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รlbum fotogrรกfico


Editorial

A viagem pode ser uma das formas mais interessantes de introspecção.

Índice

Chegou, finalmente, a altura de vos mostrar o que andámos por cá a fazer.

03 Editorial

Em quarenta edições, foi para isto que todos os Directores desta Frontal trabalharam durante os seus mandatos: doze meses em que cerca de 40 páginas de revista vagueiam pela imaginação e criatividade de meia dezena de pessoas, por quem um dá a cara e a assina.

04 Mensagem da Presidente

A Frontal de Janeiro é sempre mais uma oportunidade de contar com os novos alunos. Poucos a conhecem, uma vez que a edição anterior é lançada quando ainda não fizeram o lendário exame 639 de Matemática A, mas suficientes para se chegarem à frente e dizerem “Conta comigo” com a mesma vontade que há três meses o “Sim, muito!” ecoava pelos claustros da nossa muy nobre. A Frontal gosta da Medicina. E a Medicina gosta da Frontal, portanto não deixámos escapar o tema para mais uma edição. “O Mundo na Medicina” foi o tema escolhido para fazer o perfeito oposto do que vos disse na primeira linha. Desta vez não vamos falar só sobre o que andámos cá a fazer. Pegámos na mala e entrámos num airbus trezentos e tal onde nos fizemos acompanhar das histórias do que a tua AE faz e o que aconteceu na FCM. Qual o destino? República Checa, Itália, Angola, Inglaterra e Barcelona. Uma única viagem em páginas que passaram também por Santo Tirso, a Zambujeira e uma conversa com o novo presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Ao comando foi a nossa imaginação, e assim chegámos a bom porto.

06 A tua AE 13 Aconteceu na FCM 18 Reportagem O Mundo na Medicina

28 Medicina & Investigação 32 Sê Frontal 34 Chill Out 38 Sai de Casa | Cartoon

Antes de acabar gostaria de agradecer a dois bons amigos, o Tiago Duarte e o Rui Malha. Foi o Tiago quem me convidou para esta aventura que, não sabendo bem o que me esperava, aceitei. O Rui é a pessoa responsável por deixar estas páginas com um ar impecável, que atura os caprichos de mexer o título 3,5 pixéis e com quem posso sempre contar. Tenho orgulho nesta equipa, e a maior confiança em ti. Passou um ano e duas revistas foram publicadas. Caros amigos, conto convosco para as próximas duas. Sê Frontal.●

Miguel Paiva

Ficha Técnica

Director da Revista Frontal

Os estatutos da Revista Frontal foram objecto de alteração. O novo Estatuto Editorial foi aprovado no dia 26 de Janeiro de 2009 em reunião de Direcção da AEFCML e está disponível para download em http:// ae.fcm.unl.pt Frontal Revista da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Médicas - nº 40, ano 26, Janeiro 2012 — Junho 2012 Director: Miguel Paiva Conselho Editorial: Ana Luísa Pereira, Diogo Carapito, Miguel Paiva, Sofia Cruz, Rui Malha.

Colaboraram neste número Ana Luísa Pereira, Ana Maia Martins, Ana Pãosinho, Ana Rita Neto, António Moreno Marques, Carla Simão, Catarina Perry da Câmara, Daniel Pinto, David Tanganho, Diogo Carapito, Francisco Valente, Gonçalo Coluna, Inês Ricardo, João Lopes Dias (Dr.), Mariana Simões, Miguel Henriques, Miguel Paiva, Miguel Seabra (Professor Doutor), Mónica Rafaela Araújo, Rui Malha, Sofia Cruz, Tiago Duarte e Vanessa Mendes. Edição e Propriedade AEFCML - Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa. Campo dos Mártires da Pátria, no 130 1169 056 LISBOA Telefone - 21 885 07 35 Fax - 21 885 12 20 aefcml@fcm.unl.pt | ae.frontal@fcm.unl.pt

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Capa e Contra-capa: Daniel Pinto Depósito Legal n.o 292101/09 Impressão e Acabamento Ind. Port. Tipografia Lda Lisboa Tiragem 400 exemplares Periodicidade Semestral Todos os artigos reflectem exclusivamente a opinião dos seus autores. Permitida a citação, ainda que parcial, de textos, fotografias ou ilustrações, sob quaisquer meios, desde que indicando sempre a sua origem.


Mensagem da presidente

por Catarina Perry da Câmara| 5º ano Presidente da AEFCML

C

vos contar o que me faz estar aqui. Ao fazer parte, no ano passado, do Departamento Pedagógico com a Liliana Antunes, representei a AEFCML no Conselho Pedagógico e no GTEM* e percebi que podemos melhorar o dia a dia do estudante, que felizmente já muitos dos problemas dos estudantes (no fundo posso chamá-los nossos!) chegam até nós, que as nossas vozes são de facto tidas em conta, que podemos fazer a diferença. O que vou dizer é tão cliché como pura verdade: A Associação de Estudantes está aqui para ti!

aríssimos colegas,

Escrevo-vos aqui pela primeira vez! Esta é a 40ª Frontal, continuando a ser o seu objetivo manter-vos informados e no interior de Santana. Refleti muito acerca do que vos ia escrever, é difícil dirigir-me a leitores com expetativas e padrões tão elevados. Depois dum breve resumo sobre o início de mandato, vou tentar tocar nalguns temas que considero importantes!

Outro assunto obrigatório de referir é o ensino. Em época de Reforma Curricular é premente sublinhar que os alunos são o veículo de crítica do ensino mais No dia 6 de dezembro tomámos posse com importante: a nossa obrigação é manter a exigência, já caras novas, várias ideias, muita motivação e com um que é esta que permite garantir e melhorar a qualidasorriso na cara por termos a honra e a responsabilida- de do ensino médico. O primeiro passo para o não de de vos representar. Antes de mais, como a proximi- progresso é o conformismo, há que acreditar que se é dade dos alunos e ouvido e tentar mudar. a promoção do A porta está aberta conhecido espírito para todos os alunos do “Pleasure in the job puts perfection in de Santana são Mestrado ou Doutoranossos motes, em mento: critiquem, sugithe work.” breve terás acesso ram e contem connosco Aristotle aos e-mails de cada para levar as vossas departamento e ideias em frente. entretanto envia email para aefcml@fcm.unl.pt preenchendo o assunto Chego agora ao estudante. O estudante de com o nome ou departamento de destino da tua men- medicina tem tendência a fechar-se sobre o curso, já sagem. Não hesites em contactar-nos! que este é muito absorvente, e acaba por deixar passar seis anos de formação sem voltar a pensar nos Vamos então ao texto! Inicio-o com o tema da seus objetivos de vida, não só nos relacionados com a revista – O Mundo na Medicina. Todos os dias somos sua área, mas também naqueles que estão para além bombardeados com a possibilidade de vir a ter que da medicina, noutras áreas de conhecimento, nos amitrabalhar fora da nossa zona de conforto que é Portu- gos, na família, etc. Ciências Médicas sempre primou gal. Se por um lado sentimos que é nosso dever ficar, pela diferença, por sermos conhecidos como estudanpor outro, pesando todas as circunstâncias e conside- tes completos, aliando o estudo e conhecimento ao rando o desemprego médico, não deixa de ser uma lazer e atividades extracurriculares. Não deixemos de hipótese plausível. Hoje em dia o mundo é o nosso o ser! limite e esta possibilidade é real e próxima. Aproveito para vos deixar uma sugestão que me fizeram há pouco tempo: Imaginem-se no primeiro dia Voltando a Portugal e à FCM-UNL, gostaria de do Internato do Ano Comum (“7º ano”) e pensem o 4


que gostariam de ver ao olhar para trás. Peguem numa caneta, escrevam tudo o que se lembrarem e partam para a ação. O amanhã é vosso!

experiências partilhadas pelos corredores da faculdade, até nos momentos de maior tensão e nervosismo à porta de mais um exame oral, onde falamos com caras que julgamos nunca ter visto antes. Com o estudante vem o seu dia a dia e neste Viver em Santana é sentir o Espírito de Santana, âmbito não posso é crescer com ele, amadurecer deixar de referir os e guardá-lo ad aeternum nas tempos difíceis nossas memórias, no nosso “The future belongs to those who que vivenciamos coração e, com muita nostalhoje. Sabemos que believe in the beauty of their dreams.” gia, relembrá-lo no Futuro, alguns alunos esse mesmo Futuro para que Eleanor Roosevelt” estão a passar grasomos preparados nesta muy ves dificuldades nobre Casa financeiras. Manteremos a discrição, vem ter connosPorque, afinal, sentir o Espírito de Santana é co. saber que lhe pertencemos." Finalizando, falo-vos do espírito de Santana. Será que é verdade que perdemos este espírito de sentido de pertença, entreajuda, cumplicidade e partilha de experiências e momentos pelo caminho? Eu acredito que não! De forma alguma! Aqui vive-se Santana: “Independentemente de novas reformas, novas pessoas... Santana tem e sempre terá a sua mística, algo transcendente e intocável para alguns, mas extremamente importante e compreensível para a maior parte de nós, que sorri quando se acerca do Campo de Santana e contempla nas costas de Sousa Martins aquele imponente edifício com letras enegrecidas pelo tempo, que nos faz sorrir ao ler “Faculdade de Ciências Médicas”; que nos faz ainda sentir aquele "frio na barriga" quando pensamos em todos os momentos e

Um agradecimento à minha querida amiga – Ana Cinza

Um grande beijinho, Catarina Perry da Câmara

*Grupo de Trabalho de Educação Médica da ANEM

Este texto foi escrito conforme o Novo Acordo Ortográfico.●

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a tua ae

II

Arraial de Medicina

A

rraial. Dotada da capacidade de nos transportar no tempo e no espaço, de nos inundar de memórias e encher de planos, seguramente que esta palavra produz um brilho especial nos olhos de qualquer um. Santana. Mais restrita, mas com toda a certeza cada vez mais promulgada aos quatro ventos, não é já apenas uma palavra, mas sim um símbolo que, admitamos, nos aquece o coração. Unamos agora as duas, e com certeza alguns dos melhores momentos dos últimos anos nos passarão pela mente à velocidade da luz: os copos, os amigos, a música, a libertação do corpo e da alma do nosso tão embrenhante e exaustivo curso. Pausas que podemos mesmo apelidar de zen e que potenciam o nosso amor à nossa casa, estreitam os laços com os nossos amigos, e nos oferecem risos e sorrisos que nunca esqueceremos. A História da nossa tão querida festa tem já muitos anos que contar, mas reza a lenda que as suas proporções se engrandeceram em 2008/2009, a cargo do Coordenador Recreativo Diogo Lopes, tornando-se o mega evento que conhecemos. E foi em 2009/2010 que, com um espírito de irmandade e vontade de trabalhar em conjunto, a Coordenadora Recreativa Inês Ricardo uniu esforços com os nossos colegas de Sta.Maria para realizar o primeiro Arraial de Medicina, êxito estrondoso e com continuidade até hoje, como todos sabemos. Ficou assim criado o binómio anual Arraial de Santana/Arraial de Medicina, sinónimos de diversão sem limite, companheirismo intrínseco e momentos eternamente marcantes. De suma importância é também nunca esquecer o que acontece nos bastidores, o trabalho dos elementos da Direcção da AEFCML e AEFML, bem como dos colaboradores 6

(sejam constantes ou pontuais), porque sem horas de esforço adicionais e horas de sono subtraídas, sem coesão, organização e sobre tudo vontade, não seriam possíveis essas fantásticas horas que com tanto gosto aproveitamos. E finalmente, a suprema questão, a inabalável verdade: O Arraial somos NÓS!!! Nós fazemos a festa, nós criamos o espírito, a presença de cada um é o que estimula a companhia do outro, e a alegria é tão inflamável que se propaga como fogo, unindo toda a comunidade estudantil num vibrante grito interior que, em parcas palavras, nos faz sentir bem. Por isso, lanço um apelo em jeito de desafio: vamos elevar esta nossa festa ao seu máximo esplendor, com a ajuda e presença de todos! Eu já lá estou, e tu?!●

por Miguel Henriques | 4º ano Dep. Recreativo da AEFCML


TWINNING PROJECT 2011 Lisboa

T

Szeged

ens espírito de aventureiro/a e gostas de conhecer novas culturas? Então o “Twinning Project” é para ti!

gria, uma só palavra para a descrever…ÚNICA! Seguramente uma das melhores experiências da minha vida. Fomos optimamente recebidos. Tivemos oportunidade de visitar Budapeste e fomos a banhos, numa das enumeras termas que existem. O irmão de um dos Twins era um dos sócios de uma das principais discotecas da Capital Húngara, portanto imaginem a nossa sorte pois eu não vou comentar ;)

Este ano, mais uma vez, a tua associação teve o prazer de realizar uma nova edição do Twinning Project desta vez com Szeged, uma cidade universitária no sul da Hungria. Para os mais distraídos este é um dos principais projectos da EMSA (European Medical Students Association), constituindo um programa de intercâmbio, organizado por toda a Europa, que tem como objectivo acoplar duas Faculdades como gémeas promovendo assim o intercâmbio de estudantes.

Quanto à cidade de Szeged, era uma cidade pequena mas com um espírito universitário gigante. Tivemos oportunidade de visitar o departamento de Anatomia Patológica, de Microbiologia e de Pneumologia e todas as noites eram animadíssimas. Todos os nossos Twins eram fenomenais, e proporcionaram-nos uma das melhores semanas das nossas vidas. Acho que mesmo sendo obrigados a beber “Palinka” todas as manhãs, que era hooooorrível ;), um género de bagaço Português, garanto que todos adoraram.

Foi com muito entusiasmo que abracei este projecto do qual fui coordenadora. Após reunir o grupo Português percebi de imediato que este seria um dos melhores “Twinnings” de sempre, pois todos eram fantásticos. Foi na primeira semana de Abril que recebemos em nossas casas os Twins. Foi uma animação! Tínhamos um programa cultural fantástico, e foi com muito orgulho que lhes mostramos quão bela é Lisboa. Agradeço muito à Prof. Dra. Madalena Esperança Pina que com toda a sua dedicação fez a apresentação da Sala dos Actos, que os Twins adoraram, e ainda ao Dr. Eduardo Barroso que muito gentilmente nos abriu as portas do Centro Hepato-Bilio-Pancreático e de Transplantação do Hospital Curry Cabral, fazendo uma breve apresentação do Serviço, que deixou os nossos Twins maravilhados.

Agradeço a todos vós esta experiência maravilhosa… Hiányzik●

Todos eles AMARAM o Mar e a praia… pareciam crianças a brincar na areia. Adoraram os nossos pratos tradicionais e até aprenderam umas belas expressões “tipicamente portuguesas”.

por Vanessa Mendes | 6º ano Ex- Vogal do Departamento de Relações Internacionais e Coordenadora TP 2011

Relativamente à nossa semana na Hun7


a Tua ae

DSRS U

m dos principais objectivos do Departamento de Saúde Reprodutiva e SIDA (DSRS) é a sensibilização da população para os diversos temas na área da Saúde Reprodutiva, já que, como estudantes de medicina, nos é reconhecida a credibilidade necessária para assumir esse papel. Procuramos promover uma sexualidade segura e consciente e, ao mesmo tempo, travar o crescimento do número de novos casos de doentes com Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). É precisamente com base nestas ideias, juntamente com o intuito de descentralizar estas acções de sensibilização, que a ANEM (Associação Nacional de Estudantes de Medicina) criou o DSRS on tour.

anos. Constatei que, na generalidade, as pessoas revelam mentalidades com muitos tabus e, particularmente em algumas escolas, denotou-se uma ignorância alarmante, que é sinónima de uma educação sexual que não está a decorrer de modo eficaz, e que justifica a necessidade de levar a avante projectos como este. Só para terem uma ideia: quando perguntei a uma turma o que se deve fazer quando uma mulher se esquece de tomar a pílula, eis a resposta dada prontamente por uma aluna: “Toma a pílula-dodia-seguinte!”. (Experiências como esta proporcionam situações muito caricatas!) Por outro lado, tive também a possibilidade de conviver com estudantes de outras faculdades, de lhes mostrar os segredos que a cidade guarda, com as suas pracetas e jardins de papoilas que convidam ao passeio, com os jesuítas (pastéis tradicionais) que agradam sempre os mais gulosos, e com tantas outras coisas que eu poderia referir aqui, ou não estaria eu a “puxar a brasa para a minha sardinha”!

O DSRS fez-se então à estrada, e na sua 6ª edição, a paragem foi Santo Tirso! O projecto decorreu no fim-de-semana de 14, 15 e 16 de Outubro e tinha um plano de actividades que estipulava a divisão dos participantes (vinte estudantes de medicina, de todas as faculdades do país, seleccionados por sorteio) em grupos e a distribuição dos mesmos pelos diferentes locais da cidade. Neste sentido, Santo Tirso foi indubitavelmente uma boa escolha para o local, não só pela calorosa recepção e apoio prestados pela Câmara Municipal, mas também por se tratar de uma cidade com várias escolas de ensino básico e secundário, centros de dia, lares de idosos e com um bom ambiente nocturno (neste último aspecto, fomos especialmente sortudos porque decorreu no dia 15 o concerto da banda “Amor Electro”, o qual proporcionou um maior movimento nocturno nas ruas). Tudo isto nos permitiu chegar a mais pessoas e, muito importante, permitiu-nos abordar todas as faixas etárias - desde os mais miúdos aos mais graúdos, ninguém ficou de fora!

Termino com a ideia de que o DSRS on tour me encheu a memória de boas recordações, com a convicção de ter desenvolvido aptidões que me serão úteis no exercício da medicina e com a expectativa de ter deixado a sociedade tirsense um bocadinho melhor! (Espero eu!).●

Quanto a mim, como sou natural de Santo Tirso, o DSRS on tour não me apresentou uma nova cidade mas revelou-me uma faceta desta que eu desconhecia e que é desacertada com o desenvolvimento que Santo Tirso tem experimentado nos últimos

por Ana Rita Neto | 2º ano Vogal Suplente AEFCML 8


U

m dia no Hospital da Bonecada é um dia diferente, um dia em que a tristeza, a solidão, a raiva ficavam em casa e a amizade, a alegria, a paz e o amor preenchia os corações de todas as pessoas que presenciavam o momento.

variados medicamentos e nas repetidas consultas mas apenas se baseava em xaropes de todos os sabores e mais alguns, duas ou três séries de inúmeros beijinhos durante todos os dias, muitos abracinhos e a promessa de um amor eterno. Tudo isto não só curava os problemas da altura como era um tratamento preventivo para toda uma vida completamente saudável.

Já perto do final do pequeno espectáculo, quem tinham sido curadas e tratadas eram as crianças, pois se estas pareciam tristes e tímidas no início, já estavam por esta altura, contentes e extrovertidas. Este dia pode ser visto como um pequeno A missão tinha sido cumprida… espectáculo de teatro em que toda gente teve um papel fulcral, não houve personagens principais, O dia tinha chegado ao fim, e não só os mais secundárias nem figurantes. As crianças eram os pais pequeninos tinham tido uma transformação completa que levavam os filhos ao médico. Os filhos eram como também nós, os mais crescidos, estávamos representados pelos pequenos ursinhos, bonecas ou completamente diferentes. Éramos crianças de novo. bonecos, conforme o gosto. E os míticos médicos com as suas batas brancas e estetoscópios ao pescoço éraEste dia foi enriquecedor de diversas formas, mos nós, os alunos de medicina da faculdade de ciên- quer para as crianças, no sentido em que perdem o cias médicas. medo da mítica bata branca; quer para nós na medida em que foi um dia marcado pelo regresso à infância. O teatro começa quando a criança entra na Relembra-nos o bom de ser criança e a saudade de sala com um olhar tímido e fechado, trazendo consigo todas as brincadeiras infantis. um pequeno ursinho já com o figurino vestido. Nós, os famosos jovens médicos fazemos um check-up ao A moral deste dia diferente é que o sério, por paciente: mede-se a temperatura, realiza-se uma vezes, também pode ser divertido, pois sorrir, rir e otoscopia e são detectados uma série de problemas. brincar, alegra-nos a mente, o coração e o estado de Chegou a hora de receitar…. espírito. Altera-nos por completo.● Mais uma vez, ao contrário da vida real, a cura de todos os problemas não estava nos mais 9

por Mónica Rafaela Araújo | 1º ano Aluna FCM-UNL


a tua ae

V

oltámos do ENEM (Encontro Nacional de Estudantes de Medicina) e a sentimento era unânime: vamos voltar!?

Sinceramente não percebia bem esta vontade porque todos tínhamos horas de sono para compensar e energias para recarregar. Mas sim, sem dúvida que queríamos voltar… Este ano coube-nos a nós, AEFCML, a organização do ENEM e assim este desafio foi lançado a 25 pessoas! O convite foi aceite com entusiasmo e com um sorriso na cara mas… o que significava mesmo fazer parte da CO-ENEM (Comissão Organizadora do ENEM)? Questionámo-nos se seríamos capazes de organizar um evento com a dimensão que cabe ao ENEM, se estaríamos prontos para uma actividade que abarca 600 alunos e tem carácter nacional, se

estaríamos a pensar em tudo, se teríamos soluções para os contratempos… fomo-nos questionando e foi essa incerteza e com a consciência do peso do desafio que tínhamos aos nossos ombros que trabalhámos durante quase um ano para que fosse um encontro inesquecível. O encontro foi na Zambujeira do Mar, no Zmar -Eco Camping Resort, um recinto ecológico com 81 hectares. Este espaço permitiu apostar nas actividades diurnas, que era um grande objectivo da COENEM. Foi com este objectivo que nasceu a grande novidade deste ENEM: o CAMPEONATO ENÉMICO. Quando chegaram ao recinto, os participantes foram distribuídos aleatoriamente por 12 equipas, sendo que cada uma tinha aproximadamente 40 elementos das diversas escolas médicas. Durante os 3 dias, o

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ENEM teve uma agenda preenchida desde os habituais torneios de futebol, basquetebol e paddle, a actividades menos triviais como circuitos de arvorismo, matraquilhos humanos, passeios de bicicleta, combate de laser, aulas de hip hop, salão e pilates!

parte na organização do encontro na escolha do tema da última noite. Foram lançados vários temas no Facebook e o comentário com maior número de “likes” foi o que deu nome à festa. Apesar do programa científico ter tido uma adesão surpreendente, do programa desportivo ter sido repleto de actividades radicais, ou das festas terem sido marcadas pela originalidade, o que caracterizou este evento foi o sorriso constante na cara dos participantes, o ambiente de diversão, de amizade e interajuda que se viveu no recinto do ENEM! A música do ENEM, a coreografia inventada pela COENEM, as histórias dos ursos, os snickers, as revistas oferecidas... Tantas pequenas coisas que certamente ajudaram a que voltássemos com a sensação que foi realmente um fim-de-semana inesquecível e que superou as expectativas mesmo daqueles que já as tinham num patamar elevado.

Este campeonato permitiu fomentar não só o convívio intra-faculdade mas também interfaculdades, foi uma ideia bem aceite e bastante apreciada pelos enémicos. Todas as actividades tinham uma pontuação atribuída e o campeonato só terminou no último jantar com a entrega de prémios à equipa vencedora. Além do campeonato enémico, outras surpresas marcaram a diferença do XXI ENEM e exemplo disso foi a sala lotada das conferências. O tema do programa científico foi “Into the mind” e contou com palestras que cativaram os participantes sobre os efeitos a longo prazo da anestesia, o uso medicinal de Cannabis, a influência da privação de sono na capacidade de decisão médica e terminou com uma palestra intitulada de Parafilias-sexualidade (in) visível.

Pensando bem, ainda que sem energia, afinal percebo porque queríamos todos voltar! Só quem lá esteve é que sabe realmente o que o ENEM é…●

Como não poderia deixar de ser, o programa social também foi recheado de ideias originais: à chegada, os enémicos foram recebidos com uma ‘’pool party’’ numa piscina interior com ondas. Preparámos festas temáticas como a ‘’Red party’’, alusiva ao Dia Mundial da Luta Contra a SIDA, a festa “Time goes back” em que pudemos encontrar desde homens das cavernas a rockeiros e terminámos com a festa “Like”. Este ano os enémicos tiveram a sua quota

por Inês Ricardo | 5º ano Presidente da CO-ENEM 11


a tua ae

“Liderança e Saúde”

É tudo à grande!”

3 pequenas palavras que descrevem os 3 dias fantásticos (e um pouco cansativos) que passei em Leiria, no VII Medscoop (Medical Students Cooperation Meeting) organizado pela Associação Nacional de Estudantes de Medicina.

com a convicção de um líder e, se tiverem sido decisões erradas, saber acartar com as consequências e aprender. Além disso, tem de saber comandar uma equipa de pessoas para que trabalhe em conjunto. Pessoas com feitios diferentes, com diferentes ideias e ideais, que reagem de maneiras diferentes consoante a situação e o estado de espírito em que se encontram. Não é um trabalho fácil, mas tem de ser feito e há que aprender a fazê-lo.

Mas nem só de liderança e workshops foi feito o Medscoop. Sim, os fóruns foram interessantes e aprendi imenso com os workshops em que participei, Sabendo que o tema principal deste encontro mas penso que o essencial deste encontro foi o seria “Liderança e Saúde” e iria assistir a variados poder conhecer e comunicar com outras Associações workshops durante o dia sobre de Estudantes os mais variados temas, fiz a e Faculdades “Um médico, normalmente, é visto viagem de Lisboa até Leiria apede Medicina como um líder e tem de ser um líder. do país. Estanas com uma vaga ideia sobre o que se iria passar neste enconmos sempre a Tem de saber tomar decisões, quer tro de estudantes. Nele se falou estejam certas ou erradas, sobre pres- aprender e, de muitos assuntos, desde a qual a melhor são e com a convicção de um líder...“ polémica que os novos cursos de forma de o medicina em Portugal estão a fazer se não a causar, até ao nosso futuro como médicos e como contactar com realidades um pouco diferentes da trabalhadores num país que enfrenta uma crise nossa, novas formas de trabalhar, novas ideias? imensa. Falou-se também (desta vez mais dentro do tema do encontro) sobre liderança e sobre líderes, Aprendi, discuti, diverti-me e conheci novas pois somos nós os próximos líderes deste país e des- pessoas e novas maneiras de pensar... Isto foi o te mundo em que vivemos. Medscoop.● Um médico, normalmente, é visto como um líder e tem de ser um líder. Tem de saber tomar decisões, quer estejam certas ou erradas, sobre pressão e

por Rui Malha | 3º ano Vogal do Departamento WID 12


Um olhar crítico dos novos alunos da FCM-UNL....

N

este momento, uma das grandes temáticas na faculdade é a nova reforma curricular que entrou em vigor este ano lectivo.

to talvez não seja o suficiente, pelo menos pelas vozes da maioria dos discentes. Contudo também existe um outro aspecto que é pouco falado é o facto de este novo programa implementar de forma mais intensa uma modalidade de ensino em que os alunos têm uma base de conteúdos a partir da qual desenvolvem o seu estudo, e que é exigida a todos, mas depois o aprofundamento desses conteúdos é feito segundo o critério do discente.

Como tudo na vida, há momentos em que temos que fazer um «refresh», e efectuar pequenas mudanças para que as coisas corram melhor, e parece-me que o mesmo acontece com este curso de que todos tanto gostamos. Muito se fala acerca dos motivos que desencadearam esta reforma, mas na minha opinião penso que isso não é o mais importante, pois aquilo que é a realidade é que entramos numa nova «era» e teremos que nos adaptar a tal. Essa adaptação pressupõe uma análise concreta e concisa do programa e que não o critiquemos simplesmente.

Talvez o grande problema passa pelo facto do ensino secundário não dar uma preparação nesse tipo de ensino, que é sobejamente praticado noutros países como EUA ou Inglaterra, e provocando assim uma grande assimetria entre o ensino secundário e o ensino universitário.

Neste sentido e fazendo uma análise muito geral do mesmo há aspectos positivos que podemos retirar desde logo. Assim, por uma lado passamos a ter a possibilidade de ter uma UC de doente Emergente e Crítico que terá diferentes variantes ao longo do curso, começando desde logo com SBV este ano, como se sabe, e que é bastante importante pois dá um contacto muito precoce com situações que iremos enfrentar na nossa vida enquanto futuros médicos. Por outro lado passamos a ter uma UC em que somos ensinados, ainda que teoricamente, na forma como lidar com os pacientes e ouvindo relatos das mais variadas fontes, que nos enriquecem tanto pessoal como profissionalmente. No que toca as duas grandes UC do 1º semestre também penso que podemos tirar aspectos positivos, nomeadamente pela forma como podemos retirar uma integração de conhecimentos, no caso da UC TCM com a junção de conteúdos de antigas disciplinas que eram leccionadas isoladamente, e no caso da UC Anatomia pelo facto de podermos tirar uma visão conjunta de todo o corpo humano com todos os seus constituintes.

Para terminar penso que como futuros médicos devemos ter uma maior preocupação em aproveitarmos o curso retirando o maior proveito, entenda-se conhecimentos e experiência, de cada UC e não limitarmo-nos a criticar o que é novo simplesmente porque representa a mudança. Temos que pensar que ainda que existam aspectos a melhorar, o mais importante é não perder o gosto pela ciência e por aprender, o que não se resume somente a estudar conteúdos para exame, e nessa medida não se deve cair na crítica negativa mas sim realçar aquilo que é positivo e melhorar aquilo que é preciso. ●

É claro que como todas as mudanças existem aspectos que têm que ser melhorados, nomeadamente, o tempo que na UC de Anatomia existe para sistematizar todo o conhecimento, e que de momen-

por Gonçalo Coluna | 1º ano Aluno FCM-UNL 13

aconteceu na fcm

, o mesmo curso?


aconteceu na fcm

D

e

acordo

com

o

co vou ser eu, se não tiver as bases essenciais da anatomia do corpo humano? De acordo com o discurso

Despacho

da Profª Drª Patrícia Rosado Pinto na aula de Introdu-

n.º

ção à Medicina do dia 20 de Outubro de 2011,

10378/2011, a Faculda-

“aprender é um processo construtivo” e a velocidade

de de Ciências Médicas

de ensino não é equivalente à velocidade de aprendi-

da Universidade Nova

zagem, pelo que a falta de tempo pode condicionar

de Lisboa propôs-se a

uma deficiente aquisição dos conteúdos.

“criar uma nova dinâmica a nível da estrutura curricular do ensino pré-graduado” porque constatou “que o plano de estudos do mestrado integrado, que entrou em funcionamento no ano lectivo de 2007 2008, se encontrava desfasado face aos desafios actuais do ensino médico”. Sob o ponto de vista da maior parte dos alunos que ingressaram o primeiro ano do Mestrado Integrado em Medicina nesta faculdade, a mudança não

Outro ponto importante é a dificuldade encontrada na conciliação das UC- Anatomia e UC-TCM, as quais possuem exactamente o mesmo valor em ECTS. O que se verifica é que a preocupação dos alunos em manter actualizada a matéria de Anatomia limita o tempo disponível para o estudo de TCM. De uma maneira geral, e no meu ponto de vista, a adopção do novo currículo não tem sido, até ao momento, uma mudança marcadamente positiva. A adaptação

foi positiva. O principal alvo de muitas das críticas feitas pelos estudantes foi a Unidade Curricular de Anatomia. O grande dilema surgiu: qual a possibilidade de condensar duas cadeiras com a duração de dois semestres cada

“A adaptação dos alunos tem sido difícil e, durante as primeiras semanas, os próprios docentes admitiam estar a leccionar “à experiência”“

uma, numa única cadeira com a duração de um semestre? De facto, a proporção entre a matéria a leccionar e o tempo disponível para o fazer, tornouse, no mínimo, assustadora. Habituados a conseguir os melhores resultados e a ter um desempenho

dos

alunos tem sido difícil e, durante as

primeiras

semanas,

os

próprios docentes

admitiam

estar a leccionar “à experiência”. Talvez nós, estudantes do primeiro ano, não estejamos habituados a tanta pressão e ao maior volume de matéria e, talvez, faça tudo parte de uma adaptação à vida académica.

exemplar nas diversas disciplinas do Ensino Secundá-

É muito provável que esta “nova dinâmica”

rio, alguns alunos viram comprometido o seu sucesso

seja um importante avanço no ensino da Medicina e,

na UC-Anatomia, já que a celeridade com que a

a longo prazo, apresente os resultados esperados

matéria é leccionada não permite a consolidação dos

mas, por agora, a expectativa mantém-se: que tipo

conhecimentos adquiridos ao longo das aulas. Apren-

de médico serei eu daqui a seis anos? ●

de-se Anatomia a um ritmo alucinante que não permite a retenção dos conteúdos e dos pormenores considerados imprescindíveis no plano curricular

por Mariana Simões| 1º ano Aluna FCM-UNL

anterior. Há um sentimento de receio e inquietação por parte dos alunos, que se questionam: que médi14


E

m Setembro iniciou-se na nossa muy

cadeiras semestrais e, se por um lado, este aspecto

nobre Faculdade de Ciências Médicas um

foi positivo, porque a nossa carga horária semanal

novo ciclo, com a mudança do plano de

foi reduzida (visto que existem menos cadeiras por

estudos que assenta numa série de altera-

semestre), por outro, tornou cada cadeira mais

ções.

“pesada” e a velocidade da matéria leccionada muito superior.

Em primeiro lugar, a inclusão de disciplinas opcionais que é muito vantajosa na medida em que

No geral, e apesar de todos os problemas que

nos permite ter cadeiras que sejam úteis para o que

têm surgido, considero este plano uma evolução no

pretendemos seguir dentro do curso e ainda, que se

sentido positivo, visto que nos permite ter um con-

adeqúem melhor à nossa personalidade e preferên-

tacto com a prática mais cedo e as cadeiras se

cia pessoal.

encontram melhor distribuídas e articuladas.●

Depois a inclusão de cadeiras mais “práticas” logo a partir do primeiro ano de curso, como SBV e Introdução à Medicina, esta segunda permitiu-nos fazer uma visita a um serviço de saúde, o que, por um lado, foi extremamente motivante e por outro, permitiu-nos conviver um pouco com aquilo que vamos fazer no futuro e perceber como funcionam as coisas. Por fim, outra grande alteração do programa é

por António Moreno Marques| 1º ano Aluno FCM-UNL

o fim das cadeiras anuais passando a existir apenas

15


aconteceu na fcm

M

ais um ano decorrido e mais um Congresso iMed – Inovar a Medicina é organizado pela AEFCML, desta feita a sua 3ª edição.

Assim, após uma breve sessão de abertura, iniciaram-se os trabalhos com a Sessão de Oncologia. Sábado foi dia de Trauma/Urgência, Neurociência e Cirurgia Plástica. Para além de oradores provenientes dos mais variados locais do País, contámos pela primeira vez com um orador do estrangeiro, mais concretamente de Liverpool, Inglaterra, internacionalizando e reafirmando a qualidade desta iniciativa, sendo uma mais valia para todos os participantes.

Nos últimos anos a Terei que escolher duas ou três palestras que AE assumiu a vontade e foram muito bem recebidas pelos participantes, dirigiu esforços para como comprovam a quantidade de perguntas feitas aprofundar o conhecimento e as competências dos no final ao interlocutor. Assim, “Tecnologias inovadoestudantes da FCM. Entre outros projectos com este ras no AVC agudo” pela Dr. Isabel Fragata, fim, o ex-líbris é este congresso, onde se pretende “Tratamento da espasticidade na paralisia cerebral” – trazer até ao Campo de Santana alguns dos oradores Dr. Miguel Casimiro e a “Biomodelação 3D na reconsque mais contribuem para a inovação nas ciências trução da mandíbula” pelo Dr. Horácio Zenha, todas biomédicas e alguns dos avanços mais prementes e recaíram em factos e técnicas inovadoras e que revopromissores. Este ano lucionam já nos consideramos a nível dias de hoje a vida “Neste que é um grande projecto da colectivo, mas tamde muitos doentes AEFCML, sentimos que mostramos a bém através do feednos Hospitais Pornossa competência e trouxemos a back dos aproximadatugueses. mente 160 participan- possibilidade a todos os nossos colegas de Transversaltes e 16 oradores, que complementarem a sua formação mente a todo o subimos um nível nos curricular...“ congresso existiram temas que incidimos. este ano 2 concurMantendo uma exímia e sempre próxima Comissão Organizadora, onde os sos: o já conhecido Clincal Mind Competition coordepormenores são valorizados, apostámos nesta edição nado pelo Dr. João Sequeira e o inovador CMC para em quatro vertentes, quatro especialidades/áreas anos básicos, pelo Prof. Doutor Carlos Filipe. Enquanque, por tradição, acolhem as preferências dos nos- to o 1º acabou por reunir poucas participações, o sos colegas, saindo de um modelo estanque de áreas segundo foi um grande sucesso. Tendo em vista o paradigma do raciocínio e da medicina devidamente gerais de intervenção. 16


fundamentada, sentimos o peso e a importância destes dois concursos, por serem um complemento importante neste congresso, mas também por impulsionarem uma postura activa e não apenas uma recepção estanque de informação, durante o fim-desemana. Terminámos, então, o segundo dia do Congresso com um jantar de Gala no Hotel Vip Arts Executive, fomentando a interacção social e onde divulgámos os vencedores dos concursos, para além da atribuição de alguns prémios surpresa. Domingo ficou reservado para a maioria dos Workshops. Este ano trouxemos mais Workshops, num total de 10, em temas mais diversificados e interessantes. Entre os demais, saliento apenas “Raciocínio Clínico – Casos com o Dr. Vítor Brotas”, “Medicina Chinesa” e “Primeiros Socorros Pediátricos”. Inovámos trazendo a possibilidade de 10 participantes de conhecer as mais recentes actualizações no campo da Cirurgia Minimamente Invasiva, através de um Workshop no Hospital da Luz. Infelizmente, o concurso de posters de projectos de investigação científica aberto em Junho recebeu apenas duas candidaturas, facto que inviabilizou a sua concretização. Agradeço pessoalmente o interesse destes dois participantes a quem convido desde já a exigirem que a próxima edição traga novamente esta possibilidade, seguro da importância académica e pessoal que uma exposição do seu trabalho trará.

17

Em suma, foi um fim-de-semana intenso, com oradores de grande qualidade, participantes interessados e interventivos e o sentimento, entre nós, que a grande maioria dos objectivos propostos foram atingidos. Agradeço prontamente a toda a Comissão Organizadora, exemplarmente liderada pelo meu bom amigo Tiago Pack, pela audácia, desempenho e espírito de sacrifício. Deixo igualmente o meu sincero agradecimento a todos os nossos parceiros, por desde o início do mandato acreditarem nesta actividade organizada por estudantes, para estudantes. Finalmente à Faculdade de Ciências Médicas por nos ter aberto, mais uma vez, as suas instalações e pela ajuda científica dada ao projecto. Neste que é um grande projecto da AEFCML, sentimos que mostramos a nossa competência e trouxemos a possibilidade a todos os nossos colegas de complementarem a sua formação curricular, em última análise, uma das razões pela qual esta Associação existe desde 1979. Vemo-nos numa próxima edição, sedentos por mais inovações na nossa ciência. Muito Obrigado.●

por Francisco Valente | 6º ano Presidente da Mesa da Assembleia Geral


N O D UN

M O

uma reportagem sobre quem foi lĂĄ fora, viveu e aprendeu e textos de quem trouxe experiĂŞncias para partilhar


NA

A N I C I D E M CINCO DIVAGAÇÕES SEDENTÁRIAS por Ana Maia Martins PRAGA - UM VERÃO PARA RECORDAR por Carla Simão MEDICINA ANCHE SI SCRIVE MEDICINA por Tiago Duarte

sem título por Dr. João Lopes Dias APRENDER “LÁ FORA” por Ana Pãosinho BASTAM APENAS UM PAR DE PÉS E UMA CÂMARA FOTOGRÁFICA PARA CONHECER UMA CIDADE EM 24 HORAS por Diogo Carapito


TEMa de capa

S

CINCO DIVAGACO S “You have just received your electronic CARD OF ACCEPTANCE for the IFMSA Research

Exchange

Programme” - um simples conjunto de traços pretos que em jeito de felicidade mergulharam no meu mês de Julho e me fizeram gritar “Um

brinde”!

Estava assente, o meu mês de Setembro seria

o passar dos dias

“Cinco divagações sedentárias sobre a condição do viajante em viagem solitária e independente, nos cinco aspectos que melhor definem os contornos das memórias, que mais assombram depois o regresso. São eles: as fronteiras que cruza; a bagagem que transporta; o alojamento que escolhe; os meios de transporte que usa; os encontros que faz.” Gonçalo Cadilhe

passado na República

fui descobrindo o quão maravilhoso era aquele pequeno

local.

Cedo

comprei uma bicicleta azul que veio alimentar a minha vontade de viver numa cidade em que o meio de transporte

por

excelência seja a bicicleta (ai as colinas

lisboetas!).

Checa. Iria passar 30 dias numa cidade longínqua de

Com ela percorri diariamente a cidade e explorei os

nome impronunciável, 30 dias a acompanhar um

bosques e lagos lindíssimos que a envolviam. Para

projecto de investigação na área da Fisiopatologia e

mais, conheci novos amigos com os quais partilhei

30 dias a acompanhar o meu próprio projecto de

não só a língua e cultura inglesa mas também a

investigação como viajante.

eslovena, espanhola, checa, indiana, mandarim, entre outras. É incrível como uma cidade que até

Fui

colocada

num

projecto

intitulado

àquele momento nunca tinha para mim sequer exis-

“Electrophysiological examination of the central

tido, se consegue tornar numa casa acolhedora em

nervous system (EEG, evoked potentials)” no depar-

apenas um mês.

tamento de Fisiopatologia da Charles University em Hradec Králové. Não fazia ideia da cidade que me

No departamento de Fisiopatologia fui rece-

esperava e apenas calculava qual seria o meu papel

bida de modo caloroso. Felizmente a maioria das

na referida investigação. A impressão inicial foi no

pessoas no departamento falava fluentemente

mínimo estranha: a cidade era bastante pequena e

inglês e todas mostravam ao ensinar o mesmo

o inglês não era certamente a língua de eleição

entusiasmo que eu sentia ao aprender. Ao início,

(nunca tinha sentido a linguagem gestual como um

assisti diariamente a alguns Electroencefalogramas

meio de comunicação tão essencial!). Contudo, com

e a diversos “Visual Evoked Potentials”, um exame

20


|

OES SEDENTARIAS complementar de diagnóstico que analisa a activida-

esta mochila. O resto está por descobrir!”. Dormi em

de electrofisiológica do nervo óptico. No final, tive a

hostels onde o ambiente chamava à conversa e ao

oportunidade de organizar o meu próprio estudo,

convívio entre nações, e em comboios e autocarros

recolhendo uma amostra simbólica de cinco pessoas

cruzei paisagens e florestas cuja beleza reduzia os

(entre as quais amigos, pessoal do departamento e

quilómetros a tempo bem passado.

eu própria) aos quais fiz o exame. Analisei posteriormente os resultados a nível estatístico e organizei a

Voltei no início de Outubro ao meu saudoso

informação de modo a poder eventualmente ser

Portugal cheio de calor e de sol. Trouxe comigo

utilizada em estudos futuros realizados pelo depar-

memórias de ténues fronteiras, de simples baga-

tamento. Para além de ter aprendido muito sobre a

gens, de criativos hostels e de longas viagens. Mas

área em questão, ainda pus em prática o que apren-

quando recordo estes 30 dias, é de encontros que se

di e descobri que tenho um nervo óptico anormal-

enchem as minhas memórias. A República Checa

mente rápido. Voltei com um certificado na mão e

está longe, mas recordo estes encontros sempre que

um grande orgulho face à descoberta do meu nervo

mergulho nestas minhas divagações sedentárias,

veloz!

como viajante independente mas nada solitária. ● Concretamente, ao analisar o meu mês de

Setembro, posso afirmar que vivi um meio-termo entre a vida de Erasmus a vida de Interrail. A verdade é que não escolhi a República Checa por acaso. Um país com boas faculdades de medicina. Um país pequeno no meio de muitos outros países. Um país no centro da Europa onde as fronteiras são ténues e a história construiu uma cultura enriquecida por muitas nações. Aproveitando cada fim-de-semana, cruzei a fronteira Checo-Polaca, Checo-Austríaca e Austrio-Eslovaca e explorei todas as cidades checas que o tempo me permitiu. Sempre com uma simples mochila às costas, roupa básica à sobrevivência e Fernando Pessoa sempre presente para apaziguar por Ana Maia Martins | 3º ano Vogal do Departamento de Saúde Reprodutiva e Sida

eventuais momentos de saudades à pátria. A sensação maravilhosa de pensar “Neste país, sou só eu e 21


TEMa de capa

PRAGA... Um Verão para recordar...

S

COPE, SCORE, IFMSA são as palavras-

Este ano, decidi dar um rumo diferente ao meu

chave que te dão acesso a um verão

verão, aproveitar o meu tempo de férias para aprofun-

diferente e uma oportunidade única

dar o meu conhecimento, melhorar as minhas compe-

a nível académico e pessoal.

tências clínicas e contactar com uma especialidade

Para todos os que desconhecem esta oportuni-

médica menos explorada no nosso curso – Cirurgia

dade que a tua Associação de Estudante concede, a

Plástica e Reconstrutiva. Por isso, dediquei um mês e

IFMSA (International Federation of Medical Student’s

voei até à República Checa, mais propriamente Praga.

Associtions) é a maior organização de estudantes

Desde o primeiro contacto no início do ano lecti-

médicos a nível mundial. Fundada em 1951, actual-

vo, para selecção e programação do estágio, senti que

mente representa 93 países e fazem parte mais de 100

todo o processo se encontra extremamente bem orga-

organizações nacionais, nas quais se incluem impor-

nizado. Existe um grande nível de competência por

tantes e reconhecidas escolas médicas a nível mundial.

trás de todo o processo, quer no teu próprio país, quer

Através da IFMSA é possível realizares um estágio quer

no país acolhedor.

na área clínica, quer na área de investigação.

É surpreendente como todo o processo de recepção, orientação e facilitação da comunicação com os tutores, bem como o acompanhamento da logística do alojamento, decorre extremamente bem. Pegando na minha experiência pessoal, considero ter sido uma mais-valia em termos académicos. Os tutores eram médicos que se encontram associados à Charles University of Prague e que, habitualmente todos os anos, no período de verão, recebem estudantes vindos de todo o mundo para realizarem o seu Exchange Programe. Assim sendo, existe uma excelente comunicação entre tutor e aluno, além de que o interesse e disponibilidade para ensinar é permanente. Durante todo o estágio, houve um estímulo para o ganho de autonomia, no que respeita à realização de 22


pequenos procedimentos cirúrgicos (como os vários

sorrisos é uma pequena parte do que espera. Quando

tipos de suturas) bem como a participação nas cirurgias

olhas para o teu calendário percebes que já passou a

como 1º e 2º ajudante.

semana um... semana dois... semana três... e já chegou a

As semanas são partilhadas entre o despertar matutino para acompanhar a pontualidade e rigoroso

semana quatro. Neste momento os sorrisos são misturados com as lágrimas de saudade e os abraços genuínos.

horário de todos os tutores, e os belos finais de tarde na

Com o log book assinado e o certificado na mão,

deslumbrante cidade de Praga com a companhia dos

regressas ao teu país natal com a boa sensação que para

restantes estudantes de intercâmbio.

trás, e espalhados por cada canto do mundo, estão ver-

Como seria de esperar somos muitos os que esco-

dadeiros amigos.

lhemos Praga como destino. O clima de amizade e com-

É esta pequena partilha que nos permite por um

panheirismo que se gera entre todos é confortante, e o

lado abrir portas e janelas a novas oportunidades, por

factor facilitador de nos encontrarmos todos alojados na

outro perceber porque o mundo se torna tão pequeno.

mesma residência de estudantes é um aspecto bastante

positivo. Além do programa científico, existe um programa

por Carla Simão | 6º Ano Aluna da FCM-UNL

social preparado especialmente para nós. A troca de experiências, a partilha de costumes, as gargalhadas, os

23


TEMa de capa

estudar pelos livros. Eles próprios primam a teoria em detrimento da prática. Ainda não lhes ensinaram que “o médico que só sabe medicina, nem Medicina sabe”. Os que, de facto, querem estar nos estágios têm muito que ver, e, com uma dose de sorte, fazer. Agarrando na massa estudantil, e dissecando com o rigor plástico possível, vemos alunos muito estudiosos, com grande capacidade para fazer exames, conquanto desprovidos de inteligência táctica e emocional. Mas não deixam de ser vítimas de um sistema iao a tutti! que lhes veta a verdadeira experiência prática, dado que inclusive as próprias dissecções anatómicas didácÉ assim que se começa. Cumprimentos! O ticas, que se iniciaram em Bologna no início do século que me traz aqui hoje? Duas doses de par- XIV, já não se realizam neste século, XXI. tilha, uma fatia de crítica e uns grãos de observação, simples. Os exames são, regra geral, orais. No decorrer do curso os estudantes deparam-se apenas com 4, 5 A pergunta de hoje, para o prémio de 100 mil exames por escrito. Quanto ao ingresso na especialieuros, é: “Em que medida Itália difere de Portugal, no dade, em Itália, O exame não tem uma quota tão barque à Saúde respeita?” - Challenge accepted! riguda. De facto, uma percentagem é dedicada à média de curso, à tese – preferivelmente na área em Comecemos pelo que tem de igual. que se pretendem especializar - e às publicações feiMedicina, em Italiano, também se escreve tas (valorizáveis até um máximo de 6, ponderadas Medicina. Também há Terra. Mar. Pessoas. Doenças. com 3 valores na nota final). Assim, o próprio curso é Médicos. Doentes. Afinal, tudo parece igual. Por ter- um trilhar de opções rumo à especialidade que lhes ras de Júlio César também se adoece. Também há lis- enche as medidas. tas de espera. Tambem há um curso de Medicina de 6 As urgências, ora bem, são menos povoadas e anos. Também há ambulatórios, também se dá uso aos bisturis. Também há crise, também há Primeiros- barulhentas, assim como as listas de espera, que priMinistros que se demitem, também há hospitais que mam por serem ligeiramente mais magras. Os doenfecham e outros que abrem. Em suma, “Também” é tes, esses, apresentam-se mais informados, mesmo os uma palavra que aqui soa bem, também. Mas tam- de idade mais avançada, sobre a(s) sua(s) condição (ões). Pelo que aos médicos é permitida (e exigida) bém o quê? Ora, ci sono anche alcuni differenze. uma explicação mais científica das patologias. Durante o curso, os estágios e as práticas são Assim, damos por nós a sorrir quando chamam sempre de manhã, com as respectivas teóricas à targamba à perna, testa à cabeça, fronte à testa ou pande, para todos os anos. É possível, e com uma regularidade espantosa, ver alunos no 6º ano com cadeiras cia ao abdómen. Em Itália também se morre, mas do 1º, 2º e sucessivos anos, por terminar. Há alunos também se ganha vida. no 6º ano com Anatomia Patológica e Histologia por Arrivederci. ● deslindar. Não existe aquela subtil linha do horizonte que o nosso estudante salta para alcançar o patamar do Ciclo Clínico.

MEDICINA anche si scrive MEDICINA

C

Os alunos do tirocinio (estágio), mesmo que no 6º ano, não apresentam as skills, no que a procedimentos diz respeito, necessárias para ingressar na profissão. Até mesmo porque, apesar de os estágios se alongarem entre as 8 e as 13h, viram costas ao serviço às 10 ou 10:30h se lhes for permitido, para ir

24

por Tiago Duarte | 4º Ano Aluno da FCM-UNL


L

una era o nome da menina que todos os dias me chamava pelo nome e me esperava à saída da carrinha branca, quando chegávamos à Funda, a umas dezenas de quilómetros de Luanda. De entre todos os miúdos que corriam atrás das fotografias e se empoleiravam nas nossas costas, ganhei um carinho especial por ela pelas suas tranças, pelos seus pés descalços, pelo olhar fugidio e pela barriga volumosa que se destacava do corpo emagrecido. Era indubitável o meu interesse pela eventual esplenomegália da Luna, tal como era sincero o meu sorriso ao vê-la acenar-me com os braços vestidos de pulseiras despidas de missangas e correr, dia após dia, com a mesma saia desbotada de azul. Estagiar um mês em Angola foi uma oportunidade única para enriquecer um curso de Medicina que, paulatinamente, se foi deixando arrastar e sustentar por picos temporários de motivação, principalmente no último ano, em que o exame da especialidade se afigurava como meta próxima. A ideia de voltar destas estadias com uma mão cheia de fotografias memoráveis pode ser impulsionadora para alguns, mas para nós, os seis sôfregos quase-médicos que se aventuraram na Saúde Pública, foi um mês de empenho e, acima de tudo, de estruturação pessoal e contextualização social e política. É claro que compreender, à luz de tubos de ensaio, o que outros

entendem com a tradição foi motivador. É óbvio que construir ortofotomapas e circunscrever possíveis focos infecciosos teve a sua importância, tal como é evidente que contribuir para o estabelecimento de uma pequena mas fulcral sala de estomatologia teve o seu impacto no grupo. Apenas isso, porém, não terá bastado. E estou certo de que todos continuamos a medir, saudosa e emocionalmente, os efeitos que (o envolvimento histórico, político e social de) Luanda desencadeou em cada um de nós. As descrições que, mais tarde, li num livro do Pepetela foram de tal forma fielmente reconhecidas, que ainda hoje nutro a ilusão de que palmilhei, num mês apenas, todo o macadame de Luanda e arredores. Foi a minha primeira viagem a um país dito do Terceiro Mundo e não foi, nem podia ter sido, uma viagem essencialmente turística. O certo é que, mais tarde, já como ex-quase-médico, Bolívia, Peru e Índia não foram vistos por olhos de turista apenas, porque não se pode ser só turista depois de se fazer sala em casas de pau-a-pique, beber sumo de marula, ser interno de curandeiras e demorar três horas a percorrer, de carrinha branca, com o Senhor Gil a conduzir, um quilómetro de estrada lotada de condutores anárquicos. É-se mais qualquer coisa. Ainda não sei bem o quê. Talvez tenha sido Luna…●

25

por Dr. João Lopes Dias Interno de Radiologia do H. S. José


TEMa de capa

não falta tema de conversa, numa espécie de despique de histórias mirabolantes. Chegou então o ansiado primeiro dia… Era o medo de uma turma nova, da língua, dos termos e

APRENDER “lA FORA”

sobretudo da especialidade nova, Urgência e Emergência. As três semanas no departamento passaram

/

a correr e a hesitação inicial desvaneceu-se com a ajuda das equipas de urgência e colegas de turma. Entre workshops, simuladores, cursos e dias passados nas urgências, ainda houve tempo para algumas saídas e passeios por Inglaterra, desde Manchester a Oxford.

C

onfesso-vos que a última coisa que queria

Não chegam estas linhas para descrever tudo o

antes do ano do aterrador exame do Har-

que vivi. Aprendi muito, fruto sobretudo do desafio

rison era trabalhar nas férias. Mas a ver-

que é estar sozinha num departamento que deposita

dade, é que com o passar dos dias, a ideia

responsabilidade em nós, ao invés do que por vezes

dos intercâmbios foi crescendo e comecei a vê-los

por cá acontece, a secular arte de “segurar paredes”.

com outros olhos. O ver como é “lá fora”, o apren-

Mas foi com orgulho que constatei que o que por

der sem compromissos, e o bónus de um passeio,

aquelas aulas se perguntava, numa qualquer aula

pareceram-me os ingredientes perfeitos para

portuguesa se responderia. Não é só “lá fora que é

umas “férias” de sonho. Já com a “papelada”

bom”, nós também o somos.

tratada e por entre a habitual azáfama dos estágios, dei por mim com um pé num

Os intercâmbios clínicos foram sem dúvida

avião rumo à terra de Sua Majestade.

uma mais-valia, não só profissional como pessoal. Sou hoje melhor “estudante de medici-

À chegada da pequena cidade de

na” porque tenho mais segurança no que sei

Leicester que me acolheria, os receios e

pela confiança que depositaram em mim.

perguntas que cresceram com as horas

Amadureci e fiz amigos para a vida.

de viagem desvaneceram-se com o sorriso acolhedor de Natalie, a minha

Se iria outra vez? Num abrir e fechar

“buddy”. Após as habituais apresenta-

de olhos.●

ções e os companheiros de intercâmbios chegados, já se conversava como colegas de longa data, porque se há verdade universal, é que entre alunos de medicina

por Ana Pãosinho | 6º Ano Aluna da FCM-UNL 26


] s a n e p a _ m a t s Ba

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A

ssim que se pega numa pequena mochila e se parte para a aventura nas ruas de Barcelona, há três coisas obrigatórias para qualquer turista: Las Ramblas, a mítica avenida onde de tudo se pode encontrar, Gaudi, o arquitecto que deixou várias pérolas espalhadas ao longo da cidade e os Jogos Olímpicos de 92, realizados no estádio de Montjuïc. O meu objectivo era conseguir visitar o máximo de locais possível em 24 horas, a pé. De manhã saio para a Las Ramblas, cheia de gente, peças de arte, bugigangas variadas, homens estátua, esculturas de papel higiénico construídas com ventilação. Ao fundo, junto ao mar, surge a estátua de Cristovão Colombo. Na outra ponta da Las Ramblas, encontra-se a “Times Square” de Barcelona, a Plaza de Catalunya. É perto desta praça onde se podem encontrar três El Cort Inglés com meia dúzia de passos.

Procuram-se agora as torres da Catedral que se elevam acima dos edifícios da cidade: a Sagrada Família possui um ar ainda mais imponente do que as imagens podem transmitir. Expoente máximo da arquitectura de Gaudi, numa mistura de Gótico e Art Nouveau, começou a ser erguida em 1982, e continua actualmente, sem fim à vista. A sua construção já se prolonga há tanto tempo que é possível distinguir pela cor as pedras mais novas e mais antigas. O artista une a Natureza e a Religião, Geometria e simbolismos, espalhando ao longo de toda estrutura, árvores, lagartos, caracóis, tartarugas a suportar colunas, alphas, omegas, e ainda um Cristo num estilo claramente cubista. Já a noite começa a espreitar quando chego a Montjuïc, montanha junto ao mar onde se encontra o estádio olímpico e a famosa tocha olímpica, que foi acesa em 1992 pelo atleta paraolímpico Antonio Rebollo com um tiro de arco e flecha. E para terminar a noite em grande, junto às grandes “torres gémeas”, a torre Mapfre e o Hotel Art Barcelona (dos mais caros), encontram-se os melhores restaurantes e clubs junto ao mar e ainda o Gran Casino de Barcelona.

Subindo o Paseo de Gracia encontramos vários edifícios de arquitecto e duas obras-primas de Gaudi. Primeiro a Casa Batlló, com a sua fachada ondulante, integrada no meio da cidade. Em segundo, já perto da avenida Diagonal, a Casa Milà, no canto do quarteirão, exibindo no topo as torres que a tornam tão famosa.

Vaguear por barcelona faz-nos parecer que já a conhecemos desde sempre.●

por Diogo Carapito | 2º Ano Vogal Suplente da AEFCML 27


Entrevista | Medicina e Investigação

earching

horoideremia

Uma entrevista ao Prof. Doutor Miguel Seabra. Por Miguel Paiva e Sofia Cruz.

O

Prof. Miguel Seabra nasceu em Lisboa, em 1962. Licenciou-se na FCM em 1986, e fez o Doutoramento na área de Bioquímica e Biologia Molecular, nos EUA.

entusiasmar-me mais pela investigação, pelo que fiz o Internato Geral já com a ideia de partir. Concorri a uma Bolsa Fulbright, que ganhei, e consegui ir para os Estados Unidos da América fazer o Doutoramento. Foi algo um bocado radical, porque “cortei o cordão Porquê Medicina? umbilical” e fui-me embora. Larguei tudo e na altura Tinha um grande interesse pela Biologia e pela as pessoas à minha volta acharam isso uma loucura. Medicina, mas nunca senti uma vocação fortíssima. Fui de raiz para os EUA e para um programa de Andei bastante indeciso aquando da escolha do curso. Doutoramento, algo que não existia na Europa. Mas, Acabei por escolher Medicina por influência do meu em 1988, na América já era standard realizar um propai que me convenceu que era uma carreira que dava grama doutoral. Foi uma surpresa e deparei-me com mais opções, mas depois gostei imenso. dificuldades enormes, porque tinha aulas de QuímicaFísica, Química de Proteínas e uma série de coisas Porque é que decidiu ir para o estrangeiro? muito avançadas, mas que me deram umas bases Na altura, depois de ter passado pelos Hospi- enormes e que me complementaram imenso a formatais, senti que fiquei um pouco desapontado com a ção médica. Medicina Hospitalar em si, por várias razões. Os anos Isso foi uma sorte... Nem eu sabia para o que ia, 80 foram uma época de alguma conturbação, espe- mas acabou por ser uma óptima experiência. cialmente em termos de Outra coisa fantáscarreira médica, pois não tica que me aconteceu foi haviam grandes perspec- “...senti que havia uma grande revo- ter sido aceite num Labotivas, uma vez que o lução na Biologia Molecular, da qual ratório de dois Prémios número de internos era Nobel, duas das pessoas que eu tinha só uns “cheirinhos” e grande. Antes do 25 de mais influentes nos EUA Abril houve um aumento não percebia bem o que era, mas em termos de investigaenorme de alunos nas ção Médica e que me quis investigar melhor...“ Faculdades de Medicina, ensinaram tudo o que eu pelo que havia uma massei. Portanto, acabei por sa de gente nos hospitais ter sorte e arranjar um sem colocação. bom caminho. Se fosse planeado acho que não podia Além disso, os aspectos da clínica e da vivência ser melhor. hospitalar não foram algo que eu adorasse. Por outro Uma questão menos feliz foi que não houve a lado, senti que havia uma grande revolução na Biolo- opção de praticar medicina clínica porque nos EUA gia Molecular, da qual eu tinha só uns “cheirinhos” e não é possível seguir esta área sem passar por muitos não percebia bem o que era, mas quis investigar exames de especialidade. Por isso ou “deitava fora” o melhor. Doutoramento e gastava os próximos 5 ou 6 anos a Estive aqui ligado ao Departamento de Bioquí- fazer o internato para ter uma qualificação clínica, ou mica e a fazer investigação durante o curso. Claro que seguia uma carreira na investigação. Se tivesse sido era sempre uma investigação um pouco “coxa”, por- na Europa, talvez tivesse sido mais fácil conciliar as que enquanto estudante ninguém o consegue fazer. duas vertentes, o que gostaria de pelo menos ter tenPresentemente já se criou uma cadeira opcional de tado, apesar de ser complicado. Mas enfim, foi essa a investigação e os estudantes já vão ter algum tempo minha escolha. específico para se dedicarem a esta vertente, mas na As coisas estavam a correr muito bem e, quanaltura nada disso acontecia. Entretanto, comecei a do terminei o Doutoramento, em 1992, fui convidado 28


a ficar ligado ao departamento, o que era muito raro acontecer. Mas na altura encontrei um “nicho” na investigação que estávamos a fazer, de forma que convidaram-me a estabelecer o meu próprio grupo, o que foi uma proposta impossível de recusar. Ainda fiquei mais uns anos por lá, mas a distância era muita... O oceano começou a crescer e tornou-se muito difícil. Sempre gostei muito de Portugal e de dar a minha contribuição ao país. Achámos, na altura, que em Portugal não existiam condições, e explorámos oportunidades na Europa. Acabei por ser recrutado pelo Imperial College em Londres, onde me estabeleci em 1995. Desenvolvi a minha carreira como professor, fui rapidamente promovido a Professor Catedrático e desenvolvi as minhas linhas de investigação. Enquanto estava em Londres conseguia participar com mais assiduidade em Portugal e fui convidado, em 2000, a ser director do programa Gulbenkian de Doutoramentos, iniciado pelo Prof. António Coutinho. Este já era um programa prestigiado para atrair os melhores cérebros na área da Biomedicina. O projecto inicial era criar um programa de investigação translacional e clínica, mas que não foi possível devido a vários bloqueios, nomeadamente pelo grave erro que existe em Portugal que é o de “nivelar por baixo”, ou seja, a atitude de bloquear qualquer projecto inovador que tenha o intuito de distinguir os bons e os maus médicos. Depois o Prof. Rendas começou a aliciar-me a voltar para Portugal e há uns anos, criaram-se as condições certas para isso. Vim directamente para a FCM, inicialmente para a Biologia Celular e depois foi -me oferecida a possibilidade de tomar conta do departamento de Bioquímica. Num espaço de 3 anos conseguimos, sobre a liderança do Prof. Caldas de Almeida, fazer aqui um trabalho enorme de renovação na faculdade: actualizámos os estatutos e a liderança da Faculdade; instaurámos um programa de Doutoramento, algo absolutamente necessário; formámos um Centro de Investigação, com o objectivo de o inserir no “tecido” científico português, o CEDOC, que agora faz parte do laboratório associado de Oeiras, juntamente com o ITQB, IGC e IBET; e a Reforma Curricular que acabou de se iniciar. Todos os sítios em que eu trabalhei, no Reino Unido e nos EUA, se assemelham ao que instaurámos aqui, ou seja: há uma liderança que tem um programa e uma visão e, de tempos a tempos, essa visão é levada a escrutínio. O que havia anteriormente, que é regra no Ensino Superior, é haver poderes paralelos, em que o Director manda na parte administrativa, e o Científico manda na parte académica, o que

não pode ser... O poder administrativo e académico têm que estar juntos, e não há maneira de algo poder ir para a frente com poderes paralelos. Por isso é necessário internacionalizarmo-nos e conhecermos modelos mais eficazes. Dentro destas reformas, aquelas mais próximas de mim foram as de Pós‑Graduação e a investigação através do CEDOC, do qual fui director durante 3 anos. O CEDOC foi trazer o gosto pela investigação dos EUA, para Portugal? Não fui eu que criei o CEDOC, mas sim um grupo de pessoas da Faculdade. Mas o CEDOC era um braço absolutamente imprescindível para que a Faculdade continuasse moderna e reconhecida nacional e internacionalmente, tornando-o a nossa marca de investigação. Há sempre centros de investigação, que se iniciaram mais cedo que o CEDOC, que já são muito reconhecidos, como por exemplo o Instituto de Medicina Molecular. Existem notícias de investigadores destes centros já praticamente mensais, pelo que nós temos que estar presentes também e temos que ter relevância. O CEDOC já marcou uma posição ao inserir-se num laboratório associado, que é a elite dos laboratórios portugueses, tendo um reconhecimento já nacional. Continua com o objectivo de ser uma referência muito importante na investigação clinica, epidemiológica, translacional, biomédica... Mas é sobretudo o braço na investigação clínica do laboratório associado. Como surgiu a ideia de começar a trabalhar no tema da cegueira? Foi totalmente ao acaso. Eu estava a estudar um processo de Biologia Celular, de modificação proteica e de targeting, um tema extraordinariamente básico, sem nenhuma aparente ligação à Medicina, e eis que quando isolámos uma dessas proteínas, ela correspondia ao gene de uma doença de cegueira chamada coroideremia. Isto surgiu no fim do meu Doutoramento, no princípio dos anos 90 e, como médico, essa ligação entusiasmou-me imenso, uma vez que estávamos a fazer uma aplicação à Medicina. Desde aí sempre tive, em termos das linhas de investigação, uma dupla actividade: uma parte muito fundamental que questiona os mecanismos pelos quais as células funcionam, simples; e outra parte mais aplicada, em que a coroideremia foi um exemplo preponderante, pois pegámos numa informação que surgiu na nossa investigação fundamental e remetemo-la para um problema clínico, sendo esta mais aplicada e já com objectivos concretos. Contraria29


Entrevista | Medicina e Investigação

mente, a investigação fundamental tem objectivos com os quais nós nunca sabemos onde vamos chegar. Já numa investigação aplicada podemos pôr objectivos mais concretos, sendo uma ciência menos “no nevoeiro”. Nesta investigação, podemos dizer que descobrimos a causa molecular da doença, ou seja, qual era a função que não estava a funcionar correctamente e que provocava uma degenerescência da retina, levando à cegueira. Neste caso, existem outros objectivos tais como perceber melhor como é que este mecanismo, ou falta dele, leva à morte celular. Desta forma, gerou-se um segundo objectivo que se centrava em criar um modelo animal da doença, pois só assim poderíamos ter estudos de patologia, de evolução da doença e da sua origem em termos de tecidos, nomeadamente se existe uma hierarquia na morte celular, uma etopatogenia primária, ou se um conjunto de células degenera ao mesmo tempo. De seguida, o terceiro objectivo será fazer estudos préclínicos, a partir do modelo animal, para poder potenciar novas possibilidades de tratamento. Esta investigação aplicada foi aquela que deu origem ao prémio, uma vez que atingimos os objectivos a que nos propusemos. Neste momento temos, parcialmente, um novo tratamento em ensaio clínico de fase 1 e uma terapia génica, que é totalmente inovadora a nível mundial. Um dos problemas mais complicados de resolver foi a construção do modelo animal. Na teoria é muito fácil: fazer a delecção de um gene do ratinho, que corresponde ao gene da coroideremia nos humanos, e assim, em muitos casos, o animal desenvolve uma doença com características muito semelhantes à doença humana. Por vezes, durante este processo, os ratinhos morrem, uma vez que estamos a fazer uma mutação num gene que neles, devido ao seu genoma, leva a uma maior letalidade e gravidade da doença. Contrariamente, pode ocorrer que depois da mutação, o ratinho fique igual, como se nada tivesse acontecido. Ou seja, há mecanismos de redundância no ratinho que permitem compensar a falta desse gene. Mas na maioria dos casos há uma grande semelhança nas consequências entre ambas as espécies, devido à sua proximidade evolutiva. Então, tivemos que arranjar formas de evitar a mortalidade embrionária através de mecanismos de delecção genética condicional, do tipo temporal ou espacialmente controlada. Quando é temporalmente controlada, a delecção faz-se aquando do nascimento do ratinho, no qual lhe damos uma droga para que tal ocorra, e cria-se a doença a partir do momento em que a conseguimos controlar. No caso de ser espa30

cialmente controlada, que é um processo ainda mais sofisticado, vamos fazer a delecção do gene apenas nas camadas dos fotorreceptores da retina, uma vez que estes não levam à mortalidade. A coroideremia é uma doença ligada ao cromossoma X, pelo que as mulheres são portadoras e os homens são afectados. Assim, pelo controlo temporal, criámos fêmeas portadoras da doença da retina, muito parecida com a doença humana, modelo a partir do qual conseguimos iniciar estudos préclínicos. Já com o controlo espacial, descobrimos qual a camada mais importante envolvida na degenerescência da retina, e que tinha que ser o alvo terapêutico. A ideia da terapia génica é o de restituir ao organismo o gene que lhe falta, e o olho é um órgão muito interessante neste ponto de vista: é muito importante, mas não é vital; é pequeno, tem poucas células, sendo mais fácil de manipular; tem algum privilégio imunitário e, relativamente a agentes terapêuticos tem menos probabilidade de existir uma reacção imunológica a eles. A ideia é introduzir o gene e fazer uma recuperação genética. Imaginem um motor ao qual falta uma peça. Se restituirmos essa peça teoricamente o motor vai voltar a funcionar. Isto será uma terapia curativa. Agora o grande problema é como é que vamos fazer essa substituição, uma vez que as células estão programadas para evitar essas situações. Usamos então, aqueles organismos que já ultrapassaram este problema há muitos milhões de anos, os vírus. A partir dos vírus retiramos os seus genes de autorreplicação, comprometendo a sua multiplicação e efeito patogénico, e substituímo-los pelo gene de interesse. Assim, o vírus consegue ainda penetrar na célula e injectar para dentro dela o seu material genético, fazendo com que ela o utilize. Este ensaio de fase 1 foi isso mesmo: injectar vírus recombinantes no espaço sub-corneano, para poder infectar o epitélio pigmentar e o maior número possível de fotoreceptores. Tudo isto em doentes já com a retina degenerada e um tecido saudável relativamente pequeno, para ver se é possível normalizar essa retina e ver se ela deixa de degenerar. Estamos ainda a desenvolver tratamentos novos, usando a coroideremia como modelo, mas que podem ser adoptados a muitas outras doenças genéticas: a terapia génica não viral, ou seja, que não utiliza um vírus mas sim apenas DNA. Um vírus é sempre um vírus, pelo que há sempre uma possibilidade remota, fora do nosso controlo, de haver algum efeito patológico, o que se torna muito crítico especialmente em casos de órgãos de grande massa. Assim, encontramo-nos a desenvolver uma


série de experiências de terapia não viral que possam completar as de terapia viral. Outra coisa ainda mais interessante neste campo, relaciona-se com as células estaminais, uma vez que a terapia génica só por si não consegue regenerar células, sendo apenas capaz de parar a progressão da doença, teoricamente. Num doente já muito avançado a ideia é preservar um pouco a retina, de maneira a que mantenham alguma visão, mas num doente totalmente cego, sem retina, não há nada a fazer. Portanto, o objectivo é sempre o de fazer uma aplicação terapêutica o mais cedo possível para poder cobrir uma retina que ainda não degenerou. As células estaminais oferecem a possibilidade teórica, mas cada vez mais real, de permitir a regeneração de um tecido inteiro, através de reprogramações celulares. Aqui na faculdade já estamos a fazer estudos com células estaminais, e a tentar introduzir essa tecnologia em Portugal, sempre usando esta doença como modelo, embora já existam pessoas interessadas em novas terapias e em expandir os estudos a outras zonas do corpo. Assim, e uma vez que este ensaio clínico é feito em Oxford e em Londres, esperamos ter capacidades daqui a uns anos, em Portugal, para podermos ser nós a fazer ensaios clínicos pioneiros mundialmente. Referiu o financiamento. Teve sempre os apoios necessários para continuar? Sim, tive sempre apoios. Quanto mais específico é o projecto de investigação e, sobretudo se estamos a falar de uma doença rara, mais difícil se torna. Porém, quando chega um ensaio clínico que é pioneiro a nível mundial isso não é difícil. Fomos inicialmente suportados pela Foundation Fighting Blindness, uma agência americana,

31

que na altura era a única com possibilidades de sustentar esta investigação. Mas tivemos uma experiência extraordinária na qual os doentes em si mudaram o rumo da história: começaram a organizar-se e fundaram associações em diferentes países. Eles souberam da minha investigação e perceberam que eu seria uma grande esperança, e que se eu não avançasse neste campo, mais ninguém o iria fazer. Lembro-me que o primeiro cheque recebi da Coroideremia Research Foundation, foi de 1000 dólares, o que numa investigação em dois dias desaparece. Mas foi um sinal muito encorajador e interessante. Entretanto a associação começou a melhorar o seu trabalho e a recrutar mais pessoas, e em 2 ou 3 anos começou a dar-nos 60 ou 70 mil dólares por ano, o que nos permitiu começar a fazer coisas mais significativas. No Reino Unido também surgiu uma família afectada pela doença que organizou um “fundraising” extraordinário, e pode ver-se que foi através dos esforços dos doentes que nós conseguimos financiar grande parte dos estudos. Agora que tudo correu bem vai ser fácil, mas na altura em que era um grande desconhecido, foram os doentes que arriscaram, pois não tinham nada a perder. Foram um exemplo de como nós, enquanto sociedade civil, temos que ter a iniciativa de angariar meios para atingir os nossos fins. Qual é o ponto actual da investigação? ●

… Esta entrevista continua em http://ae.fcm.unl.pt


Sê Frontal

a amizade não precisa de mais palavras -“A luz do mundo”.

serões, de cigarrilha no bolso e um cigarro incomple-

Recordo-me de ter visto

to na mesinha do whisky.

algures no meio das

– Era tão diferente… – comenta agarrada à

páginas tocadas pelo

bengala encostada ao banco – parece que ainda

futuro incerto – disse

estou no velho jardim contigo debaixo da nossa árvo-

John –; Era tão estático

re.

que cada pausa fazia

– Ah, sim, a nossa árvore dos segredos. Como

mentir a realidade do

ainda me lembro – remete John para o passado tão

momento

dissolvido.

querido – das partidas que te preguei, dos sustos que

Uma pausa, sim, uma

apanhávamos quando o jardineiro... como se chama-

pausa que contava com

va?

os segundos interrom-

– Joseph...

pidos à chama da nossa existência.

– Sim, quando o Joseph se escondia nos arbustos e saía de lá com dois galhos em forma de mãos...

Os seus olhos grandes e azuis viraram-se de

parecia que nos ia agarrar!

novo para Sophie, mas nada mudou. O sentimento que parecia abalado pela distância temporal e física

– Pois era... mas o que mais gostávamos era de trepar à nossa árvore.

não mudou nada. Depois de sessenta e um anos, a

– Lá de cima víamos tudo – completa John – o

sensação de segurança manteve-se e o reencontro

mundo era tão pequeno... a fonte do casarão em

fez lembrar os tempos da inseparável cumplicidade.

frente era mínima... a nossa perspectiva do mundo tornava tudo quase que insignificante mas era esse

– Querido John – disse Sophie –, nada pode ter mudado depois destes anos em que estivemos longe, a vontade do “amigos para sempre” não foi possível esquecer…

“– Querido John – disse Sophie –, nada pode ter mudado depois destes anos em que estivemos longe, a vontade do “amigos para sempre” não foi possível esquecer…”

– Nem eu esqueci – respondeu –, tu és tão especial como os momentos na casa,

mundo que era perfeito.

ainda te lembras?

– A perfeição, John, tornava tudo tão belo: a

Sophie não hesitou, começou a imaginar a

realidade era banal para duas pequenas crianças em

infância que juntos passaram, rodeados pelas então

que o Universo não passava de um pequeno grão no

modernas paredes, faixas que beijavam o chão e o

imenso céu azul.

tecto, num vigorante verde, contrastava com o triste roxo da poltrona onde o avô de Sophie passava os

32


A conversa continuou por algumas horas. O sol

– Nós nunca perdemos a infância que nos

pôs-se e, de manhã, um novo dia trouxe mais alegrias

deram... estivemos sempre juntos na casa da fachada

à lembrança de Sophie e John.

verde para onde te mudaste uns anos depois. – Essa casa era diferente...

– Eu nunca gostei de estar na casa grande –

– A realidade era outra – diz Sophie – o jardim

recorda Sophie – nunca foi suficiente para as nossas

era pequeno e os tempos foram passados dentro de

brincadeiras, nunca passámos uma tarde sem que o

casa, mas também éramos mais velhos. O meu avô,

Joseph nos conseguisse apanhar quando roubávamos

com as últimas libras da sua reforma foi para a Suíça

as rosas do canteiro da prima Mary...

e ficámos sem o Joseph que voltou para a sua casa

– Mas conseguíamos sempre sobreviver à tor-

em Carlisle, lá no Norte…

tura dos fins de tarde chuvosos... Lembras-te da biblioteca?

– Só a Mary nos fazia companhia… no meio dos seus quadros encontravas sempre telas novas que

– Lembro-me tão bem, John... das cores dos

escondias na varanda para depois pintarmos.

livros que vinham da América para o meu avô... nun-

– E foi assim, naquela pequena varanda, que a

ca cheguei a descobrir o verdadeiro assunto, pareciam rabiscos de paisagens, mas como nem as letras sabia, nunca consegui decifrar

os

mistérios

microscópicos

nossa amizade nos tor-

“Para nós as tintas serviam para pintar a nossa amizade… conseguíamos tornar aquela simplicidade tão importante como o nosso mundo. Éramos tão felizes…”

das

nou ainda mais inseparáveis! Tínhamos sempre as manhãs de Sábado ocupadas a escrever na tela o que nos vinha à cabeça…

Tu

escrevias

sobre mim e eu sobre ti…

letras minúsculas!

– lembra Sophie.

– Não brinques... – diz John com um sorriso

– Os momentos em que pegavas no pincel e,

saudoso do passado – tu sempre gostaste daquelas

em letras garrafais, escrevias o meu nome e por bai-

pinturas, foi por isso que decidiste ir para o atelier da

xo… – diz John.

Mary quando acabaste o liceu. Sempre gostaste de desenhar...

– Sublinhavas e escrevias o meu – interrompe – . Para nós as tintas serviam para pintar a nossa ami-

– Os ramos das árvores… – interrompe Sophie

zade… conseguíamos tornar aquela simplicidade tão

– pensava que eram a única coisa que não mudava

importante como o nosso mundo. Éramos tão feli-

naquele jardim... tudo o resto era inconstante e a

zes…

atmosfera tão leve fazia tudo dançar por todo o

– Já não és?!

lado...

– A tua amizade é o que me resta da casa gran-

– Não conseguia perceber porque os amigos do

de, agora pequena e velha…

teu avô, quando iam jogar dominó, diziam que o jardim não era suficientemente grande para duas crian-

Sophie e John continuaram a relembrar os

ças... – reflecte John – a aristocracia não os fazia

velhos tempos durante algumas horas… Hoje, na casa

entender que mais encerrados estavam eles na sala

para onde John se tinha mudado, Mary vive com os

onde passavam longas horas a ouvir as novidades

netos… a varanda da casa ruiu. A “luz do mundo”

que vinham do centro da cidade.

apagou-se. A vontade de “amigos para sempre” cumpriu-se.● por Miguel Paiva | 3º ano Director da Frontal 33


Chill Out

`

`

A

viagem

foi,

Definitivamente, traz-me imediatamente à

provavelmen-

memória a primeira vez que elevei o corpo acima do

te,

dos

chão, embarcada num Air Bus trezentos-e-tal; foi

maiores e mais

nesse momento, entalada entre o cinto e o encosto,

empreendi-

de nariz colado à janela, a ver Lisboa a sumir-se pela

mentos humanos: aliada ao

altitude crescente, que desenhei um esboço - uma

conhecimento de si mesmo,

espécie de definição tingida de borrões – dessa coisa

das sua limitações e, poste-

tão plural em matéria de significado que era a via-

riormente, do espaço envol-

gem: talvez fosse o percurso efectuado, a partida, a

vente, apresentou-se como sendo a única alternativa

chegada e o regresso, mesmo que jamais exista

válida para sobreviver num mundo novo para a espé-

regresso, através do espaço imenso que é Tudo.

maravilhosos

uns

cie que agora se aprimorava nas lides da vida, ou não fosse esta o mais recente fruto do labor da filogenia.

Nessa primeira viagem, vi a nossa cidade sumir -se numa mancha colorida pregadinha ao mar,

Para cumprir tão velho propósito, não teve o

banhada por bordas brancas; depois, com mais uns

homem alternativa a não ser construir caminhos,

metros somados, era o mar que se deixava devorar

transportar-se, ir além das fronteiras e instalar-se na

por ondas obesas e transbordantes de si próprias,

selva da vida enquanto eterno nómada.

permitindo ao céu revelar-se imenso no seu azul, infinitamente inalcançável; algumas horas depois,

As viagens foram-se embrenhando nos mean-

enquanto os ouvidos estalavam, contornos de um

dros da semântica, isto é, cresceram em significado

sítio novo desenhavam-se na janela do avião,

consoante se contabilizavam os séculos, e adquiriram

ampliando o destino da minha viagem, que era, por-

com a linguagem proporções tão vastas que se me

tanto, a transladação do corpo, dos olhos, de todas

afigura de uma dificuldade avassaladora seleccionar

as minha sensações minúsculas para outro sítio algu-

tudo o que a palavra em mim precipita...

res no Universo, que se pressupõe infinito. 34


Mais tarde, acrescentei a todas estas impres-

po tão entretidos connosco e a nossa grande barriga,

sões mal concebidas uma expressão que colocava

metidos nas nossas vidas, a admirar os nossos pro-

ansiedade em função do espaço percorrido. Na ver-

blemas, tão reais e importantes e catastróficos. Tam-

dade, não se trata de nenhum conceito matemático

bém é saudade.

digno de louvar: traduz-se unicamente no facto de a ansiedade crescer à medida que o trajecto termina e

A viagem é urgente. A resposta à necessidade

promete, curva após curva, o alcance do destino pelo

de cumprir tal urgência vem, julgo, dessa outra

viajante - a expectativa, o enveredar por novas paisa-

necessidade (já por mim mencionada) de sobreviver

gens e o invariável mergulho na torrente de diferen-

na infinita loucura que é o mundo. É urgente sair de

tes texturas humanas.

casa, produzir trabalho sem trabalho e degustar o encontro de culturas, provar a comida mais estranha,

Antes de tudo isto, já eu tinha descoberto que

sobreviver a temperaturas mais quentes ou mais

gostava da estrada a construir-se a si mesma à medi-

frias, respeitar hábitos estrangeiros – fazer um esfor-

da que o asfalto era esventrado em velocidade, de

ço de adaptação, relativizar, saborear quem todos os

sentir o corpo a

dias se senta ao nosso

ser puxado pelos

lado.

vectores que as curvas provocam e

a

gravidade

impinge.

E

“...viajar é deixar os sentidos alerta, soltar as mãos e os pés, e também a língua, e permitir o encontro…”

E construir momentos em que se vive de forma

a

esdrúxula, longe de um

nudez que se vai

cânone que nos é familiar

apagando no lugar da memória e colorindo de novas

e pouco traz de novo.

paisagens... Gosto ainda mais da sensação arrepiante que reconheço ao invocar essas mesmas memórias, e

Metáfora da própria vida, complementa-a -

da forma como o organismo reage às recordações

partir e ficar: ficar antes e após partir num regresso

que se atropelam quando lembro a neve da Serra no

eternamente adiado, como quem semeia um bocadi-

Inverno, as pedras gordas de Monsanto, as bebidas

nho de si em qualquer lugar, em qualquer tempo.

quentes de Andorra e as suas pistas de esqui, o sol de Abril a pôr-se na marina de Ponta Delgada, o verde arrepiante dos campos de arroz acabados de germinar contrastando com a secura acastanhada dos

Em suma, talvez se traduza em algo tão simples como: Ser cá. Ser lá. Ser de Todos.●

Andes, os rios, os idiomas, os hectares de girassóis e as praças e as feições de quem as ocupa; tudo isto se mistura no meu humilde álbum, resumindo assim a confusão de lugares e gentes que se vão coleccionando. Porque viajar é deixar os sentidos alerta, soltar as mãos e os pés, e também a língua, e permitir o encontro - logo nós, humanos, que passamos o tem35

por Ana Luísa Pereira | 2º ano Aluna da FCM-UNL


Chill Out

EFEITO O

“Efeito Placebo” está de volta! Estão aí os meses frios de Inverno e nada melhor do que estar no quentinho do lar… Mas se te estás a sentir aventureiro, a tua FRONTAL traz-te uma selecção das novas estreias de cinema, concertos e peças de teatro dos próximos dois meses. Por isso toma este placebo cultural e vais ver que te vais sentir melhor. Os Homens Que Odeiam As Mulheres (19 Janeiro) Mikael Blomkvist é um jornalista que tem passado a sua vida a denunciar a corrupção do mundo dos negócios de Estocolmo na sua revista Millennium. Quando Henrik Vanger, um poderoso empresário, o convida para um trabalho de investigação, Mikael tem nas mãos material irrecusável. Com a ajuda de Lisbeth Salander, uma hacker de alto nível com problemas de comportamento social, irão desvendar muitos segredos da família de Henrik, até então escondidos na penumbra. O Artista (2 Fevereiro) Na Hollywood dos anos 20, George Valentin é uma das maiores estrelas do cinema mudo, participando em dezenas de aventuras ao lado do seu cão. A invenção e chegada do cinema falado tem um efeito desastroso na vida do actor e, enquanto a sua amiga Peppy Miller ganha notoriedade com estas mudanças, Valentin é cada vez mais relegado ao esquecimento. Os Marretas (2 Fevereiro) Quando Walter, o maior fã dos Marretas, e os seus amigos Gary e Mary descobrem o maquiavélico plano de Tex Richman, um homem do petróleo que quer demolir o Teatro dos Marretas, eles dispõem-se a ajudar o Cocas a organizar a Maior Gala dos Marretas e angariar os 10 milhões de dólares necessários para salvar o Teatro. A Invenção de Hugo (16 Fevereiro) Paris, anos 30. Hugo Cabret é um órfão que vive escondido nas paredes da estação de comboios. Ele guarda consigo um robô avariado, deixado pelo seu pai. Um dia, ao fugir do inspector, ele conhece Isabelle, uma jovem que se torna sua amiga. Logo Hugo descobre que ela tem uma chave em forma de coração, exactamente do mesmo tamanho da fechadura existente no robô. O robô volta então a funcionar, levando a dupla a tentar resolver um mistério mágico. por Rui Malha | 3º ano Vogal do Departamento de WID

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PLACEBO Guano Apes — Coliseu dos Recreios (16 Fevereiro) Um dos regressos mais aguardados em Portugal, é chegada a hora de receber de volta os Guano Apes, para dois concertos em nome próprio (em Lisboa e no Porto). Depois de um hiato de alguns anos, regressam novamente a Portugal para gáudio dos milhares de fãs da banda. Anunciam agora o seu quarto álbum, que irá ser lançado em Abril com o nome de “Bel Air”.

Dream Theater — Coliseu dos Recreios (26 Fevereiro) Os veteranos do metal progressivo voltam a Portugal no dia 26 de Fevereiro de 2012, encerrando no Coliseu de Lisboa a tour Europeia de promoção ao álbum “A Dramatic Turn of Events“. Neste momento a banda encontra-se na sua digressão pelos Estados Unidos, que teve início a 24 de Setembro.

James Morrison — Coliseu dos Recreios (27 Março) O britânico James Morrison vem a Portugal para dois concertos, dia 27 de Março em Lisboa e dia 28 de Março no Porto, onde vai apresentar o seu mais recente album, "The Awakening", editado em Setembro deste ano e que entrou para o primeiro lugar do top de vendas no Reino Unido.

João Torto — Teatro D. Maria II (8 Março-1 Abril) 20 de junho de 1540, o homem fez: lançou-se do alto da Sé de Viseu, para voar claro, com duas asas que manufaturou. No curso da Lenda, João Torto, século XVI, é o valoroso que cita D. Quixote de la Mancha, século XVII: “Um homem não é mais que outro se não faz mais que outro”. João Torto, o espetáculo, é o sonho do homem que sonha fazer mais. A Morte de Danton — Teatro D. Maria II (15 Março-22 Abril) Peça desequilibrada, insólita, premonitória, desarrumada, desalinhada - em que às cenas de multidão se sucedem as insónias mais íntimas, em que a História é vista como um pesadelo noturno, peça de um negro pessimismo, é a peça sangrenta de um rapaz fixando a morte. 37


Sai de casa

FUNMACIA Trata-se de uma loja de doces muito original onde podes encontrar o presente ideal para qualquer ocasião. Escolhe o recipiente, depois os doces e o rótulo, e com esta experiência descobre a medicação ideal e mais divertida para revitalizares a mente! Morada: Avenida António Augusto de Aguiar nº147 (perto da saída do metro em São Sebastião)

CAFÉ PORTAS DO SOL Encontra-se num dos miradouros mais fascinantes da cidade, com vista para o rio e para os monumentos de Alfama, tornando este café muito apelativo nos dias de sol em Lisboa.
Possui um terraço com mesas e sofás onde são servidos cocktails ou refeições ligeiras, e também um espaço interior, com as mesmas vistas. Nas noites de sexta e sábado dispõe de um DJ, que anima ainda mais o ambiente. Morada: Largo das Portas do Sol, Beco de Santa Helena http://www.portasdosol.biz/

Espaços IN Lisboa DARWIN’S CAFÉ

XI HIPÓCRATES Festival da Tuna Médica de Lisboa 16 e 17 de Março

Cartoon

Um restaurante com mais de 150 lugares, onde as alusões à época e às obras Darwin se encontram perfeitamente conjugadas com a matiz contemporânea da decoração. Além do espaço interior deslumbrante, possui uma esplanada com uma vista divinal sobre o Tejo, servindo almoços e jantares requintados, ou lanches onde podes disfrutar de crepes, waffles, tostas ... Morada: Avenida de Brasília, ala B - Fundação Champalimaud Sabe mais em www.darwincafe.com

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por David Tanganho | 3º ano Departamento de Relações Internacionais


รlbum fotogrรกfico | XXI EnEm



Frontal nº40 - O Mundo na Medicina - Janeiro 2012