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PELA TOCA DO COELHO

EDITORIAL

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oucas coisas são tão recompensadoras como apaixonar mo-nos por um livro. Começamos uma leitura sempre com a expectativa de que nos poderá fazer feliz e emocionar. Procuramos sentir a magia que, por vezes, se estabelece entre nós e o livro, uma magia que nos faz sentir dentro do universo do autor como se estivéssemos num lugar especial só nosso e de mais ninguém. E nada consegue transmitir tanta intensidade como os livros de literatura fantástica. O fã de fantástico é, não por acaso, o fã literário mais intenso que se conhece. É o fã mais leal ao gênero que se pode conhecer, o fã que procura em cada livro uma nova droga capaz de o fazer experimentar uma emoção que transcende a vida real. O fã que protege os seus livros favoritos com a mesma ferocidade

com que o dragão Smaug defende os seus tesouros. Quando o leitor pega o vício, já não tem como voltar atrás. Todos os outros livros começam a parecer-lhe aborrecidos e sem vida. Eu sei disso porque desde que li J. R. R. Tolkien, Ursula Le Guin e Robert Jordan tantos anos atrás, caí pela toca do coelho, como Alice, e nunca mais olhei para trás. Deixei-me deslumbrar com a odisseia de Pug e Tomas enquanto crianças que cresciam para se tornarem o mago e o guerreiro mais poderosos no mundo de Midkemia, emocionei-me com a demanda de Alessan e o seu grupo de conspiradores para resgatar o nome de Tigana, acompanhei a missão do feiticeiro Alannon e os seus companheiros para derrubar um poderoso inimigo que ameaçava Shannara, e arrepiei-me, como raramente me arrepiei na minha vida, ao ler sobre o poder de Jaenelle, a nova Rainha das Trevas nos livros de Anne Bishop.

QUEREMOS A SUA OPINIÃO SOBRE A BANG!

A sua opinião sobre a revista que tem nas mãos é fundamental para nós. Venha visitar-nos em www.revistabang.com e diga-nos o que pensa. Queremos que o próximo número seja ainda melhor do que este, mas isso só será possível depois de saber o que você tem a dizer: quer mais ficção? Mais resenhas? Mudava tudo? Não mudava nada? Estamos à sua espera!

É a nossa paixão pelo gênero fantástico que procuramos expressar em cada livro que publicamos ou em cada revista Bang! que editamos. Porque sabemos como o leitor de fantasia, ficção científica ou horror é exigente, tentamos criar com muito cuidado e carinho não apenas livros, mas algo que se torne memorável para o nosso público. Afinal antes de sermos editores, éramos também leitores. Juntem-se a nós nesta aventura que nos leva a novos países das maravilhas todos os dias.

Safaa Dib é coordenadora editorial na editora portuguesa Saída de Emergência desde 2008. Já foi tradutora e revisora e, desde 2010, edita, em Portugal e agora no Brasil, a Bang!, revista de literatura fantástica. Vive em Lisboa, onde coorganiza e participa de eventos associados ao gênero fantástico.

ELOGIO DO FÃ: Tamires Maria

“No instante que coloquei meus olhos na capa, já fiquei babando, então comecei a ler todo o conteúdo e vomitei arco-íris quando vi todo aquele material mais que fantástico e que me cativou.” (sobre a Bang! 0) BANG! /// 1


ilustrador convidado Fellipe Martins

1. Abe Sapien - Dare to Evolve Hellboy Fan Art, 2013 2. Hambo, Adventure Time, Fan Art, 2013 3. Enki 2013 4. 9 Lives 2013

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5. Adventure Time: Candy Capers #3 Boom! Comics, 2013


lá, me chamo Fellipe Martins e trabalho como ilustrador para games e quadrinhos desde 2007. Atualmente moro no Brasil e ilustro as capas das adaptações para quadrinhos dos desenhos animados Adventure Time e Regular Show, com uma capa publicada (Adventure Time: Candy Capers #3). Também trabalho com games independentes, em jogos ainda a serem lançados, como concept designer e user interface designer. Anteriormente, trabalhei na China por três anos com o estúdio Spicy Horse, na realização dos jogos Alice: Madness Return (como diretor de cinematics), American Mcgee’s Grimm (concept designer), Plants vs Zombies 3D (level artist) e Akaneiro: Demon Hunters (concept artist).

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@fell_martins http://www.flickr.com/ photos/nationpoo/ http://goquest.tumblr. com 2

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46 70 Não ão Ficção

02 10 12 15 22 30 32 34 40

Ilustrador convidado Fellipe Martins E-Libris: Meu Primeiro E-Reader Não Era um E-Reader Fábio Fernandes História Alternativa: Se os Holandeses Houvessem se Aliado aos Quilombolas Gerson Lodi-Ribeiro Autores Brasileiros de Terror Tiago Toy A Lenda Lenda de de Shannara: Shannara: O Mundo Mundo depois depois da da Magia Magia Ana Cristina Rodrigues A razão porque escrevo sobre Elfos Terry Brooks Entrevista com Terry Brooks Safaa Dib Nova Onda, Novas Capas Pedro Piedade Marques Os Infortúnios da Coleção Argonauta : Em Busca do Velo que Antevia o Futuro Luís Filipe Silva

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46 49 57 70 75 78

Quad: “Há um Tempo, Tem mpo, em uma Galáxia Muito Distante” Tiago Toy O Fantástico no Brasil: A Consolidação do Gênero Bruno Anselmi Matangrano Making Of: A História da Concepção da Capa de A Corte do Ar Luís Morcela Venha conhecer Outlander, a Viajante do Tem Tempo mpo Safaa Dib A Fantasia de Anne Bishop: Ao Encontro da Rainha das Trevas Ana Cristina Rodrigues EEntrevista t i t com Anne A Bishop Bi h Safaa Dib

Ficção

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Janela Bianca B. Fauro Um Nobre Coração Frini Georgakopoulos A Guerra dos Pombos Estevão Ribeiro

PARA MAIS INFORMAÇÕES SOBRE A COLEÇÃO BANG! OU A EDITORA SAÍDA DE EMERGÊNCIA VISITE-NOS EM: WWW.SDEBRASIL.COM.BR Revista Bang! Brasil 1 (ISSN 2318-5708) / Julho de 2014 Propriedade: Edições Saída de Emergência. Todos os direitos (e mais alguns) reservados. Diretor e escravo das galés: Luís Corte Real Editora (procurada pela Interpol): Safaa Dib Direção de arte e catering: Luís Corte Real, Luís Morcela, Maria do Mar Rodrigues, Ana Santos Colaboradores explorados nesta edição: Albarus Andreos, Ana Cristina Rodrigues, Anderson Tiago, Bruno Anselmi Matangrano, Carlos Pina Barbosa, Geraldo Penna da Fonseca, Guilherme Cepeda, Hérida Ruiz, Luís Filipe Silva, Luís Morcela, Pedro Piedade Marques, Shane Cook, Tiago Toy Autores e outros convidados sem voto na matéria: Anne Bishop, Bianca B. Fauro, Estevão Ribeiro, Fábio Fernandes, Fellipe Martins, Frini Georgakopoulos, Gerson Lodi-Ribeiro, Terry Brooks Equipe de tradução, revisão e adaptação: Ana Cristina Rodrigues, Juliana Souza, Rafaella Lemos e Safaa Dib Contato por E-Mail: Bang@ saidadeemergencia.com Redação: Rua Adelino Mendes, nº152, Quinta do Choupal 2765-082 S. Pedro do Estoril, Portugal Sede no Brasil: Rua Luiz Câmara, 443, Suplementar: Rua Felizardo Fortes, 420 – Ramos, 21031-160 – Rio de Janeiro – RJ Impressão (gralhas incluídas): RR Donnelley Tiragem: 10.000 Copyright: Textos e imagens propriedade da editora e/ou dos respectivos autores, etc. e tal. 4 /// BANG!


bang! coleção

só literatura fantástica Apresentação, por Luís Corte Real — Editor

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Saída de Emergência Brasil nasceu há pouco mais de seis meses e já tem tanta coisa para contar. Publicamos obras-primas da fantasia, como Mago, de Raymond E. Feist, Tigana, de Guy Gavriel Kay, e a fabulosa trama de ficção científica A Corte do Ar, de Stephen Hunt. Tudo com capas interessantes e uma distribuição feita com excelência pela Editora Sextante. Publicamos ainda esta revista gratuita e revolucionária que você tem nas mãos: são 80 páginas com os melhores ensaios, contos e entrevistas sobre fantasia, ficção científica e terror. Não satisfeitos, lançamos o Prêmio Bang! de Literatura Fantástica, que garante uma premiação em dinheiro, publicação no Brasil e em Portugal e a imortalidade – o vence-

dor será anunciado em dezembro deste ano. E tudo isso em pouco mais de seis meses. O que virá durante os próximos meses? Podemos esperar a continuação das grandes sagas que iniciámos, como Shannara de Terry Brooks ou A Trilogia das Jóias Negras de Anne Bishop. E muito mais! Da fantasia épica à sombria, da ficção científica distópica aos clássicos, a Saída de Emergência vai surpreender os fãs de literatura fantástica a cada mês. Obrigado a todos os que têm comprado nossos livros e nos apoiado nas redes sociais. Vamos apenas fazer mais um pedido: quando terminar de ler a revista, vá à página www.revistabang.com e dê a sua opinião para podermos melhorar sempre. E agora chega de conversa. A seguir, os livros que a coleção Bang! lançou no último trimestre.

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Com 12 milhões de livros impressos e 18 títulos consecutivos na lista de mais vendidos do New York Times, Terry Brooks é considerado um dos mestres da fantasia. Ele nasceu em 1944, em Illinois, e estudou na Hamilton College, onde se formou na Faculdade de Direito. Ávido escritor, Brooks sentiu-se inspirado a escrever fantasia depois de ler O Senhor dos Anéis. Apesar de trabalhar como advogado durante o dia, à noite dedicava-se à escrita e, em 1977, publicou A

Espada de Shannara.

O livro foi um sucesso imediato e se tornou a primeira obra de ficção a figurar na lista de livros de bolso mais vendidos do New York Times, onde permaneceu por mais de cinco meses. Terry Brooks vive com a esposa, Judine. Os dois moram parte do tempo em Seattle e parte no Havaí.

Março A Espada de Shannara TERRY BROOKS

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uando foi lançado em 1977, A Espada de Shannara causou grande sensação, vendendo mais de 125 mil cópias em poucos dias. Foi o primeiro livro de fantasia a entrar na lista dos mais vendidos do New York Times, e por lá ficou durante quase seis meses. Com esse sucesso, Terry Brooks mudou a percepção de editores, livreiros e críticos sobre a literatura fantástica. Não é exagero dizer que ele iniciou a era de ouro da fantasia épica, tornando-a um dos gêneros mais rentáveis e abrindo portas para os autores que viriam a seguir: Raymond E. Feist, David Gemmell, Robert Jordan e até George R. R. Martin. Brooks levou sete anos para escrever A Espada de Shannara. Antes tentara a sorte escrevendo livros de ficção científica, faroeste, com histórias de guerra, mas nada o satisfez. Só depois de ler Tolkien descobriu o gênero perfeito para ele: a fantasia épica. O famoso editor Lester del Rey viu em A Espada de Shannara a obra ideal para lançar o seu selo. Hoje a Del Rey é a casa de gigantes como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Philip K. Dick e China Miéville. Mas, afinal, de que se trata A Espada 6 /// BANG!

de Shannara? Simples: o livro é sobre aventuras de pessoas comuns passando por circunstâncias extraordinárias. Assim como Tolkien havia ignorado deuses e heróis e transformado Bilbo e Frodo Bolseiro em seus personagens principais, também Brooks optou por esse heroísmo mundano, apresentando-nos as histórias de homens e mulheres mortais apenas tentando fazer a coisa certa. A inspiração dele para criar uma das sagas mais bem-sucedidas da fantasia épica veio de muitos locais. Se o próprio editor foi uma grande influência, o mesmo se pode dizer de Tolkien, cuja magia e cujo encanto Brooks tentou transportar para os mundos de Walter Scott, Robert Louis Stevenson e Alexandre Dumas. Mas onde Tolkien era um acadêmico, Brooks sempre se assumiu como um autor de massas. Onde Tolkien se alongava em poemas, apêndices com traduções de linguagens fictícias ou origens de personagens, Brooks procurou aventura, emoção, reviravoltas inesperadas e ação frenética. Mas que ninguém pense que o mundo de Shannara é pobre em detalhes. Brooks fez dele um dos personagens principais de sua saga, dando-lhe vida, personalidade e muitos toques de originalidade. Não é todos os dias que lemos uma saga de pura fantasia épica que se passa no futuro, muitos séculos depois de um imenso holocausto

nuclear, cuja consequente radiação foi responsável pelo aparecimento de raças como trolls, gnomos e anões. Com o desaparecimento da tecnologia, a magia reapareceu e o mundo mergulhou num período que pode ser identificado com a Idade Média – mas uma em que todos nós gostaríamos de viver. Por isso, fãs de fantasia épica, preparem-se para uma imensa saga que atravessa séculos e continentes. Venham descobrir por que o nome “Shannara”, assim como “Terra-Média” ou “Hogwarts”, é um dos poucos que mesmo os leitores mais distraídos de literatura fantástica reconhecem e também sinônimo de pura aventura!

Anne Bishop mora no norte do estado de Nova York, onde gosta de passar o tempo ouvindo música, fazendo jardinagem e escrevendo. É autora de 17 livros, entre eles os da premiada Trilogia das Joias Negras. Seu romance mais recente, Twilight’s Dawn, entrou na lista de mais vendidos do New York Times. Bishop está escrevendo uma nova série sobre a qual adianta apenas tratar-se de uma história urbana fantástica e sombria, com grandes reviravoltas.


Ab r i l A Filha do Sangue

Livro Um da Trilogia das Joias Negras ANNE BISHOP

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Filha do Sangue é uma viagem inesquecível por um mundo estranho e assombroso dominado pela magia. Essa magia é proveniente de joias que são atribuídas a cada indivíduo em complexas cerimônias, e é em torno delas que existem os Sangue. Eles vivem para honrar as Trevas. São o produto de uma sociedade dividida por castas que acabou tomada pela crueldade. No início, eram os protetores do Reino, mas com o tempo a essência dos Sangue foi corrompida. Agora os machos são brutalizados desde a infância e se tornam escravos dos caprichos de rainhas maquiavélicas. Durante muito tempo as Trevas tiveram um Príncipe, mas a chegada de uma Feiticeira com um poder inimaginável foi profetizada. É então que nos é apresentada Jaenelle, o centro do universo negro e sensual criado por Anne Bishop. Ela ainda é jovem, vulnerável, inocente, sujeita a influências corruptas. Quem a controlar terá domínio sobre as Trevas. Cabe a três homens – três príncipes do Sangue que carregam o sobrenome SaDiablo – protegê-la: são eles Saetan, Senhor Supremo do Inferno, e seus filhos, Daemon e Lucivar. Esses três homens são muito diferentes entre si, mas partilham algumas características: muito poderosos, são profundamente atormentados, e as suas vidas serão alteradas para sempre por Jaenelle. O mais velho, Saetan, sabe que ela é a filha que lhe foi prometida em visões e terá que protegê-la contra a violência das castas. Daemon tem grande fama por sua beleza, mas elegância e sensualidade que tem são manchadas por cinismo e frieza em excesso. Trata-se de um príncipe de imenso poder, mas que é usado como mero escravo de prazer. Lucivar, por outro lado, incapaz de se subjugar à tirania das rainhas, não consegue controlar a raiva e é condenado a um encarceramento cruel. No universo de Anne

Bishop, há intensidade e ousadia que não deixam ninguém indiferente. As relações entre os personagens constituem alguns dos melhores momentos da obra, e todos eles sofrem com as escolhas que têm que fazer, cujas consequências são quase dolorosas demais para suportar. Apesar do enredo arrebatador e complexo do universo das Joias Negras, A Filha do Sangue é, no fundo, uma bela história de amor em que uma mulher é quase destruída por um mundo cruel, até o momento em que é salva (será mesmo?) por homens com almas desfiguradas pelo passado. Em Jaenelle está concentrada a força que permite que os três SaDiablo combatam seus demônios interiores. Mas que preço cada um deles está disposto a pagar para realizar seu desejo mais profundo? Venha descobrir as Trevas que habitam na mente tortuosa e criativa de Anne Bishop.

Tigana

Livro Dois, A Voz da Vingança GUY GAVRIEL KAY

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sse é o segundo volume de uma das mais deslumbrantes obras de fantasia histórica. Guy Gavriel Kay procura, em todos os seus livros, transcender as

fraquezas do gênero, elevando-o a uma arte superior. Com uma prosa simultaneamente poética e poderosa, A Voz da Vingança nos leva para um mundo rico em detalhes, onde imperam a violência das paixões e o desejo antigo de vingança. A sinopse é suficiente para deixar apaixonado quem ainda não leu o primeiro volume – e morto de curiosidade quem já o leu: Numa tentativa de recuperar Tigana, sua terra natal amaldiçoada, o príncipe Alessan e seus companheiros puseram em prática um plano perigoso para unir a Península de Palma contra os reis despóticos Brandin e Alberico. Brandin é um rei maquiavélico e arrogante, mas encontrou em Dianora alguém à sua altura e está hipnotizado por sua beleza e seu charme. Alberico está cada vez mais consumido pela ambição, incapaz de perceber todas as ciladas a seu redor. Enquanto isso, o grupo de heróis viaja pela península, em busca de alianças e trunfos que podem virar a batalha a seu favor. Alessan está mais moralmente dividido do que nunca, Devin já não é o rapaz ingênuo que costumava ser, Catriana apenas busca a redenção e Baerd descobre um novo tipo de magia. Tigana será capaz de vingar a memória de seus mortos? Ninguém consegue prever as perdas que sofrerão nem que fim terá esse embate. Sacrifícios serão feitos, segredos antigos serão revelados e, para que alguns vençam, outros obrigatoriamente terão que cair. Com personagens inesquecíveis, heróis e vilões que amamos e odiamos alternadamente e intrigas repletas de reviravoltas, A Voz da Vingança confirma o que todos já sabíamos: Guy Gavriel Kay é um dos maiores nomes da literatura fantástica atual.

Guy Gavriel Kay se iniciou no mundo literário ao ser convidado por Christopher Tolkien para editar O Silmarillion, de J. R. R. Tolkien. Tigana é uma de suas obras mais aclamadas. Gavriel Kay encontra-se traduzido em 25 línguas e recebeu numerosos prêmios e nomeações ao longo de sua carreira.

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O que ve m d e pois?

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Maio Mago – Espinho de Prata Livro Três de A Saga do Mago RAYMOND E. FEIST

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ago Aprendiz estreou a Coleção Bang! no Brasil. Mais do que um excelente livro de fantasia, a obra-prima de Raymond E. Feist é um clássico moderno que supera modismos, continua a conquistar leitores e terá lugar de destaque na literatura fantástica para sempre. Com Mago – Espinho de Prata chegamos ao volume três de A Saga do Mago. E tudo está ainda mais interessante: Durante quase um ano, a paz reinou nas terras encantadas de Midkemia. Porém, novos desafios aguardam Arutha, o Príncipe de Krondor, quando Jimmy Mãozinhas – o mais jovem larápio do Grêmio de Mofadores – surpreende um sinistro Noitibó prestes a assassiná-lo. Que poder maléfico fez com que os mortos se levantassem para combater em nome do Grêmio da Morte? E que magia poderosa poderá derrotá-los? Mas primeiro o Príncipe Arutha, na companhia de um mercenário, um bardo e um jovem ladrão, terá que fazer a viagem mais perigosa da sua vida, em busca de um antídoto para

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Raymond E. Feist é um dos nomes mais importantes da literatura fantástica. Traduzido em mais de trinta países, Mago foi o seu primeiro livro e serve de base para uma vasta obra que tem conquistado os principais tops. Este número da Bang! vai apresentar a você não só o autor, mas também a sua obra e a importância que tem num dos gêneros mais fascinantes: a fantasia épica.

o veneno que está prestes a matar a bela Princesa no dia do seu próprio casamento. Mais uma vez estão presentes os elementos da fantasia clássica – elfos graciosos, anões festeiros, dragões de um poder inimaginável, magia arrebatadora, batalhas épicas, vitória, perda, amor e ódio, numa teia complexa que só Raymond E. Feist sabe compor.

ançaremos mais títulos e autores que farão da Bang! a sua coleção preferida de literatura fantástica. Todo mundo sabe que, no Brasil, a ficção científica não tem a mesma força que a fantasia. Mas talvez isso mude se publicarmos os livros certos do gênero. Um deles é Brasyl, escrito pelo genial Ian McDonald. A ação se passa no Brasil, e a obra consegue ser profunda como Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, épica como a série Matrix, dos irmãos Wachowski, alucinante como Blade Runner, de Ridley Scott, e sombria como Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola. Parece exagero? Pois não é. Confira, no início de 2015, nas livrarias. Na mesma época, chega Magic Bites, de Ilona Andrews. Esse livro conta a história de Kate Daniels, uma sobrevivente num mundo pós-apocalíptico devastado pela magia. Depois do enorme progresso tecnológico que a sociedade alcançou, a magia regressou com tudo para se vingar da humanidade, destruindo toda a tecnologia com o uso de ondas que surgem e desaparecem sem aviso. É nesse mundo volátil e quase em ruínas que coexistem monstros, humanos, necromantes, metamorfos e criaturas das trevas. Kate é uma mercenária e assassina treinada que irá conquistar amigos e inimigos nas situações mais perigosas. Mas ninguém sabe que no sangue dela existe uma magia poderosa que ela deverá esconder de todos e que pode torná-la um alvo em potencial. Ela é uma das protagonistas femininas mais carismáticas da fantasia urbana e já ganhou uma legião de fãs por todo o mundo. Ao longo de vários livros, vamos descobrindo a história e o passado de Kate e as suas relações intensas com muitos personagens memoráveis. OUTROS LANÇAMENTOS DA COLEÇÃO BANG!

01. Mago – Aprendiz – Livro Um Raymond E. Feist 02. A Corte do Ar Stephen Hunt 03. Tigana – A Lâmina na Alma – Livro Um Guy Gavriel Kay 04. Mago – Mestre – Livro Dois Raymond E. Feist 05. A Filha do Sangue – Livro Um Trilogia das Joias Negras Anne Bishop 06. A Espada de Shannara – Livro Um Trilogia A Espada de Shannara Terry Brooks 07. Tigana – A Voz da Vingança – Livro Dois Guy Gavriel Kay 08. Mago – Espinho de Prata – Livro Três Raymond E. Feist 09. As Pedras Élficas de Shannara – Livro Dois Trilogia A Espada de Shannara Terry Brooks


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e-libris por Fábio Fernandes

Meu Primeiro E-reader Não Foi Um E-reader Vamos começar com o que pode ser uma verdade universal em se tratando de livros digitais: ninguém (pelo menos até bem pouco tempos atrás – entre 2011 e 2012 as coisas parecem ter deslanchado de vez) começou a ler e-books em um e-reader.

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rquivos PDF, claro, também contam, senão não tinha graça – e, afinal, a maioria dos livros para resenhar (e-ARCs, como são conhecidos em inglês) ainda hoje vem nesse formato. Mas você não pode levar um desktop para a cama – e é quando você se defronta com esse tipo de situação, meus caros leitores, que surge a necessidade por dispositivos cada vez menores para leitura. E a necessidade, como sabemos, é a mãe da invenção. Então, depois de um bom tempo lendo arquivos em formato PDF e até mesmo .txt (estes últimos em sua maioria livros clássicos do Gutenberg Project – se não o conhece, de que cápsula de criogenia você acabou de sair?), decidi comprar um netbook. Eu já tinha um notebook, mas ele era pesado demais para minha cama. Além do mais (essa era a mentira branca que eu estava contando a mim mesmo), eu poderia usá-lo para escrever meus contos ou fazer minhas traduções sempre que estivesse viajando. Esse netbook, comprado em 2009, ainda existe e sobrevive bravamente, mas raramente é usado. Nos seus dias de glória ele foi, sim, utilizado para contos (alguns) e traduções (várias), mas, falando sério? Eu. Comprei. Um. Netbook. Para. Ler. E-books. Consegui encontrar um bom modelo em liquidação numa loja DELL e o comprei sem culpa. (Claro que todas essas explicações e justificativas não me tornam menos maníaco, mas esta é a natureza de toda boa obsessão.) Comecei a ler muitos e-ARCs nele (importante ressaltar que nesta época eu praticava amadoramente o ofício de resenhista para vários sites dos EUA, entre os quais o SF Signal (sfsignal.com), e duas vezes fui premiado com o Hugo Award), e finalmente 10 /// BANG!

estava mais feliz do que antes porque agora – o que para mim não era pouco – eu podia ler na cama. Notem que eu disse mais feliz, não feliz. Porque um netbook é muito mais leve e melhor que um notebook, mas não é um dispositivo móvel feito para ler e-books. (Traduzindo: ele ainda batia na minha testa sempre que eu começava a cochilar. Não me perguntem como.) Então, no segundo semestre de 2009, eu comprei meu primeiro iPhone – e descobri que existia um app chamado Stanza, feito somente para ler e-books em outro formato, o ePub.

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ePub é um formato bem melhor que o txt, sem dúvida. Um arquivo .txt, ou qualquer formato compatível com o Microsoft Word, para quem nunca viveu o tempo das máquinas de escrever, é a coisa mais próxima que existe de visualizar páginas datilografadas em uma Olivetti ou Remington – é quase como se você estivesse lendo o manuscrito do autor. O lado ruim é que naquele tempo não existiam os recursos de edição de um computador; variações de fontes? Nem pensar! Neste ponto específico, o ePub é melhor que um PDF, mas só por causa disso. Um PDF (Printable Document Format) é basicamente uma cópia virtual das páginas físicas do livro que você terá em suas mãos se for à livraria comprá-lo. Se o PDF estiver formatado em, digamos, Times New Roman, então você não deverá ter nenhum problema em lê-lo em um dispositivo compatível (como o Kindle ou o Kobo, mas vamos tratar disso mais a fundo em outra coluna, ok?). Porém, se o PDF estiver formatado em uma fonte mais fina, como a Garamond, por exemplo, então ele se torna praticamente ilegível, mesmo que você dê um zoom de 200 ou 400 por cen-


to (e aí você terá que dar scroll horizontal também, o que é outra praga, e não o objetivo de uma leitura on-line). Li muitos livros no Stanza enquanto esse app era inteiramente compatível com o iPhone (desde 2013 que ele não é mais), e embora eu não fosse muito fã da formatação dele, principalmente para telas pequenas (o recurso de zoom-in faz as letras ficarem levemente borradas nas margens, então o meThe Windup Girl lhor é mantê-lo no tamanho Paolo Bacigalupi fit-to-screen, que é bastante legível quando o livro é convertido corretamente), rapidamente me acostumei. O primeiro livro que li nesse app foi Hidden Empire, de Kevin J. Anderson, e o melhor (tanto em conteúdo quanto em termos de formatação) foi The Windup Girl, de Paolo Bacigalupi. De 2009 para cá, entretanto, uma série de apps começou a ganhar notoriedade entre os smartphones (notaram que eu não mais falei do netbook, certo?) para leitura de e-books e e-documents, como o PDF Reader, o iBooks (que foi criado para o iPad mas também possui versão para o iPhone), o eReader (que, durante alguns meses, me permitiu, através de sites como o Fictionwise, comprar edições de Analog, Asimov’s e Lightspeed) e finalmente o Kindle. Mas essa é outra história. (P.S.: se depois de ler este texto você ficou curioso com o Gutenberg Project mas está incomodado com os arquivos .txt, eles já oferecem opções para Kindle, Nook, iPad, iPhone, Android e outros dispositivos móveis. O que você está esperando?)

I N TOC A D OS http://www.intocados.com.br

O ÚLTIMO DESEJO (SAGA DO BRUXO GERALT DE RÍVIA #1) ANDRZEJ SAPKOWSKI    

O Último Desejo, primeiro livro do autor polonês Andrzej Sapkowski, da saga do bruxo Geralt de Rívia, foi publicado em 2011 pela editora WMF Martins Fontes, com tradução direta do seu idioma original. A história conta as aventuras de Geralt, um bruxo que tem como missão caçar os monstros malignos que assolam o mundo. A narrativa, em sua maior parte em terceira pessoa, parte de um capítulo inicial no presente, enquanto os capítulos seguintes são contados através de recordações do passado. Esse recurso narrativo causa a impressão de contos separados entre si, não fosse o uso de interlúdios entre cada um dos capítulos. Um fato curioso e interessante é que o autor insere contos de fadas conhecidos como: A Bela e a Fera, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Bela Adormecida, entre outros, em seu mundo sombrio. Este será um livro que, com certeza, irá dar uma grande amplitude na forma como você vê a literatura fantástica. / Anderson Tiago L E N D O NA S E N T R E L I N H A S http://www.lendo nasentrelinhas.com.br/

A COMPANHIA NEGRA GLEN COOK   

Publicado originalmente na década de 1980, A Companhia Negra de Glen Cook, é considerado um clássico da literatura fantástica. Com uma atmosfera sombria e uma ambientação épica/ medieval, o livro transporta o leitor para um universo de magia, sombras e batalhas sangrentas. A Companhia Negra é um grupo de mercenários, milícia formada por homens cujo valor moral flerta com a integridade e a desonra. O enredo não possui uma abordagem maniqueísta – onde o bem e o mal são forças absolutas e ocupam lados opostos –, pelo contrário, aqui os personagens são muito humanos e capazes tanto de atos nobres como duvidosos. Narrado em primeira pessoa, é sob o olhar de Chagas – médico e analista – que acompanhamos as conquistas e desventuras da Companhia Negra. A saga já possui dez volumes. Vale a pena conferir. / Hérida Ruiz

V I C I A D OS E M S AG A S E S É R I E S http://www.sagaseseries.com.br/

ROVERANDOM

J. R. R. TOLKIEN     

Fábio Fernandes é escritor e tradutor. Autor de Interface com o Vampiro (ed. independente, 2000), A Construção do Imaginário Cyber (Anhembi Mocumbi Universidade, 2006) e Os Dias da Peste (Tarja Editorial, 2009), editou as antologias As Cidades Indizíveis, com Nelson de Oliveira (Llyr Editoral, 2012) e We See a Different Frontier, com Djibril al-Ayad (The Future Fire, 2013). Tem contos publicados em diversas antologias no Brasil e no exterior, como Steampunk Reloaded (Tachyon, 2010), Space Opera II (Draco, 2012) e The Apex Book of World SF, Vol. 2 (Apex Publications, 2012). Traduziu para o português brasileiro, entre outros, Laranja Mecânica, Neuromancer, Nevasca, Fundação, Reconhecimento de Padrões e 2001 – Uma Odisseia no Espaço.

No verão de 1925, Tolkien e sua família passavam férias em Filey, no litoral de Yorkshire. Michael, um de seus filhos, tinha um cãozinho de brinquedo pintado de branco e preto, pelo qual era apaixonado, mas em uma brincadeira, lançando pedras ao mar, acabou perdendo-o em meio aos seixos da praia. Tendo isso como fundo, Tolkien resolveu desenvolver uma história para entreter seus filhos, que tempos depois, acabou por ser posta no papel. Assim nasceu Roverandom, uma espécie de conto cheio de mistérios e magia, com um forte toque de fábula infantil, mas impregnado de qualidade textual, e uma capacidade de nos prender e angustiar com as aventuras de um cãozinho enfeitiçado por um mago malvado. / Geraldo Penna da Fonseca BANG! /// 11


historia alternativa Se os holandeses houvessem se aliado aos quilombolas por Gerson Lodi-Ribeiro

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ora das fronteiras de nosso vasto mundo lusófono, poucos são os que sabem que o Brasil do século XVII abrigou dois outros Estados, além da colônia da Coroa portuguesa. A primeira dessas possessões foi outra colônia, Nova Holanda, estabelecida pela poderosa Companhia das Índias Ocidentais. Esta, em seu apogeu, chegou a ocupar boa parte do litoral do Nordeste. A segunda constituiu uma nação soberana de pleno direito, com seus monarcas e conselhos de Estado: a Confederação de Palmares, formada pelo amálgama de quilombos e mocambos fundados por ex-escravos bantos que conseguiram escapar das fazendas e dos engenhos nordestinos onde se produziam as riquezas das elites luso-brasileiras. Em nossa história, essas duas nações, por assim dizer — Palmares no interior da capitania de Pernambuco e Nova Holanda no litoral do Nordeste — pouco interagiram uma com a outra. No entanto, há uma pergunta espinhosa que sempre instigou o historiador alternativo de plantão: o que teria acontecido se tal interação fosse mais intensa e, so12 /// BANG!

Brasão Nova Holanda

Nova Holanda bretudo, se atuasse em detrimento dos interesses luso-brasileiros? Outro fato histórico relevante que, mesmo inegável, só nós lusófonos parecemos saber é que a Primeira Guerra Mundial ocorreu de fato naquele longínquo século XVII, mais precisamente entre os anos de 1624 e 1654. Como é que é? É simples: se entendermos por “Guerra Mundial” um conflito duradouro e generalizado, de

vastas proporções e com dezenas de teatros de operações espalhados pelo mundo afora, então a longa guerra deflagrada pelos sete mares e em três continentes distintos entre Portugal e Holanda — dois países minúsculos, mas dispostos a controlar o comércio do mundo — constituiu essa Primeira Guerra Mundial avant la lettre. Uma guerra mundial cujo resultado, do ponto de vista de Portugal, pode-


ríamos descrever numa de judeus e cristãosfrase curta, parafraseannovos abastados, temedo o historiador britânico rosos da ação malévola C.R. Boxer, autor de O da Inquisição espanhoImpério Marítimo Português la. Homem de visão e 1415-1825: “Derrota na empreendedor, Nassau Ásia, empate na África e aterrou uma área pantauma vitória memorável no nosa próxima ao Recife Brasil”. para construir um novo Contudo, convém lembairro, a cidade Maurícia, brar que, durante boa onde instalou as sedes da parte desse conflito, de administração de Nova 1624 a 1640, Portugal Holanda e dos escritónão existia como Estado O Império Marítimo rios da Companhia das independente, uma vez Português 1415-1825, Índias Ocidentais — em que era, junto com suas obra de C.R. Boxer poucos anos, boa parte da possessões ultramarinas, classe abastada da capital parte integrante do Império espa- da colônia se mudaria para lá. Homem nhol. Aliás, foi justamente o fato de de cultura, Nassau trouxe consigo da pertencer à Espanha que atraiu os Europa uma corte de sábios, dentre os ataques holandeses. Assim, até 1580, quais: o pregador protestante Franziskus enquanto potência independente, Plante; o médico e naturalista Willem Portugal tinha nos holandeses aliados Pies; o botânico alemão Georg Marcgraf e parceiros comerciais confiáveis. A e o cosmógrafo Ruiters. Também data guerra eclodiu porque, com a perda dessa época a consda independência e a incorporação trução do primeiro ao império de Felipe II, as colônias observatório astroportuguesas passaram a ser o que ha- nômico do hemisvia de mais desprotegido e, portanto, fério, no Recife, e a mais vulnerável, desse império. Dessa fundação do primeiro forma Portugal perdeu quase todas as jardim botânico do possessões asiáticas para a Holanda e Brasil. o Brasil foi invadido. O regresso de Foram duas as invasões holandesas Nassau à Europa ao nordeste brasileiro. A primeira delas em 1643 marcou o se deu em 1624, quando os holandeses início da decadência ocuparam por mais de um ano a cidade de Nova Holanda. de Salvador, então sede do Vice-Reino Apesar disso, levou do Brasil. Em 1625, após um mês de ainda cerca de uma década para que os combates ferrenhos, a cidade acabou luso-brasileiros conseguissem expulsar sendo libertada pelas tropas luso-es- definitivamente o invasor. panholas trazidas a bordo de uma poCom o declínio econômico dessa derosa armada composta por naus dos Invasão holandesa ao nordeste brasileiro. dois países ibéricos. A segunda invasão teve consequências muito mais graves e duradouras. Boa parte das terras férteis do nordeste brasileiro esteve sob controle holandês desde o início da segunda invasão em 1630 até a expulsão definitiva do inimigo em 1654. A fase mais brilhante da existência da colônia de Nova Holanda deu-se entre 1637 e 1643, sob o governo do Conde Johann Moritz von Nassau-Siegen, conhecido entre nós como Maurício de Nassau. Estadista perspicaz, em certa medida teve êxito em conciliar os interesses de comerciantes e militares holandeses protestantes com os dos senhores de engenho luso-brasileiros e do clero católico. Além disso, conseguiu atrair para o nordeste holandês comunidades

colônia, o governo das Sete Províncias Unidas e a direção da Companhia das Índias Ocidentais propuseram que Nassau regressasse ao Brasil no comando de navios e exércitos, para restabelecer a ordem e recuperar a produção açucareira, enfraquecida no período imediatamente posterior à partida do estadista. O antigo stadhouder holandês teria concordado com a ideia a princípio,

Maurício de Nassau

Sagaz como era (Nassau), o mais provável é que desse ouvidos à velha máxima que afirma que “os inimigos de meus inimigos são meus amigos”. mas, impôs como exigência que lhe concedessem poderes absolutos para governar a colônia, além do comando de contingentes militares superiores

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População do nordeste brasileiro em homens e navios àqueles que a Companhia parecia disposta a financiar. Diante do impasse, Nassau teria recusado a proposta de regressar ao governo de Nova Holanda. O resultado dessa recusa faz parte de nossos livros de História. Fica aqui a pergunta: E se Nassau ou a Companhia tivesse se mostrado mais flexível, quem sabe só um pouquinho menos intransigente, e com isto as duas partes acabassem chegando a um acordo? Vamos imaginar que Nassau houvesse de fato regressado ao Brasil para retomar a obra deixada pela metade. Mas, esperem um instante. Onde é que os quilombolas de Palmares estavam durante as Invasões holandesas e em que lugar esses palmarinos se encaixariam neste cenário histórico alternativo? Bem, a verdade é que, durante a ausência de Nassau, os holandeses empreenderam duas investidas militares contra os negros bantos rebelados que então constituíam a Confederação de Palmares. Dois fracassos completos. Após seu regresso, quem sabe Nassau não adotaria uma atitude mais sábia e pragmática do que a exibida por seus antecessores? Sagaz como era, o mais provável é que desse ouvidos à velha máxima que afirma

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que “os inimigos de meus inimigos são meus amigos”. Vamos supor que tal aliança entre holandeses e palmarinos de fato acontecesse. O primeiro passo, é lógico, seria o regresso de Nassau sob novas bases. O conde aceitaria o convite da Companhia das Índias Ocidentais e retornaria ao Brasil por volta de 1647 no comando de um grande exército e uma Armada poderosa. Uma vez reassumido o governo de Nova Holanda, ele talvez intuísse a conveniência de estabelecer uma aliança com a Confederação de Palmares contra o inimigo comum luso-brasileiro. Afinal, uma vez armados e adestrados na fina arte da guerra europeia, os palmarinos constituiriam aliados poderosos, capazes de resolver os problemas crônicos provocados pela guerrilha luso-brasileira em suas incursões contra os exércitos regulares de Nassau e, sobretudo, a questão crucial da inferioridade numérica dos holandeses. Um cenário alternativo deste tipo talvez assegurasse não só a sobrevivência, mas a prosperidade de Nova Holanda no nordeste brasileiro do século XVII. O Recife se transformaria da noite para o dia na maior cidade do hemisfério e no maior porto açucareiro do mundo — isto numa época em que o açúcar refinado valia quase que seu preço em ouro. Contudo, é bem provável que o preço a pagar pela sobrevivência de Nova Holanda fosse caro demais. Os palmarinos aprenderiam rápido não só as artes da guerra, mas também os refinamentos e a cultura das civilizações europeias. No intervalo de uma ou duas gerações, adquiririam conhecimentos que os europeus levaram milênios para dominar. Diante de tais circunstâncias, com o apoio holandês, os palmarinos fabri-

cariam pólvora, arcabuzes e canhões. Estruturariam seus exércitos com as melhores técnicas apreendidas tanto às forças holandesas quanto à guerrilha luso-brasileira. Daí, começariam a derrotar as forças leais à Coroa em todas as frentes de combate. Com o tempo, não é inconcebível afirmar que esse amálgama de quilombos acabasse constituindo a primeira nação independente das Américas — grosso modo um século antes da revolução que conduziu as 13 colônias britânicas à independência. Numa configuração desse porte, é discutível se o Brasil lusitano conquistaria sua independência. Contudo, ainda que os luso-brasileiros conseguissem estabelecer uma nação soberana na América do Sul, tal país hipotético decerto se consolidaria num Brasil territorialmente menor, porém, com toda a probabilidade, uma nação militarmente mais dinâmica (até por necessidade, em virtude dos vários conflitos e disputas travados contra Palmares ao longo dos séculos), quem sabe mais aguerrida, orgulhosa e independente do que o Brasil da nossa linha histórica.

Gerson Lodi-Ribeiro publicou duas noveletas na versão brasileira da Asimov’s: a FC hard “Alienígenas Mitológicos” e a história alternativa “A Ética da Traição”, que abriu as portas do subgênero no fantástico lusófono. Finalista do Sidewise Awards (2000) com o conto “Xochiquetzal”; autor das noveletas premiadas “O Vampiro de Nova Holanda” (Prêmio Nova 1996) e “A Filha do Predador” (Nautilus, 1999 — publicada na “Sci-Fi News Contos”), das coletâneas Outras Histórias..., O Vampiro de Nova Holanda, Outros Brasis, Taikodom: Crônicas e As Melhores Histórias de Carla Cristina Pereira, e dos romances Xochiquetzal: uma Princesa Asteca entre os Incas (história alternativa) e A Guardiã da Memória (FC erótica — Prêmio Argos 2012). Presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica nos biênios 1999-2001 e 2001-2003. Editor das antologias Phantastica Brasiliana, Como Era Gostosa a Minha Alienígena!, Erótica Fantástica 1, Vaporpunk, Dieselpunk e Solarpunk.


F

elizmente já se foi o tempo em que o lado de maior qualidade da literatura nacional era o formado por clássicos inspirados em romances do sertão e outros assuntos que, embora tenham um valor indiscutível para a história do país, não tenham força para despertar o interesse pela leitura. Como autor de um livro de “zumbis” e contos de terror, não sou lá muito bem-visto por figuras mais, digamos, sérias do mercado literário. Houve um tempo em que isso me incomodava, admito, mas, após receber e-mails de pais e tios relatando que, de repente, seus filhos e sobrinhos que não cultivavam o hábito de ler devoraram os textos publicados em meu blog e as páginas do meu romance, concluí que, independente de ser alta literatura ou apenas entretenimento, o objetivo é entregar ao leitor aquilo de que ele precisa naquele exato momento. Romance, suspense, fantasia. Cada um sabe o que lhe agrada – embora alguns ainda se sintam constrangidos em assumir que têm prazer em ler Crepúsculos da vida. É incrível quando nos deparamos com argumentos rasos que tentam desmerecer obras “pobres”, feitos por críticos meia-boca que não atentam ao fato de que, graças a estas mesmas “porcarias”, o gosto pela leitura no Brasil deu um salto inimaginável. Lembro-me de minhas voltas pelos metrôs de São Paulo, mais precisamente em meados de 2009, onde me deparava sempre, sem exceções, com pessoas equilibrando-se no balançar do vagão enquanto liam, compenetradas, páginas de um Lua Nova, de um Harry Potter ou até de títulos não tão conhecidos. Mais tarde vieram os grossos tomos das Crónicas de Gelo e Fogo, e, mesmo que fosse mais difícil segurá-los, seus leitores não desistiam: quase caíam no piso do trem, mas não perdiam uma palavra daquelas histórias fantásticas. O resultado da abertura para o novo hobby veio destas obras; não exclusivamente, mas não se pode negar a generosa parcela de mérito. Graças ao crescimento do número de leitores brasileiros e da busca por gêneros antes considerados

underground, novas editoras surgiram, algumas com foco em autores inéditos que trabalhassem em algo menos convencional, como o terror. Inicialmente havia um ponto negativo: encontrar escritores com voz própria. Para amantes do gênero horror, a bagagem costuma vir de produções estrangeiras, como os comerciais de Hollywood, os viscerais franceses e italianos, ou os orientais, estes mais crus e, talvez por isso, arrepiantes. Como autor que começou a escrever despretensiosamente em um blog, posso dizer que, antes de começar a minha história, gostava de procurar outras, espalhadas em massa pela internet. A semelhança que encontrava em quase sua totalidade era a influência gringa. Dificilmente as tramas se situavam em solo tupiniquim, havendo preferência por paisagens frias de Londres ou ruas noturnas dos Estados Unidos – e claramente se via que nenhum dos autores havia estado em tais terras, tendo como alusão somente o que viam na TV. Nenhum deles percebia quão importante era uma boa pesquisa de campo. O gênero deixou de ser restrito ao underground e passou a ser criado também pelos que visavam mais do que encher uma página de coisas legais, aleatórias e sem sentido. Jornalistas, cineastas e outros profissionais perceberam a chance de poder escrever algo menos ambicioso, refletindo preferências antes escondidas no fundo da gaveta, e passaram a desenvolver escritos sobrenaturais, fantasiosos e assustadores em locais conhecidos pelo público. Por causa da coragem destes autores pudemos encontrar uma caravela portuguesa naufragada em uma praia do Rio Grande do Sul, testemunhar uma batalha entre anjos e demônios na ponte Rio-Niterói, descobrir que um espírito vingativo pode nos matar se não repassarmos aquele e-mail de correntes (aparentemente) inofensivas ou conhecer uma São Paulo tomada por um apocalipse zumbi. Aficionados pelo macabro têm facilidade em dizer o nome de cada um dos mais clássicos monstros do cinema, mas não em encontrá-los em solo brasileiro – até agora! Pensar que BANG! /// 15


ZUMBI

LOBISOMEM

ão é preciso repetir que os zumbis estão em evidência atualmente. Com a popularização de The Walking Dead, os fedidos dominaram a mídia, seja em livros, filmes, séries ou jogos. O inusitado foi vê-los caminhando pela Avenida Paulista ou devastando cidades do interior de São Paulo. Iniciado em um blog, em agosto de 2008, quando os zumbis ainda eram exclusividade de Romero, Terra Morta: Fuga é considerado o primeiro romance de zumbis nacional de sucesso. Descoberto pela Editora Draco, Tiago Toy (sim, eu) decidiu deixar a lentidão dos mortos-vivos clássicos de lado (além de ignorar o fato de que estariam mortos), transformando-os em vítimas ainda vivas de uma doença altamente infecciosa e que os transforma em canibais cegos pela raiva, e deu um upgrade no medo ao fazê-los rápidos. Misturando personagens reais, como você ou eu, parkour, seres infectados e pontos conhecidos da capital paulista, Terra Morta é o ensaio definitivo sobre como seria um apocalipse zumbi no Brasil, uma saga de sobrevivência ao terrível mal que assolou o interior de São Paulo e agora se dirige à capital. Buscando situações mais próximas à realidade, a trama deixa de lado as soluções fáceis (afinal, é muito mais fácil encontrar lojas de armas em Nova Iork do que na pequena Jaboticabal, cidade-palco da história) e foca o desenvolvimento nas relações interpessoais entre os sobreviventes e seus se inimigos, estes eencontrados ta também en entre os não infectad tados. facebook book.com/ terra terramortaoficial ofi

er vítima de licantropia causa um pavor que equilibra os benefícios da transformação. O relato de um humano amaldiçoado por essa metamorfose é fascinante porque sentimos como é o horror de enfrentar um animal incontrolável e sobrenatural partilhando do mesmo corpo, prestes a sair e destruir o que ou quem estiver na frente assim que perder o controle. É o conceito básico de O Médico e o Monstro. Todos temos um monstro interior, e cabe a nós respirar fundo e controlá-lo. Marcos DeBrito preferiu deixar o autocontrole de lado e obteve êxito em criar um dos mais pavorosos lobisomens já vistos. Até certo ponto você pensa: “Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas esse lobisomem é igual a qualquer outr...”, e então grita: “OPA! Não acredito. Que demais!” Nunca pensei que essa clássica criatura pudesse ser reinventada do modo como Marcos o fez e continuar assustando. Mas a conclusão a que cheguei é: assusta, e muito. Em À Sombra da Lua, lançado pela Editora Rocco, cuja trama se desenrola entre os anos de 1893 e 1920, acompanhamos mortes violentas acontecendo em um vilarejo em Vila Socorro, interior de São Paulo e reduto da imigração italiana no Brasil. Nessa época, a religião e a ignorância eram as piores armas – em ambos os sentidos – à disposição do homem. Sabendo dosar romance, drama e terror como um mestre já solidificado em sua área, Marcos apresenta fortes conhecimentos em discussão política e religiosa, além de saber exatamente quais palavras usar para prender a atenção do leitor. Um presente extra é a possibilidade de “visualizar” as cenas, descritas como se o leitor estivesse assistindo a um filme. Não dá para negar que é trabalho de um cineasta – e dos bons. f a c e b o o k . c o m / L I V R O. ASOMBRADALUA

N vampiros habitam somente os recônditos da Transilvânia, que demônios são exorcizados apenas sob as cortinas do Vaticano ou que lobisomens uivam unicamente sob a noite enluarada dos Estados Unidos é coisa do passado. O folclore regional, se trabalhado da forma certa (ou errada), tem capacidade para causar calafrios. Quem nunca ouviu os causos arrepiantes de parentes que moram no interior e juram ter visto o Saci? Eu já. Mas quando o desconhecido vem de fora e ganha uma nova roupagem, o desejo de descobri-lo em toda sua plenitude anda de mãos dadas com o medo de continuar. A seguir apresento uma série de títulos que têm o terror como destaque. Autores brasileiros que decidiram trazer ao Brasil, através de sua escrita, monstros vistos apenas em terras longínquas. Com isso, não só uma nova geografia passou a ser explorada – e assombrada – por estas criaturas, como algumas destas passaram a apresentar características nunca vistas em seu molde original.

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FANTASMA

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e existe algo realmente entranhado no mundo virtual desde que acessei a internet pela primeira vez (e sabe-se lá desde quando ou como surgiu) são as incômodas correntes. Que atire o primeiro mouse sem fio quem nunca recebeu um e-mail do tipo, geralmente assinado por algum falecido que ameaçava fazer uma visita àqueles que não o repassassem. Confissão: no fundo, bem no fundinho, eu imaginava se havia alguma verdade naquela “brincadeira”. Quem nunca? Estevão Ribeiro deve ter recebido um também, pois A Corrente, lançado pela Editora Draco, nos apresenta uma assustadora possibilidade do que pode acontecer se a tal corrente não seguir seu rumo. E haja inspiração! A história, situada na ilha de Vitória, capital do Espírito Santo, transporta os melhores elementos dos mais assustadores filmes de horror orientais, com suas fantasmas cabeludas e vingativas, para um solo totalmente brasileiro. Aproveitando a premissa do sentimento que temos quando nos deparamos com as citadas correntes, Estevão consegue criar algo novo, ainda que remeta diretamente a filmes como O Grito ou O Chamado, ao dar “vida” a Bruna, uma figura envolta por mistérios e que provoca no leitor um calafrio eficiente. Como uma forma de me envolver de fato com a história do livro, o li de uma só vez, de madrugada, todas as luzes apagadas, e com o auxílio de uma pequena tela luminosa de LED própria para leitura no escuro. Posso dizer que com certeza funcionou. Não foram raros os momentos em que olhei para trás do sofá a fim de ver se eu continuava sozinho. acorrente.wordpress.com

VAMPIRO VA

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riaturas sedutoras, cruéis, inteligentes, com crises de cons consciência ou ama amando ser o que são, vampiros já foram retratad tados das mais div diversas formas. An Antes considera rados criatura das trevas ras

originais apenas se viessem com a etiqueta MADE IN TRANSYLVANIA, passaram a aparecer em ruelas de Paris, aldeias da Antártida ou cidades interioranas dos Estados Unidos. Mais adiante pisaram em solo brasileiro ao ganhar espaço em novelas globais, e então chegaram às páginas dos livros nacionais, o mais conhecido destes sendo Os Sete, de André Vianco. O detalhe é que, apesar do sucesso, o destaque abusivo em p qque títulos de um único autor impede os leitores possam outras conhecer o boas obras, tão quanto. Não se ontece. culpe: acontece. Felizmente,, estou aqui para ajudar. Nazarethe a Fonseca, dama do terioror nacioriu nal, preferiu smanter a essência sen-sual doss dentuços e trouxe à luz (ou seas?) a série Alma ria às trevas?) e Sangue, contada em quatro livros: O Despertar do Vampiro, O Império dos Vampiros, O Pacto dos Vampiros e A Rainha dos Vampiros, todos lançados pela Editora Aleph. Ambientada em São Luís, no Maranhão, a saga apresenta ao leitor a restauradora Kara Ramos, que, durante a reforma de um casarão colonial, é raptada por um vampiro de 400 anos. A trama proporciona o melhor do que a literatura nacional tem a oferecer, e sinceramente não deve nada a Anne Rice. Sem exagero. Com facilidade em causar sensações tangíveis no leitor, Nazarethe domina o dom de criar e descrever sentimentos, lugares e ações. Seus personagens são ricos, críveis, como se a autora tivesse se inspirado em pessoas do seu dia a dia, os estudado e analisado para que tais personagens fossem perfeitos, tanto para quem lê quanto para si própria. E como não pode faltar em uma boa história vampiresca, há trechos mais, hum, voluptuosos. Quem não gosta de uma gostosa mordida no cangote? almaesangue.com.br

DEMoNIO

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ma das maiores decepções da minha vida foi o filme O Exorcista. Como sempre fui um pirralho fascinado por filmes de terror, ouvia de todos que eu devia assisti-lo, já que ele é considerado o filme mais aterrorizante da história. Lembro-me de quando finalmente consegui conhecer aquela tão temi temida criação... e quase dormi. Se a película p baseada em ““fatos reais” tivesse segguido um caminho mais, ddigamos, real, talvez o ef efeito fosse mais palpável. Di Dificilmente alguém acerta a mão m ao criar uma trama sob sobre exorcismo, seja ela de ficçã cção ou não. Onde já se viu uma cabeça girar 360° e continuar em seu funcionamento perfeit perfeito? Rena Renato Siqueira, cineasta e roteiris roteirista, em parceria com o escritor Lu Luciano Milici, apostou na produçã produção de um longa também baseado em fatos reais, Diário de um Exorcista, Exorci que acompanha o padre Lucas Vidal e suas experiências com posse possessões. O tema exorcismo já havia sido explorado pelo cinema nacional uma vez, quando o cineasta José Mojica Marins dirigiu, em 1974, Exorcismo Negro. A diferença, no caso, é que a obra do eterno Zé do Caixão trata-se de uma ficção, e o rito explorado nele é diferente. Não contente com um filme, Renato decidiu adaptá-lo a outra mídia: literatura. Lançado pela Editora Évora, Diário de um Exorcista respeita a biografia real de Lucas Vidal, um padre nascido no interior, cujo início da adolescência foi ado por marcado uma terrível tragédia: o suicídio eu pai. de seu Enquanto me foi o filme adaptado para o cinema lapidando o que era mais relevante e oaterrorizan-te, o

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livro é mais detalhado, pois permite uma carga maior de informações e verticalizações. Não pense que o livro (ou o filme) está repleto de cabeças girando e vômito verde. A ideia foi ser fiel ao que os entrevistados narraram, priorizando o desespero, a aflição e o medo dos possuídos e suas famílias, além da preparação e da tensão que os padres enfrentam ao encararem a responsabilidade sagrada, segundo eles. Há uma terrível realidade oculta que a ficção evita mostrar – diferente do trabalho de Renato e Luciano. diariodeumexorcista.com.br

SERIAL KILLER

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ual o seu filme de terror favorito?” ou “Quero jogar um jogo” são frases que, à simples menção, remetem a grandes títulos do gênero (ou subgênero, se formos considerar suas derivações, como slasher, torture, torture porn, e por aí vai), respetivamente: Pânico, de Wes Craven e Jogos Mortais, de James Wan. Escondidos atrás de bizarras máscaras, portando as mais diversas “ferramentas de trabalho”, como facas, machados ou serras elétricas, ou amedrontando suas vítimas através de ligações anônimas ou bonecos arrepiantes, os serial killers (os bons e velhos assassinos em série) podem não ser (em sua maioria, não é, Freddy?) criaturas sobrenaturais, mas podem ser tão ou mais cruéis do que qualquer aberração imortal vagando pela floresta. Homens comuns, com profissões comuns, que escondem hobbies mortais em seu íntimo impulsivo. Adolescentes peitudas são seu ponto fraco. Esquecendo um pouco os clichês norte-americanos e optando por um estilo próprio, Ricardo Ragazzo traz urgência e descrições viscerais em 72 Horas Para Morrer, lançado pela Novo Século, onde Júlio Fontana, delegado da pacata cidade

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de Novo Salto, tem a vida transformada em um inferno quando pessoas próximas começam a ser brutalmente assassinadas, como parte de uma fria e sórdida vingança contra ele. Sua esperança é desvendar as pistas aleatórias que surgem e torcer para que as 72 horas seguintes sejam o suficiente. Com toques tarantinescos e sem medo de chocar o leitor ao servir as cenas malpassadas em uma bandeja, Ricardo situa o thriller em cenários abrasileirados e nos apresenta um assassino que não deve nada aos mascarados de Pânico da vida. facebook.com/escritorragazzo

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então? O que vai ser? Um felpudo lobisomem? Um cheiroso zumbi? Um fantasminha camarada? O leque é grande. E não será mais preciso tirar o passaporte para poder ir visitar as casas mais mal assombradas dos Estados Unidos ou o a floresta The Black Hills. Abra os olhos. Preste atenção. O terror está mais perto do que você imagina.

CASA ASSOMBRADA

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ior do que qualquer um dos monstros citados é quando o ataque vem de algo muito mais difícil de destruir. Podemos correr de assassinos, exorcizar demônios, ajudar espíritos a encontrar a paz ou mandar bala de prata em lobisomens (e até mesmo na cabeça de zumbis), mas se uma casa inteira for a fonte do mal, a situação se complica. É no conforto do lar que buscamos segurança, uma cama gostosa para deitar, dormir e ter bons sonhos. Mas tudo degringola quando há um cemitério indígena sob a construção ou quando descobre-se que muitos morreram naquele mesmo corredor que você atravessa de madrugada para ir fazer xixi. Em sua estreia no mercado literário, Lemos Milani nos conduz à imponente mansão Morrigan, uma bela edificação erguida na região serrana do Rio de Janeiro, de caráter marcante, posta em um terreno cuidadosamente trabalhado, onde horrores indizíveis habitam cada esquina de seus agourentos corredores. A Ascensão da Casa dos Mortos é uma experiência única para aqueles que não temem o desconhecido, ávidos por calafrios a cada passo, apaixonados pelos sussurros vindos das sombras ou pela estranha sensação de que há algo embaixo da cama. facebook.com/CasadosMortos

Tiago Toy é escritor de literatura fantástica e criador da saga Terra Morta, cujo volume de estreia é considerado o primeiro romance de zumbis nacional de sucesso, lançado em 2011. O primeiro livro da série, subintitulado Fuga, dominou o 1º lugar de Mais Vendidos de Horror da Amazon. Atualmente, Tiago revisa o segundo volume a sair em 2013, na produção do roteiro de uma HQ e na organização da coletânea Terra Morta – Relatos de Sobrevivência a um Apocalipse Zumbi. Tiago Toy também é colaborador do portal de horror Boca do Inferno e contista presente na lista de Mais Vendidos da Amazon. about.me/tiagotoy facebook.com/terramortaoficial


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chuva veio de repente. Os dois correram para dentro, pouco antes do festival de raios, trovões e vento que compunham a sinfonia do maior temporal em dois meses. Pouco a pouco o barulho se intensificava no sítio Boa Ventura, abafando todos os outros sons que lhe eram peculiares. Já não se ouvia mais o som dos animais, nervosos, que lhes ofuscara os mugidos, latidos e cacarejos e com medo daquilo. O vento deslocava a chuva no sentido das paredes da sala e da cozinha, mas pelo menos deixava o quarto livre de boa parte do barulho e das infiltrações que provavelmente viriam. No centro da parede branca havia uma janela azul, de deslizar, o que, em conjunto com as outras janelas e portas, dava um ar colonial à pequena casa de alvenaria. – Castigo de Deus, isso sim! — replicou Dona Rita ao recordar que a moça do tempo já havia dito isso na TV. — Vai ser muita sorte é se as estufas estiverem inteiras pela manhã. O vento fez um assovio sinistro, e um raio iluminou toda a casa por uma fração de segundo. Seu Jeremias acendia uma vela. – Deus não tem nada a ver com isso, mulher; os homens tão colhendo a própria desgraça. Aqui se faz, aqui se paga. – Apesar da criação católica, Seu Jeremias tinha para si que os homens traçavam o próprio destino, ao contrário do que a esposa achava. E dificilmente seria de outro modo; a pobre mulher sempre tivera o destino traçado por outros. Atribuir a Deus era um bom jeito de lidar com isso. – E quem é que faz o pagamento? Tempestade não é obra de gente! – Com certeza não é – concordou o marido. Pegou uma fatia do pão que ela tinha feito esta manhã e se pôs a observar, da janela do quarto, os grandes silos de concreto da fazenda Resende. – Mas esses Resendes destruíram tudo; não sobrou uma árvore que seja perto do rio, uma hora ou outra a própria natureza ia se encarregar do pagamento. Esses almofadinhas tão enganados se pensavam que não iam pagar pelo mal que fizeram à terra. Mas no meu sítio só mexem se passarem por cima do meu cadáver. – E assim deu um abraço protetor na sua querida, mantendo os olhos fixos nos silos, pensativo. – Eu sei, amor. Eu sei – mas não era essa sua preocupação no momento. Ouviram um barulho. Certamente a estufa se estatelara, pois retalhos das suas telas foram vistos voando pela janela. Talvez a natureza seja como um enxame de vespas, que ao terem seu ninho derrubado, descontam sua fúria em tudo e todos que estiverem ao redor. Mas Dona Rita sabia que estavam próximos do agressor o suficiente para impedir o ataque ao vespeiro e nada fizeram. Mereciam o castigo tanto quanto eles. Cansada, desvencilhou-se educadamente dos braços do marido e sentou-se na cama, mas não antes de observar o que seria uma coruja empoleirada na porteira. Levantou-se e confirmou: – Minha Nossa Senhora! É uma coruja, sim! – Fez barulho, gritou e atirou coisas, tentando inutilmente espantar a criatura. Seu Jeremias limitou-se a rir e esperar o chilique de Dona Rita passar. – Sai da minha casa, coisa agourenta! Vai levar morte pra outro lugar! Jeremias, tira aquele bicho de lá. Dona Rita andou em círculos no pequeno cômodo, aflita com o mau presságio que se seguiria à visão do animal. Comadre Conceição mesmo lhe contara outro dia que uma 20 /// BANG!

coruja pousou no telhado da casa do Seu Luís do mercado, horas antes do pai dele ter um ataque do coração e morrer. Aquele bicho nunca era sinal de coisa boa; mamãe e papai, que Deus os tenha, sempre lhe diziam isso. O melhor a fazer era espantar a coruja, sim, pode ser até que o temporal vá embora com aquela criatura da morte. – Calma, mulher! Que mal isso pode trazer? Já não está contente com os raios? Senta que daqui a pouco ela cansa e vai embora. Deve estar de olho na caça. Você tem que parar de acreditar em tudo que te falam, senão fica louca. Suas superstições já passaram dos limites, e não é de hoje. Ela se sentou. Suas costas doíam depois do longo dia de trabalho; as pernas, que já foram um dia torneadas e belas, hoje exibiam varizes às dúzias, por baixo de uma pele outrora branca já maltratada pelo sol. O semblante cansado carregava agora também preocupação, não com a própria vida; esta seria entregue sem questionamento se fosse o caso de poupar a do marido. Amava-o demais, mesmo com seu ceticismo exagerado, o seu primeiro e único homem. Mas agradeceria se, depois de 47 anos juntos, a desse ouvidos quando falava dos mistérios desse mundo. – Você nunca me escuta – ela disse, por fim. – Você não escuta ninguém. Prefere ler seus livros e acreditar que sabe tudo, a ter que confiar em algo que não vê. Quem é o louco aqui? – O desabafo veio seguido de um relâmpago agora muito próximo, a menos de um metro de distância da mangueira desfolhada, ainda no campo de visão da janela. – Eu não penso que sei tudo, e eu acredito em você, isso já deveria ser o suficiente. E você sabe que eu confio em coisas que não vejo: de que outro modo os meus cálculos ajudariam a pagar as contas? Eu confio no que faz sentido. Falando em ver... – O homem voltou à janela, a fim de certificar-se de que a coruja se assustara com o barulho e fora embora, pondo um fim de vez àquela crise de nervos e a toda aquela conversa. No entanto lá continuava o bicho, imóvel na chuva, apesar do vento e dos raios. Parecia o único ser confortável naquele desastre, olhando fixo para um ponto tremeluzente de luz vindo de uma janela entreaberta poucos metros à sua frente. Dona Rita não dormiria enquanto a criatura permanecesse ali, isso era um fato. – Por exemplo, não faria muito mais sentido se esta corujinha estive no portão dos Resendes? Sinceramente, não acho que um de nós vá morrer hoje. O velho gordo dos silos, esse sim parece que vai bater as botas mais dia, menos dia, com aquela pança de verme que carrega com tanto orgulho. – Brincou, com aquela sua cara de deboche, esperando, porém, que a mulher se convencesse do absurdo e fosse dormir (e deixá-lo dormir) em paz. Mas, quando olhou para trás, a viu abrindo a porta com as galochas de trabalho na mão. Ela não se virou nem para conseguir um olhar de aprovação do marido, como sempre fazia. Pegou uma vassoura para espantar o bicho e foi para fora, surpreendentemente. O vento soprou longe o chapéu de palha antes que ela pudesse amarrá-lo junto ao queixo. Durante meio segundo, ele pensou em deixá-la ir, talvez ela tenha finalmente criado coragem para pelo menos afugentar uma coruja, já que não a tinha para conviver com uma. A gripe, ainda bem, nunca fora um problema; exceto naquele ano em que os convenceram a tomar a vacina. Contudo, não queria ter que enfrentar a fúria da esposa por pelo menos um dia inteiro e mais uma boa dose daquela balela sobre castigo divino e corujas da morte. Sempre conseguira se sair


bem nas conversas com os compadres da igreja, mas a discrição não lhe salvava do olhar da esposa. E a chuva estava forte, achou melhor ir atrás dela. – Rita de Cássia, volta pra dentro agora. Eu vou lá. Tirou a vassoura das mãos calejadas da mulher, já impaciente com a maldita coruja, fez que ia dar um beijo, como em sinal de conciliação, mas este não foi correspondido. Precisaria de mais que isso para amansá-la dessa vez. Amarrou uma toalha sobre a cabeça e saiu na chuva. Já estava no campo de visão da janela, quando Dona Rita sentiu um súbito arrepio na espinha. Se Seu Jeremias não tivesse ido para o quarto comer seu pedaço de pão, não tivesse entreaberto a janela nem tivesse cobiçado os silos de concreto dos Resendes, ou mesmo se a coruja não tivesse pousado na porteira, ou ainda se ele não tivesse trazido a esposa junto a si num abraço à toa, talvez ainda estivesse vivo hoje. Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas essa devia ser mais uma dentre as muitas crendices de Dona Rita. Hoje seria seu 50º aniversário de casamento, e o sítio estava reformado, com a ajuda dos filhos. O local onde o marido dera seu último suspiro foi decorado com uma cruz branca, mas sem crucifixos nem escritos religiosos, a pedido da matriarca. Desde o ocorrido, Dona Rita perdera o encanto pelos mistérios que permeiam a vida; talvez porque nunca os tenha compreendido de fato. Olhou para a humilde homenagem com ternura – ou seria um certo amargor no coração? Lembrou-se do beijo que se recusou a receber do marido. Uma coisa tão banal, e a única

“Olhou a criatura e reconheceu sua velha amiga; não com raiva, ou medo, na verdade estava feliz em vê-la.”

de que se arrependia nesse mundo. Uma lágrima escorreu pelo rosto. Ouviu sua neta lhe chamando: – Vovó, vovó! Vem ver, tem um passarinho aqui! – a menina estava na mangueira, com o dedo apontando para uma coruja ao longo do portão de madeira. As crianças dos Resendes brincavam noutro lugar, enquanto o velho assinava os papéis da venda; seus filhos tinham decidido que Dona Rita se sentiria melhor em companhia de outras pessoas de mesma idade, e que precisava de descanso fora dali. Mais uma vez a mulher tinha seu destino traçado por outros, quando tudo o que ela queria era poder morrer naquele sítio. – Vovó está cansada, querida – disse a velha, com os olhos ainda molhados, não queria suscitar perguntas. Olhou a criatura e reconheceu sua velha amiga; não com raiva ou medo; na verdade estava feliz em vê-la. Não foi espantá-la, não gritou maldições nem atirou coisas; simplesmente fechou a janela azul e foi se deitar. Sonhou que estava chovendo, que seu esposo pedia um beijo, com uma coruja empoleirada em seu ombro direito. Rita de Cássia o beijou, e os três foram juntos para uma porteira qualquer, observar a vida.

Bianca B. Fauro nasceu em Campinas no ano de 1990, estudou alguns anos na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e hoje trabalha como operadora industrial. Nas horas vagas se aventura na literatura, tendo seu esposo como principal controle de qualidade.

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A LENDA DE

SHANNARA o mundo depois da magia por Ana Cristina Rodrigues

Um mundo dividido em quatro partes, com nações que nem sempre se olham com confiança e respeito. Um mundo que já sobreviveu a guerras devastadoras e que foi ameaçado por perigos além da imaginação humana. Um mundo que esqueceu a tecnologia e teme a magia. Bem-vindos ao mundo que Terry Brooks criou para uma saga que vem encantando leitores há quase quatro décadas e que a Saída de Emergência Brasil está trazendo ao Brasil, desde o seu primeiro volume. 22 /// BANG!

Obra: A Espada de Shannara Saga: Shannara Autor: Terry Brooks Gênero: Literatura Fantástica Editora: Saída de Emergência Tradução: Ana Cristina Rodrigues Páginas: 544 Preço: R$ 49,90 ISBN: 978-85-67296-13-5


Ilustração de Luis Melo

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oje, ver as prateleiras ocupadas por livros de fantasia, com elfos, anões e dragões, é uma situação comum – até mesmo no Brasil, onde essa grande oferta é recente. Nem sempre foi assim. Até o final da década de 1970, a única fantasia épica que tinha alguma visibilidade comercial era O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien. Até que Lester del Rey, um dos maiores editores de literatura fantástica de todos os tempos, descobriu, na pilha de manuscritos em seu escritório, o livro de um escritor iniciante que estudava direito e usava seu tempo livre para escrever. Vendo ali uma excelente oportunidade de dar aos leitores algo além de Tolkien, Lester del Rey resolveu apostar na obra. Depois de várias leituras e revisões, em 1977 foi lançado A Espada de Shannara, de Terry Brooks… desde então, a literatura fantástica nunca mais foi a mesma. Ali começou uma saga que se estendeu por mais de vinte livros e que deverá terminar em 2018 – por decisão do próprio autor, que prefere, ele mesmo, dar o ponto final e não deixar seus leitores sem uma resposta. Muitos dos autores

que depois vieram a trabalhar nessa linha devem a Brooks tanto ou mais do que a Tolkien: sua influência é visível nas obras de Robert Jordan, Brandon Sanderson, Kate Elliott, Christopher Paolini – e até mesmo naqueles que fizeram uma fantasia mais sombria, como Glen Cook e George R. R. Martin. No prefácio de A Espada de Shannara, Brooks reconhece sua dívida com Tolkien, mas aponta que, muito além da fantasia, ele gostava – e ainda gosta – de histórias aventurescas. Na lista de seus autores preferidos estão nomes como Robert Louis Stevenson, Walter Scott e Arthur Conan Doyle. Esse espírito transparece não só em A Espada de Shannara, mas em todos os livros posteriores do autor trazendo histórias de aventura e ação em um mundo fantástico e inesquecível.

O QUE FEZ ESSE MUNDO TÃO ESPECIAL?

No passado, grandes guerras aconteceram, mudando a face do mundo por completo. A tecnologia e a ciência foram sendo suplantadas pelos conhecimentos místicos, que pareciam oferecer respostas mais adequadas a um mundo completamente novo para a humanidade. Sim, tecnologia. Os livros da série escrita por Brooks se BANG! /// 23


passam em um mundo “pós-apocalíptico”, no qual a civilização tecnológica com que estamos acostumados se autodestruiu com armamentos sofisticados e devastadores. Os poucos remanescentes da humanidade esconderam-se e adaptaram-se, encontrando aos poucos novas raças – elfos, anões, trolls, gnomos e outras criaturas fantásticas –, que se entreolhavam com medo e cautela, pois temiam seus vizinhos. E todas disputaram, em guerras sangrentas, um espaço naquele território hostil e pouco conhecido. Essa inimizade fez com que os habitantes das Quatro Terras se isolassem e se separassem, cada raça com seu território.

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vida de Shea Ohmsford, nos recantos do Vale Sombrio, passava ao largo dessas grandes questões. Aliás, ele seria apenas mais um entre os habitantes das Terras do Sul se não fosse o detalhe de sua origem: Shea era filho de uma humana com um elfo, nascido nas Terras do T E R RY B RO O K S N O B R A S I L

No Brasil, a série não é totalmente desconhecida. Em 2005, a Bertrand Brasil lançou o primeiro livro da trilogia A Viagem [The Voyage of Jerle Shannara], que se passa 500 anos depois de A Espada de Shannara. Brooks pensou as suas séries para se sustentarem de forma independente, assim o leitor poderia entrar nesse mundo a qualquer momento. Porém, em seu próprio site o autor mantém uma lista da ordem em que ele recomenda que os livros sejam lidos – a ordem cronológica de publicação. Nesse caso, A Espada de Shannara é o primeiro, sendo que Ilse, a Bruxa – o primeiro livro da trilogia já publicado no Brasil – é o 11º. E ainda segundo o autor, não se deve nunca ler O Primeiro Rei de Shannara [First King of Shannara] antes da trilogia inicial, pois várias e várias perguntas cruciais dos primeiros três tomos são respondidas ali. Ou seja, cuidado com os spoilers! Oeste, onde ficava a nação élfica. Com a morte de seu pai, foi levado de volta ao Vale Sombrio por sua mãe, que também não resistiu. Foi criado pelo estalajadeiro Curzad Ohmsford, um primo distante de sua mãe, e passou a levar uma vida absolutamente comum, até o dia em que Flick, seu irmão adotivo, levou um estranho homem vestido de negro até a estalagem onde moravam. Seu nome era Allanon e os segredos que ele contou mudaram 24 /// BANG!

não só a vida de Shea, mas o destino do mundo. Allanon era um filósofo e historiador que vagava pelas Quatro Terras, atento às alterações e mudanças que aconteciam. E foi o que ele viu em suas viagens que o levou até Shea Ohmsford. Um antigo inimigo das raças pacíficas das Quatro Terras estava ressurgindo e reunindo um exército composto por trolls e gnomos, habitantes das Terras do Norte. Esse inimigo era conhecido como Lorde Feiticeiro e desejava cobrir todo o mundo com sua sombra, derrotando nação após nação. Seu poder era tão grande, seu exército tão imenso, que somente uma arma poderia derrotá-lo: a Espada de Shannara. Confeccionada 500 anos antes, essa arma foi forjada especialmente para bani-lo deste plano de existência. Porém, algo deu errado e o Lorde Feiticeiro voltou, pronto para dominar a tudo e a todos. Para isso, alguém com o sangue do antigo Rei Élfico Jerle Shannara precisava empunhar a Espada mais uma vez. E é aí que nosso jovem meio-elfo de origem desconhecida entra: ele é o último descendente dessa heroica linhagem e a única pessoa nas Quatro Terras capaz de usar a Espada. Cabe, portanto, a Shea, guiado por Allanon e acompanhado por Flick, recuperar a Espada e enfrentar o Lorde Feiticeiro. Mas a jornada é mais complicada do que parece e, entre aliados inesperados e inimigos ocultos, os dois irmãos precisam de toda a coragem para continuar em frente, pois o Lorde Feiticeiro sabe da existência de Shea e colocou atrás dele os Portadores da Caveira, Druidas que se entregaram aos poderes sombrios.

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o espírito de J. R. R. Tolkien, influência reconhecida pelo próprio Brooks, em A Espada de Shannara acompanhamos a jornada de um grupo improvável de companheiros, reunidos na cidade-anã de Culhaven ao redor de Shea Ohmsford e sua missão, com o mesmo objetivo e com personalidades muito diferentes. Com o passar do tempo e das dificuldades do caminho,

O CONSELHO D RU I DA

Depois das Grandes Guerras que acabaram com a civilização tecnológica, todo o conhecimento do mundo antigo começou a se perder. Livros tornaram-se raros e a educação passou a ser feita de forma isolada, o conhecimento era passado oralmente. Preocupado com isso, Galaphile convocou homens e mulheres sábios de todas as raças, para reunir o máximo de conhecimento possível. Porém, aos poucos foram descobrindo que a antiga tecnologia não tinha respostas para o mundo em que viviam e se voltaram para o estudo de conhecimentos místicos. Infelizmente, essa busca por conhecimento acabou liberando o potencial maligno do Lorde Feiticeiro, e o Conselho se desintegrou.

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As personagens de

A Espada de

Shannara Prepare-se para conhecer um dos grupos mais fascinantes e improváveis da literatura fantástica Ilustrador: Shane Cook

Shea Ohmsford

Um jovem meio-elfo, criado por Curzad Ohmsford, um estalajadeiro do Vale Sombrio. Shea é um jovem introspectivo e inseguro; por isso, seu grande desafio, mais do que enfrentar os perigos das Quatro Terras, é aprender a confiar em si mesmo. Apesar de ser fundamental na jornada para destruir o Lorde Feiticeiro, sente-se inútil e incapaz perto de seus amigos.

Flick Ohmsford

O irmão adotivo de Shea. Flick é mais seguro de si, mas desconfia das pessoas. É sarcástico e, muitas vezes, pessimista. Mesmo sendo avisado dos grandes perigos que pode encontrar, recusa-se a ficar para trás. Acostumado a andar pelas florestas do Vale, é engenhoso e esperto.

Menion Leah

Príncipe herdeiro do pequeno reino de Leah, é também um dos melhores rastreadores das Quatro Terras, já que prefere se aventurar pelas florestas das Terras do Sul, caçando, do que se preocupar com assuntos de Estado. É muito amigo de Shea, e é a quem ele recorre quando precisa deixar o Vale Sombrio, apesar da desconfiança de Flick.

novos companheiros chegam enquanto outros partem, e a busca pela Espada nos leva a conhecer vários lugares das Quatro Terras. E N F I M , A A DA P TA Ç Ã O !

Depois de muitos anos de especulação e rumores, em dezembro de 2013 o próprio Terry Brooks anunciou que uma série de TV baseada em seus livros começara a ser produzida. Um estúdio de Hollywood está trabalhando nos roteiros, que serão apresentados à MTV, baseados no segundo livro da série, As Pedras Élficas de Shannara. É o fim de uma longa espera, já que Shannara é a série mais bem sucedida da literatura fantástica que ainda não tinha uma adaptação audiovisual. Com o sucesso obtido por outras obras, era só uma questão de tempo até vermos as Quatro Terras na tela. E para melhorar a perspectiva de uma excelente série de ação e aventura, o produtor executivo será o mesmo de Homem de Ferro, o diretor Jon Fevreau. Tem tudo para dar certo.

RECEPÇÃO E INFLUÊNCIA

No mês de seu lançamento, em 1977, A Espada de Shannara vendeu mais de 12 mil exemplares, uma marca extraordinária para um livro de fantasia, levando o mercado editorial a repensar sua visão do gênero. Seu sucesso, lógico, também trouxe críticas – e o ponto mais discutido pelos críticos foi justamente a semelhança com O Senhor dos Anéis. Porém, o livro teve fãs ardorosos e importantes: Frank Herbert, autor de Duna, fez uma longa defesa da obra, ressaltando suas qualidades, principalmente no que se referia aos conflitos e às criaturas que aparecem naquela jornada. E ele não foi o único. A aventura de Shea Ohmsford em busca do artefato mágico gerou um fluxo imenso de fãs ardorosos, que se multiplicam até hoje, a cada lançamento. Boa parte dos livros de fantasia épica atuais, gênero que tomou sua forma definitiva com a obra de Brooks, rende tributo a Shannara, assim como aos cenários de RPG mais conhecidos do planeta, os mundos de Dungeons & Dragons. Estava mais do que na hora de os leitores brasileiros, sempre em busca de novas e fascinantes aventuras, poderem colocar as mãos no livro que começou uma das mais importantes sagas literárias da Fantasia.

Ana Cristina Rodrigues, 30 e poucos anos, é escritora, historiadora, editora, tradutora, professora e funcionária pública. Com vários contos publicados, atualmente tenta finalizar um romance. Tuíta como @anadefinisterra e seu blog é http://talkativebookworm.wordpress. com/.

CONTINUA NA PÁG 26

BANG! /// 25


Allanon

Célebre e misterioso viajante, é um historiador que recolhe histórias e informações das Quatro Terras e aparece, de repente, na vida dos irmãos Ohmsford, protegendo-os de um Portador da Caveira que invade o Vale Sombrio à procura de Shea. Ao desvendar o mistério do nascimento do meio-elfo, envolve os dois irmãos na busca pela Espada de Shannara.

Balinor Buckhannah

Príncipe herdeiro de Callahorn, um dos principais reinos das Terras do Sul. Ninguém sabe os motivos que o fizeram deixar Tyrsis, a capital do reino, e o comando da Legião da Fronteira para ajudar Allanon em sua busca pela Espada. Sério, Balinor é um comandante e um líder nato. Seu rosto tem uma cicatriz recente resultante de um corte, sobre o qual ele não fala.

Hendel

Um anão de Culhaven, amigo de longa data da família real de Callahorn. É um guerreiro e um batedor incomparável, um veterano das amargas guerras nas fronteiras com as Terras do Norte. Taciturno, fala pouco, mas se preocupa muito com seus companheiros e é um dos grandes estrategistas do grupo.

Durin e Dayel Elessedil

Dois irmãos elfos, primos de Eventine Elessedil, o Rei dos Elfos, que ajudam o grupo de Shea com suas habilidades com armas. Durin, o mais velho, preocupa-se muito com o bem-estar de seu irmão, que deixou uma noiva nas Terras do Oeste. ///// BBANG! 26 /// 26 ANNGG!!

Outras pessoas das Quatro Terras Palance Buckhannah

Filho mais novo do rei de Callahorn, sempre quis o lugar de herdeiro do trono, mas teve de se contentar em ser uma “sombra” do irmão, Balinor.

Panamon Creel

Um bandoleiro que perdeu uma de suas mãos e a substituiu por uma ponta de metal. Panamon se envolve na busca pela Espada por acaso. Apesar de exagerado em suas histórias, quando chega a hora de lutar, torna-se um aliado inigualável.

Keltset

Um troll de pedra mudo, companheiro de Panamon Creel. Keltset é enigmático e surpreendentemente inteligente. Observador, reage ao perigo e às ameaças com rapidez.

Shirl Ravenlock

Uma jovem ruiva, descendente da família que governava Kern, uma das maiores cidade de Callahorn. Shirl não se considera uma princesa, embora por muito tempo seus antepassados tenham sido reis de Kern. Inteligente e determinada, atraiu a atenção de Palance Buckhannah, apesar de não retribuir esse sentimento.


A geografia de

Shannara um dos mundos mais complexos {Descubra e deslumbrantes da literatura fantástica }

1

Vale Sombrio

Um vale tranquilo e isolado nas Terras do Sul, cercado de florestas. Faz fronteira com o Reino de Leah e é o lar dos Ohmsford. 2

Culhaven

Cidade dos anões situada em Anar Inferior. Envolvida na defesa das fronteiras das Terras do Sul e do Leste, é o ponto de partida do grupo que vai procurar a Espada de Shannara.

5

Reino da Caveira

O lar do Lorde Feiticeiro, no centro das Terras do Norte, um lugar inóspito e sombrio, jamais visto por mortais. 6

Leah

O Reino de Leah situa-se nas colinas cheias de florestas ao sul do Lago Arco-íris e é uma das monarquias mais antigas das Terras do Sul. A Espada de Leah, uma espada antiga capaz de defender contra a magia, pertence à família real de Leah.

3

Tyrsis

Capital de Callahorn, a cidade é famosa por suas muralhas intransponíveis e por jamais ter sido vencida por seus inimigos. É um dos principais alvos dos exércitos do Lorde Feiticeiro. 4

7

Callahorn

É o território que se situa ao norte do Lago Arco-Íris e faz fronteira com a Cordilheira Dentes de Dragão e as Terras do Norte. Durante muitos séculos, Callahorn protegeu as Terras do Sul dos ataques de exércitos inimigos.

Paranor

Antigo refúgio do Conselho Druida, agora abandonado. Fica nos limites entre as Terras do Sul e do Norte, no meio de uma floresta repleta de obstáculos e armadilhas.

Veja, na página seguinte, o mundo de Shannara BANG! /// 27


4 5 28 /// BANG!


2

1

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3 7

BANG! /// 29


A razão por que escrevo sobre elfos Por Terry Brooks

M

uitas vezes, ao viajar de avião, passo o tempo tomando notas para um novo manuscrito ou trabalho no próprio manuscrito. Acontece com frequência de o passageiro ao meu lado reparar nisso e me perguntar o que estou fazendo. A conversa segue invariavelmente esta ordem: – Em que você está trabalhando? – pergunta o passageiro. – Sou escritor – respondo. – É mesmo? Escreve o quê? – Escrevo livros, romances. – Que tipo de romance? – Ou o meu favorito: Escreveu alguma coisa que eu já tenha lido? Eu tento dar vários tipos de resposta, todas com o objetivo de descrever de forma sucinta aquilo que faço. Mas por mais respostas diferentes que eu dê, nunca sou bem-sucedido. Digo “Escrevo fantasia”, “Escrevo fantasia e histórias de aventuras” ou então “Escrevo sobre elfos e magia”. Por vezes, indico a obra O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, mesmo sabendo que apenas os livros da saga Shannara seguem o modelo dos livros de Tolkien. Também ocorre de eu mencionar Harry Potter, embora nada do que eu escreva seja semelhante à obra de J. K. Rowling. Sempre tenho a esperança de que a referência a esses livros sirva de explicação, mas na verdade confunde ainda mais as pessoas. Alguns perguntam se os meus livros são para crianças. Há algo nas palavras “elfo” e “magia” que sugere “infantil” para muitos leitores. Também perguntam se posso citar alguns títulos. Detesto essa reação, porque

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a probabilidade de que a pessoa desconheça os livros que eu citar é muito elevada – a não ser que fale da adaptação de Star Wars: A Ameaça Fantasma, que não representa a minha escrita. Todas as reações partilham uma característica em comum: os leitores que as expressam não sabem o que pensar sobre livros de fantasia ou seus escritores. Ninguém pensaria duas vezes se eu dissesse que escrevo ficção científica. Ou que escrevo literatura romântica, policial, thriller, terror, ficção literária, literatura juvenil ou até mesmo literatura contemporânea. Por isso, quero aproveitar esta oportunidade para discutir sobre aquilo que acho que desperta essas reações estranhas que costumo presenciar. Se as pessoas entenderem melhor o que é fantasia, talvez sejam capazes de apreciar a sua leitura. Deixem-me começar observando que existem diferentes tipos de histórias de fantasia, toda uma variedade de subgêneros que os fãs já reconhecem: fantasia heroica ou épica, dark fantasy, fantasia urbana, fantasia histórica, fantasia humorística, só para nomear alguns. O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, é a mais conhecida obra da fantasia moderna, o livro que todos conhecem e que inspirou muitos escritores. A obra incorpora todos os elementos clássicos do gênero e serve de modelo para qualquer discussão sobre fantasia épica. Vale a pena discutir alguns desses elementos, uma vez que muitos deles aparecem inúmeras vezes em todos os tipos de fantasia. A épica inclui três elementos básicos: uma jornada, um pequeno grupo de heróis que se compromete com ela – num confronto tradicional entre o bem e o mal – e um componente de magia ou sobrenatural, sem o qual a história não pode ser resolvida. Há outros elementos, mas esses

Digo “Escrevo fantasia”, “Escrevo fantasia e histórias de aventuras” ou então “Escrevo sobre elfos e magia”.


três estão presentes em quase todas as histórias de fantasia. A série Shannara é de fantasia épica, mas os meus outros livros são diferentes. No entanto, um ou mais desses elementos básicos surgem sempre, uma parte essencial do ofício de contar histórias. Claro que também os observo em outros tipos de ficção. O uso da magia ou do sobrenatural, em particular, tornou-se parte do enredo de quase todas as formas de ficção. Basta repararmos nos livros de Isabel Allende, Alice Hoffman, James Lee Burke, Toni Morrison ou Cormac McCarthy para identificar escritores mainstream de sucesso que empregam a magia ou o sobrenatural. Apesar disso, não basta compreender os elementos básicos da fantasia para que saibamos em que é que ela se distingue dos outros tipos de ficção, sobretudo se reconhecermos que eles estão presentes em todos os tipos de narrativas. Uma fantasia de sucesso deve ter os mesmos elementos básicos que toda a boa ficção exige: um enredo sólido, personagens interessantes, um elemento de conflito, um bom ritmo e diálogos que adiantem a história ou revelem mais sobre as personagens. Mas, na verdade, o processo de escrever fantasia é diferente do de outros tipos de ficção em um básico, um aspecto que é intrínseco ao processo criativo e sem o qual todos os esforços são em vão: todas as outras narrativas se baseiam no nosso mundo e nos seres humanos, seja no passado, presente ou futuro, para contar uma história. Isto não se passa com a fantasia, que quase sempre ocorre num mundo imaginário. Ela se baseia em criaturas imaginárias e no elemento vital da magia. Para o livro ser bem-sucedido, tem que haver uma aceitação tanto das personagens quanto do enredo e, assim, por mais estranha que seja a experiência para o leitor, deve ser permitida uma suspensão voluntária da descrença. Dentro dos parâmetros do mundo criado pelo autor, tudo tem que estar construído de forma coerente e coesa. Aprendi essa lição há muitos anos com o meu editor, Lester del Rey, quando ele me obrigou a jogar no lixo um livro inteiro cujo mundo imaginário não tinha consistência. A verossimilhança é essencial na fantasia – e começa com a consistência. Esta que exige, ao contrário de outras formas de ficção, a construção de um

Quando lemos fantasia, tudo o que sabemos é deixado para trás. O leitor sabe que terá que suspender a descrença e estar aberto a ler e considerar ideias com as quais não teria contato de outro modo. mundo a partir do zero – não só de pessoas e lugares, mas também de fauna e flora, animais e pássaros, comidas e bebidas, desde pequenas a grandes ações. Qualquer detalhe que possa ter influência deve ser considerado antes de a história ser escrita. O autor deve mergulhar no mundo de forma completa a ponto de este se tornar real para ele – tão real quanto o mundo em que ele vive – para que os seus leitores possam sentir que ele é real. Nenhuma outra forma de ficção envolve a criação de um mundo de modo tão extenso e elaborado. No entanto, estamos mais inclinados a aceitar

uma história sobre o Egito Antigo ou a colonização em Marte, mas quão preparados estamos para aceitar histórias sobre elfos? Elfos não existem, afinal de contas. Nunca ninguém viu um. A magia não faz parte da nossa vida, não no sentido fantasioso. Dragões, grifos e cavalos voadores não são reais. A fantasia exige a suspensão voluntária da descrença. Requer um exercício da imaginação que aceita a possibilidade do impossível. Até que ponto estamos dispostos a permitir isso? Pondo as experiências religiosas de lado, suspeito que não estamos muito inclinados. Não fico surpreso quando digo às pessoas que escrevo sobre magia e elfos e recebo em troca um ar cético. Que resposta deveria esperar delas? “Que bom! Elfos e magia são muito importantes hoje em dia!” Eu acredito que eles são importantes. Se não acreditasse, não escreveria tanto sobre eles. A boa fantasia reflete a realidade, mas não uma imagem precisa. Isso é o que a torna tão valiosa. Nos mostra a realidade disfarçada, ao mesmo tempo que nos permite desmascará-la. Permite-nos reconsiderar as nossas atitudes e crenças. É por isso que eu prefiro escrever fantasia. Posso fazer abordagens sobre o nosso mundo e os seus problemas sem parecer que estou fazendo isso. Quando lemos fantasia, tudo o que sabemos é deixado para trás. O leitor sabe que terá que suspender a descrença e estar aberto a ler e considerar ideias com as quais não teria contato de outro modo. Tudo o que o leitor deseja é uma história que entretenha. Mas se o autor for bom em seu trabalho, acabamos obtendo uma história que nos transforma e inspira de maneiras que poderemos não reconhecer de início, mas que, se pensarmos bem, abre novas perspetivas. Nada disso me ajuda nos meus esforços para explicar a razão por que escrevo sobre elfos. Não espero que isso mude. Já não acredito que a reação das pessoas seja diferente quando me perguntarem o que faço. Talvez seja natural assim. Eu podia oferecer a eles uma cópia deste artigo para que, depois de o lerem, decidissem se histórias sobre elfos fazem algum sentido. Mas o mais provável é que já tenham uma opinião formada.

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Entrevista com

TERRY BROOKS

Por Safaa Dib, com exclusividade para a revista Bang!

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seu livro que fala sobre a sua carreira de escritor, Sometimes the Magic Works [Às vezes a mágica funciona], conta a história de como o famoso editor Lester del Rey escolheu seu primeiro livro, A Espada de Shannara, para ser publicado, o que deu início a uma nova tendência editorial de fantasia, influenciada pelo legado de J. R. R. Tolkien. Mais de 35 anos depois, como você encara o início de sua carreira e o fato de ter sido guiado por Lester del Rey? Penso nisso como um incrível golpe de sorte. Eu era um jovem escritor sem experiência e sem contatos no mundo editorial quando enviei A Espada de Shannara e Lester aceitou publicá-lo – mas apenas se eu estivesse disposto a trabalhar muito com ele para editar o manuscrito. Claro que aceitei. Contudo, ele foi severo comigo e, ao longo do processo, me ensinou muito sobre o que significava ser um escritor de ficção. A maioria das coisas que aprendi sobre a escrita e ser escritor foi por influência dele. Ele se tornou um mentor, um editor e uma figura paterna. Orientou a minha carreira e me deu conselhos sobre o que implicava ser um escritor de não apenas um livro, mas de muitos, especialmente ao longo dos primeiros seis ou oito livros. 32 /// BANG!

Qual foi a lição mais valiosa que você aprendeu com o seu primeiro editor? Lester me ensinou a editar o meu próprio trabalho de modo a torná-lo melhor antes mesmo de apresentá-lo a ele. Eu não sabia quase nada sobre a razão de algumas soluções funcionarem melhor do que outras ou sobre como ler o meu próprio trabalho de forma objetiva. Ele me ensinou tudo isso.

de subverter as convenções da fantasia épica? Foi certamente uma forma de desafiar essa crença antiga de que nunca se deve misturar esses dois gêneros. Mas a natureza da história me forçou a tentar. Uma vez que a ciência do Velho Mundo se perdeu durante a sua destruição e a magia a substituiu se tornando o poder dominante, não senti que seria uma relação conflituosa na saga.

Ao longo de mais de 30 anos, você construiu um vasto universo na saga Shannara. Qual é o seu segredo para manter tudo bem organizado e mapeado? Desenho os meus próprios mapas antes de começar um livro, e assim consigo obter boas referências dos locais e das distâncias entre eles. Consigo manter tudo sempre organizado se eu começar esboçando a estrutura da obra antes de iniciar o livro. Isso me ajuda a manter tudo na cabeça e, ao criar essa estrutura, fico livre para me dedicar ao processo criativo da escrita, sem perder tempo pensando em qual será o fim do livro. Sempre recomendei esse processo para todos os escritores. Ajuda muito.

De todos os personagens da trilogia da Espada de Shannara, qual foi o que mais o desafiou como escritor? É uma pergunta difícil. Acho que foi Allanon. Ele tem uma personalidade muito difícil e possui muito conhecimento e poder. Havia o perigo de me esquecer de que ele era humano e que as suas decisões teriam consequências emocionais para ele. Ele tinha que ser um personagem forte, mas não demais, a ponto de não cativar o leitor.

Na saga Shannara, você destrói a linha divisória entre magia e ciência. O Velho Mundo foi destruído devido ao uso excessivo de tecnologia e a magia se tornou o poder dominante. Essa foi uma tentativa

Em seu artigo “A razão por que escrevo sobre elfos”, você escreveu que [a fantasia] nos mostra a realidade disfarçada, ao mesmo tempo que nos permite desmascará-la”. Quais eram os temas que você desejava desmascarar na trilogia da Espada de Shannara? Para ser sincero, isso não aconteceu tanto no primeiro, mas à medida que fui escrevendo mais livros da série. Quanto mais livros você escreve numa saga, mais profundidade eles precisam ganhar. Por


isso, apesar de sempre existir uma história sobre uma jornada e um bando de heróis, é necessário que exista um tema subjacente a tudo isso. Um autor deseja que a sua criação tenha impacto para além da fantasia, quer sugerir coisas à mente do leitor sobre o seu próprio mundo que normalmente não pensaria. Se você analisar um tema sob uma nova perspectiva, irá repensar as suas crenças. Na trilogia da Espada de Shannara, eu estava concentrado principalmente na questão da responsabilidade e da lealdade que devemos às pessoas à nossa volta. Até que ponto estamos dispostos a ajudar os outros? Você pode contar para a gente a sua opinião sobre a publicação de fantasia no atual mundo editorial? De que maneira isso evoluiu desde o início da sua carreira? Quando comecei, ninguém lia fantasia que não fosse os clássicos – Oz, Tarzan, Alice, esse tipo de livros –, exceto Tolkien. A opinião unânime editorial dizia que a fantasia não iria vender bem. Tinha um mercado de nicho, mas não muito grande. Tolkien era a exceção, mas só podia haver um dele. Hoje em dia, temos centenas de novos livros de fantasia todos os anos, e muitos deles são publicados como Young Adult. Também temos os filmes de Harry Potter e O Senhor dos Anéis, e este ano estreiam vários filmes baseados em livros de fantasia. O meu livro Magic Kingdom for Sale [Reino mágico à venda]

é uma dessas obras, mas só vai estar pronto daqui a um ano ou mais. Recentemente, o canal MTV anunciou que vai desenvolver uma série televisiva baseada na saga Shannara. Você se envolverá no processo? Os seus fãs estão esperando há muitos anos por uma adaptação desta saga. Você acha que conseguirá ficar à altura da expectativa deles? Tenho todas as razões para acreditar que Shannara será uma série televisiva em cerca de um ano. O processo está em andamento e acredito que a produção irá começar nos próximos meses. Estou envolvido no processo criativo. Trabalho com os roteiristas e os ajudo a se manterem fiéis ao livro As Pedras Élficas de Shannara [2º volume da trilogia da Espada de Shannara], que servirá de base para a primeira temporada. Estou muito entusiasmado com a adaptação. Acredito que finalmente encontramos o lugar certo para isso acontecer. A nossa editora acabou de anunciar um prêmio literário de literatura fantástica para escritores de língua portuguesa. O vencedor será publicado em Portugal e no Brasil. Qual seria o seu conselho para os novos escritores que estão tentando alcançar o sucesso nesta indústria? O meu conselho é sempre o mesmo: escrevam um bom livro. Contem uma boa história. Se fizerem isso, todo o resto irá acontecer naturalmente.

TERRY BROOKS

Com 12 milhões de livros impressos e 18 títulos consecutivos na lista de mais vendidos do New York Times, Terry Brooks é considerado um dos mestres da fantasia. Ele nasceu em 1944, em Illinois, e estudou na Hamilton College, onde se formou na Faculdade de Direito. Ávido escritor, Brooks sentiu-se inspirado a escrever fantasia depois de ler O Senhor dos Anéis. Apesar de trabalhar como advogado durante o dia, à noite dedicava-se à escrita e, em 1977, publicou A Espada de Shannara. O livro foi um sucesso imediato e se tornou a primeira obra de ficção a figurar na lista de livros de bolso mais vendidos do New York Times, onde permaneceu por mais de cinco meses. Terry Brooks vive com a esposa, Judine. Os dois tem residência fixa em Seattle e no Havaí.

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Apreciar a coleção é também reconhecer seus defeitos. Defeitos não de matéria, mas de substância. Se o papel era de baixa qualidade, se a edição se desfazia entre os dedos com o excesso de uso, se as folhas ficavam amarelas quando muito expostas ao sol, se os títulos eram por vezes absurdos quando comparados com os originais...

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coleção Argonauta é a mais duradoura série de obras de FC do espaço lusófono. Publicada em Portugal, mas apreciada também por leitores brasileiros, inclui reconhecidos clássicos do gênero em seu rol de cinco décadas de contínua produção. Foi através dela que muitos dos fãs do gênero descobriram Bradbury, Asimov, Clarke, Blish, Heinlein e Simak. Ela foi responsável pelas primeiras traduções de Fahrenheit 451, The Martian Chronicles, The Demolished Man, I Am Legend, The Midwich Cuckoos, Starship Troopers, A Canticle for Leibowitz, Stranger in a Strange Land e The Man in the High Castle, romances que se tornaram entretanto referências da literatura mundial. Ela acomodou experiências em ilustração pelos seus capistas; criou uma comunidade de seguidores ávidos que hoje assolam os sebos em busca de números antigos. É, de longe, a grande e cultuada coleção da história da FC dos países lusófonos. Falamos sobre seus feitos e glórias na primeira parte deste artigo, encontrado na edição anterior da Bang! Mas, infelizmente, nem tudo obteve êxito, nem sempre se fizeram boas escolhas. Gradualmente, a Argonauta foi perdendo o apreço dos leitores e enfrentando cada vez mais dificuldades – e a inércia acabou vencendo. É esse lado da história que vamos contar agora.

CALCANHARES DE CIBERAQUILES

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preciar a coleção é também reconhecer seus defeitos. Defeitos não de matéria, mas de substância. Se o papel era de baixa qualidade, se a edição se desfazia entre os dedos com o excesso de uso, se as folhas ficavam amarelas quando muito expostas ao sol, se os títulos eram por vezes absurdos quando comparados com os dos originais (quem teve a infeliz ideia de traduzir The Big Time, de Leiber, por O Tempo, o Espaço e o Cérebro? [n.º 415]) ou quando desvendavam o segredo da história antes de se abrir a primeira página (Non-Stop, de Aldiss, para Nave-Mundo [n.º 333]), os leitores aceitavam essas falhas como sendo peculiaridades, como se aceita um carro feio, barulhento, difícil

...(quem teve a infeliz ideia de traduzir The Big Time, de Leiber, por O Tempo, o Espaço e o Cérebro? [nº 415]).

... ou quando desvendavam o segredo da história antes de se abrir a primeira página (Non-Stop, de Aldiss, para Nave-Mundo [nº333])...

de conduzir, mas que acaba nos levando na viagem prometida. Menos aceitável seria a tendência, que começou com o n.º 103 (Perdido no Espaço - I - Marooned, de Martin Caidin), de dividir um romance mais extenso em dois ou mais volumes da coleção. É uma opção editorial de caráter econômico, pois permite distribuir, em diversos volumes, os custos de produção – como tradução e compra de direitos da obra – de modo a manter constante o preço de capa de cada exemplar. Aplica-se aqui um racional pela negativa, pois o receio é de que o leitor, para quem o preço constitui fator decisivo, se recuse a adquirir um tomo único e extenso que seja extraordinariamente caro. Diga-se de passagem que esse pensamento faz sentido e, em muitos casos, é perfeitamente razoável aplicá-lo para determinados segmentos ou obras, permitindo a realização da leitura em (suaves) prestações. Mas a opção cria uma dificuldade: é normal que os gastos somados das várias partes sejam mais caros do que seria a alternativa de um voluBANG! /// 41


Dos 563 números da Argonauta, aproximadamente 80 são segundas e terceiras partes de romances fatiados...

me único. A editora acaba ganhando, em curto prazo, pois uma porcentagem significativa dos compradores do primeiro livro vai querer conhecer o fim da história, assegurando as vendas dos seguintes. Porém, se levada ao exagero, o mercado acaba percebendo e repudiando tal prática. Os leitores fazem as contas, medem cada tomo, perguntam-se por que estão pagando várias vezes pelo mesmo livro. E, em um contexto de coleção com edições fixas por ano, cada número dedicado a continuar o anterior representa, na prática, um título novo a menos – um romance a menos, um autor a menos a ser descoberto. Aos leitores interessados em ter a coleção completa, deixar de adquirir um exemplar não é uma escolha possível. Dos 563 números da Argonauta, aproximadamente 80 são segundas e terceiras partes de romances fatiados. E estamos citando apenas os casos em que a divisão foi assumida; houve outros, como os de certas antologias e coletâneas, em que os títulos portugueses escolhidos não revelavam o fato de serem divisões da mesma obra (por exemplo, a antologia The Future in Question, organizada por Asimov e outros, que foi dividida nos n.ºs 320, Mensagens do Futuro, e 327, O que Será o Futuro). Fazendo as contas, isso equivale a sete anos – quase um quinto da vida da coleção – de números desperdiçados com esta prática! Talvez a pior época tenha ocorrido em 1982, quando os três volumes de O Número do Monstro (n.ºs 294 a 296), de Heinlein, foram seguidos por outros três do Planeta dos Dragões (n.ºs 297 a 299), de McCaffrey, e estes por dois do Mistério de Valis (n.ºs 300 a 301), de Dick. Ao final de oito meses seguidos, os leitores conheceram apenas três novas obras. Seria de se esperar que, com o crescimento do setor editorial e a expansão da oferta, nos anos 90, houvesse uma mudança de estratégia. Estranhamente, o que se verificou foi uma intensificação da prática: a partir de 1998, dos 74 números finais publicados, 21 constituem continuações... Outro problema importante (que Ricardo Loureiro designa de maneira bem-humorada como “Lei Editorial Nacional” por se aplicar uniformemente a todas as coleções de FC portuguesas) refere-se à forma como as séries eram conduzidas. Caraterística e tradição do gênero, as sequências narrativas que atravessam vários livros requerem um manuseio delicado: uma vez iniciada a publicação, é preciso decidir se o volume de 42 /// BANG!

vendas da parte anterior justifica a edição seguinte. Mas, nessa decisão, deve-se se levar em conta que houve leitores que compraram e que ficarão frustrados diante de histórias deixadas pela metade, correndo-se o risco de afastá-los da coleção como um todo. São vários os exemplos em que isso aconteceu na vida da Argonauta. O “n.º 249, Exilados da Terra [...] fazia parte de uma trilogia que [...] nunca chegou a ter os dois números seguintes publicados aqui” (Ricardo Loureiro). A série das Crônicas de Âmbar, de Zelazny, composta, em língua inglesa, por dez livros, teve apenas sete traduzidos, e a do Centro Galáctico, de Benford, teve dois de seis – sem contar com o fenômeno bizarro de se terem publicado os segundo e terceiro livros da trilogia da Fundação,

Talvez a pior época tenha ocorrido em 1982, quando os três volumes de O Número do Monstro (n.ºs 294 a 296), de Heinlein, foram seguidos por outros três do Planeta dos Dragões (n.ºs 297 a 299), de McCaffrey, e estes por dois do Mistério de Valis (n.ºs 300 a 301), de Dick. Ao final de oito meses seguidos, os leitores conheceram apenas três novas obras.

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Alguns exemplos de continuações dos 74 números finais publicados.

Seria de se esperar que, com o crescimento do setor editorial e a expansão da oferta, nos anos 90, houvesse uma mudança de estratégia. Estranhamente, o que se verificou foi uma intensificação da prática: a partir de 1998, dos 74 números finais publicados, 21 constituem continuações...

de Asimov, em 1964, mas não o primeiro...1 Apesar desses problemas, nenhum prejudicaria tanto a coleção como a qualidade das traduções. Traduções “onde as expressões idiomáticas eram invariavelmente traduzidas ao pé da letra” (Ricardo Loureiro). Traduções que acolheram, no início, figuras de destaque – como o escritor surrealista Mário Henrique-Leiria e a (futura) tradutora das principais obras de Tolkien, Fernanda Pinto Rodrigues –, mas que acabariam por ser dominadas, a partir do n.º 103, pela voz onipresente e, na opinião de alguns leitores, redutoramente uniforme de Eurico da Fonseca, especialista autodidata em astronáutica, cuja simpática presença na televisão foi prenúncio, durante anos, de um entusiasmo contagiante pelas coisas do espaço. Eurico da Fonseca traduziria mais de 250 dos títulos da coleção ou, pelo menos, colocaria seu nome nos mesmos. Porque uma das questões relativas à tradução na Argonauta tem a ver com sua autoria. “Durante anos sempre estranhei a profusão de títulos traduzidos por Eurico da Fonseca, e pensava que ou ele tinha um enorme repositório de traduções já feitas, ou era super-humano [...]. Décadas mais tarde, parte do mistério foi desvendado quando conheci um, na falta de expressão melhor, ghost-translator, que me provou cabalmente que uma boa quantidade de títulos haviam sido traduzidos por ele, embora publicados pela Livros do Brasil sob o nome de Eurico da Fonseca. Quantos outros títulos teriam saído assim também? ” (Ricardo Loureiro). Prática que aparentemente acompanhou a coleção desde o início: “Fernando Castro Ferro traduziu vários livros para a Argonauta, e em dado momento o trabalho se acumulou porque tinha vários livros para traduzir e não dava conta do recado. Eu, a essa altura, andava com as ‘finanças’ muito em baixa e ele me propôs que eu traduzisse dois dos livros. Concordei, pois era uma maneira de ele cumprir os prazos de tradução que tinha se comprometido a cumprir com os Livros do Brasil, e eu receberia alguma grana que me ajudaria. A única condição era que nas traduções não figurasse meu nome, mas o dele, para que ele não perdesse o

compromisso que tinha com o editor. Aceitei, e o único desgosto que tenho é que passados todos estes anos não sou capaz de lembrar quais foram os livros que traduzi, e não há maneira de descobrir porque o meu nome não figura lá” (António de Macedo). A falta de percepção de que o público-alvo evoluía, crescia e refinava os gostos não permitiu à editora repensar a coleção com outro nível de qualidade e de investimento editorial. Entenda-se que a experiência inicial, comum aos apreciadores, era positiva: “A questão da tradução não me passava muito pela cabeça na época, aceitávamos o texto em português (brasileiro ou não) sem questionar. Só depois dos 30 anos de idade passei a ler preferencialmente no original” (Braulio Tavares). Mas também era comum o desânimo posterior: “Foi na Argonauta que pela primeira vez compreendi como um mau tradutor pode assassinar um livro por completo (a vítima foi Roderick [n.º 386], do pobre John Sladek)” (Jorge Candeias). Desânimo que acabaria em abandono: “Entre 1986 e 1989, à medida que comecei a ler cada vez mais ficção científica em inglês, fui me desiludindo com os livros da Argonauta. Sempre que relia o original de um romance do Clifford Simak, parecia estar desfrutando de um novo romance, muito mais rico e bem escrito, porém, compartilhando da mesma temática da tradução que eu já conhecia. Foram essas traduções malfeitas e, em muitos casos, resumidas que me fizeram abandonar a Argonauta no fim da década de 1980” (Gerson Lodi-Ribeiro). E o monstro acabou se virando contra o criador: “Criou um público para a FC em português, mas também o destruiu. Muitos de nós, que ainda hoje continuamos a “...pela primei ra compreendi co vez mo um mau tradutor pode assassinar um livro por completo...” Jorge Candeias

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s, nenhum Apesar desses problema eção como prejudicaria tanto a col es [...] que a qualidade das traduçõ inadas, dom ser por iam acabar a voz pel , 103 n.º a par tir do o de alguns onipresente e, na opiniã uniforme, leitores, redutoramente de Eurico da Fonseca...

submetidos (porque decerto os haveria) simplesmente não eram considerados como tendo qualidade suficiente diante das obras estrangeiras, é algo que se desconhece. Mas não deixa de ser sintomático, e pouco abonatório para a produção nacional, que nunca um português tivesse sido incluído na mais antiga e prestigiada coleção de FC do país, numa época em que o incentivo teria certamente produzido efeitos benéficos para o desenvolvimento do gênero.” 2 Apenas nos anos 90, uma editora – a Caminho – apostaria com regularidade nos autores de língua portuguesa. Trinta anos depois.

QUE VIDA DEPOIS DA VIDA consumir FC em português, devemos isso à Argonauta; mas julgo que muitos dos que deixaram de ler também o fizeram devido à falta de qualidade da coleção em sua fase final” (Jorge Candeias).

O SILÊNCIO LUSÓFONO

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um defeito que poucos lhe apontam. A meu ver, como leitor, mas principalmente como autor de língua portuguesa, é o único que não tem desculpa. “Se no Brasil [o editor Gumercindo Rocha] Dorea criara um espaço para desenvolvimento de projetos literários [de autores nacionais de FC em sua coleção GRD], e em Espanha [Domingo] Santos seguia-lhe os passos [com a coleção Nueva Dimensión], em Portugal, onde a coleção Argonauta teria início coincidente com essas duas iniciativas e igual finalidade, o acolhimento de obras nacionais foi nulo [...]. Sem querer menosprezar sua contribuição importantíssima para a divulgação da FC internacional, a verdade é que, nas centenas de títulos editados durante os 50 anos de atividade, não encontramos um único autor português, e só em [2005] é que uma brasileira, Márcia Guimarães (A Conspiração dos Imortais), consegue romper este impenetrável crivo editorial. Se o mesmo resultou de decisão consciente do diretor da coleção, ou se os manuscritos 44 /// BANG!

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oderia falar aqui das horas passadas na caça da Argonauta em sebos do Porto, em busca de conseguir completar as coleções de Heinlein, Farmer, Dick, Silverberg (o que consegui, reunindo todos os que foram publicados em português), mas essa, penso eu, é uma experiência comum” (João Seixas). Onde encontrar, hoje em dia, os livros da Argonauta? Em sebos de Portugal, com alguma dificuldade. Nos do Brasil, imagino que com mais dificuldade ainda. Quem os procura, sabe reconhecer sua raridade, nem que seja pelos preços mais elevados. Alguns números são relativamente fáceis de achar, outros nem tanto. Os derradeiros títulos ainda se encontram em primeira mão nas feiras de livro portuguesas. Não deixa de ser curioso o carinho com que os apreciadores hoje recolhem, inventariam e mantêm a memória, na ausência, de livros que, em seu auge, foram sumariamente ignorados pela crítica literária. A despeito das imperfeições, a Argonauta esteve no centro de várias comunidades de leitores – e ainda está –, muito antes das redes sociais. Os efeitos secundários foram se manifestando ao longo das décadas e ainda hoje se sentem – com particular destaque, em Portugal, para o caso de João Vagos,

Alguns dos “grandes nomes” que marcaram a coleção Argonauta. Asimov, Bradbury, Arthur C. Clarke, Simak, Heinlein e Blish.

que criou um blog dedicado a todos os títulos da coleção3 e gravou uma série de vídeos em que os apresenta com evidente nostalgia.4 O Brasil antecipou essa iniciativa e foi mais longe: “Foi na Camões [livraria especializada na comercialização de títulos portugueses] que comprei um livro brasileiro em novembro de 1985: Quem é Quem na Ficção Científica, nº 1 – A Coleção Argonauta, (Scortecci, 1985), de Roberto Cezar Nascimento.5 O livro analisa os títulos da coleção, desde o número 1 até o 312. Nas últimas páginas do exemplar, havia um formulário com uma proposta para a criação de uma agremiação de leitores de ficção científica. Vários leitores gostaram da ideia e remeteram os formulários preenchidos de volta ao autor, semeando assim a iniciativa dessa agremiação que viria a se tornar o Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), a entidade mais pujante de seu gênero durante o período de 1986-1995. Roberto Nascimento foi o primeiro presidente do CLFC e também o primeiro editor do Somnium, periódico da agremiação. Uma das motivações principais do CLFC naqueles primeiros anos foi estabelecer uma rede de troca de livros de FC em geral e de exemplares da Coleção Argonauta em particular. De fato, à medida que as coleções de mais e mais sócios veteranos foram se completando, estes sócios foram paulatinamente se afastando do convívio com o fandom. Pouco a pouco, o CLFC se transformava, de um clube de colecionadores numa agremiação de produtores e articuladores de literatura fantástica” (Gerson Lodi-Ribeiro). Se há característica que distingue o fã de FC é precisamente o apetite para socializar em torno dos temas do futuro – é bizarro, pois normalmente ele (e ela) é retratado por quem está de fora como um indivíduo com dificuldades de socialização. “Nascimento escolheu bem a plataforma para o seu gesto de comunicação com outros fãs – aparentemente a Argonauta já despertava paixões entre pessoas que não se conheciam e que se sentiram entusiasmadas com a descoberta de

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É bom recordar que cada geração tem sua coleção ou suas coleções formadoras (Roberto de Sousa Causo). outros ‘semelhantes’. E foi assim que a Coleção Argonauta se tornou o componente de uma subcultura nacional que, por suas origens, comunica-se com uma vasta subcultura global formada por fãs de FC e fantasia em todas as partes do mundo” (Roberto de Sousa Causo). Extinta, a coleção resiste no saudosismo e nas estantes dos últimos colecionadores. Mas vale lembrar que não sairão novos números, não se reeditarão os antigos. Os exemplares que existem continuam a amarelar, a se decompor, a desaparecer da memória. E não parece haver coleções atuais capazes de desempenhar o mesmo papel: “Seu catálogo, conjugado com a vasta disponibilidade nos pontos de venda, permitia que qualquer pessoa, em dado momento, adquirisse uma educação intensiva no campo da Ficção Científica. Mesmo quando tinha de dividir sua atenção entre as coleções de outras editoras, o catálogo Argonauta possui um núcleo de obras relevantes, de autores relevantes, que, ainda que com lacunas, permite obter um panorama geral da evolução do gênero. Isso é algo que hoje desapareceu e justifica a falta de conhecimento em termos de FC de grande parte daqueles que se dizem fãs. Essa falta de conhecimento é derivada de um contato totalmente fragmentário com poucas obras, mal selecionadas, e, sobretudo, do fato de esses fãs terem video games e filmes como principal jus-

tificativa de contato” (João Seixas). É bizarro pensar que o gênero que sempre falou sem medos do futuro receia agora pelo seu próprio destino – receios que atravessam fronteiras: “Sem um lar, sem um abrigo, como podem os novos leitores, os novos fãs, surgirem? O futuro da comunidade brasileira de FC se torna uma incógnita. Haverá uma nova geração, e formada através do quê? Do cinema, que parece ter destruído a FC nesse meio, justo agora que as imagens geradas por computador prometem um realismo nunca antes alcançado pelo gênero – e níveis de imbecilidade também nunca alcançados, nem mesmo na infantil FC da década de 1950? Serão os novos fãs os garimpeiros de sebo, revirando o passado editorial brasileiro e português, em busca do que os inspire?” (Roberto de Sousa Causo). Talvez, afinal, seja um problema eterno e sem solução: “Quando um professor me aconselhou a ler as obras de Júlio Verne, não o fez para que meu espírito se soltasse e navegasse à vontade pelo tempo e pelo espaço, mas sim para que, através das páginas de A Ilha Misteriosa, eu aprendesse como, até em uma ilha perdida, os conhecimentos de matemática, física e química eram indispensáveis. Pena é que muitos dos jovens de hoje nem sequer percebam isso” 6. Talvez, tendo este exemplo, devamos descansar e esperar pelo melhor. É bom recordar que cada “geração tem sua coleção ou suas coleções formadoras” (Roberto de Sousa Causo). E, “afinal de contas, desde meados da década de 1950, com suas falhas e acertos, foi a Argonauta que possibilitou o primeiro contato de muitos leitores portugueses e brasileiros com o mundo encantado da literatura de ficção científica” (Gerson Lodi-Ribeiro); por isso, devemos a ela muito do que hoje somos.

[1] O fenômeno talvez se explique pelo fato de o primeiro volume, Fundação, ter sido editado pela Ulisseia em 1961 na sua colecção 3:C, cuja vida curta (cerca de vinte números) não teria possibilitado continuar a saga. Se o caso foi esse, não deixa de ser estranha a decisão da Argonauta de servir como veículo da conclusão, ao invés da opção mais óbvia (e talvez mais razoável) de aguardar alguns anos até recuperar os direitos de autor e fazer uma edição completa... [2] Luís Filipe Silva, “O Estranho Caso da Prospectória Amnésica”, introdução à antologia Por Univer-

Agradecimentos e referências: A António de Macedo, João Barreiros, Braulio Tavares, Roberto de Sousa Causo, Gerson Lodi-Ribeiro, Ricardo Loureiro, Jorge Candeias, José de Freitas e João Seixas, pelos imprescindíveis e informativos testemunhos que limites editoriais não permitiram incluir na íntegra. E à Saída de Emergência pelo convite a uma breve mas importante reflexão luso-brasileira. Este artigo não teria sido possível sem duas referências bibliográficas imprescindíveis: o site Bibliowiki, mantido por Jorge Candeias, e o site amador da coleção Argonauta mantido por João Vagos.

Dedicatória A todos os que participaram, direta e indiretamente, na concepção e produção de cada um dos livros da Argonauta. Obrigado por cinco décadas de livros, verdadeiros oásis em um deserto literário sem imaginação nem futuro. E não levem a mal nossas exigências. Sabemos que fizeram seu melhor, que a época era complicada e o mercado, ingrato e pouco desenvolvido. Apenas queríamos que tivessem mantido a fé mais um pouco, e que ainda continuassem entre nós.

sos Nunca Dantes Navegados, org. Luís Filipe Silva e Jorge Candeias, 2007. [3] http://coleccaoargonauta.blogspot.pt/ [4] http://www.fallingintoinfinity.com/2013/01/ coleccao-argonauta.html [5] Nascimento repetiria o feito, em 1999, com o lançamento de Argonauta 500: edição comemorativa, uma pequena edição que contém depoimentos de apreciadores portugueses e brasileiros. [6] Da introdução de Eurico da Fonseca ao n.º 500, Ó Pioneiro! – O Pioneer, de Frederik Pohl.

Luís Filipe Silva (blog.tecnofantasia.com) é autor português de O Futuro à Janela (Prémio Caminho de Ficção Científica), Cidade da Carne, Vinganças e (com João Barreiros) Terrarium – Um Romance em Mosaicos, além de vários contos, críticas e artigos em publicações portuguesas, brasileiras e internacionais. Como antologista, organizou Vaporpunk – Relatos Steampunk Publicados sob as Ordens de Suas Majestades (com Gerson Lodi-Ribeiro) e Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa (com Luís Corte Real). BANG! /// 45


por Tiago Toy

Em cada uma das histórias de QUAD, você vê artistas que um dia também viram os C-beams em Tannhauser Gate e tiveram suas vidas alteradas. Assim como os cientistas, essas histórias fizeram com que eles percebessem e se relacionassem com a realidade de maneira diferente. Por quê? Porque é assim que eles veem o mundo. Veem no presente o contexto para o futuro. Veem no futuro uma metáfora para o presente. oi-se o tempo em que projetos independentes resultavam em trabalhos de estilo duvidoso, com nanquim borrado em folhas bastante semelhantes a papel higiênico. Claro que tal feito se devia à falta de orçamento disponível aos artistas, e não ao talento dos mesmos — algumas vezes sim. Em uma época onde determinados estilos e gêneros não eram tão valorizados quanto hoje, a saída era quebrar o porquinho, esvaziar os bolsos empoeirados e investir algum tempo na criação de fanzines e derivados, pelos quais dificilmente alguém dava mais do que poucos trocados. Deixando de serem apreciados apenas por molecotes sonhadores sob lençóis e

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iluminados por lanternas, os quadrinhos ganharam uma importância inimaginável nos últimos anos, e isso se deve a títulos que ditaram a nova regra: “Podemos ser tão bons (ou melhores) quanto muitos livros por aí”. E podem mesmo. Um quarteto fantástico de ilustradores brasileiros — Aluísio Cervelle Santos, Eduardo Ferigato, Diego Sanches e Eduardo Schaal — resolveu apostar em seu talento primário e ao mesmo tempo arriscar em outro: escrever a própria história. Sem paciência para esperar alguma possível editora interessada, e ambiciosos em seu intento, decidiram acreditar no investimento que verdadeiros apaixonados por quadrinhos de qualidade estariam dispostos a fazer e publicaram

o projeto no Catarse, um dos maiores sites de crowdfunding (vaquinha online) do Brasil. Não deu outra! Com uma mensagem instigante chamaram a atenção de diversos apoiadores, estes ajudando não somente com “doações”, mas com divulgação, e não tardou para que alcançassem a meta — na verdade, a ultrapassaram de longe. Com recompensas relevantes para os apoiadores, a QUAD chegou a público em novembro de 2013 da maneira mais acertada: superando as expectativas. Lançada na FIQ 2013 — Festival Internacional de Quadrinhos —, em Belo Horizonte, ela teve seu estoque de exemplares esgotado em quatro dias e contou com um segundo lançamento


pouco tempo depois na Gibiteria, em São Paulo. Mas chega de dados técnicos e vamos ao que realmente interessa: do que afinal se trata a QUAD? O encadernado de pouco mais de 100 páginas conta, além de agradecimentos aos apoiadores, biografia dos autores e uma galeria de fan arts, com quatro histórias completas construídas sob o gênero sci-fi. A maior referência que temos do tema é a saga mais famosa de ficção científica de todos os tempos, Star Wars. Confesso que a conheci há menos de dois anos. Relutava muito em ceder meu precioso tempo a algo que não me interessava. Mas quando a maturidade cultural vem nos dispomos a experimentar novos sabores. Aprendi que não se deve dizer “Desta água não beberei”, pois bastou assistir ao primeiro (primeiro mesmo, de 1977) para reservar muitas horas nos dias seguintes para conhecê-la por completo. Falando nisso, preciso assistir novamente... Sem deixar de lado os clichês, mas usando-os à melhor maneira, e obtendo êxito ao construir seu próprio mundo, uma ambientação toda particular, cada um dos envolvidos apresentou histórias eficientes, algumas mais do que outras, mas todas muito boas. Nenhuma delas se perde, indo direto ao ponto pelo caminho mais interessante, todas se desenvolvendo no mesmo mundo.

terah & Elvis

ESP-TRENT — por Aluísio Cervelle Santos alvez tenha sido a história que mais demorei a entender — e salientando que isso durou apenas uma página. Diferente da anterior, Aluísio aproveitou a sua página de introdução e pouco menos de uma dezena de balões bem preenchidos com explicações que, à primeira vista, podem confundir a cabeça dos menos antenados em ficção científica. Ao virá-la, no entanto, esses esclarecimentos fazem o leitor fracassar ao evitar um sorriso diante da descoberta do que estão prestes a ler. ESP-TRENT é o nome do protagonista da vez, um robô. Indiferente ao fato de ter cabos, placas e óleo correndo por suas “veias”, ele também possui uma profissão, como qualquer humano, mas diferente de todas as outras. ESP-TRENT é um Exorcista de Softwares Paranormais. Deu para sacar o porquê do sorrisinho, não? Com uma narrativa irônica e divertida, a história é ilustrada por traços mais fortes e comuns, mas também com um estilo próprio. Brincando com ação, espionagem e satirizando as regras impostas aos robôs, o roteiro, embora deixe um gancho no final (e tente plantar

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Terah & Elvis — por Eduardo Schaal a minha favorita. Acompanhando a mecânica badass Terah, e levando a tiracolo sua mascote Elvis, um gato preto faminto, a primeira história se inicia com um chamado para um serviço de rotina: consertar um Emulador Termodata, um aparelho muito antigo. E é claro que as peças necessárias para o conserto estão em um local nada amigável. Mesmo carregada nas costas por uma protagonista feminina, a trama nunca se apoia em estereótipos ou apela para nudez ou artimanhas a fim de desviar a atenção do leitor. Isso não é necessário. Os traços adotados por Schaal lembram algo próximo a Alan Moore, mas com sua assinatura própria, preto, branco e tons de cinza espalhados nos pontos certos. Trabalho de alguém que não só sabe o que está fazendo, mas que ama o que faz. Em cada uma das 22 páginas,

assim que concluí a leitura dos balõezinhos, voltei ao começo e admirei cada detalhe dos quadrinhos. Sem brincadeira: o estilo de Schaal é muito bom. Falando em páginas, posso citar aí o maior defeito da história. Ao chegar ao fim, esperava encontrar a continuação. Não que o desfecho não tenha sido bem construído; pelo contrário, me deixou com uma vontade louca de ler mais. Talvez seja estratégia do autor, que pode estar pretendendo continuá-la em um possível segundo número, mas a trama poderia facilmente preencher mais páginas e manter o interesse do leitor no mais elevado nível, pois há inúmeras possibilidades para o que poderia acontecer. Contando com belos cenários pós-apocalípticos, personagens interessantes, mutantes-zumbis nojentos, ação, uma muito leve pitada de drama familiar, uma inesperada surpresa no final e o caminhão mais bem desenhado que já vi, Terah & Elvis serve de porta de entrada para o mundo que espera o leitor, o qual não pensará duas vezes antes de decidir seguir em frente.

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Eps-Trent

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uma semente de dúvida na mente do leitor), consegue se fechar sem a necessidade de mais páginas. Apesar de uma sutil crítica à sociedade nas entrelinhas, ESP-TRENT é voltada ao leitor mais precoce, que quer ver um robô mal-humorado chutando bundas de lata que pretendem esmagá-lo sem que isso atrapalhe sua rotina.

Sally – por Eduardo Ferigato

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Muros – por Diego Sanches eixando de lado sequências de ação, Diego Sanches resolveu desenvolver Muros sobre uma velha, mas sempre recente discussão: para que existimos? É um típico dia de trabalho na Cidade e os trabalhadores, todos estranhamente iguais, se dirigem aos seus alojamentos. Da esteira, um deles percebe lá embaixo a chegada de figuras bem diferentes. São os Lixeiros. Curioso, o trabalhador se aventura (pela primeira vez em sua monótona vida) pelos corredores da Cidade vigiados por olhos mecânicos sempre atentos, para descobrir quem são, de fato, os Lixeiros. Esta terceira trama é a com maior força para te fazer pensar. Não: refletir. Filas de pessoas sem particularidades, apáticas, todas seguindo um mesmo sistema que gira num ciclo sem fim, este sem realmente chegar a um ponto específico e com o único intuito de controlar. Parece familiar? Os traços sujos de Diego talvez sejam propositais, andando de mãos dadas com o trabalho dos Lixeiros, que, apesar de aparentemente livres do sistema, estão tão presos nele quanto qualquer um dos infelizes em seus alojamentos minúsculos, alegorias aos apertamentos nos quais somos obrigados a viver para fazer parte do mundo real, para sermos aceitos pela sociedade, exibindo sorrisos anêmicos e marchando em uma rotina ininterrupta. Esta que é imposta como a correta de tal forma que, embora saibamos que há algo errado, não nos preocupamos em analisá-la e buscar uma alternativa mais feliz. Há uma chance de alcançá-la se houver a coragem para arriscar, mas o desfecho de Muros deixa explícito que nem sempre há sucesso. Vale a pena assim mesmo?

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stá aqui, na conclusão da HQ, a trama que mais se aproxima de uma ficção científica clássica. Dois exploradores espaciais, o Capitão Lucas e seu subordinado Daniel, têm sua nave danificada e são forçados a fazer um pouso de emergência em um planeta desconhecido — sem perceber que sua chegada é vigiada por misteriosas figuras. Vagando pela terra inóspita, encontram uma antiga nave, e nela um pedido de socorro de alguém chamado Sally. Daí, partem em sua busca. Com influências como Isaac Asimov, Wall-E, Dead Space, Alien e até mesmo o astronauta Spiff, de Calvin & Haroldo, Ferigato remete sua história a uma realidade que pode muito bem tomar conta de nosso futuro graças à violência desmedida e sem propósito. Embora o desfecho não seja de todo surpreendente (vi algo bastante parecido em um dos episódios de The Twilight Zone), permite ao leitor, mesmo após algumas páginas de total melancolia, continuar imaginando algo além, perdido em meio ao infinito mar de estrelas: a esperança.

MUros

nidos na tentativa de brincarem com algo de que gostam e de o transformarem em algo profissional, investindo talento e tempo e contando com o apoio de gente como eles, os criadores da QUAD, acima de tudo, acreditaram. O sucesso de uma obra pode ser medido por diversos fatores; números ou contratos com grandes editoras nem sempre são o mais importante. Se você consegue tocar um leitor, fazê-lo sorrir, pensar, dar-lhe algum tempo de diversão em um mundo novo, então tenha certeza de que valeu a pena. Se decidirem criar o crowdfunding para a QUAD – Parte 2, não será um risco, mas a certeza de sucesso. A força estará com vocês.

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Sally

Tiago Toy é escritor de literatura fantástica e criador da saga Terra Morta, cujo volume de estreia considerado o primeiro romance de zumbis nacional de sucesso, lançado em 2011. O primeiro livro da série, subintitulado Fuga, dominou o 1º lugar de Mais Vendidos de Horror da Amazon. Atualmente, Tiago trabalha na revisão do segundo volume a sair em 2013, na produção do roteiro de uma HQ e na organização da coletânea Terra Morta – Relatos de Sobrevivência a um Apocalipse Zumbi. Tiago Toy também é colaborador do portal de horror Boca do Inferno e contista presente na lista de Mais Vendidos da Amazon. about.me/tiagotoy facebook.com/terramortaoficial


Ao se estudar as origens do Fantástico no Brasil, ainda no século XIX, o leitor se depara com alguns bons textos, escritos por não muitos autores, os quais, salvo exceções incríveis, como os contos de Machado de Assis (1839-1908), quase sempre flertam com o sobrenatural, em uma atmosfera gótica e onírica, a exemplo das obras de Álvares de Azevedo (1831-1852), ainda muito ligadas à tradição europeia e norte-americana. Contudo, ainda que se saiba que a Literatura Fantástica, como a conhecemos hoje, nasceu, se desenvolveu e se disseminou no século XIX, foi, sem dúvida, no século XX que se consolidou como gênero, ganhou força e se ramificou, dando origem à maioria das formas que hoje estão em voga, como o

Realismo Mágico, o Absurdo e a Fantasia Épica. Assim, se por um lado falar de Fantástico brasileiro durante o século XIX é um trabalho de levantamento e de descoberta, dada a pequena quantidade de material, por outro, falar sobre ele no século seguinte é um trabalho de seleção, pois é praticamente impossível enumerar todas as obras do gênero publicadas no Brasil ao longo dos séculos XX e XXI. Por isso, trataremos apenas de uma pequena parcela desse imenso número, buscando obras de diferentes estilos para compor um breve panorama, a começar pelos autores que, ainda vinculados aos 1800, fizeram a ponte com o século nascente, dando, assim, continuidade ao artigo O Fantástico Brasileiro: As Origens, dedicado ao século XIX, publicado no número zero da revista Bang!

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AINDA SEGUNDO O MODELO Para começar, voltemos à virada do século, quando o gênero ainda caminhava segundo os modelos europeus e norte-americanos, tal como fora no século anterior, ao mesmo tempo em que caminhava para novos rumos sob a pena de Machado (1839-1908), Nestor Victor (1868-1932), Inglês de Sousa (1853-1918) e muitos outros. A influência do francês Guy de Maupassant (1850-1893), do americano Edgar Allan Poe (1809-1849) ou dos britânicos H.G. Wells (1866-1946) e Mary Shelley (1797-1851) é notória em escritores dessas primeiras décadas, como no romance Esfinge, de Coelho Neto (1864-1934), em alguns contos de Medeiros e Albuquerque (1867-1934), de Humberto de Campos (1886-1934) e de Jerônymo Monteiro (1908-1970), ou ainda, em romances de Gastão Cruls (1888-1959) e de Viriato Corrêa (1884-1967), para citar apenas alguns dentre os muitos que beberam dessas fontes. “BOIS PRETOS” E “11 E 20”

Medeiros e Albuquerque intro50 /// BANG!

duziu muitas estéticas e muitos gêneros no Brasil. Foi um precursor do Simbolismo, com seu livro Canções da Decadência, de 1889, e publicou as primeiras narrativas policiais brasileiras na coletânea Se eu Fosse Sherlock Holmes, de 1932. Além disso, escreveu em parceria com outros três autores o primeiro romance policial do Brasil, O Mistério, publicado em 1920. Não é, portanto, de se estranhar que tenha arriscado alguns passos no Fantástico, gênero que só cresceria ao longo do século. Em um momento em que os olhos do Brasil se voltavam, sobretudo, para a França e para a Inglaterra, Medeiros inovou ao buscar seu modelo em narrativas norte-americanas.1 Um exemplo disso é seu conto “Bois Pretos”, publicado na coletânea Se eu Fosse Sherlock Holmes. Esse conto, na verdade, é uma espécie de resumo do livro de mesmo nome da escritora norte-americana Gertrude Atherton (1857-1948), que conta a históVale lembrar que a literatura norte-americana ainda era pouco lida no Brasil no início do século, à exceção, é claro, de Poe, que, no entanto, só se tornou conhecido na Europa e no mundo após ter seus contos traduzidos para o francês por Charles Baudelaire (1821-1867).

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ria da Condessa Zattiany, uma bela mulher que, após se submeter a uma experiência científica, consegue recuperar sua juventude (tema que também foi explorado por Coelho Neto no romance Imortalidade, de 1925). Em uma mistura de romance de época, aos moldes de Jane Austen (1775-1817), com uma vindoura Ficção Científica, o conto teve, a um só tempo, o papel de difundir o gênero e os romances de Atherton, que vinham sendo muito elogiados pela crítica e pelo público. Já no conto “11 e 20”, publicado em 1904, Medeiros traz a história de um assassino atormentado todas as noites por uma espécie de assombração, sempre na mesma hora: às 11h20. O conto é bastante simples, de narrativa ágil e fluida, e segue o estilo do conto de terror clássico inglês como os de Charles Dickens (1812-1870) e Conan Doyle (1859-1930). ESFINGE

Ainda sob a égide dos países de língua inglesa, em Esfinge (1906), Coelho Neto traz a história do excêntrico James Marian, um inglês recém-chegado ao Rio de Janeiro que divide as opiniões dos vizinhos, desconcertados diante de sua aparência bizarra: um corpo másculo, forte e musculoso, cuja cabeça é pequena, feminina e delicada como a de uma menina. James Marian é uma personagem muito à frente de seu tempo, por tocar um tema muito polêmico: as diversas sexualidades, para além do binômio homem/mulher, ainda que esse assunto já tivesse sido abordado, guardadas as devidas proporções, por Machado em seu incrível conto “As Academias de Sião”. Por outro lado, a história de Coelho parece se

Em Esfinge (1906), Coelho Neto traz a história do excêntrico James Marian, um inglês recém-chegado ao Rio de Janeiro que divide as opiniões dos vizinhos, desconcertados diante de sua aparência bizarra: um corpo másculo, forte e musculoso, cuja cabeça é pequena, feminina e delicada como a de uma menina.

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inspirar em Frankenstein, de Mary Shelley, trazendo uma ambientação já à brasileira com elementos tropicais e um misticismo próximo à religião espírita, conferindo a cor local, apesar de explícita a importância de seus modelos, como comenta Roberto de Sousa Causo em seu estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil. O MONSTRO E OUTROS CONTOS

Já Humberto de Campos, com uma linguagem muito menos rebuscada do que a de Coelho, trouxe em seu livro O Monstro e outros contos (1937) uma prosa fluida, cujos textos breves mostram novamente traços do terror gótico e da nascente Ficção Científica, como em “Os Olhos que Comiam Carne”, no qual o Fantástico transparece em uma pseudotecnologia médica. A história é narrada do ponto de vista de um escritor, que logo na primeira cena descobre ter perdido a visão. A notícia da cegueira de Paulo Fernando se espalha causando grande comoção; na mesma época, por coincidência, um médico alemão, conhecido por ser capaz de devolver a visão aos cegos, está para chegar ao Brasil. Assim, tudo é arranjado para o Prof. Platen operar seus olhos, e, de fato, assim ocorre. Após a cirurgia, quando a venda é retirada, Paulo não vê mais o mundo como via antes; seus novos olhos, mais aguçados do que nunca, veem por baixo das roupas e da carne, como se fosse a visão de raios do Superman. O final, no entanto, é trágico, pois Paulo se vendo cercado de esqueletos, em desespero, arranca os próprios olhos. A AMAZÔNIA MISTERIOSA

O livro é uma referência evidente ao clássico A Ilha do Dr. Moreau, de H.G. Wells, e retoma outro tema em voga na época: a descoberta de lugares fantásticos em meio às selvas tropicais. Tema que já havia sido visitado, inclusive, por Sir Arthur Conan Doyle em seu incrível O Mundo Perdido, de 1912, que também se passa na Amazônia.

Já na transição entre o modelo europeu e o que viria a ser um Fantástico mais tupiniquim, Gastão Cruls criou, em A Amazônia Misteriosa (1925), um mundo perdido no coração da floresta, onde vive um cientista alemão que escolheu a selva tropical para ser palco de suas experiências. O livro é uma referência evidente ao clássico A Ilha do Dr. Moreau, de H.G. Wells e retoma outro tema em voga na época: a descoberta de lugares fantásticos em meio às selvas tropicais. Tema que já havia sido visitado, inclusive, por Sir Arthur Conan Doyle em seu incrível O Mundo Perdido, de 1912, que também se passa na Amazônia. A diferença, porém, entre Cruls, Wells e Doyle está, justamente, no fato de o brasileiro trazer elementos reais da fauna e da flora de seu próprio país dando, assim, um passo além para a consolidação do gênero no Brasil.

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ENFIM, BEM TUPINIQUIM O conto Enquanto os escritores da virada do século, ainda bastante ligados ao Realismo, ao Romantismo e ao Simbolismo, tateavam em busca de um lugar ao sol, retomando e emulando os já clássicos autores europeus, na década de 20, outro grupo de autores brasileiros buscava chamar a atenção com uma proposta exatamente oposta: uma tentativa exuberante de inovação e ruptura de paradigmas e tendências que os consagrou sob o nome de Modernistas. No Brasil, não há quem não conheça os Modernistas da primeira geração, como Mário (1893-1945) e Oswald de Andrade (1890-1954), célebres, principalmente, pela Semana de Arte Moderna de 1922; ou ainda, os modernistas da segunda e da terceira geração que exploraram as raízes do Brasil em uma prosa formalmente elaborada, como Graciliano Ramos (1892-1953) e Guimarães Rosa (1908-1967). Poucos, porém, sabem que nas obras desses autores icônicos o Fantástico pode ser encontrado de forma e cara nova, como no Macunaíma, de 1928, do próprio Mário, e nas Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa, publicados em 1962. Como sempre, o Fantástico é encontrado onde menos se espera. MACUNAÍMA

A premissa do livro de Mário de Andrade, por si só, é pautada no Maravilhoso, uma vez que o livro retoma livremente muitos mitos do folclore indígena. A história começa com o nascimento do herói-título, cuja alcunha, “o herói sem nenhum caráter”, já deixa claro o viés cômico da obra. Ao longo de suas aventuras, Macunaíma encontra seres lendários, como o Curupira, e termina por conhecer Ci, a Mãe do Mato, com quem se casa. Ci, no entanto, morre logo após dar à luz o filho de Macunaíma. A criança também morre e Ci se transforma em uma 52 /// BANG!

emociona em sua singela simplicidade. A Menina de Lá nada mais é do que uma criança que tem parte com o Outro Mundo. O Fantástico aqui está tão entranhado que nem é preciso explicá-lo. Talvez seja onde Rosa melhor alcançou o gênero.

estrela (o mesmo destino de várias mulheres do livro). Diversas outras transformações, aliás, estão presentes; o próprio protagonista ora aparece como um índio negro, ora como um homem loiro. Em dado momento, chega até mesmo a virar um pato, e, ao fim, transforma-se em uma constelação. Pouco antes de subir aos céus em forma de estrela, Ci lhe dá o muiraquitã, um talismã que, pouco tempo depois, acaba nas mãos do gigante antropófago Venceslau Pietro Pietra. Macunaíma tenta, então, de todas as formas, reavê-lo, e suas desventuras acabam por levá-lo a diversas partes do país e a encontrar toda a sorte de criaturas fantásticas. No fim, Macunaíma recupera o muiraquitã e volta para sua terra. Prestes a morrer, é transformado na constelação Ursa Maior. Escrito em uma linguagem que brinca com “o brasileiro falado e o português escrito”, como o próprio Macunaíma comenta, a rapsódia se destaca pelo estilo por vezes debochado, embora elaborado, pretendendo mostrar de maneira alegórica e mitológica a configuração do povo brasileiro. Entre tantas lendas e tantos mitos, nada há de mais Fantástico. PRIMEIRAS ESTÓRIAS

Tal como Mário de Andrade, Guimarães ficou conhecido por brincar com a linguagem ao propor uma escrita que emula o português falado. Seus textos se passam, quase sempre, em regiões rurais ou agrestes, de modo que o imaginário popular se faz muito presente e é por esse caminho que o Fantástico se manifesta. Vários de seus contos flertam com o gênero, mas há sempre aqueles mais icônicos, como é o caso do seu “Um Moço Muito branco”, publicado no livro Primeiras Estórias. Esse conto relata a história de um homem branco (não o dito caucasiano, mas pelo

que se entende branco de fato, como leite ou papel) que surge sem memória no interior de Minas Gerais. O moço, incapaz de falar e tampouco compreender o que lhe é dito, apareceu pouco depois de estranhos fenômenos terem atingido a cidade e, por isso, sua vinda é relacionada a eles. Ao fim, o moço desaparece, tão misteriosamente quanto aparecera. Apesar da atmosfera de mistério, tudo leva a crer que o protagonista veio de outro mundo em um disco voador, trazendo à tona um raro elemento de Ficção Científica para a obra de Guimarães, o que o diferencia de “A Menina de Lá”, outro conto Fantástico de Primeiras Estórias. “A Menina de Lá” conta a história de Nhinhinha, uma criança mirrada e estranha de quase 4 anos. Estranha, porque, ao contrário da maioria das crianças dessa idade, quase não se mexe, não brinca, não gosta nem desgosta das coisas. Nas poucas vezes em que fala solta disparates sobre abelhas e nuvens, tatus e a lua. Diz ainda que deseja visitar os parentes mortos, o que preocupa seus pais. Meio que do nada, começa a fazer milagres; a princípio, coisas pequenas. Queria um sapo e logo uma bela rã verde lhe visita aos saltos; queria um doce de goiaba e, no instante seguinte, alguém passa lhe oferecendo o doce. Assim ia a vida de Nhinhinha, sempre desejando coisas simples que milagrosamente lhe chegavam, de uma forma ou de outra. Um dia, porém, a mãe adoeceu e, por mais que lhe pedissem, não desejou que a mãe ficasse curada. Contudo, chegou-lhe sorrateira e lhe beijou; assim a mãe sarou. Depois veio a seca e pediram-lhe chuva; não quis. Quis, porém, um arco-íris, e dias depois a chuva caiu. Nunca viram Nhinhinha tão feliz, correndo e brincando. Algum tempo depois, adoeceu e morreu. A tia então contou aos pais desconsolados que, naquele dia do arco-íris, Nhinhinha pedira um caixãozinho cor-de-rosa com enfeites verdes e souberam, por isso, que assim tinha de ser. O conto emociona em sua singela simplicidade. “A Menina de Lá” nada mais é do que uma

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criança que tem parte com o Outro Mundo. O Fantástico aqui está tão entranhado que nem é preciso explicá-lo. Talvez seja onde Rosa melhor alcançou o gênero.

UM FANTÁSTICO PARA CRIANÇAS De volta às primeiras décadas do século XX, não podemos deixar de nos lembrar de Monteiro Lobato (1882-1948), autor muito importante que fez o que praticamente ninguém, no Brasil, fazia: escreveu livros para crianças. Lobato flertou com o Fantástico em dois momentos: em sua ficção para adultos e em suas obras infantis. Na primeira, escreveu contos seguindo de perto o modelo de Maupassant, a quem tentou imitar sem muito sucesso. Por outro lado, foi mais feliz com seu único romance para adultos, O Presidente Negro ou O Choque das Raças, de 1926, uma obra de Ficção Científica. O livro conta a história de Ayrton, um homem comum que acaba conhecendo o Prof. Benson, inventor de uma curiosa máquina capaz de predizer o futuro. Através dela, as personagens ficam sabendo que, em 2228, será eleito o primeiro presidente americano negro. A trama então se desenvolve em torno do “choque das raças”, quando os membros da etnia branca se unem contra o político recém-eleito. Ao fim, o presidente é encontrado morto. Aproximando-se de George Orwell (1903-1950), Lobato ousou bastante ao tocar em temas polêmicos e navegar pelos mares da FC. Contudo, ainda assim, fossem somente essas as suas incursões pelo Fantástico, ele estaria ao lado de Medeiros e Coelho na primeira parte desse panorama. Foi somente devido à sua obra para crianças que se destacou, não só no gênero, mas como autor propriamente. O S Í T I O D O P I C A - PAU A M A R E LO

Grande parte da obra infantil de Lobato se resume à saga do Sítio do Pica-pau Amarelo, um ambiente mágico, onde praticamente tudo pode acontecer. A série é composta por vários livros e chegou a ser adaptada para a televisão e para o cinema, o que colaborou para o sucesso e a atemporalidade desta que é sua obra mais famosa. Como toda boa história infantil, o Maravilhoso está presente o tempo todo, a começar por algumas de suas personagens principais, como o Visconde de Sabugosa (um boneco de sabugo de milho que ganha vida), Emília (uma boneca de pano falante) e muitos animais antropomorfizados, como o Marquês de Rabicó (um porquinho guloso) e Quindim (um rinoceronte muito gentil). Para além de suas próprias criações, Lobato toma emprestadas criaturas mitológicas, como o Minotauro, a Esfinge e deuses gregos; ou ainda do folclore brasileiro, tais como a Cuca, a Iara e o Saci, personagem-título da primeira das aventuras passadas no sítio. Além disso, vez ou outra, vale-se de personagens dos contos de fadas europeus, como a Branca de Neve e a Cinderela, bem como o Alladin de As Mil e Uma Noites. Isso antecipou o recurso de cross-over2 muito em voga atualmente, em filmes como os da franquia Shrek, nas 2 Isto é, quando personagens de histórias distintas são utilizadas juntas para compor uma história.

HQs da série Fábulas ou ainda na série televisiva Once Upon a Time, três mídias diferentes que fazem personagens originais conviverem com personagens de contos populares, sobretudo de contos de fadas e da literatura infantil, em tramas novas, tal como Lobato havia feito, no Brasil, 90 anos antes. Não é de estranhar, portanto, que seus livros ainda façam tanto sucesso.

SOB UM OLHAR FEMININO Se no século XIX o Fantástico parece não ter sido explorado por autoras, em meados do século XX, ainda que timidamente, mulheres começaram a se valer do gênero e, ao longo dos anos seguintes, isso passou a ser cada vez mais comum. Muitas o exploraram de maneira esporádica, como é o caso de Rachel de Queiroz (1910-2003) e seu incrível conto “Ma-Hôre”, sobre o qual se falará adiante; outras cultivaram o gênero com mais frequência. Não obstante, foi com Lygia Fagundes Telles (1923-) que o Fantástico realmente se desenvolveu sob um olhar feminino ao longo de muitos de seus contos, como “Lua Crescente em Amsterdã”, “A Caçada”, “O Encontro”, “Seminário dos Ratos”, “A Mão no Ombro” e “Estrela Branca”. “As Formigas”, porém, talvez seja seu conto fantástico mais emblemático, e “Anão de Jardim”, seu ponto alto. Por isso, merecem um pouco mais de atenção. AS FORMIGAS E ANÃO DE JARDIM

“As Formigas” é um conto de terror que explora o elemento sobrenatural à moda do século XIX, embora, vale dizer, a autora brasileira tenha originalidade e estilo muito próprios. A história começa quando duas primas alugam um quarto em uma casa velha. O quarto fora ocupado anteriormente por um estudante de medicina que deixara lá uma caixa contendo o esqueleto de um anão. Como uma das garotas também estuda medicina, interessou-se pelo raro esqueleto. Os dias se seguem, até que encontram uma série de formigas marchando pelo quarto em direção ao BANG! /// 53


caixote. Acham estranho e matam os insetos invasores; porém, ao verificarem o esqueleto, veem que alguns ossos foram encaixados em seus locais corretos. É estranho, mas elas não se atêm a esse fato. O problema é que o caso se repete e as primas percebem que, de fato, as formigas estão montando o esqueleto. Assustadas, as duas saem de lá às pressas durante a noite, antes que alguém, ou alguma coisa, possa impedi-las ou que o esqueleto de fato se complete. O absurdo da trama, sua carga de realidade e a maneira como Lygia trabalha o tema por si só valeriam para garantir-lhe um lugar de destaque como uma das melhores autoras do gênero. Contudo, é em “Anão de Jardim” que ela dá um passo além. Se em “As Formigas” Lygia trabalhou com um Fantástico mais evidente a partir de elementos sobrenaturais, em “Anão de Jardim” a autora inova ao dar voz à figura inanimada que dá título ao conto. Apesar de incapaz de se mover ou de falar, ela é dotada de consciência e até, de alma, capaz, portanto, de narrar a história da casa onde viveu desde que foi construída. O anão, chamado Kobold – nome de uma criatura mitológica, mas ironicamente atribuído devido à semelhança que tem com o avô do proprietário da casa, um Professor cujo nome, por ironia, não é mencionado –, conta como o Professor foi morto por sua esposa e seu amante, que, ao longo dos anos, conspiraram cruelmente no intuito de roubar seus bens. Isso feito, os assassinos se livram do pobre anão de jardim e Kobold, quando está em vias de ser destruído, questiona sua própria fé e se sua alma habitará outro corpo depois que aquele cessar de existir. O conto termina com a esperança e a fé do anão, que crê que sua alma ainda voltará. A história é de 54 /// BANG!

tal forma inusitada e bem trabalhada que o leitor se desconcerta pelo fato de o narrador ser um objeto de decoração inanimado e ao mesmo tempo se emociona ante o fim trágico de Kobold e sua fé inabalável. Em última instância, a narrativa toca na delicada questão que aflige a maior parte da humanidade: há vida após a morte? “MA-HÔRE”

O conto “Ma-Hôre”, de Rachel de Queiroz, também narra a história de uma criatura pequenina e de sua relação com os seres humanos; entretanto, enquanto Kobold é um item decorativo feito pelo homem, Ma-Hôre é um homúnculo alienígena anfíbio, de pés e mãos espalmados, com quatro dedos interligados por membranas. Ma-Hôre habita o distante planeta Talôi. Seu povo, os Zira-Nura, vive em locais pacíficos e semiaquáticos. A paz de Talôi, porém, é entrecortada pela visita de uma nave terráquea que atiça a curiosidade dos Zira-Nura e os amedronta devido a seu tamanho avassalador. Os humanos, aos olhos de Ma-Hôre, são gigantes pálidos, diferentes de tudo o que já vira. Contudo, apesar do medo, ele se aproxima da nave enquanto seus tripulantes consertam avarias e, tomado por extrema curiosidade, acaba invadindo a máquina; para sua infelicidade, fica preso quando os humanos retornam e partem de volta para a Terra. O tripulante clandestino é descoberto e os humanos, diante da impossibilidade de levá-lo de volta, começam a educá-lo conforme os próprios costumes. Ma-Hôre é inteligente e logo aprende a se comunicar. Curioso, dedica seu tempo a aprender todo o possível, inclusive o manejo da nave. O leitor é tomado por uma imensa simpatia pelo homenzinho e acompanha animado seu processo de aprendizado; qual não é, pois, sua surpresa quando, abruptamente, Ma-Hôre envenena os astronautas e, satisfeito consigo mesmo, programa a nave para um novo destino: seu querido planeta, Talôi. Com esse fim desconcer-

tante, Rachel encerra seu breve conto de Ficção Científica, gênero ao qual, infelizmente, não se dedicou mais.

OS SENHORES DO ABSURDO Como não podia deixar de ser, o melhor foi deixado por último. Já direcionando o texto para o fim, é imprescindível falar dos dois maiores autores fantásticos do século XX: Murilo Rubião (1916-1991) e José J. Veiga (1915-1999). A escrita de Rubião e de Veiga foi por muitos enquadrada no subgênero conhecido como Realismo Mágico, por trabalharem com o improvável mesclado a elementos do cotidiano, sem que haja estranhamento das personagens que agem segundo uma lógica própria. Também chamados de autores do Absurdo, ambos são comumente equiparados a Franz Kafka (1883-1924), cujas obras instauraram um novo modo de se fazer Literatura Fantástica. “DRAGÕES” E “ T E L E C O, O COELHINHO”

Ao contrário de Veiga, que se dedicou tanto ao conto quanto ao romance, Rubião se especializou na ficção curta. Trabalhou incessantemente em seus textos, aos quais sempre voltava e, talvez por isso sua obra completa seja composta somente por 33 contos, todos incríveis, vale dizer, o que tornou muito difícil a tarefa de escolher apenas alguns para este panorama. Por via das dúvidas, foram escolhidos seus dois contos mais antológicos: “Dragões” e “Teleco, o Coelhinho”. “Dragões” é a história de um vilarejo que, de repente, se vê visitado por várias dessas criaturas. Ao contrário do que se poderia esperar, os habitantes do local não sentem medo nem parecem ter qualquer preocupação em relação à própria segurança. Ao contrário, cria-se uma grande polêmica na cidade sobre o que se

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fazer com os animais: eles devem ou não ser batizados e educados? Ao cabo de muita discussão, na qual a igreja e toda a gente se envolve, conclui-se que eles devem ser somente educados. A narrativa prossegue, os dragões começam a ser alfabetizados. Em dada medida, seria possível pensar que o narrador fala de humanos, e não de seres mitológicos (de novo, paira aquela inquietante aceitação da anormalidade); inesperadamente, porém, os dragões começam a morrer até sobrar apenas um, que, para infelicidade da população local, foge com um circo itinerante. Daquele dia em diante, o povo do vilarejo passa a tentar atrair novos dragões, mas estes nunca mais se fixam na cidade. Nesse conto, há certo humor ácido e satírico diante da necessidade humana de doutrinar um povo segundo as próprias doutrinas (como também em “Ma-Hôre”, de Rachel de Queiroz). Já em “Teleco, o Coelhinho”, a mais célebre dentre todas as obras do escritor mineiro, lemos a história de um coelho dotado de um estranho dom: ele pode mudar de forma o tempo todo, tornando-se outros animais de acordo com seu estado de espírito. O conto começa quando o narrador é interpelado pelo pequenino coelho que, para total desconcerto do leitor, lhe pede um cigarro. O coelho apresenta-se como Teleco e mostra-se uma companhia agradável demais. Assim o narrador acaba levando-o para casa. Os dois passam a viver juntos pacificamente, apesar da inconstância de seu amigo peludo que, não poucas vezes, o deixava em situações embaraçosas, assustando os vizinhos e pregando peças na polícia. Em dado momento, porém, Teleco se transforma em um canguru, veste-se com as roupas do narrador e começa a namorar uma humana. O convívio entre os dois torna-se insustentável, e o narrador, irritado, o expulsa de casa. Algum tempo se passa e Teleco reaparece, doente; morre pouco depois, e, em sua derradeira transformação, em uma cena trágica que deixa de lado todo o traço lúdico e bem-humorado, vira um bebê sem dentes e malformado. SOMBRAS DE REIS BARBUDOS

Por fim, resta falar do grande J.J. Veiga, autor de vários romances e contos, todos vinculados em alguma medida aos gêneros do Fantástico, notadamente, ao Absurdo e ao Realismo Mágico. Veiga ficou conhecido por muitas vezes não se valer de nenhum elemento sobrenatural em sua narrativa e, ainda assim, torná-la inquestionavelmente fantástica. Sombras de Reis Barbudos enquadra-se nessa categoria por quase todo o livro e serve como perfeito exemplo da grandiosidade técnica e imaginativa do autor. O livro é narrado em primeira pessoa por Lucas, um menino que tem sua vida transformada pela vinda de seu tio Baltazar para a cidade onde mora. Baltazar é um homem excêntrico e visionário que funda “A Companhia”. Ao longo do livro, não se sabe o que faz e para que serve a tal Companhia, mas a empresa cresce assustadoramente e passa a controlar toda a cidade. Baltazar, então, larga o emprego misteriosamente e muda-se; não se sabe se foi demitido ou se pediu demissão, porém, com sua saída, as coisas se tornam sinistras naquela antes pacata cidade interiorana. Em muitos sentidos, as atitudes da Companhia lembram a corte de justiça de O Processo. Tal como no livro de Kafka, leis e questionamentos ilógicos são impostos e as pessoas passam a seguir regras que não entendem sem questioná-las. É uma espécie de ditadura (e, evidentemente, é uma crítica a esse regime), diante da qual todo mundo parece se curvar passivamente. A primeira medida drástica da Companhia é a construção de muros. Sim, muros. Por quê? Não se sabe. Mas toda a cidade é murada. Tudo se torna um incrível labirinto. A locomoção fica difícil. Como era de se esperar, a construção dos muros faz com que muitos infrinjam a lei, pulando-os para chegar aos lugares aonde desejam ir. A Companhia reage rapidamente a isso aplicando punições mais do que severas, que, apesar da crueldade, não parecem surpreender os habitantes da cidade. Meninos têm seus dedos costurados; outros, as pernas paralisadas; com o tempo, as punições vão piorando, enquanto as proibições da Companhia se tornam mais absurdas. Não se podia mais, por exemplo, cuspir para cima ou tapar o sol com uma peneira. Pouco tempo depois, surgem os urubus. Eles invadem a cidade de tal modo que acabam sendo domesticados, isso antes de a Companhia resolver intervir.

Veiga ficou conhecido por muitas vezes não se valer de elemento sobrenatural algum em sua narrativa e, ainda assim, torná-la inquestionavelmente fantástica. Sombras de Reis Barbudos enquadra-se nessa categoria por quase todo o livro e serve como perfeito exemplo da grandiosidade técnica e imaginativa do autor. BANG! /// 55


B R I NC AND O COM L IVROS http://www.brincandocomlivros.com/

O OLHO DO MUNDO ROBERT JORDAN     

O Olho do Mundo é um destaque entre os livros fantásticos pois ele cria uma mitologia, sociedade e leis físicas, mágicas e dimensionais próprias. O enredo conta sobre um mundo parecido com a Terra-Média e esse universo é regido por um força chamada de A Roda do Tempo que tece o caminho por onde a vida, a magia e o destino transcorrem. Somos apresentados a 3 jovens amigos do interior do reino que são caçados por forças da escuridão. Salvos no último instante por uma feiticeira e seu guardião, eles saem em uma fuga que desencadeia, mais uma vez, a batalha épica entre o bem e o mal que acontece ciclicamente desde a criação, pois a Roda e o seu equilíbrio dependem do desfecho dessas batalhas. / Carlos Pina Barbosa BU RN B OOK www.burnbook.com.br

SUPERNOVA: O ENCANTADOR DE FLECHAS R E NA N C A RVA L H O    

Supernova: O Encantador de Flechas é o romance de estreia do autor Renan Carvalho e conta a história de Leran, um garoto prestes a se formar na escola e não sabe qual futuro pode ter em uma cidade como Acigam. A cidade é controlada por um governo totalitário e os membros das classes mais baixos estão aderindo a rebelião. No meio de tudo isso Leran procura aprender mais sobre a ciência e manipulação da energia dos elementos que poderão salvá-lo na luta contra os silenciadores. Usando uma narrativa dinâmica e envolvente, Supernova promete entreter o leitor com muita ação, suspense e reviravoltas incríveis. O Encantador de Flechas é uma descoberta no âmbito de fantasia nacional, super recomendo o livro para todos os fãs de histórias de aventura, e também para aqueles que gostam de romances imersos em uma distopia. / Guilherme Cepeda M E NI NA DA BAHIA http://www.meninadabahia.com.br

A DANÇA DOS DRAGÕES

GEORGE R. R. MARTIN    

A Dança dos Dragões (Editora Leya, 2012) é o quinto livro da aclamada série As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin. Notícias chegam da Baía dos Escravos falando sobre dragões. Daenerys, a Rainha de Prata, governa sobre Meereen, levando justiça aos seus libertos e ódio aos senhores de escravos. Tyrion Lannister finalmente reaparece, agora nas Cidades Livres. Suas ironias continuam ácidas e sua língua está mais solta que nunca. Mas outros são convidados para essa dança: Theon Greyjoy, Jon Snow, Davos Seaworth, Stannis, Melisandre e Bran. A magia de Martin se aproxima mais da de Tolkien, com toneladas da mais alta fantasia. Uma deliciosa narrativa, detalhada e viva, que conquistou o planeta, diálogos limpos e espirituosos, que criaram milhões de fãs, e as infinitas neves do inverno que vem chegando. Separe seus sapatos de dança, caro leitor. Martin é quem rege a orquestra! / Albarus Andreos 56 /// BANG!

Muitas outras desventuras, uma mais excêntrica do que a outra, se passam na vida de Lucas. Até que ele avista um homem voando. No começo, questiona-se a veracidade do fato, mas logo toda a população está voando e os poucos que ainda vivem no chão permanecem em uma cidade fantasma. O livro termina com um diálogo tão maluco quanto lúcido no qual um professor diz a Lucas e a um comerciante que não há ninguém voando de fato. O comerciante pergunta se estão todos malucos; o outro responde que não, mas que se trata de uma alucinação coletiva. “É uma doença, então?”, perguntam, e o professor explica: “Não, não. Pelo contrário. É remédio.” “Remédio para quê?” “Para loucura, justamente.” O professor abotoa o paletó e desaparece voando, mas Lucas não olha para trás a fim de confirmar, pois já está cansado de ver gente voando. Com a dúvida suscitada entre a possibilidade de loucura e o absurdo, termina o livro que, creio eu, dispensa qualquer outro comentário.

gênero estudado e reconhecido pelo público e pela crítica. Infelizmente, alguns autores importantíssimos que escreveram textos fantásticos tiveram de ficar de fora desse panorama, a exemplo do célebre Viriato Corrêa (18841967), do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e de Jerônymo Monteiro, um dos pais da FC nacional. Do mesmo modo, não nos aventuramos para além do início da década de 80 em meio às perspectivas contemporâneas, pois isso já é tema para o artigo do próximo número da revista Bang!. Contudo, espera-se que este panorama mostre quão rica e plural foi a Literatura Fantástica brasileira nesse período de consolidação e disseminação, de maneira a possibilitar toda uma gama de novos autores, novos gêneros, novos olhares e novas perspectivas. PARA SABER MAIS: BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2006. CAUSO, Roberto de Sousa. Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil – 1875 a 1950. Belo Horizonte: UFMG, 2003. TAVARES, Bráulio. Páginas de Sombra – Contos Fantásticos Brasileiros. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003. TAVARES, Bráulio. Páginas do Futuro – Contos Brasileiros de Ficção Científica. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011. Vários Autores. No Restaurante Submarino – Contos Fantásticos. São Paulo: Boa Companhia, 2012.

NOVAS PERSPECTIVAS Certamente, depois de autores como J.J. Veiga e Murilo Rubião, o gênero não foi mais o mesmo. O Fantástico no Brasil deu um salto e, de literatura por vezes considerada marginal, tornou-se um

Bruno Anselmi Matangrano é bacharel em letras (português e francês) e mestrando em Literatura Portuguesa pela FFLCH-USP. Editor e contista, dedica-se, sobretudo, à Literatura Fantástica, policial e ao movimento Simbolista nas literaturas brasileira, portuguesa e francesa. Fotos: Lucas Anselmi


Nesta história cheia de aventura, ação e imaginação, Stephen Hunt nos transporta para o universo do steampunk – um subgênero de ficção científica que mistura tecnologia futurista e magia, apesar de ter como pano de fundo a Inglaterra vitoriana. Com uma narrativa rica, criada por um dos autores que revolucionaram o gênero, A Corte do Ar é um livro repleto de personagens cativantes, cenas de prender o fôlego, máquinas a vapor ameaçadoras, homens que detêm poderes mágicos e forças obscuras. Os leitores acompanharão a jornada de Molly Templar e Oliver Brooks, dois órfãos que não se conhecem cujos caminhos se cruzam ao serem confrontados com um poder antigo que se julgava destruído havia milênios.

om base na narrativa e no universo C steampunk, pensei em algo diferente e original para a capa. Considerando que a Corte do Ar fica sobre as nuvens, por que não criar a sensação de estar dentro de um dirigível para que o leitor pudesse fazer parte do imaginário de Stephen Hunt, acompanhando toda a ação de perto? Assim surgiu a ideia principal, mas, como em qualquer processo criativo – e apesar de termos liberdade imaginativa e inventiva –, eu precisava saber qual era a ideia do editor sobre o grafismo, tendo sempre em mente o conteúdo do enredo, o gênero da obra, a época em que a trama se passa e, acima de tudo, o que o autor queria transmitir. ntão, depois de chegar à conclusão E de que esse era o caminho certo a se seguir, passamos ao primeiro passo, uma intensa pesquisa dos materiais e elementos que utilizaríamos para a concepção da capa. Na minha opinião, essa é a etapa mais importante de todo o processo criativo. Normalmente a criação de uma capa passa por pesquisa em bancos de imagens, mas para esse projeto decidi criar tudo do zero. Dessa maneira, poderíamos ter algo inédito e úni-

co – assim como a história que o livro nos apresenta. Dessa forma, organizei o meu próprio banco de imagens para a criação das peças que iriam compor o grafismo da obra. segundo passo, e não menos imporO tante, foi a criação do pano de fundo sobre o qual toda a construção gráfica iria ganhar forma. Para isso, pensei numa combinação de imagens que poderiam funcionar como a estrutura do dirigível. Utilizei chapas metálicas e ripas de madeira para dar um ar bem ao estilo steampunk (figura 1). Saturando as cores, ajustando o brilho e fazendo um jogo

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de filtros com amarelos e vermelhos, finalizando depois com azuis, tentei criar uma impressão de material envelhecido ou reciclado, pois o fundo iria fazer com que os outros objetos ganhassem mais destaque, já que apresentam cores bem saturadas, texturas metálicas com uma grande intensidade de luz, detalhes de sombras, etc. em perder de vista que estávamos S criando uma capa e que o grafismo teria que ter o mesmo impacto estando o livro aberto ou fechado, resolvi acrescentar umas ligas metálicas em volta, presas com parafusos – que foram utilizados para prender toda a base de chapa e madeira. Também foi importante a utilização de dobradiças e umas ligas metálicas menores para ajudar a separar as quatro partes que compõem uma capa e, ao mesmo tem2 po, dar a ilusão de que a qualquer momento poderíamos abrir uma porta (figura 2).

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sencial: a noção visual de profundidade (figura 4). Outro detalhe que cria bastante efeito é a umidade e os filtros de vidro que compõem o grafismo das escotilhas, o item de maior impacto visual na capa. Reparamos também que as escotilhas poderiam enriquecer ainda mais a originalidade do grafismo, usando-as na foto do autor e na capitular de abertura do texto de capa. seguir, elaboramos e escolhemos a fonte da letra, em permanente contato com A o editor para a sua aprovação. Essa escolha foi de extrema importância, já que ela representa visualmente a ligação entre o design de capa e o título. Sabíamos queela tinha que transmitir o gênero da história com um forte componente gráfico que sobressaísse entre todos os elementos que complementassem a capa, adicionando uma espécie de logotipo que iria acompanhar toda a série de steampunk do autor (figura 5). Penso que o resultado foi bastante positivo.

m seguida, debrucei-me sobre os esse ponto, o design da capa já estava praticamente fechado, mas, depois de E elementos que poderiam enriqueN uma troca de ideias com o editor, surgiu um último e não menos importante cer e completar o fundo já idealizado. detalhe: marcar a diferença no mercado trazendo ainda mais originalidade à capa, Para que o leitor conseguisse visualizar e ter a percepção de que todas as construções foram pensadas do zero e em seguida manipuladas, incluímos, por exemplo, o cilindro de pressão, composto e manipulado a partir dos mais variados elementos resultantes da pesquisa prévia (figura 3). O processo criativo para os outros objetos foi muito semelhante ao da construção do cilindro – tubos, escotilhas, medidores de pressão, fios de ligação, etc. A essa altura já tínhamos notado que o jogo de luz e as diversas intensidades de brilho entre os elementos trariam uma gama de contrastes à capa, de modo a conferir-lhe também algo es-

como é a marca registrada da SDE. Chegamos à conclusão de que poderíamos criar um grande impacto visual com um corte na escotilha da frente para que, ao olhar a capa, o leitor experimentasse a sensação única de estar sobrevoando uma Londres vitoriana, o reino de Chacália com toda a sua ação e sua magia. Assim, a capa precisaria ser impressa a quatro cores em seu interior também. O que antes era uma imagem composta no todo, passaria a ser o grafismo da parte da frente e de trás da capa (figura 6). A imagem do reino de Chacália entraria numa das orelhas, que seriam formadas pelos elementos já utilizados anteriormente, dando espaço

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odíamos ter ficado por aqui, mas por que não P ir além? Esta foi uma questão pensada junto com o editor, pois uma boa capa pode atrair mais

5 para alguns frases de imprensa referentes ao autor e ao livro. Apenas a cidade seria manipulada e construída do zero.

leitores ao criar uma experiência mais “visual” da história. Assim, concluímos que se utilizássemos uma película transparente imitando vidro e aplicássemos um verniz por cima (figura 7), dando a sensação de umidade, poderíamos proporcionar ao leitor uma perspectiva única: o realismo de uma imagem desfocada quando se olha através de uma escotilha de vidro.

ara construí-la, pensei numa combinação de várias imaP gens e edifícios com baixa saturação de cores, em que o brilho do céu e as diferentes profundidades de sombreado iriam fazer um contraste interessante com os dirigíveis e o restante do grafismo da capa quando fechada. Dessa forma, não perderíamos um dos componentes mais simbólicos do gênero: a magia. O dirigível principal foi trabalhado com vários elementos metálicos e uma textura de tecido com placas de metal. Já que seria o elemento principal na frente da capa, teria que contar com um visual bastante atraente e marcante.

Caro leitor, esse foi o processo de construção gráfica da capa de A Corte do Ar. Espero que tenham gostado da grande aventura de Stephen Hunt. Foi um prazer viajar por esse incrível mundo, e espero que vocês também tenham aproveitado a viagem.

Luís Morcela nasceu em Setúbal, Portugal, em abril de 1981. É designer gráfico na editora Saída de Emergência. Desde 2007 integra também o grupo de ilustradores da Moytoy Gallery Character Design.

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A

armadura pesa. O sol se despede no horizonte, mas o calor continua presente, fazendo o tecido embaixo da minha cota de malha ficar ensopado. O suor escorre pela minha testa e sinto meus olhos arderem. Embora o calor nunca tenha realmente me incomodado, a ansiedade que acompanha a tarefa que tenho que cumprir me faz transpirar. Minha boca está seca e a sede me faz passar a língua entre os lábios, mas imediatamente me arrependo. Preciso de água. A armadura pesa. O entorno de nossa pequena porém bem organizada companhia está silencioso, apenas o barulho da natureza é ouvido: pássaros ao longe, um tímido riacho corre próximo, mas nada de vento. Meus passos são pesados até a água, o metal que me cobre reclama, range, me corta, mas não ouso

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pensar em me separar de suas placas protetoras. Sempre achei que o ferro fizesse parte de mim, que eu tivesse chegado a esse mundo já envolto em ferro. Para o bem de minha mãe, fico feliz de saber que é apenas uma sensação e não uma realidade. Felizmente, ao lado do riacho há uma rocha baixa o suficiente para me permitir o mínimo de conforto. Sento-me e bebo água. O líquido desce gelado, me fazendo sentir vivo novamente. Fecho os olhos brevemente e escuto de longe o som de ordens sendo dadas. – Não vai demorar agora. – Escuto minha voz rouca dizer as palavras que não pensara evocar em voz alta. Para meu próprio espanto, continuo a falar, baixo e para ninguém em especial. Mentira. Sei para quem falo. Sempre soube. – Falta pouco. Me perdoe – sussurro novamente, e vejo seu reflexo na água ao meu lado. Ainda tímida, a lua cheia já aparece no céu e, mesmo estando quase transparente, con-


sigo avistar uma sombra em sua superfície. Vejo-a como se estivesse na minha frente, e a sensação faz a armadura ficar mais leve, a sede passar, o calor sumir. Tenho a certeza de que mesmo em noites sem lua poderia ver aquela sombra, pois ela me atormenta e me acalenta ao mesmo tempo. Antes de falar novamente com a lua, escuto ordens urgentes sendo gritadas por cavaleiros de escalão mais alto do que o meu. Rapidamente, como se o metal de nossas pesadas armaduras fosse na verdade finas cascas de árvore, nos armamos e subimos em nossos cavalos. Espadas e lanças estão em punho, os visores, fechados, e os pássaros se calam. O riacho parece parar de correr. E a temperatura aumenta como se o Diabo tivesse aberto as portas do Inferno bem à nossa frente. – ELE ESTÁ AQUI! – grita um dos cavaleiros, e sentimos calor emanar de dentro da caverna. Sinto o dragão antes de ouvi-lo. Espero que um dia fique mais fácil libertar essas criaturas de seus destinos. Mas hoje não é um desses dias. Levanto a espada, tomo a dianteira e entro na caverna gritando. – POR BRANCA! SALVE JORGE! – E a companhia segue. A armadura não pesa mais. A alma, sim. Fui abençoado ao nascer. Cresci em uma vila pequena, boa, de gente simples e honrada. O pão sempre foi dividido por todos e nem os senhores de mais condição, em seu castelo próximo, desdenhavam do povoado. Vivíamos em paz, em harmonia e sem medo. A vida era boa e ficou melhor em um vislumbre de branco, em um dia de primavera. Ela chegou ao castelo, trazida de longe, e era a donzela mais bela que eu já vira. Sua pele era alva como leite, o céu mais azul era encontrado em seus olhos e os raios dourados de sol foram capturados pelos fios de seu cabelo. Seu nome era Clarissa, mas, para mim, ela era a luz, a pureza... Para mim, ela era a prova de que Deus existe. Ela era Branca. Eu trabalhava na ferraria com meu pai. Aprendi como mexer com metais desde cedo e o calor da forja nunca foi estranho para mim. O desconforto que vinha com a proximidade do fogo me mantinha alerta, não deixava que eu esquecesse meu limite, me lembrava de eu que precisava respeitar o fogo e não temê-lo. Sempre tínhamos muito trabalho, o que garantia o sustento de nossa família e ajuda para nossos vizinhos, pois sempre dividíamos o que ganhávamos com eles. Minha mãe se opunha à fartura e sempre me dizia: “Jorge, meu filho, tens que ter apenas o necessário. O restante o tornará ganancioso e esse é o caminho da perdição. Divide o que tens e serás um rei.” Minha mãe era sábia. Fazer espadas e outras armas não era difícil para nós, mas também não era tão simples. As armas usadas pelos guardas do castelo haviam sido forjadas por nossas mãos e meu pai era muito bom com espadas. Nas poucas vezes em que haviam sido usadas, nunca decepcionaram seus donos. Mas meu forte eram escudos. Não adianta apenas atacar se não for possível se defender, e meus escudos eram fortes, porém leves, características que os faziam serem muito elogiados. Em todos os meus 20 anos de vida e pouco menos de experiência, eu havia feito apenas uma lança, que nunca havia usado nem vendido. Não lembro ao certo quando decidi forjá-la. Fui separando pedaços de metal e trabalhei nela aos poucos até que, um dia, ela estava pronta. Acho que a forjei apenas para entender como funcionava, seu peso, sua necessidade. Até pouco tempo, ela ficava pendurada sobre a porta da ferraria, sempre morna, à espera de ser colocada em uso. Só a usei uma vez. Ela – assim como as espadas e os escudos que //// 61 BBANG! BA NG! // NG


fiz – não me decepcionou. Pensando bem, acho que sei a razão de tê-la forjado. Acho que sempre soube. Mas isso não importa agora, não importa mais. No final de cada semana, toda a vila se apinhava na igreja, onde o cheiro do incenso era forte, porém acolhedor. Meus pais se colocavam na fileira da frente, como se ficar mais próximos do altar os colocasse mais próximos de Deus. Meus irmãos e minha irmã, todos mais novos do que eu, se empoleiravam ao lado deles, não ousando emitir uma palavra durante toda a missa com medo de serem repreendidos por meus pais. Eu sempre fiquei próximo à porta, usando a desculpa de ceder meu lugar para outras pessoas. Mas a verdade é que sempre tive a sensação de proteção, de ser uma espécie de guardião do vilarejo. Da porta, podia ver todos que estavam na igreja e, ao mesmo tempo, manter a atenção voltada para a estrada principal que ligava o vilarejo ao castelo. Foi quando vi meu amigo Theodoro vir correndo pela rua. Ao ver o sorriso em seu rosto, minha postura automaticamente relaxou e eu soube que não queria falar de perigo algum, mas de alguma novidade que eu tinha certeza de que não me interessaria. Eu estava errado.

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o final da missa, Theodoro me arrastou para a mesa mais reservada (se é possível dizer isso) da taberna local. Ana, a filha do dono da taberna, nos trouxe as bebidas e sorriu para Theodoro. Ele, mais preocupado em contar-me o que ouvira, não prestou atenção, e ela se voltou para atender outras mesas, com um sorriso mais apagado. Meu amigo era comerciante e sua profissão tem um problema sério: a curiosidade. Geralmente, quando ele me arrasta para beber e falar, o assunto gira em torno de alguma novidade incrível para ele, mas nada de muito importante para o resto de nós. Essa não era uma dessas vezes. – O castelo vai receber visitantes que, pelo jeito, vão ficar por muito tempo. E eles estão acompanhados de muitos soldados fortemente armados. Isso não pode ser bom. Abaixei a caneca de vinho que estava aos meus lábios ao ouvir essa informação. Nosso vilarejo é pacífico e hospitaleiro, e convive bem com o pessoal do castelo. Receber visitantes tão armados assim pode não ser uma boa notícia. Perguntei ao Theodoro o que mais ele sabia, mas tudo que ele conseguiu descobrir foi que parentes do Duque haviam chegado de longe e precisavam de segurança. – Dizem que a família fugiu de seu próprio castelo, pois uma fera muito terrível atacou o vilarejo. Esse monstro devorou donzelas e, para proteger a sobrinha do Duque, eles vieram para cá – Theodoro explicou. Lembro-me de ter ficado paralisado. Não acreditava em monstros, mas algo me dizia que a história trazida por Theodoro era verdadeira e que o perigo relamente estava ameaçando a família. Não me lembro de como soube disso, mas não esqueço a primeira imagem que me veio à cabeça quando Theodoro parou de falar: a lança sobre a minha porta. Após pagarmos e deixarmos a taberna, seguimos para casa e eu falei ao meu pai a respeito do que Theodoro me contara. Como geralmente fazia, ele julgou a história de meu amigo como mais um conto de comerciantes, sem dar muita importância. Minha mãe, que ouvira atenta ao lado de meu pai, fez o mesmo. Mas foi nos olhos cinzentos de minha irmã, muito parecidos com os meus, que vi o impacto da notícia que trouxera: medo. Seus cabelos negros como asas de graúna pendiam de seus ombros, e os pesados cílios, tão negros quanto seus cabelos, não se mexiam. Catarina, minha irmã gêmea, estava paralisada. Aproximei-me dela cautelosamente, e seus olhos não se desviavam dos meus. – Irmã, é apenas...

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– É verdade – ela disse quase que em um sussurro. – É verdade, Jorge. Eu sonhei com isso. Rapidamente, levei meu dedo indicador aos lábios dela para silenciá-la, peguei seu braço e a levei para o quarto. Às vezes, Catarina tinha sonhos que se tornavam realidade. Eram como visões desconexas, sensações e até cheiros. Começou quando ela tinha apenas 8 anos e eram tão esporádicos que não a preocupavam mais. Nossos pais não sabiam e eu disse a ela para não contar a ninguém. Não queria ver minha irmã, a pessoa que eu mais amava no mundo, queimar na fogueira. – Jorge, eu vi fogo, muito fogo, olhos como os de uma serpente e... e.... ah, Jorge, muita, muita tristeza – ela sussurrou, enterrou seu rosto nas mãos e chorou. Passei o braço pelos ombros de minha irmã e a confortei. Ela enlaçou seus braços em meu pescoço e falou ao meu ouvido. – Não quero perdê-lo, Jorge. – Ah, querida irmã. Mesmo casando, você sabe que estarei sempre aqui. Não vai me perder – eu disse, me sentindo mais aliviado. Como faltava pouco tempo até o casamento de Catarina, pensei que ela estava tendo aqueles medos normais de donzelas, mas ela sacudiu a cabeça com convicção. – Não, irmão. Esse monstro busca você.

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assei a noite em claro. Lembro-me de chegar até a janela e olhar para a lua, quase cheia, no céu. Brilhante, me deixei hipnotizar por ela e um calafrio correu meu corpo. Podia ser apenas uma visão de minha irmã, algo que ela não tinha sabido interpretar. Afinal, como monstros podem ser reais? E se tinha tanta certeza de que não eram, por que sentia medo? Quando saí de casa, o céu ainda estava escuro. Só ouvia o som de meus passos no chão úmido enquanto andava rapidamente em direção ao castelo. Guilherme, meu melhor amigo, era a minha chance de entender o que realmente estaria acontecendo. Avistei-o de longe: ele era o homem mais alto e forte de nosso vilarejo, mas nunca usara isso contra os mais fracos. Calmo e sensato, meu amigo era o equilíbrio perfeito entre força e razão, qualidades que faziam dele a pessoa ideal para ser o capitão da guarda e o noivo de minha irmã. De longe, pude avistar que algo estava errado. Guilherme estava inquieto. Ao me avistar, seus olhos verdes se apaziguaram um pouco. Embora eu estivesse contente em levar um pouco de calma para meu amigo, sabia que algo ruim estava por vir. – O que você ouviu? – Guilherme me perguntou quando me aproximei, mas tão baixo que tive que piscar algumas vezes para ter certeza de que ele estava esperando uma resposta e que eu não ouvira apenas o vento. – Uma família perseguida por um monstro. É verdade? – perguntei sem hesitar, sem medir palavras, sem achar que seria caçoado por acreditar em monstros. – Escute bem o que eu vou lhe dizer, Jorge. – Guilherme segurou meu braço. – Aconteça o que acontecer, proteja Catarina. Tranque-a em casa se

necessário. Se alguma coisa acontecer com ela, vou culpar você. – Ouvir essas palavras me fez sentir algo como gelo puro correndo em minhas veias. – Por Deus, Guilherme, é verdade? Uma fera que se alimenta de donzelas? Como é possível? – Deus, meu amigo, não tem nada a ver com isso. É uma criatura infernal que está à solta e temo que possa vir para cá. – Por quê? – Dizem que a fera não sossegará até devorar a sobrinha do Duque. Com medo, ele a trouxe para cá, tentando fugir desse mal, mas creio que é impossível escapar do Demônio. – Alguém já viu esse monstro? – perguntei. – Sim, mas ninguém sobreviveu para contar a história. Guilherme sabe que eu faria todo o possível para manter o vilarejo a salvo, mesmo não sendo a favor de guerras. Proteção, sim. Batalhas sem razão, nunca. Despedi-me de meu amigo e fui em direção à minha casa, mais atormentado do que antes. Mas o chamado de Guilherme me fez voltar. – Por que você não sugeriu entregar a sobrinha do Duque à fera e colocar um fim a esse tormento? – o chefe da guarda me perguntou. – Porque não acredito em alimentar o mal para colocar um fim nele.

Guilherme sorriu mais uma vez e seguiu seu caminho para dentro do castelo enquanto me dirigi de volta ao vilarejo, que estava acordando.

A

lguns dias passaram e a vida seguiu normalmente. Catarina voltou a sorrir e a dormir melhor, e nada de visões; eu e Theodoro – foi difícil convencê-lo – conseguimos dispersar os rumores que ameaçaram surgir; mas os pedidos de espadas, escudos e outras armas aumentaram. Durante meus dias de trabalho na forja, meus olhos sempre eram guiados para a lança, pendurada na porta. Foi em um desses olhares que a vi pela primeira vez. A sobrinha do Duque estava passando pelo vilarejo com suas damas de companhia. Eu nunca havia visto algo tão belo. Ela estava parada na barraca que vendia flores, bem à frente da ferraria. Emoldurada pela porta do meu estabelecimento, a sobrinha do Duque era a encarnação de tudo que era bom, puro e belo... e triste. Embora tivesse puro ouro como fios de cabelo, seu semblante estava melancólico, atormentado. Sua figura esbelta, toda vestida em branco, a fazia aparentar uma noiva triste, quase de luto. O contraste era tremendo, e me fez parar de trabalhar, de respirar. Apenas fiquei olhando para ela de dentro da ferraria. Meu coração batia tão forte no peito que eu tinha medo de que ela o pudesse ouvir, mesmo de longe, mesmo estando no mesmo ritmo das batidas do martelo de ferro ao encontrar a lâmina da espada que meu pai moldava. Não sei se ela realmente ouviu meu coração, mas virou BANG! /// 63


seus olhos azuis, muito, muito azuis, para mim e, vagarosamente, abriu um sorriso deslumbrante. Não sei o que fiz para merecer tamanha bênção. Em apenas um gesto, a sobrinha do Duque iluminou todo o vilarejo, e senti o medo me deixar. Eu soube naquele momento que daria a vida para protegê-la, sem questionar a existência de monstros. O que ela me pedisse seria dela. Não sei se retribuí seu sorriso, mas, quando seus olhos deixaram os meus, ela foi rapidamente guiada por suas damas de companhia. Em um vislumbre de branco, ela se foi, a salvo atrás das paredes do castelo, e eu suspirei aliviado sem saber que, em casa, minha irmã chorava.

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noite seguinte de lua cheia foi a primeira em que ouvi o monstro. Eu estava dormindo e não lembro ao certo o que aconteceu primeiro: o calor ou o barulho. Sonhava que trabalhava na forja e estava muito, muito quente. Do lado de fora, uma tempestade atacava a vila ferozmente e trovões rugiam. Fui acordado com as mãos de meu pai me sacudindo violentamente. – Acorde, Jorge! Estamos sendo atacados! – meu pai gritou. Em poucos segundos, eu estava vestido e com uma espada na mão. Minha mãe se trancou em casa com meus irmãos, mas Catarina queria vir comigo. Suas lágrimas caíam livremente e ela se agarrava a mim como se sua vida dependesse disso. Gritei com ela, mandei que voltasse, mas nem mesmo os braços da minha mãe conseguiram segurá-la. – Não, Jorge! Ele quer você! Não vá! – ela implorava. Dei meia-volta e a abracei. – Vou ficar bem – falei próximo a seu ouvido e a deixei sob os cuidados de minha mãe, que a abraçava e arrastava de volta para dentro de casa. Só comecei a andar depois que ouvi o trinco da porta ser virado. Mulheres arrastavam as crianças para dentro de casa e os homens corriam para proteger suas famílias. Alguns nos acompanharam para a ferraria. Espadas, facas, tochas e tudo que era pos-

sível encontrar foi usado pelos homens, que voltaram para casa e montaram guarda, com olhos virados para o céu procurando o monstro, ajuda divina ou ambos. Depois de todos armados, convenci meu pai a voltar para casa a fim de proteger nossa família, peguei minha espada e fui atrás de Guilherme. Os portões do castelo estavam fechados, com guardas em todas as posições. Quando ia chamar por Guilherme, um barulho ensurdecedor fez todos rezarem por suas almas. Senti o chão tremer, a temperatura aumentar e ouvi um bater de asas forte, como se o próprio Demônio tivesse escapado das profundezas do inferno e estivesse voando sobre nós. Instintivamente, me abaixei e olhei para o céu, e foi quando o vi. Ele voava alto e parecia ser feito da própria noite. Só pude ver o que realmente era quando, em um voo rasante, ele cuspiu fogo nos telhados de várias casas do vilarejo. – UM DRAGÃO! FUJAM! – alguém gritou, e as famílias das casas afetadas pelas chamas tomaram a rua, correndo. Perdi a fera de vista, mas, no fundo, sabia aonde ela estava indo. Rezei para minha irmã estar a salvo. Por favor, São Miguel Arcanjo, proteja Catarina. Mais um rugido soou e ele passou por mim novamente. O dragão chegou tão perto do chão que pensei que ele derrubaria as casas, mas não. Ele fez algo muito mais terrível. Com suas grandes patas, conseguiu pegar alguém e voou para longe, deixando chamas, tristeza e dor para trás. Corri de volta ao vilarejo, gritando por minha irmã. Ao me ouvir, ela saiu correndo de casa e a abracei forte, agradecendo a São Miguel. Mal notamos o dia amanhecer, pois tudo era fumaça e cinzas. Atordoados, todos buscaram o lugar onde julgaram estar a salvo: a igreja. Desta vez, não fiquei na porta, mas me sentei ao lado de minha irmã, que chorava baixinho. Eu disse que Guilherme estava bem, o que arrancou um sorriso dela, mas ainda não a consolou por completo. Não demorou muito para o padre subir ao altar, e a igreja ficou silen-

A noite seguinte de lua cheia foi a primeira em que ouvi o monstro.

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ciosa. Palavras de consolo, de que Deus tem um plano maior para todos e que essa fera veio para o vilarejo a dim de testar nossa fé, foram ditas. Mas eu sabia a razão de ela estar ali. Se todos soubessem que era a sobrinha do Duque, iam querer sacrificá-la para o dragão, e eu não poderia deixar isso acontecer. Do lado de fora, um grito. Deixei Catarina com meu pai e corri para ver o que era. – ANA! MINHA ANA FOI LEVADA! – o dono da taberna gritava no meio da rua, com olhos molhados de tanto chorar, vidrados no caminho de cinzas deixado pelo dragão. Sua esposa caiu de joelhos na frente dele e o abraçou forte, ambos chorando muito e pedindo ajuda. Olhei para as pessoas que deixavam a igreja: ninguém havia morrido, ninguém estava perdido. Apenas Ana. O dragão viera atrás de apenas uma donzela, conforme Guilherme havia dito. – Temos que fazer alguma coisa – ouvi Theodoro falar ao meu lado. Eu nem havia notado que ele estava ali. – Nós vamos pegá-la de volta, meu amigo – eu disse, sem saber que, naquele momento, Ana já não estava mais conosco, que seu sangue já estava frio, que seu corpo já não tinha mais vida. Corri até Guilherme, que estava deixando o castelo. Antes de alcançá-lo, vi o nome de minha irmã ser formado em seus lábios. – Catarina está bem, Guilherme.

Ana foi levada. O que sabe sobre o dragão? – Jorge, não seja tolo de achar que pode matar essa fera – Guilherme falou em tom de aviso. – Já vi muitos morrerem tentando e não vou deixar que siga esse caminho sem volta! – Ele poderia ter levado Catarina, Guilherme! Ele poderia ter levado a sobrinha do Duque, mas levou Ana, a doce Ana. Não podemos deixá-la perecer nas garras desse monstro! E vi meus piores medos serem refletidos nos olhos do meu melhor amigo. – Ana sabe que você a salvaria, assim como todos os moradores desse vilarejo que conhecem sua coragem. Mas isso, infelizmente, não muda o fato de que ela não vai voltar mais. Nunca mais.

– Não, eu não posso acreditar que Deus permita que algo tão maligno exista! – E quem disse que Deus tem algo a dizer sobre isso? – gritou Guilherme de volta. – Rezar não adianta, acredite! Já tentaram! Soldados foram atrás desse dragão e nenhum retornou! Espadas não penetram seu corpo e o fogo os mata antes que possam tentar novamente. Jorge! – E, depois de gritar meu nome, ele chegou mais perto e sussurrou: – Só existe uma maneira... – Não! – gritei de volta. – Não vou deixar que toquem em um fio de cabelo dela! Quando vi, os guardas estavam apontando arcos e flechas para mim, assim como espadas. Se não fosse pela presença de espírito de Guilherme, eu estaria morto. Ele deu a ordem para não atirarem, pois eu estava em posição de ataque, com espada em punho e pronto para enterrá-la no peito do meu melhor amigo se ele falasse mais uma palavra contra a sobrinha do Duque. A sobrinha do Duque! Como posso estar preparado para matar meu melhor amigo para proteger uma donzela cujo nome eu nem sequer sabia?

Deixei a espada cair no chão e pedi desculpas para Guilherme. Mais uma ordem e os guardas voltaram para seus postos. A chuva começou a cair forte, como uma dádiva divina para ajudar a apagar os incêndios que ainda queimavam longe e a lavar as lágrimas da família de Ana. – Ela chora, Jorge. – Guilherme falou baixo. – Toda vez que uma donzela é levada pelo dragão, no dia seguinte, Clarissa chora. Clarissa. Esse era seu nome. Clara, que quer dizer branco. Para mim, Clarissa era Branca. Ainda é. //// 65 BANG! BANG BA N ! // NG


– Como pode algo tão puro ser a razão de tanta desgraça? – perguntei.

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ias e noites se passaram e o medo se instalou no vilarejo. O dragão não voltou, mas todas as noites – com ou sem lua – as portas eram trancadas e as moças eram vigiadas. Durante o dia, a igreja ficava lotada. Nenhuma notícia veio de Guilherme e ninguém encontrou Ana, nem mesmo algum resto para que sua família pudesse enterrá-lo e tentar seguir em frente. No meio de tanta tristeza, uma ilha de felicidade: minha irmã se casou. A cerimônia foi simples e até mesmo alguns moradores do castelo participaram. Guilherme era muito querido por todos, assim como Catarina, e o casamento foi como ar puro no meio de tantas cinzas. Desta vez, novamente não pude ficar no fundo da igreja. Como irmão da noiva, fui colocado nas primeiras fileiras, e foi quando a vi pela segunda vez. Clarissa – Branca – estava na porta da igreja. Usava um vestido azul muito claro e, ao se posicionar contra a luz, tive a impressão de ver uma santa. Os olhos de todos os presentes estavam em Catarina, mas os meus não deixavam os de Branca, que sorria para mim novamente. Temia estar ficando louco! Será que somente eu a estava vendo? Mas, ao pensar isso, o Duque, que estava ao lado do padre, abençoando a união de minha irmã com o chefe de sua guarda, olhou para Branca e, rapidamente, para mim: minha única indicação de que não era uma visão. Quando olhei para a porta novamente, a donzela havia deixado a igreja e meu impulso foi ir atrás dela, mas não poderia fazer isso naquele momento, pois todos iriam ver e ela era uma nobre. Como poderia explicar eu, um simples filho de ferreiro, tentar dirigir a palavra a ela?

A festa durou o dia todo, e à noite, a primeira de lua cheia do mês, quando todos estavam prontos para ir para casa e minha família um pouco triste em saber que Catarina estaria em outra casa que não a nossa, o dragão voltou. Em um voo até gracioso, o monstro pousou no topo da igreja, destruindo parte das telhas e fazendo os sinos tocarem. Foi o momento em que pude ver a fera mais claramente: corpulenta, mas elegante, ela era gigantesca! Quatro grandes patas mostravam a força da criatura, que parecia escolher sua próxima vítima. Tinha olhos amarelos de serpente e dentes do tamanho de colunas inteiras! Um par de asas negras como a noite, como o meu cabelo, como o cabelo de... CATARINA! No meio do pânico, vi os olhos da criatura acharem a minha irmã. Corri ao seu encontro, mas era impossível competir com 66 /// BANG!

o dragão que, em um bater de asas, mergulhou no meio do povo e agarrou minha irmã com uma pata. Meu pai gritou, minha mãe desmaiou e eu olhei para Guilherme, que empunhava uma espada. – ATACAR! – ele gritou e todos os guardas que estavam na festa se lançaram no encalço do dragão. Mas a fera era esperta e cuspiu fogo assim que deixou o vilarejo, nos deixando sem opções se não parar ou morrer queimados. Guilherme quase escolheu a segunda opção, pois seu desespero o impediu de ver onde haveria razão. O dragão havia cortado nossa única rota para segui-lo e, a cada segundo, minha irmã caminhava para os braços da Morte. – Meu Deus, não – ouvi o Duque dizer ao meu lado. Sua face mostrava o mais puro desespero. – Não consigo encontrar Clarissa. Ela não voltou para o castelo e não está aqui – ele falou meio para o vento e meio para mim. Meu coração se despedaçou. Não! Não minha irmã e Branca também! – Vou salvá-las, mesmo que tenha que dar ao dragão minha própria vida! – jurei ao Duque, e saí a caminho da ferraria. Não lembro ao certo como consegui despistar Guilherme, passar pelo fogo e encontrar e seguir o rastro do dragão, mas encontrei-me no meio da floresta, de frente para uma caverna, com a minha lança na mão. Ouvi a respiração do dragão – quase um convite – vindo de dentro da caverna. Entrei cautelosamente, esperando o fogo, mas ele não veio. O calor era grande, mas as forjas me acostumaram bem. Tinha que salvar Catarina e Branca, e nada me impediria de realizar essa tarefa. No fundo da caverna havia uma luz tremulante e eu sabia que era ele, me esperando. Continuei a entrar, rezando novamente para São Miguel proteger as duas. Ao chegar ao fundo da caverna, acreditei que o santo tivesse ouvido minhas preces. Catarina estava deitada perto de uma fogueira, seu vestido de noiva estava rasgado e tinha marcas de sangue onde o dragão a tinha segurado. Seus olhos estavam fechados, mas pude notar que ela ainda respirava. Graças a Deus! Mas não via Branca em lugar algum. Antes de começar a procurá-la, olhei além da fogueira e encontrei duas órbitas amarelas fixas em mim. Ele estava me olhando, me espreitando e, de alguma forma, não senti medo. Sabia que tinha que matá-lo para salvá-las, e, quando eu estava me perguntando como fazer isso, ele se ergueu nas patas traseiras e rugiu com tanta força que pensei que eu fosse morrer. Por instinto ou inspiração divina, ergui a lança, gritei e enterrei-a em um golpe certeiro no peito do dragão, que caiu sobre ela e me ajudou a levá-lo de volta às profundezas do Inferno. Ele rugiu novamente e depois ficou quieto, com olhos ainda abertos, na minha direção.


Puxei a lança. O dragão piscou e voltou a me fitar. Seus grandes olhos me acompanharam enquanto eu procurava Branca por todos os lados. Nenhum sinal dela. Peguei Catarina, ainda desacordada, no colo e a levei para a entrada da caverna, para longe do animal. Quando retornei, vi que o dragão parecia ter diminuído. Será que eu estava ficando acostumado à besta a ponto de ela não me parecer mais tão grande? Não, algo estava errado, pois sua cor parecia mais clara também e seus olhos... Meu Deus, seus olhos tinham nuances de azul! Comecei a caminhar para perto dele sem sentir as lágrimas que já caíam pelo meu rosto: em poucos segundos, eu estava de joelhos no chão com Branca em meus braços, o coração dela sangrando e seus lindos olhos azuis ainda perdidos nos meus. – Não, não, não... – eu repetia baixinho enquanto a abraçava. Ela, parecendo infinitamente mais sábia do que eu, levantou sua pálida mão e tocou meu peito, e meu coração, ainda que despedaçado, batia forte embaixo de sua delicada palma. Ela tocou meu coração e sorriu, com lágrimas caindo pelos cantos de seus lindos olhos,

Puxei a lança. O dragão piscou e voltou a me fitar. como se eu realmente a tivesse salvado. Segurei sua mão na minha até sentir sua alma deixar seu corpo e chorei, chorei até sentir a mão de minha irmã no meu ombro. Ela me abraçou, apoiada em minhas costas, e chorou comigo. – Ela veio por você Jorge, ela veio por você – sussurrou minha irmã.

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ão podia deixar que a memória de Branca fosse manchada por sua maldição, então eu e Catarina enterramos seu corpo próximo à caverna e depois convencemos o padre a abençoar o lugar com a desculpa de que fora onde eu matara o dragão e este derretera, voltando para o Inferno pelas fendas da caverna. Para todos, a fera havia devorado Branca antes da minha chegada. Catarina jurou que não contaria nada a ninguém, o que cumpriu. Deu o nome de sua primeira filha de Branca e, até hoje, quando grito antes de libertar um dragão de sua maldição, todos acham que é por minha sobrinha. Todos estão enganados. Não demorou muito para que a notícia de meu feito heroico corresse as cidades próximas e até além. Fui nomeado Cavaleiro e deixei meu vilarejo para salvar mais donzelas, garantir a segurança de outros vilarejos. Guilherme e meus pais estavam orgulhosos, mas eu me sentia indo para a Morte. Para mim,

cada dragão era Branca. Meu coração havia morrido com ela. Após a morte de Branca, notei uma sombra na lua cheia. Não prestei muita atenção até anos depois, quando a lenda de São Jorge nasceu. Conversando com um padre de uma cidade atormentada por um dragão, ele me contou que a tal sombra na lua era São Jorge em seu cavalo, matando o dragão. Sei que a lenda surgiu depois do que fiz – digo ser coincidência quando acham que sou o tal santo –, mas, ao ouvir essa história, foi a primeira vez que senti paz. Branca, de alguma forma, ainda estava comigo, olhando por mim. Catarina diz que ela me escolheu por eu ser digno de salvá-la. Sei que ela pode ter razão, mas não sei se queria essa responsabilidade. Minha Branca se foi nos meus braços, eu a libertei, mas quem me libertará?

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aio de mais uma caverna com sangue nas mãos. Mais uma maldição quebrada, mais uma vida liberta e sem perder nenhuma vida desta vez, graças a Deus. – Salve Jorge! – um dos Cavaleiros brada ao meu lado. A saudação virou grito de guerra para a nossa Ordem. – Salve Jorge! – todos respondem, menos eu. Olho para a lua cheia e penso nela, na minha Branca. Salve o Jorge, Branca. Salve o Jorge. A armadura volta a pesar.

Frini Georgakopoulos é jornalista e vive no Rio de Janeiro. Além de trabalhar com comunicação empresarial, apresenta eventos literários – entre eles o Clube do Livro Saraiva – , escreve para o blog www.cheirodelivro.com e está na Rádio Roquette Pinto toda quarta-feira de manhã no quadro Entre Linhas do Painel da Manhã, falando sobre literatura. Apaixonada por livros, Um Nobre Coração é seu segundo conto, mas o primeiro publicado. Fale com a autora: fgeorga@hotmail.com //// 677 BANG! BANG BA NG!! // NG


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OS MUITOS GÊNEROS DE OUTL AN DER um mundo de edição literária cada vez mais dependente de categorias e subcategorias – Young Adult, romance, erótico, fantasia, etc – um livro como Outlander, a Viajante do Tempo torna-se especialmente difícil de rotular. Será literatura romântica? Afinal a história centra-se no relacionamento da dupla de protagonistas. Será ficção científica? A protagonista viaja no tempo desde 1945 até 1743. Será romance histórico? As descrições detalhadas da Escócia do século XVIII e das lutas entre clãs escoceses e os britânicos poderiam sugerir isso. Será simplesmente um livro de mistério e aventura? Pois mistério e aventura não faltam nas 800 páginas de uma leitura absolutamente viciante. Publicado em 1991, Outlander foi o romance de estreia de Diana Gabaldon, uma professora universitária com formação em Biologia Marinha e Ecologia. Escrito como mero passatempo e sem a intenção de ser mostrado para editores ou leitores, Gabaldon deu asas à imaginação e fundiu vários elementos de uma forma que hoje se consideraria inexperiente e ingênua, mas que acabou por originar uma receita de sucesso. A sua paixão e talento claramente saltavam das páginas do livro e pouco tempo depois um agente literário se interessou pelo manuscrito, abrindo portas para um contrato com uma editora. Depois de terminado o segundo volume da série, dedicou-se integralmente a sua carreira na escrita.

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ento Lançam em agosto Obra: Outlander, a Viajante do tempo Saga: Outlander Autor: Diana Gabaldon Gênero: Lit. romântica / romance histórico Editora: Saída de Emergência Tradução: Geni Hirata Páginas: 800 ISBN: 978-85-67296-22-7

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“O livro é um delicioso banquete para leitores que gostam da história da Escócia do séc. XVIII, de heroísmo e romance”. Kirkus Reviews CONTEXTO HISTÓRICO

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primeiro capítulo do livro se passa em 1945 e é narrado na primeira pessoa por Claire Randall, que fora enfermeira durante a II Guerra Mundial, e que se junta ao seu marido, Frank Randall, para uma segunda lua-de-mel em Inverness, na Escócia, já depois do fim da guerra. Claire é descrita como uma mulher pragmática e decidida, que teve uma educação incomum tutelada por um tio arqueólogo que a levou a viagens no mundo inteiro. Ao ser irresistivelmente atraída para um círculo de pedras onde decorrem rituais pagãos, a sua curiosidade acaba por arrastá-la misteriosamente para o passado, para o século XVIII, no auge das revoltas jacobitas. As Terras Altas da Escócia não respondiam à autoridade de ninguém a não ser os clãs escoceses em constantes lutas com a autoridade da Coroa britânica e invasores estrangeiros. Para complicar ainda mais as coisas, a própria Coroa Britânica estava sob constante perigo, devido à deposição do rei Jaime II por

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Guilherme de Orange. O rei deposto nunca desistiu de reestabelecer a sua dinastia e em seu nome nasceram várias revoltas – conhecidas como os Levantes Jacobitas – na Inglaterra, Irlanda e Escócia contra o novo rei, Guilherme III. Ser ou não ser um apoiante jacobita (apoiante de Jaime II) constitui um importante elemento do enredo de Outlander.

COMO SEDUZIR UM ESCOCÊS

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tualmente, não falta literatura romântica passada na Escócia, com guerreiros escoceses como protagonistas. Muitas autoras de sucesso têm deliciado as leitoras ao escolher contar histórias com figuras masculinas dominantes, líderes de clãs, perigosos mas de uma enorme ferocidade e lealdade. Tornou-se um ideal extremamente romantizado por autoras como Maya Banks, Karen Marie Moning (que será publicada pela SDE Brasil), entre outras, mas foi Gabaldon que gerou o furor inicial e abriu o caminho para toda uma série de novos livros e escritoras.

Sam Heughan como Jamie Frasier


Primeiras imagens da tão aguardada série de TV.

O protagonista masculino escocês encarna um imenso poder sexual e estabelece uma química com a heroína que precisará ser muito especial para conseguir domar alguém de natureza tão selvagem. Estes são heróis que só podem ser redimidos pelo amor. Jamie Fraser em Outlander está destinado a ser líder, mas ele é também cavalheiresco, um forte defensor da honra do seu clã e de uma grande resistência perante a adversidade. Será uma mulher diferente como Claire a única a conseguir subjugar a natureza indomável do guerreiro. As paisagens naturais de grande beleza da Escócia – os seus castelos antigos, lochs e o encanto das terras altas isoladas – não poderiam deixar de fazer parte da trama, bem como descrições detalhadas dos costumes e tradições da época (a herbanária desempenha um papel importante no livro). O passado histórico da Escócia, no qual se verificou uma constante rebeldia, luta e resistência contra estrangeiros, torna essa nação ainda mais desejável como cenário ficcional literário. A virilidade e coragem dos idealizados guerreiros escoceses só os tornam ainda mais admirados pelas heroínas que cedem à paixão e romantismo. Mas não se pense que o livro é sentimental ou foge de descri-

ções mais violentas e realistas. A violência é uma constante no enredo com muitas intrigas familiares e políticas e a personagem de Jamie Fraser por várias vezes é submetida a atos de brutalidade. O próprio Jamie não é homem de fugir de alguns atos mais cruéis, como os leitores irão verificar em algumas cenas intensas e polêmicas.

A SAGA E SPINOFFS

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laire Randall, a mulher a que os escoceses se referem como “Sassenach” ou Outlander, a estrangeira de origem misteriosa e com fortes conhecimentos medicinais, é a protagonista que domina a série de sete livros escritos por Diana Gabaldon. A ação decorre não só na Escócia, mas também França, Índias Ocidentais e América do Norte. O oitavo livro, Written in my Own Heart’s Blood, está sendo preparado para ser lançado na língua inglesa em 2014. Todos serão publicados na devida ordem cronológica pela SDE no Brasil. O sucesso da série é tanto que ao longo dos anos já foram traduzidos para mais de 24 línguas e publicados em 27 países. Além da série principal, Gabaldon lançou também a série Lord John, centrada em Lord John Grey, um protagonista secundário da saga Outlander e que mistura crimes e romance histórico.

ROMANTISMO ESCOCÊS E AVENTURA NA TELA

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Caitriona Balfe como Claire Randall

sucesso de Diana Gabaldon coincidiu com a popularidade da franquia cinematográfica Highlander no final da década de 80 e início de 90, mas seria nos anos 90 que a figura romantizada do escocês guerreiro atingiria o clímax com a série televisiva Highlander, que ganhou enorme reconhecimento internacional, em torno do imortal Duncan Macleod, e o filme Braveheart de Mel Gibson (1995), que fez explodir a moda dos rebeldes escoceses guerreiros, retratando-os sob uma luz poética e romântica. Mas, estranhamente, foi preciso esperarmos até o século XXI para finalmente termos uma produção televisiva do romance Outlander, A Viajante do Tempo. As leitoras terão a oportunidade de saber ainda este ano se o elenco e produção estão à altura da saga (ver caixa).

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LISTA DE PERSONAGENS CLAIRE RANDALL Claire é uma enfermeira, uma órfã que foi criada pelo seu tio arqueólogo e que se casou com Frank Randall antes do início da II Guerra Mundial. Após o fim da guerra, junta-se ao marido numa segunda lua-de-mel na Escócia onde, após observar um estranho ritual pagão, é arrastada para o passado, para o ano de 1743. Ela é a narradora do livro, uma mulher forte, sincera e compassiva, mas que constantemente precisa ser salva.

COLUM MACKENZIE O líder do clã Mackenzie, Colum é o tio materno de Jamie Fraser e sofre de uma doença degenerativa que lhe causa imobilidade e dor intensa. Devido à sua debilidade física, apoia-se na força e virilidade do seu irmão para manter a ordem no clã. É um líder astuto e inteligente e nada o detém para assegurar o futuro da sua família.

JAMIE FRASER Jamie Fraser é um jovem nobre de um clã escocês. Foi educado pelo seu tio Dougal Mackenzie e passou algum tempo estudando na Universidade em Paris antes de regressar para a Escócia, onde foi preso pelas autoridades inglesas por desafio às autoridades. Um guerreiro nato, conhecido pela sua lealdade e carisma, é Jamie quem salva Claire de cair nas mãos dos britânicos e a integra no mundo dos clãs escoceses.

DOUGAL MACKENZIE Dougal é um dos líderes do clã Mackenzie, um guerreiro respeitado e temido por muitos. O seu irmão mais velho Colum é quem governa o clã, mas Dougal é o seu braço direito e consegue impor a sua vontade muitas vezes. É um apoiador secreto da causa rebelde escocesa contra os britânicos.

BLACK JACK RANDALL Um capitão do exército britânico em 1743, são as suas tropas que têm contido as rebeliões escocesas numa guerra sem trégua. É capaz de atos de grande violência e brutalidade para assegurar o domínio britânico. Desenvolveu uma obsessão pouco saudável por Jamie e Claire. FRANK RANDALL Marido de Claire em 1945, Frank é um intelectual acadêmico. Serviu como espião nos serviços secretos britânicos durante a guerra e preparava-se para começar uma nova carreira como historiador e acadêmico após a guerra quando a sua mulher desaparece misteriosamente nas Terras Altas da Escócia.

MURTAGH FITZGIBBONS Padrinho de Jamie e a sua sombra protetora. Um homem reservado e que se guia por um código austero, fará tudo para proteger Jamie.

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GEILLIS DUNCAN Mulher do procurador fiscal do distrito, tem um grande conhecimento de herbanária, sendo essa uma paixão que partilha com Claire, mas que leva muitos a considerarem-na uma bruxa. É uma mulher que domina as artes da manipulação, sensual e misteriosa, mas oculta um segredo que pode levar à sua ruína.

OUTLANDER CHEGA À TELEVISÃO EM AGOSTO DE 2014

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Produzido por Ronald D. Moore, o canal Starz encomendou 16 episódios para uma primeira temporada baseada na obra de Diana Gabaldon, Outlander, a Viajante do Tempo. O elenco foi anunciado em 2013 e integra Caitriona Balfe (Claire), Sam Heughan (Jamie), Tobias Menzies (no papel duplo de Frank Randall e Black Jack Randall), Gary Lewis (Colum MacKenzie), Graham McTavish (Dougal MacKenzie) e Simon Callow (Duque de Sandringham). A produção teve o envolvimento da própria autora que serviu como consultora da série. As filmagens aconteceram na Escócia e a estreia está prevista para 9 de Agosto, nos EUA. Os trailers que foram exibidos deixaram os fãs de Diana Gabaldon com grandes expectativas.


a fantasia de

ao encontro da Rainha das Trevas por ana cristina rodrigues ontinuando a trazer grandes nomes da literatura fantástica que estavam imperdoavelmente inéditos no país, a Saída de Emergência Brasil lançou A Filha do Sangue, primeiro volume da Trilogia das Joias Negras, que é o começo de uma das mais fantásticas e sombrias séries da literatura. A série de Anne Bishop gira em torno do poder: quem o detém e quem procura obtê-lo. Porém, ao contrário da maioria das sagas de literatura fantástica, este poder está em mãos

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Obra: A Filha do Sangue Saga: Trilogia das Joias Negras Autor: Anne Bishop Gênero: Fantasia Negra Editora: Saída de Emergência Tradução: Cristina Correia Páginas: 432 Preço: R$ 39,90 ISBN: 978-85-67296-10-4

femininas e gira em torno delas. As mulheres são o ponto central, sendo elas que decidem e controlam o mundo, deixando os homens em segundo plano, como seus protetores. E elas detém esse poder porque é nelas que o Sangue corre, fazendo a magia florescer. Até os homens mais poderosos são subjugados, domados e amansados para servir às suas Senhoras. E podem considerar este “servir” em um sentido amplo, pois o que não falta na obra de Anne Bishop é sensualidade, de uma forma densa e completamente envolvente, que reflete a preponderância feminina.

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Reino Distorcido se prepara para o cumprimento de uma antiga profecia: a chegada de uma nova Rainha, a Feiticeira que tem mais poder que o próprio Senhor do Inferno. Mas ela ainda é jovem, e por isso pode ser influenciada e corrompida. Quem controlá-la terá domínio sobre o mundo. Três homens poderosos – inimigos viscerais – sabem disso. Saetan, Lucivar e Daemon logo percebem o poder que se esconde por trás dos olhos azuis daquela menina inocente. Assim começa um jogo cruel, de política e intriga, magia e traição, no qual as armas são o ódio e o amor. E cujo preço pode ser terrível e inimaginável. BANG! /// 75


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omo muitos autores, Anne Bishop começou com contos e histórias curtas, espalhadas em coletâneas e f fanzines. Ao estrear em 1998 como romanc cista, surpreendeu a todos com uma história q trazendo ecos da fantasia feminista de que, M Marion Zimmer Bradley, aprofunda-se nas r relações entre personagens e na subversão de paa p papéis para construir uma rica tapeçaria, formaad por uma trama inquietante, personagens m mada carismáticos e um universo fascinante. Em um mundo dividido em três reinos governados por aqueles que possuem o poder do Sangue, Jaenelle nasceu para cumprir uma antiga profecia. Destinada à grandeza, sua chegada era aguardada por todos, mas principalmente por Saetan, o Senhor do Inferno e um dos homens mais poderosos dentre os do Sangue. Quando eles se encontram, Saetan automaticamente a reconhece como sendo a Rainha prometida há séculos. Ele a acolhe como filha da sua alma e começa a prepará-la para o seu destino, tomado de preocupação. Pois o poder corrompe e é isso que Saetan teme, que aconteça com Jaenelle o mesmo que ele viu acontecer com outras Feiticeiras, principalmente com Dorothea SaDiablo. Milhares de anos antes do nascimento da jovem prometida, os homens do Sangue serviam às mulheres de bom grado, guiados por seu senso de dever. Porém a ambição da Suprema Sacerdotisa fez com que esta quisesse o poder que seria por direito de Jaenelle, e procurasse formas de submeter os homens do Sangue, torturando-os e escravizando-os, formando ao seu redor uma corte corrupta e depravada. A vontade dos homens era domada através dos artefatos conhecidos como Anéis de Obediência. Essa perversão espalha-se entre os do Sangue, e logo todo o jogo político está tomado por essa necessidade de controle e dominação. Quando Jaenelle nasce, o mundo está despedaçado, tomado por uma atmosfera de medo e violência, onde ninguém que seja do Sangue, homem ou mulher, está completamente seguro. Até mesmo os mais poderosos podem ser derrotados ou subjugados. Como aconteceu com Daemon, herdeiro de Saetan. Ele passou a maior parte da sua longa vida – mais de 1.700 anos – sob o domínio de um Anel de Obediência colocado por Dorothea. Foi castigado, humilhado, entregue às Viúvas Negras para ser um objeto de prazer, arte na qual fora instruído. Precioso demais para ser morto, Daemon tornou-se cínico e amargo, inimigo jurado de seu pai – e de seu meio-irmão, Lucivar Yaslana, um homem de espírito indomável e temperamental, que não aceitou servir as Feiticeiras. Os três homens SaDiablo precisam colocar suas diferenças de lado em prol de Jaenelle, evitando que Dorothea e sua aliada Hekatah – ex-mulher de Saetan – consigam corrompê-la. O destino do mundo e do Sangue depende deles.

rainhas e vilões

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trilogia original deu origem a mais seis livros que também exploram esse universo, contando tanto histórias que aconteceram antes e depois do nascimento profetizado da Rainha das Trevas. A escrita de Anne Bishop fascinou leitores no mundo todo, mesmo tratando com crueza e realismo – incomuns na literatura fantástica – temas tabus como incesto, dominação, maus-tratos e violência sexual. Ela não doura a pílula. Seus antagonistas são Vilões, com “v” maiúsculo e poder superlativo, enquanto seus protagonistas são 76 /// BANG!

conflituosos, incertos, trágicos – até mesmo a misteriosa Jaenelle, que parece ocultar um passado sofrido e atormentado. Nunca sabemos o que pensa ou o que se passa com a protagonista, pois ela não é um dos pontos de vista do livro. Até para os leitores, essa jovem poderosa e fadada a um destino impiedoso é um enigma que nunca fica completamente claro. E o leitor mal tem tempo de perceber isso, pois já começa imerso naquele universo, acompanhando profecias, torturas e orgias, deslumbrando aos poucos mistérios e fantasias desconhecidos que, apesar de por vezes sombrias e desesperançadas, o atraem. Quando o leitor dá por si, está completamente mergulhado em um mundo de prazer e dor, de submissão e rebeldia, de medo e esperança. A prosa forte e rica de Anne Bishop é, em parte, responsável por isso. Surpreendentemente firme para um primeiro romance, o passado de contista fica claro na maestria com que a autora nos prende em ganchos e tramas. Os personagens, carismáticos mesmo quando irrecuperavelmente malignos, são um outro ponto alto. Os sentimentos que os unem nascem de forma natural e coerente conforme a história se desenrola, e o cenário bem construído serve de moldura para tudo isso.

A

tualmente, com o sexo associado à força e a dominação tão em voga, seja nas sagas de fantasia como As Crônicas de Gelo e Fogo ou nos romances femininos de E. L. James e Sylvia Day, é intrigante ler uma história como a contada por Anne Bishop, que não só é sensual e violenta ao mesmo tempo, mas que também faz refletir sobre papéis de gênero e a importância de repensá-los, de colocá-los em uma nova perspectiva, principalmente na literatura fantástica, sempre tão saturada de heróis viris e mocinhas virginais. Passava da hora de termos essa nova perspectiva publicada no Brasil.

As Joias

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s Joias são a representação física do poder que cada um dos de Sangue possuíam, também servindo como repositórios deste poder, já que nem sempre seus corpos aguentam a força total de um membro mais poderoso. E nem todos os do Sangue tem poder o suficiente para usar uma Joia, embora todos tenham o mínimo para usar o básico da magia. A escala de cor das Joias vai do branco ao negro, sendo que quanto mais escura for a Joia, mais poderosa é quem a possuí. A Opala é considerada o meio-termo, não sendo nem tão escura, nem tão clara. Na Cerimônia do Direito por Progenitura, aqueles que são capazes de usá-las recebem a sua primeira Joia, cuja cor vai marcá-lo durante a primeira parte da sua vida. Ao atingir a maturidade, o membro do Sangue passa por um outro ritual, a Oferenda às Trevas, que é quando pode atingir seu verdadeiro potencial, recebendo uma nova Joia, até três níveis mais escura que a original (ver página ao lado). Ana Cristina Rodrigues, 30 e poucos anos, é escritora, historiadora, editora, tradutora, professora e funcionária pública. Com vários contos publicados, atualmente tenta finalizar um romance. Tuíta como @anadefinisterra e seu blog é http://talkativebookworm.wordpress. com/.


Joias Branca Amarela Olho de Tigre Rosa Azul-Celeste Violeta Opala Verde Azul-Safira Vermelha Cinza Cinza-Ébano Negra Ao fazer a Oferenda às Trevas, uma pessoa pode descer no máximo três categorias em relação à sua Joia de Direito por Progenitura. Exemplo: A Branca de Direito por Progenitura pode descer até a Rosa.

Protagonistas

Hierarquia dos Sangue / Castas Machos Plebeus – em qualquer das raças, os que não fazem parte dos Sangue Macho dos Sangue – termo geral para todos os machos dos Sangue; designa também todos os machos dos Sangue que não usam Joias Senhor da Guerra – macho que usa Joias, de status equivalente ao de feiticeira Príncipe – macho que usa Joias, de status equivalente ao de Sacerdotisa ou Curandeira Príncipe dos Senhores da Guerra – macho que usa Joias, perigoso e extremamente agressivo; na hierarquia, está ligeiramente abaixo da Rainha

Fêmeas Jaenelle Angelline é a personagem principal, uma menina de doze anos destinada a se tornar a Rainha das Trevas, também conhecida simplesmente como “Feiticeira”.

Plebeias – em qualquer das raças, as que não fazem parte dos Sangue

Daemon Sadi (SaDiablo) é filho de Saetan e Tersa. Assim como o pai e o irmão, é um Príncipe dos Senhores da Guerra. Escravo sexual nas cortes de Dorothea e de rainhas corrompidas por ela, também é conhecido como “Sádico”. É o macho mais forte na história dos Sangue.

Fêmea dos Sangue – termo geral para todas as fêmeas dos Sangue; designa também todas as fêmeas dos Sangue que não usam Joias

Saetan Daemon SaDiablo é o Senhor Supremo do Inferno, Sacerdote Supremo da Ampulheta e Príncipe da Guerra de Dhemlan. É pai de Daemon e Lucivar. Depois de Daemon, é o macho mais forte dos Sangue.

Feiticeira – fêmea dos Sangue que usa Joias mas que não se encontra em nenhum dos outros níveis hierárquicos; designa também qualquer fêmea que use Joias

Lucivar Yaslana (SaDiablo) é filho de Saetan e Luthvian, uma eriena. Assim como o irmão, Daemon, foi escravizado quando adolescente e forçado a servir nas cortes de Dorothea e suas seguidoras. Por conta do temperamento explosivo, é enviado para as minas de sal de Pruul. É o terceiro macho mais forte dos reinos. Surreal SaDiablo é uma prostituta assassina e filha de Titian. Dorothea SaDiablo é a incestuosa Sacerdotisa Suprema de Hayll. Faz parte da assembleia da Ampulheta, formada por Viúvas Negras. Kartane SaDiablo é filho de Dorothea SaDiablo. Em outros tempos, foi amigo íntimo de Daemon, seu primo. Hekatah, instigadora das guerras entre Kaeleer e Terreille, é uma demônia-morta que se autoproclama Sacerdotisa Suprema do Inferno. É ex-mulher de Saetan SaDiablo e mãe de Mephis e Peyton. Robert Benedict alega ser o pai de Jaenelle Angelline. Dirige o hospital conhecido como Briarwood. É ainda um membro influente do conselho dos machos de Chaillot.

Curandeira – feiticeira que cura ferimentos e doenças físicas, de status equivalente ao de Sacerdotisa e Príncipe Sacerdotisa – feiticeira que zela pelos altares, Santuários e Altares das Trevas; testemunha juras e casamentos; faz oferendas; de status equivalente ao de Curandeira e Príncipe Viúva Negra – feiticeira que cura as mentes; tece as teias emaranhadas de sonhos e visões; é versada em ilusões e venenos Rainha – feiticeira que rege os Sangue; é considerada o coração da terra e o centro moral dos Sangue; logo, é o ponto central da sociedade /// // 77 BANG! BA ANG NG! /// NG! 77


entrevista com

anne bishop Anne Bishop mora no norte do estado de Nova York, onde gosta de passar o tempo ouvindo música, fazendo jardinagem e escrevendo. É autora de 17 livros, entre eles a premiada Trilogia das Joias Negras. Seu romance mais recente, Twilight’s Dawn, entrou na lista de mais vendidos do The New York Times. Bishop está escrevendo uma nova série sobre a qual adianta apenas tratar-se de uma história urbana fantástica e sombria, com grandes reviravoltas.

por safaa dib

H

á 16 anos, você publicou A Filha do Sangue, o primeiro volume na série de fantasia sombria sobre os Sangue, e desde então se tornou uma escritora de sucesso. Na sua opinião, o que cativou os leitores no seu primeiro livro e o que contribuiu para que ele fosse tão bem-sucedido? Acho que os escritores escrevem as histórias que querem ler. Quando comecei a brincar com as ideias sobre os Reinos e a cultura dos Sangue, queria uma história que me permitisse retratar um lado mais sombrio da fantasia. Queria uma história realista sobre famílias e relações familiares. Queria uma história sensual que trouxesse os grandes homens do gênero da literatura romântica. E queria as possibilidades de um mundo baseado em fantasia, com magia e criaturas mágicas. Por volta dos anos 1990, havia livros que continham alguns desses elementos, mas não existia uma história que incluísse todos esses elementos. Eu, pelo menos, não tinha encontrado nenhuma. Por isso, continuei a brincar com as minhas ideias até que um dia todas as peças se encaixaram no lugar certo. Foi aí que comecei a escrever a história em três partes que se tornaria a Trilogia das Joias Negras. Um dos pontos fortes da Trilogia das Joias Negras é a interação da protagonista Jaenelle com os seus guardiões e protetores. No entanto, nunca temos acesso ao ponto de vista de Jaenelle. Ela é misteriosa até o fim e se mantém fora do alcance dos personagens do livro, mesmo quando tentam magoá-la. O mistério em torno da

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personagem torna-a mais cativante e fortalece sua aura de poder? Sempre considerei essa história como sendo sobre o impacto que Jaenelle tem na vida das pessoas à sua volta. Ela é o mito vivo, os sonhos tornados realidade. Da perspectiva de um escritor, foi uma escolha natural. Jaenelle é percebida por meio das pessoas cujos sonhos a criaram, e os leitores, assim como os personagens, nunca sabem o que ela pensa ou sente além do que veem. Pode nos contar mais sobre a Cerimônia de Direito por Progenitura e a Oferenda às Trevas e o impacto delas na hierarquia dos Sangue? A Cerimônia de Direito por Progenitura confirma o poder com que a pessoa nasceu e apresenta a joia que vai conter todo esse poder. A Oferenda às Trevas é o teste que determina a profundidade do poder maduro da pessoa. Apenas sabemos que é um teste muito difícil, mas pouco é explicado. Ao não detalhar o processo, o escritor passa para o

leitor uma imagem muito mais forte daquilo que é considerado um misterioso rito de passagem. Mas há outra razão prática: quando se constrói um mundo com três níveis separados, mas ligados a múltiplas raças e a uma cultura que serve de base para todas essas raças e seus códigos morais, é preciso decidir quais os detalhes são necessários para contar a história. Eu precisava saber que essas duas cerimônias representavam momentos fundamentais na vida de cada um dos Sangue, mas não o que se passava nelas.

guiam os velhos costumes e aqueles que não queriam ser responsabilizados pelos seus atos.

Os seus livros misturam romance e fantasia. Você combinou de forma eficaz o melhor de ambos os gêneros. Os personagens masculinos são almas atormentadas, mas não imunes ao amor e ao afeto. Cada homem SaDiablo tem uma profunda e complexa ligação com Jaenelle. Qual é o segredo para criar personagens masculinos tão únicos? Os personagens se revelam para mim através do processo da escrita, Os Sangue juraram servir e honrar as mas passo um tempo imenso – meTrevas, mas se corromperam. O que ses, às vezes anos – tentando descobrir as primeiras impressões sobre levou a essa corrupção? eles e quais são as suas motivações. Ganância e ambição. Alguém quis De certa forma, é como desenhar algo que não podia possuir caso se esboços. Começamos com alguns conformasse aos limites impostos traços gerais e, a cada dia que passa, pela sociedade. Alguém quis se tornar poderoso o suficiente para deixar acrescentamos mais detalhes e cor. Um dia obtemos o retrato completo, de seguir as regras. Alguém usou o e surge uma pessoa com desejos, poder para obter seus desejos. Ao longo do tempo, isso acabou criando ódios e um passado, como uma paisagem em aquarela que nos ajuda a divisões entre os Sangue que seBANG! /// 79


entender quem é aquele personagem no início da história. Como faço isso? Não sei. Chamo esse processo de “dançar com a Musa”. Você nunca tem medo de confrontar os seus personagens com temas pesados: tortura, sadismo, abuso sexual e violência são elementos que fazem parte da cultura dos Sangue. Como consegue criar uma atmosfera de perigo e brutalidade nos livros? A cultura dos Sangue foi construída com base nas figuras que encontramos na fantasia sombria – e nas trevas que existem em nós mesmos. E, porque essas coisas existem no nosso mundo, elas também estão sempre presentes, de uma forma ou de outra, ao longo da história. Não é uma escolha consciente. Suponho que a atmosfera surja porque sabemos que essas coisas existem, então os leitores acabam vendo e sentindo isso nas atitudes e reações dos personagens. Você criou um fabuloso mundo de fantasia, com uma voz muito original. Os seus leitores ficaram rapidamente viciados nos seus livros. Conte-nos mais sobre o seu processo criativo e as influências que ajudaram você a construir esse mundo fascinante. Como já disse, chamo o meu processo criativo de “dançar com a Mus”. Isso significa que, quando surge uma ideia, tomo nota. Se vejo uma fotografia que causa um impacto em mim, guardo a foto e a arquivo. Se leio uma frase em outra história que me faz pensar, também faço uma anotação. E isso acontece durante meses e anos. Depois algo que vi, ouvi ou li faz todas as peças se juntarem numa só e surge um cenário, uma história e personagens. Então inicio o processo extenuante de acrescentar detalhes às peças, adicionar camadas e descobrir mais sobre o mundo que criei. Uma influência que foi decisiva para mim enquanto escrevia a Trilogia das Joias Negras foram algumas das músicas da trilha sonora de Koyaanisqatsi: A Life Out of Balance, composta por Philip Glass. A primeira 80 /// BANG!

vez que ouvi a música de abertura, com o órgão e as vozes masculinas, vislumbrei a escadaria que leva ao quarto de Lorn. Vi uma mistura de beleza e trevas que está presente ao longo de toda a trilogia. Você também criou os universos de Ephemera e Tir Alainn. Quais são os maiores desafios que enfrenta ao escrever sobre cada universo? Construir um mundo envolve descobrir as coisas que me intrigam nele e que se adequam a uma ideia que vai crescendo aos poucos. Construir um mundo implica um investimento tremendo de tempo e energia criativa, e eu não queria um mundo que fosse igual àquele que já tinha criado. Escritores têm alguns elementos constantes em tudo o que escrevem. Eu escrevo de forma sombria porque esse é o meu estilo de escrita, mas também gosto de introduzir humor nas minhas histórias e gosto da interação entre pessoas que estão numa jornada que vai transformá-las – ou mesmo mudar o mundo. Cada universo começa com algo simples. Ephemera surgiu com base na ideia de como seria viver num mundo que é um reflexo do nosso próprio coração. E se fosse um mundo que tivesse sido destroçado numa guerra entre as Trevas e a Luz? Tir Alainn começou quando vi uma formação de nuvens que se parecia com rochedos sombrios no horizonte de outro mundo, e virei-me para uma amiga e disse: “É aí que vivem os Fae.” Acredito que o maior desafio para mim, como escritora, é me manter fiel ao mundo enquanto o crio, é manter a estrutura que o torna especial. Isso, por sua vez, influencia os personagens que vivem naquele universo. Os desejos e necessidades podem ser familiares, mas as escolhas que eles fazem ao longo da jornada devem refletir o mundo em que vivem. Este ano anunciamos um prêmio literário de ficção fantástica em língua portuguesa. O vencedor será publicado em Portugal e no Brasil. Qual seria o seu conselho para todos

os que vão se aventurar no mundo da escrita? Escrevam aquilo que intriga vocês. Escrevam sobre personagens que podem amar e odiar. Contem as histórias que gostariam de ler e que mais ninguém escreve. Escrevam uma história do início ao fim. É a única forma de aprender a encaixar todas as peças. Não se preocupem com a qualidade da história. Ninguém espera que as histórias de principiantes sejam boas (e se forem, é pura sorte). É com as histórias de principiantes que se aprende a escrever, e se vocês escreverem cada uma delas dando o seu melhor, então continuarão a aprender. Por fim vai chegar um dia em que aprenderam a escrever uma boa história. Quais são os seus projetos futuros? Acabei de escrever o terceiro volume da minha série de fantasia urbana, sobre uma realidade alternativa na Terra em que as criaturas sobrenaturais são a espécie dominante e os humanos precisam ter muito, muito cuidado. A Filha do Sangue é o seu primeiro livro publicado no Brasil. O que gostaria de dizer aos seus leitores brasileiros para convencê-los a ler a sua obra? Escrevi a Trilogia das Joias Negras porque queria criar uma história sobre amor e traição, magia e mistério, honra e paixão, e o preço que se paga por um sonho. Escrevi-a para mim mesma, mas, dezesseis anos depois, leitores do mundo inteiro se apaixonaram pelos personagens da história. E agora o mito vivo, os sonhos tornados realidade, chega aos leitores do Brasil. O que posso dizer a eles? Bem-vindos ao mundo dos Sangue. Muito obrigado!

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