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A REVISTA DA AGROPECUÁRIA Ano 5 - Nº 19 - 5,00€ outubro | novembro | dezembro 2015 (trimestral) Diretor: Nuno Marques

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Doenças podais

Controvérsias e Consensos

fatores de risco

FORRAGENS CONHECA OS PREMIADOS

DO 1º CONCURSO NACIONAL de FORRAGENS

Saúde, Indústria e Economia de Bovinos


EDITORIAL

edição nº19 outubro | novembro | dezembro 2015

A GESTÃO DA VOLATILIDADE DOS PREÇOS

Diretor

Nuno Marques | nm@revista-ruminantes.com

Hoje, antecipar a volatilidade dos produtos agrícolas não é tarefa fácil, face aos muitos interesses e fatores que afetam o seu preço final. Desde variáveis “financeiras”, ao preço do petróleo ou ao clima, tudo serve para justificar subidas e descidas dos preços. Definitivamente, a questão não se resume à simples confrontação entre a oferta e a procura. No leite, concretamente, o problema da volatilidade dos preços vai muito para além da importância dos “contratos com preço garantido” rubricados entre os produtores e a indústria e as cooperativas. A estipulação de preços máximos e mínimos, e de quantidade e qualidade, eliminam a volatilidade atual dos preços de venda mas não anulam os riscos da rentabilidade dos produtores que continuam a depender da oscilação dos custos dos fatores de produção. O problema é global. A União Europeia continua a defender uma política agrícola baseada nos subsídios, pagos independentemente das cotações dos produtos agrícolas, o que cria nos produtores a necessidade de pedir a intervenção dos poderes públicos quando as mesmas não lhes são favoráveis. Já nos Estados Unidos da América, a nova Farm Bill foi “construída” com base em seguros de rentabilidade, em várias modalidades e custos, aos quais os agricultores podem ter acesso sempre que nele se inscrevam e quando os preços agrícolas não permitam atingir a rentabilidade definida para o negócio. Ao contrário do que acontece na Europa, — onde o pagamento de subsídios é feito quer quando os preços estão muito bons, e portanto não se justificariam, quer quando se vive uma crise do leite como a atual onde os montantes pagos podem ser insuficientes —, o sistema americano denota uma visão estratégica da noção de risco ao assegurar a rentabilidade do negócio. Não estará na altura de repensar o sistema europeu, dotando-o de mecanismos bem definidos, iguais para todos os países, em que o agricultor sabe com o que contar no caso de as coisas não correrem bem? Será que a atual situação, de ter que pedir ajuda, não desincentiva o espírito empresarial e a profissionalização dum setor que se quer cada vez mais competitivo?

Concurso Nacional de Forragens Entrega de prémios

Colaboraram nesta edição Adolfo Ramos; Alice Moreira; Ana Coimbra; António Barão; António Cannas; António Moitinho; Bárbara Nunes; Bruno Martin; Carla Azevedo; Carlos Vouzela; Carolina Cunha; David Catita; Diogo Pereira; Elisabete Martins; Ernesto Araújo; Filipa Setas; Francisco Marques; George Stilwell; Hendrik Roelofsen; João Paisana; João Silvestre; João Simões; Joaquim Baucells; Joaquim Cerqueira; José Caiado; José Pedro Araújo; Paula Maia; Paulo Costa e Sousa; Pedro Castelo; Ricardo Bexiga; Sofia Carrondo; Teresa Moreira.

Publicidade e assinaturas Nuno Marques | comercial@revista-ruminantes.com

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Design e PrÉ-impressão Sílvia Patrão | prepress@revista-ruminantes.com

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Propriedade / Editor Aghorizons, Lda / Nuno Marques Contribuinte nº 510 759 955 Sede: Rua Alexandre Herculano, nº 21, 5º Dto 2780-051 Oeiras Tiragem: 6.000 exemplares Periodicidade: Trimestral Registo nº: 126038 Depósito legal nº: 325298/11 O editor não assume a responsabilidade por conceitos emitidos em artigos assinados, anúncios e imagens, sendo os mesmos da total responsabilidade dos seus autores e das empresas que autorizam a sua publicação. Reprodução proibida sem autorização da Aghorizons, Lda.

Na passado dia 4 de setembro decorreu a cerimónia de entrega dos prémios do Concurso Nacional de Forragens (CNF). Agradecemos a ajuda de todos os concorrentes, patrocinadores, colaboradores e participantes, sem os quais não teria sido possível levar a cabo o 1º CNF. O desafio da realização do concurso foi ganho. Promovemos a qualidade das forragens e com isso reforçámos a sustentabilidade ambiental e económica da produção de leite, objetivos deste concurso. Para o ano, o desafio repetirse-á, desta vez com mais uma categoria de forragens. Nuno Marques

Alguns autores nesta edição ainda não adotaram o novo acordo ortográfico.

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RAISING LIFE

Nada é mais precioso que a vida, essa é a filosofia de phileo. A população mundial continua a aumentar, o mundo enfrenta uma procura crescente de alimentos e grandes desafios de sustentabilidade. Trabalhando entre a nutrição e a saúde, estamos comprometidos em dar soluções baseadas na evidência para incrementar o estado sanitário e a performance animal. Em todos e em cada um dos países, a nossa equipa se guia pelos resultados científicos mais avançados e pela opinião dos produtores mais experientes. Distribuidor exclusivo para Portugal e Espanha:

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Índice Alimentação 20 Outras formas de avaliar os programas alimentares de bovinos 28 Controlo da acidose em bovinos jovens

ECONOMIA 38 Custo económico da mastite nos bovinos leiteiros 42 Observatório de matérias primas 44 Observatório do leite 46 Índice VL e Índice VL erva

equipamento 70 Critérios usados na escolha da sala de ordenha 74 Novidades de produto

08 Resultados do 1º Concurso nacional de forragens

FERTILIZAÇÃO

A silagem de erva em Portugal tem andado longe da excelência. Leia a reportagem da cerimónia de entrega dos prémios e as conclusões do debate aí promovido.

24 Forragens de maior qualidade! Aproveitando os nossos recursos naturais

forragens 48 Forragens em mangas tubulares

produção 16 Precisamos duma vaca mais fértil e duradoura 64 A implementação de “Os 90 dias vitais”

SAÚDE E BEM-ESTAR ANIMAL 32 APP BCS Cowdition, uma ferramenta extremamente prática 56 Avaliação de higiene e comportamento na ordenha em vacas leiteiras

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Controvérsias e Consensos em Saúde, Indústria e Economia de Bovinos

Fatores de risco para doenças podais

Conheça os temas discutidos na 1ª edição do congresso realizado em Berlim.

A patologia podal é a 3ª causa de refugo de vacas leiteiras em Portugal.

60 Prevenir mamites uso de selantes internos de tetos no período seco da vaca leiteira 66 Bem-estar animal em bovinos de aptidão leiteira 68 Dicas para melhorar a recria – redução dos custos associados

boletim de assinatura 1 ano, 4 exemplares

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Portugal: 20,00 €

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atualidades

Preço do leite vai subir

A nova escala para medir condição corporal em cabras A condição corporal é um dos indicadores mais importantes na monitorização do bem-estar dos animais da exploração, bem como do seu estado nutricional e físico. Apesar da sua importância e validade, este indicador é muitas vezes negligenciado ou “retirado da lista”, devido à morosidade e complexidade da sua avaliação. Este é o caso na maioria das espécies pecuárias, e particularmente em caprinos devido à dupla palpação (gordura esternal e gordura lombar). Ana Viera e colegas desenvolveram uma escala que permite uma avaliação muito mais fácil e rápida da condição corporal de caprinos. A escala possui três níveis (magra, normal e gorda), e consiste na avaliação da conformação da garupa dos animais. Este método, apesar de não fornecer o detalhe da escala utilizada normalmente, permite ao produtor detetar os animais de risco que se encontram nos extremos da condição corporal (muito magros e muito gordos). Esta escala provou ter uma boa repetibilidade entre observadores, podendo pessoas com menos experiência serem treinadas para utilizá-la com a mesma precisão que utilizadores mais experientes. O trabalho final foi publicado no Journal of Dairy Science tendo sido escolhido com um artigo a destacar pelo editor do jornal. Definitivamente uma ferramenta essencial na gestão da exploração de caprinos.

Parece que o preço do leite vai finalmente subir, segundo a leiloeira Global Dairy Trade. Esta é uma notícia que agrada aos produtores e que resulta, em parte, de uma ação no mercado. A Fonterra anunciou que irá diminuir os volumes de leite em pó nos leilões no próximo ano. Já o fez em Agosto passado, ao disponibilizar apenas 18,000 toneladas de leite em pó face às 27,500 toneladas previstas. No último trimestre de 2015, a gigante da Nova Zelândia, diminui em 63 toneladas o volume líquido de leite em pó apresentado no mercado.

Lã suja pode ser um fertilizante orgânico Investigadores do Politécnico di Torino, em Itália, desenvolveram no âmbito do projeto Life + GreenWoolf, um processo de conversão da lã suja das ovelhas em fertilizante orgânico. O processo consiste em colocar a lã em água a ferver, obtendo lã hidrolisada, um fertilizante natural que aumenta o carbono no solo e, por sua vez, a capacidade deste reter água. Este processo permite reciclar uma biomassa que não pode ser deixada no campo e que tem custos de eliminação consideráveis.

União Europeia fecha ano com aumento de 1% na produção de leite Apesar dos baixos preços, que afetaram, seriamente o setor produtivo de leite na União Europeia durante o ano de 2015, especialistas do Observatório Europeu do Mercado de Leite estimam que a produção aumentará 1% face a 2014. Em julho, o preço médio do leite na UE foi de 300 euros por 1000 litros, menos 19% do que em julho de 2014. Estima-se que em 2016 a produção de leite irá aumentar de forma modesta, a par do crescimento económico global que os analistas estimam em 3,3% no próximo ano, face aos 2,6% previstos para o ano corrente. No início de agosto, o preço médio do leite em pó foi de 1710 euros por tonelada, cerca de 40% inferior ao valor verificado no mesmo período do ano passado. No mercado de frescos, o consumo de leite diminuiu enquanto o da nata aumentou de forma constante na União Europeia. A exportação de leite para consumo com destino à China registou um aumento de 14% durante os primeiros cinco meses do ano.

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McDonald´s aposta em manteiga A McDonald´s anunciou que vai começar a utilizar manteiga em vez de margarina líquida nos seus menus de pequeno-almoço que incluem os muffins, os biscoitos e as baguetes. Esta decisão surge como resposta ao desejo dos clientes por alimentos mais naturais. A multinacional da fastfood também se comprometeu a utilizar galinhas que não tenham sido tratadas com antibióticos e vacas isentas de BST (hormona injetada para aumentar a produção de leite). A multinacional propõe também um serviço de pequeno-almoço durante todo o dia. Estima-se que esta oferta irá impactar as vendas em 2,5% ao ano. Com a introdução da manteiga em muitos destes produtos a indústria de lacticínios pode vir a beneficiar. Só no primeiro ano, a McDonald´s e os seus fornecedores poderão precisar de uma quantidade de manteiga no valor de 27 milhões de libras (12,24 milhões de toneladas).


atualidades

Companhias leiteiras no top 20 Segundo informação do Rabobank, a Nestlé, multinacional suíça, ocupa o primeiro lugar na lista que apresenta as vinte maiores indústrias leiteiras do mundo. As francesas Lactalis e Danone, aparecem, respetivamente, em segundo e terceiro lugares. Verificamos que as primeiras dez empresas continuam a ser as mesmas que ocuparam o top 10 em 2014, sendo a única alteração o lugar que ocupam. Note que no ano passado, a Danone, ocupou o segundo lugar e a americana Dairy Farmers of America passou da sexta para a quinta posição, em alternância

com a Friesland Campina. Verificamos que as principais alterações aconteceram nas indústrias leiteiras chinesas, tendo a Mengniu subindo da 14ª posição para a 11ª posição. Já nas indústrias nipónicas é visível uma descida de posição face ao ano anterior. A Meiji passou da 12ª posição para a 17ª e a Morinaga Milk Industry não conseguiu manter-se no top 20 mundial. Note que, das vinte empresas, metade são europeias, cinco são norteamericanas, uma é canadiana, duas são chinesas, uma é japonesa e uma é da Nova Zelândia.

Soro de leite utilizado no fabrico de embalagens amigas do ambiente Face à quantidade de toneladas de plástico que é produzida todos os anos, e que nos torna mais dependentes do petróleo, Maria Beatrice Coltelli, investigadora de materiais avançados na Universitá di Pisa, em Itália, mostra como fabricar embalagens a partir da proteína do soro do leite. Parece que esta matéria-prima, obtida no processo de fabrico do queijo, juntamente com outros resíduos agrícolas, constitui um bom material para fabricar plásticos biodegradáveis que serão utilizados no fabrico de embalagens plastificadas que servirão para embalar produtos agroalimentares. Trata-se de uma solução sustentável e renovável, uma alternativa aos materiais fósseis utilizados na indústria das embalagens há cerca de cinquenta anos.

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reportagem

1º Concurso Nacional de Forragens

Primeiro passo para um futuro melhor Está dado o primeiro passo. A silagem de erva em Portugal tem andado longe da excelência. Mas “o caminho faz-se caminhando” e, quando percorrido em conjunto, tornase mais fácil avançar. Prova disso é o 1º Concurso Nacional de Forragens, promovido pela Revista Ruminantes, cuja cerimónia de entrega de prémios - dia 4 de setembro, no Espaço Agros/Agro-Semana de Vila do Conde – cultivou o debate e semeou uma mensagem de esperança: é possível um futuro melhor. por SOFIA MENESES (jornalista)

A cerimónia foi antecedida por uma palestra, proferida por José Caiado, sobre o “Estudo dos resultados das análises das amostras entregues a concurso”, e por dois painéis sobre “A valorização Nutricional das Silagem de Erva ao serviço da rentabilidade da Produção de Leite” e “Como produzir Silagem de Erva”.

Reforçar a sustentabilidade

Todos saíram a ganhar. Com ou sem prémio atribuído, a participação no 1º Concurso Nacional de Forragens (CNF), na categoria de Silagem de Erva (SE), foi, por si só uma atitude vencedora. O concurso, não só despertou vontades, como estimulou a competitividade, reforçou laços, aprofundou a reflexão, levantou questões e fez aumentar o nível de exigência. “Há uma grande margem de progressão e uma reserva de competitividade para os produtores de silagem de erva em Portugal. Esta é uma mensagem que queremos transmitir, porque é uma mensagem de esperança”, disse José Caiado (Dairy Consulting, lda), mentor do CNF. “Onde há margem de progressão, há a possibilidade de um futuro melhor”, frisou.

38 amostras a concurso O 1º CNF registou 86 pré-incrições via

Internet e contou com 38 amostras participantes, a maioria do Entre Douro e Minho e Açores. Verificaram-se muitas desistências entre aqueles que à partida tinham vontade de concorrer. “Este ano as condições meteorológicas foram péssimas para a produção de silagem de erva, pelo menos, na região de Vila do Conde”, afirmou José Caiado, apontando uma das principais razões para o facto de não ter havido mais concorrentes. No entanto, na opinião de alguns presentes, não terá sido essa a única razão, pois noutras zonas do país a meteorologia não foi tão adversa. A atribuição dos prémios aos três primeiros classificados - Hendrik Roelofsen, Montemor-o-Novo (1º prémio); João Silvestre, S. Miguel (2º prémio) e Paula Carla Azevedo Maia, Vila do Conde (3º prémio) - decorreu na manhã do dia 4 de setembro, na Agro-Semana de Vila do Conde – Espaço Agros.

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Coube a Nuno Marques, diretor da Revista Ruminantes, promotora do evento, dar as boas vindas e agradecer a todos os participantes e patrocinadores (Lallemand, Lusosem e Kuhn), sem os quais não teria sido possível levar a cabo o 1º CNF. “Este concurso nasceu porque o José Caiado me desafiou. Decidi aceitar o desafio, pois faz todo o sentido promover a qualidade das forragens. Avançámos sem experiência nenhuma neste tipo de organização, mas com muito profissionalismo do ponto de vista técnico. Estamos a aprender, com a certeza de que faremos cada vez melhor”, disse Nuno Marques. Nuno Marques lembrou os objetivos do concurso: Reforçar a sustentabilidade ambiental e económica da produção de leite e despertar o aparecimento de uma fileira nacional de produção de forragens. Paralelamente, outro dos grandes objetivos foi aproveitar os resultados das amostras a concurso para criar uma base de dados que permita conhecer a situação, corrigir os erros e seguir os bons exemplos. No próximo ano, o desafio repetir-se-á. O 2º CNF contará com mais uma categoria de forragens.


reportagem

Palestra sobre o estudo dos resultados das amostras a concurso “Vejam só o que temos que melhorar!” “Verdes na matéria”. Assim estão os produtores de silagem de erva no nosso país. Melhorar é “um imperativo de rentabilidade”, salienta José Caiado. Mais qualidade significa menos custos de produção, e os animais agradecem. José Caiado (Dairy Consulting, lda) falou sem rodeios sobre os principais pontos fracos da Silagem de Erva (SE) em Portugal, na palestra de apresentação do “Estudo dos resultados das análises das amostras entregues a concurso”. Deu a conhecer o processo de classificação e os valores das amostras do 1º Concurso Nacional de Forragens (CNF) e explicou as vantagens económicas e ambientais das boas práticas de ensilagem. Os resultados das amostras não servem para fins estatísticos, nem podem ser considerados representativos da produção em Portugal, pois, tratandose de um concurso, “era expectável a apresentação de produtos de melhor qualidade, com alguma hipótese de disputar os prémios a concurso”, fez notar José Caiado. Todavia, é possível depreender, partindo do estudo das amostras, que em Portugal as SE são globalmente fracas. Baixa quantidade de Proteína Bruta (PB), Fibra Neutro-Detergente (NDF) acima dos 50 por cento, baixa Matéria Seca (MS), conservação duvidosa, cinzas elevadas. São estas, grosso modo, as “características típicas” da SE em Portugal. “O primeiro concurso destinou-se a esta categoria de forragens, porque é a que necessita de uma melhoria mais acelerada e de uma maior consciencialização dos produtores, face ao impacto da má qualidade da silagem na produção de leite”, disse José Caiado.

Análise sensorial e química O orador começou por dar a conhecer o processo de avaliação das 38 amostras concorrentes, enviadas para o laboratório da ALIP (Associação Interprofissional do Leite e Lacticínios), conforme o

através de uma análise in vitro com líquido ruminal. Devo dizer que se verificou uma correspondência de valores entre ambas as análises”, explicou José Caiado. Findo o trabalho laboratorial, o júri selecionou os três candidatos premiados.

“Há uma grande margem de progressão para os produtores de silagem de erva em Portugal. Esta é uma mensagem que queremos transmitir, porque é uma mensagem de esperança. Onde há margem de progressão, há a possibilidade de um futuro melhor.”

Muita terra nas forragens

José Caiado

regulamento do CNF. Neste laboratório foi efetuada a análise sensorial, para avaliar o tamanho da partícula, o cheiro, o aspeto visual, a existência de fungos ou de mofo, etc.. Quatro amostras apresentavam-se podres, mal conservadas, tendo sido excluídas. As que passaram nesta primeira fase, foram depois sujeitas à análise química, para aferir os seguintes parâmetros: MS (de acordo com o regulamento, as amostras tinham que ter entre 30 e 50 por cento de MS, o que levou à exclusão de 14 amostras que estavam fora desse intervalo); PH; PB; NDF, ADF (Fibra Ácido-Detergente); DMO (Digestibilidade da Matéria Orgânica) e quantificação da energia. Posteriormente, os resultados foram analisados pelo júri, constituído por José Caiado, Ana Lage (ALIP), Rita Cabrita (Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar - ICBAS) e António Moitinho Rodrigues (Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco). As cinco melhores amostras foram enviadas para o ICBAS, onde foi analisada a Digestibilidade In Vitro da Fibra. “Esta última análise teve por finalidade confirmar a Digestibilidade da Matéria Orgânica, não apenas através da tecnologia NIR – aparelho que faz uma determinação rápida -, mas também

Observando os resultados, José Caiado considerou “razoáveis” os valores médios dos parâmetros das amostras, com exceção das cinzas. Estas revelaram um valor médio muito alto (11,3%, quando o ideal é até 9%), o que significa que há muita terra nas forragens e, consequentemente, menos energia disponível e risco de contaminação por clostrídios (bactérias fatais). Quanto aos restantes parâmetros, os valores médios das amostras foram os seguintes: MS = 35,6%; PB = 14,3%; NDF = 49,2%; ADF = 32,2%; Energia Média = 0,83 UFL. São “valores razoáveis”, mas “não podem ser interpretados como representativos das silagens de erva feitas em Portugal, genericamente de menor qualidade”, disse José Caiado. Basta comparar, por exemplo, os valores mais baixos e mais altos das amostras, no que respeita à proteína (9,8% - 22, 3%), para se perceber “a falta de consistência das silagens de erva produzidas em Portugal”, lamentou. Neste 1º concurso, não foi analisada a qualidade da proteína (também aqui, não é só a quantidade que importa), mas José Caiado lançou o repto: “No próximo ano, no 2º CNF, na categoria de Silagem de Erva, queremos fazer essa análise, pelo que, desde já desafiamos o ALIP para que possa corresponder a essa inovação técnica”. Quanto à fibra “NDF”, o valor médio das amostras concorrentes situa-se nos 49,20%, ou seja, dentro dos valores de referência (40-50%). Porém, mais de metade das amostras elegíveis apresentaram valores acima dos 50%, informou o palestrante. José Caiado sublinhou que “o valor da fibra deve estar mais próximo dos 40 do que dos 50 %, pois quanto mais alta é a fibra, mais baixa é a proteína; quanto mais baixa é a proteína, mais baixa é a digestibilidade; quanto mais baixa é a digestibilidade menor é a capacidade de ingestão de

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reportagem

matéria seca e, portanto, menor é a disponibilidade energética do animal, o que se traduz numa menor produtividade”.

Requisito “20-30-40” O orador explicou as consequências práticas de uma silagem medíocre. Para compensar as falhas, o produtor tem que recorrer a palha e concentrados, ou a soja, colza e girassol, alimentos alternativos que tornam a dieta bastante mais cara. José Caiado fez uma estimativa dos custos da dieta com base numa silagem de erva com boa qualidade nutricional (silagem com o perfil da 1ª classificada no concurso) e chegou à conclusão de que o produtor pode poupar cerca de 900 euros por mês em 100 vacas. Os números não deixaram margem para dúvidas quanto ao benefício económico de uma boa SE, para o produtor de leite nacional. A esse benefício, acresce a boa saúde e bem-estar dos animais. José Caiado salientou que, nos EUA, há 30 anos atrás, transmitia-se ao agricultor a necessidade de cumprir o requisito “20-30-40” (20% PB; 30% ADF; 40% NDF). “Se há 30 anos isto era um requisito, hoje é um imperativo de rentabilidade. Vejam só o que nós temos que melhorar!”, concluiu.

em resumo Mais qualidade na silagem de erva representa menos custos para o produtor de leite – estima-se uma poupança de cerca de 900 euros por mês em 100 vacas. Ao benefício económico, junta-se a boa saúde e bem-estar dos animais.

1º painel: “A valorização nutricional e económica da silagem de erva” A importância do trabalho conjunto Há uma receita infalível para aumentar a qualidade e reduzir os custos: “arregaçar as mangas”, articular esforços, trabalhar em conjunto. “A valorização nutricional e económica das Silagens de Erva ao serviço da rentabilidade da Produção de Leite” foi o tema do primeiro painel compreendido no programa de entrega de prémios do 1º Concurso Nacional de Forragens (CNF). Moderado por José Caiado, contou com três intervenientes convidados: Ana Lage (representante do laboratório da ALIP Assoc. Interprofissional do Leite e Lacticínios), Ana Gomes (Nutricionista da Cooperativa Agrícola de Vila do Conde) e Paulo Aranha (Técnico do Grupo Finançor).

“A maioria das Silagens de erva têm um baixo valor nutritivo. Torna-se urgente uma mudança nos hábitos de produção, de forma a rentabilizar este recurso que está desaproveitado e reduzir os custos com a alimentação animal.” Ana Lage

O consenso prevaleceu em torno, sobretudo, de duas ideias essenciais: a necessidade de uma maior consciencialização por parte de cada agente no processo de ensilagem e a importância de trabalhar em conjunto, para aumentar a qualidade e reduzir os custos. No apuramento dos parâmetros de qualidade da SE, é necessário que os laboratórios sejam capazes de fornecer respostas rápidas, profundas e rigorosas. Esta foi uma das problemáticas mais debatidas ao longo do painel. Contribuir para uma maior sensibilização, no sentido dos laboratórios prestarem um serviço mais completo, é também um dos propósitos do CNF.

O papel dos laboratórios Na opinião de José Caiado, “os laboratórios, em Portugal, estão ainda muito atrasados”, comparativamente, por exemplo, com os

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laboratórios da Holanda, que fazem “uma verdadeira TAC” às amostras recebidas para análise. “Os nutricionistas e os técnicos no campo não podem utilizar bem a forragem, se o laboratório não analisar a digestibilidade da fibra, não determinar a qualidade da proteína, o teor da proteína solúvel e todos os parâmetros de qualidade, com o maior rigor possível”, considerou. Ana Lage concordou e compreendeu a preocupação de José Caiado. Salientou, todavia, a qualidade dos serviços prestados pelo laboratório da ALIP e sua evolução. Segundo a oradora, este irá implementar, a curto prazo, novos métodos de análise, para responder a todas as exigências. Paralelamente, tem vindo a fazer análises interlaboratoriais para determinar a proteína solúvel, ciente da sua grande importância, adiantou Ana Lage.

Baixo valor nutritivo Recorrendo a diferentes gráficos, Ana Lage deu a conhecer os valores médios das amostras analisadas em 2014 e em 2015 (300 no ano transato e 397 no ano em curso). Eis os valores médios em 2014: MS=36,9%; CT=9,6%; PB=10,7%; DMO=63,4%; NDF=60%; ADF=41%; pH=3,16%. Em 2015, os valores médios foram os seguintes: MS=34,6%; CT=10,1%; PB=11,7%; DMO=65,5%; NDF=56,3%; ADF=37,5%; pH=4,06%. A especialista fez notar a “enorme diferença entre os valores mínimos e máximos” e concluiu que “a maioria das SE têm um baixo valor nutritivo”. Por isso, “torna-se urgente uma mudança nos hábitos de produção, de forma a rentabilizar este recurso que está desaproveitado e a reduzir os custos com a alimentação animal”.

Articulação de esforços Em seguida, Ana Gomes reforçou as palavras da sua companheira de painel, acrescentando que “se conseguirmos a proteína necessária dentro da exploração, vamos reduzir custos e tornar as explorações mais viáveis e saudáveis”. Para tal, “é necessário que o processo de ensilagem seja acompanhado por nutricionistas, por técnicos da área vegetal, por máquinas adequadas e por laboratórios eficientes”. Os nutricionistas têm um papel importante, mas sozinhos não podem fazer milagres. “Temos que trabalhar em conjunto”, defendeu. A nutricionista considera que, independentemente de haver ou não incentivos políticos ao setor, a melhor solução é agir. “Não podemos ficar à espera. Temos que ter explorações menos dependentes das proteínas importadas, baixar os custos de produção,


reportagem

“É necessário que o processo de ensilagem seja acompanhado por nutricionistas, por técnicos da área vegetal, por máquinas adequadas e por laboratórios eficientes. Temos que trabalhar em conjunto”

Exigência e confiança Em resposta a uma pergunta do moderador, Paulo Aranha esclareceu que nos Açores, um dos maiores problemas das SE é o baixo teor de PDIE (Proteína Digestível Intestino limitada pela Energia) e de ADF (Fibra Ácido Detergente). O défice de fibra obriga a importar palha, aumentando muito os custos de produção. Nos Açores, segundo disse, “a palha chega a atingir o preço de 250 euros a tonelada”. Conseguir uma SE com boas PDIE e ADF implica, entre outras práticas, otimizar a altura do corte, sempre sob o risco das chuvas

Ana Gomes

produzir em casa bons alimentos com menor custo”. Por sua vez, Paulo Aranha, falando também sobre a desejada melhoria de qualidade das análises laboratoriais, disse que nos Açores, o grupo Finançor, onde trabalha, tem laboratórios equipados com aparelhos NIR, com rápida capacidade de resposta, mas recorre também a laboratórios de outros países, como França e Espanha.

“Se para o ano houvesse novamente um concurso na categoria de silagens de erva, os primeiros lugares seriam dos Açores, isso garanto!” Paulo Aranha

“Não temos medo de competir com os açorianos, mas gostei do desafio…” António Balazeiro

inesperadas e uma constante fiscalização das explorações. Todavia, Paulo Aranha deixou claro que não se deixa vencer pelas dificuldades e revelouse confiante quanto à qualidade das SE nos Açores: “Se para o ano houver novamente um concurso na categoria de silagem de erva, os primeiros lugares seriam dos Açores, isso garanto! Se este concurso tivesse sido em março, aqui [em Portugal continental] não tinham hipóteses”, assegurou, provocando risos e aplausos na assistência. Mas não ficaria sem resposta. No decurso do 2º painel, António Balazeiro reagiu à provocação, com sentido de humor: “Não temos medo de competir com os açorianos, mas gostei do desafio…”

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reportagem

2º painel: “Como produzir e armazenar silagem de erva” As decisões e os “caprichos” do clima As condições edafoclimáticas do país não facilitam o produtor. A diversidade de solos e as surpresas do clima obrigam a diferentes medidas de ano para ano. O que fazer, como e quando? Decidir não é fácil, mas é um desafio permanente. Um solo bem preparado, com uma boa semente, é um bom princípio para uma silagem de erva (SE) de qualidade. Mas não chega. Há quem considere que o mais importante é o momento do corte e o tamanho da partícula. Sem esquecer a adubação, a secagem, a conservação, o armazenamento, as análises, a monitorização... Tudo isto de acordo com as condições meteorológicas e as características de cada região. Em suma, nada deve ser descurado. Foi esta a principal mensagem transmitida no 2º painel da manhã, antes da entrega de prémios aos vencedores do 1º Concurso Nacional de Forragens (CNF). Subordinado ao tema “Como produzir e armazenar silagem de erva”, o painel, moderado por Luís Queirós (Técnico da Lallemand), contou com intervenções de António Balazeiro (produtor de leite), Manuel Baioneta (Técnico da Kuhn), António Cannas (Técnico da Lusosem) e Ana Coimbra (Técnica da Timac Agro). Alguns dos presentes na assistência também usaram da palavra, quer para apresentar dúvidas e preocupações, quer para falar de casos práticos. E, ainda, para felicitar a Revista Ruminantes pela sua iniciativa. O moderador teceu algumas considerações sobre o tema em causa

“Um colega americano disse-me que nós é que devíamos ir aos EUA para lhes explicar como se faz boa silagem de milho.” Luís Queirós

e referiu a silagem de milho, já mais “enraizada” no nosso país, que será a categoria escolhida para o 2º CNF. “Um colega americano disse-me que nós é que devíamos ir aos EUA para lhes explicar como se faz boa silagem de milho”, contou a propósito. Luís Queirós colocou perguntas aos participantes, para tentar obter respostas claras sobre as boas práticas de

“O azevém tem sido uma cultura marginalizada em relação ao milho, mas é uma forrageira com alto teor proteico e grande facilidade de digestão por parte dos animais.” Ana Coimbra

ensilagem, com base na experiência e no conhecimento de cada um.

Correção do solo Dado que a alimentação numa exploração leiteira representa “uma grande fatia em termos económicos”, Ana Coimbra defendeu uma boa preparação do solo e um bom azevém, convicta de que assim o produtor conseguirá poupar na ração final. “O azevém tem sido uma cultura marginalizada em relação ao milho, mas é uma forrageira com alto teor proteico e grande facilidade de digestão por parte dos animais”, considerou. Ana Coimbra aconselha a que se faça uma boa correção do solo, dando-lhe os nutrientes e micronutrientes úteis ao crescimento do azevém, até porque dessa forma “também sairá beneficiada a cultura que vem a seguir - a cultura do milho -, já que o solo está bem preparado”. Tem que haver um plano de fertilização adequado a cada solo. António Balazeiro explicou os cuidados a ter com a adubação, adiantando que, em média, aplica cerca de 200 quilos de adubo por hectare. Para o produtor de leite, uma boa silagem começa na sementeira, sem, contudo, menosprezar a importância do

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“O agricultor tem que escolher a máquina que melhor se adapta às características da sua exploração, mas a boa Silagem de erva depende acima de tudo da boa condição do solo.” Manuel Baioneta

corte, “de preferência, no início da tarde”, segundo disse. “Tento fazer dois cortes para conseguir melhor qualidade”, adiantou. Falando da sua experiência pessoal, Balazeiro demonstrou a complexidade do trabalho agrícola, tantas vezes sujeito aos caprichos do tempo. “Este ano foi um fracasso”, confessou. No terceiro dia após o corte, quando se preparava para ensilar, começou a chover, contou. Literalmente, “foi por água-abaixo” a possibilidade de fazer uma boa SE. No processo de ensilagem, o produtor pode contar com a ajuda de máquinas cada vez mais sofisticadas e diversas. Manuel Baioneta, através de um vídeo promocional, mostrou as máquinas da sua empresa em plena atividade. Têm sido desenvolvidos modelos já existentes e lançadas novas soluções no mercado. Máquinas de fenossilagem, enfardadeiras, condicionadoras, gadanheiras, etc.. Há uma gama enorme. “O agricultor tem que escolher a máquina que melhor se adapta às caraterísticas da sua exploração”, disse Manuel Baioneta, realçando que, apesar da eficácia das máquinas, “a boa SE requer uma boa condição do solo”.

Condicionalismos edafoclimáticos “Todas as decisões dependem das particularidades de cada ano e de cada região”, frisou António Cannas. O técnico disse que “uma das mais importantes missões é tentar adequar o ciclo vegetativo às condições edafoclimáticas do país”. Em todo o caso, há erros que devem ser evitados, como por exemplo, a tendência para o azevém permanecer no solo já a querer espigar, o que leva a uma perda global de qualidade. “É necessário cortar no momento certo”. As consociações do azevém com outras gramíneas ou leguminosas e a silagem de luzerna foram também alvo de abordagem.


reportagem

“É um exercício que não termina nunca, na tentativa de otimizar a proteína que, extra-exploração, que é carríssima”, considerou. Igualmente importante é a boa conservação e armazenamento da SE, em silos ou rolos. Seja qual for a opção em cada um dos passos do processo, a exigência de qualidade deve estar sempre presente, obrigando a uma

constante monitorização e observação do comportamento dos animais.

“Uma das missões é tentar adequar o ciclo vegetativo às condições edafoclimáticas do país.”

COLHEITA Venha descobrir os benefícios duma forragem de qualidade com a KUHN.

António Cannas

E os vencedores são!... “É bom ver distinguida a qualidade do nosso produto”, disse à Revista Ruminantes, Hendrik Roelofsen, vencedor do 1º Concurso Nacional de Forragens. A entrega dos prémios decorreu num clima de alegria e companheirismo. Afinal, a vitória pertence a todos os que cultivam a vontade de progredir. O momento mais esperado foi guardado para o final: a revelação do trio vencedor. Embora soubessem antecipadamente que tinham sido premiados, os três primeiros desconheciam qual o seu lugar na classificação. Porém, não houve nervosismo, nem ansiedade. Somente boa disposição e fraternidade.

1º PRÉMIO (1000 euros) patrocinado pela Lallemand

Uma gama completa para colher 100% do valor nutritivo da forragem!

agricultura | pecuária | espaços verdes

Foi atribuído a Hendrik Roelofsen, Exploração Vale de Leite, Montemor-o-Novo (área de silagem de erva de 45 hectares). Valores da amostra: Matéria Seca (MS) 31,2%; pH 3,86; Cinzas 13,9%; Proteína Bruta (PB) 18,54%; Fibra Neutro-Detergente (NDF) 36,9%; Fibra Ácido-Detergente (ADF) 25,4%; Digestibilidade In-Vitro DMD 87,8%; Energia Net Leite (ENL) 1,71 (Mcal/kg MS); Unidades Forrageiras Leite (UFL) 1,01 (kg MS); Unidades Forrageiras Carne (UFC) 0,94 (kg MS); Proteína Digestível Intestino limitada pela Energia (PDIE) 8,30%; Proteína Digestível Intestino limitada pelo Azoto 10,20%.

Email: geral@tractoresibericos.pt www.tractoresibericos.pt

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reportagem

2º PRÉMIO (700 euros) patrocinado pela Lusosem Foi para João Silvestre, Fajã de Cima, S. Miguel, Açores (área de silagem de erva de 75 hectares). Valores da amostra: MS 45,2; pH 4,51; Cinzas 12,5; PB 22,33; NDF 44,5; ADF 27,66; In-Vitro DMD 88,7; ENL 1,64; UFL 0,96; UFC 0,91; PDIE 9,03; PDIN 12,84.

Finançor, que me perguntou se eu queria concorrer. Achei que o concurso revela um grande dinamismo por parte da Revista Ruminantes e que é uma boa iniciativa para incentivar os produtores a ter um maior profissionalismo. Se tivermos uma boa silagem, conseguimos produzir leite a melhor preço, com menos custos, sem necessitarmos de tantos complementos alimentares. Paula Maia (PM) - Foi o nutricionista que acompanha a minha exploração que me aconselhou a concorrer e foi ele que me inscreveu, porque tinha analisado a minha silagem de erva e achou que estava muito boa. Decidi concorrer, quase por brincadeira, já que não tinha nada a perder. Fiquei feliz quando soube que tinha sido classificada no concurso, mas na verdade os meus animais já me tinham premiado antecipadamente: tive menos custos e eles produziram mais. Na minha zona, fui a única a receber o prémio. Sinto-me uma vencedora! RR - Tem muito experiência na produção de Silagem de Erva?

3º PRÉMIO (500 euros) patrocinado pela Kuhn (patrocinador oficial do CNF) Distinguiu Paula Carla Azevedo Maia, Junqueira, Vila do Conde (área de silagem de erva de 10 hectares). Valores da amostra: MS 46; pH 4,75; Cinzas 12,7; PB 19,31; NDF 41,7; ADF 26; In-Vitro DMD 87,2; ENL 1,60; UFL 0,94; UFC 0,88; PDIE 8,55; PDIN 11,18.

ENTREVISTA AOS TRÊS PREMIADOS Revista Ruminantes - O que o levou a concorrer ao 1º CNF? Hendrik Roelofsen (HR) - Fui convidado pela RR e aceitei porque achei interessante. Faz falta a experiência para fazer boa silagem de erva, em Portugal. A iniciativa de promover este concurso é importante para fomentar a qualidade, poupando dinheiro. É uma grande satisfação receber o primeiro prémio, porque vemos reconhecida a nossa variedade de azevém. É bom ver distinguida a qualidade do nosso produto. João Silvestre (JS) - Soube do concurso pelo Dr. Paulo Aranha, técnico do grupo

HR - Sim, tenho grande experiência. Faço silagem de erva há 40 anos, primeiro na Holanda e nos últimos 30 anos em Portugal, mantendo duas explorações, uma na Holanda e outra aqui. JS - Sim, faço silagem de erva há 40 anos, mais ou menos. Nos Açores, damos muita importância à silagem de erva e eu tento sempre fazer o melhor possível. Nos Açores, temos necessidade de fazer silagem de erva, porque lá a silagem de milho não está muito enraizada. Penso que, por esse motivo, nós nos Açores estamos mais avançados nas silagens de erva do que aqui. PM - Trabalho nisto desde 2009 e sempre fiz silagem de erva. Mas fazia-a com o objetivo de render, de ter quantidade. Este ano, pela primeira vez, fiz um corte no mês de março. A erva estava muito alta e se não a cortasse ia tombar. Nunca tinha feito uma silagem com ervas tão tenras e deu muito bom resultado. Obtive menos quantidade mas mais qualidade e isso compensou. RR - Qual o principal “segredo” para uma boa silagem de erva? HR - A experiência, sobretudo. E não cortar a planta muito alta, para obter um produto fresco e limpo, com boas características, com pouca ferrugem, sem fungos, etc. JS - São as boas atuações no seu conjunto.

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Sobretudo, é muito importante fazer o corte no momento certo. Eu tento sempre ver o tamanho da erva na pastagem, para proceder ao corte quando aquela atinge uma maturidade boa, para dar proteínas e matérias secas em quantidade razoável. Normalmente, corto no princípio da floração. PM - O segredo?... É ter sorte com tudo! Com o tempo, com a cultura, com a maturidade da erva… Mas claro, também temos que fazer por ter sorte e, sobretudo, saber escolher a altura certa para fazer o corte. RR - Qual a principal dificuldade? HR - A principal dificuldade é conseguir uma boa resposta por parte das empresas de aluguer de máquinas, quer na qualidade dos serviços, quer na disponibilidade para operarem quando é necessário. Na Holanda, é muito mais fácil, porque há um melhor serviço. Lá, podemos cortar e ensilar na hora certa, enquanto em Portugal as empresas de máquinas não vêm logo. Na Holanda também somos melhor servidos por parte dos laboratórios - são mais rápidos e eficientes. JS - O maior obstáculo é o tempo. As chuvas na altura do corte, por exemplo, são um grande problema. PM - É o clima, porque há anos em que chove constantemente, o que dificulta o corte na altura certa. RR - Quer fazer alguma recomendação, para o 2º Concurso Nacional de Forragens, a realizar no próximo ano? HR - Uma boa recomendação será tentar sensibilizar os vendedores de sementes e de produtos para ensilar, no sentido destes fazerem o acompanhamento e de serem eles próprios a recolherem as amostras para concurso. Muitos vendedores não mostram iniciativa, não participam, limitamse a vender e mais nada. É importante que as empresas acompanhem os produtores durante todo o processo. JS - A única sugestão que posso dar é que não se esqueçam de fazer o concurso e que haja uma grande adesão. Espero que para o ano concorram muitos mais e com muita qualidade. PM - Não, não me ocorre nenhuma recomendação. Só sei que gostaria de voltar a concorrer.


Atualidades

Baspectra II e Bartigra – genética superior de Azevéns para uma maior rentabilidade na sua exploração Num mercado turbulento com sérios problemas de flutuações de preço (ou incertezas sobre os preços) tanto ao nível dos fatores de produção como também do valor dos produtos agrícolas, os produtores procuram soluções com as quais possam ter maior segurança nos rendimentos obtidos, assim como aumentar a sua competitividade numa realidade cada vez mais agressiva em termos de mercado. No contexto atual a produção de alimentos na exploração é cada vez mais, um tema mais relevante e determinante para os agricultores portugueses, assumindo um papel chave no rendimento final das empresas agrícolas. Os azevéns e as outras espécies forrageiras têm assim um papel cada vez mais importante e estratégico nas explorações agrícolas, levando a que a produtividade por hectare associada à qualidade, se torne um fator cada vez mais importante. Foco na qualidade da forragem A melhor maneira de diminuir custos no concentrado, sem perder produção de leite, é aumentar a qualidade da forragem. As forragens com altos teores em açúcar e elevada digestibilidade, para além de apresentarem uma maior palatibilidade,

conduzem a uma maior ingestão de energia e proteína. Mais leite a partir das melhores variedades O primeiro passo para obter mais leite a partir de uma forragem é começar por implementar as melhores variedades nas suas pastagens. As variedades Barenbrug não são apenas selecionadas por permitirem excelentes colheitas, mas também porque são sinónimo de qualidade. Isto significa que são ricas em açúcares e que têm um elevado nível de digestibilidade e de proteína. As variedades Westerwoldicum Baspectra II e Bartigra provaram ser muito bem sucedidas no Sul da Europa. Estas variedades de floração tardia apresentam flexibilidade no período de corte, produzem mais folhas, e apresentam um teor significativamente mais elevado de matéria seca, características que levam a um rendimento extremamente elevado por hectare. A grande resistência às doenças, nomeadamente à ferrugem, é outra grande vantagem destas variedades. Por este conjuunto de caracterIsticas, as variedades Baspectra II e Bartigra provaram proporcionar um valor económico superior por hectare, podendo igualmente conduzir a uma redução de custos com a alimentação.

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PRODUçÃO

PRECISAMOS DUMA VACA MAIS FÉRTIL E DURADOURA Entrevista a João Paisana, médico veterinário da Agro-Pecuária Afonso Paisana, Lda. por ruminantes

A Agro-Pecuária Afonso Paisana, Lda. é uma empresa familiar que já vai na terceira geração e está localizada na Herdade dos Coelhos em Salvaterra de Magos, desde 2000 (anteriormente, estava localizada em Caneças). Dirigida por três sócios: Rita, engenheira agrónoma; Susana, engenheira zootécnica; e João Paisana, médico veterinário, é uma exploração sempre aberta a novas estratégias para vencer na conjuntura económica atual. A empresa tem vindo a crescer em regime fechado (sem entrada de novos animais) desde 1967, quando 40 vacas foram importadas do Canadá, possuindo atualmente 251 vacas adultas e 183 vitelas e novilhas que produzem anualmente cerca de 11.000 litros por vaca. A empresa é autossuficiente na produção forrageira, sendo que são produzidas na exploração a maior parte das forragens utilizadas na alimentação das vacas leiteiras (feno de azevém, silagem de milho e outras culturas). “É, portanto, uma exploração relativamente nova”.

Que grandes investimentos e decisões tomou nos últimos 5 anos? João Paisana - Apesar dos últimos cinco anos não terem convidado a investimentos, comprámos há cerca de um ano um novo reboque unifeed, que se tem mostrado um bom investimento em termos de saúde animal. Por exemplo, deixámos de ter deslocamentos de abomaso. Tivemos que tomar uma decisão importante relacionada com a genética, pois até 2013 tivemos um decréscimo no número de animais e, depois disso, tem crescido de forma lenta. É sabido que as explorações devem procurar obter um crescimento positivo, de forma a obterem economias de escala que permitam diluir custos fixos. Assim, não seria viável que a exploração permanecesse sem o crescimento do efetivo. Recorrendo à observação de outras explorações que fomos acompanhando de perto, o ProCross surgiu como uma solução possivelmente interessante. Começámos com doses limitadas de sémen há alguns anos atrás e, mais recentemente, procedemos a uma utilização massiva de

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sémen “do programa ProCross”. Neste momento, 18,8% das vacas adultas são cruzadas, a maior parte delas F1. Que objetivos tem para a exploração nos próximos 5 anos? O objetivo não pode ser outro que não seja o crescimento do efetivo, sabendo que o espaço físico da nossa exploração permitenos ter até 350-400 vacas adultas. Por opção, preferimos não comprar animais, mantendo um nível sanitário que nos evita muitos problemas. Podemos concluir que a decisão de recorrer ao crossbreeding se ficou a dever ao desejo de aumentar o efetivo? Os nossos indicadores reprodutivos não eram compatíveis com o crescimento rápido do efetivo. Por isso, ainda que com alguma reserva, começámos a utilizar o programa ProCross. Hoje 50% das vacas de primeira lactação já são ProCross: Holstein cruzadas com Montbélliard ou Vermelha Sueco, sensivelmente na mesma proporção. Começámos com Vermelha Sueco nas


TESTEMUNHOS DE TÉCNICOS E PRODUTORES SOBRE AS VACAS PROCROSS Já há mais de 10 anos que utilizamos a Raça Montbeliarde como solução de fertilidade das minhas vacas e com a confiança de serem bons animais para a produção. A solução PROCROSS justifica os resultados com o Vigor Hibrido que obtenho do cruzamento de duas Raças HOLSTEIN X MONTBELIARDE, e que, para a sua maximização o cruzamento triplo é o programa genético que o assegura. Estamos a usar a Viking Red (SRB) nas Montbeliarde e estamos curiosos com as Novilhas de triplo cruzamento que temos para parir. Os objetivos que pretendemos alcançar para o efetivo passam pela sua eficiência, nomeadamente reduzir o IPP, melhorar a saúde e a longevidade de forma reduzir o efetivo em recria. Apuramos já até ao momento, com 38 vacas HO X MO, IPP 367 dias, IPP 1ªIA 67 dias, IP IA fec 87 dias e na ordenha são vacas que acompanham a média geral de 32 litros . Estes dados fazem-se sentir no global do efetivo (74 Vacas produção) com uma redução de 26 dias no IPP e na maior disponibilidade de Novilhas para reposição. Carlos e Tina. Sociedade Agro Pecuária Irmãos da Fonte, Ldan Rio tinto - Esposende.

Desde 2010 que decidimos criar um grupo de ensaio com vacas PROCROSS, com o objetivo de analisar a rentabilidade deste programa genético na Nossa exploração. Dos 25 animais Procross que actualmente já estão em produção, distribuídos por 1ª,2ª e 3ª lactação, apuramos que têm como pontos mais fortes a fertilidade e o arranque na lactação sem problemas. Como resultado, o grupo PROCROSS têm IPP=373 dias versus 419 dias na manada geral; A performance na vida produtiva: PROCROSS - 3 anos idade com 2 lactações médias, versus manada - 4 anos idade com 2.3 lactações médias na manada. Com esta eficiência conseguimos alcançar um maior numero de partos e picos de lactação no mesmo período de tempo, que, sem pôr em causa a produção vai de encontro com o nosso objetivo, a maximização da Rentabilidade do nosso negócio. Sociedade Agro Pecuária Irmãos Rosendo, Lda Manhente - Barcelos.

Após ouvir falar do programa da vaca Procross e dos seus benefícios, comecei a utilizar os Touros da Raça Leiteira Montbeliarde nas vacas com problemas reprodutivos, hoje em dia utilizo Touros da Viking Red nas novilhas Holstein e nas primeiras Novilhas da 1ª Geração cruzadas com a Montbeliarde. Quanto ás Primíparas da 1ªGeração, por agora estou satisfeito com o seu desempenho Produtivo assim como Reprodutivo, embora o primeiro dado não seja o mais relevante para uma Exploração de produção de Leite mas sim, a rentabilidade conseguida através da Reprodução. Richard Teixeira. Ouca-Vagos.

Ugenes-Unipessoal,Lda Carlos Serra +351-917 534 617 +351-211 978 627 carlosserra@unigenes.com

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PRODUçÃO

novilhas e Montbelliard nas vacas e depois, procedemos ao segundo cruzamento. Qual o grau de satisfação com o ProCross e como é que o mede? A decisão de utilizar o ProCross é controversa. Existem excelentes explorações com ótimos indicadores, que não recorrem ao ProCross e outras com os mesmos resultados que tomaram esta opção. Como disse anteriormente, a decisão inicial foi tomada com alguma reserva. A verdade é que hoje estou muito satisfeito. Analisando os números, embora duma forma tecnicamente pouco exata, pois as primíparas Hosltein têm mais dias em lactação, e portanto as performances menos boas já puderam revelar-se: - O intervalo parto-concepção médio é inferior em 98 dias, no grupo de animais ProCross (37 animais) quando comparado com o grupo de animais Holstein (42 animais); - O número de inseminações necessárias é menos de metade; - As células somáticas apresentam valores sensivelmente melhores (falando sempre em novilhas de primeira lactação, onde não é frequente o número de células somáticas ser muito elevado, sendo, ainda assim, mais baixo). Mesmo que a diferença de 98 dias venha a esbater-se à medida que o grupo ProCross avança na lactação, seguramente que a diferença vai manter-se significativa. - Quanto à produção, aquilo que vamos verificando é que o grupo Procross tem produções acumuladas aos 100; 200 e 305 dias muito aproximadas, o que era uma das críticas dos “adversários” do ProCross: aos 100 dias, as produções são muito próximas, aos 200 dias, inferior em 160 litros para o grupo ProCross, e aos 305 superior em 210 litros. Assim, e recapitulando, os dados objetivos e quantificáveis que utilizamos para medir o grau de satisfação são: intervalo partoconceção (seria uma aposta ganha se conseguisse valores médios abaixo dos 100 dias), taxa de refugo e, obviamente, a produção de leite por lactação. Qual o critério que utiliza na escolha dos reprodutores das diferentes raças? A mim interessa-me a longevidade e inevitavelmente a produção. É também dada atenção à glândula mamária, embora não tendo tido até à data motivos para preocupação. Qual era o número médio de lactações por vaca que tinha antes do Procross? Não tenho esse número para antes e depois do Procross, e com 18% a influência

não pode ser significativa. Ni entanto, estamos com 2,3 lactações por vaca presente e nos últimos 12 meses a taxa de refugo apresentou valores mínimos só semelhantes aos registados em 2000, o que nos deixa muito animados quanto ao crescimento do efetivo. Utiliza sémen sexado? Porquê? Tendo em conta que a nossa prioridade é fazer crescer o efetivo, o sémen sexado é uma ferramenta indispensável. Assim, as primeiras inseminações em novilhas, caso tenham menos de 14 meses, são efetuadas com sémen sexado. Após a primeira inseminação é utilizado sémen não sexado. Em 2014, 24% das fêmeas nascidas resultaram de sémen sexado. Atualmente, na exploração, 1/3 das novilhas gestantes foram inseminadas com sémen sexado. A implementação do programa ProCross requer apoio técnico do fornecedor? Devido à novidade que o programa constitui relativamente ao tipo de melhoramento e tipo de vaca que tínhamos anteriormente na exploração (raça Holstein pura), naturalmente que recorremos não só ao apoio técnico da equipa ProCross, como também ao aconselhamento com outros produtores que utilizam o programa há mais tempo. Quais os parâmetros técnicos de maior relevância económica que utiliza diariamente no controlo da exploração? Temos uma lista bastante extensa. No entanto, existem dois que calculo com uma frequência quase semanal: a taxa de refugo do efetivo adulto e a taxa de mortalidade da recria. Estes são essenciais para a fase em que nos encontramos de crescimento do efetivo. Depois temos inúmeros indicadores,

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como os indicadores reprodutivos: a idade à primeira inseminação, idade à inseminação fecundante das novilha, dias em lactação à primeira inseminação, intervalo partoconceção, e taxa de prenhez no caso das vacas. Quais os dados reprodutivos no grupo das Holstein puras (H) presentes na exploração e no grupo ProCross (PC)? Tenho que ressalvar que estamos a comparar grupos diferentes em dias em lactação: 120 dias para o PC contra mais de 300 dias para o H, ambos incluindo as vacas secas ainda com uma lactação, pelo que as vacas PC que venham a ter pior performance ainda não se manifestaram. Contudo, o intervalo parto-conceção do grupo PC é inferior em 98 dias ao grupo H (acredito que esta diferença se vai reduzir, mas será sempre significativa); a Taxa de Prenhez média mensal do efetivo anda sempre acima dos 25% e não me parece que o grupo PC tenha influência neste resultado; o número de inseminações por vaca grávida é de 1,6 no grupo PC contra 3,4 no grupo H. O número médio de lactações das vacas presentes é de 2,3, sendo que o objetivo final é chegar a uma média de 4 lactações. E no campo da saúde animal? Noto menos problemas no pós-parto das primíparas PC, embora não tenha indicadores quantificados. Neste momento, como já referi, a taxa de refugo dos últimos 12 meses é a mais baixa dos últimos 15 anos, o que resulta de uma melhor e mais fiável mistura do TMR e da utilização da monenzina na prevenção de cetoses. Neste aspecto, falta-me perceber, e quantificar, se as PC precisam de monenzina ou não. Os vitelos cruzados Montblelliard são muito mais resistentes e vivazes. Fizemos também


PRODUÇÃO

várias alterações de maneio, entre elas ao nível do colostro, que estão a reduzir muito significativamente a mortalidade das vitelas. Quais são os pontos fortes e fracos de cada uma das raças que está a utilizar? Apesar de não ter ainda uma opinião 100% formada, posso adiantar-lhe que os receios existentes relativamente à agressividade da Montbelliard ou o facto de as vitelas mamarem umas nas outras não têm justificação: apliquei, até hoje, apenas um único arganel numa vitela que mamava nas outras. De resto, talvez as cruzadas Montbelliard sejam ligeiramente mais temperamentais. À parte disso, enquadramse perfeitamente no funcionamento do efetivo. Quais as médias produtivas diárias por vaca ordenhada? E a percentagem de gordura e de proteína? A produção média diária, neste momento, anda na ordem dos 30 litros de leite vaca / dia, com uma média de 180 dias em lactação. Nos próximos 3 meses, vamos ter um elevado número de partos que vai alterar estes valores. O leite produzido

“Começámos com doses limitadas de sémen há alguns anos atrás e, mais recentemente, procedemos a uma utilização mais massiva de sémen “do programa ProCross”. Neste momento, 18,8% das vacas adultas são cruzadas, a maior parte delas F1”.

no grupo Procross, a duração média da lactação vai ser substancialmente inferior. Nota alguma mais valia económica quando vende os vitelos cruzados machos? A procura pelos vitelos cruzados Montbelliard é maior. No entanto, como fazemos a engorda (só vendemos muito pontualmente), os dados que temos é um rendimento por carcaça dos cruzados com Montbelliard, com 7 a 8 meses de idade, superior em 20 Kg em relação aos Holstein ou Holstein com Vermelha Sueca.

pela exploração contem em média 3,6% de gordura, 3,1% de proteína e uma contagem de células somáticas de 300.000. Qual a diferença d a duração média da lactação dos dois grupos? Ainda não tenho esses dados, mas com menos 100 dias de intervalo parto-conceção

Na conjuntura económica atual do mercado da produção leiteira consegue antever mais valias dos rebanhos de vacas ProCross em relação aos rebanhos de vacas de raça pura? Tudo o que traga maior longevidade para que melhor se possa amortizar o custo da recria, tudo o que traga conceções mais precoces para se evitar vacas com lactações prolongadas, tudo o que traga saúde ao efetivo, é naturalmente interessante em qualquer conjuntura.

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Alimentação

pedro castelo Engº agrónomo, reagro sa. pedro.castelo@reagro.pt

Outras formas de avaliar

os PROGRAMAS ALIMENTARES de bovinos Numa fase em que o contexto do setor bovino tem sido economicamente desfavorável (baixo preço do leite e da carne), é importante analisar criteriosamente todos os parâmetros de forma a podermos ter a maior rentabilidade possível. Além de se dever fazer uma otimização correta dos arraçoamentos (ração com o melhor perfil nutricional ao menor preço possível), ponto já referido por nós várias vezes, existem outras formas de saber se a ração está correta – através da análise das matérias fecais (fezes) e/ ou urina. O exame das matérias fecais ou urina podem dar um conhecimento muito preciso sobre a natureza da ração (matéria-seca, fibras, glúcidos fermentescíveis, azoto degradável e minerais). Assim, temos, por exemplo, dois testes que devem ser considerados em simultâneo (Teste da Bota e Teste da Luva). No entanto, há que ter em conta que estas análises deverão ser feitas 1,5 a 4 dias após o fornecimento da dieta (tempo necessário para que a alimentação ingerida atravesse todo o tubo digestivo).

Consistência das matérias fecais Teste da Bota Este teste consiste em pisar uma amostra da matéria fecal fresca e de avaliar a sensação de sucção no momento de retirada da bota. De seguida, examinase a impressão deixada pela bota, verificando a presença ou ausência de partículas não digeridas.

Pontuação

Fotografia

Descrição

Interpretação

1

Fezes demasiado aquosas, líquidas e não têm a estrutura de uma bosta. Apresenta a consistência de uma sopa de ervilhas.

• Excesso de azoto degradável no rúmen. • Excesso de amido fermentescível. • Excesso de certos minerais.

2

Fezes líquidas, cremosas. A estrutura da bosta é reconhecida. Salpico sobre o solo visivel.

• Pastagem de erva jovem. • Ração pobre em fibras ou com excesso de amido fermentescível (Glúcidos rápidos). • Quantidade elevada de proteínas degradáveis.

3

Fezes espessas. Ligeiro som de “floc” quando tocam no solo. Formam uma bosta circunscrita de 2 a 3 cm de espessura que guarda a sua forma. Teste da bota: não há sensação de sucção, impressão não visível.

• Ração bem digerida.

4

Fezes duras. Som de “floc” intenso quando tombam sobre o solo. Guardam a sua forma e apresentam-se em aneis amontoados. Teste da bota: Sensação de sucção e impressão visivel.

• Excesso de fibras. • Carência em proteínas degradáveis e/ou solúveis.

5

Fezes duras, semelhantes à dos cavalos. Teste da bota: impressão visivel.

• Excesso de fibras. • Carência de proteínas degradáveis e/ou solúveis. • Consumo de água insuficiente.

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Alimentação

Frações fecais não digeridas

não é um sinal de uma ração demasiado fibrosa mas sim de uma ração pouco fibrosa) • Défice mineral: P, Ca, Co, etc. • Causas patológicas

Teste da Luva

Presença de grãos

Este teste consiste em apertar as fezes numa luva. A bosta pode ser rugosa ou cremosa, homogénea ou com frações sólidas, a água pode fluir entre os dedos e as partículas não digeridas podem estar presentes. É necessário avaliar a sua origem e tamanho. Pontuação

Fotografia

Descrição

Interpretação

1

A bosta brilha, sem nenhuma partícula não digerida. Consistência de uma emulsão cremosa e homogénia.

• Pontuação ideal para as vacas em lactação e vacas secas.

2

Aspeto brilhante, consistência de uma emulsão cremosa e homogénia. Algumas particulas de pequeno tamanho não digeridas.

• Pontuação aceitável para as vacas em lactação e vacas secas.

3

Particulas não digeridas. Textura rugosa. Um pouco de água aparece com a pressão entre os dedos. Depois de aberta a luva, as fibras não digeridas de tamanho variavel colam-se aos dedos.

• Pontuação aceitavel para as vacas secas e novilhas mas não apropriado para vacas em lactação.

4

Particulas grandes não digeridas. Textura rugosa. A água cola-se sobre pressão nos dedos. Depois de aberta a luva, uma bola de fibras não digerida de tamanho > 2 cm fica na mão.

• Necessário rever a ração.

5

Aspeto muito tenro, partículas grosseiras palpáveis não digeridas. Textura rugosa. Depois de aberta a luva, uma bola de particulas inteiras de varios tamanhos não digeridas são visiveis sobre a mão.

• Necessário rever a ração.

Cor das fezes

Elementos não digeridos As partículas não digeridas presentes nas fezes podem ser fibras e/ou grãos de milho ou de outros cereais (figura 1). A interpretação da presença de partículas não digeridas deverá estar relacionada

com o nível de produção. Na verdade, esta será tanto maior quanto mais alta for a ingestão e, por isso menos ração é digerida, logo a quantidade de resíduos não digeridos é superior. De uma maneira geral, o tamanho das partículas nas bostas depende da intensidade e da duração de ruminação (portanto da fibrosidade e do tamanho

Figura 1 Presença de grãos nas fezes.

Numa primeira fase é conveniente saber se são fornecidos aos animais grãos inteiros. Isto é importante uma vez que os grãos inteiros (de milho e de outros cereais) são pouco digestíveis para os bovinos adultos. Por outro lado, os vitelos e os pequenos ruminantes geralmente valorizam-nos bem. A presença de grãos inteiros nas fezes dos bovinos adultos não significa que o metabolismo destes animais não é correto. O problema situa-se ao nível da granulometria do alimento concentrado, ou seja, do crivo da moenda em função dos cereais. A presença de grãos partidos nas fezes, que ainda contenham amido, pode significar o seguinte: • Excesso de grãos na ração • Falta de fibras • Défice de azoto degradável

das partículas consumidas), da atividade da flora ruminal (e dos seus eventuais fatores limitantes) e do tempo que as partículas permanecem no rúmen.

Presença de fibras Uma proporção importante de elementos de mais de 1 cm revela uma digestão insuficiente de fibras. A origem desta observação pode-se situar a diferentes níveis: • Défice azotado • Acidose (a presença de fibras longas nas bostas

A coloração é fortemente influenciada pela natureza das forragens e concentrados (o teor em clorofila, a quantidade de bílis segregada e a velocidade do trânsito no tubo digestivo são os principais fatores de variação). • Verde escuro – pastagem • Castanho esverdeado – Ração invernal à base de silagem de milho • Castanho escuro – Ração rica em polpas desidratadas, luzerna, silagem de erva ou forragens grosseiras • Amarelada – acidose ou excesso de milho sob todas as formas

ruminantes outubro . novembro . dezembro 2015 21


Alimentação

Urina

Aspeto das fezes e relação com as desordens alimentares

pH

Desordem alimentar Caracteristicas

Modalidade Acidose

Consistência

Mole

Défice Azoto

Excesso azoto

+

+

Seca

+

Castanho escuro Cor

Castanho

Grãos

+

Amarelado

++

+

Numerosos

++

++

Raros

+

Frequentes

++

+

++

++

++

+

+

+

Ausentes Fibras não digeridas

Excesso Fibra

+

+

+

+

++

Raras

Aspeto das fezes em função do tipo de ração Tipo de ração Caracteristicas

Consistência

Modalidade

Silagem Milho

Mole

+

Normal

+

Seca

+

Mistura forragens

++ +

Castanho escuro Cor

Grãos

Fibras não digeridas

Erva + Feno + concentrado concentrado

++ +

+

+

+

+

Castanho

+

Amarelado

+

Numerosos

+

+

Raros

+

Ausentes

+

Frequentes

Silagem erva

+

Raras

+

Conclusão

+

+

O acompanhamento do pH urinário é de elevada utilidade no âmbito de rações aniónicas no final da fase seca da vaca. A urina deverá acidificar assim que o BACA (Balanço catiãoanião) diminuir. A medida do pH urinário é feita com a ajuda de um medidor de pH 2 a 6 horas após a refeição principal. Para um controlo eficaz da febre do leite, mas também de hipocalcémia subclínica, o pH urinário das vacas antes do parto deverá encontrarse entre 6 e 6,5, ao contrário do pH normalmente alcalino (>7) presente em ruminantes. Um pH urinário <5,5 não é recomendado devido aos riscos de descalcificação óssea. Será preferível ocorrer um aumento do pH urinário aquando da passagem da ração de fase seca à ração de início de lactação confirmando um valor positivo do BACA, adequado para esta fase.

+

+

+

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+

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+

Consideramos serem importantes todas estas análises de forma a verificar se o maneio alimentar está adequado. Num setor em que o contexto tem sido difícil, todas estas análises poderão ajudar-nos a ser mais eficientes.

Primeiro seguro para condições climatéricas extremas A Credit Agricole Assurances criou o primeiro seguro que cobre as terras em épocas de produção menos favoráveis, devido a eventos climatéricos extremos. Este novo produto providência uma compensação aos produtores que experienciaram uma produção de feno mais baixa, ajudando a aquisição de alimentos de fontes externas à exploração, essenciais para manter a atividade produtiva da empresa. Os produtores podem escolher diferentes tipos de prémios de seguro, para diferentes tipos de feno, e são livres para determinar o seu excesso. A baixa de produção é medida remotamente na balança da comunidade local (Rural Community Scale) utilizando o índex de produção forrageira (FPI). Este índex desenvolvido pela Airbus Defence and Space é baseado numa tecnologia específica: a erva produzida é avaliada desde 1 de fevereiro até 31 de outubro, através de um parâmetro biológico denominado a cobertura (“the cover” – fração de cobertura por vegetação verde). A correlação entre o FPI e a produção de erva foi estabelecida durante os últimos cinco anos, tendo sido os resultados publicados em dois artigos científicos.

22 outubro . novembro . dezembro 2015 Ruminantes


FERTILIZAÇÃO

Ana Coimbra Diretora de Departamento Timac Agro - Litoral Norte acoimbra@vitas.pt

forragens de maior qualidade! Aproveitando os nossos recursos naturais Conjuntura dos laticínios

Como rentabilizar uma exploração leiteira na conjuntura atual?

Desde o princípio de 2015, o mercado mundial dos produtos lácteos tem assistido a uma quebra acentuada dos preços, fruto da acumulação de oferta de leite nas principais regiões produtoras (Europa, EUA, Austrália e Nova Zelândia) e da quebra da procura, em particular devido ao embargo Russo aos produtos lácteos europeus. Estes fatores conjugados originaram uma redução dos preços pagos ao produtor em toda a Europa e, claro, em Portugal não fomos exceção.

Na conjuntura atual, todos os operadores da fileira do leite têm um papel fundamental na procura de ajudar o produtor de leite a produzir mais, com qualidade e baixando o custo de produção unitário (€/litro de leite). No entanto, é ao produtor que cabe o papel principal. E em tempos como os que vivemos, torna-se necessário mudar, sendo a primeira mudança a pedir que o produtor passe também a ser um gestor. Gerir implica analisar para depois atuar. Foi nessa perspetiva que a Timac Agro desenvolveu o projeto PROMILK, de modo a ajudar os produtores a analisarem a estrutura de custos das suas explorações e assim perceberem melhor o seu/nosso negócio.

GRáFICO 1 Análise de custos.

GRáFICO 2 Custos directos. Fertilizantes 6%

Custos de terrenos 2% Custos de edifícios 1%

Sementes Outros custos directos 4% de produção animal 2% Saúde animal, arranjo de cascos 7% Inseminação, ET 2%

Outros custos 2%

Custos relacionados com o trabalho 28%

Compra de animais 0%

Custos directos 67%

Suplementos alimentares 2% Matérias-primas 4%

Pesticidas 2%

Outros custos directos de produção de forragem 1%

Compras de alimentação 76%

Após 2 anos de trabalho, destacamos as principais conclusões: Leite substituição 1%

• Os custos diretos representam 67% (Compras de alimentação, compra de animais, inseminação, saúde animal, sementes, fertilizantes, pesticidas e outros custos diretos) • As compras de alimentação representam 76% dos custos diretos; • A ração (alimentos concentrados) assume 93% das compras de alimentação

GRáFICO 3 Compras de alimentação.

Ração 93%

24 outubro . novembro . dezembro 2015 Ruminantes

Em resumo, a alimentação do efetivo animal pesa mais de 50% dos custos totais de uma exploração.

Projeto Promilk A Timac Agro, procurando consolidar a sua presença no sector leiteiro, desenvolveu o projeto Promilk. Este projeto consistiu em acompanhar de perto 4 explorações leiteiras situadas no Entre Douro e Minho, com um efetivo médio de 55 vacas em lactação e uma área de produção de forragens na ordem dos 18 ha. Durante 2 anos foram recolhidos todos os custos das explorações participantes, registados os principais indicadores (leite produzido, leite descartado, nº de animais em lactação, vacas secas, partos, inseminações, etc.), analisados as bases económicas das explorações de modo a podermos efetuar um diagnóstico técnico-financeiro que nos permitisse delinear estratégias de intervenção e implementar ações de melhoria dos diferentes indicadores.


FERTILIZAÇÃO

de germinação das sementes, mau desenvolvimento radicular e fraco afilhamento. São solos com fraca atividade microbiana e um baixo aproveitamento/ disponibilidade dos principais nutrientes (azoto, fósforo, potássio, cálcio, magnésio e alguns micronutrientes). Registase também a presença em níveis tóxicos de alumínio e sódio. Em suma, os solos ácidos são um meio altamente desfavorável ao desenvolvimento das plantas.

Como baixar o custo da exploração?

Como produzir mais comida em casa?

Conscientes de que a alimentação do efetivo animal é a “fatura” mais pesada da exploração, é fundamental maximizar o uso de alimentos forrageiros produzidos na exploração, aumentando a produção de forragem (azevém/milho) na área disponível. Devemos ter sempre bem presente que, em condições normais, tudo o que produzirmos em casa sai mais barato do que comprar fora. Hoje em dia ainda nos fica a sensação evidente de que o azevém é feito em muitas explorações apenas para ocupar as terras durante o outonoinverno, sem uma grande preocupação de obtermos uma maior quantidade de silagem de erva. Paralelamente, devemos também procurar melhorar a qualidade das silagens produzidas, nomeadamente conceitos como a digestibilidade, o valor nutritivo bem como a palatabilidade da silagem, pois desta forma poderemos responder melhor às necessidades alimentares dos nossos efetivos bem como ajustar os arraçoamentos ao estado fisiológico (gestação, lactação, crescimento) e nível produtivo dos animais. É importante não esquecer a necessidade de fornecer suplementação que corrija défices nutricionais, promovendo o equilíbrio da dieta e a eficiência alimentar.

A saúde e a fertilidade dos solos são a base de uma agricultura produtiva e componentes importantes da gestão ambiental cada vez mais exigida pela sociedade aos agricultores. As limitações da qualidade do solo devem ser abordadas, e altos níveis de fertilidade do solo devem ser alcançados e mantidos para sustentar as produções em quantidade e com qualidade consistente. A maioria dos solos das bacias leiteiras do nosso país caracterizam-se por serem: Solos ácidos o que nos provoca graves problemas de estrutura de solo, problemas de compactação, más condições

Solos com elevados níveis de matéria orgânica Resultante da aplicação de estrumes e chorumes (bem como do pastoreio direto na região dos Açores), matéria orgânica essa de alto valor agronómico desde que bem potenciada. No entanto, convém não esquecer que tudo o que é em excesso também acarreta alguns inconvenientes como uma acidificação maior dos nossos solos, excesso de azoto orgânico e promove alguns desequilíbrios na fertilidade dos solos.

Otimizar estes recursos naturais da exploração é um dos grandes desafios do produtor.

IMAGEM 1 e 2 Esquerda: Espalhamento de chorume em pastagem açoriana. Direita: Desenvolvimento de raízes adventícias após aplicação de Physiolith.

26 outubro . novembro . dezembro 2015 Ruminantes

Physiolith um produto único na valorização dos nossos solos

Tendo em conta o referido anteriormente, torna-se assim essencial: Corrigir o pH do solo de modo a criar melhores condições de desenvolvimento para as forragens a instalar; Aumentar o aproveitamento de toda a fertilidade existente nos nossos solos; Estimular uma maior germinação das sementes, aumentar o desenvolvimento radicular bem como potenciar o afilhamento criando as bases para um campo mais resistente ao inverno e, consequentemente, mais produtivo.


FERTILIZAÇÃO

Fornecer uma fonte de cálcio muito biodisponível e reativa com o solo e as plantas de modo a promover todas as interações necessárias com a “acidez da terra” e a matéria orgânica. Com esta estratégia “fabricamos” uma terra mais estruturada, ou como dizem os produtores, uma terra mais ligada, menos compactada, mais arejada e com melhor circulação da água minimizando a asfixia radicular; Não esquecer que o cálcio é também um nutriente de elevada importância para a obtenção de um alimento com mais qualidade e matéria seca, diminuindo perdas de produção bem como problemas nos animais (ex: diarreias); Fornecer magnésio numa relação ideal com o cálcio; Fornecer micronutrientes, fundamentais na produção de um alimento de alto valor nutritivo.

resultados Ao trabalharmos com Physiolith na sementeira das ervas e durante o outono-inverno os resultados serão: • Aumento da produção: mais rolos/ha, silos maiores, mais dias de pastoreio (imagens 3 e 4 ); • Melhoria da qualidade obtida: forragens mais ricas em proteína, matéria seca e minerais; • Solos melhor preparados/estruturados para receber a cultura seguinte (o milho); • Diminuição dos custos de alimentação; • Aumentos de produção de leite/vaca/ dia e com parâmetros de qualidade; • Melhoria da sanidade dos animais.

IMAGEM 3 e 4 Aumento da produção do número de rolos / ha.

ruminantes outubro . novembro . dezembro 2015 27


alimentação

CONTROLO DA ACIDOSE EM BOVINOS JOVENS A variedade de sinais clínicos da acidose em bovinos é bastante variada, pelo que pode levar a que muitas vezes esta não seja reconhecida nas explorações e a que a sua prevalência seja subestimada. Sendo uma doença com origem multifatorial, é importante entender os seus fatores de risco, bem como abordar possíveis soluções para este problema tão abrangente. por Bruno Martin. Departamento técnico da Lallemand

MECANISMO DA ACIDOSE NOS BOVINOS JOVENS Durante a engorda utilizamos frequentemente quantidades crescentes de cereais. Contudo, isso não está isento de consequências na digestão dos animais. Um bovino adulto pode reciclar até 150 litros de saliva por dia, caso o número de ruminações seja o ideal. Esta saliva rica em bicarbonatos e em fosfatos permite neutralizar os ácidos (ácidos gordos voláteis) que são produzidos durante a digestão no rúmen. Quando a dieta é rica em hidratos de carbono (amido) e pobre em fibras (situação muito frequente na engorda de bovinos, devido à utilização crescente de cereais durante o crescimento), não é suficiente para estimular uma ruminação normal, levando à acidose ruminal. Os cereais (em particular o trigo) têm a particularidade de se digerirem muito rapidamente no rúmen, sobretudo se forem finamente moídos. Aquando da distribuição destes cereais em quantidade considerável (mais de 2 Kg por dia para

Microbiota do rúmen O rúmen é uma grande cuba de fermentação com cerca de 200 litros de capacidade, contendo centenas de milhares de microrganismos, cada um tendo uma função importante na digestão e na valorização do alimento! • Bactérias: a maior população. Há 500,000 biliões de bactérias de cerca de 200 tipos diferentes. Um dos mais importantes tipos é a bactéria que digere as fibras, o que permite ao ruminante utilizar as forragens. • Protozoários: uma população de cerca de 50 biliões que perfazem até 50% da biomassa microbiana, devido às suas dimensões. Além de desempenharem uma função na degradação da fibra, desempenham também uma função importante na regulação do pH, envolvendo as partículas de amido, reduzindo a sua fermentação pelas bactérias. Também servem de alimento às bactérias, influenciando assim a dinâmica, o tipo e o tamanho da população bacteriana.

das fibras das plantas, complementando a atividade das bactérias. A sua ação é essencial para a produção de ácidos Gordos Voláteis (AGVs), o “combustível das vacas”. Todas as espécies microbianas do rúmen interagem entre elas para digerirem o alimento. A microbiota é também influenciada pela dieta e pelo estado fisiológico do animal: Fatores como stress e a dieta do animal têm um impacto direto no equilíbrio da população da microflora do rúmen, daí a sua eficácia.

FIGURA 1 Microrganismos do Rúmen.

• Fungos: a população mais pequena, mas que tem uma função importante na digestão

um jovem bovino à engorda), os microrganismos do rúmen (figura 1) produzem uma quantidade crescente de ácido láctico que vai progressivamente perturbar a digestão (bloqueio da multiplicação da flora útil). O trânsito gástrico tornase mais acelerado e leva a

28 outubro . novembro . dezembro 2015 Ruminantes

uma redução da digestão no rúmen, que o intestino terá dificuldades em compensar. Observam-se assim mais partículas não digeridas nas fezes, sendo que a eficácia alimentar se degrada. Os concentrados ricos em grão de milho ou sorgo são digeridos muito

mais lentamente que os concentrados ricos em cereais de palha, mas se consumidos em grande quantidade são igualmente suscetíveis de provocar acidose subclínica. Os alimentos pouco volumosos que se consomem em quantidade elevada, como a polpa prensada ou a erva


alimentação

jovem, aumentam o risco de acidose subclínica. A acidose está mais associada a uma ingestão elevada e a uma fraca mastigação, do que à presença de amidos, estando potencialmente presente em vários regimes de engorda de bovinos jovens como os que utilizam silagem de erva e/ou de milho, polpa de beterraba ou rações secas à base de concentrados. Outros fatores importantes para a prevenção da acidose ruminal são a regularidade de horários de distribuição de alimento e a precisão da quantidade distribuída. É de notar que horários de distribuição irregulares ou uma variação da quantidade distribuída, favorecem um consumo rápido pelos jovens bovinos, o que por conseguinte leva a uma menor salivação. Diferentes observações demonstraram que, excluindo a grande refeição da manhã, os jovens bovinos preferem voltar à manjedoura sós ou em número reduzido, devido à forte importância da hierarquia social no seio do grupo. Uma ingestão de alimentos regular é favorável à eficácia e boa saúde do rúmen. Finalmente, o tipo de alojamento deve ser considerado de igual modo na estratégia de prevenção. Uma densidade elevada e um espaço insuficiente na manjedoura limitam a distribuição das refeições e da ruminação. As instalações de estabulação que diminuem igualmente o tempo de repouso diário, não estão isentas de consequências negativas.

SINAIS VISÍVEIS DA ACIDOSE SUBCLÍNICA NOS BOVINOS JOVENS

Imagem 1 Saco ventral- Papilas ruminais alteradas, inflamação aguda.

Frequentemente o jovem bovino demonstra alguma excitação numa fase precoce da acidose devido ao desconforto digestivo, e é difícil observar outra coisa para além das fezes de cor amarelada ( o amido eliminado que é mal digerido). As fezes são também mais líquidas, e o trânsito digestivo acelera-se. Se a distribuição intensiva dos alimentos ricos (ex. cereais) é contínua, o ácido láctico acumula-se e contribui para a erosão das paredes do rúmen (vilosidades ruminais necrosadas - Imagem 1 e 2). O animal digere mal, mas sobretudo são os microrganismos do rúmen disseminados na circulação sanguínea, que são suscetíveis de criar quistos no fígado e noutros órgãos (pulmões, intestinos). Muitas vezes, estes quistos não se revelam a não ser no matadouro, mas são um motivo de rejeição parcial das carcaças, que frequentemente não é negligenciável (é uma das principais causas de peritonites, na mesma proporção que os corpos estranhos). Com uma ração acidogénea, a flora do rúmen pode deixar de estar equilibrada, levando à sintetização de histamina. Esta substância (por vezes associada a outras toxinas fabricadas por microrganismos patogénicos em situação de acidose) modifica a circulação sanguínea (vasoconstrição). Observamos assim casos de laminite, ou seja patas congestionadas (côr rosa escuro – roxo em torno das sobreunhas e nas zona posterior das unhas). O animal tem um andar anormal, parecendo andar sobre “agulhas”. A laminite é também facilmente visível nos cornos, desde que estes sejam de cor clara. A pata congestionada sofre uma modificação na produção de substância córnea, e observa-se uma modificação progressiva

Imagem 2 Saco ventral- Papilas ruminais bem desenvolvidas.

da forma do casco (sola dupla). Os aprumos fragilizados podem, em casos extremos, não suportar mais o peso do animal em crescimento intensivo, nomeadamente se o aporte mineral da ração for insuficiente ou desequilibrado. Para que a flora do rúmen seja eficaz ao máximo, só devem ter lugar pequenas variações de pH no rúmen (os ácidos em excesso perturbam o desenvolvimento de microrganismos). Na realidade, é exatamente o inverso que se efetua na engorda. O jovem bovino consome muito mais alimentos ricos levando a uma menor produção de saliva. Com a diminuição da quantidade de saliva, os ácidos tendem a acumular-se. Devido a esta acumulação, o ácido láctico (ácido forte), leva a uma diminuição do apetite do animal, provocando-lhe simplesmente uma sensação de “ardor de estômago”. Esta fase traduz-se frequentemente numa quebra do crescimento porque o “organismo paralisa”. Um pH baixo no rúmen conduz a um apetite irregular que é difícil de detetar no “campo”, mas diferentes ensaios realizados nos EUA evidenciaram claramente este fenómeno em animais criados em compartimentos individuais. Um agravamento da acidose pode resultar na necrose do córtex cerebral (o animal cega em consequência de uma carência induzida de vitamina B1), em distensão abdominal, ou pode estar na origem da enterotoxémia. Como referido anteriormente, os jovens bovinos demonstram um grau de nervosismo associado à acidose subclínica. Este nervosismo leva a um comportamento mais agressivo (maior número de lutas que levam a um aumento no comportamento de repulsa) que aumenta a proporção de

ruminantes outubro . novembro . dezembro 2015 29


alimentação

animais rejeitados durante a engorda (cornos partidos, patas partidas, entre outros). Estudos demonstraram que o tempo de mastigação de bovinos de engorda é relativamente moderado (na ordem das 5 a 6 horas por dia). Na vida produtiva dos bovinos jovens, a acidose subclínica

começa a surgir geralmente após o desmame quando o consumo de concentrados é aumentado em proporção à matéria seca ingerida (após o desmame, um vitelo leiteiro de 100 Kg peso vivo que consuma no total 3 Kg de MS por dia, recebe frequentemente mais de 50% de concentrados na sua ração).

o QUE FAZER CONCRETAMENTE

alimento extremamente palatável deve ser fornecido para estimular o apetite. Um consumo insuficiente de alimento pode levar a uma diminuição da imunidade devido a um aporte energético menor. No entanto, é importante não esquecer que um consumo excessivo de um alimento rico aumenta o risco de acidose e pode levar a um desequilíbrio da flora ruminal.

Um dos pontos-chave a ter em conta no controlo da acidose é a gestão das transições alimentares, principalmente no início da engorda (tanto em raças leiteiras como de carne). Frequentemente os animais são criados com uma proporção alta de forragens fibrosas (erva, palha) e eles devem adaptar-se a uma ração à base de forragens ricas e de concentrados. A flora do rúmen deve adaptar-se a digerir novos compostos, e o animal deve adaptar-se igualmente a um novo ambiente (estabelecimento da hierarquia social no novo grupo). Tudo isto constitui um stress intenso que geralmente se segue ao transporte dos animais para a engorda, também por si só stressante. Após a chegada ao novo lote, os bovinos devem ser reidratados e um

Em todos os programas de engorda, é desejável estabilizar a flora com a ajuda de Levucell SC. Levucell SC pode ser utilizado só ou em combinação com outras substâncias tampão, porque o seu modo de ação é sinérgico.

Levucell® SC CNCM I 1077 é uma aditivo zootécnico biológico (fonte de levedura viva selecionada e registada a nível Europeu). Estas leveduras vivas têm a particularidade de viver especificamente no rúmen e contribuem para a estabilização da digestão dos ruminantes. Levucell SC é uma fonte de leveduras vivas isoladas e selecionadas especificamente para serem adaptadas aos bovinos.

Como funciona? As leveduras consomem o oxigénio residual presente em pequena quantidade no rúmen. As condições anaeróbicas são melhoradas e a flora ruminal desenvolve-se favoravelmente (ela é estimulada). Levucell SC tem um efeito positivo no desenvolvimento acrescido da flora benéfica, nomeadamente nas bactérias que degradam as fibras e nas bactérias que consomem o excesso de ácido láctico, cuja acumulação conduz à acidose. Levucell SC tem 3 efeitos principais visíveis sobre os bovinos de carne • Estabilização da acidose clínica e subclínica • Melhoramento da eficácia alimentar • Estabilização do comportamento alimentar.

Um ensaio realizado no centro de investigação INZO em França, demonstrou que os jovens bovinos que recebiam Levucell SC melhoraram significativamente o seu crescimento (+ 235 g/dia), assim como o seu índice de consumo. Ainda que consumindo um pouco menos de MS, eles aumentaram de forma importante o número de refeições diárias. As refeições mais pequenas e regulares contribuíram para este ganho de crescimento consequente. É de sublinhar igualmente que os animais que receberam Levucell SC tiveram crescimentos muito mais homogéneos. Este aspeto é interessante de considerar para a colocação no mercado dos animais que é favorecida indiretamente (melhor homogeneidade dos animais).

30 outubro . novembro . dezembro 2015 Ruminantes

Levucell SC levou a um ganho de crescimento suplementar, em média, de 100 g/dia e foi observado em vários ensaios internacionais. A eficácia alimentar é melhorada em média 3%, devido à melhoria na digestão. O incremento da digestibilidade é maior quando as forragens tenham sido submetidas a stress durante a sua cultura. É o caso nomeadamente deste ano para a silagem de milho.


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Não perca nem um grama

LEVUCELL® SC

valoriza o seu alimento e o rendimento da sua exploração LEVUCELL® SC, Saccharomyces cerevisiae CNCM I-1077 : • Aumenta o Crescimento: + 100* a 200* g/animal/dia • Melhora o Índice de Conversão: + 4 a 6% mais peso por kg de alimento ingerido • Optimiza o pH do rumen (menos acidose) e melhora a digestibilidade da fibra * Meta-análisis ADSA,USA, 2009 demonstrado com a estirpe I-1077.

Levedura específica para ruminantes

* Autorizado na União Europeia em bovinos destinados à produção de leite e de carne, ovelhas e cabras de leite, cordeiros e cavalos (E1711/4a1711/4b1711).

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Saúde e bem-estar animal

APP BCS Cowdition (Body Condition Score)

uma ferramenta extremamente prática Entrevista a Diogo Pereira por ruminantes

A Ruminantes entrevistou Diogo Pereira, Marketing de Animais de Produção da Bayer em Portugal, que dá a conhecer a BCS (Body Condition Score) Cowdition. Esta aplicação para smartphones e tablets, permite aos utilizadores medirem o índice de condição corporal, que possibilita a deteção mais precoce de transtornos metabólicos nos animais. Apenas com duas fotografias do animal, é agora possível calcular o seu estado nutricional de forma fiável e cientificamente rigorosa. Desenvolvida pela Bayer em colaboração com a Universidade de Bonn, a BCS Cowdition é gratuita e extremamente prática.

Diogo Pereira Vendas Clientes Industriais no Alentejo e Marketing Animais de Produção. Responsável pelo projeto em Portugal Na Bayer há 3 anos e meio

Há quanto tempo foi lançada a aplicação? Diogo Pereira - Em Portugal foi lançada nas XVII Jornadas da Associação Portuguesa de Buiatria, em Tomar, no início de Junho deste ano. A nível Mundial foi lançada no verão do ano passado, no XXVIII Congresso Mundial da Buiatria, em Cairns na Austrália. Foi lançada em todos os países onde a Bayer está presente? A aplicação foi disponibilizada para todo o Mundo em 7 idiomas diferentes, incluindo português, na AppStore internacional e GooglePlay. A quem é dirigida esta aplicação? É uma aplicação criada

32 outubro . novembro . dezembro 2015 Ruminantes

para técnicos, médicos veterinários, auxiliares e produtores. A aplicação tem como objetivo facilitar, retirandolhe alguma subjetividade, o processo de medição do índice de condição corporal para todos os intervenientes. É gratuita? Sim, é gratuita. Qualquer pessoa interessada pode descarregá-la e utilizá-la livremente. Que resultados espera atingir com este lançamento? O nosso objetivo é chegar ao maior número de utilizadores possível, sem nos esquecermos que este é um produto condicionado por vários fatores, nomeadamente a necessidade de o utilizador possuir um smartphone.

IMAGENS DA APLICAÇÃO

No entanto, esperamos que a sua crescente utilização seja um reflexo da crescente modernização da pecuária, possibilitando, principalmente no caso das doenças metabólicas, um diagnóstico cada vez mais precoce. No fundo, pretendemos através do desenvolvimento deste tipo de serviços para os médicos veterinários (aparelhos medidores de corpos cetónicos, análises laboratoriais, etc.), que os nossos parceiros disfrutem dos nossos produtos de uma forma integrada, possibilitandolhes uma maior segurança e melhores resultados. As duas fotografias necessárias são tiradas em diferentes momentos ou na mesma altura de ângulos diferentes?


Saúde e bem-estar animal

O primeiro passo é tirar duas fotografias na mesma altura, uma da silhueta traseira e outra da silhueta lateral (mais virada para a parte de trás, sempre dos quartos traseiros do animal). Idealmente, o animal deve estar no cornadis, visto que nas mangas existem algumas dificuldades adicionais para tirar as fotografias. Tiradas as fotografias iniciais, a aplicação dar-nos-á a medição corporal daquele animal naquele dia. Com os updates previstos, será possível traçar uma evolução da condição corporal do animal ao longo de um determinado período. Por exemplo, tirando fotografias semanalmente, será possível elaborar um gráfico que permita detetar variações bruscas do índice de condição corporal. Relativamente aos upgrades, também eles gratuitos, a ideia é que a cada 6 meses sejam lançadas melhorias e novas funcionalidades. Com que regularidade recomenda que sejam tiradas fotografias? Quanto mais regularmente forem feitas medições, mais fidedigna será a avaliação. No entanto, de um ponto de vista prático, diria que existem três momentos importantes. Na secagem, no parto e no pico da lactação. É possível utilizar a aplicação em estábulos com pouca luminosidade? A aplicação foi desenvolvida e testada (na Universidade de Bonn), em ensaios com animais em diferentes condições de luminosidade e que apresentavam diferentes graus de sujidade. É possível, mas será, claro, mais complicado. Nestes casos é particularmente importante que a análise das fotos seja feita in loco, para que seja possível esclarecer algumas dúvidas que possam surgir (e.g. definição dos locais e forma da estrutura músculoesquelética).

Que parâmetros básicos são considerados ao longo do processo? Os parâmetros apenas são necessários caso pretenda manter um registo. Neste caso, o único requisito essencial será o número do animal. No entanto, a raça, idade, parição, número de parições que teve, são algumas das características identificativas do animal que podem ser definidas na aplicação (estabulada ou extensivo não é uma das opções existentes) apesar de não serem levadas em conta para a medição efetuada. Isto também se deve ao facto de esta ser uma aplicação destinada especialmente a raças leiteiras. Nunca é demais recordar que a aplicação é completamente livre e, por isso, nenhum dado, como morada ou telefone, será necessário. Que feedback tem de utilizadores portugueses? A mensagem que nos tem sido transmitida é que a aplicação é bastante interessante quer devido à facilidade de utilização, quer devido à simplicidade do software e ao facto de apenas ser necessário um smartphone. Qual o motivo para uma aplicação ligada aos transtornos metabólicos? Os transtornos metabólicos têm uma prevalência extremamente elevada (em Portugal são atingidos níveis de prevalência de cetose subclínica perto dos 30%). São problemas, regra geral, sub-diagnosticados e com ligação a uma série de outras doenças, como é o caso das metrites ou das retenções placentárias. Assim, a disponibilização de aplicações gratuitas como a BCS Cowdition, permitirá uma redução do risco de aparecimento destes problemas.

ruminantes outubro . novembro . dezembro 2015 33


Saúde e bem-estar animal

Controvérsias e Consensos em Saúde, Indústria e Economia de Bovinos Realizou-se no final de Agosto em Berlim, a primeira edição do congresso “Controvérsias e Consensos em Saúde, Indústria e Economia de Bovinos”.

Ricardo Bexiga Médico-veterinário, Faculdade de Medicina Veterinária, ULisboa, Serbuvet, Lda ricardobexiga@fmv.ulisboa.pt

Este congresso pretendeu reunir, para discussão, produtores de leite, veterinários, académicos e a indústria, para abordar não só temas com resposta científica, mas também alguns temas que afetam toda a fileira e que merecem discussões alargadas para definir rumos futuros. Mesmo não tendo sido obtidos consensos à volta de muitas das questões discutidas, mencionam-se a seguir alguns dos temas discutidos.

Serão os 365 dias o melhor intervalo entre partos? O valor ideal de intervalo entre partos de um ano, parece ser utópico na maior parte das explorações um pouco por todo o mundo. Com o aumento do nível de produção de leite, o impacto

económico do aumento do intervalo entre partos tornou-se menor, e portanto discutiram-se os 385 ou mesmo os 400 dias como objetivos mais realistas. Existirão outros parâmetros melhores para medir a performance reprodutiva de um efetivo (ex: taxa de prenhez, produto da taxa de deteção de cios e da taxa de conceção), já que o intervalo entre partos pode ser alterado artificialmente pelo aumento do refugo. O importante será evitar as consequências negativas de um intervalo entre partos muito prolongado, incluindo a produção abaixo de um nível em que o animal já não gera retorno financeiro para a exploração, e em que simultaneamente, o aumento de condição corporal no final da lactação (para 4 ou 5), eleve o risco de doenças metabólicas na lactação seguinte. Em efetivos em regime de pastoreio, quer leiteiros, quer aleitantes, e sempre que seja pretendida sazonalidade de partos, esta discussão deixa de fazer sentido, já que nessas situações é essencial que a conceção ocorra num curto espaço de tempo, mantendo-se os 365 dias de intervalo entre partos como um dos objetivos. Também para estes animais, outros parâmetros poderão ser mais fidedignos na avaliação da performance reprodutiva de um efetivo, como por exemplo a proporção de animais gestantes em 6 semanas.

34 outubro . novembro . dezembro 2015 Ruminantes

IMAGEM 1 Na sessão inaugural deste congresso debateu-se a forma como conseguiremos alimentar uma população mundial de 9 biliões de pessoas em 2050. Estiveram presentes 190 delegados de 33 países..

Poderão os sistemas automáticos de deteção de doença, substituir a observação direta dos animais? O número de sistemas de deteção automática em explorações leiteiras tem aumentado nos últimos anos. Hoje em dia estes sistemas automáticos permitem detetar cios (através da monitorização da atividade animal ou medição de progesterona no leite), o início do parto, quebras de produção, quebras de ingestão, o peso dos animais, a presença de mastite, mas

também a posição geográfica dos animais (se os animais estão de pé ou deitados) entre outros. Em utilização encontram-se já também a medição de gordura e proteína no leite (permitindo assim prever a ocorrência de cetose), a deteção automática de coxeiras, a medição do pH ruminal ou da temperatura corporal. A necessidade do desenvolvimento destes sensores, deriva da utilização de robots de ordenha, mas também do aumento no número de animais por exploração e do custo da mão-de-obra. Apesar de aparentemente úteis, há vários destes exemplos de automação, que mesmo depois dos investimentos serem realizados pelos produtores, são pouco ou nada utilizados. As razões para essa baixa adesão a algumas destas tecnologias, têm a ver com alguma incerteza ligada à sua utilização e também ao facto de haver por vezes uma


Saúde e bem-estar animal

IMAGEM 2 Integrado no congresso estava a visita a uma exploração mista onde foi possível verificar como os problemas que preocupam produtores e veterinários, são comuns a vários pontos do globo.

quantidade de dados muito elevada, que nem sempre é de fácil interpretação. De facto, com frequência ocorrem falsos alertas para uma determinada situação que acabam por ditar, que alguns dos dados gerados raramente sejam valorizados. Para várias situações, é possível no entanto fazer um diagnóstico mais precoce com estes sistemas automatizados, permitindo intervenções mais cedo e potencialmente reduzindo custos de tratamento ou refugo. Os dados devem no entanto ser apresentados de forma resumida, para diminuir o tempo necessário para obter a informação relevante. Outra área em que estes sistemas automatizados de deteção de doença poderão ser mais utilizados no futuro, é na monitorização por entidades externas, por exemplo para efeitos de certificação de bem-estar. Em conclusão, a deteção automática de doença continuará a evoluir para auxiliar a deteção precoce de doença pelas pessoas que contactam com os animais.

Será a erradicação de doenças infeciosas a forma mais eficiente para as controlar? A decisão entre erradicar determinada doença infeciosa ou apenas vacinar

para controlar as suas manifestações clínicas, é com frequência colocada a nível de exploração, de região, de país, ou mesmo de continente. A decisão depende não só da infecciosidade da doença que está a ser considerada, mas também do nível inicial de doença que está presente na população, do impacto económico direto (por exemplo em perdas reprodutivas), e do impacto económico indireto (por exemplo em limitações à exportação de animais). Existem exemplos de doenças que já foram erradicadas do mundo como a varíola nos humanos, ou peste bovina nos animais, sendo portanto possível a erradicação global de um agente infecioso. Existem no entanto dificuldades levantadas à erradicação ou à tentativa de erradicação. Muitos agentes infeciosos não se limitam a determinada espécie animal, com frequência coexistindo em outras espécies domésticas ou silvestres, muitas vezes sem manifestações clínicas. A erradicação regional depende de vários intervenientes, que poderão não estar completamente de acordo sobre a necessidade de erradicação. A geração de populações sem imunidade contra determinado agente,

36 outubro . novembro . dezembro 2015 Ruminantes

torna-as mais susceptíveis à infeção a partir de um reservatório de doença. A vacinação utilizada durante o processo de erradicação, poderá limitar alguns dos potenciais riscos acima descritos, mas não conferindo as vacinas proteção total, não permite por si só a eliminação dos agentes infeciosos. Não havendo uma solução para todos os casos, a vacinação conjugada com esforços de erradicação, e aumento da biossegurança, mantendo as explorações fechadas, são provavelmente as soluções mais frequentemente preconizadas quando o nível inicial de doença na exploração não é baixo.

Devemos depender sempre de antibióticos no tratamento de mastites? O aumento das resistências aos antibióticos tem suscitado muitas atenções entre consumidores e decisores políticos, mesmo não havendo consenso sobre o impacto que as resistências aos antibióticos detetadas nos animais têm sobre as resistências encontradas nos humanos. Vários países implementaram programas nacionais de redução de utilização de antibióticos. O programa holandês por exemplo, tem como objetivo para 2015, uma redução de 70% no consumo de antibióticos em animais de produção, relativamente ao ano de 2009, depois de em 2014 já terem atingido uma redução de 58.1%.

A mastite bovina é a doença mais frequente em vacas leiteiras e a principal razão para a utilização de antibióticos nestes animais. Produtores e veterinários pretendem com a utilização de antibióticos no tratamento de mastites, o regresso o mais rápido possível à produção em quantidade e qualidade de leite, ao mesmo tempo que melhorando a saúde e bemestar dos animais afetados. Isto pode parecer que entra em conflito com a redução na utilização de antibióticos, mas de facto os objetivos podemse alinhar se considerarmos os ganhos económicos que podem resultar de uma utilização mais racional. Existem vários exemplos de racionalização da utilização de antibióticos no tratamento de mastites. O tratamento de mastites recorrentes, isto é, mastites que se repetem no mesmo quarto de uma vaca durante uma lactação, com frequência não leva à cura. A secagem de vacas utilizando apenas selantes de tetos, sem utilizar antibióticos, poderá também ter vantagens económicas, desde que realizada em explorações e animais, em que a não utilização de antibióticos nessa fase não tenha consequências negativas. O tratamento de mastites subclínicas durante a lactação, com frequência também não traz resultados económicos positivos, exceção feita a situações em que o tratamento de uma mastite provocada por um agente contagioso, possa limitar a infeção de outros animais pelo mesmo agente. Nos próximos anos, surgirão no mercado métodos automatizados, rápidos e baratos, que permitirão a identificação dos microrganismos que provocam as mastites, permitindo um tratamento mais dirigido, eficaz, e eficiente do ponto de vista económico. A existência de bons registos e de protocolos bem definidos


Saúde e bem-estar animal

para os tratamentos das mastites clínicas, permitem reduzir a utilização de antibióticos, contribuindo para diminuir o aparecimento de resistências e para fazer importantes poupanças em tratamentos.

Como podemos reverter o declínio na fertilidade das vacas leiteiras? Existe evidência em vários pontos do globo, que a fertilidade ou a eficiência reprodutiva em vacas leiteiras tem vindo a diminuir. Este facto parece dever-se em grande parte a uma seleção genética que se focou quase exclusivamente e durante décadas, no aumento da produção leiteira, sabendo-se hoje que existem correlações genéticas negativas entre

produção de leite, condição corporal, saúde das vacas e performance reprodutiva. Outros factores que poderão ter tido um impacto negativo sobre a eficiência reprodutiva, alguns relacionados com a acima mencionada seleção genética, incluem a redução na expressão do cio, a depressão na fertilidade induzida pela consanguinidade, o aumento da inseminação artificial por operadores com falta de formação para o efeito, e o aumento do tamanho dos efetivos. Nos últimos 10 anos, parece ter sido revertida a tendência, pelo menos em alguns países, de declínio da eficiência reprodutiva. Esta reversão está provavelmente relacionada com a introdução de índices de seleção genética que incluem a produção leiteira, mas também parâmetros

de fertilidade, saúde dos animais e longevidade. Outros fatores têm provavelmente contribuído para esta melhoria, incluindo o aumento da utilização de protocolos hormonais para inseminação em tempo fixo e a melhoria do maneio nutricional durante o período de transição. Para além dos esforços de cada produtor e veterinário, existem programas nacionais em alguns países como o Incalf NZ, da Nova Zelândia ou o Incalf Australia, da Austrália, que abordam várias áreas de trabalho a nível nacional. Essas áreas incluem o registo de dados sobre fertilidade, a implementação de estratégias nutricionais corretivas sobretudo no período de transição, o estabelecimento de

programas para controlo de doenças infeciosas com impacto reprodutivo, a melhoria da deteção de cios, a melhoria da técnica de inseminação artificial, entre outros. Sendo um problema multifactorial, as soluções serão também elas múltiplas.

Conclusão O formato deste congresso pretendeu alargar a discussão aos diversos intervenientes da produção bovina, sendo possível esclarecer e chegar a alguns consensos, mas levantando muitas outras questões, que se espera que sejam discutidas numa futura ocasião. NOTA: O autor escreveu pelo antigo acordo ortográfico.

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ruminantes outubro . novembro . dezembro 2015 37


ECONOMIA

Joaquim Baucells Veterinário, Centre Veterinari Tona S.L., Professor associado UAB quim@cvtona.com

custo económico da mastite nos bovinos leiteiros Avaliação e cálculo Como veterinários, estamos preparados para diagnosticar, tratar e prevenir as doenças de uma exploração leiteira, gerir com eficácia a reprodução, a qualidade do leite, o bem-estar animal ou a nutrição. Por outro lado, não podemos esquecer que os nossos clientes, além de terem cada vez mais formação e preparação, têm tendência para dar prioridade aos lucros do seu negócio com base num melhor preço do leite e num menor custo de produção. Devido a esta prioritização, sao relevados para segundo plano argumentos técnicos que até há pouco tempo eram suficientes para dar relevância ao nosso trabalho. Com estas perspetivas de futuro, creio firmemente que temos de melhorar as nossas capacidades e saber transmitir melhor o valor do nosso trabalho, também como meio eficaz de controlo de custos. Estas duas visões da nossa atividade não têm de ser antagónicas e incompatíveis e convergem, definitivamente, se o retorno - ROI (Return On Investment) - de um investimento, um tratamento, uma mudança no maneio, uma dieta, etc. resultar num balanço claramente positivo. Caso contrário, os nossos argumentos técnicos terão menos possibilidades de êxito e, provavelmente, os dias contados. Existe um grande consenso

entre técnicos e investigadores em considerar a mastite bovina, para a maioria das explorações leiteiras modernas e avançadas, uma das maiores causas de perdas económicas por doença e, por isso, quantificar as suas perdas traduz-se num trabalho interessante e útil.

Quanto custa a mastite? Existem diversas referências gerais em relação ao custo económico da mastite. Para dar um exemplo, as avaliações realizadas por Ott S. , em NMC 1999, estimavam o custo nacional para o efetivo leiteiro dos EUA em cerca de 1000 milhões de dólares. Sete anos mais tarde, em 2006,

o cálculo aumentava para 2000 milhões de dólares ou o equivalente a 7-8% do valor da produção leiteira nacional. Se transferirmos esta avaliação para cada indivíduo, o custo referenciado por vaca e ano, no caso de Espanha, equivaleria a uma perda de entre 190 a 250 €/vaca/ano que “desaparecem”, sem que se dê pelo resultado na conta de exploração. Imagine-se o contraste e a repercussão quando o lucro médio, num ano favorável, dificilmente supera os 500 €/vaca. Num interessante artigo recentemente publicado no Irish Journal of Food Research (IJAFR), é detalhado o impacto da mastite no custo de produção em 5 categorias de explorações com características semelhantes

(500 Tn leite/ano/40 Ha), mas CCS no tanque diferentes. Essa análise sugere que uma exploração que reduz a CCS de > 400 000 para < 100 000 cél./ml pode melhorar a margem líquida em 48 €/1000 l (Tabela 1).

Como se calcula o custo num rebanho? A estimativa e o cálculo do custo muitas vezes associado a variáveis excessivas, densas, complexas e heterogéneas, favorecem duplicidades e erros que afetariam a credibilidade e invalidariam o exercício numa utilização fora do âmbito prático. Somos

tabela 1 Impacto das mastites nos resultados económicos em 5 categorias de explorações irlandesas com características semelhantes, mas com CCS diferentes. Geary U. IJAFR-2013 Categoria da exploração segundo a CCS (103 cél./ml) < 100

100-200

201-300

301-400

>400

Receitas totais da exploração (€)

204 160

201 081

199 602

196 540

195 804

Gastos totais da exploração (€)

161 085

164 994

172 749

173 536

177 343

Lucro líquido da exploração (€)

43 328

36 280

26 954

23 071

18 490

84

71

54

45

36

Margem líquida (€/1000 l)

38 outubro . novembro . dezembro 2015 Ruminantes


ECONOMIA

partidários de que estes exercícios, a nível de campo, primem pela simplicidade e clareza com base no princípio de que “o ótimo é inimigo do bom”. Por isso, efetuámos o cálculo do custo económico com base em 3 pontos:

tabela 3 Cálculo do custo da perda dos prémios à qualidade.

1. Gastos associados ao tratamento da mastite clínica As perdas e os gastos como consequência de uma mastite clínica são os únicos dados que o criador verifica. A grande maioria dos produtores não tem a consciência de que se trata apenas da ponta do iceberg e de uma pequena parte do custo real da doença. Por cada caso de mastite clínica, há 15-40 casos de mastite subclínica que, de forma lenta, oculta e latente, causam o maior impacto económico devido a uma perda de produção e de qualidade (Tabela 2).

2. Perdas de incentivos nos prémios de qualidade Os prémios de qualidade são uma excelente oportunidade para muitos criadores

Variáveis consideradas para receber o prémio de qualidade

Valor

A

Base para prémio CCS (x 100 cél./ml)

< 200

B

Prémio de qualidade de saída (€/Tn)

6 €.

C

Base para penalização CCS (x 100 cél./ml)

D

Penalização (€/Tn)

-6 €

E

Produção mensal entregue à indústria (Tn.)

F

Número de animais Cálculo

Item

G

D-B

Diferencial Classe A (€/Tn.)

Custo

G*E

Perda mensal (€/mês)

I

H x 12

Perda anual (€/ano)

J

I/F

Repercussão por vaca (€/vaca/ano)

Exemplo: exploração com 100 vacas em ordenha (40% de 1.ªs lactações) e uma produção anual de 1 120 000 l/ano. A

B

Dias estimados de eliminação de leite (dias)

C

Produção média por vaca por dia (l/dia)

D

Preço médio do leite (€/l)

Valor

20 €/caso

35 l 0,358[1] €.

Valor do tempo e honorários profissionais (€)

F

Rácio mensal de novos casos (%)

2%

G

Média de vacas exploração (N.º)

100

Item

Leite eliminado, valor (€)

135 €

indústria estabeleceu um prémio de qualidade de 6 €/ Tn quando a média mensal de CCS baixe de 200 000 cél./ ml. Esta exploração é afetada por um processo de mastite infeciosa (Staphylococcus aureus) com um resultado de um aumento da CCS para 320 000 cél./ml, devido ao qual sofre uma penalização de -6 €/Tn por superar as 300 000 cél./ml. Objetivo: determinar o custo de não alcançar o objetivo de qualidade. Como se pode avaliar, neste cenário (Tabela 3), a maioria das explorações poderia justificar níveis elevados de investimento na

3. Perdas de produção devido a CCS elevadas É bem conhecido, e amplamente documentado, que os processos inflamatórios e, por isso, também as mastites, estão intimamente correlacionados com uma redução da funcionalidade do parênquima glandular do úbere. As perdas de produção estão relacionadas com um aumento da CCS. A análise da CCS é, atualmente, o melhor e mais fácil indicador do grau de infeções mamárias. As vacas sem mastite têm sempre contagens inferiores a 250 000 cél./ml; contagens superiores apontarão para processos inflamatórios clínicos ou subclínicos. O linear score (LS) é outra forma de medir a CCS e a maioria dos investigadores utiliza-o para relacionar melhor as perdas de produção em vacas infetadas (Tabela 4 e 5). Para LS superiores a 3 (70140 000 cél./ml) é atribuída uma perda equivalente a 0,60 l/dia para os animais de mais de uma lactação.

8 dias

E

BxCxD

-1128 €/mês -13.536 €

melhorarem resultados económicos e é uma das poucas vias com um impacto direto no preço final do leite, mas, ao mesmo tempo, estes prémios são bastante afetados pela incidência da mastite. Em alguns casos, a perda do prémio de qualidade pode representar o custo económico mais relevante (21-40%) por esta causa.

Gasto médio de todos os medicamentos utilizados (€)

Cálculo

-12 €

H

Variáveis consideradas para avaliar o custo/caso clínico

H

94 100

tabela 2 Cálculo do custo por caso clínico de mastite.

A

> 300

melhoria da qualidade do leite simplesmente com o retorno económico obtido nos programas de qualidade promovidos pela indústria.

tabela 4 Relação CCS, linear Score (LS) e perdas de produção.

20 €/caso

Intervalo CCS (cél./ml x 1000)

Perda de produção (l/ano)

LS

Mínimo

Máximo

Média

1

18

34

25

0

Custo/Caso clínico

2

35

68

50

0

100,24 €

3

69

136

100

180

I

A+E+H

Total perdas caso (€)

140,24 €

4

137

273

200

360

J

GxFxH

Custo exploração/mês (€)

280,48 €

5

274

546

400

540

K

Jx12

Custo exploração/ano (€)

3 365,76 €

6

547

1092

800

720

L

K/G

Repercussão por vaca (€/vaca/ano)

33,7 €

7

1093

2185

1600

900

ruminantes outubro . novembro . dezembro 2015 39


ECONOMIA

tabela 5 Cálculo do custo associado a perda de produção de leite devido a CCS elevadas. Variáveis consideradas para avaliar perdas de leite devido a CCS elevadas

A

A evolução dos resultados técnicos da exploração no ano de 2013 (sem STARTVAC) e de 2014 (com STARTVAC) é apresentada nas tabelas 7, 8, 9, 10 e 11 e nos gráficos 1 e 2.

Valor

Total animais (n.º)

100

B

Produção anual (Tn.)

1.120

C

CCS média anual cél./ml

320

tabela 7 Variáveis técnicas determinandas para o cálculo do ROI da vacinação com STARTVAC. Referências técnicas

D

LS

5

2013

2014

E

Preço do leite (€/l)

0.358

NÃO

STARTVAC

F

Custo alimentar médio (€/l)

0.200

860

858

G

Perdas anuais estimadas segundo LS da Tabela 1 (l/vaca/ano)

Item

GxA

Total perda de leite (l)

Custo/Caso clínico

I

E-F

Custo económico leite não produzido (€/l)

J

HxI

Perda anual estimada (€/ano)

K

J/A

Repercussão por vaca (€/vaca/ano)

54.000 0.158 -8.532 € 85.32 €

Análise de retorno do investimento: Exemplo prático Para finalizar, apresentamos uma análise prática de uma exploração de bovinos leiteiros com cerca de 850 vacas adultas de alta produção, situada no Norte de Espanha, cujo criador nos colocou o desafio de distinguir se o investimento realizado na aplicação de um programa de vacinação contra a mastite tinha sido rentável. A abordagem é realizada a posteriori da consolidação do

programa de vacinação e será exposta a seguir, como exemplo e exercício complementar do trabalho clínico veterinário. Esse exercício permite-nos determinar e distinguir se o gasto de um determinado investimento (novo produto, programa de qualidade de leite, programa de vacinação, etc.) cumprirá objetivos e o grau de retorno do investimento realizado com base no cálculo do retorno do investimento (ROI).

H

Média mensal Contagem de Células Somáticas (cél./ml)

I

301

265

Linear Score (LS) com base nas CCS individuais

J

3,04

2,66

Casos Mastite (MC) (N.º casos ano)

K

505

400

% mensal de mastite

L

4,9%

3,8%

Produção diária regularizada (l/vaca lactante/dia)

M

34,40

35,12

11 311

11 790

-

3

Produção anual (l/vaca/ano) Prémio qualidade (meses com prémio)

N

Prémio qualidade (meses com penalização)

Ñ

7

2

Desconto por qualidade (meses com penalização)

O

0

0

Gráfico 1 Evolução das mastites clínicas (MC).

% mensal/efetivo total 7,5 6,5

% MG

Cálculo

H

540

Média de vacas (N.º)

5,5 4,5 3,5 2,5 1,5 1

tabela 6 Variáveis económicas usadas como base para a determinação do ROI da vacinação com STARTVAC.

2

3

4

5

A

358 €

B

200 €

A-B

158 €

Qualidade A (cél./ml)

C

< 200 000 cél./ml

Penalização qualidade CCS (cél./ml)

D

> 300 000 cél./ml

Prémio/desconto qualidade (x 1000 l) €

E

6€

Custo tratamento MC

F

45 €

Custo total vacinação (€/vaca/ano)

G

Perda de leite por CCS (l/unidade LS)

40 outubro . novembro . dezembro 2015 Ruminantes

9

10

11

12

15 € 0,60

Células/ml

Células/ml

Margem bruta (x 1000 l) €

8

Gráfico 2 Evolução da CCS 2013-2014.

Variáveis económicas utilizadas

Custo alimentar (x 1000 l) €

7

mês

Em dezembro de 2013, iniciou-se um programa profilático de vacinação de todo o efetivo adulto com a vacina STARTVAC© da HIPRA. Esta decisão não foi tomada como medida terapêutica, que não era necessária, mas sim como ação de política de excelência da exploração e obtenção de melhores resultados técnicos e económicos, com base nos argumentos colocados pelos técnicos (organização de trabalho, menos casos de mastite, menor gravidade dos casos, maior qualidade do leite, etc.).

Preço do leite (x 1000 l) €

6

1

2

3

4

5

6

7

mês

8

9

10

11

12


ECONOMIA

Conclusões

tabela 8 Cálculo dos custos associados às mastites clínicas nos anos 2013 (sem STARTVAC) e 2014 (com STARTVAC) I - Custos associados ao tratamento da mastite clínica 2013

2014

Diferença

Mastite (n.º casos ano)

A

505

400

-105

Período médio de eliminação (dias)

B

8

8

-

Produção diária regularizada (l/vaca lactante/dia)

C

34,4

35,12

-

Estimativa leite eliminado ano (x 1000 l)

D

139

112

-27

E

358 €

358 €

-

DxE

F

49.763

40.274

-9.488

Custo tratamento MC

G

45 €

45 €

-

Gastos tratamento + honorários profissionais GxD

H

22.729

18.018

-4.711

Total gastos por MC

F+H

I

72.492

58.293

-14.199

Custo caso Mastite (€)

I/A

144

146

-

84

68

-16

AxBxC

Preço leite (€/1000 l)1 Valor leite eliminado (€)

Custo vaca rebanho/ano (€)

tabela 9 Cálculo dos prémios por qualidade em 2013 (sem STARTVAC) e em 2014 (com STARTVAC). II - Prémios por qualidade A: Incentivos/descontos 2013

2014

0

3

Meses com prémio (n.º) Meses com penalização (n.º) Volume produção qualidade (x 1000)

A

Prémio (€/x1000 l)

B

Valor prémios/descontos (€) AxB

Diferença

7

2

- 5671

842

6513

6€

6€

-34.025

5050

-39.075

-40

+5

-45

Custo vaca rebanho/ano (€)

tabela 10 Perdas de produção devidas a CCS elevadas em 2013 (sem STARTVAC) e em 2014 (com STARTVAC) III - Perdas de produção devido a CCS elevadas 2013

2014

A

860

858

CCS (Linear Score)

B

3,04

2,66

Perda de leite (l/dia/un. LS)

C

0,6

0,6

665

583

Média de vacas (N.º)

Diferença

Perdas (l vaca ano)

BxC x365

D

Perdas l exploração/ano (x1000 l)

DxA

E

572

500

F

158,00 €

158,00 €

Margem bruta (€/x1000 l) Total perdas estimadas por CCS (€)

ExF

-81,58 -71,32

90.314,68 €

79.045,67 €

-11.269 €

105

92

- 12,89

Custo vaca rebanho/ano (€)

tabela 11 Cálculo do Retorno do Investimento (ROI) da utilização da STARTVAC na prevenção de mastites. Gasto (€)

Retorno (€) Expl.

Vaca

%

Poupança em custos associados a MC (I)

14 199

16,5

22%

Melhoria em prémios de qualidade (II)

39 075

45,5

61 %

Gasto total do programa de vacinação (€/ano)

Expl.

vaca

-12 900

15

Redução perdas devido a CCS (III) Total R.O.I (TOTAL/INVESTIMENTO x 100)

-12900

15

bibliografia: Morin D.E. Petersen, G.C. Whitmore HL y al. 1993: Economic analysis if a mastitis monitoring and control programs in four dairy herds – JAVMA 201:540:548. Ott SL 1999:Cost of herd level production losses associated with subclinical mastitis in U.S. dairy cows NMC annual Meeting proceedings 199:152.

Avaliação de resultados Item

• O investimento da vacina e a sua aplicação (12 900 €) favoreceram um menor custo associado ao tratamento por mastites clínicas (14 199 €), uma avaliação mais elevada do leite (39 075 €) e uma redução da CCS, que entendemos que contribuiu para melhorar a produção (11 269 €). • Estimamos que, em 2014, nesta exploração, se obteve um retorno de 64 543 €. • Avaliamos de forma bastante positiva a redução de 20% dos casos de mastite clínica, o que contribui para melhorias difíceis de quantificar, mas evidentes no âmbito da melhoria da organização, tempo, bem-estar animal, refugo, etc. • No âmbito organizativo, avaliamos de forma bastante positiva a redução do tempo dedicado a tratar animais e o valor do leite eliminado. • O resultado líquido após a aplicação do plano de vacinação com STARTVAC foi positivo, com um retorno de 60,2 €/vaca/ ano. No ano de 2015, sem o incentivo de prémios por qualidade, o resultado líquido continuará positivo (14,4 €/vaca/ano) • O retorno mais importante nesta exploração foi a melhoria nos prémios de qualidade (61%), seguido dos custos associados à mastite (22%) e da redução da CCS (17%). • O ROI obtido depois do investimento é estabelecido em 500% (64543/12900 x 100). Nas explorações que não dispuseram de prémio de qualidade, o ROI seria inferior, mas claramente positivo 197% (25468/12900 x 100). • A recomendação é continuar com o programa de vacinação estabelecido com uma reavaliação no próximo ano.

11 269

13,1

17 %

64.543

75.2

100%

500 %

U.Geary e outros – 2013: Examining the impact of mastitis on the profitability of the Irish dairy industry. D.Bar e outros 2008: The cost of generic Clinical Mastitis in Dairy Cows estimate by using dynamic programming – Cornell University , Ithaca NY. A.C.O. Rodrigues, D.Z. Caraviello, and P.L.Ruegg 2005: Management of Wisconsin Dairy Herds enrolled in Milk Quality Teams. R.F. Raubertas & G.E. Shock 1982: Relationship between lactation measures of Somatic Cell Count and milk yield J.D.Science 65 419-425. P.Hortet, F.Beaudeau & H.Seegers 1999: Reduction in milk yield associated with somatic cell count up to 600.000 cells/ml in French Holstein cows with clinical mastitis. Livestock production science 61 33-42.

ruminantes outubro . novembro . dezembro 2015 41


economia

COBERTURAS ALARGADAS?

observatório das matérias primas por Paulo Costa e Sousa

42 outubro . novembro . dezembro 2015 Ruminantes

Evolução do preço de matérias primas Preços médios semanais no porto de Lisboa de 2011 a 2015

2011 2012 2013

milho

2014 2015

€/ton 310 290 270 250 230 210 190 170

5 a 9 Dez

19 a 23 Dez

7 a 11 Nov

21 a 25 Nov

10 a 14 Out

24 a 28 Out

26 a 30 Set

29 a 2 Set

12 a 16 Set

1 a 5 Ago

15 a 19 Ago

4 a 8 Jul

18 a 22 Jul

6 a 10 Jun

20 a 24 Jun

9 a 13 Maio

23 a 27 Maio

11 a 15 Abr

25 a 29 Abr

28 a 1 Abr

12 a 16 Mar

13 a 17 Fev

27 a 2 Mar

150 30 a 3 Fev

Outra corrente de pensamento toma uma posição distinta: A situação macro económica está fraca, o consumo está sem grandes alterações, o petróleo a níveis também historicamente baixos, situação chinesa bastante débil o que pode determinar umas modestas importações da Ásia, Euro /USD estacionado em redor dos 1.10/1.12, colheita bastante boa nos USA, quer de milho quer de trigo e de soja, não há muitas razões para vermos os preços das commodities dispararem, pelo que vamos entrar num período de pouca volatilidade, o que incentiva pouco as compras a diferido, porque amanhã vamos encontrar os mesmos tipos de preços. O comprador só terá que ver com qual das correntes se

No caso da proteína de soja, na verdade estamos na expectativa de confirmar ou não, os bons rendimentos da colheita dos USA, caso se venha a confirmar a perspetiva de uma boa colheita, então o preço poderá cair um pouco mais. Se bem que o “downside” seja algo limitado, pode efetivamente ainda configurar-se numa boa dezena de euros. No caso da proteína de colza tudo parece indicar que com a atual relação de cerca de 70% do preço da soja, não convide nada a grandes compras, uma vez que dificilmente constitui uma fonte alternativa a preço interessante, deveria voltar a relações com a soja de cerca de 50-60% , caso não o faça, o seu consumo deverá certamente decrescer. Assim sendo, uma compra do estritamente necessário, caso entre nas formulas, parece a melhor política de compras para esta matéria prima.

2 a 6 Jan

Assim sendo, e num ambiente onde tudo aparenta estar a correr bem, parece que o mercado se está dividindo em duas correntes de pensamento. Uma tem por norte o principio seguinte: Quando tudo está muito bem, normalmente só pode piorar, pelo que por precaução vou tomar uma cobertura a estes preços, porque, assumindo que não há grandes variações nos preços da carne são preços com margens interessantes. Além disso, paira uma espécie de fantasma, que se calhar ainda não está sendo tomado na devida conta - cerca de 15 milhões de toneladas menos na produção europeia de milho quando, para contrabalançar tivemos um incremento no stock final de 2015 de apenas cerca de 2 milhões de tons. Será que os preços na Europa vão passar completamente ao lado desta questão e continuar aos mesmos níveis no inicio de 2016? Possivelmente não, então a prudência aconselha a reforçar as compras para o ano que vem.

enquadra mais e tomar a atitude de compra concordante com a mesma.

16 a 20 Jan

Voltámos à tradicional incerteza sobre o futuro das matérias primas, mas, ao contrário de muitas outras vezes num passado não muito distante, os preços encontram-se de momento num nível historicamente baixo, tornando-se num maior incentivo para coberturas mais alargadas. Os cereais, depois de duas colheitas mundiais francamente favoráveis, encontram se num entorno de volatilidade reduzida e de preços historicamente baixos, quer para posições próximas quer para posições mais alargadas no tempo.


2 a 6 Jan

9 a 13 Maio

€/ton 350

450

400 300

250

250 200

200 150

100

6 a 10 Jun

23 a 27 Maio

9 a 13 Maio

25 a 29 Abr

11 a 15 Abr

28 a 1 Abr

12 a 16 Mar

7 a 11 Nov

5 a 9 Dez 19 a 23 Dez

5 a 9 Dez 19 a 23 Dez

24 a 28 Out

21 a 25 Nov

10 a 14 Out 24 a 28 Out

10 a 14 Out

7 a 11 Nov

26 a 30 Set

26 a 30 Set

21 a 25 Nov

29 a 2 Set 12 a 16 Set

29 a 2 Set 12 a 16 Set

1 a 5 Ago 15 a 19 Ago

1 a 5 Ago 15 a 19 Ago

4 a 8 Jul 18 a 22 Jul

4 a 8 Jul 18 a 22 Jul

20 a 24 Jun

bagaço girassol

20 a 24 Jun

6 a 10 Jun

150 23 a 27 Maio

300

25 a 29 Abr

350

11 a 15 Abr

€/ton

28 a 1 Abr

bagaço colza

12 a 16 Mar

150 13 a 17 Fev

210

27 a 2 Mar

250

27 a 2 Mar

230

30 a 3 Fev

500

13 a 17 Fev

550

270

30 a 3 Fev

290

16 a 20 Jan

310

2 a 6 Jan

19 a 23 Dez

5 a 9 Dez

21 a 25 Nov

7 a 11 Nov

24 a 28 Out

10 a 14 Out

26 a 30 Set

12 a 16 Set

29 a 2 Set

15 a 19 Ago

1 a 5 Ago

18 a 22 Jul

4 a 8 Jul

20 a 24 Jun

6 a 10 Jun

23 a 27 Maio

9 a 13 Maio

25 a 29 Abr

11 a 15 Abr

28 a 1 Abr

12 a 16 Mar

27 a 2 Mar

13 a 17 Fev

30 a 3 Fev

€/ton

16 a 20 Jan

2 a 6 Jan 16 a 20 Jan

CEVADA

2 a 6 Jan

19 a 23 Dez

5 a 9 Dez

21 a 25 Nov

7 a 11 Nov

24 a 28 Out

10 a 14 Out

26 a 30 Set

12 a 16 Set

29 a 2 Set

15 a 19 Ago

1 a 5 Ago

18 a 22 Jul

4 a 8 Jul

20 a 24 Jun

6 a 10 Jun

23 a 27 Maio

9 a 13 Maio

25 a 29 Abr

11 a 15 Abr

28 a 1 Abr

12 a 16 Mar

27 a 2 Mar

13 a 17 Fev

30 a 3 Fev

16 a 20 Jan

economia

bagaço soja 44

€/ton 600

400

450

190 300

350

170

250

200

ruminantes outubro . novembro . dezembro 2015 43


economia

observatório do Leite Por Maria Luísa Ferrão Fontes: USDA, APROLEP, GLOBAL DAIRY MARKET OUTLOOK,EUROPEAN COMISSION.

Num período em que a União Europeia repensa como intervir novamente no setor do leite, dado o descontentamento geral dos produtores no cenário de mercado livre, estima-se que a produção mundial continuará a crescer de forma modesta. Prevê-se que seja a Ásia a responsável por parte deste crescimento. Segundo o relatório do Rabobank, os preços devem começar a subir neste último trimestre de 2015, dado o crescimento anémico da produção e a diminuição das importações da China face ao mesmo período de 2014. Na Europa e nos EUA as exportações deverão cair face ao ano anterior, sobretudo devido ao embargo russo à União Europeia, e ao crescimento limitado da procura, que se deve à subida do dólar face ao euro. Também na Nova Zelândia a previsão aponta para uma diminuição na produção, motivada pelos baixos preços do leite e pela redução das exportações.

União Europeia 500 milhões de euros de ajuda extraordinária para o sector agrícola Parece que os agricultores da União Europeia continuam descontentes com o envelope financeiro no valor de 500 milhões de euros anunciado recentemente pela Comissão Europeia. Parte desta verba será destinada ao setor do leite, que atravessa um momento de crise ímpar, dado que o preço médio do leite ao produtor está a ser pago a 28 cêntimos, sendo o seu custo de produção entre 30 e 35 cêntimos. Os agricultores europeus já fizeram chegar as suas dificuldades em continuarem a trabalhar a Bruxelas

que irá decidir em breve o critério de distribuição das verbas e outras medidas que possam “ajudar” o setor. Para já, Phil Hogan, comissário europeu para a Agricultura, prolongou até fevereiro de 2016 algumas medidas, tais como a intervenção pública e ajudas ao armazenamento privado para a manteiga e para o leite em pó, medidas estas que terminariam em 30 de setembro de 2015. O embargo russo, que começou em Agosto de 2014, teima em não terminar, afetando de forma relevante as exportações da União Europeia, especialmente no que toca ao queijo. A Europa continua a ter que reorientar o seu mercado exportador para outras regiões do planeta como os EUA, o Japão e a Coreia do Sul.

EUA e Nova Zelândia Diminuição da produção de leite no último trimestre de 2015 Segundo relatório produzido pela USDA, estima-se uma diminuição da produção do leite, assim como, uma redução dos preços em solo americano. Dada a forte concorrência, verificada ultimamente nos mercados mundiais, prevê-se que as importações aumentem, motivadas também por um aumento da procura interna. Relativamente a existências no final de 2015, os EUA estima que estas deverão ser elevadas, dado que resultam do aumento das importações e da redução das exportações que, segundo os analistas, se deve em parte à valorização do dólar face ao euro. O relatório aponta um cenário onde se prevê uma redução dos preços na manteiga, no queijo, no leite em pó e no soro de leite.

44 outubro . novembro . dezembro 2015 Ruminantes

Também na Nova Zelândia os níveis de produção registaram um declínio na ordem dos 2%, resultado da previsão de preços mais baixos do leite, perspectiva que desmotivou o investimento em suplementação alimentar por parte do produtor. Estima-se também uma diminuição do rebanho em 2015 e uma redução das exportações entre 3% e 5% face ao ano anterior.

Portugal Problema nacional, solução europeia “Não podemos vender o leite mais barato do que a água”. Alertaram, recentemente, os produtores de leite da zona do Minho e Douro Litoral, onde está concentrada cerca de 55% da produção de leite em Portugal, alegando que a maioria das explorações se encontra numa situação financeira insustentável. A ministra da agricultura, Assunção Cristas, afirma que se trata de um problema europeu e que Portugal irá defender soluções europeias dado que falamos em mercado único. Um conjunto de medidas foram já concertadas com outros países como Espanha, França e Itália, e estas passam pelo apoio ao rendimento do agricultor e pela subida dos preços de referência para intervenção pública que permita retirar o excesso de leite do mercado. Medidas de apoio à promoção do leite e de apoio às exportações também constam na proposta, assim como, a necessidade de estudar mecanismos alternativos ao regime de quotas leiteiras. Portugal é o 16º produtor de leite da UE, com 1,2%, ranking liderado pela Alemanha que é responsável por 19,7% da produção comunitária.


economia

preço do leite standardizado (1) países

leite à produção Preços médios mensais em 2015 meses

eur/kg

teor médio de matéria gorda (%)

teor proteico (%)

companhia

preço do leite (€/100kg) julho 2015

média dos ultimos 12 meses (4)

alemanha

Alois Müller

26,87

30,69

Contin.

Açores

Contin.

Açores

Contin.

Dinamarca

Arla Foods

28,9

31,61

julho

0,328

0,344

3,74

3,67

3,23

3,10

Danone

37,76

34,35

agosto

0,329

0,343

3,77

3,68

3,25

3,07

Lactalis (Pays de la Loire)

33,57

33,61

Sodiaal

32,81

35,42

França

Inglaterra

Dairy Crest (Davidstow)

35,26

36,17

First Milk

27,28

30,23

Glanbia

24,98

29,18

Kerry

26,52

30,23

Granarolo (North)

38,29

41,17

Irlanda Itália Holanda

EUA

setembro

0,329

0,348

3,80

3,74

3,28

3,16

outubro

0,339

0,347

3,84

3,72

3,30

3,25

Novembro

0,342

0,333

3,82

3,68

3,33

3,27

Dezembro

0,345

0,330

3,87

3,64

3,37

3,21

janeiro

0,320

0,318

3,85

3,57

3,32

3,16

FEVEREIRO

0,316

0,317

3,80

3,52

3,29

3,15

MARÇO

0,313

0,313

3,73

3,51

3,27

3,18

DOC Cheese

24,67

29,02

FrieslandCampina

29,17

32,48

2015 ABRIL

0,334

0,306

3,68

3,59

3,24

3,21

30,84

33,07

maio

0,283

0,306

3,65

3,65

3,21

3,18

19,76

22,72

junho

0,280

0,305

3,61

3,66

3,26

3,12

38,66

julho

0,277

0,289

3,62

3,63

3,17

3,04

Preço médio leite N. Zelândia

2014

Açores

(2)

Fonterra EUA

(3)

37,13

Fonte: LTO (1) Preços sem IVA, pagos ao produtor; Preço do leite de diferentes empresas leiteiras para 4,2% de MG e 3,4 de teor proteico • (2) Média aritmética • (3) Ajustado para 4,2% gordura, 3,4% proteina e contagem de células somáticas 249,999/ml • (4) Inclui o pagamento suplementar mais recente

Fonte: SIMA Gabinete de Planeamento e Políticas

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ruminantes outubro . novembro . dezembro 2015 45


economia

ÍNDICE VL e ÍNDICE VL-erva “Futuro da produção de leite em risco” Por António Moitinho Rodrigues, docente/investigador, Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco Carlos Vouzela, docente/investigador, CITA-A, Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores Nuno Marques, revista Ruminantes

Analisamos neste número da Ruminantes os Índices VL e VL - ERVA para o trimestre de maio a julho de 2015. De acordo com os dados do SIMA-GPP (2015) durante o período em análise o preço do leite pago ao produtor individual no continente diminuiu 2,12% passando de 0,283 €/kg em maio para 0,277 €/kg em julho. O preço do leite pago aos produtores dos Açores baixou 5,56% passando de 0,306 €/kg para 0,289 €/kg, sendo que nos Açores os preços pagos pelo leite foram sempre superiores aos preços pagos no continente. No entanto, é conveniente realçar que o preço pago pelo leite nos Açores não se reflete de igual modo em todas as ilhas, sendo S. Miguel aquela em que os produtores conseguem melhor preço fazendo-se sentir, desta forma, no valor médio Regional. A diferença entre os preços do leite pago aos produtores do continente e dos Açores poderá dever-se a uma política de maior investimento em produtos de maior valor acrescentado por parte da indústria transformadora açoriana, coadjuvada com uma maior e melhor publicitação dos mesmos junto dos consumidores. Estas ações abrem as portas a maiores exportações nomeadamente para o mercado dito da saudade, ou seja onde a comunidade emigrante açoriana se faz sentir com maior preponderância (América do Norte). Paralelamente, há que realçar a ação mais interventiva das Associações de Lavradores dos Açores junto do poder local e a sua maior capacidade negocial com a indústria transformadora do leite.

De acordo com dados do MMO (2015), a média de preços do leite pago ao produtor no período de maio a julho de 2015 foi, em Portugal, muito inferior (0,286 €/kg) à média europeia (UE28) (0,301 €/kg). As principais matérias-primas que entram na formulação dos alimentos compostos utilizados neste trabalho sofreram um aumento de preços durante o período em análise. Entre maio e julho os preços médios mensais aumentaram 21,2% no bagaço de colza, 7,9% no milho grão, 5,9% na cevada, 5,5% no bagaço de girassol e 5,4% no bagaço de soja44. A evolução do preço do leite e dos custos da alimentação refletiu-se no Índice VL e no Índice VL - ERVA que em julho de 2015 foi, respetivamente, de 1,454 e de 2,098. De referir que em julho de 2014 o Índice VL havia sido de 1,767 e o Índice VL - ERVA de 2,535. Se considerarmos que o índice 1,5 é um valor moderado representando um negócio saudável e o índice 2,0 um valor elevado muito favorável para o sucesso económico da exploração (SchröerMerker et al., 2012), concluímos que os produtores de leite do continente entraram num período altamente penalizador para o sucesso económico das explorações, contrariamente aos dos Açores que ainda vivem momentos favoráveis. No continente, o baixo Índice VL calculado para o período em avaliação é semelhante ao Índice VL médio determinado para o terceiro trimestre de 2012 (1,402) com o regime europeu de quotas leiteiras ainda em vigor.

Evolução do

Índice VL e Índive VL-erva de julho de 2014 a julho de 2015 Os valores são influenciados pela variação mensal do preço do leite pago ao produtor individual do continente (Índice VL) e da Região Autónoma dos Açores (Índice VL - ERVA) e pelas variações mensais do preços de 5 matérias-primas utilizadas na formulação do concentrado e dos outros alimentos que integram o regime alimentar da vaca leiteira tipo. últimos 13 Meses

2014

2015

Índice VL

Índice VL ERVA

julho

1,767

2,535

Agosto

1,770

2,521

Setembro

1,815

2,619

Outubro

1,845

2,540

novembro

1,845

2,426

dezembro

1,864

2,406

janeiro

1,700

2,288

fevereiro

1,686

2,294

março

1,676

2,269

abril

1,787

2,252

Maio

1,540

2,285

Junho

1,515

2,272

Julho

1,454

2,098

Evolução do Índice VL O Índice VL é influenciado pela variação mensal do preço do leite pago ao produtor no continente e pelas variações mensais dos preços dos alimentos que constituem o regime alimentar da vaca leiteira tipo (concentrado 9,5 kg/ dia; silagem de milho 33 kg/dia; palha de cevada 2 kg/dia) (Rodrigues et al., 2013). Valor do Índice VL

2,0

Valores do Índice VL

DE julho de 2012 A JULHO DE 2015

1,5

1,0 julho 2012

Limiar de rentabilidade

46 outubro . novembro . dezembro 2015 Ruminantes

julho 2015

Negócio saudável

Forte ameaça para a rentabilidade da exploração


economia

Evolução do Índice VL-erva DE julho DE 2013 A JULHO DE 2015 O Índice VL – ERVA é influenciado pela variação mensal do preço do leite pago ao produtor na Região Autónoma dos Açores e pelas variações mensais dos preços dos alimentos que constituem o regime alimentar da vaca leiteira tipo (primavera/ verão 60 kg/dia de pastagem verde, 10 kg/dia de silagem de erva e de milho, 5,6 kg/dia de concentrado; outono/inverno 47 kg/dia de pastagem verde, 23,3 kg/dia de silagem de erva e de milho, 6,7 kg/dia de concentrado) (Rodrigues et al., 2014).

notas: Em julho de 2015, o preço do leite pago aos produtores do continente foi muito inferior (0,277 €/kg) ao de julho de 2014 (0,328 €/kg). O mesmo ocorreu com o preço pago aos produtores individuais da Região Autónoma dos Açores que passou de 0,344 €/kg em julho de 2014 para 0,289 €/kg de leite em julho de 2015;

Valores do Índice VL Erva

3,0

2,0

1,5

1,0 julho 2013

julho 2015

Valor do Índice VL - erva Negócio saudável

A evolução dos preços das 5 principais matérias-primas que entram na formulação dos alimentos compostos contribuíram para o aumento do preço dos alimentos compostos formulados para o cálculo do Índice VL (5,8%) e Índice VL – ERVA (4,5%); Os preços dos alimentos forrageiros utilizados na formulação do regime alimentar não apresentaram, no trimestre em análise,

Limiar de rentabilidade

Forte ameaça para a rentabilidade da exploração

diferenças representativas relativamente ao trimestre anterior; Os 3 aspetos anteriores refletem-se no Índice VL e no Índice VL - ERVA que em julho de 2015 foram, respetivamente, de 1,454 e 2,098; As condições para o sucesso económico das explorações de leite são agora menores nos Açores e muito menores no continente.

Referências Bibliográfia: Não foram incluídas por uma questão de espaço editorial, mas os autores disponibilizam bastando enviar um email para geral@revista-ruminantes.com.

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FORRAGEns

FORRAGENS EM MANGAS TUBULARES

IMAGEM 1 Processo de ensilagem em mangas de plástico tubulares.

Entrevista a Adolfo Ramos, gestor e proprietário da Ensilados Ramasa. por ruminantes

O processo de ensilagem em mangas de plástico tubulares, também utilizado no armazenamento de cereais, poderá ser uma opção com interesse a considerar pelos agricultores portugueses. Este sistema é utilizado há muitos anos nos EUA, desde os anos 90 na Argentina e desde 2000 na Austrália. Na Europa começa a ter cada vez maior presença nos países de leste e em Espanha a sua utilização tem vindo a crescer. Em Medina del Campo, perto da cidade espanhola de Valladolid, a empresa Ensilados Ramasa possui um negócio especializado em forragens, que utiliza o processo de ensilagem em mangas de plástico tubulares para ensilar cerca de 172 mil toneladas de forragem que produz anualmente A atividade da Ensilados Ramasa repartese porém por diversas áreas: produção de forragens (milho, azevém, luzerna); compra e venda de forragens; prestação de serviços com máquinas de ensilar; e representação das máquinas de ensilar tubulares da marca alemã Budissa e ROmiLL.

Atualmente, a empresa trabalha em toda a zona oeste de Espanha mas tem como objetivo chegar a Portugal. Entre os seus principais clientes contam-se açucareiras como a British Sugar, e cooperativas agrícolas como a Pecogasa e a Os Irmandiños. A Ruminantes esteve em Valladolid com Adolfo Ramos, gestor e propritário da Ensilados Ramasa, onde nos mostrou o processo de ensilar com as máquinas de mangas tubulares e nos falou das vantagens deste processo sobre os tradicionais silos trincheira. Trabalham com todo o tipo de forragens? Adolfo Ramos - Sim, produzimos, transformamos e comercializamos desde o milho à luzerna, passando pelo milho pastone, azevém, triticale, centeio e polpa de beterraba. (Imagens 3 e 4) Com que tipo de explorações trabalham? Com todo o tipo, porque dispomos de uma gama de máquinas de mangas tubulares que vai dos 8 pés (± 2,44 m) aos 14 pés

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(+-4,27m) o que nos permite abranger as explorações pequenas e grandes. Estamos mais especializados nos grandes clientes, pois temos a possibilidade de deslocar as máquinas em camiões, temos semireboques com estrados circulantes, uma vez que a quantidade de trabalho que aí realizamos absorve os custos de deslocação. Quais os seus objetivos para os próximos anos? Penso que devemos dar uma orientação diferente ao peso de cada área dentro da empresa. O negócio da compra e venda de forragens não deverá ganhar força, e por isso devemos alocar mais tempo e recursos na prestação de serviços de ensilagem, compra, venda e manutenção das máquinas, de forma a que os nossos clientes possam ter uma forragem de qualidade máxima. O milho pastone não teve grande aceitação em Portugal, mas a vossa empresa faz muito, porquê? É muito interessante, pois minimiza as


O gado merece, a terra agradece.

PASTAGENS E FORRAGENS

HERDADE DOS ESQUERDOS 7450-250 VAIAMONTE (PORTUGAL) TEL. 245569000 路 FAX 245569103 E-MAIL: FERTIPRADO@FERTIPRADO.COM WWW.FERTIPRADO.COM


FORRAGEns

Dados de empresa

IMAGEM 2 Adolfo Ramos, gestor e proprietário da Ensilados Ramasa.

Produtor: Ensilados Ramasa Localização: Medina del Campo, Valladolid, Espanha

compras de milho em grão e elimina os secadores. O produtor colhe o milho húmido, processa e armazena no mesmo dia em sua casa. Isto elimina o transporte do milho ao secador e o custo do secador, de trazê-lo de novo para a exploração e de armazená-lo e triturá-lo antes de o dar às vacas. No caso das Ilhas, onde muitas vezes não é possível secar, este processo é muito interessante. A chave está em saber fazer e em utilizar mangas com plástico de qualidade. Fazem o acompanhamento agronómico das forragens que comercializam? Temos dois técnicos que acompanham as sementeiras, o desenvolvimento das culturas, a existência de pragas e que são responsáveis pela maximização da produção. Utilizamos o modelo twin-row, onde pomos 115.000 sementes milho por ha e atingimos produções de 85 tons matéria verde por ha. Vendem as forragens com análises de qualidade? Nós vendemos as forragens à “la carte”. Por exemplo, temos clientes que no milho procuram um tipo de corte, altura de corte, dureza do grão... que é diferente de outros. Essa diferença pode ser pelos conceitos nutricionais que têm, ou pela disponibilidade de outros produtos que tem na exploração. Então, convidamos os nossos clientes a ver o milho no campo e quando estiver ao seu gosto, cortamos com as características que nos pedem.

Efetivos: 8 empregados fixos, até 40 em períodos de campanha Área trabalhada em 2014: 625 hectares (dos quais 90 ha de luzerna) Parque de máquinas: • 4 picadoras • 8 ensiladoras (8 pés - 2,44m com 220 toneladas até 14 pés 4,27m com 900 toneladas, em túneis de 60 m)

Utilizam o sistema NIR nas picadoras para verificar a qualidade das forragens? Não. Esse sistema é interessante porque mede em continuo o teor de humidade, mas como numa herdade este teor muda bastante em função da zona e do tipo de solo, do ponto de vista prático não serve para muito. A observação in loco é muito mais interessante, e isso fazemos muitas vezes.

IMAGEM 3 e 4 Campo de milho e de luzerna .

O preço depende das análises químicas? A cada carga que chega à exploração para ensilar, recolhemos uma amostra e medimos a humidade (depois faz-se a média); a proteína e o amido medimos depois de o silo ter fermentado, ou seja, no final e não à entrada. Temos tentado vender por qualidade mas a verdade é que com o processo “á la carte”, em que o cliente vê a cultura e escolhe a altura de corte, acabamos por vender por kg de matéria verde. O preço da silagem de milho ao produtor varia em função do preço do milho grão. O preço de referência é 30 € por tonelada, mas varia entre 24 e 36 €, que inclui a forragem, a picadora, os reboques, transporte para a exploração e ensilagem. Que tipo de processo utilizam para ensilar? Mais de 95% dos silos que fazemos são de manga tubular. Temos vacarias com cerca de 2700 vacas que abandonaram os silos trincheira, há mais de 6 anos, para utilizar estas mangas tubulares. Porquê? As duas formas são maneiras possíveis de ensilar, mas existe uma frase que diz “o inimigo do silo é o ar”, e estas mangas, se forem bem processadas e fechadas não têm ar, enquanto que um silo trincheira não se consegue fechar hermeticamente. A humidade que se perde no silo trincheira, nas mangas fica lá e é muito interessante para as fermentações que se dão. À medida que se está a processar a forragem, está-se a ensilar, (ao descarregar na máquina de encher as mangas tubulares, está-se a ensilar). Num silo trincheira estamos vários dias a encher e a calcar, até o fecharmos, e isso diminui a qualidade final da silagem (Imagem 5 e 6). Como passa a mensagem da qualidade do produto? Na verdade, o que temos feito em Espanha, e gostava muito de

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FORRAGEns

Existem outras razões pelas quais um produtor deve mudar do sistema do silo trincheira para o sistema de manga tubular? Sim, porque é muito mais económico. Não se perdem tantos nutrientes, o investimento fixo não existe, apenas é necessário ter um terreno devidamente compactado e com o comprimento ideal para não haver desperdício de manga. Não é necessário ter tantos tratores e trabalhar tanto tempo para ensilar a mesma quantidade. Fazer silos trincheira é perigoso e a causa de vários acidentes, coisa que com este processo não acontece.

VANTAGENS MANGA TUBULAR • O silo é fechado imediatamente e hermético • Minimiza as reações não desejadas durante a fermentação e armazenagem • Minimiza as perdas de nutrientes • Não há contaminação pelas rodas do trator quando este compacta • Área de armazenamento flexível em função das necessidades. • Sistema de baixo custo e de fácil ampliação da capacidade de armazenamento • Todos os dias se retira silagem fresca para os animais

IMAGEM 5 e 6 Processo de ensilar e silo de polpa de beterraba.

• A manga tubular permite ser aberta e fechada em diferentes períodos, ao contrário do silo trincheira que uma vez aberto deve ser consumido

Máquinas ensiladoras novas e de ocasião Moinhos para pastone Romill Sacos para ensilar Budissa Peças Assistência técnica

Tire proveito das excelentes condições de financiamento em todas as nossas máquinas. Possibilidade de pagamento dos sacos no final do ano.

conseguir fazer em Portugal, eram “dias de portas abertas” para que os produtores pudessem ver diretamente todo o processo, levando-os a várias explorações para verem a qualidade do produto já ensilado. Temos vacarias com este sistema, que estão a produzir 42 litros de leite por vaca e dia com custos de 6 euros por vaca e dia.

* Financiamento condicionado à aceitação do banco

www.agbag.es

www.ensiladosramasa.com ruminantes outubro . novembro . dezembro 2015 51


RUMINANTES SAUDÁVEIS

Carolina Cunha

Fatores de risco para doenças podais A patologia podal é a 3ª causa de refugo de vacas leiteiras em Portugal.

Introdução Bárbara Nunes

George Stilwell Faculdade de Medicina Veterinária Universidade de Lisboa

A patologia podal é a 3ª causa de refugo de vacas leiteiras em Portugal. Em 2010 um estudo da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa, efetuado em 12 explorações revelou que a prevalência média de vacas claudicantes era de 48% com uma variação que ia dos 23% aos 91%. Para analisar este problema é fundamental perceber o impacto económico que as claudicações têm numa exploração, podendo chegar aos 402€ por animal quando se considera o somatório dos custos diretos e indiretos. É portanto um enorme problema económico e de bem-estar animal. Para agravar a dimensão do problema, sabe-se que, na grande maioria das vezes, o produtor não tem uma noção realística do que se passa na sua exploração. Em vacas leiteiras as principais causas de claudicação são úlcera da sola, dermatite digital e panarício. Para compreender melhor as doenças podais e a forma de as prevenir, é fundamental perceber que a sua origem é multifatorial, ou seja, resulta da interação de vários fatores.

FATORES DE RISCO Influência da nutrição Hidratos de carbono Vacadas com maior ingestão de carbohidratos facilmente fermentescíveis, quantidade insuficiente de fibra ou mau dimensionamento da mesma, demonstram maior tendência para fazerem acidose ruminal e também claudicações. A relação entre acidose ruminal e laminite pode ser explicada pelo desequilíbrio na flora ruminal que ocorre na acidose - não só os microorganismos produtores de ácido láctico crescem exponencialmente, baixando o pH, como os responsáveis pela digestão de fibra morrem

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libertando toxinas. Devido à descida de pH ocorre inflamação das paredes do rúmen levando à libertação de histamina que, em conjunto com as toxinas bacterianas e outros fatores, promovem uma vasoconstrição nos tecidos das unhas prejudicando o crescimento e a qualidade da substância córnea. Muito do impacto negativo que ocorre nas laminites tem a ver com as lesões que lhe são consequentes, como úlceras, dupla sola e a doença da linha branca. Proteína Apesar da proteína rapidamente degradável aumentar a concentração de amónia no rúmen e de esta funcionar como tampão às alterações de pH, a prevalência de claudicações em vacas alimentadas com altos valores de proteína (>19,3%) é maior quando comparada com o que ocorre com vacas alimentadas com ração com 16% de proteína. A qualidade da proteína também é importante tendo sido demonstrado que a carência nos aminoácidos metionina e cisteína também é um factor de risco para a ocorrência de doenças podais uma vez que o material córneo formado é mais brando. Minerais Carências em minerais como cobre, zinco, enxofre, manganês, cobalto e selénio causam unhas mais frágeis e de menor qualidade. Também o cálcio é importante para a saúde dos ossos e cartilagens e, portanto, para um correto apoio dos membros. Vitaminas Biotina – tem um papel importante na formação da unha e a sua suplementação aparenta ser benéfica para a saúde podal. Vit A, D e E – também parecem ter um papel na formação do material córneo. A vitamina D tem um papel regulador do cálcio o que a torna particularmente importante.


RUMINANTES SAUDÁVEIS

Vaca no Periparto Durante o periparto há alterações a que a vaca é sujeita que podem ser determinantes para o desenvolvimento de doenças podais; A redução do crescimento das unhas: sabe-se que o parto cria alterações na formação de todo o material córneo Aumento do movimento da terceira falange dentro do estojo córneo da unha: devido a alterações hormonais, ocorre laxidão dos ligamentos da terceira falange que a torna mais móvel aumentando assim o risco de lesão no córion (tecido vivo responsável pelo crescimento e renovação da unha). Aumento do desgaste da unha: o aumento do tempo em que a vaca passa de pé devido ao aumento do tempo em ordenha e a alimentar-se contribui para um aumento do desgaste das unhas. Imunossupressão e aumento do risco de doenças no pós-parto: é sabido que neste período as vacas estão mais sujeitas a contrair infecções como metrites ou mastites, sendo que qualquer infecção só por si afecta a formação de material córneo. A imunossupressão, exacerbada pelo balanço energético negativo frequente nesta altura, pode predispor também para doenças infecciosas como dermatite digital e panarício.

Instalações Cubículos Existem algumas regras que devem ser respeitadas para se garantir cubículos confortáveis. Por exemplo, as medidas

dos cubículos para vacas Holsteinfrísia de tamanho médio, devem ser de 1,20mx2,40m e não inferiores e devem ter uma barra/viga em frente ao peito quando a vaca se deita para evitar que esta avance demais. Um outro elemento que deve ser gerido com muito cuidado é a barra cervical horizontal que se destina a obrigar a vaca a recuar quando se levanta para defecar e urinar fora da cama. Esta barra se colocada muito atrás pode levar a vaca a cair para a frente quando se levanta (não são raras as vacas que morreram nestas armadilhas) e se colocada muito à frente não servem o seu propósito. O tipo de cama pode variar de exploração para exploração e não existe uma resposta perfeita e universal. No entanto, algumas considerações devem ser feitas: as camas de areia devem ter pelo menos 10 cm de profundidade; as camas de palha, serradura ou estrume seco devem ter uma profundidade de pelo menos 5 cm e mantidas permanentemente secas. Os colchões ou tapetes não são o material preferido para a vaca que, se dada a oportunidade, prefere quase sempre a areia ou palha. Seja qual for o material, este deve ser mantido livre de fezes e urina e mudado ou acrescentado com a frequência adequada ao uso. O ratio cubículo:vaca deve ser de 1:1 sendo preferível que haja mais cubículos que vacas e nunca o contrário. O mesmo acontece em relação aos lugares à manjedoura, que idealmente deve ser maior do que o número de vacas no parque e nunca inferior. Uma das formas de se perceber o conforto dos cubículos é avaliar o número de vacas deitadas nos corredores ou empoleiradas (perching)

nas camas. Como se adivinha essas situações aumentam muito a sobrecarga e o risco de desenvolvimento de lesões podais. No estábulo a largura do corredor deve ser suficiente para que as vacas possam circular com facilidade, evitando assim conflitos e agressões que conduzem a lesões podais ou agravam doenças préexistentes. Tipo de pavimento Pavimento em cimento abrasivo é um dos principais factores de risco para o desenvolvimento de doenças podais por facilitar traumatismos ao reduzir a capacidade de defesa dos tecidos internos. Para minimizar este factor, em áreas onde se sabe que os animais vão ficar em pé muito tempo, como na sala de ordenha e no parque de espera para a ordenha, devem ser colocados tapetes de borracha. A inclinação do piso por onde as vacas passam também é importante, pode estar relacionada com um aumento de incidência de úlceras da pinça na exploração. Superfícies irregulares com pedras ou outro tipo de potenciais corpos estranhos podem contribuir para a doença da linha branca, para além de proporcionar quedas e traumatismos Por outro lado, pisos demasiado escorregadios facilitam quedas, sendo por isso aconselhável a produção de roços (paralelos ou em quadriculado) com cerca de 1 cm de profundidade. Apesar de se poder pensar que vacas mantidas em pavimento coberto com tapetes de borracha precisam de cortes mais frequentes, na prática isso não parece acontecer – o crescimento das unhas parece adaptar-se às novas

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RUMINANTES SAUDÁVEIS

necessidades e o material córneo que produzem é de melhor qualidade. Humidade Unhas que estejam muito tempo molhadas têm tendência a ficar mais brandas e consequentemente mais sujeitas a lesões. Também a pele da extremidade fica mais frágil e mais sujeita a doenças. Por exemplo, experimentalmente apenas foi possível a transmissão de dermatite digital entre vacas com os pés constantemente molhados. O pavimento dos parques onde as vacas são mantidas deve ser raspado duas vezes ao dia e a adição de 50g/dia/vaca de cal hidratada duas vezes por semana às camas, mostrou ser um método eficaz de as manter mais secas, reduzindo a taxa de claudicações e também de mastites.

Maneio Foi demonstrado que nas explorações em que o maneio é calmo e paciente há menos lesões e portanto menos claudicações do que em explorações onde o maneio é mais “áspero”. No caso de ser necessário conduzir vacas ao longo de caminhos (por exemplo, para a ordenha) estas não devem ser obrigadas a andarem demasiado depressa pois assim não têm tempo para escolher o caminho e ficam mais sujeitas a lesões por corpos estranhos.

Stress Térmico O stress térmico é também um fator de risco para a doença podal, pois as vacas, durante as alturas de maior calor, tendem a ficar mais tempo de pé perto das ventoinhas e dos aspersores de água, diminuindo as horas que passam deitadas com as consequências já descritas. Também tem vindo a ser estudada uma relação entre o stress térmico e a acidose ruminal subclínica (por menor consumo de fibra, por exemplo) que por sua vez é um fator de risco para patologia podal.

Conformação A conformação afeta a incidência de patologia podal, que por sua vez é influenciada pela genética. Quando se escolhe um touro deve ter-se a preocupação de escolher um que produza novilhas com bons aprumos, angulo da unha adequado (~45º), com uma boa profundidade do talão e com a parede da unha direita.

Influência do tempo que as vacas passam deitadas Uma vaca deve passar em média 14h por dia deitada. Quando está confortavelmente deitada não só descansa, como o fluxo sanguíneo para o úbere aumenta, passa mais tempo a ruminar, mantém-se mais limpa e a incidência de infecções no úbere, de traumatismos e claudicação diminui. Vacas que passem menos de 11h deitadas quer seja porque estão demasiado tempo à espera da ordenha

ou por qualquer outra razão, têm mais probabilidades de vir a sofrer de úlceras da sola, sendo particularmente relevante em primíparas que por razões hierárquicas são geralmente as que passam mais tempo em pé. Para reduzir o impacto do estabelecimento de hierarquia no pós-parto, sugere-se que se faça a introdução das novilhas gestantes com as vacas secas para que as relações inter-animais se possam ir estabelecendo numa altura em que o risco é menor.

MEDIDAS PREVENTIVAS

Identificar os fatores de risco! Corte funcional O tamanho inadequando das úngulas é talvez o fator mais importante para o desenvolvimento de doenças podais. O corte funcional é, portanto, a medida de maneio que mais influência tem na prevenção da doença podal. Não se deve esperar que uma vaca mostre uma claudicação severa para que faça um corte das unhas. Idealmente as vacas devem ir ao tronco duas vezes durante o seu ciclo produtivo, uma no pico de lactação e outra na secagem. Aliás, estudos mostram que com três cortes anuais consegue-se reduzir em 23% a probabilidade de ocorrer qualquer doença podal e em 52% a prevalência de úlcera da sola, quando comparado com um corte anual. No entanto, uma vez que isto nem sempre é exequível, devem fazer pelo menos um corte funcional por ano na altura da secagem.

Pedilúvios Os pedilúvios são uma forma importante de reduzir a incidência de patologia podal de origem infeciosa como dermatites interdigital e panarício. A frequência com que devem ser feitos varia muito de exploração para exploração. Tradicionalmente tem sido usado formol (atenção: utilização proibida por ser cancerígeno) e sulfato de cobre (atenção: risco de poluição ambiental e de lençóis freáticos) ou sulfato de zinco.

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Uma alternativa menos problemática é fazer passar as vacas por uma pasta de cal hidratada que promove a desinfeção das unhas e tem menos impacto ambiental. No mercado existem boas soluções e espumas comerciais, que por vezes associam desinfetantes com detergentes conseguido melhor penetração e atividade. Por conselho e sob orientação médico-veterinária, é também possível o uso de soluções de antibióticos no pedilúvio no caso de um surto de dermatite digital. O pedilúvio deve ser colocado à saída da sala da ordenha para que as patas estejam mais limpas, permitindo manter a atividade da solução durante mais tempo.

Nota Os autores escreveram este artigo segundo o Antigo Acordo Ortográfico.

Referências bibliográficas Blowey, R., Factors associated with lameness in dairy cattle In Practice (2005), 27:154-162. doi:10.1136/ inpract.27.3.154 Lean, I.J., Westwood, C.T., Golder H.M., Vermut J.J. Impact of nutrition on lameness and claw health in cattle, Livestock Science, (2013), 156: 71–87. doi:10.1016/j.livsci.2013.06.006 Philipot, J.M., Pluvinage,P., Cimarosti, I., Sulpice, P., Bugnard, F., Risk factors of dairy cow lameness associated with housing conditions. Veterinary Research, BioMed Central, 1994, 25 (23), pp.244-248.


Saúde e bem-estar animal

Joaquim L. Cerqueira1

AVALIAÇÃO DE HIGIENE E COMPORTAMENTO

NA ORDENHA EM VACAS LEITEIRAS Introdução

Alice Moreira2

José Pedro Araújo1, 3 1 Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Viana do Castelo 2 Socidias Lda, Estruturas metálicas, revestimentos e equipamentos agrícolas 3 Centro de Investigação de Montanha (CIMO) – ESA-IPVC

Os fatores que mais influenciam o bemestar dos animais em sistemas de produção intensivos estão associados às práticas de maneio. A qualidade dos cuidados de maneio por parte dos criadores e a seleção genética para alta produção influenciam a produtividade, saúde e a longevidade dos animais. Essas preocupações fazem com que grande parte da investigação aplicada ao bem-estar animal se centre nos efeitos do ambiente, como o alojamento e maneio, incluindo a relação homem-animal. As vacas leiteiras selecionadas para a produção intensiva sofreram alterações fisiológicas e morfológicas, que contribuíram para um aumento das suas produções, menorizando outras aptidões, em particular a resistência a doenças (EFSA, 2012). A ordenha deve ser realizada por pessoal treinado, a máquina de ordenha deve possuir os níveis de vácuo regulados e as tetinas não devem apresentar deformações. A higiene da sala de ordenha deve ser mantida e todo o ambiente envolvente deve ser calmo para evitar situações de stresse nos animais. A higiene corporal dos animais é um importante indicador de bem-estar animal para as vacas leiteiras, estando dependente das condições das instalações, do clima e do comportamento dos animais (Sant’Anna e Costa, 2011). É por isso esperado que vacas conspurcadas revelem maior possibilidade de incidência de mastites (Schreiner e Ruegg, 2003). A alteração do comportamento animal é frequentemente utilizada como um indicador para avaliação do seu bem-estar. O comportamento de um animal na ordenha reflete-se através dos diversos estímulos que são percecionados do meio ambiente confinante. Os animais em ordenha apresentam um comportamento mais irrequieto, no que se refere a passos e coices, acabando assim por prejudicar a eficiência global da

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ordenha (Rushen et al., 1999). O objetivo do presente estudo consistiu na avaliação da higiene dos animais e monitorização do comportamento na ordenha através do registo de passos e coices.

Indicadores de bem-estar animal A recolha de dados foi realizada em quatro explorações leiteiras da zona Norte de Portugal com ordenha convencional. A higiene dos animais foi avaliada com base na metodologia referenciada por Cook (2002), em que a sujidade da vaca é classificada numa escala de 1 (limpo) a 4 (muito sujo), para três regiões morfológicas: perna, úbere, coxa e flanco. Para a avaliação do comportamento das vacas em ordenha, nomeadamente passos e coices adotou-se a metodologia de Rousing et al. (2006), considerando-se “passo” sempre que o animal deslocava um membro posterior no plano vertical, enquanto coice se refere à deslocação de um membro posterior no plano horizontal.

Resultados Para as explorações estudadas obteve-se um valor médio de 2,4±1,4 lactações, com uma produção média diária por vaca de 27,0±9,2 kg. A produção de leite aos 305 dias foi de 9.973,3±2.097,4 kg e a contagem de células somáticas (CCS) de 297.300±294.700 cél/ml (Quadro 1). QUADRO 1 Parâmetros produtivos das explorações em estudo. Explorações

Parâmetros

N

Nº lactações Quatro

Prod/vaca/dia (kg) Prod 305 dias CCS (x1000 cél/ml)

213

Média±DP

CV (%)

2,4±1,4

57,8

27,0±9,2

33,9

9.973,3±2.097,4

21,0

297,3±294,7

99,1


Saúde e bem-estar animal

FIGURA 2 Grau de higiene do úbere nas 4 explorações em estudo.

FIGURA 1 Grau de higiene das diferentes regiões anatómicas nas vacas leiteiras.

80 70 60

40

50

Animais (%)

50

30 20

40 30 20

10

10 0

0

2

3

2

4

3

Pontuação de higiene Pernas

Úbere

O número de lactações por vaca (2,4) aproxima-se do referenciado por ANABLE Associação Nacional Para O Melhoramento dos Bovinos Leiteiros (2013), valor baixo, quando é sabido que os animais atingem o seu potencial máximo produtivo entre a terceira e a quarta lactação. A produção de leite por vaca/dia do efetivo em estudo foi de 27,0±9,2 kg, valor inferior à média nacional (30,4 kg). Por outro lado a produção aos 305 dias observada (9.973,3±2.097,4 kg) foi superior aos valores de ANABLE (2013), na ordem de 9.281 kg de leite para a região Norte. A região corporal que obteve um grau de sujidade mais elevado (grau 4) foram as pernas (52,3%), seguida pela coxa e flanco (41,9%). Por outro lado a região que se evidenciou mais higienizada foi o úbere, revelando-se limpo (grau 2) em 36,3% das vacas observadas (Figura 1). Ainda se pode destacar que a maioria dos animais se encontravam sujos e muito sujos (grau 3 e 4 na escala de higiene), com menor enfase para a região do úbere. Em nenhuma exploração foram encontrados animais com pontuação 1 (completamente limpos), para qualquer das três regiões anatómicas avaliadas.

4

Grau de higiene do úbere Exploração 1

Coxa e flanco

O ambiente que envolve a vaca leiteira, nomeadamente o seu grau de higiene tem influência preponderante no aparecimento de mastites, por isso deve existir atenção acrescida para este aspeto. Constatou-se que a região das pernas revelou um elevado grau de sujidade (52,3% muito sujas), superior ao indicado no Welfare Quality (2009), que recomenda valores inferiores a 50% dos animais. Segundo Schreiner e Ruegg (2003) e Cook (2004) os fatores com maior influência no grau de higiene da zona inferior dos membros de bovinos em

Exploração 2

sistema de estabulação livre com cubículos, são o método de remoção do chorume, a sua frequência, o desenho das instalações e a capacidade de drenagem (inclinação do piso). Para a região do úbere, encontrou-se um grau de higiene mais satisfatório na exploração 4 (grau 2 - 72,9%), tendo em contrapartida a exploração 1 revelado fraca higiene para esta região (grau 4 - 36,7%) (Figura 2). Das 3 regiões avaliadas o úbere foi o que se apresentou mais limpo (36,3%), contudo 15,7% das vacas classificadas apresentaram um nível de

FIGURA 3 Distribuição da frequência de passos e coices durante a ordenha. 90 80 70 60

Animais (%)

Animais (%)

60

50 40 30 20 10 0

0

[1-6]

[7-11] Intervalos

Passos

Coises

≥12

Exploração 3

Exploração 4

conspurcação elevado (grau 4) na glândula mamária. O elevado grau de sujidade do úbere pode ser indicativo da falta de limpeza da parte posterior do cubículo ou de um número insuficiente de cubículos relativamente ao efetivo da exploração. Na exploração 1 verificou-se maior grau de sujidade do úbere (36,9%), podendo ser explicado pela insuficiência de cubículos para a totalidade das vacas em lactação, levando a que estas repousem indevidamente nos corredores de circulação, induzindo um superior grau de sujidade dos animais (Fraser e Broom, 1998). Importa referir ainda que animais mais sujos na região do úbere atrasam a preparação para a ordenha, prejudicando os mecanismos fisiológicos de ejeção do leite, além de tornar esta operação mais demorada. Na avaliação do comportamento na ordenha, constatou-se que apenas 5,0% do efetivo estudado não manifestou passos durante a ordenha e que 13,3% das vacas observadas se mostraram bastante agitadas (≥12 passos/ ordenha). O comportamento de coices apenas se observou em cerca de 20% do efetivo estudado, o que aparentemente se revela positivo quer

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Saúde e bem-estar animal

relativamente ao ambiente da sala de ordenha como ao maneio dos animais (Figura 3). A avaliação do comportamento na ordenha permite monitorizar o bem-estar dos animais, a saúde do úbere, o maneio e técnicas de ordenha e as lesões (Rousing et al., 2004). Do efetivo acompanhado, verificou-se que 95% manifestaram passos, sendo que a maioria dos animais evidenciou entre 1 a 6 passos por ordenha (55,6%), valor próximo do observado por Cerqueira (2011) (57,2%). Rousing et al. (2004) verificaram que animais com maior número de passos na ordenha evidenciaram maior produção de leite, estando também os passos associados à tentativa de fuga dos animais com a aproximação humana, bem como à existência de moscas. Apenas 13,3% dos animais apresentaram frequência superior a 12 passos/ordenha, valor próximo ao obtido por Cerqueira (2011). Em relação ao número de coices registou-se 19,2% de vacas mais irrequietas no intervalo [1-6]. De acordo com Rousing et al. (2004) as lesões existentes nos tetos e em outras zonas da glândula mamária podem contribuir para o aumento de coices. Observou-se em média a existência de 6,3±4,6 passos por ordenha. Não se encontraram diferenças significativas (P>0,05) entre lactações para o comportamento de passos, contudo verificou-se um acréscimo deste comportamento até à quarta lactação, onde se constatou o valor mais elevado (7,8 passos/ ordenha) (Quadro 2).

QUADRO 2 Efeito do número de lactações no comportamento de passos na ordenha. Lactações

N

Média

DP

1

86

5,8

4,6

79,3

2

106

6,3

4,4

69,8

3

90

6,8

4,9

72,1

4

33

7,8

5,1

65,3

≥5

50

5,6

4,3

76.8

Significância: Total

CV (%)

NS - não significativo 365

6,3

4,7

74,6

Não se observou efeito da ordem de lactação no comportamento de passos, contudo Rousing et al. (2004) referem que os animais com mais do que quatro lactações evidenciaram menor comportamento de passos em comparação com as vacas mais jovens, situação semelhante ao observado no presente trabalho, onde se verificou que os valores mais elevados de passos se situam entre a 3ª e a 4ª lactação, observandose um decréscimo em animais com maior número de lactações (≥5).

58 outubro . novembro . dezembro 2015 Ruminantes

Evidências e critérios relevantes para estes indicadores de bem-estar Higiene das vacas leiteiras

FIGURA 4 Pontuação de higiene excelente na região das pernas.

da superfície da cama, à diferença de comportamento da vaca nos cubículos para os diferentes tipos de superfície da cama, e consequentemente na cama de areia haverá menor transferência de fezes ao úbere. A pontuação de higiene é uma ferramenta muito útil para indicar o grau de sujidade das vacas, no entanto as recomendações práticas para manter as vacas limpas são suscetíveis de estar relacionadas com uma combinação de fatores de maneio, sendo crucial efetuar sempre uma apreciação do conjunto de fatores capazes de afetar a higiene na exploração e o risco de mastite. A higiene das vacas e do ambiente que as rodeia influencia o risco de mastite e a qualidade do leite. A falta de higiene no úbere, coxa e flanco dos animais foi associada a elevadas contagens de células somáticas, pelo que a sua monitorização é

A região das pernas (abaixo do curvilhão) das vacas mantidas em sistema livre com cubículos é facilmente contaminada, aumentando o risco de transferência de fezes ao úbere. A passagem através do respingo ocorre principalmente nos corredores de passagem dos animais (água proveniente dos bebedouros e da acumulação de líquidos no piso do estábulo). São vários os fatores que contribuem para a contaminação das vacas com fezes nas explorações leiteiras, sendo comum verificar que vacas alojadas em cubículos com areia apresentam uma pontuação de higiene mais favorável relativamente aos colchões (Quadro 3). Isto pode ficar a dever-se ao melhor efeito de drenagem da areia, que facilita a absorção de líquidos, à facilidade de limpeza

QUADRO 3 Valores de pontuação de higiene 3 e 4 para cada região anatómica de vacas leiteiras, de acordo com o tipo de cama (adaptado de Cook, 2004). Tipo de cama

Pontuação de higiene 3 e 4 (%) N

Areia Colchão

120

Úbere

Perna

Flanco

16,7

39,2

1,7

33,3

74,2

11,7


SAÚDE E BEM-ESTAR ANIMAL

capaz de fornecer informação muito revelante acerca da saúde do úbere. Os animais são considerados conspurcados quando apresentam classificações ≥3 no sistema de pontuação proposto por Cook (2002). Os animais nestas condições nunca devem ultrapassar a fasquia de 20% do efetivo.

Comportamento na ordenha Em vários estudos, o comportamento de vacas leiteiras durante a ordenha foi relacionado com o maneio e comportamento humano e com o grau de medo que as vacas apresentam de seres humanos. O medo dos seres humanos pode estar associado a experiências desagradáveis relacionadas com manipulação forçada, o que se traduz em vacas irrequietas e revelando tentativas de fuga durante a ordenha. Quando as vacas sentem dor ou desconforto e por vezes em combinação com o possível medo de seres humanos, a ordenha é negativamente afetada (Rousing et al., 2004). Os mesmos autores referem que, uma elevada frequência de coices durante a ordenha

pode resultar de dor ou desconforto causado por lesões nos tetos. No entanto, não encontraram qualquer relação entre claudicação e aumento da frequência de passos e coices durante a ordenha. Aqueles autores sugerem ainda que deve haver uma atenção redobrada para as vacas com maior número de passos na ordenha, que ao apresentarem maior produtividade, podem simultaneamente encontrar-se com contagens celulares mais elevadas. A avaliação do comportamento durante a ordenha é uma importante ferramenta para monitorização de problemas de bem-estar, como a saúde do úbere, técnicas de ordenha, lesões na pele e qualidade das rotinas de maneio em efetivos leiteiros. Nestas circunstâncias o comportamento de passos e coices durante a ordenha de vacas leiteiras, indica que estas medidas comportamentais podem funcionar como um teste válido, facilmente realizado e consistente na avaliação de bem-estar dos animais. No

entanto, pelas caraterísticas de maior agressividade dos coices deve ser dada especial atenção à frequência deste tipo de comportamento no processo de ordenha, como indicador de deficiente saúde do úbere, fracas condições dos locais de ordenha e eventualmente imperfeita relação ordenhador-animal, assim como para definir o temperamento do animal. Recomenda-se que as vacas não permaneçam mais do que uma hora na sala de espera para a ordenha. Na avaliação do comportamento na ordenha deve ser dada grande atenção aos animais que manifestam coices, devendo ser interpretado como um sinal de desconforto (clínico ou emocional), sendo extremamente importante identificar as causas da origem desta reação. Os passos na ordenha por vezes são comportamentos normais, no entanto sempre que num efetivo seja ultrapassada a meta de 20% de animais com uma frequência superior a 6 passos/ordenha poderão estar comprometidos os padrões normais de bemestar animal.

FIGURA 5 Monitorização do comportamento das vacas em ordenha convencional.

Conclusões O úbere foi a região anatómica que se mostrou mais limpa, contudo 15,7% das vacas classificadas apresentaram um nível de conspurcação elevado (grau 4). A maioria do efetivo evidenciou comportamento de 1 a 6 passos por ordenha (55,6%), cerca de 13% dos animais apresentaram frequência superior a 12 passos/ordenha. Quanto ao número de coices registou-se 19,2% de vacas mais irrequietas no intervalo de 1 a 6. Não se encontraram diferenças significativas (P>0,05) para o comportamento de passos relativamente à ordem de lactação. A relação entre os diferentes indicadores de saúde do úbere, é de extrema importância para avaliar o bem-estar animal de um efetivo em produção e auxiliar o produtor a evitar perdas económicas. A inclusão de medidas baseadas nos animais, recentemente veiculadas pelo relatório da EFSA (2012) é assumida no sentido de melhorar os sistemas de avaliação de bem-estar animal. A avaliação deve servir como uma ferramenta de consulta, que permite ao produtor identificar, prevenir e solucionar problemas de bem-estar animal do seu efetivo.

Referências bibliográficas Não foram incluídas por uma questão de espaço editorial, mas os autores disponibilizam bastando enviar um email para cerqueira@esa.ipvc.pt.

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Saúde e bem-estar animal

Prevenir mamites

uso de selantes internos de tetos no período seco da vaca leiteira POR Maria Teresa Moreira, LEICAR- Associação de Produtores de Leite e Carne e João Simões, UTAD- Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Introdução O período seco, com uma duração normal entre as 4 e 8 semanas antes do parto, é uma fase importante relacionada com a saúde, fertilidade e produção da vaca leiteira na lactação seguinte. No caso dos programas de controlo e prevenção de mamites o momento pré-secagem assume uma importância crucial. É por esta ocasião que se tratam as mamites subclínicas entretanto não curadas e sobretudo se previnem novas infeções com impacto no período pós-parto seguinte. Este artigo teve como objetivo realçar o uso benéfico de selantes internos de tetos (ITSinternal teat sealant) durante o período seco na prevenção de mamites na lactação seguinte.

O tampão de queratina e novas infeções bacterianas É durante as 3 semanas do início do período seco e nos 10 dias que antecedem o parto, que o úbere se encontra mais suscetível a novas infeções. No período inicial de secagem e involução acinar da glândula mamária ocorre a formação natural de um tampão de queratina no canal do teto que impede a entrada de agentes bacterianos, os principais causadores de mamites. Este tampão dissolve-se naturalmente aquando da formação do colostro, nos últimos dias que antecedem o parto. Desta forma, concomitantemente

com a involução e novo desenvolvimento acinar da glândula mamária, o úbere prepara-se para nova lactação. De destacar, no entanto, que este tampão de queratina demora vários dias a formar-se, com variabilidade entre vacas, e em alguns casos pode chegar a não formar-se totalmente [1]. Consequentemente ocorrem novas infeções bacterianas durante este período, comprometendo a nova lactação. De facto, existem numerosos estudos que apontam para que cerca de metade das mamites que ocorrem nas primeiras semanas após o parto tenham como origem infeções no período seco [1-4].

A prevenção de mamites durante a secagem Classicamente, para evitar ou diminuir a probabilidade de ocorrência de mamites durante o período seco, é administrado um antibiótico no canal de cada teto na última ordenha. Estas bisnagas intramamárias de secagem têm a propriedade principal de manterem uma concentração de antibiótico suficiente durante 30 dias na glândula mamária. Alguns dos inconvenientes destas bisnagas é o facto do seu espectro de ação poder não ser suficientemente largo e a existência de resistências microbianas. Em outras situações, a concentração de antibiótico pode não ser

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suficiente no final do período seco, principalmente em vacas com maior duração deste período, ou inversamente, este ser encurtado, surgindo problemas de resíduos no leite. De forma a complementar o uso de antibióticos, e incrementar a barreira natural à entrada de bactérias no canal do teto, foram desenvolvidos selantes externos de tetos, formando uma camada protetora no orifício externo dos tetos. Estes selantes permitem o isolamento indireto do canal do teto, principalmente na parte inicial do período seco (durante os primeiros 10 dias). Ao complementarem a antibioterapia local, constituem uma solução interessante. No entanto, os Selantes internos de tetos (ITS) poderão apresentar maior vantagem.

Os selantes internos de tetos: vantagens e limitações Os ITS, normalmente constituídos por subnitrato de bismuto, com variações relativas aos excipientes, permitem a obliteração imediata e persistente do canal do teto, impedindo a entrada de micro-organismos em direção à cisterna do teto. Os ITS são facilmente removidos por altura do parto, mimetizando desta forma, o tampão de queratina. Na tabela 1, encontramse descritas as principais vantagens e desvantagens deste tipo de selantes. Podem ser aplicados isoladamente ou como

complemento das bisnagas de secagem. Quando aplicados isoladamente é necessário proceder, além da normal contagem das células somáticas no leite, à cultura bacteriana de forma a confirmar a ausência de infeção nos quartos. A efetividade da utilização dos ITS está bem documentada na literatura [2,3,5]. Quando comparada [6] a utilização de ITS com a terapêutica de secagem clássica em quartos não infetados no momento da secagem, o comportamento das duas estratégias foi em tudo semelhante, o que sugere que os ITS podem ser utilizados sozinhos em quartos comprovadamente não infetados. A utilização de ITS limita a exposição dos tetos, consequentemente, de toda a glândula, à invasão bacteriana. A sua ação pode ser condicionada apenas pelo tempo de persistência no teto, embora tetos “abertos”, ou seja, sem um tampão de queratina, sejam mais sensíveis a infeções relativamente a tetos “fechados” [2]. Num estudo recentemente por nós publicado [7] usando explorações afetas à LEICAR, observámos que somente 7.7% (4/52) das vacas anteriormente negativas ao exame microbiológico, às quais foi aplicado exclusivamente um ITS no momento da secagem (com amostra de leite bacteriologicamente negativas), apresentaram crescimento bacteriano a nova cultura realizada 10 dias após o parto, i.e., uma nova infeção intramamária.


Proteção comprovada à secagem

Modo de aplicação

Limpar bem

Agarrar a base da teta

Aplicar o produto

Vetlima, S.A. | Centro empresarial da Rainha, lt 27.2050-501 Vila Nova da Rainha, Portugal | T: 263 406 570 | F: 263 406 579 E: geral@vetlima.com | www.vetlima.com

Marcar a vaca


Saúde e bem-estar animal

Para se ter uma ideia do que se passa em outras explorações, destacamos um estudo em que foi recentemente realizado um inquérito na Alemanha[8] a 95 produtores de leite (encabeçamento das explorações na ordem de 100 vacas). Observou-se que 79,6% procedia a antibioterapia profilática com bisganas de secagem, sendo que a análise bacteriológica era realizada em 31% das explorações, independentemente se usavam ou não a antibioterapia. No entanto, somente em 6,6% das explorações a cultura bacteriana de amostras de leite eram realizadas a todas as vacas, enquanto 24,4% a realizavam preferencialmente em vacas altas produtoras. Em 64,9% dos casos, os produtores aplicavam antibióticos na secagem sem qualquer exame bacteriológico. Neste mesmo inquérito, foi apurado que 33,3% dos produtores usavam ITS. Destes, 22,6 % faziam-no concomitantemente com antibioterapia intramamária de secagem e os restantes 9,7% sem qualquer uso de antibiótico.

Conclusão O uso de ITS no momento da secagem parece ser uma ferramenta prática com valor acrescentado na prevenção de

novos casos de mamites em vacas leiteiras altas produtoras, reduzindo adicionalmente a utilização profilática de antibióticos sob forma de bisnagas de secagem. No entanto, estas práticas requerem um maneio cuidado dos animais, com a realização atempada de culturas bacterianas. Estas análises são ainda, uma mais-valia para o produtor ter conhecimento em tempo real do estado sanitário do úbere do seu efetivo, uma ferramenta fundamental do seu plano de controlo de mamites.

Referências bibliográficas [1] Bradley AJ, Green MJ (2004). The importance of the nonlactating period in the epidemiology of intramammary infection and strategies for prevention. Vet Clin North Am Food Anim Pract. 20:547-568. [2] Berry EA, Hillerton JE (2002). The effect of Selective Dry-Cow Treatment on New Intramammary Infections. J. Dairy Sci. 85:112-121.

tabela 1 Principais vantagens e limitações dos selantes internos de tetos.

Vantagens

Limitações

• Alternativa efetiva aos protocolos • Se utilizados em exclusivo, clássicos de secagem, em quartos não necessitam de análises laboratoriais ao leite para garantir a sua aplicação infetados durante todo o período seco. em quartos não infetados; Podem diminuir o nº de novos casos relativamente a outros protocolos de • Apenas aconselhados em secagem; explorações com condições e maneio de secagens bons; • Podem ser usados com ou sem antibioterapia de secagem; • O custo, embora a potencial • Tampão interno efetivo na prevenção da entrada de micro-organismos a partir da ponta do teto, facto que limita a exposição e contaminação da glândula; • Podem contribuir para uma menor disseminação de micro-organismos resistentes a antibióticos usados na exploração;

diminuição direta da % de mamites no pós-parto imediato o justifique e mesmo possa anular. De notar que as culturas bacterianas adicionais às amostras de leite podem ser uma mais-valia para o programa global de controlo de mamites, o que, indiretamente diminui os custos globais com as mamites.

• Possibilidade de utilização em explorações orgânicas; • Favorece uma maior utilização de análises do leite (culturas bacterianas) como instrumento de controlo de mamites; • Fáceis de aplicar e de remover; • Evitam, quando usados exclusivamente, resíduos no leite em vacas com um período seco encurtado.

[3] Huxley JN, Green MJ, Green LE, Bradley AJ (2002). Evaluation of an internal teat sealer during the dry period. J. Dairy Sci. 85:551-561. [4] Bradley AJ, Breen JE, Payne B, Green MJ (2011). A comparison of broadspectrum and narrow-spectrum dry cow therapy used alone and in combination with a teat sealant. J Dairy Sci. 94: 692-704 [5] Cook NB, Pionek, DA, Sharp P (2005). An assessment of the benefits of Orbeseal® when used in combination with dry cow antibiotic therapy in three

commercial dairy herds. Bov. Pract. 39:83. [6] Woolford MW, Williamson JH, Day AM, Coperman PJ (1998). The prophylactic effect of a teat sealer on bovine mastitis during the dryperiod and the following lactation. N. Z. Vet Journal 46:12-19. [7] Moreira MT, Simões J (2015). Identificação de micro-organismos

presentes no leite de vacas em présecagem em explorações com baixa CCS. Rev. Electrón. Vet. 16: e1-e9. [8] Bertulat S, Fischer-Tenhagen C, Heuwieser W (2015). A survey of drying-off practices on commercial dairy farms in northern Germany and a comparison to science-based recommendations. Vet Rec Open 2: e000068.

POR David Catita

Leilão de reprodutores Limousine

“Sucesso” é o adjetivo mais consentâneo com o Leilão de Reprodutores Limousine, integrado na Feira da Luz - Expomor 2015, em Montemor-o-Novo, que decorreu no passado dia 5 de setembro, registando uma enorme adesão por parte de criadores interessados e público em geral. Numa exposição com um total de 12 reprodutores Limousine de 10 criadores Limousine diferentes, foram adquiridos todos os animais, fruto das qualidades da raça Limousine bem patentes nos animais apresentados, designadamente desenvolvimento muscular e esquelético, boas aptidões funcionais e bons índices genéticos de facilidade de parto e crescimento.

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Os valores de licitação variaram entre os 2.800 € e os 4.600 €, com um valor médio para os Limousine Prata de cerca de 3.400 € e um valor médio para os Limousine Ouro de cerca de 3.800 €. Os 12 reprodutores Limousine apresentados destinam-se a explorações cujo objetivo é produzir mais e melhores bezerros, pelo que seguramente que a incorporação de genética Limousine será uma importante mais-valia, dando continuidade à estratégia pioneira da APORMOR de apoiar os seus associados na melhoria efetiva da genética das explorações, que nunca é demais salientar e deixar mais uma vez os parabéns a esta entidade por tão importante iniciativa. “Semear bom para colher melhor!”


produção

A IMPLEMENTAÇÃO DE “OS 90 DIAS VITAIS”

Visitámos a vacaria Manuel dos Santos Miranda, na Moita, onde fomos recebidos pelo seu responsável técnico, Dr. João Caroço. Por: Sofia Carrondo

Trata-se de uma exploração com cerca de 400 vacas em produção, na sua maioria da raça Holstein pura, mas com um núcleo de animais Procross. Têm parte da recria no Alentejo, em Montes Velhos, Aljustrel, onde os animais permanecem até cerca dos sete meses de gestação, altura em que transitam para as instalações da Moita. A necessidade de uma melhor e maior otimização da produtividade, conjugada com um maior bem-estar oferecido aos animais, levou os responsáveis desta vacaria à instalação de uma nova sala de ordenha. Trata-se de uma sala de ordenha paralela 2x20 animais da Westfalia com saída rápida, sendo os animais ordenhados duas vezes por dia. E foi precisamente com este assunto que iniciámos a nossa conversa com o Dr. João Caroço. Quais foram as principais razões que levaram à implementação de uma nova sala de ordenha? Em primeiro lugar, era já evidente um subdimensionamento da anterior ordenha. Por outro lado, não só conseguimos uma maior produção por vaca, como sobretudo e mais importante, conseguimos uma melhoria do estado geral dos úberes. Esta é, pois, uma infraestrutura fundamental para a agregação de qualidade ao produto final, isto para

além de permitir uma gestão das tarefas e da atividade em geral mais eficaz, para além do fundamental bem-estar animal. Têm sido feitos outros investimentos? Em que área? Dado que me dedico muito à reprodução de bovinos de leite, destaco um com particular relevância e que tem demonstrado ser essencial na boa gestão da vacaria: trata-se de um programa de deteção de cios com base na podometria. De facto, a percentagem de cios detetados e as decorrentes taxas de conceção são vitais para a eficiência de qualquer rebanho leiteiro. A otimização da função reprodutiva da vaca torna ainda o maneio no periparto mais simples e sem grandes transtornos, pois as vacas chegam ao período de secagem com uma produção mais elevada e por outro lado, com uma condição corporal mais baixa e adequada. Todos nós sabemos que uma condição corporal alta no final da lactação conduzirá inevitavelmente a um período seco e a uma nova lactação com problemas associados. É claro que existem outros fatores associados e que contribuem direta ou indiretamente para este tipo de problemas, mas não há dúvida que o bom maneio reprodutivo é fundamental. O período denominado de “Os 90 Dias Vitais” e que decorre entre 2 meses

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Imagem 1 Dr. João Caroço na vacaria Manuel dos Santos Miranda.

antes do parto e 1 mês após o mesmo é um período sensível, com consequências para os animais e para a exploração. Quais são no seu entender os principais desafios durante esta fase? Considero muito importante que a vaca chegue ao início desta fase com uma ótima condição corporal, como referi anteriormente. Por outro lado, acho relevante os cuidados a ter com a higiene das camas durante este período, pois muitas das novas infeções mamárias têm a sua origem durante essa fase. Nesta vacaria, para minimizar esse problema, usamos um selante interno de tetos à

secagem. Mas, o importante será termos sempre presente que as alterações físicas e metabólicas pelas quais a vaca passa durante este período poderão influir na passagem às outras fases do ciclo de lactação, afetando assim a rentabilidade global da exploração. Portanto, é preciso gerir o balanço energético negativo, bem como a função imunitária da vaca. O objetivo será o de identificarmos o mais precocemente possível os problemas durante este período de transição, para que possamos evitar a ocorrência de doenças no pós-parto. Considera a nutrição um fator igualmente importante durante este período? Sim. Efetivamente, o maneio alimentar das vacas leiteiras é, muitas vezes, a chave do êxito ou do fracasso de uma


produção

exploração leiteira. O objetivo é fornecer aos animais um regime alimentar devidamente formulado, ao menor custo possível, e de acordo com as suas necessidades produtivas e reprodutivas. Ora, durante este período, o que pretendemos é que as vacas mantenham a sua condição corporal da secagem. Durante a 1ª fase deste período de secagem, opta-se por uma alimentação menos rica, de manutenção. No 2º período, ou seja, 15 dias ou 3 semanas antes do parto previsto, altera-se para um tipo de alimentação muito mais rico e com a introdução de alimentos que na fase anterior não têm, preparando o animal para ter um melhor desempenho no início da lactação. Nesta vacaria, e durante este período – cerca de 21 dias antes do parto previsto, o bolo intraruminal para prevenção das cetoses, já faz parte do maneio nutricional dos animais. As vacinas têm também um papel durante esta fase? Em geral, as vacinas são importantes no controlo das doenças, pois reforçam o sistema imunitário. Acho essencial vacinar contra a diarreia dos vitelos. No início do período seco, vacinamos contra clostrídios. É claro Dr. João Caroço Licenciado pela Universidade de Medicina Veterinária de Lisboa em 2002, fez diversos estágios no estrangeiro dos quais se destaca um na Universidade de Liége e outro na Universidade de Hannover. Fez uma pósgraduação em animais de produção na Universidade Lusófona. É clínico de bovinos de leite desde o ano de 2003, tendo-se especializado na área de reprodução. Acompanha atualmente cerca de 5.000 vacas provenientes de diversas explorações no país.

Imagem 2 Pormenor da alimentação das vacas com Unifeed.

que tenho igualmente os protocolos vacinais reprodutivos que sigo habitualmente. Monitorizam habitualmente os dados das patologias associadas a este período e ao balanço energético negativo? Sim, estamos muito focados em sistematizar e trabalhar cada vez mais esses dados, tendo-se inclusivamente traduzido na contratação de mais um elemento que nos auxilia nessa tarefa. A monitorização é essencial para uma boa e eficaz gestão. E mais uma vez se torna evidente a importância do investimento que foi feita na nova sala de ordenha. Sem estes instrumentos auxiliares de gestão, perdemos competitividade e estamos fora do mercado. Sabemos que também introduziu nesta vacaria a monitorização do índice de condição corporal através de ecografia. Pode-nos detalhar um pouco? Para realizarmos o estudo que referi anteriormente, tínhamos de selecionar as vacas de acordo com a sua condição corporal. Em vez do tradicional método de avaliação visual com uma escala convencionada de 1 a 5, optámos por uma caracterização das vacas através de ecografia, onde medimos a espessura da gordura subcutânea na garupa. Consideramos um método mais objetivo e que avalia diretamente aquilo que é verdadeiramente prejudicial, a quantidade de tecido adiposo acumulado.

comuns durante esta fase final dos 90 dias vitais. Para além do que já falámos, o que pensa ser comum a estes animais? Penso que há fatores fisiológicos de stress associados a esta transição, que afetam a vaca, e que nomeadamente conduzem a uma redução da ingestão. Logo, decorrente disso, é quase inevitável a existência de algum nível de imunossupressão e que tem como consequências uma redução nas suas defesas contra doenças infeciosas. Portanto, este comprometimento do sistema imunitário da vaca acarreta problemas que são comuns a estes animais. Mas, na prática, há estratégias ao dispor do veterinário que visem precisamente

minimizar o impacto da imunossupressão? De uma forma direta, não posso dizer que tenho essas estratégias ou ferramentas ao meu dispor. Procuramos, sim, indiretamente minimizar esse impacto através de tudo o que falámos: desde as corretas práticas de maneio, destaco aqui um ponto que considero fulcral – o bem-estar dos nossos animais de produção, ao uso de vacinação, à adequada suplementação nutricional, passando pelo controlo das mastites e fazendo uma monitorização de todos os dados que nos permitam avaliar em cada momento o estado dos nossos animais.

Imagem 3 Dr. João Caroço e Dr. Tiago Salvado (Elanco) a analisarem os dados da exploração.

Sabemos que as metrites, as retenções placentárias e as mastites são problemas

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SAÚDE E BEM-ESTAR ANIMAL

Bem-estar animal em bovinos de aptidão leiteira

Ernesto Araújo Médico Veterinário ernesto_fariaraujo@hotmail.com

Para que todas estas normas se cumpram numa exploração intensiva de bovinos de leite é necessário que os produtores tenham presente os pilares essenciais para uma vaca saudável e boa produtora: • Descanso (12 a 14h por dia); • Alimento de qualidade e apropriado à sua fase de produção; • Água em quantidade e qualidade (uma vaca de alta produção pode beber até 200l de água por dia); • Boa luminosidade; • Boa ventilação; • Conforto.

Estudo Prático Enquadramento O bem-estar de animais de produção é um aspeto que reúne cada vez mais preocupação não só junto da classe veterinária, mas um pouco por toda a sociedade. Este facto levou a que fosse criado pela “Farm Animal Welfare Council” o conceito das “cinco liberdades” que se rege pelos seguintes princípios: 1. Ausência de fome e sede, ou seja, o proprietário tem que fornecer aos animais água e uma dieta que os mantenha saudáveis e com vigor; 2. Ausência de dor, ferimentos ou doença através da prevenção, diagnóstico e tratamento eficaz de qualquer patologia; 3. Ausência de desconforto através do fornecimento de um ambiente adequado com abrigo e área de descanso; 4. Liberdade para expressão do comportamento animal, com espaço adequado, instalações apropriadas e companhia de animais da mesma espécie; 5. Ausência de medo e sofrimento, com maneio adequado e pessoal devidamente qualificado para exercer as tarefas diárias sem induzir medo nos animais (Stevenson et al. 2014).

Objetivo Este estudo teve como principal objetivo a avaliação e caracterização de setenta explorações intensivas de bovinos de leite do concelho de Vila do Conde aferindo parâmetros de bem-estar proporcionados aos animais.

Materiais e métodos No concelho de Vila do Conde, distrito do Porto, existem cerca de 33.500 bovinos distribuídos por 380 explorações. Estas explorações são essencialmente de pequena e média dimensão, com uma média do efetivo a rondar os 90 animais, somando entre elas uma produção de 140.000.000 de litros de leite em 2014 (dados da Cooperativa Agrícola de Vila do Conde 2014). Este trabalho teve como alvo de estudo cerca de 7800 animais pertencentes a explorações localizadas no concelho, sendo uma parte significativa (cerca de 59%) destas mesmas explorações geridas ainda com uma visão familiar. Nota-se que uma grande maioria dos proprietários estão interessados em evoluir e melhorar as suas explorações, o que sem dúvida é a chave do sucesso num tempo tão difícil como o que o setor leiteiro está a passar. Na realização deste estudo foi utilizado um questionário composto por questões que foram colocadas aos proprietários das explorações para aferir dados relativos ao funcionamento das mesmas. O

66 outubro . novembro . dezembro 2015 Ruminantes

questionário é também composto por itens de caráter objetivo em que procedi à observação das condições em que se encontravam os animais. Numa primeira fase interpelei os proprietários acerca do tamanho do seu efetivo, forma e frequência de limpeza das suas explorações, origem da água de bebida, a forma como realizavam o maneio dos vitelos, dando especial ênfase à administração do colostro, e por fim tentei aferir o estatuto sanitário de cada exploração. Posteriormente procedi à observação da exploração e das condições fornecidas aos animais para aferir de que forma parâmetros como disposição dos animais, ocupação dos cubículos, condição corporal, higiene do efetivo ou nível de inchaços e claudicações nas vacas, afetavam o seu bem-estar. Esta observação foi realizada ao longo de três ou mais visitas em cerca de 45 explorações, sendo que nas restantes (25), por serem alvo de visitas esporádicas, a avaliação foi realizada apenas uma ou duas vezes.

Resultados e discussão Higiene dos animais A higienização da exploração pode ser dividida em vários momentos e locais, no entanto, um correto maneio neste campo originará vacas mais limpas no

Imagem 1 Animal com score de higiene 4 (flanco, membros posteriores e úbere muito sujos).


SAÚDE E BEM-ESTAR ANIMAL

Imagem 3 Nascimento de um vitelo em maternidade em excelentes condições.

momento da ordenha o que se refletirá num aumento da qualidade do leite, bem como da quantidade produzida. Uma vacaria bem higienizada pode diminuir o risco de infeção da glândula mamária por agentes ambientais. Por sua vez, uma higienização cuidada da sala de ordenha e com boas práticas de ordenha podem reduzir substancialmente o risco de infeção por agentes contagiosos. A avaliação da higiene dos animais foi feita com base num score padronizado (nível 1 a nível 4), tendo os animais sido avaliados durante o momento da ordenha. Em 20% das explorações verificaramse animais muito sujos (nível 4 – cascos, membros posteriores e úbere muito sujos), em 20% observaram-se animais impecavelmente limpos (nível 1 – cascos pouco sujos, membros posteriores e úbere limpos) e em 57% das explorações os animais encontravam-se entre o nível 2 e 3 de higienização.

vida do vitelo o produtor deve administrar colostro em quantidade e qualidade, ou seja, 4 a 5 litros de colostro e caso não seja possível ser da progenitora, deve escolher uma vaca com três ou mais lactações, pois possui um colostro mais enriquecido. Nas primeiras seis horas é essencial o vitelo beber cerca de metade da quantidade diária recomendada, uma vez que depois deste período a capacidade de absorção do intestino diminui de forma acentuada. Das 70 explorações que entraram no estudo, 81% das mesmas admite administrar colostro nas primeiras 6 horas de vida do animal e apenas 19% das explorações admite nem sempre cumprir esta norma. Com este dado adicionado ao número de explorações que realizam vacinação preventiva no período seco da vaca, tentei perceber qual a influência destes dois dados na taxa de mortalidade neonatal.

Taxa de mortalidade neonatal A taxa de mortalidade neonatal foi calculada num intervalo de tempo compreendido entre o nascimento e os três meses de idade do animal. Inicialmente por questionário aos produtores obtive uma taxa de mortalidade de 14,40% em explorações com mais de 80 animais em ordenha e 12,10% em explorações com menos de 80 animais em ordenha. De

Vacinação pré-parto Devido ao facto das explorações apresentarem graves problemas em relação à taxa de mortalidade neonatal, aferiu-se se estas realizam ou não vacinação para os principais agentes etiológicos das patologias que mais afetam os vitelos nos primeiros dias de vida. Em relação a esta prática verificou-se que apenas 30% das explorações têm no seu esquema vacinal uma vacina que proteja os animais de agentes como E.coli, rotavírus ou coronavírus. As vacinas são administradas no período seco das vacas ou período pré-parto nas novilhas para que estas desenvolvam anticorpos contra estes agentes e os passem no colostro às suas crias.

Maneio neonatal do vitelo Um produtor deve perceber que quando nasce um vitelo deve imediatamente desinfetar o cordão umbilical, evitando assim infeções por esta via. De seguida pode suplementar o animal com vitaminas A, D e E para prevenir eventuais carências nutricionais. Posteriormente deve proceder à identificação do mesmo e colocálo num local limpo e seco. No primeiro dia de

GRÁFICO 1 Taxa de mortalidade real vs Taxa de mortalidade estimada. 30.00 24.63

25.00 22.61 20.00 15.00

14.40 12.10

10.00 5.00 0.00

Taxa de Mortalidade Exploração > 80 Taxa calculada

Taxa de Mortalidade Exploração < 80

Taxa estimada

Nestas 70 explorações existem 11,21% com uma taxa de mortalidade que ultrapassa os 50%, por outro lado só existem 9,35% de explorações com uma taxa de mortalidade inferior a 10%, dados preocupantes quando comparados com valores de referência do Reino Unido (6%) ou dos Estados Unidos da América (4%).

seguida pesquisei os registos de animais da Cooperativa Agrícola de Vila do Conde e os dados do SIRCA para obtenção do número de vitelos mortos recolhidos com e sem identificação. Com isto obtive uma taxa de mortalidade de 22,61% em explorações de maior capacidade e uma taxa de 24,63% em explorações mais pequenas (Gráfico 1). Estes dados vêm confirmar que a taxa de mortalidade neonatal estimada pelos produtores é muito inferior à taxa calculada com dados reais, o que vai de encontro ao facto de os produtores não terem muita noção do prejuízo que têm ao verem morrer tantos animais.

Conclusão Em suma, as explorações do concelho de Vila do Conde estão a efetuar uma migração para um caráter cada vez mais empresarial, apresentando já excelentes resultados técnico-económicos em algumas explorações. No entanto apresentam ainda um défice no maneio neonatal, o que de forma mais ou menos vincada pode comprometer o futuro da exploração por originar taxas de mortalidade tão elevadas. Apesar de 81% dos produtores inquiridos ad,mitir que faz um correto encolostramento e de 30 % realizar vacinação para as enterites neonatais, concluiu-se que a taxa de mortalidade neonatal é em média muito elevada. Este facto explica que a vacinação sem um bom maneio não tem efeitos proveitosos, logo é preciso apostar na melhoria dos procedimentos e continuar a apostar na profilaxia. A lotação do espaço é neste momento algo que também é preocupante em algumas explorações, uma vez que acarreta variados problemas para os animais, como sejam problemas podais, menor higiene, menor quantidade de leite produzido e de pior qualidade. O bem-estar animal pode trazer inequivocamente lucro às nossas explorações, mas devemos encarar este tema como um dever que temos para com animais que confinamos para nosso proveito.

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10 Dicas...

SAÚDE E BEM-ESTAR ANIMAL

DICAS PARA MELHORAR A RECRIA REDUÇÃO DOS CUSTOS ASSOCIADOS Por Elisabete Martins, médica veternária - EUVG, Invivo e Teresa Moreira, médica veternária - leicar

A produção de vitelas de substituição será cada vez mais um pilar determinante da rentabilidade das explorações leiteiras. No entanto, no atual cenário de estreitamento de margem líquida libertada, é compreensível a tentação de redução de gastos na recria, apesar das conhecidas consequências negativas. Esta tarefa de gestão de recursos é ainda mais difícil para a vitela do que para o produtor! Por estes dias, animais e produtores estão obrigados a trabalhar com menos recursos do que os que efetivamente necessitam. Existem ainda assim, um conjunto de aspetos que, se controlados, contribuem para uma melhoria da recria, e quando equacionados no seu todo e no resultado a curto prazo (nomeadamente do nascimento ao desmame), reduzem os custos associados.

01 Higiene no Parto Idealmente o parto deveria ocorrer num parque amplo com palha abundante e limpa, exclusivamente para este fim, sem a presença de animais doentes. Na ausência de um parque próprio, a vigilância das vacas em pré-parto deve ser mais apertada, para que no momento do parto, a cria possa ser recebida em palha limpa. A manipulação do útero e do vitelo deve ser feita com luvas, e de imediato deve ser “escorrido” gentilmente e desinfetado o cordão umbilical.

02 Higiene e ambiente pós-parto Secar de imediato o vitelo (esfregar com palha ou toalha) para evitar perda de calor. Evitar o contacto do cordão umbilical, boca e focinho com zonas sujas; o cordão e intestino estão “abertos” e tudo o que entra, passa para o sangue! Manter tanto quanto possível até 1 semana depois do desmame, o neonato em cama de palha, individual e limpa. Nas explorações com sistemas de amamentação automáticos, os vitelos não devem entrar antes dos 8 dias de vida.

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Encolostramento correto

É o aspeto mais importante da prevenção de doenças neonatais (até aos 6 meses de vida). Determina ainda o crescimento do aparelho digestivo, a capacidade de digerir leite e a velocidade de crescimento dos vitelos, ou seja, o futuro produtivo do animal. As vitelas que bebem mais colostro (4 litros em comparação com 3 litros) na primeira toma, produzem em média aproximadamente mais 1000 litros de leite na primeira lactação. O aspeto mais importante é que nas primeiras 6 horas de vida, os animais ingiram colostro em quantidade (aproximadamente 10% do peso vivo do animal, com paciência pode conseguir-se que ingira até 4 litros na primeira toma) e qualidade (pode ser medida com colostrómetro); ordenhado com higiene e até 6 horas pós-parto, e dado a uma temperatura entre os 38-40 °C. Às 12 horas de vida, o vitelo absorve apenas 50% do colostro que consegue absorver ao nascimento. Na refeição seguinte poderão beber apenas dois litros.

04

Leite de substituição / leite inteiro em quantidade suficiente para crescer

Um vitelo de 45kg necessita de 380gr/dia de leite em pó para manutenção (ou de quantidade equivalente de leite inteiro). A temperatura ambiente influencia muito a quantidade de leite que o vitelo deve ingerir. No inverno, a principal prioridade do organismo é manter-se “quente”, o crescimento e a defesa ficam para segundo plano. Quanto mais agressivo for o ambiente (frio, camas húmidas, correntes de ar…) mais leite será consumido para a sobrevivência, e maior terá de ser a quantidade fornecida para permitir a saúde e o crescimento. Se está a gastar muitos “medicamentos”, experimente subir a concentração de leite para 150gr/litro de leite preparado, 6 a 8 litros por dia. O leite de vaca pode ser uma alternativa a ponderar, desde que esteja a ser produzido em excesso. No entanto, há que contar que terá de suplementar em ferro, selénio e manganês (entre outros); que a instabilidade intestinal será maior e que, no verão poderá ter vitelas com excesso de condição corporal. O leite com resíduos de antibióticos ou mamites não deve ser utilizado pois aumenta o número de bactérias multirresistentes na exploração. O leite de transição e excedente de colostros é uma opção que deve ser considerada com muita cautela, em particular se não for pasteurizado. Explorações que têm ou tiveram nos últimos anos animais positivos a paratuberculose, não devem utilizar leite de vaca nas vitelas de reposição.


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Instalações protetoras

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As instalações podem ser o maior motor de economia na recria de vitelos, ou o contrário… Não só pelo que obrigam o vitelo a despender para aquecimento e defesa (e não para crescimento), até às horas de trabalho necessárias para a sua manutenção. Com os recursos existentes na exploração e mediante engenho e arte, garantir que não existe corrente de ar do solo até 0,4 m acima do vitelo; que pelo menos de inverno exista cama quente (palha) e seca até pelo menos 15 dias depois do desmame.

06 Água e ração O vitelo é, do ponto de vista digestivo um monogástrico até aos 4-6 meses de vida. Só nessa altura estará capaz de depender em grande medida de concentrados e fibra forrageira estruturada. Até às 3-4 semanas, apenas sabe digerir produtos lácteos; no entanto, deve começar a ingerir ração de iniciação na primeira semana de vida, para permitir as fermentações ruminais que promovem o crescimento e maturação desse órgão. A ração deve estar à descrição e o seu consumo deve ser relativamente pobre até a redução do leite de substituição, altura em que o consumo disparará e o vitelo já terá maturidade ruminal suficiente para a utilizar; um vitelo que ingere muita ração durante as primeiras semanas de vida fá-lo para se saciar porque não recebe leite suficiente, mas não é capaz de utilizar eficientemente a ração que está a ingerir o que se traduz numa perda de recursos. Para que o rúmen se desenvolva, é igualmente indispensável a ingestão de água (a “água” do leite não vai para o rúmen, mas sim para o abomaso!), que permite o crescimento e desenvolvimento das populações de microrganismos ruminais. Por outro lado, a ingestão de água estimula a ingestão gradual e fisiológica de alimento sólido.

07

Prevenção de doença Gastrointestinal

Existem 3 períodos críticos de doença: o primeiro mês (e neste dois períodos bem distintos) e a fase de desmame. Para ambos, a maior arma de prevenção é a ingestão de cerca de 4 litros de colostro na primeira toma até às 6.00h de vida. A qualidade do colostro pode ser melhorada, se necessário, através da vacinação das vacas antes do parto contra as diarreias dos vitelos e contra as clostridioses. Dependendo dos produtos comerciais selecionados, (dose única ou duas doses), a última vacina deve ser dada no máximo até às 8 semanas pré-parto (e não menos). Esta vacinação só surtirá efeito nos vitelos se de facto ingerirem a quantidade referida de colostro. Aconselhe-se com o veterinário assistente da sua exploração.

Desmamar com sucesso

O desmame é um período de stress, doença e quebra no crescimento. Mas não necessariamente. Desmamar significa passar a depender exclusivamente de alimento sólido, mudar para instalações de “menor” qualidade e reagrupar com estranhos! Indicações para que tudo corra bem: reduzir o leite (para metade ou em curva na amamentadora) 10-15 dias antes da data prevista de desmame, para que o vitelo aumente a ingestão de ração até 1,5-2kg/dia. Retirar o leite depois de estar há pelo menos 1 semana a ingerir esta quantidade. Permitir maior consumo de alimento nas semanas seguintes, juntando feno de boa qualidade. Se possível deve manter-se o vitelo desmamado mais alguns dias e só depois mudar para o novo parque. Este parque deve ser abrigado e com zona de cama quente e seca, sem sobrelotação ou animais de idades/tamanhos muito diferentes para reduzir o risco de pneumonia. Suplementar com vitaminas e minerais ao desmame pode ser uma boa estratégia, mas não corrigirá défices energéticos e proteicos.

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Até aos 6 meses

Manter a ração como fonte principal de nutrientes; Não esperar que sejam capazes de crescimento e saúde ótimos dependendo essencialmente de forragens, dado que ainda não são ruminantes eficientes. A perda/refugo de uma vitela de 6-14 meses por pneumonia crónica representa um custo mais elevado do que o necessário para alimentar melhor o seu grupo; uma vitela tratada apenas uma vez (e com sucesso) para pneumonia, produz em média menos 492 litros de leite na primeira lactação.

10 Prevenção de doença respiratória A doença respiratória ocorre geralmente no segundo mês de vida e depois do desmame. É impossível de controlar apenas com base no uso de antibióticos. Verificar a circulação de ar à altura dos vitelos, evitar a mistura de idades diferentes, e aplicar corretos planos de vacinação em vacas e nos vitelos é a solução. Quando as instalações ou maneio não podem ser melhoradas para um nível satisfatório a vacinação precoce dos vitelos jovens é a melhor arma disponível, sempre a par de um correto encolostramento e de plano de alimentação satisfatório face às necessidades, como previamente explicado. Por vezes o número elevado de animais em cada parque é o motor que mantem a doença ativa na exploração. Há que ter a perceção que a generalidade dos agentes infeciosos de doença existem sempre na exploração, mas nem sempre existe doença. Importa manter os fatores de proteção (colostro, alimentação e bem estar) a um nível superior relativamente aos fatores de agressão (microbismo, sobre densidade, mistura de idades etc.), é deste ténue equilíbrio dinâmico que depende o sucesso da operação.

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Equipamento

Critérios usados na escolha da sala de ordenha Entrevista a António Barão. por ruminantes

A exploração Barão & Barão, na Quinta Barão, Coutada Velha, Benavente, investiu recentemente numa nova sala de ordenha e em tecnologia associada. Aproveitámos toda a experiência e conhecimento do negócio do seu proprietário, António Barão, para perceber o raciocínio que esteve por detrás deste investimento. Que critérios utilizou na decisão de investir na nova sala de ordenha? António Barão - Apesar das atualizações que a sala de ordenha já tinha sofrido, o tronco da sala tinha quase 30 anos, havendo necessidade de modernização. Começámos por olhar para o espaço disponível e para o número de vacas que poderíamos ordenhar no futuro, tendo em conta a limitação da área. Outro critério também considerado na forma como idealizámos a sala é o sistema

de ordenha, que é para nós o “coração” da exploração, uma vez que é o local por onde as vacas passam duas a três vezes por dia, permitindo um contacto direto com os, animais do qual temos de saber tirar partido. Este investimento vai-nos permitir poupar mão-de-obra, aumentar a eficiência e recolher o máximo de informação possível que nos permita tomar as melhores decisões. Que outros critérios foram considerados? A rapidez da ordenha e o número de operadores na ordenha (durante muitos anos contámos apenas com uma pessoa, hoje em dia, tendo em conta as exigências do mercado - qualidade do leite, células somáticas - desenhámos uma sala de ordenha que contemplasse dois operadores). Existiu também uma grande preocupação

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relativamente ao software utilizado, pois não se pode gerir sem números. O que lhe permite este software? Permite detetar os cios apenas com observação dirigida (sem ninguém a andar nos parques), aumentando a eficiência reprodutiva. Utilizamos a última geração de pedómetros Rescounter-III – GEA, que permite uma leitura das últimas 24 horas, com maior pormenor nas ultimas 4, sendo possível determinar quando é que a vaca entrou em cio e qual a hora ideal para a inseminar. Utilizamos também sistemas de separação (através de portas de seleção) evitando assim ir aos parques e prender as vacas para fazer intervenções. Este tipo de sistema facilita o maneio, permitindo aumentar a eficiência e reduzir o stress experienciado pela vaca.


O melhor robot de ordenha multibox do mercado MIone. Qualidade na ordenha para uma boa qualidade de vida O Sistema inteligente MIone íntegra de maneira suave a tecnologia no processo da ordenha de forma a proporcionar uma ordenha com elevadas prestações. O Sistema One Step coloca, estimula, limpa, seca, ordenha os primeiros jactos e começa a ordenhar com uma única colocação. Sistema limpo e rápido para obtermos leite de máxima qualidade. O MIone mantem os elevados níveis de qualidade na ordenha exigidos pela GEA Farm Technologies nos seus mais de 80 anos de história. Sistema One Step

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Equipamento

O conforto e bem-estar foram considerados na decisão? Claro. Todas as medidas tomadas com vista ao bem-estar animal permitiram um aumento de 1,5 a 2 litros por vaca dia. O conforto dos operadores também pesou muito, dada a extensão e monotonia do trabalho. Assim, a questão da temperatura foi tida em conta, contando a sala de ordenha com telhas tipo sanduíche, um pé-direito alto e ainda tapetes que permitem que as vacas se sintam confortáveis. À diminuição do tempo de ordenha (período entre as vacas saírem do parque, esperar, e regresso ao parque) foi também dada muita relevância no momento de determinar o tamanho da sala. Neste momento, o tempo médio anda pelos 35 minutos (entre a vaca sair do seu parque e voltar já ordenhada), tempo considerado ideal, pois é necessário que as vacas tenham tempo para comer, beber água e descansar. Neste sentido, desenvolvemos um trabalho de adaptação do tamanho dos grupos das vacas nos parques ao número de pontos por ordenha. No que toca a preocupações ambientais preocupámo-nos por exemplo com o aproveitamento das águas de lavagens dos tanques, a enfermaria e as salas de espera. Porque investiu numa sala de saída rápida em vez de uma rotativa? Pelas caraterísticas do espaço físico, porque o investimento inicial é superior numa rotativa, bem como o facto de uma rotativa se adaptar melhor a efetivos maiores. Na análise da relação custo benefício, a sala de saída rápida mostrou ser a melhor opção. No nosso caso, temos uma sala de saída rápida paralela e com regulação “comprimento” vaca a vaca, para podermos

IMAGEM 2 Sala de ordenha.

controlar a diferença de tamanho entre animais, olhando assim ao bem estar do operador. Qual o tipo de sala que causa menos stress aos animais? Sabendo que todas as salas causarão algum stress, é sempre importante que as vacas entrem calmamente e que os operadores sejam pacientes. Assim, na minha opinião, as salas em espinha possivelmente serão menos stressantes para os animais, visto que a vaca entra e fica naturalmente posicionada. O hábito dos animais também tem de ser tido em consideração. Por exemplo, na nossa exploração, depois de muitos anos com uma sala em espinha, foi necessário algum tempo (2 a 3 semanas) até que os animais se adaptassem a uma sala de saída rápida paralela. Que tipo de sala necessita de menos mão de obra? Uma rotativa necessitará à partida de três pessoas (pré-DIP, primeiros jatos, e pós-DIP), enquanto que com a de saída rápida temos, como lhe disse, dois operadores. No entanto, com a modernização dos sistemas, existe hoje uma crescente automatização. Por exemplo, o pós-DIP no nosso caso já é feito de uma forma automática. Que indicadores utiliza para medir a eficiência da sala? Temos sempre em conta a “eficiência permitida pela sala” e a “eficiência dos operadores”. Relativamente ao segundo ponto, estabelecemos um acordo com uma equipa especializada em qualidade do leite e ordenha. Uma vez por mês, verificam vários parâmetros da sala, como por exemplo o tempo de estimulação ou a pressão do vácuo. A partir daqui, o sistema fornece-

Critérios utilizados para decisão do planeamento da sala de ordenha • Área disponível • Número máximo de vacas a ordenhar • Rapidez da ordenha • Número de operadores necessários • Conforto dos operadores • Software • Bem-estar animal • Tempo entre sair do parque e voltar ao parque - objectivo: 35 minutos • Implicações ambientais

nos uma curva que mede o fluxo de leite para cada animal em litros por minuto. Esta curva permite-nos avaliar a estimulação das vacas pelos ordenhadores, pela proporção de vacas ordenhadas que têm uma curva bimodal , ou seja, que dá o leite em duas fases. O nosso objectivo é que a proporção de vacas com curvas bimodais na ordenha seja inferior a 10% . A sala e a rotina de ordenha vão sendo então optimizadas com vista a alcançar este objectivo. Temos também uma listagem de indicadores para os quais olhamos diariamente, como sejam o número de vacas ordenhadas por hora e por ponto de ordenha, e o volume de leite ordenhado por hora e por ponto. Obrigatoriamente , olhamos para leite ordenhado por ponto , curva bimodal, listagem das vacas hipoteticamente em cio, listagem das vacas com quebra de produção (menos que 20% que a produção estimada). Também olhamos e medimos a eficiência por equipa de ordenha ( equipa da manhã e da tarde). Que tipos de dados recolhe com a atual sala de ordenha? Como os utiliza? Esta sala dá-nos acesso a um sem número de dados (são mais de 70 indicadores). Os mais importantes são todos os que já

dados da exploração Nº de vacas: 500 vacas adultas Nº de ordenhas diárias: 2 Produção média: 12000 litros de leite/ vaca/ano Intervalo entre partos: ± 390 dias

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Equipamento

enumerámos, bem como a pesagem das vacas, listando as que perdem peso ou ainda as vacas que estão a ganhar mais peso (para gestão dos parques e controlo da alimentação). É toda a informação que este software nos permite recolher que depois analisamos e tomamos em consideração na hora de tomar as decisões. Como faz a gestão da reprodução dos animais? Através do já referido sistema de pedómetros, que lista duas vezes por dia todas as vacas que hipoteticamente podem estar em cio (as vacas estão em parques), havendo depois uma observação direta desses animais. Diria que o sistema deteta à volta de 90% a 95% das vacas efetivamente em cio. Saem depois algumas que não estão em cio mas deram atividade. Sempre teve boxes de ração? Sempre tive, desde há aproximadamente 25 anos. A quantidade é automática, tendo sido regulada para os dois grupos de vacas que têm boxes de ração. Um dos grupos de vacas está arraçoado para 45 litros de leite, todas as vacas que dão mais de 45 litros de leite terão direito, de uma forma automática,

a mais 330 gramas de concentrado. Ou seja, um quilo de concentrado por cada três litros de leite produzido a mais. O próprio sistema faz a gestão, e para evitar os problemas de acidose distribui-lhe a quantidade de ração ao longo de 20 horas no período do dia. As últimas 4 horas são para limpar os restos. Há vacas que comem dois, três, quatro quilos, em função da produção. Porque decidiu instalar um sistema de flushing (sistema de limpeza do chão do parque de espera) no parque de espera, porquê? Porque considero o melhor sistema de lavagem, tendo em conta as implicações económicas da mão-de-obra. Que caraterísticas considera essenciais para os operadores da sala de ordenha? A paciência, a afinidade com os animais, a sensibilidade para a deteção de doenças são chave. Hoje em dia, tendo em conta o nível de sofisticação do equipamento utilizado, também é importante que o operador tenha, no mínimo, capacidade para o utilizar. Assim, apostamos muito na formação dos ordenhadores.

Investimentos Sala de ordenha de saída rápida paralela com 40 pontos; instalações na área da ordenha e equipamento de ordenha, aquisição de mais um tanque de leite para permitir uma autonomia de recolha do leite a cada dois dias. Sistema de limpeza nos parques de acesso à sala de ordenha, reestruturação e redimensionamento dos parques (sempre múltiplos de 20, para o processo de ordenha ser eficiente), de forma a estarem adaptados à dimensão da sala de ordenha e a atingirmos os 35 minutos (média) entre a vaca sair do seu parque e voltar já ordenhada. Investimos também num pedómetro para uma deteção mais rápida e precisa das vacas com cio. Finalmente, investimos num novo conceito em termos de vitelos: sistemas que nos permitem ter leite pasteurizado, leite que não vai para consumo humano, congelamento do colostro e sistema de controlo da alimentação dos vitelos (2 semanas sob observação de forma a perceber se bebeu ou não colostro, etc., passando depois para a alimentação automática).

PROTEÍNA BRUTA É COISA DOS ANOS 80. A ciência e a tecnologia mudaram adaptando-se aos novos tempos. E a sua forma de formular, também se adaptou? Estratégias e formulações nutricionais adequadas frente àquelas já obsoletas, marcam a diferença entre explorações leiteiras, especialmente quando se trata de nutrição proteica. Encontrar a estratégia mais eficaz na formulação com base em aminoácidos para cada exploração e contexto económico, só se pode fazer com aqueles produtos biodisponíveis realmente fiáveis. Para trás ficam os dias em que nos centrávamos somente nos níveis de proteína bruta. Devemos reformular as nossas dietas até alcançar níveis adequados de lisina e metionina com o objectivo de melhorar os custos de produção e a eficiência proteica (rentabilidade da ração), ao mesmo tempo que nos preocupamos pelo meio ambiente. Formular com Smartamine ®, Metasmart ® e LysiPEARL™ permitirá alcançar “grandes rentabilidades”. Reformule as suas dietas. De agora em diante, mais não significa melhor, no que diz respeito à proteína bruta. Para mais informação sobre estes produtos, por favor contacte a Kemin Tel + 351 214 157 501 ou +351 916 616 764 - www.kemin.com MetaSmart® is a Trademark of Adisseo France S.A.S. 2015_advert Smartmilk_port.indd 1

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novidades de produto

Obsalim - Quando o animal expressa as suas necessidades alimentares Obsalim é um método inovador criado por Bruno Giboudeau, que permite ao produtor fazer um diagnóstico alimentar através da observação de uma lista de sinais nos seus animais. Com a observação de vários aspetos no animal, como os olhos, o pelo, os aprumos, entre outros, é possível fazer um diagnóstico preciso do estado nutricional do animal, podendo de seguida ajustar a alimentação de acordo com os resultados. Os livros e software do método Obsalim guiam o produtor desde a avaliação dos sinais no animal, até aos ajustes que são necessários na alimentação. O método está disponível para vacas, ovelhas e cabras. Acedendo ao website é possível comprar os livros ou o software da Obsalim, bem como obter mais informações sobre os cursos de formação. Para mais informações www.obsalim.com

Valorização do rendimento queijeiro do leite diretamente na máquina de ordenha A Afimilk lançou uma nova metodologia para a máquina de ordenha que permite separar o leite na linha de acordo com a sua capacidade de coagulação. O novo sistema é colocado imediatamente a seguir às tetinas, e através de uma tecnologia de análise ótica patenteada pela Afimilk, o

leite com mais rendimento queijeiro é direccionado para um tanque diferente. Ao aplicar este sistema o produtor pode obter até mais de 15% de rendimento queijeiro, evitando uma diminuição do rendimento por uma mistura com leite com menor aptidão queijeira.

Para mais informações www.afimilk.com

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AGRILED® pro 32- A luz LED mais inovadora do mercado agrícola Os níveis de luz, a distribuição da luz e a duração do período de luz, são fatores importantes para uma boa produção de leite. A Afrilight b.v., empresa líder de mercado na venda de luz para explorações, lançou a AGRILED® pro 32, a luz LED para produção animal, mais inovadora do mercado. Esta luz LED foi especialmente desenvolvida para explorações de vacas leiteiras, sendo resistente às fezes, amónia e pó presentes na exploração, e emitindo aproximadamente mais do dobro da luz emitida por outras luzes LED disponíveis no mercado. Este novo

produto inclui também uma luz vermelha de controlo, para as rondas durante os períodos noturnos. A AGRILED® pro 32 inclui um sistema de suspensão ajustável que permite uma boa distribuição de luz, 150200 lux. Uma iluminação com 150 lux durante 16 horas, seguida de 8 horas de período noturno, pode levar a um aumento da produção leiteira, a um período de lactação maior, a um maior consumo de alimento por vacas mais submissas, a uma melhor deteção de cios, entre outras vantagens, o que coloca a iluminação no topo das prioridades de uma boa gestão da exploração leiteira.

Para mais informações www.agrilight.nl

Guia técnico sobre luzerna A Jouffray-Drillaud, prestigiada empresa francesa de venda de sementes, apresentou um novo guia técnico para auxiliar no sucesso da cultura da luzerna. O novo guia técnico inclui informações detalhadas sobre a leguminosa, bem como sobre métodos de seleção, colheita e itinerário cultural. Distribuído gratuitamente, este documento técnico de 34 páginas está disponível com um simples pedido no site da empresa. A empresa também disponibiliza outros dossiers técnicos, como o guia das espécies forrageiras. Para mais informações www.jouffray-drillaud.com/nos-produits/varietes-fourrages/ legumineuses-fourrageres/2-5-43-fr.html


novidades de produto

Enchimento rápido de pneus para deslocação em estrada

Deltex lançou a manjedoura reajustável Cornaflex

Os sistemas de controlo da pressão dos pneus oferecem vantagens incontestáveis, mas também uma desvantagem: são muito lentos a encher os pneus para deslocações em estrada. Além disso, exigem que o motor esteja a funcionar a altas rotações para fornecer a potência necessária ao acionamento do compressor enquanto o trator está imobilizado. O FendtVarioGrip Pro utiliza um pneu de alta pressão adicional dentro de outro pneu desenvolvido à medida. Este pneu interno atua como acumulador permitindo que a pressão de enchimento seja alterada de forma muito rápida. O ar é bombeado para dentro do pneu interno através de uma união rotativa simples que também garante que o ar não saia. As válvulas envolvidas e os sensores de pressão são alimentados através de transmissão indutiva dentro do eixo. O mesmo se aplica aos sinais de controlo. Fornecida com compressores extra, depósitos de pressão e ligações de controlo, esta tecnologia é capaz de aumentar a pressão de enchimento de 0,8 bar para 1,8 em 30 segundos, modificando a pressão diretamente e sem recorrer à velocidade do motor.

A Deltex lançou a manjedoura reajustável Cornaflex, que permite não só ajustar o espaço que cada animal tem na manjedoura, como também providencia uma refeição mais silenciosa e cómoda para os animais. O seu material flexível permite estruturar uma manjedoura tanto para vacas leiteiras como para bovinos de carne, permitindo ajustar a largura e a altura do espaço na manjedoura. A base da Cornaflex são os cabos Deltex que, graças ao seu material não condutivo, mantêm a estrutura da manjedoura a uma temperatura neutra (não aquecem no verão e não congelam no inverno). Para mais informações http://www.deltex-dairy.com/en/

SW 4014 AutoLoad™ Recolher fardos de silagem e descarregá-los embalados no chão é um processo que consome bastante tempo. A função Auto Load da Kuhn garante um embalamento sem paragens totalmente automatizado, sem qualquer intervenção do operador. Um laser integrado na estrutura principal da máquina deteta o fardo à medida que a máquina se aproxima, faz o scanner do comprimento do fardo e coloca os braços carregadores na posição de carga. O fardo é então recolhido com grande precisão, embalado no filme plástico, e descarregado em movimento.

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15 metros para volta-fenos Kuhn O modelo GA 15131 Gyrorake vem complementar a gama de volta fenos de grandes larguras de trabalho da Kuhn. Utiliza quatro rotores com diâmetro de 3.65m, estando o par da frente equipado com 13 braços dentados e o par de trás com 15. Cada braço tem 4 dentes, perfazendo uma largura de trabalho de 9.50m a 14.70m. Em transporte, as dimensões desta alfaia são de apenas 3 metros de largura por 4 de altura e 10.90 de comprimento. A altura de trabalho pode ser ajustada hidraulicamente, e a velocidade do rotor pode ser, opcionalmente, aumentada em 20% para trabalhar em culturas mais leves. Os quatro rotores trabalham em conjunto para formar um cordão central (de 1.40 a 2.50m de largura) e são controlados por um terminal de série montado na cabina, compatível com Isobus e que permite a pré-programação de sequências de operações para viragens facilitadas no final da linha.. Cada rotor pode levantar individualmente para facilitar as manobras e as deslocações em terreno acidentado. Este modelo exige uma potencia mínima da TDF do trator de 115 cv.


novidades de produto

Pellets de forragem com Premos 5000

Pellets produzidos a partir de culturas agrícolas para alimentação animal podem ser usados como combustível, camas ou alimentação para animais. Premos 5000, a primeira ceifeira de pellets móvel, recolhe o material diretamente do cordão de palha no campo. Os pellets podem depois ser transferidos para um camião através duma cinta transportadora e entregues aos clientes finais que os utilizarão como forragem, camas para os animais ou como combustível. Para além disto, o Premos 5000 pode ser usado fora da época de colheita graças a um destroçador de fardos opcional que o converte num granulador estacionário. Tem uma capacidade de 5000 kg (até 9m3) e um rendimento de 5000 kg por hora. Funcionamento: o pick-up de 2.35m de largura

recolhe o produto que depois é transportado do rotor de alimentação para uma cinta transportadora (largura do fluxo de colheita aprox. 800 mm). O produto passa entre dois rolos compressores (800 mm largura, 800 mm diâmetro), cada um com linhas alternadas de dentes e perfurações. O material é forçado através da matriz de perfurações para o interior do cilindro. Depois da prensagem, os pellets são transportados através dum transportador helicoidal interno para uma cinta transportadora e dali para uma tremonha integrada. Os pellets Premos são tão fáceis de transportar como outro material a granel. A densidade aparente dos pellets situa-se entre 600 e 700 kg/m3 (3 a 4 vezes maior que os fardos de palha). 2.5 kg de pellets podem substituir aprox. 1 kg de fuelóleo, sendo portanto menos custoso que o fuelóleo e outros combustíveis fósseis.

Enfardação da moinha de palha da debulha Esta marca francesa tem-se vindo a afirmar na conceção de sistemas para a recolha da moinha de palha que resulta da debulha, e acaba de apresentar mais um equipamento para esse fim. Com motor próprio, adapta-se a uma enfardadeira, garantindo o seu funcionamento autónomo; por sua vez este conjunto denominado Menu’Press é ligado à parte traseira de uma ceifeira-debulhadora através de uma lança, permitindo o acondicionamento da moinha de palha em fardos redondos. Como tem vindo a ser divulgado, além de se poder aproveitar a moinha para alimentação animal, a sua recolha tem a vantagem adicional de evitar que as sementes das infestantes sejam devolvidas ao solo. A palha propriamente dita é deixada no chão para ser posteriormente enfardada. Por ter uma propulsão própria adaptada, esta enfardadeira Menu´Press pode também ser usada noutros trabalhos, em modo estacionário, sem necessitar de um trator.

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Não deixe de...

FEIRAS Sommet de l’Élevage 7; 8 e 9 outubro de 2015 Clermont-Ferrand - França www.sommet-elevage.fr

FORMAÇÃO Encontro Téncico Serbuvet 26 de Fevereiro de 2016 Lisboa, Hotel Tryp Aeroporto

Fiera Internazionale del Bovino da Latte 28 a 31 outubro de 2015 Cremona, Itália www.bovinodalatte.it

Agritechnica Hannover

10 a 14 novembro de 2015 Hanove, Alemanha www.agritechnica.com

Realizar-se-á no dia 26 de Fevereiro de 2016, o 2º Encontro Técnico de Produção de Leite, que terá lugar no Hotel Tryp Aeroporto, à entrada de Lisboa. Esperam-se mais uma vez palestras de carácter técnico e sobre gestão de explorações leiteiras, assim como a discussão de problemas que afectam toda a fileira. Assim, estão já confirmadas as presenças do Prof. Ricardo Chebel da Universidade da Florida, do Dr. Marc Piera do Centro Veterinário de Tona, do Prof. Fernando Bernardo da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa. Terá lugar também um debate sobre a imagem que os consumidores têm sobre a produção de leite, entre muitos outros pontos de interesse. Para mais informações enviar email: serbuvet@gmail.com

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Jornadas

Hospital Veterinário Muralha de Évora 4 e 5 de Março 2016 - Évora Hotel

RESERVE JÁ ESTA DATA


Ruminantes 19  

Edição nº19/2015 A revista da Agropecuária

Ruminantes 19  

Edição nº19/2015 A revista da Agropecuária

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