaba de colocar a lua a meus pés e me diz que não é oportuno permanecermos aqui mais tempo? ― Resmungou irritada. ― Anaís, pense. Foi uma loucura… ― A única loucura que poderíamos cometer neste momento ― sussurrou aproximando-se igual a como ele fez antes ― seria me beijar. Mas como posso ver, não o fará, certo? ― Não é honroso fazer isso a uma moça como você, Anaís. Sabe que te respeito, que te admiro, que… E foi ela quem o beijou resolvendo todos os argumentos possíveis que alegaria para não realizar um ato tão indecoroso. A jovem, ao notar como seu corpo começava a tremer, colocou suas mãos na


camisa de Federith e se agarrou nela. Enquanto isso, ele a rodeava com seus braços para que aquela amostra de amor não acabasse nunca. Não seria o melhor dos beijos, sobretudo porque era a primeira vez para ambos, mas aquelas carícias se converteriam numa lembrança inesquecível para os dois. ― Não devemos… ― cochichou quando seus lábios se separaram dos dela. Seu coração pulsava sem parar, sua respiração era agitada e uma estranha dor em seu estômago surgiu lhe causando quase a própria morte. Sabia que não devia beijá-la, que quando o fizesse ele não poderia sair de perto dela.

Entretanto, como poderia segurá-la? ― Eu o amo, Federith Cooper, futuro barão de Sheiton. Te amo e te amarei sempre ― afirmou Anaís antes de empreender uma fuga pelo caminho que tinha feito. O moço ficou imóvel. Jamais tinha imaginado que ela mantivesse esses sentimentos por ele. Acreditou que, devido à sua idade, não estava preparada para amar, mas estava sim confuso. Anaís era, sem dúvida, uma mulher muito especial e a única que gostaria que permanecesse ao seu lado pelo resto de sua vida. Depois de sua reflexão dirigiu o olhar para o lugar por onde Anaís tinha desaparecido e sem pensar duas vezes correu até a jovem. Devia esclarecer a ela que seu amor era correspondido e que a distância entre eles, seria passageira. A procuraria quando tivesse a idade necessária e, é claro, naquele momento convertê-la-ia em sua esposa. Não se passaram nem uns minutos escutou-o respirar atrás dela. Quis correr para que não contemplasse a vergonha que lhe tinha provocado o ousado ato e suas palavras. Mas no instante que aliviou o passo seu antebraço foi apanhado pela mão dele fazendo-a girar até ficar um de frente ao outro. ― Eu também te amo, Anaís Price. Amo e amarei sempre. E juro por minha honra que quando o tempo permitir buscarei você e se casará


comigo. Deste modo ninguém nos separará jamais. E após sua promessa beijou-a com tanta paixão que notou como ela levantava um de seus pés. Na manhã seguinte, tal como já esperavam, Anaís entrou na carruagem. As lágrimas surgidas durante a noite não tinham fim. Seus pais discutiam sobre o futuro que ambos

sofreriam e se esqueceram de que ela permanecia ali, com a cabeça apoiada no vidro frio, observando em silêncio como deixaria para trás tudo o que amava. Quase puxou a cortina quando o viu. Galopava em seu cavalo e se dirigia para eles. Mas Anaís sabia que ele não se aproximaria. Continuou olhando, suas lágrimas aumentaram logo que pôde distinguir sua figura com clareza. De repente, observou que levantava uma das mãos. Não pretendia lhe dizer adeus, juraram não fazêlo. A intenção do jovem era lhe mostrar o presente, aquele que tinha colocado sob seu travesseiro na tarde anterior quando sua família foi despedir-se dos barões e ela aproveitou para aceder ao quarto de Federith. Sua mãe tinha comprado para ele, primeiro se encarregou de penhorar as poucas jóias que tinha pensado em levar para sua apresentação na sociedade. Quando a condessa lhe perguntou o que desejava lhe dar de presente, lhe respondeu que gostaria de algo para que se recordasse sempre. «Prometo-te que não se esquecerá nunca», assegurou-lhe. Anaís suspirou porque a agonia que padecia era insuportável. Mas tinha prometido que a buscaria e confiava em sua palavra, Federith nunca a decepcionaria. Com amargura observou como a figura de seu amado diminuía. Não havia volta, seus destinos estavam escritos. Sua única opção era esperar… I Londres, 1865. Hemilton, residência de Federith Cooper.


Quando a observou entrar em sua casa ficou surpreso e milhares de perguntas apareceram em sua mente: o que fazia ali, de noite e sem uma acompanhante? A resposta surgiu com rapidez ao vêla com mais precisão. Seus olhos, inchados e vermelhos por um incessante pranto, indicaram-lhe o motivo da visita àquelas horas e naquelas condições. Abriu os braços para que se sentisse reconfortada no calor de seu corpo e pudesse consolála. Não precisava saber a causa de sua presença, embora ela o tenha explicado de qualquer forma. Nesse preciso momento, ao escutar da boca da mulher o que temia, virou-se e caminhou para a janela. Tinha que pensar, que repensar sobre como liberar a adaga que atravessava seu coração, mas por mais que tentasse tira-la e escrever um novo capítulo do livro que começou na sua infância, foi incapaz de fazê-lo. Tinha mantido a esperança de encontrá-la face aos infortúnios da vida. Recordou a última vez que soube algo sobre ela e a amargura que sentiu ao compreender que tinha desaparecido para sempre. Por mais que tentasse assimilá-lo, até o momento em que entrou Caroline em sua casa, imaginou que esse dia poderia chegar a qualquer instante. Abriu a cortina. Parado em frente à janela olhou para o céu e a contemplou. Fazia muito tempo que não a observava daquela maneira. Desde aquele dia tão somente se atreveu a olhála quando não estava na fase de lua cheia. E depois de tantos anos, admirava-a absorto, em silêncio e rogando que o perdoasse por tê-la afastado de sua vida durante tanto tempo. Acreditou, inutilmente, que se a admirasse com a mesma intensidade que naquela noite obteria a resposta que necessitava. Apoiou a testa sobre o vidro e suspirou. Seu futuro já estava determinado? Devia esquecer a promessa de procurá-


la? Na verdade, não tinha outra alternativa e, apesar de não poder imaginar uma vida ao lado de Caroline, esta se converteria na mulher com quem teria que viver no futuro. Procurou-a durante os meses após a sua partida. Perguntou sobre a família do conde Kingleton em todos os eventos nos quais comparecia. Mas ninguém soube lhe informar para onde tinham partido. Entretanto, anos depois, na universidade, um pequeno mundo afastado do resto da humanidade, uma pessoa mencionou aquele sobrenome… Estava sentado no salão de descanso. O dia, como era habitual, tinha amanhecido chuvoso e nenhum estudante decidiu abandonar a residência. Embora odiasse seus companheiros porque continuamente vangloriavam-se de seus futuros títulos e das riquezas que desfrutariam quando acabassem os estudos, ficou sentado numa das poltronas que havia junto à chaminé. O encosto, por ser grande, evitava que eles percebessem a sua presença e ele, é claro, evitava a deles. De repente um dos insensatos veio com um jogo para matar o tédio. Não era sobre xadrez, damas ou póquer, não, a ideia do burro era listar todos os lordes que tinham destruído seu título por sua vida ruim. Procurou fazer com que seus ouvidos se fechassem, embora cada vez que tentava ler uma linha do jornal fosse interrompido pelas gargalhadas dos jogadores. Quis fazê-los se calarem, por fim levantou-se e caminhou até eles. Mas no instante que sua boca se abriu para repreendê-los pelo barulho, ficou congelado e mudo. Um deles, o mais risonho, referiu-se ao título do pai de Anaís. Primeiro pensou que não tinha escutado bem. Depois, após habituais gargalhadas, o moço que falou sobre o conde explicou, com terrível crueldade, que tinha gasto tudo em bebidas e com mulheres caras. ― Tomem cuidado com suas carteiras, amigos! ― Expôs o jovem, divertido. ― Se querem manter uma amante, que não seja muito caprichosa porque, se for assim, ficarão como o conde, arruinado e na rua. Federith, que tinha se aproximado deles em silêncio, como um predador se aproxima de sua presa, ficou olhando-o fixamente, sem piscar. O moço ao ver que o observava acreditou que tinha a intenção de


participar do jogo, mas quando Cooper esticou as mãos e lhe agarrou pelo colarinho da camisa lhe levantando como se não pesasse mais que uma pluma, entendeu que o propósito do estudante mais hostil da universidade não era o que imaginara. ― Repita esse nome ― grunhiu. Aproximou tanto seu nariz do nariz do jovem, que o pressionou. Seus olhos azuis se cravaram nos castanhos. ― Qual? ― Disse o moço atemorizado. Olhou para ambos os lados esperando que algum de seus amigos lhe socorresse. Mas ninguém foi em seu auxílio visto que era muito comentada a destreza dos punhos de lorde Cooper. ― O que acabo de escutar ― mastigou cada palavra com força. Seus olhos não eram azuis, e sim vermelhos. Seus dentes, brancos como madrepérola, apertaram-se e sua voz… sua voz era muito semelhante a que teria o próprio Lúcifer. ― Conde Kingleton? ― Federith afirmou com a cabeça. Conforme dizem ― comentou o estudante esperando uma pronta liberação ― a família partiu de Londres para Guilford, onde vivia a mãe da antiga condessa. Ela só recebeu sua filha e sua neta, então o conde teve que partir para outro lugar. Mas permaneceu afastado delas durante um breve tempo porque, conforme contam, um dia as reclamou e, apesar da anciã tentar evitá-lo, não conseguiu, pois morreu de maneira repentina. Finalmente terminaram em Bournemouth, cidade que venho. Mas só chegaram os dois, o pai e a filha. Conforme narrou o próprio conde, sua esposa adoeceu pelo caminho e ninguém pôde salvála. ― Continuam vivendo lá? ― Federith soltou o jovem, deu uns passos para trás e esperou a resposta. ― Não. Partiram antes que me enviassem para cá ― disse o moço um pouco mais silencioso.


― Para onde? ― Sua única esperança para encontrá-la elevou os ombros lhe dando a entender que não conhecia o novo paradeiro. Zangado, deu meia volta e caminhou para seu quarto. Tinha muito que pensar sobre a informação que tinha obtido e, é claro, somente uma pessoa podia lhe ajudar: seu pai. Nessa mesma tarde lhe escreveu. Na carta pedia que procurasse a direção da avó de Anaís, que tinha lhe chegado certos rumores sobre a desgraça que sofria a família e precisava encontrá-la. Semanas depois recebeu uma resposta que não esperava e que o deixou destroçado. Meu querido filho: As desgraças do conde Kingleton não nos eram desconhecidas. Soubemos, com exatidão, a razão pela qual partiram de Londres e nos sentimos felizes por essa partida. Tanto a baronesa como eu descobrimos que seus sentimentos pela filha dos Kingleton estavam mudando e, mais cedo ou mais tarde, tínhamos que pôr fim a essa inoportuna relação, e mais, sabíamos que terminariam arruinados. Tem que compreender que nossa missão neste mundo é seguir exaltando o título que possuímos, de modo que, como bem sabes, ostenta o nível mais inferior da sociedade. É nosso dever nos sentirmos orgulhosos de sermos barões e viver de acordo com nossa posição. Sua mãe e eu estamos escolhendo outras jovens que podem vir a ser boas baronesas. Não só os títulos de seus pais são superiores ao nosso, mas sim contribuiriam com uma distinção aos Sheiton. Espero que não se decepcione diante da verdade, filho. Nós confiamos continue a ser o moço que educamos. Lembre-se de comportar-se como é devido e esqueça de uma vez essa moça. Se tal como indica, sua mãe morreu, talvez ela também o tenha feito e, se for assim, tão somente deveríamos dar graças a Deus por ser tão piedoso com os menos afortunados. Atenciosamente,


Julian, barão de Sheiton. Amassou a carta em suas mãos e gritou encolerizado. Não esperava isso de seus pais. Eles, que tanto se esforçaram para mostrar-lhe ideais complacentes, uma consciência livre de preconceitos, revelavam a ele que conheciam o segredo dos pais de Anaís e que, além disso, davam graças a Deus por afastá-la do seu lado. Sentiu-se preso, enganado e com um humor muito amargo para assistir às aulas que tinha programado. Depois de beber uma garrafa inteira de rum e de refletir que futuro devia escolher, se o seu ou o que tinham previsto seus pais, escreveu ao seu melhor amigo. Na carta lhe contou tudo, desabafou em cada palavra que escreveu no papel e liberou a pressão que sentia em seu peito. Três semanas depois William apareceu na porta de seu quarto. Vinha acompanhado de um jovem mais alto que ele e loiro, tão loiro como sua amada Anaís. Acreditou, esperançoso, que era um familiar dela e que vinha dar-lhe notícias, mas errou. Aquele moço era Roger Bennett, o futuro marquês de Riderland. Evitando mostrar a decepção que lhe produziu a identidade do acompanhante, fez-lhes passar, convidou-os para uma taça e conversaram com familiaridade, como se aquele não fosse desconhecido. Quando terminou de expor tudo que já tinha dito a William na carta, o jovem Roger falou: ― Parece-me estranho que um homem se apaixone dessa forma por uma mulher havendo tantas no mundo… ― Ninguém é como ela! ― Disse Federith zangado. ― Não viemos até aqui para aumentar sua ira nem tampouco para julgar esse indevido amor, Cooper. A verdadeira razão é confirmar se de verdade quer fazer o que me disse ― falou William. ― É claro! Por que acredita que despertei sua existência depois de tantos anos de silêncio? Necessito que enquanto esteja de viagem seja meus olhos e meus ouvidos. É a primeira vez que mentirei aos meus pais e não desejo que isso destroce a pouca relação que resta entre nós.


― Bem... se está tão seguro, direi que Roger tem um navio ― começou a dizer Rutland ― e enquanto vínhamos para cá pensamos que seria um bom plano utilizá-lo. ― Um navio? ― Federith arqueou as sobrancelhas e o olhou assombrado. ― Me bastava uma carruagem, William! ― Dirá aos seus pais que decidiu viajar antes de tomar como esposa alguma das que escolheram ― falou Roger ao ver o jovem Cooper tão confuso. ― Isso te dará tempo suficiente para procurála, se for o que na verdade, deseja. ― Sorriu. ― Embora insista que, em Londres, muitas damas se lançarão em seu pescoço e lhe darão esse amor que tanto anseia. ― Volte a falar sobre esse assunto ― grunhiu levantando os punhos e enfrentando o homem sabendo que um murro daquele mastodonte o deixaria inconsciente ― e farei com que esse bonito nariz sangre. 1 ― Mon dieu! Oui, Il est amoureux! ― Exclamou Roger divertindo-se. ― Deve estar se até umas semanas eu não conhecia a existência de lady Anaís Price ― disse William com tom áspero. Era a primeira vez que entre os dois havia um segredo e lhe doeu haver ter sido informado anos depois e através de uma carta. ― Ela é especial, Manners… ― lhe confessou em voz baixa. ― Por isso, meu querido Cooper, enviei uma pessoa de confiança em sua busca. Se a encontrar poderá ir até ela enquanto faz acreditar que viaja em meu navio para a Europa ― expôs Bennett com determinação. ― Quem enviou? ― Olhou de um para o outro. A ideia era bastante boa, mas tinha urgência em saber quem acharia antes dele a sua amada. Como era


lógico, já não confiava em ninguém. Depois da atuação de seus pais não podia confiar em nenhuma pessoa salvo Manners. ― Meu amigo John, um índio que salvei… ― Um índio? Mandou um homem selvagem em busca de Anaís? ― Gritou tão alto que os homens o olharam perplexo. ― John não é nenhum selvagem ― resmungou Bennett zangado ― e apostaria minha cabeça que saberá algo dessa moça antes que acabe o mês. E te advirto algo. ― Levantou o dedo inquisidor para Federith. ― Se voltar a falar assim do John deixarei você sem dentes. ― E se não a encontrar? ― Perguntou evitando a ameaça de Roger e olhando ao seu amigo. ― Virá a Londres conosco e lhe ensinaremos como gozar dos prazeres carnais que lhe oferecerão dezenas de moças solitárias ― sentenciou Roger mais tranquilo. Olhou para o moço com atenção e descobriu que não gostava da ideia de estar nos braços de outra mulher que não fossem os de sua amada. Estava muito apaixonado. Encontrava-se tão louco de amor que inclusive se atreveu a enfrentá-lo. Logicamente não teria se defendido porque o jovem Romeu podia acabar em uma maca, mas esse estado de loucura lhe deu o que pensar e, nesse preciso instante, fez um juramento: não amaria a nenhuma mulher o suficiente para sentir a dor que aquele jovem sofria em seu coração. ― Está de acordo? ― Rutland apertou os olhos e sustentou o olhar em seu amigo. ― Sim ― respondeu Federith mediante um suspiro. Tal como lhe afirmou quem se converteria em um de seus melhores amigos, o


índio lhe ofereceu notícias antes que terminasse o mês, mas não foram as que ele esperava. O pai de Anaís tinha morrido numa horrenda briga ocorrida num bairro perigoso de um povoado chamado Thyndleton e ninguém conhecia o paradeiro nem a existência da moça. ― Quando apareceu, ― disse a pessoa que falou com o John ― não vinha acompanhado de nenhuma dama. Federith se trancou em seu quarto e chorou durante vários dias. Estava desesperado, não sabia que caminho tomar para descobrir algo mais sobre Anaís. Diante das indagações que realizaram William e Roger, não encontraram outro familiar da jovem para que lhes pudessem ajudar. Cooper terminou por inundarse numa depressão que não findou até que terminou seus estudos. No mesmo dia no qual deixava a universidade e retornava ao seu lar pegou o relógio que lhe tinha presenteado Anaís, abriu-o e leu mil vezes a frase que tinha gravada em seu interior: «Um verdadeiro amor não desaparece com o passar do tempo». O fechou, guardou-o no bolso que tinha junto ao seu coração e fez uma promessa: ninguém substituiria o amor de Anaís e faria seus pais pagarem por toda a dor que lhe tinham causado. Para conseguir tal fim viveria como seus amigos, sendo um sem vergonha, um libertino, seduziria com cavalheirismo todas as mulheres que desejassem permanecer em seus braços sem deixar que nenhuma alcançasse seu coração porque, para sua desgraça, já tinha dona. ― Não me responde? ― Perguntou Caroline com um ar de indignação. A voz da mulher fez com que retirasse os olhos da lua e os cravasse nela. Quanto tempo tinha permanecido em silêncio? O suficiente para descobrir que se sentou, que tinha pego o lenço de sua jaqueta e limpava as lágrimas com ele. Pôde ver suas iniciais, F. C., bordadas no tecido. Sim, esse era ele, Federith Cooper, um futuro barão que teria a vida mudada drasticamente. ― Só estou pensando… ― disse com voz fraca. ― A notícia que acaba de me dar precisa ser meditada com profundidade. ― Não pode me deixar assim, Federith. Necessito de uma resposta com urgência. Como bem sabe logo aparecerão mudanças em meu corpo e eu não


gostaria que as pessoas começassem a cochichar… ― soluçou. Levantou o olhar para ele esperando descobrir qual passo daria a seguir. Mas quando o viu parado em frente a ela em silêncio e com uma expressão de dúvida em seu rosto, tremeu. Não podia negar, não podia. Ele era a única opção que tinha, já não era possível encontrar outro homem, já não havia mais tempo. Caroline tomou ar, reuniu as forças necessárias para enfrentálo e, justo no momento que abriu a boca para falar, ele estendeu uma mão para ela. ― Casarei contigo, Caroline, então não fique inquieta nem chore mais. Amanhã mesmo irei ao escritório do meu administrador para que nos consiga a licença que nos permita contrair matrimónio o quanto antes. ― Sua voz era firme, solene, autoritária. Não mostrou em suas palavras nem um ápice de tremor, embora seu interior vibrava como um pudim. Efetivamente, o que ia fazer era o que se esperava de um cavalheiro, de um homem que tinha tomado em seu leito uma dama e com consequências inesperadas. Nunca imaginou que, embora usasse todos os meios possíveis para evitar deixá-la grávida, ela terminasse com seu filho em seu ventre. Esperou que Caroline levantasse, aceitasse sua mão e finalizassem a conversa com um abraço, tal como estavam acostumados a fazer os casais que viveriam uma vida juntos. Mas, para sua surpresa, não o fez. ― Obrigada, Federith, faremos o correto ― respondeu depois de levantar-se do assento sem aceitar a ajuda de seu futuro marido. ― Se você não se importa, deixarei que conte aos meus pais sobre nosso compromisso, os fará muito felizes. ― Deu uns passos para trás, sacudiu o vestido e depois girou sobre si mesma caminhando para a porta como se tivesse pressa em sair.


― Não vai me pedir um anel? ― Foi a primeira coisa que surgiu na cabeça de Federith ao vê-la partir daquela maneira. Não acreditava no que contemplava. Em questão de segundos a doce e frágil Caroline tinha se transformado numa mulher muito diferente. Seus olhos, aqueles que tinham chorado pedindo clemência, depois de obter a oferta de matrimónio, congelaram-se e mostraram uma frivolidade, uma apatia, que não agradou Cooper. ― Por acaso tem algum guardado? ― repreendeu-lhe voltando-se e cravando seu olhar cinza nele. ― Não, não tenho nenhum anel para colocar em seu dedo, Caroline ― mentiu. Sim tinha um. Tinha comprado anos atrás quando decidiu procurar a mulher que amava. Mas ao não encontrála, guardou-o numa gaveta, assim como fez com seu coração. ― Mas se tenho que me apresentar diante de seu pai para lhe pedir permissão, terei que levar um, não acha? ― Parece-me uma boa ideia, Federith. Se te parece adequado podemos nos ver amanhã depois do café da manhã e visitaremos várias joalherias procurando um apropriado para mim. ― Agora que tinha ido em direção a Cooper, esticou as mãos para que este as tomasse entre as suas. Mas ao fazê-lo nenhum dos dois sentiu calor, mas sim frio e um distanciamento pouco apropriado em duas pessoas que iriam permanecer uma vida juntos. Cooper, surpreso, elevou a mão até sua boca para beijálas. Não, não queria fazer isso, nem tampouco voltar a tocar aquele corpo, nem saborear aquela boca. Mas já era muito tarde. Possivelmente se naquela festa, se naquele momento, não tivesse seguido o jogo que ela começou para seduzi-lo, não teriam terminado em sua residência entregando-se a uma paixão que, como era habitual nele, tão somente duraria uma noite e ninguém descobriria. Porque, até tendo muito mais conquistas que seus amigos, jamais falava delas. ― Federith? ― Chamou de novo sua atenção ao vê-lo pensativo.


― Sim, Caroline. Amanhã, depois do café da manhã, iremos comprar o anel ― respondeu sem entusiasmo. ― Não está feliz? ― Perguntou a mulher apoiando a palmas das mãos sobre seu peito e colocando a cabeça sob seu queixo. ― Muito ― respondeu sem pensar. ― E não faz ideia do quão felizes ficarão meus pais quando lhes der a notícia. ― Os meus também… ― murmurou depois de suspirar. O abraço durou menos de um minuto. Sem beijá-lo, sem tocálo mais, Caroline caminhou para a porta e, depois de murmurar um tosco “boa noite” fechou a porta e deixou Federith sozinho no salão. Este ficou olhando a saída durante muito tempo. Enquanto cravava os olhos na porta, confirmava que não demoraria muito tempo em arrepender-se da decisão que tinha tomado. Talvez fosse medo pelo que ia viver, ou possivelmente era o assombro que lhe tinha produzido perceber

que sua futura esposa não desejava celebrar o compromisso com uns momentos de paixão. Fosse a razão que fosse, ali estava, em sua casa, sozinho, arrasado pelo futuro que teria com aquela mulher e chorando pela morte de um sonho. Virou-se, caminhou até o bar e pegou a garrafa de uísque mais cheia que tinha. Retornou à poltrona onde estava sentado antes de Caroline aparecer, sentou-se, colocou sua mão no bolso da jaqueta e retirou o relógio. «Sinto muito, meu amor. Sinto muitíssimo», sussurrou antes de abrir com os dentes a tampa da garrafa e dar o primeiro gole da noite. II Caroline soltou uma gargalhada assim que subiu na carruagem. Tinha conseguido. Seu plano resultou tal como esperava. Para trás ficou o ditoso sentimento de humilhação que padeceu ao ter que entregar-se a um homem por quem não sentia nada. É claro, depois de seu triunfo, apagaria da mente a


tenebrosa noite que passou com o que em breve ofereceria um sobrenome ao filho que esperava. Teve que sacrificar-se para proteger sua honra e seu segredo. E, embora o físico do homem fosse bastante desejável para qualquer mulher, sentia repulsa quando a tocava, beijava-a ou a possuía. Levantou a mão direita para o teto e golpeou três vezes. O cocheiro empreendeu a marcha para o lugar que lhe havia indicado. Apoiou a cabeça sobre a almofadinha e manteve o sorriso em seu rosto durante todo o trajeto. Era certo que, por uns instantes, temeu que Federith lhe insinuasse que mentia, que não podia ser dele posto que tinham utilizado métodos para que isso não acontecesse. Embora, depois de permanecer junto à janela como se a resposta estivesse escrita no exterior de sua mansão, virou-se para ela e lhe propôs o que ela esperava: matrimónio. ― É claro que o faria! ― Exclamou sorrindo Caroline. ― Lorde Cooper jamais se absteria de algo como isto! ― Prosseguiu zombando. O afamado lorde Cooper é incapaz de não cumprir com seu dever. Continuou gargalhando durante um bom tempo até que um pensamento apareceu em sua cabeça e fez com que essa risada se convertesse em soluços. O que surgiu em sua mente fazendo com que a calidez de seu corpo ficasse gélida como um bloco de gelo não foi outra coisa senão a impossibilidade de cumprir um desejo. Caroline tinha sonhado que, com o tempo, se casaria com Eric e que a vida seria perfeita ao seu lado. Entretanto, a realidade foi muito distinta. Não esperava a reação do verdadeiro pai de seu filho. Seu aborrecimento, seu desentendimento, seu abandono, deixou-a em pedaços, destruída e enganada. Isso aconteceu um mês atrás, na residência campestre de lady Johanna Baithlarin. Tinha-o procurado durante o baile, um instante para ficarem a sós. Ele imaginou que a insistência para ter certa privacidade devia-se à falta de suas carícias, seus beijos, mas naquele dia Caroline somente desejava confessar que esperava um filho seu. Acreditando, inocentemente, que brotaria dele a


mesma emoção que ela estava sentindo, mas não foi assim… ― Está segura disso? ― Voltou a lhe perguntar depois da confissão. ― É claro ― afirmou ela com segurança. ― Talvez devesse procurar alguém para eliminar esse problema. A melhor opção é fazê-lo desaparecer o quanto antes possível. ― Eric Graves começou a caminhar pelo lado do balcão levando as mãos à cabeça. A notícia não era boa. Se alguém descobrisse, se alguém tivesse suspeitas do que acontecia entre ele e a moça, sua posição, seu dinheiro e tudo aquilo pelo que tinha lutado desapareceria rapidamente. ― Não me olhe assim, Caroline, eu não posso me encarregar desse filho. Você tem que entender. ― Você se separará de mim? Me abandonará à minha própria sorte? ― Disse com pesar. ― Então… todo este tempo que passamos juntos, nosso amor, nossa paixão, era tudo falso? Eric se aproximou de Caroline depois de suas palavras, sentou-se em um dos bancos de pedra onde continuariam escondidos dos olhares dos convidados. Sentou-se ao seu lado, segurou-lhe as mãos e as levou à boca. ― Sabe que te amo e que sou incapaz de te perder. Mas se descobrirem nosso romance meu sogro me jogará na rua como um cão e minha esposa pedirá o divórcio. Como poderei te ajudar se nem eu mesmo terei como sobreviver? ― O que tenho que fazer então? ― Voltou-se para ele e, chorando amargamente, esperou uma resposta útil. Uma que salvasse ambos daquela situação. ― Se não quer abortar deveria então procurar alguém a quem possa enrolar. É uma mulher formosa, a mais formosa que vi em minha vida, e se o faz nesta mesma noite não duvidará sobre a paternidade da criança. É uma sorte que se tenha dado conta tão rápido, a maioria das mulheres não são capazes de descobrir que estão grávidas até que já seja muito tarde. ― Está me dizendo…? Pretende que…? ― Titubeou surpresa. Retirou suas mãos com rapidez e as segurou entre si.


― É o certo, Caroline. Deve me entender… ― Certo para quem? ― Provocou com raiva. ― Para os três. ― Dirigiu sua mão para o ventre da mulher e o acariciou com ternura. ― Não entendo como pode se afastar de mim sem sequer pensar no que vivemos durante estes anos ― comentou aflita. ― É muito cruel, Eric. ― Quem falou em nos afastarmos para sempre? Jamais me separaria de você! ― Disse irado. ― Com certeza depois que você casar com o homem que considere apropriado para exercer a paternidade de nosso filho continuaremos nossa relação com mais tranquilidade. ― E se eu não quiser? E se me apaixonar por esse homem? ― Replicou levantando seu queixo e entrecerrando seus olhos marrons. ― Nunca… ― sussurrou em seu ouvido enquanto segurava suas mãos com força e as dirigia para seu sexo ereto. ― Ninguém poderá dar a você o que eu te ofereço. ― Isso… não é suficiente ― falou trêmula. Seu corpo tremia e mal conseguiu articular uma palavra quando notou a exaltação que isso provocava em Eric. Sugerindo que se transformasse na esposa de outro homem, não restava-lhe dúvidas de que eles continuariam com seus encontros esporádicos. Mas… era isso o que ela desejava? Casar-se com um homem para seguir mantendo uma relação secreta com o homem que amava? ― É suficiente no momento… ― Graves a levantou do banco, conduziu-a por volta do muro que estava atrás do banco e a apoiou nele. ― Agora, querida, ― prosseguiu entre sussurros ao mesmo tempo em que colocava sua mão por debaixo do vestido para levantá-


lo ― procura entre todos esses homens um a quem possa usar. Eu recomendo que seja viúvo ou idoso, assim, quando anunciar sua gravidez, ficará tão feliz que não a questionará. ― Não quero me casar com um velho… me produzem repugnância ― murmurou com voz entrecortada. Eric mordia com descaramento seu pescoço, acariciava seu ventre liso e a excitava de novo. ― Será muito fácil, pequena. Cada vez que te toque, cada vez que te beije, fecha os olhos e pensa que sou eu… ― Como vou conseguir tal coisa? ― Respondeu confusa. ― Pois então, querida… ― se retirou dela com rapidez deixando-a aniquilada e bastante fria ― pensa em qual homem solteiro dessa festa não te causa asco e lute por consegui-lo. Mas tenha em conta uma coisa, Caroline, não volte para a casa até que consiga encontrar um pai para seu filho ― sentenciou. Sem medir as palavra lorde Graves ajeitou a jaqueta de seu traje e entrou no salão. Caroline o observou perplexa. Não saía de seu espanto. Ele a estava abandonando à sua própria sorte? Tão pouco a amava? Depois de chorar até ficar sem lágrimas, recompôs-se. Devia entrar no interior daquele salão e procurar o candidato perfeito. Mas não seria velho, é óbvio que não! Vomitaria cada vez que tentasse beijá-la ou tocá-la. Tinha que ser jovem e bastante respeitável. Só um homem com honra faria frente a uma situação como aquela. Parou na entrada do salão para observar quem poderia ajudála. Quase todos os cavalheiros bonitos estavam comprometidos, só três estavam livres para escolher. Entretanto, dois deles jamais acreditariam. O primeiro era o futuro duque de Rutland, um homem alto e forte, mas não podia aproximar-se dele. Cada vez que o fazia sentia um terrível tremor em seu corpo. O olhar escuro do homem e sua atitude em relação aos que lhe rodeavam não era


amável nem educado, e sim autoritário e soberbo. Além disso, pôde observar, antes de falar com Eric, que ia atrás das saias de lady Blatte, a diabólica esposa de um comerciante que, como advertiu, estava fora de Londres. O segundo a quem dirigiu seu olhar era o homem mais formoso que jamais tinha visto. Mais alto que qualquer um dos presentes, com um cabelo tão loiro como os raios do sol, mas com um olhar mais perigoso que o do duque. Em algumas conversa que tinha mantido com o futuro marquês de Riderland, achou-o muito encantador. Entretanto, aqueles olhos mostravam dureza, dor e ódio. Sim, muito ódio para todos os que lhe rodeavam. Também era conhecido por sua fama de não querer construir uma família. Suas amantes, aquelas que suspiravam quando passava próximo a elas, murmuravam que lorde Bennett jamais terminava sua cópula, que ele mesmo se saciava quando notava a semente vagar por seu sexo. Assim, por mais que cobiçasse a riqueza de ambos os cavalheiros, estavam eliminados. Somente sobrara um. Um futuro barão que, apesar de ostentar o menor título social, era um homem respeitável, honrado e, é claro, um nobre. Ninguém na cidade conhecia as amantes do cavalheiro, mas sabiam que as devia ter. Não obstante, era tal seu respeito para com elas que não tinha saído de sua boca nenhuma difamação para as prejudicar. Essa era sua única opção, a salvação que esperava, a única alternativa naquela festa. Elevou o queixo, caminhou para lorde Cooper e, lhe oferecendo o melhor de seus sorrisos, seduziu-o. ― Milady… ― O cocheiro, depois de ocultar a carruagem no lugar habitual, abriu a porta para que a moça saísse. ― Obrigada, Parker, ― respondeu após levantar o vestido e descer com cautela ― pode partir, não preciso mais de seus serviços até o amanhecer. ― Como desejar… ― fez uma leve reverência, esperou que ela se aproximasse da porta e, uma vez que a jovem entrou na moradia, partiu. Uma vez que seus pés pisaram no hall, seus lábios se estenderam desenhando um grande sorriso. Como lhe tinha passado pela cabeça não o ver mais? Impossível! Ela não podia abandonálo, por mais que tenha sopesado a ideia descabida de construir uma nova vida


junto ao homem que se converteria em seu marido, resultava-lhe impossível fazê-lo. Eric, apesar a ter abandonado à sua sorte e ordenado que achasse outro pai para seu filho, era a única pessoa que amava. Tinha-o amado desde que o conheceu, do incidente, desde que ele a beijou. Era incapaz de eliminar todas as lembranças vividas durante dois anos e, é óbvio, não existia a possibilidade de substitui-lo. Ninguém podia querê-la como Eric e ela seria incapaz de entregar seu coração a outra pessoa porque… como ia oferecer se já tinha dono? Pegou o vestido com ambas as mãos quando estava em frente à escada, levantou o rosto e suspirou. Tinha retornado, tinha voltado para o único lugar no qual se sentia feliz, amada e em paz. Caroline parou de correr quando ficou em frente à entrada do dormitório. Seu coração palpitava com tanta força que movia seu corpo ao compasso dos batimentos do coração. Tentou manter uma respiração pausada e eliminar, de uma vez por todas, a angústia que tinha padecido ao não o ter durante tanto tempo. Empurrou a porta com suavidade pensando que, se a sorte a acompanhava, o encontraria em frente à janela, esperando-a. Mas não foi assim. Ali dentro não havia ninguém. «Tampouco sabia que hoje viria», disse para si mesma. Embora não o admitiria nunca, Caroline sempre defendia o comportamento de seu amante, fosse como fosse. Com certa tristeza abriu suas mãos e deixou cair a saia do vestido. Sem que os batimentos de seu coração diminuíssem, caminhou para a janela que dava para a casa de Eric. No pequeno trajeto Caroline percebeu que nada tinha mudado e isso, de certo modo, reconfortou-a. Se na casa houvesse aromas estranhos, se as cadeiras tivessem sido movidas de ambos os lados da mesa, se qualquer ornamento não se encontrasse em seu lugar… ela explodiria de ciúmes e, em vez de receber seu amor tal como merecia, abrindo os braços e lhe enchendo de beijos, assim que aparecesse lhe daria uma bofetada. Mas não viu nada que lhe provocasse aquela mágoa. Tudo estava igual a quando partiu pela última vez.


Quando se aproximou da janela, em vez de olhar através do vidro, contemplou a mesa de escritório que estava embaixo desta. Ali era onde Eric escrevia seus poemas, seus versos de amor dedicados a ela. Esticou a mão esquerda e com supremo cuidado tocou os papéis que jaziam sobre a mesa. «Para meu doce amor», leu Caroline em silêncio. «Meu coração chora sua ausência. Sofro dias e dias de perda. OH, Deus! Por que me dói tanto este sentimento? Noites de pranto, noites de frio, noites sem beijos, sem carícias, sem sexo. Quando aparecerá para saciar minha fome?». Embora não fosse o melhor de seus escritos, ela se emocionou. Tinha tido saudades tanto quanto ela dele. Feliz ao descobrir que o sentimento era mútuo, abriu a última gaveta do escritório, pegou o lenço vermelho e, depois de forçar o fecho da janela, colocou o tecido como se fosse uma pequena bandeira que ondeava fora da habitação. Sem poder apagar o sorriso de seu rosto nem apagar a exaltação que lhe provocava tê-lo de novo entre seus braços, acendeu a vela, olhou de novo para a residência e suspirou. Se ele estivesse na casa viria logo. Enquanto não chegava, Caroline deu a volta e começou a tirar as presilhas que sustentavam seus cabelos. Seu amado adorava vê-la com os cabelos soltos, livre de qualquer adorno que lhe impedisse de acariciálos. Sacudiu o cabelo de um lado para o outro várias vezes até que as ondas cobrissem seus ombros. Continuando, dirigiu suas mãos para os laços de seu vestido e começou a desamarrálos. Não era digno que o recebesse em roupa interior, mas a vontade de ser tocada por ele lhe urgia. Queria apagar as carícias, os beijos e qualquer rastro que ainda permanecesse em sua pele de Cooper. Não era o perfume de seu futuro marido que desejava respirar, mas sim o perfume de Eric. Depois de colocar o vestido sobre a poltrona de veludo negro que havia aos pés da cama, Caroline começou a duvidar que ele viesse. Possivelmente, por não saber que ela apareceria, não estava em casa. A incerteza se converteu em tristeza e esta na aparição de umas lágrimas que caminharam por seu rosto. Colocou-se em frente à cama olhando a colcha vermelha para recordar


momentos entre eles quando escutou uns passos pelo corredor que havia depois da câmara. Não se atreveu a virar-se. Embora a vontade de lançar-se sobre seus braços fosse imensa, quis esperá-lo de costas. Escutou o suave chiado da porta ao abrir-se. Caroline notou as palpitações de seu coração na garganta. Cada vez a pulsação se fazia maior, mais forte, chegando inclusive a sacudir seu corpo. Fechou os olhos ao certificar-se de que ele caminhava para ela. Seus passos, lentos e firmes, retumbavam em seus ouvidos como se gritasse sobre o topo de uma montanha, de repente notou como se esquentavam seus ombros com as ardentes e poderosas mãos viris. Devagar, muito devagar para uma mulher ansiosa por ser amada, as mãos foram baixando até colocar-se sobre ambos os cotovelos. Aflita pelo desejo, Caroline apoiou a cabeça no firme tórax. Naquela posição pôde embriagar-se do perfume que desprendia seu amado. Gemeu ao cheirar o aroma que tanto tinha necessitado e que não tinha tido desde aquela noite. Aquela mescla de virilidade e essência de mar a excitaram a tal ponto que quando Eric liberou seus braços para apanhar o seio feminino, os mamilos estavam tão duros como pedras. Extasiada até o ponto de não saber se o que acontecia era real ou sonho, acreditou escutar um som rouco. Fechou os olhos e tentou descobrir de onde procedia e sorriu ao descobrir que aquele gemido provinha da garganta dele. Como resposta àquele delicioso som, elevou seu seio descaradamente para que não cessasse de acariciá-la. Como era habitual nos encontros românticos com Eric, seus toques não eram suaves nem calmos, mais precisamente o contrário. Apertou os sensíveis seios com tanta força que Caroline gritou. Mas aquele alarido não lhe fez parar, e sim aumentar a pressão sobre eles. Quando os liberou, quando a moça pôde tomar ar e respirar, a boca masculina começou a beijar o comprido e magro pescoço. ― Imagino que se retornou é porque conseguiu ― disse com voz rouca enquanto apertava com suavidade os mamilos femininos entre seus dedos. ― Sim ― murmurou. Depois da afirmação notou que os lábios deixaram de beijá-


la e, continuando, percebeu a umidade e calidez de sua língua. Foi lambendo com tanta calma que Caroline sentiu uma terrível debilidade ao não ser satisfeita com prontidão. ― Bom trabalho ― comentou com dificuldade. A mão direita começou a baixar até alcançar a pele feminina. Devagar, sem pressa, como se tivesse sem pressa por tocála, por apalpar a pele que tanto tinha desejado, desceu até chegar ao final do tecido. Entre compridos e profundos suspiros provocados pelo desejo que sentia pela jovem, Eric foi levantando a roupa que cobria o corpo de Caroline com verdadeira tranquilidade. Entretanto, quando a palma alcançou o sexo úmido e quente, toda aquela placidez desapareceu. Sem preparála como devia para que a invasão de dois de seus dedos não lhe doessem, ele a penetrou com força. Escutou como ela voltou a gritar pelo duro assalto, mas depois de uns instantes os lamentos se converteram em soluços de prazer. ― Quem é o afortunado? ― Perguntou sem deixar de mover seus dedos no interior.

― Lorde Cooper ― conseguiu dizer entre exalações. ― Perfeito! ― Gritou entusiasmado. Depois da exclamação tirou os dedos do interior feminino, agarrou-a pela cintura e a colocou em frente aos pés da cama. ― Levanta suas mãos ― ordenou-lhe ao mesmo tempo em que subia sua blusa. ― Agora as estenda e as apoie sobre a cama. Uma vez que ela acatou a ordem, Eric tirou da calça seu duro sexo e a penetrou com mais brutalidade que a usada por seus dedos. ― Grite que é minha. Grite que não pertence a ninguém mais ― disse entre grunhidos. Agarrou com mais força a cintura da jovem. Seus embates eram tão


vigorosos que as pernas dela se levantavam do chão e mal conseguia agarrar-se à colcha. ― Caroline, não te escuto… ― insistiu zangado. ― Sim, Eric ― respondeu sem sair-lhe a voz. Desejava agradar-lhe como sempre tinha feito, mas lhe resultava difícil falar. Tudo aquilo que lhe oferecia, tudo aquilo que lhe provocava, era tão sublime que não era capaz de pensar com claridade. ― Sou tua e não pertenço a ninguém mais ― disse por fim. ― OH, meu amor! ― Exclamou o homem quando notou que seu ato de paixão estava a ponto de culminar. ― Senti tanto sua falta! III Março 1867, Londres. ― Volte a me dizer por que tomei a imprudente decisão de me mudar para Londres. Lady Priscila Appelton, viúva do conde Crowner, reclinou-se no assento da carruagem e olhou ao exterior com aborrecimento. Odiava a aglomeração de edifícios, o bulício de pessoas e, é claro, o clima da cidade. Estava acostumada a viver separada do resto do mundo e, se para outros podia ser uma tortura, para uma jovem que padecia de um acanhamento tão grande, acabava por ser um benefício. Desde que se recordava sempre tinha sido bastante retraída. Mal teve relações de amizades, seus pais temiam que por culpa desse defeito jamais encontrasse um marido com quem pudesse conviver. Mas por sorte erraram. Antes de poder apresentar-se em sociedade e padecer com os horrorosos encontros, as conversações sem sentido ou ter que dançar contando os passos para não pisar em seu acompanhante, Anthony a encontrou e se apaixonou por ela. Proporcionou o amparo que tanto ansiava encontrar num homem e a vida que desejava ter. Possivelmente para outra mulher conviver com seu marido tivesse sido um inferno, mas para ela foi justamente o contrário. Ele aceitava seus medos, suas inquietações e seus desejos de viver afastada da sociedade. Desde que contraíram matrimónio jamais saía de casa sozinha. Tinha a aprovação do conde para evitar as visitas que apareciam em seu lar, para evitar todas as festas que não quisesse ir e o conde também fiscalizava que sua


esposa viajasse em carruagem que não ultrapassasse o tempo que durava um fugaz trajeto. Por esse motivo, permanecer em numa carruagem durante vários dias, embora tivesse parado para descansar, tinha-lhe provocado uma terrível dor nas costas, nas pernas e na cabeça. Mas não lhe restava outra alternativa. Depois da morte de seu marido ela devia encarregar-se de certos assuntos que Anthony redigiu em seu testamento. Nunca imaginou que o homem que conhecia perfeitamente sua debilidade a obrigasse a algo tão terrível como afastar-se do aprazível lar em que viviam e mudar-se para uma cidade na qual não seria feliz, mas já não podia discutir a louca decisão. Tinha que ganhar de coragem e conseguir permanecer na residência de Londres os dois anos que lhe exigia. Do contrário, o sobrinho de seu marido não só ficaria com o título de conde, mas também com tudo o que por direito pertencia a ela. ― Como bem comentou em anteriores ocasiões ― começou a dizer com muita cautela a dama de companhia ― era sua obrigação vir até aqui. Seu finado marido assim o desejava quando a presenteou com a melhor propriedade que possuía. ― Não o denominaria presente… mas sim tortura ― respondeu com tristeza. ― O conde não foi coerente quando redigiu o testamento, ele conhecia muito bem meus temores e não entendo como pôde imaginar que viver em Londres durante tanto tempo poderia me beneficiar. Sinto-me igual a um pobre peixinho que da noite para o dia trocaram-lhe o aquário e se vê rodeado, pela primeira vez, de outros seres semelhantes a ele. Mas é tão ingênuo que não sabe que peixe, de todos eles, poderia lhe machucar. Assim, cedo ou tarde serei devorada por… ― Vai correr magnificamente ― a interrompeu para lhe dar ânimo. Esticou as mãos para as colocar sobre as da aflita moça e lhe deu uns pequenos golpes. ― Ninguém comerá uma mulher como você, milady, e se o tentarem, eu estarei ao seu lado para lhe fechar a boca com um murro.


― É tão bondosa… ― respondeu com apenas um fio de voz enquanto se deixava acalmar pelo afago da mulher. ― Me alegra tanto que continue ao meu lado. ― A jovem de olhos escuros a olhou com carinho e lhe sorriu meigamente. ― Sei que é egoísmo de minha parte, Anaís, e que deveria ter partido com aquele homem quando te propôs matrimónio, mas me alegro que decidiu ficar comigo. Não sei o que teria feito sem você. ― Não tem nada que me agradecer, senhora. Sou eu quem lhe agradece por me deixar permanecer cuidando-a. ― Afastou suas mãos das dela e se reclinou no assento. Anaís não tinha a menor dúvida de que lady Priscila não seria capaz de enfrentar uma vida em Londres sem sua ajuda. Desde que a conheceu, e fazia pouco mais que uma década, sempre lhe pareceu uma jovem tão frágil como as pétalas de uma flor. Sempre andava escondendose em sua casa, sentia medo por coisas insignificantes, amedrontava-a estar com as pessoas e manter uma conversação distendida. A superproteção de seus pais, em vez de beneficiá-la, a prejudicou. Embora sua chegada ao lar dos Appelton tenha sido uma lufada de ar fresco, a jovem continuava sem poder realizar uma tarefa tão singela como passear além dos jardins da casa. Por isso não lhe cabia dúvida de que tanto a viagem como a nova vida que a condessa viúva iria suportar lhe causariam muitos problemas. Embora ditos pesares seriam insignificantes comparado ao que aconteceria se o sobrinho do finado conde fosse uma pessoa muito distinta como haviam descrito. Nenhuma das duas o conhecia, nem tinham ouvido falar dele, somente quando sua excelência o mencionava em alguma reunião. Durante o tempo que durou o


casamento de Priscila, o suposto visconde de Dankwourth jamais tinha aparecido em Bournemouth e esse inapropriado comportamento para um familiar que receberia seu título nobiliário dava muito o que pensar. Entretanto, Anaís tinha proposto ser positiva nesta nova etapa de sua vida. Além disso, não ter ao seu redor ninguém que protegesse a jovem com tanto ardor ensinaria -lhe valer-se por si mesma e talvez pudesse transformar a débil flor numa grandiosa e forte figura de mármore. ― Crê que decidirá me visitar quando acomodar-me? ― Comentou Priscila sem retirar o olhar da rua. Seu cabelo cor mel se soltou da trança enroscada e o rosto se escureceu pelo cansaço, o efeito em uma pele tão pálida era estremecedor. Não só estava destroçada pela viagem, mas sim, embora não quisesse admiti-lo, desde que seu marido faleceu ela não parecia tão saudável como queria aparentar. ― Quem deve aparecer, milady? ― A pergunta a desconcertou. Esperava que, como lhe tinha acontecido com antecedência, seus pensamentos não se exteriorizassem sem querer. ― Referia-me ao visconde ― esclareceu ao apreciar a confusão no rosto da mulher. ― Acredita que se dignará a aparecer em Longher ou mandará outro advogado em seu lugar? As últimas palavras de lady Appelton tinham sido bastante irônicas e aquele humor repentino fez com que Anaís soltasse uma gargalhada. A jovem nunca falava de tal forma, mas devido ao episódio vivido quando leram as últimas vontades do finado, era normal que o fizesse. Ambas tinham esperado com impaciência a aparição do dito cavalheiro. Até falaram dele na noite anterior à leitura do testamento. Milhares de perguntas surgiram em Priscila posto que seu futuro dependia da atitude do dito homem. Assim foi normal que, quando abriram a porta do escritório do administrador, ambas as mulheres deixassem de respirar ao aparecer um cavalheiro bonito e bem vestido. É claro, examinaramno com precisão para procurar algumas semelhanças com o falecido. Embora não achassem nada, coisa que era de supor posto que aquele estranho se apresentou como


representante legal do futuro conde de Crowner. As duas ficaram geladas quando explicou que seu cliente não tinha podido ir por motivos sociais. Que motivo seria tão importante para não fazer ato de presença no enterro da pessoa que lhe mudaria a vida? ― Não acredito, milady. Se não apareceu em um momento tão considerável como foi o enterro de seu marido e a leitura de suas últimas vontades, o que lhe faz pensar que agora mudará de ideia? ― Não sei… possivelmente… Bem, talvez decida fazê-lo pois, como bem sabe, Longher era a residência habitual da família de Anthony. Todos os condes Crowner viveram lá. Só meu marido, e depois de me conhecer, decidiu residir no pequeno lar de Bournemouth ― indicou com tristeza. ― E imagina que aparecerá para lhe recriminar que more nela, isto não está certo? ― Soltou mal-humorada. ― Não espero que aceite de bom grado a decisão do conde. Tenha em conta que não deve ser grato por herdar o título e a pequena fortuna que deixamos em Bournemouth. Ansiará por mais, e isso significa que lutará por Longher e... ― O que lhe parece se nos preocuparmos com esse problema quando ele aparecer? ― Interrompeu-a de novo. ― Acredito que neste momento a única coisa que deve nos inquietar é fazer o pequeno trajeto que falta o mais tranquilamente possível. E, como pôde comprovar, quando dorme, a viagem se faz mais rápido e menos torturante. ― Tem razão, Anaís ― respondeu com um leve sorriso. ― Fecharei os olhos e sonharei com o banho quente que terei quando chegar em meu novo lar. Estou segura de que acalmará todas as doenças que apareceram nesta árdua travessia. ― Pois então descansemos e façamos com que o tempo diminua ― comentou arrumando os travesseiros que Priscila tinha sobre o banco ao lado e, mantendo como pôde o equilíbrio, os colocou nas costas. ― Feche os olhos e sonhe com


esse banho… ― sussurrou com suavidade. Tal como lhe indicou, lady Appelton fechou os olhos e rapidamente a respiração começou a ficar pausada. Anaís apoiou a cabeça sobre seu almofadão e olhou para fora. A paisagem parecia-lhe familiar. Não obstante, todos os lugares próximos à cidade eram similares, imensos arvoredos, caminhos estreitos e grandiosos edifícios construídos separados da vista de possíveis curiosos. Tentou também fechar os olhos para descansar, mas foi-lhe impossível fazê-lo quando, no instante que pretendia fechá-los, uma grandiosa árvore partida em duas apareceu à frente dela. Sem fazer um ruído sequer aproximou-se da janela e a observou enquanto se afastavam. Seu coração deu um salto e conteve a respiração. Não havia dúvida alguma, era o velho carvalho. Olhou para longe e apreciou o brilho de umas luzes acesas. Seu estômago diminuiu e as mãos começaram a tremer. As lembranças do lugar que um dia chamou de lar apareceu em sua mente sem poder detê-las. Com lágrimas nos seus olhos voltou a sentar-se adequadamente. Tentou manter a calma e não despertar com seus soluços a jovem, mas a dor que sentia era tão forte que acabou sendo difícil aplacar seus gemidos. Retornava. Voltava para a cidade que odiou com todas as suas forças, ao solo onde achou falsidade de quem a rodeava. Nenhum daqueles que golpearam o peito insistindo na amizade que tinham com o afamado conde Kingleton ajudou a família quando esta necessitou. Odiava tanto a todos os londrinos que pedia a Deus que ninguém a reconhecesse, embora fosse impossível que alguém se lembrasse da pobre filha dos Kingleton. Durante seus anos em Londres mal tinha sido vista.


Somente a família que morava ao lado da sua residência conseguiria saber sua identidade e esperava que tivessem partido como tantos outros. De repente o rosto de um moço e seu nome apareceu sem avisar: Federith. Anaís tampou sua boca com força para não gritar. Não, ele tampouco a reconheceria posto que por sorte tinha mudado muito. Já não era a menina baixa e gordinha que foi naquele tempo, tinha alongado sua figura e, depois de converter-se em mulher, conseguiu ultrapassar a altura de sua mãe. Já não restava muito da moça que permaneceu naquele lugar até sua partida. Salvo seu cabelo e a cor de seus olhos, tudo nela havia se transformado. Anaís olhou para o teto da carruagem e suspirou. Não tinha por que preocupar-se em proteger sua identidade, ninguém a reconheceria, nem sequer o moço a quem amou tanto que não pôde fazê-lo com mais ninguém. Juntou suas mãos sobre suas pernas e as entrelaçou ao evocá-lo. De novo apareceram aqueles sentimentos que surgiam quando sua mente lhe oferecia aquelas imagens passadas. Era tão gentil, tão bonito, tão terrivelmente encantador… não o tinha esquecido, quem pode fazer desaparecer o amor mais puro de sua vida? Embora fossem crianças, ela o amou tanto que, depois dos anos que tinham passado, ainda perdurava uma pequena centelha daquele sentimento. Durante muito tempo esperou que cumprisse sua promessa. Sim, aquela em que o filho dos Cooper abria a porta de onde seu pai a mantinha retida e a liberava de seu encarceramento, mas não aconteceu. Passaram-se os dias, as semanas, os meses e inclusive os anos e, então, sua única esperança desapareceu. Então a vendeu. Em efeito, seu pai, como bom descarado, decidiu vendê-la à família de Priscila e conseguir deste modo a quantia suficiente para continuar esbanjando até o final de seus dias. Não chorou. Quando soube da morte de seu progenitor não derramou nenhuma lágrima. Como tampouco ninguém derramou uma só por ela. Mas Deus a tinha compensado com a bondade da família Appelton. Foram muito pacientes e amáveis e a trataram como outra filha. Jamais houve diferenças entre Priscila e Anaís até que ela mesma as pôs. Devia enfrentar a realidade, a sua nova vida, ela já não era a servida, mas sim a servente. Anaís limpou as lágrimas que banhavam seu rosto com um lenço, voltou a suspirar e fechou os olhos prometendo que ninguém voltaria a lhe fazer


danos e, se tentassem, ela utilizaria a maldade que herdou de seu pai para impedi-los. A brutalidade com que a carruagem parou em seu trajeto despertou-a com rapidez. Aturdida, aproximou-se da porta e contemplou o exterior. Já estavam no novo lar. ― Milady… ― falou com um sussurro enquanto tocava o ombro da jovem. ― Chegamos. ― Verdade? ― Respondeu a condessa sobressaltada. Afastou os cabelos que tinham caído sobre seu rosto e olhou através da janela. ― Oh, meu Deus! ― Exclamou ao contemplar o que havia no exterior. ― É adorável! ― Senhoras, se quiserem segurar-se em minha mão ajudálas-ei a sair ― comentou o cocheiro após abrir a porta. A primeira a fazê-lo foi Priscila. Mantinha seus olhos totalmente abertos enquanto contemplava o que tinha ao seu redor. Logo a seguiu Anaís, que ficou igualmente impressionada como a senhora. Ambas as


mulheres começaram a dar voltas sobre si mesmas e cada vez que descobriam algo novo exclamavam de alegria. Agora entendiam a razão pela qual o conde desejava que sua esposa vivesse naquele lugar, era um paraíso, uma magnífica obra divina. ― Como serei capaz de me encarregar disto? ― Soltou de repente Priscila. Seus olhos mostravam temor, sua figura ficou rígida e o entusiasmo de seu rosto tinha desaparecido. ― Estarei ao seu lado ― a reconfortou Anaís. Aproximou-se dela e segurou-lhe a mão. ― E o fará perfeitamente. ― Deu-se conta da grandiosidade destes jardins? Percebeu a grandiosidade da residência? ― Insistiu assustada. ― Milady, não se exalte, eu suplico. Se não se tranquilizar terá outro ataque de pânico ― indicou em voz baixa. Priscila começou a respirar agitadamente. Agarrou com força a mão de Anaís e fechou os olhos. Sim, o ataque estava a ponto de fazêla desmaiar. Notava como suas pernas tremiam, como era incapaz de manter-se em pé. ― O que acha de prepararmos aquele banho que mencionou? -Virou-a para a entrada da casa e a conduziu sem soltá-la até o interior. Na porta as aguardavam alguns membros do serviço. Esperavam que a nova proprietária se apresentasse e começasse a ordenar. Mas lady Appelton não estava em condições de realizar nenhuma tarefa digna de uma proprietária. Assim, como era costume de Anaís, foi ela quem as realizou. ― Boa tarde ― saudou as donzelas quando subiram o último degrau ― a condessa está muito cansada, foi uma viagem árdua e necessita de um banho. Alguma de vocês pode nos indicar onde fica seu aposento? ― Boa tarde, excelência ― respondeu uma mulher mais velha e dirigindo-se à condessa. ― Se me permite, eu a


conduzirei até seu quarto. ― Olhou em volta à sua direita e observou duas das jovens que ficaram pétreas ao ver o frágil corpo da mulher. ― Preparem agora mesmo água quente e digam à senhora Alyes que o jantar será servido no quarto da condessa. ― É claro ― responderam ambas as jovens. Realizaram uma leve reverência e entraram depressa para o interior da mansão. ― Se me seguirem… ― disse a criada ao mesmo tempo em que se colocava em frente a elas. Durante o caminho Anaís levantou várias vezes o olhar para contemplar o que guardavam aquelas paredes. Não podia comparála com a residência em que tinha vivido depois do matrimónio em Bournemouth de lady Appelton. Era, no mínimo, quatro ou possivelmente cinco vezes maior. Ao seu redor descobria corredores, como se tivessem construído um labirinto naquela mansão. Tentou não prestar atenção ao que lhe rodeava salvo em segurar o corpo da condessa e que esta subisse os degraus sem tropeçar. ― Por este lado ― indicou de novo a donzela ao chegar ao primeiro andar. Ambas a seguiram sem dizer nenhuma palavra. Só quando ficaram em frente à entrada do dormitório Priscila lhe agradeceu pelo trabalho. Entretanto Anaís foi incapaz de falar quando descobriu a imensidão do quarto. ― É… é três vezes minhas… ― começou a dizer lady Appelton quando fechou a porta e ficaram sozinhas. ― Bom, não deixe que este lugar a atemorize, milady. Todas as residências são cuidadas da mesma forma. ― Viu os jardins? Viu as fontes? ― Perguntou Priscila ao mesmo tempo que se sentava sobre a cama. Esticou as mãos e sentiu a suave maciez da colcha. ― Sim ― respondeu enquanto abria as portas do guarda-roupa. ― Quantas classes de flores armazenará?


― Milhares, talvez milhões ― respondeu desenhando um grande sorriso. ― Oh, santo Céu! ― Exclamou cobrindo seu rosto com as mãos. ― Não serei capaz de fazer isso! ― Fará ― disse com firmeza Anaís. Caminhou até sentar-se ao seu lado e afastou aquelas trementes palmas das mãos no rosto da jovem. ― Fará perfeitamente. Deve comer e

descansar, e isso é tudo. Amanhã, quando amanhecer, poderemos sair e desfrutar daqueles jardins. Verá como não parecerá tão grande quando tivermos passeado vários dias por eles. Priscila suspirou e se levantou da cama após escutar alguém que desejava entrar no dormitório. ― Excelência ― disse uma criada. ― Vamos preparar seu banho. ― Obrigada ― respondeu Priscila na mesma altura em que notou as mãos de Anaís a desabotoar o vestido. IV ― Acredito que hoje a sorte me sorri. ― Leopold Spencer, visconde de Dankwourth, colocou as cartas sobre a mesa para que outros jogadores comprovassem a veracidade de suas palavras. Uma vez que as estendeu em frente a eles recostou-se sobre o respaldo de seu assento e, sem apagar o sorriso que lhe provocava ser de novo o vencedor, levou a mão direita para sua barba e a acariciou. Tinha decidido sair do escritório e esbanjar um pouco de seu tempo jogando e bebendo no clube Reform. Pensou que perder um pouco de moedas e frustrar-se por não ter a fortuna ao seu lado lhe faria esquecer o futuro que logo devia possuir. Entretanto, em vez de frustração encontrou diversão. Com a última jogada eram


cinco as que tinha ganho e, pelas caras que mostravam seus rivais, também seria a última. ― Não desejam a revanche, senhores? ― Incitou-lhes quando começaram a levantar-se de seus assentos. ― prometo que na próxima vez jogarei com os olhos fechados. ― Eu se fosse você não zombaria assim de sua boa sorte comentou um dos cavalheiros enquanto colocava a capa sobre seus ombros. Os largos bigodes cinzas se estenderam sobre o lábio formando uma linha reta. ― Em algum momento a necessitará de verdade e não a encontrará. ― Se chegar esse momento, senhor Hyde, tocarei a porta daquele que tenha condenado meu futuro e lhe darei um tiro ― disse com aparente seriedade. ― Um conde não deveria fazer falsos juramentos, milorde. Nunca se sabe quem pode escutá-los ― falou outro dos participantes que também se dispunha a abandonar a sala. ― Ninguém me educou para o ser… ― murmurou apertando os dentes. ― Mas é seu destino, e como tal, deve aceitá-lo ― determinou o homem de grande bigode. ― Seu novo título é uma bênção, não a condenação que pretende mostrar. Nosso orgulho britânico deve proclamar-se com firmeza e não com debilidade. Somos os únicos no mundo que podemos sentirmo-nos dignos da superioridade que desfrutamos. Temos que honrar nossos ancestrais, não cuspir em suas tumbas e, muito temo, que as novas gerações como você destruirão séculos de árduo trabalho. Pense melhor no bem que realizará e esqueça o que deixa para trás, ser conde implica muito mais do que imagina. E se não estiver de acordo com sua nova situação, devolva o título à Coroa ― sentenciou antes de colocar o chapéu, fazer uma leve inclinação e partir erguido. Leopold olhou desafiante aos outros esperando que algum deles continuasse com


a conversa, mas ninguém se atreveu a falar. Só decidiram partir em silêncio e despedir-se com um leve movimento de cabeça. Sabiam. Não só eles mas também toda a sociedade londrina estava a par de seu mal-estar por ser nomeado herdeiro depois da morte de seu tio. Quando teve entre suas mãos o contrato que o nomeava futuro proprietário da velha tipografia, não considerou que seu futuro fosse muito diferente da que havia se proposto. Seu desejo por despojar-se de toda aquela pressão que suportava possuir um título aristocrático só tinha sido uma ilusão. Alegrou-se muitíssimo o dia que se anunciou o novo matrimónio do conde. Se por fim engendrava um herdeiro, nada entorpeceria seu ansiado destino. Mas passaram os meses e inclusive os anos e a notícia que tanto ansiava não chegou. Manteve sua esperança até o dia que um de seus empregados entrou no escritório e pousou uma carta com seu nome sobre a mesa. Nesse instante soube que tudo tinha acabado e que seu temido fim estava escrito no papel. Demorou para lêla, como se dessa maneira pudesse deter o tempo, mas terminou por abri-la e confirmar suas suspeitas. Foi então que um sobrenome surgiu em sua mente: Lawford. Um afamado administrador que alcançava, com os meios mais suspeitos, tudo o que seus clientes lhe demandavam. Mas o homem foi terminante sobre o assunto que o conduziu até ele: «Sinto muito, milorde. Este caso escapa das minhas possibilidades. Não posso lutar contra um legado da Coroa», comentou. Assim rezava para que a morte fosse piedosa e o visitasse antes do estipulado. Embora, por mais que o tentasse, Leopold foi incapaz de dar-se por vencido e decidiu centrar-se na única alternativa que ficava. Segundo seu advogado, quem foi escutar as últimas vontades em seu nome, ainda existia uma esperança: se durante os próximos dois anos a condessa viúva fosse capaz de permanecer em Londres, a residência dos condes lhe pertenceria e, salvo a propriedade em que tinham vivido em Bournemouth e o afamado título, ele não teria mais responsabilidades a respeito. Mas se pelo contrário, ela decidisse retornar à pequena cidade, não ficava outra alternativa a não ser aceitar seu destino.


― Deixa uma garrafa onde minha mão possa alcançá-la ― disse de maneira tosca ao criado que o observava de um rincão da habitação e se mantinha em silêncio. ― Não quero ficar toda a noite pedindo que encha o copo. O criado conteve a respiração ao agarrar a garrafa de rum que estava por abrir e tentou que sua mão não tremesse ao depositála justo onde Spencer tinha as moedas ganhas. ― Não havia outro lugar onde colocar a maldita garrafa? ― Soltou elevando mais do devido sua voz. ― O… sinto… ― balbuciou o lacaio. ― Não deveria fazer com que seus adversários fujam assustados, senhor Spencer, nem tratar assim aos serviçais ― assinalou uma voz masculina. ― Se não mudar sua atitude terminará por perder os possíveis jogadores que sonha vencer e espantará aos poucos criados que possam saciar sua sede. Leopold dirigiu o olhar para o cavalheiro que acabava de entrar na pequena sala de jogo e sorriu. ― Boa noite, Riderland, fará a honra de converter-se em meu próximo adversário? ― Incitou-lhe assinalando com a mão um dos assentos vazios. ― Como já comentei a essas galinhas que se proclamam cavalheiros distintos, realizarei as minhas próximas partidas com os olhos fechados. ― Eu não gosto de ter vantagem, insulta meu intelecto ― indicou Roger enquanto colocava sua capa sobre o cabide que havia junto à entrada. ― Mas aceito sua proposta. Confesso-lhe que me sentirei muito satisfeito quando eliminar esse sorriso de seu rosto. ― Será muito difícil conseguir, milorde. Tenho que lhe advertir que não perdi nenhuma mão desde que me sentei ―


esclareceu Leopold satisfeito ao ver que os rumores sobre o marquês eram certos. Conforme diziam não havia nada no mundo que lhe provocasse temor. Aceitava qualquer desafio porque, até agora, tinha saído vitorioso. Também comentavam que só um filho do próprio diabo podia viver sem medo do futuro. Mas Spencer sabia que a atitude de seu novo competidor não tinha nada a ver com aqueles falatórios. O marquês, tal como ele, tinha esperado que a sua vida fosse muito distinta e trabalhou cuidadosamente para isso. Riderland tinha um grande navio e dedicava-se a realizar viagens comerciais. Essa decisão de sair de Londres e sulcar os mares só fez aumentar as especulações das mentes daqueles que se resignavam a não abandonar a cidade por temer perder o prestígio que possuíam nela. Embora também fosse um ponto importante para o marquês ter salvo uns meninos órfãos de morrer vítimas das chamas. Por sua parte, ele não era um herói, mas tinha conseguido que uma velha e arruinada tipografia se convertesse na empresa mais frutífera de Londres, sem ter que mencionar quem chegaria a ser. ― Parece-me incrível ― começou a dizer Bennett enquanto caminhava para o móvel bar e pegar um copo ― que você seja um jovem tão imprudente. Por acaso seus pais não lhe ensinaram que um rival tem que ser, acima de tudo, humilde? ― Desabotoou os botões da jaqueta, sentou-se, verteu rum da garrafa que havia sobre a mesa, colocou as cartas ao seu lado e pegou um charuto para colocá-lo em seus lábios sem acendêlo. ― Meus pais jamais se ocuparam da minha educação e quem cuidou dela não acreditou que tal disciplina fosse importante para o meu futuro ― expôs jocoso. Elevou seu copo e após aceitar o brinde que Roger lhe dirigia, ambos beberam o licor que havia no interior. ― Que idade tem? ― Perguntou Bennett com interesse. ― Vinte e seis ― respondeu enquanto voltava a encher sua taça.


― Boa idade para tomar as novas rédeas de seu futuro, não lhe parece? ― Aproximou seu copo para que Spencer lhe servisse. ― Com que idade você o fez, milorde? ― Leopold serviu-lhe, colocou a garrafa sobre a mesa, reclinou-se no assento e o observou sem pestanejar. ― Para lhe ser justo, desde que contraí matrimónio. A marquesa foi a única pessoa que conseguiu estabilizar-me ― expôs sorridente. E era certo. Evelyn mudou-lhe a vida. Desde que pôs seus olhos nela soube que era a mulher ideal e quando esteve a ponto de perdê-la acreditou que sua existência já não teria sentido. Mas a incrível fortaleza de sua esposa a fez curar e, desde que se levantou da cama não tinha parado de ordenar e manipular ao seu desejo. ― Eu demorarei para fazê-lo… ― resmungou Spencer. ― As minhas obrigações trabalhistas não permitem descuidos e, como bem sabe, as mulheres impedem todo tipo de propósitos. ― Está seguro do que diz? ― Roger arqueou as sobrancelhas loiras e o olhou surpreso. Agradecia que fosse ele a estar sentado naquela cadeira porque se em seu lugar estivesse Evelyn ou a própria duquesa de Rutland, aquele homem não sairia ileso do clube. ― É óbvio! ― Exclamou veementemente. ― Sou um homem muito ocupado e duvido muito que uma esposa seja consciente da firmeza que se requer para fazer próspera uma empresa como a minha. Roger o contemplou em silêncio durante uns instantes. A atitude de Spencer lhe recordava muito a sua, salvo pela descabelada ideia de não ter a uma mulher ao seu lado. Tal como ele, não se tinha contentado a viver sob o amparo que lhe oferecia o título nobiliário de sua família, mas sim tinha construído uma vida trabalhista muito diferente. A tipografia que abriu anos atrás estava a ser mais próspera do que todos imaginariam. Os três periódicos mais importantes da cidade requeriam seus serviços. Mas não só se apoiava na impressão dos noticiários, como também se fazia cargo dos posters que luziam os novos empresários em seus edifícios. Construtores, comerciantes, navegantes, até os novos autores que lutavam por publicar seus escritos faziam fila na porta para


que aquele cavalheiro estampasse em fino papel os seus projetos. ― Pois muito me temo que o destino lhe dará uma patada no estômago, senhor Spencer. – Pegou as cartas e começou a embaralhálas. ― Por que diz isso? ― Inquiriu Leopold arqueando as escuras sobrancelhas. ― Porque isso mesmo pensava eu um mês antes de me casar… ― soltou sem olhá-lo. Leopold não prosseguiu com o tema. Ele não era como o marquês e jamais se deixaria enganar por uma mulher. Controlava seus sentimentos, seus pensamentos e inclusive suas necessidades sexuais. Tinha suportado dois anos inteiros sem manter uma relação passional e podia ficar uma década se o propusesse. Entretanto, quem estava sentado em frente a ele tinha uma reputação de libertino, de sem vergonha e, embora tivesse contraído matrimónio um ano atrás, não entenderia jamais que um homem pudesse viver sem satisfazer certos instintos. ― Se por acaso não se deu conta, milorde, está repartindo para três jogadores e, se o álcool não nublou já o meu raciocínio, aqui só estamos em dois ― comentou perplexo. Enquanto meditava sobre a grande diferença que havia entre eles dois com respeito ao tema das mulheres, não tinha fixado sua atenção em como o marquês distribuía o baralho, mas uma vez que prestou atenção descobriu que as cartas estavam agrupadas em três montes. ― Não demorará para chegar… ― disse Roger sem desfazer o sorriso de seu rosto. ― Quem não demorará para chegar? ― Insistiu o jovem com inquietação. ― Ele ― respondeu o marquês ao observar que a porta se abria de novo. ― Boa noite, cavalheiros ― lhes saudou Federith. tirou o chapéu e a capa e os pôs no cabide. ― Perdoe a demora, espero não haver perdido nada importante.


― Não muito ― respondeu Roger reclinando-se em seu assento. ― Só a exposição do senhor Spencer sobre o inapropriado que lhe resulta ter uma mulher ao seu lado. ― Só isso? ― Perguntou Cooper divertido. Caminhou até o móvel bar, pegou uma taça e retornou à mesa. ― As nossas opiniões são opostas em relação a esse tema. -Leopold estendeu sua mão para saudar o recém-chegado. ― Nem todos têm de pensar da mesma forma, não lhe parece? ― Aceitou a saudação e ocupou um dos assentos depois de desabotoar os botões da jaqueta. ― Embora, conforme percebi, ambos estão felizmente casados, não é? ― Inquiriu Leopold olhando primeiro a um e depois ao outro. ― De facto ― respondeu Federith. ― Entretanto, senhor Cooper, sua esposa sim deve entender que um homem requer de tempo para ocupar-se de seus afazeres profissionais ― indicou Spencer enquanto dirigia a mão para a taça. ― Por que o diz? ― Porque, salvo a nota que imprimi no periódico sobre seu compromisso, ninguém diria que você contraiu matrimónio ― explicou o futuro conde sem perceber as rugas que Federith começava a mostrar no rosto. ― Advirto-lhe, senhor Spencer, ― intercedeu com rapidez Roger ― que nem todas as mulheres são tão solidárias como lady Cooper. A marquesa colocou seus lindos pés em meu navio cada vez que me dispus a navegar. ― Então desejo um casamento como o que ele tem. ― Elevou sua bebida para Federith e lhe dedicou um brinde. Mas como era de esperar, Cooper não brindou. Como ia dedicar um sorvo de


bom rum por uma mulher como Caroline? Não, não merecia nem isso nem qualquer outra forma de adulação. Por mais que aquele homem quisesse ter uma vida como a sua, não a desejava nem ao seu inimigo mais desprezível. ― Pensei que estaríamos sozinhos ― indicou Federith um tanto mal-humorado. Ajustou-se o colete, tirou o relógio e olhou a hora. ― Eu também ― respondeu divertido Roger. ― Mas mudei de opinião ao ver como o senhor Spencer zombava dos cavalheiros que abandonaram a sala antes da minha chegada. ― Uma noite bem sucedida? ― Perguntou Cooper ao moço enquanto pegava as cartas que tinha ao seu lado e as observava. ― Considero-me um homem afortunado, senhor ― respondeu Leopold encolhendo os braços e não dando muita atenção à negação do brinde. ― Uhm… você é um homem arrogante ― disse o futuro barão sem afastar o olhar de suas cartas. ― A quem me recordará? ― Talvez ao meu pai ― respondeu com rapidez Leopold. ― Ele também era um homem venturoso… ― esclareceu com orgulho. ― Não tive o prazer de o conhecer. ― Federith colocou uma de suas cartas sobre a mesa e depositou as moedas com as quais começaria a partida. ― Mas imagino que se sentiria muito agradecido de ter um filho como você. ― Acaso não é o que um pai anseia? A pergunta foi direto ao coração de Cooper, cravando-se como uma afiada adaga. Isso é o que se esperava de um filho? O que esperava ele de Eric? E seus pais? Contentar-se-iam mantendo-se à margem da educação de seu neto ou lutariam para transformá-


lo em um ser tão semelhante a ele? Não podia permitir que eles intercedessem no ensino do pequeno, poria todos os meios ao seu alcance para evitar que frustrassem seu futuro. Ensinar-lhe-ia que nem tudo se apoia em exaltar o título que ostentaria quando ele falecesse, mas sim que a vida era muito mais que um nome aristocrático. Devia ser feliz, desfrutar de cada momento e, é claro, não sentir-se na obrigação de fazer o que se espera ao converter-se num barão. ― Qual é o assunto que me queria explicar? ― Interveio Roger ao perceber no olhar de seu amigo certa amargura. ― Tem a ver com a ferrovia ― disse Federith afastando o seu olhar da toalha da mesa para observar seu amigo. Ele era o próximo a jogar a carta e muito temia que demoraria para fazêlo. Tudo dependia do que desejasse essa noite: perder a partida, ganhála ou talvez… ― Conforme entendi, ― participou Leopold ― logo deixará de produzir grandes benefícios. Acredito que se começa a ver o transporte de estrada como um firme substituto ao trem. ― De facto ― Secundou Cooper. ― Assim deveríamos arriscar a investir nesse projeto se não quisermos ver diminuídos os nossos lucros. Roger, por fim, colocou sobre a mesa a carta que todos esperavam e, ao contemplar o sorriso triunfante de Spencer, enrugou a testa. ― Deveríamos falar disso com o Rutland. Acredito que tinha planejado assinar um contrato com um possível investidor. ― Recostou-se sobre o assento e inspirou o charuto que não tinha acendido. Não podia fumar, esse era o pacto que tinha feito com Evelyn, mas não falaram de manter um charuto apagado na boca. ― Daí meu obstinado interesse por nos reunir o mais rápido possível, Riderland ― explicou Federith. Sempre se dirigiam com o nome do título que ostentavam ou com o sobrenome que não tinham tomado posse quando não estavam sozinhos. ― Não podemos deixar que nosso amigo se arruíne por ignorar um


assunto tão importante. Conforme me informaram, podemos oferecer uma suculenta quantidade para poder nos converter em sócios capitalistas. ― Quando? ― Soltou Roger ao mesmo tempo em que tomava entre suas mãos o baralho para baralhá-lo de novo. ― Um mês no máximo. Depois desse prazo não te confirmo nada ― explicou com seriedade Cooper. ― De quanto é o investimento inicial? ― Interessou-se Spencer. ― Parece-lhe atrativa a proposta? ― Leopold afirmou com um leve gesto de cabeça. ― Mas tenho que lhe advertir que não é qualquer um que pode investir. Até agora, só os que possuem um título aristocrático podem participar do financiamento do transporte por rodovia -esclareceu Federith. ― Se por acaso não se inteirou, lorde Cooper, meu tio, o conde Crowner, faleceu e como não conseguiu engendrar um herdeiro, vejo-me na obrigação de ostentar o dito cargo ― expôs Leopold com uma mescla de solenidade e aborrecimento. ― Então, evitando esse impedimento inexistente, quanto terá que investir? Federith olhou ao Roger assombrado. Este encolheu os ombros e sorriu. ― A quantia exorbitante de oito mil libras ― disse enfim o futuro barão do Sheiton. ― Está bem ― comentou Spencer levantando-se de seu assento. ― Antes de um mês terão minhas notícias. Cavalheiros… ― Não acredito que deva… ― tentou dizer Bennett. ― Milorde, com o devido respeito, tenho que lhe advertir que onde e como queira destinar os lucros que possuirei como conde, só incumbem a mim. ― E se os perder? ― Insistiu Cooper.


― Não arriscarei nada do que consegui por mérito próprio, senhor. Só aquilo que me foi outorgado sem esforço e sem interesse. Se o perder não sentirei pesar algum, mas se ganhar poderei ver como minha pequena empresa inglesa se estende por outros limites -declarou com magnificência. ― Se tem a certeza, esperarei notícias. ― Tanto Roger como Federith se levantaram para se despedir do homem. O aperto de mãos foi a assinatura de um contrato futuro entre cavalheiros.

― As terá ― sentenciou Leopold antes de abandonar a sala. Durante uns instantes que ambos empregaram para tomar o resto de licor que ficava em suas taças, permaneceram calados. A mente de Federith não deixava de pensar que não era adequado introduzir outro sócio. Entretanto Roger concluía de uma forma muito distinta. Para ele, quantos mais investidores houvesse no projeto, menos risco de perdas existiria. Não lhe importava que os lucros não fossem tão suculentos, o único que interessava ao marquês era não gastar muito para poder continuar a oferecer uma boa vida aos seus meiosirmãos. ― Espero que tenha feito o correto ― murmurou Federith. ― Sabe que sempre faço ― pronunciou Bennett muito seguro de si mesmo. V ― Minha carruagem está na porta ― disse Roger quando ambos saíram do clube. ― Posso te levar para casa se o desejar. ― Muito obrigado, mas prefiro caminhar ― respondeu após suspirar. ― Quero aproveitar o trajeto para refletir sobre o tema que acabamos de resolver. ― Virou-se para seu amigo e lhe estendeu a mão para despedir-se, embora este a tenha rejeitado. ― Nesse caso te acompanharei. Além disso, será bom arejar as minhas roupas antes de chegar em casa. Como bem sabe, Evelyn não gosta que emane este aroma de álcool e estou seguro de que me fará dormir na poltrona.


Depois de oferecer a primeira desculpa que lhe veio à cabeça, indicou ao cocheiro que lhe esperasse na residência dos Cooper e retornou para junto do seu amigo. Ultimamente notava-o mais sério do que o habitual, como se estivesse meditando sobre algum tema de difícil solução. Roger não devia preocupar-se com o comportamento de Federith, ele sempre atuava como se cada dia, cada minuto de sua vida, fosse imprescindível para sobreviver. Entretanto, desta vez Bennett tinha um estranho palpite que lhe gritava, que a atitude tão distinguida escondia muito mais do que tentava aparentar. Por isso tinha tomado a liberdade de investigar, há uns tempos atrás, tudo referente ao seu amigo. Face aos gritos e ameaças de Evelyn por persuadi-lo para que não colocasse o nariz onde não lhe incumbia, tinha encarregado John de o investigar. É claro que não estava sozinho nessa loucura. Tinha o beneplácito de William, ao que lhe pareceu a melhor forma de averiguar o que acontecia ao homem que adorava como a um irmão. A premissa do duque era que o mal-estar de Federith emergia do instante que se comprometeu com sua esposa. Rutland desconfiava sobre a paternidade do menino que ela esperava, posto que Cooper sempre tinha sido muito cuidadoso em suas relações. Tentou que mudasse de opinião a respeito do assunto. Quando o visitou antes que partisse para Haddon Hall, manteve com ele uma acalorada discussão sobre o iminente propósito. Mas não lhe fez mudar de ideia. Ele argumentou que estava apaixonado por Caroline e que devia fazer o correto. Apesar de sua crença sobre o inesperado amor pela mulher, William sabia que não era certo. Federith só tinha amado uma vez e esse estado de amor fez com que perdesse toda a prudência que possuía. Permaneceu anos inteiros desejando a jovem que se afastou de sua vida e, embora se dera por vencido ao não a encontrar, seu coração continuava a pertencer-lhe. Por isso Rutland tinha a certeza de que os sentimentos para com lady Cooper não eram os que ele insistia em possuir. Se a amava, se de verdade sentia algo pela mulher, não teria aparecido em sua residência londrina para debater sobre o casamento. Deveria lhe recordar como se sentia um homem apaixonado? Deveria lhe falar do


desespero e da loucura que manteve enquanto procurava a jovem Anaís Price? Talvez, mas Federith não lhe deu a oportunidade para lhe expor nada. Fugiu com a mesma urgência e medo que um rato de um navio afundando-se no mar. Por esse motivo decidiram averiguar o que acontecia no lar dos Cooper. Tudo o que eles descobrissem lhes teria alertado sobre o que aconteceria no futuro e, se William e Roger não erravam, logo aconteceria algo terrível. ― Acredita que foi acertada a intromissão de Spencer? ― Perguntou Cooper ao mesmo tempo em que diminuía o passo. ― Sim ― respondeu Bennett desenhando um grande sorriso. ― Por isso te chamei com tão pouco tempo. Não esperava que esta noite aparecesse no clube. É sabido que esse homem mal deixa a tipografia e, como deve compreender, era a única oportunidade que tinha -explicou. ― Por quê? ― Federith levantou a sobrancelha esquerda para acentuar seu interesse. ― Por quê o quê? ― Respondeu Bennett. ― Por que quer que se ocupe de sua metade? ― Acrescentou Cooper. ― Tenho esperanças nesse moço… ― expôs com tranquilidade. ― Esperanças? ― Parou-se em frente ao seu amigo e o olhou desafiante. ― Pensa que um homem que não é capaz de confrontar a sorte que lhe ofereceu seu destino pode encarregar-se de um posto tão importante? ― Se não me falhar a memória, e estou seguro de que a ti tampouco, eu não queria o maldito título que carrego sobre minhas costas ― grunhiu. ― Mas tem uma grande família a que cuidar e graças à posição que te outorgou ser marquês eles vivem sem estreitezas


― insistiu. ― Até agora, meu querido amigo, minha grande família, como você os denomina, sobreviveu com os lucros que obtive com as viagens comerciais, mas nem sempre será assim ― falou com certo ar de medo. ― Pensa deixar os contratos mercantis? Quem ocupará seu lugar? ― Inquiriu desconcertado. ― Logan, é óbvio ― esclareceu com firmeza. ― É muito jovem para ocupar essa posição. Mal tem dezessete anos… ― como Bennett prosseguiu caminhando, Federith lhe seguiu. Estava seguro que seus pensamentos não permaneciam distorcidos pelo álcool, mal tinha tomado duas taças. Essa ideia que confessava sob a escuridão da noite londrina devia havê-la tomado um tempo atrás. ― Tem as qualidades necessárias para ocupar meu lugar quando se requerer ― indicou com solenidade. ― Seus tutores tratam de instruir a um futuro marquês e, embora lhes esteja produzindo úlceras nos estômagos, o obterão. ― Não sabia que estava fazendo planos sobre seu futuro… ― soltou um comprido suspiro após dizê-lo. ― Por acaso não pensou nisso? ― Observou seu amigo com o olhar perdido, como se na verdade não pensasse nisso. Juntando suas lembranças, insistiu: ― Se não o tem feito, deveria fazêlo. Embora seja de forma diferente, você também criou uma família. Não me diga que se rendeu? De verdade pensa fazer seu filho padecer o mesmo que você? ― Ser barão tampouco é um trabalho muito pesaroso… sussurrou.


― Isto é incrível! ― Exclamou Roger assombrado. ― Quantas vezes conversamos sobre suas aspirações para se converter em um ilustre magistrado? Não aprendeu com os enganos cometidos? O que serão de seus desejos, dos teus? ― Repreendeu elevando um pouco a voz. ― Está falando dos desejos de um adolescente ― se defendeu. ― Agora, como bem diz, sou marido e pai e meus… ― tragou saliva e tentou manter a calma. ― Minhas aspirações são outras. Tenho que mostrar a Eric a vida que terá e que melhor forma de lhe ensinar que com meu exemplo? ― Pelo amor de Deus, Federith! Está se escutando? É a viva imagem de seu pai! Só te falta indicar ao seu filho que não deve apaixonar-se e que terá que casar-se com a mulher que você crê apropriada! ― Gritou com tanta força que uns mendigos os observaram atemorizados. ― O destino está escrito, Roger, e não se deve fazer nada mais que aceitar o que lhe é imposto ― respondeu com voz pausada e tranquila. ― À merda com isso! Onde está o homem que conheci naquela universidade? Onde está a paixão de um jovem que lutava para sobreviver? Morreu? ― Girouse para ele zangado, agarrou-lhe pelas lapelas da jaqueta para sacudi-lo e voltou a clamar: ― Me diga, Federith! Morreu? ― Sim ― respondeu afogado pela tristeza. De repente o silêncio que ambos mantiveram depois da afirmação de Cooper se viu interrompida pelas badaladas do Big Ben. Doze, para ser exato. Roger soltou seu amigo, tentou manter uma compostura adequada e deixou que o silêncio entre ambos, permanecesse até que chegaram à porta da residência de Federith. Sem que este fosse consciente da investigação rápida de Bennett, o marquês percebeu que só tinha estacionado uma carruagem, a sua. Onde estaria a de Cooper? Zangado e ao mesmo tempo decepcionado, prosseguiu com os lábios fechados até que escutou seu amigo falar entre sussurros. ― Eu tampouco desejei aceitar minha vida, Riderland. Mas quando o destino te


crava uma adaga no peito só deve se resignar a sentir sua dor e chorar em silêncio. ― Fala como um homem a ponto de se atirar ao Tâmisa ― indicou com tristeza. ― Jamais imaginei que se renderia, que deixaria de lutar por mudar sua vida. ― Diz isso porque é afortunado. A sorte sorriu tanto a William como a você. ― Parou-se em frente às escadas que lhe conduziam à entrada de seu lar e cravou o olhar naquela armação de madeira. ― Pois não deixe de lutar, meu amigo. Nunca se sabe o que acontecerá amanhã. ― Roger estendeu a mão para Cooper e esperou que a estreitasse. ― Amanhã não será diferente de hoje ― disse ao mesmo tempo em que se virava para seu amigo e aceitava a mão. De repente notou como Roger puxava-o para seu corpo para lhe dar um forte abraço. Não se retirou. Necessitava-o, ansiava tanto ser reconfortado que se sentia como a uma moça em apuros. Envergonhado por manter o contato entre ambos mais do que deveria, Federith deu uns passos para trás e olhou nos olhos de seu amigo. ― Se pensa que vou roubar-te um beijo, equivoca-se ― expôs zombador Roger. ― Não quero suas amostras de amor, querido ― respondeu com o mesmo tom zombador. ― Mas aviso-te que esta noite voltará a dormir na poltrona. ― Isso não acontecerá ― disse apertando os dentes. ― Evelyn farejará suas roupas, e tenho que te avisar que continua a cheirar a rum. ― Maldita seja! ― Exclamou Bennett pondo os olhos em branco. ― Terei que despertar o serviço para que me preparem um banho. Não quero que aquele pulgoso volte a ocupar meu lugar.


― Capitão terminou por ficar em Lonely? ― Perguntou divertido Federith. ― Quem é capaz de evitar os encantos de um cão torto e com três patas? ― Respondeu mal-humorado Roger. ― É claro que suas mulheres não… ― disse Cooper antes de soltar uma grande gargalhada. ― É óbvio… ― afirmou Riderland antes de se virar e caminhar para sua carruagem. Federith não se moveu da entrada até que o transporte de seu amigo desapareceu. Nem apagou de seu rosto o sorriso até que se voltou e entrou em seu lar. A governanta veio ao seu encontro para pegar o casaco e o chapéu. ― Boa noite, milorde ― lhe disse com tom sonolento. ― Boa noite, senhora Gordon. Desculpe se a despertei desculpou-se como sempre fazia quando suas noitadas obrigavam a mulher a permanecer acordada. ― Não dormi ainda, senhor. Estava a inspecionar o lar quando escutei que chegava. ― Eric… continua a chorar? ― Perguntou preocupado. A inesperada chamada de Roger interrompeu a rotina entre pai e filho e, como era de esperar, o pequeno não gostou que fosse afastado de habituais brincadeiras antes de descansar. ― A babá acalmou-o há pouco mais de uma hora. Acredito que finalmente desistiu ― assinalou a mulher enquanto esperava imóvel que seu amo decidisse subir ao piso superior. ― Irei ver como está ― indicou Federith ao mesmo tempo em que escutava a chegada de sua carruagem. ― Deseja alguma coisa mais? ― Perguntou a governanta com urgência.


Não queria estar presente quando o casal se encontrasse. Embora todo o serviço estivesse a par das discussões dos amos, eles se mantinham à margem, em silêncio e discretos. Não lhes incumbia nada os temas dos senhores. Entretanto, na cozinha, as conversações sobre o trato da senhora para com seu marido se faziam mais habituais. ― Pode retirar-se ― disse Federith voltando-se para o hall. ― Boa noite, milorde. ― E como se quisesse iniciar uma corrida, a senhora Gordon acelerou o passo para entrar na casa. Cooper sentiu que a gravata lhe asfixiava, que seu coração se abrandava e que um suor frio brotava de suas mãos. O aborrecimento, a ira, a ansiedade que lhe produzia o inapropriado comportamento de sua esposa o alterava tanto que se transformava numa pessoa louca. Caroline não era a mulher que esperava. Ela não agia como imaginara. Desde que se casaram provocava qualquer situação embaraçosa entre eles para não permanecer ao seu lado nem um só instante. A atitude de Federith tinha sido sempre a mesma, esperava-a na biblioteca enquanto bebia uma ou várias taças, olhava o relógio da parede quando esta aparecia no lar e se mantinha ali encerrado até que escutava como a porta de sua habitação se fechava. Não precisava de perguntar de onde vinha, sabia a resposta. Caroline tinha um amante e não tinha deixado de visitálo nem um só dia desde que nasceu o pequeno. Quando depois das núpcias se instalaram na residência, ela ordenou que lhe atribuísse uma habitação própria. Ao princípio não se importou com a decisão de sua esposa, sabia que muitos casais descansavam em quartos diferentes. Mas com o tempo a dúvida sobre eles começou a surgir. Chegou a converter-se em um tema doloroso para ele. Quem, depois de casar-se, não dormia com sua esposa? Imaginou que tudo era produto da gravidez. Muitas mulheres mudavam seu comportamento ao ficarem grávidas. Até a própria duquesa abandonou o estado de ternura enquanto manteve Elliot em seu ventre. Milhares de queixas


brotaram da boca de William no último trimestre de gestação. Mas em nenhum momento Rutland indicou que Beatrice o tivesse abandonado. Ela continuou ao lado de seu marido e se encarregava das necessidades deste até que chegou o momento do parto. Entretanto, Caroline não admitiu nem um casto beijo, nenhuma carícia, nada que proporcionasse contato algum entre eles. Era fria, gélida e se mantinha distante todo o tempo. Federith concluiu, em várias ocasiões, que o tinha usado. Sim, ele era uma marionete para a mulher. Até chegou a pensar que o encontro que mantiveram foi uma ilusão fruto da embriaguez. Mal recordava como tinha sido, só que tomou sua mão e o conduziu para os jardins afastados da senhorita Baithlarin. Ali, entre a escuridão que os carvalhos proporcionavam, ela aceitou que a possuísse. Não houve amor entre os dois, só paixão, ou isso pensou naquele momento Cooper, que desejoso por saborear uns lábios que lhe indicavam uma luxúria divina, arrastou-se atrás dos passos da mulher. Porquê? Porque é que ela escolheu seduzi-lo? Essa era a pergunta que aparecia na mente de Federith sem descanso. Não entendia a razão pela qual insistiu em manter um idílio com ele se, como ela mesma expressou no dia que lhe disse que iria à sua habitação, sentia repulsa por sua pessoa.


― Não se atreva a vir ― lhe advertiu Caroline levantando seu dedo inquisidor. ― Jamais deixarei que me toque. ― Então por que aceitou se casar comigo? ― Repreendeu furioso. Até aquele momento sempre tinha tratado as mulheres com a ternura e delicadeza que mereciam, mas nesse instante equilibrou-se para ela e a sacudiu. ― Não tem resposta? ― Gritou libertando-se do seu brutal aperto. ― Não! ― Clamou Federith mais zangado, se pudesse. ― Pois suba à habitação de seu filho, ele te dará a resposta que tanto anseia ― disse desenhando um enorme sorriso. ― Duvido até de que Eric seja meu filho… ― falou afastando-se dela e lhe dando as costas para que não descobrisse a tristeza em seu rosto. ― Se tanto me odeia, se tanto asco te dou, por que não mostrou essa repulsa naquela noite? ― Estava ébria ― soltou sem pensar. ― Se não tivesse bebido tanto champanhe, nem teria me aproximado de você. Crê que não tinha mais aspirações que me converter numa miserável baronesa? Essas palavras tão ofensivas provocaram uma ira tão imensa em Federith que deu a volta, aproximou-se da mulher e, preso a uma loucura momentânea, deulhe uma bofetada. Ao escutar como sua palma golpeava o rosto de Caroline ficou desconcertado e toda a raiva desapareceu com rapidez passando a um estado de confusão e arrependimento. ― Caroline… ― Disse atónito. ― Lamento… não queria… me perdoe. ― Não volte a aproximar-se de mim. Ouviu-me? ― Gritou a mulher acalmando a dor que sentia na bochecha colocando suas próprias mãos sobre ela. ― É um monstro! Um monstro! ― Repetiu antes de sair do salão e fechar a porta com brutalidade. Desde aquele momento, desde aquele preciso instante, Federith assumiu que nada entre eles floresceria salvo o ódio. Tinha-a maltratado. Preso de um episódio de loucura tinha esbofeteado a sua


esposa e, logicamente, nem ela nem ele mesmo se perdoariam daquele ato tão cruel. ― Boa noite, Caroline ― a saudou quando fez ato de presença no lar. ― Se divertiu esta noite? ― Muito mais do que esperava ― foi sua resposta antes de tirar o casaco e atirálo sobre o chão descuidadamente. Sem olhálo começou a subir para o piso que a levava ao seu dormitório. ― Eric continua a chorar, se por acaso te interessa saber como está nosso filho ultimamente. Suas palavras provocaram o efeito que desejou lhe causar. Ela ficou parada no terceiro degrau, agarrou-se ao corrimão e o observou carrancuda.

― Se estiver doente, chame o doutor. ― Já veio várias vezes – alegou. ― Segundo seu diagnóstico a irritação de Eric se deve ao romper de seus primeiros dentes. ― Bem, então deve ter dito que lhe dê bálsamo de sândalo. Isso acalmará sua dor. ― Voltou seu olhar para o final das escadas e prosseguiu. ― Acredito que deveria consolá-lo de vez em quando ― soltou Federith sem elevar a voz. Caroline se deteve de novo sem dirigir o rosto para seu marido, inspirou com profundidade e respondeu. ― Para isso já tem a babá.


― Ela não é sua mãe… ― murmurou Cooper aflito. ― Nesse caso lhe ofereça o que tanto anseia. Possivelmente se o consolar a ele e ele consolar a ti, deixem-me em paz de uma vez. E subiu as escadas até que chegou ao final. Sem afrouxar a rigidez de suas costas Caroline se dirigiu para o dormitório, fechou a porta e o silêncio retornou à residência Hemilton. VI Não se incomodou em perguntar ao mordomo quem ousava apresentar-se em sua casa a horas tão inadequadas porque sabia a resposta. Depois de oferecer ao Anderson a capa, caminhou seguindo a esteira de fumaça do charuto que devia desfrutar John no salão de visitas. Estava sem vê-lo quase há uma semana. A última vez que apareceu em Lonely comentou que só tinha conjeturas e que não retornaria até saber a verdade. Roger estava ansioso por conhecê-la. Já há muito que suspeitava que Cooper não era a mesma pessoa. Era certo que continuava a comportar-se com o cavalheirismo e a educação de sempre, mas possuía aquele olhar atormentado que Roger tinha tido mais de uma vez. Que razão teria Federith para padecer um suplício de tal envergadura? Até o que ele sabia, obteve tudo aquilo que uma vez planejou, uma boa residência, uma família, uma boa posição social e se manteve afastado da opressão que lhe geravam seus pais. Ninguém na cidade duvidava do intelecto e o saber estar de um homem como Cooper, entretanto, Bennett não podia fazer calar aquele palpite que lhe gritava com força que seu amigo estava a ponto de fazer algo que se arrependeria pelo resto de sua vida. Com passo firme e agitado por esclarecer seus temores, abriu a porta com rapidez. ― Boa noite, Roger ― saudou o índio. Este não se virou para recebê-lo, nem sequer fez a ameaça de levantar-se. Com a tranquilidade que lhe proporcionavam os anos de camaradagem, continuou sentado na poltrona do marquês apoiando, de maneira descuidada, as pernas sobre a mesinha baixa onde Evelyn acostumava servir o chá.


― Se não pôde esperar até amanhecer para me visitar, tenho que deduzir que descobriu tudo o que me disse, não é? ― Roger se colocou em frente ao seu amigo. Seu olhar azul se cravou no escuro e, depois de ver como este assentia, desabotoou a jaqueta antes de ocupar o assento de sua esposa. ― Tinha razão ― começou a dizer o homem ao mesmo tempo em que levava a taça que se serviu para seus lábios. Roger notou como lhe faltava o ar. Sua garganta se sentia tão oprimida que, de forma instintiva, dirigiu suas mãos para a gravata e a desapertou. Mas não foi suficiente, ainda não chegava o ar aos seus pulmões. A pressão no peito crescia tal como a sua agonia. ― No que tinha razão? ― Perguntou espectador, desejoso possivelmente de que John expusesse algo diferente ao que já tinha concluído. ― No casal há uma terceira pessoa. Entretanto, é a esposa quem mantém o caso ― respondeu sem mostrar emoção alguma ante a notícia. Embora estranha vez John revelava suas emoções, sua esposa lhe reprovava que fosse igualmente expressivo a uma rocha no meio do caminho. ― Ela?! ― Soltou Bennett desconcertado. Levou as mãos para seu rosto e o esfregou com força. Tinha imaginado que Federith era quem se encontrava com uma mulher. Era o esperado quando se vivia com uma esposa como Caroline. Mas o repentino giro que tinha dado a situação provocou no homem uma mescla de tristeza e fúria. Como atuaria Cooper ao descobri-lo? Como atuaria um marido ao averiguar que a mulher que ama dorme com outro? Uma pontada no estômago surgiu ao recordar que eles tinham ocupado o lugar desse amante. Essa terceira pessoa que, para obter prazer, destroçava uma família. Tragou saliva, olhou para sua direita e desejou tomar uma ou duas garrafas inteiras daquele uísque escocês. Mas a promessa realizada à mulher que adorava, à mulher que não poderia imaginar em outros braços que não fossem os seus, fez-lhe desistir.


― Quem é? ― Soltou depois de encontrar um pouco de calma. ― Um fantasma ― disse John divertido. ― Um fantasma? ― Repetiu levantando a sobrancelha direita. ― Sim ― respondeu com veemência o índio. ― Não estou para brincadeiras, John. A reputação de Federith está em jogo ― asseverou. ― Juro-lhe isso, não estou brincando. Permaneci nessa casa até que ela saiu e não vi aparecer ninguém. Primeiro pensei que a pessoa com quem se vê estaria ali antes de sua chegada, mas não foi assim. A senhora Cooper entrou numa casa onde não havia luz. Ela foi acendendo as velas enquanto acedia ao interior. Sabe que não zombaria de uma coisa assim, Roger. Só de pensar que Sophie colocasse entre suas pernas outro homem, ficaria louco ― explicou ao homem zangado. ― Está bem, acredito. Embora eu gostaria que me desse todos os detalhes que reuniu. Quando terminarmos esta reunião chamarei William. Não posso enfrentar sozinho uma situação semelhante. Devo conseguir toda a ajuda possível ― disse enquanto se apoiava na ampla poltrona e cruzava as pernas pelos joelhos. John se recostou no assento e narrou, com bastante precisão, tudo o que tinha averiguado de lady Caroline. Uma hora e meia mais tarde Bennett abria a porta do quarto de Natalie. Gostava de ver como a pequena descansava e como aquele desagradável cão ao que tinham chamado Capitão permanecia cuidando de sua proprietária. Embora jamais o admitiria, confiava no instinto do animal para mantêla a salvo. Depois do acontecido com seu irmão Charles, mal descansava escutando de novo o pranto da menina ao encontrar-se em perigo. Entrecerrou seus olhos ao ver que o cão não dormia ao seu lado. Aproximou-se da cama e observou lentamente ao seu redor. Não, ali não se encontrava aquele folgazão a tratar das suas funções. Zangado pela distração do animal disse-se que quando o encontrasse gravaria a fogo qual era seu posto se quisesse viver em Lonely. Devagar aproximou-


se da menina para contemplar o rosto infantil e esticou a mão para lhe afastar umas mechas douradas que caíam como cascatas sobre a pequena testa. Ninguém pensaria que aquela preciosidade não era sua filha. Nem ele mesmo era capaz de assumir que não fosse. Era tão idêntica a ele que lhe doía a alma ao olhála. Seu filho seria tão parecido? A pergunta golpeou-lhe a cabeça. Não devia fazer-se esse tipo de perguntas, não só porque Evelyn não podia ter filhos, mas sim porque tampouco os necessitava. Já albergava sob seu cuidado os que descuidadamente tinha procriado o falecido marquês de Riderland. Além disso, tudo aquilo que podia fazer como pai já o fazia com Natalie e Logan. Mesmo assim, Evelyn não estava muito de acordo com sua opinião. Em mais de uma ocasião a encontrou a chorar, lamentando-se por não poder lhe oferecer um herdeiro. Um fruto de seu amor, como ela dizia. Mas ele não queria a ninguém que não fosse sua esposa. Nada podia ocultar a paixão que sentia por ela e não necessitava de um filho para reforçar esse amor. Sem fazer ruído caminhou até á janela e confirmou que estava bem fechada. Voltou a olhar o interior da habitação para certificar-se de que tudo estava correto. Um grunhido de aborrecimento apareceu quando não achou ao sabujo sob a cama. Onde estaria aquele desertor? Com passo silencioso saiu da habitação para continuar sua habitual excursão noturna. A seguinte paragem era evidente: a habitação de Logan. Abriu devagar, com receio de poder achar seu irmão em uma situação vergonhosa. Recordou a noite de dois meses atrás, como não tinha chamado e tampouco era muito tarde, abriu a porta sem pedir permissão e encontrou seu irmão num momento bastante incômodo. Mas desta vez, para sua tranquilidade, encontrava-se a descansar sobre o leito. Roger evitou esboçar uma grande gargalhada após observar como dormia o jovem. É claro, era um Bennett, como ia descansar? Exibia seu corpo nu sem pudor. O lençol mal que ocultava o membro que se converteria na agonia das amantes estreitas. Os braços permaneciam ocultos sob a almofada como se precisasse sentir a pressão do almofadão. As pernas, muito longas para um jovem da sua idade, mas


traço próprio dos homens de sua família, alargavam-se pela cama. Até os tornozelos. Aquele colchão só conseguia alcançar os tornozelos do moço. Devia dizer a Evelyn que Logan necessitava de outro colchão. Se continuasse crescendo desse modo, logo as plantas daqueles enormes pés tocariam o chão. Sem poder apagar o sorriso gerado pelo orgulho, caminhou com muito sigilo até à grande janela da habitação. Logan não costumava fechar as cortinas. Riderland não sabia se aquela decisão se devia a um possível temor por não poder as suas molduras ou se por acaso ansiava que o amanhecer o despertasse com prontidão. Fosse o que fosse, não se atrevia a mudar nada do que o moço requeria. De costas para o seu irmão, Roger admirou o exterior do seu lar. Tudo era tão aprazível, tão calmo que uma onda de calor surgiu de seu interior. Nunca tinha imaginado chegar a ser o homem no qual se convertera. Em menos de um ano não só tinha encontrado uma mulher extraordinária, mas também tinha conseguido uma família quase incontável. De repente um suave e quase imperceptível som surgiu às suas costas e Bennett moveu a cabeça para a direita com rapidez. ― Boa noite, irmão ― disse Logan com voz sonolenta. ― Pelo amor de Deus! ― Exclamou Roger fixando seus olhos na folha afiada que se cravou na moldura. ― Podia ter-me ferido! ― Pegou a faca pelo cabo e o olhou com atenção. ― Sabia que era você ― soltou Logan com dissimulação. ― Impossível! ― Exclamou Roger zangado. ― Mal há luz nesta habitação para que… ― As madeiras soam diferente quando você as pisa ― começou a explicar o moço, que colocou a mão utilizada para o lançamento sobre o colchão. ― Tem um passo característico. ― Bennett arqueou as sobrancelhas em sinal de pergunta. ― Ninguém mais pode caminhar como se quisesse atravessar o chão com uma


pegada. Por isso a madeira soa de maneira distinta. Também respira diferente. ― Não são sinais suficientes ― grunhiu Roger enquanto atirava a faca sobre a cama. ― São suficientes para mim ― concretizou Logan esticando o braço para agarrar a arma e colocá-la em seu lugar, sob o almofadão. ― Acredito que falarei com o John a respeito destas proezas novas ― disse sério. Não era uma ameaça, mas sim uma adulação. Antes do incêndio Logan era um pirralho assustadiço, temeroso e frágil. Notava-se que vivia sob o amparo de uma mulher. Entretanto, desde que estava sob seu cuidado estava-se a converter numa pessoa diferente. É claro, continuava criando terríveis dores de cabeça aos seus professores. E mais, tinha considerado a ideia de enviálo à residência em que estudou Cooper com a esperança de lhe fazer mudar. Mas sabia que tudo aquilo não serviria e, talvez, obrigá-lo a fazer o que não queria seria mais prejudicial que benéfico. Resignado pelo caráter rebelde de Logan, Roger determinou que não havia melhor forma de ensino que sua própria experiência. Só esperava que algum dia o ódio que se via naquele olhar azul desaparecesse. ― Não te dará atenção caso tente evitar que eu desenvolva minhas habilidades como… ― comentou mal-humorado. ― Não refiro-me a isso, jovem insolente. No futuro será meu sucessor e será apropriado que aprenda algo mais que dirigir uma simples faca para fatiar pão ― asseverou. ― Tenho muito tempo para aprender. ― Logan se sentou sobre o leito e olhou seu irmão com tristeza. Não podia escutar aquelas palavras e menos ainda da pessoa que adorava, que venerava como se fosse um Deus. Ele nunca ocuparia seu posto porque jamais seria o homem idóneo para isso. Por mais que insistissem em que ambos eram semelhantes, não o eram. Enquanto Roger carecia de medo e confrontava todos


os problemas com incrível solenidade, ele se auto definia como um covarde, um miserável que não foi capaz de atuar quando observou a agonia de seu irmão ao ter Evelyn meio morta em seus braços. Não, ele não era um Bennett, embora corresse o mesmo sangue por suas veias. Por mais que lhe doesse admiti-lo, jamais poderia ser como a pessoa que tinha em frente a ele. ― Tem razão, há tempo… ― respondeu com tranquilidade ao perceber, novamente, uma imensa escuridão no olhar de seu irmão. ― Boa noite, Logan. ― Boa noite, Roger. Não fechou a porta até que observou como o moço se recostava e estendia o monte de cabelo negro sobre o travesseiro. Bennett suspirou profundamente por ser consciente da tristeza de Logan quando falavam sobre o futuro. O jovem rejeitava a proposta por algum motivo que ele não conseguia descobrir e que, é claro, não demoraria para averiguar. «Falarei com o John disto», disse-se antes de apertar os pés sobre o chão e girarse para o corredor que conduzia à sua habitação. Respirou de novo ao advertir que ainda ficava outra batalha por lutar, a última do dia e a mais delicada, enfrentar Evelyn. Não esperava que Evelyn o recebesse com uma pistola. Não, não se tratava disso. Mas cada vez que partia de Lonely depois do jantar, ela deixava de lhe falar durante uns dias. Roger sabia que sofria quando se afastava a essas horas. A incerteza do que


estaria fazendo a atormentava. Embora ele fosse honesto com sua esposa e lhe explicasse onde e com quem se encontrava. Entretanto, entendia sua tortura. Era certo que quando o sol se escondia, Londres se obscurecia e se voltava impudica. Tudo aquilo de imoral que se desejasse se podia achar depois do crepúsculo. Não obstante, ele não desejava nem procurava nada que não tivesse em sua casa. Não tinha saudades das saídas com seus amigos, nem tresnoitar, nem assistir às festas pomposas nas quais todas as mulheres batiam suas pestanas ao vê-lo entrar e moviam os leques para lhe incitar a lhes roubar um beijo. As únicas pestanas que desejava ver agitadas eram as da Evelyn quando faziam amor, quando a possuía com tanta necessidade que a urgência o deixava louco, e os únicos lábios que desejava beijar eram os dela. No mundo existia só um corpo que lhe proporcionava uma ereção tão grande que mal podia conter seu sexo sob as escuras calças, o de sua esposa. Girou devagar a maçaneta da porta e, embora tentou não fazer ruído, o leve chiado ao mover os eixos se fez estridente no silêncio do lar. Roger cravou seus azulados olhos na marcada silhueta que se encontrava recostada sobre o leito. Evelyn tinha fechado a cortina de seda branca que instalaram ao redor da cama e aquela visão era muito sensual para ele. Nunca imaginou que a ver daquela forma, depois do fino reflexo e oculta sob o magro lençol, proporcionar-lhe-ia tanta luxúria que poderia ajoelhá-lo. Mas se a visão de entrever o contorno de sua esposa sob os lençóis o pôs duro, perceber que os ombros não estavam escondidos por alguma de suas camisolas, fez-lhe esticar cada músculo de seu corpo. Era perfeita. Nenhuma outra mulher podia fazer sombra a Evelyn e, é óbvio, nenhuma outra poderia lhe roubar o coração como ela o tinha feito. Tragou o excesso de saliva que se criou em sua boca ao conhecer que delicioso manjar degustaria aquela noite. Percebeu como seus batimentos do coração aumentavam o ritmo, como suas mãos se estendiam tentando alcançar a figura de sua esposa. Como podia acreditar que a abandonaria algum dia por não ser capaz de lhe dar filhos? Isso era uma maldita loucura. Não tinha vontade de ser pai, já tinha Natalie para lhe oferecer tudo o que um verdadeiro pai podia desejar. Até exerceria como tal o dia que um pretendente ousasse pedi-la em matrimónio.


Ninguém se atreveria a tocar em sua delicada menina. Ninguém lhe roubaria um beijo nem se aproximaria como ele se aproximava de Evelyn. Todo aquele que o tentasse seria abatido como se se tratasse de um javali em tempo de caça. E também tinha um herdeiro, Logan continuaria o título de marquês. Então… que temores poderia ter sua esposa? Nenhum! O único medo que podia padecer Evelyn era o de ser a mulher de um homem que nunca se encontraria satisfeito de amá-la, de beijá-la e de possui-la. Antes de dar um passo para o interior do dormitório desfez-se da jaqueta. Quando deu o segundo passo, já a gravata e o colete tinham ido parar ao chão. Tirou a camisa e, esta teve a mesma sorte que os outros objetos. Dispunha-se a tirar a calça quando um suave movimento entre as pernas de Evelyn o parou em seco e o encolerizou. ― Não, não, não! ― Exclamou entre sussurros. ― Fora daqui, maldito vira-lata! Ela é minha! ― Esticou as mãos para puxar Capitão da cama, mas não conseguiu. Ficou quieto ao ver como o pequeno cão o enfrentava grunhindo e lhe mostrava os dentes. ― Crê que eu não sei grunhir? ― Repreendeu-lhe malhumorado. ― Ou parte daqui ou amanhã descobrirá o que faz uma corda ao redor de seu pescoço! ― ameaçou-lhe elevando um pouco a voz. ― Capitão ― disse Evelyn que se sentou sobre a cama ao escutar os apagados gritos de seu marido. ― Abaixo! O cão a olhou com tristeza, soluçou e moveu a cauda esperando que ela mudasse de opinião. ― Não ― ordenou a marquesa. ― Abaixo! Finalmente, Capitão se levantou e saltou para o chão. Com um caminhar lento e torpe, o único que podia manter um animal que tinha uma das patas quebradas e mal via porque não possuía mais que um só olho, passou junto às pernas de Roger, não sem antes voltar a lhe grunhir. ― Juro que algum dia destes esse vira-lata não voltará a pisar nesta casa ― exclamou Bennett fechando a porta e passando o fecho. ― Tem que ter piedade dele ― comentou carinhosa Evelyn.


― O pobre viveu uma catástrofe. ― Catástrofe? ― Repetiu dando duas grandes pernadas com as quais conseguiu chegar até sua esposa. ― Perdeu um olho… ― expôs divertida a marquesa ao ver o rosto irado de seu marido. ― E tem uma patinha quebrada… ― Catástrofe? ― Voltou a dizer Roger, quem se despojou das calças e das meias. Apoiou os joelhos na cama e olhou sua mulher com desejo. ― Vou ensinar-te o que é uma catástrofe, senhora Bennett. ― Roger… ― murmurou Evelyn colhendo com força os lençóis. ― Evelyn… ― sussurrou o marquês caminhado sobre a cama como se fosse um enorme felino a ponto de lançar-se sobre sua presa. ― É muito tarde! ― Exclamou tentado cobrir sua cabeça com o tecido. ― Não para mim! ― Gritou Roger antes de saltar sobre ela. Não demorou para lhe afastar o tecido e deixá-la exposta para seu deleite. Os cabelos vermelhos se estenderam sobre o almofadão e Bennett os contemplou com a mesma admiração de quem tem fogo em suas mãos e não se queima. Esticou as mãos para acariciar com suavidade o pescoço, o seio, o ventre e o montículo de cachos ruivos. Não havia nada mais bonito nem nada mais desejoso que sua mulher. ― Amo-te ― sussurrou Roger antes de aproximar sua boca da dela. ― Amo-te muitíssimo, meu amor. ― Eu te amo mais ― murmurou Evelyn colocando as mãos sobre o pescoço de seu marido para que este não se distanciasse. Beijou-a com tal necessidade, com tanto ardor, que parecia que não a tinha beijado em anos. Era tanta a paixão a que foi submetida, que Evelyn se sentiu perturbada e inclusive enjoada quando os lábios se distanciaram. O corpo feminino se debilitou e, embora desejasse seguir agarrando seu marido, as


escassas forças a impediram. ― Roger… ― murmurou sem fôlego. Mas ele não respondeu à sua chamada de atenção. Louco de luxúria, Bennett levantou sua esposa da cama para colocála sobre sua cintura. As longas pernas de Evelyn se enroscaram no corpo duro de seu marido. ― Pelo amor de Deus! ― Exclamou a marquesa ao ver como a conduzia longe do leito. ― O que pretende…? OH! Levou-a até à poltrona, o lugar onde tinham feito dormir na noite anterior. Não a deixou falar. Sua boca foi investida como uma brava onda de mar contra um escarpado. Evelyn não lutou para travar a paixão que seu marido sentia por ela, pelo contrário, respirou-a com suaves gemidos. Percebeu o sabor a licor que tinha tomado, mas era tão suave que não desgostou. Abriu os olhos ao notar o fresco do assento em suas costas. Depositava-a com delicadeza e a observava com a mesma devoção de um humano à sua deusa. Aproximou-se de novo dela para beijá-la, mas desta vez os lábios de Roger se dirigiram para os pequenos montículos turgentes que se elevavam proclamando sua atenção. Ela só pôde arquear-se quando sentiu o fôlego quente em seus seios. Queria mais dele, necessitava mais daquela paixão. ― É minha mulher… ― ronronou Bennett enquanto lambia aquelas protuberâncias eretas. ― Minha! ― Exclamou antes de morder com força e puxar um de seus mamilos. Aquele ato não supôs crueldade nenhuma para ela, ao contrário, produziu-lhe um deleite tão intenso que todo seu corpo vibrou de prazer. Fechou de novo seus olhos ao sentir como descia uma grande mão por sua pele. Acariciando-a sem pressa, com suavidade. Escutou um grunhido de satisfação no momento que ela abriu mais as pernas. Desejava sentir aquela palma acariciando, esfregando seu sexo. Roger a agradou. Uma vez que notou o calor em sua mão, moveu-a em círculos fazendo com que o pequeno botão se inchasse para ele. Prosseguiu com movimentos ávidos, mais rápidos, e não diminuiu a intensidade até que o corpo de Evelyn se levantou como se quisesse sair correndo.


― Meu doce amor… ― sussurrou Roger com uma voz tão rouca que não se reconheceu ao falar. Quando a cabeça de sua amada retornou ao assento, os dedos daquela mão úmida e quente por ter levado sua esposa ao clímax, abriram-se. O polegar se dedicou a incitar o pequeno montículo, enquanto que outros dois faziam caminho entre as delicadas dobras para chegar ao interior. ― Roger… ― murmurou de novo. ― Não pare, por favor. Mais… necessito de mais ― disse suplicante. A contínua invasão daqueles fortes dedos a retorciam de agonia, de impaciência. Bennett tentou não deixar-se levar pelas palavras de sua esposa. Mas os rogos, os soluços que emitia ao penetrá-la com seus dedos excitaram-no tanto que acreditou que terminaria perdendo o controle e ejacularia a qualquer momento. Respirou fundo, relaxando-se. Planejou, desde que chegou ao seu lar, poder aplacar o sabor do rum com outro mais salgado e delicioso. Levantou os quadris de Evelyn o suficiente para fazer com que sua boca pudesse alcançar a zona erógena. Olhou-a ardente, doida pela necessidade, e, quando seu nariz se aproximou do pequeno arbusto frisado notou como o delicado corpo se sacudia antecipando-se ao que provocaria sua língua entre as voluptuosas e molhadas dobras. Controlando-se abriu a boca para se deleitar daquela beberagem tão deliciosa que era o sabor de sua mulher. Não afrouxou o ritmo de sua língua nem as contínuas pressões de seus dentes até que percebeu a chegada de outro estado de frenesi. Evelyn agitou as pernas com tanta brutalidade que teve que segurála para que não caísse. Sorridente, mostrou o brilho de seus lábios e os lambeu como tinha feito momentos antes em seu sexo. Ela se abriu mais, esperando que ele tomasse e aplacasse a tortura que lhe proporcionava ser amada por seu marido. Mas o olhar picante de Roger lhe indicava que não ia possui-la ali. ― Roger! Não terá…? OH! ― Exclamou de novo ao descobrir a intenção de seu marido. Antes de poder dizer algo mais, elevou-a sobre seu regaço fazendo com que suas pernas rodeassem de novo a dura cintura. Com passo firme conduziu-a até a parede existente entre a pequena estante e a janela. Roger precisava toma-la


daquela maneira em determinadas ocasiões e quando o fazia transformava-se num bruto, um selvagem, um ser possessivo que a marcava em cada centímetro de sua pele com beijos e carícias. Ao notar a dureza da parede nas costas Evelyn soluçou. ― Amanhã mesmo farei com que acolchoem este lugar, prometo ― comentou isso com voz afogada pela paixão. Mas isso seria amanhã, não naquele momento. Endireitou o corpo de sua esposa e lhe inclinou os quadris até que seu membro se situou em frente à entrada que desejava conquistar. Agarrou com força a cintura de Evelyn e a penetrou com a urgência que necessitava. Um grito saiu de sua boca quando foi invadida com aquela brutalidade. Mas Roger não diminuiu seus empurrões, pelo contrário, aumentouos tanto que pérolas de suor surgiram na sua pele. ― Diga que me quer. Diga que me ama ― pediu Bennett enquanto a investia com mais força, com desespero. Evelyn tentou agarrar-se ao pescoço de seu marido, mas o suor que emanava de sua pele lhe impedia de fazê-lo. Estava a mercê de seu marido. Seu corpo se sacudia ao ritmo que ele marcava e sua respiração, agitada pelo desejo, fazia com que os seus mamilos se sensibilizassem quando roçavam o duro pelo do torso que adorava. Vivia uma tortura idílica, um momento que só ela podia desfrutar. ― Diga-me isso, diga-me que é minha! ― Insistiu o homem mediante um grunhido desesperado. Queria que ela gritasse que lhe pertencia, que ninguém mais poderia amála como ele. Um aterrador sentimento de vazio apareceu em Roger ao imaginar que ela o abandonava.


Não, ele não permitiria que Evelyn se afastasse dele. Saciá-la-ia tanto que não teria que procurar outro homem que ocupasse seu lugar. ― OH, Roger! Sou tua e de ninguém mais! Só te quero a ti, meu amor! ― Gritou a mulher quando notou a chegada do orgasmo. Este arremeteu contra ela com mais intensidade, com mais energia, com mais paixão. Mal foram conscientes dos escandalosos gemidos que realizaram ao culminar. No mundo só existiam dois seres: Roger e Evelyn. Sem movê-la daquela posição, Roger colocou a testa sobre o seio de sua esposa. Ambas as respirações estavam alteradas, agitadas, endoidecidas. Evelyn conseguiu estender as mãos e o abraçou. Isso era o que necessitava naquele momento: seu marido, o forte consolo de sua mulher. Quando notou em suas costas os suaves dedos, Bennett se atreveu a olhála, a contemplá-la com tanto amor que sentiu como seu coração se partia em dois. ― Amo-te, Evelyn Bennett ― disse como se se sentisse envergonhado disso, como se a exposição de seus sentimentos pudesse feri-la. ― Meu Deus, Roger, eu te amo mais! Enrolou os dedos no cabelo denso de seu marido fazendo com que ele a olhasse fixamente e, antes que pudesse dizer mais alguma palavra, ela o beijou com tanto ardor que a dureza mantida ainda em seu interior não decaiu durante toda a noite. VII Os sinos do relógio anunciaram que o meio-dia tinha chegado. Leopold levantou o olhar dos papéis e franziu o cenho. Da conversa com o senhor Bennett e o senhor Cooper, tinha estudado em detalhe como podia fazer frente ao investimento inicial. Tal como imaginou naquela noite, só podia subministrar a quantia necessária se tomasse o cargo que tanto odiava. Zangado e com um terrível mal-estar, colocou a carta num envelope e escreveu o nome e o endereço até onde devia chegar. Não queria


fazê-lo. Negou-se a isso desde que soube, mas era a única alternativa viável se quisesse que sua empresa prosperasse. Abriu a gaveta direita de sua escrivaninha, tirou o selo que devia estampar no envelope e o olhou durante uns instantes. Ali estava a sua marca, o futuro que tinha tentado evitar. Aquele emblema que selava com um grande C qualquer documento no qual fosse estampado mostrava que a fatalidade estava escrita para ele. Depois de suspirar, apertou a cera negra sobre o anverso do papel e grunhiu o nome de seu secretário. Este apareceu antes que Leopold dirigisse seu olhar para a porta. ― Sim, milorde ― respondeu o jovem à sua chamada. ― Necessito que leve esta carta a lorde Seymour, ele saberá o que fazer quando a ler ― indicou com voz tosca ao mesmo tempo em que sacudia o envelope para que seu empregado o pegasse. Agitava tanto a mão que a abotoadura dourada ajustada ao punho de sua camisa criava um rasto de luz. ― Sim, milorde. Deseja alguma coisa mais antes da minha partida? Embora estivesse a trabalhar para o senhor Spencer pouco mais de um ano e entre eles tivesse crescido certa amizade, Karl não se atreveu a lhe perguntar o que lhe inquietava tanto para que não saísse de seu escritório durante uma semana. O senhor Spencer tinha acampado no escritório como se não tivesse lar. Comia e dormia naquele quadrilátero e estava seguro que, se abrisse uma das portas dos armários próximos ao arquivo metálico, encontraria várias roupas limpas e dobradas à espera de serem utilizadas durante duas semanas mais. Porque assim era Leopold Spencer, um homem tão entregue ao seu trabalho que, quando levantava a cabeça, perdia a noção do tempo. ― Diga ao cocheiro que tenha a carruagem preparada, tenho que sair em breve ― respondeu com voz rude. ― É claro ― disse o jovem sem mostrar nem um ápice de aflição pelo trato de Leopold. Como se não tivesse escutado a própria voz de Lúcifer, pegou a carta, fez uma leve reverência e partiu. No momento que Spencer voltou a sentir-se sozinho, levantou-se do assento e caminhou com lentidão para a janela que tinha às suas costas. Dali podia ver como os empregados realizavam seus trabalhos, como os pedidos se


empacotavam e como o futuro se fazia cada vez mais próspero. Não obstante, sua cobiça tinha crescido desde que falou com os lordes e precisava fazer realidade seu desejo de conquistar outras partes do mundo. Logo a pequena empresa se expandiria e ninguém lhe poderia fazer sombra. Coberto por aquele sentimento de satisfação, colocou suas mãos sobre as costas aparentemente relaxado. Embora não fosse assim como se sentia. Em sua mente surgiam milhares de ideias, centenas de objetivos que tinha vontade de alcançar. Se a proposta de ambos os cavalheiros fosse real, se não se tratasse de um malvado engano, seu desejo de abandonar Londres e deixar para trás todos aqueles que lhe acusavam de traidor social ficariam no passado. Com passo decidido andou pelo escritório até chegar à porta. Esticou a mão para pegar o chapéu e a capa que estavam pendurados no cabide e os colocou com inapetência. Ainda ficava um assunto pendente antes que a Câmara dos Lordes confirmasse sua nova posição e lhe oferecesse o assento, por esse motivo resolveria aquele insignificante problema antes de acabar a nova semana. ― Bom, condessa…, ― murmurou ― já é hora de que nos conheçamos. Mas se lamentará muitíssimo de que este dia tenha chegado. ― Um sorriso maléfico se desenhou em seu rosto. ― Porque juro por minha honra que, se não abandonar minha propriedade, a farei sofrer o resto de sua vida. Depois de ajustar o chapéu para que a aba ocultasse seu olhar pernicioso, Leopold abandonou o escritório com rumo a Longher. O plano de Leopold era muito singelo, necessitava que a condessa viúva se sentisse em perigo para fazê-la retornar à sua antiga residência. É óbvio que seria benevolente com ela. Não poria objeção alguma em deixá-la viver na pequena moradia da qual procedia. Uma vez resignada a sobreviver o resto de seus dias confinada numa cidade com menos atividade social que Londres, ele venderia o lar no qual tinham permanecido todas as gerações dos Crowner. Isso era o que estava a tentar desde que falou com seu advogado e este lhe advertiu que logo que conseguiria duas mil libras por aquela humilde propriedade. Sabia que vendendo Longher superaria com acréscimo as oito mil libras que lhe exigiam. Sim, era certo que podia ajudar-se com a considerável renda que possuiria uma vez se proclamasse conde, mas a paciência de Leopold era minúscula e tampouco havia


tempo a perder. Só faltavam três semanas. Suspirou profundamente ao pensar que ninguém lhe assegurava que aquele investimento fosse rentável. Era verdade que se especulava muito sobre o futuro da ferrovia e como O Grande Deus de Ferro seria substituído por um simples transporte de rua. Entretanto, mal havia carros impulsionados a vapor. A alta sociedade resistia a abandonar a pomposidade que lhe ofereciam as carruagens de cavalos. Mas se um homem como Riderland acreditava que o futuro seria a chegada de veículos propulsados por gasolina, ele aceitaria tal determinação sem pestanejar. Mesmo assim, encontrava-se também noutra situação bastante complexa, a ampliação do negócio. A dúvida de que as novas imprensas teriam o mesmo êxito que a primeira lhe provocava um terrível ardor no estômago. Leopold sabia que depois de um ano de duro trabalho humano e maquinaria, se não conseguisse alcançar o suficiente benefício em cada sucursal, terminaria por fechar a que tivesse mais perdas e o rumor que produziria esse fecho provocaria desconfiança nos clientes. Estes, ao não estar seguros de serem atendidos como era devido, não realizariam pedidos e se não houvesse trabalho teria que despedir empregados, vender as máquinas... efeito dominó como se chamava no mundo económico. Uma peça empurrava a próxima e está a seguinte e assim sucessivamente até que não ficasse nenhuma em pé. Se isso ocorresse Leopold terminaria destruído e não estava disposto a converter sua vida num abismo sem fim. Ele tinha que aferrar-se ao plano. Venderia Longher e a metade dos


lucros seriam investidos no projeto de Riderland. A outra metade a destinaria a um excelente plano de economia que utilizaria no futuro. Sem sentir vergonha alguma por jogar com o desespero de uma viúva, Leopold se meteu na carruagem e gritou ao cocheiro a direção onde devia levá-lo. Quanto antes terminasse, melhor. O veículo começou a diminuir a marcha quando se aproximou do lugar indicado. Leopold afastou as cortinas cor borgonha da janela e olhou para o exterior. Em frente aos seus olhos estava Longher, a residência dos condes de Crowner. A última vez que apareceu por ali estava a ponto de cumprir os vinte e dois anos. Seus pais, com orgulho e satisfação, mostraram-lhe o que um dia chegaria a ser dele. Mas quando Leopold pisou na entrada daquele lugar não sentiu nenhum pingo de amor. Tudo ao seu redor resultou frio, distante e inclusive pérfido. A suposta felicidade que devia sentir após visitar a propriedade manifestou-se justo quando partia, quando o ar fresco acariciou seu anguloso rosto. Passou uns dias inquietos perante o conhecimento que lhe produziu averiguar o que suporia ser o próximo conde de Crowner. Quando lhe chegou a notícia das próximas bodas de seu tio, a pressão de seu peito diminuiu e voltou a sentir-se livre. Entretanto, o desespero retornou quando o tempo passava e a nova condessa não concebia o herdeiro que necessitava para afastar Leopold de suas obrigações. Duas condessas, duas esposas e nenhuma delas contribuiu com descendência. Spencer se zangou com Deus por não haver outorgado a alguma delas o dom da fertilidade. Não entendia como um homem era incapaz de conseguir uma coisa tão singela como gerar um filho. Não se devia à falta de tempo ou de ocasiões, visto que o primeiro matrimónio durou seis anos. Momento no qual, por desgraça, lady Samantha adoeceu e faleceu. Todos comentavam que a anterior condessa era uma mulher doentia e deram por certo que aquela tinha sido a razão pela qual não engendraram um herdeiro. Não obstante, a segunda alternativa de seu tio, conforme escutou em várias conversações, era uma moça e saudável. Se não erravam as deduções daqueles imprudentes comentários, o conde superava a sua esposa em pouco mais de quatro décadas. Mas Spencer não opinou a respeito. Não lhe importava a idade da condessa, só queria que ela fosse fértil. Mas o destino lhe deu outra patada no


estômago. Depois das bodas, o tempo passou sem receber a ansiada notícia e Leopold não podia acreditar que aquela jovenzinha tampouco pudesse ficar grávida. Quantos lordes se casaram com prontidão porque suas futuras esposas levavam no ventre o fruto de um momento apaixonado? Dezenas, e inclusive centenas de compromissos se realizaram por isso. Entretanto, seu tio, depois de estar casado durante dez anos com diferentes mulheres, não obteve nada. Zangado por seus pensamentos, Leopold enrugou a testa e converteu suas grandes palmas em dois duros punhos. Como podia ser a vida tão cruel? ― Milorde… ― o servente estava a ponto de estirar a escada metálica para que seu amo se apoiasse nela quando percebeu que este saía apavorado do interior da carruagem como se houvesse fogo dentro. Assombrado, voltou-se rapidamente para trás e ficou imóvel. ― Não demorarei muito ― comentou Leopold após pisar no chão. As plantas de seus pés queimavam ao tocar o firme pavimento. Tinha projetado, num simples movimento, toda a ira contida em seu interior e, embora jamais o admitisse, doíam-lhe as pernas pelo impetuoso ato. ― Como desejar, senhor ― respondeu o lacaio, que fechou a porta e retornou ao seu assento dianteiro. Leopold se cobriu com a capa, não pelo fato de que fizesse frio, pelo contrário, uma cálida amanhã de primavera se elevava sobre ele, mas sim porque ultimamente mal tinha comido algo substancioso e sua temperatura estava


desequilibrada. A dieta da semana anterior se limitou em cafés, sanduíches, frutas e vinho. Era de se esperar que para reavivar uma figura tão grande como a de Spencer fizesse falta muito mais que uns míseros raios de sol. Com urgência dirigiu a mão ao chapéu e o ajustou com esforço. Tentava exibir a imagem de um homem tenebroso e mordaz, deste modo a condessa não duvidaria em sair fugindo quando lhe indicasse o que lhe aconteceria se ela não partisse. Levantou o rosto e jogou uma rápida olhada ao seu redor. Para seu pesar, nada tinha mudado. Tudo permanecia igual à última vez. A residência continuava protegida por um imenso jardim no qual algum inepto decidiu criar um pequeno lago artificial. Leopold nunca entendeu por que se construiu uma coisa tão desnecessária numa residência de Londres. Se alguém queria desfrutar de um bonito passeio rodeado de árvores, água e cuidada vegetação, podia caminhar por Hyde Park sem problemas. Era muito melhor sentir a liberdade que oferecia o imenso parque que conformar-se passeando pelos arredores do lar fingindo estar num pequeno éden. Rindo entredentes pela engenhosa comparação, avançou pelo atalho que finalizava na mesma entrada da mansão. Não pôde admirar aquela beleza que todo mundo falava porque seu aborrecimento não o deixou. Os primeiros sentimentos que teve quatro anos atrás ainda perduravam. A sobriedade da residência reforçava a solidez e ostentação que lhe causaria ao converter-se num conde. Leopold dirigiu suas pupilas para as grandes colunas dóricas da entrada. Não lhe agradavam aquelas pedras naquele lugar, mas não tinha dúvidas de que a função destas era a sustentabilidade do edifício. Com inapetência fez uma rápida recontagem do que recordava de Longher: trinta habitações repartidas nas três plantas se iluminavam mediante a luz que entravam pelas janelas, duas formosas salas de jantar, uma biblioteca tão grande que lhe custaria todo um ano enchê-la de livros, duas cozinhas e um imenso salão de baile se escondiam atrás daqueles muros. Leopold olhou para o balcão que dava acesso a um dos salões que os condes tinham destinados para as visitas e cravou seu olhar nas cortinas que ondeavam do interior. Por uns instantes sua mente vagou sem censura e concluiu que, se aquilo fosse realmente dele, faria desaparecer habitações desnecessárias para as transformar num amplo armazém. Já estava


cansado de ter que alugar um para guardar o material da imprensa e viver angustiado sabendo que algum dia o abrigo seria assaltado por um ardiloso ladrão e perderia o grande investimento que ali tinha. Mas, ante tais pensamentos, agitou a cabeça brandamente fazendo-os desvanecer. Não tinha abandonado o escritório para especular sobre sandices. O seu objetivo era desfazer-se dela o mais cedo possível, não contemplar mudanças desnecessárias. Entretanto, o fato de realizar um percurso visual para lotear de maneira precisa a moradia lhe pareceu adequado. Deste modo poderia calcular a soma pela qual devia vendê-la. Assim, interessado em seguir valorizando o lugar, mudou seu percurso. Embora ele não estivesse de acordo, todo mundo dizia que a parte mais formosa de Longher era a zona do lago. Possivelmente porque, além do desnecessário reservatório, construiu-se naquela zona um pequeno jardim de verão no qual milhares de flores brotavam de fevereiro a julho. Leopold admitiu que o momento idôneo para a vender era nessa altura, visto que um sem-fim de colorido oferecia à tosca mansão uma calidez que na verdade não possuía. Para chegar até aquele paraíso multicolorido e contemplar pelo menos a beleza da qual falavam, tinha que atravessar um pequeno arvoredo. Um lugar ansiado por aqueles que procuravam cobrir-se dos intensos raios do sol. Uma vez que entrou no diminuto bosque olhou ao céu, procurando um espaço livre de folhas para contemplar o celeste do céu ou gozar da claridade produzida pelo sol, mas não conseguiu nem uma coisa nem a outra. A abundância de vegetação nas copas impedia-o de distinguir uma mísera nuvem, e inclusive a luz do astro mais poderoso não alcançava atravessar o imenso manto de folhagem. Franziu a testa por não se sentir satisfeito. A frustração de não alcançar o que desejava provocou nele um aborrecimento similar ao de um menino a quem negam o degustar seu ansiado caramelo. Tal estado de raiva fê-lo voltar-se sobre si mesmo e continuar com seu propósito de chegar à entrada principal, entretanto, algo captou sua atenção e o paralisou. Escutou muito próximo dele umas longínquas vozes femininas. Devia retornar ao caminho e apresentar-se à condessa como era devido, mas o desejo de


averiguar quem desfrutava dos espaços que venderia superou esse propósito. De repente um sorriso malicioso se desenhou em seu rosto ao imaginar que uma das vozes que tinha escutado pertencia à condessa. Se Deus fosse generoso com ele por uma vez, não precisaria esforçar-se a fundo para obter que aquela mulher partisse. Que viúva decidiria permanecer num lar onde qualquer um poderia assaltá-la? Leopold continuou sorrindo enquanto aproveitava as colossais envergaduras dos troncos para se ocultar. Sim, esse era um bom plano. Fazer a condessa ver que Longher não era um lugar seguro para viver. Com muito cuidado foi de árvore em árvore procurando o ângulo de visão perfeito. A adrenalina que gerou seu corpo pela excitação foi tão exorbitante que esteve a ponto de soltar uma gargalhada. Embora esse mesmo excesso de felicidade que desejava expressar surgiu de outra boca que não era a sua. Leopold ficou paralisado ao escutar o eco da risada dispersando-se no pequeno bosque. Seus ouvidos foram persuadidos por um som tão esplêndido que não pôde fazer outra coisa senão direcionar o seu olhar para o lugar de onde procedia aquela gargalhada alegre. Ansioso por averiguar quem tinha esboçado tal amostra de entusiasmo, avançou até a seguinte fileira de carvalhos e dali descobriu a duas mulheres vestidas de rigoroso luto que conversavam com tranquilidade. Olhou brevemente pelos arredores para confirmar que as mulheres estavam sozinhas. De fato, nenhum lacaio velava pela segurança das damas. Se fossem assaltadas não poderiam recorrer a ninguém salvo à ajuda que elas mesmas podiam oferecer-se. Essa conclusão o fez feliz, muito feliz. Entretanto, aquele estado de euforia desapareceu quando descobriu que uma das mulheres, a menor, avançava pelo jardim até ajoelhar-se. A proximidade entre eles possibilitou que Leopold a pudesse contemplar com detalhe, descobrindo uma delicada silhueta oculta sob um tosco vestido negro. O corpete de seu vestido se ajustava à perfeição ao torso feminino. Mal distinguia a forma de seu seio, mas sem dúvida era generoso. Seus braços, compridos e magros, achavam-se sob uma capa de renda que se estendia até o ansiado decote. Sem entender a razão seu corpo começou a aquecer como se alguém tivesse colocado ao seu lado uma chaminé com fogo vivo. Levou uma de suas mãos


para a testa e percebeu com surpresa que estava suando. Zangado pela perda de controle, continuou a observar a jovem. O chapéu impedia que os raios do sol tocassem seu pálido rosto. Entretanto, aquele complemento não impediu que apreciasse uns lábios vermelhos, voluptuosos e terrivelmente sensuais. Spencer percebeu que ficava sem fôlego, que seu coração deixava de pulsar e que a sensação de calor aumentava. Atordoado, aferrou-se com mais força à árvore que o ocultava. Quis afastar-se dali, mas foi incapaz de fazê-lo porque não podia deixar de olhála. Se ela se movesse seus olhos também o faziam. De repente a moça esticou suas mãos para rodear as pétalas de uma flor e, por mais louco que parecesse, Leopold sentiu ciúmes daquela planta. ― Não deveria aproximar-se tanto dessas flores, milady ― indicou Anaís enquanto continuava rindo. ― Não acha que são formosas? ― Priscila aproximou seu nariz da flor e inspirou o aroma que desprendia. ― Sim, sem dúvida são tão formosas como perigosas. Se por acaso não se deu conta, os caules estão cheios de espinhos e poderia machucá-la ― disse com seriedade. ― Na próxima vez que desejar acariciá-la terei que pôr luvas disse com sarcasmo a condessa viúva. ― Acredito que o mais sensato seria que um criado as colhesse por você ― acrescentou Anaís ao mesmo tempo em que voltava a fixar seu olhar no livro que tinha sobre as mãos. ― O que acontecerá agora? A encontrará? Brenda será capaz de esquecer seu passado para ser feliz junto ao homem que sempre amou? ― Perguntou lady Appelton sem deixar de acariciar as pétalas da flor. Anaís arqueou a sobrancelha esquerda e sorriu. ― Quer que lhe explique o que vai fazer o protagonista?


― É claro! ― Exclamou Priscila ao mesmo tempo em que se elevava com rapidez. Nesse momento a suave brisa se intensificou e fez com que o chapéu saísse de sua cabeça. Entre gargalhadas a condessa correu atrás do objeto. Cada vez que estava a ponto de o alcançar, outra brisa descarada o movia e o distanciava dela. No empenho de agarrá-lo, várias mechas de cabelo se soltaram do seu penteado. Aquela imagem de descuidada ingenuidade proporcionava uma sensação de pecaminosa liberação à viúva. ― Necessita da minha ajuda? ― Perguntou Anaís levantandose de seu assento. ― Não, por Deus! Este chapéu não me vencerá! ― Exclamou alegre. Leopold estendeu os braços e se agarrou com força ao tronco da árvore que o escondia. A pouca energia que possuía atrás de sua má alimentação o abandonava. Não tinha nenhum pingo de fortaleza para manter-se de pé e seus olhos continuavam cravados naquele corpo miúdo que corria atrás do chapéu. O sol, aquele que tinha procurado entre as copas das árvores, centrava-se no cabelo ondulado da mulher. Enquanto ela continuava com seu propósito, as mechas onduladas se moviam ao compasso de sua corrida. Pôde apreciar melhor o rosto daquela dama e ao contemplá-lo sentiu uma terrível dor em seu peito. O desejo de estender suas mãos e acariciar as ruborizadas bochechas aumentava em instantes. Queria com urgência sentir a suavidade daquelas mechas entre seus dedos, assim como ansiava saber quão delicada era aquela pele. Desconcertado, franziu o cenho. Que diabos estava a acontecer? Por que estava tão agitado? Tentou evocar a prudência, aquela racionalidade que possuía, mas foi incapaz de fazêlo. Temeroso daquele indecente impulso que lhe gritava que saísse ao encontro dela e lhe oferecesse ele mesmo o travesso chapéu, abriu suas mãos e retrocedeu. Devia partir dali antes de ser descoberto. Ninguém podia vê-lo de uma forma tão


inapropriada. Até se envergonhava de não ser capaz de controlar algo que tinha dominado durante anos: manter seu sexo relaxado. Estava duro, necessitado, ardente. Aquele estado de frenesi desconcertou Leopold tanto que mal podia caminhar. Disse-se assim mesmo que levava muito tempo mantendo um estrito celibato e aquele infantil episódio o tinha despertado de uma maneira sobrenatural. Torpemente recuou, mas em seu empenho de afastar-se não conseguiu deixar de olhá-la. Uma inquietação ainda maior apareceu ao comprovar que a jovem se dirigia para onde ele se encontrava. Não havia tempo a perder. Devia fugir dali se não quisesse… ― Milady ― gritou Anaís ao ver que ela caminhava para a alameda. ― Não se afaste tanto! ― Não acontecerá nada! ― Respondeu-lhe Priscila voltando-se para ela. ― Quem, salvo nós, pode aceder a este jardim? Anaís afirmou com um leve movimento de cabeça. Retornou ao seu assento e pegou o livro que tinha depositado sobre a mesa. Não tinha que preocupar-se naquele lugar. Tudo estava cercado e era uma boa oportunidade para que Priscila gozasse de uns momentos de liberdade. Se quisesse que a condessa sentisse o bem-estar que lhe proporcionava agir por conta própria, era uma boa forma de começar. Nunca tinha dado um passo sem seu marido ou seus pais, jamais tinha se afastado mais de um palmo deles e estava disposta a ajudá-la a sair daquele cativeiro. Com tranquilidade passou as folhas do livro até chegar à página pela qual estava e se inundou de novo na leitura. Assim como Priscila, Anaís estava ansiosa por saber se Brenda perdoaria ao James por não a procurar como lhe prometeu fazer. Priscila agarrou o vestido com ambas as mãos e correu desesperada atrás de seu chapéu. O vento o tinha levado até o pequeno bosque que havia junto ao lago. Olhou de esguelha a sua dama de companhia e sorriu ao vê-la de novo lendo. Sem dúvida aquele livro era muito interessante. A vida do personagem, aquele que chorava a perda de sua amada por não ter sido capaz de enfrentar o mundo e correr atrás dela era mais cativante que perseguir um objeto. Entretanto aquela inesperada situação lhe ofereceu o que ela ansiava, afastar-se de todos durante uns instantes e ter certa intimidade. Até agora nunca tinha gozado dela e, apesar


de saber que Anaís lhe ensinaria como devia enfrentar sua nova vida, ela queria adquirir experiência por si mesma. ― É uma parva – disse-se ao mesmo tempo em que caminhava entre as árvores. ― Um pequeno passeio por uns caminhos seguros não será nada. Mas sim a ajudaria. Qualquer pequeno passo para outros era um grande alcance para ela. Quando chegou a Longher era incapaz de sair da mansão. Entretanto, duas semanas depois tinha conseguido perseguir um chapéu sem a necessidade de pedir auxílio. Priscila cravou os olhos no chão. Estudava cada lance do atalho para não tropeçar. O último que desejava era torcer um tornozelo. Se aquela estupidez acontecesse mostraria a todos que já davam por certo, que era uma inútil. Deu um suspiro fundo, logo outro e assim até que percebeu que o objeto que procurava estava perto. Deixou que seu vestido tocasse o chão, inclinou-se para o chapéu e justo quando as suas mãos foram agarrá-lo um ruído soou atrás dela. Virou-se com rapidez sobre si mesma, zangada por saber que Anaís não tinha aceito sua decisão. Mas não era ela quem se encontrava ao seu lado, mas sim uma grande figura. Uma tão alta como um gigante. O titã tinha seu olhar azulado cravado nela. Observava-a com a mesma admiração que um entomólogo a uma nova espécie de inseto. Entretanto, um homem do campo não se vestiria como aquele colosso. Com um traje de impecável corte moderno, as roupas se ajustavam a cada palmo de pele com perfeição. Mas o que deixou Priscila surpresa não foi a figura hercúlea do homem, mas sim a escuridão que seus olhos mostravam ao contemplá-la. Uma tenebrosidade que aumentava com as sombras que jaziam embaixo daquele olhar. De repente sentiu medo, tanto que mal podia respirar. ― Quem… quem é…? ― Tentou dizer. A grande figura escura se equilibrou sobre ela como se fosse um gato saltando sobre um camundongo. Aterrorizada, tentou gritar, embora um nó na garganta a tenha impedido de fazer um ato tão corriqueiro. Fechou os olhos para não ver de perto o rosto de quem a assaltava. Seu coração se agitou de tal forma que seus vigorosos batimentos cardíacos sacudiam o frágil corpo. Disse a si mesma que continuasse com os olhos fechados para não continuar a apreciar aquele rosto rígido, embora teve que abri-los ao notar como


suas costas se chocavam contra algo duro. Quando suas pestanas se elevaram, encontrou-se em frente a um formoso olhar azul. Aqueles olhos reluzentes a contemplavam com surpresa enquanto que umas descomunais olheiras tentavam lhe arrebatar a intensidade. Abriu a boca, justo para dizer alguma palavra que fizesse para o que estava a pensar do homem que a capturava. Entretanto, continuou calada ao sentir uns rudes polegares a acariciar suas bochechas. Tocava-a com delicadeza, como se quisesse reconfortála, tranquilizá-la. Mas ela não podia manter a calma, quem pode sentir tranquilidade num momento assim? Seu olhar vagou pelo rosto daquele desconhecido. De cabelo loiro, concluiu, posto que as sobrancelhas eram tão claras como a palha de um estábulo. Continuou a percorrer aquele rosto, admirando ser consciente de cada milímetro de pele masculina. Um nariz grande, mas formoso, umas bochechas angulosas mas viris e uma boca… de repente Priscila mordeu seu lábio superior, provocando uma pequena dor que lhe fez franzir o cenho. Era a única maneira que tinha para despertar daquele sonho posto que estava segura que ali não podia haver ninguém salvo ela. ― Que Deus me perdoe… ― disse o homem com voz rouca. Priscila cravou suas pupilas nele perguntando-se da razão da frase. Mas antes que pudesse continuar a pensar, aquela boca sedutora pressionou a sua. Um repentino desejo de afastálo de si provocou que, torpemente, colocasse suas palmas sobre o torso daquele estranho. Quando notou a calidez daquele vigoroso estômago sentiu-se tão tonta que a ideia de afastálo dela se evaporou. Ninguém até aquele momento a tinha beijado daquela forma, nem tampouco havia sentido como seu corpo era conquistado por um simples beijo. Tentando não aumentar o ardor daquela invasão, Priscila manteve seus lábios fechados, mas sua força de vontade foi desaparecendo ao sentir como aqueles polegares se deslizavam pelas bochechas até alcançar o queixo. Não a pressionou com rudeza, pelo contrário, acariciou-a com muita suavidade. Então, depois de baixar a guarda e fazer com que aquela pressão em seus lábios


se debilitasse, o beijo se intensificou. A língua masculina alcançou o interior de sua boca. Movia-se nela como se quisesse alcançar algo que ninguém tinha obtido. Priscila saboreou o sabor daquele homem, um misto de café e vazio que lhe provocou um efeito narcótico. Aturdida, deixou-se levar. Seu corpo, até agora rígido como uma tábua, relaxou-se e começou a responder de uma maneira inapropriada às carícias daquele estranho. Continuou com a ideia de que aquilo não podia ser real, que só era um produto de sua imaginação. Mas a insistência daqueles beijos quentes, luxuriosos, eram tão reais como o agitado ritmo de sua respiração. Ruborizou-se ainda mais quando uma das mãos masculinas baixou até seu seio. Não havia nada de pele que tocar. Ela cobria seu decote com uma renda de seda negra. Mesmo assim, aquela grande mão se deleitou com o que apalpava. Priscila tremeu tanto que seus joelhos começaram a dobrar-se. Jurava que, se não estivesse apoiada sobre o tronco de uma árvore, teria caído ao chão sem poder evitá-lo. De repente, aquela mão que acariciava seu seio se dirigiu para sua cintura atraindo-a com mais força para aquele enorme e imponente corpo. O leve contato provocou um grunhido em quem a assaltava, o que a deixou perplexa. A surpresa que mostrou em seu rosto não passou desapercebida para quem a assaltava posto que, por uns instantes, relaxou suas carícias. Mas foi uns milésimos de segundo o que se acalmou esse contato. Como se aquele homem tivesse descoberto algo que ela guardava com firmeza, aproximou-a tanto dele que não conseguia respirar. Aturdida, acreditou perceber uma pressão em seu quadril. Quis afastar-se e averiguar do que se tratava, mas… quem é capaz de liberar-se do forte abraço de um urso? Espectadora e sufocada, percebeu que aquela dureza que emergia da parte superior do homem começava a balançar-se nela como se quisesse esfregar-se ou pulverizar seu aroma entre suas roupas. Tinha que gritar.


Priscila devia correr e pedir auxílio, mas não o fez. De maneira inexplicável abriu suas pernas o suficiente para que aquele estranho pudesse colocar uma das mãos entre o vestido. Então, umas insólitas sensações surgiram no corpo de Priscila. O calor obtido pela corrida deu passo a um intenso fogo. Um fogo que lhe queimava seu ventre e lhe provocaram necessidades indescritíveis. Só sentiu um pouco de calma quando o homem dirigiu seu joelho para seu sexo e o apertou com força. Priscila jogou a cabeça para trás esperando encontrar um pouco de ar fresco para recompor-se. Não o encontrou. Aquela boca continuava obstinada à sua. Não podia ver com claridade, não podia abrir os olhos e fazer frente ao seu agressor. Não, não podia, nem queria. Necessitava daquilo. Embora fosse produto de sua imaginação, urgia-lhe ter aquelas sensações. Deixando-se levar por aquela paixão alucinante, Priscila agarrou com força as lapelas da jaqueta do homem e o atraiu mais a ela. Ao notar aquele grande corpo tão unido ao dela, arqueou o quadril com a esperança de perceber com maior intensidade a pressão que este escondia em sua calça. Agradava-lhe sentir aquilo naquele lugar e, embora ninguém lhe tivesse falado do que provocaria um ato assim, ela suspeitava que o desespero despertado em seu corpo só poderia ser acalmado por ele. Mas os atos temerosos e inocentes de Priscila fizeram com que Leopold reagisse, enfim. Aquela prudência que tinha desaparecido após estar ao seu

lado retornava, por sorte. Afastou as mãos da cintura feminina e deu uns passos para trás. ― Sinto muito… ― disse com sufoco. ― Peço mil desculpas… Priscila não queria escutar nada porque continuava empenhada em que o acontecido era só um sonho e como tal, não desejava ouvir os ansiados perdões de um fantasma. Voltou a fechar os olhos para não contemplar a tristeza daquele olhar e dar a oportunidade àquele personagem fictício de evaporar-se. Tal como esperava, não


havia ninguém ao seu redor quando abriu os olhos. Estava sozinha e seu apaixonado desconhecido partira. Depois de fazer com que seus pulmões tomassem o ar que tanto tinham desejado, endireitou o cabelo, esticou o vestido e caminhou para o lugar onde se encontrava o chapéu prometendo-se que não escutaria outro capítulo do livro de Anaís. ― Você! ― Gritou ao chapéu após sacudi-lo com força. ― Você foi o culpado desta loucura! ― Açoitou-o como se fosse as nádegas de um menino travesso e o encaixou na cabeça. ― Na próxima vez que escape, arderá na fogueira ― o ameaçou. Depois de recompor-se e assegurar-se de que não havia ninguém ao seu redor, Priscila retornou ao jardim. ― Milady! ― Exclamou Anaís ao vê-la aparecer. ― Como pôde terminar desse jeito? ― Não foi nada, Anaís. Só necessito de um refresco ― disse Priscila tentando controlar seu estado de nervosismo e evitando responder à pergunta de sua dama de companhia. ― Acredito que este calor inédito provocou-me um certo atordoamento mental. Anaís olhou carrancuda a lady Priscila tentando averiguar que finalidade tinham suas palavras, mas não descobriu nada. Resmungando, caminhou atrás dela e só conseguiu alcançá-la quando a jovem esteve a ponto de desmaiar. ― Não voltará a afastar-se tanto ― lhe disse. ― OH, sim que o farei! ― exclamou esboçando um grande sorriso. ― E muitas vezes… Com a agilidade utilizada por um hábil ladrão para fugir do perigo, Leopold correu até a carruagem. Depois de gritar ao cocheiro que retornasse ao escritório, reclinou-se no assento e fechou os olhos. Tinha cometido uma loucura, uma demência insólita. Como foi capaz de ataca-la? De submetê-la aos seus beijos e carícias? Não podia dar crédito ao acontecido. Ele não era dessa classe de


homens. Ele sentia um tremendo respeito por todas as mulheres e daí que se aferrasse ao seu celibato. Entretanto, aquela moça o tinha conduzido até uma loucura tão irreal que, por uns instantes, acreditou que estava sonhando. Colocou as pernas sobre o assento da frente, cruzou os braços e meditou sobre o acontecido. Terminou por concluir que o desespero que padecia para obter Longher o tinha transtornado por completo. Além disso, seu plano era avassalar a condessa, não a uma jovem inocente. Porque estava seguro que sob seu corpo tinha permanecido uma moça virtuosa. Franziu o cenho e tentou rememorar as palavras que tinham mantido ambas as mulheres. A que ficou lendo a chamou de milady e isso lhe fez deduzir que era a viúva de seu tio. Mas não foi assim. Sob suas mãos, sob sua ardente figura encontrou uma mulher inexperiente, assustadiça e insegura. Se fosse a condessa sua experiência teria florescido com rapidez. Os beijos teriam sido mais profundos, mais passionais e suas mãos não se teriam agarrado torpemente às lapelas de sua jaqueta. Uma mulher com destreza na arte amorosa teria colocado seus braços ao redor de seu pescoço, lhe incitando a

que continuasse. E, é óbvio, teria se aproximado dele com menos decoro. Não, ela não podia ser a viúva que ansiava assustar, tinha que ser uma convidada, uma amiga da condessa que passaria uns dias em Longher. De repente a visão dela sob seu corpo, deixando-se levar pelos cautelosos movimentos de sua cintura, provocaram-lhe que aquela excitação continuasse dura, ereta, desejando o calor que ela poderia lhe oferecer em seu interior. Afogado pelo desejo, Leopold golpeou-se na cabeça com o respaldo do assento e grunhiu com veemência. Não podia voltar a vê-la, não cheiraria de novo aquele aroma a rosas que ela desprendia, não se aproximaria da mulher, embora lhe custasse a vida. Entretanto, seu coração gritava-lhe precisamente o contrário, que desejava tê-la ao seu lado, que desejava descobrir quem era e, é claro, ansiava tocar de novo aquela aveludada pele.


Sufocado, fez-se uma promessa: evitá-la. Sim, evitá-la-ia como o gato evita um banho, como o fogo evita a água, porque se não o fizesse, se ela reaparecesse em frente a ele, todo seu domínio desapareceria e a faria sua onde e diante de quem quer que fosse. VIII ― Vestidos?! ― Perguntou Anaís fixando os olhos em lady Priscila. ― Quer sair para comprar vestidos? ― Repetiu com tanta intensidade que foi impossível não mostrar em cada palavra a surpresa que tinha criado uma sugestão tão banal. ― Sim, acredito que tenho que trocar o vestuário. Os que tenho são muito abrigados para este tempo e ultimamente sinto que me afogo entre essas roupas ― explicou sem se dar conta de que outra vez se ruborizava. ― Por isso você anda tão estranha? ― Priscila arqueou uma de suas sobrancelhas e a olhou dúbia. ― Desde que se aventurou a caminhar sozinha por aquele pequeno bosque percebi que se ruboriza com muita frequência, para não falar dos intensos suspiros que lhe escapam sem dar-se conta. Anaís abriu as cortinas, depois se dirigiu para a bacia e verteu a água que uma das criadas tinha deixado na habitação minutos antes. Não podia acreditar o que viam seus olhos. Aquela tímida mulher estava mudando a passos largos e, embora soubesse que ela a tinha estimulado a fazê-lo, esperava que, no mínimo, demorasse meses ou possivelmente anos a consegui-lo, não horas. ― O clima de Londres é mais quente do que o que temos em Bournemouth… ― apontou enquanto saltava da cama e se esticava como se fosse um gato. ― Quente? ― Soltou Anaís atônita. ― Temo que esse intenso sol do qual gozamos um só dia desde que chegamos a fez adoecer. Anaís ficou calada, arrependida de como tinha falado a quem servia, mas quando a condessa esboçou uma sonora gargalhada a tensão retida em seu corpo durante uns instantes se desvaneceu e pôde continuar com a conversa.


― Lady Priscila, desculpe-me. Mas não encontro nada coerente em seus pensamentos. Não sei se se deu conta de que esta… ― se reteve para não soltar um impropério ― esta cidade se caracteriza principalmente por ser fria, chuvosa e, por conseguinte, bastante úmida. Assim me permita que não esteja de acordo com suas reflexões. ― Está perdoada… ― respondeu sem suprimir o sorriso do rosto. ― Mas não entendo como pode se alterar tanto por sair por umas horas de compras. Tem que entender, e isto mesmo disse você em mais de uma ocasião, que preciso trocar meu vestuário. Estou cansada de usar essas roupas tão toscas. ― Assinalou com um dedo o vestido que Anaís tinha escolhido para ela. ― Você mesma admite que pesam uma barbaridade e não fazem justiça à minha figura. «Maldita seja minha língua descarada!», pensou a senhorita Price. Dando-se por perdida e muito abalada pela situação tão inesperada que estava vivendo, Anaís caminhou para a janela e tentou fazer algo que já tinha feito, afastar as cortinas. Quando descobriu a estupidez enfureceu-se ainda mais consigo mesma. ― Está bem, milady ― murmurou a dama apertando os dentes. ― Direi à donzela que deseja sair às compras e ela mesma falará com o cocheiro para que tudo esteja preparado depois do café da manhã. ― Obrigada por ser tão considerada. Lady Appelton caminhou até a bacia, lavou com rapidez o rosto e correu para a penteadeira para que sua dama começasse o ritual diário. Quanto mais cedo terminasse, mais cedo sairia e, se Deus tinha escutado suas milhares de preces durante os três últimos dias, em qualquer momento, em qualquer lugar, seu atrevido fantasma apareceria de novo para lhe roubar mais beijos apaixonados. ― Quando vivia em Londres… ― começou a dizer a condessa enquanto era vestida – sua mãe não te levava às compras? Por isso está tão inquieta? Um som surgiu da garganta de Price. Foi como um gemido ou uma espécie de gemido. Priscila a observou com receio e se arrependeu rapidamente de pô-la em tal apuro. Conforme lhe tinham contado seus pais, a vida familiar de sua fiel assistente tinha sido trágica. Narraram-lhe pinceladas sobre as vivências


que sofreu em Londres, mas nunca lhe relataram toda a verdade. Até aquele momento Priscila não tinha querido tampouco saber nada sobre o passado dela, mas se dispunham a passear pela cidade e se sua dama de companhia se achava em algum apuro, ela a ajudaria. ― Era muito menina naquela época, milady. Mal tenho vagas lembranças da minha vida em Londres. ― As mãos de Anaís começaram a tremer pela lembrança de um passado que não desejava evocar. É óbvio que tinha ido às compras, sua mãe era uma perita em gastar aquilo que não tinham. Daí que deixassem dívidas em vários comércios londrinos. Apesar de sentir como perdia as forças, vestiu a condessa como se as lembranças de sua infância não lhe provocassem dor. Não podia deixar-se levar pelo passado. Aqueles foram outros tempos e agora devia saber em que lugar se encontrava e como atuar a respeito. ― O que te parece se começarmos a visitar as lojas da rua Oxford? Conforme escutei das esposas dos amigos do conde, é um dos lugares mais concorridos de Londres ― propôs a jovem dando um pequeno salto pelo entusiasmo. Anaís se girou com rapidez para a senhora e a olhou com o cenho franzido. Tinha albergado a esperança de acordar a assustada menina que ocultava no interior, mas não imaginara que fosse tão rápido. Enquanto a observava atônita, perguntava-se outra vez o que lhe teria acontecido naquela tarde. O passeio pelo pequeno bosque não podia provocar-lhe um despertar como aquele. Tinha que ter acontecido algo mais, algo que a acalorava, que a fazia suspirar e que a transportava a um mundo muito afastado do que se encontravam. Mas… que estímulo acharia num lugar como aquele? Possivelmente viu um esquilo saltar de árvore em árvore? Um coelho correr em liberdade? Fosse o que fosse, a condessa tinha mudado, e isso, em certo modo, a atemorizava. Não queria que de repente quisesse gozar de tudo aquilo que perdeu posto que, por desgraça, nunca terminaria de maneira satisfatória. De repente sentiu um calafrio percorrer seu corpo e um inesperado suor provocou um suave resplendor em seu rosto. Não, não poderia suportar viver de novo o desespero que padeceu em sua infância. A estabilidade que sentia sob o amparo da condessa devia permanecer muitos anos mais.


― Anaís? ― Inquiriu Priscila assombrada pelo pânico que sua dama mostrava no rosto. ― O que acontece? ― Nada, senhora. Minhas desculpas. Se quiser sentar-se escovarei e moldarei esse cabelo indomável ― disse fingindo um sorriso. ― Sabe que pode falar comigo de tudo o que desejar. Seja o que for, bom ou mau, perverso ou decente… ― Priscila tomou assento e olhou o reflexo de sua dama no espelho. Estava pálida e não havia brilho em seus olhos, como se a luminosidade própria da vida tivesse desaparecido. Para acalmar a inquietação despertada nela, lady Appelton segurou com a mão que não sustentava a escova de prata e a apertou. ― Seja o que for, Anaís… ― repetiu com um sussurro. ― E você sabe que permanecerei ao seu lado sempre que o requeira, não é? ― Priscila assentiu e deixou que aquele cabelo fosse escovado. Não podia afastar o olhar da janela. Estava tão eufórica que mal conseguia respirar. Era a primeira vez que saía às compras sem ninguém que lhe indicasse como atuar, o que devia fazer e, sobretudo, que conversações evitar. Sua felicidade era tal que mal tinha tomado um pouco do que lhe tinham servido no café da manhã. Priscila levou a mão ao coração tentando aplacar as agitadas pulsações. De repente, a força que tinha tido horas antes começou a desaparecer, convertendo-a de novo numa mulher indecisa, diminuída e covarde. De verdade seria capaz de confrontar uma vida assim? Embora o tivesse proposto depois da aparição daquele fantasma e de fazêla despertar de uma profunda letargia, já não estava tão segura. Entretanto, voltou a recordar como aquela alucinação lhe havia tocado, como a tinha beijado e, sobretudo, como a tinha feito sentir-se. Viva, muito viva. Até aquela tarde nunca imaginou que sua mente e seu corpo necessitassem de tais emoções, possivelmente porque sua vida só se centrou em sobreviver num cárcere e nunca albergou a esperança de liberar-se de tal reclusão. Primeiro foram seus pais. Eles estavam empenhados em convertê-la numa mulher perfeita e não cessaram em seu empenho até que descobriu o conde. Deu graças a Deus por tropeçar com aquele homem e que este se interessasse por seu bem-estar. Depois de lhe assegurar que se encontrava bem, que não tinha sofrido dano algum depois do impacto de ambos os corpos, começaram uma conversação distendida. Aquele


homem lhe outorgou tal bem-estar que lhe confessou a amargura em que vivia. Falou-lhe da insistência de seus pais por convertê-la numa mulher muito diferente, de seus desejos, da ansiedade que lhe provocava não poder abandonar seu lar. Então o conde sorriu e um brilho apareceu em seus envelhecidos olhos. «Eu posso mudar isso, pequena ― lhe disse enquanto apoiava uma mão sobre as suas. ― Se quer ser livre, se case comigo e o será». Entretanto tampouco achou o que procurava. Depois do casamento, entre eles cresceu uma amizade em que nenhum dos dois ocultava nada. Possivelmente esse foi o engano, possuir uma incrível confiança, visto que desde que Anthony lhe revelou seu segredo segurou-se a ela mais do que ansiava. Nunca a deixou assistir ao teatro ou a uma festa sozinha. Sempre devia permanecer ao seu lado. Se alguém se aproximava para uma conversa ele aparecia com rapidez. Logo a interrogava sobre os temas que tinham falado. Priscila lhe jurava uma e outra vez que ninguém insinuou nada que pudesse lhe machucar, que seu segredo continuava protegido. Mas até a morte do conde, não sem antes lhe fazer prometer que sua confidência iria com ele à tumba, nunca se sentiu livre. Não obstante, quando acreditou que tudo ao seu redor mudaria, descobriu que Anthony lhe tinha feito uma surpresa. Talvez imaginou que a afastando de Bournemouth evitaria que se difundisse o escândalo que tanto temeu em vida. Mas ela não estava disposta a criar nada doloroso ao seu redor. Em que posição ficaria se o segredo de seu marido saísse à luz? Todo mundo a olharia com lástima e não lhe cabia dúvida de que seus pais a encerrariam de novo em seu lar. Não só com a intenção de guardar o prestígio de sua filha, mas sim de salvar o próprio. ― Estamos perto, milady ― a informou Anaís. Priscila a olhou de esguelha, observando em silêncio a palidez de seu rosto. Soube, do momento em que lhe anunciou que sairiam de Longher, que não lhe agradava a ideia, mas ela precisava respirar, sentir-se livre e viver algo que nunca tinha tido. Já era o momento de fazer realidade seus sonhos. ― Continua sem recordar nada disto? ― Perguntou lady Appelton voltando-se


para ela. ― Não. Imagino que durante minha ausência Londres mudou bastante ― respondeu com sarcasmo. O silêncio voltou a reinar entre as duas. Priscila dirigiu seu olhar para o exterior outra vez, retendo em sua mente todos os lugares por onde circulavam. Como puderam lhe privar de algo tão maravilhoso? Como foram capazes de ser tão egoístas? Porque assim se comportaram tanto seus pais como Anthony. Embora eles o chamavam amor, receio e inclusive amparo, ela o chamava cativeiro. Sim, assim se havia sentido cativa de uma ditadura parental e presa de um segredo que, se tivesse saído à luz, a venerabilidade de seu falecido marido teria sido destroçada. “Por desgraça, pequena, nossa sociedade não está preparada para homens como eu. Embora sejamos muitos os que sofremos este calvário, não podemos fazer nada. Só espero que no futuro todo mundo possa gritar a quem pertence seu coração sem medo de represálias. Mas muito me temo que não serei testemunha dessa mudança tão maravilhosa” ― era a explicação que lhe oferecia Anthony para que não se sentisse abandonada, para que entendesse a razão pela qual não se aproximava dela como devia fazer um marido e, é óbvio, para que seus lábios perdurassem selados. E por respeito a ele e ao seu amante, continuavam fechados. ― Quantos deseja comprar? ― A pergunta de Anaís lhe fez voltar de novo para o lugar no qual se encontrava. ― Quantos convites temos? ― Respondeu sorridente. ― Se me permite lhe dar um conselho, milady, eu acho que você não deveria aparecer a todas as festas a que é requerida. Uma viúva a quem ninguém conhece ainda causa grande expectativa, não pode aceitar todos os convites. Deve ir selecionando quais são os apropriados. Não seria acertado que as pessoas pensassem que toma certas liberdades agora que enviuvou… ― comentou Anaís de maneira prudente. ― A que classe de liberdades se refere? ― Estendeu suas mãos sobre o vestido e a olhou com cautela.


― Sei que você atuará com sensatez, mas tenho que lhe advertir que deve tomar cuidado. ― Com o quê? ― Inquiriu arqueando as sobrancelhas. ― Os cavalheiros… ― Anaís não sabia se devia explicar tais imoralidades à sua senhora. Apesar de ter estado casada durante quatro anos ela mal tinha experiência com homens e muito temia que o que pretendia indicar lhe causaria pânico. Mas estava segura que mais de um cavalheiro a assaltaria nas festas às quais ela aparecesse. Possivelmente a veriam como uma mulher desejosa de seguir satisfazendo-se em suas noites de solidão. E… quem em seu são julgamento poderia resistir a ter uma amante tão bela, deliciosa e tímida? ― Anaís? ― Soltou a moça espectadora. ― Nem todo mundo é bom, senhora. Tenho que a advertir que achará muito interessante a companhia de alguns lordes, entretanto, tem que tomar cuidado. Muitos deles não pretenderão pôr um anel no seu dedo, mas sim leva-la à cama ― explicou sem hesitações. ― Crê que…? ― Priscila levou uma mão à boca e soltou uma gargalhada. ― De verdade pensa que minha presença nessas cerimônias indicará que ando procurando um amante? ― Sim ― afirmou sem duvidar. ― Pois estão muito equivocados! ― Exclamou entre risadas. ― Só quero dançar, conversar e desfrutar de tudo aquilo que não tive até agora. ― Entretanto… ― tentou dizer Anaís. ― Não tem, entretanto nem, mas! ― Pronunciou lady Appelton severamente. ― Não procuro um homem que aqueça o meu leito. Por sorte desfrutei de quatro anos disso. Só quero alcançar o que não tive. ― É claro… ― respondeu a dama com voz neutra.


Priscila se reclinou no assento. Não devia fazê-lo, sua mãe tinha insistido que uma dama de seu status social e educação mantinha as costas rígidas, mas já não estava sua mãe para lhe soltar o sermão. Com seus olhos cravados na rua pela qual passeavam repassou as palavras de Anaís. Não, ela não se converteria na amante de ninguém. Ela só tentava encontrar aquele homem que a tinha assaltado e que a havia tocado com ternura. Desejava saber quem era porque, por mais que se dissesse que era um fantasma, um espectro jamais deixaria impregnado em seu vestido um perfume tão masculino. Evocando de novo a cena dos dois no bosque, suas bochechas voltaram a tingir-

se de vermelho e um inesperado calor assaltou seu corpo. Inquieta no assento pelo palpitar que aparecia de novo entre suas pernas, tragou saliva e tentou acalmar-se. ― Outro sufoco? ― Soltou Anaís carrancuda. ― Como te disse, estas roupas não são apropriadas para o clima de Londres ― esclareceu sem mais. Anaís jogou uma rápida olhada para o exterior e confirmou o que já sabia, o dia tinha amanhecido cinza e bastante fresco. Logo, com suspeita, fixou seus olhos verdes na moça. Tinha as bochechas ardendo e era incapaz de ficar quieta. Aquela intranquilidade passou ao seu corpo, alterando-se ela também. Ocultava algo. Não restava dúvida disso, mas… do que se tratava? ― Por favor, mantenha-se quieta durante uns minutos mais indicou Evelyn à Natalie quando percebeu o desespero da costureira por tomar as medidas da menina. ― Se não o fizer não poderá usar um bonito vestido e já sabe como zangado fica seu irmão quando compramos roupas inapropriadas. Natalie ficou tensa, esticou as mãos e esperou que a costureira estendesse a cinta de medir por todo seu corpo.


Apesar de não querer mover-se, um caracol caiu sobre seu rosto e começou a soprá-lo para que se afastasse. ― Natalie… ― murmurou a marquesa. Quando a pequena desistiu de seu esforço, ela a premiou com palavras transbordantes de ternura. ― Vai ser a menina mais bonita da festa, querida. Tenho certeza que todos os olhares se centrarão em seu vestido novo e muitas damas te invejarão. ― De que cor será este? ― Aqueles cachos de cabelo dourados que tentavam tocar as pestanas da menina se moveram ao ritmo de sua cabeça ao olhá-la. ― Acredito que desta vez será rosa com laços azuis, parece-te bem? ― Evelyn pegou a taça com champanhe que a proprietária da loja lhe ofereceu e deu um diminuto sorvo. ― E o teu? ― Continuou o interrogatório a inquieta Bennett. ― Azul. Desta vez me encantei pelo tom azul céu ― respondeu a marquesa desenhando um leve sorriso ao compreender que nada faria com que a menina se mantivesse imóvel. ― Por que não vermelho? ― Insistiu. ― Já tenho muitos dessa cor… ― Mas Roger adora que ponha vestidos de cor vermelha. Escutei-o sussurrar-lhe que se excita muito quando usa essa cor… ― Como diz?! ― Soltou Evelyn abrindo os olhos como pratos e tentando não cuspir o gole de champanha que mantinha no interior de sua taça. ― Quando você escutou isso? ― Muitas vezes ― soprou Natalie. ― Sempre que se escondem meu irmão te abraça e te diz que lhe excita quando se veste de vermelho. O que significa essa palavra, Evelyn? ― Perguntou a pequena ao mesmo tempo em que seus olhos se cravavam nos dela.


Se a marquesa estava assombrada, a empregada não podia apagar o sorriso que se desenhou em seu rosto. Acalorada, a senhora Bennett tentou procurar um significado lógico àquela palavra, mas… como explicar a uma menina tal coisa? ― Significa que gosta muito de como favorece à sua excelência essa cor. Sem dúvida alguma, milady, o marquês tem bom gosto e é acertado com a eleição de tonalidades que beneficiam a sua esposa ― se aventurou a dizer a costureira ao pressupor que a marquesa estava tão envergonhada que não sabia o que responder. ― Sim, isso mesmo ― afirmou Evelyn tirando de um só trago o que ficava de bebida. ― Eu posso excitá-lo também? ― Pelo amor de Deus, Natalie! ― Exclamou Evelyn horrorizada. ― Sigamos com as medidas e deixemos esse tema. A menina, ao não entender o aborrecimento da mulher a quem amava como a uma mãe, começou a soluçar. A marquesa, arrependida, levantou-se de seu assento e a consolou. ― Querida, deixe que o tempo passe e descobrirá como provoca essa palavra no homem que te ame. Entendido? Prometo-te que quando estiver preparada te vestirei para… ― duvidou durante um segundo ― para excitar. ― Natalie assentiu e deixou de choramingar. De repente as campainhas que havia sobre a porta começaram a tilintar, as três dirigiram seus olhares para a entrada e descobriram a presença de duas mulheres. Ambas vestiam-se de rigoroso negro e sobre seus cabelos luziam dois chapéus da mesma cor. Evelyn olhou primeiro a mais alta que ocultava até a pele de seu pescoço. Seu vestido de menor consideração que a outra mulher indicava que era uma dama de companhia ou uma instrutora, a julgar pela juventude da outra mulher. Esta tirou o chapéu com uma elegância que desconcertou a


marquesa de Riderland. Continuou contemplando-a apesar de desejar não o fazer. Sua figura era esbelta, com curvas marcadas, embora não com excesso. Mas Evelyn abandonou a silhueta da mulher para dirigir suas pupilas para o cabelo. Esteve a ponto de levar a mão à boca quando descobriu que era muito semelhante ao de Natalie ou ao de seu marido. Tão loiro que podia considerar-se branco. Manteve o olhar cravado nela, procurando em sua memória alguma recordação na qual aparecesse aquela mulher, mas não a obteve. Não a conhecia nem a tinha visto noutra ocasião. Logo observou à mulher menor. Não que fosse de um tamanho muito inferior à média, mas comparando-a com a outra, sim que o era. Também era mais jovem. Seu aveludado rosto assim o indicava. Evelyn calculou que não teria mais de vinte e dois anos e, como tinha feito com a anterior mulher, prosseguiu sua inspeção. Seu corpo era magro, não frágil, mas sim fraco. A largura de seu vestido mostrava que tinha perdido um pouco de peso. A marquesa imaginou que se devia à dor padecida depois do falecimento de um parente, daí o luto. Ela também perdeu o apetite quando morreu Colin. Suspirou ao lembrar-se dele, embora a tristeza da lembrança não tenha diminuído seu interesse pela jovem. Prosseguiu admirando o cabelo. Apesar do esticado e cuidado coque baixo, várias mechas tocavam o ombro esquerdo da jovem. Ela timidamente a olhou, como se soubesse que a estava estudando, e se ruborizou. Evelyn se sentiu malvada por provocar o rubor à moça e afastou o olhar, não sem antes dizer a si mesmo que muitas damas de Londres invejariam a cor que a jovem possuía. ― Bom dia ― começou a falar Priscila. ― Sou a condessa… ― se deteve como se lhe custasse dizer seu nome. ― Sou lady Priscila Appelton. ― Minha senhora necessita de um par de vestidos novos -


intercedeu Anaís. ― E nos comentaram que esta é a melhor costureira de Londres. ― Priscila dirigiu um cálido olhar à sua dama, lhe agradecendo por intervir. Mas queria fazê-lo sozinha. Não desejava que outra pessoa falasse por ela. Como era de esperar, Anaís a entendeu e jogou um passo para trás para deixá-la fazer. ― Quero mudar todo o meu guarda-roupa ― esclareceu a condessa. ― Embora muito tema que a cor deve ser a mesma que estou usando. ― Bom dia, milady ― saudou a costureira enquanto se dirigia para elas. ― Se me desculpar um momento, atendê-la-ei assim que termine com a senhorita Bennett – esclareceu. ― Enquanto isso, se o desejar, pode ir olhando os diferentes modelos que oferecemos às nossas clientes. ― Ao perceber que a jovem estava confusa, ofereceu-lhe um panfleto. ― Estas páginas mostram quais vestidos confeccionamos. São novos, milady. Ninguém usou em Londres uns objetos semelhantes. Embora, se não lhe agradar algum dos que encontre aí, saiba que amanhã terei outra gazeta com padrões diferentes. ― Obrigada, verificarei os que tem ― indicou Priscila aceitando aquela revista. ― Estupendo, volto assim que terminar de concretizar o modelo do vestido. ― Deu dois passos para trás e girou para retornar junto à jovem que parecia desesperada. Priscila olhou a pequena e sorriu. Era muito jovem, de uns oito ou dez anos, mas a pose que mantinha lhe dava um ar de absoluta superioridade. ― Milady… ― sussurrou Anaís atrás dela como se lhe estivesse chamando a atenção por seu descarado olhar. Priscila se centrou nas folhas que tinha em suas mãos. Um a um foi admirando os padrões e esboços dos vestidos. Sem dúvida alguma eram bonitos, muito mais formosos dos que ela jamais tinha


visto. Nesse momento voltou a lhe assaltar a dúvida, aquela indecisão que lhe impedia de encantar-se por um em especial. Nunca tinha tido a possibilidade de realizar uma tarefa tão singela como aquela. Sua mãe se encarregou de chamar a costureira e lhe confeccionar aqueles que ela acreditava apropriados para sua silhueta e ocasião. Os que ambas usavam desde que o conde faleceu foram elaborados depois da morte de um tio paterno e, embora austeros, não se via mal com eles. Mas isso devia mudar, tinha se proposto a fazêlo e o quanto antes melhor. Era muito jovem para vestir-se com roupas tão arcaicas. Não lhe importava que o negro fosse o tom eleito, mas negava-se a cobrir toda a sua pele com tecidos centenários. Se tivesse tido decote… se o topo de seu seio não estivesse oculto sob o áspero tecido, ela haveria sentido a calidez daquela mão com mais exatidão. Inquieta ao evocar de novo a imagem dele apertando-a sob seu corpo, acariciando-a e beijando-a, passou as folhas. Tremeram-lhe as mãos e o rubor retornou. Tentou acalmar-se, fazer desaparecer aquelas imagens que apareciam em sua mente sem controle e a única forma que encontrou foi prestando atenção à conversa que a costureira mantinha com a cliente. ― Então, terá logo outros modelos? ― Perguntou Evelyn enquanto retornava seu olhar para Natalie. ― Se o senhor Spencer mantiver sua palavra, amanhã mesmo ― lhe explicou a costureira com entusiasmo. ― Os encarregou a ele? ― Perguntou a marquesa com interesse. ― Não, não, não… ― disse a empregada sorrindo. ― O senhor Spencer, embora possua uma grande inteligência, seria incapaz de fazer padrões de vestidos ― continuou rindo. ― Na semana passada lhe fiz chegar os modelos que a senhora Parks desenhou para a próxima temporada. Ele os encaderna em sua tipografia e, como pôde apreciar você mesma, transforma-os na preciosa gazeta que oferecemos às nossas clientes – explicou. ― Só espero… ― disse depois de suspirar. ― O quê? ― Insistiu Evelyn. ― Que não feche a tipografia se decidir encarregar-se do título que lhe reclama.


Muitos comerciantes ficariam desolados se o fizesse ― indicou a mulher. ― É claro ― disse Evelyn sem deixar de olhar pela extremidade do olho às novas clientes. Pela expressão que mostrava o rosto da jovem parecia duvidar qual de todos escolher. Supôs que não acharia nenhum daqueles objetos apropriados para os tecer em negro. Era normal, aqueles vestidos eram magníficos com a tonalidade selecionada, entretanto, sob a sobriedade do luto nada parecia formoso. Teve pena dela ao vêla duvidar. Que injusta era a vida se uma moça como ela devia passar grande parte de sua juventude ocultando-se embaixo daquela cor. ― Terminado! ― Exclamou eufórica a costureira. ― Já pode mover-se, senhorita Bennett. As medidas estão apontadas. ― Pegou o papel e o levou até o mostrador. Observando o desconcerto da nova cliente, aventurou-se a dizer: ― Não lhe agrada nenhum, milady? ― OH, não, não! ― Respondeu com rapidez Priscila. ― São todos lindos, por isso não sei qual escolher. ― Posso ajudá-la? ― Evelyn se levantou do assento e caminhou para elas. Priscila a olhou assombrada. Em frente a ela se encontrava uma mulher formosa. Seu cabelo era de uma cor tão vermelha que parecia levar fogo sobre a cabeça. Seus olhos, tão formosos e brilhantes, empalideceriam o próprio sol. Mas não foi a única em perceber a beleza e solenidade que a marquesa desprendia, Anaís, quem contemplava tudo o que acontecia num discreto segundo plano, também a notou. A forma de caminhar, como esticava seu corpo e mantinha reto o pescoço eram sinais evidentes de uma educação e posição próxima à Coroa. Afastando-se mais de Priscila, continuou conservando sua discrição sem afastar o olhar da mulher que se dirigia para elas. ― Não quero incomodá-la, senhora… ― comentou Priscila morta de vergonha. ― Evelyn Bennett ― esclareceu. Estendeu a mão direita para estreitar uma das suas.


Priscila olhou sua mão enluvada e tirou com rapidez a luva. ― Priscila Appelton ― indicou aceitando a saudação. ― Bom, senhorita Appelton, quais vestidos lhe agradaram? Anaís mordeu a língua para não esclarecer que Priscila não era senhorita, mas sim senhora e viúva, mas como não escutou queixa de sua senhora a respeito, manteve-se calada. Sem dúvida alguma, deviam falar de certos temas quando estivessem sozinhas. Em primeiro lugar, que não devia estreitar a mão a mulher embora esta a oferecesse e, em segundo lugar, não devia esquecer-se que era uma viúva, e a de um conde! ― São todos tão bonitos que custa-me escolher um ― soltou Priscila mostrando à mulher os que tinha selecionado. ― Se me permitir uma sugestão, este. ― Assinalou um vestido com o corte a meia manga, com decote de ombros caídos e uma saia com uma dobra de seda cruzada na cintura. ― É uma preciosidade. ― Não é muito atrevido? ― Inquiriu Priscila ruborizada. ― Se se cobrir com um xale, não ― afirmou Evelyn após descobrir que a jovem se referia ao amplo decote do vestido. ― Entretanto, se você desejar algo mais convencional… ― passou as páginas até chegar a um vestido que era mais próprio de uma mulher octogenária que para ela. ― Este é o ideal. ― Acredito que esse será magnífico ― apontou lady Appelton. ― Este? ― Assinalou a marquesa ao tosco vestido. ― Não, o outro. ― E Priscila voltou a ruborizar-se depois de sorrir. ― Mas tenho que escolher alguns mais.


― Quantos necessita? ― No mínimo mais três ― anunciou. ― Então lhe recomendaria que voltasse a página e… Evelyn se sentiu como uma fada madrinha. A jovem ia escolhendo vestidos sem parar de lhe perguntar onde e quando seriam apropriados usá-los. Lhe explicou em detalhes tudo aquilo que demandava. De repente, num abrir e fechar de olhos, criaram uma empatia incomum, uma espécie de insólita amizade. Pareciam estar muito conectadas. Falavam-se com um tom mais quente que o utilizado para o respeito. Anaís inclusive apreciou um sentimento de carinho em lady Riderland. Face à imponente figura, ela era dócil e terna com sua senhora, coisa que lhe agradou posto que não desejava que Priscila fosse aconselhada por uma harpia. ― Então, lady Appelton ― começou a dizer. ― Pode me chamar de Priscila ― lhe esclareceu. ― Bem – disse Evelyn aceitando chamar-lhe por seu nome de batismo. ― E você pode me chamar de Evelyn. ― Priscila assentiu feliz. ― Há muito tempo que reside em Londres? ― Pouco mais de duas semanas, acredito… ― olhou à Anaís para confirmar sua afirmação. Como era de esperar, Evelyn também dirigiu seu olhar para a mulher que permanecia em silêncio junto a elas. ― OH, me perdoe! ― Disse Priscila ruborizada. ― Ela é minha dama de companhia, Anaís Price. ― Milady. ― Anaís fez uma leve reverência como saudação. ― Anaís Price… ― Evelyn murmurou para si. ― Quando enviuvei decidimos vir a Londres ― explicou Priscila ao notar que sua dama se inquietava.


― É você…? ― Assombrada ante tal descobrimento Evelyn fixou os olhos novamente na jovem. ― Sim ― assentiu Priscila. ― Sou a viúva do conde Crowner ― confessou enfim. ― Então ouvi falar de você ― declarou Evelyn. ― De mim? ― As sobrancelhas douradas de Priscila se arquearam e sentiu como o fogo queimava suas bochechas. ― É claro ― afirmou a esposa de Roger movendo ligeiramente sua cabeça. ― Embora Londres seja uma cidade bastante grande, os rumores da aparição de uma condessa viúva se expandem sobre os londrinos como a fumaça das chaminés. ― Não sabia que… ― murmurou desconcertada. Aquele descobrimento alterou Priscila. Mas de repente se lembrou dos convites que tinham chegado ao seu lar e da conversa que manteve com Anaís na carruagem. Ninguém imaginaria que sua aparição em Longher tivesse outro motivo salvo o de procurar um amante. Um nó na garganta produziu-lhe tal dor que levou a mão para essa parte de seu corpo. Em milésimos de segundo desapareceu a jovem que tinha decidido aventurar-se a uma nova vida. Queria retornar ao seu lar, voltar para Bournemouth o mais cedo possível. ― Não se angustie… ― disse Evelyn enquanto lhe dava uns pequenos golpes na mão para acalmar sua inquietação. ― As fofocas são muito típicas aqui. Asseguro-lhe que os falatórios que criaram sobre a família de meu marido estiveram a pular pela cidade durante meses ― comentou zombadora. Isso fez com que Priscila se relaxasse e que a palidez de seu rosto desaparecesse. ― Se o desejar podemos falar com maior tranquilidade em meu lar. Estarei encantada de lhe convidar a um chá com bolachas. ― Não quero incomodá-la… ― murmurou Priscila. ― Não será nenhum incômodo, pelo contrário, será uma grande honra se o fizer. ― Evelyn rebuscou em sua pequena bolsa. Quando achou o que procurava estendeu a mão para a jovem. ― Aqui tem um cartão de visita. Não é o apropriado nestes casos, mas nele encontrará o endereço do meu lar.


― Obrigada… ― continuou Priscila com tom débil. ― Esta tarde estou livre, se por acaso decidir aceitar meu convite. ― A marquesa olhou para sua saia. Natalie tinha se agarrado a ela. Os olhos maternais adivinharam o que desejava a menina. ― Ganhou um – disse-lhe. ― Só um? Comportei-me muito bem… ― comentou compungida. ― Acredito que tenho uma promessa a cumprir ― esclareceu enquanto acariciava o cabelo da pequena e sorria à Priscila. ― Quero dois de morangos! ― Exclamou Natalie feliz. ― Não crê que será muito? ― Não! Depois de uma curta despedida em que ambas as mulheres voltaram a estreitar as mãos, Evelyn e Natalie abandonaram a loja. Priscila foi incapaz de mover-se. Seu corpo voltava a ficar tenso, rígido após averiguar que sua presença em Londres era motivo de falatório. Olhou com desespero à Anaís, mas o rosto sombrio que ela mostrava não lhe transmitiu nenhuma tranquilidade, pelo contrário, inquietou-a ainda mais. ― Decidiu quais deseja? ― Interveio a costureira desenhando um grande sorriso. Priscila afirmou e assinalou aqueles que tinha eleito. ― Sua excelência tem um gosto delicioso ― expôs a empregada. Ao ver que sua nova cliente arqueava as sobrancelhas em sinal de pergunta, concretizou. ― A senhora que acaba de partir é a marquesa de Riderland, uma das mulheres mais desejadas e invejadas de Londres. ― Invejada? ― Soltou Priscila sem pensar. ― Sim ― afirmou a costureira enfatizando sua resposta com um sutil movimento de cabeça.


― Porquê? ― Insistiu a moça. ― Não só porque é uma mulher bela, mas sim porque está casada com um dos homens mais atraentes e desejados de Londres. Ao escutá-la, Priscila sorriu. ― Sem lugar a dúvidas, ninguém acreditou que o futuro marquês pudesse contrair matrimónio algum dia. ― Ela é muito formosa… ― sussurrou lady Appelton como se isso fosse motivo suficiente. ― Mas lhe asseguro que há muitas damas tão esplêndidas como ela nesta cidade. ― Se ele a escolheu, terá seus motivos, não lhe parece? ― Soltou Priscila perspicaz. ― Sim, é óbvio. Mas não pode fazer uma ideia da frustração que causou nem o revoo que se formou entre as damas solteiras quando descobriram que um dos três lordes mais desejados se casava -explicou divertida. ― Três? ― Embora não devesse escutar, embora se tivesse queixado e sentido doída por saber que as pessoas falavam sobre ela, a curiosidade era mais forte que o sentido comum. ― Eram e são três, milady. Tão bonitos como libertinos. Ninguém imaginou que encontrassem uma mulher apropriada posto que para eles todas o eram. ― Sem poder afastar o olhar da empregada, Priscila escutava atenta. ― O primeiro em casar-se foi o duque de Rutland, embora todos pensassem que não conseguiria encontrar uma mulher depois do que lhe aconteceu. ― O que lhe aconteceu? ― Animou-a a seguir. Apesar do grunhido proveniente de Anaís, Priscila não diminuiu nem um ápice seu desejo por evitar a conversa. ― Conforme contam, um marido desafiou-o a um duelo e este aceitou. Mas a pontaria desse marido despeitado foi certeira e o deixou muito ferido. Pelo visto, metade do corpo do bonito duque ficou imobilizado.


― Pobrezinho… ― murmurou Priscila. ― Mas a sorte lhe sorriu e encontrou a duquesa, uma jovem tão cheia de vida que provocou um milagre. Graças ao seu amor, o duque se recuperou quase na sua totalidade. O segundo cavalheiro a contrair matrimónio foi o adorável lorde Cooper. Nunca se viu um homem tão honrado, tão reto, tão incrivelmente correto como ele. Onde quer se fosse, escutava os suspiros das mulheres deslumbradas por sua elegância e saber estar. ― Também sofreu antes de casar-se? ― Não, por sorte ele não teve percalço algum. Casou-se com a filha dos Midlenton. Uma jovem estranha, se me permite dizer isso. E, conforme falam as más línguas, ela o conduziu ao altar porque estava grávida. ― OH! ― Exclamou Priscila horrorizada. ― E o terceiro, como pôde você mesma apreciar, casou-se com a mulher que partiu. ― Então… ― intercedeu Anaís um tanto zangada. Não só sua cólera se devia ao escutar que Cooper se casara, mas sim porque não desejava ver sua senhora tão interessada nesse tipo de fofocas. Se continuasse indagando, se o ânsia de saber não cessasse, logo descobriria quem era ela e a desafortunada vida que padeceu. ― Já não ficam mais solteiros, não é? ― Foi tal o sarcasmo utilizado que provocou um rubor intenso na costureira. ― Só o senhor Spencer e, muito me temo, que ninguém acederá a esse desventurado homem ― assegurou a empregada enquanto agarrava a cinta para medir a Priscila. ― Porquê? ― Não entendeu muito bem a razão de seu interesse, mas um palpite ou talvez uma intuição provocou que lady Appelton soltasse por sua boca a pergunta de maneira involuntária. ― Porque já está casado, milady. Sua esposa é o trabalho e o mantém ocupado todo o tempo. A não ser que a mulher que


deseje levá-lo ao altar apareça nesse escritório, não há outra possibilidade de caçá-lo ― declarou. ― Ah… ― sussurrou Priscila comovida. IX Sentado e com a atenção fixa nas folhas que os dois envelopes continham, Roger esfregou rudemente o rosto e depois continuou para o cabelo. Eram más notícias para as confrontar de uma vez, embora já o tivesse suspeitado quando as recebeu. A primeira a abrir foi a de William. Em sua carta lhe explicava que não poderiam viajar antes de um mês porque a segunda gravidez de Beatrice não estava a ser tão boa como a primeira. Segundo as indicações do médico que a atendia, devia permanecer em repouso e não sofrer alterações que lhe provocassem mal-estar. É óbvio, a notícia de que a esposa de Federith não lhe era fiel e que este veria destroçada sua imaculada venerabilidade, eram motivos suficientes para perturbá-la. Pedia-lhe paciência e que atuasse como se não soubesse de nada. Como pretendia tal coisa? Como iria ser capaz de manter-se impassível ante uma situação assim? Federith era um dos seus dois melhores amigos e seu eu honesto lutaria com ânsia por sair, quando ambos permanecessem juntos. Era uma loucura. O duque não atuava com sensatez devido à preocupação que sentia por sua esposa. Entendia-o. No fundo de seu ser podia aceitar a postura de William. Para ele era mais importante velar pela segurança de sua esposa e de seu futuro filho que lutar por diminuir as desgraças de Cooper. Sempre tão educado, tão fechado e duro como um paredão. Não obstante, Roger estava seguro de que uma vez que o segredo fosse revelado à sua esposa, este se derrubaria e toda aquela conduta honorável, tão educada, dissipar-se-ia. Obrigado a aceitar a decisão de Rutland, abriu a segunda missiva. Esta pertencia ao lorde Spencer. Em apenas cinco linhas lhe explicava que não havia


possibilidade de reunir a soma que lhe pediam e que, logicamente, não respaldaria essa quantidade pondo em perigo sua tipografia. Entretanto, na última linha encontrou um ar de esperança. Dizia-lhe que naquela mesma tarde se apresentaria em Lonely Field, se não lhe causasse moléstia alguma, para falar do tema. Roger pegou a pluma e respondeu com rapidez. Manifestava-lhe que podia visitálo por volta das cinco da tarde e que pediria a lorde Cooper que aparece também. Depois de assinar a carta e estampar seu selo, chamou Anderson. ― Sim, excelência? ― Necessito que um criado entregue esta carta ao senhor Spencer e que façam lorde Cooper saber que requeiro sua presença em meu lar às cinco desta tarde ― pronunciou com tom firme. ― Agora mesmo, milorde. ― Pegou o envelope e deixou que o marquês continuasse com seus pensamentos que, tal como tinha apreciado, eram bastante inquietantes. Roger continuou sentado refletindo nas suas ideias. Sabia que a participação de Spencer era vital para alcançar seu objetivo e por isso devia insistir. Embora o senhor Lawford lhe informara da quantia aproximada que o jovem receberia uma vez tomado o cargo, também foi claro ao lhe explicar a segunda parte do testamento. Sim, aquele administrador com aspecto desalinhado averiguou o que ocultavam as últimas vontades do conde Crowner. Não lhe perguntou como o tinha conseguido, as artimanhas do administrador eram incalculáveis, mas lhe agradou que fosse tão eficiente. Segundo Lawford, Spencer obteria uma boa renda quando fosse conde, mas isso não era nada comparado com a grande residência unida ao título que possuía em Londres. Um extraordinário e inalcançável paraíso que, apesar de não ser tão grande como Haddon Hall, tinha um valor semelhante por situar-se no centro da cidade. Quem não ambicionaria ser o dono de hectares de liberdade e de ostentação? Entretanto, o falecido tinha dado esse imóvel de presente à sua esposa. A viúva desfrutaria do que tantos ansiavam se conseguisse permanecer nela por dois anos. Era muito tempo para Roger. Não podia esperar tanto. Precisava obter seu propósito de outra forma. Sim,


podia falar com o William e persuadi-lo para que participasse do investimento, mas muito temia que o duque não aceitaria. Desde que se casou não desejava comprometer-se com nada que requeresse seu tempo, visto que pretendia empregálo no cuidado de sua esposa e filhos. A única opção que ficava era a de procurar um novo lorde. O senhor Spencer era um homem trabalhador e se apaixonava por tudo o que fazia. Isso indicava ao marquês que não havia outro igual. Não se vangloriava de seus lucros, sempre se posicionava num segundo plano e o que mais apreciava no cavalheiro era a obstinação por levar adiante sua pequena empresa sem a necessidade de apoiar-se no título que obteria num futuro iminente. Com a mente fervendo ante a afluência de ideias, Roger se reclinou em seu assento e não tomou consciência do presente até que ouviu os passos de sua mulher. Tinha chegado. Podia escutar como se agitava a saia ao caminhar e inclusive podia sentir seu perfume. Riderland olhou para a porta do escritório esperando com entusiasmo sua aparição. Tentou manter-se calado para conseguir ouvir as palavras que ela utilizava para perguntar ao Anderson onde se encontrava. Sorriu ao notar como lhe agitava o coração quando ela estava próxima. Embora acreditasse que algum dia aquela emoção por tê-la ao seu lado desaparecesse, como tinha acontecido a muitos lordes casados, isso não lhe ocorria. Sempre queria tê-la perto. Tornou-se tão egoísta que mal a deixava tranquila. Onde a encontrava assaltava-a com beijos e abraços. Estava claro, não podia viver sem sua mulher. Nada teria sentido se ela se afastava de seu lado. De repente a tristeza o invadiu e esteve a ponto de dobrar seu corpo pela cruel dor que emergiu de suas vísceras. Não podia perdêla. Não podia nem pensar que ela deixaria de amálo algum dia. Ele não seria capaz de manter-se prudente e, certamente, não conservaria a atitude com a qual Federith enfrentava a vida. Se sua esposa o enganasse, se algum dia não desejasse seu corpo, ele morreria de tristeza. Seu pesar foi corroborado pelos dias nos quais Evelyn esteve prostrada na cama depois do disparo, acreditou que tudo se acabara, que ela não lutaria por viver.


Viu-se sozinho, desamparado, perdido sem a mulher que amava. Mas quando abriu os olhos, quando a luz de seu olhar alcançou o seu, prometeu-se que jamais haveria no mundo uma pessoa tão digna de venerar como sua esposa. Abalado pelo sentimento de dor, franziu o cenho e apertou os punhos sem perceber que ela estava na porta e o observava chocada. ― O que acontece? ― Perguntou com rapidez ao notar a tensão que sustentava seu marido. Não só convertia suas grandes mãos em duas bolas de aço, mas sim também exibia um rosto lúgubre. ― Nada ― disse após suspirar e acalmar-se. Com a agilidade que lhe caracterizava apesar de ser um titã, levantou-se de seu assento e com grande rapidez estava ao seu lado com os braços abertos. ― Que tal seu dia de compras? Gastou todas as minhas riquezas? ― Perguntou antes de lhe dar um beijo. Evelyn deu um passo para trás, pousou as palmas sobre o peito para lhe empurrar e que não aceitou um recebimento carinhoso o que provocou um grande desconcerto no marquês. Este entrecerrou seus olhos e olhou sua esposa perguntando o que ocorria. ― Roger! ― Exclamou Natalie atrás deles. ― Olá, princesa! ― Saudou-a enquanto se ajoelhava em frente à menina. Achou a resposta ao esquivo comportamento na menina com cachos de cabelo agitados que saltava para ele. ― Comprou os vestidos? Evelyn te deixou escolher os mais formosos? ― Sim e não ― respondeu a menina. ― Mas como? ― Olhou de esguelha à sua mulher que parecia zangada, morta de vergonha por algo. ― Sobe ao seu quarto, Natalie ― ordenou Evelyn. ― Deve tirar esse vestido repleto de manchas de morango. ― Comeu um sorvete? ― Perguntou ele enquanto se levantava e enredava um dos caracóis da menina em um de seus dedos.


― Dois ― esclareceu a pequena. ― Como me comportei bem na costureira, Evelyn me premiou com duas grandes bolas de… ― Natalie… ― murmurou a marquesa com um tom que não admitia réplica. A menina estendeu os braços para seu irmão para que este a agarrasse, mas Roger não estava disposto a interpor-se numa ordem de sua esposa. Se o fizesse teria consequências fatais essa noite. Além disso, quando ela acolheu a pequena sob seu cuidado lhe prometeu que jamais intercederia em sua educação e, até agora, estava cumprindo. Embora lhe custava horrores não poder mimá-la como naqueles momentos. ― Pegar-te-ei quando trocar esse vestido sujo ― disse Riderland com carinho. ― Não quererá sujar a mim também, não é? ― A menina negou com a cabeça e após olhar a ambos, saiu do escritório correndo. ― Pode me dizer por que está tão zangada? ― Aqueles braços fortes capturaram a cintura de sua esposa antes que esta tentasse afastarse de novo. ― Devemos tomar cuidado ― indicou Evelyn morta de vergonha. ― Cuidado? ― Retrucou Roger arqueando as douradas sobrancelhas. ― Natalie escutou-te a dizer que te excito quando uso um vestido vermelho e na loja, diante da costureira, disse que ela também quer te excitar ― explicou sufocada. ― Isso é o que te perturba? ― Perguntou antes de soltar uma grande gargalhada. ― Que minha irmã veja como te adoro, como te desejo, como te amo? ― Roger… ― grunhiu ao mesmo tempo em que colocava os antebraços entre eles para distanciá-lo. Não se podia manter uma conversa loquaz nem firme quando seu marido apertava a rigidez em sua cintura. Tudo ao seu redor se dissipava, até a vontade de lhe repreender. ― Prefiro que ela aprenda no que consiste um verdadeiro amor do que no dia de amanhã… ― uma de suas mãos vagou lentamente pelas costas dela, colocandose precisamente na magra nuca. Devagar inclinou a cabeça de Evelyn para trás e,


antes de poder terminar a frase, beijou-a. Todo o aborrecimento que sentia desapareceu com o beijo. A marquesa esticou as mãos para o pescoço de seu marido e o atraiu para ela. Nunca tinha imaginado que Roger a amaria tanto ou que a adorasse daquela forma. Não obstante, em momentos como esses, agradecia novamente ao seu irmão por havê-lo posto em sua vida. Se ele não se atrevesse a jogar aquela partida de cartas com seu marido, ela teria sido a mulher mais desventurada do mundo. ― Não é o momento… ― sussurrou Evelyn fazendo um grande esforço para afastar-se do quente corpo. ― Sempre é o momento ― lhe replicou ele. ― Não, querido. Asseguro-te que este não é. Se estiver certa, esta tarde pode ser que alguém nos visite e te prometo que eu não gostaria de recebê-la nua ― disse com sarcasmo. ― Quem disse que vou te despir? ― Perguntou zombador. ― Podemos fazê-lo sem te tirar a roupa ― prosseguiu com tom afogado. ― Por favor… ― lhe suplicou quando percebeu que sua saia começava a subir. ― Não há apelos quando se trata de te fazer minha ― comentou antes de elevá-la sobre sua cintura e conduzi-la para a porta. Com Evelyn apoiada na entrada evitariam que alguém interrompesse uns instantes tão luxuriosos. Ou isso pensava Roger até que alguém bateu. ― Um momento ― bufou. Evelyn arrumou seu vestido antes que entrassem na habitação. Olhou zangada para o seu marido enquanto ele exibia o sorriso mais falso que podia mostrar. ― Sua excelência, ― disse Anderson que, com prudência, tinha aguardado fora um pouco mais do que lhe tinham indicado ― recebi esta carta para você. ― De quem se trata? ― Perguntou o marquês aproximando-se do mordomo.


― Não é para você, milorde, mas sim para a marquesa. ― O sorriso de Anderson lhe cobriu o rosto. Adorava provocar em seu amo um pouco de contrariedade. Tinha a esperança de que cedo ou tarde obteria algo que ninguém tinha conseguido: humildade. Riderland a olhou com o cenho franzido. Até agora jamais tinha chegado uma nota explícita para a Evelyn. Todas eram dirigidas aos marqueses. Sem afastar o olhar dela, observou como a pegava e a lia com atenção. De repente seus olhos brilharam. ― Obrigado, pode partir ― ordenou cortante ao Anderson. ― Sim, milorde. ― Fez uma leve reverência e deixou-os sozinhos. Fechou a porta e soltou uma grande gargalhada. Talvez nem tudo estivesse perdido com o marquês, possivelmente aquela mulher era a salvação pela qual tinha rezado. Com passo firme dirigiu-se para a cozinha para confirmar se o almoço estava preparado. ― Eu sabia! ― Exclamou Evelyn entusiasmada. ― O quê? ― Protestou. Seu corpo permanecia rígido, muito. A tensão que sustentava seu corpo não podia ser acalmada por nada. Repreendeu-se por sentir aquele tipo de ciúmes, de posse para com sua mulher, mas desde que descobriu a aventura amorosa da senhora Cooper era incapaz de pensar de outra coisa. ― Que esta tarde teria visita. Lê! ― Estendeu a sua mão e deixou que lesse a nota. ― À atenção de sua excelência, a marquesa de Riderland começou a ler em voz alta. ― Se, como disse quando nos conhecemos, não lhe desagrada minha visita, estarei encantada de aceitá-la. Atenciosamente, lady Priscila Appelton, condessa de Crowner. ― Os olhos de Roger se abriram arregalados. Estava assombrado, atônito e inclusive um pouco atordoado.


Olhou sua esposa e a carta várias vezes. ― Como a conheceu? ― Soltou com uma mescla de estupefação e sátira. ― Na loja onde fui comprar o vestido de Natalie ― respondeu Evelyn com certo receio. ― Por quê? Por acaso você a conhece? ― O tom que utilizou ao fazer a pergunta denotou confusão. ― Não! ― Exclamou Roger com rapidez. ― Não a conheço, querida. Só que… ― Só que…? ― Repetiu ela na expectativa. ― Só que ouvi falar muito dela ― disse enfim. ― Pois é uma jovem muito carinhosa e inclusive… ― se calou para procurar as palavras exatas. ― Eu diria que é muito tímida. Ruboriza-se com facilidade, como se fosse uma menina inocente. ― Inocente? ― Soltou ele com sarcasmo. ― De verdade, Roger, é uma moça muito terna. Como se fosse uma estátua de cristal e, é claro, não me deu a impressão de que por baixo da aparência inocente se esconda a mulher desumana de que todos falam ― esclareceu com firmeza. ― Como você denominaria uma moça que, antes de apresentar-se em sociedade, aceitou o pedido de matrimónio com um homem quatro décadas mais velho que ela? ― Desgraçada? ― Respondeu à ironia com outra. As pardas sobrancelhas da marquesa se elevaram tanto que Roger jurou que se uniram para formar uma só linha. ― Tem razão ― disse dando-se por vencido ao ver que Evelyn se proclamara protetora da viúva. ― Essa jovem não merece que a castiguemos antes de conhecê-la. ― Caminhou para ela tentando recuperar a paixão que tinham mantido com antecedência. ― Lady Priscila e a senhorita Price poderão me visitar quando quiserem e quantas vezes desejarem ― ronronou Evelyn ao notar a pressão de umas duras


mãos em suas nádegas. ― Price? ― Roger estava a ponto de morder o pescoço de sua esposa quando escutou o sobrenome. ― Disse Price? ―

Repetiu ao mesmo tempo em que a olhava atônito. ― Sim ― declarou ela surpreendida. ― A dama de companhia da condessa se chama Anaís Price. ― Mon dieu! ― Exclamou Roger em francês, idioma que não utilizava desde que lhe advertiu que não lhe falasse como a 2 suas amantes. ― Ce n'est pas posible ! ― O que acontece? Por que diz que não é possível? Evelyn esteve a ponto de afastá-lo de seu lado para lhe pedir uma explicação sobre por que tinha quebrado uma promessa e a causa pela qual o nome da senhorita Price provocava nele um sufocado entusiasmo, quando a agarrou pela cintura, levantou-a do chão e lhe disse: ― É um anjo, querida! O anjo de fogo que mais amo e amarei nesta vida. ― Me solte! Roger… por favor… ― OH, sim. Prometo-te que te soltarei, mas sobre nossa cama. Vou recompensar-te por tudo o que acaba de fazer ― soltou enquanto a colocava sobre seu ombro e corria para a porta. ― Mas… o que eu fiz? ― Gritou ao mesmo tempo em que estendia suas mãos sobre as musculosas costas e soltava uma gargalhada. X


Federith levantou o olhar do prato e fixou-o em Caroline. Como estava acostumado a fazer desde que se casaram, um dia por mês ela adotava o comportamento de uma verdadeira esposa. Mostrava-se carinhosa, atenta e transformava-se naquela mulher que ele teria desejado ter algo mais do que um mísero dia em cada trinta. Mas devia conformar-se com o que possuía, não podia ansiar algo mais posto que lhe reprovaria seu egoísmo, sua falta de tolerância e, depois de a ter agredido, não podia recriminar sua atitude esquiva. Observou-a almoçar. Os movimentos graciosos de sua mão com o garfo eram tão elegantes como enigmáticos. Mal deu uma bocada e era impossível captar o ruído que provocava sua boca ao mastigar. Educada e preparada para converterse numa baronesa que não ansiava ser. Tinha desprezado seu futuro, ridicularizado o título de Sheiton como se possui-lo suportasse denotações repulsivas. Era certo que seus pais tinham lutado por destacar-se na sociedade, em fazer-se valer, mas isso não significava que tentassem ocultar uma marca sob um escudo de respeitabilidade. Eles eram admiráveis e bondosos e compreendeu sua luta quando nasceu Eric. Ele também desejava que seu filho se convertesse num homem próspero, honesto e sobretudo consciente com seu título. Entretanto, ela não pensava o mesmo. Caroline não era feliz com ele nem com o destino que tinham. Não precisava que ninguém lhe abrisse os olhos, ele mesmo era consciente disso. Entretanto, depois do nascimento de Eric e de quão bonito seria o futuro do filho de ambos, conservava a esperança de que ela mudasse sua atitude. ― O que desejava o lacaio do marquês? A pergunta pegou Federith tão despreparado que não levou à boca a parte de bife que tinha cortado. ― Riderland quer ver-me esta tarde em sua casa ― respondeu sem muito entusiasmo. ― Aceitou o convite? ― Consultou após colocar o guardanapo sobre a saia do vestido. Seus olhos cinzas se cravaram nele lhe provocando a sensação habitual, frieza.


― Sim ― respondeu tosco. As sobrancelhas loiras de Federith se arquearam questionando o repentino interesse sobre algo que não lhe incumbia. ― Bem… ― disse com um suspiro. ― Então vou preparar-me para me retirar em breve. Esta tarde quero acompanha-lo. ― Acompanhar-me? ― Inquiriu com surpresa. ― Deseja ir à Lonely? ― Caroline assentiu. ― Que motivo teria para realizar um ato tão inverosímil? ― Insistiu ante a estranheza que lhe provocou escutar a inesperada decisão. ― Acredito que já é tempo de que entre a marquesa e eu aflore uma relação afetuosa. Na verdade, mal nos conhecemos e eu não gostaria que todo mundo começasse a fazer falsas conjecturas sobre a razão pela qual as esposas de uns bons amigos não mantêm uma amizade semelhante ― indicou após desenhar um pequeno sorriso. ― Além disso, será benéfico para uma futura baronesa passear ao lado da mulher mais invejada de Londres. ― Invejada? ― Federith depositou os talheres sobre a mesa e a contemplou com atenção. A conversa entre eles estava a resultar bastante reveladora visto que nunca imaginou que a conveniência social fosse outro de seus grandes defeitos. Reclinou-se no assento e a escutou perplexo. ― Sim, invejada. Por acaso você não escuta o que falam dela? Cooper negou com um suave movimento de cabeça. Caroline se manteve erguida e se preparou para a explicação. ― Até que o marquês se casou, todas as damas solteiras cobiçavam alcançálo. É compreensível visto que se trata de um homem rico, educado, passional e… ― Perigoso ― acrescentou Federith com zombaria. ― É óbvio, mas isso faz dele mais interessante se possível. Nenhuma mulher deseja ter um marido sensato ou insosso ao seu lado. Quer viver num contínuo sobressalto, num constante estado de frenesi.


Ante a afirmação, ele sorriu com inapetência. Como era de esperar, aquela definição não lhe descrevia. Ele sempre tinha mostrado cavalheirismo, educação, sensatez e nada ao seu redor provocava inquietação alguma. Até mantinha uma atitude rotineira que iniciou na infância. Prosseguiu calado, na expectativa das palavras de sua mulher. ― Mas quando se difundiu a notícia de que o marquês se casara repentinamente, muitas das que desejaram apanhá-lo se sentiram aflitas. Os propósitos de alcançá-lo como marido desapareceram e as que não perderam a esperança de dormir em seus braços ansiavam-no como amante. Entretanto, sua excelência não deu sinais de que procure um caso. Jamais abandona a sua esposa e a trata como se não existisse outra pessoa salvo ela. ― Embora te pareça estranho, Caroline, ― disse com frivolidade ― quando um homem se apaixona e se compromete a permanecer ao lado de uma mulher pelo resto de sua vida, tem que cumprir os votos de cuidá-la e amá-la até a morte. Para a marquesa foi uma sorte que seu marido decida manter sua promessa. ― OH, claro que sim! ― Exclamou pondo os olhos em branco. ― Essa é a razão pela qual a invejam ainda mais. Nenhuma imaginou que o marquês fosse ser tão leal à sua esposa. Onde sua excelência vai escutam-se os suspiros e os rumores das damas que não conseguiram alcançar seu fechado coração. Acredito que no fundo se perguntam como o conseguiu ― disse perspicaz. Fez uma pausa outorgando um pouco de tempo a Federith para que revelasse o maior segredo de Londres. Se ela o descobrisse, se ela conseguisse saber a verdade, muitas damas a convidariam às suas residências e possivelmente, embora fosse deste modo, conseguiria chegar ao lar de Eric. Tinha a esperança de que se ganhasse a confiança da esposa do homem que amava, poderiam verse durante esses tempos nos quais a senhora Graves retornava de suas viagens e ele a afastava de seu lado alegando que não deviam levantar suspeitas. Caroline sorriu involuntariamente ao pensar que já não teriam desculpas para manter-se distanciados, que por fim podiam estar juntos. ― Muito me temo ― começou a dizer ele enquanto se inclinava para pegar a


taça de vinho que havia sobre a mesa e a observava sorrir ― que isso deve perguntar-lhe você mesma. Com certeza estará ansiosa em revelar como conseguiu um homem como Riderland. ― Isso não seria cortês! ― Exclamou indignada. ― Em efeito, não seria correto proceder como uma vulgar fofoqueira, mas sem dúvida alguma aplacaria esse desassossego que tem, equivoco-me? ― Tomou um sorvo da bebida e sorriu atrás disso. ― Não quero intimidá-la no primeiro dia que decido visitála para tomar o chá, é inapropriado, mas estou segura que, com o passar do tempo, o descobrirei ― lhe desafiou sem mostrar nem um ápice de dor ante a insinuação de que era uma intrometida. ― Então… ― falou ele. ― Então deve me esperar junto à porta quando estiver preparado para sair ― sentenciou. ― É claro. Será uma honra conduzir-te até a casa dos marqueses segura em meu braço. ― Levantou-se do assento e aproximou-se de Caroline. ― Esperarei no hall às quatro e meia e, como percebo que hoje não te desagrada minha presença, não reprimirei a vontade de dar um comprido passeio contigo. ― Passear? Os dois? Até Lonely? ― Titubeou com uma mescla de assombro e


espanto. ― Sim, querida. Não acostumo levar mulheres nos braços posto que, como bem sabe, a sensatez da qual me sinto orgulhoso em possuir me adverte que tal esforço não seria bom para minhas costas. E agora, se me desculpar, vou subir ao dormitório do nosso filho. Aquele de quem não pergunta há dias… ― e partiu depois de fazer um leve movimento de cabeça. Federith franziu o cenho ao não conseguir seu intento. Acreditou que obrigando-a a caminhar junto a ele declinaria sua oferta, mas não o fez. Manteve-se calada, erguida e com o olhar cravado onde ele tinha permanecido. Sem deixar de perguntar-se qual era a verdadeira razão pela qual decidia visitar Evelyn, subiu as escadas e se dirigiu para o dormitório de Eric. Em frente à porta respirou profundamente e fez com que todos os pensamentos que o perturbavam desaparecessem. Não queria sustentá-lo em seus braços enquanto sua mente vagava muito longe dali. Abriu com suavidade para o caso de estar a descansar, mas o pequeno não estava. A habitação estava na penumbra. A babá sempre tinha uma das cortinas estendidas para que a luz não o deslumbrasse. Junto aos pés da cama em que algum dia descansaria Eric estava no berço coberto com uma suave renda que impedia o passo dos insetos. Mas o bebê não estava no interior, e sim nos braços da babá. Federith ficou parado na entrada observando a terna imagem. A senhora Meild acariciava a cabeça do menino ao mesmo tempo em que lhe oferecia seu peito para alimentar-se. O bebê, sem deixar de sugar, levantava um de seus pés para pegá-lo com a mão. Não era uma cena erótica, nem Cooper pensaria dessa maneira, mas sim um belo e aprazível momento no qual uma mulher vela por um filho que, apesar de não ser dela, amava. Tinha tido muita sorte ao encontrá-la. Deus lhe tinha compensado tanta tristeza com uma grande alegria porque, quando Caroline lhe comunicou que ela não o alimentaria, Federith se desesperou. Por sorte, Dorothy, sua cozinheira, conhecia uma parteira e, depois de confirmar a decisão da senhora Cooper, não duvidou em indicar ao seu senhor o endereço da mulher com quem devia falar para solucionar o problema. Nem meditou sobre isso. Horas depois de conversar com


sua criada apareceu na casa da parteira pedindo-lhe ajuda. Falou-lhe sobre uma mulher que duas noites antes tinha tido um bebê mas que, por desgraça, havia falecido horas depois de seu nascimento. Federith vacilou durante uns instantes sobre aquela opção, não queria que Eric se alimentasse de uma mulher carente de saúde. Entretanto, a matrona o tranquilizou ao explicar-lhe que o bebê tinha nascido com uma má formação e que Deus teve piedade dele. Quando soube a verdade, retornou à carruagem e se dirigiu para o lar da senhora Meild para lhe oferecer o emprego. Depois de ser recebido, Cooper insistiu que a necessitava para alimentar seu filho e ela, depois de pensar durante uns instantes, aceitou viver na mesma casa por um salário de cinco libras ao mês. ― Por favor não se levante ― comentou Federith ao intuir que iria fazêlo após perceber sua presença. ― deixe-o alimentar-se tranquilo. ― Boa tarde, senhor ― sussurrou a babá. ― Boa tarde ― respondeu aproximando-se deles. Não queria incomodálo num momento tão vital para o menino, mas quando Eric o escutou dirigiu seu olhar para ele e deixou de mamar para lhe sorrir. Cooper não pôde conter-se e esticou as mãos para agarrálo. A satisfação que lhe provocava ter seu filho nos braços era inimaginável. Assim como notava que seu orgulho paterno aumentava ao ver o brilho de entusiasmo nos olhos do bebê. Pelo menos tinha encontrado algo bom num matrimónio destrutivo, algo pelo qual lutar e levantar-se cada dia. ― Olá, meu filho, ― murmurou enquanto beijava a testa do pequeno ― comeu o suficiente? Não atrapalhei seu momento? ― Se continuar comendo deste modo, senhor, logo se converterá num moço tão


forte e bonito como você ― falou a babá levantando-se enfim da poltrona. ― Tenho que lhe informar que me orgulha alimentar uma criatura com tanto apetite. ― Se crescer forte e são será pelo alimento que você lhe proporciona ― disse Federith sem deixar de olhar ao bebê. ― Agradeço a Deus todos os dias por pô-la em nosso caminho, senhora Meild. ― Qualquer mulher se sentiria venturosa de alimentar seu

filho ― disse involuntariamente. Ao observar como o senhor enrugava a testa, quis emendar suas palavras. ― Com certeza teria tido uma dúzia de babás esperando na porta para ser a escolhida. ― Não é só o sustento que lhe dá, mas também o carinho que lhe brinda. Algumas vezes acredito que pensa que você é sua verdadeira mãe ― assinalou com pesar. ― Milady tem que ocupar-se de outros assuntos. Além disso, que futuro teriam as babás se as senhoras decidissem amamentar seus filhos? ― A mulher voltou a sorrir ao mesmo tempo em que esticava suas mãos para pegar o menino. ― Se não se importar, este pequeno deve descansar. Como bem sabe, esta noite não dormiu suficiente e está um pouco penoso. Acredito que a dor causada pela aparição de seus primeiros dentes é a razão de sua insônia. ― Volto a chamar o doutor? ― Perguntou preocupado. Federith aceitou entregar seu filho à babá. Ela conhecia melhor que ele as necessidades do pequeno e não desejava atrapalhar a criação deste. ― Não se incomode. Voltará a sugerir que lhe dê um remédio caseiro dos que fazem com que os pirralhos enruguem a testa. O melhor para estes casos é que remoa algo frio, isso acalmará a dor. -Segurou o menino em seu peito e o dirigiu para o berço.


― Nesse caso direi a uma donzela que molhe panos em água fresca e os suba. ― Observou como ela aceitava sua decisão com um movimento de cabeça. ― Você é muito amável, senhora Meild, e lhe estou muito agradecido pela forma como trata meu filho. ― Não tem por que me agradecer nada ― lhe respondeu enquanto colocava o menino sobre o lençol. ― É uma grande honra trabalhar para um homem como você ― esclareceu. Federith deu a volta e saiu devagar da habitação. Sorriu ao rememorar as palavras da mulher. «Se continua comendo deste modo, logo se converterá em um moço tão forte e bonito como você». Ele não se definia como forte, mais para bem magro, mas ia ter um menino que dobraria suas dimensões. Orgulhoso dessa proeza se dirigiu para seu dormitório. Anaís tinha se retirado ao seu quarto para descansar, mas não pôde fazêlo. Cada vez que se recostava sobre a cama o coração palpitava com tanta força que terminava por levantar-se e perambular pelo dormitório. Olhou-se no espelho e se afastou imediatamente. O horror que refletiu, o medo que descobriu ao observar seu rosto, perturbou-a ainda mais. Sabia que retornar a Londres provocaria angústia, dor e desespero, mas sempre manteve a esperança de que voltassem para Bournemouth antes do final do mês. Entretanto, não o fariam. Priscila estava cheia de entusiasmo e, sobretudo, mudada. Parecia uma mulher diferente e devia alegrar-se por isso. Desde que a conhecia nunca a tinha visto tão feliz, tão iludida por viver aquilo que não tinha tido. De maneira sarcástica agradeceu a si mesma pela mudança que tinham produzido suas conversas com a senhora. Tinha sido uma magnífica conselheira visto que conseguiu despertar a moça em menos de três semanas. Contudo, e embora estivesse a definir-se como a melhor assessora do mundo, repassou os momentos nos quais tinham dialogado. Priscila se manteve retraída até o dia que passeou pelo jardim. Não lhe cabia dúvida de que algo tinha acontecido para que ela atuasse daquele modo. Recordou aquela tarde não achando nada interessante, salvo a expectativa que a moça mostrou na história de James. Anaís soprou e vagou seu olhar até a penteadeira. Franziu o cenho e gritou:


― Você! Você foi o culpado disto! Caminhou zangada até o livro, agarrou-o e desejou lançálo, mas se conteve porque não desejava destruir uma história tão terna. Agarrouo em suas mãos, dirigiu-se para a cama. Sentou-se aos pés desta e procurou a última página, precisamente antes que a autora desse por concluída aquela narração de amor. «E olhando-a como só pode fazer um homem apaixonado, James lhe declarou seu amor. ― Amo-te, Brenda. ― Eu também te amo ― respondeu a mulher aconchegando seu rosto no torso masculino. James levantou aquele rosto que adorava com um só dedo, aproximou seus lábios aos de Brenda e a beijou fazendo desaparecer tantos anos de agonia, tanto tempo de desespero, tanto tempo de angustiosa busca…», leu Priscila. Não, a história daqueles personagens não tinha a culpa de que sua senhora despertasse, mas a incitou a fazer-lhe milhares de questões. Entre as quais se encontrava como sabia uma mulher, ao ser beijada, que era o homem adequado. Isso deixou Anaís petrificada. Não soube muito bem o que lhe responder. Ela tinha beijado a dois homens e não tinha experiência suficiente para lhe revelar o que ansiava. ― Imagino que é o coração que te indica se é o adequado ― disse para sair do apuro. ― Como lhe indica isso? ― Insistiu a moça. ― Acaso sai de nosso corpo, planta-se em frente a nós e nos fala? ― Soltou entre gargalhadas. ― Talvez se notar como se agita, como é incapaz de frear aqueles batimentos cardíacos… ― começou a dizer.


― E se sente calor? Fragilidade? Tremem-lhe tanto as pernas que não pode se manter de pé? ― Continuou Priscila que, de repente, apresentou seu rosto avermelhado. ― Pode ser… ― comentou sem afastar o olhar da jovem. Mas não houve só esse episódio de confidencialidade entre as duas sobre o comportamento entre dois amantes. Priscila foi questionando cada capítulo que lia e inclusive a fazia voltar a ler aqueles nos quais suas páginas estavam cheias de paixão. Anaís não saía de seu assombro. Não era habitual que uma mulher viúva realizasse aquele tipo de questões. As casadas deviam ter experiência na arte amorosa, entretanto, lady Appelton mostrava tanto interesse como uma moça inexperiente. Tão apático tinha sido o matrimónio com o conde? Tão pouca mestria teria o cavalheiro para que sua viúva se interessasse num ato habitual entre casados? Era certo que ela nunca tinha prestado atenção às noites que o conde visitava sua esposa, mas embora fossem escassas estava segura que não tinham passado a noite falando. Angustiada, fechou o livro e se centrou no que aconteceria horas depois. Priscila tinha aceito o convite da marquesa e, embora soubesse que era a melhor maneira que tinha sua senhora para aceder à alta sociedade


londrina, Anaís continuava inquieta. A sua alma se dividia em duas e essas duas partes a queimavam: por um lado, desejava que a jovem continuasse sua vida e desfrutasse daquilo que não teve, mas por outro lado estava ela própria. Se alguém descobrisse quem era, tudo o que tinha tentado esquecer retornaria. O que diriam de uma jovem que viu interrompido um futuro prodigioso pela insensatez de um pai? Quem não lhe perguntaria pela repentina morte de sua mãe, de sua avó? Anaís agarrou com força o vestido fazendo com que suas mãos empalidecessem. Não havia culpado a quem acusar, o criminoso havia falecido, mas ninguém sentenciaria um morto e sim única pessoa viva: ela. Com a respiração entrecortada e um nó na garganta tão duro que não lhe deixava nem tragar saliva, deixou que as lágrimas molhassem seu rosto e que o segredo que tinha mantido durante tanto tempo a destroçasse de novo. ― Milorde, é hora ― lhe indicou Karl da porta. Se a atitude normal do senhor Spencer era azeda, esta se tinha intensificado há dias atrás. O empregado não entendia o motivo que tinha para ser tão rude. Tudo ao seu redor estava como ansiava. Os pedidos aumentavam, a fama da tipografia era considerável e, sobretudo, o trabalho de um cavalheiro como ele era elogiado. Entretanto, o rosto do proprietário da empresa era muito tenebroso. Karl o atribuiu ao cansaço. Não devia ser bom para a saúde do lorde permanecer encerrado naquele escritório durante tanto tempo. Mas nada nem ninguém lhe faziam sair dali. Parecia que o tinham colado à cadeira. ― Obrigado ― respondeu sem afastar o olhar das tabuletas que tinha nas suas mãos. Quando o empregado fechou a porta, Leopold levantou-se de seu assento. Tinha chegado o momento de explicar ao marquês a razão pela qual não se converteria num investidor. Riria. É óbvio que se gargalharia dele se lhe revelasse a verdade. Ele o faria se estivesse em seu lugar. Nenhum homem devia explicar que a razão pela qual não vê um sonho feito realidade era uma mulher, mas assim era. Desde que visitou Longher e a descobriu tinha estado indagando sobre a moça. Nada do que supôs era certo. Não se tratava de uma convidada da condessa


viúva, mas sim ela era a condessa viúva. Horrorizou-se ao conhecer a verdade posto que sabê-lo produziu-lhe a maior vergonha da história. Seu sobrinho, sim, seu próprio sobrinho a tinha assaltado para beijá-la, acariciá-la e tinha jurado têla em seus braços de novo. Quis evitar aquele juramento, desejou apaga-lo da memória, mas cada vez que o tentava, ela aparecia de novo. Não só sua mente evocava a terna imagem da mulher mas sim lhe proporcionava de novo o sem-fim de sentimentos que teve por ela, até podia cheirar de novo seu perfume, aquela mescla de flores que o tinha encantado tanto que havia lhe tornado num homem inconsciente. Era uma mulher especial, uma mulher que, embaixo daquele olhar infantil, escondia uma feiticeira. Não tinha outra explicação à intensidade daquele beijo, à paixão que a moça lhe provocou. Só uma mulher especializada na arte da sedução podia conduzi-lo a tal loucura. Leopold grunhiu ao mesmo tempo em que dava um forte murro na mesa. Não podia deixar-se levar por aquela tolice. O que havia sentido aquela tarde se tratava só disso, de um feitiço, de um encantamento que despertou o desejo nele. Já não voltaria a vê-la, é óbvio que não! Propôs-se manter-se distante e evitar qualquer novo encontro entre eles. Não só para salvar sua honra, o que pensariam seus clientes se descobrissem que tinha assaltado a sua própria tia como se fosse um violador? Mas… e ela? O que pensaria ela se soubesse que o homem que a beijou, que a acariciou, era seu próprio sobrinho?

― Maldita seja! ― Clamou enquanto aderia o corpo tenso à jaqueta de seu traje. ― Por que diabos não partiu? Por que não fugiu após ser assaltada? Por que me fez acreditar que era a primeira vez que lhe beijavam, que lhe acariciavam? ― Zangado mais do que habitualmente estava acostumado, Leopold saiu de seu escritório, não sem antes provocar um estrondoso ruído ao fechar a porta. XI ― Viver para ver! ― Exclamou Roger assombrado. Afastou ainda mais a


cortina da janela e confirmou que aquilo não era alucinação, mas sim um milagre! Evelyn se levantou do assento onde tecia enquanto esperava a visita e correu para seu marido. O relógio tinha divulgado cinco vezes assim não podia ser outra pessoa que a condessa viúva, mas quando se colocou junto a ele, também se contagiou de sua surpresa. ― Estará doente? ― Perguntou zombadora. ― Se o estivesse, não viria ― comentou mordaz. ― Sabia que ela se apresentaria com Federith? ― Roger negou com um suave movimento de cabeça. ― Bom, pois muito me temo que terei que me manter serena e recebê-la como é devido. Não quero que se sinta desventurado ou inquieto por trazêla. Embora para te ser sincera, escolheu um dia bastante inapropriado para me visitar. ― Não deveria… ― suas palavras iam sair da boca involuntariamente, mas se deteve ao recordar a carta de William. Precisava atuar como se não soubesse nada, como se tudo o que guardava em sua mente sobre a senhora Cooper não existisse. Entretanto, que aquela mulher permanecesse ao lado de sua esposa, sob seu respeitável teto, carcomia suas vísceras. ― O que eu não deveria? ― Insistiu Evelyn olhando-o fixamente. ― Ficar a sós com ela ― disse enfim. Acariciou o cabelo de sua esposa e a apertou contra ele. ― Tenho percebido que é tão venenosa como uma serpente e se não recordar mal, tem medo desse tipo de animais. Então, se estivesse no seu lugar me manteria distante… se por acaso tenta mordê-la ― alegou sarcástico. ― Não seja tão malévolo! ― Recriminou-o dando uma pequena palmada em seu ombro. ― Além disso, não estarei sozinha. Se não se atrasar, logo aparecerá a condessa e será divertido ver como atua com ela. Com certeza que, se pretende me morder, esconderá suas presas enquanto lady Appelton e a senhorita Price estejam presentes.


― Se acontecer algo, se ela se comportar inadequadamente, vai à biblioteca, estarei ali com Federith e lorde Spencer ― esclareceu apertando tão forte sua mandíbula que podia desencaixá-la com facilidade. ― O senhor Spencer? ― Perguntou intrigada. ― Por que se reúne com ele? ― Como bem sabe, é o dono de Simples Prints, a tipografia que há junto à Brompton Road. ― Nesta mesma manhã falei com a costureira sobre ele. Diz que é um homem leal com seus clientes e que a empresa está bastante bem considerada entre os comerciantes ― esclareceu Evelyn. ― Por isso mesmo lhe brindei a oportunidade de investir nas ações que ofereceram do transporte de estrada ― explicou Roger. ― Aceitou? Ela conhecia o assunto. Desde que o senhor Lawford lhes informara que os lucros produzidos pela ferrovia diminuiriam, seu marido procurou uma maneira de investir os benefícios obtidos desse negócio. Foi estudando com meticulosidade cada empresa que aparecia na cidade, mas nenhuma lhe


contribuía o que andava procurando. Então apareceu Federith com uma proposta. Um amigo de seu pai lhe falou sobre as ações que alguns cavalheiros estavam adquirindo no transporte de estrada. Apesar de ser arriscado, despertou a curiosidade de Roger. É óbvio, ele investigou o tema, não só em Londres, mas também naqueles lugares em que conseguia visitar em suas viagens de navio. Parecia que Federith tinha razão, deixariam de usar os cabriolés ou as grandes e amplas carruagens para dar lugar aos veículos à vapor. E mais, Riderland descobriu que logo esses carros a vapor também seriam substituídos por outros com um combustível tão potente que lhes faria correr muito mais que quatro cavalos de uma vez. Mas não queria correr o risco de investir tanto dinheiro sem estar completamente seguro. Roger preferia destinar menos quantidade, embora os benefícios fossem insignificantes, a perder a soma empreendida. Evelyn entendia seu temor e se culpava disso. Desde que se recuperou do disparo tudo mudou na vida trabalhista do marquês. Ao princípio suas viagens comerciais duravam entre quinze e vinte dias, mas pouco a pouco ele foi rejeitando todos aqueles encargos que o afastavam mais de dois dias de seu lado. Não queria deixá-la só tanto tempo e não estava disposto tampouco a abandonar seus irmãos. Dizia que era o pai de uma grande família e, como tal, tinha que protegê-los e cuidálos. Aquela limitação provocou que muitos de seus clientes partissem. Entretanto, Roger não se sentia frustrado por isso, pelo contrário, cada dia era mais feliz. Evelyn inclusive acreditou que terminaria por vender o navio, mas quando lhe perguntou ele respondeu que tinha a esperança de que Logan fosse seu sucessor. ― No princípio pareceu bastante interessado ― respondeu com voz serena. ― Nos disse que antes do final do mês poderia fazer frente à soma requerida. Mas esta manhã recebi sua carta na qual me informa que despreza a oferta.


― Porquê? ― Perguntou interessada. ― Se tudo indica que a tipografia está tendo bons resultados, como que não é capaz de aplicar essa quantidade? ― Julgo que tinha esperanças noutro objetivo e acredito que não o conseguiu… O tom zombador que empregou picou tanto a curiosidade de Evelyn que se manteve em silêncio enquanto ele falava. ― Faz pouco mais de dois meses, ― começou a explicar Roger enquanto agarrava com mais força sua mulher posto que sabia o que aconteceria quando descobrisse a verdade ― um familiar do senhor Spencer morreu e ao não ter descendência, ele deve aceitar o título desse parente. ― Acaso só lhe deixou dívidas das quais deve encarregar-se? ― Não. Esse parente não tinha pagamentos sem cumprir. Era bastante rico, inclusive mais que Rutland. Mas a maior parte dessa fortuna está investida numa propriedade cujo valor se estima em cinquenta mil libras. ― Então? ― Arqueou as sobrancelhas. ― Por que rejeita sua proposta? ― Possivelmente porque tinha a esperança de mantê-lo, e por alguma razão não conseguiu seu propósito. Talvez não seja tão insensível como acreditava ― disse sorridente. ― Que título ostentará? ― O de conde de Crowner ― anunciou Roger sem afastar o olhar de sua mulher. ― Lorde Spencer é o homem de quem todo mundo fala? Ele é…? ― Evelyn se sacudiu sob os braços de seu marido até que se afastou. Perplexa, cobriu sua boca para não gritar. Agora tudo encaixava, a isso se referia Roger quando horas antes lhe agradecia pelo que tinha feito. ― Pelo amor de Deus! Como não me avisou sobre isso? ― Recriminou-o. ― Sabe o que contam? Sabe o que dizem sobre esse homem?


― Sim, claro que sei. Por isso mesmo preciso de você ― alegou aproximando-se dela. ― Porque me necessita? Para o quê? ― Perguntou a gritos. ― O que pretende fazer, Roger? Sabe que escândalo se formaria se eles se encontrassem? E em nossa casa! ― Calma… respira… tudo vai sair bem. Prometo-te que me preocupa mais a aparição da senhora Cooper do que o comportamento desses dois se se encontrarem. ― Abraçou-a tentando consolá-la. ― Não se verão, juro-lhe isso. Permanecerá com suas convidadas neste lindo e acolhedor salãozinho enquanto que eu manterei uma reunião de trabalho com eles na biblioteca. Mas necessito que averigúe o que pretende fazer a condessa. Lawford me disse que se ela partisse antes de dois anos, a residência passaria ao Spencer e eu gostaria… ― Quer que eu indague sobre as futuras pretensões dessa moça? Pelo amor de Deus! Quem é você e onde está o meu sensato marido? ― Falou indignada. ― Necessito, Evelyn… ― lhe suplicou. ― Se não o fizer por mim, se lembre de todos aqueles sorrisos que lhe oferecem meus irmãos quando visita Children Saved ― a chantageou sutilmente. ― Maldito seja! ― Clamou vencida. ― Mas me faça o favor de se reunir no salão próximo ao da música. Natalie tem aulas de piano esta tarde e me parece ideal que não consigam nem sequer escutar-se.


― Não acredito que se deva tomar essas medidas tão… ― Não admito discussão! ― Murmurou levantando o dedo. ― Eu aceito, você aceita e se ocorrer… ― não terminou a frase. Roger saltou sobre ela para fazê-la calar com um beijo. Não retirou seus lábios de Evelyn até que a notou debilitar-se, acalmar-se. ― Amo-te… ― ronronou. ― Não responderei a isso ― disse com firmeza. Alisou a saia e se retirou de perto de seu marido ao escutar que os convidados falavam com Anderson. ― Estou muito zangada para o fazer. Roger se sentiu um vilão ao vê-la tão irada, mas precisava dela e estava seguro que, depois de nomeá-la salvadora da condessa, faria algo para anular o convite. De repente sorriu e Evelyn o olhou e perguntou-lhe o que era tão engraçado. Não podia contar-lhe, possivelmente noutro momento, porque se ela se tinha aborrecido ao saber que o malvado conde do qual todo mundo falava era o senhor Spencer, o que pensaria se lhe informasse que a senhorita Price era o amor perdido de Federith? O sorriso zombador desapareceu ao recordar o segundo plano que tinha elaborado após escutar o nome da dama de companhia da condessa. Tinha que mudar o plano, não podia fazer com que se encontrassem se a esposa de Federith estava perto. De repente se lembrou de William e o zangado que ficaria quando lhe contasse o ocorrido aquela tarde. Tantos anos procurando a famosa senhorita Price, tantos prantos e estados de embriaguez sofridos por Federith ao não a encontrar e acreditar que estava morta, para que anos depois ela aparecesse em frente a ele transformada numa dama de companhia. «Desventurado destino!», exclamou para si. ― Suas excelências ― disse o mordomo da entrada do salão. Com rapidez e discrição olhou a ambos e se perguntou o que tinha feito agora o senhor para enfurecer tanto a sua senhora. ― O senhor e a senhora Cooper ― informou.


― Obrigado, Anderson, faça-os entrar ― disse Roger com tom sereno. Os dois pares de olhos se cravaram na entrada. Evelyn conteve a respiração e desenhou um sorriso. Não lhe agradava a presença daquela mulher em sua casa, mas era mais gratificante que pensar o que podia acontecer se a condessa se encontrasse com o homem que lutava por lhe arrebatar a mansão em que vivia. Sabia, até os ratos das docas conheciam o tema. Era uma fofoca muito suculenta, muito para deixá-la passar. Quem não pode fazer conjeturas sobre duas pessoas que lutam por alcançar o mesmo objetivo? Embora, desgraçadamente, a condessa tinha muitas coisas desfavoráveis... a primeira, ser mulher. ― Lorde Riderland, marquesa… ― Federith lhes saudava com a mesma frieza que utilizava quando alguém ao seu redor não era de confiança. Evelyn suspirou ao ver os olhos entristecidos de seu amigo, mas manteve a compostura. ― Senhor Cooper ― lhe disse ela. ― Cooper ― respondeu Roger aproximando-se dele para lhe estender a mão. ― Sua excelência ― murmurou Caroline fazendo uma leve reverência. ― Espero que minha presença não a perturbe muito -comentou a modo de desculpa. ― Meu marido não me informou da visita que tinha pensado lhes fazer até que se dispunha a sair. Ao escutá-la Federith a olhou com suspeita e arqueou uma sobrancelha. ― É claro que não! ― Respondeu Evelyn aproximando-se dela. ― É uma honra vê-la de novo e gostaria muito de tomar um chá com você. Estou segura de que temos muitos temas dos quais falar.


― Obrigada ― indicou Caroline ao mesmo tempo em que se separava da entrada ao perceber que o marquês tinha a intenção de as deixar sozinhas. Não pôde evitar olhá-lo, observá-lo com atenção. Sem dúvida era o homem mais formoso que tinha conhecido. Entretanto, o olhar que lhe dedicou lhe provocou arrepios. Não era cálido, mas sim frio e daninho. Como se lhe indicasse com ele que não tentasse machucar sua esposa ou a aniquilaria. Sem deixar-se inquietar por aquele escuro olhar, caminhou até o sofá que a marquesa lhe assinalava. ― Hoje estou satisfeita ― apontou Evelyn sem eliminar o sorriso. ― Gozarei de duas visitas incríveis. ― Duas visitas? ― Interessou-se Caroline ao mesmo tempo em que tomava assento. ― Sim, a sua e a da condessa viúva de Crowner ― lhe informou. A senhora Cooper não podia sentir-se mais afortunada ante a notícia. Permaneceria uma tarde com as duas mulheres mais importantes de Londres. Todo mundo requereria de sua presença quando descobrissem que tinha estado tomando chá com elas. Uma por ser a dama mais invejada ao casar-se com o marquês, e a outra por não saber com certeza o que procurava uma viúva tão jovem e acostumada a viver separada do resto do mundo numa cidade como aquela.

― Espero que sua presença não tenha suposto problema algum para Evelyn ― apontou Cooper quando fecharam a porta. ― Ela sabe proteger-se bastante bem ― esclareceu Roger.


― Posso te assegurar que não foi ideia minha. Ela mesma decidiu vir quando descobriu a razão pela qual seu criado veio em casa ― se desculpou. ― É sua esposa e como tal terá as portas da minha casa abertas se ela souber comportar-se ― sentenciou enquanto caminhavam para o salão que lhe tinha indicado Evelyn, que havia justo ao lado do salão musical. ― Isso é o que me preocupa, que saiba comportar-se, porque se o faz, muito me temo que trama algo… ― murmurou o futuro barão após soprar. ― Não faça essa cara… ― disse Priscila aflita. ― Não faço cara nenhuma, milady ― replicou Anaís ao mesmo tempo que se esticava de novo. ― Não minta para mim, Anaís. Parece que vou queimar-te numa fogueira em vez de te levar a tomar o chá com a marquesa comentou com certa diversão esperando que a jovem sorrisse. Mas não obteve o que ela pretendia. O rosto de Anaís continuava escurecido e suas mãos se moviam inquietas sobre a saia. Priscila teve piedade dela sem saber o motivo pelo qual se sentia tão triste. Imaginou que se comportava assim pela descoberta dos rumores que se propagaram em Londres ante sua aparição. Era tão bondosa, tão amável, que nada lhe importava salvo protegê-la. Aproximou-se e esticou a mão para acalmar o tremor que mantinham as dela. ― Não posso permanecer oculta sempre, tenho que fazer coisas que me liberem da prisão em que vivo ― declarou. ― É claro que não deve manter-se escondida. Você não deve sentir-se ultrajada pelas insolências que promulgam outros. Tem que comportar-se como a senhora mais caridosa e encantadora que conheci ― apontou com seriedade. ― Se estiver ao meu lado, com certeza faremos calar todos esses rumores malignos ― disse a moça sem apagar o sorriso de seu rosto ao mesmo tempo


que apertava suas mãos nas de sua dama. ― Nada me faria mais feliz que ser testemunha disso ― repôs com firmeza. ― Olhe! ― Exclamou lady Appelton quando o cocheiro entrou na residência dos marqueses. ― É… incrível ― murmurou Anaís observando as esbeltas figuras realizadas nos arbustos. ― O que serão? ― Perguntou interessada. ― Não sei ― respondeu Priscila que, ao fixar seu olhar na entrada, observou outro coche. Manteve-se calada e intrigada em saber quem visitaria naquela mesma tarde aos marqueses. Tinha se proposto ir pouco a pouco, primeiro com a marquesa, logo com várias damas e depois ir àqueles convites. Embora parecesse que todos seus planos deviam mudar se na residência havia mais gente. Sem poder afastar o olhar da outra carruagem, observou como o lacaio descia e abria a porta. Algo lhe disse que a pessoa que ocupava o interior, posto que o criado afirmou com a cabeça. Este se afastou para deixar espaço, Priscila sorriu ao ver que se distanciava muito para lhe ajudar. Mas a figura que apareceu não necessitava de ajuda, mas sim, como bem

entendeu o criado, espaço. Um imenso homem colocava os pés no chão como se quisesse cravá-los. Esticou seu traje uma vez que saiu e olhou ao seu redor. Priscila se escondeu para que o cavalheiro não percebesse sua presença, embora observou que fez uma careta desagradável quando viu seu coche parado a uns metros do dele. Inclinou-se levemente deixando Anaís boquiaberta ante o inesperado comportamento. ― Conhece-o? ― Perguntou a dama de companhia. ― Não ― respondeu com rapidez Priscila que, para sua desgraça, viu como seu coração palpitava descontrolado.


― Pois nos manteremos afastadas dele se não lhe importar -esclareceu Anaís. ― Por quê? ― Murmurou Priscila de forma automática. ― Porque um homem assim só pode provocar pânico ― indicou. Priscila continuou observando-o. Não podia ser certo. Deviam existir muitos cavalheiros como o que se encontrou em seu jardim escondido. Ele não era aquele homem. Por mais que seu corpo e sua mente lhe gritavam que estava certa, não o era. O fantasma que a beijou, que a acariciou e que deixou seu aroma impregnado no vestido, não tinha essa forma de caminhar, não podia mostrar o sobressalto que aquele homem causava. Reclinou-se no assento e suspirou enquanto se arrependia de ter aceito o convite da marquesa. XII Aborrecimento não era a palavra que procurava para definir o que sentia naquele momento. Leopold subiu os degraus que lhe conduziam para a entrada da residência pisando-os da mesma forma como esmagasse pedras. Que diabos pretendia o marquês? Sem ser capaz de olhar de novo em volta da carruagem que mostrava o escudo do título que logo possuiria, tentou manter a calma e deixar que a ira se aplacasse. Mas… como fazer tal coisa? Como ia fazer para chamar a razão se não ficava nada de julgamento nesse momento? Assim, quando o mordomo de Riderland lhe abriu, o senhor Spencer entrou no hall como se sua vida dependesse disso. ― Milorde? ― Perguntou Anderson com preocupação. O criado olhou por trás da grande figura tentando averiguar o que podia alterar o convidado, mas não achou nada, salvo a carruagem do cavalheiro e o da condessa viúva de Crowner, convidada de sua senhora. ― Faça o marquês saber que cheguei ― cuspiu cada palavra com um tom tão


mordaz que produziu um calafrio no mordomo. ― Meu senhor lhe espera no salão diurno, milorde ― lhe informou recuperando sua compostura. ― Se me seguir, levar-lhe-ei ante ele. Não respondeu. Nem quis fazê-lo. Sua mente estava tão cheia de raiva que abandonou as maneiras que lhe caracterizavam. Amável, gentil, educado e sobretudo um homem eloquente, eram as descrições daqueles que iam à sua tipografia, mas naquele momento não tinha nada daquilo. Seu corpo estava tenso, exibindo uma figura mais rude da que já oferecia por sua desesperadora altura. Com uma envergadura de quase dois metros e cem quilogramas de peso, Leopold não podia apresentar-se de outra forma ante outros que a que mostrava, como a de um titã. Entretanto, até que lhe chegou a notícia de que devia converter-se em conde, seu rosto amável equilibrava o aspecto rude. Embora quando se zangava, como naquele momento, o único que fazia seu rosto era confirmar que era uma espécie de monstro. ― Sua excelência ― começou a dizer Anderson. ― O senhor… ― Que diabos pretende, Riderland? ― Leopold acedeu ao salão sem ser apresentado e sob o olhar estupefato do mordomo. ― Boa tarde, lorde Spencer ― respondeu Roger levantando-se de seu assento e dando a entender ao criado, com um leve gesto de sua mão, que podia partir. ― Senhor Spencer… ― Cooper, quem se tinha levantado de seu assento ao escutar a voz rude e irada de Leopold, olhava atônito para ambos os cavalheiros. ― Não sei o que lhe terá feito zangar-se, mas sente-se, tome uma taça e falemos com calma ― indicou Roger, que não se alterou nem um ápice ao ver a ira daquele gigante. Embora para ser sincero, quando o viu sentado no clube de Cavalheiros, não lhe pareceu tão imenso. ― Não sabe do que falo? – Leopold repetiu a pergunta mastigando cada palavra. ― Por acaso acredita que estou cego?


Que seria difícil verificar a quem pertence a carruagem que se encontra na entrada de sua casa? Só faltou me estampar o brasão na cara! ― Exclamou sarcástico e sem mal respirar. ― Temo que essa pergunta teria que respondê-la minha esposa, mas como está tomando chá com suas amigas, não a incomodarei ― respondeu com amabilidade. ― Mentira! ― Gritou. ― Se me permitirem a intromissão ― intercedeu Cooper assombrado. ― Eu gostaria de ser informado do que está acontecendo. Possivelmente se encontre confuso porque… ― O queridíssimo marquês indagou não só da minha vida trabalhista, senhor Cooper, mas também da pessoal ― disse de maneira azeda. ― Como lhe expliquei na missiva que lhe enviei esta manhã, não vou participar do investimento que me ofereceu seja qual for o motivo pelo qual não o aceito ― explicou sem mover-se da entrada. O traje parecia encolher enquanto seu corpo alterado se alargava, provocando que seus músculos começassem a tomar umas dimensões que, se continuavam assim por mais tempo, fariam explodir o imaculado traje azul marinho que usava. Mas não só o traje diminuía, a gravata que rodeava o pescoço da camisa branca parecia estrangulá-lo, ou isso pensaram os amigos ao observar como seu rosto avermelhava e uma grossa veia aflorava no seu enorme pescoço. ― Você indicou que desejava ver-me esta tarde – defendeu-se Roger sem intimidar-se. ― E como bom cavalheiro, aceitei sua proposta. ― Mas teve que convida-la! ― Clamou dirigindo a mão direita para a saída. ― Ela! ― Repetiu. ― Cavalheiros, por favor… não acreditam que estamos nos convertendo em…? ― Federith, não interceda. Isto é um assunto entre lorde Spencer e eu, e acredito que devo esclarecer esta situação. ― Estou desejando o escutar, excelência ― apontou agudo enquanto cruzava os


braços. ― Minha esposa conheceu a condessa viúva de Crowner esta manhã numa loja ― disse enfim. Olhou ao Federith e, por como abria os olhos, soube que tinha escutado tudo o que se falava em Londres sobre eles dois. ― Ela a convidou a tomar um chá, posto que, conforme diz, a condessa ainda não tem amizades nesta cidade. ― Ela deve partir daqui, não tem que conseguir amigas! Exclamou Leopold zangado. ― Por acaso não entendem que se ela… se não partir…? ― Tanto Roger como Federith assentiram. ― Estamos informados de tudo ― esclareceu Roger. ― Mas lhe peço um favor, senhor Spencer. Prometi a minha esposa que não causaria um escândalo sob nosso aprazível lar e pretendo cumprir minha promessa. Se você se sentir incômodo porque se encontra a uns metros de distância da mulher que odeia e que segundo se fala não conhece ainda, pode partir. Entendo que não possa permanecer próximo à única pessoa que lhe impede de conseguir o que tanto anseia ― provocou. Roger não tinha dúvida de que aquelas palavras tocariam a dignidade de Spencer. Nenhum cavalheiro que presumisse de sêlo deixaria de lado uma reunião tão importante por sentir-se incomodado ante a presença de uma mulher. Embora essa mulher fosse a condessa viúva de Crowner e o homem que permanecia na porta se converteria no sucessor do título. ― Não me produz nenhum tipo de angústia que essa viúva se encontre sob o mesmo teto que eu ― disse mordaz pressionando com força a mandíbula. ― Me zanguei porque pensava que você era um cavalheiro e que não utilizaria certas artimanhas para conseguir seu propósito. ― Está você muito equivocado, lorde Spencer ― soltou com tom sério e contundente. ― Não necessito de nenhum tipo de armadilha para obter aquilo que me proponho. Como lhe informei, tudo foi uma absurda situação produzida pelo destino.


Cooper continuava em silêncio observando a tensão que aqueles imensos corpos masculinos exibiam. Sempre pensou que Roger fosse um homem alto, muito para considerá-lo adequado a ícone de beleza, entretanto, quem projetava um olhar assassino para seu amigo lhe tirava dois palmos pelo menos. Rezou para que o silêncio que apareceu no salão fosse uma trégua entre ambos. Necessitava que os dois se acalmassem porque, caso contrário, não saberia como fazê-los parar. Embora eles sim podiam assemelharse a dois Golias, ele não era David nem tinha uma fisga por perto para abatêlos. ― Está bem ― disse Leopold depois de manter-se calado e refletir sobre a explicação do marquês. Caminhou para o assento contíguo ao Cooper e se sentou. ― Obrigado ― respondeu Roger tomando assento de novo. ― E agora, se puder me explicar por que não pode converter-se em sócio, ficaremos muito agradecidos. Quando conseguiu manter a calma, Spencer lhes narrou tudo o que ansiavam saber. Não deixou nada guardado, até lhes falou do plano que tinha tentado executar para assustar a condessa para que esta partisse de Londres. Talvez fossem as três taças do Porto, o magnífico charuto que fumou ou a comodidade que terminou por sentir com aqueles dois cavalheiros o que lhe impulsionou a expressar-se com sinceridade. Embora reservasse para si a sensação de prazer que lhe provocaram aqueles beijos, como foi incapaz de pensar no assunto que o tinha levado até ela quando seus polegares acariciaram a macia e delicada pele, a emoção que obteve quando suas mãos sentiram o pulsar daquele pequeno coração e a razão pela qual desejou que ela fosse sua para sempre. Isso só importava a ele. ― Já entendi… ― disse Roger acariciando o queixo. ― Não julgarei a crueldade que tentou fazer, senhor Spencer. Se eu estivesse tão desesperado, atuaria da mesma forma. ― Se o marquês não tivesse esposa e se encontrasse em uma situação similar, ― apontou Federith zombador ―


asseguro-lhe que não só a teria assaltado, mas sim a teria possuído nesse momento. Sem saber a razão exata, Leopold grunhiu e suas grandes mãos se fecharam em dois punhos. Ambos os amigos perceberam a reação do homem e se olharam. Não lhes cabia dúvida de que algo mais tinha acontecido naquele ataque, algo que havia tornado Spencer louco, mas se mantiveram calados, porque ninguém melhor que eles para atestar o que produzia a mulher adequada em um homem. Estiveram conversando durante um bom bocado. O marquês tinha outro plano para fazer com que lorde Spencer conseguisse o dinheiro requerido e, com paciência, o fez saber. Federith o olhava surpreso, agradecendo a Deus por lhe haver feito chegar àquele cavalheiro um pouco de julgamento e pelo relaxamento que todos mantinham naquele momento. Estava a ponto de servir-se outra taça quando, de repente, uma suave melodia atravessou as paredes do salão onde se encontravam. Roger e Spencer não prestaram atenção, mas ele sim. Ao princípio tentou concentrar-se nos últimos detalhes do contrato, mas pouco a pouco sua mente se foi afastando, vagando atrás daquela música. Seu corpo ficou rígido e mal pôde respirar. Quem estivesse tocando o piano não exibia destreza, e sim imperícia. Zangou-se ao escutar semelhante pressão sobre as teclas. Não tinha ouvido alguém destroçar uma valsa tão formosa como a de Chopin desde sua infância. E, embora lutara por fazer com que ela melhorasse, nunca obteve seu propósito porque partiu… Sentiu como se a gravata tentasse asfixiá-lo e um repentino sufoco tingiu suas bochechas. Disse a si mesmo que devia sair daquela habitação o mais cedo possível e repreender a quem estivesse em frente ao piano. Sem pedir permissão e com os olhares de ambos os cavalheiros fixos nele, Federith se levantou de seu assento para dirigir-se para a insensata que lhe tinha feito despertar uns sentimentos tão íntimos, tão inalcançáveis, tão desesperadores e tão dolorosos...


Embora Riderland devesse lhe chamar a atenção quando seu amigo se dispunha a partir, não o fez. Seu rosto alterado, o rosto avermelhado e o olhar de atordoamento indicaram ao marquês que Federith sofria por causa de uma lembrança. Não era a primeira vez que lhe acontecia. Então escutou a melodia que emitia o piano. Se não entendeu mal, Evelyn lhe anunciou que a senhorita Dooye daria aulas musicais à Natalie. Mas nessa mesma manhã teve notícias de que a professora não podia vir de novo porque continuava em cama por causa de um resfriado. Se a teima da menina era a mesma que a sua, teria obrigado alguma das convidadas a acompanhá-la e, muito temia que a única que se ofereceria para tal ato seria a senhorita Price. Soube então que o momento tinha chegado. Por fim se encontrariam e, é óbvio, não o impediria. Federith devia ser feliz da maneira que fosse e muito mais depois de descobrir que sua mulher não lhe era fiel. Assim tirou os documentos que Spencer devia assinar e os estendeu para ele. Este, ao ver que a interrupção de Cooper não parecia entorpecer a conversa sobre o novo contrato, pegou-os, reclinou-se no assento e começou a ler. Logo em seguida, Roger se levantou e caminhou para a janela cristalizada para pegar outra garrafa de Porto. ― Não se deixe impressionar, milady ― murmurou Anaís ao ver que sua senhora permanecia em frente à porta imóvel e pálida. ― Com certeza atuará corretamente. Priscila não pôde nem afirmar nem negar as palavras de ânimo que lhe ofereceu sua dama de companhia. Estava num momento tão estranho em sua vida que não era capaz de reagir. Todo seu ser lhe gritava que ele estava ali, que permaneceria no mesmo lugar que ela, mas tinha que ser incerto. Aquela agitação, aquela inquietação não podia lhe gritar que o homem da carruagem e quem a assaltou no jardim eram a mesma pessoa. Possuíam as mesmas dimensões, sim, tinham o cabelo loiro também, mas isso não era suficiente para afirmar que se tratavam do mesmo homem. Sentiu uma leve pressão na mão direita enluvada, ao olhar para ela descobriu que Anaís a segurava para tranquilizá-la. A pobre mulher pensava que o estado de inquietação que sentia se devia a sua primeira saída de Longher. Talvez tivesse razão e sua mente entusiasta lhe tinha provocado outra alucinação. Mas não estava sonhando, aquilo era real assim como tinha sido autêntica a aparição daquele estranho em sua casa. De repente apareceu um sem-fim de perguntas em sua mente. Não tinha reparado


nelas porque não tinha parado para meditá-lo. Possivelmente o estado de devaneio, de atordoamento que lhe fez sentir aquele homem quando a beijou, quando a tocou, desencadeou umas emoções tão estranhas nela que lhe impediram de pensar com claridade. Mas agora, tomando um pouco de sensatez, fluíam sem cessar. O que fazia aquele homem em sua casa? Por que a espiava? Que motivo tinha para ocultar-se e assaltá-la? Estas e outras mais ocasionaram no pequeno corpo uma forte sacudida. Estaria a marquesa envolvida naquela visita? Teriam planejado arruinar sua reputação? Devia ser algo assim. Quem não desejaria destroçar a reputação de uma viúva que se apresentava em Londres sem proclamar seu verdadeiro propósito? Assustada, deu um passo para trás tentando fugir, escapar da possível traição a que se veria submetida. Contudo não se pôde afastar, a mão de Anaís continuava segurando-a. Olhou-a com desespero, lhe pedindo ajuda em silêncio. Entretanto ela não deduziu a causa da inquietação. Acreditando que o pavor que aflorava em sua senhora era devido àquela reunião, a senhorita Price bateu na porta. ― Boa tarde, miladys ― como era habitual, Anderson recebia aos convidados


com um grande sorriso. ― Boa tarde ― intercedeu Anaís ao ver que Priscila não abria a boca. ― Pode fazer a marquesa saber que a condessa Crowner e sua dama de companhia chegaram? ― É claro ― respondeu o mordomo as deixando passar e realizando seu típico movimento com a cabeça. ― Se puderem me dar suas capas e chapéus ― prosseguiu. As duas se desfizeram das capas e com suavidade tiraram as forquilhas que imobilizavam os chapéus. Quando Anderson sustentava sobre seus braços os objetos das convidadas, caminhou para o salão onde as esperavam. ― Sua excelência, chegou a condessa Crowner e sua dama ― anunciou da entrada. Evelyn foi a primeira a elevar-se da cadeira. Com um sorriso que lhe cruzava o rosto caminhou para a Priscila lhe estendendo as mãos. ― Obrigada por aceitar meu convite ― lhe disse enquanto lhe dava um beijo na bochecha. ― Espero que nossa presença não altere… ― comentou Priscila ao descobrir que não estava sozinha. Ao lado da marquesa, sentada num largo sofá de cor mel, estava uma mulher. Ao levantar-se, a condessa percebeu que era formosa. Seu vestido cor limão com elegantes rendas de seda verde esmeralda elogiavam as curvas femininas. Não ficou perplexa pela beleza da mulher, mas sim pela forma de olhá-la. Nesse momento lembrou-se de Anthony e da advertência que lhe fez antes de morrer. ― Quando eu não estiver, me prometa que desfrutará da vida que não lhe dei ― lhe disse enquanto lhe agarrava a mão. O conde tinha ficado prostrado na cama vários dias e embora Priscila tivesse a esperança de que terminasse levantando-se, o médico lhe assegurou que já não


tinha tempo. ― Não posso escutar essas palavras… ― soluçou ao mesmo tempo que abaixava a cabeça para beijar a velha e tremente mão. ― OH, minha florzinha! É tão delicada, tão tímida que isso te causará problemas ― lhe advertiu. ― Não terei nenhum problema porque jamais abandonarei Bournemouth. Permanecerei a salvo aqui em nosso lar ― declarou. ― Se não te amasse como te amo, essas palavras dar-me-iam prazer, mas não pode se encerrar neste lar. Deve sair, viver o que não viveu. – Reiterou. ― Entretanto, deve estar preparada para o mundo que descobrirá. Me escute e não tente negá-lo. Quando eu não estiver, quando não puder te proteger, terá que fazêlo sozinha. ― Não me diga isso ― lhe interrompeu. ― O que será de mim se me deixar? ― Terá que lutar contra as adversidades da vida e espero que Thomas te ajude. Mas sou consciente de uma coisa, pequena. Lá onde estiver encontrará um olhar frio e invejoso daquelas damas que não tem sua formosura, e encontrará também os olhares luxuriosos dos cavalheiros que desejam ter-te em seus braços. Só escolha a quem te demonstre que te ama como eu te amei estes anos. Poderá prometer a este velho esta última vontade? ― Condessa? ― Perguntou Evelyn ao ver que a mulher parecia distraída. ― Sinto muito… ― se desculpou ao mesmo tempo que dirigia o olhar para a anfitriã. Priscila relaxou ao ver que a marquesa não mostrava em seu rosto frieza nenhuma. Ela era carinhosa, tal como lhe deu a impressão na loja. Pegou sua mão e a levou até a outra mulher. ― Condessa, lhe apresento a senhora Cooper, futura baronesa de Sheiton e esposa de um dos melhores amigos de meu marido.


Anaís permaneceu vários passos atrás de sua senhora. Tentava manter aquela calma que havia dito antes a Priscila, mas ao escutar o nome da mulher que acompanhava a marquesa, esticou-se. Ele estava ali, ou isso imaginou ao ver sua esposa. De repente, o desespero se apropriou dela. Precisava afastar-se da residência, evitar qualquer encontro entre eles. Se a descobrisse, se ele soubesse quem era, teria que abandonar a vida que tinha para não machucar a doce Priscila. Que sufoco e aflição sofreria a condessa se soubesse que durante tantos anos havia acolhido uma criminosa? Porque assim se definia Anaís. Embora as mãos que ceifaram a vida de sua mãe não fossem as suas, embora ela não propiciou a inesperada morte de sua avó, sabia quem tinha sido. E seu silêncio era pior que as ações de seu pai. ― Esta é a senhorita Price, minha dama de companhia ― escutou a voz da condessa apresentá-la. Com o olhar cravado no chão, Anaís fez uma leve reverência às damas, enquanto rezava para que Priscila não a obrigasse a permanecer naquele salão. ― Sente-se conosco, senhorita Price – ouviu a marquesa dizer. ― Será uma honra que nos acompanhe. Todas as maldições que conhecia apareceram em sua mente. Mas não ficava outra alternativa senão aceitar a proposição. Agradecendo mediante um sorriso pela consideração para com ela, Anaís caminhou pelo salão com a intenção de manter-se num segundo plano, discreta. Mas a anfitriã não pretendia afastá-la


delas. Logo quando ia tomar assento numa cadeira que havia ao lado da janela, a marquesa negou sua decisão e lhe ofereceu um assento próximo onde permaneceriam. ― Anderson, já pode dizer à Wanda que nos sirva o chá ― ordenou Evelyn. ― Sim, excelência ― disse antes de partir. ― Alegra-me conhecê-la em pessoa ― rompeu o silêncio Caroline. ― Tenho que lhe dizer que me picava a curiosidade saber quem era a condessa viúva de Crowner. ― Espero não ter desapontado suas expectativas ― respondeu Priscila sem apagar o sorriso de seu rosto. ― É claro que não! ― Exclamou lady Cooper ruborizando-se. ― Você é uma jovem formosa e, para ser sincera, não se parece em nada à descrição de bruxa que se estendeu. ― As fofocas em Londres geralmente são bastante prejudiciais ― intercedeu Evelyn. ― Nossa família padeceu esse tipo de mesquinharia em mais de uma ocasião. Tentou fazer com que a mulher de Federith fosse recatada na conversa, mas pelo olhar que mostrava, pelo entusiasmo que exibia, muito temia que não iria ser assim. «Pagará por isso!», jurou Evelyn enquanto pensava em seu marido. ― Tem razão, excelência ― afirmou Caroline. ― O último que sofreram foi horroroso ― expôs morta de vergonha. ― A melhor atitude para não sentir dor ante comentários ofensivos, ― disse olhando a Priscila ― é não escutá-los. ― Gostou de Londres, milady? ― Mudou de tema lady Cooper. Ao notar como ambas as mulheres começavam a posicionar-se contra si, reagiu com rapidez. Se de verdade queria alcançar seu propósito, devia ser mais sutil.


Embora estivesse tão entusiasmada que não podia controlar-se. ― Mal saí de Longher para responder à pergunta adequadamente. Mas o pouco que vi agradou-me ― expôs medindo cada palavra. O olhar cinzento daquela mulher fazia com que lhe arrepiasse o cabelo. Não entendia a razão pela qual lady Cooper tentava atacá-la se não se conheciam. Mas estava segura que, depois de tomar o chá, saberia a causa da insistência por averiguar certos tema de sua vida. ― A condessa e eu nos conhecemos esta manhã ― explicou Evelyn. ― Nos encontramos na loja de lady Parks enquanto ajudava a escolher um novo vestuário para… ― Lady Parks é uma grande desenhista ― a interrompeu Caroline. ― Estou segura de que seus vestidos não só se farão famosos em Londres mas sim alcançarão toda a Europa. Embora será muito doloroso para você ter que usar objetos tão deliciosos com essa cor tão fria. Podia saltar sobre o pescoço daquela mulher? Permitiram-lhe que fizesse calar àquela erva daninha? Anaís enredava o tecido da saia entre suas mãos para conter-se. Não era justo que a primeira vez que sua senhora se decidia a abandonar Longher topasse com uma mulher tão malvada. Pensou em pôr qualquer desculpa para tirá-la dali, mas nada do que lhe passava pela mente era acertado. Fixou os olhos em Priscila, quem parecia serena à vista das outras mulheres, entretanto, ela sabia que não o estava. O pequeno e imperceptível tique no olho esquerdo indicava que estava nervosa. Quem podia suportar uma mulher como essa? Como pôde Federith casar-se com uma mulher assim? Seus pais o teriam obrigado a fazê-lo? As repentinas perguntas lhe provocaram rubor. Na verdade, não conhecia o senhor Cooper para julgar o matrimónio com aquela harpia. Só conservava dele umas leves lembranças infantis e, o passar do tempo lhe teria feito mudanças assim como mudou a ela. Manteve-se calada, deixando que sua mente a transportasse para um passado que, embora não foi mau porque ele esteve ao seu lado, desejava esquecer. Era certo que o moço mostrava aquela pose e caráter aristocrático que lhe correspondia, mas nunca achou nele a maldade que essa mulher entesourava a torrentes.


― Como bem saberá, se tiver escutado os rumores que se estenderam pela cidade, ― disse com firmeza Priscila ― sou viúva e não posso julgar se a cor de meu vestido é frio, tosco ou inapropriado para usar os vestidos desenhados por lady Parks. ― É claro ― respondeu Caroline brandamente. ― Mas quando o período de luto finalizar e você puder escolher a cor que deseje, estou segura de que romperá mais de um coração. ― Talvez não esteja aqui quando chegar esse momento comentou desconfiada a condessa. ― Partirá? Acaso não vê Londres apropriado para uma mulher viúva como você? ― Insistiu lady Cooper. Graças à intervenção de Wanda, que bateu na porta para poder entrar, Priscila não teve que responder à pergunta, embora tinha mordido a língua para não o fazer. Sabia que todo mundo conhecia as últimas vontades de seu falecido marido. Cedo ou tarde o advogado do sobrinho de Anthony falaria sobre isso. Nenhum homem era capaz de admitir uma derrota quando se tratava de posição e poder econômico. Voltou a respirar para acalmar-se. Fixou seu olhar na marquesa e percebeu que se encontrava tão incômoda como ela. Mas estava segura que nenhuma das duas se renderia ante a conversação daquela ofensiva mulher. ― Escolheu alguns? ― Perguntou Evelyn quando Wanda partiu. ― Sim, três. Mas quero ver mais modelos. Conforme a empregada, os próximos serão espetaculares ― concretizou. ― Outros modelos? ― Perguntou Caroline antes de tomar o primeiro sorvo do chá. ― Só pude escolher os que tinham naquele momento ― indicou Priscila movendo a colherinha dentro de sua taça. ― A nova revista de padrões chegará à loja entre a manhã ou tarde.


― Não acredite ― disse com firmeza a mulher de Federith. ― Essas costureiras enganam aos clientes com falsas promessas. ― Não acredito que mentisse ― respondeu visivelmente zangada Priscila. Que fosse mais jovem que ela não significava que também fosse mais ingênua. Por sorte captava com rapidez quando alguém lhe mentia ou queria lhe prejudicar, tal e como aquela mulher pretendia com seus comentários. ― O senhor Spencer já tem em sua tipografia as folhas e só tem que convertêlas numa gazeta. ― O senhor Spencer? ― Arqueou Caroline as sobrancelhas e olhou atônita à condessa. Justo quando um sorriso se desenhou em seu rosto malvado ao adivinhar que aquela jovem não tinha nem ideia de quem era lorde Spencer e que ia ser ela quem lhe revelaria a identidade do dito cavalheiro, Natalie abriu a porta desesperada. ― Não veio! – Gritou. ― Hoje também não veio! ― E correu para a Evelyn para colocar a cabeça em seu regaço. ― Quem não veio? ― Perguntou a marquesa enquanto acariciava o cabelo dourado da menina e agradecia a Deus por fazer com que a menina aparecesse no salão como se fosse um tornado. ― A senhora Dooye – soluçou. ― É a segunda vez que não toco piano esta semana. ― Não faz mal, querida ― a tranquilizou. ― Faremos com que recupere as aulas quando retornar. ― Olhou suas convidadas e lhes informou. ― Natalie adora tocar piano. É sua disciplina preferida e sofre muito quando a senhora Dooye, sua professora, não vem lhe dar aulas. ― Para mim teria sido um prazer ter uma professora assim ― lhe disse Caroline como se suas palavras pudessem reconfortar a menina. ― Horrorizava-me ter aulas de piano, acredito que minhas mãos estão destinadas a realizar outro tipo de proezas.


― Mas as minhas são perfeitas! ― Exclamou a menina irada. ― Se acalme, anjo… ― sussurrou Evelyn contendo a gargalhada que estava a ponto de soltar. Era uma autêntica Bennett, disso não lhe cabia dúvida. ― Se quiser, a senhorita Price pode te ajudar ― interveio Priscila com uma voz tão doce que qualquer criança teria parado para escutá-la em meio a um acesso de raiva. Anaís abriu tanto os olhos que quase notava como tentavam abandonar seu rosto. Olhou para sua senhora levantando uma sobrancelha e lhe perguntando o que se propunha. Ela não tocava piano, esmurrava aquele doce instrumento. ― De verdade? ― Natalie levantou o rosto choroso e olhou a quem lhe falava esperançada. ― Pode me ajudar, senhorita Price? ― Não… não sei se me lembro de… ― não terminou sua desculpa. Natalie correu para ela, agarrou-lhe a mão e a levantou de seu assento. ― Apresse-se, senhorita Price ― a incitou. ― O piano nos espera! Sem poder negar-se, Anaís andou atrás dos passos da alterada menina. Antes de abandonar o salão olhou para a sua senhora e pelo que olhava sabia que não devia preocupar-se com ela. Mas devia fazê-lo. Ela não estava acostumada a lutar com mulheres como aquela. Resignada pela nova situação, terminou por sentar-se em frente ao piano com a menina ao seu lado e passando as folhas das partituras. ― Esta valsa ― assinalou Natalie entusiasmada. ― Quero tocála na primeira vez que me apresente em sociedade. ― Está segura? Poderia tentar destruir outra melodia, senhorita Bennett, porque lhe prometo que qualquer pessoa que me escute tocá-la chorará. ― Não se preocupe, eu a ajudarei ― disse a pequena com um grande sorriso.


― Pois comecemos… XIII Depois de fechar a porta com aparente tranquilidade, Federith caminhou para o salão musical. Mal havia quinze passos de distância entre a habitação que tinha eleito Roger para levar a cabo a reunião com o senhor Spencer e o lugar onde Natalie e sua professora tinham aulas de piano. Por culpa dessa proximidade podia escutar como alguém destroçava uma valsa tão maravilhosa, uma valsa que só aqueles afortunados que tinham alcançado o verdadeiro amor entendiam. Tinha que resolver o antes possível aquela tortura, devia interromper aquela atrocidade imediatamente. Urgia-lhe apresentar-se perante a pessoa que ousava tocar a peça e obrigá-la a renunciar a isso não só essa tarde, mas sim pelo resto de sua vida. De repente ficou confuso, aturdido por sentir uma angústia de tal índole. Fazia muito tempo que não sofria uma irritação dessa magnitude. Mas também era certo que fazia pouco mais de uma década que alguém não o fazia desejar ter nascido surdo… tentou recompor-se daquele pensamento, daquela sandice. Ela já não existia e tinha que seguir centrando-se em Eric. Toda a obsessão que manteve por Anaís até que nasceu o menino, desapareceu ao tê-lo em seus braços. Aquela criatura necessitava de seu pai posto que, para sua desgraça, sua mãe não se preocupava por ninguém mais que ela mesma. Entretanto, a maneira tão particular de tocar provocou que Federith se lembrasse dela. Anaís, a única mulher que fazia com que seu ódio pela imperfeição desaparecesse com um leve sorriso. A única que podia romper seus tímpanos sem pensar que qualquer galinha de granja era mais certa na arte musical que ela. A única que se sentava ao seu lado enquanto lhe mostrava como devia soar uma peça de amor tão íntima sem deixar de olhá-lo com aqueles ternos olhos verdes. Sem esperar, esse estado de irritabilidade se tornou em tristeza, em dor, e em cada passo que dava para o salão seu desejo por fazer parar a música se fazia mais agônico, mais desesperador. Não era justo que alguém lhe recordasse, mediante uma horrorosa valsa, o maior fracasso de sua vida: não viver ao lado da mulher pela qual pulsava seu coração. Esticou a mão para a manivela para abrir a porta e interromper aquela barbárie,


mas quando considerou que seus dedos não eram capazes de enredar-se na maçaneta para fazêla girar, decidiu acalmar-se antes de entrar. Teve que respirar várias vezes, embora não alcançasse a ansiada quietude, continuava destruído pela dor, destroçado pela lembrança de algo impossível. Apoiou a testa sobre a porta e deixou que a mente lhe oferecesse o que tanto tinha evitado pensar desde que se casou com Caroline. Viu de novo o pequeno corpo de Anaís sentado em frente ao piano destruindo com graça a peça que tocavam seus delicados dedos. Escutou-a rir e soaram de novo as brincadeiras que a menina lhe dedicava quando indicava que era muito perfeccionista com tudo aquilo que lhe rodeava. Recordou-a ao seu lado lhe dirigindo uns olhares de cumplicidade que só eles captavam, os passeios pelo campo enquanto lhe falava sobre as expectativas que seus pais tinham fixado nele. De repente, um nó na garganta lhe pressionou com tanta força que só se acalmou após esfregar essa parte do corpo. Não a tinha esquecido, embora criara um capítulo novo de sua vida, ela estava presente. Como eliminar a melhor época de sua vida? Aquela inquietação que lhe sobressaltava quando a esperava. Aquele estado de agitação que sentia ao notar a presença de Anaís ao seu lado. E é claro, jamais poderia apagar as emoções que sentiu ao beijá-la. Seu primeiro beijo, sua primeira amostra de amor para ela. Com a lua como testemunha, com a noite ocultando suas figuras, uniram-se duas bocas trementes pelo desejo. «Anaís…», murmurou sem voz. Nunca tinha amado outra mulher de forma semelhante. Ninguém tinha ocupado seu lugar desde que partiu. Sim, casou-se. Sim, tinha desistido em seu afã por encontrá-la, mas não compartilhava a absurda ideia de que ela estava morta, negava-se. Seu interior lhe gritava que vivia, talvez num lugar muito afastado de Londres, noutro continente possivelmente, mas continuava a respirar. «Sinto muito… sinto tanto, meu amor», voltou a sussurrar. De repente a música parou e suas lembranças cessaram também. Tragou saliva e tentou recompor-se. Era uma loucura, uma demência apresentar-se no interior daquela habitação e gritar que não tocasse a peça, que o fazia mal. Ele devia seguir sua vida sem mostrar o pesar que sentia por não encontrar a mulher que amava. Devia ocultar seus sentimentos como tinha feito até agora. Sem saber o motivo pelo qual o fez, pegou o relógio, este tremia assim como sua mão, e leu a


frase gravada: «Um verdadeiro amor não desaparece com o passar do tempo». Mas devia desaparecer, precisava esquecê-la de uma vez por todas. Nada podia entorpecer a convivência que aguentava com sua esposa, com a mãe de seu filho. Fixou as plantas dos pés no chão e se girou para partir, para não cometer uma tolice. O que pensariam se o educado senhor Cooper blasfemasse por uma sandice semelhante? Possivelmente que se tornou louco. Não, não devia continuar, precisava esquecer tudo e deixar que a vida fluísse ao ritmo que tinha decidido. Franziu o cenho e apertou a mandíbula antes de dar um passo para o salão no qual se encontravam Roger e Spencer, entretanto, ao escutar as risadas de quem permanecia no interior, ficou imóvel. Não podia partir sem averiguar o culpado de sua perturbação, sem pôr rosto a quem lhe rasgou uma ferida quase cicatrizada. Abriu a porta com sigilo, apoiou o quadril no marco da porta e cruzou os braços sem afastar o olhar das duas figuras que permaneciam sentadas em frente ao instrumento. Só reconheceu Natalie, quem movia sua cabeça de um lado para outro divertida. Mas Federith cravou seus olhos na outra silhueta. Era uma mulher. Seu cabelo loiro, muito parecido ao da menina, estava recolhido num coque baixo embelezado por duas grandes tranças. O vestido negro ocultava a esbelta silhueta, embora deixava entrever que se tratava de uma mulher com exuberantes curvas. Permaneceu calado, espectador. Sentiu-se como um vulgar observador, como aqueles homens que olhavam com lascívia a todas as formosas jovens de uma festa, mas apesar de tentar afastar-se dali e as deixar desfrutar de um momento tão íntimo, não conseguiu dar um passo. Precisava averiguar quem era ela e por que havia


tocado tão mal como sua Anaís. ― Meu Deus! Foi espantoso! ― Exclamou Natalie entre risadas. ― Já lhe disse, senhorita Bennett. Por desgraça, não possuo o dom musical que você precisa ― disse Anaís contagiando-se com as risadas da menina. ― Se a senhora Dooye a escutasse, tê-la-ia a praticar todo o dia ― continuou a pequena rindo. ― O que seriam daqueles que não pudessem tampar os ouvidos se o fizesse? ― Afirmou antes de soltar uma grande gargalhada. ― Foi a interpretação mais penosa que escutei em minha vida comentou Federith da entrada. ― Se Chopin tivesse tido a oportunidade de ouvir como uma valsa tão formosa se destrói sob umas mãos tão inexperientes, teria morrido no ato. ― Tio Federith! ― Gritou a menina ao mesmo tempo que se levantava do assento e corria aos seus braços. Anaís deixou de respirar para ouvir sua voz. Podiam existir no mundo milhares de homens que se chamassem Federith, mas só um podia ter um tom tão quente e especial. Tentou levantar-se e saudá-lo como devia fazer uma criada, mas seu corpo estava rígido e as pernas lhe tremiam. Ele estava ali, atrás de suas costas. Se se girasse, se o olhasse, todo seu afã por ocultar-se desvaneceria. Tinha rezado para que não se encontrassem, para que a senhora Cooper tivesse visitado a marquesa sem seu marido ou inclusive que se tratasse de outro homem com o mesmo sobrenome, mas Deus a tinha ignorado de novo, continuava sem deixá-la viver. Olhou suas mãos, não paravam de tremer, a inquietação produzida pela aparição daquele homem era cada vez mais intensa. Com estupidez colocou-as sobre a saia, acreditando que deste modo se acalmariam, mas não foi assim. Seguiam vibrando e, para sua desgraça, com mais ímpeto. ― Olá, Natalie, como se encontra a menina mais bonita de Londres? ―


Perguntou enquanto elevava a pequena Bennett para fazêla girar sobre si mesmo. ― Triste, bastante triste ― respondeu a menina quando a deixou no chão e afastou uma de suas mechas do rosto. ― Eu também estaria se a pessoa que deve me instruir numa arte tão bela como a música tocasse dessa forma ― comentou sarcástico. Devia olhar a menina, devia dirigir seu olhar para ela ao falar, mas seus olhos se cravaram naquela figura feminina que não se moveu de seu lugar e que, conforme parecia, não tinha a intenção de levantar-se para saudá-lo. Como podia ser uma pessoa tão mal-educada? Por acaso a vergonha que padecia após tocar de uma maneira atroz lhe impedia de comportar-se como devia? ― Ela não é a senhorita Dooye! ― Exclamou sorridente. ― Ela é a senhorita… ― Mil perdões, milorde ― respondeu Anaís interrompendo a pequena para que não revelasse seu nome. Fez um grande esforço ao falar porque não lhe saíam as palavras. Mas não havia maneira coerente de sair daquela situação. Não podia converter-se num camundongo e escapulir-se, devia enfrentar e sair ilesa. Respirou profundamente antes de se levantar, dar dois passos para eles e ocultar seu rosto abaixando a cabeça. ― Sinto se seus ouvidos sofreram pelo desastre que criei. Como informei à senhorita Bennett antes de começar, não sou boa em dito instrumento. Anaís fez uma pequena reverência e manteve o rosto inclinado para o chão. Presa pelo medo, tentou fazer com que sua mente se relaxasse e lhe oferecesse alguma solução ao seu problema. Devia sair dali o antes possível, mas como era lógico, não podia pôr-se a correr sem mais, precisava fazê-lo de maneira correta, sem levantar suspeitas. ― Soou assim tão mal? ― Perguntou Natalie olhando a ambos.


― Horroroso ― afirmou Federith sem deixar de observar a mulher. Podia sentir a inquietação, a vergonha que padecia após sua aparição e a tensão que tinha provocado suas inapropriadas palavras. Ele não deveria lhe haver falado com tal descaramento, não era próprio que um cavalheiro opinasse de maneira semelhante de uma desconhecida. Embora se sentisse enfurecido por lhe haver recordado que a ferida que acreditou curada não o estava, sua atitude era recriminável. ― Se me desculpar, ― começou a dizer Anaís enquanto se dirigia para a saída ― tenho que voltar com… ― Sinto muito se as minhas palavras a incomodaram, senhorita… ― Cooper esperou que a mulher se apresentasse e lhe desse a oportunidade de desculpar-se por seu comportamento, contudo ela se aproximava da saída, como seu corpo seguia tenso, muito temia que não desejava uma desculpa e sim afastar-se. ― Não se preocupe, milorde. Quem deve pedir perdão sou eu por destruir uma formosa valsa. ― Estava perto da saída, apenas ficavam quatro passos para liberar-se. Mas ele não se movia. Não se separava da porta para lhe facilitar o passo. Porquê? Por acaso devia ficar de joelhos e lhe implorar que não a mortificasse mais por ter destroçado uma valsa? «OH, meu Deus! ― Pensou Anaís. ― Segue sendo o mesmo rigoroso e perfeccionista de sempre!».


― Tio Federith, não seja tão duro com a senhorita Price. Eu a obriguei a tocar embora tenha me advertido que não o fazia com destreza ― mediou a menina preocupada com a situação que a senhorita Price estava padecendo. Não era correto que a repreendessem por algo que ela tinha provocado e se sentia culpada daquilo. Federith conteve a respiração ao escutar o sobrenome. Perplexo olhou a ambas. Natalie tinha deixado de sorrir e o olhava suplicante. Talvez a pequena acreditasse que ele estava zangado pela aberração ocorrida com o piano, entretanto, seu estado de perplexidade não se devia a isso, mas sim por escutar o sobrenome daquela estranha. ― Como disse que se chama? ― Insistiu Federith procurando que seu tom de voz não mostrasse o desespero que vivia, tentando ocultar que seu coração pulsava com tanta força que estava a ponto de saltar do peito. ― É a senhorita Price, Anaís Price, não é? ― Perguntou a criatura inocentemente olhando à mulher para que esta confirmasse sua resposta. Ao não fazê-lo, ao vê-la tão petrificada, prosseguiu com a elucidação: ― Tio Federith, a senhorita Price é a dama de companhia da condessa Crowner, a convidada de Evelyn. ― Seu nome é Anaís Price? ― Soltou elevando a voz. Realizou a pergunta só para ela. Necessitava que confirmasse ou negasse as palavras da impetuosa menina, mas não lhe respondeu. A mulher seguia calada, agarrando com força o tecido de seu vestido. Federith a olhou com descaramento, sem lhe importar a presença de Natalie. Observou a esbelta figura feminina, a claridade daquele cabelo e inclusive prestou atenção à forma de suas mãos. Não, não podiam ser a mesma pessoa. Ela não era sua Anaís. Aquela mulher não tinha nada em comum com a menina que mantinha em sua lembrança. Entretanto, todo seu ser lhe gritava que estava certo, que não havia no mundo duas mulheres que tocassem de igual forma. Com uma aparente tranquilidade, ajoelhou-se em frente a Natalie e com voz doce lhe disse:


― Natalie, poderia me fazer um favor? ― Ela assentiu iludida. ― A reunião que Roger convocou terminou e eu gostaria de partir o mais cedo possível. Pode informar à senhora Cooper que me espere no hall dentro de dez minutos? ― Vai repreender-lhe? ― Inquiriu a menina preocupada. ― Não, só desejo averiguar quem a ensinou a tocar dessa maneira para não contratá-lo jamais ― respondeu tranquilo enquanto desenhava um sorriso. ― Está bem ― soprou a menina. ― farei o favor. Mas me prometa que não… ― Prometido ― afirmou Federith sem apagar o sorriso. Natalie abandonou a sala deixando-os sozinhos. Anaís tinha dado uns passos para trás esperando que, se aumentasse a distância, ele fosse consciente da inapropriada situação. Já não era um homem solteiro, estava casado e não devia comprometer sua reputação por uma tolice semelhante. Entretanto, se o homem que recordava continuava oculto sob aquele traje impecável, não a deixaria partir até que conseguisse seu objetivo e, muito a seu pesar, o propósito de Federith era averiguar quem era ela. ― Milorde… ― sussurrou suplicante. Federith se levantou, colocou suas mãos nas costas e caminhou para ela. Desejava olhá-la nos olhos, precisava vê-los e descobrir que suas suspeitas não eram certas. No mundo deviam existir milhares de mulheres com o mesmo nome e sobrenome. Entretanto, precisava esclarecer aquela dúvida, que aquela desconhecida lhe indicasse que seus pensamentos estavam errados. Porque caso contrário, se aquela mulher fosse quem acreditava que era, toda sua vida se transtornaria. ― Então… Anaís Price ― disse com tom sereno mas firme. ― Por acaso você é parente dos falecidos Kingleton? ― Não, milorde, não conheço essa família ― mentiu e após isso jogou uns passos para trás para evitar aquele cerco que tentava criar entre os dois.


― De onde você é, senhorita Price? ― Ficou parado. Não queria assustála, não pretendia que pusesse-se a correr e que fugisse como se em frente a ela se encontrasse o próprio Lúcifer. ― Milorde, não acredita que é inapropriado que permaneçamos a sós? Tentou lhe fazer entrar a razão lhe indicando que aquela intimidade entre ambos não era correta. Além disso, se continuasse perguntando, se continuasse aproximando-se, descobriria que a suspeita que rondava por sua mente era certa. Embora tivesse passado tempo, embora ela não tivesse mantido semelhança alguma com a menina que partiu de Londres uma década atrás, estava segura de que Federith encontraria algo que lhe revelasse sua verdadeira identidade. Sempre tinha sido muito observador. Ao contrário dela, ele nunca abandonava seu estado de alerta, de alarme. Por isso lhe salvou daquele impacto, daquela pedra que, com seu corpo como escudo, não a machucou. Anaís, embora estivesse num estado de nervos desmesurado, rememorou aquele momento assim como a sensação de amparo que lhe proporcionou. Mas tudo tinha mudado, já não podia salvá-la de seu passado, dos fatos realizados por um pai demente, já não era a mesma menina… ― Tem razão, senhorita Price, mas não deve preocupar-se com sua honra. Todo mundo sabe que sou incapaz de assaltar a uma mulher e muito menos depois de me casar ― disse sardônico. ― Mesmo assim, não é adequada esta situação, milorde ― alegou enquanto procurava manter-se firme. ― Está tentado evitar minhas perguntas, senhorita Price? ― Soltou levantando uma de suas sobrancelhas loiras. ― Não, senhor ― respondeu sem olhá-lo. ― Então, deixe de recusar minhas demandas e me diga quem é a pessoa que esteve perto da irmã do meu melhor amigo. Como compreenderá, meu dever é proteger aqueles a quem amo ― expôs com calma.


― Se deseja saber quem sou, é só perguntar à mulher a quem sirvo, milorde. A condessa viúva de Crowner lhe oferecerá toda a informação que deseje a respeito ― se defendeu. ― Tem razão, senhorita Price ― disse enquanto desenhava um enorme sorriso em seu rosto. ― Mas muito me temo que sou um homem muito impaciente e acredito que sua senhora tem outras coisas mais interessantes que apaziguar as inquietações de um homem casado. Além disso, poderia suspeitar, erroneamente é claro, que minhas pretensões com você abrangem algo mais que averiguar quem é a pessoa que tenho em frente a mim. ― O que deseja saber, senhor Cooper? ― Perguntou elevando por fim seu rosto e enfrentando o homem que, conforme percebia, não a deixaria partir até que respondesse suas perguntas. ― De onde é? Está segura que não conhece a família dos condes Kingleton? ― Suas palavras mal se escutaram. Seu tom soou suave, débil, apagado do instante que seus olhos se cravaram naquela íris verde. ― Sou a dama de companhia da condessa Crowner ― reafirmou endurecendo a mandíbula. ― Acredito que isso é mais que suficiente para você ― soltou antes de tomar forças e caminhar decidida para a saída. Não podia permanecer ali por mais tempo, tinha que correr e sentir-se a salvo de seus próprios desejos. Aquela arrogância, aquela forma de lhe falar, estava-a enfurecendo tanto que desejava gritar quem era na realidade e que a deixasse em paz, como tinha feito durante tanto tempo. Anaís caminhou tão rápido que, para sua desgraça, levantou mais do que o devido as pontas de seus sapatos e ficaram presos no vestido. Esticou as mãos tentando segurar-se na banqueta onde minutos antes tinha permanecido sentada com a menina, mas não conseguiu tocá-la. Antes de apoiar-se no assento, umas grandes mãos rodearam sua cintura. ― Senhorita Price, você está bem? ― Federith notou um estranho calor em suas mãos. A razão daquele aumento de temperatura não tinha nada a ver com estar sustentando o corpo da mulher, mas sim de sentir aquela figura viva nelas. Notava como sua respiração lhe acariciava as mãos e como emanava dela o


fôlego que acreditou não ter. Era real. Era ela. Devia soltá-la, devia afastá-la de seu lado e não a assustar mais, mas não, não o fez. Como ia ser capaz de afrouxar o aperto e perdê-la de novo? ― Me solte ― sussurrou a mulher abaixando ainda mais seu rosto para os fortes pulsos. Notava o fôlego de Federith em suas costas, sentia como seus dedos atravessavam o tecido de sua roupa, percebia algo que nem seu único prometido lhe provocou nos meses de cortejo, ansiedade e necessidade de permanecer assim durante o resto de sua vida.

― Anaís… ― sussurrou brandamente Cooper ― não quero te machucar. Só quero saber se é você. ― Quem milorde? Quem acredita que sou? ― Libertou-se daqueles firmes braços e se girou para ele. A distância era tão minúscula que podiam roçar seus lábios com um pequeno movimento. Anaís percebeu como o peito masculino se elevava e baixava ao compasso de uma respiração agitada e que o indiscreto cerco a deixava escutar o forte pulsar do coração. Sem saber por que, fechou os olhos e inspirou fundo. Cheirava muito bem. Aquela mescla de roupa engomada, tabaco e o perfume que, para sua desgraça era o mesmo que utilizava desde sua juventude, causaram-lhe um atordoamento tão incrível que perdeu as forças. Acreditava que o tinha esquecido, acreditava que tudo tinha ficado no passado, mas não, ali estava. Doze anos depois continuava a sentir uma atração inexplicável pelo homem que prometeu protegê-la, cuidála e que faltou à sua promessa. Desesperada, colocou as mãos sobre o peito do homem e o empurrou. ― Não volte a aproximar-se de mim, milorde ― grunhiu zangada. ― Se voltar a fazê-lo, tomarei medidas a respeito. E sem alegar nada mais, girou sobre seus pés e caminhou para a saída sem olhar para trás.


Federith continuava em estado de choque. Não sabia como confrontar tudo o que tinha acontecido num abrir e fechar de olhos. Ela estava viva, ela estava ali. Mas… por que não queria lhe dizer quem era? Possivelmente se sentia sobressaltada pela situação em que tinha retornado a Londres? Queria manter-se oculta porque era uma dama de companhia? Não, isso não era o único motivo. Tinha medo, muito. Seus olhos verdes revelaram que sentia pavor, não só por seu inapropriado cerco, não só porque ao ver como fechava os olhos ele tinha estado tentado de beijá-la. Era algo mais e estava seguro que aquele pavor se criou no passado. Com passo lento e cabisbaixo, dirigiu-se para o salão onde Roger e Spencer permaneciam encerrados. Não demorariam para sair, mas não os esperaria fora. Tinha a intenção de entrar e beber pelo menos três taças do Porto antes de sujeitar o braço da mulher que se converteu em sua esposa. ― Inoportuno… ― murmurou Caroline zangada quando saiu do salão. A pequena pirralha tinha-lhe informado que seu marido a esperava no hall para partir e embora lhe disse que lhe fizesse saber que ainda não desejava retornar ao seu lar, aquela menina de cabelo loiro insistiu na decisão de Federith. Terminou por levantar-se e despedir-se da marquesa e da condessa. Não podia ficar sentada esperando a resposta à pergunta que tinha feito à viúva. «Sente-se muito triste por não ter dado um herdeiro ao conde e encontrar-se nesta situação, não é?». Essa foi sua demanda quando falaram sobre a razão pela qual aquela jovem viúva permanecia em Londres. Mas justo quando ia ter o que desejava, foram interrompidas pelos gritos da pequena insolente. Caroline olhou por cima de seu ombro para o interior do salão. Permaneciam sentadas, tranquilas e inclusive um pouco aliviadas por sua ausência. Falavam entre cochichos, evitando que ela escutasse, da porta, a nova conversa. Tinha estado perto, muito perto de obter o que tanta gente desejava saber. Irada, decidiu esperar a aparição de seu marido sem mover-se dali. Possivelmente conseguiria afinar seu ouvido o suficiente para obter mais informação. De repente, escutou uns passos dirigirem-se para ela. Com rapidez endireitou suas costas e desenhou um leve sorriso, que aumentou ao ver que não era seu marido quem se aproximava e sim o senhor Spencer. «OH, obrigado, meu Deus!», disse para si. A sorte estava ao seu lado. É óbvio


que sim! Não tinha tido a oportunidade de saber por que a condessa não tinha dado filhos ao seu marido, mas tinha outra opção, uma que seria muito mais interessante na conversa que manteria com o resto das damas da sociedade. Quem recusaria a falar com ela sobre o primeiro encontro entre duas pessoas que não se conhecem e que se odeiam por um legado tão importante? ― Boa tarde, senhor Spencer. ― Caroline, ao perceber que o homem andava com enormes pernadas para afastar-se com rapidez do lar, freou-o com sua saudação. ― Senhora Cooper ― respondeu Leopold esticando sua mão e roçando os dedos femininos com um leve toque de seus lábios. ― Perdoe se lhe interrompo ― disse com um falso sufoco. ― Mas sabe se meu marido demorará para sair? Estou há algum tempo esperando-o aqui fora e teria gostado de permanecer um pouco mais com a marquesa e a condessa viúva de Crowner ― soltou com ironia. Leopold deu um passo para trás. Tentou que seu rosto não mostrasse o assombro das palavras daquela mulher. Ela ainda estava naquela casa e mais perto do que ansiava. Cravou seus olhos na porta ainda sem fechar como era devido para respeitar a intimidade do interior, e manteve uma pose tranquila, relaxada, enquanto respondia à mulher que tinha em frente a ele. ― Não demorará, quando saí do salão eles se dispunham a abandonar a sala ― esclareceu rapidamente. ― Se me desculpar, tenho que partir. Tenho assuntos que atender em meu negócio. Mas a intenção da mulher não era que se afastasse sem criar um encontro entre ambas as pessoas. Devia prosseguir com seu plano, então tentou dar dois passos para a saída quando, infelizmente, seus pés se entrelaçaram e perdeu o equilíbrio. Nesse momento, Spencer que continuava olhando para o interior da saleta, percebeu o tropeço da senhora Cooper e, como faria qualquer cavalheiro, equilibrou-se sobre ela para que não terminasse no chão. De maneira deliberada, Caroline estendeu uma mão para trás e empurrou a porta onde se encontravam as


mulheres. A portada e a estranha forma em que se encontraram os dois provocou que tanto Evelyn como Priscila interrompessem seu diálogo para levantar-se de seus assentos e olhar perplexas para eles. ― OH, meu Deus! Que estupidez! Obrigado, senhor Spencer, por não me deixar cair! ― Exclamou com suposta vergonha. ― Lady Cooper! O que acontece? ― Perguntou Evelyn surpreendida ao mesmo tempo que caminhava para eles. ― OH, querida! Meus pés tropeçaram e graças ao senhor Spencer não caí ao chão. Leopold soltou com rapidez a mulher, manteve a distância e ficou olhando a mulher que não desejava ver. Ela tinha os olhos cravados nele, assombrada, pasmada de o ter diante dela. Não lhe cabia dúvida de que sabia quem era, o homem que a atacou em seu jardim, que a beijou e a acariciou sem poder travar seu instinto mais primário, seu desejo. ― Encontra-se bem? ― Interessou-se a marquesa que não deixava de olhar à Priscila e ao Leopold. Estranhou ver aquele tipo de olhar. Conforme tinha falado com antecedência, ela não conhecia o sobrinho de seu falecido marido, mas aqueles olhos, aquela expressão, indicavam que não era certo. De repente duas figuras apareceram junto a eles. Roger apresentava em seu rosto o mesmo assombro que Evelyn. Entretanto, Federith evitava observar a situação ocorrida com sua esposa centrando-se no interior do salão onde só tinha permanecido uma mulher, a dama da condessa. ― O que acontece? ― Gritou Roger com uma mescla de ira e de incerteza. O rosto aturdido de sua esposa o enfureceu de maneira sobrenatural. ― Parece que a senhora Cooper tropeçou e o senhor Spencer evitou uma desafortunada queda ― indicou Evelyn com ironia. ― Caroline! ― Exclamou Federith zangado. Ao centrar-se no ocorrido descobriu que a maldade de sua esposa ia além do que


jamais teria imaginado. Rapidamente observou as duas figuras que se mantinham rígidas, presas e incapazes de afastar os olhos um do outro. Morto de vergonha, zangado pelo ato tão cruel de sua esposa, agarrou-a pelo braço e falou com Roger. ― Se não lhe importar, eu gostaria de retornar ao meu lar numa de suas carruagens, temo que minha esposa pode haver torcido um tornozelo neste desafortunado incidente. ― Ambos se olharam durante uns instantes. Sem ter que dizer nenhuma só palavra, Cooper se desculpava pela atuação inoportuna e malvada de Caroline. ― É claro, informarei ao Anderson que… ― começou a dizer enquanto colocava sua palmas nas costas e tentava manter-se sereno. ― Posso acompanhar-vos eu mesmo ― disse com tom sério Leopold. Quis deixar de observar tão descaradamente a condessa, quis dar a volta e não continuar a presenciar o assombro dela, mas era impossível fazer algo que desejasse. Tinha-a em frente, a escassos passos dele e, embora parecesse aterrador, todo seu corpo demandava aproximar-se e abraçá-la. Precisava respirar seu aroma, sua essência, o aroma de mulher e flores silvestres. Aquele repentino apetite, aquele repentino desejo, provocou em Leopold uma imensa discrepância entre o dever e o prazer. Não, não podia deixar-se levar por algo tão efêmero, tão absurdo, tão inaudito. Embora o marquês lhe tivesse devotado uma boa alternativa para que o propósito de jogá-la de Longher desaparecesse, tinha nascido outra razão pela qual devia manter-se afastado dela, a necessidade de tê-la ao seu lado. ― Não quero lhe causar incômodo algum… ― comentou Caroline mantendo aquela falsa inocência. ― Não será nenhum incômodo, senhora Cooper ― afirmou tenso. ― Obrigado, senhor Spencer, por sua oferta, será bom retornar ao nosso lar para averiguar o alcance deste tropeço ― assinalou Federith visivelmente zangado.


Apertou com mais força o braço de Caroline, despediu-se das mulheres e de seu amigo e sem poder dar um último olhar em Anaís, que continuava paralisada no meio da saleta, caminhou para a saída. Roger esperou que Leopold andasse atrás deles, que se afastasse, mas ficou parado uns instantes. Observou como aquele titã voltava a esticar seus tendões, aumentar seus músculos até querer fazer em farrapos o traje que vestia. Parecia consternado e muito mais zangado do que quando apareceu na reunião. Mas após contemplá-lo com mais detalhe descobriu que não era zanga o que sentia e sim asfixia. Aquele imenso homem se sentia atordoado perante a presença da condessa. Seus olhos se enegreceram e brilhavam muito mais que as estrelas do céu. A mandíbula, oculta sob uma escura barba descuidada, estava tensa. Com discrição observou o pequeno corpo da mulher e o que viu o deixou sem fôlego. Não, não podia ser. Eles não se conheciam para reagir daquele modo, entretanto, faziam-no. Mal tinham saído os Cooper quando Spencer se decidiu a atuar com correção. Estendeu a mão para Roger e, depois de um forte apertão, olhou às senhoras. ― Boa tarde ― comentou com aparente tranquilidade. ― Milorde ― respondeu Evelyn.

Os marqueses esperaram que a condessa procedesse da mesma maneira, mas não foi assim. Seguia rígida, assombrada e perdida em seus pensamentos. Evelyn terminou por lhe pegar pelo braço para fazê-la retornar à saleta, embora não percebera o olhar que trocaram aqueles dois antes que Leopold abandonasse a casa. É óbvio, Roger sim o percebeu e após desenhar um pequeno sorriso em seu rosto, girou-se sobre seus calcanhares e retornou ao salão do meio. «Agora entendo sua ira – pensou. ― Não é fácil admitir que a mulher a quem deveria odiar provoca em ti um sentimento muito diferente do que deseja». E após fechar a porta, sentou-se em sua poltrona e tomou o resto de licor que tinha deixado em seu copo antes do alvoroço.


XIV Anaís, depois de recuperar o fôlego quando Federith partiu, caminhou para Priscila uma vez que acedeu ao salão. Seu dever era auxiliá-la, conseguir que diminuísse o sufoco que lhe tinha produzido aquela situação. Culpava-se de não ter insistido em que rejeitasse o convite, posto que a moça nunca se viu envolta em circunstâncias parecidas. Jamais tinha presenciado tanta fúria ou raiva num grupo de pessoas, sempre se manteve afastada de conflitos que não lhe correspondiam. Entretanto, enquanto aferrava a mão de sua senhora para conduzi-la até a poltrona, Anaís começou a meditar sobre as possíveis razões daquele sufoco. Era inaudito que sentisse tanta empatia pelos anfitriões e que atuasse dessa maneira. Procurou rememorar a situação, uma mulher agarrada pela cintura por um homem que não era seu marido, o desespero dos marqueses e Federith observando com cautela a cena. Não havia nada que justificasse seu atordoamento, mas notava como lhe tremiam as mãos e seu rosto empalidecia, e não lhe pareceu coerente que exibisse a atitude de uma menina assustada. ― Deseja um copo de água, senhora? ― Perguntou tentando fazêla despertar daquele estranho transe. Priscila assentiu devagar, como se lhe custasse mover a cabeça para afirmar. ― Acredito que será melhor que lhe tragam uma infusão de tília ― comentou a marquesa enquanto se sentava junto à condessa. ― Não quero que se incomode ― disse Priscila sem deixar de olhar ao chão. ― É melhor um copo de água. ― Não é nenhum incômodo, querida. Além disso, eu também preciso me tranquilizar depois do ocorrido. Anaís as olhou desconcertada. Continuava sem saber o que estava acontecendo. O que teria acontecido em sua ausência? Então um tremor semelhante ao da condessa percorreu seu corpo. Ela também precisava acalmar a inquietação que lhe provocou ver Federith e que, para sua desgraça, reconheceu-a. Acreditava que suas mudanças físicas e o passar do tempo fariam com que se esquecesse


dela, mas não foi assim. Ele a tinha chamado com familiaridade, tinha sussurrado com a mesma calidez que antigamente dizia seu nome e, para seu padecer, causou-lhe um efeito tão sedativo como aterrador. Entre as suas reflexões escutou a voz da marquesa. ― Sinto muito… ― murmurou Evelyn acariciando as mãos agitadas da condessa. ― Prometo que em nenhum momento quis que isto ocorresse. ― O que aconteceu? Por que todo mundo se alterou por um tropeção? ― Aventurou-se a perguntar Anaís que se retirara uns escassos passos das senhoras e as olhava ansiosa. ― Temo que uma desgraça ― respondeu Evelyn com tristeza. ― Senhora? ― Perguntou a moça tentando escutar a razão pela qual se sentia tão desconcertada. ― Não aconteceu nada ― disse enfim Priscila. Levantou o rosto para sua dama e desenhou um pequeno sorriso. ― Juro-lhe que meu marido me prometeu que não se encontrariam ― começou a dizer a marquesa. ― Me prometeu que nenhum de vocês se veriam. Ante a confissão de Evelyn, Priscila se moveu para ela e abriu os olhos como pratos. O que sabia aquela mulher sobre o encontro que tinha tido com aquele homem? Por acaso todo mundo já tinha descoberto que tinha sido atada, beijada e acariciada pelo estranho? ― Explique-se ― disse a condessa na expectativa. ― De maneira fortuita, ― falou Evelyn após soprar ― meu marido tinha uma reunião com lorde Cooper e lorde Spencer. Não sabia que eles apareceriam em nosso lar até que me resultou impossível avisá-la de tal encontro. ― Prossiga ― a animou Priscila com uma aparente calma. ― Como bem sabe, o senhor Spencer possui a tipografia a que fez referência a


costureira da loja desta manhã e meu marido queria lhe oferecer um negócio. ― Evelyn tomou ar e observou a moça. Parecia ansiosa por saber o que estava tentando dizer. Entretanto, duvidava de que o que ia contar-lhe fosse o que esperava posto que, se não recordava mal, durante a conversação indicou que não conhecia o sobrinho do conde. Embora aquela maneira de se olharem, aquela tensão que ambos mantiveram, advertia-a que as palavras da mulher não eram certas. ― Em sua defesa, alegarei que não conhecia nada sobre o convite nem tampouco sua aceitação a visitar meu lar. Mas já sabe como ficam os homens teimosos em relação a assuntos de negócios e por mais que tenha repreendido a sua inoportuna decisão, ele, como cavalheiro, não podia adiar essa reunião tão importante. Anaís se sentou inadequadamente, seu instinto feminino lhe gritava a verdadeira razão daquela explicação. O senhor Spencer, o cavalheiro que ficou petrificado ao ver sua senhora sair do salão, era o sobrinho do conde. Mas, embora fosse assim, que razão teria Priscila para alterar-se daquela forma? Ela não o conhecia, ela não sabia quem era o parente de seu falecido marido então… por que sentiu aquele mal-estar? ― Acreditei que manteria sua palavra e penso que teria cumprido sua promessa se a senhora Cooper não tivesse aquele inoportuno tropeço ― expôs com ironia. ― Não sei como compensála, Priscila. Não sei como fazer com que sua inquietação desapareça depois de conhecer o sobrinho de seu falecido marido. Priscila deixou de respirar, inclusive notou que seu coração se paralisava. Não dava crédito ao que afirmava a marquesa. Não. Não era certo. Aquele homem não podia ser o futuro conde Crowner. De repente, sua cabeça se encheu de dúvidas e de respostas dolorosas. Começou a sentir-se enjoada e tudo ao seu redor começou a dar voltas. Aquele homem a tinha atacado no seu jardim para assustá-la, para evitar que ficasse com a residência. Era malvado. Um ser sem escrúpulos. De repente fechou os olhos tentando evocar aquele momento, tentando descobrir


em que instante ele a quis prejudicar, mas não achou nada salvo calidez, ternura e suavidade. ― Priscila? Fale comigo, por favor! ― Exclamou Evelyn enquanto acariciava a mão da desfalecida moça. Anaís correu para seu lado e ficou sem fala ao ver sua senhora desmaiada. ― Pelo amor de Deus, milady! ― Exclamou ao mesmo tempo em que fazia ar com um guardanapo que encontrou na mesa. ― Desperte! Nesse instante, entrou Wanda com o bule de água quente e os raminhos de tília. Ao ver tal cenário, colocou os utensílios sobre a cômoda que havia na entrada e correu para as mulheres. ― Desmaiou! ― Disse Evelyn angustiada. Sem pensar duas vezes, a donzela pegou o guardanapo com o qual Anaís abanava sua senhora, retornou para o lugar onde tinha o bule e colocou o objeto em seu interior. Uma vez impregnada em água quente, retornou para a condessa e sem pensar duas vezes o colocou no rosto. ― Está louca! ― Gritou Anaís. ― Pode queimá-la! Wanda não replicou. Deixou pousado o pano úmido até que o calor provocou um tom rosado nas bochechas da condessa. Quando apartou o pano, os olhos da jovem estavam abertos. ― Bem-vinda ― disse satisfeita por seu ato. Olhou com desdém a Anaís e, sem poder apagar o sorriso de seu rosto, decidiu não enfrentar aquela mulher. Preferiu as deixar sozinhas. Embora, como era de esperar, escutaria atrás da porta. ― Encontra-se melhor? ― Perguntou Evelyn. A condessa viúva tentou levantarse, mas ela evitou que o fizesse. ― Descanse um pouco. Deve recompor-se do desmaio.


― Informarei ao cocheiro que nos espere na entrada ― falou Anaís com determinação. ― Tenho que levá-la para casa o mais cedo possível. ― Espera… ― murmurou Priscila em voz baixa. ― Milady? ― Perguntou arqueando as loiras sobrancelhas. ― Antes de partir preciso falar com a marquesa ― comentou enquanto começava a levantar as costas. ― Não acredito que seja… ― Deixe-nos sozinhas, Anaís. Após falar com ela retornaremos a Longher ― disse mostrando em cada palavra algo mais de firmeza. ― Como desejar ― soltou a contragosto a jovem que, depois de fazer uma leve reverência, saiu da saleta. Evelyn a olhou com tristeza. Tinha sido uma incauta por revelar quem era o senhor Spencer, mas tinha dado por certo que a moça sabia pela maneira em que se olharam e a tensão que mostraram ao estar um ao lado do outro porque, se não era esse o motivo daquele alterado encontro, o que seria? ― Quero lhe perguntar algo ― começou a dizer Priscila enquanto olhava a mulher sem piscar. ― Pode me perguntar o que quiser, Priscila. ― Bem. Como terá podido perceber, não tinha conhecimento de que o senhor Spencer era… é o sobrinho do meu falecido marido -expôs evitando não mostrar dor, uma muito semelhante ao que podia sentir uma mulher com o coração quebrado. Porque assim estava nesse momento. Não só traída, não só humilhada, mas também doída por perceber que aquele homem só queria assustá-la para obter a segunda parte que lhe correspondia por converter-se no futuro conde. ― Sinto muito, de verdade que… ― tentou desculpar-se de novo.


― Por favor, não quero mais desculpas. Cedo ou tarde o encontro entre esse cavalheiro e eu seria inevitável, embora para ser sincera me alegro que tenha acontecido em sua presença. Penso que você é uma mulher bondosa e clara posto que, caso contrário, não me teria informado da verdadeira

identidade desse cavalheiro. ― Tenho que lhe dizer que depois de apreciar como o observava e a perturbação que suscitou sua presença em você, deduzi que já conhecia o senhor Spencer ― expôs enquanto se sentava ao seu lado. ― Sua conjetura é certa. Conhecia esse homem, mas por outro motivo ― disse sem poder conter o rubor. ― Entretanto, eu gostaria de esclarecer a razão pela qual o senhor Spencer e eu nos vimos noutro momento. Se você me prometer que esta conversa não sairá daqui. ― OH, por Deus! Claro que não sairá daqui! Face ao que acaba de viver, sou uma mulher… ― começou a alegar. ― Só quero uma amiga, Evelyn. Uma que me ajude a responder à pergunta que não consigo entender. Talvez você creia que devido à minha vida matrimonial tenho muita experiência em temas de cavalheiros, mas não é assim. Sou bastante inepta nisso. Embora depois de hoje, aprendi que os homens não são o que desejam aparentar, que sob um rosto afável escondem a malícia de um monstro. ― Priscila, pode confiar em mim e lhe prometo que farei tudo o que estiver ao meu alcance para ajudá-la. Seja o que for ― sentenciou Evelyn antes de lhe segurar as mãos e as apertar com força. ― À tipografia! ― Gritou à viva voz Leopold ao seu cocheiro quando os Cooper desceram da carruagem. Sem sequer pensar em oferecer ajuda ao casal, Spencer jogou a cabeça sobre o almofadão não sem antes golpeá-lo várias vezes. Tinha acontecido a maior catástrofe de sua vida e não sabia como remediá-la. Tentou relaxar-se meditando sobre o contrato com o marquês, sobre a nova forma de investimento, embora


não conseguisse tranquilizar-se absolutamente. Continuava vendo-a em frente a ele, assustada por sua presença, por descobrir que o homem que a atacou se encontrava a escassos passos dela. Leopold apertou seus punhos com tanta força que deixaram de ter aquela cor rosada para converter-se em branco. Estava tão confuso, tão destroçado, que o único que desejava era aparecer no clube e meter-se em alguma briga. Sim, precisava eliminar sua ira à base de golpes, de atirar todos os murros que pudesse a um competidor e que este lhe propiciasse o suficiente para relaxá-lo. Mas temia muito que esse confronto não o libertaria daquele estado de mal-estar, de tristeza, de aflição. Ela o tinha olhado com medo, com um exagerado pavor. Acrescentando, é óbvio, a inoportuna visão que lhe ofereceu enquanto agarrava a senhora Cooper pela cintura. Teria pensado que era um depravado, um homem acostumado a atacar as mulheres que se cruzassem em seu caminho? Por isso percebeu ira em seus olhos, por isso ficou tensa, imóvel ao vê-lo? Leopold gritou com força e seu grito fez com que a carruagem parasse imediatamente. Ao perceber que o cocheiro descia, tirou a cabeça pelo guichê e vociferou que continuasse. O criado, desconcertado e assustado pela atitude de seu senhor, retornou ao seu assento e prosseguiu. Leopold estava muito agitado para ir à tipografia. Ficaria a gritar com qualquer um que ficasse diante dele. Resignado, golpeou três vezes o teto do carro, mas o condutor não parou. Tentou-o de novo, esperançado que compreendesse que naquele momento sim

desejava que parasse. ― Milorde? ― Perguntou o homem de seu assento.


― Dirija-se ao Reform ― comentou com um tom menos irado. ― É claro, senhor. E tal como lhe tinha indicado, mudaram de rumo. Embora não fosse um homem que afogasse suas mágoas em álcool, essa noite faria uma exceção. Talvez até conseguiria ficar tão ébrio que terminaria dormindo na cama de alguma prostituta do bordel da senhora Johnson, e finalizaria aquele tempo de celibato que se impôs para não se deixar levar pelos prazeres carnais deixando de lado seu verdadeiro objetivo: converter-se num homem de sustento. ― Agora te dói o outro pé? ― Perguntou Federith após observar que sua esposa tinha mudado a claudicação. ― Acreditei que tinha torcido o direito ― disse com sarcasmo. ― Doem-me ambos ― comentou Caroline zangada. ― Já vejo… Sem soltá-la, chegaram até à porta da casa. Depois de serem recebidos pelo mordomo, Cooper decidiu afastar-se de Caroline para poder relaxar aquele estado de nervosismo que lhe tinha produzido descobrir que Anaís estava viva. Ela não havia falecido como lhe tinham feito acreditar e, para sua sorte, estava em Londres. Sem dúvida era a notícia mais importante de sua vida. Agora nada lhe impediria de saber onde tinha permanecido, o que lhe tinha acontecido para ocultar-se de todo aquele que a procurava e por que tentava resguardar sua verdadeira identidade à única pessoa que ansiava ajudá-la. ― Não vai acompanhar-me até meu dormitório? ― A demanda de Caroline deixou-o imóvel. Olhou-a por cima do ombro e observou que ela se encontrava disposta a suportar sua companhia. Mas ele não podia aceitar aquela proposta. Não ia deixar que seu propósito, o único que ansiava obter depois de tanto tempo, fosse abandonado por meter-se nos lençóis de uma mulher tão cruel e falsa. ― Esta noite não. Preciso repassar certos documentos antes da alvorada – desculpou-se enquanto caminhava para o escritório.


― Mas pode fazê-lo depois de me acompanhar. Prometo-te que não te entreterei muito… ― comentou com um tom tão carinhoso que Federith desejou vomitar. ― Noutro momento, Caroline ― pronunciou ao mesmo tempo que fechava a porta. Zangada por sua rejeição, subiu as escadas com raiva. Não podia acreditar que recusasse sua presença. Embora não fosse se dar por vencida. Uma noite, só uma em cada mês o utilizava para o caso de voltar a ficar grávida de Graves. A única ocasião que Eric lhe permitia entregar-se ao seu marido pelo bem da relação posto que, se voltasse a ficar grávida e não consumava a união matrimonial durante aquele período, Federith suspeitaria sobre a fidelidade dela e não estava disposta a afastar-se de seu amado por uns minutos de tortura. Com o cenho franzido sentenciou que, embora ele tentasse evitála, terminaria cedendo. Que homem a rejeitaria se aparecesse nua em seu quarto? Com um sorriso no rosto, Caroline subiu as escadas e pediu que lhe preparassem um banho. Devia levar a cabo seu plano e nada nem ninguém a impediria. Duas horas mais tarde, quando o silêncio reinava no lar, a senhora Cooper colocou uma bata de seda e, depois de averiguar que seu marido não estava na habitação, desceu as

escadas para dirigir-se ao salão onde devia permanecer. Entretanto, ficou desconcertada quando ali tampouco o encontrou. ― Onde está? ― perguntou ao mordomo quando o viu aparecer no corredor com a intenção de dirigir-se à cozinha. ― Senhora? ― Perguntou o criado morto de vergonha ante a inapropriada vestimenta da senhora. ― Meu marido, onde está? ― Insistiu irada.


― Saiu, milady ― respondeu abaixando a cabeça. ― Quando? Para onde? ― A ira se refletia em suas bochechas. ― Momentos depois de subir você ao seu quarto, senhora ― disse antes de esperar o tempo prudencial para que ela dissesse se necessitava de seu serviço. Ao não o fazer, nem ordenar nada, caminhou com rapidez para a cozinha. Não desejava que qualquer dos empregados do senhor o descobrisse numa situação tão sobressaltada. ― Bastardo malnascido! ― Exclamou Caroline enquanto retornava à sua habitação. XV Anaís esperava que, depois da disputa e da inquietação de sua senhora, esta decidisse retornar a Longher o mais cedo possível, mas errou em sua hipótese. Depois de manter uma intensa conversa com a marquesa, a condessa a chamou para lhe informar que tinha aceito ficar o resto da tarde com os anfitriões e que ela podia lhes acompanhar para jantar. A princípio lutou para fazê-la mudar de opinião com toda a verborreia possível, mas não serviu de nada. Priscila foi teimosa em sua decisão e até utilizou a chantagem emocional, algo que deixou Anaís sem palavras. Quando escutou da boca da mulher que assistia, que ela mesma não tinha deixado de lhe dizer que devia encontrar uma amiga com a qual manter uma boa amizade, com quem poder trocar confidências, e que por fim a tinha encontrado, quis retroceder no tempo e morder a língua. Tinha razão. Durante seus anos de serviço e ao vê-la tão sozinha, insistiu em que devia achar uma mulher amável para poder viver o apego, o apoio e a simpatia que podia oferecer uma boa amizade, mas não queria que começasse a pôr em prática seus conselhos nesse momento, tinha urgência em retornar ao lar para averiguar a causa daquele desmaio. Por mais que Priscila lhe dissesse que o sufoco se devesse ao nervosismo que padeceu ao interpretar mal a cena que encontrou na porta, posto que acreditou que eram dois amantes escondendo-se do marido, sabia que mentia. Cada vez que ela tentava ocultar a verdade, pelo motivo que fosse, Priscila tocava o lóbulo direito e acariciava com suavidade o brinco. E foi isso que fez. Ali, em frente a ela, enquanto lhe falava do sufoco que foi ver padecer a esposa ao encontrar-se


em tal situação, Priscila subiu a mão e fez o gesto sem se perceber disso. A senhorita Price se manteve calada e evitou que sua senhora não notasse que reconhecia a mentira nas suas palavras. Se ela preferia manter oculto o verdadeiro motivo pelo qual padeceu o desgosto, teria suas razões. Resignada por permanecer umas horas mais naquele lugar, começou a caminhar pelo comprido corredor que conduzia para a cozinha. Aceitava a contragosto que a condessa jantasse com os marqueses, mas ela se manteria afastada. Não devia exibir-se em público, precisava resguardar-se de todos os olhares que pudessem prejudicá-la, e evitar a presença da única pessoa que conhecia sua identidade era primordial. Enquanto percorria com lentidão a galeria, observou com supremo cuidado tudo aquilo que encontrava ao seu redor. Desde sua chegada tinha estado tão preocupada com o estado da condessa e em evitar outro encontro com Federith, que não tinha prestado atenção à residência dos Riderland. Qualquer pessoa acomodada a um título aristocrático como o de marquês devia exibir no interior de sua casa aquela riqueza e poder social, entretanto, não estava contemplando nada do que supunha habitual. Não era próprio que uns marqueses mal utilizassem móveis, ornamentos ou equipamento pouco ostentosos. O habitual na mansão de uma família com tal título era que tudo o que alcançasse sua vista mostrasse o poder aquisitivo que possuía, mas nada do que contemplava tinha um grande valor econômico. Dos quadros que cobriam as paredes rosadas, os vasos transbordantes de flores apanhadas do jardim, os tapetes colocados sob os móveis de mogno, onde não podiam ser sujos pelas pegadas, e inclusive as cortinas que cobriam as janelas eram muito singelas para uns marqueses.


Anaís rememorou a ostentação que apresentava a casa em que viveu durante sua infância. Sua mãe, desde que se casou, procurou adquirir tudo aquilo que podia sugerir riqueza nos Kingleton. Até decidiu expor uma figura com silhueta de mulher no salão principal. Como era de imaginar, aquele modelo de madeira não estava nu, mas sim usava o tesouro mais prezado dos Kingleton: o vestido que a avó de seu pai tinha vestido na cerimônia matrimonial. Um precioso enxoval de seda branca comprada na França. Anaís só recordava os bordados desse vestido. Para uma menina pequena não eram mais que desenhos de cor dourada, mas para aqueles que já tinham um pouco de maturidade percebiam que o fio entrelaçado estava banhado em ouro. Sim, sua bisavó tinha usado um vestido de noiva bordado nesse precioso metal. É óbvio, a pomposidade dos Kingleton era imensa e por esse motivo acrescentaram ao manequim as jóias que a primeira condessa usou nas bodas. Os olhos de Anaís se escureceram ao evocar o dia que aquele tesouro desapareceu de seu lar. Sua mãe sofreu um desmaio e seu pai clamou ao céu palavras que uma menina tão pequena não deveria escutar. Conforme alegaram, tinha sido roubado, embora muito se temia que a verdade não era essa, mas sim que seu pai o empenhara para pagar qualquer dívida que lhe reclamavam. Com a tristeza do primeiro momento no qual sua vida começou a destruir-se, prosseguiu avançando pelo corredor. Chegou à porta do salão musical. Olhou-a com temor, com certo receio inclusive. Ali tinha permanecido Federith escutando a peça até que decidiu intervir. Tinha aguentado estoicamente a destruição de sua amada obra de Chopin. Anaís apertou os punhos e continuou o passo. A lembrança daquele homem voltava a inquietá-la, ou talvez aquele estado de desassossego se devia a como reagiu seu corpo ante a presença dele. Por um instante, tão só por um milésimo de segundo, ter-lhe-ia encantado manter-se mais tempo sustentada em seus fortes braços e deixar que o conforto que estes lhe proporcionavam continuasse pelo resto de sua vida. Mas devia manter-se firme e evitar outro encontro furtivo com ele. Porque o que foi no passado nada tinha que ver com o que era no presente. Para trás ficou a menina que necessitava da força da mão de Federith para enfrentar seus medos. Converteu-se numa mulher forte, lutadora, mas também atormentada pelo fato mais cruel que podia realizar o ser


humano: torcer vidas. Não, não podia permitir que alguém descobrisse no que se converteu aquela inocente menina… Estava a ponto de dar a volta para dirigir-se à cozinha quando uma formosa luz do exterior captou sua atenção. Avançou o suficiente para ficar em frente às janelas e olhar para o céu. Ainda não tinham deslocado as cortinas daquela zona da residência e o brilho da lua provocava a falsa ilusão óptica de que ainda perdurava o dia. Caminhou tão silenciosa para a janela que mal se escutaram seus passos. Colocou-se em frente ao cristal e vislumbrou a paisagem exterior, interessando-se nas montanhas, nas árvores, no jardim e no pequeno balcão pelo qual se acedia a ele pela última janela do corredor. Anaís olhou para ambos os lados esperando encontrar alguém que a detivesse, mas os risos que escutava dos criados da casa indicaram que estavam mais ocupados em alimentar seus estômagos que em descobrir onde se localizava a dama de companhia da convidada. Não ponderou por mais tempo sua decisão, avançou rápida para a janela, situouse em frente aos três metros de cristal, elevou a mão para o ferrolho e, apesar do estrondo da oxidada fechadura o esforço que realizou para desencaixá-la abriu-a. A suave brisa que corria, as figuras que desenhavam as nuvens no céu e aquela luminosidade que lhe oferecia uma visão tão íntima do lugar no qual se encontrava causaram em Anaís uma sensação de liberdade que não sentia há muito tempo. Como podia definir com uma palavra o que sentiu ao dar o primeiro passo para o exterior? A pressão, a angústia vivida durante tantos anos, desapareceu como por arte de magia. Tinha tido saudades Londres, tinha tido saudades daquela umidade, daquele frio que impregnava até alcançar os ossos e a paisagem que, embora para alguns resultasse sombrio, para ela era maravilhoso. Fechou os seus olhos deixando que os pelos de seu corpo se arrepiassem ante a carícia do ligeiro vento. E então aconteceu algo que tinha evitado com todas as suas forças. A sua mente lhe ofereceu um sem-fim de imagens nas quais se encontrava feliz, alegre. Brincava a correr pelos arredores de seu lar com liberdade. Saltava muros, subia árvores e caminhava descalça pela erva. Seu cabelo sempre dançava ao compasso do vento, por isso, quando trotava livre


pelos arredores de seu lar devia tomar cuidado de não enredar o vestido entre as pernas, se é que aquela noite não tinha decidido escapar em camisola. Qualquer jovem teria se envergonhado por realizar tais façanhas, mas ela não. Ela se sentia muito bem para reprovar aquele inapropriado comportamento. De repente abriu os olhos, desejando fazer desaparecer aquelas felizes representações, aquele maravilhoso passado. Mas sua mente não obedeceu a esse mandato. Como se se tratasse de um filme, as imagens nas que se via rindo, gargalhando ou inclusive chorando de felicidade não tinham fim. Então o viu. Ali, ao seu lado, lhe agarrando uma de suas mãos, acompanhando-a em cada momento inesquecível, lá estava o moço de olhos azuis e de cabelo dourado. ― OH, meu Deus! ― Exclamou ao sentir-se igual a Pandora quando abriu a caixa que devia manter fechada. Aturdida, caminhou com estupidez para o corrimão de pedra que tentava alertar do perigo a todo aquele que rondasse no balcão. Colocou suas mãos sobre a balaustrada estendendo seus braços e colocou a cabeça entre eles para apaziguar o sem-fim de espasmos a que lhe submeteu seu corpo. Aquelas lembranças, aquela felicidade, estavam lhe causando no presente um incrível desejo de tirar de seu estômago o pouco que tinha ingerido essa mesma tarde. Já não sentia alívio com o ar que intumescia seu corpo, nem queria olhar o resplendor daquela lua que aparecia depois da montanha. Desejou fechar os olhos e que ao abri-los nunca tivesse nascido. Que seu pai

jamais tivesse conhecido sua mãe, que nunca se encontrassem, nem que pactuassem seu matrimónio. Entretanto, nada disso podia cumprir-se. Se ela ansiava terminar com tudo, se de verdade necessitava que sua existência finalizasse, teria que fazêlo ela mesma. Levantou a cabeça e deixou as mãos trementes estendidas para o horizonte. Parecia uma sonâmbula caminhando para frente. Notou como a pedra tocava sua


cintura, como pressionava seu estômago. Se tão segura estava disso, se tão firme era sua decisão, que melhor lugar para terminar com sua vida que na cidade onde fora feliz. Anaís fechou os olhos, respirou e… ― Se está pensando em voar, sinto lhe anunciar que não o conseguirá. O ser humano não possui asas e, conforme tenho entendido, são indispensáveis para realizar um ato de tal magnitude. ― A voz de um homem que se escondia entre as sombras fez com que ela parasse no ato. Anaís não teve que dar a volta para averiguar quem era a pessoa que estava a seu lado. Aquela forma de falar, aquele tom aristocrático, só podia pertencer a um homem, Federith. Quando fechou a porta do salão onde pretendia pensar no ocorrido descobriu surpreso que não ansiava resguardar-se entre quatro paredes, mas sim desejava voltar para casa dos Riderland e averiguar se sua conclusão era certa. Por mais que a mulher se esquivava em afirmar sua identidade, por mais que tentasse afastar-se dele para que não a descobrisse, ele sabia quem era na realidade. Entretanto, aquela insistência em ocultar-se causou um desconcerto que, embora não fosse oportuno dada sua situação familiar, devia acalmar. Tinham passado muitos anos, muitos possivelmente. Mas ela tinha retornado. Por sorte, por uma vez na sua vida, o destino lhe tinha premiado. Depois de beber sua quinta taça de xerez, levantou-se do cômodo assento e caminhou para a porta. Não podia permanecer ali por mais tempo, necessitava de respostas e a única forma de as encontrar era enfrentando a mulher que não queria vêlo. Devagar e um pouco aturdido pela embriaguez, saiu do salão para dirigir-se ao hall. Como era de esperar, seu mordomo o escutou e saiu ao seu encontro. ― Milorde? ― Vou sair. Necessito de uma capa ― disse com calma. Embora aquela paz fosse só aparente. Seu corpo estava num estado de agitação tão imenso que mal podia respirar. ― É claro, senhor ― respondeu o criado colocando o objeto em suas mãos. ― Deseja que relate à senhora Cooper de sua ausência?


― Se ela perguntar, sim. Se não o fizer, não se incomode em dar explicações ― respondeu ao mesmo tempo que atava o cordão no pescoço. ― Como desejar ― respondeu o fiel mordomo enquanto fechava a porta depois da saída de seu amo. Federith olhou para o céu. Outra vez havia lua cheia, embora as nuvens tentassem ocultá-la. Levantou-se uma suave brisa que agitou sua capa como se tratasse de uma bandeira ajustada a um mastro. Sob a escuridão da noite e vestido daquela maneira, mais que um lorde parecia um bandido a ponto de assaltar uma vítima. E assim se sentia. Ia assalta-la e não retornaria ao seu lar até que Anaís respondesse a todas as suas perguntas e, para o padecer da mulher, tinha mais de cem. Colocou as mãos sob a roupa e desceu as escadas com rapidez. A necessidade, a urgência de vê-la era tal que em vez de esperar que o cocheiro aparecesse com a carruagem, decidiu caminhar sob a tenebrosa noite. Não havia muita distância, a suficiente para meditar que razões lógicas poderia alegar quando aparecesse em Lonely Field. De repente, uma dúvida o confundiu. Estava muito seguro de que ainda permanecia lá, mas ela podia ter abandonado o lar dos Riderland para retornar à residência da condessa viúva. Federith suspirou profundamente. Encontrava-se tão aturdido, tão confuso, que era difícil determinar que direção tomar. Preso pelo pânico levou a mão para o coração. Este pulsava desmesuradamente. «Me leve ante ela – sussurrou. ― Me indique onde posso encontrála, por favor». O vento voltou a soprar. Desta vez mais forte. A capa se afastou de seu corpo marcando uma direção que ele reconheceu com rapidez. O destino não estava escrito ainda, precisava mudar muitas coisas e entre elas, tudo referente a Anaís. Um enorme sorriso se desenhou em seu rosto quando percebeu que a carruagem da condessa viúva permanecia estacionada no jardim dos marqueses. Naquele momento, justo naquele instante, Federith quis chorar de alegria. Era a primeira vez que se afastava de seu estimado raciocínio e confiava nas palavras que seu coração lhe gritava. Ela estava ali. Em algum lugar daquele edifício permanecia sua querida Anaís. Controlando a vontade de correr e golpear a porta para que Anderson lhe abrisse, subiu as escadas com sua habitual tranquilidade. A brisa


continuava movendo sua capa e era tal a insistência em retirar-se de seu corpo, que o cordão começava a asfixiálo. Amaldiçoou em silêncio a intensidade do vento e o desesperado desejo por deixá-lo sem respiração. Levou-se as mãos para o cordão para afrouxá-lo e foi nesse momento que escutou o chiado de uma janela. Federith dirigiu seus olhos para o balcão da esquerda. Surpreendeu-se de que algum criado o abrisse depois da ordem de Roger após descobrir que Logan escapava pelas noites, assim, acreditando que o jovenzinho tentava abandonar de novo a residência, dirigiu-se para ali. Não havia dúvida de que ambos os irmãos tinham o mesmo caráter. Nada lhes freava se algo lhes rondava pela cabeça e, no caso de Logan, esse algo era o bordel da senhora Johnson. Para seu décimo sexto aniversário tinha ocorrido a John a ingrata ideia de despertar ao moço o desejo pelas mulheres. O índio parecia não ter entendido que os Bennett não necessitavam desse tipo de ensinos. Seu sangue já lhes gritava onde e como deviam atuar em frente a uma mulher. Embora Riderland se gabava de dormir com uma centena de mulheres, ansiava evitar que seu irmão seguisse seus passos. Tinha a firme ideia de que, em alguma de suas escapadas, Logan terminaria preso por um ato de paixão e se arrependeria pelo resto de sua vida. Então proibiu tudo o que lhe pareceu inapropriado. Escondendo-se entre as frondosas heras que cobriam os muros da mansão, avançou até ao balcão. Seus olhos seguiam procurando a silhueta do jovem, entretanto, o que viu no exterior não era a figura de Logan e sim a de uma mulher. Surpreso ao mesmo tempo que confuso, decidiu preservar a intimidade daquela pessoa e continuar com seu propósito, mas ao ver como ela estendia suas mãos para o corrimão e colocava a cabeça entre os braços, ficou perplexo. A pessoa que se achava naquele lugar não se encontrava bem, algo terrível lhe acontecia. Mas… quem seria? Por que alguém do serviço de Roger se encontrava numa situação tão agônica? Imóvel e sem poder afastar a vista da silhueta, permaneceu oculto, espectador aos movimentos da mulher. Desejava não se mostrar, continuar camuflado entre a vegetação, mas ao ver que ela se decidia a saltar para o jardim, desistiu em seu empenho. Avançou dois passos e falou.


― Se está pensando em voar, sinto lhe anunciar que não o conseguirá. O ser humano não possui asas e, conforme tenho entendido, são indispensáveis para realizar um ato de tal magnitude. ― Seu tom, apesar de ser suave, exibia sarcasmo. Colocou-se atrás dela, observando como sua aparição a esticava. ― Não tinha pensado nisso? ― Insistiu ao perceber que a mulher não se girava para averiguar quem tinha interrompido seu desejo de saltar. ― Não tinha a intenção de voar, senhor Cooper ― disse enfim, Anaís. Faltoulhe recolher toda a força que possuía em seu aflito corpo para lhe responder com palavras. ― Senhorita Price? ― Respondeu assombrado ao mesmo tempo que aterrorizado. ― O que você faz aqui? Por que ansiava saltar? ― Continuou perguntando enquanto seus pés avançavam para ela. ― Segue errando em suas conjecturas, milorde ― alegou ao mesmo tempo em que se girava para enfrentar àquele homem. ― Meu propósito não era saltar, mas sim deixar que o vento… ― Não minta! ― Grunhiu Federith. Antes que ela decidisse sair correndo, como parecia desejar, agarrou-a pelos braços com força e a sacudiu. ― Não volte a mentir para mim! ― Milorde! ― Exclamou Anaís atônita. Seu olhar desceu para as mãos de Federith, que a agarravam com ímpeto, como se quisesse evitar que o sangue fluísse por seus membros. ― Anaís, por que quer me fazer acreditar que não é você? Por que insiste em…? ― Continuou lhe fazendo perguntas sem deixar de apertar a mandíbula. ― Está bêbado! ― Repreendeu-lhe ao inspirar o aroma a licor que desprendia o homem. Presa do pânico começou a mover-se, esforçou-se em escapar, em afastar-se dele. ― Sim, estou ― afirmou sem hesitações. ― Bebi tudo o que tive em minhas mãos para não voltar até aqui, para fazer desaparecer essa maldita ideia de te


haver encontrado, de não sentir esta felicidade ao descobrir que continua viva. ― Me solte, o suplico. Deixe que me vá… ― murmurou abaixando seu rosto. Evitando encontrar-se cara a cara com ele. ― Soltar-te-ei, Anaís. Prometo que o farei se você me falar com franqueza ― assinalou com a pouca prudência que possuía. Não recordava como o fazia sentir quando estava tão perto, nem o pouco controle que possuía ao seu lado. Anaís voltava a lhe enlouquecer, a deixá-lo num estado de atordoamento que lhe resultava impossível controlar. Apesar do tempo transcorrido entre eles, a química que desprendiam até encontrando-se zangados, brotava por cada poro de suas peles. ― O que deseja saber? ― Disse depois de tomar fôlego, de abandonar a vontade de fugir e dar-se por vencida. Para que obstinar-se numa batalha que já estava perdida? Federith nunca tinha sido um homem que se convencesse com facilidade nem tampouco se retirava ante o primeiro obstáculo que achava em seu caminho. Era determinante em seus pensamentos, se se obstinava em alcançar um objetivo lutava por obtê-lo até o final. ― Tudo ― sentenciou Federith. ― Quero saber tudo de você. Onde esteve? Como foi sua vida? Como chegou a converter-se na dama da condessa? E… ― parou por um segundo, tempo que necessitou para tomar ar e reatar o interrogatório ― por que anseia me fazer acreditar que não é a filha dos condes Kingleton? O que te aconteceu para recusar com tanto ímpeto o sobrenome da sua família? Anaís notou como seu corpo começava a debilitar-se. Afrouxaram-lhe os joelhos e as mãos permaneceram abaixadas em ambos os lados de seu corpo, sentindo-se incapaz de olhálo. Não podia responder a todas as suas interrogações e muito menos estava disposta a declarar que não desejava comentar os desastres que tinha padecido sua família. Iria condená-la. É


óbvio que o faria, como tantos outros se descobrissem que as mortes de sua avó e de sua mãe foram causadas pelo maldito bastardo que a engendrou. ― Anaís… ― sussurrou. Ao ver como ela se debatia com seus pensamentos, como lutava em seu interior, afrouxou as mãos para liberá-la. Mas em vez de afastá-la dele, Federith a reteve num abraço. ― Me diga o que aconteceu com a moça que conheci. Me diga que atrocidades padeceu até chegar até aqui. Conte-me Anaís, conte-me tudo. Prometo-te que nada do que escute sairá da minha boca. Recorda como fomos e a cumplicidade que sempre houve entre nós. Eu não mudei e estou seguro de que você tampouco. Não podia falar. Só desejava manter-se assim, sentindo o calor dele. A essência masculina, o aroma de roupa engomada, seu perfume e inclusive o aroma a licor provocaram na mulher um estado sedativo, narcótico. Não era adequado notar um bem-estar tão imenso. Devia apartá-lo, afastar-se e correr para o interior da casa. Mas aquele cerco proporcionava-lhe um conforto que não tinha tido durante anos. Para sua desgraça, para seu terrível pesar, ele era o único ser que podia consolála. Talvez por isso insistiu em evitá-lo, em que não descobrisse quem era em realidade. Ela sabia que, em seus braços, ao seu lado, perderia toda aquela força que necessitava para continuar sendo a mulher em que se convertera. ― Me fale, lhe suplico ― disse Federith enquanto colocava o queixo sobre a cabeça de Anaís e a abraçava com força. ― Preciso escutar sua voz. Preciso ouvi-la para continuar respirando – confessou. ― Não imagina o calvário que padeci durante estes anos. Procurei-te, juro-te que o fiz. Indaguei sobre sua família, sobre os possíveis lugares nos quais tinha permanecido, mas ninguém se recordava. Ninguém sabia nada de ti. Tinha desaparecido da face da Terra e todos acreditavam que estava morta ― expôs antes de suspirar. ― Todos menos eu. ― Deveria ter morrido… ― disse em voz baixa antes de romper a chorar. Depois da revelação as mãos de Cooper retornaram aos débeis braços femininos. Distanciou-a o suficiente para poder contemplar seu


rosto. As lágrimas vagavam livres pelas bochechas de Anaís, seus olhos mostravam uma descomunal tristeza e sua boca, aquela maravilhosa boca, tremia de medo. Naquele momento a ira se apoderou dele. Converteu-se num monstro. Nunca havia sentido uma raiva semelhante, sempre tinha sido um homem tão sensato que, quando contemplava esse comportamento em Roger o repreendia por não o entender. Mas agora a situação tinha trocado, agora compreendia como um homem razoável se transformava num ser desumano. Só o dano causado à pessoa amada provocava tal transtorno. Amaldiçoou o destino, o futuro e tudo o que podia ter-lhe acontecido durante todos aqueles anos. Desejou afastar-se da mulher e golpear o que encontrasse em seu caminho. Precisava descarregar sua ira e aplacar a mente. Mas em vez disso, sem deixar de sentir o tremor que lhe ocasionava o aumento de adrenalina em seu corpo, aproximou os lábios às sensíveis bochechas femininas e beijou cada lágrima que vagava pelo atormentado rosto. ― Se tivesse morrido, ― retomou sua exasperada confissão ― se meu coração me tivesse gritado em algum momento da minha vida que eu não voltaria a te ver, ambos estaríamos ocultos embaixo da terra. ― Federith… ― balbuciou a mulher assombrada pelas palavras dele. ― Anaís… meu Deus! ― Exclamou ao mesmo tempo em que a atraía para sua boca. ― Senti tanto a tua falta… sonhei milhares de vezes com este dia… Cooper pousou seus lábios trementes sobre os de sua querida Anaís. Não foi mais que um beijo casto, sem luxúria. Mas aquela amostra de ternura foi suficiente para destroçar a barreira que a mulher tinha construído durante seu passado. Como por magia todas as atrocidades vividas se apagaram de sua mente. Só conseguia encontrar os momentos felizes que viveu com o homem que lhe proporcionava o desafogo que seu corpo tinha demandado durante anos. Notou como um estranho calor surgia de suas vísceras fazendo com que recuperasse vida, fôlego e um desesperado desejo por viver. Sobressaltada, afastou lentamente sua boca da dele. Urgia-lhe ver o rosto do


homem que despertava a necessidade de seguir respirando. Mas ficou sem ar ao ver como os raios da lua iluminavam suas lágrimas. Ele também chorava, ele também mostrava sem pudor o sentimento que despertou entre eles. Seus braços, aqueles que até agora se mantiveram estendidos para o chão ascenderam devagar alcançando as maçãs do rosto masculino. Lentamente, deleitando-se naqueles leves movimentos, Anaís eliminou as gotas salinas com os polegares. ― Um cavalheiro não deveria chorar ― murmurou em voz baixa. ― Não é próprio de um homem que… Não terminou a frase, Federith pegou os pulsos da mulher, afastou-os e voltou a beijá-la, mas nesta ocasião o beijo se fez mais profundo, mais impetuoso. A língua masculina afundou em sua boca encontrando a sua, apanhando-a, capturando-a, provocando que os sabores se mesclassem naquele frenesi de ansiedade e desejo. Não cessou aquela íntima carícia até que ambos gemeram de prazer, até que seus corpos se esticaram por uma causa diferente à estranheza. ― Anaís… ― sussurrou novamente Federith. Uniu sua testa à dela. Acariciou com seu nariz o da mulher e roçou seus lábios com seu fôlego. ― Não volte a se afastar do meu lado nunca mais. Se o fizer, se depois de te encontrar decidir se afastar de mim, juro-te por minha vida que não haveria no mundo um lugar onde pudesse se esconder. ― Meu querido Fed ― murmurou a mulher. ― Não imagina quão alentadoras são suas palavras. Não houve um momento da minha vida que não o imaginasse assim, ao meu lado. Lutei contra este terrível desejo durante anos e, embora acreditei que fosse firme, depois de ver-te esta tarde descobri que não é assim. Mas tem que ser consciente de uma coisa, sua vida mudou, já não é livre e eu não sou a filha do conde que conheceu. Agora sou uma simples dama de


companhia. Uma criada, uma serva às ordens de uma boa mulher. Justo no instante que ia debater suas palavras, escutaram que alguém se aproximava. Federith se separou dela, não sem antes lhe agarrar as mãos e as beijar. Anaís se girou com rapidez para a janela, olhando de esguelha como ele se escondia entre as sombras. Tentou aplacar o agitado palpitar de seu coração e inclusive acalmar aquele estado de frenesi que ele tinha causado. Respirou fundo uma e outra vez, mas nada podia tranquilizála. Havia retornado, tinha o encontrado e seguia fazendo-a sentir-se uma mulher especial. Uma mulher que podia enfrentar o mundo inteiro sem temor. ― Senhorita Price? ― Perguntou Wanda, a donzela pessoal da marquesa. ― Sim, estou aqui ― respondeu aparecendo ao seu lado. ― Procurei-a por toda parte ― comentou zangada. ― Sua senhora decidiu partir e requer sua presença. ― Obrigada ― disse ao mesmo tempo que endireitava as costas e se dirigia para o hall. Wanda não a seguiu, permaneceu no terraço observando ao seu redor. Ao não ver nada que lhe provocasse interesse, voltouse e fechou a janela. Desta vez se assegurou de que o cadeado estivesse bem fechado. Não podia permitir que as ordens do marquês não se acatassem e se, para sua desgraça, escapasse de novo aquele vagabundo, seu posto ficaria em perigo. Quando Anaís chegou ao hall quase desmaiou ao ver que sua senhora já estava preparada para partir. Em ambos os lados se encontravam os marqueses que deixaram de olhar à condessa após sua aparição. Como era de esperar, contemplaram-na com rostos interrogantes. Perguntar-se-iam onde teria podido ocultar-se e o motivo pelo qual não se encontrava ao serviço da dama. ― Desculpem minha demora ― disse fazendo uma leve reverência. ― Me entretive num dos terraços que sua senhoria possui no final do corredor.


― Informaram-me que não acompanhou o serviço em seu jantar ― soltou Priscila preocupada. ― Não tenho fome, milady ― disse desenhando um pequeno sorriso. ― Se o desejar, senhorita Price, posso pedir à cozinheira que lhe prepare algo para o caminho ― intercedeu Evelyn tão preocupada como a condessa viúva. ― Não se incomode, juro-lhe que não tenho apetite ― reforçou sua decisão. ― Então, ― se intrometeu Roger que não afastava o olhar da recém-chegada ― se me desculparem, tenho que me retirar. Tenho documentos para verificar. Espero vê-la de novo, milady. Foi um verdadeiro prazer gozar de uma visita tão encantadora e de manter uma reunião tão animada. ― Tomou a mão da condessa e a beijou castamente. ― O mesmo digo eu, excelência ― respondeu Priscila.

Evelyn o olhou de soslaio tentando averiguar que razão tinha seu marido para as abandonar antes que as convidadas atravessassem a porta. Mas não descobriu nada que lhe indicasse o motivo pelo qual fugia daquela situação. Uma vez que Roger se afastou, girou-se para sua nova amiga e, depois de lhe agarrar as mãos, disse-lhe: ― Esperarei com ânsia sua presença em Lonely, Priscila. ― É claro que voltarei. Temos muitas coisas que falar manifestou a jovem antes de lhe dar um beijo na bochecha. Espectadora, Anaís colocou a capa e caminhou ao lado de sua senhora. Algo tinha ocorrido entre elas. Aquela forma de falarem-se, a cumplicidade que mostravam, os leves sorrisos desenhados em seus rostos, não era próprio de duas


mulheres que acabam de conhecer-se, mas sim de umas amigas que confabulavam sobre um tema íntimo. Deu um leve suspiro, um que só ela escutou. Só esperava que a marquesa não se assemelhasse à esposa de Federith, posto que aquela dama lhe tinha provocado calafrios. Aquele pensamento voltou a alterála. Tinha sido uma insensata ao deixar-se beijar por um homem casado. Embora parecesse que continuava a ser o seu Fed, ele tinha decidido unir-se a outra mulher e isso não podia ser evitado. Uma promessa de matrimónio, os votos que realizaram em frente a Deus deviam cumprir-se e se para isso devia afastar-se de Federith, faria tudo o que estivesse ao seu alcance para fazê-lo. ― Tinha razão ― comentou Priscila quando a carruagem empreendeu o trajeto de volta a Longher. ― No que, minha senhora? ― Olhou-a com os olhos entreabertos, observando cada movimento que ela realizava com cautela. ― Necessitava de uma amiga e a marquesa é, sem dúvida alguma, a pessoa idônea para esse posto ― disse antes de desenhar um sorriso que provocou em Anaís um incrível estremecimento. Roger se dirigiu ao escritório no qual manteve a reunião durante a tarde. Enquanto caminhava não cessava de rememorar a figura da senhorita Price. Estava tensa e exibia uma fragilidade estranha. Seu pálido rosto, o tremor de suas mãos e o olhar ausente lhe assinalavam que lhe tinha acontecido algo perturbador. Mas seu lar era tranquilo, ninguém podia achar-se em perigo entre os muros de Lonely. Procurando a única razão pela qual a mulher podia alterar-se, acedeu ao salão e, depois de fechar a porta, girou-se com rapidez para sua mesa. Não estava sozinho. Mais alguém se encontrava naquela habitação. ― Acaba de responder à pergunta que me perturbava enquanto caminhava até aqui ― disse com um enorme sorriso. ― Espero que a senhora Cooper não descubra seu desaparecimento, porque se for assim, logo a teremos batendo à porta ― acrescentou com zombaria. ― Desde quando sabia que Anaís era a dama de companhia da condessa? ―


Grunhiu. Sua mandíbula se apertava com tanta força que lhe causava uma grande dor. Mas mais dor lhe provocava sentir-se traído por seu amigo. Depois de conhecer sua história, depois de saber que importância tinha Anaís para ele, não entendia como não o tinha comunicado imediatamente. ― Desde esta manhã ― respondeu Bennett sem dar atenção ao aborrecimento de seu amigo. ― E suponho que não teve tempo para me mandar uma missiva e me explicar a descoberta ― disse com sarcasmo. ― Tinha a esperança de falar contigo pessoalmente antes que a encontrasse, mas já vejo que cheguei tarde ― indicou divertido. ― Embora não entendo a razão desse olhar. Parece que deseja destroçar meu belo rosto a murros. Se estivesse em sua situação tentaria me tranquilizar, além disso, não te corresponde manter essa atitude irada. ― Como quer que me comporte, Roger? ― Gritou agarrando com força o copo que tinha em sua mão direita. ― Acredita que eu deveria continuar a viver como se ela não tivesse aparecido? Crê que eu seria capaz de dar as costas à única pessoa que amei e amarei? Não, não o farei. Seria incapaz de ser tão ruim. Além disso, fiz-lhe uma promessa que devo cumprir. ― Em cada palavra foi descendendo seu tom de voz. Chegou um momento no qual nem ele mesmo se escutou. Afogado pela pressão, pelos sentimentos que lhe oprimiam o peito, bebeu todo o licor que tinha no copo. ― Se evitasse essa promessa me desapontaria. Entretanto, tenho que admitir que jamais imaginei que esse amor continuasse vivo depois de se casar ― falou com um tom tão firme que nem ele mesmo se reconhecia. Odiou nesse momento o William e o seu insistente desejo de encher o mundo com pequenos Rutland. Se o duque tivesse chegado a Londres quando pediu, teria dado a Federith um bom conselho. Entretanto, não havia ninguém mais que pudesse liberar aquela alma em pena e, depois da descoberta sobre o possível


amante de Caroline, não era a pessoa idônea para o ajudar. Zangado, caminhou para a vitrine para encher uma taça de Porto. ― Não vou abandoná-la de novo ― afirmou com veemência. ― Ela não voltará a partir do meu lado. ― Esquece uma coisa, já não é livre. Está casado e muito

temo que esse grande amor não merece que a converta em sua amante ― concretizou o marquês com firmeza. ― Por que pensa que lhe oferecerei um segundo lugar quando ela só merece o primeiro? ― Perguntou surpreso. ― Que outra opção fica, querido amigo? ― Já pensarei nisso… ― murmurou entreabrindo os olhos. Roger se dirigiu para ele para sentar-se justo na cadeira de frente. Só a mesa repleta de papéis os separava. Aquela cercania ocasionou que pudesse contemplá-lo com precisão e, para seu assombro, aquele rosto que observava não era o de seu amigo. Não distinguiu nenhum mínimo sinal de prudência, de sensatez ou de amabilidade. Transformou-se noutra pessoa e, embora parecesse impossível, por uma vez em sua vida se preocupou de como atuaria Federith quando abandonasse Lonely. XVI Tombava-se na cama, cobria-se com o lençol, sentia calor ao pensar no que iria fazer no dia seguinte e afastava o lençol, levantava-se e caminhava pela habitação. Assim Priscila passou a noite. Foi incapaz de descansar um só minuto. Estava tão nervosa e tão excitada que desejava abrir a cortina e que o amanhecer chegasse antes do tempo. Nunca tinha vivido um estado de agitação semelhante. Mas devia ser normal que uma pessoa se comportasse assim se tinha a intenção de realizar algo inapropriado e ela o iria fazer.


Sentada em frente ao espelho, contemplou sua imagem refletida. Não viu nada em comum com a mulher que era meses atrás. Tinha mudado. Seus olhos brilhavam, suas bochechas se ruborizavam com frequência e seus lábios engordaram sensualmente, como se convidassem a ser beijados. Era uma loucura sentir-se assim. Tinha que recuperar a compostura e fazer retornar a mulher que foi, mas seu interior lhe gritava que seguisse adiante posto que já era hora de viver o que tanto desejava. Aborrecida e desesperada, permaneceu no assento da penteadeira rememorando a conversa com a marquesa. Acreditou que Evelyn se horrorizaria ao lhe narrar o encontro que tinha tido àquela tarde com o senhor Spencer, mas não foi assim. Depois da última palavra, a marquesa se levantou de seu lado e caminhou devagar para o centro do salão. Não a olhava, dava-lhe as costas, como se sentisse como própria a vergonha da jovem. Entretanto, no preciso momento no qual Priscila começou a arrependerse de revelar seu segredo, girou-se para ela e apresentou um rosto repleto de fúria. ― Os homens podem ser bastante exasperantes ― comentou ao mesmo tempo que punha suas mãos na cintura. ― Nunca imaginei que o comedido lorde Spencer tentasse assustá-la desse modo tão ruim. Mereceu haver se encontrado com uma mulher tão bonita como você ― sentenciou. ― De verdade pensa que o motivo pelo qual apareceu em Longher era me assustar? ― Perguntou Priscila com tristeza. ― Alberguei a esperança de que só o interrompi quando rondava pelos arredores calculando quanto poderia obter da residência se conseguisse ficar ela. ― Poderia ser outra das razões… entretanto, penso que o principal motivo pelo qual se escondeu entre o arvoredo para assaltála era atemorizá-la para que você fugisse na manhã seguinte assinalou com firmeza. ― Então… por que atuou dessa forma? Por que me tratou com doçura? Não entendo! ― Exclamou entre soluços enquanto cobria seu rosto com as mãos.


― Eu gostaria de lhe esclarecer essa dúvida, querida, mas só poderia lhe dizer que, talvez, no momento em que a viu, tudo o que pretendia fazer se desvaneceu como a névoa. ― Aproximou-se da jovem e tentou reconfortá-la. ― Ele me tocou, beijou-me… ― continuou choramingando a desconsolada moça. ― Mas não foi rude nessas carícias nem nos beijos, não é? Conforme contou, ele não tentou forçá-la a isso ― prosseguiu em tom suave. ― Não. Não o fez ― esclareceu com rapidez. ― Entretanto, depois de meditar e de descobrir quem é em realidade, muito me temo que pretendeu me aturdir com essa amabilidade. É mais fácil enfrentar um adversário que mostra brutalidade que a um que, com cada carícia ou com cada beijo, provoca uma alteração estranha por todo o seu corpo. ― Essa alteração se chama desejo – acrescentou. ― Embora não acredito que ele imaginasse que atrás dessas carícias ambos o sentissem. Não obstante, tenho que lhe confessar que quando a olhou durante o desafortunado incidente não percebi ódio ou ira em seus olhos, mas sim surpresa e desejo ― concretizou com suavidade. ― Não entendo o que tenta me dizer… ― murmurou afastando suas mãos do rosto e observando a marquesa com interesse. ― O que tento lhe explicar é que, se estivesse em seu lugar, aproveitaria a perturbação que lhe causou para lhe fazer desistir de seu empenho. Seu objetivo era que partisse? Pois não o faça. Mude seu comportamento, mostre-se como uma mulher segura de si mesma e lute por manter a posição que merece. Depois disso, só deve deixar que o destino prossiga com aquilo que pretende fazer. ― E o que acredita que o destino nos tem proporcionado, Evelyn? Porque estou confusa. Se ele deseja que eu parta, se ele anseia minha propriedade, está segura de que me aferrar ao meu lar com unhas e dentes mudará os


pensamentos desse homem? – Perguntou na expectativa. ― Não sei com certeza, quão único posso lhe dizer é que, temo muito, que o destino tem algo preparado e será muito distinto do que imaginam… ― comentou pensativa. Depois da conversa sobre o encontro com o senhor Spencer ambas tramaram o plano que deveria cumprir nessa mesma manhã. Priscila não estava muito de acordo com a atitude que iria aparentar, nem tampouco gostava de encontrar-se cara a cara com aquele homem, mas acreditava firmemente no conselho da marquesa e se ela acreditava que era a melhor opção para que todos soubessem que não era a mulher frágil ou descarada que pensavam, não ficava outra alternativa. Voltou a olhar-se no espelho, suas bochechas se ruborizaram de novo. Cada vez que pensava naquele homem, cada vez que sua mente lhe recordava as imagens daquela tarde, seu rosto ardia com fervor. Não entendia a causa de tal excitação, nem por que seu coração se agitava ao pensar nele. Era só um monstro que se propôs tirá-la de seu caminho para conseguir ficar com a herança de Anthony. Zangada, levantou-se do assento e se dirigiu para a janela, os primeiros raios de sol apareciam atrás das montanhas, advertindo-lhe que o tempo de sua vingança estava próximo. De repente, o medo a assaltou lhe provocando um sem-fim de dúvidas. E se não conseguisse finalizar aquele plano? E se a marquesa errasse em sua premissa e sua aparição não o confundisse? Ela não estava acostumada a tirar forças e lutar contra o mundo sozinha, até agora outros o tinham feito por ela. Entretanto, precisava mudar sua vida. Era o momento idôneo para agarrar as rédeas e enfrentar ao único ser vivo que a detestava. ― Bom dia, milady. ― Anaís apareceu na habitação fazendo com que sua senhora desse um pulo. ― Sinto muito, pensei que… ― Bom dia, Anaís. Não se desculpe. Meus pensamentos me tinham transportado a um lugar muito longínquo daqui e não te escutei chegar. ― Encontra-se bem?


― Sim, por que o diz? ― Porque a noto ausente há alguns dias. Talvez o ambiente de Londres não seja o apropriado para você ― se aventurou a dizer. Lady Appelton olhou para o exterior pensativa de novo. Adorava o que tinha em frente a ela. Nunca se havia sentido tão feliz num lugar. Não, não podia partir sem mais. ― Não irei a nenhuma parte ― disse com firmeza depois de uns instantes. ― Como desejar… ― sussurrou ao mesmo tempo que caminhava por volta do vestiário para escolher as roupas que sua senhora devia usar. ― Hoje parece que a chuva nos deu uma trégua ― mudou rapidamente de tema. ― Nestes dias os londrinos saem às ruas para passear. Gostaria de caminhar depois do café da manhã? Poderíamos visitar Hyde Park, nesta época do ano está lindo. ― Pegou do cabide um vestido e, depois de observá-lo com atenção, colocou-o sobre a poltrona situada aos pés da cama. ― A verdade é que tenho muitas coisas a fazer. Talvez num outro momento visitemos Hyde Park ― declarou com indiferença. ― Entendo… ― murmurou cravando seu olhar na moça. ― Tem planos com a marquesa, milady? ― Decidiu perguntar. As criadas não tentavam averiguar os planos das pessoas a quem serviam, mas sim se mantinham na espera de suas ordens. Mas Anaís nunca foi uma donzela que se comportasse segundo os padrões estabelecidos. ― Não, hoje não. Minha presença na residência dos marqueses deve adiar-se. Decidi visitar lady Parks. Se a costureira não errou, já terá os novos padrões e preciso escolher outros modelos ― respondeu enquanto caminhava para a bacia. ― Comunicarei ao mordomo seus desejos ― declarou Anaís atenta às palavras e


aos movimentos de lady Appelton. Tinha uma intuição. Desde que se levantou e se dirigiu ao quarto da viúva, seu instinto lhe gritava que a moça ocultava algo que a perturbava e que não desejava lhe revelar. Entretanto, não se daria por vencida. Iria averiguar do que se tratava e se tal como imaginava o ar de Londres não lhe assentava bem, levá-la-ia à força para Bournemouth. ― Hoje não requererei seus serviços, Anaís ― declarou a condessa depois de um prolongado silêncio. ― Como? ― Perguntou ao acreditar que não tinha escutado bem. ― Pensei que depois de tantos anos seria justo que desfrutasse de um dia livre. Sem dúvida alguma merece isso e estou segura de que gostará de visitar lugares que viu quando menina ― expôs antes de lavar o rosto. ― Não tenho nada a fazer ― assinalou aturdida. ― E sobre o desejo de caminhar sozinha por Londres, não me parece uma ideia aceitável. Como pôde perceber ontem mesmo, todos estão à espera de seus movimentos e seria um escândalo que as pessoas a contemplassem sem uma companhia feminina ― tentou fazê-la raciocinar. ― De verdade pensa que os falatórios daqueles que não me conhecem podem evitar que eu prossiga com a minha vida? ― Perguntou desgostada. ― Não desejo fazê-la zangar-se, milady. Você sabe que é a última coisa que anseio. O que tento lhe explicar é… ― Não me importa o que opinam os outros sobre mim! ― Exclamou em voz alta. ― Tomei uma decisão e a levarei a cabo. Anaís ficou paralisada, imóvel e confusa. A mulher que tinha em frente a ela não


era a mesma que tinha cuidado durante anos. Algo lhe tinha acontecido depois da visita à marquesa. Possivelmente a influência desta não era tão boa como imaginara. Entretanto, perante um mandato assim, só podia acatar em silêncio. Embora por dentro lhe ardesse por fazêla entrar em razão, por debater aquela inapropriada ordem e fazer com que sua sensatez retornasse. ― Pode fazer o que desejar… ― disse Priscila algo mais acalmada ao observar o atordoamento que tinham causado suas palavras em Anaís. ― A única coisa que desejo, senhora, é seguir velando por seu bem-estar ― manifestou com suavidade enquanto abaixava a cabeça. ― Sempre cuidou que mim. Não houve um só dia no qual me tenha abandonado e de coração te agradeço essa fidelidade. Mas hoje preciso fazer algo por mim mesma, sem a presença de uma pessoa que controle minhas determinações. ― Senhora… ― murmurou aterrada. ― Não se assuste, não vou matar ninguém ― comentou zombadora. ― Só quero averiguar até onde posso atuar desprotegida. Você, melhor que ninguém, sabe que primeiro me custodiaram meus pais, logo o conde e depois…

― Eu ― respondeu Price. ― Só será um dia. Por acaso não me pode permitir que durante um dia descubra quem sou na realidade e até onde posso chegar? Anaís, embora não estivesse de acordo, assentiu. Era precisamente o que ela pedia. Nunca tinha podido decidir nada por si mesma e se lhe bastava um dia para averiguar qual era o alcance de seu caráter, teria que aceitá-lo. ― Me prometa que o cocheiro velará por você ― disse dando-se por vencida.


― Prometo-lhe ― soltou isso antes de caminhar até ela e abraçála com força. ― Obrigada por ser tão compreensiva, é uma mulher muito especial para mim. Quis retificar aquela afirmação, mas em vez de falar a abraçou. Era uma moça bondosa e com um enorme coração. Só esperava que ninguém lhe fizesse mal porque se o fizessem, se alguém ousasse destruir a jovem, teria que ver-se com uma criada furiosa. ― Senhor Spencer… ― murmurou Karl com cautela. Quando abriu a porta do escritório e o viu atirado no chão, acreditou que estava morto. Quem não o pensaria se encontrasse uma figura de dois metros esparramada sobre o frio mármore? Mas após aproximar-se e observar como seu estômago se movia, tranquilizou-se. Sem afastar-se de seu lado, esperando que este notasse sua presença, o empregado não parava de pensar no motivo pelo qual o sereno e prudente Leopold se transformara no insensato e irado lorde Spencer. Era certo que há dias que não abandonava o escritório. Dormia, comia e inclusive se trocava de roupa naquela pequena habitação. Entretanto, ao princípio não lhe deu muita importância. Não era a primeira vez que o fazia quando aumentava a demanda de pedidos. Mas o comportamento que apreciavam seus olhos não se devia a um excesso de encargos, mas sim por outra coisa que nem ele mesmo conseguia descobrir. Contemplou-o de novo, assombrado pela aparência que exibia: despenteado, sujo, emanava uma horrível pestilência a álcool e apresentava uma espessa barba que, ao não passar por um perito ajudante de câmara, crescia silvestre ao redor de seu másculo rosto. Karl deu vários passos para trás, suspirou e pediu auxílio a Deus. O dono de uma empresa tão próspera não podia ter aquele estado tão lamentável. Devia entrar em razão o mais cedo possível. Precisava solucionar o problema com prontidão posto que, se comentassem que o senhor Spencer se convertera numa pessoa abandonada da mão de Deus, muitos postos de trabalho estariam em perigo e, por desgraça, muitas famílias sobreviviam daquilo. Depois de suspirar e implorar ao Todo-poderoso que tivesse clemência, voltou a


sussurrar: ― Lorde Spencer, pode me ouvir? Para Leopold parecia impossível abrir os olhos. Tinha terminado a noite pior do que esperava. Depois de embebedar-se no clube, de sofrer uma ou outra briga e de ser jogado na rua como se fosse estrume de cavalo, desprezou a ideia de visitar o bordel para aplacar o apetite sexual que a pequena feiticeira lhe tinha despertado. Possivelmente os litros de licor que corriam por suas veias acalmaram aquela necessidade que emanou desde que a descobriu, desde que a beijou, desde que sentiu o fôlego daquela sensual boca na sua, desde que escutou o palpitar do coração, desde que desejou levantar-lhe o vestido para fazê-la sua naquele momento… ou talvez, a verdadeira razão pela qual decidiu não dormir ao lado de uma prostituta não fosse outra que ter a certeza de que nenhuma rameira experiente saciaria a luxúria que aquela moça lhe causava. E foi por esse motivo que se dirigiu ao seu escritório, mas como era teimoso, não o afirmaria jamais. Atordoado e com uma terrível dor de cabeça elevou a mão para que seu empregado compreendesse que, pelo menos, seguia vivo. ― Trar-lhe-ei uma xícara de café ― falou o jovem enquanto se dirigia para a saída. ― Que seja um balde ― comentou Leopold com uma voz que não reconheceu como sua. Nunca havia ido tão fundo. Nunca tinha se embriagado tanto, mas algo tinha mudado e esse algo tinha nome de uma mulher. Devagar foi levantando do chão. Teve que colocar as palmas sobre o piso e ajoelhar-se para conseguir seu objetivo. Ainda sentia o álcool percorrer suas veias dançando a dança do triunfo. Depois de conseguir erguer seu imenso corpo, posicionou as mãos em ambos os lados de sua cabeça para aplacar o vaivém que padecia. Tudo lhe dava voltas, nada ante ele ficava imóvel. Zangado por não poder controlar seu péssimo estado, perambulou até chegar à poltrona. Ali era onde pretendia chegar quando apareceu no escritório de madrugada. Se o tivesse alcançado, Karl deduziria que voltou a ficar outra noite trabalhando, algo normal em períodos de auge trabalhista, mas como não conseguiu dar mais


de dois passos, o empregado o descobriu da pior maneira possível, atirado no chão e semiconsciente. ― O café ― anunciou Karl elevando um pouco mais a voz do que o necessário. ― Não grite, bastardo ― soltou Leopold apertando com força sua cabeça. ― Por acaso não se deu conta de como me encontro? ― É óbvio, milorde. Fui consciente de sua situação no preciso instante em que o vi estendido no chão ― respondeu com sarcasmo. ― Pois tenha piedade, bastardo. Onde está esse café? ― Grunhiu estendendo uma mão para que lhe aproximasse a xícara. ― Uma má noite? ― Perguntou enquanto lhe aproximava o copo. ― Não recordo se foi uma noite ou foram várias, mas sim, foi desastrosa ― comentou antes de dar o primeiro sorvo. ― Pois tenho que lhe avisar que temos muito trabalho e que se requer sua presença no armazém ― indicou com certo receio. ― Para quê? ― Balbuciou sem olhá-lo. ― Três dos empregados que se dedicam à carga de mercadorias não apareceram e temo muito mas sem eles não finalizaremos as entregas que tínhamos programadas para hoje ― explicou afastando-se uns passos. ― Quais? ― Perguntou mediante um resmungo. ― David Sempher, Carl Blue e Jason Monster ― enumerou. ― Bastardos malnascidos! ― Exclamou antes de beber todo o café.


― Já lhe disse que não tinham boa reputação, senhor. E, como pôde comprovar, desde que os empregou se ausentaram em várias ocasiões. ― Quando esses descarados aparecerem na tipografia lhes informe de que seus trabalhos cessaram nesta empresa. Isso ensinará aos outros que se eu não puder confiar num empregado, será despedido ― comentou ao mesmo tempo que se levantava de seu assento.

― Se o desejar, posso ir ao porto e procurar outros homens que os substituam. Como bem sabe há muita gente honrada e disposta a trabalhar ― tentou serenálo lhe oferecendo uma boa alternativa. ― Não há tempo a perder. Hoje devem ser entregues as duzentas caixas do senhor Fish. Se não estiver enganado, o navio zarpará antes do meio-dia ― disse enquanto se desabotoava os primeiros botões da camisa e arregaçava as mangas até os cotovelos. Tinha trabalho por realizar e por mais que lhe doesse a cabeça, aquela jornada teria que tirá-la com êxito. ― De fato, o senhor Fish veio faz um par de horas para confirmar se seu pedido já estava preparado ― esclareceu Karl. ― E… o que lhe disse? ― Leopold abriu tanto seus olhos que estiveram a ponto de sair do rosto. O senhor Fish era um de seus melhores clientes. Cada vez que realizava um pedido ganhava os benefícios suficientes para pagar seus empregados durante três meses. Não podia perdêlo. Não podia permitir que a imprudência de vários trabalhadores ou seu desespero ante a chegada da condessa lhe fizessem descuidar da entrega de um homem tão crucial na empresa. ― Que o terá à hora acordada ― disse com firmeza. ― Perfeito. Agora tire essa jaqueta e me acompanhe ao armazém. Não podemos perder mais tempo ― sentenciou antes de sair do escritório.


Estava nervosa, mais do que devia se queria levar a cabo o plano. Tinha sido capaz de aparecer na loja e, embora não estivessem prontos os vestidos que comprou, nem tinham chegado os novos padrões, a senhora Parks a obsequiou, em agradecimento por sua paciência, com um objeto que guardava para outra dama. Não queria fazer com que a loja perdesse uma cliente por sua culpa, mas depois de tanta insistência e dos rogos desta, terminou aceitando o presente. É óbvio, a intenção da costureira não era que guardasse o objeto para uma ocasião importante, mas sim que ela a usasse nessa mesma manhã. Para obter seu propósito, a própria desenhista a vestiu. Priscila estava mais aterrorizada, caso possível. Aquela roupa, embora negra, era muito diferente das que tinha vestido até o momento. O tecido não cobria seu pescoço, mas sim mostrava um generoso decote e se agarrava à sua figura mais do que o devido. Apesar de ocultar-se sob o casaco impedindo que percebessem sua inapropriada vestimenta, lady Appelton se sentia indecente. Durante o trajeto, aquele que a conduziria até a tipografia do senhor Spencer, esteve tentada a dar volta e retornar ao seu lar. Como ia levar a cabo seu plano mostrando ao dito homem o início de seus seios? Podia trata-la como uma qualquer, uma rameira que procurava algo que ela não pensava nem remotamente. Só queria lhe deixar claro que, apesar de seu malvado empenho em afastá-la de Londres, ela não partiria. Longher tinha se convertido em seu lar. Nunca albergou a esperança de sentir apreço por um lugar estranho, mas ali, entre a imensidão de seu jardim, rodeada de criados amáveis e a amizade que tinha com a marquesa, sentia-se feliz. Não podia deixar tudo pela ânsia de um homem, tinha que lutar com os poucos meios que possuía. Quando a carruagem diminuiu a velocidade, Priscila endireitou suas costas e suspirou várias vezes. Só devia entrar, lhe falar com desdém e realizar um pedido. Logo, depois de lhe deixar claro que apesar de seu ardil permaneceria na residência do conde, retornaria à sua carruagem e partiria sem olhar para trás. ― Milady… ― o cocheiro abriu a porta, estendeu as escadas e lhe ofereceu ajuda para descer. Como se estivesse acostumada a realizar tal façanha durante todos os dias de sua vida, desceu as escadas com uma graça e calma


assombrosas. Parada em frente à porta da tipografia percebeu surpreendida que o senhor Spencer não era um homem ostentoso. A fachada era bastante singela, assim como a placa cravada no muro da entrada. Não encontrou ornamentos chamativos, nem pôsters de cores vivas que atraíam os olhares dos viandantes que rondavam a rua. Simplicidade, mais da que teria imaginado para um empresário que desejava fazer-se notar entre a sociedade londrina. Com passo firme dirigiu-se para a entrada. Estranhou ainda mais ao descobrir que não havia uma aldrava com a qual golpear a porta, mas sim um grosso cordão marrom escuro que surgia do marco superior da porta. Assombrada, puxou-o e, depois de soltá-lo, escutou um sem-fim de campainhas que, para sua desgraça, armaram um imenso estrondo. Enquanto aguardava para ser recebida entrelaçou suas mãos enluvadas e abaixou a cabeça. Continuava a duvidar sobre o que estava a ponto de fazer. Ainda podia dar a volta e abandonar seu propósito. Mas… o que obteria se desistisse? Não, não podia partir. Devia deixar bem claro àquele homem que não a tinha intimidado, que não se afastaria de Londres embora a beijasse mil vezes mais. Atordoada ao rememorar o sabor daquela boca, não percebeu que estava em frente à porta pouco mais de dez minutos. ― Senhora, ― intercedeu o lacaio ― muito me temo que não há ninguém. Se o desejar, podemos vir noutro momento. Justo no instante em que se decidiu subir ao veículo, ouviu umas vozes na porta que havia à sua direita. Uma enorme carruagem permanecia estacionada no meio da rua. Curiosa, Priscila caminhou para lá. ― Carreguem essas caixas! ― Alguém gritava à viva voz. ― Não podemos perder mais tempo! Assustada pelo ímpeto daqueles gritos, manteve-se parada na entrada do que supunha que era um armazém. Havia mais de uma dúzia de homens a trabalhar sem cessar. Carregavam no veículo uma grande quantidade de caixas que deviam


ser muito pesadas, pela forma como grunhiam os moços ao transportá-las. ― Afaste-se mulher! ― Gritou um dos homens ao vê-la. ― Por acaso não vê que atrapalha nosso trabalho? Priscila abriu os olhos como pratos. Não o fez por causa daquelas palavras tão inapropriadas para uma dama como ela, mas sim porque justo naquele lugar, ao fundo de onde se empilhavam as caixas que deviam ser carregadas na parte traseira da carruagem, uma enorme figura trabalhava com afã. Estava em mangas de camisa, sujo e com o cabelo alvoroçado. Ele mesmo iniciava a cadeia de homens que levavam a cabo o árduo trabalho. Tragou saliva ao contemplar uma imagem semelhante. O enorme titã, que sobressaía em altura a todos os que permaneciam ao seu lado, era o primeiro a sujar suas mãos e a ensinar aos outros como deviam realizar seu trabalho. ― Maldita seja! ― Vociferou alguém. ― Quem chamou uma puta? Por acaso é o prêmio que obterá quem der o sangue esta manhã? ― Prosseguiu gritando antes de soltar uma enorme e repugnante gargalhada. Nesse momento Priscila se ruborizou e um horroroso tremor a açoitou. Não dava crédito à rudeza e crueldade daquelas palavras. Como se atreviam a dizer tal coisa sem saber quem era ela? Nervosa, girou para afastar-se dali. Sentia-se desconsolada e absurdamente débil. Os homens daquele lugar, fossem nobres ou plebeus, tinham um conceito bastante concreto sobre as mulheres e isso a zangou enormemente. Como podiam ser tão primitivos, tão obtusos? ― Desejava algo, milady? ― A voz tranquila e cálida de um homem a fez parar a dois passos de sua carruagem. ― Neste momento estou tão zangada pela forma como fui tratada, que sou incapaz de me lembrar do motivo pelo qual cheguei até aqui ― disse irada e com um tom de voz que nunca imaginou ter. Não havia calidez em suas palavras, mas sim rudeza e crueldade. Talvez tenha emanado aquele tom pela pressão que sentia em sua garganta. Fosse o motivo que fosse, aquela voz não era dela.


― Desculpe meus empregados, mas não estão acostumados a que uma mulher nos visite. Por favor, seria muito pedir que esqueça esse comentário? ― Leopold tentou desculpar-se, mas muito temia que aquela pequena figura não admitiria desculpa alguma. Tinha a cabeça abaixada e seus ombros se inclinavam para diante enquanto suas pequenas mãos enluvadas formavam dois punhos. Se não se enganava, e rara vez o fazia em assuntos de mulheres, daria a volta e lhe daria um bofetão por lhe insinuar que ignorasse semelhante humilhação. Quando Priscila se tranquilizou e descobriu quem se encontrava atrás de suas costas, esteve a ponto de desmaiar. Era Leopold e lhe falava com tal suavidade que sua voz lhe arrepiava o pelo. No meio de uma luta mental sobre se devia dar a volta ou continuar, decidiu enfrenta-lo. ― Deveria indicar aos seus homens que nem todas as mulheres que habitam nesta cidade são putas ― disse com firmeza ao mesmo tempo que se girava para ele. ― O que você faz aqui? ― Soltou Leopold aturdido. Nesse instante sentiu como o álcool que continuava vagando por suas veias se evaporava. Não podia dar crédito ao que lhe mostravam seus olhos. Ela estava em frente a ele, sobressaltada pela humilhação que lhe tinham causado aquelas palavras e, para piorar as coisas, tinha tentado fazê-la esquecer a briga.


― Isso mesmo me pergunto eu, senhor Spencer. ― Olhou-o desafiante, esperando que continuasse com seu rogo para fazêla ignorar o vivido. Devia sentir-se o homem mais feliz, o mais satisfeito do mundo. Ali se encontrava, em frente à pessoa que tentava afastar da cidade, ultrajada por um de seus empregados. O plano, aquele que tinha idealizado para converter-se no dono de Longher, estava saindo melhor do que esperava e ela tinha grande parte da culpa por adotar um papel que não lhe correspondia. ― Pelo amor de Deus! ― Exclamou agarrando-a pelo braço e arrastando-a pela rua até o interior do armazém. Não escutou suas queixas, nem seus insultos. Estava num estado tão obcecado que lhe impedia de ouvir tudo o que lhe gritava. Propôs-se conduzi-la de novo para o lugar onde a tinham menosprezado. Para quê? Para continuarem a rir dela? ― Quem a insultou? Quem a chamou de puta? ― Ladrou Leopold após colocála em frente a ele e sem deixar de olhar aos seus empregados com os olhos injetados em sangue. Seu rosto tinha mudado de cor, já não tinha o tom da pele mas sim do fogo. Aqueles que a tinham admirado com certa luxúria, agora a contemplavam com assombro, com medo inclusive. Murmuraram perguntando-se quem tinha sido capaz de nomear assim à mulher que o dono da empresa segurava pelo braço e pela qual, conforme parecia, mostrava certo interesse.


― Não deveria… ― murmurou Priscila com medo. ― Repetirei outra vez ― advertiu, sem prestar atenção ao rogo da jovem. ― Quem chamou dessa forma tão insensata a condessa de Crowner? Alguém poderia aniquilar com tão só umas palavras? Alguém no mundo podia assassinar com umas simples frases? Porque essa era a impressão que Leopold causara na moça. Estava a ponto de assassinar com suas próprias mãos ao incauto que a tinha renomado daquela maneira. Por um momento, só por um instante, Priscila temeu pela vida do ousado. Entretanto, no meio da confusão que lhe produziu a conduta de Leopold, pensou que no fundo tudo o que tinha pensado sobre ele não era certo. Se o fosse, se ele só desejasse que ela retornasse ao lugar de onde tinha vindo, por que ansiava proteger sua honra? ― Milorde… ― disse enfim um dos empregados, que deu um passo para diante enquanto se tirava a boina. ― Sinto muito. Não tinha nem ideia… Leopold soltou o braço de lady Appelton para dirigir-se para o empregado. Queria estrangulá-lo, lhe arrancar a pele a farrapos. Ninguém podia lhe falar desse modo. Ninguém! Mas, precisamente quando tinha dado um passo para a frente, sentiu uma leve pressão no antebraço direito. Ao olhar para essa parte de seu corpo, descobriu que Priscila se atrevia a agarrálo, diante de todos os que lhes observavam, para que não prosseguisse com o que estava a ponto de fazer. Ficou aniquilado, surpreso pelo impacto tão prazeroso que lhe provocou o minúsculo tato daquela luva sobre sua pele. Causou-lhe tal impacto que se esqueceu de tudo. ― Rogo-lhe que durante minha presença não tente matar a ninguém. Não vim até aqui para ser testemunha de um banho de sangue ― declarou quase sem voz. Olhou-o aos olhos tentando averiguar se se tinha acalmado e o que viu naquele olhar escuro a deixou sem fôlego. Face ao irado que se sentia, quis soltar uma enorme gargalhada. Escutar daquela pequena figura, de uma mulher tão aparentemente frágil, um sarcasmo próprio


de um homem o deixou aniquilado. Sem dúvida alguma a mulher que tinha a seu lado ocultava mais segredos do que imaginara e entre eles que era mais valente do que esperava. ― Importar-se-ia de me conduzir ao seu escritório para que possamos falar com tranquilidade, senhor Spencer? ― Acrescentou lady Appelton tentando desviar os olhares de todos os que estavam no armazém. Se permanecessem mais tempo contemplando-se daquela maneira poderiam dar a entender que entre eles havia algo mais do que em realidade existia. ― É claro, depois de você ― disse-lhe assinalando o caminho pelo qual devia dirigir-se. Antes de fechar a porta, antes de dar por resolvido um tema que para ele não estava, Leopold olhou de soslaio seus empregados, fazendo com que todos eles continuassem com a tarefa.

― Vamos! ― Encorajou-os Karl. ― Temos muito trabalho e não podemos vadiar! Karl entrecerrou seus olhos e olhou para o lugar por onde partiu Leopold, depois de descobrir a razão pela qual o empresário perambulava de um lado para outro sem direção, sorriu. «Então essa pequena mulher é a afortunada condessa viúva de Crowner ― pensou para si. ― Muito temo, milorde, que pela forma como reagiu, intuo que está em um grave problema». XVII O percurso até o escritório não era longo, mas para Priscila pareceu infinito. Enquanto ela tinha que dar dois passos escutava às suas costas só uma pernada do homem que a seguia. Em várias ocasiões sentiu o fôlego dele no cabelo, como se quisesse inspirar seu aroma. Isto só provocou que seu afã por sair daquele lugar aumentasse. Tentou manter-se erguida e elevar a cabeça ao caminhar, mas todo o seu corpo tremia e a única coisa que pensava era em apoiar-se sobre a parede e tomar ar. Entretanto, devia prosseguir com seu


empenho em lhe fazer compreender que nada do que tramasse faria com que partisse, que a propriedade era dela e jamais a abandonaria. ― É a porta da esquerda ― disse Leopold com um tom suave mas firme. Tal como lhe indicou, girou para esse lado e estendeu a mão para tocar a manivela. Nesse instante ele também tinha decidido esticar a mão para abrir a porta e por uns segundos ambos voltaram a roçar-se. Priscila fechou os olhos pretendendo não se alterar perante aquele tato, mas não pôde fazer desaparecer a emoção que lhe produziu aquele pequeno toque. Aquele homem, embora ansiasse detestá-lo, embora precisasse odiálo com todas as suas forças, provocava-lhe um efeito tão prazeroso e passional que mal se reconhecia. Nunca havia sentido emoções semelhantes. Jamais tinha necessitado ser reconfortada por um homem, salvo quando Anthony a abraçava em algum momento de inquietação. Mas não eram iguais. Um, era ternura, carinho, e o outro provocava algo mais perigoso. ― Sinto muito ― comentou Leopold retirando a mão com rapidez. Priscila não disse nada. Só continuou com seu propósito, abriu a porta e ficou atordoada ao contemplar o desastre que havia no interior do escritório. As roupas masculinas, jaqueta, gravata e colete, estavam esparramadas pelo escritório. Tinha-as atirado, arrojado da entrada de maneira descuidada. Não lhe tinha dado a impressão de que aquele homem fosse assim. Mas a marquesa lhe enfatizou mil e uma vezes que as aparências enganavam. ― Perdoe a bagunça ― se desculpou Spencer entrando no interior e recolhendo sua roupa para colocá-la adequadamente no cabide. ― Não estou acostumado a ter visitas de damas. Como compreenderá, até agora só os homens são os que trabalham nos negócios familiares. ― Esperou que ela falasse, que emitisse outro sarcasmo, mas não o fez, manteve-se calada, olhando tudo o que apreciavam seus olhos. ― Por favor, tome assento ― indicou lhe assinalando uma cadeira com a mão. ― Deseja um chá, um café possivelmente? ― Não se incomode, obrigada ― disse sem fôlego.


― Tenho que lhe pedir de novo desculpas pelas inoportunas palavras do meu empregado. Estou seguro de que se tivesse sido consciente de quem você era a teria tratado com o respeito que merece ― disse ao mesmo tempo que tomava assento. ― Reconheço que me senti humilhada, mas se eu tivesse partido, se eles não tivessem descoberto minha identidade, a dor do ultraje estaria oculta em mim mesma e ninguém saberia que a condessa viúva da Crowner foi confundida com uma vulgar rameira ― comentou com solenidade. ― Está recriminado minha atitude, condessa? ― Perguntou confuso. A escuridão de seus olhos se intensificou. Apertou a mandíbula e mal pôde respirar após escutá-la. Acaso não tinha sido consciente de sua atuação? Tão obcecada estava que não percebeu a loucura que esteve a ponto de fazer por ela? ― Sim ― respondeu cortante enquanto fixava seu olhar naquele rosto descuidado. ― Não era minha intenção ― expôs após suspirar. Não queria iniciar uma batalha perdida. A obstinação daquela mulher não tinha fim e, se continuassem assim, não teriam uma conversa distendida, que é o que tinha pensado enquanto a acompanhava até ali. Sim, meditou enquanto cheirava seu precioso e embriagador perfume, que limariam as asperezas nascidas entre os dois e manteriam uma boa amizade até que conseguisse descobrir que sentimentos tinha por ela. ― Tampouco era sua intenção castigar àquele pobre ingrato? ― Perguntou zangada. ― Minha querida condessa de Crowner, ― elevou a voz ao mesmo tempo que colocava as palmas sobre a mesa e se levantava do assento ― o que você está fazendo em minha tipografia? Conforme parecia nada do que tinha pensado, pelo que tinha planejado, ia sair como esperava. Priscila se assustou ao ver a mudança de atitude do homem. Voltava a ter os olhos vermelhos tal como o seu rosto. Os músculos de seus


braços, esses que ainda continuavam nus, pareciam tensos e descobriu que os botões de sua camisa, que permaneciam descaradamente desabotoados, revelavam um peito firme com um pelo tão escuro como seu olhar. ― Escutei na cidade que também aceita pequenos trabalhos ― começou a falar com voz suave, esforçando-se por recordar tudo o que tinha meditado lhe dizer. ― E eu gostaria de saber se está interessado em ajudar-me. ― Pequenos trabalhos? A que se refere? ― Perguntou sem mover nem um só músculo. ― Cartões de visita, milorde ― concretizou. ― Cartões de visita? ― Repetiu ao mesmo tempo que arqueava as loiras sobrancelhas. ― Em efeito. A marquesa de Riderland me explicou que você pode fazer uns bonitos cartões de visita e dado que pretendo ficar em Londres o resto da minha vida, necessitarei de muitos ― prosseguiu com uma calma impressionante. ― Quantos deseja? ― Soltou antes de tomar assento. Agarrou seu talão de notas e uma pluma para assentar o pedido. ― Cinquenta ou melhor… cem. ― Priscila se inclinou levemente para a mesa. Desejava averiguar como escrevia aquele homem tão rude. Se sua hipótese era certa, com lentidão e com uma letra ilegível.


― O que deseja anunciar nesses cartões? ― Continuou seu interrogatório sem olhá-la. Não podia fazê-lo posto que, se o fizesse, se voltasse a olhar aqueles lábios, aquela boca tão sensual, saltaria por cima da mesa e a beijaria. ― Eu gostaria que aparecesse o escudo de Crowner e sobre ele, com letras claras e em maiúsculas, lady Appelton, condessa viúva de Crowner, deseja lhe visitar. Também é preciso que cuide das dimensões do cartão, milorde, como penso levar uma notável quantidade na bolsa, não têm que ter um grande tamanho. Parece-lhe bem? ― Priscila começava a padecer certos sufocos. A atitude acalmada dele a estava pondo nervosa. Tinha esperado que lhe gritasse e que lhe ordenasse que partisse, mas para sua desgraça só escrevia seu nome com uma letra tão bela como sua boca. ― Se lhe parecer aceitável que uma viúva caminhe por Londres distribuindo cartões de visita, não tenho nada que objetar, milady comentou agudo. Já não podia conter-se mais. O que é que pretendia? Estava lhe provocando? Tinha chegado até ali para lhe fazer saber que aceitaria qualquer convite sem lhe importar a intenção desse? Só de pensar que visitaria lares de pessoas não adequadas ou despojos da sociedade, lhe retorciam as vísceras. Ela não devia atuar como uma descarada, devia permanecer em seu lar, mostrando decência e esperando a chegada de um bom marido, talvez, alguém como ele. ― Está sendo sarcástico, senhor Spencer? ― Perguntou com desdém. ― Porque me deu essa impressão. ― Houve muito sarcasmo, lady Appelton ― respondeu levantando-se de novo de seu assento e caminhando para ela. ― Porquê? Mal escutou sua própria pergunta. Leopold tinha rodeado a mesa e se sentara sobre esta com as pernas e braços cruzados.


Aquela pose, aquela forma inadequada de permanecer ao seu lado deveria assustá-la, mas não foi assim. A única coisa que causou aquela cercania e aquela maneira descuidada de manter-se ao seu lado foi calor, muito calor. Tanto que terminou por desabotoar os primeiros botões de seu casaco, oferecendo sem perceber uma insinuante visão de seus seios ao agitado Leopold. ― Porque não acredito que deveria aceitar a presença de estranhos em seu lar nem visitar tanta gente. Deve ser mais comedida, lady Appelton. Nesta cidade se uma mulher visita vários lares durante um período curto de tempo só pode indicar duas razões possíveis; a primeira que você é uma fofoqueira, uma fofoqueira que, ao não ter uma vida interessante, dedica-se a indagar a dos outros. E a segunda, um pouco mais perigosa e descarada, é a busca de amantes. Mais de um cavalheiro suporá, ao vê-la tão disposta a abandonar seu lar, que suas excessivas saídas se devem a que se sente muito só e incitará a todos aqueles que a observem a lutar por deitar em sua solitária cama ― soltou sem respirar. ― Como se atreve! ― Exclamou zangada ao mesmo tempo que se elevava de seu assento como se lhe tivessem cravado uma adaga no traseiro. ― Por acaso você e eu nos conhecemos o suficiente para realizar essas conjecturas tão íntimas? ― Poderia dizer-se que sim ou… por acaso não recorda como finalizou nosso primeiro encontro? ― Disse mordaz.


Tinha que utilizar a única coisa que possuía para fazê-la entrar em razão. E embora não fosse correto, porque jamais lhe teria mencionado o acontecido naquela tarde, não conseguiu encontrar outra alternativa. ― Recordo-o perfeitamente ― respondeu mastigando cada palavra. ― Se por acaso a ingestão de álcool que teve durante a noite passada lhe nublou a mente, foi você quem apareceu em meu lar. Foi você quem me assaltou e foi você quem… Não terminou sua irada declaração. Antes de poder lhe assinalar com um dedo inquisidor, Leopold se lançou sobre ela, agarrou-a pelos braços, aproximou-a de seu corpo e a beijou com tanta necessidade, com tanta paixão, que não lhe permitiu nem respirar. Não tinha a intenção de beijá-la, propôs-se não fazê-lo. Mas enquanto a acusava de dar a imagem de necessitar de um amante em sua cama, um escuro sentimento de posse primitivo o apanhou. Aquela pequena mulher era dele e não iria permitir que nenhum outro homem pusesse seus olhos sobre ela. Se o fizesse, se alguém tivesse o descaramento de fazêlo, os arrancaria com suas próprias mãos. ― Milorde… ― sussurrou Priscila quando o homem afrouxou a intensidade daquele beijo. Aquilo não era um beijo mas sim outra coisa que não chegava a compreender com exatidão. Não havia calidez em seus lábios, nem sua língua dançava no interior de sua boca. Tinha lhe mordido o lábio inferior, tinha cravado seus dentes nela e os movimentos da língua não foram suaves, e sim rudes, como se quisesse marcá-la ali onde a tocava. ― Milady… ― murmurou Leopold tentando tomar fôlego. Tremia-lhe todo o corpo. Não havia nada nele que não se encontrasse agitado. Nunca tinha beijado dessa maneira uma mulher. Cada movimento, cada pressão de sua boca na dela tentava assinalá-la, possuí-la. Era inconcebível padecer um ciúmes ou a agonia de vê-la nos braços de outro homem sem mal conhecê-la.


Entretanto, queria-a ao seu lado, naquele momento e para o resto de sua vida. Assim se sentia. Era um homem enfeitiçado por uma mulher que mal lhe chegava ao ombro e que, para seu deleite, acoplava-se à perfeição ao seu corpo. Já não cobiçava outra coisa que não fosse beijá-la, amála e desfrutá-la cada dia que pudesse respirar. ― Não devia… ― murmurou aturdida. E voltou a beijá-la. Desta vez suas mãos não permaneceram nos braços de Priscila, mas sim se enredaram na cintura. Apertava-a tanto trazendo-a para si mesmo que a obrigou a sentir até que ponto se encontrava excitado. Era a primeira vez que notava o sexo ereto de um homem. Jamais imaginou que aquela parte baixa se endurecesse até o ponto de querer romper a calça e alcançá-la. Por uns instantes se deixou levar. Deixou que a paixão fluísse por suas veias. Percebeu assombrada como aumentava sua temperatura, como ansiava elevar seus braços para rodear o pescoço nu. Desejava tocar aquele triângulo peludo, sentir em seus dedos a aspereza do cabelo. Era a primeira vez que descobria o que significava a paixão e o desejo. Embora o tinha visto. Tinha espiado Anthony quando se reunia com seu amante na biblioteca. Viu-os beijar-se, acariciar-se e gemer pela luxúria que crescia entre eles. Agora era ela a protagonista de uma situação semelhante. Agora era ela quem desejava aproximar-se ainda mais daquele forte e robusto corpo e mover com suavidade os quadris para que o estado de agitação que o homem sentia por ela não diminuísse. Mas não tinha ido até ali para realizar um ato tão impuro, ela só queria lhe deixar claro que não partiria, que não a assustaria por mais alto e forte que fosse. ― Pelo amor de Deus! ― Exclamou lady Appelton se esforçando para libertarse da união. ― Você se confundiu comigo. Eu não sou uma… ― Rameira? ― Terminou a frase ao mesmo tempo que procurava relaxar seu arrebatamento passional. Ainda não tinha sido capaz de abrir os olhos, de ver o medo que ela devia exibir. Não queria que sentisse pavor por suas mãos nem por seu abraço. Embora


temesse que a jovem se paralisara ao notar como excitado estava. Porquê? Por que tinha tremido ao ser consciente do desejo? Por acaso não tinha sido uma mulher casada? O conde não a beijou com tanta paixão? ― Não sou esse tipo de mulher… ― murmurou sobressaltada. ― Não? ― Perguntou arqueando as sobrancelhas. Não queria continuar o caminho que estava a seguir a conversa, sabia para onde desencadearia e não ansiava que ela confundisse seu sobressalto com outra coisa. Desejava-a sim, mas não como uma amante. Seus sentimentos, embora confusos ainda, não tinham esse sentido. ― Não! ― Gritou energicamente. ― Jamais o fui nem o serei! ― Então aplaque os falatórios que percorrem as ruas de Londres ― disse procurando acalmar-se. ― Que falatórios? ― Priscila levou as mãos para a boca e abriu os olhos como pratos. Agora entendia tudo. Agora sabia a razão pela qual ele a tinha assaltado aquela tarde. Como tinha sido tão ingênua? Como sua mente não alcançou a averiguar uma coisa tão singela? ― Lady Appelton… ― disse dando um passo para ela. Estendeu sua mão tentando reconfortá-la com seu tato, mas ela se esquivou. ― Isso é… ― murmurou perplexa. ― Por isso que você me beijou naquela tarde. Porque todos acreditam que me casei com meu marido porque sou… ― Não! Não, nunca pensei isso de…! Mas Priscila não lhe escutou a conclusão da frase. Ao acreditar que todos opinavam que era uma puta, uma vulgar rameira, que tinha utilizado seus encantos sexuais para casar-se com Anthony obtendo assim não só o título de condessa mas também a riqueza que este possuía, girou e correu para a saída chorando envergonhada. Não podia imaginar-se rodeada de pessoas que lhe ofereciam um sorriso enquanto meditavam sobre os encantos que utilizou para seu marido se apaixonar. Não era capaz de confrontar uma situação assim. Devia afastar-se, partir de


Londres o mais cedo possível. Aquela não era sua cidade nem o lugar onde poderia viver em paz. Leopold tinha ficado num estado de atordoamento tão imenso que não despertou do choque até que foi muito tarde. Quando alcançou a porta, quando seus pés pisaram nos paralelepípedos da rua, Lady Appelton subira na carruagem e tinha empreendido a marcha. Tinha-a perdido para sempre e tudo por não revelar que seus sentimentos não eram os que ela imaginava. Zangado, enfurecido com ele mesmo, retornou ao escritório e começou a destroçar tudo aquilo que encontrou à mão. Até elevou a mesa com suas próprias mãos e a derrubou com as pernas para cima. Estava a ponto de partir uma dessas pernas de madeira quando a voz de Karl o freou. ― Que diabos aconteceu aqui? ― Perguntou o empregado assombrado. ― O que faz, milorde? ― Insistiu enquanto percorria com seu olhar a bagunça que havia no interior. ― Destruindo minha vida ― grunhiu apertando os dentes e dando as costas à pessoa que trabalhava junto a ele desde que se aventurou a abrir a tipografia. ― Ninguém é tão parvo para afundar-se na miséria, senhor. Se quer quebrar tudo aquilo que encontrar ao seu alcance faça-o, mas se puder recuperar um pouco de sensatez, se essa raiva que o possui desaparecer de uma vez por todas, pense com coerência. Quer ver-se assim o resto de sua vida ou, pelo contrário, quer lutar pelo que deseja, pelo que sua mente quer, por sua felicidade? ― Falou sem mal respirar, rezando para que suas palavras fossem suficientes para fazê-lo entrar em razão. ― Ela pensa que sou um monstro… um asqueroso imbecil que a fez acreditar que é uma… ― não pôde dizer a palavra. Não a sentia. Ela não era esse tipo de mulher. Embora tivesse estado casada, embora tivesse permanecido ao lado de um marido, seus beijos e os tremores de seu corpo não eram próprios de uma mulher experiente. Parecia tão cândida, tão inocente, que lhe custava imaginá-la nos braços de outro homem. Não, embora não parecesse lógico, estava seguro de que ela não se entregara a ninguém.


― Quer continuar chorando, milorde? Quer seguir caminhando para um precipício que terminará causando sua própria morte? ― Insistiu Karl. ― Porque se eu estivesse no seu lugar, se eu amasse como ama você a essa dama, correria atrás dela e lhe gritaria o que sinto. ― Como sabe que a amo? Como dá por certo que tenho esse tipo de emoção por ela se nem eu mesmo sei com certeza o que sinto? ― perguntou encarando seu fiel trabalhador. Sua altura e corpulência podiam atemorizar a qualquer homem que o enfrentasse ele, mas Karl se manteve imóvel, observando-o com cautela. ― Por acaso não é consciente de como se comportou no armazém? Esteve a ponto de matar um pobre imbecil por tê-la chamado de puta! Isso não é sinal suficiente para você, milorde? Tenho que lhe escrever uma nota no talonário que voou para algum lugar desta habitação para que compreenda seus sentimentos? ― Não pode ser certo… ― murmurou. ― Além disso… ela partirá… ― disse aflito. ― Vi em seu olhar, Karl. Ela decidiu partir de Londres. ― E o que espera para impedir-lhe? ― Gritou-lhe irado. ― Por acaso crê que vou apresentar-me em sua casa, vou bater na porta e vou lhe suplicar que não o faça, que não pode ir-se porque a amo? ― Perguntou elevando de novo a voz. ― É isso mesmo que vai fazer, milorde ― soltou enquanto caminhava para o cabide e lhe pegava a jaqueta. ― Vai se apresentar na residência da condessa e vai se declarar como é devido. ― Está louco! ― Clamou elevando os braços. ― Como vou fazer tal imprudência? ― Quem está mais louco dos dois, milorde? Um homem apaixonado que vê como a mulher que ama jamais voltará ou um homem que explica a esse obtuso como deve alcançá-la? Leopold o olhou desafiante, mal-humorado. Mas para sua desgraça, Karl continuava firme, sujeitando no alto a jaqueta para que pudesse colocar os braços. Considerou as palavras, meditou com rapidez em cada frase que lhe disse.


Entre maldições e milhões de impropérios, colocou a jaqueta. ― Confio em ti para que a mercadoria do senhor Fish chegue a tempo ― disse com dureza. ― Não sei quanto vou demorar para voltar. ― Demore o tempo que precisar e não se preocupe com a mercadoria do senhor Fish, faz um momento que a carruagem saiu para o embarcadouro. Agora preocupe-se em consegui-la.

E não retorne até que a convença de seu amor! ― Exclamou antes de liberar uma sonora gargalhada. XVIII Não pôde conciliar nem uma hora de sono. Como fazê-lo se não parava de pensar na volta de Anaís? Era a notícia mais maravilhosa que tinha tido em anos, até ultrapassava a satisfação que obteve ao sustentar pela primeira vez seu filho em braços. Federith se sentia completo, maravilhado e inclusive pecaminosamente feliz. Tinha vontade de fazer uma loucura, como sair sem gravata ou gritar no meio da rua até ficar sem voz. Ela havia voltado, tinha retornado, e seguia sendo a mulher mais maravilhosa do mundo. Notou como o ritmo de seus batimentos cardíacos aumentavam e quebravam com aquele desenfreio a capa de gelo que o rodeava desde que ela partira. Sentia o sangue percorrer suas veias e como este esquentava o corpo ao seu passo. Começava a viver de novo e aquele ressurgir era por ela. Nunca imaginou que apareceria de novo em Londres e muito menos acreditou que, ao vê-la, retornaria aquele bemestar que lhe dava sua presença. Era certo que começara a esquecer o motivo pelo qual se apaixonou por Anaís e inclusive se desvanecera a paixão que teve em sua infância. Possivelmente a razão desse estado de letargia se devia ao seu casamento com Caroline e ao nascimento de Eric. Todas as esperanças de encontrá-la se perderam assim como a felicidade. Entretanto, o destino a tinha posto de novo em sua vida e, embora parecesse ilógico, parecia lhe gritar que tinha outra possibilidade para ser o homem que desejou ser.


Federith levou dois dedos de sua mão direita para a boca e recordou a sensação que teve ao beijá-la. Foi tão belo e formoso que esteve a ponto de ajoelhar-se em frente a Anaís. Nenhuma de suas amantes a igualou, nem sequer sua esposa alcançou esse estado de frenesi nele. Embora se não recordava mal, Caroline tampouco mostrou muito interesse em deixá-lo louco de desejo. Nem na noite em que gerou Eric se comportara sem inibições, pelo contrário, era fria como um iceberg, como uma geleira, como uma geada no meio da época invernal. Pelo contrário, Anaís não teve que empenhar-se em lhe fazer encontrar o desejo, tudo nela provocava que Federith a desejasse até não poder mais. Cooper se acomodou na cadeira de seu escritório enquanto olhava a bandeja que uma donzela lhe tinha levado com o café da manhã. Pegou a xícara de chá e a bebeu de um sorvo. Tinha que levar a cabo o propósito que tinha meditado durante sua vigília, embora fosse uma loucura. Tal como lhe indicou Roger, Anaís não podia posicionar-se em um primeiro lugar porque esse posto já o ocupava Caroline. Mas havia uma possibilidade de alcançar esse objetivo e, embora não fosse bem visto na sociedade que um casal se divorciasse, ele empenharia, por uma vez na vida, aqueles malditos protocolos sociais. Se quisesse ser feliz, se quisesse viver com Anaís e não voltar a perdêla, poria fim ao seu matrimónio o mais cedo possível. ― Milorde, a senhora pergunta por você ― lhe informou o mordomo da entrada da habitação. ― Disse que estou aqui? ― Perguntou inquieto. ― Ainda não. Mas muito temo que ela mesma deduzirá onde se encontra quando percorrer todas as instâncias da casa. ― Está bem… ― disse levantando-se de seu assento. ― Diga que estou em meu escritório. ― Sim, milorde ― respondeu antes de fechar a porta. Não era o melhor momento para falar de suas pretensões. Ainda tinha muitas coisas que fazer antes de lhe comentar o que iria acontecer entre eles. Mas quanto mais adiasse sua decisão, pior Caroline tomaria. Como


atuaria depois da notícia? Aceitá-la-ia ou lutaria com unhas e dentes por continuar um matrimónio exposto ao fracasso? A resposta a teria logo, logo que ela se apresentasse em frente a ele. ― Parece que ambos madrugamos esta manhã ― assinalou Caroline ao entrar. Olhou a mesa de seu marido e franziu o cenho ao ver a bandeja. Não esperava tomar o café da manhã com ele, embora se quisesse levar a cabo seu plano, teria que fazê-lo. Não podia esperar muito mais tempo, logo se notaria e precisava aplainar o caminho. ― Bom dia, Caroline. Sempre me levanto ao amanhecer, o paradoxal é que você tenha decidido abandonar seu leito antes das doze ― apontou sentando-se de novo. ― Tenho muitas coisas que fazer, querido ― indicou ao mesmo tempo que atravessava a habitação com passos muitos compridos para uma mulher. O vestido de cor avelã emitia uns suaves sons ao caminhar. Federith a contemplou tentando decifrar se de verdade era o instante adequado de lhe expor sua decisão. Não o era, ela tinha um estranho olhar e a atitude com a qual se aproximava não parecia sossegada e sim inquieta. O que lhe estaria rondando pela cabeça desta vez? ― Se por acaso não o recorda, dentro de dois dias temos que ir a uma festa ― esclareceu parando em frente a ele. ― Sim, sei. Fui eu quem te entregou o convite, recorda? ― Disse pesaroso. Não era o momento de aparecer juntos em nenhum evento social se pretendia divorciar-se dela. O que pensariam as pessoas quando dias depois descobrissem que sua aparição só era uma pantomima? Taxá-lo-iam no mínimo como uma pessoa cruel. Um indivíduo que fez sua esposa acreditar que seu matrimónio era sólido quando em realidade já era água. Mas não podia faltar a esse convite, até os Riderland se apresentariam naquela festa. Talvez porque no fundo, a senhora Baithlarin se convertera numa anciã


que adoravam tanto que não podiam faltar à última cerimônia que ela ofereceria às suas amizades. ― Tenho tudo preparado ― falou Caroline evitando o comentário do Federith. ― Seu traje está no vestiário, o meu o recolho esta mesma manhã e Eric… ― O que acontece com Eric? ― Arqueou as sobrancelhas e fixou seus olhos azulados nela. Esse era o assunto pelo qual o procurava! ― Tinha pensado que seria conveniente para ele mudar de babá ― sugeriu ao mesmo tempo que entrelaçava suas mãos. Já tinha introduzido o tema de seu filho, embora não de uma maneira muito sutil, claro. ― Me parece que a senhora Meild não está se comportando como lhe corresponde. Está ocupando o papel de mãe e, que eu saiba, Eric já tem uma ― finalizou zangada. ― Se definir o conceito de mãe como a mulher que dá a luz um filho e se desliga dele, pois sim, já a tem ― declarou com sarcasmo. ― A senhora Meild cuida de nosso filho de maneira irrepreensível e não a despediremos ― sentenciou levantando-se de sua cadeira. ― Podemos fazer várias entrevistas. Poríamos uma nota no periódico e procuraríamos outras possíveis alternativas ― comentou desesperada enquanto tomava assento. ― Atua como se ela se convertera numa pessoa indesejável, Caroline. E para meu entender, a babá cuida e protege do Eric cada hora, cada minuto e cada segundo do dia. Não entendo seu repentino desejo em despedi-la. ― Está habituando-o mal! ― Exclamou irada. Ela também se levantou e caminhou para seu marido para enfrenta-lo cara a cara. Não podia permitir que aquela mulher continuasse usurpando seu posto. Não agora quando dentro de suas vísceras outra criatura estava crescendo. Outro filho do Eric, é óbvio, embora nesta ocasião não permitiria que fosse reconhecido por Federith, mas sim por seu verdadeiro pai.


― A senhora Meild pode fazer o que deseje, sempre que não atue de maneira insensata ― afirmou com veemência. ― Se se preocupa tanto que nosso filho não te reconheça como uma mãe carinhosa e terna, suba à sua habitação e interaja com ele. Mas te advirto que ao princípio chorará. ― Por que meu filho vai chorar ao ver-me? ― Caroline o olhou desafiante e desconcertada. ― Porque não tolera a presença de estranhos ― particularizou com brincadeira. Desenhou um amplo sorriso de satisfação ao contemplar o rosto compungido dela. Tinha merecido, ela sozinha o tinha procurado. Desde que nasceu o menino lhe advertiu que não era próprio de uma mãe comportar-se daquela maneira tão distante, mas não deu atenção, jamais lhe prestava atenção! E agora obtinha o fruto de sua colheita. ― Meu filho sabe quem é sua mãe! ― Resmungou apertando os dentes. ― Queria algo mais? ― Perguntou Federith afastando-se dela para dirigir-se para a saída. Não iria ficar ali escutando suas queixas e suas milhares de razões ilógicas para desfazer-se da babá. A senhora Meild permaneceria ao lado de Eric todo o tempo que ela desejasse. ― Não! ― Respondeu zangada. ― Não tenho nada mais que dizer ― grunhiu enquanto se girava para seu marido. ― Então… que tenha um bom dia, Caroline. E te recomendo que não me espere para almoçar. Não sei quando retornarei ― disse antes de fechar a porta. Lady Cooper manteve o corpo rígido até que escutou como o mordomo oferecia ao seu marido o casaco. Depois de ouvir o chiado da porta ao fechar-se caminhou para a janela. Afastava-se na carruagem e, se sua afirmação de não retornar era certa, ela não poderia visitar seu querido Eric porque não seria aconselhável chegar a pé à residência onde se encontravam. Não só porque as pessoas que a observassem passear por Londres não


demorariam em saber o que ocultava a senhora do futuro barão de Sheiton, mas sim porque em seu estado qualquer esforço seria perigoso. Com muito carinho levou as mãos para o ventre e o acariciou. Não era justo para ela nem para seus filhos serem privados da vida que deveriam ter tido desde o início. O Sobrenome que pertencia a Eric era Graves e não Cooper. Apesar do tempo transcorrido continuava consternada pela decisão de seu amante. Resultava-lhe impossível desculpar a razão pela qual lhe obrigou a encontrar outro pai para o filho que levava em suas vísceras. Já tinha um pai e não era o que acabava de partir! Entretanto, com este bebê seria diferente… Quando lhe dissesse que não podia alegar que tinha sido gerado por Federith porque nesse tempo tinha permanecido doente e não pôde visitá-lo tal como fazia uma vez ao mês, não ficaria outra opção que fazer-se cargo de sua paternidade.

Talvez fosse a única maneira de alcançar o posto que nem seus rogos nem suas lágrimas conseguiram. Cada vez que lhe falava de escaparem juntos e começar a vida que tanto desejavam lhe respondia com evasivas: «Minha esposa não aceitará um divórcio… o que pensariam de nós? como viveríamos sem um tostão?». Sempre tinha uma desculpa para recusar sua petição. Por acaso importava o que pensavam os outros ou a maneira em que viveriam se finalmente estavam juntos? Porque ela preferia ter uma vida humilde junto do homem que amava a continuar com a falsidade que mostrava. Entretanto, Eric não parecia entendêlo. Apesar de suas palavras de amor, seus poemas passionais, não dava o passo necessário para abandoná-la como amante e convertê-la em sua única mulher. Embora, é óbvio, tudo iria mudar. Claro que tudo mudaria! E aquele pequeno ser que crescia em seu interior seria a única opção que possuía para fazê-lo seu para sempre. Falaria com o Eric e, quando lhe indicasse que não podia estar segura dessa paternidade, recordar-lhe-ia os encontros que mantiveram na semana que


Federith adoeceu. Não teria mais desculpas absurdas. Ele mesmo tomou-a naqueles dias sem lhe importar o estado de saúde de seu marido. Assim não ficava mais remédio que fazer frente a esse fato. Caroline sorriu de prazer. Por fim poderia viver junto à pessoa que amava, que adorava e que venerava desde o primeiro dia que o conheceu. Tinham passado muitos anos desde esse dia, mas o final estava perto, muito perto. Girou sobre si, caminhou para a porta e prosseguiu com os afazeres que se havia proposto, embora em vez de ir à costureira, faria com que ela se apresentasse em sua casa. Para isso era ainda a senhora de lorde Cooper, não é? Embora a conversa tivesse sido muito diferente da que desejara, Federith não esbanjou seu tempo a escutá-la posto que lhe tinha ficado algo muito claro: Caroline tinha um segredo que lhe preocupava. Não havia a menor dúvida disso porque até o momento não tinha prestado atenção ao comportamento da babá. Que motivo lhe teria dado a senhora Meild para que ansiasse despedi-la? E… a única causa que ela alegava era certa ou ocultava algo mais perverso? Desde que se casou com o Caroline aprendeu que nada nela era o que parecia. Podia estar pensando em quebrar a xícara que sustentava em sua mão, mas em frente aos outros o observaria com tanta admiração que todos pensariam que o adorava de maneira sobrenatural. Atuava de maneira semelhante no matrimónio. Nas escassas aparições sociais sempre se comportara como se fosse uma esposa apaixonada e bem-aventurada, até uma vez se atreveu a lhe pegar a mão em público. Mas quando começavam a subir as escadas que os conduziam ao seu lar, essa mulher se transformava numa mulher muito diferente. Federith repousou a cabeça no almofadão e suspirou. Não tinha a intenção de pensar em sua esposa durante o breve trajeto, tinha outras coisas mais importantes que considerar, embora, como era lógico, estaria muito atento ao próximo movimento de Caroline. Era melhor permanecer alerta e rebater um golpe que recebê-lo sem avisar. Olhou pela janela de sua carruagem. Nesta ocasião não correu as cortinas como acostumava, mas sim desejou ver o que havia no exterior. Possivelmente porque precisava contemplar com outros olhos a cidade. Sim, isso devia ser porque até aquele momento Londres sempre lhe tinha parecido triste, cinza, miserável e hipócrita.


Entretanto, agora a observava de outra perspectiva; não era um dia cinza mas sim menos iluminado devido ao jogo que tinham as nuvens e o sol. A suave brisa não refrescava o ambiente, mas sim o acalmava de um intenso calor. As ruas não estavam sujas, mas sim ainda não tinham sido limpas, e já não existia tristeza, posto que as pessoas sorriam em silêncio. E sobre o tema da hipocrisia… todos a utilizavam como meio de sobrevivência, então começou a vê-la também como a única forma possível de sobreviver. Federith sorriu amplamente ao advertir que por fim tinham chegado à rua onde vivia a pessoa que ia visitar. Seria um grande passo em sua vida posto que jurou que jamais iria a tal personagem. Ele só utilizava o caminho legal para conseguir seus lucros e repudiava as artimanhas ilegítimas que outros realizavam para alcançar seus objetivos. Mas se era a única pessoa que podia conseguir tudo aquilo que necessitava para colocar de novo Anaís no lugar que lhe correspondia, teria que humilhar-se, lhe pedir perdão por ter opinado inadequadamente sobre ele e lhe rogar que lhe ajudasse. «Anaís… ― sussurrou o nome com tanta ternura e amor que voltou a notar como lhe alargava o peito pela emoção. ― Logo voltará a ser a mulher que conheci…». Esse era seu único propósito, fazê-la retornar ao mundo que pertencia. Embora para isso ele devesse deixar para trás muitas crenças, convicções e inclusive juramentos. Mas valeria a pena. Fechou durante uns segundos os olhos para recordar de novo o beijo, a suavidade de seus lábios e o arrebatador perfume que manteve retido em sua capa até que a enviou para a lavanderia. Odiou-se por desprender-se daquela roupa, porque ansiava tê-


la ao seu lado cada dia, cada hora e cada segundo de sua vida. Entretanto, tinha que ser consciente de seu atual estado… ― Milorde, chegamos ― lhe informou o cocheiro depois de abrir a porta. Com pressa, Federith saiu do interior de seu veículo, acomodou o chapéu e olhou para ambos os lados da rua. Por sorte, tal como tinha augurado, mal havia gente que pudesse descobrir quem se ocultava sob suas roupas escuras. Apenas uns poucos transeuntes, operários e algum mendigo rondavam aquela zona. Deu vários passos para a frente, esticou a mão e golpeou com a aldrava a porta até que escutou a voz do homem ao qual ia visitar. ― Quem aparece em meu humilde lar a estas horas do dia…? Lawford resmungava enquanto se aproximava da entrada. ― Acaso não podem…? ― Se silenciou ao descobrir quem permanecia de pé em frente a ele. Seus olhos se abriram tanto que diminuíram os cristais de suas lentes. Mas salvo essa surpresa inicial, não mostrou nenhum sentimento mais. ― Bom dia, senhor Lawford. Podemos falar? ― Perguntou Federith inquieto. ― Falar? Não pretenderá fazer o que fez na última vez, não é? ― Perguntou zangado. ― Necessito de sua ajuda, se é que pode oferecer-me ― murmurou isso com suavidade. ― Adiante, passe. Não fique na porta ― falou atônito o administrador ao mesmo tempo que lhe deixava o espaço suficiente para que acedesse ao interior de sua casa. Cooper caminhou pelo corredor diante de Arthur observando tudo o que se encontrava ao seu redor. Era um lugar bastante humilde, mais do que acreditou numa pessoa como ele. Imaginou que a cova onde vivia o homem menos honorável de Londres estaria abarrotada de ostentação, de riqueza e poder. Mas salvo estantes com milhares de exemplares, uma ou outra figura de porcelana e vários relógios


de madeira, não havia muito mais que encontrar. ― Se for tão amável, milorde ― lhe indicou Arthur com sua mão para que passasse ao escritório. Em silêncio, Federith voltou a analisar a sala para onde o conduzia. Uma mesa de mogno escuro de um comprimento maior que o habitual, várias cadeiras colocadas em frente, a poltrona cheia de almofadas onde devia passar horas sentado o administrador e outras duas estantes com mais livros, encadernados em capas verdes ou marrons com letras douradas, empilhavam-se uns em cima dos outros. Tão culto era o senhor Lawford? Nunca teria imaginado que um homem com tal reputação de miserável pudesse ser mais instruído que qualquer magistrado londrino. ― Não leio apenas sobre leis, milorde ― disse o administrador como se adivinhasse seus pensamentos. ― Já vejo ― comentou Federith voltando-se para ele. ― Sente-se, por favor. ― Arthur caminhou para sua poltrona e tomou assento quando seu visitante ocupou o seu. ― A que se deve sua visita, milorde? ― Imagino que essa pergunta estará lhe rondando a cabeça desde que me viu em frente à sua porta ― indicou Federith cruzando as pernas e acomodando-se em sua cadeira. ― Se me permitir a ousadia, tenho que dizer que você era a última pessoa que esperava receber algum dia. ― Arthur se reclinou no assento e juntou os dedos para levar-lhe para seus lábios. As rugas que apareceram em sua testa atenuavam a dúvida que lhe suscitava a presença de um homem tão respeitável como lorde Cooper. ― Deseja um chá, um café? ― Perguntou para romper o silêncio que surgiu entre eles depois de sua declaração. ― Não, obrigado. Mas sim que aceitaria um charuto, se tiver… ― Perdoe, não sabia que fumava ― se desculpou enquanto abria uma das gavetas da mesa e tirava uma caixa de cor castanha.


― Acredito que hoje é um bom dia para retomar velhos hábitos – disse pegando um dos charutos menores, que, depois de manuseá-lo, levou-se aos lábios. Com efeito fazia muito tempo que não desfrutava de um bom havanês. Se não recordava mal, a última vez que o fez foi na noite que Roger e William o tiraram da universidade para terminar no meio da rua bêbados e cantando uma melodia militar. Depois de acendê-lo e fazer com que seus pulmões se acostumassem à fumaça, olhou para o chão e descobriu uma bolsa de viagem. ― Interrompi algo, senhor Lawford? ― Diz isso por? ― Assinalou com o olhar a mala. ― Não se preocupe, não interrompeu nada. Acabo de receber a visita do meu sobrinho. Minha irmã enviuvou e conforme parece não tem tempo suficiente para encarregar-se de seu filho. Então decidiu deixa-lo aqui uma temporada. Imagino que não deve ser fácil acostumar-se a uma vida sem a pessoa com quem pensava envelhecer. ― Suponho que não ― respondeu esquivo. ― Bom, se puder me explicar a razão pela qual veio até aqui… ― Lawford cravou suas pupilas no homem e percebeu que começava a sentir-se incômodo. O que lhe pediria? ― Sua senhoria, o marquês de Riderland, falou-me de suas múltiplas qualidades para obter certos assuntos que nem todo mundo pode resolver com facilidade ― começou a explicar enquanto seu pé esquerdo começava a bater reiteradamente no chão. ― E queria lhe perguntar se você pode me ajudar. ― Me pedirá que assassine a alguém? ― Perguntou zombador. ― Não me atreveria a tal ousadia, senhor Lawford ― disse amargamente. ― Meus temas são muito diferentes. ― Pois adiante ― lhe replicou Arthur. ― Estou desejando lhe escutar. ― Tudo o que se falar nesta habitação ficará entre nós? ―


Insistiu Federith um pouco mais relaxado pela sedação que lhe provocou a fumaça do charuto. ― Não lhe caiba dúvida alguma de que tudo será confidencial, milorde. ― Arthur pensou em pegar seu bloco de notas, mas desistiu de tal ideia ao ver o cenho franzido de seu possível cliente. Voltou a reclinar-se no assento e escutou com atenção. ― Necessito de várias coisas, senhor Lawford. A primeira que desejo lhe encarregar é averiguar quem ou os quais são os donos atuais da que foi a residência dos condes Kingleton. ― Essa resposta a posso oferecer agora mesmo, se o precisar, posto que fui eu quem realizou a venda dessa propriedade. ― Você foi o mediador? ― Soltou Federith surpreso. ― Assim é ― reafirmou com um leve movimento de cabeça. ― O próprio conde apareceu uma manhã e me perguntou quem estaria interessado em adquirir sua residência e lhe falei do senhor Polet, dono ainda da dita propriedade. ― Você sabe se ele estaria disposto a vendê-la? ― Perguntou entusiasmado. ― Tudo se pode vender por uma boa soma, milorde. O que você deve me dizer é a quantia que estaria disposto a pagar por ela ― esclareceu. ― Prefiro que indague sobre o senhor Polet antes de oferecer uma quantia. Preciso saber seu estado econômico, já sabe… é importante valorar se tiver dívidas, se for um homem aficionado ao jogo, aos maus investimentos… ― Entendo… não quer perder a oportunidade de obtê-la sem diminuir sua economia, certo? ― Arthur cruzou os braços e observou Federith com cautela. Por que um homem como ele desejava uma propriedade que não tinha sido mantida como requeria? O senhor Polet era já muito ancião para encarregar-se


de um lugar tão imenso. Mas não estava ali para fazer perguntas e sim para as responder. ― Exato. Por isso também lhe peço prudência ao realizar suas investigações. Não quero que se corra à viva voz que estou interessado na dita residência. Muito temo que o interesse que suscitaria tal rumor incrementaria o valor da venda ― indicou com firmeza. ― Acredito que não se equivoca em sua conjectura, senhor. Se alguém descobrir que essa residência provoca certo interesse, mais de um lorde rico puxaria por ela só para adquirir algo que cobiça outro cavalheiro. Já sabe como são os aristocratas… ― Sim, sei ― respondeu com um resmungo. ― E a segunda razão pela qual veio? ― Recordou Lawford ao seu cliente. ― Isto não tem nada a ver com o anterior, mas desejo que possa me falar de que trâmites são necessários para obter um divórcio ― comentou antes de colocar o charuto sobre o cinzeiro de cristal que o administrador tinha sobre uma pilha de papéis. ― Um divórcio… ― murmurou Arthur acariciando o queixo. ― O primeiro é averiguar se ambos os cônjuges estão de acordo, pactuando a separação. ― No hipotético caso de que ambos estivessem de acordo, o que deveriam fazer? ― Insistiu Federith. Este ponto era muito importante para ele. Nenhum de seus conhecidos tinha decidido separar-se de suas esposas e não sabia que repercussões teria. Embora se terminasse vivendo com o Anaís, a perda de dinheiro não lhe suporia nenhum problema. Começaria a trabalhar como magistrado, um posto que lhe tinham proposto em mais de uma ocasião e que tinha rejeitado por seu pai. E viver? Viveriam na antiga casa de Anaís se conseguisse comprá-la antes dessa separação. Só ficava um cabo solto, seu filho. Tinha a esperança de que Caroline não lutasse por afastá-lo de seu lado e rezava para poder criá-


lo como devia, com carinho e ternura, essa que sua nova mãe ofereceria a ambos. ― É muito mais fácil do que se pensa ― começou a dizer Lawford enquanto se levantava da poltrona e caminhava para a estante que tinha às suas costas. Procurou um dos livros e retornou ao assento com ele. ― Se ambas as partes estiverem de acordo com a separação, só devem assinar um acordo que se ditará por um administrador e será fiscalizado por um juiz ― leu do livro após encontrar a página que procurava. ― Só isso? ― Soltou Federith assombrado. ― Milorde, as pessoas se divorciam há séculos. Entretanto, não é tanto o aspecto jurídico, mas o social pelo que se evita. Na Europa se começa a tomar como algo habitual, mas aqui não. Como bem sabe, muitos matrimónios são combinados seja por bens econômicos ou por títulos nobiliários e, é óbvio, ninguém quer fugir da razão pela qual contraiu matrimónio. Embora se me permite lhe oferecer minha opinião, acredito que esta sociedade é uma pantomima. Se eu me casasse, se abandonasse meu celibato, não utilizaria essas duas causas para me unir a uma mulher. Na minha idade, e já ultrapassei os cinquenta, pede-se muito mais de uma pessoa que o que pode ter. ― Por exemplo? ― Insistiu Cooper. ― O amor, o carinho, a compaixão, o companheirismo, a solidariedade, a piedade, o desejo… poderia lhe enumerar mil coisas mais pelas quais uma pessoa deve casar-se com outra. E como perceberá, não escutou de minha boca nenhuma palavra que faça referência ao poder, ao dinheiro nem à posição social. ― E os filhos? O que ocorre com os filhos quando um casal decide separar-se legalmente? ― Bom… isso é um tema à parte. ― Arthur o olhou sem piscar. Recordou com rapidez o momento no qual o futuro barão de Sheiton contraiu matrimónio e


como meses depois se converteu em pai. Era uma boa razão para casar-se, embora existiam muitos métodos para evitar uma gravidez. Métodos que tinha explicado à senhora Johnson cada vez que a visitava. ― O que acontece com os filhos? ― Interessou-se Federith. ― O que seus progenitores desejarem. Não há nada ainda que regule com exatidão a quem se deve outorgar a custódia dos filhos. Muito temo que logo tirem uma lei sobre isso porque, como suporá, nem todos os pais e nem todas as mães estão capacitados para criar um herdeiro como é devido. ― Não resolve minha dúvida… ― soprou Cooper inquietando-se de novo. ― É o único que posso lhe dizer até o momento, milorde. Possivelmente possa conseguir, no hipotético caso de levar a cabo um divórcio, um acordo com a mãe. Estou seguro de que uma compensação econômica aliviará qualquer dor maternal ― esclareceu com sátira. ― O que você pretende me dizer é que tanto minha primeira causa como a segunda estarão resolvidas se conseguir a soma que me peçam ― indicou levantando-se do assento. ― Isso mesmo, milorde. Você é um homem muito inteligente e imagino que resolverá seu segundo ponto de uma maneira singela e acertada. Com respeito à propriedade dos Kingleton, não se preocupe, antes da próxima segunda-feira terei sobre minha mesa um contrato de compra e venda. ― Arthur também se levantou de seu assento e estendeu a mão ao dar por concluída a reunião. ― Não me pergunta quanto estou disposto a pagar? ― Assinalou Cooper assombrado. ― Não acredito que deva oferecer uma soma maior que a que pagou o senhor Polet ― esclareceu Lawford.


― E quanto ele pagou? ― Perguntou curioso. ― Quinze mil libras ― disse o administrador. ― Quinze mil libras? ― Era a soma que necessitava o conde para pagar as dívidas que possuía em Londres antes de partir ― manifestou o homem ainda com a mão estendida. ― Não é uma quantia muito alta… ― sussurrou Federith aceitando por fim aquela despedida. ― Foi a quantia que necessitava aquele bastardo para obter a liberdade ― sentenciou Arthur. ― Muito obrigado por me atender, senhor Lawford. Amanhã mesmo lhe entregarei seus honorários. Conforme me disse o marquês são dez libras, não é? ― Comentou enquanto saía da habitação. ― Sim, assim é. ― Pois não há nada mais que dizer. Esperarei com impaciência sua resposta. ― A terá. Não pediu que lhe acompanhasse à porta, precisava caminhar sozinho e meditar sobre o que acabava de descobrir. Jamais imaginou que o pai de Anaís vendesse o lar por uma quantidade tão escandalosa. Mas eram conhecidos seus intermináveis vícios. Não só o jogo ou a vida de libertinagem tinham destroçado a economia familiar, mas também era um homem dado a investir em projetos que não ofereciam benefícios seguros. Daí que ninguém desejasse que os Kingleton lhes visitassem. Quem queria alojar sob seu teto ou almoçar junto a uma família condenada à destruição? Ninguém, salvo a sua, e o admitiam a contragosto, posto que quando seu pai descobriu as perversidades do conde, começou a evitar suas visitas. Finalmente, foram ao seu lar a condessa e sua filha. Embora tal visita não agradasse a sua mãe, não podia evitar sentir caridade por elas e lhes abria a porta como se nada


do que acontecia fora fosse certo. A última vez que se apresentaram, a condessa lhes informou que deviam partir de Londres. Continuaram com mais desculpas e com mais enganos porque nem aquela doce mulher foi capaz de explicar a verdadeira razão pela qual se afastavam da cidade, nem tampouco sentiu misericórdia por sua filha, uma moça que mal comia o necessário para viver. Se o tivesse sabido, se tivesse intuído que ela não se alimentava como era devido, jamais teria rido de Anaís quando assaltava a cozinha e era incapaz de respirar com a boca cheia. Malditos bastardos que só inventaram uma fraude de vida! Mas isso ia mudar. É óbvio que mudaria! Fez uma promessa à Anaís, disse-lhe que a cuidaria e a protegeria até o final de seus dias e cumpriria esse juramento embora ele mesmo ficasse arruinado. ― Para onde nos dirigimos agora, milorde? ― Perguntou-

lhe o cocheiro enquanto lhe abria a porta. ― Iremos ao St. Botolph’s Church. Necessito de uns momentos de paz ― comentou antes de sentar-se e repousar sua cabeça sobre o esponjoso almofadão roxo. XIX O que desejava fazer em seu dia livre? Essa era a pergunta que Anaís se repetiu uma e outra vez desde que saiu da habitação de lady Priscila. Fazia muito tempo que não desfrutava de um dia de liberdade e se encontrava perdida. Desde que começou a servir à condessa se levantava e atendia as necessidades desta sem pensar um só minuto no que poderia fazer se não fosse requisitada. Possivelmente porque nunca imaginara que um momento como esse chegaria. Mas assim foi e, embora parecesse ilógico, sua mente se achava tão confusa que não era capaz de lhe oferecer uma alternativa. Face aos grunhidos da condessa, Anaís a acompanhou até a carruagem e observou com tristeza como partia. Devia ocupar um assento no interior desse veículo. Devia permanecer ao lado da pessoa que servia, mas como lady Priscila não desejava sua companhia terminou por dar-se por vencida e assumir que se


converteria numa criada dispensável. Era certo que já não precisava manter a salvo sua virtude ou sua honra posto que tinha estado casada e as viúvas gozavam de uma liberdade que as moças solteiras não desfrutavam, mas, mesmo assim, podia ser assaltada na rua por qualquer malfeitor. «Relaxe, ― disse – se a senhora estivesse em perigo, o senhor Nelsons a ajudaria». E é óbvio que o faria. Se desejava proteger seu apreciado posto de trabalho como cocheiro protegeria a condessa com sua própria vida se fosse necessário. Anaís se sentou num canto de sua cama e olhou o exterior através da janela. Enquanto ela tentava averiguar o que podia fazer até finalizar do dia, sua mente não cessava de refletir sobre a repentina mudança de lady Priscila. Resultava-lhe inverosímil a metamorfose que tinha sofrido desde que chegaram a Londres. Possivelmente o ar da cidade a poluiu, porque até aquele momento jamais tinha pensado em ser social, sair sozinha e nem teve aquele insistente desejo de comprar vestidos e aceitar convites. Para trás ficou a menina doce, tímida e indecisa e surgia uma mulher firme, extrovertida e atrevida. Tinha que alegrar-se dessa mudança, mas não era felicidade o que sentia e sim medo. O que aconteceria se algum dia lhe dissesse que não necessitava dela? O que faria ela se fosse despedida? Não, a condessa não a despediria depois de tantos anos juntas, simplesmente mudaria sua função. «Uma pessoa nasce com um comportamento, mas se for inapropriado estará acostumada a ocultá-lo até que enfim o mostrará com liberdade». Escutou a voz de sua mãe lhe falar como se permanecesse ao seu lado. Foram as palavras que saíram de sua boca quando chegaram à casa de sua avó e esta quis revelar à sua filha a verdadeira razão pela qual deixaram Londres. Embora ela já soubesse, posto que escutou as conversas que mantiveram seus pais antes de partir. Sua mãe quis que ela compreendesse que seu pai sempre tinha sido um libertino, um esbanjador e que jamais cuidou como devia de sua mulher e filha. Mas esse não era o caso da Priscila. Não podia assemelhar as duas pessoas tão diferentes… ou sim? Talvez fosse certo que a moça guardava em seu interior a fortaleza que começava a mostrar. Possivelmente ninguém dos que estiveram ao seu lado a permitiram atuar como ela desejava e agora, sem uma pessoa que lhe indicasse como comportar-se, brotava aquela atitude


que tinha reprimido durante anos. Fosse o que fosse, Priscila parecia bastante feliz e segura de si mesma. Mas não podia cessar em seu empenho de lhe advertir sobre as consequências que conduziria se ela não atuasse com sensatez. Não só adquiriria uma má reputação, mas sim também podia perder tudo o que possuía. Quem iria prometer-lhe que não encontraria um homem como seu pai que a cortejasse para obter sua fortuna? Todos aqueles ansiosos de encher suas arcas veriam a condessa viúva como a única maneira de alcançar tal finalidade. Só esperava que a moça fosse tão sensata como até o momento. Mas… quem pode definir o amor como um estado de sensatez? Quando uma pessoa encontra a outra e aparecem esses sentimentos, perde-se a capacidade de raciocinar. Anaís se levantou da cama e caminhou para a janela. Pensar nesse estado de loucura lhe fez recordar Federith. Exatamente isso era o que estava acontecendo entre os dois… respirou fundo e tentou não evocar a noite passada. Como era de esperar, foi impossível. O abraço de ambos, os beijos que lhe deu e a forma tão cálida com a qual a olhava a tinham desconcertado. Naqueles momentos havia se sentido como a menina que abandonou no passado e se deixou levar pelo desejo de têlo ao seu lado pelo resto de sua vida. Entretanto, tudo tinha mudado. Ele estava casado e ela fora degradada. Nada era como antes por mais que as palavras de Cooper lhe insinuassem o contrário. Jamais se converteria em algo que repudiou em seu pai. Quantas vezes viu sua mãe chorar porque algumas das amantes de seu marido apareciam na residência para lhe indicar que terminaria sendo a única mulher que ele amaria? Muitas… «Se tivesse sido um pouco mais velha, ― lhe confessou um dia em frente à chaminé ― agora seria a futura baronesa de Sheiton». Ela acreditou em suas palavras. Estava segura de que não errava e, como menina, esperou encontrá-lo algum dia ao abrir a porta e lhe pedir o que tanto sonhou no passado, converter-se em sua esposa.

Mas o tempo passou e esse sonho se foi desvanecendo de sua mente ocupada tão


só pela realidade que vivia. «Esqueça-o já!», gritou para si ao mesmo tempo que convertia suas mãos em punhos e várias lágrimas percorriam seu rosto. Não podia enrolar-se com palavras alentadoras nem com suaves carícias, ele já estava fora de seu alcance e nada disso iria mudar por mais que o desejasse. Para afiançar sua posição decidiu sair à rua e contemplar como tinha mudado a cidade durante seus anos de ausência. Talvez até passearia perto da casa que uma vez foi seu lar e a observaria com desejo. Seria capaz de fazêlo? Seria capaz de enfrentar esse duro passado? Sim, devia consegui-lo se queria deixar de sonhar com algo impossível. Logo, quando notasse que as forças a abandonavam, iria ao único lugar onde se reconfortaria, St. Botolph’s Church, a igreja preferida de sua mãe e que visitavam todos os domingos. Rezaria e suplicaria que sua vida se esclarecesse o mais cedo possível porque, se continuasse pensando nas mudanças da condessa ou nos beijos de Federith, enlouqueceria cedo ou tarde. Foi mais doloroso do que imaginou… quando chegou ao caminho de seu antigo lar, Anaís sentiu uma pontada no peito. Não tinha pensado que a residência pudesse estar tão deteriorada. Os jardins pelos quais correu em sua infância não estavam tratados como deveriam e não havia uma só superfície sem horrendas espigas selvagens. O pequeno lago emitia um aroma tão putrefato que provocava um sem-fim de ânsias. A cancela metalizada começava a oxidar-se e a cor negra de antigamente se convertera em marrom. Anaís agarrou as duas barras sujas e colocou a cabeça em seu interior. A casa era uma ruína. Quem poderia viver num lugar tão horrendo? Tão pouco interesse lhe causava ao novo dono, que a abandonou à sua sorte? Zangada e muito desiludida decidiu entrar e averiguar quem era o novo proprietário, se é que vivia naquela espécie de castelo do terror. Abriu a cancela como quando era menina, colocando a ponta de um pé, empurrando para cima e desencaixando a fechadura. «Perfeito!», pensou orgulhosa. Pelo menos isso não tinha mudado. Com um passo lento, seguiu o que um dia foi um atalho de pedras, mas que se convertera


num labirinto de ervas daninhas. Seu vestido ficou preso por mais de uma ocasião por aqueles cardos. Mas não abandonou seu empenho de averiguar quem era o monstro que vivia ali. Porque alguém habitava naquele penoso lugar, caso contrário a chaminé não desprenderia fumaça. Foi uma odisséia alcançar a porta da entrada, até a escada de mármore se deteriorou pelo passar do tempo. Anaís parou em frente à entrada, esticou o vestido, colocou o chapéu e esticou sua mão para agarrar a aldrava para chamar. Durante um bom momento não escutou ninguém aproximar-se para atendê-la. Estava a ponto de dar a volta quando alguém apareceu em frente a ela. ― Bom dia, senhora ― lhe disse um homem de mais de setenta anos que a olhava com receio por estar vestida de rigoroso luto. ― No que posso ajudá-la? ― Bom dia, sou a senhorita Price e eu gostaria de falar com o dono da casa ― lhe informou mostrando um grande sorriso. ― Sinto muito, mas muito me temo que o amo não pode atender visitas neste momento ― esclareceu o criado. Quando acreditou que a conversa tinha finalizado e que podia fechar, encontrou-se com o pé da mulher que impedia seu propósito. ― Imagino que poderá me permitir cinco minutos se você lhe informar que sou a filha do falecido conde Kingleton. ― Quanto tempo fazia que não utilizava o título familiar para conseguir algo? Muito, mas ao ver que o homem abria os olhos como pratos ao reconhecer o nome, sentiu-se mais segura do que ela acreditou. Como era capaz de fazer retornar tão rápido a menina que fora? Possivelmente porque sempre tinha estado aí, embora sedada. As palavras de sua mãe retornaram. Sim, em efeito, todo mundo nasce com um comportamento e ela, por mais que a assustasse, tinha sido e era a filha de um conde. Um que destroçou sua vida, mas não podia esquecer o sangue que corria por suas veias. ― Se me desculpar um momento, milady… ― o tom e a atitude do mordomo mudaram rapidamente.


― É claro, mas não esperarei na porta ― sentenciou com aquela voz firme que não tinha escutado em anos. ― Rogo-lhe que me perdoe. É que o amo leva muito tempo sem receber uma visita… ― Não se preocupe ― comentou acedendo ao interior da casa. Seus olhos se encheram de lágrimas ao contemplar o estado de abandono. Embora os arredores já indicassem o que encontraria dentro, não estava preparada para ver como o corrimão em que se apoiava para descer tinha buracos onde deviam ter os balaústres. Já não havia tapetes que ocultassem os degraus, tampouco quadros ostentosos nem candelabros de prata, até tinha desaparecido o grande abajur de cristal que ela olhava de baixo. ― O senhor leva muito tempo doente e mal podemos nos encarregar de cuidá-la, ― disse o homem ao ver o rosto de assombro que apresentava a mulher ― cedo ou tarde este edifício terminará morto, como o dono. Tentou controlar aquelas lágrimas que desejavam brotar, mas foi incapaz de as fazer parar. Seu coração estava quebrado como algumas paredes do interior da casa. ― Deseja que lhe sirvamos um chá no salão de dia enquanto espera ser recebida? ― Quis saber o mordomo. Anaís só pôde negar com a cabeça. Não lhe saíam as palavras. Não podia nem abrir a boca para tirar o ar de seus pulmões. Jamais pensou que seu lar se arruinaria como sua própria alma. ― Não demorarei ― informou antes de deixa-la só no corredor e subir ao andar de cima. Olhou-o subir os degraus com dificuldade e lentidão. Deduziu com rapidez que todos os que ali serviam deviam estar junto ao senhor da casa muitos anos e por isso seguiam mantendo seus trabalhos. Não podia dar outra explicação, porque se não lhes unia uma amizade, como um lorde poderia suportar um criado ancião e cansado? Anaís tragou saliva e pensou se a casa


teria tido a mesma sorte se no final não partissem. Com as dívidas de seu pai e o esbanjamento de sua mãe talvez teria terminado muito pior. Deixou que os passos a levassem para o corredor da direita. Naquela zona estava a cozinha e os dormitórios dos criados. Prestou atenção a tudo o que observava e sua boca se alargou desenhando um leve sorriso ao encontrar uma marca de sua infância naquele lugar. Esticou a mão e acariciou uma pequena ruptura na parede que havia justo na porta do primeiro dormitório. Sempre tinha sido muito travessa e ansiosa e aquele sinal o demonstrava. Mal recordava o motivo pelo qual o fez, mas tinha algo a ver com que sua babá não lhe abria a porta. Não entendia por que, sabendo que estava no interior porque a tinha escutado rir, não obedecia. Então enfurecida agarrou a bengala que seu pai utilizava para passear e golpeou a parede até deixar a marca. Não obteve seu propósito. A babá se manteve calada e não lhe permitiu entrar, assim depois de tanto insistir decidiu partir para o jardim. No pouco tempo que estava brincando, apareceu sua instrutora e a repreendeu por sua atuação. Seu pai, que saiu atrás de sua instrutora, castigou-a com uma semana encerrada em seu quarto. De repente, Anaís levou a mão à boca e correu de novo para o hall. Agora entendia a razão pela qual não foi atendida quando bateu na porta. Seu pai e ela… maldita casa e malditas lembranças! Pegou o casaco com força e decidiu sair dali o antes possível. Aquele lugar só lhe trazia más lembranças. Lembranças que desejava eliminar para sempre. ― Milady? ― Soltou confuso o mordomo ao ver como ela abria a porta para irse. ― Pensei que seria melhor que não incomodar o senhor se se encontrar… ― Quer vê-la, milady. O senhor Polet deseja sua visita ― informou descendo até a metade das escadas. Se tinha que voltar a subir é mais fácil voltar dali que de baixo. ― Não será um incômodo? ― Insistiu a mulher desejando que lhe respondesse que sim. ― Peço-lhe por favor… como lhe disse com antecedência, o amo não tem visitas faz tempo e sorriu ao ver que você decidiu aparecer. -


Não foi uma súplica, mas sim um rogo à sua humanidade. ― Muito bem, ― respondeu pegando com as duas mãos o vestido para não tropeçar. ― Me indique onde se encontra o senhor Polet ― disse com firmeza. Evitou olhar mais a deterioração. Não podia sentir mais tristeza pelo que havia ali, ia ver o dono daquela casa que já não lhe pertencia e após conversar se dirigiria à sua seguinte parada, St. Botolph’s Church. A habitação em que permanecia o proprietário era a que um dia ocupou sua mãe. Como era de esperar num matrimónio que mal tinham relação, dormiam em quartos separados. Embora no caso de seus pais um estava ao princípio do andar e o outro no final. Anaís não parava de pensar que seu pai se sentia muito cômodo descansando naquele lugar. Assim tudo o que desejasse fazer com a babá ou com quem quisesse não teria interrupção. A ira crescia por segundos. Como tinha sido tão ingênua de não compreender o horror que a rodeava? Era tão inocente? ― Milady… ― despertou de seus pensamentos ao mesmo tempo que punha sua mão na maçaneta da porta ― tenho que lhe advertir que o senhor se encontra muito doente e pode sobressaltar uma mulher como você. «Uma mulher como eu?», pensou. Nada podia assustá-la depois de ter vivido com um monstro como seu pai. O espanto, a alteração ou a inquietação tinham sido instruídas à base de paus. ― Não se preocupe. Asseguro-lhe que vivi coisas piores… ― disse antes de avançar para o interior da habitação. Não havia nada naquele lugar que recordasse o que um dia foi, até a chaminé que aquecia as noites gélidas de sua mãe tinha sido reconstruída. No meio do quarto uma imensa cama com dossel tipo barroco indicava onde se encontrava o proprietário, doente. Duas poltronas em ambos os lados da cama, duas pequenas mesinhas e um tapete, de pequenas dimensões, adornavam o lugar que um dia pareceu a galeria mais luxuosa de um museu Parisiense. Anaís caminhou devagar, como se o doente estivesse dormindo. Fixou o olhar na chaminé e


sentiu prazer ao ver que o fogo ardia com força. Pelo menos o pobre homem não passava frio. ― É certo que é a filha do conde Kingleton? ― Perguntou Polet cobrindo ainda mais seu corpo com as mantas vinho. ― Assim é. Bom dia, senhor Polet ― disse fazendo uma pequena reverência antes de avançar para os pés da cama. ― Bom dia. Conforme me informou Ross, disse falecido ― enfatizou. ― Meu pai morreu faz alguns anos de peste, conforme acredito. ― Não tinha sido peste, tinha morrido numa briga num bar, mas não desejava dar muitas explicações sobre aquele malnascido. ― O que lhe trouxe até aqui, milady? ― Perguntou tentando incorporar-se. Anaís se aproximou do ancião e lhe ajudou a endireitar-se, pôs os travesseiros nas costas e logo se afastou. ― Retornei faz umas semanas e hoje gostaria de saber como estava o lar no qual vivi ― respondeu. ― Tome assento, por favor, lady Anaís ― disse o ancião. ― Como sabe…? ― Desconcertou-a descobrir que o homem sabia seu nome de batismo e que a tratasse com tanta familiaridade. ― Seu pai me falou de você ― esclareceu Polet como se estivesse lendo seus pensamentos. ― Quando me ofereceu a compra desta casa me anunciou que devia vendê-la para que sua única filha tivesse o futuro que merecia. Anaís apertou a mandíbula e as mãos, embora tenha evitado franzir o cenho, não o conseguiu. Aquele estado de ira que tinha aparecido ao recordar a razão pela qual sua babá não lhe abriu a porta estava se transformando numa raiva implacável. ― Mas como posso observar, ― falou olhando-a com atenção ― fui enganado


como tantos outros cavalheiros londrinos. ― Se lhe valerem minhas desculpas… ― assinalou com um ar de tristeza. ― Não tem por que se desculpar das façanhas de seu pai. Pertencem só a ele e, por desgraça, Deus foi piedoso em lhe cortar a vida. Acredite em mim quando lhe digo que você não deve sofrer as consequências de ter tido esse descarado como pai. ― Obrigada… ― sussurrou. ― Não sabe quanto agradeço escutar algo assim. ― Não foi nada e… voltando para o presente, que motivo lhe trouxe até meu arruinado lar? ― Perguntou o ancião entreabrindo os olhos. ― A verdade, senhor Polet, é que precisava ver a casa em que nasci ― confessou com pesar. ― Passei muitos anos afastada desta cidade e gostaria de recordar os lugares onde fui feliz antigamente. Parece-lhe uma ideia descabelada? ― Não, não me resulta estranho que ansiasse contemplar uma residência como esta. Embora tenha de lhe pedir desculpas pela deterioração que encontrou. Estou doente há pouco mais de três anos é-me difícil governar a casa com a mesma força. E, como terá percebido, meu serviço tem a mesma enfermidade ― comentou estendendo as mãos sobre a manta e tocando-a como se quisesse eliminar uma ruga que não existia. ― Que enfermidade padece? ― Quis saber Anaís. ― Uma que nenhum médico pode curar, lady Anaís, a velhice indicou antes de desenhar um sorriso no rosto o ancião. Mal tinha cabelo e os poucos fios eram brancos como a neve. Seus olhos mal tinham luz e as pálpebras começavam a descer. A moça também sentiu saudades de encontrar um homem com as orelhas tão grandes, embora sua avó lhe explicara que cresciam conforme se envelhecia. Mas ela ficou consternada ao ver as suas mãos, porque estavam repletas de feridas sem cicatrizar. Até pôde observar que se as movesse muito começavam a sangrar. Quanto tempo estava sozinho aquele homem? Como era capaz de


continuar a viver daquela maneira? Ninguém cuidava dele por não pertencer à aristocracia? Por que as pessoas eram tão desumanas? ― O que é que pensa? ― Perguntou o ancião inquieto. ― Estava me perguntado, senhor Polet, se necessita de uma… ― Senhor, ― interrompeu o mordomo ― sinto lhe incomodar, mas tem uma visita. ― Outra? ― Soltou o ancião com assombro. ― De quem se trata desta vez? ― O senhor Lawford, senhor ― informou com uma voz fantasmagórica. ― Lhe diga que tenho outra visita e que volte noutro momento ― disse o ancião com rapidez. ― Não se preocupe, senhor. Tenho que partir. Não quero lhe incomodar. Só pretendia… Polet estendeu as mãos trementes para ela e Anaís correu para as aceitar. Era a primeira vez em muito tempo que alguém não recusava tocá-lo e isso provocou ao senhor Polet uma alegria imensa. ― Eu adoraria que voltasse, lady Anaís. Eu gostaria de saber como foi sua vida fora de Londres, porque cada dia da minha vida desejei que o dinheiro que paguei por esta casa ao seu pai a ajudasse em algo ― explicou com certo tremor devido à emoção. Anaís teve que tragar saliva e afastar a comoção que estava sentindo pelas palavras do ancião. Não podia lhe contar a verdade, não a ele, porque não queria que aquele piedoso homem se sentisse fraudado. ― Se assim o desejar, virei vê-lo sempre que puder. ― Aproximou seus lábios da mão e lhe deu um pequeno beijo no pulso. ― Menina… ― sussurrou Polet surpreso. ― Boa tarde, senhor Polet ― se despediu Anaís com uma leve reverência.


― Por favor, me chame de Simon. ― E você pode me chamar de Anaís.

Fechou a porta, desceu as escadas e, uma vez que saudou com uma leve reverência a pessoa que esperava ser atendida, Anaís saiu ao jardim, aferrou-se à primeira árvore que encontrou e chorou até ficar sem lágrimas. XX Fazia muito tempo que não aparecia naquele lugar. Se não recordava mal, a última vez foi quando acompanhou a condessa Kingleton e a sua filha à habitual missa de domingo. Quase sempre se unia à baronesa, mas esse dia sua mãe estava doente e, por recomendações do médico, não podia sair de casa e o conde… o pai de Anaís jamais acompanhava sua esposa salvo o estritamente necessário. Então se ofereceu a passear com elas para lhes dar amparo. Cooper sorriu de orelha a orelha ao recordar aquele momento. Era um jovem sem barba, alto e mal tinha massa muscular a cobrindo-lhe o corpo. Se aquele dia alguém tivesse tentado lhes atacar teria se divertido muitíssimo ao ver quem seria o oponente. Logicamente já não era assim. Podiam dar fé disso todos os companheiros que ousaram ficar com suas notas pela força. Cada vez que algum deles tentava amedrontá-lo transformava seus punhos em dois blocos de aço dispostos a golpear e danificar a zona de carne que tocavam. Por sorte, tinha passado muito tempo. Federith levantou o olhar e contemplou a igreja com saudade. Durante os anos que esteve sob a tutela de William e Roger não tinha visitado nenhuma. A primeira vez que apareceu depois de uma década foi em suas bodas e tampouco ficou entusiasmado em assistir a essa cerimônia. Entretanto, apesar do tempo e da perda de ânimo, ali se encontrava, em frente à entrada de um lugar sagrado. Desabotoou o casaco, tirou-se o chapéu e caminhou para o interior. Necessitava


de um lugar tranquilo para poder meditar com clareza sobre toda a informação que lhe tinha dado o senhor Lawford. Não só estava inquieto pelo que suporia adquirir a que fora a mansão dos Kingleton, mas também pelo fato de ter que confrontar um divórcio. Não lhe cabia dúvida de que seu pai tentaria lhe subornar para que não levasse a cabo tal aberração. Oferecer-lhe-ia tudo o que estivesse ao seu alcance para dissuadi-lo, talvez até lhe pedisse que aguentasse o pouco tempo que tanto a ele como à sua esposa ficassem de vida para não serem testemunhas daquela loucura. Entretanto, Federith não ia mudar de opinião e embora o confronto que teria com seus pais fosse épico, estava mais preocupado com a reação de Caroline. Albergava a esperança de que ela aceitasse sem mais, dado que seu comportamento não se assemelhava em nada ao que devia ter uma esposa felizmente casada. Mas era uma mulher muito imprevisível… se oporia a viver um calvário social ou talvez se comportava assim esperando que ele fosse o responsável pela dita proposta? Fosse o que fosse logo saberia. Quando seus olhos se adaptaram à tênue luz que havia no interior, descobriu que só havia duas pessoas sentadas nos bancos. Uma, no primeiro assento da direita e a outra, no último da esquerda. Duas mulheres, ambas vestidas de rigoroso luto. Durante uns instantes duvidou sobre o lugar que devia ocupar para meditar com aquela calma que precisava, posto que não desejava incomodar nem ser incomodado. Avançou pelo corredor central provocando que o som de seus sapatos causasse um eco irritante para as senhoras que rezavam. Olhou de esguelha à mulher da esquerda e descobriu que estava chorando. Possivelmente seria uma jovem viúva que se lamentava pela perda de seu marido ou uma filha que ficou órfã precocemente. Devagar se afastou dela, não queria incomodála num momento tão agônico. Prosseguiu seu caminhar até colocar-se em frente ao altar. Como fez com antecedência, olhou de esguelha à mulher que havia à sua esquerda e teve que agarrar-se ao banco que tinha próximo para não cair. Era… não, não podia ser. O destino não lhe sorria de novo. Tinha tido muita sorte tanto encontrando-a depois de tantos anos como recebendo de presente outro momento a sós com Anaís. Estaria delirando? Sim,


devia ser isso. Desde que a viu sonhava com ela e a via em todas partes. Sua mente estava tão ansiosa por contemplá-la de novo que não atuava com prudência. Confuso por tais pensamentos, Federith se ajoelhou, colocou suas mãos sobre o respaldo do assento dianteiro e pousou sua testa nelas. Precisava meditar, urgia-lhe acalmar aquela inquietação que se despertou ao imaginá-la junto a ele e que não lhe deixava pensar em outra coisa. Ia fechar os olhos quando percebeu que a mulher se movia incômoda em seu assento. Cooper dirigiu um olhar discreto para ela e ficou sem fôlego. Não estava confundindo, sua mente não lhe tinha enganado. Aquela mulher era Anaís. Teve que conter a imensa vontade de levantar-se e colocar-se ao seu lado. Devia manter a compostura e não se aproximar em lugares públicos. Não só podia prejudicá-la, mas ele também estaria em grave perigo. Entretanto, o que tinha de perigoso poder observá-la durante uns momentos em silêncio? A pergunta se respondeu com rapidez. No momento em que se cruzaram os olhares Federith sentiu que tudo o que tinha ao seu redor se desvanecia. Já não se encontrava numa igreja, mas sim a escassos passos da mulher que amava e que amaria sempre. Anaís ficou petrificada ao descobrir que o cavalheiro que caminhava pelo corredor da igreja era Federith. De todos os lugares nos quais podiam encontrarse, aquele era, sem dúvida, o mais estranho. Mas o que estava a fazer ali?! Não lhe teria ocorrido a absurda ideia de persegui-la, não é? Devia ser uma coincidência. Sim, não havia outra explicação possível. Era lógico que duas pessoas se encontrassem no mesmo lugar e no mesmo momento numa igreja afastada do lar no qual residiam. «OH, senhor…», disse com um suspiro silencioso. Moveu-se no assento tentando aplacar a mescla de felicidade e medo que sentia. Não podia olhá-lo, não devia fazêlo porque não era adequado que uma mulher sem acompanhante contemplasse de forma descarada um homem que, como podia verificar, também se encontrava sozinho. Abaixou a cabeça esforçando-se em conseguir seu propósito, mas lhe resultou


tão difícil não o observar e averiguar o que fazia, que finalmente desistiu de sua tentativa. Mas no momento que seu olhar se cruzou com o dele notou como o céu se prostrava aos seus pés. Como podia ser o homem mais formoso do mundo? Como podia sorrir daquela forma tão fascinante? Sobressaltada, cravou seus olhos no altar e continuou com sua reza. Até o momento da aparição pedia ao Senhor que lhe indicasse o que devia fazer para esquecer Federith, mas Deus tinha que estar muito ocupado atendendo os rogos de outros paroquianos porque, caso contrário, teria evitado aquele encontro. Alisou a saia tentando aparentar tranquilidade, entretanto, suas mãos tremiam tanto que não eliminaram as rugas, pelo contrário preguearam o tecido assemelhando-o a um acordeão. O mais sensato, dada a situação, era dar por concluída sua reza e partir o antes possível. Mas havia um problema… Federith se sentara no extremo do banco e temia que quando passasse ao seu lado agarrá-la-ia pela mão. Examinou ao seu redor procurando outra forma de sair. Parecia tão desesperada como uma ave selvagem enjaulada. Não lhe restava a menor dúvida de que Federith insistiria em acompanhála ao seu lar sem lhe importar o escândalo social que seria os dois caminharem pelas ruas da cidade. Depois do acontecido na noite anterior entre eles, muito temia que aquele decoro que o caracterizou quando menino tinha desaparecido. Anaís o olhou de esguelha e percebeu que não só tinha mudado seu caráter, mas o passar do tempo também tinha transformado seu físico. Qualquer pessoa que


se prostrasse ante uma imagem divina devia apresentar certa submissão, mas em Federith não havia nada disso. Seu corpo mostrava firmeza, serenidade e uma solenidade inverosímeis. Para trás tinha ficado aquela figura alta e magra. Agora era um homem forte, grande e musculoso. Não tinha dúvida de que o passar do tempo tinha melhorado grandemente o corpo de Federith. Não só tinha endurecido os músculos, mas também suas maçãs do rosto tinham tomado uma forma muito viril. O cabelo, embora o usasse curto conforme ditava a moda, desenhava umas bonitas ondas douradas. Anaís estava segura de que se o deixasse crescer formaria uma juba tão formosa como a da baronesa. Observou depois as mãos. Continuava tendo uns dedos longos e magros, mas assim como todo o resto mostravam força e magnificência. Quantas mulheres teriam gozado de suas suaves carícias? Quantas mulheres teriam gemido de prazer ao serem tocadas por aquelas mãos? Anaís resmungou. Não podia pensar nesse tipo de tolices. Precisava concentrar-se em como sair daquele lugar sem que Federith se obcecasse em acompanhá-la. Entretanto, em vez de refletir como abandonar a igreja sua mente a traiu lhe recordando a conversa que manteve a costureira com sua senhora. Conforme explicou, Federith, o marquês e outro cavalheiro que tinha sido ferido gravemente num duelo tinham sido os libertinos mais cobiçados de Londres. Custava-lhe imaginar seu Fed comportando-se daquela forma. Ele jamais foi um moço libidinoso, pelo contrário, era casto, honesto e virtuoso. Como pôde esquecer seus princípios morais com tanta rapidez? Impossível! Aquela mulher mentia. Talvez os sem vergonhas fossem os outros dois e ele obteve a mesma reputação por permanecer com eles. A moça fechou os olhos por um momento e rememorou a última noite que viveram juntos. Nunca a pôde esquecer. Quem seria capaz de obrigar-se a eliminar de sua mente um momento tão especial? Federith a tratou com aquele respeito e decoro que lhe caracterizava e estava segura de que, se não o tivesse beijado, ele jamais teria ousado fazê-lo. Como era de supor, evocar aquele instante lhe ocasionou uma perturbação tão imensa que, em vez de concentrar-se em fugir, seu corpo se relaxou para desfrutar da felicidade e calidez que viveu naquele momento. Ninguém podia igualar-se a Federith, ninguém! Nem seu único prometido, com quem permaneceu durante vários meses, conseguiu que um de seus beijos a fizesse sentir-se tão apaixonada.


Com muito cuidado e sem sequer fazer ruído levantou-se de seu assento para dirigir-se para o púlpito. Conforme pôde perceber, por baixo deste havia duas imensas colunas de madeira onde podia esconder-se com facilidade até que ele partisse. Era a única solução, ocultar-se naquele lugar à espera de que Federith entendesse que não era prudente estarem juntos e terminasse afastando-se. Caminhou com lentidão, seus passos eram tão suaves que mal se escutavam. Antes de girar para a zona em que se encontraria a salvo olhou para o altar. Ao contemplá-lo mais de perto pôde apreciar com mais detalhe as vidraças que tanto a tinham fascinado ao entrar, mas já não lhe resultaram tão interessantes porque sua mente se centrava numa coisa, desaparecer. Depois de se girar para aceder àquele rincão onde estaria a salvo, observou que ele continuava rezando e, por sorte, o fazia com os olhos fechados. Depois de colocar-se atrás das largas e grandiosas colunas de madeira, caminhou para trás até que suas costas tocaram a fria parede. Dali não podia vê-lo, mas ele tampouco veria onde se encontrava. Fechou os olhos, esticou as mãos para o chão e conteve a respiração. Precisava escutar os passos de Federith e se seu coração continuasse pulsando daquela maneira não conseguiria ouvir outra coisa salvo suas próprias palpitações. Durante a espera começou a meditar sobre a mudança que sua vida tinha dado em menos de um mês. Toda aquela tranquilidade que obteve desde que começou a trabalhar para lady Priscila tinha desaparecido. Não só a tinha alterado a presença de Federith, assim como saber quem habitava em seu antigo lar e as condições nas quais se encontrava o senhor Polet aumentaram aquela preocupação. O pobre ancião estava morrendo rodeado de miséria e destruição. Não era justo que uma pessoa terminasse sua vida daquela maneira e, embora não pudesse lhe oferecer nada mais que sua companhia, visitálo-ia cada vez que a condessa o permitisse. E sabia que para poder ir ao seu antigo lar devia lhe confessar certos aspectos do passado. Talvez não a culpasse pelos atos de seu pai e sentisse piedade por aquela menina, agora mulher, que observou de maneira passiva como seu mundo se fazia pedacinhos. Anaís tragou saliva e conteve as lágrimas que desejavam cair. O senhor Polet tinha razão, ela não podia viver sob a sombra de uma perversidade que não tinha realizado. Ela era uma vítima não uma criminosa. Levou as mãos ao peito ao recordar como se sentira ao nomear-se com seu título aristocrático. Os


sentimentos de dor e alegria se mesclavam uma e outra vez. Dor pelas penúrias que viu padecer sua mãe até falecer, e alegria ao ser consciente de que ela tinha sobrevivido. Tê-la-ia matado também? Se os pais de lady Priscila não a tivessem aceito, seu pai a teria assassinado como a elas? Com certeza que sim, ou possivelmente a venderia em qualquer um dos prostíbulos que frequentava. Fosse como fosse, devia dar graças a Deus pela caridade que a família Appelton mostrou ao acolhê-la. Anaís começou a pensar quanto tempo estava oculta atrás das colunas, quando escutou o som de uns passos afastando-se. Enfim Federith partia? Teria entendido que o evitava? Muito devagar caminhou para sua esquerda para comprovar se sua conjectura era certa e respirou ao perceber que já não permanecia sentado no banco. Não havia ninguém, nem sequer a mulher que tinha entrado ao mesmo tempo que ela. Suspirou satisfeita de que Federith entendesse seu propósito. Como quando eram meninos, não precisava falar para que ele soubesse em cada momento o que necessitava. Pelo menos isso não tinha mudado… aliviada, voltou-se para a direita para abandonar o esconderijo quando se chocou contra uma parede de músculo duro. ― Está me evitando? ― Sussurrou tampando-lhe a boca para que não gritasse. Anaís abriu os olhos imensamente. Não sabia o que fazer naquele momento. Estava ali, ao seu lado, tocando seus lábios com suavidade e olhando-a como só ele podia fazêlo. ― Ou só pretende brincar de esconde-esconde como quando éramos crianças? ― Insistiu sem apagar o sorriso. Afastou com suavidade sua mão e deixou que ela tomasse ar. ― O que faz aqui? Está me seguindo? ― Soltou em voz baixa. Tinha parecido zangada? Porque o estava e muito. ― Vim a expiar meus pecados, que ultimamente são muitos… e você? ― Disse com sarcasmo ao mesmo tempo que a olhava com tanta fogosidade que poderia derreter um iceberg. ― Também ― respondeu envergonhada.


Não podia observá-lo tão perto nem tampouco era conveniente sentirse como o fazia. Anaís notava como seu pulso se acelerava e como seu peito se elevava e baixava ao ritmo de uma respiração entrecortada. Por que a alterava tanto? Por que não era capaz de controlar-se quando ele estava tão perto? A resposta era singela, porque continuava sentindo algo… sim, isso era. Embora tinham passado os anos, embora nenhum dos dois se assemelhasse ao que uma vez foram, seus sentimentos por aquele homem não tinham desaparecido. Por esse motivo não se casou, por aquela razão evitou a proposta de matrimónio. Como ia viver com um marido que mal lhe provocava uma décima parte do que Federith causava nela? ― Ninguém o diria ao ver-te atuar dessa forma. Parece mais uma mulher escondendo-se de um indesejável ― disse jocoso. ― Estava me escondendo de ti ― declarou com firmeza. ― Não quero ver-te, não quero que esteja tão perto… ― disse dando um pequeno passo para trás. ― Não quer ver-me? ― Apontou arqueando as sobrancelhas e colocando a palma de sua mão na parede como se estivesse sujeitando-a. ― Por que? Acaso fiz algo que não te


agradou? Se for assim, peço-te mil desculpas. ― Acredita que beijar-me não é motivo suficiente para eu te evitar? ― Sussurrou zangada. ― Sei que não sou o homem mais experiente na arte de beijar, mas até agora ninguém se queixou… ― prosseguiu zombador. ― É um pretensioso ― indicou elevando a voz. Federith voltou a lhe tampar a boca com a mão livre e ficou olhando-a com a mesma intensidade que um cientista a uma partícula nova. Examinou em detalhes o rosto e chegou à conclusão de que o passar do tempo tinha embelezado suas feições. Até aquele nariz que parecia o pico de um falcão se poliu para melhorar e embelezar o rosto mais perfeito que jamais tinha contemplado. Como ia separar-se dela outra vez? Que força de vontade devia adquirir para deixá-la partir de novo? Nem queria separar-se de Anaís nem procuraria aquela força para afastar-se. Ela seria dele e, embora lhe custasse toda sua fortuna ou a rejeição social a que se veria submetido depois do divórcio, Anaís se converteria na mulher que estava destinada a ser, sua esposa. ― Informaram-me que a condessa viúva de Crowner assistirá à festa que a senhora Baithlarin oferecerá em Marylebone ― explicou ao mesmo tempo que liberava sua boca. ― Imagino que você também assistirá… ― Não sei o que vai fazer, minha senhora, ― assinalou com receio ― mas embora assim seja, não me ocorreria aparecer nessa festa. Se por acaso não o recorda, sou uma simples criada ― enfatizou mal-humorada. ― E como tal, ― disse aproximando sua boca da dela ― permanecerá no jardim conversando com as demais donzelas, é assim? ― Sim ― afirmou Anaís levantando o queixo para enfrentar o homem que tinha aproximado seu corpo de maneira inadequada ao dele. Ao homem que emanava um aroma tão embriagador como hipnótico. Ao homem que aproximava seus


lábios aos dela e que esquentava seu rosto com seu fôlego. ― Acha que poderá se liberar delas durante um tempo? ― Perguntou enquanto lhe acariciava com o dedo polegar a bochecha ruborizada. ― Poderia me conceder uns minutos, Anaís? Por que lhe tremiam as mãos? Por que escutar daquela boca seu nome a perturbava tanto? Tinha que ser firme, devia ser sensata, devia negar-se… ― Sim ― disse sem pensar. ― Obrigado... ― aproximou sua boca da dela e lhe deu um beijo tão apaixonado que ela levantou, de maneira inconsciente, seu pé esquerdo. Anaís fechou os olhos e se deixou levar. Não era consciente naquele momento de onde se encontrava. Para ela ambos estavam no topo da montanha que rodeava seu antigo lar, com a lua iluminando-os e sem ninguém que pudesse lhes interromper. Federith sempre tinha sido a pessoa em quem sonhava, seu príncipe, seu cavalheiro salvador. De repente, a lembrança das penúrias que padeceu com seu pai golpeou sua cabeça e eliminaram com rapidez toda aquela paixão que Federith despertou. Justo quando colocou suas mãos no peito dele para apartálo, notou como os fortes braços envolviam seu corpo e a aproximavam ainda mais. As más lembranças desapareceram,


eliminaram-se de sua mente partindo com eles o medo e o terror que viveu. Federith a protegia não só de seu presente mas também de seu passado. Abriu suas mãos para segurar-se com força às lapelas do casaco. Não podia deixá-lo partir, necessitava-o mais do que ela mesma supunha. Por um momento pensou que ela poria certa distância entre eles, mas nesse instante Federith abriu os olhos e observou que Anaís franzia o cenho. Algo a preocupava e como enrugava a testa era triste. Sem deixar de beijá-la, estendeu os braços e a atraiu para ele. Necessitava que ela sentisse aquele amparo que seu corpo masculino podia lhe oferecer. Por sorte, conseguiu relaxála. ― Anaís… ― murmurou quando sua boca se separou. ― Federith eu… ― tentou dizer. ― Vereemo-nos na festa de lady Baithlarin, ― atalhou antes que rejeitasse sua proposta ― e aconselho que vigie suas costas porque, quando menos esperar, me encontrará atrás de ti ― acrescentou antes de lhe dar um beijo rápido e partir. Continuava numa espécie de transe agradável depois de sua partida. Não era capaz nem de pensar com claridade. Pelo amor de Deus! O que tinha feito? Tinha aceito encontrar-se com ele às escondidas? Devia correr atrás de Federith e negar esse encontro. Só precisava dar vários passos, chama-lo e esclarecer que não era possível o que pretendia, mas em vez de agir com sensatez, descobriu que se sentia excitada e emocionada tal qual quando era menina. A lembrança daquelas noites nas quais Federith aparecia sob o balcão se aglutinou

em sua cabeça de repente. Sentia a mesma euforia que antigamente, até seu coração parecia ter rejuvenescido. Como conseguia convertê-la numa pessoa tão diferente? Como era capaz de fazer com que sua mente retrocedesse no tempo como se os anos não tivessem passado entre eles? Anaís tocou as suas bochechas e suspirou ao notá-las quentes. Não podia deixarse levar de novo. Tinha que ser firme e lhe esclarecer que suas vidas se distanciaram. Mas antes disso desejava viver uma noite de felicidade. «Só uma


mais e se acabou», disse-se enquanto saía de seu esconderijo. Quando olhou para o altar voltou a ruborizar-se. Como tinha sido capaz de beijála daquela maneira num lugar tão sagrado? Morta de vergonha por um ato tão impuro, acelerou o passo e saiu à rua. Precisava retornar a Longher e averiguar como tinha ido lady Priscila em sua aventura matutina. «Com certeza melhor que tu», pensou enquanto pôs rumo à residência. XXI Não apaziguou seu pranto nem quando observou que estava chegando em Longher. Encontrava-se tão humilhada e desventurada que nem contemplar a formosa residência em que vivia a consolou. Priscila se limpou com o pequeno lenço branco as lágrimas e assoou o nariz. Por que tinha sido tão iludida ao pensar que conseguiria ganhar aquela batalha? Ela jamais enfrentara um problema sem o respaldo de outra pessoa e, como percebeu, continuava sem ser capaz de fazer nada sozinha. Apertou seus pequenos punhos e desejou, pela primeira vez em sua vida, golpear o que tivesse ao seu alcance até causar-se dor. Sentia-se tão ferida que a única coisa na qual pensava era em retornar ao lugar do qual não devia ter partido jamais. Desesperada, fechou os olhos e voltou a ver-se naquele armazém. Escutou outra vez o insulto daquele trabalhador e a imagem do senhor Spencer apareceu de novo. «Ele… ― refletiu . ― Ele tem a culpa de tudo…». Franziu o cenho, zangada, ao recordá-lo ali sentado sobre a mesa eliminando qualquer atitude adequada frente a uma senhora como ela. Claro que permitiu a ousadia de comportar-se daquela maneira! Para ele só era uma caça-fortunas, uma mulher que enganou o conde para casar-se! Zangada até limites insuspeitáveis, agarrou o tecido de seu vestido e o apertou com força. Não só ele pensava tais aberrações, mas sim toda a sociedade londrina entesourava a mesma ideia. Só por ter casado com um homem tão mais velho podiam assinalála de harpia? Ninguém podia imaginar que se


casou por outro motivo? Mas, claro está, a verdadeira razão só a conheciam ela, o conde e Thomas e, é óbvio, nenhum dos dois que ainda seguiam com vida revelaria nada. Priscila suspirou fundo. Jamais acreditou que aquele matrimónio destroçaria sua vida a longo prazo. Imaginou que, uma vez falecido seu marido, conseguiria viver como sempre sonhou. Embora começasse a entender que não era assim. A melhor solução para não continuar enganando-se era partir e dedicar-se a sobreviver o resto de seus dias em Bournemouth, o povoado no qual foi feliz durante o tempo de casada. ― Milady… ― disse o cocheiro quando abriu a porta. Priscila continuou sentada durante um bom momento observando a entrada do lugar no qual acreditou que alcançaria a felicidade. Mas tudo tinha sido uma ilusão, um produto de sua ansiosa e desesperada mente. Devagar, desceu os degraus. Era a primeira vez que seu corpo pesava mais de uma tonelada e lhe parecia difícil caminhar. Seria isso o que todos denominavam estado de resignação? Sim, era. Resignavase a um futuro sem lutar, sem gritar a todos àqueles bastardos que ela não era quem diziam e que jamais achariam a verdadeira mulher que se escondia entre as roupas escuras. A ninguém interessava quem era ela em realidade. A ninguém! Aflita, levantou o vestido, subiu as escadas e, quando se encontrou em frente à porta, voltou a suspirar. ― Milady ― a governanta a recebeu. ― A senhorita Price ainda não retornou. Quer que lhe prepare…? ― A criada não finalizou a oferecimento porque ficou calada ao perceber que atrás das costas de sua senhora uma imensa sombra corria para elas. Priscila girou sobre seus calcanhares para observar o que tinha interrompido sua criada. Quando descobriu uma enorme figura aproximando-se a grande velocidade e compreendeu de quem se tratava, todo aquele grande peso que tinha sentido em seu corpo desapareceu para convertê-la numa mulher mais ligeira que uma pluma. ― Não estou em casa! ― Gritou enquanto acelerava o passo. ― Não estou em casa! ― Repetiu.


― Milorde… ― disse a aturdida criada àquele imenso corpo que, parado na entrada, não afastava o olhar da desesperada mulher. ― A senhora não se encontra na residência, se puder vir em outro momento. ― Entendi… ― resmungou Leopold franzindo o cenho. Mas não permitiu que a criada lhe proibisse de cumprir seu propósito, afastou a mulher com cuidado para não lhe machucar e entrou. ― Pretende que a siga até seu dormitório, milady? ― Vociferou quando pisou no primeiro degrau da escada pela que ela pretendia fugir. ― Asseguro-lhe que não será nenhum problema persegui-la até seu quarto… ― rugiu com firmeza. ― Parta! Vá agora mesmo daqui! ― Exclamou Priscila voltando-se com tal brutalidade para ele que seu vestido se enredou nas pernas lhe provocando um inevitável tropeço. ― Senhora! ― Gritou desesperada a donzela ao ver que iria rolar pelas escadas. Leopold agiu com uma rapidez própria de um deus. Subiu as escadas com grande velocidade e a agarrou em seus braços antes que ela se golpeasse no primeiro degrau. Elevou-a um pouco para acomodá-la melhor em seus antebraços e começou a descer. Não sabia se ria ou amaldiçoava pelo que teria acontecido se ele não a tivesse alcançado. Mas não fez nem um nem outro, só tentou aguentar uma situação muito diferente da que tinha esperado e com os olhos da criada cravados neles. Que imagem estaria oferecendo aos serviçais? Não lhe importava nada o que pensava aquela mulher! Porque a única coisa em podia concentrar-se naquele momento era na tragédia que poderia ter acontecido se não tivesse chegado a tempo para evitar que se magoasse. ― Me solte! ― Trovejou desesperada. ― Tira suas mãos de mim! ― Não! ― Respondeu com firmeza Spencer. ― Não vou soltála até que escute o que vim lhe dizer ― grunhiu. E sob o atento olhar da criada, desceu-a nos braços aguentando inabalável os golpes que lhe dava no torso. Com o rosto imperturbável e com a atitude mais serena que a que apresentava Priscila, conduziu-a sem soltá-la para o pequeno


salão que o antigo conde possuía na primeira porta do corredor à sua direita. ― Que ninguém nos incomode e se algum de vocês tiver a absurda ideia de atrapalhar a conversa que terei com a condessa, será despedido imediatamente, entendido? ― Sentenciou com rudeza antes de fechar a porta e perceber que a governanta assentia. Podia mantê-la assim eternamente? Podia tê-la em seus braços pelo resto de sua vida? Porque apesar dos dramalhões que ela fazia e a ferocidade que mostrava seu rosto, Leopold se encontrava no paraíso. Era pequenina para ele. Parecia uma boneca de brincar, uma boneca guerreira, pela forma de lutar por liberar-se. Tentou não expressar o bem-estar que sentia ao agarrála daquela maneira, nem deixar-se levar pelo desejo de colocar seu nariz entre aquele suave cabelo para inspirar aquele aroma de flores que desprendia. Leopold jogou uma leve olhada ao torso da mulher e notou como lhe acelerava o coração ao contemplar aquele decote tão pecaminoso. Podia aproximar seus lábios e beijar a doce pele? Sim, podia fazê-lo se a aproximasse um pouco mais, mas não seria um bom momento para isso posto que a condessa não parava de lhe propiciar pequenos murros no peito que, é óbvio, não conseguiam lhe fazer dano. ― Pode ficar quieta de uma vez? ― Perguntou com voz rude. ― Como pode me falar dessa maneira? ― Retrucou ruborizada pela ira. ― Ainda não sou um aristocrata – zombou-se ao mesmo tempo que colocava aqueles pés agitados no chão. ― Então posso falar como me agradar. Uma vez que permaneceu de pé, Priscila acelerou o passo para a porta para sair dali, embora o corpo de Leopold lhe impedisse o passo. ― Vim até aqui para falar contigo ― alegou resmungão. ― E não vou partir sem fazê-lo.


― Sem lhe importar o que eu desejo? ― Assinalou encarando-o. Spencer ficou mudo ao perceber que os olhos de Priscila estavam vermelhos pelo pranto que teria tido desde que partiu de seu escritório. Desejou aproximar seus lábios deles e acalmar a dor com um sem-fim de beijos, mas não era o momento. Em primeiro lugar, devia afiançar o que sentia por aquela mulher e depois… trataria de averiguar que sentimentos escondia ela. «Ódio – pensou. ― Por acaso está tão cego que não é capaz de vêlo por ti mesmo?». Leopold apoiou as costas na porta e cruzou os braços lhe deixando bem claro que não partiria nem a deixaria escapar até que o escutasse. ― Minha querida condessa… ― começou a dizer. ― Nem lhe ocorra dirigir-se a mim com essas palavras de afeto! ― Ameaçou levantando um dedo para ele. Leopold desenhou um leve sorriso e desejou aproximar aquele dedo enluvado de sua boca para averiguar como reagiria ao beijála. Debaixo daquela aparência irada esconderia um sentimento tão profundo como o seu? Embora não tivesse muito claro de que tipo era, necessitava que a resposta fosse afirmativa. Pelo menos sabia que quando a beijava, ela se derretia em seus braços até tal ponto que lhe pareceu uma mulher inocente, apesar de estado casada. ― Minha querida condessa – repetiu. ― Acredito que partiu do meu escritório sem me deixar claro quantos cartões necessita. ― Como?! ― Perguntou arqueando as sobrancelhas e olhando-o surpreendida. ― Se deseja me fazer um pedido, tem que me explicar a quantidade exata que quer e tem que me efetuar o devido pagamento ― comentou zombador. ― Veio até aqui…? ― Priscila abaixou a cabeça e caminhou devagar para o meio do salão. Por mais que tentasse dar uma resposta lógica à aparição daquele homem em sua casa, não a encontrava. E o que expunha era uma tolice. Não lhe tinha ficado claro que partiria de Londres? Talvez ansiasse escutar outra vez o que já lhe tinha indicado. ― Não me farão falta esses ditosos cartões, ― disse


abraçando-se a si mesma ― decidi retornar a Bournemouth. ― Porquê? ― Perguntou com uma voz tão rude que Priscila notou como lhe arrepiava o pelo ao escutá-lo. ― Porque este não é meu lugar ― indicou sem olhá-lo. ― Londres não é um lugar adequado para mim. ― E… por que Londres não é seu lugar, Priscila? ― Insistiu caminhando para ela com um passo tão solene que a mulher ouviu o eco daqueles passos retumbar na habitação. ― Isso só interessa a mim, senhor Spencer. Se de verdade veio obter o pagamento de meu pedido, pode partir porque não o farei. E se tiver aparecido aqui para confirmar que será o próximo proprietário de Longher, fique tranquilo, o será ― esclareceu com tristeza. ― Não quero esta maldita propriedade nem esse condenado pagamento ― grunhiu apertando os dentes. ― Então… ― Priscila se girou para enfrentar de uma vez por todas o homem que, por estranho que parecesse, causava-lhe uma mescla excepcional de sentimentos contraditórios. ― O que é que deseja na verdade de mim, senhor Spencer? Leopold colocou suas mãos nas costas e esticou a grande figura. Não conseguia encontrar a resposta que ela esperava posto que nem ele mesmo sabia o que pretendia. Só havia uma coisa que estava muito claro para ele: não permitiria que se afastasse de seu lado até descobrir a razão pela qual se sentia um miserável, um ser incapaz de raciocinar sem a presença daquela figura feminina. Sua vida se transtornou desde que a encontrou. Tudo havia se tornado um caos ao seu redor. Até sua cabeça lhe gritava coisas que não conseguia assumir. Por acaso não se embriagou para esquecer aqueles pensamentos perturbadores? Embora todo aquele álcool se evaporara ao contemplá-


la em seu armazém e descobrir que fora insultada por seu empregado. Por que ansiou estrangular ao pobre ingrato? Segundo Karl só podia atuar assim porque a amava mas… podia apaixonar-se por uma mulher por uns simples beijos? ― Desejo saber por que deduziu que meu conceito sobre você é tão inapropriado ― apontou mostrando um pouco de serenidade. Se quisesse resolver com prontidão seu dilema precisava falar com tranquilidade e observá-la com atenção. Possivelmente se mantivessem uma conversa relaxada a solução à sua pergunta apareceria imediatamente. Que melhor forma de eliminar um encantamento que escutar sandices da bruxa que te enfeitiçou? ― OH! ― Exclamou zombadora. ― Parece que recuperou aquele comportamento aristocrático… ― acrescentou mordaz. ― Priscila… ― resmungou dando um passo mais para ela. Conteve a vontade de soltar uma grande gargalhada ao escutála utilizar um tom tão malévolo. Não se esperava que uma mulher tão doce e tão aparentemente frágil pudesse converter-se ao mesmo tempo em um ser agudo e irônico. Por todos os feitiços de sereias, seu encantamento aumentava! ― Não se aproxime mais ― indicou de novo com o dedo levantado. ― Se o fizer gritarei até ficar sem voz. ― Acredita que lhe permitiria gritar? Por acaso não reparou o tamanho das minhas mãos? ― Perguntou lhe mostrando as duas grandes palmas. ― Não só tamparia sua boca, mas também todo seu rosto ― apontou divertido. ― Mas tenho dentes, se por acaso você tampouco reparou. Possuo uma forte e cortante dentadura com a qual posso morder tudo aquilo que cobrir minha boca ― manifestou desafiante. ― Podemos voltar para a conversa anterior? E, por certo, sim que fui consciente dessa dentadura… mais de uma vez, temo-


me ― explicou sarcástico. ― Como se atreve…? ― Vai continuar lutando ou vai me explicar de uma vez por todas por que deu por certo que os meus pensamentos sobre você são inadequados? ― Falou zangado. ― É difícil lhe responder sem me sentir uma vulgar rameira esclareceu depois de tomar-se um pouco de tempo. ― Você não é nenhuma… ― Então… por que me assaltou no jardim, senhor Spencer? ― Solicitou ao mesmo tempo que arqueava as sobrancelhas, franzia o cenho e cruzava seus braços sem lhe importar que aquela postura não fosse adequada para uma mulher como ela. ― Vim aqui para averiguar quem era a viúva do meu tio expressou de maneira calma sem deixar de aproximar-se de Priscila com passo firme. O que provocou que ela começasse a caminhar para trás. ― Quis saber que tipo de mulher me impedia que ficasse com esta mansão que odeio e que só anseio vender para ampliar meu negócio. ― Prosseguiu andando. ― Rondava pelo jardim quando a descobri. ― E? ― Insistiu com os olhos abertos como janelas. ― E então… atuei de maneira inadequada ― confessou com seriedade. ― Por que… atuou de maneira inadequada? ― Persistiu. Priscila notava como seu coração pulsava com tanta força que parecia estar a ponto de sair de seu peito. Não podia apaziguálo. Como fazê-lo diante de um homem tão impressionante? Embora fosse muito alto para ela, não podia evitar o formoso que lhe parecia. Continuava com o cabelo


revolto. Várias mechas tentavam ocultar aqueles olhos escuros que a olhavam com intensidade. Tampouco podia evitar observar como o tecido da jaqueta que vestia marcava seus fortes e robustos braços, aqueles nos quais tinha permanecido durante uns instantes. Tragou saliva enquanto continuava a recuar, perplexa ante tal presença masculina. Sim, era o que desprendia daquele homem, masculinidade, dignidade e virilidade por cada poro de sua pele. Estava num sério apuro, mais do que supunha porque, por mais estranho que lhe parecesse, a proximidade não lhe resultava perigosa, mas sim tremendamente sensual e erótica. ― Peço-lhe mil desculpas pelo atrevimento daquela tarde ― disse Leopold com uma voz estrangulada pela vergonha e o desejo. Não entendia a razão pela qual ansiava tocá-la, beijá-la e acariciar cada milímetro de sua pele, mas o necessitava muito mais que o ar para respirar. Devia abandonar aquele lugar antes de cometer outra loucura, mas um delicioso aroma chegou ao seu nariz e lhe causou uma ereção tão forte que não podia ocultála com nada que estivesse ao seu alcance. De onde procedia aquele delicioso perfume? Que lugar emanaria uma essência a mar e flores? ― Mesmo que lhe desculpe por aquele dia, ainda deve me explicar por que insistiu em me beijar esta manhã ― falou com tanta suavidade que mal pôde escutar-se a ela mesma. O que lhe acontecia? Por que notava um calor insuportável entre as pernas? Por que ansiava sentir aqueles lábios percorrendo seu corpo? Estava louca, essa era a única explicação razoável. O estado de ira a afetava e precisava encontrar um pouco de tranquilidade para que aquele inapropriado comportamento desaparecesse, assim como aquele fogo sob seu baixo ventre que, por uma inexplicável razão, começava a umedecer-se. ― Por acaso Adão pôde evitar morder a maçã quando Eva a ofereceu? ― Respondeu com evasivas. ― Mas Adão podia rejeitá-la e evitar assim o pecado ― murmurou Priscila levantando o rosto para aquela figura que permanecia a


escassos centímetros dela. ― Adão foi incapaz de resistir porque, como qualquer homem, não se pode recusar o desejo proibido ― sussurrou entrecortado. Pelo amor de Deus! Aquele aroma que o tinha enlouquecido vinha dela. Encontrava-se tão excitada como ele? Tinha, então, uma pequena possibilidade de fazê-la sua? ― Sou algo proibido, senhor Spencer? ― Indagou de uma maneira tão sensual que as palavras golpearam naquele peito masculino lhe causando uma dor muito mais intensa que seus punhos. ― Sim, Priscila. Você é algo proibido para mim… ― disse antes de aproximar sua boca da dela. Precisava beijá-la, urgia-lhe averiguar se embaixo daquela saia ela o requeria tanto como estava imaginando porque se errasse, se não fossem certas suas conjecturas, morreria de frustração. Priscila duvidou durante uns milésimos de segundo se lhe permitiria beijála. Ela queria que o fizesse. Precisava urgentemente que sua boca tocasse a dela e ansiava sentir o calor daquela língua feroz em seu interior. Mas se o que desejava mostrar era justamente o contrário, como desejava comportar-se, não podia permitir-lhe. No momento que Leopold fechou os olhos, ela se abaixou e esquivou-se de suas mãos para escapar. Liberou-se! Entretanto, não se encontrava feliz, mas sim triste por não ter gozado daqueles braços e daquele beijo apaixonado. Por que se sentia tão contrariada? ― Pois não voltará a pecar! ― Exclamou tão zangada que não se reconheceu. ― Como bem disse, você não pode me conseguir porque não estou ao seu alcance. Leopold se girou para ela e, em vez de mostrar aborrecimento, seus lábios se estenderam para desenhar um enorme sorriso. Era uma mulher pequena, mas muito valente. Ninguém até agora enfrentara-o por seu tamanho ou por aquela fama de homem monstruoso que possuía desde que enfrentou, com quinze anos, ao primo de seu


pai após descobrir que extorquia sua mãe para que se convertesse em sua amante. Entretanto, ali estava uma mulher que não lhe alcançava o ombro encarando a um titã. Um gigante que podia ajoelhar-se ante ela e lhe suplicar que lhe deixasse beijá-la uma vez mais. ― Faça o favor de partir da minha propriedade ― assinalou com toda a solenidade que pôde. ― Sua propriedade? ― Retrucou arqueando as sobrancelhas. ― Não havia dito que partia? ― Zombou. Possivelmente não a tinha beijado, possivelmente se afastaria daquela casa chorando como um bebê por não acariciar seus lábios nem descobrir que zona de seu delicioso corpo desprendia aquele aroma que o tinha excitado, mas para sua satisfação ela permaneceria em Londres durante mais tempo. ― Sim, minha propriedade ― repetiu.

― Está bem, sua excelência ― murmurou ao mesmo tempo que fazia uma leve reverência. ― Cumprirei seu desejo de me afastar de seu lar, mas… ― Mas? – Perguntou na expectativa. ― Mas não evitará minha presença em qualquer outra parte desta cidade ―


declarou avançando para ela até ficar de novo a escassos centímetros. ― Só os muros deste castelo a salvarão Priscila, porque lá fora, a proibição desaparecerá… ― manifestou antes de pegar as mãos que ela tinha colocado como barreira entre eles para levar-lhes à boca e as beijar. ― Proteger-me-ei… ― murmurou sem poder afastar seus olhos daquela boca e sem diminuir o tremor de suas mãos. ― Não haverá nada que possa salvá-la de mim, Priscila ― sussurrou antes de soltá-la e contemplar o formoso rubor de suas bochechas. ― Procurarei quem me… Embora tivesse decidido não beijá-la, embora tivesse a intenção de partir dali sem tocar seus lábios, Leopold silenciou aquela boca com um beijo. Não houve luxúria nele, nem insistência em possuí-la com sua língua. Só manteve unidos seus lábios aos dela durante um segundo. ― Nada, Priscila. Não haverá nada nem ninguém que me impeça de te ter ― declarou antes de deixá-la só naquele salão que, naquele momento, à condessa pareceu imenso. Anaís chegava a Longher meditando sobre o ocorrido entre ela e Federith. Tinha o olhar cravado nas escadas quando percebeu que uma imensa figura passava ao seu lado. Assustada, afastou-se. ― Boa tarde, senhorita Price. Sinto se a atemorizei ― se desculpou Leopold. ― Boa tarde, milorde ― respondeu com uma leve reverência. ― É você quem se encarrega dos cuidados da condessa, não é? ― Perguntou curioso. ― Há pouco mais de uma década, senhor ― respondeu. Por que respondia às


perguntas daquele homem? Que fazia ele ali? Por que se interessava pela condessa? Precisava subir, procurar lady Appelton e averiguá-lo o antes possível. ― Você sabe se está convidada à festa da senhora Baithlarin? ― Perguntou com voz serena e firme. Por que desejava saber se iria a essa festa? Tão importante era essa cerimônia? Anaís refletiu com rapidez concluindo de que aquele homem só queria indagar se a condessa tinha decidido ficar ou partir e, como era lógico, se aparecesse em eventos sociais era porque tinha a intenção de permanecer em Longher além do que aquele cavalheiro requeria. ― É claro que está convidada e a assistirá, milorde ― disse com integridade. ― Obrigado ― respondeu Leopold descendo os degraus que ficavam até pisar no jardim. ― Só uma coisa mais ― disse voltando-se para ela. ― Sim? ― Apontou preocupada. ― Se algum cavalheiro levá-las em sua carruagem, avise à condessa que não conseguirá alcançar Marylebone sem sofrer uma briga. ― É uma ameaça? ― Perguntou receosa. ― Não, é só uma advertência, senhorita Price. Boa tarde. ― Boa tarde, milorde. E depois daquela advertência se afastou de Longher caminhando e assobiando. Anaís ficou petrificada. Como ousava aquele monstro falar daquele modo? Agarrou seu vestido e subiu as escadas a grande velocidade. O que tinha ocorrido entre a condessa e o sobrinho do falecido conde? Estas e milhares de perguntas mais surgiram em sua mente enquanto alcançava a entrada de Longher.


― Senhorita Price! – Exclamou a governante ao vê-la. Aquela euforia que mostrou a mulher fez com que Anaís deduzisse que nada bom tinha acontecido naquela visita. ― A condessa? ― Quis saber desesperada. ― No salão de visitas ― lhe informou. ― Obrigada ― respondeu correndo para a porta dessa habitação. Quando Anaís abriu a porta sem chamar, ficou paralisada pelo estado no qual observou Priscila. Tinha os olhos fechados, tinha entrelaçado suas mãos e as apoiava sobre sua boca. ― Milady… ― murmurou caminhando para ela. ― Vi o senhor Spencer partir… ― Sim, esteve aqui uns minutos ― esclareceu sem olhá-la. Suas mãos, aquelas que permaneciam perto de sua boca cheiravam a ele. E o calor que emanou ao beijá-las seguia provocando um frio suor sob as luvas. O que tinha tentado lhe dizer? O que desejava lhe explicar quando fez referência a “não me impedirão de te ter”? De que maneira queria tê-la? ― Fez-lhe mal? ― Insistiu Anaís. ― Não! ― Respondeu com rapidez Priscila. ― Ele jamais me faria mal! A afirmação que expressou sua boca a deixou desconcertada. Como sabia que ele jamais a machucaria? Não sabia com exatidão e tampouco era uma perita em homens, mas seu coração lhe gritava que o senhor Spencer não atuava como um ser desumano mas sim como… Não! Só a utilizava para ficar com a residência. ― Tive umas palavras com ele quando partiu ― comentou Anaís aniquilada pelo comportamento de Priscila.


― O que te disse? ― Comentou-me que você não deve ir à festa de lady Baithlarin na carruagem de outro cavalheiro ou sofrerá uma briga ― disse zangada. ― Disse isso? ― Priscila se girou para sua dama. Seu coração voltou a pulsar com frenesi e aquele rubor que começava a controlar retornou com mais ímpeto, se cabia. Não queria ficar com Longher, mas sim com ela! Um sorriso perverso apareceu naquele rosto vermelho. ― Necessito que alguém leve uma missiva à marquesa de Riderland ― informou ao mesmo tempo que saía do salão e se dirigia para a biblioteca. ― Quer que a leve eu mesma? ― Perguntou caminhando atrás dela. ― Não! ― Respondeu com celeridade. ― Nós temos que nos encarregar das compras. ― Das compras? ― Questionou atônita. ― Sim, Anaís. Temos dois dias para comprar vestidos, chapéus, meias, camisolas… ― enumerou eufórica.

― Então… decidiu ficar em Londres? ― Perguntou estupefata. ― Sim, porque acredito que Londres me oferecerá aquilo que tanto ansiei ― expressou feliz. ― E o que é que tanto desejou e não obteve antes, milady? ― Interessou-se Anaís ao mesmo tempo que abria os olhos imensamente e deixava de respirar. ― Uma vida! ― Trovejou Priscila antes de dar uma volta sobre si mesma. XXII Roger olhava sua esposa de soslaio, não parava de rir e tagarelar com sua nova


amiga, a condessa viúva de Crowner. Tinha-a convidado, ou isso lhe disse ela, a acompanhá-los em sua carruagem até a mansão de lady Baithlarin. Embora parecesse uma doce e infantil reunião de amigas, Riderland sabia que escondiam algo. Aqueles sorrisinhos, aqueles olhares de cumplicidade e como, de vez em quando, afastavam a cortina da carruagem contemplando com inquietação o que havia no exterior, provocavamlhe calafrios. Dirigiu seus olhos para Anaís, ela permanecia calada, com suas mãos sobre sua saia e com as pupilas cravadas nos pés enquanto Natalie não cessava de tagarelar sobre seu novo vestido. Prestou atenção a como a senhorita Price suspirava. Estaria a par do que pensava fazer Federith na festa? Pela forma de se comportar, não parecia saber o que ocorreria a qualquer momento daquela cerimônia, Cooper tampouco lhe disse se ela conhecia seu plano. O único que lhe pediu quando apareceu na tarde anterior em Lonely Field foi que lhe ajudasse a desculpar o tempo que se ausentasse. Roger jogou a cabeça para trás e refletiu sobre a mudança tão drástica de seu amigo desde que averiguou quem era na realidade a dama de companhia da condessa. Parecia outra pessoa. Não só porque sorria mais do que o habitual, mas até se decidiu a deleitar-se com um daqueles charutos que guardava na gaveta de seu escritório. Quanto tempo fazia que Cooper tinha deixado de fumar? Sete, nove anos? Mais ou menos. E de repente, toda a atitude que tinha esquecido retornou com mais intensidade. William deveria ter chegado durante a semana para ser testemunha direta daquela inexplicável mudança. Tinha que se ter apresentado antes da festa de lady Baithlarin mas, conforme anunciou na sua última missiva, Beatrice passou por uns dias inquietos e o médico lhe recomendou um pouco mais de repouso. Zangou-se, sim, tinha-o feito e muito porque conforme passavam os dias percebia que algo mau ia ocorrer. Não entendia por que tinha esse tipo de pressentimento, talvez pela mudança de Federith, possivelmente porque suspeitava que este estava a ponto de fazer uma loucura ou podia dever-se àquele revoo que observava entre sua esposa e a condessa. Fosse o que fosse estava intranquilo. Até deixou de repreender seu irmão Logan. Ultimamente se tinha proposto averiguar quem era sua verdadeira mãe. A princípio lhe explicou que não importava quem o tinha tido em seu ventre durante nove meses, mas sim a mulher que o cuidou durante seus primeiros


quinze anos de vida, mas o jovem insistia em descobri-lo porque, segundo ele, estava tendo certos dons misteriosos. E tinha razão. Segundo John, nenhum filho de uma criada podia alcançar o manejo tão concreto de uma faca e também havia o assunto dos sonhos… não lhe havia dito a quem via nessas aparições, mas quando Logan as tinha, levantava-se no dia seguinte sem forças, abatido e com os olhos repletos de olheiras. Houve uma ocasião que tentou chegar à sala de jantar e não o conseguiu porque desmaiou no meio do trajeto. «Apostaria minha cabeça que seu irmão é, de verdade, o filho de uma cigana», havia dito o índio em mais de uma ocasião. Mas não podia ser. Seu pai, embora perseguira todo tipo de mulheres, jamais mesclaria seu sangue com uma cigana. Repudiou-as até sua morte. Sempre argumentava que eram a escória do mundo e seria ilógico ter mantido um idílio com alguma. Apesar disso, Logan e John perseveraram em descobrir quem foi a mulher que ofereceu um bebê recém-nascido a uma criada do falecido marquês. ― Chegamos ― disse Evelyn com um entusiasmo tão monumental que despertou Roger de seus pensamentos. ― É essa a residência Marylebone? Aí é onde se celebrará a festa? Quanta gente virá? Serei a única menina? Zangar-seão por me trazer? ― Perguntou Natalie sem respirar. ― Não se emocione muito ― comentou a marquesa. ― Uma dama jamais deve expressar tanto suas emoções. ― Porquê? ― Perguntou a menina olhando-a atônita. ― Isso… por que? ― Interveio Riderland surpreso ao ver que sua esposa tinha mostrado justo isso mesmo quando indicou que tinham chegado. ― Porque poderiam pensar que nossa família… ― começou a dizer olhando seu marido com o cenho franzido. ― A alta sociedade não deve exibir tanta emoção porque não é apropriado ― saiu em defesa Anaís ao verificar a tensão dos marqueses. ― Embora lhe pareça incompreensível, senhorita Bennett, é mais adequado mostrar desdém ante


grandes acontecimentos que entusiasmo. ― Entendo… ― murmurou a pequena. ― Senhoras… ― falou Roger após abrir a porta. ― Se me concederem a honra de as ajudar a descer... Logicamente a primeira a sair foi Natalie que, agarrando o vestido com a mão direita, ofereceu a esquerda ao seu irmão. ― Senhorita Bennett, ― disse Roger fazendo uma leve reverência ― esta noite se converteu na menina mais formosa da festa. Natalie sorriu e saltou ao chão. Ato que Evelyn repreendeu, que foi segunda em descer. ― Meu amor… ― indicou Roger aproximando sua boca da mão enluvada de sua esposa ― não sei o que trama essa cabecinha, mas muito temo que alguém sairá ferido nesta recepção, equivoco-me? ― Perguntou arqueando as sobrancelhas. ― Muito temo que sim – murmurou. ― Mas pode respirar tranquilo porque desta vez o objeto da minha maldade não é você. -Sorriu. «Graças a Deus!», exclamou o marquês para si. Estava a ponto de oferecer sua ajuda à condessa quando alguém se colocou atrás de suas costas. Pela altura da sombra que se refletia no chão em frente a ele, só podia tratar-se de um homem. ― Senhor Spencer! ― Exclamou ao vê-lo. ― O que faz você aqui? ― Boa noite, Riderland. Imagino que o mesmo que você, me apresento na festa


a que fui convidado. ― Olhou de esguelha ao interior da carruagem e observou que Priscila era a seguinte a sair. Afastando o marquês sem contemplações, estendeu sua mão para ela para ajudála. ― Se permitir-me que a ajude... ― Senhor Spencer… ― disse Priscila aparentemente surpreendida ao perceber que era a mão de Leopold e não a do marquês a que a ajudaria. ― Milady… ― respondeu aferrando seus dedos com força àquela pequena palma. ― É um prazer vê-la de novo rodeada de pessoas que têm meu total afeto ― apontou com ironia. Roger olhou sua esposa e ficou petrificado ao contemplá-la tão divertida. Só lhe faltava dar tapinhas e saltar sobre o chão para mostrar ao mundo inteiro o feliz que se sentia ao presenciar aquele momento. Amaldiçoou a travessura daquelas mulheres. Como lhe tinham posto em um grave perigo sem ser avisado? Por acaso nenhuma das duas se deu conta que aquele Hércules poderia rompê-lo em pedaços? «Mulheres…», refletiu. Ao ver que Leopold caminhava para a residência sem soltar a mão da condessa, ele ofereceu ajuda à pobre Anaís, que tinha ficado mais imóvel que ele. Tampouco a tinham avisado de seus propósitos? Bom, isso o consolou. Embora logo ela estaria noutro apuro. «Maldito seja, William, por me haver deixado sozinho!», exclamou uma vozinha em sua cabeça. ― Senhoras… ― Riderland estendeu seus braços para sua esposa e Natalie para que enredassem os seus neles. ― Tentemos desfrutar de uma bonita e aprazível noite. Enquanto eles se dirigiam para a entrada, Anaís ficou pensando o que devia fazer. Não podia acompanhar sua senhora para liberála daquele monstro, embora tampouco lhe tinha dado a sensação de que ela pedisse auxílio ao vê-lo. Seu rosto mostrava surpresa, certo, mas não medo nem pavor e sim satisfação. O que tinha perdido? O que tinha ocorrido entre eles para que nenhum dos dois mostrasse desgosto? Porque o senhor Spencer não apresentava desgosto ao olhá-la mas sim…


«OH, meu Deus! ― Refletiu surpreendida. ― Mas… quando, em que momento eles mantiveram um encontro afetivo?». Era impossível! Não se tinham visto até a tarde que passou com a marquesa e a manhã que ele foi visitá-la. O que teria ocorrido em realidade entre os dois? Aquela resposta não a obteria jamais da condessa, porque era mais discreta do que imaginava. Só uma mulher reservada poderia esconder um segredo de tal índole. Anaís prosseguiu seu caminho para o lugar onde estariam as demais donzelas meditando sobre as últimas palavras da mulher. «Uma vida», isso é o que tinha clamado. Embora… era uma vida junto àquele homem? Não podia tratar-se disso. Acaso sua senhora não se dera conta de que mal podia alcançarlhe olhar aos olhos? Teria que passar o resto da vida que desejava vivendo ao lado daquele gigante elevada sobre degraus para poder lhe falar cara a cara. E… tampouco se deu conta das dimensões de suas mãos? Eram aberrantes! Com uma só palma podia lhe cobrir o torso inteiro. Não, não podia ser essa a razão pela qual sua senhora se mostrava tão encantada com o homem. Seria outra coisa. Talvez ideasse um malvado plano para deslumbrar ao sobrinho de seu falecido marido pretendendo, desta maneira, eliminar seu ansioso desejo de afastá-la de Londres. Entretanto… Priscila não era tão perversa. Era só uma jovem que mal tinha começado a desfrutar daquela vida que tanto desejava ter. Fosse o motivo que fosse, Anaís se obrigou a não continuar pensando em todas as razões possíveis daquela mudança de atitude. Essa noite devia centrar-se em Federith e, tal como lhe havia dito, estaria atenta às suas costas. ― Espero que esta noite você segure essa língua afiada que tem - comentou Cooper à sua esposa quando viu a entrada de Marylebone.


― Minha… o que? ― Soltou assombrada ao escutar uma insinuação tão maligna por parte de seu marido. Mas não o teria entendido bem. Encontrava-se tão abstraída pensando se Eric poderia aproximar-se dela, lhe pedir uma dança ou saudála, que não tinha podido entender de maneira correta. ― Espero que esta noite possa controlar sua língua dentro da boca. Não quero que ninguém saia fugindo da festa gritando que foi envenenado por sua língua viperina ― respondeu com ironicamente. ― Desde quando é tão pérfido, Federith? Além disso, eu não enveneno, são elas que saem correndo quando escutam aquilo que não desejam ouvir ― disse movendo a mão direita com desdém. ― Nem te ocorra me deixar outra vez em evidência, Caroline! Quero ter uma noite tranquila rodeado de gente que admiro e não desejo que provoque uma situação incômoda como causou na casa do marquês ― disse levantando a voz. ― Continua a culpar-me de algo que eu não fiz… estavam a condessa viúva e o futuro conde de Crowner em nosso lar? Foram convidados por mim? Não ― comentou com voz tranquila. ― Foram eles quem os reuniu sob um mesmo teto. Eu só… me tropecei. ― De toda maneira... ― Não fale mais nada, Federith ― lhe atalhou movendo a mão direita para que não continuasse advertindo-a. ― Já te disse que me comportarei bem. Federith a observou de soslaio, não o acalmaram nem suas palavras nem a atitude que apresentava. Não lhe restava dúvida de que tramava algo e se não se equivocava seria como tudo o que tinha feito até a data, pérfido. Não poderia ficar tranquilo para levar a cabo seu plano, um que por certo não estava completo porque não levava em seu bolso as escrituras do antigo lar de Anaís. Segundo Lawford, o senhor Polet desejava manter uma conversa antes de lhe vender seu lar.


Federith olhou para o exterior sem centrar-se no que havia fora a não ser em conjeturar o que desejaria o ancião. «Está disposto a vendê-la, senhor Cooper ― lhe disse Arthur precisamente essa mesma manhã. ― Mas deseja, antes de lhe pedir a quantia estipulada para a venda, falar com você em privado». O que necessitaria? O que podia pedir um homem que estava a ponto de abandonar o mundo? «Uma promessa… ― refletiu Federith. ― Talvez precise saber que seus empregados continuarão trabalhando apesar de sua velhice». Mas esse tipo de garantia não o preocupava. Quando Anaís ficasse com a residência, quando por fim retornasse ao seu lar, ela não despediria ninguém. Jamais faria tal aberração! Ela trabalharia junto com o serviço para reconstruir a casa e, depois de que estes descobrissem seu maravilhoso coração, amá-la-iam como ele a amava. ― Milorde, chegamos ― anunciou o cocheiro depois de abrir a porta. Cooper desceu os degraus com suavidade, olhou para o grande edifício e suspirou. Aquelas paredes traziam-lhe muitas lembranças… ali foi onde Caroline se insinuou para se deitarem juntos naquela noite e onde Beatrice foi manchada pelo conde de Rabbitwood. Se pudesse retroceder no tempo, se pudesse encontrar uma maneira de voltar atrás, ele mesmo se apresentaria ao seu eu do passado e lhe explicaria que devia manter-se afastado da senhorita Midlenton e que devia apresentar-se em uma das habitações da casa para evitar a violação de uma mulher encantadora. Mas se retornasse àquele tempo… William a teria encontrado? Estariam felizmente casados Rutland e Beatrice? E ele? Teria encontrado Anaís de novo? Talvez não… ― Conforme me disseram, há mais de cem convidados ― apontou Caroline feliz. ― Poderíamos dar uma festa assim, Federith. Nunca me permitiu celebrar algo em nossa casa. ― Não temos nada que celebrar, Caroline ― assinalou com firmeza. ― Não me deu umas bodas como me correspondia, não pudemos celebrar a chegada de Eric como… ― Não recorda que nossa economia é limitada? ―


Perguntou parando-se em seco. ― Por acaso não entende que está casada com um barão, não com um duque ou um príncipe? ― Mas escutei as conversas que mantém com o marquês declarou zangada. ― E conforme ouvi, se os novos investimentos são acertados, triplicaremos nossa fortuna. ― Como ousou escutar atrás da porta? ― Perguntou zangado. ― Perdeu a pouca decência que tinha? ― Quando se trata de nosso bem-estar econômico, ― respondeu puxando com força seu marido para que prosseguisse a caminhada ― uma mulher tem que se comportar como tal e esquecer a honestidade que nos obrigam a manter. ― Pois se estivesse no seu lugar, continuaria a mostrar o devido recato ― indicou Federith apertando os dentes. ― É um ultimato, Federith? ― Perguntou jocosa. ― Não, é só um aviso, Caroline. Ao aceder ao interior da casa ambos atuaram de acordo com o protocolo ditado. Caroline tirou o seu casaco, mostrando o vestido turquesa que comprara essa mesma semana. Federith a olhou com os olhos entreabertos. Não conseguia averiguar que diferença encontrava com outros vestidos, mas estava certo de que a havia. Não só mostrava um generoso decote cujos seios pareciam ter aumentado de tamanho, mas sim estilizava uma figura que, estranhamente, começava-se a alargar a cintura. ― Por que me olha assim? ― Perguntou Caroline com suspeita. ― Noto-te um pouco mudada… ― refletiu Federith. ― É o vestido ― disse com rapidez. ― Mudei de costureira e ela não soube tomar bem as medidas ― explicou.


― Entendi… ― sussurrou ao mesmo tempo que lhe oferecia a mão para dirigirse para o salão onde já se podia escutar as melodias dos músicos. Depois de serem anunciados, Cooper caminhou para o lado esquerdo onde se encontravam Roger e o senhor Spencer. Ambos estavam conversando sem afastar o olhar das mulheres que tinham em frente. Federith acreditou que olhavam a sua esposa, que tinha decidido saudar a marquesa e a condessa. Mas não parecia que observavam Caroline, mas sim as outras mulheres. ― Boa noite, cavalheiros ― lhes saudou. ― Algum problema? ― Não até agora ― respondeu Roger com o cenho franzido. ― Espero que tenha explicado à sua esposa que deve manter a compostura. ― Esse foi o tema de conversa desde que saímos. Entretanto, já sabe que não atende à razão. Duvido que atue como lhe indiquei. ― Se necessitar de mão dura, ― interveio Spencer ― posso lhe oferecer as duas que possuo ― comentou jocoso. ― Acredito que melhor seria que as guardasse ― se intrometeu Roger. ― Por quê? ― Perguntou Leopold afastando um momento seus olhos de Priscila. ― Porque muito temo que as utilizará esta noite para espantar aos possíveis pretendentes de sua querida condessa ― assinalou levantando a taça e apontando-a para o homem que caminhava para ela. ― Maldita seja! ― Vociferou Leopold. Ele temia isso. Quando Priscila tirou o casaco para o oferecer ao criado da anfitriã soube que teria um problema.


Pela primeira vez desde que a conhecia, tinha decidido usar um decote muito descarado. Sem evitar que ocultava seus braços sob uma renda que deixava entrever a palidez de sua pele. No momento que descobriu como a roupa se aderia à sua figura e como mostrava mais do que tinha desejado, teve o terrível impulso de arrastá-la dali devolvê-la a Longher e obrigá-la a escolher outra roupa menos luxuriosa. Mas ali estava, mostrando os dentes como um cão a ponto de morder e apertando a taça com tanta força que já tinha sentido em sua mão como se rompia a haste. ― Se me desculparem… ― começou a dizer Spencer. ― Nem te ocorra as interromper ― lhe advertiu Roger. ― Mantenhamos a calma… ― Só pretendo trocar a taça que tenho em minha mão. ― Mostrou-a. ― Não quero me ferir com ela. ― E depois se dirigiu para a habitação ao lado onde a proprietária da mansão tinha colocado as bebidas. ― O que vêem meus olhos! ― Exclamou Federith divertido. ― Não esperei encontrar outro homem tão possessivo como você ― indicou ao Roger. ― O que você faria se fosse Anaís quem estivesse sendo cortejada por outro homem? ― Perguntou-lhe Riderland ao ouvido. Não precisou responder, só com a tensão que mostrou seu rosto e com o rápido desaparecimento daquele sorriso zombador disse tudo. ― Por certo ela está no jardim ― lhe informou antes de levar a taça aos lábios. ― Supunha-o ― manifestou Federith de mau humor ao imaginar a situação que lhe expôs seu amigo. ― Mas não seria oportuno que partisse logo ao chegar. Caroline começaria a perguntar a todos por mim e, como é lógico, começaria um inquietante rumor. ― Pois eu não demoraria muito em sair ― apontou Roger mais divertido, se cabia. ― Vi como os criados e cocheiros se agrupavam ao redor das damas de


companhia. ― Mentira! ― Grunhiu Cooper. ― Só quer me provocar um estado de ira que… ― Sério? ― Arqueou as loiras sobrancelhas e olhou para Leopold, que já tinha trocado sua taça e se dirigia para eles. ― É um bastardo! ― Grunhiu Federith. ― Me pressiona para me converter num insensato. ― Se partir por aqui ― disse lhe assinalando as cortinas que havia às suas costas ― ninguém descobrirá sua ausência. ― E Caroline? ― Perguntou inquieto. ― Observe-a você mesmo, está mais disposta a conversar com todas as pessoas que estão ao seu redor que em te procurar ― explicou. ― Se ocorrer algo… ― murmurou ao mesmo tempo que se dirigia para o lugar que Roger lhe tinha falado. ― Avisar-te-ei com prontidão ― respondeu. «Boa sorte», pensou Roger sem afastar o olhar do grupo de mulheres. Tal como predisse, ninguém parecia perceber a ausência de Federith. Sabia que se colocara no melhor lugar para facilitar a saída de seu amigo. O primeiro que fez quando entrou foi examinar a sala com a mesma precisão que um soldado e descobriu, para sua satisfação, que aquela porta-janela estava aberta. Se Cooper seguisse com o propósito de falar a sós com Anaís, o melhor lugar para sair sem ser descoberto era aquele. Roger sorriu de orelha a orelha ao ver como sua mulher o olhava com a sobrancelha direita arqueada. Perguntava-lhe o que estava pensando e o que estava ocorrendo. Mas ele só levantou a taça e brindou com ela em silêncio. Se ela tinha um plano em relação à conquista do senhor Spencer com a condessa, ele tinha outro com seu amigo e a dama de companhia da dita mulher. «Amo-te, Evelyn», murmurou em silêncio enquanto sua mulher lia em seus lábios aquilo que tanto gostava de escutar. «Eu te amo mais», respondeu-lhe da mesma forma. Roger suspirou e procurou alguém com quem falar, mas de repente, toda aquela


alegria que tinha sentido pelo amor de sua esposa se desvanecera com rapidez. Acabava de entrar o homem que procurava já fazia tempo, o fantasma do qual John falava, Eric Graves, visconde de Gremont. Sustentando a mão de sua esposa, caminhou para o centro da sala para, sem conversar sequer com alguns dos pressente, começar a seguinte dança. Roger não afastou seus olhos do homem enquanto ele e sua esposa começavam a dar os primeiros passos junto aos acordes da melodia, meditava com detalhe tudo o que o índio tinha descoberto. Caroline visitava a fazenda contígua ao lar do visconde, mas ninguém aparecia. A permanência de lady Cooper podia variar entre uma hora ou quatro. Sempre ocultava a carruagem no mesmo lugar e durante esse tempo ninguém aparecia na casa. Entretanto, aquele palpite a respeito de que o amante da mulher de Federith era aquele descarado aumentava ao ver como a olhava. Não, olhava só a ela, mas sim também observava a condessa e a sua mulher. Um suave clique lhe advertiu que lhe tinha acontecido o mesmo ao Leopold, tinha quebrado sua taça pela pressão que sua mão tinha exercido nela. «Afaste seus asquerosos olhos da minha esposa, Eric Graves, ou esta noite sairá correndo como um cão assustado, com o rabo entre as pernas». ― O que te produz tanto ódio? ― Perguntou Leopold intrigado. ― Quer que a condessa seja tua? ― Bufou sem hesitações. ― A que vem isso? ― Perguntou Leopold ficando em guarda. ― Olhe aquele casal, sabe quem são? ― Indicou-lhe com um leve movimento de olhos. ― Sim, o visconde de Gremont e sua esposa. O pai dela é um dos meus clientes e posso te assegurar que… ― Note bem! ― Interrompeu-o. ― Observa para onde olha e sorri de maneira descarada. Leopold girou seu corpo para o centro do salão, onde dançavam os casais. Centrou-se no que comentava Riderland e, quando compreendeu o que lhe


estava insinuando, voltou a quebrar a taça. ― Como se atreve? – Resmungou. ― Não tem o suficiente com sua esposa? ― Vejo que é dos nossos ― disse com um enorme sorriso Roger. ― Dos seus? ― Perguntou entrecerrando os olhos. ― Sim, nós, William e eu. Meu amigo e eu jamais

compartilharíamos nossas esposas com ninguém ― esclareceu. ― O dia que me casar minha esposa não procurará a nenhum outro homem. Estará tão cansada na cama que não albergará a ideia de deitar com um amante. ― E você? É dos que esconderão dezenas de romances? ― Demandou divertido. ― Quando entrego meu coração faço-o por completo não por partes, Riderland ― Afirmou com solenidade. ― Um brinde por essa afirmação! ― Levantou Roger sua taça. ― Por nossas mulheres! ― Secundou o brinde Leopold. XXIII Como podia ser o homem mais bonito da festa e que nenhuma mulher tentasse paquerar com ele? Possivelmente a razão pela qual nenhuma senhorita casadoura o olhava era porque estava junto ao marquês de Riderland e, que conforme escutou, no passado foi um libertino, tinha consolidado um matrimónio no qual não albergava a possibilidade de admirar outra mulher que não fosse sua esposa. Priscila olhou sua nova amiga de soslaio. A marquesa era uma mulher de beleza insuperável. Os cachos de cabelo de seu penteado pareciam chamas de fogo cobrindo seu rosto e costas. Também era esbelta e alta, muito alta para os ícones de beleza estipulados para as senhoras, mas esse matiz diminuía ao mostrar a sua


elegância e seu saber estar. Em troca, ela, além de não poder usar um vestido colorido, seu cabelo empalidecia ao lado da marquesa e aumentava o defeito de seu pequeno corte. Possivelmente isso foi o que chamou a atenção de seu marido na noite que a descobriu depois do desafortunado encontro. Considerá-la-ia uma moça débil, frágil e sem possibilidades de escolher outro matrimónio. Priscila suspirou depois de tomar o primeiro sorvo de champanhe. Não tinha impressionado a ninguém, nem o senhor Spencer lhe tinha insinuado quão bela estava com aquele vestido que, para seu gosto, mostrava mais pele do que deveria. Só a tinha cuidado e, depois de soprar como um animal, conduziu-a com passo um pouco mais lento do que tinham mantido até aquele momento. Deu-lhe a sensação de que esticava o caminho para que ninguém pudesse vêla, como se se envergonhasse de estar ao seu lado por essa indevida vestimenta. Priscila voltou a olhá-lo, tinha retornado de algum lugar ao qual se retirara. Talvez precisasse abandonar a sala de vez em quando para sufocar seu calor porque naquele salão fazia bastante, muito para seu gosto. Sem afastar os olhos dele o observou com tranquilidade. O traje escuro que tinha eleito para a ocasião se aderia à sua figura como uma luva. As pernas longas e musculosas não ocultavam sua magnitude sob o tecido, a revelavam sem pudor. A jaqueta, de corte comprido, continha aqueles músculos que a tinham sustentado dias atrás. E aquele cabelo rebelde permanecia imóvel, como se tivesse medo de mover-se. Priscila soltou um leve sorriso que escondeu com a mão. Não podia dar crédito aos seus pensamentos, não devia centrar-se naquele homem e sim na conversa que a marquesa e a futura baronesa mantinham. Mas, precisamente no momento que tentou lhes prestar atenção, percebeu que um cavalheiro se aproximava por sua direita. ― Senhoras… ― disse a modo de saudação. ― Se me permitirem a ousadia, estão esplêndidas esta noite. ― Obrigada pelo elogio, lorde Nelson ― respondeu com rapidez a marquesa lhe oferecendo a mão para que a beijasse.


Mas o senhor Nelson enquanto aproximava essa mão à boca, olhava para ela. Um repentino calafrio percorreu o pequeno corpo de Priscila. Por que a contemplava daquela forma tão descarada? ― Lorde Nelson, apresento-lhe à condessa viúva de Crowner acrescentou Evelyn desenhando um sorriso falso. ― Ouvi falar de você. ― Girou-se para Priscila e esperou que lhe oferecesse sua mão. ― Espero que coisas boas, milorde ― disse tentando não manter o contato com aquela mão além do devido. ― Muito boas… ― murmurou o senhor Nelson cravando aquele olhar cinzento no decote da condessa. ― Espero que me permita a ocasião de dançar com você ― disse colocando suas mãos nas costas. ― Será uma grande honra desfrutar… ― Todas as danças da condessa estão reservadas ― grunhiu Leopold atrás do senhor Nelson. ― É certo? ― Olhou para ela evitando a figura que se encontrava tão perto. ― Está surdo? ― Perguntou Leopold colocando-se entre Priscila e o atrevido cavalheiro. ― Não estou surdo, senhor Spencer. Só estou esperando que a própria condessa confirme ou negue suas palavras ― o desafiou de maneira descarada. ― Eu… ― tentou dizer Priscila sem poder olhar para outra coisa que não fosse o rosto irado de Spencer. ― O senhor Spencer tem razão, ― interveio Roger que tinha seguido seu novo sócio ― antes de entrar pedimos à condessa várias danças. Se não recordar mal, três o senhor Spencer, duas eu e outras duas, o meu estimado senhor Cooper. ― Mas a festa terá nove danças, assim ainda ficarão duas livres ― balbuciou o


homem sem querer dar-se por vencido. ― Não me cabe a menor dúvida de que a condessa quererá descansar depois de tanta algazarra ― resmungou Leopold aproximando-se perigosamente do ousado. ― Obrigada pelo oferecimento ― comentou Priscila cansada de tanta palavreio masculina. ― Com certeza que me desculpará por não me haver dado conta de que minhas danças já estavam comprometidas. Entretanto, prometo-lhe que na próxima vez que nos vejamos lhe obsequiarei com duas, se é que decida repetir depois de dançar comigo a primeira vez ― indicou mostrando um enorme sorriso e lhe aproximando a mão para que a beijasse. ― É claro! ― Exclamou o senhor Nelson. ― Esperarei com impaciência esse momento, milady ― respondeu colocando o dorso de sua palma nos lábios. ― Senhoras… senhores… E com uma atitude arrogante, o senhor Nelson partiu. Evelyn ainda mantinha os olhos totalmente abertos, movia o leque e sorria à Natalie quando a menina, sentada pelo aborrecimento, chamava sua atenção. Roger se colocou ao seu lado, colocou a mão sobre sua cintura e, depois dela afirmar algo que lhe sussurrou, partiram para dançar. Priscila era incapaz de olhar ao Spencer, então tentou tranquilizar-se falando com lady Cooper, que até agora só havia se mantido calada. Entretanto, não pôde conversar com a esposa do barão porque quando encontrou um tema para conversar, um homem se aproximou delas. Não era muito alto para ser um cavalheiro esbelto, mas era bastante bonito. Usava uma juba loira que atava na nuca com um laço. Seu traje não se ajustava como o de Leopold, mas tampouco ficava folgado. Qualquer outro homem se teria negado veementemente a usar um traje vermelho, embora lhe favorecesse o contraste com sua pele. O que deixou Priscila fria como um iceberg foi seu olhar. Seus olhos eram negros como o carvão, como a asa de um corvo, e desprendiam a mesma maldade que um diabo.


Priscila se moveu incômoda para Leopold quando percebeu que aquele cavalheiro desejava aproximar-se delas. Jogou uma rápida olhada a Caroline e a notou alterada, mais do que devia apresentar uma mulher casada. ― Boa noite, senhor Spencer ― comentou o cavalheiro com uma voz suave e harmoniosa. ― Visconde ― respondeu estendendo a mão para ele para saudálo. Leopold notou como Priscila tentava ocultar-se atrás de suas costas, como se quisesse proteger-se daquela presença com seu corpo. ― Como evolui sua pequena empresa? Tenho entendido que mudou de local, estou certo? Priscila abriu os olhos imensamente e arqueou a sobrancelha direita. Como podia exibir tanta maldade com uma voz tão angélica? E Spencer… não se dava conta do tom e ironia com os quais lhe falava? Não era uma mulher experiente em atitudes humanas, mas não lhe cabia dúvida de que aquele homem pretendia mostrar-se muito superior a Leopold. ― Não mudei de local, milorde. Minha tipografia permanece no mesmo edifício, a única coisa que mudou no meu negócio foi a aquisição de um armazém ― explicou com uma tranquilidade imprópria nele, sem querer mostrar-se agressivo diante de Priscila. Apesar de desejar esticar suas mãos e lhe arrancar a cabeça, manteve a compostura. Não era a primeira pessoa nem a última que o menosprezaria por trabalhar na sua própria fábrica. O que desejavam aqueles que o olhavam por cima do ombro, que fosse como eles? Pois não! Não o era! Era o homem que entrava em primeiro lugar em sua fábrica, o último que saía e nunca se ocultava no escritório para trabalhar. Lá onde lhe requeriam, ele acudia. Entretanto, aquele presunçoso, o que tinha? Salvo um bom porte, nada mais. Ele e todos os seus ancestrais tinham sido afortunados, não só por ter um título nobiliário, mas também por sua beleza, motivo pelo qual continuavam vivendo como reis. A nenhum dos Gremont, embora não tivessem fortuna porque a esbanjavam, negavam um bom matrimónio. Tanto ansiavam os


empresários converter-se em aristocratas, que casavam suas filhas com descarados como o que tinha em frente aos seus olhos? ― Lady Cooper… ― sorriu levemente girando-se para ela. ― É um prazer vê-la de novo. Veio sozinha? Não a acompanha seu querido marido? ― Boa noite, milorde ― respondeu com uma leve reverência. ― Obrigada por seu interesse. Sim, meu marido me acompanha esta noite, embora… ― começou a olhar de um lado para outro ― não sei onde pode encontrar-se neste momento. ― Uma lástima que seu marido seja tão distraído com uma mulher tão bela, não é, senhor Spencer? Hoje em dia não se pode abandonar uma senhora muito tempo, quando menos se espera já está nos braços de outro homem ― disse sem afastar seu olhar luxurioso de Caroline que, ao voltar a inclinar-se como agradecimento ao seu elogio mostrou tanto os seios que Eric desejou tocar-lhe ali mesmo. ― Desculpe que não a tenha saudado ― disse olhando Priscila. ― E você é…? ― A condessa de Crowner ― soltou Leopold colocando-se diante de Priscila, que tinha percebido rapidamente a maldade daquele indivíduo. ― A condessa de Crowner… ― repetiu pensativo. Colocou as mãos nas suas costas, sorriu e esperou que ela estendesse a mão para saudála, mas não o fez. Ninguém tinha ensinado boas maneiras àquela harpia? Porque segundo os rumores que tinha escutado sobre ela tinha estado à espreita de um bom marido e quando morreu, partiu do lar no qual permaneceu com seu marido para viver uma nova vida. ― Sinto muito a morte de seu marido, o conde de Crowner. Conforme escutei você é uma viúva muito cobiçada. ― E não escutou que já está prometida? ― Soltou Spencer sem pensar. A veia do pescoço, aquela que se inchava quando se zangava, começava a estender-se pela garganta. ― Prometida? Incrível! ― Exclamou sarcástico. ― Pôde prometer-se em tão pouco tempo? E… quem será o afortunado, milady? ― Perguntou Eric sorridente olhando à pequena mulher que seguia calada e escondida atrás das costas daquele titã.


― Eu, milorde – sentenciou. ― A condessa aceitou esta mesma tarde contrair matrimónio comigo e ainda não tivemos tempo de fazê-lo oficial ― disse sem respirar. Notou como sua jaqueta começava a encolher-se, mas não se devia a que estivesse aumentando de tamanho, mas sim a que Priscila começava a torcer uma mão nas costas da mesma. ― Nesse caso, agrada-me ser o primeiro a dar-lhes as minhas felicitações… estou seguro de que serão um casal muito proveitoso ― falou com aparente suavidade e doçura, mas só era uma aparência porque ele se tinha proposto a observar a condessa e averiguar o que procurava em Londres, entretanto, aquele hercúleo se adiantou. Ao não poder alcançar a condessa viúva decidiu conseguir a presa mais fácil. A princípio não gostava, mas logo pensou em quão divertido seria dançar com sua amante diante de sua esposa e do marido dela, e toda a desilusão que obteve por não conseguir investigar um pouco mais sobre a viúva desapareceu. Que melhor forma de passar a noite? ― Lady Cooper, ― disse olhando-a ― conceder-me-ia a seguinte dança? Se seu marido não se importar, é claro. ― Meu marido ficará encantado de ver como sua mulher não se aborrece num rincão da sala, milorde ― apontou aceitando o braço. Priscila não foi capaz de mover-se até que lady Cooper e aquele homem se encontraram bastante afastados. Então, depois de recuperar a calma, assimilou todo o acontecido e, ao recordar as últimas palavras de Spencer, suas pernas começaram a tremer. ― Como lhe ocorreu dizer que estamos prometidos? ― Repreendeu-lhe elevando mais do que o devido a voz e puxando com mais força da jaqueta que ainda não tinha soltado. ― Não vale a pena falar disso – resmungou. ― E em vez de me repreender, deveria estar agradecida por… ― Agradecida? ― Disse desesperada. ― Acredita que merece um agradecimento por ter iniciado outro rumor sobre minha pessoa? Não te parece suficiente que me assinalem de harpia, de rameira? ― Você não é nada disso, certo? ― Resmungou ao mesmo tempo que a fazia caminhar para escondê-la atrás de umas colunas de mármore rosáceo. Não


desejava que ninguém dos presentes observasse uma disputa entre eles dois. Como advertia Priscila, aqueles petulantes só recordariam a festa da anfitriã pelo escândalo que fossem dar. ― Me solta! ― Gritou enquanto dirigia seus olhos para a saída. Só tinha que dar uns poucos passos e se liberaria de tudo o que a rodeava. ― Não seria conveniente que me abandonasse agora mesmo. Aquele imbecil logo espalhará que estamos prometidos e, se nos virem discutir, amanhã estaremos na boca de toda Londres ― indicou com a esperança de que ela entrasse em razão. Só lhe pedia uns minutos para que tudo se acalmasse entre eles. Pensou que deste modo ele poderia conseguir o tempo necessário para lhe explicar a razão pela qual tinha atuado daquela maneira. Como tinha sido tão imbecil de dizer que estavam prometidos? Não teria sido suficiente assinalando que era a viúva de seu tio? Não!! Ele não queria apresenta-la desse modo, ele desejava que fosse dele e agora entendia por que. Porque tal como dizia Karl, seus sentimentos eram muito fortes. Leopold observou aqueles olhos enfurecidos e desejou acalmálos com beijos, com carícias e com palavras de amor. Mas… ― Que melhor maneira de romper um compromisso fictício do que uma briga? ― Enfrentou. Priscila desejou lhe atirar uma bofetada. Não lhe importava que fosse o homem mais alto de Londres, que tivesse que saltar para lhe alcançar o rosto ou que começassem a rir todos os que lhes observassem. Como tinha sido tão imprudente de declarar semelhante loucura? Apertou com força suas mãos, soprou e começou a caminhar para a saída. Tinha que partir, devia afastar-se dali o antes possível. ― Aonde vai? ― Perguntou Leopold quando a alcançou no meio do hall. ― Solte-me! Por acaso não entende o significado dessa palavra? ― Bramou


movendo o braço com desespero. ― Responda-me ― grunhiu ele. ― Parto para Longher. Como já lhe disse, este não é o meu lugar ― disse com tristeza. ― Acompanho-te ― acrescentou Spencer libertando-a daquele agarre. Levantou uma mão para o criado. ― Nossos casacos ― disse com firmeza. ― Não quero que me acompanhe, milorde. Tenho a minha dama de companhia no jardim e ambas partiremos tranquilas ao nosso lar ― manifestou Priscila mais zangada, se cabia. ― Não é uma oferta, é uma ordem ― esclareceu com veemência. ― Uma ordem?! Está me ordenando que suporte sua companhia? ― Perguntou atônita. Não podia acreditar no que estava a escutar. Tornou-se louco! Não lhe bastava humilhá-la diante de todo mundo, mas também se conceder o beneplácito de lhe mandar o que devia fazer. ― Odeio-o! ― Exclamou antes de acelerar o passo para o exterior. Leopold ficou uns instantes contemplando como se afastava. Numa coisa ela tinha razão, não tinha atuado corretamente, mas… quem pode fazê-lo quando os ciúmes se apoderam de sua mente? Foi incapaz de suportar os olhares lascivos do visconde sobre ela. Como ousou olhá-la assim? Embora sua cabeça não raciocinava, porque só desejava lhe esmagar o nariz com um murro, considerou que a outra opção era a mais correta para ambos. ― Priscila! ― Chamou-a para que detivesse o passo, mas não o fez. Tinha decidido partir andando sozinha. ― Traga minha carruagem! ― Gritou ao criado que estava no final da escada e correu atrás dela. ― Pode parar, por favor? ― Pediu-lhe com uma voz mais suave. ― Afaste-se do meu lado! ― Disse irada. ― Nem o sonhe! Por mais que o tente, não vou afastar-me de ti jamais ― disse sério.


Ante tal revelação, Priscila parou. Leopold suspirou devagar, agradecendo porque tinha parado o seu caminhar. Era o momento de ser sincero com ela e com ele mesmo, só rezava para que, depois de lhe confessar o que acabava de descobrir, não fugisse para sempre. ― Por que não se separará de mim? ― Perguntou sem olhálo. ― Se for porque deseja saber se no final Longher será sua, não se preocupe, será… ― manifestou entrecortada. ― Não quero essa maldita casa! ― Resmungou aproximando-se das costas dela. Seu pequeno corpo se escondia sob o seu. Leopold baixou a cabeça e inspirou o aroma que desprendia seu cabelo. Era tão cativante, tão fascinante, que perdia toda sensatez ao cheirá-lo. Como ia imaginar-se uma vida sem poder desfrutar dela cada dia que despertasse? Não, ele precisava abraçá-la a cada dia e lhe sussurrar aquelas palavras que sua boca ansiava dizer. ― Te juro pela minha vida que, se ficar com essa casa, a derrubarei com as minhas próprias mãos. ― Então… o que deseja, Leopold? O que procura na realidade? ― Suas lágrimas molhavam aquele rosto vermelho. ― Priscila… ― seu coração deixou de pulsar quando escutou seu nome naquela boca que desejava beijar pelo resto de sua vida. Com cuidado, colocou suas mãos sobre ambas as bochechas e secou as lágrimas com os dedos. ― Pequena… não pretendo ficar com essa maldita casa, quero ficar contigo ― confessou sem deixar de lhe acariciar o rosto. ― Só quero a ti… ― Como pode estar tão seguro de…? ― Inspirou profundamente e fixou seus olhos nele tentando averiguar se não a enganava, mas não viu mentira naquelas íris escuras mas sim verdade. Amava-a? Tudo o que tinha acontecido entre eles se devia ao início de um amor? Assim começava uma relação os outros casais? ― Estou tão seguro do que sinto por ti que sou incapaz de me afastar do seu lado, Priscila. Sei que não atuei de maneira racional nem tampouco me comportei como um cavalheiro deve ser com uma dama como você, mas… desculpa se não pude me manter sensato quando vi como aquele desgraçado te olhava com luxúria.


― Mas continuo sem compreender como… ― sussurrou olhando-o perplexa. ― Sei. Não pode me corresponder… ainda. Só te peço uma oportunidade. Deixe-me te demonstrar que sou sincero, que te necessito para continuar vivendo. Deixe que te proteja a cada dia da minha vida e que meu amor faça crescer o teu… algum dia. ― Aproximou sua boca da dela lentamente. ― Deixe-me tocar estes lábios cada vez que o desejar… me deixa averiguar o sabor da sua pele… me deixe entrar em ti, Priscila, me deixe… Priscila se levantou e aproximou seus lábios dos dele, esticou seus braços e os enredou no pescoço do homem que lhe dizia tudo o que ela desejava escutar. Sim, depois de eliminar toda a ira e o desespero que tinha vivido no interior da festa, ela também tinha chegado à mesma conclusão, estava apaixonada por aquele titã. Como não se dera conta? Não era consciente de todos os sinais que oferecia seu corpo quando ele permanecia ao seu lado? «OH, Deus, amo-o!», exclamou uma vozinha em seu interior. ― Priscila… ― murmurou agarrando-a pela cintura e acoplando-a ao seu corpo. ― Não sou o melhor dos homens, mas… me aceite, suplico-lhe isso. ― Aceito-te, Leopold Spencer, conde de Crowner, aceito-te porque eu também te amo ― disse antes de colocar sua testa no torso que se movia ao mesmo compasso que o seu. Podia seu coração alargar-se mais? Podia aumentar seu peito ao escutar que ela também sentia o mesmo? Leopold a agarrou com mais força, esperando que em algum momento despertasse do sonho que estava tendo. Porque devia estar sonhando para conseguir o próprio Éden. ― Milorde? ― Interrompeu o criado. ― Sua carruagem o espera. Leopold separou a figura da mulher que se converteria em sua esposa, agarrou-a pela mão e a conduziu até a carruagem. Com suavidade a introduziu e, uma vez que se sentou, sorriu ao ver que ela ocupava um lugar muito afastado dele. ― Priscila vem para o meu lado ― disse com uma voz tão suave que ela notou como as palavras lhe acariciavam a pele. ―


Não quero que se mantenha afastada de mim. ― Pensei que fosse apropriado manter as aparências… comentou com inocência. ― As aparências? ― Perguntou Leopold antes de soltar uma grande gargalhada. ― Querida, depois desta noite não terá aparências que manter. Com o tempo compreenderá que, se desejo beijar a minha esposa diante de um milhão de pessoas, farei e não me importa o que pensem os outros. Priscila se sentou ao seu lado e tentou pôr sua cabeça na parte esquerda do torso do Leopold, mas, com um ágil movimento, este a colocou sobre ele, rodeando com suas pernas sua cintura. Ao princípio ficou tão surpreendida que se esqueceu de respirar. O que escondia Leopold sob a calça que se chocava contra ela? ― Minha pequena mulher, não imagina a felicidade que sinto neste momento… ― colocou suas mãos sobre seu rosto e, antes que pudesse lhe responder, beijoua com aquela paixão e desespero que crescia em seu peito. ― Leopold… ― murmurou Priscila quando compreendeu que as mãos dele começavam a percorrer seu corpo. Fechou os olhos e se deixou levar por aquela sensação de prazer que lhe causava o passo das grandes mãos sobre ela. Escutouse respirar agitado quando lhe tirou o casaco e pôde tocar o decote ao seu prazer. ― Isto é meu… ― sussurrou Leopold aproximando sua boca daquelas pequenas maçãs. ― E de ninguém mais ― assegurou enquanto lambia aquela pele descarada, aquela que tinham contemplado muitos olhos e que arrancaria na próxima vez que se fixassem nela. Devagar, desceu suas mãos pela cintura até chegar às pernas. Com muito cuidado massageou os tornozelos e foi subindo lentamente, sem pressa. A única coisa que desejava naquele momento era que Priscila esquecesse qualquer carícia que tivesse tido com o conde e que compreendesse que eram suas mãos as que a tocavam e seu corpo o que reagia sob sua calça para entrar nela. ― Leopold… ― murmurou Priscila com uma voz desconhecida para ela. Aquelas mãos que tocavam cada centímetro de suas pequenas pernas


começavam a chegar a uma zona que jamais havia sido tocada. Mas ansiava… embora não entendesse a razão pela qual necessitava que ele alcançasse essa zona, ansiava-o. ― Me diga, meu amor… ― respondeu em voz baixa. ― Deveria saber uma coisa… ― Colocou suas mãos sobre os largos ombros e afastou seu rosto para contemplar como reagiria quando lhe confessasse que continuava intacta. Queria lhe prestar atenção, de verdade que o queria, mas quando notou a calidez em sua mão direita não pôde conter-se, e após procurar o pequeno botão que lhe pareceu mais escondido do que o habitual, começou a esfregá-lo sem parar enquanto seus lábios aplacavam os gemidos de Priscila. ― OH, querida…! ― Exclamou Leopold abrindo os olhos para ver como ela se ruborizava. ― É maravilhosa! É a mulher mais incrível que…! Não foi capaz de seguir falando, Priscila se elevou para beijálo com mais força. Nesse momento ele aproveitou para desabotoar os laços de suas calças e meias. Queria tomá-la ali mesmo. Não podia esperar uns minutos para chegar ao seu lar. Afastou devagar a lingerie feminina e começou a invadi-la lentamente, mas estava muito apertada. Muito mais do que podia esperar de uma viúva. «OH, meu Deus!», exclamou saindo dela com rapidez. ― O que queria me dizer, Priscila? ― Podia se transformar uma pessoa com tanta rapidez noutra? Porque o desesperado, o luxurioso e ardente Leopold havia desaparecido para dar passo a um homem aturdido e frio. ― Deu-se conta? ― Perguntou envergonhada. ― Pensei que não notaria. ― Que eu não notaria? ― Soltou surpreso. ― Querida… ninguém te falou sobre as relações entre um homem e uma mulher? ― Ela o negou sem o olhar nos olhos. ― Pode me dizer por que o conde não consumou seu matrimónio? ― Solicitou enquanto colocava as mãos sobre o ruborizado rosto e fazia com que ela o levantasse para que o olhasse e compreendesse que


não estava zangado e sim confuso. ― Anthony se casou comigo por um motivo que jamais revelarei ― respondeu sem afastar o olhar de Leopold. ― Só posso te dizer que ele sempre me disse que eu devia me guardar para o homem que me protegeria e me amaria tal como me correspondia. E que devia ser paciente porque o conheceria uma vez que ele falecesse. Acredito que por esse motivo me fez lhe jurar que, depois de sua morte, partiria de Bournemouth e residiria em Longher ― explicou com tristeza. ― Mas ele sabia que se aparecesse aqui eu te… encontraria… -raciocinou sem deixar de surpreender-se. Por que tinha idealizado esse plano seu tio? Casou-se com ela para cuidála até que ele a encontrasse? Como teria sabido seu tio o que procurava numa mulher? Leopold atraiu o corpo de Priscila para ele, abraçou-a e fechou os olhos. Não lhe importava o motivo pelo qual o conde tinha decidido pô-la em

sua vida, o único que lhe importava era mantê-la ao seu lado para sempre. ― Priscila, meu amor, prometo-te que te amarei e te protegerei pelo resto da minha vida ― sentenciou com firmeza antes de se voltar para beijá-la, para que não lhe restasse a menor dúvida de que cumpriria sua promessa. XXIV Olhava ao seu redor com impaciência. Não sabia em que momento apareceria, mas não lhe restava dúvida de que ocorreria logo. Anaís sentou-se num banco que encontrou em frente à janela do salão de baile, de onde podia observar como alguns casais dançavam com elegância. Ela podia ter sido uma das mulheres que dançavam em círculos e sorriam aos seus acompanhantes. Esse foi um de seus sonhos quando era uma infeliz menina. Mas já não haveria mais bailes, nem reuniões nem nada do que uma vez imaginou. Entrelaçou suas mãos e as apertou com força. O que teria sido dela se seu pai não lhes tivesse levado à ruína? Teria se casado com Federith como dizia sua mãe?


Fechou os olhos por uns momentos tentando recordar a mulher que a tinha levado em seu ventre. Mal pensava nela ultimamente. Tinha-a deixado no passado junto com seus sonhos, seus desejos. Entretanto, o regresso a Londres tinha aberto aquela gaveta na qual os guardava e tudo surgia como se os anos não tivessem passado. Adorava dançar. Sua mãe era uma experiente bailarina e nenhum cavalheiro resistia a dançar com ela uma peça. Recordou-a realizando aqueles elegantes giros. Era a mulher mais bela de Londres e a mais desejada também. Várias lágrimas percorreram seu rosto ao evocar aquela parte do seu passado. Quem ia imaginar que terminaria daquela maneira? Quem teria acreditado que a formosa condessa de Kingleton acabaria seus dias prostrada em uma cama, doente e com uma beleza sinistra? «Foi o melhor… ― se disse Anaís. ― Não teria sido capaz de enfrentar uma miséria como esta». Levantou-se de seu assento e caminhou para um pequeno lago que se encontrava só a uns passos dela. No silêncio, posto que dali não conseguia escutar a música, percebeu uma paz que lhe resultou estranha. Com a ponta de seu pé direito golpeou uma pedrinha que encontrou na borda e a jogou na água. ― Disse-te que apareceria ― comentou Federith ao vê-la tão aflita e deduzir que aqueles pensamentos tristes se deviam a ele. ― Sabia que o faria ― respondeu girando-se. Aquelas lembranças desapareceram quando o viu. Só ele podia fazê-la passar da aflição à euforia em milésimos de segundo. ― Encontra-se bem? ― Quis saber ao mesmo tempo que se aproximava e a abraçava. ― Te ocorreu algo em minha ausência? ― Nada mau poderia me acontecer se estiver ao meu lado declarou com confiança. ― Como conseguiu sair sem ser descoberto? ― Perguntou depois de permanecer abraçada a ele durante uns momentos. ― Um bom amigo ajudou-me ― explicou enquanto pegava a mão de Anaís e começava a caminhar para um pequeno bosque que havia pelos arredores. ― Alguém mais sabe que estamos juntos? ― Perguntou inquieta. ― De quem se trata?


― Não se preocupe com isso ― disse levantando a sua mão para beijála. ― Riderland jamais dirá nada que nos ponha em perigo. ― O marquês? O marquês ajudou-te? ― Insistiu ainda mais preocupada. ― Nunca tive segredos nem com ele nem com Rutland ― começou a dizer. ― Eles sempre souberam de sua existência e só eles me ajudaram a te procurar no passado. ― Procurou-me? ― Soltou assombrada. ― Ninguém me disse… ― Nunca me dei por vencido, Anaís. Sempre soube que te encontraria, embora perdi um pouco da esperança depois de tantos anos. As árvores que os rodeavam lhe serviam de proteção. Ocultos entre eles ninguém os descobriria. Anaís notava como o pulso lhe acelerava. Talvez descobrir que ele tinha tentado manter a promessa que lhe fez quando crianças a alterara. Tinha mudado muito, mas continua a ser o moço sincero que conheceu. Por isso ela devia também justificar-se e a melhor forma de começar era lhe falando de seu passado. Seria a primeira pessoa a conhecê-lo. Um repentino medo a inquietou, e se depois de saber suas misérias a abandonasse? Pois teria que confrontá-lo com a maior força possível. Não seria a única pessoa que a esqueceria, embora seria a primeira que lhe causaria uma insuportável dor. ― Quando partimos de Londres, ― explicou ― meu pai nos levou diretamente até o lar da minha avó Claudine. Pensei que ficaríamos ali, mas depois de sua morte, decidiu que devíamos partir de novo. Então empreendemos uma nova viagem. ― Para onde? ― Federith apertou com mais força a mão de Anaís para que entendesse que ele seguia ao seu lado lhe oferecendo todo o consolo que necessitasse. ― Não tínhamos um lugar certo. Meu pai só tentava fugir dos seus credores. Em mais de uma ocasião deixou a minha mãe e a mim a sós no meio do nada.


Conforme nos comentava, devia nos abandonar para que ninguém nos seguisse. Mas eu sei que mentia porque minha mãe não cessava de chorar cada vez que se ausentava. Uma vez nos alojou numa pequena hospedaria. Ambas pensávamos que tinha pago ao hospedeiro antes de sua partida, mas não foi assim. Deixou-nos naquele lugar para trabalhar. Sabe que humilhação sofreu a minha mãe quando se viu obrigada a ajoelhar-se para limpar o chão que outros tinham sujado? Se não tivesse morrido por enfermidade, o teria feito de tristeza… ― Sinto tanto… ― disse aflito Federith. ― Jamais deveria ter renunciado a te encontrar. Tinha que ter sido mais firme em meus ideais e não me haver deixado levar pelo que os meus pais indicaram… ― Éramos muito jovens, Federith. Muito jovens para enfrentarmos as decisões dos nossos pais ― lhe interrompeu. Agora foi ela quem aproximou a mão de Cooper e a beijou para tranquilizálo. Estava tremendo e percebia pela sua forma de falar como a raiva por não a haver encontrado se apoderava dele. ― Foi uma grande sorte para mim que a família Appelton me aceitasse. Graças a eles pude sair da miséria a que estava destinada a viver. ― Por que não me escreveu? Por que não foi capaz de me fazer saber que estava viva? ― Cooper a girou para ele para que contemplasse o desespero que sentia naquele momento. ― Não me resultou fácil admitir em quem me tinha convertido, Federith. Passei muitos anos tentando assimilar minha nova etapa. Houve um tempo que acreditei que os Appelton se cansariam de escutar os soluços de uma menina e me abandonariam também. Mas não o fizeram, foram pacientes comigo. ― Se tivesse descoberto que continuava viva, nada nem ninguém poderia me ter parado até te encontrar ― sentenciou com firmeza. Rodeou-a com seus braços e a atraiu para ele. Era perfeita, Anaís era a mulher mais perfeita que jamais tinha conhecido. ― Foi melhor assim ― alegou colocando sua testa no peito masculino. ― O que


eu poderia te oferecer, Federith? O que podia te proporcionar antes e agora? ― Não quero nada mais… ― disse Federith solene. ― Me basta ter-te a meu lado, Anaís. Por acaso não se deu conta de que fui um homem incompleto até que apareceu? ― Mas, Federith, não pode me dizer essas coisas, agora tem uma esposa… ― murmurou sem levantar o rosto. ― E um filho. ― Casei-me com Caroline porque estava grávida e juro-te por minha vida que só se tratou de uma noite. Arrependo-me cada dia do que fiz, Anaís, e se pudesse voltar atrás… ― Não diga isso, Federith. Ela te deu um filho, um menino que poderá ostentar o título que algum dia possuirá ― disse levantando seu rosto. ― Nenhum título, nem riqueza nem fortuna se pode comparar contigo… ― disse com a voz entrecortada pela emoção. ― Federith… Fed…. ― Anaís… ― murmurou aproximando seus lábios dos dela. ― Te amo e te amei sempre. Sinto como meu sangue flui por minhas veias me oferecendo a vida que não tive até ver-te de novo. Como pude viver sem ti, meu amor? Como? ― Soluçou. Anaís contemplou aquele rosto, aqueles olhos, e soube que suas palavras eram certas. Não mentia para tê-la ao seu lado, amava-a como sempre soube que o fazia e ela… também o amava. Para trás ficaram os pesadelos, as tristezas e os calvários. Estava na hora de viver uma vida ao seu lado, embora se convertesse na outra… aproximou seus lábios dos dele e começou um suave beijo que foi mudando até converterse numa amostra de desejo, paixão e luxúria contida. Seu corpo reagia àquele beijo com tanto afã, que podia deixar-se levar até consumir aquela necessidade… Federith ficou impressionado como um simples beijo tinha criado um desejo ansioso e possessivo. Era um homem sedento no meio do deserto e Anaís era


aquele oásis que estranhamente se encontra num lugar tão inóspito. O tempo que tinha transcorrido entre eles desapareceu. Não tinha passado uma década, mas sim umas horas desde aquela vez em que lhe confessou que a amava. Seus corpos começaram a tremer, seus corações palpitaram ao mesmo ritmo, e aquele beijo se fez cada vez mais intenso, mais possessivo. Urgia-lhe saboreá-la, tomála e fazê-la sua. Mas não era o momento, primeiro tinha que conseguir sua vida alterada antes de convertê-la na mulher que tanto ansiava. ― Não pude esquecer seu beijo… ― confessou Anaís ruborizando-se como uma menina. ― Pretendeu fazê-lo? ― Perguntou Federith arqueando uma sobrancelha. ― Não seja sarcástico… ― respondeu lhe dando um suave e terno beijo. ― Estive comprometida, sabe? ― Começou a dizer enquanto prosseguiam caminhando. ― Mas no final me neguei a casar. ― Porquê? ― Interessou-se ele. ― Tinha medo de me converter numa esposa desventurada como minha mãe. ― Agarrou com força a mão e deixou que Federith colocasse seu braço esquerdo sobre seus ombros. ― Ela sempre dizia que um verdadeiro… ― Um verdadeiro amor não desaparece com o passar do tempo finalizou Federith. ― Como sabe? ― Perguntou detendo-se para olhá-lo com atenção. ― Não se lembra disto? ― Perguntou tirando o relógio de seu bolso. ― Me deu isso de presente na tarde antes de partir. ― Foi minha mãe quem o comprou ― esclareceu sustentando aquela peça de ouro em sua palma. ― Ela disse que tinha a esperança de me salvar a vida. Até o dia de sua morte, ela afirmava uma e outra vez que meu destino estava escrito e que a pessoa que devia permanecer ao meu lado era…


você ― declarou olhando-o aos olhos. ― Pois sua mãe não errava, meu amor. Jamais pude te esquecer porque, como diz a inscrição do relógio, um verdadeiro amor não desaparece com o passar do tempo e o meu, Anaís, fez-se mais forte -expôs antes de abraçá-la tanto que mal a deixou respirar. ― Mas, Fed… ― começou a dizer chorando. ― Eu não quero me converter em… não poderia viver sendo você… ― Não o será! ― Proclamou com firmeza. ― Vou divorciar-me, Anaís. Vou comprar a casa em que viveu e, uma vez que organize tudo, nos casaremos. ― Não pode estar a falar a sério! ― Exclamou horrorizada. ― Seus pais… seu mundo…! ― Nada é o suficientemente importante para mim salvo você ― lhe disse atraindo-a de novo para ele e acalmando sua inquietação com um comprido e apaixonado beijo. Poderiam ter estado assim toda a noite, mas ambos sabiam que não podiam permitir-se mais tempo, por agora. Anaís depois de lhe contar que tinha visitado seu antigo lar e que tinha visto o senhor Polet, ambos chegaram a um acordo, se de verdade pudesse ficar com sua antiga residência, ela cuidaria do ancião tal como devia porque jamais permitiria

deixar um homem moribundo falecer na rua. ― Isso já o dava por feito ― disse Federith antes de lhe beijar as mãos. ― Sabia que seria incapaz de deixá-lo desamparado. ― E por que sabia? ― Não se lembra do dia que encontramos aquele ninho?


Apesar de te insistir em que a natureza devia seguir seu curso, arregaçou o vestido e subiu à árvore. Colocou-o em seu lugar e durante vários dias me fez vigiar se por acaso a mãe não os aceitava ― comentou apertando com força a mão de Anaís. ― E apareceu… ― Sim e estou seguro de que, se aqueles pintinhos não tivessem aprendido a voar, você mesma os teria ensinado ― disse divertido. ― Federith… como não esqueceu essas coisas? ― Perguntou-lhe colocando-se em frente a ele. ― Porque jamais pude esquecer o grande amor da minha vida… Estava a ponto de voltar a beijá-la nos lábios quando escutaram uns passos aproximando-se deles. ― Segue prestando atenção às suas costas, querida, porque estarei atrás ― lhe prometeu Cooper antes de desaparecer. ― Senhorita Price, é você? ― Perguntou uma voz desconhecida. ― Sim ― respondeu aparando o cabelo e esticando o tecido de seu vestido. ― Me alegro de encontrá-la! ― Exclamou o jovem criado. ― Queria lhe informar que sua senhora partiu e que a proprietária dispõe de carruagens que poderão levá-la ao seu lar ― informou. ― Tão cedo? Partiu sozinha? ― Perguntou alterada. ― Não, senhora. A condessa ia acompanhada do senhor Spencer ― explicou. ― Obrigada ― agradeceu antes de levantar o vestido e pôr-se a correr. Como


lhe tinha ocorrido partir só com aquele energúmeno? E… como teria conseguido que ela o acompanhasse? Estaria sua senhora num grave apuro? Em perigo? Fosse o que fosse, ela mesma interromperia qualquer malvado plano e, embora tivesse que enfrentar aquele titã, fálo-ia encantada se salvasse a indefesa moça. Quando Federith entrou no salão, procurou Roger. Este estava a conversar com vários cavalheiros, mas assim que cruzaram seus olhares o marquês se desculpou e caminhou para ele. ― Saiu tudo como planejou? ― Perguntou ao aproximar-se.


― Notou minha ausência? ― Perguntou à sua vez Federith, procurando Caroline no salão. ― Responde primeiro e eu te responderei, embora pelo embriagador perfume que desprende posso deduzir que tudo saiu bastante bem… ― Não é o que imagina ― resmungou Cooper. ― Eu não imagino nada, amigo. Só faço conjecturas… ― Disse-lhe que vou divorciar-me de Caroline e que comprarei seu antigo lar ― declarou. ― Que vai fazer o que? ― Soltou em voz alta. ― Que vou comprar… ― Disse se divorciar? ― Roger o agarrou pelo antebraço e o levou para uma ponta do salão onde podiam falar sem ser escutados. ― Está louco? Como vai fazer uma coisa semelhante? Sabe como ficará ante todos estes petulantes se decidir se divorciar? E seus pais? O que opinarão eles de que seu dissimulado filho provoque um escândalo de tal índole? E não falemos do que difundirá sua esposa… ― O que você faria em meu lugar, Roger? Manter-se-ia passivo enquanto vê como a mulher que ama retorna de novo à sua vida? ― Inquiriu nervoso. ― Não tenho nem ideia do que faria em seu lugar, Cooper. Mas estou seguro de que pensaria outra maneira de… ― Não há! Só posso pensar em tê-la, acaso não sabe como atuamos quando estamos apaixonados? Olhe Evelyn. Olhe-a! Imagine que está casado com Caroline e ela é a mulher de sua vida, a única que pode fazer com que deseje viver, deixá-la-ia escapar? ― Não… ― murmurou depois de contemplar sua esposa. Só de pensar lhe encolheu o coração. Só uma vez pensou que jamais a teria e lhe


causou tal demência que esteve a ponto de finalizar seu calvário com suas próprias mãos. ― Eu tampouco posso viver sem Anaís ― disse em voz baixa. ― Já não… ― E ela? O que pensa sua querida senhorita Price da loucura que vai fazer? Perguntou curioso. ― É óbvio que se negou mil vezes quando lhe expliquei quais são minhas intenções, mas me ama. Embora não me disse isso ainda, sei que o faz. Não pode imaginar como aceita minhas carícias ou meus beijos… ― Pelo amor de Deus, Federith! Está se escutando? Nunca comentou nada sobre suas anteriores conquistas, jamais revelou se as beijava ou as mordia, e agora, narra-me que ela aceita suas… graças a Deus que William aparecerá esta semana! ― Bufou. ― Rutland? ― Perguntou arqueando as sobrancelhas. ― Crê que eu poderia enfrentar a tudo isto sozinho? Necessitamos de sua ajuda. Dos três é o mais sensato, embora tenha de admitir que sempre pensei que o era você, mas claro, não tinha aparecido a mulher que te deixava louco ― explicou sem respirar. ― Não aceitará minha decisão ― sussurrou aflito. ― Nem eu tampouco, mas se de algo serve a amizade é para nos apoiar em qualquer decisão que tomemos sem nos importar a repercussão que terá ― sentenciou. ― Quer dizer que, apesar de tudo, me apoiará? ― Perguntou surpreso. ― Sim, e agora sorria que vem sua esposa. Ambos dirigiram o olhar para Caroline, que caminhava para eles com sua típica solenidade. Saudava com a cabeça e sorria a quem a olhava. Mas algo não estava bem. Federith soube assim que a olhou. Estava tramando algo, por como


brilhavam seus olhos, não seria bom. ― Querido… ― disse ao chegar – estive te procurando. O marquês me disse que tinha uma reunião com alguém importante. ― Sim, Caroline. Mantive um… ― E… tudo saiu conforme planejava? ― Perguntou com suavidade. ― Sim, tudo saiu como… ― tentou dizer, mas não pôde terminar a frase. Caroline pegou-lhe a mão e o dirigiu para onde se encontravam os músicos. O que pretendia? ― Podem me permitir uns momentos? ― Perguntou a um dos músicos. ― Meu marido e eu temos algo a confessar. ― Caroline… ― lhe advertiu apertando os dentes. ― Boa noite, desculpem esta interrupção ― começou a

dizer sem escutar a advertência de seu marido ― meu querido marido e eu queremos lhes anunciar que no próximo sábado celebraremos uma festa em nosso lar e que todos vocês estarão convidados. Como é lógico, ao longo da semana lhes farei chegar o convite. Muito obrigada. Poderia ocorrer alguma tragédia mais? Porque depois de fazer aquela absurda pantomima, Federith estava seguro de que não. ― Como se atreve a me deixar em evidência? ― Recriminou-a. ― Aprendi muito durante estes anos de casada e temo que jamais me teria permitido celebrar uma festa em nossa modesta casa senão tivesse feito o convite publicamente… ―


esclareceu enquanto voltava a saudar as pessoas que os olhavam. ― É uma pessoa má, Caroline. ― Claro que sim! ― Exclamou sorridente como se seu marido lhe tivesse feito uma brincadeira. ― Mas ainda não terminei minha maldade, querido. Só deve esperar um pouco mais e conseguirá averiguar o alcance que pode oferecer a perversidade de sua esposa… ― Matar-te-ei se atrever-se a… ― Me matará? ― Perguntou arqueando as sobrancelhas. Voltou-se para ele e, como estavam no meio da pista de baile, colocou suas mãos para começar a próxima dança. ― É tão fraco que preferiria se matar antes que me pôr as mãos em cima. ― E soltou uma gargalhada de satisfação. Anaís chegou em Longher assustada e agitada. Enquanto a governanta lhe abria a porta percebeu que a carruagem do senhor Spencer se encontrava estacionada no jardim. O que fazia ele ali? Por que não partira? Por acaso não chegava a imaginar o que significaria para a condessa que alguém descobrisse sua carruagem a essas horas na residência? ― Senhorita Price ― disse a criada ao vê-la. ― Onde está a condessa? ― Perguntou com ansiedade. ― Em seu quarto ― respondeu sem mostrar em seu rosto nenhum sinal de desagrado. ― Em seu quarto? ― Repetiu horrorizada. ― E o senhor Spencer? ― Perguntou depois de fazer desaparecer o nó da garganta. ― Senhorita Price, informo-lhe que o senhor Spencer também se encontra no dormitório da senhora ― disse ruborizando-se. ― O que tenta me dizer? ― Olhou-a atônita. Como podia manter a calma? Como não evitou que ele a acompanhasse?


― Sua excelência apareceu nos braços do senhor Spencer e ela mesma me ordenou que ninguém lhes interrompesse ― explicou a donzela inquieta. ― Mas… mas… ― Senhorita Price… não se pode lutar contra as ordens de um amo. Se eles decidiram ficar um tempo a sós… devemos, tão somente, acatar seus mandatos. Se estivesse em seu lugar, retirar-me-ia ao meu dormitório e amanhã, quando o senhor sair, dar-lhe-ia as felicitações. ― As felicitações? ― Sim ― disse soltando uma risada a governanta. ― Porquê? ― Perguntou olhando para o piso de cima. ― Porque escutei o senhor sussurrar à nossa senhora que iria cumprir com sua promessa e que amanhã mesmo todos seriam informados de seu compromisso. ― Compromisso? – Insistiu. ― OH, meu Deus! ― Exclamou levando as mãos para o rosto. ― Então… eles dois… ― Estarão desfrutando de sua primeira noite ― concluiu a criada antes de dirigir-se para a cozinha. Anaís manteve seu olhar nas escadas durante um bom momento. Não podia acreditar que Priscila estivesse


apaixonada por aquele homem. Mas se tinha dado um passo tão importante como levá-lo a sua residência e deitar com ele sem se importar a opinião dos que a serviam, está-lo-ia. Abaixou a cabeça e começou a subir as escadas. Devia meter-se em seu dormitório e tentar pensar em tudo o que tinha ocorrido ao seu redor desde que chegou a Londres e como lhe afetaria a aparição de um novo conde. De repente um sorriso se desenhou em seu rosto e toda a inquietação que tinha sentido por sua senhora desapareceu. A condessa merecia outra oportunidade para ser feliz, assim como ela. «Mamãe, conseguiu. Tudo aquilo que sonhou para mim está acontecendo. Agora já pode descansar em paz».

XXV Estava desesperado. Não parava de rondar pelo salão de um lado para outro esperando que ela aparecesse. Mas ainda não se despertara e, embora tivesse uma vontade incrível de aparecer na habitação de Caroline e lhe gritar que devia anular aquela festa apesar de sua negativa, conteve-se. Não era apropriado que oferecesse um escândalo antes de começar a tramitar seu plano. Embora as pessoas que se encontravam sob seu serviço tinham sua confiança, muito temia que não poderiam ocultar um escândalo assim. Com os braços nas costas dirigiu-se para o escritório, ali tinha colocado o envelope que o senhor Lawford lhe fez chegar uma hora atrás. Não desejava abri-lo até que não esclarecesse a situação com Caroline, mas como a espera era angustiosa, acreditava que era preferível manter a sua cabeça ocupada com outra coisa que não fosse o desespero que lhe causava a rebeldia de sua esposa. Por acaso não o escutou negar-se a uma celebração quando ela o insinuou? Tão pouca atenção lhe dava que evitava qualquer ordem? Qualquer outro marido se imporia pela força, mas ele não era assim. Embora não sentisse por ela nada salvo gratidão por lhe ter dado um filho tão maravilhoso como Eric,


não podia humilhá-la nem desprestigiá-la. Além disso, necessitava que ela permanecesse tranquila para lhe explicar o que tinha pensado, o melhor era manter a calma… Descruzou as mãos e as dirigiu para o envelope. Como era habitual entre os administradores, selava o anverso com sua própria assinatura para que não coubesse a menor dúvida da procedência. Federith agarrou o abridor de cartas de prata que Roger lhe deu de presente em seu último aniversário e, com a mesma suavidade que se acaricia a asa de uma mariposa, abriu o envelope. Ávido por conhecer o que tinha escrito o administrador, tirou o papel que tinha o selo de Lawford impregnado em tinta azul na parte direita. «Quantas formalidades para um homem tão desonesto!», pensou Cooper. Sem atrever-se a dar um só passo, começou a ler. «Estimado lorde Cooper, tal como acordamos apresentei-me na residência da qual falamos e mantive um encontro com o dono. É óbvio, ofereci-lhe a soma que convimos, mas o cavalheiro, apesar de encontrar-se em uma situação lamentável, afirmou que não responderia até que você se apresentasse ante ele e conversassem. Tenho que admitir que o aspecto que mostrou o dito cavalheiro me deixou perturbado. Jamais imaginei que uma pessoa ficaria abandonada da mão de Deus. E nem o que dizer da deterioração que apresenta o lar. Se continua interessado terá que apresentar-se, mas se mudar de opinião, conheço outras mansões que poderá adquirir pela metade dessa quantia e se encontram em muitíssimo melhor estado. Atenciosamente, Arthur Lawford, administrador, contável e advogado». Federith leu duas vezes a nota. Guardou a folha dentro do envelope e o rasgou


em vários pedaços. Depois caminhou para a chaminé e a atirou ao fogo. Depois de descobrir que Caroline escutava as conversas, não lhe restava dúvida de que não só espiava as visitas, mas sim também rebuscaria em seu escritório tudo aquilo que lhe interessasse e o único que lhe preocupava era averiguar se possuíam recursos substanciosos para poder gastar. Separou-se do calor da luz e se dirigiu para a janela que havia às suas costas. Dali podia observar o jardim. Sorriu ao ver que a babá por fim tinha decidido tirar Eric de sua habitação. Tinha estendido uma manta sobre o chão e brincava com as mãozinhas. Ele deveria ter presenciado aquele momento. Devia permanecer com seu filho e ser testemunha de tudo o que lhe acontecesse pelo resto de sua longa vida. Entretanto, encontrava-se metido entre quatro paredes tentando dar sentido à sua… ― Estava me procurando? ― A voz de Caroline na porta causou que Federith se girasse para ela com brutalidade. ― Sim ― afirmou ao mesmo tempo que se aproximava. Estava furioso, irado, e tinha uma vontade incrível de estrangulála mas ao contemplar seu rosto, tudo aquilo que pensava se dissipou. Por que estava tão pálida e seus olhos pareciam mostrar desconsolo? ― Tomou o café da manhã? Podemos falar quando tiver acabado… ― Não tenho fome ― disse caminhando devagar para a chaminé. Tinha muito frio e lhe viria bem esquentar-se com as chamas. ― Bebeu mais champanhe do que podia tolerar? ― Perguntou caminhando atrás dela. ― Não me lembro. Acredito que perdi a conta na décima taça que me ofereceram ― disse com desdém. ― Caroline… ― resmungou. ― O que te acontece? Leva bastante tempo com olheiras e mal come. Devo mandar chamar o doutor?


― Não tem que chamar ninguém. Só penso que uma mulher deve manter-se bela apesar de estar casada ― indicou colocando suas mãos no ventre para que não descobrisse a verdade. ― Mas deveria… ― O que quer me dizer, Federith? ― Perguntou olhando-o nos olhos sem piscar. ― Porque não acredito que me esteja procurando para me informar de que estou perdendo peso, não é? ― Queria te fazer mudar de opinião sobre essa festa que decidiu oferecer no sábado ― comentou ao mesmo tempo que se sentava em frente a ela. Desabotoou-se a jaqueta deixando que ambas as partes caíssem aos lados de sua cintura, cruzou as pernas e juntou as mãos como se pensasse rezar. Os dedos golpeavam sua boca com suavidade enquanto seu olhar azulado se fixava no cinzento da mulher. ― Já lhe esclareci isso no retorno a casa, não posso recuar. Muitos dos assistentes confirmaram ali mesmo sua presença – argumentou. ― E causaríamos um grande escândalo se agora o anularmos. Além disso… será apenas um baile. O que pode nos prejudicar uma pequena reunião de amigos? ― Reunião de amigos? ― Perguntou arqueando as sobrancelhas. ― Na festa de lady Baithlarin havia mais de uma centena de pessoas. Não podemos permitir acolher a tantas pessoas… ― De verdade crê que todas elas virão? ― Perguntou levantando-se do assento. ― Sabe muito bem que inventarão qualquer motivo para não aparecer nesta casa ― o provocou. Sabia que assim que indicasse que seu título aristocrático era degradado pela metade da sociedade londrina, seu ego se alteraria e terminaria por aceitar. ― Nesta ocasião não me importaria absolutamente que assim fosse ― apontou levantando-se do assento. ― E mais, os encorajaria. ― Federith! ― Exclamou zangada. ― Como pode falar dessa forma? Não tem


piedade conosco? ― Conosco? ― Inquiriu Cooper entreabrindo os olhos. ― Com seu filho e comigo! – Clamou. ― Que classe de vida anseia para seu filho, Federith? Quer que sofra por suas decisões? Quer que seu futuro esteja marcado pelos equívocos de seu pai? ― O que tem que ver o futuro do nosso filho com a festa, Caroline? ― Demandou zangado. ― Quem aparece nos eventos? ― Perguntou em voz baixa. ― Todo mundo importante ― se respondeu ela mesma. ― E no dia de amanhã necessitamos que nosso filho possua boas relações… ― Meus pais jamais tiveram que… ― tentou defender-se. ― E se converteu num libertino! – Gritou. ― Não se lembra de quem foi? Porque eu não o esqueci… ― Isso não tem nada a ver! ― Bramou Federith agarrando Caroline pelos braços. ― Não me comportei como se esperava? Não te dei um lar onde viver? Não compra aquilo que deseja? ― Prosseguiu irado. ― Por acaso questiono onde passa seu tempo quando sai de nossa casa? Ou te pergunto por que leva semanas ou meses sem olhar aos olhos o seu próprio filho? ― Isso não é suficiente! ― Replicou liberando do forte aperto. ― Nada será suficiente para ti, Caroline. Há muito tempo que deseja algo que não consegue e enche esse vazio com milhares de coisas banais. Ao princípio acredita que elas suprirão aquilo que anseia, mas com o tempo… nada pode igualar o que verdadeiramente deseja… ― O que sabe você sobre o que desejo! ― Trovejou girando-se para ele. ― A verdade é que não sei o que necessita, mas sei o que necessito eu e muito


temo que não tem nada a ver contigo… ― disse baixando o tom. Tinha chegado o momento. Sim, sentia-o. Podia perceber que era o instante preciso de falar sobre isso com Caroline. ― Não tem nada a ver comigo? ― Repetiu confusa. ― O que está pensando, Federith? ― Seus olhos se abriram como pratos. Não, não podia ser que ele tivesse chegado à mesma conclusão que ela. Ele não era desse tipo de pessoas… ― É feliz ao meu lado? ― Olhou-a aos olhos e observou que havia em seu rosto uma mescla de surpresa e medo. ― Eric é… ― tentou dizer. ― Não refiro-me ao Eric, mas sim a ti, é feliz ao meu lado, Caroline? ― Aproximou-se tanto dela que mal havia entre ambos os corpos o suficiente espaço para que passasse o ar. ― Você gosta quando minhas mãos tocam sua pele? ― Perguntou aproximando sua mão do braço dela para tocá-lo. ― Não! ― Exclamou com rapidez, apartando-se bruscamente. ― Sabia… ― Federith sorriu satisfeito. ― Se não tivesse ficado grávida do Eric jamais teria me casado contigo ― disse com tanto desespero que Federith desejou consolá-


la. ― Caroline… ― caminhou para ela abrindo seus braços. Quando observou que jogava uns passos para trás parou. ― Não quero te tocar como um homem, só quero te consolar como um amigo declarou. ― Muitas vezes necessitamos do apoio de alguém que possa nos entender. ― Mas você… você… ― tentou dizer antes que as lágrimas brotassem de seus olhos. ― Eu, Caroline, sou o de sempre. ― Tentou-o de novo e desta vez ela aceitou aquele abraço. ― Sinto muito se te marquei a vida. Sinto muito se não pôde alcançar seu sonho por minha culpa ― lhe disse sem deixar de lhe transmitir carinho e ternura. ― Se pudesse voltar atrás no tempo jamais te haveria tocado… ― Mas Eric… ― soluçou. ― Eric… ― Eric é um presente de Deus, Caroline. O melhor que me aconteceu na minha vida. Agradeço todos os dias por ter tido um filho tão forte e formoso. Isso… ― disse separando-a dele para que o olhasse aos olhos ― é o mais belo que fizemos e, embora nós não possamos viver juntos, nosso filho não deve sofrer por nossas más obras, não crê? ― Está sugerindo-me que… quer o divórcio? ― Perguntou abrindo os olhos como pratos. ― Sabe o que está dizendo? ― Perguntou aturdida. ― Não… não sabe, porque se de verdade estivesse pensando com claridade não teria insinuado esse tipo de aberrações. ― Caroline, não pensa que é a melhor forma de vivermos? ― Tentou fazê-la entrar em razão. ― Se estivéssemos noutra época ou em outro mundo, sim.


Mas aqui… ― Quer viver sempre ao lado de um homem como eu ou prefere viver com aquele com quem sonha? ― Como sabe…? -Levou a mão à boca e abriu os olhos como pratos. ― A gravidez de nosso filho podia mudar suas necessidades íntimas, mas não as fazer desaparecer para sempre. Caroline, ― disse em voz baixa ― me responda uma coisa… ― Diga, Federith ― respondeu lhe olhando nos olhos. Era a primeira vez que estava conectada ao seu marido e, embora lhe parecesse estranho, também se sentia feliz. ― Eric é meu filho? Prometo-te que, embora não o seja, seguirei amando-o como o amo. Mas deve me responder a esta dúvida que me corrói desde que ele nasceu. Está segura de que é meu filho? ― Perguntou desesperado. Caroline considerou durante uns segundos o que dizer. Mas não era justo que seu filho padecesse a mesma dor que ela. Alguma vez Eric confrontaria sua paternidade? Não, nunca. Nem do primeiro nem do segundo… ― Federith… ― disse colocando suas palmas sobre o peito do homem. ― Eric é teu filho, juro-te ― mentiu. Mas o fez por seu menino. Sabia que, se alguma vez lhe acontecesse algo, ele estaria a salvo sob o amparo de Cooper. ― Embora não creia nisso, acaba de me fazer o homem mais feliz de Londres ― disse lhe beijando a testa. ― Sei… ― murmurou contra o peito. ― Sei… ― repetiu. Depois da conversa com Caroline ambos passaram a tarde junto com Eric. Jamais imaginou que ela decidisse sair ao jardim e que se sentasse junto ao seu filho na manta que a ama tinha estendido. Federith observava fascinado como brincava com o pequeno, como o fazia rir ou como o abraçava.


Seria possível que só precisasse sentir-se liberta de um matrimónio que nenhum dos dois desejara? Devia ser esse o motivo da mudança de Caroline porque não encontrava outra explicação. Tinha aceite. Fosse o motivo que fosse, ela tinha aceite e, por mais estranho que parecesse, o ódio que sentiu por Caroline se transformara em carinho. Era uma mulher mais intensa do que imaginara, mas o amor que escondia em seu interior o oferecia à pessoa que guardava em seu coração, porque não lhe cabia dúvida de que ela amava outro homem. Seu rosto se iluminou como uma estrela em meio da noite quando entendeu sua sugestão. Quanto tempo levaria amando-o? Saberia ele de seus sentimentos? Estaria casado? Não, não podia estar casado porque caso contrário ela jamais teria dado um passo tão importante. Seguro que estaria solteiro e permaneceria à espera da chegada de sua amada. «Logo… ― pensou Federith. ― Logo será tua». ― De verdade tem que partir? ― Perguntou-lhe quando se levantou. ― Sim, tenho que resolver um assunto o mais rápido possível. ― Bom, não se preocupe, tenho muitas coisas que preparar para a melhor festa da temporada ― explicou feliz. ― Se necessitar da minha ajuda… ― se ofereceu.

― Um homem se dispondo em coisas de mulheres? Nem pensar! Parte de uma vez, Federith Cooper! Federith beijou o rosto de seu filho, logo ofereceu outro casto beijo à Caroline na testa antes de afastar-se e caminhou para a carruagem que Bastian tinha colocado na entrada para não interromper aquela cena familiar. ― Boa tarde, milorde ― disse o cocheiro ao vê-lo chegar. ― Boa tarde, Bastian ― lhe saudou enquanto acessava ao interior do veículo.


― Onde deseja que o leve? ― Para o Fetherwall ― respondeu. Apoiou-se no respaldo e observou Caroline. Levantou-se e dirigia-se para a casa enquanto a babá se encarregava do Eric. Tentou não pensar nas razões pelas quais ela tinha deixado de novo o pequeno só e se concentrou em encontrar o tema de que falaria com o senhor Polet. Por que insistia em conversar com ele antes de realizar o trâmite de compra? Solicitaria várias condições? Quais e por que? O que podia desejar um homem que vivia num estado tão lamentável? Logo o averiguaria. Federith fechou os olhos e deixou que sua mente se relaxasse para lhe oferecer a imagem mais bela do mundo, o rosto de Anaís. Era, sem dúvida, a única mulher que amaria pelo resto de sua vida. Levou a mão para o relógio e o leu de novo. Tinha sido sua mãe. Tinha escrito aquela frase para que não esquecesse jamais que um verdadeiro amor não se podia esquecer e a condessa não mentia. Do momento no qual Anaís agarrou sua mão para que ele aplacasse seus medos quando era uma menina, soube que não só lhe acalmaria aquele temor pelos monstros do bosque que sua mente projetava, mas sim a protegeria de todos os medos que sofresse pelo resto de sua vida. Sim, parecia ilógico que desde aquele instante conseguisse sentir o que outros não obtinham em anos, mas aquela faísca que surgiu quando suas mãos se entrelaçaram foi o sinal de seu destino. Um que estava a ponto de conseguir… Simon respirava com dificuldade. Era a segunda vez que a tosse era tão intensa que quando terminava deixava-o completamente abatido. Seu corpo estava cansado de lutar e queria descansar em paz, mas ainda não podia fazê-lo porque tinha que cumprir uma promessa. Uma que acreditou ter realizado anos atrás e que tristemente não tinha sido assim. Esticou a mão tremente para a mesinha e abriu com dificuldade a gaveta. Colocou os dedos no interior e procurou alterado aquilo que precisava aproximar de seu coração. Tinham passado muitíssimos anos desde que uma moça de cabelo loiro e com uns olhos da cor do mar o tinha dado, mas a lembrança e o sentimento daquele momento foram tão intensos que, para ele, não tinham transcorrido quase cinco


décadas, mas dois dias. Como esquecer o momento mais formoso de toda uma vida? Simon o levou aos lábios e o beijou. Jamais a apagaria de sua mente e quando falecesse sabia que voltaria a estar com ela. ― Senhor, chegou um cavalheiro e deseja ser atendido. Disse que não se encontra em condições de recebê-lo, mas insistiu em que foi você quem requereu sua presença ― informou a donzela preocupada. ― Disse como se chama? ― Perguntou Simon escondendo sob sua camisola o que segurava nas mãos. ― Sim, é lorde Cooper. ― OH…! ― Exclamou surpreso. ― Faça-o entrar imediatamente! Quando a donzela observou que o ancião tentava levantar-se, correu para ele e lhe ajudou colocando os travesseiros nas costas. ― Quer que eu fique aqui se por acaso me necessitar? ― ofereceu-se. ― Muito obrigado, Amie, por agora me posso arrumar sozinho. ― Mas, senhor… ― insistiu. ― Se me acontecer algo estou seguro de que lorde Cooper pediria ajuda. ― Como desejar... ― disse enquanto caminhava para a porta. Amie o olhou com tristeza. Não sabia de onde tirava tanta força para aguentar tudo o que padecia. Qualquer pessoa com sua idade e com sua enfermidade haveria falecido anos atrás e, entretanto, ele continuava sobrevivendo por algum estranho milagre. Simon olhou o teto e conteve a emoção de saber que o jovem Cooper estava em sua casa. Se ela não tinha duvidado daquele homem, ele tampouco o faria. Apertou com mais força o objeto que guardava e suspirou. Tinha sido um presente de Deus que Anaís aparecesse em sua casa dias atrás. Jamais imaginou


poder contemplá-la depois de tantos anos. Anos que se dedicou a procurá-la quando lhe chegou a última carta de sua amada Claudine. Precisamente antes que ela morresse, tinha lhe escrito uma missiva informando de que tanto sua filha como sua neta estavam em perigo. Sempre soube que ela não devia casar-se com o arrogante conde Kingleton, mas para o marido de Claudine era mais importante o título que a moça obteria que o futuro que este lhe ofereceria. «As ajude ― lhe tinha escrito. ― Te peço por favor que as ajude. Esse homem não é bom com elas e sei que você é a única pessoa que pode protegê-las». Mas se equivocava… quando soube que sua amada Claudine tinha morrido se esqueceu de sua filha e de sua neta. Mal podia respirar pela angústia que lhe supôs a notícia. Logo, que se recuperou, sofreu outro forte golpe pois descobriu que sua filha também havia falecido. Só restava a pequena e, para seu pesar, parecia que a terra a tinha tragado. Onde estaria? Essa foi a pergunta que se esteve fazendo durante dez anos. Embora, por sorte, já tinha a resposta. ― Boa tarde, senhor Polet ― falou Federith da entrada. ― É um mau momento para conversar? ― Entre, lorde Cooper, é o melhor momento ― respondeu o ancião. Tal como lhe havia descrito Anaís à noite anterior, o senhor Polet mal podia respirar. Mantinha um tenebroso aspecto e tudo o que lhe rodeava aumentava o ambiente sombrio. Na habitação encontrou poucos utensílios: uma cama, duas cadeiras, duas mesinhas pequenas a ambos os lados do leito, uma chaminé que ardia com força e um forte aroma de naftalina. ― Encantado de lhe conhecer, senhor Polet ― disse Cooper estendendo sua mão para ele. ― O prazer é meu – respondeu. ― Por favor, sente-se ― lhe indicou com a mão tremente a mesma cadeira em que dias atrás permaneceu Anaís. ― Imagino que


veio pelo tema de que falei com o senhor Lawford, equivoco-me? ― Não se equivoca. Ele enviou uma nota me informando que desejava conversar antes de iniciar os trâmites da venda ― explicou ao mesmo tempo que desabotoava a jaqueta e se acomodava no assento. ― Bom… não foi exatamente isso o que indiquei ao seu administrador ― disse Polet com voz cansada. ― Ah, não? ― Quis saber Federith arqueando as sobrancelhas, cruzando as pernas e colocando suas mãos sobre estas. ― Não, milorde. O que disse ao senhor Lawford é que precisava falar com você para lhe explicar por que não quero lhe vender minha arruinada propriedade ― apontou com a esperança de que aquele nobre moço entendesse seu propósito quando pudesse expô-lo. ― Não lhe agrada a quantidade que lhe ofereci? ― Interessou-se Federith. ― Não acredito que possa valorar esta ruína em mais de dez mil libras. ― Tal como está meu lar depois de tantos anos, não pagaria por ela nem dois peniques ― disse jocoso o ancião. ― Uma boa cifra para… ― tentou dizer Cooper. ― Não está à venda ― acrescentou com firmeza. ― Então, senhor Polet, não entendo o que faço aqui ― expressou confuso. ― Porque sei que seu propósito é o mesmo que o meu e acredito que não precisa tramitar nada se tiver seu apoio ― assinalou Polet acomodando-se com grande dificuldade nos travesseiros. ― Adiante, o escuto, embora muito temo que meu objetivo não será o mesmo


que… ― Esta propriedade deve pertencer à sua verdadeira proprietária, a senhorita Anaís Price, filha do falecido conde Kingleton. Vejo que pela expressão de seus olhos acaba de ficar sem palavras, lorde Cooper, estou certo? ― Perguntou desenhando um enorme sorriso em seu rosto. ― Como sabe que…? ― Comentou atônito. ― É uma longa história, mas posso lhe fazer um breve resumo se o desejar. Federith só pôde assentir posto que ficou tão atônito que lhe resultava impossível expressar uma só palavra. Como sabia aquele ancião suas intenções? Lawford teria dito? Não, não tinha falado com ninguém de suas intenções, salvo com Anaís. ― A jovem Anaís Price, ― prosseguiu o ancião ― é minha neta, lorde Cooper. ― Sua neta? ― Perguntou confuso. ― Pode me explicar um pouco mais como a senhorita é sua neta? ― Só posso lhe contar que lady Claudine e eu mantivemos uma relação amorosa depois que ela se casou com o barão de Rossei. A conheci numa festa que se ofereceu em sua honra e… meu amor foi correspondido, até que o barão nos surpreendeu numa situação comprometedora. Dois dias depois, o marido de Claudine a embarcou com rumo a Gravesend. Mas, para desgraça do barão, ela levava em seu interior o fruto daquela paixão que vivemos. ― A condessa Kingleton… ― sussurrou. ― Sim, Claudine me informou anos mais tarde numa carta sobre o nascimento da nossa filha, embora sempre afirmou que era do barão. Quando essa menina convertida em mulher apareceu em Londres, estive protegendo-a até que o desventurado barão a fez casar com o conde ― continuou explicando. ― Conforme comentou minha mãe, a baronesa se encontrava bastante doente


para vir à primeira temporada social de sua filha e a trouxe seu pai ― recordou Federith. ― Claudine não retornou a Londres porque o seu marido a tinha cativa naquela cidade. Só pôde liberar-se daquela prisão quando enviuvou e, mas já estava tão velha que sua saúde perigava se empreendesse um trajeto tão angustiante ― disse triste. ― E a condessa sabia que você era seu verdadeiro pai? ― Perguntou com grande interesse. ― Sim, sabia. Mas tal como sua mãe, ela protegeu o segredo até o dia de sua morte. Não houve enganos entre mim e minha filha, até quando o desalmado do conde começou a arruinar-se, ela me rogou que protegesse sua filha porque não havia salvação para ela. Mal podia fazer nada do que desejava ― comentou zangado. ― Como bem sabe, aqueles que não tem sangue azul, embora possuamos mais fortuna que qualquer um deles, somos virtualmente invisíveis nesta sociedade. Então só pude ajudála lhe oferecendo uma exagerada quantia pela compra desta casa. Acreditei que a reformaria e que terminaria lhes dando um bom lar longe de Londres, mas errei em minhas conjecturas. O conde gastou tudo o que adquiriu pagando aos credores e custeando seus vícios durante um bom tempo. Mas quando o dinheiro desapareceu, o conde se converteu num homem muito perigoso. Ansiava obter o que necessitava de qualquer forma. Claudine estava atemorizada. Enquanto permaneceram sob seu mesmo teto ela me escreveu me advertindo de que sua vida corria perigo. Talvez porque descobriu que o marido de sua filha lhe roubava… fora o motivo que fosse, ela pedia amparo não só para sua filha, mas também para sua neta ― disse tristemente. ― Você crê que o conde…? ― Inquiriu com surpresa. ― Não acredito, estou seguro disso. Sou o único que parou para pensar sobre como duas mulheres com uma vitalidade incrível falecem de maneira inexplicável? ― Anaís me haveria dito… ― pretendeu dizer.


― Ela não falaria disso ― pronunciou com força Polet. ― Essa moça já viveu muitas desgraças para confessar tais crueldades. Além disso, se seu pai tivesse tido a suspeita de que ela conhecia a verdade, teria tido a mesma sorte, não crê? ― O que você explica é… ― Federith se levantou de seu assento, rodeou-o e agarrou com força o respaldo. ― É imperdoável, sei. Mas… se pode sancionar um morto? Porque o conde também morreu. ― E, como não se pode condenar a um morto, ela não deseja recordar essa tragédia… ― meditou com voz apagada Cooper. ― Em efeito. Ela não deve recordar seu passado, nem tampouco pode culpar-se de algo que não pôde evitar. Como viveria você se cada dia ao dormir não pudesse saber se voltará a ver o amanhecer? Mas graças a Deus foi acolhida por uma família piedosa ― disse o ancião aliviado. Durante uns instantes, Federith meditou sobre como teria vivido Anaís durante aquele terrível tempo. Encontrar-se-ia desesperada, triste, desamparada e com a esperança de que ele cumprisse sua promessa de protegê-la. A angústia se apoderou dele e ansiou sair daquela habitação para golpear o primeiro que encontrasse, mas devia atuar com sensatez e lhe oferecer, por fim, a vida que merecia. ― O que pretende fazer, senhor Polet? ― Perguntou olhando ao ancião sem piscar. ― Quero que Anaís obtenha o que perdeu – esclareceu. ― Não só esta casa lhe pertence, mas também deve gozar da posição social que, por sangue, corresponde-lhe. ― Quer fazê-la retornar à sociedade? Como? Porque muito temo que não seria possível salvo…


― Se o senhor Lawford se apresentasse em meu lar antes da aparição de Anaís teria pensado que você só pretendia recuperar um lar arruinado para logo vendê-lo ou ficar como patrimônio, mas depois da visita da minha neta entendi que desejava adquiri-la para ela, equivoco-me? ― Inquiriu. Polet olhou com atenção ao homem e compreendeu aquilo que sua filha lhe disse em várias ocasiões, não haveria ninguém no mundo que cuidasse e protegesse Anaís como ele. ― Não se equivoca ― respondeu afastando-se da cadeira e colocando-se nos pés da cama. ― Então, ambos temos o mesmo objetivo. Por um lado, necessito que você avalize meu testamento com sua assinatura e, por outro, que ajude Anaís a apresentar-se em sociedade como a filha do conde Kingleton ― explicou ao mesmo tempo que levava suas mãos para o objeto que escondia. ― Por agora só posso lhe oferecer o primeiro ponto, muito temo que me custará um pouco mais obter o segundo ― comentou em voz baixa. ― Entendo… você é um homem casado e se aparecesse com minha neta todo mundo pensaria que ela se converteu em seu amante… ― refletiu Simon. ― Não disse que não posso fazê-lo ― replicou com voz firme. ― Só que demorarei um pouco mais em cumprir essa promessa. ― Sua esposa não se oporá a isso? ― Perguntou arqueando as brancas sobrancelhas. ― Senhor Polet, pedi esta mesma manhã à minha esposa o divórcio e ela aceitou ― comunicou. ― Um divórcio? ― Perguntou assombrado. ― Sabe você que repercussão terá quando se fizer pública essa intenção? ― Asseguro-lhe que estou bastante informado das


consequências que sofrerei quando anunciar a ruptura do meu matrimónio, mas não poderia viver sem sua neta e você deve me entender, porque um verdadeiro amor não… ― Não desaparece com o passar do tempo ― murmurou Simon com tristeza. Apertou com mais força o que tinha sobre seu peito e respirou fundo. ― Como soube? ― Perguntou Federith entreabrindo os olhos. ― Porque essa frase é minha, lorde Cooper. Eram as últimas palavras que escrevia à Claudine em minhas cartas. ― Entenderá que não posso viver sem ela depois de aparecer em Londres ― indicou Federith com solenidade. ― Entendo-o perfeitamente… quando se oferece o coração a uma pessoa, não há capacidade para outra. Por esse motivo fui incapaz de me casar, milorde. Como poderia viver com uma esposa a quem não podia dar nada? ― Em meu caso… bom… tive que… ― tentou desculpar-se. ― Compreendo-o. E espero que a chegada de seu filho tenha sido satisfatória. ― Foi minha razão de viver até que Anaís apareceu, senhor Polet. Sem ele, não me teria empenhado em continuar respirando. Por acaso a tristeza da perda de uma pessoa que se ama pode desaparecer? Não. Padeci muita dor durante bastante tempo e já é hora de mudar minha vida, embora custe meu título ou a exclusão social – sentenciou. ― Confie em mim para que Anaís volte a ser quem foi. E me chame quando necessitar dessa assinatura. ― Muito obrigado, lorde Cooper. Estarei eternamente agradecido. Federith voltou para o lado do ancião, estendeu sua mão e selaram o pacto. ― Iremos nos ver ― disse antes de partir.

― Quando você quiser ― respondeu Simon.


Tinha-o conseguido. Tinha completado enfim a promessa que fez à sua amada Claudine, agora só lhe faltavam uns dias mais e poderia retornar ao seu lado, lugar do qual nunca devia ter se afastado. Com as mãos trementes pela emoção, tirou a medalha que Claudine lhe deu de presente antes de partir, beijou-a e começou a chorar de alegria. XXVI Eric saboreava uma deliciosa taça de xerez enquanto observava como a fumaça do charuto se formava redemoinhos sobre sua mão. Não existia um momento do dia mais prazeroso que o instante no qual se sentava na poltrona, estendia as pernas para a banqueta e se deixava aquecer pelo calor da luz enquanto bebia. Tudo ao seu redor permanecia num completo silêncio. Até os criados velavam pelo conforto de seu amo evitando caminhar por essa zona durante as horas de descanso. Dirigiu seus olhos para a etiqueta da garrafa, adquirida de um contrabandista, e sorriu. Jamais acreditou que possuiria uma igual. Embora tudo o que envolvia esse licor parecesse uma lenda, as pessoas tinham razão, existia, e ele era uma dessas vinte pessoas que podiam gozar de uma. A pergunta que seu pai se fez durante anos sobre como seria saborear o Porto mais prezado e cobiçado que o ouro, a teria dado seu próprio filho se ainda estivesse vivo. Eric olhou a etiqueta e tentou decifrar o que tinha escrito, mas salvo a data de engarrafado, 1775, não compreendeu nada mais posto que ele não entendia russo. Sorriu de novo, levantou a taça e exclamou: «À sua saúde professor!», antes de beber o resto de licor que continha sua taça. Esse brinde e todos os que realizaria no último sorvo de cada copo, até que terminasse a garrafa, estariam dedicados à pessoa que lhe mostrou como devia viver, seu pai. Desde que cumprira os dez anos seu pai lhe inculcou que, por sorte, tinha nascido em uma família privilegiada e que seu título nobiliário lhe facilitaria a vida. Até que não foi capaz de raciocinar, não compreendeu como podia ser útil ter sangue azul, mas com o tempo e sob o atento olhar de seu progenitor compreendeu à perfeição. Na sociedade que viviam não era tão importante a fortuna que guardava nas arcas, mas sim que tipo de sangue corria por suas veias. A sua era a quinta geração de viscondes e, como augurou seu pai, o fato de converter-se no futuro visconde de Gremont lhe permitiu alcançar o objetivo que se marcou, encontrar uma mulher desejosa de acotovelar-se com a


aristocracia e muito rica. Mas seu pai não lhe explicou que não seria fácil encontrar a esposa adequada. Demorou mais de dois anos a achá-la e, para sua desgraça, seu pequeno capital para então estava quitando-se. Foram muitos os pais que ofereceram suas filhas para as casar com um futuro visconde, mas Eric as rejeitou com elegância. Não queria contentar-se com a cereja do bolo quando podia leva-lo inteiro… Eric se moveu inquieto no assento enquanto recordava como lutou por April. Não foi fácil se sobressair enquanto candidato, apesar de sua formosura e sua galanteria, ela se preocupou mais em averiguar que caráter tinha cada candidato. Teve muita paciência. Estudou cada homem rejeitado com precisão e quando descobriu o que desejava de verdade a senhorita Campbell sorriu de orelha a orelha. Já era dele e sua fortuna também. Quem não lutaria por ser o marido da filha do dono de uma frota de navios mercantis, de uma fábrica têxtil muito produtiva e um forte investidor na ferrovia? Como bom caçador, apontou para ela e, quando o primeiro cruzar de olhares surgiu, soube que já era dele. Durante alguns encontros, evitou olhá-la, observála e inclusive foi resistente à sua presença. Isso causou tal interesse na mulher que ela fazia todo o possível para que fossem apresentados. Uma noite, na última festa da temporada, esperou que April saísse ao balcão para tomar o ar fresco. Levava fazendo-o desde a quarta vez que soube de sua existência, mas ele jamais a seguia, só ficava observando como os que apareciam eram rejeitados imediatamente. Mas tinha chegado o momento. ― Quer adoecer? ― Perguntou-lhe com rudeza uma vez que acedeu ao balcão. ― Como? ― April se girou rapidamente ao reconhecer sua voz, mas estranhou ao escutá-lo com aquele tom tão abrupto. ― Pergunto-lhe, senhorita Campbell, se saiu do salão para adoecer ― indicou avançando para ela. ― Não, milorde ― disse atônita. ― Só desejava tomar um pouco de ar, nada mais. ― April olhou a ambos os lados tentando averiguar se alguém poderia vêlos ou os ouvir. Não era adequado que permanecessem sozinhos, embora isso era o que tinha pretendido desde o momento que o conheceu, ansiava saber


como se comportava aquele homem misterioso. ― E seu casaco? ― insistiu Eric com aspereza. ― Está no… ― tentou dizer, mas não o conseguiu ao ver como aquele cavalheiro lhe oferecia sua jaqueta. ― Adoecer nesta época do ano é muito cruel ― explicou enquanto lhe cobria os ombros e lhe tocava a pele de maneira descuidada com as pontas dos dedos. ― Perderia os meses mais formosos de Londres… ― Obrigada, lorde… ― Pode me chamar de Eric, se o desejar. Embora quase todo mundo me conheça como Graves, futuro visconde de Gremont ― explicou procurando não mostrar arrogância em seu tom ao mesmo tempo que lhe agarrava a mão e a beijava devagar. ― Nesse caso, muito obrigada, Eric, por me emprestar sua jaqueta ― disse com voz tremente. ― Não disse que era um empréstimo ― soltou Eric olhando-a sem piscar e sem liberar sua mão. ― Não? ― Quis saber. Encontrava-se mais alterada que nunca. Seu coração pulsava desenfreado e lhe suavam as mãos sob as luvas. Sabia que devia correr, afastar-se daquele homem tão perigoso, entretanto… não era o que estava esperando? ― Não ― negou puxando a mão que sustentava aproximando sua boca da dela. ― Minha preocupação merece algo mais que um simples agradecimento, senhorita Campbell. ― O que deseja, milorde? ― Perguntou em voz baixa. ― Um beijo. ― E depois de suas palavras, beijou-a com tanta paixão e desenfreio como pôde mostrar. Desde aquele instante soube que ela seria dele e assim foi.


Entretanto, nem tudo tinha saído tal como previu. Casou-se com ela, certo, mas o detestável e antissocial Campbell decidiu conceder somente uma ridícula renda à sua amada filha. Se tivesse sido qualquer outro cavalheiro teria se conformado com aquele miserável fundo mensal, mas ele não era um homem que se contentasse com tão pouco. Necessitava de mais, muito mais do que recebia. Mal podia contar para comprar outra carruagem, ou encher seu roupeiro com trajes de incalculável valor, e o que dizer de poder converter-se num dos sócios do famoso clube Reform. Só conseguia pagar a metade do que requeriam e, embora lhes prometera que algum dia seria tão rico que pisariam no chão por onde caminhasse, ninguém aprovou sua solicitude. Mas logo sua vida mudaria. Eric sorriu de orelha a orelha ao pensar nisso. Seu amado sogro começava a padecer os achaques próprios de sua idade e se Deus era piedoso com o ingrato ancião, logo se sentaria sobre um esponjoso colchão. Olhou de novo sua taça vazia. Contemplou os fios de licor que ficaram marcados no cristal. Pareciam teias de aranha, como as que ele criou para atrair April e apanhá-la. Ninguém podia resistir aos seus encantos, nem tampouco à posição que depois da morte de seu pai obteve. E como um homem afortunado com a vida que aguentava e que um dia adquiriria, desfrutava da mesma sem preocupar-se pelo que acontecia ao seu redor. Eric se levantou do assento e caminhou até chegar àquela garrafa de Porto que tinha adquirido no mercado negro. Comprou-a por mil miseráveis libras quando poderia alcançar os cinquenta mil. Mas como já sabia, ninguém podia resistir a não agradar a um visconde que se converteria no segundo homem mais rico de Londres. Teria tudo, poder, aristocracia, fortuna, uma esposa a quem mandaria viver com sua mãe viúva na residência de campo que possuiria em Bristol, e continuaria, deste modo, seu romance com Caroline. Embora logo a abandonaria. Sim, desde que tinha ficado grávida e tinha dado à luz aquele bastardo, sua figura não era a de antigamente. Não lhe agradava tocar uns quadris tão volumosos, nem sentir sob seus dedos um estômago que tinha albergado uma criatura. Já não era nem a metade formosa que antes, nem sua pele resultava tão suave. Entretanto, a mulher estava apaixonada por ele e isso se supunha uma


grande vantagem. Nunca se negava a praticar na intimidade o que ele desejasse, nem tampouco devia esmerar-se por agradá-la. Mas o momento de pôr fim tinha chegado. Depois de ajudá-la a procurar o senhor Wyman para o convidar à festa dos Cooper junto com sua esposa, e envergonhar a famosa marquesa de Riderland, desfrutaria da gratidão que Caroline lhe ofereceria e daria por concluído seu idílio. ― Sabia que te encontraria aqui. ― A voz de April o desconcertou. Não a escutou chegar nem abrir a porta. ― É meu momento de paz ― disse zangado. ― Meu pai quer ver-te ― esclareceu entrando no salão. Ainda tinha posto o casaco com o qual tinha saído para visitar seu progenitor. Ainda podia notar a água transpassando o tecido, empapando o vestido que escondia embaixo deste. Mas não podia perder tempo a esperar sua donzela para despi-la. Seu pai lhe tinha pedido que seu marido aparecesse no lar familiar o mais cedo possível. ― Agora? ― Perguntou em voz alta Eric. ― São quase oito e meia ― informou após olhar seu relógio de bolso. ― Terá que esperar pela manhã. ― Para um homem tão doente, a manhã é muito tempo ― apontou April com tristeza. Eric a olhou com cautela. Tentou averiguar o que escondia embaixo daquele rosto aflito. Mas não achou nada salvo desconsolo. Parecia que o momento que tanto ansiava estava a ponto de chegar. Evitou mostrar a alegria que aflorava de seu âmago, embora notou como seu coração começava a pulsar com afã e sua boca desejava estender-se para desenhar um amplo sorriso. Entretanto, toda aquela euforia foi camuflada com rapidez. Um homem tão controlador como ele dominava até o gesto mais simples. ― Não lhe perturbará minha presença a estas horas? ―


Disse enfim. Pegou a garrafa e a escondeu na vitrine. Devia mantêla afastada de qualquer olhar. Aquela delicadeza, aquele aprimoramento, só um homem como ele podia bebê-la porque não era digna de outra boca que não fosse a sua. ― Se meu pai me disse que pode aparecer a estas horas é porque não lhe provocará nenhuma perturbação ― comentou serena, mas firme. ― Conhece a razão pela qual me requer? ― Perguntou sem olhá-la. Fechou com chave a vitrine, a guardou no bolso direito de seu colete e voltou-se para sua esposa. ― Do que falou esta tarde? ― Insistiu. ― De muitas coisas e de nada em concreto ― evitou responder o que tanto ansiava averiguar. ― Como por exemplo… ― insistiu ao mesmo tempo que caminhava para a poltrona onde tinha permanecido com antecedência para pegar a jaqueta que deixou no respaldo. ― Sobre os próximos encargos que realizará em seus navios. Na possibilidade de investir noutra fábrica têxtil. Na rentabilidade que lhe oferecerá o avanço das obras que realizarão alguns de seus clientes ― enumerou enquanto tirava o casaco e se dirigia para a chaminé para esquentar não só as roupas molhadas, mas também a ela mesma. ― Não entendo a mania que seu pai tem em te fazer participe de suas propostas trabalhistas ― assinalou zangado. ― Quem deveria estar escutando essas conversas seria eu, não você. ― Talvez se o visitasse com mais assiduidade em vez de passar o tempo vadiando... ― provocou-lhe. ― Vadiando? ― Perguntou franzindo o cenho e apertando a mandíbula. ― Acaso crê que ser visconde consiste em vadiar? ― Soltou com zombaria. ― Desde que tenho uso da razão meu pai jamais esteve passeando pelas ruas


como se todo mundo devesse prostrar-se aos seus pés. Trabalhou incansavelmente junto aos seus empregados e nunca descuidou de seus assuntos para apresentar-se numa festa ou para assistir ao teatro ― replicou com firmeza. ― Mas você adora aparecer nesses eventos segura pela mão de um homem como eu, não é? ― Zombou aproximando-se dela. ― Se se refere às cinco celebrações que assisti e às duas vezes que apareci contigo no teatro durante estes sete anos de casados, não posso denominá-lo como trabalho. ― Levantou seu rosto e encarou o irado olhar de Eric. Tinha chegado o momento de enfrentá-lo. Para trás ficaram os anos de desconsolos e prantos. Se queria obter o que planejou ao casar-se com ela, precisava lhe fazer saber que alcançá-lo requeria um esforço. Eric teve a impetuosa ideia de esbofetear aquele rosto que o desafiava com tanta força, mas desistiu com rapidez. Se a tocasse dessa maneira seus planos se resolveriam no mesmo momento no qual sua mão a golpeasse. Campbell não aceitaria que sua filha fosse maltratada, já o deixou bem claro na tarde que lhe pediu a mão de April. Como também lhe informou que o dia que o fizesse, recorreria às suas amizades para desfazer o matrimónio. Um homem como ele não se impressionava pelas consequências sociais que teria um divórcio, não era desse tipo de pessoas. Só lhe importava o bem-estar de sua única herdeira e, claro está, a ele também, posto que tudo aquilo que possuísse sua esposa lhe pertenceria por lei. ― Não me espere acordada ― comentou depois de meditar os prós e os contras de esbofeteá-la. ― Nunca o fiz ― esclareceu com veemência. Depois de afastar-se dela, caminhou erguido até a saída,

abriu e fechou a porta dando uma portada. Não ficava mais remedeio que acatar a ordem se daquela maneira conseguia converter-se num homem poderoso. Mas seria a última vez que abaixaria a cabeça e obedeceria sem replicar. Porque se Deus fosse justo daria por concluída a vida daquele ingrato o antes possível.


Quando April partiu da residência familiar chorando e com o coração encolhido pela tristeza, Norman Campbell tomou assento de novo e refletiu sobre a conversa que mantiveram. Por mais que sua filha reiterasse incansavelmente que jamais abandonaria a esperança de apaixonar seu marido, sabia que no fundo ela começava a perdê-la. Não precisava nada mais que a olhar quando o visitava para descobrir a aflição em que se encontrava submetida. Preocupado pelo estado de saúde de sua única descendente visitou o senhor Flatman, o melhor doutor de Londres, para pedir algo que a reanimasse. ― Não tenho remédio para o desamor, senhor Campbell ― lhe disse o médico. ― A única coisa que pode curar um mal de amor é encontrar uma pessoa que faça pulsar o coração de novo. Ante tal sugestão, Norman, preocupado por sua filha, naquela tarde falou-lhe sobre quão recomendável era ter um amante durante um tempo. ― Está me insinuando que enganou a mamãe e quer justificar-se? ― Vociferou levantando-se rapidamente de seu assento para caminhar em círculos sobre si mesma. ― Jamais enganaria a sua mãe! ― Exclamou Norman olhando sua filha com surpresa. Em que momento da conversa tinha dado a entender essa aberração? Se o que pretendia era que ela encontrasse um amante. ― Então… a que vem essa insistência no tema da necessidade de ter uma pessoa que te faça sentir o que não pode oferecer seu cônjuge? ― Perguntou olhando-o desafiante. Norman contemplou sua filha durante uns momentos em silêncio. Estava zangada, muito zangada. Não só as rugas da testa lhe indicavam o que já sabia, mas sim também enrugava o nariz. Parecia-se muitíssimo à sua esposa. Não só tinha herdado seu cabelo escuro e os olhos marrons, também possuía o caráter. Sem lugar a dúvidas, April lutaria por conseguir que seu matrimónio funcionasse, mesmo que isso significasse a própria destruição.


― Não me referia, princesa, a não ser a ti. Estava tentando te dizer que procurasse um amante ― disse enfim. ― Pai! – Chiou. ― Como insinua tal aberração? Sou uma mulher casada! ― Toda a aristocracia, essa em que agora faz parte, vê com bons olhos o possuir amantes ― comentou com tranquilidade. ― Mas… o que bebeu esta tarde? ― Perguntou assombrada. ― Não crê que seria conveniente…? ― Tentou dizer. ― Jamais seria infiel a Eric! ― Exclamou irada. ― Lutarei pelo meu matrimónio até o final dos meus dias! ― Mas… ― Não, pai, não há mas. Tenho fé de que algum dia Eric recorde a razão pela qual nos comprometemos e nos casamos. ― Sete anos, April! Sete anos! ― Repetiu zangado. ― O que são sete anos se o terei pelo resto da minha vida, pai? ― Soltou sem afastar o olhar de seu pai. ― Isso é o que deseja? ― Perguntou dando-se por vencido. ― Sim ― afirmou com veemência. ― Está bem, então não fica mais remédio que falar com ele alegou. ― Do que quer lhe falar? ― Demandou desconfiada. ― De como tem que comportar-se quando minha fortuna passar às suas mãos ― sentenciou. A resposta à April foi previsível. Alegrou-se de escutar tal declaração posto que ela pensava que a culpa daquele distanciamento com seu marido era que ele não confiasse o suficiente para trabalhar ao seu lado. Entretanto, Norman tinha


outros planos. Foi consciente, desde o começo, da atitude que ofereceria o visconde depois de casar-se com ela. Ninguém em Londres desconhecia a procedência de Gremont assim como o comportamento desleal de seus antecessores. Embora April obtivesse, mediante o dito casamento, o título aristocrático que tanto desejou para sua família, deveria lhe haver negado a proposta de casamento. April era muito valiosa para um monstro como ele. Mas os rogos de sua pequena o enterneceram tanto que perdeu a sensatez. Ela tinha sido cortejada com êxito posto que terminou apaixonada, mas Eric… aquele monstro só queria sua fortuna. Pensou, erroneamente, que depois da cerimônia se comprometeria a converter-se em um marido exemplar. Entretanto, depois de escutar April aquela tarde, confirmou que devia atuar o antes possível. E a única pessoa que podia lhe dar as alternativas mais idôneas chegaria a qualquer momento. ― Senhor Campbell, ― lhe chamou um dos serventes da porta ― chegou o senhor Lawford. ― Faça-o entrar ― disse Norman levantando-se de seu assento. Não havia outra solução ao seu problema. ― Boa noite, senhor Campbell ― saudou Arthur Lawford enquanto acedia à habitação. ― Recebi sua missiva. ― Me alegro de que tenha vindo. ― Estendeu sua mão e o administrador a aceitou. ― Por favor, sente-se. ― Obrigado ― respondeu Arthur. Enquanto se sentava e o senhor Campbell se dirigia para o suporte onde amontoava várias garrafas, observou com atenção o interior daquela habitação. Era enorme, quase podia albergar o primeiro andar de seu lar ali dentro. Os móveis de mogno escuros, esculpidos com esmero, os abajures de cristal, os candelabros de prata, os quadros que penduravam da parede… tudo ao seu redor mostrava o poder aquisitivo daquele homem. Por isso estranhou tanto que um criado da casa aparecesse em seu lar com uma nota pedindo que se apresentasse o antes possível. Como era de esperar, ante um homem de tal índole, ele respondeu que apareceria em sua residência em menos de uma hora.


― Pergunta-se o motivo pelo qual lhe chamei, não é? ― Perguntou Norman lhe oferecendo uma taça transbordante de brandy. Arthur não pôde evitar levar a taça ao nariz e farejar o aroma daquele licor. Seus olhos se abriram como janelas ao descobrir que sua mão sustentava uma taça de brandy espanhol. Se não falhava muito, e não estava acostumado a fazêlo quando se tratava de saborear uma boa bebida, era um Osborne. ― Acaba de ler meus pensamentos, senhor Campbell – respondeu. ― Tenho que lhe informar que fiquei perplexo ao ver de seu punho e letra que desejava ver-me. ― Conforme tenho entendido, ― começou a dizer enquanto tomava assento ― tem você um dom especial para encontrar solução a… determinadas situações. ― Determinadas situações? ― Apontou arqueando as sobrancelhas. ― Bom, denominaram-no de muitas maneiras, mas nunca tinha escutado essa forma de nomear meu trabalho. ― Serei sincero com você, senhor Lawford. ― Pode me chamar de Arthur, se lhe agradar ― assinalou antes de dar o primeiro sorvo em sua bebida. ― E você, Norman. ― Obrigado ― repetiu o administrador após estalar sua língua pelo delicioso sabor. ― O que necessita? ― Como bem saberá, sou detentor de duas frotas de navios comerciais, de uma empresa e… ― E é um dos sócios capitalistas da ferrovia. Sim, sei perfeitamente a que dedicou sua vida, Norman. Por isso me pergunto com o que pode lhe oferecer uma pessoa como eu a um homem tão poderoso como você. ― Necessito que me ajude a salvar a minha filha ― soltou sem rodeios. ― April


casou com o visconde de Gremont mas muito temo que ela o fez por amor… ― E acredita que o lorde o fez pela fortuna que ela obterá quando você falecer, estou certo? ― Disse arqueando outra vez as sobrancelhas. ― Não me cabe a menor dúvida disso! – Grunhiu. ― Esse inseto sempre foi um caça-fortunas, como o foram seus ancestrais. ― O que deseja fazer a respeito? ― Interessou-se o afamado administrador. ― Necessito de sua ajuda para que esse bastardo não consiga o que anseia. Mas não consigo encontrar a forma de evitar obtêlo sem que minha filha saia prejudicada ― concretizou. ― Esta sociedade é muito injusta ainda com as mulheres. Embora chegará o dia no qual elas não dependam de um marido para manter a independência, muito temo que nem você nem eu veremos esse momento. Entretanto… ― Entretanto? ― Pode mudar seu testamento, se o desejar. ― Como? ― Impacientou-se Norman. ― Poderia acrescentar várias cláusulas a essa herança. ― Arthur se acomodou no assento e meditou o que ia expor. ― Não têm herdeiros, não é? ― Não. Depois de sete anos de matrimónio esse eunuco não foi capaz de semear nem uma mísera flor ― comentou mal-humorado. ― Tem conhecimento de se o tentaram? ― Não era uma pergunta muito apropriada para um pai, mas devia ter a certeza de que algum dos dois não era fértil.


― Dormem em habitações separadas… ― murmurou Norman incômodo ao revelar um detalhe tão íntimo de sua filha. Mas não haviam segredos entre pai e filha, nem no passado nem no presente e, conforme lhe disse April, levavam vários anos sem consumar. ― Isso não indica… ― Indica o suficiente ― lhe atalhou Campbell. ― Está bem ― respondeu Arthur entendendo as palavras de Norman. ― Seria conveniente então que uma das cláusulas desse testamento fizesse alusão ao nascimento de um filho do matrimónio. ― Não o entendo… ― disse enquanto se reclinava no assento e cruzava as pernas. ― O normal seria que sua filha herdasse toda sua fortuna uma vez que você faleça, mas se acrescentar uma pequena condição para alcançá-la, começaria a pôr travas em seu genro. ― Quer dizer que…? ― Lawford assentiu. ― Não ficaria mais remedeio que começar a… bom, você já me entendeu. ― E se não conceberem um filho? E se morrer antes que nasça o primeiro herdeiro? ― Insistiu. ― Não pode escolher pela nomeação de um tutor legal porque sua filha já está casada, embora possa denominar um de seus sobrinhos como herdeiro e que ele se encarregue de dar à sua filha uma renda mensal. ― Como lhe disse, não quero fazer a minha filha sofrer, então essa opção está descartada ― afirmou com veemência. ― Pois a única alternativa que fica, Norman, é que antes que você faleça, assassine o marido de sua filha. Assim ficará viúva e gozará da vida que tem pensado para ela ― explicou divertido. Um homem tão sensato como o senhor Campbell riria dessa alternativa.


― Esta opção não me parece muito descabelada ― disse em tom reflexivo. ― Ela ficaria liberada desse imbecil arrogante e eu não seria julgado pelo assassinato. ― Mas não poderia contratar ninguém, teria que fazê-lo com suas próprias mãos ― esclareceu surpreso. Não era sua intenção sair daquela casa oferecendo a possibilidade de matar a alguém. Por mais que esse alguém merecesse que o aniquilassem. Além disso, tão desesperado estava para tomar a sério uma brincadeira absurda? ― Há outra eleição em que possamos meditar? ― Embora essa ideia lhe estava a parecer a melhor, não queria que sua filha amaldiçoasse sua tumba cada vez que decidisse visitá-lo. ― Um divórcio? ― Disse com rapidez. ― April não quer divorciar-se. O comentei várias vezes e recusou. Como lhe disse, está apaixonada e é incapaz de conceber uma vida sem ele. ― Pois chegados a este ponto, escolheria pela opção de um filho. Se você nomeasse como herdeiro ao primeiro filho do casal evitaria que o visconde se apoderasse de sua fortuna. E se, além disso, nomeia alguém de sua confiança para encarregar-se de suas posses até que essa criatura seja maior de idade, o terá retido durante muitos anos. ― Arthur rezou por essa alternativa, não poderia suportar que Norman escolhesse matar o marido de sua filha. Embora não lhe provocasse a morte, sua consciência não lhe deixaria tranquilo. ― Posso nomear qualquer um? ― Soltou de repente Norman. ― Qualquer um que seja maior de idade, sim. ― Alegrou-se de que no final entrasse em razão. ― Está bem ― sentenciou levantando-se de seu assento. ― Amanhã mesmo terá em seu escritório as modificações do meu testamento. ― Será um prazer levar a cabo sua vontade ― assinalou levantando-se ele


também da cadeira. ― Não era o que pretendia, mas será melhor que ver, de maneira passiva, como esse bastardo recebe o que não lhe pertence. ― Estendeu a sua mão e Arthur a estreitou com gosto. ― Lhe peço que não se atrase muito. ― Assim que o tenha sobre meu escritório o prepararei sentenciou.

― Boa noite, Arthur. ― Boa noite, Norman. Lawford deixou a taça sobre a mesa e partiu para seu lar. Era a primeira vez que se encontrava numa situação tão desatinada. Mas graças a Deus, o senhor Campbell tinha reagido como o homem sensato que era. XXVII «Matá-lo…», pensava sem cessar Norman. Não era má ideia, mas não tinha a força necessária para fazê-lo com suas próprias mãos. Precisava procurar outra alternativa se ansiava obter esse propósito. Com uma estranha e malvada emoção dirigiu-se para a estante e revisou alguns dos livros que comprou sobre medicina. Sempre gostou de saber como curar certas enfermidades e imaginou que acharia também a maneira de as causar. Encontrava-se revisando um dos capítulos sobre plantas perigosas, quando escutou uns passos aproximar-se do salão. Fechou com rapidez o livro e o colocou em seu lugar. Já teria tempo mais tarde para continuar a ler. ― Senhor, o visconde de Gremont espera ser atendido ― lhe informou o criado. ― Faça-o entrar ― disse voltando para sua poltrona. Eric esperava um homem doente e se o encontrasse de pé mostrando aquela vitalidade que em realidade


possuía, começaria a suspeitar a respeito de seu engano. Como se esperava, o marido de sua filha apareceu com rapidez. Norman tentou levantar-se após afastar a manta que cobria as pernas, mas Eric avançou com urgência para ele para que não o fizesse. ― Não se incomode, senhor Campbell. ― Estendeu sua mão em sinal de saudação. ― Obrigado, Eric. Embora deveria te saudar como é devido dado seu título ― disse com aparente voz de fragilidade. ― Não me perdoaria que você sofresse um novo achaque por fazer um esforço ao realizar tal tolice entre nós, senhor. ― Por favor, sente-se ― disse assinalando com a palma direita a poltrona próxima à sua. ― Imagino que April te disse que desejava falar contigo. ― Sim, embora lhe expliquei que, dado seu estado de saúde, não seria conveniente lhe visitar tão tarde. Talvez o adequado tivesse sido conversar amanhã ― particularizou tentando mostrar preocupação. Sentou-se na cadeira e olhou com atenção ao homem que tinha ao seu lado. Embora não parecesse muito pior, April reiterava que ficava-lhe pouco tempo de vida. ― Mas o que quero te comentar não pode esperar a manhã, necessito que comece hoje mesmo ― esclareceu com certo ar de mistério. ― Do que se trata? ― Interessou-se. Inclinou seu corpo para Norman para escutá-lo com atenção. Tinha chegado o momento que tanto tinha esperado. Sim, podia intui-lo, podia apreciálo naquele olhar cinzento. ― Como bem te explicou April, meu estado piorou há semanas e, por minha idade, não acredito que me recupere com prontidão, se é que Deus não decide dar por finalizada minha existência antes de terminar da semana ― explicou com suavidade. Estava lhe custando muito não agarrar o pescoço daquele descarado e asfixiá-lo. Entretanto, não lhe restava dúvida de que no final quem faleceria seria ele e ainda não tinha mudado o


testamento. Então se serenou e prosseguiu com o plano. ― Mas antes de partir deste mundo necessito que me faça um favor. ― Um favor? ― Eric se reclinou para trás e arqueou as sobrancelhas. O que lhe pediria aquele bastardo? ― Sim, um favor. E não acredito que te custe muito porque… ama a minha filha, não é? ― Soltou mal intencionalmente. ― É claro! Por acaso não demonstrei durante estes anos que sua filha é o mais importante para mim? ― Assinalou ofendido. ― Não se zangue, Eric. Um pai, apesar de conhecer a verdade, precisa sabê-la com palavras não só com feitos. ― Entendo-o… ― disse acariciando o queixo que começava a arranhar. ― Se eu estivesse em seu lugar, faria o mesmo ― declarou com integridade. ― E por esse motivo te chamei ― apontou veloz. ― Para averiguar se meus sentimentos por sua filha são os que você pensa? ― Perguntou assombrado. ― Não, por sua seguinte afirmação. Se estivesse em meu lugar… Quantos anos têm casados? ― Norman entrelaçou suas mãos como se de verdade estivesse bastante doente e precisasse as agarrar para que os supostos tremores desaparecessem. ― Sete anos ― respondeu. ― E por que nestes sete anos não foram capazes de me dar de presente uns encantados e adoráveis netos? ― Perguntou com aparente ingenuidade. ― Por acaso April não é fértil e tenta me ocultar isso? ― Senhor Campbell! ― Exclamou horrorizado levantando-se de seu assento. ― Acredito que há certos temas que não devem ser explicados fora do matrimónio. ― Mas ela é estéril? ― Insistiu.


― Não, claro que não! ― Negou com veemência. A que vinha esse tipo de perguntas? O que April tinha contado ao seu pai? Lhe teria falado que ambos dormiam em habitações separadas e não permaneciam juntos há anos? Ou talvez estava tentando averiguar se tinha uma amante que esquentasse seu leito? Fosse o que fosse, começava a ter um problema, posto que uma das tantas condições que lhe pôs ao aceitar que se casasse com sua filha foi que nunca deitaria nem manteria uma amante. ― Alegra-me escutar isso… ― disse em tom reflexivo. ― Porque o que vou pedir-te não te suporá nenhuma dificuldade então. ― O que deseja me pedir? ― Perguntou colocando as mãos sobre o respaldo da cadeira e cravando o olhar no ancião. ― Conforme me disse o doutor, apenas ficam-me seis meses de vida ― mentiu. ― Seis meses? ― Soltou sem pensar. ― Sim, sei. Eu também me surpreendi quando me disse isso. Norman olhou para a chaminé, mordendo a língua para não lhe gritar que entendia à perfeição o assombro que exibia. Mas só respirou fundo e prosseguiu. ― Embora não seja muito tempo e que não alcançarei a ver meu primeiro neto, eu gostaria de ir deste mundo sabendo que minha linhagem não finalizará com April. ― Não entendo o que quer me pedir, senhor Campbell ― assinalou sentando-se de novo. ― Disse-me que April não é estéril, não é? ― Sim ― respondeu com receio. ― Pois quero que deixe a minha filha grávida antes que eu morra ― disse sem hesitações. ― Desculpe, mas não entendo muito bem o que quer dizer com tudo isto ―


disse Eric mais confuso e perdido que nunca. ― É muito fácil de entender, Eric. Quero um neto antes de morrer ― afirmou. ― Você acredita que depois de sete anos ela ficará grávida em menos de seis meses? ― Manifestou atônito. ― Se dormir com ela e insistirem, com certeza conseguirão ― disse com voz inofensiva. ― E se não conseguirmos? ― Perguntou arqueando as sobrancelhas. ― April continuará com a renda que lhe dou mensalmente e toda minha fortuna passará ao meu sobrinho Ferguson. ― Desculpe!? ― Exclamou Eric zangado. ― Está desculpado… ― assinalou ocultando sua diversão. ― Quer dizer…? ― Eric franziu o cenho e apertou a mandíbula. ― Não acredito que deva se zangar por uma condição assim, Eric. Só te peço que me dê um neto e não acredito que o ato de o engendrar seja um problema para ti, ou me equívoco? ― Arqueou as sobrancelhas. ― Amo a sua filha tanto que não aceitarei essa proposta, senhor Campbell. Se até o momento não concebemos uma criatura terá sido por algum problema diferente ao que você

supõe ― disse com solenidade. ― Eu não suponho nada. Só quero advertir que… ― Não tem que me advertir nada! – Vociferou. ― Não tratarei sua filha como se fosse um animal de criação! ―


Exclamou com aparente indignação. Mas o que mostrava era muito diferente do que pensava. Se aquele velho queria um neto, tê-lo-ia e o converteria em um futuro conde muito semelhante a ele. E, quando estivesse clandestinamente, levaria essa criatura em frente à sua tumba para que soubesse quem foi o homem que deu ao seu pai uma suculenta fortuna para desfrutar. ― Não se zangue… ― murmurou esticando a mão para que seu genro não se sentisse tão irado. ― Não sei como lhe ocorreu tal tolice! ― Exclamou girando-se sobre seus calcanhares e dirigindo-se para a saída. ― Por favor, Eric, não conte isto à minha filha. Não quero que pense… ― insistiu em manter aquele tom de homem agônico. ― O dê por seguro, senhor Campbell! ― Sentenciou antes de fechar a porta com força. Norman permaneceu em silêncio até que escutou como abandonava sua residência o irado lorde. Não estava seguro de que fora um bom plano lhe fazer acreditar que se lhe desse um neto poderia ficar com tudo, mas tinha a certeza de que April iria recuperar o tempo perdido. Feliz e orgulhoso por como tinha terminado o dia, caminhou para a licoreira, serviu-se uma boa taça e pegou de novo o livro que tinha começado a ler antes da chegada do imbecil. Eric não podia separar de sua mente nem um só instante a conversa com o pai de April. Estava lhe pondo condições para herdar o que lhe correspondia? Ou talvez estava insinuando que ele não podia engendrar filhos? Que tolice! Ele já tinha um! Mas bastardo, claro. Entretanto, demonstrar-lhe-ia que seu requisito seria alcançado antes que lhe chegasse a ansiada morte e, nesse momento, tudo seria dele. Despediria o administrador do senhor Campbell e contrataria um de sua confiança que multiplicaria a fortuna tanto que necessitaria três vidas para gastála. E riria. Sim que o faria. Visitaria sua tumba e beberia à saúde do morto enquanto fodia sua amante seguinte. Porque deixaria Caroline o mais cedo possível. Não podia permitir que enquanto ficasse um fôlego de vida ao velhote, se inteirasse de que não tinha cumprido uma de suas normas. Estava seguro de


que mudaria o testamento imediatamente. Deixaria tudo àquele sobrinho lelé que mal tinha barba. Não, ele não podia permitir que por uma tolice sua vida se convertesse numa tortura! Dar-lhe-ia o que tanto ansiava, acalmaria April de uma vez por todas e alcançaria seu propósito. E nada disso lhe suporia muito esforço. ― Milorde, chegamos ― lhe informou o cocheiro após abrir a porta. Eric saiu da carruagem com rapidez. Não subiu as escadas que lhe conduziam à entrada de seu lar, mas sim voou sobre elas. ― Onde está minha esposa? ― Grunhiu ao mesmo tempo que atirava seu casaco à confusa governanta. ― Em seu quarto, milorde ― respondeu agarrando a roupa no ar. ― Que a ninguém ocorra nos incomodar até que requeiramos seu serviço, entendido? ― Bramou. ― É claro, milorde ― disse fazendo uma leve reverência. Eric subiu as escadas de três em três, caminhou pelo corredor pisando no chão com tanto afã que parecia querer atravessálo. Estava zangado, não, estava zangado e excitado porque alcançaria seu objetivo da maneira mais fácil. Sem chamar, abriu a porta do dormitório de April. Esta se sobressaltou e deu um salto ao vê-lo. Tinha permanecido sentada em frente à sua penteadeira antes de sua chegada e, pela forma como cheirava a flores, usava o cabelo solto e vestia uma camisola, estaria à horas em frente a ele. Estaria o esperando? Não, disse que não o esperaria. ― O que… o que acontece? ― Atreveu-se a perguntar ao contemplar o rosto de seu marido. ― Seu pai quer um neto e o terá ― expôs enquanto se desprendia das roupas. ― O que está fazendo, Eric? ― Perguntou dando uns passos para trás.


― O que se supõe que se faz para te deixar grávida ― concretizou. ― Mas… mas… Não lhe deu tempo a dizer nada mais. Seu marido a assaltou. Num abrir e fechar de olhos ficou nua e congelada ao ver como Eric a olhava. ― Não me tinha dado conta de quão formosa é… ― murmurou enquanto acariciava seu corpo devagar. ― Pois sempre fui assim ― assinalou com voz estrangulada. Amava-o, muito mais do que ele poderia pensar e muito mais do que merecia. ― Quero foder-te ― sussurrou-lhe no ouvido. ― Como fode a amante que visita no edifício anexo? ― Não tenho nenhuma amante ― resmungou assombrado. ― Não minta, Eric. Vi-os muitas vezes ― manifestou colocando suas mãos sobre o peito nu de seu marido.

― E por que não contou ao seu pai? ― Perguntou assombrado. ― Sabe que teria resolvido nosso matrimónio imediatamente. ― Porque não quero me separar de ti, Eric. Amo-te muito para viver longe de você. Só esperava que algum dia fosse consciente dos meus sentimentos… ― confessou. ― E? ― Insistiu aproximando sua boca do lóbulo da mulher para lambêlo devagar. ― E quero que me faça tudo o que faz a ela ― sentenciou.


― Tudo? ― Olhou-a e arqueou as sobrancelhas. Não podia acreditar no que escutava de April! Jamais imaginou que fosse uma mulher tão submissa e que aceitasse suas perversões sem opor-se a elas. «Já pode morrer, bastardo! ― Pensou o conde. ― Porque sua filha ficará grávida antes do que imaginei». ― Tudo… ― murmurou ajoelhando-se. Com mãos firmes, April agarrou o sexo ereto de seu marido e o meteu na boca. ― Pois se isso é o que quer… ― disse agarrando-a pelo cabelo. ― Se converta na vadia que tanto anseia ser. XXVIII Roger olhou de novo o relógio de parede. Franziu o cenho ao ver que as desejadas oito se converteram em oito e meia. William chegava tarde. Nunca tinha sido um homem que se caracterizasse pela falta de pontualidade, mas nesta ocasião o entendia. A viagem teria sido um pesadelo para Beatrice em seu estado, assim que o mais provável seria que o duque cuidasse dela até que se repusesse do mal-estar que lhe teria provocado a viagem. «Dois filhos…», pensou Riderland enquanto se sentava de novo no sofá e olhava para a chaminé. William tinha empenhado em ter uma família numerosa e se seguia ao ritmo de uma criança por ano, terminaria com mais filhos que ele irmãos. Sem querer, a ideia de ter uma criança apareceu em sua mente. Continuava sem lhe agradar o fato de ser pai, mas reconhecia que Evelyn necessitava de um bebê. Apesar de cuidar de Natalie como se fosse sua própria filha, percebia nela certa tristeza quando observava a pequena. Roger não entendia por que o destino a tinha castigado dessa maneira. Ela não merecia uma condenação assim por lhe haver salvo a vida. Deus tinha que premiá-la, não só por sua bondade, mas também por continuar a aguentar um homem como ele. Por acaso não era suficiente viver ao lado de um ser tão possessivo e obstinado? Seguro que não, e por esse motivo ela não veria completo um sonho que, embora não o expressasse com palavras, o fazia com atos.


Roger estendeu as pernas diante de si e esqueceu o pensamento que o tinha abstraído durante uns minutos, como ele não podia fazer nada a respeito, refletir sobre esse tema era uma perda de tempo. Precisava concentrar-se na conversa que teria com William. Não só o tema do amante de Caroline era importante, mas a decisão de Federith de divorciar-se levantaria chagas na sociedade. Ninguém de seus conhecidos, até o momento, tinha decidido dissolver um matrimónio. Todos os que sofriam um casamento errôneo se asseguravam em manter perto uma amante que suprisse aquilo que não encontrava na esposa. Mas isso estava descartado para Cooper, ele tinha tomado a decisão de converter Anaís em sua mulher e nada lhe faria mudar de ideia. E o entendia. Claro que o entendia! Como recusar o amor verdadeiro? Apesar do tempo que tinham estado separados, Federith seguia apaixonado por ela. Expressava-o em seu rosto, em seus gestos e inclusive em seu atrevido comportamento. Alguma vez pensou que seu amigo se evaporaria como a fumaça numa festa para encontrar-se com uma mulher? Nunca. Nem quando eram solteiros Cooper realizava tais façanhas. E mais, ainda continuava a perguntar-se se foi verdadeiramente o libertino que todos diziam. Tinha falado alguma vez de uma amante? Tinha cuidado com desejo a alguma das mulheres que batiam suas pestanas como asas ao contemplá-lo? Que ele recordasse, nunca. Era William e ele quem aproveitava qualquer ocasião para escapar com alguma ardente esposa ou viúva e apagavam esse ardor ocultos entre as sombras. Que fazia Federith enquanto eles mantinham esses idílios? Conversava com todos os que permaneciam na festa e cobria suas costas. Mas isso não significava que ele não deitasse com mulheres cada vez que quisesse, um homem não podia manter o celibato toda uma vida e, é óbvio, o claro exemplo de que Cooper seduzia mulheres quando ninguém observava era Caroline. Embora os futuros barões tenham alegado que o menino tinha nascido prematuro, mentiam. Porque se assim fosse, seu amigo o haveria dito e ele jamais tinha falado sobre isso. Manteve-se fechado quando lhe perguntou pelo motivo de seu rápido casamento e, se não recordava mal, até o William lhe repreendeu por sua inadequada decisão. Mas não deu atenção a ninguém, obrigou-se a casar-se e ponto. Entretanto, agora devia estar arrependendo-se de tal decisão. Muito temia que


até desejaria voltar no tempo para não enredar-se na teia que confeccionou Caroline. Não obstante, não havia maneira de retornar ao passado e devia enfrentar o presente se quisesse viver um futuro junto à Anaís. Roger voltou a olhar o relógio. Só tinham Passado cinco minutos da última vez. Resignado pela demora de William, levantou-se da poltrona e foi servir uma taça. Evelyn perdoaria tal imprudência quando compreendesse a magnitude de seus pensamentos. Ou isso esperava ele… ― Eu disse! ― Exclamou Logan quando abriu a porta sem avisar. ― Dissete que havia algo e o encontrei! Roger dirigiu seu olhar ao jovem e arqueou as sobrancelhas enquanto tomava um sorvo. Pela expressão de seu rosto e a alteração da figura, de grandes dimensões para sua idade, muito temia que para aguentar a conversa com seu irmão não só necessitaria uma taça, mas sim toda a garrafa. «Juventude!», disse para si. ― O que descobriu? ― Perguntou com inapetência. Caminhou para sua poltrona e se sentou de novo. Parecia que os problemas aumentavam. ― Sou filho de uma cigana! Sou filho de uma cigana! ― Repetiu desesperado. ― Como está tão certo disso? ― Perguntou com voz acalmada. ― Descobrimos esta mesma tarde ― respondeu o moço. ― Descobriram? ― Disse cravando seu olhar na figura que se apoiava no marco da porta e não se decidiu a entrar. ― John e eu! ― Prosseguiu alterado. ― Averiguamos quem foi minha mãe! ― E? ― Continuou com tom aprazível. ― E? ― Gritou desesperado. ― E isto muda tudo!


― Não muda nada, Logan. Continua a ser o mesmo moço que foi ontem a esta hora ― disse por fim John. Caminhou para a licoreira, serviu-se de uma taça e se dirigiu para eles. ― Estou de acordo com ele ― apontou o marquês. ― Nada mudou por ser filho de uma cigana. ― Sou o único desta sala que pensa com sensatez? ― Continuou excitado. ― Parece que sim… ― murmurou Roger olhando seu irmão enquanto tomava outro sorvo. ― O que é que o preocupa? ― perguntou-lhe depois de ver como o jovem perambulava pela habitação de um lado para outro. ― O que me preocupa? ― Repetiu parando-se em seco. Seu cabelo negro estava alvoroçado, assim como sua atitude. A camisa que, ao princípio da manhã devia estar de um branco nacarado, naquele momento era de uma cor indeterminável e as calças escuras eram pardas. Onde se teria metido seu irmão para apresentar-se perante ele como um mendigo? ― Sim, isso mesmo Logan. O que tem tão alterado? Porque se olhar por essa janela verá a residência onde se encontram descansando, felizmente, o resto de seus irmãos e nenhum deles, que eu saiba, tem a mesma mãe, só o pai. ― Mas nenhum é filho de uma… ― Basta! ― Interveio John. ― Não entendo por que se obceca com a mescla de seu sangue, moço. É um Bennett e isso deveria ser suficiente para ti ― sentenciou zangado. ― Mas talvez… ― disse suavizando o tom. ― Qualquer um dos meus outros irmãos mereça esse sobrenome em vez de mim. ― Tal como baixava o ímpeto de sua voz, foi diminuindo sua exaltação. Por sorte para todos, Logan decidiu sentar-se, levar as mãos à cabeça e olhar o chão. ― Um mestiço não pode converter-se num marquês… -murmurou.


― É isso o que o preocupa? ― Perguntou zangado Roger. ― Acredita que não será merecedor do título que herdará quando eu morrer? Que, por certo, espero que seja dentro de oito ou nove décadas… ― Como pode zombar disto? ― Perguntou o moço olhando seu irmão com os olhos cheios de lágrimas. ― Não zombo de sua procedência, imbecil! – Gritou. ― Só quero que entre em razão de uma vez. Não me importa se sua mãe foi uma cigana… ou a trapezista de um circo! É meu irmão e seu sangue é o meu! Entende? Deixa já de procurar fantasmas onde não os há. Nenhum de nós pode arruinar nossas vidas pelo que fizeram nossos pais e confio em ti antes, agora e sempre. Está claro? ― Bramou. ― Mas se meu sangue cigano… ― começou a dizer o jovem. ― Assusta-me mais o sangue Bennett que o cigano. Com certeza se algum dia me desapontar não será por sua mãe mas sim por seu pai. ― Mas… e minhas visões? Por que sempre vejo uma menina brincando de correr pela casa? ― Uma menina? ― Perguntou Roger olhando desta vez ao John. Este lhe tinha falado dos sonhos de seu irmão e como despertava no meio da noite com o corpo empapado em suor e gritando palavras que não entendia. Mas nunca lhe tinha falado de uma menina. ― Sim ― respondeu o índio. ― Ultimamente levanta-se vociferando sobre uma menina, embora não sei quem é. ― Vejo-a ao lado da Evelyn, Roger. Ela a coloca em seu regaço e a penteia enquanto canta ― explicou com tristeza. ― Deve ser Natalie quem vê em seus sonhos ― manifestou o marquês com desdém. ― Natalie tem o cabelo dourado e essa menina tem a mesma cor… ― levantou seu rosto para Roger para contemplar o entalhe de dor que lhe ofereceria quando


explicasse que a menina era de Evelyn. ― A mesma cor de…? ― Insistiu Roger arqueando as sobrancelhas. ― Que o de sua esposa ― disse enfim. Durante uns instantes, Riderland pensou sobre isso. Aproximou-se do moço, colocou sua mão sobre o cabelo negro e lhe sussurrou. ― Se está tomando algo que eu deva saber, diga-me isso o quanto antes. O doutor é um bom amigo e poderia nos ajudar a solucionar seu problema… ― Não estou tomando nada! ― Exclamou Logan levantando do assento e apartando a mão de seu irmão. ― Digo a verdade. Vejo uma menina, a filha de sua esposa e tua. ― Está bem… está bem… ― mediu John. ― Encontremos um pouco de serenidade… ― Sabe que Evelyn não pode ter filhos – resmungou. ― E te agradeceria que jamais lhe falasse sobre essas visões. Já sofre cada vez que cuida de sua irmã por não poder ter um filho próprio para que você lhe dê esperanças com tolices. ― Não são tolices! ― Defendeu-se Logan. ― Vi-a! ― Acredito que foi um dia muito exaustivo para todos ― disse John colocando-se entre os dois irmãos. ― Deveríamos nos retirar e descansar ou tomar uma garrafa desse rum que guarda sob chave. ― Estou esperando William ― balbuciou Roger com os olhos injetados em sangue. Adorava seu irmão, amava-o acima de muitas coisas, mas não havia nada que ultrapassasse o amor que sentia por sua esposa. Se lhe falasse desses sonhos, ela se perderia em


encantamentos e feitiços absurdos e, quando descobrisse que tudo era uma farsa, derrubar-se-ia tanto que ele não poderia tirála daquela depressão. ― Faremos um trato ― comentou depois de se acalmar. ― Você não volta a falar sobre essa visão e eu te juro que se alguma vez tiver uma menina se chamará Evah. ― Evah? ― Perguntou o índio após respirar. ― Sim ― afirmou Riderland. ― Não significa aquela que tem vida? Pois será muito apropriado para uma menina que nasce de um ventre inerte. ― Também é a primeira mulher que convidou um homem a pecar… ― apontou John com suspeita. ― Se essa menina se parecer com sua mãe, fará pecar a mais de um, assegurolhe isso. Então… ― se voltou para o Logan ― temos um pacto? ― Está zombando… ― grunhiu o jovem encarando seu irmão. ― Não estou burlando, Logan. Só te proponho um trato. Não quer que te trate como um homem? Pois aceita o trato! ― Está bem, aceito ― sentenciou o jovem Bennett estendendo a mão. ― Mas recorda uma coisa, se algum dia minhas visões forem certas, não venha me pedir perdão porque não lhe darei. ― Será o correto, se tiver razão. Agora sobe ao seu quarto e lava-te, não quero que Evelyn se preocupe ao ver-te tão desalinhado ou ela mesma subirá à sua habitação te esfregará a orelha com o sabão. ― Faço-o por ela, não por ti ― disse o moço um pouco mais tranquilo. Olhou-se de cima a baixo e sorriu. ― É certo que como me vejo deste jeito é capaz de me colocar num caldeirão de água fervendo. ― Girou-se sobre si mesmo e caminhou para a porta.


― Então… tudo bem? ― Perguntou John a ambos. ― Sim! ― Afirmaram ao uníssono. Esperaram que Logan partisse para falar com tranquilidade. Roger encheu de novo o copo e soprou. Como podia dizer seu irmão tais sandices? E o pior de tudo era que acreditava nelas. Só esperava que cumprisse sua palavra e não encorajasse Evelyn com tolices. ― Não vai me perguntar como averiguamos quem era a mãe do moço? ― Perguntou John enquanto se dirigia para a poltrona na qual tinha permanecido Logan. ― Estava esperando que falasse ― respondeu mal-humorado. ― Como bem sabe, tenho um dom para procurar pessoas começou a dizer. ― Bom, nem sempre foi tão efetivo ― apontou. ― A que vem esse sarcasmo, Roger? ― Inquiriu o índio com receio. ― Não descobriu o paradeiro da senhorita Price e acontece que está viva ― lhe informou. ― A noiva de Federith? ― Disse assombrado.


― Não era sua noiva, exatamente, mas sim, a mesma. Parece que se converteu na dama de companhia da condessa viúva de Crowner e viveu com ela durante todo este tempo ― acrescentou. ― Por todos os deuses! ― Exclamou John sentando-se de repente na cadeira. ― E a viu? ― Interessou-se. ― Não só a viu, mas decidiu divorciar-se de sua esposa para casar-se com ela ― respondeu enquanto olhava de novo as chamas do fogo. ― Parece-me correto ― afirmou John. ― Esse homem sempre esteve pensando nessa mulher e é lógico que queira refazer sua vida ao seu lado. Além disso, quando descobrir que sua querida esposa não lhe foi fiel… ― Por nossa parte não descobrirá ― sentenciou Roger. ― Não vai dizer-lhe nada? Manterá esse segredo até a tumba? ― Quis saber assombrado. ― Se tiver decidido pôr fim ao seu matrimónio, que o faça, mas de nós não sairá nenhuma palavra sobre essa infidelidade. Ainda não sei como reagiria se o descobrisse… ― refletiu. ― Imagino que quando fala de nós também pensa em William, equivoco-me? ― Perguntou cruzando as pernas. ― Recorde que Federith é o padrinho de seu primogênito e muito temo que um escândalo como o que viverão quando tudo sair à luz pode prejudicar o pequeno ― acrescentou aflito. ― Não entendo a vossa sociedade… ― murmurou John. ― Podem viver rodeados de mentiras, de infidelidades, de desplantes…, mas são incapazes de aguentar a separação de um matrimónio que está exposto à destruição.


― Eu não sou como eles ― sentenciou resmungando. ― Pois de um tempo para cá parece. Roger não respondeu. Inundou-se em seus pensamentos e meditou sobre o que John lhe acabava de dizer. Não, ele não era como os outros. Só os necessitava para poder alcançar o que se propunha, que não era mais que ajudar seus irmãos e lhes proporcionar uma vida apropriada. ― Quem era a mãe do Logan? ― Perguntou depois de uns momentos de silêncio. ― Conforme descobrimos, fará uns dezesseis anos apareceu um grupo de ciganos por Londres. O problema começou quando decidiram ocupar um dos terrenos de seu pai. Ele foi em pessoa para expulsá-los dali quando descobriu uma jovem chamada Oana. Conforme soubemos, era a filha de uma feiticeira. ― Pelo amor de Deus! Segue com a mesma ideia que Logan? ― Interrompeu-o. ― Eu me limito a explicar o que me pediu ― declarou John zangado. ― Está bem… continua ― disse com um suspiro. ― Como ia dizendo, seu pai fixou seus pérfidos olhos nela e prometeu que poderiam viver o tempo que desejassem em suas terras se a oferecessem. ― Maldito bastardo! ― Exclamou Roger lançando a taça para o interior da chaminé. ― E… como terminou Logan vivendo sob o amparo de uma criada do meu pai? ― Perguntou interessado. ― A moça era muito jovem, conforme nos contaram não tinha nem quatorze anos, e não pôde sobreviver ao parto. Sua mãe não queria filhos bastardos e muito menos depois de ter morto sua única filha. Nascido do diabo chamaram ao seu irmão enquanto permaneceu na comuna. ― Então era um maldito… ― murmurou Roger. ― Ele sabe essa parte da história também?


― Sim. ― Por isso não quer continuar o legado… ― refletiu. ― Mas tenho que lhe fazer entender que tem o mesmo direito que eu, por acaso a minha mãe é uma mulher digna de veneração? ― Tem que ser paciente com o moço, Roger. Só necessita de um pouco de tempo para assimilar tudo o que descobriu. ― Muito temo que isso não se assimila com facilidade, John. ― Sei, mas… John ficou calado ao ver que alguém batia na porta. Girou para a entrada e percebeu que era Anderson. ― Milorde, o duque de… ― Boa noite, Roger! ― Apareceu William atrás do criado. Este se afastou para o deixar passar. ― Sinto a demora, mas Beatrice estava mais cansada do que o habitual. ― Entra! ― Exclamou com zombaria ao ver que não precisava de permissão para caminhar para o interior. ― Estava te esperando. ― Levantou-se do assento e recebeu seu

amigo com um forte abraço. ― Senti sua falta, Rutland ― confessou. ― Isso pude interpretar em suas cartas ― comentou com firmeza. ― Pois já estou aqui. Me conte isso do amante de Caroline e da estranha aparição da senhorita Price. ― Sem evitar o tema do divórcio? ― Perguntou o marquês sarcasticamente.


― Divórcio? ― Exclamou assombrado. ― Quem quer realizar um ato tão humilhante? ― Sente-se enquanto te sirvo uma taça, William, muito temo que terei que mandar Anderson à adega antes que finalizemos a conversa… ― John ― disse a modo de saudação o duque. ― William ― lhe respondeu estendendo a mão para que a estreitasse. ― Está seguro de que Caroline tem um amante? ― Perguntou enquanto Roger lhe servia aquela taça. ― Muito temo que sim. Embora siga acreditando que é um fantasma… William não tinha conseguido dormir nada durante a noite. Movia-se incômodo na cama e, para não despertar Beatrice, decidiu descer ao salão para meditar sobre tudo o que Roger lhe tinha contado. Não podia dar crédito à intenção de Federith. Era inconcebível nele, embora entendesse que desejasse permanecer o resto de sua vida junto à mulher pela qual estava apaixonado. Mas… um divórcio? Não havia outra possibilidade menos escandalosa? Caminhou até a poltrona e se derrubou nela. Tudo se tinha tornado um caos na vida de seu amigo e não sabia como podia o ajudar. Embora ele mesmo tenha dito que não devia casar-se, não lhe deu atenção. Seguiu empenhado no dever e se deixou arrastar por aquela atitude honorável que o caracterizava. Às custas do que? De sua própria felicidade? Era certo que tinha tido um filho e ele conhecia de primeira mão o amor que se sentia, entretanto… o que ocorreria com o pequeno se de verdade conseguia seu propósito? E Anaís? Amá-lo-ia tanto como ele a amava? Porque não lhe cabia dúvida de que a mulher sabia que intenções tinha Cooper. Se não errava, e estranha vez se confundia sobre seu amigo, o teria insone. Aceitá-lo-ia depois de ser repudiado pela sociedade? Seria o esperado porque se enfrentava com integridade a uma humilhação de tal índole seria porque ela o respaldava. Mesmo assim, tinha suas dúvidas. William cruzou de pernas e suspirou ao pensar na proposta de Roger. Tinha razão numa coisa, deviam informar suas esposas antes de aparecer na festa que Caroline ofereceria no sábado. Precisavam estar alertas se por acaso em algum momento acontecesse qualquer tragédia. Porque, embora segundo Riderland


levava uns dias muitos tranquilos visitando com discrição a casa onde servia Anaís, não podia afirmar o que pensava Caroline. Segundo John, que continuava espiando-a, desde domingo não tinha saído da residência Hemilton. A ninguém parecia estranho que não se ausentasse de seu lar para informar seu amante que logo seria livre? Porque lhe parecia uma atitude bastante suspeita. Era certo que devia planejar com rapidez uma celebração e que isso suportava um grande esforço, mas… nenhuma hora? Por que não tinha saído de seu lar nem uma mísera hora? Algo tramava. William estava tão crédulo nisso que ofereceria sem duvidar seu braço útil por averiguar o que refletia aquela mulher. ― Bom dia. ― A voz sonolenta de sua esposa o sobressaltou. ― Por que se levantou tão cedo? Acontece algo importante? ― Perguntou enquanto caminhava para William. ― Bom dia, meu amor ― respondeu levantando da poltrona e dirigindo-se para ela. ― Como vai este pequeno? ― Perguntou acariciando o volumoso estômago. ― Este pequeno se interessa pelo motivo pelo qual seu pai se ausentou de sua cama durante toda a noite ― respondeu Beatrice olhando seu marido aos olhos. ― Ontem falei com o Roger, ― começou a dizer ― e quer que almocemos em Lonely Field. ― Hoje? ― Soltou atônita a duquesa. ― Sim ― afirmou. ― Mas… mas tenho que me preparar para a festa de Federith. Preciso comprar uns sapatos e uns laços para… ― Não pode fazê-lo amanhã? ― Insistiu William. ― Suponho que sim ― respondeu ao notar certa tensão em seu marido. Não era habitual em William sentir-se tão inquieto. Desde que se casaram, e salvo quando nasceu Elliot, sempre se mostrava


bastante calmo. Mas algo lhe dizia que a insistência em viajar a Londres não tinha nada a ver com o evento dos Cooper. Havia algo mais e estava segura de que Roger tinha a resposta. ― Quer que nos sirvam o café da manhã? Se não te parecer mal, eu gostaria de visitar meus pais antes de chegar em Lonely. De certeza que desejarão ficar com o Elliot enquanto almoçamos. ― Parece-me uma ideia magnífica ― comentou William sem deixar de abraçála. ― Então, se fizer o favor de me soltar, indicarei a… ― Sabe que te amo, não é? ― Murmurou-lhe em seu ouvido. ― Sei, William. Assim como sou consciente que algo está acontecendo e que deseja me evitar algum tipo de sofrimento ― declarou colocando seu rosto no peito do duque. ― Mas seja o que for, nós dois superaremos… ― Isso espero… Desde que conheceu William nunca o tinha visto com o olhar tão perdido nem tão distraído. Tinham estado com seus pais e, embora tentou comportar-se como sempre, resultava-lhe impossível não se invadir de tudo o que lhe rodeava para continuar a pensar no que lhe rondava a cabeça. Beatrice tentou manter-se distante e resolver aquela ausência de seu marido com conversas sobre as mudanças de humor de sua nova gravidez enquanto seu pai brincava com Elliot. Mas sua mãe também percebeu as distrações de William. ― Acontece-lhe algo? Voltou a sentir dores? ― Sussurrou Elisabeth à sua filha após perceber que o duque estava há mais de cinco minutos olhando através da janela sem mover-se. ― Não, por sorte não os padece desde o verão passado. Acredito que se encontra tão abstraído porque não gosta de assistir à festa que celebra a senhora Cooper. Nunca aprovou esse matrimónio e não lhe agrada apresentar-se ante ela fingindo que aceita essa união -respondeu em voz baixa. ― Alguma vez te contei o que se dizia de lady Caroline? ―


Perguntou-lhe afastando-a do salão para que pudessem falar com tranquilidade. ― Não e pensei que não conhecia os Midlelton ― disse surpreendida. ― Não os conheço, querida, mas muitas de minhas amigas se relacionam com a família. Conforme contam… ― Mãe, sabe que eu não gosto das fofocas, não é? Lembre-se do que me aconteceu… ― Mas isto não são calúnias! ― Exclamou em voz baixa, zangada. ― A própria mãe de lady Caroline o dizia abertamente. ― O que dizia, mãe? ― Disse dando-se por vencida. ― Segundo lady Midlenton, sua filha se apaixonou por um homem casado. Tinham lhe proposto vários matrimónios durante suas duas primeiras temporadas, mas ela os rejeitou com veemência. Seu pai não era capaz de fazê-la raciocinar e só conseguiu liberar-se da angústia que sua filha lhe provocava quando se casou com o senhor Cooper que, como bem sabe, contraiu matrimónio com rapidez porque estava grávida. ― Se por acaso não recorda… ― disse com o mesmo tom de voz insinuante. ― Eu também me casei com um bebê em meu interior. Esse que se chama Elliot e que brinca com papai. ― Mas eu não me referia a isso! ― Defendeu-se. ― Queria que se perguntasse o que todos se questionam, como um jovem como o senhor Cooper termina casando-se com uma jovem que foi avessa a outros matrimónios? ― Por amor? ― Respondeu arqueando as sobrancelhas. ― De verdade pensa que quando entrega seu coração a uma pessoa pode se casar com outra? ― Soltou com rapidez. ― Não seria nem a primeira nem a última mulher que o faria, mãe. ― Sim, mas… ― Interrompo-as? ― Perguntou William olhando a ambas enquanto sorria.


― Não, milorde ― disse rapidamente Elisabeth. ― Você não interrompe nada. Só queria perguntar à minha filha como está aguentando esta nova gravidez. ― Muito pior que com o Elliot ― informou William estendendo sua mão para que Beatrice se acoplasse entre seu corpo. ― Mas é uma mulher muito forte… ― comentou beijando o cabelo. ― Querida, temos que partir. ― Tão cedo? ― Soltou sem pensar Elisabeth. ― Voltaremos para a hora do chá ― disse Beatrice olhando de esguelha ao seu marido esperando uma confirmação. ― Enquanto isso, Elliot ficará com vocês. ― Mas se pensarem que será um inconveniente… ― começou a dizer William depois de piscar um dos olhos à sua esposa. ― Pelo amor de Deus! Que desfaçatez! Como vou pensar que meu neto é um inconveniente para nós? Por favor, partam tranquilos! O barão e eu nos encarregaremos perfeitamente de nosso pequeno. ― Pela forma de falar e por ela mesma os acompanhar à porta, os Rutland deduziram que o comentário de William tinha tido o efeito desejado. ― Muito obrigada, mãe ― disse Beatrice lhe dando um beijo na bochecha. ― Senhora… ― Sua excelência ― sussurrou fazendo uma leve reverência. Beatrice agarrou o braço que seu marido lhe oferecia, caminharam até chegar à carruagem e uma vez dentro lhe disse: ― Não entendo como aparece sempre nos momentos mais adequados. ― Não te perguntava por sua nova gravidez? ― Perguntou mordaz. ― Sabe que não. Tinha me retirado para me informar de certas fofocas ― revelou aflita. ― E eram interessantes? ― Perguntou William enquanto


levantava o braço para que sua esposa se enganchasse nele. ― Algum rumor pode ser interessante? ― Recriminou-lhe. ― Nenhum ― sentenciou. Rutland beijou o cabelo de novo, jogou seu braço sobre o ombro de Beatrice e lhe acariciou o queixo ao mesmo tempo que olhava através da janela. Durante a viagem, a duquesa observou seu marido. De vez em quando franzia o cenho, tocava em seu queixo ou suspirava. Em várias ocasiões tocou o peito para acalmar aquela respiração agitada, mas nem a olhou. Estava tão imerso em seus pensamentos que só reagir quando a carruagem parou no jardim de Lonely Field. Não deu tempo ao cocheiro de realizar sua tarefa, William se levantou do assento e ele mesmo abriu e desceu para lhe estender a mão. Com muito cuidado devido ao seu estado, caminharam para a entrada admirando o trabalho de John. As sebes continuavam a manter as figuras de animais, havia um imenso colorido pelo nascimento das flores outonais e o atalho estava impoluto. A duquesa continuou o passo, diminuindo a velocidade ao aproximar-se da porta. William se dispunha a tocar quando ela colocou sua mão sobre a dele e lhe perguntou: ― Preciso me preparar para confrontar algo importante? ― Olhou-o nos olhos, esperando que eles lhe mostrassem aquilo que precisava averiguar. Mas o olhar escuro de seu marido não aplacou suas dúvidas nem lhe insinuou nada, pelo contrário, provocou-lhe mais incerteza e milhares de suspeitas. ― Só te posso confessar que, talvez, o que vai escutar não seja de seu agrado. Mas lembre-se que eu sempre estarei ao seu lado. Nunca deixarei de proteger a ti ou aos nossos filhos ― disse enfim. Beatrice assentiu, levantou o rosto, esticou seus lábios para desenhar um sorriso e esperou com paciência que alguém lhes abrisse. Estava ansiosa por averiguar aquilo que perturbava seu marido e que, indevidamente, também a preocupava. ― Boa tarde, suas excelências ― lhes recebeu Anderson.


Andou vários passos para trás, deixando passo para que acedessem ao interior. Estendeu as mãos e recolheu as capas dos convidados. ― Se puderem seguir-me, conduzir-lhes-ei até o salão, onde lhes esperam os marqueses. Caminharam atrás do criado sem soltar-se, sem falar. Beatrice sentia como o coração se acelerava e uma opressão no tórax lhe impedia de respirar. O que estaria ocorrendo? O que perturbaria tanto William? Fosse o que fosse, devia tratar-se de algo muito importante se fazia com que William se afastasse de seu filho durante umas horas. ― Beatrice! ― Exclamou Evelyn ao vê-la aparecer. Levantou-se do assento e correu em sua busca. Depois de abraçála com força, olhou-a desconcertada e lhe perguntou: ― Sabe o que ocorre? Conhece o motivo desta reunião clandestina? A duquesa negou com um suave movimento de cabeça. Fixou os olhos no seu marido, que caminhava para o Roger, cabisbaixo. Mas não era o único que mostrava aflição. Roger não exibia seu típico sorriso e a tensão de seu corpo era mais que evidente. Depois de suspirar, Beatrice deu uns tapinhas nas mãos de sua amiga e, ao mesmo tempo que avançavam pelo salão para tomar assento, disse-lhe: ― Sentemo-nos e escutemos o que desejam nos explicar. Muito temo que não será do nosso agrado. Embora permaneceram caladas esperando que algum dos dois começasse a explicar o motivo pelo qual se reuniram, nenhum se decidia a falar. Beatrice abriu a boca para pedir uma explicação, mas percebeu que seu marido, depois de assentir com a cabeça algo que tinha comentado com o Roger, girou-se para elas e começou a conversa que tanto esperava. ― Desculpem tanto segredo, mas necessitávamos de um lugar seguro para poder falar com total liberdade. Como bem sabem, ontem de noite Roger e eu


mantivemos uma reunião e decidimos que, depois da descoberta, era vital pô-las ao corrente pelo que possa acontecer no sábado no lar dos Cooper. ― William esperou que elas comentassem ou perguntassem, mas ao não o fazerem, prosseguiu: ― Há um tempo atrás, Roger teve um palpite sobre a família Cooper. ― Que tipo de palpite? ― Perguntou Evelyn. A marquesa observou seu marido. Roger mantinha as mãos nas costas. Seu peito, oculto sob uma camisa branca, subia e baixava ao ritmo de uma respiração acelerada. Tinha seus olhos cravados nela e apertava com força a mandíbula. Sem lugar a dúvidas, aquilo que estavam a ponto de conhecer lhe provocava dor. Entretanto, o que podia machucar seu marido? ― Ocorreu em Haddon ― interveio o marquês. ― Estávamos falando sobre a diferença entre uma amante e uma mulher casada. Acredito que zombei dizendo que as duas necessitavam do mesmo quando Federith tentou me dar um murro. ― Eu te teria dado três… ― murmurou Evelyn zangada. ― Não se tratava disso, querida. Só estava brincando com Federith, mas descobri em suas palavras uma tristeza que fazia tempo que não mostrava. Isso nos advertiu, tanto a William como a mim, que nosso amigo não era feliz. ― Se tentam nos dizer que o matrimónio de Federith é um pesadelo, não precisava nos reunir de maneira clandestina. É evidente que esse casamento foi o maior engano de sua vida ― indicou Evelyn de novo. ― Não seria o primeiro enlace desafortunado ― apontou William. ― Mas lhes prometo que a expressão de seu rosto e essa forma de falar nos alertou. ― Então, quando retornamos a Lonely Field, pedi a John que observasse


a família ― acrescentou Roger que compreendeu o interesse que tinha suscitado nas esposas. Ambas se agarravam pelas mãos, oferecendo a força necessária para manter-se ali sentadas, escutando tudo o que tinham oculto até o momento. ― O que descobriu? ― Perguntou alarmada Beatrice. ― Segundo as investigações do John, Caroline abandona seu lar durante bastante tempo. Não falo de uma ou duas horas, mas sim de manhãs ou tardes completas. Sempre atua da mesma maneira: sobe numa carruagem, seja própria ou alugada, viaja até uma casa desabitada que há a norte de Londres, precisamente onde terminam as terras de Eric Graves, esconde o veículo num bosque, acede ao lar e ali permanece até que decide retornar ― expôs. ― Tem um amante? ― Perguntou horrorizada Evelyn. ― Sim, tem ― afirmou Roger cortante. ― Suspeitamos que se trata do próprio Eric Graves, renomado visconde de Gremont depois da recente morte de seu pai, embora não podemos estar seguros. Por mais que John tenha tentado averiguar quem é o cavalheiro que a visita, não conseguiu descobrir. É como se fosse um fantasma. Ninguém entra salvo ela e ninguém sai… salvo ela ― apontou Rutland entreabrindo os olhos. ― Se a residência mais próxima é a do visconde de Gremont, não pensou numa passagem secreta? ― Perguntou Evelyn. ― Nós construímos o pequeno corredor depois do incêndio...


― Como bem diz, é a única opção que podemos explorar. É muito conhecida em Londres a reputação dos viscondes de contrair matrimónio com mulheres enriquecidas para depois manter suas amantes ― explicou William. ― Isso explicaria… ― sussurrou Beatrice soltando a mão de sua amiga e colocando-a no ventre. ― O que explicaria? ― Insistiu Rutland. ― O nome de seu filho… ― refletiu. ― OH, meu Deus! ― Exclamou Evelyn alarmada ante a revelação. ― Federith morrerá de dor quando o descobrir! Será uma grande humilhação para ele! ― Bom… ― intercedeu Roger ― acredito que será capaz de confrontálo porque se propôs a divorciar-se. ― Divorciar-se? ― Perguntaram as duas de uma vez. ― É uma longa história… ― esclareceu William tentando evitar falar sobre a senhorita Price.

― Informamos aos meus pais que chegaremos à hora do chá e ainda nem sequer almoçamos. Isso quer dizer que temos muito tempo para que nos falem da razão pela qual o homem mais sensato, prudente, judicioso e sábio de Londres decidiu provocar o maior escândalo da cidade ― sentenciou Beatrice acomodando-se no assento. ― Está bem, escutem ― disse Rutland. XXIX Sábado, residência Hemilton.


Federith não podia apagar o sorriso de seu rosto cada vez que recordava a cara do senhor Spencer quando o viu aparecer em Longher. Esteve a ponto de lhe jogar dali a patadas sem lhe perguntar sequer o que desejava. Sua mente ciumenta acreditou que sua intenção era cortejar a condessa viúva de Crowner, mas quando lhe fez entrar em razão e lhe explicou que a única coisa que pretendia era falar com Anaís, toda aquela ira desapareceu com rapidez. ― Sendo assim, ― lhe disse em tom mais sereno ― pode entrar. ― Não sabia que suas intenções com a condessa fossem tão firmes ― lhe perguntou com sarcasmo. ― Para lhe ser justo, Cooper, nem eu mesmo tinha claro o que pensava sobre ela, mas depois de observar como o insensato do visconde de Gremont a olhava com luxúria, despertou em mim um sentimento de posse que não pude aplacar até… bom, até que aceitou meu compromisso ― explicou alargando seus grossos lábios para mostrar um amplo sorriso ao recordar quão satisfatória tinha sido a noite e a manhã seguintes. ― Fez bem em afastá-la daquele cretino. Não é um bom homem… todo mundo conhece a atitude de seus antecessores e, por isso comprovei, ele continua com o legado de canalha ― acrescentou sobre o visconde. ― Tolero-o porque o pai de sua esposa é um bom cliente, mas se tivesse que escolher entre perder um bom cliente ou perdêla, prefiro o cliente. Sempre pode substituir-se por outro, entretanto, seria impossível que aparecesse outra mulher como minha prometida ― sentenciou ao mesmo tempo que o fazia passar ao salão onde, uma vez que partisse Leopold, apareceria Anaís. ― Compreendo-o… ― murmurou Federith enquanto acedia à habitação. ― Posso concluir então que a senhorita Price é uma pessoa importante para você? ― Inquiriu Leopold arqueando as sobrancelhas. ― Em efeito. A senhorita Price e eu nos conhecemos desde a infância e o


sentimento que tenho para com ela perdura desde então ― afirmou com solenidade. ― Recorda que ela se encontra sob nosso amparo, não é? E que qualquer escândalo poderia afetar a condessa? ― Insistiu sério. ― Conheço as repercussões que a descoberta desta visita pode ter, Spencer, mas também as assumirei. ― Se persistir em visitá-la, seria conveniente que comprasse uma residência adaptada para uma… ― Não quero convertê-la em minha amante! ― Exclamou zangado. ― Pois muito temo que não fica outra opção. Se me recordo bem, você está casado ― assinalou mantendo a calma. ― Vou romper meu matrimónio para me casar com ela ― confessou depois de uns momentos de silêncio que necessitou para restabelecer sua serenidade. ― Você? ― Soltou Leopold assombrado. Não dava crédito a que um homem como ele, com uma reputação tão irrepreensível, desejasse oferecer um grandioso escândalo em Londres. Até onde pode chegar o alcance do amor? «Você também sabe até onde pode chegar…», disse-se. ― Sim ― consolidou sua resposta com um leve movimento afirmativo de cabeça. ― De todas as maneiras, Cooper. Tem que pensar sobre a opção de lhe procurar um novo lar, embora à minha futura esposa não lhe agrade a ideia de afastar-se da mulher que está ao seu lado mais de uma década, precisa manter uma posição… ― Sei e por esse motivo estou aqui, Spencer. ― Leopold ― lhe corrigiu.


― Federith ― respondeu. ― O que pretende fazer, Federith? ― Spencer lhe assinalou com um dedo as garrafas que guardava na licoreira, mas Cooper rejeitou o convite. ― A senhorita Price retornará ao seu antigo lar. Estive administrando os trâmites necessários para restabelecer sua posição na sociedade ― informou. ― Fetherwall, me equívoco? Acredito que foi adquirida pelo senhor Polet depois que os condes Kingleton partiram apressadamente adicionou Leopold. ― Como você sabe a procedência da senhorita Price? ― Perguntou Federith assombrado. ― Devia fazê-lo, Federith. Quando o conde faleceu, meu advogado se encarregou de averiguar como era a condessa viúva e, como tem que supor, também indagou sobre a dama de companhia que permanecia cuidando-a desde sua infância ― expôs enquanto tomava assento. ― Então também saberia a vida que ela padeceu ― disse sentando-se frente a Leopold. ― Uma tragédia ― expressou Spencer. ― Teve que sofrer um verdadeiro calvário, encontrar-se da noite para o dia só no mundo e sem ninguém que pudesse ajudá-la a sobreviver. ― Eu a procurei, ― disse com tristeza ― mas não fui capaz de encontrála, se a tivesse encontrado nada disso teria acontecido e hoje em dia não teria que pensar nas consequências que sofrerei quando me divorciar. ― Pode partir de Londres. Pode começar outra vida longe daqui. Seguro que conseguirá… ― Não vou abandonar Londres como se ambos fôssemos uns delinquentes.


Quero que a senhorita Price recupere sua antiga vida não que viva uma nova ― sentenciou Federith. ― Nesse caso, Federith, conte com meu apoio. Ela cuidou da minha futura esposa durante todo este tempo e tenho que agradecer-lhe sem me importar como. ― Obrigado, Leopold. ― Não tem de que… Ambos ficaram calados quando escutaram uns leves sons na porta. Depois de convidar a passar a quem chamava, apresentaram-se Priscila e Anaís. Veloz, Leopold se levantou do assento e se dirigiu para sua amada. ― O que acontece? ― Perguntou-lhe inquieta a condessa. ― Nada que possa temer, não é, senhorita Price? Anaís não pôde lhe responder, tinha seus olhos cravados em Federith e seu coração pulsava a um ritmo desmesurado. Devia estar zangada por apresentar-se ali e requerer sua presença. Mas era impossível recriminar uma ação que ela ansiava com todo seu coração. Tinha mudado. O jovem que conheceu jamais se atreveria a fazer uma loucura semelhante. Entretanto, aquela parte de Federith que se transformou lhe causava tal satisfação e segurança, que desejava presenciar quais outras loucuras tinham pensado em fazer pelo resto de suas vidas. ― Senhorita Price… ― disse ao vê-la. Caminhou para ela e tentou dominar aquele inapropriado desejo de agarrá-la e beijála. ― Lorde Cooper ― respondeu caminhando para ele.


Mas só quis dominá-lo, não assegurar-se de não fazer o impróprio. Quando ela o olhou, quando ela estava a tão somente uns passos dele, Cooper lhe agarrou as mãos, aproximou-a e a beijou. ― OH, meu Deus! ― Sussurrou Priscila levando as mãos à boca para que sua surpresa não os alarmasse. ― O amor provoca que um homem não atue com sensatez ― lhe sussurrou Leopold. ― Isso é uma justificação para seus atos? ― Perguntou Priscila arqueando as sobrancelhas e sorrindo. ― Ainda, meu amor, não conseguiu saber até que ponto meu amor por ti me fará realizar atos inapropriados. Priscila notou a mão de Leopold rodeando sua cintura. Muito temia que logo teria uma ideia do alcance de suas palavras. Olhou Anaís e suspirou relaxada ao ver que se encontrava feliz, mais do que nunca tinha estado. Por fim, ambas obtinham a vida que tanto tinham desejado. ― Milorde, ― disse o ajudante de câmara oferecendo a jaqueta a Federith ― a senhora o espera abaixo para a recepção dos convidados. ― Obrigado ― respondeu Federith olhando-se no espelho. Sorria, continuava a sorrir e não era capaz de apagar a felicidade que mostrava o seu rosto. Essa mesma noite, quando a festa finalizasse, Anaís o esperaria para visitar o senhor Polet. Ambos lhe falariam de quem era na verdade o ancião e a decisão que este tinha tomado. Surpreender-se-ia tanto ou mais que quando lhe explicasse o amor que sentiu por sua avó e como foi incapaz de esquecê-la. Como ele. Duas gerações de homens que não tinham podido negar a quem lhes pertenciam seus corações. A história se repetia, mas desta vez o final seria diferente… ― Está linda, ― revelou à Caroline quando ficou ao seu lado ― embora tenha


que te advertir que essa nova costureira segue sem ser consciente de suas medidas. ― Já te disse que mudarei de costureira quando a festa finalizar respondeu aceitando o beijo que Federith lhe deu na bochecha. ― Temos que falar sobre o divórcio, Caroline. Ainda não me disse o que deseja ― comentou enquanto caminhavam juntos para a porta. ― Amanhã falaremos sobre isso. Agora me deixe desfrutar de meus últimos momentos como lady Cooper ― declarou sossegada. ― Tenho que te temer? ― Perguntou olhando-a de soslaio. ― A mim? ― Perguntou zombadora. ― Não, Federith! ― Exclamou ao ver que o homem arqueava as sobrancelhas. ― Não tem nada que temer! Pouco a pouco a casa foi se enchendo de convidados. Como anfitriões, Federith e Caroline atuaram segundo os protocolos sociais. Falaram amavelmente com eles, tentaram que nenhum dos convidados permanecesse sem acompanhante ou sem bebida. Federith se surpreendeu de como ela atuava e ficou fascinado de quão rápido tinha preparado a festa. O salão de baile estava lindo e os músicos que contratou não destroçavam os ouvidos, uma das coisas que odiava profundamente. Tudo parecia calmo e aprazível. Até se permitiu o luxo de conversar com tranquilidade com Roger e William, que não afastavam seus olhos de Caroline quando esta se aproximava de suas esposas. ― Relaxem – disse-lhes numa ocasião. ― Me assegurou que nada de mau acontecerá. ― Como pode estar tão seguro? ― Perguntou Riderland enquanto tomava um sorvo de sua quarta taça de champanhe. ― Prometeu-me, ― esclareceu isso Federith ― e, embora me custe acreditar,


estou seguro de que cumprirá a promessa. Então, o mordomo anunciou a chegada de dois novos casais: o visconde de Gremont e o senhor Wyman com suas esposas. Tanto o marquês como o duque resmungaram ao escutar o nome de Gremont, mas só Federith ficou atônito quando ouviu o do Wyman. Que fazia aquele homem ali? Por que sua esposa o havia convidado? Olhou com atenção ao Roger, mas este não mostrava nem aborrecimento nem ira. Por acaso não conhecia a história de sua esposa? Ninguém lhe havia dito que Scott Wyman tinha estado prometido a Evelyn quando eram jovens? Segundo a reação do marquês, não. Então tentou imaginar que só tinha sido uma coincidência e que não aconteceria nada de mal. Mas aconteceu… ― OH, meu Deus! ― Exclamou Evelyn ao escutar o sobrenome da pessoa que acreditou morta. ― O que acontece? ― Perguntou Beatrice segurando-lhe a mão ao vêla tão alterada. ― Recorda o que te contei sobre um pretendente que me abandonou porque meu pai perdeu a fortuna familiar? ― Sussurrou-lhe Evelyn agitada. ― Sim ― comentou a duquesa na expectativa. ― Aquele que fingiu sua própria morte para evitar o compromisso? ― Insistiu a marquesa horrorizada. ― Sim, recordo ― afirmou Beatrice. ― Pois acaba de entrar com sua esposa ― adicionou sem poder afastar o olhar do casal. ― Por Deus bendito! ― Exclamou a duquesa atônita. ― Como ocorreu à Caroline fazer tal coisa?


― Muito temo que tenta me envergonhar ― lhe confessou. ― A última vez que apareceu em meu lar, mal lhe dei atenção e evitei qualquer conversa sobre como consegui me casar com um homem como Roger. ― Maldita harpia! ― Murmurou Beatrice zangada. ― Não é consciente do que pode acontecer se esse descarado se aproximar de ti? Não pensou que Roger o matará? ― Perguntou sem respirar. ― Me ajude a evitar, Beatrice. Finge que se encontra mal e partimos o quanto antes ― lhe suplicou. ― É claro! Acredito que neste momento meu bebê decidiu sair… ― disse ao mesmo tempo que agarrava a mão de sua amiga e caminhavam para seus maridos. Roger entreabriu seus olhos ao ver como sua esposa ficava rígida. Falava entre sussurros com Beatrice e parecia tremer. Não era próprio dela que mostrasse tanta tensão nem que falasse com cochichos em público. Apertou a mão ao redor da taça e pensou no possível motivo pelo qual atuava dessa maneira. De repente, dirigiu seu olhar em volta dos dois novos casais. Um era o visconde, a quem descartou em seguida seguro de que nunca tinha tido um encontro inapropriado com sua esposa. Desde que ela se converteu em sua mulher, e após sua volta, ninguém tinha ousado aproximar-se de Evelyn se quisesse continuar vivo. Então olhou ao outro cavalheiro. Não o reconhecia nem sequer tinha escutado seu sobrenome. Entretanto, o homem, depois de saudar Caroline e perceber quantos convidados havia, cravou seu olhar uma parte do salão e sorriu. Quando Roger descobriu que aqueles olhos estavam fixos em sua esposa, escutou um clique. Tinha quebrado a taça pela pressão que exercia sua mão nela. ― Calma… ― lhe disse Federith. ― Não tem por que acontecer nada. ― Quem é? ― Grunhiu sem poder afastar seus olhos azuis, que começavam a tomar uma cor negra, do tal Wyman. ― Por que olha minha esposa dessa forma? ― Não sabe? ― Perguntou Federith observando-o com cautela.


― Não! ― Bramou. ― Se souber quem é, Federith, ― interveio William ― será melhor que o esclareça antes que Riderland salte sobre ele e lhe arranque os olhos para que não contemple Evelyn dessa maneira. ― Chama-se Scott Wyman ― explicou Cooper dando um passo para diante para impedir que Roger se equilibrasse. ― Scott? ― Perguntou Roger entreabrindo os olhos. ― O tal Scott que deixou a…? ― Sim, o mesmo ― respondeu Federith. ― Tinha entendido que tinha morrido numas manobras resmungou. ― Embora pelo que vejo não foi assim. ― Pensei que sabia ― disse Federith preocupado. ― A história que lhe contaram era falsa. Fugiu de Londres quando os pais de sua esposa se arruinaram e um tempo depois se casou com a filha de um rico empresário americano. ― Não me diga? ― Inquiriu Roger desenhando no seu rosto um enorme e maléfico sorriso. ― Então esse descarado só previu o que um dia lhe aconteceria… ― Enquanto ele não se aproximar da sua esposa ― interveio de novo William ― não faça nada que possa se arrepender. ― Sabe que não me vou manter impassível, Rutland. Se esse bastardo se aproximar da minha esposa, o estrangularei! ― Sentenciou. ― Mantenham a calma ― falou Cooper. ― Beatrice e Evelyn vêm para cá. Se me desculparem, vou ter umas palavras com Caroline. Anseio que me explique a razão pela qual convidou esse cavalheiro -disse antes de caminhar para sua esposa, que se encontrava falando a sós com o visconde de Gremont.


Roger avançou para a sala para encontrar-se com sua amada, que deixou de tremer quando lhe agarrou a mão. ― O que acontece? ― Perguntou William à Beatrice. ― Acredito que nosso filho deseja sair antes do tempo ― disse a duquesa alarmada. ― Não precisa mentir ― comentou William com um sorriso de orelha a orelha. ― Sabemos o que acontece. ― E… o que nos acontece? ― Perguntou Beatrice olhando-o sem piscar. ― Dancemos a próxima música enquanto lhe explico. William estendeu a mão à sua esposa e, tal como sugeriu, levou-a a dançar. ― Quer retornar? ― Perguntou Roger a Evelyn. ― Não, não quero que ninguém comece a falar sobre o motivo pelo qual partimos tão precipitadamente ― assinalou um pouco mais tranquila. Devia acalmar-se se não queria que seu marido montasse um escândalo e, tal como se encontrava, não seria de estranhar que no dia seguinte algum periódico londrino anunciasse em manchete a briga que provocou na primeira festa dos Cooper. ― Vou tomar ar. Imagino que um pouco de ar fresco aliviará minha tensão ― disse Evelyn. ― É claro ― respondeu Roger lhe segurando pela mão para conduzi-la sob seu amparo. ― Sua excelência, ― falou uma voz que o marquês não conhecia ― importarse-ia que roubasse uns minutos de seu tempo? ― Não é adequado… ― começou a dizer Roger. ― Não se preocupe ― disse Evelyn. ― Não acontecerá nada. Só ficarei uns minutos fora, depois se o desejar, partiremos.


À contragosto, Riderland observou como sua esposa caminhava para o balcão. Quando desapareceu, prestou atenção ao cavalheiro que lhe tinha requerido. ― Senhor, desculpe a interrupção. Sou Randall Moore e eu gostaria de lhe fazer uma encomenda ― informou o homem alterado. ― De que encomenda quer me falar, senhor Moore? ― Interessou-se. ― Conforme tenho entendido você possui um navio que utiliza para viagens comerciais, equivoco-me? ― Não se equivoca, logo realizarei um para a Europa, por que o pergunta? ― Porque eu gostaria de saber se também aceita passageiros indicou Randall. ― Que tipo de passageiros? ― Perguntou Roger. ― Uma menina, excelência. Eu gostaria de saber se minha filha poderia lhe acompanhar em sua próxima viagem ― esclareceu o cavalheiro. ― Por agora não… ― Roger não continuou a conversação. No descuido, não só sua esposa não se encontrava na sala, mas sim o tal Wyman tampouco. ― Desculpe-me, senhor Moore ― disse interrompendo a conversação. ― Mas… milorde? ― Se tanto anseia afastar-se de sua filha, senhor Moore, leve-a você mesmo! ― Bramou. Randall Moore ficou surpreso ante o inapropriado comportamento do marquês.


Queria lhe gritar que o escutasse, mas não o faria. Tal como lhe havia dito sua esposa, até que Anne não cumprisse os vinte e seis seguiria vivendo com eles e a maldição terminaria por cumprir-se. Abatido, girou-se sobre seus calcanhares e partiu ao seu lar. Quando Roger saiu ao balcão, escutou com atenção a conversa que Evelyn e Wyman mantinham. Ele não cessava de lhe dizer que tinha saudades, que se arrependia do que teve que fazer no passado e que, se ela quisesse, voltariam a ficar juntos. Estava se oferecendo a convertê-la em sua amante e essa ideia lhe provocou tal ira que desejou lhe arrancar a cabeça, mas esperou com paciência a resposta dela. ― Jamais trairia meu marido! ― Gritou Evelyn sobressaltada. ― Mas, Evelyn… ― insistiu Scott. ― Eu continuo a ama-la… ― a agarrou pelo braço e evitou que ela se afastasse de seu lado. ― Algum problema? ― Ladrou Roger saindo de seu esconderijo. A sombra que o marquês provocou quando colocou seu corpo na janela ocultou a cara de espanto da marquesa. O que pensaria ao vêla daquela maneira? ― Roger! ― Exclamou assombrada. ― Repetirei uma vez mais, algum problema? ― Sua voz mostrava o aborrecimento, a ira e a irracionalidade que já não era capaz de controlar ao presenciar aquela situação tão violenta. ― Não, ― respondeu ela ― nenhum problema. Agora mesmo me dispunha a retornar com Beatrice. ― Faça, eu irei depois ― disse sem afastar o olhar do homem que se atreveu a tocar sua mulher. ― Roger, por favor… ― lhe suplicou aproximando-se dele para tranquilizá-lo. ― Vá, Evelyn, ― intercedeu Scott nomeando-a como se entre eles ainda


existisse afeto ― não acredito que seu marido se atreva a… Não pôde terminar a frase porque uma grande mão lhe agarrou e o levantou tanto que não era capaz de tocar o chão nem com as pontas dos pés. ― A que não me atreverei? ― Grunhiu Roger colocando seu nariz em frente ao do ousado. ― Me solte! ― Gritou Scott movendo agitadamente seus pés. ― Matar-te-ei… ― resmungou Riderland. ― o apertarei tão forte que deixará de respirar antes que possa voltar a pedir auxílio. Essa mulher é minha… só minha, entendido? Graças a Deus, duas figuras mais apareceram no balcão. William e Federith, depois de descobrir a situação, caminharam devagar em volta dos dois. ― Roger… ― falou William com voz tranquila para não seguir alterando-o. ― O que acontece? ― Este descarado ousou tocar a minha esposa ― bramou. William olhou Evelyn, que ainda continuava sem poder mover-se. Quando a marquesa percebeu que o duque a observava ela afirmou as palavras de seu marido. ― Evelyn, entra. Nós arrumaremos esta situação ― lhe disse Federith para tranquilizá-la. ― Por que a tocou? ― Perguntou William sem impedir que Roger continuasse apertando o pescoço do homem, que se voltava de cor violeta. ― Crê com o direito de fazê-lo, ― esclareceu Roger ― porque como bem sabem foi pretendente da minha esposa. ― Pensa uma coisa, amigo, ― disse o duque ― sua mulher


está assustada e graças a Deus podem viver uma vida tranquila, crê que vale a pena destroçar essa felicidade por um miserável como este? ― O que você fez, William? ― Perguntou o marquês lhe recordando com sua pergunta o comportamento que tinha tido após descobrir o que aconteceu em realidade à Beatrice com o conde Rabbitwood. ― O correto. Por isso quero que você faça o mesmo ― declarou com firmeza. ― Quer viver com Evelyn ou sem ela? ― Insistiu. Depois de escutá-lo, Roger afrouxou o aperto e deixou livre o homem. Depois de tossir e amaldiçoar, Scott correu como um rato fugindo de um navio afundandose. ― Sua esposa sabia que Wyman foi o pretendente de Evelyn comentou William. Não era uma pergunta e sim uma afirmação. ― Tal como se comportou, minha esposa é um ser desprezível e lhe peço mil desculpas por sua atitude ― disse Federith aflito. Tinha lhe prometido que não tramava nada e o tinha enganado. Se lhe tinha mentido em uma coisa assim… o que estaria tramando para evitar o divórcio? Tudo começava a encaixar. Caroline nunca aceitaria a proposta e só tentava o machucar mais, se desse. ― Como compreenderá, enquanto esteja com ela, minhas visitas ao seu lar ficam anuladas ― resmungou Roger ao mesmo tempo que se dava a volta e caminhava para o salão. ― Roger, por favor… ― disse Federith ao ver que sua amizade podia ver-se danificada por culpa de Caroline. ― Não é o momento ― explicou William. ― Deixe que a ira


se desvaneça. Roger não atua nem pensa com claridade quando está zangado nem quando se trata de proteger sua esposa. ― Esta mulher… ― refletiu Cooper movendo a cabeça de um lado a outro. ― Se estivesse em seu lugar a observaria com mais atenção. Olha muito ao visconde de Gremont ― lhe advertiu. ― Olha com atenção a todo homem que não seja eu ― respondeu Federith. ― Mas como já lhes avisei, logo a deixarei livre para que faça ou observe quem ela desejar. ― Está seguro? ― Perguntou Rutland incrédulo. ― Se não o fizer por bem, o fará por mal ― sentenciou Cooper enquanto ambos retornavam ao interior da residência. Quando dois homens tão importantes como o duque de Rutland e o marquês de Riderland abandonaram apressadamente a festa, todos começaram a questionar os possíveis motivos pelos quais os melhores amigos do anfitrião tinham decidido partir tão cedo. Alarmados pelo que podia ter acontecido, logo começaram a pôr desculpas para ausentar-se também. Antes das dez, quando a festa tinha começado às oito, não havia ninguém em Hemilton, nem os músicos desejaram permanecer na residência durante mais tempo. Caroline evitou tudo o que pôde um encontro com Federith. Sabia que lhe ia pedir explicações pelo ocorrido, mas não havia desculpa possível. Ela mesma se tinha surpreendido quando Eric apareceu com o senhor


Wyman. Dias atrás lhe enviou uma nota para que não prosseguisse com o plano que confabulou na festa de lady Baithlarin, quando se encontraram numa pequena sala. Tinha-lhe indicado que a situação tinha mudado, que já não desejava causar um escândalo e que o explicaria assim que tivessem um momento a sós. Entretanto, não lhe deu atenção. Ignorou sua petição e continuou com o propósito sem sequer responder a essa nota lhe esclarecendo que ele sim continuava adiante com o plano. ― Por que o fez? ― Perguntou-lhe Caroline quando puderam encontrar-se uns minutos a sós. ― Não te avisei que não o fizesse? ― Demandou zangada. ― Não pude encontrar nenhuma desculpa sensata, Caroline. Além disso, esse era seu desejo desde o primeiro momento, não é verdade? ― Indicou sardônico. ― Mas tudo mudou, Eric ― declarou. ― O que mudou? ― Interessou-se o visconde. Algo lhe dizia que logo a situação com ela se transformaria e que o prejudicado seria ele. ― Federith me pediu o divórcio, ― confessou ― e estou disposta a aceitá-lo. ― Como? ― Perguntou Eric abrindo os olhos como pratos ao escutar aquela palavra que tinha dois significados muito distintos, para Caroline significaria liberação, mas para ele destruição. ― Sim, não te parece maravilhoso? ― Soltou feliz. ― Por fim poderemos viver a vida que tanto desejamos! Começaremos de novo… Você, eu e a criança que cresce dentro de mim. ― Está grávida? ― Bramou agarrando-a pelo braço e afastando-a da vista de todos os que haviam na sala. Por sorte, sua esposa estava dançando e o marido de Caroline acompanhava ao duque de Rutland para o balcão anexo à sala. ― Como pode pensar que esse filho é meu? ― Grunhiu zangado. ― Eric… ― comentou assombrada ― o concebemos na semana que Federith esteve doente.


― Esse filho não é meu! ― Exclamou irado. ― Pelo amor de Deus, é teu! – Insistiu. ― Não te agrada a surpresa? Não me quer para fazer frente à paternidade que a vida te insiste em dar? ― Começou a soluçar. Estava num grave apuro, o pior que jamais acreditou encontrar-se. Sua amante iria destroçar a sua vida, precisamente depois de ter tido o ultimato do pai de April. Como poderia liberar-se dela? Como poderia afastá-la de seu lado estando grávida? Como aquele dissimulado era capaz de lhe pedir um divórcio? Por acaso estavam todos a perder a sensatez?! ― Não me ama? ― Perguntou-lhe Caroline invadida pelo desespero. Eric a contemplou com atenção. Não ia render-se jamais. Ela o arrastaria à miséria e não podia permiti-lo. ― Claro que te amo… ― lhe murmurou abraçando-a. ― Mas deve compreender que as notícias foram muito surpreendentes para mim. ― Podemos viver juntos, para sempre! ― Exclamou feliz Caroline. ― Toda uma vida! ― Concordou Eric. ― Querida… o que te parece se depois da festa falarmos com tranquilidade? Não quero que ninguém comece a cochichar sobre nosso desaparecimento. ― Na casa…? ― Titubeou ela eliminando o choramingo. ― Onde sempre, meu amor. Até que não encontremos nosso caminho na vida, teremos que seguir nos vendo na casa anexa, mas tudo mudará muito em breve… ― prometeu. Eric olhou para a sala. Sua esposa tinha terminado de dançar e o procurava com o olhar. Com rapidez se separou de Caroline. ― Te espero esta noite, querida. Não falte ― acrescentou enquanto caminhava para sua esposa. ― Ali estarei… ― murmurou contente a mulher. ― Estava te procurando… ― grunhiu Federith ao encontrá-


la no seu quarto sentada em frente à penteadeira. Não tinha trocado o vestido nem tirado as forquilhas do cabelo. Parecia como se soubesse que cedo ou tarde ele apareceria em frente a ela. ― Juro-te, Federith, que não sabia… ― tentou dizer. ― Não minta, Caroline! Não minta mais! ― Repetiu ao mesmo tempo que golpeava, com aqueles punhos que utilizou no passado e tinha quebrado um ou outro osso, a porta da habitação da mulher. Ante tal ato de violência, Caroline se levantou do assento, cobriu a boca com a mão e caminhou para trás assustada. Nunca tinha visto Federith zangado daquela maneira e, embora parecesse incrível, começava a temer por sua vida. ― Não… não… faça… nenhuma tolice, Federith ― balbuciou entre soluços. ― Tolice? – Bramou. ― Como qual, querida? ― Perguntou mordaz. ― Juro-te que não sabia que o senhor Wyman apareceria na festa ― começou a dizer. ― Disse que não minta mais! ― Gritou tão zangado que as cordas vocais lhe esticaram tanto que lhe doeu. ― Está bem… ― disse caminhando para trás até que se topou com uma cadeira e esteve a ponto de cair ao chão, mas Federith correu para ela para que não ocorresse. ― Obrigado… ― murmurou. ― Devia me ter deixado cair… ― Para que? ― Perguntou entreabrindo os olhos. ― Para que todo mundo pense que a trato mal? Que depois do escândalo que formou decidi te fazer entrar em razão com golpes? ― Não seria capaz. ― Levantou o rosto e, apesar do temor, encarou-o.


― É óbvio que não seria capaz! ― Ladrou zangado. ― Jamais golpeei nem golpearei uma mulher! – Declarou. ― Só quero que me explique por que quis humilhar a marquesa de Riderland, o que te fez para que deseje lhe destroçar a vida? Se esse homem tivesse tentado ultrapassar-se com a marquesa, seu marido lhe teria arrancado o coração com suas próprias mãos. ― Não sabia que… ― voltou a dizer. ― Não sabia que o marquês se converte num animal quando se trata de sua esposa? Pois já sabe! Ela e a duquesa de Rutland são intocáveis! ― Sentenciou com tanta força que lhe doeu a garganta. ― Pedir-lhes-ei desculpas… ― disse afastando-se de Federith e perambulando pela habitação. ― Amanhã irei a Lonely Field e me ajoelharei em frente a ela lhe suplicando clemência se assim o quiser. ― Não quero que se humilhe… ― disse Cooper baixando a voz. Seu propósito não era assustá-la, e sim averiguar por que se comportava daquela maneira e, para consegui-lo, Federith se tranquilizou e continuou falando devagar. ― Só quero saber por que o fez. ― Não é capaz de averiguá-lo você mesmo, Federith? ― Indicou-lhe apertando os punhos e abaixando a cabeça. Caroline esperou a resposta de Cooper, mas este não falava, e sim esperava que ela mesma se respondesse. ― Têm o que eu nunca poderei alcançar… murmurou enfim. ― Caroline… ― sussurrou aproximando-se dela. ― Jamais vi um matrimónio semelhante. Ele sempre está cuidando de sua esposa. É incapaz de respirar se a marquesa não estiver ao seu lado. Todo mundo fala sobre eles com fascinação, dizem que ninguém teria imaginado o marquês de Riderland ser fiel à sua esposa depois da vida que viveu… ― Isso é amor, Caroline. ― Sei ― respondeu elevando o queixo revelando uns olhos banhados em


lágrimas. ― Sinto não ter conseguido te dar o que merecia ― disse Federith aproximandose ainda mais e estendendo os braços para que ela se reconfortasse neles. ― Fui eu quem não desejava ter nada de ti. Se no passado… se não tivéssemos concebido ao Eric, ― insistiu com a única mentira que não revelaria nunca ― você e eu… ― Mas seguiremos adiante com a proposta que te fiz. Porque… segue aceitando-a, não é? ― Quis saber. ― Sim. Agora mais que nunca… ― sussurrou. ― Agora mais que nunca? ― Perguntou Federith pegando-a com cuidado pelos antebraços e apartando-a dele para ver a expressão de seu rosto. Podia mentir com palavras, mas não com as expressões do rosto.

― Disse à pessoa que amo… ― confessou. ― E? ― E está feliz ― disse tão emocionada que Cooper voltou a abraçá-la. ― Me alegro, Caroline. Juro-te que me faz muito feliz escutar essas palavras porque pensei que depois do acontecido esta noite… ― Negaria a me separar? ― Terminou ela. ― Não, não vou impedi-lo. Assim como você, quero me liberar desta prisão. ― E o que faremos com Eric? ― Perguntou afastando-se dela. ― Não quer ficar com seu filho? ― Perguntou assombrada. Não podia encarregar-se de duas crianças. Por mais que desejava que Eric fosse reconhecido por seu verdadeiro pai, compreendia que não podia obtê-lo. Passaria


um tempo de incerteza até que seu amado pudesse estar tal como se merecia com ela e, embora não lhe faltaria sustento nem um lugar onde cobrir-se posto que viveria na casa anexa, preferia que sua nova vida começasse com um filho não bastardo. ― É claro que quero ter Eric ao meu lado! ― Pronunciou assombrado. ― Mas pensava que você… ― Sempre será meu filho, Federith. Embora seja consciente de que você o ama muito mais que eu. ― Não diga isso… ― comentou Cooper com suavidade. ― Não me envergonho disso porque sei que ao seu lado será mais feliz que junto ao meu ― esclareceu ao mesmo tempo que se sentava sobre o leito. Estava muito cansada, muito para manter-se de pé, mas ainda ficava o mais importante do dia, falar com Eric. ― Tenho que sair ― a informou dirigindo-se para a porta. Não podia entretê-la mais. Seu corpo, seu rosto e inclusive a forma de respirar lhe indicavam que ela estava muito cansada. Devia recostar-se e dormir. Haveria tempo para falar sobre Eric e as necessidades dela. ― Não me espere acordada… porque… ― Parta tranquilo, vou ficar em casa a descansar ― respondeu com um sorriso. ― Boa noite, Caroline. ― Boa noite, Federith. E a deixou sentada sobre a cama, olhando para a porta e desenhando um sorriso infantil. Quando Caroline observou que Federith subia à carruagem, correu para o corredor, desceu as escadas, ordenou que lhe fizessem chegar um carro alugado e, enquanto esperava a chegada deste, pensava em como seria aquela vida que


tanto tinha sonhado ao lado do Eric. Federith observou seu lenço com ternura. Ainda seguiam as lágrimas de Anaís umedecendo o tecido. A mulher não pôde parar de chorar enquanto o senhor Polet lhe narrava a verdadeira história de sua vida. Em várias ocasiões, Anaís pediu que lhe explicasse de novo aquilo que confessava Simon e este cumpria sua petição com muita paciência. Era normal que se comportasse tão desconfiada ao princípio porque o ancião revelava certos aspectos familiares que permaneciam em absoluto segredo. Mas depois de ver o medalhão da avó Claudine e ler as cartas que Polet guardava como tesouros de incalculável valor, reconheceu que não lhe estava enganando. ― Voltarei a ser o que fui? ― Perguntou aturdida. ― E se não quiser ter essa vida? E se não desejar saber nada de Kingleton? ― A maioria das jovens aristocratas estariam loucas por dar-se a conhecer sua procedência ― começou a dizer Polet. ― Mas você… ― Esse título é maldito para mim ― resmungou apertando os punhos e deixando que suas lágrimas banhassem o rosto. ― É lady Kingleton, Anaís ― a acalmou Federith. ― E a futura senhora Cooper… ― disse em voz baixa lhe segurando a mão. Embora o senhor Lawford lhe tenha mostrado a documentação que a nomeava possuidora de todos os bens do senhor Polet, que resultaram ser mais elevados do que esperavam, ela seguia incrédula. Não era consciente de que podia ordenar ao serviço que lhe preparasse essa mesma noite uma habitação para descansar, ou que no dia seguinte recolhessem seus pertences do lar dos condes de Crowner. Anaís decidiu tomar sua nova situação com calma e decidiu retornar a Longher para falar em pessoa com Priscila sobre seu novo futuro. É óbvio, Federith se encarregou de levá-la sã e salva até a residência. Não só para velar por sua segurança, mas também para desfrutar de um tempo a sós com ela. No trajeto lhe falou do acontecido na festa e soltou uma gargalhada ao lhe descrever os rostos que mostravam seus convidados quando se desculpavam ao


partir. Anaís o escutou atenta, segurando sua mão enquanto apoiava a cabeça em seu peito. De vez em quando, Federith percebia que respirava tranquila, como se ao permanecer ao seu lado se sentisse tão protegida que se abstraíra de tudo o que a rodeava. Como quando era uma menina… Cooper recordou as incontáveis batalhas às quais enfrentou com Anaís. Nunca prestava atenção porque sabia que ele o faria por ela. Sempre tinha que estar afastando-a das fossas do caminho, salvando-a dos imprudentes cocheiros ou inclusive de coisas tão inexplicáveis como a aparição de uma pedra no céu que se dirigia para ela. Aquele impacto foi bastante doloroso para Federith, embora teria sido maior se a houvesse tocado. ― Milorde, tem visita ― lhe disse o cocheiro quando abriu a porta ao chegar em Hemilton. ― A estas horas? ― Surpreendeu-se Federith. Desconcertado, olhou o relógio e observou que eram quatro da madrugada. Saiu do interior com rapidez, caminhou para a carruagem que havia em seu jardim e ficou petrificado. O que faziam ali? Veloz, subiu as escadas e antes de poder tocar a porta, seu mordomo lhe abriu. ― Milorde tem… ― tentou dizer eliminando o temor e a surpresa que mostrava todo seu corpo. ― Onde? ― Perguntou Federith tirando a capa. ― No salão de baile, milorde. Estão procurando alguma prova… ― Alguma prova? – Cooper arqueou a sobrancelha e olhou ao criado sem pestanejar. ― Boa noite, lorde Cooper. Alegro-me de que por fim tenha retornado ― comentou uma voz desconhecida para ele. ― Quem é você? ― Perguntou Federith caminhando para o desconhecido.


― Sou o inspetor O'Brian. ― Manteve-se em frente a Cooper sem piscar nem estender a mão como devia fazer um cavalheiro quando se encontrava em frente a outro, mas o agente não se apoiava em absurdos protocolos, conforme apreciou Federith. ― O que busca em meu lar, senhor O'Brian? ― Perguntou sem amedrontar-se ante um homem tão célebre. ― De onde vem, lorde Cooper? ― Investigou o agente.

― De visitar um conhecido ― respondeu cortante. ― Está acostumado a visitar pessoas conhecidas a estas horas? ― Indagou mordaz o inspetor. ― Poderia lhe perguntar o mesmo, inspetor. O que faz você em meu lar às quatro da madrugada e mostrando uma atitude tão insolente para com minha pessoa? ― Solicitou zangado. ― Vim para que me acompanhe amavelmente à Whitehall Place ― respondeu o homem colocando as mãos nos bolsos de seu casaco escuro. ― Por que vou acompanha-lo à Scotland Yard, inspetor? ― Porque você é o único suspeito da morte de sua esposa sentenciou. ― Caroline? Está morta? ― Perguntou sem respirar Federith. Não podia ser certo, aquele homem mentia. Caroline estava em seu dormitório descansando. Ali a tinha deixado antes de partir e ali devia estar. Aquele homem o enganava. Desejava levá-lo à delegacia de polícia por outra razão. ― Isso é o que vamos averiguar, lorde Cooper. Por que uma mulher tão


encantadora como sua esposa terminou asfixiada e lançada ao Tâmisa. Com o frio que faz neste tempo… não é, cavalheiro? ― Disse com um tom tão pérfido que Federith não pôde evitar olhá-lo com os olhos injetados em sangue. XXX Pensou que batiam na porta, mas não podia ser certo. A essa hora ninguém do serviço permanecia acordado e tampouco costumavam interromper seu sono. William se girou para Beatrice sonolento, colocou sua mão sobre seu ventre e o acariciou por cima da camisola. Estava tranquilo. Aquele pequeno ser que crescia no corpo de sua esposa permanecia imóvel para não inquietar sua mãe. ― Assim é que é ― sussurrou William orgulhoso ao compreender que todos os que rodeavam Beatrice cuidavam dela. Não havia momento do dia que não agradecesse por a ter encontrado, se apaixonado por ela e que ela o tivesse aceito apesar de ser a metade do homem que uma vez foi. Rutland fechou os olhos, inspirou o perfume de sua esposa e sorriu ao recordála de novo no Hyde Park com aquele vestido amarelo coberto de barro e chorando por ter imaginado que o falecido tinha sido ele. Nunca pensou que uma imagem tão triste lhe encheria de tanto amor e tal foi assim, apesar de serem observados por mais de uma dezena de cavalheiros, beijou-a com aquela paixão que despertava a cada minuto, cada segundo do tempo que ela permanecia ao seu lado. Beatrice tinha se convertido em tudo o que necessitava para viver e a chegada de seus filhos era a razão de sua felicidade. «Não mudaria nada, porque se o fizesse não te teria encontrado», as palavras retumbaram em sua cabeça com força. Ela as empregou para lhe confessar que a amante que decidiu contratar em Haddon Hall foi ela. Naquele momento, William se sentiu um vilão, um monstro, ao recordar que, enquanto ela consolava com estupidez sua necessidade sexual, seus pensamentos se centravam numa mulher, a única que o tinha transformado no que era… Esteve a ponto de beijar o cabelo de sua esposa quando escutou que golpeavam com suavidade a porta. Não tinha sido um sonho, mas sim certamente lhe requeriam. Devagar deslizouse pelo lençol até pôr os pés no chão, pegou a bata de seda negra e a jogou por cima. Primeiro colocou a mão que não obedecia nenhuma ordem e logo… a


sensata, como assim a denominava. Caminhou com lentidão, mas o peso de seu corpo provocou que algumas madeiras rangessem. Olhou de esguelha à sua esposa, por sorte não a tinha despertado. Tinha que descansar. Precisava estar forte para o momento do parto que, para sua alegria e medo, seria logo. ― Milorde? ― Perguntou uma voz atrás da porta. William a abriu lentamente e ficou pasmado ao ver o espanto que mostrava o ancião senhor Stone. Vestia-se com uma camisola comprida, não tinha posto os óculos e talvez por isso contemplava melhor a expressão alterada de seu rosto. ― O que acontece? ― Inquiriu Rutland fechando atrás de si a porta. ― Uma tragédia, excelência! ― Exclamou Brandon em voz baixa. ― Veio um criado de lorde Cooper. ― A estas horas? ― Entreabriu os olhos e os cravou no homem que não parava de tremer por frio ou por medo. ― Para que veio? ― OH, milorde! ― Voltou a dizer o ancião atemorizado ―. O senhor Cooper foi preso! ― Preso! ― Bramou William. ― Quando? Porquê? ― O criado só me disse que um inspetor chamado O’Brian levou seu senhor até a Scotland Yard porque pensam… ― era a primeira vez na vida que Brandon se encontrava numa situação semelhante. Não podia nem pensar pela tristeza e o pavor que sentia. Notava como lhe tremiam as pernas e como a sua velha mão resultava impossível sustentar a lamparina sem movêla. Era uma catástrofe! ― O que pensam…? ― Insistiu Rutland. ― Pensam que matou sua esposa ― esclareceu o criado atônito. Com a rapidez que lhe proporcionou a ajuda do senhor Stone, William se preparou para sair. Sua carruagem o esperava e percebeu que o cocheiro mostrava a mesma expressão que seu mordomo. Todos estavam consternados


pela notícia da morte de Caroline, mas ao mesmo tempo assustados ao imaginar que Federith estivesse envolvido. Mas ele tinha certeza de que Cooper não tinha sido, algo em seu interior lhe gritava que era inocente e que devia demonstrá-lo o mais cedo possível. Não deixou de pensar na festa e na briga que sofreram quando Roger tentou estrangular a quem fora pretendente de sua esposa. Quando tudo passou, Federith lhe confessou que Caroline lhe daria o divórcio a bem ou a mal. Entretanto, Rutland sabia que isso era somente a expressão de um homem zangado. Seu amigo era incapaz de realizar um ato tão desatinado. Mas… e outros? E esse agente que o capturou? Por que tinham deduzido que era ele o assassino? Teria ocorrido algo depois que Roger e ele partiram? Fosse o motivo que fosse, tinha que averiguá-lo, precisava saber o que aconteceu uma vez que abandonaram a festa, mas primeiro requeria da ajuda de Riderland, ele conheceria esse inspetor e entre os dois poderiam fazê-lo entrar em razão. Com passo firme subiu as escadas que o dirigiam à casa de Roger, tocou a porta até que lhe recebeu Anderson. ― Sua excelência? ― Perguntou o mordomo assombrado. ― Chame agora mesmo o marquês! ― Ordenou o duque dando um passo para o interior da casa. Sem dizer nenhuma palavra, o servente se apressou a obedecer o mandato. Subiu as escadas enquanto William caminhava de um lado ao outro meditando como poderia ajudar seu amigo. Assim que escutou os passos de Roger, olhou-o desesperado. ― Vista-se! ― Gritou-lhe. ― Temos que ir a Londres assim que possível. ― O que acontece? ― Respondeu Roger com os olhos totalmente abertos. ― Por acaso aquele descarado do Wyman…? ― Não se trata do Wyman mas sim de Federith ― explicou rapidamente. ― Federith? ― Inquiriu o marquês atônito. ― Encontraram Caroline morta e acreditam que foi ele quem a matou ― comentou Rutland apertando a mandíbula.


― Impossível! ― Gritou Roger estupefato. ― Onde está Federith neste momento? ― Perguntou entreabrindo os olhos. ― Na Scotland Yard. ― Que diabos faz ele ali? ― Cuspiu. ― Um tal O’Brian o levou… ― O’Brian?! ― Bramou Roger. ― Sabia que o conhecia! ― Exclamou aliviado. ― Esse não era o que… ― tentou dizer. ― Sim, o mesmo… ― resmungou o marquês enquanto se girava para retornar à sua habitação. ― Espere um momento, Rutland, vou arrumar-me antes de me apresentar ante esse inepto ― indicou enquanto subia as escadas de três em três. ― Mas não poderemos aceder a… ― insinuou William. ― Entraremos onde quiser. E se alguém se atrever a me impedir de chegar até onde se encontra retido Federith, terão que procurar um médico ― sentenciou. William ficou observando seu amigo até que desapareceu. Enquanto esperava sua volta, não parava de pensar numa

maneira de salvar Federith. Estava seguro de que ele não tinha assassinado Caroline, mas tampouco tinha ideia do nome do possível criminoso. Quem teria tido tanta maldade para tirar a vida de uma mulher tão jovem? Que plano estaria tramando a mulher para terminar dessa maneira? ― Preparado? ― Perguntou Roger vestido somente umas calças e uma camisa branca. ― Sim ― afirmou o duque ao mesmo tempo que caminhava para a porta.


Federith voltou a colocar as mãos sobre seu rosto. Não só se encontrava confuso, mas também zangado. Sua ira não tinha nada a ver por encontrar-se numa das salas da Scotland Yard sendo interrogado por aquele que lhe tentava condenar por algo que não tinha feito, mas sim porque se sentia culpado de não a ter protegido. Onde partiu e com quem? Não lhe cabia dúvida de que ela foi em busca de alguém, talvez da pessoa que amava, mas… quem seria ele? ― Pode me repetir outra vez onde esteve durante as últimas quatro horas? ― Perguntou O’Brian. O inspetor tirou a jaqueta, arregaçou as mangas da camisa e apoiava as palmas de suas mãos sobre a mesa enquanto cravava seus olhos escuros no rosto de Cooper. ― Estive numa reunião ― respondeu de novo Federith. ― Quatro horas? Quer me fazer acreditar que manteve uma reunião secreta durante tanto tempo? ― Assinalou o agente incrédulo. ― Tínhamos muitos temas pendentes… ― contou elevando seu rosto para o homem. Federith tinha certeza de que teria utilizado todos os métodos que tivesse ao seu alcance para lhe fazer confessar algo que não tinha feito, se ele não tivesse deixado claro que era advogado e conhecia seus direitos. ― E entre esses temas pendentes se encontrava matar a sua esposa? ― Perguntou elevando a voz e golpeando a mesa. ― Não vou revelar onde me encontrava nem com quem, minha palavra tem que lhe bastar ― apontou zangado. ― Sabe quantos criminosos insistiram em que confiasse em sua asquerosa palavra, lorde Cooper? ― Falou elevando a voz. O’Brian rodeou a mesa e se colocou em frente ao homem, agarrou com força o respaldo da cadeira onde permanecia sentado e o afastou bruscamente da mesa. ― Sou inocente ― bramou Federith lhe dirigindo um olhar desafiante. ― Por minha honra como cavalheiro não posso lhe revelar onde estive e quais foram as pessoas com quem mantive essa reunião, mas insisto em que sou inocente. ― Não entende minhas perguntas, senhor Cooper? ―


Perseverou sem escutar a declaração de seu detido. ― Onde esteve as últimas quatro horas? ― Trovejou zangado. ― Estava com sua esposa? Enganou-a para assassiná-la? Foram suas mãos as que pressionaram a pequena garganta até falecer? Como você pôde lançá-la ao Tâmisa sozinho? Por que imaginou que se arrojava seu corpo ao rio não a encontraríamos? Responda de uma vez! ― Bramou. ― Não fui eu! ― Exclamou Federith ao mesmo tempo que se levantava do assento e se enfrentava cara a cara com o inspetor. ― E… quem acredita que pôde ser, senhor Cooper? ― Inquiriu desenhando um pequeno sorriso em seu rosto pela satisfação que sentiu ao ver que por fim o homem lhe enfrentava. Só podia retê-lo por dois dias, mas se o alterasse e o agredisse, o tempo podia alargar uma semana e seria suficiente para descobrir como e por que tinha matado sua esposa. Precisamente no momento que Federith se dispunha a dizer que não sabia, a porta daquela habitação que cheirava a umidade e a podridão se abriu com força. Cooper ficou petrificado ao contemplar umas figuras que conhecia perfeitamente, as de seus dois amigos. ― O que fazem aqui? ― Gritou o agente com uma mescla de surpresa e aborrecimento. ― Boa noite, inspetor ― falou Roger dando um passo para o interior. ― Me alegro de vê-lo de novo… ― resmungou. ― Saíam! ― Bramou atônito. ― Isto não é de sua incumbência! ― Com passos largos e acelerados, o inspetor se aproximou deles. Sua cara se avermelhou pela ira e seus punhos se converteram em duas bolas de aço. ― Seu agente ― começou a dizer William ― acompanhou-nos amavelmente até você para mantermos uma conversa. ― Conversa? ― Uivou O’Brian. ― Vocês não deveriam estar aqui! Por acaso


não se deram conta de que isto é uma delegacia de polícia e não um clube de cavalheiros? ― Vociferou com raiva. ― Meu querido O’Brian, ― interveio Roger com um sorriso de orelha a orelha ― somos lordes não imbecis. Entristece-me escutar que um homem como você não saiba diferenciar dois conceitos tão diferentes… ― Por que o mantém retido? ― Repreendeu William caminhado para seu amigo. ― Estão surdos? Partam daqui se não quiserem que os acuse de desacato? ― Desacato… ― murmurou Riderland tocando o queixo. ― Uma palavra muito aguda para um homem que, até há uns anos, destruía sua vida agarrado a uma garrafa e choramingava entre os braços da senhora Johnson ― acrescentou mordaz. ― Sou inocente! ― Gritou Federith. ― Este agente pensa que matei Caroline ― explicou. ― Todos os criminosos o são! ― Disse O’Brian olhando-o com raiva. ― Se lorde Cooper afirma que é inocente, não duvido de sua palavra ― sentenciou Rutland. ― É óbvio… ― resmungou o inspetor entreabrindo os olhos. ― Mas você não é um maldito juiz para sentenciar sua inocência nem sua culpa. ― Onde esteve? ― Perguntou o duque evitando o sarcasmo do inspetor. ― Juro-te que eu não a matei ― afirmou Cooper com solenidade. ― Acredito, mas deve nos dizer onde esteve. Esqueça de uma vez por todas essa venerabilidade que te caracteriza e pensa com claridade. Se, como me explicou, deseja começar uma nova vida faça todo o possível para que se cumpra – sugeriu-lhe pondo a mão sobre o ombro de seu amigo para reconfortá-lo.


― O senhor Cooper manteve uma reunião secreta durante quatro horas ― apontou O’Brian de maneira aguda. ― Com ela? ― Perguntou William olhando seu amigo sem piscar. Temia que essa fosse a razão pela qual não tinha declarado onde tinha permanecido. Federith não confessava quem era ela para protegê-la. ― Sim… ― afirmou abaixando a cabeça. ― Mas não estivemos sozinhos ― esclareceu ao mesmo tempo que tomava assento. ― Continua ― respirou o duque. O’Brian não podia dar crédito ao que via. Tinha permanecido com o detido mais de duas horas e não tinha obtido nenhuma palavra. Entretanto, após aparecer aqueles cavalheiros, parecia que a língua do seu prisioneiro tinha crescido. Na expectativa, cruzou os braços e escutou. ― Não deveria tê-lo preso ― lhe sussurrou Roger. ― Continua a ser um inepto… ― Volta a falar, Riderland, e te encerrarei no calabouço até que esqueça a sua esposa ― manifestou com firmeza. ― Tenta-o e te recordarei como saiu a última vez do bordel… declarou zombador. ― Já não tenho vinte anos, marquês… ― adicionou O’Brian. ― Nem eu sou tão piedoso… ― afirmou Roger. ― Quem mais estava contigo? ― Insistiu Rutland sem escutar os cochichos do inspetor com Riderland. ― Como te contei, queria me divorciar de Caroline para lhe pedir matrimónio, mas antes que me aceitasse decidi restabelecer sua posição na sociedade ― comentou Cooper com tristeza. ― Falei com o senhor Polet, o dono da residência em que viveram os condes. Tinha a intenção de adquirir a propriedade, entretanto, não precisei compra-la. O senhor Polet a legará quando


falecer. ― Por que motivo? ― Interveio Roger. ― Isso não posso explicar porque só concerne a ele. ― Está bem… então, não estava sozinho? ― Assinalou William. ― Não. O senhor Polet e o senhor Lawford podem confirmar minha versão ― acrescentou. ― O que fez depois da reunião? ― Continuou falando o duque. ― Levei-a a Longher e retornei para casa. ― A condessa viúva de Crowner pode corroborar suas palavras? ― Interveio O’Brian que, até esse momento, tentou manter-se em segundo lugar. ― A condessa não, mas o senhor Spencer sim, pode ratificar minha declaração. Falei com ele sobre o futuro dela ― esclareceu Federith com pesar. Não queria envolver ninguém e muito menos Anaís, mas conforme percebia, não ficava outra alternativa. ― Enviarei um agente a Fetherwall e outro a Longher para verificar seu testemunho ― comentou O’Brian com aspereza. ― Mas até que não o confirmem terá que permanecer na Scotland Yard. Odiava os aristocratas. Odiava-os profundamente. Pensavam que estavam acima da lei e aquela situação confirmava sua crença. Até o momento no qual o duque e o marquês se apresentaram, o detido não havia


dito nenhuma palavra, entretanto ao vê-los parecia que tinha recuperado a memória e a vontade de conversar. «Malditos petulantes!», pensou. ― Durante quanto tempo? ― Perguntou William. ― Dois dias ― respondeu O’Brian enquanto lhes

acompanhava para a porta. ― E se nós descobrirmos quem a assassinou? ― Interveio Roger. ― Tem algo interessante para me confessar, Riderland? ― Perguntou O’Brian entreabrindo os olhos. ― Poderia ser… ― refletiu o marquês. ― O que tem pensado fazer nas próximas horas, inspetor? ― Muito temo que lhe seguir… ― resmungou o agente. ― Não quer apanhar o verdadeiro criminoso e libertar um inocente? ― Acrescentou divertido. ― Se zombar de mim… te juro por Deus que ocupará o assento de seu amigo ― lhe ameaçou. ― Quer encerrar-se num quarto escuro e úmido comigo? ― Perguntou brincalhão ao mesmo tempo que arqueava as sobrancelhas. ― Recorde como… ― Roger… por favor ― rogou Rutland. ― Está seguro de que ele é o assassino de lady Cooper? ― Perguntou ao Roger enquanto subiam as escadas até chegar ao escritório da delegacia de polícia. ― Estou seguro de que foi esse canalha ― afirmou cortante. ― Pois tentemos averiguar onde permaneceu o visconde de Gremont depois de


partir da residência Hemilton ― disse mordaz o duque. ― OH, sim! ― Exclamou Roger entrecerrando os olhos. ― Façam com que esse rato nos deleite com seu belo cantar. ― Devo perguntar como supõem que o visconde de Gremont é o autor da morte da senhora Cooper? ― Perguntou O’Brian olhando a ambos os cavalheiros. ― Porque era seu amante ― declarou Rutland. Devagar para não despertá-la, Eric se deslizou pela cama até que pôde pôr os pés no chão. Embora lhe tinha rogado que não a abandonasse depois de adormecer, ainda não suportava passar a noite inteira ao seu lado. Adorava desfrutar de um sono plácido, tranquilo e sem ninguém que pudesse assaltá-lo no meio da noite com palavras tontas ou sussurros absurdos. Colocou a bata de cetim vermelho e caminhou devagar pela habitação até chegar à penteadeira de April. Tinha o cabelo alvoroçado devido ao detestável desejo de sua esposa em acariciálo enquanto a fornicava, e o típico olhar cansado que mostrava depois do esforço. Nunca imaginou que sua esposa fosse a mulher mais insaciável que tinha tido até o momento. Comportava-se, para seu prazer, melhor que qualquer rameira experimentada do bordel da senhora Johnson. A olhou de esguelha e sorriu. A sorte estava ao seu lado e a apresentava, numa bandeja de ouro, tudo aquilo que tinha sonhado no passado, uma mulher completamente entregue a ele, fortuna, posição e poder. Por acaso havia algo que não pudesse alcançar? Voltou o olhar para o espelho e entreabriu os olhos. Aproximou-se um pouco mais e observou um alargado e fino arranhão. «Bastarda filha da puta!», grunhiu zangado. Quando tinha cortado sua delicada pele? Ofuscado, girou-se para a cama e esteve a ponto de despertá-la para castigála por ter ousado marcá-lo, quando ficou parado. «Não foi ela!», deduziu ao perceber que as unhas de sua esposa estavam perfeitamente cortadas. Agarrou-se ao dossel de madeira, pousou a testa nele e fechou os olhos tentando averiguar


em que momento Caroline o tinha arranhado. ― Encontra-se bem? ― Perguntou entre sussurros April. Afastou o lençol e caminhou como uma felina pela cama até aproximar-se de seu marido. ― Sim ― respondeu esticando sua mão direita até que alcançou a bochecha da mulher e a acariciou com ternura. ― Só estou cansado por… ― abaixou a cabeça, aproximou sua boca ao ouvido da mulher e lhe sussurrou ― por foder-te, querida. Eric sorriu ao descobrir que os mamilos de sua esposa voltavam a ficar duros por debaixo da camisola. ― É insaciável… ― murmurou colocando a mão no decote para tocálos. ― Mas deve me deixar descansar um pouco. Prometo-te que quando retornar te farei gritar de novo ― declarou enquanto apertava o mamilo direito com tanta força que April se ruborizou. ― Me esperará? ― Perguntou aproximando sua boca da dela. ― Sim… ― gemeu ela. ― Muito bem… ― Poderia? ― Tentou dizer a mulher. ― Poderia? ― Repetiu Eric pressionando com mais força. ― Poderia desfrutar do presente que te trouxe meu pai esta manhã ― assinalou. ― Seu pai me fez um presente? ― Afastou-se dela e arqueou as sobrancelhas. ― A que vem esse assombro? ― Perguntou April voltando para a cama. ― Aceitou seu acordo e lhe confessei que agora visita meu leito para me satisfazer. É lógico que queira te


recompensar com um muito caro e delicioso Bourbon. ― Como pode ser tão descarada? ― Inquiriu Eric divertido ao saber que seu querido sogro era consciente de tudo o que ocorria em sua casa e que April o explicasse. Falar-lhe-ia de como se arrastava pelo chão como uma cadela? Iria lhe comentar como fodia sua boca? Não, é óbvio que isso guardaria para ela. ― Não quer que seja sincera com meu pai? ― Espero que não lhe fale de certos atos que… ― Nem me ocorreria! ― Exclamou ruborizada. ― Como se atreve a pensar que eu…? ― Balbuciou horrorizada pela vergonha. ― Não lhe impediria disso… ― lhe disse enquanto se dirigia para a porta. ― Assim descobriria que não só possuo a sua filha, mas sim dominarei tudo o que um dia foi seu ― declarou antes de fechar. Assim que se separou do olhar de April levou a mão para a ferida. Não era muito profunda e se utilizasse lenço em vez de gravata, ocultaria a marca até que sarasse. Depressa, desceu as escadas e caminhou para a biblioteca. Como um menino na manhã de Natal, procurou na licoreira a garrafa que lhe tinha dado Norman. Quando a encontrou, agarrou-a e soltou uma sonora gargalhada ao ver a etiqueta. Sem dúvida alguma o ancião tinha bom gosto e aquele Bourbon era bastante cobiçado em Londres. «Bebida de reis…», murmurou enquanto se servia uma taça. Como um provador perito, levou o copo ao nariz, cheirou-o muito devagar, deu um pequeno sorvo e, quando suas pupilas gustativas detectaram o sabor, aproximou a taça de seus lábios e a bebeu de um gole. ― Magnífico! ― Exclamou enquanto voltava a encher seu copo. Caminhou com lentidão para a poltrona, tomou assento e enquanto admirava a cor do licor tentou averiguar em que momento Caroline o tinha ferido. Só esperava que aquela ferida se cicatrizasse o mais cedo possível sem deixar nenhuma marca na pele porque se assim fosse, resultar-lhe-ia muito desesperador contemplá-la e lembrar-se dela. Tudo tinha terminado… sim, para ele a jovem Caroline Cooper se eliminou


de sua memória. ― Quem era? ― Começou a falar como se alguém permanecesse ao seu lado lhe falando da inesperada morte da moça. ― OH, que tragédia! Convidou à sua festa, mas não a conhecia. Claro está, não tivemos mais remédio que assistir… ― falou com desdém. ― Morta? Como? Quem a assassinou? Pobre filho! Foi o senhor Cooper? Que Deus seja misericordioso! E depois de tanto palavreado, Eric soltou outra enorme gargalhada. Sim, esse seria o final do honorável e virtuoso lorde Cooper. Enquanto ele gozaria da vida que sempre desejou, aquele nobre e digno cavalheiro que fazia sombra a todos aqueles que não eram capazes de ser tão respeitáveis como um maldito e indigno barão, morreria no cárcere pelo assassinato de sua querida Caroline. Entusiasmado e sentindo como a felicidade percorria suas veias até o ponto de querer gritar, bebeu o uísque. ― Um pouco mais! ― Exclamou após estalar a língua. Levantou-se e, uma vez que esteve em frente à bebida, decidiu leva-la com ele. Em pouco tempo não teria que conter-se para adquirir tudo aquilo que ansiasse. Fosse o que fosse, consegui-lo-ia na quantidade que desejasse sem se importar


nem por quanto nem como o adquiriria. Estava a ponto de gargalhar de novo quando tocaram à porta. Eric ficou calado durante uns segundos pensando que seu próprio escândalo e a ingestão do licor lhe estavam provocando alucinações, mas não, alguém permanecia atrás da porta esperando que o convidasse a passar. ― Milorde… ― disse o mordomo fazendo uma leve reverência. ― O que faz ainda aqui? ― Soltou irado Eric. ― Não te disse para sair? ― Milorde… tenho que insistir que… ― tentou falar o criado. ― Não pretenderá me chantagear, não é, bastardo? – Bramou. ― Não tem suficiente com a bolsa que te dei? Quer mais? ― Milorde, por favor… necessito… ― Não necessita de nada, imbecil! ― Uivou. Tomou o que se serviu e caminhou com os olhos injetados em sangue para o lacaio. ― Quer ter a mesma sorte? – Cuspiu. ― Porque estas mãos… ― as mostrou ― têm a suficiente força para deixar a ti também sem ar ― declarou apertando os dentes. ― Conforme dizem, os homens se asfixiam com mais facilidade que as mulheres e não me importaria… ― Suas mãos também têm a força suficiente para jogá-lo no Tâmisa? ― Disse Roger entrando na habitação com tanta rapidez que o visconde não teve tempo de lhe fazer frente. Quando quis dar-se conta, as grandes palmas do marquês pressionavam sua própria garganta. ― O… o… milorde… ― balbuciou o mordomo atônito. ― Isto é o que procurava, O’Brian? ― Gritou Riderland sem soltar do pescoço de Eric. ― Muito temo que não sei a que se refere, excelência ― comentou O’Brian com o mesmo sarcasmo que tinha utilizado o marquês. ― Só vejo um maldito rato que deve ser aniquilado antes que propague a peste por


toda Londres. Não lhe parece? ― Por uma vez, meu querido inspetor, estamos de acordo comentou Roger baixando lentamente o visconde. ― Acreditou que ninguém te encontraria? ― Resmungou. ― Do que me acusa? ― Perguntou pálido ao agente. ― Não disse nada e vocês não comentaram nada. Só… William, que até o momento tinha permanecido na porta falando com o tremente criado lhe indicando o que devia fazer antes de confessar na delegacia de polícia, ficou rígido e caminhou com solenidade para o visconde. Roger se afastou ao ver que seu amigo se aproximava do cretino e desenhou um enorme sorriso ao ver como a atitude poderosa de William não tinha diminuído nem um ápice apesar de manter seu braço unido à sua jaqueta por uma larga tira. A cor escura de seus olhos, a pressão da mandíbula, a mão fechada com força no punho da bengala e o som de seus sapatos tocando o chão causou que todos os presentes assegurassem que o duque de Rutland continuava sendo uma pessoa solene e temível. ― Vou velar para que cada ano, cada mês, cada semana, cada dia e cada hora que fique de vida apodreça no buraco no qual pretendeu colocar um homem inocente. – Ameaçou. ― Espero que Deus seja suficientemente justo para que os filhos dos meus filhos prossigam com meu legado. ― Sou inocente de tudo o que me queira acusar! ― Clamou Eric aproximandose indevidamente do duque. ― Dá um passo a mais e mato-o aqui mesmo ― rugiu Roger. Quando tentou avançar, O’Brian o impediu. ― Deixem de uma vez por todas que a justiça se ocupe disto falou aproximando-se do visconde. ― Senhor Graves… ― Lorde Gremont! ― Corrigiu-lhe Eric zangado. Jogou vários passos para trás e agarrou a garrafa que tinha estado esvaziando até a aparição daqueles que o


olhavam como se considerasse usá-la como uma arma e atacá-los. A levou aos lábios e bebeu o resto do licor. ― Lorde Gremont, indicarei a um criado que o assista antes de partir para Scotland Yard. Não tenho que lhe explicar do que lhe acuso, não é? ― Fixou seus verdes olhos sobre o visconde. Ao negar com a cabeça, O’Brian sorriu. ― Cavalheiros… ― se dirigiu a William e Roger ― o deixemos um pouco de intimidade. Os três caminharam até o hall sem afastar as pupilas do que acontecia ao seu redor. Os criados se moviam inquietos pela casa, murmuravam e passavam por ali sem subir o olhar. De repente, uma mulher em camisola e com o cabelo solto desceu apressada pelas escadas. ― Eric! Eric! O que acontece? ― Gritava assustada. ― Onde está? O’Brian correu para ela e indevidamente lhe agarrou pela cintura para que não alcançasse a porta onde o visconde se vestia. ― Desculpe minha ousadia, senhora. Você não pode falar neste momento com seu marido porque tem que ser julgado… ― Julgado? ― Soltou surpreendida. Voltou-se para o agente que, estranhamente, não tinha afastado suas mãos da cintura da mulher. ― Seu marido será julgado por assassinato ― soltou a queima-roupa. ― Assassinato? Mentira! Eric não é capaz de matar a ninguém! ― Bramou enfrentando o agente. ― Senhora, por favor… ― insistiu O’Brian suportando em seu peito os golpes dos punhos de April. ― A quem? A quem se supõe que matou meu marido? ―


Insistiu vociferando. ― A lady Cooper ― informou o inspetor. Quando April escutou o nome da amante de seu marido afrouxou os golpes e sentiu como não só perdia a força de suas mãos, mas também de suas pernas. ― Lady Gremont! ― Exclamou O’Brian agarrando-a com rapidez entre seus braços. ― Podem me ajudar? ― Disse a William e a Roger que permaneciam imóveis na entrada. ― Sinto muito... se minha esposa descobrir que tive outra mulher em meus braços logo a terá em sua delegacia de polícia… disse divertido o marquês. ― Eu adoraria o ajudar, inspetor, mas como comprovou só tenho uma mão obediente ― falou William com um tom tão sério que não mostrou em suas palavras o sarcasmo que tentou expressar. ― Senhor! O que se passa? Milorde! Me responda! ― Disse o criado que tinha entrado no quarto para atender ao visconde. ― Me ajudem! ― Pediu. Tanto Roger como William correram para averiguar o que acontecia. Depois de abrir a porta encontraram o visconde atirado no chão meio vestido e o servente lhe agarrando a cabeça. ― Começou… toda essa espuma… ― tentou dizer o lacaio assustado. Quando Roger se colocou ao lado de Eric para averiguar o que lhe acontecia, o corpo do visconde começou a sacudir-se de maneira espasmódica. Por sua boca brotava uma espuma branca que não tinha fim e os olhos se moviam descontroladamente. ― O que lhe deu? ― Bramou Riderland ao criado. ― Nada, excelência, juro. Não me deixou vesti-lo até que tomou todo o licor dessa garrafa ― lhe assinalou o lacaio com a mão tremendo.


― De onde saiu essa garrafa? ― Perguntou o duque entreabrindo os olhos nela. ― Foi presente do senhor Campbell, o pai da senhora… confessou. Roger se levantou e olhou William. Ambos tinham claro o que tinha acontecido, mas… seria justo não dizer a verdade? Estariam condenados se não revelassem o que tinha feito o ancião para salvar a sua filha? ― O que ocorreu? ― Trovejou O’Brian entrando na habitação depois de ter deixado a esposa do visconde em seu quarto. ― Por isso pude comprovar, inspetor, esse bastardo não tinha dúvida de que lhe culparia da morte de lady Cooper e tramou também a sua ― comentou Rutland. ― Maldita aristocracia! ― Bramou O’Brian olhando com repulsão o corpo sem vida do visconde. ― Não têm o valor suficiente para enfrentar suas ações. ― Tomarei como um elogio ― apontou Roger. ― Quando o liberará? ― Perguntou William preocupado por Federith estar a confrontar a incerteza de não saber o que lhe ocorreria.

― A quem? ― Grunhiu o inspetor. ― Ao inocente que retém na Scotland Yard ― particularizou William sério. ― Assim que retornar à delegacia de polícia ― respondeu o agente. ― Pois se não se importa, estaremos encantados de o acompanhar ― disse Roger convidando-o a sair dali. ― Como pôde observar, há muitos perigos nesta cidade e nem o duque nem eu podemos permitir que lhe aconteça nada mau…


XXXI Anaís não podia parar de tremer. As lágrimas vagavam por seu rosto e esfregava as mãos tanto que terminaram avermelhando-se. Desde que o futuro conde de Crowner lhe informou do motivo pelo qual um agente da Scotland Yard tinha aparecido a horas inapropriadas em Longher, mal tinha podido comportar-se com normalidade. Não podia acreditar que alguém pudesse culpar a Federith pela morte de sua esposa e nem tampouco entendia a razão pela qual não tinha tentado pedir ajuda ao senhor Spencer ou a ela mesma, posto que, como indicou o agente, tinha confessado que a última pessoa que permaneceu com ele foi uma mulher. Por que não tinha dado seu nome? Não confiava nela? Pensaria que ante uma situação tão espantosa recusar-se-ia a defendê-lo? Anaís suspirou enquanto se reclinava na carruagem e olhou para a rua. Como podia pensar assim de Federith? Nada do que considerava era certo porque ela, melhor que ninguém, sabia que ele tinha atuado assim para protegê-la. Se não tinha dito a ninguém seu nome era para protege-la de toda a humilhação que padeceria quando o escândalo saísse à luz. Mas ela não ia se manter sentada olhando através da janela esperando que algum de seus amigos aparecesse em Fetherwall para informa-la de que Federith morria em uma prisão. Não! E se pensava fazer tal tolice estava muito equivocado! Podia viver suportando a pena de ter perdido sua mãe, sua avó e podia repetir todas as vivências que padeceu junto ao seu pai quando não tinham nada que levar à boca, e inclusive passaria de novo pelo terror que a invadiu quando pensou que a entregaria como prostituta em qualquer bordel, mas jamais poderia superar a pena de perdê-lo de novo… de novo não. Amava-o tanto que esteve a ponto de lhe dizer que evitasse a humilhação social que suporia seu divórcio e convertesse-a em sua amante. Entretanto, não a teria escutado… esse novo Federith que enfrentava o mundo com uma valentia impensável no moço que conheceu preferiria morrer a revelar o nome da mulher que podia lhe salvar. Mas ele não podia proibir que ela atuasse por decisão própria, nem que seu avô a respaldasse em tal determinação. Anaís olhou Simon de soslaio e sorriu. O pobre ancião se negou a ficar deitado na cama quando o informou que Federith estava retido porque o culpavam do assassinato de sua esposa, e que ela ia salválo embora tivesse que enfrentar todos os agentes da Scotland Yard.


― Amie! ― Gritou à criada. ― Diga ao filho da senhora Melt que suba ao meu quarto agora mesmo! ― Ordenou-lhe com uma energia imprópria de um moribundo. ― O que pretende fazer? ― perguntou-lhe com os olhos abertos como janelas. ― O que pretendo fazer? ― Repetiu Simon atônito. ― Devemos tirar esse cabeça dura dali! ― Exclamou com firmeza. ― Esse homem é mais teimoso do que imaginei. ― Não se zangue com ele. Acredito que a razão pela qual não revelou meu nome foi para me proteger… ― disse Anaís abaixando a cabeça para que seu avô não descobrisse o rubor de suas bochechas. ― Estou doente, menina, não cego… ― indicou o ancião apartando o lençol de seu corpo. ― Sei a razão pela qual lorde Cooper não pôs seu nome em seus lábios. ― Porquê? É tão evidente? ― Perguntou Anaís colocando-se ao lado do ancião para lhe ajudar. ― Sua mãe me comentou que desde menino já estava apaixonado por ti, mas que eram muito jovens para se darem conta e para atuar como adultos. ― Nunca pensei que mamãe estivesse tão atenta a mim… ― disse com tristeza. ― Ela velava por ti como podia, Anaís, e inclusive te protegeu quando se escapava com o jovem Cooper pela janela. ― Sabia e nunca se importou… ― comentou reflexiva. ― Ela não tinha nenhuma dúvida de que o futuro barão de Sheiton seria, algum dia, seu marido. Ela dizia que jamais brilharam duas estrelas na noite com tanta força para apagar a luz que seus olhos mostravam quando estavam juntos – confessou. ― E tinha razão porque, como pude apreciar pelo comportamento


desse cabeça dura, é incapaz de salvar-se se desse modo tiver que te prejudicar. ― Mas esse cabeça dura não pensou que já não sou a menina a que devia proteger de tudo o que a rodeava. Agora sou uma mulher e… ― E tem um avô que apoiará todas as loucuras que deseje fazer ― acrescentou o ancião divertido. ― Obrigada! ― Exclamou Anaís com lágrimas de emoção, abraçando ao ancião. ― Não me agradeça ainda, pequena. Primeiro vamos salvar esse distinto lorde e depois, quando tiver acalmado esse medo que te faz tremer, tomaremos uma taça junto ao fogo e aceitarei esse agradecimento ― explicou acariciando as costas de sua neta para reconfortá-la. E ali estava, sentado sobre travesseiros e coberto de mantas, o homem que a salvaria da pobreza e quem se esforçou em restabelecer sua posição na sociedade… seu avô… tinha um avô maravilhoso! E não lhe cabia a menor dúvida do motivo pelo que sua avó Claudine se apaixonou por ele. Era um homem muito diferente do que acreditou ser seu verdadeiro avô. Ali onde o barão de Rossei se comportava como um anti-social, arisco, déspota e frio, Simon era todo ternura e compreensão. O que teria sido de sua avó se não se casasse com o barão e tivesse aceito a proposta de Simon? Sua mãe ainda estaria viva? E ela? Teria nascido para conhecer o homem que amava? Não, não o teria visto jamais porque se teria alterado o destino… então seus avós tiveram que sacrificar seu romance para que ela obtivesse o seu… ― Nem te ocorra entrar sozinha nessa delegacia de polícia cheia de criminosos ― lhe advertiu o senhor Polet quando a carruagem se deteve. ― Deixe que Brad informe de nossa aparição. Se o tal inspetor O’Brian mandou um agente à minha casa, tem que compreender que agora seja eu quem requer sua presença. ― Mas… ― tentou dizer. ― Anaís, posso permitir que faça muitas coisas que as mulheres de sua posição não poderiam nem sonhar, mas te rogo que não entre aí ― suplicou lhe pegando a mão e apertando-a com força.


― Está bem, não me moverei daqui ― prometeu desenhando um sorriso. ― Senhor? ― Perguntou Brad ao abrir a porta. ― Pode entrar e procurar um inspetor que se chama O’Brian? ― Solicitou Simon. ― Diga que o senhor Polet está esperando-o no interior de seu veículo. Brad afirmou e, tal como lhe ordenou, fechou a porta antes de dirigir-se ao interior da delegacia de polícia. Enquanto isso, avô e neta permaneceram em silêncio com as mãos agarradas e rezando para que aquele homem não se negasse a apresentar-se ante eles. Quando escutaram passos, quando em meio do silêncio ouviram como alguém se aproximava do veículo, os dois contiveram o fôlego e fecharam os olhos. ― Anaís! ― Gritou Federith ao ver que ela se encontrava no interior com o senhor Polet. ― Fed… Federith ― exclamou ao mesmo tempo que saltava sobre ele. ― OH, Fed! Está livre! Está livre! ― Chiava eufórica enquanto Federith a fazia girar no meio da rua. ― Não deveria estar aqui, querida – sussurrou-lhe depois de fazer com que seus pés voltassem a tocar o chão. Apanhou seu rosto entre suas palmas e esteve a ponto de beijá-la, mas desistiu ao ver que não se encontravam sozinhos. ― William… ― disse aproximando-se do duque com Anaís pela mão. ― Esta é Anaís Price. ― Encantado em conhecê-la, senhorita Price, ― comentou o duque estendendo sua mão para a mulher ― ouvi falar muito de você. ― E eu de você, excelência ― indicou Anaís esticando sua mão para que o duque a beijasse ao mesmo tempo que fazia uma leve reverência. ― Já nos conhecemos… ― acrescentou Roger divertido. ― Lorde Riderland… ― saudou Anaís ao marquês com uma pequena reverência. ― Senhor Cooper… ― disse Simon depois de tossir tanto que parecia que tinha


um verdadeiro ataque de tosse. ― Senhor Polet ― falou Federith agarrando, sem dar-se conta, Anaís pela mão. ― Vejo que já não necessita da nossa ajuda… ― comentou sem afastar os olhos daquele gesto entre eles. ― Sim, senhor. Encontraram o homem que tirou a vida de minha esposa e me libertaram ― explicou apertando com força a mão de Anaís lhe mostrando, com aquela pressão, que a palavra esposa não teria o mesmo significado nem sentimento quando a convertesse na senhora Cooper. ― Felicito-o, ― disse o ancião em tom solene ― embora também tenho que lhe dar minhas mais sinceras condolências ― se corrigiu com rapidez. ― Obrigado, senhor ― respondeu entreabrindo os olhos e olhando com suspeita ao ancião. Intuía que ia dizer-lhe algo que não lhe agradaria. ― Temo-me que terá que descansar antes de preparar o funeral de sua esposa, não é? ― Sim, senhor ― afirmou após suspirar. ― E terá que manter o tempo de luto apropriado, certo? ― Sim, senhor ― voltou a assentir apertando os dentes. ― Bem, pois quando tiver passado esse período de luto, estarei esperando-o em Fetherwall se continuar interessado em pedir a mão da minha neta ― comentou com a solenidade própria de um homem da nobreza. ― Avô! ― Recriminou-lhe Anaís. ― Como pode…?


― Tem razão ― indicou Federith levando a mão até sua boca para beijála. Não posso levá-la comigo nisto, deve brilhar e desfrutar da vida que não teve até o momento. Quando terminar meu tempo de luto, irei a Fetherwall e te perguntarei se continua… Não terminou aquela solene exposição, Anaís se levantou para beijálo diante de todos aqueles que a acompanhariam em sua nova vida. ― Amo você, Federith Cooper, futuro barão de Sheiton, ― lhe sussurrou quando sua boca mal se afastou da do homem ― e amarei sempre porque meu coração pertence a você. Acredito que nunca foi meu… Os olhos de Federith brilharam pelas lágrimas, tentou as fazer desaparecer, mas não pôde evitar que se derramassem por sua face. Anaís pousou suas mãos trementes sobre o rosto que amava e as secou com os polegares. ― Amo-te, Anaís. Amo-te tanto que suportarei esses seis meses e todo o tempo que requeira até que venha viver ao meu lado. ― Porque um verdadeiro amor… ― começou a dizer Anaís aproximando seus lábios dos dele. ― Não desaparece com o passar do tempo… ― terminou Federith. E voltaram a beijar-se com tanta paixão que os braços de Cooper rodearam-lhe a cintura enquanto ela levantava aquele descarado pé. Anaís olhava através da janela de seu dormitório, tinha chegado por fim o dia no qual Federith entraria em Fetherwall e pediria ao seu avô permissão para casarse com ela. Nunca tinha passado uma noite tão inquieta pensando em como devia atuar. Por sorte, Simon não se apoiava em rígidos comportamentos protocolares e a deixava livre para atuar tal como desejava. Entretanto, encontrava-se desconcertada e assustada assim como uma jovenzinha em seu primeiro baile social. Como devia atuar? Teria que permanecer encerrada


em seu dormitório até que seu avô a mandasse chamar? Deixar-lhe-ia Simon escutar as palavras que utilizaria Federith para pedir sua mão? Levou as mãos ao coração e tentou sossegá-lo com respirações pausadas, mas… como se pode tranquilizar um coração quando é consciente de que seu dono logo aparecerá? Anaís inspirou fundo e rezou pela alma de sua mãe e de sua avó, as mulheres que deram sua vida para salvar a dela. «Mãe…», sussurrou enquanto uma lágrima brotava. Fechou os olhos e tentou recordá-la, mas justo nesse momento escutou como os criados começavam a correr pela casa. Fixou os olhos no exterior e sorriu ao descobrir que a carruagem de Federith estava perto da velha árvore. Em apenas cinco minutos ele estaria ali. Seu coração pulsou com força chamando seu dono. Suas mãos começaram a suar e notou como a emoção e a alegria lhe pressionavam o peito. Tinha chegado, o momento mais esperado de sua vida tinha chegado enfim. ― Senhorita Price… ― chamou a donzela quando entrou na habitação ― lorde Cooper acaba de chegar e seria conveniente que o recebesse vestida com um pouco mais de elegância, não crê? ― Não me importa recebê-lo em camisola! ― Exclamou Anaís correndo para a porta. ― Senhorita! ― Exclamou Amie atônita. ― Pelo amor de Deus não o receba desse modo! Mas Anaís não a escutou. Correu pelo corredor até que chegou ao patamar. Olhou para a entrada e observou como entregava o chapéu e a capa a Brad, convertido em mordomo quando este se aposentou. O peito de Anaís subia e descia pela excitação de têlo ali, de ser consciente da mudança que daria sua vida e de ter a certeza de que ainda seguia amando-a. Mesmo não podendo ver-se durante os meses de luto, ele estava ali… por ela. Quando Federith levantou o olhar e contemplou Anaís de camisola, com o cabelo solto e mostrando um rosto de surpresa ao vê-


lo, teve que respirar várias vezes para não subir as escadas e abraçála como tinha tido saudades durante os meses que permaneceu enclausurado em seu lar. Era certo que lhe tinha escrito todos os dias e enquanto narrava as façanhas do pequeno Eric, lhe falava de como reconstruía a casa em que tinha crescido e como a fortaleza de Simon aumentava inexplicavelmente. «É um milagre…», dizia o médico cada vez que o visitava. ― Milorde… ― rompeu o silêncio Brad ao ver que ambos ficaram tão petrificados ao ver-se, que não eram capazes de falar, de mover-se ou de afastar aquele olhar de cumplicidade. ― O senhor o espera na biblioteca. ― Obrigado… ― respondeu. Estava a ponto de dirigir-se para o salão quando percebeu que Anaís desejava descer. ― Pare, eu lhe suplico ― lhe disse. ― Se descer, Anaís, não estarei em condições de poder falar com seu avô. ― Sinto-o… ― disse divertida. ― Esperarei você aqui… Se meu avô te conceder minha mão, é claro ― comentou perversa. ― É claro ― repetiu Federith desenhando um imenso sorriso no rosto. Com passo firme e solene, Cooper caminhou para a biblioteca onde o esperava o senhor Polet. Ao chamar e ser aceito, abriu a porta. Uma vez que acedeu ao interior da reconstruída biblioteca, Federith descobriu com satisfação que o ancião permanecia sentado numa poltrona com um livro em suas mãos e mostrando um aspecto excelente. Atrás tinham ficado aquelas gordurentas mechas brancas. Agora usava um cabelo penteado, cortado e mal se observava a pele de sua cabeça. Tal como lhe tinha contado Anaís em suas cartas, o ancião tinha melhorado sua saúde milagrosamente. E, é óbvio, já não recebia as visitas em roupas de dormir, mas sim com um elegante traje escuro. Conforme podia apreciar, o costume do pijama já tinha passado do avô à neta…


― Senhor Polet ― disse estendendo a mão para o ancião. ― Me alegra observar que se encontra num estupendo estado de saúde. ― E me alegra vê-lo aparecer em nossa casa ― respondeu aceitando aquela amostra de afeto e saudação. ― Já lhe disse que jamais poderia esquecê-la. O que são seis meses para alcançar o maior desejo de toda uma vida? ― A fará feliz? ― Perguntou Simon quase sem voz devido à emoção. ― A protegerá? Cuidará dela e dos filhos que nascerão de sua união? ― Não tenho outro propósito que fazê-la feliz pelo resto de nossas vidas. Protegê-la-ei até o ponto de morrer por ela e cuidarei não só dos filhos com os quais Deus nos benza, mas também do que trago para este matrimónio ― declarou com firmeza. ― Eric, não é? ― Perguntou o ancião arqueando as sobrancelhas. ― Sim ― afirmou com veemência. ― Ele poderá aceitar a uma mulher que não é sua mãe e respeitála como tal? ― Interessou-se Simon. ― Em meu lar só haverá uma esposa a quem amar e uma mãe a quem adorar ― disse com tanta segurança que não houve fresta alguma para a dúvida. ― Trouxe o anel? ― Consultou Simon. ― Acredito que para estes casos necessita um se quer lhe pedir que se case contigo. ― Trouxe seu anel ― respondeu Federith colocando a mão no bolso para tirar uma caixinha. ― Seu? ― Interessou-se Simon. ― Quando Anaís partiu e me deixou como presente o relógio com a inscrição, não tive dúvidas de que ela seria a única mulher que quereria ao meu lado, então na mesma manhã que os condes partiram de Londres eu fui a uma joalheria com


meu amigo, o duque de Rutland, e lhe comprei um anel ― o mostrou. ― Após, esteve guardado na caixa esperando sua proprietária. ― Federith! Federith! ― Gritou Anaís chorando na entrada depois de escutar as palavras de seu amado. ― Senhorita Price… ― tentou dizer Federith mudo pela emoção. Ajoelhou-se em frente a ela, levantou a mão onde guardava o maior tesouro de sua vida e o mostrou. ― Me faria a imensa honra de converter-se em minha esposa? ― Sim… ― murmurou Anaís sem poder falar. Não podia acalmar-se ao ver o que lhe oferecia seu futuro marido. Porque não havia uma maneira mais contundente de lhe expressar seu amor que lhe entregando aquele anel. Como podia ter prestado tanta atenção nela? Como tinha guardado em sua cabeça cada mísero detalhe do que lhe contava? Porque aquilo que o uniria para sempre era uma amostra disso… uma das tantas noites nas quais escaparam, lhe perguntou como seria seu anel ideal de pedido de casamento e lhe respondeu que de ouro branco com um formoso topázio de cor âmbar. Quando ele se interessou pela razão dessa cor, lhe disse que era a cor dos olhos de sua mãe e que, desse modo, jamais a esqueceria. E ali tinha o que tinha desejado para um dia tão importante. Cooper se levantou, pegou o anel e o pôs no dedo de Anaís. ― Por fim está no lugar que lhe corresponde… ― declarou feliz. Olhou-

a aos olhos e lhe sussurrou: ― Te amo, minha querida Anaís Price. ― Eu também te amo… ― murmurou antes de aproximar sua boca da dele. ― Te amo tanto que padeceria mil vezes as penúrias que sofri para poder viver o resto da minha vida ao seu lado… ― e o beijou. Seis meses depois… ― Tem certeza do que vai fazer?


Tinha dúvidas sobre o que aconteceria depois que o senhor Lawford abrisse a porta e entregasse ao seu irmão os documentos assinados. Era uma loucura, embora Roger e Evelyn pareciam muito seguros daquela decisão, ele tremia como um menino assustado. Era certo que tinha mudado sua atitude desde que manteve a conversa com Federith, mas não sabia se com isso bastava. Cooper fez-lhe entender que não importava o sangue que corria por suas veias, a atitude de um cavalheiro e a venerabilidade de um homem não estavam marcadas pela mescla desse sangue, mas sim pelo trabalho que a pessoa mesmo realizava dia a dia. Desde esse momento considerou em quem queria converter-se e a resposta surgiu com rapidez, em seu irmão. Para ele, Roger era um exemplo a seguir. Ninguém podia comparar-se com o atual marquês de Riderland. Embora não fosse admirado e aceito por seus análogos, jamais viu em seu rosto nem um ápice de remorso. Pelo contrário, ria daqueles que se vangloriavam pelas ruas da cidade como se fossem uma única estirpe de perus reais. Não havia um só dia que descansasse, só as noites junto à sua esposa o separavam de seu dever trabalhista. Sim, trabalhava muitíssimo para a grande família que tinha criado. Mas apesar de todo seu esforço, dos sacrifícios que realizava para sustentar essa grande família, jamais escutou de sua boca uma recriminação para alguma pessoa das que viviam em Children Saved. Que nobre aceitaria alimentar e cuidar dos bastardos de seu pai? Ninguém. Mas Roger era diferente, para o marquês todos eram seus irmãos legítimos e para cada um deles tinha desejado o mesmo futuro, embora, para seu padecer teve que conformar-se dando o sobrenome Bennett e a posição pertinente só a Natalie e a ele. ― Não quer possuir o navio? ― Perguntou Riderland ao seu irmão com assombro. ― Sempre acreditei que seria o melhor presente para ti. ― É certo, quero-o ― disse com firmeza. ― Então? A que vêm essas dúvidas? ― Insistiu. ― Vai acreditar que estou louco, irmão. Mas algo me diz que esse navio mudará a minha vida ― comentou com um ar de mistério. ― O que vai mudar a sua vida será o chute no traseiro que vou te dar, moço! ―


Exclamou enquanto o apertava contra seu corpo e o despenteava. ― Entremos de uma vez e deixa de falar sobre predições e mistérios. Tenho vontade de tirar esse peso das minhas costas. ― Não posso fazer desaparecer essa origem cigana que possuo disse o jovem sorridente. ― Nunca esqueça de onde procede, moço, isso te manterá lúcido pelo resto de sua vida ― disse com firmeza. ― E agora, se esse sangue cigano que tem não augura que depois das portas aparecerá uma mulher que te deixe sem fôlego, entremos! ― Animou-o. ― Uma mulher? ― Logan arqueou as escuras sobrancelhas e o olhou com ironia. ― Sou um Bennett, recorda? Não me conformarei com uma só mulher. No meio de grandes gargalhadas, Roger tocou a porta do escritório do senhor Lawford que, para seu assombro, abriu-se com rapidez. Ambos os irmãos ficaram pasmados quando fixaram seus olhares na entrada. Não era próprio de Arthur deixar entrar no interior de seu escritório tão rápido. Como mínimo deviam esperar uns dez minutos para serem recebidos, tempo que o homem empregava para ocultar os documentos que ninguém devia ver. ― O que desejam? Um menino de apenas dez anos era o causador de dito desconcerto. O pequeno os olhou com suspeita, sem afastar a mão da porta. ― Boa tarde, podemos falar com o senhor Lawford? ― Falou Roger ao menino como se em frente a ele estivesse um adulto. ― Vou ver… ― disse antes de fechar. Depois de uns momentos, ambos escutaram como Arthur gritava à criatura. Depois, ouviram uns passos que se dirigiam para eles e a porta se abriu de novo.


― Perdoem meu sobrinho, excelências ― se desculpou o administrador ao mesmo tempo que lhes permitia aceder ao interior. ― Muito temo que ainda não foi educado para receber eminências como vocês. ― Não se preocupe, senhor Lawford, é só um menino… ― disse Roger tirando o casaco e colocando-o em seu antebraço. ― É o filho da minha irmã, senhor ― começou a explicar zangado. ― Seu marido morreu faz vários meses e decidiu me deixar isso durante uma temporada. Embora segundo avaliação, ― continuou narrando enquanto oferecia assento aos seus clientes e rodeava a mesa de seu escritório para sentar-se também ― esse período do qual me falou se está alargando além do acordado. ― Possivelmente seja seu sucessor ― disse divertido Roger. ― Já que você se negou a ter descendência, o destino lhe premia com um sobrinho. ― Não, milorde. Eu não posso me encarregar de um menino tão pequeno. O que posso lhe ensinar? Além disso, não lhe convém viver a meu lado, poderia destroçar seu futuro. Você crê que algum pai sensato quereria para sua filha um marido criado por mim? ― Expôs com certo pesar. Roger o olhou durante uns instantes. Nunca tinha meditado a razão pela qual o senhor Lawford não se casou. Mantinha amantes, sim, como a grande maioria de cavalheiros de Londres, mas nunca tinha tido descendência. Entretanto, agora sabia a razão, envergonhava-se do homem no qual se convertera. Talvez não ficara outra alternativa posto que seu pai lhe ensinou o ofício desde que teve uso da razão, mas aquele resmungão e estelionatário desejava liberar o pequeno da condenação que possuía seu sobrenome. ― Não tem por que envergonhar-se de suas origens, senhor Lawford ― apontou Roger ao mesmo tempo que observava como seu irmão também tinha captado o


desespero do administrador. ― Em frente a você tem a dois homens com origens reprováveis e, como pode comprovar, não somos escória. ― Pensa então que se o pequeno Garrett se educar entre estas paredes e sob minha tutela será tratado como merece? ― Perguntou com certo entusiasmo enquanto olhava ao menino que se sentara numa cadeira muito próximo a ele. ― Não me cabe dúvida de que seu sobrinho será um bom marido. Atrever-me-ia a pressagiar que terá muitos pais interessados em acordar uma união matrimonial com esse moço ― sentenciou com firmeza. ― Bom, só fica confiar em suas palavras, excelência. Não há nesta cidade um homem mais sensato que você ― comentou antes de suspirar. Depois da breve reunião, em que se declarou Logan como dono do navio, ambos os irmãos se dirigiram a Lonely Field. Começavam uma nova vida. Logan devia ir assumindo certos compromissos que suportaria o título e Roger poderia viver mais tempo ao lado de Evelyn. Ambos sorriam e brincavam sobre o futuro do moço. Estavam radiantes e desfrutavam de uma cumplicidade que até meses atrás não possuíam. Desceram da carruagem sorrindo, mas esse sorriso se dissipou ao ver que no jardim da residência permanecia o veículo do doutor Flatman. Intrigados ao mesmo tempo que assustados, subiram as escadas com rapidez. No instante que chegaram à entrada, Anderson lhes abriu a porta sem ter que chamar. ― O que acontece? Quem chamou ao doutor Flatman? ― Perguntou Roger sem pausa. ― Milorde, o médico veio para atender a marquesa ― explicou o mordomo aflito.


― Evelyn? Está doente? Onde se encontram? ― Continuou interrogando ao criado sem descanso. ― Em seu quarto, milorde. Não pôde esperar despojar-se de seu casaco. Roger subiu as escadas de três em três. Seu coração não pulsava e mal podia respirar pela sensação de angústia que lhe pressionava o peito. Era certo que Evelyn levava um tempo estranha, mas jamais acreditou que estaria doente. Sem avisar, porque jamais bateria na porta de sua própria habitação, abriu e entrou dando imensas pernadas. O doutor estava fechando sua maleta, que a tinha deixado sobre a poltrona onde dormia quando Evelyn se zangava, enquanto que ela permanecia sentada sobre os pés da cama. Riderland ficou sem fôlego ao vêla em camisola. Não era próprio de sua esposa manter-se de tal forma depois do meio-dia. Sem mal poder falar, sem mal poder se manter de pé pela debilidade que sentia seu corpo, caminhou cambaleante para sua mulher. ― Excelência ― lhe falou o doutor, mas ele não olhou a quem lhe saudava, tinha seus olhos cravados nela e em seu pálido rosto. ― O que te aconteceu? ― Perguntou em voz baixa enquanto se ajoelhava em frente a ela e lhe agarrava as mãos. ― Está doente? Por que não me disse isso? Evelyn olhou ao senhor Flatman esperando que este explicasse ao seu marido o motivo de sua aparição, mas não disse nada. Agarrou sua maleta e os deixou sozinhos. ― Meu amor… ― sussurrou o marquês beijando uma e outra vez as mãos da mulher ― me fale, me diga o que te acontece. ― Roger… ― murmurou em voz baixa. ― Eu não esperava isto, querido. Não imaginei que este dia chegaria… ― O que não esperava? O que não imaginava? ― Insistiu agônico. ― Não sei como aceitará este presente divino ― disse ao mesmo tempo que


elevava suas mãos para que Roger deixasse de as beijar e a olhasse.

― Presente divino? ― O marquês arqueou as sobrancelhas loiras e entrecerrou os olhos. ― O que Deus pode me dar de presente se o que anseio já o tenho? ― Perguntou confuso. ― Querido… meu amor… estou grávida ― soltou antes de olhar ao seu marido com medo. ― Grávida? ― Gritou Roger pasmado. ― Está grávida?! ― Repetiu a pergunta para confirmar que o que estava vivendo era real. ― Sei que jamais tinha querido ter um filho próprio e pensei que… ― De verdade pensa que ter ficado grávida é um presente divino? ― Disse elevando a voz. ― Não, meu amor, Deus não teve nada a ver com isso, foi minha insistência em te amar a razão pela qual nosso filho cresce em seu interior. ― OH, Roger! ― Exclamou Evelyn lançando-se aos braços de seu marido. ― Pensei que se zangaria quando lhe confessasse isso. Levo meses evitando imaginar que estava grávida, todos nos advertiram que depois do disparo nunca poderia conceber. Jamais considerei a ideia de ter um bebê e como você tampouco o desejava... ― Nunca me zangaria contigo por me dar o melhor presente do nosso amor, Evelyn. Acaba de me converter no homem mais afortunado do mundo ― disse ao mesmo tempo que a aferrava com mais força a ele. ― Só peço uma coisa, meu amor. ― O quê? ― A marquesa levantou o olhar e contemplou a imensa alegria que Roger mostrava ante a notícia. ― Me prometa que será uma menina e que terá sua mesma cor de cabelo. Epílogo


Londres. Outubro de 1882. Residência Whespert, lar do Logan Bennett. Precisamente ao entrar, Logan foi recebido pelo senhor Kilby, seu mordomo desde que, cinco anos atrás, comprou o lugar que denominava lar. Tratava-se de uma casa de dois andares, com um amplo jardim ao seu redor na zona mais prestigiosa de Londres, Mayfair. A única razão pela qual se decidiu comprá-la foi ter um lugar onde permanecer tranquilo depois de suas viagens. Embora Roger tenha insistido que podia ocupar sua antiga habitação o tempo que desejasse, Whespert se converteu no único lugar no qual achava aquela paz que necessitava depois de meses navegando. Quem haveria dito a ele que um dia procuraria refugiar-se de tudo aquilo que desejou viver? Mas sua vida estava mudando a passos largos. Aquela ilusão que sentia cada vez que se preparava para embarcar começava a desaparecer. Já não lhe chamava a atenção visitar outros continentes nem descobrir um sem-fim de lugares paradisíacos. Sem dúvida, começava uma etapa sombria. A felicidade que lhe dava viver entre aqueles alicerces era superior a viajar pelo mundo. Mal recordava a satisfação que lhe produzia permanecer em cidades onde o sol brilhava todo o tempo, pelo contrário tinha saudades do clima frio e úmido de sua Londres. Possivelmente o princípio do fim dessa vida foi a alternativa que lhe ofereceu o barão de Sheiton antes de sua última viagem às Índias. Até aquele momento não imaginou que uma vida sedentária seria tão gratificante. Ele era um viajante, um homem que desfrutava viajando de lá para cá. Mas era certo que cada vez que se afastava de sua família e sobrevivia aos perigos que padecia em cada travessia, retornava propondo-se a não partir de novo. ― Milorde, quer que chame seu ajudante de câmara? ― Perguntou Kilby ao ver como os ombros de seu senhor se inclinavam para diante pelo cansaço. ― Não, ainda não subirei ao meu quarto. Preciso beber uma taça, calmamente, no salão intermédio ― respondeu enquanto deixava que lhe ajudasse a despojarse da jaqueta. ― O fogo está aceso, senhor. Avisarei ao criado que não o apague até que


resolva abandonar o salão. Se não secar logo suas roupas, muito temo que terminará doente. ― Obrigado, Kilby ― respondeu fatigado. ― Foi uma bonita festa? ― Interessou-se ao ver como a figura de seu senhor permanecia abatida. ― Sim, foi. Embora tenha de te confessar que duvidei em várias ocasiões que Natalie chegasse ao altar. Meu irmão não era capaz de dar dois passos seguidos sem parar ― comentou jocoso. ― Mas o jovem Lawford é um homem respeitável embora seu tio seja um cavalheiro de honra questionável… ― Certo e todo mundo opina da mesma maneira, mas acredito que meu irmão não está convencido de todo. Só espero que Evelyn o tranquilize, porque do contrário Natalie terminará abandonando Londres. ― Você crê que a senhorita… a senhora Lawford será capaz de fazer algo assim? ― Retificou ao compreender o novo estado da moça. ― É uma Bennett, Kilby. E nenhum de nós permitimos que alguém nos dite o que devemos fazer… ― Dou fé disso, milorde ― respondeu o mordomo com um amplo sorriso. ― Deseja alguma coisa mais? ― Quis saber. ― Não, pode se retirar. ― Então, boa noite, senhor. ― Despediu-se fazendo uma leve reverência. ― Boa noite. Logan se dirigiu para o salão intermediário. Embora fosse a menor habitação da casa lhe resultava a mais encantadora. Sem dúvida alguma escolheu pela residência quando seu anterior dono lhe mostrou aquele salãozinho. O visconde lhe explicou que uma vez que sua esposa adoeceu, decidiu reduzir a sala de visitas e acoplar a viscondessa num espaço


menor e mais acolhedor. E o tinha conseguido. Umas cortinas aveludadas, de uma fina grossura, que para seu deleite deixavam aparecer a luz solar, ocultavam o que anteriormente era o balcão principal. No centro se encontrava uma mesa baixa de cor escura e ao seu lado uma cadeira de balanço. «Terminou por converter-se em seu lugar preferido ― lhe explicou o visconde aguentando as lágrimas e a tristeza. ― Adorava sentar-se nessa cadeira de balanço, colocar seus utensílios de costura na mesa e observar daí o que ocorria no exterior». Dias depois de comprá-la, Logan se sentou naquela cadeira e descobriu ele mesmo a fascinação que a falecida possuía ao ocupar o lugar. Depois de entrar na sala fechou a porta, afrouxou a gravata, desabotoou os botões de seu colete cinza e se dirigiu para a vitrine onde guardava o xerez que comprou em Paris. Nunca imaginou que a cidade lhe ofereceria suas duas melhores aquisições naquela viagem, o xerez e os vestidos que comprou a lady Rose. «Rose…», pensou. Com a imagem da mulher em sua cabeça, pegou a taça e a encheu até transbordar. Não pretendia passar o resto da noite meditando sobre o ultimato que a viúva lhe gritou antes de aparecer nas bodas de Natalie, mas lhe resultou difícil não pensar nisso. Ela deduziu que depois de um ano de relação a levaria pelo braço e a posicionaria no lugar que, conforme insistia, correspondia-lhe entre a família. Mas… que lugar era esse? Logan não tinha tão claro que posição lhe oferecer e quando. Era certo que desfrutava da companhia da viúva, mas em nenhum momento considerou convertê-la em algo mais e muito menos depois do que lhe aconteceu essa mesma tarde… se necessitava de um sinal para averiguar que classe de sentimentos experimentava por Rose, horas antes de chegar ao seu lar o obteve. Com um passo lento, não só pela inapetência mas também pelo cansaço, Logan se acomodou na poltrona e estendeu as longas pernas sobre a banqueta. Seus sapatos negros brilhavam ante o reflexo do fogo e as solas frias começaram a


esquentar-se. Tomou um sorvo do xerez, contemplou com atenção o baile das chamas e então a viu de novo… como não a tinha visto com antecedência? De onde procedia? Quem a tinha convidado à cerimônia matrimonial de sua irmã? Estas e centenas de perguntas mais assaltavam a mente do homem. Estava tão preocupado em averiguar quem era a jovem, que se esqueceu de Rose e de seu temível ultimato. Não tinha podido afastar seus olhos dela desde que a encontrou no salão. Tinha tido sobre ele um efeito tão aditivo e hipnótico que a amaldiçoou por lhe criar um comportamento tão incoerente. Ele sempre se apresentava às mulheres de frente, exibindo o porte que os Bennett tinham por genética paterna, mas em vez de pavonear-se como estava acostumado a fazer, viu-se escondendo-se entre os muros da sala tentando averiguar como seria a voz daquele anjo ou o que lhe provocaria sua risada quando a escutasse. E ao averiguá-lo pareceu o som mais belo e harmonioso do mundo. Não era uma moça baixa, mas tampouco muito alta. Cada vez que passava por seu lado, tentando captar sua atenção, ele calculava que com um leve movimento de sua cabeça poderia beijá-la. «Por todos os mares!», exclamou Logan ao recordar-se atuando daquela maneira. Não se reconhecia. Ele jamais se comportara dessa forma. Nunca se obcecava com nada e nem muito menos com uma mulher, posto que estava seguro de que nas viagens nenhuma lhe prometeria fidelidade. Nem Rose conseguiu lhe ser fiel, embora segundo ela, tentou-o com todas as suas forças… Levou a taça aos lábios e, enquanto observava com atenção as chamas, continuou pensando naquela desconhecida. Nenhum cavalheiro dançou com ela. Todos os que se


aproximavam do grupo de mulheres com quem falava se dirigiam às demais, mas nunca a ela. Isso lhe deu o que pensar. Por que uma mulher tão formosa era ignorada? Em várias ocasiões a descobriu sentada, golpeando com seu sapato o chão ao ritmo da melodia, esperando que alguém se decidisse a tirála para dançar. Ele teria sido essa pessoa… se a tivessem apresentado. Em mais de uma ocasião os olhares se cruzaram. Era normal depois de não poder afastar seus olhos dela. Mas Logan ficou pétreo ao observar que a mulher não fez nada por atrai-lo, por provocar uma aproximação entre eles. Ao contrário, cada vez que se contemplavam ela olhava para outro lado com rapidez. Seria tímida? Essa seria a razão pela qual ninguém lhe dava atenção? Fosse o motivo que fosse, não entendia como uma mulher com o rosto mais angélico podia ser ignorada de maneira tão descarada. Zangado e cansado, decidiu retornar ao seu lar, mas não foi o único que determinou partir. Ela também o fez. Disse-se que não a estava seguindo, que só tinham chegado à mesma conclusão e que finalmente se encontrariam em frente à saída, mas por alguma estranha razão se escondeu de novo enquanto observava como Anderson lhe oferecia seu casaco. Logan conteve o fôlego ao ver que, ao afastar o cabelo para colocar a roupa, deixava descoberta umas formosas costas. Começou a suar quando imaginou a suavidade que sentiriam suas mãos ao acariciála e sua ira aumentou. Sim, assim como a excitação. Como podia sentir algo tão inexplicável por uma mulher que nem conhecia? Graças a Deus tampou-se com o casaco porque se tivesse deixado que admirasse durante mais tempo aquela delicada pele, teria tido um enorme problema entre as pernas. Quando Logan se dispunha a sair de seu esconderijo, quando se tinha relaxado o suficiente para que sua ereção desaparecesse, escutou uns sussurros do outro lado da escada, justo na porta secreta. Um pequeno passadiço construído e conhecido só pelos membros da família Bennett. Esquecendo a exótica jovem, Logan deu uns passos para trás e pregou a orelha na diminuta porta. ― Diz isso porque ainda não conheceu outra garota que você goste mais do que de mim ― sussurrava Evah.


― Sabe que não há nem haverá ninguém que possa me mudar de parecer. É a única a quem amo ― confessou Terry. ― Te amo Evah Bennett, amo-te mais do que crê. ― E depois da confissão, escutou-se como se beijavam. Logan amaldiçoou todos os seus ancestrais. Não tinha que ter sido testemunha daquele romance infantil. Agora não poderia olhar seu irmão sem que este adivinhasse que guardava um segredo. «Maldita seja! Maldita seja!», gritou para si. Não podia acreditar. Não podia imaginar como furioso ficaria seu irmão se descobrisse que sua pequena rosa de fogo já não era tão pequena e que seus beijos não eram exclusivos para seu pai. Com pernadas largas, colocou-se na porta da entrada. Devia sair dali antes que tudo fosse descoberto, antes que Roger fizesse explorar a casa com todos os convidados dentro. Não importava que Leopold fosse mais forte que ele ou que lhe tirasse dois palmos de altura, Roger quereria sangue, o sangue do filho mais velho de seu sócio. Embora, graças a Deus, tudo aquilo não aconteceria se a única mulher que o fazia raciocinar o tranquilizasse, sua esposa. Logan se moveu incômodo no assento. Recordá-la tinha provocado a mesma agitação que antes. Não compreendia como uma desconhecida com quem nem tinha falado lhe causava uma excitação maior que quando se encontrava em frente ao corpo nu de Rose. Nem tampouco dava crédito a por que não pensou em sua amante nem um só instante da festa. Aturdido por suas perguntas, terminou a bebida, pousou os pés no chão e se dispunha a dirigir-se para seu quarto quando alguém tocou a porta. Estranhando e sem ainda levantar do assento, girou seu corpo para a entrada. ― Adiante. ― Milorde? ― Kilby o olhava desconcertado, como se estivesse a ponto de lhe dar a pior notícia de sua vida. ― O que acontece? ― Perguntou levantando da poltrona. ― Há um homem que deseja falar com você ― informou o mordomo.


― A estas horas? ― Inquiriu surpreso. Jogou uma olhada ao relógio de parede e confirmou que eram três da madrugada. ― Sim, senhor. Disse que está descansando, mas se nega a partir se não lhe conceder uns minutos ― disse pesaroso. ― Quem diz que é? ― Perguntou resignado. Embora não fosse frequente que aparecessem em seu lar a essas horas e, muito menos, exigindo vê-lo apesar de uma negativa de seu mordomo, era muito normal que algum cliente inapropriado se apresentasse para precisar de uma encomenda discreta. ― O senhor Moore ― anunciou. ― Bem, lhe faça entrar. Kilby fechou a porta atrás de sua marcha enquanto Logan retornava à licoreira para encher sua taça e a de seu convidado. Não era comum durar muito esse tipo de visitas e esperava que aquela tampouco se estendesse, porque se encontrava muito cansado. Acabava de pegar as duas taças repletas de xerez quando alguém chamou de novo à porta. ― Entre ― respondeu com voz firme. ― Senhor Bennett, sinto me apresentar a estas horas, mas quando apareci no lar do marquês, o mordomo me indicou que já partira ― comentou seu visitante sem tomar ar. Um homem de uns sessenta anos, calvo e um pouco robusto estava na entrada esperando que Logan lhe permitisse entrar. Não tinha tirado a capa, dando a entender que seu mordomo esperava que a reunião durasse pouco tempo ou ele mesmo esperava que sua visita não durasse muito. Entretanto, o jovem Bennett ficou observando-o com atenção. Não era o típico cavalheiro que aparecia tarde da noite em seu lar para lhe pedir um serviço inadequado, como contrabando de licor, que era o habitual naquele momento. Aquele homem era bastante comum e, como estava acostumado a lhe provocar as situações inexplicáveis, sua curiosidade cresceu. Sem saber a razão pela qual pensou que devia lhe oferecer a taça imediatamente, caminhou para o homem e estendeu sua mão. ― Muito obrigado ― disse o ancião bebendo de um gole a bebida. ― O necessitava.


― Sente-se, senhor Moore. Falaremos mais cômodos se ambos tomarmos assento. Outra? ― Perguntou arqueando suas escuras sobrancelhas e levantando sua taça. ― Se não lhe produzir inconveniente algum ― indicou o visitante. Logan encheu de novo o copo do cavalheiro e caminhou para a chaminé onde o homem permanecia de pé esperando que lhe assinalasse o assento que devia ocupar. ― Imagino que a causa que o conduziu até meu lar a estas horas da madrugada tem que ser importante, não é? Porque do contrário, teria esperado até a manhã ― disse enquanto ocupava sua cadeira de balanço e lhe assinalava a cadeira contígua. ― Teria gostado de me apresentar noutro momento, mas me urge falar com você antes de que embarque em dez dias. ― Um mês ― concretizou Logan. ― Um mês? ― Soltou Randall Moore assombrado. ― Pensei que… ― Cheguei a Londres faz uma semana e pretendia permanecer aqui mais tempo do que estou acostumado a ficar, senhor Moore. Tenho que resolver alguns temas importantes. ― Entendo… ― murmurou Randall abaixando a cabeça e dando um sorvo da bebida. ― Entretanto, se você me contar por que necessita que parta antes do previsto, talvez cheguemos a um acordo. As palavras alentadoras de Logan fizeram com que o ancião elevasse de novo seu rosto e o olhasse com esperança. Devia fazer mudar de parecer o único homem que podia salvar sua família. Necessitava que ele levasse Anne se quisesse que a tranquilidade retornasse ao seu humilde lar.


― Para onde tinha previsto partir? ― Perguntou Randal. ― Não sei ainda, mas imagino que o Caribe seria um bom lugar para visitar nesta época do ano ― comentou Logan com suspeita. Nenhum comerciante desejava que seus pertences viajassem durante tanto tempo num navio e sobretudo em mares tão perigosos. Apesar das duras leis redigidas para aqueles que exerciam a pirataria, existiam piratas que se arriscavam a assaltar navios comerciais, embora isso os levasse à morte. E, estava claro que muitos comerciantes se negavam a que seus bens mais apreciados fossem arrebatados por esse tipo de criminosos. ― Muito longe… ― refletiu o ancião. ― Que negócio deseja fazer, senhor Moore? Tecidos, ouro, documentos…? ― Uma mulher ― lhe interrompeu. ― Uma mulher? ― Logan fixou seu olhar no homem esperando que se tratasse de uma brincadeira. Todo mundo sabia que seu navio não se utilizava para transportar viajantes. Eram trajetos perigosos nos quais podia fazer-se carregamento das perdas materiais, mas… de pessoas? Não. De maneira categórica, não. ― Minha filha mais velha, para ser mais concreto ― acrescentou antes de dar outro gole. ― Muito me temo que não posso lhe ajudar. Nunca embarquei com mais pessoal que minha tripulação. E, além disso, não posso permitir que uma mulher viaje rodeada de cinquenta homens. Não poderia protegê-la ― sentenciou levantandose de seu assento e dando por resolvida a conversação. Mas o senhor Moore não se elevou, continuou sentado observando como o líquido brilhava com a luz da luz. ― Cotar-lhe-ei o cabelo! Vesti-la-ei como um homem se isso for suficiente para que aceite levá-la em seu navio! ―


Exclamou desesperado. ― Deve me fazer esse favor, milorde. Do contrário minha família ficará arruinada pelo resto de sua vida. Se por acaso não sabe, sou pai de cinco moças e, devido aos fatos acontecidos com a primogênita, não terei possibilidades de salvar ao resto de minhas filhas ― informou com pesar. ― Não sei o que terá podido fazer uma jovem para que seus pais decidam afastá-la de seu lar, senhor. Mas tem que procurar outro se deseja realizar tal… ― Não a viu, milorde? Não viu você a minha filha na casa de sua excelência? Acompanhava a minha terceira filha, Elisabeth ― expressou sem mal respirar. ― Muito temo que não sei de quem me fala. Na cerimônia houve mais de duzentas pessoas e… ― Seguro que reparou nela, senhor Bennett. Embora não pude assistir a uma cerimônia tão importante, estou seguro de que seria a única jovem que permanecia sozinha na sala. Nenhum homem se atreve a cortejá-la depois de… ― Depois de? ― Perguntou com rapidez. Logan ficou petrificado após escutá-lo. Mas tentou manter a calma e sufocar a inquietação que lhe tinham causado as palavras daquele pai. É óbvio que na numerosa cerimônia de Natalie havia mais de cinquenta jovens, mas ele não tinha reparado em nenhuma salvo naquela desconhecida e, embora tampouco se tenha aproximado nenhum rapaz, não tinha por que ser a mesma mulher. ― Da maldição ― esclareceu Randall. Ao contemplar a incerteza na única pessoa que podia lhe ajudar prosseguiu: ― Até que me casei com a senhora Moore, nem minha família nem eu mesmo tínhamos acreditado em atos tão insensatos, senhor. Mas com o passar do tempo, essa crença se expandiu pela família e nenhum de nós estamos dispostos a morrer sem fazêla desaparecer.


― Explique-se. ― Logan colocou seus braços sobre as costas e se manteve de pé, em frente ao homem. ― Os familiares da minha esposa são ciganos romenos, senhor. Nunca me importou sua origem, nem quem foram seus ancestrais, só queria estar com ela, amá-la e protegê-la. Uma noite assaltei o grupo onde vivia, liberei-a da prisão em que estava submetida e me casei com ela. Nenhuma das duas famílias mostrou benevolência com nosso enlace, mas o amor que sempre senti por Sophia foi maior que as desgraças que desejaram que padecêssemos. ― Isso não explica que você queira mandar sua filha a outra parte do mundo e eu não gosto que fale sobre crenças ou maldições. Além disso, não é o primeiro homem que se apaixona por uma cigana ― grunhiu. ― Quando nasceu Anne, ― começou a dizer sem sentir-se intimidado pelo homem que o olhava de maneira irascível ― minha esposa sofreu durante semanas convulsões, delírios e um sem-fim de males dos quais acreditava que não sobreviveria. Mas depois desse tempo, ela se recuperou como se nada tivesse acontecido. Entretanto, seus olhos eram negros e não azuis, milorde. ― Tenho que lhe indicar que uma mulher depois de dar à luz… ― tentou esclarecer. ― Sophia não desejava ver nossa filha. Recusava qualquer contato com a menina. Cada vez que a aproximava para que observasse a formosa criatura que tinha crescido em suas vísceras, ela gritava atormentada. ― Não foi vista por um médico? ― Disse com desdém. ― Conheço mais de uma mãe que rejeita a sua cria ao nascer. ― Não se tratava disso, milorde. Sophia, durante esses episódios dilaceradores, visualizou o futuro da família e me confessou que nossa filha tinha sido amaldiçoada por sua bisavó, uma que odiava a todas as mulheres que não contraíam matrimónio com a raça a que pertenciam.


― Pelo amor de Deus! Quer me dizer que essa criatura nasceu maldita? ― Randall afirmou com um leve movimento de cabeça. ― Como pode acreditar num disparate semelhante? ― Acredite que eu a princípio também pensei que só eram delírios da minha esposa. Mas me confessou que durante essas visões viu nossas outras quatro filhas. Soube que Mary nasceria dois anos depois de Anne, que Elizabeth seria prematura e que aumentaríamos a família com duas gêmeas, Josephine e Madeleine. ― Sigo sem saber o que se propõe e por que necessita dos meus serviços para afastar a sua primogênita e, muito temo, que a explicação sobre seus lucros como procriador não me está oferecendo nenhuma pista ― resmungou zangado ante a absurda exposição. Se era um homem de recursos limitados, como podia apreciar, o mais apropriado era casar suas filhas o antes possível, não as mandar para fora de Londres como se tivessem a peste. ― Sophia adivinhou o futuro de nossa família, senhor Bennett. Nasceram tal como ela me avisou e, embora pouco a pouco foi amando a nossa filha, continuou afirmando que estava enfeitiçada, e que não cessaria a maldição até que se afastasse de nós ou encontrasse um homem de sangue cigano. ― Sandices! ― Gritou zangado Logan. ― Senhor Moore, bebeu esta noite mais do que lhe ofereci ao me visitar? ― Senhor Bennett! Não consinto que me fale dessa forma! Não sou um bêbado só um pai pedindo clemência! ― Respondeu levantando-se de seu assento. ― Como pode imaginar que me fará acreditar em tal insensatez? Maldições, superstições, feitiços? O que pretende, senhor Moore? ― Como denominaria você uma jovem a quem seus dois prometidos faleceram inexplicavelmente, milorde? ― Randall devia aproveitar a única oportunidade que ficava. Nenhum homem se atreveria a cortejar a sua filha de novo, todos acreditavam nessa maldição e sabia que só ele podia salvá-lo.


Muito ao seu pesar, aquele arrogante que o estava tratando como um louco, como um pai desesperado, era sua única opção para colocar Anne em um internato longe de Londres. ― Má eleição? ― Respondeu Logan zombador. ― O senhor Northon era um homem destro na arte equestre. Segundo seu pai, o jovem soube montar a cavalo antes de andar. Depois de falar comigo para comprometer-se com nossa filha, afastou-se para dar a notícia à sua família e, infelizmente, caiu do cavalo que montava já há quatro anos e quebrou o pescoço ― explicou atemorizado. ― Bem, isso pode acontecer ao cavaleiro mais experiente do mundo. Não explica que… ― Dois anos depois, quando Anne, depois de ter estado encerrada em nosso pequeno lar, decidiu acompanhar a sua irmã para ser a acompanhante desta, o senhor Weed, o filho mais novo dos condes Hoostun, apaixonou-se perdidamente por ela e tentou cortejá-la. Ante suas contínuas rejeições, apareceu em nossa casa para me pedir formalmente a mão de minha primogênita. Como é lógico, com cinco filhas as quais casar, minha resposta foi afirmativa. Por mais que ela se negasse a contrair matrimónio, não ficava outra opção que converterse na senhora Weed. Três dias depois de anunciar o compromisso, um experiente caçador como era o senhor Weed, morreu enquanto limpava sua arma antes de uma caça campestre. Conforme anunciaram, a arma disparou de maneira inexplicável. ― Randall não olhava para Logan, não desejava ver no duro rosto a surpresa que lhe teria causado sua exposição visto que, como todos os outros aos quais pediu ajuda, o rejeitaram. ― Acredito, senhor Moore, que sua filha não está amaldiçoada. O único culpado das desgraças dessa jovem é você por ter feito escolhas inadequadas. ― Não zombe do meu padecer, senhor Bennett ― respondeu Randall apertando a mandíbula. ― Você não entende… ― A única coisa que entendo de seu argumento é que deseja afastar-se dela. Necessita que suas filhas não saibam que estão amaldiçoadas e, para o meu entender, isso é um despropósito. Como pode fazer sua filha carregar essa dor?


Como pode ser tão mesquinho para que ela aceite afastar-se de sua família para vos salvar? ― Você é minha única opção ― sentenciou ao mesmo tempo que tirava de seu bolso um envelope e o colocava sobre a mesa. ― Aqui tem a quantia que posso lhe oferecer, senhor Bennett. São todas as minhas economias. Peço-lhe que reconsidere sua decisão e me informe dela o quanto antes possível. ― Girou-se sobre os calcanhares e começou a dirigir-se para a porta. ― Não quero seu dinheiro! ― Gritou Logan agarrando com tanta força o envelope, que derramou sobre o chão tudo o que havia em seu interior. Zangado porque o ancião partiu sem deter-se, inclinou-se e começou a recolher os bilhetes. De repente, parou seu olhar num pequeno papel. No princípio pensou que tinha caído do bolso do ancião ao tirar o envelope com aquele tremor, mas não, tinha-o metido no interior. Devagar, pegou aquela imagem e se aproximou da luz para vê-la com maior claridade. Não podia ser! Não era real! Como podia tratar-se dela? Como

poderia estar amaldiçoado aquele anjo? Nota da autora


Meus queridas/os leitoras/es: Quero agradecer-lhes o apoio que senti de sua parte ao ler a série dos cavalheiros. Espero que a história de Federith tenha alcançado as expectativas que tinham, as minhas sim se obtiveram e me deixaram um bom sabor na boca. Estarão se perguntando o que acontecerá ao Logan, pois

fiquem tranquilas/os porque a vida deste Bennett se resolverá na primeira novela da próxima série que começarei a publicar ano que vem. Por pedidos de minha mãe se chamará Série As Ladies e, como mãe não há mais que uma, agrado-a em tudo o que está em minha mão. A série constará de cinco livros e, como lhes podem imaginar, tratarão sobre a vida das cinco filhas do senhor Moore. Um beijo enorme. Dama Beltrán. Agradecimentos


Não posso concluir uma novela sem lhes agradecer o apoio que tive por parte de vocês. Para mim o fato de ter um montão de seguidoras/es que se autoproclamam “daminhas/os” é muito gratificante. Comecei escrevendo com medo pensando que ninguém me leria, mas esse temor, embora siga latente, desvanecese lentamente. Obrigado por estar aí e por comentar cada novela que público. Claro, também tenho muito que agradecer à minha família que dia a dia estão aí, me dando forças para que continue. Obrigado por manter a corda, por respirar meus sonhos e por diminuir minhas inquietações. É óbvio, aos meus filhos e marido que, embora às vezes tenha vontades de estrangulá-los, aguentam minhas mudanças de humor com resignação. E às minhas amigas, o que eu faria sem vocês? Um beijo enorme… Dama Beltrán. Notas [←1] Meu Deus! Sim, ele está apaixonado – em francês. [←2] Isso não é possível! Document Outline Notas


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A Tristeza do Barão - Cavalheiros 03 - Dama Beltrá  

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