Page 44

ECONOMIA

Observatório das matérias primas POR PAULO COSTA E SOUSA

“O movimento é claramente de subida” Ao contrário do que é comum dizer, que depois da tempestade vem a bonança, o período que agora começa será a tempestade depois de uma bonança de meses. Iniciado com a situação da soja na Argentina, o movimento do preço das matérias primas é claramente de subida. A soja, que deu o tiro de partida na subida de preços, há algumas semanas atrás, depois de cortes sucessivos nas previsões de produção, baixando em pouco tempo de mais de 50 milhões de toneladas para pouco mais de 40, trouxe o combustível necessário para uma subida abrupta nos preços das proteínas, que provavelmente se irão manter nesta ordem de valores até à próxima colheita nos Estados Unidos, no próximo outono. O efeito fez-se notar particularmente no bagaço de soja e não no grão de soja, onde a colheita brasileira virá equilibrar a situação. No caso do bagaço, que tem como referência as exportações argentinas, é o que mais sofre

42 ABRIL . MAIO . JUNHO 2018 RUMINANTES

com este corte de produção, arrastando com ele todos os restantes bagaços. Recomenda-se particular atenção para qualquer abaixamento importante no preço, uma vez que este pode constituir uma boa oportunidade de compra. Felizmente a maioria dos compradores fez a sua cobertura há algum tempo atrás e passará ao lado desta subida de preço, o que pode constituir uma diferença importante na hora de vender, quer a ração quer o produto final (carne, leite ou ovos) podendo obter uma margem adicional fruto das boas compras de matérias primas. Assim, dificilmente haverá uma recuperação da situação Argentina e não será de prever uma quebra nos preços para os valores que se registavam há umas semanas atrás. No caso dos cereais as notícias não são, de momento, muito melhores, mas com uma diferença substancial, a história ainda não está toda contada, faltando ainda um longo caminho a percorrer até à próxima colheita, especialmente no caso do milho, que nem no Brasil, nem muito menos no hemisfério norte, começou ainda a ser semeado. De momento, a forte pressão de compra do mercado chinês sobre o mercado ucraniano, os elevados números da

exportação dos Estados Unidos da América, que levaram a um stock interno final mais modesto, a incerteza sobre a sementeira da Safrinha brasileira, e o corte na produção Argentina, devido à seca que afeta não só a soja mas também o milho, foram os motores desta subida de preços. O momento deve ser visto numa determinada perspetiva, uma vez que vivíamos a situação perfeita, uma volatilidade muito reduzida com os preços de mercado historicamente baixos. Isto, normalmente, conduz a uma subida violenta dos preços à mais pequena perturbação. Provavelmente, a curto prazo, não vamos ver um regresso aos preços de algumas semanas atrás, mas a médio prazo estamos ainda longe de uma situação de desespero, uma vez que a história está a começar. Um ponto positivo para a indústria é o desaparecimento do direito nivelador, esse mecanismo anacrónico que deturpa completamente o mercado, um dinossauro das medidas protecionistas que se mantém. Assim sendo, no caso dos cereais há que observar ainda

muitos dados, como seja o que acontecerá com o clima, com ênfase na pluviosidade para os meses que aí vêm, bem como durante a colheita de trigo, determinando a quantidade e qualidade do mesmo, e ainda não menos importante todos os dados em relação ao milho nos principais produtores, começando pelo Brasil e terminando no hemisfério norte, com particular ênfase para os Estados Unidos da América, a Ucrânia e a União Europeia. Caso não haja nenhum motivo para a superfície ser largamente reduzida e não houver grandes desastres climatéricos, os preços podem regressar pacificamente a valores baixos e ao cabo de alguns meses aos valores onde estiveram, nomeadamente para a segunda metade do ano. Há que estar atento à evolução da situação, devendo no curto prazo não haver no entanto nenhuma razão para um abrandamento da mesma.

NOTA O autor escreveu este artigo segundo o Antigo Acordo Ortográfico.

Profile for Ruminantes

Ruminantes29  

Edição nº29/2018 A revista da Agropecuária

Ruminantes29  

Edição nº29/2018 A revista da Agropecuária

Advertisement