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Igreja Episcopal Anglicana do Brasil

Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento

SADD Julho – 2010 Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento - SADD •

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SADD

uma caminhada de serviço “Não tenho um caminho novo, o que eu tenho de novo é o jeito de caminhar” Thiago de Melo

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sses três anos (2007-2010), foi o tempo de gestar um projeto que por muito tempo era um sonho que se concretizou com uma realidade necessária para nossa igreja no Brasil. O SADD tem ajudado a igreja na reflexão criteriosa, séria e cuidadosa do que é o serviço para a transformação de vidas. Somos gratos a Deus pelo apoio e parceria do Episcopal Releif & Development (ERD), pela ação da equipe de trabalho, que tem se oferecido como sinal concreto e responsável do servir ao próximo, servindo a sua Igreja. Nesse caminhar, muitas pessoas foram atendidas em atividades de formação no âmbito diocesano, regional e provincial. Nesse processo tem sido possível visibilizar a ação da igreja em resposta as Metas de Desenvolvimento do Milênio (MDGs). Dentre as oito metas propostas pela Organização das Nações Unidas (ONU), a IEAB tem atuado, através das ações sociais diocesanas e do distrito, buscando atender a cinco dessas metas, sendo estas: Erradicar a pobreza e a fome; Universalizar o acesso a educação primária; Melhorar a saúde materna; combater HIV/ AIDS, malária e outras doenças; Garantir a sustentabilidade ambiental. Com certeza, desejo que esse projeto cresça na maturidade e na estatura do serviço para a transformação. Vamos adiante seguindo esse novo jeito de caminhar. Do vosso Primaz D. Maurício Diagramação e Arte final André Machado Fortes

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A Diaconia Social e Política: tarefa essencial da Igreja na sociedade humana - uma reflexão teológica Por D. Sebastião Armando Gameleira Soares Bispo da Diocese Anglicana do Recife

Introdução A perspectiva desta reflexão é teológica, isto é, trata-se de recordar princípios básicos da fé bíblica, que assumimos como orientadores da maneira de viver na sociedade, pessoal e coletivamente. Ora, se princípios teológicos não são algo meramente teórico ou abstrato, mas reflexão sobre a prática da fé, mediante a qual captamos a Revelação de Deus, é evidente que a reflexão teológica tem repercussões na prática espiritual, moral, pastoral e missionária da Igreja e de seus membros. Na verdade, a ação depende em boa medida da visão e esta, por sua vez, também se deixa marcar pelo que fazemos na prática. Além disso, temos de ter presentes repercussões sociológicas da reflexão teológica, pois a vida da Igreja e de seus membros se desenvolve no contexto concreto da sociedade na qual se dá nossa inserção. Ou seja, a partir da inspiração de nossa fé e dos princípios bíblicos aos quais se refere, é que temos orientação para compreender devidamente a realidade social, mediante a análise sociológica, e para nela atuar, mediante a ação pastoral, missionária e sociopolítica.

1. Princípios fundamentais da Diaconia Social: A Bíblia compreende o ser humano como imagem e semelhança de Deus. Este é um princípio universal que alcança toda criatura humana no mundo, independentemente de sua condição concreta. Nos dois primeiros capítulos do Gênesis, macho e fêmea constituem o conjunto humano designado como “Adam”, “Terrestre” (cf. 1, 26). A imagem de Deus se expressa no homem e na mulher em conjunto, ou seja, na humanidade enquanto coletividade sexuada: “Deus criou Adam a sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea os criou” (1, 27). No 2º capítulo, acrescenta-se que o marido é “ix” e a mulher é “ixah”, ou seja são o masculino e o feminino do mesmo ser, destinados “a tornar-se uma só carne” (2, 23). A simbologia é muito expressiva. O ser humano é feito do “húmus” da terra, “humano” quer dizer da terra. É da “argila” do solo que também brotam todos os vegetais e é dela que são feitos os animais (2, 9. 19). Há portanto profundo parentesco entre todos os seres terrestres, dos minerais ao ser humano. E assim como há o vínculo matrimonial entre homem e mulher, assim também tem de ser entre o ser humano e a terra, pois são apenas o masculino (adam) e o feminino (adamah) da mesma realidade terrestre. A Bíblia joga com as palavras para expressar em símbolos a mensagem. No 2º capítulo, o macho se chama “Adam” (do barro da terra) e a fêmea se chama “Vida” (Hayah, em hebraico, que deu Eva em nossas línguas). Sendo de terra e, ao mesmo tempo, a máxima expressão da vida a ponto de ser capaz de transmitir a imagem de Deus que está em si

(cf. Gn 5, 1-3), a humanidade é como jardineiro do jardim de Deus (2, 15). Sua tarefa de cultivar, guardar e governar (cf. 1, 26) requer a atitude de cuidado amoroso, como se dá no casamento, pois são uma só carne (cf. Ef 5, 29). Nos tempos antigos da Igreja, por influência da antropologia grega, se interpretou a “imagem de Deus” como simplesmente o equivalente da natureza racional do ser humano. Seríamos imagem de Deus porque somos capazes de pensar e querer. Na mentalidade da Bíblia, porém, não é exatamente assim. Claro que não se despreza essa dimensão racional, mas a ênfase recai sobre a capacidade humana de agir, trabalhar, como representante de Deus para governar a criação. É “semelhante”, como embaixador plenipotenciário para atuar em nome de Deus, como se no meio do jardim estivesse o retrato da divindade impresso na humanidade. O ser humano é eminentemente “cultural”, cultiva, “recria” os seres mediante a cultura, cultua o Mistério, guarda, governa e transforma o mundo; governo, no entanto, que supõe amoroso cuidado matrimonial. A terra é “osso de meus ossos e carne de minha carne”: Adam e Adamah, como esposo e esposa. No Novo Testamento, o tema da “imagem de Deus” se aprofunda ainda mais e se radicaliza em Jesus, a imagem perfeita de Deus, princípio da reconciliação e da plenificação do universo (cf. Cl 1, 15-20; Ef 1, 3-23; Hb 1, 1-4). Por isso, não somos apenas semelhantes ao Criador, mas, por Cristo, filhos e filhas de Deus, não mais escravos ou escravas, ou crianças de menor idade, mas com direito pleno de maioridade à posse da “casa” que é o mundo (cf. Gl 3,23—4,11). Esse é o fundamento mais profundo dos direitos de cidadania. Em toda a Bíblia, há uma profunda unidade entre Libertação histórica, pela justiça e a paz, e Salvação plena da vida humana. A corrente profética, desde o livro do Êxodo, passando pelo Deuteronômio e pelos escritos das profecias até os Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as Epístolas e o livro do Apocalipse, tem como perspectiva uma sociedade livre fundada na posse comum ou partilha de bens, como condição da felicidade (“xalôm”). Isso porque a salvação equivale à realização total da pessoa e do universo, como nos dizem muito claramente a Epístola aos Romanos (cf. cap. 8º) e a Epístola aos Efésios (cf. cap. 1-2). Ora, o que caracteriza a pessoa é a liberdade e essa se constrói em íntima relação com as condições materiais da vida, na medida em que a pessoa se liberta de seus condicionamentos e se possui cada vez mais plenamente para oferecer a própria vida mediante o amor, o qual se concretiza em serviço, ou seja, em atenção às necessidades humanas em redor de nós. É essa a experiência humana da Transcendência ou de Deus: a pessoa se possui, não enquanto se retém para si mesma, mas na medida em que se ultrapassa. É em si, não enquanto é para si, mas enquanto é além de si. Esse mistério “mais Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento - SADD •

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além” que nos humaniza é o que chamamos de Deus. A Teologia da Libertação tem trabalhado abundantemente toda essa temática. A expressão “Reino de Deus”, assumida por Jesus como categoria central de sua pregação e ação (cf. Mc 1, 14-15), exprime a “política de Deus” quanto às relações entre as pessoas (comunidade: cf. Mc 10, 35-45), as relações e estruturas no país (nação justa: cf. Is 1, 21-28) e às relações entre os povos (paz internacional: cf. oráculos sobre as nações, p. ex., e Ef. 2; e Apocalipse). A soberania de Deus sobre a terra instaura o “xalôm”, a felicidade e harmonia universal (cf. Is 9, 1-6; 11, 1-9). Segundo todos os evangelistas, é meridianamente claro que, no ministério de Jesus, a salvação de Deus passa pela restauração da vida das pessoas em seus corpos e em suas emoções. É o que vemos nos “sinais” de curas e nos gestos de defesa de pobres e humilhados (Mt 10 e Lc 10; Lc 1, 4655; 13, 10-17; Jo 9). Jesus se identifica com os “menores” que necessitam igualmente de viver: pessoas empobrecidas, enfermas, estrangeiras, desprezadas, mulheres, crianças, pessoas excluídas. Proclama inequivocamente que a prática eticopolítica está acima e além dos ritos e das crenças, pois a fé se manifesta nas obras de restauração da vida (cf. Os 6,6; Is 1; Mc 7, 1-23; Lc 6, 46-49; Mt 25, 31-46).

2. O objetivo da Diaconia Social é essencialmente político: “Se somos filhos, somos também herdeiros”... a obra de Deus, a criação, foi entregue em nossas mãos (Rm 8, 1439), julgaremos o mundo e até os anjos, “quanto mais as coisas da vida quotidiana” (1Cor 6, 1-3). Não basta apenas “ajudar” ou “prestar assistência” a pessoas em suas necessidades imediatas. A tarefa que o Evangelho nos impõe é levar as pessoas a tomar consciência dessa dimensão profunda de seu ser divino, de sua “imagem e semelhança” com Deus, de sua filiação divina em Cristo: “com Ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus” (Ef 2, 6). Nossa “cidadania celestial” (Fl 3, 20; Rm 8, 28-30), esse segredo escondido aos olhos do mundo, deve revelar-se na cidadania terrestre mediante nova maneira de viver a vida em sociedade (Cl 3, 1-11). Isto se dá no enfrentamento de um conflito com as potências adversárias de Deus, as quais se encarnam nas estruturas deste mundo (cf. Mt 4, 1-11; Lc

Reciclagem, DAA

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4, 1-13; Ef 6, 10-20). “Não vos conformeis ao sistema deste mundo, mas transformai-vos” (Rm 12, 1-2). Mediante o ministério da reconciliação, nosso objetivo é colaborar com Deus para que se manifeste uma realidade nova, a “nova criação” em Cristo (cf. 2Cor 5, 16-21), cuja revelação é a derrubada das barreiras e o estabelecimento da paz internacional, como haviam anunciado os profetas (Gl 3, 28; Ef 2, 11-22). É o mesmo que dizer o “Reino de Deus”, anunciado pelos profetas e por Jesus, como afirmação da soberania de Deus sobre a criação e a sociedade humana, e cuja manifestação é o “xalôm” produzido pela prática da Justiça (Is 2, 1-5; 11, 1-9; Os 6, 6; Mq 6, 6-8). Segundo o Apóstolo São Paulo quem é discípulo ou discípula de Jesus pertence à “ecclesia”, ou seja à “assembléia alternativa” (o “rebanho” do Bom Pastor, segundo Jo 9 e 10), na qual se reúne quem está despossuído de poder e de posse na sociedade – a Igreja representa um movimento alternativo no seio da sociedade civil. O famoso teólogo Carlos Barth compreendia a Igreja como “conspiração de testemunhas” contra o sistema estabelecido na sociedade. A categoria teológica “filiação divina” é a doutrina central do Cristianismo, o centro da Boa Nova de Jesus (cf. Jo 1 e 3). Para garanti-la, é que os grandes concílios da Igreja antiga sentiram-se impelidos a elaborar a doutrina da Trindade e a Cristologia. Dizia o grande Santo Atanásio em luta contra o Arianismo: “O que não é assumido, não é elevado”. Foi preciso lutar para afirmar a divindade de Jesus, uma vez que, se fosse simples homem, não nos teria elevado à condição de filhos e filhas de Deus. Ora, é essa condição que nos possibilita ser herdeiros e herdeiras da obra de Deus que é a Sua criação, como vimos acima no texto da Epístola aos Gálatas. Em termos sociopolíticos, a doutrina da “filiação divina” se traduz como “cidadania”. Em outras palavras, a luta pela cidadania teria de estar no centro da tarefa da Igreja, já que é a tradução “secular” de sua mensagem central, ou seja, lutar pela cidadania é o que dá credibilidade à mensagem anunciada pela Igreja na sociedade. Com ela, o Evangelho revela toda a sua energia libertadora e poder de transformação da vida dos povos.

3. O método da Diaconia Social e Política é o Serviço: Nos evangelhos, Jesus se apresenta como o SERVO por excelência, encarnação histórica do ideal proclamado particularmente pelo profeta Isaías nos “Cânticos do Servo Oprimido e Vitorioso” (Is 42; 49; 50; 52-53): “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate pela multidão” (Mc 10, 45). A Igreja é a “comunidade messiânica” que se encarrega de levar adiante a obra de Jesus, enquanto, ao mesmo tempo, testemunha ao vivo Sua maneira de ser: mediante gestos e palavras, anunciar a proximidade imediata (“entre nós e em nós”) do Reino de Deus, pelo método do SERVIÇO. “Método” quer dizer “caminho”, servir é o caminho para a Igreja trilhar. Por isso a identidade da Igreja, de seu ser e de seu quefazer, não é a “religião”, mas o serviço como método de transformação do mundo, a “religião” é apenas um de seus veículos.


Porque o ser da Igreja é serviço, tudo nela tem de ser diaconia: diaconia da Liturgia, diaconia do Ensino, diaconia da Ação Sociopolítica. Não se pode entender um culto cristão que não seja “serviço do povo” e ao povo, um culto cristão clerical, centralizado, excludente seria uma contradição com a própria identidade da assembléia cristã. Na Igreja, o ensino não pode ser autoritário, “bancário”, como diria o saudoso Paulo Freire e conforme nos declara o Novo Testamento: “Vós, porém, tendes recebido a unção que vem do Santo, e todos vós possuis a ciência” (1Jo 2, 20). Da mesma forma, na ação sociopolítica, não se trata de “assistir” as pessoas, mas de ajudá-las a ser mais plenamente, não se trata de “dar”, mas de servi-las em sua “caminhada” de conquistar a própria vida (cf. artigo “Diaconia: Ênfase Bíblico-Teológica”, em Ministério do Diaconato, Partilha Teológica 07, IEAB, 1998)

4. As 5 marcas da Missão e os 14 Referenciais da Missão na IEAB: Missão, Evangelização e Serviço Missão não é uma tarefa determinada, mas é objetivamente o ato de Deus de enviar pessoas a participar de Sua própria tarefa criadora e redentora (Ex 3, 7-12; Is 6, 8); subjetivamente é a consciência que temos de ser pessoas enviadas, participantes da “missão de Deus”. Evangelização é a tarefa de, mediante gestos e palavras de libertação das pessoas e dos povos, anunciar a Boa Nova do Reino de Deus (Lc 4, 16-21; At 10, 34-43). Isto se faz mediante o processo de conscientização do povo, de que é nele que reside a sabedoria e o poder de Deus, pois espontaneamente não o sabe e não crê em si mesmo (1Cor 1-4). Carlos Marx falou disso quando tratou da “alienação”, e Paulo Freire quando fala de “introjeção do opressor no oprimido”. Serviço não uma das tarefas da Igreja, ao lado da tarefa de evangelizar, mas, como se disse acima, é o método de tudo o que a Igreja faz, pois só foi enviada para evangelizar. O que é, porém, EVANGELIZAR? Jesus é o modelo, quando anuncia o “Evangelho do Reino” (Mc 1, 14-15) por gestos e palavras, como acontece na magistral narrativa de “abertura dos olhos” do cego (cf. Jo 9). Acolher o anúncio é converter-se, isto é, “voltar a Deus” mudando a direção dos próprios caminhos no mundo. A conversão “espiritual” se manifesta mediante gestos “materiais” de ruptura com o sistema estabelecido (cf. Mc 1, 16-20; Lc 4, 16-21) e de partilha de bens (cf. Lc 3, 10-14). A lógica interna das “05 Marcas da Missão”, formuladas pela Comunhão Anglicana mundial, aponta para a unidade profunda das quatro dimensões do anúncio da Boa Nova, o que tem inspirado muita gente a falar de “ecossocialismo” ou de ���socioambientalismo” (Os 4, 1-3): * DIGNIDADE: o anúncio da Boa-Nova leva à conversão, a qual é a afirmação da pessoa frente ao que a “escraviza” (idolatria) e de suas relações comunitárias – “nutrir os crentes”: pela Palavra, os sacramentos e a convivência em comunidade a Igreja se forma para ser “ícone” da sociedade * SOLIDARIEDADE: o reconhecimento da dignidade comum a todas as pessoas, na comunidade e na sociedade. Negar a dignidade de alguém é implicitamente já negar a própria dignidade, pois é admitir que alguém possa fazer o mesmo que estou fazendo ao negar a outrem : a humanidade é um único “sólido”

* JUSTIÇA: a restauração da dignidade comum, mediante “serviços de amor” e a “luta pela transformação das estruturas injustas da sociedade” * CUIDADO (“compaixão”): zelo para com os recursos da criação e preservação da vida na terra. Nossa Província no Brasil explicitou as “05 Marcas” em “14 Referenciais da Missão da IEAB”.

5. Diaconia Social e Política na Igreja Não se trata de dimensão ou tarefa paralela ou agregada ao que seria a tarefa própria da fé cristã e da Igreja na sociedade, como se a tarefa só dissesse respeito essencialmente ao campo religioso; nem é ação subsidiária, substitutiva, em relação às tarefas do Estado ou da sociedade civil, algo que se acrescentasse, eventualmente, à tarefa de “evangelismo”. É bastante freqüente pessoas, sobretudo poderosas, dizerem que a Igreja deve restringir-se ao “espiritual” e não se imiscuir em assuntos econômicos, sociais e políticos. Essa visão refletiria o dualismo herdado por nossa cultura desde o Helenismo (dualismo antropológico, teológico, ético, social, político, e de gênero). A Igreja sempre tem de evangelizar por gestos e palavras que sejam relevantes para a vida, pessoal e coletiva. Ora, anunciar libertação na vida coletiva, no contexto concreto de determinada sociedade, equivale a interferir necessariamente na dimensão social e política. Em cada época e em cada sociedade a Igreja tem de discernir quais são os “sinais” de vida, os gestos significativos do carinho de Deus por Seu povo. Dois campos têm sido privilegiados pela tradição social da Igreja na história, o da saúde e o da educação. Houve um tempo em que o abandono, a que os pobres eram deixados, levou a Igreja a fundar hospitais e escolas. Hoje em dia parece que já não é esse o campo privilegiado do testemunho. Há outras urgências prementes a clamar pelo socorro de Deus: a sorte dos povos indígenas, a terrível situação do povo negro, sobretudo na própria África, a questão da terra, as crianças, a peste das drogas e a violência contra jovens e mulheres, a educação política para recuperar a dignidade da cidadania, o trabalho de conscientização das pessoas, a fiscalização sobre quem exerce função pública, etc. A diaconia social e política é dimensão essencial à fé e à vida e ação da Igreja: “salvação” é restauração da criação em toda a sua amplitude. O amor a Deus, a sintonia com Ele (“consagrar-se a Deus”) se faz em nós amor de Deus pelo mundo (Jo 1, 16 – “ser consagrado por Deus) — Deus

Promovita - DSO Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento - SADD •

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nos devolve a nós mesmos e aos demais: a mística profética e a condição de filiação se expressam em paixão pela obra de Deus, que é a vida de Seu povo: “O zelo por Tua casa me devora” (Jo 2, 17; Sl 69, 10). É significativo que Jesus, na última viagem a Jerusalém, no caminho com seus discípulos, tome o tempo para instruí-los a respeito do Reino de Deus. E qual o conteúdo da instrução? Poderia ter falado de inúmeros temas, de assuntos religiosos, de sacramentos, da organização da Igreja... No entanto, só fala de dois assuntos: poder e dinheiro. Insiste sobre os dois sentimentos mais profundos que afetam todos os nossos projetos e relações: o desejo de tudo dominar, inclusive as pessoas; e o desejo de tudo possuir, inclusive as pessoas – e isso é destrutivo da comunidade. Para Jesus, portanto, nas relações políticas (de poder) e nas relações econômicas (de posse) é que se dá o grande conflito entre o Deus vivo e os ídolos. Ou servimos o Deus vivo pelo serviço às pessoas vivas (cf. Mc 12, 28-34), ou servimos os ídolos do poder, cuja imagem está gravada nas moedas, e as imagens são símbolos narcisistas de nossas carências e autocomplacência (cf. Mc 12, 13-17). Ou servimos a Deus ou o dinheiro (cf. Mt 6, 24). Ou compreendemos a vida como comunhão mediante relações fraternas e partilha de bens, ou buscamos desesperadamente apropriar-nos das coisas e das pessoas a nosso serviço, para preencher o vazio de insegurança infantil que nos devora. A diaconia sociopolítica é dimensão constitutiva do objetivo e do método da Evangelização. O “serviço de amor” e as lutas pela justiça na sociedade são caminho (método) e instrumentos de anúncio do Evangelho; e a experiência mais plena de liberdade e felicidade do povo é o objetivo do anúncio de “novo céu e nova terra”. É o que vemos no padrão de evangelização indicado por Jesus: entrar nas casas, ir às praças públicas, cuidar\curar as enfermidades, expulsar as forças satânicas que dominam e alienam as pessoas, e anunciar que a felicidade (o xalôm) é possível, eis a chegada do Reino de Deus (cf. Mt 10; Lc 10, 1-16). A diaconia sociopolítica se realiza, primeiramente, mediante a presença e o engajamento de cada crente na sociedade (família, profissão, organizações sociais, entidades e redes do Movimento Social, instâncias políticas...) como sal, luz e fermento de transformação do mundo (cf. Mt 5, 13-16); mediante a presença da Igreja, como coletividade e instituição, em movimentos, organizações e redes da sociedade civil (estamos no CONIC, em Diaconia, na CESE,

Bio joias, DAA

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na rede FEBRASIL, no Fórum Social Mundial, no esforço conjunto da Comunhão Anglicana para cumprimento das Metas do Milênio, etc); mediante projetos de iniciativa da própria Igreja, como gestos-veículos que facilitem o diálogo evangelizador com segmentos e grupos pobres, vulneráveis e excluídos. Diaconia sociopolítica é também processo de reeducação da Igreja para perceber corretamente o horizonte profeticopolítico de qualquer gesto de serviço em sua vida e ação. O trabalho de diaconia social e política tem de ser, antes de tudo, de reeducação, fazer-nos perceber a essencial dimensão sociopolítica da fé cristã, daí por que é fundamental o papel da releitura bíblica, da informação sobre a realidade social, da capacidade de analisar o sistema vigente em suas contradições e da participação direta na vida e nas lutas do Movimento Social. O fato é que, apesar de sermos um povo bom, generoso e sensível a ajudar os pobres; apesar de promovermos “projetos sociais” até apreciáveis; apesar também de termos pessoas com significativos engajamentos na sociedade; na verdade, o nível de participação do povo cristão e, em nosso caso, anglicano, no Movimento Social e nas lutas da cidadania, e o nível de consciência política são muito baixos, há uma densa nuvem de alienação política que paira sobre nossas congregações. Somos paradoxalmente uma Igreja inclusiva que vive muito voltada para dentro, quando não apenas preocupada com manter-se à maneira de “capelania” religiosa para seus membros.

6. “Ação de Serviço” e “Ação de Desenvolvimento” Não se trata de ações alternativas (ou uma ou outra), nem de ações cumulativas (uma e outra). Temos de ter muito cuidado com os termos: * SERVIÇO: toda ação da Igreja (liturgia, ensino, ação social) tem de ser serviço, é seu método essencial, como se disse acima. Serviço, porém, não deve equivaler a mera “assistência” aos pobres, pois qualquer “serviço de amor” só o será se for transformador de quem se ama: o “serviço de amor” é expressão da Graça, por isso nasce da gratidão e se manifesta como gesto de gratuidade. Ora, a Graça é sempre regeneradora. Daí por que o “serviço de amor” é solidariedade, em termos bíblicos misericórdia ou compaixão com quem necessita. Palavras muito expressivas: “misericórdia” quer dizer sentir no coração (“cor”, “cardia”) a miséria de outrem; “com-paixão” significa sofrer com outrem, compartilhar de sua paixão. É o que podemos ver, por exemplo, na relação de Jesus com o leproso (cf. Mc 1, 40-45), com o homem da mão aleijada (cf. Mc 3, 1-6) e com a mulher hemorroíssa (cf. Mc 5, 25-34). Por isso, cria relações “horizontais” de estar-com, de assumir em conjunto (Mt 8, 17: “Assumiu nossas dores e carregou nossas enfermidades”), e visa a promover as pessoas em sua dignidade a partir do ponto em que se acham na vida, e leva a participar. Toda “ação de serviço” tem de ser, ao menos virtualmente, “ação de desenvolvimento”, de crescimento de outrem e por isso educativa. Com efeito, educar é fazer crescer, participar como “autor” de um processo de aumento. “Autor” vem do latim “auctor” que por sua vez deriva do verbo “augere” que significa aumentar, crescer.


* DESENVOLVIMENTO: o conceito de “desenvolvimento” tem forte carga ideológica, da “ideologia do progresso”, e seu padrão é o processo de enriquecimento e bem estar dos países chamados de “desenvolvidos”, processo alicerçado na opressão econômica, na dominação política, na alienação cultural e na depredação da Natureza pelo progresso tecnológico sem limites. O filósofo espanhol Ortega y Gasset definia a técnica como “a produção do supérfluo”. É urgente redefinir o padrão que preside a nossa civilização: O que é desenvolvimento? quais devem ser seus indicadores? Vamos preferir índices de mero crescimento econômico ou índices de desenvolvimento humano? De fato, há populações extremamente pobres, como é o caso dos povos aborígenes, que são grandemente “desenvolvidos” no que toca ao cuidado para com a Natureza O conceito de “desenvolvimento”, como o temos recebido e assimilado, deve ser urgentemente completado ou até superado pelo de “envolvimento”, isto é, solidariedade com todos os seres humanos e “compaixão” por todos os seres do universo, o que é a perspectiva socioambientalista ou ecossocialista. “Desenvolver” é o oposto de “envolver”, pois quer dizer “desembrulhar”, desdobrar. Desejamos apenas “desdobrar”, expandir o mesmo sistema que tem produzido os resultados que lamentamos, ou queremos transformá-lo? Trata-se de “desenvolvimento” ou de “transformação”, de “crescimento” ou de “libertação” das pessoas e dos povos? O campo do “consumo” aparece hoje como desafio ético de primeira ordem, exigindo limitar o crescimento econômico e educar para aprendermos como e o que consumir: a salvação da vida, incrivelmente, está nas mãos das pessoas comuns, daí nossa tremenda responsabilidade. Deparamo-nos com graves problemas de agressão ao meio ambiente, de pobres privados de alimento, de desperdício por força do conforto e das inovações tecnológicas sem limites, de despreocupação com esgotar numa geração os recursos vitais do planeta... Hoje, já não só as Igrejas, mas também os expoentes da Ciência nos chamam à conversão e ao juízo: ou mudamos de vida ou perecemos com o planeta. No dizer de uma mulher aborígene: a terra se desvencilhará de nós como imenso animal que se sacode e se livra das pulgas... Mais que nunca a conversão nos aparece como interpelação, além de religiosa, essencialmente político-social. E a fé cristã, a fé bíblica se revela em toda a sua atualidade: deixar-se atrair pelo brilho dos ídolos é correr em vão atrás de ilusões e do vazio. Nunca talvez, como hoje, se revelou tão claramente que, se seguir a Jesus nos custa alto preço, custo ainda maior é não seguí-Lo. Baste olhar em redor e ver o preço que temos pagado por desviar-nos da vontade de Deus — no próprio pecado social nos sobrevém o castigo: desagregação, exclusão, fome, medo, violência, guerras, confiança na pedagogia do terror... Estamos realmente de prontidão para lutar por uma economia em favor da vida, como nos convida a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010? Ou ainda pensamos que essa não é tarefa central da fé e da Igreja? Ainda julgamos que a transformação econômica, social e política da sociedade não tem de estar no coração da Igreja? Ora, o que está em jogo é a obra de Deus, o mundo é a obra de Deus. Seremos tão irresponsáveis a ponto de abandonar a criação ao poder das trevas? Seria terrível dizer: “que posso fazer, eu que sou pequeno e pobre? Só os poderosos teriam como resolver problemas tão grandes”. Na verdade, são justamente os poderosos a causa principal do problema, como nos alerta Jesus no episódio da partilha dos pães (cf.

Mc 6, 37-38). Os discípulos imaginavam que a fome do povo só se resolveria com muito dinheiro. Ora, os homens do poder e do dinheiro estão se banqueteando no palácio de Herodes, enquanto decidem matar o profeta que protesta em nome do povo (cf. Mc 6, 14-29). Que ironia, como esperar que a solução venha justamente de quem é a causa do problema! Nunca como hoje a sorte da vida dependeu tanto das pessoas comuns, de gente como nós. Ricos e poderosos não desejam mudanças profundas, baste pensar no fracasso da Conferência de Copenhague sobre mudanças climáticas e aquecimento global. Os governos também não as querem ou já não as podem fazer, de tal maneira estão enredados na engrenagem internacional do dinheiro. Incrivelmente, a sorte do mundo está em nossas pobres mãos, nas mãos das pessoas comuns. A tragédia é que estamos frente a desafios imensos e tudo indica que ainda não temos maturidade suficiente para enfrentá-los. Nossa vida quotidiana se torna sempre mais um desafio ético a envolver-nos a cada instante, a começar das pequenas coisas: abrir a torneira d’água para escovar os dentes ou tomar banho sem levar em conta que a água se torna sempre mais escassa e poluída, e que já falta a vários povos da terra; comer, sabendo que povos inteiros sofrem fome crônica; usar automóvel, sem se importar com o fato de que se trata de uma das principais fontes de poluição do ar, sem pensar nos acidentes de tráfego e nos engarrafamentos nas cidades e rodovias; usar aparelhos eletrônicos com a informação de que seus componentes são construídos com minerais surrupiados a países africanos mantidos em níveis desumanos de miséria; comprar objetos produzidos à custa de mão de obra escravizada; produzir lixo sem nenhuma consciência de zelo pelo planeta... Praticamente já não é mais possível para nós, pessoas comuns, interferir nos processos de produção, e muito menos decidir, tal a complexidade a que chegaram. Mas quem decide nosso consumo ainda somos nós, podemos escolher o que comprar ou não comprar e está em nosso poder resistir e não nos submeter à propaganda, cuja função é fazer-nos pensar necessário o que, na verdade, é supérfluo. Enquanto consumidores e consumidoras ainda temos enorme poder do qual ainda estamos terrivelmente alienados. Como voltar a discernir entre essencial e acidental, principal e secundário, necessário e supérfluo. Eis um dos campos de luta espiritual e política de primeira importância desde agora e nos anos vindouros.

7. Algumas características da Ação Transformadora, ou de Promoção Humana, ou Libertadora, ou simplesmente Evangelizadora: A ação evangelizadora deve ser educativa, capaz de despertar as potencialidades da pessoa. Educar vem do latim “e-ducere” que quer dizer “conduzir, guiar a partir de dentro”, tanto como ação “transeunte” (que passa aos beneficiários) quanto como ação “imanente” que transforma os próprios operadores sociais. Deve ser processual: importa, antes de tudo, o processo, mais que o “produto”. Importa sobretudo o processo educativo mediante o qual a pessoa “se produz” enquanto “produz”. Deve ser metodologicamente correta, pois o mais importante não é o que se faz, não são as “obras” ou as coisas ou resultados produzidos, mas o como se faz e o como nos relacionamos; antes de nossos “bens” (produtos), importam nosServiço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento - SADD •

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sas relações, pelas quais as pessoas se constroem. Um exemplo elucidativo é a distinção entre “sopa dos pobres” e “sopa evangelizadora”. Posso dar sopa aos pobres por dez anos e eles se degradarem ainda mais pela dependência, a inércia, a perda de iniciativa, e não saírem de sua humilhação. O gesto de promover sopa tem de ser evangelizador por si mesmo, isto é, contribuir para a reconstrução das pessoas e de sua dignidade cidadã, esta, sim, ação segundo o Evangelho, conforme podemos ver no episódio do cego de nascença no evangelho segundo São João (cf. cap. 9°): Jesus possibilitou-lhe viver experiência alternativa ao sistema vigente, integrar-se ao seu rebanho (cf. Jo 10), abriu-lhe os olhos para perceber a realidade própria e a seu redor, deulhe coragem até para enfrentar gente muito poderosa... Tudo depende do método: despertar a iniciativa, a participação, a conquista do próprio destino. Não basta ler a Bíblia junto com a distribuição da sopa para julgar que se evangeliza. O desafio maior é que a própria sopa seja evangelizadora, que as próprias pessoas pobres sejam ajudadas a conquistar seu alimento e se criem novas relações entre elas, conosco e com a sociedade em geral. A maneira, o método de produzir a sopa tem de despertar a consciência crítica e ativar um nem que seja elementar projeto de emancipação humana. Deve ser profética, isto é, capaz de manifestar e fazer entender denúncia e anúncio, levando a identificar causas e responsáveis pela situação em que se acha o povo; por isso provocadora da consciência crítica: das lideranças, dos beneficiários, da comunidade e da sociedade, pois é capaz de tirar os pobres da invisibilidade e de pô-los no centro, como se vê no comportamento de Jesus (cf. Mc 3, 1-6). “É preciso apanhar os caídos da guerra que tombam a nossa porta, mas sobretudo perguntar-se pelas causas da guerra e combatê-las” (Dom Helder Câmara). Deve ser elaborada estrategicamente a partir da realidade do povo que passamos a conhecer e ajudar para que se consiga discernir entre “urgente”, “desejável” e “necessário”. Deve ser participativa (em equipe) na informação, na reflexão, na decisão, na ação e na avaliação: “estar com” e “trabalhar com”. Um passo decisivo de nossa conversão é de “trabalhar para os pobres” a “trabalhar com os pobres”.

Lar Alice Kinsolving - DM

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Há pequenos gestos significativos: deixar aguardar do lado de fora, tolerar que façam intermináveis filas ao sol, “receber” coisas doadas, não ter opinião a dar, até a maneira de arrumar as cadeiras em reunião... são aparentemente pequenas coisas que revelam grandemente a qualidade de nossas relações. Deve ser recriadora da pessoa como “nova criatura” mediante o resgate da cidadania, o que se dá através de processos muito concretos de ação, no início, muito pequenas: pequenas experiências de reivindicar direitos, pelas quais a consciência de dependência se vai desbloqueando, aprender a analisar a realidade da vida coletiva, experimentar refletir, decidir e agir coletivamente para resolver problemas da vida. Deve ser realizada, não em horizonte eclesiástico, mas no horizonte do Reino de Deus: “evangelizadora”, não proselitista. A Graça é gratuidade e é universal e inclusiva. Deve ser consciente e sistematicamente planejada. É interessante ver que Jesus se referiu a planejamento justamente quando falava sobre o discipulado (cf. Lc 14, 25-35). Hoje temos de tirar proveito do processo de PMA (Planejamento, Monitoramento, Avaliação). No diagnóstico é preciso identificar os recursos locais da comunidade, os instrumentos de políticas públicas já existentes, e animar o povo a reivindicar do poder público tudo a que tem direito, para não agir de maneira paralela e substitutiva. Cinco passos são importantes: analisar a realidade, planejar a ação, atuar para realizar o planejado, celebrar a obra de Deus através de nossa ação, avaliar as ações realizadas ou não. O monitoramento é a avaliação que vai acontecendo ao longo de todo o processo, de tal forma que já se pode corrigir rumos ou implementar o que se revela mais positivo e eficaz, que nem sempre foi previsto no ato inicial de planejar. Deve ser marcada pela coerência entre ação pública (política) e “costumes” pessoais ou familiares, implicação mútua de ação sociopolítica e conversão pessoal. É que a ação política deve estar fundada numa opção espiritual e numa atitude ética frente ao mundo, particularmente ética da posse e do poder.

Observação final Somos um povo pequeno e pobre. Isto não nos deve paralisar. O que importa, acima de tudo, não é o contingente numérico, mas a qualidade das pessoas e seu compromisso de vida. Não nos esqueçamos de que grandes façanhas tiveram como protagonistas pessoas aparentemente solitárias. Pensemos em profetas e profetisas, pensemos em Jesus, em Paulo, em Gandhi, em Martin Luther King, em Teresa de Calcutá, em Rosa Parker, em Helder Câmara... uma pessoa pode marcar a história e impulsioná-la adiante. Mesmo sendo pouca gente e de poucos recursos, podemos ser relevantes. Tudo depende de nossa significação na sociedade. Tudo depende de nossa qualidade humana, espiritual, ética e teológica, e de nossa qualificação em vista da ação, para dar de Cristo um testemunho competente que vá além dos templos e chegue à arena da praça pública.


O Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento e as Metas do Milênio Por Marc Storms Assessor de Informática, construtor dos Bancos de dados do SADD

Introdução O objetivo este texto é compartilhar, com toda a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), a pesquisa realizada sobre a relação entre as experiências diaconais cadastradas no Banco de dados do Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento (SADD) e as Metas do Milênio. Os resultados desse trabalho foram debatidos em setembro 2009 durante o encontro da Articulação Nacional em Brasília.

As Metas do Milênio e a Comunhão Anglicana Na Conferência de Lambeth de 2008, os bispos e as esposas assumiram publicamente um compromisso com as Metas do Milênio. O Arcebispo de Cantuária em sua Carta Pastoral recordava “que reafirmamos a consciência de que a Igreja precisa fazer parte de forma plena, na luta mundial contra a pobreza, a ignorância e as doenças. Repetidas vezes destacaram-se as Metas de Desenvolvimento do Milênio”.1 Na Carta Pastoral, as Metas de Desenvolvimento do Milênio foram mencionadas a partir dos seguintes pontos: 1. Erradicar a pobreza e a fome 2. Universalizar o acesso à educação primária 3. Promover a igualdade entre os gêneros e fortalecer as mulheres 4. Reduzir a mortalidade infantil 5. Melhorar a saúde materna 6. Combater a AIDS, malária e outras doenças 7. Garantir a sustentabilidade ambiental 8. Desenvolver uma parceria global para o desenvolvimento.

As Metas do Milênio

ço coletivo deveria garantir, até 2015, a redução pela metade da porcentagem de pessoas que vivem na extrema pobreza, fornecer água potável e educação a todos e combater a propagação do HIV/AIDS, da malária e outras doenças. Também ficou determinado o reforço às operações de paz da ONU para que as comunidades vulneráveis possam se proteger em tempos de conflito. O detalhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio são:2 1 - Erradicar a extrema pobreza e a fome Um bilhão e duzentos milhões de pessoas sobrevivem com menos do que o equivalente a 1 dólar estadunidense por dia, segundo cálculos da “paridade do poder de compra” (PPC)3. Este é um calculo do Banco Mundial, a partir de um índice de preços entre os diferentes países, baseado nos custos de uma cesta de bens e serviços. Com políticas acertadas, esse quadro pode mudar em 43 países, ou seja, 60% da população mundial. 2 - Atingir o ensino básico universal Há 113 milhões de crianças fora da escola em todo o mundo. A Índia, por exemplo, se comprometeu a ter 95% das crianças freqüentando a escola em 2005. 3 - Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres Dois terços das pessoas analfabetas no mundo são do sexo feminino e 80% das que vivem como refugiadas são mulheres e crianças. Superar as disparidades entre meninos e meninas no acesso à escolarização formal é a base para capacitá-las a ocuparem papéis cada vez mais ativos na economia e na política de seus países.

Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) são oito compromissos aprovados pelos líderes de 191 países membros da Organização das Nações Unidas (ONU), na maior reunião de dirigentes nacionais de todos os tempos, a Cúpula do Milênio, realizada em Nova Iorque em setembro de 2000. Para alcançar os ODMs, foram definidas as Metas do Milênio, dados quantitativos precisos que dão um significado numérico aos objetivos de erradicar a fome ou diminuir a mortalidade infantil, por exemplo. O esfor1

http://dab.ieab.org.br/2009/03/29/carta-pastoral-ao-xxviiconcilio-diocesano/

2

Agência Brasil, 12/9/2004.

3

Paridade de Poder de Compra (PPC)= determina a quantidade de bens e serviços que 1 dólar estadunidense compra em qualquer parte do mundo.

Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento - SADD •

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4 - Reduzir a mortalidade infantil Todos os anos, 11 milhões de bebês morrem devido a causas diversas. Esse número vem caindo desde 1980, quando as mortes somavam 15 milhões. 5 - Melhorar a saúde materna Nos países em desenvolvimento, as carências em saúde reprodutiva fazem que, a cada 48 partos, uma mãe morra. A presença de pessoal qualificado na hora do parto deverá ser o reflexo do desenvolvimento de sistemas integrados de saúde pública. 6 - Combater o HIV/AIDS, a malária e outras doenças Em grandes regiões do mundo, as epidemias vêm destruindo gerações e cerceando as possibilidades de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, a experiência de países como o Brasil, Senegal, Tailândia e Uganda mostram que é possível deter a expansão do HIV. A redução da incidência dependerá, fundamentalmente, do acesso da população à informação, aos meios de prevenção e aos meios de tratamento, sem descuidar da criação de condições ambientais e nutritivas que estanquem os ciclos de reprodução das doenças. 7 - Garantir a sustentabilidade ambiental Um bilhão de pessoas ainda não têm acesso à água potável. Durante os anos 90, quase o mesmo número de pessoas tiveram acesso à água e ao saneamento básico. Os indicadores identificados para essa meta demonstram a necessidade da adoção de atitudes sérias na esfera pública. Sem a adoção de políticas e programas ambientais, nada se conserva em grande escala, assim como, sem a posse segura de suas terras e habitações, poucos se dedicarão à conquista de condições mais limpas e sadias para seu próprio entorno. 8 - Estabelecer uma Parceria Mundial para o Desenvolvimento Muitos países pobres gastam mais com os juros de suas dívidas do que para superar seus problemas sociais. Os objetivos levantados para atingir essa meta levaram em conta uma série de fatores estruturais que limitam o potencial para o desenvolvimento - em qualquer sentido que seja - da maioria dos países do sul do planeta. Entre os indicadores escolhidos, está a ajuda oficial para a capacitação de profissionais. Eles poderão negociar novas formas de acesso a mercados e a tecnologias, abrindo o sistema comercial e financeiro não apenas para grandes países e empresas.

O Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento A IEAB implantou o SADD em 2008 com o objetivo de acompanhar, orientar e fortalecer as experiências diacônicas da Igreja, bem como facilitar a capacitação e articulação dessas experiências no âmbito provincial. O SADD desenvolveu, em 2008, um sistema de banco de dados on line http://www.ieab.org.br/sad/ que contribuiu para a sua concretização e visibilidade, tanto no interior da própria Igreja como para fora. As pessoas responsáveis como Contatos Diocesanos, após a capacitação, tem registrado a experiência diacônica da Igreja, por meio de quatro bancos de dados: 1. Banco experiências: mapeamento das atuais experiências de diaconia social na IEAB quanto à variedade de atividades, objetivos, sujeitos, motivações, articulações, 10 • Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento - SADD

desafios e fontes de recursos; 2. Banco recursos humanos internos e externos: para atender às necessidades de formação, articulado com o trabalho do Centro de Estudos Anglicanos (CEA); 3. Banco fontes: requisitos e procedimentos de fontes de recursos públicos nacionais e da cooperação e internacional. 4. Banco instâncias: mapeamento das instâncias da IEAB - dioceses, distrito, paróquias, missões, pontos missionários ou instituições. No dia 27 de agosto de 2009, sessenta e três experiências foram cadastradas. Cada experiência tem em média 85 sujeitos envolvidos diretamente e 474 indiretamente. Assim se estima que, no Brasil, um total de 5.357 pessoas de forma direta e 29.868 indiretamente estão envolvidas no trabalho diacônico e de desenvolvimento da IEAB. As sessenta e três experiências estão cadastradas segundo as seguintes “palavras chaves”: • Natureza da experiência: saúde ........................................................... 20 direitos humanos ....................................... 19 educação/reforço escolar ........................... 19 cultura ........................................................ 16 alimentação/soberania alimentária ........... 15 assistência social ......................................... 14 cidadania .................................................... 11 articulação ecumênica ............................... 09 diaconia ecumênica ................................... 09 economia solidária ..................................... 08 desenvolvimento econômico ..................... 06 formação profissional ................................ 04 meio ambiente ........................................... 04 esportes ...................................................... 03 incentivo à leitura ...................................... 03 comunicação .............................................. 02 • Segmento da população: Situações de vulnerabilidade social ........... 29 Pessoas desempregadas ............................... 26 Pessoas afetadas pela violência ................... 19 Vítimas da violência doméstica/risco pessoal ........................................................ 15 Pessoas em situação de pobreza ................. 15 Estudantes .................................................. 12 Sem teto ..................................................... 09 Pessoas vivendo e convivendo com HIV/AIDS ......................................... 09 População negra urbana ............................ 06 Sem terra .................................................... 03 Trabalhadores e trabalhadoras rurais ........ 02 Pessoas Portadoras de Deficiência ............. 02 Homossexuais/LGBTT ............................. 02 Dependentes Químicos ............................. 02 Povos indígenas .......................................... 01 • Sujeitos: Situações de vulnerabilidade social ........... 29 Crianças ..................................................... 25 Adolescentes .............................................. 23 Mulheres .................................................... 22 População em geral .................................... 18 Famílias ...................................................... 17 Juventude ................................................... 14 Homens ...................................................... 13 Terceira idade ............................................. 10


A relação entre as Metas do Milênio e as experiências diacônicas da IEAB O trabalho de relacionar a essência das experiências com as Metas foi realizado através das palavras chaves. Por exemplo, na Meta 1 (Erradicar a pobreza e a fome), as palavras chaves são: alimentação/soberania alimentar (natureza), desenvolvimento econômico (natureza), economia solidária (natureza) e pessoas em situação de pobreza (população). Em relação à Meta 2 (Universalizar o acesso à educação primária) as palavras chaves são: educação/reforço escolar (natureza) e crianças (sujeitos). Para a Meta 5 (Melhorar a saúde materna), saúde (natureza) e mulheres (sujeitos) foram importantes. Para a Meta 6 (Combater a AIDS, malária e outras doenças), a palavra chave é mais explicita: pessoas vivendo e convivendo com HIV-AIDs (população), o que também ocorreu com a Meta 7 (Garantir a sustentabilidade ambiental) que se relacionou diretamente com meio ambiente (natureza). Assim, descobrimos as experiências de SAD relacionadas com as metas. Meta 1 32 experiências (51%) trabalham para erradicar a pobreza e a fome. 1. Assistência a idosos, SP 2. Bazar de Usados, GO 3. Centro de Defesa Dos Direitos da Criança e do Adolescente, SP 4. Cidade de Meninos São Paulo Apóstolo, RJ 5. Colégio Anglicano de Araras, RJ 6. Creches Anglicanas, SP 7. Curso corte costura da ABESP, PR 8. Inclusão Digital, PR 9. Inclusão Digital – Pedregal, GO 10. Kai-sara Bijuterias, PA 11. Lar Cristão Matilde de Oliveira, RJ 12. Lazer e estudo bíblico, RO 13. Movimento de ajuda ecumênica, MT 14. Ministério Sopão/Missão Monte Sião, PB 15. Mobilização para dia internacional de luta contra o HIV/ AIDS, PE 16. Natal sem Fome, DF 17. Padaria Comunitária, PR 18. Pastoral da Família Carente, GO 19. Pastoral da Gestante, RS 20. Programa Anglicano de promoção da saúde, RJ 21. Projeto Centro de Apoio Renascer, RS 22. Projeto horta comunitária, RJ 23. Projeto Padaria Solidária, RS 24. Projeto Prevenção de Saúde para a comunidade, GO 25. Projeto Produção de mudas de hortaliças, RS 26. Projeto Solidariedade e Acolhida aos moradores de rua, PR 27. Reforço Escolar – São Lucas, PA 28. Rosa de Saron, PA 29. Serviço de Apoio ao Menor Estudante – Pedregal, GO 30. Sopa Solidária, TO 31. Sopão, SP 32. Terceira idade, SP

Erradicar a podreza e a fome 10

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1 2

1

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3

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6

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Meta 2 19 experiências (30%) trabalham para universalizar o acesso à educação primária 1. Centro de Defesa Dos Direitos da Criança e do Adolescente, SP 2. Centro de Apoio Sócio Educativo, RS 3. Centro Social Anglicano de Santos - Núcleo de Esportes, SP 4. Centro Social Anglicano de Santos - Núcleo de Idiomas, SP 5. Centro Social Anglicano de Santos - Núcleo de Música, SP 6. Cidade de Meninos São Paulo Apóstolo, RJ 7. Clube da leitura, SC 8. Colégio Anglicano de Araras, RJ 9. Coral Ecumênico de Choir Chime, MT 10. Creches Anglicanas, SP 11. Escola Bíblica, MT 12. Inclusão Digital – Pedregal, GO 13. Projeto Centro de Apoio Renascer, RS 14. Projeto Ciranda, RS 15. Reforço Escolar – São Lucas, PA 16. Serviço de Apoio ao Menor Estudante – Anápolis, GO 17. Serviço de Apoio ao Menor Estudante – Paranoá, DF 18. Serviço de Apoio ao Menor Estudante – Pedregal, GO 19. Vestibular Comunitária, RJ

Universalizar o acesso à educação primária 8 7 6

1

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5 6 7 8

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Meta 5 3 experiências de (5%) trabalham para melhorar a saúde materna 1. Pastoral da Gestante, Rio Grande do Sul 2. Programa Anglicano de Promoção da Saúde, Rio de Janeiro 3. Projeto Prevenção de Saúde para a comunidade, Goiás Meta 6 Combater o HIV/AIDS, a malária e outras doenças 9 experiências (14%) trabalham para combater o HIV/ AIDS, a malária e outras doenças 1. Atendimento Psicológico, São Paulo 2. Atos para o dia 1 de dezembro - Luta contra AIDS, São Paulo 3. Casa A +, Tocantins 4. Fórum do Grito dos Excluídos, Goiás 5. Igreja Vivendo e Convivendo com HIV/AIDS, São Paulo 6. Mensageiras da Paz, Rio Grande do Sul 7. Mobilização para dia internacional de luta contra o HIV/ AIDS, Pernambuco 8. Pastoral da Gestante, Rio Grande do Sul 9. Projeto Ciranda, Rio Grande do Sul

Meta 7 4 experiências (6%) trabalham para garantir a sustentabilidade ambiental 1. Projeto Centro de Apoio Renascer, Rio Grande do Sul 2. Projeto Ciranda, Rio Grande do Sul 3. Projeto Horta Comunitária, Rio de Janeiro 4. Projeto Produção de mudas de hortaliças, Rio Grande do Sul Os resultados por diocese e distrito: Brasília ................................... 11 São Paulo ............................... 11 Rio de Janeiro ....................... 06 Pelotas ................................... 05 Curitiba ................................. 04 Distrito Missionario .............. 04 Amazônia .............................. 03 Sul Ocidental ........................ 02 Recife ..................................... 02 Meridional ............................ 01 8

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Combater o HIV/AIDS, a malária e outras doenças

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1 2 3 4 5 2

Grupo de música, DAP

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Pontos para continuar aprofundando o debate

Projeto SAME, DAB

É inegável a importância do debate sobre as Metas do Milênio na Comunhão Anglicana e as relações das mesmas com as experiências da IEAB hoje. No debate realizado no Encontro da Articulação do SADD, já mencionado, foi salientada a necessidade de situar esses temas com as especificidades do contexto brasileiro, diferenciado de outros continentes e até mesmo de outras regiões da América Latina e Caribe. Por exemplo, não há referências de experiências em relação à Meta 3 (Promover a igualdade entre os gêneros e fortalecer as mulheres) e a 4 (Reduzir a mortalidade infantil), já que a busca com as palavras “gênero”, “mortalidade”, “infantil” ou “desenvolvimento” não deu resultados. Pode-se concluir que não existem experiências em relação com estas metas? Ou que, dado os avanços das políticas publicas brasileiras em algumas regiões, a luta contra a mortalidade infantil pode não ter a urgência que há em outras regiões do globo. No Brasil, há projetos que tratam o tema de gênero indiretamente, por exemplo, no trabalho com as creches, uma necessidade histórica em toda periferia. Em relação à Meta 8 (Desenvolver uma parceria global para o desenvolvimento), as parcerias ecumênicas da IEAB no âmbito diocesano, o trabalho e as articulações em rede, outra característica da realidade brasileira, apontam para iniciativas nesse sentido. Como não pode existir o global sem o local, a participação do SADD nos eventos sobre desenvolvimento tanto da Comunhão Anglicana como especificamente do ERD tem caminhado nesse sentido de parceria internacional, a partir sempre do chão das experiências desenvolvidas nas diferentes realidades urbanas e rurais do pais. No contexto específico do Brasil em termos políticos, sociais e econômicos, outros conceitos daqueles comumente usados em relação às Metas merecem destaque, por exemplo: • Desigualdade e discriminação - pobreza • Soberania alimentar e meio ambiente - fome • Economia solidária - fome • Qualidade da educação – quantidade de crianças na escola Embora não se possa falar sobre a pobreza como a que existe no continente africano, por exemplo, a realidade concreta das comunidades e famílias tanto no campo como nas cidades, contrasta enormemente com a propaganda interna e externa do atual governo federal, que coloca que os problemas brasileiros estão todos praticamente solucionados. Um exemplo e o debate sobre o programa social da Bolsa Família, que, apesar da sua importância no combate à pobreza, pode levar, em alguns contextos, a certa acomodação da população na ampliação dos seus direitos, na sua autoestima para buscar horizontes mais amplos. Na questão da educação, realmente a experiência tem mostrado que não basta o acesso das crianças à escola, se não existem condições concretas de trabalho e salários dignos para os professores, estrutura para as escolas ou políticas integrais que acabem com o alto nível de deserção escolar que tem levado a um quadro de “analfabetos úteis”. O tema da economia será o ponto central da próxima Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010, que centrara as reflexões no contraste entre os índices de crescimento econômico e o desenvolvimento humano, por exemplo. Essa abordagem será importante para “entrar dentro das experiências” e aprofundar as intencionalidades das ações diaconicas no contexto brasileiro atual. A conclusão deste trabalho e que, no mínimo 49 das 63 experiências, ou seja, que 78% podem ser relacionadas a uma ou mais metas do milênio. Para o futuro, será importante passar a ver as experiências, mesmo que localizadas e inclusive pequenas, também sob o ângulo das metas, o que pode ampliar a sua compreensão como parte de um movimento muito mais amplo de testemunho da IEAB rumo a uma sociedade mais justa e igualitária, na perspectiva das Marcas da Missão Anglicana. Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento - SADD •

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Papel do SADD Desde 1988, em diversos momentos, a IEAB tem salientado a necessidade de uma articulação nacional que apóie a diversidade de suas ações sociais. Em inúmeros momentos de intercâmbio, visitas, encontros de lideranças e testemunhos, têm se verificado que as dioceses realizam trabalhos sociais relevantes para as comunidades locais. Reiteradas vezes tem sido colocada também a necessidade de uma maior articulação com projetos semelhantes realizados nas diversas regiões da Província. Em outubro de 2007 foi realizada uma Consulta Nacional de Diaconia Social com o apoio do ERD (Episcopal Relief and Development) e que contou com a presença de representantes de todas as dioceses e do distrito1. Um dos resultados desta Consulta foi o consenso da necessidade da criação do Serviço Anglicano de Diaconia – SAD, que pudesse articular, de maneira mais profunda, as diversas experiências em curso. Essa proposta foi apresentada ao Conselho Executivo do Sínodo em sua reunião de novembro de 2007, tendo sido aprovado a criação do Serviço Anglicano de Diaconia, cujas atribuições, aprovadas pelo Conselho Executivo em abril de 2008, são as seguintes: a) Orientar e acompanhar metodologicamente processos de planejamento estratégico da diaconia da IEAB em todos os âmbitos (Local, Diocesano, Provincial). b) Orientar e acompanhar os projetos sociais, em sua elaboração, implementação e acompanhamento, especialmente aqueles em parceria com a cooperação anglicana e/ou ecumênica, na perspectiva da viabilidade; c) Promover capacitações e/ou buscar recursos humanos locais em relação aos diversos aspectos da gestão das experiências de diaconia social; d) Articular redes de experiências afins; e) Elaborar materiais de formação e sistematização de experiências para uso e divulgação na Província. A Comissão Nacional de Diaconia Social, comissão sinodal, apresentou um projeto da criação do Serviço Anglicano de Diaconia ao ERD em Setembro de 2007, tendo como objetivo implantar o Serviço em parceria com o ERD. A proposta foi aprovada, tendo sido iniciada a parceria em Março de 2008. Acompanhando as necessidades sentidas pelas dioceses, a Comissão Nacional de Diaconia Social assumiu o papel de facilitação do plano de implementação do Serviço Anglicano de Diaconia com as prioridades de: 1) Criação de quatro bancos de dados; 2) Realização de oficinas de capacitação; 3) Articulação de Contatos Diocesanos.

Atividades realizadas Nos anos de 2008 e 2009, a Comissão Nacional de Diaconia Social, realizou diversas atividades nacionais, regionais e diocesanas. No ano de 2008, o objetivo do plano de trabalho foi “Motivar, mobilizar e fortalecer a diaconia social da IEAB e a sua articulação provincial”, a partir de oficinas realizadas nas três áreas provinciais. Neste primeiro ano foram 32 pessoas atendidas diretamente nas oficinas realizadas. Contamos com o apoio de parcerias com o CECA e o Kononia, e a participação de companheiros em missão, tais como USPG, ERD e a Igreja do Canadá. Foram visitados projetos sociais em cinco dioceses, e foram cadastradas as primeiras experiências nos bancos de dados. Também neste ano foi publicado um Caderno sobre a Consulta Nacional de Diaconia Social, com o objetivo de socializar quais os caminhos que a IEAB tem trilhado no serviço de diaconia. Esse caderno foi distribuído para todas as dioceses e distrito, parceiros ecumênicos e companheiros em missão. 1

As Reflexões da Consulta foram publicadas em agosto de 2008

Comissão de Diaconia

14 • Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento - SADD


Para o ano de 2009, o objetivo foi “Fortalecer os contatos diocesanos e motivar a qualificação da ação social na IEAB”. Esse objetivo foi alcançado com as seguintes atividades locais, regionais e nacionais: • Promoção de Oficinas de Treinamento realizadas em todas as dioceses e distrito, capacitando os agentes diaconais locais atendendo diretamente 200 pessoas; • Encontro Nacional dos Contatos Diocesanos; • Oficinas Regionais de Capacitação, que atenderam 42 pessoas. Nessas oficinas tivemos a assessoria da Sra Fátima Nascimento, da ELO, sobre Gestão de Projetos; • Foram cadastradas 63 experiências nos bancos de dados. A partir de uma discussão, em 2009, o Conselho Executivo decidiu acrescentar ao SAD, a palavra Desenvolvimento, por entender que seria importante harmonizar as ações diaconais da IEAB com a idéia presente na Comunhão Anglicana e a sua compreensão de desenvolvimento. A partir de então esse serviço passou a ser chamado de SADD – Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento. Nesses dois anos de trabalho avaliamos que o planejamento programado foi realizado de forma satisfatória. 1. Foram realizadas reuniões de treinamentos de agentes diaconais em todas as dioceses, sob a liderança dos contatos diocesanos acompanhados pela coordenação do SADD; 2. Foram feitas visitas aos projetos diocesanos; 3. Foi realizada a Reunião da Articulação Nacional; 4. Foram realizadas oficinas de treinamento sobre PMA e Gestão de Projetos; 5. Está sendo feito o monitoramento dos Bancos de Dados; Na avaliação dessas atividades, concluímos que é preciso uma maior conscientização da importância do papel dos contatos diocesanos no projeto do SADD, ficando a capacitação, a diversificação de recursos e a sustentabilidade das ações, como temas que continuam a desafiar todas as pessoas envolvidas, tanto direta, como indiretamente, nos vários testemunhos de apoio a Vida, contra as desigualdades e injustiças sociais que continuam a acontecer no Brasil.

Objetivos Futuros Para o ano de 2010, é objetivo do SADD: 1. Continuar fortalecendo as atividades de ação social nas dioceses, através de visitas aos projetos sociais e proporcionando atividades de capacitação dos agentes diaconais; 2. Proporcionar a discussão do significado do serviço diaconal e a transformação de vidas; 3. Um momento particularmente importante neste ano será a CONFELIDER. No inicio do mês de junho, as lideranças da IEAB estarão reunidas sob o tema Mística e missão para aprofundar, debater, celebrar “ a missão anglicana em um contexto desafiador para a transformação da vida”. É objetivo do SADD apoiar a realização da CONFELÍDER; 4. Motivar as dioceses a priorizar a realização de projetos sociais com vista a transformação de vidas. Ao final de 2010, após um balanço cuidadoso dos resultados obtidos e dos desafios que ainda persistem, será discutida como será feita a continuidade do Serviço.

Participação de Karla Avila

Creche Lina Rodrigues, DASP

Consulta Nacional

O “Episcopal Relief & Development” tem apoiado a Província do Brasil desde o ano de 2008, com o objetivo de criar uma estratégia Provincial de Desenvolvimento a longo prazo para as comunidades mais necessitadas do Brasil. O trabalho que o Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento (SADD) está realizando é sumamente importante para nós. Sabemos que muitos e muito bons projetos sociais estão sendo desenvolvidos nas diferentes dioceses. A intenção do SADD junto ao ”Episcopal Relief & Development”, é levar esses projetos a um seguinte patamar e trabalhar com as diferentes dioceses de maneira que as necessidades mais eminentes das comunidades sejam analisadas e se trabalhe em uma estratégia de desenvolvimento provincial em longo prazo. O maior desafio que estamos enfrentando nestes anos é a diversidade que existe nas diferentes dioceses e as interpretações quanto à definição dos termos “desenvolvimento” versus ”diaconia”. O trabalho do SADD é crucial para conseguir um entendimento comum e para continuar avançando rumo a uma estratégia de desenvolvimento a nível Provincial, que permita focalizar esforços e recursos onde estes são mais necessários. Karla Paola Avila Coordenadora do Programa da América Latina e Caribe do Episcopal Relief & Development Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento - SADD •

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Grupo de Estudo - DMA

Grupos de Estudo - DAR

Centro Social Anglicano - Livramento

Consulta - Contatos Diocesanos

Grupos de Estudo - DASP

Clube da leitura - DM

Trabalho feminino - DSO

Oficina - Bio-Jóias - Belém

Inclusão digital - Brasília

Consulta - Área Provincial 1

Oficina de Saúde - Rio

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Consulta - Área Provincial


Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento Julho – 2010