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REANIMATOR FINAL Julho 2013


ZUMBIS TAMBÉM MORREM Rynaldo Papoy Com uma bala na cabeça eu mato a revista “Reanimator”. A ideia de criar esta revista era dar espaço para contistas fantásticos que fazem parte da Academia de Literatura Fantástica do Brasil. Estes contistas não têm espaço em outros órgãos semelhantes no Brasil, especialmente nas instituições dedicadas à ficção científica. Muitas vezes, estes grupos até mesmo proíbem a publicação de ficção própria ou quando permitem, ninguém dá a menor bola. Cheguei a convidar algumas pessoas para escreverem aqui, mas ninguém se interessou também. Confesso que estou exausto de fazer esta revista. Inclusive porque revisar textos é uma tarefa que odeio. A academia vai continuar, por tempo indeterminado e inclusive não precisando mais me


preocupar com esta revista, posso me dedicar mais às atividades da instituição. Nesta última edição, publicaremos alguns poemas de Rafael Razador e Marcelo Riboni.


RAFAEL RAZADOR


Passar do Tempo Acho que existo a tanto tempo, devo ter sido queimado para aquecer alguĂŠm enclausurado em uma caverna. As cinzas espalharam-se e flores alimentaram, vieram as abelhas e pude voar e alimentar a rainha na colmeia. As borboletas pousaram e nas suas asas voei. Cai ao solo e lĂĄ floresci e o ar perfumei.


Pouco depois morri, me decompus e para uma árvore migrei, pelas suas raízes adentrei e no fruto cheguei. Um pássaro veio e devorou-me e num terreno vazio defecou-me. Aos poucos cresci, sozinho, isolado. Mas sei que mesmo sozinho, os pássaros pousam nos meus galhos e dormem sossegados. Comem dos meus frutos e por todo lugar espalham-me, filhos perdidos que nunca conhecerei. Criam outros tantos filhos, abrigam outros tantos pássaros, apenas espero que não estejam sozinhos assim como eu.


Andando Andando na noite, um caminho desconhecido. Mas sei que a relva que piso, ali tambÊm habito. A lua segue-me, ouço os grilos, vejo os vaga-lumes e sinto os morcegos. Ratos que fogem, insetos presos nas teias. Sigo andando a esmo por este lugar desconhecido. Mas mesmo ali habito...


Posso sentir a relva sofrendo quando a piso, o medo do rato, a agonia do inseto, sou o vaga-lume e o morcego, sou feito da mesma matĂŠria... E o mais importante, possuĂ­mos o mesmo Pai e surgimos no mesmo lugar.


Sete da Manhã Por anos infectei meu sangue, destruí meu cérebro. Por anos busquei o orgasmo no pó branco diluído... No sangue misturando-se a mesma


água que corre pelos esgotos.

Hoje escrevo o que penso bêbado às sete da manhã. Mas, no meu sangue, não corre mais a podridão dos esgotos. Não busco mais o orgasmo no pó


branco. Mas, o ruim de experimentar o prazer intenso, é gozar com pessoas vazias...

O orgasmo do pó branco morreu, mas a lembrança e a ausência na casualidade, atenuam a força do passado enterrado, do prazer que foi acentuado, mas que hoje, é vazio


e sombrio, como o passado que n達o deve mais vir a tona...


Às Vezes Às vezes tenho o desejo, de pular de uma ponte. Às vezes tenho o desejo, de entrar em um canil. Às vezes tenho o desejo, de pular em frente ao trem. Tenho medo de quando olham-me com desdém, quando me analisam como um objeto que pode


ser comprado e descartado.

Mas tenho o desejo e nĂŁo medo.... fugir daqui, como? Em frente ao trem, um salto no abismo, um corte, uma pĂ­lula... e... Acabou-se este Vai e vem...


Idas e Vindas De onde estou, posso ver a caixa. Não consigo ler o nome, mas sei muito bem o que é... Às vezes pergunto-me se realmente funciona?... Bom, já não me corto mais, mas as marcas por toda minha vida ali estarão... Como um lembrete marcado na carne.


Muitas vezes ainda, não sei o que é real, ainda perco minha personalidade. Consigo controlar os meus impulsos, não quero mais me matar. Não me sinto mais vazio, não chantageio e manipulo. Deixei de transformar uma gota, em um oceano. É!, acho que aquela caixinha


mágica funciona mesmo! Mas eu me pergunto: Por que? Que trauma vivi? Minha infância, tranquila, família estável, apesar de pais separados... Talvez seja minha genética, como ei de saber? Bom!... Agora decidi que não quero mais a caixa mágica, quero sim... é morrer...


Não Há Fim No fim do caminho, existe um ancião. Ele nada sabe, mas sente tudo com seu coração. Ele pacientemente aguarda a nossa chegada... basta ver-nos que tudo sabe, lê a nossa alma e nada fala. Dá-nos um livro, cujo o título é: A Sua Vida. Ali está retratado tudo nos mínimos detalhes, até mesmo os pensamentos. Ao lê-lo as imagens surgirão como um filme, partes coloridas e partes pretas e brancas.


Sentado n'um banco, a vida passada passa-se pelos olhos d'alma...

As faltas, os pensamentos mesquinhos, a luxuria, a ganância, a gula, a compaixão, a caridade... tudo em uma imagem que surge lá do fundo do nosso coração. Somos os criadores do nosso destino, também os juízes no final da vida... A vida não é uma só, mas um acúmulo de muitas, uma completando a outra...e não há um fim...


Prazer Quero escrever, mas as mãos tremem, acabei de vê-la, tocá-la e a mesma cama compartilhei. Tremo pelo prazer, suo ao ter você. Coração e corpos em êxtase, mente a flutuar, teu gosto a emanar, não consigo em outra coisa pensar, teu gozo, teu gosto, fico absorto. Uma criança brincando de amar, perde-se, encontra-se e voa, em seus braços atira-se a mais pura felicidade encontra. As mãos ainda tremem, embriagado, arrepiado, em você me encontro,


em você vivo, em você existo, encontro um oásis no deserto, este oásis chamado prazer.


Boa Noite! Boa noite! Desavenho. Boa noite! Desalento. Boa noite! AngĂşstia. Boa noite! Dessabendo. Boa noite aos zangados, boa noite aos desanimados, boa noite aos q pensam, boa noite aos ignorantes. Durma em paz! A quem a tristeza visita, a noite torna-se longa e a dor na alma lancinante. Bom dia! Se for igual a este dia,


trarĂĄ alegria. Ter a certeza? InĂştil analogia...


Oscilando Pronto! Acabou-se a alegria! Morreu com o cair da noite, foi-se atrĂĄs da lua. no seu lado escuro agora vive. Passei o dia alegre e a noite estou triste, tentei renascer. Acabei por morrer. Mundo maldito! Cuspo onde piso, pisar no limpo ĂŠ uma tarefa difĂ­cil. A beleza do alegre, a feiura do triste.


NĂŁo hĂĄ meio termo, oscilando o dia vai continuando...


MARCELO RIBONI


1)Alheio Noites dedicadas a perder. cinzas e fumaça, Um copo na mão e palavras soltas Compondo um caos conhecido No cenário do mundo Que virou uma memória Em fase de decomposição. Deixo o meu silêncio falar mais alto.


2)Sem titulo I Os olhares dizem o silêncio Que queima dentro de mim. Insultos deixados no vento Sopram palavras frias, Misturadas com leve ar de indiferença Fazendo os dias de inverno mais quentes.


3)Sem titulo II Eu perdi muito tempo te odiando E me perdi no meio do caminho. Caminhando sem ter para onde ir, Fui parar no meio do inferno. Parado sozinho no escuro Via as luzes de longe e deixava A fumaรงa da cidade me levar De volta aos meus pesadelos.


4)Centro Parado no centro olhando as pessoas Passando em um vai e vem sem parar Acendo um cigarro e paro o tempo Congelado quinze anos atrás Ainda vejo você descendo a Riachuelo Para me dar péssimas noticias. Nunca foi bom te ver ali mas de repente era aquilo Você me disse que o tempo passou, não somos mais aqueles Que nunca fomos.


5)Jogo de Xadrez Eu vou dar uma volta e na volta tudo esta de outra forma. Parece que foi ontem que deixei meus problemas no seu colo e você disse para não me preocupar. Deixa eu te falar - Eu te quero. Só você. - Agora que o tempo passou, olho para a vida e vejo que nada de pior pode acontecer que já não tenha acontecido. Silêncio


6)Sem titulo III O silencio cristalizado no olhar saindo porta afora, como se fora dias atrรกs, Deixando conversas inacabadas Manchas de batom nos meus lรกbios E uma saudade de tudo que nunca seria.


7)Sem Titulo IV Procuro uma explicação, levo comigo o tempo Para entender o que você disse aquele dia. Palavras que cortam como um estilete, Fazendo feridas incuráveis. Devia ter saído pela tangente e fingido um sorriso, Por que hoje eu fico olhando no espelho e Procuro uma explicação, levo comigo o tempo.


8)Palavras Meus ouvidos estão surdos. Eu cuspo aonde você passou. Deixo um "ESTOU FORA!" pregado na parede. Rasgo livros, ponho fogo nas tuas cartas de amor. Quero ouvir seu mundo ruir ao som de anjos cantando. Quero ver o inferno te abrir as portas na melhor hora do seu pior pesadelo. Um dia vi aquilo que ninguém mais viu, hoje deixo tudo para lá. FODA-SE.


9)Sombra

Me deixe só, Quero quebrar o sincronismo. Me deixe o pó, Quero apodrecer em paz, Crescer raízes debaixo dos pés E provar o puro gosto amargo da dor, Ferir meu senso comum. Me deixe aqui, Não volte mais, Quero ser só mais um!


10)Sentimentos Todos os sentimentos não voltam, Os ponteiros do relógio não voltam E a historia segue, sangue e suor, De um lado bom ou um tanto pior. Na badalada da meia noite alguns viram abobora Mas outros virão para nos dar o derradeiro carinho No pé do ouvido com palavras e juras de amor.


11)Poema para uma morta

Moça louca corre pelo corredor, Ela esta sem camiseta e de calcinha rosa. Desespero estampado na face sem pudor Gritando que roubaram sua alma

Abro os olhos e vejo as horas, Quatro e quarenta da manhã, acendo um cigarro Fumo e volto a dormir. Ignoro este terrível pesadelo.

A moça volta, esta com um roupão preto E fuma um cigarro, com uma cara mais calma, Olhando fixamente para meu .45


Do lado de um jornal que anuncia o fim do mundo.

Um barulho me desperta mas fico com olhos semicerrados. Vejo um vulto se mexendo pelo quarto Acompanho ele ate entrar no banheiro. Depois ouço uma voz feminina cantar “superbacana”.

Abro os olhos enquanto pego a arma, Ponho no meio das pernas e solto a trava. Garrafas de bebida vazia decoram este apartamento horrível. Agora ela liga o chuveiro e entra no banho,


Sento encostado contra a parede e bebo o ultimo gole do Scotch Junto com o ultimo cigarro do maço. Fico olhando para porta esperando ela sair, Ela sai do banheiro enrolada numa toalha vermelha.

Dou um disparo na sua barriga, ela vai para trás com o impacto, O vermelho do sangue se confunde com o vermelho da toalha. Dou outro tiro no tórax e ela cai de vez no chão. Ponho a roupa devagar, olhando o corpo caído,


Desço as escadas e vejo o nascer do sol por entre os prédios. Entro num bar e peço um maço de cigarros e uma garrafa de whisky, Acendo mais um cigarro e caminho pela rua sem direção. Toca o celular e o marido pergunta “feito?”; respondo que sim.


12)Poema babaca para pessoas bacanas

Fiona apple, muito legal. Vodka barata, barata andando pelo quarto Enquanto pessoas andam por aĂ­ Sem saber aonde ir Estou muito bem aqui mesmo, obrigado.


13)Loucura Grita no meu ouvido, Grita bem alto a plenos pulmões. Deixe o mundo saber o tamanho Da sua fúria, deixa ela sair Devagar de dentro de ti. Devagar você vai fazer tudo voltar Ao lugar de onde nunca devia ter saído. Deixe as duvidas num canto esquecido.

Meu amor eu te amo, Sinto cada olhar, cada tom de voz, Trazendo dentro de si uma vontade feroz De fazer tudo ficar do seu jeito.


Você não pede, você não manda, Você simplesmente me apóia. Quando os ratos já pularam do navio Você afunda junto, lavando todo seu ódio.

Para cada veneno, para cada malícia Em cada toque e em cada caricia Você tem todas as respostas e assim, Fazemos os dias virarem minutos. Passam as estações e passam os anos E estamos juntos um pelo outro.


14)Vazio

Fúria arrebenta como uma tempestade Que cai sobre a cabeça Partindo ao meio pensamentos Aumentando os tormentos E deixando o silencio e O silencio e mais nada.

Como um raio A raiva congela a alma E cuspindo insultos como fogo, Quebrando tudo do pouco que havia Em segundos fica


O silencio e mais nada.


15)Outro É tudo conversa fiada. Escuto restos de vidas, Escondo rostos á deriva, Seguindo a postos, buscando novos portos Para ver o dia acabar; Pegar o que vim buscar Fingindo um sorriso a quem passa. Passado o inferno, Voltando do Hades É tudo conversa fiada Afiada no fio da navalha. Cego pelo brilho da rua, Perdido no mundo da lua, E sei que é chegado o fim.


Reanimator final