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Ano 6 - Nº 23 - 5,00€ outubro | novembro | dezembro 2016 (trimestral) Diretor: Nuno Marques

A REVISTA DA AGROPECUÁRIA

www.revista-ruminantes.com

CONCURSO NACIONAL DE FORRAGENS 2016

COMO PRODUZIR CARNE DE BOVINO

Melhores resultados A PRODUÇÃO DE RUMINANTES NA AUSTRÁLIA

de qualidade


EDITORIAL

EDIÇÃO Nº23 OUTUBRO | NOVEMBRO | DEZEMBRO 2016

MAIS UMA CORRIDA, MAIS UMA VIAGEM Ao baixo preço do leite, que tem vindo desde há dois anos a afetar os produtores, vieram juntar-se recentemente incentivos à redução da produção incentivados pela comunidade europeia. Em junho passado, e pela primeira vez desde o fim das quotas leiteiras, a produção de leite acusou uma quebra de 1,8% na Europa. Esta tendência deverá manter-se nos próximos meses, justificando o anúncio do aumento do preço à produção feito por algumas empresas europeias, e marca provavelmente o início de um novo ciclo económico. A assim ser, são boas notícias, mas melhor seriam se o sector leiteiro português tivesse a capacidade de incentivar toda a fileira a criar um projeto que tornasse os produtores menos vulneráveis ao preço mundial. À semelhança do que fez o governo irlandês quando, após a crise económica e financeira de 2008, decidiu investir forte no desenvolvimento da agricultura e do sector agroalimentar para relançar a economia. E em vez de baixar os braços, decidiu aumentar a produção de leite em 50% até 2020, confiante de que o mercado vai arrancar e a procura aumentar. O principal impulso deste projeto veio em 2012, com o lançamento do programa Origin Green* baseado num compromisso com a sustentabilidade, para dar um impulso às exportações de leite irlandesas, com um elemento diferenciador e criador de valor de forma a poder competir com outros países exportadores por vocação, como a Nova Zelândia ou a Austrália. Hoje, o programa Origin Green já conta com a adesão voluntária de 90% dos produtores. Na Irlanda, existem cerca de 17.500 produtores de leite e 90% do leite produzido é exportado. Por cá, temos cerca de 5000 produtores. Será possível unir a fileira para criar um programa próprio que seja capaz de diminuir as vulnerabilidades? Pois se é certo que estas sempre existirão, será sempre mais difícil pô-lo de pé depois de derrubado do que deixá-lo cair. *Origin Green é o único programa de sustentabilidade no mundo, que opera em escala nacional, unindo o governo, o sector privado e os agricultores através Bord Bia, o Conselho Alimentar da Irlanda.

Nota à 2ª edição do Concurso Nacional de Forragens Após a entrega dos prémios aos vencedores do Concurso Nacional de Forragens 2016, é tempo de tirar conclusões. De positivo, o facto de a qualidade das amostras vencedoras, bem como a de todas as que foram a concurso, ter sido superior à do ano passado. Ainda a melhorar, os parâmetros nutricionais que, na média das amostras analisadas este ano no laboratório estão ainda muito aquém dos das amostras vencedoras. Há, portanto, trabalho a desenvolver por uma boa parte dos agricultores no sentido de melhorar a qualidade das silagens de erva.

DIRETOR

Nuno Marques | nm@revista-ruminantes.com Colaboraram nesta edição António Cannas, António Godinho, António Moitinho, António Vieira Lima, Carlos Vouzela, Filipe Vendeiro, Francisco Marques, George Stilwell, Gonçalo Canha, João Paulo Crespo, João Santos, José Caiado, Manuel Rovisco, Paula Maia, Pedro Castelo, Rodrigo Gil, Samantha Cassi, Sérgio Gil, Teresa Moreira

PUBLICIDADE E ASSINATURAS Nuno Marques | comercial@revista-ruminantes.com

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ÍNDICE

ALIMENTAÇÃO 22 Engordas de vitelos Holstein 28 Substituição de amido por sacarose, efeitos na dieta de vacas em lactação

ATUALIDADES 20 Produção de leite – qualidade e sustentabilidade

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64 O fotógrafo português de campeãs

ECONOMIA

CONCURSO NACIONAL DE FORRAGENS 2016 – UM SALTO NA QUALIDADE Este ano, a qualidade geral das amostras de silagem de erva levadas a concurso registaram uma melhoria nos parâmetros qualitativos. Porém, ainda longe da meta pretendida. A opinião dos presentes na cerimónia de entrega dos prémios foi unânime: “ainda há muito trabalho a fazer para melhorar a qualidade das silagens.”

32 Observatório de matérias primas 34 Observatório do leite 36 Índice VL e Índice VL erva

FORRAGENS 30 Beterraba forrageira em Portugal 38 “Há uma visão de conquista nesta equipa”, reportagem na Fertiprado

PRODUÇÃO 42 Uma exploração em números 56 Vacas de cerâmica

14

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PRODUZIR CARNE DE QUALIDADE

A PRODUÇÃO DE RUMINANTES NA AUSTRÁLIA

Se é um novo produtor de carne de bovino e quer ver desmistificados alguns mitos que se encontram por detrás desta atividade, leia este artigo.

PRODUTO

George Stilwell percorreu uma pequena parte deste país que tem 762 milhões de hectares e partilha, nesta edição, a experiência única que teve.

50 Três ordenhas em sala ‘versus’ três ordenhas no robot 52 Assumir o controlo na gestão da higiene 60 Novidades de produto

BOLETIM DE ASSINATURA 1 ANO, 4 EXEMPLARES

DADOS PESSOAIS

Portugal: 20,00 €

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Europa: 60,00 €

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Pagamento • Por transferência bancária IBAN: PT50 0269 0111 00200552399 92 Enviar comprovativo para o email geral@revista-ruminantes.com • Por cheque: À ordem de Aghorizons, Lda.

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ATUALIDADES

ÓLEOS ESSENCIAIS: UMA OPÇÃO FUTURA NO SECTOR DA CARNE? Nos últimos anos, o Brasil tem registado um aumento da procura interna e externa de carne bovina, o que levou a uma mudança na produção primária do sector, com crescente intensificação da produção e adoção de sistemas de feedlot. Desta mudança advém geralmente um maior recurso a substâncias como os antimicrobianos cujo uso, particularmente à luz da conjetura atual, está a ser cada vez mais restringido na produção pecuária, especialmente considerando a exportação para a Europa. Visando encontrar alternativas, estudos focados em propriedades benéficas de substâncias naturais, como os óleos essenciais, têm sido realizados.

Um desses estudos, levados a cabo por um grupo de investigadores brasileiros e espanhóis, procurou perceber de que forma uma mistura de vários óleos essenciais (que incluía extratos de orégão, alho, limão, alecrim, eucalipto, tomilho e laranja) afetaria a qualidade da carne, já que a estas substâncias estão associadas propriedades antimicrobianas, antiinflamatórias e antioxidantes. A mistura foi incorporada, nas doses de 3,5 e 7g/diários, na dieta de 27 animais de feedlot durante 4 meses, a qual tinha como base concentrado e pellets de bagaço de cana-de-açúcar. No final do período de estudo os animais foram abatidos e amostras do músculo

UM NOVO FÔLEGO PARA O SECTOR DOS PEQUENOS RUMINANTES A produção de pequenos ruminantes apresenta um conjunto particular de desafios, os quais se estendem desde as condições de produção, muitas vezes em zonas mais desfavorecidas, até às preferências dos consumidores, as quais tendem a “fugir” para outros tipos de proteína animal.

Estes desafios têm levado a um crescente abandono do sector. Visando contrariar essa tendência, foi criado na UE um projeto dedicado exclusivamente à produção ovina e caprina, denominado iSAGE: Innovation for Sustainable Sheep and Goat Production in Europe. Os seus principais objetivos

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longissimus thoracis foram recolhidas e analisadas em termos de cor, perfil de ácidos gordos, composição química e fenómenos oxidativos, bem como perdas por descongelação e cozedura. O grupo de animais ao qual foram fornecidos 3,5 g/diários da mistura foi o que apresentou os resultados mais interessantes, com uma diminuição da oxidação lipídica, um fenómeno que se sabe estar na origem de deterioração e perda de qualidade da carne. Este efeito benéfico, no entanto, parece inverter-se com a utilização de doses mais elevadas, as quais predisporão a fenómenos oxidativos.

até 2020 são: melhorar a sustentabilidade e capacidade de inovação do sector, visando o aumento da eficiência e lucro das explorações ao mesmo tempo que se tira o melhor partido das condições edafoclimáticas e raças autóctones de cada estado membro; sensibilizar as populações para as vantagens ambientais da produção de pequenos ruminantes, bem como para os benefícios para a saúde dos produtos deles derivados, almejando assim criar um nicho de mercado sólido e competitivo para o sector. Refletindo a magnitude do projeto está o consórcio que o constitui, com um total de

34 parceiros de seis estados membros da UE – Grécia, França, Espanha, Itália, Reino Unido e Finlândia –, que abarcam mais de 70% das populações europeias de ovinos e caprinos, e aos quais se junta a Turquia. Da lista de parceiros, a qual inclui representantes da indústria, instituições de investigação e uma organização internacional, fazem parte 16000 produtores com um total de 5.5 milhões de animais, e é na produção primária que se encontra a pedra basilar do iSAGE, o qual se estenderá também aos processadores e fornecedores, antes de culminar no consumidor final.


ATUALIDADES

LEITE DE SUBSTITUIÇÃO: UMA SOLUÇÃO DE COMPROMISSO Um grupo de investigadores da Universidade de New Hampshire, nos Estados Unidos, publicou recentemente um estudo no qual se propôs analisar o efeito da inclusão de diferentes níveis de leite de substituição na alimentação dos vitelos ao nível do crescimento e da capacidade digestiva. No estudo foram incluídos 96 vitelos machos Holstein, distribuídos por três grupos, a cada qual foi fornecido um diferente programa de leite de substituição: o programa controlo englobava 0,44 Kg de Matéria Seca (MS), com 21% de Proteína Bruta (PB) e 21% de gordura; o programa moderado englobava 0,66 Kg de MS, com 27% de PB e 17% de gordura; já o programa agressivo atingia valores de 0,87 Kg de MS, com níveis idênticos aos da dieta moderada no que toca a PB e gordura. Aos vitelos foi também fornecido um starter com 20% de PB e água ad libitum. Os vitelos do programa controlo obtiveram os piores resultados em termos de ganho médio diário e condição corporal no pré-desmame, sendo os melhores resultados obtidos nos vitelos do programa agressivo. No entanto, estes últimos tiveram uma performance digestiva aquém do desejado no período pós-desmame, com consequente comprometimento do seu crescimento. É sabido que a dieta starter é essencial para o correto desenvolvimento do rúmen e ótima performance, quer em termos de crescimento quer em termos de produção leiteira futura. Neste estudo, os animais do programa agressivo, com elevados níveis de leite de substituição, foram também aqueles que ingeriram os menores níveis de starter, o que ajudará a explicar os resultados obtidos. A solução, concluem, passará pela inclusão de níveis moderados de leite de substituição (inferiores a 0,7 Kg de MS) na dieta dos vitelos, visando a otimização da sua performance no pré e pós-desmame e, paralelamente, assegurando um correto desenvolvimento da sua capacidade digestiva.

AQUISIÇÃO DA EMPRESA PORTUGUESA DIN PELO GRUPO CCPA O Grupo francês CCPA concretizou a aquisição da empresa especialista em nutrição e saúde animal DIN, SA ao Grupo Montalva, líder em Portugal nos mercados da indústria alimentar e da produção animal. Esta aquisição faz parte da estratégia de desenvolvimento do grupo CCPA, cujo objetivo é valorizar o seu “know how” a nível internacional, estratégia essa que passa pelo crescimento externo, através de aquisições ou parcerias. A empresa DIN, especialista em nutrição e saúde animal, está localizada em Santa Comba Dão, no centro de Portugal. É uma das empresas mais importantes a nível nacional no seu sector, em permanente crescimento, e é reconhecida no mercado pelo seu profissionalismo, pela sua capacidade de inovação e pela qualidade dos seus produtos e

serviços destinados a criadores, fábricas de ração, e outras áreas de negócio da fileira animal. A DIN dispõe de 2 unidades fabris, uma para Pré Misturas e outras para Pré Starters, além de um Laboratório de Análises Químicas e Microbiológicas nas áreas da alimentação animal e humana. Com esta aquisição, a DIN pode agora apoiar-se nos importantes meios de pesquisa e desenvolvimento que o Grupo CCPA lhe proporciona. “Esta conjugação de “know how” com experiência e profissionalismo permitirá criar novas oportunidades de inovação e de serviços em beneficio dos clientes DIN”, declarou o Diretor Geral do Grupo CCPA, Erwan Gilet. Para o Grupo CCPA, esta operação vai permitir reforçar a sua posição no mercado português.

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REPORTAGEM

CONCURSO NACIONAL DE FORRAGENS 2016

SALTO NA QUALIDADE

Em 2015, foi dado o primeiro passo. Este ano, houve um salto para a frente. Não foi, porém, o salto suficiente para alcançar a meta pretendida. O segundo Concurso Nacional de Forragens (CNF 2016), promovido pela Revista Ruminantes (RR), revelou uma melhoria geral das silagens de erva (SE), comparativamente com a edição anterior, mas não deixou de se deparar com a fragilidade de algumas amostras participantes. Na sessão de entrega de prémios, dia 2 de setembro, na AgroSemana de Vila do Conde, todos concordaram num ponto: há que avançar muito mais na qualidade das silagens. Em causa, a sustentabilidade ambiental e económica das explorações. POR SOFIA MENESES (JORNALISTA)

O CNF 2016 contou com 32 amostras de silagem de erva, menos seis do que em 2015, e pautou-se por uma melhoria “quer a nível nutricional, quer a nível da conservação”, segundo José Caiado, mentor e membro da organização do concurso. A região do Alentejo apresentou o maior número de amostras (14), seguindo- se o Minho (11) e os Açores (7). O clima adverso não serve de desculpa para tudo; no entanto, foi a justificação que muitos apresentaram para o facto de não terem querido participar. É natural e humano, “as pessoas convenceram-se de que não tinham boas silagens e não enviaram amostras”, comentou Nuno

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Marques, diretor da Ruminantes, no início da sessão de entrega de prémios. O diretor da RR lembrou que o objetivo do concurso é “encorajar os agricultores nacionais a produzir melhores forragens e contribuir, desta forma, para que a sustentabilidade ambiental e económica das explorações pecuárias, em Portugal, possa aumentar”. Futuramente, o CNF poderá escolher outras categorias de forragem, mas este ano, por “motivos financeiros e logísticos”, destinou-se à SE, tal como em 2015. Nuno Marques agradeceu a todos os participantes e parceiros do CNF 2016, destacando os patrocinadores (Kuhn,


REPORTAGEM

patrocinador oficial, Lallemand e Lusosem), o laboratório da ALIP (Associação Interprofissional de Leite e Lacticínio) e os elementos do Júri - Ana Lage (ALIP), Rita Cabrita (Inst. Ciências Biomédicas Abel Salazar/Univ. do Porto), António Moitinho Rodrigues (Escola Superior Agrária de Castelo Branco) e José Caiado (Dairy Consulting, mentor do CNF).

Consonância entre ALIP e laboratório holandês O processo de avaliação das amostras a concurso iniciou-se com a análise sensorial, seguindo-se a análise química, ambas na ALIP. Perante os resultados, o júri selecionou as cinco melhores amostras que foram, em seguida, enviadas para o laboratório BLGG, na Holanda, “laboratório independente e de referência a nível europeu, cujos resultados das análises se revelaram em consonância com os da ALIP”, fez notar José Caiado. Por fim, o júri atribuiu as classificações. Nesta segunda edição, as amostras tinham de ter entre 25% e 50% de Matéria-Seca (MS), o que levou à exclusão de, apenas, duas amostras (em 2015, o intervalo era de 30%-50%, tendo sido excluídas 14 amostras). Este ano, houve quatro amostras que chumbaram logo na análise sensorial - uma com bolor e três com fios, ou seja, contaminadas com elementos estranhos, o que, só por si, “dá uma ideia do que ainda é preciso melhorar”, referiu José Caiado. Recorde-se que, em 2015, houve também quatro amostras que não passaram da primeira análise.

Analisados dois novos parâmetros nutricionais Respondendo ao desafio lançado no 1º CNF, o laboratório ALIP fez, este ano, uma análise mais profunda, introduzindo dois novos parâmetros nutricionais – proteína solúvel (PS) e azoto amoniacal (N-NH3). “A PS deve ser tão baixa quanto possível, pois é indicadora da extensão da degradação da proteína bruta (proteólise) durante a ensilagem”, explicou Ana Lage. O azoto amoniacal, por sua vez, é um indicador da qualidade da fermentação – se o valor for alto, significa que há uma “baixa palatabilidade que contribui para baixa ingestão da silagem”. Tal como em 2015, coube a Ana Lage representar a ALIP, dando a conhecer a dinâmica do laboratório, devidamente equipado para fazer a análise de SE pelo Método NIRS (Near-Infrared Reflectance Spectroscopy). Trata-se de um método automático que obtém resultados em 24 horas. Ana Lage apresentou os resultados comparativos das amostras de SE, analisadas de 2014 a 2016. Em alguns parâmetros, verifica-se uma evolução positiva – este ano, por exemplo, diminuiu o número de amostras com baixa MS. Em média, as amostras de 2016 têm 38,2% de MS. No entanto, Ana Lage fez notar a grande disparidade entre os valores mínimos e máximos, designadamente, 12,3% e 93,2% de MS. Neste e noutros parâmetros, “ainda estamos longe do ideal”, afirmou. A média do resultado das 675 amostras analisadas este ano, pela ALIP, é a seguinte: MS=38%; PB=12,75; DMO=62,1%; NDF=55,4%; ADF=35,7%; CT=10,6%; pH=4,21%; PS=53,9%; N-NH3=0,8%. Nas considerações finais, Ana Lage disse que “existe uma grande margem para a melhoria da qualidade das silagens de erva” e defendeu a “adoção de boas práticas de ensilagem, para rentabilizar este recurso da região e reduzir os custos com a alimentação animal”.

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REPORTAGEM

SEGUIR A “BÚSSOLA” PARA ENCONTRAR A SILAGEM CERTA 10, 20, 30, 40. São estes os quatro números que “devem servir de bússola”, frisou José Caiado. Quem se afastar muito destes valores arrisca-se a ‘perder o norte’, ou seja, a perder a rentabilidade da exploração. 10% de cinzas totais (CT), 20% de proteína bruta (PB), 30% de fibra ácido detergente (ADF) e 40% de fibra neutro-detergente (NDF) são, “mais do que um requisito definido há 30 anos, um imperativo de rentabilidade”, reafirmou. Uma boa SE, nutricionalmente rica e bem conservada, permite poupar nos custos com a alimentação dos animais, como José Caiado tornou claro, na sua intervenção sobre o “Estudo dos resultados das amostras a concurso”. Eis a média dos resultados laboratoriais das 32 amostras participantes: MS= 38,7% (35,6% em 2015), PB =19,1% (14,3% em 2015), proteína solúvel (PS)= 56,3% (em 2015 não foi analisado este parâmetro), azoto amoniacal (N-NH3)= 9,4% (em 2015 não foi analisado), NDF =46,4% (49,2% em 2015), CT=11,9% (11,7% em 2015), energia= 0,90 UFL (0,83% em 2015).

Silagem fraca encarece a dieta José Caiado interpretou estes valores e explicou a sua interferência nos custos. “Menor MS significa menos açúcar e mais amoníaco, portanto, menos energia disponível, logo, menor produção de leite. Se tenho uma SE com menos energia disponível, terei, para compensar, que recorrer a concentrados, o que tornará a dieta mais cara”. No caso das CT, “o ideal é que estejam abaixo de 10%”, defendeu. Infelizmente, os valores são altos, o que significa que há muita terra e energia baixa na forragem e maior risco de contaminação

“MENOR MS SIGNIFICA MENOS AÇÚCAR E MAIS AMONÍACO, PORTANTO, MENOS ENERGIA DISPONÍVEL, LOGO, MENOR PRODUÇÃO DE LEITE. SE TENHO UMA SE COM MENOS ENERGIA DISPONÍVEL, TEREI, PARA COMPENSAR, QUE RECORRER A CONCENTRADOS, O QUE TORNARÁ A DIETA MAIS CARA”. José Caiado

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por clostrídios. Além disso, “muita cinza na SE representa um ácido butírico elevado, impróprio para vacas em ordenha e muitíssimo perigoso para as vacas em transição (pós-parto) porque o ácido butírico é um percursor de corpos cetónicos que dão origem à cetose citogénica e a todos os problemas que lhe estão associados, a nível de produção, fertilidade e por aí fora”, disse o orador. Ou seja, as CT têm um rol de implicações negativas e são mais um fator para encarecer a dieta. Valores elevados de PS e de azoto amoniacal são prejudiciais à conservação da silagem e causadores de menor palatibilidade. “Se tenho mais azoto amoniacal, tenho menos proteína disponível, logo, para uma dieta equilibrada, há que fazer uso de mais “sojas” e de mais proteaginosas, como a colza. E todos sabem os preços a que estão a soja e colza!”, alertou José Caiado. Se a fibra NDF for elevada, “temos a mesma cascata de consequências: menos energia disponível, menos produção de leite, mais recurso a concentrados, em suma, dietas mais caras, alimentação mais cara, menor rentabilidade”. O especialista colocou o dedo na ferida: no nosso país, salvo honrosas exceções, as SE têm proteínas baixas, conservações duvidosas e cinzas elevadas.


REPORTAGEM

CONSERVAR É PRECISO… MAS COMO E A QUE CUSTOS? Análise da economia de nutrientes José Caiado fez a análise da economia dos nutrientes (análise em função dos custos estritos dos nutrientes), comparando os gastos com uma dieta que tem por base uma SE idêntica ao resultado médio das 675 amostras efectuadas, este ano, pela ALIP (MS=38,2%; PB=11,75%; NDF=55,4%; ADF=35,7; CT=10,6%, Energia UFL=0, 69), com os gastos com uma dieta assente numa SE idêntica à vencedora do CNF 2016: MS=34, 9%; PB=27, 8%; NDF=33% e valores elevados de CT (12%), mas que “não chegam para interferir no valor da energia total estimada, que fica nos 0,9 UFL, o que é excelente”, disse José Caiado. Fazendo as contas, a segunda dieta (a que tem melhor SE), dada a menor necessidade de recorrer a outros produtos, como a soja e a colza, custa menos nove cêntimos por dia, por vaca. Isto é, uma poupança de 270 euros por mês e de 3.240 euros por ano, em 100 vacas, em comparação com a outra dieta (SE mais fraca). Tendo em conta que, em Portugal, há SE bastante piores do que a que serviu de exemplo, os custos chegam a valores exorbitantes. “A diferença entre uma SE excelente e uma silagem de erva má ou medíocre pode chegar a 30 cêntimos por dia, por vaca”, avisou José Caiado. Seguir “a bússola” é, portanto, encontrar o melhor caminho para a rentabilidade.

A entrega de prémios aos três melhores classificados no CNF 2016, foi antecedida por um debate sobre “Conservação de Silagem de Erva”, moderado por António Castanheira (Exploração Casal de Quintanelas). O moderador cumpriu o que, logo de início, prometeu – “Vou tentar ser incómodo, para um melhor esclarecimento” -, tendo colocado perguntas difíceis, algo provocadoras, mas pertinentes ao painel de convidados, constituído por Paula Maia (participante premiada nas duas edições do CNF), Luís Queirós (técnico da Lallemand Animal Nutrition), Liam Aonghus (técnico Silostop) e Manuel Laureano (diretor comercial da Lusosem). O debate foi vivo e intenso, com alguns elementos do público a intervirem, também, na troca de ideias, experiências e conhecimentos. A SE exige, em todas as fases do processo de produção, um conjunto de decisões nem sempre fáceis de tomar, sendo que a conservação é uma das problemáticas que suscita maior preocupação, pois, se for mal feita, arruína todo o trabalho anterior. Paula Maia falou sobre a sua produção, assente em práticas descomplicadas, mas cautelosas. Depois de efetuar o corte, muito antes do espigamento, optou por conservar a SE em rolos, tendo dado três voltas ao plástico, para uma maior resistência e segurança. Falou-se, então, na qualidade dos plásticos. Luís Queirós considerou que, com o tipo de plástico usado na maior

parte dos rolos, é necessário dar muitas voltas para impedir a entrada de oxigénio, “um dos maiores inimigos” das SE. Na sua opinião, os rolos são preferíveis ao silo trincheira, pois este é mais vulnerável à penetração de ar e à perda de matéria seca. Liam Aonghus falou sobre a necessidade de conservar os valores nutritivos da SE, impedindo o desenvolvimento de ácidos nocivos. Para o efeito, é importante excluir o ar e fechar rapidamente o silo, usando plástico resistente, de boa qualidade. A evolução tecnológica entrou no debate, pela voz de um elemento do público interessado em dar a conhecer a nova condicionadora rebocável que facilita todo o processo e que faz com que a SE saia da enfardadeira já plastificada, segundo informou. Voltou-se ‘à vaca fria’, com a insistência na defesa de plásticos que, independentemente da eficiência e eficácia dos equipamentos, impeçam a entrada de ar. Manuel Laureano, por sua vez, realçou a importância das boas práticas de produção de SE, as quais devem começar pela boa preparação do terreno e pela escolha da matéria-prima, sem as quais de nada valem as máquinas, os plásticos, os rolos, os silos trincheira ou quaisquer outras opções relativas à conservação. Face ao adiantado da hora, foi necessário terminar o debate, permanecendo sem resposta uma pergunta colocada pelo moderador: Qual a relação qualidadecusto de cada uma das propostas apresentadas?

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REPORTAGEM

E OS VENCEDORES SÃO!...

O programa do CNF 2016 terminou com a entrega de prémios aos três primeiros classificados, os quais receberam, também, muitos elogios e aplausos. Não fosse a elevada percentagem de cinzas, as três silagens de erva vencedoras estariam próximas da perfeição. Manuel Rovisco, em representação do vencedor: “É importante a genética das plantas a utilizar e, depois, logicamente, fazer o resto com todos os detalhes. A silagem que apresentamos é de um primeiro corte feito em dezembro. Mas além do corte, destaco a conservação. A nossa amostra é de uma silagem que, neste momento, tem oito meses. Está conservada em fardos cilíndricos e é um processo atento quer à partícula da semente, quer à compactação e recolha da fenossilagem, tentando evitar o que ainda é o nosso grande inimigo: as cinzas”.

1º PRÉMIO (1000 EUROS) PATROCINADO PELA LALLEMAND Vencedor: António Gonçalves, produtor de Elvas (Exploração Torre de Bolsa - 21 hectares de área para silagem erva) que concorreu com uma SE considerada excelente: MS=34,39%; pH=4,24%; CT=12,3%; PB=27,81%; PS=55,7%; N-NH3=8,3%; NDF=32,8%; DMO=76,5%; energia= 0,91 UFL.

“O concurso é um contributo importante, porque estamos perante um sector muito profissional e agressivo e tudo se resume à tentativa de dar maior rentabilidade à exploração. O concurso é um desafio para todos e leva-nos a pensar de outra maneira e a atingir outras metas, tentando fazer cada vez melhor. Além do concurso e dos prémios, é bom abrir-se esta oportunidade de diálogo entre produtores e profissionais do sector”.

2º PRÉMIO (700 EUROS) PATROCINADO PELA LUSOSEM Vencedor: Paula Maia, produtora de Vila do Conde (12 hectares de área para silagem erva), que, em 2015, ficou em terceiro lugar no CNF. Este ano, a sua SE tem uma qualidade ainda melhor: MS=48,4%; pH=5,06; CT=12,1%; PB=24,19%; PS=55,5%; N-NH3=9,6; NDF= 37,7%; DMO= 79,8%; energia= 0,96 UFL.

“Eu faço sempre da mesma maneira, não alterei nada, a não ser a altura da sementeira – semeei o mais rápido que pude, para ver se tirava vários cortes na erva. Consegui três cortes e concorri com o segundo corte. De resto, não fiz nada de especial. Como deixo os rolos no campo, pedi ao prestador de serviço que desse mais uma volta no rolo, três voltas no total”. “O concurso contribui, sobretudo, para nos motivar mais um bocadinho. Na situação em que está a produção de leite, dá-nos outro ânimo e incentivo para fazer melhor, reduzindo os custos.”

3º PRÉMIO (500 EUROS) (ENTREGUE PELA KUHN, PATROCINADOR OFICIAL DO CNF 2016) Vencedor: António Vieira Lima, produtor de Beja (95 hectares de área para silagem erva), cuja SE, também de grande qualidade, apresenta os seguintes valores: MS=37%; pH=4,16; CT=12,5%; PB= 25,9%; PS= 51%; N-NH3= 8,2%; NDF= 38,8%; DMO= 75,2%; energia= 0, 89 UFL.

“Tudo é importante, mas este ano melhorou muito a forma como são feitos os micro-silos. São feitos numas máquinas diferentes, de alta pressão, num processo muito rápido que evita a contaminação com oxigénio, fazendo com que a proteína fique mais preservada”. “Penso que o concurso é importante, na medida em que dá mais visibilidade à necessidade de aumentarmos a qualidade das forragens, de forma a baixar o custo da comida para o gado e aumentarmos a nossa competitividade”.

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REPORTAGEM

ASSOCIAÇÃO INTERPROFISSIONAL DO LEITE E LACTICÍNIOS

L0512

ANÁLISE DE ALIMENTOS PARA ANIMAIS Silagem de Milho Silagem de Erva Unifeed

ANÁLISES DE ÁGUAS PARA CONSUMO

CONTROLO DE QUALIDADE CLASSIFICAÇÃO: Pesquisa de Inibidores Contagem de Microrganismos Composição físico-química Contagem de células somáticas Determinação do ponto de congelação

CONTRASTE LEITEIRO: Composição físico-química Contagem de células somáticas LEITE E PRODUTOS LÁCTEOS: Análises microbiológicas Análises físico-químicas

Associação Interprofissional do Leite e Lacticínios RUMINANTES OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 13 Rua de Agreu, n.º 302 - Ordem . 4620 - 471 Lousada . T 255 820 070 . F 255 820 079 . www.alip.pt . alip@alip.pt


ALIMENTAÇÃO

ANTÓNIO GODINHO ASSISTÊNCIA TÉCNICA RUMINANTES – SORGAL antonio.godinho@sojadeportugal.pt

PRODUZIR CARNE DE QUALIDADE

Numa altura em que alguns sectores da produção animal nacional atravessam um período menos favorável, nomeadamente o da produção e comercialização de leite de vaca, tem-se observado uma conversão de algumas explorações leiteiras em explorações de novilhos de engorda.

Nestas situações, sendo a engorda de novilhos uma nova atividade, é natural que estes produtores ainda não a dominem por completo. Por outro lado, e para quem acompanha de perto as explorações de engorda, é comum atribuírem-se explicações e relações causa-efeito a determinadas situações que na maior parte dos casos, não têm suporte científico. Este artigo, não sendo exaustivo, procura por um lado informar os novos

produtores de carne de bovino, e por outro desmistificar alguns mitos que se encontram associados a esta atividade. A qualidade da carne é influenciada por um grande número de fatores, fatores estes que tanto podem estar relacionados com os métodos de produção como com os próprios consumidores. Neste contexto torna-se difícil definir o conceito de qualidade porque os atributos considerados importantes pelos consumidores (cor,

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ENQUANTO RESPONSÁVEIS NA CADEIA DE PRODUÇÃO DEVEMOS PRODUZIR AQUILO QUE O MERCADO PROCURA.

textura, suculência e flavour) encontram-se ligados à subjetividade humana e muito condicionados por fatores geográficos, sociais, comerciais e psicológicos. Apesar de hoje em dia já existirem vários métodos que permitem quantificar objetivamente esses atributos. Devido a tudo isto, é mais correto falar-se da qualidade percetível pelo consumidor. Avaliando as preferências do mercado nacional, verifica-se a preferência por carnes rosadas, magras e provenientes de animais jovens, geralmente com maturação inferior a 5 dias.


ALIMENTAÇÃO

São vários os fatores que afetam a qualidade da carne e que se podem resumir na Tabela 1. TABELA 1 Fatores que afetam a qualidade da carne QUALIDADE DA CARCAÇA PESO

CONFORMAÇÃO

ENGORDA

FATORES INTRÍNSECOS

Raça

***

****

Genótipo

**

****

**

Sexo

***

**

***

****

*

****

Idade-peso

***

FATORES PRODUTIVOS E DO MEIO AMBIENTE

Ambiente-Estação

***

0

**

Alimentação

***

*

****

DEFINIÇÃO DO CONCEITO DE QUALIDADE “Conjunto de características que conferem ao produto uma aceitação e um maior preço de mercado” “É a adequação do produto ao uso que se lhe vai dar”

FATORES DE ABATE E PRÉ-ABATE

Transporte-Stress-Jejum

*

0

0

“Conformidade com as exigências do comprador/cliente”

Abate

**

0

*

“É o poder de atração de determinado produto sobre o comprador e a capacidade para o satisfazer quando se torna consumidor”

PÓS ABATE E COMERCIALIZAÇÃO

Maturação

0

0

0

Refrigeração

*

0

0

Conservação

0

0

0

0: sem influência; *: baixa influência: **: influência moderada; ***: alta influência; ****: influência elevada Fonte: Gigena (2008)

PRODUTOR

OS FATORES OU CARACTERÍSTICAS DA QUALIDADE DA CARNE AGRUPAM-SE EM 5 GRUPOS 1 - Bioquímicos pH, capacidade de retenção de água, colagénio, estado e consistência da gordura, estado das proteínas, viscosidade, estabilidade oxidativa.

2 - Sensoriais ou organoléticos Cor, tenrura, suculência, exsudação, marmoreado, sabor, cheiro/odor.

3 - Nutricionais Valor proteico, aminoácidos essenciais, gordura, composição em ácidos gordos, vitaminas e minerais.

DIVERSOS PONTOS DE VISTA PARA ESTE MESMO CONCEITO

4 - Higiénicos e toxicológicos Garantia de não constituir risco para o consumidor.

“Pretende produzir animais que atinjam um nível ótimo de produção de acordo com os recursos disponíveis e que originem o máximo rendimento de carcaça”

TALHANTE “Pretende animais que deem boas peças de corte, que tenham boa aparência e longa vida de prateleira”

CONSUMIDOR “Que adquira ao melhor preço uma carne tenra, suculenta, saborosa, sã e de bom aspeto”

5 - Fatores de qualidade social Garantia da carne ter sido produzida tendo em conta o bem-estar animal e o meio ambiente.

Parâmetros sensoriais ou organoléticos determinantes da qualidade da carne bovina:

De todos estes fatores, os mais importantes sob o ponto de vista do consumidor serão os sensoriais ou organoléticos, muito embora os fatores de qualidade social estejam a ganhar cada vez mais relevância.

Na obtenção dos parâmetros sensoriais ou organoléticos determinantes da qualidade da carne bovina estão envolvidos todos os intervenientes da cadeia de produção; produtores, matadores, processadores e consumidores. É um sistema complexo e envolve tanto os aspetos produtivos como os tecnológicos. (Ver gráfico 1)

RUMINANTES OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 15


ALIMENTAÇÃO

QUADRO 1 Fatores que influenciam a qualidade da carne.

FATORES PRODUTIVOS

FATORES TECNOLÓGICOS

Fatores biológicos

Fatores produtivos

Abate

Fatores pós-abate

• • • • • • •

• • • • •

• • • •

• • • • • •

Espécie Raça Sexo Aptidão produtiva Idade ao abate Stress Tipo de músculo

Meio ambiente Maneio Sistema exploração Alimentação Patologia

COMPOSIÇÃO QUANTITATIVA

Transporte Receção / Reposo Desmancha Condições higiénicas

Arrefecimento Condições de rigor mortis Tempo de maturação Embalamento Exposição para venda Confeção

ESTRUTURA QUALIDADE DA CARNE

FATORES QUE INFLUÊNCIAM A QUALIDADE DA CARNE pH Ao produtor cabe a tarefa de orientar os seus esforços no sentido de produzir animais com a adequada composição tecidular. Por outro lado, após o abate, cabem aos matadouros e processadores os devidos tratamentos que visam melhorar a estrutura da carne, uma vez que é nesta fase que se podem manipular em grande medida os seus atributos sensoriais. Após o abate ocorre uma série de transformações as quais promovem a transformação do músculo em carne. Estas transformações ocorrem devido à falta de respiração e circulação sanguínea, impedindo a chegada dos aportes metabólicos às células. Nesta situação as células consomem as suas reservas de energia sob a forma de glicogénio e glucose muscular de forma anaeróbica e por consequência, aumentam

os níveis de ácido láctico no músculo. Este incremento de ácido láctico é a principal causa da descida do pH muscular. Quando as reservas musculares se encontram esgotadas, produz-se uma união irreversível da actina e da miosina, provocando contração muscular. É nesta fase que se instaura o rigor mortis e aumenta em grande medida a dureza, diminuindo a capacidade de retenção de água e aumentando a exsudação até às 24 horas após o abate. Isto significa que o rigor mortis provoca deterioração da qualidade da carne. Após esta fase, segue-se a maturação, que é caracterizada por uma série de modificações nas características sensoriais, um amolecimento progressivo, um ligeiro aumento da capacidade de retenção de água e do desenvolvimento dos aromas característicos. Uma maturação de 7 a 14 dias melhorará a qualidade

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organolética da carne. O maneio dos animais antes e durante o abate influencia o pH da carne e este por sua vez, as qualidades organoléticas da mesma, tanto pela sua evolução durante o período post mortem como pelo valor final do mesmo (+/- 24 horas após abate). Desta forma o pH é o principal fator objetivo da qualidade da carne, uma vez que está intimamente relacionado com os processos bioquímicos de transformação do músculo em carne, influenciando diretamente as características organoléticas do produto final. A relação entre a descida da temperatura e do pH da carcaça desde o momento do abate até se alcançar o pH final, reveste-se de grande importância. A descida destas duas variáveis deverá encontrar-se dentro dos seguintes valores: • pH > 6 se temperatura da carcaça > 35ºC • pH < 6 se temperatura da

carcaça entre 12ºC e 15ºC Se a temperatura do músculo atinge os 11ºC antes que o pH atinja os 6,2 (+/- 10 horas), os músculos contraem-se produzindo um fenómeno denominado “cold shortening”. Isto origina um aumento da dureza da carne, o qual não é possível melhorar com a maturação. O pH normal da carne situase entre 5,4 e 5,8. Se o animal sofre de episódios graves de stress antes do abate, dois tipos de defeitos poderão ocorrer na carne, o aumento para níveis elevados de pH, ou a sua descida demasiado rápida. No primeiro caso, os elevados de pH devem-se a um consumo elevado de glicogénio muscular antes do abate, impedindo que se alcancem os valores normais de pH final. Estas condições modificam a cor da carne tornando-a muito escura e seca, com aromas e sabores estranhos. Na segunda situação em


ALIMENTAÇÃO

que ocorre uma descida muito rápida do pH logo a seguir ao abate, verifica-se uma desnaturalização das proteínas, o que conduzirá a um tipo de carne com elevada exsudação de água, de cor muito clara e de textura muito mole.

COR É um dos atributos sensoriais mais importantes usados pelo consumidor no momento em que este decide efetuar a compra. Regra geral, o consumidor prefere carnes de cor rosada e brilhante, recusando carnes escuras, pálidas e/ou sem brilho. Vários autores mencionam que a luminosidade da carne depende de fatores tais como o pH, a capacidade de retenção de água, integridade da estrutura muscular e (em menor medida) do grau de oxidação das hemoglobinas e da gordura. Outros argumentam que a cor da carne depende do conteúdo e estado da mioglobina (principal pigmento da carne), do seu estado químico assim como da estrutura da superfície e da proporção de gordura intramuscular. A mioglobina reduzida de cor púrpura, encontra-se principalmente no interior do músculo e é predominante no momento em que se corta a carne. Quando entra em contato com o oxigénio do ar forma-se a oximioglobina, responsável pela cor vermelha e brilhante da carne fresca. Quando este pigmento se oxida transforma-se em metamioglobina, de cor vermelho/acastanhado e sem brilho. A proporção em que se encontram os diferentes estados da mioglobina na superfície da carne varia com o tempo de maturação e da atmosfera em contato com a carne, determinando a sua vida útil. Quando a metamioglobina atinge 20% na superfície da carne, 50%

dos consumidores recusam a carne.

Fatores que afetam a cor da carne ALIMENTAÇÃO Animais alimentados com pastagem apresentam carne mais escura do que a dos alimentados com concentrados, já que nestes últimos a menor idade ao abate bem como o incremento da gordura intramuscular tornam as carnes mais claras. IDADE Animais mais velhos apresentam maior quantidade de mioglobina do que os mais jovens originando carnes mais escuras. Por outro lado, ao aumentar a idade aumenta o estado de engorda e diminui a permeabilidade capilar, o que dificulta a transferência de oxigénio até às fibras musculares. Devido a isso, é necessária uma maior quantidade de mioglobina muscular para realizar o adequado aporte de oxigénio. No mesmo animal, existe uma grande variabilidade no conteúdo em pigmentos nos diferentes músculos, em função da composição de fibras vermelhas, ricas em mioglobina, ou fibras brancas, pobres em mioglobina. A atividade que desenvolvem os diferentes músculos também influência a coloração dos mesmos. Os músculos que desenvolvem maior atividade apresentam cor mais escura do que aqueles que estão submetidos a menor atividade. Exercendo a mioglobina funções de armazenamento e transporte de oxigénio necessário para o músculo, a sua concentração aumenta à medida que aumentam as necessidades em oxigénio. Devido a isto, a sua concentração é superior nos animais mais velhos.

MANEIO ANTES DO ABATE Tem uma grande influência na cor da carne devido ao efeito exercido sobre o pH da carne. O stress que os animais sofrem antes do abate reduz o glicogénio no músculo não permitindo a correta descida do pH. Geralmente, quando a carne fresca é cortada, a sua cor muda de púrpura a vermelho brilhante “blooming”. Quando o pH apresenta valores elevados ocasionados por um maneio desadequado, este processo não ocorre e as carnes permanecem escuras. Valores elevados de pH, e portanto elevada capacidade de retenção de água entre as cadeias proteicas, faz com que as fibras inchem e a superfície da carne reflita menos quantidade de luz. Quando o pH baixa para valores próximos do ponto isoelétrico das proteínas, perde-se capacidade de retenção de água, há união das cadeias de proteína dando origem a uma estrutura que impede que a luz penetre sendo esta refletida, o que origina uma carne mais clara.

TENRURA É o parâmetro mais apreciado da qualidade sensorial da carne e é a característica que determina a aceitação do produto e a repetição da compra por parte do consumidor. A tenrura é um atributo muito complexo no qual participam fatores inerentes ao animal e ao maneio que antecede e precede o abate, bem como à forma de preparação do produto. Encontra-se relacionada com as características e estrutura dos componentes da carne, nomeadamente do colagénio e das miofibrilas. As características de ambos, assim como o conteúdo em humidade e em gordura, bem como a quantidade e natureza das enzimas presentes no

músculo, são determinados por fatores produtivos, sendo estes os responsáveis pelo potencial de tenrura da carne.

Fatores que afetam a tenrura da carne Cerca de 40% da variabilidade da tenrura pode ser explicada por fatores ocorridos na exploração, enquanto os restantes 60% da dita variabilidade podem ser explicados por fatores que ocorrem durante o processamento da carne. Entre os diversos fatores que antecedem o abate e que afetam a tenrura da carne podem destacar-se os seguintes: IDADE DOS ANIMAIS AO ABATE Quanto mais jovens, maior é a tenrura. A concentração de colagénio não varia significativamente durante o crescimento do animal até ao abate, no entanto, o colagénio solúvel diminui com a idade e com isso a tenrura. MANEIO ANTES DO ABATE O stress sofrido antes do abate, reduz os níveis de colagénio no músculo, o que implica que após o abate o pH não desça o suficiente e com isso não permita a correta acidificação do músculo, fator importante para a obtenção dos adequados valores de tenrura. Por outro lado, a adrenalina ocasionada pelo stress, inibe o sistema proteolítico das calpaínas (enzimas) que seriam responsáveis pelo aumento da tenrura do músculo após o abate. TEMPERAMENTO Normalmente animais de temperamento mais calmo apresentam carnes mais tenras. ALIMENTAÇÃO A tenrura da carne bovina também é influenciada de forma significativa pela

RUMINANTES OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 17


ALIMENTAÇÃO

alimentação, principalmente na fase de acabamento. Dietas com elevados valores de proteína diminuem a deposição de gordura, dando origem a carnes mais duras. Por outro lado, um acabamento intensivo com dietas com alta concentração energética tem um efeito benéfico nas propriedades da carne, melhorando a palatabilidade e tornando-a mais tenra, mais suculenta e com melhor flavour. PROCESSAMENTO As condições nas quais decorre o rigor mortis (tais como a temperatura e a duração da maturação) e que desnaturalizam e favorecem a proteólise das proteínas miofibrilares e das proteínas sarcoplasmáticas, bem como as condições de confeção, podem alterar completamente a tenrura final da carne.

SUCULÊNCIA

A suculência define-se como sendo a perceção de humidade durante os primeiros momentos da mastigação, produzida por uma rápida libertação de suco e pela sua continuidade devido à libertação lenta do suco e ao efeito estimulador que a gordura exerce na secreção de saliva. Os fatores que influenciam a suculência da carne são aqueles que determinam

a qualidade da gordura no músculo e o estado das proteínas. No primeiro caso vão ser determinantes a raça, o sexo, a aptidão produtiva, a idade ao abate, o maneio e a alimentação. Animais de aptidão leiteira, ao serem raças mais precoces, depositam maior quantidade de gordura do que as raças de aptidão de carne, pelo que se forem abatidas com a mesma idade apresentam carne mais suculenta. O mesmo fenómeno ocorre com as fêmeas relativamente aos machos. Por outro lado, regimes alimentares ricos em energia durante a fase de acabamento produzirão maior acumulação de gordura, o que ocasionará carnes mais suculentas. Os fatores post mortem, principalmente as condições em que se estabelece o rigor mortis e a maturação, influenciam as características das proteínas e como tal na capacidade da carne reter a sua água constitutiva. Durante o rigor mortis produz-se uma contração dos músculos pelo que a água que se encontra entre as microfibras é libertada, aumentando a quantidade de suco libertado. Quanto maior o estado de contração do músculo maiores perdas de água se produzem. Por outro lado, a maturação da carne produz ligeiros aumentos da

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capacidade de retenção de água, o que contribui para um aumento da suculência.

“FLAVOUR”

Compreende as sensações de aroma e sabor, sendo um dos aspetos da qualidade da carne que contribuem para a sua aceitação por parte do consumidor. O flavour básico da carne encontra-se relacionado com compostos hidrossolúveis do músculo (açúcares, aminoácidos e nucleótidos) e são comuns em todas as espécies. Contudo, o flavour específico de cada espécie animal encontra-se geralmente associado à fração lipídica da mesma e aos diferentes compostos associados a ela. Embora a carne crua tenha sabor a sangue e muito pouco aroma, esta é um rico reservatório de precursores, que durante o processo de confeção originam um grande número de compostos voláteis que contribuem para o desenvolvimento do flavour percebido durante o momento de consumo. Entre estas reações cabe destacar as reações de degradação térmica que se produzem entre os açúcares, aminoácidos e nucleótidos presentes na carne crua, onde as reações Maillard a temperaturas entre 55ºC e 80ºC dão lugar a importantes compostos aromáticos. Por outro lado, também as reações de degradação da tiamina (Vit.B1) parecem ter grande importância na formação do flavour. A fração lipídica da carne é a responsável pela formação do flavour característico de cada espécie animal devido às reações de oxidação induzidas pelo calor. A composição em ácidos gordos da gordura é muito importante para o desenvolvimento do flavour característico da carne bovina, já que os ácidos gordos insaturados são mais

suscetíveis a sofrer processos de oxidação e dessa forma originarem compostos voláteis de baixo peso molecular como aldeídos, cetonas, hidrocarbonetos e álcoois, os quais contribuem para o aroma da carne. A raça e o sexo também influenciam o flavour da carne bovina, assim como todos aqueles fatores que durante o crescimento e a engorda dos animais e durante os tratamentos tecnológicos posteriores da carne possam produzir modificações da fração gorda da mesma. Por outro lado, a maturação da carne também exerce um efeito muito importante sobre a sua palatabilidade e sobre o desenvolvimento do flavour. Durante a maturação produzse um aumento do aroma da carne devido à degradação das proteínas e da gordura intramuscular.

CONCLUSÃO Produzir carne de qualidade implica ter alguns conhecimentos básicos de forma a que o produto que se produz se enquadre dentro dos gostos e das preferências dos consumidores, respeitando sempre a segurança alimentar, o bem-estar animal e o meio ambiente. Implica também o esclarecimento do consumidor face à orientação de alguns grupos prescritores de saúde pública contra o consumo de gorduras. Se bem que não sendo recomendáveis para alguns sectores da população, torna-se necessário informar o consumidor que a gordura confere sabor, qualidade e “bem saber fazer” e que aporta vantagens para a conservação, maturação e degustação da carne.


ATUALIDADES

PRODUÇÃO DE LEITE QUALIDADE E SUSTENTABILIDADE

IMAGEM 1 Luís Queirós, da empresa Lallemand Animal Nutrition.

e mais fáceis de ensilar. O seu fabrico é facilitado pela presença de uma quantidade significativa de açúcares solúveis, os quais atuam como “combustível” para assegurar a sua preservação durante todo o ano, além de possuir um baixo teor em proteína (normalmente inferior a 8%), o que facilita a obtenção de um pH baixo.

A empresa Alledier – Nutrição e Saúde Animal, Lda. realizou no passado mês de agosto, em Évora, um colóquio dirigido a produtores pecuários e técnicos do sector, no qual dois dos temas em destaque foram: “Dietas à Base de Silagem de Milho – Conceitos e Características”, sessão apresentada por Luís Queirós, da empresa Lallemand Animal Nutrition, e “A Importância da Qualidade da Silagem no Período Peri-Parto em Vacas de Alta Produção”, apresentada por Liam Aonghus O’Haisaeadh, da empresa Silostop.

A qualidade deveria encabeçar a lista de fatores de decisão aquando da compra de forragens já que, para as mesmas toneladas de forragem, diferentes teores de matéria seca (MS) ou amido terão consequentemente efeitos diferentes na produção leiteira, com maiores produções de MS por hectare associadas a maiores produções de leite. Por outro lado, para uma mesma produção de MS, a silagem que produzir mais quilos de amido terá como consequência maior produção de leite. A qualidade das forragens tem vindo a sofrer poucas alterações. Um estudo realizado no Reino Unido refere que, nos últimos 10 anos, se tem registado uma média de mais 1000 litros de leite produzidos por vaca e lactação, o que corresponde a um aumento de 16%. Destes 1000 litros, apenas 88 podem ser indexados ao aumento da qualidade de forragem, sendo os restantes 912 litros devido a melhorias nos campos da genética e nutrição. Nas palavras de Luís Queirós: A utilização de silagem de milho (SM) em dietas para vacas leiteiras é interessante porque os ruminantes são capazes de capturar a energia da fibra, a qual existe na SM com elevada qualidade. Além disso, esta silagem possui uma alta densidade energética, e é uma das forragens mais baratas de produzir

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Na sua sessão, Luís Queirós também incidiu sobre o tema do aumento da qualidade da silagem, abordando os milhos BMR (Brown Midrib ou de Nervura Central Acastanhada), os quais têm entre menos a 15 a 25% de produção por hectare mas, por outro lado, apresentam um aumento significativo da digestibilidade NDF (NDFD) e da digestibilidade de matéria seca (DMS), existindo já alguns estudos que apontam para um aumento da produção leiteira com estas variedades. Em termos agronómicos, estas variedades apresentam no entanto problemas de acamar, devido à sua menor quantidade de lenhina. Esse facto levou ao aparecimento no mercado de cruzamentos entre linhas parenterais puras BMR e linhas convencionais, os quais provocam uma diminuição dos valores de NDFD mas melhoram as características agronómicas. O corte do milho tem, como se sabe, uma enorme importância na produção de silagem. A shredlage é um tipo de silagem que teve como país de origem os EUA, onde a utilização de processadores de grão distintos, não apenas com rasgos longitudinais, mas também transversais, em forma de favo de mel, veio permitir o aumento do tamanho da partícula para 35 mm, com a mesma ou até melhor qualidade de processamento do grão. Estes rolos permitem não apenas obter um corte de partícula mais longo, juntamente com um processamento de grão bastante eficiente, mas também um corte longitudinal da silagem, o que, determinado por alguns estudos cientificos, permitiram um aumento da digestibilidade da fibra, com um


ATUALIDADES

consequente aumento da capacidade de ingestão. O shredlage pode ser uma boa opção, quando queremos optimizar ao máximo a utilização de silagem de milho na dieta. Este processador acaba por ter um efeito sobre a fibra, aumentando a digestibilidade do NDF, melhorando também a compactação devido a menor porosidade no silo, além de aumentar a atividade microbiana através da maior exposição celular. O objetivo final passa sempre por permitir incorporar mais fibra na dieta, ou utilizar mais silagem de milho na mesma. Estudos revelaram que a compactação da silagem de milho processada com o sistema shredlage é idêntica ou até melhor do que a da silagem normal em silos trincheira. Em jeito de conclusão, Luís Queirós referiu que dietas com percentagem elevada de silagem de milho podem ser administradas com sucesso a bovinos de leite, sendo a colheita e a conservação da qualidade da silagem os pontos-chave para o sucesso. A eficiência da fibra tem igual importância, e o processamento do grão é obrigatório, não devendo ser esquecido que as novas tecnologias são recorrentes, e o seu uso deve ser cuidadosamente equacionado. Focando-se na qualidade da silagem no período peri-parto de vacas de alta produção, Liam Aonghus, responsável da Silostop para a Ibéria, levantou a questão: Qual é o produtor que escolhe a forragem que vai dar a cada lote de produção? Não são muitos, apesar de a forragem constituir a base sobre a qual será construída a alimentação. As vacas com a produção mais alta deveriam por sua vez ter a melhor silagem. A forragem tem impacto na composição de alimentos compostos, ingestão de MS, produção e

qualidade do leite, bem como na saúde geral das vacas. De facto, nos estudos que apresentou, verifica-se que quanto maior é a percentagem de silagem estragada, menor é a ingestão de MS sendo que, sem silagem estragada a capacidade de ingestão é cerca de 2,35% do peso vivo e com 75% desta silagem a capacidade de ingestão torna-se inferior a 2,05%. O que deve então ser feito com a silagem contaminada? Reencaminhá-la para animais que não estejam a produzir, diluí-la na ração das vacas em final de lactação e destruí-la quando tiver mais de 2% de ácido butírico. E quando o objetivo é fazer silagens ótimas para vacas no período peri-parto, quais são os conselhos deixados por Liam Aonghus? Fazer a colheita no momento certo, fazer pré-fenação, prevenir flora que cause putrefação, utilizar inoculante com flora benéfica, compactar até atingir a densidade ótima e selar com a melhor tecnologia de barreira de oxigénio. A compactação deve ser feita em camadas de 10 cm, e o peso do trator deve representar no mínimo 25% do peso da forragem que entra por hora. O tempo ideal para abrir um silo é de 4 meses depois de o fechar, com um limite mínimo aceitável de 2 meses, sendo 40 dias um período admissível para quem usa inoculantes. Isto porque se uma silagem for feita a 25ºC, será necessário um período de 4 meses para que esta volte a atingir essa temperatura. Ter uma silagem quente quando se retira do silo para o unifeed não é um problema por si só, apenas o será se no comedouro a temperatura voltar a subir, depois de a silagem ter descido no unifeed.

FATORES QUE AFETAM A QUALIDADE NUTRICIONAL DA SILAGEM DE MILHO COMO AFETAM AS CONDIÇÕES AGRONÓMICAS? As condições meteorológicas antes e depois da polinização influenciam a qualidade da silagem. Antes, afeta a altura da planta (e produção) e qualidade da fibra. Clima mais seco leva a NDFD mais elevado, e clima mais húmido a NDFD mais baixo. Após a polinização o clima afeta a produção de grão e a DMS. Clima mais seco reduz a reposição de amido.

E O PROCESSAMENTO DO GRÃO? Quanto mais elevada for a MS, mais importante se torna o processamento do grão. A silagem de milho com mais de 30% MS deverá ser sempre corretamente processada. Todos os grãos devem estar partidos, 70% dos grãos devem estar partidos a meio ou ainda com menor dimensão (<4,75 mm). Não processar corretamente o grão tem um custo enorme para o produtor.

A DIGESTIBILIDADE RUMINAL DO AMIDO altera-se durante o tempo de fermentação. A matriz proteica que envolve o amido degrada-se tornando o amido mais disponível no rúmen. Aos 50 dias de fermentação a digestibilidade ruminal do amido será aproximadamente de 70% e aos 150 dias de aproximadamente 85-90%.

O COMPRIMENTO DA PARTÍCULA influencia a eficiência da fibra. Geralmente está entre os 7 e 19 mm, quanto mais perto estiver dos 19 mm mais será estimulada a ruminação. O corte homogéneo impede a seleção por parte dos animais. A carência de fibra leva a um desenvolvimento ruminal fraco, a uma menor ruminação e redução do tamponamento do rúmen, a acidoses e a redução de gordura no leite. “Fazer SM com 30% MS em vez de 35% permite ter mais 2 a 3 % de digestibilidade da fibra, mas menos 5 ou 6% de amido. O animal diminui a ingestão com 35% MS porque está a comer muito mais energia por unidade de MS (mais amido), e o animal regula a ingestão pelo consumo de energia”.

IMAGEM 2 Liam Aonghus, responsável da Silostop para a Ibéria.

RUMINANTES OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 21


ALIMENTAÇÃO

PEDRO CASTELO ENGº AGRÓNOMO, REAGRO SA. pedro.castelo@reagro.pt

ENGORDAS VITELOS HOLSTEIN A engorda de vitelos da raça Holstein tem sido uma opção interessante devido ao preço de aquisição do vitelo, à performance destes animais até aos 8 meses de idade e ao preço por quilo de carcaça pago ao produtor. Iremos descrever alguns aspetos importantes relativos ao programa alimentar destes animais. Ao longo desta descrição a engorda será dividida em duas fases: a) do nascimento ao desmame; b) do desmame até aos 8 meses de idade.

DO NASCIMENTO AO DESMAME No que diz respeito à primeira fase (do nascimento ao desmame), o principal objetivo é que os animais ao desmame tenham o dobro do peso que tinham à nascença, ou seja, 90 kg de peso vivo às 8 semanas (Ganho Médio Diário > 800 g). Nesta fase o vitelo passa de monogástrico a ruminante e devese preparar a fase pós-desmame. Espera-se um consumo de alimento concentrado – Starter – de 2 kg às 8 semanas. Relativamente à fisiologia, o vitelo à nascença é monogástrico e o abomaso tem uma capacidade de 2 a 3 litros, o que condiciona o consumo de leite. O rúmen desenvolve-se rapidamente, pois começa a produzir AGV (Ácidos Gordos Voláteis) 10 a 15 dias após o nascimento. No entanto, o forte desenvolvimento do rúmen ocorre entre as 4 e as 8 semanas de vida do vitelo 8 (figura 1).

A alimentação dos vitelos nesta fase deve ser composta por: produtos lácteos, água, concentrado e fibra. Nas primeiras semanas de vida, o leite ou o alimento lácteo é a principal fonte de energia e proteínas para o vitelo. Devido à fisiologia dos animais, nesta fase deve-se respeitar o programa de aleitamento. Segue-se um exemplo de um programa de aleitamento considerando o fornecimento em duas refeições por dia (figura 2).

FIGURA 1 Desenvolvimento dos compartimentos do estômago dos bovinos da nascença à fase adulta. 1ª semana

3 a 4 meses Esófago

Goteira esofágica

Esófago

Goteira esofágica Rúmen 25% Pilore

Pilore

Omaso 10%

Omaso 10%

Abomaso 60%

Rúmen 65%

Retículo 5%

Abomaso 20%

22 OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 RUMINANTES

Retículo 5%

FIGURA 2 Programa de aleitamento de vitelos para 2 refeições por dia.


ALIMENTAÇÃO

Deve-se colocar água à disposição do vitelo, a partir do 4º dia de vida, pois é indispensável para a hidratação, ajuda ao bom funcionamento do rúmen e favorece o consumo de alimento concentrado e fibra. Como podemos ver na figura 3, os animais que tiveram água à disposição obtiveram um ganho de peso superior às 4 semanas, consequentemente ingeriram mais quantidade de starter e houve menor ocorrência de diarreias, quando comparado com animais sem acesso a água. Água sempre disponível favorece o consumo de alimento concentrado e melhora as performances 8,4 0,41

5,2

O alimento sólido dará origem à produção de AGV (essencialmente C3 e C4, ou seja, ácido propiónico e ácido butírico) o que leva ao desenvolvimento e funcionamento ótimo das papilas e ainda é indispensável para cobrir as necessidades energéticas e proteicas do vitelo após o desmame. Como foi descrito anteriormente, das 4 às 8 semanas, devido ao aporte de fibras grosseiras (palha ou feno), ocorre um forte desenvolvimento do volume do rúmen levando a um aumento da capacidade de ingestão. Ao mesmo tempo que a capacidade de ingestão aumenta, dá-se o desenvolvimento acentuado das papilas, graças ao aporte de concentrado rico em glúcidos fermentescíveis e água, aumentando assim a capacidade de absorção (figura 5).

5,4

0,28

4,5

Consumo de Starter (Kg/dia)

Ganho de peso em 4 semanas (Kg)

Sem água

Frequência de diarreias (dias)

6 semanas Regime leite + concentrado

6 semanas Regime leite + feno

Água à descrição Fonte: Kertz et al, 1984

FIGURA 3 Estudo sobre as vantagens do acesso à água pelos vitelos.

No que concerne ao alimento concentrado, este é indispensável ao bom estabelecimento do ecossistema ruminal e desenvolvimento das papilas (figura 4). Em termos práticos, devese colocar à disposição desde os primeiros dias de vida, 2 vezes por dia para estimular a ingestão. O objetivo é que o consumo seja, aproximadamente, 150 g/dia às 3 semanas.

FIGURA 5 Desenvolvimento das papilas do rúmen.

A ingestão de alimento concentrado é fundamental para garantir bons níveis de crescimento após o desmame (fig. 6), sendo o objetivo um consumo de 2 kg por animal e por dia (figura 6).

Fibra • Desenvolvimento do volume do rúmen • Gestão do risco de acidose Bactérias Papilas

Água e concentrado são indispensáveis ao desenvolvimento da flora • mais bactérias => mais AGV => mais papilas

FIGURA 4 Alimentação e desenvolvimento do rúmen.

Ingestão de alimento starter (g MS / dia)

Evolução da quantidade ingerida de alimento sólido 2 500 2 000

Quantidade Alimento

1 500 1 000

Quantidade Fibras 500 0

0

10

20

30

40

50

60

Idade (dias) Fonte: Rey, 2012

FIGURA 6 Evolução da quantidade de alimento concentrado ingerido.

RUMINANTES OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 23


ALIMENTAÇÃO

DOS 2 AOS 8 MESES De seguida iremos apresentar um arraçoamento possível adequado para vitelos da raça Holstein, do desmame (2 meses de idade) até aos 8 meses com GMD (Ganho Médio Diário) de 1450 g, ou seja, dos 90 kg aos 350 kg de peso vivo. No que diz respeito à forragem considerámos palha, e o alimento concentrado foi desenhado em função da forragem disponível, da raça e da idade dos animais.

Segundo um estudo efetuado por Bach (figura 7), por cada 500 g de alimento starter ingerido antes do desmame, é induzido a um acréscimo de 350 g de ganhos médios diários. Quantidade de concentrado ao desmame e crescimento pós-desmame

Em relação aos preços da forragem e matérias-primas, considerámos preços atuais de mercado. De acordo com o nosso caderno de encargos, para o objetivo de produção definido, fizemos o arraçoamento (tabela 1) respeitando as recomendações da fase de engorda (que variam como é possível observar pela figura 8). Ao analisar o custo alimentar por quilograma de peso (1,18€ - tabela 1), é possível afirmar que do ponto de vista económico, uma engorda nesta fase e desta raça, pode ser bestante interessante.

2 1,75

+ 0,5 Kg de concentrado = + 350 g de GMD após desmame

Kg/dia

1,5 1,25 1 0,75 0,5 0,25 0 0 0,25 0,5 0,75 1

1,25 1,5 1,75

2

Consumo de concentrado ao desmame (kg/dia)

Ganho de peso dos tecidos em função do peso vivo

Fonte: Bach, 2014

FIGURA 7 Quantidade de concentrado ingerido e crescimento após o desmame.

A ingestão de fibra contribui para o desenvolvimento do volume ruminal. O seu consumo aumenta significativamente a partir da sexta semana de idade. A ingestão de fibra, mesmo que reduzida (cerca de 100 g diárias), permite limitar os riscos de acidose.

0

50 100 150 200 250 300 350 400 450 500 550 600 650 700 750 800

Músculo

Esqueleto

Tecido adiposo Fonte: Adaptado de Robelin, 1985

FIGURA 8 Ganho de peso dois tecidos em função do peso vivo.

Quantidade Alimentos

Kg

Características Nutricionais (/kg MS) MS

UFV

PB

PDIN

PDIE

PDIA

P

Ca

%

g

g

g

g

g

MB

MS

%

Palha

0,9

0,81

90,00

0,36

4,20

24,00

46,00

12,00

1,00

3,50

Farinha 90 - 350 Kg

5,49

4,82

87,88

1,12

18,20

132,23

126,20

66,48

5,34

11,81

Total

6,39

5,63

88,18

1,01

16,20

116,66

114,66

58,64

4,72

10,61

TABELA 1 Arraçoamento para vitelos da raça Holstein dos 2 aos 8 meses.

24 OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 RUMINANTES


RUMINANTES OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 25


ALIMENTAÇÃO

No que concerne à energia (tabela 2) o arraçoamento apresenta um nível energético elevado para compensar o nível de ingestão reduzida.

Através da observação da tabela 5, podemos verificar a eficácia técnica do arraçoamento. Tendo em conta o consumo médio, este arraçoamento leva a, pelo menos, 1450 g diárias de crescimento.

BALANÇO ENERGÉTICO

BALANÇO EFICÁCIA TÉCNICA

Unidade

Unidade

UFC (Unidade Forrageira Carne)

UFC/Kg MS

1,01

Total UFC/Animal/Dia

UFC/Animal/Dia

5,68

Amido

% MS

34,90

Amido + Açucar

% MS

GMD Permitido pelo UFC

1450

g/Dia

GMD Permitido pelo PDIN

1600

g/Dia

GMD Permitido pelo PDIE

1570

g/Dia

GMD Permitido pelo Ca

1500

g/Dia

38,65

GMD Permitido pelo P

1450

g/Dia

GMD Limitante

1450

g/Dia

Glúcidos Rápidos

% MS

19,35

Matéria Gorda Bruta

% MS

3,33 TABELA 5 Eficácia técnica do arraçoamento.

TABELA 2 Balanço energético do arraçoamento.

Relativamente à proteína (tabela 3), é fundamental nesta fase um nível elevado e que a proteína seja de qualidade e equilibrada em termos de aminoácidos e de degradabilidade (DT). A proteína bruta (PB) representa a matéria azotada total enquanto a DT representa a proporção de matéria azotada total degradada no rúmen. A matéria azotada total contribuirá para a proteossíntese microbiana depois da degradação em amoníaco. A produção de proteínas microbianas no rúmen (PDIM) poderá ser limitada pela energia fermentescível (PDIME) ou pela proteína degradável (PDIMN). BALANÇO PROTEICO

Através da observação da tabela 6, podemos concluir que o arraçoamento dos 90 kg aos 350 kg de peso vivo apresenta um custo alimentar médio de 1,71 €/animal/dia (310 € por vitelo em 6 meses de engorda).

BALANÇO ECONÓMICO Unidade Custo Ração/Animal/Dia

1,71

€/Animal/Dia

Custo Ração/Kg Crescimento

1,18

€/Kg Crescimento

Unidade Proteina Bruta

% MS

16,20

PDIN

g/Kg MS

116,66

PDIE

g/Kg MS

114,66

PDIA

g/Kg MS

58,64

DT

%

65,96

TABELA 3 Balanço proteico do arraçoamento.

TABELA 6 Balanço económico..

CONCLUSÃO

No que diz respeito ao balanço de fibrosidade (tabela 4), o arraçoamento apresenta valores bastante aceitáveis de forma a não causar problemas digestivos. BALANÇO FIBROSIDADE NO RÚMEN Unidade Fibra Bruta

% MS

12,5

NDF

g/Kg MS

29,27

ADF

g/Kg MS

15,13

IF

g/Kg MS

30,09

TABELA 4 Balanço de fibrosidade do arraçoamento.

26 OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 RUMINANTES

Em conclusão, este tipo de engorda parece ser bastante interessante do ponto de vista técnico-económico. Esta afirmação baseia-se no preço de aquisição deste tipo de vitelo, muito inferior quando comparado com animais de raças de carne, e da relação custo/beneficio durante a engorda nesta fase. Esta é a fase em que existe um melhor potencial económico no crescimento, pois os GMD são aceitáveis e o consumo ainda não é exageradamente elevado. O único aspeto negativo, será a preparação para a fase pós-desmame, que é uma fase sensível e, por isso, necessita de maior atenção.


ALIMENTAÇÃO

SUBSTITUIÇÃO DE AMIDO POR SACAROSE EFEITOS NA DIETA DE VACAS EM LACTAÇÃO Introdução de alimentos líquidos diretamente no unifeed Foto: Filinto Girão Osório

Na sequência do nosso artigo “Em busca do teor correto de amido” da edição anterior, continuamos a procurar o equilíbrio que maior rendimento gera ao produtor no que toca aos teores de amido e açúcares. As dietas à base de silagem de luzerna, bem como a maioria das silagens à base de erva, contêm altos níveis de azoto não proteico e outras fontes de Proteína Degradável no Rúmen (PDR) de acordo com Muck et McDonald, 1990. Quando tais dietas são fornecidas, a taxa de fermentação energética no rúmen poderá

ser demasiado lenta para permitir que os organismos ruminais sintetizem proteína a partir da PDR rapidamente disponível, resultando em desperdício. Assim sendo, a inclusão de alimentos líquidos com altos teores de sacarose aumenta em grande medida o proveito da proteína de origem microbiana. Os açúcares fermentam mais rapidamente do que o amido no rúmen, tornando-se em energia rapidamente disponível para a flora ruminal aumentando os teores de proteína microbiana em até 18% (NRC, 2001) quando comparados com flora ruminal que degrada amido proveniente de pastone. No estudo em que se baseia este artigo, o autor quis aferir o nível de substituição de amido por açúcares no qual se

28 OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 RUMINANTES

obtém o maior rendimento de proteína microbiana, aumento da capacidade de ingestão de matéria seca, aumento no teor da gordura do leite, aumento no teor proteico do leite associado também a um aumento de produção e por fim e não menos importante a redução de desperdício na forma de ureia reduzindo o seu teor no leite e na urina. Administraram-se quatro tipos de tratamentos para aferir o seu resultado, sempre com 16,8% de proteína bruta na matéria seca e 30% de NDF (Fibra em Detergente Neutro). Os melhores resultados foram obtidos com teores de amido na ordem dos 24,5%, portanto uma categoria de inclusão média de acordo com o nosso último artigo (24-27%) e com inclusões de alimentos líquidos até perfazer 7,5% de

sacarose na MS que originou um teor de açúcares totais de 10% da matéria seca. Os resultados obtidos são extraordinariamente animadores e atestam sobre como a inclusão passo a passo de açúcares promove inúmeros benefícios. Foi possível observar aumentos na produção de leite bem como na sua qualidade. Em particular aumentou o consumo de matéria seca, aumentaram os teores de proteína e gordura no leite, reduziram-se os teores de ureia tanto no leite como o excretado pela urina. O aumento do teor de gordura aquando da substituição de amido por sacarose foi aparentemente mediado pelo incremento de energia consumida. A estes benefícios soma-se também a redução da escolha na manjedoura, a redução do risco de acidose ruminal, a redução de pó nos comedouros e não menos importante o aumento da digestibilidade da fibra. A substituição de amido na dieta por sacarose tem sido apontada como um fator de melhoria da produção em vacas de leite.

NOTA Baseado numa revisão do artigo ”Effect on Production of Replacing Dietary Starchwith Sucrose in Lactating Dairy Cows” de G. A. Broderick, N. D. Luchini, S. M. Reynal, G. A. Varga, and V. A. Ishler (2008)


ATUALIDADES

Aumente até aos 6% de açúcares na matéria seca da dieta e aumente a produção das suas vacas!

Melhora o rendimento Aumenta a produção Melhora a qualidade do leite

MERCADO DE VITELA: PARA ALÉM DA EUROPA A produção e consumo de carne de vitela está enraizada na Europa, com 600 000 toneladas (equivalente carcaça) produzidas anualmente, com especial relevo para a França e Itália. A Holanda, além de se encontrar entre os maiores consumidores, é também um dos principais produtores, exportando grandes volumes para outros estados membros. Este é um mercado que tem potencial para se estender além das fronteiras do continente europeu, com os Estados Unidos e a China, esta última onde a classe média tem vindo a ganhar maior importância social e poder de compra, a surgirem cada vez mais como futuros destinos de exportação. Para que este crescimento se dê, no entanto, é necessário que sejam feitos investimentos-chave no sector. A produção de vitela constitui uma fonte de rendimento adicional para o sector leiteiro, mas não foge à crise que este ainda vive. É então imperativo estimular a procura e consumo desta carne, em paralelo com o incentivo ao consumo dos outros produtos da indústria leiteira. A má imagem ainda mantida por alguns consumidores no que toca às condições de bem-estar dos animais pode ser um obstáculo a este incentivo, apesar da produção de carne de vitela ter sofrido mudanças substanciais nos últimos anos, como a crescente utilização de forragens e concentrados em detrimento do uso compulsivo de leites de substituição na alimentação dos animais, tendência a manter-se mesmo com os atrativos e atuais preços baixos do leite em pó. Os investimentos feitos em termos de sanidade animal também têm crescido, e o foco na prevenção de doenças como as pneumonias tem gradualmente vindo a afastar-se do uso massivo de antimicrobianos, integrando-se numa abordagem mais holística. Esta reforma do sector terá indubitavelmente de passar também pelos produtores, visando incentivar a injeção de sangue novo num sector envelhecido, exigindo igualmente reformas a nível tecnológico e estrutural.

Redução do pó e da escolha dos animais nos comedouros

Diminuição do risco de acidose ruminal

Fonte de energia imediata

Aumento da ingestão de matéria seca

www.edfman.com

Melhora a digestibilidade da fibra

Av Antonio Serpa, 23-7º 1050-026 Lisboa Telef: +351 21 7801488 Fax: +351 21 7965230 Email: lisbon@edfman.com

RUMINANTES OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 29


FORRAGENS

BETERRABA FORRAGEIRA EM PORTUGAL

Beterraba com 4 meses

Situação atual

POR GONÇALO CANHA, TÉCNICO DA LUSOSEM, S.A. gcanha@lusosem.pt

Na edição nº20 da Ruminantes lançámos as Primeiras Notas sobre “Beterraba forrageira, como produzir? “. Na altura, referimos que durante a campanha de inverno de 2015/2016 procuraríamos conhecer melhor a cultura nos nossos condicionalismos, para que esta solução possa ser uma alternativa viável para os produtores agropecuários nos próximos anos. Aqui estamos, passados nove meses, a dar notícias sobre os nossos ensaios e experiências.

O tempo que decorreu desde que nos dedicámos mais intensamente à cultura da beterraba forrageira permitiu acumular conhecimentos, identificar oportunidades e obstáculos. A introdução de semente certificada peletizada e protegida com fungicida adequado (Florimond Despres/SesVanderHave) foi o maior salto qualitativo para a cultura e que, associada a uma melhor preparação de solo, permitiu a utilização de semeadores pneumáticos monogrão, tendo-se obtido uma ótima distribuição da semente e regularidade da emergência das plântulas. O inverno chuvoso não permitiu a sementeira no período ideal para a instalação da cultura. No entanto, os solos mostraram boa apetência para a cultura, permitindo um bom desenvolvimento da raiz. A proteção com inseticida de solo foi suficiente para não se terem registado problemas com pragas de solo. A principal dificuldade, que já se antevia, residiu no controlo das infestantes. O herbicida de pré-emergência é fundamental, bem como o momento de aplicação dos herbicidas de pós-

30 OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 RUMINANTES

-emergência. Este aspeto é ainda mais relevante se tivermos em consideração que as parcelas alvo das explorações leiteiras têm habitualmente elevados teores de matéria orgânica e elevada pressão de infestantes decorrente da aplicação no solo do estrume produzido na exploração. Ainda sobre este tema, a qualidade da pulverização também será um ponto importante a rever. Se no sul do país a evolução do conhecimento e dos equipamentos de pulverização tem sido grande, no centro e norte ainda há muito para evoluir. Frequentemente, os equipamentos existentes não permitem uma aplicação uniforme dos herbicidas, o que no caso da beterraba é particularmente importante, quer pelo risco de fitotoxicidade para a cultura, quer pela curta janela de oportunidade em que as infestantes são controláveis. Quanto à produtividade e rentabilidade, os atrasos nas sementeiras não permitem ainda identificar as variedades com maior interesse agronómico, nutricional e económico, mas esta informação estará disponível antes do início da campanha de 2017.


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ECONOMIA

E eis que após um susto, tudo voltou para valores mais simpáticos...

OBSERVATÓRIO DAS MATÉRIAS PRIMAS POR JOÃO SANTOS

O verão de 2016 nos Estados Unidos foi literalmente como diz a canção da já falecida Ella Fitzgerald, “Summertime, and the livin’ is easy, Fish are jumpin’ and the cotton is high”, ou seja, não sei se as condições climatéricas foram perfeitas para o algodão, mas para a soja, o milho e o trigo traduziram-se em rendimentos recordes por hectare. Em abril, vimos a chuva na Argentina fazer a soja e o milho subirem dos preços mínimos de há vários anos. À medida que as semanas iam passando e o tempo era benigno no hemisfério norte, em particular a partir de julho, os preços voltaram a retroceder em força para valores perto dos de março, antes das chuvas na Argentina, que levaram a uma perda de rendimento, especialmente na soja. Estamos agora no final de setembro, com um nível de stocks finais novamente confortáveis e, como tal, com preços relativamente baixos. Para os que gostam de ter uma referência de como vão os fundos, cerca de 100 mil

contratos de Chicago de soja estão longos, e cerca de 150 mil contratos de milho e trigo estão short.

Proteínas Se no último Observatório de Matérias Primas o assunto chave foi as chuvas na Argentina durante o mês de abril, que tiveram como consequência uma perda de rendimento de 5 milhões de toneladas, o numero final está nos 56.8 milhões. As condições particularmente favoráveis durante todo o verão nos Estados Unidos, conduziram a um rendimento recorde de 50.6 bushels/acre. Recuperámos assim um nível de stock final confortável. Não foram só noticias boas pelo lado da oferta, na procura também se viu uma redução/abrandamento do crescimento do consumo: i) na Europa, a substituição do milho pelo trigo nas fórmulas a partir de junho/julho conduziu a alguma redução de consumo de soja, pelo diferencial de proteína do trigo, ii) o ritmo desenfreado

COLHEITAS MUNDIAIS milhões de tm

14/15

15/16

16/17

319,0

313,0

330,4

77,6

72,9

72,2

24 %

 23 %

 22%

1.008,8

959,0

1026,6

208,2

209,3

219,5

21 %

                22 %

                21 %

SOJA Produção mundial Stocks finais

de importação de soja a que assistimos por parte da China no segundo trimestre, abrandou no terceiro trimestre devido a alguma substituição do milho pelo trigo, à alteração na política pública de stock por parte das autoridades e a margens de extração de soja pouco favoráveis. A China representa cerca de um terço da procura mundial de soja. Ao mesmo tempo, os agricultores argentinos continuam a vender a soja a bom ritmo com as suas fábricas a trabalhar no máximo da capacidade quando, tradicionalmente, reduzem o ritmo assim que começa a campanha nos Estados Unidos. Assim, temos agora abundância de farinha de soja, e a preços relativamente baixos. Ou seja, esta colheita nos Estados Unidos já é história, os olhos estão agora postos na sementeira do Brasil e Argentina, e no seguimento da evolução da procura na China. As farinhas de colza e girassol acompanharam a descida da soja, mas em termos de €/ponto de proteína perderam alguma competitividade em relação à soja. Há que acrescentar que a sua procura está a ser pressionada pelo ddg/cgfp e os cereais.

MILHO Produção mundial Stocks finais Fonte: USDA s&d Set16 reporte

32 OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 RUMINANTES

Cereais Quanto ao trigo, a colheita deste ano do hemisfério norte

foi muito boa em termos de quantidade. Exceptuando a UE e a China, todos os outros países tiveram colheitas recordes, e como consequência disso temos stocks finais recordes que se traduzem num rácio stock finais produção de 33%. Tendo ainda em conta as chuvas do final da primavera no nordeste da Europa, que tiveram como consequência uma grande abundância de trigo forrageiro, conclui-se que, para se conseguir escoar este trigo terá que competir com o milho, que também se espera que venha a ter uma colheita excelente. Assim, durante este verão e início de outono, vemos o trigo a ser vendido a um desconto do milho de cerca de 10 euros/TM. Os preços que se praticam na comercialização do milho hoje e para 2017 anda a volta dos 170€/TM. Sabemos, por experiência, que os mercados podem mudar rapidamente de direção quando aparecem noticias adversas. No entanto, com o atual nível de stocks finais de trigo e milho, há folga para o próximo ciclo de colheitas correr menos bem. Fica uma reflexão para os agricultores portugueses: será que a sua estrutura de custos lhes permite concorrer com o nível atual de preços? No caso do milho, poderá ser melhor orientar para milho silagem, ou para oleaginosas? E porque não olhar seriamente para as culturas


EVOLUÇÃO DO PREÇO DE MATÉRIAS PRIMAS

2011

PREÇOS MÉDIOS SEMANAIS NO PORTO DE LISBOA DE 2011 A 2016 MILHO

2012 2013 2014

BAGAÇO SOJA 44

2015 2016

€/ton 600

€/ton 310

550

290

500

270

450

250 400 230 350

210

5 a 9 Dez

19 a 23 Dez

7 a 11 Nov

21 a 25 Nov

10 a 14 Out

24 a 28 Out

26 a 30 Set

29 a 2 Set

12 a 16 Set

1 a 5 Ago

15 a 19 Ago

4 a 8 Jul

18 a 22 Jul

6 a 10 Jun

20 a 24 Jun

9 a 13 Maio

23 a 27 Maio

11 a 15 Abr

25 a 29 Abr

28 a 1 Abr

12 a 16 Mar

13 a 17 Fev

27 a 2 Mar

30 a 3 Fev

5 a 9 Dez

19 a 23 Dez

7 a 11 Nov

21 a 25 Nov

10 a 14 Out

24 a 28 Out

26 a 30 Set

29 a 2 Set

12 a 16 Set

1 a 5 Ago

15 a 19 Ago

4 a 8 Jul

18 a 22 Jul

6 a 10 Jun

20 a 24 Jun

9 a 13 Maio

23 a 27 Maio

11 a 15 Abr

25 a 29 Abr

28 a 1 Abr

12 a 16 Mar

13 a 17 Fev

27 a 2 Mar

30 a 3 Fev

2 a 6 Jan

250 200 16 a 20 Jan

170 150

2 a 6 Jan

190

16 a 20 Jan

300

de nicho, mas com escala, uma vez há uma tendência crescente para as chamadas “ancient seeds” e Portugal tem para algumas delas condições ideais? Para terminar, e mantendo-me ignorante em matéria de Forex, diria que, apesar de todas as noticias de possíveis subidas de taxas de juro nos Estados Unidos e noticias tendencialmente menos boas da economia e política europeia, a taxa de cambio do euro contra o dólar tem-se mantido nos últimos meses no intervalo de 1.11-1.14. Assumindo que vai manter-se neste nível, temos que ter ainda em conta que em nove dos últimos 10 anos, os futuros de Chicago da soja tiveram os preços mínimos do ano no final de setembro e inicio de outubro. O que não significa que seja neste período que os países de destino vejam tradicionalmente os preços mais baixos. Em relação aos cereais, há muito trigo, há muito milho, mas os valores à volta de 170€/TM são historicamente bons. Lembramos, em particular para o milho, que pode haver direitos de importação caso o cálculo de uma importação teórica de milho americano chegar a valores equivalentes a estes ou ligeiramente mais baixos. Assim, e para terminar numa nota similar às das anteriores crónicas, diria que o foco tem que estar na manutenção de uma estrutura de custos competitiva e que, em relação a compras, deve-se ponderar o racional/oportunidade de fechar margem contra as vendas (a preço fixo) do respectivo produto final.

RUMINANTES OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 33


ECONOMIA

Começam a surgir boas notícias vindas dos gigantes do leite mundial, ainda que bastante incertas.

OBSERVATÓRIO DO LEITE POR INÊS AJUDA Fontes: Rabobank, LTO, USDA

Na Europa prevê-se finalmente uma diminuição da produção em relação ao ano anterior, sendo que a Eurostat declarou que a colheita de leite no mês de junho diminuiu consideravelmente, sendo o primeiro valor desde o fim das quotas, em março de 2015, a apresentar-se mais baixo que o ano anterior (Gráfico 1). Esta diminuição deve-se maioritariamente ao efeito de um continuo aumento dos stocks mundiais com uma falta de acompanhamento da demanda. Esta diminuição coincide também com uma altura na qual a União Europeia anunciou um conjunto de subsídios destinados a uma diminuição da produção de leite, pagando aos produtores para não produzirem mais do que 5% da sua produção habitual. Países como a França reforçaram ainda estes subsídios com dinheiro do orçamento nacional. Produção de Leite na União Europeia ajustada sazonalmente

410 400 390 380 D

ez Fe 13 v -1 A 4 br Ju 14 n -1 A 4 go O - 14 ut D 14 ez Fe 14 v -1 A 5 br Ju 15 n -1 A 5 go O - 15 ut D 15 ez Fe 15 v -1 A 6 br Ju 16 n -1 6

Milhões de litros por dia

420

Fonte: Estimativas AHDB

GRÁFICO 1 Estimativas elaboradas pela AHDB (Conselho de Desenvolvimento da Agricultura e Horticultura do Reino Unido) em relação à produção de leite na União Europeia de dezembro de 2013 a junho de 2016

Aliada à diminuição da produção de leite, as principais empresas europeias de produção de leite têm vindo a anunciar um aumento do preço pago ao produtor. A FrieslandCampina anunciou em setembro que o preço do leite será de 26,25 € por 100 quilos de leite (um aumento de 1,25 € em relação a agosto deste ano). Já a Lactalis vai pagar 29 € por 100 litros de leite comprados entre agosto e dezembro deste ano.

34 OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 RUMINANTES

Antes do antecipado pico de produção em outubro, a produção na Nova Zelândia continua diminuída em relação ao mesmo período do ano passado (1%) e na Austrália produziu-se menos 8,8% do que no mesmo período do ano passado. Apesar do aumento de preços anunciado no último trimestre pela Fonterra, não se prevê um aumento em relação ao ano passado do pico da produção de leite na Nova Zelândia, devido à falta de reservas hídricas, à recuperação penosa dos últimos meses e à diminuição no número de animais. Na Austrália, a valorização do dólar Australiano tornará as exportações mais difíceis, pelo que também não se espera um aumento do número de litros de leite em relação ao ano passado. Os Estados Unidos são o único “gigante” cuja produção se espera que continue a crescer. Em julho deste ano a produção aumentou 1,4% em relação ao ano passado. Os grandes grupos da indústria leiteira Americana, Dairy Management e National Milk Producers Federation, pintaram um cenário bastante positivo para o mercado americano, prevendo uma subida na produção de leite, lenta mas constante. O Conselho de Produtores da

Califórnia confirmou ainda a forte possibilidade do aumento da produção dos próximos meses, afirmando mesmo assim que, apesar do aumento na produção não crê que este será suficiente para cobrir a diminuição da produção dos outros grandes produtores. Esta afirmação traz então mais esperança para o balanço do mercado leiteiro. Outro fator importante no balanço dos mercados prende-se no facto de a China estar a atravessar uma fase de cheias e seca em vários pontos do país, o que prejudica a produção interna de leite, ao mesmo tempo que o crescimento económico do país, apesar de ter abrandado, continuar a levar a um aumento da demanda de produtos como o leite. Para os grandes produtores do outro lado do mundo, como a Fonterra na Nova Zelândia e a Murray Goulburn na Austrália, a diminuição da produção na Europa é essencial para uma melhoria dos preços do leite. Já a Europa teme o pico de produção vindo da Oceânia, em outubro. Vários fatores decidirão o desenrolar da próxima metade do ano, mas desde o início da crise do sector do leite que é a primeira vez cuja confiança numa melhoria é partilhada pelos quatro cantos do globo.


ECONOMIA

PREÇO DO LEITE STANDARDIZADO (1) PAÍSES

LEITE À PRODUÇÃO

PREÇOS MÉDIOS MENSAIS EM 2015/2016

COMPANHIA

PREÇO DO LEITE (€/100KG) JULHO 2016

MÉDIA DOS ÚLTIMOS 12 MESES (4)

ALEMANHA

Alois Müller

23,65

25,59

Contin.

Açores

Contin.

Açores

Contin.

Açores

DINAMARCA

Arla Foods

24,51

27,22

JULHO

0,277

0,289

3,62

3,63

3,17

3,04

Danone

31,55

32,04

AGOSTO

0,278

0,290

3,67

3,65

3,16

3,05

Lactalis (Pays de la Loire)

27,48

29,53

SETEMBRO

0,281

0,297

3,75

3,78

3,23

3,14

Sodiaal

28,96

31,53

OUTUBRO

0,283

0,294

3,80

3,89

3,26

3,25

Dairy Crest (Davidstow)

24,50

29,95

NOVEMBRO

0,283

0,293

3,85

3,92

3,26

3,24

Glanbia

21,02

22,48

DEZEMBRO

0,282

0,297

3,84

3,92

3,24

3,24

Kerry

22,93

24,69

JANEIRO

0,283

0,293

3,82

3,88

3,21

3,20

Granarolo (North)

36,35

37,62

FEVEREIRO

0,277

0,285

3,82

3,70

3,21

3,17

DOC Cheese

20,25

23,59

MARÇO

0,279

0,281

3,84

3,70

3,24

3,20

FRANÇA INGLATERRA IRLANDA ITÁLIA HOLANDA

N. ZELÂNDIA EUA

EUR/KG

TEOR MÉDIO DE MATÉRIA GORDA (%)

TEOR PROTEICO (%)

24,24

27,06

ABRIL

0,281

0,278

3,74

3,73

3,21

3,22

25,39

27,68

MAIO

0,277

0,273

3,76

3,73

3,19

3,21

Fonterra

25,96

20,12

JUNHO

0,277

0,268

3,72

3,76

3,16

3,17

EUA (3)

35,05

33,19

JULHO

0,272

0,265

3,62

3,72

3,12

3,11

FrieslandCampina

PREÇO MÉDIO LEITE

MESES

(2)

2016

Fonte: LTO (1) Preços sem IVA, pagos ao produtor; Preço do leite de diferentes empresas leiteiras para 4,2% de MG e 3,4 de teor proteico • (2) Média aritmética • (3) Ajustado para 4,2% gordura, 3,4% proteina e contagem de células somáticas 249,999/ml • (4) Inclui o pagamento suplementar mais recente

Fonte: SIMA Gabinete de Planeamento e Políticas

PROTEÍNA BRUTA É COISA DOS ANOS 80. A ciência e a tecnologia mudaram adaptando-se aos novos tempos. E a sua forma de formular, também se adaptou? Estratégias e formulações nutricionais adequadas frente àquelas já obsoletas, marcam a diferença entre explorações leiteiras, especialmente quando se trata de nutrição proteica. Encontrar a estratégia mais eficaz na formulação com base em aminoácidos para cada exploração e contexto económico, só se pode fazer com aqueles produtos biodisponíveis realmente fiáveis. Para trás ficam os dias em que nos centrávamos somente nos níveis de proteína bruta. Devemos reformular as nossas dietas até alcançar níveis adequados de lisina e metionina com o objectivo de melhorar os custos de produção e a eficiência proteica (rentabilidade da ração), ao mesmo tempo que nos preocupamos pelo meio ambiente. Formular com Smartamine ®, Metasmart ® e LysiPEARL™ permitirá alcançar “grandes rentabilidades”. Reformule as suas dietas. De agora em diante, mais não significa melhor, no que diz respeito à proteína bruta. Para mais informação sobre estes produtos, por favor contacte a Kemin Tel + 351 214 157 501 ou +351 916 616 764 - www.kemin.com MetaSmart® is a Trademark of Adisseo France S.A.S. 2015_advert Smartmilk_port.indd 1

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RUMINANTES OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 35


ECONOMIA

ÍNDICE VL e ÍNDICE VL-ERVA “CADA VEZ MAIS DIFÍCIL A SITUAÇÃO DOS PRODUTORES DE LEITE EM PORTUGAL” POR ANTÓNIO MOITINHO RODRIGUES, DOCENTE/INVESTIGADOR, ESCOLA SUPERIOR AGRÁRIA DO INSTITUTO POLITÉCNICO DE CASTELO BRANCO CARLOS VOUZELA, DOCENTE/INVESTIGADOR, DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS DA UNIVERSIDADE DOS AÇORES/CITA-A NUNO MARQUES, REVISTA RUMINANTES

Analisamos neste número da Ruminantes os Índices VL e VL - ERVA para o período de maio a julho de 2016. De acordo com os dados do SIMAGPP (2016) durante o trimestre em análise o preço médio do leite pago aos produtores individuais do continente variou entre 0,277 €/kg em maio e 0,272 €/kg em julho (-1,3% relativamente ao preço médio do leite no trimestre anterior), enquanto que o preço médio do leite pago aos produtores individuais da Região Autónoma dos Açores variou entre 0,273 €/kg em maio e 0,265 €/kg em julho (-4,5% relativamente ao preço médio do leite no trimestre anterior). De acordo com dados do MMO (2016), a média de preços do leite pago ao produtor no período de maio a julho de 2016 foi superior em Portugal (0,273 €/kg) quando comparado com a média europeia (0,259 €/kg). De referir que esta situação ocorre pela primeira vez desde que a revista Ruminantes publica o índice VL. Com exceção da cevada grão, o preço médio das principais matérias-primas que entram na formulação dos alimentos compostos utilizados neste trabalho sofreu um aumento acentuado durante o trimestre. Destacam-se o bagaço de soja44 e o bagaço de colza cujos preços médios aumentaram, respetivamente, 31,1% e 22,0% relativamente ao trimestre anterior. Esta situação provocou um aumento de 13,2% no preço do alimento composto tipo no continente o que influenciou o custo com a alimentação da vaca leiteira tipo que aumentou 7,9%. Na Região Autónoma dos Açores, embora o preço do alimento composto tipo tenha aumentado 11,0%, o aumento verificado não teve influência no custo do regime alimentar que, no seu todo, teve uma variação de -1,7% como consequência da inclusão de maior quantidade de pastagem no regime alimentar das vacas a partir de abril. A evolução do preço do leite e dos custos da alimentação refletiu-se no Índice VL e no Índice VL

- ERVA que em julho de 2016 foi, respetivamente, de 1,458 e de 1,874. De referir que em julho de 2015 o Índice VL havia sido de 1,454 e o Índice VL ERVA de 2,098. Um índice inferior a 1,5 (valor muito baixo) indica forte ameaça para a rentabilidade da exploração leiteira; um índice entre 1,5 e 2,0 (valor moderado) indica que a produção de leite é um negócio economicamente viável; um índice maior do que 2,0 (valor elevado) indica que estamos perante uma situação muito favorável para o sucesso económico da exploração (Schröer-Merker et al., 2012). Durante o trimestre em análise, o Índice VL atingiu o valor mínimo de 1,458 pelo que se pode concluir que os produtores de leite do continente se encontram num momento difícil, abaixo do limiar da rentabilidade da exploração. A situação tenderá a agravar-se se o preço das matérias primas que entram na formulação dos alimentos granulados continuar a aumentar e se o preço do leite produzido continuar a ser muito baixo. É importante referir que o Índice VL-ERVA (1,874 em julho) reflete uma realidade mais adequada à ilha de S. Miguel onde, independentemente de a produção de leite ser maior (cerca de 60% da produção leiteira dos Açores), os preços pagos ao produtor são mais elevados do que nas restantes ilhas do Arquipélago, fruto da existência de concorrência entre várias unidades de transformação. No futuro, em função de uma valorização da qualidade de leite produzido em pastagem iniciada por apenas uma fábrica de transformação na ilha de S. Miguel poderá repercutir-se no aumento do preço do leite ao produtor, o que na realidade não se aplicará às restantes 8 ilhas dos Açores. No entanto, é de louvar esta iniciativa, esperando que a mesma seja seguida por outras fábricas ou cooperativas que incorporem esta mais valia nos preços do leite e dos seus derivados.

EVOLUÇÃO DO ÍNDICE VL

O Índice VL é influenciado pela variação mensal do preço do leite pago ao produtor no continente e pelas variações mensais dos preços dos alimentos que constituem o regime alimentar da vaca leiteira tipo (concentrado 9,5 kg/ dia; silagem de milho 33 kg/dia; palha de cevada 2 kg/dia). Valor do Índice VL

DE JULHO DE 2015 A JULHO DE 2016 Os valores são influenciados pela variação mensal do preço do leite pago ao produtor individual do continente (Índice VL) e da Região Autónoma dos Açores (Índice VL - ERVA) e pelas variações mensais dos preços de 5 matérias-primas utilizadas na formulação do concentrado e dos outros alimentos que integram o regime alimentar da vaca leiteira tipo. ÚLTIMOS 13 MESES

ÍNDICE VL

ÍNDICE VL ERVA

ABRIL

1,787

2,252

MAIO

1,540

2,285

JUNHO

1,515

2,272

JULHO

1,454

2,098

AGOSTO

1,491

2,099

2015

SETEMBRO

1,519

2,168

OUTUBRO

1,586

2,206

NOVEMBRO

1,565

2,130

DEZEMBRO

1,605

2,227

1,611

2,198

FEVEREIRO

1,612

2,081

MARÇO

1,608

1,813

ABRIL

1,587

2,105

MAIO

1,478

1,929

JUNHO

1,460

1,859

JULHO

1,458

1,874

JANEIRO

2016

2,0

Valores do Índice VL

DE JULHO DE 2012 A JULHO DE 2016

EVOLUÇÃO DO ÍNDICE VL e ÍNDIVE VL-ERVA

1,5

1,0 julho 2012

Limiar de rentabilidade

36 OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 RUMINANTES

julho 2016

Negócio saudável

Forte ameaça para a rentabilidade da exploração


ECONOMIA

EVOLUÇÃO DO ÍNDICE VL-ERVA DE JULHO DE 2013 A JULHO DE 2016 O Índice VL – ERVA é influenciado pela variação mensal do preço do leite pago ao produtor na Região Autónoma dos Açores e pelas variações mensais dos preços dos alimentos que constituem o regime alimentar da vaca leiteira tipo (primavera/verão 60 kg/dia de pastagem verde, 10 kg/dia de silagem de erva e de milho, 5,6 kg/dia de concentrado; outono/ inverno 47 kg/dia de pastagem verde, 13,3 kg/ dia de silagem de erva e de milho, 6,7 kg/dia de concentrado).

Valores do Índice VL Erva

3,0

2,0

1,5

1,0 julho 2013

Valor do Índice VL

NOTAS: • Comparando com o mês de julho de 2015, em julho de 2016 o preço do leite pago aos produtores do continente foi inferior em 0,5 cêntimos/kg e leite pago aos produtores dos Açores foi inferior em 2,4 cêntimos/kg. A política de preços baixos, situação que se mantém desde a primavera de 2015, está a afetar a produção de leite nacional. Não havendo alterações a esta política Portugal tornar-se-á, também

Limiar de rentabilidade

relativamente a este produto alimentar, muito dependente das importações; • Durante o trimestre, a evolução do preço das principais matérias-primas que entram na formulação dos alimentos compostos contribuiu para o aumento do preço dos regimes alimentares formulados para o cálculo do Índice VL (+7,9%). No entanto, não afetou o custo do regime alimentar formulado para o cálculo do Índice VL – ERVA que

julho 2016

Negócio saudável

Forte ameaça para a rentabilidade da exploração

teve uma pequena variação de -1,7%; • No trimestre em análise os preços dos alimentos forrageiros utilizados na formulação do regime alimentar não apresentaram diferenças representativas relativamente ao trimestre anterior; • As três considerações anteriores refletem-se no Índice VL e no Índice VL - ERVA que em julho de 2016 foram, respetivamente, de 1,458 e 1,874.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: Não foram incluídas por uma questão de espaço editorial, mas os autores disponibilizam bastando enviar um email para geral@revista-ruminantes.com.

RUMINANTES OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 37


FORRAGENS

“HÁ UMA VISÃO DE CONQUISTA NESTA EQUIPA” JOÃO PAULO CRESPO, DIRETOR-GERAL DA FERTIPRADO

Vontade de querer saber. Foi com base neste pressuposto que a Fertiprado foi fundada em 1990 pelos filhos de David Crespo, Engenheiro Agrónomo, que dedicou a vida ao estudo de sistemas de produção animal baseados na melhoria de pastagens e forragens, primeiro no INIA, em Elvas, e posteriormente na FAO. A Herdade dos Esquerdos, onde está situada a sede da Fertiprado, esteve no inicio deste projeto e continua a servir como laboratório a céu aberto para testar, validar e operacionalizar conceitos e técnicas desenvolvidas por uma equipa multidisciplinar liderada por João Paulo Crespo, um experimentalista por natureza. POR MARIA LUÍSA FERRÃO (JORNALISTA)

FOTO João Paulo Crespo e Manuel Rovisco

Quando olha para trás como analisa o percurso da empresa? Penso que aquilo que sempre nos caracterizou foi um certo espírito experimentalista no sentido de assumirmos desafios que nos levaram a entrar em terrenos desconhecidos. Instalámos na Herdade dos Esquerdos um projeto 797 de prados permanentes, que na altura, anos oitenta, era uma área descredibilizada. Tinha havido falhanços porque existia uma lógica de tudo pago, não interessa se faz bem ou mal. Ninguém fez projetos desta natureza com a convicção de que se iriam melhorar as pastagens. E as coisas feitas sem convicção não funcionam. Este fenómeno também se passou em Espanha e, curiosamente, com os mesmos resultados.

Em 1986, iniciei a minha atividade de jovem agricultor e o IFADAP dava 60% a fundo perdido para qualquer agricultor instalar prados . Tratava-se de um investimento fundiário, com uma majoração de jovem agricultor, que ia até aos 75%, e não havia candidaturas a projetos desta natureza. O nosso, penso que foi o único incidindo nesta área, consistia em “agarrar” numa herdade de 287 hectares, Os Esquerdos, que, na altura, tinha 300 ovelhas sendo o objetivo aumentar o efetivo para 1000. Foinos dada a oportunidade. Começámos a verificar que, à medida que aumentávamos a área de prados permanentes de trevo subterrâneo e as ovelhas, tínhamos mais pastagem a sobrar, ou seja, sobrava mais pastagem com 1000 ovelhas do que com 300. Quando começámos a ter estes

38 OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 RUMINANTES

resultados pensámos fundar a Fertiprado, aqui no Alentejo. Não tínhamos estrutura empresarial nem experiência comercial mas, passo a passo, fomos evoluindo, primeiro com os prados permanentes, ao inicio compostos apenas por algumas variedades de trevo serradela, e mais tarde desenvolvemos e lançámos no mercado outros produtos, como as forragens e as misturas anuais. Foi sempre uma preocupação combatermos o facto de cumprirmos projetos de uma forma consequente e sustentável. Sempre tivemos os objetivos bem definidos, os parceiros certos e a preocupação de que o projeto se transformaria numa atividade que continua e que se sustenta a si própria. Os projetos de I&D são um instrumento e não um fim. Quais são os projetos de I&D que têm em curso? De há dois anos a esta parte, temos em curso três projetos, todos relacionados com a genética vegetal, uma das nossas áreas fortes. O NOVINOC em que temos como parceiros o INIAV e a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Este projeto visa a obtenção de estirpes de rhizobium nacionais mais eficientes para a sustentabilidade das pastagens e a ideia é selecionar estes “inoculantes” e multiplicálos para aplicação nos nossos produtos. Depois temos o MICROPROPELITE, um


FORRAGENS

projeto em parceria com o Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier (ITQB), na pessoa do Professor Pedro Fevereiro, que visa multiplicar in vitro plantas de várias espécies com características extraordinárias. Estas são clonadas por forma a garantirmos um maior número de plantas com a mesma genética. Posteriormente, as plantas que resultam deste processo de replicação são agrupadas em ambiente isolado para produzirem semente. Assim, apuramos a genética e aceleramos o melhoramento das plantas, através de uma técnica que temos vindo a melhorar ao longo dos anos. O outro projeto que temos em curso, também com o INIAV , chama-se PERSLEG e tem como objetivo validar a qualidade de variedades e a preferência dos animais pelas espécies que nós já selecionámos num projeto anterior. Basicamente, as variedades são semeadas em determinadas parcelas e estas são pastoreadas por um grupo de ovelhas identificadas com GPS. A ideia é conseguirmos contabilizar o tempo de permanência de cada ruminante em cada parcela podendo, assim, aferir acerca da preferência do animal. Os vossos ensaios estão mais orientados para o valor nutricional da planta ou estão mais direcionados para a produção de nutrientes por hectare? Sabe-se que as leguminosas são conhecidas pela sua capacidade de produção de proteína e que este nutriente é atualmente o requisito nutricional mais importante para a pecuária de ruminantes na Europa. Não tendo a Europa muitas fontes de proteína, o desafio é conseguir produzir forragens, que são fortes em fibra, capazes de serem fortes também em proteína. Melhorar a alimentação dos animais e contribuir para melhorar a fertilidade dos solos. Por exemplo, se pusermos uma dose de 80 unidades de azoto por hectare numa gramínea, como o azevém, vamos obter um nível de proteína muito elevado, mas também sabemos que vamos mandar nitratos e nitritos para o subsolo que são contaminantes ambientais. Além disso, o azoto de síntese é bastante caro e só uma parte é aproveitada pelas plantas. Portanto, é necessário potenciar a produtividade dos solos dentro das suas limitações, respeitando o ambiente, e as leguminosas têm um papel importante.

Além de olharem para a adaptação das variedades aos solos, a Fertiprado também se preocupa em saber quais as variedades preferidas dos animais (neste caso ovelhas com projeto PERSLEG). Já é possível tirar conclusões? Ainda é cedo para tirarmos conclusões sobre a preferência gastronómica das ovelhas face às variedades em causa. Sabemos que um rastreio feito pelo gosto dos animais tem valor dado que são eles os consumidores. À partida, se o animal prefere e come mais, também vai produzir mais. Também é preciso ter em conta o ciclo vegetativo da planta. Ao longo do seu crescimento os parâmetros nutricionais vão variando, diferentes níveis de proteína e de digestibilidade, e é óbvio que os animais, podendo escolher, optam por variedades diferentes em alturas diferentes. Aqui num ambiente controlado e na própria natureza.

integrar nas misturas, temos que conhecer bem qual será o estado fenológico e as características nutricionais em determinada altura. Convém que os animais tenham à disposição uma dieta diversificada, assim como nós. Tentamos que exista uma complementaridade nas misturas que fazemos nos prados permanentes que requerem mais adaptação ao solo. No que respeita às forragens é importante também ter esta diversidade e qualidade e essa preocupação já existe na cabeça dos produtores pecuários, sobretudo nos produtores de vacas de leite e também em algumas engordas. No passado, a dieta do efetivo pecuário era baseada em palha e ração. Hoje em dia os produtores têm alternativas mais económicas, dar proteína integrada na fibra, e, por isso, as misturas forrageiras são uma área de negócio muito importante na Fertiprado.

Como selecionam as variedades que pretendem estudar? Primeiro tentamos conhecê-las através de uma avaliação agronómica da planta. Avaliamos o porte, a sua adequação a diferentes nichos de utilização, as características nutricionais, e também a estimativa de produção de semente entre outros parâmetros. Normalmente, recorremos a laboratórios externos. No que toca às plantas forrageiras e, nomeadamente aquelas que vamos

Qual é o vosso portefólio? A Fertiprado começou por vender os prados permanentes na zona do Alentejo, Beira Baixa e, posteriormente, em Espanha. Depois, o contacto com os produtores de vacas de leite, e a nossa própria experiência com os ovinos de leite, aqui na herdade dos Esquerdos, levou-nos a apostar em sementes para forragens anuais. Atualmente, este é um produto muito importante ao qual procuramos dar diferenciação com a ajuda

FOTO João Paulo e David Crespo, Manuel Rovisco

RUMINANTES OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 39


FORRAGENS

da tecnologia. Procuramos que o produto “forragens anuais” tenha mais proteína e maior digestibilidade. O produto “prados permanentes” é também um dos mais importantes do nosso portefólio e aqui há um grande potencial para crescermos, principalmente nas regiões do sudoeste da Península Ibérica onde temos umas centenas de milhares de hectares de prados permanentes feitos ao longo de 26 anos. Depois temos os prados anuais e bianuais, as misturas anuais, as misturas de revestimento de proteção de solo, que podem ser misturas intercalares, como segunda cultura, como a rotação com o milho e o sorgo. Há variedades nossas que estão a ser utilizadas na Alemanha e em França onde, após uma colheita de trigo, é semeada uma planta anual com o objetivo de proteger o solo, fixar azoto atmosférico e combater os ciclos de doenças de outras culturas. O Greening tem permitido a abertura desses mercados para a genética que desenvolvemos na Fertiprado. Na Argentina e no Uruguai esta prática já é regulamentada e obrigatória, com o objetivo de proteger os solos. Estamos também a ensaiar várias espécies de biofertilizantes, um mercado com pouca expressão na Europa, que está bastante mais evoluído nalguns países da América Latina. Em termos de marcas penso que o Speedmix é aquela que tem maior notoriedade, embora o Avex e o Tritimix sejam já bem conhecidas dos consumidores. Isto depende dos mercados. Outras marcas da Fertiprado têm evoluído bem noutros mercados.

A Fertiprado dá acompanhamento técnico aos clientes? Temos uma equipa técnica distribuída praticamente pelo território onde trabalhamos. Pessoas bastante dedicadas e que conquistam a confiança dos utilizadores. Tentamos ter um conjunto de distribuidores, confiados na qualidade do produto e na equipa, e apostamos na relação com empresas de distribuição. É preciso dar informação ao cliente. Posso dizer que no Alentejo, a Fertiprado deve ter antecipado, em quinze dias no calendário, as sementeiras das pratenses à conta de informação transmitida como “semeie cedo porque os solos têm que estar quentes, as terras não podem arrefecer porque o rhizobium não funciona”. Foram muitos anos a dizer a mesma coisa mas a mensagem está entendida. No que toca à seleção dos produtos é importante a visão do comercial, do técnico e do distribuidor que conhece as necessidades do cliente. Procuramos estar perto do agricultor. Fazemos dias de campo, visitamos os agricultores ao longo de todo o ano, organizamos e participamos em palestras em diversos sítios com a finalidade de explicarmos os conceitos e os procedimentos técnicos. Penso que temos cumprido. Como aconteceu a internacionalização da empresa? Assim que terminaram as barreiras alfandegárias entrámos em Espanha e colocámos, na altura, um colaborador a fazer prospeção de clientes desde o sul da Andaluzia até ao norte da Extremadura. Ainda hoje temos clientes desse tempo a trabalharem connosco. Hoje estamos presentes em toda a Espanha e vimos melhorando a nossa posição no mercado. Também já entrámos em Itália há alguns anos com várias estratégias diferentes. Posso dizer que atualmente exportamos mais para Itália do que importamos, situação que não se verificava no passado. No mercado francês, um mercado competitivo e muito exigente, também estamos a crescer em parceria de longo prazo com uma empresa local. Já há notoriedade e reconhecimento da marca Fertiprado em França, fruto de um trabalho conseguido em conjunto com parceiros locais. Depois estamos a vender os nossos produtos para empresas alemãs, suíças, americanas e, no ano passado, exportámos o primeiro contentor de trevo da pérsia, uma produção nossa, para a Austrália.

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Como olha para o futuro da empresa? A Fertiprado tem crescido e abarcado algumas áreas de mercado sempre do micro para o macro. Primeiro, começámos com os prados, depois passámos para as misturas anuais, produção de semente com variedades que estavam órfãs e que nós recuperámos para a vida. Entretanto, começámos um processo de breeding, há 9 anos, que já se autoalimenta, depois passámos por projetos de internacionalização, onde tentámos fortalecer a marca, através de uma atitude coerente nos diferentes mercados. Queremos crescer geograficamente no Mediterrâneo, dentro e fora da Europa. Ao longo destes últimos anos temos vindo a construir um património de conhecimento que nos permite continuar a ter vontade de expandir. Há uma visão de conquista nesta equipa. A área das leguminosas é uma área muito importante porque estas são recuperadoras de solos e há problemas de erosão de solos no mundo. As leguminosas são excelentes culturas intercalares pela capacidade que têm de fixar o azoto e pela estrutura do sistema radicular que deixam. Queremos apostar na diversidade das leguminosas, principalmente. Há outros players de sementes europeus muito fortes em gramíneas. Nós também temos as nossas fortalezas em gramíneas, principalmente pelas excelentes parcerias que vamos consolidando mas, que eu tenha conhecimento, ninguém tem a fortaleza da Fertiprado em leguminosas pratenses e forrageiras mediterrâneas. Temos que apostar naquelas que são as nossas vantagens competitivas até porque elas têm um espaço enorme para crescer. No entanto, nunca deixámos de prestar uma atenção especial à região onde estamos inseridos. Este ecossistema do Alentejo, o montado, é quase perfeito para fazer pecuária de qualidade e baixo custos. Há muitas explorações de boa dimensão no sul de Portugal e de Espanha, desde a beira-baixa à província de Salamanca, passando por Castilla-La Mancha e por aí baixo, até ao campo de Gibraltar. Esta é a zona da Europa com maior dimensão fundiária, ideal para a prática da pecuária em extensivo com baixos inputs. É preciso potenciá-la ao nível do melhoramento genético vegetal e animal com a ajuda da tecnologia que já está ao nosso alcance. Creio que este é o nosso grande desafio e está mesmo aqui à porta.


PRODUÇÃO

UMA EXPLORAÇÃO EM NÚMEROS Entrevista a Filipe Vendeiro POR RUMINANTES

A Sociedade Agrícola Estrela do Alto Minho, localizada em Esposende, Braga, estende-se através de uma área de 30 hectares nos quais, além de ser produtor de leite para a Agros, produz também forragens de milho, erva e luzerna, com maquinaria própria. Este é um negócio familiar, onde o gosto pela produção leiteira está enraizado. Filipe Vendeiro herdou esse mesmo gosto dos pais, sócios da exploração, e é sobre ele que recai a tarefa de gerir o negócio, algo que faz com bastante prazer. A análise e gestão dos dados, confessa, têm para si um agrado especial, sobretudo face aos bons resultados que têm vindo a ser atingidos, e dedica em média 8 a 9 horas diárias de trabalho para que estes se mantenham. Atualmente com 201 animais e 101 vacas em produção, a Sociedade conta ainda com dois empregados, um deles a tempo inteiro, para além da mão-de-obra familiar. Para Filipe, o seu maior desafio

enquanto produtor é primar pela eficiência e rentabilidade do negócio, pelas quais gostaria de ser reconhecido. Esse desafio levou a que introduzisse o programa ProCROSS na sua exploração, e foi aí que recebeu a Ruminantes, revelando os motivos pelos quais decidiu enveredar por esse caminho e fazendo um balanço dos resultados atingidos. Há quanto tempo decidiu investir no Vigor Híbrido? E porquê? Este investimento começou em maio de 2010. Sempre gostei de vacas mais pequenas e robustas, algo que privilegiava mesmo na seleção de Frísias, e esse era também um fator determinante na escolha dos touros. Outro fator era o elevado intervalo entre partos na exploração que, em 2010, era de 450 dias. Na altura vi uma publicação acerca do ProCROSS e suas vantagens numa edição da Ruminantes, que me incentivou a pesquisar um pouco mais

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acerca deste programa, e a visitar também algumas explorações, o que me levou então a tomar esta decisão. Que diferença encontra nestes animais? São animais muito bons em termos de saúde quando em comparação com as Holstein. Por exemplo, os casos de mamite e problemas de úngulas são bastante escassos. A fertilidade também melhorou significativamente, algo notório principalmente porque já não utilizo sémen de Hostein, mas apenas de Montbeliard e de Sueca Vermelha. Considero que os maus resultados reportados no sector das Holstein puras se devem em grande parte a emparelhamentos mal feitos e touros inadequadamente escolhidos com, por exemplo, maus índices de fertilidade. Como se comportam os animais cruzados na ordenha? São vacas mais “severas” nos primeiros dias, mais agitadas, mas acalmam após


PRODUÇÃO

um período de habituação ao sistema. As produções de leite destes animais cruzados são semelhantes às dos Holstein puros? Quando comparamos animais nas mesmas condições, com o mesmo número de dias em lactação e de lactações, as ProCROSS produzem mais, algo que se torna particularmente notório a partir da segunda lactação. Os dados técnicos destes animais são iguais aos das Holstein? Comparando os dados com os de há 4 anos atrás, em que utilizávamos Holstein puras, o intervalo entre partos melhorou substancialmente. Além disso, as Holstein eram refugadas mais cedo e tinham mais problemas de saúde, como mamites, o que se refletia em maiores custos na área de saúde animal. Qual a média de produção diária por vaca? Estamos com uma média de 30 litros nesta altura do Verão, mas a média anual é de 32 litros. Existem diferenças em termos de saúde animal? Sim, notamos uma menor necessidade de intervenção veterinária. Considerando problemas como doenças metabólicas, motoras e reprodutivas, o custo anual das vacas cruzadas é de 51€ por vaca, enquanto nas Holstein esse valor atinge os 91€. No caso particular das mamites, as vacas ProCROSS têm custos anuais de 0,56€, contrastando com 13€ por vaca Holstein. Recomendaria tecnicamente este modelo para a produção de leite nesta região? Estamos bastante satisfeitos com o programa, com o qual temos atingido bons resultados. Penso que atualmente muitos produtores estão reticentes quanto à adoção deste programa devido ao medo da mudança, quer pelo facto de haver ainda muito receio e ideias negativas associadas, quer face à conjetura atual, que não é muito

convidativa à mudança, a correr riscos. Considera que as expetativas foram cumpridas? Sim. No início decidi aplicar o ProCROSS nas piores vacas, que eram animais com baixas produções e maus índices de fertilidade e, nas suas filhas, os bons resultados suplantaram os resultados de boas vacas Holstein. Isso levou-me a aplicar o programa nas melhores vacas da exploração, prática que mantenho ainda hoje. Quanto às outras vacas Holstein, são geralmente inseminadas com Montbeliard, Sueca Vermelha e Limousine. Nota alguma diferença entre os vitelos puros e cruzados? Em termos de maneio, não. Ao desmame, no entanto, os vitelos cruzados são animais mais robustos, com menos problemas. Apesar de serem vendidos mais caros, são também mais facilmente vendidos, rendendo em média 150€ aos 2 meses de idade, o que constitui uma mais-valia económica. Que indicadores utiliza para gerir a exploração? Vigio de perto os dados reprodutivos, com uma frequência semanal, focando-me em indicadores como o intervalo entre partos e número de vacas gestantes. Considero como valores ideais de intervalo entre partos os 365 dias, e uma média de 2,5 I.A. por vaca gestante, com sémen sexado. Sempre que temos animais problemáticos, com valores inadmissivelmente aquém dos pretendidos, estes são excluídos. Também me foco nos volumes de produção e teores de proteína e gordura do leite. Qual é a coisa de que mais se orgulha no que diz respeito à exploração? Em primeiro lugar, os bons resultados que temos vindo a obter, os quais são um reflexo do nosso investimento e trabalho árduo. A organização da exploração é também algo de que me orgulho, especialmente tendo em conta que é uma exploração antiga com bastante história.

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DADOS DA EXPLORAÇÃO PROCROSS Total Animais Adultos %: 27,00 Idade Média (Meses): 39,3 Idade Média 1º Parto (Meses): 23,14 Taxa renovação Anual %: 35,9 REPRODUÇÃO Intervalo Partos (Dias): 374 (450 dias em 2012 com Frísias) I.A. Vaca Gestante Sémen Sexado: 3,9 (5 em 2012 com Frísias) I.A. Novilhas Gestantes: 1,9 (2,4 em 2012 com Frísias) Média dias 1º Cio: 43 Taxa deteção cios %: 69 Média dias 1ª I.A.: 53 Dias em Aberto: 94 Média dias de Gestação: 275 Custo Vaca Gestante €: 27,00 (sémen sexado das diversas raças) PRODUÇÃO E QUALIDADE DE LEITE Produção 305 Dias: 8845 Média Produção Diária Leite: 29 Proteína %: 3,28 Gordura %: 3,33 Células Somáticas ( x 1000): 174 SAÚDE ANIMAL Doenças Metabólicas (€/vaca/ano): 4,2 Mamites (€/vaca/ano): 0,56 Problemas Motores (€/vaca/ano): 4,8 Apoio Reprodutivo (€/vaca/ano): 31 Taxa mortalidade dos Vitelos %: 11


SAÚDE E BEM-ESTAR ANIMAL

RUMINANTES SAUDÁVEIS

GEORGE STILWELL CLÍNICA DAS ESPÉCIES PECUÁRIAS FACULDADE DE MEDICINA VETERINÁRIA, UNIVERSIDADE DE LISBOA stilwell@fmv.ulisboa.pt

A PRODUÇÃO DE RUMINANTES NA AUSTRÁLIA

Em junho passado percorri a Austrália. Ou, devo dizer, percorri um bocadinho da Austrália, já que um país com 762 milhões de hectares não se visita assim sem mais nem menos. Nestas minhas deambulações tive a oportunidade de apreciar a imensidade das pastagens, a qualidade dos animais e a simpatia dos criadores e técnicos ligados à produção de ruminantes. Foi uma experiência única que resolvi partilhar aqui. Realmente espaço não falta na Austrália. Não só o país é enorme como a quase totalidade da sua população (90% dos cerca de 23 milhões de habitantes) vivem nas cidades e vilas ao longo da costa sul, este e sudoeste. E mesmo aí não se sente nenhum aperto.

Apesar desta imensidão é de referir que pouco mais de 10% dos solos da Austrália servem para semear culturas ou pastagens… mas mesmo assim sempre são 80 milhões de hectares. Esta relativa pobreza dos solos, associado ao clima tropical ou temperado em quase todo o território ocupado pela agricultura, faz com que a produção de ruminantes em extensivo seja a principal atividade da pecuária – os ruminantes são especialistas a sobreviver com o (pouco) que a terra dá e nunca precisam de um teto por cima da cabeça. São exceções apenas pequenas zonas do sul e sudoeste em que a fertilidade dos solos permite explorações mais intensivas – zona onde está a produção leiteira – e todo o

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IMAGEM 1 Manada de novilhas cruzadas de Brahman e touros europeus.

miolo do continente que é tão desértico que é praticamente impossível produzir seja o que for. Esta variedade geoclimática também justifica a densidade e o tipo de animais que vamos encontrando. No total são criados cerca de 30 milhões de bovinos adultos. A ocupação do território por ruminantes é muito variável podendo ser de 2 ou 3 bovinos por hectare nas zonas mais ricas até 1 bovino por 50 hectares no noroeste. Nas zonas mais a sul predominam as


SAÚDE E BEM-ESTAR ANIMAL

IMAGEM 2 Vaca Angus. Nas regiões a sul os pastos mais ricos permitem a exploração da raças precoces europeias.

raças de bovinos de carne de origem europeia (Bos taurus). Os primeiros animais trazidos pelos colonos ingleses eram quase todos de raça Hereford, mas esta raça tem perdido o predomínio nos últimos anos a favor da Angus.

Com menor relevância vimos algumas manadas de Charolês, Murray Grey e Shorthorn. Quanto ao norte quente e seco e nas regiões tropicais, predomina a espécie Bos indicus, tendo a raça Brahman e os seus cruzamentos a quase exclusividade. O sistema de produção e o tipo de carne produzida obviamente que estão associados a esta distribuição.

No norte os animais são recolhidos por homens a cavalo, moto-4 ou mesmo helicóptero (conversei com um colega que dirigia uma empresa que criava 500.000 vacas) e abatidos por volta dos 4 anos. Mais a sul o abate faz-se aos 2-2,5 anos para produzir carcaças de 325 a 350 kg. Nas zonas mais ricas onde é possível a produção de cereais, fenos e palhas, existem engordas mais intensivas que albergam as raças de crescimento rápido, sendo os machos abatidos com 12-16 meses, obtendo-se carcaças de 350 a 400 kg. O mercado de vitelo é reduzido e essencialmente baseado em animais provenientes das vacarias de leite. A produção leiteira, como já referi, ocupa o sudeste do país, essencialmente o estado de Vitória, de clima temperado e solos mais férteis. A população de vacas leiteiras – constituída quase exclusivamente por Holstein e Jersey – é de cerca de 3 milhões. Como acontece por todo o mundo, o número de explorações tem vindo a reduzir-se drasticamente – 118.000 em 1960 para 15.500 em 1990 e menos de 10.000

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SAÚDE E BEM-ESTAR ANIMAL

IMAGEM 3 Na Austrália os Merinos são reis e senhores.

atualmente – se bem que o efetivo médio por exploração tenha aumentado, sendo neste momento de 250 vacas por exploração. Quantos aos ovinos, o Merino é rei e senhor na Austrália. Tendo sido introduzido em 1788 através de 70 animais trazidos da Europa, e dos quais sobreviviam menos de 30 poucos meses depois, esta raça expandiu-se até quase monopolizar a produção de lã e carne na Austrália. Durante o século 20 o número de ovinos adultos chegou a ultrapassar os 170 milhões e a sua produção era de uma importância extrema. O facto de se ter vendido nessa altura (1988) um reprodutor merino por cerca de 450.000 dólares australianos (300 mil euros ao câmbio atual), é disso prova suficiente. Neste momento o efetivo nacional parece ter estabilizado nos 75 milhões de cabeças e a produção ocupa todo o sul da ilha até à linha do 20º de latitude. Como com quase tudo, a Austrália é autossuficiente para todos os produtos com origem em ruminantes – consomem per capita, por ano, cerca de 37 kg de carne de bovino e 13 kg de carne de ovino – exportando 45 a 77% (borrego ou carneiro, respetivamente) da sua produção de carne de ovino, 45% da sua carne de bovino e 45% da sua produção de leite. A lã é quase toda exportada. Para além disso exportam vivos aproximadamente 2 milhões de ovinos e 1,3 milhões de bovinos, especialmente para o Médio Oriente, norte de África, Península Arábica e Ásia. Recentemente a Austrália começou a exportar também vacas leiteiras (70 mil em 2015) para a China como parte de um projeto de incentivo ao consumo de leite neste país. Enormes barcos comportando 30 a 40

mil ovinos (alguns chegam a transportar mais de 100 mil) cruzam o Oceano Índico e sobem o Mar Vermelho numa viagem que chega a ultrapassar as 3 semanas. Esta prática tem sido bastante contestada não só pelas condições de viagem – stress de calor, medo, fome e sede – mas também pela falta de garantia de cuidados adequados de bem-estar nos países de destino. Uma outra prática também altamente contestada por potencialmente poder causar elevados níveis de dor e sofrimento, é o que se designa por museling que consiste em cortar a pele da zona perianal e base ventral da cauda, de forma a retirar os folhos de pele que aí se desenvolvem e que são o local de desenvolvimento de míases (larvas de moscas). Ao se produzir aí uma cicatriz, reduz-se muito a atração das moscas que procuram zonas de pele húmidas e escondidas para depositar os seus ovos. A indústria de lã australiana tem sido alvo de crítica e boicotes, por se considerar este um método inaceitável em termos de bem-estar. A ciência foi chamada a dar uma ajuda e neste momento é usada anestesia tópica e tenta-se desenvolver linhagens genéticas em que os tais folhos de pele e lã são menos problemáticos. E as pessoas? Como são os criadores e produtores australianos? Só posso falar sobre aqueles que conheci mas posso, com base nisso, recomendálos vivamente. São pessoas simples, humildes e trabalhadoras, mas ao mesmo tempo profissionais esclarecidos e orgulhosos do seu papel no desenvolvimento do país. Conversei longamente com eles, já que muitos estavam curiosos de saber o que se produzia em Portugal. É claro que a

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dimensão pequena dos meus exemplos, quase que os fazia rir. No entanto ficaram impressionados com os nossos níveis de produção de leite e com a variedade e qualidade de produtos que produzimos, nomeadamente dos nossos queijos, que eu elogiava constantemente. Finalmente umas palavras sobre um tipo de produção paralelo aos dos ruminantes em extensivo – os cangurus. Estes são uns animais que ocupam e partilham as imensas pastagens e que crescentemente são usados como fonte alimentar. Na verdade são simultaneamente uma mais-valia e uma preocupação para os produtores, já que os números começam a ser excessivos, competindo fortemente com o efetivo doméstico, e estão frequentemente envolvidos em acidentes de viação (alguns medem mais de 1,80 m e pesam quase 100 quilos!). Não sendo possível criá-los como espécie doméstica – não há cerca que os contenha – são regularmente emitidas licenças para abate seletivo. A carne é bastante seca, mas quando cozinhada com cuidado é até bastante saborosa. Provei e comparei com borrego no churrasco… e ganhou o borrego. Ao regressar desta viagem à Austrália e pensando na nossa produção aqui em Portugal e na Europa, não consegui deixar de pensar que temos sorte de estar tão longe. Imaginem o que seria este país gigante a despejar no nosso mercado todos os seus produtos? Só se safavam os queijos!

NOTA O autor escreveu este artigo segundo o Antigo Acordo Ortográfico.


ATUALIDADES

RAÇA LIMOUSINE EM GRANDE DESTAQUE Na edição de 2016 da Expomor, a importante feira agropecuária do Alentejo, realizada no início de setembro em Montemor-o-Novo, a raça Limousine esteve em especial destaque, tendo sido eleita a raça bovina com honras de

constar no cartaz da Feira. No contexto das atividades desenvolvidas em redor da raça Limousine destaca-se este ano a realização do terceiro Open Limousine, um concurso de reprodutores Limousine machos e fêmeas no qual podem participar animais nacionais, mas também outros nascidos no estrangeiro, o que não acontece nos outros concursos da raça Limousine. Este concurso contou com a presença

de 35 animais, todos apresentados a arreatar pelos seus proprietários, em demonstração da enorme docilidade que carateriza a raça Limousine. Os campeões deste concurso, ambos nascidos em Portugal, foram a fêmea Escova, da criadora Aletta Elisabeth de Beaufort de Arronches e o macho Jardel, da criadora Maria da Graça Castelo Branco de Montemor-o-Novo. À semelhança das edições anteriores realizou-se também este ano o concorrido Leilão de reprodutores Limousine, com importante apoio à aquisição por parte da Apormor aos seus associados, tendo sido vendida a totalidade dos reprodutores Limousine leiloados, com um valor médio próximo dos 4000€ por animal e um valor máximo de arrematação de 4700€ para um reprodutor da exploração Sociedade Agro-Pecuária Corte do Paraíso, em Ferreira do Alentejo, mostrando mais uma vez a elevada mais-valia e preferência dos bovinicultores em trabalhar com Reprodutores Limousine Puros Certificados.

12 BOAS RAZÕES PARA ESCOLHER

FACILIDADE DE PARTOS

ELEVADA RUSTICIDADE

RÁPIDO CRESCIMENTO

PARCEIRO IDEAL EM CRUZAMENTOS CARCAÇAS SEM RIVAL

GRANDE DOCILIDADE

ELEVADO RENDIMENTO DE CARNE NOBRE

MEIOS MODERNOS NO TRATAMENTO DE DADOS PECUÁRIOS FERTILIDADE

PRECOCIDADE SEXUAL

QUALIDADES MATERNAIS E LEITEIRAS

TRANSMISSÃO DE GENÉTICA MELHORADORA

www.limousineportugal.com

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PRODUTO

TRÊS ORDENHAS EM SALA VERSUS TRÊS ORDENHAS NO ROBOT Diego, dono e gerente da empresa conta um pouco da história e experiência na sua exploração. PUBLIREPORTAGEM

A Ganadería Novoa, S. C. situa-se em Taboada (Lugo) e destaca-se pelos seus dados de produção: 44-45 kg/vaca/ dia, com 66 vacas no robot. Estes números impressionam e revelam uma exploração na qual o gosto pelo trabalho se tem traduzido numa perfeita integração do produtor, do efetivo e do robot Lely Astronaut A4. Não foi em vão que antes mesmo do robot ser instalado, a Federação de Frisona Galega certificou esta exploração como uma das melhores, em relação à produção na Galiza, durante o ano de 2015. O ano foi encerrado com 58 lactações, 13.308 kg/lactação e 3,99% de gordura e 3,12% de proteína. Muito se tem dito sobre o que significam três ordenhas em

sala e três ordenhas de média num efetivo ordenhado por um robot. A Ganadería Novoa deunos a possibilidade de passar da teoria à prática e vermos como evolui uma exploração, que passou de fazer três ordenhas em sala para uma média de três ordenhas no robot Lely Astronaut A4. Diego, dono e gerente da empresa conta-nos os resultados desta decisão. Qual é a história desta exploração? Os meus avós começaram com 7 a 10 vacas em ordenha, ordenhando apenas uma de cada vez. Só mais tarde instalaram um circuito. Quando os meus pais ficaram com a exploração optaram por uma estabulação livre e

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IMAGEM 1 Pavilhão das vacas em produção

montaram uma sala de três pontos. Mais tarde, colocaram uma sala de 8 pontos com retiradores automáticos. Quando eu comecei a trabalhar na exploração, há 3 anos, construímos o pavilhão atual e aumentámos a ordenha para 14 pontos. Colocámos os cubículos cabeça com cabeça e camas de serrim. No ano passado foi quando decidimos comprar o robot, começando a ordenhar com ele já em 2016. Quantas vacas tem em ordenha? Estão 65 vacas no robot e 9

em sala. Temos também mais 60 animais, incluindo vitelas e novilhas. Qual é a alimentação utilizada? A ração das vacas secas é feita por nós, com o nosso Unifeed, e contém 14-15 kg de silagem, 1,5 kg de concentrado, 2 kg de erva seca e 0,5 kg de palha. Para as vacas em produção temos o Unifeed da cooperativa em que estamos integrados, que contem 14 kg de silagem de erva, 30 kg de silagem de milho e 8 kg de concentrado. No robot estamos a dar uma média de 5 kg/vaca/dia. Gastamos mais meio quilo de ração com o robot, no entanto como produzimos mais leite, na realidade gastamos menos concentrado por kg de leite produzido.


PRODUTO

Porque tomaram a decisão de instalar um robot? Sempre acreditámos que o futuro passa por aumentar a produção por vaca, o que nos levou a realizar três ordenhas em sala até ao início de 2016, atingindo uma média de 41 kg/vaca/dia. Com o robot queríamos manter a mesma produção, mas sem a escravidão que significa fazer três ordenhas com mão-deobra familiar. No nosso caso, a ordenha era feita pelos meus pais, por um empregado e por mim. Agora, a média subiu 2-3 kg/vaca/dia e estamos com 44 kg/vaca/dia. Creio que esta situação deve-se ao ajuste da alimentação em função da produção, de forma a que as vacas que produzem mais, comam mais ração. Além disso, na sala fazíamos três ordenhas a todas as vacas e agora as melhores produtoras (às vezes de 73 kg/dia) podem ser ordenhadas até 4,5 vezes por dia, enquanto que as que estão prestes a ser secas são ordenhadas apenas duas. Porquê este robot? Houve muitas coisas de que gostei no Astronaut A4, como os colares de ruminação, que permitem detetar muitas situações relacionadas com a saúde e com o estado do efetivo. Depois, o sistema do braço foi o que mais gostei de todos os que vi: achei rápido e eficaz. Tinha a ideia de que o robot Lely quase não tinha ordenhas falhadas e a prática mostrou-me isso mesmo. O facto de a vaca se poder mover dentro da box sem que as tetinas se desprendam, uma vez que o braço acompanha os movimentos do úbere, parece-me fundamental. Com este robot não existe a necessidade de se ajustar a vaca dentro da box para que ela não se mova e não haja ordenhas falhadas. Os tubos do leite estão dentro do braço e a vaca não os pode pisar. Se ela se move o

braço move-se com ela. Além do aumento de produção, que outras melhorias tem notado? Em termos de fertilidade temos melhorado muito. Talvez porque agora, aos 50-60 dias, os animais estão com melhor condição corporal e emprenham melhor. Também detetamos melhor os cios com os colares de ruminação e atividade. Com o robot, as vacas estão muito mais tranquilas. Já não sofrem de stress por termos de as movimentar para a ordenha três vezes por dia. Noto muito isso quando limpo os cubículos; agora só se levanta a vaca do cubículo que estou a limpar e as restantes nem se preocupam comigo. E em termos de horário de trabalho? Temos notado muita diferença. Após os primeiros 10-15 dias depois da instalação do robot, em que é necessário estar muito presente, vimos como as vacas iam entrando cada vez melhor e melhor sem as termos de tocar. Na sala estavam duas pessoas em três turnos, durante mais de duas horas. Agora o robot apenas me ocupa a mim durante 30-45 minutos de manhã e 30 minutos à tarde. Que rotina de trabalho seguem? Chego à vacaria às 9 horas da manhã e vejo no computador a lista de vacas atrasadas, saúde do úbere (mastites), cios e quedas de ruminação. Com 66 vacas com uma média de 4546 litros/vaca/dia e 200 ordenhas/dia, toco 4-5 vacas de manhã e o mesmo à tarde. O mínimo que temos tido no robot são 62 vacas e nesta situação tocamos 2-3 vacas de manhã e o mesmo à tarde, nomeadamente recém-paridas que não estão completamente recuperadas

e temos de ser nós a leválas ao robot. O meu pai e o funcionário ocupam-se dos cubículos, que limpam três vezes por dia. Continuamos com o funcionário porque temos bastante trabalho de campo: 80 hectares, em que 27 são de milho e o restantes de erva. A minha mãe praticamente está aposentada. O único trabalho que tem na exploração é alimentar os vitelos. Reparamos que atrás do robot têm duas áreas de separação. Como as utilizam? Uma tem retorno para o robot e a outra não. A área com retorno é de cama quente e destina-se às vacas recém-paridas e com problemas, para que possam recuperar melhor. A outra zona de separação sem retorno para o robot é para as inseminações. Quando uma vaca está em cio introduzo o seu número no programa de gestão do robot e quando esta passa pelo mesmo, ele encaminha-a diretamente para esta zona. Tem problemas com mastites? Em relação às mastites não temos tido nenhum problema. Na sala também não os

IMAGEM 1 Diego perto da Unidade Robot do Astronaut A4

tínhamos, nem com duas nem com três ordenhas e agora com o robot muito menos. Na verdade, a contagem no tanque melhorou um pouco. Têm algum outro equipamento desta marca? Temos o empurrador de ração Lely Juno e estamos muito contentes com ele. Penso que um robot de ordenha deve estar sempre acompanhado por um Juno. Aqui o Unifeed chega às 08h30 da manhã e eu saio da vacaria às 21h30. Mesmo que empurremos a ração antes de sair, por volta das 03-04h da manhã as vacas já afastaram a comida para a frente e não conseguem alcançá-la. Com o Juno, a ração é empurrada a cada duas horas e evita-se que as vacas passem muito tempo sem comida na manjedoura. Como encara o futuro? Dependendo de como o sector progredir, não descarto a hipótese de duplicar o efetivo e colocar outro robot e uma amamentadora.

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PRODUTO MALCOLM CARRICK

ASSUMIR O CONTROLO

KEY ACCOUNT MANAGER

ESCOLHAS INTELIGENTES NA GESTÃO DA HIGIENE AJUDARAM A GARANTIR O PAGAMENTO DE BÓNUS PUBLIREPORTAGEM

A higiene das explorações leiteiras pode ter um impacto direto nos seus lucros e, perante a contínua flutuação dos preços do leite, é uma variável que pode ser controlada de forma a ajudar a maximizar o retorno económico. A necessidade de gerir as suas explorações de forma mais eficiente, visando reduzir as contagens bacterianas do BactoScan™ levou Andrew Fletcher, dono do grupo Grasslands Ltd., no Reino Unido, a trabalhar em parceria com a Deosan, uma marca de produtos destinados à higiene nas explorações leiteiras, e a aderir ao seu programa Deosan Farm Intelligence. Sedeado em Macclesfield, Cheshire, o grupo Grasslands Ltd., que abarca

várias explorações leiteiras, tem vindo a trabalhar desde há alguns anos com Malcom Carrick, de forma a garantir elevados padrões de higiene nas suas explorações. Numa delas, a qual possui cerca de 340 animais em lactação, com concentração de partos no outono e uma média de produção diária de 8.000 litros, verificou-se que os valores do BactoScan™ se estavam a tornar elevados, o que por sua vez resultava em penalizações financeiras. Esse facto levou a que Andrew tomasse ações corretivas. Andrew Fletcher explicou-nos que “é vital que os valores do BactoScan™ permaneçam abaixo de 50.000, de forma a assegurar o pagamento do bónus previsto nos contratos com os

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supermercados. Temos trabalhado com a Deosan e com o Malcom há já algum tempo, e achamos que os serviços de apoio técnico que nos prestam são tão importantes quanto a assistência no que toca a produtos químicos. Liguei-lhe para pedir que analisasse os nossos procedimentos e nos ajudasse a resolver os problemas que estávamos a experienciar.” Malcom Carrick trabalhou então em parceria com o responsável da exploração utilizando o programa Deosan Farm Intelligence, cujo software analisa os dados recolhidos na exploração, permitindo um aconselhamento personalizado e consequentemente a prevenção de


PRODUTO

problemas e doenças relacionados com a higiene, combatendo-os na origem. Avaliando as variáveis que representavam um maior “desafio bacteriano” aos procedimentos diários de ordenha, o programa desenvolveu uma proposta detalhada para melhorar a produção de leite e o rendimento da exploração. Segundo Malcom, com a ajuda deste software “identificámos de imediato os fatores com impacto na qualidade do leite, prestando neste caso particular atenção ao processo de higienização dos depósitos. Também descobrimos que, devido às condições climatéricas, os animais que regressavam do pasto vinham mais sujos que o normal. Ao trabalhar diretamente com o Andrew e com o responsável da exploração, fomos capazes de implementar procedimentos que permitiram prevenir eventuais doenças e otimizar os consumos de produtos químicos.”

Para Andrew, os resultados foram indubitavelmente favoráveis. Nas suas palavras: “as melhorias foram enormes, e ocorreram no espaço de semanas. Os valores limite do BactoScan™ exigidos nos nossos contratos são muito rigorosos, de tal forma que sempre que excedemos as 50.000 perdemos diariamente 1 pence por litro. Isto equivale a 80£ (libras) por dia e a 2.400£ por mês, pelo que o programa Deosan Farm Intelligence já nos permitiu poupar dinheiro. Durante este processo, desenvolvemos novos procedimentos que podemos agora implementar em cada uma das nossas outras explorações, visando assegurar a uniformização de rotinas e padrões em todo o grupo e garantir que todos os intervenientes entendem os processos. Finalmente, permitiu-nos utilizar apenas as concentrações de químicos estritamente necessárias em cada aplicação, o que nos permite não só poupar dinheiro mas também definir e reduzir o seu impacto

ambiental. O nosso objetivo presente é obter um produto com a mesma qualidade mas utilizando menos água, eletricidade, químicos e energia. Com um bom planeamento, e com o apoio da Deosan e do Malcom, contamos atingir esse objetivo.” A Deosan estima que as explorações leiteiras no Reino Unido poderiam poupar em média cerca de 5.000£ por ano apenas com a revisão dos seus métodos de produção e executando, no momento adequado, pequenas mas significativas alterações nos seus protocolos de higienização, redirecionando-os para a prevenção e solução dos problemas na sua origem.

PARA MAIS INFORMAÇÃO Visite www.sealedair.com/deosan ou consulte um dos elementos da equipa de vendas. Tradução do Original por: Dave Horton/Robert Kelly

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PRODUÇÃO

VACAS DE CERÂMICA

IMAGEM 1 Rodrigo, Joaquim e Sérgio Gil.

Entrevista a Sérgio e Rodrigo Gil POR RUMINANTES

Em Maiorca, Figueira da Foz, encontra-se a Sociedade Agrícola Gil & Gil, um empreendimento gerido por dois irmãos – Sérgio e Rodrigo Gil -, a quem o gosto pela produção leiteira foi herdado do pai, Joaquim (imagem 1). Estendendo-se por uma área de 80 hectares, este projeto começou em 2006 e, em 2008, os irmãos já produziam leite em plena Serra de São Bento, o qual é atualmente destinado à Lacticoop. Esta é uma exploração com história. Seguindo o exemplo do patriarca, que possuía na altura cerca de 30 vacas

no centro da povoação, os irmãos decidiram enveredar por um sector que assumem ser desafiante. Esse desafio não os demoveu, no entanto, de alargar o efetivo e aumentar assim a produção de leite. O primeiro projeto tinha como alvo 80 vacas mas, no ano seguinte, eram já 160, o que os levou a procurar alternativas para as limitações de espaço para a recria. A solução chegou a 6 km, num local fora do comum: uma fábrica de cerâmica desativada (imagem 2), a qual reaproveitaram. Hoje, a exploração conta com

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dois pólos, a sede, em Maiorca, e este segundo local em Alhadas, pelos quais o efetivo se reparte equitativamente. Foi em plena exploração que estes jovens produtores, de 37 e 32 anos, receberam a Ruminantes. Porque decidiram ser produtores de leite? A produção de leite é acima de tudo um desafio multifatorial, complexo, estendendo-se desde o campo à interação com o Médico Veterinário e à produção em si, não é tão afunilado como outros sectores agrícolas, e isso

sempre nos agradou. O Sérgio e o Rodrigo dividem tarefas? Sim, cada um exerce funções específicas: o Rodrigo monitoriza a sala de ordenha, bem como os campos da fertilidade e saúde animal. Eu (Sérgio) sou responsável por todo a acompanhamento de campo, parte burocrática e gestão, a qual confesso ser a minha predileta. Do que mais se orgulham no que diz respeito à exploração? Com uma envolvência tão grande é difícil responder! Há no entanto duas coisas


PRODUÇÃO

DADOS GERAIS DA EXPLORAÇÃO Nº total de animais: 480 Nº vacas adultas: 200 vacas em lactação Vacas secas: 10-15% do efetivo Genética: 98% Holstein (2% do efetivo cruzado com Parda Suíça) Produção média vaca/dia: 34L Teor Butiroso (%): 3,50 Teor Proteico (%): 3,17 Contagem de Células Somáticas: 300 000-400 000 cél/mL Sala de ordenha: em espinha, 8x2 Média de dias em ordenha: 185 Intervalo entre partos: 407 Vacas prenhas à 1ª inseminação: 40% Vacas prenhas à 2ª inseminação: 31% Vacas prenhas à 3ª inseminação: 29%

IMAGEM 2 Pólo da fábrica de cerâmica.

fundamentais para nós: o apreço pelos animais e pelo capital humano. Prestam particular atenção à genética e sua melhoria? Sim, claro. Privilegiamos a maximização da vida útil dos animais quando selecionamos touros e doses de sémen. Quantas lactações têm por vaca? E onde almejam chegar? Estamos atualmente nas 2,7, mas almejamos chegar às 4. Os nossos baixos valores devem-se em grande parte ao facto de termos vindo a crescer e consequentemente a comprar animais jovens. Como temos estabilizado a entrada de animais e a minimizar outros fatores, como as vacas menos eficientes, os números têm estado a subir. Qual é a taxa de reposição atual? 15%.

Quantas ordenhas fazem por dia? Três, e com este número conseguimos um aumento de produção de aproximadamente 12%. Possuem um equipamento de tratamento de leite através de radiação ultravioleta, o UVPure® (imagem 3). O que os levou a adotar esta tecnologia? Tendo em conta que há sempre leite de desperdício numa exploração leiteira, tomámos a decisão de adquirir o equipamento, o qual nos permite reutilizar e valorizar um dos outputs da produção, em detrimento de comprar produtos externos. Qual foi o custo de aquisição da máquina? É preciso ter um espaço especial? O custo de aquisição rondou os 22 000€ e, em seis anos, os custos de manutenção têm sido nulos. O facto de não precisarmos de um espaço especial para a máquina também é uma vantagem. Como decidiram qual seria o tamanho de recipiente de leite mais indicado? Decidimos em função do número de vitelos, já que o

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recipiente deve ter o tamanho necessário para uma toma. Calculámos assim o número de vitelos nascidos por mês, tendo em conta o número de vacas, e fizemos uma estimativa para escolher o tamanho do recipiente, sendo que cada vitelo consome cerca de 6 litros por dia. Poupam tempo? Sim, a máquina é autolavável, apenas é necessário lá colocar o leite e ela faz o restante trabalho. O detergente utilizado é o mesmo da sala de ordenha e tanque de leite. Como utilizam a máquina? As vacas com mamite estão num lote separado e são ordenhadas no final das outras, de forma independente. O leite é logo redirecionado do tanque de recolha para a máquina, que vai funcionando em ciclos até o leite ficar totalmente tratado, após o que pára automaticamente. A duração do tratamento depende da quantidade de leite, sendo de apenas 30 minutos para 150 litros. Os horários das tomas são ajustáveis? Precisam de ter alguém presente?

Não precisamos de fornecer de imediato o leite aos vitelos, apesar de isso ser uma prática aconselhável, já que o leite assim sofre menos risco de recontaminação e está a uma boa temperatura para dar aos vitelos, pelo que o fazemos, com duas tomas diárias. E não precisa de estar ninguém presente a monitorizar o processo. Que melhorias detetaram? A homogeneidade das tomas é algo que nos agrada bastante. Notámos uma menor incidência de diarreias e também menor mortalidade, em paralelo com a diminuição de custos com a alimentação dos vitelos. Possuem algum sistema de controlo do funcionamento da máquina? O processo mais simples é fazer sementeiras em placas de Petri para avaliar a contaminação do leite, mas não costumamos fazê-lo porque até agora não tivemos problemas. Quanto lhes custa produzir um litro de leite? O nosso custo de produção ronda os 30-31 cêntimos, sendo que cerca de 55% deste


PRODUÇÃO

custo é com a alimentação dos animais. Que indicadores utilizam para gerir a exploração? Utilizamos o programa DairyPlan para a gestão da exploração, o qual consideramos ser bastante fiável. Monitorizamos com especial atenção os volumes totais de produção, alarmes por vaca devido a desvios na produção e deteção de cios. Eu (Sérgio) passo cerca de uma hora por dia a estudar os números gerados pelo sistema, e posteriormente em reunião com os técnicos que nos acompanham. Costumam então ter reuniões com as pessoas que vos dão suporte técnico? Sim. Trimestralmente, e sempre antecedendo a fase em que compramos matérias-primas, reunimos com os fornecedores das rações e silagens e tentamos conseguir as melhores compras. Também nos reunimos com o

IMAGEM 3 Equipamento UVPure.

nutricionista e Médico Veterinário para melhorar a eficiência de produção, bem como estabelecermos objetivos anuais. Quais são os objetivos para os próximos 5 anos? Manter o número de animais, não almejamos crescer muito mais; produzir mais forragens para baixar os custos de alimentação; tornarmo-nos numa exploração fechada para acabar com a necessidade de algumas vacinações. Queremos também chegar aos 390 dias de intervalo entre partos e melhorar percentagens à primeira inseminação. Como gostariam de ser conhecidos enquanto produtores de leite? Numa palavra? Inovadores.

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Monobox GEA Um só movimento para uma ordenha perfeita O Monobox apenas necessita de uma colocação para poder realizar toda a sequência de passos de uma boa rotina de ordenha. Num único movimento coloca, estimula, limpa, tira os primeiros jactos de leite, ordenha e aplica o post-dip directamente nos tectos

Os 6 passos da rotina de ordenha automática Monobox 1. Colocação e estimulação Logos após à colocação da tetina começa o processo de estimulação mecânico que prepara o ubre para uma ordenha rápida e com elevados fluxos de leite A estimulação mecânica da GEA reduz as curvas bimodais, desta forma é encurtado o tempo de ordenha e aumenta a produção de leite por animal. 2. Ordenha limpa É feita a limpeza dos tetos seguida de uma secagem, posteriormente são retirados os primeiros jactos de leite O que diferencia o sistema Monobox da GEA de outras máquinas é que desta forma não são necessárias escovas ou qualquer outro equipamento mecânico que possa provocar uma qualquer contaminação dos tetos. Ao realizarmos uma limpeza regular e constante evitamos ordenhar tetos sujos ou molhados.

3. Medição e análise do leite Um conjunto de sensores analisa por teto a temperatura, a cor e a condutividade eléctrica do leite dos primeiros jactos para detectar anomalias ou mamites. De seguida são monitorizados os fluxos de leite e tempos de ordenha de cada teto enquanto se mede o volume de leite produzido. A informação detalha é disponibilizada ao produtor de forma a permitir realizar os ajustes necessários. 4. Ordenha completa, rápida e confortável A ordenha em linha baixa permite trabalhar com baixos níveis de vácuo o que nos dá a garantia de uma ordenha rápida e suave dos tetos. A linha baixa proporciona estabilidade de vácuo e melhores condições para os tetos, coisa que as linhas altas não permitem. Este facto influência de forma positiva a qualidade final do leite ordenhado.

5. Posicionamiento Um braço de ordenha leve e suspenso adapta-se de maneira natural aos movimentos da vaca. Isto evita maus posicionamentos do jogo de ordenha, quedas dos casquilhos, forças negativas e respiros nas tetinas. Caso uma tetina caia, jamais esta poderá tocar o chão até que volte a ser colocada, nem o jogo de ordenha perde o bom posicionamento O curto comprimento das mangueiras de leite proporciona estabilidade e evita flutuações de vácuo.

6. Post Dip e retirada automática Uma vez terminada a ordenha e antes de retirar a tetina, é aplicado directamente em cada teto o produto desinfectante e cosmético. Esta forma de aplicação tão directa permite uma cobertura perfeita e de forma homogénea em todo o teto e uma hidratação mais eficaz..


Qualidade, Produtividade e Flexibilidade. Tudo em um! Módulo profissional de ordenha automática proporciona o máximo rendimento e excelente saúde do rebanho. O novo módulo GEA Monobox herda as vantagens do célebre módulo de ordenha DairyProQ para uma produção de leite de qualidade superior. Toda a rotina de ordenha é realizada dentro de uma só tetina, o que assegura uma ordenha com uma higiene impecável, uma melhor saúde do rebanho e um leite de qualidade premium. GEA Monobox ordenha as suas vacas no momento oportuno e com uma eficiência única.


NOVIDADES DE PRODUTO

ESVAZIAR PARCIALMENTE UM BIG BAG

Têm vindo a surgir acessórios que tornam mais fácil e prática a manipulação de bigbags. É o caso do Vidbag, uma espécie de torneira que permite iniciar o esvaziamento de um bigbag pelo fundo, e se necessário interromper o despejo do fertilizante ou da semente. Para fixar este dispositivo na base do bigbag, basta colocá-lo no chão com o bico virado para cima. Ao aliviar o saco sobre o bico com a ajuda de uma máquina, este perfura o fundo e fica pronto a ser utilizado. Um sistema patenteado de 4 ‘barbatanas’ fixa o VidBag no interior do saco, é fabricado num material resistente à corrosão, uma característica importante sobretudo quando se lida com fertilizantes, e permite um débito do conteúdo do saco entre 150 a 200 kg por minuto. Em Portugal este dispositivo é comercializado pela GêBêCê.

OS PISOS ESCORREGADIOS VÃO DEIXAR DE SER UM PROBLEMA Os pisos escorregadios são um dos fatores de risco mais importantes para a saúde das unhas das vacas leiteiras. Neste trimestre duas novidades surgiram no mercado para ajudar a moderar este risco: O ANIMAT e os novos tapetes MONTA. MONTA

ANIMAT

EASY-PATH CONTROLO DOS PORTÕES DA EXPLORAÇÃO SEMPRE À MÃO O conceito deste produto é bastante simples, basta indicar para onde serão movidos os animais e automaticamente os portões, cercas, portas necessários para que os animais vão da sua origem ao destino pretendido são abertos. Desta maneira o produtor apenas tem que guiar os animais de um local para o outro, sem o esforço suplementar de ir à frente abrir portões e voltar atrás para fechá-los. PARA MAIS INFORMAÇÕES Consulte o site do fabricante: www.asserva.fr

O ANIMAT traz ao mercado um novo tipo de tapete que apresenta uma junção 3D que possibilita uma melhor fixação entre tapetes. Este novo tipo de junção é ainda mais resistente do que as suas antecessoras, apresentando uma maior estabilidade tanto quando submetida a forças verticais como horizontais. O “interlock 3D” permite a estes tapetes comportarem-se como se fossem uma faixa única de material, mesmo na presença de maquinaria pesada tal como o Bobcat, o trator de limpeza ou os tratores telescópicos.

PARA MAIS INFORMAÇÕES Consulte o site do fabricante: www.animat.ca

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A segunda novidade no ramo dos tapetes chama-se MONTA. Este tapete foi desenhado para áreas específicas com uma inclinação de mais de 6%, diminuindo a possibilidade dos animais escorregarem, providenciando-lhes uma maior segurança na utilização destas áreas. O novo produto da Kraiburg apresenta um relevo em forma de “V” que pode tornar pisos com uma inclinação até 15 %, mais seguros. É este relevo que diminui o risco dos animais escorregarem, diminuindo assim o risco de claudicação, bem como de quedas.

PARA MAIS INFORMAÇÕES Consulte o site do fabricante: www.kraiburg-elastik.com


NOVIDADES DE PRODUTO

OLIMPE-AGRI, UM TRATAMENTO PARA A ÁGUA SEM A ADIÇÃO DE QUÍMICOS Hoje em dia a qualidade da água na exploração está a tornar-se cada vez mais importante para uma produção ainda mais optimizada. A Windwest criou um novo

LIBERTIE FLEX, O CUBÍCULO QUE FORNECE MAIS LIBERDADE

PARA MAIS INFORMAÇÕES arcejelou@orange.fr

aparelho que ajuda o produtor a manter estes altos padrões, o Olimpe-Agri. Este inovador aparelho auto-electrizante trata e desinfeta a água sem qualquer adição de químicos. Após atuarem sobre as bactérias, os componentes oxidantes retornam ao seu estado mineral original. O Olimpe-Agri gera campos magnéticos e elétricos que enfraquecem e destroem as bactérias e vírus da água quando esta passa pelas células electrolíticas. Ao mesmo tempo, utiliza os minerais dissolvidos na água e o cloro adicionado à mesma, convertendo-os numa mistura de potentes agentes oxidantes capazes de destruir os microrganismos na água e os que estão fixados nos tubos (biofilme). É importante também referir que o processo não provoca qualquer alteração sensorial da água (cheiro e sabor).

PARA MAIS INFORMAÇÕES Consulte o site do fabricante: www.windwest-sas.com

O Libertie Flex é um cubículo giratório e retrátil desenvolvido por um produtor que tem observado a evolução do tamanho das vacas ao longo dos anos e o desconforto e dificuldade que estas têm em adaptar-se ao tamanho dos cubículos que não acompanharam esta evolução. O Libertie Flex é muito simples, oferecendo um novo conceito no qual o cubículo respeita o comportamento do animal, adaptando-se este ao animal e não o contrário. Devido à função rotativa do Libertie Flex o nível de stress na vacaria diminui com menos vacas presas nos cubículos. A inovação principal do produto assenta na mobilidade da zona lateral do cubículo, que se encontra inserida na zona frontal do mesmo e presa por uma corrente à barra cervical. Um mosquetão une as duas partes, permitindo não só uma fixação simples, tal como também libertar os animais rapidamente.

EMILY MINI’DIS, O BALDE PARA TRATOR QUE É 3 EM 1 Hoje em dia o produtor pode chegar a ter que mudar de balde do trator 2 a 3 vezes por dia, se não mais, caso deseje fazer uma boa parte das tarefas na exploração com o auxílio do trator. O Mini’Dis da Emily vem revolucionar o mercado com um só balde que permite limpar as camas, espalhar novo material e também pode ser utilizado para alimentar os animais. Este novo balde possui uma escova de limpeza que permite remover o material conspurcado da cama. Após a sua remoção é então possível renovar o material da cama seja ele serradura, areia, palha ou palha cortada. O Mini’Dis permite ainda fornecer alimento. Este balde pode ser anexado ao carregador frontal e no engate traseiro do trator e às carregadoras compactas.

PARA MAIS INFORMAÇÕES Consulte o site do fabricante: www.emily.fr

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NOVIDADES DE PRODUTO

HORN UP 360, MAIOR PRECISÃO NA DESCORNA LEVOBOVIN – O TRABALHO MUITO MAIS FACILITADO A Mazeron Naudot apresentou este trimestre o Levobovin, um novo aparelho que permite prender a cabeça dos bovinos na manjedoura, numa posição elevada. Este aparelho é comprado separadamente à manjedoura, possuindo rodas que permitem movê-lo com facilidade ao longo da mesma. O Levobovin permite imobilizar até quatro animais simultaneamente, permitindo ao produtor administrar qualquer tratamento ou procedimento necessário, com um menor risco de acidentes para o animal ou para o próprio (por exemplo,

lesões nas costas derivadas do esforço). Graças à capacidade de adaptação da estrutura a diferentes manjedouras e edifícios, esta permite ao produtor prender os animais onde eles se encontram, efetuando o procedimento com muito menos dificuldade e num menor período de tempo, também devido à capacidade de levantar mais do que uma cabeça ao mesmo tempo.

PARA MAIS INFORMAÇÕES Consulte o site do fabricante: www.mazeron-sas.com

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A descorna é um procedimento rotineiro em muitas explorações de bovinos e caprinos e qualquer método que facilite esta tarefa, a torne menos dolorosa e lhe forneça mais precisão, é sempre bem-vindo. O Horn Up, criado pela Kalfarm, é um descornador a bateria (autonomia até 40 horas) que atinge rapidamente os 700°C e que possui um cronometro que emite um sinal sonoro passados 10 segundos de utilização. O Horn Up tem ainda uma forma bastante ergonómica, que permite efetuar facilmente a descorna num ângulo de 90 graus com a cabeça do animal, o que facilita a rotação do aparelho durante o procedimento, para

mais facilmente garantir uma cauterização completa (360° em torno do botão do corno). Existem dois descornadores com tamanhos diferentes adequados a vitelos e cabritos. A Kalfarm também fornece a caixa de contenção bem como um aparador que permite rapar o pelo junto à pele, possibilitando uma boa visualização do local de origem do corno, mesmo que este ainda não se tenha começado a desenvolver.

PARA MAIS INFORMAÇÕES Consulte o site www.hornup.eu


NOVIDADES DE PRODUTO

IJINUS - TELEMETRIA PARA OS SILOS DA EXPLORAÇÃO Com a crescente necessidade de ter as contas da exploração cada vez com menores margens de erro, ter um aparelho que auxilia a aumentar a precisão da quantidade de alimento nos silos e a altura

para encomendar, pode fazer uma grande diferença no saldo ao final do mês. O Ijinus é um equipamento que permite medir o nível de alimento no interior dos silos em tempo real. Este equipamento possui um

sensor que utiliza imagiologia acústica, conexão wireless bidirecional (via rádio, GPRS ou transmissão G3), que não necessita de uma fonte externa de energia e cuja tecnologia utilizada é baseada na tecnologia digital de ultrassons, aplicada em líquidos e sólidos. O sensor principal comunica com o cartão SIM. Os sensores secundários transmitem as medições para o sensor principal via ondas rádio, até uma distância de 500 metros. Os dados são então enviados por GPSR ou G3 para o servidor Ijitrack onde são armazenados. Com esta informação armazenada o utilizador pode aceder facilmente aos

stocks diários dos silos com qualquer aparelho que tenha acesso à internet (telemóvel, tablet ou computador). A instalação dos aparelhos requer apenas: instalação remota, parametrização e ajustamento. Os sensores são então instalados no topo do silo e é gerada uma imagem sonora do alimento, bem como do volume do silo vazio. Graças a estas medições precisas e ao algoritmo desenvolvido pela Ijinus, é possível calcular o stock disponível com 5% de precisão, sem que seja necessário subir ao silo e podendo assim optimizar as encomendas e entrega de alimento.

PARA MAIS INFORMAÇÕES Consulte o site do fornecedor: www.ijinus.com

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ATUALIDADES

ANTÓNIO CANNAS

O FOTÓGRAFO PORTUGUÊS DE CAMPEÃS

POR SOFIA MENESES (JORNALISTA) | FOTOS: SAMANTHA CASSI

Ser modelo fotográfico não é tarefa fácil. Há que cuidar da aparência, manter a pose, enfrentar as câmaras de cabeça erguida e mostrar atitude. Tudo isto com as orelhas voltadas para a frente. Sim, porque, caso ainda não tenha percebido, estamos a falar de modelos fotográficos de quatro patas, mais precisamente, de ruminantes. A verdade é que se é difícil ser fotografado, é ainda mais complicado fotografar. Que o diga António Cannas, o único fotógrafo, em Portugal, que se dedica a fotografar vacas leiteiras premiadas em concursos. Nestas páginas, pretendemos dar a conhecer um pouco da atividade deste fotógrafo que, aqui, se transforma em fotografado. Formado em Ciências Agronómicas, com especialização em Nutrição de Ruminantes no Centro de Ensino Zootécnico de Rambouillet, França, António Cannas exerce uma atividade profissional ligada à agropecuária, mas dedica-se à fotografia, nas horas livres. Neste seu hobbie, concilia

o glamour, a moda e o nu artístico, com a fotografia de bovinos de leite. Dois mundos distintos que se cruzam, de forma sui generis, através da lente e do olhar do fotógrafo.

FOCADO NA MODA Antes dos vinte anos de idade, já era inseparável da máquina fotográfica. Apaixonado pela fotografia analógica, resistiu a entrar na era digital, mas acabou por se render. “Achava que o digital não tinha qualidade, mas, hoje, todo eu sou pixel. A fotografia digital tem imensa qualidade e abre muitas mais portas”, salienta. Começou por se focar no mundo da moda, área que vai ao encontro do seu gosto pelo convívio e pelo lado glamoroso da vida. Já com um bom portfólio, passou a ser solicitado com frequência para fotografar modelos e misses. Há cinco anos atrás, surgiu-lhe, inesperadamente, uma nova oportunidade

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que abraçou com curiosidade e entusiasmo. “Aquando da criação da revista Ruminantes, o Nuno Marques, durante um almoço informal, propôs-me fazer uma rubrica que associasse a moda e o glamour com o mundo rural. Sinceramente, pensei que ele estava a brincar comigo e não liguei. Mas ele telefonou-me, mais tarde, a dizer que estava a falar a sério e até já tinha definido o nome da rubrica – Ruminarte”. A ideia foi avante. António Cannas, além de autor de alguns artigos técnicos publicados na Revista, assina, como fotógrafo, a última página da Ruminantes. A rubrica “Ruminarte” constitui uma surpresa guardada para o fim, sendo, pois, uma forma de terminar em beleza. “É um toque fashion no mundo rural”, sintetiza António Cannas, satisfeito com o êxito obtido. “Diria que 90% dos leitores, a primeira coisa que fazem é abrir a última página, para verem o que sai, em cada número”.


ATUALIDADES

VACAS VENCEDORAS A Ruminarte foi o “click” para outros projetos. Há cerca de um ano, António Cannas foi a Poiares, fotografar a vaca vencedora da Agroleite, feira promovida pela Leicar (Associação de Produtores de Leite e Carne), para que o animal aparecesse, na Ruminarte, ao lado da misse eleita nessa mesma feira em que a vaca foi premiada. Foi aí que conheceu Manuel Pereira, produtor de leite que acumula prémios em concursos. O produtor gostou do trabalho de António Cannas, pelo que, mais tarde, lhe pediu para fotografar uma das suas campeãs, isoladamente e de acordo com as regras internacionais a que tem que obedecer a fotografia de bovinos. O resultado agradou. Depois disso, Manuel Pereira convidou-o para ir à Feira do Alto Minho (Ponte do Lima), fotografar as vacas premiadas. Tudo correu bem, novamente. Desde então, António Cannas tem andado de concurso em concurso, especializando-se cada vez mais nesta área. A sua formação académica confere-lhe conhecimentos de genética e de morfologia animal, úteis no desempenho da sua atividade de fotógrafo. Mas não chega. Fotografar vacas é uma tarefa complexa que requer muita paciência e disponibilidade. Antes e depois de carregar no botão da máquina fotográfica, há um aturado trabalho técnico que António Cannas dá a conhecer, revelando paixão, segurança e domínio da matéria, à mistura com uma dose q.b. de humildade e muita vontade de aprender. Quer junto da passerelle, quer nas feiras e concursos de ruminantes.

NORMAS INTERNACIONAIS Fotografar pessoas é muito mais fácil, porque entendem o que se lhe pede. “As vacas não percebem qual é o nosso objetivo e só querem que a sessão fotográfica termine”, diz António Cannas. As normas usadas pelo mundo fora não permitem liberdades criativas. Há que cumprir tudo rigorosamente, dentro do estipulado. As vacas jovens, vitelas e novilhas têm de aparecer maioritariamente de perfil, com o membro direito anterior avançado e o membro posterior direito recuado, para dar noção de comprimento, e a cauda tem que estar chegada para o flanco interno da perna direita do animal. As vacas adultas, já em produção (a partir dos dois anos e meio), devem ser fotografadas com os membros anterior direito e posterior direito avançados, para expor a parte de trás do úbere, e a cauda tem que estar encostada à face interna da perna esquerda. Tanto nas vacas jovens como nas vacas leiteiras, a cabeça tem de estar ligeiramente esticada para a frente e um pouco reclinada para o lado da câmara fotográfica, com as orelhas posicionadas

para a frente. Estas são, apenas, algumas das regras. Como é que tudo isto se consegue? Com paciência, persistência, dedicação, entusiasmo e com assistentes de fotografia, no mínimo três, sendo que cinco é o número ideal, segundo António Cannas. Um segura o animal, outros posicionam as patas e a cauda, e outro, ainda, segura o refletor ou o flash para condicionar a luz. Não menos importante é o assistente encarregado das orelhas. Estas ficam voltadas para a frente, usando para o efeito um brinquedo que faz ruído e atrai a atenção do animal. Recorrer a um balde com ração ou a um espelho também serve o mesmo propósito. Não é certamente por narcisismo ou vaidade, mas quando a vaca se vê ao espelho, com os seus olhos meigos e pestanudos, vira imediatamente as orelhas para frente. “Se tudo o resto estiver como deve ser, é esse o momento de dar o click”, revela António Cannas. Mas o trabalho do fotógrafo não termina aqui. A pós-edição

implica, entre outros detalhes, remover os assistentes, para que a vaca apareça sozinha na foto, e colocar relvado no lugar da plataforma elevada onde assentam as patas dianteiras, o que confere maior corpulência. “São estas as normas usadas pelo mundo fora. Aprendi-as, essencialmente, com o Sr. Manuel Pereira e com o Pedro e a Celeste, duas pessoas muito preparadas e especializadas na preparação de vacas para os concursos, que sabem como ninguém tosquiá-las e dar-lhes brilho”, diz o fotógrafo. Inerente à qualidade das fotografias, está a preocupação com o bem-estar dos animais. Sempre que fala do assunto, António Cannas demonstra carinho e respeito pelos seus modelos ruminantes: “São animais muito dóceis e extremamente meigos. As vitelas são irrequietas como qualquer criança. As vacas leiteiras, em princípio, são mais tranquilas, mas, quando se faz fotografia, têm que ter o úbere completamente cheio, portanto, estão sobre um grande desconforto, inquietas, desejando ir para a ordenha”. Fotografar vacas, sobretudo as que participam em concursos e que, portanto, estão habituadas a ver muita gente à sua volta, “não envolve quaisquer riscos”, afirma o fotógrafo. Perigoso é fotografar touros de lide, desafio que também já experimentou. António Cannas nunca passou por nenhuma situação de risco iminente, mas “há que estar muito atento”, sublinha. “Se amanhã me pedirem, sou capaz de ir fotografar touros, novamente, mas não tenho a mesma experiência, não é a minha área”. Dividido entre o trabalho profissional e a fotografia, quer de concursos de vacas, quer de modelos do mundo da moda, António Cannas tem o privilégio de fazer o que gosta e gosta muito de aprender. Provavelmente, é este o segredo da qualidade que revela. RUMINANTES OUTUBRO . NOVEMBRO . DEZEMBRO 2016 65


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Ruminantes 23  

Edição nº23/2016 A revista da Agropecuária

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