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Uma Viagem Mal-acabada Agora estou aqui a admirar o mais belo pôr-do-sol do qual tenho memória. Os raios e sol pinguem de tons alaranjados, o mar e o céu sobre ele. Acabei de escapara da morte, na companhia da rapariga dos meus sonhos e com três coqueiros a fazerem sombra sobre a areia dourada. Nunca pensei que a minha viagem acabasse assim. No entanto, ainda tenho esperança, pois um cenário destes revelava que tudo tinha uma solução. Há vários dias que preparava a minha bagagem para o fantástico cruzeiro na qual iria viajar à volta de África. E após semanas de ansiedade, chegou o dia da partida. A acompanhar-me na viagem, estavam três amigos próximos: o Eduardo, o Afonso e a Beatriz. Partimos para o mar bem cedo. No cais, as pessoas amontoavam-se para se despedirem das famílias. Era uma balbúrdia total. A custo, conseguimos encontrar o navio e, após as esperas habituais, é que nos fizemos ao mar. Pouco a a pouco, deixámos de ver Lisboa, para ir onde os mitos e lendas eram reais. Já em pleno Atlântico, eu e os meus companheiros fomos procurar as nossas camaratas para guardar os nossos bens e haveres, por entre múltiplas interjeições de agrado -Este navio é mesmo um luxo! – exclamou Eduardo Eduardo era um rapaz pobre, não habituado a luxos. De jeitos simples e de uma alegria contagiante, fazia com que as meninas do liceu andassem todas caidinhas. Já Afonso era mais reservado, mas um óptimo parceiro de conversa. Ora Beatriz, ela é bela, inteligente, amiga e compreensiva. É que, quando se está apaixonado, não se tem mãos a medir para descrever quem se ama. O navio era mesmo grandioso. Tinha piscina, spa e um enorme salão de baile. Um paraíso! -Tens razão, Eduardo, mas olhe uma coisa. Não se está a formar uma tempestade?! Cheios de curiosidade, fomos espreitar às pequenas janelas características dos navios. Sim, era verdade. Uma série de nuvens negras começavam a cobrir o brilhante sol e a retirar o brilho dos lustres de cristal. De um momento para o outro, o barco começou a abanar de forma violenta, apanhando-nos de surpresa. Preocupado com Beatriz, fui ter ao seu quarto. -Bia! Estás bem? – perguntei receoso quando a vi -Estou. Um bocadinho zonza, mas de resto tudo bem. -Sendo assim, vou ver o que se passa. Estou ouvir um burburinho lá em cima. -E deixas-me aqui?! Para onde é que foi o teu cavalheirismo? Uma enorme onda atingiu o barco e fez estremecer todo o convés.


-Afinal, vem comigo, se te achas tão indefesa. Não me perdoava se te acontecesse algo de mal E lá fomos juntos até ao exterior da embarcação ver o que se passava. No convés, o capitão passa por nós espavorido e, exausto, gritou: -Estamos a perder o controlo do navio. Quero toda a gente aqui para uma fuga de emergência. Já! Espantados com o comportamento do capitão, fomos a chamar pelos tripulantes. Foi então que como, uma onda de energia invisível, fomos atirados contra uma das paredes. Foi aí que cheguei à conclusão que tínhamos encalhado. Ainda estremunhados com a queda, um estranho ruído fez-se ouvir acima do barulho da trovoada. De repente, uma turba de homens, seminus e com listas na cara e no corpo feitas de argila, entrou no cruzeiro pelo casco, atacou-nos e amarrou-nos. Pouco depois, um grupo de homens irrompeu cruzeiro adentro, com catanas e tochas, prontos a matar quem lhes fizesse frente. Enquanto isso, nós assistíamos imóveis e, por entre esgares de terror, à destruição que se fazia sentir no navio. Todos os homens e mulheres que tentavam ripostar eram mortos à catanada. Foi então que vimos Eduardo e Afonso. Bem tentámos gritar, mas fora-nos posta uma mordaça na boca. Mesmo à nossa frente, com um movimento rápido e fluido, um homem agressivo matou Eduardo e Afonso. Um após o outro, os seus corpos foram caindo ao chão num baque surdo. Sem se conseguir conter, Beatriz desatou a chorar e nem eu a pude consolar. Entretanto, uma coluna de fogo e fumo ergueu-se no barco e os desconhecidos levaram-nos apressadamente para longe dali. Não me recordo de mais nada daquela tarde. Apenas me lembro de acordar num enorme trono de madeira, toscamente esculpido com formas e figuras variadas. Com um suspiro de alívio avistei Beatriz num trono como o meu, mesmo à minha esquerda. Mas o mais estranho era a multidão de homens e mulheres com o que pareciam ser peles de animais e montes de joias e anéis. -Diogo, Diogo! – chamou-me Beatriz em surdina – O que nos vai acontecer? -Não sei. Acho que somos uma espécie ídolos. -Pois, talvez. Já reparaste que estão a cantar uns cânticos? Outro pormenor insólito é que estavam todos a entoar ”músicas” numa linguagem estranha e gutural. -Então, pois. E se isso for verdade então esta deve ser uma daquelas tribos que sacrificavam o sangue dos visitantes. – afirmei num tom preocupado. -O que queres dizer com isso? Vamos morrer= -Parece que sim. Não sei a tua opinião sobre isto, mas vamos ter que fugir. É a nossa única hipótese.


Observei o espaço que nos rodeava. Estávamos numa clareira no meio de uma floresta cerrada e, mesmo atrás dos nossos tronos, estava um caminho que ia dar a uma enseada. Decidi pronunciar-me: -Bia, ouve-me bem. És a pessoa mais corajosa que conheço. Tenho um plano para fugir daqui e preciso que confies em mim. -Que outra oportunidade me resta? – Ironizou, corada. -Aqui atrás há um trilho. Eu distraio-os e tu corres através do trilho, o quanto puderes. Depois temos que nos desenrascar com o que encontrarmos. Em 3, 2, 1 … corre! Desatei imediatamente a chamar a atenção, e após ter visto que a Beatriz já ia longe, comecei a correr mesmo atrás. Após ter corrido uns quinhentos metros de floresta tropical, com gritos raivosos mesmo atrás de mim, cheguei à baia. Ainda a correr, encontrei Beatriz num pequeno bote a motor. Fui ter com ela e com toda a força que tinha, puxei o cordel que fazia ligar o motor. Partimos para o mar azul-turquesa num safanão brusco e quando finalmente nos viraram para trás, avistámos a multidão irada a gritar palavras incompreensíveis e de um dialecto antigo na nossa direção. Estivemos naquele pequeno barco salvador durante o que parecia ser várias horas até que uma forte corrente nos levou até uma ilha deserta. Sem outra alternativa, saímos do bote e estendemo-nos cansados e enjoados da viagem, na areia seca. E agora aqui estamos, eu e ela, ambos com as roupas rasgadas e desfeitas a admirar o fim-do-dia. Vendo que, após tanta tragédia, ainda estarmos vivos, era milagre, fixei Beatriz nos olhos e dei-lhe um beijo apaixonado sobre os seus beijos suaves. Diogo Rafael Rodrigues Nº6 9ºC


Uma viagem mal acabada