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Acesso autónomo ao espaço – onde o Brasil quer chegar1,2 Por André Mileski3 Das chamadas potências emergentes, conhecidas pela sigla BRIC, criada em 2003 pelo economista Jim O’Neill, do banco de investimentos norte-americano Goldman Sachs, o Brasil é, actualmente, o único país a não contar com acesso autónomo ao espaço. A Rússia, pioneira, então União Soviética, alcançou este feito em 1957. A China, em 1970, e a Índia, em 1980. Hoje, estes países não só atendem suas demandas internas, como comercializam serviços de lançamento no mercado internacional e mesmo detêm capacidade madura ou em processo de desenvolvimento para missões espaciais tripuladas. Muito embora o Brasil ainda não possa fazer isso, o interesse em contar com acesso autónomo, no entanto, não é uma novidade. Desde 1979, com a criação da Missão Espacial Completa Brasileira (MECB), com iniciativas nas áreas de satélites, infra-estrutura terrestre e lançadores, o País vem buscando este acesso, por meio do programa do Veículo Lançador de Satélites, o VLS-1. A partir de 1994, com a criação da Agência Espacial Brasileira (AEB) e do Programa Nacional de Actividades Espaciais (PNAE), actualizado de tempos em tempos, o segmento de lançadores sempre constou dos planos espaciais nacionais. Em 2005, o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), vinculado ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), do Comando da Aeronáutica, lançou o Programa Cruzeiro do Sul que, num horizonte de 17 anos, visava desenvolver uma família de lançadores de satélites apta a atender as necessidades do seu programa espacial e algumas missões internacionais. Assim, previa-se o desenvolvimento de cinco lançadores de classes distintas (ver box). Dentro do programa espacial, o Cruzeiro do Sul é visto como conceitual e serve como directrizes para iniciativas em desenvolvimento ou discussão. Propostas para o desenvolvimento dos VLS-Alfa e Beta, possivelmente em regime de cooperação internacional, foram apresentadas à AEB e estão em análise, estando os conceitos do VLS-Gama, VLS-Delta e VLS-Epsilon em rediscussão, uma vez que apresentam baixa demanda (caso do Gama e Epsilon) ou concorrem com outras iniciativas nacionais (Delta). Programa Cruzeiro do Sul - VLS-Alfa, concebido para atender o segmento de cargas úteis na faixa de 200-400 kg destinados a órbitas equatoriais baixas - VLS-Beta, capaz de atender missões de até 800 kg para órbita equatorial a 800 km de altitude - VLS-Gama, destinado a missões de cargas úteis de cerca de 1.000 kg em órbitas heliossíncronas e polares - VLS-Delta, focado em missões geoestacionárias, com capacidade de colocação de cargas de cerca de 2.000 kg em órbitas de transferência geoestacionária; e - VLS-Epsilon, para cargas úteis geoestacionárias de maior porte, de cerca de 4.000 kg ovos impulsos A edição da Estratégia Nacional de Defesa, em Dezembro de 2008, apontou o sector espacial, ao lado do nuclear e cibernético, como um dos seus pilares decisivos. O documento, que serve como directriz para todo o processo de transformação e actualização das Forças Armadas, indica a necessidade “do desenvolvimento de veículos lançadores de satélites e sistemas de solo para garantir acesso ao espaço em órbitas baixa e geoestacionária”, em processo coordenado pela AEB, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Desde então, iniciativas já em andamento, como o programa VLS, a parceria com a Ucrânia na Alcântara Cyclone Space, e outras novas, como o Veículo Lançador de Microssatélites (VLM) e propostas de cooperação em lançadores de maior porte passaram a ter um maior destaque nos planos do governo. O VLS Ao longo de mais de 40 anos, em meio a severas restrições orçamentárias e embargos internacionais, foram três tentativas de lançamento do VLS; em 1997, 1999 e 2003, todas mal sucedidas. Com a tragédia de 2003, que vitimou 21 especialistas do IAE, o programa sofreu um duro golpe, resultando em atraso de vários anos. Apesar do golpe, o projecto continuou e passou por uma revisão crítica que contou, inclusive, com a participação de técnicos da Rússia. 1

Originalmente publicado na revista “Tecnologia & Defesa” nº 131, Dezembro de 2012. Imagens IAE/DCTA. 3 Editor do blogue ‘Panorama Espacial’ http://panoramaespacial.blogspot.pt/ 2

Em Órbita – Vol.13 – .º 133 / Fevereiro de 2013

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Em Órbita n.º 133 - Fevereiro de 2013  

Edição do Boletim Em Órbita para Fevereiro de 2013 com vários artigos sobre oa lançamentos orbitais em Janeiro de 2013 e as habituais secçõe...

Em Órbita n.º 133 - Fevereiro de 2013  

Edição do Boletim Em Órbita para Fevereiro de 2013 com vários artigos sobre oa lançamentos orbitais em Janeiro de 2013 e as habituais secçõe...

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