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ECONOMIA

Observatório das matérias primas POR JOÃO SANTOS

A seca do século na Argentina, barreiras para aqui e para ali, onde éque isto vai parar... O presente artigo é sobre matérias primas, e não um observatório político, mas neste artigo vai ser difícil não deixar de falar do segundo tema. A atualidade internacional, à margem da crise dos refugiados, parece, assemelhase, tem côr, e cheiro de guerra comercial. Quando a doutrina económica diz que os Estados devem eliminar as tarifas aduaneiras e caminhar para o livre comércio sem barreiras aduaneiras artificiais, e que a história tem provado que este é o caminho com mais benefícios para todos os países, tanto os desenvolvidos como os em vias de desenvolvimento, ao permitir que cada país se concentre, pelas suas circunstâncias especificas, a produzir no que tem maior vantagem competitiva. Dito isto, o presente governo americano, a atual administração da Casa Branca não pensa assim, e de repente o mundo que criou

no pós II Grande Guerra, não é o que quer. E assim tem agido nos últimos meses para desmantelar o que durou tantos anos a criar. Adicionalmente temos que mencionar que a Argentina teve a segunda pior seca dos últimos 100 anos, que teve como consequência a perda de 1/3 da colheita e com isso a subida do preço da soja de 270€/ton em novembro para 420€/ton em abril, e para agora estar nos 340€. E estamos a olhar para o que promete ser uma colheita promissora nos Estados Unidos. Assim e voltando à guerra comercial em relação ao nosso setor para a Europa, de momento as consequências são que a partir de dia 20 de junho, o milho dos “States” tem uns direitos aduaneiros de 25%, se tivermos em conta que nesta primavera/verão o milho dos “States” era o milho mais barato, a Europa vai deixar

COLHEITAS MUNDIAIS milhões de tm

14/15

15/16

16/17

17/18

18/19

Produção Mundial

319

312,8

351,4

339,7

355,2

Stock finais

77,6

76,6

96,0

92,49

87,02

24%

24%

27%

27%

24%

1.008,80

961,9

1070,2

1034,8

1052,4

208,2

210,9

227,0

192,7

154,7

21‰

22‰

21‰

19‰

15‰

SOJA

MILHO Produção Mundial Stock finais

fonte: USDA s&d junho reporte

44 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

de ter acesso/comprar o milho mais barato. A China, vai impor a partir de 6 julho direitos de 25% na soja dos “States”. Assim, continuando esta guerra, à Europa só vai chegar soja dos Estados Unidos e toda a soja da América do Sul irá parar à China. Vamos ver como é que isto vai acabar na carne e no leite, uma vez que a próxima cartada da Casa Branca parece ser no leite, em particular contra o Canadá.

Proteínas Como vimos a Argentina sofreu uma seca extrema de novembro a abril passado, “no ano anterior a colheita foi de 57 milhões de toneladas e este ano ficou pelos 37 milhões”. Considerando que a Argentina é o principal exportador de farinha de soja do mundo, e que é ela que marca o preço da mesma em todos os mercados não produtores de soja, vemos o impacto que esta redução de produção teve. Está claro que a subida assistida do preço da soja em Lisboa de 270€/ton para 420€/ton num espaço de 5 meses não se deveu só a esta redução, pelo caminho tivemos a guerra comercial que começou a acentuar-se no final de fevereiro. A guerra comercial por si só, não acrescenta nem diminui oferta de soja, mas altera os fluxos. Assim o preço do grão e farinha de soja vai estar a ser calculado com base num CIF China, descontado o frete e no caso

dos “States” acrescido de 25% de direitos de importação. Assim os chineses vão comprar toda a soja disponível de outras origens e muita colza e girassol, antes de comprarem soja dos “States”. E o resto do mundo vai viver de soja americana. Por muito ineficiente que seja esta mudança de fluxos, isto é o que parece que vai acontecer. Porque é que a soja está a retroceder dos 420€/ton para os atuais 340€/ton? O tempo até ao momento está a ser promissor para que a colheita deste ano seja boa nos Estados Unidos, e à medida que vão passando as semanas, se o tempo se mantiver favorável, a tendência será de continuar a corrigir em baixa. Tudo isto só é possível porque continuamos a ter um nível de stocks de soja mundiais relativamente altos, 24% do consumo. Vamos ver como é que o mercado da carne se vai comportar nesta guerra comercial, no entanto algo relevante é que pelo menos a China parece já ser autossuficiente na produção de carne de porco, e vemos a importação/consumo de soja a estabilizar, em que o crescimento esperado é de metade do incremento do ano anterior, que foi cerca de 10%. Acrescido a isto temos os juros a subir nos Estados Unidos, que tiveram e vão continuar a

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Ruminantes 30  

Edição nº30/2018 A revista da Agropecuária

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