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Revolution will be Televised -

Edição Especial


Editorial

“All this will not be finished in the first 100 days. Nor will it be finished in the first 1,000 days, nor in the life of this Administration, nor even perhaps in our lifetime on this planet. But let us begin.” -John F. Kennedy

Situamo-nos nos Estados Unidos da América no período pós segunda Guerra Mundial, mais propriamente na década de sessenta. Década de esperanças e frustrações, de paz e de reações, de conquistas e perdas, de avanços e recuos. A Nação mais poderosa do mundo era não passava de um conjunto de contradições. Pretende-se com esta revista, levar o público a recordar uma das mais importantes década da história americana. Com um foco central na luta pelos direitos civis, que as minorias tanto buscavam, esta publicação apresenta uma visão diferente face a este tema, uma proposta expositiva e crítica sobre os efeitos que uma imagem estudada pode ter num povo como o americano. É no contexto político e social que a imagem tem mais influência ao longo desta época, e a sua utilização como forma de comunicação, que permite a propaganda e a defesa de crenças e ideais, faz-se presente de forma muito visível em quatro personalidades que ao longo desta década lutaram pela unidade e igualdade dos direitos civis. John Fitzgerald Kennedy, Malcolm X, Martin Luther King e Robert Fitzgerald Kennedy são exemplos de maiores vozes e maiores imagens. Apesar das suas fortes capacidades para argumentar e justificar as suas posições politicas e sociais, recorrem voluntária ou involuntariamente à sua própria imagem com intenção de captar atenções e se fazerem ouvir, daí o recurso aos mass media e em particular à televisão, tenham um papel fundamental nestas entidades. Frequentemente se ouve a expressão “Uma imagem vale por mil palavras” e com esta publicação tornamos visível e justificamos este fenómeno. Esta publicação procura encontrar razões para contrariar, de certo modo, a frase do poema e música de Gil Scott-Heron, “The Revolution Will not be Televised”, e afirmar com exemplos coerentes de que a Revolução pode ser feita pela televisão.


índice

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Ultravox - Edição Especial # Revolution Will Be Televised Fevereiro 2013 Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa - Design de Comunicação IV

Edição: Miguel Ferreira Rui Rodrigues Tiago Rodrigues Wence Ye

Até 1960

J. F. K.

“I have a dream”

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Zapruder

Afro-Americano

Bobby

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“We must learn to live together”

SHAME

Meio século depois...


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Com uma saída vitoriosa e quase ilesa no desfecho da Segunda Guerra Mundial, apesar das muitas mortes registadas em batalha, os Estados Unidos da América emergiram como a principal potência económica do planeta. Esta superioridade económica já era notória antes da segunda Grande Guerra e o seu início proporcionou aos Estados Unidos um desenvolvimento ainda maior, pois para além de proverem o necessário para o mercado interno, também forneciam produtos aos países aliados arrasados pela guerra. As melhoras eram francamente visíveis, a taxa de emprego subiu exponencialmente e as condições de vida dos norte-americanos estavam melhores que nunca, a população aumentou rapidamente com o regresso dos soldados da guerra que constituíram famílias e tiveram filhos. O caminho para a perfeição era aparentemente possível, mas de facto esta prosperidade não estava ao alcance de todo o povo americano, e uma grande parte dele continuavam a viver na pobreza durante o mandato de Einsenhower (1953-1961). A liberdade e a democracia que os Estados Unidos tanto lutavam, com o início da Guerra Fria, ainda estava longe de se tornar uma realidade para uma grande parte da sociedade americana. Esta incoerência era avistada com particular destaque no sul dos EUA, onde as minorias sofriam de discriminação racial, económica e política. Nos anos que advieram à Segunda Guerra Mundial a população dos subúrbios americanos cresceu de tal modo que na década de 60 constituíam perto de um terço da população americana. Os subúrbios proporcionavam casas maiores, com mais segurança e privacidade e eram geralmente limitado a americanos brancos, e os poucos afro-americanos que conseguiam, por possibilidades económicas, adquirir uma residência nos subúrbios eram frequentemente atacados psicológica e fisicamente. A situação das minorias nos Estados Unidos é sumamente grave. Das comunidades “imigrantes”, dois terços viviam compactados nos Estados do Sul, isto é, na chamada “Zona Negra”. Os cidadãos de “segunda classe” (nome frequentemente dado às minorias no Sul dos Estudos Unidos) eram vítimas de discriminação nas escolas, no trabalho e nos locais públicos. Viviam “fechados” dentro das suas próprias comu-

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Até 1960

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nidades, sendo-lhes impossibilitada a integração dentro da sociedade americana. A política dominante face a estas minorias era de discriminação racial, ou seja, a limitação de direitos, tanto eleitorais como de trabalho. Como forma de controlo da segregação e intimidação por parte dos americanos “livres”, eram frequentes os ataques e os linchamentos a estas comunidade multiculturais. Neste regime de uma ‘escravatura camuflada’, os protestos destas minorias contra a segregação, ganhavam cada vez mais vigor que levaram a que, em 1954, o Supremo Tribunal revogasse a lei aplicada deste 1896 que defendia que a segregação não infringia o princípio da igualdade social. As reações a esta decisão surgiram rapidamente tanto por parte dos brancos como dos negros. Os lugares e serviços públicos permanecem com os princípios da segregação mas os negros, apoiados e encorajados por esta revogação, tentam obter a igualdade rapidamente. Em dezembro de 1955, uma mulher negra, de nome Rosa Parks, recusouse a abandonar um lugar destinado aos brancos, e acabou por ser detida. A sua prisão resultou num boicote aos autocarros que durou um ano liderado por Martin Luther King. No ano 1960, Ruby Bridges, uma criança negra, com apenas seis anos, é admitida numa escola ‘branca’ de Nova Orleães (William Frantz School). Desde que entre na escola a sua vida muda completamente, para além de ela própria ser uma turma, com uma professora chamada de propósito para lhe dar aulas, é vitima de ameaças, insultos e até de atitudes macabras por parte dos pais dos meninos brancos, é proibida de comer na escola para não correr o risco de ser envenenada. Apesar de as minorias , e em especial os negros, obterem alguns sucessos em operações onde reclamavam os seus direitos como americanos, o racismo e a xenofobia continuavam a pertencer ao quadro de valores quotidianos dos Estados Unidos de América.

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1- Ruby Brifges acompanhada pelos guarda-costas 2- Rosa Parks no autocarro

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J.

F.

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Os primeiros anos da década de 1960 foram de notável otimismo. Na crista de uma onda de prosperidade sem precedente, o povo esperava confiante a realização do sonho norte-americano. A eleição de um novo presidente dos Estados Unidos em 1961, o candidato democrata John Fitzgerald Kennedy contribui também para um sentimento de esperança de um futuro muito otimista. Na sua campanha, Kennedy referiu que os Estados Unidos estavam à porta de uma Nova Fronteira, a fronteira da década de 1960, a fronteira de oportunidades e perigos desconhecidos, a fronteira de esperanças e sonhos por concretizar. Para além desta fronteira também estavam áreas desconhecidas da ciência e do espaço, problemas por resolver de paz, de guerra, da ignorância, do preconceito e perguntas por responder quanto à pobreza e o excesso. Ele demonstrava uma ambição e atitude tremenda na intenção de mudar para melhor a sociedade do seu país. John F. Kennedy cativou por completo o público norte americano pela sua personalidade, aparência, charme, inteligência e juventude. Essa imagem que transmitia foi pensada pelos seus partidários na sua

1 - John F. Kennedy 2,3,4 - Campanha de John F. Kennedy em 1960

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candidatura e gerida durante a sua presidência. Ele inspirava uma adoração pública mais comum no caso de artistas do mundo do entretenimento do que de políticos. O problema fundamental ao avaliar a presidência de Kennedy está na tentativa de separar mito da realidade, imagem da substância. A verdade é que o esforço é quase impossível porque Kennedy e os seus apoiantes aperfeiçoaram de tal maneira a arte da imagem presidencial que está intimamente ligada com a essência da sua administração. Portanto, quando se faz uma avaliação da presidência de John F. Kennedy é possível identificar os seus sucessos e fracassos quanto às políticas externas e internas, mas a sua herança mais duradoura foi sem dúvida tornar a imagem um componente crucial para a política e a governação.

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“I stand here tonight facing west on what was once the last frontier. From the lands that stretch three thousand miles behind us, the pioneers gave up their safety, their comfort and sometimes their lives to build our new West. They were not the captives of their own doubts, nor the prisoners of their own price tags. They were determined to make the new world strong and free -- an example to the world, to overcome its hazards and its hardships, to conquer the enemies that threatened from within and without. Some would say that those struggles are all over, that all the horizons have been explored, that all the battles have been won, that there is no longer an American frontier. But I trust that no one in this assemblage would agree with that sentiment; for the problems are not all solved and the battles are not all won; and we stand today on the edge of a New Frontier... the frontier of unfilled hopes and unfilled threats...

The New Frontier is here whether we seek it or not. Beyond that frontier are uncharted areas of science and space, unsolved problems of peace and war, unconquered problems of ignorance and prejudice, unanswered questions of poverty and surplus. It would be easier to shrink from that new frontier, to look to the safe mediocrity of the past, to be lulled by good intentions and high rhetoric... That is the choice our nation must make -- a choice that lies between the public interest and private comfort, between national greatness and national decline, between the fresh air of progress and the stale, dank atmosphere of “normalcy,” between dedication or mediocrity. All mankind waits upon our decision. A whole world looks to see what we shall do. And we cannot fail that trust. And we cannot fail to try...” - John F. Kennedy 1960

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imagem positiva. Nixon, que tinha estado doente antes dos debates televisivos surgiu abatido e nervoso, transpirando fortemente nas transmissões iniciais. Mesmo restabelecido e no auge de saúde, Richard Nixon, com olheiras, olhos escuros e gestos desajeitados, nunca esteve à altura para o charme citadino do jovem John F. Kennedy. É impossível de saber quantos votos foram decididos a partir dos debates, mas a vitória das eleições é atribuída, por uma margem muito pequena, a Kennedy, cada voto foi precioso e esta série de debates foi sem duvida determinante para colocar John F. Kennedy na presidência Americana. Talvez o apogeu retórico da imagem e estilo de Kennedy foi atingido no discurso inaugural da sua presidência. Surgindo diante das câmaras e de uma multidão de espectadores, que enfrentaram baixas temperaturas e efeitos de uma tempestade de neve de Janeiro, JFK permaneceu firme sem chapéu ou casaco na proferição de uma das mensagens mais emocionantes alguma vez feita por um recém eleito presidente. O ritmo, a cadência e o comportamento vocal e corporal durante o discurso foram a perfeição absoluta. E a linguagem e a mensagem, tão

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habilmente moldada pelo redator de discursos de Kennedy, Ted Sorensen, iria inspirar toda uma geração a dedicar as suas vidas ao serviço público, ou pelo menos, a pretensão de melhorar aos condições humanas nos Estados Unidos e pelo mundo inteiro. Destacando um tema chave da campanha, Kennedy declarou “that the thorch has been passed to a new generation of Americans” Com uma entrega deliberadamente pausada, ele advertiu o mundo que “we shall pay any price, bear any burden meet any hardship, support any friend, oppose any foe in order to assure the survival and success of liberty... The energy, the faith, the devotion which we bring to this endeavor will Light our country and all who serve it—and the glow from that fire can truly Light the world.” Em seguida veio a conclusão do discurso que se tornou bastante famosa,

“Ask not what your country can do for you, Ask what you can do for your country.”

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1,2,3 - Debate televisivo entre J.F. Kennedy e Nixon 4 - J.F.K.

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No auge da Guerra Fria, a campanha presidencial de 1960 entre Richard Nixon e John Kennedy focou-se nas políticas externas do Estados Unidos sobre as medidas que deveriam ser implementadas para a luta contra os regimes comunistas em todo o mundo. Kennedy acusou a antiga administração do presidente Eisenhower, à qual pertencia Nixon, de permitir uma lacuna de misseis por parte dos E.U.A tendo em conta a suposta quantidade da União Soviética colocando o país em desvantagem na corrida pela maior armamento. Para além disso, sob a presidência de Eisenhower, os Estados Unidos não conseguiu evitar o estabelecimento da ditadura comunista de Fidel Castro em Cuba, a apenas 90 milhas da costa do país. No âmbito das políticas internas, JFK também teceu duras criticas à anterior presidência, retratando os precedentes oito anos como um período de estagnação econômica para o país. O tema da campanha de Kennedy foi um apelo à população “Pôr o país novamente em movimento”. Uma vez mais, a imagem e a mensagem combinadas de uma forma exemplar para a candidatura de Kennedy. O seu heroísmo na Segunda Guerra Mun-

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dial aparentava-o preparado para liderar o país na luta contra o comunismo e o constante turbilhão de atividade em torno dele, retratava-o como um líder enérgico que poderia de facto pôr o pais em movimento novamente. O evento mais determinante na campanha de 1960, foi a série de quatro debates transmitidos por rádio e televisão entre Nixon e Kennedy. Nos debates por rádio a temática desenvolveu-se por questões de política externa e interna, tendo cada interveniente defendido a sua resolução para cada questão. Tendo como base ouvintes dos debates, as votações que se seguiram para determinar o vencedor indicavam Nixon como tal, os votantes defendiam a sua decisão baseando-se no conhecido demonstrado por ele e a qualidade agradável dos graves da sua voz, que devido às suas raízes da Califórnia, foi sem qualquer sotaque, e que, pelo contrario, havia quem afirmasse que a voz aguda de Kennedy, com um acentuado inglês de Boston se apresentava aborrecida . Mas a generalidade das opiniões mudaram quando os debates passaram a ser transmitidos na televisão. Kennedy ao apresentar-se com uma imagem cuidada, bronzeado e relaxado, projetou uma

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1 - James Meredith escortado pela polícia na Universidade de Mississípi 2, 3, 4 - Manifestação de Birmingham, 1963

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De certa forma, a revolução dos negros no tempo de Kennedy também era uma revolução do aumento das expectativas. Impressionado com o discurso de tomada de posse de Kennedy, o antigo soldado da Força Aérea James Meredith requereu, no próprio dia, a admissão à universidade “branca do Mississipi em Oxford. Foi-lhe recusada. Meredith recorreu ao tribunal para fazer valer o seu direito. A 13 de Setembro, o Supremo Tribunal exigiu que o Estado do Mississípi respeitasse a constituição dos EUA e os acórdãos dos tribunais, mas o governador desse Estado Ross Barnett anunciou a sua resistência. Kennedy colocou a Guarda Nacional do Mississípi sob o comando federal e enviou a Polícia Federal para Oxford para acompanhar Meredith ao gabinete de matrículas. A população estava em alvoroço. Morreram duas pessoas nos distúrbios. O presidente comandante supremo das Forças Armadas dos Estados Unidos, teve quase de suplicar para que as unidades do exército enviadas para Memphis interviessem. A ordem foi restabelecida. Meredith fez o seu exame final em Agosto de 1963. O ano de 1963 marcou o ponto alto da campanha contra a discriminação racial no Sul. Em Abril e Maio, Martin Luther King liderou milhares de manifestantes na cidade de Birmingham, no Alabama, numa acção directa. Foram espancados brutalmente e metidos na prisão, mas mesmo assim, as manifestações tornaram-se cada vez maiores. Os americanos assistiram, chocados, diante dos ecrãs das suas televisões ao modo como a polícia de Birmingham empregava cassetetes, cães-polícia e bastões eléctricos para gado contra mulheres e crianças. A cidade de Birmingham, Alabama, era

conhecida por ter uma das mais violentas, agressivas e racistas forças policiais do país e por isso Martin Luther King sentiu que seria um lugar perfeito para chamar atenção sobre as injustiças de direitos civis vividos pelos negros no sul. Ele acertou em cheio. Ao atrair a atenção dos media para a manifestação, os media marcaram presença na mesma e acabaram por gravar os acontecimentos da manifestação tornando-a noticia nacional. As filmagens atraiu bastante a atenção do país para o tratamento desfavorável dos negros americanos. Perante estes acontecimentos, Kennedy e o seu governo reconheceu que tinha de fazer mais. O governo preparou uma lei abrangente de direitos civis referente a três importantes assuntos: Sufrágio — Legislação que assegurasse a disponibilidade para todos de um direito básico e poderoso, o direito de voto numa eleição americana livre. Comissão de Direitos Civis — Legislação que renovasse e dilatasse a autoridade da Comissão de Direitos Civis, possibilitando-lhe servir como um departamento judicial, esclarecedor dos direitos civis, fornecendo informações. Integração escolar — legislação que providenciasse assistência federal técnica e financeira, de auxílio aos distritos escolares. Outras medidas que aboliam a segregação racial apresentadas no Congresso, receberam também o apoio do governo. Provavelmente ainda mais importante do que a lei foi a decisão de Kennedy de se dirigir à nação num grande discurso televisivo e de, finalmente, usar todo o peso do cargo de presidente a favor do movimento de direitos civis. A 11 de Junho de 1963 declarou sem rodeios a um público maioritariamente

branco que estavam “numa crise moral enquanto país e povo”: a questão era “tão antiga como as Escrituras Sagradas e tão clara como a constituição americana se todos os americanos devem ter os mesmos direitos e as mesmas oportunidades, se estamos dispostos a tratar os nossos concidadãos da mesma forma como queremos ser tratados. Se um americano não pode comer num restaurante público porque tem pele escura, se não pode mandar os filhos para a melhor escola pública, se não pode eleger os seus representantes, em poucas palavras: se não pode usufruir de uma vida plena e livre, que todos desejamos ter, quem de entre nós estaria disposto a mudar a cor da pele e trocar de lugar com ele? Nesse caso, quem de entre nós estaria disposto a aceitar o adiamento e acatar o conselho para ter paciência. [...] Passaram 100 anos de adiamentos, desde que Lincoln libertou os escravos. E mesmo assim, os seus herdeiros, os seus netos, ainda não são completamente livres. Ainda não foram libertados dos grilhões da injustiça, não foram libertados da opressão social e económica. E apesar de todas as suas esperanças e de todo o seu orgulho, esta nação só será livre quando todos os seus cidadãos forem livres.” A reação não se fez esperar. Na noite anterior ao discurso televisivo de Kennedy, o amigo e conselheiro de James Meredith, Medgar Evers, foi atingido mortalmente em Jackson, no Mississípi. Pouco tempo depois, quatro raparigas negras foram mortas num atentado bombista à sua igreja.

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I have a Dream

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* Nome pelo qual ficou

conhecido o célebre discurso de Martin Luther King na marcha de Washigton em 1963. 1 - Manifestantes na Marcha de Washington, 1963 2, 3 - Martin Luther King a discursar em Washingtoni

É registado com o nome de Michael King, mas fica conhecido por Martin Luther King por iniciativa de seu pai que lhe atribui o seu próprio nome. Nasce no dia 15 de Janeiro de 1929 e é o segundo de três irmãos de uma família negra muito religiosa, devotos da Igreja Batista, onde o seu avô e, posteriormente, o seu pai exerciam a função de pastores. King sempre mostrou uma curiosidade especial pelas histórias da Bíblia, mas nunca compreendera de facto o assunto da ressurreição de Cristo, mas mesmo assim desafia-se a si próprio e entra no seminário, com o objectivo de estudar teologia para no futuro poder suceder o pai e também ele desempenhar o cargo de pastor na Igreja Batista. Um interesse exemplar na escola com resultados excelentes, permitem que o jovem King, por duas vezes, transite dois anos de uma só vez (no nono e no décimo segundo ano), e com apenas 15 anos, ingresse no Morehouse College a fim de se formar em sociologia, enquanto seguia em simultâneo os estudos teológicos. Com apenas 25 anos King torna-se pastor da Dexter Avenue Baptist Church , em Montgomery , Alabama. Apesar de ser bem sucedido na vida, Luther King foi vitima de alguns preconceitos racistas exercidos contra ele, e desde jovem que ambicionava poder lutar contra estas injustiças presentes no povo americano, e assim que lhe é possível começa a manifestar-se na luta pelos direitos civis e pela igualdade de todo o povo americano.

Através da sua luta pelos direitos humanos, inspirada nos valores cristãos e no exemplo de Gandhi com o ativismo não–violento, o nome “Luther King” propaga-se por todo o mundo em pouco tempo. À sua imagem são anexadas algumas características positivas, como a virtude, o trabalho, a vontade e a coragem. Dezoito milhões de negros olham para King como um salvador e comparam-no a Gandhi, encarando as suas palavras e filosofias como sagradas. Com uma formação eclesiástica, o Pastor Batista possuía a qualidade de se fazer ouvir e levar os seus seguidores a partilharem dos seus pensamentos de igualdade entre raças e a não violência. Foram estes princípios que King sempre defendeu, e leva-os à rua na campanha de Birmingham, onde chama a atenção para a diferença de tratamento entre os brancos e os negros. Esta campanha decorre durante a Primavera de 1963 e terminou em confrontos amplamente divulgados pelos media ,entre brancos, negros e autoridades civis.

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Em Agosto do mesmo ano, em Washington, em frente a cerca de 300 000 pessoas, o pastor Afro-americano pronuncia o seu celebre discurso “I have a dream”. Este episódio, é um dos mais importantes na História da América , na luta pelos direitos civis, alcança um sucesso memorável pois é dirigido a todas as pessoas, mas a escolha estratégica do local, onde se realizava naquele momento uma marcha que reivindicava empregos e liberdade, reunia o centro do publico alvo do seu discurso, as minorias. King dirige-se aos milhares de manifestantes que se encontravam em Washington, com uma referencia histórica de 1863, data em que é proclamada a emancipação, o que, teoricamente, terá posto fim a escravidão em território americano, mas na verdade , passado um século, os negros e todas as outras minorias, ainda não possuem esse direito à liberdade. A liberdade não está na segregação , na discriminação, nos ataques racistas, nem na privação de direitos. É contra esta aparente liberdade que Luther King dirige o seu discurso previamente preparado, mas a meio dele , desfaz-se dos papéis que orientavam a sua comunicação, e dirige-se diretamente ao publico, expondo-lhe algo que lhe é muito pessoal, que são os seus sonhos. A frase “I have a Dream” tem um impacto fortíssimo nas pessoas que o escutavam. De um momento para o outro, o Pastor confia àquela multidão os seu sonhos, e esta para além de se sentir privilegiada face à atitude informal mas de confiança e proximidade do orador, percebe que

também faz parte desse sonho e que também partilha dele. A própria entoação e estratégia que King utiliza no seu discurso, pequenas frases objectivas que iniciam sempre com a expressão “eu tenho um sonho”, produz uma empatia enorme entre si e o publico que o escuta, e resulta num apoio convicto nas causas que Martin lhes transmite. Este discurso é muito mais do que uma estratégia de marketing por parte do Pastor King, mas a escolha reflectida do local da ação e a postura utilizada no seu decorrer, têm um papel fundamental no seu sucesso. Observar milhares de pessoas , de diferentes raças e etnias, crenças e ideologias , reunidas no mesmo lugar a reivindicar direitos , a escutar e a apoiar o discurso de um Pastor afro-americano, que lhes falava dos seus sonhos num mundo diferente, e mesmo as pessoas que não conseguiram dirigir-se a Washington para a manifestação tiveram a oportunidade de o ver e escutar através dos media, por si já é um índice revolucionário. Mas o impacto deste discurso foi tão grande que nos dias seguintes foi o tema mais debatido na imprensa.

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zapruDER

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John F. Kennedy morreu a 22 de Novembro de 1963 em Dallas, Texas. Kennedy for mortalmente ferido por disparos enquanto circulava no automóvel presidencial na Praça Dealey.. Duas investigações oficiais concluíram que Lee Harvey Oswald, um empregado do armazém Texas School Book Depository na Praça Dealey, foi o assassino. Uma delas concluiu que Oswald atuou sozinho e outra sugeriu que atuou com pelo menos um cúmplice. O assassinato sempre esteve sujeito a especulações e dúvidas, sendo origem de um grande número de teorias de conspirações. Foi Abraham Zapruder, um fotografo amador de Dallas, quem teve a sorte de captar, num filme de oito milímetros, a cores, todo o drama do assassínio de Kennedy. Nesse filme ficaram registados os momentos exactos em que o presidente foi atingido pelas balas. O filme mostra de maneira indubitável que o presidente foi atingido por duas balas e que a segunda lhe penetrou no crânio. Quando o automóvel chega à altura da máquina, o presidente é ferido pela primeira bala. Volta-se para a esposa, sentada à sua esquerda. A segunda bala atinge em cheio a nuca do presidente na parte superior direita. A ca-

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Zapruder

* Nome dado ao único

registo audiovisual do assassinato de John F. Kennedy em Dallas.

1,4 - Frames Zapruder Film 2,3 - Noticia da morte do presidente J.F.K. nos jornais

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beça cai para diante, sobre o peito. O filme, que não passava de um vulgar relato de uma viagem do presidente Kennedy, transforma-se de repente num relato de um dos assassínios mais polémicos de sempre. A incerteza e especulação à volta do assassinato de Kennedy veio provocar dúvidas inicialmente fracas e depois cada vez mais fortes quanto à capacidade e disponibilidade do poder executivo em dizer a verdade aos cidadãos, de modo que o homicídio de Kennedy parece em retrospectiva a milhões de pessoas como um corte, o dia em que o Estados Unidos perdeu a inocência. Em 1963, aquando da introdução das propostas de leis sobre os direitos civis, Kennedy tinha avaliado com precisão os possíveis obstáculos para aceitação das mesmas no parlamento. Na verdade, só com o drama do assassinato de Kennedy e as competências legislativas do seu sucessor, Lyndon Johnson, é que as ditas leis foram aceites tornando possível o marco “1964 Civil Rights Act”. Nos dias seguintes após o assassinato de Kennedy, numa das primeiras intervenções de Johnson no parlamento, ele referiu que nada iria honrar mais o seu presidente assassinado do que a legislação dos direitos civis que havia

introduzido antes da sua morte. A sua morte, inesperada e brutal, revestiu-se de tal importância e significado que podemos considerá-la um dos acontecimentos do nosso tempo. A causa pela qual o presidente morreu e á qual tudo sacrificou, sem exceptuar a vida, basta para lhe emprestar o prestigio que antes dele apenas alcançou o mais popular e representativo dos seus antecessores, Abraham Lincoln. Nunca, como depois da sua morte, este contribuiu para dar um novo sentido à vida americana e para moldar em princípios de dignidade humana e grandeza moral. Devido à sua morte, John Kennedy tornou-se um dos símbolos das esperanças não concretizadas que o inicio do século sessenta tanto antevia, apesar disso é visto como o Presidente mais popular de todos tempos. Kennedy sabia que: “ O maior inimigo da verdade não é a mentira, intencional, artificial, desonesta, mas sim o mito, duradouro, sedutor e irrealista. No entanto, independentemente do contributo de historiadores e biógrafos, o homem e político John F. Kennedy continua a ser prisioneiro do seu próprio mito.

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AFRO - Americano

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Malcolm X foi a esperança de Harlem , foi ele, na verdade, o primeiro Afro-Americano e marcou essa mudança com a substituição do seu apelido “Little” por “X”, pois o “Little” prendia-o a o passado, a um tempo de escravatura que se fazia presente na sua vida pelo nome que recebera dos seus antepassados. O X marcava essa mudança definitiva. Num dos seus discursos Malcolm X, desconforta os negros com as perguntas - Quem vos ensinou a odiarem a textura do vosso cabelo, a vossa cor, a forma do vosso nariz e dos vossos lábios? Quem vos ensinou a odiarem-se a vós próprios e à vossa raça? São estas questões que levam Malcolm X a lutar em primeiro lugar pelo reconhecimento dos próprios negros como tal e que se orgulhem daquilo que são, perceberem a sua história que que está na hora da mudança. Malcolm X pretende que todas as raças que sofrem de injustiça nos Estados Unidos consigam a mudança pela qual ele próprio passou, ou seja, que abandonem o passado, não o esquecendo mas vingando-o de modo a deixarem de ser escravos mas Afro-Americanos.

* Expressão bastante

utilizada por Malcolm X para se auto-denominar como um homem livre do seu país.

Harlem

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Afro-Americano

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A descontrolada agressividade contra as minorias por parte dos americanos brancos atingia por vezes limites catastróficos, a aplicação da lei de Lynch era comum nos bairros americanos mais desfavorecidos. Louise Norton Little é dada como louca depois do assassinato do seu marido Earl Little, e os seus oito filhos são divididos por vários orfanatos. Malcolm Little, com apenas seis anos perde o pai e aos treze anos perde também a sua mãe para um hospital psiquiátrico. Apesar da sua infância atribulada, Malcolm é bem sucedido nos estudos, mas acaba por lhe perder o interesse e desistir após o seu professor lhe dizer que o seu sonho de ser advogado não era realista para um “nigger”. Viaja para Harlem, em Nova Iorque, e aí contacta com o mundo do crime, o que o leva à prisão com apenas 20 anos. Durante os sete anos em que está preso, é-lhe mostrada a religião Muçulmana e converte-se a ela de tal modo que a sua pena é reduzida pela mudança e exemplo de atitudes que mostrou após essa conversão, e para manifestar com maior evidencia esta mudança de vida, Malcolm decide rapar o cabelo e alterar o seu nome, substituindo o apelido “Little” por “X”, pois a seu ver, “Little” era nome de um escravo, e o “X” revela aquilo que fora antes, e o que foi depois: “Ex-drinker. Ex-smoker. Ex-Christian. Ex-slave.

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Orientado pelos ideais islâmicos e os ensinamentos de Elijah Muhammed, viaja para Detroit, onde ganhou alguma popularidade no seio dos negros e dos muçulmanos, pois com a sua articulada inteligência, acaba por ser nomeado como ministro e porta-voz nacional da Nação do Islão. Utilizando os jornais, a rádio e a televisão para comunicar as suas mensagens muçulmanas aos Estados Unidos, a sua imagem começa a ser cada vez mais conhecida e o seu carisma e convicção atrai à sua religião novos membros. Os muçulmanos, faziam mesmo uma ligação às escrituras islâmicas, onde correspondiam Muhammad e Malcolm, à história de Moisés e o seu irmão Aaron. Malcolm X, como qualquer negro na altura, tinha uma forte ligação com a comunidade de Harlem, este afirmava mesmo, “Wherever a black man goes, that´s Harlem”. As pessoas brancas viam Harlem como um país a parte dentro da sua própria nação. Após descobrir que o seu líder Elijah Muhammed, agira contra os princípios islâmicos, no final do 1963, Malcolm abandona a religião que até então servia e fundar a sua própria organização religiosa. Esta decisão foi alvo de imensas criticas mas a posição de Malcolm X manteve-se e a sua luta pela igualdade de direitos para o povo afro-americano continuava a ser escutada com atenção. No ano seguinte viaja até Meca e contacta com

uma realidade que lhe altere novamente a vida, a qual é partilhada quando regressa aos EUA: “I have met blonde-haired, blue-eyed men I could call my brothers.” Malcolm reconhece que a igualdade de direitos é universal e deixa de se dirigir apenas aos afro-americanos nos seus discurso mas a todas as raças. As relações com a sua religião anterior estão cada vez mais tensas, e tornam-se cada vez mais agressivas, entre insultos, ameaças e alguns atentados à sua família. As tentativas impiedosas eram tantas que no dia 21 de Fevereiro de 1965, enquanto Malcolm X discursava , três homens armados dispararam sobre ele até à morte.

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Afro-Americano

1 - Encontro da Nação do Islão, 1961 2 - Malcolm X preso 3 - Elijah Mohammed e Malcolm X em Black Muslim Rally, 1961 4 - Black Muslim meeting 5 - Malcolm X discursa em Washington 6 - Malcolm X assassinado em Nova Iorque

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Apesar dos diferentes pontos de vista sobre a integração e a segregação, Malcolm X e Luther King esforçam-se para um objectivo comum, a Liberdade. Talvez a razão pela diferente forma de pensar, se deva à diferente educação que cada um teve, Luther King cresceu numa família com princípios cristão, e toda a sua vida foi acompanhada pelo ecleticismo presente numa família cristã. Já a vida de Malcolm X foi muito mais atribulada, desde criança que recebe o trauma de uma família completamente destruturada se torna um permanente sobrevivente num mundo marginal e criminoso. Face à igualdade e aos direitos civis , Luther King sempre defendeu que se poderia alcançar estes objectivos sem recorrer à violência , mesmo em manifestações e protestos seriam feitas através da pacificidade, ao que ele chamou de “armas do amor”. No entanto Malcolm X contrariava a opinião de King, e suspeitava tantos dos branco que estava determinado a alcançar a igualdade “por qualquer meio necessário.” Ele defendia a segregação, mas após a sua visita a Meca, regressa aos EUA com convicções contrarias, que seguiam a linhagem das de King.

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1 1 - Martin Luther King, conferência de imprensa 2 - Luther King e Malcolm X à espera do inicio da conferência 3 - Malcolm X durante a conferência de imprensa 4 - Criança negra apoiante de R.F.K. 5 - Parada de Robert F. Kennedy 6 - Apoiantes de R.F.K.

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Afro-Americano

Robert Francis Kennedy também conhecido como “Bobby” irmão e braço direito de John F. Kennedy durante a sua presidência (1960/1963). Robert F. Kennedy adquiriu todo o conhecimento e qualidades do seu irmão. Foi uma figura muito importante durante a presidência do irmão, era não só apoiante do partido democrata como também ministro da justiça, acompanhando todas as tomadas de decisão do seu irmão mais velho. Robert F. Kennedy foi uma presença constante na luta que era travada pelos direitos humanos dos negros no seu pais, Estados Unidos da América, chegou mesmo a contactar de perto com o pastor e líder Martihn Luther King. A morte do seu irmão no ano de 1963, tem em si um efeito devastador, Robert F. Kennedy, perde a motivação que o fazia lutar pelas causas que defendiam, tanto ele como o irmão, e afasta-se dos deveres que tinha no seio da Casa Branca. Robert viaja até a África do Sul para defender a política anti-Apartheid, o que foi alvo de muitos comentários positivos. Quatro anos após a morte do seu irmão, Robert F. Kennedy nota que aquela esperança que este pensava que tinha terminado com a morte do seu irmão, ainda se mantinha viva. Robert depara-

Bobby

BOBBY

se com cartazes do rosto do seu irmão dentro das habitações das pessoas, e outras provas vivas dessa esperança de união entre a população, de todos unidos pelo desenvolvimento dos Estados Unidos da América. Toda essa motivação faz com que este ganhe um novo ânimo também, Robert F. Kennedy decide então integrar uma nova campanha política, desta vez, candidata-se à presidência do partido democrata, com intenções claras de futuramente se candidatar a presidência dos Estados Unidos da América. Este é um grande sinal de uma nova esperança “Kennedy”, onde o trabalho que começou com John F. Kennedy podia ser agora novamente continuo com o seu irmão.

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“we Must learn to livE Together” - Martin Luther King, St. Louis, 22 de Março de 1964

O pacifista negro Martin Luther King tornava-se cada vez mais desconfortável na sociedade americana, por denunciar as injustiças que as minorias sofriam e as reações de apoio face aos seus discursos eram regulares, e por vezes, contrariando a sua vontade, tornavam-se perigosas, de tal forma que chegaram a cataloga-lo de “extremista”. Quem se opõe aos princípios que sustentam uma sociedade, mesmo tendo razão, nunca serão bem aceites pela maioria, porque são incómodos. Um exemplo de grande referencia para Luther King é o próprio Jesus Cristo que defendeu uma lei nova, oposta à que sustentava o povo judeu e acabou por sofrer as consequências com a própria vida. A vida do pastor afro-americano termina de forma semelhante, no dia 4 de Abril de 1968 , em Memphis, perto da seis da tarde, onde é alvejado com um único tiro, que lhe abre o pescoço e o maxilar. Apesar de King ter defendido que o caminho para a igualdade , se todos quisessem, seria pacifico, e que as guerras só alimentam mais guerras, as reações à sua morte vão completamente contra a sua ideologia pacifista, e é a violência que dita ordens na maioria dos estados da América. Curiosamente os distúrbios não se fizeram sentir na cidade de Indianapolis, local onde Robert Kennedy se encontrava em campanha para a nomeação presidencial democrática e onde dedicou um discurso á morte de Luther King e à sua luta pelos direitos civis e pela igualdade. Neste discurso, Bobby pede à população e de modo especial aos negros, para que se mantenham calmos e que não mostrem o seu legitimo ódio e cólera através da violência, fazendo ainda referencia à morte do seu irmão, como exemplo de uma situação semelhante que ele também passara, e insiste na ideologia defendida por Martin Luther King, que é através da união de todos os americanos que Os Estados unidos avançam.

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We must learn to live together

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I have some very sad news for all of you, and, I think, sad news for all of our fellow citizens, and people who love peace all over the world; and that is that Martin Luther King was shot and was killed tonight in Memphis, Tennessee. Martin Luther King dedicated his life to love and to justice between fellow human beings. He died in the cause of that effort. In this difficult day, in this difficult time for the United States, it’s perhaps well to ask what kind of a nation we are and what direction we want to move in. For those of you who are black -considering the evidence evidently is that there were white people who were responsible - you can be filled with bitterness, and with hatred, and a desire for revenge. We can move in that direction as a country, in greater polarization - black people amongst blacks, and white amongst whites, filled with hatred toward one another. Or we can make an effort, as Martin Luther King did, to understand, and to comprehend, and replace that violence, that stain of bloodshed that has spread across our land, with an effort to understand, compassion, and love. For those of you who are black and are tempted to fill with - be filled with hatred and mistrust of the injustice of such an act, against all white people, I would only say that I can also feel in my own heart the same kind of feeling. I had a member of my family killed, but he was killed by a white man. But we have to make an effort in the United States. We have to make an effort to understand, to get beyond, or go beyond these rather difficult times. My favorite poem, my favorite poet was Aeschylus. And he once wrote:

Even in our sleep, pain which cannot forget falls drop by drop upon the heart, until, in our own despair, against our will, comes wisdom through the awful grace of God.

What we need in the United States is not division; what we need in the United States is not hatred; what we need in the United States is not violence and lawlessness, but is love, and wisdom, and compassion toward one another, and a feeling of justice toward those who still suffer within our country, whether they be white or whether they be black. So I ask you tonight to return home, to say a prayer for the family of Martin Luther King yeah, it’s true - but more importantly to say a prayer for our own country, which all of us love a prayer for understanding and that compassion of which I spoke. We can do well in this country. We will have difficult times. We’ve had difficult times in the past, but we - and we will have difficult times in the future. It is not the end of violence; it is not the end of lawlessness; and it’s not the end of disorder. But the vast majority of white people and the vast majority of black people in this country want to live together, want to improve the quality of our life, and want justice for all human beings that abide in our land. And let’s dedicate ourselves to what the Greeks wrote so many years ago: to tame the savageness of man and make gentle the life of this world. Let us dedicate ourselves to that, and say a prayer for our country and for our people. Thank you very much.

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1 - Martin Luther King em Memphis, pouco tempo antes de ser morto 2 - Funeral de Luther King 3 - Declaração de Robert Kennedy face à morte de Luther King

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Sha m e

Influenciado pelo estimulo de uma nova esperança americana, Robert F. Kennedy candidata-se à liderança do partido democrata em 1968, colocando novamente o nome Kennedy novamente nas bocas do mundo. O seu sucesso foi quase imediato e acaba por vencer McCarthy num decisivo primeiro rescaldo na Califórnia, o que o colocou como principal candidato à presidência americana. Poucos minutos depois da sua vitória, é baleado na cozinha do Ambassador Hotel, por um imigrante Palestino. A esperança americana volta a contrair-se e os protestos são imediatos até na imprensa. O canal televisivo de Nova Iorque WPIX-TV encerrou a emissão durante duas horas e meia, e colocou a palavra “Shame” que ocupava o ecrã completo da televisão, segundo a justificação do canal televisivo “Shame”, vergonha, era o que todos deviam sentir depois da morte de Robert F. Kennedy. A sua morte teve como consequência imediata, a alteração dada pelo governo americano na segurança fornecida aos políticos americanos pelos serviços secretos. Mas a morte de Robert F. Kennedy foi o culminar de acontecimentos negativos nos Estados Unidos da América, o futuro americano não era prometedor, o país era atormentado por múltiplas crises internas e externas. Os objectivos de justiça social pareciam esquivos, que fugia sempre do seu fim. A nação cada vez mais atolada até ao pescoço com uma guerra que não controlava como pretendia, sentia-se cada vez mais o descontentamento em todos os cidadãos americanos. 2

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1 - Robert F. Kennedy assassinado 2, 3 e 4 - Reações de descontentamento face à morte de R. F. K.

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Shame

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Meio Uma década que inicia com uma grande esperança na mudança, mas que é abafada pelo eco das balas, por gritos de revolta, por ataques racistas e xenófobos, pelo fogo que consome os edifícios, e pelas alucinações provocadas pelo consumo exacerbado de drogas. Hoje olhamos para os anos 60 como uma referência social, política e artística, mas quais são as razões para esta comum comparação com atualidade? O que é que os Estados Unidos nos anos sessenta trouxeram ao mundo de tão especial? Terá valido a pena tanto esforço em assegurar a igualdade de direitos para todos os americanos? Cinquenta anos depois da morte de John Kennedy, as mudanças são visíveis em todo o território Americano, apesar das leis da igualdade não eliminarem o racismo, que ainda existe, as atitudes que manifestam este desagrado são singulares. De facto ao longo deste meio século existiram episódios de violentos confrontos raciais, onde se destacam os motins de 92 em Los Angels. Em Março de 1991, após um ataque de extrema violência de quatro policias a Rodney King ter sido filmado e transmitido pela imprensa em todo o mundo, surgiu uma onda de indignação universal face a esta

SÉCULO

agressão racista. Os quatro agentes envolvidos no caso são absolvidos no ano seguinte, originando uma série de manifestações que se revoltavam contra esta decisão do Supremo Tribunal Americano. No total morreram 53 pessoas durante estes motins e centenas de pessoas ficaram feridas. Quanto a danos materiais, estima-se que tenha havido prejuízos na ordem dos mil milhões de dólares. Posteriormente, dois dos agentes foram considerados culpados por violação dos direitos civis num tribunal federal e cumpriram pena de prisão. Os outros dois agentes foram novamente absolvidos e saíram em liberdade. Rodney King , em entrevista à CNN disse que havia perdoado aos seus agressores. “Porque os EUA me perdoaram inúmeras coisas e me deram numerosas oportunidades. Deve haver sempre lugar para uma segunda oportunidade e eu tive-a”, disse King, que foi detido uma dezena de vezes após os motins por transgressões menores. Mais recentemente , no ano 2008, Barack Obama, candidata-se à presidência dos Estados Unidos, na qual sai vencedor e assume a presidência do país no dia 20 de Janeiro de 2009. Foi, sem duvida, o

1, 2, 3 e 5 - Motinds de 1992 em Los Angeles 4 - Rodney King agredido por quatro polícias brancos

depois presidente mais festejado da história norte–americana mas interessa entender qual a importância da escolha de um negro para assumir o poder da Casa Branca, num país que já disseminou tanto ódio racial e tem na história organizações raciais como a Ku Kunx Klan. Não é exagero dizer que a eleição de Obama é das mais, se não a mais importante eleição dos Estados Unidos. Com uma história sempre associada ao racismo , devido às décadas de escravatura, e a privação de direitos às minorias até à década de 1960, Obama na presidência é uma sinal e uma força contra o racismo e a ideia de inferioridade racial. A origem de Obama também é um factor importante, pois sendo ele filho de pai negro e mãe branca (e mais tarde, seu padrasto asiático), é-lhe atribuído um carisma de líder unificador, que consegue ultrapassar todas as barreiras raciais e culturais. Sendo ele um militante do partido democrata, a sua eleição marca ainda uma mudança de ideologias do povo americano pois Obama vem assumir o cargo que ao longo de oito anos foi ocupado pelo republicano George W. Bush. O intelectual Afro-Americano melhora a imagem dos EUA no

mundo, quando decide romper com a era Bush e desfazer muitos dos erros diplomáticos do seu antecessor. A primeira medida foi a proibição da tortura e o fecho do centro de detenção de Guantánamo em Cuba, além disso anunciou a acelerou a retirada das tropas do Iraque, reformulou a proposta do escudo antimísseis na Europa, o que levou a uma nova aproximação com a Rússia. Estas atitudes fizeram-no ganhar o Prémio Nobel da Paz no primeiro ano do seu mandato. Há quem defenda que Obama é um Jonh Kennedy Negro, ou que é a junção de Kennedy e Luther King, e de facto é possível e lógico associar-mos estas três personalidades, pois têm imensos pontos em comum. Comparando os dois mandatos separados por 52 anos, observam-se factores comum aos dois presidentes, Kennedy foi o primeiro Católico a chegar à Casa Branca e Obama o primeiro Negro a conseguir tal cargo. Kennedy estava disposto a por fim À Guerra do Vietnam, Obama prometeu por fim à Guerra do Iraque. Até as ideias dos seu discursos são comparáveis e defensoras dos mesmos objectivos, JFK dizia no seu discurso de tomada de posse “My fellow Americans, ask not what your country

can do for you, ask what you can do for your country” e Obama usa como slogan da sua campanha política de 2008 “Yes We Can” e em 2012 quando é reeleito assume o compromisso de discutir com o seu principal adversário, Mitt Romney, maneiras de “fazer avançar o país”. Também a figura de Luther King, a sua vida e os seus ideais influenciam a presidência e a pessoa de Obama, e esta referencia é bem visível nas cerimónias da Presidência americana. Outros episódios de singular importância marcaram o período entre os anos 60 e a atualidade, uns positivos, outros negativos, mas o caminho para a igualdade está a ser trilhado a passos largo, e pode-se concluir que os anos 60 tiveram um papel importantíssimo nesta mudança. É de lamentar a morte de tantas pessoas que lutavam por uma causa maior, mas Luther King defendia que “Um homem que não morrer por algo não é digno de viver.”, talvez fosse mesmo necessário morrerem algumas pessoas para que este sonho se tornasse realidade.

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Meio Século Depois

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Yes we can

Presidente Barack Obama olha o quadro de John F. Kennedy de Aaron Shikler, Jan. 24, 2009

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Meio SĂŠculo Depois


Ultravox revista  
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