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Sobre o amor e seus tons: pequeno preâmbulo


Sobre o amor e seus tons pequeno preâmbulo

“Love is the experiencing another being in one´s own soul” Rudolfo Steiner


Buglione, Samantha B931 Sobre o amor e seus tons [livro eletrônico] : pequeno preâmbulo / Samantha Buglione. ePUB.

36 p. – [S.l.: s.n.], 2017. ISBN: 978-85-924984-0-5

1. Ensaios. 2. Amor. 3. Filosofia. I. Título. CDD B869.4 CDU 82-4/49 Ficha catalográfica elaborada por Juliano Zimmermann – CRB 14/1090


Sumário

Prólogo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 Da ambiguidade terminológica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 Os tons do amor: Eros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 Os tons do amor: Philia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 Os tons do amor: Ágape . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20 Os tons do amor: Storge . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24 Observações finais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33 Da autora Samantha Buglione . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 Referências bibliográficas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36


O amor é tanto uma força cósmica de aproximação, quanto uma capacidade humana.


Prólogo Há várias formas de dizer o que é o amor. E em todas elas é possível identificar que o amor é tanto uma força cósmica de aproximação, quanto uma capacidade humana. Esse amor como força que nos aproxima de nós e do mundo e como uma capacidade para descobrir e dar valor para um outro estará, talvez ainda em gérmen, no Eros de Platão. E esse outro pode ser uma pessoa (humana ou não), coisas e ideais ou o “si-mesmo”. No amor cristão o outro é o próximo, nos trovadores da idade média uma consquista. Mas sempre há algo que nos move. Essa força, esse movimento incansável, se mantém ao longo dos tempos, quem muda somos nós e muda quem são os outros. Pessoa é um conceito político e maleável. A pessoa nasce quando consciência de uma singularidade e vontade, de uma voz. Ao longo da história, incluímos e excluímos personagens nesse grande espetáculo espiralado da vida. Mudam os elementos mudam as expressões ou a forma material, mas a força por detrás dessas expressões ou formas está lá: intacta e bela; e nada misteriosa, não mais. Independente de reconhecermos ou não esse outro que habita tanto fora quanto dentro, estará lá. O ponto de partida é que o real só existe na experiência atenta, na consciência de si enquanto sujeito que experimenta o mundo. Tal qual já disse Goethe: a natureza (que aqui podemos entender como a realidade em termos gerais, observação minha) só existe quando se revela aos nossos sentidos. O que, para tanto, depende de uma relação. Observação feita pelo autor.

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Tal qual um prisma, ou uma pintura que faz uso da técnica do velado para as cores, os vocábulos que falam de amor são tons que pertencem a uma mesma luz. Cada um tem uma força específica e a força de uma relação. E, ainda nessa lógica, eles podem ser pensados a partir de diferentes perspectivas morais ou culturais. O Eros da filosofia antiga pagã, por exemplo, tem importantes elementos que parecem não estarem vistos ou presentes no Eros religioso da Idade Média. Ao fim e ao cabo, falar de amor é falar de si, desse ser que observa e experimenta o mundo e o mundo a ele. É pensar por outro caminho, ou pelo caminho possível, a velha máxima do “conhece-te a ti mesmo”. Principalmente quando percebemos que somos um constante processo de expiração e inspiração entre e durante as nossas experiências. O amor, assim, seria um sintoma do nosso autoconhecimento, a expressão mais linda de como vivemos quando cheios de nós mesmos. Se nos desabrochamos para o amor através do triunfo sobre o mal, nos permitiremos a ação livre e, enfim, a liberdade. O mal, tema delicado que merece atenção própria, é empregado aqui como a ausência de nossa humanidade, é a nossa desatenção. Já o amor é nossa presença atenta. A de um eu que se desvela pela consciência. Se o que defino como mal é visto como um sintoma ou expressão de uma ausência, o amor é o da presença. Hábitos mecânicos, repetições sem sentido, tiram a atenção de si, do outro e do presente, e estão a construir um mundo pornográfico. Não estamos mais no presente. Vivemos cheios de atos vazios de sentido. Talvez um ressentimento pelo mito da queda, da saída do paraíso. Ao invés de nos fazer eufóricos pela liberdade possível, esse ressentimento parece nos incitar a um rebaixamento, transformando Eros em paixão rasteira e levando junto os singelos prazeres agora vocacionados ao imoral. Falar em amor é suplicar por um mundo mais erótico em um Eros resgatado. Erótico é o que é belo e o que é belamente feito e isso é impossível quando vivemos desatentos. A vida sem sentido é pornográfica. E vivemos hoje a |

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pornografia do trabalho sem sentido, do estudo sem sentido, das metas sem sentido, das ideologias sem sentido, das relações sem sentido, do consumo sem sentido. Não é o prazer da carne que é pornográfico. E por que isso é pornográfico? Porque é pura repetição material, ato mecânico alienado, terceirização confortável da ação, apatia, dormência, esquecimento ou preguiça de si. Re-erotizar a vida é buscar o sentido. E esse sentido é dado pela ação, pelas vontades. Por isso o amor é o movimento das vontades conscientes de um sujeito atento. Do humano presente no mundo e presente em si. 7|


OBS/ Finais**

Estas linhas não se prestam a realizar uma rigorosa análise acadêmica ou exotérica do amor. Mas apenas resgatar os seus vocábulos de forma que possamos tornar a pensá-los, interpretá-los e senti-los. Há vários outros caminhos para dialogar sobre o amor, podemos eleger a psicanálise, os mitos, os contos-de-fada, o amor fati de Nietzsche, a poesia, a literatura, o cinema, as biografias... Fica aqui o convite para que cada um descubra a sua forma de não perdê-lo de vista.

* Os conceitos de “ser”, “ ente” e “cuidar” presentes em Storge tem como referencia as ideias de Heidegger de o seu conceito de Sorge. ** Agradeço as belas conversas com Eduardo Didonet Teixeira e Aline Bennett.

Este é um texto que serve de base para meus trabalhos e, por isso, achei de bom tom compartilha-lo. Não apenas por transparência, mas para que possa ser melhorado. Não é, portanto, o texto final. Até porque não sei se isso seria possível. Na medida em que ampliamos nossa consciência sobre o amor talvez (e aqui reside uma prece minha) algo em nós se transforma no nosso mundo do sentir e do fazer. E, por consequência, isso reverbera em todo o cosmo. Isso não significa que as coisas se tornem mais delicadas e prazerosas. Diria que talvez ocorra o contrário. O mundo pode parecer mais hostil na medida em que percebemos, com mais detalhes e consciência, o que nos falta. Amar é um ato de coragem. 33 |


Da autora Samantha Buglione

é escritora, filósofa, doutora em ciências humanas, bacharel e mestre em direito. Atualmente pesquisa temas como o amor, o perdão, a liberdade e o mal. Sua atenção tem como referência e estratégia o método de observação de Goethe e os estudos em estética e ontologia. 35 |


Ref/ bibliográficas ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução Mário da Gama Kury. 3. ed.Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999. BELO, Rosário. Os desenvolvimentos do amor. O amor parental. In: Encontro com (o) amor: percursos, expressões e desenvolvimento. Evora, 2014. https://pt.scribd.com/document/364015554/coloquio-sobre-o-amor-atas pdf BIRCHAL, Telma. Eros e Ágape. In: Síntese: Revista de Filosofia. Vol. 17, no. 48. P. 95-106. Belo Horizonte, 1990. COMTE-SPONVILLE. O Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. 2 ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009. HESIOD. The Homeric Hymns and Homerica. English Translation by Hugh G. Evelyn-White. Theogony. Cambridge, MA.,Harvard University Press; London, William Heinemann Ltd. 1914. PLATAO. Lísis. Introdução versão e notas de Francisco de Oliveira. Brasília: UNB, 1995. PLATAO. O Banquete. Tradução José Cavalcante de Souza. Edição Bilíngue. São Paulo, Editora 34, 2016. PLATAO. O Banquete. Tradução e notas de Donaldo SCHÜLER. Edição Bilíngue. Porto Alegre, RS: L & PM, 2012. ROCHA, Zeferino. O amigo, um outro de si mesmo: a Philia na metafísica de Platão e na ética de Aristoteles. In: Psyche, vol. X, num. 17, enero-junio, 2006, pp. 65-86. Universidade São Marcos. São Paulo, Brasil. ROUGEMONT, Denis. O amor e o ocidente. Tradução Paulo Brandi e Ethel Brandi Cachapuz. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1972. SINGER, Irving. Philosophy of love. The MIT Press. Cambridge, Massachusetts/London, England; 2009. STEINER, Rudolf. Amor, poder, sabedoria. Palestra. GA 143, 17/12/1912. pp. 23-24. STEINER, Rudolf. Love and its meaning in the world. Select lectures and writings. Anthroposophic Press, 1998. VIGOTSKI, L.S. Thinking And Speech – The Collected Works Of L.S. Vigotski (Vol I: Problems Of General Psychology. (Rieber, R. & Carton, A., eds.). New York: Plenun Press, 1987. [Original de 1934] WEBER, Max. Economia y sociedad.Esbozo de sociología comprensiva. Tradução José Echavarria, Juan Parella, Eugenio Imaz, Eduardo Maynez. México: Fondo de Cultura Económica, 1996. |

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