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Bang! 3 Índice

[ficção] Fantascom

A Noiva do Homem-Cavalo Lord Dunsany A Novela da Chancela Negra

Filho do Sangue Richard Matheson O Mundo Apagado

O Patriota Improvável

Crupe dos Doenceiros

[não ficção] 04 João Barreiros

Sobre o Fantástico na Literatura Portuguesa

15 David Soares

11 5 Estrelas___________________________ Safaa Dib 23 Arthur Machen

47

Sangue Sumor e Lágrimas 48 Entrevista a George R. R. Martin

52 Como Organizar uma Monarquia Entrevista a Octávio dos Santos 57 Vasco Luís Curado

A Perspectiva Alienígena

62 Maria de Menezes

Apanhar as canas do FF 2007 Rogério Ribeiro

77 Neil Gaiman

59

71 João Seixas 81

Prémio Bang! para Literatura Fantástica 2008

83

Síndrome Fasciolar Cerebral dos Carteiros 79 Stepan Chapman

Colecção Bang! Primeiro Trimestre

85

Dois contos súbitos

Publique o seu conto na Revista Bang!

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87 Luís Filipe Silva

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[editorial]

Um Regresso em Bang! Luís Corte Real «Para piorar as coisas, os livreiros ganhavam uma margem tão desinteressante que usavam as Bang! para amparar a perna mais curta do balcão ou forrar o fundo da gaiola do pardal.»

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ra uma vez um projecto ambicioso para lançar uma revista de literatura fantástica em Portugal. Bang! era o seu nome. À frente deste projecto havia duas pessoas: eu e o Rogério Ribeiro. Arranjaram-se autores portugueses, autores estrangeiros, tradutores, colaboradores para ensaios e críticas, uma gráfica com preços amigáveis e... nada. Ou melhor, quase nada. Depois de três números (porque o nº zero também conta), chegámos à conclusão que era trabalho a mais para colocar apenas 250 revistas nas livrarias. Revistas essas que se vendiam a 3.90€ cada (caras, portanto) e que mesmo assim não se conseguiam pagar (prejuízo, portanto). Para piorar as coisas, os livreiros ganhavam uma margem tão desinteressante que usavam as Bang! para amparar a perna mais curta do balcão ou forrar o fundo da gaiola do pardal. Chegámos portanto à conclusão que, das duas, uma: ou cancelávamos a Bang! ou encontrávamos uma alternativa. A alternativa que escolhemos foi a que tem em frente aos olhos. A Bang! deixou de ser uma revista com apenas 250 exemplares em papel para se transformar num PDF que contamos ter milhares de downloads. Passou do formato A5 para o A4 (printer friendly), e de 64 páginas para quase 90, aumentando assim o interesse de cada número e permitindo-nos oferecer textos maiores como o conto A Novela da Chancela Negra (com 24 páginas e impossível de publicar na anterior versão da revista). Mas, mais importante, não só mantivemos a qualidade dos contistas e ensaístas, como

estamos ainda mais exigentes nos conteúdos. Para terminar, a cereja no topo do bolo: agora a Bang! é inteiramente grátis! E o que é que pretendemos com esta revista? Queremos levar a literatura fantástica ao maior número possível de pessoas, apresentar autores incontornáveis do género, dar voz aos autores portugueses mais consagrados... e, em última instância, dar a conhecer novas vozes nacionais dentro do género. Neste número vai encontrar excelentes autores portugueses e nomes de referência do fantástico anglo-saxónico. Porque não queremos que a Bang! seja apenas ficção, convidámos David Soares e João Seixas para assumirem a responsabilidade dos ensaios. Para terminar, temos resenhas, uma antevisão do primeiro trimestre da Colecção Bang! da Saída de Emergência, e entrevistas a George R. R. Martin e a Octávio dos Santos, organizador da antologia de história alternativa A República Nunca Existiu! E para já é tudo! Resta-me deixar os votos de uma excelente leitura e voltamos a ver-nos dentro de três meses, já com o Rogério Ribeiro a acompanhar-me na edição do número quatro. Um abraço fantástico!

BANG!

Luís Corte Real é editor do Grupo Saída de Emergência. Depois de quase dez anos a trabalhar em publicidade, apercebeu-se que a vida é curta e decidiu trabalhar no que gosta: livros. BANG! 3


[ficção]

Fantascom João Barreiros «Bom… não li nenhum dos autores consagrados de fantasia… Não porque não pudesse lê-los, mas porque não queria ser influenciado por ninguém. As minhas obras serão assim originais, porque nunca sofreram a influência de outros…»

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fim da tarde, o sol mal se vê coberto pelo habitual nevoeiro fotoquímico, do céu tomba uma grisalha viscosa que se cola às roupas e aos poros das peles mais desprotegidas, mas o nosso Horácio Quiroga ignora este triste entardecer pois tem os olhos pregados na janela que dá para os Poços de Recepção & Disparo, aguardando ansioso, a eminente chegada dos colegas de profissão, artistas e criadores dos mais perfeitos mundos de Fantasia. O rugido dos canhões electromagnéticos do aeroporto da Ota, mal se ouve, abafado pelo ulular dos fãs que pululam na zona da populaça consumidora. E lá no alto da sala V.I.P., o eminente autor português da mais extensa série de fantasia lusa, desvia por momentos os olhos do turbilhão das nuvens rasgadas pelos constantes mergulhos dos módulos orbitais e fixa-os, com uma expressão ao mesmo tempo crítica e sábia, no fandom biotransformado. Ali em baixo, há quem sacuda cartazes com o logótipo da famosa editora que em bom tempo se arriscou a publicá-lo: CLEMENCIA PRESS. Há orelhas compridas e triangulares que parecem ser resultado de implantes vitalícios. Cabelos brancos como o linho a escorrerem sobre espáduas musculadas por anos de tratamentos hormonais. Vêem-se machadinhas, arcos e aljavas de flechas, implantes mamários a irromperem dos soutiens metalizados das princessasguerreiras-dominatrixes, anões barbudos (que em tempos foram crianças viciadas em supressores de crescimento), putos com tufos de pelos a brotarem

dos pés nus, sebentos, calosos e decerto assaz odoríficos. Há de tudo um pouco, constata o nosso laureado autor. Como se ali em baixo transparecesse uma entusiástica homenagem à sua obra, como se todos quisessem participar desta inefável glória que é ser o único autor de Fantasia ainda vivo e a escrever em Portugal. Mas Horácio Quiroga, sempre discreto, prefere ser admirado à distância. Raras foram as vezes em que o viram sair de casa, a não ser para viagens aos mais remotos países do sudoeste asiático ou aos frios fiordes escandinavos, em busca de inspiração realista para os seus volumes. Em boa verdade não gosta de misturas. Não gosta das mãozinhas das fãs élficas a querem-lhe apalpar as partes baixas, como se assim estas conseguissem recuperar um pouco da sua essência criativa. Afinal, se o fandom quiser falar com ele e deste modo receber, à guisa de consolação, uns quantos bitaites da sua imparcial genialidade, basta-lhes enfiar um capacete RV, mais um implante penil ou vaginal, (conforme for o caso) e depois ligarem-se à rede, ao esplendor do Mundo de ALARMIA, onde um dos múltiplos avatares de Horácio Quiroga reina desde há trinta anos, com direito de vida/morte/possessão/expulsão sobre todos os assinantes. Horácio Quiroga não está só nesta sala V.I.P., onde se oferece vinho espumante à descrição e pratinhos de petits fours com nomes exóticos. 4


Consigo estão as habituais três Donzelas da Noite, cabelos negros escorridos, maminhas vivaças a espreitarem do veludo negro dos decotes, lábios pintados de roxo fixos num constante ciciar de linguagem élfica, linguagem que foi criada exclusivamente para esta ocasião pelo inigualável brilhantismo linguístico do nosso autor. Aristides Solterno, o representante da Editora CLEMENCIA, esse está vestido em conformidade com o corte do século, calças listradas, gravata laranja, camisa de folhos e uns óculos de lentes virtuais orlados de brilhantes que constantemente o ligam às estatísticas de venda do último romance de Quiroga, A PATORRA DO CLÃ DESMEMORIADO. E são precisamente pequenos fragmentos dessa obra de mais de 1000 páginas de letrinha cerrada (escolhidos a dedo por professores catedráticos da Faculdade de Letras de Vila Nova de Trancoso) que Nissa Valmundo, a poetisa do momento, está nesse momento a ler em voz alta (com os murmúrios élficos a fazerem de pano de fundo), fragmentos que estão a ser transmitidos pelo implante traqueal a toda a audiência de fãs que esperam na sala dedicada à populaça, sem esquecer os canais de TV e Rádio que se dignaram a comparecer. Em boa verdade estão todos ali para saudarem a chegada dos primeiros convidados especiais a esta Fantascom portuguesa, a primeira a ser feita por estas terras com orçamento ilimitado, graças ao sucesso do nosso autor, vinte milhões de exemplares vendidos na primeira semana e a promessa (enfim, enfim) que os direitos do primeiro volume da Saga foram vendidos além-fronteiras para a esclarecida Republica Socialista de Zidonia. Nissa Valmundo tem todos os atributos que a beleza anoréctica nos oferece. Olhos de grão-de-bico, lábios redondinhos, cabeça rapada, braços esqueléticos e total ausência de peito. De qualquer modo é esta a voz e o corpo responsável pelas emissões seminais nocturnas de centenas de urbano-depressivos. Quiroga e a Editora CLEMENCIA podem considerar-se felizes por terem conseguido contratá-la a tempo e horas. E assim, enquanto tasquinha uma pata de caranguejo, Horácio cerra os olhos, suspira deliciado com o seu

próprio estilo e deixa-se levar na torrente sensual da voz da Nissa Valmundo: “Alarico Estilete penetra na clamorosa e túrgida caverna com a fiel espada cantante desembainhada, não vão as hostes traiçoeiras de orcs disléxicos atacarem-no de surpresa e pelas costas, com a vil cobardia que é habitual nestes horrendos discípulos do Senhor Trevarium, que em má hora guardou para si e para toda a sua hedionda e lúbrica prole o tão belo e ausente cálice da Irrepreensível e Casta Eterna Juventa… “E nesse preciso instante…” Nisa Valmundo executa uma pausa na leitura, para aumentar o suspense. De ouvidos postos na narrativa, a turba multa de fãs sustém a respiração. Na sala de espera não se ouve um som, a não ser o feedback de um ou dois altifalantes mal sintonizados. Quem quer que a veja assim, como uma frágil folhinha sujeita ao vendaval do génio que passa, com o enorme livro a custo equilibrado na extremidade de um pulso frágil, (mas em boa verdade só através da dor podemos elevar a arte) a outra mão colada ao peito onde um coraçanito ansioso tiquetaca de emoção, decerto desejaria abraçá-la, arrancar-lhe as alças do fatinho negro minimal-consumista, e possui-la ali mesmo, contra a parede, excitado pelo exemplo viril de Alarico Estilete, o imortal herói do nosso já não tão jovem autor. E não estamos apenas a falar de wannabes Alaricos. As centenas de Fulgimundas, Princesas Guerreiras que se acotovelam na sala de espera do povo, num clima de franca camaradagem um tanto ou quanto ambígua, passam pelos mesmos estados de alma, um desejo imenso de se artilharem com um godmichet simétrico e mostrarem à gentil artista como estão a apreciar aquilo que ouvem. Entretanto, Marília Perdita, crítica literária do jornal Macro-folhas, autora da tese de doutoramento “Fantasia Portuguesa: A Única Escolha Semiótica Possível”, outra convidada escolhida a dedo para poder aguardar na sala V.I.P., até aqui discreta e submissa, aproveita a pausa expectante na leitura que dura já há duas horas (que culpa tem o Aeroporto do congestionamento dos Ca5


nhões Balísticos de Seul?) para poder aproximar-se daquele em quem a sua tese se baseou, agarrar-lhe pela manga da discreta e nocturna t-shirt, e murmurar-lhe aos ouvidos, em voz melosa: — Ah, meu caro, já escrevi isto um dia, mas agora digo-lhe pessoalmente em absoluta confidência, que nunca, nunca me cansarei de ler, e neste caso escutar a sua prosa, admirada que estou pela facilidade com que escreve, fascinada pela beleza da sua linguagem, mistificada pelas originais e sempre diferentes temáticas abordadas nas suas obras. Meu caro Horácio, (porque aposto que não se importa que eu o trate pelo primeiro nome, pois não?), agora que estamos enfim reunidos, agora que podemos dispor de uns momentos de intimidade antes da chegada dos convidados estrangeiros, posso perguntar-lhe, enfim, quais foram as suas fontes de inspiração, quais os mestres que pretendeu emular? Horácio suspira fundo. De novo a mesma pergunta. Ai, o tédio. É por essas e por outras que costuma isolar-se no seu apartamento de luxo, que não concede entrevistas a jornalistas ignorantes, que afinal só anseiam por um pouco da sua masculinidade. Avassalado pelo perfume feromónico exalado pela catedrática (quiçá saturado de memes de sedução), mesmo assim o nosso autor, sabe como resistir. É a força do hábito. Põe-se um pouco na pele de Alarico quando recusou a dádiva suctória de sexo oral oferecido de bom grado pelo clã das 400.000 virgens vampiras, alegando que já tinha entregue o coração à bela Vanessa PeitodePomba e que não desejava esvaziar a sua semente impoluta noutras bocas que não a dela. Deste modo, com voz contida, esforçando-se por não sacudir o braço da prisão da catedrática-crítica literária, Horácio responde como sempre respondeu: — Nenhumas! Os lábios púrpuras de Marília Perdita estremecem de emoção. Uma língua rosada desponta entre uma fieira exagerada de dentes brancos (quiçá implantes). — Com…como assim, meu caro? — Bom… não li nenhum dos autores consagrados de fantasia… Não porque não pudesse

lê-los, mas porque não queria ser influenciado por ninguém. As minhas obras serão assim originais, porque nunca sofreram a influência de outros… Marília Perdita está confusa. Confusa, excitada e cada vez mais admirada pela presença de um génio tão criativo e honesto. E enquanto Nisa Valmundo, após ter lambido uns quantos grãozinhos de coca escondidos no terceiro anel do dedo esquerdo, retoma a leitura da PATORRA DO CLÃ DESMEMORIADO, Marília Perdita atreve-se a perguntar aquilo que a sua tese nunca conseguiu desvendar: — Mas…mas…o segredo da sua escrita…porque deve haver aí um segredo escondido, não? — Ah… — Horácio engole em seco, pois a outra mão de Marília (aquela que está solta mas não quiscente) está agora a descer-lhe, devagarinho, pela cintura abaixo. — Pense nisto como um cozinhado…Como uma Pizza…A base é sempre o pão…Apenas muda o que se põe sobre ela…anchovas, caracóis, tentáculos de polvo, moelas de melro, coisas assim… — Uma Pizza! — Exclama Marília recuando dois passos, com o choque. — Uma Pizza? — Ou coisa assim…— responde Horácio com um ar sonhador. — Se não gostar de pizzas opte por um hambúrguer. O que muda ali são as molhengas! — Um hambúrguer? Mas…mas... O meu amigo recorda-se decerto do que diziam os autores portugueses de FC, seus contemporâneos... Que o género que defendiam era um género digno. Conceptualmente revolucionário. Inovador. Contextualmente complexo. Demolidor de paradigmas. Decerto concordará com eles, ou não? Horácio aproveita a oportunidade para se afastar uns quantos passos da presença sedutora de Marília Perdita. Chega mesmo a colocar-se junto à janela que dá para a pista de aterragem, onde as nuvens baixas estão já a rasgar-se ante a aproximação eminente dos primeiros módulos balísticos. — E onde é que eles estão, esses autores de que fala? Não os li e não me interessa o que dizem. 6


Sofriam todos de dor de corno e desapareceram de vista, felizmente, incomodados pelo meu sucesso. O que eles disseram não tem importância nenhuma. Eu vendo, eles não. E neste mundo só as vendas importam! Aristides Solterno, enfim desligado da rede, resolve intervir, amaciar um pouco as declarações revolucionárias do seu jovem (nem tanto assim) e predilecto autor. — Então, então, meu caro…sempre na brincadeira…Não lhe ligue, Exma Senhora Doutora Perdita. O nosso Horácio gosta de provocar, como acontece com todos os génios. E a sua genialidade está mais que provada, nos milhares de livros que vendeu, ao contrário desses outros autores de Fc que eu também corajosamente publiquei e que tanto me desapontaram. — Pois sim, mas comparar a literatura à culinária…Convenhamos que… E as coisas podiam ter ficado por ali, neste precioso fotograma de intimidade inter-relacional, com uma Marília chocada, de peito arfante, e Nissa Valmundo, de dedos anelados contra o crepúsculo que aos poucos vai cobrindo o espaço em volta, ainda a debitar mais um extenso e memorável parágrafo deste texto sublime que a tantos encantou. Sem esquecer o nosso reservado Horácio, que de testa encostada contra o vidro duplo, continua entretido a observar o céu nebulado que aos poucos se rasga em pequenos turbilhões circulares. Mas este quadro solene acaba por ser interrompido pelo súbito inflamar de mil holofotes a acenderem-se na pista, junto aos poços electromagnéticos. Hologramas sobre a sala de recepção, onde marulha a prole de fãs, indicam agora a eminente chegada dos módulos orbitais. E as vozes cessam. Cessam as tonalidades célticas da música de fundo que já ninguém se dá ao trabalho de escutar. Cala-se Nissa Valmundo a meio de uma interjeição, onde se pretende imitar os ais e uis de prazer de Alarico, assediado atrás de um penedo pelas propostas sodomiticas do Anão braquicéfalo Odonte. Calam-se todos os presentes, porque um grito imenso parece rasgar os céus, se bem que um tanto ou quanto abafado pelos vi-

dros duplos da sala V.I.P., pela cúpula insonorizada que cobre todo este sector do aeroporto. E do céu tombam, enfim, os cinco módulos balísticios disparados do outro lado do mundo pelos canhões de Seul. Tombam a fumegar, num silvo de ar sobreaquecido, primeiro um enxame de pontinhos negros a transparecer do outro lado das nuvens, depois um arco de ovóides a brilharem como sóis, acelerados a uma velocidade de 50 Gs, mas que importa, quem viaja dentro deles há muito que deixou de ser humano. E depois chega aos ouvidos de todos o estampido sónico, capaz de fazer abortar as vacas nas campinas próximas e de terminar de vez com toda a biosfera avícola do vale do Tejo. Mas afinal que importa tudo isso, quem quer saber da saúde de milhares de passarinhos perante um momento histórico como este? Ou não será verdade que a arte se sobrepõe aos imperativos ridículos da mãe natureza? A tecnologia não foi feita para esta eminente celebração do passado? Por isso mesmo os módulos tombam da estratosfera como calhaus rolados e as grelhas electromagnéticas giram para os poderem capturar, rodam em gonzos que já viram melhores dias, e as IAS que controlam o aeroporto, deprimidas e sem ninguém com quem conversar, descuidam-se um pouco, (talvez por despeito), deixam escapar um dos módulos como um grão de areia pelos intervalos dos dedos e o módulo estampa-se com estrépito, um pouco mais lá para o fundo, junto à estação do monocarril. Os olhos nostálgicos do nosso Horácio reflectem um pouco da bola de chamas dos tanques de hidrogénio de 500 veículos a arder no parque de estacionamento, mas na sua cabeça rodam apenas as palavras do novo livro ainda em embrião, onde esta torre ígnea poderá servir de imagem ao sempre eterno conflito do Senhor Negro do Castelo de Sódor contra os mísseis mágicos do feiticeiro Vorticema, o fiel mentor de Alarico. — Ai Jesus, que horror! — Exclama Nissa Valmundo deixando cair o livro no chão e escondendo-se no amplexo, sempre protector de Aristides Solterno. — Porra! — Descuida-se a eminente catedrática. 7


— Ainda perguntam porque sou tecnofóbico… — murmura o nosso valente autor, de braços cruzados sobre a quilha do peito, contemplando o turbilhonar de mil detritos e os passos finais da descida e travagem súbita dos restantes módulos. — Não há problema… — Sossega-as Aristides, com a lente esquerda dos óculos a relampejar. Apenas uma das nossas limusinas foi danificada pelo impacto. As outras ainda estão inteiras, assim como os autocarros que trouxeram os seus fãs até aqui, caro Horácio. O saco negro da Editora tem fundos mais do que suficientes para compensar este tipo de perdas…Graças a si, claro está. Graças ao número de exemplares pré-vendidos deste seu último opus. Horácio descola-se ao vidro, vira as costas à pista de aterragem, aos módulos em vias de desaceleração catastrófica, à falésia de chamas do parque de estacionamento a arder. Lembrou-se agora que faz parte do comité de recepção, que vai ser obrigado a estar na primeira linha de atendimento aos convidados, e ao pensar nisso pergunta a si mesmo quais deles estariam no interior do módulo que falhou o poço e a grelha de travagem. Mas não faz mal. Devem estar todos protegidos pelas leis do copyright. Basta fazer o download de um novo duplicado a partir da matriz original escondida algures, nas cubas de integração de Seúl. Estas obrigações sociais incomodam o nosso eminente autor, que de tão modesto odeia aparecer em público. Até aqui sempre recusou apresentar-se nos patéticos congressos de FC, onde vegetam ainda os seus opositores temáticos. Não porque tenha medo de ser criticado por eles, isso nunca. Com dores de corno pode ele bem. E assim, todo de negro vestido, numa de respeito pelos retro-urbano-depressivos, cercado pelos dois corpos em oposição polar da poetisa cantora e da crítica catedrática, Horácio segue Aristides até aos elevadores, num passo aparentemente descontraído, enquanto tasquinha um croquete de carne picada de avestruz. Como nunca leu nenhuma obra escrita pelos convidados (as razões de tal procedimento já ele as explicou vezes sem conta) está um tanto ou quanto preocupado a pensar se

terá de discutir com os Fantasistas estrangeiros alguns passos das suas obras mais recentes. Mas por fim lembra-se com alívio que é de facto a sua obra que mais importa. Que já começou a ser publicada na Eslovénia, Alsácia Morena e na República Socialista da Zidonia. Se os eminentes convidados quiserem falar de algo, por Gotã, que falem dos seus livros! A descida no elevador até ao átrio da recepção dura poucos segundos, mas são segundos que parecem uma eternidade devido ao roçagar corporal da poetisa e da catedrática. O PDA ligado ao implante óptico pipila assustado, saturado de mensagens quase obscenas e de promessas de lúbricos e secretos encontros. Provavelmente a poetisa gostará de ser fustigada ao som de música celta. E a catedrática muito apreciaria amarrá-lo a uma cadeira da escola, vestido de escuteiro para assim receber, umas quantas e oportunas lições de semiótica comparada. O mais assustador é que, no meio deste combate de mensagens visualizadas, acompanhadas por arquivos fotográficos das entidades emissoras em poses um tanto ou quanto receptivas, há umas quantas mais (essas mais discretas) vindas do seu editor, que até aqui se portou sempre como um cavalheiro. E as portas do elevador abrem-se para o átrio atulhado de fãs. Enfastiado, Horácio abre os braços para receber todos os elfos wannabe, as princesas guerreiras, as virgens vampiras, os orcs sodomitas, cinco mil encarnações do Alarico Estilete, enquanto Nissa Valmundo sorri, de cabeça atirada para trás e garganta à mostra num trinado de submissão, mas a verdade é que ninguém está a olhar para eles. Todos estão virados para o Portal dos passageiros. Aos poucos, o nosso laureado autor nota que não há ninguém a agitar as bandeirinhas da Editora CLEMENCIA. Que estas se encontram espalhadas pelo chão, espalmadas por centenas de pés peludos e calejados. Que ninguém comprou as t-shirts do Alarico disponíveis nos stands. Que dezenas de cópias gratuitas e amarfanhadas da PATORRA DO CLÃ DESMEMORIADO se encontram espalhadas pelo chão, com algumas páginas já arrancadas e ardidas, talvez pelos grupos mais 8


radicais que adoram snifar a cola das lombadas. Entretanto os guardas do aeroporto estão nesse momento a abrir um corredor, à bastonada. Os altifalantes ainda não deixaram de clamar a chegada eminente dos convidados. Explicam a quem os queira ouvir que os módulos estão neste momento a despressurizar-se. Que as comportas já se encontram abertas para os corredores de acesso. Que os cilindros gnósticos estão quase, quase… … e cinco cyborgs ninja da Global Zaibatsu Press, de catanas erguidas, capuz a cobrir as placas metalizadas dos olhos, emergem junto ao portal, e logo atrás deles espreita o primeiro cilindro, e depois outro, outro e outro. Os cilindros têm dois metros de comprimento por um de diâmetro, são todos negros e espelhados, à excepção do holograma que projectam no ar. E são essas imagens projectadas, que transformam os fãs presentes num temporal de entusiástica loucura. Ali está, preservado para a eternidade Robert Jordan. Ali vai Rowling, de braço dado com um Potter já adulto. Ali está Feist, McCaffrey, Asimov, Paulo Coelho e Dan Brown, para sempre unidos nesta realidade consensual que lhes permitiu continuar a escrever para sempre. No interior dos cinco cilindros sobreviventes estão guardadas as memórias e personalidade de autores que em vida (ou mesmo depois de mortos) venderam o nexo neuroral das suas personalidades às Tríades Legalizadas de uma Xangai Neo-capitalista. E que assim, nesta sublime eternidade consentida, continuaram a escrever, a escrever, a escrever. Logo atrás dos ninja cyborgs, pequenas caixas de distribuição suspensas numa almofada de ar, cospem em arco micro Ipods atafulhados por amostras gratuitas dos novos romances em continuidade. Horácio tenta cortar através a turba-multa, aproximar-se de um desses cilindros, mostrar-lhes quem manda, dar-lhes as boas-vindas, aflorar os dedos por essas superfícies de plástico metalizado, mas… — Stand back, you fucker! — Diz-lhe um dos ninjas. — Touch this and die! — Sibila um outro. — Draw back, you creep!

— Mas…mas… — insiste o nosso herói, esforçando-se por engrossar a voz, perante o corpo imenso e tiquetaqueante do segurança, enquanto continua a ser empurrando pelas costas pela multidão que só deseja passar os dedos pela forma transparente de um Potter feiticeiro. — Eu faço parte do comité de recepção…Me friend. Me inviter! If you only… Rowan, Coelho e Asimov trocam olhares dúbios, Brown estala os dedos virtuais, Jordan passa o indicador pela garganta e os ninjas investem, os seguranças do aeroporto dão-lhes uma ajudinha, Horácio sente nas costelas a mordedura de um espigão eléctrico, solta um gritinho ao mesmo tempo doloroso e assustado, recua uns quantos passos, pisa sem querer os pés de um orc que responde com uma dentada, toca com o cotovelo nos implantes mamários de uma princesa guerreira que logo replica com um valente estalo, e enquanto o nosso laureado autor é espezinhado (mais por acidente do que por raiva), os ninjas que acompanham os cilindros gnósticos aproveitam a ocasião para seguirem em frente, cortando a fundo o aplauso desmedido dos fãs, na direcção das portas de saída e das limusinas blindadas que os hão-de transportar até ao Hotel Xeraton e à primeira FANTASCON portuguesa. Quando Horácio dá conta de si, já o imenso átrio do aeroporto está praticamente deserto. No chão sebento pela gordura de centenas de pés descalços, espraia-se o que resta das bandeirolas da Editora CLEMENCIA. Empregadas da limpeza — vindas de países limítrofes à Fortaleza Europa (certamente mais baratas do que a compra e manutenção de sermomecs) — recolhem agora pedaços de Ipods, espadas de fibra de vidro, uns quanto adereço sado-punidores, ripas de túnicas rasgadas e um número indeterminado e inidentificável de parafernália descartada. Já ali não se encontra a poetisa cantora nem a crítica catedrática. Volúveis como são, devem ter acompanhado a marcha gloriosa dos cilindros gnósticos, ansiosas por um olhar, uma carícia virtual, ou uma micro-descarga nos centros de prazer do hipotálamo. Apenas Aristides Solterno se 9


manteve fiel, como mandam as boas relações comerciais, e é ele agora quem o ajuda a levantar-se, lhe pergunta se está magoado, se quer que lhe faça uma massagem na sala dos V.I.Ps antes de se irem embora. Horácio afasta-o com um gesto seco, caminha aos tropeções até às portas de saída. Lá fora, o crepúsculo banha o aeroporto deserto. Cinzas tombam do céu provenientes do ponto de impacto do módulo perdido. Cheira a borracha queimada e hidratos de carbono. O nosso autor está desolado, despeitado, macerado, abandonado e já a planear um acto de vingança, tal como acontecia quando costumava expulsar da sua homepage todos os críticos cobardes que não concordavam com a genialidade dos seus escritos. E ali, junto às vias de acesso à auto-estrada para Lisboa, entre o rugido dos módulos de mercadorias a serem atirados para órbita pelos canhões electro-magnéticos, com o vendaval do incêndio a desgrenhar-lhe os cabelos, o nosso laureado autor ergue o punho e clama uma frase que fará história. — Isto não fica assim! A Fantascom ainda agora começou! Vocês vão pagá-las, vis autores estrangeiros! Ninguém ficará impune! — Sabias palavras, meu caro! — Concorda Aristides Solterno enquanto se esforça por convocar um transporte viável através do PDA fornecido pela Editora CLEMENCIA. BANG!

João Barreiros, licenciado em filosofia e professor do ensino Secundário, nasceu a 31 de Julho de 1952, numa humilde cidade que em breve iria cair na Sombra dos grandes Antigos. Quando se refez do choque, devorou milhares de títulos em todas as línguas a que conseguiu deitar mão, participou na feitura do Grande Ciclo do Filme de FC de 1984 patrocinado pela Cinemateca Portuguesa e Fundação Gulbenkian, escreveu dois vastos artigos para a Enciclopédia (hoje esgotada e objecto de culto para quem a conseguiu comprar). Dirigiu duas efémeras colecções para as Editoras Gradiva (Col. Contacto) e Clássica (Col. Limites) que o público português resolveu esquecer (pior para ele), publicou um vasto romance de quase 600 páginas com a discreta ajuda de Luis Filipe Silva (de seu nome “Terrarium”), precedido por uma colectânea de contos que chegou a perturbar algumas almas mais sensíveis (O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias). Anos mais tarde dedicou-se à história alternativa (A Verdadeira Invasão dos Marcianos) que mereceu edição espanhola e simpáticas criticas no jornal El País. Em 2006, a editora Livros de Areia dedicou-lhe um chapbook com a publicação de uma das suas novelas “malditas”: “Disney no Céu Entre os Dumbos”. BANG!

CONSEGUIRÁ ARISTIDES SOLTERNO SEDUZIR O NOSSO AUTOR? NISSA VALMUNDO E MARÍLIA PERDITA IRÃO ARREPENDER-SE DESTA INFAMA TRAIÇÃO? QUE VINGANÇA GLORIOSA ESTÁ NESTE MOMENTO A PREPARAR HORÁCIO QUIROGA? E O QUE FOI QUE ACONTECEU AOS VERDADEIROS AUTORES PORTUGUESES DE FC? COMO IRÁ DECORRER A PRIMEIRA FANTASCOM? ESTIMADO LEITOR, NÂO PERCA AS CENAS DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS (esperemos que na Bang! 4) 10


[ficção]

[tradução de Marta Oliveira]

A Noiva do Homem-Cavalo Lord Dunsany «O seu pai fora meio centauro e um semideus. A sua mãe era filha de um leão do deserto e daquela esfinge que vigia as pirâmides — era mais mística que Mulher.»

N

a manhã em que completava duzentos e cinquenta anos, Shepperalk, o centauro, dirigiu-se ao cofre de ouro, no qual estava guardado o tesouro dos centauros, e apoderou-se do estimado amuleto que o seu pai, Jyshak, extraíra nos seus anos de primazia da montanha dourada, e embutindo-lhe opalas que obtivera de trocas com os gnomos, colocou-o à volta do pulso, e sem dizer nada, foi até à caverna de sua mãe. E levou também com ele aquela trombeta dos centauros, o famoso corno de prata, que outrora havia exortado a renderem-se dezassete cidades de Humanos, e que durante vinte anos tinha soado em frente às muralhas rodeadas de estrelas no Cerco de Tholdenblarna, a cidadela dos deuses, onde em tempos os centauros tinham realizado a sua fabulosa guerra sem serem vencidos pelas armas. Em vez disso, retiraram-se lentamente, envoltos numa nuvem de poeira, antes de acontecer o decisivo milagre dos deuses que Eles trouxeram perante a Sua desesperante carência de arsenal próprio. Pegou no seu corno de prata e cavalgou para longe, e a sua mãe apenas suspirou e deixou-o ir. Ela sabia bem que, nesse dia, não iria beber a água que caía dos terraços de Varpa Níger, o vale entre as montanhas; que não iria admirar por momentos o pôr-do-sol, para em seguida voltar outra vez para a caverna a trote, para dormir sobre os juncos, arrastados por rios que não conhecem

o Homem. Ela sabia que então o corno de prata estava ao cuidado dele, como em tempos estivera ao cuidado de seu pai, e ao cuidado de Goom, o pai de Jyshak, e muito antes, com os deuses. Por isso, ela apenas suspirou e deixou-o ir. Mas ele, saindo da caverna que era a sua casa, cruzou pela primeira vez a escassa corrente e, ao passar pelos penhascos, viu por baixo dele a reluzente planície terrestre. E o vento outonal que dava brilho ao mundo, subindo as encostas da montanha, batia frio nos seus costados nus. Ergueu a cabeça e soprou. — Agora sou um homem-cavalo! — gritou em voz alta. E saltando de penedo em penedo, galopou por vales e abismos, por leitos de torrentes e formações rochosas escarpadas, até chegar às sinuosas léguas da planície, deixando atrás dele para sempre as Montanhas de Athraminaurian. O seu objectivo era chegar a Zretazoola, a cidade de Sombelenë. Que lenda sobre a beleza inumana de Sombelenë, ou sobre o seu admirável mistério, sempre pairou desde a terrestre planície até ao fabuloso berço da raça dos centauros, as montanhas de Athraminaurian, é algo que desconheço. Contudo, no sangue dos homens existe uma maré, ou antes, uma corrente marítima, que é de alguma maneira semelhante ao crepúsculo, que lhes trás rumores de beleza ainda que longínquos, tal como a madeira proveniente de ilhas ainda não descobertas flutua à deriva no mar. E esta 11


corrente primaveril, que visita o sangue humano, provém do fabuloso quartel da sua linhagem, do legendário, do antigo. Leva-o para o bosque, para as colinas; escuta a antiga canção. De modo que talvez o lendário sangue de Shepperalk se agitasse naquelas isoladas montanhas longínquas, no pico do mundo, perante rumores que apenas o airoso crepúsculo conhecia e apenas em segredo confidenciava ao morcego, pois Shepperalk era ainda mais lendário do que o homem. Era certo que desde o início se dirigia para a cidade de Zretazoola, onde Sombelenë permanecia no seu templo; embora toda a planície terrestre, seus rios e montanhas, separassem a casa de Shepperalk da cidade que ele procurava. Quando os pés do centauro tocaram pela primeira vez a relva daquela macia terra aluvial, este soprou de alegria o seu corno de prata, empinou-se e deu meia volta e brincou durante léguas. Por uma nova e formosa maravilha, o seu passo parecia o de um cavalo que nunca tinha ganho uma corrida, e o vento ria ao cruzar-se com ele. Baixava a cabeça para sentir o perfume das flores, levantava-a para estar mais perto das invisíveis estrelas, divertia-se por esses mundos, conquistava rios cavalgando. Como é que vos hei-de explicar, a vocês que vivem nas cidades, o que ele sentia enquanto galopava? Sentia-se forte como as torres de Bel-Narana; leve como aqueles palácios de fios delgadíssimos, que as fadas-aranhas constroem entre o céu e o mar ao longo das costas de Zith; veloz como um pássaro, correndo pela manhã para cantar em alguns pináculos das cidades antes de o dia raiar. Era o companheiro declarado do vento. Parecia alegre como uma canção. Os raios dos seus legendários pais, os deuses primitivos, começavam a misturar-se-lhe no sangue; os seus cascos retumbavam. Chegava às cidades dos homens, e todos tremiam ao recordar as místicas guerras da antiguidade, temendo novas batalhas que pusessem em perigo a raça humana. Nem por Clio aquelas guerras eram recordadas; a história não as conhecia, mas que importância poderia isso ter? Nem todos nos pudemos sentar aos pés de historiadores, mas todos aprendemos fábulas

e mitos nos joelhos de nossas mães. E não havia ninguém que não temesse inesperadas guerras ao ver Shepperalk a desviar-se e a saltar pelas vias públicas. E assim foi andando de cidade em cidade. De noite, deitava-se ofegante sobre os juncos de algum pântano ou floresta; antes de o dia amanhecer, levantava-se triunfante, e bebia água desmesuradamente de algum rio no escuro e, chapinhando nele, ia a trote até algum lugar elevado para contemplar o nascer do Sol e saudar o astro com os alegres ecos da sua fabulosa trombeta. E contemplava o Sol surgindo dos ecos, e as planícies novamente iluminadas pela luz do dia, e as léguas que se prolongavam como uma cascata de água, e esse alegre companheiro, o vento que ri estrondosamente, e os homens e os seus medos e as suas pequenas cidades. E, depois disso, grandes rios e ermas e enormes colinas, e atrás delas novas terras e mais cidades, sempre na presença desse velho companheiro, o glorioso vento. Mesmo apesar de ter atravessado tantas regiões, a sua respiração continuava regular. — É maravilhoso galopar sobre um bom relvado quando se é jovem — disse o jovem homem-cavalo, o centauro. — Ah, ah! — disse o vento que vinha das colinas, e os ventos da planície responderam. Os sinos tocaram frenéticos nos campanários, os sábios consultaram os seus pergaminhos, astrólogos procuravam presságios nas estrelas, os anciãos faziam subtis profecias. — É verdade que é veloz? — perguntaram os jovens. — Está tão contente… — disseram as crianças. Noite após noite, entregou-se ao sono, e dia após dia, galopou até chegar às terras dos homens de Athalonia, que viviam nos confins da planície terrestre. Dali veio de novo para terras lendárias como aquelas em que fora criado, no outro lado do mundo, e que contornavam o mundo misturando-se com o crepúsculo. E então um forte pensamento apoderou-se do seu infatigável coração, porque sabia que se aproximava de Zretazoola, a cidade de Sombelenë. Já era tarde quando chegou, e as nuvens obscurecidas pela noite cobriam a planície que se es12


tendia à sua frente. Galopou em direcção àquela bruma dourada, e quando esta lhe ocultou a visão, os sonhos do seu coração despertaram e romanticamente ponderou sobre todos aqueles rumores que lhe chegavam sobre Sombelenë, devido à associação de coisas fabulosas. Ela habitava (dizia a noite secretamente ao morcego) num pequeno templo junto à margem de um lago isolado. Uma pequena mata de ciprestes protegia-a da cidade, de Zretazoola, a dos caminhos ascendentes. E em frente ao seu templo encontrava-se o seu túmulo, o seu triste sepulcro lacustre aberto ao público, por receio que a sua espantosa beleza e eterna juventude alguma vez originassem entre os homens a heresia de que a encantadora Sombelenë era imortal: pois apenas a sua beleza e linhagem eram divinas. O seu pai fora meio centauro e um semideus. A sua mãe era filha de um leão do deserto e daquela esfinge que vigia as pirâmides — era mais mística que Mulher. A sua beleza era como um sonho, como uma canção; o sonho de uma vida sonhada sobre orvalhos encantados, a canção cantada a alguma cidade por um pássaro imortal, levado para longe da sua costa nativa por uma tempestade do Paraíso. Aurora após aurora, sobre montanhas de romance, ou crepúsculo após crepúsculo, jamais puderam igualar a sua beleza. Não havia um único pirilampo no mundo ou estrela que conhecesse o seu segredo; os poetas nunca a tinham cantado nem a noite adivinhado o seu significado; a madrugada invejava-a, escondiam-na dos amantes. Ela não era casada, nem nunca a tinham cortejado. Os leões não a vinham cortejar porque temiam a sua força, e os deuses não se atreviam a amá-la porque sabiam que ela devia morrer. Isto era o que a noite confidenciara ao morcego, era esta a esperança que habitava no coração de Shepperalk enquanto galopava às cegas pela bruma. E de repente, no meio da escuridão da planície, apareceu a seus pés a fenda nas legendárias terras, e Zretazoola resguardada nela, banhada pelo sol da tardinha.

Astuta e velozmente desceu ele, dando saltos pelo extremo mais elevado da fenda, e entrando em Zretazoola pelo portão exterior, que ficava situado numa ladeira acentuada, começou de súbito a galopar pelas suas estreitas ruas. Menciona-se, numa canção antiga, as pessoas que vieram às varandas quando ele passou retumbante, e os que debruçaram as suas cabeças por reluzentes janelas. Shepperalk não se importou a dar saudações ou a responder a pedidos de identificação vindos de torres militares; desceu até ao portão interior da terra, como o tempestuoso raio de seus pais, e, como Leviatão que tivesse saltado sobre uma águia, penetrou nas águas que existiam entre o templo e o túmulo. Subiu os degraus do templo a galope com os olhos semicerrados, e, vendo vagamente através das pestanas, agarrou Sombelenë pelo cabelo, ainda fascinado pela sua beleza, e por isso levou-a à força. E, saltando com ela por cima de abismos onde as águas do lago caíam esquecidas para uma brecha no mundo, levou-a não se sabe bem para onde, para ser sua escrava por todos esses séculos que são concedidos à sua raça. Soprou três vezes naquela trombeta de prata enquanto seguia, que é o tesouro mais antigo dos centauros. Era o som dos sinos do seu casamento. BANG!

De nome John Moreton Drax Plunkett (18781957), Lord Dunsany (assim chamado por ser o décimo oitavo lorde do Castelo de Dunsany, na Irlanda) nasceu em Londres no seio de uma família abastada. 13


Apesar de ter conhecido uma certa popularidade no seu tempo, sobretudo como dramaturgo (mas também como contista, romancista, poeta e ensaísta), o facto de se tratar de um aristocrata inglês com raízes irlandesas, numa época em que a Irlanda começara a lutar pela sua independência, não teria contribuído muito para a sua popularidade; quer no país em que possuía o seu castelo, mas onde era visto como um confessado Unionista, quer nos meios ingleses em que se movia. De facto, o seu nome é hoje em dia desconhecido de um vasto público, e geralmente associado à produção de outros autores que ele teria influenciado, tal como H. P. Lovecraft, cujos primeiros textos ficcionais, reveladores de um certo simbolismo tardio, espelham muitas das suas características estilísticas, especialmente em obras como A Demanda Onírica da Kadath Desconhecida. Contudo, como percursor de géneros ficcionais, marginalizados até há bem pouco tempo - sobretudo por certos empedernidos meios académicos - tais como a Fantasia ou Ficção Científica, também é visto como tendo influenciado escritores que se tornaram bem mais populares do que ele, tais como J. R. R. Tolkien e Ursula K. Le Guin. Com efeito, Lord Dunsany foi uma das primeiras vozes narrativas a substituir o chamado «mundo real», quase obrigatório em grande parte da Literatura canonizada (desde a segunda metade do século XIX e através do século XX), por um mundo alternativo inventado pelo autor, mas sem inevitáveis preocupações de teor alegórico. Neste aspecto, também poderíamos dizer que a obra de Jorge Luis Borges também lhe dá eco, tal como o Italo Calvino de As Cidades Invisíveis. Porém, nenhuma escrita se cria a partir do nada, e os mundos ficcionais de Lord Dunsany devem muito ao gosto do seu tempo pelo chamado Orientalismo, tal como a certos ambientes não muito distantes dos que poderemos encontrar em muitos dos textos fin-de-siècle do simbolismo francês. E ainda, se Dunsany nos recorda certos autores que o procederam, também nos evoca outros seus contemporâneos, como o rebelde francês Alfred Jarry, já para não mencionarmos toda uma série de autores surrealistas, que escreviam numa época em que ele já abandonara os seus mais ousados voos de sonho e fantasia, em particular ao dar-se conta, já tarde na sua longa vida, dos horrores da Segunda Guerra Mundial.

Tal como em grande parte das produções literárias previamente referidas, o que preocupava Dunsany, não era tanto a representação de um mundo verídico, mas antes a de um mundo alternativo em que imaginação e estética literária andassem quase sempre de mãos dadas. Assim, quer em The Book of Wonder (O Livro do Deslumbramento), 1912, quer em The Last Book of Wonder (O Novo Livro do Deslumbramento), 1916, poderemos ler pequenas histórias logicamente desconcertantes; reler uma ou outra frase, duvidando da tradução da mesma, dado o seu pendor para o absurdo; penetrar em paisagens oníricas, como se estas se encontrassem mesmo à beira dos lugares mais banais do nosso dia-a-dia; ouvir premonições contra a poluição, numa Inglaterra já então dominada pela indústria e pelo comércio; tal como desfrutar de uma ironia e de um humor bem inglês, capazes de que nos invocarem ainda, entre muitos outros, autores como Ambrose Bierce.

BANG!

O Livro do Deslumbramento Lord Dunsany Um livro incontornável na história da literatura fantástica A obra de Lord Dunsany é a fundação de toda a boa ficção especulativa, e os fãs da grande literatura deviam fazer tudo para conhecer os seus livros. A fantasia heróica nasceu com os seus primeiros contos e a fantasia épica foi profundamente transformada pelos seus romances. A sua influência na ficção fantástica do século XX é visível em autores tão diferentes como Neil Gaiman, H. P. Lovecraft, Clark Ashton Smith e Tolkien. Saida de Emergência / 2007 ISBN: 9789896370022 Preço: 16.91€ Na página da editora: 15.21€ 14


[ensaio]

Sobre o Fantástico na Literatura Portuguesa David Soares Observar o modo como o Fantástico, enquanto género ou tonalidade de representação, foi sendo introduzido nas artes, desde as primeiras realizações culturais até hoje, é observar, ao mesmo tempo, mudanças expressivas nas consciências dos indivíduos: nós não pensámos sempre da mesma maneira. O Fantástico é uma excelente ferramenta para estudar essas mudanças porque, em simetria com as camadas estratigráficas que formam o subsolo, é capaz de conservar as preocupações que rodeiam os criadores, mas antes de prosseguir com o tema deste ensaio, e perceber quais os motivos pelos quais não é possível reconhecer uma tradição de literatura fantástica no cânone literário português, é importante definir, com brevidade, alguns conceitos. pensar o mundo desenvolvidas no período que se apelidou de Iluminismo. O Renascimento tratou-se de um movimento que conheceu raízes herméticas e que nunca se libertou de uma visão idealista do mundo2. Este “idealismo” nada tem a ver com a comum corrente filosófica, advogada por Hegel, entre outros, mas com uma percepção mais profunda que os indivíduos tinham do universo e do seu lugar na grande máquina do mundo; é legítimo dizer que até ao Iluminismo as civilizações acreditaram e se orientaram por uma explicação idealista do cosmos: uma interpretação sob a qual o mundo imaginal3, o mundo das ideias, é mais real que o cenário físico em que nos movemos. Uma visão apoiada pela tese que expressa a criação da matéria pela mente e não o oposto.

O fantasma na máquina O homem dotado de pensamento que se reconheça a si mesmo. Hermes Trimegisto, Corpus Hermeticum

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ostuma apontar-se o período que correspondeu ao Renascimento como aquele em que a civilização ocidental se desagrilhoou da repressão medieval e, recuperando a tradição humanista das culturas grega e romana, progrediu em direcção ao modelo materialista do mundo que podemos observar hoje, contudo o fenómeno renascentista, longe de ter sido espontâneo e ter operado efeitos imediatos, foi, geograficamente, muito específico1. Os efeitos sociais, industriais e culturais que delegamos à intervenção do Renascimento são fruto de novíssimas formas de

2 - The Secret History of the World de Jonathan Black (Quercus, 2007, p 279) e

1 - A History of Civilizations de Fernand Braudel (Penguin Books, 1993, pp 343-344)

Giordano Bruno and the Hermetic Tradition de Frances Yates (Routledge, 2002,

e The New Penguin History of the World de J. M. Roberts (Penguin Books, 1992,

pp 13-20).

p 540).

3 - De acordo com a terminologia criada por Henri Corbin.

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eventos e ocorrências – de aventura pessoal5. Embebida no materialismo filosófico que ameaçava derrubar o paradigma idealista do mundo, a nova consciência, assistida pelo nascimento das letras de expressão íntima, opostas às epopeias clássicas e outros relatos fabulosos de viagens, será responsável pela popularidade do herói individualista, desamarrado de responsabilidades colectivas. A abertura do mundo interno, da vivência isolada do outro, será hostil à inclusão de elementos fantásticos, apartados da vivência de todos os dias como ela é absorvida pelos cinco sentidos. Antes do nascimento do romance o cânone literário possuía dois modos: a “tragédia” e a “comédia”, sendo que a segunda era considerada uma forma menor de literatura. Contudo, a tragédia podia servir-se de elementos fantásticos sem correr o risco de ser olhada com soberba pela academia e pelos leitores. Só mais tarde o Fantástico começou a ser entendido como um modo obsoleto de contar histórias: uma velharia do sistema idealista de olhar o mundo.

Para um indivíduo crente no sistema idealista do mundo a própria consciência é uma entidade. Isso foi bem satirizado no livro The Third Policeman de Flann O’Brien onde se pode ler que a personagem principal possui uma alma indepedente chamada Joe, com aspirações e objectivos diferentes dos seus. Na verdade, alma e espírito nunca foram a mesma coisa para os indivíduos crentes no modelo idealista do mundo: será preciso anotar que ambos foram conceitos distintos até à realização do oitavo concílio ecuménico (869-870), presidido pelos representantes do Papa João VIII; a unificação dos conceitos idealistas de alma e espírito serviu, sobretudo, para rasurar os credos herméticos dos textos eclesiásticos. Este momento é muito importante porque se o hermetismo idealista se divorciou dos textos e rituais da religião organizada continuou a ser transmitido não só no seio das sociedades secretas como através de um veículo insuspeito: o folclore. As inofensivas narrativas infantis que os ingleses chamam de “old wives’ tales” e “nursery rhymes”, os franceses de “contes de ma mère l’oye”, e os portugueses de “histórias da carochinha” são mensagens de sabedoria hermética disfarçadas de cantilenas e rimas para serem decoradas facilmente. Charles Perrault, Madame d’Aulnoy, Wilhelm e Jacob Grimm foram todos ocultistas que reuniram sabedoria hermética nesse formato: sob a máscara da historieta moral, narrada naquilo a que se chama “linguagem dos pássaros” em terminologia iniciática (ou, em calão popular português, “Espírito Santo d’Orelha”), poderiam ser difundidas ao abrigo da censura inquisitória e eclesiástica4. Foi a partir do Iluminismo que mudámos o nosso modo de ler. Publicado em 1678, o primeiro romance moderno La Princesse de Clèves de Madame de La Fayette iniciou um movimento inédito que foi mimado pelos romancistas posteriores: o nascimento da narrativa do interior do indivíduo. A dádiva do nascimento do romance para a consciência do homem ocidental foi a noção que as vidas dos indivíduos poderiam ser histórias com princípio, meio e fim: sequências pertinentes de

Carne Rebelde There would be tears and there would be strange laughter. Fierce births and deaths beneath umbrageous ceilings. And dreams, and violence, and disenchantment. Meryn Peake, Titus Groan

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literatura fantástica é, por natureza, subversiva. Alguns dos temas que a compõem acabam por encontrar um reflexo em trabalhos literários insuspeitos. O conto gótico Six Weeks at Heppenheim de Elizabeth Gaskell possui, pelo menos, dois herdeiros de referência: os títulos Johnny Got His Gun de Dalton Trumbo e Die Verwandlung (A Metamorfose) de Franz Kafka. O livro The Private Memoirs and Confessions of a Justified Sinner de James Hogg antecipa o modelo plasmado por John Fowles em The Colector. Até Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago não pode deixar de evocar uma colagem a The Day of the Triffids de John Wyndam. Contudo, estes exemplos não são os melhores para debater o entrecruzar dos

4 - A designação de “old wives’ tales” é a mais antiga e foi cunhada por Lúcio

5 - Ou aquilo que Umberto Eco apelida de «experiência pessoal do destinatário», in

Apuleio em O Burro de Ouro como “anilis fabula”. In, From the Beast to the Blonde

Sobre Literatura (Difel, 2002, pp 199-205).

de Marina Warner (Farrar, Straus e Giroux, 1994, p 14).

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géneros fantásticos naqueles que em nada se lhe assemelham, porque não existe neles uma colagem ao modo como aquela que se pode ler nos romances editados sob a nomenclatura “Realismo Mágico”. O realismo mágico, como hoje se compreende, é um epígono da tradição literária do Norte da Europa que encontrou maior expressão em autores sul-americanos como Juan Rulfo e Gabriel Garcia Marquez. O primeiro foi buscar inspiração e temas para Pedro Páramo ao livro Sjálfstætt fólk (Gente Independente) de Halldór Laxness, publicado vinte e um anos antes. Existem em ambos os romances o respigar da iconografia mítica e religiosa dos países de origem, misturada num árido contexto rural descrito com realismo agreste. A introdução dos elementos fantásticos (os fantasmas de Rulfo e os espectros e bruxas de Laxness) no panorama político e económico do período pós-revolução industrial, no qual grassa a extrema pobreza e a confusão das populações diante da perda da cultura ancestral face aos avanços da sociedade tecnológica, serve para criar alegorias que veiculam nostalgia e utopia (como a socialista). Por outro lado, atendendo ao tom das suas narrações, não considero Borges um escritor de realismo mágico, como foi, por exemplo, o autor holandês Gerard Reve, mas um escritor de ficção fantástica. A partir do século XVIII a literatura fantástica concebeu uma corrente designada “romance gótico”, um spin-off dos romances de cavalaria6. Tratou-se, originalmente, de um produto anglo-saxónico que se generalizou pela Europa em diferentes denominações: “roman noir” em França, do qual o “giallo” italiano é um sucessor evidente, e “schauer-

roman” (romance de arrepios) em alemão. O género caracterizou-se pela criação de ambientes de elevada decadência arquitectónica e moral e pela integração total de elementos sobrenaturais (espíritos, monstros, demónios) em consórcio com as personagens humanas. Obras como Le Diable Amoreux de Jacques Cazote, La Morte Amoureuse de Théophile Gautier, The Monk de Matthew Lewis ou The Necromancer de Carl Friedrich Kahlert encontram-se entre os primeiros títulos que se atrevem a cruzar o sobrenatural, o disforme e o grotesco, com a sexualidade, vulgarmente tratada com pudor. Esta corrente de literatura fantástica influenciou toda a produção literária dos séculos XIX e XX no que diz respeito à ficção policial e de horror. In the literature of the fantastic, necrophilia habitually assumes the form of a love consummated with vampires or with the dead who have returned among the living. This relation can once again be presented as the punishment for excessive sexual desire; but it may be present also without its receiving a negative value – as with the relation between Romuald and Clarimonde for instance. The priest discovers that Clarimonde is a female vampire, but this discovery produces no change in his feelings.7 A sexualidade e a blasfémia presente nos romances góticos foram ainda muito influentes para o movimento simbólico e modernista, como se pode decalcar das obras de Charles Baudelaire, Paul Verlaine e Arthur Rimbaud. Mas se estes autores se apropriaram dos códigos do Fantástico à guisa de alegoria – de símbolo – isso não invalidou o facto do género ter continuado a ser subversivo; uma literatura de adversidade à norma:

6 - Exemplos de poemas que poderão ter influenciado Walter Scott e Tobias Smollett, os “pais” do romance de cavalaria, são os épicos Beowulf (1010?), La Chanson de Roland (1150?) e Herzog Ernst (1180?). As chamadas “novelas do Graal”, cujo primeiro exemplo é consensual apontar-se como sendo Perceval, Le Conte du Graal de Chrétien de Troyes (1180-1190?), têm, por outro lado, raízes nos mitos galeses compilados numa sequência lógica, e dramática, em The Mabinogion por Evangeline

As a critical term ‘fantasy’ has been applied rather indiscriminately to any literature which does not give priority to realistic rep-

Walton. São, por mérito próprio, um sub-género dentro dos romances de cavalaria já que possuem preocupações herméticas ausentes nos segundos. É seguro afirmar que os pioneiros do género gótico em Portugal, na tradição de Walpole e Radcliffe foram Alexandre Herculano com Eurico, o Presbítero (1844) e Almeida Garrett com Frei Luís de Sousa (1844). Convém também incluir Sampaio Bruno com o ensaio O Encoberto (1804) e o inacabado Os Cavaleiros do Amor, esboço para romance

7 - Tzvetan Todorov, in The Fantastic: A Structural Approach to a Literary Genre

publicado postumamente em 1996.

(Cornell University Press, 1975, pp 136-137). O excerto fala sobre La Morte Amoureuse de Théophile Gautier (1836).

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resentation: myths, legends, folk and fairy tales, utopian allegories, dream visions, surrealist texts, science fiction, horror stories, all presenting realms ‘other’ than the human. A characteristic most frequently associated with literary fantasy has been its obdurate refusal of prevailing definitions of the ‘real’ or ‘possible’, a refusal amounting at times to violent opposition. (…) Such violation of dominant assumptions threatens to subvert (overturn, upset, undermine) rules and conventions taken to be normative. This is not in itself a socially subversive activity: it would naïve to equate fantasy with either anarchic or revolutionary politics. It does, however, disturb ‘rules’ of artistic representation and literature’s reproduction of the real.8

e oitenta e cinco para ser rigoroso) que dominaram as artes e a cultura portuguesas – é ingénuo pensar que este legado não deixou sequelas. Em 1539 Carlos V conseguiu a licença do Papa Paulo III para os Teólogos de Lovaina elaborarem um índice de livros a proibir. A primeira lista de livros portugueses proibidos foi publicada em 1547, mas seguiram-se mais duas em 1551 e 1561. O terceiro índice expurgatório é o mais completo, incluindo diversas instruções contra a compra, venda, troca e conservação dos títulos proibidos. Os visitantes vindos do estrangeiro estavam obrigados a mostrar os seus livros a um representante da Inquisição, e aqueles que herdavam bibliotecas familiares só poderiam usufruir delas após rígida inspecção. Os autores estavam classificados em três categorias: os de 1ª, aqueles cujas obras eram sumariamente rejeitadas; os de 2ª, aqueles que apenas seriam censurados em determinadas partes; e os de 3ª, os anónimos. Este terceiro índice foi organizado por Frei Bartolomeu Ferreira, censor de Camões em Os Lusíadas, e colocava de sobreaviso os leitores contra toda a literatura de ficção onde existissem referências ao amor e aos preceitos do clero. Proibia, inclusive, o livro Utopia do canonizado Thomas More. Será uma iniciativa calamitosa para a cultura renascentista portuguesa: entre os perseguidos pela Inquisição estiveram o humanista Jorge Ferreira de Vasconcelos, o cronista João de Barros (autor da primeira gramática europeia que há referência) e o escritor Bernardim Ribeiro. Gil Vicente foi perseguido e censurado pelas denúncias constantes que fez às desigualdades sociais, mas também os poetas Chiado, amigo íntimo de Camões, e Sá de Miranda (o pai do soneto português). Note-se que a Inquisição Portuguesa pecava por ser mais papista que o Papa, pois se em Espanha Don Quijote de La Mancha de Miguel de Cervantes circulava à vontade, e era um sucesso, encontrava-se proibido em Portugal. Livros considerados heréticos, na esteira de Lutero e Calvino, e livros que mencionassem artes mágicas, como a astrologia e a adivinhação, não passavam no exame censório. Por conseguinte, podemos imaginar que a literatura fantástica realizada no período em que a Inquisição manteve o poder

O texto prossegue com ênfase neste distúrbio da forma de representar artisticamente o mundo.

A morte é o meu ofício «Nem os mortos escapam.» Pregão popular português (séc. XVII?) sobre o costume que os oficiais da Inquisição tinham de desenterrar os indivíduos que eram condenados já cadáveres para os enforcar ou imolar.

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om uma lista de crimes a punir onde figuravam práticas como a «sodomia», o «erotismo» e a «concupiscência»9 é flagrante que a Inquisição, implantada em Portugal por D. João III, coagido pelo cunhado Carlos V, em 1536, era uma fervorosa inimiga dos prazeres da carne (foi transfigurada em Conselho Geral do Santo Ofício trinta e três anos depois). Contudo, também foi adversária do espírito já que perseguiu a burguesia intelectual portuguesa desde o século XVI até ao século XVIII: foram quase trezentos anos de violento jugo teocrático (duzentos 8 - Rosemary Jackson, in Fantasy: The Literature of Subversion (Routledge, 1981, pp 13-14). 9 - In Judeus, Cristãos-Novos e a Inquisição de S. Alexandre (Prefácio, 2002, p 89). Ver também a obra em três volumes de Alexandre Herculano, História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (Edições Europa-América).

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Esta observância subtil, mas terrível, seria capaz de derrubar os alicerces de qualquer crente que viesse a ser influenciado pela leitura ou pelo simples contacto com os livros. Com efeito é inegável que a literatura fantástica se lavrou em território herético: nos países de expressão anglo-saxónica, e na Escandinávia, regidos por outras instituições que não a igreja católica apostólica romana. É extraordinário que em nenhumas das fontes que consultei sobre literatura fantástica esse facto seja sequer aflorado; o que não é de estranhar já que a maioria dos títulos ensaísticos que fazem parte da minha biblioteca são escritos por autores de expressão inglesa aos quais o conceito é alienígena. Faz falta uma obra que se dedique, de um modo empenhado, ao estudo da literatura fantástica portuguesa – ou à escassez dela –, mas, a escrever-se, acredito que a solução do enigma tem, necessariamente, de passar por aqui: pela repressão religiosa operada pela Inquisição durante quase trezentos anos sobre o tecido cultural do país, extinguindo quaisquer hipótese do género fantástico crescer e difundir-se pelos nossos antepassados leitores. Sintetizando: o Fantástico é, por excelência, uma literatura de subversão porque faz imaginar, logo foi alvo preferencial da ordem teológica inaugurada pela Inquisição. Tal como em Portugal, também em outros países onde a cultura conheceu, e ainda conhece, uma forte influência religiosa não existe uma tradição literária devotada ao género fantástico.

de purgar obras e autores não conheceu qualquer difusão junto dos leitores em potência. Lembrem-se que os mestres das Escolas dos Mistérios, e outros guardiães das doutrinas herméticas tiveram de encontrar outras formas de passar os ensinamentos uns aos outros, e ao público, como disfarçá-los de contos e lenga-lengas infantis, para fugir aos excessos de zelo dos inquisidores. Só depois da extinção do Conselho Geral do Santo Ofício, em 1821 – já em pleno século XIX! –, é que a literatura fantástica conseguiu, finalmente, penetrar no nosso país – e timidamente: Quanto a autores, não os encontramos na nossa literatura de terror com individualidade e decididamente negros. Podemos, no entanto, destacar alguns, em cuja obra, avaliada em conjunto, é possível encontrar uma linha de influência constante dos objectivos, géneros e processos da escola. Além de Herculano, Rebelo da Silva, Camilo e Arnaldo Gama, há que mencionar Pereira da Cunha, Correia de Lacerda, Serpa Pimentel, Costa e Silva e Antónia Pusich. Daqueles que se restringiram praticamente a um género, temos, antes de todos, Mendes Leal Júnior, no teatro, e ainda Alfredo Hogan e Aires Pinto de Sousa, na novelística. As várias tendências literárias modernas, que se podem classificar de negras, não encontraram cultores em Portugal. 10 O Fantástico, enquanto literatura de subversão, enquanto modelo herético de representação do mundo, afigurou-se perigoso para a ordem eclesiástica à guarida da Inquisição: se o mundo plasmado nos romances de literatura fantástica era caótico, selvagem, sem redenção ulterior, então Deus não assegurava a ordem natural das coisas – talvez até nem sequer existisse!... No modelo idealista do mundo as más intenções, aquelas que vão contra Deus, estão condenadas ao fracasso. Contudo, os cultores do género fantástico não só pareciam divertir-se com as obras como não eram castigados pela Providência.

Fahrenheit 451 Our biggest mistake was teaching them to read. We won’t do that anymore. Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale.

O

intervalo entre o término do regime teocrático da Inquisição e a instauração do regime teocrático do Estado Novo, em 1933, durou pouco mais de cem anos, tempo insuficiente para mudar o paradigma de profundo analfabetismo no qual o país se imergia. Até às vésperas da extinção do apa-

10 - Maria Leonor Machado de Sousa, in A Literatura “Negra” ou de Terror em Portugal: Séculos XVIII e XIX (Editorial Minerva, 1978, p 286).

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relho inquisitório publicaram-se em Portugal, em média anual, cerca de cem edições. Em França, em 1818, imprimiram-se 4917 livros e brochuras, mais do dobro do que Portugal publicou em vinte anos. À entrada do século XX a situação geral era a de analfabetismo: saber ler e escrever era uma excepção entre a população rural e, mesmo nas cidades, somente uma quarta parte dos homens havia frequentado algum grau de ensino.11 Em plena Inglaterra vitoriana já as mulheres liam e manifestavam opiniões; pouco depois, a partir de 1918, era-lhes reconhecido o direito de voto. Em Portugal isso só chegaria treze anos mais tarde. Portugal sempre fora um país hostil ao desenvolvimento literário e os cem anos que duraram entre o fim da Inquisição e o início da ditadura de Salazar não foram suficientes para colmatar essa lacuna. Entre 1911 e 1919, durante a Primeira República, o aparelho de Estado tomou várias medidas contra o analfabetismo criando os primeiros ensinos oficiais Pré-Primário e Primário Geral gratuitos. Criou as Escolas Normais de Lisboa e do Porto, a Faculdade de Direito de Lisboa, a Faculdade de Letras de Coimbra e do Porto e muitas escolas superiores que viriam a constituir as Universidades de Lisboa e Porto. As iniciativas de divulgação cultural e alfabetização foram exemplares: as Escolas Móveis, as conferências e os cursos nas províncias mais as bibliotecas itinerantes; estabeleceu-se a leitura pública de jornais em diversas aldeias. Contudo, logo a partir de 1926, com o início da ditadura militar do general Gomes da Costa, e o decreto-lei que instaurou a censura, o percurso foi interrompido. Como escreve Luiza Cortesão:

mente teocrática, e quase imediatamente, nós não fomos capazes de criar, e sustentar, uma cultura literária saudável. Através de uma propaganda muitíssimo bem desenhada, o regime do Estado Novo soube, de geração para geração, fomentar a ideia que o conhecimento, o progresso científico e a imaginação eram ferramentas luxuosas que não serviam o bom patriota, disposto a sacrificar-se pela nação. E digo: este povo, para o que sente, já sabe demais. Intensifique-se a educação religiosa; proteja-se a instituição doméstica; olhe-se a sério pelo estado dos costumes deste povo – forme-se o carácter conveniente e, depois, voltamos à Instrução. O Padre Cruz faz mais, num dia, pelo bem de Portugal, do que os mestres primários todos juntos num ano. Ele não ensina a ler e a escrever: educa almas; arranca corações à perversidade – e quem sabe quantos lá foram lançados pela acção do A B C!13 Será a única inteligência valiosa, considerável e útil à sociedade a que se revela na aptidão para as ciências e para as letras? (…) Uma criança inteligente filha de um operário hábil e hoesto pode, na profissão de seu pai, vir a ser um trabalhador exímio, progressivo e apreciado, pode chegar a fazer parte do escol da sua profissão, e assim deve ser. Na mecânica da escola única, seleccionado pelo professor primário para estudar ciências para as quais o seu espírito não tem a mesma preparação hereditária que tem para o ofício, não passará nunca de um medíocre intelectual, quando muito um homem sábio mas incapaz de singrar na vida nova que lhe indicaram sem o ouvir. (…) Não é difícil de notar que há geralmente nas famílias uma ascensão da inteligência prática e recolhida até ao talento fecundo e brilhante. As ideias, as noções, as experiências vão-se elaborando através umas

Não se pode deixar de melancolicamente reflectir sobre o que hoje seria o nosso povo se esta acção tivesse prosseguido.12 Saindo de uma censura para outra, igual11 - In Diário da História de Portugal de José Hermano Saraiva e Maria Luísa Guerra (Selecções do Reader’s Digest, 1998, p 363). A acompanhar o texto encontra-se uma tabela muito completa com o número total de edições, reedições e traduções de obras estrangeiras realizadas nesse período.

13 - Alfredo Pimenta, in Escola, Sociedade: Que Relação? (Edições Afrontamento,

12 - In Escola, Sociedade: Que Relação? (Edições Afrontamento, 1988, p 18).

1988, p 209).

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do pela imaginação, pela fantasia. A paupérrima difusão de conhecimento científico, em desproporção à propaganda religiosa, contribuiu, de certeza, para que surgissem pouquíssimos autores portugueses de Ficção Científica, e ainda menos leitores. Se um género se faz com autores, e editores, é verdade que também se faz de leitores: num país de gente que não lê, onde o analfabetismo foi fomentado pelas classes dirigentes, como mecanismo de controlo e hegemonia, sendo ainda observado com desconfiança pelas outras, é natural que não se verifiquem condições semelhantes às presentes nos países culturalmente mais ricos. Condições convenientes à saúde do tecido cultural. É que nós, se calhar, ainda não aprendemos a sonhar.

poucas de gerações até florir, em determinada altura, na pessoa de um dos membros da linhagem. (…) A gestação duma inteligência superior é trabalho de muitos anos, de séculos até. Resume-se nela toda a experiência de uma família, concentra-se então tudo quanto através das idades naquela linha de sucessão se foi acumulando no sub-consciente.14 Durante quase meio século (de Maio de 1926 a Abril de 1974) a maioria dos artistas e escritores portugueses sentiram-se refreados, conscientes que a mais simples frase os poderia levar a confrontos indesejáveis com os censores: Nessa única conversa que tive com um censor, ele trouxe-me um exemplar, censurado, com o célebre lápis azul da censura – exemplar que eu tenho em meu poder –, daquele meu livro Histórias de Amor, onde verifiquei que eles cortaram, logo a abrir, a palavra «nu», numa frase que começa assim: «estava nu em cima da cama…». Bastou-me ver isto para perceber que havia ali um propósito de queimar tudo e mais alguma coisa (…) Aliás, a simples referência ao Éluard e ao Pessoa (ao Fernando Pessoa, imagine-se só!), foram simplesmente abaixo.15

Notas finais

E

ste ensaio concentrou-se, em exclusivo, na abordagem das causas da ausência de uma tradição de literatura fantástica escrita em português. Não quis falar sobre a produção de literatura fantástica existente porque esse é um tema que merece uma reflexão individual. Contudo, na minha opinião, a literatura fantástica portuguesa recebeu uma injecção de vitalidade nos últimos quatro anos com o surgimento de novas editoras sensíveis ao género como a Saída de Emergência, a Livros de Areia e a Chimpanzé Intelectual. Apareceram novas colecções que publicam regularmente clássicos da literatura fantástica como a colecção A Biblioteca de Babel da Editorial Presença; mais as incursões da Cavalo de Ferro no Fantástico e no Realismo Mágico de vários países e tradições. A Ficção Científica, infelizmente, é o género que menos marca presença nas nossas livrarias, tanto na produção original como nas traduções de livros estrangeiros. Todavia, o problema não é tanto a falta de edições relacionadas com o Fantástico, mas a falta de um verdadeiro discurso crítico que pense sobre os livros e os apresente aos leitores. A haver um veículo de crítica rigorosa, e generosa, sobre o género Fantástico, ele terá de ser pensado e realizado de “dentro para fora”. BANG!

Não só as menções ao regime de Salazar, ao comunismo e à condição feminina foram censuradas. Tudo o que consistisse em laivos de laicismo e ataques à religião católica foi abafado; e também obras de ficção fantástica; como é exemplo Les Paradis Artificiels de Charles Baudelaire e outros autores contemporâneos. Existe um despacho que proíbe a publicação de um livro intitulado Contos de Terror, de vários autores do cânone e traduzido por José Vilhena16: a religião tratava de preencher o lugar vaga14 - Marcelo Caetano, in Escola, Sociedade: Que Relação? (Edições Afrontamento, 1988, pp 204-205). 15 - José Cardoso Pires, in A Censura de Salazar e Marcelo Caetano de Cândido de Azevedo (Editorial Caminho, 1999, pp 103-104). Outros dois tomos que iluminam esta questão da censura com documentação da época são Mutiladas e Proibidas de Cândido de Azevedo e Os Segredos da Censura de César Príncipe, ambos da Editorial Caminho (1997 e 1979, respectivamente). 16 - Os Segredos da Censura de César Príncipe (Editorial Caminho, 1979, p 122).

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A Conspiração dos Antepassados David Soares

David Soares começou a publicar pela Círculo de Abuso dando à estampa quatro álbuns de banda desenhada: “Cidade-Túmulo” (2000), “Mr. Burroughs” (2000; com desenhos de Pedro Nora e publicado em língua francesa pela editora Frémok em 2003), “Sammahel” (2001) e “A Última Grande Sala de Cinema” (2003; premiado com uma bolsa de criação literária atribuída pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas). Autor premiado com dois troféus para “Melhor Argumentista Nacional” pelo Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora e pelo site “Central Comics”. Publicou, pela Círculo de Abuso, o livro de contos “Mostra-me a Tua Espinha” (2001) e o ensaio sobre banda desenhada “Sobre BD” (2004): apontado pela crítica especializada como uma das obras mais importantes sobre 9ª arte publicada em português. Publicou os livros de contos “As Trevas Fantásticas” (Polvo, 2005) e os “Os Ossos do Arco-Íris” (Saída de Emergência, 2006), colaborando ainda em várias antologias como “A Sombra Sobre Lisboa” (Saída de Emergência, 2006) e “Ficções Científicas & Fantásticas” (Chimpanzé Intelectual, 2007), e o livro “O Homem Que Desenhava na Cabeça dos Outros”, de Pedro Zamith (Oficina do Livro, 2004). “A Conspiração dos Antepassados” é o seu primeiro romance: uma história sobre o encontro entre o poeta Fernando Pessoa e o mago Aleister Crowley, na qual se entretecem a história, a lenda e a magia. Colabora regularmente com um número variado de publicações e sites, com artigos, ensaios e prefácios e escreve diariamente no weblog “O Sonho de Newton”. BANG!

Um thriller envolto na História de Portugal e com Fernando Pessoa como personagem principal. Na tradição dos melhores thrillers, David Soares convida-nos a espreitar debaixo do véu e a vislumbrar a mais assustadora conspiração da História: um livro assinado por Francisco d’Ollanda, o maior artista português do Renascimento, é cobiçado por uma seita disposta a tudo para o obter. Que terrível segredo terá nas suas páginas para justificar tanto sangue? Fernando Pessoa, o ilustre poeta português, é convidado por Aleister Crowley, o mágico inglês, a entrar numa aventura cheia de mistério, acção e suspense para descobrir esse segredo que, afinal, talvez tenha a ver com D. Sebastião, e a verdadeira razão porque os portugueses foram derrotados em Alcácer-Quibir. Do exotismo da Tunísia às ruelas húmidas de Londres, das mandíbulas da Boca do Inferno ao coração da Quinta da Regaleira, A Conspiração dos Antepassados é uma viagem inesquecível. Misturando verdade, lenda e magia, David Soares apresenta-nos algo nunca visto na literatura portuguesa: um romance cuja meticulosa pesquisa vai agradar aos estudiosos de Fernando Pessoa, e cuja energia e emoção vai encantar os fãs de uma grande aventura. “Este é um livro que se lê de um fôlego, um page turner de leitura compulsiva [...]um espantoso e magnificente exemplar de “história oculta” pincelada de ficção fantástica de grande mestria. -António de Macedo, escritor e cineasta “Fiquei encantado com A Conspiração dos Antepassados [...] trata-se de um dos melhores romances portugueses publicado nos últimos tempos e, se a minha inteligência. mas sobretudo a minha intuição me não enganam, temos em David Soares um autor que irá fazer parte do cânone literário. -José Manuel Lopes Saida de Emergência / 2007 ISBN: 9789896370091 Preço: 18.85€ Na página da editora: 16.96€ 22


[ficção]

A Novela da Chancela Negra

[tradução de José Manuel Lopes]

Arthur Machen «Tudo lhe deve ter parecido fantasioso e visionário, como um sonho matinal após um despertar.» RELATADA POR UMA SENHORA EM LEICESTER SQUARE

discrição. O seu modo de falar leva-me a confiar em si, e o título desse trabalho, que acabou de mencionar, assegura-me que não é apenas um coleccionador de banalidades vazias. Numa palavra, creio que posso contar consigo. Acredito que deverá estar a pensar que o Professor Gregg morreu. Não tenho razões, contudo, para pensar que seja esse o caso. — O quê? — vociferou Phillipps, atónito e perturbado. — Acha então que não houve qualquer tragédia? Mal posso acreditar… Gregg era um homem de carácter impoluto, a sua vida privada apenas indicava uma aberta benevolência e, embora eu próprio não seja dado a ilusões, acredito que ele foi um cristão devoto e sincero. Decerto, não irá querer insinuar que algum acontecimento menos honesto o forçou a abandonar o país? — Uma vez mais, está a ser um pouco apressado — observou a senhora. — Não foi nada disso que eu disse. Porém, para resumir, devo dizer-lhe que o Professor Gregg saiu numa manhã de casa, de plena saúde física e mental. Nunca mais voltou, mas o relógio dele e a corrente, uma bolsa em que tinha alguns soberanos em ouro e outras moedas, tal como um anel que ele usava sempre, foram encontrados três dias mais tarde na encosta agreste e remota de uma colina, a muitas milhas do rio. Esses artigos foram descobertos junto a um rochedo calcário de aspecto fantástico. Tinham sido embrulhados numa espécie de pergaminho e atados com um fio de tripa seca. Abriram esse embrulho, e no lado de dentro des-

Prólogo

—V

ejo que é um racionalista inveterado — disse a senhora. — Não me ouviu dizer que tive experiências ainda mais terríveis? Também fui céptica em tempos, mas, após tudo o que conheci, já não poderei pretender estar cheia de dúvidas. — Minha senhora — retorquiu Phillipps, — ninguém me fará negar a minha fé. Nunca irei acreditar, nem pretenderei acreditar, que dois e dois são cinco, nem hei-de, sob quaisquer pretensões, admitir a existência de um triângulo com dois lados. — Está a ser um pouco apressado — observou a senhora. — Mas será que lhe posso perguntar se já alguma vez ouviu falar no Professor Gregg, nessa autoridade no campo da etnologia e assuntos afins? — Muito mais do que meramente ouvir falar do Professor Gregg… — disse Phillipps. — Sempre acreditei que ele era um dos nossos observadores mais inteligentes e esclarecidos, e a sua publicação mais recente, Manual de Etnologia, pareceu-me em tudo admirável no seu género. De facto, o livro mal tinha chegado às minhas mãos quando fui informado acerca do acidente que acabou por lhe abreviar a carreira. Ele tinha, creio eu, arrendado uma casa de campo, durante o Verão, no Oeste de Inglaterra, e dizem que caiu a um rio. Mas, tanto quanto pude apurar, o seu corpo nunca foi encontrado. — Caro senhor, conto sem dúvida com a sua 23


se pergaminho havia uma inscrição feita com uma substância vermelha. Esses caracteres eram indecifráveis, mas assemelhavam-se a uma corruptela da escrita cuneiforme. — Acredite que acho tudo isso imensamente interessante — disse Phillipps. — Não se importa de prosseguir? A circunstância que acabou de mencionar parece-me bastante inexplicável e estou ansioso para que me possa elucidar. A jovem senhora pareceu meditar por momentos, e então começou a contar a…

-os ao meu irmão, sabendo como ele os iria apreciar. Estava completamente sozinha, consciente do parco ordenado daquele que era o meu único familiar, e, embora tivesse vindo até Londres à procura de emprego, pensando que assim poderia remediar as despesas, jurei que o faria apenas por um mês, e que, se durante esse tempo não pudesse arranjar um emprego, preferiria passar fome do que importuná-lo, pedindo-lhe as poucas libras que ele pusera de parte para dias mais difíceis. Aluguei um modesto quarto num subúrbio distante, o mais barato que consegui encontrar. Vivia à base de pão e de chá, e passava o meu tempo em vão a responder a anúncios, e em idas frustradas até locais onde me pudessem contratar. Dia após dia, semana após semana, não conseguia arranjar nada, até que por fim o prazo que eu dera a mim mesma se começava a esgotar, deixando-me condenada à deprimente hipótese de morrer de fome. A minha senhoria era, de certo modo, uma pessoa bem intencionada, estava a par da óbvia escassez dos meus meios, e estou certa de que nunca me iria pôr na rua. Eu é que me deveria ir embora, para tentar morrer discretamente. Estávamos então no Inverno, e um nevoeiro espesso e branco surgia, logo ao princípio da tarde, tornando-se mais denso à medida que o dia ia passando. Era um domingo, ainda me lembro, e as pessoas de casa tinham ido à missa. Por volta das três da tarde saí, e comecei a andar o mais rapidamente que podia, ainda que me sentisse fraca por nada ter comido. Essa névoa branca envolvia todas as ruas num profundo silêncio, uma camada gelada cobria os ramos das árvores, e cristais de gelo brilhavam nas cercas de madeira dos jardins e pelo chão, nesse chão cruel por baixo dos meus passos. Eu continuava a andar, voltando à esquerda e à direita, sem saber bem o que fazia, nem me importar sequer com o nome das ruas, e, tudo de que me consigo lembrar dessa tarde de domingo me parece agora fragmentos soltos de um pesadelo. Com uma visão confusa, seguia o meu caminho, através de ruas meio citadinas e meio rurais, com áreas cinzentas que se esbatiam, do meu lado, nesse mundo nublado de penumbra; enquanto, no lado oposto da rua, via vivendas confortáveis onde se vislumbrava o clarão de lareiras iluminando as paredes… mas tudo

Novela da Chancela Negra Terei agora de lhe fornecer alguns pormenores acerca da minha história. Sou filha de um engenheiro civil chamado Steven Lally, que teve a infelicidade de morrer no início da sua carreira, antes de ter assegurado os meios de subsistência para a mulher e para os seus dois filhos. A minha mãe conseguia gerir a nossa pequena casa com um pecúlio que deve ter sido incrivelmente reduzido. Vivíamos numa aldeia remota, porque a maior parte das coisas de que necessitávamos eram aí mais baratas do que na cidade, mas, mesmo assim, fomos criados com o mais severo dos orçamentos. O meu pai era um homem inteligente e dado à leitura, deixando-nos uma pequena mas bem seleccionada série de livros, que continha os melhores clássicos gregos, latinos e ingleses. Esses livros eram o nosso único divertimento. O meu irmão, tanto quanto posso recordar, aprendeu latim a ler as Meditationes de Descartes, e eu, em vez dos pequenos contos que as crianças geralmente lêem, não encontrei nada mais fascinante do que uma tradução da Gesta Romanorum. Assim fomos crescendo, como crianças pacatas e estudiosas e, com o passar dos tempos, o meu irmão conseguiu ganhar a sua vida, tal como lhe disse. Continuei a viver em casa. A minha pobre mãe era então uma inválida, exigindo quase toda a atenção que eu pudesse dar, e, há cerca de dois anos faleceu, após meses de uma doença dolorosa. A minha situação não poderia ter ficado pior. A velha mobília mal dava para pagar as dívidas, de modo que tive de procurar um emprego. Os livros enviei24


de uma forma irreal… Muros de adobe vermelho e janelas luminosas, vagas árvores e todo esse espaço que mal podia distinguir, candeeiros a gás ante os quais sombras brancas se esbatiam, a perspectiva de linhas de eléctrico sob as plataformas de estações um pouco mais acima, o verde e o vermelho dos semáforos, tudo isso não passava de imagens momentâneas, adormecidas no meu cérebro cansado pela fome que então sentia. Uma vez por outra, ouvia um som de passos sobre a linha-férrea, e havia homens que se cruzavam comigo, bem agasalhados, a estugarem o passo para não arrefecerem e, sem dúvida, a anteciparem já os prazeres de um bom fogão de sala, onde haveria cortinas bem corridas sobre vidraças cobertas de gelo, e boas-vindas por parte dos amigos. Porém, à medida que a tarde ia escurecendo e a noite se aproximava, havia cada vez menos pessoas no exterior, e eu passava por rua após rua sem ver ninguém. Caminhava nesse silêncio branco, como se percorresse os caminhos de uma cidade sepultada, e, à medida que ia ficando mais fraca e fatigada, o meu coração enchia-se de medo da morte. De súbito, ao dobrar uma esquina, alguém se aproximou de mim sob a luz de um candeeiro, e ouvi uma voz a perguntar-me se eu não me importava de lhe indicar o caminho para a Avon Road. Chocada por esse rumor de voz humana, senti-me a desfalecer, como se todas as minhas forças me abandonassem. Caí enrolada no passeio a soluçar e a rir numa acesa histeria. Saíra preparada para morrer e, depois de atravessar a soleira da casa em que residia, tinha abandonado já todas as minhas esperanças e recordações. A porta ribombou então por trás de mim como um trovão, e eu senti que uma cortina de ferro acabara de descer sobre a minha vida e que, daí em diante, teria de continuar a caminhar num mundo de tristeza e de sombras. Entrara no palco do primeiro acto da morte. Depois veio a minha errância pela neblina, essa brancura que tudo envolvia, as ruas vazias, o silêncio abafado, de modo que, quando essa voz me falou, era como se eu já tivesse morrido e voltasse à vida. Em breves minutos, consegui dominar os meus sentimentos e, ao levantar-me, vi que estava diante de um homem de meia-idade, com boa aparência e impecavelmente vestido. Este olhou para mim com

um ar de comiseração estampado no rosto, mas antes que eu lhe pudesse balbuciar a minha completa ignorância acerca dessa zona, pois não fazia a mínima ideia onde me encontrava, ele falou: — Minha cara senhora, parece estar muito afligida. Nem imagina como me assustou. Será que lhe poderei perguntar a causa dos seus tormentos? Asseguro-lhe que poderá confiar em mim. — É muito simpático da sua parte — disse eu. — Mas receio que já não haja mais nada a fazer. Encontro-me num verdadeiro beco sem saída. — Não diga uma coisa dessas! É ainda muito nova para poder falar assim. Venha, andemos mais um pouco, e fale-me das suas dificuldades. Talvez eu a possa ajudar. Havia algo de muito calmo e persuasivo nos seus modos e, enquanto íamos andando, resumi-lhe a minha história e contei-lhe o desespero que quase me oprimira até à morte. — Não foi uma boa ideia ter desistido desse modo… — observou ele, quando me calei. — Um mês é um espaço muito curto para nos podermos orientar em Londres. Esta cidade, deixe-me que lhe diga, Miss Lally, não é um espaço aberto e sem defesas, é antes um lugar fortificado, com um fosso e muralhas duplas cheias de intrincadas curiosidades. Tal como tem acontecido nas grandes urbes, as condições de vida tornaram-se extremamente artificiais. Não existe, contudo, nenhuma paliçada que possa impedir um homem ou uma mulher de conquistar esta cidade, mas linhas cerradas de uma invenção subtil, minas e buracos que requerem uma estranha habilidade para que os possamos ultrapassar. A menina, na sua simplicidade, pensava talvez que lhe bastaria gritar, para que todas essas muralhas se desfizessem em fumo, mas já vai longe o tempo para tais vitórias. Não perca a coragem, em breve irá aprender os segredos do sucesso. — Infelizmente, caro senhor — respondi eu, — não duvido que as suas conclusões possam estar correctas, mas, presentemente, creio estar mesmo a morrer de fome. Falou-me de um segredo… por amor de Deus, diga-mo já, se é que sente alguma pena por este meu estado de desespero. Ele riu-se, de um modo sincero. — É aí que re25


side a estranheza de tudo isso. Aqueles que conhecem o segredo não lho poderiam revelar, mesmo que quisessem. Trata-se, sem sombra de dúvida, de algo tão inefável como a doutrina central da FrancoMaçonaria. Mas uma coisa lhe poderei dizer: que a menina penetrou, pelo menos, a pele mais superficial desse mistério. — E voltou a rir-se. — Por favor. Não brinque comigo — disse eu. — Que fiz afinal, que sais-je? Sou de tal modo ignorante que nem sei sequer de onde irá vir a minha próxima refeição. — Desculpe. Está a perguntar-me o que fez? Encontrou-me! Vamos, deixemo-nos de rodeios. Já vi que é uma autodidacta, o que não é assim tão terrível, e eu preciso de uma preceptora para os meus dois filhos. Sou viúvo há alguns anos, chamo-me Gregg. Estou a oferecer-lhe o emprego que mencionei, e digamos que… um salário de cem libras por ano? Mal lhe pude articular os meus agradecimentos e, ao colocar-me nas mãos um cartão com a sua morada e uma nota de banco, o Sr. Gregg despediu-se de mim, pedindo-me para o ir visitar dentro de um ou dois dias. Foi assim que conheci o Professor Gregg, e não lhe será difícil adivinhar que a memória dessa tempestade fria, que quase me pusera às portas da morte, fez com que eu passasse a vê-lo como um segundo pai. Antes do final dessa semana, já eu tinha iniciado as minhas tarefas. O professor arrendara uma velha mansão de adobe vermelho, num subúrbio do Oeste de Londres, e foi aí, rodeada de agradáveis relvados e pomares, por entre o calmo murmurar de velhos ulmeiros cujos ramos se balanceavam sobre o telhado, que se iniciou um novo capítulo da minha vida. Conhecendo, tal como é o caso, a ocupação do professor, não o irá surpreender o facto de a casa estar repleta de livros por toda a parte, e de armários cheios de estranhos objectos, hediondos até, que ocupavam todos os recantos nas enormes divisões do andar térreo. Gregg era um homem que apenas se entregava ao conhecimento, e eu, antes que me tivesse apercebido, sentia-me já contagiada pelo seu entusiasmo, ambicionando penetrar no espaço das suas apaixonadas pesquisas. Após alguns meses, era já mais sua

secretária do que a simples governanta encarregada dos seus dois filhos e, durante muitas noites, sentei-me a uma escrivaninha, sob o quebra-luz de um candeeiro, enquanto ele, a andar de um lado para o outro, por entre as sombras diante da lareira, me ia ditando as partes mais importantes do seu Manual de Etnologia. Contudo, por detrás desses estudos mais exactos e concretos, sempre detectei que algo se escondia, a nostalgia e o desejo por um objecto ao qual ele nunca aludira e, uma vez por outra, chegava a interromper o que me estava a ditar, para se entregar ao devaneio, fascinado, segundo me parecia, pela distante hipótese de uma aventurosa descoberta. Por fim, completou esse manual e começámos a receber provas da tipografia, que me eram confiadas para uma primeira leitura, antes de serem submetidas à revisão final do professor. Entretanto, o seu cansaço em relação ao assunto em que presentemente estava mergulhado ia aumentando, e foi com o entusiasmo de um aluno num final de semestre que ele um dia me estendeu um exemplar do livro. — Ora aqui está — disse ele. — Mantive a minha palavra. Prometi escrevê-lo e ei-lo aqui. Agora já terei a liberdade de poder viver para me dedicar a coisas mais estranhas. Confesso-lhe, Miss Lally, que invejo o renome de Colombo, e creia que ainda me há-de ver, pelo menos assim o espero, no papel de um explorador. — Mas há muito pouca coisa para ser explorada — disse-lhe eu. — Creio que nasceu alguns séculos tarde demais, para se entregar a uma aventura dessas. — Receio bem que… esteja enganada — respondeu ele, — ainda existem, não tenha a menor dúvida, pequenas regiões por descobrir, e até continentes de uma inusitada extensão. Ah, Miss Lally, acredite no que lhe digo! Vivemos no meio de símbolos sagrados e de mistérios espantosos, e nem sequer temos a noção do que poderemos vir a ser. A vida, pode acreditar, não é uma coisa simples, não é apenas uma massa de matéria cinzenta e um amontoado de veias e de músculos, que poderão ser expostos com o auxílio de um bisturi cirúrgico. O homem é o segredo que eu estou em vias de explorar, e, antes mesmo de o poder descobrir, terei de atravessar ma26


res verdadeiramente encapelados, e oceanos e brumas com vários milhares de anos. Deverá conhecer o mito da perdida Atlântida… E se este for verdade e eu tiver sido escolhido para ser o descobridor dessa terra fantástica? Apercebia-me de que uma grande excitação parecia ferver sob as suas palavras e, no seu rosto, via estampada a ânsia de um caçador. Ante mim estava um homem que acreditava ter sido chamado para travar combates com o desconhecido. Uma onda de alegria invadiu-me, quando me dei conta de que estaria, de certo modo, associada a ele nessa aventura, e também eu me sentia imensamente entusiasmada com a perspectiva de tais investigações, não tendo sequer parado para considerar o facto de desconhecer totalmente o que iríamos pôr a descoberto. Na manhã seguinte, o Professor Gregg levou-me até à parte mais recôndita do seu escritório, onde, alinhada contra a parede, havia uma série de pequenas gavetas, todas muito bem etiquetadas, que eram o resultado de anos de trabalho, classificado através dessa extensão relativamente pequena. — Aqui, está a minha vida — disse ele. — Aqui, estão todos os factos que consegui reunir à custa de tantos esforços, e contudo, tudo isto é coisa nenhuma. Quero dizer, nada que possa ser comparado com o que irei tentar alcançar. Veja… — e conduziu-me até uma velha escrivaninha, uma incrível peça de mobiliário, já um pouco gasta, que existia a um canto dessa divisão. Ele rodou então a chave na fechadura e abriu uma das gavetas. — Alguns pedaços de papel — continuou ele, apontando para essa mesma gaveta — e um pedaço de pedra preta, rudemente talhada com umas quantas marcas estranhas e alguns riscos. É tudo o que esta gaveta contém. Aqui, poderá ver um envelope com um carimbo vermelho de há já vinte anos, mas eu anotei a lápis umas quantas linhas, no espaço reservado ao remetente, e aqui poderá observar alguns recortes de uns quantos jornais locais pouco conhecidos. Se me perguntar qual o tema desta colecção, não lhe irá parecer nada de extraordinário: uma criada de quinta que desapareceu e nunca mais foi vista; uma criança que teria escorregado junto a umas velhas ruínas, na montanha; alguns escritos

indecifráveis num pedaço de pedra calcária; um homem assassinado com o golpe de uma arma desconhecida. É este o rasto que terei de investigar. Sim, tal como a menina disse, poderá haver uma explicação absolutamente plausível para tudo isto. A rapariga poderia ter fugido para Londres, para Liverpool, ou para Nova Iorque; a criança poderá jazer no fundo de uma mina abandonada; e as letras gravadas nessa pedra talvez não sejam mais do que o extravagante passatempo de um vagabundo. Sim, sim, admito tudo isso, mas sei que possuo a verdadeira chave. Veja! — e pegou então num papel amarelado. Caracteres inscritos numa pedra calcária, encontrada nas Grey Hills, li eu, e em seguida reparei que havia uma palavra que tinha sido apagada (talvez o nome de um condado), e uma data de há quinze anos. Por baixo via uma série de esquisitíssimos caracteres com a forma de cunhos e de punhais, tão estranhos e extravagantes como os do alfabeto hebraico. — Agora veja a chancela — disse-me o Professor Gregg, passando-me para a mão um pedaço de pedra negra, com cerca de cinco centímetros de comprimento que terminava em algo semelhante a um calcador para o tabaco que se põe nos cachimbos, mas bastante maior. Tentei observá-lo à luz, e vi, para minha grande surpresa, que essa chancela continha os mesmos caracteres que eu já tinha visto no papel. — Sim — disse o professor, — são iguais, e a inscrição nessa pedra calcária foi feita há quinze anos, com uma substância vermelha. Ora, os caracteres nessa chancela datam, pelo menos, de há quatro mil anos. Talvez sejam mesmo mais antigos… — Será que tudo isto não passará afinal de uma brincadeira? — perguntei. — Não, já tinha previsto essa hipótese. Nunca iria dedicar a minha vida a uma simples brincadeira. Tudo foi testado, com suficiente rigor. Só uma pessoa, para além de mim, tem conhecimento da existência dessa chancela. Além disso, existem outras razões que não irei abordar de momento. — Mas que quererá isto dizer? — perguntei. — Não estou a perceber a que conclusões tudo isso nos possa levar. 27


— Minha cara Miss Lally, trata-se de uma questão para a qual não pretendo encontrar resposta tão depressa. Talvez eu nunca consiga vir a dizer que segredos aqui se escondem nem que solução. Por enquanto, apenas temos umas pistas vagas, um esboço de tragédias de aldeia, algumas marcas feitas com terra avermelhada numa pedra, e uma chancela antiga. Uma série de dados bastante estranhos, meia dúzia de provas, e vinte anos passados, antes mesmo que as pudesse recolher. Quem sabe que miragem ou terra icognita se poderá esconder por detrás de tudo isto? Estou a tentar vislumbrar algo para além das águas profundas, Miss Lally, e a terra que para lá delas se esconde poderá não passar de meras brumas, apesar de tudo. Todavia, creio não ser esse o caso, e em alguns meses poderei provar se estarei ou não na pista certa. Deixou-me então… e eu, ao ver-me ali sozinha, decidi decifrar o mistério, reflectindo sobre a solução a que todas essas excêntricas peças soltas poderiam conduzir. Eu própria não sou desprovida de imaginação e tinha razões mais do que suficientes para respeitar a solidez intelectual do professor, todavia, apenas poderia ver, nos conteúdos dessa gaveta, pedaços de uma fantasia, e em vão tentava conceber que teoria se poderia basear nesses fragmentos que me tinham sido mostrados. De facto, com base em tudo o que vira e ouvira, poderia tão-só vislumbrar o primeiro capítulo de um raro enredo. E no entanto, bem no meu íntimo, ardia em curiosidade e, dia após dia, observava o rosto do Professor Gregg, tentando descobrir algum prenúncio do que iria acontecer. Foi um dia, após o jantar, que ele me comunicou subitamente: — Espero que possa fazer todos os preparativos necessários, sem grande incómodo. Partiremos dentro de uma semana. — Ah sim? — perguntei eu, muito admirada. — E para onde vamos? — Arrendei uma casa na parte Oeste de Inglaterra, não muito longe de Caermaen, uma vila sossegada, que em tempos foi uma cidade que albergava uma legião romana. É um lugar muito monótono, mas o campo é bastante agradável e o ar fresco não falta.

Detectei-lhe um certo brilho nos olhos, e adivinhei logo que essa mudança súbita estaria relacionada com a nossa conversa de alguns dias atrás. — Só irei levar uns quantos livros comigo — disse o Professor Gregg. — É tudo. O resto ficará aqui até regressarmos. Tenho umas breves férias — prosseguiu ele, sorrindo para mim, — e não irei lamentar perder algum tempo de volta das minhas velhas pedras, ossos e fragmentos sem importância. Não sei se sabe — continuou ele, — mas há cerca de trinta anos que me tenho atido apenas a factos. Já é tempo de me entregar a fantasias. Os dias passaram depressa e eu podia reparar que o professor quase tremia de uma excitação reprimida, mas mal prestei atenção à ânsia que via nos seus olhos quando deixámos para trás essa velha mansão e iniciámos a nossa viagem. Saímos no começo da tarde e foi só ao pôr do Sol que chegámos a essa pequena vila campestre. Estava cansada mas sentia um grande entusiasmo, e o passeio através desses caminhos parecia-me um sonho. Primeiro, reparei apenas nas ruas sem ninguém do que julguei ser uma aldeia, enquanto o Professor Gregg me ia falando da Legião de Augusto, de combates, e de toda a tremenda pompa que acompanhava as suas águias. Em seguida, vi um rio largo onde a maré tinha subido, reflectindo restos de um crepúsculo, ainda a chamejar nas águas amareladas; os amplos prados; os campos onde o milho já secara; e essa vereda profunda, serpenteando pelas encostas, entre as colinas e a água. Por fim, começámos a subir e eu senti o ar tornar-se mais rarefeito. Olhei para baixo e vi um nevoeiro cerrado por sobre a linha do rio, como uma mortalha, e toda uma vaga e sombria região. Imaginei, encorajada pela minha fantasia, montes descomunais e bosques suspensos, e contornos de colinas mais distantes. Lá muito ao longe, uma gigantesca fornalha ardia na montanha, à medida que pilares de chamas se iam reduzindo a um único ponto incendiado. A nossa carruagem continuava a subir, e só então reparei no hálito fresco e secreto do grande bosque por cima de nós. Era como se me sentisse flutuar nas suas mais profundas zonas, com o som da água a correr, o odor das folhas verdes e o respirar dessa noite de Verão. Finalmente, a carruagem pa28


rou, e eu mal conseguia distinguir os contornos da casa, enquanto esperava junto às colunas do alpendre. O resto dessa noite pareceu-me um sonho repleto de coisas estranhas, rodeadas pelo amplo silêncio do bosque, do vale e do rio. Na manhã seguinte, quando acordei e olhei através da janela saliente desse enorme e antiquado quarto, vi sob um céu cinzento uma região que para mim ainda era um mistério. O longo e adorável vale, onde rio serpenteava, lá muito em baixo, atravessado a meio por uma ponte medieval de arcos empedrados, uma clara presença de terras na lonjura e os bosques que apenas entrevira em sombras, na noite anterior, surgiam-me repassados de encantamento; e o movimento calmo do ar, que suspirava junto à janela entreaberta, era para mim uma brisa desconhecida. Olhei através do vale e para além deste, colina após colina, como onda após onda, e aí, uma vaga voluta de fumo azulado elevava-se lentamente no ar da manhã, desde a chaminé de uma casa cinzenta de quinta. Havia uma elevação irregular coroada de pinheiros escuros e, na distância, dei-me conta do risco branco de uma estrada que trepava para depois desaparecer numa região inimaginável. Mas o limite de tudo aquilo era a grande muralha de montanhas, que se elevava a oeste e terminava numa fortaleza de escarpas e numa grande nuvem arredondada contra o céu. Reparei no Professor Gregg, a andar de um lado para o outro no terraço por baixo das janelas, e era-me por demais evidente que se estava a deliciar com essa sensação de liberdade, e com a ideia de se ter afastado, durante uns tempos, das suas tarefas oficiais. Quando fui ter com ele havia uma exaltação na sua voz, enquanto apontava para esse pedaço de vale e de rio serpenteante sob essas belas colinas. — Sim — disse ele, — é uma zona estranha e lindíssima, que, pelo menos para mim, parece estar repleta de mistério. Espero que não se tenha esquecido da gaveta que lhe mostrei, Miss Lally… Pois… E creio que se apercebeu logo de que eu não vim para aqui apenas preocupado com as crianças ou desejoso de ar fresco… — Pelo menos, creio ter podido adivinhar o que me acabou de dizer — respondi. — Mas deverá compreender que eu nem sequer conheço a natureza

das suas investigações e que a relação entre as mesmas e este lindíssimo vale é algo que eu não poderia sequer imaginar. Sorriu então para mim, de um modo estranho. — Acha que estou a criar um mistério apenas por amor ao mistério? — perguntou. — Se não lhe contei nada até agora é porque nada tenho para lhe contar, nada de definitivo, quero dizer, nada que se possa traduzir num objectivo preto no branco, tão maçador ou inatacável como qualquer relatório parlamentar. Para mais, tenho um outro motivo: há muitos anos, li um parágrafo num jornal que, por acaso, me chamou a atenção, e me revelou, num breve instante, todos os pensamentos dispersos e fantasias ainda não de todo formadas, com os quais, através de especulativas horas de ócio, tinha vindo a conceber toda uma hipótese. Vi logo que me embrenhava por caminhos pouco seguros. A minha teoria era por demais fantástica e pouco ortodoxa, e nunca me teria passado pela cabeça escrever o menor resquício da mesma para publicação. Porém, pensei que, na companhia de cientistas como eu, homens que estavam bem familiarizados com o método das verdadeiras descobertas, já fartos de saber que o gás, que hoje em dia ilumina qualquer taberna, fora em tempos apenas uma atrevida hipótese (digamos que, com homens como esses, talvez pudesse vir a formular o meu sonho. Por exemplo, a Atlântida, a pedra-filosofal ou outros assuntos semelhantes), sem recear expor-me a ridículo. Mas logo me dei conta de que estava redondamente enganado. Os meus amigos olharam intrigados uns para os outros e depois para mim, e eu pude adivinhar um certo laivo de comiseração, bem como um insolente desdém, nos olhares que trocaram. Um deles veio visitar-me no dia seguinte, insinuando que eu deveria estar a sofrer de um esgotamento cerebral, provocado por um excesso de trabalho. Para ser mais directo, perguntei-lhe: «Então acha que estou a enlouquecer? Acredite que não é essa a minha opinião» e conduzi-o até à porta, sem lhe insinuar sequer a minha revolta. Desde esse dia, jurei nunca mais revelar o mais ínfimo pormenor acerca da natureza da minha teoria, a quem quer que fosse. Apenas a si pude alguma vez mostrar os conteúdos da minha gaveta. Apesar de tudo, posso estar 29


apenas a perseguir um arco-íris e talvez tivesse sido enganado por toda uma série de coincidências, mas, aqui onde me vê, embrenhado no místico murmúrio do silêncio, entre bosques e colinas selvagens, estou mais seguro do que nunca de que existe realmente uma pista concreta. Venha, é já tempo de entrarmos em casa. Para mim, havia em tudo isso qualquer coisa fantástica e fascinante. Sabia bem que, como nos seus escritos académicos, o Professor Gregg avançava passo por passo, pondo mesmo em causa certos momentos do seu raciocínio, e nunca se aventurando a conclusões que pudessem ser facilmente rebatíveis. Não obstante, podia intuir, mais pelo seu olhar do que pela persistência do seu tom de voz, que ele possuía já a hipótese que sempre o motivara. E eu, que apesar da minha imaginação também tinha o meu lado de cepticismo, agudizado pela sugestão de um certo maravilhoso, não podia deixar de me perguntar se ele se entregara a uma espécie de monomania, abdicando desse modo do método científico que até então norteara toda a sua vida. Contudo, apesar dessa imagem de mistério que me assombrava os pensamentos, estava completamente rendida aos encantos da região. Por cima dessa casa apagada, na vertente da colina, começava a encosta. Uma longa linha escura, que se poderia observar das colinas adjacentes (estendendo-se por muitas milhas, de norte a sul, e dando lugar a norte a regiões ainda mais inóspitas, a colinas sem cultivo e a abandonadas propriedades privadas), constituía um território em tudo estranho e inóspito, tão desconhecido para os ingleses como a África mais profunda. O espaço de alguns campos em socalcos era a única coisa que separava a casa da floresta, e as crianças deliciavam-se quando me seguiam por carreiros entre arbustos, ao longo de enlaçadas paredes de bétulas claras, até ao cume do bosque, onde poderíamos vislumbrar, por um lado e para além do rio, as várias elevações de terreno e a muralha montanhosa a oeste; e, por outro, a irrompente profusão de miríades de árvores, sobre cumes aplainados, e o mar brilhante e amarelado na ténue costa muito ao fundo. Eu costumava então sentar-me sobre a relva quente que cobria a Estrada Romana, enquanto as

duas crianças corriam em volta, à procura de bagas que cresciam nas margens do rio. Aí, sob o céu azul e o rolar de nuvens brancas, vindas do mar para as colinas, como velhos galeões de velas enfunadas, escutando os murmúrios do enorme e antigo bosque, vivia apenas para me deliciar, e só me lembrava de coisas estranhas quando voltávamos para casa e encontrávamos o Professor Gregg fechado na pequena divisão que ele transformara em escritório, ou então a passear pelo terraço com o ar entusiasmado e paciente de um pesquisador decidido. Numa manhã, oito ou nove dias depois da nossa chegada, olhei pela minha janela e vi toda a paisagem a transformar-se diante dos meus olhos. As nuvens tinham descido e escondiam as montanhas a oeste; um vento sul empurrava a chuva em longas cordas através do vale; e o pequeno riacho, que nascia numa colina abaixo da casa, tinha agora uma torrente avermelhada, que se apressava na direcção do rio. Víamo-nos obrigados a ter de ficar agasalhados em casa, e, depois de ter dado as lições aos meus alunos, sentava-me numa salinha em que os despojos de uma biblioteca ainda ocupavam uma velha estante. Inspeccionara já essas prateleiras, uma ou duas vezes, mas o conteúdo das mesmas não me atraíra. Volumes de sermões do século XVIII, um velho livro sobre o ofício de ferreiro, uma colecção de poemas de «pessoas ilustres», a Connection de Prideau, e um velho volume de Pope eram tudo o que aí se encontrava, e não tinha quaisquer dúvidas de que alguma coisa de mais valor ou de maior interesse já fora daí retirada. Então, porém, talvez movida pelo tédio, comecei a reexaminar essas bolorentas capas de couro e de carneira, encontrando, para minha grande alegria, um velho in-quarto, impresso por Stephani, contendo os três livros de Pompónio Mela, De Situ Orbis, e outros de velhos geógrafos. Sabia latim suficiente para poder perceber as frases mais comuns, e em breve fiquei entusiasmada por essa mistura de verdade e de fantasia: como a luz que brilhava num pequeno espaço do mundo e, mais além, seria só neblina e sombras e formas terríveis. Ao passar os olhos pelas páginas claramente impressas, a minha atenção recaiu no título de um capítulo de Solinus, onde li as seguintes palavras: 30


MIRA DE INTIMIS GENTIBUS LIBYÆ, DE LAPIDE HEXECONTALITHO,

— Ah, Miss Lally — disse ele, — gostaria de poder contar com o auxílio dos seus olhos. Esta lupa é bastante boa, mas não tanto como a que deixei em casa. Importa-se de examinar isto e dizer-me quantos caracteres é que aqui consegue contar? Deu-me então o objecto que tinha na mão. Vi que se tratava da chancela negra que ele me mostrara em Londres e senti que o meu coração começava a palpitar só de pensar que iria finalmente descobrir alguma coisa. Peguei na chancela e, colocando-a sob a luz, examinei um por um esses caracteres grotescos em forma de punhal. — Conto sessenta e dois — disse-lhe, ao fim de algum tempo. — Sessenta e dois? Não, é impossível! Ah, já estou a ver o que fez, contou este e mais este — e apontou para duas marcas que eu julgara serem letras como as outras. — Sim, sim — continuou o Professor Gregg, — mas estas são obviamente riscos, sem conexão com o resto. Isso foi logo a primeira coisa em que reparei… Sim… é mesmo isso… Muito obrigado, Miss Lally. Já me estava a ir embora, bastante desapontada por me terem chamado apenas para contar o número de marcas nessa chancela negra, quando de súbito me lembrei do que estivera a ler nessa manhã. — Mas Professor Gregg — retorqui eu, quase sem fôlego, — a chancela, a chancela… Trata-se da pedra Hexecontalithos que Solinus mencionava, é a pedra a que chamavam Ixaxar! — Sim — disse ele, — creio que seja mesmo essa pedra, ou então trata-se de uma simples coincidência. Nunca será demais termos mesmo a certeza quando se trata destas coisas. As coincidências podem dar cabo de um professor… Saí muito intrigada com o que acabara de ouvir, mais do que nunca frustrada por não ter podido encontrar a verdadeira chave para esse labirinto de estranhos dados. O mau tempo durou mais três dias, mudando de aguaceiros fortes para um denso nevoeiro que tudo enchia de gotas de humidade. Era como se nos tivessem encerrado no interior de uma nuvem branca que mantivesse o resto do mundo bem longe de nós. Entretanto, o Professor Gregg continuava a desenvolver o seu obscuro trabalho no

ou seja, «Maravilhas das Gentes que Habitam as Partes mais Profundas da Líbia, e Acerca da Chamada Pedra dos Sessenta.» Esse velho título atraía-me, e eu continuei a ler: Gens ista avia et secreta habitat, in montibus horrendis, fœda mysteria celebrat. De hominibus nihil aliud illi præferunt quam figuram, ab humano ritu prorsus exulant, oderunt deum lucis. Stridunt potius quam loquuntur; vox absona nec sine horrore auditur. Lapide quodam gloriantur, quem Hexecontalithon vocant; dicunt enim hunc lapidem sexaginta notas ostendere. Cujus lapidis nomen secretum ineffabile colunt: quod Ixaxar. «Estas gentes» traduzi eu, «habitam em lugares secretos e remotos e celebram revoltantes mistérios em horrendos montes. Nada em comum têm com os homens senão os seus rostos, os costumes da humanidade são-lhes totalmente desconhecidos, e odeiam a luz do Sol. Ciciam em vez de falarem; as vozes são ásperas e não se podem ouvir sem despertar medo. Vangloriam-se com uma certa pedra, que eles chamam Pedra dos Sessenta, pois dizem que ela exibe sessenta caracteres. E essa pedra tem um nome secreto e inefável, que é Ixaxar.» Ri-me ante a estranha inconsequência de tudo isso, e achei que talvez essa passagem ficasse melhor em Sindebade, o Marinheiro, ou em outra das Noites suplementares. Quando vi o Professor Gregg, durante o dia, contei-lhe o que descobrira nessa estante e falei-lhe dos perfeitos absurdos que tinha estado a ler. Para minha grande surpresa, ele olhou para mim com uma expressão de genuíno interesse. — Isso é mesmo muito curioso — disse ele, — nunca achei que valesse a pena pesquisar entre os antigos geógrafos, e creio que perdi bastante. Ah, esta é a passagem, não é? Lamento muito, mas irei ter de levar comigo este livro que tanto a estava a entreter. No dia seguinte, o professor pediu-me que viesse até ao seu escritório. Vi-o sentado a uma mesa, em frente da luz da janela, a escrutinar muito atentamente um objecto com uma lupa. 31


escritório, sem qualquer vontade, segundo me parecia, de entrar em confidências ou mesmo de falar, e eu ouvia-o a caminhar de um lado para o outro, com passos nervosos, como se já estivesse cansado de tanta inacção. Na quarta manhã já o tempo mudara, e estávamos sentados à mesa onde tomávamos o pequeno-almoço quando o professor me disse bruscamente: — Precisamos de mais ajuda nesta casa, de um rapaz de quinze ou dezasseis anos, não sei está a ver… Há muitas pequenas tarefas, que acabam por tomar todo o tempo às criadas e que um rapaz poderia fazer muito melhor. — Mas creia que as raparigas ainda não se queixaram — observei eu. — De facto, a Anne até mencionou que aqui havia muito menos trabalho do que em Londres, dado não haver tanto pó. — Ah, sim, são raparigas muito dedicadas. Mas acho que poderemos usar a ajuda de um rapaz. De facto, é precisamente isso que me tem estado a preocupar nestes últimos dois dias. — A preocupá-lo? — disse eu, muito admirada, pois o professor nunca se interessara pelos assuntos caseiros. — Sim — disse ele, — o tempo, não sei se está a ver. Eu nunca poderia ter saído por esse nevoeiro escocês. Não conheço muito bem a região e perder-me-ia com toda a facilidade. Mas esta manhã vou ver se consigo arranjar um rapaz. — E como sabe se esse rapaz existe nestas imediações? — Sobre isso não tenho quaisquer dúvidas. Terei apenas de andar dois ou três quilómetros, mas tenho a certeza de que irei encontrar o moço de que preciso. Pensei que o professor estivesse a brincar, mas, embora o seu tom fosse bastante casual, havia algo de sombrio e vincado nas suas feições que me intrigou. Vi-o pegar na bengala e ficar de pé, junto à porta, meditabundo. Quando voltei a passar pelo corredor ele chamou-me. — A propósito, Miss Lally, há uma coisa que lhe queria dizer. Já deve ter ouvido falar, creio eu, do facto de estes rapazes do campo não serem lá muito brilhantes. «Pacóvios» seria um termo demasiado

agreste, e acabam por ser chamados «castiços», ou algo desse género. Espero que não se importe se o moço que eu arranjar não for dos mais inteligentes. Trata-se de um rapaz perfeitamente inofensivo, é claro, e, para engraxar botas, não lhe será necessário qualquer esforço mental. E ao dizer isso, desapareceu, pondo-se a caminhar pela estrada que conduzia ao bosque, enquanto eu ainda continuava embasbacada. Foi então que, pela primeira vez, ao meu espanto se juntou uma súbita impressão de terror, vinda nem sei bem de onde, e totalmente inexplicável, mesmo para mim, apesar de ter sentido por momentos, no meu coração, algo semelhante ao frio da morte, assim como a sensação de um medo ainda indefinível do desconhecido, bem pior do que a própria morte. Tentei ganhar coragem, respirando a brisa fresca que soprava do mar, e na luz do Sol que se sucede à chuva; não obstante, esses bosques místicos pareciam encher-se de penumbras à minha volta, e a visão do rio, serpenteando entre os caniços, e o cinzento-prata da velha ponte, desenhavam-me na mente símbolos de uma vaga e horrível premonição, tal como a mente de uma criança imagina coisas tenebrosas nos objectos mais inócuos e familiares. Duas horas mais tarde, o Professor Gregg voltou. Encontrei-o quando ainda vinha a descer a estrada e perguntei-lhe, com uma voz calma, se ele tinha conseguido encontrar o tal rapaz. — Com certeza — respondeu-me. — Pude encontrar um sem qualquer dificuldade. Chama-se Jervase Cradock, e espero que nos venha a ser muito útil. O pai dele já morreu há vários anos e a mãe, com quem tive oportunidade de falar, pareceu-me ter ficado muito contente, dada a hipótese de poder receber alguns xelins a mais, todos os sábados à noite. Tal como eu previra, não é lá muito esperto e, por vezes, segundo o que mãe dele me disse, tem ataques, mas também não lhe iremos confiar a louça, de modo que não terá importância, não acha? E também não é nada daquilo a que poderíamos chamar um sujeito perigoso, não sei se está a ver, apenas um pouco fraco… — E quando chega ele? — Amanhã de manhã, às oito. A Anne há-de 32


informá-lo acerca das suas tarefas e do modo como as desempenhar. A princípio regressará a casa ao fim do dia, mas talvez se venha a tornar mais conveniente para ele dormir aqui, e apenas voltar a casa aos domingos. Não havia nada que eu pudesse dizer acerca desse assunto. O Professor Gregg falava com um calmo tom de certeza, como conviria a uma situação semelhante. Contudo, eu não conseguia dominar a minha sensação de espanto perante tudo aquilo. Sabia que, na realidade, não seria necessária mais ajuda no que dizia respeito à lida da casa, e o facto de o professor me ter dito que o rapaz que ele iria contratar era um pouco «simples», seguido por essa mesma confirmação, pareceu-me extremamente bizarro. Na manhã seguinte, a criada veio dizer-me que o rapaz chegara às oito, e que ela ainda estava a tentar arranjar qualquer coisa que ele pudesse fazer. — Não me parece que seja lá muito certo da cabeça, menina, — comentou ela e, mais tarde nesse dia, vi-o a ajudar o idoso que trabalhava no jardim. Era um jovem com cerca de catorze anos, de olhos e cabelo negro, com uma tez morena, e vi logo, pela expressão vazia nos seus olhos, que ele teria uma certa deficiência mental. Quando passei por ele, tocou na testa de um modo curioso, e ouvi-o responder ao jardineiro com uma voz estranha e áspera, que me chamou a atenção. Essa voz quase me pareceu a de alguém que estivesse a falar desde as profundezas da terra, e tinha algo de sibilino, como o restolhar de um fonógrafo, à medida que a agulha vai percorrendo o cilindro. Pareceu-me estar ansioso por poder fazer o que lhe fosse possível, e era dócil e obediente. Morgan, o jardineiro, que conhecia muito bem a mãe dele, assegurou-me que esse rapaz nunca fizera mal a ninguém. — Ele é um bocado esquisito — disse-me, — mas também não admira, se pensarmos em tudo por que a mãe passou antes de ele nascer. Não cheguei a conhecer o pai muito bem, um tal Thomas Cradock, mas sei que era, sem dúvida, um excelente trabalhador. Apanhou uma doença nos pulmões, por ter de trabalhar na humidade dos bosques. Nunca se restabeleceu, e acabou por morrer num abrir e fechar de olhos. E dizem que a Sr.ª Cradock quase enlouqueceu. De qualquer modo, o Sr. Hillyer, o Ty

Coch, encontrou-a toda enrolada nas Grey Hills, a gritar e a chorar como uma alma penada. E o Jervase nasceu oito meses depois e, tal como lhe estava a dizer, foi sempre um bocado esquisito. Até há quem diga que, quando ele mal sabia andar, assustava as outras crianças com os ataques e com os seus guinchos roucos. Uma palavra, nessa história, despertara-me uma recordação e, com um ar de vaga curiosidade, perguntei ao idoso onde eram as Grey Hills. — Lá para cima — disse ele, com o mesmo gesto que usara antes. — Terá de passar pela taberna Fox & Hounds, e através da floresta e das antigas ruínas. Fica bem a dez quilómetros daqui e é um lugar muito estranho. Segundo dizem, é a terra mais árida entre Monmouth e este sítio, embora tenha boas pastagens para os carneiros. Sim, foi uma coisa muito triste para essa pobre Sr.ª Cradock… O idoso voltou ao seu trabalho e eu pus-me a andar pelo caminho, entre um renque de árvores nodosas e retorcidas pela idade, a pensar na história que acabara de ouvir e tentando encontrar nela o pormenor, ou a chave, que despertara qualquer coisa na minha memória. De súbito, tudo se me tornou claro. Tinha visto uma referência às «Grey Hills» no papel amarelado que o Professor Gregg retirara da gaveta da escrivaninha. Uma vez mais, fui dominada por sentimentos de medo e curiosidade. Lembrei-me dos estranhos caracteres, copiados da pedra calcária e, de novo, das semelhanças destes com a inscrição nessa antiquíssima chancela, bem como das fábulas fantásticas do geógrafo romano. Vi então que, para além de quaisquer dúvidas, se a coincidência não tivesse construído todo esse cenário e não tivesse arranjado todos esses bizarros acontecimentos com uma certa arte, eu ainda me iria tornar numa espectadora de coisas totalmente fora do vulgar e das experiências mais rotineiras da vida. O Professor Gregg, segundo me dava conta com o passar dos dias, estava entusiasmadamente a seguir uma pista e a emagrecer de ansiedade. Ao entardecer, quando o sol flutuava no topo da montanha, era vê-lo a passear pelo pátio, para cá e para lá, com os olhos postos no chão, enquanto a bruma ia alastrando pelo vale, a quietude da noite nos tornava próximas certas vozes 33


distantes, e o fumo azul voluteava sobre as chaminés facetadas da casa da velha quinta, tal como o tinha visto, na primeira manhã em que aí chegara. Já lhe confessei que eu era uma pessoa céptica e, embora pouco ou nada compreendesse, comecei a encher-me de receio, recitando para mim mesma os repetidos dogmas da ciência, segundo os quais toda a vida é apenas material, e que, no sistema das coisas, já não existe nada como uma terra ainda por descobrir, mesmo para além das mais remotas estrelas, onde o sobrenatural ainda poderia encontrar uma certa razão de ser. Todavia, também me começava a intrigar o facto de a matéria poder ser, na realidade, tão misteriosa e desconhecida como o espírito, e de a ciência apenas ter aflorado a sua verdadeira natureza, tendo obtido unicamente um vislumbre das suas mais internas maravilhas. Um dia, porém, destaca-se entre os outros, como um sombrio farol avermelhado, anunciando uma maldade vindoura. Estava sentada num banco do jardim, a ver o rapaz Cradock a mondar os canteiros, quando fui subitamente surpreendida por um ruído áspero e cavo, semelhante ao uivo desesperado de um animal selvagem, e fiquei chocada e quase sem fala, quando vi o infeliz rapaz, de pé, diante de mim, com o corpo todo a tremer e convulso, em espasmos intervalados, como se uma corrente eléctrica lhe estivesse a percorrer o corpo, fazendo-o ranger os dentes e deitar espuma pela boca, enquanto no rosto se lhe desenhava uma horrível máscara de humanidade. Dei um grito de terror, o Professor Gregg veio logo a correr e, assim que consegui apontar para o rapaz, vi que este acabara de cair para a frente e estava agora estendido na terra húmida, ondulando como um verme cego, com uma série de ruídos, cicios e sons incompreensíveis a saírem-lhe dos lábios. Era como se ele vomitasse uma linguagem infame, com palavras, ou com o que me pareceu serem palavras, que poderiam ter pertencido a uma língua há muito morta e profundamente enterrada nas lamas do Nilo ou nos recessos mais escondidos de uma floresta mexicana. Por momentos, aflorou-me um pensamento, ao sentir os meus ouvidos ainda revoltados por esse clamor infernal. — Decerto, trata-se da própria linguagem do Inferno… — e depois voltei a

gritar, repetidamente, enquanto corria gelada de pavor. Tinha visto o rosto do Professor Gregg, quando este se inclinou sobre o infeliz rapaz para o levantar, e ficara estupefacta ante o brilho de exaltação que se lhe parecia libertar de cada traço. Quando me sentei no meu quarto, com as portadas fechadas e ambas as mãos sobre os olhos, ouvi passos pesados no andar de baixo, e depois informaram-me de que o professor tinha levado Cradock para o seu escritório e fechado a porta à chave. Ouvi vozes como indistintos murmúrios, e tremia só de pensar no que poderia estar a acontecer, a escassos metros do local onde me sentara. Estava ansiosa por poder fugir para os bosques e para a luz do Sol, e contudo, temia confrontar-me com alguma visão terrível. Por fim, quando já rodava nervosamente a maçaneta da porta, ouvi a voz do Professor Gregg que me chamava com um tom de animada boa-disposição. — Já está tudo resolvido, Miss Lally. O pobre rapaz já se restabeleceu, e já fui tratar das coisas para que ele possa dormir aqui a partir de amanhã. Talvez eu o possa ajudar… — Sim — disse ele mais tarde, — foi uma coisa horrível de se ver, e não me admiro nada que se tivesse assustado. Esperemos que uma boa alimentação lhe possa dar mais forças, mas receio que nunca se possa curar completamente… — E adquiria essa triste expressão convencional de desapontamento, que geralmente se assume sempre que se fala de uma doença incurável. No entanto, bem por baixo de tudo isso, podia aperceber-me de uma alegria interior que não ousava encontrar um modo de se exprimir. Era como se olhássemos para a superfície transparente e plana do mar e víssemos, nas suas profundidades revoltas, uma tempestade de vagas procelosas. Para mim, tornava-se um problema premente e angustiante, que esse homem, que me tinha tão bondosamente salvado dos rigores da morte e se mostrava em todos os aspectos da vida tão cheio de piedade, benevolência e premeditada brandura, estivesse, pela primeira vez, tão obviamente do lado dos demónios, a ponto de obter um prazer mórbido com as aflições de uma pobre criatura. Para além disso, debatia-me com uma dificuldade espinhosa, tentando encontrar uma solução; mas, sem que pudesse seguir qualquer pista, sentia-me rodeada pelo mistério e pela contra34


dição. Não descobria nada que me pudesse ajudar, e comecei a pensar se, afinal, não iria pagar bem caro o facto de me ter escapado ao nevoeiro dos subúrbios. Dei a entender ao professor alguns destes meus pensamentos, pelo menos não lhe ocultei o meu estado de completa perplexidade, porém, no momento seguinte, lamentei logo essa minha atitude, ao ver o seu rosto contorcer-se com um espasmo de dor. — Minha cara Miss Lally — disse ele, — de certo não estará a planear deixar-nos. Não, não, nunca poderia fazer uma coisa dessas. Desconhece até que ponto eu conto consigo, como continuo a prosseguir as minhas investigações com toda a confiança, sabendo que se encontra aqui, para tomar conta dos meus filhos. Acredite, Miss Lally, que é a minha guardacostas, pois deixe-me que lhe diga que os assuntos em que me encontro envolvido não são de todo desprovidos de perigo. Creio que ainda não se esqueceu do que eu lhe disse, na primeira manhã em que aqui chegámos: que os meus lábios permanecem fechados por uma antiga e firme resolução, até se poderem abrir, não para pronunciarem uma engenhosa hipótese ou uma vaga conjectura, mas factos irrefragáveis, tais como os que se demonstram através da matemática. Pense melhor, Miss Lally, pois nem por sombras me passa pela cabeça mantê-la aqui contra as suas próprias impressões mais pessoais. Contudo, permita-me dizer-lhe que estou persuadido de que é aqui, entre estes bosques, que residem os seus deveres mais importantes. Fiquei comovida com a eloquência das suas palavras, e ao lembrar-me de que esse homem, apesar de tudo, tinha sido a minha salvação, apertei na minha a sua mão, prometendo servi-lo de uma forma leal e sem mais hesitações. Alguns dias depois, o prior da nossa igreja (uma pequena construção cinzenta, severa mas acolhedora, situada sobre a margem do rio, diante do movimento das marés) veio visitar-nos, e o Professor Gregg não teve dificuldade em persuadi-lo para que ficasse mais tempo e jantasse connosco. O Sr. Meyrick pertencia a uma velha família de proprietários rurais, cuja mansão se situava entre as colinas, a cerca de treze quilómetros de distância. Há muito enraizado nessa região, o prior era uma testemunha viva dos costumes desusados

e das antigas tradições desse local. Os seus modos simpáticos, com uma certa estranheza contida, em breve conquistaram o Professor Gregg e, pela altura em que os queijos foram servidos, quando um raro vinho da Borgonha já começava a exercer a sua magia, os dois homens entusiasmaram-se, talvez devido a essa bebida, e começaram a falar de filologia com o interesse que um burguês poria na obtenção de um título nobiliário. O prior começara a elaborar acerca da pronúncia das consoantes duplas galesas, e a produzir sons semelhantes ao gorgolejar dos seus ribeiros, quando o Professor Gregg o interrompeu: — A propósito — disse ele, — no outro dia deparei-me com uma palavra muito estranha. Conhece o meu ajudante, o pobre Jervase Cradock? Ele tem o mau hábito de falar alto consigo mesmo e, anteontem, estava eu a passear pelo jardim, quando o ouvi. É claro que ele nem sequer se apercebeu da minha presença. Não consegui decifrar muitas das coisas que ele disse. Os sons eram tão estranhos… meio sibilantes, meio guturais, e tão curiosos, com esses l duplos de que me tem estado a falar. Não sei se poderei dar-lhe uma ideia desse som, «Ishakshar» é talvez a forma mais aproximada que conseguirei pronunciar. Mas esse k deveria ser um chi grego ou semelhante ao j espanhol. Que quererá isso dizer em galês? — Em galês? — perguntou o prior. — Não existe tal palavra em galês, nem outra palavra que remotamente se lhe assemelhe. Estou familiarizado com o galês literário, como geralmente é designado e, tal como outras pessoas, com os dialectos mais coloquiais, mas essa palavra não existe, pelos menos de Anglesea a Usk. Para além disso, nenhum dos Cradock conhece uma única palavra de galês, a língua encontra-se praticamente morta nesta região. — Acha que sim? Tudo o que diz me interessa bastante, Sr. Meyrick. Confesso que a palavra também não me pareceu galesa, mas pensei tratar-te talvez de uma corruptela local. — Não, de facto nunca ouvi essa palavra nem nenhuma outra semelhante — acrescentou ele, sorrindo enigmaticamente. — Se pertence a alguma língua, só se for à das fadas, o Tylwydd Têg, como geralmente é designada. 35


A conversa prosseguiu em torno da descoberta de uma villa romana nas imediações. Mais tarde, abandonei a sala e sentei-me sozinha para meditar melhor nessas estranhas pistas. Quando o professor mencionara essa palavra curiosa, reparei como os seus olhos brilhavam na minha direcção e, embora a pronúncia que ele sugerira me parecesse por demais grotesca, reconheci a palavra que constava na pedra com sessenta caracteres, mencionada por Solinius, a chancela negra, fechada em alguma gaveta secreta do seu escritório, para sempre por uma raça extinta com traços que nenhum ser humano conseguia ler, traços que poderiam, tanto quanto me poderia aperceber, constituir o véu de horríveis feitos praticados num tempo imemorial, e esquecido desde a altura em que as colinas tinham começado a tomar forma. Quando desci, na manhã seguinte, encontrei o Professor Gregg no pátio, numa das suas exaltadas deambulações. — Repare na ponte — disse ele, logo que me viu, — repare na beleza do seu desenho gótico, nos ângulos entre os arcos, e no tom prateado das suas pedras cinzentas sob a luz da manhã. Confesso-lhe que me parece quase simbólica, que deveria ilustrar a alegoria mística da passagem de um mundo para outro. — Professor Gregg — disse eu, cheia de calma, — já é tempo que eu saiba alguma coisa acerca do que se tem estado a passar, ou do que ainda poderá acontecer. Durante alguns momentos, tentou ignorar essa minha observação, mas tornei a fazer-lhe a mesma pergunta ao fim da tarde, e reparei que o professor exultava de entusiasmo. — Então ainda não percebeu? — perguntou ele, quase a gritar. — Mas já a informei de muitas coisas. Sim, e também já lhe mostrei muitas outras. Creio que terá ouvido quase tudo o que sei, e que viu o que eu vi, ou, pelo menos… — e o seu tom de voz tornou-se de súbito mais sério, — o suficiente, para que tudo se lhe torne claro como água. As criadas disseram-lhe, não duvido, que esse infeliz rapaz teve outro ataque, anteontem à noite. Acordou-me aos gritos, com essa voz que a menina ouviu no jardim. Eu fui ter com ele, e graças a Deus, ainda bem que nunca chegou a ver o que eu vi,

nessa mesma noite. Mas creio que estarei a perder o meu tempo. Já não tenho muito mais que fazer aqui, e creio que deverei regressar à cidade dentro de três semanas, pois tenho uma série de lições a preparar e preciso de aceder a todos os meus livros. Alguns dias mais, e tudo terá terminado. Então já não terei de recorrer a insinuações, ou ser ridicularizado como um louco ou um intrujão. Não, poderei falar abertamente, e hei-de ser ouvido com a emoção que talvez nenhum outro homem tenha conseguido captar, dada a estupidez dos seus colegas. Fez uma pausa, e parecia estar cada vez mais radiante perante a alegria de uma grande e admirável descoberta. — Mas tudo isso será ainda num futuro, num futuro próximo, bem sei, mas num futuro — continuou ele. — Há ainda algumas coisas a fazer. Lembra-se de eu lhe ter dito que as minhas pesquisas não eram totalmente isentas de perigo? Sim, terei ainda de enfrentar algo perigoso, que nem sequer imaginava, ao falar anteriormente sobre o assunto que, até certo ponto, ainda ignoro. Mas tratar-se-á de uma estranha aventura, da derradeira, do último elo demonstrativo de uma cadeia. Percorria a sala, de um lado para o outro, à medida que ia falando, e eu podia ouvir, na sua voz, inflexões conflituosas de exaltação e desânimo, ou talvez devesse dizer de espanto, do espanto e do respeito de um homem que se aventurasse por águas desconhecidas. Pensei então na sua alusão a Colombo, no dia em que ele colocara o livro diante de mim. O fim de tarde foi um pouco frio, e tinham acendido grossos troncos numa lareira, no escritório em que nos encontrávamos. As chamas remitentes, e o seu reflexo pelas paredes, recordavam-me os velhos tempos. Estava sentada em silêncio, num cadeirão junto ao lume, meditando em tudo o que acabara de ouvir, ainda a especular em vão nas fontes secretas que me tinham sido ocultadas sob toda a fantasmagoria que testemunhara, quando, repentinamente, me dei conta da sensação de que uma certa mudança se operava já nessa sala, pois havia algo de pouco familiar no seu aspecto. Durante alguns momentos olhei em volta, tentando, sem grande sucesso, identificar a alteração que sabia ter ocorrido, mas a mesa junto à ja36


nela, as cadeiras, o canapé desbotado permaneciam tal como eu sempre os conhecera. Então, tal como um esforço de memória nos irrompe de súbito no cérebro, dei-me conta do que mudara. Encontravame em frente da secretária do professor, que estava do outro lado da lareira, e, por cima da mesma, via um sombrio busto de Pitt, em que nunca antes reparara. Só então me recordei da posição inicial dessa obra de arte. No canto mais afastado, junto à porta, havia um armário saliente e, no topo do mesmo, a quatro metros e meio do chão, estava o busto, e aí sem dúvida permanecera, acumulando pó desde o início do século. Estava completamente surpresa, e permaneci em silêncio, numa confusão de pensamentos. Não existia, tanto quanto me apercebera, nenhum escadote nessa casa, pois eu pedira um para fazer umas quantas alterações nas cortinas do meu quarto, e, de qualquer modo, um homem alto, em cima de uma cadeira, nunca teria conseguido retirar esse busto do lugar em que se encontrava. Este fora colocado, não à beira do topo do armário, mas bastante mais recuado, junto à parede. Para mais, o Professor Gregg não era de modo algum um homem alto. — Mas como é que conseguiu mudar o busto de Pitt? — perguntei-lhe, por fim. O professor encarou-me de um modo curioso, parecendo hesitar um pouco. — Será que lhe arranjaram um escadote? Talvez o jardineiro lhe tivesse trazido um do jardim… — Não, nunca tive qualquer tipo de escadote. Bem, Miss Lally… — continuou ele, pretendendo desajeitadamente fazer um certo humor, — eis algo que talvez a possa intrigar, um problema à maneira do inimitável Holmes. Os factos existem, claros e revelados. Veja se consegue descobrir a solução desse enigma… Por amor de Deus — disse então, com uma voz insegura, — não me diga mais nada acerca desse assunto! Posso jurar-lhe que nunca lhe toquei. — E saiu da sala, com uma expressão de horror bem visível no rosto e, com as mãos ainda a tremerem, fechou a porta atrás de si. Olhei em volta da sala, com um vago sentimento de surpresa, sem sequer me dar conta do que acontecera, aventando toda a espécie de conjecturas

que me pudessem dar uma resposta, e pensando no pélago de escuras águas que pudesse estar relacionado com a trivial mudança desse ornamento. «Tratase de um assunto sem importância em que me pus a pensar» reflecti, «talvez o professor tenha escrúpulos ou seja supersticioso em relação a certas banalidades, e quem sabe se a minha pergunta lhe teria despertado receios que ele não se dignasse admitir, como se tivéssemos esmagado uma aranha ou entornado sal diante de uma mulher escocesa.» Estava já imersa nesses pensamentos, começando a elogiar a minha imunidade a tais receios, quando a verdade se abateu pesada como chumbo sobre o meu coração e eu reconheci, não sem um temor que me causou arrepios, que alguma terrível influência exercera o seu poder. O busto era simplesmente inacessível. Sem um escadote, ninguém lhe poderia ter pegado. Fui até à cozinha, e falei o mais baixo que pude com a criada. — Quem mexeu no busto que estava em cima do armário, Anne? — perguntei-lhe. — O Professor Gregg disse-me que não lhe tocou. Será que encontraram algum velho escadote em algum dos arrumos? A rapariga olhou para mim, sem qualquer expressão no rosto. — Eu nunca lhe mexi — disse ela. — Encontrei esse busto no lugar em que agora está, numa destas manhãs, quando lá fui limpar o pó. Agora me lembro, foi na quarta-feira, pois recordo-me de que o Cradock se tinha sentido mal durante a noite. O meu quarto é mesmo ao lado do dele, não sei se a menina está a ver… — A rapariga continuou então a falar, de um modo muito compungido: — Foi uma coisa horrível de se ouvir… Como ele gritou e disse coisas que eu nem conseguia perceber… Deu-me cá um medo… E depois veio o senhor e eu ouvi-o falar, levou o Cradock até ao escritório e deu-lhe qualquer coisa… — Então encontraste o busto mudado de sítio na manhã seguinte? — Sim, menina. Havia um cheiro esquisito no escritório quando eu desci para abrir as janelas, um cheiro horrível, que até me perguntei o que poderia ser. Sabe, menina, aqui há já muito tempo fui 37


ao Jardim Zoológico de Londres com o meu primo Thomas Barker, numa tarde em que estava de folga, quando ainda servia em casa da Sr.ª Prince, em Stanhope Gate, e fomos até uma casinha envidraçada ver as cobras, e posso jurar-lhe que esse cheiro era o mesmo. Ainda me lembro de me ter sentido agoniada, e pedi logo ao Barker para nos irmos embora. Foi esse o cheiro que senti no escritório e, como lhe estava dizer, pus-me logo a pensar de onde poderia ter vindo. Eis senão quando dou de caras com o busto, em cima da secretária do patrão, e pensei: «Quem teria feito uma coisa destas e como é que o poderiam ter feito?» e quando fui limpar o pó, reparei no busto, e vi nele uma grande marca, onde a poeira e a sujidade tinham já desaparecido, pois creio que ninguém o tinha limpo durante anos e anos. E olhe que não eram marcas de dedos, mas uma grande mancha, larga e espalhada. De modo que passei a mão por ela, sem mesmo me dar conta do que estava a fazer, e essa mancha era pegajosa e escorregadia, como se os caracóis tivessem passado por ela. É tudo muito estranho, não acha, menina? E sei lá eu quem a fez, ou como isso foi feito… O palavrear bem-intencionado da criada impressionou-me muito. Estendi-me na cama e mordi os lábios, para que ninguém me ouvisse chorar, tal era a viva angústia do meu terror e da minha confusão mental. De facto, estava quase louca de pânico. Acreditava que, se fosse ainda de dia, teria fugido a pé sem que ninguém disso se apercebesse, atirando para trás das costas toda a minha coragem e a minha dívida de gratidão para com o Professor Gregg, sem me importar sequer se o meu destino seria morrer lentamente de inanição, desde que me pudesse escapar dessa teia de medo cego e de pânico que, com o passar dos dias, se parecia estreitar à minha volta cada vez mais. Se ao menos soubesse, pensei, se soubesse o que deveria recear… poder-me-ia proteger dessa ameaça. Porém, ali, nessa casa solitária, cercada por todos os lados por um bosque envelhecido, e por colinas semelhantes a criptas funerárias, o terror parecia irromper sem tréguas, chegando-me dos locais mais insuspeitos, arrepiando-me a pele, com pressentidas insinuações de coisas terríveis. Foi em vão que tentei convocar todo o meu cepticismo, e

que, apaziguada pelo senso comum, tentei fortificar a minha crença na ordem natural das coisas, pois o ar que soprava pela janela aberta era um hálito místico e, na escuridão, senti que o silêncio se tornava mais pesado e doloroso, como uma missa de requiem, onde imaginava imagens com estranhas formas, que se juntavam entre os caniços junto ao murmúrio do rio. Logo de manhã, desde que entrei na sala onde tomávamos o pequeno-almoço, senti que esse enredo desconhecido se aproximava de um impasse. O professor mostrava um rosto fechado e impassível, como se mal parecesse ouvir as nossas vozes quando falávamos. — Irei sair para uma longa caminhada — disse ele, logo que acabámos a refeição. — Não deverão ficar à minha espera, reparem, ou pensar que alguma coisa aconteceu se não me virem à hora de jantar. Tenho vindo a tornar-me estúpido, ultimamente, e creio que uma boa caminhada, ainda que não muito longa, só me poderá fazer bem. Talvez passe mesmo a noite em qualquer estalagem, caso encontre um local que me pareça limpo e confortável. Ao ouvir isso, soube logo, baseada no meu conhecimento acerca dos hábitos do Professor Gregg, que não o movia o desejo de um mero passeio recreativo. Não sabia, nem poderia sequer adivinhar para onde se dirigia, nem tinha a mais vaga noção acerca do seu objectivo, mas todos os receios da noite anterior me dominaram, e, ao vê-lo de pé e a sorrir no pátio, já pronto para a jornada, pedi-lhe encarecidamente que ficasse e se esquecesse do continente desconhecido. — Não, não, Miss Lally — retorquiu ele, ainda a sorrir, — agora já é tarde. Vestigia nulla retrorsum12 é, como deverá saber, a divisa de todos os verdadeiros exploradores, embora eu espere que, no meu caso, não se venha a transformar numa verdade literal. Mas, repare, que não tem razão para se preocupar tanto. Esta minha pequena expedição não tem nada de especial, não mais do que a de um dia excitante, na companhia de martelos geológicos. Há sempre um risco, é claro, tal como na mais comum das passeatas. Sou um homem desenvolto e não irei fazer nada tão arriscado como «Arry possa fazer cem 38


vezes quando os Bancos estão fechados. Bem, então terá de parecer mais entusiasmado, e até amanhã o mais tardar.» Começou, estugando o passo, a subir a estrada, e vi-o abrir a cancela que marcava o início do bosque. Depois desapareceu, por entre a penumbra das árvores. O dia pareceu-me pesado e estranhamente sombrio e, uma vez mais, me senti aprisionada no meio da antiga floresta, fechada numa velha terra de terror e de mistério, como se tudo se tivesse passado há já muito tempo e o mundo exterior nos tivesse esquecido. Tinha esperanças e receios e, quando chegou a hora de jantar, fiquei à espera, ansiando por ouvir no vestíbulo os passos do professor, e a sua voz exultando sei lá bem que triunfo… Já desenhara uma expressão de rosto para o acolher, mas a escuridão da noite descera já, e ele não regressava. De manhã, quando a criada me bateu à porta, chamei-a para lhe perguntar se o senhor já tinha chegado, e quando ela me disse que a porta do seu quarto vazio ainda estava aberta, senti o frio abraço do pesadelo. Todavia, ainda me passava pela cabeça que ele tivesse encontrado boa companhia e que talvez viesse almoçar, ou, quem sabe, aparecesse à tarde, e levei as crianças a passear pela floresta, tentando rir-me e brincar com elas o melhor que podia, evitando desse modo os meus pensamentos de mistério e de terror velado. Esperei hora após hora, e esses meus pensamentos tornaram-se mais deprimentes. Veio a noite e eu ainda estava à espera e, por fim, quando já estava a acabar de jantar e entusiasmada numa grande conversa, ouvi passos lá fora e uma voz masculina. A criada entrou na sala e olhou para mim de um modo estranho. — Por favor, menina — assim começou, — o Sr. Morgan, o jardineiro, quer falar consigo. Não irá demorar nada, se não se importa. — Manda-o entrar, por favor — disse eu, quase sustendo a respiração. O idoso entrou devagar na sala, e a criada voltou então a fechar a porta. — Queira sentar-se, Sr. Morgan — disse eu, — então, que pretende dizer-me? — Bem, menina, o Sr. Gregg deu-me uma coi-

sa para si, ontem de manhã, antes de partir, e disse-me para não lha dar antes das oito da noite em ponto, caso ele ainda não tivesse regressado a casa, pois, caso o tivesse feito, teria de lha devolver nas suas próprias mãos. De modo que, não sei se está a ver, como o Professor Gregg ainda não voltou, acho que terei de lhe dar este envelope, pessoalmente. Retirou um embrulho do bolso e passou-mo para a mão, levantando-se ligeiramente. Recebi-o sem comentários e, reparei que Morgan não sabia o que deveria fazer a seguir. Agradeci-lhe e desejei-lhe as boas-noites, antes de ele nos deixar. Fiquei sozinha nessa sala, com essa encomenda nas mãos, impecavelmente selada e dirigida a mim, tal como Morgan me dissera, escrita pela caligrafia solta do professor. Quebrei-lhe o selo de lacre, com um baque no coração, e, lá dentro encontrei um outro envelope por fechar, também dirigido a mim, onde numa carta se dizia: Minha Querida Miss Lally (assim começava). Para citar o velho Manual de Lógica, a leitura desta nota dever-se-á a um erro que, sem dúvida, cometi. Receio que se trate de um erro que transforme esta minha nota numa espécie de despedida. Quase poderia jurar que a menina, e quem quer que seja, não me voltarão a ver mais. Já fiz o meu testamento, onde inseri algumas cláusulas, pensando já nessa eventualidade, e espero que consinta aceitar esta pequena oferta, que lhe dirijo, e os meus mais sinceros agradecimentos, dado o modo como juntou ao meu o seu destino. O que me coube é desesperado e tremendo, e bem para além dos sonhos mais remotos da humanidade. Mas trata-se de um destino que terá todo o direito de conhecer, se não se importar. Se olhar para o interior da gaveta esquerda da minha cómoda, irá encontrar nela a chave do meu escritório, devidamente etiquetada. Na gaveta falsa da minha escrivaninha está um grosso envelope selado, com o seu nome. Recomendo-lhe que o atire sem hesitação para o lume, pois irá dormir melhor se assim o fizer. Todavia, deverá tomar conhecimento de tudo o que se passou, de modo que o escrevi, para que o possa ler. A assinatura, mais abaixo, revelava uma cali39


grafia segura e, uma vez mais, olhei para a página para ler cada palavra, uma a uma, aterrada e com os lábios já brancos, com as mãos geladas e esse sentimento doentio que me parecia estrangular. Senti a opressão do silêncio absoluto desse quarto, tal como a dos escuros bosques e das colinas que me cercavam por todos os lados. Senti-me sozinha e indefesa, sem saber para onde me voltar. Por fim, resolvi que, embora o conhecimento devesse orientar toda a minha vida nos dias vindouros, que me deveria aperceber do significado desses indizíveis medos que há muito me atormentavam, cinzentos, vagamente esboçados na sua mais hedionda forma, como as sombras no bosque ao entardecer. Segui, cuidadosamente, as instruções do Professor Gregg, e não foi sem uma certa relutância que quebrei o selo desse envelope, abrindo assim, diante dos meus olhos, o seu manuscrito, esse manuscrito que sempre trouxe comigo. E já vejo que não poderei furtar-vos ao desejo, ainda inconfessado, da sua leitura. Eis, afinal, o que li nessa noite, sentada à secretária, sob o quebra-luz do candeeiro. Então, a jovem senhora que se chamava Miss Lally, começou a ler. A DECLARAÇÃO DE WILLIAM GREGG,

das raças celtas. Neste caso, julguei detectar um certo exagero e uma certa margem de elaboração estética, nos trajos fantásticos, nesse povo pequeno vestido de verde e dourado, gozando a companhia das flores, e pensei ter descoberto uma analogia específica entre o nome dado a essa raça (supostamente imaginária) e a descrição dos seus modos e aparência. Tal como os nossos antepassados tinham chamado a esses seres «fadas» e «génios bons», precisamente por os temerem, também os tinham vestido de um modo encantador, ainda que soubessem que a verdade seria exactamente o contrário. A literatura também começara a trabalhar desde muito cedo, e ajudara bastante, no que se prendia com essa transformação, de modo que os elfos brincalhões de Shakespeare já se encontram bastante afastados dos verdadeiros originais, e o medo real encontra-se disfarçado sob a forma de diabruras atrevidas. Mas nas histórias mais antigas, nas que faziam com que os homens se benzessem, quando se sentavam em volta das fogueiras, temos um cenário inteiramente diferente. Dei-me conta de uma natureza em tudo oposta, em certas histórias de crianças e de homens e mulheres que desapareciam estranhamente da face da terra. Estes eram geralmente vistos por um aldeão, no meio dos campos, a caminharem para alguma pequena colina verde e redonda, para nunca mais serem vistos. E também havia histórias de mães, que tinham deixado os filhos a dormir sossegadamente, com a porta das suas cabanas rudemente trancada com um pedaço de madeira, para regressarem, sem que pudessem encontrar esse rosado e gordo pequeno saxão, mas uma criatura magra e mirrada, com uma pele escura e olhos negros muito brilhantes, ou seja, uma criança de uma outra raça. Mas ainda havia mitos bem mais terríveis, que falavam de sábios e de bruxas, da lúgubre maldade do Sabat, e que sugeriam demónios que se misturavam com as filhas do Homem. E, tal como transformámos esse terrível «povo das fadas» em toda uma série de benignos e assustadores elfos, escondemos também de nós a negra podridão da bruxa e dos seus companheiros, sob populares diabruras de velhas, cabos de vassouras, e gatos cómicos de caudas levantadas. Tal como os gregos chamavam às hediondas Fúrias damas benevolentes, também as

Membro da

Real Sociedade, etc. Já se passaram muitos anos desde que o vislumbre de uma teoria, que quase se encontra agora definitivamente reduzida aos factos, irrompeu no meu pensamento. Uma série de extensas leituras, diversas e obsoletas, contribuíra para desenhar o rumo dos acontecimentos. Mais tarde, quando me tornei até certo ponto um especialista, e me dediquei plenamente aos estudos etnológicos, deparava-me, uma vez por outra, com factos que nem sempre se encaixavam com as ortodoxas opiniões científicas ou com descobertas que me pareciam sugerir algo que as nossas pesquisas nunca tinham abordado. Mais concretamente, convenci-me de que grande parte dos saberes populares deste mundo não passava de um relato exagerado de acontecimentos que, de facto, teriam ocorrido. Assim, interessei-me particularmente pelas histórias de fadas, por esse bom povo 40


nações nórdicas seguiram o seu exemplo. Fui prosseguindo as minhas investigações, tentando roubar horas a outros trabalhos mais urgentes, até me deparar com a seguinte questão: e se essas tradições fossem verdadeiras, quem eram afinal esses demónios que normalmente participavam nesses Sabates?... Não será necessário dizer que não pus de parte o que se poderia designar como a hipótese sobrenatural da Idade Média, chegando à conclusão de que fadas e demónios pertenciam, vistas bem as coisas, à mesma raça, tendo também a mesma origem. A invenção, sem dúvida resultante da imaginação gótica de antanho, tinha já feito muito no que se relacionava com o exagero e com a distorção. Todavia, acreditava firmemente que, sob toda essa série de imagens, existia um escuro eco de verdade. Quanto aos alegados especuladores, hesitei um pouco. Se bem que odiasse recorrer ao mais pequeno resquício de espiritualismo moderno, acreditando que não conteria o mais pequeno grão de autenticidade, também não estava de todo preparado para negar que a carne humana pudesse, uma vez por outra, talvez uma vez em dez milhões de casos, albergar poderes que nos parecessem mágicos, poderes que, longe de procederem das alturas para conduzirem mais rectamente a humanidade, eram na verdade sobrevivências, emanadas das profundezas do ser. A ameba e o caracol têm poderes que nós não possuímos, e eu pensei ser possível que a teoria da regressão pudesse explicar muitas coisas que nos pareciam inexplicáveis. Assim se fortificou a minha posição, e eu tinha razões para acreditar que, grande parte da tradição, uma vasta parte das tradições mais remotas e incorruptas acerca das chamadas fadas, tinha que ver com factos verdadeiros, e pensei que o elemento puramente sobrenatural nessas tradições se deveria à hipótese de que, se essa raça desaparecera da grande progressão evolutiva, poderia muito bem ter retido, como mecanismo de sobrevivência, certos poderes que, para nós, seriam totalmente miraculosos. Assim era a teoria que concebera e para a qual, seguindo essa perspectiva, parecia encontrar confirmações vindas de todos os lados, desde os despojos de um sarcófago ou de uma elevação tumular, aos jornais locais que mencionavam antigos encontros nos campos, e também atra-

vés de todos os tipos de literatura geral. Entre outros exemplos, lembro-me de me ter surpreendido com a expressão «homens de discurso articulado», em Homero, como se este autor soubesse ou tivesse ouvido falar de homens cujo discurso era de tal modo rude que não lhe poderíamos chamar «articulado» e, dada a minha hipótese de uma raça que tinha ficado definitivamente atrás de outras, podia facilmente conceber que esse povo falaria uma linguagem não totalmente distante dos sons inarticulados dos animais selvagens. Era nesse ponto que me encontrava, satisfeito com o facto de as minhas conjecturas, apesar de tudo, não se distanciarem assim tanto da verdade dos factos, quando, por um mero acaso, um parágrafo num jornal de província me chamou a atenção. Tratava-se de um curto relato do que, segundo me pareceu, fora uma sórdida tragédia de aldeia: uma rapariga desaparecera inexplicavelmente e havia toda a espécie de constantes insinuações relacionadas com a sua reputação. Contudo, eu consegui ler nas entrelinhas que esse escândalo fora puramente hipotético, e muito provavelmente inventado para poder justificar o que, de outro modo, pareceria totalmente inexplicável. Uma fuga para Londres ou Liverpool, ou um corpo ainda não descoberto, com uma pedra ao pescoço, nas profundidades de um lago a meio de um bosque; ou até mesmo um assassínio, tais eram as teorias dos vizinhos da infeliz rapariga. Mas, à medida que ia lendo com toda a calma esse parágrafo, um pensamento assaltou-me com a violência de um choque eléctrico: e se a obscura e horrível raça das colinas ainda sobrevivesse? Se ainda assombrasse locais ermos e colinas desabitadas e, uma vez por outra, repetindo as horríveis lendas góticas, ainda existisse, como os turanianos da Ásia ou os bascos de Espanha? Mencionei que esse pensamento me chegara violentamente e, de facto, sustive a respiração e agarrei-me aos braços da minha cadeira de encosto, com uma mistura de sentimentos confusos e de fascínio. Era como se um dos meus confrades das Ciências Físicas, ao passear por um calmo bosque inglês, tivesse sido fortemente surpreendido pela presença viscosa e horrível de um ictiossauro, pela figura original das histórias dos tremendos vermes mortos por 41


cavaleiros valorosos; ou tivesse visto o Sol a ser ocultado por um pterodáctilo, o dragão das tradições. Não obstante, como um resoluto explorador do conhecimento, pensar em tal descoberta inundou-me com uma paixão de alegria. Recortei esse pedaço de jornal e coloquei-o numa gaveta da minha velha escrivaninha, resolvendo que se trataria apenas do primeiro testemunho numa colecção da mais estranha importância. Sentei-me durante muito tempo nessa noite, a sonhar com as conclusões a que poderia chegar, sem que reflexões mais frias e objectivas tivessem alterado a minha confiança. Contudo, à medida que ia examinando o caso, pensei estar a construí-lo sobre alicerces instáveis. Talvez os factos se tivessem passado de acordo com a opinião local, e comecei a olhar para esse assunto com toda uma série de reservas. Todavia, decidi manter-me em alerta, deliciando-me com a ideia de que apenas eu estava atento e desperto, enquanto a grande multidão de pensadores e pesquisadores permanecia alheia e indiferente a tudo isso, não prestando qualquer atenção aos factos mais evidentes. Vários anos se passaram, até ter podido juntar mais qualquer coisa aos conteúdos dessa gaveta, e a segunda descoberta não foi de facto valiosa, pois tratava-se de uma mera repetição da primeira, apenas com a variante de se tratar de uma outra localidade distante. Porém, acreditei ter ganho qualquer coisa, pois nesse segundo caso, tal como no primeiro, a tragédia ocorrera num campo ermo e afastado, o que parecia justificar a minha teoria. O terceiro caso, porém, tornou-se-me mais evidente. Uma vez mais, no meio das colinas mais despovoadas, longe mesmo do tráfego ou de uma estrada principal, tinham encontrado um homem brutalmente assassinado, e o instrumento que o matara fora deixado a seu lado. Aqui, de facto, houve rumores e conjecturas, pois a arma mortal era um primitivo machado de pedra, atado com tiras de tripa seca a um cabo de madeira, o que dera lugar às mais extravagantes e improváveis hipóteses. Contudo, ao pensar nisso, não sem uma certa satisfação, reparei que as conjecturas mais ousadas se tinham desviado do caminho certo, de modo que me dei ao trabalho de estabelecer correspondência com o médico residente, que fora

chamado aquando da investigação judicial. Esse médico, que era um homem como uma certa inteligência, ficou sem palavras. «Não será bom falar dessas coisas em zonas rurais» escreveu-me ele, «mas, de facto, não há dúvida de que nos deparamos com um horrível mistério. Consegui ficar com o machado de pedra e quis testar a sua eficácia. Num domingo à tarde, levei-o até ao jardim, nas traseiras da minha casa, quando a minha família e os criados se encontravam fora, e aí, abrigado entre ramos de álamos, iniciei as minhas experiências. Achei que esse objecto não era nada fácil de manejar. Talvez requeresse um balanço peculiar, um ajuste na altura de lançamento, o que pressupunha uma prática constante. Se um golpe certeiro apenas pode ser infligido através de uma específica distensão de músculos, é algo que não sei, mas poderei jurar-lhe que voltei a entrar em casa com uma desiludida opinião acerca das minhas capacidades atléticas. Sentia-me como um homem sem experiência a tentar balançar um martelo. A força que exercia parecia fazer com que o meu braço recuasse, e até me senti empurrado violentamente para trás, enquanto o machado se limitava a cair inofensivamente no chão. Numa outra altura, tentei a mesma experiência com um exímio lenhador local, mas esse homem, que manejara o machado durante mais de quarenta anos, nada podia fazer com essa ferramenta de pedra, e falhou claramente cada um dos seus golpes. Para resumir, se não fosse tão imensamente absurdo, poder-lhe-ia dizer que, pelo menos durante quatro mil anos, ninguém à face da terra poderá ter desfechado um golpe certeiro com esse machado que, sem dúvida, fora usado para matar esse homem idoso.» Isto, como se poderá imaginar, eram para mim notícias muito importantes. Mais tarde, quando ouvi todos os pormenores dessa história, e vim a descobrir que esse malogrado idoso tinha falado em coisas que se poderiam ver à noite, numa certa encosta selvagem de uma colina, insinuando maravilhas desconhecidas, e que ele fora encontrado já morto há algum tempo junto à colina em questão, fiquei muito exaltado, pois acreditei que o cerne dos meus pensamentos não era apenas uma mera conjectura. Mas o próximo passo revelou-se-me ainda de maior importância. Possuíra, durante 42


muito anos, uma extraordinária chancela, feita de uma pedra negra e baça, com cerca de cinco centímetros desde a parte de cima até à que efectuava os carimbos, tendo esta uma forma aproximadamente hexagonal, com cerca de três centímetros de diâmetro. No geral, era semelhante a um calcador de tabaco, de fabrico antiquado. Fora-me enviada por um agente no Oriente, que me disse que a tinham encontrado perto do local onde se situara a antiga Babilónia. Mas os caracteres gravados nessa chancela eram para mim um enigma irresolúvel. Até certo ponto aproximavam-se da escrita cuneiforme, mas havia algumas diferenças, em que reparara logo de início, e todas as minhas tentativas para poder decifrar essa escrita, semelhante a pontas de seta, acabaram por falhar. Um enigma como esse ofendia o meu orgulho e, de vez em quando, retirava essa Chancela Negra da gaveta da minha escrivaninha, examinando-a tão prolongada e detalhadamente, que já conhecia de cor cada letra, podendo mesmo transcrever essa inscrição, na sua totalidade, sem ter medo de me enganar. Imagine-se então, qual não foi a minha surpresa, quando um dia recebi de um correspondente meu, no Oeste de Inglaterra, uma carta e uma nota apensa que me deixou absolutamente varado de espanto. Vi então, cuidadosamente desenhados sobre uma folha de papel, caracteres em tudo iguais aos da Chancela Negra, sem qualquer tipo de alteração e, por cima desses enigmáticos caracteres, o meu amigo escrevera: Inscrição encontrada numa pedra calcária nas Grey Hills, Monmouthshire. Feita com terra ou lama vermelha, e bastante recente. Peguei logo na carta, onde o meu amigo escrevia: «Envio-lhe esta inscrição com todas as minhas reservas. Um pastor, que passou por essa pedra há cerca de uma semana, jura que a mesma não tinha quaisquer marcas nessa altura. Os caracteres, tanto quanto me pude aperceber, foram feitos usando uma espécie de terra avermelhada e têm uma altura de dois centímetros. Para mim, assemelham-se a caracteres cuneiformes, embora bastante alterados. Porém, esta hipótese não faz qualquer espécie de sentido. Talvez se trate de uma brincadeira, ou mais provavelmente de uma mensagem deixada pelos ciganos, que grassavam por essa região do país. Estes têm, como deverá saber, toda

uma série de hieróglifos, que por vezes usam para comunicarem uns com outros. Visitei há dois dias a pedra em questão, devido a um doloroso incidente que aqui ocorreu.» Como se poderá calcular, escrevi imediatamente ao meu amigo, agradecendo-lhe a cópia dessa inscrição, e sugerindo-lhe, de um modo desinteressado, que me contasse o incidente que mencionara. Para não me alongar demasiado, tive conhecimento de que uma mulher, de apelido Cradock, que perdera o marido no dia anterior, tinha ido comunicar essa infeliz notícia a uma prima que vivia a cerca de dez quilómetros, e que seguira por um atalho que passava junto às Grey Hills. A Sr.ª Cradock, que então era ainda jovem, nunca chegou a casa da sua familiar. Já tarde, nessa mesma noite, um camponês, que perdera dois carneiros que se teriam afastado do rebanho, estava a passar pelas Grey Hills, com uma lanterna e o seu cão, quando a sua curiosidade foi despertada por um ruído, que ele descreveu como uma forma de lamento muito triste, capaz de rasgar o coração. Guiado por esse som, encontrou essa infeliz Sr.ª Cradock, encolhida e sentada no chão, junto à pedra calcária, a balançar o corpo para lá e para cá, a chorar e a lamentar-se de um modo tão afligido, que o camponês, segundo disse, teve de tapar os ouvidos para não fugir de imediato. A mulher permitiu que a levassem para casa, e uma vizinha veio ver se ela não precisaria de qualquer coisa. Durante a noite, contudo, ela nunca parou de chorar, misturando palavras numa linguagem ininteligível às suas lamentações. Quando o médico chegou, achou que ela tinha enlouquecido. Esta ficou de cama durante uma semana e, ora gritava como uma alma penada sem salvação, ora mergulhava num pesado coma. Todos pensaram que a dor, ante a perda do marido, lhe alterara o juízo, e o médico chegou mesmo a prognosticar que ela não teria muito mais tempo de vida. Não será necessário afirmar que me interessei imenso por essa história e que pedi ao meu amigo que me fosse escrevendo, informando-me dos mais mínimos pormenores desse caso. Vim então a saber que, cerca de seis semanas depois, a mulher recobrara o uso de todas as suas faculdades e que, alguns meses mais tarde, dera à luz um filho, de nome Jervase, que infelizmen43


te se parecia comportar como um deficiente mental. Eis os factos, tal como estes eram conhecidos nessa aldeia, mas, enquanto eu empalidecia ao pensar nos acontecimentos horríveis que decerto tinham ocorrido, tudo se transformava para mim numa certeza, chegando mesmo, incautamente, a sugerir algo mais aproximado da verdade a alguns amigos meus dados à Ciência. Todavia, assim que essas palavras me saíram dos lábios, fiquei logo amargamente arrependido, sobretudo por ter revelado o grande segredo da minha vida. Contudo, foi com um grande alívio misturado com uma certa indignação, que me dei conta de que os meus receios não tinham qualquer fundamento, pois os meus amigos riram-se na minha cara, como se estivessem perante um louco, apesar de, sob uma ira justificada, me ter sentido tão seguro entre essas cabeças quadradas, como se tivesse confiado esse meu segredo às areias do deserto. Mas, conhecendo já tanta coisa, decidi-me a conhecer tudo, e concentrei os meus esforços na tentativa de decifrar a inscrição da Chancela Negra. Durante muitos anos, fizera desse enigma o único objecto dos meus momentos de lazer, pois grande parte do meu tempo era dedicada, como seria de esperar, a outras tarefas e, só uma vez por outra, podia dedicar uma semana inteira a essas pesquisas. Se me atrevesse a contar toda a história desta curiosa investigação, o meu depoimento seria demasiado cansativo, pois consistiria apenas num relato das minhas várias e entediantes tentativas falhadas. Não obstante, com o meu sólido conhecimento de antigos textos, estava bem equipado para essa minha «caça», como sempre intimamente lhe chamara. Correspondia-me com quase todos os cientistas da Europa, de facto, até do mundo, e não era capaz de acreditar que, nesse tempo, quaisquer caracteres, por mais antigos e intrigantes que fossem, pudessem resistir à luz que, sobre eles, eu faria incidir. Contudo, ir-me-ia demorar ainda mais catorze anos, antes de obter sucesso. A cada ano que passava, as minhas tarefas aumentavam e o meu tempo livre diminuía. Isto contribuiu bastante para o meu atraso. Porém, quando olho para trás, para esses anos, surpreendo-me ante os vastos resultados obtidos, no que respeita à minha inves-

tigação acerca da Chancela Negra. Transformei o meu escritório num Centro e, de todas as partes do mundo e de todas as épocas reuni transcrições de antigos escritos. Nada, resolvera já, me iria passar ao lado e o mais pequeno índice deveria ser sempre bem recebido e investigado. Quando, apesar de tudo, pista após pista dissimulada não me levavam a nenhum lado, após todas as minhas tentativas, comecei, com o passar dos anos, a desesperar e a pensar se essa Chancela Negra não passaria da única relíquia de alguma raça que há muito desaparecera do mundo, sem deixar quaisquer vestígios; e que, por fim, tivesse perecido, tal como a Atlântida, devido a um tremendo cataclismo, e cujos segredos residissem no fundo do oceano ou enterrados no âmago das colinas. Esse pensamento esfriou um pouco o meu entusiasmo e, embora nunca tivesse desistido, já não tinha a mesma fé nem uma igual certeza. O acaso, no entanto, veio em minha ajuda. Estava de passagem por uma bela cidade do Norte de Inglaterra e tive a oportunidade de visitar o acreditado museu que há já algum tempo aí existia. O curador era um dos meus correspondentes e, enquanto estávamos a examinar uma vitrina de amostras minerais, um certo espécime chamou-me a atenção. Tratava-se de um pedaço de pedra preta, com oito centímetros quadrados, cujo aspecto me lembrava vagamente a Chancela Negra. Peguei nele, sem grande cuidado, e estava a rodá-lo na mão, quando reparei, para minha grande surpresa, que a parte debaixo do mesmo continha uma inscrição. Disse, quase entre dentes ao curador, que essa amostra me interessava e que lhe ficaria imensamente grato se ele me deixasse levála para o meu hotel durante dois dias. Ele, como seria de esperar, não me pôs quaisquer objecções, e eu apressei-me até aos meus aposentos onde me certifiquei de que esse meu primeiro vislumbre não me enganara. Havia nessa pedra duas inscrições: uma em caracteres cuneiformes regulares; outra contendo os caracteres da Chancela Negra. Dei-me então conta de que as minhas investigações estavam a chegar ao fim. Fiz uma cópia exacta das duas inscrições e, uma vez chegado ao meu escritório em Londres, com a chancela diante de 44


mim, poderia finalmente resolver esse grande dilema. A interpretação da inscrição dessa amostra do museu, embora fosse suficientemente curiosa, não se relacionava com o teor das minhas investigações, mas a sua transliteração revelou-me o segredo da Chancela Negra. É óbvio que uma certa conjectura teve que entrar nos meus cálculos. Aqui e ali deparava-me com uma certa incerteza em relação a um determinado ideograma, e uma marca, que aparecia repetidamente na Chancela Negra, intrigou-me durante as várias noites que se seguiram. Todavia, o segredo revelou-se finalmente diante dos meus olhos, em linguagem corrente, e pude então aperceber-me da chave da horrível transmutação das colinas. Ainda nem sequer acabara de escrever a última palavra, quando, com os dedos a tremer, rasguei em pequenos pedaços essa folha de papel, para os ver arder e tornarem-se negros, na boca da lareira, e mesmo depois de queimados acabei por reduzi-los à mais fina cinza. Nunca, desde então, me atrevi a voltar a escrever essas palavras, pois nunca hei-de escrever as frases que nos dizem de que modo o Homem pode ser reduzido a uma baba viscosa e forçado a tomar o aspecto do réptil e da serpente. Só haveria então uma coisa a fazer. Sabia-o, mas desejava ver tudo com os meus próprios olhos e, após algum tempo, pude arrendar uma casa perto das Grey Hills, e não muito longe da modesta construção onde a Sr.ª Cradock e o seu filho Jervase ainda viviam. Não será necessário escrever um relatório completo e pormenorizado acerca dos eventos que aí ocorreram, enquanto escrevo este testemunho. Sabia que iria encontrar em Jervase Cradock traços de sangue do «Povo Pequeno», e vim a saber mais tarde que ele se encontrara, mais do que uma vez, com esses seus parentes, em lugares isolados dessa terra solitária. Quando um dia me vieram pedir que fosse até ao jardim e o vi a ter um ataque, a falar e a ciciar a fantasmagórica linguagem da Chancela Negra, receio que o meu entusiasmo se tivesse sobreposto aos meus sentimentos de compaixão. Ouvi, irrompendo da sua boca, os segredos do mundo subterrâneo, e essa palavra tenebrosa, «Ishakshar», cujo significado não me vejo obrigado a revelar. Não obstante, existe um incidente que não po-

derei deixar de assinalar. No vazio perdido da noite, acordei com o som dessas sílabas ciciadas que eu tão bem conhecia e, ao dirigir-me para o quarto do infeliz rapaz, viu-o em convulsões e a deitar espuma pela boca, debatendo-se na cama, como se ele se estivesse a tentar libertar das garras de contorcidos demónios. Levei-o até ao meu escritório e acendi um candeeiro, enquanto ele continuava a tremer no chão, pedindo ao poder que se apossara do seu corpo que o abandonasse. Vi então de que modo esse seu corpo começara a inchar e a distender-se como uma bexiga, enquanto o seu rosto começava a escurecer visivelmente. Foi então que, perante essa crise, fiz o que era necessário, de acordo com as indicações da Chancela, e ignorando todos os meus escrúpulos, tornei-me um cientista que se limitou a observar o que estava a acontecer. No entanto, o que vi foi horrível, quase bem para lá da capacidade de qualquer concepção humana ou da mais tremenda fantasia. Algo tentava sair desse corpo estendido que se agitava pelo chão e, esticando um trémulo e viscoso tentáculo, através do escritório, essa entidade agarrou no busto que estava em cima do armário e colocou-o sobre a minha secretária. Quando tudo terminou, e eu fiquei aí, a andar de um lado para o outro o resto da noite, sobressaltado, pálido e encharcado em suor, tentei em vão pôr ordem nos meus pensamentos: convenci-me, assim, de que não vira nada de sobrenatural, e de que um caracol, ao estender e encolher as hastes, seria uma visão, em menor escala, do que de facto vira. Mas um profundo terror parecia irromper de todos esses meus raciocínios e me deixava a tremer e cheio de ódio por mim mesmo, sobretudo pela parte que me coubera nas peripécias dessa noite. Não haverá muito mais que eu possa acrescentar. Dirijo-me agora para a prova final e para o derradeiro encontro, pois há muito decidi que não iria simplificar as coisas, e hei-de encontrar-me com esse «Povo Pequeno» cara a cara. Terei comigo, como ajuda, a Chancela Negra e o conhecimento dos seus segredos e, se infelizmente não regressar da jornada que me espera, não haverá sequer necessidade de se conceber qualquer imagem acerca do horror do meu destino. 45


Fazendo uma pequena pausa, após o fim do depoimento do Professor Gregg, Miss Lally continuou a contar a sua narrativa do seguinte modo: Assim era a história quase incrível que o professor nos deixara. Quando a acabei de ler, já a noite ia avançada, porém, no dia seguinte, levei Morgan comigo e iniciámos a nossa busca pelas Grey Hills, à procura de qualquer rasto desse professor desaparecido. Não o irei incomodar com a descrição da erma tristeza dessa zona campestre, uma zona mergulhada na mais completa solidão, cheia de verdes colinas desertas, manchadas de cinzentos pedregulhos calcários, esculpidos pela erosão do tempo, em formas que fantasticamente se assemelhavam a homens e animais. Finalmente, após muitas horas de aturada busca, encontrámos o que já lhe contei: o relógio de bolso e a corrente, a bolsa e o anel, embrulhados num pedaço de rude pergaminho. Quando Morgan cortou os fios de tripa seca que atavam esse embrulho e eu vi os pertences do professor, desatei a chorar. Mas, os malditos caracteres da Chancela Negra, escritos nesse pergaminho, gelaram-me de horror, e foi então que percebi, pela primeira vez, o destino horrível que se abatera sobre o meu falecido empregador. Apenas me resta acrescentar que o advogado do Professor Gregg reagiu ao meu relato do que se passara como se fosse uma história de fadas, recusando-se mesmo a dar uma vista de olhos pelos documentos que eu colocara diante dele. Foi esse mesmo advogado o responsável pela informação que mais tarde apareceu nos jornais, afirmando que o Professor Gregg se afogara, e que o seu corpo deveria ter sido arrastado para o mar. Miss Lally parou então de falar e olhou para o Sr. Phillipps com uma expressão interrogativa. Este, por sua vez, estava muito pensativo, entregue a um profundo devaneio, e quando levantou os olhos e reparou na azáfama que, nesse fim de tarde, se espalhava pela praça (homens e mulheres que iriam compartilhar um próximo jantar, e as multidões que já começavam a encher os teatros de variedades), todo esse ruído da vida real, tudo lhe deve ter parecido fantasioso e visionário, como um sonho matinal após um despertar. BANG!

Arthur Machen (3 de março de 1863 - 30 de março de 1947) foi um escritor e jornalista galês, famoso pelos seus contos e novelas de terror e fantasia, além de ter sido actor durante um certo tempo. BANG!

O Grande Deus Pã Arthur Machen Venha conhecer um dos escritores mais influentes. Arthur Machen é famoso pelos seus contos do sobrenatural e horror. Ainda hoje a sua influência se reflecte nos mais variados ramos, da literatura à pintura, da música ao cinema (como em Labirinto del Fauno de Guillermo del Toro, inspirado em O Grande Deus Pã). Os seus temas abordam frequentemente as implicações psicológicas do sobrenatural e o mundo metafísico. O seu interesse pela religião, paganismo, oculto, alquimia, e kaballa, reflecte-se um pouco por toda a sua obra. Aclamado pelos maiores nomes do seu tempo: T.S. Eliot, Bernard Shaw, Oscar Wilde e, mais tarde, Jorge Luis Borges, que o reconheceu como um escritor genial e influenciador do realismo mágico Saida de Emergência / 2007 ISBN: 9789896370084 Preço: 16.59€ Na página da editora: 14.93€ 46


[crítica]

5 Estrelas Safaa Dib recomenda “A Guerra dos Tronos” “O talento do escritor para a construção do enredo, juntamente com o seu impecável domínio de técnicas estilísticas e narrativas, tornam As Crónicas de Gelo e Fogo num autêntico tour de force.”

A

Guerra dos Tronos estabeleceu uma visão da fantasia épica de pendor medieval totalmente distanciada da fantasia a que o leitor se terá habituado com autores da linha de J.R.R. Tolkien. O universo criado pelo autor norte-americano George R. R. Martin não será um de várias raças e demandas, mas é antes uma narrativa fascinante de um mundo onde o equilíbro de forças é mantido pelo poder de grandes famílias e senhores que servem os interesses que os ventos do destino ditarem. O rei Robert Baratheon governa a terra de Westeros após a sua rebelião contra a dinastia real dos Targaryen, os seus últimos sobreviventes forçados ao exílio. É senhor incontestável do reino, mas alguns iniciam, nas sombras, um jogo mortal de traição, enquanto outros cometem actos desesperados para ocultar segredos terríveis que podem destroçar o reino e lançá-lo num turbilhão de caos e violência. Em A Guerra dos Tronos uma série de eventos cruciais está prestes a desencadear um novo ciclo de guerra e lutas por poder, e cada família e personagem ver-se-á forçada a jogar de forma inteligente se quer sobreviver. Em simultâneo, velhas lendas de poderes ancestrais começam a manifestar-se de novo nos reinos, e ninguém poderá prever as consequências. O mundo de Martin não poucas vezes vê-se assolado por intrigas políticas que dão ori-

A Guerra dos Tronos George R. R. Martin O primeiro volume de As Crónicas de Gelo e Fogo. Quando Eddard Stark, lorde do castelo de Winterfell, recebe a visita do velho amigo, o rei Robert Baratheon, está longe de adivinhar que a sua vida, e a da sua família, está prestes a entrar numa espiral de tragédia, conspiração e morte. Durante a estadia, o rei convida Eddard a mudar-se para a corte e a assumir a prestigiada posição de Mão do Rei. Este aceita, mas apenas porque desconfia que o anterior detentor desse título foi envenenado pela própria rainha: uma cruel manipuladora do clã Lannister. Assim, perto do rei, Eddard tem esperança de o proteger da rainha. Mas ter os Lannister como inimigos é fatal: a ambição dessa família não tem limites e o rei corre um perigo muito maior do que Eddard temia! Sozinho na corte, Eddard também se apercebe que a sua vida nada vale. E até a sua família, longe no norte, pode estar em perigo. Uma galeria de personagens brilhantes dá vida a esta saga. Entre eles estão o anão Tyrion, a ovelha negra do clã Lannister; John Snow, um bastardo de Eddard Stark que, ao ser rejeitado pela madrasta, decide juntar-se à Patrulha da Noite, uma legião encarregue de guardar uma imensa muralha de gelo a norte, para lá da qual cresce uma assustadora ameaça sobrenatural ao reino. E ainda a princesa Daenerys Targaryen, da dinastia que reinou antes de Robert Baratheon, que pretende ressuscitar os dragões do passado e, com eles, recuperar o trono, custe o que custar. Saida de Emergência / 2007 ISBN: 9789896370107 Preço: 18.85€ Na página da editora: 16.97€ 47


[entrevista]

gem a episódios de brutalidade descritas com enorme realismo. Tem todos os elementos de mistério e suspense para manter o leitor preso até à última página e o talento do escritor para a construção do enredo, juntamente com o seu impecável domínio de técnicas estilísticas e narrativas, tornam a Canção do Gelo e do Fogo um autêntico tour de force. Mas serão as personagens que habitam o mundo do escritor a guiar e surpreender o leitor, constantemente assaltando-o com segredos insuspeitos. Com George R. R. Martin não existem personagens lineares, paladinos do bem ou do mal descritos a preto e branco, mas sim personagens humanas, vulneráveis, com profundas falhas de carácter, que revelam também grande força e determinação quando confrontados com circunstâncias difíceis. Com uma construção narrativa assente na perspectiva de cada personagem, o que é certo é que Martin se revela implacável e tirânico, um carrasco sem piedade para com o destino das suas personagens, que tanto podem ser heróis como são vilões, que tanto podem ser mártires como vencedores. Personagens como Tyrion Lannister, Daenerys Targaryen ou Jon Snow conquistaram já o seu lugar na galeria de figuras memoráveis da literatura fantástica. A saga poderá não ser profundamente original, mas a atenção ao detalhe na construção do mundo de Westeros, a coerência e consistência narrativa, o realismo das descrições, a naturalidade dos diálogos, a intensidade das violências e paixões estabeleceram George R. R. Martin como um dos autores mais proeminentes da fantasia épica.

Sangue, Suor e Lágrimas Entrevista a George R. R. Martin

George R. R. Martin: “Há imensas provas de que os meus livros parecem ser a fantasia para pessoas que não lêem fantasia.”

L

embra-se da primeira história que escreveu quando era criança? A primeira história… Provavelmente, ainda a tenho guardada algures numa gaveta. Sou o cúmulo da poupança; guardo tudo. Tenho uma gaveta, uma mala – depende de como se define uma história. Tenho um livrinho; é como uma enciclopédia espacial que escrevi quando era miúdo. Um daqueles cadernos, com as capas semelhantes a mármore, onde se pega na caneta e se preenche a parte branca até ficar azul e preta? Está tudo escrito assim. Uma Enciclopédia dos Planetas, com o trabalho gráfico feito por mim, consistindo, em grande parte, em círculos desenhados por mim, escrevendo eu em seguida algumas coisas acerca do planeta. É uma mistura estranha de factos com ficção. Tem lá Marte, planeta vermelho com

BANG!

Safaa Dib nasceu em 1983 no Dubai. Filha de um casal de imigrantes libaneses, cresceu em Lisboa onde frequentou os estudos no Liceu Camões e na Faculdade de Letras de Lisboa. A par do mestrado em estudos Anglísticos, tem-se dedicado a uma intensa actividade no meio fantástico português como divulgadora, crítica, tradutora, coorganizadora do Fórum Fantástico, vicepresidente da Épica e autora. BANG! 48


os seus canais, e depois tem o planeta Orm ou coisa semelhante, feito por mim, tendo eu inventado coisas acerca do mesmo. E tem os planetas do Flash Gordon e do Rocky Joe Space Ranger, que era uma série que eu costumava acompanhar, misturados com planetas totalmente inventados por mim e com planetas reais. Foi feito em decalques. Deve ter sido na primeira classe, pois eu ainda não tinha aprendido a escrever. Acho que isso é só na segunda classe. (Risos)

minha própria versão de Super-Heróis, mas não se pode simplesmente adaptar o que se quiser para Hollywood. É preciso esperarmos até que um estúdio nos contrate, e eu cheguei a ter entrevistas para alguns trabalhos relacionados com SuperHeróis, mas nunca cheguei a receber nenhum. Ao longo destes últimos anos fizeram algumas boas adaptações. Os franchises dos X-Men e do Homem Aranha destacam-se particularmente. A minha primeira publicação numa revista profissional não foi paga e foi para o Quarteto Fantástico #17. Era uma carta. (Risos) Eu dizia algo do género “Stan Lee, melhor do que Shakespeare.”

Ena. Isso mostra uma dedicação enorme numa idade tão jovem. Claro que não está acabado. Não acabei nada durante décadas.

Quais os escritores que mais admira? Essa seria uma longa lista. Senti um maior impacto por parte de escritores quando era jovem; nessa fase da nossa vida, somos mais impressionáveis. Temos menos experiência, ficamos abismados mais facilmente. Eu lia ficção científica, fantasia, horror, todos de forma alternada, não fazia as distinções de género que hoje se vê pessoas fazerem. Robert A. Heinlein era, sem sombra de dúvida, o meu escritor preferido. Foi-me dada, por um amigo da minha mãe, uma edição de capa dura de Have Spacesuit – Will Travell, publicada pela Scribner’s. Foi o primeiro livro de ficção científica que eu li, e, por muitos anos, foi o único livro de capa dura que possuí, pois não nos podíamos dar ao luxo de comprar edições de capa dura. Mas prendeu-me à ficção científica, e em vez de comprar quatro livros de banda desenhada, eu comprava um livro por 35 cêntimos. Na preparatória li O Senhor dos Anéis, de Tolkien, e este continua a ser um livro que admiro profundamente. Foram várias as vezes em que o reli, ao longo dos anos, ou que, pelo menos, dei uma espreitadela. A dada altura, H.P. Lovecraft exerceu uma grande influência em mim. Verdadeiro terror, as histórias dele aterrorizavam-me. Robert E. Howard, com Conan, o Bárbaro, é algo excelente para um rapaz de 13 anos. É uma boa idade para se descobrir o Conan. Há determinados autores que devem ser lidos em determinadas idades.

Então despertou cedo para a ficção científica? Sim, isso foi mais ou menos o que sempre li. Muitas vezes penso que foram os livros de banda desenhada a fazer de mim leitor assíduo. Aprende-se a ler na escola com o Dick e a Jane, mas as cenas do Dick e a Jane são tão chatas! (Risos) Corre, Dick, corre. Vê o Spot a correr. As histórias eram estúpidas, até mesmo para um aluno da primeira ou segunda classe. Anos mais tarde, vi alguns dos leitores dos famosos livros escolares McGuffey recuarem um pouco no tempo, para coisas que a geração da minha mãe teria lido nos anos 30 ou mesmo nos anos 20, e esse material estava cheio de verdadeiras histórias escritas por verdadeiros escritores, das quais os miúdos aprendiam. Mas na minha geração, geração do Baby Boom, tínhamos o Dick e a Jane e isso não me incentivava de forma alguma a ler. Já o Batman e o Super-Homem incentivavam: eram muito mais interessantes do que o Dick e a Jane. E foi assim que me deparei com a banda desenhada, adorei-a e continuei a lêla por anos a fio. Sei que realizou algum trabalho em Hollywood ao longo dos anos. Alguma vez considerou escrever ou adaptar algo para um franchise do Batman ou algo semelhante? Bem, como sabe, tenho a minha própria série de Wild Cards, o que acaba por funcionar como a 49


Concordo plenamente. Por exemplo, deixei Edgar Rice Burroughs passar-me ao lado. Anos mais tarde, quando já trabalhava em Hollywood, fui contratado pela Disney para adaptar Princesa de Marte, por isso peguei no trabalho de Edgar pela primeira vez, e (risos) ele… não é propriamente um modelo a seguir-se aos 45 anos de idade.

Li algures que Tyrion é a sua personagem preferida. Mas isso não quer dizer que ele esteja a salvo. (Risos) De todas, é a personagem mais fácil sobre a qual escrever. Gosto da sua presença de espírito, e ele tem uma boa dose de tormento e angústia, que ajudam na criação de um ambiente dramático. Não são muitas as personagens criadas por si que se encontram isentas de pecado, de várias formas, algo bastante interessante. Eu quis acrescentar alguma realidade humana. Não gosto da fantasia onde toda a gente é herói ou vilão, preto ou branco. Prefiro pintar em tons de cinzento. Penso que é mais fiel à vida real. Todos nós somos anjos e demónios, mascarados sob a mesma pele. Num dia fazemos coisas boas, e no dia seguinte podemos estar a cometer atrocidades.

Quando começou a estudar a série Crónicas de Gelo e Fogo, em que género de influências se baseou? De certa forma, depende de que altura se está a falar. A primeira ideia para a série surgiu-me em 1991, altura em que eu trabalhava maioritariamente em Hollywood. O primeiro capítulo surgiu-me de uma forma muito vívida. Escrevi umas cinquenta páginas até ser novamente chamado para Hollywood, e tive de o guardar numa gaveta durante o que acabou por se tornar um período de vários anos. Nessa fase, eu não fazia verdadeiramente ideia do que tinha. Uns anos mais tarde, voltei a trabalhar nele e achei o trabalho tão fresco como quando o tinha escrito pela primeira vez. Por fim, escrevi mais 150 páginas e um breve resumo da direcção que eu pensava que a história deveria seguir. Nesse momento, visualizei-a como uma trilogia de fantasia, em vez dos sete livros que agora visualizo.

Alguns críticos descreveram o seu trabalho como high fantasy. O que quer isso dizer para si? Bem, é uma fantasia tolkienesca. Quer dizer, podemos cortar a cebola em tantas camadas quanto quisermos, mas alguns críticos, mais para sua própria conveniência do que qualquer outra coisa, dividiram a vasta área do fantástico em subgéneros, como fantasia “urbana” ou fantasia dark. Durante toda a minha vida, sempre li pouca fantasia, mas senti-me de imediato preso aos seus livros. Penso que, em parte, terá também a ver com a intriga política. Eu leio fantasia, mas também leio romances históricos e quis dar a estes livros uma boa dose de ficção histórica. Nesse sentido, provavelmente torna-se mais palpável e realista do que a maioria da fantasia épica.

Enquanto vamos lendo a série, vamos criando uma ligação com as personagens, e eis que, subitamente, elas morrem. (Risos de George) É de ficarmos doidos. Algum dos seus editores alguma vez se mostrou verdadeiramente preocupado com a possibilidade de matar personagens principais? Não, toda a gente parece gostar disso.

Muitas pessoas esforçam-se mesmo para encontrar paralelos entre a realidade e estas histórias. Sem sombra de dúvida, senti-me inspirado por acontecimentos da história real. Mas tento evitar correspondência directa. Quer dizer, há certas semelhanças. Podemos ver isso em Aegon, o Conquistador, e Guilherme, o Conquistador. Existem

É uma leitura fantástica, mas que simplesmente me deixa aterrorizada. Bem, é essa a ideia – que o leitor se preocupe. Se a personagem estiver em perigo, o leitor deveria ter medo de virar a página.

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certas semelhanças, mas também diferenças importantes. Guilherme, o Conquistador, não tinha dragões nem se casou com as suas duas irmãs. (Risos) Estas distinções são muito importantes.

jássemos forma de os alcançar, por isso escolheram este tipo de capa mais simples, precisamente para aquelas pessoas que diriam “Bem, eu não quero ser visto a andar com um livro que tem cavalos e cavaleiros e castelos e dragões na capa”. Isso aborreceu alguns dos fãs originais. Recebo imensas cartas de fãs a dizer que os volumes já não combinam. Outros dizem ainda que gostavam mais das capas anteriores.

O casamento com as duas irmãs traz um assunto importante à baila. Há pessoas que classificam o seu trabalho como “perverso”, devido à presença de incesto e de cenas gráficas de teor sexual. Alguma vez se depara com pessoas que lhe dizem “Eu gosto mesmo muito do seu trabalho, mas às vezes acho que simplesmente tem sexo a mais”? Sim, recebo cartas dessas. Não muitas, mas…

Mas funcionou. Quer dizer, número um na lista de best-sellers do The New York Times! Parece, de facto, estar a funcionar. Até com algo como o Harry Potter, que tem agora também uma edição com capa para adultos.

Bem, historicamente falando, faz parte da vida. Claro. Quer dizer, as pessoas já não se podem casar com as suas irmãs, mas tenho a certeza de que ainda há pessoas que dormem com elas. (Risos) Há milhões de livros publicados pelo mundo fora, é essa a minha primeira reacção quando recebo esse género de cartas. Se não gostam de muito sexo na fantasia que lêem, então há 37 outros autores que podem ler e que não escrevem sobre sexo nas suas obras de fantasia. Divirtam-se. É uma parte importante da vida humana e necessária para qualquer tipo de retrato realista. Esse é o meu público. É um triste comentário na moral americana aquele que diz que o sexo é a coisa que as pessoas rejeitam. Acho isso triste, mas é a verdade. Posso descrever um machado a rebentar com o crânio de uma pessoa, e ninguém protesta, mas se eu descrever um pénis a penetrar uma vagina, isso causa uma revolta.

Não estou a ver como poderão vender ainda mais cópias do Harry Potter. Pensava que toda a gente já tinha um exemplar. Não, eles estão a tentar alcançar todas as pessoas que nunca leram nada além de Dan Brown. (Risos) BANG! Por Andrea Warner, AbeBooks

Algumas pessoas dizem “Oh, eu evito fantasia porque as capas são demasiado ridículas”, ou algo semelhante. Vejo que esta capa de A Feast for Crows é muito diferente de todas as outras publicadas anteriormente. Deram uma nova embalagem a toda a série e agora os livros mais antigos foram reimpressos com um tipo de arte equivalente. Há imensas provas de que os meus livros parecem ser a fantasia para pessoas que não lêem fantasia. E os meus editores acham que poderiam haver ainda mais leitores se arran-

George R. R. Martin trabalhou dez anos em Hollywood como escritor e produtor de diversas séries e filmes de grande sucesso. Autor de muitos bestsellers, foi em meados dos anos 90 que começou a sua mais famosa obra: A Guerra dos Tronos. É a saga de fantasia mais vendida dos últimos anos e os direitos de televisão acabaram de ser vendidos à HBO - a produtora de Sopranos e Sete Palmos Abaixo de Terra. BANG! 51


[ficção]

Filho do Sangue

[tradução de David Soares]

Richard Matheson «Durante meses, Jules foi visitar o morcego-vampiro e conversou com ele. O animal tornou-se a sua única alegria. Um símbolo vivo dos seus sonhos.»

Q

uando ouviram falar da condição de Jules, os vizinhos do seu bairro pensaram que ele era louco. Há algum tempo que suspeitavam. Ele era capaz de os fazer tremer apenas com um olhar. Não era natural uma voz rouca, gutural, como a dele, pertencer a um físico tão franzino. A pele pálida perturbava os putos: parecia cair-lhe no corpo uns números acima… E ele detestava a luz do Sol. Os vizinhos do bairro pensavam que as ideias dele eram um pouco estranhas. É que Jules queria ser vampiro. Todos concordavam ser verdadeiro que na noite em que Jules viera ao mundo o vento desenraizara as árvores. Que ele nascera com três dentes. Que ele mordeu o seio da mãe com esses dentinhos para beber sangue durante as mamadas. Que ele ria e ladrava no berço pela noite dentro. Que começara a andar aos dois meses de idade e que se punha a olhar embevecido para a Lua Cheia sempre que ela brilhava. Eram coisas deste género que as pessoas diziam. Os pais andavam sempre preocupados com ele: conheciam bem as imperfeições do único filho. Achavam que tinha nascido cego até o médico lhes contar que ele apenas possuía um olhar inexpressivo. Que Jules, com uma cabeça assim tão grande, ou daria em génio ou em idiota. Os pais

acreditavam que ele estava a tornar-se num idiota. Já tinha feito cinco anos quando falou pela primeira vez. Certa noite, sentado à mesa antes de começar a jantar, disse “Morte” em voz alta. Os pais angustiaram-se, divididos entre o amor parental e a repulsa. Com o passar dos anos tinham sintonizado essas duas emoções num sentimento intermédio. Achavam que Jules não dava conta, assim como ainda não tinha aprendido, certamente, o que significava a palavra “Morte”. Mas ele sabia. A partir dessa noite, ele reuniu um vocabulário extensivo que surpreendeu toda a gente que o conhecia. Não só absorveu cada palavra que ouviu, mais os nomes que leu em revistas, livros e anúncios publicitários, como inventou as próprias palavras. Como noitoque! Ou amorte. Imensas palavras que fundiu umas com as outras. Expressavam coisas que ele sentia, mas que era incapaz de explicar. Tinha o hábito de se sentar na varanda para ver as outras crianças a brincar à macaca ou a jogar basebol com um cabo de vassoura e uma bola de borracha. Deixava-se ficar sentado a olhar para elas e ia inventando palavras novas. Jules conseguiu manter-se livre de sarilhos até fazer doze anos. Até ter sido descoberto a despir o Oliver Jones num beco. E ter sido apanhado a dissecar um gatinho em cima da cama. 52


Esses escândalos foram esquecidos com o passar dos anos, mas pode-se dizer que ele atravessou a infância a meter nojo às pessoas. Frequentou a escola, mas nunca estudou. Precisou sempre de repetir os anos duas vezes; às vezes, três. Os professores sabiam que ele nunca chegaria a ser nada, mesmo que fosse um excelente aluno a ler e a escrever. No resto era uma nódoa. Foi aos doze anos de idade, num Sábado, que Jules foi ao cinema e viu Drácula. Quando o filme chegou ao fim ele saiu agitado da sala de cinema; numa pilha de nervos passando entre meninas e meninos bem-comportados. Correu para casa e trancou-se na casa de banho durante duas horas. Os pais bateram com força na porta, ameaçando deitá-la abaixo, mas ele não a abriu. Finalmente, saiu e sentou-se à mesa na sala de jantar. Trazia um penso no polegar e um sorriso largo no rosto. Na manhã seguinte foi à biblioteca. Sentou-se nos degraus da entrada o dia todo à espera que ela abrisse, mas era Domingo. Resignado, voltou para casa. Baldou-se às aulas na manhã seguinte e regressou. Encontrou o livro Drácula. Não podia levá-lo para casa porque não era sócio e para se fazer sócio teria de pedir aos pais para fazer a inscrição. Escondeu o livro dentro das calças, fugiu da biblioteca e nunca o devolveu. Sentou-se no jardim e leu-o de enfiada. Quando terminou já era quase noite. Voltou à primeira página e recomeçou a leitura, iluminado pelos candeeiros de rua no caminho para casa. Fez ouvidos moucos à gritaria dos pais, furiosos por ele ter faltado à escola e não ter vindo jantar com eles. Jantou a comida fria, subiu para o quarto e acabou de ler o livro pela segunda vez. Os pais perguntaram-lhe onde encontrara aquele livro e ele respondeu que estava caído na rua. Nos dias que se seguiram, Jules leu-o vezes sem conta. Deixou de ir à escola. À noite, quando já se encontrava ferrado no sono, a mãe entrava-lhe no quarto e levava o livro com ela para o ler

com o pai. Foi numa noite dessas que descobriram as frases sublinhadas a lápis pelo filho. Frases como: “Os lábios dela estavam molhados com sangue fresco e brilhante que lhe escorria pelo queixo e pingava sobre o fino sudário de linho, manchando-o de carmim.” Ou: “Quando o sangue começou a esguichar ele prendeu-me os pulsos, apertando-os, e, com a outra mão, agarrou-me o pescoço e abocanhou a ferida…” A mãe leu as frases destacadas e atirou com o livro pela conduta do lixo. Quando acordou Jules descobriu que não tinha o livro e gritou! Torceu o braço da mãe atrás das costas até ela lhe dizer onde o tinha escondido. Desceu até à cave a correr e procurou na pilha de lixo até o encontrar. Com as mãos sujas de borras de café e claras de ovos saiu de casa e foi até ao jardim para ler o livro mais uma vez. Durante um mês inteiro leu-o avidamente. Aprendeu-o de cor e salteado: era capaz de se lembrar tão bem da história que deitou o livro fora. Já não precisava de ler, bastava-lhe pensar. As cartas com as faltas enviadas pela escola começaram a chegar a casa. A mãe perdeu a cabeça, fez uma chinfrineira e Jules voltou às aulas por uns tempos. Queria escrever uma composição. Escreveu-a na aula numa das manhãs seguintes. Quando toda a turma acabou de escrever, a professora perguntou aos alunos qual deles desejava ler a composição em voz alta. Jules levantou o braço. A professora ficou surpreendida, mas sentiu pena dele. Quis estimulá-lo. Mostrou-lhe um sorriso amarelo e disse: ‘Muito bem. Prestem atenção. O Jules vai-nos ler a composição dele.’ Jules levantou-se. Estava excitado. A folha de papel tremia-lhe nas mãos. ‘O Que Eu Quero Ser…’ ‘Anda para aqui, querido.’ Jules pôs-se à frente da turma e leu outra vez. A professora continuava sorridente. ‘O Que Eu Quero Ser. Por Jules Drácula.’ O sorriso murchou. ‘Quando for grande quero ser vampiro.’ 53


A boca da professora transformou-se numa coisa torta. Arregalou os olhos. ‘Quero viver para sempre e vingar-me de todos os parvos que me tratam mal. Quero transformar todas as raparigas em vampiras. Quero ter o cheiro da morte.’ ‘Jules!’ ‘Quero ter um bafo fedorento que cheire a terra morta, a criptas e a caixões. A caixões doces.’ A professora arrepiou-se; abraçou-se sem querer acreditar no que estava a ouvir. Olhou para a turma. Os miúdos estavam sem pinga de sangue; alguns rapazes riam, mas as meninas não estavam a achar graça nenhuma. ‘Quero ser gélido e podre com as veias cheias de sangue roubado.’ ‘Já… hrrumph… chega!’ A professora pigarreou alto e mandou-o parar de ler. Jules continuou desesperado, elevando o volume da voz: ‘Quero morder os pescoços das minhas vítimas com os meus dentes afiados e terríveis. Quero…’ ‘Jules! Senta-te, já!’ ‘Quero cortar-lhe a carne com os meus dentes como se eles fossem lâminas e abrir-lhes as veias’, leu Jules com ferocidade. A professora levantou-se. A turma tremia; já ninguém se estava a rir. ‘E depois quero beber o sangue: deixá-lo escorrer-me para a boca e senti-lo quente na garganta.’ A professora agarrou-o pelos braços, mas ele sacudiu-a e fugiu para um canto. Protegido atrás de uma cadeira gritou: ‘Quero lambê-las. Beijá-las! Quero sangue de raparigas!’ A professora esticou-se e puxou-o de trás da cadeira. Ele arranhou-a e gritou enquanto ela o puxou até ao gabinete do director. ‘É o que eu quero ser! É o que eu quero ser! É o que eu quero ser!’ Não foi bonito. Jules foi posto de castigo no quarto sem poder sair. A professora e o director sentaram-se com os pais dele e contaram-lhes o que acontecera com vozes sepulcrais. Todo o bairro falava do mesmo assunto. A

maioria dos pais não quis acreditar, pensaram que os filhos estavam a brincar. Depois começaram a achar que tinham sido uns péssimos pais, pois haviam criado filhos com uma imaginação tão mórbida. Por isso, escolheram acreditar… Depois desse episódio toda a gente passou a vigiar Jules com mão-de-ferro. Evitavam falar com ele. Os pais tiravam os filhos dos passeios quando o viam a aproximar-se e toda a gente começou a inventar histórias sobre ele. Jules disse à mãe que nunca mais voltaria a pôr os pés na escola e que nada o conseguiria fazer mudar de ideias. A escola continuou a enviar-lhe as faltas para casa. Quando algum assistente escolar vinha bater à porta, Jules fugia de casa pelo telhado e corria por cima das casas. Passou-se um ano. Jules deambulava em busca de uma coisa: mas não sabia o quê. Espreitou nos becos. Procurou nos caixotes do lixo. Nos parques de estacionamento. Investigou à direita e à esquerda, em cima e em baixo. E no meio. Não era capaz de encontrar aquilo que buscava. Quase nunca dormia. Nunca falava. Sempre com a cara voltada para o chão, esquecera as palavras secretas que tinha inventado. Até que! Um dia, no parque, Jules entrou no Jardim Zoológico. Sentiu um choque quando viu o morcego-vampiro dentro de uma grande gaiola. Os olhos flamejantes do quiróptero fixaram-se nele e Jules viu-lhe os dentes desbotados arreganharem-se num sorriso. A partir desse momento, Jules passou a visitar o Jardim Zoológico todos os dias para contemplar o morcego-vampiro. Falava com ele e chamava-lhe Conde. Sentia no coração que aquele animal era um homem que se tinha transformado. A sua mente renovou-se naquele instante. Voltou à biblioteca e roubou um livro sobre a vida selvagem. 54


Encontrou uma página que falava sobre aquela espécie de morcego. Arrancou-a e deitou o livro fora. Aprendeu o texto de cor. Aprendeu como o morcego-vampiro fazia as feridas nas vítimas. Que se empanturrava em sangue, lambendo-o como um gato bebe leite. Que se deslocava no chão com as patas traseiras e as asas em movimentos aracnídeos. E qual o motivo pelo qual apenas bebia sangue e nada mais. Durante meses, Jules foi visitar o morcego-vampiro e conversou com ele. O animal tornou-se a sua única alegria. Um símbolo vivo dos seus sonhos.

taria cá fora dali a pouco. Então poderiam ir à caça de raparigas para lhes beber o sangue. À noite, Jules voltou ao Jardim Zoológico. Puxou para fora o restos dos arames e conseguiu entrar por um pequeno buraco para dentro da gaiola. Estava muito escuro. De joelhos, aproximou-se do pequeno ninho de madeira onde o morcego-vampiro descansava e pôs-se à escuta, esperando ouvir os guinchos. Enfiou o braço no ninho e chamou o Conde. Deu um salto quando sentiu uma picadela num dedo. O rosto macilento iluminou-se de prazer e Jules agarrou o morcego-vampiro, peludo e exaltado, puxando-o contra o peito. Saiu da gaiola com ele e fugiu do Jardim Zoológico. Correu para fora do parque e entrou nas ruas silenciosas. A madrugada estava a ir-se embora. A primeira luz do dia pintava o céu de cinzento. Jules não podia voltar para casa. Tinha de encontrar outro sítio. Meteu por um beco e trepou uma cerca. Agarrou o animal com segurança: continuava curvado sobre o sangue que lhe escorria do dedo. Atravessou um pátio deserto e encontrou uma barraca abandonada. Estava cheia de lixo: latas, caixotes de cartão ensopados de humidade e excrementos. Jules certificou-se que o morcego-vampiro não tinha por onde fugir e fechou a porta da barraca. Sentia o coração aos pulos e as pernas a tremer. Largou o morcego-vampiro! Voou para um canto e agarrou-se ao tecto de madeira. Jules abriu a camisa à bruta. Os lábios tremiam-lhe: sorriu como um maníaco. Meteu a mão no bolso e tirou a faca de abrir os envelopes que roubara de cima da secretária da mãe. Cortou um dedo com ela e o sangue molhou-lhe a mão toda. ‘Conde! Conde!’, gritou, excitado. ‘Bebe o meu sangue! Bebe-me! Bebe-me!’ Arquejou sobre as latas abandonadas e, atabalhoado, tentou apanhá-lo. Escorregou. O morce-

* Um dia, Jules reparou que no fundo da enorme gaiola do morcego-vampiro havia um arame solto. Olhou em volta, piscando muitas vezes os olhos de pupilas negras. Não viu ninguém. Estava mau tempo e pouca gente se encontrava no Jardim Zoológico naquele dia. Jules puxou o arame da gaiola. Moveu-se um poucochinho. Viu um homem sair da casa dos macacos. Escondeu a mão e afastou-se, assobiando. Mais tarde, à noite, quando os pais pensavam que ele estava a dormir, passou descalço pelo corredor. Podia ouvir o pai a ressonar. Despachou-se, calçou os sapatos e correu para o Jardim Zoológico. Sempre que o segurança desaparecia, para mais uma volta, Jules puxava o arame. Acabou e começou a puxar outro. Continuou a puxar até ele ficar quase solto. Antes de regressar a casa, voltou a engatar os arames no sítio para que ninguém visse que estavam desprendidos. Jules permaneceu esse dia diante da gaiola do Conde, a rir e a dizer-lhe que, em breve, ele estaria livre. Contou ao Conde todas as coisas que sabia. Que iria treinar como se descia pelas paredes com a cabeça para baixo. Disse-lhe para não se preocupar. Que ele es55


go-vampiro bateu as asas e sobrevoou-o, indo pousar do outro lado da barraca. Jules começou a chorar. Rangeu os dentes. O sangue escorrera-lhe pelo braço para o peito. Tremeu, delirante. Cambaleou e avançou em direcção ao morcego-vampiro. Tropeçou e sentiu-se a ser cortado por uma lata afiada. Empinou-se e agarrou o morcego-vampiro. Encostou-o à garganta e sentou-se no chão frio e húmido. Suspirou. Gemeu e bateu no peito. O estômago começou-lhe a andar às voltas. O morcego-vampiro lambeu-lhe o sangue em silêncio. Jules sentiu-se a desfalecer. Pensou no passado. A angústia. Os pais. A escola. Drácula. Sonhos. Tudo por este momento. Este momento glorioso. Abriu os olhos de repente. O interior fétido da barraca flutuava-lhe diante dos olhos. Não conseguia respirar. Abriu a boca para tragar o ar e engoliu tudo o que conseguiu. Sabia a merda. Fê-lo tossir. O corpinho franzino dele encolheu-se no chão frio e húmido. O cérebro enevoou-se. Camadas de dormência como lençóis em cima de uma cama. De repente, a mente clareou. Um terrível momento de lucidez. Sentiu a dor aguda. Percebeu que estava seminu, sentado em cima de um monte de lixo numa barraca abandonada, a deixar que um morcego-vampiro lhe bebesse o sangue. Amotinou-se, com um grito, e atirou com o morcego-vampiro para longe. Voltou logo a seguir, guinchando; batendo-lhe com as grandes asas pretas no rosto. Jules levantou-se com dificuldade. Avançou para a porta, mas mal conseguia ver o que tinha em frente do nariz, pressionou a palma da mão na garganta para estacar o corrimento de sangue. Conseguiu abrir a porta. Arrastando os pés para um pátio das trasei-

ras, acabou por cair com a cara em cima da relva danificada. Quis chamar alguém para o ajudar. Só conseguiu balbuciar um murmúrio. Ouviu o bater de asas do morcego-vampiro. O ruído aproximou-se. E desapareceu. Silêncio. Sentiu mãos grandes e fortes levantá-lo com delicadeza. Moribundo, Jules conseguiu ver um homem alto, de pele escura, cujos olhos relampejavam como fachos de uma fogueira. ‘Meu filho’, disse o homem. BANG!

Richard Burton Matheson foi autor, argumentista e as suas obras incidiram principalmente nos géneros da fantasia, terror e ficção cientifica. Foi autor de uma das mais emblemáticas noveletas de vampiros: Eu Sou a Lenda. Nascido em Nova Jersey, de pais noruegueses, Matheson cresceu em Brooklyn e graduou-se na Brooklyn Technical School em 1943. Alistou-se e passou a Segunda Guerra Mundial como soldado de infantaria. Em 1949 obteve o bacherelado em jornalismo na University of Missouri-Columbia e mudou-se para a California em 1951. Casou-se em 1952 e teve quatro filhos, três dos quais (Chris, Richard Christian e Ali) são autores de ficção científica e argumentistas. A Saída de Emergência publicou em Dezembro de 2007 a versão tie-in de Eu Sou a Lenda. Está planeado para meados de 2008 uma edição especial do mesmo livro, com mais contos e uma capa exclusiva. BANG! 56


[ficção]

O Mundo Apagado Vasco Luís Curado «Agora estou aqui, nesta instituição. O meu corpo e o meu espírito estão isolados de tudo. Nada penso, nada sinto. Creio que sou nada.»

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meu corte de relações com a Laura já estava latente há algum tempo. Há pessoas que mudam, nem sempre para melhor, e ela mudou bastante depois de termos cancelado a nossa relação amorosa. O decorrer da vida encarregou-se de nos afastar um do outro. Cada um de nós veio a cultivar outras amizades e relacionamentos, mas isso não justifica a atitude que ela, gradualmente, foi adoptando em relação a mim. Começou a utilizar uma das suas principais armas: a ironia. Confesso que não lido muito bem com os ditos irónicos e espirituosos que me possam lesar. E nisso a Laura revelou-se bastante cruel, ela que, mais do que ninguém, conhecia os meus pontos fracos e sabia como atingir-me. O que provocou nela essa mudança, ao ponto de fazer de mim o alvo principal da sua chacota, não sei dizer. Não era raro que, em presença de outras pessoas, a Laura provocasse o riso geral com alusões à minha pessoa. Quando me encontrava e nos confrontávamos sozinhos, sem que ela tivesse o apoio do seu séquito de amigos, cumprimentava-me com um ar trocista e condescendente (sou ultra-sensível ao mínimo sinal de condescendência) e fazia um comentário ocioso que, obviamente ou subtilmente, denegria a minha imagem. Isto, para mim, era pelo menos tão grave como o resto que ela já me fazia. O facto é que já nada tínhamos a dizer um ao outro, e penso que ela lidava com esse emba-

raço através do humor tortuoso e destrutivo que a caracteriza. Laura, ou a imagem dela, tornou-se o alvo do rancor que eu destilava secretamente, em pensamentos. Um dia decidi apagar a Laura do meu mundo mental, visto que me dominavam ideias de retaliação. Nunca mais frequentei dois cafés onde ela ia habitualmente. Apesar de eu ser também cliente antigo desses estabelecimentos, deixei de lá ir. Alguém poderá argumentar que na vida nada é definitivo, mas posso asseverar, contra quem quer que seja, que aquela decisão era alimentada por todas as forças do meu ser e tinha carácter de coisa irrevogavelmente definitiva. Quando eu passava diante da porta daqueles cafés, virava os olhos para o chão ou para o lado oposto. Agia como se tivesse apagado com uma borracha aquelas duas fachadas na corrente de casas e prédios. No lugar onde antes existiam, agora havia duas lacunas, dois buracos brancos. Este apagamento não me livrava de um vago mal-estar que sentia quando passava perto daqueles lugares. Então, tive de vetar as duas ruas. Apaguei-as também do meu itinerário citadino. Aquelas duas ruas deixaram de existir para mim e creio que nem que fosse sonâmbulo tornaria a entrar nelas. Anulei-as da minha planta da cidade e também do meu pensamento e da minha memória. Mas isto não era suficiente. Para que a possibilidade de me cruzar com a Laura fosse 57


ainda menor, vetei também a rua onde ela mora. E, por desenvolvimento lógico, tive de apagar o espaço urbano entre a rua onde ela mora e as ruas daqueles cafés que mencionei. Formou-se assim uma sombra ou área negra sobre a planta da cidade, uma área proibida para os meus passos e mesmo para os meus pensamentos. Direi antes uma zona de vazio que o meu trabalho de apagamento produziu. Estas manobras, no entanto, não me trouxeram paz. Se de facto conseguiram que eu deixasse de pensar na Laura, levaram a que eu activamente não pudesse pensar nela e promovesse mais e mais estratégias para a manter fora do meu mundo. Isto não é tarefa fácil, pois as consequências de se criar uma tal zona de vazio interferiam no meu quotidiano: havia certos estabelecimentos dentro da zona apagada (uma papelaria, uma tabacaria, um cinema) que, tendo-se-me tornado inacessíveis, obrigavam-me a procurar alternativas noutros pontos da cidade. Só o facto de ter de procurar essas alternativas, e os contratempos suplementares que isso acarreta, fazia com que quase tivesse de me lembrar da Laura, e então tinha de desenvolver contra-tarefas e contra-estratégias para combater as consequências das anteriores. Assim se foi ramificando uma rede, cada dia mais densa, de actos, factos e procedimentos que era preciso tecer. Tudo o que podia entrar em associação, próxima ou remota, com a zona apagada, eu tinha de suprimir: os nomes das ruas vetadas, por exemplo, podiam conduzir associativamente a milhares de coisas que eu tinha de apagar do meu pensamento, memória e sensibilidade. Assim, paralelamente à teia crescente de factos e associações proibidas, foi-se desenvolvendo um vácuo, não apenas urbano, mas também mental. Este trabalho de contra-associação provocou o alastrar da zona apagada da cidade. É espantoso o poder absorvente da associação. As associações são insaciáveis no seu anseio de conquista e alargamento. As minhas contra-associações, apesar de corajosas e enérgicas, iam sendo derrotadas, uma a uma, porque logo após se for-

marem eram reduzidas à condição de uma associação mais, e não já uma eficaz contra-associação. Deste modo, o meu propósito de ir vetando lugares e memórias alimentava o próprio perigo de que pretendia ser o remédio. Mas quem se colocar no meu lugar descobrirá que não há outra maneira de lidar com essas associações que canibalizam a nossa inteligência e a nossa capacidade de empreender e de pensar. O meu esforço deve ser visto como uma tarefa ciclópica, digna de um daqueles heróis que se engrandeciam pela própria impossibilidade dos seus feitos, e não como uma falácia lógica ou uma armadilha intelectual. Por contaminação associativa, por reprodução viral dos tabus e interdições que eu ia elaborando em torno da imagem da impensável Laura, a zona apagada não parava de crescer. Percebi que eu não apagava cada vez mais coisas em redor das coisas já apagadas, mas que o vazio é que ia invadindo o espaço. Aconteceu, por isso, que toda a cidade se apagou, e no meio desse vazio flutuava apenas a minha casa. Deixei de sair de casa, porque só o pôr o pé na rua evocava, por associação, todas as outras ruas e o que há nelas. Fechei todas as janelas e cerrei as cortinas, porque só o vislumbrar um objecto citadino, lá fora, ameaçava colorir ou preencher o vazio que eu criara. Passei a demorar-me cada vez mais no compartimento mais remoto, sem janelas, da casa, para não chegarem até mim os ruídos exteriores que invadiam insolentemente o meu reduto. Calafetei a porta desse compartimento, revesti as paredes e o tecto com materiais isolantes, criei ali uma câmara de paz e esquecimento. A minha velha mãe, que enfrentou as minhas bizarrias, único elo de ligação entre mim e o mundo exterior, trazia-me comida, lavava os lençóis da minha cama, limpava o penico que eu deixava à porta. Concluí que a simples existência da minha mãe era já a prova de que havia um mundo exterior e que dentro desse mundo havia uma cidade e, algures nessa cidade, havia ruas e lugares determinados, e nestes a silhueta daquela 58


[entrevista]

em quem eu não podia pensar. Num instante, aquele vácuo no seio do qual a minha câmara final flutuava, comigo lá dentro, podia ser invadido violentamente pelas cores, cheiros, sabores e dados concretos da cidade. Todo o meu trabalho podia desfazer-se instantaneamente e do interior do vácuo emergir, zombeteira e cruel, a cidade que eu apagara. E o resto, todo o resto, vinha logo a seguir. Tive de esquecer a existência da minha mãe e daquela porta através da qual comunicava com ela. A minha câmara isoladora não podia ter porta. Para eficazmente apagar a minha mãe, não podia precisar dela. Não podia mudar de roupa e de lençóis. Não podia comer. A câmara revelou-se não ser o termo da minha fuga, o porto de abrigo que eu procurava. Tinha ela também de ser apagada. Só eu podia existir, não física ou mentalmente, mas num vácuo. Mergulhei nesse vácuo, diluí-me nele, tornei-me vácuo, coisa apagada. Agora estou aqui, nesta instituição. O meu corpo e o meu espírito estão isolados de tudo. Nada penso, nada sinto. Creio que sou nada. Tenho momentos em que torno a ser alguma coisa e então vejo pessoas à minha volta, uma cama branca, galhos de árvores para lá das janelas. Mas anulo esses momentos de fraqueza que trazem consigo a realidade do mundo e regresso à minha diluição. Nos meus sonhos, vejo-me às vezes a vogar numa paisagem branca e lisa como uma folha. Tem de ser assim, caso contrário renasce o mundo a partir do nada, e dentro dele a figura daquela que não vou nomear e a lembrança das ofensas que me dirigiu. BANG!

Como organizar uma monarquia Entrevista a Octávio dos Santos Octávio dos Santos é o organizador da antologia de história alternativa: A República Nunca Existiu! a publicar pela Saída de Emergência dia 21 de Janeiro

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omo nasceu a ideia desta antologia? Como eu explico na introdução, a antologia nasceu de um conjunto de factores, de influências. Principalmente, de leituras que fiz no Verão de 2006: «Roma Eterna», de Robert Silverberg, e «A Invenção de Leonardo», de Paul J. McAuley. Da conferência de Gerson Lodi-Ribeiro no Fórum Fantástico desse mesmo ano, sobre o conceito de «história alternativa»... e a necessidade de haver mais narrativas deste tipo em português. De outro livro meu, escrito há quase três anos e ainda não publicado, intitulado «Espíritos das Luzes», que versa sobe um Portugal... diferente. Enfim, da própria efeméride, dos 100 anos do Regicídio, que eu sabia que iriam ser assinalados em 2008... e a verdade é que, nos últimos anos, eu tenho dedicado especial atenção, tenho concebido

Vasco Curado nasceu em 1971. Publicou, no domínio da ficção, o livro de contos “A Casa da Loucura” (Ausência, 1999) e o romance “O Senhor Ambíguo” (Escritor, 2001). Em 2006 participou na antologia lovecraftiana A Sombra Sobre Lisboa da Saída de Emergência. Psicólogo clínico, publicou uma tese de mestrado em Psicopatologia, “Sonho, Delírio e Linguagem” (Fim de Século, 2000). BANG! 59


vários projectos, à volta de efemérides nacionais importantes. E esta é uma das mais importantes.

da Monarquia e da Família Real! Porém, e talvez surpreendentemente, isso acabou por não acontecer assim tanto. Há um conto em que, de facto, a Casa de Bragança é «brindada» com palavras muito duras, nas quais eu não me revejo, mas isso foi uma prerrogativa do seu autor. Aliás, nunca será de mais salientar que, dos 14 autores do livro, só três são monárquicos assumidos, militantes e «encartados»: João Aguiar, Luís Richheimer de Sequeira e eu.

Qual foi o critérina selecção dos contistas? Muito simplesmente, acabei por escolher principalmente pessoas que eu conheço pessoalmente, mas que eu sei que escrevem bem, mesmo que algumas não tivessem ainda obra publicada, ou que não conhecia pessoalmente... mas das quais já lera, e gostara, dos seus livros. Como eu também refiro na introdução, há várias ligações que podem ser estabelecidas entre os autores, quase todas a partir de mim, mas não só. Exemplos: Luísa Marques da Silva, Maria de Menezes, Sérgio Sousa-Rodrigues e eu publicámos livros na colecção «Bibliotheca Phantastica», que António de Macedo organizou e dirigiu para a já falida editora Hugin; Alexandre Vieira, Bruno Martins Soares, Luís Bettencourt Moniz e eu pertencemos a uma tertúlia, que é também um blog, denominada Esquinas; João Aguiar, além de ser um dos nossos maiores escritores, foi igualmente o meu primeiro director na TV Mais, quando eu integrei a equipa inicial desta revista, em 1992; Luís Richheimer de Sequeira e eu conhecemo-nos em 2003, quando ele foi, com António de Macedo, um dos apresentadores na sessão de lançamento de «Visões», o meu primeiro livro; Miguel Real e eu conhecemo-nos pessoalmente na Feira do Livro de 2006, e nesse mesmo ano convidei-o para ser orador em dois colóquios que eu propus à Biblioteca Nacional e que com esta organizei...

Um dos contos é do autor brasileiro, Gerson Lodi-Ribeiro. Por que é que se manteve a ortografia brasileira? Antes de mais, há que dizer que eu nunca «permitiria» que o Gerson não integrasse a antologia. Afinal, ele foi talvez o principal «culpado», o principal inspirador, deste projecto! E mantive a ortografia brasileira por respeito e homenagem a ele, para manter a «autenticidade» da sua história, para manter o... digamos, «sabor tropical», e também como uma forma, muito singela, simbólica, de demonstrar que é possível a coexistência... pacífica das diferentes ortografias da língua portuguesa. Sou um total opositor desse grande disparate chamado «Acordo Ortográfico», que pretende mudar «por decreto» a forma como escrevemos, falamos e até pensamos! Nunca nada nem ninguém me obrigará a escrever «baptismo» sem «p», «facto» sem «c»... e, claro, «Octávio» sem «c»! Depois desta entrevista a Bang! oferece um dos contos da antologia, O Patriota Improvável, de Maria de Menezes. Porque escolheste este conto para apresentar a antologia!? Sem desrespeito e desprimor pelos outros contos e pelos seus autores, escolhi «O Patriota Improvável» porque considero-o.. aliás, já o disse à Maria de Menezes... como que o «conto-âncora» deste livro. É, aparentemente, um dos menos espectaculares, mas, na minha opinião, consegue plenamente atingir um dos objectivos implícitos deste projecto: tornar credível, através da utilização de situações, de personagens e de diálogos que nós poderíamos conhecer, ouvir ao nosso lado, encontrar

És o organizador da antologia e és monárquico. Esperavas apenas contos pró-monárquicos? Se entendermos «contos pró-monárquicos» como textos que fazem claramente a apologia daquele tipo de regime político, devo confessar que não. Apenas exigi aos autores que respeitassem os dois princípios básicos do projecto: o Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908, tal como o conhecemos, nunca aconteceu; e a República nunca foi instaurada em Portugal, nem em 5 de Outubro de 1910 nem depois. A partir daí, tinham liberdade de fazer quase tudo... até para dizerem mal, se quisessem, 60


«ao virar da esquina», tornar credível pelo recurso a elementos de uma época e de um quotidiano que conhecemos e que é o nosso, uma hipótese absolutamente... fantástica, que seria a de Portugal, até hoje, ter sido um Reino e não uma República!

Se quisesses convencer alguém a ler A República Nunca Existiu!, o que lhe dirias? Poderia dizer-lhe qualquer coisa como isto: «Se queres saber como Portugal poderia ter sido, se queres imaginar um Portugal diferente e provavelmente para melhor, se queres ler um bom livro que resulta de uma ideia original, se queres ter “14 autores pelo preço de um”, então lê “A República Nunca Existiu!”» BANG!

Como esperas que esta antologia seja recebida? Pela crítica, pelos monárquicos, pelos republicanos? Primeiro que tudo, espero, e desejo, que este livro seja bem recebido pelos leitores! Que venda muito! Pelos «críticos»? Sinceramente, não acredito que eles prestem muita atenção a algo que é, e perdoe-se-me a imodéstia, tão diferente, tão inovador no panorama da literatura em Portugal. Pelos monárquicos? Espero que eles gostem, e que façam desta antologia como que uma «bandeira». Pelos republicanos?! Mas... eles existem?! Se existirem, que comprem... para depois dizerem mal! Que outros projectos tens para o futuro? Haverá lugar para mais antologias? Literariamente falando, projectos não me faltam. A «solo», tenho para publicar: o «Espíritos das Luzes», que já mencionei; «Festas – Quando o Carnaval encontrou o Natal», uma narrativa infanto-juvenil; «Visões 2», que ainda não comecei a escrever mas que já está praticamente todo delineado na minha cabeça; três, quatro livros de poesia... Isto na ficção. Quanto à não-ficção, tenho três, quatro livros de ensaios, de artigos, textos que fui escrevendo e publicando desde há mais de 20 anos, e que se intitulam «Nautas», «Estados», «Sentidos» e «O Novo Portugal». E ainda «Códigos – Outras Maneiras de Ouvir os Mesmos Discos», que resulta de um passatempo, de uma experiência contínua que eu faço há quase 20 anos... Quanto a outras antologias... Se «A República Nunca Existiu!» vier a ter, pelo menos, um sucesso moderado, não coloco de parte a hipótese de vir a organizar um «A República Nunca Existiu! – Parte 2», com outros autores, e que poderia, talvez, ser publicado mesmo antes de 5 de Outubro de 2010. Se a Saída de Emergência estiver interessada e quiser apostar na continuação desta «aventura», quem sabe?

Octávio dos Santos nasceu em Lisboa a 16 de Abril de 1965. É jornalista e foi redactor das revistas TVMais, África Hoje, Cyber. Net, Inter.Face e Comunicações. É autor dos livros: «Visões», uma colectânea de contos inserida na colecção Bibliotheca Phantastica dirigida por António de Macedo (2003, Hugin; áudio-livro em 2005, SbH); «Os Novos Descobrimentos – Do Império à CPLP: Ensaios sobre História, Política, Economia e Cultura Lusófonas», escrito com Luís Ferreira Lopes e com prefácio de José Manuel Durão Barroso (2006, Almedina). É autor do projecto MAR (http://mar.pt) e «um apaixonado pelo século XVIII»: iniciou em 2004 um projecto e respectiva equipa para a recriação virtual, em computação gráfica, do Teatro Real do Paço da Ribeira ou Ópera do Tejo (http:// operadotejo.org); participou, no mesmo ano, na campanha «Salve um Livro II» promovida pela Biblioteca Nacional, tendo sido mecenas de «O Uruguai» (1769) de José Basílio da Gama; à BN propôs, e com esta co-organizou, os colóquios «Arcádia Lusitana – 250 Anos» e «Cinco Livros de 1756» (2006); e está a tentar concretizar um plano de gravação e edição de músicas daquele período. http://octanas.blogspot.com http://esquinas.org/blog/author/quinas BANG! 61


[ficção]

O Patriota Improvável Maria de Menezes O Patriota Improvável é um dos 14 contos que irá constar da antologia de história alternativa, A República Nunca Existiu!

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evo dizer que sou totalmente a favor do referendo. Totalmente a favor. E olhe que me considero um patriota e um verdadeiro monárquico! – Não tenho a menor dúvida – murmurei eu, num arquejante esforço de urbanidade. O sujeito era mais uma daquelas criaturas que a Idalete costuma arrastar consigo para despejar em minha casa, porque acredita que, desde o nosso divórcio, eu vivo solitário e amargurado – não tendo sequer, como ela, uma profissão entusiasmante para preencher o vazio da minha existência – e necessito de consórcio sentimental; acode ao pobre sofredor com a imutável inevitabilidade de um pássaro migratório em jornada para os climas quentes. Aparece sempre com homens porque se convenceu de que sou gay – de outra forma, como explicar os meus gostos delicados e a minha perene fascinação pela beleza? Que melhor e mais inócua explicação para eu ter desertado miseravelmente do nosso «projecto comum de vida»? – Não sei se já lhe contei que foi o meu bisavô quem impediu que D. Carlos I fosse assassinado, naquela conjura horrível de 1908 – transmitiu o fulano, após uma pausa. Como só nos apresentaram há meia hora, não é de estranhar que alguns episódios da saga da sua família ainda me sejam estranhos. Reprimi a vontade de lhe dizer isto mesmo e sussurrei polidamente: – A sério? Mas que interessante!

A boa educação há-de dar cabo de mim. – Pois foi – retomou ele, animado. Não percebeu o subtilíssimo tom de remate da minha resposta; mas como esperar subtileza de um amigo da Idalete? Serviu-se com liberalidade do meu melhor whisky, animado por ver reconhecida a sua hereditária devoção nacionalista. Eu engoli um golo de vinho branco, a minha fiel companhia em noites de festa – se excluirmos a Idalete, parceira obrigatória, embora indesejada. Este pensamento orientou as minhas divagações para um muito conhecido beco sem saída: como diabo conseguiria a minha «ex» saber antecipadamente a data das reuniões que eu organizava de vez em quando, em princípio só para os amigos? Aquela questão perseguia-me há anos. – Eu já não o conheci, mas lembro-me como se fosse hoje de ouvir o meu avô contar a história – prosseguia o meu companheiro, com o ímpeto de um actor bem treinado ao ouvir a sua deixa. – Estava-se em Fevereiro, fazia frio e o bisavô, que na altura era ainda rapaz solteiro, andava constipado. Pediu para sair um bocadinho – era caixeiro na Rua dos Fanqueiros – e foi tomar um cacau bem quente num botequim ali à Rua dos Correeiros. Enquanto ia bebendo o seu cacau, calhou a reparar num homem de barba muito negra, que estava sentado sozinho num canto, com um copo de bagaço. E deu fé de uma coisa que achou estranha: o tipo vestia modestamente, como um operário, de boné e gabão coçado, mas tinha mãos macias e limpas, de quem não trabalhava 62


em arte mecânica. De repente o tipo virou-se para espreitar a rua, o casaco abriu-se um pouco e o meu bisavô viu brilhar o cano de uma espingarda... A Idalete passou com um pudim de gelatina de sua autoria (as sobremesas que faz costumam geralmente incluir gelatina, vá-se lá saber porquê; em alternativa, contêm bolacha-maria esmagada, e às vezes as duas coisas) e serviu-me, indiferente aos meus protestos. Também serviu o outro sujeito – nem sei como se chama; é de esperar que tenha nome, e mesmo que a Idalete o tenha mencionado, mas varreu-se-me de todo. Ele limitou-se a lançar um olhar indiferente sobre o pudim, que realmente não merecia mais, pousou o prato e prosseguiu a sua história: – O meu bisavô ficou sem pinga de sangue, porque morria de medo de armas. Julgou que o outro fosse um assaltante e quis fugir dali; mas deixar o cacau e largar a correr, assim sem mais nem ontem, ia dar nas vistas. Não vou tocar no pudim: é um dos meus privilégios de divorciado. No entanto, não é prudente que a Idalete o perceba, ou ficará de pé, em minha frente, mirando-me com ressentido ar de censura até eu o comer todo, coisa que acabarei inevitavelmente por fazer, para escapar a tal provação. Escondo o prato debaixo do sofá, tomando mentalmente nota para o recolher, mais tarde. Enquanto decidia comigo mesmo esta estratégia, o meu companheiro avançava na sua narrativa, com evidente gosto: – Enquanto o bisavô ia engolindo o cacau o mais depressa que podia – estava a escaldar – apareceram mais dois sujeitos, de gabardina abotoada até acima. Não se sentaram com o primeiro, mas o meu bisavô reparou que trocaram um olhar de entendimento. Ficaram de pé ao balcão e também pediram bagaço, sempre fazendo de conta que não conheciam o homem da mesa. Um deles sacou de um relógio, abriu-o e viu as horas. O bisavô apurou o ouvido e ouviu-o dizer ao outro: «Temos de ir, a esta altura o comboio já deve ter chegado, o telegrama dizia que traz atraso de uma hora; e o vapor põe-se do Barreiro aqui num instante.» «É só comprar cigarros», tornou o outro. Quando estendeu a mão para o tabaco, o meu bisavô reparou numa saliência por baixo da

gabardina, e reconheceu o vulto de uma espingarda. Dois homens armados, e o terceiro provavelmente também o estaria: a coisa era séria. Os sujeitos acenderam os cigarros e saíram, o que estava sentado atirou umas moedas para cima da mesa e saiu também, e o meu bisavô aproveitou logo para dar às de Vila Diogo, que até as pernas lhe tremiam de medo. Os três homens desciam a rua a andar depressa, como quem tem alguma coisa para fazer. Lá fora, o bisavô hesitou: sentia vontade de arrepiar caminho, voltar à loja e não pensar mais no assunto, mas a curiosidade foi mais forte e seguiu atrás deles, a boa distância, encolhido como um ratinho. A Idalete veio saber se não queríamos mais pudim, e ralhou com o monárquico patriota (afinal sempre tem nome, chama-se Rui) por não ter tocado no dele. O Rui levou uma colherada à boca, com lentidão estratégica. A atenção da minha «ex», entretanto, foi atraída por uma garrafa que tombou; correu logo a levantá-la e enxugar o vinho derramado, devotadamente. Fá-lo-ia com o próprio cabelo, como Maria Madalena os pés de Jesus, caso a Natureza não lhe tivesse avaramente fornecido um ridículo pêlo de rato, agora cortado curto e tingido de vermelho – por ela própria, em casa, aposto; cabeleireiro algum seria capaz de provocar tamanho desastre. Vendo a costa livre, o Rui abandonou com tranquilidade o prato, e prosseguiu: – Chegados ao Terreiro do Paço, foi cada qual para seu lado. «A quem será que estes velhacos vão fazer a espera?» pensou o meu bisavô com os seus botões. E então reparou que a praça se encontrava cheia de gente. «Por que é que cá está tanto povo?» perguntou ele a uma velhota de xaile e lenço que estava sentada nas arcadas, sobre uma cesta. «Homessa!», disse a mulher, surpreendida, «então vossemecê não sabe que chega hoje o Rei do Alentejo? Cá o povo acudiu para o ver; eu por mim, quando vai e quando volta, não há vez nenhuma que não venha vê-lo passar, que é nosso Pai, e a Rainha nossa Mãe e uma linda senhora, benza-a Deus, e os filhos uns ricos mocetões, que a Santa Virgem lhos conserve com saúde!» E então o meu bisavô percebeu ao que vinham os três homens. Não fazia ideia como é que o bisavô do tipo 63


chegara ao Terreiro do Paço, e quem era a velha, e sobretudo o que é que os tais três homens andavam a tramar, mas não tinha lata de fazer perguntas: iriam revelar a minha completa desatenção. Não era de todo culpa minha, desculpei-me: quem consegue prestar sentido a alguma coisa quando tem uma louca à solta em casa, atafulhando os convidados com gelatina? – Fantástico! – exclamei, porque a entoação do tipo me deu a entender que era altura de produzir algum encorajamento. «Fantástico» é uma excelente palavra para tais ocasiões. Ele abanou a cabeça, satisfeito por haver atraído um ouvinte tão aplicado: – O meu bisavô ficou para morrer. Entretanto, já não se viam os assassinos, nem estava polícia nenhum ali nas redondezas; só ao pé da estátua uns guardas reais a cavalo. Mas era preciso deter aqueles carrascos antes que matassem o Rei. Então ele sentiu subir-lhe uma espécie de fúria lá de dentro e, sem pensar em mais nada, desatou a correr na direcção que o homem das barbas tinha tomado e a gritar: «Aqui d’el-rei! Aqui d’el-rei! Agarra, que querem matar Sua Majestade!» A multidão começou a mexer-se, inquieta; uns tantos, com medo, desataram a fugir e a atropelar-se uns aos outros. «Apanhem essa canalha! Querem matar o Rei! Há mais dois! São uns de gabardina! Trazem espingardas consigo! Aqui d’el-rei! Agarra! Agarra!», berrava o meu bisavô, sempre correndo. Ao longe ouviu-se um tiro isolado, como se fosse um sinal. Apareceram então dois tropas da Guarda, um tenente e um soldado, e o tenente fez parar o meu bisavô e perguntou-lhe o que é que se passava… Sentada à mesa, a Idalete, sempre solícita, raspava os restos dos pratos, hábito que tem o condão de me irritar; depois há-de levar a louça para dentro e esfregá-la à mão, porque «não merece a pena ligar a máquina por causa disto». Mais tarde ver-me-ei obrigado a lavar tudo de novo, porque as nossas noções de higiene não coincidem, como aliás quase todas as outras. – Então o tenente disse para o praça: «Amílcar, tu segues aqui com este amigo a procurar o tal tipo; se ele o avistar, prende-o logo, que depois se vê ao que veio. Eu vou prevenir Sua Majestade.» E partiu

a galope por entre a multidão, directo à estação dos barcos, esporeando o cavalo e gritando «Arreda! Arreda!», e arriando o pingalim nas pessoas que não se afastavam. Ia com tal velocidade que as ferraduras do cavalo até faziam faíscas nas pedras da calçada… A minha ex interrompeu os seus quefazeres domésticos para exortar os presentes a unirem esforços «contra o aquecimento global». Diz isto com aquele ar de loucura fanática nos olhos que, infelizmente, conheço demasiado bem. Daqui a pouco começará a perorar sobre a globalização – também é contra a globalização, claro. Tenho de conseguir afastá-la da minha casa de uma vez por todas ou, mais dia, menos dia, não tenho amigos. – De repente, o meu bisavô deu com o homem das barbas ali mesmo ao lado. Tinha posto um joelho em terra e apontava a espingarda ao tenente: havia percebido que este ia avisar o Rei, e queria abatê-lo antes que desse o alarme. O bisavô dizia que nem teve tempo de pensar: que saltou para cima do homem e desviou o tiro; com o choque, a arma voou pelo ar. O guarda fez o cavalo carregar sobre o assassino, atirou-o ao chão e apontou-lhe a pistola. Por essa altura, já estava a praça inteira amotinada; os outros bandidos tinham sacado também das espingardas e desataram aos tiros, para tentarem abrir caminho e salvar a pele, mas a multidão atacou-os, aos gritos de «Agarra que é assassino!», tirou-lhes as armas e matou-os ali mesmo, à cacetada e ao pontapé. Só veio a sair dali com vida o homem das barbas, que se chamava Buíça… Ainda não se chegou à globalização: encalhámos temporariamente nos alimentos transgénicos. A Idalete, como não podia deixar de ser, «é contra»; manifesta com alarido a sua convicção e chama «criptofascistas» ao Tomás e à Helena, que não partilham a sua convicção; não sei onde terá ido encontrar tal palavra. As suas atitudes começam a ultrapassar todos os limites toleráveis da inconveniência: tento pedir licença ao meu interlocutor para ir acabar com aquilo, mas ele prende-me o braço com força inesperada: – Deixe-se ficar quieto: não vê que toda a gente se está a divertir à grande? Olho para o sujeito – pela primeira vez. Devo 64


confessar que, até ali, a sua presença tinha sido tão insignificante e importuna como a de uma mosca; agora reparo que tem uns olhos invulgarmente inteligentes e perspicazes. O rosto, a figura e o vestuário, em contraste, são banais – talvez demasiado banais, o que é estranho nesta época, em que todos procuramos ostentar a nossa pitada de originalidade, como pavões sacudindo vistosamente as caudas. – É desagradável para ela – replico, algo incomodado com a penetração daqueles olhos e a frieza daquelas palavras. – É indecente da minha parte consentir que a gozem, em minha casa, ainda por cima. O fulano olha-me com um sorriso: – Você é boa pessoa. Estive a observá-lo enquanto contava a minha história, e você pareceu-me um tipo decente; daquelas pessoas que ainda têm consideração pelos outros. Coro contra vontade. Estou habituado a ver-me a mim próprio, com algum peso na consciência, como um narcisista egocêntrico e hedonista. – Não é culpa sua se a Dr.ª Idalete se põe a jeito para ser gozada, não é assim? – prossegue o meu companheiro, sensatamente. Claro que não. Mas aquilo incomodava-me. A educação constitui, muitas vezes, um sério handicap. Contudo, mesmo que quisesse, não seria capaz de refutar as suas palavras porque ele tinha inteira razão: longe de mim negá-lo. A Idalete, no outro lado da sala, comprovava mais uma vez aquelas ponderações, reclamando com veemência a proibição das pesquisas genéticas – e exasperando a Fátima, que trabalha nessa área. O resto dos convidados ria à socapa. – Quer acabar de ouvir a história do meu bisavô, ou vamos falar de negócios? – Temos negócios para falar? – perguntei eu, completamente perplexo. – Claro que sim – respondeu o Rui, com segurança. – Foi para isso que vim. Para lhe provar a minha boa vontade e mostrar que faço jogo limpo, vou-lhe dar uma informação que você procura há anos: é através da porteira. – Perdão? «É através da porteira» o quê? – É através da porteira que a Dr.ª Idalete sabe

das suas festazinhas. Você tem o hábito de ir comprar as bebidas na véspera e de as mandar levar a casa. As duas têm uma combinação: sempre que chega a carrinha das entregas, a porteira vai a correr telefonar à Sr.ª Doutora. Volto a corar, desta vez de raiva. Eu tinha imaginado muitíssimas hipóteses para explicar aquele fenómeno, desde bisbilhotices da minha mãe, movida por lunáticas fantasias de reconciliação, tagarelices imponderadas da Gina, a minha irmã, indiscrições irreflectidas dos meus irmãos, involuntárias inconfidências da D. Rosa, minha fiel empregada doméstica, mesmo revelações imprudentes de alguns amigos, e havia-as descartado todas. Estava a pontos de acreditar que a minha «ex» possuía uma invulgar capacidade de premonição, apontada para a minha pessoa e as minhas actividades festivas; a revelação de que tal anteconhecimento se resumia a uma reles habilidade rasteira pareceu-me o cúmulo do desaforo. – Vai-me perguntar por que razão lhe conto isto – disse o Rui, com aquela serena segurança de si próprio e das reacções dos outros que parecia ser a viga mestra do seu carácter. Eu de facto não ia perguntar-lhe coisa nenhuma, porque ainda estava digerindo a informação anterior, mas acenei que sim, numa tentativa de recuperar o pleno uso da minha mente abalada. – Antes do mais, como é que sabe? – interrogo. – Foi ela que me contou. É muito fácil sacar-lhe coisas. Eu sou fotógrafo – prossegue ele. – Trabalho para o jornal O Guardião e faço uns serviços por fora como free-lancer. No outro dia fui cobrir a abertura de uma exposição... – Você parece que engoliu a cassete da Iniciativa de Esquerda – retine através da sala a voz irritada da Fátima. – Na posição que ocupo – replica com dignidade a Idalete, na sua entoação mais freirática – não posso manifestar preferências políticas. Quem a ouvir fica com a ideia de que ocupa um cargo de Secretária do Reino, pelo menos; de facto, é apenas a chefe dos Serviços Educativos do Museu da Pré-História, ou seja, criada de servir, ca65


pacho e bombo da festa do respectivo director; para compensar, inferniza a vida de todos os seus subordinados. Ocupa o resto do tempo a congeminar brincadeiras idiotas, e alegadamente educativas, que impinge às infelizes crianças que pais e educadores imprevidentes arrastam até o Museu. Chama a isto a sua «carreira» – fazendo sempre acompanhar a palavra do adjectivo «apaixonante». – Você não está a ouvir nada – observa pacientemente o Rui. – Tem mesmo de se ver livre dela, sabe? Ela perturba-o. – Diga-me alguma coisa que eu ainda não saiba – suspiro eu. – Por que diabo se casou com ela? Em geral, eu ignoraria tal pergunta como uma impertinência; mas o meu interlocutor mostrava um dom de exigir respostas a questões embaraçosas que faria honra ao mais calejado urologista. Como responder-lhe? Eu sou o deplorável resultado de uma perversa roleta russa genética: o meu pai foi um belo homem, a minha mãe lindíssima mulher, os meus irmãos saíram ambos bonitos, a Gininha chegou a finalista do concurso da Miss Portugal... e eu exibia uma versão grotesca dos graciosos traços familiares, desprovido de queixo mas com um nariz descomunal, orelhas de abano, dentes espetados; e, para mais, magricela e sem músculo. «Deixa lá, o que importa é que seja bom rapaz!», diziam família e amigos, procurando alentar a minha pobre mãe. Grande consolo! Acanhado e inseguro atravessei a infância e a adolescência, sempre de barrete enfiado na cabeça para esconder as orelhas, suspirando por uma burka que me tapasse o rosto por inteiro e me poupasse a olhares avaliadores. Nunca tive uma namorada. Na Faculdade conheci a Idalete, que era tão feia como eu mas parecia não reparar, e que se mostrava interessada em mim, e compreendia os meus padecimentos. De facto, não compreendia nada, nem de mim, nem fosse do que fosse; mas já nessa altura possuía aquela sedativa voz monocórdica que, aos ouvidos de um jovem inexperiente, soava compadecida e extremosa. Os vinte e tal anos são uma altura sensível na vida de um homem, porque as hormonas, exaustas dos efervescentes galopes juvenis, seguem agora num trote sossegado e anseiam

por calma, tranquilidade, um lar, filhinhos pequenos... Filhos sempre me recusei a ter, para evitar que se parecessem comigo, ou com a mãe, ou ainda, horror dos horrores, com ambos! Mas deixei-me seduzir pela embaladora canção doméstica. Pensei que nunca seria capaz de atrair parceira mais apetecível: casei. Descobri que a Idalete, além de feia, era também presunçosa, mesquinha e ignorante, mas suportei-a com estoicismo durante sete anos. Aí tive uma revelação, como S. Paulo na estrada de Damasco: resolvi atacar o mal pela raiz. Divorciei-me e … – Então, não responde? – anima o Rui, com um meio-sorriso cáustico. – Parvoíces que se fazem na juventude – sintetizo. O meu recente amigo suspira e sacode a cabeça: – Ser novo é uma chatice, mal sabem eles... – A quem o diz – pronuncio eu, soturnamente. Fazemos um breve silêncio, de desenganado companheirismo emocional; depois o Rui sacode os humores depressivos: – A Dr.ª Idalete contou-me das suas operações plásticas – refere, naquela sua expedita maneira de banalizar as realidades incómodas. Mira-me de lado, com ar avaliador, e declara, com o típico desprendimento com que um provado macho heterossexual avalia o aspecto físico de outro, que eu agora «estou bem». Coro de novo: sou doentiamente sensível a elogios. Claro que «estou bem» agora, depois de muita cirurgia e trabalho dentário – para não mencionar as horas no ginásio. Coro de agrado mas decido ajuizadamente não particularizar, e manter secreta a depilação a laser, que iniciei quando uma das minhas recentes namoradas, num momento íntimo, me chamou «felpudinho». Uma coisa é certa: sempre que ganho mais uma batalha contra a fealdade sinto-me, de facto, «bem» – como se o meu espírito e a minha alma se desanuviassem e eu ficasse cada vez mais parecido com aquele autêntico «eu» que existe dentro de mim. Não disse Platão que o Bom, o Belo e o Verdadeiro partilham a mesma essência? Assim, à medida que me aproximo da 66


Beleza, também me torno mais bondosa pessoa, e mais fiel a mim próprio... A voz do Rui, prática e terra-a-terra, faz-me despenhar bruscamente do Mundo das Ideias: – Vamos então discutir os nossos negócios. – E você a dar-lhe com os negócios! – exclamo, um tanto agastado, porque me estavam agradando aquelas meditações. – Que lata! Você julga que é só entrar por aqui dentro, contar uma história da carochinha qualquer e dizer que quer falar de negócios? Que negócios são esses? Que demónio quer de mim? – Vamos por partes – replica ele calmamente, reforçando o gelo do copo com mais três dedos de whisky. – A história do bisavô tem uma razão de ser: às vezes preciso de sacar como são as pessoas, o que lhes interessa na vida, essas coisas que a malta não diz, e tenho reparado que, se lhes conto uma história qualquer, elas distraem-se e sem querer abrem o jogo, e aí eu topo-as. – Ai sim? E o que é que topou a meu respeito? – Que a coisa que mais deseja no mundo é ver-se livre da sua «ex», de uma vez por todas. Aquelas palavras deixam-me embasbacado. – Mas eu nem sequer... – começo a dizer, e interrompo-me. – Nem sequer ouviu uma palavra da história – conclui sorridente o Rui. – E não ouviu porque trazia sempre o sentido nela, danado com as tontices que a via fazer. Tudo aquilo era de uma lógica inabalável; mas havia ainda muita coisa por explicar. – Como raio é que a conhece? – pergunto, algo suspeitoso. – Pois era isso mesmo que eu tinha começado a dizer, como é que conheci a Doutora; você é que me interrompeu – profere ele pacientemente. – Eu tinha ido fazer uma reportagem sobre a nova secção do Museu da Pré-História, uma treta qualquer para os miúdos... Bem sei: a Idalete massacrou-nos as orelhas com isso durante meses a fio. – Quem veio à inauguração foi a Duquesa de Portalegre – que, por acaso, até estava com um ar

bastante chateado a aturar os discursos; mas adiante. No final, a Dr.ª Idalete meteu conversa com ela... As pessoas comuns não conversam com os membros da Família Real, eles é que conversam connosco; mas tal noção é inacessível ao cérebro da minha «ex», refractário a questões de boas maneiras. Corro maquinalmente os olhos pela sala: a Idalete não se vê em lado algum, nem se ouve, e isto há já um bocado. Tal ausência quer dizer que ou estará lavando a loiça, ou bisbilhotando nos meus armários. O Rui segue a direcção do meu olhar: – Deixe a tipa em paz e preste atenção! – sopra, aborrecido. – A Dr.ª Idalete meteu conversa com ela e disse que o seu ex-marido a conhecia. A Duquesa ergueu as sobrancelhas mas perguntou educadamente quem era o cavalheiro em causa, e fez um sorriso ao ouvir o seu nome: «Conheço-o muito bem, fomos colegas no colégio. Dê-lhe um abraço quando o vir», disse ela, e depois virou-lhe as costas e acabou com a conversa. Aquilo era mesmo da Madalena – Sua Alteza Real a Duquesa de Portalegre, para os não-íntimos. Muito capaz de se dar ao respeito, quando é preciso; mas uma jóia de rapariga, e a pessoa mais despretensiosa e afável que existe. Eu, ela e a irmã mais nova, a Duquesa da Guarda, andámos juntos no antigo Colégio D. Luís II; o Rei é bastante mais velho que as irmãs e não cheguei a conhecê-lo. A Madalena e eu fomos colegas de turma do princípio ao fim do liceu, e tornámo-nos inseparáveis. A Idalete sempre me invejou tal amizade – é uma alpinista social determinada – mas a época do nosso casamento coincidiu com a invalidez e morte do Duque, e felizmente nunca tive de a apresentar à Madalena, coisa de que decerto não me orgulharia. Sorri intimamente ao pensar que dali a uma semana teria o prazer de encontrar a minha amiga no Rally Real dos Automóveis Históricos, ela conduzindo o seu Hispano-Suiza de 1933, eu o mais modesto Lancia Aurelia de 1957, herança do meu avô; iríamos juntos tomar uma cerveja, como sempre, e passar um alegre fim de tarde a rir e a contar histórias malucas um ao outro. – Aquilo deixou-me com a pulga atrás da orelha – prosseguia o Rui. – Disse à repórter que ainda 67


queria tirar mais umas fotos, e que ela fosse andando, e corri atrás da sua «ex»... Falai no mau... A Idalete reaparece, deita-me um olhar oblíquo e, pondo a sua expressão mais virtuosa, ocupa-se a alinhar os guardanapos. De certeza que andou a mexericar nas minhas coisas. Já mal me atrevo a guardar seja o que for nas gavetas. Faço um esforço para focar o cérebro naquilo que o Rui vai dizendo: – Contei-lhe umas tretas – continuava ele – e prometi-lhe uma entrevista, combinei um almoço com ela num sítio jeitoso; e depois não tive dificuldade em conseguir que me trouxesse a sua casa. As minhas desconfianças recrudescem: – E para que raio queria vir a minha casa? – Porque queria conhecê-lo: preciso que me apresente à sua amiga Duquesa. – E por que razão haveria eu de fazer tal coisa? – Se você me deixasse falar, percebia tudo num instante. Que diabo de mania de interromper! – barafusta impaciente o meu interlocutor, e adiciona mais whisky ao copo, que já não tem gelo. – Ora bem, sabe que eu sou fotógrafo e que trabalho para O Guardião; nas horas livres, faço uns biscates como paparazzi. – Paparazzo – corrijo, maquinalmente. – Paparazzi é plural. – Tanto faz – rosna ele, bastante abespinhado já. – Seja paparazzo ou lá o que quiser, o que é certo é que palmilho Lisboa inteira e arredores, cosido com as paredes para não me toparem, a bater fotos das estrelinhas da televisão a saírem entornadas das discotecas ou a passearem de carro com os maridos das outras. Há-de compreender que isto não é coisa que me satisfaça nem que dê grande sentido à minha vida; quando eu era rapaz novo, ainda achava piada em andar à caça, mas agora sinto necessidade de uma ocupação com mais substância... – E quer fotografar a Duquesa de Portalegre? Desculpe lá, não me interprete mal, eu adoro a Duquesa, mas ela deve ser o pior modelo que existe para um fotógrafo de celebridades, porque... porque, enfim, porque é... O Rui dá um murro excitado na mesa, fazendo saltar os copos:

– Porque é um pãozinho sem sal! É ainda nova, alta e jeitosa, mas não tem glamour, nem sex-appeal, nem nada! Nada de nada! E sabe que mais? Todas elas são assim: a Duquesa da Guarda parece uma couve murcha, a Rainha veste uma roupa que nem a minha avó de noventa anos quereria, e até as Princesas, que são miúdas giras, andam sempre de carinha lavada e cabelinho escorrido, e com uns trapinhos tão desenxabidos que até fazem dó! – É a aparência típica das jovens católicas de boas famílias – explico. – Conhecida por «estilo Chefe de Guias». E o que tem isso a ver com a minha pessoa? E com a Duquesa? Quer ensiná-la a vestir-se? – Quero ensiná-las a todas. Não me faça perguntas e preste atenção! E deixe lá a sua «ex» em paz! A Idalete erguia nesse momento a voz, a ensinar os segredos da confecção da verdadeira tarte de gelatina de morango sobre base de bolacha-maria. Uma breve olhadela mostrou-me que se dirigia ao Jorge. O Jorge é maître pâtissier et chocolatier e praticou em Viena e Bruxelas. – Vamos a ver se nos entendemos – prosseguia o Rui, acalmando-se. – Na minha maneira de ver, as pessoas só estimam aquilo que conhecem – ou julgam que conhecem, para o caso vem a dar ao mesmo. O que não sabem, não ligam; e só sabem o que aparece nos media. Ora a nossa Família Real é tão apagada que a gente até se esquece que existe. E isso não é bom para a monarquia. Sim, não é bom para a monarquia! – repete com calor, perante a minha expressão interrogativa. – Por isso é que esses tipos, esses republicanos e trabalhistas de meia-tigela, têm a lata de vir propor referendos ao regime! Já ouviu falar em referendar a Rainha de Inglaterra? – Mas você... – começo eu. Ele interrompe-me ardorosamente: – Eu disse que era a favor do referendo. E sou. Sou a favor porque o referendo iria mostrar, sem margem para dúvidas, que o nosso povo deseja continuar em monarquia. – Em Portugal, o povo é monárquico, e os políticos, republicanos – recito eu. – E é bem verdade; não é por ser uma frase ve68


lha que deixa de ter fundamento – diz ele, acenando com a cabeça e acalmando-se. – Se quer a minha opinião, isso do referendo, para já, não vai para a frente. Falam nisso para irem minando o prestígio da Realeza e, a andarem as coisas assim, talvez daqui a uns anos tenham sorte. E eu não quero deixar que isso aconteça. – E pensa consegui-lo ensinando a Duquesa de Portalegre a arranjar-se... Do outro lado da sala, o processo de trituração da bolacha-maria era alvo de descrição detalhada. – Deixe-se de piadas – sibila o Rui, exasperado. – Sim, quero ensinar a Duquesa e as outras a arranjar-se, porque elas são muito importantes. São elas que levam o povo a afeiçoar-se à monarquia – ou julga que isso acontece porque o Rei cumpre exemplarmente os seus deveres constitucionais? O problema é que, actualmente, todas elas são tão desengraçadas que ninguém lhes liga nenhuma; e isso é uma coisa que está a pôr em risco o regime e o país. Jamais semelhante ideia me ocorreria, devo confessar; mas também estou pronto a admitir que, como não leio as revistas do coração, é capaz de haver muita coisa que me escape. O meu companheiro prosseguia, com ar enérgico: – O que há a fazer então? Primeiro, mostrá-las todas giras e elegantes, para atrair as atenções; a seguir, interessar as pessoas na vida delas: o que fazem, o que não fazem, se vão viajar e aonde e com quem, os passatempos das meninas, os desportos que praticam, quem são os namorados, etc. – quanto mais historietas interessantes aparecerem por aí, cada vez mais a malta há-de trazer a Família Real na ideia; e há-de conhecê-la melhor e estimá-la cada vez mais. Porque é isto que me importa: quero fazer com que eles sejam queridos e populares; que a malta adore a Rainha, as Princesas e as Duquesas, que as imite, que saia à rua para as ver, que espere por elas durante horas a fio, debaixo de chuva, só para lhes acenar e oferecer flores. Quero que apareçam nas notícias de todo o mundo. Quero que, daqui a uns anos, quando se casar a Senhora D. Beatriz, a nossa Princesa Real, a cerimónia seja seguida da Alemanha aos Estados Unidos, passando pela China e pela Austrália!

E depois hei-de ver se esses malandros continuam a querer brincar aos referendos! – E consegue fazer tudo isso sozinho? – pergunto, assombrado com aquela veemência. – É evidente que, só eu, não posso fazer tudo isto; mas trago em vista um grupo de pessoas competentes que poderão orientar todo o processo de styling; eu ficaria responsável pelo campo das notícias, artigos e fotografias. Tenho isso tudo estudado. – E por que motivo se quer meter nesse projecto? – O motivo... bom, já lhe disse parte dele: tenho quarenta e três anos, ou seja, muito boa idade para um homem fazer qualquer coisa que o realize, e não trabalhe só pelo dinheiro – faz uma pausa, respira fundo, morde os lábios e prossegue: – E há outro motivo ainda; vai-se rir, mas não importa. Isto, para mim, é uma espécie de missão, uma obrigação sagrada. O meu bisavô, como lhe disse, salvou a vida de D. Carlos I; a partir daí, todos nós, seus filhos, netos e bisnetos, julgamo-nos a bem dizer responsáveis pelo Rei e pela Monarquia, como se fôssemos os seus guardiões, incumbidos de velar por eles e de impedir que qualquer coisa má lhes aconteça. É esquisito, mas é assim que nos sentimos; não podemos fazer nada contra este encargo – deita-me um olhar de desafio, ao fim desta tirada. – Decerto que Sua Majestade não poderia desejar súbditos mais devotados – grasno eu, com aquele aborrecido nó na garganta que sempre nos assalta nas ocasiões solenes. – Mas não sei se a Duquesa apreciaria ter alguém atrás dela a escolher-lhe as toilettes... – Deixe-me tentar, é tudo quanto lhe peço. Apresente-me à Duquesa e deixe o resto comigo – o tom de urgência é bem nítido na sua voz; depois esta desliza para uma coloração tentadora e trocista: – Em troca, garanto-lhe que arranjo uma posição para a Dr.ª Idalete, bem longe daqui, num dos países da Concordância Lusófona. Tenho um primo nos Negócios Estrangeiros que me trata disso dum dia para o outro. Que me diz? Nesse preciso momento, a Idalete rematava a sua preciosa receita da tarte de gelatina: – Por cima mete-se chantilly; há um em bom69


ba, que é óptimo e não dá trabalho nenhum. Tomo uma decisão: – Não vai vesti-las como cantoras de rock? Nem arranjar-lhes namorados trapezistas? – Por quem é que me toma? – replica o Rui, indignado. – Negócio feito – respondo, estendendo-lhe a mão.

que te consegues aguentar sem o meu apoio? – Idalete, não te preocupes – pronuncio, com venturosa magnanimidade – Eu cá me arranjo. Tu trata da tua vida. Parabéns pelo teu novo posto; se alguém o merece, és tu com certeza. BANG!

De vez em quando há alturas assim, gloriosas e mágicas, onde tudo desliza tão manso e fácil como as mansas águas murmurantes dos rios do Paraíso. Na quarta-feira principiou o rally, com o tradicional desfile de viaturas de bombeiros; a Madalena e eu, depois das diversas obrigações protocolares a que ela não se podia furtar, refugiámo-nos no bar de um hotel sobre a baía de Cascais, vazio e luminoso no último andar, cada qual com a sua bitter, e começámos a pôr a conversa em dia, eu roído de ansiedade, porque não sabia como introduzir a proposta do Rui. Numa pausa, a minha amiga olhou-me com ar admirativo: – Quem te viu e quem te vê, Eduardo! Não é só te teres feito um borracho giríssimo com montes de charme, é esse teu ar sempre tão chique e nonchalant! Fazes-me uma inveja! Adorava ser uma mulher elegante, mas – encolheu os ombros, fatalista – há que reconhecer, não tenho gosto nenhum; se ao menos alguém me dissesse o que devo usar... – Obrigado, Madalena, é dos teus olhos, não mereço tantos elogios – tornei eu com modéstia, erguendo infinitas graças aos deuses. – Mas tem piada, nem de propósito: ainda no outro dia estive a conversar com um sujeito que trabalha nesse ramo... Dois dias depois, telefonou-me a Idalete, excitadíssima: – Recebi um convite para ir instalar o Museu Etnográfico de Bolama! – lança, num guincho estridente que me eriçou os tímpanos. – Óptimo – digo eu. – Onde fica Bolama? – Na Guiné, tonto. É uma oportunidade única na vida, não podia recusar: já apresentei a minha demissão no Museu, e agora tenho duas semanas para tratar das coisas todas, vai ser um sufoco! – larga ela de jacto; depois hesita um segundo: – E tu, achas

Maria de Menezes nasceu no Funchal a 27 de Fevereiro de 1952. É licenciada em História pela Universidade de Lisboa, professora do ensino secundário desde 1972 e «escritora nas horas vagas, que nunca são tantas como desejaria.» Em Portugal publicou: em 1993 «Três Histórias com Final Feliz», obra pela qual recebeu o Prémio Revelação de 1991 da Associação Portuguesa dos Escritores; e, em 2001, «Contos Místicos», que inclui dois contos galardoados com uma menção honrosa no Concurso Nacional de Contos Manuel da Fonseca de 2000. Participou com regularidade nas antologias e nos encontros de FC & F organizados pela Simetria/Associação Portuguesa de Ficção Científica e Fantástico, e na revista Paradoxo, da mesma associação. No estrangeiro publicou: no Brasil a noveleta «Boas vindas», incluída na antologia «Como Era Gostosa a Minha Alienígena!», coordenada por Gerson Lodi-Ribeiro, com a qual recebeu o Prémio Argos para o melhor trabalho de FC & F publicado no Brasil em 2002, e o conto «Zen» na revista Scarium, com direcção de Rogério Amaral; em Itália «Giorni di burrasca» na antologia «Nostalgia dei Giorni Atlantici», sob coordenação de António Fournier; em França «Pédagogies diversifiées», na revista Miniature, com direcção de Pierre-Jean Brouillaud, e o conto «Ad maiorem Dei gloriam», incluído na antologia «Utopiae 2006». BANG! 70


[ensaio]

A Perspectiva Alienígena João Seixas «O que distingue a Ficção Científica dos demais géneros é a sua perspectiva: a perspectiva do alienígena.» 1.

(comigo modestamente inserido nos 50% que respondem não), não é possível deixar de notar que a pergunta apenas se coloca com tanta frequência (e quase exclusivamente no âmbito da FC) porque existe a percepção, quase inconsciente, de uma outra questão que se agita como peixe furioso no limiar da percepção: o que é que separa a FC da demais literatura? Tal como numa sucessão de bonecas russas, poderíamos continuar a retirar questões do ventre da anterior: será que realmente algo separa a FC da demais literatura? E o que a separa dos outros géneros? No entanto, para os propósitos destas notas, tomemos como adquirido que a FC se justifica como género porquanto dotada de particularidades que a diferenciam dos demais géneros, nos quais poderemos subsumir igualmente a Literatura que, cada vez mais, se encontra reduzida a um género literário que podemos designar por mimético-realista ou, por privilégio de idade, mainstream. Acrescentemos ainda que estas notas resultam do trabalho de pesquisa que tenho levado a cabo para a composição da minha Breve História da Ficção Científica a ser publicada em www.spaceshipdown.blogspot.com a partir de 2008, e representam apenas algumas reflexões sobre aspectos do género que não devem ser tomados pelo todo. Porém, pelo valor explicativo que podem ter para a análise de alguns trabalhos dentro do géne-

É

quase impossível falar de FC sem que a discussão escorregue, mais cedo ou mais tarde, para a questão de determinar a sua relação com o campo literário em geral e com a Literatura em particular. Para os adeptos do género (e observe-se, só os adeptos do género farão desde logo a concessão de que se trata de um “género”) esta questão é desprovida de interesse: literatura ou não, o consumidor de FC obtém dela aquilo que pretendia, quer se trate de aventuras espaciais em cenário de fantasia tecnológica, complexas extrapolações científicas ou um sentido de estranheza muito para além da ostranenie de que falava Shklovsky. Onde tal delimitação se reveste de putativo interesse é na determinação da utensilagem crítica a utilizar na dissecação de um texto genérico. E a pergunta que mais frequentemente se coloca é “deve a FC ser avaliada pelos critérios da literatura em geral?” A resposta parece-nos evidente, e Damon Knight, pai da crítica especializada de FC deixou-nos um volume que o prova à saciedade, In Search of Wonder (Advent Publishing, Chicago, 1956, 1967). Questão conexa, e talvez mais relevante, seria apurar se os critérios de avaliação da literatura em geral são bastantes para a devida contextualização de um texto de FC. E se um prognóstico de mera opinião me levaria a afirmar que a resposta se repartiria 50%-50% em qualquer amostragem 71


ro, resolvi não as deixar na gaveta e trazê-las a público onde a sua discussão poderá revestir alguma utilidade prática.

qualquer novidade a um mercado enfatuado e super-saturado. Ao fim e ao cabo, não é necessário (e é mesmo redundante) recorrer ao simbólico zoológico intergaláctico para descrever as atrocidades de um campo de concentração nazi (e menos ainda para tentar instilar uma ética ecológica nos seus leitores). Nesse sentido, o Horror, enquanto género literário, revela-se um meio superior de proceder à análise moral da comédia humana. Sem estar restringido pelo real (ao contrário do mainstream – contido pela realidade – e da FC – espartilhada pela ciência – e sendo aliás sua característica essencial a recusa do real, o Horror constitui-se em campo onírico com exclusivo privilégio do simbólico e do moral. A moral do Horror, porém, estende-se por um largo leque prismático, desde o clássico (no sentido mais estrito da palavra em referências às obras primas da cultura helenística) triunfo-do-bem-sobre-o-mal-e-recompensa-do-justo (é o caso da parte mais significativa – mas não da melhor – da obra de Stephen King) até ao mais politicamente incorrecto satisfazer das frustrações individuais [como acontece com grande parte dos livros de Richard Laymon – sobretudo The Cellar (1980), The Island (1995), Body Rides (1996) ou “The Hunt” (1989)]. Mas não se pense por isso que a FC está isenta do seu próprio horror, da sua dose de inquietação. Só que é um tipo diferente de frisson aquele que faz estremecer o adepto: um misto de fascínio e terror perante o numinoso, de curiosidade infantil e pueril deleite face ao derrubar de conceitos e preconceitos, quantas vezes representados pelo desabar de toda uma cidade, um mundo, uma sociedade planetária. Brian Aldiss, em entrevista à revista francesa Science Fiction Magazine nº3, de Junho/Julho de 1999: ‘Aujourd’hui, on se tourne vers Marion Zimmer Bradley pour le confort alors qu’à mon avis la SF devrait provoquer une sensation d’inconfort. Quelque chose doit survenir qui transforme radicalement le monde, et pas forcément pour le bien de l’humanité’

2.

A

FC é um género literário que sofre da particularidade de trair a sua própria definição. Se por um lado não queremos correr o risco de que o próprio termo Ficção Científica se limite a um oximoro, tal contradição é por vezes inconscientemente agravada pelos cultores do género, através da moralização e humanização da natureza e do universo. E se é verdade que essa traição é mais evidente no cinema, também a literatura de FC por vezes se deixa arrastar para essa patética humanização. Compare-se “The Cold Equations”, essa obra prima de Tom Godwin com “The Wait” (Stephen L. Burns, Analog, January 1997) ou mesmo com “Criança Entre as Ruínas” de Luís Filipe Silva (1991). Pode-se argumentar que a humanidade, enquanto único motor (conhecido) da literatura é, obviamente, o centro do mundo literário ou, mais simplesmente, que a literatura se refere sempre – ainda que através de símbolos e máscaras – ao Homem. Tais proposições não deixam de ser verdadeiras, mas negam aquela que deve ser a especificidade da FC. Ao apor o qualificativo “científica” a um género de ficção, exige-se que os seus cultores observem essa ‘frieza’ científica, esse distanciamento laboratorial que se busca salientar. A perspectiva humana que se deve encontrar sob a óptica da FC é a do homem enquanto ser-natural, enquanto ser-natureza, i.e., enquanto elemento integrante e indistinto dessa ‘imensa, complexa e muito bela máquina ecológica de proporções planetárias’ (Sagan & Druyan, Shadows of Forgotten Ancestors, 1992). Só assim pode a FC afirmar-se enquanto género específico e especificamente científico. Se a FC se limita a repetir os gritos e suspiros da literatura mainstream, estará a negar a sua própria natureza e, simultaneamente, deixará de aportar 72


3.

(1726, 1735), Micromegas (1752), Rip van Winkle (1819), Erewhon (1872), Odd John (1935) são todos espelhos desta identificação com o outro, com o diferente, com o distinto de nós. Porém, não carece ser observado que essa identificação com a alteridade é uma identificação intra-específica. É uma identificação apenas com o caleidoscópio de manifestações (físicas, culturais e sociais) do Humano. O Outro olha para nós criticamente, olha para nós de fora, mas é, ainda assim, um de nós. Um rebelde, um cavalheiro de ideias mais avançadas, um estrangeirado, alguém que está de fora por força das circunstâncias, mas que quer pertencer, ou pretende que os outros pertençam às vistas mais amplas das novas ideias. Consta que Hitler terá dito, fascinado pela vitória fulminante de Jesse Owens nas Olimpíadas de 1936, “é incrível, mas não é justo. É como pôr uma pantera a correr com humanos. Não passa de um animal”. O que sempre me arrepiou nesta lenda histórica, é a dissonância cognitiva que transparece da justaposição de fascínio e horror com que o novel ditador encara a superioridade de Owens. A incapacidade de ver aquele self in others, ao mesmo tempo que deixa transparecer a admiração pelo feito e pelas capacidades do atleta (para ele um Outro tão radical como para nós uma ratazana ou um monstro lovecraftiano). E qual é o leitor (incluindo neste termo o sentido pós-moderno de leitor de um texto, escrito ou filmado) de FC que nunca experimentou essa dissonância cognitiva ao admirar a superioridade intelectual de Hannibal Lecter, a letal eficácia dos velociraptores de Jurassic Park (1993) (“clever girl”, é a última expressão do caçador transformado em presa) ou a elegância predatória do alien de Giger e Scott? A Ficção Científica é a lupa privilegiada pela qual contemplamos o self in others, mesmo quando esses others são tão alienígenas quanto os vermes que encontramos sob as pedras do nosso quintal ou os mais fantasiosos alienígenas de Próxima de Centauro. É o reconhecimento de que nenhuma espécie – nem o homo sapiens – ocupa um espaço insubstituível no “grande esquema do universo”.

“I

have been told that thousands of birds are destroyed during every test. (...) They take wing at the flash, but then fall to earth, burned and blinded.” (Andrei Sakharov, Memoirs). Como esta memória de Sakharov, que mais tarde viria a ser um campeão dos direitos humanos e um adversário dos testes nucleares, nos recorda a fragilidade do ambiente e, simultaneamente, evoca a poética profética da FC. Desde que pequenos canários serviam aos mineiros como detectores vivos da presença de gases tóxicos, que as aves se encontram intimamente ligadas à humanidade enquanto arautos da sua desgraça. O crime ambiental do D.D.T. foi denunciado no livro The Silent Spring (1962), cujo título se referia ao silêncio das aves na primavera inglesa, antecipando a vingança do magnífico The Birds (1963) de Hitchcock. É sobretudo a fragilidade das aves que despoleta o vínculo emocional forte que existe entre as nossas espécies (talvez por as termos em casa, fechadas em gaiolas, talvez porque todo o planeta se transforme lentamente numa gigantesca mina envenenada). Nunca o começo do fim foi tão poético e evocativo, pela sua simplicidade, do que quando Dick nos informa em Do Androids dream With Electric Sheep? (1968) de que ‘primeiro foram os pássaros que começaram a cair das árvores’. Levantando voo com o clarão, como se Deus tivesse tirado uma fotografia (Ballard, The Empire of the Sun (1984)). 4.

M

as, divagamos. S.E. Hinton, referindo-se a Rebel Without a Cause (1955), escreveu que ‘one of the most satisfying pleasures from a work of art is the recognition of self in others.’ (PREMIERE, December 1999, p. 96). E podemos afirmar com alguma segurança, que essa componente reflectora da arte e da literatura sempre esteve presente, desde o início, na literatura do Fantástico, e da Ficção Científica em particular. Frankenstein (1818), Gulliver 73


5.

nossas experiências serão como as que Bova, Asimov, Robinson, et. al. nos descrevem; um dia será possível desenvolver esta ou aquela tecnologia; e é possível que hoje exista já vida inteligente noutros planetas, que poderá ser tão vasta e inacessível quanto o oceano de Solaris, ou tão fria, impiedosa e indiferente quanto os marcianos de Wells. É esta tripla tensão, entre a ficção, a possibilidade e a garantia de verdade, que gera aquilo que Moscowitz designou como “sense of wonder” e que, acompanhando Knight, podemos definir como “some widening of the mind’s horizons, no matter in what direction – the landscape of another planet, or a corpuscle’s-eye view of an artery, or what it feels like to be in rapport with a cat… any new sensory experience, impossible to the reader in his own person (…)”. Em última instância, a FC leva-nos a deslocar a nossa perspectiva do reconhecimento do self in others para a visão do self as other, do “eu como outro”. Uma perspectiva que apenas se tornou possível após a publicação de On the Origin of Species by Means of Natural Descent (1859) de Charles Darwin. Podemos dizer, sem receio de exagero, que pela sua influência e repercussões, a Origem das Espécies foi o livro mais importante dos tempos modernos; as suas repercussões fizeram-se sentir em todos os campos do saber e da cultura. No entanto, nenhum campo cultural se mostrou tão fértil ao explorar e extrapolar das suas consequências quanto a Ficção Científica: precisamente por trazer o apodo “científica” no seu bilhete de identidade. Se pudermos admitir que a Ciência “é o processo de descoberta da verdade sobre o funcionamento da ordem natural”, independentemente dos seus resultados (Stuart D. Jordan, The Global Warming Debate: Science and Scientists in a Democracy, Skeptical Inquirer, November/December 2007), devemos admitir que, em certo grau, há uma intenção de verdade nas narrativas de FC (não em todas, como é bom de ver, mas isso será assunto para outra ocasião). E os ecos de Darwin cedo se fizeram sentir nos precursores do género, e nunca tanto, nem tão bem, como na obra de H.G. Wells. Wells, quiçá o “verdadeiro” pai da Ficção Científica, foi o primei-

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oderá estar aí a grande linha divisora que separa a Ficção Científica dos demais géneros? Digamo-lo desde já, varrendo de cima da mesa questões que nos levariam demasiado tempo a dissecar: a Fantasia comercial é um género essencialmente escapista, onde a identificação com o outro (a Irmandade do Anel, os Elfos e os Gnomos, as Fadas e os Duendes) é uma fuga ao self que nos desagrada. Não é uma posição crítica, muito menos uma análise racional, mas o levar da emoção (do sense and sensibility do mainstream comercial) à sua última instância: a emoção por interposta pessoa.. O Horror, enquanto e porquanto abrace o sobrenatural é uma manifestação da húbris humana, elevando já não a pessoa física, ou o ideal de humanidade, mas a própria “alma” ao estatuto de mais alto valor do universo. No Horror sobrenatural, todas as forças do universo (por vezes, até Deus e o Diabo) conspiram e batem-se pela alma de um único humano. E a Ficção Científica? Recorda-nos Boris Vian (Cinéma Science Fiction - textos coligidos por N. Arnaud, 1978) que é característica distintiva da FC a sua credibilidade, o sermos capazes de acreditar no conteúdo das suas páginas. É portanto tarefa do escritor de FC fazer-nos acreditar naquilo que lemos. A plausibilidade é requisito essencial. No entanto, o mundo em que normalmente decorrem as narrativas de Ficção Científica, não é o nosso mundo, ou é-o modificado por um elemento de irredutível extraneidade. Sendo que tal elemento e o seu reflexo no mundo ficcional que dele deriva deve ainda assim ser plausível à luz dos conhecimentos científicos contemporâneos da sua criação. É, tal como thriller, tal como no policial, tal como no romance de aventuras, esta tensão entre a possibilidade e a ficção que vai gerar no leitor a mecânica de imersão textual. No entanto, e ao contrário desses outros géneros, a FC acrescenta um condimento insubstituível a essa tensão: a promessa de que as coisas um dia serão assim, ou que podem já o ser: um dia colonizaremos as estrelas e as 74


ro a tratar a Humanidade da novel perspectiva que surgiu do darwinismo: pela primeira vez, a Humanidade é apenas uma espécie mais, tão importante ou irrelevante como qualquer outra. E, precisamente por isso, tornou-a muito mais humana e preciosa, antecipando em meio século o “pequeno ponto azul” de Sagan. São imortais as linhas de abertura de The War of the Worlds (1898): “No one would have believed in the last years of the nineteenth century that this world was being watched keenly and closely by intelligences greater than man’s and yet as mortal as his own; that as men busied themselves about their various concerns they were scrutinised and studied, perhaps almost as narrowly as a man with a microscope might scrutinise the transient creatures that swarm and multiply in a drop of water”. Linhas das quais nasceu todo um género. Atente-se na economia das palavras usadas (nenhuma tem mais de três sílabas), na precisão com que, num universo literário dominado ainda pelo romance mimético-realista, Wells introduz já a perspectiva única da Ficção Científica: em primeiro lugar o jogo que resulta de “ninguém teria acreditado” e “nos anos finais do século XIX”, o século da revolução industrial e do progresso, que nos prepara para o motivo da dificuldade de aceitação de que “intelectos maiores do que o humano” nos observam atentamente. Duas particularidades ressaltam de imediato; primeiro, este “nos” aplica-se à Terra, à qual Well se refere como “this world”, intimando a existência de outros; em segundo, esses intelectos, superiores ao humano, são tão mortais quanto ele. Não se trata de seres sobrenaturais, nem de deuses ou demónios, mas de outras criaturas, também resultado do processo da evolução (mais à frente, no segundo capítulo do segundo livro, após proceder a uma descrição exaustiva – e científica – dos Marcianos, o narrador da obra comenta: “To me it tis quite credible that the Martians may be descended from beings not unlike ourselves”). Por último, a atenta observação a que os Marcianos sujeitam a Terra, não é distinta daquela a que um cientista poderia sujeitar um micróbio. Portanto, não só os Marcianos são mais

avançados do que a Humanidade, como podem ser descendentes de um antepassado similar ao humano (por muito que hoje saibamos o impossível que isso é). O caos e a destruição a que o exército invasor submete a Terra e a Humanidade permite a Wells explorar satisfatoriamente um leque de respostas das suas personagens, mas o que mais ressalta ao leitor é o carácter imparável do avanço. A humanidade vê-se reduzida a gado, recolhida para proporcionar alimento aos alienígenas, e as instituições sociais desabam, uma depois da outra, revelando as suas hipocrisias e fragilidades (e Wells, as should be, não é nada meigo para com a Igreja de Inglaterra). E no final, indiferente aos caprichos, vontades e auto-proclamados direitos fundamentais, é apenas um processo natural que detém finalmente o avanço dos Marcianos. Sob o ímpeto de Darwin, Wells varreu a Humanidade do centro do tabuleiro, arrancou-a da asa protectora de Deus e entregou-a aos caprichos indiferentes de um processo cego e contingente, como é o da evolução. Tornou-a, por isso mais preciosa. E no entanto, nunca esqueceu, nem deixou os seus leitores esquecer, que a Humanidade não é essencial. É meramente acidental. E todas as maravilhas que nos narra, da luta da Humanidade pela sobrevivência, não o impedem de desfrutar da singela e bucólica beleza de um mundo sem humanos, no ocaso da Terra, milhões de anos no futuro (cf. The Time Machine). Um quadro tão belo quanto a inesquecível cena final de The Birds de Hitchcock. 6.

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ue separa, então, a FC dos demais géneros? Estou convicto de que é a sua particular perspectiva da morte. De uma morte que nunca é individual, mas colectiva, da própria espécie. Uma noção de morte que se encontra sempre por detrás de cada uma das narrativas de FC, mesmo as mais disparatadas, e que transmite o desespero de vivermos numa era que sabe – pela primeira vez – que a morte é o bilhete final para o esquecimento, e que há muito que se poderia conseguir trabalhando

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numa frente unida (colonização espacial, maior longevidade e qualidade de vida, maiores conhecimentos) e que vamos deixando cair pelas frestas dos nacionalismos serôdios, da religiosidade atávica e do moralismo caduco. O tema essencial da arte (e da literatura) sempre foi o amor e a morte. Isso explica a fraca reputação da literatura de género face ao mainstream (bem como a excepção que sempre foi o Policial). No mainstream não há tema mais sério e solene do que essa dicotomia – amor e morte – e não é tolerado (excepto na sátira) um tratamento menos do que adequando para esse tema. Na literatura de género, o amor e a morte são reduzidos a actos laterais (perfunctórios, chamou-lhes Knight), secundarizados pelos demais elementos distintivos do género. O Policial sempre escapou a este estigma, pois a morte no policial reveste-se da dignidade de ser o motor da acção e da busca de justiça/verdade. Na Ficção Científica, a morte apenas alcança uma dimensão poética quando é o sacrifício pelo saber [como em “Transit of Earth” (1956) de Clarke], como resultado do desenvolvimento tecnológico [como em Beyond Apollo (1971), de Malzberg) ou por aplicação das frias equações do universo (Tom Godwin). O Universo é o principal adversário. Os heróis de Ficção Científica nunca morrem por amor, e as guerras estelares não trazem consigo a carga emotiva que os grandes acontecimentos históricos acarretam. Why does a man cry? Pergunta Dick em Flow My Tears, the Policeman Said (1974) (…) Not for sentiment. A man cries over the loss of something, something alive. A man cry over a sick animal that he knows won’t make it. The death of a child: a man can cry for that. But not because things are sad.

complexo ecossistema terrestre (e quiçá, planetário), ‘as pretensões e conceitos desta ou daquela espécie podem ser prontamente ignorados’ (Sagan & Druyan, op.cit.). O que distingue a Ficção Científica dos demais géneros é a sua perspectiva: a perspectiva do alienígena. BANG!

João Seixas nasceu em Viana do Castelo a 24 de Dezembro de 1970. Cresceu com uma «dieta» de filmes de aventuras, ficção científica e horror que lhe traçaram o destino de forma «inapelável». Licenciado em Direito e advogado, é também autor e crítico na área do fantástico, tendo publicado contos e ensaios no suplemento DN Jovem do Diário de Notícias, nas revistas Bang, Ler, Megalon e Paradoxo, nos sítios E-Nigma e Tecnofantasia, e na revista Os Meus Livros, onde todos os meses assina a recensão de obras na área da FC&F. Em 2005 fundou, com Pedro Marques, a editora Livros de Areia. Mais recentemente, publicou as noveletas «As Sombras Sobre Lisboa» na antologia «A Sombra Sobre Lisboa» (Saída de Emergência, 2006) e «Djinn» na antologia «Contos de Terror do Homem-Peixe» (Chimpanzé Intelectual, 2007). Em 2008 deverá também publicar o seu primeiro livro, «A Alma do Louva-a-Deus», segunda parte do «tríptico» denominado «Projecto Candyman» escrito com João Barreiros e Luís Filipe Silva. http://spaceshipdown.blogspot.com BANG!

A man, he thought, cries not for the future or the past but only for the present. 7.

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e todos os géneros literários, a FC é aquele que, por excelência, compreendeu que no 76


[ficção]

[tradução de Luís Rodrigues]

Crupe dos Doenceiros Dr. Neil Gaiman Este conto e o seguinte, são uma antevisão do “Guia de Bolso Thackery T. Lambshead das Doenças Excêntricas e Desacreditadas” a publicar pela Saída de Emergência nos finais de 2008. Esta antologia vai estar aberta a submissões. Mais informações na página da editora.

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escrição e sintomas Padecimento mórbido em intensidade, e infeliz no alcance, que aflige aqueles que, por hábito e patologia, catalogam e constroem doenças. Os sintomas iniciais mais óbvios incluem dores de cabeça, cólicas nervosas, tremores pronunciados e uma de várias erupções cutâneas de natureza íntima. Estes, juntos ou em separado, todavia não bastam para garantir o diagnóstico. O segundo estádio da doença é mental: uma fixação na ideia de doenças e patogenias, desconhecidas ou por descobrir, e nos seus pretensos criadores, descobridores ou demais personagens envolvidas na descoberta, tratamento ou cura das referidas doenças. Independentemente das circunstâncias, o autor aconselha de forma peremptória que não se deposite confiança nas aparências da publicidade enganosa, nos olhos projectando-se; o habitual. A aplicação de pequenas injecções de extractos ou caldos de carne ajudará na preservação das energias. A doença é tratável nestes estádios. É, no entanto, no terceiro estádio da Crupe dos Doenceiros que a sua real natureza é revelada e o diagnóstico confirmado. É nesta fase que certos problemas afectando discurso e pensamento se manifestam na fala e na escrita do paciente—que dará pela rápida deterioração do seu estado a menos que colocado sob cuidados imediatos. Tem-se observado que a invasão do sono

e cinquenta gramas fervidos no ponto de asfixia; a cara fica inchada e lívida, a garganta é uma tendência hereditária, e a língua adquire as características naturais dos pulmões, sobrevêm. A emoção é passível de ser excitada por quaisquer recordações forçosas à doença em questão, exibida ao público com tanta perseverança e tão aviltantemente por charlatães. A Crupe dos Doenceiros Terciária pode ser diagnosticada através da infeliz tendência que o paciente tem para interromper raciocínios e descrições normais com comentários sobre doenças, reais ou imaginadas, curas sem nexo, e aparentemente lógicas. Os sintomas são os de uma febre generalizada; abrupto, um inchaço redondo, imediatamente acima da rótula. Quando deveras crónica e, por fim, quiçá vómitos de neblinas ofensivas. A jalapa é um alcalino e apresenta-se incolor, pintando os grandes vermes redondos que surgem nos intestinos. A parte mais complicada na detecção desta doença reside na classe de pessoas passíveis de sofrer de Crupe dos Doenceiros Terciária, precisamente aquela que é menos contestada e à qual se dá mais atenção. Assim: é possível, sustento não de gengibre e álcool rectificado, as veias túrgidas, o último em evaporação por efeito do calor. Só com grande força de vontade é que o doente pode continuar a escrever e falar com naturalidade e fluência. Por fim, todavia, nos derra77


deiros estádios da forma Terciária da doença, toda a conversa degenera numa algaraviada mefítica de repetições, obsessões e fluxões. Enquanto a tosse expulsiva persiste, as veias túrgidas, os olhos projectando-se; a estrutura fica tão abalada que a invasão da epidemia foi precedida por denso e escuro, e caso não seja satisfeita, melancolia, perda de apetite, quiçá vómitos, calor e a língua adquire as características naturais da raiz triturada. Nesta fase, a única cura com eficácia demonstrada na guerra contra a Crupe dos Doenceiros é uma solução de escamónea. É preparada misturando partes iguais de escamónea e resina de jalapa, e o autor aconselha de forma peremptória que não se deposite confiança na evaporação por efeito do calor. A escamónea é amplamente distribuída, ainda que nem sempre seja activamente desenvolvida; a cara fica inchada e lívida, a garganta mais inflamada e, quiçá, o autor aconselha de forma peremptória que não se deposite confiança nos intestinos. Os pacientes com Crupe dos Doenceiros só raramente estão conscientes da natureza do seu mal-estar. De facto, a sua descida ao inferno dos disparates pseudomédicos é tal que o espectador não pode senão sentir pena e simpatia por ele; nem as frequentes erupções de sentido no meio destes disparates fazem mais do que obrigar o médico a resistir, e a declarar, de forma peremptória, a sua oposição à prática de criar doenças imaginárias, que não têm lugar no mundo moderno. Quando a hemorragia das sanguessugas persiste para lá do requerido pelo sistema. São tomadas por cinquenta gramas fervidos de sono e cinquenta gramas fervidos da publicidade enganosa em questão, exibida ao público com tanta perseverança e tão aviltantemente por charlatães. A escamónea é passível de ser excitada por efeito do calor. No segundo dia, quando a erupção numa tintura forte de iodo chegará, geralmente, para tudo. Isto não é loucura. É uma aflição. A cara fica inchada e lívida, escura, consistindo de bicarbonato de potassa, sesquicarbonato

de amónia e álcool rectificado, a tosse expulsiva persiste, o consumo habitual de quantidades de comida para lá das julgadas necessárias. Quando a mente as cenas amadas. Enquanto as cenas amadas. Também elas se podem dilatar. BANG!

Neil Gaiman é autor de romances e de banda desenhada. Vive nos Estados Unidos da América, com a sua mulher, Mary McGrath, e três filhos: Holly, Michael e Maddy Gaiman. Entre as suas obras em prosa podemos encontrar “American Gods” e “Bons Augúrios”, a segunda em parceria com Terry Pratchett. A sua criação de banda desenhada mais famosa é “Sandman”, que tem como personagens principais Sandman, uma personificação antropomórfica do Sonho, que também é conhecido por Morfeu, numa referência à mitologia grega, e os seus irmãos: Morte, Destino, Delírio, Desejo, Desespero e Destruição. Em 1991, Gaiman publicou os “Livros da Magia”, uma mini-série em quatro partes que relata uma excursão aos lugares mágicos e mitológicos do universo DC, com uma história focada num adolescente inglês que descobriu que tem por destino talvez tornar-se no maior mago do mundo. A mini-série foi popular e rendeu uma série regular escrita por John Ney Reiber. Muitas pessoas aperceberam-se de semelhanças entre Tim Hunter (protagonista da série) e a personagem criada mais tarde por J.K. Rowling, Harry Potter. Ao ser interpelado sobre essa semelhança, Gaiman respondeu que um jovem como feiticeiro tem precedentes na literatura. BANG! 78


[ficção]

[tradução de Luís Rodrigues]

Síndrome Fasciolar Cerebral dos Carteiros Dr. Stepan Chapman

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nfestação cerebral por Tubifex corbellis, fascíola parasítica da classe dos trematodes

Os miracídios migram para os gânglios cefálicos e cloaca da barata hospedeira. A barata sente então uma necessidade avassaladora de se expor junto a uma fonte de luz, habitualmente um poste de iluminação pública, e rebolar como se tivesse sido envenenada. Um pombo (Columbidae americanis) observa as movimentações frenéticas da barata e, num voo rasante, faz dela sua refeição. No interior do esófago, o malfadado insecto evacua os intestinos. Um dia volvido, surgem miracídios na corrente sanguínea do pombo. Muitos fundem-se em rédias, corpos amorfos que se alojam na glândula pituitária da ave. Uma rédia fabrica grandes quantidades de cercárias larvais. Impelidas pelas suas caudas em vibração, as cercárias migram para o esogeu mesofundibular no pescoço do pombo. Abster-me-ei de relatar o percurso anatómico estabelecido pelas larvas nesta extensa viagem, dado ser tão desnecessariamente complicado quanto tudo o resto acerca da FCC. O pombo sente-se na obrigação de passear de maneira ofensiva à frente do rafeiro mais tinhoso que consegue encontrar (Canis lupus familiaris). Voa então na direcção do cão para lhe arranhar o focinho. O cão, naturalmente, arranca-lhe as goelas à dentada. Enche assim a boca com a pele, as penas e as cercárias da ave. Combatendo o sistema imunitário do mamífero a cada passo, estes intrépidos invasores avançam em direcção ao tronco cerebral e fígado caninos. Enquanto as cercárias vão devorando tecido

Vectores de contágio Desde 1996 que a Síndrome Fasciolar Cerebral dos Carteiros se tem observado com frequência na área da grande Los Angeles. Documentação meticulosa acerca deste platelminte microscópico está hoje a ser compilada nos Centros de Controlo de Doenças de Atlanta. O ciclo vital da fascíola cerebral dos carteiros (FCC) obedece a um cenário solidamente demonstrado. Para reconstituir os estados deste ciclo, podemos começar com um espécime do hospedeiro primário do verme durante os primeiros sintomas da mortalidade. Na imundície de uma zona industrial, no silêncio da noite, jaz, no passeio, o cadáver fumegante de um carteiro de uniforme azul claro. A massa glial pré-frontal deste cadáver alberga centenas de fêmeas da fascíola, carregando sacos de ovos. Estas maternais fascíolas abrem caminho pelas fossas ópticas e reúnem-se nos olhos do cadáver— mais precisamente, no fluído da câmara anterior por trás da córnea. Aqui, as fêmeas surgem em grande número e morrem, libertando, ao mesmo tempo, milhões de miracídios ciliados. De passagem, uma barata agradecida (Blattodea occidentalis) sorve deste fluído infectado. (Se outro animal chega primeiro aos olhos—um melro, gato vadio ou médico legista—o ciclo vital do verme sofre um curto-circuito. No entanto, estes parasitas preferem as jogadas de risco.) 79


conjuntivo e fagócitos, atingem o desenvolvimento sexual da fascíola—machos adultos e fêmeas adultas exibindo o tradicional aspecto de torpedo invertido que os trematodes tanto adoram. As fêmeas navegam o sistema linfático canino, infiltram os grandes músculos das patas traseiras e enquistam-se. Em contraste, os machos da fascíola nadam rumo às gengivas do cão. Enquanto isso, o cão parte em busca do tom exacto de azul-claro que caracteriza os calções dos uniformes dos carteiros de Los Angeles. Finca os dentes no tornozelo do primeiro carteiro que encontra. Os machos da fascíola sentem o cheiro do tornozelo e penetram apressadamente o folículo mais próximo. O incómodo canídeo é deixado cego com uma dose de spray de pimenta, capturado por um agente de controlo animal, e posto a dormir com uma injecção de barbitúricos. A carcaça é vendida a um fornecedor de carne por atacado e revendida aos mercados locais, restaurantes e bancas de comes e bebes com o rótulo de 100 por cento carne de vaca triturada. (O termo “100 por cento carne de vaca triturada” é aplicado de forma um tanto liberal em Los Angeles.) Quando as fêmeas que hibernam na carne do cão pressentem intestinos humanos à sua volta, libertam-se dos seus quistos, abrem túneis nas vilosidades, e circulam, quimicamente disfarçadas de corpúsculos humanos, até invadirem as meninges. Se forem fêmeas com sorte, o seu novo hospedeiro é um carteiro recém-mordido. Assim sendo, os machos da fascíola (vistos pela última vez no tornozelo do hospedeiro) anteciparam-se na sua chegada ao crânio e usaram as suas ventosas bucais para construir ninhos de amor onde acasalar sem distracções. Aí anichadas, as fêmeas agarram-se com firmeza e dilatam os poros genitais. Na primeira fase da síndrome, o carteiro afligido sente calores e tonturas todos os dias ao anoitecer. Começa a cultivar uma fantasia obsessiva na qual enche os bolsos de moedas ou outros pequenos objectos metálicos e sobe aos postes telefónicos em noites de trovoada. Na eventualidade de uma tempestade nocturna, concretiza-se a fantasia. Se o carteiro é atingido por um relâmpago, cai no pas-

seio—um cadáver fumegante em convulsões. E foi aqui que entrámos, por assim dizer. Os carteiros afligidos são capazes de sobreviver por muitos anos à doença, nunca deixando de sofrer episódios compulsivos. Contudo, se o carteiro é impedido de subir aos postes, engolirá a própria língua, azulando e asfixiando-se. Se me é permitida uma divagação de cariz zoológico neste texto clínico, peço apenas que se contemple a absoluta estranheza deste ciclo vital. O êxito reprodutivo da fascíola depende de uma cadeia de acontecimentos tão improvável que roça o implausível. As fascíolas são reconhecidas entre os vermes triblásticos acelomados pela complexidade desnecessária e aparentemente desajustada dos seus ciclos vitais, e que podem incluir até onze hospedeiros distintos. (1) No entanto, até entre as fascíolas, a FCC parece excessiva, exibicionista até. Parecem desafiar a própria extinção num número de trapézio cujo intuito único é impressionar os demais parasitas. (2) Curas Apresenta-se um conjunto de intervenções vermífugas. A Clínica Comunitária e Canil de Sunset Boulevard informa que se podem usar doses concentradas de Slavopropin e Meforbifak de modo a induzir apoplexias clonotrônquicas na fêmea da fascíola, com subsequente prolapso e enfarte do ovipositor. O efeito nos pacientes infectados foi imediato, com resultados fatais em menos de 40 por cento dos casos registados. Em alternativa, testes clínicos com os vermicidas experimentais Spinwex D e Cactosprain 113 têm sido recomendados por vários farmacologistas desempregados. Todas estas vias de tratamento encontram-se repletas de dissabores, mas são, ainda assim, uma possível melhoria em relação à escalada de postes em noites de trovoada com os bolsos cheios de pequenos objectos metálicos. Se vermeologistas qualificados com ligações à legislatura do estado da Califórnia forem capazes de obter tecidos conservados para dissecação, recomenda-se um aturado exame histológico. Na eventualidade de adquirir espécimes vivos da fascíola, qualquer jovem rato de laboratório com alguma inteligência a trabalhar no sector público seria capaz de elaborar 80


[opinião]

Apanhar as canas do FF 2007

um plano de investigação onde fazer carreira. Baratas, pombos, cães e uma população responsável de presidiários ou chimpanzés poderiam ser empregues como hospedeiros. Uma investigação dos mecanismos moleculares subjacentes à navegação, supressão imunitária e técnicas de modificação comportamental da fascíola decerto se iriam seguir. (3) Autor Stepan Chapman, Doutorado em Zoologia dos Invertebrados pelo Instituto de Estudos Ulteriores, Waxwall, Arizona, EUA

Rogério Ribeiro

Referências (1) Vectors of Parasitism Considered As Sub-Chaotic Attractors For Symbiotic Neurolepsy, Forsfed Forbran DTZ, The Royal Journal of Worms vol. 59 #4, Berna, Suíça, 1987. (2) Vanity: Watch Spring of Evolution, Verner Kempt DDT, Catarrh Press, Oshkosh Wisconsin, 1993. (Edição portuguesa: Vaidade — A Mola no Relógio da Evolução, trad. Vladimiro Sousa Pústula, Grávida Publicações, Lisboa, 1996.) (3) Parasite Rex, Carl Zimmer, The Free Press, Nova Iorque,

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m 2007 na sua terceira edição consecutiva (quarta, se contarmos com o 1º Encontro Literário que lhe deu origem), o Fórum Fantástico (FF) encontra-se numa encruzilhada, em parte fruto do seu próprio sucesso. Mas, antes de irmos aos deves e haveres do evento, permitam-me tirar publicamente o chapéu à minha cara-metade na organização, a Safaa Dib. Não querendo escorregar para a “pancadinha nas costas”, não fujo nada à verdade ao afirmar que, sem a sua prontidão para lidar com a maior parte do trabalho, este ano não haveria evento. Obrigado, Safaa. Mas voltemos ao assunto inicial. Quase sem darmos por isso, o FF passou a ser olhado como uma iniciativa estabelecida, um evento sólido que já deixou as “fraldas” para trás. E notámos isso simultaneamente de várias fontes: editores, autores, jornalistas, entidades patrocinadoras. O que, se nos enche de orgulho pelo trabalho realizado estar a ser reconhecido, também nos alerta para que, a partir de agora, os amadorismos e as inconsistências serão menos tolerados. E não haverá maior reflexo disso do que a reacção do público. Este ano tivemos algumas situações que acabaram por ser lições de gestão de programação (embora o horário do FF2007 tenha já indiciado essa nossa preocupação), nomeadamente com o editor da Marvel Chester Cebulski. Primeiro vários atrasos no voo obrigaram ao adiamento de uma das suas intervenções, passando por um encurtamento à úl-

EUA, 2000. BANG!

Stepan Chapman nasceu em 1951 em Chicago, no Illinois, e estudou teatro na Universidade de Michigan. Em 1969, a sua primeira história publicada foi escolhida por John W. Campbell para a Analog. Nos anos 70, a sua ficção apareceu em quatro das antologias Damon Knight’s Orbit. Participou em peças nos EUA e Inglaterra, e as suas comédias para crianças foram produzidas para o Edinburgh Drama Festival. Em 1997, a Ministry of Whimsy Press lançou o seu primeiro romance, The Troika, que venceu o Philip K. Dick Award. BANG! 81


tima hora do horário em que poderíamos ocupar o auditório, até à mudança repentina das regras que o próprio havia imposto para a realização das actividades relacionadas com o ChesterQuest. Mesmo com esses percalços, foi sem dúvida um dos pontos altos do evento, sempre com sala cheia, demonstrando à audiência uma simpatia e acessibilidade que poucos estariam à espera, falando tanto da Marvel como da banda desenhada em geral e dos problemas relacionados com a sua criação e produção. Outro convidado que provocou salas cheias, principalmente nos workshops que realizou paralelamente ao FF2007, foi Bruce Holland Rogers. Tendo vindo a Portugal lançar a colectânea “Pequenos Mistérios”, foi muito pela sua participação que a ficção curta se tornou um dos focos do FF2007. Para além disso, os workshops que realizou na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e na Faculdade de Letras, apinhados de ouvintes atentos, mostraram que é essencial criarem-se mais iniciativas para quem procura melhorar a sua escrita. Mas a ficção curta foi também abordada através de um debate e da apresentação de um número anormal de publicações. Para além da colectânea de Bruce Holland Rogers, foram apresentada as antologias “Por Universos Nunca Dantes Navegados” (ed. Luís Filipe Silva), “Contos de Terror do Homem-Peixe” (ed. Miguel Neto) e “A República Nunca Existiu” (ed. Octávio dos Santos), a colectânea “A Conspiração dos Abandonados”, de António de Macedo, e o primeiro volume do tríptico “A Bondade dos Estranhos”, de João Barreiros. Ao contrário do que tinha vindo sendo hábito, a edição deste ano revelou um domínio das componentes comercial e autoral, com a grande maioria das sessões dedicada à apresentação de livros e/ou autores, em detrimento da componente académica. Excepção feita para Cláudia Pinto (ficção gótica), José Manuel Lopes (literatura de terror, com Fernando Ribeiro), José Saraiva (ciência espacial) e Maria do Rosário Monteiro, que protagonizou duas apresentações que mais uma vez demonstraram uma particular capacidade de comunicação e um à vontade em transmitir uma visão emotiva mas correcta dos livros (nomeadamente os primeiros volumes da

série de fantasia de Robert Jordan e a colectânea de António de Macedo). Mas uma aposta renovada terá de ser feita nesta área, sob risco de descaracterizar parte da própria definição do FF. Também de notada erudição foi a palestra de David Soares sobre os aspectos esotéricos que estiveram na base do seu recente romance “A Conspiração dos Antepassados”. A prova que um livro publicado é por vezes apenas a ponta do icebergue que lhe dá origem. A autora espanhola Blanca Riestra fez também uma apresentação académica sobre o Fantástico, para além de apresentar o seu livro “O Sonho de Borges”. Ambas trouxeram à conversa obras da literatura fantástica hispânica pouco conhecidas em Portugal. Recém galardoada com um prémio de carreira em Espanha, Elia Barceló veio ao FF2007 apresentar o seu “O Segredo do Ourives” e encantou a audiência com a sua participação numa entrevista com o autor britânico Steve Redwood e com Luís Filipe Silva, e com as suas intervenções em várias das outras palestras. Também bastante interventivo, o autor holandês WJ Maryson lançou o seu livro “O Não-Mago” e manteve uma conversa bastante interessante com a autora portuguesa Inês Botelho. Para terminar o FF2007 com chave de ouro, juntaram-se a Chester Cebulski quatro desenhadores portugueses já com carreira internacional: João Lemos, Ricardo Tércio, Nuno Alves e Ricardo Venâncio, numa sessão que despertou o interesse da audiência perante a qualidade dos trabalhos apresentados. O balanço foi, à semelhança dos anos anteriores, bastante positivo. Mas, pela nossa ambição, para o ano será ainda melhor. E, para isso, contamos também com as vossas opiniões e sugestões, que nos poderão fazer chegar através do email forumfantastico@gmail.com. Até breve, em forumfantastico.wordpress.com. BANG! Rogério Ribeiro é editor da revista Bang!, fundador e presidente da Épica – Associação Portuguesa do Fantástico nas Artes, e organizador do Fórum Fantástico. BANG! 82


[informação]

Prémio Bang! para Literatura Fantástica Regulamento geral 2008 O Prémio Bang! para Literatura Fantástica, instituído pela editora Saída de Emergência, é um prémio anual e pretende divulgar obras portuguesas dentro do género denominado literatura fantástica. A literatura fantástica inclui manifestações tão diferentes como a fantasia, a ficção científica, a história alternativa, o horror, o realismo mágico, etc... Para ver alguns exemplos de livros destes géneros, visite a Colecção Bang! da Saída de Emergência em www.saidadeemergencia.com ADMISSÃO A CONCURSO

2. As obras devem apresentar um mínimo de quarenta e cinco mil palavras de texto, dando-se primazia ao formato romance (embora também se aceitem livros de contos).

Ao Prémio Bang! para Literatura Fantástica podem concorrer todos os indivíduos que apresentem os seus trabalhos nas condições que se seguem:

3. As obras concorrentes, devem observar as seguintes condições de apresentação: 3.1. Quatro exemplares; 3.2. A capa deverá apresentar o título da obra e o pseudónimo do autor; o título (ou uma abreviatura) e o pseudónimo deverão constar igualmente de todas as páginas da obra, em cabeçalho ou em rodapé, bem como o respectivo número de página; 3.3. Juntamente com os quatro exemplares deverá ser apresentado um sobrescrito fechado, contendo no interior os elementos de identificação do concorrente (nome verdadeiro, morada, email e contacto telefónico) e, no exterior, o título da obra e o pseudónimo;

1. São admitidas a concurso exclusivamente obras inéditas em língua portuguesa; 1.1. Consideram-se como inéditas obras que não tenham sido publicadas, no todo ou em parte, em nenhum meio físico (livros, revistas, jornais, em edições profissionais ou de autor, e afins) nem em nenhum meio virtual (blogues, fóruns, listas de discussão, revistas e demais publicações electrónicas, em formato texto, áudio ou vídeo, e afins), nem estejam ou tenham estado disponíveis em soluções de print-on-demand, quer em Portugal quer no resto do mundo.

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ATRIBUIÇÃO DO PRÉMIO

3.4. As obras admitidas a concurso terão que respeitar as seguintes características gráficas: suporte papel, formato A4, tamanho 12, espaço e meio entre linhas, e tipo de letra Times New Roman; 3.5. Cada concorrente poderá apresentar mais do que um trabalho, desde que os envie separadamente e com pseudónimos diferentes; 3.6. Os textos devem ser fixos por agrafos, argolas ou qualquer outro sistema.

6. O nome do vencedor será publicado na página da editora (www.saidadeemergencia.com) no dia 10 de Outubro de 2008. A atribuição do prémio será uma cerimónia pública, com local e data a anunciar, mas sempre antes do dia 31 de Dezembro de 2008. 7. A obra premiada será publicada pela editora Saída de Emergência durante o ano de 2009 e o autor receberá um prémio de 1500 Euros aquando da cerimónia de atribuição do prémio. 7.1. As obras alvo de Menções Honrosas não darão lugar a um prémio financeiro, reservando-se a editora Saída de Emergência no direito de considerar a sua eventual publicação, em comum acordo com o autor.

ENTREGA DE TRABALHOS

4. Os textos a concurso deverão ser enviados por correio para a morada da editora (Av. da República, nº 861, Bloco D, 1º Dtº, 2775-274 Parede) até ao dia 31 de Julho de 2008, com a indicação expressa “Candidato ao Prémio Bang! para Literatura Fantástica 2008”.

DISPOSIÇÕES GERAIS

8. Os exemplares de participações não enquadradas dentro do regulamento ou que não obtenham o prémio serão destruídos após a divulgação do Prémio.

COMPOSIÇÃO E ATRIBUIÇÕES DO JÚRI

5. Em 2008 o júri será formado pelos seguintes quatro elementos: David Soares, Luís Filipe Silva, João Seixas e Luís Corte Real; 5.1. É vedada aos membros do júri a apresentação de textos a concurso; 5.2. O júri reserva o direito de não atribuir prémio caso considere que a qualidade literária dos textos a concurso não é satisfatória; 5.3. Em caso de atribuição, o prémio deverá recair sobre uma única obra, não podendo haver situações de obras galardoadas em ex-aequo; 5.4. O júri poderá, caso assim entenda e se a qualidade literária dos textos a concurso o justificar, propor a atribuição de Menções Honrosas, para além da obra premiada; 5.5. A decisão do júri será tomada por unanimidade ou maioria e dela não haverá Recurso.

9. A partir do momento em que os concorrentes enviam as obras para a editora aceitam na íntegra o regulamento para atribuição do Prémio Bang! para Literatura Fantástica. 10. Sem prejuízo dos números anteriores, os autores mantêm os direitos de autor referentes às obras enviadas.

Entrega das obras: 1 de Janeiro 2008 a 31 de Julho de 2008 Boa sorte e muita inspiração. Os Editores, Dezembro de 2007 BANG!

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[informação]

Colecção Bang! Apresentação do primeiro trimestre de 2008 A melhor colecção de literatura fantástica do país vai trazer 4 livros fabulosos no início do ano: de um autor consagrado norte americano, de um autor maravilhoso inglês, de um dos mais talentosos escritores espanhóis, e uma antologia com autores portugueses consagrados e alguns estreantes

A República Nunca Existiu Miguel Real, João Aguiar, José Manuel Lopes e mais... E se o Regicídio de 1 de Fevereiro, tal como o conhecemos, não tivesse acontecido? E se a República nunca tivesse sido instaurada em Portugal, nem em 5 de Outubro de 1910 nem depois? Estas hipóteses constituem o ponto de partida para 14 «histórias alternativas», escritas por outros tantos autores, que aceitaram o desafio de imaginar um país distinto daquele que verdadeiramente existiu no século XX, e não só. Sempre um Reino, sempre uma Monarquia! Passado, presente e futuro de uma nação foram rescritos, e o resultado é um livro como nunca houve em Portugal. Entre numa dimensão diferente e seja bem vindo à «outra» costa mais ocidental da Europa, onde «A República Nunca Existiu!» Publicação dia 21 de Janeiro.

novo também se proclama rei, suportado por uma hoste que reúne quase todas as forças do sul. Para pior as coisas, nas Ilhas de Ferro, os Greyjoy planeiam a vingança contra aqueles que os humilharam dez anos atrás. O Trono de Ferro é ocupado pelo caprichoso filho de Robert, Joffrey, mas quem de facto governa é a sua cruel e maquiavélica mãe. Com a afluência de refugiados e um fornecimento insuficiente de mantimentos, a cidade transformou-se num lugar perigoso, e a Corte aguarda com medo o momento em que os dois irmãos do falecido rei avancem contra ela. Mas quando finalmente o fazem, não é contra a cidade que investem... O que os Sete Reinos não sabem é que nada disto se compara ao derradeiro perigo que se avizinha: no distante Leste, os dragões crescem em poder, e não faltará muito para que cheguem com fogo e morte! Publicação dia 11 de Fevereiro.

A Fúria dos Reis George R. R. Martin Quando um cometa vermelho surge nos céus de Westeros encontra os Sete Reinos em plena guerra civil. Os combates estendem-se pelas terras fluviais e os grandes exércitos dos Stark e dos Lannister preparam-se para o derradeiro embate. No seu domínio insular, Stannis, irmão do falecido Rei Robert, luta por construir um exército que suporte a sua reivindicação ao trono e alia-se a uma misteriosa religião vinda do oriente. Mas não é o único, pois o seu irmão mais

O Império do Medo Brian Stableford Esta é a história de uma cruzada pelo maior de todos os segredos: a imortalidade. O Império do Medo é um magnífico épico histórico, repleto da melhor aventura e da mais brilhante fantasia, que se desenrola 85


[convite]

ao longo de três séculos. Saltando de Inglaterra para o coração de África, e de Malta para o Novo Mundo, Brian Stableford oferece-nos a visão sublime de uma realidade que parece a nossa mas não é. Afinal, este é um mundo governado por uma poderosa aristocracia de imortais: humanos extraordinariamente belos e imunes à dor mas que precisam de beber o sangue dos mortais. A história começa na nebulosa Londres do século XVII. Edmund Cordery, sábio da corte de Ricardo Coração de Leão, acredita que a cerimónia supostamente mágica que transforma um mero humano num vampiro deve ter uma explicação natural. Mas descortinar o segredo da criação dos imortais também é saber como os destruir, como tal, quando as suas investigações o aproximam da verdade, a elite que governa o mundo decidese pela sua morte. Mas antes de morrer, Edmund passa os seus segredos ao filho Noell, transformando este no homem mais procurado em Inglaterra e forçando-o a fugir pela vida. Para continuar as investigações do pai, Noell viaja até ao coração de África, onde acredita que os primeiros vampiros nasceram há milhares de anos. Na companhia do fiel monge Quintus, do pirata Langoisse e da sua amante Leilah, Noell terá de enfrentar guerras, pestilências e todos os perigos de uma época violenta, na derradeira cruzada pelos segredos da imortalidade. Publicação dia 11 de Fevereiro.

Publique o seu conto na revista Bang! A

revista Bang! está à procura de novas vozes na literatura fantástica. Envie-nos o seu conto (de horror, ficção-científica, fantasia, história alternativa, realismo mágic, etc) e, se for esolhido para publicação, para além da glória eterna ao imortalizar-se nas páginas da única revista de literatura fantástica em Portugal, ainda recebe 3 livros grátis na sua caixa de correio. São eles: • Os Ossos do Arco-Íris de David Soares; • Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos de Ágata Simões; • Fragmentos de uma Conspiração de José Lopes; Um grande livro de horror, um grande livro de humor e um thriller bem português serão suficientes para tirar cá para fora o que de mais fantástico há em si?

A Loucura de Deus Juan Miguel Aguilera Inícios do século XIV. O mito de Prestes João, das suas terras míticas e exércitos invencíveis, dá esperança a uma Europa destroçada por guerras. É então que um grupo de mercenários, acompanhados por Ramón Llull, o Doutro Iluminado, decide partir numa arriscada expedição para Oriente, ao encontro desse rei cristão. Mas a loucura dos homens, ou talvez de Deus, guia-os a um destino diferente e insólito: a estranha, misteriosa e desconhecida cidade de Aristarcópolis. E o que vão encontrar desafiará toda a ciência que conhecem, a tecnologia que já viram, a crença no Homem e até a fé em Deus. A Loucura de Deus é um feito que comprova a mestria narrativa de Juan Miguel Aguilera, um dos autores espanhóis mais surpreendentes da actualidade. Publicação dia 10 de Março.

Os contos candidatos devem ser submetidos para joaog@saidadeemergencia.com, tendo o email o seguinte título “submissão de conto para revista Bang!” E agora, boa inspiração! BANG! 86


[ficção]

Dois contos súbitos Luís Filipe Silva

do da vida eterna pouco depois de bater as botas... Infelizmente, nunca viria a saber se isso tinha sido verdade, pois pouco tempo depois da criogenização, surgiu uma singularidade tecnológica que fez retroceder culturalmente a humanidade aos tempos da força motriz a animais. Ainda lá se encontra, resguardado nas profundezas do refúgio da montanha, alimentado por energia solar, até que as máquinas se gastem ou o sol se apague... e morra mesmo antes de surgir a nave extraterrestre. BANG!

DES-SINCRONICIDADES

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uando acabou de estudar foi quando introduziram os métodos hipnossomáticos de aprendizagem, no qual se aprendia sonhando com experiências de vida concretas, pelo que depressa se viu rodeado de malta muito mais jovem e mais dinâmica que não perdera tantos anos mergulhada nos livros nem em tanta teoria sem prática. Quando teve um filho foi quando legalizaram a limpeza e melhoria genética dos fetos com apoio da Segurança Social, pelo que o bebé foi a última geração daquele país a ainda ter um raciocínio básico e uma desenvoltura física não aumentada. Quando o negócio do canal de televisão estava a arrancar, foi quando se começou a vender óculos e até olhos artificiais que misturavam imagens do mundo fisico com as vindas constantemente da internet, e num único ano a televisão, nos moldes conhecidos, desapareceu. Quando começou ele mesmo a usar olhos artificiais, não tinha dinheiro para comprar a versão a cores, pelo que durante muito tempo teve de viver num mundo a preto-e-branco; quando finalmente conseguiu poupar o suficiente, os olhos a cores cairam de preço, e tornou-se chique ver o mundo em tons de cinzento. Daí que não foi surpresa para ninguém que tivesse decidido congelar-se no final da vida e aguardar pelo avanço das tecnologias, para ficar finalmente sincronizado com o desenvolvimento da sociedade. Por aquele andar, descobririam o segre-

CONTRA A DEMAGOGIA

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unciona assim, sr. Presidente: fica residente no seu cérebro e vai contando as palavras que profere ao falar e escrever. Ao atingir o limite, zás! Abre os milhões de contentores de cianeto que lhe injectámos nas veias. E ao fim de cinquenta palavras... - Cinquenta palavras?! – berrou o Presidente. - Quarenta e oito... – corrigiu maliciosamente o terrorista. BANG! Luís Filipe Silva foi galardoado em 1991 com o prémio Caminho de Ficção Científica. É autor do Ciclo da GalxMente, composto à data pelos romances Cidade de Carne e Vinganças, e colaborou com João Barreiros no “Terrarium” - Um Romance em Mosaicos. Nos últimos anos tem mantido uma presença assídua na internet, onde publicou uma revista por email («Eventos») que se transformou no actual site TecnoFantasia.com.. BANG! 87


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Não perca no próximo número da Bang! Em Abril no seu PC

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oão Seixas assina ZEPPELINS SOBRE LISBOA, um alucinante SERIADO em três partes que fará as delícias de todos os fãs de INDIANA JONES e DOC SAVAGE. Que terríveis planos foram roubados do alto comando Italiano em plena I Guerra Mundial? Que rosto sinistro se esconde sob a máscara do misterioso Barão K? Qual o papel do macabro Farang Dao e da ameaçadora Liga do Arabesco? Quem é o excêntrico cientista que se abriga sob o manto protector de D. Carlos numa Lisboa que é um oásis civilizacional numa Europa mergulhada na mais sangrenta guerra do século XX? Não perca ZEPPELINS SOBRE LISBOA e visite uma Lisboa ninho de espiões, onde personagens como Mata Hari e Buíça se vêem envolvidos na mais terrível e mortal conspiração de todos os tempos. Novela de aventuras em cenário de história alternativa, ZEPPELINS SOBRE LISBOA é o primeiro romance RETRO PULP português.

Deixe a sua opinião em: revistabang.blogspot.com Bang! 3 - Janeiro 2008 - Trimestral www.saidadeemergencia.com Uma publicação Saída de Emergência. Todos os direitos reservados. Redacção Av. da República, 861, Bloco D, 1º Dto. 2775-274 Parede Editores Luís Corte Real e Rogério Ribeiro Design Saída de Emergência Copyrights Textos propriedade da editora e/ou dos respectivos autores Capa Phil Hale

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ainda, contos de José Manuel Lopes, João Barreiros, Robert E. Howard, H. P. Lovecraft, Ágata Ramos Simões, Richard Matheson, Luís Filipe Silva e David Soares, entre outros. Mas porque há vida para lá da ficção, também temos dois estupendos ensaios de João Seixas e António de Macedo para lhe apresentar. BANG! 88

Revistabang3