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AS MULHERES POETAS

NA LITERATURA BRASILEIRA

VOLUME 3


Pesquisa, seleção e organização: Rubens Jardim

AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

Capa e projeto gráfico: Rubens Jardim

_______________________________________________ As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira – Antologia poética São Paulo, 2018 ISBN 978-85-8297-438-4 Poesia brasileira ______________________________________________ 2

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Rubens Jardim

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São Paulo Edição do Autor 2018 AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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O diferenci MIRIAN DE CARVALHO

À publicação da antologia intitulada As mulheres poetas na literatura brasileira, que consta de três volumes organizados pelo poeta Rubens Jardim, sinto-me honrada por assinar o texto introdutório a este terceiro volume que enfoca o trabalho de escritoras nascidas a partir de 1973, numa escala de tempo que alcança o ano 2000. A poesia continua viva e muito bem representada pelas novas gerações de mulheres poetas. Coisa sem valor em meio ao mundo monetizado, a poesia alcança lugares, tempos e dizeres que só a imaginação pode conceber. Imaginar é preciso. Longe das mordaças e dos paradigmas, a imaginação transforma em linguagem poética os veios da antelinguagem que sempre habita circunscrições anímicas. Nesse processo, o diferencial da palavra se ancora na criação de sentidos do mundo. Sentidos do mundo visto pela ótica feminina, nos meandros dessa antologia. De há muito a poética feminina tem sido alvo de grande destaque no trabalho de Rubens Jardim, ao ser divulgada com

é carioca, doutora em filosofia, dedica-se à poesia, à crônica, à crítica de arte e desenvolve estudos sobre cultura brasileira. Em 1999 publicou seu primeiro livro de poesias: Cantos do visitante. Em seguida vieram mais sete livros de poemas, alguns premiados como Violinos de barro, 1º. Lugar no Concurso Literário Nacional e Internacional da UBE-RJ - 2010. Como ensaísta, Miriam é autora de inúmeros trabalhos como A escultura de Valdir Rocha e, Metamorfoses na poesia de Péricles Prade. Em 2013 recebeu o Prêmio Vianna Moog, pelo 1º. Lugar no Concurso Literário Nacional e Internacional da UBE-RJ, categoria Ensaios. Miriam é membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte, da Associação Internacional de Críticos de Arte, da União Brasileira de Escritores: RJ e SP, do PEN Club e da Sociedade Eça de Queirós. 4 AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA


ial da palavra frequência no seu blog. Às edições do blog se acresce a publicação dessa antologia, o que representa uma iniciativa enriquecedora do campo da literatura brasileira, porque Rubens não se restringiu aos nomes consagrados pelos holofotes das grandes mídias e / ou da crítica oficial. Em esquiva dos modismos e das diretrizes do mercado, ele optou pela escolha de textos significativos do ponto de vista da escrita de cunho poético. Com vistas à literariedade, em As mulheres poetas na literatura brasileira, Rubens apresenta poesias de mulheres de várias gerações, entre diversidades temáticas e tonalidades expressivas. Nos três volumes da referida antologia, ganha relevo o que as mulheres poetas têm a dizer por meio da poesia. E além da poesia. Sinto-me, então, muito à vontade ─ ao longo deste texto ─ para dizer o que penso, o que sinto, o que almejo. E o que imagino sobre o alcance da poesia. Inicio por observar que, nos poemas reunidos neste volume, assim como nos dois anteriores,

pulsam realizações, aspirações e desejos femininos desvelados na transitividade do dizer e do fazer. Desse modo, a poesia é alçada ao rumo político no sentido de trazer à pólis a voz poética, em seu marcante diferencial. Indo além da mera divulgação de poetas e de poemas, Rubens Jardim deixa transparecer ─ entre as malhas do texto feminino ─ certo projeto direcionado à consecução da igualdade de direitos no plano sociocultural. Igualdade de direito à escrita. Igualdade de direito à palavra. Igualdade no reconhecimento literário. Igualdade que se permite abranger diferenças temáticas, ideativas e estilísticas, tão bem expressas nos versos dessas poetas. Em meio a tais diferenças, as vozes femininas tangenciam o épico, o trágico, o dramático e o lírico, entre as várias nuanças e tonalidades dos sentimentos humanos, por meio de uma ressonância da voz que permeia o diferencial da palavra como caminho libertário do

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dizer a partir da poesia. Não podemos esquecer que, numa extensão planetária, as mulheres foram por muito tempo alijadas dos processos de aprendizado escolar, das decisões de alcance coletivo e até mesmo impedidas da realização das aspirações íntimas. Ainda hoje, por motivos vários e em muitos lugares e circunstâncias, elas não alcançaram de modo pleno tais direitos. Confirmando esse quadro histórico-social, deve ser lembrado que, na Idade Média, as belas e famosas cantigas de amigo se enraizavam na escrita e na fala do homem simulando o dizer feminino, derramando-se nos versos de amor e saudade que ele queria ouvir. E as mulheres de antanho? Desejariam fazer tais versos? Se os compusessem, desejariam dizê-los a tal pessoa que se arvorava centro da paixão? Aquilo que, no dia a dia, as mulheres medievais realmente pensavam, sentiam e gostariam de dizer aos seus amados não nos é possível saber. Deve ser lembrado, ainda, que nas iluminuras ─ mostrando tímidos e langorosos olhares; delicados 6

e sinuosos gestos femininos ─ as imagens eram idealizadas e pintadas por homens. Nas artes do Medievo, a posição atribuída à mulher não correspondia ao lugar que lhe era dado no plano social. E não podemos esquecer que a partir do século XV ─ num longo período que chega ao século XVIII ─, acusadas de bruxaria, inúmeras mulheres passaram das chamas do amor às chamas da fogueira. À valorização da poesia feminina ─ e da mulher ─, pressinto que, numa dinâmica ideativa que tangencia tempos de antes, de hoje e de depois, Rubens Jardim, além de apresentar ao público o trabalho das mulheres poetas, almeja dar lugar e voz àquelas sem direito à fala. E, se aqui me sinto à vontade para falar livremente, aqui me vejo livre também para sonhar e imaginar. E vislumbro certos elos entre essa antologia e o filme Gabbeh. Mohsen Makhmalbaf, diretor do filme realizado em 1995, igualmente, homenageia as mulheres. Trata-se das tecelãs do sudeste iraniano onde se deslocam as tribos

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de Gashghai. Sem direito à voz, a tecelã conta sua história por meio da feitura de tapetes, entrecruzando fios do real e do imaginário. À dinâmica do tear, ela compõe uma cantiga da vida: uma cantiga nascida em meio ao entusiasmo das cores que falam dos sentimentos alusivos aos episódios daquele lugar. Em meio ao deserto, o feminino caminha entre tarefas do dia a dia e voos do onirismo ─ numa poética dos nós ─ a enlaçar os matizes das lãs urdidas com o coração. Assim como as mulheres tecem no poema a vida da palavra ─ e o sentido da vida ─, aquelas mulheres partejam no tear a própria vida. Que um dia possam elas ler, escrever e falar com desenvoltura. Que um dia possam tecer os fios da liberdade do verso. Junto à digressão alusiva à poética do tear ─ porque o teclado é hoje o tear da poesia ─, observo que, ao espalhar pelo mundo tais vozes femininas, inclusive aquelas que ─ por meio do poético e / ou da ação ─ tangenciam de modo explícito metas socioculturais, tal iniciativa do organizador me desperta o imaginar. Imagino então que,

implicitamente, Rubens Jardim se declara apreciador de outros feitos femininos em defesa do direito à vida, tal a comovente história das Madres y Abuelas de Plaza de Mayo, bem como de outros movimentos similares com grande participação feminina. Ante o respeito e incentivo às diferenças, pressinto que nessa antologia o poético se deixa conduzir pelo viés da liberdade, porque, com a delicada firmeza de quem sabe o que deve ser feito dentro de um projeto literário que não perde de vista os Direitos Humanos, e exaltando o alcance da ternura, Rubens Jardim convida o leitor aos desdobramentos da poesia incontida no diferencial da palavra criando sentidos do mundo. Do mundo como poderia ser. E o mundo poderia ser diferente! Ante esse diferencial, a palavra não se restringe ao feminino. Diversa e liberta, a palavra se inscreve nos meandros da imaginação buscando na antelinguagem a matéria a ser transformada em poesia. E a poesia repercute na delicada coragem daquele que sabe ouvi-la.

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Não faz muito tempo que elas deixaram a cozinha, os crochês e as costuras. Hoje elas são executivas, médicas, empresárias, políticas, professoras -- e até presidentes. Mas já faz tempo que elas ingressaram na literatura. Onde fizeram e fazem um excelente trabalho. Este e-book pretende divulgar o trabalho das nossas poetas. Antes, porém, leia este histórico.

Uma das últimas fotos de Virginia Woolf, escritora, ensaista e editora britânica, conhecida como uma das mais proeminentes figuras do modernismo. Nasceu em 1882 em família abastada. Seu pai, Sir Leslie Stephen, era escritor e historiador ilustre da Inglaterra vitoriana.Virginia morreu em 1941. 8

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Na década de 1920, Virgínia Woolf afirmava que, para as mulheres produzirem sua poesia, precisavam de um quarto com chave e uma renda anual de quinhentas libras. Em verdade, enquanto os homens dispunham de uma estrutura adequada ao trabalho intelectual, para as mulheres restava o canto da mesa da cozinha depois de realizadas todas as tarefas. Um quarto com chave proporcionaria o sossego necessário à concentração, e a renda contribuiria com a independência financeira indispensável para a liberdade de pensamento e o exercício da criatividade. Como se vê, não é privilégio tupiniquim o esquecimento proposital da contribuição cultural da mulher, em vários campos do saber e das artes. No caso específico da literatura, a questão é mais séria ainda. Afinal, tanto Silvio Romero como José Veríssimo –famosos historiadores da nossa literatura no século 19-- registraram pouquíssimos nomes femininos. E na História Concisa da Literatura Brasileira –a mais usada no ensino atual— o prof. Alfredo Bosi só menciona quatro nomes de poetisas: Francisca Júlia, Gilka Machado, Auta de Sousa e Narcisa Amália. Mesmo assim, somente a primeira mereAS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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ceu biografia e algum destaque. Mas essa ausência, que passa uma idéia equivocada da influência feminina na cultura do país, vem sendo corrigida através de pesquisas, teses, livros, artigos e ensaios. Escritoras Brasileiras do Século XIX, organizado por Zaidhé Muzart, foi o pontapé inicial em direção a uma reavaliação desse nosso patrimônio literário e cultural.

Raquel de Queiroz tomando posse na ABL.

Publicado em 2000, o livro, com cerca de 1000 páginas, revela nada menos que 52 autoras e mostra nomes que nunca ouvimos falar —resultado desse trabalho paciente de “revolver escombros e garimpar entulhos” conforme texto introdutório da própria autora, Zaidhé Muzart É inquestionável o mérito desse trabalho --e de um sem número de outros que foram surgindo sobre as questões relativas à mulher. É crescente, sem duvida, a presença delas em todas as áreas das atividades humanas. Tivemos até uma presidente mulher. Quanto à literatura mais recente, não podemos nos queixar. Existem muitas escritoras mulheres e elas também se apresentam em dissertações, teses de doutorado, pesquisas apresentadas em congressos e outras publicações. Sem a pretensão de desenvolver uma avaliação desse panorama, utilizo este espaço para prestar 10

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uma homenagem às mulheres. Mais especificamente às mulheres escritoras. Ou mais especificamente ainda: às mulheres escritoras de poemas. Afinal, por incrível que pareça, existe uma nítida predominância em nossa literatura de escritoras que se dedicaram à prosa, notadamente ao romance. Caso de Rachel de Queiroz, por exemplo, a primeira mulher a ingressar, em 1977, no clube do bolinha que era a Academia Brasileira de Letras. Pouco depois, a ABL acolheu duas outras prosadoras consagradas: Dinah Silveira de Queiroz e Lygia Fagundes Telles. O incrédulo leitor poderá perguntar: e as nossas poetas, onde estão?

Lygia Fagundes Telles É curioso observar que mesmo em épocas mais retambém entrou na ABL centes as poetas continuavam sendo preteridas. Um exemplo é a inexistência de qualquer nome feminino vinculado à literatura na Semana de 22. Nem Cecília Meirelles, que já havia publicado Espectros, em 1919 , teve aí a sua hora e a sua vez. Só para não ficar sem registro, relaciono aqui alguns nomes femininos. Alguns são desconhecidos até de especialistas, outros conquistaram alguma visibilidade. Mas todas essas escritoras desempenharam um papel que não se restringia às funções de esposa, mãe e dona-de-casa. Elas foram à luta e deixaram seu recado --para além do recato.

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UM POUCO DE LUZ NA LUTA DAS MULHERES Num dos artigos pioneiros no sentido de mapear as características da história da mulher no Brasil, escrito por Maria Beatriz Nizza da Silva, a autora afirma: “não temos acesso direto ao discurso feminino senão tardiamente no século XIX e, até então, temos de nos contentar em conhecer os desejos, vontades, queixas ou decisões das mulheres através da linguagem formal dos documentos ou petições, manejada pelos homens.” Debret, pintor e historiador que viveu 15 anos entre nós, já registrava que a educação das mulheres se restringia, até 1815, a recitar preces de cor e a calcular de memória, sem saber escrever nem fazer as operações. Somente o trabalho de agulha ocupava seus lazeres, pois

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os demais cuidados relativos ao lar eram entregues sempre às escravas. Só a partir de 1827, com a primeira legislação referente à educação feminina, é que as mulheres tiveram direitos assegurados à educação. Portanto, mesmo em meados do século XIX, a mulher ainda permanecia isolada do ambiente cultural. Talvez a marca mais evidente dessa condição de subordinação seja a do silêncio e a de uma ausência, notada tanto no cenário público da vida cultural literária, quanto no registro das histórias da nossa literatura. Na esperança de poder contribuir, modestamente, na reversão da nossa falta de conhecimento sobre a questão, resolvi abrir este espaço para divulgar alguns momentos significativos da história da literatura brasileira feita por mulheres. Já fizemos, em nosso site, postagens de tudo que se encontra neste e-book, elencando autoras muito pouco conhecidas e divulgadas. E prosseguimos, agora, nessa mesma direção. Esclarecendo que minha atenção está voltada, exclusivamente, nas poetas mulheres. Com vocês, as vozes femininas que quebraram barreiras e se fizeram ouvir.

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CAMILA DO VALLE (1973)

Poeta mineira, professora, foi diretora da Fundación Centro de Estudios Brasileros, em Buenos Aires. Trouxe, em 2005, a Editorial Cartonera, cooperativa que utiliza materiaL reciclado. Em 2008, organizou a antologia Caos Portátil, de novos poetas brasileiros, publicada no México. Publicou o livro de poemas Mecânica da Distração: os aprisântempos.(2005). Em 2006, este livro foi traduzido e publicado na Argentina. Está terminando de preparar seu próximo livro de poemas: Modos de abrir o mundo com as mãos.

MISSÃO DIPLOMÁTICA NA CHINA (pianissimo) Onde pousar a palavra? Como se a caneta fosse a asa de unia xícara de porcelana rara que eu estaria a segurar com todo o cuidado no ar. Do ar ao pires, podemos, ou não, espatifar a dinastia Ming. Delicadamente. TANGO Vejo milhões de Robertos todos os dias. Mas foi só ver Anita uma única vez que fiz um poema. Aí a cidade era eu. Girinos vermelhos saíam de minha vagina, escorriam veias pelas minhas pernas, abrindo avenidas em pleno centro da América Latina. Embora a linguagem seja dos homens, a cidade saiu-me mulher. De longe, a minha avó grita tão perto: – Tenha modos, menina! Cruze as pernas! E eu cruzo, adoravelmente, as pernas, e encanto o senhor capitão. De espada na cinta e ginete na mão. (eu ou ele?) Peço-te, Anita, somente, que não se case com ele. Se você não se casar: nem eu. Continuemos com as pernas escrupulosamente abertas na América Latina. De forma estratégica: sem modo

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CAROLINA MONTONE (1973)

Poeta paulista, é jornalista , atriz e instrutora de ioga, meditação e mindfulness (atenção plena). Autora de 3 livros individuais para público adulto e infantil. Seus textos integraram coletâneas poéticas, entre elas a antologia “Todos os Tons da Poesia” do IV Encontro de Poetas da Língua Portuguesa no Museu do Catete RJ -2017. “Pão Com Poesia” (Multifoco), que reúne receitas de pães e poemas, foi lançado nas Bienais Internacionais do Livro de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife e em outros eventos importantes como a Flipoços. É escritora premiada pela Academia Campinense de Letras.

SER DE LÁ * No sertão, poema de amor é bode na lata, Rapadura, requeijão bicicleta, rádio e óculos “raiban” Matula de baiano mesmo é o benzimento Menino ungido no dendê carece de muito não, nem chocalho Nasce “aprendido” Quase sabido de assoviar, pra não chorar Escrever é mais difícil A professora sertaneja quando vem , ensina na lousa é com a unha Com sorte, um e outro entende bem que B com R mais A é “Bra” e S com I junto do L é “ Sil” Bra-sil Oxente ! AS BOCAS SÃO IRMÃS O jornal noticia mais um sorriso assassinado, neste mundo desalmado onde ninguém mais compra fiado, o viado ainda é mal tratado e o padre é tarado... Menino abandonado é aos montes Em cada “fulano “ perdido outro choro contido, lícito igual o uísque e ou anestésico à gosto , triste feito eu e você ... RECÍPROCA RIMA Se eu pudesse nem saber o que quero com você, debaixo da palavra, ilhada em silêncio e sorte, mentiria em paz ... And.... Às vezes, eterno feito lembrança de lírio, seu sorriso sobreviveria seguro, acima dos muros ... FEITIÇARIA Deu face à sua faca, somente a poesia a atravessaria... *poema em homenagem a parte nordestina da

família da autora, escolhido para representa-la no IV Encontro dos Poetas da Língua Portuguesa no Museu do Catete no RJ em 2017 AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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ADRIANE GARCIA (1973)

Poeta mineira, é escritora, historiadora, funcionária pública, arte-educadora e atriz. Graduou-se em História pela Universidade Federal de Minas Gerais e se especializou em Arte-Educação na UEMG. Seu primeiro livro, Fábulas para adulto perder o sono, venceu o Prêmio Paraná de Literatura em 2013, na categoria poesia. Outros livros de sua lavra: O nome do mundo (2014) e Só, com peixes (2015). Também Enlouquecer é ganhar mil pássaros, e-book disponível online pelo Issuu, e o livreto Embrulhado para viagem, da coleção Leve um livro, 2016.

O LOBO MAU Tinha orelhas grandes Mas não eram para me ouvir Melhor Tinha nariz grande Mas não era para me cheirar Melhor Tinha mãos grandes Mas não eram para me acariciar Melhor Tinha boca grande Mas não era para me comer Melhor Sentei-me na soleira da porta E devorei a cesta. NA HORA Nem a tarde é tarde Seus raios avermelhados Dizendo-nos vida Nem os meus Nem os seus Cabelos são tarde A mão que os toca Tão presente Nem a tarde sente Que a gente chegou Bem No exato Da hora. A DITADURA DOS COITADOS Cuidado com os coitados Esses que nada podem Podem tudo É por causa deles Que os teus ombros Doem. 16

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CRIS DE SOUZA (1973)

Poeta capixaba, estudou na Universidade Federal do Espírito Santo e vive em Vila Velha. Lançou em março de 2017, seu primeiro livro de poemas: Na Frente da Loucomotiva.

ELÉTRICA Estou meio Louca Estou meio Emotiva Estou toda Loucomotiva SIMBÓLICO bilhete para um sonho: a sombra só pode ser sonâmbula PRESCRIÇÃO Não consegui Livrar-me Dos internos Sintomas Segui Inflamando Os devidos Idiomas De noite Entre bulas E bocas Salvou-me Um poema Em coma

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ANDRÉA CATRÓPA (1974)

Poeta paulistana, é mestre em teoria literária e uma das editoras do jornal O Casulo, de literatura contemporânea. Foi uma das organizadoras da Antologia Vacamarela 17 poetas brasileiros do XXI (edição dos autores : 2007) e publicou o livro de poemas Mergulho às avessas (2008).Quando criança odiava escola. Adulta fez duas faculdades, mestrado e doutorado. Aos 15 anos leu Mallarmé, Baudelaire e Rimbaud sem entender nada. Mas gostou: “aquela poesia era como música, que toca os sentidos antes da razão.

POUR FAIRE LE PORTAIT D’UN POÈME IDEAL era o alvorecer e o sol mais intenso uma paixão de descompasso as penas as glórias e os sabotadores da história a pequenez dos homens altos e a grandeza das mulheres baixas o gozo e o riso dos sem dentes era minha infância tataravós e escola teus sapatos altos debaixo da cama varridos junto com o medo a poeira acumulada e que sempre retorna a mônada que nos cabe certamente tudo que não este deserto MUSA fantasma do texto boca da palavra sexo de mulher que fala serpente que engole a própria cauda e no branco espalha o gozo lágrima da tara O SEM-NOME vermelho-laca com grandes brasas por detrás dos olhos, os cães ouviram o assobio, o homem ouviu – lhe disseram é o que anda sem os pés, o que se esgueira por entre as copas de árvore e não é cobra – e virá encarnado é texto, oração, pensamento, desencarnado é sangue, suor, frio na espinha, a ameaça da terra, o chão.

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ANGÉLICA LUCIO (1974)

Poeta paraibana, é jornalista profissional. Recebeu menção honrosa no concurso de Poesia do Sesc João Pessoa. Participou da Antologia Contemporânea da Poesia Paraibana (1995) e publicou, Quadrifólio junto com os poetas André Ricardo Aguiar, Fausto Costa e Karina Grace. Organiza a publicação de seu primeiro livro de poemas.

PÉROLA Minha dor é molusco e se faz de ostra: sempre me enclausura. Brinca com hipocampos, faz cócegas em Netuno e me quer sua filha. Talvez uma pérola. TESSITURAS Se me esqueço em novelo de dedos não me fio em roca e fuso de tessituras alheias. Ainda que fique sem pão colher de pau e jasmim tapete de tez vermelha ventilador e dentifrício, Ainda que perca o elo, não me fio e me fecho em minotauro. FILHOS Meu pai pensava filhos como se quisesse açude pomar curral e galinhas fazia filhos como se pensasse em sítio: de sua carne.

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PAULA AUTRAN (1974)

Poeta paulistana, é historiadora, jornalista e mestre em artes cênicas pela ECA. Já teve seis peças encenadas e é integrante do Centro de Dramaturgia Contemporânea. É autora do livro infantil Vovó Rock and Roll e do relato jornalístico A Volta dos Mutantes. Publicou o livro de poemas Manifesto de mim mesma (2014) e Amor que parte (2017). Ministra aulas de dramaturgia e escreve textos jornalísticos.

Nosso amor: um osso em um relicário antigo encravado em algum ponto indefinível entre minha garganta e meu coração que só dói quando engulo (ou respiro). POR TÃO POUCO Olho para o sabonete na pia. Ele está no final. Gosto de usar os sabonetes até o finalzinho. E pensar o que acontece com eles. Sobram sempre alguns pedaços. Eles não se extinguem por completo. Nem o shampoo, a pasta de dente ou o perfume. Há sempre uma gota no final do frasco, do recipiente, da embalagem. Como os grãos de arroz, o pó do café. Nós é que desistimos deles. Desistimos de apertar o tubo, de catar migalhas, de bater no fundo do frasco. Um dia cansamos de nos esforçar por tão pouco.

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SIMONE DE ANDRADE NEVES (1974)

Poeta mineira, é advogada e teve poemas publicados no Suplemento Literário de Minas Gerais, Poesia Sempre, Revistas Mininas e Polichinelo. Em 2006 participou, como convidada, do projeto arte no ônibus e da pelada poética, 2010 e 2013. Publicou os livros Coração como engrenagem (1994) e Corpos em marcha (2015).

DUCHAMP ARDIDO O aposto e o hermetismo Tal urina, urinol um coração expande amorfo a decompor dejetos metafísicos cavo, calva, a cova. O TEMPO ABRANDA AS COISAS O Sol fez branco o terço rosa deixado sobre o túmulo. ALMA-DE-GATO Mora um gato no fundo do olho do pássaro. O observador de ninhos alheios assenta nos galhos mais altos: os acusadores dos ventos. Perito rompedor de cascas acessa a membrana espectral. Suga das gemas os cantos das incontáveis manhãs e reafirma o teu nome.

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SOCORRO LIRA (1974)

Poeta paraibana, é psicóloga, foi professora e organizou grupos de mulheres, com vistas à ocupação de terras na região do Brejo Paraibano. É pesquisadora, compositora, instrumentista e cantora com vários discos gravados e inúmeras apresentações em shows. Seu primeiro livro de poemas Aquarelar, foi publicado em 2007 e A pena secreta da Asa, segundo livro, veio à luz em 2015.

A cor que me deste em rosa me despertou assim despetalada já meio parto dessa madrugada nasci doente de amor, passada da minha hora de nascer e à luz de uma velinha que cobriu o mundo e deu-me a sombra dada ao vagabundo que tem o céu por casa sem o ter e o azul por manto protetor para vestir a pele quando a dor o visitar na hora de viver O QUE É NOSSO Tornar universal um amor que é meu tomar do universo uma dor que é sua tirar da vida o pão de cada dia palavra por palavra – a poesia A LÍNGUA Revirando gavetas do tempo retirando poeira dos cantos reencontro você, bem no ponto, que paramos de andar adiante e escrevemos um pequeno conto... Com a vida, a nossa, escrevemos poucas linhas pra contar o quanto foi de prima, de cara, o encanto registrado no canto da alma onde fala, o amor, esperanto

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ADRI ALEIXO

(1975)

Poeta mineira, é formada em letras pela UEMG e escreve poemas desde a juventude. De vez em quando arrisca alguns contos. Vive em Belo Horizonte onde atua como professora de português e literatura. Possui textos publicados em sites e revistas literárias como Germina, Mallarmargens, Suplemento Literário de Minas Gerais, Zona da Palavra, Verso Aberto, O Relevo, entre outros. Publicou os livros de poemas: Des.caminhos(2014) e Pés (2015).

CALEFAÇÃO Os pés cansados: cadafalso, candelabro. Pisar minúcias nas costas, o mundo os filhos nos braços. E você diz que a mulher deve ter pés delicados. REGOLITO Quando saio, nunca sei aonde vou me perco entre as ideias do caminho. Meus pés querem céu meu corpo, um canto ribeirinho. Se volto, é porque um astro me prende ao chão. O antúrio sempre me cumprimenta à porta. PRESSA Vestida de chuva e plena de encantos eu disse apenas: me pegue e me leve para um desses seus poemas. FADO Já busquei a chave do meu caminhar agora Descaminho. TRÊS MARIAS para Daniela Delias

No chão, as estrelas que colhemos têm outros nomes: rosas, margaridas e calêndulas. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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ANA ELISA RIBEIRO (1975)

Poeta mineira, é doutora em linguística aplicada e mestre em estudos linguísticos pela Universidade Federal de Minas Gerais onde também se bacharelou e licenciou em Letras/ Português.Publicou Poesinha (1997), Perversa (2002), Anzol de pescar infernos (2013), além de minicontos e poemas em revistas e jornais, no Brasil e em Portugal. É cronista do site Digestivo Cultural (www.digestivocultural.com).

ANTIGUIDADE D’ONDE VIEMOS Péricles disse que a maior virtude de uma mulher Era ficar calada. Péricles se fodeu. Péricles, hoje, levaria uma surra dada por mil mulheres como eu. TRÁGICA meu galego não conhecia minha ira era dono do meu corpo meu espírito de porco sabia minha ginga minha pletora, minha míngua conhecia cada fresta cada trinca, cada aresta cada vinco, furo, fissura, mau humor, amargura mas da minha ira condenada ira ira da maldita ira de mulher fêmea exata ana saliente uterina, enfezada ele não sabia nada (meu galego dorme esta noite num cemitério improvisado) AFINAL, sobrou-me uma casa com livros. Além disso, relva, vidros e um cachorro de patas curtas. Restou-me também um filho, mas isso já é luxo. 24

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ANNITA COSTA MALUFE (1975)

Poeta paulistana, jornalista, é mestre em comunicação e semiótica pela PUC de São Paulo e doutora em teoria literária pela Unicamp, onde estuda poesia contemporânea e filosofia. Publicou Quando não estou por perto (2012), Como se caísse devagar(2008), Nesta cidade e abaixo de teus olhos (2007), Fundos para dias de chuva (2004), Ensaio para casa vazia (2016) e Um caderno para coisas práticas (2016)

Quero de volta os pretextos para lavar as superfícies encardidas não acredito mais no que dão por feito os outros prefiro eu mesma laçar usuras da imperfeição viver dá nisso uma certa arrogância necessária desisto de entediar as palavras com o gesto monótono da caneta perco o medo dos abstratos e sigo dizendo vida amor solidão e catando as horas como quem rasga papéis antigos como quem verte um copo de groselha na toalha branca de linho da avó A VERDADE É QUE AS MALAS JÁ ESTAVAM PRONTAS na véspera ela seguiu junto com ele uma espécie de viagem sem volta só a passagem de ida era a busca por um outro mundo a busca por algum lugar possível o mais distante que pudessem ir apenas a passagem de ida a pouca bagagem decidir depois onde ficar as malas já estavam prontas e eles seguiram sem pressa eu fiquei olhando de longe achando bonito aquilo aquele casal sumindo na neblina caminhando lentamente como num filme que não me lembro o nome como as cenas finais de um filme cobertas pelo letreiro dois corpos da mesma estatura abraçados empurrando duas pequenas bagagens os rostos sorrindo mesmo de costas era o que se via mesmo de costas os rostos sorrindo nos contornos que iam perdendo25a nitidez AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA à medida que avançavam


CARLA DIACOV (1975)

Poeta paulistana, nascida em São Bernardo do Campo, é formada em teatro e estreia em livro, com Amanhã Alguém Morre no Samba, (Douda Correria, Portugal, 2015). Tem participação em diversas antologias, revistas on-line e impressas. Em Agosto de 2016, publicou A Metáfora mais Gentil do Mundo Gentil.

PEQUENÍSSIMOS NÓS não sei me defender das palavras pequeníssima não sei implorar pela minha vida a língua áspera as pernas moles o sexo tenso tomam-me pelos beiços pela voz acinzentada violam a tudo que, em mim, tiver razão de ser O LIVRO BOM é lançado e é lido. foi manuseado, inclusive, na gráfica. folheado, pelo menos duas ou três vezes, contando com família, melhor amigo e amante. ou de sorte, boa ou não, também interpretado por pessoas que não compreendem, nem ao livro e nem ao escritor. ou melhor; uns tantos vendidos como presentes de fim de ano, aos amigos, exatamente, secretos. ou tudo e tanto, isso; e existirá entre todos um na cabeceira duma menina estranha com dedicatória estranha de estranhas páginas marcadas a dentes com a última, lastimável ou não, impressa de ponta-cabeça. o livro e a menina. últimos estranhos. 26

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CARLA NOBRE

(1975)

Poeta amapaense, é graduada em letras e especialista em língua portuguesa. Professora da rede estadual, é fundadora da associação literária e teatral Abeporá das Palavras, onde desenvolve trabalho voltado para a difusão da literatura produzida na Amazônia. Publicou os livros: Sobre o Adeus e o encelado de Saturno (2007) O amor é urgente e Exageros e delicadezas(2013)

Deixo contigo O mistério escuro dos corais Levo comigo o desejo De que teu barco Permaneça ancorado Em meu cais SONETO DA PALAVRA NUA Quero para minha poesia Todas as palavras nojentas As obscuras, as ambíguas Uma linguagem piolhenta Não me envergonho das minhas escolhas Minha palavra é minha pepita Catarro, mentira, dor, sangue Suvaco, urubus, bruxaria, bauxita Todas as palavras são bem vindas E com elas as penas, a moela, as tripas E todos os seus sentimentos e suas histórias Das mais tristes às mais lindas Fico com o verbo parir E toda a sua memória

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GERUZA ZELNYS (1975)

Poeta paulista é doutora em literatura pela USP e dá aula na PUC-SP. Também trabalha com formação de escritor na Casa das Rosas e faz mediação em Clubes de Leitura pelo Grupo Movimenta. Criou o curso de Escrita Curativa realizado em ambiente terapêutico (Instituto Naturare). Publicou o livro de poemas Esse livro não é pra você (Patuá, 2015)

NOITES BRANCAS naquelas noites brancas minha avó tricotava na poltrona e na caneca grossa palavras fumegantes de uma história que eu não bebia porque esses versos não tem matéria nem memória apenas significantes imagens bonitas que se aconchegam bem ao poema principalmente em dias de frio porque a página é sempre pista de gelo mas hoje está calor e tudo queima minha vó nunca tricotou e eu não lembro das histórias que contou se lembrasse também não sei se caberiam num poema vidas não cabem no poema estendem-se infinitamente e ele tem pressa palavras fumegantes, casacos, meias e cachecóis demandam tempo adio a velhice boicotando o tempo da vida escrevendo poesia coleciono suicídios e juventude porque jovem é o verso corda elástica de bungee jumping que só estica até o limite do chão é esse o tempo que me cabe não serei avó nem terei história mas aprendi o tempo da poesia e bebo num só trago o que me desce queimando depois enfio duas grossas agulhas no pescoço e tricoto apertando bem a grossa lã até fechar totalmente o vão oco da garganta prendo as pontas com um nó e pulo

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PATRICIA CLAUDINE HOFFMANN (1975)

Poeta paulistana, mora em Joinville desde 1981. Cursou letras e é professora da rede estadual de ensino. Autora dos livros de poesia:Água Confessa ( 2001), Sete Silêncios (2004), Matadouro Imperfeito (2016), e Feito Vértebras de Colibris (2017). Este último integra a coleção Mariana Edições, movimento que promove a literatura produzida por mulheres.

REFÚGIOS PARA GUARDAR MEU PAI A saudade desenha seus estiletes, pai. De dentro para fora.

in memoriam

Teus molinetes, agora ornamentam a casa com inconformável beleza: procuram tua pesca. Nenhuma fresta entre nós. Nenhuma isca. Na antifesta de estar, o mar desfeito não comemora comigo: estamos sós. E não há pacto de anzóis que capture a precocidade de tua ausência ou te devolva como devolvíamos os peixes para a água. — Lembras? Apareceram uns cansaços nas paredes. Onde antes teu descanso sobre o dorso das redes, agora memórias rendadas avarandam a chuva em chamamento. Enquanto o vento motiva algum sol, embala-me ainda teu riso nos braços já fracos da infância. — As tarrafas cresceram, pai. Ainda não aprendi a dobrá-las.

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DANIELA GALDINO (1975)

Poeta baiana, mestre em literatura e diversidade cultural, é professora de literatura na UNEB. Organizou os livros Tessitura Azeviche: diálogo entre as literaturas africanas e a literatura afro-brasileira(2008) e Levando a Raça a Sério(2004). Participou de várias antologias e publicou Vinte Poemas Caleidoscópicos (2005) e Inúmera(2012)..

INÚMERA Eu tenho a síndrome de Tim Maia. Eu tenho as varizes de Clara Nunes. Eu tenho os vícios de Piaf. Eu tenho a orelha de Van Gogh. Eu tenho a perna que falta ao Saci. Eu tenho o olfato de Freud. Eu tenho o cansaço de Amélia. Eu tenho o peso de Maria. Eu tenho as dermatoses de Macabéa. Eu tenho a cusparada de Sofará. Eu sou a linha tênue que une os xipófagos. Eu sou uma interrogação vagando com pressa. Eu sou um insulto atirado à queima roupa. Eu tenho atalhos ainda não percorridos. Eu tenho palavras desgastadas e nulas. Eu tenho uma voz penífera e cortante. Eu confesso: sou intrusa, sou inúbil, sou inúmera. ALVORECIDA Acordei com um sol enorme dentro de mim abrasaram-se os órgãos vitais raios trafegaram minhas veias borbulharam pensamentos de lama nos lençóis freáticos da memória o sol tomou conta de tudo expandiu felonias esquecidas ergueu-se um centenário baobá no terreiro inabitado de mim o frêmito deste nascimento alimentou espetáculo frondoso: sombra nas costas do dia vertigem na borboleta. 30

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CHANTALL CASTELLI (1975)

Poeta paulistana, é fotógrafa, professora de literatura e ensaísta. Participou do livro Drummond Revisitado (2002), que reúne análises de vários autores sobre a obra do poeta itabirano. Publicou os livros de poemas Memória Prévia (2000) e Os cães de que desistimos(2016)

SEM TÍTULO Não um poema que descrevesse o desenho de tua mão procurando-me esta manhã; sendo que é de impalpável fibra esse aceno. Mas um poema que soubesse dizer ao menos da perfeita mudez dessa hora, do primeiro esboço de luz saudando o entendimento de nossos corpos. CONSTELAÇÃO Para Carlos Drummond de Andrade

saltavam, dois olhos de vidro opaco.

Contemplo-os agora na janela da memória — ou serão também espelho, reflexo de mim mesmo? A tarde parecia eterna nos pés do menino junto à horta, na caixa d’água que era berço e túmulo, na coleção de cacos e suas flores mínimas, resumo de conversas na cozinha, tinidos, subentendidos... Tento recompor a memória prévia, o tempo duplo, a casa em chiaroscuro, no papel que (mesmo querendo) não posso rasgar. POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA AS MULHERES

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PRISCA AGUSTONI (1975)

Poeta nascida na Suiça, vive no Brasil desde 2003. É professora de literatura italiana na Universidade Federal de Juiz de Fora, tradutora e autora de literatura infantojuvenil. Já fez parte de grupo teatral e já foi publicada em Portugal, Suiça e Espanha. No Brasil publicou 3 livros de poemas: Inventário de Vozes (2001), Irmãs de Feno( 2002) e Dias emigrantes y otros poemas (2004).

a paz, esse silêncio sem vozes acena para fora do mundo, uma ítaca que emerge, ao longe : tem sentido, o inferno, quando se volta com a bagagem da sombra, após longa cegueira. Paga-se caro, nesses tempos, por um precário ponto de ancoragem. FESTA Cada palavra tem seu espaço. Mesmo o silêncio tem espessura de homem. Os tambores escutam em surdina a entrega do corpo. Eis o cenário onde a palavra se renova pesando eternidade. 1. após dar três voltas na chave, hermética, a porta de entrada fica ali, branca e pura pomba da asa cortada a insinuar o voo — un vol que havia, a vida que havia antes que o chão não fosse tição ardente sob os pés ou tapete de ladrilhos numa igreja sem fiéis

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LEILA GUENTHER (1976)

Poeta catarinense, é formada em letras e estreou em 2006 com o livro de contos O voo noturno das galinhas , traduzido posteriormente para espanhol e lançado no Peru. Participou como contista de várias antologias e em 2012 foi selecionada no Programa Petrobras Cultural com o livro de poemas Viagem a um deserto interior, finalista do Jabuti. Participou das antologias 50 versões de amor e prazer: 50 contos eróticos por 13 autoras brasileiras (Geração Editorial) e 70 Poemas para Adorno (Nova Delphi)

ANA CRISTINA CÉSAR eu também me mato todos os dias às três horas da tarde. depois volto às mesmas coisas de sempre até pensar de novo na minha próxima morte. CORPO FECHADO Vivo cada vez mais longe dos homens e mais perto dos cães cada vez mais longe dos olhos e perto do coração cada vez mais longe do barulho e mais perto do som cada vez mais longe da lâmpada e perto do fogo cada vez mais longe do asfalto e perto do mato Vivo cada vez mais longe do grito e perto da palavra mais longe do telefone e perto dos violões cada vez mais longe das telas e perto das portas cada vez mais longe das redes e perto dos peixes Vivo cada vez mais longe da vírgula e perto do ponto final Cada vez mais vivo

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VANESSA MOLNAR (1976)

Escritora paulista, transita entre a poesia e a prosa. É historiadora e publicou em 2008 o livro Crônicas de uma tara gentil, prêmio PAC 2007.Participa ativamente das oficinas literárias na região do ABC, especialmente na Escola Livre de Literatura, em Santo André. Colabora em sites e revistas e mantém o blog O Mundo da Maga.

MULHER Quando vai aprender que seu sexo é Terra? Encosta o ouvido em seu ventre de Ariadne e escuta a ausência do tempo febril que perfura seu labirinto fechado o eco que rasga o vazio dos teus ossos o silêncio desse Dionísio que te fecunda. PUTA Sou um martelo, uma lâmina uma corda Instrumento suicida Puta e santa Cadela líquida Agulha de cristal. Sou uma granada, uma chaga uma morta Instrumento para a descida Puta e santa Sangue e líquen Pedra enterrada no quintal. Sou uma flor, um poema uma açucena Instrumento para a subida Puta e santa Punhal e carabina e trago dentro da vagina pássaros de sal.

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LUCIANA QUEIROZ (1976)

Poeta paraibana, é mestre em letras e professora de literatura brasileira. Militante feminista, luta cotidianamente pelos direitos de todas as mulheres e acredita que o mundo só será melhor quando mulheres e meninas forem livres. Desde os 30 anos é mãe e Nua sob Escamas (2016) é o seu primeiro livro.

PEDRA Sou pedra E de rocha é feita toda a minha alma de mulher. Reclino-me no chão do sertão quente E lá fico Parada À mercê de chuva e vento Porque deles se faz minha erosão voluntária. Me desgasto, me esfarelo E cada partícula de areia que sai de mim Compõe o mundo inteiro Sofro, me dilacero Mas sei que só assim faço parte de tudo isso. A cada chuva, A cada ventania, A cada casal que pinta de branco seus nomes de amor em mim, Me faz mais pedra Me faz mais rocha, Pois sei que a cada erosão Me lapido mais É de natureza minha alma polida E cada vez que mais redonda fico Mais me faço eu, Mais me faço mulher, redonda e minha À POESIA Poesia é minh’alma espichada no varal em dia de sol. Letra por letra salgada à pinça, pinga a salmoura dos dias depois da retirada de cada fatia. Viva e contumaz, teima em me fazer paladar. CACO DE VIDRO És caco de vidro Lâmina afiada que nenhum amolador Imola em pedra Ponta quebradiça Que fere e inflama Mulher de requebrado incerto Virulenta peste de minha vigília diurna

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ANA MARTINS MARQUES (1977)

Poeta mineira, é mestre em literatura brasileira e doutora em literatura comparada pela UFMG. Seu primeiro livro, A vida submarina (2009), reúne poemas vencedores do Prêmio cidade de Belo Horizonte nos anos de 2007 e 2008. Ganhou também o Prêmio Alphonsus de Guimaraens, pelo seu segundo livro, Da arte das armadilhas (2011). Trabalha como redatora e revisora na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

ESPELHO Dentro do armário do seu quarto de dormir deve haver um espelho. Se você sai e deixa o armário aberto durante todo o dia o espelho reflete um pedaço da sua cama desfeita. Se você sai e deixa a porta fechada durante todo o dia o espelho reflete o escuro do seu armário de roupas, a luz contida dos vidros de perfume. Do outro lado do poema não há nada. PAPEL DE ARROZ Mira: as coisas construídas oscilam numa frágil arquitetura (os papéis cultivados em campos guardarão sempre a memória seca dos dias alagados). Também as palavras revelam somente o que escondem: eis a solução de uma questão delicada. VASO Moldar em torno do nada uma forma aberta e fechada. Palavra por palavra o poema circunscreve seu vazio. 36

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CARLA ANDRADE (1977)

Poeta mineira, é jornalista e vive em Brasília há 18 anos. Alguns de seus poemas foram premiados em concursos em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Publicou quatro livros: Conjugação de Pingos de Chuva(2007) Artesanato de Perguntas(2013) Voltagem (2014) e Caligrafia de Nuvens(2017). Participou de diversas antologias poéticas como na Escriptonita: pop-esia, mitologia-remix & super-heróis de gibi (Patuá), Fincapé, Contemporâneas (Vida Secreta), além de ter poemas publicados em várias revistas de poesia contemporânea: Mallarmargens, Germina, a portuguesa InComunidade, entre outras.

NOSSA PRIMEIRA VIAGEM Nova caligrafia de nuvens o sol e sua esgrima de raios bromélias como cataporas nas montanhas e o caleidoscópio nos seus olhos. É manhã – e a eternidade cabe na distância entre nossos pés delicados. SALTIMBANCOS A vida é só um picadeiro de circo Quando notamos... Foram-se as lâminas certeiras dos atiradores ciganos restaram véus de purpurinas. Apenas as lembranças rodopiam. Ecoam em algum lugar aqui dentro como cambalhotas sapecas. BARRA GRANDE Levei um ano para ver estrelas de novo. Olhei muito para cima nesse intervalo, mas elas se escondiam entre prédios com sobrenomes. Tinha que voltar... colecionar as conchas que o mar não nos trouxe, como uma antologia de tudo que não se pode repetir. EMBRIAGUEZ Acordei com gosto de ontem na boca. Vontade de ser um bálsamo. Procissão meus pensamentos, sem velas, no escuro, não há mãos dadas. Vão-se ideias em vão. Já vivi em livros Suprimi vertigens POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA E nãoAS háMULHERES mais vinho. Estou extinta há anos.

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ANGELA CASTELO BRANCO (1977)

Poeta escritora e educadora, é autora dos livros independentes Orações (2008), Oferenda(2008) e O que digo, o que me diz. (2009). Possui graduação em fonoaudiologia e é mestre em educação. Fundadora e gestora d’A Casa Tombada- Lugar de Arte, Cultura, Educação. Foi coordenadora do núcleo de formação em arte contemporânea de crianças e jovens no Instituto Tomie Ohtake.

uma palavra em baixo da outra página a página aos poucos a parte de cima distancia-se da parte de baixo verticaliza-se a fala o pensamento -ascesee o sonho corre solto nos braços da horizontalidade 4. DO INABORDÁVEL eu já era Nos alicerces da casa de batismo Na maçaneta que destravava os dias a procura pelo fio — o desejo de amar o mundo — 5.DA ACÍDIA na encosta da mulher fios desencapados soldam a ligadura Destravo a fome e o fogo se instala em carne viva sou beirada 10. Crescer nos torna menores E uma flor a mais é o suficiente.

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KATYUSCIA CARVALHO (1977)

Poeta pernambucana de raízes e dialeto, nasceu com as águas de março de 1977. É formada em letras e lecionou todo o tempo em que viveu no Brasil, desenvolvendo projetos de inserção de saraus de poesia em salas de aula. Emigrou por amor. Hoje, em terras helvéticas, estuda idiomas e escreve porque não sabe cantar.

MOLDURA PARA POEMA Escrevo quadros humanos quadros que não pinto E que não pairam : movimentos sem cenário - Quadris! Meu texto é sempre um corpo ARGILA BARROCA I Na inteira voz do êxtase, foragir-se para a linguagem Dar o corpo à exorcização da palavra Ferir o texto de vida breve II Escrever é esse voo movediço Incêndio de sombras Encontro de língua com lama embebida em luz Cortejo vagabundo atravessando uma morte íntima, menor que a de um homem trespassado por um beijo III Argila barroca em coro cru de pergaminho tingido em fogo Urucum acendendo madrugada em carvão O poeta tem nos olhos bagos d’água

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KARINA RABINOVITZ (1977)

Poeta baiana, é jornalista, produtora de discos, vídeos e teatro. Tem 5 livros publicados: Mas é que eu não sabia que se pode tudo, meu Deus! (2014), O livro de água (livro-objeto e exposição, 2013), poesinha pra caixinha [de fósforo] (livro-objeto, 2012), livro do quase invisível (2010) e de tardinha meio azul (2005)

CURRÍCULO meu nome eu mesma. meu endereço em mim. meu cadastro de pessoa física este corpo, que dentro é céu e é jardim. meu registro geral não foi registrado e desde meu nascimento, numa quarta-feira de cinzas, nutro certo encantamento, por tudo que não é numerado. meu telefone anda ocupado, uma família de pássaros fez um ninho bem no fio da minha linha desde então, ali só se aninha o canto de uma mãe que espera. pra falar comigo, só mesmo depois da primavera, quando do nascimento do novo passarinho. minha formação profissional segue um caminho amador. insisto no amor. minhas atividades atuais: pensar na vida e uma corrida sem fim à beira-mar... encontrar saídas e encontrar entradas, para essa vontade desmedida de viver, de amar. por fim, minhas referências pessoais, é melhor que eu não diga ou que você pergunte a ninguém... elas serão sempre mais. mais verdadeiro e que você descubra, na convivência comigo, meu tempero, minha loucura, minha ternura, meu desassossego. 40 é meu AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA então, o emprego?


CARLA CARBATTI (1977)

Poeta mineira, é doutoranda em estudos da literatura e da cultura pela Universidade de Santiago de Compostela (USC). Possui textos poéticos, ensaísticos e resenhas publicados em várias revistas eletrônicas como Germina, Mallarmagens, Alagunas, Diversos Afins, Escritoras Suicidas, Zunái, Jornal Relevo, Contratiempo. Estreou recentemente com o livro de poemas Cadencia do Caos (2016).

[ ] o poema não tem nenhuma missão ulterior que conduza a uma explicação da vida o poema é só esta mosca triste girando em volta de uma ferida OS GESTOS QUE ESTREMECEM OS TRIGAIS sou atravessada por todos os rios que naufragam no sul por todos os gestos que estremecem os trigais há uma espessura que só cabe o silêncio porque nenhuma palavra tem a cicatriz exata do mapa do meu ventre porque meu sopro é distância e diáspora [língua sem gramática e gravidade] e as noites estão feitas para os dedos e as cavidades TODO TOCAR É UMA CANÇÃO enquanto acordo os pássaros a mãe tece a mortalha do anoitecer agora estamos fora na linha curvilínea de uma folha que chora que farei com minhas mãos depois de tocarem aquilo que não se toca? todo tocar é uma canção - murmulha a mãe entre seus galhos e rascunhos é isso que se perde, minha filha e sua voz vibra as águas do meu punho

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GABRIELA SILVA (1978)

Poeta paulistana, deixou São Paulo há muito tempo e vive em Porto Alegre. Formada em letras, é mestre e doutora em teoria da literatura na PUCRS. Professora universitária já ministrou oficinas de criação literária e foi uma das coordenadoras da Breviário cursos, em Porto Alegre. Publicou seu primeiro livro de poemas Ainda é Céu em 2015.

A MÁQUINA QUE SOMOS Somos essa máquina de carne, amorzinho, pernas e braços articulados. Ossos de bom material. Viscosos, certos líquidos nos lubrificam, às vezes nos inundam. Somos essa máquina de reproduzir o mundo, ou de povoá-lo. Nossas almas, se enguiçarem, mandamos a Deus: o criador. Carcaças, ferimos a memória, dos que fingem não saber que somos arremedos de qualquer coisa. Somos essa máquina de torpor, de ânsia, amor, tédio, ódio. Todas as nossas peças se encaixam em comovente perfeição. E por coração chamamos essa bomba monocórdica que nos confunde e mantém.

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CYELLE CARMEM (1978)

Poeta paraibana, formou-se em letras em 2003 e concluiu o mestrado em literatura e cultura pela Universidade Federal da Paraíba em 2006. Lecionou língua portuguesa em cursinhos preparatórios para concursos e trabalha, atualmente, como editora de uma revista acadêmica. Publicou Luzes de Labirinto(2010) e (Uni)verso (2012)

DO SENTIDO O que sinto não precisa de permissão Não precisa de casa Não preciso de sopro ao ouvido. O que sinto vive do ar da brisa distante. Vive de um retrato antigo Vive de uma palavra gasta. O que sinto não precisa de estrada Seu atalho foi coberto pela mata Seu riacho há tempos está extinto. Não precisa de papel contrato Não precisa de luzes acesas. Sobrevive do silêncio do escuro Da grade trancada a sete chaves. O que sinto não precisa de autorização Sobrevive sem um pedaço de pão. O que sinto não precisa de vida ou de morte Existe por si mesmo E escolhe o seu próprio norte. TRÊS LINHAS DE INFINITO Ser breve apesar da imensidão Ser rápida apesar da extensão Prolixo já não cabe. Há de ter conteúdo em três linhas de infinito.

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MARIA REZENDE (1978)

Poeta carioca, atriz e montadora de cinema e televisão. Aprendeu a dizer poemas aos 18 anos com a poeta e atriz Elisa Lucinda. Em 2012, não sendo juiza, nem celebrante religiosa, celebrou alguns casamentos com sua poesia. Publicou 3 livros de poemas: Substantivo feminino (2003), Bendita Palavra(2008) e Carne do Umbigo(2014). Os dois primeiros vinham acompanhados de CDs.

PAU MOLE Adoro pau mole. Assim mesmo. Não bebo mate não gosto de água de coco não ando de bicicleta não vi ET e a-d-o-r-o pau mole. Adoro pau mole pelo que ele expõe de vulnerável e pelo que encerra de possibilidade. Adoro pau mole porque tocar um pressupõe a existência de uma intimidade e uma liberdade que eu prezo e quero, sempre. Porque ele é ícone do pós-sexo (que é intrínseca e automaticamente - ainda que talvez um pouco antecipadamente) sempre um pré-sexo também. Um pau mole é uma promessa de felicidade sussurrada baixinho ao pé do ouvido. É dentro dele, em toda a sua moleza sacudinte de massa de modelar, que mora o pau duro e firme com que meu homem me come.

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ISIS MORAES RAMOS (1978)

Poeta baiana, atua como jornalista e professora de literatura brasileira. É mestranda em literatura e diversidade cultural pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Editou, por cinco anos, o Tribuna Cultural, suplemento de cultura do jornal Tribuna Feirense. Já foi laureada com o Prêmio Bahia de Todas as Letras (2007), de poesia.

DESERÇÃO Cravado no não, o nome dela convoca as Fúrias para dançar. Em vigília, um olho insano crucifica o silêncio. SOLIDÃO Um olho devora o silêncio; o Outro o condena. Cavalos lendários margeiam meu sono. ULISSES Não sou a Outra. Tenho uma Circe costurada em cada olho.

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MARIANA DE ALMEIDA (1978)

Poeta paulista, nascida em São Bernardo do Campo, é formada em letras, e escreve no blog Diário Balzaquiano denunciando as dores e delícias de uma mulher que vive nos tempos atuais . É redatora e editora da página Casa da Poesia. Vive em Sorocaba.

DE TODAS AS MULHERES De todas as mulheres do mundo Eu já fui todas De menina e santa Casta e puritana À sacana e insana Aquela que engana Em troca de qualquer aliança Já fui inocente como nova Já fui coerente como velha Já fui linda como a lua cheia Já fui feia como areia seca do sertão Já disse sim e já disse não Já entrei em templos e igrejas Já dancei com as bruxas sob o clarão Da imensidão da lua sobre o chão Já entornei o vinho, o lírio, a papoula Já mastiguei a hóstia, o pão e o sermão Já vomitei em latrinas de ouro Já comi em pratos de papelão Já fui feliz ao pisar na terra com pés descalços Já amei na beira do mar enquanto a água salgada Molhava meu vestido de flor Já chorei sozinha em rodovias desertas Sem carona, sem carinho, sem deus. De todas as mulheres do mundo Carrego cada uma delas no meu olhar.

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ANA RUSCHE

(1979)

Poeta paulistana, é formada em letras e direito pela Universidade de São Paulo. É mestre em direito internacional e doutora em estudos lingüísticos e literários em Inglês, ambos pela USP. Publicou os livros Rasgada (2005), que recebeu tradução ao espanhol e foi publicado no México, Sarabanda (2007) e Nós que Adoramos um Documentário (2010), com apoio ProAC.Publicou também o romance Acordados (2007). Possui inúmeras participações em antologias e revistas literárias.

pq se vc tem o coração de osso o meu é de carne e sangue e se vc tem receio de te roubarem um rim azar pq tenho é dois e eu vou cavalgar vou cavalgar nos relinchos sem focinho pq a noite é monstra é ruminante é soturna e está bem longe de acabar ANORÉXICAS emagrecer extirpar a última gordura, devolver as costelas emprestadas e desintegrar-se em luz. OS PAPÉIS e assim ficamos como tudo, como sempre esse ever unfinished business sem a coragem dum chefe da máfia pra te aprontar na rua as vias de facto como tudo e como sempre with so much love esse isso tão difícil, a kind of rush um compromisso com algo mais terrível do que o amor o arrastado passar dos dias

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CAROL MAROSSI (1979)

Poeta paulista de São Jose do Rio Preto, é advogada e mestranda em direito do comércio internacional pela USP. Membro do Coletivo Vacamarela que organiza a FLAP! e edita o jornal de literatura contemporânea O casulo. Tem poemas publicados nas revistas Não Funciona, Zunái, Lapsus (Lima), e Série Alfa (Valência).

Acordo árida, vestida de chumbo. Lembro de Munique, as densas noites de uivos caninos. E era verão no sul. Tão negro e viscoso, tal como os dispositivos de uma Halifax Law. Mas os ecos chegavam da Marienplatz ressonando no meu peito, prestes a lançar uma ogiva nuclear. Pé ante pé você invadia a praça com seus imprestáveis patins de gelo (e era verão no sul). Naquele quarto minha alma degelava, líquida como chumbo.

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BIANCA VELOSO (1979)

Poeta gaúcha, cresceu e vive em Florianópolis. Optometrista por profissão, mãe por opção, escritora por paixão. É também programadora da Rádio Comunitária Campeche. Apresenta o “Sábado Arrastão”, um programa de entrevistas com foco em música e poesia.

SOBRE O MEDO medo do escuro não tenho não de fantasma? também não! de corda bamba? precipício? não! sei acender estrelas inventar sonhos alçar voos o que me mete medo - de verdade é o mundo das certezas RESISTÊNCIA novembro de mil novecentos e setenta e nove primavera no hemisfério sul e era medo o que florescia no jardim lá de casa diziam que o pior já havia passado mas a gente engolia ideais e vomitava escuridões a gente calava o que sentia quando aqueles homens cinzas levaram meus pais deixaram no meu peito esta pústula acesa que carrego até hoje criança exilada da infância : existo, resisto, insisto

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MARIANA IANELLI (1979)

Poeta paulistana, é mestre em literatura e crítica literária, e colabora como resenhista em alguns jornais. É autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada (2010) e O amor e depois (2012). Em 2011 obteve menção honrosa no Prêmio Casa de las Américas (Cuba) pelo livro Treva alvorada.

FILHOS DO FOGO Não foi o cansaço da jornada Que de novo nessa noite nos venceu, Mas um sofrimento antigo, igual a sempre, A realidade com sua mão espadaúda Juntando a poeira de uns castelos demolidos, De tudo extraindo o que sobra de nosso, afinal: O irreversível. Cultivamos rituais silenciosos, Temos dentro de nós a alma do mundo. Fomos feitos para a solidão, A mesma que sente um animal Ao largar o seu rebanho E esperar a morte suavemente Numa longa tarde de chuva em Gibeon. Damos calor às coisas enquanto é tempo E mais tempo há enquanto estamos mudos. Gozamos um amor tranqüilo, sem heroísmo. Assim acontece certas vezes, por espanto: De um golpe, o infinito nos apanha. VOZ DE NINGUÉM Tão somente um gesto E não o fiz. Que muitos houvessem tentado, Apenas eu resisti. Homens que marcham, que se deixam levar, Porque vivem. Estranho guerreiro, eu não marcho. Corpo morto, já não me carrego. À frente de cem milhas agrestes, Como se contra o nada, respondi: - Estou aqui e aqui perduro. Isto que hoje fala em mim, em mim se cala

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LIVIA NATALIA

(1979)

Poeta baiana, é doutora em estudos literários e professora de teoria de literatura na Universidade Federal da Bahia. Realiza oficinas de criação literária e publicou 3 livros: Água Negra(2011) premiado pelo Concurso Literário do Banco Capital e Correntezas(2015) E Água Negra e Outras Águas(2016). O poema Quadrilha foi colocado em outdoor – programa “Poesia nas Ruas” – e causou polêmica e rebuliço em Salvador.

QUADRILHAS Maria não amava João. Apenas idolatrava seus pés escuros. Quando João morreu, assassinado pela PM. Maria guardou todos os seus sapatos. OXUN JANAÍNA Descobri que, para mim, ser mulher basta. Para puxar véus, levantar saias pintar as unhas de vermelho feroz – mesmo que seja só para dizer: para. Ou para ver a dança des-contínua do seu corpo sobre o meu (o meu oposto) pelo espelho que se emancipa das paredes deste quarto e desta tarde delicada. Mas sempre ser mulher basta: posto que é inteiro e vão, onda que bate na pedra e despedaça apenas para voltar inteira – afogada – num mar de (in)diferenças onde cada gota solitária e única forma um discurso descomposto, cambiante, plural: mesmo quando me atiro sobre esta pedra, que me rechaça.

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MARINA MARA (1979)

Poeta brasiliense, é publicitária, jornalista, ativista cultural, atriz, roteirista, designer gráfico, consultora de projetos poéticos e literários. Atua pelo Brasil desde 2006 com projetos multimídia. Seu primeiro livro, Sarau Sanitário.com, (2010)é parte de um projeto homônimo que distribuiu poesia por banheiros públicos e pelo mundo virtual.Seu segundo livro, Figuras (2015) tem prefácio de Tom Zé. Marina lançou também, no ano passado, um aplicativo, PoemApp, para celulares que reúne bibliotecas, pontos de intervenção urbana e pontos de poesia em todo o Brasil.

POMBAGIRA Não depile meus pelos Com seus apelos estéticos Depile seu preconceito Com argumentos éticos Não julgue minhas Intenções pelo tamanho De minha saia E na próxima estação Troque seu machismo Por um belo Tomara-que-caia E que o seu desamor Não desperte minha ira Pois fada madrinha É para os fracos Eu tenho é pombagira CAFUNÉ trocaria litros de café pelo seu cafuné e noites de boemia pelo seu bom dia SÃO SETE Ele mora nas sete cores E ao som das sete notas Engana os pecados capitais Um a cada dia da semana Acertando os sete erros E vivendo suas sete vidas Todas de uma só vez

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MARILIA GARCIA (1979)

Poeta carioca, escritora, tradutora e editora. Estreou em livro em 2001, com a plaquete Encontro às cegas. Publicou 20 poemas para o seu walkman ( 2007). traduzido para o espanhol e publicado na Argentina; Engano geográfico (2012); Um teste de resistores (2014) e Câmera lenta (2017) que reúne poemas marcados pelo ensaísmo e pela oralidade. A poeta participou do Festival de Poesia Latino-Americana Salida al Mar, em Buenos Aires e do Festival Europalia,na Bélgica(2011). Com seu último livro, Câmera Lenta, ela tornou-se a primeira mulher brasileira a ganhar o prêmio Oceanos de literatura.

NUM DIA BRANCO segura a borda da mesa com o cabelo vermelho vamos para a polônia

ver a neve andava tão dispersa assim ele nunca conheceu a família com ganas de frio. sempre aquele movimento preciso ler outras coisas a frase cortada no mesmo ponto fresta de luz onde fala uma gargalhada assomada à janela quando o vê do outro lado da rua procurando o castelo. cabelo curto, segura a ponta da mesa e mastiga as sílabas em sua língua. A GAROTA aquela que tem na voz o timbre que você quer a que fica um pouco confusa a que anda no meio fio a que por um triz a que acorda sorrindo, fazendo inventários de um céu sem astro. a que diz desastre aquela com as imagens gravadas. medindo as distâncias em parsec passando pela roleta sem olhar aquela que liga o walkman para não ouvir a que não ouve o que os olhos vêm dizer a que desce do táxi quando chega. quando o vir, vai saber. do alto do pico, ela vai dizer _____. quando o vir estará de verde escondendo a cara, mas sorrindo. quando o vir vai saber. o encontro será no subterrâneo de uma galeria AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA 53 para contar as tartarugas.


MÔNICA DE AQUINO (1979)

Poeta mineira, colabora em suplementos literários. Participou da antologia portuguesa O Achamento de Portugal (2005). Já teve poemas publicados em vários sites do Brasil e do exterior. Publicou seu primeiro livro, Sístole, em 2005. Com Fundo Falso, segundo livro, ganhou o prêmio cidade de BH, em 2013. Desde então, o livro recebeu novas leituras e versões. “É um trabalho de Penélope, né?”, brinca a autora sobre o processo de escrita e reescrita de seu livro.

O hoje é um cão com fome que esconde o osso. O hoje é a mão que o cão lambe. O hoje é o dono do cão é a fala do cão com o rabo o faro de Argos. O hoje é um cão pura língua e dentes preso à corrente do cão-passado preso ao alarde do amanhã: cão-labirinto às vezes fera que ladra e morde. O tempo é um cão de três cabeças (há dias em que é besta Cérbero em círculo). O tempo é a pata que cava a espera à procura do osso que enterra.

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MICHELE FERRET (1979)

Poeta potiguar, é mestra e doutora em ciências sociais, e possui graduação em educação artística. É jornalista e professora na UFRN. Tem publicado poemas em diversas coletâneas. Atuou no grupo Poesias e Flores em Caixas e atualmente é componente dos Insurgentes, movimento que une poesia, dança, teatro, artes visuais, música e economia criativa para insurgir e criar espaços de fluxo e trânsito para artistas e produtores do Nordeste. Participou da banda potiguar Rosa de Pedra e integrou a banda do cantor e compositor paulista Renato Braz.

PÁSSARO FEITO DE EFÊMERO Vivo para inventar planos de fuga E todas as noites Gaiolas inteiras se abrem por dentro A matéria prima Escolhida ao acaso Une silêncio, dorzinhas, arames cortados e um pouco de solidão Disso tudo se faz portinhas infinitas A passagem é o lugar O vôo consequencia Asas pequenas ou grandes Miragens Feito desertos inteiros dentro da gente Não se apagam nunca Vive-se para inventar planos de fuga E todas as noites as janelas se fecham para a vida São pequenas as mortes de dentro Imagens deitadas de inventos Vivemos para desenhar planos de fuga E todos os dias A passagem é o passageiro Entre o ir e vir de grades grandes ou pequenas Ficar é apenas consequência… CASA vivo pra morrer de saudade e todas as noites parecem pardas quase incendiárias com seus ocres e mel escorridos pelas paredes das calçadas Adoçam o céu invertem as incertezas desnuda vulcões e trazem as erupções para dentro do outro lado Quase sempre a mesma calçada na beira dessa casa em que ninguém se muda

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TELMA SCHERER (1979)

Poeta gaúcha, é mestra em literatura e graduada em filosofia. Atua nas áreas de formação de escritores, criação literária e performance com adultos e crianças. Coordenou o Espaço Educativo da 6ª Bienal do Mercosul. Com o grupo Teia de Poesia, realiza saraus e oficinas de literatura. Publicou Desconjunto (2002), Rumor da Casa(2008) e Metro Poa (2014).Vive em Florianópolis.

Onisciente quer dizer: aquele que sabe a ciência de olhar no escuro. Escuro de brumas divisórias, escuro da sombra. Seta que reluz pra dentro. O gozo de se ver nesse espelho turvo. E ser sem saber, porque é tateando que se conhece um nascer para saber ter sido. Então clareira. Onisciente quer dizer; nunca esbarrar com uma porta. Abri-la. NÃO SOU CATÓLICA Minha alma vem de outros ancestrais. E são tais, os meus companheiros, que não nos dizemos nada. Nem ais, nem mágoas, nem vaidades e nem anseios. Entendemo-nos. Bater portas, fazer gritos, verter brita no fundo dos olhos, isso não é comigo. Não sou católica, mas minha alma é cheia de Palavras. São elas que brilham depois da escavação. Estar certo não adianta nada. Escavem o certo e o errado, mesquinhos aos olhos de Deus. Deus esquece das mágoas vãs. Porque Deus é maior que o mundo, e menor. Ele sabe de toda a história. Não precisa contar piadas. Deus não precisa levantar a voz.

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VIVIANE BARROSO (1979)

Poeta carioca, escreve desde os 12 anos. Em 2014 conquistou o segundo lugar no Concurso Internacional de Poesia promovido pela Casa de Espanha.Teve poemas incluídos em algumas antologias. Publicou em 2016 seu livro de estréia: Divinos Conflitos. Ao pedir sua minibio, ela escreveu-me: “não possuo cursos, nem formação acadêmica e nem trabalho em área ligada à literatura ou magistério. Sou uma pessoa sem nenhuma ligação com o sistema. Sou poeta na crueza do termo e porque esse dom me foi dado”.

BIOGRAFIA MUDA Minha linguagem é feita de silêncio. Da densidade sólida Que corrói as paredes De todos os templos. Prece muda, quase um fluído Se esvaindo do pensamento. O verbo que fala de mim, sussurra. Está noutro tempo, Noutra rima, Noutro verso. Verbo imperfeito Que não quer virar palavra: Verbo que cala, Verbo que morre, Verbo que mata. Assim, sou um rascunho Entre junho e julho, Quando o frio é um poema fatigado De esperar o inverno puro de agosto. DESCRENÇA Alguém me disse Que outubros são pra caçar verbos. Olhando pela janela ainda é maio. Então eu guardo meu estilingue Entre meus livros velhos E vou dormir Para espantar o tempo dos olhos. Dou boa noite à Poesia Que arranca de mim O meu relógio quebrado E as pedrinhas que me dera quando, Testando a minha crença no mundo, Pendurou aquela paisagem No vidro inocente do meu quarto. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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TATIANA PEQUENO (1979)

Poeta carioca, é doutora em Letras Vernáculas (Literaturas Portuguesa e Africanas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com tese sobre Maria Gabriela Llansol. Professora Adjunta de Literaturas Portuguesa e Africanas da Universidade Federal Fluminense (UFF). Publicou os livros de poemas:, Réplica das Urtigas(2009) e Aceno(2014).

ASSINATURA A urna avermelhada que trago por dentro da costura deixa aberta a poça que me sai do baixo e o ventre é de onde partem os naufrágios quando mudas as viagens trazem o mar e finados são os filhos as luas todas as mulheres são cruzes punhos vapor e sentinelas acordam várias lâminas de passagem sobre o chão e a pedra – fêmeas criam estirpes de fria couraça e também preparam a dura e lenta sorte dos que perdem o medo e a parte sedada de si. nas urnas não adoecem mais as aves lançam elas o corpo trançado das labaredas. queimam os obituários e as lapelas tidas como cimento para o amor e para os nomes. O RESGATE tudo o que não pudemos tocar enaltece em nós a casa que está perdida. tudo o que não soubemos dizer refrata em nós como escombro e despedida. tudo o que irrompe neste adoecer reclina sobre meu corpo iodo e geologia. tudo o que deixamos para fingir termina em raios sobre os vales (e sobre o verde estrangeiro da terra onde não estou calçada) queimando vivo o que não é estrada. 58

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ADÉLIA DANIELLI (1980)

Poeta potiguar, cursou letras e ciências sociais na UFRN. Divulga poemas na internet e participou de três publicações coletivas: o livro Por cada uma (2011) e os zines Entre Seios e Revoada. Seu primeiro livro solo, Bruta, foi lançado em maio de 2016, Numa sexta-feira 13.

Minha anatomia minha autonomia à disposição da sua língua vadia .............................................................. No interior das coxas uma lambida e uma mordida mel e pão no café da manhã .............................................................. há uma linha tênue entre todas as músicas que mais amo e seu sorriso conversas sobre tempo e espaço não me resgatam do lugar em que me encontro apenas eu dançando pra você e o nada meu processo criativo está fascinado pelo jeito que você fala tem uma charla no discurso bem argumentado e os olhinhos que hora se apertam hora estão arregalados me perco nas ruas que ando todos os dias pego os mesmo ônibus errados uso pares de sapatos trocados porque eu não estou mais em mim AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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ALESSANDRA CANTERO (1980)

Poeta paulista, (nasceu em São Vicente), é licenciada em letras pela Universidade Paulista e possui o máster em filologia hispânica pela Universidade de Sevilha, Espanha. Publicou o livro de poesia Deslocamentos Líricos (2012).Se diz dependente química de poesia, ama sampa, café e coca-cola, não vive sem amigos e esquece facilmente. ah! também ama sevilla.. onde está vivendo..

útil para o desuso eu ñ conservo o pote vazio bonito do iogurte recém consumido me recuso a reutilizar eu ñ reciclo o lixo eu me reduzo a cultivar sicômoros eu ñ aguardo eu me recluso em meio a versos livres sem socialidades dialogo com o escuro sujo do mundo perecível sem conservantes inaproveitável para a próxima e mais perene geração futura com a qual ñ contribuo pq me salvo como rascunho ALZHEIMER a casa envelheceu era imensa qdo pequena agora não tem cabimento é toda estreitura e pó mas foi sim, um dia, e eu me lembro a casa com todos dentro da minha vó 60

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ALE SAFRA

(1980)

Poeta paulista, nascida em Santa Fé, publicou em revistas eletrônicas e faz parte do e-book Geração em 140 caracteres. Também teve poemas incluídos no livro É que os Hussardos chegam hoje . Seu primeiro livro, Dedos não Brocham, foi publicado em 2012. Escreve constantemente no blog que deu origem ao livro: dedosnaobrocham. blogspot.com-

MAIORIA DA MINORIA sou mulher, negra, gay, árabe, ateia tenho meu rosto desfigurado por ácido, o corpo escondido por um manto negro ou exposto como arranjo de mercadoria sou pobre, deficiente, ignorada. escondida meus olhos estão roxos e meus lábios cortados vagina desrespeitada pelo absurdo sou bela, rica, asiática, e mantida como escrava atendo todos os rótulos: vadia, mãe, amante louca, piranha, santa, vaca, puta, fofa e tô na rua mesmo morta pela misoginia, pelo machismo e homofobia pelos abortos clandestinos, em campos de refugiados mesmo mosta por nascer menina, lána china vivo na boca das meninas. todo suor do massacrante trabalho doméstico é da minha testa que desce quando sou roubadas de mim meu útero saqueado para gerar soldados e consumistas meu corpo roubado por ser escrava sexual, rural e emocional oito do três não é meu dia. piso em todas as rosas ignoro todo parabéns. hoje é um dia triste um trinta e oito apontado para meus olhos esse dia estúpido não deve ter ares de festa toda homenagem, presentes, abraços, é um ato violento que banaliza todo sofrimento, discurso e movimento ouça as mortas, sinta suas dores, elas são de todas nós falem de mim, destas marcas aqui. deste roubo. deste assassinato desta desunião criada entre eu e minhas iguais. destes deuses patriarcais não sou vítima, sou roubada em todos os meus direitos de existir mas sou mulher e tô na luta e sou todas as mulheres do mundo agora, passado e futuro

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IARA CARVALHO (1980)

Poeta potiguar, é graduada em letras e mestra em Estudos da Linguagem, pela UFRN. Foi uma das fundadoras do Grupo Casarão de Poesia. Participou de diversas coletâneas de poesias e contos resultantes de premiações literárias. Lançou o seu primeiro livro de poemas, Milagreira, em 2011. O segundo, Saraivada, apareceu em 2015.

SEGREDOS as operárias atravessam a rua com seus cabelos vermelhos. disfarçam planos incendiários silêncios estratégicos sonhos verdejantes. quando voltam pra casa, os companheiros permitem toda ausência e pudor. o que as operárias guardam no fundo do formigueiro ninguém sabe, mas é coisa muito grande: um esqueleto, uma flor pela lágrima. DESFEITA cortei cabelo, unhas e todos os carboidratos. os meus pulsos, porém, ainda estão intactos. NÃO SEI ME CONTER Meu corpo transborda como uma folha caindo de um quadro de Monet. 62

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BEATRIZ BAJO

(1980)

Poeta paulistana, revisora, tradutora e professora de língua portuguesa e literatura, especialista em literatura brasileira (UERJ). É diretora-geral da Rubra Cartoneira Editorial. Publicou A face do fogo (2010), A palavra é (2010) Domingos em nós(2012) e Sobre nossas línguas a carne das palavras (2017). Possui um blog na rede (http:// lindagraal.blogspot. com/) e esteve com um verso na mostra POESIA AGORA, do Museu de Língua Portuguesa (2015). Participa de antologias e revistas. Morou 17 anos no Rio e vive há 10 em Londrina.

POR UM TRIZ quando ele me pega fora de cena escorrego no sol raiado rosa-dos-ventos hasteada leque tremeluzindo tod´água vida é segurar por um triz transversando enfiando e fiando a tração sobre os nós A QUEM SE ATREVER a meter a unha nas palavras a roer sementes aperte o botão para desabrochar para desfolhar as páginas desabotoe os olhos depois feche e le{ia}me CAVALO DE FOGO galopante mistério no ventre clarividente deu à luz um cavalo incandescente o potro veio empinando suas palavras seus músculos com ares corajosos de amplexos e ósculos sobre os muros do tempo, coiceando-os com decisiva beleza para a desinvenção outros trotes e o verbo cavalga em novos campos fogueiras simbólicas

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MAH LUPORINI (1980)

Poeta paulista, é jornalista e iniciou seu trabalho literário em 2009 no Espaço Cultural Chico Triste, da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, de São José dos Campos onde integrou o “ESPAÇOPOEMA” com suas poesias. Natural de São José dos Campos, reside em São Paulo. Colaboradora da revista eletrônica Mallarmargens, editou seu primeiro livro de poemas Ausências, (2010) de forma independente. Tem trabalhos publicados em sites de literatura. Seu segundo livro, Traço de Sombras, foi publicado em 2014.

LEMBRANÇAS Penso no poema como um corpo gasto pelo tempo Onde as palavras são braços que alcançam os fios de navalha reprimidos pela carne Desejo incontido desta noite de inquietações mudas Silencio as lembranças da minha infância onde a saudade dorme serena No meu jardim de tulipas vermelhas E o céu veste seu manto de incertezas No espelho tímido da manhã CONFISSÃO Confesso a traição dos nossos corpos ao criado mudo da manhã. Os minutos dançavam ao toque da tua pele Jogo de pernas, braços e lábios anunciando o êxtase sagrado. I Sob chuva de pétalas Perco-me no instante do sonho Desta musica que embala a infância do meu nome II Transito entre dois mundos sobre a insônia do luar Dois corpos escritos em um só poema DEFINIÇÃO Não me identifico Sou TODA PALAVRA Ser que desconheço

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JULIANA KRAPP (1980)

Poeta carioca, é jornalista e mestre em comunicação social pela UERJ. Participa do grupo CAC (Comunicação, Arte e Cidade).Inédita em livro, tem poemas publicados em revistas como Inimigo Rumor, Germina e Poesia Sempre. O dossiê de poesia contemporânea brasileira publicado no Diário de Poesía de Buenos Aires traz quatro poemas seus, em tradução de Cristian De Nápoli. Foi também traduzida por Teresa Arijón e teve poemas incluídos na antologia espanhola Otra línea de fuego. Quince poetas brasileñas ultracontemporáneas, com organização de Heloísa Buarque de Hollanda.

PRETEXTO o olho da rua é seco, sarcástico do mesmo gênero das abotoaduras e toucadores de tudo resta sempre o seu mistério virgem a beleza de íris os ares encardidos a córnea tal qual um diadema espavorido sobre nossas cabeças então ele cruzou a pista sem qualquer melancolia e travou o zíper sobre a pele ATRIBUTOS Gostaria de ser uma mulher que soubesse identificar um brocado uma cerzidura um carmesim um adorno em matelassê No comércio a palavra aviamentos me lembra de que há todo um reino de malícias que desconheço – penso não em ilhós mas em aves aquáticas artefatos explosivos Gostaria de poder dizer: vamos desenlaçar o cordão do meu quimono vamos providenciar castanhas doces para o grande banquete e nos deitar sob o dossel à espreita das comissuras que ardem na pele Porém eu estou atada ao mundo da sonolência e das cintilações breves da louça quebradiça e da mixórdia – ao lugar das mulheres e bichos AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA que se espatifam n’água

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NÍVIA MARIA VASCONCELLOS (1980)

Poeta baiana, é contista, letrista, professora e mestre em literatura e diversidade cultural. Ganhou, em 2007, o 7º Festival Vozes da Terra de Feira de Santana-BA, com a música “Soneto que não queria existir”. Publicou os livros de poesia Invisibilidade (2002), Escondedouro do Amor e Outros Versos sob a Espera (2008) e A Morte da Amada(2013). Tem poemas publicados na Coletânea Prêmio Off Flip (2015) e nas antologias Arcos de Mercúrio (2015) e Cantares de Arrumação (2015). Participa do projeto Mousikê & Poíesis, no qual realiza performances literomusicais.

O amor não está na estrela que, ao cair, carrega o pedido sussurrado, está no olhar que a percebe e espera. O amor não está nas cartas lançadas sobre mesas postas, está na tensão de quem as ouve e deseja. Búzios, números e datas não contém o amor, ele não está numa procura. Rezas, promessas e velas não trazem o amor, só a esperança de encontrá-lo. Mas, ninguém encontra o amor, ele é(misteriosamente) despertado... num momento de distração e abandono. ..................................................................................... Quando a amada morre, Não é seu corpo que fenece, Mas o desejo que existia por ele E tudo o que era romance e espetáculo. Não é a mulher que padece Quando a amada morre, É o amador que deixa de existir E tudo é enterro, tudo é luto. Não há coisa mais triste Do que uma amada que morre E que, quando morre, mata. Quando a amada morre, Parece a poesia E viver é expiação e tormento. Mas tudo revive quando, Como um susto, outra amada surge E com ela (de novo) o encanto. 66

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NIL KREMER

(1980)

Poeta gaúcha, formada em letras, é atriz, arte educadora e estudante. Já passeou pela dança, teatro, cinema, circo, música. Participou da coletânea Sobre Lagartas e Borboletas e do Projeto Sete Luas . Tem poemas publicados nas revistas Plural, Mallarmargens, Limbo, O Emplasto e DiversosAfins. Publicou o livro Kamikaze(2016)

A idade não vem sozinha Vizinha de chagas Pragas que batem e voltam A idade não dá folga Rouba toga, melindres Perdoa deslizes Dá o troco em doces A idade é generosa Vem em prosa ou desalinho Como vinho bom Ou sermão de mãe nervosa Esta menina levada Amarrota a pele E passa a limpo nossa ficha ................................................................................ A placenta que me cuspiu do morno jogou-me ao forno sem piedade nenhum pio de dó até pão de ló tornar-me sigo mal passada

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WALQUIRIA RAIZER (1980)

Poeta nascida em Rondônia, morou no Acre, no Paraná e reside, desde 2008, no Rio de Janeiro. Graduou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Acre e especializou-se em Jornalismo Político pelo Centro Educacional Uninorte. Tem histórico profissional voltado para a política cultural. Defende a poesia como matéria prima de todas as artes. Publicou O segundo ponto das reticências, em 2007.

RETICÊNCIAS vou escrever qualquer coisa que não pareça nada (!) esse tudo é mesmo o que (devasta) LARANJAS E FANTAS Eu te avisei! ...disse Mário com cara de Maria... (como se houvesse menos multa quando se buzina antes de passar o sinal) Avisou sim é verdade, mas queria não ser entendido. Avisou só por desencargo. E isso não conta. Disse que o ipê floria, que era amarelo e só. Disse que era desse jeito todos os anos, e que não pensava em mudar. Mas o ipê muda Mário, e sou eu é que estou te avisando. Há de nascer laranjas nele... Se não nascer eu mesma subo e prego umas garrafas de fanta.

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ROBERTA FERRAZ (1980)

Poeta paulistana, estudou letras na PUC e história na USP. Publicou em 2003 seu primeiro livro, de contos, Desfiladeiro. É mestre em literatura portuguesa e ganhou em 2008, o prêmio do Programa Nascente da USP, com seu livro de poemas Lacrimatório, Enócoas (2009). Publicou Fio, Fenda e Falésia(2010) em parceria com Érica Zíngano e Renata Huber.

SAPHO O meu amor, quando é amor é excesso E morre Um pé sobre o penhasco abaixo todo o mar centrípeto sua sombra, volume de pender o fundo vermelhidão e escolha Expande o delírio feminino ininterrupto o mar de suas mulheres seus ramos do escuro Entre o lábio e a sola a precisão do penhasco: raja os amores o sexo o manto meu amor, quando é amor é excesso E morre

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ELISA ANDRADE BUZZO (1981)

Poeta paulistana, é formada em jornalismo pela ECA, com especializações em edição de livros e jornalismo literário. Se lá no sol (2005) foi seu livro de estréia. Em seguida, participou de antologias no Brasil e no exterior. Trabalhou na Radiobrás, revista Cult, edição brasileira do Le Monde diplomatique. Seu penúltimo livro, Vário Som, foi finalista do Prêmio Jabuti, em 2013. Publicou, em 2017, Notas errantes.

nas malocas no cais sodré faltam reboco e cortinado sobeja amor pombas fofocam a vida por detrás dos vidros das alturas me contam as novidades elogio a beleza de suas penas verdes rubras as patas flexionadas sentinelas tão seguras de si não jogo tranças nem alpiste como esta grade é baixa vertigens acometem quem se aproxima demais do abismo AMÉRICA É preciso amar rapidamente ler todos os livros interessantes pintar os quadros com urgência transformar toda farinha em pão registrar todos os sentimentos antes que as cabeças sejam cortadas. CIDADE ÁCIDA palco de horrores e amores solmáforo acusando: raios peligrosamente UV (perigo! perigo! peles brancas e azuis) olhos fechados a luz não queima atravessa cidade ácida vem me incendiar

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ALINE BINNS

(1981)

Poeta paulista, produtora de cenários e ilustradora, faz parte do grupo Poesia Maloqueirista, criado a partir de leitura de poemas feitas em bares de Paraty na Flip de 2005. Na infância morou no Espirito Santo, mas voltou para Santo André ainda criança e aos 19 foi morar em São Paulo. Frequenta saraus, participando de projetos como Não Funciona, C.A.I.M.A.L. e Terra Vermelha. Já lançou Primeiro Voo, Cigarros Poéticos, Salto, Selva.

MUDO respira, no fundo pra sentir que ainda está dentro. Com as mãos, o peito e as extremidades em formigamento. Pressente a queda. Sente a vertigem (vinho raro). Salta. se arrebenta... engasga com o sangue, degusta o suor e acorda, ainda tonto do que houvera, vivo, mas não intacto, mudo, mas não calado. A SELVA Nas profundezas de minhas paixões sinceras Onde não existe o ecoar das palavras Mora a minha força mais bruta Cada vez que me abala a dúvida Com os poros em descompasso Eu sei que ela esta viva Devo dizer que estou livre apenas onde não há palavras Devo dizer que aperto, eu mesma, minhas amarras Cada vez que explico o que dizem os meus olhos Cada vez que corro pra longe de mim Cada vez que falam mais alto os contratos E eu sou uma selva Sou a mesma mata serena Que amedronta ao cantar da lua Sou uma deusa plena que tem medo de ser nua. Estou procurando velas para não estar sem trilha E apago com paixão velas e brasas Para não deixar de ser selva Nunca. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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JULIANA MEIRA (1981)

Poeta gaúcha,é advogada e vive em Curitiba. Seus poemas foram publicados pela primeira vez em caixas de fósforo, coleção Fogo do Verbo, em 2008. O primeiro livro, poema dilema, foi publicado em 2009. O segundo, sem título, integra o projeto Instante Estante de incentivo à leitura. Publicou o livro poema pássaro (2015) e está na Antologia Blasfêmeas: mulheres de palavra(2016). Seu último livro, Na língua da manhã silêncio e sal saiu em 2017.

o Guaíba indo lindo, limpo, no postal do gringo .................................................................................... todas as palavras com suas mutações contagiam meu corpo por isso sofro desde a sombra até o osso .................................................................................... o sapo coaxa. bonito? só a sapa acha. ..................................................................................... quando nasce um poema o poeta tem morte certeira é possível ver no futuro texto a funda cicatriz do recomeço ...................................................................................... que silêncio é este que me atravessa o crânio como se ele fosse um cânion? ....................................................................................... .

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LISA ALVES

(1981)

Poeta mineira, é curadora da revista Mallarmargens e colunista da revista Elenismos. Têm poemas publicados nas revistas Incomunidade (Portugal), Zunai, Flaubert, Parênteses, Germina Literatura, Cronópios e Diversos Afins. Recentemente lançou seu primeiro livro de poemas Arame Farpado(2015). Vive em Brasília onde colabora com o fanzine feminista de Salto Alto.

CURTAS DE MEUS LONGAS II Sou a mesma figura que caminhou ao lado de ideais que sucumbiram ao tempo: assisti a Revolução Francesa apesar de ter nascido no Brasil de 1981. Fui agente comunista, embora nunca tenha comido criancinhas. E agora sou um fruto capitalista: apodrecido dentro do mercado. III Toda minha moral mente e toda minha imoralidade é demente. WOOLFS & STORNIS AQUI DENTRO Eu sou desordem. Exterminadora de Eus passados. Alma em cálice de vida. Corpo entregue à ruína. Eu sou canção do exílio – inteligência colonizada. Segredo para mais de 500 anos. Império de sem terras, de sem tetos e de sem vergonhas. Meu sexo é algema, mácula e saia longa. Meus olhos esperam o não sei o quê. Curso pontes e pinguelas desafiando Leis e o Reich da Gravidade. FILHOS DE MADALENA Alastra-se um cobertor virótico neste solo. Quem dorme não terá mais chance de dizer: Bom dia! Fazemos nossa parte: vendemos nossas vidas. Hoje nossas genitálias rendem o prato do dia

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MARINA RABELO (1981)

Poeta cearense, foi criada em Natal e se considera potiguar. É engeneira química e também dramaturga. Publicou três livros de poesia: Por Cada Uma (2011), em parceria com quatro outras poetas potiguares; Livro de Sete Cabeças (2016); e Das Coisas Que Larguei na Calçada (2016).

NÃO LIMPE OS PÉS ANTES DE ENTRAR Entre com a lama, a grama, a poeira e a areia do mar. Entre com o barulho das ruas, do samba e dos versos do poeta de mesa de bar. Entre com o cheiro do asfalto, do ônibus lotado e do pastel de carne com suco de maracujá. A porta está aberta, pode entrar:Eu quero minha alma suja e feliz. ORIGAMI nem sempre somos o que queremos ser. um dia, pássaros. um dia, papel amassado no chão. [somos as dobraduras da vida] A POESIA (MENTE) A poesia está na sala. Nos restos em cima da mesa. Inquieta e sedutoramente viva. A poesia está no quarto. Na poeira debaixo da cama. Tranquila e assustadoramente só. A poesia sorri, Debocha e diz: — A poesia não está. E assim a poesia descaradamente é.

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POLLYANA FURTADO (1981)

Poeta paranaense, vive no Amazonas, formou-se em letras e especializou-se em linguística pela UFAM. Fez mestrado e é professora de língua portuguesa e literatura na rede pública de ensino Publicou os livros de poemas: Fractais e À margem da luz(2007), Simetria do caos (2011), Rosa de Sombra (artesanal e em versão digital, 2013) e À sombra do iluminado (2017).

A PRAÇA Distribuição de indigentes ignorados pela intransigência. Ignota discrepância de uma singular civilização. Desmedidos, censurados em larga instância, de uma força dividida, em dissipação. Expressão desenganada e corrompida, de um povo desiludido pela ganância. No ácido da ferida, absorvidos pela ânsia. Jaz um grito: dissolvam-se os parâmetros, recomponha-se o veredicto. NA PELE Escrevendo na pele o gosto da paixão, deixei derramar no meu ser muitos dos teus anseios. Mergulhaste fundo, minha boca entreaberta, um refluxo selvagem. Olhos de fenda, minha ardente ilusão. Envolvido pela ternura, desperta-me deste sonhoi de estar longe de ti iluminando as trevas dentro e fora de mim.

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RAQUEL GAIO

(1981)

Poeta carioca, é atriz, bacharel em letras e performer. Em 2011 lançou o livro de poemas O Exercício no Mundo com Luis Alexandre Louzada e Denise Fraga. Foi publicada nas revistas Um Conto, Diversos Afins, Estrelas Vagabundas e Zebra, estas duas últimas pela UFRJ.

tem um rinoceronte no meu pátio que me flameja toda noite não há metáfora que sustente meu quadril dolo encardido que ensurdece os ossos como uma mancha. tenho entre os dedos um crucifixo pagão que me faz sangrar como eu sempre quis. novena que entorpece. as horas no meu corpo são como escombros, altares perdidos no oceano. ......................................................................................... o odor entre minhas pernas , meu diálogo mais esquizofrênico, denuncia minhas velhas pegadas. uma alcova fertilizando promessas uma altura encardindo meus excessos . o óleo que produzo rasga minha língua e mancha a memória dos meus tornozelos. ando manca pelas redomas de tua igreja, pelas profecias atônitas de uma virgem. o sangue que me jorra me reduz a um beijo pontiagudo. escombros em precipício. carne que não envelhece. teu tempo é grave e minhas pernas querem deter tua fuga. nuvem cigana. alçar voos de serpente lambuzar esse fingido diálogo beber nosso líquido numa catedral sem deuses. costura de uma noite pagã.

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ROBERTA TOSTES DANIEL (1981)

Poeta carioca, tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Mallarmargens, Zunái, Musa Rara, Diversos Afins, além de blogs e no site do Centro Cultural São Paulo. Incluída nas antologias: Desvio para o Vermelho, Amar, verbo atemporal e História Íntima da Leitura.

o medo entrará em nossa casa nos recortando como num conto de Cortázar não saberemos por quê por fim, foragidos do perímetro de um país o coração na saudade eloquente e pagã forjada nas distâncias das coisas não paridas - mesmo partidas as coisas têm um nome ouço os espaços vagos do dia em que nascemos PÃO CEGO DA POESIA mastigo o ermo das palavras quando não quero dizê-las estendo os braços, frágeis de sentido por algo como a luz. ou a fome VIGÉSIMO ANDAR Tenho dias de ficar entorpecida com as montanhas, em parte alguma. Alargada pelas florestas, onde a verticalidade varia como o câmbio – flutuo sem pés nem asas pela chacina de elevadores que incomunicam o alto, sem confidências.

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SIMONE TEODORO (1981)

Poeta mineira, estudou letras na Universidade Federal de Minas Gerais, foi professora de literatura e fez mestrado na mesma instituição. Fez aulas de artes marciais, desistiu rápido e decidiu seguir carreira religiosa: foi católica carismática e quase irmã carmelita. É leitora compulsiva de poesia. Distraídas Astronautas (2014) é seu livro de estreia. Publicou depois Movimento em falso(2016). Atualmente coordena as atividades de incentivo à leitura da Biblioteca Pública de Belo Horizonte. Mas confessa: “poderia ter sido engenheira, lutadora de MMA, freira ou saxofonista. Uma vida só não basta: sou poeta.”-

SOBRE ARDER Eu sei Ousei flertar com claridades Mas sou filha do breu E agora me recolho Barroca e contorcida (Minhas frágeis asas de cera...) E ela era um verão Inteiro em minha cama Ardendo NÃO ERA Não era vento: Era ser forte Era ser fraco E, às vezes, sem rumo. Não era chama: Era um gosto na língua Era umidade entre as pernas Era angústia de amar. Não era outono: Era a superfície da pele Alcatifada por rugas. Não era um trilho de trem Uma estação ferroviária Um aeroporto Nem mesmo o mar Com um barco distante: Era a vida que restava Acorrentada à ausência. Não era chuva: Era tristeza pura. E só. 78

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ADELAIDE IVANOVA (1982)

Poeta pernambucana, é jornalista, fotógrafa e vive e trabalha entre Colônia e Berlim, na Alemanha. Lançou os livros Autotomia (fotografia), Polaróides (2014) e O Martelo(2016). Tem trabalhos fotográficos publicados por diversas revistas internacionais.

coisas no metrô acontecem muitas coisas na alemanha mas ninguém se olha nem na alemanha e nem no metrô pra mulher de burca todo mundo olhou mas ninguém a viu ninguém julga ter algo a ver com isso. ........................................................................................ embaixo da burca há uma mulher. GAIA CIÊNCIA é proibido cuspir no prato é proibido dormir no asfalto é proibido trepar no mato é permitido açoitar as massas é permitido erigir as farsas é permitido morrer às traças (paremos, portanto, de fingir que Nietzsche estava errado quando enlouqueceu às portas de explicar esse caralho) AS MULHERES acontecem muitasPOETAS NA LITERATURA BRASILEIRA 79


CLARA BACCARIN (1982)

Poeta paulista, formou-se em letras e fez mestrado pela UNESP (Araraquara). É autora do romance Castelos tropicais (2015), do livro de poemas Instruções para lavar a alma (2016) e do livro de crônicas Vibração e descompasso (2017). Escreve para diversos sites e em 2017 teve poemas gravados no CD Lavar a Alma. Morou na Austrália, Chile e Hungria.

entre silêncios e entrelinhas entre peles e recantos entre vãos e desvios entre a coincidência dos olhares e a refração dos espelhos entre os escafandros e os nus em pelo Amar é sempre um tiro no escuro MISSÃO é fácil escrever um poema difícil é – pelas décadas que se agregam pelos vícios que me pegam pelos sonhos que se quebram – não deixar morrer o olhar de encantamento é fácil escrever um poema difícil é fazer do corpo templo capturar na veia e no verso os ritmos do silêncio é fácil escrever um poema talvez leve alguns minutos apenas talvez surja num sonho numa alvorada do peito numa madrugada embriagada difícil é deixar a fenda aberta despir as máscaras desconstruir os passos reinventar a existência cotidianamente é fácil sentar e escrever um poema difícil é resistir e fazer da vida poesia 80

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FRANCESCA CRICELLI (1982)

Poeta paulista, nasceu em Ribeirao Preto, é tradutora e pesquisadora. Publicou Repátria no Brasil (2015) e na Itália (Carta Canta, 2017) e 16 poemas + 1 em Nova Iorque (edição de autora, 2017) e em Reykjavík (Sagarana forlag, 2017). Organizou as cartas de Ungaretti a Bruna Bianco (Mondadori, 2017) e traduziu, entre outros, Elena Ferrante. Morou na Itália, na Espanha, na Malásia e, por alguns meses, na Índia e no México.

RUA ABÍLIO SOARES A casa caiu e o vazio fisga fundo a ferida. A rua muda, a sombra nua espraia o sol, meus passos passam CATEDRAIS Força sutil e estrondosa a nossa catedral erguida no peito vazio – no silêncio dos olhos, sós e incessantes construímos um penhasco, ponte de uma dor a outra. Como todo ser vivo, hoje estamos cada um com seu vício. É O NASCER DO DIA QUE RASGA O PEITO DOS AMANTES É o nascer do dia que rasga o peito dos amantes, como o verde que colore ois olhos, na mesma diagonal, o desenho de um milagre. Plantar na terra pés com o coração e não ir mais embora agora que colocaste o mar no céu. Enquanto na gargante brota-se a línguia dos antepassados navegadores meu olhar permanece no horizonte.

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JOANA CORONA

(1982-2014)

Poeta paranaense, editora e artista visual. Foi mestre em literatura pela UFPR e viveu em Curitiba. Publicou o livro de bolso literário-visual OQ? (2006), em parceria com C. L. Salvaro. Também publicou fanzines coletivos, Potlatch (2 edições)e Lá (5º edição). Morreu, lamentavelmente, em março de 2014 víotima de uma partada cardíaca durante viagem para Florianópolis.

PETRÓLEO sombra: carne incorpórea colada no tempo. corpo imaterial, ou a fisicalidade do ausente. o negativo de uma materialidade anterior – silhueta de fumaça na parede branca. (o que se fotografa são fantasmas) eu sou o livro-fogo que queima, negro. estive sempre aqui (mas isso não é visível). agora há o resquício, e há também a imagem que me cria, para que eu siga sendo este outro. agora sou um traço de pólvora. a fotografia-fuligem, a imagem-pó – o livro-espectro. ENTARDECER voam em bando. estardalhaço. feito vento nas folhas barulhentas. as asas, simultâneas: tambores. avoada, nem vê, de perto. o fim de tarde sonoro a manchar o céu (alaranjado) com sua listra negra e ligeira.

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MARIA CAROL DE BONIS (1981)

Poeta paulistana, é formada em Letras pela PUC-SP e leciona língua portuguesa e literatura. Passos ao redor do teu canto é seu primeiro livro de poemas e integra a Coleção Patuscada, projeto premiado com o ProAC – Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo.

DECOMPOR A fruta apodrece (não que eu assim quisesse) como vão de escada e escuridão. Vivo onde as moscas contornam minha ausência. Faço de mim escambo com o vento. Estaria a dois passos do que tem sido. Desfaço na estrada e vou fincando em cada poste abandonado em cada curva desvio a voz que em mim fala para decair na tarde verde vegetal e não querer mais nada da vida. Se assim se mostra no que decompõe a essência, deixo ao que o coração abra em tempo do que regressa o sumo maduro a colher o sêmen entrar dentro da ferida das coisas saber de que material são feitas e conter sua substância - expor sua ferida em um trauma aberto lá onde dói a fibra do fino fio corrói-se a essência sem luz.

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ELIZANDRA SOUZA (1983)

Nascida em 1983 na periferia de São Paulo, cresceu em Nova Soure, pequena cidade da Bahia, terra natal de seus pais. Em 1996, retornou à capital paulista, momento em que inicia seu diálogo com a cultura hip-hop. Criadora do Mjiba, fanzine de poesia, que circulou entre 2001 e 2005, a autora começou a frequentar os Saraus da Cooperifa em 2004. Poeta, jornalista, editora da Agenda Cultural da Periferia, locutora da Rádio Comunitária Heliópolis foi co-organizadora da Antologia Pretextos de Mulheres Negras com Carmen Faustino e textos de 20 poetisas negras. Publicou o livro de poemas Águas da Cabaça(2012) e foi incluida em algumas antologias como Cadernos Negros, Negrafias, entre outras.

MULHERES CAMPESINAS No meio da noite, mãos de foice Pra lavoura de pragas, mulheres gafanhotos Noticie a invasão, nosso nome é ocupação Para germinar capital estéril, Sangue nosso não regará solo infértil Antes que o planeta seja vento e poeira Guardamos sementes boas nas carapinhas Espalharemos nos milharais nossas bandeiras Mulheres em luta, escrito nas muralhas e nas veias ÁGUAS DE CABAÇA Esse fruto seco que tudo carrega Elixir dos deuses e do diabo Águas para o banho Águas que matam a sede É vida, é ventre Quando pensam que morri Renasço nas mãos de uma mulher Ser cabaça, ser fértil simples, discreta suave, dura e impermeável Reverberar o som com suas sementes COMIGO-NINGUÉM-PODE Assentei no meu portão Uma erva poderosa Planta milagreira De banir Olho de Seca Pimenteira Para reforçar Espada de São Jorge Arruda e Alecrim Não há olho gordo que me derrube Não há mal que me assole Pois na minha casa o que não falta É Comigo-Ninguém-Pode 84

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MAIARA GOUVEIA (1983)

Poeta paulistana, possui poemas e artigos sobre cinema e literatura publicados em sites da internet, revistas e jornais. Classificou-se em 3º lugar em um festival de música e literatura da USP e foi finalista da 15ª edição do Prêmio Nascente, Publicou o livro Pleno Deserto, em 2009.

NO SUMIDOURO Ao redor do quarto migra um cortejo de aves. Não vemos pois estamos fechados. Ao redor do quarto um barco repousa em um mar sem ondas. Não vemos pois estamos partindo. Ao redor do quarto baleias abertas e peixes mortos cobrem a angra. Não vemos pois estamos sangrando. Porque estamos sozinhos não vemos suicidas engolfados nas brânquias tóxicas dos cardumes. Não vemos a morte solitária dos corais. Não vemos a embarcação vazia permanecer no silêncio das águas. Não vemos: pois estamos no escuro. DESENCANTO As mesmices cotidianas desmoronam quando estamos juntos. Parece que o tempo pára e averigua que cintilamos de volúpia. Consumidos pela alegria de trazer à tona um prazer legítimo que não se repete em mil eras. De repente, depois da viagem, voltamos a nos ver entre os limites das paredes: nossos corpos não vêm mais com paisagens, ou entre nuvens de luz furta-cor e néon. Já não somos deuses. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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NINA RIZZI

(1983)

Poeta paulista, vive atualmente em Fortaleza. Formada em arte dramática (ECA/USP) e história (UNESP), coordena o Centro de Artes 7 Setembro. Participa de saraus, festivais de arte, eventos literários e palestra sobre poesia, literatura, gênero e artes e é engajada em movimentos sociais como o MST e o Movimento Arrastão. Publicou os livros de poesia: Tambores pra n’zinga (2012), A Duração do Deserto (2014), Geografia dos ossos(2017) e Quando vieres ver um banzo cor de fogo(2017). Tem poemas traduzidos para o espanhol, esloveno e inglês e participa em diversas antologias no Brasil e no exterior.

ENREDANDO LIBERDADE em lugar de poesia então eu cruzo as pernas com essa cara falsificada de foda-se. chiarescuro.

entenda. aquela ribanceira ficou toda assoreada e era tão escuro e tanto vento e tamanha solidão, que montanha despenquei forte escorregada, esses malditos sapatos de plástico roxo. nãnã de lama. e você não estava lá pra me estender o braço esquerdo como bem-casadinho numa igreja de santa clara. entendo. suas pernas lazarentas e essa cara falsificada de te venero. chiarescuro. e não estou numa igreja de são francisco pra te cuidar. amor, ateu amor. ÚLTIMO ESTUDO PRA O DESAPEGO velhos títulos brincam de ricochetear o marejo d’ os meus olhos. esfrego-os um pequeno desastre me afunda na poltrona vazia, a echevaria apodrece. os livros que me roubou desaparecem da estante letraa-letra, grandes sorvos de esfaimento mais adentro mais adentro ainda te esqueço

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PRISCILA LOPES (1984)

Poeta brasiliense, reside desde criança em Florianópolis. É formada em relações internacionais. Possui contos, crônicas e poemas publicados em antologias. Realizou duas exposições de poesia no espaço cultural da Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Em 2009 teve seu conto O intangível publicado na Revista Cult (138). Mais adiante foi contemplada com a Bolsa para Autores com Obra em Fase de Conclusão, recebida da Biblioteca Nacional com a qual pôde publicar seu primeiro livro de contos Uns traços, todos imponderáveis (2010) Integra a antologia Cantares Catarinas - A Nova Poesia Catarinense (2010)

APAGÃO Esse tédio de ficar sem luz me leva a escrever coisas tão escuras! Acendo as idéias para ver se consigo continuar minha leitura. THE NIGHT CAFE Contemplo as escadas de van Gogh. Consulto o relógio na parede. A cinco passos está o meu cliente. Nele me debruço se me vejo. Nele habita o clima, o verde da mesa de sinuca que me convida a ser só. Um casal ao longe não cabe em mim. Um bêbado sentado também sou eu. Por inúmeros motivos me condeno a manter-me em pé, entre parênteses. Creio que haja vida após a morte e que os olhos são os ouvidos das minhas paredes. Porém, me detenho no pensamento que mede o tamanho do meu taco — e se confio ou não, é mais embaixo o buraco que procuram minhas mãos. CRI-A-TIVA Quando eu era criança, E olhava para o topo das árvores, Eu não sabia o que era o passarinho. Bastava observar E eu era um passarinho.

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BRUNA BEBER

(1984)

Poeta carioca, nascida em Duque de Caxias e morando em São João do Meriti, sempre afastada dos centros do Rio. Desde 2007 vive em São Paulo. Publicou quatro livros de poemas:A fila sem fim dos demônios descontentes (2006), Balés(2009) , Rapapés & apupos (2010) e Rua da Padaria(2013).

LUDIBRIO vou enterrar cada parte junto ao rasto impreciso dos mínimos sinais e sobre cada indício construir um cemitério de notícias qualquer dia apareça de surpresa como um soluço. NEIGHBORHOODS se o mundo não fosse esse aterro de máquinas barbas pilhas débitos prazos e canetas marca-texto medos dúvidas e embalagens tetrapak se o mundo não fosse um aterro de babacas ou se o mundo não fosse um abrangente e resumido aterro de sinônimos e se essa rua se essa rua fosse tua eu ia me mudar pra lá. 88

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EUNICE BOREAL (1984)

Poeta paraibana, é cineasta e exerce o ofício de artista multimídia. Estudou música na EMAN, com habilitação em violino, e filosofia na UFPB, onde pesquisa estética filosófica. Parte da sua obra está presente na internet, em exposições individuais e mostras coletivas, como por exemplo a Vídeopoéticas II, que aconteceu no Centro Cultural São Paulo, em 2014 .Também estuda grego clássico.

O cinema não existe mais naquele prédio Antigo eles Agora Só cultuam Deus mas ainda vendem o ingresso pra quem quiser entrar No Paraíso. POEMA O verso deita o oito e o infinito se levanta A POESIA FUGIU DO PAPEL Saltou aos olhos em câmeras e bits Criou formas com sprays e mármores A poesia trocou a métrica Pela coreografia E ganhou as teclas sorvendo jornais A poesia agora só canta em teatro É a maestrina titular Que de olhos atentos Rege outras formas. A poesia que já reinventou o poema Agora só reinventa a vida.

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GERMANA ZANETTINI (1984)

Poeta gaúcha, é tradutora e jornalista. Já teve poemas colocados em ônibus e trens de Porto Alegre. Foi publicada em antologias e revistas literárias e selecionada em alguns concursos. Seu livro de estréia, Eletrocardiodrama (2017) conquistou o prêmio Academia Rio-Grandense de Letras. Mas antes disso, seu trabalho já aparecia por aí. Seus versos estavam em postes. Em paredes de ônibus e do metrô. Nas ruas, próximo às pessoas. “Acho importantíssimo que a arte vá até as pessoas”, reflete.

no meu fundo de poço a água vem até o pescoço pra garantir que eu volte sempre de alma lavada LEIA ANTES DE USAR não, aqui não há lugares reservados [de antemão já lhe adianto: nem adianta olhar para os lados] o ambiente não é climatizado os assentos não são flutuantes e máscaras de oxigênio não cairão sobre suas cabeças para sua segurança e conveniência informamos que a vida não vem equipada com saídas de emergência CORTE a faca em punho a alma em riste e uma só jura: nunca mais voltaria a ser aquela tola de hoje em diante choraria apenas pelas cebolas 90

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JENYFFER NASCIMENTO (1984)

Poeta pernambucana, é feminista, produtora e apreciadora de arte, além de frequentadora de saraus da periferia da zona sul de São Paulo. Publicou poemas em duas antologias: Sarau do Binho, e Pretextos de Mulheres Negras. Seu primeiro trabalho autoral foi a obra poética Terra Fértil(2014).

ANTÍTESE Pediram um corpo escultural Eu não tinha. Quiseram uma mulher ignorante eu já tinha lido o suficiente pra me proteger. Sugeriram que não opinasse em assuntos de homem Eu nunca consenti em calar. Disseram que eu fosse esposa Eu não quis casar. Discursaram que as mulheres são frágeis Eu não tive tempo de exercitar fragilidades. Orientaram que não freqüentasse bares Eu não pude negar as esquinas. Quiseram controlar meu jeito de vestir e falar Eu não vi sentido em deixar de seguir minhas vontades. Apostaram que eu teria um subemprego Eu vislumbrei ir mais distante. Transaram comigo e depois fingiram não me conhecer Eu aprendi a ignorar os imbecis. Disseram que eu não amamentasse para o peito não cair Eu amamentei até cair. Submeteram meu corpo e meu psicológico à violência Eu me juntei a outras como eu para superar. Compraram vaidades para que eu me adequasse Eu envaideci aprendendo palavras de ordem na luta. Exigiram fidelidade e submissão Eu rompi por amor próprio. Cagaram mil e uma regras de conduta Eu mandei pra puta que pariu E sorri, feliz. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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JULIA DE CARVALHO HANSEN (1984)

Poeta paulistana, graduou-se em letras pela USP e é mestre em estudos portugueses pela Universidade nova de Lisboa. Seu primeiro livro , Cantos de Estima, (2009) teve duas edições de materiais, tamanhos e tiragens diferentes. Publicou também Alforria Blues ou Poemas do Destino do Mar,(2013 ) e O túnel e o acordeom (2013)

Estou sempre a espera de ver. Vou na frutaria de olhos muito abertos vez em quando meus ombros se fecham quando muito chama a ver. Temem o fogo que se alastra entre estalos nas estruturas. Preciso dissolver um pouco dos vigiantes olhos para encontrar todos os olhares que tenho por onde. É assim que vejo também a confusão. A confusão tem algumas coisas para me ensinar. Essa pouca relação é a nossa. Meu esteio é claro quando estou pisando meu chão diamantado de dentes de cada animal que comi para me tornar humana. E assim poder dizer. Mas eu sei sou tão pontual nasci para esperar os deuses não. Dia desses ganharei outra velocidade. Serei planta. E hei de continuar iluminada pela água.

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MARIANA BOTELHO (1984)

Poeta mineira, nasceu na pequena Padre Paraíso, Vale Jequitinhonha. Abandonou o curso de letras “por temer conhecer demais tudo aquilo que amava” e se formou em educação física. Escreve poesia desde os 12 anos e publica seus escritos no blog suave coisa. Estreou em livro em 2010, com O silêncio Tange o Sino, com apresentação do poeta Carlos Vogt.

NASCENTE córrego cachoeira ribeirão eu choro pra pertencer à paisagem CASARÃO no corredor o vai vem das saias onde eu me agarrei no quintal o fantasma da mangueira no canto da sala a cadeira da minha avó onde um dia a dor me esperará ESTAÇÃO tenho um outono no corpo de onde as coisas caem vejo doçura nas roupas espalhadas pelo chão AFINAÇÃO há que se aprender a tirar silêncio das coisas quando uma coisa produz silêncio ela está pronta

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MARIANA TEIXEIRA (1984)

Poeta goiana, morou em mais de uma dezena de cidades. Em 2014, participou do Festipoa declamando poemas. Publicou os livros Inversos Paralelos (2013), O que tirei da mala (2015) e Breves verdades e outras mentiras (2017) e tem poemas publicados nos dois volumes da antologia Hiperconexões: realidade expandida (2013 e 2014), a primeira antologia de poemas sobre o pós-humano da literatura brasileira, organizada pelo escritor Luiz Brás.Também é criadora do projeto ‘Gota a gota’, com a artista plástica Shirley Soares.

CRIME tenho tendências assassinas mato saudades com golpes de falta de ar DOAÇÃO tirou do armário o que não servia não queria e nem sabia que tinha tirou tudo e colocou de volta só o que usaria o par de asas ficaria ótimo com os pés descalços DESORDEM Passava uma mão nos cabelos domando os fios que brigavam com o vento Com a outra mão domava a saia que subia e descia causando vergonha nas coxas brancas Com menos mãos do que queria domava o que dava e seguia 94

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RITA BARROS

(1984)

Poeta paulista, é revisora, tradutora e produdora cultural. Tem poemas publicados em em revistas e jornais, impressos e digitais, e na coletânea do Prêmio SESC de Poesia 2014 (Brasília, DF). Seu primeiro livro foi lançado em 2015 pela editora Cozinha Experimental, do Rio de Janeiro (Coleção Kraft n.7: Rita Barros). É autora do blog Sede de Pedra e coautora do projeto Antares 21, realizado em Sevilha (Espanha), onde também publicou um libreto em espanhol.

1. ANDE movo-me. meus olhos temporais destroem tudo ao redor do umbigo do mundo [nas bocas rasgadas um retumbar de gemidos] cega a cordilheira me lambe morde mastiga engole o tempo a cólera e os cartões-postais ORQUESTRA PARA DANÇAS VIOLENTAS havia muito tempo numa noite [essa bandida essa bandida] e um drama estilhaçado no meio-fio between my dreams and the real things enquanto olhávamos nossos sapatos à cabeceira da pista havia nesse drama uma cenografia íntima um país estrangeiro um sussurro rompendo a névoa rasgando o quadro rasgando nosso contorno liquefeito pequenas dádivas havia um deus sitiado nesse som AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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RITA ISADORA PESSOA (1984)

Poeta carioca, é graduada em psicologia. Estudou a poeta Sylvia Plath no mestrado em Teoria Psicanalítica e é atualmente doutoranda em Literatura Comparada (UFF), Trabalha como tradutora, revisora, astróloga, taróloga, figurinista. Seu primeiro livro de poesia, A vidanos vulcões, foi publicado em 2016.. Tem poemas publicados em revistas como Mallarmargens, Escamandro, Garupa, Germina. Seu segundo livro, Mulher sob a influência de um algoritmo, venceu a terceira edição do Prêmio Cepe Nacional de Literatura e será publicado em 2018. Seu próximo livro, Madame leviatã, encontra-se no prelo.

AUTOGEOGRAFIA INFAME há que se pagar um preço pela tentativa risível de erigir uma pessoa sobre uma falha sísmica. estátuas de sal não são realmente pessoas, percebe? dissolvem-se em nevoeiro marítimo antes do amanhecer: meu demônio-meridiano é uma mulher de corpo ampulheta [um duplo] e honestamente, não sei bem o que fazer com tantas curvas. a mim, sempre agradou o sul para onde escorregam [salvos do abate] todos os novilhos brancos e também os pardos; a verdade é que um pacto com o trópico de antes me mantém ainda por aqui, entre os comensais. mas tenho brotado oceanos [como uma boa menina - em segredo] para fugas e travessias. 96

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ANA GUADALUPE (1985)

Poeta paranaense, já foi professora de inglês, fez tradução e estágio em biblioteca pública. Atualmente trabalha como redatora de conteúdo para internet, em São Paulo. Publicou os livros O relógio de pulso (2011) e Não conheço ninguém que não seja artista(2015). Ganhou visibilidade ao traduzir Milk and Honey, de Rupi Kaur, indiana radicada no Canadá que virou febre mundial e fez um tremendo sucesso no Brasil com o título de Outros Jeitos de Usar a Boca.

VUPT só leu um livro na vida que falava sobre o vento com voz fina se lhe escrevo um verso e leio em voz alta não vê graça não sabe ouvir pausas como as minhas nossas idas e voltas agora não adivinha que carrego um poema pra entregar antes que vá embora junto com a ventania MAPA DO TESOURO menino vestido de pirata eu sei que os carnavais têm sua graça por isso eu respiro engraçado quanto te vejo sinto meus braços acenando para navios parados

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BIANKA DE ANDRADE (1985)

Poeta mineira, é graduada em letras e mestra em teoria da literatura pela UFMG. Já publicou poemas em algumas revistas digitais. Seu livro de estréia é Desejada Dor(2013)

BUMERANGUE As palavras, lancei-as ao mundo. O vento, agressivo, trouxe-os de volta. Me golpearam! AMOR IDEAL Convergimo-nos irresistivelmente um para o outro. Todo o resto é divergência insuperável. JOGO DE PREFIXOS Quero unir o inútil ao agradável. Os que desejam o útil fiquem também com o desagradável.

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LAURA LIUZZI

(1985)

Poeta carioca, participou da abertura da Flip DE 2016,, ocasião em que leu e ironizou um poema bem ruim de Michel Temer. Trabalhou com o documentarista Eduardo Coutinho, como assistente de direção, nos filmes Um Dia na Vida, As Canções e Últimas Conversas. Publicou os livros de poemas: Calcanhar(2010) e Desalinho(2015).

ORQUESTRA Não há cortina para esconder os músicos nem mesmo a música se esconde nos instrumentos. Está tudo aos olhos da platéia porque a sinfonia não se pode ver senão nos gestos do maestro. À minha frente, antes do primeiro comando, pode estar o violoncelista em terno preto, como muitos ouvintes. Quando se sentam os músicos cada um em seu tempo afina seu instrumento e acerta a folha da primeira sinfonia: confusa algaravia. Então vem o regente sob uma saraivada de palmas com sua vara de condão. Os músicos ajeitam a coluna alisam os traços do rosto e encaram o maestro que, com dois olhos apenas cruza com todos que têm nele a mira buscando a confirmação de que pode começar. Tão logo soerga a batuta e soe o primeiro acorde ouve-se, milagrosamente, o silêncio. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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LILIAN SAIS

(1985)

Poeta paulistana, é doutora em letras, pesquisadora e tradutora da área de grego antigo e coeditora da Revista Libertinagem, de arte e literatura erótica, e uma das fundadoras da plataforma de ensino e difusão cultural Literartéria. Participa da organização de diferentes saraus espalhados pela Pauliceia. Lançou seu primeiro livro de poemas, “Acúmulo” durante a FLIP 2018, na Casa do Desejo, em Paraty.

não é sina pouca percorrer no futuro passos passados: silencia sinos. peço, de trago em trago que entre potência e exaustão eu ainda seja possível PRAZOS digo sexta porque soa longe, digo sexta como quem diz outra vida, porque essa semana já é bastante, como a anterior, a outra, a próxima, a existência percorrida, esse correr inexorável de existir, ser gente e não criado-mudo, cômoda de três gavetas, capa de chuva, porta-níquel, - desenho na parede -, digo sexta porque não é hoje, e isso, se não me basta, já me serve um bom tanto: apenas hoje, 100

não.

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PRISCILA MERIZZIO (1985)

Poeta paranaense, é formada em comunicação social, trabalhou como redatora em agências de propaganda e em jornalismo. Colabora com a Germina, Zunái, Eutomia, Mallarmagens, Jornal RelevO, Escritoras Suicidas e PoesiAudível. Seu primeiro livro, Mínimoabismo, publicado em 2014, foi semifinalista do prêmio Oceanos. Ardiduras, segundo livro, saiu em 2016. Priscila é idealizadora e coordenadora do projeto Pulmões Versos e faz mestrado em Letras na Universidade Tecnológica Federal do Paraná.

REFÚGIO os deuses protegem meu corpo como o tapume circunscreve a catedral gótica múmias apoteóticas via régia de papiros a.C. refúgio do bardo pagão na abóbada longe das trincheiras da revolução francesa homens verdes urinam de mármore, rezas, artilharia e gana faz-se o caos os deuses protegem meu corpo irrevogavelmente politeísta como os índios costuram palmeiras nas ocas espectros melífluos batizados no círculo mágico desmistificação de aporias jesuítas poluíram rios amazônicos com água benta botos-cor-de-rosa engravidaram índias com sêmen europeu os deuses protegem meu corpo com o apetite irascível dos elefantes africanos que acossam as fêmeas avançam com peso e presas estraçalham carros e pessoas trombas bramindo: “afastem-se do que é meu”.

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RYANA GABECH (1985)

Poeta paulista, morou em Itajaí e vive em Florianópolis. Artista visual, é formada em Artes Plásticas pela Udesc e mestra em literatura pela UFSC, onde desenvolve trabalhos em poéticas sonora e visual. Publicou seu primeiro livro aos 15 anos: Mar e Avelãs (2001). Vieram depois: A data invisível do poema(2006) Trêmulo(livro-CD, 2008) e Álbum Vermelho (2010).

ONÍRICA Eu sonho tanto e quando perguntam que eu fiz na noite anterior penso que estou dormindo. AGUARDE Perto da roupa que mofou uma ausência pronta para vestir a incerteza da sua volta AMOR MODERNO Ele me ama na esquina, como se eu fosse comprável. Só nos comunicamos por mensagem. Às vezes é dia de escrever, as vezes é dia de perceber, anotar o mundo. Assim ele me ama: como se tivesse dia de não-amor, dia de a gente se olhar sozinhosó pra si mesmo. Me ama como se eu tivesse em outro país, como se eu não fosse trazer o pão. Ele sempre esquece quando fico doente.

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ANNA APOLINÁRIO (1986)

Poeta paraibana, é licenciada em pedagogia pela Universidade Federal da Paraíba e participou de várias antologias nacionais. Foi premiada no VI Festival de Poesia Encenada do Sesc Paraíba, em 2010 . No mesmo ano publicou seu primeiro livro, Solfejo de Eros, Na sequência, vieram Mistrais(2014, prêmio Augusto dos Anjos)) e Zarabatana(2016)

CORPOESIA Escrevo para derrubar paredes Cegar tua íris Apunhalar as veias Atear delírios Traduzir-me em sílabas Queimando dentro de ti O QUARTO Lúmen de livros Arena antiga As fábulas esfaqueadas pela chuva Aquoso pacto de corpos É líquido o amor SYLVIA QUEIMA Vênus da alcova, Sílfide messalina Viciada em adesivos de nicotina Insone & neurastênica, dopada e deprimida Permita-me lamber sua iconoclastia Mariposa de danças noturnas Fênix feérica, Noiva da Morte Godiva Camélia rubra, jorrando seu perfume que asfixia. Me põe nos lábios o vinho docemente nínfico Teus versos são belos crimes Sinfonia de gozos e guizos Teu punhal de palavras Fogo que dança pelo meu corpo.

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ISABELA PENOV (1986)

Poeta paulistana, é atriz e fotógrafa. Dedica-se à poesia falada e escrita. Seu trabalho em poesia falada pode ser visto na crescente cena paulista de slam (campeonatos de poesia autoral falada,) no seu canal no Youtube e também nos vídeos “Cuidado: Inflamável” e “Mal Menor”, ambos lançados no ano de 2015. Mantém o blog Semeaduras (isabelapenov.blogspot.com)

A CONCEPÇÃO Ela já tinha engolido sapos, risos, esperma e palavras. Gritaram-lhe: “Engole esse choro!” Engoliu e ele choveu dentro dela. De madrugada procurou um papel: tinha lhe brotado um poema. PRIMEIRA ELEGIA A poesia é uma velha amiga que mora muito longe de mim. De vez em quando fazemos contato, trocamos mensagens breves, marcamos encontros que nunca acontecem. A vida é difícil, estamos cansadas, não há tempo. Mas quando ela sabe que estou em desespero como hoje Se ela apenas desconfia do meu desespero cruza os céus e os oceanos me atravessa correndo em meu auxílio. Entra sem bater (ela tem a chave) e come comigo em silêncio. Vigilante me observa na madrugada insone (ela nunca dorme) Se move pela casa como se habitasse aqui dentro há muito tempo (ela sabe exatamente onde guardo as coisas) Lava meus pés doloridos sem fazer perguntas. Ela não tem pressa. Ela só vem cuida de mim e passa. (A vida é difícil, estamos 104 cansadas, AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA não há mais tempo.)


LARA AMARAL

(1986)

Poeta brasiliense, é jornalista e escreve poesia desde os 13 anos.. Publicou alguns poemas na coletânea Maria Clara: universos femininos. Inúmeros poemas de sua autoria têm circulado em espaços das redes sociais: Revista Zunái, Musa Rara, Mallarmargens, Ellenismos, Germina, entre outros. Seus textos podem ser encontrados em http:// laramaral-teatrodavida.blogspot.com/.

LETARGIA Amo como quem morre Não de tanta entrega Mas de deixar-se corroer Para restar o silêncio de um corpo E a falta do sentir Escrevo como quem vive Reencarnando personagens Possivelmente mais tristes Até que eu seja só partícula De algo que não me reconheça VERSO INTRAGÁVEL Numa hora dessas eu abriria a porta da rua sentaria ao sereno e fumaria um cigarro no entanto, sofro de outro vício acendo um poema mas ele não me traga nem me larga deixo-o queimar. AFIADA Dezenas de gumes des(a)fiando-me na lâmina, brilho do metal sem sangue centenas de direções cortando meu mundo é de pavio curto e quer me implodir

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LUBI PRATES

(1986)

Poeta paulistana, é graduada em psicologia com especialização em Reich. Tem publicado os livros Triz (2016), Coração na Boca (2012) e algumas participações em revistas e antologias literárias nacionais e internacionais. Edita as revistas literárias Parênteses e Adelitas e dedica-se a ações que combatem a invisibilidade das mulheres no meio literário. Participou da organização da coletânea GOLPE: antologia-manifesto (2016), um grito de diversos artistas contra o golpe político-jurídico-midiático. É sócia-fundadora e editora da nosotros. Vive em Curitiba.

ATÉ SÓ RESTAR O DEPOIS sobre o dia 29 de abril de 2015, em Curitiba.

pudesse, recordaria se havia sol antes daquela tarde quando tudo se resumiu a cinza: fumaça, um quase

aquele estado de consciência frágil entre estar acordado & desmaiar. pudesse, recordaria o cheiro antes daquela tarde quando tudo se confundiu a gás pólvora sangue. recordaria quais eram minhas atividades inúteis antes de acessar a internet& navegar entre as notícias para descobrir o alvo dos helicópteros que sobrevoavam a cidade destruindo destruindo destruindo qualquer segundo de silêncio inibindo os gritos pudesse, eu recordaria o antes: 106

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MAR BECKER

(1986)

Poeta gaúcha, é formada em filosofia, cursa especialização em epistemologia e metafísica e trabalha como professora. Publicou poemas nas revistas Zunái, Germina, Pausa e Eutomia, no Portal Cronópios e em diversos blogs. Participou da Miniantologia Poética do Centro Cultural de São Paulo, organizada por Claudio Daniel e publicou Perséfone, plaquete da coleção Poesia Viva.

ABREM-SE AS ASAS DOS CABELOS abrem-se as asas dos cabelos, digo-te: rosa (uma trança a se desfazer) -dosventos. que mãos bordaram-na?, (o que tu sangras, sussurro. digo-te, ave escarlate, ao pé das pétalas que encalham nos meus ombros como se fossem coágulos de areia, conchas: as pérolas dos brincos). é outono, meu bem; ouve, todas as peles rangem. [COMEÇARIA DIZENDO...] começaria dizendo o que não posso que teus suores formam hieróglifos de sal na pele e que um rosário misterioso se enrola a teus pulsos quando me amas começaria dizendo que tua respiração tem vista para o mar e que à noite me debruço ali, silenciosamente meus cabelos de água-viva minha língua de virgem madrepérola e que à noite e que me debruço e morro em tua respiração AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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ANA ESTAREGUI (1987)

Poeta paulista, nasceu em Sorocaba, e vive em São Paulo desde 2005. É formada em artes visuaispela FAAP e também estudou Design Editorial. Participou da Antologia Portapoema e produziu alguns livros independentes: Para desprender dores (2011) e Poemas de sofá - achados ordinários de uma caipira (2012). Publicou Chá de Jasmim (2014), premiado pelo ProAC em 2013, na categoria poesia.

GEOLOGIA essas minhas linhas da mão me dizem que nasci sem sorte pro amor a linha do coração: uma trilha entrecortada descontínua atravessada andarilha seguem até o meio da palma, aos buracos aos tropeços, ainda que sem pedra no caminho do médio ao indicador como se o abismo fosse apenas um vão entre os dedos QUEDA LIVRE a lógica de um poema às vezes não é clara mas ele segurando um chumaço de papoula em uma das mãos, me estende a outra e diz pula comigo?

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ANA KEHL DE MORAES (1987)

Poeta paulistana, fez curso de cinema na Universidade Federal Fluminense. Voltou pra São Paulo em 2010 e, no ano seguinte publicou seu livro de poemas NÃO FALO(2011). Atualmente se dedica à permacultura, música, comunicação não-violenta, meditação e outres aprendizados – além da poesia.

1 O mar: um fato, uma gota e já é mar. Amor: um fato, uma gota e já é mar. AMAR Matutando. Não sei o vento que me bate na cara. Se me levanta ou se me resiste, e não sei em que sentido: de cima pra baixo ou contra meu grito, não sei em qual abismo estou voando. CALEIDOSCÓPIO A presença é mais poderosa do que a simpatia, a fotografia - dizem as mulheres quêchua dribla as almas, os cometas nos espelham, a saudade é um artifício dos deuses pra nos lembrar quantos mundos somos.

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CAMILA VARDARAC (1987)

Poeta carioca, é formada em cinema e publicou poemas em sites e revistas eletrônicas como Cronópios, Triplov e Zunái. Já participou de vários festivais literários (entre eles o Artimanhas Poéticas, realizado em 2009 no Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro) e esteve presente na Bienal Internacional de Curitiba, em 2013.

PIAZZOLA buenos aires hora zero piazzolla, o que faz aí? tá certo, têm algumas estrelas cadentes mas...o palco não combina melhor com os teus sapatos? diga-me, piazzolla quantas unhas são necessárias para arranhar o pescoço de um tango aflito? o teu bandoneon exala fervor e o fervor habita o céu e o inferno cabe nas preces e nas súplicas dos anjos barrocos em chamas piazzolla!? está rasgando tangos com os demônios celestes? está deflorando notas com os pupilos de lúcifer? ao menor indício do teu som libertinos viram seres alados e os providos de asas sucumbem ao centro da terra um brinde aos que te escutam com a alma pelo avesso. ..................................................................................... na casa ao lado espiritos inquietos sobem e descem escadas como se o melhor a fazer fosse subir e descer escadas são 3:47 o sono das 3:00 já foi perdido agora no ponto dos conscientes espero a dormência dos sentidos calem esses passos como calaram as almas dentro da casa escura amarrem esses pés como fizeram com as vozes na gaiola da mordaça tirem seus valiuns das gavetas e entrem nas sombras dos cobertores morfeu, acuda esta gente! dardos com soníferos no centro das testas AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA areia110movediça ao redor das camas e uma injeção de sonhos mudos na espiral dos meus ouvidos.


ELLEN MARIA DE VASCONCELLOS (1987)

Poeta santista, é formada em letras, fezmestrado em literatura contemporânea na USP e vive em São Paulo. Atua como revisora, preparadora e tradutora de textos. Já teve poemas publicados em varias antologias e marcou presença nas revistas Zunái e Mallarmargens. Seu livro bilíngue Chacharitas & Gambuzinos foi publicado em agosto de 2015.

BENEFÍCIOS DA ATIVIDADE FÍSICA Mostrei o meu pé E o cara tremeu 9 anos de balé - eu disse E o cara gemeu 4 de ginástica olímpica E o cara lambeu 3 de futebol Põe na minha cara - ele disse Mais 2 de judô E o cara gozou. DO CLAUSTRO A PIA Não dá pra por o filho de novo no ventre Não dá pra por o vômito de novo pra dentro Não dá pra expor o íntimo e sair isento Tinha que sair, saiu a tempo: o filho morto, o gosto fétido, o sentimento. LUGAR DE ESPERA Ser mãe e contar nos dedos quantos anos faltam para colocá-los pra fora. Mas não tenho pressa tenho tempo e dentro de mim todos os filhos do mundo.

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JULIANA AMATO (1987)

Poeta paulista, edita, traduz, revisa e escreve. Publicou Brevida (2011), diário aleatório – site/livro em parceria com Thany Sanches e Jezebel, ilustrado por Mariana Coan, integrando o projeto Boca Santa. Tem textos publicados em diversas coletâneas, como a Ávida Espingarda (2010), Modo de Usar (SP/RJ), Almanaque Lobisomem (SP), Minotauro (RJ), É Assim que o mundo acaba (RJ) e Granja (SP). Os poemas selecionados fazem parte de Correspondência, seu primeiro livro de poesia. Escreve há algum tempo no microclima, que está um pouco abandonado, mas pretende renascer dos escombros.

agradeço sem palavras sua aparição a lembrança do meu nome agradeço as gravatas as admiráveis gravatas e lamento a sua ausência aqui tudo vai intranquilo mas me acalma o instante ver sua alma disposta ao vento que passa (sua alma nebulosa) é verão na borda do atlântico faz sol e mar mas não podemos não, não podemos agora DEZANOTAÇÕES SOBRE A POESIA assim recomeço, me perdi vi Baudelaire milimétrico, construído pela primeira vez pois bem há os que ganham por pontos os de nocaute e os momentos amargos que já passei projetos poéticos passam a perna p-p-p-p o projeto poético, um enganador eu, um muito menor (debutante no auge da hysteria – saltinhos) um projétil, nenhum rimbaud nem meio rilke muita potência, pouca questão as solas dos pés ardem no chão os olhos não estão prontos para rever o resto desse que se vai fica e lança um abraço demasiado 112 AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA apertado


ALICE SANTANA (1988)

Poeta carioca, estreou com o livro Dobradura, em 2008. Lançou também as plaquetes Pra não ficar na gaveta e Bichinhos de luz, em tiragens limitadas. Seu livro Pingue-Pongue, em parceria com Armando Freitas Filho, foi lançado em 2012. Seus poemas estão em várias antologias. Rabo de Baleia(2013) é seu último livro.

há na esquina da rua um piano que toca notas esparsas em lá menor nunca vi o rosto de quem se esconde por trás de acordes sustenidos e que desfila dedos no teclado com a leveza de quem sustenta passarinhos no ar COSTELAS DE ADÃO não serve de nada a janela a não ser para amparar do vidro do carro a estrada que escapa veloz e separar a montanha do céu noturno na linha que divide o escuro do ainda mais escuro você no banco um pouco mareado estar perto não quer dizer muito enquanto ainda não se chega lá olhar pela janela uma tontura a mesa que espera em casa firme em suas quatro pernas sustenta o vaso verde e nele duas costelas de adão as folhas estão prestes a irromper do vaso assim que a luz for acesa são fogos de artifício estourando na fotografia

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CLARISSA MACEDO (1988)

Poeta baiana, é mestre em literatura e diversidade cultural e doutoranda em literatura e cultura pela UFBA. Está presente em diversas coletâneas. É autora de O trem vermelho que partiu das cinzas (2014) e com os originais Na Pata Do Cavalo Há Sete Abismos conquistou o prêmio nacional de poesia da Academia de Letras da Bahia(2013). Este ano integra o Circuito de Escritores pelo Arte da Palavra, promovido pelo Sesc, percorrendo cidades brasileiras e propagando a literatura.

FENDA Há tempo o menino ficou lá fora. Espera, espreita a barra da porta, mas já não pode passar. Todos os longos anos de preparo – escola, dentista, boxe – e a busca pelos jogos de montar, pelo seio roído da mãe que já foi. Uma vida de busca e solidão, a passagem do peito fechada: só o túmulo aberto da infância. EXERCÍCIO Cerrar os olhos para que a última lágrima cresça. Cerrar os olhos para que o mundo seja memória. Abrir os olhos para que, afinal, tudo se perca. FICÇÃO A história é uma trégua sem memória uma rua que não se habita é um passado que se move uma eternidade de sete dias. E entre concubinas, napoleões e marias o que permanece é o ópio de cada molde.

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MARCELA MARIA AZEVEDO (1988)

Poeta pernambucana, já morou no Pará e vive atualmente no Rio de Janeiro , onde faz doutorado na UFRJ e estuda as relações entre Poesia e Psicanálise. É mestre em psicologia, e está finalmente preparando o material para publicação de seu primeiro livro: todas as mães são tiranossauras.

eu parti como se cada figura minha precisasse de abandono. saio de casa ao amanhecer de corpo mudo deixo minhas tralhas, lençóis, livros que há anos ardem em meu respirar e te renuncio cautelosa, além do horizonte matutino onde naturalmente as coisas se transformam e as memórias se desfiguram, ingênuas em nosso despertar. eu sinto muito, pai mas já não conseguia suportar minha outra mulher. O SEGREDODA MULHER DE SUA VIDA não sobra nada de mim a não ser essa parte miúda que se chama liberdade 2 POEMAS DOS ESTRANGEIRISMOS EM MIM esta cidade envelhece meu vocabulário me perde em lados esquerdos de rotina em barulhos desérticos no meu corpo sem tempo hora e fome para mim ou qualquer coisa a me esperar quando chego em casa ............................................................................................ estou na metade do caminho e já não sei o que é memória dói a minha língua de tão não saber de tão não ter de quem ouvir essa renúncia sem palavras

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MEL DUARTE

(1988)

Poeta paulistana, foi uma das atrações mais provocadoras do sarau que marcou a abertura da 14ª festa literária de Paraty, em 2016. Ela apresentou 3 poemas que fizeram até o chão tremer. Um era dedicado às mulheres negras. O outro aos meninos da Fundação Casa. E, por último, sobre a cultura do estupro que vitimiza milhões de mulheres – no qual ela encontrou um espacinho para mandar aquele recado a Jair Bolsonaro e Eduardo Cunha. Mel faz parte do coletivo Poetas Ambulantes e é uma das organizadoras do Slam das Minas-SP, batalha de poesia para o gênero feminino . Já publicou dois livros de poemas:Fragmentos Dispersos(2013) e Negra Nua Crua (2016).

Verdade seja dita Você que não mova sua pica pra impor respeito a mim. Seu discurso machista, machuca E a cada palavra falha Corta minhas iguais como navalha NINGUÉM MERECE SER ESTUPRADA! Violada, violentada Seja pelo abuso da farda Ou por trás de uma muralha Minha vagina não é lixão Pra dispensar as tuas tralhas Canalha! Tanta gente alienada Que reproduz seu discurso vazio E não adianta dizer que é só no Brasil Em todos os lugares do mundo, Mulheres sofrem com seres sujos Que utilizam da força quando não só, até em grupos! Praticando sessões de estupros que ficam sem justiça. Carniça! Os teus restos nem pros urubus jogaria Pq animal é bicho sensível, E é capaz de dar reboliço num estômago já acostumado com tanto lixo Até quando teremos que suportar? Mãos querendo nos apalpar? Olha bem pra mim? Pareço uma fruta? Onde na minha cara tá estampado: Me chupa?! Se seu músculo enrijece quando digo NÃO pra você Que vá procurar outro lugar onde o possa meter Filhos dessa pátria , Mãe gentil? Enquanto ainda existirem Bolsonaros Eu continuo afirmando: Sou filha da luta, da puta A mesma que aduba esse solo fértil 116 AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA A mesma que te pariu!


MICHELLE BUSS (1988)

Poeta gaúcha, nascida em Jaguari, interior do Rio Grande do Sul, vive em Porto Alegre desde 2007. É graduada em comunicação social pela PUCRS e atualmente faz o curso de letras na UFRGS. Começou a escrever poemas ainda quando criança. Publicou os livros Mosaicos (2014) e Sal, topázio e mercúrio ( 2015)

Há coisas que não cabem em um poema: a suave ondulação que se desenha na superfície da água quando a cigarra gentil se molha. BALADA DAS DUAS DA MANHÃ entre eu e você já nasci estragada estrela contrária madrepérola de sal havana capitalizada não importa o que eu faça o que mude ou a música que cante pra você algo sempre falta em mim cafe moído com açucar demais o certo na hora errada grão de milho extraviado na caatinga muito sono pra pouca noite a verdade que ainda não é verdade coração que não bate amor não importa o que eu faço o que eu sou nunca boa o suficiente suficientemente desamada desarmada entre sorrisos bobos amanhecendo longe... longe não AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA importa

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CARINA CARVALHO (1989)

Poeta paulistana, estudou letras e trabalha na área editorial. Participou da antologia poética É que os hussardos chegam hoje (2014) e da Revista DiVersos (editada e publicada em Portugal, 2014). Seus textos estão em algumas revistas digitais. Publicou seu primeiro livro de poemas, Marambaia, em 2013 e foi uma das selecionadas na categoria de poesia do II Prêmio Ufes de Literatura (Edufes, 2014).

diz o musgo: nunca, nunca se arrisque em trilhas isso de cutucar vespeiros vai empolar tua vida na volta ir falando (muito eloquente) de litorais, espantar moscas com as braçadas mais notáveis e cuidar para não chorar baixinho a ardência da pele quando cair a noite um minuto que fraquejei e me botaram num escafandro sem espaço pros braços O PORO A PELE antigo afeto que lhe ofereça toques moles, comedimento nas conversas, um afago cru mas não, jamais quis morar em peito tão vago e sem janelas abertas fazer barulho raspando o fundo levar do doce o que lhe é mais íntimo; degustá-lo nu OBJETIVO ESPECÍFICO tirar da calma o peso, tirá-lo dos nervos. não é que tudo venha em rio manso, no morno das estações: venha ainda sem aviso, tromba d’água. falar das pedras, ser a voz da pedra. fazer-se: depois fazer um silêncio impossível. atentar a coisas sem verbo, que façam perder a hora: o movimento das folhas de carambola, o ritmo das suas mãos na massa (sentido anti-horário).

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JULIANA BERNARDO (1989)

Poeta paulistana, cursou filosofia na USP e já publicou dois livros: Carta Branca (2011) e Vitamina (2013). Colabora com o site Mix Brasil e com as revistas Germina, Zunái, Diversos Afins,Ventos do Sul, Cabeça Ativa e Originais Reprovados.

DEFESA DA POETISA palavra de mulher: homem nenhum morreu de parto. SE OLVIDANDO não é porque as paredes têm ouvidos que meus poemas vão ficar aí pregados se olvidando calados. – marque-os com orelhas use-os como moleques de recado sei que não são diplomas, mas quem sabe contratos? meta-os no bolso ou trate-os como ataduras pra machucado mas não os deixe por aí, enforcados. PRESA NA MEMÓRIA Eu celebro os vestígios, os fragmentos, as ruínas, a completude, que inventamos sendo apenas estilhaços. Eu celebro o amor, a impossibilidade.

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MARIANA BASILIO (1989)

Poeta paulista, é pedagoga e mestre em educação. Escritora, poeta e tradutora, dedica-se à área literária desde 2014. Traduziu diversos autores americanos e latino-americanos, entre eles, Alejandra Pizarnik, Denise Levertov, Emily Dickinson, May Swenson, Silvina OCampo e Williams Carlos Williams. É colaboradora de portais nacionais e internacionais, escrevendo também ensaios. Autora dos livros Nepente (2015) e Sombras & Luzes (2016), Seu ´último livro, Tríptico Vital ,(3º lugar ProAC 2016) dedicadoà Hilda Hilst, teve lançamento na Flip de 2018.Possui poemas e entrevistas publicadas em revistas e fanzines de Portugal e Brasil.

À memória de Allen Ginsberg

O peso do mundo é o peso do sonho. Sob o fardo do amor, Sob o feitio da ilusão. O peso do mundo é um fator irreal. Sob o feitiço do perverso, Sob a finura do convexo. Mas quem de nós poderá negá-lo? Se a leveza é invenção abstrata. Se a natureza é limite brutal. Paraísos movem-se mais adentro. Peregrinos progressos rarefeitos. Moléculas de uma frágil história. Em céus que desabam, petrificados. Pois nenhuma elucidação, América, Há de salvar-nos. Nenhuma religião, Kaddish, Será poesia. Nenhuma dor, atemporal.

III São hemisférios os meus olhos. Ainda que crepitem os séculos. Ainda que naufraguem no presente. E não posso adiar o amor que sinto. O amor suporta o peso corpóreo. Atravessa a pobreza, o ódio, o abandono. Abraça o que se renega. Conduz o que não se mede. À sombra de uma árvore, resistimos. O amor e eu. No coração que é vertigem. Em vias remotas e poeiras estelares. Tudo é afinal, indiferente. Porque não posso adiar a vida.

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RYANE LEÃO

(1989)

Poeta cuiabana, vive em São Paulo. É autora do projeto Onde jazz meu coração, criado em 2013 com o objetivo de expandir a voz da literatura feminina-- nas redes sociais e nas ruas através da publicação de poemas e fotografias. Mistura corpo com poesia e cola uns lambes por aí. Sua página no facebook é seguida por mais de 150 mil pessoas e ela conquistou uma comunidade de fãs que inclui famosas como Mariana Goldfarb, Giovanna Lancellotti, Yanna Lavigne. Seu livro de estreía, Tudo Nela Brilha E Queima - Poemas De Luta E Amor, foi publicado em 2017. A professora negra é abertamente lésbica e procura falar de amor sem distinção de gênero em seus textos.

um dia decidi ser eu e nunca mais voltei atrás SOBRE RECOMEÇOS é sempre assim boa parte da gente morre pra outra parte começar a se sentir viva novamente ................................................................................... saudade é foda escuto aquele som do seu riso mas nunca é você é sempre memória IDENTIDADE foi uma mulher negra e escritora de pele e alma como a minha que me ensinou sobre os vulcões e as rédeas e os freios sobre os tumultos dentro do peito e sobre a importância de ser protagonista nunca segundo plano se você encostar a mão entre os seios vai sentir os rastros de nossas ancestrais somos continuidade das que vieram antes de nós ...................................................................................... da vida eu quero poemas orgasmos almas entrelaçadas batimentos livres trocasASsinceras MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA 121 e revolução


YASMIN NIGRI

(1990)

Poeta carioca, crítica de arte, bacharel em filosofia pela UFF, onde atualmente cursa o mestrado na linha de estética e filosofia da arte. Trabalha com mediação educativa, artes visuais, oficinas de criação poética e performance. Escreve muito, lê mais ainda e é obcecada por documentários de arte. Além disso, é colaboradora da revista caliban e co-fundadora e integrante da disk musa. Seu primeiro livro de poemas chama-se Bigornas (2017). Segundo diz Tarso de Melo, no prefácio, “seus poemas voam como bigornas e querem demolir o mundo sobre o qual desabam. É assim que ela chega: “fracassar eu fracassei/ mas antes arremessei/ poemas/ como bigornas”.

MANUAIS A gente sabe que está vencendo no capitalismo Quando nos procuram pra falar só de trabalho Você me diria ah, mas qual a necessidade disso tudo que fazemos vira poesia, tem eco Ao passo que eu ué, você fez uma panela enorme de lentilhas essa semana qual a necessidade de toda essa lentilha? Essa desistência é provisória Tudo será superado Domingos transgênicos tabagismo danças húngaras Talvez seja mesmo de aceitar Que a toda hora há alguém traduzindo — mal traduzido Uma obra do Nietzsche PARTIDA Já não somos mais as mesmas Desde que voltamos Lembro das vezes Que você lamentou Porque não como peixe E nada de origem animal Não posso te acompanhar No seu maior prazer Ontem mesmo estive Acuada feito animal Nas suas mãos Não sou capaz Muito menos você Explico de qualquer jeito Como fogem os animais Se você tenta machucá-los E uma alface não reage Quando você a corta Estou de partida 122

AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA


AMANDA BRUNO (1991)

Poeta mineira, é graduada em letras pela UFMG, com um semestre de intercâmbio na Université Charles-de-Gaulle - Lille 3. Publicou no jornal Letras, Desfaces e zines como o Amendoim e o Barkaça. É autora do livro Por Aqui (2013) premiado com o primeiro lugar no concurso “Só Para Poetas”, da Edith (encabeçada por Vanderley Mendonça e Marcelino Freire). Foi incluída na coleção Leve um Livro, com a seleção de poemas Pó de Asfalto(2016).

a menina ve TV e repete a palavra até perder sentido em breve irá repetir o mundo e esperar que faça sentido TOMEI CORAGEM tomei coragem me chamei para sair comi pizza à luz de velas bebi vinho e relaxei comprei um doce no café ao lado dei uma volta na lagoa me fudi a noite toda PRO LEOPARDI parece: melhor que viajar é arrumar a mala melhor que o fato é a imaginação melhor que a data é a véspera melhor que o orgasmo é o tesão seja como for, a poesia é melhor que o amor AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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THALITA COELHO (1991)

Poeta catarinense,é doutoranda em teoria literária pela UFSC, que estuda a crítica feminista e gênero. Seu primeiro livro, Terra Molhada(2018) celebra o amor entre mulheres e se encaixa no segmento de literatura lésbica. Ela mesma diz:” é uma literatura de resistência. Principalmente lésbica, mas também feminista.”

traduzi seu nome pra língua do meu corpo de hoje em diante te chamarei umidade ....................................................................... eu plantei meus pés na terra por sete dias por sete tardes eu reguei observei o sol chegar em 7 manhãs em sete noites eu senti as raízes que começavam lentamente a construir caminhos no chão fértil no 8º dia eu virei flor aí você chegou para me colher e eu não queria morar mais ali eu queria fincar raízes no seu peito terra adubada com dor ........................................................................ nos seus dedos mora sempre um pouco de mim

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LUIZA ROMÃO

(1992)

Poeta paulista, é atriz e diretora de teatro. Também é arte-educadora, já tendo trabalhado em diversos programas e projetos de cultura. Publicou o livro Coquetel Motolove(2014) e participou de inúmeros saraus/slams (sendo campeã do Slam do 13, Slam da Guilhermina e vice-campeã nacional via Slam BR). Em seu segundo livro, Sangria, a poeta buscou revisitar a história do Brasil sob a ótica de um útero. Para tanto, o livro foi dividido em 28 poemas/28 dias. No prefácio, Heloisa Buarque de Hollanda diz que Sangria “não é apenas mais um livro de poemas, Sangria é um projeto literário sobre a História do Brasil vista pelas entranhas de uma feminista contemporânea.

DIA 3. NÚMERO DE REGISTRO a filho não ter o filiação da pai no certidão de nascimento é hábito antiga agora o mãe exigir direito à aborto é uma crime de vida em algum casos não só a gramática sofre concordância de gênero DIA 13. 1a TRANSA um homem cordial me levou à cama não queria foder nem trepar só a esterilidade de uma cópula me chupou com aparência diplomática e alguma melancolia (seus dedos-garrote desconheciam recusa) pediu que me dividisse em três para a lida para a farra para fotografias oficiais me trancei transei um homem cordial me trocou os lençóis zelava pela brancura depois dos gemidos (até hoje não decifrei se de dor ou prazer) me pediu por favor desapareça por favor obedeci sempre favores sempre favores homens cordiais assistem mma às quartas-feiras mas não vivem sem álcool gel AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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SAMANTA ESTEVES (1992)

Poeta paulista, é graduanda em letras (Português/ Francês) com dupla-licenciatura em andamento. Tem experiência na área de letras modernas com ênfase em teoria e crítica literária francesa, tendo estudado, no trabalho de graduação individual, a produção ensaística de Roland Barthes e sua relação com a escritura literária. Autora de “Estilhaço” , livro de poemas publicado em 2017.

BARRO presença disforme que dá vida ao que não tem nome argila amorfa que dá forma a todo espanto: o adorável adorante helianto VITRAIS outro dia lancei um livro de poemas isso dizem fazem os poetas não sei se acredito acato visto a carapuça que me serve só de brincadeira ou digo da melancolia que me custa fazer poemas do azul fúcsia das pupilas dilatadas guardando segredos impossíveis da íris feita de espelhos coloridos ou trincados meus olhos inventando narrativas sagradas que eu não pude ver ANUNCIAÇÃO não espere que inaugure um universo repleto de galáxias-possibilidade por que o faria? nem que as musas tenham sussurrado nos meus frios e surdos ouvidos (tão cansados dos ritmos fáceis) não espere que eu acenda a palavra aqui não há luz só uma espera profunda e grave profunda e grave espera

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LUNA VITROLIRA (1992)

Poeta pernambucana, é formada em letras pela universidade Federal de Pernambuco (UFPE), declamadora, atriz e performer. Com seus espetáculos de récita performática, Não Os Queríamos Sagrados e Sala de Estar, Luna tem participado de importantes eventos literários (Balada Literária/ SP; Festipoa Literária/RS; Festival Internacional de Poesia do Recife/ PE; Jornada Literária Portal do Sertão/ PE; Bienal do Livro de Pernambuco/PE e outros). Seu livro de estréia, Aquenda, o amor às vezes é isso foi lançado em julho de 2018.

MARTELO O amor bate seu martelo sempre no mesmo prego até acertar o dedo HÁ DIAS Há dias em que necessito silêncio e não quero me mexer e não quero falar e não quero abrir os olhos nem sair de dentro de mim Há dias em que sou paz e guerra tumulto condensado em meu tumulo alguém que tenta ler o futuro no lodo das horas procurando sonhos dentro de um balde Há dias tenho sono vivo exausta da ignorância alheia E sinto saudade do pé de manga da minha rua onde eu empinava pedras e não pensava na morte

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POLLYANA QUINTELLA (1992)

Poeta carioca, é historiadora de arte e co-editora da revista Usina. Cursou a PPGArtes da UERJ e a Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Trabalhou em diversos museus: Dom João VI, Museu de Arte e na Chácara do Céu. Não tem nenhum livro publicado.

4. encontrava-me baldia terra salgada de fronteiras estéreis buscava em par de olhos os sonhos desabrigados a pele vestida de miudezas frescas nua do profundo e de repente o garoto rondava meus cantos ermos minhas quinas pontudíssimas minha janela dura defeituosa sem que eu pudesse casar as mãos nas suas mechas negras violentas de vida estive então a cuspir tudo a enquadrar o mundo e arredondar as ruas estive a dançar nas bordas do risco pra fecundar meu cultivo de ramagens inexplicáveis e é a entrega uma selva que sacode o horizonte.

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BARBARA BENTO (1993)

Poeta alagoana, é formada em magistério e é bacharel em serviço social pela Universidade Federal de Alagoas. Atualmente publica periodicamente na revista Alagunas e em sua página do facebook que tem por título Doce Intuição de Vênus. Vive em União dos Palmares, terra natal de Jorge de Lima e de Zumbi.

PALAVRÃO A palavra é uma dor no nervo ciático, É um tiro de raspão, Que fere, mas não mata A palavra é hepática, Causa pena e comoção, É um pensamento ricocheteado, Que cai na boca do mundo Ora como riso, ora como choro A palavra é dona do próprio nariz E sai agalopada de um coração venenoso Mas no último suspiro é só ela que salva, Ainda bem que os mudos também falam. Palavra é um desejo despercebido, um sentimento desavisado, É um cisto que precisa ser retirado, senão incomoda, que nem cisco em lente de contato. INVERNO Na vida, o risco Na boca o grito No olho, um cisco No quarto, suspiro A noite, chuvisco.

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ÁDYLA MACIEL

(1994)

Poeta brasiliense, é microcroempresaria, produtora cultural e autora de dois livros: Amin e os livros mágicos e Andar de passarinho (2017). Tem participação em uma das antologias do projeto Palavra é Arte, da Cultura Editorial de Barris, Salvador (BA). Recitou seus poemas em saraus do Poemação, no Beijódromo da Universidade de Brasília (UnB); do Contra-in-Versos, em Planaltina (DF); da Cultura de Classe; do Coletivo de Poetas, com o qual é coautora de um livro inédito; na Feira do Livro de Brasília; da Academia Taguatinguense de Letras, na II Bienal do Livro de Brasília. Também organizou a coletânea VOZ -poesia falada, livro com a participação de 15 escritores de Brasília.

VENTO DE AGOSTO A bruxa improvável que sou. Voa na fé de mim mesma Dirigindo numa vassoura A 200 kilometros por hora Se eu disser que vai chover A chuva cai. Se eu disse que vai nevar Se prepare para congelar Eu conheço bem o céu. E as minhas turbulências E antes de lutar com os inimigos Me primavero inteira Dou uma surra de pétalas Em quem não tiver perfume. Não sou anjo nem barata E vou voar assim mesmo Fora da asa. ANAL – FÉ - BATISMO Tem dias que eu não escrevo Tem dias que eu escravo. Encaro as palavras Encravo um livro. Eu não quero um ISBN. Eu quero algo que risque. Uma folha de papel Higiênico... Um graveto e um pedaço de praia. Eu quero fazer tinta de vaidade. E preencher uma pena. Eu quero um vidro embaçado E um dedo afiado. Eu quero autografar meu verso Com a minha digital. E que o analfabetismo Nunca perca o lirismo. Eu não sei escrever. Mas eu sei fazê meu nomi. 130

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KARINE KELLY PEREIRA (1994)

Poeta paulista, é artista e pesquisadora do corpo em artes circenses, dança e poesia. É terapeuta corporal formada em massagem ancestral tailandesa pela International Training Massage School. Publicou o livro de poemas Anotações sobre o azul (2016).

INSÔNIA Meu corpo não tem cor, idade, sexo ou pátria restaram os pés ansiando pela dança a mão trêmula que não cessa de escrever enquanto a poesia me berra por todos os poros e não deixa dormir : eu obedeço. POEMA XVI Para transitar de um corpo ao outro, Bebi Pedro Comi Pedro Dentro e fora Fora e dentro Dentre verbos Dentre versos Tão im-próprios. Inda assim, Todo dia Toda a pele Me ardia, Feito bruxa na fogueira. XII Caminho pelas ruas pedindo licença por ser mulher Caminho pela casa da mãe pedindo licença por ser triste Caminho entre os amigos pedindo licença por ser criança Caminho entre os amores pedindo desculpa por ser simples E no arrebol, quando o coração em claroescuro desdobra e acelera em trottoir Coloco meu casaco ocre, busco na noite pés pra caminhar.

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PAMELA FILIPINI (1994)

Poeta nascida na cidade de Rolim de Moura , em Rondônia, começou a escrever na infância. Tem formação universitária em Pedagogia, e atualmente dedica-se exclusivamente à escrita. Cultiva solidão e se planta ao silêncio para sobreviver. Escreve. E nas horas vagas, existe.,O lançamento de seu primeiro livro, Folhas dos Ossos ou o tratado das coisas insignificantes aconteceu em 2017.

Haverá um dia que serei apenas letra e no meu epitáfio será gravado […] “ela, de tanto ser nada, tornou-se palavra.” ........................................................................................... Nalgum momento da vida é preciso desmoronar [todo início já foi um entulho] […] Recriar-se é uma contínua desconstrução de escombros. ............................................................................................ Sou uma metáfora no mundo. [quero ser real] Uma canção cantada pelas folhas que caem das árvores. A celebração da fruta que amadurece.

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LUANA CLARO

(1994)

Poeta paulistana, cursa letras na Universidade de São Paulo, desde sempre escreveu prosa e agora se arrisca a escrever poesia. Não é ilustradora profissional, mas exibe seus rabiscos com certo orgulho de autodidata. Gosta do número 487.

veja só que desperdício só deixar o dia passar na intenção de apagar qualquer indício teu DIADORIM amo a forma como seus cílios escuros se mexem quando descortinam seus olhos curiosos que vagam – de certa forma atentamente – enquanto você tenta encontrar as palavras certas. elas não existem em verdade eu já procurei em todos os lugares que você pode imaginar amo te olhar enquanto você olha as coisas pensando em não sei mais o que e por fim você diz e diz e diz e tudo soa como poesia pra mim ................................................................................... me falta a capacidade de me encaixar não pertenço daqui da margem vendo de longe talvez seja melhor, apesar de tudo .................................................................................... todos os dias alguém perde o último trem ou quase alguém sempre chega num dia diferente do que saiu alguém sempre sai ao encontro de ninguém findo o dia AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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AMANDA VITAL (1995)

Poeta mineira, cursa letras na Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa, cidade onde reside desde 2014.. Participa do grupo Aedos de declamação, apresentando-se em saraus, lançamentos de livros e outros eventos. “Lux” (2015) é seu livro de estreia, que conta com a apresentação de três importantes poetas: Lau Siqueira, Marcelo Adifa e Sérgio de Castro Pinto.

não dá pra notar que ando sempre virada ao avesso sou sem costura, sem etiqueta, sem fim nem começo. ................................................. meu trevo tem três folhas meu olho grego está míope minha figa tem mão aberta toda sorte desse mundo nunca é certa. ...................................................... à noite todos os homens são pardos todos os drinques são dardos e todos os bêbados são bardos.

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BRUNA KALIL OTHERO (1995)

Poeta mineira, publicou seu primeiro livro, “POÉTIQUASE” em fins de 2015, quando tinha apenas 20 anos.Mas antes disso já havia participado da antologia Sarau Brasil(2014) e divulgado seus poemas em O Emplasto e na Germina.É estudante de letras na UFMG e empreende pesquisa sobre a presença do corpo na poesia atual escrita por mulheres. Anticorpo, seu segundo livro, é dividido em duas seções: Da cintura pra cima e Da cintura pra baixo.

CONFUSÃO MIMÉTICA eu não sou eu Sebastião Uchôa Leite este eu que está aí pomposo cheio de si se querendo todo achando que é o rei da cocada preta este eu não sou eu não viu? juro que eu – eu de verdade – eu sou ótima conversada despojada e no máximo princesa dessa cocada NA CONTRAMÃO DA GRAVATA célebre imortal maravilhoso branco me bate uma vontade de ser sujeito lírico neutro infectado por aquela visão tão objetiva & masculina porque se eu fosse raimundo mas antes sequer de terminar o raciocínio meu útero bate na porta: esse mês não AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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NATASHA FELIX (1996)

Poeta santista, está vivendo em São Paulo e cursa letras na USP. Publicou o zine anemonímia (2016), j. não é um nome (2017) e tem poemas por algumas revistas digitais e físicas. Os textos podem ser encontrados na Mallarmargens, Medium, Nó de 8, Garupa, Raimundo e soltos em sua página pessoal do Facebook.

CARTA ABERTA AOS HOMENS DE PASSAGEM você com certeza vai você com certeza vai lembrar de mim quando topar com a salamandra azul no orquidário vai com certeza você vai com certeza lembrar de mim. do anel que foi parar no ralo cheio de cabelo e porra, você vai lembrar dos filhos que não fez em mim eu te disse era sério quando o elevador quebrou no oitavo andar eu te disse aquele era o nosso momento de glória eu te disse pra botar no formol e você não entendeu na hora mas acho que agora olhando a salamandra azul vai sacar eu chego sabendo que vou embora. você vai lembrar a gente com vinte anos sem vergonha na cara nem pra comprar um cortador de unha imediatista eu arrancava os excessos com os dentes. tinha dez reais pra catuaba e um baseado no bolso eu arrancava os excessos com os dentes. você vai lembrar disso de hoje pra trinta anos isso vai ser uma lenda você vai lembrar de mim com certeza vai encostar a testa no box no segundo banho do dia enquanto tua mulher tira os pentelhos da virilha e lê sobre o golpe na turquia e eu vou estar em qualquer lugar longe da casa MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA que 136 nuncaAStivemos.


LUIZA MIDLEJ

(2000)

Poeta brasiliense, começou a escrever com 13 anos, usando cadernos com capa simples, para não chamar atenção. Gosta de fotografar, catar conchinhas na praia e curtir poemas de Juliana Motter, Leminski e Fernando Pessoa. Em outras áreas suas predileções recaem sobre Frida Kahlo, Picasso, Van Gogh, Sebastião Salgado, Mick Jagger e Djavan. Publicou o livro Circunscisfláutica (2015).É a mais nova integrante de As Mulheres Poetas.

injusta essa saia justa em que você nos colocou não sei se saio se ensaio se fico não sei se você ficou essa história não tem verbo não tem concordância não sei se é conto ou prosa mas sei que ainda é criança ........................................................ sou fruto da fruta que se descasca se despedaça se decompõe quando alguém ameaça me tirar do pé até que eu cresça amadureça e aí seja o que deus quiser ........................................... a garoa aqui também é pranto em são paulo só morre são quem nasce santo

AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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Após um longo trabalho garimpando vozes femininas dentro da poesia brasileira, realizamos em dezembro de 2017 o primeiro Sarau das Mulheres Poetas, no auditório do IAMSPE (Hospital do Servidor). Naquela ocasião, reunimos 15 poetas e uma atriz que apresentou a performance-esquizofrênica Sou ela ou serei eu? No segundo Sarau das Mulheres Poetas, realizado em maio de 2018, na Casa das Rosas, resolvemos ultrapassar os limites do efêmero e conferir maior durabilidade e capilaridade ao evento. Esse é o sentido desse livrinho*, de pequena tiragem, mas feito com esmero e cuidado profissional. Espero que ele possa contribuir na direção desse projeto. Ou seja: que o ótimo trabalho que as mulheres poetas estão realizando mereça a atenção e o interesse

de leitores e críticos. França e Inglaterra ocorFoi por essa razão que reu o mesmo boicote com iniciei esse trabalho de escritoras do século 19. pesquisa em meados de Hoje essas questões estão 2011. Após um tremendo sendo revistas e resgadesabafo em meu site, tadas. Algo que é bom criticando esse boicote, re- para todos nós. E posso solvi correr atrás das vozes adiantar que a transformapoéticas das mulheres. E ção dessa série, que reúne para que isso não ficasse mais de 400 poetas e mais circunscrito a mim mesmo, de 1600 poemas, em livros meu site virou o site das digitais está concluída.São mulheres poetas. Nesses 6 3 volumes, todos já pronanos e meio deixei de pu- tos e disponíveis gratuiblicar qualquer outra coisa. tamente aos interessados E usei os dois espaços que na plataforma Issuu. O tenho no facebook para di- primeiro obteve a assivulgar cada poeta incluída natura de Maria Valeria na série. Rezende na apresentaPosso garantir que não me ção.O segundo de Wanda arrependi. Garimpando em Monteiro e o terceiro de diversas regiões do Brasil Mirian de Carvalho. encontrei muito ouro e Vencida essa primeira muita pedra preciosa. etapa, agora vou batalhar Lamentavelmente, grande para que alguma editora parte dessa riqueza estava transforme esse trabalho escondida através do em livro impresso.Conto legado remanescente do com a colaboração e ajuda machismo e da educação de todos. patriarcal. Mas é bom que rubens jardim (* fizemos um livrinho com minise138 esclareça: em Portugal, AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA bio e poemas das participantes.)


Belo, importante e imprescindível trabalho. Amador Ribeiro Neto Rubens, uma alegria imensa poder partilhar o vosso trabalho em Portugal Jorge Vicente Rubens, ficou muito bom o livro! Muito útil num universo cultural em que a poesia masculina parece sempre ter mais peso.Tomara que consiga transformá-lo em livro impresso! Marina Colasanti Rubens Jardim, grande divulgador da poesia, acaba de dar mais uma notável contribuição, reunindo no livro As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira muitos dos seus principais nomes. Valdir Rocha Minha homenagem para o seu trabalho pioneiro: As Mulheres Poetas. Por sua contribuição ficará para sempre na História da Literatura Brasileira. Sonia Sales Teu trabalho de pesquisa tem a densidade de um Alfredo Bosi...na hst da Literatura Brasileira, além de poeta exímio.um grande pesquisador com um feeling inovador à produção da poesia feita por mulheres no país. Carmen L. Fossari Este maravilhoso projeto de Rubens Jardim é um grande e especial presente deste poeta tão generoso com a arte, a poesia, a cultura e a literatura - para nós. Um presente para nós, poetas mulheres brasileiras. Um presente para leitores, professores e pesquisadores. E, sem dúvida, para a própria Poesia. É uma honra fazer parte. Rubens merece todos os aplausos, pois, mantendo ativa sua vibrante produção individual, também organiza e coordena muitos projetos sempre voltados à divulgação da literatura, ao congraçamento, ao encontro e aos diálogos. Parabéns, Rubens, por fertilizar de arte o nosso cotidiano e o nosso universo. Beatriz Helena Ramos Amaral Belo trabalho, meu caro poeta! Ronaldo Werneck Gratidão a você por seu trabalho de pesquisa e divulgação da poesia feminina brasileira. Esta edição está primorosa, detalhada! Eliane Accyoli Fonseca Forte e linda antologia “As Mulheres Poetas”... fruto da dedicação, esplêndida pesquisa do querido poeta Rubens Jardim!!! Imperdível leitura! Patrícia Claudine Hoffmann AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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Essa obra, idealizada, organizada e editada, com primor e abnegação, pelo talentoso escritor Rubens Jardim, mapeia e revela ao leitor a intensa topografia da lavoura poética formada pela fecunda e rica lavra de nossas Poetas. Uma colheita que contribui imensamente para a memória da produção poética na literatura brasileira. Wanda Monteiro Rubens Jardim, que há anos estuda e divulga nossas mulheres poetas, lança um livro - gratuito - sobre elas. Recomendo. Renato Janine Ribeiro Parabéns pelo excelente trabalho. Antonio Carlos Secchin Livro digital organizado por Rubens Jardim faz um rico mapeamento da poesia brasileira contemporânea de autoria feminina. Claudio Daniel Quanta dedicação e determinação. Que honra fazer parte. Que orgulho tenho de você, poeta, que tanto valoriza as mulheres poetas! Uma grande obra. Das mais importantes para a história da poesia neste país! Leila Ferraz Admiro seu trabalho. E como poeta mulher reconheço o bem que fazes para tornar visível o trabalho de uma massa de escritoras que embora de qualidade não têm praticamente nenhum reconhecimento. Solange Padilha O trabalho de Rubens em prol da Poesia é precioso. Somos privilegiados por sermos poetas contemporâneos dele. Betty Vidigal Esta pesquisa de Rubens Jardim é histórica , merece estar dentro e fora dos muros acadêmicos. Ser prestigiada pelo MEC, MInC.... Rosana Banharoli não tenho palavras para expressar o quanto admiro e sou grata por esse seu trabalho, Impecável!! Cássia Janeiro Sua série é incrível, pioneira, necessária! Nina Rizzi Projeto da maior importância para a poesia brasileira escrita por mulheres. Karen Debertolis Trabalho fantástico do Rubens Jardim, descobrindo e coletando poemas escritos por mulheres brasileiras. Achou e divulgou verdadeiras jóias raras e agora publica três pequenos grandes livros digitais. 140 AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA Leda Beck

Profile for Rubens Jardim

AS MULHERES POETAS- Volume 3  

Esse é o terceiro livro digital, gratuito, da série AS MULHERES POETAS ,publicada durante 6 anos em meu blog, no facebook e em sites parceir...

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