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Fritz Fri z Leiber Lankhmar chega a Portugal Po tugal Robert Robe t E. Howard Pré-publicação de Sombras ao Luar Sarah A.. Hoyt, Ho , Bruce Holland

nº ISSN 1646-2777

2 3.90 TRIMESTRAL


editorial Pronto. Pegou na Bang! nº2, a terceira, abriu-lhe a capa, talvez até já a tenha folheado de trás para a frente antes de chegar aqui. Abriu a Caixa de Pandora e já não a consegue fechar. Sente uma atracção. Não resista; resistance is futile!

Pecado”, um conto não bebível.

Há quem argumente que a (proto-)ficção científica surgiu de um cruzamento entre a Ciência e a Filosofia. Se for esse o caso, talvez seja aí que se encontra Eduardo Capela e o seu “Pink Penguin”, curiosamente dedicado a Jorge Luís Borges e a Ursula K. LeGuin. Ainda no campo da ficção científica, numa época em que a nossa sociedade parece ter perdido o encanto pela exploração espacial, os norte-americanos Lawrence Schimel e Mark Garland enviam-nos, de novo, “Ao Encontro das Estrelas”. E Sarah Almeida

Ricardo Tinoco traz-nos “O Braço Tatuado”, a mostrar que a fantasia épica e mitológica escrita em português pode ombrear com os clássicos, representados nesta edição pelas pré-publicações de “Sombras ao Luar”, de Robert E. Howard, e de “As Crónicas da Espada”, de Fritz Leiber. Enquanto Ágata Ramos Simões nos leva ao convívio sempre agradável (?!) com o nosso amigo Sr. Bentley, João Bengelsdorff apresenta-nos um versátil anão, com o qual nos podemos cruzar numa qualquer rua da capital, em “O Caderno de Pursewarden”. A complementar a ficção nacional e

Hoyt, nascida em Portugal mas a viver nos Estados Unidos, traz-nos um conto, “O Rapto das Sabinas”, num cenário quase apocalíptico, sobre a relação de homens e mulheres.

estrangeira, temos um artigo de Rui Anselmo sobre RPGs, e nomeadamente sobre o seu “The 101” e uma entrevista com Pedro Reisinho, editor de uma nova colecção de literatura fantástica, sob a chancela da editora Gailivro.

Jogando com a nossa percepção da realidade, Bruce Holland Rogers invoca memórias de infância e os mistérios da Língua em “Certas Noites é Romeno” e Ricardo Mendes delicia-nos com “O

Esperamos que dêem por bem empregue o tempo de espera desta edição da Bang!, e até ao próximo número. Rogério Ribeiro / revistabang@gmail.com 1


“Deus não pode alterar o passado. Foi por isso que Ele criou tantos historiadores.” —Samuel Butler

índ crónicas entrevistas e afins Pedro Reisinho

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O que é um RPG?

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Entrevista ao editor da Gailivro

Rui Anselmo

BD - O Escultor

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Biografias

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Miguel Santos

Dos autores deste número

pré-publicação Sombras ao Luar

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As Crónicas da Espada

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Robert E. Howard

Fritz Leiber

Bang! 2 - Novembro 2006 - Trimestral

Redacção Av. da República, 861, Bloco D, 1º, Dto. 2775-274 Parede

Colaboradores neste número Rui Anselmo, Luís Filipe Silva, Luís Rodrigues, Safaa Dib

ISSN 1646-2777 Depósito Legal ??????/06 ICS pendente NIF 506367096 Tiragem 1000 exemplares

Director / Director de Arte Luís Corte Real

Copyrights Textos propriedade dos respectivos autores.

Editor Rogério Ribeiro

Capa Mark Schultz

Uma publicação Saída de Emergência. Todos os direitos reservados.

Paginação e design Edições Saída de Emergência

Impressão Relgráfica Artes Gráficas, Estrada da Ribafria, 52, Algarão, 2475-011 Benedita

www.saidadeemergencia.com


ice contos

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04

The Pink Penguin Eduardo Capela

Ao Encontro das Estrelas Ventos Imutáveis

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O Pecado

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Lawrence Schimel e MarkFrank A. Garland Roger

Ricardo Mendes

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O Caderno de Pursewarden João Bengelsdorff

O Braço Tatuado Ricardo Tinoco

Certas Noites é Romeno Bruce Holland Rogers

O Rapto das Sabinas Sarah A. Hoyt

Heróis Uma aventura do Sr. Bentley Ágata Ramos

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DO CAPELA POR EDUAR

Dedicado ao Borges e à Ursula

Tinha de conviver com as felizes memórias desses remotos sucessos, e conciliá-las com as amargas responsabilidades das consequências das minhas íntimas descobertas. Tinha-me transformado num consumado heresiarca, perseguido por todas as divindades, concorrente com elas. Nada a minha origem. Tudo o meu destino. O fardo a criação. Sonhar é criar, é alterar a realidade. Comuto sonhos. E a realidade presente é apenas um deles. Quando sonho, o sonho passa a realidade, e a realidade passa a eco longínquo, sonho componente do novo sonho, da nova realidade emergente. A realidade nasce dos sonhos e aos sonhos há-de voltar. Como me meti nisto? Como isto me aconteceu? Quando começou, foi sem querer. Apenas racionalizava a criação, a cosmogonia, o Big-Bang. Como apareceu o Universo? O que havia antes? É que antes do tempo não havia antes. A criação teve de ser um acto efémero de uma divindade eterna, O universo era apenas um efémero, consequente

A conversa tinha escapado ao meu controlo, e tive de o admitir: -Sim, é verdade! Vim à consulta para ver se o Sr. Dr. me impedia de dormir. É que eu não posso dormir. Senão, não sei o que pode acontecer. - Isso é muito curioso. Não me quer dizer mais nada? Pronto! Já estava. Mais outro que não queria acreditar em mim. Mais outro que não me percebia. Começavam com estas falinhas mansas e depois procuravam curar-me de doenças mentais obscuras, que só eles conheciam, ou piores que essas. Como explicar-lhes que não podia dormir? Como demonstrar-lhes que era um perigo para toda a gente se eu adormecesse novamente. Já tinha tentado tudo e mais alguma coisa. Mas que mais podia eu fazer? De obscuro jovem esotérico tinha-me desenvolvido vertiginosamente. Calcorreei paisagens intelectuais desconhecidas de quase todos. Penetrei segredos virgens. Quanta emoção. Quanta alegria. Que prazeres intelectuais não frui nessas vitórias antigas. Mas agora, que sufoco. 4


articula de forma determinada, onde está a liberdade? Não pode existir, num universo completamente causal. Mas se um fenómeno, um evento, não é causado, como pode acontecer? Como emerge o espontâneo? Tem de ser criado a partir do nada! Mas isso não pode ser. Isso não é física. Isso é um dos atributos do divino. E quanto a nós, humanos? Será que é tudo uma fatalidade, pré-destinada a acontecer? Ou será que podemos controlar o destino? Onde está o nosso livre arbítrio? Ou não existe, ou no mais profundo de nós tem que existir uma centelha do divino, pois de outra forma não poderíamos criar, decidir livremente. Os segredos são estes. A criação é constante e eterna, e nós podemos participar. Estes são os mistérios que nos esperam quando se viaja até ao âmago. Desenvolvi-me. Transformei-me num heresiarca, herege supremo para as tristes religiões que apenas conhecem a sua verdade. Mas aprofundei o meu domínio dos mistérios. Desenvolvi aptidões, conceitos, termos, linguagens novas. Não para comunicar com alguém, mas para contro-

de um eterno. E mais nada! O peso cultural oprimia-me. Legiões de antepassados tinham procurado provas da existência do Deus, do Criador, do Garante da existência. O criador eterno. O eterno criador. Sempre a criar. O segredo era o que todos sabíamos, mas não ligávamos. Que o futuro e o passado não existem, são apenas sonhos, memórias, ilusões. É sempre presente. Estamos sempre no presente. Estamos condenados a existir no presente. A criação é eterna. A criação é constante. O mundo, tudo o que nele existe, todos os fósseis, todas as bibliotecas, todas as memórias, todo o universo, foi criado há um instante por uma divindade eterna, intemporal, omnipotente. Tudo o que penso, projecto, recordo, emana desse instante onde tudo acontece, aconteceu e acontecerá. É por isso que só existe presente. Esse é o primeiro segredo, que todos sentimos, todos sabemos, mas não ligamos. O segundo deriva da racionalidade triunfante, que tudo explica. Se tudo é causado, se tudo é provocado, se tudo se 5


lar a criação. Escrevi as secretas equações onde aparece o ö, a probabilidade de criação, a constante mais poderosa de toda a física, e que permite deduzir todas as outras, c, h, å0... E onde cheguei? Ao portal dos sonhos. O sonho comanda o desejo, e o desejo é a chave do querer, da vontade, do ser. Sonhei que os pinguins já não eram cor-de-rosa, e pronto. Nunca houve pinguins cor-de-rosa. Sempre foram de outra cor. Como toda a gente sabe. Sonhei que as zebras tinham riscas, e quando acordei sempre tinha sido assim, todas as bibliotecas, memórias, culturas, registos o provavam. Alterava a realidade. Deixei, como todos os outros, de apenas alterar a realidade em cada decisão, para passar a submetê-la aos meus sonhos. O universo é um dos meus sonhos. E enquanto mantive o equilíbrio onírico, a harmonia reinou. Tinha roubado o fogo aos deuses. Mas fui-me cansando. E já não controlo o que sonho. Só acordando. Especialmente nos pesadelos. Ultimamente ando com pesadelos. Guerras, catástrofes, coisas horríveis. Mas acordo antes. Ou antes, acordava. Mas os pesadelos estão recorrentes, pegajosos, impossíveis de dissipar. Sonhei com Hitler, com toda uma guerra horrível. E não acordei. Ou antes, acordei tarde demais, como sabem, se acreditam em mim, vocês que são um produto do meu delírio. Agora tenho medo de sonhar, de dormir. Quanto mais cansado, piores os pesadelos. Outros sonham, outros poderes procuram dominar a realidade. Mas é o que eu sonho que se torna real. Mas eu não dirijo o que sonho. Apenas o padeço, quando não acordo a tempo de o evitar. Quem di-

rige os meus sonhos? Quem o faz? Quem me controla a mim, criador de realidades? Outros, que sonham mais forte que eu? Outros, mais lúcidos que eu? Mas será que também eles sonham? Ou será que eles são apenas sonhos, ilusões minhas? Isso já não interessa. Se não sonhar, tudo se evita. A angústia do que quero evitar dissipar-se-á. Estou possuído por um pesadelo recorrente, que não me abandona, que não posso ter. É a guerra. Vem aí, como uma chuva fraca e insidiosa que se transforma numa tempestade imparável. É como se todos os sonhadores se unissem para me fazer sonhar o que não quero, o que não desejo. Mas estou cansado. Tenho de ir dormir. Não sei o que acontecerá se não acordar a tempo. Aqui fica um projecto de sonho. Sonhem-no para ganhar. Ou antes, vou procurar sonhar com ele, quando dentro do pesadelo sonhar que estou a sonhar. É a Lua, estúpidos, a Lua! Sim, a Lua. Quem ganha a guerra é quem controla a mobilidade. Houve um tempo em que era a pé. Quem não era detido, quem detia o outro, ganhava. Depois, tivemos a ajuda dos cavalos. Mas tudo cresceu. Os cavalos já não iam a todo o lado. Barcos, a mobilidade era a navegação. Mas essa época já lá vai. Agora é preciso controlar os céus. Quem os controla, não deixa ninguém mexer cá em baixo. As órbitas serão o próximo passo, engolido de imediato pela Lua. Quem controlar a Lua, controla as órbitas. Quem controlar as órbitas controla os céus. E quem controlar os céus ganha a guerra. Aquela que quer ser sonhada, mas que eu recuso. Mas estou tão cansado.... BANG! 6


Tradução de Safaa Dib

Ao Encontro das Estrelas

por Lawrence Schimel e Mark A. Garland

— Consegues acreditar como isto é tão escuro? — perguntou Jerina, com a mão em frente do rosto e incapaz de a ver. — Isto é mesmo incrível. — Chh. — sibilou Mitchell. Olhou deslumbrado para cima, para as estrelas dispostas no interior do tecto em forma de abóbada, mesmo já tendo visto a exposição umas cem vezes. Jerina murmurou qualquer coisa mas Mitchell não lhe estava a prestar atenção. Estava a tentar ouvir o áudio-guia. — … um exemplo do que acontecia todos os dias antes da esfera de Dyson ser construída. Normalmente com uma duração entre seis e doze horas na maioria dos locais da velha Terra, existiam alguns pontos onde a noite durava seis

meses inteiros, seguidos por um período igual de dia. Como a maioria de vocês está a aprender esta semana, a esfera de Dyson foi construída para aproveitar toda a energia solar, a maioria da qual estava a escapar para o Espaço. Devido à rotação da velha Terra, a energia solar só podia ser utilizada por um limitado período de tempo em cada dia. As pessoas foram forçadas a recorrer a outras formas, perigosas, de energia, como a fusão nuclear. Se seguirem agora o guia até à próxima sala, irão ver exemplos de maquinaria usada na velha Terra para captar energia. As luzes foram ligadas e as estrelas desapareceram. Mitchell continuou a 7


olhar para o tecto, como se as estrelas ainda lá estivessem, mas mais difíceis de ver com as luzes ligadas. — Quem me dera poder vê-las na realidade. — disse em voz alta. — Não, não queres isso! — ripostou Jerina, franzindo o cenho. — Essa seria a última coisa que verias, e sabes disso. Além do mais, mesmo que não te arrastassem, as estrelas verdadeiras estão tão distantes que seria o mesmo como olhar para estas. E de qualquer forma, irias gelar até à morte na escuridão, porque não haveria nenhuma luz solar. — Ela abanou a cabeça. — Agora vem. Não quero perder a exposição nuclear. Ouvi dizer que os hologramas de Chernobyl são espectaculares. Ele encolheu os ombros. Era do conhecimento geral que se uma pessoa se aventurasse para fora da esfera de Dyson (o que ninguém era capaz) e se encontrasse frente a frente com as estrelas (o que nunca acontecia) a tracção das estrelas iria arrastá-lo até cair, indefeso, cair para todo o sempre. Todos, até o pai de Mitchell, diziam que a tracção era forte o suficiente para quebrar um cabo de aço num instante, ou superar os motores mais fortes, após pouco tempo. Que Mitchell soubesse, nunca ninguém se aventurara para o exterior da esfera de Dyson em dois mil anos; pelo menos ninguém que tivesse vivido para o contar. Ainda assim, Mitchell tinha a certeza de que algo não batia certo nesta ideia, apesar de conseguir sentir uma quase tangível tracção das “falsas” estrelas projectadas no tecto abobado do Instituto. Só podia imaginar o que as verdadeiras estrelas lhe fariam. A força, pensou, devia ser incrível! Apesar disso, ainda havia

questões por responder… Foi atrás de Jerina. Ela nunca participara no circuito antes; ele praticamente crescera aqui. O seu pai era o administrador sénior do Instituto. Mitchell vira imensas coisas, tanto no interior como no exterior do instituto, usando em segredo os códigos do pai – coisas que um rapaz da sua idade não era suposto ver. E ele sabia de lugares, lugares que tinha a certeza ninguém ser suposto descobrir. Lugares que tornavam algumas das suas interrogações ainda maiores. Ainda não era amigo de Jerina há tempo suficiente para a levar a esses lugares secretos. Pelo menos, ainda não. Mas quanto mais tempo passava com ela, mais começava a ficar convencido de que talvez ela tivesse razão. Ela tinha as suas próprias ideias sobre imensas coisas, da mesma forma que ele, e algumas das suas ideias eram boas. A visita prosseguiu para as exposições espaciais, que eram a parte favorita de Mitchell. Jerina e as outras crianças olhavam com grande admiração para os hologramas, a mostrarem como todos os planetas e luas no Sistema Solar tinham sido combinados de modo a construir a esfera de Dyson. Mitchell observou as naves espaciais a construírem a esfera, observou homens e mulheres em fatos espaciais a realizarem o trabalho. — Alguma vez houve missões destinadas a outras estrelas? — perguntou Mitchell, como normalmente perguntava, porque nunca estava satisfeito com as respostas. — Não. — respondeu o guia, a mesma resposta que o pai de Mitchell lhe dava sempre. — Enviámos sondas a todas as estrelas vizinhas, e não existe vida, 8


certamente nada que valha a pena arriscarmos vidas e recursos para ver. É aqui que pertence a raça humana, a salvo da loucura, e do frio e vazio das profundezas do Espaço. — Mas porque razão as pessoas que construíram a esfera não foram arrastadas pela tracção das estrelas? — perguntou Mitchell, mais uma vez. — E as naves espaciais que usaram, e as sondas? — Muitas foram, de facto. — respondeu o guia. — Mas a tracção é muito mais forte agora do que era há mil anos. Actualmente, ninguém conseguiria sobreviver a tal tentativa. A visita-guiada prosseguiu para a sala dos Artefactos, onde eram guardadas centenas de antiguidades, incluindo secções inteiras de artefactos espaciais, e ferramentas e equipamento utilizados para construir a esfera. Até havia um simulador dos alojamentos de uma estação espacial. E num expositor de vidro no canto da sala, não pela primeira vez, Mitchell deixou-se ficar para trás, onde uma fila de fatos espaciais brancos e perfeitamente preservados estavam pendurados. Mitchell ficou a observá-los por um longo tempo, e a um fato em particular, com o qual estava bastante familiarizado. — Ei! — chamou-o Jerina, à espera dele. — Vais-me fazer perder o resto! — Talvez. — disse Mitchell. — E daí, talvez não. — O que queres dizer com isso? — perguntou Jerina. Há anos que pensava nisso; com os códigos do pai podia entrar no instituto quando quisesse. Mas sempre fora demasiado jovem, demasiado pequeno, demasiado amedrontado. Sempre… E

precisava da pessoa certa, para ajudar. — Quero dizer, — disse Mitchell, — que talvez regressemos. Às 22h as janelas do seu quarto tornaram-se subitamente opacas, lançando o quarto na escuridão. Mitchell deitou-se de lado e olhou para a janela escurecida. Se estivesse a viver na velha Terra, pensou, veria da janela as estrelas à noite. Se agora abrisse a janela, ou saísse para o exterior e olhasse para o céu, tudo o que veria seria o Sol a brilhar, e a curva da esfera de Dyson a rodeá-lo. Tentou imaginar de novo como teria sido na velha Terra, viver num planeta, em vez de numa concha como vivia agora, a orbitar o Sol. O ano estaria dividido em estações, cada uma delas única. Tudo estaria num estado de variações constantes. Até os próprios dias não seriam iguais; na velha Terra a escuridão desceria maravilhosamente cada noite, enquanto uma pessoa ainda estivesse no exterior! E à medida que o Sol desaparecesse do céu, surgiriam as estrelas… Mitchell trouxera vídeos sobre pores-do-Sol da biblioteca da escola, mas ainda não era capaz de imaginar a possibilidade de não existir um sol de todo. Nos vídeos, parecia que o Sol tinha caído do céu! Mitchell sabia que a velha Terra tinha orbitado o Sol, mas por causa da rotação do planeta parecera que o Sol revolvia em torno das pessoas em vez do inverso. Ele queria experimentar essa sensação, ver o Sol a mover-se no céu, em vez de estar sempre num lugar fixo directamente por cima das cabeças; ou deixar-se envolver pela serenidade do crepúsculo, quando o céu se encontrava equilibrado entre o dia e a noite. E a Lua! Oh, ter uma lua como essa ao 9


alto, no céu. Mitchell apenas desejava… Rolou na cama e fitou a escuridão do seu quarto, de costas para a janela. Não conseguia acabar o pensamento, o sentimento era demasiado forte. Conseguiria senti-las ao caminhar na esfera de Dyson, pensou, aquelas áreas que eram feitas de pedaços da Lua? Ele viveria num desses lugares, se pudesse, o mais próximo possível da Lua que conseguisse, depois de ter sido destruída em pedaços para fabricar o escudo da esfera de Dyson. Viver numa dessas áreas torná-lo-ia o homem da Lua? Os hologramas tinham explicado como as pessoas por vezes pensavam que as crateras na superfície da Lua se assemelhavam a um rosto. E crianças acreditavam que a Lua era feita de queijo. Uma enorme bola de queijo verde! Será que pensaram que tinha sido posta em órbita para mantê-la fresca, onde o Espaço actuaria como um frigorífico gigante hermeticamente selado? Afinal de contas, as pessoas na velha terra tinham julgado em tempos que se uma pessoa navegasse suficientemente longe no mar, iria eventualmente cair pela borda! Por vezes também diziam que a lua era azul, quando se apresentava sempre com um branco pérola brilhante. Parece que as cores na velha Terra não tinham nada a ver com a realidade. A não ser que a Lua tivesse realmente tido essas cores no passado, antes dos hologramas terem sido feitos… Não havia forma de ele descobrir, assim como não havia forma de saber qual a sensação de ver as estrelas, na realidade, ou o quão forte tinha sido a antiga tracção. Afinal de contas, uma pessoa tinha que desco-

brir primeiro um caminho para fora da esfera, e toda a gente sabia que todas as escotilhas tinham sido seladas há séculos. E depois tinha que se descobrir uma forma de uma pessoa se manter viva no Espaço o tempo suficiente para dar uma vista de olhos. E toda a gente sabia que isso também era impossível… Mas isto trouxe-o de volta às suas interrogações. Mitchell já experimentara o fato espacial, carregando-o com energia e fluidos e oxigénio seleccionados das reservas do laboratório da sua escola. Até construíra um pequeno receptor que operava na frequência de rádio do fato. E tinha a certeza que alguns dos locais secretos onde ultimamente estivera eram locais onde ninguém se aventurava há séculos… Mas ele encontrara ali outra coisa que ainda funcionava… Mitchell só precisava de mais uma coisa: ajuda. Não tinha a certeza que Jerina iria alinhar no seu plano, ou se podia confiar nela acerca deste assunto, mas ao fechar os olhos e tentar dormir, decidiu que valia a pena a tentar. — És doido! — disse Jerina a Mitchell, de olhar horrorizado, embora no seu rosto tivesse cintilado um genuíno interesse. — Serás arrastado pela tracção. Todos sabem isso, excepto tu. Estás a pedir a minha ajuda para te matares! — Olha — disse Mitchell, esforçando-se para se explicar. — Supostamente, não existe nenhuma forma de sobreviver no exterior, mas o fato espacial funciona, eu sei que sim. E não é suposto existirem mais escotilhas activas, mas eu encontrei uma! E de acordo com as consolas do computador, ainda lhe resta energia. 10


Supostamente já ninguém mais deseja sair para o exterior, mas já observei o meu pai no Instituto, sozinho, a observar as estrelas no tecto. Vi a expressão no seu rosto. Penso que ele também se interroga, por vezes. Jerina fez um esgar com a boca, mas não pôde deixar de se interessar. — E então? — Por isso, talvez a parte sobre a tracção das estrelas não seja realmente verdadeira. Talvez não seja mais forte do que era quando construíram a esfera de Dyson. Talvez não seja forte de todo! Tudo o que sei é que preciso de descobrir a verdade. E preciso que tu me ajudes. Jerina parecia assustada, mas não tanto quanto Mitchell julgara que fosse estar. E o brilho nos seus olhos definitivamente aumentava. — Eu não tenho que sair para o exterior também, pois não? — perguntou. — Não. — disse ele. — Tens apenas que pôr a escotilha a trabalhar. — As estrelas ir-te-ão arrastar para longe, para a tua morte, — disse Jerina. — e depois o teu pai e o meu pai irão ambos matar-me! Mitchell limitou-se a fitá-la de frente. — Talvez. — disse ele. — Mas quando ele descobrir que andei a usar os seus códigos, vai-me matar à mesma. A única coisa com que tens que te preocupar é a série de problemas em que isto te pode envolver. — Eu sei. — disse Jerina calmamente. Mitchell desviou o olhar. — Então, vais ajudar-me? — Está bem. — disse-lhe ela, mostrando o início de um sorriso. — Eu ajudo-te.

O fato funcionava na perfeição, da mesma forma que quando o testara há poucas semanas. Ainda era um pouco baixo demais, e mal tinha a força suficiente para movimentar as juntas de metal, mas era capaz de mover os braços o suficiente para operar os controlos externos, e conseguia ver através do visor, ainda que por pouco. Ele criara um cabo de aço, uma linha de fibra de carbono que tinha a certeza ser cem vezes mais forte do que tudo o que fora usado na altura em que a esfera fora construída. Enganchou-o ao fato, e depois experimentou o rádio. — Inicia a sequência. — disse ele, virando-se o suficiente para poder ver Jerina. Ela encontrava-se na consola de controlo da escotilha, nervosa e à espera. Tinham diminuído as luzes da sala ao mínimo, de modo a que não pudesse ser detectado um aumento no consumo de energia até porem realmente a escotilha a trabalhar. Depois disso, não havia muito que alguém pudesse fazer. Até ele regressar para o interior, assumindo que ele regressaria… Jerina carregou em vários botões da consola, até que lentamente se abriu uma parede inteira do pequeno compartimento, revelando um corredor longo e vazio. — Ok. — disse Mitchell. — Vou entrar. — Moveu-se com dificuldade para a frente, balançando-se no enorme fato volumoso, a lutar contra o peso que o ameaçava derrubar. — Agora. — disse ele. Virou-se e viu Jerina a carregar noutro botão, depois a porta fechou-se de novo e estava completamente sozinho. — Consegues ainda ouvir-me? — perguntou. — Houve silêncio, até que 11


por fim a voz de Jerina inundou os seus ouvidos. — Sim. — Mitchell olhou para o fundo do corredor fracamente iluminado, onde a porta exterior começara a abrir-se, da direita para a esquerda. — Está a funcionar. — gritou, ansioso e a tremer. — Está tudo a funcionar. Mitchell correu para a frente em direcção à parede, tacteando por algo a que pudesse prender o cabo. A parede era totalmente lisa. A porta abriu-se cada vez mais, até desaparecer por completo. Foi substituída por uma visão de negro total e estrelas genuínas e incontáveis. Mitchell deu por si a flutuar à deriva, lentamente e em direcção ao Espaço, e não havia nada que pudesse fazer para o travar. À medida que flutuava livre da esfera de Dyson em direcção ao vazio, Mitchell torcia a cabeça de um lado para o outro em desespero, à procura de uma pega. Uma fila de anéis de metal do tamanho de um punho encontrava-se alinhada na superfície exterior ao lado da abertura. Mitchell esticou-se com o gancho do cabo e tentou alcançar o anel mais próximo, mas falhou. Tentou de novo, esticou-se, tentando mover-se, mesmo não havendo nada contra o que pudesse fazer força agora. Desta vez, o ganchou ficou preso. Mitchell observou o cabo a desenrolar-se cerca de quarenta metros, e viu pelo canto do visor do fato a linha a esticar-se. Susteve a respiração e preparouse, esperando que o cabo cedesse, e que as estrelas o arrastassem com uma sucção a que nem os melhores materiais poderiam resistir. Esperou, suspenso acima da infinidade na ponta do cabo, e nada aconteceu. — Está tudo bem. — disse ele a Jerina.

— O cabo continua firme. — Ouviu-a a dar um grande suspiro de alívio e então virou a sua atenção para as estrelas. Biliões delas. Ainda mais do que nas imagens no tecto do Instituto. E brilhantes, enchendo o universo com uma luz branca cintilante, forte e clara como incontáveis lasers, e no entanto suave, delicada como o tempo. Então sentiu a tracção. Sentiu-a a crescer mais forte, mais forte do que alguma vez poderia ter imaginado. Forte o suficiente, sabia agora, para romper os melhores cabos, ultrapassar os maiores obstáculos, para finalmente quebrar quaisquer laços que um ser humano pudesse alguma vez conhecer, ou sequer imaginar… — Do que estás a falar? — disse Jerina, com o pânico evidente na voz. — O que está a acontecer? — Apercebeu-se de que falara em voz alta, dizendo tudo o que estava a pensar. — A tracção, — explicou, — é real. Mas as estrelas não me estão a puxar do exterior, estão a puxar por mim no interior, dentro da minha mente, dentro de cada parte de mim. — Estás a falar como um maluco agora. — disse Jerina. — Estás bem? — Não, não estou. — disse Mitchell. — Mas não é nada de preocupante. — Não vais regressar? — instou-o Jerina. — Sim, — respondeu Mitchell, — mas apenas por uns instantes. Jerina, quero que tu experimentes. Ouviu a respiração ofegante de Jerina. — Disseste que eu não teria que o fazer! Mitchell limitou-se a sorrir, e a iniciar o caminho de volta. BANG!

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Não se recordava da primeira vez que a viu, nem de quando este envergonhado gesto se tornou num pecado irresistível, mas já não conseguia viver sem ele. Todas as manhãs, quando o galo (que ele carinhosamente apelidou de Refeição) apresentava a ordem de levantar, o jovem corria para a sua janela e abria as portadas, e tentava esconder a chiadeira que as dobradiças mal oleadas provocavam, não fosse ser ouvido por alguém da família. Por entre duas árvores que estavam prestes a cair ele conseguia vislumbrar a sua vizinha e objecto do seu desejo. Encontrava-a sempre de pé quando acordava, fazendo-o presumir que passava as noites em claro. Chamava-se Decadência, e todas as manhãs bebia, meia despida, a sua chávena de cianeto. E ele, inocente, observava-a de lágrimas nos olhos. Às vezes questionava-se se ela teria conhecimento de que estava a ser vigiada. Mas, depois de tanto tempo, já nem sequer se preocupava com isso. Um dia foi apanhado pela mãe, e teve como castigo (“por olhar para aquela Decadência perversa”, dizia ela) ter de passar o dia na casa da senhora idosa (o seu pai dizia que era “talvez mais velha que as árvores quase mortas aqui da frente”) que vivia no rés-do-chão da sua casa. E, sempre que era apanhado, o castigo era o mesmo. A velha não se mexia da sua cadeira, passando o dia a observar uma clepsidra, na qual corria sangue em vez de água. As paredes eram vermelhas como sangue. As carpetes também. A luz, através daquelas cortinas vermelhas, iluminava de sangue quem se atrevesse a enfrentá-las. Hemofilia era o seu nome, e, diziam que tinha sido abandonada nesta casa um dia, dali nunca tinha saído. Por vezes, o jovem perguntava a Hemofilia se conhecia Decadência, mas nunca obtinha qualquer resposta. Nem para esta nem para outras perguntas. Então ficava sentado no seu canto vermelho, a pensar em Decadência. Findo o dia, voltava para o andar de cima, para a sua casa. A mãe, tentando esconder a sua preocupação, exclamava que ele estava pálido. O pai, sentado numa velha poltrona dizia que a velha lhe chupava o sangue. E era assim que passava muitas vezes os dias. Não o aborrecia, pois tudo fazia pela sua Decadência. Um dia, encheu-se de coragem, quando as árvores velhas caíram e Hemofilia morreu, e abeirou-se da casa da sua amada. Todo o povo da aldeia (os dez habitantes) estavam a chorar a morte das árvores, pois de Hemofilia ninguém queria saber. Aproveitou assim aquela distracção e tentou empoleirar-se na janela, para ver Decadência mais de perto. Tal como suspeitava, não estava ninguém. Devia estar a dormir, pois ninguém aguentaria anos a fio sem o embalar do sono. E aí viu, isolada e inocente, a chávena de Cianeto que ela tinha tomado ainda naquela manhã, enquanto passava a mão levemente pelos ombros, parecendo querer agarrar a brisa e torná-la sua, parte de si. Tentou alcançar a chávena, mas a sua falta de jeito fez o bule cair e derramar o líquido sobre a mesa. Não desistiu, queria tocar com os lábios onde a sua doce Decadência tinha colocado os seus. Sentiu uma excitação sem precedentes, quando finalmente desceu levando consigo a chávena. Levou-a à boca, sentiu um amargo fortíssimo e fechou os olhos. Quando os abriu novamente, tinha Decadência ao seu lado, e estava de manhã, junto à janela. Olhou por entre umas árvores jovens, fortes como nunca tinha visto até então, e viu na casa que fora sua, uma rapariga a espreitar às escondidas para si. Sorriu, e tomou outro gole de cianeto. BANG! 13


Entrevista a Pedro Reisinho

Editor da Gailivro Perg untas de Rogério Ribeiro

vai deliciar durante horas ou dias numa viagem por sítios fantásticos. Espero que esta minha viagem na edição esteja apenas no início e que possa trazer muitos destinos magníficos para todos aqueles que gostam de bons livros.

Rogério Ribeiro - Fala-me um pouco do teu percurso na área editorial. Pedro Reisinho – O meu percurso ainda é uma curta-metragem. Só comecei a trabalhar mais de perto com a edição há cerca de um ano, quando fui convidado pelo Professor Carlos Letra, dono das Edições Gailivro, para colaborar também nessa parte do trabalho da empresa. A minha relação de trabalho com os livros é que já é um pouco mais antiga. Em 1994 comecei a trabalhar no local que fez de mim um apaixonado pelo Livro e pela leitura e onde aprendi as bases de tudo aquilo que hoje sei sobre livros, a Livraria Culsete, em Setúbal. Depois de quatro anos e meio saí para me tornar vendedor numa editora, onde apenas estive cinco meses, tendo rapidamente mudado para uma distribuidora. A minha última mudança foi em 2002 quando entrei para a Gailivro para me juntar a um projecto que estava a nascer. Entrei como vendedor, e ainda hoje exerço essa actividade. Gosto do que faço mas a edição é um sonho que agora se começa a realizar. É fascinante a busca pelos melhores autores e pelos melhores livros, a luta por consegui-los antes das outras editoras e, finalmente, a realização de se saber que conseguimos levar aos leitores algo de magnífico que os

R – Esta nova colecção é um trabalho de paixão? Qual é o teu interesse na Literatura Fantástica? P – Tudo o que faço é um trabalho de paixão. Se não o for eu não o faço. A paixão leva-nos sempre um passo mais além e esse passo pode ser a diferença entre um trabalho que vale a pena e que pode ser apreciado por outros ou o ser apenas mais um. Esta colecção em particular é algo que é muito importante para mim, pois fui sempre um apaixonado pela Literatura Fantástica e pela Ficção Científica. Sempre achei que em Portugal ainda não se fez o suficiente por estes géneros irmãos que tanto de bom têm para nos dar e que no estrangeiro têm um estatuto de literatura de primeira qualidade, totalmente merecido, e entre nós ainda passam um pouco como literatura para putos com a cabeça no ar. Coisa que não poderia estar mais errada. R – Quais os teus objectivos para esta colecção Mil e Um Mundos? 14


P – A Mil e Um Mundos foi concebida para levar aos leitores o melhor que se faz na Fantasia e na Ficção Científica. Tem também o objectivo de se tornar uma referência para todos os que apreciam o género. Quero que um leitor, quando pensa em Fantasia ou em Ficção Científica, pense em Mil e Um Mundos.

P – Não necessariamente. Simplesmente tornam mais fácil a compartimentação dos diferentes géneros literários. Um leitor que goste de Fantasia já sabe que os livros que saem na Mil e Um Mundos são livros que à partida vão ser do seu agrado, e isso torna mais fácil o trabalho do editor e a vida do leitor. É antes de mais por isso que se optou por fazer uma colecção.

R – Porque escolheste o Crepúsculo de Stephanie Meyer e o Portão do Corvo de Antony Horowitz para iniciar a colecção? P – Na verdade esses são os únicos dois autores da colecção que não foram escolhidos por mim. Quando passei a fazer parte da equipa encarregada da edição na Gailivro, estes dois títulos já estavam comprados, e como se integravam no espírito da colecção resolvemos que deveriam fazer parte dela. Como já estavam mais adiantados em termos de tradução e foram os primeiros a ficar prontos, serão os primeiros a ser publicados. Os próximos títulos já fazem parte da minha selecção e um deles é o que eu teria escolhido para iniciar a colecção, O Voo do Dragão de Anne McCafrey. Uma obra incontornável neste tipo de literatura. É para mim uma das grandes autoras do género e uma das que nunca foi tratada como merecia no nosso país. Esse é um dos meus grandes objectivos, trazer até nós, com qualidade, os grandes mestres do Fantástico e da Ficção Cientifica.

R – Como se reflecte o gosto pela Literatura Fantástica na tua escrita? P – Eu só escrevo para crianças, logo existem algumas limitações, mas gosto sempre de introduzir um elemento mágico ou fantástico. Um dos personagens do livro que estou agora a escrever é um dragão, um dragão um pouco diferente do normal mas mesmo assim um dragão. É impossível evitar que pelo menos um pouco daquilo que nós lemos não transpire para o que escrevemos, e nós também somos aquilo que lemos. R – Planeiam publicar autores portugueses nesta colecção? P – Se eles aparecerem e cumprirem com os padrões de qualidade que nós estabelecemos, claro que sim. Se alguém tiver guardada no fundo da gaveta uma história que ache que merece ser publicada, por favor envie-a, que eu terei todo o gosto em a ler. Assim como terei todo o gosto em receber os comentários, críticas e sugestões dos leitores. O feedback do público é extremamente importante e eu estou sequioso por ele, por isso podem sempre escrever-me para aquihadragoes@gmail.com. BANG!

R – Achas que em Portugal, assim como se achava há alguns anos, as colecções atraem mais os leitores?

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Um RPG, abreviatura de “Role Playing Game”, é um jogo onde a imaginação partilhada de vários jogadores serve de veículo para contar uma história sobre vários personagens, tipicamente um por jogador, com regras para que haja evolução da história e participação dos jogadores; num RPG típico, há também um jogador especial, com uma denominação diferente para cada jogo, mas que convencionalmente se chama “Mestre de Jogo” por servir de árbitro a disputas, por introduzir elementos de jogo e por tradicionalmente fazer avançar a história. Eu escrevi o The 101 RPG porque durante um jogo de Feng Shui, um RPG baseado nos filmes de acção espectacular e ultra-violenta de Hong Kong, os dados odiavam-me e queriam ver-me morto. Independentemente das minhas descrições fabulosas, não havia maneira de conseguir que elas resultassem. Bem, o bicho pegou. Ficou-me na ideia escrever algo assim, mas onde fossem as minhas descrições que fizessem as coisas resultar ou não, não um simples lançamento de dados. Assim, escrevi um jogo de conspirações mundiais e acção intensa, baseado nas obras de John Woo, que nos deu uma técnica hoje sobejamente usada em cinema chamada Wire Fu, da qual o Matrix é o mais conhecido exemplo, de Ken Hite, mestre da História Secreta e Alternativa, escritor, entre outros, de vários suplementos para o jogo de RPG GURPS e da rubrica Suppressed Transmissions, publicada na revista Pyramid, e, por último mas não em último, da mente perversa de Warren Ellis, o escritor de comics britânico sobejamente conhecido pelo seu trabalho em The Authority, Planetary, e a maior

O que é um RPG e porquê escrever um? OU A GÉNESE DO THE 101 RPG por Rui Anselmo

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influência aqui, de Global Frequency. The 101 RPG retrata o trabalho de uma organização chamada “The 101”, nome que significa não só o número de operativos que a organização emprega a nível mundial, todos com a sua especialidade particular e todos igualmente úteis, mas uma sigla que significa “Guia” ou “Introdução”, e pretende ser uma piada interna ao trabalho que desenvolvem. The 101 RPG é um jogo onde convivem diariamente L. Ron Hubbard, o Santo Graal, Bin Laden e a CIA, Maçonaria, Área 51, a Experiência de Filadélfia, os Nazis do Antárctico, A Verdade Esotérica Escondida nas Obras de Shakespeare, e tudo o mais que vocês consigam imaginar ou ler nos jornais. Aqui fazem-se experiências para viajar para mundos imaginários, constroem-se bombas de despopulação, OVNIS chegam do futuro, lobisomens uivam à Lua, e sabe-se a verdadeira razão do 11 de Setembro. É com tudo isto que lida o The 101. Para que estas notícias permaneçam nos tablóides e não saiam para os jornais mais respeitáveis, ficando escondidas do grande público, acessíveis apenas aos maluquinhos das conspirações que desaparecem de vez em quando sem deixar rasto. E a única maneira de o fazer é com um pontapé de Kung Fu em cheio na cara. O operativo da The 101 é um homem ou uma mulher com capacidades físicas, intelectuais, e por vezes sobrenaturais, que o colocam num patamar muito acima do humano normal. Alguns deles não podem sequer continuar a ser chamados humanos, embora mantenham essa aparência, enquanto outros não são

mortais, embora finjam a própria morte ao longo dos tempos. Todos eles são especialmente treinados para intervir no terreno, seja em combate corpo a corpo, seja em negociação activa de reféns, seja em assassinato. O operacional do The 101 é também a pessoa mais cool à face da Terra: seja a gabardine preta até aos pés e as duas Uzi em riste, seja a cicatriz na cara, o passado misterioso, a catana em plena cidade, ou ainda o facto de segurar uma bola de fogo na mão direita e estar com um sorriso pirómano na cara. Um agente do 101 é o Neo interpretado pelo Samuel L. Jackson. O The 101 RPG é sobre essas pessoas, e o mundo de conspirações onde vivem, mas é também sobre a pergunta essencial que cada um dos agentes coloca no final de cada missão, à qual os jogadores tentam responder: “Até onde estás disposto a ir para esconder a Verdade?”. É que o trabalho de cada agente também é esconder a verdade. Se um OVNI cai no deserto do Arizona, é do interesse do 101 que ninguém saiba disso; esta questão torna-se particularmente interessante e difícil se dentro do OVNI estiver a cura para o cancro… mas a missão for sobre destruir o OVNI e todo o seu conteúdo. No The 101 RPG há uma série de elementos técnicos que permitem ao jogador controlar tudo o que se passa na história, desde que o faça de uma maneira cinematicamente inspiradora. Isto é, ao descrever uma cena de acção, o jogador não diz simplesmente “eu dou-lhe um soco”, mas sim “a câmara passa para a minha cara enquanto grito de raiva e estendo o meu braço direito para ele, seguindo a minha mão até lhe acertar em 17


cheio”; o resultado final é exactamente o mesmo, mas a segunda maneira é muito mais divertida, seguindo as regras dos planos de câmara do cinema, e descrevendo a acção de tal maneira a imergir completamente os outros jogadores no mundo do 101. Se seguir continuamente esta regra, o jogador verá a característica Factor Cool do seu personagem subir, uma característica que mede tudo o que é fixe no agente, desde a sua atitude, equipamento, passado, maneira como anda ou se apresenta. O Factor Cool de um personagem

como conduzir um carro a 150 km/h pelas ruas de Nova Iorque em hora de ponta, disparando na direcção dos maus que o seguem de mota e não batendo ou acertando em nenhum inocente; nestas situações, rolam-se um determinado número de dados e compara-se o valor com o seu Factor Cool; se o resultado for igual ou inferior, a acção é bem sucedida, se for superior não. Mas, em qualquer dos casos, se a acção for descrita cinematicamente, então o Factor Cool do personagem sobe. Por isso, é sempre bom descrever o que se faz usando técni-

é o que permite ao jogador intervir directamente na história; gastando pontos do seu Factor Cool ele pode acrescentar-lhe elementos que de outra maneira não estariam lá, como alterações à história, outros personagens, sucessos contra dezenas de inimigos, e de maneira geral editar a história como lhe aprouver – o único senão é ter a aprovação dos outros jogadores. Se o que ele quer descrever for cinematicamente atraente, então o que pretende conseguir resulta, caso contrário falha. O jogo tem um elemento aleatório que está directamente dependente do seu Factor Cool, e que é usado nas ocasiões onde o resultado final não é previsivel,

cas de cinema, como planos de câmara, expressões de cara, ou o já falado Wire Fu do John Woo. Cada personagem do The 101 RPG tem várias características essenciais, que contribuem no inicio do jogo para o seu Factor Cool: o nome e poderes ou treino, mas também o seu passado e a imagem que projecta; como o jogo é sobre acção cinematográfica e usa uma forte imagem de cinema, esta última característica representa a maneira como o personagem é visto pelos outros jogadores. No início do jogo são dados os Parâmetros da Missão, que são os objectivos que se espera ver cumpridos, que podem ir desde não matar ninguém,

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até assassinar uma figura pública, rapto, extracção de inocentes, roubo de material, entre muitos outros. De preferência, pelo meio irá haver também uma indicação de possivel resistência à missão, como soldados inimigos, ninjas, robots, ou lagartos alienígenas inteligentes do futuro, tudo extras que têm como único propósito servir de carne para canhão e fazer os jogadores parecerem Cool. Uma missão típica do The 101 RPG pode durar uma tarde e envolver vários combates, perseguições de carro, barco ou helicóptero, ou às vezes tudo ao mesmo tempo! Exactamente como se estivesse a ver o Matrix ou o Missão Impossível; a diferença é que está a participar activamente na história e no seu desenrolar, em vez de estar numa sala de cinema sentado a comer pipocas à espera que o divirtam. Jogar um RPG é estar activamente no papel de um herói. Jogar o The 101 RPG é estar no papel do personagem que se desvia das balas dos seguranças em câmara lenta ao mesmo tempo que anda pelas paredes com as suas Glock a disparar e acertar em cheio no olho esquerdo de cada um. Na minha opinião, muito Cool. O jogo não está ainda publicado, embora estejam a ser desenvolvidos esforços nesse sentido, mas pode ser jogado na sua versão Beta a partir do seguinte endereço: http://www.abreojogo. com/101_rpg Aí podem encontrar o Documento de Jogo que contém todas as regras, e várias sugestões para Missões, assim como a discussão gerada por várias das mecânicas nele presentes. Espero ver-vos por lá. BANG! 19


por

João Bengelsdorff O anão encostou-se à parede, mesmo debaixo de uma das janelas laterais. «Se daqui a bocado a missão não correr bem, poderei não voltar a ter uma hipótese igual a esta. » pensou, enquanto percorria a parede lateral do templo. «Se a coisa der para o torto, e o velho se passar, posso ser apagado logo ali.» Na Igreja Evangélica do Cristo Ressurrecto, na Rua Viriato, decorria o serviço religioso de quarta-feira à noite. O anão passava na rua quando ouviu os aleluias que se multiplicavam nas vozes dos crentes. Incapaz de resistir, foi-se pôr a escutar. Por razões inerentes à sua profissão, entrar numa igreja era uma vontade que nunca se permitira concretizar. Só que desta vez a situação era diferente. Este era um dia especial, talvez um dos mais importantes da sua carreira. O anão sentia-se com confiança e concedeu-se esse

impulso travado havia séculos. Ao passar pela porta envidraçada da entrada, viu o seu reflexo. Torceu o nariz e parou. O cabelo preto e oleoso em desalinho; o casaco verde, sujo e coçado de anos; o chapéu de coco, de que tanto gostava, baço e sem brilho; a t-shirt preta e amarrotada. Achou que não poderia entrar naquela figura. Uma coisa era andar assim nas ruas de Lisboa, no meio da indiferença que o consideraria só mais um indigente e que talvez até achasse piada ao modo desconjuntado como andava. Outra era entrar num espaço fechado como aquele, impregnado por essa detestável mania da caridade e do auxilio aos necessitados. Convinha-lhe, portanto, passar despercebido. O seu corpo deveria ser outro quando se sentasse num dos bancos do templo. Retirou do bolso um caderno do tamanho de uma agenda e, abrindo-o, leu umas pa20


lavras em língua estranha. Depois de o aconchegar de novo no casaco verde, entrou na espaçosa sala onde dezenas de pessoas em pé terminavam o cântico. Se elas olhassem para trás não veriam um anão, mas sim uma senhora de cerca de cinquenta anos, magra, vestindo um casaco de malha e saia comprida cinzenta. Lá à frente, virados para a plateia, o coral e o pastor dirigiam a congregação. O homem de fato, suando em bica, de lenço na mão, deitava aleluias de olhos fechados e agitava o braço como se estivesse a acenar ao próprio Jesus. Alguns membros do coral choravam de emoção. O êxtase começava a crescer e a tomar conta de todos. Quando o hino terminou, o anão (não dizemos “a senhora”, porque pelo menos nós sabemos muito bem quem ele é), sentou-se na última fila ao mesmo tempo que os outros. No piano, colocado a um dos cantos da sala, um homem gordo, de camisa branca e gravata preta, atacou de seguida os primeiros acordes de uma nova melodia, ao que a congregação respondeu, passado o compasso de introdução, com as palavras de louvor de um outro cântico. Duas filas à frente daquela em que o anão se encontrava, um jovem indiano, aparentando uns vinte anos, virou-se de repente para trás, sobressaltado como se tivesse apanhado um susto. Olhava na direcção do anão e sorria, como que surpreendido. Este, ao reparar no jovem que o fitava, revirou os olhos e abanou a cabeça, maldizendo, num sussurro, a sua sorte. Enquanto a cantoria continuava, o jovem levantou-se. Preparava-se já para se sentar no lugar vago ao lado do anão, quando este se levantou, lhe agarrou num braço e saiu com ele da Igreja. Desceram os dois a rua em silêncio.

O anão, já com a aparência de anão, seguia de cara fechada, contrariado. O outro, que já não era um jovem indiano, mas sim também um anão, só que de cabelo louro, vestindo uma camisola vermelha de lã de gola alta, continuava a sorrir como quem teve, e está ainda a ter, uma bela surpresa. Pararam, por fim, perto de uma esquina, junto aos semáforos em frente da Maternidade Alfredo da Costa. - Senhor Pursewarden! Há séculos que não o via! Que honra! - disse o de camisola vermelha. E sem dar tempo de resposta ao outro, - O que é que anda aqui a fazer? Alguém da sua patente a entrar numa Igreja?! Deve estar prestes a acontecer alguma coisa de importante… O anão de casaco verde, que agora sabemos chamar-se Pursewarden, olhou em volta, num desconforto que não fez por disfarçar. Disse, com um sorriso amarelo: - Meu caro Baltasar! Como vai a vida? Há que tempos que não nos víamos. O outro continuava a sorrir, dir-se-ia entusiasmado. - Vai bem, vai bem. A mesma rotina de há dois séculos a esta parte. Já sabe como é isto da vigilância das Igrejas…Um pouco enfadonho, poderão dizer alguns. Mas a nossa missão é mais importante do que o nosso aborrecimento. - E, fazendo um gesto rápido sobre o peito, acrescentou, quase gritando, como uma continência - Encontraremos! - Ao que Pursewarden, sobressaltado pelo ímpeto e entusiasmo da saudação oficial de Baltasar, temendo que esta chamasse a atenção de alguém que passasse, disse em voz baixa, ao mesmo tempo que fazia o mesmo gesto sobre o peito - Sim, sim, encontraremos…mas as pessoas no Marquês não precisam de o 21


saber. Fale baixo! Pursewarden pegou no relógio de corrente preso ao bolso e fingiu consultá-lo, fazendo uma expressão de espanto. - Chiça. Já são estas horas todas? Tenho de ir. - Apertando o ombro do outro, usando de novo o sorriso amarelo. - Meu caro Baltasar, foi um prazer vêlo. Temos de combinar qualquer coisa um dia destes. Continue com o bom trabalho.Dando-lhe duas pancadinhas no braço numa tentativa de despedida rápida. Baltasar pôs-se a andar ao seu lado. - Peço-lhe desculpa, senhor, pela minha impertinência. Mas está para acontecer alguma coisa? Pursewarden parou e sorriu. - Meu caro Baltasar, você não muda! Sempre nessa ansiedade pelo fim dos tempos. Relaxe! - Mas, diga-me senhor Pursewarden… quer dizer, desculpe-me esta minha insolência, peço-lhe. - Já com um tom de súplica, - É que…uma personalidade tão notável como o senhor a entrar numa Igreja… como deve compreender, é tão pouco usual! Uma pessoa fica a pensar se não… Pursewarden fez um gesto com a mão para o outro parar. - Não há nada de mais. Sabe como é isto do Louvor a Deus para nós, não é? Pois hoje apeteceu-me estar lá no meio um bocado. Só isso. E olhe, estou atrasado, meu caro Baltasar. Tenho de ir. Mas antes, deixo-lhe uma ordem directa. Se a desobedecer, já sabe que está a contrariar o juramento. E o que é que acontece a quem quebra o juramento? O outro baixou a cabeça, dizendo num suspiro: - Quem quebra o juramento é punido

com a destruição. Pursewarden deu uma pequena gargalhada. - Isso mesmo! E a minha ordem é de que não fale deste nosso encontro a ninguém. Nenhum dos outros poderá saber que estive naquela Igreja ou que tive esta conversa consigo, entende? Agora, volte lá para a sua igrejinha e continue a vigiar. Não lhe vá calhar a sorte grande e ele aparecer lá esta noite. Mantendo a cabeça baixa, percebendo que as suas suspeitas estavam certas, mas não podendo fazer nada em relação a isso, Baltasar disse um sumido “sim” antes de se despedir. - Foi um prazer, senhor Pursewarden. Uma honra. Não se esqueça de mim quando chegar o momento porque todos esperamos…encontraremos. - disse, desta vez sem convicção nem na voz, nem no gesto que fez sobre o peito. Mas já Pursewarden recomeçara a andar, murmurando entredentes um apressado “encontraremos”. A perna esquerda era mais curta do que a direita e obrigava-o a mancar. O seu corpo oscilava numa espécie de dança, em permanente desequilíbrio, o que não fazia o seu andar ser propriamente rápido. De facto, estava com pressa. Daí a pouco teria de estar no beco mais escuro da cidade, perto do rio. Enquanto descia as escadas do Metro do Saldanha, tirou o caderno do bolso e, com um lápis roído, escreveu, sem abrandar, uma pequena anotação. Depois, guardou-o de novo e apressou como pôde o passo, ao ouvir o ruído do metro que se aproximava. A noite já ia alta quando ele chegou perto da 24 de Julho. Disse para si próprio que tinha de se despachar. Meteu pelo casario e entrou no beco mais escuro da cidade. 22


Deteve-se em frente de uma porta de metal. Pegou de novo no caderno, confirmou algo, sorriu, respirou fundo e bateu. A porta abriu-se. Na penumbra, Pursewarden viu surgir os contornos de uma criatura gigantesca. - Pursewarden? Não acredito! Sem nada dizer, o anão passou a porta e entrou numa divisão escura. Junto a ele estava esta silhueta, certamente com mais de dois metros e vinte de altura. O anão ouvia-a cheirar o ar, investigando-o. - És mesmo tu! Que fazes aqui? A silhueta aproximou-se. Pursewarden conseguia, agora que os olhos se habituavam ao escuro, identificar o seu interlocutor. Era um anjo de cabelo comprido e pele muito branca. Estava completamente nu. As asas dobradas sobre as suas costas formavam um segundo vulto que parecia espreitar-lhe por cima dos ombros. O anão notou as garras nas mãos e os caninos pontiagudos. Os olhos pareciam avermelhados. - Caro Alepmael, preciso de falar contigo e com Lathalael. Olhou em direcção à porta entreaberta ao fundo da sala de onde se escapava uma luz azulada. - Sei que ele está cá e Mamethoth também. Já percebi também que não estão sozinhos. Quem mais está com eles? O anjo insistiu - Porque é que estás aqui? Um manda-chuva como tu… Pursewarden pegou num cigarro e acendeu-o. Com o clarão do zippo, pôde ver melhor o olhar do anjo e, por décimas de segundo, sentiu medo. Ele sabia bem o que um anjo destes era capaz de fazer num acesso de fúria. Lembrou-se dos crânios esmagados por essas poderosas mandíbulas em Bizâncio. Surgiram-lhe, também,

imagens das entranhas de soldados romanos arrancadas com as garras, para depois serem exibidas como troféus nos campos de batalha da Gália. O anão sabia que o equilíbrio dentro daquelas mentes era precário. Todos eles instinto, tanto poderiam protagonizar actos de incrível coragem e altruísmo, como da mais fria violência e crueldade. O animalesco misturado com uma inteligência superior, e semi-divina, era uma combinação explosiva. Tratavam-se de anjos caídos e era preciso estar sempre atento. - Eu perguntei quem está com eles. Insistiu, mostrando a palma da mão, num gesto que o anjo sabia ser de uma autoridade que lhe fora concedida e sobre a qual não era possível discutir. - É só uma mulher… Pursewarden avançou em direcção à porta, virando as costas a Alepmael. Este seguiu-o quando o anão entrou na espaçosa sala. Várias lâmpadas fluorescentes azuis iluminavam as paredes nuas e maltratadas. Uma mesa de madeira tosca, com várias garrafas de cerveja vazias, estava encostada a uma das paredes. Num canto, num colchão estendido no chão, uma mulher dormia. Estava nua e ao seu lado estava um tubo de borracha e uma seringa. Havia também três sofás de napa vermelha, virados uns para os outros, onde estavam sentados, também nus, dois outros anjos. Estes, ao verem Pursewarden entrar, levantaram-se e avançaram bruscamente em direcção a ele, rosnando com os caninos bem à mostra. O anão, de pronto, fez de novo o gesto de mostrar a palma da mão, perante o que recuaram de imediato. Um deles, de pele negra e cabeça rapada, sorriu, trocista, olhando para o outro, também de pele escura, mas de cabelo 23


comprido. - Olha, Lathalael, o anão Pursewarden… Lathalael sentou-se de novo numa das poltronas e acendeu também um cigarro. - Meu caro Pursewarden. A que devemos tão grandiosa honra? - cuspindo para o chão. O anão pareceu ignorar a pergunta. Depois de fazer um gesto com a cabeça em direcção à mulher, foi-se sentar numa das poltronas. - Livrem-se já disso. Tenho um assunto muito importante a falar convosco. Alepmael abriu os braços, mostrando-se indignado - Queres tirar-nos o nosso novo brinquedo? Sabes quanto tempo demorei a fazer o encantamento sobre ela? O anão olhou para ele, tirou o chapéu da cabeça e esfregou a cara num gesto de cansaço. Disse, numa voz de enfado: - Tirem-na já daqui. É uma ordem. Agora os anjos tornaram-se estúpidos, é? E, voltando a pôr o chapéu na cabeça, sussurrou: - Já! Alepmael estava vermelho de fúria. Com o orgulho ferido, dirigiu-se para a mulher. - Ok. É para já. Ajoelhou-se Ajoelhou se ao lado dela, agarrou-lhe agarrou lhe a cabeça ça e, com um gesto seco, partiu-lhe o pescoço. - Pronto, Prronto onto, on to já está. Satisfeito, Satisfeit ito,, meu meu pequerrrucho? ru uch ho? o? O anão an não ão suspirou. sus uspirou. - Vocês Voc Vo ocês são sãão umas umas autênticas um au utênticas bestas. Palavra Pala avr vra r de de honra raa que… … - mas não terminou percebendo no ou a fr ffrase, r rase, p e cebend er ndo que estava a cair nd provocação. Levantou-se naa p rovocação. L evanto ev ou-se do sofá e, de ponta mão, pon ntta de n d cigarro na na m mã ão, procurou um

cinzeiro com os olhos. - Podes apagar mesmo no chão, a gente não se importa…chefe… - disse Mamethoth, que se havia encostado a uma parede e o olhava com um sorriso trocista. O anão apagou o cigarro debaixo da bota e tirou o caderno de dentro do casaco. Os anjos, ao verem o livro, soltaram um grunhido. Lathalael, pigarreou. - Ah, então é isso. Encontraste o caderno… O anão segurava o caderno com as duas mãos. Olhava-o muito sério. -Antes de mais, quero-vos dizer que esta situação me desagrada tanto como a vocês. As nossas relações já foram mais cordiais. Não é preciso estar aqui com hipocrisias e conversas da treta. Vocês não gostam de nós. Nós não gostamos de vocês. Alepmael grunhiu. - Ao menos, temos algo em comum. - A culpa não será certamente nossa, dos anões, mas dessa revolta permanente em que vivem por não vos ser permitido voltar ao Paraíso. Mas, quer acreditem, quer não, a minha natureza só me permite amar-vos e espero que um dia possam ser o que já foram… - Daqui a bocado estás-nos a pedir em namoro…cá para mim estavas era com inveja da sorte da gaja! - disse Mamethoth, ao que os os outros out u ros dois responderam com uma gargalhada. garg ga rgal alh lha hada. hada - Mas ordens são ordens ord den ens e eu não as directo tenho discuto. Ind IIndo nd do d di ir cto ao ire ao assunto, assunto to, te to enh n o ordens indicações que quee o encontrámos. enc nco on n ntr t ámos. As tr As o rdens são para que tu, Lathalael, e tu, Alepmael, Alepmaell, venham hoje comigo. Lathalael olhou para ele, desconfiado. - Tens a certeza? Encontraram? E isso está es stá t no caderno? 24


Pursewarden bateu com a mão na capa, numa confirmação. - Sim. Recebi ordens para vos levar aos dois. Parece-me que sabem o que, a verificar-se este quadro, isso representaria para vocês… O desafio desapareceu instantaneamente da face dos dois anjos escolhidos. Pursewarden chamou-os com um gesto. - Vou-vos ler umas palavras que os libertarão de parte da vossa condição. Se a missão for bem sucedida, terão total perdão e ser-vos-á permitido voltar. Deitaram-se os dois de bruços em frente do anão. Este, lendo umas palavras do caderno, tocou-lhes na nuca com o dedo. De seguida, dirigiu-se para a porta, virando-lhes as costas. Enquanto uns transfigurados Lathalael e Alepmael vestiam duas gabardinas negras, Mamethoth deu três passos rápidos até Pursewarden. Da sua garganta saia um som como um piar muito agudo de um distinto implorar. O seu olhar de gozo havia dado lugar a uma expressão de desespero. O anão sorriu. - Vamos lá que já se faz tarde. Encolham-me essas asas e vistam qualquer coisa. Para o que temos a fazer não precisamos de andar a assustar o pessoal com esses vossos espantosos dotes físicos. - Mamethoth…a tua vez chegará. Não Mame sejas insolente…mais não. Acalma-te! insole chamando o anjo com um gesto para mais perto. Mam Mamethoth aproximou-se, baixou-se e o anão fez-lhe uma festa na cara. - Meu bom b Mamethoth…a tua paciência seráá recompensada, prometo-te. rec O anjo endireitou-se e o anão Pursewarden viu-lhe os punhos cerrados e os waard r en viu músculos do d pescoço tensos. Mamethoth

estava contrariado, mas, deixando escapar um lamento, acatou as palavras de Pursewarden. Lathalael, tentando passar, puxou o braço de Mamethoth, que bloqueava a porta. Este, ao sentir a mão do outro, num gesto brusco abriu a boca e falhou por pouco uma dentada na cara de Lathalael. Este respondeu de um modo fulgurante, rosnando e empurrando o outro contra a ombreira da porta, pondo-lhe a mão na garganta. Pursewarden disse três palavras e um chicote invisível estalou na cara de Mamethoth e no pescoço de Lathalael. Os dois anjos largaram-se. Mamethoth foi para dentro, não sem antes lançar um olhar de ódio ao anão. Enquanto esfregava a cara com uma marca vermelha desde a testa até ao queixo, começou a entoar baixinho uma espécie de cântico, balançando-se para trás e para a frente, enterrado num dos sofás de napa vermelha. Lathalael, Alepmael e o anão saíram do beco e atravessaram dois quarteirões. Entraram na 24 de Julho. Do lado direito, as luzes de Cacilhas reflectiam-se nas águas escuras do Tejo. Um comboio para Cascais passou, ruidoso, numa mancha cinzenta com um rasto de luz. Os anjos enormes, de olhos vermelhos, rosnavam baixo, inquietos, ao passarem pelos grupos de pessoas que se preparavam para começar uma noite de divertimento. Os dois gigantes vestidos de negro pareciam predadores na iminência de um ataque. Chegaram à Praça do Comércio e meteram pela Rua da Prata. O anão assobiava um dos cânticos que ouvira há umas horas atrás, tentando descontrair-se. Tinha sido uma sorte encontrar o ca25


derno. Tudo pareci parecia cciia estar esstaar a baterr ce ccerto ert r o com m as datas previstas. previ v sttas as. Esta ta p od o deria ser err a noi itee poderia noite por que sempre seempre esp esperara. ssp perara. Entraram aam m num nu um prédio prédiio antigo an n go go e degradeg e ra-dado, já naa encosta enco costta do d Castelo, Caasste telo elo l , onde ond on dee numa num u a um podia “Pensão tabuletaa iiluminada lumina lu naada d ssee p po odia lerr “P Peen nsã são o Ricardo Ricard do Reis” Reeis is” em m luzes lu uzzes azuis azuis e verdes. ver errde d s.. Passaram pelo que Passar ram p elo recepcionista, recepcioniist s a, q uee dordorescadas. mia, e subiram sub bir i am m dois la llances nces de esca ada das. Lentamente, Lentamente t , com o anão a aamaldiçoar m ld ma l içoar a sua má-sorte em tanta dificuldade cu uld l ad de no o corredor seu avanço, chegaram a um corre edorr mal mal miseiluminado. Um homem de aspecto to m to i eis porta. rável jazia no chão, junto a uma p o ta or ta. uma muAlternando na boca o nome de um ma m udas lher com a garrafa que segurava numa nu umaa d as mãos, olhava o trio com estranheza. O anão pegou no caderno e confi firmou rmou ser ali o local. Bateu à porta. Os doiss anjos, anjo j s, atrás dele, na penumbra do corredor, eeram raam dois vultos gigantes com olhos muito abertos e totalmente brancos. Os seus grunhidos ecoavam pelas paredes dilaceradas dilacerad a as a por graffitis e estuque rachado. A porta abriu-se e um velho de gabardina azul clara, segurando uma pesada mala com muitos autocolantes de diversas zonas do mundo, disse que estava pronto. Os anjos começaram a piar e deitaram-se submissos no chão aos pés do velho, que lhes afagou a cabeça e chamou nomes ternos. O anão fez uma vénia. - O senhor meu deus divertiu-se na sua breve fuga? O velho sorriu. - Breve? Dois mil anos e chamas-lhe breve? Meu caro Pursewarden, o teu sentido de humor…confesso que tive saudades dele. E, depois, fazendo cara séria. - Sabes que vou fugir de novo, não

sabes? - ao que o anão, sorrindo emocionado, respondeu: - Cl laro que sim, senhor meu deus… Claro tudo o que quee o senhor senho hor meu deus quiser. ho quatro desceram Os q uatrro d escer esc e am m aass escadas e, já hall, n h no alll,l, o velho vellho deus deu us parou, p ro pa ou, u agarrando agarrando no braço br b raço do d aanão. nãão. n Sabes, - Sabe Sa abe bes, aquilo o do do meu meeu u filho na cruz foi que demais is para mim. m Mas, agora m. agor ag ora q or qu u uee o luto me parece p arece c ter terminado, termina naado, talvez taalv lvez vezz esteja estejja na hora dee voltar quero d voltar a exercer. Amanhã, ã,, qu uero um relatório das rela ató t rio completo do estado e ta es tado d ass ccoisas. oisas. deus. - Lá estarei, senhor meu d eus. s Lá Lá estarei. re ei.i. - Vejo que encontraste o meu caderno de apontamentos. Escondi-o be ap bem, m não achas? Amanhã devolves-mo. Entretanto diverteAm t com ele esta noite. Mereceste-o. - disse te deus, piscando o olho a Pursewarden Já na rua, o velho deus, subindo para as costas de Alepmael, agora um resplandescente ser de luz, desapareceu no céu nu-blado de Lisboa. Lathalael seguiu-os como escolta. Pursewarden ficou sozinho no meio da rua. Bocejou, espreguiçou-se e disse para si mesmo que esta tinha sido uma boa noite. Depois iniciou a descida da encosta, de novo em direcção à Baixa. Parou junto à Sé e fez um visto no nome de deus no seu caderno. Lambeu a ponta do lápis e escreveu “Mamethoth” numa linha abaixo daquela onde já havia escrito “Baltasar”. De seguida riscou o encontro com deus na manhã seguinte. Não pretendia devolver o caderno e muito menos cumprir a convocatória. Guardou de novo o caderno. Recomeçou então a assobiar um dos cânticos que ouvira nessa noite, ao mesmo tempo que sonhava com o que poderia fazer com o poder daquelas páginas. BANG! 26


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Tradução de Jorge Candeias

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Sombras ao Luar pré-publicação de CONAN - O DEMÓNIO DE FERRO de Robert E. Howard

m rápido tropel de cavalos através dos juncos altos, uma queda pesada, um grito desesperado. De junto do corcel que morria cambaleou a sua cavaleira, uma rapariga esguia calçada de sandálias e vestida com uma túnica cingida à cintura. O seu cabelo escuro caía sobre os ombros brancos, os seus olhos eram como os de um animal encurralado. Não olhava para a selva de juncos que debruava a pequena clareira, nem para as águas azuis que batiam contra a costa baixa atrás de si. O seu olhar dilatado fixava-se com uma intensidade agonizante no cavaleiro que arremetia através da cortina de juncos e desmontava à sua frente. Era um homem alto, magro, mas duro como aço. Estava vestido dos pés à cabeça numa cota de malha leve e prateada que se ajustava às suas formas ágeis como uma luva. Os seus olhos miravam-na, trocistas, de sob o capacete em forma de cúpula e gravado a ouro. — Para trás! — a voz dela estava estridente de terror. — Não me toques, Xá Amurath, ou atirar-me-ei à água e afogar-me-ei!

Ele riu e a sua gargalhada era como o ronronar de uma espada que deslizasse por uma bainha de seda. — Não, não te afogarás, Olívia, filha da confusão, pois a margem é demasiado baixa e eu posso apanhar-te antes que atinjas zonas profundas. Levaste-me numa alegre caçada, pelos deuses, e todos os meus homens vêm muito atrás de nós. Mas a oeste do Vilaiete não há nenhum cavalo que se consiga distanciar do Item durante muito tempo. — Acenou para o garanhão do deserto, alto e de pernas esguias, que estava atrás dele. — Deixa-me ir! — suplicou a rapariga, com lágrimas de desespero a manchar o seu rosto. — Não terei sofrido o suficiente? Haverá alguma humilhação, dor ou degradação que não tenhas atirado sobre mim? Quanto tempo terá de durar o meu tormento? — Durará enquanto eu encontrar prazer nas tuas lamúrias, súplicas, lágrimas e estremecimentos — respondeu ele com um sorriso que teria parecido gentil a um estranho. — És estranhamente viril, Olívia. Pergunto a mim próprio se algum 33


dia me fartarei de ti, como sempre me fartei das mulheres. Estás sempre fresca e pura, apesar de mim. Cada novo dia contigo traz uma nova delícia. — Mas vem… regressemos a Akif, onde o povo ainda festeja o conquistador dos miseráveis cozacos; enquanto ele, o conquistador, está atarefado a recapturar uma miserável fugitiva, uma tonta, adorável, idiota desertora! — Não! — Ela recuou, virando-se para a água que ondulava, azul, por entre os juncos. — Sim! — O seu relâmpago de raiva aberta foi como a faúlha da pederneira. Com uma rapidez de que os delicados membros da rapariga não se podiam aproximar, ele tomou o seu pulso, torcendo-o em pura crueldade deliberada até que ela gritou e caiu de joelhos. — Porca! Devia arrastar-te para Akif presa à cauda do cavalo, mas serei misericordioso e transportar-te-ei no arção da sela, e por esse favor tu irás agradecer-me humildemente, enquanto… Soltou-a com uma imprecação sobressaltada, de sabre dardejando, quando uma terrível aparição irrompeu da selva de juncos soltando um inarticulado grito de ódio. Olívia, elevando os olhos do chão, viu o que pensou ser um selvagem ou um louco a avançar sobre Xá Amurath numa atitude de mortífera ameaça. Era poderosamente constituído, e estava nu, à excepção de uma tanga presa com um cinto, manchada de sangue e incrustada de lodo seco. A cabeleira negra estava salpicada de lama e sangue coagulado; havia faixas de sangue seco no peito e nos membros, e também se encontrava sangue seco na longa espada direita que agarrava com a mão direita. Olhos injectados olhavam de debaixo do emara-

nhado das suas madeixas como se fossem carvões de fogo azul. — Cão hircaniano! — disse esta aparição com um sotaque bárbaro. — Os demónios da vingança trouxeram-te aqui! — Cozaco! — exclamou Xá Amurath, recuando. — Não sabia que um dos vossos cães tinha escapado! Pensava que todos jaziam, rígidos, junto ao rio Ilbars. — Todos menos eu, maldito sejas! — gritou o outro. — Oh, sonhei com um encontro como este enquanto rastejava através das sarças, ou jazia sob pedras enquanto as formigas atacavam a minha carne, ou me enterrava no lodo até à boca... sonhei com ele mas nunca esperei que acontecesse. Oh, deuses do Inferno, como ansiei por isto! A alegria sanguinária do estranho era terrível de observar. Os seus maxilares contraíam-se espasmodicamente, e surgiu espuma nos lábios enegrecidos. — Para trás! — ordenou Xá Amurath, observando-o minuciosamente. — Ha! — Era como o latido de um lobo cinzento. — Xá Amurath, o grande Senhor de Akif! Oh, maldito, como adoro ver-te, a ti que deixaste os meus camaradas aos abutres, que os despedaçaste com cavalos selvagens, que os cegaste, os estropiaste, os mutilaste… sim, tu, cão, cão imundo! — A sua voz ergueu-se num grito enlouquecido e ele atacou. Apesar do terror da aparência selvagem do homem, Olívia esperava vê-lo cair assim que as espadas se cruzassem. Louco ou selvagem, que poderia fazer, nu, contra a cota de malha do chefe de Akif? Houve um instante em que as lâminas flamejaram e se golpearam, parecendo quase não tocar uma na outra antes de saltar; então a espada passou num relâmpago pelo sabre e caiu, terrível, sobre o ombro de Xá Amurath. Olívia gritou com a fúria 34


ferença na sua atitude. Os seus olhos injectados de sangue estavam sãos. Era como se o sangue que acabara de derramar tivesse apagado o fogo do seu delírio. — Quem és tu? — perguntou. — Chamam-me Olívia. Era cativa dele. Fugi. Ele perseguiu-me. Foi por isso que veio até aqui. Oh, não me deixes aqui! Os seus guerreiros não vêm longe. Encontrarão o seu cadáver… encontrar-me-ão perto dele… oh! — Ela gemeu de terror e torceu as mãos brancas. Ele ficou a olhá-la, perplexo. — E estarás melhor comigo? — perguntou. — Sou um bárbaro e sei, pelo teu aspecto, que me temes. — Sim, temo-te — respondeu ela, demasiado perturbada para o esconder. — A minha pele formiga com o horror do teu aspecto. Mas temo mais os hircanianos. Oh, deixa-me ir contigo! Eles torturar-me-ão se me encontrarem ao lado do corpo do seu senhor. — Então vem. — Ele afastou-se para o lado e ela entrou rapidamente no barco, esquivando-se a tocar-lhe. Sentou-se à proa e ele subiu para o barco, afastou-o da margem com um remo e, usando-o como uma pangaia, abriu um caminho tortuoso através dos altos caules até deslizarem para águas abertas. Então pôs ambos os remos ao serviço, remando com remadas grandes, suaves e regulares, com os pesados músculos dos braços, ombros e costas a enrugar-se ao ritmo dos seus esforços. Houve silêncio por algum tempo, com a rapariga encolhida à proa e o homem a puxar pelos remos. Ela observava-o com um fascínio tímido. Era evidente que não era hircaniano, e não se assemelhava às raças da Hibória. Havia nele uma dureza de lobo que assinalava o bárbaro. Os seus traços, pelo que se via através dos esforços

daquela estocada. Por entre o triturar da cota de malha que se rasgava, ouviu distintamente o quebrar da espádua. O hircaniano recuou, de súbito pálido, com sangue a jorrar por entre os elos da sua cota de malha; o sabre escorregou dos seus dedos sem força. — Tréguas! — arquejou. — Tréguas? — Havia um tremor de frenesi na voz do estranho. — Tréguas como as que nos deste, suíno! Olívia fechou os olhos. Já não havia uma batalha, mas sim uma carnificina, frenética, sangrenta, impelida por uma histeria de fúria e ódio, na qual culminavam os sofrimentos da batalha, do massacre, da tortura e de uma fuga dominada pelo medo, enlouquecida pela sede e assombrada pela fome. Embora Olívia soubesse que Xá Amurath não merecia a misericórdia ou a piedade de nenhuma criatura viva, fechou os olhos e apertou as orelhas com as mãos, a fim de escapar à visão daquela espada sangrenta que subia e descia com o som do cutelo de um magarefe, e aos gritos gorgolejantes que se reduziram até cessar. Abriu os olhos e viu o estranho a afastar-se de uma caricatura sangrenta que só vagamente se assemelhava a um ser humano. O peito do homem agitava-se de exaustão ou paixão, a testa estava coberta de suor, a mão direita salpicada de sangue. Não lhe falou, e nem mesmo a olhou de relance. Viu-o atravessar os juncos que cresciam junto à água, inclinar-se e puxar por qualquer coisa. Um barco chapinhou para fora do seu esconderijo por entre os caules. Então ela adivinhou as intenções do homem, e foi galvanizada para agir. — Oh, espera! — gemeu, pondo-se de pé de forma insegura e correndo para ele. — Não me abandones! Leva-me contigo! Ele rodopiou e olhou-a. Havia uma di35


e manchas da batalha e do tempo que passara escondido nos pântanos, reflectiam a mesma ferocidade por domesticar, mas não eram nem vis nem degenerados. — Quem és tu? — perguntou ela. — Xá Amurath chamou-te cozaco; pertencias a esse bando? — Sou Conan, da Ciméria — grunhiu ele. — Estava com os cozacos, como os cães hircanianos nos chamavam. Ela sabia vagamente que a terra que ele mencionara ficava distante, para noroeste, para lá das fronteiras mais longínquas dos vários reinos da sua raça. — Sou uma filha do Rei de Ofir — disse ela. — O meu pai vendeu-me a um chefe shemita porque me recusei a casar com um príncipe da Cótia. O cimério grunhiu de surpresa. Os lábios dela torceram-se num sorriso amargo. — Sim, os homens civilizados vendem por vezes os filhos a selvagens como escravos. E chamam bárbara à tua raça, Conan da Ciméria. — Nós não vendemos as nossas crianças — rosnou ele, projectando o queixo de forma truculenta. — Bem… eu fui vendida. Mas o homem do deserto não me maltratou. Desejava comprar a boa vontade de Xá Amurath, e eu estava entre os presentes que trouxe à Akif dos jardins púrpura. Então… — Ela estremeceu e escondeu o rosto nas mãos. — Já devia estar perdida para a vergonha — disse logo a seguir. — No entanto, todas as memórias me picam como o chicote de um traficante de escravos. Habitei no palácio de Xá Amurath, até que há algumas semanas ele saiu da cidade com as suas hostes a fim de dar batalha a um bando de invasores que assolavam as fronteiras de Turã. Ontem, regressou em triunfo, e foi

organizada uma grande celebração em sua honra. No meio de todo o álcool e regozijo, encontrei uma oportunidade para me esgueirar da cidade com um cavalo roubado. Pensava que tinha escapado… mas ele seguiu-me, e apanhou-me perto do meio-dia. Consegui correr mais depressa que os seus vassalos, mas a ele não consegui escapar. Depois chegaste tu. — Estava escondido nos juncos — grunhiu o bárbaro. — Era um desses dissolutos velhacos, os Companheiros Livres, que incendiavam e saqueavam ao longo das fronteiras. Éramos cinco mil, de variadas raças e tribos. A maior parte de nós tinha servido como mercenários a um príncipe rebelde do oriente de Korb, e quando ele assinou a paz com o seu maldito soberano, ficámos sem emprego; por isso virámo-nos para o saque dos domínios exteriores de Cótia, Zamora e Turã, imparcialmente. Há uma semana, Xá Amurath encurralou-nos junto às margens do Ilbars com cento e cinquenta mil homens. Mitra! Os céus estavam negros de abutres. Quando as linhas se quebraram, depois de um dia inteiro de luta, alguns tentaram incursões para norte, outros para oeste. Duvido que algum tenha escapado. As estepes estavam cobertas de cavaleiros a perseguir os fugitivos. Eu fugi para leste, e por fim atingi os limites dos pântanos que orlam esta parte do Vilaiete. — Tenho estado escondido nos pauis desde então. Foi só anteontem que os cavaleiros deixaram de bater os matagais de juncos em busca de fugitivos como eu. Enrosquei-me, enterrei-me e escondi-me como uma serpente, alimentando-me dos ratos-almiscarados que capturei e comi crus, por não ter fogo para os cozinhar. Hoje de madrugada encontrei este barco escondido entre os juncos. Não tencionava dirigir-me ao mar até que a noite chegasse, 36


mas depois de matar Xá Amurath soube que cães vestidos de cotas de malha teriam de estar por perto. — E agora? — Iremos, sem dúvida, ser perseguidos. Se eles não encontrarem os sinais deixados pelo barco, que eu cobri o melhor que pude, irão de qualquer modo adivinhar que nos dirigimos ao mar, quando não nos conseguirem encontrar nos pântanos. Mas temos algum avanço, e eu vou puxar com força por estes remos até chegarmos a lugar seguro. — Onde encontraremos tal coisa? — perguntou ela sem esperança. — O Vilaiete é um charco hircaniano. — Há quem não pense assim — Conan fez um sorriso sombrio — em especial os escravos que escaparam das galés e se tornaram piratas. — Mas quais são os teus planos? — A costa sudoeste é dos hircanianos ao longo de centenas de milhas. Ainda temos muito caminho a percorrer até atravessarmos para lá das suas fronteiras setentrionais. Pretendo seguir para norte até julgar que as atravessei. Então, viraremos para oeste e tentaremos atracar na costa rodeada pelas estepes desabitadas. — Mas se encontrarmos piratas ou uma tempestade? — perguntou ela. — E nas estepes passaremos fome. — Bem — lembrou-lhe ele — não te pedi que viesses comigo. — Desculpa. — A rapariga inclinou a bem modelada e escura cabeça. — Piratas, tempestades, fome… é tudo… mais gentil que o povo de Turã. — Sim — O rosto escuro dele ensombrou-se. — Ainda não acabei de tratar deles. Descansa, rapariga. As tempestades são raras no Vilaiete nesta altura do ano. Se chegarmos às estepes, não passaremos

fome. Fui criado numa terra nua. Foram aqueles malditos pântanos, com os seus miasmas e moscas que picam, que quase me desencorajaram. Nas terras altas, sinto-me em casa. E quanto aos piratas… — Sorriu enigmaticamente e inclinou-se sobre os remos. O sol afundou-se como uma bola de cobre com um brilho baço num lago de fogo. O azul do mar fundiu-se ao azul do céu, e ambos se transformaram num veludo suave e escuro, semeado de estrelas e das imagens das estrelas. Olívia reclinou-se à proa do barco, que oscilava suavemente, num estado de espírito sonhador e irreal. Experimentou a ilusão de voar a meia altura, com estrelas abaixo e acima de si. O seu silencioso companheiro estava vagamente delineado na escuridão mais suave. Não havia nenhuma quebra ou falha no ritmo das suas remadas; poderia ser um barqueiro fantasma, transportando-a através do escuro lago da Morte. Mas o fio do seu medo foi embotado, e ela mergulhou num sono sossegado. A alvorada batia-lhe nos olhos quando acordou, consciente de uma fome devoradora. Fora uma alteração nos movimentos do barco que a despertara; Conan descansava sobre os remos, de olhos fitos para além dela. Compreendeu que ele remara toda a noite sem uma pausa, e ficou maravilhada com a sua resistência de ferro. Virou-se para seguir o seu olhar, e viu um muro verde de árvores e arbustos que se erguia da borda de água e se prolongava numa curva larga, rodeando uma pequena baía cujas águas estavam paradas como vidro azul. — Esta é uma das muitas ilhas que estão espalhadas por este mar interior — disse Conan. — É suposto que estejam desabitadas. Ouvi dizer que os hircanianos raramente as visitam. Além disso, eles em 37


geral bordejam as costas com as suas galés, e nós viemos para muito longe. Antes do sol posto estávamos fora de vista do continente. Com algumas remadas, levou o barco até à costa e amarrou o cabo à raiz arqueada de uma árvore que se erguia à borda de água. Pondo o pé em terra, estendeu uma mão para ajudar Olívia. Ela tomou-a, retraindo-se um pouco devido às manchas de sangue que a mão trazia, sentindo uma indicação da força dinâmica que se escondia nos músculos do bárbaro. Uma quietude de sonho pairava sobre os bosques que rodeavam a baía azul. Então, algures, longe por entre as árvores, uma ave fez soar a sua canção matinal. Uma brisa sussurrou por entre as folhas e deixou-as a murmurar. Olívia deu por si a escutar com atenção, em busca de algo, não sabia o quê. Que poderia esconder-se naqueles bosques sem nome? Enquanto espreitava timidamente as sombras entre as árvores, algo deslizou para a luz do sol com um rápido rodopio de asas: um grande papagaio que caiu sobre um ramo cheio de folhas e aí ficou a balançar, uma imagem reluzente de jade e carmesim. Virou de lado a cabeça provida de crista e olhou os invasores com cintilantes olhos de azeviche. — Crom! — murmurou o cimério. — Aqui está o avô de todos os papagaios. Deve ter mil anos de idade! Olha para a maldosa sabedoria dos seus olhos. Que mistérios guardas, Demónio Sábio? Abruptamente, a ave estendeu as suas asas flamejantes e, elevando-se do seu poleiro, gritou em voz áspera: “Yagkoolan yok tha, xuthalla!” e com o louco guincho de uma gargalhada horrivelmente humana, afastou-se através das árvores e desapareceu nas sombras opalescentes.

Olívia ficou a olhá-lo, sentindo a mão fria de um agouro sem nome a tocar a sua espinha flexível. — Que foi que ele disse? — segredou. — Juraria que palavras humanas — respondeu Conan — mas em que língua, não sei dizer. — Nem eu — retorquiu a rapariga. — E no entanto deve tê-las aprendido de lábios humanos. Humanos ou… — olhou o baluarte folhoso e estremeceu ligeiramente, sem saber porquê. — Crom, tenho fome! — resmungou o cimério. — Seria capaz de comer um búfalo inteiro. Procuremos fruta; mas primeiro vou limpar-me desta lama e sangue seco. Procurar esconderijo em pântanos é coisa suja. Enquanto o dizia, pôs de lado a espada e, mergulhando na água azul até aos ombros, tratou das suas abluções. Quando emergiu, os bem definidos membros de bronze brilhavam, e a cabeleira negra, que escorria água, já não estava emaranhada. Os olhos azuis, embora ardessem com um fogo impossível de extinguir, já não estavam sombrios ou injectados de sangue. Mas a flexibilidade de tigre dos membros e o aspecto perigoso dos traços não se tinham alterado. Voltando a prender a espada à cintura, indicou com um gesto à rapariga que o seguisse, e abandonaram a costa, passando sob os arcos folhosos dos grandes ramos. Sob os seus pés, havia uma erva curta e verde que almofadava os passos. Por entre os troncos das árvores, obtiveram relances de paisagens de fadas. Em breve Conan grunhia de prazer ao ver globos dourados e castanho-avermelhados que pendiam em cachos por entre as folhas. Indicando que a rapariga devia sentar-se numa árvore caída, encheu-lhe o 38


Estudou o míssil que passara tão próximo deles, e grunhiu, incrédulo, como se incapaz de dar crédito aos seus próprios sentidos. O que jazia na erva junto à árvore, cuja madeira fora estilhaçada pelo impacto, era um enorme bloco de pedra esverdeada. — Uma estranha pedra para encontrar numa ilha inabitada — rosnou Conan. Os belos olhos de Olívia dilataram-se de espanto. A pedra era um bloco simétrico, indiscutivelmente cortado e esculpido por mãos humanas. E era espantosamente maciço. O cimério agarrou-o com as duas mãos, e com as pernas bem assentes no chão e os músculos a projectarem-se em nós tensos dos braços e costas, ergueu-o acima da cabeça e atirou-o, pondo a uso cada onça de nervo e tendão. A pedra caiu alguns pés à sua frente. Conan praguejou. — Não há homem vivo capaz de atirar esta pedra através desta clareira. É tarefa para máquinas de guerra. E no entanto, aqui não há catapultas ou balistas. — Talvez tenha sido atirada de longe por uma máquina dessas — sugeriu ela. Ele abanou a cabeça. — Não caiu de cima. Veio daquele matagal. Vês como os ramos estão partidos? Foi atirada como um homem atiraria um seixo. Mas quem? O quê? Vem!... BANG!

regaço com os exóticos acepipes, e depois ele próprio se atirou a eles sem esconder o apetite. — Ishtar! — disse, entre dentadas. — Vivo de ratazanas e raízes que arranquei da lama nauseabunda. Isto é doce ao paladar, embora não encha muito. Mesmo assim, servirá, se comermos o suficiente. Olívia estava demasiado ocupada para responder. Quando a lâmina acerada da fome do cimério embotou, começou a olhar a sua bela companheira com mais interesse do que antes, reparando nos lustrosos cachos do seu cabelo escuro, nos tons de flor de pessegueiro da sua pele delicada, e nos contornos arredondados da sua figura esguia que a reduzida túnica de seda revelava da melhor forma. Terminando a refeição, o objecto do seu exame olhou para cima e, ao encontrar o seu olhar ardente e rasgado, mudou de cor e os restos de fruta escorregaram dos seus dedos. Sem comentários, ele indicou com um gesto que deviam prosseguir a exploração e, erguendo-se, ela seguiu-o para fora das árvores e para uma clareira, cuja extremidade mais afastada desembocava num denso matagal. Quando entraram no terreno aberto, ouviu-se um estrondo vindo desse matagal, e Conan, saltando para o lado e levando a rapariga consigo, salvou-os por pouco de qualquer coisa que voou pelo ar e atingiu um tronco de árvore com um impacto trovejante. Puxando da espada, Conan saltou através da clareira e mergulhou no matagal. Seguiu-se o silêncio, enquanto Olívia se agachava na erva, aterrorizada e confusa. Em breve Conan reaparecia, com um franzir de sobrancelhas perplexo no rosto. — Não há nada naquele matagal — rosnou. — Mas houve alguma coisa.

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CONAN O Demónio de Ferro de Robert E. Howard Data de publicação: 22 / 02 / 2007 Tradução de: Luís Rodrigues e Jorge Candeias 39


Nada me prende à ilha senão o forte abraço das pernas desta mulher que se me tornou odiosa e impreterível. Em vão desço às areias brancas da praia e tento nelas traçar o plano de um barco: a mão que, hesitante, desenha mastros, cascos e cordames é rápida, tomada pelo temor infundado de ser surpreendida, a apagar as esquemáticas promessas de liberdade. Até o meu celebrado engenho, que me granjeou fama e vitórias, se nega à competência e só concebe planos mirabolantes, como máquinas voadoras ou navios submarinos, numa fútil e desesperada tentativa de iludir a negligente vigilância da tentadora.

corpo divino e intemporal que é a única grilheta a tolher-me a liberdade. De nada me serve invocar memórias da minha querida Penélope, de imaginá-la lá longe a tecer uma interminável teia que será talvez a teia que me traz prisioneiro deste nefando destino; sou sempre conduzido àquele sorvedouro que me suga sem me consumir. Os olhos da mulher têm um brilho frio, apesar de mutáveis quanto à cor, pois seguem os caprichos do céu e do mar: entre o azul e o verde sob o sol, cinzentos na tempestade, rosados durante o dia e carmesins quando ele fenece, negros à noite;

Às vezes, sinto um olhar que me queima a nuca; volto-me e vejo que estou sozinho na praia, na floresta, sentado nos penhascos entre o suicídio e a servidão. Fui, em tempos, rei, capitão no mar e na guerra e, passando por perigos vários, chego aos dias em que o homem deseja trocar espada e elmo pelo lar e a família e encontro-me reduzido a pouco mais que um touro de cobrição. Prende-me o sexo, nesta idade em que se devia preparar para a castidade da velhice, sempre erguido e insatisfeito, sempre com o sentido naquele

nunca da cor única da amêndoa nem grandes e abertos como os de Penélope, sempre semicerrados como se me perscrutassem a alma. E, depois, aquele outro olho que se abre inexorável como Caríbidis, e que como Caríbidis por certo esconde bem lá no fundo a perdição... Apesar de eu saber que me usa de maneira idêntica a uma mulher constante que, tendo o marido partido para as incertezas da guerra ou das navegações, cala os calores da casta carne com o recurso a um falo de barro que ela própria moldou 40


segundo a fiel memória do membro do ausente, que me usa como um objecto útil para afastar os íncubos da solidão, quando me fala fá-lo com as doces maneiras da esposa dócil, numa mistura do canto sissiante das sereias com o gesto convidativo sem o ser de Helena, e, como uma rapariga apaixonada ou uma dama sabida, diz que me ama. E eu, lança de novo em riste, tal qual o infatigável e dolorido Príapo, não deixo de me deitar com ela e não deixo de provar os novíssimos sabores de cada uma das estrelas nas galáxias que em torno de mim não deixam de explodir. Disse-lhe um dia, disposto, graças a um súbito resquício de vontade, a contrariá-la: Dedicando tão grande amor a um humano, não deixarás, certamente, de incorrer nas pesadas represálias que os teus pares são tão pródigos em engendrar... E lembrei-lhe o triste Prometeu que, por tanto amar a humanidade, conquistou um suplício maior que a eternidade. Então, o seu semblante alterou-se, detendo com dificuldade o esplendor que a sua máscara humana continha e que, se libertado, não deixaria de me destruir. Respondeu-me com as pausadas palavras, sérias e severas, de uma sibila: - O acto do amor é um acto de criação. Prometeu não roubou o fogo aos deuses por amor à humanidade, roubou-o para amar a humanidade, para a criar a partir daquela coisa que era, então, indistinta das restantes manadas que povoavam a orbe. As minhas actuais acções só se assemelham às de Prometeu na medida em que lhes dão seguimento: a minha intenção é, criada que está a humanidade, dar origem ao indivíduo, o qual, vezes

sem conta, a há-de redimir. Sentindo a presença da divindade, e pela primeira vez desde que alcançara aquela ilha, os ardores da minha carne desvaneceram-se: fugi aterrorizado e procurei refúgio no mato. Para ocupar as horas da minha confusão, persegui os gamos da floresta, atirando-lhes algumas flechas, falhando sempre, Oríon impotente, até que, exausto, a cabeça finalmente vaga de pensamentos, deixei-me cair como morto debaixo de um roble, os olhos muito abertos a fitar as ramagens protectoras. Com lentidão, num crescendo que parecia eternizar-se, apercebi-me que de novo a virilidade se me inteiriçava entre as coxas quentes e, vendo na mente os seios arrojados, as ancas sedutoras, o mais belo monte que Vénus alguma vez moldou, corri, de súbito retemperado, como não correra sequer para escapar aos meus temores. Ela esperava-me à entrada da gruta como eu de antemão sabia que faria. Agarrei-a, penetrei-a rápida e repetidamente como se a apunhalasse, ela entregando-se toda e eu querendo internar-me por inteiro no seu útero. Depois, depois os corpos suados entre as lâmpadas aromáticas, o sono. Acordou-me com um beijo, fez-me levantar e, tomando-me pela mão, levou-me ao mais recôndito da caverna, onde as trevas recuavam ante o brilho do seu corpo nu e onde novos túneis de forma hexagonal se ramificavam noutros túneis, também hexagonais, aparentando infinitude. - Aqui, disse-me, guardo o saber futuro, as parcelas de saber destinadas aos indivíduos do porvir; guardo a vindoura sabedoria do Indostão e das três religiões 41


que o deserto há-de ditar e esquecer, guardo as dinastias sucessivas do Egipto e do México e da China em caracteres que não foram ainda concebidos, guardo as palavras do poeta cego que virá a reformular a tua vida e dum outro que, milénios depois, te fará reviver por um dia numa ilha do Norte longínquo. Ante estas palavras incompreensíveis persignei-me, mostrando, por via de muitas genuflexões, grande devoção pela divindade e pelos segredos que guarda para lá da compreensão humana. Ao ver isto riu-se e acrescentou: - Virá mesmo o dia, se tudo correr de acordo com os meus planos, em que os teus descendentes abandonarão essas abjecções ridículas. Assim fomos caminhando até que, chegados ao que parecia ser uma câmara central, ela fez-me fitar uma parede pedindo que lhe descrevesse pormenorizadamente o que via. Em silêncio, forcei os olhos contra a escuridão, pensando na maneira de descrever uma parede lisa e nua que em nada diferia das restantes. Estive assim, crescendo em mim a angústia, um demorado minuto, quando me voltei para confessar a minha incapacidade em discernir o que quer que fosse e descobri que me deixara sozinho. A princípio pensei que se escondia para assim me acicatar o desejo, para dar início aos jogos do amor, mas, ao procurá-la no escuro, tentando divisar as formas maravilhosas nas quais a minha imaginação antevia o prazer próximo, compreendi que me abandonara naquela teia de trevas tecida. Sobreveio o pânico, corri desordenadamente pelos túneis, sentindo só então o frio intenso e a consumidora humi-

dade dos pétreos corredores. Sentei-me, cansado, a minha nudez invadida por incontroláveis tremuras e arrepios, os meus maxilares entrechocando-se com nervosa violência, e, naquele desesperado momento, vi que nas paredes, no tecto e até no chão, em todas as seis faces simétricas do poliedro, estavam gravados estranhos símbolos, alguns representando homenzinhos, juncos, penas, ramos de árvore, águas correntes, rodas de carros, e outros sem qualquer referente concreto, indecifráveis, todos eles refulgindo no negrume com o fulgor ígneo do ouro antigo. Durante o que me pareceram nove dias, já que os contei seguindo os íntimos mecanismos do sono e da vigília, vagueei em escura solidão, percorrendo incontáveis túneis, todos assombrados por aquele brilho dourado que se me afigurava tão maligno e opressor quanto o frio da pedra em que se inscrevia, frio que a sua quente cor não contrariava. Ao quinto dia, ou afligia-me a loucura ou o pensar-me louco, pois julguei ter decifrado de uma assentada a totalidade dos símbolos e julguei, também, que o meu pobre cérebro abarcava todo o saber contido nos infinitos túneis: nos que havia percorrido, nos que iria percorrer, nos que nunca percorreria dada a brevidade da vida humana. Enchiam-me a cabeça, que latejava em paroxismos de dor, que ecoava com rumores de secretos júbilos e infâmias encobertas, os segredos dos rapsodos, dos sacerdotes e dos matemáticos, conhecimentos que, naquele momento, eu detinha sem compreender, dos quais, apesar de toda a minha sagacidade, eu não saberia tirar proveito. Contudo, e no meio de todo aquele caos, inverti o sentido da minha marcha e 42


os meus pés ganharam confiança e deixei de hesitar diante das encruzilhadas, já que me parecia que intuía então o mapa em que o dédalo se ramificava infinitamente e que seria capaz de voltar ao impossível ponto de partida. Deixei mesmo de fazer as pausas necessárias ao repouso do corpo e de lamber o suor gelado das paredes para mitigar a minha sede ardente, todo o meu ser como um mecanismo programado para uma única função, com um único intuito: o libertar-me. Quando por fim desemboquei na caverna da deusa, possuía-me ainda a loucura e, apesar de novamente me render às artes da sedutora, foi como se o meu intelecto se afastasse do meu corpo servil, observando-o de fora enquanto ele se entregava ao negócio carnal, concebendo a libertação de ambos, agora recorrendo à torrente avassaladora que lhe percorria as circunvoluções cinzentas. Durante longos dias tentei aparentar normalidade, deixando a caverna apenas por breves períodos de tempo, como que para os meus nostálgicos passeios à beira-mar ou para a caça, essa outra actividade viril que a deusa providenciava para meu recreamento e manutenção da minha higiene mental. - Afinal – dizia-me, – um homem também tem que pensar noutras coisas - e libertava-me temporariamente do sortilégio que me trazia priáptico. Na verdade, num ponto afastado da praia, na areia húmida da maré baixa, fui moldando, à minha imagem, uma figura humana. As primeiras tentativas destruí-as eu por demasiado grosseiras; quando já trabalhava com minúcia, era a maré que vinha, fatal, destruir a obra inacabada. Mesmo assim, e uma vez que

as minhas mãos sempre concretizaram com hábil presteza as minhas ideias, consegui, em poucas tentativas, talhar o meu perfeito reflexo nas areias e, antes que o mar lhe viesse lamber os frágeis pés, desenhei-lhe no braço direito, com as atitudes e os gestos de um ritual que eu tivesse vezes sem conta praticado, mas que em verdade desconhecia, dois dos símbolos que me ensinara a caverna: aleph e tau, como eu, sem saber porquê, os nomeava, água e fogo, terra e ar, o alfa e o ómega, dois símbolos que encerravam entre si todos os outros. Como não ririam os que me conhecem bem vendo-me entregue a estas práticas metafísicas, querendo a um tempo ser Narciso e Pigmalião, sabendo-me eles prudente e terra-a-terra como tenho em conta ser. O que é certo é que, traçada a tatuagem, aquela minha imagem estremeceu e o seu peito tomou os movimentos da respiração e a sua superfície arenosa adquiriu a aparência de uma verdadeira derme, nela surgindo pêlos, vasos sanguíneos, sinais, todos os pormenores que, por demasiado meticulosos, eu descurara. O meu duplo ergueu-se e abriu uns olhos escuros e límpidos, inteligentes como os meus. No braço brilhavam-lhe as letras com a mesma luz que habitava a caverna. Ergui a mão, vacilante, mostrando-lhe a palma em jeito de saudação; repetindo os meus movimentos, copiando, exacto, a minha hesitação, saudoume de forma idêntica. Chamei-o por um nome que a minha garganta estranhou: Adam. Juntos, Adam e eu abatemos um pinheiro velho e robusto como o mundo, escavamo-lo, dando-lhe a forma de um 43


casco, e empurramo-lo até à orla da praia, tudo isto em diversas e curtas etapas, sempre que me conseguia escapar de junto da deusa. Enquanto nos entregávamos a tais tarefas, certificava-me de que ele me copiava os gestos e falava-lhe constantemente para que assimilasse as inflexões da minha voz. Mostrando uma explícita vontade em me agradar, foi com desembaraço que Adam incorporou o meu carácter, havendo momentos em que eu mesmo duvidava se não era eu o duplo. Chegou por fim o tempo de pôr em prática a parte final do plano, a mais frágil e difícil: a mistificação da deusa. Saí cedo da caverna dizendo “Vou à caça”. Encontrei Adam junto do tronco escavado, aperfeiçoando-o, o que me enterneceu. Logo considerei o obstáculo que levantava aquela tatuagem no braço direito do meu reflexo, e o meu engenho, que aos poucos se recompunha, brindou-me com uma ideia original. Com uma das pedras lascadas que usávamos para trabalhar feri o meu próprio braço no mesmo sítio em que se encontravam os caracteres de Adam. Depois, envolvi o corte com uma folha larga e muito verde, não sem antes cobrir a tatuagem do meu duplo com uma folha idêntica, manchada com o meu próprio sangue. De seguida, matei um grande porco selvagem e carreguei-o em peso no ombro esquerdo até à gruta. Vendo-me chegar com a minha presa, a deusa disse: - Pensei que a carne de porco te trazia à ideia lembranças de canibalismo... Assim era, de facto. - Não há nada que o tempo não mude – disse eu, sem muita certeza.

Aproveitei o facto de ter que pousar o meu fardo para desviar os olhos da deusa. - Atacou-me na floresta – afirmei, olhando a carcaça estendida no chão, mais convicto. – Devo ter-lhe invadido o território. - É fêmea? Teria crias? - Não, é um velho macho – e, apontando a ligadura improvisada, olhando nos olhos da deusa – Feriu-me aqui. - Deixa ver. - Não há necessidade, depressa sarará. - Então vem cá... – e estendeu-me o braço. - Já vou, deixei o arco e a aljava na mata: vou buscá-los. Corri em direcção à floresta, mas, assim que me vi fora da vista da deusa, desci um pequeno barranco que se despenhava na praia. Lá, pedi a Adam que me ajudasse a levar a canoa para a água. Dei-lhe umas últimas indicações, enviei-o para junto da deusa e remei como se possuído por mil demónios. Agora, estou aqui à deriva ao largo da ilha, fatigado pela fúria com que fugi. Imagino que o meu duplo se desfaz em areia, talvez mesmo dentro da deusa, e que esta se levanta enraivecida para me alcançar como uma tormenta. Preparo-me já para a aplacar com lágrimas e subserviência. Vem-me à ideia, contudo, o estranho pensamento de que tudo o que aconteceu seguiu os seus inefáveis desígnios, mas já se esvaem a loucura que me atormentava o espírito e a fome que me escravizava o corpo; fico de novo sob a tutela da virginal Atena e Éolo, apaziguado, traz-me o odor distinto da minha Ítaca natal. BANG! 44


Continuo a ouvir, mas quero poder escutar o que dizem o Rico e o Ed enquanto descansamos. É boa educação. — ¿Aprendes todavía el español? — pergunta o Rico, enquanto a cassete murmura: «Púrpura: mov. Vermelho: rozu. Branco: alb. Amarelo: galben.» — En el día de hoy, no — digo-lhe. — Hoje, el rumano. — E quantas línguas é que o Professor já sabe falar? — pergunta o Ed. Não lhe digo para parar de me chamar aquilo. Creio que nós os três — eu, o Ed e o Rico — já passámos tempo suficiente na companhia uns dos outros para nos deixarmos em paz e talvez mostrar respeito mútuo, mas o Ed teima em chamar-me «Professor». E negru; é preto. E albastru; é azul. Digo-lhe, como já lhe tinha dito antes, que não sei falar as línguas. Limito-me a ouvir e aprender algumas palavras. — Bem, se me tivesse dado ao trabalho de aprender a entender essas línguas todas, já teria arranjado um emprego melhor — diz o Ed. É o que diz sempre. Mas já tive outros empregos, e nunca me deixavam estar sempre a ouvir as cassetes de aprendizagem enquanto trabalhava. Aqui, ninguém quer saber, desde que os pisos estejam a brilhar pela manhã. Posso usar os auscultadores e falar sozinho durante o turno inteiro. Ed está persistente esta noite. — A saber essas línguas todas, aposto que eras capaz de ganhar uma pipa de massa. Porque é que continuas neste trabalho de merda, se és assim tão esperto? Rico não se manifesta, mas também ele me observa, atento à minha resposta. Digo-lhe que é um emprego perfeito, porque consigo fazer o que gosto, que é aprender outras línguas. Pergunta ele:

Certas noites é romeno Bruce Holland Rogers Tradução de Luís Filipe Silva e Luís Rodrigues Trabalho à noite num grande edifício para escritórios, esfregona seca para lá e para cá pelos corredores, ou ocupado a apanhar beatas de cigarro dos urinóis. Enquanto o faço, estou constantemente a ouvir as cassetes. Certas noites é romeno. Isto não funciona: nu functioneaza. Quanto custa: cît costa? Outras noites é tailandês. Vire à esquerda: lieow sai. Vire à direita: lieow kwa. Ou então farsi. Todos os dias: har rooz. Hoje: emrooz. Ontem: dirooz. Preciso de uma almofada, por favor: lotfan bälesh mi-khäm. Um idioma por noite, uma palavra de cada vez. Pronuncio os termos em surdina enquanto trabalho. É como os memorizo melhor. Quando descanso, baixo o volume. 45


— Mas porque é que queres aprender outras línguas? E eu digo-lhe. Não costumo contar a ninguém, mas desta vez conto tudo ao Ed e ao Rico. Quando era miúdo, tinha por hábito ir a uma mercearia lá do bairro que era a loja do Jack. Era o tipo de lugar que se podia encontrar nos bairros antes do surgimento dos supermercados. E lá ia na minha bicicleta Stingray, uma vez por semana, para gastar a mesada. Na loja do Jack, encontravam-se as coisas do costume. Havia chocolates Hershey amolecidos no calor do Verão, e que se cobriam de uma película branca quando voltavam a endurecer. Havia chupa-chupas Sugar Babies. O género de coisas que também havia noutros lados. Mas a loja do Jack não era como esses outros lados. Há muito que o Jack estava no ramo. Muitos anúncios nas paredes eram de artigos que já não se faziam. Cigarros Spud Imperial. Creme para as Mãos Pacquins. Marsettes de chocolate e caramelo. A placa de metal da 7-Up na loja era tão antiga que ainda dizia, «Gostas dela... e ela gosta de ti.» Além das placas antigas, Jack tinha doces antigos. Na parte de trás das estantes de madeira do Jack, havia aberturas, onde, se rebuscasse bem, poderia encontrar algo que tivesse escapado à atenção de outros miúdos ao longo dos anos. Encontrei um Caramelo de Chocolate da Welch que o Jack me deixou comprar pelo preço que estava na embalagem: cinco cêntimos. O resto dos doces eram a dez, pelo que este Welch era uma pechincha, mesmo estando duro como uma pedra. Encontrei um caramelo Tootsie Roll an-

tigo, com um tipo diferente de embalagem que dizia, «Enriquecido com Dextrose para Energia». Não fazia ideia do que fosse dextrose, pelo que aquele caramelo Tootsie Roll se me tornou especial, por ter algo que os Tootsie Rolls mais recentes já não tinham. Uma vez, cheguei a encontrar uma barra Hawaiian Hula que o Jack me deixou levar de graça. Nos anos que se seguiram, não encontrei ninguém que tivesse ouvido falar de Hawaiian Hulas. A barra de Hawaiian Hula que mais ninguém conhecia, contudo, não foi o objecto mais improvável encontrado na parte de trás das estantes da loja do Jack. Não, o mais estranho acabou por ser uma barra de caramelo envolta num papel azul com uns dizeres cor-de-rosa. Jack disse que era chinês, mas eu conhecia a escrita chinesa do interior das embalagens de fogo-de-artifício, e isto era diferente. As letras eram todas contorcidas e arredondadas. Jack cobrou-me a totalidade dos dez cêntimos. Protestei, pois ele nem sequer sabia dizer que tipo de doce aquilo era, ou há quanto tempo estava na loja. Mas paguei. O embrulho esticava e era difícil de rasgar, mesmo com os dentes. O doce parecia um bolo de açúcar mascavado. Começou logo a desfazer-se, mal o retirei do embrulho, como se se dissolvesse no próprio ar. Dei a minha primeira dentada ao pedalar para casa. Não era muito doce, e ficava granuloso na língua, como se fosse areia. Quanto mais mastigava, pior sabia. Tinha um velho comboio Lionel que pertencera ao meu pai. Quando o punha a trabalhar, o motor lançava fagulhas e um cheiro esquisito. Este cheiro assemelhava-se bastante ao sabor daquele doce. 46


Experimentei dar mais uma dentada, mas acabei por cuspi-la. O que restara no embrulho desfazia-se em pedaços cada vez mais pequenos, até ficar areia, até ficar poeira. Atirei o embrulho e os restos em pó para a mata. Passei o resto do dia a tentar tirar o gosto da boca. Mas mesmo escovar quatro vezes os dentes e bochechar cinco vezes com Listerine não foi suficiente. Sentia ainda a electricidade fumarenta do doce quando vesti o pijama e me deitei para dormir. Foi então que fechei os olhos e escutei algo que não deveria poder ouvir. Vozes. Centenas, milhares, milhões de vozes. Quando abri os olhos, pararam. Voltara tudo ao normal. Ouvia o tique-tique-tique do manómetro do aquecedor no quarto. Ouvia os carros a passarem na Trigésima-Segunda Avenida. Fechando os olhos, as vozes ressurgiram. Vozes normais. Pessoas a falar. Era como ter um rádio na cabeça, mas um que não apanhasse música ou notícias. Sintonizava as conversas que decorriam nas casas de todo o mundo. Escutava espanhol e chinês. Escutava japonês e alemão. Enchiam-me a cabeça vozes que falavam tagalog e hindu, hebraico e cotocoli, servo-croata e tailandês. Uma salgalhada de idiomas que nunca escutara antes, mas que passava a conhecer mal os ouvia. E quando me concentrava numa voz entre o burburinho, conseguia entendê-la. Escutava uma frase em coreano e sabia o que significava. Uma velhota queixava-se que a casa estava sempre fria. Não entendia apenas o que ela dizia. Compreendia também como era o mundo para alguém que usava essas palavras para o descrever. Compreendia como era a casa dela e como era habitá-la.

Em japonês, uma mulher explicava como se faziam bolos de arroz sólidos. Em português, um homem falava do gado do vizinho e como tinha melhor aspecto este ano. Por todo o mundo, pessoas falavam sobre o estado do tempo, e as palavras e a linguagem moldavam a forma que o clima assumia para eles, e eu compreendia. Quanto mais tempo permanecia de olhos fechados, a escutar vozes de todo o mundo, mais vozes compreendia de uma só vez. Passado um tempo, conseguia ouvir e acompanhar três falantes de três línguas diferentes ao mesmo tempo. Depois seis. Depois uma dúzia. Mais. E mais. Parecia que as palavras saltavam por toda a parte, dançando sobre superfícies inexoráveis. Como gotas de água numa placa em brasa, as palavras pulavam entre os contrastes e as ligações, entre e sobre as coisas. Cores que precisavam de duas palavras para nomear numa língua, como verde e azul, eram tonalidades diferentes da mesma cor noutra. Palavras com um significado numa língua, como relâmpago, eram um verbo noutra. E as palavras saltitantes fizeram-me entender em que superfície se moviam. Podia vê-la. Podia senti-la. As palavras faziam-me ver o que havia sob elas. Um olho. As palavras dançavam na superfície de um olho imenso. Encarei-o. Ao fazê-lo, retribuiu-me o olhar. Era a coisa mais assustadora e interessante que alguma vez tinha visto. Toda a noite, escutei as línguas do mundo. Não preguei olho até de madrugada, quando pararam abruptamente. Dormitei então, finalmente, mas a minha mãe não me deixou ficar na cama o dia todo, ainda que fosse Verão. Sentia-me mal. Tinha olheiras. A minha mãe disse-me que era no 47


que dava passar a noite acordado a ler banda desenhada, debaixo dos cobertores com uma lanterna, não me tinha já dito? Liguei a rádio e procurei a KBNO, Radio Qué Bueno. Esperava ainda conseguir compreender espanhol. Não conseguia. Devia ter perdido a capacidade de entender as outras línguas, também. Pedalei até ao ponto em que deitara fora o resto do doce. O embrulho ainda ali se encontrava, na mata, mas já não restava nada do doce. Talvez um cão tivesse por ali passado e lambido o resto do pó. Ou talvez tivesse sido levado, grão a grão, pelo vento. Poderia um cão ouvir e entender vozes humanas, ou será que ouviria o latir dos cães de todo o mundo? Poderia um formigueiro entender o enorme olho que os observava debaixo da película da linguagem? Mal podia acreditar que tudo aquilo tivesse acontecido, mesmo com o embrulho para o comprovar, mesmo lembrando-me daquele olho enorme que me observava, e observava, e observava. O olho. O imenso olho que tanto me assustou, embora, pensando bem, não parecesse de todo hostil. Bem, essa era a história que tinha para contar. Acaba-se o intervalo. — Mas que grande treta — diz o Ed, de forma a assegurar-me de que não acreditou. Talvez se esqueça de vir perguntar a que propósito entram as cassetes na história. Talvez não lhe interesse. O Rico encara-me com os olhos esbugalhados, depois benze-se e abana a cabeça. Mas fica-se por aí. Não me dizem que estou maluco, ainda que o pensem. Normalmente sou reservado quanto à história. Faço o meu trabalho. Os pisos pelos quais sou responsável estão sempre limpos e a brilhar pela manhã. As casas de banho, impecáveis. Ouço as cassetes.

Certas noites é russo ou quechua. Outras, mandarim ou hausa. Nunca tiro os auscultadores, mesmo quando estou em casa. Só páro de ouvir quando estou no duche. Tentei voltar à loja do Jack para encontrar outra barra como a primeira. Mas ele disse-me que não havia mais nenhuma. Nem sabia de onde tinha vindo a primeira. Não importaria, à medida que os anos passaram, que lhe oferecesse vinte e cinco cêntimos, um dólar, dez dólares, cem dólares. Se tivesse um milhão de dólares para oferecer, não teria feito diferença. Aos meus dezassete anos, o Jack morreu e a loja foi entaipada. Arranquei umas tábuas e vasculhei as estantes vazias, mas nunca mais encontrei um doce como aquele. Nem nunca me saiu da cabeça. Biblioteca atrás de biblioteca, tentei descobrir em que idioma estava escrito o embrulho. Não o encontrei. Copiei as letras e enviei-as a professores de línguas. A maior parte não respondeu. Outros, que enviaram cartas de volta, disseram que não conheciam a língua ou que se calhar as marcas nem faziam parte de um idioma sequer, e onde tinha eu encontrado aquilo? Mas nunca pensei que fosse boa ideia mostrar o embrulho a alguém. Ainda o tenho. Num lugar seguro. É demasiado importante para que outra pessoa o possua, embora tenha praticamente desistido de descobrir a sua origem ou outra daquelas barras de doce. Adorava poder encontrar aquele olho outra vez. Pomerancze é checo para laranjas. Farawla é árabe para morango. Ovos em japonês são tamago. Palavra a palavra, aprendo da maneira difícil. BANG! 48


Estávamos quase a chegar a Denver quando liguei o rádio do carro. Talvez tenha sido uma boa coisa o tê-lo feito, se bem que na altura não pensei muito nisso. Stephen e eu já estávamos a conduzir há quase vinte e quatro horas desde Nova Iorque, às voltas e voltas, a fazer paragens em restaurantes de fast-food e casas de pasto, dois homens que nunca se tinham conhecido antes do início desta viagem, até ao momento em que fui buscar Stephen à porta do seu escritório. Ele era um homem magro com cabelo louro liso e óculos pequenos e redondos. Um Lennon louro. Eu tinha entrado em contacto com ele através da rede. Grande parte daquilo que eu fazia, estes dias, era a rede. A Leste, a rede consistia em mensagens – de grande urgência – que me acordavam antes da alvorada com os seus bip bip insistentes, até que carregasse o botão de comunicação na minha mesa de cabeceira e permitisse que as letras holográficas se desenrolassem perante os meus olhos semiabertos. A Oeste, na área ocupada e em redor, a rede consistia em notas manchadas de gordura, colocadas em quadros de cortiça nas traseiras de restaurantes miseráveis que homens como eu frequentavam. Leste ou Oeste, todas as mensagens diziam o mesmo, apenas os detalhes diferiam: loura de olhos azuis, avistada no Colorado; ruiva na Califórnia; mulher de olhos cinzentos em Seattle; mulher de cabelos encaracolados em Phoenix; rapariga negra atraente no Wyoming. Depois disso, os pormenores tornavam-se íntimos, às vezes de forma ridícula – idade aproximada, tiques, sotaque. Raramente estas mu49


lheres davam um nome. Eram frequentemente acompanhadas por guarda-costas ou observadas por amantes possessivos e zelosos. Então pessoas como eu tinham que segui-las através de marcas de beleza e piscadelas de olho e as descrições dos sorrisos. Havia sempre algumas notas patéticas da parte de sonhadores que julgavam que seria fácil: Perdi a minha mulher no dia 27. De nome Mary Smith. Alguém a viu a Oeste? Eu ignorava essas notas. Penso que toda a gente as ignorava. Sabíamos que os sonhadores iriam ceder gradualmente à realidade e, desse modo, à aceitação ou a uma busca frenética. Nos últimos cinco anos, tinha seguido por todo o país uma loura magra de trinta e cinco anos com óculos, em todas as pausas, todas as férias, todos os fins-de-semana prolongados que conseguia obter do meu trabalho em Nova Iorque. Ela fora avistada no que restava de Denver, e em Whichita e em Pueblo e, uma vez, em Houston. A única característica que a distinguia era a de um dente da frente lascado. Lindsay, a minha mulher, tinha-o lascado numa queda de bicicleta quando tinha sete anos. Nunca se dera ao trabalho de o arranjar. Era uma pequena lasca e embora uma pessoa tivesse que ficar a olhar para a poder ver, dava ao seu sorriso uma qualidade ligeiramente enternecedora e assimétrica. Eu perseguia a descrição desse sorriso. Até agora nenhuma das indicações tinha sido bem sucedida. Não sabia se estava a perseguir Lindsay ou um fantasma de dente lascado. A minha mulher fora uma pessoa tão franca e tão competente. Se realmente fosse ela, porque não tinha feito esforços para contactar alguém? Porque não telefonara? Como era possível que não tivesse passado clandestinamente uma carta, uma nota da zona ocupada? Porque não tentara voltar para mim? Se eu conseguia encontrar a rede subterrânea, então certamente ela também seria capaz. Ela fora uma repórter, a melhor da sua profissão, antes de a zona ocupada a ter engolido sem deixar rasto. Talvez não quisesse ser encontrada. E no entanto uma pessoa ouvia histórias de mulheres mantidas prisioneiras, de mulheres que só eram permitidas em liberdade quando acompanhadas por uma escolta, de mulheres enviadas para a China, em enormes navios carregados de noivas. Eu tinha que procurar por Lindsay. Eu tinha. A busca era tudo o que me restava. Mas, após cinco anos, a busca custara-me as minhas poupanças, e o meu fundo de reforma. Com a economia no estado em que estava, e o Leste sobrecarregado de refugiados e psicopatas, com vítimas e homens de armas ansiosos por uma luta, eu precisava de ajuda para as viagens em direcção a Oeste. Um companheiro de viagem ajudava, e normalmente não faltavam homens também à procura de um caminho para Oeste. Homens que não possuíam os seus próprios carros, homens obcecados pelas suas buscas como eu, mas ainda mais empobrecidos. 50


Foi assim que eu conhecera Stephen, que procurava pela sua mulher, que fora avistada na área de Denver rodeada por uma escolta militar. Pelo menos, ele pensava que era ela. A primeira coisa que ele fizera, ao sentar-se no banco alquebrado do pendura do meu Ford Sierra, foi procurar no bolso da sua mochila militar verde, e retirar uma fotografia de carteira bastante gasta. — Paula. — dissera ele, mostrando-me a fotografia de uma morena com um ar sério e óculos de armação pesada. — Tínhamos uma quinta no Kansas. Há quinze anos. Nós não sabíamos. Foi num dos primeiros raides. Levaram-na. Eu acenara a cabeça, num modo quase desatento, desviando o olhar do seu rosto sulcado pela tristeza enquanto os seus dedos enormes e calejados acariciavam a imagem da face da mulher. Ficou em silêncio, a olhar para a fotografia, enquanto nós prosseguíamos o caminho para fora das ruas de Nova Iorque já a abarrotar de gente, em direcção à portagem de Nova Jersey, na frescura matinal de um dia de Outono. As ruas estavam cobertas de pessoas a caminharem, quase a par e passo tal era o seu número. Quase todos os que tinham possibilidade, todos os que não tinham morrido primeiro, tinham começado a migrar para Leste desde aquele dia há vinte anos em que as bombas tinham caído em Los Angeles e São Francisco, e Portland e Seattle, e o Comando Estratégico da Montanha Cheyenne em Colorado Springs e outras cidades, pequenas mas ainda assim lamentadas. Eu ainda era uma criança então, com apenas sete anos, mas lembrava-me da minha mãe ao telefone, na sala de estar vitoriana em Boston, a tentar ligar à tia Irene em Los Angeles. Lembrava-me da minha mãe a gritar, — Olá, Olá, Olá! — ao telefone que emitia um sinal tão alto que até eu conseguia ouvir a dois metros de distância. Lembrava-me das lágrimas a escorrerem-lhe pela face. Passara horas a gritar, incapaz de desistir até que o pai chegara a casa e retirara-lhe o telefone das mãos. Pessoas mais velhas tinham outras memórias desse dia, e, para metade da população actual de Nova Iorque, o dia 20 de Novembro permanecia como um dia de luto, rigorosamente cumprido, com missa solene em todas as igrejas, em todos os templos. Para mim, significava um dia livre. Um fim-de-semana prolongado que me deixava livre para prosseguir a minha busca a Oeste. Por causa da multidão, levou-nos umas boas duas horas para sair de Nova Iorque, e alcançarmos a portagem de Nova Jersey. Stephen não voltou a falar até lá chegarmos, e depois, enquanto eu virava para a estrada I-80 Oeste, no meio do denso tráfico de carros amolgados e camiões militares de abastecimento, ele disse: — É difícil segui-la, como podes ver. Cabelos escuros, olhos escuros, óculos. Pode ser qualquer uma. Podia ser um deles, embora eles não tenham muitas mulheres e tragam muito poucas para aqui, ainda assim… — abanou a cabeça. — Procurei por 51


ela perto das ruínas de Portland, e fui à procura dela em Phoenix. Denver não é muito provável. Não é na zona ocupada. A maioria das mulheres permanece lá por vontade própria. Mas pode ser ela. Ela pode ter conseguido escapar. Pode estar demasiado envergonhada, demasiado abatida para telefonar para casa. E se for ela, não posso deixar passar… — Tínhamos uma quinta no Kansas. — Ainda segurava na fotografia, e ficou a olhar para ela durante algum tempo antes de acrescentar, numa voz mais baixa. — Nunca os vimos a chegar, sabes? Quando dei por mim completamente desperto, já a tinham agarrado, e a empurravam para dentro de um dos carros deles, enquanto me seguravam sob a mira de uma arma, todos eles, dezoito pessoas. — Olhou para cima, através do pára-brisas, para o tráfego a passar como se não o visse. — Às vezes sonho que é de novo esse dia, e no meu sonho luto sempre… eu nunca vou abaixo sem dar luta. — Engoliu em seco, a sua maçã-de-adão visivelmente saliente no pescoço muito magro. Eu não respondi. A minha história era diferente. Lindsay partira para a zona ocupada, e não desaparecera num raide a meio da noite, mas eu lera o suficiente sobre isso para perceber o seu significado. Os chineses não tinham ocupado mais do que uns quantos postos avançados na costa. O que nós chamávamos de zona ocupada não o era realmente. Apenas uma área onde qualquer comunicação electrónica era interferida, onde todos eram sujeitos a raides súbitos, a buscas súbitas. Oh, também havia colonos, mas esses, de forma incongruente, tendiam a desertar para o nosso lado. Em vez disso, havia guarnições, grupos militares ou, se compreendi bem, grupos de raides de jovens desordeiros, um em cada grande cidade, um por cada aglomerado submisso de pessoas. Patrulhavam e policiavam, arrastavam de volta quaisquer dos prisioneiros que tentassem escapar, quaisquer uns entre os seus que tentassem desertar. Mas a tarefa principal deles consistia nos raides a meio da noite que tinham alargado a sua extensão à medida que a zona ocupada crescia em direcção a Leste. Lançavam ataques de guerrilha imprevistos a meio da noite, impossíveis de detectar até ao momento em que os carros cercavam uma quinta ou uma pequena cidade, a coberto da noite, e levavam com eles todas as mulheres e todas as raparigas, deixando os homens em estado de choque ou mortos. Oh, nós tínhamos contra-atacado. Homens e rapazes tinham organizado patrulhas e postos de verificação, contra-guerrilhas e contra-raides. De vez em quando, uma mulher conseguia escapar e regressar para a sua família. E no entanto, o facto é que eles nos levavam as mulheres. Talvez porque, por mais assustados que estivéssemos, por mais ressentimento que tivéssemos, eles estavam ainda mais desesperados, forçados à guerra e aos raides por uma política de cinquenta anos de uma-criança o que, de acordo com a cultura chinesa, significava inevitavelmente um-rapaz. Eles eram um país de rapazes, um país de homens forçados pela sua própria cultura a ansiar pelo filho que apenas uma mulher lhes poderia dar. 52


Para eles, as mulheres valiam mais do que a nossa terra, do que as nossas riquezas, do que o poderio da nossa civilização tecnológica. A força do seu desespero, a força da sua necessidade, o ímpeto suicida de uma sociedade composta quase exclusivamente por homens desesperados, tinha relegado a nossa própria civilização, a nossa superioridade tecnológica, para segundo plano. O nosso governo, no estado em que estava, cedo abandonou tácticas militares, e proibiu tudo o que pudesse ofender os convidados nas nossas costas – era o nome que lhes davam – e virou a sua atenção para um apaziguamento fútil e gestos conciliatórios patéticos. Assim, um punhado de bandos de homens tresloucados tinham impelido a maioria de nós a procurar refúgio a Leste e impedido qualquer retaliação eficaz, quaisquer esforços de salvamento, tirando estes – o de homens solitários, a conduzirem pelo país à procura das mulheres que tinham perdido. Homens que podiam ser repudiados, negados pelo seu próprio povo caso se metessem em problemas. Muitos deles, que não tinham no início lutado para defender as suas mulheres, pareciam agora sentir uma necessidade de ir procurar por elas, como penitência pela sua inacção. E eu… Eu devia ter proibido Lindsay de partir. De alguma forma, devia tê-la obrigado a ficar em casa. Eu devia… Lembrei-me da última discussão com ela e senti um arrepio. Uma chuva ténue começara a cair, demasiado fraca para impedir que os limpa-pára-brisas chiassem de encontro ao pára-brisas. Eu iria encontrar Lindsay, prometi a mim mesmo. Eu não voltara a falar após a primeira troca de trivialidades, e nem Stephen, nem mesmo quando comia hambúrgueres cheios de gordura enquanto conduzia, nem mesmo quando trocávamos de lugar na berma da auto-estrada sobrelotada. Depois da sua vez a conduzir, adormeceu. A poucas horas de Denver, cansado, nervoso, tinha ligado o rádio, a um volume muito baixo, o suficiente apenas para me fazer companhia, para me impedir de pensar. Mas os sons do rádio vinham de uma das raras estações chinesas, criadas com o propósito de entreter as tropas. A cantoria estridente e pouco melódica subia e descia de tom. Alcancei o botão do painel de controlo. — Desliga essa porcaria. — gritou Stephen. Nunca antes a sua voz se erguera acima de um murmúrio. Mas agora tinha os cabelos em pé. Todo ele tremia, e procurava por uma arma na sua mochila gasta. Todos nós transportávamos armas connosco. Todos os homens e a maioria das mulheres na zona ocupada e nas áreas em redor estavam armados. Por qualquer que fosse o seu valor perante um raide a meio da noite, com a sua multitude de intrusos suicidas e armados. Podia-se alvejar um, talvez dois, antes que uma bala nos encontrasse, antes que homens sem qualquer consideração pelas suas vidas retirassem as armas das nossas mãos. O que me perturbou foi a forma como a mão de Stephen tremia à volta da arma, 53


a forma como a sua boca se transformava num esgar, a forma como a arma apontava ao rádio. — Malditos sejam! Malditos sejam. — disse ele. Levei a mão ao rádio. Rapidamente, desliguei o interruptor. A música parou. A mão de Stephen ainda tremia. Fez um gesto com a arma, apontando-a para mim. — Não voltes a ligar isso. Todos os rádios deles emitiam isso… Naquela noite. Não o consigo suportar. Não consigo… — Guarda a arma. — Disse-lhe calmamente. Não era a primeira vez que me encontrava com uma arma apontada na minha direcção. Não seria a última. — Guarda a arma. Obedeceu com mãos trémulas. — Se ao menos tivesse apanhado um dos filhos da mãe. — disse ele. — Se ao menos tivesse morto um dos filhos da mãe. Se… A sua voz arrastou-se numa fala confusa de arrependimento, até cair em silêncio. Eu nada disse, continuando a conduzir como se o incidente nunca tivesse ocorrido. Companheiros de viagem instáveis não eram nada de novo. Estava à procura apenas há cinco anos. Eu não tinha visto a Lindsay a ser levada. Apenas presumi o seu desaparecimento nessa terra de onde ela nunca regressara. Se tivesse sido de outra forma, também eu estaria assim, tão cheio de raiva? Por fim, Stephen adormeceu de novo. Não me atrevi a ligar o rádio. A noite caíra, e, ao contrário do Leste, onde a pressão da população aglomerada pusera uma luz em cada metro quadrado na escuridão, aqui a escuridão era um silêncio vazio e cerrado – campos e quintas abandonados, cidades abandonadas, geada a cobrir os campos deixados ao descuido. Mais a sul havia crateras, consequência do ataque inicial, mas nunca chegámos a conduzir tão a sul. Diziam que o declive da Montanha Cheyenne brilhava à noite. De alguma forma, duvidava disso. Parecia algo saído de um filme vulgar de ficção científica. A noite, a escuridão, a ausência de luz, os solavancos rítmicos na auto-estrada abandonada, tudo combinou para que eu fosse atraido pelo sinal que brilhava à berma da auto-estrada num ofensivo verde e laranja néon, Aberto toda a noite. Café. Refeições. O restaurante em si consistia num edifício baixo de cimento, com uma janela com placa de vidro saída de uma outra era. O vidro estava agora partido e quebrado, e fita-cola de cores diferentes cobria as rachas, enquanto que maços de jornais estofavam as aberturas mais largas. A Oeste era difícil ter acesso a materiais, a não ser que fossem recolhidos do lixo. No interior, a atmosfera combinava com o exterior – vinte ou mais compartimentos cobertos por vinil verde rachado agrupados junto à janela de placa de vidro, as suas mesas cobertas por uma boa camada de pó. O pó cobria também o balcão largo de metal luzidio. O Oeste era empoeirado e obviamente que os donos já tinham desistido da tarefa de limpar as mesas a não ser que fossem usadas. Se não fosse o cheiro do café e bacon vindo de algures das traseiras, teria julgado o sítio abandonado. Mas ao entrar, a voz de uma mulher chamou das traseiras. — Alto aí. 54


A voz de uma mulher era uma tal raridade por estas partes que fiquei especado, surpreendido. Então o rosto redondo e sorridente de uma morena surgiu de uma porta nas traseiras. Tinha um bebé preso às suas costas, mas usava um avental rosa brilhante, limpo, e sorriu na minha direcção. — O que precisa? — Algum café. — disse eu. — Também temos bolos frescos. — disse ela. — Acabados de cozer. Algo nela parecia-me estranhamente familiar, mas não me conseguia recordar onde a tinha visto antes. Talvez uma das amigas da Lindsay? Ou uma colega minha da universidade? Não podia ser mais do que um conhecimento casual, para não deixar mais do que essa reminiscência, essa impressão de já a ter visto algures antes. Eu ainda trabalhava como fotógrafo. Rostos não eram fáceis de esquecer. E no momento em que pensei no meu trabalho, apercebi-me onde tinha visto antes aquele rosto. Então parecera mais sorumbático, pensei eu, e menos feliz, mas tinha sido – era – sem dúvida alguma o mesmo rosto. Lembrei-me da fotografia, a tremer por entre os dedos de Stephen. Paula. Já não usava óculos, mas não havia dúvidas de que era ela. No momento em que pensei isto, no momento em que abria a boca para oferecer ajuda – incerto sobre que tipo de ajuda oferecer – um homem espreitou pela porta das traseiras. — Acabei de retirar os bolos do forno. — disse ele, numa voz com um ligeiro sotaque. Tinha uma idade próxima da minha e parecia tão feliz e despreocupado quanto a mulher. Era também, sem lugar para dúvidas, chinês. Por um momento permaneci pregado ao chão, paralisado. Casamentos mestiços não eram raros. Nem era raro existir chineses em redor da zona ocupada. Desertores normalmente não se aventuravam para Leste, onde os seus rostos poderiam inspirar homens frustrados a uma vingança fútil. Até mesmo os chineses americanos preferiam optar por viver ao alcance do perigo dos raides do que se aventurarem em áreas onde se arriscavam a mortes mais rápidas. Paula deve ter lido a minha cara. O seu sorriso abandonou-a e, por um momento, pareceu tão sorumbática como a mulher da fotografia. — Eu trago-lhe o seu café. — disse ela. — Não. — disse eu. — Não. Não é… Quer dizer… — Olhei para a porta da cozinha, onde o homem se encontrava agora com um ar grave, e a olhar de forma suspeita. — Eu não… Olhe, a sua vida não é da minha conta. — O bebé que ela carregava às costas tinha claramente feições asiáticas. — É que… quer dizer, julguei que fosse alguém que conheci. Paula. Paula Martin. A mulher soltou a respiração e retrocedeu um passo. O seu homem surgiu das traseiras, com uma arma. 55


— Bao Ling. — disse ele. E fez um gesto para ela se proteger. Ela estava muito pálida, mas abanou-lhe a cabeça, e ele baixou a arma, o seu olhar de suspeita ainda preso em mim. — Não lhe vai contar, pois não? — perguntou ela. Os seus olhos castanho-escuros brilhavam, cheios de lágrimas — Vai contar ao Stephen? Eu amava-o, a sério, amava-o. Ou pensava que sim, na altura. Mas éramos tão jovens e… não é um homem fácil de lidar. Sempre senti que não era boa o suficiente para ele. E depois fui levada e fui tratada… — A sua voz exprimia grande admiração. — Fui tratada com o maior respeito. E apaixonei-me por Si Jun. Estava planeado que eu partisse para a China num dos navios destinados a noivas. Ele era um dos meus guardas. Fugimos juntos. Temos três pequenas raparigas e… este rapaz. — apontou para o bebé, a dormir serenamente nas suas costas. — São a minha família. São tudo o que amo. Sou muito feliz. Stephen… Stephen estava no carro, a dormir. Deveria dizer-lhe? Olhei para o seu marido – certamente que era agora o seu marido, por tudo o que há de mais sagrado – ainda especado nas traseiras, a segurar a arma. Stephen também tinha uma arma. Conseguia imaginar o fogo cruzado, a morte de uma família. Duas rapariguinhas de cabelos escuros espreitavam agora da porta das traseiras. Usavam rabos-de-cavalo e pequenos vestidos brancos com folhos em torno das saias pequenas. Estavam meticulosamente limpas. Os céus sabem o que era preciso para manter crianças limpas na terra do pó e destruição. — Se eu quisesse fugir de volta para o Stephen, podia tê-lo feito. — disse ela. — A maioria das mulheres podia fazê-lo. Ouça, senhor… — Esperou por um nome que não lhe dei. — Si Jun chama-me de Bao Ling. Isso significa tesouro raro precioso. Nós… As mulheres são tesouros para eles. Mais do que iguais. Superiores. Algo para ser acarinhado. — ela suspirou. — Deixe-nos viver. Ouvi a porta do carro a bater no exterior. Retrocedi, primeiro lentamente e depois de forma mais rápida. A arma de Si Jun não voltou a apontar para mim, mas todos os olhares seguiram-me quando irrompi pela porta para o exterior, para o ar fresco. Stephen estava parado junto ao carro, com um ar confuso. — Acordei e fiquei a pensar. — disse ele. Tinha a arma na mão. — Está tudo bem contigo? Acenei com a cabeça. — Sim, estou bem, mas este lugar está abandonado. Devias ver as baratas. — A minha voz tremia com o nervosismo e disfarcei-a com uma gargalhada insegura. — Vamos embora, vamos procurar por outro sítio. Por um momento, julguei que fosse recusar. Por um momento, julguei que fosse insistir em entrar. Mas a hesitação devia ser resultado do seu estado de sono. Abriu a porta do carro. Entrou. Sentei-me no banco do condutor, e saí do parque de estacionamento, como se estivesse a ser perseguido por demónios, em vez da memória do rosto sorridente de 56


uma mulher feliz, duas meninas de rabo-de-cavalo, e um bebé a dormir. Parámos no Pete, um restaurante com meio século no coração de Denver, onde outros homens se agrupavam em torno das mesas de fórmica, com mapas e notas. Sentei-me numa das mesas e beberiquei café amargo. Stephen foi à casa de banho e regressou, momentos depois, com uma nota nas mãos. — Mulher de cabelos escuros com óculos avistada em Topeca. — disse ele, e sorriu para mim. — Às compras com um homem asiático. Parecia agir sob coacção e assustada. Tinha um ar sério e cansado. Pode ser que seja a Paula. Acenei-lhe com a cabeça. — Eu posso arranjar uma boleia para mim com alguém que vá nessa direcção. — disse ele. — E tu? Agarrei no anúncio impresso que me tinha trazido até aqui. Jovem loura com um dente da frente lascado avistada a tirar notas em Denver. A tirar notas sobre quê? Quem saberia? Lembrei-me da última vez que vira Lindsay. Dissera-lhe que não podia ir à zona ocupada em perseguição de uma história. Era demasiado perigoso. Ela dissera que ia partir. Estava a arrumar as roupas na sua pequena mala de viagem mesmo enquanto falava. Nós éramos muito jovens. Dolorosamente jovens. Casados há um ano apenas. Dissera-lhe que não iria permitir que ela fosse. Gritara-lhe que se ela partisse, mais valia não regressar. Lembrava-me da porta a fechar-se atrás dela. Lembrava-me dela a correr para o carro, e o som que os pneus fizeram, a guincharem pela nossa entrada. Nunca mais voltara a ouvir nada da parte dela. Fitei o anúncio. Ouvi Bao Ling dizer que qualquer mulher que quisesse podia partir. Quase qualquer mulher. E, no entanto, que mais poderia fazer senão procurar por Lindsay? Talvez ela fosse uma dessas que era mantida presa contra a sua vontade. Talvez… Os meus olhos estavam cheios de lágrimas que fizeram com que os homens à minha volta parecessem distorcidos como fantasmas, como memórias semi-esquecidas. Não me conseguia recordar do rosto de Lindsay. Apenas o cabelo louro, o dente lascado. — Estás bem? — perguntou Stephen. — Se for para Topeca, ficas bem sozinho? Olhei para cima e pisquei os olhos, e respirei fundo o ar que cheirava a café e bacon. Em meu redor, as conversas dos homens subiam e desciam de tom, nomes de cidades atirados no desespero da busca, na noite da solidão: Topeca, Wichita, Phoenix, Austin. A solidão era um sabor na língua, um frio palpável como a chegada do Inverno a alcançar a névoa de geada de Novembro para se abater como gelo sobre as nossas certezas, a nossa cultura, a nossa própria existência. — Sim. — disse eu. — Fico bem sozinho. BANG! 57


O ENCONTRO - Primeiro volume de:

As Crónicas da Espada FRITZ LEIBER

Janarrl, entrando na câmara de tortura nas profundezas do forte, sentia uma forte onda de exaltação, como nos momentos em que ele e os seus caçadores cercavam um animal para a matança. Mas sobre esta onda surgia um resvalar de medo. Os sentimentos dele eram os de um homem esfomeado convidado para um banquete sumptuoso embora avisado por um adivinho que temesse a morte por envenenamento. Era perseguido pelo rosto febril e assustado do homem ferido no braço pela espada de bronze corrompida. Os olhos dele encontraram os do aprendiz de Glavas Rho, cujo corpo semi-desnudo se esticava – embora ainda não de forma dolorosa – sobre a tarimba, e o sentido de medo do Duque ficou mais forte. Aqueles olhos estavam muito vivos, muito frios e ameaçadores, muito sugestivos de poderes mágicos. Disse a si mesmo com raiva que um pouco de dor depressa mudaria aquele olhar para pânico encurralado. Disse a si mesmo que era natural que ainda se sen-

tisse perturbado pelos horrores da noite passada, quando a vida quase lhe tinha sido privada por intermédio de feitiços sujos. Mas no fundo do coração sabia que o medo iria acompanhá-lo – medo de tudo ou de todas as coisas que um dia se revelassem mais fortes do que ele e lhe causassem dano como causara dano a outros – medo dos mortos que causara – medo da falecida esposa, que conseguira ser mais forte e cruel que ele e que o tinha humilhado de mil formas na sua memória. Mas sabia também que a filha em breve iria surgir e que poderia passar-lhe esse medo; fazendo com que ela mesma o sentisse, conseguiria sarar a sua coragem, como fizera tantas vezes no passado. Pelo que, confiante, assumiu o lugar que lhe era devido e deu ordens para que começasse a tortura. À medida que a roda gigante estalava e as amarras de couro do pulso e dos tornozelos começaram a apertar, Rato sentiu o pânico desesperado tomar-lhe conta do 58


corpo. Centrou-se nas articulações – aquelas junções de ossos normalmente isentas de perigo. Ainda não chegara a dor. O corpo estava apenas um pouco esticado, como se em resultado de um bocejo. O céu baixo chegava-lhe perto do rosto. A luz trémula das tochas revelava os veios na pedra e nas teias poeirentas. Na direcção dos pés podia ver a porção superior da roda, e as duas mãos grossas que agarravam nos eixos, puxando-os para baixo sem esforço, devagarinho, parando vinte pulsações de cada vez. Virando a cabeça e olhos para o lado, conseguia antever a figura avantajada do Duque – não tão redondo quanto o boneco que o representara, mas ainda assim largo – sentado num cadeirão feito de uma peça de madeira, enquanto dois homens armados estavam de guarda a seu lado. As mãos castanhas do Duque, anéis de jóias a lançar fogo, cerravam-se sobre os nós dos braços da cadeira. Os pés sustinham-se firmes. O seu maxilar estava firme. Apenas os olhos denunciavam inquietação ou vulnerabilidade. Continuavam a saltar de lugar para lugar – rápida e regularmente como os de um boneco. - A minha filha devia estar aqui – ouviu o Duque dizer com uma voz neutra. – Apressem-na. Não lhe é permitido demorar-se. Um dos homens saiu rapidamente. Depois as garras da dor começaram a tomar conta dele, atacando ao acaso no antebraço, nas costas, nos joelhos, no ombro. Com um esforço, Rato compôs-se. Fixou a atenção nos rostos que o rodeavam, apreciando-os detalhadamente como se formassem uma imagem, notando os relevos das bochechas e olhos e barbas e sombras a dançar com a luz das tochas sobre as paredes do fundo.

Então as paredes derreteram-se e, como se a distância perdesse substância, encarou o resto do mundo para lá delas: as vastidões de floresta, o deserto de âmbar brilhante, o mar turquesa; o Lago dos Monstros, a Cidade dos Vampiros, Lankhmar, a magnífica, a Terra das Oito Cidades, as Montanhas da Passagem dos Duendes, o Deserto Gelado, e por acaso, deambulando por ali, a figura de um jovem ruivo, forte, que avistara entre os piratas e a quem mais tarde dirigira a palavra – todas as pessoas e lugares que agora não iria mais ver, reveladas num detalhe espantoso, como se esculpidas e pintadas por um mestre miniaturista. Com um retorno súbito a dor manifestou-se e aumentou. O incómodo transformou-se em pontadas de agulhas – enterradas nas entranhas – dedos de força que lhe subiam pelos braços e pernas em direcção à espinha – remoinho nas ancas. Desesperado, fez força contra elas. Depois ouviu a voz do Duque. - Mais devagar. Parem um pouco – Rato julgou reconhecer tons de pânico na voz. Revirou a cabeça, apesar das dores que lhe custou o gesto, e encarou os olhos perturbados. Viajavam para trás e diante, como pequenos pêndulos. Subitamente, como se o tempo já não fosse verdadeiro, Rato viu outra cena no aposento. O Duque estava ali e os olhos passeavam de um lado para outro, mas era mais jovem e havia pânico aberto e terror nos seus olhos. Perto dele estava uma mulher espantosamente atraente num vestido vermelho escuro de decote generoso e traços de seda amarela. Esticada sobre a tarimba, no lugar de Rato, estava uma criada bonita mas que agora se desfazia em gemidos, a ser interrogada pela mulher de ver59


melho, com grande frieza e insistência nos pormenores, sobre os encontros amorosos dela com o Duque e no atentado à vida da esposa deste por envenenamento. Passos quebraram a cena, como pedras destroem um reflexo na água, e trouxeram de volta o presente. Depois uma voz: - A vossa filha aproxima-se, meu Duque. Rato compôs-se. Não tinha percebido o quanto receara o encontro, mesmo na sua dor. Estava certo de que Ivrian não seguiria o pedido que lhe tinha feito. Não era má, sabia bem, nem pretendera traí-lo, mas também não tinha coragem. Chegaria a lamentar-se, e a angústia dela acabaria com o resto do auto-controlo dele e estragaria os seus derradeiros e loucos planos. Passos mais ligeiros aproximavam-se – os dela. Havia neles uma compostura curiosa. Significava dor acrescida para ele virar a cabeça de forma a encarar a entrada, e ainda assim fê-lo, observando a figura dela definir-se ao entrar na região de luz carmim lançada pelas tochas. Depois observou os olhos. Estavam esbugalhados e observantes. Fixos directamente nele. E não se afastaram. O rosto mostrava-se pálido, calmo e de uma serenidade mortal. Viu que ela escolhera o vestido de vermelho escuro, de decote generoso e traçado a seda amarela. E a alma de Rato exultou, pois percebeu que ela tinha seguido as instruções dele. Glavas Rho dissera: «o sofredor poderá canalizar o sofrimento para o opressor se este for tentado a abrir caminho para o seu ódio.» Havia agora um canal aberto que conduzia à alma interior de Janarr. Rato apressou-se a fixar o olhar nos

olhos abertos de Ivrian, como se fossem poços de magia negra numa lua fria. Esses olhos, percebeu, receberiam o que ele lhes desse. Viu-a sentar-se ao lado do Duque. Viu o Duque olhar de lado a fila e ficar sobressaltado como se visse um fantasma. Mas Ivrian não o encarou, fez com que a mão lhe agarrasse o pulso, e o Duque afundou-se na cadeira a tremer. - Continuem! – escutou o Duque ordenar aos torturadores, e desta vez o pânico na voz dele estava muito perto da superfície. A roda girou. Rato ouviu-se a si mesmo gemer dolorosamente. Mas havia algo nele agora que podia cavalgar a dor e que não participara no gemido. Sentiu que havia agora um caminho traçado entre os olhos dele e os de Ivrian – um canal de paredes rochosas através do qual as forças do espírito humano e de algo mais que espírito humano poderiam ser enviados como uma torrente montanhosa. E mesmo assim ela não desviou o olhar. Nenhuma expressão lhe atravessou o rosto quando ele gemeu, apenas os olhos pareceram escurecer ao tornar-se mais pálida. Rato sentiu uma mudança de sentimentos no corpo dele. Através das águas escaldantes da dor, o ódio ergueu-se à superfície, cavalgou nela também. Enviou-o pelo túnel de paredes rochosas, viu Ivrian tornar-se mais funesta ao entrar nela, viu-a apertar os dedos no pulso do pai, sentiu o tremor que o pai não conseguia mais controlar. A roda girou. Vindo de longe, Rato ouviu um gemer contínuo e de rasgar o coração. Mas uma parte dele já não estava no salão – sentia-se nas alturas, no vazio gelado acima do mundo. Viu debaixo dele, espalhado, um panorama nocturno de 60


montes e vales cobertos de florestas. Junto ao cume de um monte havia um amontoado de pequenas torres de pedra. Mas como se estivesse dotado de um olho de abutre mágico, conseguia ver através das paredes e dos telhados das torres, ver as entranhas, ver um salão no qual homens minúsculos como insectos se reuniam. Alguns mexiam num mecanismo que infligia dor numa criatura que poderia ser uma formiga branca a contorcer-se. E a dor da criatura, cujos choros milimétricos se faziam ouvir, teve um efeito estranho sobre ele,, fortalecendo os poderes interiores e libertando-lhe um véu dos olhos – um véu que escondia por debaixo todo um universo negro. Pois começou a escutar em volta de si um murmúrio possante. A negritude frígida era cortada por asas de pedra. A luz de aço das estrelas penetrava-lhe no cérebro como facas sem dor. Sentiu um remoinho poderoso feito de mal, como uma enchente de tigres negros, lançado sobre si mesmo desde as alturas, e percebeu que estaria nas suas mãos controlá-lo. Deixou que corresse pelo corpo dentro e depois lançou-o pelo caminho certeiro que juntava dois pontos escuros na sala pequena lá em baixo – os olhos inamovíveis de Ivrian, filha do Duque Janarrl. Viu o negrume do coração do remoínho espalhar-se no rosto dela como uma mancha de tinta, escorrer-lhe pelos brancos braços, tingir-lhe os dedos. Sentiu-a apertar convulsivamente a mão no braço do pai. Viu-a lançar a outra mão para o Duque e erguer os lábios abertos contra o seu rosto. Então, por um único instante enquanto as chamas das tochas se agitavam leves e azuis num vento físico que parecia soprar entre as pedras funestas desta câmara subterrânea – um instante no qual os tortura-

dores e guardas pousaram as ferramentas do ofício – um instante indelével de ódio alcançado e vingança realizada, Rato viu o rosto forte e quadrado do Duque Janarrl agitar-se perante o derradeiro terror, as feições contorcidas como um pano entre mãos invisíveis, depois abatidas em derrota e morte. O que suportava Rato estalou. O espírito dele caiu como chumbo sobre a câmara subterrânea. Dor agonizante enchia-o, mas prometia vida e não morte. Sobre a sua pessoa situava-se o baixo céu de pedra. As mãos sobre a roda eram brancas e delgadas. Depois percebeu que a dor provinha de estar a ser libertado da tarimba. Lentamente Ivrian desapertou os anéis de couro dos pulsos e tornozelos dele. Lentamente ajudou-o a descer, sustentando-o com toda a força que tinha enquanto se arrastavam pela câmara, de onde toda a gente já fugira em pânico, com excepção de uma figura, coberta de jóias e abatida sobre si mesma num assento talhado na madeira. Pararam ao passar por ela e Rato observou o morto com o apreço frio e satisfeito de um gato. Depois, subiram ambos, passando por corredores esvaziados pelo medo, e saíram para a noite, Ivrian e o Rateiro Cinzento. BANG!

O ENCONTRO Vol. I de As Crónicas da Espada de Fritz Leiber Data de publicação: 22 / 03 / 2007

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Tradução de: Luís Filipe Silva


Farruscas, honrado deputado condecorado, gajo alto e bem nutrido, cujo lábio inferior grosso pende em períodos de nervosismo, óculos a adornarem o rosto oval com ligeiro ar mongolóide, é um herói da nação. Nunca sai de casa sem escovar o fato Armani, ajeitar a gravata Hermès, dar um pontapé valente na porcaria do cão e... desflorar um menino. Trazem-no, de propósito, do Colégio para que o desflore. Ele telefona a encomendar. É à escolha do cliente (“A lista é um pri-

mor!”) e o Farruscas é um excelente, generosíssimo freguês. - Hoje vai... – e palita o dente cariado, distraído – ora avie-me um rapazola dos seus onze, doze anos, não mais, enjoa, faz-me mal à vesícula, cabelo curto loiro, franja a esconder os olhos. Confiante. Branquinho, branquinho como os borreguinhos. Lubrifiquem bem a zona anal que eu hoje estou com pressa, há uma votação parlamentar – e desliga com um sonoro arroto. 62


Palavras para quê: é um um herói heeró h rói ói n nacional. acional. i Há uma série de heró ró óis is q ue o senho or heróis que senhor Bentley anda a seguir lá do al alto alto, to o, céu cééu adenadeen ad ntro, voando no seu guarda-chuvaa fiel. e . Hoje el Ho ojjee está no exterior, à espreita pela persiana persiana. a. - Ai que nojo – diz o senhor Bentley de rosto distorcido e ombros subidos, – enrabar meninos. Puáh – e cospe como se tivesse engolido um fruto azedo azedo. Mas respeita-o porque, para ele, as crianças são nojentas, ranhosas e fétidas. - Sabe-se lá por onde é que andou... O Farruscas empertiga-se, parece um melro apanhado em falso. Adivinha a fonte dos sussurros. Desliza a carne em passinhos miúdos de rinoceronte e, já a suar, confirma a suspeita. O senhor Bentley manda-lhe beijinhos nos dedos, ele esconde-se, a tremer. Quando o garoto chega é rapidamente despachado de volta para o Colégio. Bentley abre a persiana de rompante e, sorrindo, acena-lhe um olá. Farruscas sai a correr de casa, espavorido. O Enraba-Passarinhos segue-o, guarda-chuva numa mão e megafone na outra. - É um gajo, um gajo! Não fica doente nem nada! Põe a piroca em meninos, criaturinhas que andam sempre doentes, ele é tosse convulsa, poliomielite, sarampo, hepatites, sífilis, e o gajo Nem Uma Doença Apanha! Saúde de ferro! Abram alas para o Farruscas! Batam Palmas ao Farruscas!

qu ue o esperavam esspera rava ra vam ri va iso onh nhos os. Mal Mal vislumMa vviisl slum lum umque risonhos. bram a Bentley a cumprimentá-los cum mpr p imen ntá-los efusivaefu f siva vame entte atra aatravés at traavéés daa jan jjanela, an anel nella, a, ttornam-se orrna orn namamm-se p á id ál idos mente pálidos e pe p perd erd dem m o ccon ontr on trolo lo musc mu ussccularr das dass pernas perdem controlo muscular e jjo joelhos. oel elho lho ho oss. Caem Cae aem m nas naas ca ccadeiras adeeir iras almofadadas com o peso pesso so de de uma u a pedra tumular. um Dali o senhor Bentley segue-os para o Monte Alentejano de um deles, onde lhes estraga o dia de caça e se diverte a fugir como um garoto traquinas das balas tresmalhadas (cerca de noventa e nove por cento, mas isso agora não vem ao caso). Só ao fim do dia é que se chateia com a diversão, exactamente na altura em que os perseguidos (‘tadinhos) chamam a polícia. O senhor Bentley desce obedientemente dos céus e deixa-se arrastar pelos ombros pelos agentes da Pêjota, os tacões a rojarem na terra, enquanto grita a plenos pulmões, de megafone em punho: - Uns senhores! Uns Senhores! Sem uma doença! Nem uma unha partida! Nadica! Uma pessoa a julgar que quem se mete com crianças, graúdos e pequenos, fica carregadinho de maleitas! E afinal! Afinal NÃO LHES ACONTECE NADA. UNS SENHORES, LORDES À MODA ANTIGA, CHEIOS DE FORÇA, DE RAÇA! SIM SENHOR, ESTOU RENDIDO!

Por esta altura já os agentes da Judite o haviam largado porque, francamente, não têm ouvidos de ferro. Bentley prende o cabo do chapéu à gola do sobretudo, encaixa cada um dos braços no dos agentes e leva-os, a estrebuchar, céu acima. Como pombinhos, piupiu. Dançam os três. Cantam-se aleluias. Ouvem-se hossanas (lá nas alturas). Os gajos de baixo emitem um colectivo suspiro de alívio ao verem o Enraba-Passarinhos voar para longe, muito longe... BANG!

FARRUSCAS: O HERÓI NACIONAL!

E não é que o senhor Bentley não creia nestas palavras aparentemente venenosas – ele crê. Para o senhor Bentley o essencial é seguir a nossa natureza, seja ela qual for, e aceitar o destino final a que nos encaminhe. O herói da nação juntou-se, no restaurante, ao Papa-Meninos e ao Marechal, 63


biografias dos participantes

Correm rumores que Eduardo Capela se esconde numa instituição de ensino superior na zona de Lisboa, enquanto tenta descobrir os segredos do Universo. Outros rumores asseguram que já os terá descoberto. “Pink Penguin” parece ser prova disso…

Actualmente a viver em Moscovo, onde trabalha como professor de Português e Inglês, Ricardo Tinoco faz parte do corpo editorial da revista Neo, do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade dos Açores, na qual publica regularmente. “O Braço Tatuado” recebeu uma menção honrosa no concurso Guimarães Rosa/RFI.

O americano Lawrence Schimel é escritor, antologista e tradutor, tendo publicado cerca de 70 livros. Vive presentemente em Madrid, onde escreve livros para crianças. O seu compatriota Mark A. Garland é autor de três romances e várias novelizações, duas delas no universo Star Trek. Vive no estado de Nova Iorque. Site: www.circlet.com/schimel.html

Bruce Holland Rogers, escritor norte-americano, gosta de explorar as várias vertentes da ficção especulativa. Orienta frequentemente cursos de escrita criativa, dá palestras e escreve artigos de opinião. Tornou-se notado por proporcinar, a quem pague cinco euros de inscrição, um ano repleto de ficção curta enviada por email. Site: www.sff.net/people/bruce

João Bengelsdorff tem 33 anos, é lisboeta, tem uma filha, e vive o dia-a-dia rodeado por livros. Tal como o anão Pursewarden, João faz por passar despercebido…

Sarah de Almeida Hoyt viveu durante vários anos numa localidade perto do Porto. Agora nos Estados Unidos, publicou perto de uma dúzia de livros, em vários géneros. Publicou também cerca de quarenta contos. Site: www.sarahahoyt.com/

Nascido em Luanda, Miguel Santos frequentou cursos de artes gráficas na Ar.co e na Edge, e é actualmente estudante de Arqueologia e História.

Presença familiar nas páginas da Bang!, Ágata Ramos Simões mora em Lisboa, onde por vezes se cruza com o Sr. Bentley. O Mundo espera ansiosamente por mais frutos da sua imaginação. Site: escrita.blogspot.com

Ricardo Mendes nasceu em Cascais em 1980, é casado e tem uma filha. É formado em Turismo, mas cedo surgiu um desencantamento em relação a essa área, levando-o a procurar outros caminhos profissionais. Foi premiado várias vezes no DN Jovem, sendo presença assídua na publicação on-line. 64


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