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ESLÉT ICA

Volume 1 Número 01 Outubro / 2010 Publicação da Faculdade Doutor Leocádio José Correia - FALEC

Revista de Estudos Esléticos e Transdisciplinares

Editora FALEC

Volume 1 Número 01


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Publicação da Faculdade Doutor Leocádio José Correia - FALEC Eslética é uma publicação semestral da Faculdade Doutor Leocádio José Correia – FALEC, que tem por finalidade divulgar o estudo, a pesquisa, a sistematização e a contextualização do conhecimento científico.

CONSELHO CONSULTIVO / CONSULTING BOARD Maury Rodrigues da Cruz Ênio José Coimbra de Carvalho Marcello Iacomini CONSELHO EDITORIAL / PUBLISHING ADVICE Maury Rodrigues da Cruz Ênio José Coimbra de Carvalho Marcello Iacomini Rui Simon Paz Raul José Fernandes de Oliveira Mário Eduardo Branco REVISÃO Comissão editorial

FACULDADE DOUTOR LEOCÁDIO JOSÉ CORREIA - FALEC MANTENEDORA: Lar Escola Dr. Leocádio José Correia Presidente: Maury Rodrigues da Cruz FACULDADE DOUTOR LEOCÁDIO JOSÉ CORREIA – FALEC Diretor: Ênio José Coimbra de Carvalho Vice-Diretor: Eliel Valério Scussel Curso de Administração (Bacharelado) Coordenador: Antonio Bueno da Silva Curso de Pedagogia (Licenciatura) Coordenadora: Marilza do Rocio Maidl Pessoa da Silva Curso de Teologia Espírita (Bacharelado) Coordenador: Reginaldo Francisco Domingos

Os artigos são de inteira responsabilidade de seus autores. Endereço / Address Faculdade Doutor Leocádio José Correia - FALEC Revista de Estudos Esléticos e Transdisciplinares Rua José Antonio Leprevost, 331 – Sta. Cândida – CEP 82.640-070 Curitiba – Paraná – Brasil. Telefone/Fax: 55 41 3256-5717 E-mail: falec@falec.br Home page: www.falec.br


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Revista de Estudos Esléticos e Transdisciplinares / Faculdade doutor Leocádio José Correia. – v. 01, nº 01 (nov./mai. 2007/2008) – Curitiba: SBEE, xx p., 2007 Periodicidade bimestral

1. Educação – Administração – Teologia Espírita

Tiragem: revista eletrônica Copyright: Faculdade Doutor Leocádio José Correia - FALEC Postado no Brasil Presita em Brazilo

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4 SUMÁRIO / CONTENTS

EDITORIAL

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A Empresa Vista como uma Escola Autosustentada Nelson José Wedderhoff (Engenheiro Eletricista e Professor da FALEC)

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A Estrutura da Codificação Espírita Cesar Graça (Engenheiro Mecânico e Professor da FALEC

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Redes de Conhecimento e os Polissistemas Raul José Fernandes de Oliveira (Doutor em Ciências e Professor da FALEC

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Responsabilidade Social no Ensino Superior: Comprometimento com o Povo Silvete Aparecida Crippa de Araújo (Pedagoga, Mestranda em História da Educação e Professora da FALEC

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A Ação Espírita da Trajetória Assistencial na Cidade de Franca (SP) (1904-1980) Vera Irene Jurkevics (Doutora em História das Religiões e Professora da FALEC)

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Na Trilha das Formigas: análise crítica do discurso literário o texto de Lygia Fagundes Telles Diva Conceição Ribeiro (Doutoranda e Professora da FALEC) 40 Leocádio José Correia: o homem, as ideias e seu tempo Cleuza Maria Fuckner (Doutora em História e Professora da FALEC)

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5 EDITORIAL

O mundo entra na segunda década do Século XXI. As desavenças culturais, políticas, religiosas e, até, econômicas, continuam alimentando conflitos insolúveis, inspiradas em fanatismos inconciliáveis. Aparentemente, o mundo estaria sofrendo um retrocesso, em todos os sentidos, mas em especial no campo moral. O Século que se findou presenciou a revelação de conhecimentos em escala exponencial, superando o produzido nos períodos que o antecederam. Foi o século da Teoria da Relatividade de Einstein, da Física Quântica de Bohr, Heisenberg, Schrödinger e outros; da codificação do genoma humano, da invenção da nanotecnologia, das viagens espaciais, etc. Enfim, todas grandes descobertas e invenções que, certamente, vieram para melhorar a vida na Terra. No entanto, os mesmos conhecimentos que possibilitaram tal crescimento intelectual também permitiram a construção de armas de grande poder de destruição, capazes inclusive de destruir o planeta várias vezes, como se uma não bastasse. O que terá acontecido? Onde falhamos? Eis a indagação que não quer calar. Parece-nos que uma falha revela-se evidente: apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos, que permitiram ao homem alcançar uma razoável compreensão sobre “o que somos”, não logrou compreender ainda “quem somos”. É justamente na distância entre o “que” somos e o “quem”

somos que residem as respostas à indagação acima. E, para alcançálas, não basta o aprofundamento reflexivo em face dos paradigmas da inteligência, da contingência e da cultura que operamos. É preciso ir muito mais além; é preciso alcançar novos paradigmas, capazes de nos levar ao encontro de nós mesmos, ou seja, de quem somos, porque estamos aqui, para onde vamos, nós todos, seres vivos que vivem e convivem neste belo planeta azul. Esses novos paradigmas, cremos, vêm pela Transdisciplinaridade, como nova Filosofia do Ser, e pela Eslética como novo método de busca da verdade. Ela é aquilo que está entre, através e além de todos e de todas as coisas; ela é que nos revela o “terceiro incluído” que habita na essencialidade de todos nós, independentemente das diferenças étnicas e culturais, ou seja, a Humanidade que nos une na diversidade. É com o propósito de disponibilizar espaço para a livre manifestação do pensamento, em face dos novos desafios deste século, que passamos a publicar a presente revista. Aqui, a liberdade de expressão deve caminhar de mãos dadas com os objetivos do pensamento transdisciplinar, qual seja, o remembramento entre cultura e natureza, indivíduo, espécie e sociedade e, em última instância, entre liberdade, igualdade e fraternidade.


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A EMPRESA VISTA COMO UMA ESCOLA AUTO-SUSTENTADA Nelson José Wedderhoff

RESUMO / ABSTRACT O ambiente social vem se alterando drasticamente nas últimas décadas. A evolução da tecnologia e a crescente demanda da comunidade global por produtividade determinam a redução gradativa do número de posições de trabalho na condição de empregado. Ao mesmo tempo, a contribuição do trabalho braçal perde valor, enquanto a contribuição do trabalho de conhecimento ganha espaço definitivo tanto na razão quanto nos meios de ser de uma organização. A sustentabilidade do indivíduo e, por conseguinte da sociedade, dependem cada vez mais do seu conhecimento e de sua iniciativa na busca deste e de uma posição de utilidade no contexto social. A população concentra-se cada vez mais em centros urbanos, e dedica uma parcela significativa do seu tempo atuando em organizações diversas. Nelas desenvolve atividades que lhes proporcionam intenso aprendizado em diferentes áreas do saber, os quais são cada vez mais necessários nesse ambiente onde a demanda pela contribuição individual e pela autonomia cresce continuamente. As empresas apresentam-se, portanto, como escolas autosustentadas por seus produtos e serviços. Apesar do intenso e necessário aprendizado através das inúmeras atividades que se desenvolve dentro de uma organização, tal processo não necessa-

riamente é percebido pelos colaboradores e pelos empregadores. O desenvolvimento do indivíduo no que diz respeito à sua autonomia é uma iniciativa de responsabilidade social, além de proporcionar ganhos significativos à organização. Ao estarem mais atentos a esse processo, tanto organizações quanto seus colaboradores poderão incrementar sua produtividade, correspondendo de forma mais eficaz às demandas do meio, mantendo-se assim úteis, fator que é essencial para a sustentabilidade tanto de indivíduos quanto e organizações. Palavras-chave: oportunidade, aprendizado, visão, planejamento, compromisso, desenvolvimento, autonomia. INTRODUÇÃO A evolução da ciência, influenciadora direta da tecnologia, tem levado à substituição do trabalho braçal pela automatização. Por outro lado, a abertura de mercados internacionais fez com que produtos atravessassem fronteiras antes protegidas. Como conseqüência de fatos como esses, observamos um grande contingente de pessoas que deixam de ter a atividade da qual obtinham seu sustento material. O cenário atual e as tendências mostram que a capacidade da pessoa sustentar-se estará cada vez mais vinculada a atividades intelectuais e, portanto, dependerá do seu nível de informação e conhecimento. Mesmo para as organizações, este cenário em constante alteração reforça continuamente um objetivo: a eficácia. E este mesmo ambiente que retira pessoas de atividades


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braçais, abre novas oportunidades no âmbito intelectual, pois o elemento promotor ou redutor da eficácia é a pessoa, já que mesmo a máquina foi por ela criada. Na sociedade atual a maioria da população concentra-se em centros urbanos, e as pessoas em geral passam a maior parte de suas vidas ocupadas com trabalho em organizações, onde existe um elemento comum a todas as atividades: o aprendizado em diferentes áreas de conhecimento, e que é realizado através das orientações recebidas sobre o trabalho a ser executado, assim como durante o desenvolvimento deste. Porém, empregados e empregadores nem sempre estão sensibilizados para o fato de que, além do trabalho proporcionar sustento material, oportuniza aprendizado contínuo e diário, mesmo quando não existem na organização em que se está atuando programas estruturados de treinamento e desenvolvimento. Caracteriza-se assim a situação onde as pessoas têm oportunidades diárias e gratuitas de aprendizado prático em diversas áreas de conhecimento, mas não necessariamente as reconhecem, valorizam e aproveitam; nem sempre percebem que estão em uma escola auto-sustentada.

EVOLUÇÃO DA RELAÇÃO ENTRE EMPRESA E EMPREGADO Segundo CURY (2000), uma organização é “o conjunto de pessoas que, sistemática e conscientemente, combinam seus esforços individuais para a concretização de uma tarefa comum”. Desde o início da sua his-

tória o Homem busca alcançar seus objetivos sejam eles quais forem. Observando a história mais recente reforça-se outra afirmação de CURY (2000): “Hoje, podemos dizer que vivemos numa sociedade eminentemente organizacional. Nas sociedades complexas, o homem, em todas as etapas de sua vida, desde o nascimento até a morte, depende das organizações, é controlado por organizações e nelas passa a maior parte de seu tempo”. A pessoa está, portanto, na maior parte do seu tempo participando de organizações. E como já foi citado, em geral, grande parcela deste tempo é aplicado na atividade de sustento material, ou, atividade profissional.

Desenvolvimento histórico Segundo DRUCKER (2002), referindo-se aos Estados Unidos da América, “no início do século XX, de noventa a noventa e cinco de cada cem trabalhadores em todo o país eram trabalhadores braçais, trabalhadores rurais; trabalhadores domésticos; operários de fábrica; mineradores; operários de construção”. Nesta época a expectativa de vida era inferior à atual, e a vida produtiva do trabalhador ainda menor. O mesmo autor afirma que as organizações tinham uma vida mais longa do que a vida produtiva dos trabalhadores. A falta de métodos para documentar e transmitir o conhecimento prático de atividades e técnicas caracterizava-se como limitante ao desenvolvimento do trabalhador, reduzindo por conseqüência sua capacidade de contribuir de forma diferenciada para a organização onde atua-


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va. Assim as pessoas eram tidas como elementos de produção, somadas às demais ferramentas produtivas pertencentes à organização. A precariedade tecnológica, ou seja, a falta de instrumentos sejam eles ferramentas ou máquinas, com capacidade de realização de processos mais complexos ou mais abrangentes sem que houvesse a interferência do Homem, determinava que as atividades fossem simples em sua grande maioria. Havia, portanto, a dependência do trabalhador, mas pela baixa exigência de especialidade, na maioria dos casos podia ser praticamente qualquer trabalhador. Segundo DRUCKER (2002), “durante milênios, não houve escolha para a esmagadora maioria de pessoas em qualquer país. O filho de um trabalhador rural seria um trabalhador rural. O filho de um artesão se tornava artesão, e a filha de um artesão casava-se com um artesão, o filho ou a filha de um operário de fábrica trabalharia numa fábrica”. Tratava-se de um cenário onde o trabalhador demandava recursos para sobreviver, e em troca ofertava sua disponibilidade de tempo e o conhecimento prático sobre atividades que já havia realizado. Pela baixa especialidade das atividades da época, o tempo disponível era seu principal recurso produtivo. Já as organizações demandavam principalmente o tempo do trabalhador, ofertando em troca recursos para sobrevivência e o aprendizado sobre as tarefas a serem executadas. O cenário global relativo ao trabalho e às organizações começa a mudar a partir de meados do século XVIII, com o conhecimento humano dei-

xando de ser aplicado quase que exclusivamente ao ser, e passando a ser aplicado também ao fazer. Segundo DRUCKER (2002), esta transformação no significado do conhecimento promoveu a consolidação do Capitalismo como sociedade, e também caracterizou as evoluções tecnológicas como Revolução Industrial. O fazer, sobre o qual o conhecimento passou a ser aplicado, significa tecnologia. Ou seja, ferramentas, processos e produtos. Não estava incluída neste contexto análise do trabalho e do trabalhador, ainda como herança de outras épocas, por se tratar de atividades para os escravos. DRUCKER (2002) afirma que “o trabalho não despertava a atenção de pessoas instruídas, de pessoas ricas e com autoridade”. A pouca atenção ao trabalho e ao trabalhador determinava uma relação entre indivíduo e organização praticamente baseada na dependência por falta de alternativa. Observando tal situação, porém entendendo que as dificuldades existentes poderiam ser eliminadas, Frederick Winslow Taylor promoveu o desenvolvimento e adoção de metodologias de registro das práticas de trabalho, permitindo a criação de programas de treinamento de mãode-obra em larga escala. O resultado foi um grande avanço na capacidade produtiva do trabalhador. DRUCKER (2002) descreve que “poucos anos depois que Taylor começou a aplicar o conhecimento ao trabalho, a produtividade começou a aumentar a uma taxa de 3,5 a 4% ao ano – o que significa dobrar a cada dezoito anos, aproximadamente. Desde que Taylor começou, a produtividade aumentou cerca de


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cinqüenta vezes em todos os países avançados. Nessa expansão sem precedentes residem todos os aumentos, tanto no padrão de vida quanto na qualidade de vida nos países desenvolvidos”. Mas todos os aprimoramentos que ocorreram ao longo da história, assim como os que ainda virão, têm seus fundamentos na pessoa. Seja no desenvolvimento científico, e conseqüente desenvolvimento tecnológico, na criação das primeiras inovações em gestão organizacional, na gestão de conhecimento, na gestão de processos, entre outras áreas, ou ainda na operacionalização de tais práticas, o elemento protagonista é a pessoa, através da aplicação do seu conhecimento. Assim, através do desenvolvimento e da aplicação do saber, o cenário onde o trabalhador se situa nas organizações alterou-se significativamente nos últimos 250 anos. Partese de um ambiente onde as atividades eram simples e o potencial de contribuição da pessoa para a organização era muito baixo, praticamente restrita a atividades braçais, e chega-se atualmente a um cenário onde o diferencial e a sustentabilidade das organizações são fortemente influenciados pela capacidade intelectual das pessoas que delas participam. Duas afirmações de DRUCKER (2002) reforçam esta percepção: - “E o trabalho braçal, esse tradicional terceiro recurso, tornou-se um fator relativamente sem importância na maioria das empresas”. - “Dos recursos tradicionais do economista, a terra, o trabalho e o capital, ninguém mais tira verdadeiramente uma vantagem competitiva”.

Esta evolução tem como conseqüências crescentes o aumento da influência do trabalhador para com a organização, assim como o reconhecimento desta quanto à necessidade de ter em seu quadro de colaboradores com capacidade de contribuição intelectual. Desta forma um novo cenário consolida-se gradativamente, onde o trabalhador não deixa de demandar recursos para sobreviver, porém sem mais considerar este o principal elemento motivador. Segundo CONLEY (2001), pesquisas mostram que a recompensa financeira aparece precedida de aspectos diversos, como reconhecimento pelos resultados, conhecimento e compartilhamento da missão, liberdade de criação, ética, espírito de equipe, estímulo e suporte ao aprendizado, oportunidades de carreira e variação nas atividades, nesta ordem de importância. Como conseqüência do desenvolvimento histórico, o trabalhador deixou de ofertar somente disponibilidade de tempo para o trabalho, e passou a ofertar principalmente conhecimento para ser aplicado nos processos das organizações. O indivíduo deixou de ser um trabalhador braçal para ser um trabalhador de conhecimento. Na segunda metade do século XX o então trabalhador de conhecimento identificava-se com a organização onde atuava. E esta identificação ainda é muito encontrada até hoje, representada em afirmações como: trabalho para a empresa X. Mas já começam a existir variações. DRUCKER (2002) salienta que “esses trabalhadores de conhecimento têm seus próprios meios de produ-


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ção do seu conhecimento. Eles o levam consigo; ele está em suas cabeças”. O mesmo autor afirma que, “pelo menos nos Estados Unidos, os trabalhadores de conhecimento não se identificam mais com o empregador. Eles se identificam com uma área de conhecimento”.

va de comportamento destes, que deixam de se identificar com o empregador e passam a se identificar com áreas de conhecimento, as organizações se vêem obrigadas a rever constantemente o que ofertam para atrair e reter estes trabalhadores.

Considerando que as organizações são formadas por pessoas, a noção sobre administrar para atingir os resultados planejados também evoluiu em suas práticas, fundamentada em visões como esta trazida por DRUCKER (2002): “de fato, o conhecimento é o único recurso significativo hoje. Os tradicionais “fatores de produção” – a terra (ou seja, recursos naturais), mão-de-obra e capital – não desapareceram, mas se tornaram secundários. Eles podem ser obtidos, e facilmente, contanto que haja conhecimento”.

Portanto, a relação entre trabalhador e organização transforma-se de uma dependência por falta de alternativa, para uma opção conscientemente mais produtiva para ambas as partes, com os evidentes ganhos provenientes da crescente colaboração mútua, resultante desta nova e amadurecida visão.

O mesmo autor apresenta uma visão sobre o gerente: “a definição certa de um gerente é alguém “responsável pela aplicação e pela execução do conhecimento””. O referido gerente é a pessoa que, tendo a responsabilidade de orientar as atividades de um setor ou de uma organização inteira, deve considerar as visões apresentadas como referenciais de direção e decisão. A conseqüência direta é uma conduta gerencial voltada à atração, desenvolvimento e retenção de trabalhadores de conhecimento que contribuam o mais significativamente possível para com a organização. Diante do dinamismo dos requisitos de competitividade e sustentabilidade, atualmente as organizações demandam principalmente contribuições de conhecimento, o que vem dos trabalhadores de conhecimento. E considerando a mudança gradati-

Evidentemente, apesar de toda esta evolução e da divulgação global dos resultados positivos, CONLEY (2001) destaca que ainda atualmente muitas organizações tratam seus colaboradores como parte dos seus ativos. Por outro lado, muitos trabalhadores ainda não perceberam a mudança na demanda das organizações, que deixa de ser em torno de atividades braçais e disponibilidade de tempo, passando a ser em torno de contribuições com base no conhecimento. Aqueles que não perceberem esta mudança reduzirão suas contribuições para com as organizações, e conseqüentemente para consigo mesmos. Ao substituir o termo “empregado” por “colaborador”, CONLEY (2001) já é influenciado por uma das mudanças no relacionamento entre indivíduos e organizações, fundamentada em uma nova noção de importância da pessoa, e do fato de ela colaborado com as organizações, segundo sua área de conhecimento.


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OPORTUNIDADES GRATUITAS DE APRENDIZADO

passar por situações ruins vividas por outros.

O que é aprender? Segundo GRIMM (2000), “aprender é mudar comportamento”. Comportamento é ação, que por sua vez é resultado de uma escolha da pessoa em função de estímulos, após análise influenciada por seus valores, objetivos e lógica. Portanto, para que exista mudança na ação frente a um mesmo estímulo, alguma alteração nestes aspectos de influência deve ocorrer.

Assim, o conjunto de valores, objetivos e lógica altera-se constantemente, conforme a leitura de efeitos realizada pelo indivíduo. Ações cujos resultados são construtivos reforçam e ampliam as premissas adotadas na sua análise e escolha. Quando os resultados não atendem aos interesses da pessoa, as mesmas premissas são revistas e podem sofrer alterações.

Mas como ocorrem as alterações nos valores, objetivos e lógica? O indivíduo lê o mundo constantemente. A leitura inicial traz a percepção de efeitos. Algumas situações também permitem que o indivíduo observe a causa correspondente, mas a percepção desta e da sua relação com o respectivo efeito depende da atitude filosófica e científica de quem observa. Ou seja, é preciso querer saber. Mesmo sem o pleno entendimento do mecanismo, das leis naturais que geram os efeitos a partir das causas correspondentes, todas as pessoas, sem exceção, já mudaram seu comportamento apenas com base na observação. Deixaram costumes que lhes faziam mal, e adotaram outros que lhes faziam bem, com base na percepção dos resultados de seu comportamento. A leitura das relações de causa e efeito também ocorre com base no comportamento de outras pessoas. Trata-se do aprender através da observação do exemplo, seja ele bom ou mau. Da mesma forma, todas as pessoas já alteraram seu comportamento para copiar uma boa prática, e também para não

De forma geral, o aprendizado tem início com a leitura de uma nova informação por parte do indivíduo, e isso ocorre diariamente em diversas áreas do conhecimento. Ao longo da nossa vida aprendemos sobre o funcionamento e manutenção do corpo humano, sobre as relações entre as pessoas, sobre a existência e características dos ecossistemas, sobre a evolução da sociedade humana, sobre culturas de diferentes nações, sobre tecnologia, sobre metodologia, entre outras coisas. A experiência de vida nos mostra que muito se aprende através da prática, ou seja, através da oportunidade da ação, de vivenciar situações onde somamos nosso saber já internalizado à liberdade de buscar mais conhecimento, com o objetivo de executar com sucesso uma tarefa. Exemplo disso é o modelo de educação Alemão ainda da primeira metade do século XX, onde, segundo SEMLER (2004), “o trabalhador alemão tem uma grande capacidade de unir a compreensão científica com o fazer, com a ação que ele está desenvolvendo, pois aprendeu os fundamentos na escola e a dimensão pragmática disso na fábrica”.


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O aprendizado através da prática é tão significativo que praticamente todas as atividades existentes nas organizações são delegadas a pessoas com experiência, sejam elas formadas na própria organização ou contratadas de outras. As metodologias para aumento de eficácia e qualidade assim o determinam, garantindo, para aqueles que ainda não tem a experiência mínima necessária, a oportunidade de aprender durante algum tempo sob a orientação de quem já possui alguma vivência na execução da tarefa. Sendo a vivência prática influenciadora no aprendizado efetivo, cabe lembrar que a maioria das pessoas passa a maior parte do seu tempo atuando em organizações, e através Situação 2000 1996

destas experimenta situações contínuas de aprendizado potencial, cuja realização e efetividade dependerá do aprendiz.

Oportunidades de aprendizado no ambiente empresarial No Brasil os dados do IBGE mostram o crescimento da população urbana, enquanto que a população rural permanece estável, conforme mostra a Tabela abaixo. População urbana e rural (fonte IBGE). Domicílios Particulares Permanentes – Brasil.

1991

1980

1970

Urbana

37.334.866

31.879.990

25.272.287

17.770.981

10.276.340

Rural

7.460.235

7.719.076

7.142.771

7.439.658

7.352.359

Fonte: 1996 - Contagem de População 1970, 1980, 1991 e 2000 - Censo Demográfico

O ambiente urbano submete ainda mais as organizações às exigências de desempenho, conseqüentemente as ferramentas e estratégias baseadas no desenvolvimento humano para aumento de eficácia são largamente empregadas. As exigências sobre as organizações se transformam em exigências sobre os seus colaboradores. Tem-se desta forma a vinculação do indivíduo a situações diversas tanto por interesse quanto por necessidade. As organizações caracterizam-se assim em um ambiente natural de aprendizado, pois a pessoa é colocada em contato com situações novas de demanda de conhecimento, habilidade e desempenho, e através da orientação que recebe e da pos-

sibilidade da ação prática conseqüente, ela realiza naturalmente alteração de valores, objetivos e lógica. A título de análise pode-se agrupar a demanda da organização sobre a pessoa nos seguintes segmentos: habilidades pessoais, habilidades gerais e conhecimentos especialistas. Analisando-se o segmento habilidades pessoais, como exemplo dos tipos de demanda que a organização pode proporcionar tem-se: relacionamento interpessoal, organização pessoal, liderança, planejamento, disciplina, comunicação em suas diversas formas. Da mesma forma ocorre com as habilidades gerais, onde conhecimentos sobre línguas, sobre ferra-


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mentas de escritório, sobre informática e outros procedimentos usuais na sociedade contemporânea são exigidos em um nível mínimo, e posteriormente desenvolvidos durante o decorrer das atividades. As habilidades específicas já se caracterizam por conhecimentos desenvolvidos através de formação especializada, como cursos técnicos, graduações acadêmicas ou ainda cursos específicos de curta duração, como informática, técnicas de locução, técnicas de manufatura, linguagens de programação de computadores, entre outros. Mas apesar deste conhecimento já estar desenvolvido no trabalhador, a organização não pode prescindir do seu contínuo desenvolvimento devido à evolução constante e crescente demanda por eficácia. Portanto, atuar em uma organização significa estar em contato com demandas cotidianas que levam necessariamente ao desenvolvimento do indivíduo. Conforme já citado, a organização assemelha-se ao ambiente escolar idealizado por alguns estudiosos, onde segundo interesse ou necessidade a pessoa desenvolve conhecimentos e habilidades.

Sugestões para sensibilização e aproveitamento das oportunidades de aprendizado O desenvolvimento dos colaboradores é importante para qualquer organização, e assim também para o país. As mudanças estruturais da sociedade mostram a tendência de redução de posições de trabalho na condição de empregado, e o aumento das posições de trabalho como empre-

endedor. O conceito estar empregado vem sendo substituído por estar ocupado. Empreendedorismo é essencial para que o indivíduo tenha sucesso neste novo cenário de pessoas ocupadas, e não mais estavelmente empregadas. Estar ocupado será uma conseqüência da capacitação da pessoa em diversas áreas, tendo também como elemento fundamental a vivência prática. Por outro lado, as organizações voltam-se cada vez mais ao seu negócio principal, investindo gradativamente menos tempo e recursos na administração de setores dissociados da sua proposta principal de valor. A terceirização caminha das grandes para as médias e pequenas empresas, tanto como mecanismo para aumento de eficácia quanto para redução de custos. E não são poucos os casos de colaboradores que passaram a prestar serviço às organizações onde atuavam, expandindo depois gradativamente o seu número de clientes. Para que o aproveitamento médio das oportunidades de aprendizado seja gradativamente elevado apresentam-se as sugestões a seguir. Pelo lado do empregador é necessária uma constante análise das práticas de gestão no âmbito das pessoas. Como em outras áreas, esta sofre mudanças constantes face às demandas globais já citadas. Os Departamentos de Pessoal, que há algum tempo atrás cuidavam apenas das ações operacionais liga-


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das aos colaboradores, como contratações, demissões, folha de pagamento, entre outras sem caráter estratégico, agora deve incumbir-se de olhar para o colaborador como fator de sobrevivência da organização. Decorrem deste movimento ações como: revisão dos objetivos do setor responsável por pessoas, mapeamento de competências e perfis necessários ao desenvolvimento de cada função; processo seletivo apto a identificar pessoas apropriadas às demandas das funções; informação inicial e continuada do colaborador sobre a organização e aspectos diversos inerentes às suas responsabilidades; existência de programas para que os colaboradores coparticipem da gestão organizacional, como programas de sugestões e projetos de melhoria; programas de carreira e desenvolvimento estruturados, permitindo ao colaborador visualizar o progresso possível dentro da organização; compartilhamento de poder, responsabilidades e resultados. O processo seletivo tende a trazer pessoas já sensíveis à crescente demanda pelo saber. Porém, com base nas premissas atuais dos sistemas de qualidade, que buscam sempre a garantia de que os objetivos setoriais e organizacionais sejam alcançados, as ações de integração, informação e formação dos colaboradores devem incluir elementos para sua sensibilização quanto à importância de aprender diariamente. Neste sentido algumas iniciativas podem ser úteis, como por e-

xemplo: palestras elucidativas das mudanças no contexto das organizações, onde o emprego diminui e a ocupação aumenta; pesquisas periódicas sobre o aprendizado a exemplo da que foi realizada para fundamentação deste trabalho; medição do envolvimento dos colaboradores nos programas participativos da organização, com posterior divulgação dos resultados efetivos frente aos esperados. Todas as ações estão inseridas em um processo de mudança comportamental, portanto com resultados de médio prazo. Alguns indivíduos reagem imediatamente, porém outros demandarão mais tempo. Porém a inexistência de qualquer ação certamente significará ainda maior lentidão no desenvolvimento das pessoas, e conseqüentemente das organizações. Quanto ao compartilhamento do poder, e conseqüentemente de resultados, estes não devem ser apenas financeiros. A responsabilização pelos desdobramentos das decisões tomadas deve fazer parte deste processo, com os devidos cuidados e preparos para que as escolhas dos colaboradores e gerentes sejam cada vez mais consistentes, mas não inibidas pelo medo de conseqüências desagradáveis. Cabe ainda ressaltar que estas ações voltadas ao desenvolvimento das pessoas poderão causar uma rotatividade cíclica no quadro de colaboradores. As pessoas iniciam suas atividades, desenvolvem-se e em determi-


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nado momento identificam, por necessidade, oportunidade ou interesse, que devem deixar a organização. Para contornar este cenário a estratégia de gestão de pessoas não deve descuidar da formação de substitutos. As organizações gradativamente passarão a ter um quadro de colaboradores de maior impacto, mas que não ficarão para sempre.

Considerações finais Este trabalho percorreu alguns aspectos relacionados à pessoa, às organizações e à sociedade, com a intenção de alertar sobre a potencial melhora de produtividade do indivíduo a partir de uma visão mais crítica por parte deste quanto às demandas futuras de sustentabilidade pessoal e social. Porém, a transformação desta melhoria potencial em resultado efetivo depende da atitude individual. E esta, por sua vez, depende dos valores, objetivos e lógica de cada um. As situações da vida certamente alteram valores, objetivos e lógica, sensibilizando as pessoas quanto à importância do aprendizado. Mas se esta percepção realizar-se na vivência de dificuldades geradas pela falta de conhecimento, então estaria ocorrendo tarde demais e talvez desnecessariamente. Utilizando uma visão social regional, ou seja, que vai além de uma organização, significando um contexto municipal, estadual, nacional e sem dúvida global, é prudente aplicar programas de sensibilização de jovens e profis-

sionais para uma época de desemprego; uma época onde a sustentabilidade individual, portanto social, dependerá do conhecimento prático fundamentando. No âmbito do poder público, principalmente nas esferas ligadas à educação, e que acessam mais freqüentemente a população sob risco de sustentabilidade, o esclarecimento sobre as circunstâncias sociais de redução do emprego e incremento da demanda pela iniciativa empreendedora, parecem essenciais para um melhor direcionamento destes cidadãos no aproveitamento do tempo e de oportunidades. Da mesma forma, uma visão de planejamento de vida pode contribuir com a pessoa no sentido do adequado mapeamento do que é importante aprender, quando e onde pode ser aprendido. Mostra-se indiscutível a importância do aprender durante a atividade, mas cabe lembrar que a atitude da pessoa quanto ao aprendizado pode ser ainda mais eficaz, quando além de aproveitar as oportunidades inerentes ao ambiente, ao identificar fraquezas ou dificuldades, ela busca suporte complementar através de cursos ou aconselhamento profissional. Por fim, este trabalho sugere que se passe a enxergar na atividade cotidiana, além do atendimento de necessidades ou da satisfação de interesses, a oportunidade de aprender algo novo, de preparar-se para demandas futuras, ou para oportunidades de


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contribuição social. A empresa, atuando e sendo vista como uma escola auto-sustentada, ao oportunizar aprendizado sobre a realidade do ambiente contemporâneo, desempenha papel social imprescindível na construção de um futuro sustentável, o que só é possível através do conhecimento. REFERÊNCIAS CURY, A. Organização e Métodos – Uma visão holística, 07. Ed. São Paulo: Atlas, 2000. ALVES, R. Conversas sobre educação. 1ª ed., Campinas: Versus Editora, 2003. MATURANA, H. Emoções e linguagem na educação e na política. 3ª ed., Belo Horizonte: UFMG Editora, 1998. MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 5ª ed., São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2002. CRUZ, M.R., Cadernos de Psicofonias de 2000 - Doutrina Social Espírita.

(pelo espírito Antonio Grimm). Psicofonado pelo médium Maury Rodrigues da Cruz. Curitiba: Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas - SBEE, 2001. Harvard Business Review on Knowlegde Management. Harvard Business School Press. Harvard Business Review on Strategies for Growing. Harvard Business School Press. CONLEY, C. The Rebel Rules. 1ª ed., New York: Fireside, 2001. DRUCKER, P. O melhor de Peter Drucker. 1ª ed., São Paulo: Nobel, 2002. SEMLER, R., DIMENSTEIN, G., COSTA, A. Escola sem sala de aula. 1ª ed., São Paulo: Editora Papirus, 2002 COMO montar um time vencedor. Exame, São Paulo, jul.2004. COMO manter a equipe motivada. Exame, São Paulo, jul.2004. MANO, C. Idéias de 80 milhões de reais. Exame, ed. 0816 São Paulo, abr.2004. Por Cristiane Mano. COHEN, D. O ranking da inovação. Exame, São Paulo, jun.2004. Por David Cohen.


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A Estrutura da Codificação Espírita Introdução A Codificação da Doutrina Espírita foi escrita por Allan Kardec entre 1855 e 1869. É composta por 7 livros: O Livro dos Espíritos (1857), O que é o Espiritismo (1859), O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1863), O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo) (1865), A Gênese (os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo) (1868) e Obras Póstumas (1890). Kardec também publicou a Revista Espírita de janeiro de 1858 até a sua morte em março de 1869. Obras Póstumas foi publicada por Pierre-Gaëtan Leymarie usando textos de Kardec, que não tinham sido publicados. O que é o Espiritismo é uma obra de aproximação, que responde a algumas perguntas iniciais sobre o Espiritismo. As outras 5 obras compõem o núcleo da Codificação. Existe uma estrutura, que permeia todas essas obras e garante a unidade. Ela tem muitas facetas: ora se mostra através de pares de decálogos, ora através de estruturas lógicas em forma de árvores, ora usando estruturas lógicas gregas com proposições, argumentos e conclusões. Além da estrutura lógica, Kardec usa uma forma didática de apresentar o conteúdo. Cada assunto é apresentado de forma encadeada, nada é ao acaso tudo tem um rela-

Cesar Graça

cionamento lógico e crescente. O que lembra muito uma gramática, na qual as regras e as exceções compõem uma sintaxe. Usando essa analogia vamos observar as estruturas que Kardec usou para a construção da Codificação.

Os Decálogos no Evangelho No Evangelho Segundo o Espiritismo a estrutura básica são dois decálogos: o primeiro vai do capítulo 1 até ao 10, o segundo do capítulo 11 até ao 20. Os capítulos do 21 até ao 28 são complementos e têm outra estrutura. Interessante é a integração do ensino moral com a estrutura lógica. O ponto de partida do Evangelho é o ensino que todo o pensamento cristão é contido na frase: Amar a Deus acima de todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo. Kardec relaciona o primeiro decálogo com o ensino de amar a Deus e o segundo com amar ao próximo. Os dois decálogos são complementares: não é possível se alcançar o amor a Deus se não se amar o próximo; o contrário também é verdadeiro, não é possível amar o próximo se não se ama a Deus. Cada decálogo está dividido em duas partes de 5 capítulos: na primeira é o desenvolvimento teórico do conceito, na segunda a aplicação prática. Cada conjunto tem uma estrutura. O primeiro capítulo é a proposição, o segundo, o terceiro e o


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quarto são argumentos que provam a proposição, e o quinto capítulo é conclusão.

tica de amar a Deus; de do capítulo 16 até o 20, a prática de se amar o próximo.

Como exemplo, vamos ver o relacionamento do capítulo 11 ao 15. Eles fazem parte do segundo decálogo, que é a lição de amar o próximo. Fazem parte do primeiro conjunto que é a teoria de amar o próximo.

As outras partes do Evangelho são complementos a essa estrutura básica. A introdução também é dual, pois existem duas a do Espírito da Verdade e a de Kardec. A estrutura dos capítulos restantes, do 21 até o 28, também é dual. Do capítulo 21 ao 27 são ensinamentos complementares, falam dos riscos de não se aplicar adequadamente o conhecimento conquistado. E o capitulo 28 é um grande resumo de toda a obra, fale de colocar em prática todo o ensinamento cristão através das preces.

O primeiro elemento desse conjunto é o capítulo 11 que tem por título Amar o próximo como a si mesmo, é a proposição. Os capítulos 12, 13 e 14 que os títulos são respectivamente: Amai os vossos inimigos, Que a mão esquerda não saiba que a direita faz e Honra o teu pai e a tua mãe, são os três argumentos do conjunto.A conclusão é o capítulo 15, que tem o título Fora da caridade não há salvação. Esses 5 títulos podem ser agrupados em uma sentença lógica que representa a compreensão do conjunto. O objetivo é aprender a amar o próximo, mas para amar o próximo é necessário alcançar o amor pelo nosso inimigo, pois o nosso inimigo também é o nosso próximo. Amando de forma que a mão esquerda não saiba o que a direita faz, ou seja, sem nenhuma divulgação, sem estardalhaço. Se amar o inimigo é o maior desafio do processo de aprender a amar o próximo, honrar o pai e a mãe é o ponto de partida dessa caminhada. O ponto de chegada é alcançar que fora da caridade não há salvação. Não é possível se alcançar o amor ao próximo sem a prática da caridade. Essa estrutura lógica também existe nos outros três conjuntos: do capítulo 1 até o 5, a teoria de amar a Deus; do capítulo 6 até o 10, a prá-

Os Decálogos no Livro dos Espíritos O Livro dos Espíritos é composto de 4 partes, que Kardec chamou de Livros. Cada qual tem um tema: o Livro I – As Causas Primárias – fala de Deus e a origem do Universo; o Livro II – Mundo Espírita ou dos Espíritos – trata da relação entre os polissistemas material e o espiritual; o Livro III – As Leis Morais –; e o Livro IV – Esperanças e Consolações – trata da felicidade e infelicidade na Terra e na vida futura. A estrutura básica também são dois decálogos, os Livros II e o III. Os Livros I e IV são complementos. Pela quantidade de capítulos é possível avaliar que eles são auxiliares, pois o primeiro livro tem 4 capítulos e o último tem 2. O Livro II, o primeiro decálogo, tem 11 capítulos. O 11º - Os Três Reinos - é um complemento e trata das formas de organização da vida na Terra. De forma idêntica ao E-


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vangelho é estruturado em dois conjuntos de 5 capítulos. O primeiro trata da teoria e o segundo da prática da relação entre os polissistemas. Cada conjunto também está estruturado de forma análoga aos conjuntos do Evangelho. O capítulo 1 – Dos Espíritos – é uma proposição. Os capítulos 2, 3 e 4 respectivamente – Encarnação dos Espíritos, Retorno da Vida Corpórea à Vida Espiritual e Pluralidade das Existências – são argumentos. O capítulo 5 – Considerações sobre a Pluralidade das Existências – é a conclusão. Esse relacionamento lógico possibilita a integração entre os capítulos, o que pode ser demonstrado através da sentença lógica formada pelos capítulos. Para se conhecer o Mundo dos Espíritos é necessário compreender a necessidade de reencarnação dos espíritos no mundo material, o retorno da vida corpórea à vida espiritual e a necessidade desses ciclos através da pluralidade das existências. O Livro III, segundo decálogo, tem 12 capítulos, para um decálogo estão sobrando dois capítulos. O último capítulo – A Perfeição Moral – é uma conclusão dos dois decálogos. Ele explica o sentido dos ciclos reencarnatórios e o desenvolvimento moral. Sobram então 11 capítulos. Mas existe uma razão para que eles sejam 11 e não 10. Nesse decálogo a estrutura interna não é formada por dois conjuntos de cinco capítulos, mas cinco pares de capítulos. O primeiro par é formado pelos capítulos 1 e 2 – A Lei Divina ou Natural e a Lei da Adoração – tratam da compreensão de Deus e das suas

Leis. O segundo par, capítulos 3 e 4 – Lei do Trabalho e da Reprodução – explicam as condições básicas no mundo material. O terceiro par, capítulos 5 e 6 – Lei da Conservação e a Lei da Destruição – explicam os mecanismos de transformação do mundo material. O quarto par, os capítulos 7 e 8 – Lei da Sociedade e do Progresso – tratam da evolução das estruturas sociais do mundo material. O último conjunto não é um par, mas uma trinca que compreende os capítulos 9, 10 e 11, respectivamente – Lei da Igualdade, Lei da Liberdade e Lei de Justiça, Amor e Caridade – que explicam o objetivo a ser conquistado. Quando comparamos esses três capítulos com o lema da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – compreende-se a razão de Kardec ter usado no último conjunto três capítulos e não dois como nos quatro conjuntos anteriores. Essa característica de usar uma estrutura básica, fazer variações e adicionar complementos é bem do estilo de Kardec. Ele usa as estruturas clássicas, mas faz improvisações.

O eixo da obras da Codificação da Doutrina Espírita Os dois decálogos do Livro dos Espíritos representam o eixo de construção das obras da Codificação da Doutrina dos Espíritos. O primeiro trata das relações entre os polissistemas material e espiritual. O segundo trata das leis morais.


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Todas as obras da Codificação têm esse eixo estrutural. Por exemplo, a estrutura do Evangelho é o código moral cristão: A amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. E onde está a relação entre os polissistemas? Neste caso, na estrutura interna de cada capítulo. Os capítulos de 1 até o 20 são divididos em duas partes: a escrita por Kardec e as mensagens dos espíritos. Na primeira parte, Kardec explica o sentido oculto das mensagens de Jesus. Mostra a forma didática que Cristo usou para ensinar, a um povo ainda muito inculto, um código moral muito mais amplo do que o código mosaico. As explicações que Kardec faz, sobre as parábolas, são chaves que levam a abrir portas que revelam a uma melhor compreensão dos ensinamentos de Jesus. Muitas vezes ele acrescenta comentários que esclarece o comportamento dos espíritas, usando as estruturas pedagógicas usadas por Cristo. Outras vezes, ele faz uma grande revisão sobre os ensinamentos compondo-os numa sintaxe. Em todo esse conjunto Kardec revela o seu estilo de professor e pedagogo, construindo uma sintaxe dos processos morais. Essa é a parte material, pois fala do pensamento de Jesus que está registrado na Bíblia. Na segunda parte, Kardec apresenta mensagens dos espíritos sobre o assunto tratado. É o pensamento cristão de alguém que já viveu esses valores na Terra, mas que hoje se encontra no polissistema espiritual. Essa dualidade dá uma força muito grande ao Evangelho Segundo o Espiritismo. Além de explicar o sen-

tido dos ensinamentos de Jesus, ele apresenta comunicações dos espíritos que alcançaram a compreensão do pensamento cristão vivendo esses valores na Terra. Que reforça, com exemplos pessoais, a interrelação entre os polissistemas material e espiritual.

Duas formas de apresentação das Leis Morais No Livro dos Espíritos, as Leis Morais são apresentadas segundo a trajetória do homem no seu processo evolutivo, desde a sua origem até a conquista da evolução moral. No Evangelho é o caminho de aprender a amar a Deus e amar ao próximo. Observando as duas maneiras de apresentar as Leis Morais, é possível ter uma idéia da criatividade de Kardec. Na primeira ele usa a trajetória do homem na Terra para construir a evolução moral, é o ponto de vista de um observado externo à Terra, um espírito desencarnado. Na segunda ele se utiliza do ensinamento que sintetiza o pensamento cristão e o desdobra numa sintaxe moral, é o ponto de vista de um observador vivendo na Terra, um espírito encarnado. O conteúdo é o mesmo, o que varia é a forma de observação. Esse relacionamento entre uma parte do Livro dos Espíritos com uma obra da Codificação levanta uma questão. Será que existem outros relacionamentos entre as outras obras da Codificação e o Livro dos Espíritos?


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O Livro dos Espíritos é a pedra de canto da Codificação

vemos relacioná-lo com a respectiva parte (Livro) do Livro dos Espíritos.

Vamos supor que o Livro dos Espíritos é o ponto de partida da Codificação e as outras obras são desdobramentos. Essa hipótese é interessante, ela parte do princípio que Kardec tinha um plano diretor para a construção da Codificação.

Um exemplo é a Gênese, ela se relaciona com o Livro I do Livro dos Espíritos, que trata das causas primeiras, que são apresentadas em quatro capítulos: Deus, Elementos Gerais do Universo, Criação e o Principio Vital. A Gênese, por sua vez, está dividida em três partes: 1 decálogo, e dois complementos (Os Milagres e as Predições).

Usando a premissa que cada parte, ou seja, cada livro do Livro dos Espíritos corresponde a um livro da Codificação podemos montar a tabela abaixo:    

Livro I – Gênese Livro II – Livro dos Médiuns Livro III – O Evangelho Segundo o Espiritismo Livro IV – O Céu e o Inferno

Isso significa que a Gênese é um desdobramento do Livro I, do Livro dos Espíritos, – As Causas Primárias – fala de Deus e a origem do Universo. O Livro II – Mundo Espírita ou dos Espíritos – que trata da relação entre os polissistemas material e espiritual se desdobra no Livro dos Médiuns. O Livro III – As Leis Morais – se transforma no Evangelho Segundo o Espiritismo. E o Livro IV – Esperanças e Consolações – trata da felicidade e infelicidade na Terra e na vida futura se desdobra no Céu e o Inferno. Esse ponto de vista nos leva a compreensão que as estruturas dos diversos livros da Codificação estão encadeadas. O que abre um novo caminho para o estudo da Codificação. Cada vez que se for estudar qualquer livro da Codificação, de-

O decálogo está dividido em 2 conjuntos: o primeiro de 5 capítulos é uma introdução, o segundo com 7 capítulos é a gênese do Universo segundo a Doutrina dos Espíritos. Esse segundo conjunto é um exemplo típico do estilo do Kardec escrever. A estrutura clássica é de 5 capítulos: o primeiro é a proposição, o segundo o terceiro e o quarto argumentos e o quinto a conclusão. Neste caso Kardec se utilizou de uma variação dessa estrutura. O primeiro capítulo do conjunto, que no livro é o 6, é a visão da Gênese segundo o espírito de Galileu. O que resulta numa proposição muito interessante: é um espírito que teve um papel de destaque no desenvolvimento da Astronomia, apresentando a sua visão do Universo do ponto de um espírito desencarnado. O segundo, o terceiro e o quarto capítulos são respectivamente: Esboço Geológico da Terra, Teorias sobre a Terra e Revoluções do Globo são argumentos tradicionais. Para a conclusão Kardec fez um desdobramento, ao invés de usar um capítulo ele utiliza três: a Gênese Orgânica, a Gênese Espiritual e a Gênese Mosaica. O que dá um


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grande destaque para a conclusão do conjunto e também do decálogo.

Outra relação lógica entre as obras Como último exercício desse ensaio, será que não existiriam outras relações entre as 5 obras básicas da Codificação? Será que seria possível ver essas obras segundo a estrutura lógica do conjunto de 5 capítulos. Na qual o primeiro é uma proposição, o segundo, o terceiro e o quarto são argumentos, e o último é a conclusão. Colocam os livros nessa estrutura temos:     

Livro dos Espíritos – Proposição Livro dos Médiuns – 1º Argumento O Evangelho Segundo o Espiritismo – 2º Argumento O Céu e o Inferno – 3º Argumento A Gênese – Conclusão

Essa é a ordem que os livros foram escritos. Aparentemente existe uma contradição entre a ordem que os livros da Codificação foram escritos e a estrutura do Livro dos Espíritos, pois nele a Gênese é a primeira obra a ser desdobrada e não a última. Mas essa contradição pode ser explicada. Quando se observa as duas versões do Livro dos Espíritos. Na 1ª versão o Livro dos Espíritos é composto somente por três Livros: Doutrina Espírita, Leis Morais e Esperanças e Consolações. Ou seja, a

Doutrina Espírita está relacionada com o Livro dos Médiuns, as Leis Morais com O Evangelho Segundo o Espiritismo e as Esperanças e Consolações com O Céu e o Inferno. Na 2ª versão, publicada em 1860, Kardec adiciona um quarto livro: As Causas Primeiras, que está relacionado com a Gênese. Esse ponto de observação dá a entender que Kardec já estava desenvolvendo o Livro dos Médiuns, quando ele fez a revisão do Livro dos Espíritos. Essa interação entre as obras é uma hipótese muito interessante.

Conclusão Ao observarmos a estrutura lógica desenvolvida por Kardec para a confecção da Codificação fica evidente que Kardec construiu um plano para nortear as suas ações. Esse plano tinha um eixo de construção, todas as suas ações foram orientadas por esse plano. Ele não era estático, também sofria alterações, mas secundárias. A aplicação desse método de investigação tem infinitos desdobramentos. Ele vai descobrindo os relacionamentos feitos por Kardec na construção da Codificação. A compreensão dessa estrutura facilita o entendimento do conteúdo.


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Referências:  GRAÇA, C. C.G., Sintaxe dos Processos Morais, Curitiba, SBEE, 2007,176p.  ABREU, C., O Primeiro Livro dos Espíritos de Allan Kardec, São Paulo, Companhia Editora Ismael, 1957, 474p.

 KARDEC, A., Le Livre des Esprits, Paris, Editora Dervy, 1991, 502p.  --------------, A., L'Evangile Selon le Spiritisme, Rio de Janeiro, FEB, 1979,  444p.


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Redes de Conhecimento e os Polissistemas Raul José Fernandes de Oliveira Doutor em Ciências Professor de várias disciplinas do Curso de Teologia da Faculdade Doutor Leocádio José Correia.

1 - Introdução A informação é um fator preponderante em qualquer área do conhecimento humano. Permanecer bem informado é uma necessidade, e acima de tudo um dever para os praticantes da Doutrina Espírita. Esta afirmação pode parecer radical, porém, é o fundamento de um dos pilares da própria Doutrina, o livre arbítrio, onde a amplitude do conhecimento é diretamente proporcional à responsabilidade da escolha. Como conhecer é essencial, então para o teólogo espírita esta tarefa se agiganta, pois é inevitável o cruzamento das várias áreas organizadas do saber humano para o exercício da pesquisa espírita. A busca por literaturas variadas e a perspicácia do seu pensamento crítico lhe trazem algumas chaves que possibilitam a maturidade na divulgação da Doutrina a variados nichos intelectuais. Todavia, a leitura do meio em que está inserido é de vital importância para trazer a fatos e tendências novas os desdobramentos, também novos, que a Doutrina possibilita. Desta forma, a consciência crítica constante das ocorrências locais, regionais e globais (o chamado “estar ligado”), é também uma forma de manutenção da sua informação e do seu conhecimento. Aliás, é uma das formas que torna o espiritismo sempre atual, entrela-

çando-se através dos espíritas a todos os momentos sociais. Este entrelaçamento de informações, cada uma na sua categoria específica, caracteriza o que se conhece por redes de conhecimento, acumuladas e mantidas por todo aquele que pensa a respeito de um determinado assunto, conjecturando e insuflando mentalmente cada categoria acessada. Mas não são somente indivíduos isolados que as mantém, existem terminais de excelência que promovem grandes crescimentos nestas redes, como por exemplo: Universidades, faculdades, Centros espíritas, etc. (1). Sabe-se, no entanto, que as redes de conhecimento humano (1) são fontes extremamente ricas no processo de formação de massa crítica, tornando-se um instrumento muito importante para deixar o pesquisador espírita “ligado na atualidade”. Se considerarmos ainda os potenciais mediúnicos dos quais somos todos portadores, seria possível entender que este instrumento (a rede) se torna uma ferramenta poderosíssima ao alcance do teólogo. Como a mediunidade é uma característica do espírito (2), e este é o portador de toda a cultura acumulada durante suas encarnações, então todos são médiuns, independente da sua condição momentânea de materialidade (ou não) e grande parte do conhecimento evolutivo acumulado no Universo encontra-se


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nos espíritos (evidente que não se esta considerando aqui o conhecimento supremo de Deus). Desta forma, pode-se dizer que a mediunidade e sua associação com as redes são veículos importantíssimos para a atualização e manutenção do conhecimento, como se pretende demonstrar a seguir. 2- Mediunidade (instantaneidade, simultaneidade, concomitância) Segundo Grimm1, o processo mediúnico é complexo e consensual, ou seja, ocorre por vontade de ambos os envolvidos, causando uma aceleração no existencial de cada participante para produzir o fenômeno (3), caracterizando um espaço produzido instantaneamente, simultaneamente e concomitantemente (4). Atendo-se especificamente a estes três últimos termos (pois o objetivo deste texto não é discutir outros aspectos complexos do processo mediúnico) eles podem parecer estranhos ou até desconexos ao processo mediúnico, porém, como será visto a seguir eles expli-

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Grimm – que numa de suas encarnações foi Jakob Grimm (1785-1863), filólogo, jurista e folclorista alemão, ganhando notoriedade mundial junto ao seu irmão Wilhelm através dos seus Contos de fadas para as crianças, como: Rapunzel, O Soldadinho de chumbo, Branca de Neve, etc. No entanto, Jakob sobressaiu-se por seus estudos de filologia, sendo considerado o fundador da moderna gramática alemã. Sendo discípulo de Savigny, também deixou importantes trabalhos jurídicos ligados ao direito alemão – manifestando-se espiritualmente no Brasil, através do médium Maury Rodrigues da Cruz, adotou o nome de Antonio, advindo de uma encarnação realizada na Itália, onde aprendeu o profundo significado da bondade. Então, Antonio Grimm, desde 1953 vem manifestando suas inflexões doutrinárias aos espíritas e coordenadores de Exercício Mediúnico, sendo o mentor intelectual da Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas.

citam com maior detalhes o próprio ato mediúnico. 2.1 Instantaneidade Instantâneo é aquilo que se dá num instante, rapidamente, subitamente, num momento (5). Neste caso, a qualidade de ser instantâneo ocorre pois neste processo, a cada momento temporal, o ato mediúnico perfaz a conexão de, no mínimo, duas inteligências sintonizadas harmonicamente, no intento da realização de uma comunicação. É como se o tempo se dilatasse neste instante e uma grande fluência de informações ocorresse em ambas as direções (espírito  espírito), num momento singular, instantâneo, particular à sintonia desenvolvida, porém com ampla capacidade de transformação. 2.2 Simultaneidade Simultâneo é aquilo que ocorre ou é feito ao mesmo tempo que outra coisa (5). Desta forma, a singularidade ocorrida no instante mencionado no item anterior não se replicará novamente, pois os praticantes do ato mediúnico se alterarão após este contacto. Portanto, este instante exige a simultaneidade dos envolvidos, pois o momento é co-participativo e conjuntivo. Necessita da consciência de ambos para a realização do evento (inter2 fecundação) e a promoção do produto mediúnico. Então, o produto realizado é simultaneamente vinculado e veiculado em ambos os polissistemas. 2

Termo oriundo de uma síntese concebida por Antonio Grimm, indicando uma integração construcional entre o polissistema cultural espiritual e o material quando há a comunicação, criando algo novo que altera a estrutura do conhecimento (6).


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2.3 Concomitância De todos os termos este parece ser o mais estranho, porém, a concomitância vem de concomitante e é aquilo que se manifesta simultaneamente a outra coisa. É importante salientar que a concomitância é diferente da simultaneidade, pois não são apenas coisas que ocorrem ao mesmo tempo (como aquilo que é simultâneo), mas sim que “manifestam-se” ao mesmo tempo. Tendo então, o produto mediúnico como característica, a criação de algo novo que objetiva sensibilizar a todos que alcancem o seu conteúdo (7), no ato mediúnico envolvido para a sua produção deve ocorrer também a concomitância, pois neste “instante simultâneo” cada participante irá desdobrar o fluxo de comunicação que está em curso para todas as áreas possíveis do seu alcance, já que na concomitância há um pensamento conjuntivo de várias idéias (8). Estes desdobramentos irão criar alterações nos âmbitos individuais, alternativos, especialistas e universais. E justamente estas são as alterações que também caracterizam o produto mediúnico. Através destas observações e implicações pode-se perceber que o processo mediúnico sempre será construtivista e conjuntivo, buscando a melhor expressão possível de ambos os polissistemas para trazer o novo à humanidade. Assim, para que esta expressão traduza-se com maior fidelidade é preciso que todos os envolvidos neste processo propiciem o “aumento da massa crítica, da plataforma de conhecimento” (4), criando a sustentação mais ampla possível para a sua concretização. Porém, os participantes deste processo são individualidades (espí-

ritos) que estão criando este produto mediúnico e todos estão imersos no Universo. Desta forma, fazem parte de um todo como se fossem pontos de um holograma gigantesco. 3 - Nós no Universo (pontos no holograma Universal) O Universo é composto de espíritos e matéria (9), sendo o espírito aquele que imprime alterações, através do seu conteúdo cultural, na matéria que, por sua vez, recebe estas modificações, alterando o desenrolar da sua projeção. Isto predispõe que todos os espíritos, no nosso caso os encarnados, são pontos originários e cumulativos de conhecimento e experiências, que atuam através dos seus aparatos específicos (perispíritos) na matéria. Daí, pode-se fazer uma comparação deste comportamento com conceitos holográficos e isto não seria um absurdo, pois Karl Pribram3 e outros neuro-cientistas utilizaram o holograma para explicar determinados aspectos do armazenamento da memória no cérebro (10). O termo holografia4 vem do grego (holos – todo, inteiro e gra3

Karl H. Pribram (nasceu em Viena, Áustria, a 25 de fevereiro de 1919) é professor nas Universidades de Georgetown e George Mason e professor emérito de Psicologia e Psiquiatria nas Universidades de Stanford e Radford. Neurocirurgião fez trabalhos pioneiros relacionando o córtex frontal com os sistemas límbicos. Publicamente é mais conhecido como o desenvolvedor do modelo holográfico das funções cognitivas do cérebro e sua contribuição para as pesquisa relativas à memória e as emoções. 4 A holografia foi inventada em 1947 pelo físico húngaro Dennis Gabor (1900–1979), trabalho pelo qual ele recebeu o Premio Nobel em 1971. A descoberta veio de um resultado inesperado de uma pesquisa visando aprimorar o microscópio eletrônico, realizada na compania British Thomson-Houston, Inglaterra. A descoberta foi


27 phos – escrita) e é um método de registro integral de imagens, dando ao observador a sensação de profundidade em vários ângulos de visualização. Uma das características peculiares do holograma o torna único, pois tem a sua composição a partir de minúsculas partes individuais que detém, no seu interior, uma cópia exata da imagem global que está compondo a partir de um determinado ângulo (11). Considerando os espíritos como pontos de conhecimentos em desenvolvimento no universo, e percebendo que eles mesmos têm a semente de toda a orientação universal (3), pode-se extrapolar o conceito holográfico universal em relação a sua existência. Assim, todos os espíritos são minúsculos pontos que compõem o holograma universal, pois replicam, na sua individualidade energético-material (vários ângulos de visualização), o conjunto do todo universal. Em síntese, pode-se dizer que cada espírito é uma potencial semente participante do todo que está composto e estabelecido universalmente, ou seja, um ponto no holograma do universo. Apesar de parecer simplista, esta afirmação é uma replica das mesmas leis que a física quântica utiliza para celebrar seus efeitos, ou seja, a similaridade das ocorrências do micro ao macro, e vice versa. Com isto em mente, passa-se agora a discutir a interação das redes com a mediunidade. 4 - Redes e a mediunidade

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ev patenteada rapidamente, porém, só avançou a partir de 1960 com os avanços que a tecnologia à laser permitiu.

Quando a concomitância ocorre, a mediunidade atinge o seu alcance mais abrangente, pois, as alterações que promove são de alcance universal (devido à própria característica do produto mediúnico – individual, alternativo, especialista e universal). Desta forma, altera toda a percepção do conhecimento existente, portanto, de todas as redes implicadas no alcance da mensagem mediúnica. Estas alterações denotam a grande capacidade que o produto mediúnico tem na alteração das informações que trafegam nas redes, sendo um dos grandes precipitantes da geração do novo (comportamentos, conceitos, tecnologias, artes, etc.). Transportando o conceito de holograma, mencionado anteriormente e projetando-o para todo o universo, pode-se entender melhor a extensão que a concomitância estabelece nas redes. Ou seja, a cada momento que a concomitância se estabeleça, as manifestações dos pontos individuais do holograma (os espíritos) que estão envolvidos no processo mediúnico se alteram. Entretanto, estes pontos são indivíduos em equilíbrio dinâmico, representando uma holografia também dinâmica e quando qualquer ponto de um holograma se altera todo o holograma percebe esta alteração (já que se trata de uma holografia dinâmica), pois a semente geradora toma nova orientação, provocando alterações em âmbitos maiores, modificando todo o universo holográfico gradualmente. Assim, pode-se fazer um paralelo para exemplificar de que forma as redes são alteradas e a amplitude desta alteração quando conjugadas ao processo mediúnico. Todavia, alguns desdobramentos deste produto mediúnico não ocor-


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rem de imediato, causando reflexões posteriores nos indivíduos. 5 - Efeitos posteriores ao ato mediúnico (desdobramentos secundários) Cada produto mediúnico que se estabelece no ato mediúnico realiza alterações no panorama do conhecimento universal, portanto, altera o conteúdo de conhecimento de todas as redes que são afetadas por este novo. E esta alteração tem âmbito variado, porém dinâmico, modificando a forma e a visão das novas interpretações que cada indivíduo fará de si mesmo, do universo ao seu redor, portanto, de Deus. Entretanto, algumas facetas não se desdobram tão imediatamente ao instante do ato mediúnico, provocando nos indivíduos reflexões e reinterpretações posteriores, que sistematicamente irão se estabelecer em cada um que entre em contacto com esta mensagem. O efeito mencionado propõe que estes indivíduos, ao perceberem os novos enfoques estabelecidos nos produtos mediúnicos, transpassemos através do seu conhecimento ordinário, científico e filosófico, alterando a sua conceituação imediata e posteriormente a mediata de si mesmo e, por conseqüência, do meio ao seu redor. As alterações são sentidas e manifestadas gradualmente, de acordo com a composição e a assimilação que este produto vá provocando no indivíduo. E, como se fossem frentes de onda geradas a partir de um epicentro, elas irão ampliar cada vez mais o seu alcance e alterar o conteúdo crítico das redes. Ao encontrar outra individualidade sintonizada com o conteúdo propagado, esta frente de onda sensibiliza-o fazendo com que revi-

gore, adapte e coadapte seu conteúdo, propagando-o mais uma vez como nova frente de onda nas redes. E assim, pouco a pouco, estes conteúdos de conhecimentos, através das redes, vão alterando o os conteúdos culturais, as mentalidades e o próprio universo (vide item 3). 6 - Discussão Posto o conteúdo anterior pode-se estabelecer melhores conjecturas a respeito das alterações que as redes de conhecimento podem sofrer no âmbito de ambos os polissistemas, pois a origem das alterações é o próprio foco ostentador da cultura, manifestando-se encarnado ou desencarnado. A partir da consciência da mediunidade, observa-se o quão profunda estas alterações ocorrem, sendo decorrentes do produto mediúnico estabelecendo novos conteúdos, desdobrando-se em múltiplas percepções concomitantes, oriundas da composição do conhecimento alcançado por cada indivíduo participante do ato mediúnico. Ainda pode-se perceber que, além dos desdobramentos imediatos, as redes também são afetadas por reflexões que decorrem dos instantes mediúnicos, amadurecendose gradual e proporcionalmente ao alcance novo que cada indivíduo, em contacto com está nova mensagem, trás ao todo. Portanto, são múltiplas frentes de novos pensamentos críticos que se estabelecem em todos os momentos, promovendo o crescimento gradual da amplitude de todas as redes. Contudo, é necessário ficar claro que os impulsos mais significativos para tornar consistente o conteúdo crítico das redes acontecem nos processos mediúnicos,


29 quando ocorre a “visão de racionalidade critica”, significando uma “transfusão de conhecimento” (4) entre os polissistemas.

7- Referências 1 – CRUZ, M. R. Cadernos de Psicofonias 2000 – Doutrina Social Espírita, (pelo espírito Antonio Grimm). Curitiba: Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas, 2001. 2 – KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Tradução: Salvador Gentile. 78º ed. Araras, S.P.: Instituto de Difusão Espírita, 1993. 3 – CRUZ, M. R. Cadernos de Psicofonias 2005 – Doutrina Social Espírita, (pelo espírito Antonio Grimm). Curitiba: Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas, 2006. 4 – CRUZ, M. R. Notas de aula psicofonadas ao Grupo C da Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (pelo espírito Antonio Grimm), 17 de mar. 2006. 3 f. Digitado. 5 – Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. (versão eletrônica 5.0) 3º ed. Curitiba: Editora Positivo, 2004. 6 – CRUZ, M. R. Cadernos de Psícofonias 2001 – Doutrina Social Espírita, (pelo espírito Antonio Grimm). Curitiba: Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas, 2007. 7 – CRUZ, M. R. Cadernos de Psicofonias 1995 – Doutrina Social Espírita, (pelo espírito Antonio Grimm). Curitiba: Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas, 2003. 8 – CRUZ, M. R. Notas de aula psicofonadas ao Grupo C da Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (pelo espírito Antonio Grimm), 26 de mai. 2006. 3 f. Digitado. 9 – KARDEC, A. A Gênese. Tradução: Guillon Ribeiro (5º edição francesa). 36º ed. Rio de


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Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1995. 10 – GERBER, R. Medicina Vibracional – uma medicina para o futuro. Tradução Paulo César

de Oliveira. São Paulo: Editora Cultrix, 1997. 11 – CATHEY, W. T. Optical information processing and holography. New York: J. Wiley, 1974.


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RESPONSABILIDADE SOCIAL NO ENSINO SUPERIOR: COMPROMETIMENTO COM O POVO SILVETE APARECIDA CRIPPA DE ARAUJO

O Ensino Superior no Brasil não pode mais ser concebido apenas como uma etapa da educação, onde alguns poucos privilegiados alcançam o “status” social de detentores do conhecimento pronto e acabado. Faz se necessário mudar o foco do Ensino Superior para que este atue como agente de transformação social. A qualidade de educação alcançada por um povo é o indicador do compromisso político e social assumido e que deve ser concretizado perante o e para o povo. Por mais que se pretenda uma transformação política, social e de mentalidade no Ensino Superior com a intenção de democratizá-lo, não se deve ter ilusões, a respeito de que ainda, o seu papel é o de grande agência não só formadora como seletora dos quadros dirigentes da sociedade. Resgatar o compromisso do ensino superior com a sociedade, como menciona a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96), no seu artigo 43, parágrafos VI e VII, onde se firma a idéia de que além do ensino e da pesquisa o trabalho de extensão no ensino superior é de grande importância, pois ao se estimular o conhecimento dos acadêmicos sobre os problemas do mundo presente, em particular os nacionais e regionais, estimula-os a prestar serviços especializados à comunidade e estabelecer com esta uma relação de reciprocidade, bem como promover a extensão, aberta a participação da população, visando à difusão das conquistas e benefícios resultantes da criação cultural, da

pesquisa científica e tecnológica geradas na instituição em que o acadêmico deve estar inserido. O Ensino Superior está imbuído de uma responsabilidade social que deve ser assumida e concretizada tanto pelas instituições públicas quanto pelas as particulares. Os profissionais da educação envolvidos neste cenário devem ter clareza da responsabilidade e do comprometimento que devem assumir com seus alunos e com a sociedade como um todo. Resgatar este compromisso com a elaboração e produção de um saber funcional, saber aprender, saber fazer e saber conviver compete aos interessados na mudança de mentalidade e de ação do Ensino Superior. Embora nem todos cheguem à universidade, os interessados em mudar esta realidade têm diante de si o desafio de lutar pela melhoria quantitativa e qualitativa do ensino superior, com a ampla visão de que a melhoria na qualidade deste ensino se refletirá em melhores condições de vida no país. O compromisso de todos os profissionais inseridos no Ensino Superior é o de construir coletivamente um projeto pedagógico que assuma efetivamente a responsabilidade com a sociedade, que beneficie a maioria e que não colabore com o pacto da exclusão social. O Ensino Superior no contexto atual evidencia a necessidade de uma mudança profícua, pois ainda se mostra sem comprometimento social e político com a maioria. Pode e deve ser transformado, desde que haja vontade, ação consciente


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e consistente, para tornar-se de fato uma instituição democrática e democratizante, um espaço coletivo de construção e disseminação do conhecimento e do saber. É imprescindível que no Ensino Superior haja esclarecimento não só do seu corpo discente e docente como de toda a sociedade sobre a real função da pesquisa, do ensino e da extensão acadêmica, assumindo assim o verdadeiro compromisso com a verdade, a ciência, a justiça, a ética, a beleza e a igualdade para melhorar a qualidade de vida de um povo. O Ensino Superior, no momento atual, se mostra acuado, perdido, não avança na formulação de um novo papel, se diz em crise. Aumentam os cursos de nível superior feitos de forma aligeirada e com único intuito de atender aos interesses do mercado financeiro. Alunos que perdem o interesse pelos cursos, pois estes não respondem aos propósitos sociais nem existenciais de fazer avançar o conhecimento5. Os professores perdem a motivação, tendo como argumento os baixos salários e insuficiência de verbas para pesquisas, o que torna o seu trabalho limitado. Esta crise, porém é importante, pois aponta a necessidade urgente de uma mudança. A função da universidade passou por várias etapas no decorrer de sua história, após auxiliar na transição para o renascimento6, sem levar a Renascença até o seu instrumento de salto que ao final do 5

A exemplo da física e da medicina o conhecimento já não satisfaz eticamente, em um mundo capitalista em que a física passou a significar armas atômicas e a medicina não resolve os problemas da maioria. 6 A Universidade renascentista resulta de uma profunda transformação a partir do Séc. XV, decorrente do alargamento do poder real, da afirmação do Estado e da expansão ultramarina.

séc. XVII7 representou, com o iluminismo e a tecnologização do projeto humano. Após ser o centro da geração do pensamento novo, a universidade ficou marginalizada da inovação técnica. Aprisionada a um passado, a um currículo e a uma estrutura rígida a universidade desprezou a transição, recusou ser inventiva, criativa, audaciosa8 perdeu seu objetivo social de ser. O Ensino Superior exige redimensionamento de saberes e de ações, reorientação do conhecimento a fim de atender as necessidades reais do mundo em que se insere. Tal mudança não encontrará apoio de professores que apenas desejam estar empregados e nem naqueles que se satisfazem em transmitir teorias tradicionais, sem domínio de conteúdo e acomodados perante a pesquisa e o estudo contínuo e nem para os gestores (reitores, diretores,...) que apenas aspiram ser bons gerentes. Também não encontrará apoio nos alunos que apenas desejam adquirir um diploma para exigir aumento salarial sem o mínimo de esforço. O momento9 exige uma clara e forte postura ética diante do mundo e da sua crise, diante do destino da humanidade e do papel de cada intelectual. É no momento em que a sociedade se renova e muda que o ensino Superior deve cumprir mais plenamente o seu papel com responsabilidade social e com uma educação funcional10. 7

O séc. XVII foi marcado por muitas descobertas científicas em vários campos do saber. 8 A universidade neste momento passa a ser dirigida por pressões políticas e inculcação ideológica. 9 O momento exige heroísmo, falta de preconceitos, uma visão ampla e abrangente do mundo e do conhecimento. (BUARQUE, 1994, p.32). 10 Que deveria preparar as pessoas para o desempenho de funções sociais especificas. (SCHWARTZMAN, 1978).


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MARCOVITCH (1998, p.19), argumenta sobre a falta de comprometimento da academia com a comunidade e com sua participação extramuros, pois considera tratar-se “de uma ponte de duas mãos: não se dá apenas uma transferência de conhecimentos para a comunidade extramuros; desta provém notável benefício para pesquisadores e professores, que acabam não compreendendo melhor o povo que os sustenta com seu trabalho e impostos e deles espera a atenção negada por nossa iníqua distribuição de renda”. É primordial que o Ensino Superior navegue com as mudanças, cumpra seu papel revolucionário das idéias, ensinando a pensar e não o que pensar, rompendo com as amarras políticas e ideológicas que o escravizam. Também deve dialogar com a comunidade, sobre seus reais anseios e dificuldades a fim difundir as conquistas e benefícios resultantes da criação cultural e das pesquisas científicas e tecnológicas geradas pela instituição de Ensino Superior. Rompendo a dicotomia entre extensão para privilegiados e outra para os desprovidos. A extensão não deve ser uma atividade meramente rotineira e nem somente prestadora de serviços, deve ser vista como um indispensável canal de integração entre o Ensino Superior e a sociedade, com vista a um crescimento mútuo. O Ensino Superior deve deixar de ser elitista11, deve investir na formação cultural dos alunos para que estes sejam depois de graduados, verdadeiros agentes críticos e transformadores da sociedade, e isto só se dará pela compreensão histórica da importância do Ensino

Superior e dos valores necessários ao bem viver social. O Ensino Superior é ainda o melhor lugar possível para uma enriquecedora transição da adolescência para a juventude e depois para a vida adulta. A pessoa que procura o curso superior acaba encontrando nele um quadro de referência para a sua vida futura. O Ensino Superior deve oportunizar habilidades para se saber usar o saber, tendo em vista a análise e a solução de problemas do mundo real, pois deve desenvolver a inquietude do ser social. Espera-se também do Ensino Superior que simultaneamente apóie propostas capazes de beneficiar os trabalhadores e os estratos discriminados e desvalidos da sociedade. A responsabilidade social do Ensino Superior deve também se dar através da sua atuação em todos os níveis de ensino para uma melhoria na qualidade da escola que reflita no social, e isto será conseguido através de: orientação para professores e estudantes, assessoria e consultoria, cursos, divulgações culturais e científicas, produção de material didático e científico, empréstimos de materiais audiovisuais, visitas monitoradas e por outras alternativas disseminadoras e enriquecedoras do saber. Para que se efetive no Ensino Superior, um projeto de ensino, pesquisa e extensão voltada a atender as reais necessidades e anseios da sociedade, deve-se ter a consciência do compromisso que lhe é devido em relação à sociedade. Esta é condição para se (re) encontrar o lugar do saber indispensável ao Ensino Superior, de acordo com SAVIANI12 citado por ANAS-

11

O que faz a universidade elitista não é o fato de que os pobres não terão filhos médicos, mas o fato de que os pobres não terão médicos para seus filhos. (MARCOVITCH, 1998, p.73).

12

SAVIANI, D. Educação: do senso comum a consciência filosófica. São Paulo: Cortez:Autores Associados, 1986


34 TASIOU (1998, p. 218) ”Se não há mais razão para trabalharmos em educação, animados de um entusiasmo ingênuo, também não há razão para nos paralisarmos num pessimismo igualmente ingênuo. Há muita coisa que não apenas pode como deve ser feita. É hora, pois, de nos lançarmos ao trabalho com entusiasmo, entusiasmo crítico, porém”. Para MARCOVITCH (1998, p.176) “A formação das novas gerações dependerá dessa universidade mais integrada, empreendedora e generosa...” a partir deste pressuposto, que se faz presente também na visão transdisciplinar de educação, fica evidente a importância de se valorizar a habilidade de aprender. Aprender a conhecer, a pensar, a fazer, a ser e também conviver com o outro, dentro desses parâmetros o Ensino Superior de fato estará contribuindo socialmente com o povo. Somente a partir de uma conscientização ampla e de um comprometimento ativo e efetivo do Ensino Superior sobre a responsabilidade social a que se destina, é que o conjunto da sociedade poderá ter acesso aos benefícios de um saber funcional que reverta numa signifi-

cativa melhoria de vida para todos em uma sociedade. REFÊRENCIAS ANASTASIOU, L. G.C. Metodologia do ensino superior. 1.ed. Curitiba: IBEPEX Autores Associados, 1998. BUARQUE, C. A Aventura da universidade. São Paulo: Unesp, 1994. MARCOVITCH, J. A universidade (im) possível. São Paulo: Futura, 1998. PINTO, A. V. A questão da universidade. São Paulo: Cortez, 1996. SCHUWARTZMAN. Educação e participação social. In: Trabalho apresentado à reunião do grupo de trabalho “Estado e Democracia”, III Encontro anual da Associação Nacional de Pósgraduação e pesquisa em Ciências Sociais. Belo Horizonte, 1719 de outubro de 1979. Disponível em: <http://www.schwartzman.org.br/ simon/educsocial.htm> Acesso em 06 novembro 2007. TRINDADE, H. Universidade em ruínas: na república dos professores. Porto Alegre: Editora Vozes, 1999.


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A AÇÃO ESPÍRITA NA TRAJETÓRIA ASSISTENCIAL NA CIDADE DE FRANCA/SP (1904-1980) Vera Irene Jurkevics

Este trabalho é parte integrante de uma pesquisa mais ampla desenvolvida durante a elaboração de nossa dissertação de Mestrado, intitulada Crenças e Vivências Espíritas na Cidade de Franca (19041980), que objetivou focalizar a inserção e a consolidação do espiritismo na cidade de Franca, sobretudo através de suas obras caritativas. Entendemos que o espiritismo tem ocupado, há bastante tempo, destacado papel no tocante às atividades assistenciais e, por isso, buscamos focalizar o momento histórico de sua inserção, contextualizando-o e analisando em que condições as raízes de um estabelecimento médico-terapêutico, que possui forte projeção social através da criação do Hospital Psiquiátrico Allan Kardec. Os momentos iniciais do Espiritismo, em Franca, cidade do interior de São Paulo, delimitou-se, entre 1880 e 1094, fase considerada embrionária, em que, pequenos grupos familiares se reuniam, fundamentalmente para a prática de fenômenos mediúnicos. De acordo com o Almanaque Histórico de Franca, de 1943, dois periódicos locais, de iniciativa de grupos espíritas tiveram alguns números publicados, nos últimos anos do século XIX. Eram o Castigo-Ódio-Perdão, acolitado pela Loja Maçônica Emilio Zola e o Perdão, Amor e Caridade, em que sobressaíam os nomes importantes do incipiente espiritismo local.

Estas sementes iniciais, de uma nova prática religiosa, desabrocharam, em Franca, sob a liderança de José Marques Garcia. Marques, de família humilde, natural de Santana dos Olhos d”Água, atual Ipuã, interior de São Paulo, trabalhou desde menino como candeeiro de carro de boi, transportando sal, ao lado do pai. Adulto, atuou como comerciante de gado, transferindo-se para Franca, em 1891. A perda de seu primeiro filho, com menos de um ano de idade, fez com que, gradativamente, ele e a esposa se tornassem pais de quinze crianças abandonadas, legitimandoas como filhos. Um deles, em certa ocasião, envolveu José Marquês numa discussão com um açougueiro, que segundo a acusação do menino, o teria destratado grosseiramente. O pai, após breve entendimento recebeu do comerciante, como presente, o livro de Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, oportunizando desta forma, seu contato inicial com a Doutrina Espírita, em 1901. Logo, as obras kardecianas se tornaram seu novo guia espiritual e, em companhia de Manuel Malheiros, um dos responsáveis pelo extinto jornal Perdão, Amor e Caridade, passou a freqüentar reuniões espíritas. Mais tarde, associando-se, em 1904, a alguns pioneiros do espiritismo francano, fundou um centro, no quintal de sua casa, obtendo após quatro anos, sua regulamenta-


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ção jurídica, com a denominação de Centro Espírita Esperança e Fé13. Com a posterior construção de uma sede própria, o Centro através de diversos departamentos de ação assistencial, dedicou-se ao atendimento dos mais necessitados, mantendo um ambulatório médicoodontológico, uma farmácia homeopática, um roupeiro, uma espécie de oficina de costura e consertos de roupas, além de freqüente distribuição de alimentos. Esse programa assistencialista, em conformidade com a máxima kardecista “Fora da caridade, não há salvação”, refletia o duplo caráter da obra caritativa. O primeiro, atendendo as necessidades materiais dos carentes (alimento para o corpo) e, o segundo, como oportunidade de prática do bem, assegurando a evolução espiritual (alimento para a alma). A fundação, mais tarde, de um asilo representou um avanço do movimento espírita, porém sua inserção na cidade, não se deu sem conflitos. GAETA, em recente estudo, nos mostra através da memória dos velhos, como Franca representava um forte reduto do catolicismo tradicional: Imagens do respeito e da fraternidade de outrora que subjazem em diferentes memórias individuais, se apresentam imbricadas e associadas a outras representações geradoras de um substrato social relacionado à piedade, à fé, à devoção e à imaginada religiosidade urbana. Os relatos das procissões evocam ressonância quase unívoca desse sentimento. Os velhos moradores são bastante coesos ao se lembrarem das “emocionantes” procissões de Enterro, as de Chorpus 13

Em atividade até hoje.

Chisti e as da padroeira da cidade, a Imaculada Conceição. Eram muito „comoventes e cheias de fé‟, afirma. Respeito, humildade, emoção, devoção, silêncio, velas, padres piedosos, fiéis fervorosos e praça cheia, a cidade enfeitada, são imagens recorrentes destas festas litúrgicas nas lembranças dos velhos moradores (1995, p. 164). O confronto entre a Igreja tradicional e a inserção da doutrina espírita, fundamentada na concepção reencarnacionista e evolucionista, ganhou destaque na imprensa católica através do jornal O Aviso de Franca, que não mediu esforços para atacá-la, associando-a aos casos de loucura e às práticas dos cultos afro-brasileiros. Frei Gregório Gil, porta-voz do catolicismo francano, afirmava que “o Centro Espírita da rua Campos Sales não passa de prática de candomblé”14, reproduzindo uma visão de época, que não fazia distinção entre as várias práticas mediúnicas, confundindo o espiritismo kardecista, doutrina cristã, com os cultos mediúnicos da Umbanda e Candomblé, que, de acordo com Cândido Procópio F. CAMARGO são “pontos intermediários de toda uma gama de formas religiosas mediúnicas resultantes do processo interativo entre os dois extremos do gradiente” (1973, p. 189). A crescente procura do centro espírita por enfermos da região, levou o grupo de Marques, a mobilizar recursos junto ao governo municipal e à uma parcela da comunidade espírita e simpatizantes, especialmente os maçons, para a construção de um asilo para o abrigo de inválidos, doentes mentais, velhos e órfãos, além daqueles que Marques já 14

O Ávido de Franca, 23.03.1924.


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tinha sob sua responsabilidade. Nascia assim o Asylo Allan Kardec, constituindo-se naquele momento, de apenas duas casinhas de taipa, construídas no terreno de uma chácara situada na antiga rua Irmãos Antunes, alterada mais tarde, em sua nomenclatura para José Marques Garcia, perpetuando na memória urbana, a figura de um dos seus mais atuantes fundadores. No Livro de registros, consta que, o primeiro enfermo internado foi Antonio Franzino Sobrinho, de trinta e dois anãos de idade, tendo em sua companhia seus dois filhos, de nove e sete anos de idade. A pequena família foi acolhida no asilo, todos permanecendo internados por mais de dois meses., já que “as crianças não podiam velar por si mesmas15, enquanto o pai recebia cuidados médicos e doutrinários. Em atendimento à crescente solicitação, o asilo já em 1933 sofreu ampliação e se transformou na Casa de Saúde Allan Kardec, cumprindo as exigências requeridas pelo Serviço Nacional de Doenças Mentais. Om o propósito de divulgar e esclarecer a filosofia e a dialética doutrinária, além de ajudar a prover financeiramente a Casa de Saúde, alguns espíritas liderados por José Marques, empreenderam um novo projeto, a criação de um jornal. Porém esse projeto logo enfrentou a ação dos opositores da nova doutrina, porquanto nenhuma gráfica local se dispôs a publicá-lo. Incansáveis, os espíritas conseguiram adquirir uma tipografia e uma impressora e, em 15.11.1927 era publicado o primeiro número do novo jornal espírita A Nova Era, instrumento usado para “defender os

espíritas dos ataques injustos‟16 como aqueles que criticavam a ação terapêutica-espiritual, afirmando que “todos os insanos que procuram centros e organizações espíritas, para tratamento de seus desequilíbrios mentais, acabam por tornar-se irreversivelmente incuráveis”17. Como conseqüência de todo esse trabalho, o movimento foi conquistando pequenos espaços, embora o estigma de “seita dos locos” continuasse a persegui-los. Toda essa polêmica possivelmente está ligada ao fato de que foram os militantes kardecistas, os primeiros a se preocuparem com o atendimento específico aos doentes mentais, numa ação social singular. O espiritismo defende a existência de formas diferenciadas de loucura. As patológicas, fruto de lesões cerebrais e, as obsessivas, resultado do predomínio exercido pelos Espíritos desencarnados sobre os encarnados, que: Atraindo-se pelos gostos e aspirações, vinculando-se mediante afetos doentios, sustentando laços de desequilíbrio decorrente do ódio, assinalado pelas paixões inferiores, exercem constrição mental e, às vezes, física naqueles que lhe concedem as respostas equivalentes, resultando em variadas alienações de natureza obsessiva (FRANCO, 1991, p. 11). Preconizando que a morte biológica não aniquila a vida e que o homem não pode ser examinado parcialmente, como um conjunto de ossos, nervos e sangue, o espiritismo descarta igualmente a concepção tradicional dualista de alma e corpo. Antes, defende a análise plena e total de Espírito, perispírito 16

15

Livro de Registros do Asylo Allan Kardec – Relação dos Asylados.

MORATO, Agnelo. Espiritismo em Franca. Anuário Espírita, 1980. 17 O Ávido de Franca, de 28.03.1926.


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e matéria. Assim, é o perispírito, segundo os ensinamentos doutrinários, o órgão intermediário pelo qual qualquer Espírito encarnado ou não, experimenta a influência dos demais Espíritos. Quando o intercâmbio se realiza com Espíritos maus ou inferiores, nascem as obsessões. A terapêutica nesses casos, tanto deve ser ministrada ao espírito obsessor quanto ao obsediado, através dos ensinamentos espíritas ministrados aos doentes mentais. Na véspera de Natal de 1932, o jornalista e editor Homero Pacheco Alves, publicou pequena nota no periódico O Anhanguera, anunciando uma nova ampliação nas dependências físicas da Casa de Saúde Allan Kardec: “Amanhã, dia de Natal, em homenagem à grande data do nascimento de Jesus Cristo, será inaugurado mais um pavilhão da Casa de Saúde Allan Kardec, instituição de caridade mantida pelos espíritas da cidades e de outras zonas”18. Esta Casa, logo após, com a escritura de doação de bens por parte do Centro Espírita Esperança e Fé, passou a integrar a Fundação Espírita Allan Kardec, com a denominação de Hospital Psiquiátrico Espírita Allan Kardec, juntamente com a Gráfica, o Jornal e a Livraria A Nova Era. O hospital, de acordo com seu novo estatuto, passou a receber subsídios periódicos do governo estadual e municipal, além de contribuições da comunidade espírita. Com o desencarne de José Marques Garcia, a Fundação passou a ser dirigida pó outro militante espírita que, mantendo a prática de seu antecessor, continuou priorizando seus aspectos assistenciais. 18

O Anhanguera, de 24.12.1932.

Em 1969, a diretoria do hospital firmou um convênio com a Coordenadoria de Saúde Mental, o que garantiu, a partir de então, maiores recursos financeiros à entidade e, passou a receber enfermos de outros hospitais psiquiátricos, como o do Juquery, no interior de São Paulo. No início da década de 1980, o Hospital Allan Kardec estabeleceu um novo convênio, com o governo federal, através do extinto INANPS, atual INSS, o que exigiu novamente o aumento da capacidade de atendimento de pacientes, com a construção de novos pavilhões, o aumento do número de leitos, a aquisição de equipamentos e a contratação de mais funcionários que passaram a formar uma equipe de atendimento interdisciplinar: clínica geral, odontologia, psiquiatria, assistência social, psicologia e terapia ocupacional. O âmbito de atuação do Hospital Psiquiátrico Allan Kardec, com o novo convênio foi ampliado para o atendimento de toda a região, abrangendo várias cidades vizinhas: Jeriquara, Ribeirão Corrente, Pedregulho, Cristais Paulistas, Patrocínio Paulista, Restinga, Igarapava, Rifaina, São José da Bela Vista, Ibiraci, Claraval e Itirapuã. Desde sua criação, como asilo, a história do Hospital Psiquiátrico tem sido de ampliações e mudanças, se adaptando sempre às novas conjunturas. Enquanto instituição médica, sua criação cumpriu as exigências impostas pelo processo de urbanização e industrialização que a cidade de Franca vivenciou. Enquanto obra assistencial, seu papel é igualmente importante, na medida em que, ao longo desses anos todos, promoveu o atendimento de enfermos carentes, que não dispondo de recursos, nem tendo direito


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ao tratamento através da rede pública, puderam se valer dos recursos oferecidos pelo hospital. E, finalmente, enquanto entidade espírita tem servido como instrumento de divulgação dos princípios doutrinários que defende, embora não exclua de seu convívio aqueles que não comungam a mesma fé. REFERÊNCIAS GRÁFICAS

BIBLIO-

CAMARGO, Cândido Procópio F. de. Católicos, Protestantes, Espíritas. Petrópolis: Vozes, 1973. FRANCO, Divaldo Pereira. Loucura e Obsessão. Rio de Janeiro: FEB, 1991. GAETA, Maria Aparecida J.V. A Fala dos Lugares Perdidos: a Cidade do Desejo. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 15, n.30, 1995. MORATO, Agnelo. Espiritismo em Franca. Anuário Espírita, 1980. NASCIMENTO, Hygino e MOREIRA, Eufrauzinho. Almanaque de Franca, 1943.


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Na Trilha das Formigas: análise crítica do discurso literário o texto de Lygia Fagundes Telles Diva Conceição Ribeiro

Resumo: O texto fenomenológico As Formigas, de Lygia F. Telles, à leitura crítica desfaz fenômenos sobrenaturais, apresentando aspectos normais, ocorridos em clima tendencioso, que atende a essas proposições, cumprindo uma intenção do texto literário: a catarse. O objetivo do trabalho propõe o caminho pelo texto em uma trilha de formigas vivas, examinando a cultura que constroem na sociedade do formigueiro, atendendo relações próprias dessa espécie. Examinar, compreender e voltar às informações ao tipo de vida animal, fará com que o texto ganhe peso semântico, convide o leitor a novas leituras fortalecidas pelas vozes atuantes na tessitura do texto literário. A fundamentação teórica consulta ECO, van DIJK, FAIRCLOUGH, SMITH, SOLÈ, e PIRATININGA, sustentando a análise textual do Livro Mistérios, que sob as lupas da análise empírica do raciocínio hermenêutico passa a ser interpretado. Para GINBURG “nem toda confissão é uma vitória de tortura; porque às vezes a pior tortura é ter a voz silenciada. Isto se aplica àqueles que, por não entenderem o texto, permanecem calados, silenciando a voz da consciência que se esvai na crença de que são excluídas por não decifrar em um texto.

Palavras-chave: vozes do discurso, vários olhares, sobrenatural, racionalidade, coerência, leitura lúcida.

texto, e por isso, elimina o lúdico e a catarse que são estados subjetivos oferecidos pela literatura.

1 Análise crítica do discurso

Introdução Ao deparar-se com o texto “As formigas“, o leitor insipiente e não preparado para uma segunda leitura ou desconheça outras possibilidades leitoras, certamente optará pela ação de acatar a leitura fenomenológica ou sobrenatural e será senso comum, cuja avaliação não se proporá a realidades possíveis. Ele poderá tomar caminhos perigosos e repletos de obstáculos que o fazem escapar de uma realidade natural, compreensiva para optar obrigatoriamente pelo mundo fenomenológico, sobrenatural, abstrato. Este leitor não perceberá a existência de múltiplas vozes no discurso, acomodando-se ainda, como leitor à própria voz que, por receio ao constrangimento, cala-se perplexo diante da única voz que percebe existir no discurso: a sua própria, e este leitor monologa, infringindo uma das mais particulares finalidades da leitura: diálogo entre o leitor e o

O leitor estrutura sua base leitora, arsenal cognitivo próprio a partir do conhecimento adquirido pela humanidade e repassado pelo sistema escolar. Isto significa que estudar as obras clássicas, é, pois voltar à época de sua produção, vivenciá-la e retornar à esfera temporal fortalecido por experiências humanas já testadas e de resultados já adquiridos. Segundo TAVARES, Os antigos já diziam ser toda definição difícil. (...) e o problema se agrava quando intentamos definir ou conceituar certos abstratos. Que pela sua própria natureza imprecisa, aturde-nos com uma polissemia imprevisível. Tal ocorre com termos como Vida, Amor... A grafia inicial maiúscula procura suprir, no relevo da forma, a deficiência do conceito. (TAVARES, 1989, p.17).

Estar fortalecido pela aquisição das informações trazidas pela leitura é posicionar-se diante de si mes-


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mo e diante do outro, é a inserção do EU na literatura; é em última instância, assumir-se enquanto sujeito atuante e construtor da sociedade no Universo; é correlacionar-se com seus iguais, é o homem compartilhando do conhecimentos, experiências, sensações, idéias, comprometimentos; é o conviver com um universo que pertence à família humana e somente por ela pode ser modificado, transformado, somado ou diminuído; condicionado ou libertado, conforme a vontade de cada homem que assume o seu próprio eu na existência social ou particular, mas que certamente terá reflexo de suas ações permeando a esfera natural na qual este desempenha suas funções relativas à sua estada no planeta. A leitura de um texto requer posição pessoal de cada leitor que colabora para mostrar o grau de compreensão, de possibilidades de interpretar a vida uma vez que cada sujeito mantém alimentadas suas convicções resultantes na cultura específica do sujeito, cuja singularidade única o categoriza e revela seu nível cognitivo. HUMBERTO ECO, em Seis Passeios pelo bosque da ficção afirma: “(...) numa história há sempre um leitor, e esse leitor é um ingrediente fundamental não só no processo de contar uma história, como também da própria história19”. Desta forma, ler implica em existir, e o leitor existe, porque é real, é concreto, pensa e desta maneira, não pode e nem deve ficar alheio ao conteúdo que é retratado no texto. Para ECO, no mesmo livro

prias paixões, as quais podem ser exteriores ao texto ou provocadas pelo próprio texto. (ECO, 2004, p.14-15).

O leitor modelo de uma história não é o leitor empírico. O leitor empírico é você, eu, todos nós, quando lemos um texto. Os leitores empíricos podem ler de várias formas, e não existe lei que determine como devem ler, porque em geral utilizam o texto como um receptáculo de suas pró-

Na ciranda da interpretação, “entra na roda” a aquisição vernacular de cada leitor, respeitando as palavras desconhecidas, o texto toma forma da compreensão para compor a “biblioteca interior”20 do homem que decodifica

19

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ECO, H. Seis passeios pelo bosque da ficção, 2004, p.14-15.

Este modelo de leitor singulariza-se no momento em que entra na história e com suas experiências pessoais junto aos atores no e do texto, passa a caminhar pelo vale das letras apropriando-se das sensações que julgam conhecer nos e dos personagens da história, cumprindo assim uma das finalidades da leitura: apropriação legal das culturas que o texto oferece. Esta é uma das grandes vantagens do leitor polifônico que identifica as múltiplas vozes do discurso. Para TEUN a. van DIJK em Texto y Contexto: Semántica y pragmática Del discurso (...) a distinção entre cognição social e cognição pessoal permite (...) explicar a diferença entre, por um lado, significados pessoais ou contextuais e, por outro lado, significados partilhados a nível sociocultural. (...) Embora as estruturas semânticas possam revestir-se de graus variáveis de complexidade, não há fronteiras previamente estabelecidas entre os significados de palavras, sintagmas, orações, frases, seqüências de frases, parágrafos ou textos integrais. É freqüente que os <mesmos> (sic) significados encontrem expressão em diferentes categorias sintácticas (sic), de âmbito variável, dependendo de limitações contextuais, como por exemplo, as que definem condições estilísticas ou pragmáticas. Ao contrário da semântica da frase, a semântica do discurso explica todos os tipos de significado dos enunciados escritos e orais. (van DIJK, 1991, p. 123).

Termo utilizado nas aulas do Prof ºDr. Luiz Antonio Ferreira no Programa de Pós Graduação e


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o exercício da leitura. Humberto ECO utiliza uma expressão singular: “Nada nos proíbe de usar um texto para devanear, e fazemos isso com freqüência, porém o devaneio não é uma coisa pública; leva-nos a caminhar pelo bosque da narrativa como se estivéssemos em nosso jardim particular”. (ECO, 2004, p. 16-17). Lygia Fagundes TELLES, em entrevista à Revista Ler & Cia, considera: “Há três juventudes no nosso país”. (...) A primeira seria a juventude de nossos analfabetos, ainda imensa. A segunda, também enorme, a dos jovens já alfabetizados, mas que não conseguem compreender o que lêem. E a terceira seria a mocidade pensante, a única que restaria aos escritores brasileiros. Uma juventude real, mas muito pouco numerosa, cada vez mais rara, já que a tevê, segundo Lygia, não parece disposta a assumir seu papel de educadora no Brasil. (TELLESnº 19 de 06 de março de 2008). Isabel SOLÈ mostra: "Ler é muito mais do que possuir um rico cabedal de estratégias e técnicas. Ler é sobretudo uma atividade voluntária e prazerosa, e quando ensinamos a ler devemos levar isso em conta.” Em conta de que cada leitor apresenta a inserção de seu EU nos caminhos que conduzem ao Bosque da ficção, projetando nele suas percepções particulares, pois “formar leitores autônomos também significa formar leitores capazes de aprender a partir dos textos”. Para isso, quem lê deve ser capaz de interrogar-se sobre a sua própria compreensão, estabelecer relações entre o que lê e o que faz parte do seu acervo pessoal, questionar seu conhecimento e modificá-lo, estabelecer generalizações que permitam transferir o que foi aprendido para outros contextos diferentes... . A

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ev Doutoramento em Língua Portuguesa na PUC-SP em 2005.

contribuição de POZO21 que define as estratégias na elaboração do texto escrito – atividades realizadas para aprender a ler a partir dele – como estratégias de elaboração e de organização do conhecimento, na parte superior da hierarquia das estratégias de aprendizagem, parece-me muito sugestiva. (SOLÈ, 1998, p. 91).

Frank SMITH aponta: “Quanto mais nos aprofundamos na natureza da leitura, menos dogmáticos precisamos ser...”. (1999, p.10). Esta reflexão nos auxilia no sentido de desvendar “mistérios” envoltos nas palavras que sugerem ações sobrenaturais, artificiais e de advindas, talvez, de outros mundos. Emprestamos de PIRATININGA as seguintes considerações: (...) podem-se suscitar sérias interrogações sobre a nossa capacidade de educar, para além da produção e consumo de objetos. Em nosso atual sistema educacional, a maior ênfase recai sobre a aprendizagem da informação dos fatos. Em grande escala, a aprovação ou reprovação num exame ou curso, a passagem de ano ou mesmo a permanência na escola dependem do domínio ou da memorização de certos fragmentos de informação, os quais já são conhecidos pelo professor. Assim, a função do sistema escolar parece consistir em criar pessoas que possam armazenar fragmentos de informação e depois possam repeti-los a um sinal dado”22. (PIRATININGA, 1994, p. 25).

2. As formigas O narrador do texto em estudo constrói elementos ativos dando vida a um cenário triste e sombrio em sua estrutura e acréscimo de um olho “adoentado vitimado por uma pedra‟‟ que rispidamente atravessa sua retina exausta por contemplar os acontecimentos inertes. Esses elementos ga21 22

POZO21 (1990, in SOLÉ, 1998, p.72) Grifo do autor


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nham vida pela presença de metáforas que, inadvertidamente, rasgam os véus da realidade. As primas, especialmente a que estuda Direito e ganha a voz narradora, deveriam estar ao par de ações vividas pelos seres inanimados, porém como parecem desconhecer a atuação das figuras retóricas na persuasão dos incautos, estas aceitam a catarse, o lúdico, ambos em uma visão única, e concordam em compor e ciranda da ficção, permitindo serem encaminhadas para o objetivo que o texto propõe: alimentar um ambiente mágico, tomando vida pela presença das formigas que, silenciosamente estabelecem um pacto com os ossos do anão acomodado em um pequeno caixote, guardado em baixo da cama na qual a estudante de medicina repousa o descanso costumeiro. Essas considerações permitem que se instalem paradoxos existentes no texto por cumplicidade de um leitor que se exime em posicionarse de modo crítico e se autoquestionar porque aceita os fatos inverossímeis por conta de uma cultura que substima todo um conhecimento biológico e científico que contempla habilidades de explicar o inexplicável. Esta constatação reafirma o propósito do leitor contemporâneo: este prefere entender a atuação dos fatos como algo sobrenatural trazido da antigüidade e mantido como reminiscência cultural de uma sociedade que atribui poder a seres tidos e entendidos como seres privilegiados, positiva ou negativamente, como no caso do animal felino que tem por hábito, desde a antigüidade, acompanhar bruxas, que são mulheres contempladas para, com o auxílio de seres de outros mundos, realizarem milagres, curas, atos fenomenológicos e, principalmente, que demonstrem a inércia e a submissão do sujeito ativo que se rende diante dos fatos que não podem compreen-

der e decide-se por não compreendêlos. A condição financeira das estudantes reafirma a natureza espontânea do nível intelectual destas pois dois cursos considera os cursos de grande peso social, reconhecidos socialmente, continuem a limitar pessoas que se refugiam nessa condição cedendo espaços para os delimitadores e contendores da liberdade pessoal. O texto oportuniza esta reflexão quando encontramos o seguinte parágrafo: Ela me impeliu na direção da porta. Tínhamos outra escolha? Nenhuma pensão nas redondezas oferecia um preço melhor a duas pobres estudantes, com liberdade de usar o fogareiro no quarto, a dona da casa nos avisara por telefone que podíamos fazer refeições ligeiras com a condição de não provocar incêndio. Subimos a escada velhíssima, cheirando a creolina2324. - Pelo menos não vi sinal de barata disse minha prima. (TELLES, 2003, p.35).

O parágrafo acima apresenta o aspecto físico do ambiente em meio ao olfativo que nos remete a um odor antigo e desagradável, quando ainda, no Brasil, não existiam os desinfetantes modernos nem os produtos de limpeza de larga grandeza, o que reafirma a condição financeira precária das estudantes de Cursos elitizados. O inseto‚ “barata‟‟, considerado um animal repulsivo toma espaço decisivo durante a narração do texto.

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Solução desinfetante de cresolatos, cuja coloração escura deve-se à presença de partículas de carbono. Adicionada em água, dá origem a um precipitado branco de cresóis. Muito usada como germicida e anti- séptico.


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As baratas são insetos que formam um grupo cosmopolita, podem causar diversos problemas, o principal são os diversos patógenos que são transmitidos aos seres humanos como bactérias, fungos, protozoários, vermes e vírus. O primeiro registro da existência de baratas foi cerca de 400 milhões de anos. Não houve muitas transformações ao longo do tempo, mas a genitália da fêmea passou a não ser visível externamente, os ovos passaram a ser colocados numa ooteca25 em vez de individualmente, as asas deixaram de ser utilizadas para voar e passaram a proteger o abdômen26.

O parágrafo seguinte retoma um contraste literário ao apontar qualidades positivas de Iracema alencariana com qualidades negativas acomodando-as em antíteses ideológicas pois ‚“Mais negra do que a asa da graúna‟‟entra em contrariedade com a forma das unhas e o modo como estas são percebidas. O charutinho ratifica a espécie e o grau de aceitação do personagem que atua, no texto, como a dona da pensão, associando-a à uma figura exótica e misteriosa que se complementa na idéia quando acompanhada por um animal autônomo, independente e místico: o gato. A dona era uma velha balofa, de peruca mais negra do que a asa da graúna27. Vestia um desbotado pijama de seda japonesa e tinha as unhas aduncas recobertas por uma crosta de esmalte vermelho-escuro descascado nas pontas

25

Ooteca é a designação utilizada em Entomologia para uma espécie de estojo formado pela secreção de certos insetos, como blatários e mantódeos, e que encerra agregado de ovos; quando exposta ao ar, por ocasião da oviposição, tal secreção torna-se escura, e endurece. http://pt.wikipedia.org/wiki/Ooteca 26 http://www.brasilescola.com/animais/barata.htm, em 30 de julho de2008. 27 Referência à obra de ALENCAR, Iracema.

encardidas. Acendeu um charutinho. (TELLES, 2003, p.35). - É você que estuda medicina? - perguntou soprando a fumaça na minha direção. - Estudo Direito. Medicina é ela. (TELLES, 2003, p.37)

Temos neste parágrafo as primas estudantes de dois cursos elitizados (assim diz a sociedade na hierarquia das profissões) reafirmadas pelo questionamento da dona da pensão e a resposta dada pela estudante do Curso de Direito e que, portanto, não devem ser ingênuas e nem desconhecedoras de fatos reais, imaginados, sobrenaturais ou de outros mundos. A narradora retoma a condução discursiva e encontramos no parágrafo seguinte: A mulher nos examinou com indiferença. Devia estar pensando em outra coisa quando soltou uma baforada tão densa que precisei desviar a cara. A saleta escura, atulhada de móveis velhos, desparelhados. No sofá de palhinha furada no assento, duas almofadas que pareciam ter sido feitas com os restos de um antigo vestido, os bordados salpicados de vidrilho.(TELLES, 2003, p.38).

Neste fragmento, pela segunda vez, o texto revela as baforadas do charutinho que iam em direção à estudante do curso de Direito. Coincidência ou apenas a estudante do Curso de Direito é que estava “cuidando, observando‟‟ essas atitudes? Ou ainda: não poderia ser ilusão de percepção ou mesmo um pensamento aguçado, capaz de ver algo que não existia? E a última hipótese: esta estudante seria diferente da outra? Em que sentido? Ou estaria sendo o alvo de “uma presença maléfica oculta na figura da dona da pensão”? A narrativa encaminha-se no curso natural e espontâneo dos fatos e o texto mostra o diálogo seguinte entre os três personagens:


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- Vou mostrar o quarto, fica no sótão - disse ela em meio a um acesso de tosse. Fez um sinal para que a seguíssemos. - O inquilino antes de vocês também estudava medicina, tinha um caixotinho de ossos que esqueceu aqui, estava sempre mexendo neles. Minha prima voltou-se; - Um caixote de ossos? A mulher não respondeu, concentrada no esforço de subir a escada de caracol que ia dar no quarto. Acendeu a luz. O quarto não podia ser menor, com o teto em declive tão acentuado que nesse trecho teríamos que entrar de gatinhas. Duas camas, dois armários e uma cadeira de palhinha pintada de dourado. No ângulo onde o teto quase se encontrava com o assoalho, estava um caixotinho coberto com um pedaço de plástico. Minha prima largou a mala e pondo-se de joelhos puxou o caixotinho pela alça da corda. Levantou o plástico. Parecia fascinada. - Mas que ossos tão miudinhos! São de criança? - Ele disse que eram de adulto. De um anão. - De um anão? É mesmo, a gente vê que já estão formados... Mas que maravilha, é raro à beça esqueleto de anão. Limpo, olha aí - admirou-se ela. Trouxe na ponta dos dedos um pequeno crânio de uma brancura de cal. - Tão perfeito, todos os dentinhos!(2003, p. 36).

Podemos considerar elementos tendenciosos os seguintes termos: sótão, tosse, medicina, caixotinho de ossos, declive acentuado, cadeira de palhinha pintada de dourado, ângulo onde o teto quase se encontrava como assoalho, fascinada, ossos de um anão que desenham um quadro não apenas assustador mas além e assustado, também acolchoado28 de surpresas futuras.

Por meio de reportagem extraída da Internet29, apresentamos as seguintes informações: Há um conjunto de fatores que caracterizam as pessoas com nanismo, que se subdividem em 200 tipos e 80 subtipos. O mais comum é o chamado Acondroplasia (...). O médico30 destaca que a baixa estatura é preponderante, porém, menos importante, pois o menor problema deles é o tamanho. "O tamanho não nos preocupa, mas sua invisibilidade: pouco se sabe sobre eles e isso compromete sua qualidade de vida, devido ao preconceito de que são vítimas", observa. (...) existem médicos que nunca trataram de um anão na vida", observa. (...) Ele revela, ainda, um dado preocupante: elevado número de suicídios entre os anões. "Não raro temos notícia de um anão que se suicida, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Eles ficam escondidos e se tornam 'invisíveis', dificultando a inclusão social". Os ossos de anão citados pela narradora são raros porque anões são raros, não só no Brasil, mas no mundo31. No texto, a alimentação das estudantes sugerem lanche rápido, assim distribuídos durante a narração: Abrimos uma lata de sardinha que comemos com pão, minha prima tinha sempre alguma lata escondida, costumava estudar até de madrugada e depois fazia sua ceia. Quando acabou o pão, abriu um pacote de bolacha Maria. - De onde vem esse cheiro? - perguntei farejando. Fui até o caixotinho,voltei, cheirei o assoalho. - Você não está sentindo um cheiro meio ardido? 29

amesp.org.br/noticias/jornal/novas/tejornal104. shtm 30 28

Grifo nosso.

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João Tomazelli, médico ortopedista. Conforme texto do Site citado.


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- É de bolor. A casa inteira cheira assim - ela disse. E puxou o caixotinho para debaixo da cama. Quando cheguei por volta das sete da noite, minha prima já estava no quarto. Achei-a tão abatida que carreguei no sal da omelete, tinha a pressão baixa. Comemos num silêncio voraz. (...) Fui buscar o tablete de chocolate e perto da porta senti de novo o cheiro, mas seria bolor? (...) Voltei tarde essa noite, um colega tinha se casado e teve festa. Vim animada, com vontade de cantar, passei da conta. Só na escada é que me lembrei: o anão. Minha prima arrastara a mesa para a porta e estudava com o bule fumegando no fogareiro.

Em nossa análise: 1º alimentar-se com sardinha e pão e posteriormente bolacha Maria32, 2º omelete carregada em sal, seguida da ingestão de um tablete de chocolate, e, por último, a festa de casamento e ressaca, são informações que podem justificar “o cheiro” não inocente que se instala no ambiente. Este cheiro pode estar atrelado à produção de gases entendidos como flatos, enquanto que o desaparecimento do “exército massacrado”33 é justificado pela busca de restos de alimentos esfarelados pelo chão do quarto e buscados pelo formigueiro. È relevante considerar, também, a presença desde o início da narrativa do urso de pelúcia, a proteção e afeto que uma das estudantes dava a ele e a relação entre pessoas que têm esse tipo de brinquedo, como agem com ele, além de validarmos ainda, o ambiente no qual a narração acontece. A tudo isto convém ressaltar: a leitura da literatura pode e deve provocar envolvimento, catarse, ludicidade entre leitor e texto, mas este leitor deve sempre desenvolver paralelamente,

32

P. 37.

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do texto, p. 39.

a interpretação do texto à luz da razão, à luz da realidade possível e não findá-lo em apenas um olhar, porque a cada ato, a cada fato mais de uma compreensão é sempre possível e estão sempre presentes. É a teoria hermenêutica que consolida outras construções interpretativas extraídas dos viézes do pensmento subjetivo, transpostas para os fatos reais unindo a interdisciplinaridade à transdisciplinaridade e contemplando, assim, novos olhares oriundos de um mesmo eixo, sustentáculo dos fatos narrados, mas explorados por novos olhares.34

Conclusão A leitura à luz da razão traz o leitor à realidade e este leitor pode optar pelas propostas do texto, adentrar aos caminhos que lhe fizerem companhia no trajeto da interpretação, na experiência leitora e na bagagem cultural e do conhecimento que este selecionar para compor seu arsenal mnemônico em razão da sua cultura, e, por conseguinte, de seu existir, cumprindo a função da livre escolha sem, contudo, conferir a ele apenas a opção do mundo invisível, do mundo da magia, do mundo do inexplicável, enfim, o mundo do mistério.

Referências Bibliográficas [1] DIJK, T. A. VAN, Texto y contexto: semântica y pragmática Del discurso. 2ª ed. Madrid: Cátedra, 1991.

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O termo hermenêutica designa genericamente "a arte e a ciência da interpretação" (Runes, 1985). Etimologicamente ligado a Hermes, deus grego que traduzia as mensagens do Olimpo para os mortais, o termo tem designado práticas e referenciais teóricos significativamente distintos,


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[2] ECO, H. Seis passeios pelos bosques da ficção. Trad. Hildegard FEIST, 6ª reimpressão. Companhia das Letras, SP 1994. [3] GINZBURG, C. O Queijo e os vermes. Companhia das letras. SP. 1998. [4] PIRATININGA, L. C. de, PUBLICIDADE: arte ou artifício? SP: T. A Queiroz, 1994. [5] REVISTA LER & CIA, Livrarias Curitiba nº 19 de 06 de março de 2008. [6] SMITH, F. Leitura significativa. 3ª edição. Porto Alegre: Artes Médicas. (1999). [7] SOLÉ, I. Estratégias de leitura. 6ª ed. Porto Alegre, RS: Artemed, 1998. [8] TAVARES, H. , Teoria literária. 5ª ed. Editora Itatiaia Ltda. Belo Horizonte. [9] TELLES, L. F. Mistérios. Rio de janeiro: Rocco. SP, 1998.


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Leocádio José Correia: o homem, as ideias e seu tempo Cleuza Maria Fuckner “Cada encontro do aluno com o professor há de ser a primavera, os seus encantos, a vida em flores, a poesia e o amor.” (Leocádio Correia)

Resumo: Este artigo objetiva contextualizar aspectos históricos da vida de Leocádio José Correia, a partir da sua ação enquanto Inspetor Paroquial das Escolas de Paranaguá no período de 1885-1886, bem como suas ideias e permanências na Instituição que hoje leva seu nome, o Lar Escola Dr. Leocádio José Correia, uma escola espírita fundada na cidade de Curitiba em 1963. O médico parnanguara que viveu no século XIX, manifesta-se em espírito através do médium Maury Rodrigues da Cruz na SBEE (Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas) e suas idéias constituem a referência de organização da instituição e do Lar escola. Para esta pesquisa foram utilizadas fontes escritas e orais, documentos do Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá e da imprensa. Este trabalho se fundamentou na História Cultural enquanto olhar investigativo de uma determinada realidade e concepção de mundo. Palavras chaves: educação espírita, memória, cultura escolar. Introdução:

O Lar Escola Dr.Leocádio José Correia é uma escola espírita que foi fundada na cidade de Curitiba, pelo professor e médium Maury Rodrigues da Cruz. É vinculada à SBEE (Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas), uma Instituição fi-

lantrópica e beneficente, que tem por objetivo estudar as manifestações espíritas, divulgar os princípios da doutrina dos espíritos e proporcionar assistência social às famílias carentes. Ao longo de sua trajetória a escola passou por práticas diferenciadas, atendendo diferentes modalidades de ensino. A partir de 1998 a escola centralizou seu trabalho na Educação Infantil. Atualmente a Instituição é também a mantenedora da Faculdade Dr. Leocádio José Correia, que desenvolve entre outros, os cursos de Administração de Empresas, Pedagogia e Teologia Espírita, objetivando formar profissionais na área educacional e com o referencial da doutrina espírita. Neste artigo procuramos compreender a figura de Leocádio José Correia, o patrono e mentor intelectual da Instituição. O patrono do Lar Escola Leocádio José Correia foi um médico que viveu no século XIX, em Paranaguá. A imagem dele, as ideias, as frases estão presentes na memória das pessoas e nos documentos relacionados ao Lar Escola, como se ele fizesse parte do seu dia a dia. Mas, quem foi Leocádio Correia? Por que suas ideias são tão presentes? Vamos tentar responder a estas questões, procurar, ainda que de forma incipiente, conhecer melhor a figura, o contexto em que viveu e as ideias defendidas por ele, visto que o Lar escola tem na sua cultura escolar a proposta de uma vivência educativa pautada na doutrina espírita..

1. Um homem e seu tempo Leocádio fazia parte de uma das famílias tradicionais do litoral paranaense. O pai, Manoel José Correia, era comerciante português e a mãe Gertrudes Correia, nascida em Paranaguá, era dona de casa. O casal teve 8 filhos, sendo que três morreram antes de completar um ano de idade. Entre os irmãos de Leocádio estão Manoel do Rosário, que recebeu o título de Comendadori em 1886 e Maria José, que se


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tornou a Baronesa do Cerro Azul. Leocádio Correia foi, portanto, cunhado do Barão do Cerro Azul, personagem da Revolução Federalista no Paraná. Leocádio nasceu em 1848 e faleceu em 1886. Quando nasceu o Paraná constituía ainda a 5.ª comarca de São Paulo, pouco tempo depois, porém, ocorreu a emancipação política, tornando-se a Província do Paraná. Segundo o historiador Romário Martins Ao se instalar a Província, a Comarca da qual ela se constituiu contava em seu território com duas cidades: Curitiba e Paranaguá, sete vilas – Guaraqueçaba, Antonina, Morretes, São José dos Pinhais, Príncipe (Lapa), Castro e Guarapuava, seis freguesias [...] e quatro capelas curadas. [...] Paranaguá comercialmente era mais importante, então, que Curitiba. Sua população era de 6.533 habitantes [...] Tinha 133 casas comerciais, 2 hotéis, 6 alfaiatarias, 7 ferrarias, 2 marcenarias, 5 engenhos de serrar, 11 de socar e 8 de moer. De sua edificação 55 eram sobrados e 498 eram térreas. Sua produção agrícola era café, mandioca, arroz, milho, feijão e cana de açúcar. Havia manufaturas de cabos e betas de imbê, artefatos de barro e de madeira. Fabricava-se aguardente e pilava-se arroz, em quantidades exportáveis. (MARTINS, s/d. p. 328).

Em seus 38 anos de vida, Leocádio Correia participou ativamente da vida política e social da cidade nas áreas de saúde, cultura e educação. Atuou como ator, escreveu e dirigiu peças de teatro, foi deputado provincial e, posteriormente, vereador por duas legislações, foi inspetor de saúde dos portos de Paranaguá e de Antonina, foi inspetor paroquial de escolas de Paranaguá, sendo que Inspetor Paroquial era considerado o cargo mais importante na cidade. Todas estas atividades desen-

volvidas em paralelo ao exercício da Medicina, vocação que exerceu plenamente e pela qual ficou conhecido como o “Médico de homens e de almas”. Leocádio Correia é até hoje lembrado e reverenciado pela memória de Paranaguá por seu papel no atendimento às famílias carentes, constituindo-se numa espécie de mito no imaginário da cidade. Sua história é contada de forma poética em dois livros, o primeiro, “A vida do Dr. Leocádio”, editado em 1979 pela Prefeitura de Paranaguá, de autoria de Valério Hoerner Juniorii teve as duas primeiras edições lançadas e esgotadas rapidamente. O segundo “Brumas do Passado: Dr. Leocádio Médico de Homens e de Almas”, lançado como romance biográfico e de ficção, de Rubens Correa, do Centro de Letras do Paraná, foi editado em 1995. O Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá mantém um arquivo especial sobre Leocádio Correia contendo, além dos materiais produzidos por ele, jornais, edições históricas, material biográfico, súmulas das homenagens e discursos proferidos no Clube Literário. Por ocasião do centenário de sua morte foi homenageado com cadernos especiais por vários jornais de Curitiba e de Paranaguá, bem como por produções cinematográficas paranaenses. Inicialmente Leocádio manifestou interesse em seguir a carreira religiosa. Como em Paranaguá não havia seminário, foi enviado para o Seminário de São Paulo, onde estudou por cinco anos. De acordo com Augustin Wernet, esse seminário tinha como característica uma educação extremamente rígida, representou uma organização e moralização do clero de São Paulo. O código interno previa normas como o horário em que os alunos deveriam acordar – às cinco horas da manhã, períodos de férias, extremamente curtos para evitar que o contato com o mundo exterior pudesse interferir na formação recebida, a qual tinha o objetivo de “regenerar o país pela religião romana exclusivista e intolerante, como confessam a Cúria romana e


58 os ultramontanos” (WERNET,1987, p. 117). Posteriormente Leocádio foi enviado ao Colégio Episcopal de São Pedro de Alcântara, no Rio de Janeiro, porém, em 1868, pouco antes de fazer os votos religiosos, começou a questionar o papel da Igreja em relação à escravidão. Na visão de Leocádio, a Igreja pregava a igualdade entre os homens, mas justificava a escravidão como uma Instituição normal e necessária à vida do Império. Apesar de sua família ter escravos, Leocádio sempre aprendeu a tratá-los de forma diferente, não aceitando a posição de muitos senhores no trato desumano com a escravidão. Aos 19 anos, após deixar o seminário, foi para o Rio de Janeiro estudar Medicina. Sua vida acadêmica foi marcada pela participação na política estudantil, lembrando que o Brasil vivenciava a Guerra do Paraguai. Além da literatura e da participação no movimento abolicionista, escreveu textos que foram encenados no Rio de Janeiro e mais tarde em Paranaguá. A atuação de Leocádio Correia com o teatro é também destacada na história do Clube Literário de Paranaguá [...] Leocádio Correia, estimulando os moços a escrever peças, cujos ensaios ele dirigia pessoalmente, e foi tanta a sua atividade e tão eficiente o seu papel na orientação dos que se dedicavam às Letras, que Paranaguá foi, durante tanto tempo, um dos maiores centros literários do Brasil. Influenciado pelo entusiasmo envolvente de Leocádio José Correia, escreveu Leôncio Correia, um drama “Talento e Ouro”, que subiu a cena no Teatro Santa Cecília, obtendo inigualável êxito. E não esqueçamos de dizer que a Plateia parnanguara, culta, era exigente e difícil de contentar (DIRCEU LACERDA, apud Ribeiro Filho,1972, p. 51).

Durante a faculdade, ministrou aulas particulares de língua portuguesa e língua francesa. Leocádio Correia, como

os demais filhos de famílias aristocráticas daquele período, tinha um bom domínio da língua francesa. A maior parte da literatura médica estudada na faculdade era em língua francesa. As aulas ministradas por ele tinham por objetivo complementar a mesada que recebia da família, num período em que seu pai passou por uma fase de crise financeira. Formado médico, Leocádio retornou a Paranaguá, em 1873, onde começou a atender em sua clínica particular e ao mesmo tempo consultar a população carente na Santa Casa de Misericórdia. Ele também, com frequência, percorria a periferia da cidade para atender pessoas em situação de abandono. Ficou conhecido em Paranaguá pelo seu temperamento humanitário e pelo carisma que exercia, sendo uma figura respeitada e considerada em vários meios. A partir de 1872, Paranaguá começou a conviver com o medo da febre amarela. Naquele ano, uma epidemia matou muitas pessoas em Antonina. O Dr. Leocádio começou um trabalho de monitoramento e acompanhamento dos casos que apareciam, registrando e anotando sintomas e evolução individual. Enquanto acadêmico, no curso de Medicina na Faculdade do Rio de Janeiro, Leocádio Correia conviveu com um dos grandes nomes da medicina brasileira daquele período – o Doutor João Vicente Torres Homem. Leocádio foi encarregado por ele de coletar minuciosos apontamentos das preleções do Dr. João Vicente, tarefa esta que garantiu subsídios para a publicação das lições sobre a febre amarela do renomado catedrático em 1872. Em 1875, quando assumiu cargo de inspetor sanitário dos portos de Paranaguá e Antonina, determinou a inspeção de todos os navios antes de atracarem no porto. Em geral, esta inspeção era feita por ele, só autorizando o desembarque quando constatava não haver nenhuma suspeita da doença. Em 1877, porém, um navio à vela alemão vindo do Rio de Janeiro com mais


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de 50 tripulantes, a maioria já portadora da febre, ancorou em Paranaguá, mesmo com as bandeiras de alerta e com os cuidados tomados por Leocádio a epidemia, atingiu a população de Paranaguá, fazendo vítimas em todos os níveis sociais, principalmente entre a população escrava. Muitas famílias que tinham posses saíram da cidade, que foi isolada, inicialmente, por via marítima, posteriormente, pelas estradas, impedindo a entrada e saída das pessoas. Até mesmo a filha do Dr. Leocádio, Clara, de um ano e meio, contraiu a doença, quando ele, como um último recurso, testou na filha um remédio produzido em conjunto com o boticário da cidade. Dr. Leocádio, já no início da epidemia, mandou seus estudos experimentais utilizando ervas para a Faculdade do Rio de Janeiro e esperava testes e autorização das autoridades sanitárias do Império para usar a fórmula criada por ele. A resposta nunca chegou, mas após Clara ter sido a sua primeira cobaia, vários casos da doença foram sanados, usando a formula desenvolvida por ele, Uma das formas de controle da doença, determinada pelas autoridades da capital da província, foi o isolamento de parte da população escrava na Ilha de Valadares. A esta prática Dr. Leocádio Correia foi contrário, alertando dos riscos que poderia gerar, os quais de fato confirmaram-se anos depois, na violenta revolta com assassinato de todos os guardas que vigiavam os escravos, nas fugas, rebeliões e ameaças à cidade que se estenderam por vários meses. Esta revolta ainda não é significativamente estudada pela historiografia paranaense, uma das fontes possíveis são os relatos de Leocádio sobre a angústia que sentiu com o confinamento daqueles seres humanos. Foi ainda durante o surto da febre amarela que, em 1876, Leocádio pela primeira vez visitou Curitiba, vindo para assumir o cargo de deputado provincial, tendo sido eleito para o mandato de 1876/1877, sendo reeleito para outro mandato de dois anos. Nas memórias de

Leocádio, a grande importância daquela viagem foi ter estabelecido contato com o Dr. Muricy, de quem se tornou muito amigo e também do Dr. Trajano Reis, além da convivência maior com o primo e político Eufrásio Correia. Naquele período as sessões eram realizadas dia sim, dia não. A viagem até Paranaguá era difícil, Bigg-Wither já afirmará em 1872 que “uma viagem entre Paranaguá e Curitiba representava uma temerária aventura: através desse caminho atroz – diz ele – os cavalos patinharam e as carroças rangeram durante três horas. Qual o motivo por que elas não se desconjuntaram com tão tremendo esforço e solavancos, sempre será um mistério para mim. (BIGG-WITHER: 1974, p. 41). Leocádio resolve então permanecer em Paranaguá para não se afastar da atividade médica, visto que na cidade, além dele, existiam somente mais dois médicos. Toma então a atitude de subir a cada dois meses, quando então ficava uma semana na capital para dar conta de suas obrigações como parlamentar. Leocádio Correia não aceitou concorrer para o terceiro mandato, optando por disputar a Câmara de Vereadores, de Paranaguá, em 1879. Um aspecto interessante da sua atuação política foi ele ter sido, desde estudante, um abolicionista convicto e, ao mesmo tempo, um monarquista e, como outros políticos da família, pertencer ao Partido Conservador. Para ele, a abolição da escravatura não precisava ser resultado da mudança de regime político do país. Os contemporâneos de Leocádio Correia reconheciam este ideal e questionavam a sua permanência no Partido. Em 1884 Leocádio é descrito como [...] inteligência brilhante, recebeu o grau de doutor em 1873, defendeu importante tese. Recebeu os mais calorosos elogios do ilustre mestre doutor Torres Homem, de quem guarda profunda afeição e respeito. Aqui é o homem dos pobres, mas vive encasulado numa família católica e pertencente ao partido


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conservador. Mas tenho a impressão que em breve baterá as asas, pois não tolera a escravidão. (TOURINHO, 1986, p. 537).iii

inaugurado o Teatro Paranaguaense,

O historiador Romário Martins, ao abordar a luta pela abolição na Província do Paraná também cita o Dr. Leocádio

nal, como na música o compositor

“A sociedade Redenção Paranaguense conseguiu realizar prodígios de êxitos. Só num dia, a 28 de Setembro de 1884, entregou cartas de alforria a 40 cativos. [...] o Dr. Leocádio José Correia, médico ilustre e humanitário, grande delicado e luminoso espírito ainda agora evocado pelos paranaenses, precisou dar uma ama para o seu primogênito, que é hoje o Dr. Leocádio Cisneiro Correia. Comprou uma negra sadia e jovem, mas antes de lhe confiar o filho, libertou-a para que seu primogênito não se alimentasse de leite escravo”. (MARTINS, s/d, p. 309).

Leocádio José Correia: Inspetor Paroquial das Escolas de Paranaguá 2.

O Paraná, até 1853 constituiu a 5ª Comarca de Paranaguá. O quadro geral da educação na província não era diferente do restante do país. Poucos jovens que tinham condições financeiras cursavam o ensino superior, como foi o caso de Leocádio Correia. Paranaguá, mesmo assim, era considerado um importante centro cultural da província, visto desde 1840 já ter

e ter alguns nomes conhecidos na Província ou mesmo no cenário nacio-

Brasílio Ityberê, na poesia os poetas Fernando Amaro e Julia da Costa e nas artes plásticas a pintora Iria Correia, considerada a primeira pintora do Paraná. Iria era prima de Leocádio Correia. Quanto à educação das primeiras letras, desde 1834, quando o império definiu que a instrução primária e secundária eram de competência dos governos provinciais, este ensino ficou praticamente abandonado no país. Em Paranaguá não foi diferente. Quando Leocádio assumiu a inspetoria, em 1885, esta situação se arrastava desde a década de 1830. Leocádio Correia sempre demonstrou preocupação com a Educação. Tanto no jornal Gazeta Paranaense, quanto no Dezenove de Dezembro, nos anos pesquisados há referências a projetos de Educação encaminhados ou sugeridos por ele. No período em que foi deputado, assumiu a presidência da Comissão de Ensino instalada naquela casa legislativa. Anteriormente, quando retornou a Paranaguá, formado médico, foi convidado a participar, no Clube Literário de Paranaguá, da Folha Literária editada pelo Clube, da qual era redator Ityberê. Seus artigos no jornal, bem como os discursos que proferiu, em geral faziam referência à importância que a educação tinha ou deveria ter para a sociedade local e para o país. Foi Leocádio que apresentou a proposta para a criação de um curso noturno pre-


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paratório para pessoas que não tiveram acesso à escolarização depois das cadeiras de primeiras letras. O curso abrangia as áreas de inglês, francês, geografia, história, poética e retórica. Ele, inclusive, atuou como professor neste curso, ministrando aulas de teatro, francês e português. . Leocádio Correia em inúmeros discursos cita a importância da educação e também lembra o papel político, o destaque, a ação do presidente da Província e do Clube Literário como uma Instituição de redenção da sociedade via educação É por isso, Senhores, que o Clube Literário, inaugurando hoje o seu curso de instrução popular, cumpre gratamente dois deveres imperiosos: – relembra neste momento o nome do atual administrador da Província que, imbuído da sublime ideia da regeneração pelo ensino, e compenetrado dos sagrados direitos do povo, lhe facultou o templo da ciência – e convida esse mesmo povo para, no recinto desse santuário, vir beber a água da vida e entoar os cânticos simbólicos de sua redenção moral – Tenho concluído! (CLUBE LITERÁRIO, 21/07/1882).

Em 1885, Leocádio Correia foi nomeado Inspetor Paroquial das Escolas de Paranaguá pelo então presidente da Província, Alfredo d’Escragnolle Taunayiv Fora indicado por Idelfonso Pereira Correia, o Barão do Cerro Azul. Segundo Hoerner Jr. a sua nomeação “poderia resolver alguns problemas mais delicados ocorrentes em Paranaguá, inclusive devido às infiltrações de Republicanos na área educacional, [...] o nome do médico parnanguara para a função por ele ser monarquista e leal ao regime.” (HOERNER, 1979, p. 111).

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As ideias e as escolas Nas relatórios das visitas que fazia nas escolas Leocádio demonstrava paixão e entusiasmo pelo trabalho das professoras, enquanto exemplo para as alunas a elas confiadas Filha esposa e mãe! Tal a missão da mulher. Filha ela carece saciarse de exemplos prolíficos, nas fontes fecundas do bem para o bom desempenho de seu papel ulterior; esposa tem de ser o Anjo Bom do lar, amenizando as contrariedades domésticas; mãe tem o dever de incutir os sãos princípios recebidos em novos corações que lhe pertencem, para neles só prover o bem, origem de toda a harmonia, tão necessária ao bem estar social! Se a educação doméstica tem seu quinhão de obrigações restrictas nesse solene afã de resultados úteis, às preceptores cabem também – e principalmente – o dever de bem guiar e bem formar corações virgens de maus estímulos consolidando e formando neles os affetos nobres inebriando enfim os tenros espíritos com os perfumes da pureza que só podem vivificar, exaltar, enobrecer e santificar naqueles que recebem suas puríssimas emanações! A missão da professora em baixa comparação, digo, a professora em baixa comparação é o centro de um círculo ininterrupto de onde emanam aquellas trez cordas – filha, esposa e mãe – que ela não pode deixar de retemperar e conservar no grau preciso de afinação para a harmonia final do trino incomparável que define,


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resume, exalta, enobrece e santifica também a mulher! (TERMO DE VISITA À PRIMEIRA CADEIRA DO SEXO FEMININO DE PARANAGUÁ, 30/09/1885).

Observamos ainda que neste documento de Leocádio, além da valorização das qualidades femininas, transparece mais uma vez a crença na educação como fator de ascensão social Do conhecimento particular que tenho da digna professora D. Maria Julia da Silva, que tão bem tem sabido representar aqueles três papeis, já na família, já na sociedade, elevando-se da sua modesta origem ao pináculo relativo às posições sociais, estou certo que a infância a si confiada só poderá colher de si a abundância de princípios sãos que sempre tem alimentado, augurando desde já a digna professora a ufania de realizada a sua obra, encontrara em suas discípulas fiéis imitadoras de seus exemplos e virtudes. Em minha visita encontrei 51 meninas, frequência ordinária, achando-se matriculadas 55. Notei boa ordem, explicação, alegria respeitosa, regularidade na distribuição do ensino e, sobretudo, muito adiantamento em todas as “classes” como praticamente verifiquei denotando tudo. Em resumo: que maior não pode ser o esforço empregado pela professora para o fiel desempenho de seu encargo. (RELATÓRIO DA INSPECTORIA PAROCHIAL DE PARANAGUÁ – 29/09/1885).

Uma das preocupações de Leocádio Correia era com a vivência e conhecimento da religião católica. Naquele mesmo ano ele envia correspondência ao padre Vigário Geral de Paranaguá, comunicando que está atuando como Inspetor Paroquial das escolas da cidade e que, tendo seu antecessor desobrigado o estudo da doutrina

católica na escola e a frequência aos templos externos, ele sugere ou, de certa forma determina, a retomada da obrigatoriedade da prática da doutrina católica O templo e a escola constituem-se dois primos da cadeia da moral e da vigilância. Um significa a fé, o outro representa a instrucção; esta sem aquella abriria o caratter ao fatal septicismo, aquella sem esta seria cegueira da consciência, fonte interior guia união das ações do homem. A religião é tão nessessária ao espírito, como o alimento ao corpo, se os seus sãos exercícios foram descuidados por alguns maos predecessores, é tempo ainda de despertar, porque sem os preceittos saluttares que della só emanarão, a escola jamais attingirá seus fins, qual de formar bons e exemplares cidadãos, presentes membros sociais de seus múltiplos deveres já em relação a si própria, já quanto ao semelhante, a família, a sociedade e a pátria. Imbuído destas verdades solennes e [...] resolvido obrigar a população escolar a assistir uma vez por semana o santto sacrifficio da missa. Estou certo auxiliar-me-a vossa Reveremndicimma neste alto empenho dignando-se assim a marcar hora e dia para o espiritual exercício, desculpando-me se sem indicar tenha eu escolhido o sábado por ser este o dia que o espírito devotto da cidade consagra a sua Paróchia. Inspectoria Parochial de Paranaguá (CORRESPONDÊNCIA ENVIADA AO PÁROCO – 05/10/1885).

Observamos que esta postura é coerente com a visão do partido conservador do qual Leocádio Correia participava. Este contexto é marcado pelo embate com as ideias republicanas, e com a de grupos que começam a defender a proposta de uma escola laica que, posteriormente, com a Proclamação da República, foi viabiliza-


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da, dada a separação que houve entre a Igreja Católica e o Estado, logo após a Proclamação. Instituiu-se assim a escola pública laica de fato. Leocádio, antes de assumir o cargo de inspetor, defendeu a criação de uma escola na comunidade do Rocio. Uma das áreas da cidade de Paranaguá marcadas pela pobreza e prostituição. Nesta comunidade foi criada a Cadeira Promíscua (escola para meninos e meninas). Na visita que faz àquela sala ele escreve relatório, cobrando das autoridades atenção à escola, conhecendo a cultura local, defende a continuidade da Escola Promíscua, mas se empenha ao redigir documentos buscando sensibilizar as autoridades da realidade local. Kubo nos lembra que esta situação era inclusive prevista na legislação “havia a recomendação de que o número de alunos de cada sala não ultrapassasse sessenta meninos ou quarenta meninas. Indicavase, ainda, que a frequência promíscua só seria permitida nas localidades onde não houvesse escolas para ambos os sexos”. (KUBO, 1986, p. 58). Leocádio, ao mesmo tempo, responsabilizava os pais pelas condições de vida das crianças, quando afirmava que naquele bairro predominava a ignorância e a pobreza e os pais queriam repetir para os filhos a vida que tinham,pois A má vontade da família, eis o principal embaraço, único talvez motivado ou não [...] que tem impedido o aproveitamento da população infantil deste bairro, e se tal estado das coisas não pode continuar, se temos dever e obrigação educar este povo, abrirlhe os olhos e mostrar o mal que a si mesmo fomenta o vício moral que a si próprio causa. (INSPECTORIA PAROCHIAL DE PARANAGUÁ – TERMO DE VISITA 09/10/1885).

Para Leocádio a pobreza local era consequência da baixa frequência à escola Por ocasião da minha visita ao observar o número de allunos em

relação a população alli existente, e em extremo desprezado diante de não pequeno número de crianças de ambos os sexos, que vi vagando pelo bairro entregues aos mais proveitosos mister da vivacidade. Encontrei presentes apenas 7 meninos, sendo um dos quais filho da professora e 7 meninas. O número de matrículas e de 6 meninos e 10 meninas. A frequência ordinária é inferior aquela que observei, segundo informações da mesma professora. Notei muito boa ordem na escola, apesar do acanhamento da sala em que ella funciona e quer meninos, quer meninas mostrarão applicação, exemplar comportamento e achavão se modestamente vestidos. Examinando alguns em leitura rudimentos de gramática, taboada, doutrina e calligraphia, conclui que se a frequência da escola fosse mais assídua e não influísse as circunstãncias que expus, melhores seriam as provas colhidas e maiores os proveitos. (INSPECTORIA PAROCHIAL DE PARANAGUÁ – Termo de Visita, 09/10 /1885).

Ao mesmo tempo em que elogia as iniciativas de grupos particulares que iniciaram cursos secundários noturnos, cobra das autoridades também cursos instituídos pelo poder público, visto que estes atenderiam ao segmento da população alforriada da escravidão que naquele período já atingia um número significativo em Paranaguá A aula noturna nesta cidade merece sobre todos os pontos de vista a solicitude do Governo Provincial ao qual muito a recomendo; só lhe resta chamar a si muitos soldados perdidos que ahi vegetão e que facilmente serão atraídos quando convictos do bem que se lhes propõe, certos da riqueza que se lhes mostra e oferece. A escola noturna de


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Paranaguá, chamando a si aquelles que a dura lei da escravidão deserdou e que decretamente grato da abolição hoje eleva e proclama, facilita o corretivo do mal que por longo tempo nos aflingiu e presta relevante serviço moral, cujos efeitos e resultados de não ensinar resulta serão no curto prazo satisfatoriamente verificados. Visitando-as hoje pela segunda vez percebo o interesse que a ella liga e observando a concorrência dos alunos, a atenção por todos dispensada ao estudo, as provas de aproveitamento de cada um, resta-me louvar muito. Louvor ao digno professor aos alunnos, aquelle pela vocação exigida, pello interesse maniffesto que mostra pelo progresso. (SALA DA ESCOLA NOTURNA DE PARANAGUÁ – INSPECTORIA PAROCHIAL DE PARANAGUÁ – 14/10/1885).

Observamos que Leocádio Correia durante a sua vida no século XIX foi um intelectual do seu tempo, envolvido com as questões da saúde, da educação, e da arte. Católico e defensor dessa religião ele, ao contrário de outros intelectuais do período, não se envolveu com a Doutrina Espírita. No entanto, no século XX, seu nome está associado a instituições educacionais cuja proposta de organização pedagógica é orientada pelo viés espíritav. Entendemos que esta relação foi construída pela autoridade moral de Maury Rodrigues da Cruz, também um intelectual do século XX, um médium que constituiu várias instituições associadas ao nome Leocádio Correia a partir da vivência das “manifestações” de Leocádio Correiavi enquanto Espírito. A legitimidade desta relação entre Maury Rodrigues e o Espírito Leocádio é garantida pelo reconhecimento do grupo de sustentação a estas instituições: a SBEE, o Lar Escola, o Campus de Assistência Social e mais recentemente a Faculdade. Leocádio Correia, enquanto Espírito ma-

nifestante, mantém a continuidade de acordo com a visão da Doutrina Espírita de uma atuação engajada em questões sociais, éticas, de compromisso com os menos favorecidos. Em vários jornais editados na cidade de Curitiba encontramos referências históricas ao personagem Leocádio José Correia, como cidadão parnaguara, pela sua atuação como médico e exemplo de literato e político. A partir da década de 1960, também muitas citações ao trabalho beneficente de Maury Rodrigues da Cruz junto às obras assistenciais que receberam o nome de Leocádio José Correia. Uma citação em especial nos chamou a atenção, a de Valfrido Piloto no jornal Gazeta do Povo, quando em matéria sobre o centenário de falecimento ele escreve “Paranaguá e os paranaenses em geral envidamos todos os esforços para compreender e honrar este espírito de luz. Daí os tributos de hoje e sempre nesta cidade e em nossos corações.” (17/05/1986)vii Chama-nos atenção a expressão “espírito de luz”, aspecto este que queremos analisar na sequência como uma das representações construídas sobre a figura de Leocádio Correia pelo Espiritismo na SBEE e no Lar Escola.

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O Irmão Leocádio, o Espiritismo e a ação educativa Quando o Doutor Leocádio José Correia faleceu, em 1886, “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, já tinha sido publicado, há cerca de 30 anos. Era conhecido em Paranaguá por pessoas da convivência do próprio Leocádio, como o Comendador Alfredo Caetano Munhoz, espírita convicto, fundador da revista “A Luz”, a primeira do gênero no Brasil, órgão do Centro Espírita de Curitiba. Em todas as fontes históricas pesquisadas Leocádio Correia


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em vida manteve-se afastado da Doutrina espírita A relação do professor Maury Rodrigues da Cruz, o fundador do Lar Escola e o Espírito Leocádio Correia se iniciou a partir de 1947 quando Maury passou a manifestar o Espírito do Dr. Leocádio, e que, na SBEE é chamado de Irmão Leocádio. Segundo o próprio Maury, Leocádio teria afirmado por meio de psicofonia que começara a se manifestar por volta de quatro anos após sua morte, quando ele então se comunicava espiritualmente em alguns Centros Espíritas na cidade de Palhoça, em Santa Catarina. A partir de 1930, teria dado continuidade às manifestações no litoral daquele estado por meio de um médium chamado Melo, sobre o qual não se tem registros históricos. Posteriormente teria iniciado o mesmo trabalho de atendimento espiritual no Paraná, manifestando-se nas cidades de Castro, Antonina, Piraquara e Campina Grande do Sul. Mas as manifestações mais conhecidas e documentadas, inclusive pela FEP, (Federação Espírita do Paraná) foram por meio dos médiuns Chicuta Nogueira, em Morretes, e Baduca, em Paranaguá. Na SBEE, o Espírito Irmão Leocádio, durante as décadas 1960 e 1970, realizava por meio da mediunidade de Maury Rodrigues da Cruz diferentes trabalhos mediúnicos como efeitos de levitação, materialização de objetos em parafina e gessoviii, transfigurações, análises premonitórias e vidência. A partir de 1980, o Espírito Leocádio José Correia restringiu a produção de efeitos físicos e tem centrado nas ações educativas e na assistência médica. O principal trabalho desenvolvido em conjunto com o Espírito é um trabalho educativo com os mais de cinco mil participantes da Instituição. Segundo orientações do próprio Leocádio Correia, o Centro Espírita constitui a “Universidade do Povo”. Nesta ação educativa o espírito do Irmão Leocádio emite mensagens diversas que são gravadas, transcritas e editadas em livros publicados com certa periodici-

dade. Estudando algumas das mensagens atribuídas ao Espírito, percebemos uma intensa atividade assistencial voltada à saúde física, mental e espiritual dos participantes e da sociedade em geral. O centro espírita como Universidade do Povo, são os caminhos da vida e a vida. Não fala em salvação, mas em iluminação pelo conhecimento e sabedoria. Não trabalha com parênteses, com suspensão no tempo, com dogmas, rituais cabalistas, mas demonstra o quanto significa conhecer para controlar a vontade, vivendo plenamente com lucidez e coragem. Sendo o centro espírita a vida e os caminhos da vida, faz cultura, produz fatos sociais que materializam intensa e extensa envergadura, ou seja, alcançam a sociedade humana como um todo (a manifestação dos Espíritos, o passe fluídico, as mensagens de efeito e de causa). (CRUZ, 1996, p. 59).

Segundo o Professor Maury, “nas mensagens psicografadas. O Dr. Leocádio procura esclarecer as pessoas sobre a necessidade da oração, da caridade, do papel do médium na sociedade, do valor da Doutrina Espírita e do amor”. (1977, p. 3). Ainda segundo Maury sempre que o Espírito de Leocádio Correia se manifesta ele afirma que “a educação é o instrumento para a transformação do mundo”. (CRUZ, Maury Rodrigues da Cruz – Entrevista. Curitiba. 18/10/2007, p. 13). A relação entre educação e Espiritismo está presente principalmente nas obras de Allan Kardec. No Livro dos Espíritos, Kardec afirmará que a Educação tem por finalidade não apenas instruir, mas transformar o homem, dando-lhe uma concepção diferente da vida, baseada na supremacia do Espírito e dos valores morais. Segundo ele, a educação que é o elemento que a Ciência econômica não considerou


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Não a educação intelectual, mas a educação moral, e não a educação moral através dos livros, mas a que consiste na arte de formar os caracteres, a que forma hábitos: pois a educação é o conjunto de hábitos adquiridos [...] A desordem e a imprevidência são chagas que só uma educação bem compreendida pode curar. (KARDEC, 2001, p. 289).

Percebemos que nas mensagens do Espírito Leocádio Correia há uma proposta de educação moral pautada numa filosofia de educação espírita, que consiste em Educar para a Liberdade. Educando para a liberdade, no sentido de cada vez mais fazer com que o homem alongue o seu olhar para o sentido e o significado da vida e veja as pessoas com as quais caminha junto. Ser livre significa também não estar confinado à realidade que parece limitada pelos sentidos físicos. A felicidade não é um acontecimento individual, sua natureza é a interconexão. As mensagens transmitem a ideia de que ser livre é desenvolver a disciplina interior, inclusive do pensamento, ou seja, a ênfase é a construção moral do indivíduo. Como podemos observar nesta mensagem de Natal de Leocádio Correia, psicografadaix por Maury Rodrigues da Cruz. LAR ESCOLA DR. LEOCADIO JOSÉ CORREIA Amor, luz, justiça, vida Uma porta, para a liberdade que todos os dias cuidadosamente se abre para confortar, amparar, educar, construir a criança, os homens, as mulheres, os aflitos. Assim, dia a dia, realiza a grande sementeira do bem. O Lar Escola é instrumento de união da criatura com o Criador É a chuva que cai, para frutificar os campos da existência. É a luz da esperança que ilumina os recessos da alma, provendo a felicidade que e exercida pelo ato consciente de doação, e recepção.

É o elo invisível, cujo começo se chama amor, e cujo fim é evolução na eternidade. O Lar Escola é flor da alegria, que nos inspira a linguagem do amor, o sentido da caridade, a força do perdão, numa eloquente demonstração de unidade entre o corpo e o espírito, a razão e a sabedoria. O Lar Escola é processo de compreensão da vida. É juventude, esperança, caminhada, educação, fé, transformação. É o Evangelho de Cristo, o amor, o trabalho, a liberdade, a luz na noite escura. O Lar Escola é o eterno, nascer. Que a Paz do Evangelho, a luz espiritual, os eflúvios do amor, despertem no teu ser. (CRUZ, Maury Rodrigues da, Mensagem de Leocádio Correia psicografada. SBEE, Dezembro de 1990).

Em outra mensagem, em 2004, ou seja, 14 anos depois, percebemos que a reflexão permanece na mesma linha, o Lar Escola como um instrumento de transformação social a partir da ação educativa voltada para o amor [...] O Lar Escola estuda, pesquisa, trabalha, ensina e vive a força dinâmica da academia da espiritualidade. O currículo do Lar Escola sensibiliza a todos a fazer a sementeira do bem, libertando pelo conhecimento o espírito das algemas da ignorância, do materialismo e da morte, construindo a consciência crítica da eternidade. A escolaridade do Lar Escola está sempre enriquecendo, acrescentando e transformando para melhorar a vida. Cada encontro do aluno com o seu professor há de ser a primavera, os seus encantos, a vida em flor, a poesia e o amor.


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O cotidiano do Lar Escola se faz criticamente pela consciência, o exercício da ciência, a filosofia e a religião, pela assimilação da verdade sem adulteração. É a força plena e permanente Do evangelho redivivo de Cristo. [...] (CRUZ, Maury Rodrigues; da Mensagem de Leocádio Correia psicografada. SBEE, Dezembro de 2004).

Existe uma regularidade das mensagens atribuídas a Leocádio Correia em datas comemorativas específicas como no dia das mães, das crianças, dos professores e no Natal MENSAGEM AO PROFESSOR O Professor deve viver o evangelho da vida. O Mestre deve ensinar com suavidade e vigor. Cada encontro discípulo-professor é uma experiência entre dois mundos. Quando somos o conhecimento, sentimos a plenitude da realização da vida. O educador sabe, sente que seu trabalho implica, sobretudo em amor que é a consagração da verdade, a afirmação do espiritual. Caro Professor, no dia que te consagram, quero felicitar-te como grande herói anônimo. Não faz mal que te esqueçam. A tua mensagem percorre espaços que não conheces; tuas palavras são continuamente reproduzidas; teus gostos são memorizados, materializados com novas funções; tua bondade é exemplo que conduz, anima e fortalece; o conhecimento que transmites se multiplica; és imortal. Mestre, tua vida é um poema de fé e trabalho. A cada segundo crias linhas definidas, rastros luminosos; cada discípulo é eco do teu saber. Não deves esquecer que, como plasmador da consciência crítica, és o responsável pela liberdade, pala felicidade dos teus orientandos. O que pensas,

sentes, falas, o que és, tudo atua na alma do educando... Professor, bandeirante do saber, Espírito forte, crê, ama, trabalha e terás sempre a dimensão da verdade, do universo em que vives. O abraço amigo e sincero do admirador (CRUZ, Maury Rodrigues; da Mensagem de Leocádio Correia psicografada. SBEE, 15 de outubro de 1983).

Anualmente são publicadas dezenas destas mensagens psicografadas por Maury Rodrigues da Cruz nas quais ficam evidenciadas as idéias e orientações do Irmão Leocádio. Nas fontes escritas e orais pesquisadas no Lar Escola, percebemos que há uma identidade dos profissionais que atuam na escola com as orientações do Espírito o que podemos explicar como a construção de uma cultura escolar espírita. Até mesmo a criação da escola é atribuída a ele. Segundo o seu fundador O Doutor Leocádio pensava em uma escola que fosse estruturada na visão do lar, da família, sempre com a ideia de que o fundamento deste Lar Escola seria o amor, até por que o Doutor Leocádio nos ensinou ao longo da minha vida de que o amor era o “remédio para todos os males” (CRUZ, Maury Rodrigues da Cruz – Entrevista. Curitiba. 18/10/2007)

Em praticamente todas as obras consultadas e mensagens editadas pela SBEE e atribuídas ao Espírito de Leocádio Correia há citações referentes à educação como “Quando o homem alcança o processo da Educação, espiritualiza a vida, liberta-se do tempo, entra triunfante na eternidade”. (CRUZ. 1997, p. 23). Percebemos que há um entendimento de que todo processo de construção exige colaboração. Para que ocorra o conhecimento, é preciso que haja um repetidor, um professor que exercite e um educador que pro-


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mova a educação. Logo, a instrução é a causa, o exemplo é a referência e a educação é o efeito. Afinal, “educar é integrar o homem à vida, na vida; é conscientizar o ser a se auto-descobrir”. (CRUZ, 1997, p. 29). Na visão dos participantes do Lar Escola e da SBEE, Leocádio José Correia é sem dúvida um dos grandes agentes organizadores e implementadores do processo educativo proposto pela Doutrina dos Espíritos. Uma das frases citadas e “A escola espírita ensina pacientemente o homem a se administrar, portanto, a governar o seu próprio ser.” (CRUZ, 1997, p. 174). Na SBEE e no Lar Escola Doutor Leocádio José Correia assumiu o caráter de identidade, de modelo a ser seguido pelos participantes. Podemos refletir que o Dr. Leocádio Correia viveu e morreu dentro de um modelo comportamental que possibilitou, por parte de seus contemporâneos, a construção mental de um mito histórico e filosófico. O Espiritismo aborda um Universo dual, com um componente material e outro espiritual. Isto nos abre uma gama de possibilidades de estudos. Leocádio Correia, no século XX e XXI, transita nestes dois universos e podemos apontar que, de acordo com o princípio exposto por Kardec, na questão 115 do Evangelho, que os espíritos foram criados por Deus, com a missão de, por meio da evolução, atingir a perfeição a partir do seu aprendizado. Cada Espírito tem a possibilidade de evoluir e aprender com seus próprios erros e experiências, percorrendo um longo processo até compreender a relação entre Deus e o Homem, alcançando uma harmonia entre o conhecimento, a moral e a inteligência. Nesta perspectiva, Leocádio Correia seria um Espírito que atingiu o grau de evolução que o permite se manifestar na terra, ajudando os encarnados a também evoluírem. Referências

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Notas: R i

O título de Comendador era destinado a Leocádio Correia por indicação da Princesa Izabel, que o conheceu nas comemorações da inauguração da Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá. Com a morte repentina de Leocádio, em 1886, o Imperador D. Pedro II manteve o título para o Irmão mais velho de Leocádio, Manoel, político e jornalista, como uma homenagem à cidade de Paranaguá.

defesa de judeus perseguidos naquela década, bem como em 1964, usou seu prestígio intelectual para defender presos políticos do regime militar. Faleceu em 2006, aos 103 anos. viii

ii

Em maio de 2007, por ocasião das comemorações de 121 anos de falecimento de Leocádio José Correia este livro foi reeditado pela Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas com acréscimos e revisão do autor.

Estas informações constam em diversos documentos do MUNESPI,que mantém em exposição permanente os objetos materializados pelo médium nas primeiras décadas . A materialização consiste em peças que reproduzem parte do corpo do espírito manifestante inicialmente em ectoplasma, que depois mergulhadas em gesso ou parafina, assumiram forma definitiva. (Informações do MUNESPI).

iii

ix

Monteiro Tourinho, contemporâneo de Leocádio, teria apresentado a Rocha Pombo a obra de Camiliii le Flamarion , físico francês que conviveu com Allan Kardec, tendo produzido obras que são referências na Doutrina Espírita. iv

Segundo Romário Martins (s.a.p.33) Alfredo d’Escragnole Taunay foi o presidente que mais demonstrou interesse pela questão cultural da província. Além da urbanização da capital, da construção da Catedral, investiu muito na Biblioteca Pública. No início do seu governo esta tinha apenas 564 volumes, ao final passou para 2.671 v

Um dos fatores que possibilitava a aproximação de intelectuais com o Espiritismo era o domínio da língua francesa, visto que as obras espíritas eram escritas neste idioma. Entre os nomes que demonstraram publicamente interesse pelo espiritismo estão Castro Alves, (suas obras apresentam vários elementos do espiritismo) Coelho Neto, Bittencourt Sampaio, Julio César Leal, Quintino Bocaiúva, Antonio Gonçalves da Silva (Batuíra), Cairbal de Souza Schutel, Anália Emília Franco, Eurípides Barsanulfo e Machado de Assis vi

Maury Rodrigues da Cruz afirma que o Espírito de Leocádio José Correia se manifesta através dele desde 1947, realizando atendimento médico na SBEE e que foi o próprio Leocádio que o orientou para a construção das instituições educacionais. vii

Valfrido Piloto é um nome representativo da intelectualidade paranaense, foi advogado, historiador, filosofo jornalista, poeta e ensaísta. Foi o fundador da Academia Paranense de Letras e ocupou a cadeira n.1, publicou sua primeira obra na década de 1930 e a partir daí publicou mais de 55 livros. Teve uma atuação reconhecida também em

De acordo com o Livro dos Médiuns “Psicografia é a escrita dos espíritos pela mão de um médium”(KARDEC, 1998, 352).

Revista Eslética - nº 1 / Out - 2010  

Revista de Reflexões Transdisciplinares e Esléticas

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