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RUMINANTES

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ANO 10 | 2020 ABR/MAI/JUN (TRIMESTRAL) PREÇO: € 5.00

A REVISTA DA AGROPECUÁRIA WWW.REVISTA-RUMINANTES.COM

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Dora Martins

O dia-a-dia de quem gere uma exploração de vacas a 600 metros de altitude

beterraba forrageira

Foto: Francisco Marques

FOTOGRAFIA: FRANCISCO MARQUES

Uma cultura que começa a ser usada para pastoreio, na engorda de bovinos

SILAGENS DE ERVA

A silagem de erva produzida em Portugal Continental continua a apresentar deficiências. Saiba o que fazer para tornála adequada a vacas de alta produção.

CNF 2020

Conheça neste número o regulamento do Concurso Nacional de Forragens, promovido pela Revista Ruminantes, e saiba como concorrer.

QUEIJO DA BEIRA BAIXA

O Queijo da Beira Baixa com DOP Tipo Castelo Branco é obtido a partir de leite cru de ovelha. Conheça a caraterização nutricional e microbiológica.


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EDITORIAL

REVISTA RUMINANTES 37

ABRIL MAIO JUNHO 2020

DIRETOR Nuno Marques nm@revista-ruminantes.com COLABORARAM NESTA EDIÇÃO Adriaan Merkens, Ana Lage, Ana Riscado, Ana Silveira, Andrea Mariani, António Cannas, António Moitinho, Carlos Simões, Carlos Vouzela, Cristina Pintado, Dinis Mendes, Diogo Salgueiro, Dora Martins, Enrico Salvaterra, George Stilwell, Helena Beato, Joana Silva, João Santos, João Valente, Jorge Neves, José Caiado, José Félix, Luís Raposo, Luísa Paulo, Mafalda Ferraz, Mafalda Resende, Manuel Ortigão, Marisa Bernardino, Paula Ventura, Ricardo Bexiga. PUBLICIDADE E ASSINATURAS Nuno Marques comercial@revista-ruminantes.com

C

aro leitor, não podia deixar de fazer referência, aqui, à situação triste e dramática que estamos a viver por causa desta pandemia. E de juntar o meu agradecimento a todos os que estão na linha da frente no seu combate. Para o bem e para o mal, chegou a anunciada pandemia. Anunciada, sim, porque já há anos os especialistas previam que viria, um dia. E veio, trazendo todas as coisas más por que estamos a passar. A pior, porque irreversível, a perda de vidas humanas. É para evitar que pessoas percam a vida que os esforços se devem juntar agora contra este inimigo invisível e, de certa forma, imprevisível. A seguir, quando o pior passar, será preciso refletir naquilo que o Covid-19 nos está a querer mostrar. A necessidade de reduzir a poluição. A paragem obrigatória a que este vírus obrigou já fez, em pouco tempo, baixar consideravelmente os níveis de poluição atmosférica por todo o mundo. A Aliança Europeia de Saúde Pública (EPHA) disse em comunicado recente que “a poluição crónica do ar é um importante propiciador de doenças pulmonares e cardíacas, ligadas a taxas altas de mortalidade por Covid-19”; e dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) atestam que todos os anos morrem sete milhões de pessoas por causas diretamente relacionadas com a poluição. O comportamento da China perante o resto do Mundo, face ao Covid-19. Esta não é a primeira vez que ocorre uma epidemia com origem na China, e nos mercados chineses onde existem práticas comprovadamente perigosas para a saúde humana. A China escondeu o problema

do resto do Mundo e não deu os alertas necessários, na altura em que o devia ter feito, para se poder controlar melhor um problema com esta gravidade. Os mercados chineses, entretanto, têm vindo a reabrir. A União Europeia a que pertencemos. É “na hora da verdade” que as verdades mais duras vêm ao de cima. Na hora da verdade, os países “bem” comportados na EU põem em causa os “maus comportamentos” dos outros. Não sem alguma razão. Porém, enquanto o balanço financeiro lhes foi interessante, estiveram calados: estão há anos sem mostrar um “cartão amarelo” e agora querem mostrar o “vermelho direto”! Sobre estas e outras reflexões, teremos, todos, que repensar o futuro. O problema da falta de recursos para enfrentar esta doença — máscaras, ventiladores, batas, vacinas, entre outros tem mostrado que é possível fazer, cá dentro, muito do que se compra lá fora. A globalização, que em teoria faz sentido, não pode ser levada à letra. Os países não devem ficar na mão de outros sobretudo no que às necessidades mais importantes diz respeito, mormente a saúde e os alimentos. Uma agricultura forte tem que estar entre as prioridades de quem nos governa. Diversa, equilibrada e sustentável. Assente na diversidade, e não em monoculturas feitas em modo superintensivo sem respeito pelos solos e pelo ambiente. Baseada na complementaridade das culturas e dos sistemas de produção. Assim, teremos um futuro melhor e menos dependente de outros. Muita saúde!

Nuno Marques

REDAÇÃO Francisca Gusmão, Inês Ajuda, Margarida Carvalho FOTOGRAFIA Francisco Marques DESIGN GRÁFICO E PRÉ-IMPRESSÃO Francisca Gusmão fg@revista-ruminantes.com IMPRESSÃO Jorge Fernandes Lda Rua Quinta Conde de Mascarenhas nº9, Vale Fetal 2825-259 Charneca da Caparica Telefone: 212 548 320 ESCRITÓRIOS E REDAÇÃO Rua Alexandre Herculano nº 21, 5º Dto 2780-051 Oeiras Telemóvel: 917 284 954 geral@revista-ruminantes.com PROPRIEDADE/EDITOR Aghorizons, Lda / Nuno Marques Contribuinte nº 510 759 955 Sede: Rua Alexandre Herculano nº 21, 5º Dto. 2780-051 Oeiras GERENTE Nuno Duque Pereira Monteiro Marques DETENTORES DO CAPITAL SOCIAL Nuno Duque Pereira Monteiro Marques (50% participação) Ana Francisca C. P. Botelho de Gusmão Monteiro Marques (50% participação) TIRAGEM 5.000 exemplares PERIODICIDADE Trimestral REGISTO Nº 126038 DEPÓSITO LEGAL Nº 325298/11 O editor não assume a responsabilidade por conceitos emitidos em artigos assinados, anúncios e imagens, sendo os mesmos da total responsabilidade dos seus autores e das empresas que autorizam a sua publicação. Reprodução proibida sem a autorização da Aghorizons Lda. Alguns autores nesta edição não adotaram o novo acordo ortográfico. O "Estatuto Editorial" pode ser consultado no nosso site em: www.revista-ruminantes.com/estatuto-editorial www.revista-ruminantes.com www.facebook.com/RevistaRuminantes

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SUMÁRIO

#37 ABRIL MAIO JUNHO 2020

08 Beterraba forrageira Rentabilizar a alimentação na engorda de bovinos

14 Regulamento CNF Saiba como concorrer e submeter a sua forragem

16 Silagem de erva As deficiências em Portugal Continental

20 Silagem de milho Ciclo vegetativo é uma constante?

24 Entrevista a Dora Martins Gerir uma exploração de vacas a 600 m de altitude

28 Forragens de qualidade A importância para um correto plano alimentar

30 Stress térmico VeO - O novo aditivo neuro-sensorial

34 Leveduras vivas Assegurar a sua viabilidade para ótima eficácia

38 Rebanhos d'Avó Ovinos: genética e sistema alimentar são importantes

40 Biodisponibilidade Métodos para a sua avaliação, na alimentação

46 Queijo da Beira Baixa Caraterização nutricional e microbiológica

50 Dermatite digital O impacto da dieta nas novilhas leiteiras

52 Exame andrológico Comportamento sexual dum reprodutor

54 Antibióticos Uso prudente em bovinos de leite

56 George Stillwell explica O que os sons nos podem dizer

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RUMINANTES | ABR/MAI/JUN 2020


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SUMÁRIO

58 Mastites clínicas Porque afetam as melhores vacas da exploração

70 Picadora automotriz 200 horas em campo com uma Fendt Katana 65

92 Índice VL e VL-erva Ainda no limiar da rentabilidade

62 Troup'O Uma aplicação para a gestão de rebanhos

64 Alimentação exata Reboques automotrizes e NIR's

74 Entrevista a Sérgio Rocha 88 Observatório Matérias Primas AS vantagens de trabalhar A mensagem e o com um robot de ordenha mensageiro

76 Criação sustentável de gado Jornadas Hospital Vet. Muralha de Évora

80 Rede de informação BovINE Informação para a sutentabilidade

68 Desperdício "zero" Mangas tubulares plásticas para ensilagem

90 Observatório Leite COVID-19 sobe ao palco

84 Bem-estar animal Colchões de conforto para cubículos

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BETERRABA FORRAGEIRA | ENTREVISTA A JOÃO VALENTE

RENTABILIZAR A ALIMENTAÇÃO

FOI DUMA VISITA À NOVA ZELÂNDIA QUE JOÃO VALENTE TROUXE A IDEIA DE FAZER BETERRABA FORRAGEIRA PARA CONSUMO PELOS ANIMAIS, EM MODO DE PASTOREIO. O OBJETIVO É POUPAR NA UTILIZAÇÃO DA MAQUINARIA USADA NA OPERAÇÃO DE CORTE, PARA ALÉM DE PRESCINDIR DO ARMAZENAMENTO E DA CONSERVAÇÃO DA COLHEITA. 8

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Rentabilizar a alimentação

JOÃO VALENTE NÃO ACREDITA NA MONOCULTURA COMO OCUPAÇÃO DO SOLO: “DEVÍAMOS TER MUITO CUIDADO COM ESTE ASPETO.”

JOÃO VALENTE, SÓCIO GERENTE.

N

uma zona do País onde muitas explorações foram vendidas ou arrendadas para amendoais e olivais em regime intensivo (ou superintensivo), a herdade Monte da Silveira surge como um oásis. Aqui, a diversidade da paisagem manteve-se, fiel aos ideais dos proprietários que não acreditam na monocultura como ocupação do solo. A herdade Monte da Silveira fica na freguesia de Malpica do Tejo, concelho de Castelo Branco, e é abrangida pelo Parque Natural do Tejo Internacional. São cerca de 700 hectares, dos quais 500 são florestados com montado de sobro e azinho, utilizado principalmente pelos porcos de montanheira e os ovinos da exploração. Na área agricultável, de regadio, fazem-se culturas arvenses, proteaginosas e leguminosas. A criação de bovinos de carne é outra componente do negócio. É João Valente quem responde pela gestão das empresas agrícolas da família. A formação em gestão agrícola deu-lhe as bases, mas a prática de vinte anos trouxe-lhe uma ideia muito clara da forma como vê o negócio: “Quero ter uma exploração

cada vez mais sustentável. A palavra está na moda e faz sentido. Espero, daqui a 5 anos, ter uma empresa com uma dinâmica mais fácil, como um nível de produtividade que se traduza a nível financeiro. E com menos custos de operacionalidade.” O propósito do negócio, explica: “é ter uma rotação de culturas que faça sentido à empresa, ao que o mercado quer e àquilo que os solos permitam que seja feito. Sempre com uma preocupação financeira e ambiental. Temos o mapeamento digital de todos os solos de regadio da herdade. Isto é também um elemento importante na redução de custos das culturas”, explica. O PROJETO “BETERRABA” Há um ano, através de uma parceria com a empresa KWS, João Valente foi ver campos de beterraba forrageira à Nova Zelândia, numa zona (Ilha do Sul) com uma realidade “muito semelhante” à sua. Por esta altura já se encontravam semeados dois hectares (ha) de beterraba forrageira em modo experimental como alternativa à cultura do milho. A visita à Nova Zelândia fê-lo pensar em que a beterraba fosse consumida

CULTURAS LEGUMINOSAS PARA ALIMENTAÇÃO HUMANA (GRÃO, FEIJÃO) LEGUMINOSAS PARA GRÃO (TREMOCILHA) CEREAIS (CEVADA, CENTEIO, AVEIA, PARA SEMENTE) FENO DE LUZERNA PARA VENDA ANIMAIS CRIAÇÃO DE BOVINOS DE CARNE (LINHA PURA CHAROLÊS E SALERS, E O F1 DESTES CRUZADO COM LIMOUSINE) – 450 ANIMAIS

CRIAÇÃO DE OVINOS, CRUZADOS DE MERINO BRANCO ALEMÃO COM MERINO ALENTEJANO - 500 ANIMAIS

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Rentabilizar a alimentação

ESQUEMA SIMPLIFICADO QUE JOÃO VALENTE DESENHOU PARA EXPLICAR O ESQUEMA ALIMENTAR EM QUE EXISTEM DUAS PARCELAS IDEALMENTE CONTÍGUAS: UMA COM BETERRABA FORRAGEIRA (B) E OUTRA COM UMA CULTURA DE SUPLEMENTAÇÃO (S).

pelos animais em modo de pastoreio. A sua ideia prendia-se, mais uma vez, com a simplificação e a economia de meios, (operação de corte e transporte) e, logo, com a redução da pegada ambiental. A beterraba forrageira para consumo em pastoreio permite, desde logo, reduzir a utilização de maquinaria (uma vez que não é necessária a operação de corte), para além de prescindir do armazenamento e da conservação. Que forragens produzia habitualmente na exploração? Até 2017/18 as três principais forragens que aqui produzíamos era a silagem de milho, a silagem e feno de azevém e a fenosilagem e feno de luzerna. De há dois anos a esta parte deixei praticamente de fazer milho e ajustei com as forragens de inverno, por comparação entre a produtividade e os custos para obter essa produtividade. Acho que hoje em dia se consegue produzir um bom azevém com custos mais baixos que o milho, ainda que essa produtividade seja inferior. Mais sentido faz ainda no meu caso em que tenho vacas aleitantes. Claro que tive que ajustar o encabeçamento com a retirada da silagem de milho, porque mesmo produzindo silagem de milho os resultados económicos não eram satisfatórios em termos da componente de atividade pecuária da exploração.

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Que forragens utiliza atualmente? Azevém e luzerna. Os primeiros cortes são para silagem e os seguintes para feno. No caso da luzerna, no último corte fazemos sementeira direta, com centeio ou azevém, para o primeiro corte da campanha seguinte já ser um corte produtivo. Este, sim, todo para silagem. O segundo corte do azevém é todo para feno. Além destas, faço culturas que exigem uma rotação, como é o caso da beterraba forrageira que, como já afirmei, comecei a introduzir o ano passado. A beterraba veio substituir o milho e até outras culturas. Beterraba forrageira (BF). Como chegou a esta ideia? É uma história curiosa. Devido a uma máquina compactadora Orkel MP 2000 que possuo, fui contactado para participar num projeto de beterraba para a empresa KWS. Na altura, houve a possibilidade de ir ver campos de beterraba à Nova Zelândia. E foi aí que me deparei com uma realidade muito semelhante à minha, que tenho aqui na exploração, mas com um avanço de 10 a 15 anos. Foi lá que descobri o interesse e as potencialidades da beterraba para a alimentação animal. Já tem alguma experiência concreta com beterraba? Sim, com uma variedade de baixa matéria-

seca chamada Geronimo, e que vou utilizar este ano em muito maior escala, experimentei o ano passado em 2 hectares. Que resultados agronómicos conseguiu? E como a utilizou? O ensaio correu bem, tanto na parte da instalação da cultura, como na parte de manutenção da mesma, incluindo o controlo de infestantes. A beterraba produzida foi utilizada usando dois modelos de alimentação diferentes: – um, em mistura de unifeed, ou seja, a beterraba foi recolhida do campo e colocada numa mistura no carro-unifeed para acabamento de vacas de refugo; – o outro, pela utilização em pastoreio direto (grazing), também dado a um outro lote de vacas de refugo em engorda. Portanto este ensaio foi feito em acabamento de vacas de refugo, um grupo alimentado em sistema de unifeed e o outro em grazing. Que processo utilizou para colocar a beterraba no carro unifeed? Apesar de conhecer o sistema do balde neozelandês (bucket) adaptado à beterraba, neste ensaio ela foi recolhida manualmente, porque facilmente um homem retira 200 kg em 5 minutos, ou seja, enche um balde de uma telescópica. Esta beterraba era misturada


Rentabilizar a alimentação

"A PREOCUPAÇÃO AMBIENTAL É PERMANENTE, BEM COMO A UTILIZAÇÃO DE SEMENTEIRA DIRETA, POUPANÇA DE ENERGIA E DE EMISSÕES DE CO2." no unifeed com luzerna, silagem de erva e farinha de milho. Progressivamente, fui retirando e substituindo a farinha de milho da dieta inicial por igual quantidade de matéria seca (MS) de beterraba fresca e, aí sim, vimos uma economia bastante grande. Qual o resultado da comparação entre os 2 ensaios? Para mim o que concluí fazer mais sentido é o uso do pastoreio direto. A planta de beterraba tem proteína na folha e uma grande quantidade de energia na raíz. Prescinde-se deste modo de utilizar o trator, o carrounifeed, o operador e as máquinas que alimentam o unifeed para fazer a mistura. O alimento está naturalmente colocado à disposição dos animais na área de campo delimitada pelo pastor eléctrico. Em parcelas pequenas e afastadas com dificuldades de pastoreio, justifica-se o uso da BF? Sim, sem dúvida, porque não tenho que

processar a matéria forrageira nem transportála para outros locais de alimentação onde estão os animais. Olhando para o milho ou para o azevém, temos que fazer um corte, direto ou com condicionadora mais as restantes operações de ensilamento e conservação. A beterraba será pastoreada diretamente nas parcelas para onde se levam os animais. Que quantidade de matéria-seca (MS) produz a BF por hectare? Depende muito de dois fatores principais: se a beterraba é cultivada em regadio ou sequeiro, e do tipo de variedade usada, ou seja de baixa ou alta matéria seca. Na nossa latitude e assumindo que a água não é um factor limitante, é possível obter médias de 25 ton MS/ha na raiz e outras 5 ton MS/ha na folha. Portanto umas 30 ton MS/ha seriam uma média razoável. Segundo fui informado, a média na zona Norte de Espanha na passada campanha para variedades de alta matéria-seca (tipo açucareiro) e em regadio foi de 105 ton/ha

com uma MS de cerca de 23-24%, o que dá umas 24 ton de MS/ha. A produção com variedades de beterraba forrageira de mais baixa matéria seca (tipo Geronimo, para pastoreio direto) estaria na mesma ordem de grandeza, subindo a produção de matéria verde a cerca de 140 ton/ha mas com uma MS mais baixa entre 17 ou 18%. Como em todas as culturas, haverá quem produza mais e quem produza menos dependendo dos fatores acima expostos. Que produção teve de MS por hectare nesta primeira experiência? Cerca de 100 toneladas de matéria verde com 15% de MS, ou seja aproximadamente 15 toneladas de MS/ha. Sendo a BF tão rica em açúcar nunca receou dá-la aos seus animais? Tive cuidado com a transição alimentar e a sua introdução progressiva na alimentação. Assim que não tive problema nenhum com

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Rentabilizar a alimentação

"[A BETERRABA] É, SEM DÚVIDA UMA CULTURA EXIGENTE, COMPARO-A À CULTURA DO MILHO. EM TERMOS DE ÁGUA, PELO ANO DE EXPERIÊNCIA QUE TENHO, DIRIA QUE É TÃO EXIGENTE COMO O MILHO."

acidoses, não morreu nenhum animal, mesmo quando introduzimos o pastoreio direto, em que tive algum receio porque num grupo de 200 animais pode haver sempre algum que possa ingerir demasiada beterraba. Não tivemos problema algum. O pastoreio foi completamente aberto, ou existe alguma regra? Completamente aberto, mas com a regra de que cada animal deve ter 1 metro linear em termos de frente. Deve-se cubicar aquilo que o animal tem disponível. Ou seja, cada animal vai ter 1 metro de frente e a largura da faixa de pastagem vai depender da quantidade de forragem que tivermos, não há uma medida padrão nesta parte. Há uma medida certa, que é o metro linear, porque está provado por experiências que os neozelandeses fizeram, que os animais precisam disso, para não haver competição pelo alimento disponível. Desta forma, os animais foram pastoreando ao lado uns dos outros sem competição entre si. Como vai utilizar a BF este ano? Apenas pastoreada. Com este sistema apenas tenho que alterar (aumentar) a área de pastoreio todos os dias fazendo uso do pastor elétrico. O que ganhou financeiramente com esta situação? Nesta primeira experiência, na prática, poupei na farinha de milho, não tive que comprar um produto que me custa mais de 200€/ton e, em substituição, dei um que me custou o equivalente a cerca de 130 euros/ton. Ou seja, passei a utilizar o feno de luzerna, a silagem de azevém e a beterraba. Quais são os seus projetos para este ano? Que área vai semear e de que tipo de beterraba? Vamos instalar 14 hectares de beterraba forrageira debaixo de pivot, na última semana de março. Destes, 12 ha serão da variedade Geronimo, de baixa MS e que já usei este ano. Outros 2 ha serão com uma outra nova variedade de alta MS (açucareira) que permite a utilização de um novo herbicida já aprovado, o Conviso Smart, de aplicação única, e que simplifica muito o uso de herbicidas no controlo de infestantes da cultura. Este herbicida ainda não está aprovado para a BF de baixa MS, mas espera-se que o esteja dentro de 2 anos. Ou seja, vamos instalar 14 ha de BF, com dois

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diferentes níveis de MS e de açúcar e testar o seu comportamento na alimentação dos animais. Porque quer testar o novo herbicida CONVISO SMART? Porque simplificará muito a cultura. No outro sistema temos 3 a 4 aplicações de herbicidas, ou seja, reduziremos muito não só a utilização de fitofármacos, como os gastos energéticos associados à sua utilização. O que espera conseguir nestes 14 hectares? Engordar 200 animais, do inicio até ao acabamento. Ainda não sabemos se machos e/ou fêmeas. Esperamos ter crescimentos mínimos de cerca de 1 kg/dia. Entram com 180 kg de peso vivo, e estarão 5 a 6 meses no campo de beterraba. Em termos de nutrientes, à medida que o tempo passa com a beterraba no campo, o teor em matéria seca aumenta e a proteína disponível diminui. À medida que o tempo de engorda vai passando, o valor nutricional vai aumentando porque vou balancear com a disponibilidade de um suplemento adequado. O que é o suplemento? É um suplemento alimentar que pode ser dado numa manjedoura móvel que acompanha os animais e em que pomos um fardo de feno ou silagem. Mas também pode ser feito, para quem tem área, como eu vou fazer, com uma parcela contígua com a beterraba, onde semeio outra cultura como o azevém e onde os animais diariamente vão tendo acesso livre à área, que progressivamente vou aumentando aos animais. Qual a qualidade da carcaça dos animais engordados com BF? Da experiência que tive com as vacas engordadas o ano passado, que em média tinham 360 kg de carcaça, não houve qualquer diferença para os animais engordados com o mix de unifeed ou com ração. Aliás, tiveram uma boa classificação em termos de carcaça. E o ganho médio diário (GMD)? Engordaram no prazo que era expectável. Tenho ideia que o GMD é ligeiramente superior à dos animais que tenho com concentrado.

Qual é a preparação do terreno para a BF? A preparação passa por passagens com grade (2), chísel e vibrocultor, para deixar a terra bem preparada. A semente é colocada a 2-3cm de profundidade. As necessidades da cultura são um solo bem corrigido em termos de pH, porque a cultura fica mais propensa a certas doenças quando há solos ácidos. O nível de matéria orgânica deve ser acima de 1,6-1,7. É, sem dúvida uma cultura exigente, comparo-a à cultura do milho. Em termos de água, pelo ano de experiência que tenho, diria que é tão exigente como o milho. A sementeira é feita com semeador pneumático e, no futuro, irei experimentar a sementeira direta. Qual é o espaçamento na sementeira? O espaçamento entre linhas pode ir dos 35 aos 50 cm, nós vamos fazer com 45 e 50 cm. E na linha, entre sementes são cerca de 17 cm. Que critério utiliza para estabelecer o espaçamento? O critério é a produtividade do terreno e o ensombramento que se vai fazer nas entrelinhas. O ideal é fazer o mais perto sem comprometer o ótimo de produção da cultura. Em que tipo de rotação de culturas se deve inserir? Deve estar em rotação com gramíneas ou crucíferas. Não se deve fazer mais de 2 anos consecutivos na mesma parcela. Quem lhe dá apoio na cultura? Aprendi bastante na Nova Zelândia, onde tive a felicidade e a sorte de ser acompanhado pela pessoa que desenhou e pensou todo este conceito, desde a cultura até ao uso da mesma, o Dr Jim Gibbs. Obviamente cá, e não lhe querendo retirar o mérito, somos acompanhados pelo técnico da KWS, Javier Fuertes, pessoa com muitos anos de experiência e total disponibilidade o que nos dá muita segurança quer na instalação quer no acompanhamento da cultura. O uso da BF pode ajudar à sustentabilidade económica das explorações pecuárias nacionais? Sim, porque baixará bastante o custo da energia da alimentação e no caso do pastoreio direto diminui bastante o uso de maquinaria, o que é uma grande vantagem.


Glutellac 37/2020

Alimento complementar dietético para vitelos. Em caso de risco e durante os períodos de anomalias digestivas (diarreia) ou convalescença das mesmas. Objetivo nutricional específico: Estabilização do equilibrio hídrico e eletrolítico para apoiar a digestão fisiológica. Características nutricionais essenciais: Principalmente eletrólitos e hidratos de carbono facilmente digeríveis. Composição: Dextrose 39,0%, Acetato de sódio, Cloreto de sódio,Cloreto de potássio. Constituintes analíticos: Proteína bruta 0%, Fibra bruta 0%, Matéria gorda bruta 0%, Cinza Bruta 22,0%, Sódio 7,1%, Potássio 2,6%, Cloretos 5,3%, Humidade 51% Instruções de utilização: Administrar 1 frasco monodose de Glutellac (50 ml) misturado no leite, leite de substituição, água ou diretamente na boca do animal duas vezes ao dia, por um período de 1 a 7 dias. Recomenda-se a consulta a um veterinário antes da utilização e do prolongamento do período de utilização. Peso líquido: 50 ml. Fabricante: α DE-BY-1-00022. Bayer Portugal Lda., Rua Quinta do Pinheiro 5, 2794-003 Carnaxide, Portugal, NII αPT5AA07218.

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FORRAGENS | CONCURSO NACIONAL DE FORRAGENS

REGULAMENTO CNF

ESTE CONCURSO IDEALIZADO E PROMOVIDO PELA REVISTA RUMINANTES TEM COMO OBJETIVO ENCORAJAR OS AGRICULTORES NACIONAIS A MELHORAR A QUALIDADE DAS FORRAGENS PRODUZIDAS, PROCURANDO DESTA FORMA CONTRIBUIR PARA O REFORÇO DA SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL E ECONÓMICA DA PRODUÇÃO PECUÁRIA EM PORTUGAL. 1. Concorrem automaticamente ao Concurso Nacional de Forragens 2020 (doravante “Concurso”) todos os agricultores nacionais, do Continente e Ilhas, que enviem para a ALIP amostras de forragens para análise. 2. São elegíveis para participar no concurso em 2020 todas as amostras passíveis de inclusão em 3 diferentes categorias de forragem, indicadas no ponto 3, que tenham dado entrada na ALIP no período estabelecido no ponto 7, e cujos agricultores remetentes de amostras não se tenham oposto à participação no mesmo. 3. As categorias participantes no concurso são as seguintes: silagem de erva; silagem de milho; forragens emergentes. 4. O custo das análises é apenas o que decorre do envio normal das amostras pelos seus remetentes para o ALIP, não existindo qualquer custo adicional. 5. O Júri do CNF reserva-se o direito incontestável de excluir durante o processo do concurso qualquer amostra que lhe suscite dúvidas quanto à desvirtuação do espírito do concurso. 6. É permitido o uso de conservantes no processo de ensilagem. As amostras de silagem a concurso devem ter um teor de matéria seca entre 25 e 50%. As amostras com teores de matéria seca fora dos limites estabelecidos, ou com sinais de adulteração, serão automaticamente excluídas do concurso. 7. A amostra deverá conter mais de 0,5 kg de forragem, em saco de plástico limpo, transparente e selado sem ar. As amostras 14

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devem ser enviadas para: ALIP - Associação Interprofissional do Leite e Lacticínios, Rua do Agreu N.º302, Ordem 4620-471 Lousada. O remetente deve indicar claramente a sua proveniência. As amostras devem ser enviadas ou entregues nas seguintes datas: - Silagem de erva: 1 janeiro a 31 julho 2020; - Silagem de milho: 1 janeiro a 31 julho 2020; - Forragens emergentes: 1 janeiro a 31 julho 2020; 8. As análises a realizar sobre a amostra visam avaliar a qualidade de conservação e o valor nutritivo da silagem. 9. A classificação final é obtida através de uma análise sensorial (apenas na silagem de erva) e de uma análise bromatológica, com um peso, respetivamente, de 30 e 70%. A análise sensorial será efetuada aquando da chegada da amostra ao ALIP e consistirá na avaliação da cor, cheiro, tamanho de partícula e presença de bolores ou outros materiais estranhos ou contaminantes. As amostras serão secas em estufa para determinação da matéria-seca (MS). Posteriormente, são efetuadas as seguintes determinações: 9.1. Na silagem de erva, por NIR, o pH e os teores em Cinzas Totais (CT), Proteína Bruta (PB), Proteína Solúvel (PS), Azoto Amoniacal (AA), Fibra Detergente Neutro (NDF), Fibra Detergente Ácido (ADF), Fibra Bruta (FB), Açúcares Totais (AT) e a digestibilidade da matéria orgânica (DMO), Proteína digestível no intestino permitida pela energia do alimento (PDIE), Proteína digestível no intestino permitida pelo azoto do alimento (PDIN), Energia Neta Lactação (ENL), Unidades Forrageiras Leite (UFL) e Unidades Forrageiras Carne (UFC).

9.2. Na silagem de milho, por NIR, o pH, os teores em CT, PB, FB, NDF, ADF, Amido, DMO, PDIE, PDIN, ENL, UFL e UFC. 9.3. Nas Forragens Emergentes serão realizadas as determinações que em face do tipo de forragem submetida para análise sejam consideradas pelo ALIP como as mais adequadas para a sua correta valorização nutricional e económica. 10. Ao primeiro classificado de cada uma das categorias de forragem a concurso em 2020 será atribuído um prémio monetário no montante de 500€. O prémio referente à categoria Forragens Emergentes apenas será atribuído se o Júri considerar se encontrar em presença de uma forragem prometedora e merecedora cuja novidade e valor ajudam à persecução dos objetivos deste concurso, expostos no preâmbulo deste Regulamento. 11. Os prémios serão entregues em cerimónia a realizar durante um EVENTO e em DATA a definir, comunicado através da Revista Ruminantes. Para receber o prémio os vencedores do Concurso terão que estar presentes ou informar previamente a Revista Ruminantes da nomeação de um seu representante para esse efeito. 12. O júri referente ao CNF 2020 será constituído por: José Caiado (Revista Ruminantes); Ana Lage (ALIP); Rita Cabrita (Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar, Universidade do Porto); António Moitinho Rodrigues (Escola Superior Agrária – Instituto Politécnico de Castelo Branco). 13. As decisões tomadas pelo Júri do Concurso são definitivas e em nenhum caso serão passíveis de recurso.


A melhor forragem é a sua?

Para concorrer ao CNF 2020, envie as suas amostras para o ALIP até 31 de julho de 2020* Prémio por vencedor de categoria €500

* VER REGULAMENTO CNF NA PÁGINA AO LADO

SILAGEM ERVA

SILAGEM MILHO ORGANIZAÇÃO

RUMINANTES

FORRAGENS EMERGENTES


FORRAGENS | BOVINOS DE LEITE

SILAGENS DE ERVA EM PORTUGAL CONTINENTAL

APESAR DA EVOLUÇÃO BASTANTE POSITIVA DA QUALIDADE DA SILAGEM DE MILHO, A QUALIDADE DA SILAGEM DE ERVA PRODUZIDA ENTRE NÓS CONTINUA A APRESENTAR VÁRIAS DEFICIÊNCIAS. É DESEJÁVEL UM TRABALHO COM O OBJETIVO DE TORNAR ESTA FORRAGEM CAPAZ DE ENTRAR NAS DIETAS DAS VACAS LEITEIRAS DE ALTA PRODUÇÃO.

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RUMINANTES ABR/MAI/JUN 2020


Silagens de erva em Portugal Continental

"A SILAGEM DE ERVA PODE SUBSTITUIR ATÉ 33% DA QUANTIDADE DE SILAGEM DE MILHO DA DIETA SEM INTERFERIR NA INGESTÃO."

ANA LAGE ALIP – Associação Interprofissional do Leite e Lacticínios ana.lage@alip.pt

MANUEL D. SALGUEIRO Ucanorte XXI – Alimentação Animal diogo.salgueiro@ucanorte.pt

A

domesticação dos animais, nos territórios onde hoje se encontra Portugal Continental, terá ocorrido no Neolítico (7.000 a.C. a 3.000 a.C.), em simultâneo com o aparecimento da Agricultura (Caldas, 1998). A alimentação provinha dos prados de planície, a Sul, ou dos prados de montanha, a Norte, estando o restante território coberto por densas florestas. Quando os Celtas chegaram à península, a partir do séc. IV a.C., estabeleceram o direito às “famílias” ou “clans” utilizarem a terra. Por isso, as populações acabaram por fixar-se junto dos terrenos que trabalhavam, formando pequenos aglomerados populacionais.

Como a posse de gado conferia riqueza e prestígio social, o pastoreio teve um grande desenvolvimento, consolidando a utilização dos baldios (Caldas, 1998). A chegada dos Romanos (séc. I a.C.) alterou a partilha da terra, atribuindo a sua posse aos donos das “Villae” (Caldas, 1998). Nestas estruturas, correspondentes às atuais casas de lavoura, quintas ou herdades, a par da produção de cereal, foram melhoradas as forragens, aumentando a área de cultivo da aveia forrageira e introduzindo outras culturas, como o tremoço, o fenacho e a ervilhaca. O recurso à estabulação mais frequente dos animais produziu o estrume necessário às novas práticas de fertilização

das terras, beneficiando outras culturas como as hortícolas (Caldas, 1998). Portanto, a produção forrageira nos territórios de Portugal Continental é uma prática com mais de dois milénios. Com o contínuo incentivo da produção cerealífera, alimento das populações, a produção forrageira não apresentou alterações de relevo ao longo dos séculos. A par da produção de cereais, fazia-se o apascentamento dos animais que, recorrendo à transumância, aproveitava as pastagens de montanha no Verão, descendo às das planícies no Inverno (Caldas, 1998). A partir de meados do Séc. XIX, os países europeus começaram a melhorar as culturas forrageiras através do conhecimento científico, tendo aparecido a recomendação da ensilagem para várias forragens verdes (Goffart, 1877). Em Portugal, no final do século, é publicada literatura com aconselhamento sobre a cultura de várias espécies forrageiras, entre as quais o azevém, recentemente introduzido nas culturas forrageiras portuguesas (Salgueiro, 2007). Com o início do século XX começou alguma experimentação, tornando-se prática corrente em duas estações agronómicas do Sul a partir da década de 40 (Moreira, 2002). Mas com a perda de interesse pelas culturas cerealíferas, a partir da década de 60, apareceram duas linhas evolutivas. Uma a Sul, virada para a produção de carne, e que privilegiava as pastagens de sequeiro e outras culturas forrageiras. Outra no Centro e Norte,

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Silagens de erva em Portugal Continental

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Gráfico 1 EVOLUÇÃO DOS TEORES EM MS, NDF E PB NAS AMOSTRAS DE SILAGENS DE ERVA ANALISADAS (Torres et al., 2011; Lage, 2018; Lage, 2020) MS

NDF

17.0

PB

70

16.0

65

15.0

60

14.0

55

13.0

50

12.0

45

11.0

40

10.0

45

9.0

30

8.0

25

7.0

20

6.0

15

5.0 C1998

C2000

C2002

C2004

C2006

C2008

C2010

C2012

C2014

C2016

C2018 C2019

Campanha

Gráfico 2 EVOLUÇÃO DO VALOR MÉDIO DE DMO, POR QUINZENA, NAS AMOSTRAS DE SILAGEM DE ERVA ENTREGUES NA ALIP NAS CAMPANHAS DE 2017, 2018 E 2019

80 78 76 74 72 70 68 66 64 62 60 58 56 54 52 50 Q01

Q02 Q03 Q04 Q05 Q06 Q07 Q08 Q09

Q10

Q11

Q12

Q13

Q14

Quinzena do ano

Q15 Q16 Q17 Q18

Q19 Q20 Q21

Q22

Q23 Q24

Teor em PB (%MS)

75

Teor em Matéria Seca (%) e NDF (%MS)

A QUALIDADE DA SILAGEM DE ERVA AO LONGO DAS CAMPANHAS Tradicionalmente, as forragens eram consumidas em verde ou, depois de desidratadas, sob a forma de feno, do qual já os agrónomos romanos falavam e escreviam (Caldas, 1998). A partir de meados do séc. XX a planta de milho, responsável por uma autêntica revolução agrária no Noroeste de Portugal desde o século XVI, passou a ser cortada na sua totalidade para forragem (Ramos, 2018). Contudo, o processo de conservação não consistia na secagem, mas sim na ensilagem, conforme sugerido desde o Séc. XIX (Goffart, 1877). Mais tarde os agricultores alargaram este processo de conservação às forragens de OutonoInverno sendo designadas pelo nome geral de “Silagens de Erva”. No âmbito deste artigo podemos entender a silagem de erva como sendo a forragem proveniente de culturas de plantas herbáceas, constituídas por uma ou várias espécies de gramíneas ou leguminosas, cortada em verde e sujeita a um processo fermentativo destinado à sua conservação. Podemos concluir que, devido à variabilidade das forragens originais, também a composição nutricional deste alimento apresentará intervalos de variação significativos. No Gráfico 1 podemos observar a evolução do teor médio em Matéria Seca, Fibra de Detergente Neutro e Proteina Bruta nas amostras da silagem de erva entregues no laboratório da Associação Interprofissional do Leite e Laticínios (ALIP) ao longo das campanhas. Verificamos que o teor em matéria seca (MS) não apresenta uma evolução nítida, parecendo variar em volta de um valor médio (38%). O teor em MS da forragem a ensilar deverá estar no intervalo de 30% e 35%. Um valor superior pode dificultar a compactação e a fermentação no silo, aumentando o risco de aparecimento de bolores e de aquecimento excessivo da forragem durante o processo fermentativo. Um valor inferior aumenta a probabilidade de emissão de efluentes e a consequente lixiviação dos nutrientes (Han, et al., 2006). Aparentemente, as silagens produzidas entre nós apresentam um teor em matéria seca excessivo. Mas não podemos esquecer que, no conjunto das amostras, estão incluídas silagens e fenosilagens, apresentando estas últimas um teor em MS mais elevado. O teor em fibra de detergente neutro (NDF) parece seguir uma variação descendente, estando próximo de 50%MS nas últimas campanhas (Gráfico 1).

sua ingestão (O'Mara, et al., 1998). Além disso, apresenta um perfil em aminoácidos mais equilibrado para a produção de leite, nomeadamente a relação Lisina:Metionina, comparativamente com a silagem de milho (National Research Council, 2001). No entanto, as silagens de erva produzidas entre nós apresentam sistematicamente valores médios entre 10%MS e 12%MS, sendo raras as vezes que excederam o limite superior deste intervalo - Gráfico 1. A melhoria deste parâmetro permitiria diminuir a incorporação de proteína proveniente de fontes externas à exploração, diminuindo o custo com a alimentação das vacas e aumentando a sustentabilidade da exploração.

Apesar da evolução bastante positiva, este parâmetro continua elevado o que dificulta a utilização deste alimento na dieta das vacas leiteiras de alta produção. Quando a quantidade de NDF na forragem é excessiva limita a ingestão dos animais (Mertens, 1987) e, se associado a um estádio vegetativo avançado devido ao atraso do momento do corte, diminui o seu valor alimentar (Kuoppala, et al., 2008) pela influência negativa que tem na digestibilidade. A silagem de erva, quando colhida no momento ideal de corte, é uma excelente fonte de proteína para as vacas leiteiras. Pode substituir até 33% da quantidade de silagem de milho da dieta sem interferir na

Digestibilidade da Matéria Orgânica (%MS)

virada para a produção do milho para ensilagem como apoio à produção leiteira (Moreira, 2002).


Silagens de erva em Portugal Continental

lenhificação das plantas (Van Soest, et al., 1978). Nas forragens, como o azevém e a luzerna, o aumento da temperatura promove o desenvolvimento dos caules das plantas, aumentando a produção de matéria seca (Deinum, 1981). Contudo, este aumento da produção de matéria seca está baseado numa maior proporção de carbohidratos estruturais (NDF), diminuindo o teor em proteína bruta e em carbohidratos não estruturais (essencialmente açúcares), e prejudicando bastante a digestibilidade da forragem. Outros fatores ambientais são a luminosidade, a disponibilidade de água, a fertilização do solo e as doenças. Por essa razão, a qualidade de uma forragem poderá ser diferente entre regiões, e até entre diferentes cortes na mesma parcela, dependendo da combinação dos fatores ambientais, fisiológicos e do número de cortes a que esteve sujeita (Van Soest, et al., 1978).

A VARIAÇÃO QUALITATIVA DA SILAGEM DE ERVA AO LONGO DO ANO Apesar da qualidade das silagens de erva, ao longo das campanhas, apresentar uma evolução muito limitada, não é sempre igual dentro da mesma campanha. No Gráfico 2 podemos observar a variação do valor da digestibilidade da matéria orgânica (DMO) das amostras de silagem de erva entregues no laboratório da ALIP. Os valores mais elevados ocorrem entre Fevereiro e Maio, atingindo o máximo na primeira quinzena de Abril. A partir de inícios de Junho já o valor médio da digestibilidade está abaixo de 62%, tornando a forragem imprópria para alimentar vacas leiteiras em produção (TEAGASC, 2016). Esta baixa digestibilidade resultará do aumento acentuado do teor em NDF (Gráfico 3), mas também do provável aumento da proporção de NDF indigestível presente nas paredes celulares (Kuoppala, et al., 2008) (Thorvaldsson, et al., 2007). Juntamente com o aumento do teor em NDF, ocorre a diminuição do teor em proteína bruta (PB) na forragem (Gráfico 3) apresentando, estes dois parâmetros, comportamentos opostos ao longo do ano. Talvez exista uma correlação da data de entrega das amostras da silagem no laboratório com a data de corte da forragem inicial (da qual não possuímos informação). É reconhecido que a data de corte da forragem verde influencia significativamente a qualidade da silagem (Rinne, 2000). A data de corte está relacionada com os fatores ambientais, os quais exercem grande influência no crescimento e desenvolvimento das plantas. O efeito dominante é exercido pela temperatura ambiente, existindo uma relação direta entre a sua variação e a

PRÁTICAS DE MANEIO NA PRODUÇÃO DE FORRAGENS PARA OBTER SILAGENS DE QUALIDADE Uma vaca leiteira de alta produção, que sintetiza diariamente mais de 50kg de leite, necessita de um fornecimento constante, e elevado, de nutrientes. Para alimentar estas vacas não basta aumentar a densidade nutricional da dieta, é necessário maximizar a ingestão. Quando a qualidade nutricional da silagem de erva é baixa a contribuição para o fornecimento dos nutrientes necessários na dieta é muito limitada, e também penaliza o fornecimento total de nutrientes devido aos efeitos negativos que exerce sobre a ingestão voluntária (Rinne, 2000) (Huhtanen, et al., 2002). A ingestão das silagens de erva, pelas vacas, depende do tipo de forragem, da composição química e da digestibilidade

Gráfico 3 EVOLUÇÃO DOS TEORES MÉDIOS EM PB E NDF, POR QUINZENA, NAS AMOSTRAS DE SILAGEM DE ERVA ENTREGUES NA ALIP NAS CAMPANHAS DE 2017, 2018 E 2019 18.0

PB

17.5

NDF

59 58

17.0 16.5

57

16.0

56

15.5

55 54

15.0

53

14.5

52

14.0

51

13.5

50

13.0

49

12.5

48

12.0

47

11.5

46

11.0

45

10.5

44

10.0

43

9.5

42

9.0

41

8.5

40 Q01

Q02 Q03 Q04 Q05 Q06 Q07 Q08 Q09

Q10

Q11

Q12

Q13

Q14

Quinzena do ano

Q15

Q16 Q17

Q18

Q19

Q20 Q21

Q22 Q23 Q24

Teor de NDF (%MS)

Teor Proteina Bruta (%MS)

60

da matéria orgânica (Huhtanen, et al., 2002). Por isso, para serem incorporadas na dieta das vacas leiteiras de alta produção, é importante que a digestibilidade seja superior a 75%MS (TEAGASC, 2016). A escolha das espécies, e das variedades, a utilizar na cultura da forragem é muito importante. Utilizar uma gramínea ou uma leguminosa, ou uma mistura das duas, poderá fornecer resultados muito diferentes. Mas também sabemos que o primeiro corte da forragem, normalmente entre Janeiro e Março, fornece forragens de excelente qualidade. O corte no estádio vegetativo correto, normalmente antes do espigamento, e a temperatura ambiente mais baixa contribuem para esse bom resultado. Não se conseguem os mesmos resultados nos cortes seguintes, mesmo quando a forragem é colhida num estádio vegetativo semelhante (Kuoppala, et al., 2008) (Huuskonen & Pesonen, 2017). Contudo, é sempre preferível fazer mais do que um corte (Huuskonen & Pesonen, 2017), do que a atual prática comum de fazer um corte único entre finais de Abril e Maio, fazendo este depender da data de sementeira da cultura do milho. Além disso, é necessário avaliar a necessidade de fertilização do terreno, quer na sementeira, quer entre os vários cortes da forragem. Está provado que a correta fertilização, especialmente em azoto, melhora a qualidade nutricional da forragem (Alexander, et al., 1961) (Markley, et al., 1959) (Mortensen, et al., 1964), e também o fornecimento de nutrientes aos animais que a ingerem (Markley, et al., 1959). Adicionalmente, a fertilização azotada adequada e a colheita da forragem em estádios vegetativos mais precoces permite diminuir a emissão de metano por litro de leite produzido, quer em vacas alimentadas com silagem de erva (Warner, et al., 2016), quer em vacas alimentadas com erva verde (Warner, et al., 2015). A história da produção forrageira em Portugal já é longa. Contudo, com a melhoria na genética dos animais, e no maneio que os criadores praticam, a produtividade animal aumentou, tornando a qualidade da forragem utilizada na sua alimentação um ponto essencial para o sucesso de qualquer exploração. Apesar da evolução bastante positiva da qualidade da silagem de milho (Salgueiro & Lage, 2019), a qualidade da silagem de erva produzida entre nós continua a apresentar várias deficiências. É desejável um trabalho de equipa entre os agricultores e os seus técnicos conselheiros da área da Nutrição Animal e da área Agrícola, com o objetivo de tornar esta forragem capaz de entrar nas dietas das atuais vacas leiteiras de alta produção. Deste modo, seria rentabilizado um recurso forrageiro existente, permitindo diminuir a dependência de alimentos comprados ao exterior, melhorando a eficiência da utilização dos nutrientes na exploração e diminuindo a emissão de gases nocivos ao ambiente. NOTA: referências bibliográficas disponibilizadas sob solicitação.

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FORRAGENS | ALIMENTAÇÃO DE RUMINANTES

O CICLO VEGETATIVO DO MILHO É UMA CONSTANTE?

O MOMENTO MAIS IDÓNEO DE COLHEITA PODERÁ VARIAR EM 13 DIAS. ESTA VARIABILIDADE ESTÁ RELACIONADA COM A TEMPERATURA MÉDIA REGISTADA NAS DIFERENTES REGIÕES

Q ANTÓNIO CANNAS RESPONSÁVEL DESENVOLVIMENTO LINHA DE PRODUTO "MILHO", LUSOSEM acannas@lusosem.pt

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uem presta assistência técnica e aconselhamento a produtores de milhos destinados à produção de silagem, é muitas vezes confrontado com uma pergunta relacionada com o número de dias que determinada variedade leva até ao ponto de colheita. Ora, a esta pergunta, não pode ser dada uma resposta objectiva na medida em que o ciclo vegetativo de uma mesma variedade de milho é variável em função das condições do meio. Se por um lado, o genótipo de uma variedade determina a sua maior ou menor precocidade, por outro, factores como o “conforto hídrico”, o fotoperíodo e a temperatura podem acelerar ou atrasar o ciclo vegetativo de uma planta. Se há aspecto em que existe consenso entre os investigadores, é que as temperaturas médias diárias são o factor mais determinante no que diz respeito ao ciclo vegetativo de uma planta de milho. “Embora a radiação solar e a água também possam influenciar a fisiologia do milho, a soma de graus-dia (temperaturas do ar, portanto) tem uma

relação linear com o desenvolvimento das plantas de milho (Coelho; Dale, 1980)”. Tendo acesso a um histórico meteorológico, ou registos efectuados numa propriedade, é possível determinar com alguma exactidão o momento da floração, da colheita para silagem ou da maturação fisiológica do grão. Para tal, deveremos socorrer-nos da fórmula que se segue: (Tm oC + TM oC / 2) – 6 Tm – temperatura mínima diária registada; TM – temperatura máxima registada. Abaixo dos 6 oC a planta pára o seu desenvolvimento vegetativo; Acima dos 30 oC a planta pára igualmente o seu desenvolvimento vegetativo pelo que não devem ser registadas temperaturas máximas diárias superiores a 30 oC. Esta é a razão pela qual uma variedade poderá demonstrar uma melhor ou pior adaptação a determinada região, em função do momento de sementeira, da altitude, etc. No fundo, importa saber se uma cultivar que regista a sua emergência numa determinada data disporá de um somatório de temperaturas


O ciclo vegetativo do milho é uma constante?

(graus-dia) suficiente para a fazer chegar ao momento da colheita num período razoável. Refira-se ainda que uma colheita precoce face ao estado vegetativo de uma planta poderá comportar perda de matéria seca e de qualidade nutricional numa variedade demasiado tardia para a zona ou momento de sementeira. Para além das limitações de ordem nutricional, podem em regiões como a dos Açores, existir riscos de ordem agronómica associados a variedades com ciclos vegetativos demasiados longos e que como tal necessitem de mais tempo no terreno para alcançarem o momento óptimo e colheita: é frequente com o aproximar do Outono a passagem de tempestades de origem tropical formadas no golfo do México, acompanhadas de fortes ventos que ameaçam não apenas a colheita como podem aumentar drasticamente o teor em cinzas da silagem. A título de exemplo, recorremos aos quadros que se seguem e que permitem explicar a variabilidade do tempo de permanência de uma mesma variedade, com emergência no mesmo dia (1 de Maio de 2017) mas localizadas em dois pontos distintos: Santarém e Ponta Delgada. A Integral Térmica (graus-dia) considerada, é de 1820 oC para que as plantas alcancem os 32% de Matéria Seca. (TABELA 2) Os dados meteorológicos foram recolhidos junto do IPMA – Instituto Português do Mar e da Atmosfera. Como se pode depreender, para uma mesma variedade, o momento mais idóneo de colheita poderá variar em 13 dias. (TABELA 1) Esta variabilidade está relacionada com a temperatura média registada nas diferentes regiões e permite-nos concluir que a maturação de uma variedade de milho não é alcançada por um número constante de dias.

TABELA 1 DADOS METEOROLÓGICOS POR REGIÃO SANTARÉM MÊS

T. Média

C dia

Acumulado

o

MAIO

20,4

14,4

446

JUNHO

23,3

17,3

519

JULHO

23,0

17,0

527

AGOSTO

23,0

17,0

328

SETEMBRO

22,0

15,8

Colheita efectuada com 32% de Matéria Seca no dia 20 de Agosto

PONTA DELGADA MAIO

17,4

11,4

353

JUNHO

19,4

13,4

402

JULHO

22,0

16,0

496

AGOSTO

23,1

17,1

530

SETEMBRO

21,3

17,0

39

Colheita efectuada com 32% de Matéria Seca no dia 3 de Setembro

TABELA 2 O CICLO VEGETATIVO E A INTEGRAL TÉRMICA (GRAUS-DIA) MÊS

ESTADO

MAIO

Emergência Fase vegetativa

NECESSIDADE ÁGUA NECESSIDADE TEMPERATURA1 (varia em função da precocidade) 1 Ciclos FAO 300 a FAO 600

Baixa

JUNHO

JULHO

8-10 folhas

Floração feminina

Desenvolvimento

Média

AGOSTO

SETEMBRO

Grão leitoso

Grão pastoso

OUTUBRO

Maturação

Formação Enchimento e Secagem dos grãos maturação dos grãos Alta

Decrescente

Total: de 1811 a 2092 (somatório ºC De 530 a 1130º

De914 a 962º

A luz é muito importante no momento da floração feminina

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A exclusiva linha de fertilizantes PLUSMASTER, fabricada com a Tecnologia AntiOX, aumenta o teor de antioxidantes nas plantas, ajuda a ultrapassar o stress oxidativo, reforça o metabolismo vegetal que fica mais resistente aos stresses abióticos, e torna as culturas mais produtivas e rentáveis. A ação bioestimulante do AntiOX promove ativamente o desenvolvimento das raízes, aumentando a absorção de água, nutrientes e silício ativado. O aumento da biomassa radicular em diversas culturas fertilizadas com PLUSMASTER e sem quaisquer stresses abióticos está registado e comprovado em ensaios em vaso, com aumentos de 10 a 15 %. Na cultura de milho observouse um aumento de +11 % da profundidade radicular em conforto hídrico (100 % rega), resultado da fertilização com a Tecnologia AntiOX veiculada pelos adubos PLUSMASTER, em comparação com plantas adubadas com as mesmas unidades fertilizantes e sem esta tecnologia. Em presença de stress hídrico (50 % de rega), verifica-se que o AntiOX possibilita um desenvolvimento radicular idêntico à cultura sem stress hídrico, e evita um decréscimo de biomassa radicular de 34 % que seguramente, agravaria ainda mais os efeitos da falta de água. Conclui-se, portanto, que a tecnologia AntiOX minimiza os efeitos negativos dos stresses abióticos.

Testemunha

PLUSMASTER

O fertilizante MASTER STARTER, localizado em linha na sementeira do milho*, com doses entre 100 e 300 kg/ha, proporciona um bom desenvolvimento radicular e vegetativo, garantia de um rendimento superior na cultura do milho. * após a aplicação de um fertilizante PLUSMASTER PK ou NPK a lanço.

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MASTER STARTER

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PRODUÇÃO | ENTREVISTA A DORA MARTINS

PRODUZIR EM ALTITUDE

ESTA É A HISTÓRIA DE UMA PRINCESA QUE VIVE NUMA ILHA DE SONHO, FAZ O QUE GOSTA E É FELIZ. PERTO DA FAMOSA LAGOA DAS SETE CIDADES, A 600 METROS DE ALTITUDE E COM UMA VISTA INDESCRITÍVEL SOBRE AS ENCOSTAS DE PASTAGENS, A VILA DE CAPELAS E O MAR, FICA A EXPLORAÇÃO DA FAMÍLIA DE DORA MARTINS. Por Ruminantes | Fotos Francisca Gusmão

D

ora ainda não tem trinta anos, mas já trabalha há dez na exploração da família. Atualmente, divide com o irmão João as tarefas diárias do negócio, estando ela mais ligada ao maneio dos animais. OS DESAFIOS DE UMA EXPLORAÇÃO A 600 METROS DE ALTITUDE Nesta exploração, como acontece noutras da região, as vacas estão todo o ano na pastagem. Vêm à ordenha duas vezes por dia, onde comem alguma ração, e na manjedoura têm sempre milho e silagem de erva à disposição. Mas devido às baixas temperaturas que se fazem sentir no inverno a esta altitude, a falta de pastagem é uma dificuldade. Para além de “alguns problemas de patas e pneumonias ocasionais” que, na

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"TEMOS QUE TER UMA VACA RENTÁVEL, NÃO MUITO GRANDE, E APOSTAR ESSENCIALMENTE NA SAÚDE DAS PATAS E NA LONGEVIDADE DO ANIMAL”.

opinião de Dora, condicionam o tipo de animais elegíveis: “Não podemos ter aqui vacas com elevadas produções, porque vão ter alguns problemas. Temos que ter uma vaca rentável, não muito grande, e apostar essencialmente na saúde das patas e na longevidade do animal”. Mas há outro fator, com um peso elevado nos custos de produção, também relacionado com a altitude da exploração: o custo com o transporte das silagens, em reboques. Na Exploração Martins, o dia começa às 4.30h, a hora a que é feita a primeira das duas ordenhas diárias. “Ordenhamos às 4.30h e às 16.30h, e levamos cerca de 1,5 horas a ordenhar 105 animais”, conta-nos Dora. É na altura das ordenhas que as vacas comem alguma ração (cerca de 7 kg de ração/vaca/


Produzir em altitude

DA VIAGEM DE ESTUDO QUE FEZ À IRLANDA, DORA MARTINS TROUXE ALGUMAS IDEIAS COM INTERESSE PARA A EXPLORAÇÃO: A CONCENTRAÇÃO DOS PARTOS NA ALTURA DA PRIMAVERA (QUE JÁ FAZIAM), OS CORTES DE ERVA DE INVERNO E A UTILIZAÇÃO DE AZEVÉNS PERENES.

dia). A sala de ordenha atual é de 8 pontos, instalada sob um telheiro, mas o objetivo é construir um parque de alimentação coberto.

DADOS DA EXPLORAÇÃO Nome: Exploração Martins Localização: Capelas, Pereiro Área total: 36 ha, Pastagem: 16 ha Silagens de erva e milho (alternado): 20 ha Nº de empregados: 2 Produção média: aprox. 27 litros DADOS GERAIS DO REBANHO Raça - Holstein Nº de vacas em ordenha: 110 Nº de ordenhas por dia: 2 Tempo de ordenha do efetivo: 1,5 horas Produção leiteira média aos 305 dias: 8.000 a 9.000 litros Produção média diária: 2000 litros/dia Nº médio de lactações/ano: 6 GB (%): 4,1 a 4,2 PB (%): 3,2 a 3,3 CCS: 190.000 a 200.000 cél/ml Microorganismos no leite: 6000 a 7000 Idade média ao abate: 8 anos Idade ao 1º parto: 24 meses Nº I.A. vaca adulta gestante: 2 doses

A APRENDIZAGEM NAS EXPLORAÇÕES IRLANDESAS Em 2018, Dora Martins frequentou o Curso de Formação Base de Bovinos de leite, que incluiu a visita a algumas explorações de vacas leiteiras na Irlanda, com características semelhantes às da Ilha de S. Miguel. De lá trouxe algumas ideias com interesse para a sua exploração: a concentração dos partos na altura da primavera (que já faziam), os cortes de erva de inverno e a utilização de azevéns perenes. O objetivo, diz Dora, "é fazer coincidir as necessidades alimentares da vaca com os melhores crescimentos e qualidade de erva na pastagem na época primavera-verão. Nessa altura do ano, a alimentação baseia-se 70% na pastagem, 20% na silagem e 10% no concentrado." Dora contou também que, durante os 3 meses de inverno, na Irlanda, "as vacas têm que estar recolhidas nos 3 meses de inverno, e têm que estar gestantes, caso contrário são abatidas devido à necessidade de concentrar os partos na primavera-verão. Todo o excesso de erva que houver desse período é aproveitado para fazer silagens para os meses em que as vacas estão estabuladas. Aqui, nós já vínhamos fazendo dessa forma, por influência do meu pai”. “Por outro lado”, continuou, “os irlandeses

trabalham muito bem as pastagens pois têm um rigor extraordinário na medicação da erva. Através de um medidor “plate-meter” a intervalos de 4 a 6 dias, fazem a medição de forma a decidirem se vão utilizar a pastagem para corte ou para pastoreio. O instituto de agricultura local está constantemente a desenvolver experiências e estudos nesse sentido. Por exemplo, a nível genético, sobre as sementes que se devem adotar nas pastagens. Têm azevéns apropriados só para a pastagem. Vi, também lá, uma cultura experimental de milho semeado sobre película degradável, como forma de não perder água por evaporação e de manter a temperatura. Não sei se os irlandeses têm melhores pastagens, mas têm seguramente um melhor maneio das mesmas.” Por outro lado, referiu ainda Dora, “utilizam um mínimo de concentrados. Enquanto eu, na minha exploração, uso entre 7 e 9 kg diários, eles dão, no máximo, 3 a 4 kg. Vi sítios em que davam apenas cerca de 400 g. Eles consideram que primeiro têm de produzir boas pastagem, para depois produzirem um bom leite”, concluiu. O relacionamento saudável entre os agricultores irlandeses foi outro motivo de admiração para a jovem empresária: “Lá, nota-se uma agricultura muito unida, olha-se para aqueles agricultores e percebe-se que existe rivalidade entre eles, mas que é uma rivalidade saudável. Partilham os resultados

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Produzir em altitude

e os problemas que têm no instituto de agricultura, e debatem as questões que vão tendo para tentar arranjar soluções. É um país de gente esperta, que sabe o que faz, que pensa na sua rentabilidade e também no seu bem estar.” Em termos de genética, Dora considera que existem semelhanças entre a Irlanda e os Açores. “A genética é parecida com a nossa, são Holstein irlandesas, adaptadas às condições. É uma vaca preta e branca, média, com uma rentabilidade excecional, boas produções mas não muito elevadas (cc. 30 litros com proteína entre 3,1 e 3,4 e gordura entre 4 e 4,4). A alimentação baseia-se em erva verde; não dão palha, ou dão muito pouca.” O mesmo se passa com as ordenhas, conta: “São fixas, muito semelhantes às nossas. Vimos um robot muito interessante que fazia com que as vacas viessem não por causa do concentrado, mas por causa da pastagem.” Quanto às ideias que já pôs em prática na 26

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sua exploração, do que viu na Irlanda, Dora referiu: “Os cortes de erva de inverno. Começámos a aproveitar todo o excesso de erva para fazer rolos, o que implica fazer cortes em janeiro e fevereiro.” Relativamente ao que gostaria de vir a concretizar: “Sem dúvida, no nosso caso, os azevéns perenes como eles tinham, com duração de 20 anos. Ficámos estupefactos com aquilo. Cá, temos o azevém da terra implementado e todos os anos estamos a semear terras. Como cerca de 90% das vacas dos Açores vão para as pastagens, se todo o agricultor tivesse um azevém perene com a durabilidade correta e adequada ao clima, seria benéfico para a rentabilidade das explorações.” OS OBJETIVOS PARA O FUTURO Dora não é alheia aos desafios que a sua profissão e o negócio colocam, mas não imagina o futuro noutro sítio. Quando

lhe perguntámos que objetivos tem para os próximos anos, a resposta foi imediata: “Continuar a trabalhar para ter o máximo de rentabilidade com o leite que já produzimos, e felicidade no meio disso tudo, com muita saúde. Só é pena que o leite não seja mais bem pago, atravessamos tempos difíceis, os custos de produção estão elevadíssimos.” DUAS QUESTÕES FINAIS Qual deve ser a principal preocupação de um produtor de leite?

A alimentação. Produzir bons alimentos devia representar o principal investimento para se ter animais mais saudáveis. É meio caminho andado para se evitarem muitos problemas de saúde. Do que mais se orgulha no que diz respeito à exploração?

Dos exemplos que tenho, os meus pais.


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LAMMOMEL 24/24

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NUKAMEL YELLOW Alimento substituto do leite completo pArA Vitelos

Nukamel Yellow é um substituto do leite feito à base de soro de leite, solúvel em àgua, que contém leite em pó. O seu conteúdo elevado de proteína consiste numa combinação de soro e caseína, excelente para optimizar o desenvolvimento dos vitelos. Além disso, Nukamel Yellow é reforçado com imunoglobulinas, para potenciar a saúde dos animais.

produto com elevado nível de proteção contra diarreias BENEFÍCIOS CHAVE ü Cuidadosa seleção dos ingredientes lácteos

RICO Em ImuNOglOBulINAS PRImEIRA lINHA dE dEFESA ImuNItáRIA

ü Leite em pó desnatado: óptimo sabor- melhora a ingestão

ü Protecção contra patógenos entéricos

do leite com 90% de conteúdo lácteo

ü Identificação e neutralização das bacterias e vírus

ü Elevados níveis de nutrientes- alimentação intensiva ü Imunoglobulinas - melhoram a saúde dos vitelos ao nível do intestino

ü Fonte: proteína de soro de leite ultrafiltrada

resultados equivalentes a um leite com 50% de leite em pó 16 0

COMPOSIÇÃO

CONST. ANALÍTICOS

14 0 12 0

Kg 10 0 80 60 40

Proteína Bruta

24,0%

Soro de leite em pó

Gordura Bruta

20,0%

Fibra

0,02%

Óleos vegetais e gorduras (palm/coco – 60/40)

Cinza Bruta

8,0%

Humidade

4,0%

pH Lactose

Semanas

Nukamel Yellow

Imunoglobulinas

Produto similar

Ácido lático Óleo de manteiga

5.8-6.3

Leite em pó Proteína de trigo hidrolisada Premix

42,5% 1500 ppm 0,8% 2500 ppm

Distribuido por: Plurivet - Veterinária e Pecuária, Lda; Rua Prof. Manuel Bernardes das Neves no-30 Loja 2070-112 CaRtaxo tel: (+351) 243 750 230, E-mail:RUMINANTES geral@plurivet.pt | ABR/MAI/JUN 2020 27


"APOSTAR EM FORRAGENS DE QUALIDADE FACILITA A REALIZAÇÃO DUM CORRETO PLANO ALIMENTAR."

FORRAGENS | ALIMENTAÇÃO DE RUMINANTES

A QUALIDADE CONTA

PARA RENTABILIZAR A UTILIZAÇÃO DE FORRAGENS, QUER SEJAM SILAGENS, FENOSILAGENS, FENOS OU PALHAS, É IMPORTANTE TER PRESENTE QUAL O CONTRIBUTO NUTRITIVO QUE CADA UMA APORTA INDIVIDUALMENTE À RAÇÃO TOTAL E QUE A SUA DIGESTIBILIDADE TEM UMA ENORME INFLUÊNCIA NO ASPETO QUALITATIVO.

N

este artigo proponho abordar a enorme importância da qualidade das forragens na alimentação dos ruminantes. Para rentabilizar a sua utilização, quer sejam silagens, feno-silagens, fenos ou palhas, é importante ter presente qual o contributo nutritivo que cada uma dessas forragens aporta individualmente à ração total e que a sua digestibilidade tem uma enorme influência no aspeto qualitativo. É com alguma frequência que nos deparamos com forragens mal feitas, mal conservadas ou simplesmente de fraca qualidade, mas em todos os casos é necessário conhecer o seu contributo na dieta! No caso das silagens, por exemplo, é sabido que, fatores como o valor de matéria seca no momento do corte, o estado de maturação à colheita, o modo de conservação, o calcamento do silo, a dimensão das 28

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partículas, o esmagamento e o corte do grão, a variedade escolhida, e outros influenciam a sua qualidade enquanto forragem. No caso do milho para silagem, por exemplo, se uma limitação no crescimento da planta originasse um expectável baixo teor de amido e uma digestibilidade da fibra menor do que o normal (derivado ao stress da planta), qual seria o resultado deste “desvio”? Em vacas leiteiras por exemplo, certamente traduzir-se-ia numa quebra significativa de produção! Silagens de milho pobres em grão e muito secas são menos apetentes, menos digestíveis e fermentam mais lentamente no rúmen. Nestes casos, em comparação com um milho em condições normalmente desejadas, a ingestão poderia ver-se reduzida em: - 15 a 20% para milho seco com poucos grãos (apenas 1/3 da espiga cheia); - 10 a 15% para o milho seco com carência de algum grão (espiga cheia a 2/3);

- até 10% para o milho com espigas quase cheias. Do ponto de vista da conservação, os valores de matéria seca no momento da colheita também podem ter um impacto negativo, que por sua vez afeta a qualidade da silagem. De facto, silagens secas são mais difíceis de conservar (MS>35%) e, além disso, a compactação do silo será menos eficiente. Nesta situação, a utilização de conservantes e cortes mais finos podem ser uma forma de melhorar a conservação da silagem. Não restam dúvidas sobre o especial interesse da silagem de milho como fonte de energia na alimentação de ruminantes (igualmente interessante do ponto de vista económico), mas é imperativo garantir a sua qualidade. O mesmo se verifica para outras forragens! No caso dos fenos, sabemos à partida que em Portugal não é fácil encontrá-los com uma qualidade superior, e isso deve-se não só à


Forragens: a qualidade conta

assim como das condições de recolha e armazenamento. Tanto o seu valor energético como seu valor proteico são baixos e o seu aporte nutricional não é suficiente para cobrir as necessidades dos animais. No entanto, mesmo sendo a palha uma forragem de baixa apetência e menor digestibilidade, quando incorporada em dietas, contribui de um modo geral para o equilíbrio do “ecossistema do rúmen” como estímulo ao seu bom funcionamento, e a utilização continua a ser habitual.

LUÍS RAPOSO ENGENHEIRO ZOOTÉCNICO TO DEP. RUMINANTES REAGRO l.raposo@reagro.pt

falta de importância que é geralmente dada a esta cultura, mas também à inconstância climatérica típica das épocas de corte. Já nas feno-silagens encontramos, regra geral, mais qualidade visto que são cortadas numa fase mais precoce do desenvolvimento da planta e, por esse motivo, apresentam um valor alimentar superior. Quanto mais evolui uma planta no seu estado vegetativo, maior é a percentagem de parede celular e menor a de conteúdo celular. A palha é um dos expoentes máximos desta realidade, sendo um subproduto da produção de cereais (após a recolha do grão), representa uma fonte de fibra de menor qualidade e é constituída essencialmente por paredes vegetais que representam 60 a 85 % da matéria seca (MS). O valor energético da palha é variável e depende da espécie, da variedade botânica e das condições de maturação da planta que lhe deu origem,

DIGESTIBILIDADE DA FIBRA A digestibilidade da fibra tem sido definida como a proporção de fibra que é ingerida e não é excretada nas fezes, uma vez que esta tem uma fração indigestível e outra potencialmente digestível. Este conceito torna-se muito útil para a compreensão da qualidade que a fibra aporta num qualquer arraçoamento. Forragens que apresentam uma baixa digestibilidade, como a palha (quase exclusivamente constituída por caules), contêm uma elevada proporção de tecidos lenhificados pouco degradáveis pelos microrganismos do rúmen. Por consequência, poucos elementos nutritivos serão nesse caso libertados ao longo do processo digestivo e o valor nutritivo será baixo. A digestibilidade da planta decresce com o avanço do seu estado vegetativo e essa evolução dependerá: - do aumento do teor de lenhina nas paredes vegetais da planta; - da diminuição do rácio entre folhas e caules existentes na planta; - das espécies envolvidas e suas condições de crescimento; - das condições de armazenamento (tempo de armazenamento, temperatura, pH e pressão de vapor). Desta evolução resultará também um aumento do valor de NDF da forragem, um decréscimo da sua digestibilidade e daí um decréscimo da sua energia global. No caso dos fenos, valores de NDF superiores a 50% podem reduzir a ingestão em 20%. No caso da silagem de milho é importante ter em conta que a energia proveniente da digestão das folhas e dos caules não é igualmente substituída pelo aumento dos níveis de amido, isto é, o amido não é o único fator que explica o valor energético da silagem. Isso significa que, para valores de amido idênticos em duas silagens diferentes o contributo energético de ambas não terá de ser exatamente o mesmo. O ponto de equilíbrio entre a curva crescente dos teores de amido e a curva decrescente dos valores de digestibilidade da componente fibrosa, ao longo do processo de maturação do milho, é o ponto que mais favorece o valor energético da silagem. Maior digestibilidade da fibra gera melhor aproveitamento na obtenção de energia e com isso consegue-se um aumento de produção (mais litros de leite, por exemplo).

O aumento da digestibilidade da fibra em 1% pode representar um aumento da produção de leite de 0,2 l/vaca/dia, o que num efetivo de 50 vacas e durante um ano pode representar um interessante acréscimo total. Além disso, a energia contida na fibra também estimula a atividade do rúmen e é percursora do aumento do teor de gordura no leite. QUAL A ESTRATÉGIA NUTRICIONAL A ADOTAR POR FORMA A MAXIMIZAR RESULTADOS? - Promover a utilização de forragem digestível; - Utilizar alimentos ricos em proteína degradável; - Estimular a flora microbiana (por ação de minerais, oligoelementos, vitaminas); - Promover o equilíbrio entre energia e matéria azotada, tendo em conta que demasiada energia fermentescível/degradável reduz a ação das bactérias celulolíticas do rúmen. Sabendo que o primeiro ponto nem sempre é atingível, na presença de forragens “pouco degradáveis” é aconselhável focarmonos no segundo ponto, reforçando o aporte de proteína solúvel à ração. Desta forma o aumento proteico favorece o desenvolvimento mais rápido das bactérias do rúmen, cria um efeito tampão e diminui a concentração relativa de amido. Personalizando um pouco, no caso da silagem de milho é essencial, em primeiro lugar estimar, a matéria seca ingerida para melhor a poder complementar em qualquer arraçoamento. Essa complementação dos valores de uma forragem deve atender principalmente a dois objetivos: - limitar o défice de energia associado a um baixo teor de amido e/ou à qualidade da fibra quando a digestibilidade é baixa; - estimular as fermentações ruminais, importantes na digestão ruminal. A apreciação do perfil nutritivo da ração, através de vários indicadores, torna possível entender a intensidade das fermentações no rúmen pela degradabilidade dos amidos, bem como a degradabilidade da proteína. Além disso, esses indicadores permitem escolher melhor os alimentos “secos” mais adaptados ao perfil energético e fermentativo de uma forragem. CONCLUSÃO Apostar em forragens de qualidade e ter um bom conhecimento das suas características facilita a realização de um correto plano alimentar. Por fim, é importante lembrar também que existem várias soluções aditivas disponíveis para estimular e melhorar as fermentações no rúmen e melhorar a digestibilidade, não só das forragens de má qualidade mas também das rações em geral principalmente em momentos decisivos (arranque de lactação, por exemplo).

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SAÚDE E BEM-ESTAR | BOVINOS DE LEITE

STRESS TÉRMICO

PARA RESPONDER AO PROBLEMA DO STRESS TÉRMICO, A ZOOPAN TESTOU O VeO — UM ADITIVO NEURO-SENSORIAL QUE MELHORA A RESPOSTA DO ANIMAL QUANDO EXPOSTO A FATORES DE STRESS AMBIENTAIS, REGULANDO OS SINAIS DE STRESS NO SISTEMA NERVOSO CENTRAL.

C

omo é sabido, ao longo do tempo temos vindo a presenciar um fenómeno de aquecimento global, que não é mais do que o processo de aumento da temperatura média da terra e oceanos, causado maioritariamente pela emissão de gases que intensificam o efeito estufa. Estes gases têm origem nas atividades humanas (queima de combustíveis fósseis e alterações na utilização da terra, resultado direto da explosão populacional, do crescimento económico, do uso de tecnologias e fontes de energia poluidoras, etc.). Como resultado deste aumento da temperatura global, vários fatores de

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produção são afetados, nomeadamente na produção animal cujas performances (produção leite/carne, reprodução, entre outros) ficam cada vez mais comprometidas, acarretando consequências económicas acentuadas para o sector. O impacto do stress térmico em produção animal é uma preocupação mundial. Ocorre quando o animal deixa de ser capaz de eliminar o excesso de calor do seu próprio corpo. Este excesso de calor acumulado é causado pelas temperaturas exteriores, agravando-se quando a humidade relativa é elevada, ultrapassando a capacidade fisiológica de termorregulação nos animais também conhecida como evapotranspiração.

Como sabemos, os bovinos estão em conforto térmico entre os 5 e 15ºC. Começando a haver as primeiras perturbações a partir de 25ºC. Este fenómeno tem um impacto negativo na produção animal, reduzindo o conforto dos animais e consequentemente causando uma penalização nas suas performances como já referido. É importante referir que a sensibilidade dos animais varia consoante a raça (sendo a raça Holstein mais sensível), a fase de lactação (os animais em inicio de lactação, inferior a 100 dias, são mais sensíveis do que as vacas em final de lactação) e o nível de produção (animais com um nível de produção elevada são mais sensíveis ao stress térmico).


Stress térmico

PEDRO CASTELO Diretor técnico Zoopan pedro.castelo@zoopan.com

ANA MAGALHÃES Engª Zootécnica Zoopan ana.magalhaes@zoopan.com

ADITIVOS SENSORIAIS PARA PROMOVER O “BEM-ESTAR” VeO é um aditivo neuro-sensorial que melhora a resposta do animal quando EFEITOS DO STRESS TÉRMICO exposto a fatores de stress ambientais (tal - aumento do ritmo respiratório; como o stress térmico) e stress psicossocial, - redução da ingestão; regulando os sinais de stress no sistema - aumento das necessidades energéticas do nervoso central. Este aditivo composto, alimento; maioritariamente por um extrato específico - diminuição da ruminação; da família Rutaceae, foi desenvolvido em - aumento do risco de acidose; parceria com o INRA (Institut National de - stress oxidativo; la Recherche Agronomique), que conduziu - diminuição da imunidade; ensaios científicos para validar as ações do - aumento da temperatura retal. VeO no cérebro. De facto, o VeO estimula o córtex pré-frontal, está relacionado com a CONSEQUÊNCIAS DO STRESS TÉRMICO: capacidade de adaptação do animal a fatores - riscos de mamites, problemas de saúde e de stress e a amígdala que está envolvida na mortalidade; perceção emocional. - redução da produção de leite; Para validar os benefícios no - aumento da taxa celular; comportamento animal, foram realizados - redução da fertilidade. ensaios científicos em ratos para medir o nível de ansiedade e demissão. Os É importante preservar o comportamento natural resultados indicaram que, no período de do animal para manter o desempenho ótimo. stress, os ratos do grupo VeO apresentaram Uma solução neurosensorial que modula a menos tempo de imobilidade. Por outras mensagem de stress diretamente no cérebro tem palavras, os animais com VeO procuraram provado limitar o impacto negativo de stress mais rapidamente encontrar uma situação através da melhoria de adaptação por parte do que lhes fosse mais favorável. animal quando enfrenta desafios/alterações Assim sendo, animais expostos a fatores ambientais. de stress ambiental e interações sociais, tal EFEITOS DO STRESS TÉRMICO SOBRE VACAS LEITEIRAS E SUAS CONSEQUÊNCIAS

como o stress térmico e a introdução em lotes com animais de origens diferentes, adaptamse mais fácil e rápido a estas situações. Por outras palavras, durante fases mais críticas de stress, são observadas menos alterações do seu comportamento normal, tal como a ingestão de alimentos ou interação social. De um modo de ação mais preciso (químico/ bioquímico), os ingredientes ativos inibem a hidrólise dos endocanabinóides presentes na fenda sináptica. Os endocanabinóides são neuromoduladores que em elevadas concentrações apresentam os seguintes efeitos: - efeito ansiolítico (anti-stress), provocando a libertação de GABA (Gamma-Amino Butyric Acid), o principal neurotransmissor inibidor no sistema nervoso central (SNC) que desempenha um papel importante na regulação da excitabilidade neuronal ao longo de todo o sistema nervoso (por exemplo, um maior prazer para comer); - efeito na relação serotonina/dopamina, regulação da ingestão de alimentos, sustentabilidade do bem-estar animal: mais apetite. FIGURA 1 Como forma de testar o efeito deste produto realizaram-se dois ensaios. Um em bovinos de engorda e outro em vacas de leite (222 vacas em lactação).

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Stress térmico

FIGURA 1 MODO DE AÇÃO DO VeO

1.

Degradação de neuromoduladores (ECB)

2.

Concentração de ECB

3.

Modular o rácio de neurotransmissores

4.

Modificar a natureza da mensagem nervosa pós-sináptica

(dopamina/serotonina)

Stress

Benefícios dos animais

Apetite

FIGURA 2 GANHOS MÉDIOS DIÁRIOS DURANTE O ENSAIO NO MONTE DO PASTO Ensaio com VeO 2,000 1,600

GMD (kg/dia)

1,850

1,820

1,800

1,447

1,400

1,731 1,502

1,349

1,200 1,000 0,800 0,600 0,400 0,200 0,000

TOTAL

100<PV<250

PV>250

GMD (kg/dia) CONTROLO

VeO

FIGURA 3 VACAS DE LEITE DEITADAS VS. EM PÉ DURANTE O 14 HORAS APÓS A DISTRIBUIÇÃO DE ALIMENTO E 1 HORA ANTES DA ORDENHA.

FIGURA 4 PRODUÇÃO MÉDIA DO GRUPO DE CONTROLO COMPARATIVAMENTE COM O GRUPO VeO.

Vacas deitadas vs. de pé (vacas/100 vacas)

Intensidade de stress por calor

100 90 80 70 60

PERIODO 1

PERIODO 1

Stress por calor

Stress moderado por calor 72<THI <79

Stress severo por calor THI >80

Tratamento

Sem VeO

Com VeO

32,54 (1,13ª)

32,66 (0,68b)

p<0,01 27,8%

68,60

53,68

50 40 30 20

Produção de leite

10 0

32

CONTROLO

VeO

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: p<0,05

ab

O primeiro ensaio teve lugar no Monte do Pasto na fase de adaptação, fase esta bastante crítica uma vez que são colocados no mesmo local animais de várias origens e alguns deles que nunca comeram alimento concentrado, levando a uma alteração brusca da forma de alimentação. O VeO foi testado em dois lotes de cerca de 100 animais (1 com aditivo e outro controlo). Além da análise global ainda se analisou os animais mais pequenos de cada lote (até 200 kg de peso vivo), porque geralmente são os animais com maior dificuldade de adaptação. Após a análise dos dados, concluiu-se o seguinte: • Os Ganhos Médios Diários (GMD) dos animais com o VeO foram superiores ao grupo controlo (1,820 kg vs 1,447 kg) FIGURA 2. Tanto os animais mais leves, como os mais pesados, à entrada, tiveram um crescimento superior ao grupo testemunha, sendo a maior diferença nos animais mais pequenos (1,850 kg vs. 1,349 kg de GMD), tal como podemos observar na FIGURA 2. O segundo ensaio foi realizado em vacas de leite, com 222 animais em lactação. Como se pode verificar na FIGURA 3, com o VeO as vacas demonstraram maior tranquilidade, estando mais tempo deitadas e com níveis de produção superiores (para os mesmos dias de lactação do grupo de vacas em ordenha). Introduziu-se o VeO num período de stress térmico moderado e num período de stress térmico acentuado. Como é possível verificar na FIGURA 4, em momentos de stress térmico acentuado com a utilização deste aditivo foi possível manter o nível de produção. A intensidade do stress térmico pode ser estimada através do índice de temperatura e humidade relativa (THI), ou seja, é um avaliador de conforto térmico baseado em condições de temperatura e humidade. O estudo e análise deste índice são de extrema importância, pois auxilia na indicação de conforto e desconforto térmico a que os animais estão submetidos. O limiar de THI para vacas leiteiras é de 68 (considerando uma temperatura de 24,5°C e humidade relativa de 15% ou uma temperatura de 22°C e euma humidade relativa de 45%). Relativamente à produção média aos 205 dias de lactação para o grupo controlo, e aos 210 dias para o grupo VeO, apesar das condições ambientais mais desfavoráveis devido ao stress térmico, obteve-se o mesmo nível de produção. Da análise dos dados obtidos, concluiu-se que os aditivos que minimizam os fatores de stress a que os animais estão sujeitos (térmicos, sociais, entre outros) são exequíveis e economicamente vantajosos, uma vez que atenuam o decréscimo de performances de produção.


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ALIMENTAÇÃO | TECNOLOGIA TITAN

LEVEDURAS VIVAS

ASSEGURAR A SUA VIABILIDADE PARA ÓTIMA EFICÁCIA

N

Por Tradução e adaptação do artigo para a língua Portuguesa por: M. Ferraz, M. Ortigão e P. Ventura |Tecadi |2020

as últimas décadas, a crescente compreensão do mecanismo e dos benefícios precisos das leveduras vivas - em conjugação com a crescente procura por aditivos naturais - levou a uma generalização da suplementação da alimentação animal com este tipo de probióticos. A viabilidade dum probiótico é um parâmetro chave para assegurar a sua atividade metabólica uma vez ingerido pelo animal. Muitos especialistas insistem que os probióticos devem estar vivos e viáveis para exercer um efeito na microflora dentro do sistema digestivo. Na realidade, diversas autoridades nacionais só autorizam uma alegação de performance (tal como a melhoria da produção de leite ou a eficiência alimentar) quando o microorganismo probiótico é viável. Por exemplo, a Comissão Europeia considera os microorganismos como aditivos alimentares probióticos apenas quando se encontram na sua forma viva. Ao selecionar uma levedura probiótica, é crucial assegurar que a levedura viva: • sobrevive ao fabrico da ração ou do premix; • tolera a combinação com outros ingredientes; 34

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• suporta a armazenagem antes de chegar ao animal. Hoje em dia, a procura crescente por ração granulada, com processos cada vez mais rigorosos, poderia limitar a inclusão de leveduras probióticas neste tipo de ração. Graças a investimentos contínuos em desenvolvimento de processos, os cientistas da Lallemand Animal Nutrition desenvolveram uma tecnologia patenteada única de proteção de leveduras, TITAN,

Células de levedura viva

Camada de proteção

que assegura uma sobrevivência ótima das leveduras e a sua estabilidade durante os vários passos do processo industrial de fabrico de rações e de armazenagem. SUPERANDO O STRESS DA GRANULAÇÃO E A ARMAZENAGEM Tal como muitos outros aditivos biológicos para animais, como vitaminas ou enzimas, as leveduras vivas podem ser sensíveis a stress externo como a temperatura, a humidade, a pressão ou o contacto com certos produtos químicos ou microelementos minerais (FIGURA 1). Estes fatores podem ter impacto na viabilidade ou na atividade metabólica das leveduras — e portanto na sua eficácia. Por isso, a proteção pode ser necessária em probióticos específicos para assegurar a sua estabilidade durante o processo de granulação da ração e a sua armazenagem. A tecnologia TITAN foi desenvolvida para assegurar a proteção das leveduras probióticas ao longo desses processos. PROCESSO INDUSTRIAL ESPECÍFICO Ao produzir leveduras vivas, cada um dos passos pode ter impacto na sua viabilidade.


Leveduras vivas: assegurar a sua viabilidade para ótima eficácia

FIGURA 1: FATORES QUE INFLUENCIAM A VIABILIDADE E A ATIVIDADE DE ADITIVOS BIOLÓGICOS SENSÍVEIS COMO AS LEVEDURAS VIVAS. Agentes REDOX

Temperatura

SPRAYING

Humidade

Produtos químicos

MOLHAR

ESPALHAR PARTÍCULA REVESTIDA

Partícula Gota de revestimento

1

Coleção de leveduras da Lallemand

2

Fermentação industrial

3

Secagem

4

Microencapsulação

Pressão Tempo

FIGURA 2: O PROCESSO DE PRODUÇÃO DE LEVEDURAS TITAN COMBINA UMA FERMENTAÇÃO ESPECÍFICA E UM PROCESSO DE SECAGEM PARA RESULTAR NUMA TECNOLOGIA ÚNICA E PATENTEADA DE MICROENCAPSULAÇÃO.

Nível de gorduras

Quando a equipa de otimização de processo da Lallemand trabalhou no desenvolvimento do TITAN, examinou todo o processo. Adaptaram os processos de fermentação e de secagem e combinaram-nos com um passo extra: uma microencapsulação de proteção. Ao produzir as leveduras TITAN, as condições de fermentação e de secagem são específicas. Após a fermentação, as leveduras seca ativa convencional (ADY) é extrudida para uma forma de partícula vermicelli. Esta forma de ADY é adequada para aplicações menos desafiantes como seja para ração farinada. Para a produção de TITAN, as partículas de leveduras são submetidas a um processo particular de secagem para formar microesferas. Estas microesferas secas são então revestidas por uma superfície fluida com uma solução específica formulada com base lipídica (FIGURA 2). Este passo de revestimento, ou microencapsulação, específico para ADY, foi patenteado (EP 2099898B1). Enquanto muitos produtos no mercado são descritos como “protegidos” ou “resistentes ao calor,” TITAN é uma

Pérola revestida

tecnologia de microencapsulação de leveduras única em aditivos para alimentação animal (FIGURA 3). RESISTÊNCIA AOS PROCESSOS DE FABRICO DE ALIMENTOS A tecnologia TITAN protege as leveduras vivas das restrições do processo de produção e assegura a sua estabilidade durante o tempo de armazenagem. Esta tecnologia também protege as leveduras vivas durante a granulação (temperatura, pressão e humidade) e da interação com compostos químicos usados no fabrico de alimentos compostos. Isto foi extensamente provado em numerosos ensaios, tanto em institutos independentes como em fábricas de alimentos compostos, sob variadas condições industriais; em diversos países; e em todos os tipos de alimento, tal como alimentos compostos, minerais, quer para ruminantes, suínos ou aves (FIGURA 4). Em certos casos, TITAN foi mesmo capaz de resistir a processos drásticos de granulação, graças ao seu revestimento específico (por

Outra forma de levedura pérola não revestida

Vermicilli

Vermicilli corresponde a um tipo de partícula porosa e a um processo convencional de secagem de leveduras

FIGURA 3 DIFERENTES FORMAS DE PRODUTOS COM LEVEDURAS VIVAS. COMO SE PODE VER NAS IMAGENS DE MICROSCOPIA ELECTRÓNICA, SÓ O TITAN TEM UMA CAPA DE PROTEÇÃO.

ex. temperaturas até 120 °C, processos de expander). Nestas condições, com grande número de restrições no fabrico dos alimentos, deveria elaborar-se um plano de validação — incluindo amostragem precisa e análises microbiológicas ad hoc. Além disso, uma análise independente foi conduzida pelo instituto IFF na Alemanha para comparar a estabilidade e a resistência da levedura viva LEVUCELL TITAN com outras fontes comerciais de levedura sob diferentes condições de granulação. Este estudo mostra que apenas a levedura viva TITAN permanece estável ao longo de vários processos de granulação (pelo menos 85°C) (FIGURA 5). Finalmente, a estabilidade e a disponibilidade também são importantes no fim da cadeia — mesmo até ao consumo do alimento. O revestimento protetor de base lipídica do TITAN é solubilizado no trato digestivo do hospedeiro, libertando a levedura viva ativa que irá interagir com a sua microflora e beneficiar o hospedeiro. Por exemplo, em ruminantes, foi demonstrado in vivo (ruminantes fistulados no INRA) que as células vivas de levedura foram libertadas no fluido ruminal a partir da forma de levedura viva TITAN, com eficácia semelhante à forma não revestida LEVUCELL SC 20. Da mesma maneira, estudos em porcos e aves (que têm um trato digestivo curto) mostram libertação eficaz das células vivas de levedura no trato digestivo. COMO USAR A TECNOLOGIA TITAN? A tecnologia TITAN está disponível em todas as estirpes de leveduras probióticas produzidas pela Lallemand Animal Nutrition, quer para ruminantes quer para monogástricos: - Saccharomyces cerevisiae boulardii CNCM I-1079 levedura viva, disponível sob o nome comercial LEVUCELL SB para monogástricos; - S. cerevisiae CNCM I-1077, levedura viva específica para ruminantes, disponível sob o nome comercial LEVUCELL SC.

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Leveduras vivas: assegurar a sua viabilidade para ótima eficácia

UFC/g

CONDIÇÕES INDUSTRIAIS STANDARD FABRICANTES DE ALIMENTOS

CONDIÇÕES STANDARD INSTITUTOS INDEPENDENTES

CONDIÇÕES INDUSTRIAIS DESAFIANTES FABRICANTES DE PRÉ-MIXERS E ALIMENTOS

1.000E+08 Tolerância analítica

1.000E+07 1.000E+06 1.000E+05 1.000E+04 1.000E+03 1.000E+02 Tecaliman, França Condicionador: 75º Temp. Matriz: 80ºC Matriz: 4*40mm Rendimento: 35kg/min

Esperado

Tecaliman, França

IFF, Alemanha Anel da prensa Temp. Matriz: 85ºC Matriz: 5*50mm Rendimento: 1 ton/h

IFF, Alemanha

Canadá

Canadá Ração Ruminantes Condicionador: 60ºC Temp. Matriz: 70ºC Matriz: 6*21 polegadas Rendimento: 10ton/h

Vietname

Vietname Ração Leitões Condicionador: 79ºC/20s Temp. Matriz: 79ºC Matriz: 4*50mm

Suiça

Áustria

Suiça Ração broilers Condicionador: 73ºC/30s Temp. Matriz: 4*70mm

Tailandia

Áustria Alimento mineral Temp. Expander KAHL: 90-120ºC Pressão: 20-40 bar Alta força de corte

Tailândia Ração Expander Temp. granulação: 120ºC/20seg

FIGURA 4 DIVERSOS ENSAIOS MOSTRANDO DE FORMA CONSISTENTE A CAPACIDADE DA LEVEDURA TITAN PARA RESISTIR ÀS CONDIÇÕES STANDARD DE GRANULAÇÃO (70 A 85°C APÓS A MATRIZ) *. STANDARDIZAÇÃO DAS CONTAGENS ESPERADAS EM 107 PARA FACILITAR A COMPARAÇÃO.

… Lallemand Animal Nutrition dedica-se

também ao controlo da performance do seu produto nos nossos clientes e nos consumidores finais, graças a um dedicado suporte técnico e ao serviço de análises laboratoriais, que oferece para garantir que a tecnologia TITAN combina perfeitamente com as condições da indústria.

UFC/g 1.000E+08 1.000E+07

-57 log

1.000E+06

-1,69 log

1.000E+05 -3,48 log

1.000E+04

-4 log 1.000E+03 1.000E+02

Levucell TITAN

Pérola A

Pérola B

Pérola C

Vermicilli

FIGURA 5 ESTABILIDADE DE DIFERENTES FONTES DE LEVEDURA NO PROCESSO DE GRANULAÇÃO À TEMPERATURA DE 85°C* STANDARDIZAÇÃO DA CONTAGEM EXPECTÁVEL EM 107 UFC PARA FACILITAR A COMPARAÇÃO (NOTA: OS DADOS NO VERMICELLI FORAM BASEADOS EM MÚLTIPLOS ESTUDOS MAS NÃO FAZIAM PARTE DO MESMO ENSAIO DO IFF).

UFC/g

Tolerância analítica

1.000E+08

Esperada

1.000E+07

1.000E+06

1.000E+05

1.000E+04 1.000E+03

T0

Mês T1

Mês T2

Mês T3

FIGURA 6 ESTABILIDADE DA LEVEDURA TITAN NO ALIMENTO GRANULADO DURANTE O SEU PERÍODO DE VALIDADE (IFF, ALEMANHA, GRANULAÇÃO A 85°C)

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VALIDADE A estabilidade do probiótico não envolve apenas o fabrico do alimento, mas também as condições de armazenagem e validade. Após os probióticos serem incluídos no alimento, os produtos devem sobreviver ao tempo de armazenagem na fábrica de rações e na exploração até serem consumidos pelo animal. Os ensaios mostraram que a tecnologia TITAN permite às leveduras permanecerem estáveis no alimento durante um período de armazenamento standard. (FIGURA 6). Como contar as leveduras vivas: As Unidades Formadoras de Colónias (UFC) A medição da concentração de

leveduras ativas no alimento composto expressa-se habitualmente em Unidades Formadoras de Colónias (UFC) por grama, que representam o número de células de levedura viva por grama de amostra de ração que são capazes de reproduzir-se. Na prática, é uma técnica baseada na contagem de colónias de leveduras crescendo numa placa de Petri onde é fornecido um meio seletivo (ou nutrientes para crescer ou antibióticos para inibir o crescimento bacteriano). Cada colónia representa a reprodução duma célula viva de leveduras num dado período de tempo. O resultado é expresso em Log10 para explicar o procedimento de diluição aplicado no laboratório. O método UFC é o método oficial de controlo reconhecido pela maioria das autoridades.


O RÚMEN: UM POTENTE MOTOR QUE IMPULSIONA O RENDIMENTO DA EXPLORAÇÃO

ATÉ

7 6 ATÉ

% MAIS LEITE % MAIS CARNE

OBTÉM MAIS POTÊNCIA DO RÚmen LEVUCELL SC, a Levedura Viva Específica para o Rúmen, pode melhorar o rendimento da exploração durante todas as etapas da produção de leite e carne, ajudando a proteger o meio ambiente ao produzir mais com a mesma quantidade de alimento. LEVUCELL SC ajuda a maximizar a energia e a melhorar o pH do rúmen (reduzindo o risco de acidose ruminal sub-aguda), a favorecer o desenvolvimento do rúmen e a aumentar a digestibilidade da fibra. Alimente todos os dias com LEVUCELL SC, a Levedura Viva Específica para o Rúmen, e prepare a sua exploração para atingir a máxima eficiência.

*Saccharomyces cerevisiae CNCM I-1077

(*)Nem todos os produtos estão disponíveis em todos os mercados, nem se aceitarão reclamações em todas as regiões.

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PRODUÇÃO | ENTREVISTA A CARLOS SIMÕES

REBANHOS D'AVÓ

QUANDO SE INICIOU NESTA ATIVIDADE, CARLOS COMEÇOU COM UM REBANHO MISTO DE OVELHAS E CABRAS QUE PERTENCIA À SUA AVÓ. HOJE, COM UMA GENÉTICA MELHORADA E BOAS PRODUÇÕES, TEM PLANOS PARA CONTINUAR A CRESCER. Por Ruminantes

R

ebanhos d'Avó é o nome da exploração que Carlos Simões gere, em sociedade com três familiares. Situa-se em Quatro Lagoas, Pombalinho, no concelho de Soure, e dedica-se à produção de leite de ovelha e cabra que é vendido para o fabrico do afamado queijo Rabaçal. Há dez anos, quando iniciou esta atividade, Carlos começou com um rebanho misto que pertencia à sua avó. Desde 2015, tem vindo a melhorar o efetivo de cabras e ovelhas com animais de boa genética. Melhorou também as instalações com a construção dum pavilhão com capacidade para 720 animais adultos. “Em 2015 – conta Carlos –, aumentei o efetivo com 50 ovelhas compradas em Espanha e 50 cabras de raça murciana. Hoje, tenho 450 ovelhas Lacaune (210 das quais foram compradas em França com pedigree) e 100 cabras Saanen, Murcianas e cruzadas. No total temos um efetivo de 550 animais adultos”. Para além da produção de leite, a exploração também vende animais ao desmame, fêmeas e 38

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machos Lacaune puros. "Na altura em que começámos o negócio, a oferta de leite de caprinos na região era superior à de ovinos", explica Carlos, "foi por isso que decidimos aumentar o efetivo de ovinos, já que o queijo produzido nesta região, o rabaçal, necessita dos dois leites." A raça escolhida foi a Lacaune devido “ao extrato queijeiro, à rapidez de ordenha e às elevadas produções”. Atualmente, a produção média por ovelha na exploração é de 3,47 litros, e o extrato queijeiro é de 12, com 6,5 de gordura e 5,5 de proteína. Carlos Simões considera que o segredo para obter estas produções passa essencialmente por três fatores: “a genética, o maneio e um controlo muito rigoroso ao nível sanitário.” GENÉTICA Para manter o elevado nível genético, diz Carlos, "compramos carneiros testados e são esses os que vão na linha de frente nas cobrições. As melhores filhas desses carneiros, na segunda lactação, serão inseminadas." Os critérios em que se baseiam

para a seleção do sémen, são “a produção e o extrato queijeiro”. No que se refere à seleção das borregas, são selecionadas a partir das melhores mães. Por outro lado, é feita a classificação, de 0 a 5, do úbere, do volume e da estimativa de produção. De acordo com Dinis Mendes, engenheiro zootécnico,“estão quase todas entre 4 e 5." Segundo Carlos Simões, o número de ovelhas por carneiro, por lotes, é de 8 a 9: "Pegam quase todas à primeira mas as multíparas têm maior taxa de sucesso". MANEIO Os animais são distribuídos por 3 parques de acordo com as produções (altas, acima de 2,5 litros; médias, entre 1,5 e 2,5 litros; e baixas, de 1 a 1,5 litros). As ovelhas recém-paridas vão para as “altas” onde permanecem 15 a 20 dias em observação. Se não atingirem as produção desejada, passam para as “médias”. Outro critério que utilizam na divisão por parques é o estado corporal; se o animal estiver com peso a mais vai para as “médias”


Rebanhos d'Avó

DA ESQª: DINIS MENDES, ENGº ZOOTÉCNICO; JOÃO MATEUS, TÉCNICO DA NANTA; CARLOS SIMÕES, SÓCIO GERENTE DA EXPLORAÇÃO.

DADOS GLOBAIS OVINOS PARÂMETROS

2019 2020

PRODUÇÃO DE LEITE L/DIA

3,07

GORDURA %

6,4

6,4

PROTEINA %

5,8

5,45

3,14

PROLIFICIDADE

1,71 -

FERTILIDADE NULIPARAS %

82

-

89,6

-

1,2

1,1

FERTILIDADE MULTIPARAS % IC KOMPLET (Kg conc./L leite) Fonte:Gestimilk - Nanta

DADOS GERAIS DA EXPLORAÇÃO Nome: Rebanhos d'Avó, Lda. Localização: Quatro Lagoas, Pombalinho, Soure Nº de empregados: 3 Efetivo: 550 animais Nº cabras: 100 | Nº ovelhas: 450 EFETIVO Nº animais em produção: 167 Nº de ordenhas por dia: 2 (de 12 em 12 horas) Tempo de ordenha: 2 horas de manhã e 2 à tarde Produção atual de leite média/dia: 3,47 litros/ovelha Produção de leite total das ovelhas/dia: 580 litros  Idade à 1ª cobrição: 8 meses, a partir dos 30 kg 1º parto: aos 14 meses

ainda que tenha uma produção elevada. Para obter boas produções de forma consistente, Carlos considera muito importante uma boa gestão do período de partos: “Na primeira quebra, é feito um lote com os animais cuja produção cai para valores inferiores a 2,5 litros, e vão para a cobrição.” Nesta exploração não há épocas de parições definidas: "As cobrições não são planeadas, não queremos ter picos de produção", explica Carlos.

os inúmeros problemas que isso trazia", conta Carlos. "Com este sistema, tenho menos problemas de saúde animal e maior estabilidade a nível produtivo e da qualidade do leite”, conclui. De acordo com a explicação de João Mateus, técnico da Nanta, o Ovikomplet é adequado às explorações que têm os animais agrupados em lotes de produção.

ALIMENTAÇÃO A base da alimentação do rebanho é uma mistura de palha com luzerna, e ração (900-1000g/litro). As forragens usadas são de feno de luzerna e palha. O concentrado adotado é o sistema Komplet da Nanta, à discrição, “mas somente para os animais com altas produções, diz Carlos. “Faz agora um ano que entraram as ovelhas francesas para a produção e houve alguma pressão por parte do queijeiro ao nível do extrato queijeiro. Então, alterámos de Ovikomplet para Ovikomplet EQ, o que não foi suficiente para alcançar os requisitos, e por isso, a conselho do técnico de pequenos ruminantes João Mateus, da Nanta, introduzimos também semente de algodão na mistura total. Com isto, conseguimos subir o extrato queijeiro em cerca de 1,5% sem prejuízo para a produção”, afirma Carlos. O Ovikomplet da Nanta foi o sistema reomendado pela marca para esta exploração, uma vez que não produzem forragens. “No início fazia as silagens e fenossilagens com

Quais são os grandes desafios nesta exploração? A mão-de-obra qualificada, que acho que é transversal a este setor.

3 QUESTÕES

Quais são os objetivos para daqui a 5 anos? Ter mais animais e mais tecnologia. Temos que duplicar o espaço da exploração, para 1400 animais, metade ovelhas, metade cabras. Para breve, quero atingir 1000 litros de leite de ovelha/dia, pois, para manter a exploração com os objetivos de crescimento e investimento que pretendo é esse o patamar que temos que alcançar. De que indicadores se serve para ver se o negócio vai num bom caminho? Diariamente, dou a volta à exploração e verifico o consumo de alimento na manjedoura e a quantidade de leite no tanque. Mensalmente, faço o balanço entre o faturado e as despesas. RUMINANTES | ABR/MAI/JUN 2020

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Foto: Micrografia abstrata de cristais de aminoácidos, metionina, fotografada ao microscópio a 40X.

ALIMENTAÇÃO | BOVINOS DE LEITE

BIODISPONIBILIDADE

PARA COBRIR AS NECESSIDADES ELEVADAS DE CERTOS AMINOÁCIDOS (METIONINA E LISINA), É IMPRESCINDÍVEL A INCORPORAÇÃO NA DIETA DE PRODUTOS TECNOLÓGICOS À BASE DESTES AMINOÁCIDOS PROTEGIDOS DE FORMA A EVITAR A DEGRADAÇÃO RUMINAL.

N JAVIER LOPEZ Technical Sales Manager RUMINANTES KEMIN em Espanha e Portugal javier.lopez@kemin.com

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os últimos anos temos vindo a assistir a um aumento da quantidade de leite que é produzido diariamente pelas vacas leiteiras. À medida que os rendimentos produtivos vão aumentando, é necessário procurar ferramentas que nos ajudem a satisfazer os requisitos nutricionais destes animais. No que diz respeito à nutrição proteica, para cobrir as necessidades elevadas de certos aminoácidos (AA) (Metionina e Lisina) é imprescindível a incorporação na dieta de produtos tecnológicos à base destes aminoácidos protegidos de forma a evitar a degradação ruminal (RPAA). Devido à crescente procura por estes produtos, têm aparecido no mercado, nos últimos anos, múltiplas ofertas com diferentes tecnologias de proteção e diferentes características técnicas. Para que tenham uma boa qualidade, devem assegurar que uma grande percentagem passe pelo rúmen sem sofrer degradação e apresentar uma boa digestibilidade intestinal. Com estas duas características, consegue-se uma elevada “biodisponibilidade”. Este termo, biodisponibilidade, é a chave para poder entender as diferenças entre os diferentes produtos disponíveis no mercado. Representa a quantidade de metionina ou de lisina por unidade de produto que é realmente digerida pelo animal.

Por exemplo, se afirmamos que um produto de metionina tem 50% de biodisponibilidade, isto quer dizer que, por cada 100g de produto, 50g serão digeridos no intestino do animal. Para que um produto seja altamente biodisponível deve cumprir dois requisitos básicos: - ter uma elevada % de produto que atravessa o rúmen sem sofrer degradação; - ser digerido no intestino numa elevada percentagem. Este segundo aspeto é importante, já que um produto pode estar bem protegido da degradação ruminal, mas não ser digerido no intestino e acabar por ser excretado nas fezes. Para conseguir uma elevada biodisponibilidade os produtos devem também ter várias características técnicas: - elevada concentração de AA; - elevada gravidade específica para que abandonem o rúmen assim que possível; - cobertura adequada para resistir não só à degradação ruminal, mas também aos diferentes processos que pode sofrer ao longo de todo o processo de alimentação do animal (processos de mistura e tratamento em fábricas de ração ou premix, estabilidade em TMR, mastigação pelo animal); - a cápsula deve ser libertada o mais cedo possível no abomaso para poder garantir a


Biodisponibilidade

"BIODISPONIBILIDADE É A CHAVE PARA ENTENDER AS DIFERENÇAS ENTRE OS VÁRIOS PRODUTOS DISPONÍVEIS NO MERCADO." maior digestibilidade no intestino. Abordaremos de seguida os diferentes métodos existentes para calcular a biodisponibilidade de um produto, já que não só devemos procurar apenas que o produto que usamos tenha uma elevada biodisponibilidade, mas também que o cálculo da mesma seja obtido por um método o mais fiável possível. Ou seja, que esta informação que o fabricante nos dá seja confiável. Assim, existem basicamente três tipos de métodos: “in vitro”, “in situ” e “in vivo”. MÉTODOS “IN VITRO” Os métodos “in vitro” são testes realizados em laboratório onde se simula um ambiente ruminal e intestinal de forma a simular a degradação ruminal e a digestibilidade e digestão intestinal. Alguns destes métodos utilizam líquido ruminal recolhido de ovelhas ou vacas, enquanto outros utilizam modificadores de pH para imitar o ambiente ruminal. Nesta técnica é feita a incubação do produto simulando um ambiente ruminal durante um tempo fixo; posteriormente simula-se um ambiente abomasal e, por último, um ambiente intestinal para avaliar a libertação nesta fase. FIGURA 1 Estes métodos são muito utilizados porque são rápidos, simples e económicos. No entanto, não nos dão informação fiável sobre biodisponibilidade porque, entre outros aspetos, não têm em conta a taxa de passagem dos diferentes produtos já que têm um tempo fixo de incubação. São uma boa ferramenta nas primeiras fases de desenvolvimento de um produto, de forma a descartar os que não obtenham bons resultados “in vitro”. Se na descrição de um produto só nos são oferecidos dados “in vitro” devemos ter em conta que é um método que apresenta limitações.

MÉTODOS “IN SITU” Os métodos “in situ” consistem na incubação ruminal através de cânulas ruminais de bolsas de nylon, geralmente com um tempo fixo de 16 horas. Uma vez decorrido esse tempo, são retirados do rúmen e lavados com água fria até que saia limpa. Posteriormente, são transferidos para um recipiente com HCLPepsina, a 39ºC, onde se mantêm durante 2,5 horas para simular as condições do abomaso. O passo seguinte consiste na sua introdução em bolsas mais pequenas, para serem introduzidos no duodeno através de uma cânula intestinal. As bolsas são recuperadas nas fezes, sendo de seguida lavadas até que a água saia limpa, e então a biodisponibilidade é calculada: a percentagem de aminoácidos que escapam à ação do rúmen e a percentagem de aminoácidos que desaparecem no intestino. Este método tem várias limitações: - não estima o atrito contra as paredes do rúmen; - não simula tempos reais de passagem pelo rúmen (diferentes entre produtos); - não estima mastigação e ruminação; - não mede a digestibilidade intestinal. Pode sobrevalorizar a digestibilidade intestinal, uma vez que a calcula como a diferença entre a quantidade que passa no rúmen e a que aparece nas fezes, não tendo em conta que parte do produto pode ser libertado no intestino grosso. MÉTODOS “IN VIVO” Os métodos “in vivo” têm a vantagem de proporcionar estimativas reais de biodisponibilidade nos animais para que estão destinados, já que se realizam em condições de campo. Dentro dos métodos “in vivo”, iremos centrar-nos nos mais comuns: • Área abaixo da curva • Resposta de AA livre no plasma (Rulquin e Kowalczyk, 2003)

FIGURA 1. ESQUEMA DE MÉTODO “IN VITRO” DE TRÊS FASES (MIURA MAKOTO, COMUNICAÇÃO PESSOAL.)

Fase ruminal

Fase abomasa

Fase intestinal

Saco de nylon

McD´s Tampão 900 ml 39ºc

Amostra

Amostra Modelo de abomaso Tampão 900 ml 39ºc

% de redíduos (A) (≈by-pass rúmen)

Modelo intestino delgado Tampão 900 ml 39ºc

Taxa de dissolução % (B) (≈ dissolução no abomaso)

Amostra

Taxa de dissolução % ( C) (≈dissolução no intestino)

• Resposta de AA livre no plasma (Whitehouse, 2017) ÁREA ABAIXO DA CURVA O método conhecido como área abaixo da curva utiliza vacas em lactação ou vacas secas, com uma cânula ruminal e cateteres jugulares para extração de sangue. São retiradas amostras de sangue iniciais antes da suplementação com AA, geralmente às 24,12, 6 e 0 horas para estabelecer valores basais para a concentração plasmática da prova AA. Os animais recebem os tratamentos de AA como uma dose pulsátil. Para o tratamento de controlo positivo, o AA é administrado por infusão abomasal. O AA protegido (RPAA) da ação ruminal é geralmente proporcionado como uma dose em bólus em vez de através da cânula ruminal. Para a infusão, a dose completa de AA é infundida durante as primeiras 2 horas do período de colheita de sangue. São colhidas amostras de sangue a cada 1 a 2 horas durante as primeiras 14 horas, posteriormente menos frequentes até 48 ou 72 horas depois da medição, de forma a garantir que há um retorno às concentrações de referência. Todas as amostras plasmáticas são analisadas relativamente ao AA de interesse. Os valores de referência para cada vaca são obtidos através da média dos valores obtidos, e posteriormente subtraídos aos valores obtidos depois da suplementação. Estes valores são de seguida utilizados para elaborar um gráfico e a análise da área abaixo da curva trapezoidal elementar é realizada através da multiplicação do aumento médio da concentração de aminoácidos entre dois tempos de amostragem consecutivos e a duração do intervalo. A área total abaixo da curva é a soma da área abaixo da curva elementar calculada. GRÁFICO 1 Uma das principais limitações deste método é o facto de os animais receberem uma grande dose pulsátil, tanto do AA protegido como de tratamentos de infusão, quantidades que não se encontrariam em condições normais de alimentação. Outra limitação é que o animal não consome RPAA exposto a TMR. A dose pulsátil é geralmente depositada através da cânula ruminal no rúmen ao nível da fase líquida, por baixo do material fibroso. Isto provavelmente resulta em que flua para fora do rúmen mais rapidamente do que se o animal se alimentasse em condições normais. As estimativas de biodisponibilidade estão linearmente relacionadas com a quantidade de doses pulsáteis. Com doses mais altas há maiores concentrações de AA no plasma sanguíneo.

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Biodisponibilidade

RESPOSTA DE AA LIVRE NO PLASMA (WHITEHOUSE, 2017) Este método é uma evolução do anteriormente proposto. É atualmente o método mais fiável, uma vez que a sua execução exige mais requisitos que o anterior. No QUADRO 1 estão explicados os principais pontos que devem ser cumpridos para testar um produto segundo este método. Conclusão Quando estamos perante o momento de decidir comprar um determinado produto de AA protegidos, não devemos ter só em conta a biodisponibilidade declarada pelo produtor, como também os métodos de validação dessa biodisponibilidade para que os dados sejam fiáveis.Tal como afirmámos anteriormente, o último método é o mais fiável. No entanto, por ser mais caro e trabalhoso, não há muitas empresas que tenham a capacidade de o realizar. BIBLIOGRAFIA: Mbanzamihigo et al. 1997; Ross et al., 2013; Miyazawa et al., 2014; Larson et al., 2015; Robert et al., 1997; Graulet at al., 2005; Devillard et al., 2011; Faivre et al., 2013; Evans et al., 2013; Rulquin y Kowalczyk, 2003; Borucki Castro et al., 2008; Hanigan et al., 2009; Whitehouse, 2017; Graulet et al., 2005; Evans et al., 2013.

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GRÁFICO 1 EXEMPLO DE ÁREA ABAIXO DA CURVA 45 40 35 Infusão

% TAA

30

RPAA

25 20 15 10 5 0 0

30

60

120 240 360 480 600 720 900 1380 1560 1740

Minutos

GRÁFICO 2 AA LIVRE NO PLASMA (DOSE-RESPOSTA) 5.5

Lisina/Metionina % total AA (µM)

RESPOSTA DE AA LIVRE NO PLASMA (RULQUIN E KOWALCZYK, 2003) O método de resposta à dose de AA livre no plasma é um método mais direto porque identifica alterações nas concentrações plasmáticas de AA à medida que se administram quantidades crescentes de um AA. Um dos critérios para o método de resposta à dose de AA livre no plasma é que existe uma relação linear entre as quantidades medidas de AA alimentado ou infundido e a concentração de AA no plasma (à medida em que se aumenta a dose do AA administrado, deve aumentar a concentração desse AA no plasma sanguíneo). Esta linearidade tem sido demonstrada tanto em faixas com deficiência em AA como em faixas com aportes superiores às necessidades. Este método consiste em avaliar as quantidades de AA livre no plasma sanguíneo, à medida que vamos aumentando as quantidades de AA administradas. É feita uma infusão de água no duodeno como grupo controlo, uma infusão de AA no duodeno e duas vezes ao dia são colocados no rúmen os RPAA em níveis semelhantes aos infundidos no duodeno. Retiram-se amostras de sangue a cada hora, durante doze horas, no último dia de cada tratamento (dia 4). Neste dia, é alcançada uma concentração estável de AA que não varia depois. A força deste método, em comparação com os outros, é que proporciona valores obtidos em animais. GRÁFICO 2 No GRÁFICO 2 podemos observar os aumentos da concentração de AA à medida que aumentamos a suplementação. A curva com maior pendente representa o aumento na concentração de AA à medida que aumentamos a quantidade de AA infundida. A de menor pendente representa o aumento na suplementação de aminoácido protegido da ação ruminal. A relação entre ambas representa a biodisponibilidade relativa do produto em estudo.

5.0

4.5

4.0

3.5

3.0 0

10 20 30 40 50 60 70

AA (g/dia)

QUADRO 1 RECOMENDAÇÕES PARA A DETERMINAÇÃO DA BIODISPONIBILIDADE RELATIVA DE RPAA (ADAPT. WHITEHOUSE ET AL., 2017) Protocolo – Quadrado latino com todos os tratamentos Animais – Vacas leiteiras com cânula ruminal com ingestão de matéria seca e dias em lactação semelhantes. Evitar animais em inicio de lactação. Dieta basal – Dieta balanceada três vez por dia com intervalos de 8h Período – Colheita de amostras de leite e sangue durante 3 dias para obter valores basais Tratamento – 3 doses de AA por infusão abomasal/duodenal e o mesma quantidade do AA protegido da acção ruminal por via oral. RPAA alimentar – Misturar o RPAA com 1,5kg de TMR e oferecer aos animais 30 min antes do tempo normal de alimentação. Se a mistura não for totalmente consumida no prazo de 15 min, introduzir os restos no rúmen através da cânula. Duração - mínimo de 7 dias para cada tratamento Amostras de sangue – colheita de 4 amostras (veia coccigea ou jugular) com intervalos de duas horas, após a alimentação da manhã, durante os 3 últimos dias de cada período de amostragem. Análise de Outliers/Cálculo de biodisponibilidade relativa – Fazer uma análise univariável para determinar a concentração plasmática do AA e dividir o declive da suplementação com RPAA pelo declive da infusão de AA e mutiplicar por 100.


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PRODUÇÃO DE QUEIJO NA UNIDADE PILOTO DE LÁCTEOS DO CENTRO DE APOIO TECNOLÓGICO AGRO-ALIMENTAR DE CASTELO BRANCO (CATAA).

OVELHAS EM PASTOREIO NA REGIÃO DA BEIRA BAIXA.

INDÚSTRIA | OVINOS

QUEIJO DA BEIRA BAIXA

O QUEIJO DA BEIRA BAIXA COM DOP TIPO CASTELO BRANCO É UM PRODUTO LÁCTEO OBTIDO A PARTIR DE LEITE CRU DE OVELHA. NESTE ARTIGO ABORDAMOS A SUA CARACTERIZAÇÃO NUTRICIONAL E MICROBIOLÓGICA. 1

Por Cristina Miguel Pintado1; Luísa Paulo1; Ana Silveira1, Mafalda Resende1, Ana Riscado1, Helena Beato1; António Moitinho Rodrigues1,2,3 CATAA Zona Industrial, Rua A, 6000-459 Castelo Branco; 2 ESA-IPCB Quinta da Sra de Mércules, 6001-909 Castelo Branco; 3 CERNAS-IPCB Projeto FCT UID/AMB/00681/2019.

O

Queijo da Beira Baixa com DOP Tipo Castelo Branco (Queijo de Castelo Branco com DOP) é um produto lácteo obtido a partir de leite cru de ovelha. O agente coagulante é o cardo (Cynara cardunculus). O processo de maturação dura pelo menos 40 dias e efetuase entre 8 e 14 °C e 80 e 90% de humidade relativa. Durante muitos anos, foram ovelhas das raças autóctones Merino da Beira Baixa e Churra do Campo que produziram o leite destinado ao fabrico deste tipo de queijo. Embora alguns produtores ainda hoje tenham ovelhas Merinas, a maior parte do leite utilizado no fabrico do Queijo de Castelo Branco com DOP tem origem em explorações que utilizam ovelhas das raças Assaf, Lacaune, cruzamentos entre estas duas raças e cruzamentos com a raça Merina. O clima da área geográfica de produção dos Queijos da Beira Baixa é Termo Mediterrânico o que condiciona a sazonalidade da produção de leite de ovelha, influenciada pela maior ou menor disponibilidade de pastagens. As características destes queijos devem-se ao facto dos rebanhos serem mantidos ao ar livre durante todo o ano com acesso a pastagens naturais ou semeadas. A APQDCB é a entidade responsável pela gestão dos Queijos da Beira Baixa com DOP, sendo a Beira Tradição o organismo

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privado de controlo e certificação. Dados da DGADR (2018) permitem concluir que em 2017 foram 65 as explorações a fornecer leite às cinco queijarias licenciadas que produziram 44.210 kg de Queijo de Castelo Branco com DOP. Esta produção correspondeu a 2,8% do total de queijos com DOP produzidos em Portugal. Em 2017 o preço médio de venda foi de 12,83 € kg-1 e a principal modalidade de escoamento foram as Grandes Superfícies com 90% do total produzido. Relativamente aos mercados de destino, 5% foi comercializado nos concelhos de produção, 90% no mercado nacional exterior aos concelhos de produção e 5% foi exportado para França (DGADR, 2018). O objetivo deste trabalho foi avaliar a composição nutricional e a qualidade microbiológica de Queijos de Castelo Branco com DOP. MATERIAL E MÉTODOS Este trabalho resultou da avaliação de parâmetros físico-químicos e microbiológicos de 16 queijos inteiros produzidos entre 2014 e 2018 em quatro queijarias licenciadas para a produção de Queijos da Beira Baixa com DOP. Os queijos foram recolhidos em diversos pontos de venda. As análises laboratoriais foram realizadas nos laboratórios do Centro de Apoio Tecnológico Agro-Alimentar de Castelo Branco (CATAA). Os métodos laboratoriais utilizados estão referidos nas Tabelas 1 - 3.

Determinaram-se parâmetros físico-químicos e microbiológicos que permitem perceber a qualidade dos queijos colocados no mercado. RESULTADOS E DISCUSSÃO PARÂMETROS FÍSICO-QUÍMICOS Na Tabela 1 apresenta-se a composição

nutricional média por 100 g de Queijo de Castelo Branco com DOP. Os valores médios para os 16 queijos analisados foram os seguintes: Energia Metabolizável 402,5 (±29,72) kcal; gordura 33,8 g (±3,18) da qual 21,8 g (±2,52) de ácidos gordos saturados; proteína 22,1 g (±0,99); hidratos de carbono 2,5 g (±0,84); sal 1,7 g (±0,66). A humidade média isenta de gordura (56,95% ±2,95) está dentro dos valores referidos no Caderno de Especificações (CE) (54-69%). No entanto, dois dos queijos analisados (12,5%) apresentaram humidade mais baixa (51,2% e 53,5%), provavelmente como consequência de um tempo de cura superior aos 40 dias previstos no CE (DGADR, 2020). O teor médio de gordura no resíduo seco foi de 54,2% (±2,62) e 100% dos queijos analisados apresentaram valores conforme previsto no CE (45-60%). Na Tabela 2 apresenta-se a composição em ácidos gordos do Queijo de Castelo Branco com DOP. Realçam-se as percentagens de ácidos gordos hipocolesterémicos (30,24% ±1,219), de ácido oleico (26,71% ±1,204) e de ácidos gordos polinsaturados (3,99% ±0,327).


Queijo da Beira Baixa com DOP Tipo Castelo Branco

"OS QUEIJOS ANALISADOS NESTE TRABALHO APRESENTARAM AUSÊNCIA DE LISTERIA MONOCYTOGENES E DE SALMONELLA SPP." Alguns autores têm vindo a referir que a gordura do leite obtido com base no pastoreio tem um perfil de ácidos gordos diferente do leite proveniente de sistemas de produção mais intensivos (Rego et al., 2009; Kalač e Samková, 2010). Para os mesmos autores, a influência do pastoreio traduz-se no aumento de ácidos gordos polinsaturados como os ácidos ruménico (CLA C18:2 cis‑9,trans-11), linoleico (C18:2 n-6) e α-linolénico (C18:3 n-3). Os CLA, como o ácido ruménico e o ácido vacénico (C18:1 trans-11), representam um grupo de isómeros geométricos e posicionais do ácido linoleico, sendo o ácido ruménico o isómero mais abundante e biologicamente mais ativo. O ácido ruménico apresenta benefícios potenciais para a saúde humana e os ácidos oleico (C18:1 n-9), linoleico e α-linoleico são considerados hipocolesterémicos (Teixeira, 2015). Outros autores têm referido os benefícios do ácido butírico (C4:0) para a saúde humana quando ingerido em pequenas quantidades. Regula a diferenciação das células da mucosa intestinal, induz a apoptose para controlar a inflamação e tem propriedades antineoplásicas (Collard et al., 2003). Embora o valor médio de C4:0 dos Queijos de Castelo Branco DOP tenha sido reduzido (0,76% ±0,311), 19% dos queijos analisados apresentaram valores superiores a 1%. PARÂMETROS MICROBIOLÓGICOS

No que concerne à caraterização microbiológica de Queijo da Beira Baixa DOP Tipo Castelo Branco, os resultados, apresentados na Tabela 3, mostraram uma dispersão de valores característica de queijos obtidos a partir de leite cru e sem adição de culturas microbianas. Nesta tipologia de queijo, resultante do esgotamento lento da coalhada após a coagulação de leite cru com um preparado de cardo (Cynara cardunculus L.), sem adição de culturas microbianas, a microbiota responsável pela maturação tem origem principalmente

no leite e no ambiente e superfícies das queijarias. Importa ainda sublinhar a relevância do binómio temperatura/tempo de armazenamento do leite, entre a ordenha e o fabrico, na sua qualidade microbiológica e consequentemente na qualidade do produto final (Montel et al., 2014). A microbiota do queijo compreende bactérias, leveduras e bolores, estabelecendo-se uma sucessão de populações e de protagonistas: uns microrganismos desenvolvem-se mais nas etapas iniciais da fermentação (com produção de ácidos), enquanto outros predominam nas fases intermédias e finais da maturação (proteólise e lipólise). No produto final analisado neste trabalho registou-se o domínio de bactérias lácticas (≥ 108 UFC g-1), que devido ao seu metabolismo contribuem para a composição nutricional, propriedades organoléticas (textura e sabor) e segurança microbiológica (Montel et al., 2014). Também é reconhecido o contributo dos bolores e leveduras, no desenvolvimento do sabor característico de queijos tradicionais, sendo que nos queijos analisados foram encontrados valores compreendidos entre <10-106 UFC g-1, como mostra a Tabela 3. Enterobacteriaceae apresenta, por um lado, interesse tecnológico contribuindo para o perfil sensorial destes produtos mas, por outro lado, a intensa atividade proteolítica e lipolítica pode conduzir à formação de sabores desagradáveis, para além de incluir agentes patogénicos. Mais ainda, a produção de gás por parte de muitas destas bactérias pode estar relacionada com defeitos, como por exemplo a presença excessiva de olhos e de fendas na massa do queijo (Tabla et al., 2006). Como podemos observar na Tabela 3, com valores médios da ordem de 104-105 UFC g-1, surgem indicadores de higiene como, enterobactérias, bactérias coliformes e Escherichia coli, o que pode constituir um indicador da necessidade implementar medidas que promovam a qualidade do leite cru e a higiene dos processos (especialmente por uma das

queijarias). Concretamente para E. coli, mais de metade dos queijos analisados (62,5%) apresentaram contagens inferiores ao limite de quantificação (<10 UFC g-1) o que provavelmente está associado à boa qualidade higiénica das matérias primas e das boas práticas na laboração, bem como à inexistência de condições intrínsecas do queijo para a eventual proliferação desta microbiota (Metz et al., 2020). O enquadramento legal na União Europeia relativamente a critérios de higiene dos processos aplicáveis a queijos fabricados com leite cru, indica exclusivamente que contagens de Staphylococci coagulase positiva superiores a 105 UFC g-1, determinam a deteção de enterotoxinas estafilocócicas (com implicações a nível da segurança alimentar), aplicando-se este critério na operação de fabrico em que se prevê que a carga deste grupo de microrganismos seja mais elevada (Regulamento CE N.º 1441/2007). Em mais de metade dos queijos (62,5%), as contagens destes microrganismos foram inferiores ao limite de quantificação (<10 UFC g-1), mas um dos queijos, analisado durante o período de vida útil, apresentou 1,2 x 104 UFC g-1 (Tabela 3). Existe uma grande controvérsia em redor do consumo de queijo laborado com leite cru, sendo afloradas questões associadas à presença de microrganismos patogénicos (Ganz et al., 2020). Os queijos analisados neste trabalho, recolhidos em diversos pontos de venda, apresentaram ausência (em 25 g da amostra) de Listeria monocytogenes e de Salmonella spp., revelando qualidade microbiológica satisfatória (Regulamento CE N.º 1441/2007). No âmbito desta temática, recomenda-se a comunicação clara dos riscos associados ao consumo de queijo laborado com leite cru para os consumidores pertencentes aos grupos vulneráveis, como sejam crianças, idosos, grávidas e indivíduos cujo sistema imunitário esteja debilitado.

Tabela 1 CARACTERIZAÇÃO FÍSICO-QUÍMICA DO QUEIJO DA BEIRA BAIXA COM DOP TIPO CASTELO BRANCO PARÂMETRO

MÉTODO

MÍN.

MÁX.

MÉDIA (±DESVIO PADRÃO)

Valor energético (kcal 100 g )

Cálculo, Reg. (UE) N.º 1169/2011 25 outubro

342,1

448,6

402,5 (±29,72)

Gordura (g 100 g-1)

Van Gulik, NP 2105:1983

27,0

39,0

33,8 (±3,18)

-1

dos quais ácidos gordos saturados

GC-FID, Mét. Interno

15,7

25,4

21,8 (±2,52)

Gordura no resíduo seco (g 100 g-1)

Van Gulik, NP 2105:1983

48,7

57,8

54,2 (±2,62)

Hidratos de carbono (g 100 g-1)

Cálculo, Reg. (UE) N.º 1169/2011 25 outubro

0,8

3,9

2,5 (±0,84)

Proteína (g 100 g-1)

Kjeldahl, Mét. Interno

20,3

23,7

22,1 (±0,99)

EAA/ICP OES- Mét. Interno

0,8

2,9

1,7 (±0,66)

Gravimetria, Mét. Interno

51,2

61,3

56,95 (±2,95)

Sal (g 100 g-1) Humidade isenta de gordura (g 100 g ) -1

N=16; GC-FID- Cromatografia gasosa com detector de ionização de chama; EAA - Espectrofotometria de absorção atómica com chama; ICP OES - Espectrometria de emissão óptica por plasma acoplado indutivamente.

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Queijo da Beira Baixa com DOP Tipo Castelo Branco

Tabela 2 PERFIL DE ÁCIDOS GORDOS DO QUEIJO DA BEIRA BAIXA DOP TIPO CASTELO BRANCO ÁCIDOS GORDOS (%)

MÍNIMO

MÁXIMO

MÉDIA (±DESVIO PADRÃO)

SATURADOS Butírico(2)

C4:0

0,4

1,5

0,76 (±0,311)

Capróico

C6:0

0,5

1,5

0,94 (±0,259) 1,33 (±0,227)

Caprílico

C8:0

0,9

1,8

Cáprico(2)

C10:0

4,5

6,6

5,18 (±0,601)

Láurico(1)

C12:0

3,1

4,1

3,60 (±0,252)

Mirístico(1)

C14:0

9,3

11,5

10,36 (±0,579)

Pentadecanóico

C15:0

0,8

1,1

0,94 (±0,075)

(1)

Palmítico

C16:0

24,2

30,3

27,82 (±1,689)

Margárico

C17:0

0,2

0,3

0,28 (±0,023)

Esteárico(2)

C18:0

11,5

13,9

12,70 (±0,805)

MONOINSATURADOS Palmitoleico

C16:1

0,9

1,3

1,11 (±0,110)

Oleico(3)

C18:1

24,3

28,5

26,71 (±1,204)

POLINSATURADOS Linoleico(3)

C18:2

2,7

3,2

2,92 (±0,194)

α-linolénico(3)

C18:3

0,4

1,2

0,61±(0,210)

Monoinsaturados

-

25,5

29,6

27,89 (±1,198)

Polinsaturados

-

3,6

4,9

3,99 (±0,327)

Hipercolesterémicos

-

36,8

45,8

41,78 (±2,322)

Neutros

-

17,0

20,0

18,65 (±0,959)

Hipocolesterémicos

-

27,7

31,9

30,24 (±1,219)

N=16; (1) – ácidos gordos hipercolesterémicos; (2) – ácidos gordos neutros; (3) – ácidos gordos hipocolesterémicos (Teixeira, 2015).

Tabela 3 CARACTERIZAÇÃO QUANTITATIVA DE MICROBIOTA DO QUEIJO DA BEIRA BAIXA DOP TIPO CASTELO BRANCO PARÂMETRO

MÉTODO (REFERÊNCIA*)

Contagem (UFC g )

MÍNIMO

MÁXIMO

MÉDIA

Número Mais Provável (NMP)

-1

Bactérias lácticas mesófilas

TEMPO LAB™ (ISO 15214:1998)

1,4x108

3,0x109

1,1x109

Bolores e leveduras

TEMPO YM™ (ISO 21527-2:2008)

<10

3,7x10

3,1x105

Enterobactérias

TEMPO EB™ (ISO 21528-2:2004)

3,2x101

3,7x106

5,0x105

Bactérias coliformes

TEMPO TC™ (ISO 4832:2006)

3,9x10

1,4x10

1,9x105

Escherichia coli β-glucorunidase positiva

TEMPO EC™ (ISO 16649-2:2001)

<10

2,0x106

1,4x104

Staphylococci coagulase positiva

TEMPO STA™ (ISO 6888-2:1999/Amd 1:2003)

<10

1,2x104

8,2x102

Pesquisa em 25 g

2

6

6

Ensaio Imunoenzimático por Fluorescência (ELFA)

Listeria monocytogenes

VIDAS, LMO2™ (ISO 11290-1:1996/Amd 1:2004)

Ausência em 25 g

Salmonella spp.

VIDAS, Easy SLM™ (ISO 6579-1:2002)

Ausência em 25 g

N=16; UFC - Unidade Formadora de Colónia. *Validação das técnicas TEMPO™ (bioMérieux) e miniVIDAS™ (bioMérieux) para esta tipologia de matriz, considerando os métodos de referência definidos pela International Organization for Standardization (ISO).

CONSIDERAÇÕES FINAIS A variabilidade na qualidade do leite, inclusivamente na sua microbiota, conjuntamente com a diversidade do processo de fabrico nas diversas queijarias e das condições de armazenamento contribuem para as variações evidenciada pela caracterização físico-química e microbiológica de Queijo de Castelo Branco com DOP. As boas práticas de higiene, nos setores primário e secundário, e as boas práticas de fabrico, incluindo a seleção criteriosa de matérias-primas e o cumprimento do período mínimo de cura de 48

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40 dias, são determinantes para a obtenção de um produto final com qualidade físico-química, microbiológica e sensorial. Os queijos analisados neste trabalho, recolhidos em diversos pontos de venda, apresentaram valores médios de humidade isenta de gordura e de gordura no resíduo seco dentro dos intervalos previstos no Caderno de Especificações. Também apresentaram elevadas percentagem de ácido oleico, de outros ácidos gordos hipocolesterémicos e ausência de Listeria monocytogenes e de Salmonella spp. Revelaram qualidade microbiológica satisfatória.

REFERÊNCIAS A bibliografia que poderá ser disponibilizada pelos autores. AGRADECIMENTOS Este trabalho foi financiado pelo Projeto Inovação Aberta e Inteligente na Euroace – INNOACE, cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, através do Programa INTERREG V-A Espanha-Portugal (POCTEP) 2014-2020.


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SAÚDE E BEM-ESTAR | NOVILHAS LEITEIRAS

DERMATITE DIGITAL

UM DOS MAIORES DESAFIOS NA CRIAÇÃO DE NOVILHAS É O CONTROLO DA DERMATITE DIGITAL. NESTE ARTIGO ANALISAMOS A DERMATITE DIGITAL E O IMPACTO DOS OLIGOELEMENTOS DE DESEMPENHO NO DESENVOLVIMENTO DE NOVILHAS LEITEIRAS.

A

ARTURO GOMEZ DVM, Líder Global de Espécies RNS – Lácteos Zinpro Corporation agomez@zinpro.com

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criação de novilhas é uma parte importante de uma operação leiteira bem-sucedida. Atingir o tamanho adequado no primeiro parto, entre 22 e 24 meses de idade, é uma meta alcançável e que ajuda a otimizar uma produção de leite lucrativa. Uma dieta equilibrada e adequada das novilhas, incluindo vitaminas e oligoelementos de desempenho, é essencial para o seu desenvolvimento físico, partos saudáveis e maior produção de leite. Os oligoelementos são essenciais para o desenvolvimento de uma forte resposta imunológica e de um aparelho reprodutivo forte, mantendo a integridade da pele e

dos cascos e aumentando a capacidade de resistência do animal às doenças. DERMATITE DIGITAL E INFLAMAÇÃO

Um dos maiores desafios na criação de novilhas é o controlo da dermatite digital. Esta doença infeciosa da pata é frequentemente observada em novilhas e surge por volta da puberdade. As novilhas que desenvolvem dermatite digital no período de crescimento recebem frequentemente uma "pena perpétua" devido à natureza da doença e à dificuldade em tratar lesões crónicas quando as bactérias se instalam no animal. Sabemos que a dermatite digital altera o comportamento do animal. Dependendo da


Dermatite digital e o impacto dos oligoelementos

OS OLIGOELEMENTOS SÃO ESSENCIAIS PARA O DESENVOLVIMENTO DE UMA RESPOSTA IMUNOLÓGICA E DE UM APARELHO REPRODUTIVO FORTES, MANTENDO A INTEGRIDADE DA PELE E DOS CASCOS. gravidade, poderá levar a desconforto ou dor ao caminhar, períodos mais longos de descanso para evitar caminhar, maior gasto de energia para caminhar e, finalmente, redução no consumo de ração, uma vez que o animal não irá procurar comida com tanta frequência. Os nutrientes são desviados do seu crescimento e desenvolvimento para lidar com a dermatite digital e a inflamação associada. ZINCO: O OLIGOELEMENTO QUE AJUDA A GERIR A DERMATITE DIGITAL A investigação de análise de oligoelementos examinou os impactos da dermatite digital no desempenho das novilhas leiteiras em primeira lactação. O estudo testou um grupo de 719 novilhas aos seis meses antes do parto. Foram alimentadas com dois programas diferentes de oligoelementos; o grupo de controlo recebeu um programa de oligoelementos de sulfato inorgânico e o grupo de tratamento recebeu uma combinação de sulfatos e oligoelementos de desempenho da Availa-Plus, conjuntamente com uma Fórmula DD específica, numa dieta bem desenhada do ponto de vista nutricional. As novilhas foram monitorizadas quanto à dermatite digital e classificadas em três tipos aquando do parto: Tipo 1 - As novilhas nunca desenvolveram uma lesão de dermatite digital Tipo 2 - As novilhas tiveram um evento de lesão por dermatite digital Tipo 3 - As novilhas tiveram dois ou mais eventos de lesão por dermatite digital

As novilhas foram acompanhadas durante a primeira lactação e monitorizadas quanto à produção de leite, saúde dos cascos

e reprodução. As novilhas com um ou vários eventos de dermatite digital entre a reprodução e o parto apresentaram maior risco de desenvolvimento de dermatite digital na primeira lactação. % RISCO DE DERMATITE DIGITAL NA 1ª LACTAÇÃO Tipo 1

13,6%

Tipo 2

45,6%

Tipo 3

67,6%

Registou-se uma forte correlação entre o desempenho da reprodução das vacas e a dermatite digital. Em comparação com as novilhas que não sofreram dermatite digital antes do parto, as novilhas que tiveram múltiplos tratamentos com DD durante a recria tiveram diminuição na taxa de primeira conceção e um aumento no número de dias abertos. TIPO 1 VS. TIPO 2 E TIPO 3 RESPETIVAMENTE Taxa da 1ª conceção Dias abertos

42% 1ª conceção

36 - 29% 1ª conceção 4 - 25 Dias de aumento

Além disso, independentemente da incidência de dermatites digitais, as novilhas que receberam os oligoelementos de desempenho a partir do Availa-Plus, incluídos numa Fórmula DD específica, produziram mais 192 kg de leite durante os 305 dias iniciais, do que as novilhas do grupo de controlo alimentadas com oligoelementos inorgânicos, e tiveram um aumento de 11% na eficiência alimentar e de 5,6% de aumento na sobrevivência até o final da primeira lactação.

OLIGOELEMENTOS, FUNDAMENTAIS NA NUTRIÇÃO DE NOVILHAS LEITEIRAS À medida que aprendemos mais sobre como a dermatite digital infeta e se propaga num rebanho, torna-se evidente que uma estratégia integrada de prevenção e controlo pode ser bem-sucedida quando iniciada no início da vida de um animal. As estratégias de controlo eficazes incluem três componentes importantes: • A inspeção regular das novilhas quanto a lesões de dermatite digital precoce, e o tratamento imediato reduzirão as lesões crónicas que se tornam uma fonte de novas infeções. • Um ambiente limpo e seco e o uso de banhos de patas, conforme necessário, reduz o stress na pele de modo a prevenir infeções. A remoção adicional de estrume e a redução da concentração de animais (densidade de ocupação) podem muitas vezes ter impactos muito positivos na higiene dos membros. • Um programa de nutrição de novilhas leiteiras, bem fortalecido, incluindo a suplementação de oligoelementos de desempenho, pode desempenhar um papel fundamental na prevenção da dermatite digital, durante todas as fases de crescimento. A nutrição pode fazer parte de uma estratégia de prevenção que proporciona benefícios na vida produtiva da vaca mais tarde. Para saber mais sobre os oligoelementos de desempenho tais como o Availa®Plus, entre em contacto com o seu representante Zinpro. Para saber como identificar e registar lesões de dermatite digital por fase na sua manada de gado leiteiro, faça download da aplicação DD Check.

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SAÚDE E BEM-ESTAR | EXAME ANDROLÓGICO

COMPORTAMENTO SEXUAL DE UM REPRODUTOR

O EXAME ANDROLÓGICO COMPLETO TEM COMO FINALIDADE A AVALIAÇÃO DE TODOS OS PARÂMETROS QUE CONTRIBUEM PARA A FUNÇÃO REPRODUTIVA NORMAL DO MACHO.

SARA NÓBREGA MÉDICA VETERINÁRIA VETHEAVY vetheavy@gmail.com

A

fertilidade do macho é de extrema importância nos programas de reprodução.Cada macho é responsável por fertilizar um grande número de fêmeas, tanto nos sistemas de monta natural como na inseminação artificial. Assim, os exames andrológicos são indispensáveis na seleção dos reprodutores, para evitar a ocorrência de problemas de subfertilidade ou infertilidade nos machos, que possam comprometer os índices de fertilidade da vacada. O exame andrológico completo tem como finalidade a avaliação de todos os parâmetros que contribuem para a função reprodutiva normal do macho. Neste exame podem ser detetadas alterações do desenvolvimento do sistema genital, alterações regressivas, progressivas e inflamatórias nos diversos orgãos, bem como comportamentos anormais de líbido e de cópula. Essas alterações podem culminar na incapacidade de fecundação e/ou de monta. Assim, este exame ajuda a prevenir ou diagnosticar problemas reprodutivos, de forma a possibilitar a optimização do uso dos reprodutores. O exame andrológico completo consiste 52

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na recolha dos dados, no exame clínico geral, na colheita de sémen e avaliação do mesmo (espermograma), no teste de libido e comportamento sexual. Apesar de não ser prática comun no nosso país, a avaliação da líbido e do comportamento sexual é fundamental, pois o macho deve ter a capacidade de detetar as fêmeas em estro (teste de líbido) e realizar a copula completa, demonstrando assim a sua capacidade de serviço. Tendo em conta a importância deste exame, torna-se imprescindível ser realizado por um médico veterinário com qualificação e experiência na área. TESTE DE COMPORTAMENTO SEXUAL O teste de comportamento sexual apresenta dois componentes: o líbido (capacidade do macho realizar a monta e efetuar a copula espontaneamente) e a capacidade de serviço (número de montas ou serviços completos realizados pelo touro em tempo predeterminado). Estes dois componentes, líbido e capacidade de serviço, são a base para os testes de mensuração do desempenho sexual de bovinos, desenvolvidos na década de 1970. Os dois testes de desempenho sexual mais utilizados são o desenvolvido por Chenoweth (1974) e modificado por Pineda et al. (1997), e o de Blockey (1981). METODOLOGIA O teste de comportamento sexual deve ser realizado em curral ou baia onde se coloca uma ou mais fêmeas em estro. O tamanho de curral ou baia deve possibilitar que os animais se movimentem livremente, no entanto, sem que o macho necessite de percorrer grandes distâncias, pois pode comprometer o seu

desempenho. O teste poderá ter uma duração entre 20 a 40 minutos, onde serão avaliados os seguintes comportamentos: cheirar e lamber o corpo, cheirar e lamber a vulva; reflexo de Flehmen; reflexo de monta; exposição do pénis; tentativa de monta; monta sem exposição do pénis; monta completa; pressão do queixo; acompanhar a fêmea. Após, a recolha dos dados a cima mencionados, o macho pode ser classificado segundo Fonseca (1989) da seguinte forma: - zero a três: questionável; - quatro a seis: bom; - sete a oito: muito bom; - nove a dez: excelente. No final, é elaborado um certificado onde consta toda a informação recolhida durante o teste, bem como a classificação final do reprodutor. CONCLUSÃO A realização do teste de comportamento sexual em conjunto com o espermograma, sanidade e a nutrição adequada resultam em lucro para o produtor, uma vez que este pode utilizar touros testados na sua vacada, evitando a escolha de reprodutores apenas pelo aspeto fenotípico do animal. Mais importante que o aspecto fenotípico é a capacidade que o touro tem para copular com eficácia um grande número de fêmeas. No exercício da minha profissão tenho-me deparado com a necessidade da execução deste teste. Alguns touros com resultado excelente ao espermograma apresentam uma deficiente capacidade de serviço, devendo portanto estes exames ser complementares para avaliar devidamente a capacidade reprodutiva de um touro. Bibliografia: para mais unformações, consultar o autor.


TUDO O QUE DESEJA SABER SOBRE ViteloMAX O que é o ViteloMAX? É um projeto que pretende trazer uma mais-valia a um produto através da minimização do risco.

Quais as características de um ViteloMAX? É um animal testado, através da avaliação serológica frente a anticorpos da doença IBR (seronegativo), vacinado com uma vacina IBR marcada e para o Síndrome Respiratório Bovino (SRB).

Como posso controlar/garantir as características do ViteloMAX?

O Mundo de hoje é plano! Não existem fronteiras! Este facto, que traz uma maior competitividade global, aliado a uma pressão do crescimento da população mundial, onde a produção alimentar deverá duplicar até 2050, está na base da criação de projetos como o ViteloMAX. ViteloMax pretende trazer uma mais-valia a toda a cadeia de valor da produção de carne. Com ele pretende-se uma maior aproximação e confiança entre todos os intervenientes e uma valorização do produto final. Acreditamos que a prevenção e profilaxia, que hoje é uma condição sine qua non para o aumento da eficiência produtiva, aliada a um controlo do processo e rastreabilidade dos mesmos, são a base para o sucesso. A nossa visão é ter animais mais saudáveis, que possam garantir a sustentabilidade de um sector e contribuir para o fornecimento da cadeia alimentar. Com uma maior prevenção queremos promover uma melhoria na relação entre as saúdes Humana e Animal com o Meio Ambiente.

PT-BOV-200200005

As intervenções são registadas em PISA e podem ser consultadas no boletim do animal.

CONTROLO, CONFIANÇA E RENTABILIDADE

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SAÚDE E BEM-ESTAR | SAÚDE DO ÚBERE

USO PRUDENTE DE ANTIBIÓTICOS EM BOVINOS DE LEITE 2A PARTE TERAPIA SELETIVA DE SECAGEM

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RICARDO BEXIGA PhD, Faculdade de Medicina Veterinária da UL ricardobexiga@fmv.ulisboa.pt

MARISA BERNARDINO DVM, Zoetis Portugal marisa.bernardino@zoetis.com

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União Europeia prepara-se para restringir a utilização de antibióticos de forma preventiva, o que provavelmente acontecerá em 2022. Dentro de pouco tempo, não será então permitida a utilização de antibióticos de secagem em todas as vacas leiteiras, mas apenas nas vacas em que for demonstrada a presença de infeção, a exemplo do que já é prática atual em países como a Holanda e a Dinamarca. Esta limitação está relacionada com a evidência científica de que uma restrição na utilização de antibióticos, em espécies pecuárias, leva a uma redução na presença de resistências aos antibióticos nos animais dessas explorações e, provavelmente, também na população humana, especialmente na que mais de perto lida com estes animais (OMS). Nas explorações leiteiras, a grande maioria dos antibióticos é utilizada em saúde do úbere, com uma proporção elevada a ser da responsabilidade da terapia de secagem. A terapia antibiótica no momento da secagem, em todos os animais, constituía um dos pilares do plano do controlo das mastites de 5 pontos. Contudo, com a evolução favorável da qualidade do leite na maioria das explorações e com a disponibilidade de ferramentas não antibióticas capazes de prevenir infeções intramamárias, começa a fazer cada vez mais sentido recorrer a uma terapia seletiva de secagem. A utilização de antibióticos de secagem nas vacas leiteiras é uma das formas de curar infeções intra-mamárias, produzindo-se a cura 1,8 vezes mais frequentemente quando se utilizam antibióticos do que quando estes não são utilizados (Halasa et al., 2009a). Assim, estando a vaca com células somáticas acima das 200.000 por ml de leite (nível a partir do qual se considera existir uma mastite subclínica na vaca), deve ser utilizado um antibiótico de secagem. A prevenção de infeções intramamárias recorrendo a antibióticos não tem, no

entanto, uma eficácia elevada para todos os agentes: parece de facto não haver prevenção de infeções intra-mamárias durante o período seco para bactérias como E. coli ou Staphylococcus aureus, tendo sido observada uma melhoria nessa prevenção de 61% para Streptococcus uberis, em comparação com a não utilização de antibióticos (Halasa et al., 2009b). Ou seja, a utilização de antibióticos de secagem como preventivos parece não ter uma eficácia elevada. Já em relação à utilização de selantes, a situação é diferente. Comparando a utilização de selantes e antibióticos com a utilização apenas de antibióticos de secagem, existe uma redução de 25% de infeções intramamárias manifestadas no início da lactação quando se utilizam os dois medicamentos em conjunto. Comparando a utilização de selantes apenas, com a não utilização de qualquer meio de prevenção de infeções intra-mamárias durante o período seco, observou-se uma redução de 73% no número dessas infeções com a utilização de selantes (Rabiee et al., 2013). Os valores aqui citados provêm de estudos científicos conhecidos como meta-análises que reúnem informação de vários estudos e que, por isso, são altamente fiáveis como fonte de informação. Pode então concluir-se que os selantes são uma forma muito eficaz de prevenir novas infeções intra-mamárias, ao contrário dos antibióticos de secagem mais indicados para o tratamento de infeções existentes. É por isso que nalguns países já só é permitido utilizar antibióticos de secagem em animais onde seja demonstrado que existe uma infeção intra-mamária, ou seja, uma mastite subclínica ativa. Os critérios utilizados para a seleção de vacas em que se pode utililizar antibiótico ou em que se deve apenas utilizar selante variam de autor para autor, e de país para país. A


Uso prudente de antibióticos em bovinos de leite

título de exemplo, na Holanda o critério utilizado para selecionar animais em que apenas se faz a aplicação de selante de tetos é diferente para novilhas e vacas, sendo aplicado apenas selante em novilhas com contagens de células somáticas abaixo das 150.000 células/ml no último contraste, e adotando-se essa prática abaixo das 250.000 células/ml nas vacas. Um critério possível para a seleção de animais para utilização apenas de selante, seria uma contagem de células somáticas abaixo das 200.000 células/ ml nos três últimos contrastes e a ausência de episódios de mastite clínica durante toda a lactação. Existe um elevado grau de certeza de que animais que cumpram estes dois critérios não terão infeções intra-mamárias ativas e poderão ser secos apenas com selante de tetos. O não cumprimento de um destes critérios implicaria, pelo contrário, a utilização de selante e de antibiótico à secagem. Conseguia-se, desta forma, utilizar antibióticos apenas quando estes fossem necessários, limitando o aparecimento de resistências a antibióticos e reduzindo os gastos em medicamentos, bem como a probabilidade de aparecimento, no tanque de leite, de inibidores resultantes da terapia de secagem. Independentemente dos critérios utilizados para a implementação desta terapia seletiva de secagem, é fundamental monitorizar os resultados da qualidade de leite e os índices de saúde do úbere para que, no caso de não se estarem a atingir os objetivos esperados, se reavaliarem os critérios de seleção dos animais, o procedimento de aplicação do selante e as condições de maneio e higiene

das instalações durante o período seco. Existem alguns cuidados a ter para que esta terapia seletiva de secagem tenha bons resultados. A higiene no processo de aplicação do selante deve ser especialmente elevada quando aplicamos o selante isoladamente, sem antibiótico de secagem (FIGURA 1). Isto porque, sem antibiótico não haverá qualquer medicamento com ação destruidora sobre as bactérias que eventualmente possam ser introduzidas na glândula mamária com uma aplicação de uma cânula de forma pouco higiénica. Assim, os tetos devem estar bem limpos e devem ser utilizados toalhetes desinfetantes para higienizar bem a ponta do teto antes da aplicação do selante. As cânulas que vão entrar no teto não devem tocar em nada depois de ser retirada a tampa, porque deixariam de estar estéreis e constituiriam um risco para a introdução de agentes microbianos na glândula mamária. Os selantes destinam-se a ficar nos tetos dos animais (FIGURA 2) e, portanto, deve apertarse a base dos tetos nos quais está a ser feita a aplicação para que o selante não entre para o tecido glandular, mas fique apenas no teto. Pela mesma razão, após a aplicação do selante, o teto não deverá ser massajado. Outro fator que poderá influenciar a boa utilização da terapia seletiva de secagem é a forma como é realizada a secagem. A secagem abrupta, quando comparada com a secagem gradual, é um fator de risco para que as vacas pinguem leite no dia ou dias após a secagem e, com isso, mantendo o canal do teto aberto, tenham um risco mais elevado de adquirir uma infeção intra-mamária. Com

o aumento de produção das vacas leiteiras, é frequente que no dia da secagem as vacas estejam a produzir 30 ou 40 litros de leite. A secagem abrupta, nestes casos, pode constituir um risco elevado para a ocorrência de novas infeções intra-mamárias subclínicas ou mesmo de mastites clínicas graves. Estas poderão ocorrer porque a secagem das vacas leiteiras de forma abrupta, em vacas com produções elevadas, leva a uma perda da competência imunitária dos animais devido ao balanço energético negativo que se produz, e às concentrações elevadas de cortisol, uma hormona libertada em situações de stress e dor. Assim, recomenda-se que, com terapia seletiva de secagem, seja utilizada secagem gradual em animais com produções elevadas, ou que, não sendo esta possível por questões de maneio, sejam apenas selecionadas para secagem seletiva animais com produções diárias no momento da secagem abaixo dos 25 litros por dia. Seja com ou sem utilização de antibiótico de secagem, devem ser garantidas condições higiénicas para as camas dos animais secos (FIGURA 3), sobretudo nas alturas em que estes são mais suscetíveis às novas infeções intra-mamárias: logo após a secagem e nos dias anteriores ao parto. Torna-se cada vez mais importante que os produtores e médicosveterinários que ainda não adotaram a terapia seletiva de secagem, dêem passos largos nessa direção. Não só é uma prática que permite limitar a emergência de resistências a antibióticos nas nossas vacarias, como tem o potencial de limitar esse aparecimento também em humanos, ao mesmo tempo que permite poupar recursos financeiros.

FIGURA 1 A APLICAÇÃO DE ANTIBIÓTICO DE SECAGEM (1) DEVE SER FEITA SEM APERTAR A BASE DO TETO PARA QUE O ANTIBÓTICO SE DIFUNDA PELO MAIOR VOLUME POSSÍVEL DA GLÂNDULA MAMÁRIA. JÁ A APLICAÇÃO DE SELANTE DE TETOS DEVE SER FEITA APERTANDO A BASE DOS TETOS (2 E 3).

FIGURA 2 NO FINAL DE UMA APLICAÇÃO BEM REALIZADA, O SELANTE DE TETOS DEVE PERMANECER NO TETO, PARA EVITAR A PASSAGEM DE MICROORGANIMOS PARA O TECIDO GLANDULAR DURANTE O PERÍODO SECO.

FIGURA 2

FIGURA 3

FIGURA 3 ASPETO DE UMA MATERNIDADE COM PROBLEMAS DE HIGIENE: MESMO COM A AJUDA DE UM SELANTE DE TETOS, ESTE TIPO DE AMBIENTE LEVARÁ SEMPRE A UMA MAIOR INCIDÊNCIA DE NOVAS INFEÇÕES INTRAMAMÁRIAS DURANTE O PERÍODO SECO.

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GEORGE STILWELL MédicoVeterinário Faculdade de Medicina Veterinária Universidade de Lisboa

SAÚDE E BEM-ESTAR | SIGNIFICADOS DOS SONS

O QUE OS SONS NOS PODEM DIZER

NO ARTIGO DE HOJE VAMOS APRESENTAR ALGUNS DOS SONS QUE (ACHAMOS QUE) CONSEGUIMOS DECIFRAR, SE BEM QUE NEM TODOS SEJAM VOLUNTÁRIOS NEM PRODUZIDOS PELO SISTEMA VOCAL.

N

uma edição anterior falámos sobre o que os comportamentos dos animais nos podem dizer. Nessa altura defendemos que é essencialmente através da leitura dos comportamentos, que conseguimos perceber o que os animais nos estão a dizer. Isto porque temos grande dificuldade em traduzir a sua linguagem, ou seja, os sons que emitem. No entanto, no artigo de hoje vamos apresentar alguns dos sons que (achamos que) conseguimos decifrar, se bem que nem todos sejam voluntários nem produzidos pelo sistema vocal. Vamos dividir esta apresentação dos sons e dos seus significados em três grupos: - os que são produzidos pelo sistema vocal e de forma voluntária. - os que são perfeitamente audíveis, mas não são produzidos de forma consciente. - os que apenas podem ser ouvidos através da auscultação. SONS VOLUNTÁRIOS

São os que servem para manter a coesão social ou pedir ajuda. Apesar dos ruminantes não serem conhecidos pela variabilidade dos sons que 56

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NO TESTE DO PAU OUVE-SE UM LIGEIRO GEMIDO QUANDO UMA ZONA DOLOROSA (PERITONITE) É COMPRIMIDA.

produzem, muito provavelmente eles encerram mais do que aquilo que os nossos ouvidos querem ouvir. Por exemplo, uma das maravilhas do mundo animal que não cessa de me espantar, é a capacidade das ovelhas em reconhecer o balido das suas crias no meio de centenas de sons produzidos por outras ovelhas e os seus cordeiros. Não há história de se enganarem e trocarem de filhote. E o mesmo sucede com os borregos ou cabritos à procura da mãe. É o que se chama saber comunicar em família. Apesar de serem menos reconhecidos, os bovinos também parecem ter a sua linguagem

própria. Nós é que se calhar somos um pouco duros de ouvidos. Um estudo da Universidade de Nottingham detectou pelo menos três chamamentos diferentes entre a vaca e o seu vitelo: um som de baixa frequência emitido de boca fechada pela mãe nas primeiras quatro semanas após o parto, destinado provavelmente a sossegar e manter próximo o vitelo recém-nascido; um som de frequência mais elevada emitido com a boca entreaberta para chamar o vitelo quando este está mais longe e normalmente procedido de amamentação; e um som, também agudo, emitido pelo vitelo quando pretende beber leite. Aliás, qualquer pessoa que trabalha com vitelos em vacarias de leite já ouviu estes últimos sons a serem produzidos de forma insistente quando o aporte de leite se atrasa um pouco. Por outro lado, temos os sons que reflectem stress, medo ou dor. São mais frequentes em animais jovens e muito provavelmente existem como forma de atrair a atenção e garantir a ajuda dos adultos. Estes chamamentos são, normalmente, de muito alta frequência e produzidos de forma mais constante e repetida.


O que os sons nos podem dizer

São bastante mais evidentes nos ranger dos dentes (bruxismo). caprinos do que nos bovinos e Mais uma vez é muito importante ainda mais do que nos ovinos, o relembrar que o facto de os sinais que pode resultar da organização serem subtis, não quer dizer que social e do habitat típico de a dor seja menosprezável. São cada espécie – os caprinos sinais da maior importância no nas zonas montanhosas terão exame clínico. mais vantagens em fazer muito Outros sons descritos barulho na presença de um na literatura, mas ainda predador de forma a garantir mal caracterizados, estão a fuga dos companheiros que relacionados com a ansiedade muitas vezes não se encontram e mesmo com o luto. Alguns próximos nem visíveis. Temos estudos referem que há sons no nosso dia a dia a prova destas diferentes (muitos só distinguidos diferenças de personalidade: através de tecnologia) que são a descorna de cabritos é produzidos pelo grupo quando normalmente acompanhada de coabitantes são removidos grande gritaria, mas no caso de ou morrem ou por indivíduos vitelos é raro isso acontecer. quando estes são isolados. Para Mas atenção – em ambos há dor nós parecem tudo muuuusssss. idêntica. O que é indubitável é que todos No caso dos bovinos há variações estes sons cumprem funções importantes nas vocalizações bem específicas: manter a coesão que acompanham a dor, e que social, avisar de perigo eminente, estão ligadas à raça, mas também informar de fragilidade, aumentar ao indivíduo – há vacas com a probabilidade de sobrevivência, partos difíceis e muito dolorosos ou chorar uma companheira. que não emitem qualquer som, enquanto outras berram SONS NÃO VOLUNTÁRIOS intensamente durante quase todo Estes são aqueles sons que os o parto. Porquê a diferença? ruminantes produzem durante Será uma questão genética que os seus processos fisiológicos influência a tolerância à dor? Ou ou que resultam de doenças ou haverá dores diferentes? lesões. Não ocorrem por vontade Interessa dizer que raramente os do animal nem este os consegue bovinos reagem desta maneira suspender ou modelar. O som mais ilustrativo é a à dor. São animais estóicos e eructação. Esta libertação de preparados para mascarar os sinais de debilidade – geralmente gases oriundos do rúmen é normal e desejável e por isso não gritam nem choram, uma garantia de existirem mesmo quando há dor intensa. contracções ruminais. Em No entanto, um observador contraste podemos associar mais atento (e de ouvidos bem alguns sons a algo que não está abertos), encontrará quase a correr bem – como o ruído sempre os sinais sonoros da dor produzido pela saída de gás pela e que se resumem a pequenos vulva no caso de metrites, do gemidos ou AF_Anuncio a um constante OFC by Zoetis DGAV04122019.pdf 1 04/12/2019 11:36:32

recto em casos de fermentações a nível intestinal ou mesmo através do teto quando um agente anaeróbico causa mastite. Há ainda sons de chicote em casos de luxações articulares ou tendinosas, ou de crepitação no caso de enfisema subcutâneo ou de osteoporose. Nem sempre estes sons ocorrem de forma espontânea e por isso poderá ser necessário “provocá-los”, seja através da manipulação, da movimentação, da palpação, percussão ou de qualquer outro tipo de estímulo. Por exemplo, o som timpânico que ocorre quando batemos sobre os ossos frontais num animal saudável, pode ser substituído por um som maciço no caso de sinusite. Ou o som de tambor típico de casos de timpanismo ruminal. O ouvido atento é, portanto, imprescindível para quem trata de ruminantes pois pode ajudar a detectar situações potencialmente dramáticas, numa fase muito inicial e, por isso, ainda reversível. SONS AUSCULTADOS

Se bem que estes sons resultem essencialmente do exame clínico a ser efectuado por um médicoveterinário, deixamos aqui alguns exemplos que mostram como podem ser importantes para a apreciação do estado de saúde de um ruminante ou para o diagnóstico definitivo de uma afecção. Para os identificar com precisão é necessário um aparelho ou estetoscópio de qualidade. No campo da avaliação do

correcto funcionamento do organismo, a auscultação da frequência e da força das contracções ruminais, da frequência e ritmo dos batimentos cardíacos e da frequência respiratória, são de primordial importância. Pequenas alterações podem reflectir desequilíbrios hidroelectrolíticos, problemas neurológicos, sobrecargas, alterações do pH ou serem repercussões de situações de stress ou de dor. No campo das doenças e afecções, uma boa auscultação é imprescindível para o diagnóstico de problemas cardíacos (uma endocardite com sopro), problemas digestivos (um deslocamento do abomaso à esquerda ou à direita), problemas respiratórios (uma pneumonia ou uma bronquite) ou acumulação de fluidos (abdómen, articulação, útero, etc…). Algumas alterações são suficientemente específicas para se poder apontar para uma causa ou mesmo um microorganismo em particular. É, portanto, evidente que não sendo os ruminantes muito desenvoltos na forma como se expressam, há certos sons que nos podem dar boas pistas em relação ao seu estado de saúde e de bem-estar. Quanto a comunicar abertamente com eles, ainda não chegámos lá, mas sendo, supostamente, nós a espécie mais inteligente teremos de fazer um esforço maior para os entender. Felizmente que para alguns que trabalham há muitos anos em pecuária, perceber a fala dos seus animais já é…canja.

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SAÚDE E BEM-ESTAR | BOVINOS DE LEITE

MASTITES CLÍNICAS CAUSADAS POR COLIFORMES EM EXPLORAÇÕES ONDE AS MASTITES CONTAGIOSAS ESTÃO PRATICAMENTE ELIMINADAS, E QUE POR NORMA TÊM BAIXA CONTAGEM DE CÉLULAS SOMÁTICAS NO TANQUE DE RECOLHA DE LEITE, ENTRE 20 E 40% DOS CASOS DE MASTITE CLÍNICA SÃO CAUSADOS POR COLIFORMES. PORQUE QUE É QUE AFETAM AS MELHORES VACAS DA EXPLORAÇÃO?

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DEOLINDA SILVA Diretora Serviços Técnicos Ruminantes, Hipra Portugal deolinda.silva@hipra.com

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pesar dos esforços dos produtores, médicos veterinários e demais técnicos para melhorar a saúde do úbere em vacas leiteiras, a mastite bovina colibacilar continua a ser um grande problema em muitas explorações a nível mundial. Em explorações onde as mastites contagiosas estão praticamente eliminadas, e que por norma têm baixa contagem de células somáticas no tanque de recolha de leite, entre 20 e 40% dos casos de mastite clínica são causados por coliformes. Analisando estudos de prevalências recentemente publicados, utilizando uma técnica inovadora de PCR para identificação de agentes maiores de mastites, UDDERCHECK® (HIPRA), no National Mastitis Council 2017 e Jornadas da Associação Portuguesa da Buiatria (Zalduendo D. et al., 2018; Silva D., 2017), verificou-se uma tendência crescente de agentes ambientais de mastites, como a E. coli e S. uberis, estarem envolvidos na origem de mastites. Em particular, no estudo realizado em Portugal que envolveu

671 amostras recolhidas de tanque de leite e do grupo de vacas com mastites, desde 2011 a 2016, verificou-se um aumento da prevalência de mastites causadas por E. coli e outros coliformes, de 51 a 81% e 12 a 28%, respetivamente. GRÁFICO 1 As consequências (leite descartado, custos de tratamento, substituição devido à morte ou refugo de animais, etc.) e os custos decorrentes da mastite colibacilar são altamente variáveis, dependendo de fatores relacionados com a vaca, e não relacionados com a patogenicidade da estirpe envolvida. A Escherichia coli, a Klebsiella spp. e, em menor grau, a Enterobacter spp. são os coliformes mais comumente isolados de episódios clínicos de mastite bovina deste tipo. MASTITE COLIBACILAR HIPERAGUDA. QUAIS SÃO OS SINTOMAS? A E. coli e a maioria das bactérias coliformes possuem determinados fatores de virulência (ex. LPS) que são responsáveis pelo grau de severidade da mastite e pelo desencadeamento do quadro clínico típico da mastite colibacilar hiperaguda. Ao


Mastites causadas por coliformes

GRÁFICO 1 EVOLUÇÃO DA PREVALÊNCIA DOS PATOGÉNEOS DE 2011 A 2016 120%

100%

80%

60%

40%

20%

0%

2012

S. aureus

2013

SCN

2014

S. uberis

2015

E. coli

2016

Outros coliformes

infetarmos experimentalmente a glândula mamária de vacas saudáveis com esse fator de virulência, o LPS, observam-se os mesmos sintomas, sendo que altas doses podem causar a morte do animal. A entrada da bactéria no úbere é sempre através do canal do teto. Multiplica-se rapidamente na cisterna do úbere, podendo alcançar os alvéolos, e no processo de multiplicação das bactérias, a toxicidade dos fatores de virulência conjuntamente com a inflamação severa, causam sintomas geralmente agudos em vacas. Como exemplos comuns temos a perda quase total da produção, inflamação aguda do quarto afetado, e frequentemente, perda de apetite, febre, apatia, choque e, às vezes, morte. Dependendo da resposta do sistema de defesas da vaca, o curso da mastite pode ser menos agudo. A infeção crónica com

episódios clínicos recorrentes também pode ocorrer, sendo menos frequente. FOTO 1

FOTO 1 A ENTRADA DA BACTÉRIA NO ÚBERE É SEMPRE ATRAVÉS DO CANAL DO TETO

FOTO 2 INFEÇÕES POR COLIFORMES

REDUZINDO O IMPACTO: O PAPEL DOS GLÓBULOS BRANCOS E ANTICORPOS NA GLÂNDULA MAMÁRIA A capacidade do sistema imunitário da vaca é um fator chave para limitar a rápida disseminação da E. coli no úbere e reduzir a ação tóxica desta bactéria. Os glóbulos brancos são um dos principais intervenientes na luta contra infeções intramamárias. Eles são responsáveis por sequestrar, matar e eliminar as bactérias e são auxiliados por anticorpos. A rápida mobilização de glóbulos brancos e a presença de anticorpos na glândula mamária são essenciais para reduzir o impacto dos sintomas clínicos.

A maioria das infeções ocorrem nas primeiras 2 semanas de secagem

ALVÉOLOS

Grande cisterna

Anel circular

Cisterna do teto

CANAL MAMÁRIO

50% dos casos têm origem na secagem e peri-parto

MASTITES POR COLIFORMES. PORQUE É QUE ACONTECEM ÀS MELHORES VACAS? FATORES PREDISPONENTES A maioria das infeções intramamárias coliformes ocorre nas primeiras 2 semanas do período seco e especialmente no peri-parto (período que engloba as 3 semanas antes e 3 semanas após o parto). Além disso, quase metade dos casos de mastite clínica bovina, que ocorrem nos primeiros 100 dias de leite, têm origem nos períodos seco e peri-parto. FOTO 2 O quadro de mastites colibacilares hiperagudas ou agudas em vacas leiteiras não são exclusivas do pós-parto, mas uma elevada percentagem ocorre neste período. As infeções intramamárias por coliformes em lactação avançada causam casos leves ou moderados, os quais o sistema imunitário de uma vaca é capaz de resolver, passando muitas vezes despercebidos. O PERÍODO SECO: O PERÍODO DE RISCO O período seco é sempre um período de alto risco para infeções por mastite bovina, principalmente devido a: 1. Aumento da pressão no interior do úbere que às vezes provoca perdas de leite e também do antibiótico de secagem, deixando o esfíncter aberto, permitindo a entrada de bactérias. 2. Proliferação bacteriana na pele do teto, consequência da paragem da ordenha e da prática de pré e pós-dip. 3. Atraso na formação do tampão de queratina, pode levar dias ou até semanas para a vaca selar o teto, e algumas vacas nem sequer formam o rolhão durante todo o período seco. 4. Higiene deficiente ao aplicar as cânulas intramamárias de secagem que pode provocar infeções intramamárias. O PERI-PARTO É TAMBÉM UM MOMENTO DE RISCO Nesta fase, o sistema de defesas da vaca está comprometido por vários fatores: • O parto em si é um fator de stress para a vaca. O cortisol plasmático sofre um aumento normal nesta altura, sendo necessário para o desencadeamento do parto e produção do colostro. O cortisol inibe a resposta inflamatória e influi negativamente na função dos neutrófilos. • Balanço Energético Negativo (BEN). O aumento das necessidades energéticas no pósparto conjuntamente com a capacidade de ingestão reduzida, provoca a mobilização de reservas de gordura, que após metabolização no fígado podem provocar cetose. Os corpos cetónicos interferem negativamente na capacidade de migração e recrutamento de glóbulos brancos até ao úbere, e na sua capacidade de matar e eliminar as bactérias.

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Mastites causadas por coliformes

• Stress. Fatores de stress como o calor, stress metabólico, lutas hierárquicas, transporte, etc., induzem a secreção de cortisol e subsequentemente uma imunodepressão (diminuição da capacidade de resposta do sistema de defesas do animal). No pósparto, o stress é um ciclo vicioso. Vacas em stress comem menos, o BEN acentua-se e prolonga-se no tempo e a imunodepressão é potenciada. • Outros: - Perdas de leite devido ao aumento da pressão intramamária no fim da secagem devido ao estímulo. O esfíncter do teto está aberto permitindo a entrada de bactérias. - A maioria dos antibióticos de secagem não cobrem a fase final da secagem. - Ordenha pós-parto difícil devido ao edema do úbere provoca entradas de ar durante a ordenha, facilitando a entrada de patógenos para a cisterna do úbere. TRATAMENTO CONTRA MASTITES COLIBACILARES O tratamento deve-se focar na vaca e não na bactéria. A E. coli multiplica-se rapidamente no úbere atingindo a concentração máxima em menos de 12 horas (Erksine et al. 1989). O reconhecimento de sinais clínicos de mastite bovina colibacilar normalmente ocorre após a máxima concentração de bactérias no úbere ser atingida. Essa ideia questiona se o tratamento da mastite colibacilar com antibióticos é necessário ou não. VANTAGENS DO TRATAMENTO SINTOMÁTICO Vs. ANTIBIÓTICOS Existem muitos estudos demonstrando a baixa eficácia do tratamento com antibióticos contra mastite bovina colibacilar. O médico veterinário assistente da exploração deve ser chamado para instituir o tratamento adequado em função do estado de saúde do animal. Na generalidade podemos referir que o tratamento deve centrar-se no controlo dos sintomas: 1. Fluidoterapia. As vacas devem ter livre acesso a água limpa e fresca. 2. Anti-inflamatórios não esteróides para o controle da febre e inflamação. 3. Cálcio, ferro, vitaminas A, D e E para aumentar a função dos glóbulos brancos. 4. Ordenha frequente e oxitocina. A dor e a inflamação inibem a queda do leite. A oxitocina ajuda a um melhor esvaziamento do úbere, removendo assim mais bactérias. 5. Antibióticos ativos contra bactérias Gram negativas por via parenteral (como medida preventiva contra septicémia, não para curar a infeção). De referir que a utilização de antibióticos está sujeita a prescrição do médico veterinário assistente da exploração. PREVENÇÃO Tendo em conta a fraca eficácia de qualquer tratamento frente à mamite colibacilar hiperaguda, a prevenção é a melhor medida possível. Conhecendo os períodos de máximo 60

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FOTO 3 APOSTAR NA PREVENÇÃO

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Melhorar a imunidade através da nutrição, estimulantes e vacinas

1

Desinfetar todos os tetos após cada ordenha

2

Tratar os casos de mastites após identificação do agente e registar

6

Ordenhar tetos limpos, secos e desinfetados

5

Manter o funcionamento da máquina de ordenha adequado

4

Refugar vacas com 3 ou mais casos de mastites

risco e os fatores predisponentes, as estratégias de prevenção centram-se em 2 vias: Minimizar a exposição da ponta do teto à bactéria presente no ambiente - assegurar a higiene das zonas de descanso das vacas (especialmente parques de secas, pré e pós-parto, tendo em conta, que estes são os maiores períodos de maior risco de contrair infeção intramamária por coliformes) e ordenhar tetos limpos, secos e desinfetados. Aumentar a resistência do animal à infeção - minimizar fatores stress de qualquer tipo, plano nutricional adequado (reduzir ao mínimo o BEN e a sua duração no tempo, assegurar os aportes necessários de vitaminas importantes para o sistema imunitário) e vacinação. FOTO 3 VACINAÇÃO CONTRA MASTITES POR COLIFORMES A vacinação contra a mamite colibacilar é uma estratégia implementada há muito anos nas explorações leiteiras dos Estados Unidos, cerca de 40 a 65% das explorações aplicam a vacinação. As mais utilizadas são vacinas baseadas na estirpe J5 de E. coli. Esta estirpe de E. coli induz a produção de anticorpos contra diferentes estirpes de E.coli e outros Gram negativos como enterobactérias, Serratia, Klebsiella spp., ou seja, proporciona imunidade cruzada. Faz este ano 10 anos que a HIPRA lançou a primeira vacina na Europa contra S. aureus, E. coli, coliformes e SCN. A eficácia da vacinação na proteção contra a mamite colibacilar aguda já foi demonstrada em diferentes estudos de campo. Bradley A.

3

Utilizar selante de tetos em todas as vacas e seletivamente intramamários de secagem

(2015), num estudo de campo realizado no Reino Unido, onde avaliou a eficácia desta vacina contra mastites clínicas causadas por coliformes, reporta os seguintes resultados: 1. Diminuição da severidade e duração dos sintomas. 2. Aumento da produção de leite em 6% (231litros nos primeiros 120 dias em lactação). 3. Aumento dos sólidos no leite em 12 kg (5% de gordura e 6% de proteína). 4. Diminuição da taxa de refugo em 30%. 5. Retorno económico de 2,57€ para cada 1€ investido em vacina, considerando apenas o aumento da produção de leite. CONCLUSÕES A mastite colibacilar é uma patologia importante em muitas explorações pelo impacto económico que implica e verifica-se uma tendência crescente na prevalência destas bactérias a nível global. A prevenção é a melhor ferramenta para controlar este problema. Uma abordagem holística (1+1=3) é necessária para controlar o seu impacto, aliando um maneio animal, ambiental e nutricional adequados (principalmente no período seco e peri-parto) com estratégias que aumentem a resistência do animal como a vacinação. Por último, assinalar que um protocolo de vacinação, pode ser de grande ajuda para prevenir e diminuir a severidade dos casos clínicos por coliformes nas explorações onde exista esta problemática. NOTA: Para obter informações adicionais sobre programas de prevenção e vacinação contra a doença respiratória deverá consultar o médico veterinário da exploração. Para informações sobre a bibliografia utilizada, contactar o autor.


Rompa com o passado:

VACINE CONTRA A MASTITE!

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EQUIPAMENTO | ENTREVISTA A JORGE NEVES

TROUP’O

ESPECIALISTA NO DESENVOLVIMENTO DE SOLUÇÕES INFORMÁTICAS TAMBÉM NO SETOR DA PECUÁRIA, A ISAGRI LANÇOU RECENTEMENTE UMA APLICAÇÃO PARA A GESTÃO DE REBANHOS A QUE CHAMOU TROUP’O. SOBRE ESTA NOVA FERRAMENTA, ENTREVISTÁMOS JORGE NEVES, DIRETOR GERAL DA FILIAL PORTUGUESA DA ISAGRI.

T

em androide e iOS, uma aplicação instalada nestes equipamentos que permite trabalhar off line, e ligar-se com a base central sempre que estiver em local de rede. Não impedindo que muitas das explorações do nosso pais que, tendo uma cobertura de rede inexistente ou deficiente, deixem de usufruir das novas formas tecnológicas de gerir os seus efetivos.

irando partido das tecnologias que nos permitem trabalhar a partir de casa, como tem acontecido nesta época de isolamento por que passamos, entrevistámos o diretor da filial portuguesa da Isagri, Jorge Neves. Especialista no desenvolvimento de soluções informáticas também no setor da pecuária, a Isagri lançou recentemente uma aplicação para a gestão de rebanhos a que chamou Troup’O, por analogia com a palavra francesa “troupeau” que significa “rebanho” em português). O que é o Troup’o, em que consiste? O Troup’O é a reposta da ISAGRI para a renovação tecnológica da anterior gama de produtos ISALEITE e ISACARNE, adaptando-se assim às novas possibilidades que as gerações de softwares vão proporcionar aos utilizadores. A nova plataforma Troup’O é uma aplicação que centraliza todos os dados do rebanho para otimizar o seu desempenho. Permite fazer a gestão dos efetivos animais bem como a visualização rápida e intuitiva dos seus indicadores. Pode ser consultada em qualquer sítio, e está disponível nas versões carne e leite. Nas Jornadas Hospital Veterinário da Muralha de Évora apresentámos a aplicação para as vacas aleitantes, o Troup’O Carne. Esta aplicação está orientada para os produtores de grandes ruminantes de carne e leite, e é transversal, chega tanto 62

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JORGE NEVES, DIRETOR GERAL DA FILIAL PORTUGUESA DA ISAGRI

aos pequenos produtores como às grandes instituições e organizações. É uma aplicação que trabalha em modo cloud e, por esta razão, permite a criação, no seu software, de uma série de funcionalidades que antes não estavam disponíveis na aplicação: utilização simultânea por vários utilizadores ou empresas, gestão de perfis de utilizadores, poder ter várias pessoas a trabalhar em simultâneo no mesmo dossier e na mesma aplicação. Ou seja, abre a oportunidade de trabalhar num conceito cada vez mais utlizado, que é o colaborativo. Este é, na verdade, o grande salto tecnológico que se consegue com o Troup’O. Mas também tem outras vantagens, como a mobilidade em smartphone e/ou tablet,

Todos os servidores utilizados são da Isagri? Sim, essa é uma grande vantagem sobre outras situações de mercado. Na verdade, pela dimensão da Isagri, todas estas aplicações na Cloud estão alojadas em servidores da Isagri onde estão armazenados os dados de mais de 200 mil clientes a nível global. Isto garante aos clientes a segurança e a inviolabilidade dos seus dados. Permite também um serviço de acompanhamento e atualização de software sem que o cliente tenha que ter qualquer intervenção. Há possibilidade de fazer benchmark com outras explorações semelhantes?

No processo contratual, a Isagri não permite fazer isso. Os dados de cada cliente são invioláveis. Mas em caso de entidades como, por exemplo, uma ADS, um grupo de veterinários ou uma cooperativa, que na sua aplicação tem um universo de explorações ou prestadores de serviços, que abastecem a base de dados, poderão fazer benchmark porque a aplicação tem esse potencial, através de uma ferramenta de análises de grupos.


Troup'O

FIGURA 1 ATRAVÉS DO COCKPIT, O UTILIZADOR VISUALIZA NUM ÁPICE VÁRIOS INDICADORES-CHAVE

O que pode esperar um novo utilizador? Um dos grandes cuidados da Isagri é que os programas sejam fáceis e preparados para começarem a trabalhar. Ou seja, vêm com uma parametrização que o agricultor pode de imediato começar a utilizar sem ter que fazer qualquer intervenção. Por outro lado, tornámo-la ainda mais intuitiva do que já era. Uma das particularidades que tivemos em conta em relação à geração anterior, que basicamente tem a mesma informação pois em termos de produção animal nada mudou, foi que a forma de tratar os dados é similar mas a forma de obtenção e de acesso à informação é que pode ser diferente. Na anterior geração havia muita informação à qual o agricultor não dava muita atenção. Como facilitaram o acesso a essa informação? Criámos aquilo a que chamamos um cockpit (FIGURA 1), onde aparecem 4, 5 ou 6 indicadores chave que permitem de imediato fazer uma leitura daquilo que é o estado atual da exploração. Isto permite ao agricultor ter a informação logo disponível sobre os aspetos mais pertinentes, quer seja do ponto de vista reprodutivo quer seja sanitário: os animais que têm que ser vigiados, aqueles que vão ter parições em breve ou entrar em secagem... sem ter que recorrer a listas. Está tudo no cockpit à distância de um click. Este está disponível tanto no PC como na mobilidade. São cockpits bastante dinâmicos e com aspeto gráfico bastante interativo. Quem opta por esta solução precisa de ter uma pessoa dedicada? Não, esta é uma das grandes vantagens desta nova geração tecnológica, com a

possibilidade de trabalhar em modo "Colaborativo", o produtor pode facultar à sua equipa de colaboradores os acessos de acordo com as suas missões, permitindo que estes consultem e façam o registo no momento em que estão a fazer a operação, evitando o circuito de papéis e agendas que eram centralizados no escritório. Este é o conceito "Todos conectados" que também, mais cedo do que tarde, acontecerá de forma generalizada na agricultura eliminando o desperdício de energia. Como se faz a recolha/ introdução da informação? Estas aplicações estão preparadas para trabalhar com sistemas eletrónicos de identificação, com pesagens automáticas em balanças (temos protocolos com diferentes marcas), e também através da partilha de elementos com algumas salas de ordenha onde estamos a estabelecer protocolos para não haver redundância de registos. No caso dos produtores que tenham contraste leiteiro, os dados são automaticamente importados pelo programa. Cada produtor pode definir os seus indicadores para monitorizar o negócio? Dentro da parametrização existente, cada exploração pode fazer as suas escolhas. Pode também definir os seus objetivos produtivos (intervalo entre partos, produção leite média por vaca...) e ir comparando os dados reais (atuais) com o mesmo período do ano anterior e com os objetivos definidos para esse período, podendo desta forma perceber se o negócio está a evoluir como o perspectivado, ou se há desvios.

Quanto custa a utilização? Depende de uma série de fatores. A Isagri fornece as aplicações acompanhadas de 3 serviços: - a dispensa da licença para trabalhar com aplicação (que será valorizada em função do nº de explorações a gerir, do nº de efetivos (vacas leite ou aleitantes), e do nº de utilizadores simultâneos das explorações) - a formação personalizada para o arranque da solução; - o contrato de serviço anual que garante atualizações, cópias de segurança e serviço de assistência telefónica e/ou remota, que é valorizada também em função do efetivo. Quais são os objetivos da Isagri Portugal para 2020? Para o exercício 2020, o grande objetivo é o lançamento da aplicação Troup’O, permitindo a migração gradual dos clientes atuais que utilizam as aplicações ISALEITE e ISACARNE. E, claro, a conquista de novos clientes, explorações individuais e institucionais (ADS, cooperativas, agrupamentos de produtores, clínicas veterinárias), possibilitandolhes a utilização de uma plataforma desenvolvida em novas tecnologias, para um trabalho mais eficaz e cómodo. Dando assim continuidade ao processo de renovação tecnológica que a ISAGRI iniciou há quatro anos com as plataformas GEOFOLIA para a vertente produção vegetal e PIG’UP para a fileira das suiniculturas, cujo reconhecimento dos utilizadores nos tem dado a força e a certeza de estarmos a caminhar na direção certa. RUMINANTES | ABR/MAI/JUN 2020

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MACIEL MÁQUINAS APRESENTOU EM CAMPO MISTURADORES DE ALIMENTOS E SOLUÇÕES NIR PARA ALIMENTAÇÃO EXATA.

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Alimentação exata

EQUIPAMENTO | MISTURADORES AUTOMOTRIZES E NIR'S

ALIMENTAÇÃO EXATA

PARA DAR A CONHECER AOS PRODUTORES ALGUMAS SOLUÇÕES MAIS RECENTES EM ALIMENTAÇÃO DE PRECISÃO DO GADO, A EMPRESA MACIEL MÁQUINAS CONVIDOU REPRESENTANTES DE DUAS MARCAS DE EQUIPAMENTOS QUE DISTRIBUI EM PORTUGAL, PARA UM DIA DE CAMPO QUE DECORREU EM FEVEREIRO PASSADO. Por Ruminantes

O

custo da alimentação é uma das maiores despesas numa exploração. Além disso, uma dieta desequilibrada pode afetar a saúde da vaca, diminuir a produção de leite e resultar em impactos negativos de vária ordem. Para dar a conhecer aos produtores algumas soluções mais recentes em alimentação de precisão do gado, a empresa Maciel Máquinas convidou representantes de duas marcas de equipamentos que distribui em Portugal: Andrea Mariani, dos misturadores de alimentos Siloking e Enrico Salvatera, das soluções NIR para alimentação e aplicações para agricultura de precisão. Esta apresentação, que juntou cerca de 50 produtores e técnicos, teve lugar na empresa Barão & Barão, Lda., em fevereiro passado. Em observação estiveram os misturadores automotrizes Siloking 4.0 Premium de 22 m3 equipado com sistema NIR e Siloking 4.0 1000+ de 32 m3 (ver reportagem no nº35 da Ruminantes).Na ocasião, entrevistámos Andrea Mariani, responsável de vendas da Siloking em Portugal, e Matteo Reggiani, Diretor de Marketing e Comunicação da Dinamica Generale Spa. Qual é a presença da Siloking no mundo? Trabalhamos em mais de 50 países.Temos 2 filiais no país de origem da Siloking, a Alemanha, onde somos a principal referência no mercado de misturadores de ração. E também temos filiais na Eslováquia, Rússia, China, Brasil e Canadá. Os nossos mercados mais importantes, para além da Alemanha, são a Rússia, a Itália e a América do Norte. Desde o ano passado, reforçámos a nossa penetração na Península Ibérica.

O que diferencia as máquinas Siloking? “A vaca é o nosso primeiro cliente”. Esta é a filosofia Siloking. Com isso em mente, produzimos uma máquina de alta qualidade estudada em todos os detalhes. A começar pelo conforto da cabine, que ajuda o motorista a ser sempre preciso e a fornecer a melhor mistura possível para as vacas, até à precisão de condução das máquinas, que permitem alimentar vacas mesmo em estábulos antigos e de difícil acesso. Para isso, não abdicámos do melhor em componentes, materiais e qualidade de construção.

Unifeeds verticais versus horizontais. Quando se deve optar por um, ou por outro? O desenvolvimento do sistema horizontal atingiu o seu máximo no início da década de 2000. Depois disso, não houve mais margem para melhorias, uma vez que as misturadoras horizontais não conseguem atender às capacidades exigidas pelas explorações modernas. Sabe-se que a mistura vertical é a mais homogénea, rápida e precisa, e o desenvolvimento desse sistema ainda não terminou. Todos os anos, trazemos novas ideias, soluções e tecnologia para o mercado e os profissionais procuram por elas.

Quais os modelos de unifeed mais vendidos para pequenas e médias explorações? São o SelfLine Compact 1612, de 13m³; e o SelfLine Premium 2215, de 19m³. Essas duas máquinas foram submetidas a uma série de testes na Alemanha e obtiveram o certificado DLG-Anerkannt, proveniente da maior e independente autoridade alemã em termos de máquinas agrícolas.

A pré-mistura é um requisito atual? É cada dia mais necessária. É "obrigatória" para um profissional que usa esse tipo de componente. Deixe-me dizer-lhe um ponto crucial sobre a pré-mistura: se não for 100% bem feita, acaba sendo contraproducente. É aí que os nossos misturadores entram em ação: quanto maior a precisão, melhor o resultado. Com o nosso sistema, podemos garantir uma margem de erro de 0,1%. Nenhum outro fabricante de unifeeds pode certificar isso.

ANDREA MARIANI Responsável de vendas da Siloking em Itália, França, Espanha e Portugal.

Silonox. Qual é a principal característica deste material? O Silonox é uma maneira inteligente de fazer com que os misturadores de ração durem muitas horas de trabalho. De série, é usado principalmente nos locais onde o atrito e os ácidos desgastam mais: entre os sem-fins, em torno das portas de descarga, na cabeça de fresagem e na base dos tapetes transportadores. Existem alguns outros pontos onde usamos esse tipo de aço, mas esses são "ultrassecretos". Estamos 100% confiantes neste tipo de

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Alimentação exata

"A MISTURA VERTICAL É A MAIS HOMOGÉNEA, RÁPIDA E PRECISA, E O DESENVOLVIMENTO DESSE SISTEMA AINDA NÃO TERMINOU." aço. Temos algumas máquinas com essas características, com mais de 20.000 horas de trabalho, que mantém o depósito/sem-fim, a fresa e o tapete transportador de origem. O Silonox é usado também para aplicações pesadas nos misturadores de biogás devido à sua incrível resistência e vida útil. Os unifeeds têm um chassis de 3 pontos que torna o reboque "mais durável, mais rápido e manobrável". Pode explicar o conceito? Posso partilhar um detalhe muito simples que explica tudo: fabricamos um misturador automotriz de 19m³ com um raio de viragem de 6,5 metros, e outro com 13m³ com raio de viragem de 4,5 metros. São vantagens claras para as pequenas explorações. Fora isso, o conceito é muito simples: não precisamos de 4 rodas motrizes nem de 4 rodas direcionais; e, como não carregamos o eixo direcional com o peso do motor, bombas e cabine, o sistema é muito mais fiável e tem muito menos desgaste do que qualquer outra máquina que se possa encontrar no mercado.

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Quais são as principais manutenções destas máquinas? Fornecemos, juntamente com os nossos parceiros, Volvo Penta e Bosch Rexroth, a melhor tecnologia que o dinheiro pode comprar e, além disso, oferecemos 1.000 horas de trabalho entre os intervalos de manutenção. Obviamente, este é um grande passo em frente para reduzir custos e tempo, e para tornar a máquina sempre disponível. A manutenção diária e semanal está reduzida a uma verificação visual da máquina, à verificação de níveis e à limpeza do filtro de ar. O que representa a parceria com a Volvo Penta? Desenvolvemos em conjunto o alojamento do motor, o posicionamento do radiador e a alimentação das bombas juntas. É um parceiro valioso que nos oferece um dos melhores motores do mercado e um ótimo serviço. “Quando se tem um parceiro, falhar não é uma opção.”

Há inovações tecnológicas previstas para os próximos 5 anos? Esperamos ver mais agricultores a passarem dos misturadores rebocados para os automotrizes ou para os estáticos, para além de um aumento do volume e aplicação de tecnologias de precisão. Isso melhorará a eficiência dos criadores de gado, especialmente a dos produtores de produtos lácteos, que se tornará mais interessante e sustentável. Essa sustentabilidade é o que as novas leis e os clientes finais exigem e desejam ver nos produtos que compram diariamente nos supermercados. O futuro dos misturadores de ração já está a funcionar em algumas explorações da Baviera, com a marca SILOKING, mas por enquanto este tema está “no segredo dos Deuses”. Quantos NIR já venderam em explorações de gado no mundo? No final de 2019, o número de analisadores NIR vendidos em todo o mundo era de cerca de 1.500 unidades, um número que deve


Alimentação exata

ENRICO SALVATERRA Sales Export Area Manager Dinamica Generale Spa.

aumentar rapidamente. Em particular no norte da Europa, onde a taxa de adoção de tecnologia está a aumentar, a tecnologia NIR aplicada a misturadores de alimentos e a estações de alimentação estacionárias teve um grande aumento nos últimos meses. Em que países vende essa tecnologia? Não há limites para essa tecnologia. Da parte ocidental do mundo: América do Norte, Europa Central e do Norte, onde os sistemas onboard para misturadores automotrizes e analisadores portáteis são os mais vendidos; até ao Extremo Oriente, onde grandes fábricas estacionárias com vários misturadores de alimentação são equipadas com sensores NIR. Menção especial merece o mercado de Portugal que está crescendo ainda mais rápido do que outros graças ao nosso parceiro Maciel Máquinas Agrícolas, que tem vindo a ganhar quota de mercado com a solução NIR portátil e on board (integrada) para misturadores de ração.

Qual a oferta da vossa gama com interesse para o gado? A nossa gama compreende uma variedade de soluções NIR, desde dispositivos portáteis como o AgriNIR, provavelmente a ferramenta de referência para nutricionistas em todo o mundo, até aos analisadores portáteis X-NIR. A série ZX, fabricada pela Zeltex Company nos EUA, recentemente adquirida pela Dinamica Generale Group, foi projetada para análise de grãos na exploração, no campo, elevadores de grãos, criadores de sementes e compradores. Uma categoria à parte são os analisadores NIR de bordo. Estes devem ser instalados em misturadores de ração, fábricas de ração automatizadas e até fábricas de desidratação de forragem específicas. Que benefícios podem ser obtidos com esses dispositivos? O custo da alimentação é uma das maiores despesas numa exploração. Além disso, uma dieta desequilibrada pode afetar a saúde da vaca, diminuir a produção de leite e resultar em impactos ambientais negativos. Testes regulares de matéria seca (MS) em alimentos para animais e reequilibrar a ração para compensar as alterações na MS, asseguram que os agricultores estejam a fornecer a ração formulada pelo seu nutricionista. A tecnologia NIR é mais rápida e com menor custo do que os métodos tradicionais de química húmida para determinar a composição nutricional dos alimentos. A Dinamica Generale desenvolveu sistemas de tecnologia NIR para misturadores de alimentos e dispositivos portáteis desde o ano 2000. Os gerentes e nutricionistas das explorações que utilizam as ferramentas NIR do Dinamica Generale agora podem tomar decisões de gestão em relação à alimentação em tempo real. Que vantagens traz o Visiomix? O Visiomix é uma inovação revolucionária lançada pela Dinamica Generale. Não estamos a falar de tecnologia NIR, mas de

visão computacional. O Visiomix é capaz de medir a homogeneidade e o comprimento das fibras no misturador de alimentação durante a mistura TMR. O sistema Visiomix pode ser montado em todos os misturadores de ração do mercado, e representa a base de um projeto mais amplo iniciado há vários anos: gerir o processo de nutrição animal para alcançar a sustentabilidade e a eficiência da produção para os agricultores. O operador pode controlar o tempo de mistura para obter o grau certo de mistura, economizando combustível. O controlo da homogeneidade e comprimento das fibras é de suma importância para os agricultores, pois podem afetar a ruminação, as atividades de triagem, o rendimento da produção e a saúde animal. Os NIRs podem ser adaptados para dar o perfil de leite e/ou carne? E dos solos? A espectroscopia de infravermelho próximo (NIRS) é uma das técnicas mais flexíveis e rápidas para medir o conteúdo de gordura, proteína e lactose do leite, para controlo de qualidade da carne em larga escala e muitas outras aplicações. A tecnologia NIR permite informações no local quando você precisar. Diferentes comprimentos de onda do NIR podem analisar praticamente todos os produtos. O que podemos esperar desses dispositivos dentro de 5 anos? Não temos uma bola de cristal ... com certeza que a Dinamica Generale e a Zeltex estão a ganhar participação de mercado no campo de analisadores NIR para aplicações em campo. O nosso profundo conhecimento e experiência, adquiridos ao longo dos anos, juntamente com nossa vasta competência no desenvolvimento de novas soluções, vai nos permitir melhorar ainda mais a nossa tecnologia e torná-la adequada para todas as necessidades dos clientes ... até totalmente novas daquelas com as quais lidamos hoje.

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JOSÉ DA SILVA FÉLIX, SÓCIO-GERENTE DA NUTRILEITE.

EQUIPAMENTO | BUDISSA PROFI BAGGER RT 8000

DESPERDÍCIO ZERO

“GANHEI MUITO NO DESPERDÍCIO, NA CONSERVAÇÃO E NA QUALIDADE DAS FORRAGENS", DIZ JOSÉ DA SILVA FÉLIX, SÓCIO-GERENTE DA NUTRILEITE, SOBRE A ENSILADORA BUDISSA RT 8000 PROFI ADQUIRIDA HÁ UM ANO PELA EMPRESA. Por Ruminantes

A

Nutrileite é uma exploração leiteira localizada em Alfouves, Rio Maior, que tem 346 vacas em produção, dum efetivo total de 600 animais da raça Holstein Frísia. Compreende uma área total de aproximadamente 180 hectares regados, onde são produzidas forragens de milho, azevém e luzerna para a alimentação das vacas. Anualmente colhem 2.600 toneladas de silagem. Há cerca de um ano, a empresa decidiu adquirir uma máquina de ensilar tubular Profi Bagger RT 8000, rebocada, da marca Budissa, para fazer as silagens para a alimentação das vacas. Através deste sistema,

BUDISSA BAGGER RT 8000, MODELO COM ROTOR REFORÇADO

68 RUMINANTES ABR/MAI/JUN 2020

a forragem colhida é ensacada em mangas tubulares plásticas que podem ir até 90 metros de comprimento. Quando começou a usar a ensacadora? Já vamos na segunda campanha. Antes, fazíamos silos de trincheira com a silagem de milho, e fardos húmidos com a luzerna e o azevém. O que o levou a adquirir este equipamento? A principal motivação foi a conservação das forragens, para termos menos perdas e melhor qualidade. Com a luzerna,

CONTROLOS DA PRESSÃO DE ENTRADA DA FORRAGEM

TAPETE DE RECEÇÃO DO MATERIAL, EM BORRACHA

concretamente, era complicado. Hoje, tenho silagens com mais nutrientes, mais estabilidade, e tenho menos desperdício por perda de nutrientes. Qual é o maneio alimentar do vosso efetivo? É à base de forragem, não utilizamos concentrado nem nos vitelos, é tudo forragens que produzimos, para além de bagaço de cerveja e pastone [35% de concentrados (dreche de cerveja e pastone) e 65% de forragem]. Cada vaca come diariamente, em média, aproximadamente 14 kg de silagem de milho com 42% matéria seca (MS), 10 kg de silagem de azevém com

2º PONTO DE LIGAÇÃO DA MÁQUINA AO TRATOR


Profi Bagger RT 8000, desperdício "zero"

60% MS e 9 kg de silagem de luzerna com 45% MS. Nota alguma melhoria no leite nas silagens feitas por este processo? Ao nível da qualidade, aumentou a digestibilidade da fibra levando ao aumento dos teores de gordura (+ 3 a 4%) e de proteína (+1 a 2%). No que se refere à produção não houve alteração, mas esse também não é o objetivo. E, sim, temos mais sólidos no leite por conseguirmos incorporar mais forragem do que antes. Produzem anualmente mais de 2.000 toneladas de silagem de erva, por corte, numa superfície total de 80 ha. Quanto demora a ensilar por este método? Demoramos o mesmo tempo, 4 dias. Não por causa da máquina mas porque dependemos dos transportes e da capacidade da picadora. Mas é um processo menos trabalhoso. Nos silos de trincheira é preciso calcar e espalhar a forragem, tapar os silos, isolar as paredes, etc. Era mais dispendioso e moroso. Este sistema substitui uma máquina a pisar, ou seja, dispensa outro trator.Para além de que não dependemos das condições climatéricas, se chover entretanto, o material está sempre protegido. Neste sistema utiliza inoculantes? Só quando considero oportuno, nas mangas com mais matéria seca não utilizámos e não notámos qualquer diferença. Como desensila? Aqui usamos uma pá dum Manitou, mas pode-se usar um unifeed automotriz.

Que custos pressupõe a utilização deste sistema? Para além da própria máquina, é necessário algum investimento na preparação do terreno, e espaço para a deposição das mangas e para as manobras dos reboques. Mas, por outro lado, não exige obras de construção civil como acontece com os silos de betão. Que custos variáveis tem a mais? O custo da manga e o custo do transporte do plástico para a reciclagem.

ESPECIFICAÇÕES DA MÁQUINA Profi Bagger RT 8000 Ensacadora reforçada e flexível para grandes explorações e prestadores de serviços (mínimo 8.000 toneladas de silagem por ano) Peso: 9.500 kg Potência mínima ideal exigida ao trator: 200 cv Diâmetro das bolsas: 2,70m (9´); 3,00m (10´) Performance (conforme a alimentação): até 150 t/h

Quanto tempo demora a pagar este investimento? Se contabilizar as vantagens que traz à exploração, incluindo o investimento da manga, paga-se em 3 anos. O que não é verdade se eu alugasse esta máquina para fora fazendo as toneladas que faço; Qual a importância do operador da máquina na execução da aí, demoraria cerca de 10 anos a pagá-la. silagem? Tem que ser alguém que saiba, pelo menos, Há desperdícios de manga? trabalhar com um trator e com máquinas. Não há, posso fazer mangas com qualquer O operador vai controlando os manípulos comprimento, não fico com sobras. de entrada da forragem, que controlam a pressão, consoante o tipo de forragem. A Qual a potência mínima do trator de milho ou a de beterraba é muito fácil de para trabalhar com a máquina? operar, já a de azevém ou a de luzerna, são 150 cv é mesmo o mínimo. mais difíceis. Qual é o custo do trabalho por Em que vacarias recomenda a tonelada? Considerando o custo normal de amortização da utilização dum equipamento destes? máquina, o gasóleo do trator, um operador e o custo da manga, fica na ordem de 2,5 a 3 euros por Este modelo, o RT 8000 Profi, destina-se a explorações que façam, no mínimo 8.000 tonelada. Se tivermos uma manga com 60% de matéria seca, logicamente que esse custo é maior, toneladas de silagem por ano. É fundamental 4 ou 4,5 euros, porque leva menos toneladas em que tenham espaço para a instalação e para as manobras dos camiões. Se estas condições cada metro. estiverem reunidas, é o sistema ideal porque a manga conserva muito melhor a forragem e Que manutenções tem a máquina? permite geri-la de uma forma mais eficaz ao Apenas ao nível do rotor, há que substituir longo do ano. pequenas peças de desgaste. RUMINANTES ABR/MAI/JUN 2020

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EQUIPAMENTO | PICADORA FENDT KATANA 65

VAI DE KATANA

HÁ 6 MESES, ADRIAAN MERKENS COMPROU, EM SEGUNDA MÃO, NA HOLANDA, UMA PICADORA AUTOMOTRIZ FENDT KATANA 65 COM 700 HORAS. ENTRE AS DUAS COLHEITAS QUE ENTRETANTO FEZ, A MÁQUINA JÁ TEM MAIS 200 HORAS DE TRABALHO NAS SUAS MÃOS. Por Ruminantes | Fotos Francisco Marques

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RUMINANTES ABR/MAI/JUN 2020


Picadora Fendt Katana 65

"UMA DAS PRINCIPAIS VANTAGENS DA KATANA 65 É O BAIXO CONSUMO DE COMBUSTÍVEL, COMPARATIVAMENTE COM OUTRAS MÁQUINAS."

A

driaan Merkens é prestador de serviços agrícolas. Além da sua área de residência, no Redondo, desloca-se aonde houver trabalho. Há 6 meses, adquiriu em segunda mão, na Holanda, uma picadora automotriz Fendt Katana 65 com 700 horas. Dessa altura até agora, a máquina já tem mais 200 mil horas de trabalho nas suas mãos. Esta é a primeira vez que uma Katana trabalha em Portugal, pelo que quisemos saber as impressões de Merkens. O primeiro destaque deste experimentado operador vai para o baixo consumo de combustível, comparativamente com outra máquina que tem. Numa das parcelas com 135 ha, onde acompanhámos a colheita, o consumo registado foi de 5,1 litros/ha. A precisão de corte é outra vantagem realçada. É importante, porque os seus clientes preferem um comprimento de corte específico, geralmente de 20 mm para o milho e de 15 mm para a erva. As facas para o corte de erva da Katana vêm equipadas com sistema de afiação automática. No que toca ao rendimento da máquina, este é, segundo o operador, “bom, quer se trate de erva ou milho, e em material seco ou húmido”. Nas duas campanhas que já fez com

esta máquina, Merkens apurou rendimentos de 80 toneladas/hora para a erva e 160 ton/ hora para o milho. Para estes resultados contribuem os 6 rolos de alimentação de acionamento hidráulico da máquina, que conduzem a colheita de maneira uniforme para a cabeça de corte. Como outro ponto positivo, refere também que o material fica bastante comprimido. Finalmente, Merkens destaca o ambiente na cabina, que descreve como “muito confortável” e realça a importância da suspensão traseira. A Katana 65 vem também equipada de série com tração integral e com um sistema de controlo de tração que aciona automaticamente o bloqueio do diferencial. Nota também positiva teve o detetor de metais, de grande sensibilidade, já que em muitos terrenos onde opera existem pedras. Como outras características de interesse no uso diário da máquina, destaca ainda o sistema de condução automática VarioGuide, com um nível de precisão máximo de +/- 2 cm; e o sistema de documentação VarioDoc, da Fendt, que grava e apresenta dados relevantes relativos ao consumo de combustível e ao mapeamento das colheitas.

ZONAS DE EFICIÊNCIA MÁXIMA PARA A OPERAÇÃO DE PICADORAS DE FORRAGEM BINÁRIO

POTÊNCIA

DADOS APURADOS DO COMPUTADOR DE BORDO DA KATANA 65, NUMA HERDADE EM CAMPO MAIOR, COM 135, 4 HA, COM FORRAGEM DE ERVA NÚMERO DE HORAS TOTAL EM FUNCIONAMENTO: 16:36:34 H:M:S NÚMERO DE HORAS TOTAL DE FUNCIONAMENTO DO CILINDRO DE CORTE 13:33:07 H:M:S CONSUMO TOTAL: 792,8 LITROS CONSUMO MÉDIO TOTAL: 47,7 L/H CONSUMO MÉDIO COM A EMBRAIAGEM PRINCIPAL ACIONADA: 55,5 L/H CONSUMO MÉDIO EM MODO DE CAMPO: 5,1 L/HA CONSUMO MÉDIO EM MODO DE CAMPO: 63,9 L/H ÁREA TRABALHADA: 135,4 HA ÁREA TRABALHADA POR HORA: 12,36 HA/H LARGURA DE TRABALHO: 16.00 M NOTA: 16 metros de corte que converge em 4 m de largura do pick-up.

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Picadora Fendt Katana 65

ALTO RENDIMENTO PARA TODOS OS TIPOS DE CULTURAS, SEJA ERVA OU MILHO, COLHEITA HÚMIDA OU SECA. SEIS ROLOS DE ALIMENTAÇÃO CONDUZEM A COLHEITA ATÉ À CABEÇA DE CORTE, GARANTINDO UMA PRÉ-COMPRESSÃO IDEAL DO MATERIAL PICADO. A LARGURA DE 770 MM DOS ROLOS PERMITE A ALIMENTAÇÃO DE GRANDES QUANTIDADES DE MATERIAL. O COMPRIMENTO DO CORTE PODE SER AJUSTADO INFINITAMENTE DE 2,6 A 42 MM, DEPENDENDO DO TAMBOR DE CORTE, A PARTIR DO POSTO DE CONDUÇÃO.

ASPETO DA ERVA PICADA.

TURBINA DE DESCARGA DE GRANDE CAPACIDADE.

V-CRACKER, UM VERDADEIRO TRITURADOR DE GRÃO: COM DISCOS TRITURADORES INDEPENDENTES, MAIOR SUPERFÍCIE DE FRICÇÃO, EM COMBINAÇÃO COM TAMBORES DE 20, 28 OU 40 FACAS, PARA UMA ELEVADA HOMOGENEIDADE DE CORTE E MÁXIMO RENDIMENTO. COM UM DIÂMETRO DE 720 MM, A FENDT KATANA TEM O TAMBOR DE CORTE MAIOR DO MERCADO. A DISPOSIÇÃO EM V DAS FACAS COM ATÉ 23,000 CORTES/ MIN (TAMBOR DE 40 FACAS) PERMITEM UMA ELEVADA FREQUÊNCIA DE CORTE.

EM MARCHA PARA A FRENTE, O OPERADOR PODE ACOMPANHAR, ATRAVÉS DA CÂMARA, O NÍVEL DE ENCHIMENTO DO REBOQUE QUE O ACOMPANHA. AO INVERTER A MARCHA, A IMAGEM MUDA AUTOMATICAMENTE PARA A CÂMARA DE TRÁS.

ATIVANDO O MODO DE CONDUÇÃO TOTALMENTE AUTOMÁTICO ATRAVÉS DO VARIOGUIDE, A PICADORA SEGUE O SEU TRAJETO. SE PREFERIR MANTER AS OPERAÇÕES SOB CONTROLO, A VISIBILIDADE É IDEAL EM TODAS AS DIREÇÕES A PARTIR DO POSTO DE CONDUÇÃO. 72

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PRODUÇÃO | ENTREVISTA A EUGÉNIO CÂMARA

PRODUÇÃO | ENTREVISTA A SÉRGIO SILVA ROCHA

'HARD DATA'

PARA SÉRGIO SILVA ROCHA, PRODUTOR DE LEITE HÁ 28 ANOS, A AQUISIÇÃO DE UM ROBOT DE ORDENHA TROUXE UMA VANTAGEM A QUE DÁ UM GRANDE VALOR: A FACILIDADE DE OBTER TODAS AS INFORMAÇÕES QUE PRECISA PARA "TIRAR CONCLUSÕES COM BASE EM DADOS CONCRETOS E NÃO EM SUPOSIÇÕES". Por Ruminantes

S

érgio Silva Rocha é produtor de leite há 27 anos, em São Martinho de Gândara, concelho de Oliveira de Azeméis. Recentemente, investiu num robot de ordenha Gea Monobox para o seu efetivo atual de 53 vacas. Filho de agricultor e já com alguma experiência no negócio, foi quando se casou, há 28 anos, que abraçou a 100% a vida de produtor de leite. Hoje, a exploração que gere, em sociedade com sua mulher, compreende um efetivo de 130 animais, 53 dos quais em ordenha. Produz também forragens para alimentação do gado em 22 hectares de terra, dos quais 5 ha são de luzerna e os restantes de milho, azevém e cereais de inverno. Como começou neste negócio? Comecei com 50 vacas, com uma ordenha

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tradicional em tandem. Ordenhava 2 vezes, 2 horas de manhã e 2 à tarde. Que razões o levaram a investir num robot? Estamos a investir bastante em genética e para vermos resultados desse investimento teremos que passar para 3 ordenhas. Hoje é difícil encontrar pessoas para trabalhar na ordenha, e eu não conseguia fazer tudo sozinho. Para além da obrigatoriedade diária de ter que fazer as ordenhas, ficava muita coisa por fazer.

HÁ MENOS DE UM ANO, SÉRGIO SILVA ROCHAINVESTIU NUM ROBOT DE ORDENHA GEA MONOBOX PARA O SEU EFETIVO ATUAL DE 53 VACAS.

Tem o robot há 10 meses. Que alterações viu na exploração? Passei o número médio de ordenhas para 2,7 a 2,8. Ganhei tempo, vejo os animais a ficarem melhores a nível de úberes; e aumentei a produção em cerca de 5 litros, de 30-32 para 35-36,5.


"Hard data" com robot de ordenha

"TEMOS QUE SER EFICIENTES EM TUDO O QUE FAZEMOS. TER MUITO CUIDADO NO QUE PRODUZIMOS, E COM O QUE METEMOS DENTRO DO UNIFEED." Vai aumentar o efetivo? Sim, neste momento estou com 60 fêmeas em recria, de pequenas a grandes. Vou refugar algumas vacas, e aumentar o efetivo para rentabilizar o investimento. Neste robot estamos a ordenhar 52 a 54 vacas, mas podemos ir até aos 65 animais. Que vantagens vê neste robot? - Não há perdas de oxitocina porque engata os 4 tetos ao mesmo tempo, lava, tira os primeiros jatos e começa logo a ordenhar. - Não há perigo de contaminação entre tetos porque não há uma tetina que toque nos tetos todos, cada tetina faz o seu serviço. - Faz a desinfeção. De cada vez que os animais saem, o robot faz a desinfeção às tetinas com ácido peracético para não haver perigo de contaminação. - Evita a ocorrência de mamites (a maioria são de origem ambiental), porque confere uma proteção total: é com a tetina colocada que o robot faz a lavagem, tira os primeiros jatos e faz a desinfeção com o pós-dipping. Quando a tetina é retirada, o teto está completamente isolado. E não há perda de oxitocina porque faz tudo de seguida. - Dá a possibilidade de separar um teto. Este é um extra que vem juntamente com o medidor de células somáticas. Tiro muito proveito porque acusa qualquer descarga de células que ocorra num determinando teto. Essa informação fica registada no computador, permitindo identificar o teto e separá-lo. Em seguida, é analisado o leite para perceber o tratamento a fazer. Normalmente, resolve-se com um anti-inflamatório. Que outros extras tem o robot? - Mede o tempo que as vacas passam por dia a comer e a ruminar, e tem detetor de cios. Permite também a medição da condutividade do leite; como tenho leitor de células comparo as leituras pelos dois sistemas. Cheguei à conclusão de que a medição da condutividade não é fiável, porque tenho vacas com células somática em que a condutividade é baixa.

manjedoura, têm que passar numa porta de seleção. Se estiver na hora de ordenhar, o robot encaminha-as para o parque de espera do robot e, depois de ordenhar, então vão novamente à manjedoura. Esse intervalo é de 8 horas, mas a partir das 6 já permite o acesso das vacas ao parque de espera do robot. Qual é o seu objetivo, maximizar a produção por vaca ou a produção por robot? Eu olho para tudo, para o bem-estar animal, para a produção, para as oscilações de produção e motivos, e também para a fertilidade. Procuro ter a melhor produção mas a saúde vem primeiro. Fazer bem para receber bem. Como avalia a saúde do efetivo? Essencialmente pelo número de casos clínicos e fertilidade. Nota alguma diferença desde que tem o robot? Muita diferença, antes eu nem sempre estava na ordenha e não tinha informação nenhuma. Hoje chego aqui, carrego nas teclas e sei o que preciso. Uma das vantagens do robot foi a quantidade de informação que me deu para poder tirar conclusões com base em dados concretos e não em suposições.

Como consegue aumentar a eficiência do robot? Com o sistema forçado consigo fazê-las passar mais vezes. Já fiz um ensaio em sistema livre mas não funcionou. Voltaria a fazer o mesmo investimento? Igual, só tenho pena de não ser mais novo, metia já outro robot. Qual é a produção total da vacaria/ano? Estou com 664 mil litros. O meu objetivo é produzir o máximo possível com os animais que puder ter no robot. Qual o segredo para se manter nesta atividade? Temos que ser eficientes em tudo o que fazemos. Ter muito cuidado no que produzimos, e com o que metemos dentro do unifeed. Temos que ter atenção à conservação dos silos, muitas vezes atiramos pedras aos senhores das rações e o problema está em nossa casa. Vê-se por aí muita coisa mal feita: silagens mal compactadas, cheias de problemas. E há outra questão que tem a ver com as camas: os cubículos, se forem bem feitos, é a melhor coisa que temos, mas se forem mal trabalhados é a pior coisa.

E em termos de saúde animal? Vi uma melhoria significativa. Na altura em que adquiriu o robot, fez outras mudanças? Investi em cubículos, que não tinha. Hoje tenho cubículos vagos, mas estou a pensar em aumentar o número de cubículos para ter 5 a 10% a mais do que o número de vacas. A que indicadores olha para ver se o negócio vai bem? Saúde animal, produção total do dia, média de ordenhas, ruminação (diariamente), tempo à manjedoura (possíveis oscilações).

As leituras do contador de células somáticas que o robot lhe dá, são fiáveis quando compara com análises exteriores? Sim, corrspondem umas com as outras.

A transição para o robot foi simples? Adotei uma estratégia para facilitar a transição: antes de iniciar, estive 15 dias a dar ração no robot para as habituar.

Que tipo de sistema de ordenha robotizado tem? É um sistema forçado: quando as vacas querem deslocar-se dos cubículos para a

Que quantidade de ração dá no robot? Aqui é o robot que decide em função da produção. Atualmente está em 115 g/litro.

DADOS DA EXPLORAÇÃO Produção leite total vacaria/ano: 660.000 Efetivo total: 130 Raça: Holstein Nº vacas em ordenha: 53 Nº ordenhas por/vaca/dia: 2,7-2,8 Produção média leiteira aos 305 dias: 10.200 litros Produção média diária: 36-37 litros Nº médio de lactações/ano: 2,3 (acima de 3 seria ideal) GB (%): 3,7 PB (%): 3,2 CCS – 200.000 cél/ml Idade ao 1º parto: 24 meses Nº I.A. vaca adulta gestante: 2,3 doses Período de espera voluntário: 60 dias

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Notícias e novidades de produto

REINO UNIDO VAI INVESTIR MAIS NO BEM-ESTAR ANIMAL

NOVOS SUBSÍDIOS VÃO PREMIAR RESULTADOS

Numa fase de mudança para o Reino Unido, produtores e médicos veterinários juntam-se ao departamento governamental responsável pela agricultura - DEFRA (Department for Environment, Food and Rural Affairs) para elaborar novos planos na área da saúde e bem-estar animal. Para o governo inglês o bemestar animal é uma prioridade, e, por isso, pretende-se que os produtores que consigam demonstrar as melhorias feitas neste sentido nas suas explorações recebam fundos ao abrigo dos planos pós-brexit. Nos últimos 18 meses o governo tem estado reunido com a NFU (National Farmers´ Union) e a BVA (British Veterinary Association) para juntos desenharem os novos esquemas de subsídios, que pretendem beneficiar os produtores por atividades e resultados concretos e não apenas por serem produtores/ detentores de terras. Em breve serão lançados projetos piloto que incluirão um esquema de pagamento por resultados para produtores que consigam demonstrar aumentos no bem-estar dos animais, ou uma bolsa de subsídios para investimentos em bem-estar animal. Com esta nova forma de apoiar a produção, o Reino Unido dá um passo importante no sentido da liderança mundial na área do bem-estar animal. 76

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CRIAÇÃO SUSTENTÁVEL DE GADO É POSSÍVEL

MOTIVAR OS PRODUTORES A CRIAREM DE FORMA SUSTENTÁVEL. E DAR A CONHECER, DO PONTO DE VISTA CIENTÍFICO, O CONTRIBUTO DO GADO PARA O ECOSSISTEMA NATURAL. Motivar os produtores a criarem de forma sustentável. E dar a conhecer, do ponto de vista científico, o contributo do gado para o ecossistema natural. Estas foram as duas apostas da organização 12ª edição do congresso anual do HVME, dedicado à produção de ruminantes em extensivo e à criação de cavalos, que decorreu em Évora, em março passado. A sessão de abertura pertenceu ao Diretor Regional de Agricultura e Pescas do Alentejo, José Calado, que alertou para um decréscimo de 30% da população no Alentejo nas últimas três décadas, referindo a importância do setor pecuário na inversão desta realidade. Otimizar o sistema de produção de ruminantes por forma a reduzir os gases que provocam o efeito de estufa foi um tema transversal nestas palestras. Eduardo Oliveira e Sousa, presidente da CAP, defendeu que a sustentabilidade tem que se aplicar a todas as atividades económicas, ressalvando a importância duma pastagem biodiversa que pode fixar no solo entre 8 a 12 toneladas de dióxido de carbono por ha/ano. João Joanaz de Melo, professor universitário e fundador do Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA), chamou a atenção para o facto de o regime extensivo ter menos impacto ambiental do que a produção intensiva, sobretudo no que respeita aos resíduos, e acredita que "a perda da biodiversidade é a pior ameaça ambiental dos dias de hoje”. Disse também que nos últimos três séculos 25% das espécies do planeta foram extintas. Cláudia Cordovil, docente no Instituto Superior de Agronomia (ISA) falou sobre retro inovação, o regresso a práticas antigas,

na tentativa de corrigir os erros do passado, nomeadamente a destruição dos solos”, ressalvando que o agricultor sabe muito bem preservar os seus recursos naturais e que o caminho é produzir "mais com menos". Daniel Murta, da Entogreen, explicou um dos caminhos alternativos para responder à necessidade crescente de proteína no mundo mitigando a utilização de recursos naturais. “Produzimos proteína a partir do desperdício agroalimentar e com o recurso a insetos. Utilizamos larvas e insetos que convertem vegetais que não foram consumidos na sua forma original, em fertilizantes orgânicos, subprodutos que voltam à terra, e em nutrientes que fazem parte das rações dadas aos animais”. Teresa de Herédia, nutricionista e fundadora da Nutrialma, referiu a importância da literacia nutricional para que o consumidor possa fazer escolhas alimentares informadas. “Os consumidores estão muito polarizados nas suas decisões alimentares. Devemos ingerir em média 500g de carne por semana, sendo que 200g devem ser de carne vermelha, que tem nutrientes importantíssimos para a nossa saúde”, acrescentou a nutricionista, e alertou que é essencial conhecer as leis da alimentação que passam pela quantidade suficiente, qualidade em nutrientes, harmonia na composição e adequação a quem se destina. Produzir e consumir a quantidade de nutrientes certos para uma dieta equilibrada que garanta o bem-estar da população, tendo em conta a preservação do meio-ambiente, é um dos grandes desafios da humanidade e o setor pecuário é um dos principais implicados no garante deste serviço público.


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Notícias e novidades de produto

RENT-A-GOAT

PEQUENOS RUMINANTES CONTROLAM INFESTANTES

Nos EUA estão a proliferar pequenos negócios de aluguer de caprinos para controlo da vegetação. É o caso da empresa Rent-a-Ruminant na Flórida. O apetite voraz destes pequenos ruminantes é uma forma ecológica, sem recurso a herbicidas, de controlar o crescimento de espécies infestantes prevenindo assim os incêndios principalmente em terrenos de difícil acesso. Para além dos animais (e dos cuidados de saúde e bem-estar associados) quem quer enveredar neste negócio deve investir em sistemas de vedação elétrica (com gerador ou painel solar) ou no trabalho diário de um pastor, e num veiculo de transporte de animais. É necessário também ter consciência de que em climas mais frios este pode ser um negócio muito sazonal, obrigando a que durante o inverno os animais sejam alimentados de outra forma e tenham alojamento adequado. Apesar do investimento necessário este negócio pode ser, para alguns produtores uma forma de transformar nutrientes que seriam desperdiçados em alimentos e, assim, utilizar as cabras para o controlo de vegetação e para a produção de carne como faz a Goats On the Go no Iowa. Paralelamente surgem também empresas como Rent-A-Ruminant, LLC com sede em Seattle, que não utiliza os animais para produção e vê no negócio uma forma de “salvar os animais do abate”.

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OVINOS E CAPRINOS EM DESTAQUE

“INOVAR NA TRADIÇÃO” FOI O MOTE DO SEGUNDO DIA DAS JORNADAS DO HOSPITAL VETERINÁRIO MURALHA DE ÉVORA, DEDICADO AOS PEQUENOS RUMINANTES. “Inovar na tradição” foi o mote do segundo dia das jornadas do Hospital Veterinário Muralha de Évora dedicadas exclusivamente aos pequenos ruminantes. Vários oradores abordaram temas relacionados com a produção de carne, leite e lã, melhoramento genético e reprodução, programas sanitários, alimentação e biossegurança. Juan Vicente Bermejo, professor na Universidade de Córdoba, falou da necessidade do setor pecuário crescer mediante um determinado protocolo e explicou a importância de se escolher um bom reprodutor com vista à sustentabilidade da exploração numa época onde a seleção é molecular. “O melhoramento genético é gerado ou é comprado e por isso sugiro que os produtores recorram a especialistas que os aconselhem a selecionar um reprodutor adequado à especificidade da sua exploração dado que o cruzamento indiscriminado resulta sempre num grande erro”, acrescentou o investigador defendendo que comprar genética é um investimento de longo prazo e um dos pilares da produção animal, a par de uma boa alimentação, de um plano de reprodução adequado e da utilização de tecnologia para uma gestão precisa dos fatores de produção. Isto passa também pela consciência e controlo das doenças infeciosas com impacto na reprodução que não devem ser combatidas, numa primeira fase, com o uso de antibióticos. Deolinda Silva, da HIPRA, alertou para a necessidade de confirmar, através de análises ao sangue, a causa dos abortos e acrescentou que a clamídia é a principal causadora de

abortos em ovinos. “Uma das soluções passa pela vacinação e por medidas de maneio adequadas, como a desinfeção das maternidades, rápida remoção e destruição da placenta e feto, identificação e isolamento de animais abortados. Quando há um aborto existe um custo de oportunidade que passa pela perda do borrego e por um atraso na próxima gestação da ovelha que terá um período de recuperação de cerca de dois meses”, acrescenta a responsável pelo marketing da HIPRA, um dos principais patrocinadores do evento, a par da MSD. A biossegurança foi outro tema amplamente debatido na perspetiva da exportação de pequenos ruminantes. “Com doenças não há eficiência produtiva”, afirmou o professor Telmo Nunes, trazido pela MSD, salientando o papel da biossegurança como um dos aspectos centrais a ter em conta na estratégia de produção de uma exploração agrícola dado que desta depende a capacidade de entrar em novos mercados. “Nós temos que ter noção de que estamos a exportar animais para países onde existem surtos de febre aftosa e por isso o produtor tem que prevenir mais e tratar menos”, afirma o docente da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa. O workshop “Animais de Companhia – estratégias de antibioterapia” foi outra novidade das jornadas. “Cada vez mais na clínica sentimos a problemática das infeções resistentes, daí que seja urgente sensibilizar e orientar os colegas por forma a fazermos uma antibioterapia mais direcionada e assertiva”, acrescentou Ana Gião Gomes, uma das responsáveis pela organização.


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Notícias e novidades de produto

ALLTECH INAUGURA LABORATÓRIO

DIGESTIBILIDADE DAS RAÇÕES EM ANÁLISE

A empresa global especializada em nutrição animal, acaba de inaugurar na Universidade Harper Adams no Reino Unido o seu primeiro laboratório europeu (e o sétimo a nível mundial) especializado em fermentação in vitro - o Alltech IFM. Esta nova unidade científica simula a fermentação que ocorre no rúmen dos bovinos, avaliando a digestibilidade e permitindo a otimização das rações e forragens evitando assim o desperdício. Neste laboratório as amostras de ração são incubadas com líquido ruminal durante 48 horas e, em seguida, analisadas quanto ao seu teor em ácidos gordos voláteis (AGV) e biomassa microbiana. O Alltech IFM mede também a produção de gases durante todo o processo, permitindo calcular a quantidade de energia perdida, ou seja, as emissões de metano geradas por cada animal. De acordo com o vicepresidente da Alltech, Matthew Smith este “é um avanço significativo, pois agora temos a capacidade de analisar rações na Europa e dar mais apoio técnico aos nossos clientes”. “Em parceria com a Universidade Harper Adams vamos gerar novos conhecimentos sobre a correlação entre a dieta dos ruminantes e a produção de leite e de carne de bovino na Europa. Acreditamos que o Alltech IFM pode contribuir para ajudar a resolver as enormes preocupações ambientais e a reduzir o desperdício nas explorações pecuárias, contribuindo para um Planeta de Abundância” acrescentou.

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REDE DE INFORMAÇÃO

A REDE BovINE FORNECERÁ AOS CRIADORES ACESSO A INFORMAÇÃO SOBRE INOVAÇÕES DESTINADAS A MELHORAR A SUSTENTABILIDADE DAS SUAS EXPLORAÇÕES. A nova rede transeuropeia de apoio à produção de carne bovina — BovINE, destinada a enfrentar os desafios de sustentabilidade do setor, foi lançada na Irlanda em janeiro passado. Esta rede pretende agregar investigadores, consultores, agricultores e outras players relevantes de nove estados membros da UE para estimular o intercâmbio de conhecimentos e ideias a nível internacional em quatro temas: resiliência socioeconómica, saúde e bem-estar animal, eficiência da produção, qualidade da carne e sustentabilidade ambiental. A Faculdade de Medicina Veterinária faz parte do consórcio que concorreu com sucesso e recebeu um financiamento de 2 milhões de euros da União Europeia para desenvolver este projeto, que será

compartilhado com outras 17 instituições parceiras da UE. O projeto BovINE envolve criadores de carne de nove Estados-Membros, cobrindo 75% do efetivo de vacas aleitantes na Europa e 70% da produção de carne bovina. Focada em responder às necessidades identificadas pelos agricultores, a rede BovINE fornecerá aos criadores de carne bovina acesso a informação sobre inovações destinadas a melhorar a sustentabilidade das suas explorações agrícolas e de toda a indústria. No centro do projeto está a atividade de comunicação aos produtores de carne de bovino na UE. Junte-se à mailing list para receber notícias sobre o projeto em bovine@minervacomms.net.

SELEÇÃO DE BOVINOS

A AMERICAN ANGUS ASSOCIATION ANUNCIOU ESTAR A DAR OS PRIMEIROS PASSOS NA SELEÇÃO DE BOVINOS COM UM MELHOR SISTEMA IMUNITÁRIO. Com este objetivo, 3000 bovinos vão ser submetidos a três etapas de estudo: a primeira para administrar um antigénio, a segunda onde é medida a resposta imunitária ao antigénio e é administrado um segundo antigénio, e uma terceira para medir a resposta imunitária ao segundo estimulo antigénico. Com este estudo, de acordo com Stephen Miller, responsável pela investigação genética da Angus Genetic Inc, pretende-se identificar marcadores de DNA responsáveis pela imunidade. “O objetivo final será ter EPD´s (Expected progeny diferences - diferenças expectadas na descendência resultado do uso desse progenitor) para a resposta imunitária com

base nestes fenótipos” afirmou. Este estudo faz parte de uma parceria com o CSIRO (Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation) e está englobado num projeto conjunto com a Universidade de Guelph e a empresa Semex. No final pretende-se combinar as bases de dados dos diferentes países. Este tipo de seleção é particularmente importante no atual contexto de resistência a antimicrobianos uma vez que a seleção de animais mais saudáveis, embora não dispense a utilização de estratégias de biossegurança como um maneio adequado ou programas de vacinação, reduzirá a necessidade de tratamentos com antibióticos.


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COMPORTAMENTO HUMANO E BEM-ESTAR ANIMAL

PERCEBER AS PRÁTICAS DE MANEIO DA DOR

A empresa farmacêutica Boehringer Ingelheim, e a consultora de inovação Innovia Technology anunciaram em fevereiro um projeto conjunto para obter mais conhecimento sobre a forma como o comportamento humano afeta o bem-estar dos bovinos. Este projeto inovador consiste na recolha de informação de médicos veterinários e produtores por todo o mundo sobre o maneio das explorações e práticas de maneio de dor. O objetivo é perceber os comportamentos e as motivações dos produtores, e a forma como estes afetam o bem-estar dos animais. A farmacêutica tem vindo a trabalhar na promoção do bem-estar animal nos últimos 12 anos e acredita que a compreensão dos comportamentos dos produtores pode ajudar a desenhar estratégias que vão ao encontro das raízes de determinados problemas que afetam o bem-estar dos animais e estas soluções sejam exequíveis por parte de todos os intervenientes. Este projeto faz parte da iniciativa global “Cattle First” através da qual a farmacêutica trabalha em conjunto com produtores de bovinos e médicos veterinários de forma a promover a saúde, bem-estar, inovação e sustentabilidade nas explorações por todo o mundo. Mais informações em www.farmanimalwellbeing.com.

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PELA CARNE DE QUALIDADE "A MAGIA DA CARNE DE QUALIDADE”. ESTE FOI O TEMA DO WORKSHOP ORGANIZADO PELA HIPRA NO ÂMBITO DAS JORNADAS HVME , PARA INCENTIVAR O SETOR DA PRODUÇÃO ANIMAL A VALORIZAR OS SEUS PRODUTOS. A Hipra Portugal organizou, em março passado, em Évora, um workshop integrado no programa das XII Jornadas do Hospital Veterinário Muralha de Évora, sob o tema “A magia da carne de qualidade”. Esta ação teve por propósito ajudar os intervenientes do setor da produção animal a valorizarem os seus produtos, no contexto atual em que os consumidores são cada vez mais exigentes. António Ferreira, da FarmIN Livestock Trainings, apresentou as tendências atuais de consumo de carne, com a busca crescente de experiências sensoriais por parte de um crescente número de consumidores. A HIPRA Portugal contribuiu com um tema na área da prevenção na qualidade da carne. Deolinda Silva, Diretora de Serviços Técnicos dos Ruminantes, explicou o impacto da doença respiratória na produção de uma carcaça de qualidade e as consequências económicas que acarreta. O dinamizador principal desta ação foi Dário Cecchini, um empresário italiano de 8ª geração, proprietário de talhos e restaurantes, e comunicador carismático, considerado

o talhante mais famoso do mundo, com conteúdos dedicados na BBC e na Netflix. A sua intervenção foi a desmancha e desossa comentada de uma peça de carcaça de um bovino da raça Limousine, onde colocou enfâse no aproveitamento integral de todos os cortes da carcaça, e interagiu com os cerca de 40 participantes, entre médicos veterinários, produtores e técnicos ligados a este sector, sugerindo variados cortes e preparações de carne que fizeram as delícias de todos. No final todos os participantes do workshop desfrutaram de um churrasco ao ar livre, onde se associou uma experiência sensorial única a uma troca opiniões sobre a magia de uma carne de qualidade. Foi a opinião unânime de todos os participantes que este Workshop excedeu as expectativas de aprendizagem. A HIPRA com esta ação, reforçou a sua parceria com os médicos veterinários e produtores de carne de bovino, na área da prevenção da saúde animal, consolidando o importante papel da vacinação para a prevenção da doença respiratória em bovinos.


O novo marco na poupança de energia

A Lely apresenta o Astronaut A5 Nós olhamos para as vacas e ouvimos os clientes. Um novo braço híbrido completo é o resultado. Com o poder do ar, mas sem qualquer consumo. Com um número limitado de movimentos elétricos rápidos e decisivos, tornamos o braço mais eficiente do que nunca. É por isso que o Astronaut A5 lhe oferece a melhor forma de ordenhar, a Si e ás suas vacas.

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Notícias e novidades de produto

RE-THINK RUMINANTS

FUNDAMENTAR A PRODUÇÃO DE CARNE E DE LEITE

A associação britânica NFU (National Farmers’ Union) lançou e disponibilizou um conjunto de ferramentas para equipar os produtores e “Repensar os Ruminantes”. O objetivo é equipar os produtores com informação honesta, realista e baseada em evidência para que possam argumentar e participar em discussões fundamentadas sobre a produção de carne e leite no Reino Unido. Esta informação abrange as preocupações ambientais e alterações climáticas, a nutrição e saúde associados ao consumo de carne e leite, bem como a saúde e bem-estar dos animais. O conjunto de ferramentas inclui um Mythbuster ou seja um documento que pretende desfazer os mitos comumente associados à produção, explicando a verdade que os contradiz de forma clara e objetiva e salientado o bom trabalho e os elevados standards da produção; um diretório para membros que aprofunda a informação já contida no mythbuster; um conjunto de slides para apresentações em reuniões em que se discutam estas questões; um conjunto de infografias relativas a questões de bem-estar animal, ambiente e benefícios para a saúde do consumo de carne e leite, para partilhar nas redes sociais promovendo assim a produção. Mais informação em: https://www.nfuonline.com.

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COLCHÕES DE CONFORTO PARA CUBÍCULOS

A SELEÇÃO DOS COMPONENTES UTILIZADOS É BASEADA EM MUITOS ANOS DE EXPERIÊNCIA DA GEA EM SISTEMAS DE COLCHÕES, PARA O CONFORTO TOTAL DAS VACAS. cubículo Combi Comfort: "Já tínhamos tido experiência com a utilização de camas de água. No entanto, a desvantagem era que a água se movia para os lados quando a vaca se deitava na cama. Com o novo colchão Akwatopsoft da GEA, isso não acontece. Os cubículos são muito mais macios e as vacas estão muito mais confortáveis ", diz Boks. “Já estamos a notar que as vacas vão diretamente para os cubículos, deitam-se e não tocam nas divisões. Como resultado, não há esterco nos cubículos", afirma Boks, sobre as vantagens do Akwatopsoft, em termos de higiene e aumento do tempo de descanso. O colchão de espuma oferece às vacas um elevado grau de conforto durante as fases de descanso, uma excelente aderência ao levantar e deitar e também evita abrasões do jarrete. Além disso, melhora a condição corporal da vaca, absorvendo o calor, causando um efeito de arrefecimento, que prolonga o período de descanso por vaca, um objetivo essencial para os agricultores que desejam aumentar a produção de leite. Quando a vaca está nessa posição relaxante, TESTADO NA EXPLORAÇÃO a circulação sanguínea e a ruminação são O produtor Frank Boks gere com os seus pais otimizadas. uma exploração leiteira com mais de 200 No momento em que a vaca sai do colchão, vacas em Biddinghuizen (Países Baixos). Ele ele incha, permitindo que as gotas leite explica por que escolheu o sistema de colchões escorram facilmente, o que também melhora Akwatopsoft da GEA em combinação com o a higiene da cama. A GEA oferece aos produtores um novo sistema de colchões de primeira classe para cubículos livres: o novo GEA Akwatopsoft. É um colchão de espuma de 40 mm de espessura com uma capa de água que proporciona 70 mm de comodidade, estimula as vacas a permanecer deitadas por períodos mais longos e contribui para a saúde animal aumentando a produção de leite. O sistema Akwatopsoft é formado por um colchão de espuma 100 % PU que está selado numa folha resistente com uma tampa superior de água. O comprimento do rolo permite ir até 50 metros e a tampa superior está disponível para larguras de cama de 115, 120 e 125 cm. A seleção dos componentes utilizados é baseada em muitos anos de experiência da GEA em sistemas de colchões e os primeiros efeitos positivos já foram demonstrados em vacas em várias explorações. - A câmara de água adapta-se à vaca. - A vaca pode levantar-se mais facilmente. - Absorve o calor, com efeito de arrefecimento. • A tela reforçada melhora a resistência.


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Notícias e novidades de produto

PRÓXIMAS FEIRAS INTERNACIONAIS

15 a 18 setembro 2020 Rennes, França www.space.fr

7 a 9 outubro 2020 Clermont-Ferrand, França www.sommet-elevage.fr

8 a 12 novembro 2020 Paris, França https://en.simaonline.com

11 a 15 novembro 2020 Bolonha, Itália www.eima.it 10 a 20 novembro 2020 Hannover, Alemanha www.eurotier.com

Hypred agora é

Kersia,

www.kersia-group.com 86

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EAAP2020

71º CONGRESSO DA FEDERAÇÃO EUROPEIA DE CIÊNCIA ANIMAL

Este evento, um dos maiores encontros de ciência animal a nível mundial, decorrerá no Centro de Congressos da Alfândega do Porto, entre 31 de agosto e 4 de setembro. Trata-se de uma oportunidade única para o encontro entre investigadores, indústria e produtores, favorecendo a troca de ideias, experiências e promovendo o trabalho conjunto para a implementação de novas técnicas e inovação na produção. O país anfitrião tem a oportunidade única de receber os melhores investigadores mundiais em Ciência Animal e de lhes dar a conhecer a cultura, a tradição, bem como a realidade agrícola e pecuária. Portugal teve a seu cargo a organização dos Congressos da EAAP nos anos de 1964 e 1987, ambos realizados em Lisboa. Volvidos todos estes anos a APEZ (Associação Portuguesa de Engenharia Zootécnica) tem o prazer de anunciar que irá liderar a realização do 71º Congresso da EAAP em 2020, sendo assim, de novo, Portugal o país anfitrião desta importante reunião. A Missão da EAAP, que a APEZ partilha, é promover a discussão, debate e disseminação de conhecimento relacionado com a produção animal entre a comunidade científica e organizações com interesse no setor. A EAAP tem, actualmente, 34 países membros (http://www.eaap.org).


Notícias e novidades de produto

ICA HORIBA ERT

O NOVO MEDIDOR COMPACTO DE CÁLCIO IONIZADO EM AMOSTRAS DE SANGUE DE BOVINO

Um dos desafios da indústria da produção de leite é a manutenção de concentrações ideais de cálcio no sangue para apoiar a produção de leite e a normal função imunológica. Isto é especialmente importante no pós-parto, quando a concentração de cálcio no sangue diminui drasticamente, originando frequentemente a condição de Hipocalcemia. A Horiba, em colaboração com uma equipa da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Cornell, em Nova York, desenvolveu o iCa, um equipamento de medição de cálcio ionizado. Este equipamento utiliza uma tecnologia de sensores num método inovador, de baixo custo e de muito fácil utilização. Os resultados da validação deste método foram publicados no Journal of Dairy Science (DOI:https://doi. org/10.3168/jds.2017-13779). O iCa é capaz de medir os níveis de cálcio ionizado em amostras de sangue diretamente no local e em apenas alguns minutos. Desta forma, é possível fazer uma avaliação imediata sem ter que recorrer a demoradas e dispendiosas análises laboratoriais externas. A decisão da suplementação em cálcio torna-se mais rápida e seletiva, averiguandose a sua real necessidade. Os resultados obtidos mostram uma excelente correlação com o standard NIST. É o instrumento ideal para conhecer o estado de saúde das suas vacas. Mais informações: info@ert.pt

RUMINANTES | ABR/MAI/JUN 2020

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ECONOMIA | OBSERVATÓRIO DE MATÉRIAS PRIMAS

A MENSAGEM E O MENSAGEIRO

PARA OS SEGUIDORES DESTA RUBRICA NA RUMINANTES, NOS ÚLTIMOS NÚMEROS INICIEI O ARTIGO COM COMENTÁRIOS SOBRE A SITUAÇÃO NA CHINA. NESTE NÚMERO RESOLVI CHAMAR-LHE SOCIEDADE, EM PARTICULAR COMO OS ESTADOS OU AS ORGANIZAÇÕES UTILIZAM, A MENSAGEM E O MENSAGEIRO, MAIS ESPECIFICAMENTE NA SUA VERTENTE: DE ENCOBRIMENTO, NEGAÇÃO, PROPAGANDA E INAÇÃO.

Q

uando o médico Li Wenliang, no final de dezembro, alertou os seus colegas, no hospital de Wuhan, de que pacientes seus tinham os mesmos sintomas que os do Sars, foi preso pelas autoridades por difundir falsos rumores. E foi obrigado a assinar um documento admitindo que estava a violar a lei, além de estar seriamente a quebrar a ordem social. Este encobrimento durou valiosas semanas durante as quais o coronavírus se disseminou, sem controlo, para o mundo inteiro, da sua zona zero, um pequeno mercado de venda de animais selvagens exóticos para consumo humano. A atitude das autoridades chineses, em linha do que seria esperado, foi prender todos os que criticaram ou alertaram sobre esta situação. A negação dos EUA. O Presidente dos EUA, sugeriu repetidamente que o coronavírus desapareceria “como que por milagre” ou que era “um embuste criado pelos seus inimigos”. Não refletiu, como muitos desejariam, a atitude de um líder responsável de uma democracia ocidental onde a prioridade estaria na preparação dos serviços públicos e privados de saúde para enfrentar o que vinha a caminho.

88 RUMINANTES | ABR/MAI/JUN 2020

Por João Santos

A propaganda da China. Alguns oficiais chineses, na ânsia de desviar as suas culpas, sugeriram que o vírus tinha sido originado nos EUA, ou reclamaram a atenção do mundo pela eficácia no combate ao vírus ou pelas ajudas que estão a dar aos países por onde o mesmo se espalhou. A inação da Europa. No meio de tudo isto, a Europa mostrou-se relutante e tardou em tomar medidas drásticas de contenção. Devemos partir da premissa que as autoridades, à margem da legitimidade da sua autoridade, não atuam de má fé, no seu objetivo de preservar a riqueza e o emprego. No entanto, outra coisa é silenciarem o mensageiro, e não deixarem que a mensagem passe para o público, mesmo que filtrada. Ingenuidade talvez, uma vez que mais cedo ou mais tarde a realidade lhes/nos cai em cima. Seja na forma de um desastre, seja na forma de crescimento ou desaceleração económica, ou, no caso das matérias primas, na subida ou descida dos preços. O que nos leva a refletir no porquê de as autoridades chinesas não tomarem medidas rápidas e drásticas para conter a peste suína, algo que, em relação com o coronavírus, não tem comparação possível quer seja ao nível económico quer social. Ou,

já agora, acabarem de uma vez com o tráfico e consumo humano de animais selvagens, a causa aparente desta pandemia. Nestas últimas semanas, vimos o petróleo e as bolsas financeiras caírem brutalmente. O mesmo não aconteceu com as matérias primas agrícolas, o que representou uma bênção para todos aqueles que, direta ou indiretamente, estão ligados ao setor primário. A razão é simples, as colheitas não desapareceram e as pessoas continuam a comer. Podemos acabar todos um pouco mais pobres e, como consequência, consumir um pouco menos de proteína animal. Mas não importa o nível de encobrimento, negação, propaganda ou inação: a lei da procura/oferta acabará por ser refletida no preço. PROTEÍNAS O Brasil está na fase final da sua safra, parece que não vai chegar aos 130 milhões de toneladas de soja, mas se ficar nos 126 não é mau. O excesso de chuva reduziu um pouco o rendimento nesta reta final. No caso da Argentina, a meados do mês de março começou-se a apanhar e tudo indica que a colheita será de cerca de 54 milhões, o que é muito bom se a isto somarmos a Bolívia e o

Paraguai. No seu todo, a América do Sul vai ter um ano record. Pelo lado da procura, vemos que a China está a recuperar, a repor os efetivos suínos a um ritmo mais rápido do que visto até agora, com explorações de maior dimensão e com melhores medidas de biossegurança. Com o porco a ser pago em Portugal a mais de 2€, imaginem o incentivo para os chineses reporem a cabana, as soon as possible. Esta recuperação da China é um dado importante a seguir no complexo da soja, lembremo-nos de que houve uma forte redução do consumo de soja neste país devido à peste suína, que em muito contribuiu para o nível de preços relativamente baixos a que assistimos no último ano. Em relação à guerra comercial, supostamente houve um acordo, fase 1, que deveria traduzir-se na compra de soja americana por parte dos chineses, algo que, de momento, aconteceu de forma muito marginal uma vez que a soja no Brasil está mais barata que a dos EUA. Vamos ver o que o Presidente Trump vai fazer quando vir que os chineses ficaram aquém nas compras. Em cima de tudo isto, temos o coronavírus. No final do mês de março, a pandemia entrou pela América do Sul adentro.


Observatório de matérias primas

O mercado estava na expetativa de que os preços continuassem a descer, uma vez que estávamos à espera da mega colheita da América do Sul. No entanto um conjunto de fatores alterou o curso dos acontecimentos: i) os chineses terem comprado umas dezenas de panamax no Brasil, ii) ter aparecido o coronavírus em Timbúes, cidade da Argentina, e o presidente da câmara ter proibido a entrada e saída de pessoas, esquecendo-se que nos portos desta cidade está concentrada mais de um terço da capacidade de extração e exportação da Argentina; a questão da quarentena ficou resolvida num par de dias, mas o efeito no mercado foi imediato, a farinha de soja em Chicago subiu mais de 40 dólares. iii)Também nestes dias no porto de Santos havia ameaças de greves por causas das questão sanitárias/proteção em relação ao coronavírus, o mesmo em relação aos camionistas um pouco por tudo o Brasil. Conclusão, o mercado e em particular os compradores, entraram em pânico,

e correram a comprar soja. É difícil dizer onde é que a pandemia vai acabar. No entanto, não é descabido que a mesma possa causar graves perturbações logísticas na América do Sul e, em menor grau, nos Estados Unidos, razão pela qual o mercado, racional ou irracionalmente, registou esta subida de preços. Uma coisa é certa, em termos de procura/ oferta não há razão para os preços subirem, a não ser no médio prazo pela recuperação do consumo de soja na China. Como referência, tínhamos a farinha de soja no início de março a 310€ e no final do mês a 370€ a tm. Em relação às mid-pros, a história em relação à farinha de girassol é um pouco a mesma da dos últimos anos. Acompanhando o ciclo da colheita, os preços estiveram sobre os 180€, e depois, atendo à pouca disponibilidade de semente, tendem a subir, em particular se o complexo da soja deixar. Em relação à colza, esta está a ser vitima da hecatombe que o coronavírus causou no petróleo e seus derivados, com

reduções do preço e da procura, em alguns mercados, em mais de 50%. O que significa que a procura de biodiesel também se viu fortemente afetada. Se acrescentarmos que os agricultores do norte da Europa não vendem a semente de colza abaixo de 350€, e não havendo destino para o grosso do óleo de colza, muitas fábricas estão paradas por excesso de óleo. Donde, em Lisboa, até nova colheita não parece que se vejam ofertas de farinha de colza, o mesmo acontecendo em Aveiro e Leixões na farinha importada. Teoricamente, o preço da farinha de colza deveria estar sobre os 270€, para a velha colheita. CEREAIS O trigo continua firme, acima dos 200€ nos portos de Portugal e assim se espera que continue até que venha a nova campanha. No milho: animados pela desvalorização do Real e por uma boa colheita nesta safra, os agricultores brasileiros estavam também a vender a colheita de 20/21, permitiu ver preços à volta

PRODUÇÃO MUNDIAL E STOCKS FINAIS DE MILHO E SOJA MILHÕES DE TM

14/15

15/16

16/17

17/18

18/19

19/20

PRODUÇÃO FINAL

319

312,8

351,4

340,47

358,7

341,8

STOCKS FINAIS

77,6

76,6

96,0

98,56

111,88

102,44

24%

24%

27%

29%

31%

30%

PRODUÇÃO FINAL

1008,80

961,9

1070,2

1076,2

1123,3

1112,0

STOCKS FINAIS

208,2

210,9

227,0

341,2

320,8

297,5

21%

22%

21%

32%

29%

27%

SOJA

MILHO

dos 170€, a partir de setembro e para o ano que vem. Temos que ter atenção ao aumento da procura interna também para a Safrinha (segunda colheita), donde gradualmente deixaremos de ver o milho brasileiro no período agosto-dezembro com grandes descontos. O petróleo nos 30$, à imagem da colza/biodiesel, terá o mesmo efeito no etanol, tanto por preço como por procura, assim o milho perderá o seu grande consumidor, como consequência os ddg’s passarão a estar a preços desinteressantes. NOTAS FINAIS Fazemos votos para que a comunidade cientifica aprenda rapidamente a lidar com este vírus, seja através de uma vacina ou da cura, e que, se possível, a sua irradicação não demore tanto tempo como a peste negra. Entretanto, mais que grandes flutuações diretas nos preços das matérias primas agrícolas, que estarão balizadas pelas evolução das colheitas e pela procura de proteína animal, temos que estar preparados para que existam constrangimentos logísticos e de circulação. A rutura de stock nos nossos portos faz parte do risco do negócio, no entanto hoje essa probabilidade aumentou exponencialmente, devido ao coronavírus. Quero acabar prestando homenagem a Li Wenliang, e a todos os da sua estirpe, bem como a todos os profissionais de saúde. Despeço-me com amizade...

FONTE: USDA s&d relatório de março

Preço (€/ton)

PREÇOS SEMANAIS DAS PRINCIPAIS MATÉRIAS PRIMAS, NO PORTO DE LISBOA

380

MILHO

360

CEVADA

340

TRIGO

320

SOJA 44

300

COLZA

280

GIRASSOL

260 240 220 200 180 160 140 120 100

Semanas, desde 18 de março de 2019 a 20 de março de 2020 RUMINANTES | ABR/MAI/JUN 2020

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ECONOMIA | OBSERVATÓRIO DO LEITE

COVID-19 SOBE AO PALCO

O SEGUNDO TRIMESTRE DO ANO COMEÇA COM MAIS UMA EXTERNALIDADE NEGATIVA SOBRE O SETOR. O NOVO CORONAVÍRUS, O COVID-19, ESTÁ A AFETAR O SETOR LEITEIRO, A PAR DE OUTROS MERCADOS, A NÍVEL GLOBAL. Por Joana Silva, Médica Veterinária

S

e pensarmos nos diferentes círculos em que o leite e derivados se movem, percebemos o impacto direto que as restrições devido ao COVID-19 podem ter na chegada desses produtos ao mercado mas também a dificuldade de venda dos mesmos: as notícias e campanhas em massa de isolamento dos cidadãos em casa, encerramento provisório de escolas e incentivo de trabalho a partir de casa por parte de grandes empresas, acarretam uma menor movimentação de pessoas e consequentes quebras de consumo fora de casa. Leia-se mercados, restaurantes e outros tipos de estabelecimentos. Por

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RUMINANTES | ABR/MAI/JUN 2020

outro lado, há quem assista a casos quase apocalípticos de prateleiras de supermercado completamente vazias e longas filas de pagamento. A disseminação do COVID-19 na China, e consequentes condicionamentos na indústria, levaram a um abrandamento das compras de leite em pó daquele que é o maior importador mundial desta matéria-prima. Para além das implicações diretas a nível logístico, com precedência a ser dada a bens como medicamentos em portos a trabalhar próximo dos mínimos humanamente possíveis, a diminuição da capacidade “absorvente” deste gigante comercial é o suficiente para colocar os seus parceiros

comerciais em alerta. Não obstante, as medidas tomadas pelo governo Chinês visando controlar esta pandemia parecem gradualmente estar a ser bemsucedidas. São agora outras potências, como a Europa e os Estados Unidos, que se preparam para enfrentar o impacto do vírus a diferentes níveis. Os esforços dos Estados Unidos em solidificar parcerias comerciais deram frutos no primeiro trimestre do ano. No início de janeiro foi assinado com o Japão um acordo comercial no qual, durante um período de 15 anos, este se compromete a eliminar gradualmente as tarifas sobre as importações de queijo - as quais chegam atualmente aos 40%

em alguns casos. Relativamente à cessação das tarifas de importação de proteína whey, as previsões são de 5, 15 ou 20 anos, dependendo da tipologia de produto. Em fevereiro deste ano, também a China anunciou reduções de 2,5% em tarifas de produtos como iogurte, queijo e leite em natureza. Com a China estão ainda sobre a mesa assuntos que transcendem as tarifas alfandegárias, como a revisão de regulamentos sobre a importação de vários produtos, entre eles fórmulas infantis e leites fortificados. A Austrália também olha com atenção para a China, aquele que foi o mercado de destino de 28% das suas exportações em valor na temporada de 2018/2019. O


Observatório do leite

interesse em que esse destino não sofra grandes disrupções é bem claro: raros serão os parceiros que paguem melhor. A passagem pelo meio da temporada produtiva de 2019/2020 trouxe consigo um aumento em janeiro face ao ano anterior. Já na Nova Zelândia, as condições climatéricas desfavoráveis prejudicaram os mercados no início do ano, com uma diminuição de 1,1% face ao mesmo período. A Europa começou o ano embalada pelos ventos favoráveis de um inverno ameno. O ano de 2019 fechou em força, com um aumento da produção de 1,2% em dezembro face ao ano anterior. A primavera que aí vem poderá alimentar esta tendência, se bem que o Velho Continente se está a focar em novas contas, agora que o coronavírus já ultrapassou as fronteiras de muitos dos seus melhores produtores leiteiros. A gratificação de termos uma produção leiteira forte na Europa sob a atual conjuntura, quer a nível de dificuldades na exportação quer a nível de fraca procura interna, poderá no entanto cair em desgraça se resultar numa recorrência do problema dos stocks de leite em pó. Na UE, se bem que agora em segundo plano, o recém-chegado Brexit traz consigo ainda mais incerteza. A European Dairy Association, a voz da indústria de processamento leiteira da UE, lançou oficialmente um conjunto de premissas que consideram ser essenciais ao futuro de uma parceria comercial entre o Reino Unido e a Europa. Entre elas incluem-se: a inexistência de tarifas alfandegárias ou quotas relativas ao comércio de leite e derivados; reconhecer e manter as mesmas obrigações no que toca à legislação aplicável aos géneros alimentícios; padronizações dos mercados de forma a minimizar a ocorrência de divergências, e esforços conjuntos para proteger ambos os mercados de países terceiros. O COVID-19 está a ser mais um desafio global, do qual o estoico setor leiteiro não parece conseguir escapar: o mundo está a abrandar, e a ameaça de recessão já está sobre a mesa. Irá o setor leiteiro abrandar ainda mais com esta crise sanitária e económica? E de que forma se irá estender este abrandamento da procura até às nossas casas, até aos estabelecimentos comerciais e restaurantes? A trabalhar à distância ou não, cá estaremos para ver.

TABELA 1 PREÇO DO LEITE STANDARDIZADO (1) PAÍSES

COMPANHIA

PREÇO DO LEITE (€/100 KG) JANEIRO 2020

MÉDIA DOS ÚLTIMOS 12 MESES (5)

ALEMANHA

Alois Müller

31,48

32,45

DINAMARCA

Arla Foods

32,46

32,95

FRANÇA

Danone Lactalis (Pays de la Loire) Sodiaal

33,96 35,42 34,78

34,95 34,93 35,32

INGLATERRA

Dairy Crest (Davidstow)

33,95

32,86

IRLANDA

Glanbia Kerry

32,52 32,01

30,53 31,18

ITÁLIA

Granarolo (North)

39,33

38,71

HOLANDA

DOC Cheese Friesland Campina

34,63

35,86

PREÇO MÉDIO LEITE (2) N. ZELÂNDIA

Fonterra (3)

33,91

29,01

EUA (4)

EUA

38,39

35,98

Fonte: LTO; (1) Preços sem IVA pagos ao produtor; Preço do leite de diferentes empresas leiteiras para 4,2% de MG, 3,4% de teor proteico e CCS de 249,999/ml . (2) Média aritmética . (3) Baseado na previsão mais recente . (4) Reportado pela USDA . (5) Inclui o pagamento suplementar mais recente.

TABELA 2 LEITE À PRODUÇÃO, PREÇOS MÉDIOS MENSAIS EM 2019/2020 MESES

EUR/KG Contin.

2019

2020

Açores

TEOR MÉDIO DE MATÉRIA GORDA (%) Contin.

Açores

TEOR PROTEICO (%) Contin.

Açores

JANEIRO

0,318

0,297

3,92

3,73

3,34

3,20

FEVEREIRO

0,328

0,296

3,89

3,68

3,30

3,20

MARÇO

0,312

0,291

3,82

3,59

3,29

3,20

ABRIL

0,314

0,290

3,77

3,65

3,29

3,23

MAIO

0,311

0,285

3,72

3,64

3,27

3,19

JUNHO

0,310

0,286

3,71

3,65

3,30

3,15

JULHO

0,310

0,285

3,70

3,62

3,28

3,14

AGOSTO

0,311

0,285

3,75

3,68

3,27

3,16

SETEMBRO

0,314

0,289

3,80

3,72

3,30

3,22

OUTUBRO

0,315

0,293

3,89

3,82

3,34

3,29

NOVEMBRO

0,315

0,294

3,93

3,84

3,37

3,32

DEZEMBRO

0,314

0,294

3,90

3,83

3,34

3,30

JANEIRO

0,314

0,297

3,89

3,70

3,34

3,20

Fonte: SIMA; Gabinete de Planeamento e Políticas.

RUMINANTES | ABR/MAI/JUN 2020

91


ECONOMIA | ÍNDICE VL E ÍNDICE VL-ERVA

AINDA NO LIMIAR DA RENTABILIDADE

O PREÇO MÉDIO DO LEITE PAGO AO PRODUTOR DE NOVEMBRO DE 2019 A JANEIRO DE 2020 FOI, MAIS UMA VEZ, MUITO INFERIOR EM PORTUGAL QUANDO COMPARADO COM A MÉDIA DA UE28, REFLETINDO-SE NUMA DIFERENÇA DE 4,63 CÊNTIMOS/KG QUE, APLICADA A PORTUGAL, CONTRIBUIRIA PARA O SUCESSO ECONÓMICO DA BOVINICULTURA DE LEITE. Por António Moitinho Rodrigues, docente/investigador, Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco; Carlos Vouzela,

docente/investigador, Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores/IITAA; Nuno Marques, Revista Ruminantes.

Analisamos neste número da Ruminantes os Índices VL e VL - ERVA para o período de novembro de 2019 a janeiro de 2020. De acordo com os dados do SIMA-GPP (2020), durante o trimestre em análise o preço médio do leite pago aos produtores individuais do continente variou entre 0,315 €/kg em novembro e 0,314 €/kg em dezembro e janeiro. Por sua vez, na Região Autónoma dos Açores o preço médio do leite pago aos produtores individuais variou entre 0,294 €/kg em novembro e dezembro e 0,297 €/kg em janeiro. De acordo com dados do MMO (2020), o preço médio do leite pago ao produtor no período de novembro de 2019 e janeiro de 2020 foi, mais uma vez, muito inferior em Portugal (0,3077 €/ kg) quando comparado com a média da UE28 (0,3540 €/kg), refletindo-se numa diferença de 4,63 cêntimos/kg que, aplicada a Portugal, contribuiria para o sucesso económico da bovinicultura de leite. Em

92

RUMINANTES ABR/MAI/JUN 2020

janeiro de 2020, Portugal foi um dos 3 países da UE onde o kg de leite foi pago ao preço mais baixo. Só na Letónia (0,3001 €/kg) e na Lituânia (0,3059 €/ kg) é que o preço do leite pago aos produtores foi inferior. Considera-se inaceitável que Portugal continue a ser, desde há vários anos, um dos parentes pobres da UE28 por estarem a pagar aos produtores leite a preços muito baixos. Como temos vindo a dizer desde há muito tempo, é necessário, perante o desafio constante da competitividade num mercado global, tomar medidas claras para inverter esta tendência, sendo, por isso, necessário que as empresas de produção e transformação concentrem os seus esforços na melhoria de conceber, analisar e perspetivar a criação de novos produtos ou negócios. Relativamente ao trimestre anterior, o preço médio das outras matérias-primas que entraram na formulação dos alimentos compostos utilizados

neste trabalho sofreram um aumento que variou entre 2,7% no bagaço de colza e 6,8% no bagaço de girassol. A evolução do preço das matérias-primas e dos alimentos forrageiros provocou um aumento de 2,6% no preço do alimento composto e de 1,6% no custo da alimentação da vaca leiteira tipo do continente. Na Região Autónoma dos Açores, o regime alimentar do trimestre em análise incluiu menor consumo de pastagem e maior consumo de alimento composto e de alimentos conservados. Este regime alimentar provocou um aumentou de 13,5% no custo da alimentação da vaca tipo. A evolução do preço do leite e dos custos da alimentação refletiu-se no Índice VL e no Índice VL ERVA que em janeiro de 2020 foi, respetivamente, de 1,735 e de 1,784. De referir que no ano anterior, em janeiro de 2019, o Índice VL havia sido de 1,761 e o Índice VL-ERVA de 1,764. Um índice inferior a 1,5 (valor muito baixo) indica forte ameaça para a rentabilidade da exploração

leiteira; um índice entre 1,5 e 2,0 (valor moderado) indica que a produção de leite é um negócio viável; um índice maior do que 2,0 (valor elevado) indica que estamos perante uma situação muito favorável para o sucesso económico da exploração (Schröer-Merker et al., 2012). Durante o trimestre em análise, o Índice VL atingiu o valor mínimo de 1,735 em janeiro de 2020 e o Índice VL-Erva o valor mínimo de 1,783 em dezembro de 2019. Pode-se concluir que em janeiro de 2020 tanto os produtores de leite do continente como os da Região Autónoma dos Açores se encontravam numa situação semelhante à do ano anterior. Continuam, assim, a trabalhar no limiar da rentabilidade da exploração. De realçar que o Índice VL-ERVA reflete mais a realidade da produção de leite da ilha de S. Miguel, que produz cerca de 60% do total de leite dos Açores. Nas outras ilhas do Arquipélago a conjuntura é bastante mais desfavorável.


Índice VL-ERVA

ÍNDICE VL JUL. 2012 A JAN. 2020 2,0 1,9 1,8 1,7 1,6 1,5 1,4 1,3 1,2

jan. '20

jan. '19

jan. '17

jan. '16

jan. '15

jan. '14

jan. '13

jul. '12

jan. '18

1,1 1,0

O ÍNDICE VL É INFLUENCIADO PELA VARIAÇÃO MENSAL DO PREÇO DO LEITE PAGO AO PRODUTOR NO CONTINENTE PORTUGUÊS E PELAS VARIAÇÕES MENSAIS DOS PREÇOS DOS ALIMENTOS QUE CONSTITUEM O REGIME ALIMENTAR DA VACA LEITEIRA TIPO (CONCENTRADO 9,5 KG/ DIA; SILAGEM DE MILHO 33 KG/DIA; PALHA DE CEVADA 2 KG/DIA).

ÍNDICE VL-ERVA JUL. 2013 A JAN. 2020 2,7 2,5 2,3 2,1 1,9 1,7 1,5 1,3

jan. 20

jan. '19

jan. '18

jan. '17

jan. '16

jan. '15

jan. '14

jul '13

1,0

O ÍNDICE VL – ERVA É INFLUENCIADO PELA VARIAÇÃO MENSAL DO PREÇO DO LEITE PAGO AO PRODUTOR NA REGIÃO AUTÓNOMA DOS AÇORES E PELAS VARIAÇÕES MENSAIS DOS PREÇOS DOS ALIMENTOS QUE CONSTITUEM O REGIME ALIMENTAR DA VACA LEITEIRA TIPO (PRIMAVERA/VERÃO 60 KG/DIA DE PASTAGEM VERDE, 10 KG/DIA DE SILAGEM DE ERVA E DE MILHO, 5,6 KG/DIA DE CONCENTRADO; OUTONO/ INVERNO 47 KG/DIA DE PASTAGEM VERDE, 13,3 KG/DIA DE SILAGEM DE ERVA E DE MILHO, 6,7 KG/DIA DE CONCENTRADO).

NOTAS

- O preço do leite pago aos produtores do continente Português em janeiro de 2020 foi inferior em 0,1 cêntimos/kg comparativamente a janeiro de 2019. Nos Açores, o valor pago por kg de leite foi o mesmo em janeiro de 2020 e no mesmo mês de 2019; - Durante o trimestre em análise, no continente Português houve um aumento de 1,6% nos custos com a alimentação da vaca tipo. Nos Açores os custos com a alimentação da vaca tipo dispararam 13,5%; - As duas considerações anteriores refletem-se no Índice VL e no Índice VL-ERVA que em janeiro de 2020 foram, respetivamente, de 1,735 e 1,784.

BIBLIOGRAFIA

MMO (2020). European milk market observatory – EU historical prices. https://ec.europa.eu/info/foodfarming-fisheries/farming/factsand-figures/markets/overviews/ market-observatories/milk acesso em 03-03-2020. Schröer-Merker, E; Wesseling, K; Nasrollahzadeh, M (2012). Monitoring milk:feed price ratio 1996-2011. In: Chapter 2 – Global monitoring dairy economic indicators 1996-2011, IFCN Dairy Report 2012, Torsten Hemme editor, p 52-53. Published by IFCN Dairy Research Center, Schauenburgerstrate, Germany. SIMA-GPP (2020). Leite à produção Preços Médios Mensais. Sistema de Informação de Mercados Agrícolas, Gabinete de Planeamento e Políticas. http://sima.gpp.pt:8080/ sima/default/lacteos?la=1&ini=2020 acesso em 03-03-2020.

EVOLUÇÃO DO ÍNDICE VL E ÍNDICE VL– ERVA JAN. 2019 A JAN. 2020 Mês

Índice VL

Índice VL - ERVA

jan-19

1,761

1,764

fev-19

1,831

1,768

mar-19

1,746

1,742

abr-19

1,757

2,080

mai-19

1,754

2,053

jun-19

1,698

2,040

jul-19

1,713

2,045

ago-19

1,761

2,083

set-19

1,783

2,118

out-19

1,782

1,797

nov-19

1,774

1,795

dez-19

1,752

1,783

jan-20

1,735

1,784

OS VALORES SÃO INFLUENCIADOS PELA VARIAÇÃO MENSAL DO PREÇO DO LEITE PAGO AO PRODUTOR INDIVIDUAL DO CONTINENTE PORTUGUÊS (ÍNDICE VL) E DA REGIÃO AUTÓNOMA DOS AÇORES (ÍNDICE VL - ERVA) E PELAS VARIAÇÕES MENSAIS DOS PREÇOS DE 5 MATÉRIASPRIMAS UTILIZADAS NA FORMULAÇÃO DO CONCENTRADO E PELO PREÇO DOS OUTROS ALIMENTOS QUE INTEGRAM O REGIME ALIMENTAR DA VACA LEITEIRA TIPO.

RUMINANTES ABR/MAI/JUN 2020

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NUTRIÇÃO E SAÚDE ANIMAL

A nossa experiência, a sua eficiência Inovação

Especialista em nutrição e saúde animal, a D.I.N – Desenvolvimento e Inovação Nutricional, S.A. disponibiliza aos seus clientes soluções nutricionais inovadoras cuja conceção se encontra suportada na constante evolução técnica em nutrição animal. A nossa equipa multidisciplinar garante a prestação permanente de serviços técnico – veterinários e laboratoriais indo de encontro às necessidades específicas de cada cliente.

PRRRÉÉÉ-M -MIST IS URAS AS DE VITAM AM MIN INASS E MINEEERA RAIS ISS

Análises Microbiológicas e Físico-químicas

Formulação e Apoio Técnico

Investigação e Desenvolvimento

LLAABO ABOR OORRRAATÓ T RIOO ACREDDDI AAC DITA TADO TA ADO

ESSPPEECI CIA IIAAALLID IDADEES NUTRICCIOONA NAIS IS

D.I.N. Desenvolvimento e Inovação Nutricional, S.A. Zona Industrial da Catraia | Apartado 50 | 3441-909 SANTA COMBA DÃO (Portugal) Tel. (+351) 232 880 020 | Fax. (+351) 232 880 021 | geral@din.pt | www.din.pt

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RUMINANTES ABR/MAI/JUN 2020


RUMINANTES ABR/MAI/JUN 2020

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O seu bem estar, a sua rentabilidade O Programa de recria Prima da Nanta melhora a rentabilidade das explorações através do bem estar das vitelas. O Prima trabalha em quatro conceitos essenciais para o bem-estar dos animais: o colostro, a lactação, o desmame e os cuidados a ter nas diferentes variáveis como o meio ambiente, a saúde e ambiente social. O nosso programa oferece benefícios comprovados para o agricultor: maior desenvolvimento das vitelas, melhoria do seu sistema imunitário, redução do stress no desmame, antecipação da primeira inseminação e da idade do primeiro parto, mais produção de leite e maior vida produtiva da vaca. Com o Prima as vitelas são mais felizes e o agricultor também.

nanta@nutreco.com

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Revista Ruminantes 37  

Revista trimestral de agropecuária, dedicada aos ruminantes.

Revista Ruminantes 37  

Revista trimestral de agropecuária, dedicada aos ruminantes.

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