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Ano 8 - Nº 30 - 5,00€ julho | agosto | setembro 2018 (trimestral) Diretor: Nuno Marques

A REVISTA DA AGROPECUÁRIA

www.revista-ruminantes.com

PRODUÇÃO OVINA COMPORTAMENTO ANIMAL o que nos pode dizer

no Baixo Alentejo

MANEIO HOLÍSTICO conheça o conceito


EDITORIAL

Edição nº 30 JULHO | AGOSTO | SETEMBRO 2018 DIRETOR

“...as meninas estão bem?” O bem-estar animal é algo cada vez mais presente e falado nas explorações. Nos artigos que leio, em entrevistas com produtores e técnicos e em visitas de campo, nota-se uma preocupação crescente com o bem-estar animal. Como denominador comum do investimento no bemestar está a resposta positiva que os animais dão, quer seja na quantidade de leite ou carne que produzem a mais, quer seja em produtividade ou na diminuição de problemas de saúde. Na verdade, não é diferente do que se passa connosco, se não tivermos boas condições de trabalho e descanso é certo que mais tarde ou mais cedo os erros aparecem, a produtividade diminui, os conflitos aumentam... É claro que o investimento em bem-estar não deve ser feito a qualquer preço, por corrermos o risco de não obter o retorno financeiro suficiente, mas nem sempre é preciso investir muito para conseguir melhorar os resultados da exploração. Manter uma boa higiene nos parques, oferecer um espaço adequado por animal, camas confortáveis, água fresca à disposição e uma temperatura ambiente adequada são medidas quase sempre alcançáveis. O bem-estar animal pode ser um conceito difícil de perceber porque não tem uma definição única e pode significar coisas diferentes para pessoas diferentes. Um criador com poucos recursos económicos e com pouca educação não perceberá da mesma forma as necessidades de bem estar dos seus animais que outro criador que tenha tido formação e que tenha condições para manter os seus animais bem tratados e felizes. Fatores de ordem económica, mas também cultural e sensorial condicionam a maneira como se olha para esta questão. A este propósito, a ONG Compassion in World Farming, que luta por melhores condições de bem-estar na produção animal, acredita que uma abordagem “profissional” à produção, envolvendo competências especializadas e o conhecimento científico, poderia não apenas melhorar o bem-estar como também a confiança das pessoas para uma agricultura humanamente sustentável. No fundo, trata-se de ter presente a importância de avaliar o impacto daquilo que fazemos nos nossos animais. Acaba por ser uma questão de bom senso e que pode ter uma repercussão financeira muito elevada, quer positiva quer negativamente. Parafraseando um casal de produtores de leite do norte da Europa, que conheci numa visita à sua exploração: “Whatever we do we always ask if it’s good for the cows – we need to make sure that the girls are healhy” (“O que quer que façamos, questionamos sempre se será bom para as vacas - precisamos de ter a certeza que as meninas estão bem”). Ainda que a definição de bem-estar animal possa não ser única, esta é sem dúvida uma forma simples e certeira de ver o assunto.

Nuno Marques

Nuno Marques | nm@revista-ruminantes.com Colaboraram nesta edição Adelaide Pereira; Ana Cristina Vitor; António Cannas; António Moitinho; Ariana Machado; Brad Heins; Carlos Martinho; Carlos Neves; Carlos Vouzela; Deolinda Silva; Filinto Osório; George Stilwell; Glenda Pereira; Gustavo Alés; Javier Lopez; Joana Correia; João Santos; José Caiado; José Santoalha; Luís Raposo; Marisa Bernardino; Miguel Lança Madeira; Paula Neto; Paulo Fortuna; Pedro Castelo; Rui Horta Caldeira; Sara Garcia; Sara Nóbrega; Tiago Ramos. Agradecimentos Irmãos Ferreira Gomes - Soc Agrícola, Lda Capa Fotografia editada por Francisco Marques

PUBLICIDADE E ASSINATURAS Nuno Marques | comercial@revista-ruminantes.com

REDAÇÃO

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DESIGN E PRÉ-IMPRESSÃO Sílvia Patrão | prepress@revista-ruminantes.com

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ÍNDICE

66 O QUE O COMPORTAMENTO ANIMAL NOS PODE DIZER Temos apresentado em números anteriores da revista o significado de alterações observadas em órgãos (ex: pele e pêlo) ou em produtos (ex: fezes) dos ruminantes. Estas são formas indiretas de um animal falar com o observador. No presente artigo iremos recordar e rever a maneira como os animais comunicam diretamente connosco – através do seu comportamento.

ALIMENTAÇÃO

08 PRODUÇÃO OVINA NO BAIXO ALENTEJO Os sistemas de produção ovina de carne e leite em Mértola apresentam uma evolução positiva no sentido da maior intensificação, quando comparados com os sistemas de produção tradicionais anteriormente praticados. Perceba as razões pelas quais os ovinos continuam a representar uma alternativa importante para a região.

16 Lacticoop: “açúcar, quanto mais, melhor!” 20 As forragens na alimentação das novilhas 32 Com Dairy Cooler as vacas refrescam-se por dentro 40 O impacto do stress térmico em vacas leiteiras 50 Alimentação de bezerros do nascimento ao desmame 54 Utilização de lisina e metionina em bovinos de engorda

ATUALIDADES 14 Duelo da proteína: animal vs vegetal 38 Produção de lã, assistiremos a um regresso? 86 Feira Agrícola dos Açores 2018

ECONOMIA

22 MANEIO HOLÍSTICO Entrevistámos Gustavo Alés, presidente da aleJAB hub ibérico do Savory institute, para ficar a conhecer em que consiste o maneio holístico. Uma forma alternativa e integrada de pensar e trabalhar em agricultura.

44 Observatório de matérias primas 46 Observatório do leite 48 Índice VL e Índice VL erva

GENÉTICA 34 Crossbreeding, para a futura rentabilidade na produção leiteira

PRODUÇÃO 28 Total Dairy Azores

PRODUTO 76 Herd Navigator, gestão proativa das suas vacas 79 Novidades de produto 84 Onze mandamentos do Concessionário de máquinas agrícolas

SAÚDE E BEM-ESTAR ANIMAL 58 Preparação do bezerro para exportação 60 Vacinação para mastites, a opinião de quem aposta na prevenção 64 Combater a resistência aos antibióticos: o desafio dos veterinários de campo para a saúde global 70 Urolitíase em pequenos ruminantes 72 Biossegurança na exploração, cuidados a ter com os alimentos e a água de bebida 73 Dicas práticas, bem-estar... do agricultor 74 Importância da água em vitelos

Boletim de assinatura 1 ANO, 4 EXEMPLARES

DADOS PESSOAIS

Portugal: 20,00 €

Nome.............................................................................................................................................................................................

Europa: 60,00 €

Morada..........................................................................................................................................................................................

Pagamento • Por transferência bancária IBAN: PT50 0269 0111 00200552399 92 Enviar comprovativo para o email geral@revista-ruminantes.com • Por cheque: À ordem de Aghorizons, Lda.

............................................................................................................................................................................................................. CP............................................................................Localidade.............................................................................................. Email.............................................................................................................................................................................................. Tel............................................................................NIF................................................................................................................. Morada para envio: Revista Ruminantes - Rua Alexandre Herculano, nº 21, 5º Dto, 2780-051 Oeiras.

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ATUALIDADES

A UNIÃO FAZ A FORÇA

VACQA INTERNACIONAL A organização internacional de consultoria veterinária VACQA, disponibiliza agora uma aplicação online, em português, para Médicos Veterinários consultores. Esta aplicação engloba várias ferramentas de análise SWOT aplicáveis a bovinos leiteiros adultos (incidindo em fatores como a saúde podal, saúde do úbere, produção leiteira, fertilidade e nutrição), e vitelos. Estas avaliações permitem definir ações prioritárias a implementar nas explorações e analisar a evolução das explorações após a intervenção do Médico Veterinário. A aplicação dispõe ainda de ferramentas para avaliar o bem-estar animal e saúde pública e biossegurança das explorações. Todas estas avaliações são parte integrante de um programa de qualidade e análise de riscos e controlo de pontos críticos (HACCP) que deverá ser implementado nas explorações. Assim, é também possível fazer o download de um manual de HACCP com aplicabilidade em explorações leiteiras bem como bibliografia sobre vacinação e medicina veterinária preventiva. Como forma de garantir uma utilização adaptada à realidade do campo, o Médico Veterinário consultor pode também descarregar da aplicação as folhas para utilizar nas suas atividades de campo e registar as informações manualmente. Existe também um separador com links para o consultor, que possuem informação útil sobre diversos temas. Esta aplicação está também disponível em inglês, francês, espanhol, holandês e alemão. NOTA: Este programa destina-se exclusivamente a Médicos Veterinários para avaliarem as suas explorações e aconselharem os seus clientes.

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É esta a esperança de mais de trezentos produtores de leite dinamarqueses que assinaram o programa R500 da Arla, criado com o objetivo de assegurar o futuro dos seus negócios e enfrentar os voláteis preços do leite. Subjacente ao programa está a noção que o lucro das explorações pode ser maximizado quando os produtores possuem o conhecimento e ferramentas necessários para se adaptarem a mudanças no mercado, inevitáveis no setor leiteiro. Neste programa, os produtores trabalharão lado a lado através da transmissão de conhecimentos e benchmarking, sendo atribuída a cada exploração uma pontuação máxima de 500 pontos. Esta avaliação e sistema de pontuação permitem ao produtor ter uma visão holística do negócio e perceber os seus pontos fortes, bem como áreas de melhoria. Esta união surge numa altura em que a Europa ainda se está a ajustar à cessação do regime de quotas, volatilidade dos preços mundiais do leite e à ameaça do Brexit, sendo vital para os produtores terem capacidade de navegar neste mercado e adaptar-se aos riscos a curto e longo prazo. A chave para a sobrevivência estará no trabalho conjunto, na partilha de conhecimentos e nas novas ideias, premissas do programa R500. O “R” significa resiliência a qual, segundo representantes da Arla, não se prende com investimentos avultados ou aquisição das mais recentes tecnologias, mas sim com pequenas mudanças a curto prazo de maneio estratégico, liderança, relações interpessoais, trabalho de equipa e, acima de tudo, capacidade de adaptação à mudança.

CROSSBREEDING MELHORA A EFICIÊNCIA ALIMENTAR Os benefícios dos programas de crossbreeding como o ProCROSS, um cruzamento triplo das raças Montbeliarde, Holstein e Vermelha Sueca, são já bem conhecidos entre os produtores de leite no que toca à saúde geral e reprodutiva. No entanto, estes benefícios podem estender-se também ao índice de conversão e teores butírico e proteico do leite. Um estudo realizado ao longo de quatro anos na Universidade do Minnesota, nos Estados Unidos, concluiu que as vacas cruzadas conseguiam produzir leite com os mesmos quilos de gordura e proteína que as suas homónimas Holstein, mas com uma ingestão de alimento de menos um quilo de matéria seca. Isto traduziu-se num ganho de 30 cêntimos/vaca/dia para animais na primeira lactação e de 50 cêntimos/vaca/dia para animais na segunda e terceira lactações. Estes resultados vão ao encontro daquilo que se observa em bovinos de carne e em suínos, nos quais existem já ensaios que provam a ligação do vigor híbrido à eficiência alimentar. No estudo em questão foram estudadas mais de 200 lactações, 123 novilhas (60 Holstein e 63 cruzadas) e 80 vacas de segunda e terceira

lactações (37 Holstein e 43 cruzadas), com registos detalhados de ingestões diárias, peso e condição corporal, estes últimos com frequência semanal. Em termos de peso vivo, não foram encontradas diferenças significativas entre vacas puras e cruzadas, mas as vacas cruzadas apresentavam mais um quarto de ponto na escala de condição corporal. Após a conclusão do estudo foi possível apurar que o leite das vacas cruzadas apresentava níveis mais elevados de gordura e proteína, com maiores níveis de produção por unidade de matéria seca e maior conteúdo proteico por unidade de proteína bruta ingerida, independentemente do número de lactações. Traduzindo esses resultados em valores numéricos, o lucro sobre o custo alimentar na primeira lactação das fêmeas Holstein foi de 709 euros em 150 dias de leite, valor aquém dos 752 euros obtidos com animais cruzados. Na segunda e terceira lactações, os valores foram de 1038 e 1114 euros, respetivamente. De acordo com estes resultados, os produtores poderão tirar ainda maior partido do crossbreeding, otimizando a gestão alimentar dos seus efetivos.


ATUALIDADES

PREÇOS DO LEITE DE CABRA MANTÊM-SE ACIMA DO PREVISTO Em Espanha, respira-se de alívio (mas pouco) no mercado do leite de cabra. Apesar de os preços terem diminuído em todo o território nacional em relação ao ano passado, este declínio não tem sido tão forte quanto as previsões indicavam no seguimento do marcado aumento dos volumes de produção primaveris. O limite inferior dos preços é determinado, no momento do aumento da oferta do leite, pelos chamados preços “à vista” ou preços “spot”, ou seja, do leite comercializado entre indústrias. Um dos entraves a estas negociações é a perecibilidade do leite, que faz com que os acordos tenham de ser rapidamente feitos. Apesar do aumento da produção, os preços “spot” têm-se mantido na ordem dos 0,0601 euros por grau de extrato queijeiro (soma das percentagens de gordura e proteína). Já o preço médio do leite adquirido através de contratos mais estáveis ao longo do tempo mantém-se nos 0,0616 euros por grau de extrato queijeiro, o qual se prevê que se mantenha no início no verão. Ainda não existem previsões concretas para os próximos meses, mas sabe-se que a recuperação dos preços será impossível caso se dê um forte aumento da produção. Por outro lado, se a quantidade de leite colocada no mercado for moderada, poderão ser atingido preços bastante atrativos na segunda metade do ano.

ÁGUA DE ALTA TECNOLOGIA Um grupo de investigadores do Scotland’s Rural College, na Escócia, está a desenvolver uma nova ferramenta de imagem que permitirá acompanhar com precisão o crescimento de bovinos de carne, bem como prever quais serão as características da carcaça ainda nos animais vivos. A localização do equipamento estará num local estratégico: a nível dos bebedouros. Através da recolha de quarenta medições distintas de cada animal, o sistema Beef Monitor consegue criar imagens tridimensionais, as quais podem ser posteriormente analisadas e utilizadas na tomada de decisão de quando enviar os animais para o abate. Este é um sistema em tudo semelhante ao já utilizado nos matadouros para a classificação das carcaças. A grande utilidade do Beef Monitor

prende-se com a sua aplicação numa fase muito mais precoce, ainda a nível da exploração, o que permitirá aos produtores maximizar a sua eficiência e lucro através da produção de carne cujas características satisfaçam as necessidades do mercado naquele momento. Esta “afinação” do processo de avaliação da condição corporal será uma melhoria em relação aos métodos atuais, os quais estão muito assentes na mera observação visual, e que pode levar a que os animais vão para abate demasiado tarde, com consequentes custos acrescidos para os produtores e perdas em termos de valor de mercado. Com este sistema, não só são feitas medições diárias a nível individual, como também se reduz o maneio, já que o Beef Monitor funciona de forma completamente automática.

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PRODUÇÃO

ANA CRISTINA VÍTOR MÉDICA VETERINÁRIA

Sistemas de produção ovina de carne e de leite no Baixo Alentejo Caracterização do concelho de Mértola

RUI HORTA CALDEIRA PROFESSOR CATEDRÁTICO DE PRODUÇÃO ANIMAL DA FACULDADE DE MEDICINA VETERINÁRIA DA UNIVERSIDADE DE LISBOA

“Os sistemas de produção ovina de carne e leite em Mértola apresentam uma evolução positiva no sentido da maior intensificação, quando comparados com os sistemas de produção tradicionais anteriormente praticados.” A produção ovina em Portugal é importante em muitas regiões do interior, e contribui substancialmente para a economia e cultura locais, para manter a ocupação do território e preservar a biodiversidade e a paisagem rural. Para que se possa avaliar a sustentabilidade dos sistemas de produção praticados é fundamental que se conheça o nível

de desenvolvimento técnico das explorações, no sentido de aumentar a sua competitividade. Através da análise dos sistemas de produção é possível identificar os caminhos para otimizar a produtividade animal, em harmonia com as particularidades biológicas e comportamentais das espécies exploradas.

A produção ovina em Mértola MIGUEL LANÇA MADEIRA MÉDICO VETERINÁRIO NA ACOS-AGRICULTORES DO SUL

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Miranda Vítor, A.C.M. (2018). Sistemas de produção ovina de carne e de leite no Baixo Alentejo – caracterização do concelho de Mértola. Dissertação para a obtenção de grau de mestre em Medicina Veterinária. Lisboa: Universidade de Lisboa: Faculdade de Medicina Veterinária.

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Com o objetivo de efetuar uma caracterização dos sistemas de produção ovina de carne e de leite do concelho de Mértola, foram efetuados 28 inquéritos a explorações desse concelho. Foram inquiridas 22 explorações de ovinos de carne, com um mínimo de 500 animais e 6 explorações de ovinos de leite, com um mínimo de 100 animais. As explorações abrangidas representavam, em relação ao efetivo total do concelho, no caso da carne, 32% dos animais dessa aptidão e, no caso do leite, 73% dos animais dessa aptidão.

Produtores e explorações Verificou-se que 72% dos produtores tem, pelo menos, 50 anos, o que denota um envelhecimento do setor. A dimensão média das explorações é elevada, sendo de aproximadamente

350 ha nas explorações leiteiras e de 630 ha nas explorações de carne, o que aponta para uma tendência de maior profissionalização, através do ganho de dimensão. Praticamente metade das explorações apresenta uma área total fracionada, o que acarreta alguns inconvenientes ao nível do maneio dos animais e pode comprometer, em parte, o seu maneio sanitário.

Culturas para alimentação animal Nas explorações de produção de carne, a área ocupada com culturas vegetais destinadas à alimentação animal, é de cerca de 260 ha, variando entre os 30 e 500 ha, o que corresponde a uma média de ocupação de 50% da área total. As culturas forrageiras predominantes são a aveia (79%), ervilha e ervilhacas (36%), trigo (36%), tremocilha (32%), cevada


PRODUÇÃO

Sistemas de produção e raças GRÁFICO 1 Tipos de pastagem presentes nas explorações (2018, Miranda Vítor). Nota: A pastagem “não corrigida” é uma pastagem natural sem adubação e/ou correção de solo; a pastagem “corrigida” é uma pastagem natural com adubação e/ ou correção de solo. As explorações 1, 2, 3, 4 e 5 correspondem a explorações leiteiras.. 27 26 25 24 23 22 21 20 19 18 17 16

Explorações

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Enquanto os sistemas de produção de carne são maioritariamente extensivos, já nos sistemas de produção de leite existe uma maior heterogeneidade de graus de intensificação. Os animais explorados para a obtenção de carne são sobretudo resultado do cruzamento das raças Campaniça e Merino Branco, com uma predominância variável de cada uma das raças e com diversos graus de mestiçamento por introdução de genéticas melhoradoras como a Merino Precoce e a Ile de France. Na produção de leite, existe uma predominância da raça Lacaune e é evidente a tendência para a diminuição da ordenha de animais de vocação predominantemente de carne, apesar desta ainda se verificar em casos pontuais.

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Maneio reprodutivo

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70

% de pastagem não corrigida

corrigida

semeada

(29%) e triticale (21%). Todas as explorações possuem unicamente pastagens de sequeiro, embora 64% recorra já à sua sementeira. As espécies vegetativas predominantes nas pastagens semeadas são os trevos (29%) e o azevém (21%). Os cereais e as proteaginosas referidos nas culturas forrageiras são também pastoreados em fases específicas do ciclo vegetativo (grafico 1).

FIGURA 1 Ovinos da raça Campaniça explorados num sistema de produção semi-intensivo (2018, Miranda Vítor).

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Existe uma tendência crescente para a adoção de ritmos reprodutivos mais rápidos (3 partos em 2 anos), contudo, as épocas de cobrição e de parição ainda possuem uma duração demasiado prolongada, comprometendo em muitos casos um correto planeamento do maneio. Ainda assim, a vontade de implementar ritmos reprodutivos com ciclos mais curtos demonstra a consciencialização para a necessidade de diminuir os tempos improdutivos dos animais nos rebanhos. A avaliação da condição corporal é realizada na quase totalidade dos casos apenas com recurso à observação visual, o que é insuficiente em especial nesta espécie, devido à presença de lã.

Registos e instalações Existe um forte défice quantitativo e/ou qualitativo de registos produtivos, o que limita a evolução técnica das explorações, constituindo talvez o principal aspeto negativo associado aos sistemas de produção. O grande número de explorações com ovis, mangas de maneio e luz elétrica apresenta-se como um aspeto bastante positivo, assim como a vulgarização da utilização de instalações para um melhor maneio dos animais.

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PRODUÇÃO

FIGURA 2 Ovinos da raça Lacaune em ordenha mecânica (2018, Miranda Vítor).

GRÁFICO 2 Tipo de produto (borrego) comercializado pelas explorações de ovinos de carne (2018, Miranda Vítor). Nota: a azul- borrego de leite; laranja escuro- borrego com destino direto ao abate após o seu desmame; cinzentoborrego com destino a engorda dentro da própria exploração, após o seu desmame; laranja claro- borrego com destino a engorda fora da exploração, após o seu desmame. A proporção das diversas cores não é coincidente com a proporção de animais vendidos em cada uma das categorias, pretendo somente informar da sua ocorrência em cada uma das explorações.

2 leite

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4 abate

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engorda 1

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Produção de carne No setor da carne, verifica-se uma forte tendência para a prática de desmames precoces que, na maioria das explorações, se realizam entre as 6 semanas e os 2 meses de vida, com uma elevada proporção de explorações a enviar animais para engordas intensivas, como é possível observar no Gráfico 2. Esta tendência demonstra que existe uma tentativa de regularizar e homogeneizar a oferta de carne de borrego.

Explorações

1

A inseminação artificial ainda é uma realidade distante no setor da carne e nos sistemas de produção leiteira menos intensificados. Os machos reprodutores são selecionados principalmente com base em critérios morfológicos e não é feita uma avaliação reprodutiva por rotina. Salvo algumas exceções, principalmente no setor do leite, o diagnóstico de gestação é feito apenas com recurso à observação dos úberes das fêmeas no final da gestação, procurando identificar aquilo que é designado por “amojo”. A ecografia aparece nos sistemas de produção de leite mais intensificados, onde existe um aumento do grau de intensificação produtiva, através da utilização de raças exóticas de elevada produção, como a Lacaune, ordenhadas, na sua totalidade, de forma mecânica.

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Maneio alimentar e sanitário O maneio alimentar apresenta aspetos bastante positivos como o uso generalizado de alimentos compostos complementares e fenos, para além da distribuição frequente de fontes suplementares de minerais e vitaminas. Os programas sanitários abrangem a totalidade dos efetivos, onde estão completamente vulgarizadas práticas de vacinação e desparasitação, quer em animais adultos, quer em animais jovens. As principais doenças que ameaçam o efetivo jovem são, por ordem de

FIGURA 3 Borregos da raça Campaniça explorados num sistema de produção semi-intensivo (2018, Miranda Vítor).

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PRODUÇÃO

GRÁFICO 3 Mortalidade devido ao ataque de predadores nos animais jovens das 20 explorações de carne (2018, Miranda Vítor).

FIGURA 4 Cadáver de borrego vítima de ataque de predador (2018, Miranda Vítor).

Explorações 90

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Mortalidade (%)

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importância, as diarreias, os problemas respiratórios, as parasitoses e a doença do músculo branco (doença nutricional). No efetivo adulto, as principais ameaças sanitárias são as míases, as parasitoses internas e os problemas podais.

Refugo e mortalidade Os principais critérios de refugo aplicados são, nos machos, a idade e, nas fêmeas, a idade e as mamites. Os animais adultos têm uma taxa de mortalidade de aproximadamente 6% e os animais jovens de 8%. Dentro das principais causas de

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morte, sobretudo dos animais mais jovens, o ataque de animais silvestres assume uma relevância importante na região e abrange praticamente a totalidade das explorações. Dentro do leque de predadores mais frequentes, a raposa assume o papel de destaque. A percentagem da taxa de mortalidade dos animais jovens devida a estes ataques pode variar entre 10 a 90%, como é possível constatar no Gráfico 3. Isto significa que, nos casos mais graves, se a mortalidade dos animais jovens for de 10%, 9% será devida a ataques de animais silvestres.

Análise Swot S

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O

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suplementação alimentar produção de forragens sementeira de pastagens fontes extra de minerais e vitaminas vulgarização da ordenha mecânica raças leiteiras de elevada produtividade desmames precoces na carne ciclos reprodutivos mais curtos recurso a engordas intensivas

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sazonalidade da procura de leite défice de registos produtivos inadequação de recursos genéticos critérios de seleção pouco precisos subjetividade na avaliação da condição corporal duração excessiva das épocas de cobrição e parição baixa utilização de métodos de diagnóstico precoce de gestação ausência de avaliação reprodutiva dos machos inadequação de critérios de definição dos planos sanitários

• contexto edafoclimático da região • sustentabilidade da produção a longo prazo

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escassez de mão-de-obra alterações climáticas ataques de predadores competição pelas terras com outras produções

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A importância de outras produções no contexto da exploração Na maioria das explorações a produção ovina coexiste com outras atividades, das quais, entre outras, se destacam a bovinicultura, a suinicultura, o olival, o montado e a caça, o que faz com que a gestão do maneio dos ovinos assuma por vezes um papel marginal na lista de prioridades. A crescente centralização tem originado uma enorme escassez de mão-deobra disponível nas zonas periféricas, sendo talvez a principal ameaça ao futuro do setor ovino em Portugal.

Conclusão Concluindo, e para facilidade de apresentação das conclusões, apresenta-se uma análise SWOT, enumerando os principais aspetos positivos (S - strengths), fragilidades (W - weaknesses), oportunidades (O - oppurtunities) e ameaças (T - threats) relacionados com os atuais sistemas de produção ovina de carne e leite do concelho de Mértola. Os sistemas de produção ovina de carne e leite em Mértola apresentam uma evolução positiva no sentido da maior intensificação, quando comparados com os sistemas de produção tradicionais anteriormente praticados. A consciencialização geral de que é necessário reduzir ao mínimo o tempo improdutivo das ovelhas e adotar uma maior especialização da produção, passando por aumentar quantitativamente e qualitativamente a oferta de carne e de leite, parece estar a generalizar-se no contexto das explorações com um maior desenvolvimento técnico. O facto do concelho de Mértola apresentar limitações edafoclimáticas à maior produtividade das culturas agrícolas, poderá, a longo prazo, privilegiar o desenvolvimento do setor da produção animal. Os ovinos continuam a representar, em termos pecuários, uma alternativa importante de aproveitamento dos recursos da região e a crescente procura e valorização de géneros alimentícios de origem animal deverá continuar a estimular a intensificação do setor da ovinicultura.


ALIMENTO DO TRIMESTRE

Duelo da proteína: animal vs vegetal Nas edições passadas desta rubrica falámos de alguns alimentos de origem animal ricos em proteína, como a carne vermelha e o leite. Nesta edição final, vamos discutir a importância deste nutriente e estabelecer uma comparação entre as duas grandes fontes de proteína da dieta: animal e vegetal. POR JOANA SILVA, MÉDICA VETERINÁRIA

A proteína é um dos ingredientes-chave para uma dieta saudável, desempenhando um papel estrutural e funcional em todas as células, contribuindo para a manutenção da estrutura corporal e massa muscular, e promovendo a renovação contínua dos tecidos biológicos. São várias as funções que as proteínas podem desempenhar no organismo. Algumas, por exemplo, são hormonas (como a insulina), outras, como os anticorpos, assumem um papel de defesa. Também podem possibilitar a contração muscular, como é o caso da

actina e da miosina, e ajudar no transporte de oxigénio na corrente sanguínea, função desempenhada pela hemoglobina. Os aminoácidos são as unidades estruturais básicas das proteínas, e podem ser divididos em dois grupos: essenciais e não-essenciais (Figura 1). Os aminoácidos essenciais são assim designados porque o nosso organismo não tem capacidade de os sintetizar, tendo assim de ser obtidos através da dieta. Contrariamente, o Homem tem capacidade para sintetizar os aminoácidos não-essenciais. Quando uma proteína apresenta todos os

Figura 1

Aminoácidos ESSENCIAIS E NÃO-ESSENCIAIS Aminoácidos Essenciais Treonina

Isoleucina

Aminoácidos Não-Essenciais Alanina

Cisteína

Triptofano

Metionina

Ác. Aspártico

Glicina

Fenilalanina

Lisina

Ac. Glutâmico

Glutamina

Valina

Leucina

Hidroxiprolina

Prolina

Serina

Tirosina

Histidina Arginina

Essenciais apenas na infância

14 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

aminoácidos essenciais em quantidades suficientes para a síntese de novas proteínas, é designada como “proteína de alto valor biológico”. Ao contrário do que acontece com outros nutrientes (como os lípidos), o organismo humano não tem reservas proteicas, sendo por isso de extrema importância satisfazer as necessidades diárias através da dieta. As recomendações de ingestão diária de proteína são de

0,8 gramas por quilograma de peso corporal para um indivíduo saudável, valor variável de acordo com a fase de crescimento ou em situações específicas, como no caso das grávidas e dos atletas. O aporte proteico pode ser feito a partir de duas fontes: animal e vegetal, as quais possuem algumas diferenças. As proteínas de origem animal são proteínas completas, de alto valor biológico, e podem ser encontradas em fontes como o leite e derivados, os ovos, a carne, o peixe e o marisco. Já as proteínas de origem vegetal apresentam, quando isoladas, carência total ou insuficiência de um ou mais aminoácidos essenciais, sendo por isso classificadas como proteínas incompletas e de baixo valor biológico. De entre as fontes de proteína vegetal são de destacar os cereais, as sementes, as leguminosas e as oleaginosas. A soja é apontada como a exceção, possuindo um perfil de aminoácidos mais completo, semelhante ao da proteína de origem animal.


ALIMENTO DO TRIMESTRE

Quais os benefícios

Então e desvantagens?

da ingestão de proteína de origem animal

Algumas proteínas de origem animal são ricas em gordura saturada e colesterol, podendo constituir um fator de risco para o desenvolvimento de doença cardiovascular quando consumidas em excesso. No entanto, os diferentes padrões de consumo de proteína de origem animal nas sociedades atuais dificultam o estabelecimento de uma associação forte entre o seu consumo e a incidência dessa patologia. O efeito diferencial destas fontes de proteína sobre a patologia cardiovascular dever-se-á essencialmente ao contexto dietético em que são consumidas, por exemplo, numa dieta variada e equilibrada. Quanto às proteínas vegetais,

Muitas das fontes de proteína animal são igualmente ricas noutros compostos importantes para a saúde: CARNE VERMELHA • • • •

Vitaminas do complexo B (principalmente B12) CLA (Ácido Linoleico Conjugado) Ferro heme Outros minerais: zinco, fósforo, potássio e selénio

LEITE E DERIVADOS • Vitaminas A, B2, B6 e B12 • Cálcio, fósforo, potássio, magnésio, zinco e selénio

PEIXE E MARISCO • Ácidos gordos polinsaturados como o ómega-3 • Vitaminas D, B12, A e E • Selénio, iodo, ferro, zinco, magnésio e cálcio

OVOS • Vitaminas D, A e B12

Além disso, com a exceção do leite e derivados, as fontes de proteína animal são geralmente bastante pobres em hidratos de carbono. A ingestão de proteína animal também é apontada como um promotor do desenvolvimento de massa muscular magra e, paralelamente, um fator retardador da perda de massa muscular que ocorre geralmente com o avançar da idade.

Da ingestão de proteína vegetal As fontes proteicas de origem vegetal possuem a vantagem de terem valores bastante reduzidos de colesterol e gorduras saturadas, grandes preocupações dos consumidores atuais. O seu baixo valor biológico também pode ser melhorado pela complementaridade de diferentes fontes (por exemplo, conjugando cereais e leguminosas), que corrigem as lacunas em aminoácidos encontradas em cada um dos grupos.

já vimos que estas têm geralmente baixo valor biológico. Apesar do perfil de aminoácidos da soja se assemelhar ao da proteína de origem animal (possuindo, no entanto, baixa quantidade de dois aminoácidos essenciais), o seu consumo não está isento de riscos. A soja possui isoflavonas, semelhantes à molécula do estrogénio e, quando consumida em excesso, poderá levar a: problemas de infertilidade masculina e feminina, bem como cancro da mama; condicionamento do crescimento do feto durante a gestação; comprometimento da absorção de minerais em dietas pobres em hortofrutícolas e problemas da tiroide.

Algumas

ideias-chave • As proteínas são um nutriente essencial para a manutenção da saúde. • Todas as proteínas são compostas por aminoácidos, mas o perfil de aminoácidos difere de acordo com as fontes proteicas. • A proteína de origem animal, devido à sua riqueza em aminoácidos essenciais, é designada como “proteína de alto valor biológico”. • As fontes de proteína animal são ainda especialmente ricas noutras substâncias como a vitamina B12, a vitamina D, ómega-3, ferro heme e zinco. • Existem benefícios e desvantagens associados a ambas as fontes de proteína. Portanto, nem toda a proteína é igual, sendo que uma alimentação rica e equilibrada passa pela inclusão de fontes de proteína animal e vegetal na dieta. Além disso, a ingestão proteica e seus benefícios e/ou desvantagens não podem ser vistos de forma isolada, pois dependem de fatores como preferências culturais e individuais, fonte proteica e seu modo de preparação, bem como dos restantes componentes da dieta.

RUMINANTES JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 15


ALIMENTAÇÃO

FILINTO GIRÃO OSÓRIO ENGENHEIRO ZOOTÉCNICO NA SUGARPLUS filinto.girao@edfman.pt

Lacticoop: “açúcar, quanto mais, melhor!” Neste artigo abordaremos uma parceria que a ED&F Man tem vindo a desenvolver com a União de Cooperativas de Entre Douro e Mondego, Lacticoop. A ED&F MAN iniciou esta parceria em outubro de 2017 e trazemos para este número da revista Ruminantes os primeiros resultados obtidos. Focámos este trabalho na qualidade do leite, pois é um dos parâmetros fundamentais de valorização do trabalho do produtor e representa uma importante variação no valor final pago por cada kg de leite por ele produzido. Esta valorização é a missão da ED&F MAN com os seus produtos. O desenvolvimento desta parceria iniciou-se com formulação “à medida” de um produto de marca própria que veio a ser denominado LACTIPLUS, um produto formulado em parceria com o departamento de nutrição da Lacticoop e foi o que melhor se adequou às características produtivas dos associados da Lacticoop. Ao longo dos nossos

artigos temos vindo a defender a utilização de açúcares como parte de uma estratégia de eficiência que traz ganhos tanto na qualidade como na quantidade de leite produzidas. Temos assentado sempre em dados cientificamente comprovados e em dados de campo recolhidos nos nossos clientes espalhados por todo o mundo. Já publicámos artigos de cariz mais científico, trazendo os mais avançados estudos em nutrição, já publicámos artigos com clientes nossos demonstrando e testemunhando o seu ponto de vista e resultados obtidos. Portanto faz sentido que produzamos agora um artigo com outro elemento fundamental do setor do leite em Portugal e que é a entidade que compra o leite e que define as características gostaria de ver no produto que compra.

NOTA Um agradecimento especial ao João Sousa que tem colaborado desde o início, recolhendo dados e analisando para que possamos aqui comprovar o valor que temos vindo a prometer aos produtores de leite tanto em Portugal como no resto da Europa.

16 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

Duas explorações representadas Iremos denominar as explorações aqui representadas por A e B. Têm sensivelmente o mesmo tamanho, mas geografias distintas. A exploração A situa-se no distrito de Coimbra e a exploração B situa-se no distrito de Setúbal.

Exploração A Início de utilização 1 outubro 2017 Zona: Distrito de Coimbra Nº de vacas em ordenha: 220 Arraçoamento:

Matéria

Quantidade (kg)

Silagem de Milho

32,5

Luzerna (desidratada)

0,9

Palha

2,2

Concentrado

10,8

Lacticplus

0,7

Exploração B Início de utilização 1 outubro 2017 Zona: Distrito de Setúbal Nº de vacas em ordenha: 230 Arraçoamento:

Matéria

Quantidade (kg)

Silagem de Milho

26

Palha

3

Concentrado

12,5

Lacticplus

1

Lacticplus

0,7


A SOLUÇÃO

PARA O CALOR DO VERÃO!

MISTURA DE AÇÚCARES LÍQUIDOS, ÁCIDOS ORGÂNICOS E SAIS MINERAIS


ALIMENTAÇÃO

Os resultados aqui apresentados foram recolhidos e tratados pela equipa técnica da Lacticoop, mais precisamente pelo João Sousa, que tem servido como elo entre a ED&F MAN que fabrica e entrega o LACTIPLUS e o cliente final a quem a Lacticoop recolhe o leite e paga de acordo com a qualidade apresentada. Para a condução deste trabalho analisámos o trimestre préutilização e o primeiro trimestre com a utilização do LACTIPLUS.

Exploração A Evolução dos parâmetros de qualidade do leite (análise mensal). GRÁFICO 1 Teor Butiroso (TB) e Teor Proteico (TP) ao longo do período analisado na exploração A. 4,1

TB

3.9

TP

3.7 3.5

%

Resultados

3.3 3,1 2.9 2.7

Análise Financeira

Conclusões Podemos observar em qualquer das explorações um claro aumento da qualidade do leite, facto já amplamente referido em artigos anteriores, nomeadamente na entrevista que conduzimos na Queijaria Cachopas (Revista nº 24 de janeiro de 2017) mesmo durante uma época de calor. Observámos então um aumento do teor de gordura de 3,27% para 3,83% e um aumento do teor de proteína de 3,03% para 3,38% (tabelas 1 e 3). A atestar o argumento da dosedependência está o facto de que, embora tenham começado com teores proteico e butiroso muito semelhantes, a Exploração B obteve um aumento bastante superior. É de referir que é também a exploração em que a inclusão do LACTIPLUS foi maior, ou seja, é mesmo caso para dizer “quanto mais, melhor!”

Julho

agosto

setembro

TABELA 1 Média trimestre exploração A. TP

Leite Preço entregue litro/leite

média 1º

229

3,673333

3,25

203352

0,319

média 2º

216

3,923333

3,32

192454

0,338

0,25

0,07

Diferença

outubro

novembro

dezembro

TABELA 2 Retorno financeiro da exploração A.

Animais TB

Animais kg LACTIPLUS 216 Litros

0,7

Custo/kg

Valor /mês (€)

-0,21 €

-953 €

Centésimo Preço/centésimo

TB

192454

25

0,0002 €

962 €

TP

192454

7

0,0003 €

404 €

Retorno (€/mês)

414 €

Exploração B Evolução dos parâmetros de qualidade do leite (análise mensal). GRÁFICO 2 Teor Butiroso (TB) e Teor Proteico (TP) ao longo do período analisado na exploração B. 4,3

TB

4,1

TP

3.9 3.7

%

Os aumentos no valor do leite pago devido às qualidades obtidas tanto em teor proteico como em teor butiroso (gráficos 1 e 2) superam de longe o custo assumido pela utilização do alimento líquido LACTIPLUS. Se quisermos assumir uma média entre ambas as explorações, o retorno é de cerca de 750€/mês, se extrapolarmos este resultado para o ano inteiro estaremos a discutir um aumento de rendimento de 9000€/ano ( tabelas 1 a 4).

2.5

3.5 3.3 3,1 2.9 2.7 2.5 Julho

agosto

setembro

TABELA 3 Média trimestre exploração B. TP

Leite Preço entregue litro/leite

média 1º

228

3,66

3,22

205319

0,319

média 2º

230

3,99

3,42

201094

0,337

0,33

0,2

18 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

novembro

dezembro

TABELA 4 Retorno financeiro da exploração B.

Animais TB

Diferença

outubro

Animais kg LACTIPLUS 230 Litros

1

Custo/kg

Valor /mês (€)

-0,21 €

-1,451 €

Centésimo Preço/centésimo

TB

201094

33,00

0,0002 €

1,327 €

TP

201094

20

0,0003 €

1,207 €

Retorno (€/mês)

1,083 €


Um arranque saudável

Plano de recria Kaliber®

Vacas leiteiras saudáveis são o resultado da recria de novilhas saudáveis. O plano de recria Kaliber® é um programa alimentar formulado para garantir o desenvolvimento das vitelas, com saúde e vitalidade, e assim conseguir vacas leiteiras mais saudáveis e com uma vida produtiva mais longa. É disso que depende a sua rentabilidade! Quer saber mais sobre o plano de recria Kaliber®? Entre em contacto com um dos nossos especialistas ou visite deheus.pt

WWW.DEHEUS.PT


ALIMENTAÇÃO

As forragens na alimentação das novilhas O tipo de forragem utilizada na recria das novilhas, bem como a sua qualidade e quantidade, são determinantes para o correto desenvolvimento das futuras vacas leiteiras.

TIAGO RAMOS ASSISTENTE TÉCNICO RUMINANTES, DE HEUS NUTRIÇÃO ANIMAL, S.A. tmramos@deheus.com

Programa Kaliber 4 fases a considerar na recria A fase de recria é dividida em 4 fases distintas de acordo com as diferentes necessidades nutricionais e de desenvolvimento (ver gráfico 1): iniciação (1), jovem (2), puberdade (3) e gestação (4). Como podemos observar no gráfico a taxa de crescimento é bastante distinta em cada uma das fases. As forragens mais adequadas para satisfazer as necessidades nutricionais em cada uma das fases são: • Fase inicial: a partir do sétimo dia deve-se disponibilizar feno ou palha de alta qualidade e palatabilidade às vitelas. Este alimento tem como objetivo estimular o desenvolvimento do rúmen e a sua flora. Após o desmame poderão ser introduzidas na alimentação das vitelas a silagem de milho ou de erva; • Fase jovem: dada a elevada taxa de crescimento nesta

20 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

GRÁFICO 1 Divisão da fase de recria em 4 fases distintas. Ganho diário de pesos (gramas)

De acordo com a sua disponibilidade, deveremos selecionar as forragens com as características nutricionais mais adequadas a cada uma das diferentes fases de crescimento. Os estudos realizados têm demonstrado que forragens de má qualidade afetam negativamente o desenvolvimento das novilhas. Forragens de boa qualidade, para além de serem mais ricas nutricionalmente, são mais apetecíveis, potenciando uma maior ingestão de matéria seca. Outro fator que promove a ingestão de matéria seca é a frequência de alimentação e frescura dos alimentos. Nas novilhas, tal como nas vacas em produção, o alimento deve ser fornecido diariamente. Com esta prática reduzimos as perdas de alimento (fermentação e conspurcação) e aumentamos a ingestão de nutrientes a partir da forragem, logo melhoramos a eficiência a criar futuras vacas de leite.

1200 1000 800 600 400 200

1

2

3

4

0 1

3

5

7

9

11

13

15

17

19

21

23

Meses

fase, em que as novilhas podem alcançar cerca de 1 kg de ganho médio diário, devemos fornecer às vitelas forragens de alta qualidade e digestibilidade, sendo o arraçoamento elaborado e o alimento concentrado definido de acordo com o tipo de forragem utilizada (silagem de erva e/ou feno-silagem ou silagem de milho). Pode ser fornecido feno ou palha, mas em pequenas quantidades pois estes alimentos caracterizam-se por terem uma densidade nutricional baixa (sobretudo a palha);

• Fase da puberdade: o que distingue esta fase da anterior é a redução da taxa de crescimento, logo a quantidade de energia metabolizável fornecida deve ser menor. A utilização de silagem de milho deve ser restringida para evitar a sobrealimentação energética e a consequente deposição excessiva de gordura. A utilização da silagem de erva de boa qualidade (valores superiores a 12 PB) permite reduzir a quantidade de concentrado e garantir um bom desenvolvimento do rúmen da vitela, essencial na vida produtiva da futura vaca


TABELA 1

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FASES DE CRESCIMENTO

Heinrichs AJ, Jones CM, Gray SM, Heinrichs PA, Cornelisse SA, Goodling RC. (2013), Identifying efficient dairy heifer producers using production costs and data envelopment analysis

Inicial

Jovem

Puberdade

Gestação

SILAGEM DE MILHO

-

+

-/+

-

SILAGEM DE ERVA

-

+++

+++

+++

FENO SILAGEM

-

+++

++

++

FENO

+++

+

+

+

PALHA

+++

+

+

+

leiteira. Nesta fase é crucial controlar o rácio entre o valor de proteína e de energia da dieta; •

Fase da gestação: tal como na fase anterior também neste período de desenvolvimento da novilha a administração de silagem de milho deve ser controlada. Recomenda-se fornecer quantidades mais elevadas de forragens com uma densidade energética baixa e com elevado valor proteico, como a silagem de erva e as feno-silagens. Tal como na fase anterior, um bom valor proteico

das forragens é crucial para alcançar o máximo crescimento sem deposição de gordura. Temos de ter sempre presente que a alimentação energética deve ser cuidadosamente planeada, uma vez que a mesma, quer por excesso quer por defeito, compromete o correto desenvolvimento da novilha e afeta negativamente o futuro desempenho reprodutivo e produtivo da mesma. A escolha das forragens a utilizar para a recria das novilhas deve ser feita em função da sua

Hoffman PC, Simson CR, Wattiaux M. (2007) Limit Feeding of Gravid Holstein Heifers: Effect on Growth, Manure Nutrient Excretion, and Subsequent Early Lactation Performance Swanson EW. (1971) Feed Energy Requirements for Different Rates of Growth of Dairy Heifers

disponibilidade e qualidade, ajustando as mesmas à fase de crescimento dos animais. Aspetos como a frequência de alimentação, qualidade das forragens e riqueza nutricional das mesmas são fatores que influenciam fortemente o desenvolvimento das novilhas. Assim, devemos utilizar exclusivamente forragens de elevada qualidade, isentas de contaminação fúngica e fornecidas diariamente. A utilização correta das forragens de boa qualidade permite minimizar os custos de alimentação.

Silva FAS, Valadares Filho SC, Renno LN, Zanetti D, Costa e Silva LF, Godoi LA, Vieira JMP, Menezes ACB. (2016) Energy and protein requirements for growth of Holstein Zanton GI, Heinrichs AJ. (2016) Efficiency and rumen responses in younger and older Holstein heifers limit-fed diets of differing energy density

RUMINANTES JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 21


FORRAGENS

Maneio Holístico Entrevista a Gustavo Alés , Presidente da aleJAB hub ibérico do Savory Institute

POR RUMINANTES

Gustavo Alés, estudou engenharia Agrícola e Ciências do Mar. Mestre em gestão ambiental, perito em Agricultura Ecológica e com cursos de doutoramento em Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável. Tem um curso de planeamento em permacultura (PDC) e está acreditado em Maneio Holístico pelo Savory Institute. É presidente da aleJAB – o hub do Savory Institute para a península Ibérica e norte de África. Quando despertou o seu interesse pelo Maneio Holístico? Quando terminei o curso de Engenharia Agrícola, apercebi-me que o mercado de trabalho era principalmente para vender

22 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

tratores, produtos químicos, fertilizantes e sementes, coisa que não queria fazer pois já estava imerso no mundo da agricultura ecológica que era insipiente nesses anos. Decidi estudar Ciências do Mar, sem deixar de lado a agricultura ecológica, e aí pude dar-me conta de noções de ecologia que desconhecia e que eram os motores de funcionamento deste planeta. Para um agricultor as palavras bactéria, fungo, ácaro ou nematoda, eram sempre prejudiciais. No entanto, o mar é um ecossistema eminentemente microbiano onde o plâncton e as vias detríticas microbianas regulam todo o funcionamento do ecossistema. Durante anos apercebi-me da necessidade de coordenar agricultura e produção de gado. Para um agricultor a principal preocupação é a erva, para um produtor também, no entanto para um é por excesso e para outro por defeito. E ambos, geralmente, desconhecem como fazer o seu maneio. Comecei a dar-me conta do grande erro de conceito da agricultura. Não há pragas, nem doenças, nem ervas más, só há maus planeamentos produtivos e maus agricultores e agricultoras, que desconhecem a forma de gestão dentro deste fascinante mundo, e convertem

em problemas aquelas que são as suas soluções. Atraiu-me muito a história da transumância em Espanha e de como permitiu a saúde de ecossistemas como o montado, que estão hoje em plena decadência: sem regeneração do arvoredo, com solos erodidos e compactados, com baixa produtividade e com maneio nulo. Tive a oportunidade de ver que os efeitos do pastoreio rotacional do gado sobre o solo eram muito superiores à simples adição de estrume. Havia algo subtil que marcava a diferença. Pouco a pouco fui juntando as questões de um puzzle, que o conceito de Maneio Holístico me resolveu, ao dar-me uma explicação pertinente e robusta de como funciona o trinómio animal-plantamicrobiologia do solo, e de como a sociedade e a tecnologia devem respeitá-los e favorecer o seu desenvolvimento ótimo. Como explicaria o conceito do Maneio Holístico a alguém que não tivesse qualquer conhecimento sobre o assunto? O Maneio Holístico é um enquadramento para a tomada de decisões que têm a ver com a gestão dos territórios, as economias e as pessoas. Procura-se estabelecer protocolos de tomada de decisões para


FORRAGENS

determinar as melhores formas de atuar do ponto de vista social, ambiental e económico.. Estes protocolos respeitam e imitam as interações intimas entre a microbiologia do solo, a produtividade das plantas, o comportamento dos animais e o sustento das populações, tendo sempre em conta o contexto (social, laboral, económico e territorial) de cada situação produtiva. Quais são as principais vantagens deste tipo de maneio? Este conceito imita mediante o planeamento e o maneio, os processos ancestrais que faziam as grandes manadas de herbívoros sobre os territórios. Ao fazermos isso, conseguimos maior produtividade vegetal (mais pasto, de melhor qualidade e durante mais tempo), maiores rendimentos dos animais (maior qualidade e maior abundância da produção de carne e de leite, menos parasitismo e doenças, maior bem-estar animal), de uma forma independente dos insumos agrícolas (rações, forragens, ensilagens, feno, fertilizantes, combustíveis, sementes), e ainda enterrando carbono no solo e dessa forma revertendo as alterações climáticas. A que tipo de produtores se pode aplicar este tipo de maneio? Há algum limite no número de animais/área disponível/tipo de terreno? Esta metodologia é aplicável a todo o tipo de produtores independentemente do seu tamanho e orientação produtiva. O Maneio Holístico é um maneio contextualizado e adaptativo, que se adapta a cada situação concreta. Fale-nos da aleJAB. Como funciona e em que consiste o vosso trabalho com os produtores? Desde dezembro de 2016 a aleJAB é o hub oficial do Savory Institute na Península Ibérica e no norte de África. Allan Savory desenvolveu nos últimos 50 anos o Maneio Holístico com

resultados excecionais em África, Estados Unidos, Austrália e América do Sul. Na Europa a sua difusão é muito mais recente. O Savory Institute é uma organização internacional que promove a regeneração do solo à escala global através do contexto de tomada de decisões do Maneio Holístico. Esta organização apresenta um trabalho em rede, sendo os hubs locais (nodos da rede), os que proporcionam a capacitação e o suporte para a implementação do Maneio Holístico à escala local. Atualmente existem mais de 20 hubs (nodos) distribuídos por todo o mundo, prestando formação e suporte aos produtores e gestores de terra. O compromisso da aleJAB centra-se na utilização de gado para a regeneração dos pastos, dos solos, do arvoredo e da água. Acreditamos que a conservação das paisagens agrícolas deve basear-se na rentabilidade das atividades agropecuárias, mediante um foco produtivo com menor dependência de insumos externos e poucos investimentos de dinheiro e energia fóssil. Apostamos no uso de gado para a mitigação das alterações climáticas e restauro dos ecossistemas e das economias rurais. Para saber mais sobre a nossa missão poderão ler o “Manifesto de Aldeacentenera”. Desde que embarcámos na aleJAB decidimos que este projeto deveria ser um processo aberto, colaborativo e plural, que incluiria experiências, formas de sentir e saberes de diferentes proveniências e trajetórias. Queremos que nos acompanhem neste apaixonante caminho todas aquelas pessoas que sintam que o futuro depende de como cuidamos da terra que nos alimenta e sustenta e que queiram envolver-se na aplicação e difusão da metodologia do Maneio Holístico nos nossos territórios: agricultores e produtores, explorações, entidades de investigação e difusão sobre aspetos ambientais e produtivos, técnicos em medicina veterinária ou agronomia, ambientalistas,

Manifesto de Aldeacentera • aleJAB é um salto até à regeneração das nossas sociedades e ecossistemas agrários. • aleJAB é um salto fora do sistema linear de pensamento, que questiona os paradigmas do produtivismo agroindustrial que nos levaram a dissociar a produção de alimentos, do cuidado dos processos vitais e da construção de uma sociedade justa e feliz, quando a realidade demonstra que há um entrançado complexo onde tudo está conectado. • aleJAB promove a aprendizagem cooperativa através do desenvolvimento de capacidades coletivas na tomada de decisões sobre as complexas interações entre sociedade, natureza e tecnologia, assim como a avaliar o resultado das nossas ações num circuito interativo onde o resultado económico, a regeneração da natureza e o bom viver sejam pilares imprescindíveis. • aleJAB considera que os desafios fundamentais que enfrenta a humanidade para sobreviver ao seu próprio êxito, passam por: reduzir a nossa necessidade de energia e recursos naturais, controlar o nosso impacto sobre as bases que sustentam a vida, alimentarmo-nos sem exclusão e construir um futuro possível sobre a energia do Sol. Recentemente temos começado a compreender a importância das grandes manadas de herbívoros sobre o ciclo da água as complexas relações entre a microbiologia do solo e a disponibilidade de nutrientes para o crescimento das plantas. São estas interações as que construíram os alicerces do solo do qual nos alimentamos. A humanidade, nunca na sua história soube como produzir alimentos sem desertificar o solo. A era industrial separou-nos ainda mais da natureza e levounos a um ponto crítico onde a perda de fertilidade dos solos nos leva a um circuito diabólico de mais consumo de energia e de produtos químicos que só conseguem progredir num processo de dependência destrutiva. • aleJAB posiciona-se como agente promotor do Maneio Holístico na Península Ibérica e no Norte de África. Fazemos parte da rede global do Instituto Savory, promovendo a regeneração da terra e dos solos à escala global no contexto de tomada de decisões do Maneio Holístico. Propomo-nos a criar uma rede de experiências de êxito de gestão de dos principais ecossistemas pascícolas da nossa área de atuação (pastagem, montanha, olival, amendoal, restolho) e constituir uma estrutura de profissionais e educadores que difundam, experimentem e apliquem os conhecimentos e procedimentos do Maneio Holístico. A base de toda a produção que pretenda ter futuro deve ser o Sol. • aleJAB trabalha para a construção de solos férteis, economias saudáveis e sociedades equitativas através de atividades agropecuárias conectadas com o Sol e menos dependentes de insumos externos e energias fósseis, assim como mais autónomas na tomada de decisões sobre o seu futuro. • aleJAB: une-te ao salto da regeneração

RUMINANTES JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 23


FORRAGENS

IMAGEM 2 Pastoreio intensivo (240 vacas, em 3 ha, durante 1 dia) na exploração Fonte do Prior (Montemor-o-Novo).

empresas de produção agropecuária, associações de defesa do património rural e natural, grupos ecologistas, entidades de conservação, consumidores organizados, cooperativas, ONG´s de ajuda ao desenvolvimento, cooperativas. A aleJAB pretende ser um crisol de pessoas diferentes com fortes inquietações, com sensibilidade, desejo de conhecimento e sede de transformação e abertas a novas formas de entender a nossa relação com a natureza. Como tem sido feita a divulgação deste tipo de atividade em Portugal? Tem notado interesse por parte dos produtores portugueses? A nossa linha de trabalho baseia-se em três pilares: Formação, aconselhamento e locais demonstrativos. Em Portugal temos um dos lugares demonstrativos em Elvas. Na zona de Montemor-o-Novo há vários produtores de bovinos que têm recebido recentemente formação e aconselhamento e têm visto resultados muito motivadores e impressionantes em muito pouco tempo. Estes produtores têm demonstrado muito interesse em continuar a sua formação e o nosso acompanhamento no planeamento e desenvolvimento das suas atividades produtivas e gestão do território. Como se articulam com o meio académico e industrial? Sente que estes organismos têm contribuído para a investigação e divulgação desta forma de agricultura? O nosso percurso é ainda bastante insipiente e não temos muita trajetória com o meio académico, mas estamos muito interessados em que as universidades e centros de investigação se queiram juntar a estas iniciativas. Temos uma linha de investigação aberta com a universidade da Extremadura. Damos muitas palestras e cursos por todo o território, sobretudo espanhol. As escolas agrárias do País

24 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

Basco já oferecem a nossa formação há anos. Damos formação nas escolas de pastores da Andaluzia e Extremadura. Em Portugal estamos a começar e creio que as expetativas são muito boas pelo magnifico interesse que têm demonstrado. Relativamente à industria creio que vai ser um caminho bastante mais complicado porque a nossa proposta gera muito mais independência dos produtores em relação aos insumos externos da exploração (biocidas, fertilizantes, sementes, maquinaria, rações, medicamentos). Acreditamos que um bom maneio dos animais, do pasto e do solo eliminará a necessidade de adquirir muitas coisas que hoje parecem necessárias para o produtor e que vão contra a sua própria rentabilidade e sobrevivência. Quais são as necessidades de investimento associadas a este sistema? As necessidades de investimento deste sistema são principalmente em formação. A maior prioridade é mudar o paradigma. Desaprender vários conceitos que não são reais e aprender a ler a resposta às nossas ações sobre o solo, a água, as plantas e os animais. A metodologia do Maneio Holístico desenvolveu-se em África onde as

capacidades de investimento são mínimas e só se conta com animais, pessoas e território. Na nossa localização, na Europa mediterrânica, contamos com demasiada tecnologia (rega, maquinaria, químicos, cercas, medicamentos, entre outros) e muito pouco conhecimento sobre os fundamentos da interação animal-planta-solo. O maneio dos animais é a chave, e os únicos investimentos necessários são aqueles que nos facilitem esse maneio para que possamos caminhar segundo os nossos interesses. O problema é que quase nunca estão bem planeados os nossos territórios e explorações para o sucesso dos nossos interesses. O segundo “grande” investimento é por isso o planeamento. O planeamento é algo que quase não existe no mundo agropecuário, mas que, no entanto, é fundamental. É muito importante contar com uma boa planificação do território (pontos e linhas de água, cercas, caminhos, acessos) e das finanças (gastos, investimentos, fluxos, volumes de compra e venda). E há que planificar o pastoreio para ajustar o “quando, ”como”, ”onde”, “durante quanto tempo” da alimentação dos animais, sempre dentro dos objetivos que o produtor necessite. E sem esquecer o planeamento de um protocolo de seguimento das nossas atuações que nos permita corrigir e adaptar as nossas decisões aos resultados obtidos. O terceiro “grande” investimento é em

IMAGEM 3 1.300 ovelhas em 2.000 m2 durante 3 horas) na exploração Mundos Nuevos, centro de demonstração da Savory Institute em Retamal de Llerena (Badajoz).


FORRAGENS

ensinar os animais a comportar-se como devem fazer, em manada e em movimento. Antigamente isto conseguia-se com cães e pastores. Hoje em dia a chegada dos pastores elétricos tornou tudo isto muito mais fácil e eficiente. Ainda assim, há que ensinar os animais a respeitar profundamente estes sistemas, antes de poder utiliza-los corretamente. O agrupar os animais o máximo possível é a chave. Há que tirar da cabeça a suposta necessidade de tantos lotes. A natureza funciona com grandes manadas, e é isso que devemos imitar ou o sistema acaba por se desintegrar e deixa de funcionar de forma eficiente e eficaz. O quarto investimento, que em alguns casos já pode significar um custo importante, é a distribuição da água. Neste sentido, o planeamento de charcas, depósitos, tubagens, bebedouros e cubas móveis é fundamental. E saber onde e como gerir a água é uma arte e uma ciência que não está ainda presente na cabeça de alguns produtores. O quinto investimento é em fomentar ao máximo a biodiversidade. A natureza é bio diversa ou então não funciona. A atividade

“As necessidades de investimento deste sistema são principalmente em formação. A maior prioridade é mudar o paradigma. Desaprender vários conceitos que não são reais e aprender a ler a resposta às nossas ações sobre o solo, a água, as plantas e os animais.” GUSTAVO ALÉS

produtiva humana é homogeneizante e por isso não funciona. Há que introduzir ao máximo a biodiversidade para que tudo flua. Biodiversidade no solo de micro, meso e macrofauna, bactérias, fungos e actinomicetes, ácaros, nemátodos, colêmbolos e tardígrados. Biodiversidade nos pastos, herbáceas e perenes, leguminosas e gramíneas mas também muitas outras famílias de plantas que aportam soluções e recursos. Biodiversidade arbustiva e arbórea, arbustos e florestas, cercas vivas, pastos verticais, bosques pastáveis e comestíveis. Biodiversidade de passarinhos, morcegos, borboletas, minhocas, escaravelhos do estrume, formigas, abelhas, vacas, ovelhas, cabras, galinhas, perús, coelhos … As três leis fundamentais da vida são biodiversidade, biodiversidade, biodiversidade.

MAIS INFORMAÇÕES Enviar email para Gustavo Alés, gustavoales@hotmail.com. Telefone: 0034 697617695

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ATUALIDADES

“TREMOÇO DOS ANDES“ PODE VIR A SER UMA ALTERNATIVA EM ALIMENTAÇÃO ANIMAL A Lusosem e o ISA (Instituto Superior de Agronomia) estão envolvidos num projeto europeu que investiga o tremoço dos Andes, uma nova alternativa cultural com interesse para múltiplas utilizações, entre elas a alimentação animal. O Lupinus mutabilis é uma variedade de tremoço conhecido como “tremoço dos Andes“, de onde é originário e onde é cultivado e utilizado há vários séculos para a alimentação humana e animal. Pelo interesse que a sua utilização pode ter para vários fins, um consórcio de 14 parceiros de nome LIBBIO*, formado por entidades públicas de investigação empresas privadas de oito países europeus (sendo Portugal representado pela Lusosem e pelo Instituto superior de agronomia) está a avaliar o seu potencial agronómico e o impacto ambiental e socioeconómico da cultura; bem como a viabilidade tecnológica e rendimento industrial da mesma como matéria prima para biorefinarias e a apetência dos consumidores europeus por produtos derivados do tremoço. Os investigadores estão a investigar variedades de tremoço (não-OGM) e a sua adaptação às condições de clima e solo da Europa. O L. mutabilis é uma leguminosa, utilizada há mais de seis séculos que pode ser cultivada em terras de várias qualidades mas segundo a Lusosem “este projeto aposta no tremoço como opção cultural para ocupação de terras marginais na Europa, devido à sua reduzida necessidade de fertilização e elevada capacidade de

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fixar azoto no solo”. Para avaliação do potencial agronómico e a adaptação do lupinus mutabilis na Europa, estão a ser instalados campos experimentais em Portugal e na Holanda. O objetivo é testar variedades de tremoço dos Andes para produzir na primavera-verão, no centro e norte da Europa, e no outonoinverno, no Sul da Europa. A Lusosem participa no LIBBIO na componente de melhoramento, multiplicação de variedades/linhas promissoras, avaliação do potencial agronómico e adaptação de Lupinus mutabilis na Europa. Os resultados preliminares do LIBBBIO foram apresentados a 19 de abril, num workshop em Lisboa na Tapada da Ajuda , intitulado “Lupinus mutabilis a new alternative” tendo como anfitriões a Lusosem e o Instituto Superior de Agronomia (ISA), parceiros neste projeto. Os investigadores do LIBBIO consideram que o tremoço dos Andes é uma alternativa à soja (OGM), porque tem um teor em óleo e de proteína equivalentes aos da soja, mas com vantagens agronómicas e ecológicas: reduzida necessidade de fertilização; elevada capacidade de fixar azoto no solo e de prevenir a erosão do solo; aumento da biodiversidade e maior sequestro de carbono.

No que diz respeito à utilização do tremoço dos andes para alimentação animal foi referido que o L. mutabilis ainda não é utilizado na Europa como silagem devido ao elevado conteúdo em alcalóides tóxicos – variedades “amargas”, sendo necessário encontrar variedades “doces”, com baixos teores em alcalóides. Os investigadores do Libbio sublinham que já se consegue retirar cerca de 80% dos alcalóides existentes no Lupinus. Assim, esta leguminosa pode ser usada para alimentação animal (de suínos, por exemplo) em combinação com outros alimentos, em dose menor (10%), aumentando o conteúdo nutricional.

*O LIBBIO é financiado por fundos comunitários do programa Horizonte 2020, geridos pela parceria públicoprivada Bio-Based Industries Joint Undertaking. Esta plataforma reúne instituições públicas e bioindústrias europeias, tendo por objetivo reduzir a dependência da UE face à energia de origem fóssil, através do desenvolvimento de tecnologias de biorrefinação que transformem recursos naturais renováveis em produtos, materiais e combustíveis verdes.


ATUALIDADES

GUIA DE SILAGEM DE MILHO A LUSOSEM, S.A., lançou um novo Guia de Silagem de Milho destinado aos produtores de ruminantes. Este novo guia abrange aspectos relacionados com a nutrição quer do ponto de vista sanitário, como de valorização da forragem e ainda diversos temas ligados à gestão agronómica da cultura do milho da sementeira à colheita, bem

como práticas de conservação do silo e aconselhamento sobre como desensilar. Contém ainda um capítulo dedicado à interpretação das análises da sua silagem de milho! Este guia é mais uma ferramenta que a Lusosem disponibiliza para o produtor nacional poder investir numa silagem de milho de qualidade.

CARNE EUROPEIA NO GRANDE PRATO CHINÊS O embargo de 17 anos imposto pela China no que toca às importações de carne de bovino proveniente da Europa poderá estar a chegar ao fim. É isto que relata o Comissário Europeu da Agricultura e Desenvolvimento Rural, Phil Hogan. Na génese desta hipótese estará o défice de oferta na ordem dos oito milhões de toneladas por ano, valor que consegue ultrapassar o output anual de carne de bovino da Europa. As negociações duram há muito, com uma visita recente do Comissário a Shangai, levando consigo as esperanças de muitos produtores europeus entrarem no mercado chinês, o qual tem dimensão para abarcar volumes consideráveis. Em 2017, foram consumidas 71 milhões de toneladas de carne na China, mais do que o total da Europa e dos Estados Unidos, com um consumo per capita de 50,3 quilogramas. Recentemente, a China abriu os seus mercados de bovino à Irlanda, à qual se poderão agora juntar a França, Alemanha e Holanda. De notar que as exportações de produtos agrícolas para este gigante asiático duplicaram nos últimos cinco anos, existindo ainda margem para aumentar estes valores. O embargo surgiu no seguimento do flagelo da BSE, a chamada “Doença das Vacas Loucas” em 2001, e fez com que a Europa passasse ao lado do crescimento da China enquanto segundo maior importador mundial de carne de bovino, com 700 000 toneladas importadas no ano passado, um acréscimo de 20% face ao ano anterior. Esta nova abertura do mercado asiático à carne europeia é fruto dos inúmeros esforços que têm sido feitos em termos de segurança sanitária dos alimentos e rastreabilidade, com ausência de casos de BSE desde 2005. Segundo Phil Hogan, estão a ser realizados os últimos controlos pelas autoridades chinesas para finalizar o levantamento do embargo. Deste lado, é com expectativa que se aguardam futuros desenvolvimentos.

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PRODUÇÃO

Total Dairy Azores

IMAGEM 1 Arturo Gomez e Jesus de La Iglesia.

Um evento técnico dedicado à realidade açoriana POR MARGARIDA CARVALHO

São perto das 14h de dia 24 de maio quando aterramos no aeroporto de Ponta Delgada, em São Miguel, nos Açores. A estadia será curta e não teremos oportunidade de rever as imensas maravilhas desta ilha, mas temos pela frente a excelente oportunidade de acompanhar o primeiro Total Dairy Azores, um evento promovido pela Zinpro e totalmente dedicado à produção de leite. Este é um evento técnico que tem como objetivo trazer aos Açores alguns dos maiores especialistas mundiais em diversas áreas ligadas à produção de leite. A ideia fundamental é contribuir

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para o aumento da sustentabilidade e rentabilidade das explorações através da aprendizagem de técnicas práticas ligadas à produção de leite, nas condições açorianas. Durante a tarde dirigimo-nos para uma exploração onde acompanhamos uma auditoria realizada pelos médicos veterinários Jesus de la Iglesia e Arturo Gomez (imagem 1), dois técnicos de referência que vieram partilhar as suas opiniões e sugestões de forma franca e aberta. A exploração que visitamos tem 141 vacas à ordenha. “Quais são as vacas mais sensíveis numa exploração?” questiona-nos Arturo. “São as vacas pré e pós-parto” relembra, rematando dizendo que “tradicionalmente não se tem dado uma atenção especial às vacas na fase do pré-parto”. Explica-nos que podemos, por exemplo diminuir a incidência de metrites com uma simples medida: aumentar a área de comedouro por vaca. “As vacas no pré e pós-parto devem ter 75cm disponíveis para se alimentarem” explica-nos enquanto verificamos as

medidas ao comedouro na exploração. Atualmente esta exploração dispõe de 59 cm/por animal, espaço insuficiente. “Aqui teríamos duas opções: aumentar a área de comedouro ou reduzir o número de animais” explica. De seguida olhamos para os animais em movimento de forma a atribuir um score de locomoção. Os animais com problemas de locomoção nem sempre são diagnosticados e representam

“Tradicionalmente não se tem dado uma atenção especial às vacas na fase do pré-parto”. ARTURO GOMEZ


PRODUÇÃO

perdas importantes para a exploração. Procuramos animais a quem possamos atribuir um score de 3 – são animais que em estação apresentam o dorso arqueado, mas que não conseguimos identificar o membro afetado quando caminham. Estes animais representam uma perda de 2 a 4% de leite. Arturo explica-nos que “é importante perceber que os animais precisam de tempo para descansar e não obrigar a que estejam muito tempo de pé. Esta é uma oportunidade de melhoria”. Durante esta auditoria é reforçada a importância do registo dos dados da exploração. É fundamental registar os animais com problemas de locomoção e implementar um sistema de reavaliação duas semanas depois. Este é um aspeto a melhorar na grande maioria das explorações portuguesas. Inicia-se uma avaliação de dermatite interdigital nos animais, concluindo que existe uma percentagem significativa de animais com problemas que não estão diagnosticados. Os dois especialistas reforçam a mensagem de que o pedilúvio não serve de tratamento, mas sim de prevenção. Os animais com dermatite precisam de tratamento tópico. Segue-se uma avaliação dos pedilúvios

disponíveis na exploração. “Estes animais têm uma genética excelente” afirma Jesus. Debate-se a realidade açoriana e a forma como podemos adaptar as sugestões nutricionais a esta realidade. O passo seguinte é a avaliação da silagem (imagem 2) disponível na exploração, feita por Jesus. Terminamos o dia com uma sessão prática de podologia (imagem 3) em que ficamos a conhecer a forma de atuar perante os principais problemas que afetam os animais. Discutimos as técnicas de recorte tendo em vista a redução das claudicações. Dia 25, o segundo dia do evento consiste num seminário. Somos inicialmente recebidos pelo engenheiro Luís da Veiga, diretor da Zinpro para a Península Ibérica, que nos apresenta a empresa. Dá-nos a conhecer o trabalho que a empresa tem realizado no desenvolvimento dos minerais orgânicos ao longo de toda a cadeia, desde a investigação até ao seu fabrico e comercialização. Relatanos que a Zinpro baseia o seu trabalho em investigação publicada em revistas cientificas internacionais. “A nutrição micro-mineral é um fator chave para melhorar a produtividade. Indicações

técnicas sólidas demonstram que os problemas de patas e fertilidade podem ser positivamente alterados combinando minerais inorgânicos e complexos da Zinpro” partilha. Perto das 10 horas, Arturo Gomez fala-nos das vacas de transição como uma oportunidade de melhoria da produtividade das explorações. A sua apresentação foca-se nos aspetos chave a ter em conta, alguns dos quais tivemos a oportunidade de analisar no dia anterior, no contexto real de uma exploração: ingestão de matéria seca, em que discutimos novamente o espaço linear de comedouro, área de descanso, interações sociais limitadas, ausência de doença, manutenção da condição corporal, evitar a claudicação e o stress de calor. Explica-nos que as características meteorológicas dos Açores, em termos de calor e humidade, contribuem para que os animais sofram, durante grande parte do ano, de stress por calor. Arturo reforça também a mensagem de que a implementação de sistemas de refrigeração das vacas

IMAGEM 2 Avaliação da silagem da exploração.

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PRODUÇÃO

IMAGEM 3 Sessão de podologia com Arturo Gomez.

nos períodos pré e pós-parto é um investimento que facilmente dá retorno. Depois de uma curta pausa para café recomeça o seminário com a apresentação de Jesus de la Iglesia. Fala-nos do impacto do maneio reprodutivo na produção leiteira. Conta-nos que atualmente engravidar as vacas na exploração é cada vez mais difícil. Primeiro devido à dimensão das próprias explorações, cada vez maiores, e em segundo lugar devido à elevada produção de leite. Estes fatores têm impacto ao nível da fertilidade e da deteção de cios. Paradoxalmente o maneio reprodutivo é essencial para a obtenção de lucro que é o objetivo principal de qualquer exploração. Assim, traz-nos estratégias práticas para conseguir ter as vacas gestantes mais cedo, que passam pela identificação precoce das vacas vazias, inseminando-as rapidamente. De acordo com este especialista, isto pode ser alcançado através de uma boa vigilância de cios, do diagnóstico precoce de gestações que permite detetar as vacas vazias, e de programas que permitam a sincronização das inseminações. Falou-nos também da importância de uma boa alimentação, tanto ao nível da formulação como ao nível da qualidade de concentrados e forragens. Outro fator que enfatizou foi

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o bem-estar animal que é imprescindível para o sucesso das estratégias propostas. Por fim, Arturo traz-nos uma segunda apresentação sobre claudicação, com causas para as principais lesões e estratégias e soluções para as combater. De acordo com a sua apresentação, a principal causa de claudicação é a dermatite interdigital, seguida das úlceras da sola e das lesões na linha branca, que já tínhamos tido oportunidade de ver no dia anterior. Também aqui o stress por calor é um importante responsável por este tipo de patologias. A estratégia a adotar numa exploração relativamente às claudicações deve ter como objetivo principal atingir os 0% de claudicações

no lote de pré-parto. Segundo Arturo, este foco nas vacas do pré-parto é o suficiente para um grande aumento da produtividade da exploração. Como já mencionado ao longo da auditoria, o registo dos dados relativos às lesões podais dos animais, são essenciais para o acompanhamento e resolução destas patologias. Estes dados devem incluir informação sobre identificação do animal, número de lactações, data do último parto, data em que se observou a lesão e tipo de lesão observada. Recorda-nos que deficientes instalações, problemas do trato gastrointestinal e o comportamento dos animais são também fatores de risco para o aparecimento de claudicações. Tal como Jesus, também Arturo refere a importância da nutrição, em particular o efeito benéfico que os minerais podem ter no maneio da dermatite interdigital ao nível quer do tratamento quer da prevenção. Além da nutrição, a estratégia deve passar também pela utilização de pedilúvios (tendo em conta de que o pedilúvio não trata as lesões, prevenindo-as apenas), o tratamento precoce das lesões e o diagnóstico precoce em novilhas. Despedimo-nos por fim dos Açores, com a sensação de que estas 24h não poderiam ter sido melhor aproveitadas pela partilha de conhecimentos que proporcionaram e com um balanço muito positivo daquele que foi o primeiro Total Dairy Azores.

IMAGEM 4 Grupo de participantes na auditoria à exploração. .


PUBLIREPORTAGEM

CARLOS MARTINHO
 STRATEGIC & TECHNICAL DIRETOR, CARGILL ANIMAL NUTRITION (CAN) carlos_martinho@cargill.com

Com Dairy Cooler as vacas refrescam-se por dentro Temperaturas altas, combinadas com elevada humidade do ar, são muito desfavoráveis para as vacas em lactação, principalmente para os animais de alta produção que têm maior consumo de matéria seca e, consequentemente, produzem muito calor durante os processos digestivo e metabólico. Ao não conseguirem libertá-lo para o exterior, entram num estado febril chamado stress térmico. É por isso que Dairy Cooler tem o que é preciso para se tornar um aliado insubstituível de todos os produtores de leite durante os meses de verão.

Durante o período de maior stress, a vaca tenta manter a sua temperatura corporal a um nível constante, recorrendo a vários mecanismos, como a evaporação, aumento do ritmo

respiratório e do consumo de água potável. Em condições de stress térmico, com o objetivo de dissipar o calor interno para o meio ambiente, as vacas ficam ofegantes, o que

provoca uma libertação de dióxido de carbono maior do que é normal perder-se pela respiração.

Perda de saliva

Além disso, ter a boca aberta durante muito tempo dá origem ao chamado “babar”, ocorrendo uma perda de saliva, que reduz a disponibilidade

Graças ao Dairy Cooler, a ingestão das vacas mantêm-se nos dias de maior calor. 32 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

das substâncias tampão necessárias para manter os níveis do pH ruminal e sanguíneo. Tudo isto diminui o tempo de permanência na manjedoura e aquele que é dedicado à ruminação, com consequente diminuição da ingestão e do desempenho da produção, bem como do aumento de risco de acidose ruminal. Quanto maior for a humidade do ar e pior a ventilação, maior dificuldade terá a vaca em dissipar todo esse excesso de calor, subindo significativamente a sua temperatura corporal. Uma das consequências mais diretas é a diminuição drástica do consumo de alimentos e, consequentemente, a perda de produção de leite que pode atingir 40%. Este é um problema que os produtores de leite conhecem bem, especialmente entre junho


PUBLIREPORTAGEM

Inevitavelmente, a produção de leite leva à produção de calor, que a vaca tem que dissipar de alguma forma e setembro, quando o calor húmido faz sentir os seus efeitos na exploração. Existem pequenas medidas que podem diminuir o stress durante o período quente, um momento delicado em que a vaca também deve ser apoiada sob o perfil nutricional.

Intervenção ambiental • Certifique-se que existe água fresca e limpa sempre disponível para as vacas. • Coloque os bebedouros e as manjedouras à sombra, evitando que as vacas permaneçam ao sol.

• Promova a renovação de ar, especialmente nas zonas mais movimentadas da exploração (parques de espera).

Alimentação direcionada • Minimize o aumento do calor de fermentação aumentando o NDF digestível em detrimento

de fenos com demasiada estrutura fibrosa e/ou palha. • Minimize o aumento do calor metabólico adicionando fontes de gordura na ração (máximo: 6% MS). • Compense a quebra na ingestão de matéria seca, melhorando a digestibilidade da ração. • Apoie as funções metabólicas afetadas pelo stress térmico, com

Dairy Cooler deve ser usado numa dose de 300 grama / vaca / dia sistemas de tamponização do sangue e hidratação celular, levando a DCAD da ração a mais de 30 meq/100 gr. Atualmente, a Cargill, graças à sua investigação mundial, desenvolveu uma tecnologia direcionada para o arrefecimento interno das vacas, sem interferir nos parâmetros da alimentação de verão para vacas leiteiras. Dairy Cooler, uma solução para ser utilizada nos meses mais quentes, é capaz de aumentar a circulação periférica e, assim, diminuir a temperatura corporal das vacas. Resultado? As vacas não “param” durante o verão. A produção , a fertilidade e o estado imunológico permanecem inalterados.

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GENÉTICA

Crossbreeding

para a futura rentabilidade na produção leiteira A ProCROSS open house foi realizada em Oakdale, Califórnia a 15 e 16 de fevereiro de 2018. Na open house, o Dr. Brad Heins, professor auxiliar na Universidade do Minnesota, apresentou um programa titulado, “De onde viemos e para onde nos levará o futuro”. O Dr. Heins recebeu o seu doutoramento na Universidade do Minnesota em genética, e trabalhou nas investigações iniciais de crossbreeding na Califórnia. Os seguintes destaques foram apresentados pelo Dr. Heins, 1) como o crossbreeding pode complementar o melhoramento genético, 2) pesquisas realizadas pela Universidade do Minnesota, 3) estudos realizados recentemente na Universidade do Minnesota, 4) outros estudos realizados pela Universidade do Minnesota e futuros projetos.

GLENDA PEREIRA M.S. ASSISTENTE DE INVESTIGAÇÕES

BRAD HEINS PH.D. PROFESSOR AUXILIAR NA UNIVERSIDADE DO MINNESOTA

Destaques apresentados 1. Introdução ao crossbreeding

A vaca leiteira ideal deve produzir alto teor de gordura e proteína, parir sem problemas, produzir um vitelo ao ano regularmente, apresentar bons índices de fertilidade, ter um úbere funcional e boas unhas e pernas, e também deve ser resistente a problemas de saúde. Vacas com poucos problemas existem, mas são menos reconhecidas por produtores, pois elas nunca estão no “hospital” das explorações. Em outras espécies como suínos e aves, o crossbreeding tem sido usado como um método para introduzir vigor híbrido. Nestas espécies, o vigor híbrido conseguiu diminuir a mortalidade, aumentou a eficiência alimentar e a qualidade de carne e carcaça, melhorando a rentabilidade. Para a indústria leiteira poder beneficiar de crossbreeding, os touros de superior mérito genético devem ser utilizados para manter as melhores características das raças parentais. Cruzar novilhas e vacas Holstein com touros Jersey, tem sido um método popular de crossbreeding nos EUA. Mas no início de 2000, crossbreeding com touros das raças Montbéliarde, Normande e Vermelha Sueca tornou-se uma tendência, pois estas raças podem fornecer características que podem beneficiar explorações de alta produção.

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2. Investigações

pela Univesidade do Minnesota com a colaboração de produtores

De 2000 a 2010, a Universidade do Minnesota colaborou com sete vacarias de alta produção na Califórnia, comparando vacas Holstein com Normande x Holstein, Montbéliarde x Holstein e Vermelha Sueca x Holstein. Os três grupos de vacas cruzadas apresentaram um teor de gordura mais baixo aos 305 dias em relação ao grupo de vacas Holstein em todas as lactações. Essa diferença foi pequena entre vacas Holstein e vacas Montbéliarde x Holstein (-24 kg), e vacas Vermelha Sueca x Holstein (-29 kg). Nas primeiras cinco lactações, o número de vacas com dificuldade no parto e o número de nados mortos foram menores nos três grupos de vacas cruzadas comparado com as vacas Holstein. Neste estudo, 25% de Holsteins não pariram uma segunda vez, mas apenas 11% a 15% dos animais

cruzados não pariram pela segunda vez. Em termos de lucro por vaca por dia, vacas Montbéliarde x Holstein e vacas Vermelha Sueca x Holstein tiveram 5,3% e 3,6%, respetivamente, mais lucro por vaca por dia do que as vacas Holstein (Tabela 1). Vacas Normande x Holstein tiveram 6,7% menos lucro por vaca por dia do que as vacas Holstein, pois este cruzamento não é tão recomendado para explorações de alta produção. Em 2008, a Universidade do Minnesota iniciou uma investigação com oito vacarias de alta produção na região. Touros da raça Montbéliarde e Vermelha Sueca foram utilizados em vacas e novilhas Holstein, e estas pariram pela primeira vez entre dezembro de 2010 e abril de 2014. Vacas Holstein e vacas cruzadas foram alimentadas e tratadas de igual modo, para poderem ser comparadas em pé de igualdade ao nível da gestão das mesmas. Ao contrário dos resultados da Califórnia, durante a primeira lactação, vacas cruzadas (ambos os grupos combinados) produziram +14 kg de teor de

TABELA 1 Lucro por vaca por dia.

Raça de vacas

Dólares americanos ($) (exclui os custos potenciais de saúde)

PURO-SANGUE HOLSTEIN

$4,17

MONTBÉLIARDE X HOLSTEIN

$4,39

VERMELHA SUECA X HOLSTEIN

$4,32

NORMANDE X HOLSTEIN

$3,89


GENÉTICA

gordura e proteína aos 305 dias, em comparação com as vacas Holstein. A fertilidade também foi superior para vacas cruzadas em comparação às vacas Holstein durante a primeira lactação. Em comparação com as Holsteins, as vacas cruzadas foram inseminadas em média, 2 dias antes e apresentaram menos 10 dias abertos. Não houve diferença entre as raças na sobrevivência aos 60 dias de lactação, mas, porque a fertilidade foi superior para as vacas cruzadas, o número de animais que pariram uma segunda vez dentro de 14 meses aumentou (71%), em comparação às vacas Holstein (63%).

3. Estudos

realizados recentemente na Universidade do Minnesota

Geneticistas na Universidade do Minnesota também utilizaram touros da raça Montbéliarde e Vermelha Sueca desde o início de 2000, nas duas explorações que pertencem à Universidade. A primeira exploração está localizada no meio da cidade de St. Paul, no campus da Universidade do Minnesota (Figura 1; estrela à direita), onde 100 vacas leiteiras são mantidas presas à manjedoura (Figura 2) com cama de compostagem de

FIGURA 1 Localização das duas explorações que pertencem à Universidade no estado do Minnesota.

FIGURA 2 Vacas ProCROSS e pura Holstein na exploração de St. Paul com manjedouras individuais

estrume (compost bedded pack). Nesta exploração existem vacas Holstein e vacas ProCROSS (Figura 2), um cruzamento de três-raças que inclui, Montbéliarde x Vermelha Sueca x Holstein (MVH). A segunda exploração situa-se em Morris, Minnesota no West Central Research and Outreach Center (Figura 1; estrela à esquerda). Neste centro, 150 vacas estão a produzir leite biológico e 150 vacas estão a produzir leite comercial (não biológico). Ambos os grupos são geridos num sistema menos intensivo (low-input). Existem vacas Holstein, ProCROSS (MVH) e um cruzamento de trêsraças que inclui, Normande x Jersey x Vermelha Sueca (NJV). As vacas comerciais são alimentadas com uma mistura de silagem de milho, feno de luzerna, milho, soja e minerais, encontrando-se confinadas a um terreno no exterior com cama de palha durante todo o ano. Durante o verão, de maio a outubro, as vacas de produção biológica estão no pastoreio e são suplementadas no pasto diariamente com 2,72 kg de milho por vaca. Durante o inverno, de novembro a abril, as mesmas são removidas do pasto para um estábulo com cama de compostagem de estrume e são alimentadas com uma mistura de origem biológica, semelhante à das vacas comercias. Como as vacas de produção biológica estão em regime de pastoreio faz sentido utilizar raças como a Normande e a Jersey, uma vez que estas podem ser utlizadas em sistemas menos intensivos, produzindo uma quantidade adequada de leite com alto teor de gordura e proteína.

Detalhes dos ensaios ciêntificos efetuados em St. Paul Eficiência alimentar

explorada noutros ensaios. Num ensaio mais recente, a Como o crossbreeding tornouingestão de matéria seca de se popular e tem sido um vacas Holstein e ProCROSS, método utilizado por muitos nos primeiros 150 dias produtores, é crucial estudar e medir a ingestão de alimentos de lactação, foi medida diariamente. Este estudo e eficiência alimentar destes incluiu 60 vacas Holstein e 63 animais. Na exploração de St. Paul o facto das vacas estarem vacas ProCROSS primíparas, e 37 vacas Holstein e 43 vacas permanentemente presas ProCROSS nas segundas à manjedoura permite que e terceiras lactações. Vacas as vacas sejam alimentadas individualmente. Nos primeiros ProCROSS tiveram melhor condição corporal e maior anos do ensaio ( início em peso do que vacas Holstein 2000), a ingestão diária de na primeira lactação, mas matéria seca durante os consumiram em média menos primeiros 150 dias da primeira 141 kg nos primeiros 150 dias, lactação foi medida em 40 produzindo quantidades vacas Holstein, 33 vacas semelhantes de gordura e Montbéliarde x Holstein e 24 proteína. Nas segundas e vacas Montbéliarde × (Jersey terceiras lactações, as vacas x Holstein). A ingestão de ProCROSS consumiram matéria seca não foi diferente entre os grupos, mas as vacas em média menos 232 kg que as Holsteins e tiveram Holstein consumiram 20,4 kg por dia, comparado com os 19,8 uma produção semelhante nos primeiros 150 dias de kg por dia das Montbéliarde lactação. O lucro sobre o x Holstein e os 19,7 kg por dia custo de alimentação para os das Montbéliarde × (Jersey x produtores seria 34 centavos Holstein). Ambos os grupos americanos por dia para vacas de animais com genética Montbéliarde apresentaram primíparas e 60 centavos uma melhor condição corporal americanos por dia para (3,30 vs 2,74) e um peso mais vacas multíparas ProCROSS elevado (551 vs 528 kg) do que quando comparadas com as vacas Holstein, e tiveram vacas Holstein. As vacas menos 18 dias abertos. A ProCROSS consumiram relação entre melhor fertilidade menos mantendo um peso e condição corporal existe mais elevado e uma melhor especialmente durante o condição corporal do que as início da lactação, pois já foi vacas Holstein.

RUMINANTES JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 35


GENÉTICA

Detalhes dos ensaios ciêntificos efetuados em Morris Em Morris existem vacas de raça pura Holstein, animais ProCROSS (MVH), e um outro programa de crossbreeding (Figura 3), onde são utilizadas as raças Normande, Vermelha Sueca e Jersey (NJV). O número de vacas em ambos os sistemas de cruzamento (MVH e NJV) continua a crescer e no futuro serão comparadas em ensaios com vacas Holstein. Por enquanto, serão

FIGURA 3 Vacas cruzadas para pastoreio, um cruzamento de três-raças que inclui, Normande, Vermelha Sueca e Jersey (NJV).

JERSEY

VERMELHA SUECO

NORMANDE

4. Outros estudos

realizados pela Universidade do Minnesota e futuros projetos

Qualidade de carne Nos EUA, os consumidores de carne estão cada vez mais curiosos sobre a qualidade da sua comida e como esta afeta a sua qualidade de vida. Foi efetuado um estudo em 2016 para determinar a diferença na qualidade da carne de novilhos ProCROSS (MHV) e novilhos com raças Normande, Vermelha Sueca e Jersey (NJV) criados em pastagem no verão e alimentados a centeio e trigo no inverno, avaliando também a preferência do consumidor. Após o abate, a carne de novilhos de purosangue Holstein, MVH e NJV foi

apresentados resultados preliminares. As vacas cruzadas de raça Jersey e Vermelha Sueca produziram menos teor de gordura e proteína aos 305 dias em comparação com vacas Holstein, durante a primeira lactação. Esta diferença pode dever-se ao facto das vacas da raça Vermelha Sueca nasceram de vacas que eram 50% Jersey (também observado em animais cruzados de raça Jersey). No entanto, vacas cruzadas de Montbéliarde e Normande foram semelhantes a vacas Holstein em produção de gordura e proteína durante a primeira lactação. Como era esperado, a fertilidade das vacas cruzadas Vermelha Sueca, Montbéliarde e Normande, demonstrou uma vantagem numérica quando comparada com as vacas Holstein. O mesmo foi verificado em ensaios anteriores na Califórnia e no Minnesota.

avaliada para perfis de ácidos gordos, e os consumidores provaram a carne para determinar a sua aceitabilidade. A carne de novilhos cruzados teve uma quantidade 13% maior de ácidos gordos ômega-3 na gordura, apresentando um melhor rácio de ômega 6

36 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

e 3 e 14% menos gordura, em relação à carne de de novilhos Holstein. Além disso, o bife de novilhos cruzados teve uma maior aceitabilidade junto dos consumidores.

Tecnologia Monitores de ruminação e atividade estão a ganhar o interesse de produtores que querem detetar o cio ou manter um olho na ruminação para poder controlar a saúde das suas vacas leiteiras. A maioria dos estudos com estes monitores ocorrem em animais de raça Holstein e em explorações sem acesso ao pasto. Houve interesse em comparar a ruminação de vacas Holstein e vacas cruzadas. Num dos estudos a ruminação média total por dia foi avaliada em 114 vacas Holstein, 248 animais MVH e 167 animais NVJ. HR-LD Tags (SCR engenheiros Ltd., Netanya, Israel; coleira utilizada pela vaca cruzada na figura 4) foram utilizadas para registar o tempo de ruminação em minutos por dia. O tempo de ruminação foi semelhante entre todos os grupos avaliados: vacas Holstein: 521 min/dia, vacas MVH: 513 min/dia, vacas NJV: 513 min/dia.

FIGURA 4 NJV em primeira lactação.

Futuros projetos A Universidade do Minnesota continuará a efetuar estudos com bovinos crossbreeding. Estão planeados para um futuro próximo projetos que incluem: criar previsões genómicas para animais cruzados, determinar quais são os cruzamentos mais rentáveis para pastoreio em áreas semelhantes ao Minnesota, e criar curvas de lactação para animais cruzados pois as que existem são apenas para a raça Holstein.

Conclusões As pesquisas com e na Universidade do Minnesota sobre crossbreeding em vacas de leite exploraram formas alternativas para os produtores poderem melhorar a facilidade de parto, fertilidade, saúde e sobrevivência das suas vacas. As vacas cruzadas, em comparação a vacas Holstein, são superiores na fertilidade, sobrevivência e vida produtiva. Mas não nos podemos esquecer que para ter animais cruzados de alta qualidade é necessário ter animais de raça pura com alta qualidade também. O uso de uma raça específica depende do sistema e dos objetivos de cada produtor. Independentemente da raça, uma vaca leiteira ideal pode ter uma boa vida produtiva se ela tiver um alto teor de gordura e proteína, excelente fertilidade e capacidade de produzir um vitelo ao ano, um úbere funcional, boas patas e pernas e baixa prevalência de problemas de saúde. No futuro, a rentabilidade irá ser mais considerada, e a vaca leiteira ideal também precisará de ter um corpo de tamanho menor e uma melhor eficiência alimentar. Frequentar a open house como aquela oferecida em Oakdale, ou visitar as explorações da Universidade do Minnesota é mandatório quando se está a considerar a utilização de ProCROSS ou animais para pastoreio.


ProCROSS

O Único programa de crossbreeding no mundo já provado A VikingRed Transmite • • • • •

Partos muito fáceis Execelente saúde do casco Muito boas caracteristicas de saúde Execelente saúde do ubere Altas produções Alguns dos actuais melhores touros que estão disponiveis • • • • • •

VR Hammer VR Tuomi VR Flame Pell-Pers Gunnarstorp V Föske

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+25 +19 +18 +13 +12 +10

Para mais informações contacte-nos:

+351 917 534 617

Foto: Elly Geverink

carlosserra@unigenes.com


Produção de lã Assistiremos a um regresso? POR MARGARIDA CARVALHO E RUMINANTES

A consciência ambiental das populações está a aumentar. Os consumidores mais exigentes preocupam-se com o impacto que a utilização de fibras artificiais e plásticos está a ter no ambiente. Esta pode ser uma oportunidade para o setor das lãs, que durante tantos anos esteve adormecido no nosso país. Os ovinos domésticos foram dos primeiros animais a serem domesticados pelo homem. Estes animais foram criados ao longo dos séculos nos mais diversos ambientes com o consequente desenvolvimento de raças adaptadas aos locais de produção, muitas vezes em situações de escassez alimentar. Existem 16 raças autóctones em Portugal, mas a maioria possui efetivos com menos de 10000 fêmeas. Esta espécie é explorada para a produção de carne, leite e lã sendo que a proporção em que cada um destes produtos é explorado tem variado significativamente ao longo do tempo e de região para região.

No nosso país, a raça Merino Branco tem o lugar de destaque na produção de lã, com uma “lã fina, muito frisada, sugosa e de toque suave”. A lã dos animais desta raça tem características que a tornam ideal para tecer ao nível do seu diâmetro, comprimento, elasticidade e resistência (ANCORME). Nas últimas décadas a lã acabou por ser desvalorizada e progressivamente substituída pelas fibras sintéticas e vegetais. Esta desvalorização contribuiu para a destruição parcial das cadeias de produção fazendo com que a lã seja frequentemente apenas um subproduto da produção ovina. No entanto, nos últimos anos o panorama tem mudado.

38 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

Com a crescente preocupação com a utilização dos plásticos e o aumento da consciência ambiental das populações, surge a necessidade de usar alternativas às fibras artificiais, usadas na produção têxtil, que não são biodegradáveis e tantas vezes acabam nos oceanos.

Surge assim, uma oportunidade de fazer “renascer” o setor da produção de lã como alternativa mais ecológica e sustentável. Embora a lã esteja ainda desvalorizada quando comparada com outros produtos de ovino, tem se notado um interesse em

Características da lã de merino Peso do velo Machos

4,5 a 5 kg

Fêmeas

2,5 a 2,8 kg

Comprimento das Fibras

6 a 8 cm

Diâmetro das Fibras

18 a 25 micros

Rendimento em LAF

50 a 52%

Classificação (portuguesa)

De merino extra a merino forte


ATUALIDADES

melhorar esta produção com associações como a ACOS ou a ANCORNE a promoverem o desenvolvimento do setor. A ACOS, por exemplo, disponibiliza aos associados um serviço integrado de tosquia, concentração da lã e comercialização. Este conjunto de serviços tem tido uma adesão crescente nos últimos anos. De acordo com as estatísticas agrícolas publicadas pelo INE, a produção de lã em Portugal foi de 5801 toneladas em 2014, 5999 toneladas em 2015 e 6083 toneladas em 2016. O número de ovinos tosquiados em 2017 atingiu um total de 125 mil animais (segundo dados da ACOS). Uma das estratégias de melhoria da lã portuguesa passa pelo melhoramento genético dos Merinos à semelhança do que tem sido feito noutros países, algo em que se começa a apostar em Portugal. Atualmente, estima-se que a produção mundial de lã ronde os 1.16 milhares de toneladas sendo a Austrália o maior produtor com uma produção anual de aproximadamente 277.000 ton/ano, seguida da China que produz cerca de 180.000 ton/ano. Alguns países têm adotado estratégias de marketing que permitiram valorizar

a lã. É o caso da Austrália, com a marca Woolmark®, reconhecida a nível mundial e associada a um produto de elevada qualidade, ingrediente primário de produtos de luxo. As notícias vindas de todo o mundo apontam para um aumento da procura de lã, ao nível mundial, com um aumento expressivo do preço da mesma.

Quais são então os benefícios da lã que devemos enaltecer de

forma a reforçar este mercado: • Proteção e isolamento térmico • Renovável, reciclável, biodegradável e amiga do ambiente • Versátil nas suas utilizações • O processamento da lã não requer tanta utilização de energia como o do poliéster, acrílico ou nylon, o que faz da lã um exemplo de sustentabilidade. • Pode ser produzida localmente • Isolamento acústico

• Material resistente e elástico • Fácil de secar • Pouca probabilidade de desencadear reações alérgicas • Respirável • Retardador natural do fogo • Melhor protecção UV do que a maioria das fibras

A lã tem sido utilizada para a produção de vestuário e outros tecidos, no entanto como produto versátil que é tem outras utilizações nomeadamente: • Indústria cosmética e farmacêutica • Produção de lanolina – com aplicabilidade em diversas industrias: produção de fitacola, tintas, óleos, cosméticos. • Construção, packaging e industria automóvel– devido às suas maravilhosas características que permitem isolamento térmico. • Bolas de ténis, cobertura de mesas de jogo, cestos de basquete • Absorvente em derramamentos de óleos • Como isolamento acústico em diversas indústrias • Na produção de martelos para pianos.

RUMINANTES JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 39


ALIMENTAÇÃO

LUÍS RAPOSO ENGENHEIRO ZOOTÉCNICO, DEPARTAMENTO RUMINANTES NA REAGRO l.raposo@reagro.pt

O impacto do stress térmico em vacas leiteiras O impacto do Stress Térmico (ST) em vacas leiteiras é o resultado das alterações que ocorrem no organismo da vaca em resposta às condições ambientais. A combinação de altas temperaturas com a elevada humidade relativa do ar ou com o excesso de radiação solar são alguns dos principais fatores causadores de ST, podendo variar significativamente entre países ou entre diferentes regiões do mesmo país. O excesso de calor afeta de forma considerável o metabolismo e o desempenho produtivo da vaca leiteira, por isso, nos meses de verão há que ter em atenção vários fatores a fim de limitar o impacto que o ST pode ter ao longo desse período.

Porque têm as vacas dificuldade em tolerar altas temperaturas? A temperatura corporal normal de uma vaca é de 38,5 °C, mas a temperatura do rúmen oscila em torno dos 40°C devido ao calor produzido pelas fermentações ruminais. Já a zona de conforto da vaca leiteira varia entre os 5°C e os 25°C, mas geralmente as vacas sentem-se mais preparadas para lidar com as temperaturas frias do que com as temperaturas

quentes. Assim, durante a estação quente, o aumento das temperaturas têm consequências sobre o comportamento, a saúde, a reprodução e como seria previsível, sobre a produção leiteira! É a atividade metabólica do rúmen da vaca que a torna particularmente suscetível ao stress térmico por calor, uma vez que as fermentações do rúmen produzem calor

QUADRO 1 Jean-Michel Bonnefoy e Jos Noordhuizen, 2011. Da esquerda para a direita: Humidade relativa. De cima para baixo: Temperaturas Porto: 26 ˚C – 66 % HR Aveiro: 25,9 ˚C – 73% HR Lisboa: 32 ˚C – 61% HR Évora: 36 ˚C – 55% HR Beja: 35,7 ˚C – 58% HR Temp. médias de Agosto 2016 Fonte: Inst. Port. do Mar e da Atmosfera

40 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

e aumentam por isso a temperatura corporal da vaca. Quanto mais altas forem as temperaturas e a humidade do ar, maior é a sensibilidade térmica e mais forte é o impacto do stress por calor. Numa vaca sujeita a determinadas condições podemos medir o seu estado através do ITH - Índice de Temperatura Humidade. O impacto negativo do ITH aumentará à medida que a temperatura e o nível de humidade relativa do ar aumentam. Como consequência ou resposta ao stress térmico as vacas libertam o calor excessivo através de diferentes mecanismos como a respiração ou transpiração. Vacas que vivem em condições climáticas aparentemente semelhantes não reagem necessariamente da mesma forma ao stress térmico. Por exemplo, vacas criadas num país com temperaturas geralmente altas poderão ser menos propensas ao ST do que outras onde as temperaturas, sendo inferiores, sofrem o efeito de um maior nível de humidade na atmosfera. Isto acontece porque a humidade desempenha


ALIMENTAÇÃO

um papel importante na forma como estes animais sentem o aumento da temperatura. Podemos verificar facilmente esta situação se considerarmos como exemplos algumas das diferentes regiões de Portugal. No quadro anterior (Quadro 1) verificamos que a zona de conforto se situa num ITH (Índice de Temperatura Humidade) abaixo de 72 (limite da zona amarela). Considerando ainda a mesma ilustração, podemos verificar que a norte de Portugal, na região entre Aveiro e Porto, com temperaturas muito semelhantes, há uma ligeira diferença provocada por diferentes valores de humidade. Considerando este exemplo, um ITH de 76 provocará já algumas quebras na ingestão e consequentemente na produção de leite. Se considerarmos outro exemplo, podemos verificar que apesar do abaixamento da humidade sentida nas regiões de Évora e Beja, o aumento das temperaturas provoca um aumento enorme no stress térmico sentido pelas vacas destas regiões, sendo comprovado pelo aumento do valor do ITH para 88. É importante ter presente que a sensibilidade térmica poderá variar de raça para raça e também entre animais da mesma raça. Em função disso, varia o impacto verificado na produção leiteira individual. Também é possível verificar que entre animais na mesma fase de produção se verifica uma maior sensibilidade térmica nos mais produtivos, ou que em animais em diferentes fases da produção se verifica uma maior sensibilidade nos que estão em início de lactação (por exemplo). Por outro lado, raças mais rústicas revelamse naturalmente mais bem adaptadas a lidar com o stress térmico por calor do que os animais da raça Holstein.

Qual o impacto do Stress Térmico (ST) na atividade das vacas leiteiras? FIGURA 1 Impacto do Stress Térmico.

Alta produção de suor para “arrefecimento” do corpo por evaporação, causando perdas de sódio, potássio e bicarbonato.

Grande perda de sódio e bicarbonato pela urina afetando o pH sanguíneo.

Redução da produção de saliva. Baixa atividade ruminal e redução da ingestão. Risco elevado de acidose.

Aumento do risco de laminite e claudicação.

O impacto do ST pode ser detetado através de diferentes sintomas e as vacas mais afetadas por esta condição alteram geralmente o seu comportamento. Os primeiros sinais facilmente visíveis são a respiração, que aumenta de frequência para um ritmo muito mais acelerado, e o decréscimo da ingestão de matéria seca (MS). Adicionalmente, pode verificar-se uma diminuição da eficiência de absorção de nutrientes pelo intestino bem como um aumento das necessidades de manutenção. Por outro lado, quando se observa um decréscimo na ingestão de MS há uma tendência para que essa redução se verifique mais na componente forrageira (fibra). Poderá haver deste modo um aumento percentual na

Impacto negativo sobre a reprodução/ fertitidade. Morte embrionária, aborto.

Aumento da respiração para reduzir a temperatura corporal, levando à diminuição do bicarbonato de sódio no sangue.

ingestão da componente concentrada da dieta e um decréscimo proporcional na ingestão da componente fibrosa, que daí poderá desencadear um declínio acentuado na ruminação e consequentemente na produção de leite (redução acentuada entre 10 a 20%). Ao mesmo tempo que se evidenciam os sinais anteriores aumentará o risco de acidose. Do ponto de vista da imunidade, verifica-se uma diminuição das defesas imunológicas e uma maior vulnerabilidade das vacas às pressões ambientais. Esta situação deve-se a um enorme stress oxidativo causado pelo ST. Na figura 1 podemos observar a extensão do impacto do ST. Globalmente, as perdas resultantes desta

Redução na produção de leite. Aumento do risco de mastite.

realidade podem chegar aos 420€ por vaca leiteira. Nos períodos de maior calor a redução da ingestão de matéria seca associada a uma atividade ruminal mais lenta afetam diretamente não só a produção de leite como o seu teor em gordura, que diminui. No entanto, é importante reter que a redução de gordura no leite entre o mês de abril e o mês de setembro é um problema comum na maioria das explorações leiteiras sem que esteja associado a deficiências alimentares ou outros problemas relacionados com a saúde das vacas (figura 2) . As diferentes estações do ano e a quantidade de horas de luz do dia têm um impacto notável no teor de gordura do leite. Enquanto os dias mais

RUMINANTES JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 41


ALIMENTAÇÃO

FIGURA 2 Evolução sazonal do teor de matéria gorda no leite de vaca leiteira (Instituto Francês do Pecuário).

Mátéria gorda Proteína

2

g/l

curtos de inverno geralmente aumentam a percentagem de gordura, o seu nível tende a cair no verão, à medida que a produção de leite aumenta. Do ponto de vista nutricional, existem algumas formas de tentar controlar ou reduzir o impacto do ST sobre a rentabilidade da exploração.

1 0 -1 -2 jan

feb

mar

abr

may

jun

jul

aug

set

out

nov

dez

Como reduzir o impacto do ST na produtividade das vacas leiteiras? Considerando a influência nutricional, como forma de reduzir o impacto do ST na produtividade, é aconselhável aumentar o teor energético da dieta. Utilizando também fontes mais digestíveis de energia será possível limitar o impacto das fermentações ruminais. Para combater ou minimizar eventuais situações de acidose é importante considerar a

FIGURA 3 Garantir fluxo suficiente de água no bebedouro.

utilização de fatores com efeito tampão, como o bicarbonato de sódio ou de potássio. A incorporação de leveduras na dieta também poderá ser uma forma eficaz de não só combater a acidose, como estimular a flora microbiana. Tendo em conta que a ingestão de matéria seca é fortemente reduzida, há que encontrar formas de incentivar e promover o consumo de alimento. Aumentar as distribuições da dieta , mantendo a forragem fresca e mais palatável, é uma das recomendações para

42 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

promover a ingestão voluntária por parte da vaca. Além disso, será muito interessante garantir níveis adequados de antioxidantes, como as vitaminas A, C e E, que permitem garantir bons níveis de imunidade. De forma a promover uma maior absorção intestinal, a degradabilidade das proteínas deve ser reduzida. Além disso, muitos especialistas aconselham que as rações sejam distribuídas ao final do dia, quando a temperatura é mais baixa, de forma a incentivar as vacas

a ingerir uma boa parte da sua dieta durante a noite. Outro dos cuidados a não esquecer é assegurar a quantidade e a qualidade da água disponível para a hidratação do efetivo. Assegurar que todo o efetivo seja adequadamente abastecido com água é fundamental ao longo de todo o ano e ainda mais nas fases críticas e suscetíveis de ST. O fluxo de água no bebedouro (Fig.3) deverá ser suficiente (entre 15L a 20L / min) e o número de pontos de água deverá ser ajustado de acordo com o número de animais existentes na exploração (1 ponto de água por cada 10 vacas leiteiras, por exemplo). Em regiões ou países muito expostos aos riscos do ST, a instalação de ventiladores mecânicos e aspersores são boas formas de melhorar as condições do ar. Obviamente muitos outros elementos fora do âmbito deste artigo devem ser igualmente considerados a fim de reduzir o impacto ST, tais como a cama dos animais, a ventilação, aspectos relacionados com a construção, a gestão do efetivo, etc..


ECONOMIA

Observatório das matérias primas POR JOÃO SANTOS

A seca do século na Argentina, barreiras para aqui e para ali, onde éque isto vai parar... O presente artigo é sobre matérias primas, e não um observatório político, mas neste artigo vai ser difícil não deixar de falar do segundo tema. A atualidade internacional, à margem da crise dos refugiados, parece, assemelhase, tem côr, e cheiro de guerra comercial. Quando a doutrina económica diz que os Estados devem eliminar as tarifas aduaneiras e caminhar para o livre comércio sem barreiras aduaneiras artificiais, e que a história tem provado que este é o caminho com mais benefícios para todos os países, tanto os desenvolvidos como os em vias de desenvolvimento, ao permitir que cada país se concentre, pelas suas circunstâncias especificas, a produzir no que tem maior vantagem competitiva. Dito isto, o presente governo americano, a atual administração da Casa Branca não pensa assim, e de repente o mundo que criou

no pós II Grande Guerra, não é o que quer. E assim tem agido nos últimos meses para desmantelar o que durou tantos anos a criar. Adicionalmente temos que mencionar que a Argentina teve a segunda pior seca dos últimos 100 anos, que teve como consequência a perda de 1/3 da colheita e com isso a subida do preço da soja de 270€/ton em novembro para 420€/ton em abril, e para agora estar nos 340€. E estamos a olhar para o que promete ser uma colheita promissora nos Estados Unidos. Assim e voltando à guerra comercial em relação ao nosso setor para a Europa, de momento as consequências são que a partir de dia 20 de junho, o milho dos “States” tem uns direitos aduaneiros de 25%, se tivermos em conta que nesta primavera/verão o milho dos “States” era o milho mais barato, a Europa vai deixar

COLHEITAS MUNDIAIS milhões de tm

14/15

15/16

16/17

17/18

18/19

Produção Mundial

319

312,8

351,4

339,7

355,2

Stock finais

77,6

76,6

96,0

92,49

87,02

24%

24%

27%

27%

24%

1.008,80

961,9

1070,2

1034,8

1052,4

208,2

210,9

227,0

192,7

154,7

21‰

22‰

21‰

19‰

15‰

SOJA

MILHO Produção Mundial Stock finais

fonte: USDA s&d junho reporte

44 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

de ter acesso/comprar o milho mais barato. A China, vai impor a partir de 6 julho direitos de 25% na soja dos “States”. Assim, continuando esta guerra, à Europa só vai chegar soja dos Estados Unidos e toda a soja da América do Sul irá parar à China. Vamos ver como é que isto vai acabar na carne e no leite, uma vez que a próxima cartada da Casa Branca parece ser no leite, em particular contra o Canadá.

Proteínas Como vimos a Argentina sofreu uma seca extrema de novembro a abril passado, “no ano anterior a colheita foi de 57 milhões de toneladas e este ano ficou pelos 37 milhões”. Considerando que a Argentina é o principal exportador de farinha de soja do mundo, e que é ela que marca o preço da mesma em todos os mercados não produtores de soja, vemos o impacto que esta redução de produção teve. Está claro que a subida assistida do preço da soja em Lisboa de 270€/ton para 420€/ton num espaço de 5 meses não se deveu só a esta redução, pelo caminho tivemos a guerra comercial que começou a acentuar-se no final de fevereiro. A guerra comercial por si só, não acrescenta nem diminui oferta de soja, mas altera os fluxos. Assim o preço do grão e farinha de soja vai estar a ser calculado com base num CIF China, descontado o frete e no caso

dos “States” acrescido de 25% de direitos de importação. Assim os chineses vão comprar toda a soja disponível de outras origens e muita colza e girassol, antes de comprarem soja dos “States”. E o resto do mundo vai viver de soja americana. Por muito ineficiente que seja esta mudança de fluxos, isto é o que parece que vai acontecer. Porque é que a soja está a retroceder dos 420€/ton para os atuais 340€/ton? O tempo até ao momento está a ser promissor para que a colheita deste ano seja boa nos Estados Unidos, e à medida que vão passando as semanas, se o tempo se mantiver favorável, a tendência será de continuar a corrigir em baixa. Tudo isto só é possível porque continuamos a ter um nível de stocks de soja mundiais relativamente altos, 24% do consumo. Vamos ver como é que o mercado da carne se vai comportar nesta guerra comercial, no entanto algo relevante é que pelo menos a China parece já ser autossuficiente na produção de carne de porco, e vemos a importação/consumo de soja a estabilizar, em que o crescimento esperado é de metade do incremento do ano anterior, que foi cerca de 10%. Acrescido a isto temos os juros a subir nos Estados Unidos, que tiveram e vão continuar a


ECONOMIA

2016

MILHO

2017 2018

€/ton 200 195 190 185 180 175 170 165 160 155 5 a 9 dez

19 a 23 dez

7 a 11 nov

21 a 25 nov

24 a 28 out 24 a 28 out

10 a 14 out

24 a 28 out

10 a 14 out 10 a 14 out

26 a 30 set 26 a 30 set 26 a 30 set

29 a 2 set

12 a 16 set

29 a 2 set

12 a 16 set

29 a 2 set

12 a 16 set

1 a 5 ago

15 a 19 ago

4 a 8 jul

18 a 22 jul

4 a 8 jul

18 a 22 jul

4 a 8 jul

18 a 22 jul

6 a 10 jun

20 a 24 jun

6 a 10 jun

20 a 24 jun

6 a 10 jun

20 a 24 jun

9 a 13 maio

23 a 27 maio

9 a 13 maio

23 a 27 maio

9 a 13 maio

23 a 27 maio

11 a 15 abr

25 a 29 abr

28 a 1 abr

12 a 16 mar

13 a 17 fev

27 a 2 mar

30 a 3 fev

2 a 6 jan

150 16 a 20 jan

BAGAÇO COLZA €/ton 350 330 310 290 270 250 210 190 170

7 a 11 nov

21 a 25 nov

5 a 9 dez

19 a 23 dez

7 a 11 nov

5 a 9 dez

19 a 23 dez

25 a 29 abr 25 a 29 abr

21 a 25 nov

11 a 15 abr 11 a 15 abr

1 a 5 ago

28 a 1 abr 28 a 1 abr

15 a 19 ago

12 a 16 mar 12 a 16 mar

1 a 5 ago

27 a 2 mar 27 a 2 mar

15 a 19 ago

13 a 17 fev

30 a 3 fev

13 a 17 fev

150

SOJA €/ton 450

400

350

300

250

200 30 a 3 fev

Se habitualmente faço uma ressalva de que nada entendo de taxas de cambio, agora tenho que deixar a ressalva que também não entendo nada da política da Casa Branca. O que sim sabemos é que a subida das taxas de juro nos Estados Unidos causará pressão em países como o Brasil e a Argentina, com desvalorização da moeda local e pressão inflacionista, o que vai levar a que este agricultores, voltem a reter as suas colheitas em lugar de vendê-las a um ritmo regular. Adicionalmente, embora a guerra comercial não toque nem nas produções nem no consumo de uma forma direta, os agricultores brasileiros e argentinos sabem que em números redondos a sua colheita de soja vale mais 25% do que a soja dos “States”, e vão ser pacientes a vendê-la aos chineses. Dito isto, no referente à soja, com um “weather market” benigno nos “States”, é de esperar que paulatinamente a soja possa continuar a descer o preço. O milho, uma vez que houve uma redução dos stocks finais mundiais, é agora pouco provável que se veja no futuro preços ao nível do que vimos no ano passado, com preços abaixo de 170€/ton nos portos portugueses. Nestes tempos tumultuosos, há

PREÇOS MÉDIOS SEMANAIS NO PORTO DE LISBOA DE 2016 A 2018

2 a 6 jan

Notas finais

fatores imponderáveis. Restanos esperar que os nossos líderes usem o senso comum e não entrem por um caminho que só pode levar ao retrocesso. Despeço-me com amizade.

EVOLUÇÃO DO PREÇO DE MATÉRIAS PRIMAS

16 a 20 jan

O milho em Lisboa já esteve oferecido a melhor preço, mas também já esteve bem pior. Mesmo assim está sobre os 175€/ton para o disponível, não se pode dizer que seja caro, em particular comparado com o trigo e a cevada, ambas acima de 190€/ton. A história recente do preço do milho pode ser resumida a que tivemos uma colheita mais pequena no Brasil, que conduziu a uma redução de milho brasileiro tradicional, muito competitivo no mercado internacional, se acrescentarmos uma já recorrente retenção dos agricultores ucranianos, temos que o milho mais barato para quase todo o ano de 2018 ter sido o do Estados Unidos e Canadá. A guerra comercial é assim uma preocupação para a pecuária nacional, uma vez que a Europa anunciou a introdução de direitos aduaneiros para o milho dos “States”, para todos os navios embarcados depois do dia 20 junho. Assim vamos ter de esperar por uma boa Safrinha no Brasil e agricultores Ucranianos mais agressivos a vender, para podermos ter uma correção dos preços em baixa. Também esta tarifa de 25%, a ser aplicada, tem o efeito perverso de obrigar o milho dos “States” a ficar mais barato para conseguir encontrar outros destinos, o que por sua vez, põe em risco a existência de direitos de importação de milho de terceiros países, que é calculado com base no preço do milho dos “States”. Ou seja, é necessário que a União Europeia altere o método do cálculo destes direitos de importação, para incluir no

que aprender com as formigas, olhar para os custos, amealhar, e ir fechando margem, sem pensar demasiado se os preços do milho ou da soja são altos ou baixos, uma vez que há muitos

2 a 6 jan

Cereais

cálculo a tarifa de 25% que quer impor no milho dos “States”. Tudo isto com o risco do milho de terceiros países ficar a preços proibitivos, algo que seria muito prejudicial para um país deficitário como Portugal. Nos cereais a maior preocupação em termos de meteorologia, era a pouca humidade na Rússia que poderia afetar a colheita de trigo este ano, no entanto, a melhoria da humidade nas últimas semanas e as temperaturas abaixo da média estão a ajudar a que se componham as coisas, e o rendimento acaba por ficar dentro da media.

16 a 20 jan

ter como consequência um aumento da inflação e tensão nas moedas dos países em desenvolvimento em particular Argentina e Brasil, o que levou a que o “farmer selling” tenha sido regular durante os meses passados nestes dois países. No entanto na Argentina o “farmer selling” parece que está a abrandar nestas últimas semanas.

RUMINANTES JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 45


ECONOMIA

Observatório do Leite POR JOANA SILVA Fontes: Agriland, Comissão Europeia, Farm Journal’s Milk, Fonterra, USDA

O ano já vai a meio, e é tempo de olharmos para os principais mercados leiteiros mundiais. Comecemos, e bem, pelo velho continente. Apesar de se ansiar pelo sol e calor, a primavera fresquinha surtiu efeitos positivos sobre os mercados de leite europeus, os quais devem continuar em melhoria, com consequente retorno financeiro para os produtores. O desafio da gestão dos stocks de leite em pó poderá vir a ser respondido com duas vendas mensais pela Comissão Europeia, quiçá fruto da renovada procura por produtos lácteos depois de uma primavera em que não se atingiram os níveis de produção esperados. A dinamarquesa Arla e a holandesa Friesland Campina anunciaram em junho aumentos de preço do leite de 1 e 0,25 cêntimos por quilo, respetivamente. Na Nova Zelândia, fruto da conjuntura equilibrada em termos de oferta e procura, a Fonterra anunciou uma proposta de aumento do preço do leite pago ao produtor próxima dos 6 euros por quilo de sólidos de leite para a temporada 2018/2019. As previsões apontam ainda para volumes de produção na ordem dos 1525 milhões de quilos, um aumento de 1,5% face

46 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

às previsões anteriores. Ao lado, na Austrália, a produção leiteira em abril deste ano registou um aumento de 2,9% comparativamente ao mesmo mês do ano passado. A procura por parte da China – o maior importador mundial de leite em pó, manteiga, proteína whey e lactose – continuará forte, bem como os preços de produtos como a manteiga e gorduras lácteas, o que deverá ser positivo para os mercados mundiais. No primeiro semestre do ano, a manteiga europeia foi a mais valorizada nos mercados, com aumentos de exportação de 8% nos primeiros três meses de 2018. Nos Estados Unidos, as previsões a curto e longo prazo parecem ser animadoras. Em março deste ano as exportações atingiram um valor recorde de 1,9 biliões de quilos em equivalentes de sólidos de leite desnatado, o valor mais alto desde 2014. Para estes bons resultados têm contribuído os recentes aumentos de preço do leite e lacticínios, aliados a stocks aquém do esperado e boas condições de exportação. Para 2019, as previsões apontam para uma produção leiteira na ordem dos 100 biliões de quilos, um aumento de 1,3% face a este ano.

Na América do Sul aproxima-se o inverno, e assiste-se à recuperação de algumas regiões, em paralelo com resultados negativos noutras. Na Argentina, a produção leiteira tem crescido desde o início do ano, com 9,1% de aumento registados no mês de abril. No entanto, prevê-se um aumento dos custos de produção nos próximos meses, resultado da destruição de culturas de milho e soja devido ao mau tempo. No vizinho Uruguai, a produção leiteira registou um aumento de 4% nos primeiros meses de 2018, em comparação com o mesmo período do ano passado. Estes aumentos de produção poderão ter impactos também mais acima no mapa, nos Estados Unidos, trazendo competição em termos de exportações. O cenário é mais negro no Chile e no Brasil, no qual alguns produtores têm vindo a abandonar a atividade devido aos baixos preços do leite. No Chile, em particular, os produtores pedem intervenção estatal para que se impeça que os grandes compradores de leite privilegiem fornecedores europeus e americanos em detrimento dos nacionais. Em todo o continente olha-se agora para a meteorologia, e espera-se que um fenómeno como o El Niño decida não aparecer nesta temporada.


ECONOMIA

PREÇO DO LEITE STANDARDIZADO (1) PAÍSES

LEITE À PRODUÇÃO PREÇOS MÉDIOS MENSAIS EM 2017/2018 MESES

EUR/KG

TEOR MÉDIO DE MATÉRIA GORDA (%)

TEOR PROTEICO (%)

COMPANHIA

PREÇO DO LEITE (€/100 KG) ABRIL 2018

MÉDIA DOS ULTIMOS 12 MESES (5)

ALEMANHA

Alois Müller

30,63

35,28

Contin.

Açores

Contin.

Açores

Contin.

Açores

DINAMARCA

Arla Foods

30,53

34,40

ABRIL

0,292

0,273

3,60

3,69

3,23

3,22

Danone

32,44

34,72

MAIO

0,292

0,276

3,63

3,66

3,18

3,18

Lactalis (Pays de la Loire)

31,83

33,49

JUNHO

0,289

0,274

3,65

3,65

3,19

3,13

Sodiaal

32,62

34,94

JULHO

0,309

0,275

3,69

3,68

3,23

3,12

Dairy Crest (Davidstow)

29,23

32,38

AGOSTO

0,316

0,289

3,77

3,71

3,28

3,15

Glanbia

31,03

34,26

SETEMBRO

0,323

0,294

3,87

3,78

3,33

3,21

FRANÇA INGLATERRA IRLANDA ITÁLIA HOLANDA

Kerry

31,43

34,46

OUTUBRO

0,289

0,274

3,65

3,65

3,19

3,13

Granarolo (North)

40,71

40,37

NOVEMBRO

0,330

0,298

3,91

3,85

3,35

3,27

DEZEMBRO

0,330

0,307

3,95

3,77

3,35

3,22

JANEIRO

0,317

0,298

3,86

3,73

3,30

3,20

DOC Cheese

Friesland Campina

33,87

37,37

Fonterra (3)

31,06

31,38

EUA

30,05

33,23

PREÇO MÉDIO LEITE

2017

(2)

N. ZELÂNDIA EUA (4)

2018

Fonte: LTO (1) Preços sem IVA pagos ao produtor; Preço do leite de diferentes empresas leiteiras para 4,2% de MG, 3,4% de teor proteico e CCS de 249,999/ml . (2) Média aritmética . (3) Baseado na previsão mais recente . (4) Reportado pela USDA . (5) Inclui o pagamento suplementar mais recente.

FEVEREIRO

0,318

0,298

3,84

3,71

3,31

3,22

MARÇO

0,305

0,295

3,79

3,70

3,29

3,22

ABRIL

0,318

0,294

3,76

3,66

3,27

3,23

Fonte: SIMA Gabinete de Planeamento e Políticas

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RUMINANTES JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 47


ECONOMIA

Índice VL e Índice VL-ERVA “Mantém-se a situação difícil dos produtores de leite” POR ANTÓNIO MOITINHO RODRIGUES, DOCENTE/INVESTIGADOR, ESCOLA SUPERIOR AGRÁRIA DO INSTITUTO POLITÉCNICO DE CASTELO BRANCO CARLOS VOUZELA, DOCENTE/INVESTIGADOR, DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS DA UNIVERSIDADE DOS AÇORES/IITAA NUNO MARQUES, REVISTA RUMINANTES

Analisamos neste número da Ruminantes os Índices VL e VL - ERVA para o período de fevereiro a abril de 2018. Em função dos dados do SIMA-GPP (2018), durante o trimestre em análise o preço médio do leite pago aos produtores individuais do continente variou entre 0,318 €/kg em fevereiro e abril e 0,305 €/kg em março. Na Região Autónoma dos Açores o preço médio do leite pago aos produtores individuais variou entre 0,298 €/kg em fevereiro e 0,294 €/kg em abril. Os dados publicados pelo MMO (2018) permitem verificar que o preço médio do leite pago ao produtor no período de fevereiro a abril de 2018 foi, mais uma vez, muito inferior em Portugal (0,3058 €/kg) quando comparado com a média da UE28 (0,3354 €/ kg). Considera-se que esta diferença de +2,95 cêntimos/ kg é determinante para o sucesso económico da

exploração. No mês de abril de 2018, Portugal integrou o lote de 9 países da UE com os preços mais baixos do leite pago ao produtor. Relativamente ao trimestre anterior, todas a matériasprimas que entraram na formulação dos alimentos compostos utilizados neste trabalho sofreram um aumento. Destacam-se o bagaço de soja (+18,3%), o bagaço de girassol (+10,1%) e a cevada (+7,0%). O preço crescente das matérias primas e o aumento do preço da palha relativamente ao mês de agosto provocou um aumento de 4,3% no custo da alimentação da vaca leiteira. Na Região Autónoma dos Açores o preço do alimento composto aumentou 6,7%. No entanto, como o regime alimentar da vaca tipo nos Açores inclui maior consumo de pastagem a partir do mês de abril, verificou-se uma redução 1,7% no custo total do regime alimentar em

Evolução do Índice VL e Índice VL-erva DE ABRIL DE 2017 A ABRIL DE 2018 Os valores são influenciados pela variação mensal do preço do leite pago ao produtor individual do continente (Índice VL) e da Região Autónoma dos Açores (Índice VL - ERVA) e pelas variações mensais dos preços de 5 matérias-primas utilizadas na formulação do concentrado e pelo preço dos outros alimentos que integram o regime alimentar da vaca leiteira tipo.

Últimos 13 Meses

2017

2018

Índice VL

Índice VL-ERVA

ABRIL

1,643

2,003

MAIO

1,660

2,024

JUNHO

1,664

2,053

JULHO

1,635

2,034

AGOSTO

1,791

2,073

SETEMBRO

1,836

2,185

OUTUBRO

1,817

1,814

NOVEMBRO

1,825

1,829

DEZEMBRO

1,785

1,859

JANEIRO

1,765

1,828

FEVEREIRO

1,695

1,767

MARÇO

1,606

1,736

ABRIL

1,659

2,040

EVOLUÇÃO DO ÍNDICE VL

O Índice VL é influenciado pela variação mensal do preço do leite pago ao produtor no continente e pelas variações mensais dos preços dos alimentos que constituem o regime alimentar da vaca leiteira tipo (concentrado 9,5 kg/ dia; silagem de milho 33 kg/dia; palha de cevada 2 kg/dia).

2,0

Valores do Índice VL

DE JULHO DE 2012 A ABRIL DE 2018

1,5

1,0 julho 2012

Valor do Índice VL Negócio saudável

48 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

abril 2018

Limiar de rentabilidade Forte ameaça para a rentabilidade da exploração


ECONOMIA

EVOLUÇÃO DO ÍNDICE VL-ERVA

O Índice VL – ERVA é influenciado pela variação mensal do preço do leite pago ao produtor na Região Autónoma dos Açores e pelas variações mensais dos preços dos alimentos que constituem o regime alimentar da vaca leiteira tipo (primavera/verão 60 kg/dia de pastagem verde, 10 kg/dia de silagem de erva e de milho, 5,6 kg/dia de concentrado; outono/inverno 47 kg/dia de pastagem verde, 13,3 kg/dia de silagem de erva e de milho, 6,7 kg/dia de concentrado).

comparação com o trimestre anterior. A evolução do preço do leite e dos custos da alimentação refletiu-se no Índice VL e no Índice VL - ERVA que em abril de 2018 foi, respetivamente, de 1,659 e de 2,040. De referir que em abril de 2017 o Índice VL havia sido de 1,643 e o Índice VL - ERVA de 2,003. Um índice inferior a 1,5 (valor muito baixo) indica forte ameaça para a rentabilidade da exploração leiteira; um índice entre 1,5 e 2,0 (valor moderado) indica que a produção de leite é um negócio economicamente viável; um índice maior do que 2,0 (valor elevado) indica que estamos perante uma situação favorável

3,0

Valores do Índice VL Erva

DE JULHO DE 2013 A ABRIL DE 2018

2,0

1,5

1,0 julho 2013

abril 2018

Valor do Índice VL - erva Negócio saudável

para o sucesso económico da exploração (SchröerMerker et al., 2012). Durante o trimestre em análise, o Índice VL atingiu o valor mínimo de 1,606 e o Índice VL-Erva o valor mínimo 1,736, em ambos os casos durante o mês de março de 2018. Pode-se concluir que, passado um ano, os produtores de leite do continente e dos Açores se encontram numa situação idêntica àquela em que se encontravam em abril de 2017. De realçar que o Índice VL-ERVA reflete a realidade da produção de leite muito mais favorável da ilha de S. Miguel que produz cerca de 60% do total de leite dos Açores.

Limiar de rentabilidade

Forte ameaça para a rentabilidade da exploração

NOTAS: Comparando com o mês de abril de 2017, o preço do leite pago aos produtores do continente em abril de 2018 foi superior em 2,4 cêntimos/kg e o valor pago aos produtores dos Açores foi superior em 2,1 cêntimos/kg; Durante o trimestre em análise houve um aumento do preço de todas as matérias-primas que entram na formulação dos alimentos compostos. Esta evolução contribuiu para aumentar os preços, não só do alimento composto como também do regime alimentar formulado para o cálculo do Índice VL. O aumento do preço das matérias-primas poderá influenciar negativamente a economia das explorações mais dependentes de alimentos compostos. Nos Açores o preço do alimento composto também aumentou. No entanto, como entre abril e setembro a quantidade de pastagem que entra na alimentação das vacas é maior, verificou-se uma redução do custo total do regime alimentar formulado para calcular o Índice VL – ERVA; No trimestre em análise, a palha, um dos alimentos forrageiros utilizados na formulação do regime alimentar apresentou um valor mais elevado do que o habitual; As três considerações anteriores refletem-se no Índice VL e no Índice VL - ERVA que em abril de 2018 foram, respetivamente, de 1,659 e 2,040. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: MMO (2018). European milk market observatory – EU historical prices. http://ec.europa.eu/ agriculture/milk-market-observatory/index_en.htm acesso em 12-06-2018. Schröer-Merker, E; Wesseling, K; Nasrollahzadeh, M (2012). Monitoring milk:feed price ratio 1996-2011. In: Chapter 2 – Global monitoring dairy economic indicators 1996-2011, IFCN Dairy Report 2012, Torsten Hemme editor, p 52-53. Published by IFCN Dairy Research Center, Schauenburgerstrate, Germany. SIMA-GPP (2018). Leite à produção - Preços Médios Mensais. Sistema de Informação de Mercados Agrícolas, Gabinete de Planeamento e Políticas. http://www.gpp.pt/index.php/ sima/precos-de-produtos-agricolas acesso em 12-06-2018.

SEMINÁRIO PLURIVET NA FEIRA NACIONAL DE AGRICULTURA Durante a 55ª Feira Nacional de Agricultura, a Plurivet realizou dois seminários com os temas: “Conseguimos prevenir cetose e hipocalcemia em vacas leiteiras?” e “O que posso ganhar com o planeamento alimentar da vacada?”. Estes seminários tiveram como oradores Ricardo Bexiga e Cancela D’Abreu.

RUMINANTES JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 49


ALIMENTAÇÃO

Alimentação de bezerros do nascimento ao desmame O aumento da produção nos principais exportadores mundiais e a explosão da demanda asiática têm impulsionado o comércio mundial de carne bovina nos últimos anos. O mercado português não é exceção, e os bovinicultores tentam cada vez mais aumentar a produtividade dos seus rebanhos e produzir animais de melhor qualidade. Como falamos essencialmente de um mercado direcionado para a venda de bezerros logo após o desmame, vamos colocar o foco na alimentação dos bezerros desde o nascimento até ao desmame.

PEDRO CASTELO DIRETOR TÉCNICO ZOOPAN pedro.castelo@zoopan.com

SARA GARCIA ENGª ZOOTÉCNICA, DEPARTAMENTO TÉCNICOCOMERCIAL s.garcia@zoopan.com

Quando falamos na produção de bovinos aleitantes, o maneio dos bezerros desde o nascimento até ao desmame é uma etapa crucial. Quer o objetivo do produtor seja produzir bezerros para venda ao desmame, venda de reprodutores à idade adulta, ou obter novilhas de substituição para o seu efetivo, a sua receita depende bastante da sua capacidade de produzir animais de acordo com esse objetivo. Assim sendo, também o maneio alimentar dos bezerros deverá estar adaptado à finalidade do produtor, bem como à fase fisiológica pela qual passam. De acordo com cada caso, o produtor deverá primeiramente definir que peso os seus bezerros deverão alcançar ao desmame e que ganhos médios diários permitirão chegar a esse objetivo de peso.

Mantendo a idade à qual se faz o desmame, existem 3 estratégias possíveis para aumentar o peso dos bezerros ao desmame: • Aumentar a produção de leite da vaca; • Aumentar o consumo de forragem por parte do bezerro; • Suplementar o bezerro, de forma a potenciar a sua ingestão de nutrientes.

50 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

Existem diversas práticas que podem aumentar a qualidade da forragem, mas gerir a forragem, produzida na exploração ou adquirida fora, tendo em vista apenas a alimentação dos bezerros, é uma tarefa difícil. Da mesma forma, aumentar a produção leiteira das vacas representa um aumento das suas necessidades nutricionais nesta fase específica, fazendo com que diminua também a área destinada a pastoreio por vaca.

Suplementação dos bezerros até ao desmame No que diz respeito à suplementação dos bezerros até ao desmame, existem diversos estudos que demonstram que bezerros suplementados alcançam maiores pesos ao desmame, e que estes bezerros terão também um desmame mais suave, não sofrendo elevadas perdas de performance após serem separados das vacas.


ALIMENTAÇÃO

IMAGEM 2 Bezerro do programa F1 da Associação Mertolenga.

A suplementação pode permitir, desta forma, alcançar um ou vários objetivos: • Antecipar a venda dos bezerros, sem degradar o seu objetivo de peso, no caso de uma exploração que venda os bezerros ao desmame; • Comercializar animais mais pesados ao desmame, possibilitando um aumento do preço de venda; • Manter as performances de crescimento dos bezerros, em caso de baixa produção leiteira das mães ou em casos em que existe pouca oferta de pastagem (Ex.: época de verão);

• Facilitar a transição para a engorda; • Facilitar a recria, nos casos em que existe venda de reprodutores ou cujo objetivo é ter fêmeas de substituição.

Diferentes fases de alimentação do bezerro do nascimento ao desmame Desde o nascimento até ao desmame, podemos dizer que o maneio alimentar do bezerro passa por duas fases distintas, evoluindo conforme o crescimento do bezerro: NUMA PRIMEIRA FASE, E DURANTE OS PRIMEIROS 2 MESES DE VIDA, a alimentação do bezerro é essencialmente leite. Não se deve descurar a importância da ingestão de colostro imediatamente após o nascimento, na maior quantidade possível e no mais curto espaço de tempo, para permitir ao recém-nascido adquirir a sua proteção imunitária primária. A quantidade de leite ingerido pelo bezerro depende não só do potencial leiteiro da vaca, mas também da demanda do bezerro. Com o mesmo potencial leiteiro, quanto mais

a vaca for estimulada pelo bezerro, maior será a sua produção leiteira. NUMA FASE SEGUINTE, E APÓS O 2º MÊS DE VIDA, o bezerro vai aumentado o seu consumo de alimentos sólidos, quer sejam forragens, quer sejam concentrados. A alimentação sólida assume vários papéis importantes: inicialmente e em quantidades reduzidas, permite ao bezerro habituarse a ingerir forragens, bem como a desenvolver o rúmen. A partir do 3º mês, a quantidade ingerida vai sendo maior, permitindo ao bezerro compensar a diminuição progressiva da quantidade de leite produzida pela mãe, fazendo face às suas necessidades nutricionais e objetivos de crescimento procurados pelo produtor.

Alimentação de bezerros na pastagem No contexto nacional, ao contrário de outros países, como França por exemplo, em que os animais estão estabulados durante os meses de inverno, os animais encontram-se na pastagem. Será então nesta óptica que o produtor deverá pensar o seu maneio alimentar. Nos gráficos 1, 2 e 3, podemos observar os resultados obtidos num ensaio, com animais explorados em linha pura, numa comparação entre 3 estratégias diferentes de maneio alimentar dos bezerros na pastagem

(nascidos no inverno). Para os bezerros suplementados de forma racionada, contou-se com uma distribuição de 0,5 kg de alimento concentrado por 100 kg de peso vivo, e no caso dos bezerros suplementados à descrição, contou-se com uma distribuição de 1 kg de alimento concentrado por 100 kg de peso vivo. Nesta última situação, apenas se utilizou a suplementação à descrição em bezerros machos, de modo a não se obterem fêmeas demasiado gordas ao desmame, visto

GRÁFICO 1 Bezerros na pastagem, sem suplementação (adaptado de Institut de l’Élevage e INRA, 2014). Desmame (8 meses)

Peso (kg) 350 300 250 200 150

Início ingestão pastagem

Nascimento

100 50 0 30

60

90

120

150

180

210

240

Idade (dias)

RUMINANTES JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 51


ALIMENTAÇÃO

A escolha dos alimentos corretos para a suplementação

GRÁFICO 2 Bezerros na pastagem, com suplementação racionada (adaptado de Institut de l’Élevage e INRA, 2014).

dos bezerros

Desmame (8 meses)

Peso (kg) 350 300 250

Início ingestão pastagem

200 150

Nascimento

100 50 0 30

60

90

120

150

180

210

240

Idade (dias)

GRÁFICO 3 Bezerros na pastagem, com suplementação à descrição (adaptado de Institut de l’Élevage e INRA, 2014). Desmame (8 meses)

Peso (kg) 350 300 250

Início ingestão pastagem

200 150

Nascimento

100 50 0 30

60

90

120

150

tratarem-se de fêmeas para substituição do efetivo. Da análise dos resultados deste estudo, pode verificar-se que a utilização de alimento concentrado pode permitir ganhos médios diários superiores, e, consequentemente,

180

210

240

Idade (dias)

bezerros mais pesados ao desmame. Falamos, em média, de uma diferença entre os 10 e os 30 kg a mais ao desmame em bezerros suplementados relativamente aos que não são suplementados.

TABELA 1 Valores médios, para os teores energético e proteico, de um alimento concentrado adaptado a bezerros até ao desmame (adaptado de Institut de l’Élevage e INRA, 2014)

Valor Energético

Valor Proteico

Distribuição Racionada

Distribuição à Descrição

> 0,920 UFV/kg Matéria Bruta

Entre 0,80 e 0,90 UFV/kg Matéria Bruta

16% PB/kg Matéroa Bruta 100 a 110 g PDI/UFV

NOTA O autor escreveu este artigo segundo o Antigo Acordo Ortográfico.

52 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

A composição do alimento concentrado a distribuir aos bezerros deve ter sempre em conta a qualidade da forragem que ingerem em simultâneo (pastagem, feno, etc.) e a capacidade de ingestão do bezerro. Em termos de logística, é mais fácil para o produtor escolher um alimento que assuma o melhor compromisso de qualidade e valores nutricionais durante todo o período de suplementação. Desta forma, e de modo a satisfazer as necessidades nutricionais de um bezerro que inicia a sua alimentação sólida e um bezerro que está próximo do desmame, tem que haver um equilíbrio entre o valor energético e o valor proteico do alimento. Deve ter-se especial atenção ao teor de amido e de fibra do alimento em função da forma de suplementação: alimentos ricos em amido e com baixa percentagem de fibra devem ser distribuídos de forma racionada, para evitar problemas metabólicos (como acidoses, por exemplo) em

casos de elevado consumo. Nos casos em que se distribui o alimento concentrado à descrição, é sempre mais seguro utilizar teores de fibra bruta elevados (entre 11 a 12% de fibra bruta, no arraçoamento total). Os valores energéticos e proteicos encontram-se resumidos na tabela 1. No caso do produtor optar por produzir o alimento complementar na exploração, em vez de um alimento concentrado comercial, também deverá utilizar estes valores médios como guia para efetuar a mistura de matérias primas adaptada a esta fase. Um alimento complementar pode ser produzido na exploração através da mistura simples de 3 matérias-primas, por exemplo, tendo como base um cereal, um complemento proteico e uma fonte de fibra (luzerna desidratada, por exemplo). A sua composição deve ter em conta se a distribuição vai ser racionada ou não.

A localização do comedouro (viteleiro) O local onde se coloca o comedouro ou viteleiro não é de menor importância. Deverá ser posicionado num local que não inunde facilmente (evitar locais húmidos de modo a não degradar mais rapidamente a qualidade do alimento), onde seja fácil aceder pelos bezerros e também pelo operador, para o voltar a encher. Idealmente, deve colocar-se no local onde as vacas repousam habitualmente, ou em alternativa, no local de abeberamento dos animais, para ser mais fácil de aceder, pelos bezerros. No início, é aconselhável colocar pequenas quantidades de modo a incentivar os bezerros a entrarem no viteleiro, e também a vigiar o seu comportamento.


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ALIMENTAÇÃO

Utilização de lisina e metionina

no desempenho produtivo de bovinos de engorda Estudos realizados anteriormente demonstraram que a lisina (Friesen et al.,1994) e a metionina (Fetuga et al.,1975) são limitantes para a maximização da deposição de tecido muscular magro na carcaça. No entanto não existem referências que relacionem especificamente o efeito da sua utilização em bovinos de engorda. Foram realizados inúmeros estudos para comparar o desempenho dos bovinos de engorda, utilizando o índice de conversão para carne do NRC (National Research Council, 2002), os níveis 1 e 2 do CNCPS (Cornell Net Carbohidrates and Protein System) ( Fox et al., 2004), no qual se considerava que a proteína como o primeiro nutriente

JAVIER LOPEZ TECHNICAL SALES MANAGER RUMINANTES KEMIN EM ESPANHA E PORTUGAL

limitante, e se o modelo da Proteína Metabolizável (MP) seria o correto para a avaliar a performance dos animais (Tedeschi et al., 2005, Orlindo et al 2015). Este tipo de carências nos aminoácidos limitantes, como a lisina (Lis) e a metionina (Met), poderiam

prevenir-se através da suplementação na dieta de compostos que não sofram alterações no rúmen. Adicionalmente, os aminoácidos protegidos da ação ruminal (RP-AA),têm um efeito positivo sobre outros aspetos como a função hepática e a

manutenção do estado fisiológico dos animais. O objetivo deste estudo foi determinar o efeito no desempenho de bovinos de engorda, de uma dieta suplementada com aminoácidos aminoácidos protegidos da ação ruminal, lisina e metionina.

Material e métodos O ensaio decorreu numa exploração comercial de bovinos de engorda, localizada em Verona, Itália, com aproximadamente 2500 animais, divididos em 10 pavilhões. Os animais testados eram da raça limousine, com pesos compreendidos entre os 320 Kg e os 480 Kg (fase de crescimento), e os 480 Kg a 580 Kg (fase de acabamento). De forma a rentabilizar o fluxo de trabalho e a mão-de-obra, a alimentação distribuída pelo carro unifeed era comum para os animais de cada um dos pavilhões (um único unifeed por pavilhão). Para este estudo foram monitorizados 256 animais para cada uma das fases (correspondente a um pavilhão completo). Cada pavilhão foi dividido em 32 boxes (6x5m), dispostas em 2 filas (16+16), com 8 animais em cada, com uma alimentação base de forragem constituída por silagem de milho e palha de trigo (Quadro 1), distribuída pelo carro unifeed. Os

54 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

animais foram separados aleatoriamente em 2 grupos, o Grupo de Controlo (dieta formulada sem RP-AA) e o Grupo de Tratamento (AA), sujeitos a uma dieta com AA.

Inicialmente os animais dos dois grupos experimentais apresentaram o mesmo peso, para evitar erros na interpretação dos resultados finais.

QUADRO 1 Ingredientes utilizados na fórmula durante o ensaio. Ingredientes (kg)

Grupo Controle

Grupo AA

Silagem de milho

6,5

6,5

Farinha de milho

2,5

2,5

Pastone

3

3

Palha

0,5

0,5

Formula Comercial

2,5

2,5

Lysigem

0,01

Metasmart dry

0,01

QUADRO 2 Perfil de aminoácidos para os 2 grupos, durante a fase experimental. Grupo Controle

Grupo AA

LysDi² (gr)

49,1

54,2

MetDi³ (gr)

15,2

17,4

LysDi (%PDI)¹

6,4

7

MetDi (%PDI)

1,9

2,2

LysDi:MetDi

3,2

3,1

Perfil

¹PDI - proteína digestível no intestino, 2LysDi: Lisina Digestível no intestino; 3 MetDi- Metionona digestível no intestino


Ingredientes da dieta durante o ensaio experimental A componente comercial das dietas foi formulada de acordo com as recomendações do INRA 2007, igual para os 2 grupos, com exceção para a suplementação relativa aos aminoácidos. No quadro 2 é apresentado o perfil de aminoácidos de cada uma das dietas. Os dados avaliados por animal foram: o peso inicial (320 Kg-média) e o peso final (600 Kg-média), ingestão de alimento, amostra da TMR (mensalmente), amostra para determinar os componentes da dieta (mensalmente), registo de eventuais patologias (laminites, abcessos hepáticos, mortes…) e os parâmetros de classificação da carcaça no matadouro, como a qualidade (acabamento, cor e distribuição da gordura); ganho médio diário (GMD) até ao abate e taxa de conversão alimentar (TCA).

Conclusões

Resultados e discussão Os resultados mostraram que a adição de RPLisina e RP-Metionina, aumentou o GMD (Ganho Médio Diário), em 48 g/dia para o grupo de tratamento, melhorou a taxa de conversão alimentar (TCA), sendo necessários menos 130 g de alimento por Kg de peso ganho (Quadro

3). Provou-se que os animais alimentados com RP-AA mostraram melhor qualidade da carcaça e obtiveram melhor classificação (numa escala de 1 a 3, em que 1 corresponde a escura e magra e 3 a pálida e gordurosa) na cor e na distribuição da gordura (Quadro 4).

QUADRO 3 Parâmetros produtivos de comparação entre os 2 grupos. Grupo Controle

Grupo AA

GMD ( Ganho Médio Diário)

1435

1483

Total TCA (Taxa de Conversão Alimentar)

4,19

4,06

Parâmetro

QUADRO 4 Classificação das carcaças dos 2 grupos ( escala 1 a 3 ). Grupo Controle

Grupo AA

Cor carcaça

2,75

2,8

Distribuição da gordura

1,95

2,1

Parâmetro de Qualidade

A suplementação das dietas para bovinos de engorda de elevado mérito genético, com aminoácidos protegidos da ação ruminal, têm um efeito positivo no GMD e na TCA, o que pode significar o aumento do retorno económico para os agricultores. Adicionalmente são necessários mais estudos e ensaios relativos à suplementação das dietas com RP-AA, de forma a quantificar a quantidade óptima de cada aminoácido, para melhorar não apenas os parâmetros produtivos, mas igualmente a qualidade das carcaças. É evidente que os dois RP-AA são necessários para maximizarem a resposta produtiva do animal e transformarem as engordas um negócio lucrativo. As dietas balanceadas para aminoácidos digestíveis com RP-AA, são mais económicas, melhoram o desempenho produtivo dos animais e contêm menos azoto, comparativamente às rações não balanceadas , como foi provado por estudos anteriores. Além destes factos, a diminuição da carga de azoto ambiental é um fator a ter em conta, no momento de fazer a avaliação do custo/benefício.

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ATUALIDADES

OTIMIZANDO A EFICIÊNCIA RUMINAL NUM CLIQUE

ALIMENTAÇÃO OVINA 10% MAIS CARA

A Lallemand Animal Nutrition, empresa canadiana especializada na produção e venda de inoculantes para silagem, probióticos e derivados de levedura, está a desenvolver uma aplicação móvel para investigar a eficiência ruminal em bovinos leiteiros e de carne. Esta ferramenta será uma melhoria de um software previamente desenvolvido para computador, lançado há 18 meses. Através deste sistema, os consultores da empresa conseguem examinar de uma forma holística parâmetros como a ruminação, condição corporal, consistência das fezes e conspurcação dos animais, para além da sua performance produtiva. Tendo em conta que a eficiência alimentar advém da capacidade da microbiota ruminal digerir a dieta, estas avaliações permitem “afinar” a nutrição de modo a minimizar os custos de alimentação e, em paralelo, maximizar o lucro. De acordo com a Lallemand, são necessários apenas 45 minutos para que o efetivo seja analisado e o produtor seja informado acerca de eventuais melhorias que poderá fazer. Na base do desenvolvimento deste software estiveram dificuldades enfrentadas pelos produtores, por exemplo na avaliação da ingestão de matéria seca pelos animais. Além disso, apesar de a generalidade das explorações ter métodos próprios para lidar com desafios como acidoses e baixa digestibilidade da fibra, esta ferramenta vem uniformizar o diagnóstico e resolução destes problemas, independentemente do tipo de dieta ou de outros fatores a nível da exploração. A empresa também aposta fortemente na formação, através da sua “escola ruminal”, na qual os consultores são treinados para utilizar corretamente o software. Estas sessões de formação ocorrem a nível mundial, tendo percorrido destinos como a Europa, Japão, Tunísia e Brasil, e têm em conta a conjuntura dos mercados das diferentes regiões. Dados de 400 auditorias realizadas em 25 países permitiram apurar níveis de eficiência ruminal na ordem dos 69%, valores que revelam que há ainda oportunidades de melhoria.

Os custos de alimentação das ovelhas leiteiras aumentaram significativamente durante o ano de 2017, de acordo com dados do Ministério da Agricultura e Pescas, Alimentação e Ambiente dos nossos vizinhos espanhóis. Atualmente registam-se custos de 198,76 euros por tonelada de alimento, calculados com base no preço do alimento composto e das forragens. Em maio do ano passado não se ultrapassavam os 179,13 euros, o que se traduz num aumento de 10,9 pontos percentuais. Este aumento deve-se em grande parte à subida do preço dos alimentos compostos de 210,69 para 235,54 euros por tonelada, registando-se assim um incremento de 11,8%. De acordo com os dados do ministério supracitado, estes são os valores mais altos desde o verão de 2014.

IRLANDA TEM NOVAS REGRAS DE IDENTIFICAÇÃO OVINA O Departamento de Agricultura, Alimentação e Pescas da Irlanda anunciou recentemente a obrigatoriedade futura da identificação electrónica dos efetivos ovinos, uma decisão que não foi bem-recebida por todos os produtores nacionais. A entrar em vigor a partir do dia 1 de outubro de 2018, o novo sistema de identificação será composto por duas marcas, uma convencional e outra electrónica. Fora da sua aplicação estarão os animais abatidos antes dos doze meses, os quais serão identificados apenas com uma marca convencional. O presidente da Irish Farmers Association, Joe Healy, mostrou-se revoltado com esta medida, devido à crise e pressões financeiras que os produtores irlandeses enfrentaram no passado inverno, e acusa o governo de estar a favorecer a indústria em detrimento do setor primário. Isto porque caberá aos produtores acarretar com os custos do novo sistema (apesar de estar

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prometido um apoio de 50 euros na compra das primeiras identificações), os quais se vêm juntar aos da Clean Sheep Policy (“Política das Ovelhas Limpas”). Esta foi uma política implementada no início do ano, que favorece os produtores que apresentam os seus animais em boas condições de limpeza aquando do abate, evitando comprometer a qualidade e segurança da carne. Da parte do governo e autoridades competentes, este novo sistema de identificação permitirá fortificar a rastreabilidade dos animais e seus produtos, a qual poderá contribuir para o desenvolvimento e sustentabilidade do setor, não só a nível nacional mas também em termos de exportação. Em 2016, os volumes de exportação irlandeses aumentaram na ordem dos 3%, com um correspondente aumento de valor de 4% num total de 240 milhões de euros, beneficiando diretamente 35 000 famílias e promovendo a empregabilidade no setor.

PRESERVANDO AS MATÉRIAS-PRIMAS COM AJUDA ONLINE Os produtores têm mais uma ferramenta de apoio na preservação das suas forragens e outras matérias-primas, sob a forma de um website lançado pela empresa sueca Perstorp, a qual almeja melhorar a qualidade dos alimentos para animais utilizados no setor. No site, redigido em inglês, poderá ser encontrada informação acerca de assuntos como a inibição do desenvolvimento de bolores, prevenção de micotoxinas, higiene alimentar e preservação de forragens e silagens. De acordo com a empresa, toda a informação será constantemente revista e atualizada, e servirá como uma fonte aberta para todos os produtores e intervenientes no setor. VISITE ESTA PLATAFORMA EM: www.perstorp.com/en/preservation


LysiGEM™ Smartamine® M MetaSmart® CholiPEARL™ TOXFIN™ Muitas coisas estão a mudar na produção de leite, não só isto... A nutrição leiteira está a mover-se rapidamente. A produção já não é apenas o único objetivo, outros como a saúde, a fertilidade dos animais e o meio ambiente, tornaram-se igualmente importantes. As palavras chave atualmente são: • • • • • • • •

Otimização Eficiência Economia de custos Rendimento Qualidade Fertilidade Saúde Meio ambiente

Devem fazer parte da nossa lingua e ser a nossa meta. A Kemin pretende proporcionar uma nova visão da nutrição, tendo como principal objetivo ser seu parceiro, procurando uma produção sustentável e competitiva, para conseguir obter uma alimentação mais eficiente e rentável. Reveja as suas dietas. A Kemin pode ajudar... Kemin Portuguesa Lda Tel + 351 214 157 500

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Preparação do bezerro para exportação Na conjuntura atual de mercado, e com o aumento da procura de bezerros para as exportações, os produtores de bovinos têm como objetivo vender os seus bezerros pelo melhor preço, enquanto, os compradores, pretendem comprar bezerros saudáveis e economicamente viáveis. Estes interesses podem parecer divergentes, mas tanto vendedores como compradores podem atingir os seus objetivos com programas de “preconditioning” de bezerros, uma vez que este tipo de preparação/ programa valoriza os animais. Estudos demonstram que produtores de bovinos que tenham implementado nas suas explorações programas de “preconditioning” de bezerros, ao vender obtêm um acréscimo no valor do produto e os compradores beneficiam com essa compra.

SARA NÓBREGA MÉDICA VETERINÁRIA NA VETHEAVY

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Bailey. “Preconditioning Calves for Feedlots”. Managing for Today’s Cattle Market and Beyond, Utah State University Donnell J., Ward C., Swigert S. “Costs and Benefits Associated with Preconditioning Calves. Division of Agricultural Sciences and Natural Resources, Oklahoma State University Matos M. “Administração de Medicamentos e Boas Práticas com o Material”.Zoetis Portugal

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Programa de “preconditioning” O “preconditioning” prepara os bezerros, enquanto estes ainda se encontram nas explorações de origem, para o confinamento (engorda) através de um protocolo vacinal e maneio alimentar específicos. Este programa tem como objetivo minimizar as perdas associadas à transição do aleitamento para alimento seco e à alteração da imunidade pósdesmame. Ao conferir uma proteção adicional para as infeções respiratórias dos bezerros, principal problema pós desmame, e preparar o aparelho digestivo para alimento seco antes do desmame, estaremos a introduzir no mercado animais mais preparados para a comercialização, podendo estes bezerros ser considerados de baixo risco. Este programa é instituído para reduzir significativamente o aparecimento de doenças, mortalidade e perdas de peso, levando ao aumento da eficiência na utilização do alimento. Consecutivamente animais mais saudáveis vão necessitar de menos maneio. Com este sistema, é acrescido um valor comercial ao bezerro precondicionado e embora o comprador tenha que pagar um valor maior no momento da compra, estará a comprar um bezerro imunologicamente preparado, com menos custos de tratamento, menos maneio e maior desempenho na utilização do alimento, isto é, um bezerro de baixo risco. No sistema tradicional o comprador adquire animais desmamados, de várias origens, sem plano vacinal ou alimentar, que ao chegarem às suas instalações (engordas) têm ainda que passar por todo o processo de imunização e alterações alimentares repentinas, na maioria das vezes já tardiamente. Estes animais são

considerados de alto risco pois não estão imunologicamente e metabolicamente preparados para a próxima fase - a engorda. Estes bezerros são mais susceptíveis a infeções e alterações digestivas, o que se reflete em ganhos médios diários inferiores ao desejado.

Exemplo de um programa de “preconditioning” Antes de iniciar um programa de “preconditioning” de bezerros, o produtor de bovinos deve consultar o seu médico veterinário, para que, em conjunto possam planificar as intervenções direcionadas às características da sua vacada e exploração. O exemplo que se segue (figura 1) é um programa de “preconditioning” que tem como finalidade a comercializar bezerros de baixo risco para engordas que exportam animais. Este programa consiste em: • Passo 1 - Dia 0: nascimento dos bezerros; • Passo 2 - 3/4 meses após o nascimento é necessário colocar nos viteleiros, alimento seco sempre disponível até ao desmame dos bezerros; • Passo 3 - 21 dias antes do desmame deve-se efetuar a primo-vacinação contra clostridioses, pasteuroloses, IBR, BVD e língua azul S1; • Passo 4 - 6/7 meses após o nascimento deve-se realizar o desmame dos bezerros e efetuar o rappel das clostridioses, IBR, BVD e língua azul S1, desparasitação e teste de prémovimentação; • Passo 5 - 21 dias após o desmame os animais estão prontos para a comercialização. É de salientar que, as intervenções descritas entre o passo 1 e 5 são efetuadas na exploração de origem;


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FIGURA 1 Exemplo de um programa de “preconditioning” de bezerros.

Exploração de origem

Comercialização 21 dias

0 dias

3/4 meses Viteleiro

FIGURA 2 Administração subcutânea.

21 dias

Primo-vacinação 6/7 meses DESMAME + Rappel

• Passo 6 - 1 dia após a chegada à engorda é efetuada a metafilaxia com antibiótico e anti-inflamatório (intervenção nem sempre precisa). Na engorda são efetuadas todas as intervenções oficiais necessárias para a exportação dos bezerros.

Vacinação A vacinação é um ponto crítico e importante num programa de “preconditioning” de bezerros, o cumprimento do protocolo instituído e a correta aplicação da vacina, influenciam o resultado e garantem a imunidade correta nos animais. Uma boa resposta vacinal depende do tipo de vacina, da resposta imunológica de cada animal, da aplicação da vacina e do cumprimento do plano vacinal previamente determinado pelo médico veterinário.

No processo de vacinação devemos ter em conta os seguintes pontos: • O local e via de administração da vacina deve ser sempre respeitado, pois dependendo do tipo de vacina, a aplicação pode ser subcutânea ou intramuscular. Deve aplicar-

1 dia

Metafilaxia

FIGURA 3 Administração intramuscular.

Engorda

se numa zona limpa da tábua do pescoço do animal, posicionando a seringa paralela e com prega de pele para uma administração subcutânea (figura 2) e perpendicular para uma administração intramuscular (figura 3). Assim previne-se o aparecimento de abcessos no local da administração (figura 4). • O acondicionamento da vacina durante o processo de vacinação deve ser verificado. • A agulha deve ser trocada de 10 em 10 animais colocando-as num recipiente com água a ferver para que possam ser utilizadas quando necessário. Boas práticas de vacinação garante a saúde dos nossos animais, previnem os abcessos no local de administração e consequentemente uma melhor comercialização dos bezerros.

FIGURA 4 Abcesso na tábua do pescoço.

Conclusão Neste momento Portugal aumentou significativamente o número de exportações no setor pecuário, sendo Israel um dos maiores consumidores. Neste país praticase o abate judaico e consumo de carne “Kosher”. Carne “Kosher” (derivado da palavra hebraica kasher que significa “bom” ou “próprio”) é o termo utilizado para alimentos que seguem as leis judaicas de alimentação e que determina padrões em todas as etapas do processo, desde a espécie animal abatida, forma de abate e modo de consumo. Após o abate seguindo as normas da lei judaica, os órgãos internos e tendões do animal são inspecionados (por exemplo os pulmões são inflados) para verificar se existem alterações fisiológicas, como as derivadas das infeções respiratórias, que tornem a carne não-Kosher. É de salientar que a carne “kosher” destinada ao consumo deve ter poucos vasos sanguíneos e nervos sendo que, as partes mais consumidas pelos judeus são os membros anteriores, cabeça e costelas não havendo consumo da parte posterior do animal. Com este panorama e exigência de mercado, um programa de “preconditioning” torna-se uma ferramenta essencial para a comercialização de animais saudáveis, de forma a manter a confiança nas relações comerciais já existentes nas nossas exportações e alargá-las para outros mercados.

RUMINANTES JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 59


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Vacinação para mastites: a opinião de quem aposta na prevenção POR DEOLINDA SILVA, deolinda.silva@hipra.com . www.hipra.com

No atual mercado leiteiro, onde a produção de leite necessita de aumentar 2,5%/ano, a mastite continua a ser um constante desafio para veterinários e produtores. Esta doença pode afetar até 40% dos animais, representa cerca de 30% dos custos anuais em doença (70% dos quais são devidos a perda de produção e leite descartado) e é uma das principais causa de utilização de antibióticos numa exploração leiteira. A implementação de protocolos de controlo de saúde do úbere é essencial para tentar minimizar o impacto económico e produtivo desta doença, além de também serem essenciais para o bem-estar dos animais e a utilização prudente de antibióticos exigida pela UE, indústria de lacticínios e opinião pública. Um programa de saúde do úbere deve assentar em 4 pilares base: ambiente, máquina de ordenha, rotina de ordenha e animal. A nível do animal é essencial otimizar a sua imunidade (resistência) à doença. Neste campo em concreto a vacinação contra mastites pode ser uma ferramenta útil nos programas de controlo de qualidade de leite. Estudos recentes em situações de campo (Bradley A.J. et al., 2015; Schukken Y. et al., 2014) comprovam que a utilização de uma vacina contra agentes de mastites (S. aureus, SCN, E. coli e coliformes) em combinação com os pilares acima referidos, resulta numa diminuição de 55% na prevalência de infeções por S. aureus, diminuição da severidade e refugo por mastites tóxicas (ex. E. coli), aumento na produção de leite (6%), aumento nos sólidos totais (5%) e um retorno económico de 2,6€ por cada 1€ investido (com base apenas numa maior produção de leite das vacas vacinadas). Em Portugal a vacina para mastites foi lançada em 2009 e desde então existem vários testemunhos de médicos veterinários e produtores sobre os resultados decorrentes da sua utilização nas suas explorações. Neste sentido entrevistámos dois produtores de leite e respetivos médicos veterinários da qualidade de leite, do norte do país, que nos transmitiram a sua experiência de utilização desta ferramenta para a prevenção de mastites. Agradecimentos: A HIPRA e a autora gostariam de agradecer à Dr.ª Adelaide Pereira (Segalab), à Dr.ª Joana Correia (CAVC), ao Dr. Carlos Neves (Quinta do Sinal, Lda) e à Paula Neto (Paula Alexandra Silva Carneiro Neto) pela colaboração prestada na realização deste artigo e testemunho.

60 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

Entrevista a Carlos Neves e Joana Correia Carlos Neves

Produtor Carlos Neves Quais são, na sua opinião, os principais problemas relacionados com a qualidade de leite e perdas económicas devido a mastites? Temos o custo com o leite rejeitado, custos de tratamento, baixa de produção, refugo de animais e penalizações por causa das células somáticas. Quando iniciou a vacinação para prevenir as mastites? O que o levou a tomar essa decisão? Em setembro de 2017, porque esse ano estava a ser complicado com mamites sucessivas e muito leite rejeitado, acima dos anos anteriores. O que lhe chamou à atenção no produto e porque decidiu utilizá-lo? Pensei que valia a pena fazer a experiência e “arriscar” a despesa de vacinar face aos prejuízos que estava a ter. Por outro lado, face ao uso mais restrito e responsável dos antibióticos que devemos seguir, é tempo de procurar alternativas de prevenção.

Quais têm sido os principais benefícios, a nível da qualidade de leite e a nível económico, que tem alcançado com a vacinação? O nível habitual de células somáticas baixou e não tivemos penalizações, apesar de todas as cargas serem analisadas. Pelo controlo da condutividade do leite, noto que aumentou a imunidade dos animais e que agora as vacas conseguem “resolver” sem tratamento pequenas infeções que despontam. Também notei redução de diarreias nos vitelos, não sei se foi coincidência

Dados gerais da exploração Nome: Quinta do Sinal, Lda Vacas em ordenha: 60 animais Tipo de ordenha: ordenha robotizada Anos funcionamento: 2ª geração, à frente da exploração há 22 anos Localização: Árvore-VCD Produção diária: 39l Gordura: 3,4 Proteína: 3,15


SAÚDE E BEM-ESTAR ANIMAL

Joana Correia

ou o resultado da melhoria da qualidade do leite. O que diria a uma pessoa que está indecisa para começar a vacinar para a prevenção de mastites na sua exploração? Penso que deve avaliar a situação com o veterinário e além da vacinação procurar outros pontos críticos que possam provocar as infeções. E depois cumprir o prazo para revacinar, para não perder a eficácia.

Médica veterinária Joana Correia Quais são, na sua opinião, os principais problemas relacionados com a qualidade de leite e perdas económicas devido a mastites? Os principais problemas são as mastites clínicas, quer por agentes contagiosos ou ambientais, o consumo elevado de antibióticos, a quantidade de leite rejeitado e as penalizações que o produtor sofre pelo aumento da contagem celular no tanque. No entanto, é preciso prestar atenção às perdas e despesas associadas às mastites subclínicas que são muitas vezes subestimadas, principalmente a redução do potencial de produção associada ao aumento da contagem celular. Quando iniciou a vacinação para prevenir as mastites? O que a levou a tomar essa decisão? Partimos para a vacinação porque no ano de 2017 tivemos um aumento dos custos relacionados com as mastites e o produtor também foi penalizado pelo aumento da contagem celular no tanque. Verificou-se um aumento significativo de animais com mastite clínica, gasto com os respetivos tratamentos e com o leite rejeitado, comparando com anos transatos.

O que lhe chamou à atenção no produto e porque decidiu recomendá-lo? Os dois pontos que salientava era a redução de novas infeções e a melhoria da resposta imune. A maior parte dos esforços têm sido empregues em medidas de tratamento preventivo, tanto de higiene do ambiente, como nos procedimentos de ordenha. No entanto, a melhoria da resistência da vaca e o aumento da sua capacidade de resposta imune frente aos agentes

patogénicos com a vacina é um fator importantíssimo. Quais têm sido os principais benefícios, a nível da qualidade de leite e a nível económico, que tem alcançado com a vacinação? Os benefícios principais são a diminuição das novas infeções, redução da gravidade dos sintomas nos animais acometidos, diminuição do consumo de antibióticos e o aumento da imunidade do animal para responder aos agentes presentes na exploração. Isto traduz-se numa enorme vantagem económica para o produtor. O que diria a uma pessoa que está indecisa para iniciar a vacinar para a prevenção de mastites na sua exploração? “Prevenir é sempre melhor que tratar”, o retorno económico da vacinação compensa o investimento inicial. Contudo, deverá aconselhar-se com o médico veterinário para saber se os agentes mais prevalentes da sua exploração estão contemplados na vacina.

Entrevista a Paula Neto e Adelaide Pereira Paula Neto

Produtora Paula Neto Quais são, na sua opinião, os principais problemas relacionados com a qualidade do leite e perdas económicas devido a mastites? Logo à partida perdemos em leite rejeitado e não produzido, e depois temos os gastos em medicamentos e as perdas de pontuação (o leite é pago a um preço mais baixo).

Quando iniciou a vacinação para prevenir as mastites? O que a levou a tomar essa decisão? A vacinação foi iniciada em agosto de 2012; desde então é aplicada a cada 3 meses, nas vacas em lactação, secas e novilhas. Existiam problemas de mastites graves por E. coli, logo após o parto e não conseguia recuperar os animais mesmo após o tratamento.

RUMINANTES JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 61


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Adelaide Pereira

O que pensou quando lhe informaram que existia uma vacina para a prevenção de mastites? Vai ser o fim dos problemas com mastite!!! Quer a minha veterinária da qualidade do leite (Dr.ª Adelaide Pereira) quer a minha veterinária da clínica e reprodução (Dr.ª Andreia Amaral) falaram-me da vacina, em que situações ela se aplicava e de que forma; também falei com alguns produtores meus conhecidos para obter testemunhos de experiência com esta vacina. O que lhe chamou a atenção no produto e porque decidiu utilizá-lo? No meu caso concreto havia indicação para a vacina e todos os técnicos da exploração recomendaram a sua utilização; houve opiniões diferentes quanto ao protocolo a seguir mas como a minha exploração é de pequena dimensão optou-se pela vacinação “a varrer” (primovacinação com 2 doses e revacinação trimestral). Quais têm sido os principais benefícios, a nível da qualidade do leite e a nível económico, que tem alcançado com a vacinação? O que notei logo foi a redução das mastites clínicas, e as que surgem consigo curá-las com apenas um tratamento. Antes da vacinação tratava as mastites mais do que uma vez e mesmo assim perdia quartos. Em resumo, tenho menos mastites clínicas, uso menos antibióticos, aumentou a produção de leite e com melhor qualidade, além disso, diminuiu o tempo de ordenha.

Dados gerais da exploração Nome: Paula Alexandra Silva Carneiro Neto Vacas em ordenha: média 40 vacas em lactação Tipo de ordenha: ordenha em espinha Anos em funcionamento: 3ª geração, estando com a Paula Alexandra há 22 anos Localização da exploração: Penamaior, Paços de Ferreira Produção diária: 30l Gordura: 3,85 Proteína: 3,3

62 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

O que diria a uma pessoa que está indecisa para iniciar a vacinação para a prevenção de mastites na sua exploração? Diria para falar com o veterinário assistente, fazer análises para saber se no seu caso existe indicação para a vacinação, e, se assim for, deve vacinar pois terá com toda certeza resultados muito positivos.

Médica veterinária Adelaide Pereira Quais são, na sua opinião, os principais problemas relacionados com a qualidade do leite e perdas económicas devido a mastites? As mastites (clínicas e subclínicas) acarretam logo a redução da produção e da qualidade do leite, com consequente redução do bem-estar animal, redução no preço do leite, aumento do trabalho e preocupação do produtor e do técnico de qualidade de leite. Nas perdas económicas contabilizam-se os custos com os tratamentos, a rejeição de leite, a intervenção veterinária, o trabalho extra, as perdas por leite não produzido e os custos com a reposição. Quando iniciou a vacinação para prevenir as mastites? O que a levou a tomar essa decisão? A vacinação foi iniciada em agosto de 2012, na altura, pela minha colega de trabalho; quando fiquei a orientar a exploração, e de acordo com o histórico anterior à vacinação e os resultados obtidos pós-vacinação nem se colocou a hipótese de abandonar. O que pensou quando lhe informaram que existia uma vacina para a prevenção de mastites? Primeiro, averiguei que era um produto com registo de eficácia, eficiência e segurança e em segundo lugar interessou-me o facto de incidir sobre agentes responsáveis por mastites clínicas e subclínicas importantes

nesta região. Pensei também que apesar de ser um bom produto, nalgumas explorações seria necessário reforçar a necessidade de continuar a executar as outras medidas de prevenção, pois a vacina não seria a solução de todos os problemas. O que lhe chamou a atenção no produto e porque decidiu recomendá-lo? É um produto registado acima de tudo. A imunidade conferida é real, pois sabemos o quão difícil é obter uma imunidade duradoura na glândula mamária. Os diferentes protocolos de aplicação ajustam-se quer aos agentes quer ao tamanho das explorações na região (pequena, média e grande dimensão). Quais têm sido os principais benefícios, a nível da qualidade do leite e a nível económico, que tem alcançado com a vacinação? No primeiro ano pós vacinação apenas se recorreu a antibioterapia sistémica em 2 situações e no 2º ano não houve nenhum caso. Uma redução significativa na percentagem de animais crónicos e de novas infeções tem sido observada, ano após ano, após a imunização. A redução da utilização de antibióticos foi significativa, aumentou o número médio de lactações por vaca assim como a produção por animal. A qualidade de vida da produtora também melhorou. O que diria a uma pessoa que está indecisa para iniciar a vacinação para a prevenção de mastites na sua exploração? Se o seu caso se enquadra então deve avançar. Toda e qualquer ferramenta de prevenção deve ser implementada pois tem impacto direto na redução da utilização de antibióticos e das antibioresistências. Mas nunca devem descurar os outros procedimentos de controlo e profilaxia pois a mastite é uma doença multifatorial (ambiente, animal e agente). A implementação de programas de qualidade do leite é um aliado importante para monitorizar a eficácia da vacinação numa exploração.


* Andrew Bradley et al. An investigation of the efficacy of a polyvalent mastitis vaccine using different vaccination regimens under field conditions in the United Kingdom. J. Dairy Sci. 2015; 98: 1706–1720

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Combater a resistência aos antibióticos: O desafio dos veterinários de campo para a saúde global POR TERESA MOREIRA

A Comissão Europeia tem um Plano de Ação ‘Uma Só Saúde’ para combater a resistência aos agentes antimicrobianos, tanto nos seres humanos como nos animais. Esta resistência causa anualmente 25 mil mortes e 1,5 mil milhões de euros de prejuízos económicos, constituí uma ameaça global crescente”, e se não se intensificar agora uma ação de forte de compromisso, “até 2050 poderá causar mais mortes do que o cancro.” O novo plano de ação promove “a utilização prudente dos antibióticos nas pessoas e nos animais, consolidando a vigilância, melhorando a recolha de dados e fomentando a investigação”. 64 JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 RUMINANTES

IMAGEM 1 À esquerda Teresa Moreira e à direira Marisa Bernardino.

Falámos com a Marisa Bernardino, médica-veterinária, com experiência prática de clínica de campo, e atualmente a desempenhar funções nos serviços técnicos de Ruminantes da Zoetis, o que a coloca, por isso, numa posição privilegiada para nos falar deste tema. Cada vez se fala com maior insistência no uso racional de antibióticos, e mesmo em medicina humana são frequentes os apelos para uma utilização correta. Este é o desafio do futuro para os veterinários de campo? Sim, sem dúvida, esse é um dos grandes desafios dos médicos-veterinários. Mas o futuro é já hoje, pelo importante papel que nós Médicos Veterinários desempenhamos na sociedade e porque somos um elo fundamental de ligação entre a Saúde e Bem-Estar Animal, a Saúde Pública e o Ambiente. No exercício da prática clínica, o veterinário é confrontado diariamente com a necessidade de fazer um diagnóstico com recurso a escassos meios complementares e é esperada uma rápida recuperação do animal. Para além disso temos que ter a capacidade de conseguirmos transmitir aos produtores a importância de cumprirem o plano de tratamento, seja cumprindo a prescrição, seja implementando outras


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medidas preventivas complementares. Por outro lado, temos ainda que ter objetivamente em mente todas as implicações em termos de saúde pública, que resultam das nossas decisões. O uso criterioso de antibióticos é um objetivo essencial para os M. Veterinários que atuam em atenção primária. Na prática, quais as alternativas que se apresentam, na sua opinião, com maior aplicabilidade? Creio que as alternativas passam por uma forte aposta na prevenção, quer através da implementação de medidas de biossegurança, quer através do investimento no bem-estar animal. Cabe aos veterinários prestar apoio aos seus clientes neste sentido, sensibilizando para a receptividade e a aplicação destes dois pilares. A correta utilização dos antibióticos é um assunto complexo, e que exige a responsabilização de todos. Se já conhecíamos o conceito do “ prado ao prato” como fundamental em termos de segurança alimentar, hoje em dia, a complexidade e a transversalidade do assunto leva-nos a outro conceito multidisciplinar designado “Uma só Saúde” em que se interligam profissionais de saúde e agentes económicos da Saúde Humana, Saúde Animal e Ambiente. A expressão “redução da utilização” de antibióticos é, de alguma forma, injusta, na medida em que o leite e a carne, quando chegam ao consumidor, não contêm antibióticos. Concorda que o problema atual é mais qualitativo do que quantitativo, sobretudo relativamente a determinados grupos de antibióticos? Interessante a ideia de injustiça. Concordo que as medidas devem ser qualitativas porque será um erro pensar em resolver uma situação clínica pelo recurso administrativo. A avaliação de risco deve ser baseada em critérios de base científica: a utilização de antibióticos não pode ser eliminada quando a sua aplicação se justifique. Os antibióticos são a solução para o tratamento de infeções bacterianas, pelo que, quando o agente dessa infeção está identificado, o antibiótico pode ser a única forma de salvar esse animal. Os antibióticos são medicamentos vitais, foram, são e serão necessários aos seres humanos e aos animais. Desvalorizar a sua importância não é certamente o caminho a seguir. Quando nos referimos aos grupos críticos, são coincidentes com os que se utilizam com maior frequência em medicina humana, aqueles aos quais se recorre em

“SOS” ou eventualmente se já não existem mais alternativas? Quer a OMS, quer a OIE debatem os antibióticos considerados críticos: não é uma ciência exata, embora possamos considerar que os grupos mais críticos são os que coincidem com a utilização em medicina humana, e designadamente em situações para as quais não se conhece alternativa. Quando falamos de utilização racional, queremos dizer concretamente o quê? A definição mais esclarecedora que conheço para esse conceito é dizer que devemos utilizar estes medicamentos quando necessário e tanto quanto necessário, ou seja, significa que a antibioterapia deve ser instituída apenas para o tratamento de infeções provocadas por bactérias, e sempre nas doses, e pelas vias de administração indicadas na bula do medicamento. Dito de outra forma ainda mais simples, os antibióticos devem ser utilizados apenas quando prescritos e aquilo que é prescrito deve ser cumprido. Pensa que a alteração da utilização, por parte de alguns laboratórios de análises de leite, de um teste de pesquisa de inibidores, para um teste que determina abaixo do Limite Mínimo de Resíduos (LMRs) contemplados no Regulamento 470/2009, sem que exista uma articulação entre o INFARMED, a DGAV e com a indústria farmacêutica, faz sentido? Julgo que fomos todos apanhados de surpresa pela forma pouco transparente como as coisas se processaram e pela consequente desinformação e confusão que se seguiu. Se faz ou não sentido depende do acordo pré-existente entre a indústria compradora de leite (e que recorre aos laboratórios referidos para a deteção de resíduos de antibiótico no produto que está a adquirir) e o produtor que lhe vende esse produto. Obviamente, a indústria farmacêutica tem de cumprir a lei e, como tal, os intervalos de segurança são definidos com base em rigorosos e comprovados critérios científicos e os LMRs estabelecidos após avaliação de peritos de todos os estadosmembros. A autoridade competente, que é a DGAV, deve fazer cumprir a lei aplicável. Quais são as principais diferenças entre este teste e o utilizado anteriormente? O que me parece ser a diferença mais significativa é um aumento da sensibilidade para as tetraciclinas, verificam-se também aumentos ou diminuições de sensibilidade para outras moléculas, em relação ao teste inicialmente utilizado.

Enquanto veterinária como tem gerido estas alterações? Os veterinários devem atuar sempre no enquadramento legal, prescrevendo os medicamentos e fazendo cumprir os respetivos intervalos de segurança. Nos casos em que haja acordos entre os seus clientes e as indústrias do leite, julgo que deverão, além do aconselhamento para a utilização dos produtos conforme o indicado na respetiva bula, recomendar a realização do teste de pesquisa de inibidores, previamente ao envio do leite em causa para a indústria. De que forma pode a indústria farmacêutica, ajudar os veterinários, e consequentemente os produtores, neste ponto de viragem tão importante? Em primeiro lugar importa dizer que apenas me posso comprometer com a posição da empresa para a qual trabalho, mas penso que também as outras empresas partilham a visão de que a indústria farmacêutica estará sempre à disposição para qualquer esclarecimento quanto à utilização dos produtos que fabrica ou representa. Estão a trabalhar nesse sentido? Sempre o fizemos e sempre o faremos. Como empresa líder e como empresa de investigação trabalhamos sempre com o objetivo de disponibilizar produtos e serviços inovadores e responder aos desafios com que são confrontados os nossos clientes. O sucesso deles é a medida do nosso sucesso. Estamos sempre disponíveis para procurar melhores soluções. Qual a mensagem que gostaria de deixar ficar, a veterinários e produtores, relativamente a este assunto em particular? Os antibióticos são e sempre serão utilizados em animais e humanos, pois as diferentes espécies estão sujeitas a infeções bacterianas e as bactérias não se vão extinguir do planeta. Veterinários e produtores têm papéis fundamentais e complementares: veterinários prescrevendo o necessário quando necessário, e os produtores cumprindo o que está prescrito. Se o fizerem, menor será a probabilidade de se gerarem resistências às moléculas utilizadas e maiores serão as possibilidades de sucesso no tratamento. A aposta na prevenção é o caminho, mas os antibióticos são a solução disponível, a utilizar o melhor possível, para ultrapassar os obstáculos provocados por bactérias que surgem nesse caminho.

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GEORGE STILWELL MÉDICO-VETERINÁRIO, FACULDADE DE MEDICINA VETERINÁRIA – UNIVERSIDADE DE LISBOA stilwell@fmv.ulisboa.pt

RUMINANTES SAUDÁVEIS

O que o comportamento nos pode dizer Temos apresentado em números anteriores da revista o significado de alterações observadas em órgãos (ex: pele e pêlo) ou em produtos (ex: fezes) dos ruminantes. Estas são formas indiretas de um animal falar com o observador. No presente artigo iremos recordar e rever a maneira como os animais comunicam diretamente connosco – através do seu comportamento. Podemos, por isso, dizer que agora iremos traduzir algumas das palavras incluídas no dicionário de animalês para português. Da boa compreensão desta linguagem nascem, de certeza, grandes vantagens para as duas partes.

Não perder a capacidade de ouvir O animalês não é uma linguagem difícil. Felizmente é entendida por muitos produtores e tratadores, que são fluentes muitas vezes sem se darem conta disso. Tantas vezes testemunhei a capacidade que alguns

têm de ler e perceber o que os animais, através do seu comportamento, nos estão a dizer. Ouvir a frase “Aquele não está bem…”, que acompanhava a observação à distância de um qualquer animal no meio de uma

enorme manada, tornou-se habitual ao longo dos muitos anos que tenho de trabalho com produtores experientes. Os velhos pastores, agora em extinção, eram autênticos peritos. Aliás, é a experiência que nos ensina a perceber os animais. É a observação frequente e rotineira do comportamento normal e natural dos animais que permite apurar o ouvido para as frases ou palavras estranhas e cujo significado vamos apreendendo. Infelizmente este ouvido experiente e sensível, tem vindo a perder-se por duas razões principais e interligadas. Com a industrialização e intensificação da produção, passámos a ter explorações com um número e uma densidade tal de animais que poderá ser fácil não ouvir o

FIGURA 1 Saber ler os sinais de preparação para o parto é essencial, pois permite um maneio racional e atempado.

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que um indivíduo nos está a dizer do meio da multidão. É como tentar ouvir uma lamentação numa sala cheia de outros a conversar. É preciso estar muito atento. O exemplo extremo é conseguir ouvir o que alguns fragos nos estão a tentar dizer num pavilhão com meio milhão de aves. Depois, e de certa forma como consequência desta intensificação, passámos a usar cada vez mais a tecnologia para substituir o interlocutor humano. Seja para reduzir custos seja para aumentar a eficiência, as máquinas tomaram nos seus braços muitas tarefas antes da responsabilidade dos tratadores. Este facto retirou proximidade e, principalmente, sensibilidade aos humanos que deixaram de perceber a linguagem normal quanto mais as palavras que significam problemas. Até as ordenhas, local onde muitas vezes o produtor podia ouvir melhor os seus animais, estão a deixar de ser estes locais de comunicação privilegiada. Os


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robots tentam substituí-los mas, obviamente, não têm nem a sensibilidade nem a empatia necessária. No entanto, estas razões não são, para quem estiver atento e for paciente, suficientes para levar à

surdez um bom produtor. Este deve manter a tal sensibilidade e o ouvido apurado, porque temos muito a ganhar ao perceber o que os animais nos estão a dizer (figura 1). Às vezes mesmo a gritar.

As palavras e o seu significado Como foi dito o animal comunica connosco através do seu comportamento. A linguagem não é complicada para quem observa e ouve com atenção, mas exige a tal experiência e, por vezes, uma boa dose de paciência. As palavras que nos dizem que tudo está bem são os comportamentos naturais ou fisiológicos – ruminar, deitar e levantar com facilidade, agitar a cauda, apontar as orelhas para os estímulos visuais ou auditivos, montar coabitantes em cio, certas vocalizações, lamber as parceiras, etc…

As maneiras como os animais comunicam problemas são diferentes e podem ser agrupadas da seguinte forma: AUSÊNCIA DE COMPORTAMENTOS NORMAIS – a ausência de exibição de certos comportamentos pode ser sinal de problemas graves. Como na verdade se trata da ausência de sinais pode ser mais difícil detetar e de interpretar. EXIBIÇÃO REPETIDA E APARENTEMENTE SEM OBJETIVO DE COMPORTAMENTOS QUE PODERIAM SER CONSIDERADOS NORMAIS. Por exemplo, lamber constantemente a água no bebedouro. Chamam-se a estas palavras comportamentos estereotipados. EXIBIÇÃO DE COMPORTAMENTOS NÃO NORMAIS. São os mais fáceis de identificar porque sobressaem da atividade normal do grupo.

Atenção que alguns podem ser considerados normais numa idade e deixar de o ser noutra. O espaço que aqui dispomos não permite que se discuta os comportamentos naturais, sendo que o objetivo principal deste artigo é mostrar que há comportamentos que nos podem alertar para problemas. São apelos dos animais para que se intervenha corrigindo qualquer coisa. É óbvio que esta será apenas uma seleção daqueles comportamentos que são mais comuns ou cujo significado pode corresponder a um maior impacto sobre a economia da exploração ou sobre o bem-estar do seu autor.

Comportamentos que nos podem alertar para problemas Comportamentos orais Um dos principais comportamentos orais, essencialmente observado em bovinos em regime intensivo, é o agitar e balancear de forma repetida a língua fora da boca (figura 2), parecendo estar a tentar apanhar qualquer coisa ou a engolir ar. O seu significado não é ainda claro, mas a investigação científica tem sugerido que, pelo menos a maioria, se deve ao reduzido tempo que estes animais passam a ruminar. Sendo o ato de ruminar algo que naturalmente deveria ocupar 12 a 14 horas do dia de um ruminante, este sentirá a necessidade de mexer a boca de uma outra forma quando a dieta é pouco fibrosa. Mesmo que todos estejam expostos ao mesmo deficit, apenas alguns adquirem este vício que passa a ser exibido como um comportamento estereotipado. Ou seja, estes animais estão a avisar que a sua alimentação

não é fisiológica e que deveriam estar a ruminar mais tempo. As implicações disto são complexas e não cabem neste artigo. Na linha do anterior vem o comportamento de lamber ou “roer” as estruturas, como seja barras ou bordas das manjedouras ou dos bebedouros (figura 3). Este comportamento é mais habitual em pequenos ruminantes, mais uma vez em regime intensivo onde há oferta de pouca fibra ou fibra demasiado curta. Outro comportamento oral estereotipado e de explicação (e solução) difícil é o vício de vitelas e cabras mamarem uma nas outras (cross-sucking) ou em si próprias (self-sucking). Mais uma vez as explicações para estes comportamentos são complexas e nem sequer estão completamente esclarecidas. São muito provavelmente vícios adquiridos para substituir comportamentos naturais que estão inibidos ou são difíceis de expressar – mamar na mãe

FIGURA 2 Novilha a brincar com a língua – sinal de pouco tempo dedicado a ruminar.

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ou ruminar. Quando surgem com maior prevalência são alertas de que qualquer coisa não está bem. O impacto dos fatores por detrás do comportamento está muitas vezes mascarado e por isso há relutância em atuar sobre as suas origens.

Comportamentos de dor Um dos maiores problemas na detecção de dor em ruminantes é o facto de estes estarem biologicamente programados para disfarçar os sinais de debilidade. Ou seja, ainda mais do que habitual, a experiência e a paciência do observador são imprescindíveis para ouvir um ruminante a queixar-se de dor. O sinal mais comum é o ranger de dentes ou um subtil e quase imperceptível gemido. Igualmente importantes, mas requerendo muita atenção, são os sinais da fácies – as orelhas caídas, as narinas dilatadas, as pálpebras meias cerradas e a contração dos músculos da face e mandíbula (masséteres). Outros sinais (dependendo da localização da dor) são o deitar e levantar frequentemente, o arquear da coluna, o pontapear o abdómen, o isolamento, o medo exagerado dos humanos ou de outros animais, etc…

Sinais de medo e stress O isolamento é provavelmente o sinal mais claro de uma situação de stress mental. Os ruminantes são animais gregários e manter-se afastado do grupo é um sinal de que qualquer coisa não está bem. Este isolamento poderá chegar a um extremo em que não há aproximação à manjedoura para comer ou há mesmo um estado de letargia. É mais comum em animais mais novos, mais tímidos ou submissos ou que tenham sido

recentemente introduzidos no grupo. Pode também ser um sinal de doença, intoxicação, debilidade ou dor, sendo por isso importante na detecção de animais para tratar. Este comportamento pode ainda desencadear-se nalguns animais quando se introduzem na manada animais agressivos ou com cornos (quando o resto está descornado). Uma outra forma como a ansiedade e medo se podem revelar em ruminantes é na auto-mutilação. Lamber e mesmo roer os próprios tetos ocorre por vezes em novilhas recém-paridas, não sendo claro até que ponto é o stress ou a dor no úbere edemaciado a desencadear este comportamento. Finalmente há um comportamento cujo significado convém perceber para evitar situações de grande stress. Vacas que abrem a boca e exteriorizam a língua estão a dizer que têm medo, gostariam de se afastar daquilo que consideram uma ameaça (um humano, por exemplo), mas não conseguem porque estão presas ou paralisadas. É um comportamento muito habitual em vacas leiteiras com hipocalcémia pós-parto, que não se conseguem levantar.

Sinais de desconforto Alguns dos sinais que nos dizem que o animal não encontra conforto, por exemplo na cama e no cubículo onde pretensamente se deveria deitar, é o manterse muito tempo em pé, frequentemente com os membros anteriores sobre a cama e os posteriores no corredor. O tempo e a facilidade dos movimentos para se deitar ou levantar podem também indiciar camas/cubículos pouco confortáveis. Em casos extremos o levantar como se

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fosse um cavalo – primeiro levantando-se sobre os anteriores e só depois levantando o terço posterior – é uma tremenda crítica à qualidade das instalações.

FIGURA 3 Vitelo a morder a estruturas pode significar que a necessidade de mamar não está a ser satisfeita, com eventuais consequências no desenvolvimento mental destes animais.

Alguns comportamentos podem ainda ser usados para diagnosticar doenças ou situações clínicas muito específicas. Apenas alguns exemplos: • Encostar e pressionar a cabeça contra a parede (head-pressing) pode ser sinal de intoxicação por metais pesados. • Andar aos círculos com uma orelha para baixo e a língua pendente da boca, acontece em situações com lesões cerebrais, como na listeriose, otites ou abcessos intracranianos. • Andar hirto com pescoço esticado, apatia completa, roer varões ou abocanhar estrume, surgem em casos de cetose nervosa.

Para todos estes casos de comportamentos mais estranhos, deverá ser solicitada a assistência de um médicoveterinário que saberá, como ninguém, interpretá-los.

E haveria muitos, muitos mais exemplos para descrever. No entanto, a mensagem principal que queremos deixar é que os animais falam constantemente connosco e se estivermos atentos podemos ouvir o que nos dizem, perceber o que precisam ou o que os perturba, colocando em marcha de uma forma precoce e mais eficiente as medidas que podem evitar danos importantes e irreversíveis para o seu bem-estar e para o sucesso da exploração.

NOTA O autor escreveu este artigo segundo o Antigo Acordo Ortográfico.


TEMPO DE PROTEGER O PODER DA PREVENÇÃO

PT/BOV/0817/0003

Se é um produtor de ruminantes, não lhe é estranho o desafio de combinar a saúde animal com a produção sustentável de leite ou de carne de qualidade. Atualmente os produtores enfrentam preocupações crescentes com a qualidade dos alimentos e com os métodos de produção, por parte dos consumidores, da distribuição e das empresas processadoras de alimentos. Isso tem naturalmente um impacto no funcionamento de uma exploração moderna. “Tempo de Proteger” é uma iniciativa destinada a apoiar os produtores modernos com informação e partilha de experiências sobre como a vacinação preventiva pode melhorar a produtividade e a saúde animal.

Para mais informação sobre Tempo de Proteger, visite www.timetovaccinate.com


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Urolitíase em pequenos ruminantes POR MARGARIDA CARVALHO, MÉDICA VETERINÁRIA

A urolitíase obstrutiva é uma patologia comum nos ruminantes machos sendo responsável por importantes perdas económicas. A urolitíase pode ser obstrutiva o que acontece quase exclusivamente em indivíduos do sexo masculino devido fundamentalmente às características anatómicas do seu sistema urinário: longo, tortuoso e pouco elástico, quando comparado com o das fêmeas. A urolitíase corresponde à formação de cálculos ou urólitos no sistema urinário. Estes cálculos formam-se pela precipitação de minerais ou substâncias orgânicas. Na urolitíase obstrutiva, o urólito (ou cálculo urinário), aloja-se numa determinada parte do aparelho urinário

traumatizando os tecidos circundantes e obstruindo o fluxo de urina de forma total ou parcial. Os cálculos que causam obstrução alojam-se mais frequentemente nos locais com menor diâmetro ao longo da uretra. Em pequenos ruminantes os cálculos são encontrados com maior frequência no processo uretral, situado na ponta do pénis. Esta patologia ocorre geralmente em indivíduos do sexo masculino com mais de seis meses de idade. Em pequenos ruminantes parece ser mais frequente em machos castrados, em particular os que foram castrados antes de atingir a maturidade sexual.

fundamental. O desequilíbrio nutricional nos aportes de fósforo, cálcio e magnésio, que acontece por exemplo em dietas ricas em concentrados, pode originar a formação de cálculos de estruvite. Nestas circunstâncias, além de corrigir este desequilíbrio, é importante aumentar a ingestão de forragem para aumentar a produção de saliva, aumentando assim a excreção de fósforo pelo aparelho gastrointestinal. Também pastagens ricas em oxalatos ou sílica podem predispor à formação de cálculos urinários (de oxalato e de sílica).

Etiologia e prevenção

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Há várias causas para a urolitíase. No entanto, a dieta tem um papel

Outros fatores de risco para a formação de urólitos: diminuição da ingestão de água e sais estase urinária infeção do trato urinário elevado pH da urina deficiência em vitamina A elevado intake de estrogénio

A análise e identificação dos urólitos é essencial para a implementação de alterações na dieta. A prevenção passa pela adoção de estratégias nutricionais adequadas ao tipo de urólito encontrado. Na tabela 1 estão discriminados os tipos de cálculo mais frequentemente encontrados, os fatores de risco associados a estes, bem como formas de prevenção.

Sinais e sintomas Os sinais clínicos da urolitíase obstrutiva variam de acordo com o nível de obstrução, a localização da mesma e a sua duração. O reconhecimento rápido dos sinais clínicos pela parte do produtor e médico veterinário assistente é fundamental para o sucesso do tratamento e para evitar danos ao nível renal. Além disso, o diagnóstico da patologia faz com que seja possível

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atuar ao nível da prevenção de novos casos na exploração. De uma forma geral observa-se micção lenta e dolorosa, gotejamento de urina que pode apresentar sangue; vocalização durante episódios de esforço para urinar; diminuição do apetite e afastamento do rebanho; aumento dos ritmos cardíaco e respiratório; manifestações de desconforto abdominal como pontapear o abdómen e bruxismo, ligeira distensão abdominal. A não resolução de uma obstrução pode levar à rutura da uretra ou da bexiga, causando a libertação de urina no interior da cavidade abdominal. Logo após a rutura da bexiga/uretra os animais podem apresentar uma melhoria temporária dos sinais clínicos por alivio da pressão até aos sinais de uremia (intoxicação do animal por elementos contidos na urina) se tornarem evidentes.

Tratamento O tratamento passa geralmente pela correção cirúrgica da obstrução e o adequado tratamento médico de suporte com correção de eventuais desequilíbrios ácido-base e reidratação. Ao nível da correção cirúrgica existem vários procedimentos cuja utilização depende da situação clinica do animal. É importante ter presente que ocorrem com frequência recidivas e apostar na prevenção.

Tabela 1

FATORES DE RISCO E MEDIDAS PREVENTIVAS EM FUNÇÃO DO TIPO DE CÁLCULO Tipo de Cálculo Fatores de Risco

Medidas preventivas

ESTRUVITE

Equilibrar os teores de cálcio, magnésio e fósforo na ração. Ajustar o rácio cálcio: fósforo em 2:1. Adicionar cloreto de sódio ou cloreto de amónio à ração. Maximizar a ingestão de água.

FOSFATO DE CÁLCIO

Rações com elevado teor de fósforo, baixo teor de cálcio e elevado teor de magnésio (>6%). Rações em pellets. Urina alcalina (pH>7,0).

SÍLICA

Algumas plantas em solos Ajustar o rácio cálcio: fósforo arenosos acumulam sílica. Água em 1:1 com elevado teor de sílica. Maximizar a ingestão de água Ração com elevado teor de cálcio e baixo teor de fósforo.

OXALATO DE CÁLCIO

Ingestão de plantas que contém oxalatos.

Maximizar a ingestão de água.

CARBONATO DE CÁLCIO

Dieta com luzerna (elevado teor de cálcio e de potássio), Urina alcalina.

Alimentar com feno de erva. Adicionar cloreto de sódio ou cloreto de amónio à ração. Maximizar a ingestão de água.

QUALQUER UM DOS TIPOS ACIMA

Castração, especialmente se antes do inicio da puberdade. Pouca ingestão de água (localização distante, água congelada, pouco palatável).

Gestão da água: fresca, limpa, palatável em localização acessível. Encorajar a ingestão de água pela adição de sais à ração.

Adaptado de Blackwell´s Five-Minute Veterinary Consult Ruminant.

Hidratação sem esquecer a nutrição

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Biossegurança na exploração

Cuidados a ter com os alimentos e a água de bebida POR MARGARIDA CARVALHO, MÉDICA VETERINÁRIA

Numa ótica de biossegurança, não nos podemos esquecer que também os alimentos e a água de bebida que disponibilizamos aos animais podem constituir importantes fontes de transmissão de doenças. De forma a reduzir esse risco, várias medidas podem ser adotadas. No caso dos animais em pastagem é importante cumprir os tempos de espera entre a aplicação de fertilizantes e o acesso dos animais à

pastagem e assegurar uma correta rotação de pastagens. O pastoreio junto a estradas por onde seja feito o transporte de outros animais, deve ser evitado. Ao adquirir alimentos e matérias primas, é fundamental escolher sempre fornecedores que dêem garantias de qualidade dos seus produtos. O fornecedor de alimentos deve mostrar que tem implementado um plano de controlo de qualidade e que faz análises periódicas aos alimentos e às matérias primas utilizadas. Os estabelecimentos de produção de matérias primas ou de alimento composto para animais devem estar devidamente registados/ aprovados pela Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV). De forma a garantir a rastreabilidade, o alimento adquirido deve vir

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acompanhado da respetiva documentação (guias de remessa, faturas, rótulos e etiquetas). Na exploração deve manter-se um registo de todo o alimento que entra na mesma. Este registo deve conter informação sobre o fornecedor, quantidade recebida, lote e validade. O alimento deve ser armazenado em lugar limpo e seco, ao abrigo da luz e de temperaturas elevadas. Este armazenamento deve ser feito de forma a impedir que outros animais, domésticos e selvagens, tenham acesso ao alimento. Sempre que necessário, devem ser instituídas medidas de controlo de pragas nos locais onde são armazenados alimentos para os animais. No Reino Unido, por exemplo, esta é uma medida aconselhada

para controlo da tuberculose bovina uma vez que os texugos são atraídos pelo alimento, contaminando-o e constituindo assim uma importante via indireta de infeção para os bovinos. O equipamento utilizado para distribuir e misturar o alimento deve ser corretamente higienizado. Também recipientes/dispensadores de alimento e bebida devem ser mantidos limpos e sempre que possível elevados relativamente ao solo. Os restos de água e alimento devem ser dispensados. Os equipamentos utilizados para higienizar instalações, não devem entrar em contacto com o alimento para os animais. Idealmente, a distribuição de alimentos e a remoção do estrume é feita por caminhos diferentes de forma a evitar a contaminação do alimento. A água, quando proveniente de um furo, tem de ser alvo de análises periódicas para garantir a sua segurança. Também a água da rede deve, ainda que em menor frequência, ser analisada, uma vez que pode ser contaminada ao longo do sistema de abastecimento. Os animais não devem ter acesso a águas de superfície, como as águas paradas em charcos ou lagos, evitando também os cursos de água. Em ambas as situações as águas podem estar contaminadas e a sua ingestão pode ser o suficiente para infetar os animais. Além disso, águas paradas elevam o risco de transmissão de doenças por mosquitos.


DICAS

Dicas prácticas Bem-estar... do agricultor! Muito trabalho, muito sol, muitas horas no trator, poucas (nenhumas) horas de sono… Nesta época de azáfama e inúmeros trabalhos no campo, a Ruminantes, sempre empenhada no bem-estar dos leitores, deixa algumas dicas que podem ajudar POR TERESA MOREIRA - MÉDICA VETERINÁRIA / RUMINANTES

Protetor solar Se pensa que é uma coisa para as crianças antes de irem para a praia, esqueça. Apesar dos seus inúmeros benefícios, o sol esconde riscos que são potenciados quando não tomamos os cuidados necessários de proteção da pele. A melhor forma de prevenir o cancro da pele é protegerse do sol. Quem trabalha no campo, muitos dias de “sol a sol”, deve ter o cuidado de se proteger e escolher uma proteção abrangente contra os

danos do sol. O protetor solar deve ter sistemas de filtros fotoestável UVA e UVB e proteção das células da pele, sendo que alguns também oferecem proteção do ADN. Existem protetores solares formulados especificamente para diferentes tipos de pele (normal, seca, oleosa, tendência acneica), para o rosto e corpo. Aplique no rosto e nos braços e em todas as partes do corpo diretamente expostas. Renove à hora do almoço, por exemplo. E é quase tão fácil escolher um protetor solar adequado como a variedade de milho para semear em 2018.

Chapéu “ Chapéus há muitos”, boné, boina, cap, de palha, de tecido ou impermeável, há para todos os gostos. O importante é não se esquecer, porque mesmo no interior da cabine de um super-trator, não está completamente protegido se não usar um chapéu. De preferência escolha um modelo de abas largas , porque fornece proteção adicional, de danos e queimaduras do sol, para os olhos, rosto e peito.

Óculos de sol Como diz o ditado “ Os olhos são o espelho da alma” e apesar da alma não necessitar de óculos, os olhos precisam. Os raios ultravioleta (UV) fazem parte do espectro de luz que atinge a terra a partir do sol. Alguns estudos sugerem que esses raios podem ser nocivos aos olhos à medida que envelhecemos, estimulando a progressão de doenças oculares. A exposição ao sol também pode causar ou agravar outras alterações nos olhos, como as cataratas e o pterígio. A boa proteção dos olhos contra os raios UV é muito importante. Os óculos de sol rotulados como UV400 oferecem a melhor proteção, porque bloqueiam os raios UV com menor comprimento de onda. Escolha lentes maiores e um estilo mais largo e abrangente para proteger o máximo possível de seus olhos.

Invista no seu conforto Sabia que 7 em cada 10 Portugueses sofre de dores nas costas? E que este tipo de dor é recorrente entre os agricultores (as)? Trabalhar confortável é tão importante como trabalhar em segurança. Invista num assento ergonómico, que o ajude a aguentar horas a fio sem dores nas costas.

Relaxe Sim, há tempo para tudo. Certamente o mundo não vai acabar amanhã… E se acabar, tudo acaba, mesmo as sementeiras….Relaxe da forma que gostar mais: estar calmamente com a família, beber uma mini com os amigos, jogar uma partida de sueca, ir ao facebook, dormir, enfim, escolha uma atividade que goste e que ajude a enfrentar o dia seguinte.

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A importância da água em vitelos PARTE 1: A HIDRATAÇÃO Muita vezes esquecida, a água é o mais importante nutriente para os vitelos. Quantas vezes nos deparamos, em visitas a explorações leiteiras pelo nosso país, com o facto de os vitelos não terem água permanentemente à sua livre disposição. Infelizmente esta é uma situação muito mais frequente do que aquilo que possamos pensar ou gostaríamos de admitir. E que se pode traduzir em prejuízos graves para a saúde dos animais e para a rentabilidade da exploração. Num artigo em duas partes revisitaremos em primeiro lugar a importância da água de bebida – a hidratação - e depois, da reidratação, sempre que a mesma se mostra necessária à estabilização vital de animais desidratados por diferentes causas. Atendendo a que estamos a entrar em mais um verão que se antevê quente, trataremos neste número da revista, de relembrar e sensibilizar para a importância em assegurar o fornecimento permanente de água limpa e fresca aos vitelos com o objetivo de lhes proporcionar o seu bem-estar, evitando um terrível sofrimento: a sede!

JOSÉ CAIADO DVM JC-DAIRY CONSULTING,LDA jose.pires.caiado@gmail.com

Porque é a água tão importante para os vitelos? Ainda que todos saibamos que a água é indispensável à vida, interessa ter bem presente o seu porquê. Sem água o metabolismo (funcionamento do organismo animal) é gravemente prejudicado. A água é imprescindível a todos os processos vitais mais básicos: a digestão dos alimentos, a eliminação pelos rins das toxinas produzidas pelo metabolismo, a manutenção do equilíbrio hidro-electrolítico ao nível do sangue, e logicamente, o arrefecimento da temperatura corporal, especialmente no verão…

faz se houver assim como que uma “sopa” dentro da pança onde se desenvolve a flora ruminal responsável pela fermentação digestiva desses alimentos secos. Sem água em quantidade adequada a fermentação é prejudicada e isto atrasa o bom desenvolvimento da pança que pode ficar prejudicada irremediavelmente para o futuro. Fermentações indesejáveis são a causa de vitelas barrigudas que muitas vezes quando observadas de frente parecem ter um perfil em forma de pêra.

Influência do papel da água na vida produtiva dos vitelos

2. RITMO DE CRESCIMENTO – todos os vitelos que bebem água tanto através do leite como da que lhes é livremente oferecida através de bebedouros bem limpos crescem mais depressa. Sem água disponível o animal demora mais tempo para aprender a comer alimento seco e logicamente que, “a seco”, come menos quantidade de ração do comedouro e cresce mais devagar.

1. DESENVOLVIMENTO DO RÚMEN – Ainda que possa não parecer a água é indispensável ao desenvolvimento do rúmen, aos processos de fermentação do alimento seco ingerido e como estimulante da sua boa ingestão. Enquanto o leite ingerido pelo vitelo vai parar ao abomaso, a água ingerida vai sobretudo parar ao rúmen. A fermentação ruminal da ração e da forragem que o animal jovem possa comer só se

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3. NA SAÚDE EM GERAL – Nos vitelos jovens a água representa cerca de 70 a 75% do peso corporal. Sem água à disposição os animais não conseguem assegurar todo o regular

funcionamento metabólico celular. A falta de água conduz à desidratação e esta é tão mais rápida e grave nas suas consequências quanto maior fôr a temperatura ambiente, caso típico dos meses de verão. A desidratação enfraquece o organismo animal, causa perda de peso e acidose metabólica que em casos extremos pode levar à morte.

Necessidades de água em vitelos A quantidade de água necessária varia em função da idade e peso dos vitelos, bem como da temperatura e humidade ambiente. Assim no: • PRÉ- DESMAME: em média os vitelos consomem cerca de 2 litros de água por cada quilo de ração ingerida. Se faltar água comem menos ração… • PÓS- DESMAME: logicamente que após o desmame do leite as necessidades de água aumentam. Nesta fase passam a necessitar beber 4 litros de água por cada quilo de matéria seca ingerida. Esta relação deve manter-se durante todo o período da recria das novilhas. • TEMPO QUENTE: o consumo de água vai


SAÚDE E BEM-ESTAR ANIMAL

severa desidratação. Como grave consequência de uma infeção por Salmonella os vitelos poderão ser atingidos por pneumonias ou por septicémias mortais. Níveis elevados de ferro na água aumentam o seu risco de contaminação por Salmonella.

aumentando gradualmente com o aumento da temperatura ambiente. Quando esta ultrapassa os 35º C a necessidade imperiosa de água atinge o dobro ou mais dos valores acima referidos.

Qualidade da água para vitelos Em edições anteriores da revista (nª 10 e 11) abordámos a qualidade da água para os ruminantes em geral. Voltamos agora a esse tema mas focando-nos na qualidade da água para os vitelos. O fornecimento de água de má qualidade pode limitar o seu consumo pelos vitelos e consequentemente o consumo de ração, para além de colocar em risco a sua saúde e o desenvolvimento do rúmen. A qualidade da água pode ser avaliada por diferentes critérios e parâmetros, em que se incluem logo à partida o seu cheiro e o sabor. Muito importantes são também os valores da água quanto ao seu pH, ao total de sólidos dissolvidos, à sua dureza, ao nível de certos minerais e à presença ou ausência de compostos tóxicos e bactérias, abordados de seguida. DUREZA DA ÁGUA: os vitelos são muito sensíveis ao teor de sódio da água. Sempre que a água seja muito concentrada em sódio, ela não deve usar-se para fazer leite de substituição. Níveis muito altos de sódio podem causar problemas ao nível do sistema nervoso

central dos animais. OSMOLARIDADE: sempre que a concentração do leite de substituição seja elevada (acima de 15%), é importante fornecer água de muito boa qualidade para ajudar ao equilíbrio osmótico intestinal do vitelo. Um nível de sólidos totais muito alto pode levar a que haja uma passagem de água das células e do sangue para o interior do intestino procurando desta forma o organismo restabelecer o seu equilíbrio osmótico. Paradoxalmente isto pode causar diarreia e consequente a desidratação. Assegurar o fornecimento de uma água de boa qualidade é um requisito importante para manter uma boa hidratação sempre que os vitelos estejam a ser alimentados com um programa muito intensivo de leite de substituição destinado a conseguir um crescimento muito acelerado. Ainda que estes programas não sejam para já muito populares em Portugal, sempre que sejam utilizados, este aspeto não pode ser esquecido. CONTAMINAÇÃO BACTERIANA: bactérias que nos são familiares, como a E. Coli ou a Salmonella, podem estar presentes em águas de má qualidade ou em águas contaminadas por fezes. Se os vitelos bebem águas contaminadas com estas bactérias elas poderão multiplicar-se de forma brutal a nível intestinal causando diarreias graves com o consequente risco de uma

MINERAIS: como regra geral os vitelos são mais sensíveis a níveis elevados de minerais que o gado adulto. Daí ser preferível que as concentrações de minerais em águas destinadas aos animais jovens estejam mais próximas dos limites inferiores das tabelas em que se definem os parâmetros de qualidade da água destinadas a ruminantes. Os minerais de maior preocupação quanto a valores elevados são o cobalto, o cobre, o ferro, o manganésio e o enxofre.

Verão, stress térmico e água de bebida A chegada do verão e as elevadas temperaturas podem levar os vitelos a, tal como as vacas, sofrer de stress térmico que afeta a sua saúde e consequentemente a sua

performance produtiva. Para se defenderem das consequências do stress térmico, dissipando o calor corporal, os vitelos consomem energia extra para se manterem mais frescos. Está comprovado por estudos científicos que durante os meses mais quentes a ingestão geral de alimento diminui e o consumo de energia ligado à manutenção pode aumentar entre 20 e 30%. A simultânea redução da ingestão de energia via alimento e o aumento da energia gasta para a manutenção das funções vitais leva a uma diminuição do seu ritmo de crescimento. Como foi explicado anteriormente a não disponibilização de água reduz só por si a ingestão de alimento, logo de ainda menos energia disponível. A aliança entre o stress térmico e a falta de energia predispõem os animais a uma quebra de imunidade que por isso mesmo pode levar ao aparecimento de pneumonias e de diarreias com o consequente agravamento da saúde geral dos vitelos e o risco de aumento de mortalidade.

Algumas

ideias-chave Por tudo o que acima se descreve é fundamental prevenir o problema assegurando o melhor maneio possível do viteleiro recordando novamente esta mensagem final: Mantenha em permanência água abundante, limpa e fresca em bebedouros bem limpos de toda a espécie de detritos! Certifique-se de que a água fornecida aos seus animais tem a qualidade necessária procedendo a uma análise laboratorial uma vez por ano.

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PRODUTO

Herd Navigator,

gestão proativa das suas vacas JOSÉ SANTOALHA - HARKER XXI, SA, jose.santoalha@harker.com.pt

O Herd Navigator da DeLaval é um laboratório de análises que se instala na máquina de ordenha para determinar os parâmetros de progesterona, lactose desidrogenase, ureia e B-hidroxibutírico no leite (tabela 1). A amostra do leite chega automaticamente ao ponto de análise desde a unidade de ordenha, sem intervenção do ordenhador. A amostra é extraída através do copo de recolha de amostra e é enviada à unidade de entrada das amostras através de tubagem, que é lavada posteriormente. Desta unidade de entrada, a amostra é enviada ao laboratório à medida que este vai ficando disponível para a amostra seguinte (imagem 1). O sistema seleciona automaticamente, mediante um avançado modelo biométrico (fórmulas matemáticas que se combinam com os fatores de risco adicionais), quais as vacas que devem ser analisadas, em que ordenha e a que parâmetros (imagem 2). As análises são realizadas pelo método de sticks com reagente e posterior medição dos parâmetros de côr para determinar os valores. Estes cartuchos são colocados na máquina antes da ordenha. Estes valores passam do computador, diretamente para o programa de gestão do efetivo, para que o produtor tenha os valores disponíveis e o biomodelo aumente a sua base de dados, tome a decisão de seleção das vacas e quando deve ser feita uma nova análise.

Reprodução e teste da progesterona As perturbações reprodutivas não detetadas originam atrasos no engravidar das vacas ou podem causar abortos, o que em qualquer caso se traduz em perdas económicas que podem chegar aos 3 euros por dia e por

vaca infértil. O Herd Navigator mede automaticamente o nível de progesterona no leite, valor inequívoco para saber em que estado reprodutivo se encontra a vaca. , indicando-nos com precisão o cio e o momento para a inseminação, assim como a confirmação da

gravidez. Alerta também para abortos prematuros e identifica o risco de que a vaca tenha quistos e anestros prolongados. Conseguimos assim reduzir os dias em que a vaca está em aberto, otimizar o intervalo entre partos e melhorar o êxito das inseminações, reduzindo drasticamente o seu número.

IMAGEM 1

PRINCIPIO DE FUNCIONAMENTO DO HERD NAVIGATOR EM VMS

Resposta através de um Biomodelo para a decisão da próxima amostra

≤ 10m

Distância máxima de 30m Um HN para 6 VMS

Recolha de amostras

Laboratório

Processamento e consulta de informação

IMAGEM 2

HERD NAVIGATOR PROCEDIMENTO SISTEMÁTICOS

Resposta através de um Biomodelo para a decisão da p´róxima amostra

Toma de mostras Toma de mostras

≤ 30m

≤ 30m

Amostra de leite Um HN para 32 pontos de ordenha (2x16)

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≤ 30m

≤ 10m

Recolha de amostras

Laboratório

Processamento e consulta de informação


PRODUTO

Saúde do úbere e mamites Cada caso de mamite não detetada atempadamente, produz um prejuízo económico de cerca de 240 euros. As análises do Herd Navigator medem automaticamente a enzima Lacto Desidrogenase (LDHA) no leite. Esta enzima está diretamente relacionada com o número de células somáticas e por conseguinte com a presença de mamites. Os valores de LDHA aumentam rapidamente quando começa Publicidade_revista.pdf uma infeção, sendo por isso que1

o Herd Navigator é capaz de detetar o início de uma mamite dias antes desta aparecer. A análise é decidida e feita de forma automática, seleciona as vacas que se encontram nos momentos de maior risco, identificando as que devem ser tratadas ou pelo menos verificadas, tomando a iniciativa para solucionar o problema antes que este apareça.

Alimentação e balanço energético A cetose subclínica é causada por um balanço energético negativo, principalmente nas primeiras semanas de lactação. Normalmente não se detetam e podem causar problemas muito sérios no rebanho com quebras de produção e deterioração da saúde dos animais. O Herd Navigator monitoriza os animais automaticamente 13/06/18 14:47 de maior nos períodos

TABELA 1 Áreas de intervenção Herd Navigator. Área de Intervenção

Parâmetros a analisar

Diagnóstico

Reprodução

Progesterona

• Cio (Incluindo cios silenciosos) • Qualidade do cio • Gestação • Abortos • Quistos foliculares e do corpo lúteo • Anestro

Saúde do Úbere

Lactato Desidrogenase

• Mastites

Alimentação

Beta Hidroxibutirato

• Cetoses • Cetoses Subclínicas • Metabolismo Secundário • Distúrbios Metabólicos

risco. O indicador usado é a desidrogenase, que é um metabolito relacionado com a mobilização da energia do tecido gordo quando a vaca está perto de entrar em balanço energético negativo. O sistema identifica os animais com risco de cetose de maneira a que o produtor possa prevenir de forma ativa o aparecimento

do problema. O custo da alimentação pode chegar a 40% do custo direto do Kg de leite produzido. Por isso, ajustando os valores da proteína e da energia, podemos aumentar a eficiência alimentar e reduzir os seus custos. Medindo os níveis de ureia no leite (a ureia é um indicador do excesso ou defeito de proteína

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PRODUTO

Porque é necessário o Herd Navigator? no arraçoamento), o Herd Navigator pode proporcionar os dados adequados para se poder ajustar o arraçoamento e otimizá-lo.

A ferramenta de suporte para leite de qualidade Este sistema recomenda-se para todos os produtores de leite com sala de ordenha ou robot VMS. O Herd Navigator identifica aqueles animais que necessitam de uma atenção especial, proporcionando ao produtor um conhecimento melhor do seu estado; por isso será possível uma pessoa tratar um maior número de animais. Esta ferramenta ligada à equipa de arraçoamento e até via

NOVO SMARTPHONE DA CAT Está quase a chegar o novo smartphone da Cat, o modelo S61. Este modelo será o sucessor do já poderoso S60. Este smartphone é o equipamento ideal para quem trabalha no campo e com animais: resiste a quedas de até 1.8 metros em pisos duros, a poeiras e à agua em profundidades de até 3 metros durante 1 hora. Tal como o seu antecessor, além da robustez já característica da marca,

internet ligada a toda a equipa de assessoria técnica, por exemplo, o veterinário quando chega para a visita, já sabe quais são os problemas que vai ter para resolver. Um plano de ações a desenvolver (SOP), definido com a equipa técnica que dá apoio à exploração, vai determinar os procedimentos das operações standard a desenvolver em função dos alarmes lançados, indicando as ações a tomar para as diferentes situações. Quando é executado o tratamento recomendado e se a vaca sai da lista de alarmes, o problema está resolvido. Neste tipo de decisões, não faz sentido se o alarme não é rigoroso. O que é medido é totalmente específico “Gold Rule”.

o S61 vem equipado com uma câmara térmica. Numa versão melhorada, a câmara térmica do S61 promete ser uma extraordinária aliada dos produtores medindo temperaturas entre os -20ºc e os 400ºc. Com este equipamento os produtores podem por exemplo monitorizar a temperatura dos solos, encontrar fezes frescas para pesquisa de parasitas, avaliar a temperatura do leite ou localizar animais perdidos na pastagem. Este verdadeiro smartphone “todo-o-terreno” vem ainda munido de tecnologia que permite avaliar a qualidade do ar em espaços interiores e equipamento laser que permite fazer medições até 10 metros. Será este o seu próximo aliado na exploração?

MAIS INFORMAÇÕES E ESPECIFICAÇÕES TÉCNICAS: www.catphones.com

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Os produtores de leite profissionais podem todos os dias, e agora mais do que nunca, tomar decisões de gestão do rebanho com base no conhecimento aprofundado do seu estado, para melhorar a eficiência económica, porque o Herd Navigator: • Supervisiona a produção de leite diária, analisando o leite na sala de ordenha; • Faz rotinas diárias de controlo mais eficazes e com menos mãode-obra; • Identifica as vacas que necessitam de atenção especial – reprodução, saúde animal e bem-estar dos animais; • Dá recomendações claras sobre as medidas a tomar, com base no estado atual da vaca e no seu histórico; • Proporciona um apoio proativo na tomada de decisões baseando-se em modelos de cálculo biológico, agrupando uma grande quantidade de dados; • Apresenta indicadores de deteção de enfermidades para tomada de ações rápidas – antes da vaca apresentar sintomas clínicos. Os resultados das análises são processados num biomodelo e aparecem no Programa de Gestão do Rebanho DelPro. Assim temos a garantia atempada de identificação das vacas que requerem uma atenção especial e dá informação específica acerca de que ações temos de tomar, em função desta informação recolhida.

REBOQUE MISTURADOR AUTOMOTRIZ SPV Os novos modelos de misturadores automotrizes SPV Access e SPV Power foram desenvolvidos para oferecer aos agricultores uma máquina muito compacta com uma altura reduzida e manobrabilidade máxima. Estes modelos SPV de um eixo vertical são projetados com um eixo traseiro direcional que permite à máquina um curto raio de viragem. Homologada para 25 km/h, a gama inclui vários modelos para responder a todas as necessidades de cada agricultor. O SPV Access tem capacidades de 12, 14 e 15 m3 com fresa de desensilagem de 90 cv. O SPV Power tem capacidades de 12, 14, 15 e 17 m3 com fresa de desensilagem de 120 cv. Com uma potência de 90 e de 120 cv, a fresa de desensilagem pode carregar todos os produtos utilizados na produção de alimentos para animais: feno, palha, feno-silagem, silagem, beterraba ... O depósito está colocado entre os dois eixos e assente na base do chassis. Este conjunto tem a vantagem de ter uma baixa altura do depósito: 15 m3 para uma altura total da máquina inferior a 3,00 m. Para ganhar ainda mais em compacidade, estes novos modelos têm uma distribuição direta à direita e/ou à esquerda da máquina.


NOVIDADES DE PRODUTO

espelhos retrovisores telescópicos de grande ângulo.

KUBOTA APRESENTA A SÉRIE MGX-IV A Kubota apresentou recentemente no Salon de l’herbe, em França, os novos modelos MGX-IV. Estes modelos diferenciam-se da série MGX-III, que vêm substituir, sobretudo por integrarem algumas

atualizações impostas pela ‘Mother Regulation’. A estética foi retocada, com a frente do capot a assemelhar-se à série M7002. Ainda a nível de exterior, estes tratores recebem

A série é composta por cinco modelos, a preencher um segmento de potência que vai dos 104 aos 143 cv. Os dois modelos de entrada (M95GX-IV e M105GXIV) equipam com motor Kubota de 4 cilindros e 3,8 litros. Os restantes três (M115GX-IV, M125GX-IV e M135GXIV) equipam com um motor de 4 cilindros também fabricado pela Kubota, mas com 6,1 litros de cilindrada. Nestes últimos, a capacidade de elevação hidráulica é superior. Mantém-se a transmissão semipowershift de 24

velocidades (8 relações powershift distribuídas por 3 gamas). Já a disponibilidade de corrente elétrica foi reforçada com a instalação de um alternador de 150 amperes, a pensar na alimentação de todos os equipamentos eletrónicos com que esta série pode ser configurada. No capítulo dos opcionais, está por exemplo o terminal ISOBUS, a condução automática, a funcionalidade Geocontrol (para controlo de secções das alfaias) e o elevador dianteiro com dois distribuidores hidráulicos dedicados.

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NOVIDADES DE PRODUTO

Lely celebra 70 anos e apresenta novidades No ano em que comemora o seu 70º aniversário, a Lely apresentou a sua visão duma exploração leiteira completamente robotizada na iniciativa Lely Future Farm Days onde deu a conhecer algumas novidades de produto. Damos destaque a dois equipamentos: o Astronaut A5 e a 3ª terceira geração do Juno.

Lely Astronaut A5 A Lely lançou no mercado um “novo marco na ordenha automática” a que chamou Astronaut A5. A principal inovação deste equipamento tem em vista o melhoramento do conforto da vaca e consiste num novo braço híbrido capaz de seguir imediatamente cada movimento da vaca durante a ordenha o qual, permanecendo perto do úbere corrige rapidamente qualquer movimento inesperado do animal. Esta inovação garante um processo de ordenha rápido e completo, mesmo com novilhas. O fabricante classifica este modelo como mais silencioso, mais rápido, mais

eficiente em termos energéticos e mais preciso, resultando numa ordenha consistente. Seguindo imediatamente cada movimento da vaca durante a ordenha e permanecendo perto do úbere, corrige rapidamente qualquer movimento inesperado. A pulverização da tetina pós-ordenha foi também melhorada com um pré-scan do úbere antes da pulverização e o Laser (TDS), para assegurar uma higiene ótima do úbere e limitar do o risco de contaminação. Por fim, o interface do utilizador foi redesenhado para se tornar ainda mais intuitivo.

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Diminuição no consumo de energia até 20% Para conseguir um custo total significativamente inferior por kg de leite produzido, a Lely redesenhou o sistema completamente. Foi criado um extenso programa de testes em todo o mundo, com mais de 30 clientes e mais de 2 milhões de ordenhas, numa ampla faixa de temperaturas e condições de trabalho para garantir um funcionamento impecável sob quaisquer circunstâncias. Em todos os testes, o consumo de detergentes e de água foi mais reduzido e verificou-se a diminuição no consumo de energia até 20%.


O novo marco no conforto das vacas

A Lely apresenta o Astronaut A5 O conceito I-flow do Lely Astronaut e o braço Híbrido mantêm um ambiente silencioso e relaxado para as vacas serem ordenhadas. Uma operação silenciosa, com movimentos decisivos e um rápido engate dão ás vacas poucas razões para ficarem nervosas. O seu grande alcance facilita a ordenha de vacas de diferentes tamanhos e mantém bastante espaço á sua volta.

Saiba mais sobre este novo marco na ordenha no seu Lely Center.

www.lely.com

Lely Center São Félix da Marinha Alteiros t +351 227 538 339 e sao-felix-da-marinha@sao.lelycenter.com


NOVIDADES DE PRODUTO

Lely Juno apresenta a 3ª terceira geração Passados 10 anos sobre o seu lançamento, o Lely Juno surge agora na sua 3ª geração com uma promessa: fazer aumentar o consumo de alimentos em 2,8%. “Aumentando as vezes que o Juno empurra, estimulamos a frequência de consumo, o que faz com que exista um aumento de 2,8% no consumo de alimentos. Na ordenha automática, a alimentação frequente estimula a vaca a visitar o robot de ordenha mais vezes. Também reduz a quantidade de sobras de alimento, e quando não há espaço suficiente na manjedoura para todas as vacas, diminui o stress e a agressividade dos animais pois o empurrar frequente de alimento assegura sempre comida para todas as vacas. A automatização do processo de empurrar a comida 24 horas por dia reduz os custos com mão-de-obra e combustível.”

O novo Lely Juno pode ser usado em qualquer tipo de exploração sem exigir modificações. O Juno segue paredes e cercas em ambos os lados, enquanto as tiras de metal no piso o conduzem para a estação de carga e, se necessário, para outros pavilhões. Quando se desloca sem empurrar comida, pode levantar a “saia”, reduzindo o desgaste, podendo mesmo superar pequenos obstáculos. Tem uma distância do solo suficiente para se movimentar em pisos inclinados, mantendo a “saia” livre de lixo, de lama e estrume. Pode descer a “saia” consoante a posição de empurrar do lado esquerdo ou do direito. Isto faz com que a distribuição seja mais eficiente, resultando numa maior capacidade da máquina. Ao andar de um pavilhão para outro, o Juno pode abrir e fechar automaticamente os

portões do pavilhão usando uma ligação Bluetooth. Esta também pode ser usada para funcionar num smartphone com o sistema operativo “Lely Control Plus”. O agricultor pode facilmente criar e ajustar uma rota com ações prédefinidas e simplesmente orientar o Juno com um dedo no telefone. É possível inserir várias rotas nas manjedouras e definir diferentes distâncias da manjedoura numa só rota. Com base na quantidade de alimento num dado ponto, o Juno corrige automaticamente

VOLTAFENOS ENCORDOADORES FENDT FORMER A Fendt lançou uma nova gama de voltafenos encordoadores a que champou Former. Têm de 1 a 4 rotores e detalhes inteligentes (CamControl, sistema de direção SteerGuard ou

Jet-Effect ) que ajudam a preservar a forragem mesmo nas zonas de cabeceira. Em todos os Fendt Former multi-rotor a suspensão do rotor é totalmente por cardan, o que lhes

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permite uma excelente adaptação ao terreno , quer longitudinalmente quer na diagonal. Os braços dos voltafenos estão dispostos em tangentes, garantindo uma

a distância ideal até a manjedoura. Isto garante que empurra o alimento corretamente em todo o comprimento do corredor; mesmo quando a alimentação não é dividida uniformemente, ela está sempre ao alcance das vacas. O Juno também possui um detetor de colisão que pode ser equipado com um choque elétrico para impedir que as vacas parem a máquina ao tocar-lhe. O novo Juno está disponível a partir de 31 de agosto de 2018.

qualidade superior no trabalho e cordões perfeitos. Os braços de dentes podem ser destacados removendo um contrapino simples, e os suportes podem ser substituídos individualmente sem desmontar o prato do voltafenos desapertando alguns parafusos.


NOVIDADES DE PRODUTO

ENFARDADEIRAS FEND DE FARDOS CILÍNDRICOS Com câmara fixa ou variável, a Fendt dispõe de uma gama de enfardadeiras de fardos cilíndricos. • Câmara variável, 4 modelos de diâmetro 0.70 a 1.60 m ou 1.80 m; • Câmara fixa, 3 modelos de diâmetro 1,25 m.

UM PORTÃO TELESCÓPICO QUE SE AJUSTA A VÁRIAS LARGURAS Um portão de abertura ajustável, feito de tubos de aço galvanizado, pode ser o dispositivo de economia de espaço necessário para os espaços apertados de vacarias mais antigas ou nas baias para borregos. A empresa Sturdy Built, com sede em Denver, na Pensilvânia, faz portões com a extremidade extensível que se adaptam a várias larguras, de modo que um portão pode ser utilizado

para encerrar espaços de tamanhos diferentes. Os portões estão disponíveis em larguras de até 6 metros e são construídos por encomenda em diferentes alturas e larguras. É usada tubagem galvanizada porque tem uma maior relação resistência-peso do que outros materiais. Os portões são montados em suportes padrão para que não seja necessária soldagem.

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PRODUTO

11 mandamentos

do Concessionário de máquinas agrícolas POR RUMINANTES

Tirando os condutores de táxi, a maioria das pessoas que possui um automóvel de passageiros não tem a sua segurança económica dependente do colapso do seu veículo. Acresce que, nos tratores não há transportes públicos nem carros de substituição. Como tal, a máquina não deve avariar. Mas e se avariar mesmo? Bom, nesse caso o concessionário terá que concertá-la rapidamente. A qualidade da assistência é, claramente, um dos principais fatores na classificação de um concessionário como “bom” ou “mau”. Mas há mais. A Ruminantes entrevistou agricultores, representantes de marcas e, obviamente, concessionários, para trazer até si os 11 mandamentos do “Concessionário de máquinas agrícolas”.

O agricultor Começámos por ouvir o cliente final, aquele que faz mexer o mercado: o agricultor. Para o agricultor, fosse do norte ou do sul, grande ou pequeno, as condições para se ser um bom concessionário estavam bem claras. Quase em “tom Capitão Moura” todos enumeram 1) ter um bom stock de peças (sobretudo das peças de desgaste; 2) ter uma boa assistência (“a tempo e horas. A agricultura não se compadece com sábados e feriados”); 3) Mecânicos com formação; 4) proximidade geográfica e; 5) “mente aberta para ouvir o cliente”.

O Concessionário Chegámos então à altura de ouvir a figura principal deste artigo: os

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concessionários. Para a maioria, a capacidade de resposta para servir o cliente, vinha sempre em primeiro lugar. Logo depois vinha o stock (“ter peças, muitas peças!”). No entanto, a par dos aspetos materiais (as instalações também foram referidas várias vezes), foram os aspetos relacionais que mais sobressaíram nestas entrevistas. Para os

concessionários, o concessionário ideal deve 11) ser “um parceiro dos clientes”, “verdadeiro”, e ter “um contacto muito próximo”. A noção de que a venda é apenas um dos aspetos esteve sempre bastante presente, destacando o “acompanhamento, sempre e em todo o lado (não é só entregar a máquina)” e os cursos e formações.

O tamanho importa? “É um erro ter poucos concessionários. Haver mais permite melhor acompanhamento. Áreas muito grandes impedem um acompanhamento “em cima”. Esta visão do negócio vem de um concessionário e tem vindo a ser desafiada pela política de algumas marcas que têm optado por ter menos concessionários mas atribuindo-lhes zonas cada vez maiores. A ideia é fazer com que estes “mega-concessionários” possam ter acesso a mais clientes permitindolhes assim apostar em maiores infraestruturas, mais empregados, melhor assistência, etc. Mas afinal, quem tem razão? Dificilmente alguém terá, neste momento, uma resposta absoluta.

Ainda assim, deixamos alguns dados para a

discussão de uma entrevista dada pelo Presidente do CEMA em 2016. DIMENSÃO DA INDÚSTRIA: Na UE vende-se um automóvel novo a cada dois segundos. Significa que se vende tantos carros em três dias e meio na Europa, como a nossa indústria vende tratores num ano inteiro. Por consequência, os custos de distribuição e logística são muito mais altos. O volume de negócios das empresas concessionários de equipamentos agrícolas, na Europa, é cerca de metade do dos concessionários automóveis. Na prática isto quer dizer que a gestão de uma concessão de máquinas agrícolas é duas vezes mais cara do que a de uma concessão de automóveis.

FORMAÇÃO: Um trator tem uma complexidade muito maior do que um carro: um trator de especificações médias tem de 6000 a 9000 peças diferentes, comparativamente com cerca de 4000 peças de um automóvel de passageiros típico. Tal exige mais formação especial. Por exemplo, apenas a Ferrari e a Lamborghini oferecem lições especiais aos seus clientes para a condução dos seus automóveis. Nos tratores é uma prática corrente. DENSIDADE DE CLIENTES: A área total da UE é de 4,4 milhões de km2. A indústria automóvel vende cerca de 16 milhões de unidades na UE por ano. Nós vendemos cerca de 170.000 por ano. Portanto, se só considerarmos o


PRODUTO

número de unidades vendidas por ambas as indústrias por km2, obtemos um rácio de 3,7 unidades automóvel e de 0,03 para a indústria de máquinas agrícolas. Em 1950, venderam-se 7 tratores numa área de 100 km2 habitada por 210 agricultores. Em 2010, este número caiu para 3 tratores novos vendidos em 100 km2 habitados por apenas 34 agricultores.

mesma área é mais elevado na Europa do que noutros países ocidentais, como os EUA, a Austrália ou a Nova Zelândia.

Interrogações dos concessionários Como é que construímos a nossa concessão quando temos uma área tão vasta para cobrir e tão poucas

unidades para vender? Como é que organizamos a nossa logística e a que custo? Como é que amortizamos os nossos investimentos comerciais? Como é que chegamos aos agricultores? A pressão colocada pelos fabricantes sobre o mercado faz com que, por vezes, objetivos irrealistas sejam colocados aos concessionários que, desta forma, sentem que não existe espaço para “margens saudáveis”.

Simultaneamente a indústria automóvel assistiu à concentração dos seus clientes nas áreas urbanas. Alguns académicos comparam o nosso mercado com o mercado dos automóveis de passageiros e afirmam que a nossa indústria tem adotado uma estratégia adversa que resultou na concentração dos nossos concessionários, forçando os nossos clientes a pagarem preços excessivamente altos pelos serviços que precisam. Correlativamente, esses académicos propõem aumentar o número de empresas concessionarias de máquinas agrícolas, pelas mesmas medidas de regulação coerciva que foram adotadas para a indústria de automóveis de passageiros. Como é que poderíamos aumentar o número de concessionários quando a densidade de clientes cai ano após ano? Estudos internacionais tendem a mostrar que o número médio de empresas concessionárias para uma

Os 11

mandamentos 1 ter um bom stock de peças 2 ter uma boa assistência 3 ter mecânicos com formação 4 proximidade geográfica 5 mente aberta para ouvir o cliente 6 vendas 7 boas contas 8 boa cobertura da região 9 boa imagem 10 sucessão 11 ser um parceiro dos clientes

RUMINANTES JULHO . AGOSTO . SETEMBRO 2018 85


ATUALIDADES

Feira Agrícola Açores 2018 Realizou-se, no passado mês de Junho, a feira Agrícola dos Açores 2018. Este evento, que este ano contou com novas instalações, é uma importante mostra daquilo que de melhor se faz na região, onde estiveram bem representadas a excelência e a perseverança dos produtores mesmo perante as adversidades que têm afetado o setor. POR RUMINANTES E PAULO FORTUNA

Entre os dias 15 e 17 de junho decorreu no parque multissetorial da Vinha Brava, na ilha Terceira, a Feira Agrícola Açores 2018. Este é um evento que tem por objetivo mostrar aquilo que de melhor se faz na produção agrícola do arquipélago dos Açores, bem como divulgar e promover a qualidade dos produtos agrícolas produzidos na região. “É a montra para a qual trabalhamos ao longo do ano” afirmou o presidente da Associação Agrícola da Ilha Terceira, José António Azevedo, durante a sessão de abertura da feira. Ainda durante esta sessão, Vasco Cordeiro, presidente regional dos Açores reforçou que este evento é “uma mostra importante da qualidade e dinamismo, do saber fazer, da agricultura Açoriana nos mais diversos setores” que permite o “enaltecimento da excelência da nossa produção”. Também o Diretor Regional da Agricultura, José Élio Ventura enalteceu a importância desta feira e a sua dimensão transversal “Desde logo é a principal montra do setor agro comercial dos Açores, é um momento de excelência que interage com vários aspetos. Temos aqui do ponto de vista do efetivo leiteiro aquilo que de melhor há nos Açores, mas também no país e na Europa. Os produtores trazem aqui

muitas vezes aquilo que é a história de uma vida, da dedicação que tiveram a esta atividade. E também há aqui uma ligação à juventude, uma forma de perpetuar o futuro desta atividade e uma satisfação dos pais que podem ver continuidade para aquilo que foi uma vida de trabalho (...) aqui também podemos ver a forte ligação do setor com a atividade comercial. Há sempre uma forte adesão de expositores externos e internos que querem vir à feira, o que demonstra bem a importância que o setor tem em toda a atividade

económica nos Açores. É um setor que gera riqueza, gera emprego e é um setor que é muito importante para a sustentabilidade ambiental e para a sustentabilidade social nas diversas ilhas. Nas perspetivas que fiz referência, mas também na perspetiva do turismo como também por vezes é evocado, no sentido que é o agricultor que contribui para aquilo que é a nossa paisagem e a nossa oferta turística a esse nível.”

“Uma mostra importante da qualidade e dinamismo, do saber fazer, da agricultura Açoriana nos mais diversos setores” VASCO CORDEIRO 1

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O parque multissetorial da Vinha Brava Recentemente inaugurado, o parque multissetorial da Vinha Brava reúne todas as condições necessárias para a exposição e concursos de animais das diversas espécies pecuárias, bem como para realização de outros eventos de promoção empresarial e/ou comercial ou até mesmo lúdica como foi o caso do evento Wine


ATUALIDADES

in Azores que decorreu neste mesmo espaço entre os dias 25 e 27 de maio. A amplitude deste parque, a disposição, dimensão e qualidade das diversas estruturas que o compõem, a qualidade dos acessos e a dimensão dos parques de estacionamento existentes permite uma perfeita funcionalidade do mesmo, garantido comodidade a quem o utiliza e visita. “Desde a primeira hora que tenho recebido vários elogios ao espaço, à sua dignidade e multifuncionalidade, à interação entre os vários espaços comerciais, institucionais, espaços de concursos... Está a correr, até ao momento, muito bem. É verdade que não compete ao governo fazer uma espécie de autoelogio, mas é um pouco aquilo que eu consigo recolher da manifestação das pessoas” afirmou José Élio Ventura. Também nas palavras do Presidente Regional dos Açores este é um “Espaço novo, recentemente inaugurado, que traz melhores condições, maior dignidade, a

“Desde a primeira hora que tenho recebido vários elogios ao espaço, à sua dignidade e multifuncionalidade, à interação entre os vários espaços comerciais, institucionais, espaços de concursos”

eventos deste tipo a decorrer aqui na Ilha Terceira”.

Uma feira com uma oferta diversificada e para toda a família Durante os três dias de exposição e concursos o número de visitantes que esta feira recebeu foi sem dúvida na ordem dos milhares e estes disfrutaram do contacto com cerca de 65 stands de empresas que expuseram os seus produtos, marcas e conceitos. A feira tem um público diversificado, contando com a participação de famílias inteiras e várias gerações. No programa existem concursos dedicados aos mais novos como o concurso de jovens manejadores. Na opinião de José António Azevedo “As feiras agrícolas têm um cariz pedagógico que devia ser replicado noutros setores para termos de futuro uma sociedade mais consciente, que valorize o que é nosso”.

JOSÉ ÉLIO VENTURA

Quanto aos animais presentes nesta exposição, estiveram caprinos de raças com aptidão para a produção de leite e também com aptidão para a produção de carne como o caso da raça Boer, ovinos das raças Sufflock e Merino e bovinos da raça Holstein-Frísia, Aberdeen Angus, Limousine, Charolês, Fleckvieh e da raça autóctone Ramo Grande. Foram também organizados concursos das raças de bovinos referidas

anteriormente, concurso de méis, concursos de hortícolas e frutícolas, provas de equitação, exposição especializada do cão Barbado da Terceira, demonstração de tosquia de ovinos pela Associação de Criadores de Ovinos e Caprinos da Ilha de Sta. Maria, provas comentadas de queijos e vinhos dos Açores, degustação de carne dos Açores, entre outros eventos que abrilhantaram esta feira.

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O trabalho de excelência dos produtores açorianos Dentro dos diversos concursos organizados, destaca-se o XX Concurso Terceirense de Bovinos da Raça HolsteinFrísia, organizado pela Direção Regional da Agricultura e pela Associação Agrícola da Ilha Terceira. “A região possui os melhores animais HolsteinFrísia do país” afirmou o presidente desta associação. Este concurso contou com 206 animais inscritos entre vitelas, novilhas e vacas e segundo Gill Zeilon, a juiz do

e abandonam a produção, é preocupante a situação que se vive no setor” palavras de José António Azevedo que refletem a preocupação com o preço do leite pago aos produtores. “Adivinhamse dias difíceis”, declarou manifestando também preocupação com a seca que tem vindo a assolar a ilha Terceira, causando, “em plena primavera uma redução da fenosilagem, sementeiras de milho que não germinaram, e as que germinaram estão em risco eminente de morte das plantas por stress hídrico, com reservatórios de água que estão muito baixos para a época”. ”O que se deveria esperar da industria de lacticínios neste momento era uma atitude proativa com a subida dos preços pagos aos produtores para os ajudar neste momento de agonia” acrescentou. Nas palavras de abertura da feira, falou ainda da possível redução do orçamento europeu da agricultura, da redução dos subsídios à produção que permitem que o consumidor

concurso de origem sueca, a qualidade dos animais apresentados encontra-se ao nível dos concursos europeus. A qualidade destes animais deve-se essencialmente a um trabalho de investimento, modernização e melhoramento das explorações leiteiras e seus efetivos em que importa destacar o constante interesse dos criadores/produtores em evoluir apesar das adversidades do setor. “É um trabalho difícil, sem direito a férias ou fins-de-semana, sem o rendimento devido os produtores ficam cansados

final tenha produtos a um preço mais acessível. Esta situação pode pôr em causa o setor agrícola e, no caso dos Açores, estender-se ainda a outros setores como o turismo “ninguém visita os Açores para ver mato, mas sim pelas suas belas pastagens, com os animais em pastoreio, e as belezas naturais, muitas delas enquadradas no meio rural”. Este papel do agricultor como “arquiteto da paisagem” esteve também presente nas palavras de José Élio Ventura “Nós temos a paisagem agrícola que temos, da forma cuidada como temos, a dita manta de retalhos, tudo isto deve-se na sua totalidade àquilo que é a atividade dos agricultores, não tenho a menor dúvida sobre isso.” Importante também foi o trabalho de acompanhamento e apoio das associações de produtores e do Governo Regional dos Açores através da Direção Regional da Agricultura.

6 1 Pavilhão multissetorial da Vinha Brava, na ilha Terceira • 2 Concurso Holstein-Frísia • 3 Concurso HolsteinFrísia • 4 Concurso Holstein-Frísia • 5 Concurso Holstein-Frísia • 6 Sessão de abertura • 7 Concurso Limousine • 8 Demostração de tosquia de ovinos • 9 Escola de Jovens Manejadores da Ilha Terceira. 8

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NÃO DEIXE DE...

FEIRAS

20,21e 22 JULHO

SPACE 11 a 14 setembro 2018 Rennes - França

www.space.fr

XXX Concurso Nacional e Leilão Reprodutores Limousine

SOMMET DE L’ÉLEVAGE 3 a 5 outubro 2018 Clermont-Ferrand - França

www.sommet-elevage.fr

Feira das Atividades Culturais e Económicas do Concelho de Odemira

FACECO 2018 FIERA INTERNAZIONALE DEL BOVINO DA LATTE 24 a 24 outubro 2018 Cremona - Itália

www.bovinodalatte.it

PROGRAMA LIMOUSINE 20 JUL> Sexta

21JUL> Sábado

22 JUL> Domingo

10:00 H / 13:00 H

10:00 H / 13:00 H

10:00 H / 13:00 H

- Secções e Campeonatos de Esperanças Machos e Fêmeas Limousine;

- Secções e Campeonatos de Novilhas e Novilhos Limousine;

Atribuição dos Prémios Especiais - Melhor Macho de Qualidades Cárnicas; Melhor Fêmea de Qualidades Cárnicas; Melhor animal de Inseminação Artificial;

14:00 H / 19:00 H 14:00 H / 19:00 H

EUROTIER 13 a 16 novembro 2018 Hannover - Alemanha

www.eurotier.com

- Secções e Campeonatos de Esperanças Machos e Fêmeas Limousine; - Atribuição do prémio de Melhor Esperança Domado.

- Secções e Campeonatos de Vacas e Touros Limousine;

14:00 H / 17:00 H

- Atribuição do prémio Família. 3:00 - Secções e Campeonatos de Esperanças Machos e Fêmeas Limousine

Atribuição dos Prémios Finais Campeões e Vice-Campeões Nacionais Limousine; Melhor Criador; Melhor apresentador;

17:00 H – Leilão de Reprodutores Limousine.

14:00 / 19:00 - Secções e Campeonatos de Esperanças Machos e Fêmeas Limousine E

[PARQUE DE FEIRAS EXPOSIÇÕES – S. TEOTÓNIO]

- Atribuição de prémios de Melhor Esperança Domado

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Ruminantes 30  

Edição nº30/2018 A revista da Agropecuária

Ruminantes 30  

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