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Em Órbita Em Órbita n.º 78 (Vol. 7) – Março de 2008 Editorial Índice Baikonur Tour 2008 O Cosmódromo GIK-5 Baikonur

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No passado mês de Abril teve lugar o Baikonur Tour 2008 no qual o Boletim Em Órbita participou. Durante esta presença no cosmódromo russo tivemos a oportunidade de visitar várias zonas do complexo, além de assistir a momentos importantes na preparação para o lançamento da Soyuz TMA-12. Este número especial do Boletim Em Órbita é inteiramente dedicado ao Baikonur Tour 2008 com um relato na primeira pessoa, reproduzindose também um artigo já anteriormente publicado.

Rui C. Barbosa Braga, 2 de Abril de 2008

O boletim Em Órbita, dedicado à Astronáutica e à Conquista do Espaço, é da autoria de Rui C. Barbosa e tem uma edição electrónica mensal. Versão web (http://www.zenite.nu/orbita/ - www.zenite.nu): Estrutura: José Roberto Costa; Edição: Rui C. Barbosa Neste número colaboraram José Roberto Costa e Manuel Montes.

Qualquer parte deste boletim não deverá ser reproduzida sem a autorização prévia do autor. Rui C. Barbosa (Membro da British Interplanetary Society) BRAGA PORTUGAL 00 351 93 845 03 05 rcb@netcabo.pt Na Capa: Às primeiras horas da manha do dia 6 de Abril de 2008, a Plataforma de Lançamento PU-5 aguarda a chegada do foguetão lançador 11A511U-FG Soyuz-FG com a Soyuz TMA-12. Imagem: Rui C. Barbosa.

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Baikonur Tour 2008 Tendo já visitado o Cosmódromo de Baikonur em Março e Abril de 2006, achei haver uma necessidade pessoal de voltar novamente aquele lugar. As razões são várias mas a que costumo enunciar em primeiro lugar foi o impacto que a entrada em Baikonur tive em mim na primeira visita. Muitos podem ver a ida a Baikonur como apenas uma visita turística, eu vi como um concretizar de um sonho de infância quando para o mundo ocidental Baikonur era um local altamente secreto. Na minha primeira visita, e enquanto aguardava o lançamento do primeiro astronauta brasileiro, tive a oportunidade de visitar vários locais no cosmódromo. A quantidade de sensações foi tamanha e o volume de informação era tanto que passados dois anos sentia que tinha ainda conseguido compreender na realidade o que tinha visto. Daí a necessidade de voltar a Baikonur e de visitar outros locais míticos para a exploração espacial humana. Organizando uma visita, um tour, através do Boletim Em Órbita e juntamente com um sítio da Internet francês dedicado ao vaivém espacial Buran, decidiu-se tirar partido de condições excepcionais para a organização de um evento deste tipo e assim nasceu o Baikonur Tour 2008.

O tour dia-a-dia, Porto – Moscovo, Dia 1 Devido a um atraso no avião que me levou desde o Porto até Madrid e a uma verdadeira prova de velocidade no Aeroporto de Barajás para conseguir embarcar no avião de ligação para Moscovo, acabei por perder durante quase 24 horas a minha bagagem. Depois de uma viagem tão atribulada não esperava ser surpreendido pelo caótico trânsito matinal de Moscovo que me acabou por custar a visita à Corporação RKK Energia Sergei P. Korolev e ao respectivo museu. Felizmente, este acabou por ser o único contratempo de todo o tour compensado mais tarde por visitas a locais únicos em Baikonur. Após a visita do resto do grupo com o qual iria compartilhar os restantes dias de viagem à Corporação Energia, rumamos ao Centro de Controlo de Missão TsUP localizado na cidade de Korolev, arredores de Moscovo. Aqui, tivemos a oportunidade de visitar a sala a partir da qual se controla todos os veículos tripulados russos e o segmento russo da ISS, além do voo automático dos cargueiros Progress M. O início da visita ao TsUP mostrou-nos a forma como as coisas iriam correr no resto dos dias da nossa visita. Ao visitarmos a Rússia temos de estar conscientes de que estamos numa terra e numa sociedade muito distinta da nossa sociedade ocidental e mesmo de apesar de tudo estar pronto e autorizado para a nossa presença nos diferentes locais, é sempre necessário verificar e confirmar as identidades e autorizações. Tal aconteceu à nossa chegada ao TsUP: uma lista com os nossos nomes estava já entregue à muito na recepção, mas o nome da nossa guia não constava nessa lista. O resultado foram quinze minutos de espera e telefonemas até que a autorização fosse dada para que ela pudesse entrar. Por outro lado, e devido à necessidade de o meu passaporte ficar «retido» no hotel para verificação, eu não o tinha comigo, mas felizmente o mau bilhete de identidade foi o suficiente para confirmar que eu existia mesmo! Assim, e após passarmos a recepção, fomos levados para um pequeno vestíbulo onde tivemos de deixar os nossos casacos e mochilas, nada disto era permitido nos longos corredores que tivemos de percorrer até chegar á sala de controlo. Neste espaço todo não era permitido tirar fotografias e somente o pudemos fazer quando nos foi dito que já era permitido. Depois de uma passagem pelo bar do TsUP fomos então levados para a sala de controlo e aí pudemos observar uma miríade de computadores nos quais estavam representados um sem número de dados relativos à operação da ISS e dos seus diferentes módulos. A

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nossa guia do TsUP (que não é apenas uma guia mas sim uma funcionária do centro de controlo) explicou-nos o funcionamento geral da sala de controlo e dos vários dados representados no grande ecrã que nos fazia lembrar uma pequena sala de cinema. Énos então permitido tirar fotografias mas sem a utilização do flash, o que acaba por tornar fraca a qualidade de algumas imagens.

Após a nossa visita à sala de controlo somos levados para uma sala de conferências onde pudemos visualizar um curto vídeo sobre o lançamento da Soyuz TMA-11 cuja tripulação se encontrava na altura a bordo da ISS.

Terminada a nossa visita ao TsUP dirigimo-nos para o nosso transporte que segue em direcção à Cidade das Estrelas. A parte da tarde estava reservada para a visita ao Centro de Treino de Cosmonautas Yuri A. Gagarin onde tivemos a oportunidade de ver o hidrolaboratório, a centrifugadora e os simuladores da

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Soyuz TMA. O hidrolaboratório é basicamente uma grande piscina com um diâmetro de 23 metros e uma profundidade de 12 metros e está equipado com modelos dos diferentes módulos russos da ISS. É aqui possível aos cosmonautas e astronautas ensaiarem as actividades extraveículares que serão levadas acabo durante as expedições na ISS e mesmo aqueles cosmonautas cujas missões não incluem actividades extraveículares, têm de praticar no hidrolaboratório caso ocorra alguma emergência na qual seja necessário a sua saída para o exterior da estação ou da Soyuz TMA. A nossa visita é guiada por um especialista que ajudou a desenhar os fatos extraveículares Orlan.

Após a visita ao hidrolaboratório pudemos observar alguns dos antigos modelos que eram utilizados para o treino extraveícular nos antigos programas soviéticos (Salyut, Almaz e Mir) e que actualmente se encontram colocados no exterior do edifício á mercê dos elementos e deteriorando-se lentamente. Seguimos então para o nosso segundo ponto de visita, a centrifugadora localizada no Korpus-3A. Utilizada para simular as diferentes fases do voo (lançamento, entrada em órbita, regresso e reentrada atmosférica) a centrifugadora é um elemento fundamental no treino dos cosmonautas. A centrifugadora TsF-18 é de origem sueca1 e a sua construção iniciou-se em 1971, com o edifício a ser terminado em 1974. os primeiros testes tiveram lugar em 1976, mas somente em Setembro de 1981 foi utilizada pela primeira vez para o treino dos cosmonautas. A TsF-18 capaz de proporcionar uma aceleração até 30 g, podendo também representar o perfil de descida a bordo das Soyuz. Na extremidade de um braço com um comprimento de 18 metros, encontra-se uma cabina que pode mover-se em qualquer eixo espacial podendo simular qualquer trajectória e dando a sensação ao cosmonauta no seu interior de que a cabina se está a mover numa só direcção apesar de estar a descrever um movimento circular.

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A centrifugadora TsF-18 foi construída pela empresa sueca ASEA, uma subsidiária da empresa ABB.

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Terminada a visita à centrifugadora, dirigimo-nos para o edifício Korpus-1/1A no qual estão localizados os simuladores da Soyuz TMA. No interior de uma grande sala pudemos observar quatro simuladores: TDK-7ST3 (que foi convertido de simulador da Soyuz T para Soyuz TMA), o Pilot-732, o Don Soyuz-TM e o TDK-7ST2. Nestes simuladores é possível aos cosmonautas ensaiarem as várias fases do voo (lançamento, encontro e acoplagem, e regresso e reentrada atmosférica).

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Terminava assim este primeiro dia do Baikonur Tour 2008, mas não sem antes experimentar mais uma vez o infernal tráfico de Moscovo. Regressados ao Hotel Cosmos esperava-nos uma típica refeição russa e um descanso, pois o dia seguinte seria cheio de emoções com a viagem até Baikonur.

Moscovo – Baikonur, Dia 2 Após uma boa noite de descanso, esperava-nos o nosso autocarro á entrada do hotel para nos levar para o aeroporto militar de Chkalovskiy. Foi nesta altura que as nossas dúvidas e questões referentes á não existência de bilhetes de avião para o nosso grupo entre Moscovo e Baikonur: nós iríamos viajar num dos mesmos aviões que transportam os cosmonautas e membros oficiais para o cosmódromo!!! Chegados ao aeroporto tivemos de aguardar durante duas horas no parque de estacionamento antes de levara cabo o nosso controlo de passaportes. Neste espaço de tempo tivemos a oportunidade de presenciar a chegada de algumas figuras importantes do programa espacial russo, entre as quais o cosmonauta Vasili Tsibliyev que actualmente ocupa a posição de Director do Centro de Treino de Cosmonautas Yuri Gagarin. Foi nesta altura que eu tentei pela primeira vez inaugurar a minha verdadeira ‘caça ao autógrafo’ dos cosmonautas, mas infelizmente sem sucesso pois Tsibliyev gesticulou que daria o autógrafo no interior do avião. Apesar de decepcionado, cresceu uma alegria dentro de nós pois aparentemente iríamos viajar no mesmo voo de Vasili Tsibliyev e possivelmente poderiam estar outros cosmonautas a bordo. A nossa espera terminada, finalmente foi possível entrar no edifício para levar a cabo o controlo de passaportes e bagagens. Porém, aguardava-nos mais algum tempo de espera pois devido a um problema com uma das luzes de presença do avião que nos iria transportar, este não podia levantar voo. Finalmente, e após uma nova longa espera, fomos informados que poderíamos entrar a bordo do Tu-134B para a nossa viagem que deveria durar três horas e meia até Baikonur. O interior do avião revelou uma construção simples com o mínimo conforto e já com alguns anos e os antigos símbolos soviéticos ainda enfeitavam as gavetas de metal da cozinha do aparelho.

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Após pouco mais de três horas de voo, a familiar paisagem das estepes do Cazaquistão começou a ser vista através das janelas do nosso avião. A nossa viagem terminaria dentro de momentos, mas a expectativa dos minutos a seguir e a vontade de pisar o solo de Baikonur aumentava à medida que os longos minutos passavam no interior do avião já parado na pista de aterragem.

Saindo do avião fomos saudados por um dia quente mas ventoso. Uma parte do nosso grupo entrou num pequeno autocarro que os levou em direcção à alfândega do aeroporto e os outros membros esperaram junto do avião pelo autocarro. Enquanto esperávamos tive a oportunidade de recordar alguns rostos de alguns guardas que me lembrava da minha primeira visita. Passados alguns minutos fomos informados que teríamos de percorrer a pé a curta distância entre o avião e a alfandega onde os nossos passaportes seriam novamente revistos. Após passar pela alfândega encontramo-nos no exterior do aeroporto onde nos esperava o nosso guia. Engenheiro Electrotécnico de profissão, Viktor Merkulov iria proporcionar-nos três dias fantásticos em Baikonur. Apesar do seu semblante triste e pensativo, Viktor seria um guia excepcional e sempre pronto para responder às nossas questões e solicitações.

Ingressando no autocarro dirigimo-nos para Baikonur. Ao longo da estrada reconheci a paisagem desértica que envolve a cidade de Baykonur e a pequena Tyura Tam, local onde os primeiros engenheiros e trabalhadores chegaram para fundar a futura Zarya, mais tarde Leninsk e actual Baikonur. Entramos na cidade através de um portão guardado por militares e cedo nos apercebemos que esta é uma cidade que respira a conquista espacial. Vêm-se prédios decorados com imagens de foguetões, parque infantis com brinquedos espaciais, inúmeros monumentos à conquista espacial, etc.

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Percorrendo as ruas de Baikonur tive a oportunidade de verificar as diferenças que a cidade apresentava em relação á minha primeira visita em Março de 2006. Muitos edifícios estão a ser recuperados e a cidade apresentava um aspecto de uma cidade a receber os primeiros dias da Primavera, pois já era notório o verde das plantas que contrastava com as cores castanhas da minha memória. O autocarro levou-nos para o hotel Tsentral localizado numa grande praça encimada por uma velha estátua de Lenine.

Chegados ao hotel apresentamos os nossos passaportes e foram-nos atribuídos os nossos quartos. O hotel Tsentral apresentava muitas melhorias em relação ao que me lembrava da minha visita anterior. O velho livro de registo escrito a lápis já não existia e o registo dos hóspedes era já feito em computador. No átrio do hotel estava também instalada uma pequena loja de recordações e existia também um bar no qual encontrávamos as mais variadas bebidas típicas…

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Antes do descanso fomos jantar no restaurante São Petersburgo localizado no centro de Baikonur. O seu interior era decorado com motivos étnicos do Cazaquistão e o jantar típico foi servido numa sala que representava um yurt, uma típica cabana das estepes. Findo o jantar regressamos ao hotel e apesar de o corpo e alma pedirem um já merecido descanso juntei-me a Andreas Bergweiler, Presidente e fundador da empresa Space Travellers, na primeira de muitas sessões de conversa que ao longo dos dias foi juntando um grupo interessante de pessoas no hall de entrada do hotel para discutir os mais variados temas relacionados com a nossa visita e com a exploração espacial. Quando finalmente o cansaço nos venceu regressamos aos nossos quartos e adormecemos a pensar nas emoções do dia seguinte. Para mim seria algo de novo, algo que não tinha visto a quando da minha primeira visita a Baikonur. Iria assistir ao transporte do foguetão 11A511U-FG Soyuz-FG com a Soyuz TMA-12 para a Plataforma de Lançamento PU-5 do Complexo de Lançamento LC1 ‘Gagarinskiy Start’.

Cosmódromo de Baikonur, Dia 3 Despertar para um novo dia em Baikonur. Estar deitado num quarto momentaneamente estranho e lentamente abrir os olhos, sentir o cheiro característico. Ao fundo da cama o cadenciado som do frigorífico vai-se tornando mais audível e o som de fundo das ruas através da janela necessariamente aberta, faz com que o corpo se vá adaptando lentamente. São cinco horas da manha no Cazaquistão (onze horas da noite em Portugal) mas a diferença horária não é sentida de imediato. Levanto-me e dirijo-me para a casa de banho para um novo relaxante duche matinal. Preparo-me e ao sair do quarto noto que a agitação não parece ter diminuído durante a noite, pois aos poucos o hotel vai sendo tomado por centenas de coreanos eufóricos com o acontecimento. Descendo para o hall de entrada vou encontrar o meu velho amigo André Dupont que tal como eu visita Baikonur pela segunda vez, tendo-me acompanhado também na minha primeira visita. A amizade entre nós foi crescendo ao longo dos dias do primeiro tour em Baikonur e nos dois anos seguintes. André Dupont ensinou-me a adaptar à sociedade russa e os seus conselhos foram sempre muito úteis. Ainda antes de nos dirigirmos para p cosmódromo passamos por um outro hotel para nos juntarmos a um grupo de turistas norteamericanos. A partir dessa altura nada faríamos sem que os norte-americanos não o tivessem feito ou visto primeiro, algo que não foi do nosso total agrado mas pelo qual os nossos guias não tinham a culpa. Juntamente com Viktor encontrava-se também uma simpática guia chamada Lisa que nos explicou e ensinou muitas das particularidades de Baikonur e das suas gentes. Chegado o grupo de norte-americanos, seguimos na escuridão em direcção ao cosmódromo. No horizonte começava a surgir a primeira luz de um novo dia. Os autocarros foram estacionados mesmo ao lado do edifício de integração e montagem do lançador (MIK) na Área 254. Era já grande a multidão junto do portão por onde haveria de sair o comboio que transportava o foguetão. As portas estavam já abertas e facilmente vislumbramos o comboio e atrás de si o foguetão lançador. Para mim e para André foi como que o fechar de um ciclo, pois não havíamos assistido a este momento da primeira vez. De repente escutou-se a sirene do comboio e este começa a mover-se lentamente, parando na altura em que o lançador se encontra completamente no exterior do edifício. A quantidade de flashes e a movimentação das pessoas que ali se encontravam era intensa. Os soldados impediam uma grande aproximação ao comboio e ao foguetão, mas este encontrava-se a uns meros 4 ou 5 metros de mim. Jamais esquecerei aqueles momentos e por momentos os olhos enchem-se de lágrimas ao ver algo que somente havia anteriormente visto em fotografias, pela televisão ou na Internet.

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Após estar parado alguns minutos, o comboio começa novamente a mover-se iniciando assim a sua lenta viagem até à plataforma de lançamento. Por uns minutos é possível caminhar ao seu lado até junto de uma vedação que impede a nossa passagem. Entretanto os raios de Sol começam a surgir no horizonte começando a aquecer a manha fria de Baikonur. Por momentos fico parado a ver o comboio a afastar-se num quadro no qual faz parte o grande edifício que ainda alberga um modelo do foguetão Energia-M.

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Com o comboio e o foguetão lançador a desaparecer no nosso campo de visão tivemos a oportunidade de visitar rapidamente os sistemas de transporte do foguetão Energia que se encontravam estacionados nas proximidades. Ao nosso lado encontrava-se o local onde ainda estão os restos do vaivém espacial soviético Buran soterrados sobre toneladas de destroços do telhado colapsado do edifício. Apesar de perguntar ao nosso guia se seria possível vislumbrar por momentos o seu interior, ele disse-nos que por questões de segurança tal não era possível.

Regressados ao nosso autocarro dirigimo-nos ao segundo local de observação onde teríamos novamente a oportunidade de assistir ao transporte do foguetão 11A511U-FG Soyuz-FG para a plataforma de lançamento. A nossa viagem demorou pouco mais de 15 minutos e pelo caminho tivemos a oportunidade de ver vários edifícios do cosmódromo e de passar ao lado de relíquias do passado na forma de partes da fuselagem do foguetão lunar N-1 agora convertidas em pequenos armazéns.

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O nosso autocarro pára junto de uma passagem de nível que é o local onde iremos assistir à passagem do comboio antes de irmos para a plataforma de lançamento. Esta passagem de nível encontra-se num ponto mais elevado que nos permite ter um campo de visão muito alargado e excelente para fotografias. Entretanto, e enquanto que o comboio não chega, tomamos o nosso estranho pequeno-almoço e eu pouco depois inicio uma verdadeira caçada ao autógrafo dos cosmonautas que entretanto iam chegando. O meu primeiro autógrafo foi o do cosmonauta Alexander Alexandrovich Volkov, pai do cosmonauta Sergei Alexandrovich Volkov – Comandante da Soyuz TMA-12. Alexander Volkov participou nas missões espaciais Soyuz T-14, Soyuz TM-7 e Soyuz TM-13. Como não falo russo pedi ao nosso guia Viktor para por sua vez pedir a Alexander Volkov para me dar o seu autógrafo no livro “Who’s Who In Space” de Michael Cassutt. Volkov aceitou e após assinar o livro teve a amabilidade de tirar uma fotografia comigo.

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Entretanto ao longe era já visível o comboio transportando o foguetão com a cápsula Soyuz TMA-12, mas como ainda demoraria algum tempo até chegar junto de nós, prossegui a minha caça e o cosmonauta seguinte foi Pavel Vladimirovich Vinogradov, Comandante da Soyuz TMA-8 na qual o cosmonauta Marcos César Pontes fez história ao se tornar no primeiro astronauta brasileiro a viajar no espaço.

Pavel Vinogradov também tirou uma fotografia com alguns elementos do nosso grupo de visitantes (Thomas Tsymbal e André Dupont).

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Após inverter a sua marcha, o comboio foi-se aproximando lentamente da passagem de nível e do local onde nos encontrávamos. Entretanto consigo o meu terceiro autógrafo, desta vez do cosmonauta Oleg Valeriyevich Kotov que foi Comandante da Soyuz TMA-10 e da Expedição 15 na ISS. Infelizmente o cosmonauta Yuri Pavlovich Gidzenko, que se encontrava também a assistir à passagem do comboio na passagem de nível, recusou-se a dar o seu autógrafo. Curiosamente, e após uma segunda recusa mais tarde por parte de Vasili Tsibliev, notei que os dois cosmonautas que envergavam uniforme militar haviam os únicos que não haviam acedido a dar os seus sutógrafos devido talvez a alguma imposição oficial. À medida que o comboio passava em direcção à plataforma de lançamento, as pessoas presentes apressavam-se a obter os melhores ângulos para as suas fotografias e a movimentação em torno dos carris por onde o comboio se deslocava lentamente, era intensa tornando os guardas militares um pouco nervosos. Assim que o comboio se afastou da passagem de nível toda a gente entrou novamente nos autocarros e dirigimo-nos para a plataforma de lançamento de onde o primeiro satélite, a primeira sonda lunar e o primeiro voo espacial tripulado haviam sido lançados.

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A viagem entre a passagem de nível e a plataforma de lançamento é extremamente rápida. A multidão presente era enorme e composta na sua maior parte por cidadãos coreanos. Esta multidão torna os guardas e os técnicos na plataforma de lançamento extremamente nervosos pois na ânsia de tudo ver, os coreanos atravessam as grades de protecção e fitas delimitadores e entram em áreas restritas. Acabado de chegar à plataforma de lançamento o foguetão começa a ser submetido aos preparativos para ser colocado na posição vertical. Os técnicos começam por retirar os dispositivos de segurança e acesso ao lançador. Por vezes a nossa atenção é despertada por sons provenientes do sistema de erecção, mas a manobra ainda demora alguns minutos. Em vez de fotografar a erecção do foguetão decido fazer um vídeo dos procedimentos. O foguetão começa a ser elevado e eu inicio a filmagem. É mais ou menos a meio da colocação na vertical do foguetão lançador que a minha máquina fotográfica decide decretar uma greve temporária… infelizmente acabo por perder os dados gravados naqueles instantes mas as restantes fotografias estão seguras.

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O procedimento de colocação do foguetão lançador na vertical demora poucos minutos e a vista é magnífica apesar de por vezes o Sol impedir um olhar directo. Com o veículo na vertical são tiradas as últimas fotografias e aos poucos a multidão vai dispersando. É nesta altura que mais calmamente conseguimos ter um vislumbre sem incómodos do foguetão já na posição vertical. Os dois braços da torre de serviço começam a ser elevados e minutos mais tarde já envolviam o foguetão permitindo assim o acesso dos técnicos às diferentes partes do veículo. No entanto, nesta altura já nos tínhamos afastado em direcção ao nosso autocarro mas de vez em quando voltava-me para aquele local e ia fotografando toda a operação.

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Terminadas as actividades na Plataforma de Lançamento PU-5, entramos no nosso autocarro e fomos conduzidos ao edifício de processamento MIK na Área 254 que está sobre a responsabilidade da Corporação Energia. Originalmente construído para o processamento dos vaivéns espaciais soviéticos, foi mais tarde aproveitado pela Corporação Energia para transferir para aí as operações de processamento dos veículos Soyuz TM, Soyuz TMA, Progress M e Progress M1. A nossa visita começou com a visualização de um curto vídeo sobre a missão Soyuz TMA-11 e de seguida fomos levados por um longo corredor que dava acesso a um sem número de escritórios. As paredes do corredor estavam adornadas com fotografias de diversos veículos espaciais que foram desenvolvidos ao longo da história da Corporação Energia. No final do corredor entramos num grande num grande hangar onde são preparados os veículos Soyuz TMA e Progress M, e onde ainda são visíveis as estruturas que foram também utilizadas para o processamento dos módulos russos da estação espacial internacional (Zarya, Zvezda e Pirs). Numa das paredes vemos pintado um fresco com o perfil de Sergei Korolev e a frase “O caminho para as estrelas está aberto”. No interior do hangar encontrava-se o veículo de carga Progress M-64 na sua fase inicial de preparação para o seu lançamento que teria lugar a 14 de Maio. Um pouco escondido estava também o estágio Block DM-SLB que seria utilizado para o lançamento do satélite de comunicações israelita AMOS-3 a 28 de Abril. A nossa visita foi conduzida por um responsável da Corporação Energia que insistia em afirmar que o veículo que encontra exposto junto do Museu de Baikonur é o vaivém espacial Buran que levou a cabo um voo orbital. Tal não é verdade pois o veículo exposto é apenas um modelo utilizado em testes antes do voo do Buran. No entanto esta reacção é representativa da forma como alguma parte dos responsáveis do programa espacial russo (e então soviético) vêm o final desse enorme programa que foi o desenvolvimento do Buran, não querendo de certa forma admitir o seu colapso.

Finalizada a nossa visita ao edifício dirigimo-nos mais uma vez para o nosso autocarro e é nesta altura que o nosso guia nos surpreende ao nos perguntar se desejaríamos visitar o local onde teve lugar o terrível Desastre de Nedellin a 24 de Outubro de 1960 quando um míssil R-16 explodiu na plataforma de lançamento matando dezenas de especialistas. Formando um pequeno comboio de dois autocarros e duas carrinhas começamonos a dirigir para a estrada principal e a certa altura tomamos uma estrada que me era desconhecida, apesar de já a ter visto por muitas vezes. Acabáramos de entrar no flanco direito do cosmódromo numa zona conhecida como ‘Área de Yangel’. Esta é a zona mais a Este do cosmódromo e desde 1960 que várias gerações de mísseis balísticos intercontinentais e de foguetões lançadores têm sido testados nesta zona.

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Ao longo da estrada mal cuidada são visíveis vários edifícios abandonados e semi abandonados que demonstram a importância daquele lugar há muitos anos. Esta foi uma zona muito movimentada nos anos 80, altura que se dava o desenvolvimento do foguetão 11K77 Zenit-2 que era também utilizado como propulsor lateral para o lançador Energia. O nosso comboio aproxima-se de um posto de controlo não muito afastado do local onde os lançadores 11K77 Zenit-2 são preparados para o lançamento e no horizonte são visíveis as torres de serviço das plataformas de lançamento do complexo LC45. O nosso autocarro e os restantes veículos têm de sair por momentos da estrada devido a uma cancela fechada da qual a chave deve estar há muito perdida. Em vez de derrubar a cancela foi mais fácil fazer um curtíssimo desvio de 20 metros pois as marcas dos rodados das viaturas estão bem marcadas no solo poeirento. A certo ponto da estrada, que continua sempre em frente perdendo-se no horizonte, fizemos um desvio para a esquerda e passamos ao lado de edifícios abandonados e em ruínas virando para a Área 41 que continha as plataformas de lançamento PU-3 e PU-4.

Finalmente paramos e vemos um local quase abandonado. No centro da antiga plataforma encontra-se um monumento em memória daqueles que faleceram no desastre. São visíveis alguns bunkers de observação e por debaixo da antiga plataforma encontram-se várias salas em ruínas e uma série de túneis. As salas encontram-se cheias de destroços e no chão vêm-se pedaços do antigo tecto em estuque trabalhado. É um local triste e nota-se o semblante carregado de alguns de nós. Como recordação havia já recolhido uma pequena pedra junto dos restos metálicos da plataforma, mas do chão de uma das salas apanho dois pedaços do velho estuque trabalhado. Estão agora guardados como recordação da minha primeira visita àquele local.

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No regresso da Área 41 pedimos para que o nosso autocarro pare mesmo à saída da zona de segurança do complexo de preparação do foguetão Zenit para que pudéssemos tirar algumas fotografias da fachada do edifício e da estátua adjacente. Porém, a nossa verdadeira intenção foi a de fotografar à distância o Complexo de Lançamento LC41 a partir de um apeadeiro ali existente. Conseguimos as nossas fotografias das plataforma no horizonte e dirigimo-nos para a frente do edifício quando de repente vemos o guarda de serviço a correr em nossa direcção e esbracejando para os nossos para que nos afastássemos daquele lugar rapidamente. Assim fizemos e prosseguimos o nosso caminho de regresso à cidade de Baikonur para um merecido almoço no mesmo restaurante no qual já havíamos estado no dia anterior. Após o almoço alguns elementos do grupo decidiram visitar o mercado local contrariando o pedido do nosso guia para que o grupo não se separasse. Infelizmente tal não aconteceu. Alguns elementos não compreenderam o pedido do guia e interpretaramno como uma intenção de não nos deixar conhecer as gentes locais. Obviamente que tal não era verdade e o pedido do guia tinha a ver com factores de segurança. As gentes locais são pacíficas mas um grupo de turistas facilmente identificável é sempre um alvo apetecível para os ladrões e carteiristas locais. A visita ao mercado acabou por ser curta e de seguida somos levados a visitar o monumento de Yangel. Pouco depois dirigimo-nos ao hotel para um curto descanso. Mais tarde fizemos um curto passeio por Baikonur. Ao sair do hotel notei que tinha chovido o que até fora agradável pois o dia estava muito quente e abafado e a chuva serviu para refrescar um pouco. Começamos por visitar um monumento à cidade de Baikonur. Inicialmente a cidade denominava-se Zarya, sendo depois rebaptizada com o nome de Leninsjiy, Leninsk e mais tarde, em 1995, Baikonur (na realidade esta é a segunda cidade com este nome no Cazaquistão).

Enquanto visitávamos este monumento fomos surpreendidos pela chegada de um grupo de pessoas que festejavam um casamento e que iam tirar as típicas fotografias junto daquele monumento. De seguida dirigimo-nos para outros monumentos ao longo da avenida entre os quais se encontrava um monumento a Sergei Korolev e o monumento à exploração espacial que é constituído por um foguetão 11A511 Soyuz.

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Terminado o jantar e estando o grupo bastante cansado, regressamos ao hotel e após mais um pequeno serão de conversas com Andreas, fomos descansar e preparar para as visitas do dia seguinte.

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Cosmódromo de Baikonur, Dia 4 Para conseguir ter uma boa noite de sono tinha sempre de dormir com a janela do meu quarto aberta, pois era muito o calor dentro do quarto. Relaxado por um bom duche na noite anterior acabei por adormecer profundamente, mas acordei a meio da noite com o que me parecia ser o barulho da chuva. Pensado tratar-se de um sonho voltei a adormecer embalado no ar fresco que entrava no quarto. Pus o despertador do telemóvel para as 8h00 locais (2h00 de Lisboa) e apesar de ter acordado acabei por adormecer. Foi novamente acordado em sobressalto com o Viktor a bater freneticamente na porta do meu quarto e em menos de cinco minutos estava já a descer as escadas do hotel. Obviamente que fui recebido com um grande apupo (!) pelos meus colegas de viagem já no interior do autocarro e fiquei espantado pelo Viktor me perguntar se havia saído essa noite (certamente devido ao convite que me tinha sido feito pelas pessoas que estavam no casamento que havíamos encontrado no dia anterior no monumento à cidade de Baikonur!!! Depois de tomar um pequeno-almoço muito estranho, dirigimo-nos para o Hotel Kosmonavt para assistir à conferência de imprensa da tripulação principal da Soyuz TMA-12 após esta ter sido mais uma vez aprovada pela Comissão Estatal que supervisionada todos os preparativos para o lançamento. Ao chegar ao portão de entrada do hotel, deparamo-nos com um forte dispositivo de segurança. As ruas estavam guardadas por militares fardados e agentes especiais à paisana. Ninguém passava pelos portões sem uma autorização prévia e o mesmo aconteceu com o nosso grupo, com o grupo de turistas alemães e com o grupo de turistas norte-americanos. Passados alguns minutos de espera, e enquanto aguardamos pela nossa vez para entrar na sala da conferência de imprensa, somos levados a visitar o parque dos cosmonautas. Este parque está situado ao longo de um espaço verde contíguo às instalações do hotel e situado nas margens do Rio Syr Daria. É composto por três passadiços ao lodo dos quais estão plantadas dezenas de árvores. Cada uma destas árvores foi plantada por um cosmonauta antes da sua primeira viagem espacial ou depois do seu regresso. Muitas deles estão identificadas com o nome do respectivo cosmonauta, porém outras não têm qualquer placa identificativa. Tal acontece porque, segundo o que nos foi explicado, a placas estão a ser trocadas por placas novas e muitas delas ainda não estavam prontas. A nossa atenção foi concentrou-se inicialmente na árvore de Yuri Gagarin e após todos terem tirado as respectivas fotografias perguntei ao Viktor se era possível recolher um pouco de terra da base dessa árvore. Após consultar com um responsável, Viktor disse-me que o poderia fazer e agora esse pedaço de terra tirada da base da árvore de Yuri Gagarin está numa das minhas prateleiras como mais uma recordação de Baikonur. Este meu acto chamou a atenção de vários companheiros que me perguntaram se tinha mais recipientes, mas infelizmente havia só levado uma pequena caixa plástica de rolo fotográfico onde armazenei a terra. De seguida percorremos os restantes passadiços em busca de outras árvores e de outros nomes de cosmonautas. Seguiu-se a árvore de Gherman Titov, Andrian Nikolayev, Pavel Popovich, Valeri Bykovsky, Valentina Tereshkova, etc. Admiramos a paisagem desértica para lá do Syr Daria e comentamos como seria banhar-nos no rio, algo que os cosmonautas farão com frequência quando o tempo está mais quente.

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De repente surge a ordem para sairmos do local e para nos dirigirmos novamente para a entrada do hotel onde teremos de esperar mais alguns minutos até que nos seja permitido assistir à parte final da conferência de imprensa. Dão-nos então a indicação de que podemos entrar novamente na área do hotel e para tal temos de passar por um grupo de coreanos não muito satisfeitos com aquela situação. Passando pela porta principal do hotel entramos num pequeno hall pelo qual passam técnicos e especialistas em batas brancas, oficiais da agência espacial russa e responsáveis coreanos. Aqui e ali tentam passar despercebidos alguns militares armados. Dirigimo-nos de imediato para a sala de conferências onde o ar é pesado e está muito calor. Por detrás de um vidro encontramos as duas tripulações da Soyuz TMA-12:a tripulação principal composta por Sergei Alexandrovich Volkov, Oleg Dmitriyevich Kononenko e Yi Soyeon; e a tripulação suplente composta por Maksim Viktorovich Surayev, Oleg Ivanovich Skripochka e Ko San. Devido à imensa quantidade de pessoas e de jornalistas dentro da sala, torna-se muito difícil obter uma boa visão dos cosmonautas que se encontravam por detrás de um vidro. Os cosmonautas respondem a algumas questões colocadas pelos jornalistas mas as questões são de tão fraca qualidade e simplesmente muito básicas, roçando a idiotice pura e o mau jornalismo. Exemplo disso é a primeira questão que é colocada ao cosmonauta coreano Ko San quando uma infeliz jornalista lhe pergunta como se sente ao estar na posição em que estava e perdendo a oportunidade de se tornar ao primeiro coreano a viajar o espaço. Depois de tentar tirar algumas fotografias decidi juntamente com André Dupont sairmos para o hall de entrada na esperança de tentar obter mais algum autógrafo de algum cosmonauta que pudesse andar por ali. Neste local notamos a grande diferença entre a nossa primeira visita quando o edifício estava repleto de gente e representantes da NASA. O ambiente era agora um pouco diferente e como não havia astronautas norteamericanos presentes, não havia também um número significativo de representantes norte-americanos. Ao fim de algum tempo Viktor juntou todo o grupo e continuamos a nossa visita ao cosmódromo desta vez dirigindo-nos para o edifício de integração e montagem (MIK) na Área 112 onde são preparados os foguetões 11A511U Soyuz-U e 11A511U-FG Soyuz-FG. Já havia estado no interior deste edifício a quando da minha primeira visita ao Cosmódromo de Baikonur em Março de 2006 e desta vez tinha um grande interesse em visitá-lo de novo pois é sempre uma oportunidade de ver os alguns dos próximos foguetões a ser lançados desde o cosmódromo. O nosso guia foi a mesma pessoa que há dois anos nos recebeu naquele lugar e para minha surpresa parecia que esses dois anos não tinham passado por ele pois o seu aspecto era jovial. No interior do edifício encontravam-se vários componentes de pelo menos dois foguetões derivados do R-7 e após uma curta conversa com o nosso guia, que na sua juventude como técnico no cosmódromo assistira aos lançamentos do gigante N-1, pudemos ter acesso a uma zona lateral para tirar fotografias. Na nossa conversa tive a oportunidade de o saudar, dizendo-lhe que estava satisfeito por encontrá-lo de boa saúde e coloquei-lhe algumas questões relacionadas com o passado e o futuro do programa espacial russo. Uma das questões relacionava-se com o vaivém espacial Buran e perguntei-lhe porque razão não havia interesse em remover os destroços do vaivém do velho hangar. A sua resposta foi demonstrativa da forma como os russos lidam com este tipo de questões, mas no entanto foi franca e verdadeira. Disse-me que não havia interesse em remover os destroços porque esse era um programa morto e fazendo parte do passado, não havendo assim razão para se investir financeiramente e em mão de obra para um trabalho que na prática não traria nenhum proveito futuro para o programa espacial.

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Deixamos o MIK na Área 112 e entramos novamente no nosso autocarro. O dia está agradável, quente e um pouco ventoso. Dirigimo-nos para o Complexo de Lançamento LC250 UKSS passando ao lado do gigantesco hangar no qual jazem os restos do vaivém espacial Buran destruído pelo colapso do telhado do edifício em 2002. Não muito longe avista-se o alto edifício para testes vibratórios do foguetão Energia e um segundo edifício no qual estão guardados um modelo do Buran e o segundo vaivém espacial capaz de levar a cabo missões orbitais mas que nunca voou.

A estrada que nos conduziu ao complexo UKSS passa não muito longe do Complexo de Lançamento LC110 que foi construído para o lançamento do foguetão lunar N-1 e posteriormente adaptado para o lançamento do sistema Energia-Bura. Tal como tinha acontecido há dois anos, não nos foi possível visitar este complexo devido a questões de segurança não especificadas. Para a memória ficaram mais uma vez as imagens das duas torres de lançamento a marcar o horizonte.

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Em certo ponto na estrada viramos à direita e passamos por um familiar monumento que marca a direcção para o complexo universal UKSS e para uma das zonas de lançamento dos foguetões 8K82K Proton-K e 8K82KM Proton-M cujas plataformas mal se distinguem no horizonte longínquo a quase 30 km de distância. A estrada segue ao lado de vários edifícios e estruturas agora abandonadas. O nosso autocarro, acompanhado por dois outros veículos, entra no complexo e estaciona não muito longe da torre de lançamento. O complexo está localizado perto da zona de armazenamento de oxigénio líquido do cosmódromo. O nosso guia é também uma cara já conhecida da visita em 2006 e é com simpatia que nos dá as boas vindas ao complexo universal UKSS. Este complexo foi construído como uma zona de lançamento e testes para vários lançadores da família Energia, além de ser também utilizado em testes de integração. O primeiro e único lançamento orbital a partir deste complexo teve lugar a 15 de Maio de 1987 quando um foguetão 11K25 Energia (6SL) foi lançado transportando o veículo Polyus (Skif-DM). Infelizmente o lançamento não foi bem sucedido apesar do foguetão ter desempenhado a sua função e o Polyus acabou por cair do Oceano Pacífico. O nosso guia explica-nos todos os constituintes principais do complexo. Ele trabalhou no projecto desde 1983 e é com emoção que nos conta s sua história. A quando da escavação do fosso das chamas no início da sua construção, os operários encontraram restos arqueológicos enterrados nas areais da estepe. Os trabalhos foram suspensos e uma comissão de arqueólogos do estado foi chamada ao local para analisar o achado. Infelizmente os trabalhos dos arqueólogos demorou mais tempo do que estava previsto e atrasou a construção do complexo. Quando mais tarde novos vestígios foram descobertos, foi decidido tapá-los e prosseguir com os trabalhos sem chamar os arqueólogos.

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No regresso à cidade de Baikonur conseguimos que os autocarros parassem por alguns instantes para podermos ver ao longe o Complexo de Lançamento LC110 e tirar algumas fotografias. Regressamos então a Baikonur e tomamos o nosso almoço. De tarde Viktor leva-nos até à estação de correios e de lá enviamos dezenas de cartas e postais para nós mesmos (!!!) e para alguns amigos. Aproveitamos também para comprar alguns postais, selos e emissões do dia. Chegados quase à hora do fecho, a entrada de mais de dez turistas na estação dos correios torna o ambiente um pouco caótico ajudado pelo facto de os turistas alemães não serem nada educados e passarem à frente de todos os outros que tentavam ser organizados com a ajuda do nosso guia. São estes pequenos detalhes que distinguem muitos de nós. Decido então ficar para último para com calma poder escolher os postais que desejava e enviar as cartas que queria. O posto de correios tinha uma variada oferta a nível de postais e emissões do dia. Mal perscrutei os postais disponíveis chamoume a atenção um postal com o rosto de Motrifan Nedellin. Felizmente o postal passou despercebido aos gananciosos turistas alemães que tudo queriam comprar e quando chegou a minha vez, pedi ao Viktor que por sua vez pedisse à funcionária da estação dos correios que pacientemente nos atendia, para me mostrar o postal. Hoje faz parte da minha colecção, para inveja de todos que com espanto me viram a comprá-lo! Chegada então a minha vez decido comprar cinco envelopes para enviar cinco cartas: uma para o Brasil, outra para a China e as restantes três para Portugal. Curiosamente só chegariam a Portugal uma semana mais tarde, enquanto que a carta enviada para o Brasil quase dois meses depois. Regressamos ao hotel para descansar um pouco antes do jantar. O jantar deveria ter lugar no mesmo restaurante, coisa que é usual para uma organização deste tipo há já muito tempo preparada. Os turistas alemães e norteamericanos, por sua vez, irão jantar num outro restaurante dentro de um abrigo cazaque típico. Esta situação provocou algum mal-estar por entre alguns turistas franceses no meu grupo que também queriam acompanhar os outros turistas. Após uma conversa com Viktor, este decidiu que também iríamos jantar no yurt. Comemos então uma refeição típica do Cazaquistão… regada com alguma vodka e muitos brindes à mistura.

Cosmódromo de Baikonur, Dia 5 Despertar para o dia grande da nossa estadia em Baikonur – o dia do lançamento da Soyuz TMA-12! Desta vez não adormeci e fui mesmo um dos primeiros a chegar ao hall de entrada do hotel. O nosso autocarro chega um pouco depois da hora marcada e de seguida vamos tomar o nosso estranho pequeno-almoço antes de nos dirigirmos para a segunda parte da visita à cidade de Baikonur. O dia está agradável e começamos por visitar um monumento com um avião Ilyushin Il-2. Após algumas fotografias ao monumento e aos edifícios que se estendiam por uma longa avenida, fomos levados até ao memorial em honra dos mortos no Desastre de Nedellin. O memorial é composto por um pequeno obelisco tendo em torno de si uma série de lápides com os nomes dos mortos nesse horrível desastre. Junto ao memorial de Nedellin encontra-se um outro pequeno monumento em honra dos mortos de um acidente ocorrido a 24 de Outubro de 1963 a quando dos preparativos para o lançamento de um míssil R-9 a partir do Complexo de Lançamento LC70 do Cosmódromo de Baikonur.

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Prosseguimos a pé na mesma avenida até um outro monumento, desta vez dedicado à Ciência. É um monumento único em Baikonur e uma visita obrigatória de quem está na cidade. Esta é uma grande estátua de uma figura feminina que segura a Terra numa das suas mãos e as chamas do lançamento de uma nave espacial na outra. A nossa visita à cidade de Baikonur é finalizada com uma passagem pela Igreja Ortodoxa de Baikonur cujo padre estava sempre pronto para tirar uma fotografia...

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Seguimos então para o cosmódromo e após a viagem de quase 30 km o nosso autocarro pára no parque de estacionamento ao lado do edifício de integração e montagem na Área 112. Á medida que o tempo passa vão chegando mais autocarros e outros veículos cheios de coreanos, estudantes russos, e oficiais e responsáveis da agência espacial russa. Tal como nos tinha prometido, Viktor oferece a cada um de nós um «press-kit» relativo à missão espacial Soyuz TMA-12. Ao fim de alguns minutos de espera somos então levados para lá do portão de acesso ao edifício. Entramos na zona onde os cosmonautas se apresentam à Comissão Estatal afirmando a sua prontidão para a missão. Aqui estava também estacionado o autocarro que haverá de levar os cosmonautas até á plataforma de lançamento. Após um curto compasso de espera são-nos entregues uns crachás identificativos de fita azul que nos dão acesso ao interior do edifício e à sala a partir da qual se podem ver os cosmonautas já envergando os seus fatos pressurizados a serem preparados para o lançamento. Apesar de somente existirem menos de dez crachás, Viktor irá mais tarde oferecer-me um como recordação e pelo apoio dado durante a nossa visita (é mais uma recordação desta visita a junta a um outro crachá que já nos tinha sido oferecido no dia em que havíamos assistido ao transporte do foguetão lançador 11A511U-FG Soyuz-FG para a plataforma de lançamento).

O interior da sala está cheiro de jornalistas e as câmaras de televisão impedemnos de ter uma boa visão da preparação dos cosmonautas. Quando entramos a cosmonauta coreana Yi So-yeon estava a terminar os testes do seu fato espacial. Com ajuda dos especialistas russos, ela é colocada de pé e depois conduzida para uma cadeira a partir da qual depois responde a algumas questões dos jornalistas juntamente com os seus colegas de voo. É então tempo de sair e devolver os nossos crachás. Infelizmente, e ao contrário do que estava à espera, somos conduzidos para lá do portão de acesso e só podemos assistir à saída da tripulação através de uma bancada instalada no exterior. As nossas esperanças de conseguir um bom local de observação foram goradas quando vimos que a bancada estava já repleta de coreanos com bandeiras e outros artefactos de apoio a Yi. Apesar de alguns membros do grupo ficarem junto dos coreanos, eu e André decidimos nos deslocar para a zona lateral da bancada onde a observação poderia ser mais directa até ao momento em que para lá das grade de delimitação outras pessoas começaram a ocupar os seus lugares para assistir à saída dos cosmonautas.

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Por entre as pessoas que estão junto do local de apresentação podemos distinguir algumas caras conhecidas tais como os cosmonautas Alexei Leonov e Sergei Krikalev, a cosmonauta Valentina Tereskhova e o Presidente da Agência Espacial Russa Anatoli Perminov. À medida que o tempo vai passando a expectativa pela saída dos cosmonautas vai aumentando. Viktor encontra-se para lá das grades que divide o espaço entre a bancada e o local onde os cosmonautas deverão se perfilar perante a Comissão Estatal e afirmar a sua prontidão para a missão que irão desempenhar. De vez em quando observo a porta por onde a tripylação haverá de sair. Entretanto peço ao Viktor para ficar com a minha máquina fotográfica para poder tirar o maior número de fotografias possível da tripulação, pois sei de antemão que a partir do local onde me encontro será impossível obter qualquer imagem dos cosmonautas. No meio das conversas que se vão desenrolando tivemos a oportunidade de conversar com uns miúdos russos que pertenciam a uma escola numa localidade a uns 800 km de Baikonur. Era a primeira vez que estavam no cosmódromo e haviam ganho o direito de estar ali porque participaram num concurso sobre a conquista do espaço cujo prémio era uma viagem a Baikonur para assistir ao lançamento da Soyuz TMA-12. De repente as movimentações junto á saída do edifício aumentam e nisto os cosmonautas saem do edifício e alinhando-se dirigem-se perante a Comissão Estatal. Vão acenando aos presentes e a comitiva coreana explode em regozijo por Yi. Após proferirem algumas palavras e de receberem a saudação dos responsáveis, a tripulação acena mais uma vez á multidão e posteriormente encaminha-se para o autocarro que os levará para a plataforma de lançamento.

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Com a tripulação agora a caminho da plataforma de lançamento nós iríamos para a etapa final da nossa passagem pelo Cosmódromo de Baikonur com uma visita ao seu museu. Localizado na Área 2 do cosmódromo, o museu apresentava-se muito renovado em relação a 2006. os trabalhos de melhoramento da exposição eram notáveis e a disposição da mesmo estava muito melhor organizada com a inclusão de interessantes guias em muitas das salas (na realidade havia uma guia para cada sala do museu). Na exposição é possível ver muitos artefactos que foram de facto utilizados nos primeiros anos da exploração espacial soviética entre os quais o primeiro computador do cosmódromo, uma cápsula espacial e modelos de satélites, fatos espaciais pressurizados, etc. No museu existe também uma parte dedicada aos desastres de Nedellin e da explosão do míssil R-9. Na zona exterior do museu a principal atracção era um modelo do vaivém espacial soviético Buran, o veículo OK-M. Este veículo encontrava-se anteriormente localizado numa zona próxima do MIK na Área 112 onde estava sobre a influência inclemente dos elementos de Baikonur. Após ser submetido a um trabalho de restauro notável, o veículo foi transferido para junto do edifício do Museu de Baikonur onde agora os visitantes podem ter acesso ao seu porão de carga onde está montada uma pequena exposição acerca do programa Energia-Buran.

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Há medida que os minutos iam passando a nossa excitação ia aumentando de forma exponencial. Após uma visita á pobre loja de recordações do museu (onde na realidade acabei por comprar quase um exemplar dos artigos mais interessantes que lá existiam… mas que também não eram muitos!), regressamos ao nosso autocarro, quente de estar horas ao Sol, e rumamos para o posto de observação localizado na Área 18 a uns escassos 1,5 km da plataforma de lançamento ‘Gagarinskiy Start’. Como já era normal, a multidão presente era já enorme e na sua maioria constituída pela delegação de visitantes coreanos. Faltando ainda largos minutos para o lançamento, dediquei-me á minha caçada final por autógrafos de cosmonautas pois Sergei Krikalev andava por perto. Subitamente, Viktor surge junto de mim dizendo que Krikalev acabara por passar por ele. Aproveitando a deixa, pedi-lhe então para que lhe perguntasse se era possível obter o seu autógrafo e assim… a minha colecção ganhara mais um troféu! Este, porém, não seria o último…

Tentar encontrar um bom local para observar o lançamento era já difícil e não conseguiria estar mesmo junto à vedação sem ter ninguém à minha frente. Bom, ficar na segunda linha também não era mau desde que ninguém se mexesse muito e não me estragasse as fotografias tiradas já no máximo do zoom digital! A zona de observação encontra-se numa área ligeiramente elevada o que permite ter um bom ângulo de visão sobre o lançador. Os comentários que se escutam são todos em russo mas como já havia observado outros lançamentos, sabia com mais ou menos certeza em que fase da contagem decrescente nos encontrávamos. Enquanto esperamos pelos momentos finais, vários elementos do grupo de turistas (norte-americanos, alemães e eu) vamos confraternizando e celebrando antecipadamente o lançamento. Os brindes sucedem-se, se bem que nesta alguma decidira me abster pois com um ligeiro almoço no estômago não era muito aconselhável não saber qual foguetão seguir no céu!!!! Ao longe as duas partes da torre de serviço separavam-se e eram baixadas para a posição de lançamento. Minutos mais tarde o primeiro dos dois braços de serviço era também baixado, indicando que a hora do lançamento estava próxima. A multidão que até aí era ruidosa, silenciara-se em antecipação do que estava para ocorrer. Por momentos parecia que estávamos no decorrer de uma celebração religiosa onde o respeito pela entidade divina impera e impõe-se com o silêncio. Quando o segundo braço de serviço é afastado escuta-se no altifalante “Pusk!”. Da base do lançador vê-se um fumo cinzento e de imediato o ruído do que parecia ser uma cascata de água. Com os motores a aumentar de potência surge um ténue clarão e o trovar dos motores vai aumentando de intensidade! O foguetão começa a elevar-se ao mesmo tempo que os quatro braços de sustentação se abrem e afastam com o efeito dos pesos nas extremidades opostas. O lançador eleva-se no que parece ser um movimento lento mas que rapidamente vai ganhando velocidade. O ruído é intenso mas adorável! A 1,5 km nota-se a pressão das ondas de choque no peito, o calor das chamas e por momentos, num transe que desejava quase eterno, observo o foguetão a elevar-se rapidamente nos céus. Sinto por uma última vez o calor dos motores que se vai desvanecendo, um ponto de luz que se vai criando no céu e diminuindo. Irrompem aplausos!

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O lançador é agora um ponto de luz no final de um trilho de fumo que lentamente se vai desvanecendo. A plataforma de lançamento está agora novamente vazia e aguarda o próximo lançamento. As pessoas vão-se dispersando. Os coreanos cantam cantigas nacionais num esplendor de orgulho nacional. Permanecemos por mais alguns minutos no local de observação e nesta altura que tenho a oportunidade de conhecer Ko San, o cosmonauta coreano suplente. Na pequena conversa desejolhe boa sorte.

Após uma breve passagem pelo bar para tomar um café com o Viktor e o André, seguimos novamente para o nosso autocarro e após lá chegar recebo uma surpresa por parte do nosso motorista. No dia anterior havia perguntado ao Viktor se seria possível ficar como recordação com o livre-trânsito que permitia ao nosso autocarro passar pelos diversos postos de controlo do cosmódromo. Na altura respondeu-me de que se tratava na verdade de um documento oficial e que não era possível que eu ficasse com ele. Qual não foi o meu espanto quando chegado ao autocarro após o lançamento, o motorista chama por mim e me entrega o livretrânsito! Com os vários grupos dentro dos respectivos autocarros dirigimo-nos para a última surpresa da nossa estadia em Baikonur: um cocktail oficial com os cosmonautas e os máximos responsáveis pelo programa espacial russo. O autocarro leva-nos até junto do MIK na Área 254 onde já se encontravam muitas pessoas mas curiosamente não se vislumbrava qualquer coreano. Depois de receber umas pequenas senhas de acesso pela mão do Viktor dirigimo-nos para a porta de entrada onde aguardamos por alguns momentos. Nesta altura temos a oportunidade de escutar várias conversas em inglês entre alguns cosmonautas e representantes da agência espacial norte-americana onde se encontrava o astronauta Michael Allen Baker… que mais tarde me recusaria um autógrafo! Entre os presentes encontravam-se Alexei Leonov, Valentina Tereskhova, Vasili Tsibliev, Sergei Krikalev, Ko San, Maksim Surayev e Oleg Skripochka. Entramos então no edifício, subimos uma curta escadaria e entramos numa grande sala já cheia de gente. Na sala existem várias longas mesas colocadas de forma perpendicular a uma mesa principal onde se encontram as figuras principais entre os quais Anatoli Perminov. Colocamo-nos na extremidade de uma mesa juntamente com os turistas norte-americanos e alemães que já se haviam encarregado de abrir várias garrafas de vodka. Foram então iniciados os discursos formais de saudação à missão e ao seu sucesso entremeados com muitos brindes e urras de sucesso!

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Ao fim de vários minutos de conversa e brindes é chegada a hora de partir. Nesta altura as figuras principais já se havia, deslocado para outro ponto do cosmódromo onde decorria um cocktail privado para os convidados coreanos. Ao preparar para sair da sala é nesta altura que reparo em mais um cosmonauta. Não tendo a certeza, fui confirmar no meu livro e ali estava perante mim o cosmonauta Alexander Fedorovich Poleshchuk que havia participado na missão espacial Soyuz TM-16 entre Janeiro e Julho de 1993. Aproveitei a oportunidade para pedir um último favor ao nosso guia Viktor e consegui assim mais um autógrafo para a minha colecção!

Saímos então da sala e entramos no nosso autocarro em direcção à cidade de Baikonur. Pelo caminho notávamos já uma nostalgia, uma saudade por uma paisagem que provavelmente jamais voltaremos a ver. Foi em silêncio que a maior parte de nós fez a viagem até ao hotel. Olhávamos insistentemente para todos os edifícios que íamos vendo e para todas as paisagens que íamos observando. Regressámos ao hotel e temos 20 minutos para preparar a nossa bagagem para depois nos dirigirmos para o aeroporto. Já todos tinham as bagagens prontas e foi em pouco tempo que todos estávamos á espera do nosso transporte. A viagem de volta a Moscovo foi um pouco atribulada com uma demora intensa no aeroporto em Baikonur e uma viagem num avião Tupolev Tu-154 apinhado de gente e em condições muito desconfortáveis. Chagaríamos a Moscovo com algumas horas de atraso e o motorista que nos aguardava no aeroporto de Vnukovo já havia esperado cinco horas por nós!

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Moscovo, Dia 6 Um dia para descansar e poder despertar mais tarde mergulhado na excitação dos dias anteriores. A manhã deste dia foi uma manhã livre e decidi visitar um parque de exposições localizado em frente ao Hotel Cosmos. O parque foi em tempos uma exposição permanente dos feitos agrícolas da União Soviética e mais tarde alargado a outros ramos agro-alimentares e tecnológicos. Actualmente é um local de diversões e apesar de manter os magníficos edifícios dedicados a cada uma das antigas repúblicas soviéticas, foi transformado num parque de diversões. No lado oposto à entrada do parque ficava localizado um pavilhão onde antes estavam em exposição muitos dos veículos que agora se encontram no museu da Corporação Energia. O local está agora transformado num mercado de flores. Emfrente dês edifício encontra-se a maior atracção do parque, um foguetão 8A92 Vostok no seu veículo de transporte. A última etapa da nossa visita teve lugar à tarde depois do almoço quando visitamos a casa de Sergei Korolev em Moscovo. A casa não fica longe do Hotel Cosmos e facilmente percorremos a distância a pé. Esta casa encontrava-se em tempos num local muito calmo e quase isolado nos subúrbios de Moscovo, sendo por esta razão um local especialmente escolhido pelo próprio Korolev. Acompanhados por uma guia que só falava francês e que serviu de tradutora da guia que só falava russo, visitamos as várias partes da casa que se mantêm inalteradas desde o dia da sua saída para o hospital em Janeiro de 1966. Tivemos a oportunidade de ver um pequeno filme sobre a vida de Korolev e de especial interesse foi o escritório de Korolev repleto de livros de aviação e aeroespaciais em russo, inglês e francês. No final da visita visitamos a pequena recepção onde comprei mais algumas recordações e livros nomeadamente um muito interessante com desenhos de propaganda soviética que glorificavam os feitos espaciais.

Moscovo, Dia 7 Este foi o último dia do tour para a maior parte dos meus companheiros de viagem entre os quais André Dupont. Foi com uma certa emoção que nos despedimos trocando votos de felicidades e convites para mutuamente visitarmos os nossos países. Ficando em Moscovo mais um dia, eu e o Thomas Tsymbal ainda tínhamos programado uma visita às instalações da revista Novosti Kosmonavtiki onde tivemos a oportunidade de conhecer alguns dos seus jornalistas entre os quais Ivan Safranov, Pavel Charov e Igor Lissov. Foi aqui onde finalmente tivemos a oportunidade de comprar alguma literatura relacionada com a exploração espacial soviética, além de comprar por um preço muito baixo alguns número que me faltavam da revista Novosti Kosmonavtiki. Uma ideia iniciada há quase um ano, o Baikonur Tour 2008 contou com a presença de oito pessoas vindas de Portugal e da França. Foi o concretizar de um projecto e para mim o reviver de um sonho… que desejo voltar a sonhar…

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GIK-5 Baikonur (Байконур) O mais importante Cosmódromo da Rússia encontra-se actualmente situado na República do Cazaquistão após o desmembramento a União Soviética. É de bom senso impossível atribuir uma coordenada geográfica que assinale a localização do Cosmódromo de Baikonur (também designado como Tyuratan), pois a sua área é imensa atingindo os 85 Km de Norte a Sul e os 125 Km de Este a Oeste. No entanto, muitas vezes é dada a coordenada 45º38N – 63º16ºE para localizar o Cosmódromo. A designação actual de GIK-5 significa “Gosudarstvennyy Ispytatelnyy Kosmodrom – 5”, porém anteriormente existia a designação NIIP-5 “NauchnoIssledovatelskiy Ispytatelnyy Poligon – 5” (5º Polígono Estadual de Pesquisa Científica). Conhecido como o local de lançamento das missões tripuladas da União Soviética e agora da Rússia, a principal tarefa do Cosmódromo da Baikonur foi o teste de diferentes tipos de mísseis balísticos intercontinentais. O Cosmódromo é actualmente alugado à Rússia pelo Cazaquistão, sendo esta situação causadora de vários desentendimentos ao longo dos últimos anos entre os dois países, o que tem levado a Rússia a considerar o fim dos seus lançamentos espaciais a partir de Baikonur.

A Origem de Baikonur Em Maio de 1954 foi editado um decreto pelo governo da União Soviética, que autorizava a construção de um novo local de testes para o míssil balístico intercontinental R-7 Semyorka devido ao facto de local de provas em Kapustin Yar ser inadequado para os testes com o novo míssil. Kapustin Yar ficava muito próximo das estações de radar norte-americanas existentes na Turquia e assim Korolev, juntamente com outros responsáveis pelo desenvolvimento do R-7, elaboraram os requerimentos para o novo local de testes. No início de 1954 foi constituída uma comissão, liderada pelo Major General Vasily I. Voznyuk (responsável pelo local de testes de Kapustin Yar), para procurar um local para a nova zona de testes. No final de 1954 Voznyuk apresentou os resultados de dezenas de visitas e três locais foram apontados: a) a região de Yochkar-Orla na Moldávia, contendo grandes extensões de terreno com a possibilidade de ser aumentada devido à grande presença de industrias madeireiras na zona; b) a região de Kzyl-Orla junto do Rio Syr Darya, no Cazaquistão; c) a região junto de Makhachkala, no Daguestão, e nas margens do Mar Cáspio para onde podiam ser largados os estágios inferiores do R-7. Um dos principais requisitos para a selecção do novo local de testes para o R-7 era a de que o local deveria ser localizado dentro da área da estações de rasteio por forma a que os mísseis pudessem receber e enviar informação relativamente à sua velocidade e posição em voo. Este requisito acabou por fazer da região de Kzyl-Orla no Cazaquistão a melhor escolha para o R-7, apesar de que quando se deu a selecção do local já se haviam desenvolvido meios para conduzir o míssil em voo sem haver a necessidade de envio contínuo de informação via rádio para o veículo. O novo local de testes encontrava-se suficientemente longe das fronteiras da União Soviética para que os voos de teste dos novos mísseis pudessem ser levados a cabo em segredo. As condições atmosféricas seriam aceitáveis na quase totalidade do ano e a presença de vastas áreas de deserto permitiria a queda dos estágios inferiores dos veículos. O local permitia também que, numa fase inicial, a orientação via rádio do R-7 fosse levada a cabo por estações de rasteio colocadas a 500 Km da plataforma de lançamento. Finalmente o local estava situado junto do caminho de ferro que liga Moscovo a Tashkent, permitindo assim um acesso relativamente fácil por comboio. Em 12 de Fevereiro de 1955 um novo decreto do Concelho de Ministros da União Soviética (Decreto n.º 292-181) autoriza a construção do novo local de testes para Os primeiros trabalhos de o R-7 no Cazaquistão, autorizando o envio de 585 soldados e 325 construtores para o exploração em Baikonur. novo local então designado NIIP-5 “Nauchno-Issledovatelskiy Ispytatelnyy Poligon – 5” Imagem: Roscosmos. (5º Polígono Estadual de Pesquisa Científica). Antes do envio destes homens já um grupo exploratório havia chegado ao local a 12 de Janeiro de 1955. Os primeiros construtores descreveram o local como um local árido e tórrido no Verão e gelado no Inverno. Muitos dos construtores que foram encarregues de trabalhar no novo local, eram veteranos de Kapustin Yar e frequentemente referiam que haviam saído de uma parte do inferno para conhecer outra parte. A «cidade» mais próxima do local era um conjunto de pequenas casas de dois andares para os trabalhadores do caminho de ferro e barracas feitas de lama, além de algumas tendas ocupadas por

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geólogos que procuravam petróleo na zona. Esta cidade tinha o nome de Tyuratan e não passava de um pequeno apeadeiro na linha de ferro. Curiosamente Tyuratan havia sido visitada no início do século XX por uma companhia mineira britânica e havia sido utilizada pelos Czares da Rússia como exílio de muitos cidadãos indesejáveis. Conta-se a história de Nikifor Nikitin que foi exilado para Tyuratan e para as suas minas de cobre, por imaginar planos para a realizações de viagens à Lua no século XIX. O engenheiro-chefe do gigantesco projecto de construção em Baikonur, Coronel Georgy M. Shubnikov, chegou a Baikonur a 5 de Março de 1955 e o primeiro cimento para a construção de uma estrada para o grupo de construção até ao local da plataforma de lançamento do R-7, foi colocado em Abril. A 5 de Maio de 1955 foi colocada a primeira pedra do novo local de aquartelamento na Área 10, e denominada Zarya. Uma directiva emanada do Ministério da Defesa a 2 de Junho de 1955, estabelece uma estrutura organizacional no NIIP-5 e é esta data que é comemorada como a data de fundação do Cosmódromo de Baikonur.

As Áreas de Baikonur Aspecto geral dos primeiros alojamentos rudimentares em Baikonur. Imagem: RKA Rosaviakosmos.

O Cosmódromo é dividido em três Áreas: •

Área Yangel – é a zona mais a leste do Cosmódromo, também designada por “flanco direito” de Baikonur. Esta zona foi utilizada desde 1960 por Mikhail Yangel para testar várias gerações de mísseis balísticos e de lançadores espaciais, entre os quais o R-16, R-36, MR-UR-100, R-36M, R-36M2 e o Cosmos-1. Todos os lançamentos do foguetão 11K77 Zenit-2 decorrem desta área.

Área Korolev – é a zona central do Cosmódromo, sendo iniciada com a construção do complexo de lançamento do míssil R-7 Semyorka.

Área Chelomei – é a zona de Baikonur situada mais a Oeste, também designada por “flanco esquerdo”. Todos os mísseis e lançadores desenvolvidos por Vladimir Chelomei foram testados e lançados desde esta área.

No total Baikonur possui onze edifícios de integração e montagem e nove complexos de lançamento, num total de quinze plataformas para diferentes lançadores. Para além desta divisão, as diferentes zonas do Cosmódromo estão identificadas por números que muitas vezes foram confundidas com a designação das plataformas de lançamento. Em russo as zonas recebem a designação de “ploshadka”, enquanto que as plataformas de lançamento são denominadas “puskovaya ustanovka” em russo. No total existem 254 zonas em Baikonur. As primeiras áreas começaram a ser construídas em O primeiro R-7 Semyorka encontra-se a postos para o seu 1955: a Área 0 constituía as áreas residenciais iniciais e os voo inaugural a partir do Cosmódromo de Baikonur. quartéis gerais das organizações que iniciaram a construção Imagem: Arquivo fotográfico do autor. do Cosmódromo. A Área 1 foi o primeiro complexo de lançamentos de Baikonur para o míssil R-7 Semyorka e lançadores derivados (Vostok, Molniya, Soyuz, Soyuz-U e Soyuz-U2), sendo ainda utilizadas na actualidade. Inicialmente designada PU-1 (Puskovaya Ustanovka - 1), foi posteriormente rebaptizada PU-5 (conhecida agora como 17P32-5 os “Gagarinskiy Start”). A Área 2 (MIK 2-1) e a Área 1A anexa, eram as antigas instalações de processamento para o R-7 Semyorka e lançadores derivados sendo abandonadas em meados dos anos 90 quando as operações foram transferidas para a Área 254. A Área 2A (MIK 2A) eram as instalações de preparação das cargas do R-7 Semyorka e a Área 2B (MIK 2B-1) é utilizada para a integração dos veículos Soyuz TM, Soyuz TMA, Progress M e Progress M1 com os lançadores 11A511U SoyuzU e 11A511U-FG Soyuz-FG. A Área 3 é uma área de armazenamento e processamento de LOX e LH2, além de instalações de armazenamento.

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Os primeiros trabalhos no local que viria a ser tornar um dos pontos mais activos a nível de lançamentos orbitais na Terra, foram iniciados a 15 de Setembro de 1955. Situado em pleno deserto, as equipas de construção pensaram que o seu trabalho seria fácil pois só teriam que escavar na areia o que viria a ser o fosso deflector dos produtos da combustão nos motores do R-7. Naquela altura ninguém das equipas de trabalhadores tinha conhecimento sobre a verdadeira razão para aquele trabalho. As equipas de construção baptizaram aquela zona como o “estádio” devido á forma que deveria possuir no final. No entanto os trabalhos foram atrasados quando durante a escavação foram descobertas camadas de argila impossíveis de transporte mesmo com os dispositivos mecânicos á disposição das equipas de trabalho. Com a chegada do Inverno os trabalhos sofreram ainda mais atrasos que levaram a que a direcção do programa espacial soviético fizesse do capataz da obra um bode expiatório para os atrasos, terminando os seus dias numa clínica de internamento psiquiátrico.

Em cima: um foguetão 8K72K Vostok colocado na plataforma PU-1 aguarda o momento da ignição. Imagem: Arquivo fotográfico do autor.

Em Janeiro do mês seguinte foi transferida desde o local de testes nucleares em Semipalatinsk uma equipa pertencente à 217ª Brigada de Construção, sendo encarregue de terminar os trabalhos de escavação e de iniciar a construção da estrutura de cimento que serviria posteriormente de base à plataforma de lançamento.

Em Março de 1956, durante a escavação e quando os trabalhos se encontravam a apenas 10 metros da profundidade indicada no projecto, foi encontrada uma nascente de água que ameaçou inundar toda a área caso os trabalhos prosseguissem. A nascente foi aproveitada, enquanto que os directores decidiriam o que fazer. O plano passou por se realizarem alguns rebentamentos para fazer desviar a água e selar a zona com uma grande quantidade de cimento. Os rebentamentos foram realizados entre 5 e 12 de Abril e tudo parecia correr bem quando a 19 de Abril surgiu uma fenda nas escavações e a água inundou a área, submergindo as fundações da plataforma. Utilizando bombas conseguiu-se reduzir o nível da água até ao ponto no qual os trabalhos pudessem prosseguir. Após a montagem da estrutura metálica das fundações foram levadas a cabo sondagens geológicas ao local que mostraram que o solo se encontrava 25 mm acima do nível previsto, aumentando no dia seguinte. A pressão subterrânea, agora livre de toneladas de material que havia sido retirado do local, fazia com que a superfície se move-se para cima. Um plano, que com a deposição de toneladas de cimento sobre as fundações impediria o solo de se elevar, foi elaborado. Porém, as dificuldades burocráticas fizeram atrasar as devidas autorizações por várias horas e somente com a ameaça de que todo o trabalho seria perdido e teria de ser recomeçado num local, é que as autorizações devidas foram assinadas.

Em cima: O edifício de montagem do lançador 11A511U Soyuz-U situado nas antigas instalações de montagem do vaivém espacial Buran e do poderoso foguetão 11K25 Energiya. Imagem: Arquivo fotográfico do autor.

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No início de Maio já haviam sido colocadas as fundações da plataforma, mas no mês seguinte veio a verificar-se, após nova sondagem geológica, que a superfície se encontrava enfraquecida e não seria capaz de suportar as cargas previstas. Um plano para reduzir o peso da estrutura foi elaborado, conseguindo-se reduzir o peso em 3.700.000 t.

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A plataforma de lançamento era uma estrutura quadrada tão alta como um edifício de três andares e foi montada junto da base de cimento sobre a qual foi colocada depois de ser transportada sobre o fosso das chamas da plataforma. Quando a estrutura da plataforma foi transferida do seu local de montagem para ser colocada sobre os pilares de cimento, tinha um peso de aproximadamente 600 t. Os trabalhos prosseguiram com a montagem do sistema de bombagem de combustível, tanques de nitrogénio, plataformas de serviço móveis e sistemas de supressão de fogos. A plataforma foi ligada por caminho-de-ferro ao edifício de montagem a 10 de Outubro de 1956. Entretanto, e enquanto não se tinha a certeza de que a plataforma de lançamento do R-7 ficaria situada no local onde tinha sido projectada, os trabalhos de construção da Área 2 permaneceram parados, reiniciando-se a 20 de Abril de 1956 com o início da construção do edifício que serviria como local de montagem do R-7. Os trabalhos no posto de comando e caminhos de ferro foram iniciados pouco depois. Em finais de Abril de 1957 os trabalhos na Área 2 estavam terminados, iniciando-se no mês seguinte as construções na Área 2A. Também construídos em 1955 foram o centro de transmissões de rádio (Área 5), as zonas originais de residência dos construtores do Cosmódromo NIIP-5 (Área 9), a principal área residencial (Área 10) identificada ao longo dos anos pelos nomes de Zarya, Leninskiy, Leninsk, Zvezdograd e Baikonur, o aeroporto de Krainiy (Área 15), as datchas VIP e os hotéis Baikonur, Cosmonauta e Sputnik, além dos aquartelamentos das forças espaciais (Área 17) e as estações de rasteio, zonas de observação dos lançamentos para a Área 1 e estação de bombagem (Área 18). As estações de rasteio IP-4 Vega e IP-5 Saturno ocupam , respectivamente, as Áreas 21 e 23. A segunda plataforma utilizada para lançar os foguetões derivados do R-7 Semyorka está localizada na Área 31, também designada como PU-6 (ou 17P326), sendo construída originalmente como uma estação de batalha para o míssil balístico intercontinental R-7. Desta plataforma são lançados os foguetões 8K78M Molniya-M, 11A511U Soyuz-U e 11A511U SoyuzFregat. Nesta área situam-se também os complexos de montagem e processamento de cargas (edifício MIK40) e o edifício laboratorial 124. Junto as Área 31 situaImagem em cima: 28 de Julho de 1960, um foguetão 8K72 Vostok (L1-10) que deveria colocar em órbita o satélite Korabl’-Sputnik Vostok-1K n.º 1, sofre uma falha num dos propulsores laterais e perde o controlo despenhando-se pouco depois. Imagem ao lado: 1 de Junho de 1962, um foguetão 8A92 Vostok (E15000-01) que deveria colocar em órbita o satélite Zenit-2 n.º 3, sofre uma explosão num dos propulsores laterais logo após a ignição despenhando-se pouco depois perto da plataforma de lançamento. Imagens: Arquivo fotográfico do autor

se a Área 32 que é um complexo residencial para o pessoal de serviço à plataforma 17P32-6, além dos edifícios MIK-32 e MIK-32GCh. Tanto a Área 31 como a Área 32 foram concluídas em 1958.

A plataforma de lançamento existente na Área 31 é muito mais pequena do que a construída na Área 1, servindo inicialmente como zona de treino e complexo de batalha para o míssil R-7. O primeiro lançamento do R-7 a partir da Área 31 teve lugar a 27 de Abril de 1961. Quando o papel do R-7 como arma de dissuasão foi diminuído, a Área 31 foi adaptada para suportar lançamentos espaciais não-tripulados e tripulados.

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A Área 37 é um local de reparações e manutenção dos Cosmódromo, além de ser um local de montagem e armazenamento de cargas orbitais. O edifício MIK-38 e a área de controlo para o míssil balístico R-16, ocupam a Área 38, juntamente com uma zona de defesa antiaérea. Não muito longe encontram-se as duas plataformas de lançamento para o míssil R-16 (Área 41 com as plataformas PU-3 e PU-4). Este complexo foi construído em 1959 e em 1964 foi considerado para testes do míssil balístico R-26, sendo posteriormente reformuladas para serem utilizados pelos veículos lançadores Kosmos-1 e Kosmos-3. O Desastre de Nedellin Foi nesta área que a 24 de Outubro de 1960 se deu um dos piores desastres no Cosmódromo de Baikonur e que ficou conhecido como o “Desastre de Nedellin”. Nesta altura havia uma grande competição entre Korolev e Yangel para o desenvolvimento da nova geração de mísseis balísticos intercontinentais. Os resultados obtidos com o R-7 Semyorka não haviam sido os pretendidos pelas elites militares soviéticas e a pressão para o desenvolvimento da segunda geração de mísseis era enorme. O novo míssil de Yangel, o 8K64 R-16 (SS-7 Saddler), iria permitir um nível de prontidão não alcançável com o R-7. Yangel e o Comandante das Forças Estratégicas de Mísseis, Marechal de Artilharia Mitrofan Nedellin, pretendiam presentear o líder soviético Nikita Khrushchev nas comemorações da revolução bolchevique com o primeiro lançamento do R-16.

Estas imagens foram obtidas a partir de filmagens durante os preparativos do primeiro míssil R-16. Comenta-se que a câmara foi ligada segundos após a explosão do míssil que originou um dos piores desastre que alguma vez ocorreu no Cosmódromo de Baikonur. Imagens: Arquivo fotográfico do autor.

O primeiro R-16 (n.º LD1-3T) foi transportado para o Cosmódromo de Baikonur em inícios de Setembro de 1960, apesar de existirem inúmeros problemas por resolver com o veículo. O veículo foi processado na Área 42 a partir do dia 26 de Setembro de 1960 com os técnicos a referirem que o míssil estava pejado de problemas. Estes acabaram por ser aparentemente ultrapassados nas semanas seguintes, tendo a preparação do míssil terminado a 20 de Outubro sendo transportado para a plataforma de lançamento PU-4 na manhã do dia seguinte. Após ser colocado na plataforma de lançamento, procederam-se a mais testes e verificações no míssil LD1-3T que foram terminadas a 23 de Outubro iniciando-se o abastecimento do veículo com os combustíveis hipergólicos. Numa clara violação das regras de segurança, centena e meia de técnicos, engenheiros e operários da plataforma de lançamento, permaneceram na vizinhança do veículo. Entre essas pessoas encontrava-se o Marechal Nedellin e o desenhador do R-16, Yangel. Ninguém era capaz de ordenar a Nedellin que se afastasse do local devido ao perigo das operações entretanto a serem levadas a cabo. Perto do final do período de abastecimento do R-16 foi descoberta uma fuga de combustível no míssil, sendo considerada no entanto como aceitável e incapaz de representar qualquer perigo desde que se mantivesse controlada para o que foi designada uma equipa de técnicos para controlar a fuga de combustível. O mais impressionante é que com o veículo abastecido havia-se chegado a um ponto de não retorno a partir do qual o veículo teria de ser lançado. Nesta altura não existiam procedimentos para retirar o combustível do míssil e este seria inútil devido à natureza corrosiva do seu combustível.

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Nestas duas imagens que retractam o “Desastre de Nedellin” podem-se ver alguns técnicos que fogem do local da explosão. De notar que um dos homens (que surge a correr um pouco a baixo do centro da imagem do lado esquerdo) não é visível na imagem que se encontra no lado esquerdo, saindo do meio do inferno em que se tornara o primeiro míssil R-16 na área 42. Imagens: Arquivo fotográfico do autor.

Entretanto os preparativos para o lançamento continuavam e a equipa responsável pelo teste enviou um comando para activar umas membranas controladas por dispositivo pirotécnico e que impediam que o combustível nos tanques entrasse nas condutas que o levariam aos motores. Devido ao desenho do circuito eléctrico e a erros de controlo de qualidade na sua produção, os dispositivos pirotécnicos destruíram as membranas permitindo assim que o combustível entrasse nas condutas. Como o combustível não poderia permanecer mais de dois dias nessas condutas, o centro de controlo tinha agora somente dois dias para efectuar o lançamento do primeiro R-16. A situação piorou quando outros dispositivos pirotécnicos explodiram por si junto das válvulas de um dos três motores do primeiro estágio do R-16 e quando o sistema de distribuição de corrente eléctrica do míssil falhou. Nesta altura chegouse a colocar a hipótese de retirar de qualquer maneira o combustível do míssil e retirá-lo da plataforma, adiando assim o seu primeiro voo. Esta hipótese foi prontamente e furiosamente recusada por Nedellin, dizendo que no evento de uma guerra nuclear não teriam tempo para tal. No final da tarde do dia 23 de Outubro foram iniciados os trabalhos para substituir as válvulas e o sistema de distribuição de corrente eléctrica no míssil, sendo o lançamento adiado para o dia 24 de Outubro. Devido aos constantes problemas com o controlo das membranas de combustível foi decido se proceder à alimentação eléctrica a partir do exterior para controlar as membranas no R-16. Este controlo era feito a partir de um veículo de transporte terrestre instalado nas imediações da plataforma. Entretanto a Comissão Estadual encarregue de supervisionar o lançamento do R-16 encontrava-se confortavelmente instalada num terraço de madeira especialmente construído para a Comissão na estação de controlo IP-1B situada na Área-43 a 800 metros da plataforma PU-4. A pressão vinda de Moscovo era intensa e quando foi anunciado mais um adiamento de meia hora no lançamento do R16, Nedellin decidiu ir até à plataforma de lançamento. A quando no IP-1B, Nedellin era constantemente chamado a uma linha de comunicações especial com ligação directa a Moscovo, sendo questionado por Khrushchev sobre o teste do R-16. Com a decisão de se deslocar até à plataforma de lançamento, Nedellin levou consigo uma multidão de subordinados da Comissão Estadual. Quando chegou à plataforma o responsável por este ordenou a colocação de uma cadeira para Nedellin e para os restantes membros da Comissão que ficaram sentados a uns meros 20 metros do míssil. A tensão na plataforma subia ao minuto e os técnicos tinham por vezes de resolver vários problemas ao mesmo tempo. É nesta situação que um dispositivo desenhado para activar os sistema a bordo do R-16 numa determinada sequência, é deixado na posição pós-lançamento após a realização de uma série de testes. O pessoal de controlo do voo descobriu que o dispositivo

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não se encontrava na posição certa e que as baterias em ambos os estágios do míssil já se encontravam activadas devido ao receio de que pudessem não funcionar no clima frio de Baikonur à altura do teste. Por outro lado, as membranas de controlo do combustível e do oxidante do segundo estágio já haviam sido activadas o que significava que as duas componentes do propolente hipergólico só se encontravam separadas da câmara de combustão do motor do segundo estágio por uma válvula.

Os restos do R-16 jazem na plataforma de lançamento da Área 42. Imagem: Arquivo fotográfico do autor.

Às 2245UTC um técnico no centro de controlo activou uma ligação que regulava uma válvula pneumática que controlava a ignição do motor do segundo estágio do míssil. Neste momento o motor do segundo estágio entrou em ignição quando mais de 250 pessoas ainda se encontravam nas proximidades da plataforma de lançamento. As chamas que saíam do motor do segundo estágio rapidamente romperam o tanque de combustível do primeiro estágio, originando uma enorme explosão do míssil R-16 totalmente abastecido. Em segundos uma bola de fogo envolveu toda a plataforma de lançamento, incinerando instantaneamente muitas pessoas enquanto outras tentavam fugir do inferno que se seguiu. Técnicos com o corpo completamente em chamas fugiam do epicentro da Área-41, enquanto outros lutavam por se desembaraçar das autênticas muralhas de arame farpado nas quais os seus corpos em chamas se haviam emaranhado. Muitos tentavam fugir das temperaturas de 3.000ºC, saltando da plataforma de lançamento, enquanto muitos corpos a arder ficavam pendurados na torre de serviço. Várias pessoas que se encontravam no solo ficaram presas no alcatrão derretido que agora rodeava a plataforma e muitos morreram devido aos fumos tóxicos da combustão.

Num bunker a partir do qual se controlavam os preparativos para o lançamento do R-16 foi ordenado que ninguém tocasse no painel de controlo de forma a conservar todos os interruptores na posição na qual se encontravam na altura da explosão. A dado momento um técnico completamente queimado irrompeu pelo bunker, sendo auxiliado pelos presentes. Todos os presentes, utilizando agora máscaras de gás, abandonaram o bunker devido às explosões que se seguiram. Num momento de sorte, minutos antes da explosão, Yangel foi convidado por um oficial, que tencionava deixar de fumar, a fumar um último cigarro no interior de um bunker de segurança na plataforma. Segundos após entrarem no bunker deuse a explosão do R-16. Muitas das vítimas da explosão ficaram queimadas de tal maneira que foi impossível realizar qualquer identificação dos cadáveres. O próprio corpo de Nedellin foi totalmente consumido, sendo somente identificado algumas partes. Um total de 84 vítimas do desastre foram enterradas numa vala comum no que é hoje conhecido como o Parque dos Soldados localizado na Área 10. O desastre de Nedellin foi mantido em segredo por dezenas de anos e oficialmente Nedellin havia falecido no decorrer de um acidente de aviação. Aos familiares foi dito que as vítimas haviam falecido num acidente de aviação e somente três anos após o desastre foi colocado um memorial às vítimas deste acidente. O míssil balístico R-16 era servido pelo edifício de processamento MIK-42 (Obekt 374 ou Soruzhenie 1) situado na Área 42. A Área 43 é ocupada pelo complexo residencial originalmente construído para o pessoal de serviço na área destinada ao R-16, além de existirem edifícios de armazenamento e uma estação de controlo denominada IP-2 (originalmente designada IP1B), que anteriormente se encontrava na Área 44. Actualmente servem as equipas de serviço ao lançador 11K77 Zenit-2.

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O complexo de lançamento para o foguetão 11K77 Zenit2, cujo desenvolvimento foi autorizado a 16 de Março de 1976, encontra-se na Área 45. Estas plataformas foram construídas em 1979, sendo a plataforma 45L concluída em 1984 e a plataforma 45R concluída em 1990. A plataforma 45R foi destruída a 4 de Outubro de 1990 durante o lançamento do 14º Zenit-2, tendo este explodido 5 segundos após a ignição. A Área 45 é um dos complexos mais sofisticados que existem em Baikonur, permitindo um processamento automático do veículo numa zona que é considerada ecologicamente limpa compradas com outras áreas do Cosmódromo. A automatização do complexo permite que um foguetão seja lançado 90 minutos após ter sido entregue na plataforma de lançamento. O foguetão é colocado de forma automática na plataforma de lançamento e todas as tarefas seguintes, entre as quais a conexão dos sistemas de abastecimento ao lançador, são feitas automaticamente.

Um foguetão 11K77 Zenit-2 é colocado na posição vertical em preparação para o lançamento na plataforma 45L do Cosmódromo de Baikonur. Em baixo: O que restou da plataforma 45R após a explosão de um foguetão 11K77 Zenit-2 no dia 4 de Outubro de 1990. Imagens: Arquivo fotográfico do autor.

Apesar de não ser necessária a presença humana durante a fase de preparação do 11K77 Zenit-2, as duas plataformas de lançamento estavam equipadas com torres de serviço móveis que permitiam o acesso aos lançadores. Em certa altura chegou-se a projectar que o 11K77 Zenit-2 iria colocar em órbita veículos tripulados substituindo assim o 11A511U Soyuz-U. As torres estavam também equipadas com sistema de fuga de emergência para as tripulações.

O primeiro lançamento a ter lugar desde a Área 45 deu-se a 13 de Abril de 1985. Porém este foi um lançamento fracassado (1985-F01) a partir da plataforma 45L, falhando a colocação em órbita de um veículo GVM. A 21 de Junho de 1985 (1029UTC) deu-se um novo lançamento desde o complexo LC45, que no entanto deveria ser um lançamento suborbital. Porém, crê-se que algumas partes do foguetão lançador tenham atingido a órbita terrestre. Este lançamento pretendia testar um veículo GVM (ao veículo GVM não foi dado qualquer Número de Catálogo NORAD, mas foi atribuída uma Designação Internacional “1985-053” ao lançamento). O primeiro satélite a ser colocado em órbita pelo 11K77 Zenit-2 (e o primeiro lançamento orbital a partir do complexo LC45) foi o Cosmos 1697 Tselina GVM (16181 1985-097A) no dia 22 de Outubro de 1985 (0800UTC).

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A Área 45 seria também testemunha de um dos acidentes mais violentos registados em Baikonur. No dia 4 de Outubro de 1990 um foguetão 11K77 Zenit-2 deveria colocar em órbita um satélite Tselina-2 a partir da plataforma LC45R. Os problemas com o lançador começaram a verificar-se 3 s após a ignição e a 5 s deu-se a falha total do primeiro estágio do 11K77 Zenit-2. O veículo elevou-se a uma altitude de 70 metros acima da plataforma e perdeu força, começando a cair com as chamas a irromperem pela secção lateral da parte traseira do foguetão. O lançador acabou por cair no fosso das chamas da plataforma de lançamento, originando uma violenta explosão e uma onda de choque que fez com que uma estrutura e metal com um peso de 1.000 t se eleva-se no ar a uma altitude de 20 metros. Os destroços do Zenit-2 atingiram zonas situadas a mais de 3 Km da plataforma de lançamento, ficando esta totalmente destruída. A Área 51 inclui uma única plataforma de lançamento (PU-5) para o míssil balístico 8K75 R-9 (SS-8 Sasin) e para o míssil balístico orbital GR-1, ambos desenvolvidos por Serguei Korolev Esta área é apoiada pela Área 52, onde está situada a estação de controlo RUP para os lançamentos do R-9. Estas instalações começaram a ser construídas em 1960. A plataforma PU-5 está localizada a 400 metros da plataforma PU-1 e era servida pelo mesmo pessoal que trabalhava com o R-7 (utilizando também o edifício MIK-2 para a preparação do R-9). Os testes do R-9 foram posteriormente transferidos para silos subterrâneos e a Área 51 foi destinada ao teste do míssil GR-1 que acabou por ser cancelado. A estação de controlo de rádio e o complexo de antenas de rasteio e comunicação, estão situados na Área 53, juntamente com as estações Signal e Zarya utilizadas para o suporte das missões espaciais tripuladas e para os testes levados a cabo com o R-9.

Ao lado: Lançamento de um míssil R-9 Sasin a partir de Baikonur. Em baixo: Um foguetão 11K69 Tsyklon-2 momentos antes da ignição. Note-se a coloração dos gases resultantes dos combustíveis hipergólicos utilizados neste veículo. Imagens: Arquivo fotográfico do autor.

O complexo de três silos (PU-6, PU-7 e PU-8) Shesna, destinado ao lançamento dos mísseis balísticos 8K67 R-16, estão localizados na Área 60 situada a 30 Km Este da Área 41. Não muito longe está situada a Área 67 construída em 1962 e que contém duas plataformas terrestres utilizadas para o lançamento do míssil balístico R-36. A construção do complexo de lançamento para o 8K67 R-36 (Complexo 8P867) foi iniciada em 1962. Em 1965 o complexo foi adaptado para o míssil 8K69 R-36O e foi designado 8P869. As duas plataformas PU-21 e PU-22 foram já desmanteladas e o complexo abandonado. A Área 68 é ocupada pela estação de controlo RUP e a Área 69 contém dois silos para o lançamento do 11K69 Tsyklon-2, também já destruídas. As instalações Desna-V, um complexo de silos para o lançamento do R-9, estão localizadas na Área 70 e

foram inaugurados a 27 de Setembro de 1963 com o lançamento de um míssil R-9A. A Área 71 é um complexo residencial. O míssil R-9 foi testado no complexo DesnaN situado na Área 75 e cuja construção foi iniciada em 1961, contendo inicialmente duas plataformas a quais mais tarde se junto uma terceira de forma a acelerar o processo de processamento dos mísseis. A Área 75 continha também instalações de suporte com dois postos de comando e dois edifícios de processamento protegidos. O complexo Desna-N provou-se ineficaz e em 1962 foram construídas novas instalações (Dolina) das quais o primeiro míssil R-9A foi lançado em 22 de Fevereiro de 1963. A Área 80 é um complexo de três silos destinados ao míssil balístico R-16, sendo reformulado em 1964 para a execução de testes comparativos dos mísseis R-16U, UR-200 e R-36. Este complexo foi construído em 1960.

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As duas primeiras plataformas construídas para o lançamento do foguetão 8K82 Proton, encontram-se na área 81 (Obekt 333) e são designadas PU-23 e PU-24 (muitas vezes surge a designação LC81L para a plataforma PU-23, L – Left, e LC81R para a plataforma PU-24, R – Right). Um posto de comando suplente ocupa a Área 82. A Área 95 é a chamada “Cidade Proton” que alberga o pessoal de serviço à Área 81. A plataforma PU-24 é a mais antiga e foi a primeira a ser utilizada para o primeiro lançamento do foguetão 8K82 Proton2 a 16 de Julho de 1965. Por seu lado a plataforma PU-23 entrou ao serviço em 1966.

Em cima à esquerda: O primeiro foguetão 8K82 Proton aguarda o seu lançamento inaugural na plataforma PU-23 (LC81L). Em cima à direita: 16 de Julho de 1965, o lançamento inaugural do foguetão 8K82 Proton (UR-500 107207-001 207) que colocaria em órbita o satélite Proton-1 (01466 1965-054A). Em baixo: 14 de Setembro de 1968, ainda na corrida para a Lua a União Soviética lançava a sonda lunar Zond-5 (03394 1968-076A) por um foguetão 8K82K Proton-K 11S824 Block-D (234-01) a partir da plataforma PU-23 (LC81L). Imagens: Arquivo fotográfico do autor.

A Área 90 contém duas plataformas construídas para o míssil UR-200, posteriormente modificadas para o lançador 11K69 Tsyklon-2. A Área 91 é a estação de abastecimento 11G141 e a Área 92 é a zona de processamento utilizada para o míssil UR-200, para o lançador 8K82 Proton (MIK 92-1) e para os lançadores Tsyklon (MIK 92-2). O edifício 92A-50 é utilizado para a integração das cargas a colocar em órbita. Um dos edifícios mais sofisticados existentes em Baikonur é o edifício 92A-50 no qual quase todas as cargas que são lançadas pelo poderoso 8K82K Proton-K, são processadas e preparadas para o lançamento. Após serem preparadas para viajar no Proton-K, as cargas são integradas com o estágio superior do lançador (Block D) e colocadas sobre a ogiva de protecção, sendo posteriormente transferida para o edifício 92-1 via caminho de ferro e onde todos os estágios do lançador 2

Neste lançamento o foguetão 8K82 Proton (107207-01 207) colocou em órbita (1116UTC) o satélite Proton-1 N-4 n.º 1 (01466 1965-054A).

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são montados. Neste edifício procede-se então ao teste do lançador antes de ser colocado sobre um transporte especial que o leva para as plataformas de lançamento. A Área 93 alberga o armazém de produtos pirotécnicos e a Área 97 é ocupada pela estação de controlo terrestre IP-3. As Áreas 102 a 109 foram utilizadas para o lançamento do míssil balístico R-36. A Área 102 contém o silo 15P718M que foi destruído por uma explosão em 1996. O silo localizado na Área 109 foi utilizado no dia 21 de Abril de 1999 para o lançamento de um foguetão Dnepr-1. O posto de comando utilizado nos lançamentos do R-36 está situado na Área 111. As Áreas 140, 141 e 142 também foram utilizadas para o lançamento do míssil R-36, contendo silos subterrâneos.

A Área 110 contém as duas plataformas (complexo 11P825) destinadas ao lançamento do foguetão 11K25 Energiya, sendo anteriormente utilizadas para o foguetão lunar N-1 (Complexo Raskat)3. As instalações de processamento 11P591 para o N-1 estão localizadas na Área 112, sendo mais tarde reconstruídas para serem utilizadas pelo foguetão 11K25 Energiya. Estas instalações contêm uma estação de pressurização, um armazém de artigos pirotécnicos, várias estações de abastecimento e montagem (11P593, também designado Área 112A) e estações de neutralização e abastecimento (11G131). A Área 113 era a área residencial para o pessoal de serviço ao N-1 e posteriormente ao 11K25 Energiya, tais como a Área 118 e Área 119 que serviam também de complexo de armazenagem. O Buran foi lançado desde a plataforma LC110L no dia 15 de Novembro de 1988. A reconversão destas instalações para serem utilizadas pelo sistema Energiya/Buran foi recomendada em Outubro de 1977, com os trabalhos a serem iniciados no ano seguinte. A Área 131 contém um silo para o lançamento do míssil UR-100 ou do foguetão Rockot que pode também ser lançado a partir da Área 175 e da Área 182.

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Ver “Em Órbita” n.º 9.

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Os testes do míssil orbital 8K69 R-36-O foram levados a cabo da Área 160 que tal como a Área 161 continha o posto de comando. As Áreas 162 a 165 contêm silos utilizados pelo R-36-O. Outras áreas destinadas ao R-36-O são as Áreas 191 a 196, estando também localizado um posto de comando na Área 191, e as Áreas 241 a 246. A Área 200 contém duas plataformas (PU-39 e PU-40) para o lançamento do foguetão Proton. Também conhecidas como Obekt 548, estas instalações começaram a ser construídas em 1970 com a plataforma PU-39 a ser inaugurada em 1980 e a plataforma PU-40 a ser inaugurada em 1977. Estas plataformas estão sobre a responsabilidade da Agência Espacial Russa.

Imagens no topo: Aspecto geral das duas plataformas disponíveis para o lançamento do foguetão lunar N-1. Imagem em cima: O edifício de integração e montagem MIK do foguetão lunar N-1 em Baikonur. Imagem à direita: Um foguetão R-36-O aguarda o seu lançamento na Área 160. Imagens: Arquivo fotográfico do autor.

A Área 250 (UKSS 17P31) foi utilizada para os testes fixos do foguetão Energiya, sendo também utilizada para o primeiro lançamento deste veículo a 15 de Maio de 1987. A Área 251 (11P72) contém o aeroporto Yubileiniy que serviu como pista de aterragem para o único voo do vaivém espacial Buran. O Buran tinha as suas instalações de processamento (11P592) na Área 254, que serve também de área de processamento e manutenção dos módulos a lançar para a ISS, bem como dos veículos Soyuz TM e Soyuz TMA e dos cargueiros Progress M e Progress M1.

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O Complexo UKSS foi construído após Valentin Glushko o ter posto como condição perante o governo soviético, servindo para testar o foguetão 11K25 Energiya. A falta de um complexo como o UKSS foi uma das causas apontadas para o fracasso no foguetão N-1 que nunca chegou a ser testado no solo com todos os seus motores a funcionar. O UKSS é a maior estrutura em Baikonur, montada junto de um fosso com mais de 40 metros de profundidade e para onde o resultado da combustão dos motores do foguetão era enviado. O complexo foi desenhado para suportar uma pressão originada pelos motores em funcionamento com uma força de mais de 4.000 t durante dezenas de segundos. O centro de controlo do complexo (Área 250A) está localizado a 3 km do UKSS, sendo preparada para suportar uma violenta explosão em caso de acidente no local de testes. Os depósitos de combustível foram colocados a 6 km da plataforma e têm a capacidade de armazenar mais de 3.600 t de LOX, 3.000 t de LH2 e 3.000 t de N2. Após duas missões do Energiya, o programa deixou de ser financiado e em 1992 todo o projecto deixou de Ter um carácter militar para passar a ser considerado como civil e sobre a responsabilidade da Agência Espacial Russa que pouco depois decidiu abandonar todo o projecto. Todas as instalações foram abandonadas e o orgulho do programa espacial soviético simbolizava agora a decadência do programa espacial russo e era uma memória das glórias passadas. As instalações de processamento do Energiya e do Buran ficaram sobre a responsabilidade da empresa RKK Energiya para onde transferiu as operações associadas à preparação dos veículos Soyuz e Progress com destino à estação espacial Mir e ISS. No mesmo edifício a RKK Energiya prepara os estágios superiores a serem utilizados pelo foguetão 8K82K Proton-K. O edifício na Área 112 foi ocupado pela empresa russo-francesa Starsem. Este edifício, designado MIK 112, transformou-se também no local de armazenamento de muitas partes do Buran, do próprio vaivém espacial, sendo muitas vezes designado como o “...local de enterro do Buran”, e de pelo menos quatro foguetões Energiya. No interior do edifício o Buran encontrava-se acoplado a um foguetão lançador Energiya e tornara-se num local de passagem obrigatória para todos os que visitavam Baikonur. O vaivém permanecera como um mito dentro do programa espacial russo e por várias vezes surgiram notícias acerca da reactivação do programa. Porém, a realidade viria tornar-se mais negra em 2002. Com uma degradação cada vez mais evidente, por várias vezes foi notada a infiltração de água nas paredes do edifício nos dias de chuva ou na altura do degelo após o inverno quando a neve se acumulava no telhado do MIK 112. A presença destas infiltrações tornava necessária a frequente visita de equipas de reparação no telhado do edifício. Cada vez era mais difícil o aparecimento de fundos para manter a estrutura e no dia 12 de Maio de 2002 acabaria por entrar em colapso. A queda da estrutura pôs um fim na história do Buran que acabou por ser destruído no acidente. Uma versão do Buran foi deixada na Área 254 junto da plataforma de lançamento. A certa altura chegou-se a considerar a hipótese de o transferir para a cidade de Baikonur onde seria transformado num monumento, porém devido ao facto de ser um veículo muito grande era impossível ser transportado por comboio devido à altura insuficiente das pontes que atravessam o caminho de ferro entre Moscovo e Tashkent.

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Em Órbita n.º 78 (Edição Especial)  

Uma nova Edição Especial do Boletim Em Órbita desta vez referente à segunda visita ao Cosmódromo de Baikonur.

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Uma nova Edição Especial do Boletim Em Órbita desta vez referente à segunda visita ao Cosmódromo de Baikonur.

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