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Ficha Técnica Título: Clara e o Natal Autor: Rute Canhoto Ilustrações: Joana Guedes Correcção do Texto: Professora Nédia Correia 1ª edição, Novembro de 2009 Tiragem de 50 exemplares Impressão: Euedito Local de Impressão: Vila Nova de Gaia Depósito Legal: 302640/09 ISBN: 978-989-20-1771-6

Rute Canhoto http://rutewords.blogspot.com Euedito geral@euedito.com www.euedito.com


Clara e o Natal Texto: Rute Canhoto Ilustrações: Joana Guedes


Era uma vez… Todas as histórias deviam começar por “era uma vez” e terminar em “viveram felizes para sempre”, mas por vezes a realidade passa ao lado deste padrão ideal e os sonhos nunca chegam a ver a luz do dia. Clara era uma menina de onze anos e para ela a vida não era nenhum conto de fadas: tinha perdido os pais quando ainda era bebé e tinha ido viver com um tio muito velhinho que mal se segurava em pé. Com muito esforço o tio foi criando Clara, mas chegou uma altura em que a idade se sobrepôs à sua vontade de ferro e foi obrigado a entregar a menina aos cuidados de um orfanato que recebia crianças sem pais ou que tinham sido abandonadas. A menina teve pena de deixar o tio, mas compreendia que ele não podia fazer mais por ela; quem sabe se por desgosto, o tio acabou por falecer alguns dias depois deixando a menina completamente sozinha no mundo. Ao chegar ao orfanato, Clara percebeu de imediato que dificilmente conseguiria ser feliz ali, pois o próprio ambiente daquele sítio era horripilante: passando a porta da rua entrava-se num amplo átrio que ao fundo tinha uma grande escadaria e um salão com uma lareira; a decoração era sinistra e tudo estava envolto em escuridão. A directora da instituição, Madame Funesta, recebeu Clara com uma falsa simpatia das mãos de uma senhora da Segurança Social e encaminhou-a para aquele que iria ser o seu quarto: era uma camarata com cerca de dez camas onde iria dormir com outras meninas; os meninos dormiam noutro quarto em frente ao delas. Assim que entrou na camarata, Madame Funesta mandou-a despir as suas roupas e deu-lhe uns trapos velhos e de aspecto andrajoso – a partir daquele momento aquela seria a sua farda. Quando Madame Funesta a deixou sozinha para trocar de roupa, uma das meninas do orfanato veio ter consigo e assumiu a responsabilidade de lhe ensinar tudo o que teria que fazer por ali. Explicou-lhe que nos primeiros dias iria ser tudo um pouco difícil e estaria triste, mas veria como depois as coisas se tornariam mais fáceis e acabaria por esquecer a tristeza, tal como lhe tinha acontecido a ela e às outras crianças: habituavam-se. Limpar a lareira, fazer as camas, lavar a loiça, limpar o pó, lavar as janelas, varrer e lavar o chão ou lavar e estender roupa eram tarefas que depressa se tornaram diárias para Clara e em pouco tempo tinha uma rotina criada. As crianças apenas não cozinhavam, pois essa tarefa cabia à cozinheira que apenas aparecia duas horas antes de cada refeição para as confeccionar. Os dias passavam lentamente e os meses começaram a somar-se, assim como os anos… Clara não sabia ao certo há quanto tempo vivia no orfanato, mas sabia que ela tinha onze anos e que os últimos não tinham sido nada felizes. No entanto, aquela era a vida possível que podia levar tendo em conta as circunstâncias. Um dia, a directora do orfanato chamou Clara e ordenou-lhe que limpasse a cave, pois há muito tempo que ninguém ia lá abaixo. A cave era um sítio imundo, cheio de ratos e tralha e cheirava muito mal. A menina tinha medo de ir para a cave devido à escuridão, por isso ainda tentou protestar, mas Madame


Funesta não lho permitiu sequer. Para garantir que a menina não se escapava àquela tarefa, a malvada Madame pegou-lhe no braço e praticamente arrastou-a até à cave; depois de a deixar lá sozinha, fechou a porta atrás de si e trancou-a. Ao ver-se envolvida pela escuridão, a menina começou a chorar. Ela já tinha feito muita coisa que não queria, mas aquela era sem dúvida a pior de todas. Clara tinha medo do escuro e na cave não havia uma única lâmpada nem uma vela que pudesse acender; como a porta da cave tinha sido fechada, ela não tinha sequer luz para limpar aquele sítio. Triste e assustada, a menina sentou-se a um canto sobre algo que lhe pareceu uma velha carpete enrolada e cheia de pó, encolheu os joelhos, agarrou-se a eles e começou a choramingar. O tempo foi passando, mas ninguém veio abrir-lhe a porta, nem procurá-la; certamente iria ficar ali por muito tempo como forma de castigo por ter tentado contestar uma tarefa que não lhe agradava. Embora se tentasse controlar, as lágrimas começaram a correr-lhe em fio pela cara e em poucos segundos tornaramse num choro compulsivo. Enquanto tentava reunir forças para se aguentar, algo aconteceu: de súbito viu um estranho brilho que saía por detrás do que se assemelhava a uma velha cómoda. Curiosa, Clara aproximou-se, desviou a cómoda e inesperadamente encontrou um buraco na parede que parecia ter sido escavado de uma forma muito rude e de onde saía uma luz muito brilhante. A menina ainda ficou indecisa quanto a como reagir ou ao que fazer, mas após constatar que o buraco formava um túnel que lhe pareceu ser seguro, não teve dúvidas de que aquela seria a sua saída para fora daquela cave assustadora. Entrou no buraco e começou a gatinhar através dele. À medida que prosseguia sentia cada vez mais frio; tendo em conta que se estava no Inverno, era normal que o tempo na rua fosse frio, mas nunca tinha estado num sítio tão gelado! Qual não é o seu espanto quando por fim chega à saída do túnel e encontra… neve! Querendo saber onde estava, a menina começou a caminhar lentamente; os seus pés enterravam-se na neve, que lhe chegava até aos joelhos, atrasando-a. Independentemente do ritmo a que caminhasse, passados alguns minutos o manto branco parecia-lhe todo o mesmo: Clara estava perdida e tinha tanto frio que o seu corpo tremia de alto a baixo. Sem ter como se aquecer, a menina acabou por desmaiar. Quando o tempo parecia voar sem se importar com o que se passava com a menina, eis que a sorte foi ao encontro de Clara: no regresso a casa, passou por ali um gnomo no seu trenó. Ao vê-la ali desmaiada, gelada e sozinha, o gnomo decidiu então levá-la para sua casa. Só muito mais tarde, quando o corpo recuperou a temperatura normal, é que Clara acordou. A muito custo abriu os olhos, que teimavam em fechar-se, e para tornar as imagens mais claras, esfregou-os. Ao olhar em redor, viu-se numa casa tão pequena que lhe parecia uma casinha de bonecas, pois tudo era pequeno: loiça em miniatura, mobília pequena, livros pequenos... tudo pequenino! Foi então que se deparou com o gnomo a sorrir para si. Assustada, deu um pulo e recuou um pouco, pois nunca antes tinha conhecido um gnomo.


Clara e o Natal