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AS MULHERES POETAS

NA LITERATURA BRASILEIRA

VOLUME 2


Pesquisa, seleção e organização: Rubens Jardim

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Capa e projeto gráfico: Rubens Jardim

_______________________________________________ As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira – Antologia poética São Paulo, 2018 ISBN 978-85-8297-438-4 Poesia brasileira ______________________________________________ 2

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Rubens Jardim

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São Paulo Edição do Autor 2018 AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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WANDA MONTEIRO

“Sou Amazônida, vim da seiva quente de Benedicto Monteiro, um Poeta e Pescador de Sonhos, semente plantada no templo sagrado e fértil de Wanda, Mulher Guerreira, Mãe na mais pura definição. Cheguei no Outono, nascendo às margens do rio Amazonas. Nasci na hora do crepúsculo, contemplada pelo Sol. Fui banhada e batizada em águas amazônicas. Aprendi a respirar água, a ouvir a voz do vento, a sentir o cheiro da chuva, a nadar na malha de mururés. Me encantei com a voz da mata. Fui seduzida pelo olhar da restinga. Me vesti de terra, bebi o rio, cresci e verdejei. Sob o signo da Mãe Natureza, visto ambivalência!.Sigo, transitando na fronteira entre a impassividade da razão que me atordoa, que me distancia, que me confina, que me objeta, e a emoção que me testemunha, me aproxima, que me explica, que me intui e me confere o ideal de existir. 4

Umbrais, veredas, cantares, prantos, odes, abismos e saltos. Faces e interfaces de líricos-eus que se aproximam e se distanciam na complexidade de seus imaginários e percursos. Esse livro pede ao leitor descerrar os olhos sobre essa profusão de imagens. Enxergar a sutileza do traço e assinatura de cada úterovoz. Uma linguagem poética que requer escuta e afeto pois que sua leitura se traduz em ato litúrgico como litúrgico é o ato da escrita. A poesia concebida pelo Feminino. Não o feminino da identidade e condição social, meramente, referidas a fatores biológicos e ao nível das conservadoras representações sociais. Não. Não mais. Mas sim, o feminino como uma categoria política. Pois que, no espectro atual do universo feminino, a tese a mulher é uma categoria biológica foi substituída pela antítese a mulher é uma construção social. Esta nova e revolucionária percepção questiona e relativiza o caráter absoluto dos conceitos, pois nela reside a força transformadora do Feminino. Esse livro reúne a voz poética de Poetas nascidas sob esse tão

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profanado signo do Feminino. A produção literária dessas mulheres se insere em um contexto histórico de mudanças, de liberação,de lutas e direitos. E essa inserção pode ser sentida em cada escritura que se revela como afirmação da subjetividade feminina. Uma escritura de mulheres que por sua intensa humanidade transcende à questão do gênero porquanto são Poetas. As Mulheres Poetas – Na Literatura Brasileira essa obra, idealizada, organizada e editada, com primor e abnegação, pelo talentoso escritor Rubens Jardim, mapeia e revela ao leitor a intensa topografia da lavoura poética formada pela fecunda e rica lavra de nossas poetas. Uma colheita que contribui imensamente para a memória da produção poética na literatura brasileira. Uma antologia de mulheres poetas, seres de linguagem. São Aracnes tecendo teias de significações. São Ariadnes que não se deixam guiar por Teseus porque não negam a vida, e sim, empreendem reinventá-la. São mulheres que destroem o mito e se ne-

gam à palavra sensata, pois que abrem, largamente, seus ouvidos para ouvir o inaudível. São seres que têm a “anima” para ver e transver o mundo. Elas abrem seus olhos para ver o invisível, decifrar complexos enigmas, para se acharem e se perderem em labirintos porque deles sabem seu começo e recomeço. São filhas desobedientes de Eva que fazem o leitor comer o fruto da linguagem: a poesia. A poesia, fruto que aflora os sentidos e proporciona a amplidão das percepções. Esta é a contrafação mítica pelo gesto que não instala a morte da carne, mas sim, sua ressureição no verbo. São mulheres cuja escrita poética vem da voz-útero – nascedouro de rios de linguagens que convergem para esse manancial de significações. Um manancial que para ser lido e desvelado requer olhos que possam enxergar suas invisibilidades e ouvidos para a escuta sutil das nuances e tons de suas tão diversas vozes.

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Não faz muito tempo que elas deixaram a cozinha, os crochês e as costuras. Hoje elas são executivas, médicas, empresárias, políticas, professoras -- e até presidentes. Mas já faz tempo que elas ingressaram na literatura. Onde fizeram e fazem um excelente trabalho. Este e-book pretende divulgar o trabalho das nossas poetas. Antes, porém, leia este histórico.

Uma das últimas fotos de Virginia Woolf, escritora, ensaista e editora britânica, conhecida como uma das mais proeminentes figuras do modernismo. Nasceu em 1882 em família abastada. Seu pai, Sir Leslie Stephen, era escritor e historiador ilustre da Inglaterra vitoriana.Virginia morreu em 1941. 8

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Na década de 1920, Virgínia Woolf afirmava que, para as mulheres produzirem sua poesia, precisavam de um quarto com chave e uma renda anual de quinhentas libras. Em verdade, enquanto os homens dispunham de uma estrutura adequada ao trabalho intelectual, para as mulheres restava o canto da mesa da cozinha depois de realizadas todas as tarefas. Um quarto com chave proporcionaria o sossego necessário à concentração, e a renda contribuiria com a independência financeira indispensável para a liberdade de pensamento e o exercício da criatividade. Como se vê, não é privilégio tupiniquim o esquecimento proposital da contribuição cultural da mulher, em vários campos do saber e das artes. No caso específico da literatura, a questão é mais séria ainda. Afinal, tanto Silvio Romero como José Veríssimo –famosos historiadores da nossa literatura no século 19-- registraram pouquíssimos nomes femininos. E na História Concisa da Literatura Brasileira –a mais usada no ensino atual— o prof. Alfredo Bosi só menciona quatro nomes de poetisas: Francisca Júlia, Gilka Machado, Auta de Sousa e Narcisa AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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Amália. Mesmo assim, somente a primeira mereceu biografia e algum destaque. Mas essa ausência, que passa uma idéia equivocada da influência feminina na cultura do país, vem sendo corrigida através de pesquisas, teses, livros, artigos e ensaios. Escritoras Brasileiras do Século XIX, organizado por Zaidhé Muzart, foi o pontapé inicial em direção a uma reavaliação desse nosso patrimônio literário e cultural.

Raquel de Queiroz tomando posse na ABL.

Publicado em 2000, o livro, com cerca de 1000 páginas, revela nada menos que 52 autoras e mostra nomes que nunca ouvimos falar —resultado desse trabalho paciente de “revolver escombros e garimpar entulhos” conforme texto introdutório da própria autora, Zaidhé Muzart É inquestionável o mérito desse trabalho --e de um sem número de outros que foram surgindo sobre as questões relativas à mulher. É crescente, sem duvida, a presença delas em todas as áreas das atividades humanas. Tivemos até uma presidente mulher. Quanto à literatura mais recente, não podemos nos queixar. Existem muitas escritoras mulheres e elas também se apresentam em dissertações, teses de doutorado, pesquisas apresentadas em congressos e outras publicações. Sem a pretensão de desenvolver uma avaliação desse panorama, utilizo este espaço para prestar 10

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uma homenagem às mulheres. Mais especificamente às mulheres escritoras. Ou mais especificamente ainda: às mulheres escritoras de poemas. Afinal, por incrível que pareça, existe uma nítida predominância em nossa literatura de escritoras que se dedicaram à prosa, notadamente ao romance. Caso de Rachel de Queiroz, por exemplo, a primeira mulher a ingressar, em 1977, no clube do bolinha que era a Academia Brasileira de Letras. Pouco depois, a ABL acolheu duas outras prosadoras consagradas: Dinah Silveira de Queiroz e Lygia Fagundes Telles. O incrédulo leitor poderá perguntar: e as nossas poetas, onde estão?

Lygia Fagundes Telles É curioso observar que mesmo em épocas mais retambém entrou na ABL centes as poetas continuavam sendo preteridas. Um exemplo é a inexistência de qualquer nome feminino vinculado à literatura na Semana de 22. Nem Cecília Meirelles, que já havia publicado Espectros, em 1919 , teve aí a sua hora e a sua vez. Só para não ficar sem registro, relaciono aqui alguns nomes femininos. Alguns são desconhecidos até de especialistas, outros conquistaram alguma visibilidade. Mas todas essas escritoras desempenharam um papel que não se restringia às funções de esposa, mãe e dona-de-casa. Elas foram à luta e deixaram seu recado --para além do recato.

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UM POUCO DE LUZ NA LUTA DAS MULHERES Num dos artigos pioneiros no sentido de mapear as características da história da mulher no Brasil, escrito por Maria Beatriz Nizza da Silva, a autora afirma: “não temos acesso direto ao discurso feminino senão tardiamente no século XIX e, até então, temos de nos contentar em conhecer os desejos, vontades, queixas ou decisões das mulheres através da linguagem formal dos documentos ou petições, manejada pelos homens.” Debret, pintor e historiador que viveu 15 anos entre nós, já registrava que a educação das mulheres se restringia, até 1815, a recitar preces de cor e a calcular de memória, sem saber escrever nem fazer as operações. Somente o trabalho de agulha ocupava seus lazeres, pois

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os demais cuidados relativos ao lar eram entregues sempre às escravas. Só a partir de 1827, com a primeira legislação referente à educação feminina, é que as mulheres tiveram direitos assegurados à educação. Portanto, mesmo em meados do século XIX, a mulher ainda permanecia isolada do ambiente cultural. Talvez a marca mais evidente dessa condição de subordinação seja a do silêncio e a de uma ausência, notada tanto no cenário público da vida cultural literária, quanto no registro das histórias da nossa literatura. Na esperança de poder contribuir, modestamente, na reversão da nossa falta de conhecimento sobre a questão, resolvi abrir este espaço para divulgar alguns momentos significativos da história da literatura brasileira feita por mulheres. Já fizemos, em nosso site, postagens de tudo que se encontra neste e-book, elencando autoras muito pouco conhecidas e divulgadas. E prosseguimos, agora, nessa mesma direção. Esclarecendo que minha atenção está voltada, exclusivamente, nas poetas mulheres. Com vocês, as vozes femininas que quebraram barreiras e se fizeram ouvir.

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MARIA LUIZA RIBEIRO (1954)

Poeta goiana, é advogada, possui licenciatura plena em letras e português. Faz parte da Academia Goianiense de Letras e da UBE, Goiás. Já publicou romances, contos e literatura infantil. Em poesia publicou O Tempo Responde(1988), Além do Alambrado(1990),O Pássaro de Bico de Ferro(2009) e Mergulho nos Poros.

SILHUETA DOS DÉDALOS Na intensidade que cabe a cada coisa presume-se um quarto de espelhos onde cada lado reflete muitas faces. Ainda não foi possível entender a silhueta dos dédalos que permanecem na alquimia dos homens enquanto os espelhos se propagam Assim, cada circunstância é uma esquina onde os minutos fogem pelos vãos do dedos e a vida pulsa no conta-gotas das horas. Permaneço na galeria dos anônimos enquanto redescubro o segredo dos instantes multifacetados. MÁSCARAS Enquanto caía o pano o espelho refletia a minha nova solidão: findava-se a hora de ângelus. Agora eu era só um tronco sem raízes sustentando um galho seco florado na primavera. Sobrevivo com a sentença do teu nome ecoando no meu peito e continuo amando-te além de mim. E nesta parede, o espaço do poema reservei às nossas máscaras Top line.

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MIRIAM PORTELA (1954)

Poeta catarinense, ficcionista e jornalista. Vive em São Paulo desde 1973, é formada pela ECA e durante muito tempo trabalhou em televisão, nas mais diversas funções. Atualmente produz vídeos e documentaries para empresas e tevês. Publicou mais de vinte livros. Eis alguns títulos: O Continente Possuído(1987), No Fundo dos Olhos(1993), Nos Mares de Vênus(2002).

JURAMENTO Juro nunca mais Resistir à poesia Mesmo que ela Crave suas unhas Em minha pele branca E me abandone Em noite alta Insana e nua. Juro nunca mais Desistir da poesia Mesmo que ela Cubra meu colo De palavras E me obrigue A bordar com elas: Anêmonas Plânctons Cósmicas Redondilhas. Juro nunca mais Me negar à poesia Mesmo que ela dispa da minha alma a lucidez e me deixe infante e tola a rodar. a rodar, a rodar alegremente. LOUCURA Ela olhou-me no fundo dos olhos lambeu minha alma como os animais à cria e me disse: - se a vida se tornar insuportável eu te dou abrigo. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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REGINA DAYEH

(1954)

Poeta carioca, passou a infância e adolescência em Santos. Mudou-se para São Paulo, onde se formou em Direito no Largo de São Francisco, em 1977. Foi professora universitária de Direito Empresarial e é atualmente Assessora Jurídica do TRT-SP. Publicou apenas um livro de poemas :Meu Pai Desenhava Navios, lançado no mês de maio deste ano..

POLTRONA Quando me sinto cansada não tenho urgência nas palavras. respiração pausada, engulo a lágrima preguiçosa a fumaça tragada encontra a fadiga em mim. Afinal qual a resposta para o cansaço? minha poltrona recebe o corpo jogado balanço balanço barulho leve da mola enferrujada embala embala embaralha imagens inúteis largadas pelo caminho. Minha poltrona é o colo que tenho embala embala... Quando me sinto cansada não vejo sentimentos só meus pés inchados de realidade.

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CARMEM LUCIA FOSSARI (1954)

Poeta catarinense é mestre em Literatura Brasileira pela UFSC com opção em Teatro, diretora de espetáculos do DAC - Departamento Artístico Cultural da UFSC, diretora e fundadora do grupo de pesquisa Teatro Novo. Escreveu, encenou e dirigiu várias peças que foram premiadas. Publicou Heresia(2011) após testar a receptividade de seus poemas em blogs e sites da internet.

TRAVELLING Minha vida em viagem etiquetada Sob a mala que transporta Mundo afora Tantos mundos De meu ser Que já nem sei Quando minhas mãos de Espanto e surpresa Retiram da bagagem Mala aberta Outros livros de poesias já nascidas A bagagem de poemas já bem sei Estão antes de ser e inda depois Seguirão em viagem sem retorno E noutras mãos e destinos seguirá A mala com outras etiquetas de destino Em deslocamento segue, um pouco de ausência, Outro tanto de presença Mais ainda de presente em futuro almejando A rota da viagem vislumbrar E, da poesia que emerge mala aberta Um doce ar perfuma As palavras e nelas, Embrulhadas em fina lamina Roça ao sangue em gotas minha pele Não sangra de meu ser mais que a sensação De ver pouco a pouco a vida A esvair-se. Detenho de aspirar doce perfume, do amor Que muda todas as rotas E faz eterna a nossa tão pequena rota Debaixo da mala etiquetada Que ora segue em seu destino de encontro. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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LUIZA SILVA OLIVEIRA (1954)

Poeta baiana, é advogada, atriz, bailarina e socióloga. No teatro, trabalhou com diretores como Antunes Filho e Naum Alves de Souza. Em 2011 lançou seu primeiro livro de poesias, Afetos Transgressores, escrito após a perda de seu irmão Arnaldo Silva Oliveira, a quem o livro é dedicado. Em 2017 veio o segundo, Da menina que virou bicho. Luiza vive em São Paulo e participa com frequência de vários saraus como Sarau da Paulista e Gente de Palavra Paulistano.

CALCINHAS MOLHADAS bendito é o fruto do vosso ventre!!! cócegas no ventre um líquido gosmento escorre entre minhas pernas assustada excitada vou pedir explicação para o divino sou açoitada e despejada por falta de pagamento!! endividada tento quitar minhas indulgências Ah... santo padre, perdoa-me!!! mas o mundo da luxuria é o mais perfeito ah... sinto-me agraciada com mais um toque e a energia sexual se transforma em energia espiritual mas as cócegas continuam cada vez mais intensamente é a comunhão com o divino... diz uma voz pequenina, quase inocente!!! uma fila de famintos me espera orgiasticamente fujo pelos porões sepulcrais escuros, abafados só vejo anjos nus com seus corpos atléticos, musculosos santificada abençoada me utilizo da leveza dos anjos pego a mão de Afrodite e sou conduzida pelo deus baco para mais uma orgia dos deuses!!! Virgem Maria, rogai por nós!!!! 18

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ROZA MONCAYO (1954)

Poeta goiana é também artista plástica. Vive desde os 5 anos em São Paulo. Fez curso de história da arte no MASP, bacharelou-se em letras e ciências sociais pela USP e foi educadora em escolas públicas. Em 1988 foi para Bélgica, ficou um ano, e quando voltou decidiu abandonar o ensino e dedicar-se inteiramente à arte. Seus poemas já foram publicados pela revista CULT, em abril de 2010. Publicou seu primeiro livro de poemas - Labirintos da Alma, em 2014, pela editora Patuá.

TEIA O tempo tece por detrás da trama a tessitura invisível de um imponderável existir Dos fios que se enroscam se envolvem se torcem proliferam nós e pontas indecifráveis E dessa teia tântrica evoluem dançantes fluxos convexos na tentativa de burlar a impermanência de tudo ORIGEM Estourar os tímpanos e libertar a alma. Ouvir com o corpo inteiro o grito das entranhas. Misturar-se aos sons perfurantes do encontro absoluto da baqueta e do couro. Defrontar-se com o início de tudo, e sentir-se nascendo do berro e da luz que te joga no mundo. Ritual de iniciação, de resistência ---o som primordial. Resistir, resistir desde antes. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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MALU VERDI

(1955)

Poeta gaúcha, é formada em letras, mestre em literatura brasileira e doutora em teoria literária pela Universidade de Brasília. Possui muitos textos musicados por autores italianos, seja de música experimental, seja erudita. Publicou Personagem possível (1984), Matéria sem nome (1987), Falas (1988) e Este fruto outro/Questo frutto altro (ltália, 1994), “O caractere do sono – entre Oriente e Ocidente” e “Coito com o real”.

REVISITANDO a mesma luz o mesmo ângulo a igualdade da desigualdade MISTÉRIOS (para Marcus, seu sorriso eventual)

Arrumar malas mais uma vez arrumar, sentir o canto, o arrulhar o novo rumo de objetos sós precários, movidos de um lado para outro repartidos, classificados, ensacados coisas que buscam seu lugar buscam como se seres fossem pensantes: - caber num espaço exíguo, a repartição dos pães ao contrário (todo o vivido em algum tempo, lugar na verdade, tempos multiplicados lugares exponenciais) tudo que se retorce, aperta, ensaca para caber numa mala

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SUZANA VARGAS (1955)

Poeta gaúcha, autora de literatura infantil e ensaísta, possui 16 livros publicados. Ativista cultural, criou o projeto Rodas de Leitura, pioneiro no Brasil e a Estação das Letras, oficinas de leitura e escrita, que coordena e dirige. É mestre em teoria literária e tem poemas traduzidos na Itália, nos Estados Unidos e na Argentina. Entre seus livros de poemas, destacamos: Sombras Chinesas (1990), Caderno de Outono (1998) e O Amor é Vermelho (2005)

A CASA Não só digo adeus aos teus dois quartos a sala ampla a uma rede sonhada na janela Digo adeus aos teus cheiros a estas baratas que vez por outra te rondaram. Campainhas, telefones, brigas e remédios ficarão para trás além dos sustos. E digo adeus aos fantasmas que te cercam Também aos teus arbustos. E quando uma volta na chave te fizer silêncio Digo adeus aos teus ruídos peregrinos ecos Movimentos mais amenos do tempo. ORTOPÉDICA Nada como não ter pés Para valorizar sapatos. Já sei que não é novo: o provérbio é mais ou menos chinês, e mais ou menos meu Descobri caminhando AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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ROSANA PICCOLO (1955)

Poeta paulistana, é formada em filosofia pela USP e em jornalismo pela Casper Líbero. Atua em publicidade. Estreou em 1999, com o livro de poemas em prosa Ruelas Profanas, seguido por Meio-Fio, Sopro de Vitrines e Refrão de Fuligem. Participou das antologias Paixão por São Paulo e Roteiro da Poesia Brasileira – Anos 90, além de revistas literárias, como Zunái, Mallarmargens, Alguma Poesia, Zona da Palavra, entre outros. Atualmente está vivendo em Curitiba.

ESCULTURA VIVA previsível bailarina torneada pela brisa sapatilhas dois piões acetinados giram por qualquer trocado um segundo e ao encanto retornam tendões de mármore branco ela ou as águas do lago sem cílios nem cigarros da neblina onde dorme o cisne PINÇAS DA MORTE Quando olhei o mundo lá de cima, vi um terrível caranguejo. As patas luziam como metralhadoras, cresciam e cresciam e cada uma disparando 6.000 relâmpagos ________ por minuto. Ardia na carapaça uma estrela de Davi. Deformada, é verdade (o peso das quelas vermelhas de fogo) Esmagaram duas cidades ________ mulheres lavavam panelas, crianças sujavam os pés na rua os velhos colavam o ouvido numa rádio reticente para se deitar depois à luz de velas usadas, duas cidades do cedro vi queimada a semente, com a roupa rasgada partirem anjos tal flocos de neve os pássaros debandaram ________ menos a dor pombo retraído sem uma das asas esse ficou 22

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ANGELA MORAES SOUZA (1955)

Poeta carioca, é arquiteta, artista plástica e vive em Florianópolis desde 1979. Participou de Antologias da Associação dos Cronistas, Poetas e Contistas Catarinenses, do Projeto Literário Delicatta V e das Antologias Digitais: Sociedade dos Poetas Vivos 8 e Poesia para Mudar o Mundo 1. Publicou dois livros de poemas: Palavras Nuas(2002) e Um Fio de Seiva (2009).

VIVO SEM CASCA Vivo sem casca e sem tempero. Crua. Sinto meu sabor natural. Sem mel nem sal. Deliciosamente crua. QUANDO LEMBRO Quando lembro ontem tua mão doce afagando minha face, pergunto: Onde em todos esses anos tu a guardaste? É LÁ É lá, no silencioso vazio das profundezas da alma que a poesia canta, pura. Escuta.

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LILA MAIA

(1955)

Poeta maranhense, pedagoga, vive no Rio há 32 anos Tem dois livros de poesia publicados: A idade das águas e Céu Despido. Em 1998, teve três poemas publicados na Revisa Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional e conquistou, no ano passado, o prêmio Paraná de Poesia, com o livro As maçãs de antes.

O OLHAR MADURO DA ONÇA Não se escreve um poema de amor impunemente. No desvão da noite uma onça perpetua a sombra de fogo sobre teu caminhar espaçado. Há uma súplica com os devidos ais prudentes, a onça sabe onde derrama seus passos. Crava os dentes nesta carne que tem cheiro de batismo, o sangue suado da caça. Que rara luz expressa teu corpo. A onça é aos poucos domesticável. Não se escreve um poema de amor impunemente. QUASE LAMENTO Desses sonhos mais simples Deus não sabe Nunca sentirá o prazer de ter livros na estante e da falta que fazem uma mesa, quatro cadeiras, um colchão de casal Ele não compreende aquela janela inquieta, as paisagens que transbordam livres Deus é o que há de mais interminável em mim: a dor Mas eu bebo do cálice como do pão às vezes ofereço a outra face por amor O tempo segue com seu fogo milenar Eu passo o pente nos cabelos sobriamente Sobrevivo diante dos mistérios, e desta claridade que não salva

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RECA POLETTI

(1955)

Poeta paranaense, é formada em publicidade e propaganda e dirige projetos qualitativos de pesquisa de mercado. Publicou o livro de poemas Numas(1981) e participou de algumas antologias como Mulheres da Vida(1978) e Antologia da Nova Poesia Brasileira(1992). Ainda não recebeu nenhum prêmio, exceto o de recitar poesia em boteco e de arremesso de bituca à distância. São palavras dela que vive em São Paulo.

AVISO Nem sempre é bom respeitar as placas de aviso há momentos na vida da gente em que é preciso pular as grades e enfrentar os cães. EU NÃO QUERO MAMAR Sou ave de rapina Sou mulher e sou menina Sou a puta da esquina Sou vício de maconha e cocaína Já fui um medo que quase me assassina Mas não sou o que você acha nem o que me ensina. CONFISSÃO Seu padre sei que ainda no mundo muitas dádivas restam mas tenho uma tendência medonha pra gostar mais das coisas que não prestam AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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BARBARA LIA

(1955)

Poeta paranaense, é professora de história e escritora. Publicou poemas no jornal Rascunho, Fenestra, Garatuja, Mulheres Emergentes, Revistas Etcetera e Coyote. Finalista dos concursos de poesia Leminski (2000) e Pinheiro do Paraná (2002). Publicou os livros de poesia O sorriso de Leonardo (2004), Noir (2006), O sal das rosas (2007) e A última chuva (2.007).

PROFANA A cor do amor é branca, e o amor tem uma covinha do lado direito do rosto e o amor me olha como alguém que jamais vai tirar a minha calcinha e gozar o céu dentro de mim. O amor sempre vai me olhar como se eu estivesse num altar de papel. Para o amor, eu sou uma rima e rima não tem vagina. Para o amor, eu sou uma ode com uma ode ninguém fode. Eu sou um verso alexandrino jamais tocado pelo herdeiro deste nome. Eu sou a palavra, e a palavra, a palavra é Deus Deus ninguém come, mas será que beber pode? SOPRO DE DEUS Sigo distraído e breve — piedade na alma, opulência no calabouço. Sigo sereno, neblina me abraça. Meu corpo um jarro de esperanças. O amor — única navalha que me corta. Aprendi que somos sopros de Deus — instantes.

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ROSA RAMOS

(1955)

Poeta carioca, publicou poemas em jornais e na revista Poesia Sempre, editada pela Biblioteca Nacional. Participou de algumas antologias, Sete Vozes(2004) e Poema de Mil Faces(2012). Não tem livro publicado. Recentemente, 12 poemas de sua autoria foram publicados na revista mallarmargens.

FAZERES o poeta chega sem alarde ao branco da página; invisível quase, pensa a melodia que há em cada frase e conjuga verbo e imagem, tudo em pensamento, que não se atreve a acelerar o tempo do poema imberbe. cheira a folha, rege o vento que a sopra espanta a mariposapalavra que vem surgindo como a lua clara. talvez um tango, talvez espanto, ele pensa, as rimas passarinhando seu cérebro, uns grunhidos de fonemas avançam sobre ele até que exausto rende-se ao eterno exílio da palavra extrema. CONVERSAS não quero ser uma sombra contra esta janela que dá para o mar nem uma foto na parede nem uma memória partilhada. meu desejo é ser nossa senhora dos cordões de Oswald, deixar de lado, com Manuel, o lirismo comedido sambar e escrever loucamente e colocar a poesia na rua, essa doceamarga. “ó tristeza, me desculpe” mas já não ando à míngua em busca de amor e sorte. “minha pátria é minha língua” e o mais são cortes na pele das palavras. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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CLAUDIA CORBISIER (1956)

Poeta carioca, é psicanalista com pós-graduação em psiquiatria no Instituto de Psiquiatria da UFRJ e na Sorbonne, Paris V, Université René Descartes. Atualmente é doutoranda do Programa de Pós-Graduação de Psicologia da PUC, Rio de Janeiro. Pesquisadora associada do LIPIS. Escreve no blog umdiaumgato.

Sou chão. Sangue. Cabelo em pé. Ouvidos roucos. Voz estalada que nem ôvo. Sou pé na estrada. Mão na contra-mão. Moleca de rua. Do olhar atento. Da alma rasgada. Da saia plissada. Do sinal aberto. Do bambolê rodando. Sou mulher comum. Média. Com pão e manteiga. MEMÓRIA Mãe é amparo. Estaca fincada na terra na chuva, molha no sol, seca com o vento balança. Mas fica ali. As vezes nem sabe que apóia ilusões, que gera sonhos que aninha sossegos. É ponto cardeal início à revelia corrimão jacarandá de sobrado sino de mesa carrilhão tocando conversas de antigamente. É tristeza do que não foi de perguntas esquecidas É imagem desdobrável guardada entre pesares e canduras no porta-retrato da memória.

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MARILDA CONFORTIN (1956)

Poeta catarinense, prosadora, analista de sistemas e funcionária pública aposentada, vive desde 1975 em Curitiba. Já ministrou várias oficinas, deu palestras e fez leitura pública de poesia em teatros, bares e praças. Representou o Brasil em encontros de poesia no México, Nicarágua e Portugal. Em novembro deste ano estará no XX Encuentro Internacional de Mujeres Poetas en el País de las Nubes, Oaxaca, México. Publicou Busca e Apreensão(2010), Lua Caolha(2008)

GOSTOSA Bela cantata! Me allegro, ma non treppo. PER VER TENDO TE Disseco-te verso per verso SUICÍDIO Com agulhas de crochê a velha senhora mata horas. RECADO O tempo me mandou um recado pelo vento, mas eu tonta liguei o ar condicionado e não deixei o vento entrar. Insistente, ele mandou um sabiá laranjeira cantar na palmeira até me acordar. O louco cantou, cantou, até ficar rouco mas, eu tonta, não entendi. A palmeira então bateu palmas no portão mas eu, sem noção. nunca atendi. Até que um dia ela derrubou uma folha amarela na minha cabeça. Foi quando li o recado que o tempo havia deixado. Estava escrito assim: – Estou passando. Liga prá mim. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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VANIA AZAMOR (1956)

Poeta carioca, vive em Teresópolis e trabalha como economista do governo do Estado do Rio de Janeiro. É autora dos livros de poesia Olhar mineral (2003) Facas da manhã (1997) e Cristal Rutilado(2011). Participou da coletânea Caixa de prismas (1992). Teve poemas publicados na revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, nos jornais Poesia Viva, Panorama da Palavra e Rio Letras.

CORDÃO UMBILICAL Em tudo há mãe o cerne o começo. Da minha tenho quase tudo o sorriso, a face, a vulva o que insiste e persiste no dia seguinte e em mais outro dia o que a esse se soma a vontade de mais outro dia. E como um novelo desenrolo os dias até nela chegar. FOME E NOVELO Como criar poemas se o que emerge são os guizos, disfarçados de canto, de uma serpente invisível bem junto de mim? Como precisar seu bote se me escapam meandros e sítios de seu perfume? Nesta tarde estreita que alastra prenúncios e desfaz pistas incendeio de alegria e êxtase adianto o tempo e reconstruo um namoro sem carne e curvas febril perigoso e escorregadio como um penhasco. O que assusta também me embala e envenena.

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CARMEN SILVIA PRESOTTO (1957/2017)

Poeta gaúcha, escritora, psicanalista, professora de língua portuguesa e literatura clássica, agitadora cultural e editora. Publicou, dentre outros, Dobras do Tempo (2001) , Encaixes (2006), Postigos (2010) e um grande número de crônicas, photoPoemas, photoCrônicas em espaço que manteve na internet: Vidráguas. É aí que ela divulgava outros autores, livros e principalmente poemas. Com um empenho e uma dedicação inquestionáveis.

NÉVOAS Cinzas passado Suor e lágrimas Nada é domável durmo em sonhos não vividos Esqueci meus luares imaginários O último trem levou o lenço e ainda aceno pelo teu beijo. O AMOR... O amor é este letreiro em que todos os dias reVerdeces olhares de mim em ti… O amor é este tabuleiro em que todos dizeres te acompanham no dito e para que não sejamos contradito… Psiu! : pisco e digo te amo O amor é poesia este tempo no espaço tempAço onde me dizes não ser…

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MARCIA MARANHÃO DE CONTI (1957)

Poeta maranhense, passou um período da infância em Goiânia, residiu em São Paulo e atualmente vive em Goiânia. Estudou piano, é formada em nutrição e em direito. Já participou de antologias e concursos, sendo várias vezes premiada, inclusive no 5° Prêmio Nacional de Poesia Cidade Ipatinga com o 2° lugar (2007). Teve três poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus e no Trem, promovido pela prefeitura de Porto Alegre. Publicou o livro de poemas Luar nos Porões (piano mudo), em 2011. Foi roteirista de um espetáculo do grupo Fé Menina reunindo poemas e canções.

A NINHADA A ninhada de palavras Não me deixa dormir. Ser poeta é suportar os peitos Inflamados E deixar a linguagem sugar Até sangrarem os bicos. ENFRENTAMENTO Abro a frase devagar Como se abrisse um lenço Que guardasse um segredo mofado. Leio afastando cada sílaba, Na tentativa inútil De romper todo o sentido. Depois de ler essa verdade Que tentou se inscrever Num insight de coragem Acovardo-me. Fecho o lenço... E enxugo meus olhos. UM POEMA NO ÔNIBUS Parece que a cidade passeia, E o pensamento espia a palavra. Há um poema que vagueia, Versos virando paisagem. Parece que a janela me leva, E o poema levanta os olhos. Não sei se fico ou viajo. Vou nas palavras e volto. Parece que tudo é passagem. O poema beija meus olhos.

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ELISA LUCINDA (1957)

Poeta capixaba, jornalista e atriz, é uma das primeiras vozes poéticas do Espírito Santo a cantar a negritude. Já fez incontáveis recitais divulgando seus poemas. Montou uma peça com seus poemas e ficou 6 anos em cartaz. Criou a Casa do Poema, no Rio , a TV Escola Lucinda de Poesia Viva e mantém um site na internet com parte expressiva de sua obra. Estreou em livro com Aviso da Lua que Menstrua (1990). Seguiram-se Sócia dos Sonhos (1994) O Semelhante (1994) e A Fúria da Beleza(2006).

ZUMBI SALDO Zumbi, meu Zumbi. Hoje meu coração eu arranco Zumbi hoje eu fui ao banco E ainda estou presa Escuto os seus sinos e ainda estou presa na senzala Bamerindus Presa definitivamente Presa absolutamente à minha conta corrente. PENETRAÇÃO DO POEMA DAS SETE FACES A Carlos Drumond de Andrade

Ele entrou em mim sem cerimônias Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu Na primeira fala eu já falava como se fosse meu O poema só existe quando pode ser do outro Quando cabe na vida do outro Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada Há apenas frases e desabafos pessoais Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas Te amo porque nunca nos vimos E me impressiono com o estupendo conhecimento Que temos um do outro Carlos, me escuta Você que dizem ter morrido Me ressuscitou ontem à tarde A mim a quem chamam viva Meu coração volta a ser uma remington disposta Aprendi outra vez com você A ouvir o barulho das montanhas A perceber o silêncio dos carros Ontem decorei um poema seu Em cinco minutos Agora dorme, Carlos. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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RAQUEL NAVEIRA (1957)

Poeta sul-mato-grossense, ensaísta, advogada, é doutora em língua e literatura francesas pela Universidade de Nancy, França e mestre em comunicação e letras pela Universidade Mackenzie (SP). Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e ao Pen-Clube do Brasil. É autora de mais de 20 livros, dentre eles Abadia (1996) e Casa de Tecla (1999), ambos finalistas do Jabuti na categoria Poesia. Quando se aposentou do magistério superior, em 2006, mudou-se para São Paulo, onde viveu durante 10 anos.

O PIANISTA As mãos elásticas, Cheias de barbatanas de pele, Abrem-se como leques, Como caudas de peixe; Todo corpo é tangido Como uma vela Sobre o navio negro do piano. ESPELHO Quando olho no espelho Brilho E molho os lábios. Quando olho no espelho Colho a lembrança de uma onda E seu marulho. Quando olho no espelho, Sou pomba capaz de vôo e arrulhos. Cansada, Olho no espelho e me ajoelho.

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JOSELY VIANNA BAPTISTA (1957)

Poeta curitibana formada em letras hispânicas, com especialização em semiótica. Publicou os livros de poesia Ar (1991), Corpografia (1992), Outro (poema experimental em co-autoria com Arnaldo Antunes) e Roça barroca (2011), prêmio Jabuti. Traduziu Cortázar, Carpentier, Cabrera Infante e Lezama Lima, entre outros. Participou de antologias editadas no México, Peru, Argentina, Estados Unidos, Cuba, França, Paraguai, Colômbia, Espanha e Austrália.

EXERCÍCIO ESPIRITUAL Aqui poucas letras bastam, pois tudo é como papel em branco. Manuel da Nóbrega. Carta 8 (1549)

risco no portulano da areia o roteiro do error (do latim errore): viagem sem rumo e sem fim, como a dos ascetas e dos apaixonados, fadados ao êxtase e ao naufrágio RESTIS Um vento anima os panos e as cortinas oscilam, fronhas de linho (sono) áspero quebradiço; o sol passeia a casa (o rosto adormecido), e em velatura a luz vai desenhando as coisas: tranças brancas no espelho, relógios deslustrados, cascas apodrecendo em seus volteios curvos, vidros ao rés do chão reverberando, réstias. Filamentos dourados unem o alto e o baixo - horizonte invisível, abraço em leito alvo: velame de outros corpos na memória amorosa.

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CÉLIA MUSILLI (1957)

Poeta paranaense, é jornalista, cronista e autora de Sensível Desafio (2006) e Todas as Mulheres em Mim ( 2010). Fez mestrado em Literatura na Unicamp e tem sonhos premonitórios. Gosta de livros, viagens, estrelas e gatos, nem sempre nesta ordem

PRAZER ainda que o que me instigue o corpo seja breve seja novo será sempre a lição sem fim de redescobrir paraísos perdidos dentro de mim SABEDORIA QUASE CHINESA se alguém não te alimenta inventa uma manhã de sol fruta fresca chá de hortelã para despertar a alma com calma que o dia apenas começa e o amor não combina com pressa DELICADEZAS DOEM porque há canções de chegada canções de partida o coração eu tomo pela mão quebrável no último beijo transversal de línguas poliglota falo de amor delicadezas doem não sei se já disseram mas você sabe matar pássaros 36

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CLAUDIA MANZOLILLO (1957)

Poeta carioca, escreve contos e ensaios. É mestre em literatura brasileira pela UFRJ e professora de língua e literatura do Colégio Pedro II. Publicou o livro de poemas A dona das palavras(2015).

AZUL REAL LAVÁVEL Para meu pai

Como o sangue corria-lhe nas veias a tinta enchia-lhe as folhas caligrafia indelével pingava sobre o branco perfeita combinação nenhum traço nenhum senão. Me coloria os dias o conteúdo do pote nada detinha a letra no linho, no algodão floria a pétala azul nenhum borrão nenhuma mácula ardia. A pena corria leve sem rasuras rumo à folha coisa viva aquela tinta que lhe escorria das mãos. SINA Assim o mar se fez em mim concha, ostra, sereia, me navego e me transbordo. No começo de mim, era a água. Mar, córrego ou rio, é nela que me recolho e me refaço enfim. Navegar é sina de imigrantes. Eu me navego, imigrante de mim. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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MÁRCIA RÚBIA (1957)

Poeta baiana, é graduada em letras e pós-graduada em planejamento educacional. Participou de várias antologias e concursos literários e já foi premiada várias vezes. Colaborou com os jornais Sudoeste, Et Cetera, O Rascunho e Jequié, escrevendo matérias, crônicas e poemas. Atualmente é membro da Academia de Letras de Jequié. Publicou seu primeiro livro em 2014: Procura-se a Poesia.

DOIDA VARRIDA Por que não fugir Dessa tempestade que arrebata Fantasia insana, labaredas O meu corpo em chamas. Vivo num mar sem fundo Náufrago em uma ilha Personagem sombria e louca Aprisionada em martírios. Por que não afugento Os fantasmas do meu duplo? Repousa uma montanha russa No vale do meu delírio. E por ser a eremita Da gruta dos caminhos Anjos, bruxas e duendes Farão um banquete de redemoinhos. E por não demolir Paredes de solidão A santa e profana amordaça Os papas da Inquisição.

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MÁRCIA SANCHEZ LUZ (1957)

Poeta paulistana, formada em literatura inglesa e francesa, é psicóloga, pedagoga, escritora, tradutora e redatora. Participou de várias antologias e publicou os livros “Quero-te ao som do silêncio!” (2010); “Porões Duendes”, “No Verde dos Teus Olhos” (2007).

VESTIDO Não é pretinho básico nem couro nem veludo. É luto. FAZENDO AS CONTAS... Tiraram-me os discos, meus sonhos jogaram na lata do lixo. Deixaram-me os livros, meus medos guardaram junto aos meus rabiscos. As noites que eu tinha trocaram por dias às vezes escuros como o céu sem lua. E eu me sinto nua: coito prematuro beirando a ironia de uma dor rainha. SOL DA MEIA NOITE Com você, cada manhã é um novo susto.

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SU ANGELOTE

(1957)

Poeta pernambucana, cursou letras na Universidade Católica de Pernambuco. Já escreveu romances, O Cruzeiro da Morte e Vidas em Conflito. É ativista cultural e contadora de histórias para crianças, levando a leitura para comunidades carentes. Seu livro de poemas, Erótika(2008) já está em segunda edição e ela diz, no prefácio, que os poemas mostram “a mulher que sou, uma mulher em busca da harmonia, mas também ousada, vivendo nos seus poemas, as ficções de múltiplas caras.”

GOZO Cama vazia Nenhuma calmaria Tu me traia. A FLOR DA PELE Gemidos sem dores Arfares de gula Sem falso pudores. PENSAMENTO IV De todas as farsas que me transformo Prefiro a poetisa Que ama o desconhecido Acata o impossível E nunca teme o inevitável. HAIKAI 2 O sol brilha A noite emudece Minha vida resplandece.

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THEREZA CHRISTINA ROCQUE DA MOTTA(1957)

Poeta, editora e tradutora, nascida em São Paulo. Publicou Joio & trigo (1982), Areal (1995), Alba (2001), Lilases (2003), Marco Polo e a Princesa Azul (2008), O mais puro amor de Abelardo e Heloísa (2009), Futebol e mais nada: Um time de poemas (2010), Odysseus & O livro de Pandora (2012), Breve anunciação (2013), As liras de Marília (2013), Capitu (2014), Folias e Horizontes (2014), Lições de sábado (2015), Intemperanças (2016), Minha mão contém palavras que não escrevo e Pandora (2017), Lições de sábado 2 e O amor é um tempo selvagem (2018). Traduziu Shakespeare. É membro da Academia Brasileira de Poesia (Petrópolis) e do PEN Clube do Brasil (RJ). Fundou a Ibis Libris em 2000.

NOMEAÇÃO Tudo tem seu nome, o inominado, o terrível semblante de Deus, a letra esbelta, a fome, a falta de vogais a devorar o nome ancestral. Sou, és. Assim está bem. Recomecemos. VOLTO-ME E OLHO-ME NOVAMENTE AO ESPELHO Recomponho o cabelo com as mãos e apago as marcas do rosto. Eu fui o que fui, porque quis, mas não preciso carregá-lo comigo. Esquece. MADRAS

Para Selmo Vasconcellos

Abriste o tempo em gomos, fruta inteira dada aos pedaços, para cada parte, um gosto, visível e táctil favo, com que prendes os dedos. Este o tempo degustado, essa fonte maior que a vida, sabor de tudo, num naco.

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DENISE EMMER (1958)

Poeta carioca, ficcionista,compositora, cantora e instrumentista. É formada em física, violoncelo e fez pós-graduação em filosofia. Já publicou 18 livros, entre poesia e romances. Estreou muito jovem, com Geração de Estrela (1975) e com Lampadário(2008) conquistou o prêmio ABL de poesia. Outros prêmios conquistados pela poeta: APCA, UNESCO e Pen Clube do Brasil. Compôs para trilhas sonoras de novelas e já ganhou até disco de ouro. Outros títulos: O Inventor de Enigmas(1989), Cantares de Amor e Abismo(1995) e Poesia Reunida(2002).

Das rochas escuto rimas Deixo que passem pássaros As palavras as vertigens Não me aproprio ainda Do seu imprevisto canto Escalo a página em branco. PROSA CANORA Meus pensamentos nem sei Vieram de estrelas tristes Invento o que não existe Para enganar minha alma Invento a morte sem ossos Escrevo auroras em lápides Pastoro as águas da tarde Para tecer mais um dia Em minha roca sombria Costuro uma blusa eterna Colchas claras de lanterna Para tecer mais um dia Vou além da alta noite Além das cruzes em quadras Ausências extraviadas Meu verso em ti amanhece. OS ANIMAIS QUE MORREM Os animais que morrem viram luzes assombros tão pequenos entre escuros espectro sereno sobre muros os animais que morrem são futuros. 42

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JANICE CAIAFA

(1958)

Poeta carioca, é doutora em antropologia pela Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, tradutora e professora da UFRJ. Publicou os livros poemas: Noite de Ela no Céu (1982), Neve Rubra (1996), Fôlego (1998), Cinco Ventos (2001), Ouro(2005) e Estúdio (2009).

MERGULHO quando caio nada vinga além do nado caio entre e me salvo pelo meio guelras ganhas, estou só absoluta no líquido quase aquática nem amo de tão perfeita. POR UM FIO O que me prende à vida é linha de hálito troca de ares, fios de ouro. Ora tenazes ora soltos colares: tênue sutura ata-me ao chão do mundo. A vida me prende em teia de vento acordo quebrável selado com o ar. CHEIO D’ÁGUA Mareja a água na forma do olho, o olho é um outro lado do corpo e lago convexo. Dois lençóis d’água depositados a turvar a mirada embaçada no espelho de 2 lados. Os espaços dos olhos marejados são a virada dos avessos

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ESMERALDA RIBEIRO (1958)

Poeta paulistana, é escritora afro-brasileira, jornalista e faz parte do Quilombhoje desde 1982. Tem atuado nos movimentos de combate ao racismo e na construção de uma literatura Negra. Publicou poemas na revista Cadernos Negros. É autora do livro de contos Malungos e Milongas (1988) e participou das seguintes antologias: Cadernos Negros 5 e 7 a 18 (org. Quilombhoje); Reflexões sobre a literatura afrobrasileira (1985); Criação crioula, nu elefante branco (Secretaria de Estado da Cultura/SP, 1987).

VOZES MULHERES A voz da minha bisavó ecoou criança nos porões do navio. Ecoou lamentos de uma infância perdida. A voz de minha avó ecoou obediência aos brancos-donos de tudo. A voz de minha mãe ecoou baixinho revolta no fundo das cozinhas alheias debaixo das trouxas roupagens sujas dos brancos pelo caminho empoeirado rumo à favela. A minha voz ainda ecoa versos perplexos com rimas de sangue e fome. A voz de minha filha recolhe todas as nossas vozes recolhe em si as vozes mudas caladas engasgadas nas gargantas. A voz de minha filha recolhe em si a fala e o ato. O ontem- o hoje- o agora. Na voz de minha filha Se fará ouvir a ressonância o eco da vida-liberdade.

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MÁRCIA PELTIER (1958)

Poeta carioca, jornalista, tornou-se conhecida como apresentadora de TV (Manchete, Globo, SBT). Já publicou livros infanto-juvenis, crônicas e poesia. Estreou em 1986 com Poética(mente)-Vida e sobrevida de um poeta. Seguiram-se As Garras do Mel(1989) e As Ilhas de Betacam(1991).

TV-VIDA Queria se editar na vida. Tirar os maus pedaços. Enxugar as passagens mal resolvidas. E Fazer a vida em contraplanos perfeitos. Não deu. A vida é Ao vivo. CORDILHEIRA Essa cordilheira que se estende pelo meu corpo Já virou mar. Como o sertão, Vivo afogada em meus ossos. NATUREZA O mais espantoso em Betacam É a solidão da natureza. Ilhas com apenas uma palmeira eletrônica Tão longe umas das outras Que não se consegue colocar uma rede!

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LILIAN MAIAL

(1958)

Poeta carioca, é médica e escritora. Já teve poemas publicados em diversas antologias. Faz parte do movimento poetrix. Publicou Enfim, renasci (2000)

CONFESSIONÁRIO Teus ruídos indecifráveis, teu despetalar, em versos, germinar esperas, fecundar lençóis. Tua face de entrega, o dorso contorcido, expectativas. Teu suor recende a pecado, teus olhos, profanação... Abre a boca, confessa, eu te absorvo! SOMBRA Sou o estranho que mais conheço sem meio sem fim Sou meu recomeço. PAGO PRA VER Caminho sobre navalhas afiadas nessa espera. A ferida é incontestável, a dor é certa, mas não há como chegar sem machucar. Prefiro sangrar ao som do pulsar desse jogo, que secar segura no silêncio da conformação.

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ROSANA CHRISPIM (1958)

Poeta mineira de Carandaí, morou em Juiz de Fora até mudar-se para São Paulo em 1967 e, depois, em 1970 para São Bernardo do Campo. Hoje vive em Valinhos. Formou-se em jornalismo e exerce a atividade de produtora gráfica. Publicou 3 livros de poemas: Semelhanças(1986), Entretempo(2003) e Caderno de intermitências(2017). Teve trabalhos divulgados em revistas e suplementos literários.

CONTRACULTURA às vezes me desajeito a palavra é minha arma e com ela me firo momento em que gesto/ voz/ verbo não são meus me desapropriam Com quanta poesia se alinhava um verso alma armadilha algaravia o poema me desacata penetra/ fala fundo/ alto ve quando quer imperativo estio Com quanta poesia se cala um verso NAU confia ainda que há portos nas cartas dessa ímpar navegação céu mar embarcação desfavoráveis mas há portos prontos a receber as passageiras amarras pra restauro do casco cuidado da máquina retomada do leme ao navegador (in)certeza e travessia aos portos o quinhão da espera AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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REGINA LYRA

(1958)

Poeta e escritora paraibana, nasceu no ponto mais oriental das Américas. Sua família é da cidade de Areia, localizada na Serra da Borborema. Escreve desde a infância e iniciou suas publicações em agosto de 1998. Tem oito livros publicados, participação em quarenta antologias. Pertence a UBE de São Paulo e do Rio de Janeiro. Membro titular do Pen Clube do Brasil e da Academia de Letras de Areia-PB.

CONCISO Não posso expor O que não é possível Conto verbo e substantivo VISITA Entre idas e vindas apareço. Quem sabe em outra hora, anoiteço? DESSE VENTO SINTO SAUDADE Trocávamos olhares outros Cada qual na busca do próprio corpo, Por meio do corpo do outro. FIGURA Aquela figura antes amada Parecia uma estátua de gesso, Mas acabada. ENTREMEIOS Neste mundo Soberbo O pensamento se dilata. Carrega-se o lamento, Desalento na casca. Triste o penar de quem Não encontra raiz, Vive a esmo, À procura de si mesmo. Sofre não, linda pessoa, O caminho longo, Sobre-humano, Vira a esquina do à toa.

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NYDIA BONETTI (1958)

Poeta paulista, vive em Piracaia, interior de São Paulo, onde reside. Publica seus trabalhos em diversos sites culturais e literários de prestígio como Zunai, Cronópios e Germina Literatura. É engenheira civil e confessa escrever poemas “para amenizar a dureza do concreto e do aço com o lirismo e a doçura das palavra”. Publicou Minimus Cantu(2012) coleção Instante Estante, projeto de incentivo à leitura do Rio Grande do Sul e Sumi-ê (2013).

a vida é o que passa ou o que fica? — a vida é o meio não é a massa é o recheio — a vida é o emboço não é a casca é o caroço CHÃO DESCOBERTO chão descoberto onde me faço e me descubro até que me cubras e eu me desfaça - em chão COM VERSO FIADO faço versos porque não tenho com quem conversar falo com o verso e o verso me responde quando ele fala eu ouço e o traduzo no fundo, é tudo conversa fiada com verso sem verso a vida é barra e ponto (ou dois pontos): está pronto o poema que não fiz ............................................................................ a palavra procura sua outra metade: o silêncio

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VERA LUCIA DE OLIVEIRA (1958)

Poeta paulista, formou-se em letras pela UNESP, ganhou bolsa de estudo para especializar-se na Itália e hoje é professora de literatura na Università degli Studi di Lecce. Publicou os livros A porta range no fim do corredor (1983), Geografie d’Ombra (1989), Pedaços/Pezzi, (1992). Tempo de doer/Tempo di soffrire(1998), La guarigione (2000), Uccelli convulsi (2001)e No coração da boca/Nel cuore della parola(2003).

O DIREITO AO ESQUERDO Até prova em contrário Não amassem o corpo de pegadas Não agucem a espera da morte Não contaminem a propensão à luz Não passem rolo compressor Nas palavras da alma Não decretem que não existe Até prova em contrário O direito ao esquerdo. INFÂNCIA perdi-me em funduras de juntas perdi bichos nas moitas, rastros no escuro perdi mormaços, brisas fui gerando meu pisado vagaroso nas fraturas das coisas A POESIA DÓI DENTRO DE MIM A poesia dói dentro de mim como quando meu pai podava a parreira eu ia vendo caírem as folhas e ia vendo caírem as folhas e ninguém sabia como os ramos derramavam sons dolorosos

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SILVIA ROCHA

(1958)

Poeta paulistana, é formada em jornalismo e mestre em comunicação social pela ECA. Praticante do haikai, participou de antologias e já venceu o concurso de poesia falada da revista escrita(1987). Ministra oficinas de haikai e já publicou Estação Haikai(1988) e Gestação Haikai(1990).

sem ninguém sem vintém como ser zen? .............................................................................. flores de maio no meu quintal lavado gotas de orvalho ............................................................................ solidão não te come não te mata te retrata ........................................................................... meus guias do além me guiam além .......................................................................... sopro de vela me leva me vela .......................................................................... curta a vida é curta ........................................................................... crescer dói não crescer destrói

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WANDA MONTEIRO (1958)

Poeta paraense, é advogada e escritora. Já foi revisora e produtora editorial. Participou de vários projetos editoriais de pesquisa histórica realizados no Estado do Pará e sempre publicou seus textos literários em revistas literárias, blogs e sites. Publicou O Beijo da Chuva, (2009), Anverso, (2011), Duas Mulheres Entardecendo, (2011) e Aquatempo – Sementes líricas ( 2016)

O meio é fenda Breu que guarda a luz De línguas cegas Em abissal mergulho de desejos INTERDITO De mãos em punho O Passado Chega a cada instante E investe contra meu peito O Passado é o murro que me açoita A cada açoite A face do Presente evanesce O Futuro a recolhe Sorvendo-a Roubando-me o Meio O Tempo erra-me Decreta-me Interdito! Sou apenas um patético corpo Orgânico E hipotético de uma história inacabada Existência fadada à eternidade etérea da memória Povoada por fantasmas Eu perdi meu itinerário CAIS Turva água a tua Que de teus olhos Escorre nua Molha o muro da face tua Abre-lhe fenda Funda Escura Fina janela para teu subterrâneo Cais Abismo de teus Ais. 52

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AMNERES

(1959)

Poeta paraibana, mora em Brasília desde 1979. É formada em letras e em jornalismo pela UNB. Promove e participa de leituras públicas. Publicou Humaníssima Trindade (1993), Rubi (1997), Razão do Poema (2000), Entre Elas (2004), Eva, poemas em verso e prosa(2007) e Diário da poesia em combustão(2010). Estreou com a antologia Emquatro (1985) em parceria com mais três poetas brasilienses.

SUSPIRO Vou ao Beirute, Digo em silêncio, Ao mesmo tempo Em que ouço O canto dos pássaros, Uns sons de latidos, Sussurros, estalos, Ruídos, ruídos, E se a gente Se põe a escutar, Dá para ouvir a Terra - Esse indelével Planeta -, Lentamente, respirar. SONETO Antes que o tempo transborde antes que a nascente estanque antes que o desejo murche e o outono se achegue. Antes Que os olhos se embaracem sob o impacto da velhice (como se a alma dançasse e o corpo só assistisse) Antes que a luz esmoreça antes que o dia anoiteça toma-me, amor, uma vez mais Antes, amor, que eu te esqueça antes que a chama adormeça como a espuma se desfaz.

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ADRIANA GODOY (1959)

Poeta mineira, é formada em letras pela UFMG e trabalha como professora e revisora. Desde pequena escreve, mas foi a era dos blogs que tornou seus textos mais conhecidos. Colabora com alguns blogs e revistas literárias e alguns de seus poemas foram publicados no livro ‘Maria Clara: universos femininos’. Em 2015 publicou o seu primeiro livro solo: Mil noites e um abismo.

não te amei logo de cara levou exatamente quarenta e sete dias e uma noite foi quando vi que seus olhos choraram quando te contei sobre as noites de chuva em uma casa velha que eu morava foi quando te falei de um poema sobre a solidão das pessoas nas noites de um bar e você mordeu levemente os lábios e me pediu mais uma dose de uísque levou exatamente quarenta sete dias e uma noite para eu ver que você era a pessoa que eu queria ao meu lado quando chovesse ou quando o dia fosse claro e te vejo agora como te vi aquela noite e no rádio toca uma música e você me chama pra ouvir e talvez vamos dançar juntos mais uma vez FERIDAS CUSTAM A SECAR tenho em mim o resto de meus dias e não sei de que são feitos sei que horas são quando me chamam pra almoçar ou qualquer outra besteira cotidiana a não ser quando incendeia a lua me importo menos com as coisas que me atormentavam tanto e desisto de pular a janela vou acumulando sorrisos e caretas feridas custam a secar lobos passam silenciosos e com medo percebo só as suas sombras e isso me basta um drink, amor? para celebrar o vazio o que importa se os degraus são altos e não posso alcançá-los? enojam-me as tragédias humanas e sou uma delas 54

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JUSSARA SALAZAR (1959)

Poeta pernambucana, artista plástica e designer, vive em Curitiba desde 1986. É mestre em estudos literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e doutora em comunicação e semiótica pela PUC/ São Paulo. É autora de Inscritos da casa de Alice (1999), Baobá - Poemas de Leticia Volpi (2002), Natália (2004), Coraurissonoros (Buenos Aires, 2008), Carpideiras (2011)e O gato de porcelana, o peixe de cera e as coníferas (2014). Já teve poemas publicados nas revistas Tsé-Tsé (Argentina), Chain (EUA), Rattapallax (EUA), Parque Nandino (México) e Galerna (EUA/Espanha).

VÉRTIGO Isto é um teatro isto é um vale de lírios de lírios de plástico isto é um vale de lírios eu acho que isto não é real, mas o que é isto? isto não é um teatro e todos correm todos brincam porque isto não é a hóstia do senhor consagrado isto é um pacto ou o vácuo do trem que se aproxima é o terceiro ato e ninguém mergulhou na piscina ninguém atravessou o pátio isto é alimento mas está fora do prazo é ainda um lugar vago porquê isto é lamento é um vale de lírios ou um quase porque isto será sempre um poema inacabado O MAPA a palavra água molha o verso e beija e seus olhos atrás do meu olhar quando o silêncio atravessa a noite: o território líquido das distâncias sem dor

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CARMEN MORENO (1959)

Poeta e escritora carioca, recebeu prêmios em diversos gêneros literários. É contista, romancista, poeta e dramaturga. Está presente em diversas antologias e participa de recitais desde a década de 80. Tem formação em Artes Cênicas e Educação Artística. Integra o PEN Clube do Brasil. Publicou 7 livros solo, e participa de 27 antologias. Entre elas: Mais 30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira, org. Luiz Ruffato e Mulherio das Letras (2017) organizada por Vanessa Ratton. Alguns de seus livros de poemas: De Cama e Cortes (1993) e Lojas de Amores Usados (2010).

DESTINO O morto não mora onde o corpo se expõe No último traje Não cessa ali - sob o assédio dos olhos na caixa fria. Jaz, na derradeira vitrine do rito, Apenas a casca oca (que seus sonhos e medos já não guarda). Inútil pranteá-lo, em flores e confissões, Na masmorra de mármore. Sob a lápide, apenas pele e destroços. Sua dor volátil migrou para o invisível, rumo ao sol. O morto não mora no ossário, Na urna de cinzas prometida ao mar, Nos tesouros que guardava, No quarto que o aguardava. Não cessa no tiro, no corte, Ou quando, amorosa, a morte o elege No sossego da noite. O morto não morre. FÁBULA DA FILHA QUE VIROU MÃE A mãe não costura mais o vestido da menina magricela. Que não é mais menina nem magricela. Cresceu por meio século. A mãe tornou-se filha, quando os passos ficaram miúdos e os cabelos rareados. Mora na cama do quarto, tangenciando o centenário e seu ônus. Entre fraldas e enfermeiras, seu sorriso ensina a filha a ser rocha. Inútil sofrer, temer a data, enfeitá-la para partir serena e sem danos. A morte é sempre súbita, por mais que bafeje no cangote dos relógios, e prometa visita sob o martelo dos doutores. Mas a dita não traz na lápide o fim anunciado: A mãe nunca partirá, costurada que está na alma da menina, desdobrada no seu melhor gesto, nas palavras espalmadas aos carentes de mãe e de sonho. A mãe não é mais a fala fluida, a casa antiga, os bordados de flor, a samambaia chorona, o jardim. Não 56 rega AS mais as plantas, não planta. MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA Mas é plena plantação.


MARGA CENDON (1959)

Poeta gaúcha, é também artista plástica, cronista, contista e assina, atualmente, coluna na revista Viapampa (edição impressa) na cidade de Uruguaiana, onde reside. Participou de várias antologias (Os Cem Melhores Poemas do Twitter 2013) e publicou dois livros de poemas: Lonjuras(2013) e Sal e Trigo(2014).

POEMA 3 Não há fim. Tudo em mim é recomeço. POEMA 21 Sou enraizada no pampa. Quando um pássaro me habita sou uma árvore que canta. POEMA 39 Asa... Palavra que Remete às lonjuras Desenraíza-me. E já não cabe a solidão das gaiolas. Sou um verso que voa. CLASSIFICADOS DE CARNAVAL Eu, Colombina, procuro o Arlequim que chorou por mim no meio da multidão. Quem souber informar, favor contatar um dos mil palhaços no salão.

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LÍGIA DABUL

(1959)

Poeta e antropóloga carioca, é professora na Universidade Federal Fluminense e faz pesquisas em antropologia da arte. É autora dos livros de poemas Som(2005), Nave(2010), plaquete Algo do Gênero (2010)e Arame(2015) Tem poemas publicados em antologias, revistas e jornais literários, impressos e virtuais, no Brasil e em outros países.

FESTA Preocupam-se com a voz. Perdoam sempre a dispersão de ouvintes, a presença de corpos procurando outro contato e a tensão que já foi a original. Eu me lembro de antigos aditivos, prenúncios de desfechos, formas fixas, imagens bem mais vivas que a do instante: os teus olhos abertos sobrevoando sem que faça sentido essa fogueira acesa, a boca acesa, eu mesma acesa. Teus olhos não tiveram nunca idéia de tudo o que se queima e se oferece. PASSO DE EMBARCADIÇO um pouco de calma é preciso a nave ir devagar um palmo de mar muitíssimo se no navio flutuam premissa destino tudo canto de sereia melhor ir devagar VALVA nasciam os pêlos da perna e as partes seletas daí nicotina e a lanugem grudarem nos beijos cravaram o solo na tarde cataram uns frutos queriam apenas sementes calafetar junturas - os 58 dois AS inteiros MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA


REGINA MELLO

(1959)

Poeta mineira e artista plástica, vive e trabalha em Belo Horizonte. Com perfil multidisciplinar, realizou 63 exposições individuais e coletivas, nacionais e internacionais. Publicou dois livros/ escultura de poesia Livro de Vidro I e II (2004/2005). É autora dos livros de poema Cinquenta (2010), e Passos Partidos. Fundadora e diretora do Museu Nacional da Poesia – MUNAP, desde 2006. Curadora e idealizadora dos projetos: Galeria da Árvore, Sementes de Poesia, Ecolivro Brasil, entre outros.

Condicionados a rótulos bulas guias mapas cadastros etiquetas manuais listas regras gráficos catálogos leis instruções... onde fica nossa liberdade de pensamento? VITÓRIA DE SAMOTRÁCIA Desconectada Parada Armada Magoada Desesperada Privada Amada Machucada Disparada Pesada Adorada Mirada Desligada Pirada Atirada Melindrada AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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PAT LAU

(1959)

Poeta paulistana, já foi Patrícia Laura Figueiredo e Patrícia Laura. Desde cedo dedicou-se à poesia e ao teatro. Publicou o livro Poemas Sem Nome (2011) em edição bilíngue português/ francês, No Ritmo das Agulhas(2015) e Poemas Bebês(2016). Participou de várias antologias, no Brasil e na Alemanha, e também em diversas revistas digitais de literatura e poesia.

MINHA CASA no nada ela se equilibrava minha casa as salas cada vez mais largas o quarto cada dia de um lado por cima e por baixo o jardim vagabunda na poesia era assim que eu vivia minha vida sem horizonte nenhum desde menina (me foi dado) como enterrado um tesouro a solidão toda em mim com ela refiz as salas quebrei as escadas por ela destampei bueiros inventei sementes perfumei venenos e enraizada cresci hoje em seu nome vivo ausente sem medo do presente nesse mesmo lugar confortavel onde jamais existi

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ANA CAETANO

(1960)

Poeta mineira, é médica e professora da UFMG. Foi co-editora da revista Fahrenheit 451 e do jornal de poesia Dez Faces. Participou da coordenação dos projetos Temporada de Poesia (1994) - em comemoração aos 100 anos de Belo Horizonte, Poesia Orbital (1997) – coleção de livros de 60 poetas de Belo Horizonte, e do CD Cacograma (2001). Publicou os livros de poemas: Levianas (1984), Babel (1994) com Levi Carneiro, e Quatorze (1997).

Quase tudo pode ser descrito menos o escuro Quase tudo pode ser proscrito menos o que eu juro Quase tudo pode ser previsto menos o futuro ANATOMIA Qual a matéria do poema? A fúria do tempo com suas unhas e algemas? Qual a semente do poema? A fornalha da alma com os seus divinos dilemas? Qual a paisagem do poema? A selva da língua com suas feras e fonemas? Qual o destino do poema? O poço da página com suas pedras e gemas? Qual o sentido do poema? O sol da semântica com suas sombras pequenas? Qual a pátria do poema? O caos da vida e a vida apenas? ERRATA Nem tudo que foi dito é crédito digno de estória Nem tudo que foi mito é inédito repouso da memória Nem tudo que eu repito é mérito ou grito de vitória

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ANGELA CAMPOS (1960)

Poeta carioca, estudou letras na UFRJ. Já viveu na cidade do México e em Madri. Atualmente mora no Rio de Janeiro. Foi casada com diplomata e publicou Feixe de Lontras, em 1996.

Teus dedos farpas facas travessões deitam em desejo metáforas do toque, teus olhos lastros lábios luz escorrem em silêncio velados beijos de veludo. Teu escuro no escuro sombra ICTO traço a poeira das palavras que me pensam compasso do ócio o osso que rôo até o tutano no aconchego de ninharias chocadeiras .......................................................................................... A corcova calva do camelo me traz o desejo de incendiar vogais e ruminar as cinzas arenosas. Como a alma acalma o coração? Talvez com dromedários.

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BEATRIZ HELENA RAMOS DO AMARAL (1960)

Poeta paulistana, romancista, musicista, advogada e promotora de justiça. É mestre em literatura e crítica literária pela PUC-SP. Estréia em livro em 1980, com o romance Desencontros. Três anos depois publicou Cosmoversos, chamando a atenção de Fábio Lucas que definiu o livro como cosmotextos, nos quais estão presentes a metalinguagem, a busca do ser e do amor. Vieram a seguir: Encadeamentos (1988), Primeira Lua (1990), Poema Sine Praevia Lege (1993, finalista do Prêmio Jabuti), Planagem (1998), Alquimia dos Círculos (2003), Luas de Júpiter (2007).

DESENHO cabras dançam rotas verticais a crosta da montanha contorna metonímias a lápis crayon, a sombra sobre o pêlo, sobre a pele na espessura de um ensaio que a luz tece a hipótese da sílaba, — e o prisma ondulado se consume algum teor de amido se estenda nas bordas do bunker: a tentativa de vôo para a inexistência da asa NAU oh caravela errante, deixa o mapa, os sinais, o inútil pretexto asiático nada de teu fogo escapa à sorte – um rumo por outro perdido oh libra gentil tua sede oceânica parte o vento oscila tua vela do avesso equilíbrio do norte eis a rota onde a história desperta a lua de abril

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CRISTINA BASTOS (1960)

Nascida em Uberlândia, Minas Gerais, a poeta vive em Brasília desde 1972. Formada em Educação Artística, exerce também as atividades de artista plástica e fotógrafa. Participou de algumas antologias e publicou dois livros: Decerto Deserto (1992) e Teia (2002). Segundo o poeta Salomão Sousa, assim que publicou seu primeiro livro ela passou a ser considerada uma das importantes vozes da nova poesia de Brasília.

NÃO IMPORTA Não importa se não comando meu forte é ver navios em sossego sei sorver, se sopra brisas se venta, tempesteio. Não importa se sou mestre em arrasar passados, só no meu mapa Mexo é minha a história que calo, na loucura sei sorver, o mel, o veneno do meu prato. LIMPIDEZ Quando o profundo não diz o máximo com o mínimo interdito mesmo o emaranhado pode ser sucinto cristalino. 64

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DORA RIBEIRO

(1960)

Poeta matogrossense, nasceu em Campo Grande, viveu mais de 20 anos em Portugal e mudou recentemente para a China. Estreou com Ladrilhos de Palavras (1984) e publicou os livros de poemas Começar e o fim (1990), Bicho do Mato (2000), Taquara Rachada (2002), A teoria do jardim (2009), Olho empírico (2011).

quero falar uma língua nova principiada na carta do teu corpo sem escrita lúcida nem modos genitivos quero uma língua já gasta gentilizada versada em todos os paganismos sórdidos e elegantes imagino-a já enciclopédica ruminante e devoradora de esperas língua sem contenção musa de labirintos MEU CINEMA o plano está bastante inclinado e nós estamos lá simples e molhados (há ovelhas à volta e as árvores são esculturas feitas de ventania) o chão olha debaixo da minha saia e você vê ali o céu descoberto eu finjo distração e morro por segundos nos seus braços AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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JANET ZIMMERMANN (1960)

Poeta gaúcha, é calígrafa, colunista e publica em jornais e vários sites de poesia. Desde 1980 reside em Campo Grande. Participou do 1º Sarau Literário via Twitter no Brasil e fez parte dos 61 escritores convidados para a primeira Mostra #Tuiteratura (Sesc Santo Amaro- SP). Asas de Jiz (2013) é seu primeiro livro.

nem sol nem céu no seu dia : apenas um vel cro na boca da poesia ENREDANDO LIBERDADE tiro a alma da janela tiro a roupa da alma dispo-me de tudo o que enrosque minha trama com ela arredo tudo das vistas pra dar atenção à real visita enxugo os olhos d’àgua deixo livre a pista só não tiro a cama do caminho que é pra poesia deitar, rolar e soltar toda a gana rouca do canto preso na gaiola pouca CALDO ORGÂNICO caiu sal em gota na sopa caiu um cílio na sopa caiu um olho na sopa que me olha de esguelha sem fome sem nome caolha

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NERCY LUIZA BARBOSA (1960)

Poeta mattogrossense, formou-se em letras em São Paulo e vive em Rio Branco, no Acre. É professora de língua portuguesa, língua inglesa e literatura e arte, pela Secretaria de Estado de Educação do Acre e Universidade Federal do Acre.

DESDE QUE ME SEI respostas me foram perguntas quando juntas se confundem quero mais do mundo que em mim se fixa como invólucro quando me vem do centro sou o objeto de pesquisa aquele que enlouquece um pouco o resto do que sou numa cegueira que não vem dos olhos e sim do não entender visões outras vem de um pisar torto como quem rompe um ligamento e fica manco dos olhos que o pés não têm MARCO 0 eu sabia em algum momento se esvairia de mim a poesia nesse tempo uma aridez profunda me queimaria a alma então eu não mais seria dentro ao avesso todo sol me queima as vísceras à flor da vida - todos os extremos - ferida agonizo enquanto não me traduzo escrita

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ROSANA BANHAROLI (1960)

Poeta paulista, é jornalista, já foi membro da Comissão de Literatura de Santo André (2011) e trabalha com coordenação e difusão de projetos culturais. Participa de várias antologias e já teve poemas e microcontos publicados na revista Piauí, Portal Literal, Caderno Pragmatha e outros. Foi coordenadora de linguagem na Casa da Palavra (2014/16) e uma das responsáveis pela criação e realização do 1º Fliparanapiacaba (2014). Publicou Ventos de Chuva (2011), o livro digital 3h30 ou quase isso (2013) e Espamos da Rotina(2017).

varrer o chão dispersar o pó desossar a terra : plantar futuro RADIOGRAFIA Tenho no desenho meu avesso Ele vaza Ele sempre escapa E quando vejo o fosso Me reconheço outrora Do lado de fora ................................................................................ Num mundo ausente De espelhos abismos Labirintos absintos Minha dor é pimenta Sem dó e devaneios Minha fuga é no travesseiro Meu sonho é transpiração Troquei a fé pelo remédio Sou teimosa em pé. (OR) AÇÃO Vertigens dogmáticas Me levam ao chão Onde lavo meus pecados Em genuflexão

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VERA ALBUQUERQUE (1960)

Poeta paranaense, é psicóloga, educadora e ativista cultural. É autora de livros infantis, consultora editorial, criadora de projetos de formação para professores em estados e municípios. Coordenadora interina do Fórum das Entidades Culturais de Curitiba. Publicou o livro de poemas Sozinhes.

DESINSPIRAÇÃO Não! Não me ame. Não me ame por motivos que te fazem achar que me ama. As razões desse amor não estão em mim. E também não sei onde estão. Não me ame. Eu te imploro. NÃO ME AME. O amor que sente por mim é um fardo, um peso. Um muro no meu caminho que me faz parar. Como qualquer amor, não liberta. Então não me ame. Seremos dois não amados, mas livres. Eu prefiro...mil vezes eu prefiro. As rédeas brilhantes do amor cegam a visão, enganam os caminhantes e nos tiram a inspiração. Quero minha inspiração. Ela não vem desse amor. Ela vem do caos,das noites insones, ela vem da falta de amor...mas quando ela vem ela é plena,e me completa. Então não me ame. Mas se ainda assim me amar, não explique, nem justifique e Por deus – não me culpe. E por favor não me conte. Me ame em silêncio. É sublime e lírico...e me deixe ir. Porque por amor algum eu ficarei refém de nada, além de mim. E entenda enfim, que esse amor não existe. O amor só existe em si mesmo. Mas, se por desatenção ainda assim, quiser me amar, não ponha as razões da alma, não ponha as razões do corpo. Não fale dos motivos de Deus (estes ninguém explica). Não fale dos motivos meus (não existem). Se quiser me amar, me ame sem motivos. Não existem motivos no amor. Os motivos querem explicação. O amor ama. Os motivos não

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ELKE LUBITZ

(1961)

Poeta catarinense, é pedagoga com especialização em Administração Escolar e Orientação Pedagógica. Exercita o Fazer Poético através da publicação diária de seus textos em alguns sites literários, blogues, revistas eletrônicas e em sua fan page.Tem poemas publicados em várias Antologias. Faz parte da Academia Jacarehyense de Letras e está na fase final de preparação do seu livro solo.Já foi premiada duas vezes pela academia de letras de Jacareí: em 2013 e 2014. Atualmente atua como empresária e reside em Jacareí, interior de São Paulo.

Ando assim: Pertinho de mim Um dia me encosto ALINHAVO Na linha da tarde O fio da esperança Costura os vazios. O OUTRO LADO Construo poemas Para ser Lida Do outro Lado: O de Dentro. FOTOGRAFIA Não era Lua, Nem flor... Aquarelas mágicas - Mar e nuvens Tudo ela tinha Nas areias do seu quarto. - auto retrato ................................................................................ Nem sempre é um texto Às vezes é Só O alfabeto Desgovernado

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LENITA ESTRELA DE SÁ (1961)

Poeta maranhense, é graduada em letras e direito, com pós-graduação em linguística aplicada ao ensino de línguas materna e estrangeira. É também romancista, contista, dramaturga e roteirista. Publicou varios livros premiados. Em poesia, o último foi Pincelada de Dalí e outros poemas(2015) Prêmio Sousândrade.

SOBRADO DA RUA DO TRAPICHE Nem o musgo é capaz de trespassar a angústia que os cômodos vazios exalam ou mesmo as roupas penduradas na sacada disputando luz com insetos e lamúrias. Ali as horas se encantam em fermentar o ócio de tudo o que se move e ainda pulsa. A vida só espera um pouco nos meninos que soltam papagaios. FLUXO Sobre os telhados, quase tudo passa soprado feito folha para o esquecimento júbilo e pesar, tristeza e gozo a palavra nunca encontrada para dizer à exaustão a dor que carregamos. Só a possibilidade do amor não envelhece porque atravessa o limo, desconhece o tempo e tinge de encanto o que supomos morto. FILOGENIA Vestígio de avós, enigmas de renda Colares de contas, bilros, bordados Mar que se cruza, adivinhação. Não sei fazer doce de espécie Pago impostos, reclamo direitos Não nasci em Itabira, mas luto com palavras Não tive ouro, não tive gado, não tive fazendas E, vez por outra, preciso ser dura, de mármore Sensível ao mais ingênuo risco.

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CRISTINA OHANA (1961)

Poeta mineira, fez numerosas performances teatrais nas décadas de 80 e 90. Hoje, faz filosofia na UFSC, mantêm três blogues ligados à literatura e filosofia. Publicou 3 livros de poemas: Senhor S (1980). Fausto sem Rugas(2013) e Pele dos Dias (2014). Seu poema A Bíblia negra de Chamberlain foi vencedor do Prêmio Moacyr Scliar, em 2008.

POEMA VERMELHO Sangue no pano da cena Uma navalha risca a arena Homens castigam a terra que os castiga em omissão de águas Cactos suspiram mortos em paisagem assada ao sol de Granada Aqui jaz poeta e personagens Três atos sete quadros vinte e uma covas em matemática andaluz Depois, retirou sutilmente a pele de todos antes de os enterrar Ele os pariu orientou-os em tragédia por tanto pode assassiná-los Espanha anunciada no suicídio vermelho de Lorca ESTIRPE DE OSWALD Sou uma antropófaga da estirpe de Oswald portanto canibal devorando sempre minha própria fome.

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MARTHA MEDEIROS (1961)

Poeta gaúcha, cronista e publicitária. Em 1993, após ter publicado 3 livros, Strip-tease(1985),Meia-noite em quadro(1987) e Persona non grata(1991), abandonou a carreira e foi morar no Chile. Ficou por lá oito meses só escrevendo poesia. Alguns livros posteriores: De cara lavada (1995), Poesia Reunida (1998), Geração Bivolt (1995), Topless (1997).

nem velas nem molho branco hoje nosso jantar acontece por baixo da mesa desfias minhas pernas de seda teu beijo promete mais tarde jogo a toalha de renda no chão me rendo DE CARA LAVADA 177 hoje me desfiz dos meus bens vendi o sofá cujo tecido desenhei e a mesa de jantar onde fizemos planos o quadro que fica atrás do bar rifei junto com algumas quinquilharias da época em que nos juntamos a tevê e o aparelho de som foram adquiridos pela vizinha testemunha do quanto erramos a cama doei para um asilo sem olhar pra trás e lembrar do que ali inventamos aquele cinzeiro de cobre foi de brinde com os cristais e as plantas que não regamos coube tudo num caminhão de mudança até a dor que não soubemos curar mas que um dia vamos

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CYNTHIA LOPES (1961)

Poeta carioca, é formada em arquivologia pela Universidade do Rio de Janeiro. Prestou concurso em 2006 e trabalhou até 2012 no arquivo central do IPHAN. Atualmente está na Biblioteca Amadeu Amaral, no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Publicou o livro de poemas: Poêmia, poesia de pele e desejos(2012).

RECORDAÇÃO passa o tempo e com ele, te esqueço. passa o tempo e com ele me lembro. passatempo... brinco: lembro e esqueço. passa o tempo, brisa, vento: amor imenso. PERFIL um desenho rápido. em poucos traços, meu retrato. ESTAÇÃO o amor, esta via de mão única. caminho em sua direção como fosse para o cadafalso, submissa. por quê? talvez reconheça as minhas falhas em ti. o amor esta via de mão dupla, enquanto eu vou, você faz o caminho de volta. um show de desencontros absurdos. um vai e vem sem qualquer sentido. malas prontas pra partida, sem rumo. de certo apenas o incerto sentimento, a certeza do risco, de viver o perigo. malas prontas rumo ao coração partido... 74

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SANDRA FONSECA (1961)

Poeta mineira, escreve desde a adolescência, é psicóloga e trabalha como terapeuta. Participa de alguns sites de literatura na internet e de antologias poéticas no Brasil e Portugal. Seu primeiro livro “Dez Violinos Marinhos e Uma Guitarra de Sal” foi publicado este ano, em setembro de 2014abismoembaralhadas,lhai-

É AQUI É aqui Onde toco as palavras Que sei de mim Alguma certeza A alma contra a luz Do dia Os ossos, a carnadura A leveza do ouvido Colado à brisa A canção que só a mim Cabe silenciar E a boca pausada Se movimenta E articula a beleza Secreta e sedenta O mistério da palavra Ouvi A poeia me canta Por dentro Como um pensamento Como uma coisa imorredoura Sangramento Sem causa E sem pausa Arrastamento É aqui Que eu encho os meus olhos De absurdo E de espanto É aqui que eu fecho os meus ouvidos E canto

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LUIZA MENDES FURIA (1961)

Poeta paulista, jornalista e tradutora. Publicou seu primeiro livro ainda menina, com 16 anos: Madrugada e Outros Poemas (1978). Participou de diversas antologias coletivas e tem poemas em diversos jornais e revistas. Outros livros de sua lavra: Inventário da Solidão (1998) e Vênus em Escorpião(2001).

Deus é o Poema que todo dia não lemos Todo dia avançamos uma página e outra começa assim que a noite se cala. Deus canta e um pássaro salmodia. Ensurdecidos passamos em meio a esta babel de algaravias. Ele escreve certo por linhas tortas. O texto está em ti. INFÂNCIA – 3 Porque tudo na vida é passado rebusco-te nas fotos da infância o vestidinho pregueado alguma trança que se desfez ao vento cariciando seus cabelos frios Porque agora é também ontem habitando esparsas latitudes em contração e espasmo o pensamento delineia a sempre mesma busca Ainda hoje um raio claro povoou teu rosto, fragmentou-se em sombras efêmeros detalhes e em teus olhos se firmou como um sorriso frágil a serenar-se em fugaz arquitetura Revisito tua imagem cotidianamente e assim o meu amor se expande em tessituras de voo e altura Porque o passado é um76presente que perdura AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA


NOÉLIA RIBEIRO (1961)

Poeta pernambucana, nascida em Recife foi morar, ainda pequena, com a família no Rio de Janeiro. Com 12 anos mudou para Brasília, onde vive até hoje. Fez letras na UNB, especialização em língua portuguesa e inglesa. Participou do livro Salada Mista com os poetas Sóter e Paulo Tovar. Em 1982 publicou seu primeiro livro, Expectativa e em 2099, Atarantada. Nos anos 70, junto com os poetas Nicolas Behr e Paulo Tovar, o cantor Renato Russo e a turma do grupo Liga Tripa – agitou a capital federal e tornou-se a musa do Liga Tripa e da geração mimeógrafo em Brasília.

VERSATILIDADE MATERNA O filho grita, a filha chora, o gato mia, o pai canta. A mãe pede um minuto de silêncio para fazer tudo isso ao mesmo tempo. CÓDIGO DE BARRAS A primeira foi o beijo. Depois vieram a indiferença e as diferenças, colocadas lado a lado. Houve também melancolia e desprezo velado. Da mistura dessas barras impenetráveis resultou o código do nosso amor chinfrim: sem começo e sem fim. DEVER DE CASA A porta de minha casa separa vontades e deveres. Estes cumpro fielmente enquanto o pensamento voa demente. À porta de casa, ainda hesito. Guardo as asas e inicio o rito.

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SUSANNA BUSATO (1961)

Poeta paulistana, doutora em Letras (UNESP/São José do Rio Preto) e mestre em Comunicação e Semiótica (PUC/ SP). Professora de Poesia Brasileira na UNESP de SJRP. Prêmio Mapa Cultural Paulista, categoria Poesia, em junho de 2010. Tem poemas publicados na Revista Cult, Revista Brasileiros e nas revistas eletrônicas Zunái, Aliás, Mallarmagens e Revista Pessoa, além de revistas no exterior.Publicou o livro Corpos em Cena (2013) finalista do Prêmio Jabuti em 2014.

CURTO-CIRCUITO curto circuito raio trombeta na tua corrente elétrica me viro capoto estopim de baioneta PELE NUA Porque a tua mão segura ruptura de pele e agulha patrulha e segue a minha insondável nervura. E porque nunca antes tocada a pele segura se rasga no paraíso e grava língua sede e saga. DE LUXE O luxo é importado não importa de onde vale preço etiqueta no ombro na bolsa no sapato fincado em cartão dividido a crédito e ansiolítico.

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CONCEIÇÃO BASTOS (1961)

Poeta baiana, nasceu em Ribeira do Pombal e veio para São Paulo em 1987. Desde então volta periodicamente aos caminhos da roça baiana.Em 2001 foi morar em São Bernardo do Campo. Mas não deixa de participar de atividades culturais e poéticas em São Paulo, Mauá e Santo André. Tem textos publicados em Estas Histórias, antologia das oficinas de criação literária do MLSegall, 2005; na Revista Tantas Letras, de 2010, e alguns textos esparsos publicados em zines e blogs.É autoras de dois livros de poesia: Diário de uma Mulher em rota de chuva (2012) e Perto do coração o mar se levanta(2016). Já foi premiada duas vezes em concursos literários.

PASSION I entre o corpo e a palavraq o abismo; entre o corpo e a parede o corredor um quarto escuro; entre a sua cidade e a minha a estrada uma árvore perfurada de tempestades e suas raízes expostas: o inverno foi invadido por flores roxas. QUANDO quando a porta está fechada e vidros se quebraram, quando papéis voaram pela janela quando há muros por todos os lados quando na noite de insônia quando a casa parece tranquila e, com um baque, o vento fecha a porta quando quaquier palavra esbarra na não-palavra DESPEDIDA I todos os murais irão estampar o teu rosto nas pareces, nas janelas, nas telas O teurosto se misturando com imagens de cavalos com asas O teu rosto atravessando um túnel noturno e chuvoso do lado de cá ficamos com o eco do teugrito de sol. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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ALICIA DUARTE PENNA (1962)

Poeta mineira, é professora de arquitetura e urbanismo, na PUC mineira, crítica de arte, arquiteta e geógrafa. Em 2005, escreveu sobre a artista Rosângela Rennó, no livro Fotoportátil. Em 2012, publicou o livro de poesia Quarenta Poemas em Dez.

UM QUARTO DE SÉCULO Sofrer é pouco. Ser feliz é pouco. Quero o destino de volta! O tremendo destino que tinha aos quinze anos, o imperativo dedo de Deus apontando o absoluto: sim é Sim, não é Não. A UM PASSANTE Você não é belo ao passar. Pálido ou indesculpavelmente branco, cabelos recém-lavados, óculos espelhados, de corrida como os de um cavalo, o aro amarelo mal se equilibrando no rosto de ossos, civil, moderna, heroicamente feio. Traficante, dono da boca, do pedaço? Não sei, mas sabe você como haverão de saber outros. A caminho da favela, seus passos – planos – estão traçados, como os meus. Em círculos caminho, circunscrita, ou corro, presa da organização – outra? – de que preciso, ser-no-mundo vasto e sem solução. Raimundo poderia ser o seu nome quanto o meu, em letra somente para poucos decifrável, assinados em multidão.

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FIDÉLIA CASSANDRA (1962)

Poeta paraibana, é escritora, cantora, compositora, jornalista e professora. Trabalhou na TV Borborema, na Rádio Campina FM e no Paraíba online. Publicou os livros Amora(2002). Plumagem (2008). Cartas de Penélope, (2010.) e Melikraton (2013). Tem alguns CDs gravados, com show em diversas cidades do Nordeste.

POÉTICA X Poesia É chuva Que se desmancha na terra, Um suspiro na boca. Poesia É tempestade Que desmancha a terra. Procela, procela. Poesia É água Cristalina, de beber. Pingo no vidro da janela. LADO DE DENTRO O amor não cabe no cotidiano E sim na lágrima, na gotícula, No abismo. O amor não cabe no poema. Ele é a metáfora, o véu, a ostra. Tudo o que se acha e se perde Num mesmo instante! O amor não cabe no papel E sim na asa, no fogo, no vento... Nas folhas exangues perdidas no ar. O amor não cabe no vermelho do tijolo. Cabe na desconstrução do verso, Nas ruínas, nas ranhuras, nos sulcos do tempo. O amor não cabe em si. Ele é o outro, o próximo. Aquele que mora do lado de dentro.

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MARIZE DE CASTRO (1962)

Poeta potiguar, é formada em Comunicação Social e exerce a profissão de jornalista. Autora dos livros A mesma fome (2016), Esperado Ouro(2005), Poço, Festim, Mosaico (1996) e Marrons crepons marfins (1984). Tem textos publicados em revistas nacionais e internacionais e já publicou poemas no Jornal do Brasil, Estadão e revista Poesia Sempre. O festejado poeta Haroldo de Campos afirmou: ” Em seus versos há algo de fundamental, algo entre o belo e o verum, a verdade em beleza, um cuidado especial com a síntese, um encontro com a poesia.”

NÉCTAR A verdade aproxima-se. Olha-me com os olhos abismados da beleza. Não sou a mulher que corta os pulsos e se joga da janela nem aquela que abre o gás nem mesmo a loba que entra no rio com os bolsos cheios de pedra. Sou todas elas. Escrever me fez suportar todo incêndio – toda quimera. ERMA Recolho-me tão profundamente que tudo me alcança: mísseis, desastres, lanças. Recostada ao rosto de Deus pedi-lhe a fé perdida a palavra antiga – invencível. Ele me deu o mar no nome e uma fome borgeana, dizendo-me: Eis sua herança, jovem senhora de velhíssima alma e furiosas lembranças. SOLAR Cadáveres despertam depois do amor. Lágrimas choram e se estrangulam. Não sou a mulher que você vê. Não sei o que é o inverno - nunca vi a neve. O meu ofício é reinventar asas para o sol.

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ROSANGELA DARWISH (1962)

Poeta paraense, formou-se em psicologia, em 1984, pela Universidade Federal do Pará, e exerce a profissão de professora de psicologia da Universidade da Amazônia. Possui doutorado em psicologia e é autora de Quando Fernando VII Usava Paletó (1982); Levasse as Coisas na Flauta (1988); Histórias Mortas (1993).

Quando aceitei o fato de que a Terra não é apenas redonda mas está solta no espaço, girando em torno do sol e de si mesma, fiz do céu uma primeira aula de irrealidade. Olho os meus pés sobre o chão e tento me ver azul como sei que sou azul quando desapareço ao longe. Avanço além do que percebo porque me movo através de palavras e fiz delas, portanto, uma segunda aula de irrealidade. A seqüência de números pode indicar que insisto em meus erros porque quero o absurdo que dispensa a lógica. Cada astro em sua órbita, cada som com um sentido, é possível que a terceira aula de irrealidade seja a última, assim como é possível que não seja. ......................................................................................... Lia uma revista comparando tuas mãos à cor das páginas. Na televisão passava um filme com a tua voz e uma cena da noite de ontem esvaziava a tela. A janela refletia o que pensavas, compassiva às paixões humanas. O que dizer do espaço para discordâncias? Amar enlouquece, sabiam os antigos, então modernos. Estavam errados porque estavam certos. ........................................................................................... Na direção oposta ao movimento aparente do sol à nossa volta ou mediante o fluxo instável da lua nova, asas para o tempo voar, ir embora. Precisei da aurora no início da tarde

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CLIO FRANCESCA TRICARICO (1962)

Poeta paulista, fez mestrado e agora faz doutorado em filosofia pela Universidade Federal de São Paulo. Integra o grupo de pesquisa: O pensamento de Edith Stein e traduziu o livro Pessoa Humana e Singularidade em Edith Stein, do professor de filosofia italiano Francesco Alfieri. Já publicou poemas na Antologia del Premio Mondiale di Poesia nos anos 2012, 13 e 14.

Nasci nessa cidade, nesse bairro A cada dia, mais barulho Menos vizinhos, menos pipas Só a madrugada me salva: Ainda posso ouvir o trem ao longe É meu cheiro no travesseiro... SEGREDO Não busque o segredo dos anos nas entrelinhas da história. Ele está no voo dos pássaros quando surfam o vento. De nada serve interpretar velhos pergaminhos nem desbravar estrelas nem decifrar os mitos. Cada medo, cada vitória, salvaguarda o seu casulo, semente inefável de anseios. As rugas, sulcos do tempo, esculpem no rosto nossos desmandos. Nenhuma delas traduz o fogo que persiste até o desfecho. Como flechas, atravessamos séculos eternos: fazemos milagres, superamos absurdos... Mas nem um deus descobrirá a nascente de uma lágrima.

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THAÍS GUIMARÃES (1962)

Poeta mineira, nasceu no Ceará. É autora dos livros “Jogo de Cintura”, “Jogo de Facas” e do infantojuvenil “Bom Dia, Ana Maria” (Prêmio Jabuti), além das plaquetes “Dez Pretextos”, “Seis Poemas” e “Notas de Viagem” (dentro da Coleção Leve um Livro). Tem poemas publicados em antologias nacionais, impressas e on-line, e também em revistas e suplementos literários. Coordenou e ministrou várias oficinas de poesia desde 1984.

O anjo combalido nada sente, nada vê Adormece o sono dos heróis Sob a bandeira da inutilidade: Nada fiz, nada sou. O verso foi escrito, reescrito, E a natureza é morta. DA SÉRIE PAISAGENS santiago, 1984 noite de calmaria a praça vigia nosso amor de artilharia SOBREVIVENTES Não há mais país, pátria, amigos, tudo é virtual silêncio correndo no dia ao encontro do precário, essencial sentido de seguir. Por que não parar num declive qualquer da memória? Perdi bondes, trens, caronas, agora olhando o céu tão perto das nuvens busco referências na ausência das distâncias, dos limites, das cidades, e em velocidade supersônica meu coração pode parar em um segundo, desconectar geral , em busca de uma sala de amigos, casa sem móveis, violão, cachaça, agito, joão, barreto, sônia, tião, carlinhos, tempo sem pressa. Imprescindível. Não há tristeza, desamparo, amargura. Estamos todos seguros nessa aldeia protegida, da morte vivemos, particulares, produzindo, acessando a palavra inexorável, agora plena de sentido, vigora. Nomeamos os que morreram, enlouqueceram ou apenas partiram, sem dizer adeus seguimos. Alguns lançam garrafas ao mar. Outro dia, encontrei uma mensagem criptografada. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA 85 Poesia!


VALÉRIA TARELHO (1962)

Poeta santista, formou-se em direito, mas optou pelos caminhos da poesia. Tem participado de leituras públicas (Casa das Rosas e Itaú Cultural), integra o quadro de colaboradoras fixas da revista escritoras suicidas e publica trabalhos nos sites Blocos, Germina e Usina de Letras. Publicou os livros O amor nem sempre tem o mesmo CEP(2017) e Sol a Cio(2010). Tem poemas em livros didáticos do ensino fundamental e ensino médio, antologias, poemas musicados e encenados no projeto Poeta em Cena, 2009, da Casa das Rosas. Participa do Livro da Tribo desde 2004.

mil mulheres se acotovelam dentro de mim. mil e uma me revelam. nenhuma sabe de si. FICAR COM CERTEZA MALUCO BELEZA pouco importa se amor é porto ou precipício amar é parto de certo risco inferno dentro do paraíso fomos feitos para isso : um pé no spa outro no hospício DO ARCO DA VELHA ele flecha eu alvo [fácil] quando moça sonhava suas lanças já mulher ansiava as setas até hoje estou às moscas

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ADRIANA VERSIANI (1963)

Poeta mineira, nasceu em Ouro Preto, tem cinco livros publicados. Eis alguns: A física dos Beatles(2005), Contos dos dias(2007) e Livro de Papel(2009). Integrou o Grupo Dazibao de Divinópolis/Belo Horizonte. Foi co-organizadora da Coleção Poesia Orbital e do Jornal Inferno. É editora do Jornal Dezfaces. Faz parte do conselho editorial da Revista de Literatura Ato.

Um anjo sangra na sacada e ela, ferida, mergulha para dentro do sono. Panos para sempre no varal da infância. CÓDIGO Perdoe-me por não saber amar em outra língua. estes versos, que me atravessam como uma rua acidentada, não os explicito. perdoe-me por não saber cantar em outra língua. estes versos, que me iluminam como as pedras que faltam na rua acidentada, não os traduzo. perdoe-me por não saber beijar em outra língua. estes versos que se soltam e me encharcam. VÉU 3 Surpreendo-me, amiga, ao vê-la longeva e lúcida, porque sempre soube em você o sinal de nascença, a infância nos laranjais: marcas de batalha. Mais perto da palavra, mais próxima da morte. Sumo: palavraponte para atravessar. Soco: palavraponte para explodir. Amiga, ouça-me: Poesia é a guerra.

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LISBETH LIMA DE OLIVEIRA (1963)

Poeta paraibana, formada em jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba. Fez especialização em língua e literatura francesa e mestrado em biblioteconomia. Morou quatro anos e meio na França. Desde 1998 mora em Natal. Publicou os livros de poemas Dormência (2002), Felice(2004) e Româ (2008)

DILIGENTE Desliza ágil, qual dedos sobre cetim, o grafite. E desenha. E rabisca. Mas é quando escreve palavra que ele se mostra veloz, quase indomável, como são as palavras quando querem ser lidas. INCENDIÁRIO Debandaram pássaros, bichos de arribação. Flores queimadas na estrada não se deixaram cheirar. Um amor perdido, negado, devasta, abre clareiras. É invasivo o fogo da ausência. ENCONTRO Trouxe-me a chuva. E, depois dela, céu aberto, anil. Trouxe-me a noite. E, dentro dela, seu corpo chuviscado, amanhecido junto ao meu. Dia claro, céu aberto. abril. EXIGÊNCIA Quero um colo que me cale; que me fale enquanto calo.

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MARIA ESTHER MACIEL (1963)

Poeta mineira, ensaísta e ficcionista, vive em Belo Horizonte desde 1981. É professora de teoria da literatura da faculdade de letras da UFMG. Realizou estudos de pós-doutorado em literatura e cinema na universidade de Londres, onde ocupou também o cargo de pesquisador visitante.Já publicou vários livros de ensaio e ficção, dentre eles O livro de Zenóbia, finalista do prêmio Portugal Telecom de 2005. Seu segundo romance, O livro dos nomes, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, do Prêmio Portugal Telecom e do Prêmio Jabuti em 2009. De poesia publicou: Dos Haveres do Corpo(1985) e Triz (1999).

NOTURNO (a T. S. Eliot ) O dia é noite no poema: Sombras, pedras, luas secas encobrem a estação das flores. Sobre o deserto memory and desire ainda restam: ecos entre as cinzas deste verso. Will it bloom this year? Na terra triste do poema enterro o fim e o infinito: me faço silêncio, eclipse. OFÍCIO Escrever a água da palavra mar o vôo da palavra ave o rio da palavra margem o olho da palavra imagem o oco da palavra nada. BLACKHEATH A poesia me chama entre as árvores de folhas incompletas. O vento é frio, apesar de terno. Corvos mancham o azul sem peso desta tarde que não começa. O trem também me chama. E não vou. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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CLAUDIA ROQUETTE PINTO (1963)

Poeta caroioca, formou-se em tradução literária pela PUC-RJ. Dirigiu, durante cinco anos, o jornal cultural Verve. Tem cinco livros de poesia publicados: Os Dias Gagos (1991); Saxífraga (1993); Zona de Sombra (1997); Corola (2001 – Prêmio Jabuti de Poesia/2002) e Margem de Manobra (2005), finalista do Prêmio Portugal Telecom, em 2006.

NO ÉDEN peça a ela que se desnude começa pelos cílios segue-se ao arame dos utensílios diários (insônia alinhavando-se de tiros, a infância seus disfarces) é preciso que se arranque toda a face deixar que os olhos descansem lado a lado com os sapatos na camurça oscilante de um quarto isso, se quer (sequer desconfia) tocar o que se fia (um par de presas, topázios) entre os vãos das costelas abra o fecho ela desfecha no escuro o quadrante onde vaza a luz e suas arestas NUMA ESTRADA a noite é um sopro doce e degenera o bafo do que ainda vai morrer o som da roda o asfalto não sossega e chispa o trilho do trem o trilho do trem a noite é uma espera fraudulenta que as horas tecem sempre recomeça as árvores esgarçam sua pele com unhas de fumaça a noite insone torce e mastiga o som que a boca nunca pronuncia a noite entrega a carne arrependida à avidez da lâmina do dia.

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NATALIA BARROS (1963)

Poeta santista, é cantora, atriz e paisagista. Foi contemplada pelo Proac 2011 de literatura. Fez parte do grupo Luni como cantora e integrou o XPTO como atriz. Já foi reporter do programa educativo Telecurso 2000 de 1994 a 1997, exibido até hoje, diariamente, pela TV Globo e várias TVs educativas no Brasil e no exterior. Publicou apenas dois livros com seus poemas: Caligrafias(2012) e Nuvens Ornamentais(2016).

Cada vez mais : indignada Cada vez mais : romântica Cada vez mais : o êxtase perfura Cada vez mais : a realidade dura HUMANO Tudo teima em se alterar O de dentro quer sair O de fora quer entrar Mas se eu não me engano Não seria isso Ser humano ? UM ATO a poesia é o pulo do gato sem o pulo sem o gato BIO-GRAFIA tem dias que só mar adentro acredito em vida antes da morte soa como sou) not sad but blues incendiariamente crio coragens procuro palavras enquanto me deslivro delas modulo entre o ultravioleta e o infravermelho recebo o afeto que se encerra estaria morta se não renascesse enmimesmada com a chuva lusco-fusco quando estou comigo sinto saudades do mar

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CRISTINA RAMALHO (1964)

Poeta carioca, artista plástica, professora universitária e ensaísta. Estréia em livro com Musa Carmesim(1998) poemas de sondagem do universo feminino. Tem participado de antologias (Versos Diversos e Caleidoscópio), congressos e publicado artigos em revistas especializadas. Outro título de sua obra poética: Laço e Nó (2000).

CANTO I - CORPO VIAJANTE Parto não porque queira ou porque seja mais sensato parto porque é outono e eu sou a folha que lentamente derrama na estrada o seu fim. Parto não porque possa nem porque deva nem porque esqueça Parto porque é dia e eu sou a luz da última estrela. Quem sabe parta porque só assim possa renascer em mim outro ser. Quem sabe parta porque ter um fim é destino certo de toda viagem. Mas a despedida a tenho adiada e calada fico vendo-me partir. Morro como o sol no horizonte da lembrança folha que o vento leva em sua andança e que nenhuma primavera traz de volta ao amanhecer. ACONCHEGO Minha língua me lambe todos os dias gata que me banha de sossego entre sotaques e já sem medos me aninho nas cores de seu aconchego 92

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LUCI COLLIN

(1964)

Poeta paranaense, ficcionista, tradutora e professora universitária. Foi também professora de piano e tocou como percussionista na Orquestra Sinfônica do Paraná. Enfrentou o dilema de prosseguir com a música e com a literatura.Optou pela literatura e publicou os livros: Estarrecer (1984), Espelhar (1990), Poesia Reunida (1996), Todo Implícito (1997), Trato de Silêncios (2012) e Querer falar (2014). Também já publicou contos e participou de antologias nacionais e internacionais.

TODO IMPLÍCITO não o sentido absoluto tampouco o tudo só esta certa presença que não pretende que não pergunta nem responde livre da voz livre do tempo mais do que livre o todo implícito no fragmento ISTO rápido isolado rasgo um flash de um seu sorriso vem à memória chama que gelo melhor mesmo fosse incêndio queimasse as lembranças todas meu corpo seu corpo e o corpo do tempo que nos separa

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LUCIA SANTOS

(1964)

Poeta maranhense, cursou teatro e ao lado de atores, músicos e poetas, roteirizou e apresentou vários recitais performáticos, como Batom Vermelho, Eros&Escrachos, Ménage à Trois, Papas na Língua e Nu Frontal com Tarja. Participou de algumas coletâneas e publicou Quase Azul Quanto Blue(1992) Batom Vermelho (1998) e Uma Gueixa pra Bashô (2006), livro de haicais com apresentação da poeta Alice Ruiz.

CILADA Me esgueiro em teu pelo Lagartixa tonta Dentro em pouco ave Te enlaço num beijo Centopéia louca Deixando mil rastros Estrago teu tédio Profano teu claustro Descalça, de leve Fuxico em teu peito Uma palavra surda Imitando chave. EQUAÇÃO Num abraço O amor nos ata Arrebata Embaraça Num lance Somos nós Nó de um mesmo laço LINGUAGEM De dia A lição das palavras Ocas De noite A lição das bocas Que só falam Línguas

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SANDRA SANTOS (1964)

Nascida no Rio Grande do Sul, estreou cedo: com 15 anos publicou o primeiro livro (1º lugar Concurso Literário Centenário SLG, “Crônicas de Minha Cidade” 1979). Desde então, vem espalhando crônicas, contos ou poemas pela web, em antologias, sites ou revistas literárias. É artista plástica, coordenadora do Espaço Cultural Castelinho do Alto da Bronze, mantenedora da Casa Naïf e curadora do Projeto de Incentivo à Leitura Instante Estante Costuma dizer que sua biografia “está na memória de quem esteve comigo”.

um anjo soletra meus versos ao pé, duvido O CAPOTE o capote testemunhava falas não gravadas atas não lidas o capote vestia um cabide que escondia um prego enferrujado o capote em luto setenciava mudo e o general pouco aos poucos esquecia tudo o capote e o furo da bala na lapela da morte ........................................................................................ engoli num sebo toda a literatura de um só gole golpe de martelo estufou feito sapo bandeira e nunca mais voltou pelo gargalo

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MARÍLIA KUBOTA (1964)

Poeta paranaense, é escritora e jornalista. Publicou poemas nos livros Pindorama (2000), Passagens (2002), 8 Femmes (2007), Antologia da Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milénio (2008), Selva de Sentidos (2008), Blablablogue (2009) e Todo Começo é Involuntário - Poesia Brasileira no Início do Século 21 (2011). Seu livro, Esperando as Bárbaras, foi publicado em 2012.

CONSTATAÇÃO as mulheres óbvias falam de filhos falam de homens as mulheres óbvias falam de dramas falam de lares as mulheres óbvias têm medo do desespero de domingos sem família de ruas solitárias à noite de romances em que não se vejam como heroínas as mulheres óbvias fritam bolinhos tantas passeiam a esmo contra as mulheres óbvias mas óbvias e extraordinárias nasceram da mesma costela ESTE SILÊNCIO este silêncio é pra ser ouvido como quem ouve um velho amigo como quem põe sentido e repercute o menor ruído este silêncio é pra ser ouvido contra o motor do avião e placas de Proibido pra ser ouvido como quem anda pra trás e acha divertido viver por um triz este silêncio é pra ser cortado por um pé de vento e súbito abatido. 96 cair AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA


VIVIANE MOSÉ

(1964)

Poeta capixaba, psicanalista e filósofa, ganhou extrema notoriedade ao trazer temas da filosofia para a linguagem cotidiana em programas de televisão. É nietzschiana –sua tese de doutorado é sobre o grande solitário --e foi publicada, em 2005, com o título Nietzsche e a grande política da linguagem, pela editora Civilização Brasileira. Estreou em livro com Escritos(1990). Outros títulos: Receita Para Lavar Palavra Suja(2004), Pensamento Chão (2007) e Toda Palavra(2008).

PROSA PATÉTICA Nunca fui de ter inveja, mas de uns tempos pra cá tenho tido. As mãos dadas dos amantes tem me tirado o sono. Ontem, desejei com toda força ser a moça do supermercado. Aquela que fala do namorado com tanta ternura. Mesmo das brigas ando tendo inveja. Meu vizinho gritando com a mulher, na casa cheia de crianças, Sempre querendo, querendo. Me disseram que solidão é sina e é pra sempre. Confesso que gosto do espaço que é ser sozinho. Essa extensão, largura, páramo, planura, planície, região. No entanto, a soma das horas acorda sempre a lembrança Do hálito quente do outro. A voz, o viço. Hoje andei como louca, quis gritar com a solidão, Expulsar de mim essa Nossa Senhora ciumenta. Madona sedenta de versos. Mas tive medo. Medo de que ao sair levasse a imensidão onde me deito. Ausência de espelhos que dissolve a falta, a fraqueza, a preguiça. E me faz vento, pedra, desembocadura, abotoadura e silêncio. Tive medo de perder o estado de verso e vácuo, Onde tudo é grave e único. E me mantive quieta e muda. E mais do que nunca tive inveja. Invejei quem tem vida reta, quem não é poeta Nem pensa essas coisas. Quem simplesmente ama e é amado. E lê jornal domingo. Come pudim de leite e doce de abóbora. A mulher que engravida porque gosta de criança. Pra mim tudo encerra a gravidade prolixa das palavras: madrugada, mãe, Ônibus, olhos, desabrocham em camadas de sentido, E ressoam como gongos ou sinos de igreja em meus ouvidos. Escorro entre palavras, como quem navega um barco sem remo. Um fluxo de líquidos. Um côncavo silêncio. Clarice diz que sua função é cuidar do mundo. E eu, que não sou Clarice nem nada, fui mal forjada, Não tenho bons modos nem berço. Que escrevo num tempo onde tudo já foi falado, cantado, escrito. O que o silêncio pode me dizer que já não tenha sido dito? Eu, cuja única função é lavar palavra suja, Neste fim de século sem certezas? Eu quero que a solidão me esqueça. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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PAULA GLENADEL (1964)

Poeta carioca, é ensaísta, tradutora e professora de literatura francesa na Universidade Federal Fluminense. Fez pós-doutorado na Universidade de Paris VIII, com o poeta parisiense Michel Deguy. Teve poemas publicados em antologias no Brasil e Exterior e textos críticos em jornais e revistas. Publicou três livros: A vida espiralada (1999), Quase uma arte (2005), A fábrica do feminino (2008).

O OUTRO, O MESMO é do outro, ventríloqua a voz que articulo mal flui de mim, vampirizada uma seiva que não volta em lugar da epifania entra a aparição sobe ao palco o outro, o indesejado nem vivo nem morto vestido com minha pele mesmerizada CRISÁLIDA Agora já não pedes meus nervos em pasto agora já te afastas crescida em beleza agora me contas piadas que aprendes ou inventas agora pressinto tuas asas QUASE UMA ARTE grande amor tenho por seus membros ombros pescoço braços pernas o viril mais forte do que tudo a mão que estendo sem cessar parece que pede mas oferece nada ou quase uma arte: joga nos dados o olho por olho o dente por dente

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CÁSSIA JANEIRO (1964)

Poeta paulistana, é formada em filosofia e serviço social. Foi professora universitária e consultora da UNESCO. É secretária-geral da União Brasileira dos Escritores (UBE). Ganhou o Prêmio Mundial de Poesia Nósside (2014)e participou de várias antologias. Publicou Poemas de Janeiro(1999) Tijolos de Veneza(2004) e A Pérola e a Ostra(2007) finalista do prêmio Jabuti em 2008.

PÉS Sob meus pés, Nada – E esse nada me Sustém ABANDONO Elas esbarram em nós Com seus chocolates, balas, truques E limpam nossos para-brisas nos faróis. Sua infância escorre como aquela Água suja que vejo no vidro. Uma moeda qualquer É a medida do seu valor. São crianças sem dúvidas poéticas Ou filosóficas. Não há Hamlets entre elas. Não estão entre o ser e o não ser. Não são. POEMA DA TUA AUSÊNCIA (Para Antonio Candido) Um poema de amor na tua Ausência É mostrar a dor nua com Inocência. É falar dessa dor que não Sinto E que me dói por não Senti-la. Será essa uma mentira Inacabada? Será essa dor insuportável Incapaz de sentir-se? Um poema de amor na tua Ausência É uma vã tentativa De te ver ali, imóvel, E de te amar na sombra AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA Que ficou em mim.

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SANDRA REGINA DE SOUZA (1965)

Poeta paulistana, fez letras na USP e trabalha como revisora na revista Cult.Antes passou pela editora Positivo e Ática. Publicou os livros de poemas O texto sentido (2008), Haicaos(2012) em parceria com Múcio Goes e Visita Íntima(2015). Em março de 2018 Sandra transformou Senhoras Obscenas, projeto pessoal e artístico de Graziela Brum e Adriana Caló, em selo editorial. ’Damas entre verdes’ é a primeira publicação dedicada à arte feminina.

IMPONDERÁVEL Num prato vazio a vida servida a sangue frio OUTRO(DIA DE) DOMINGO Por trás da cortina a retina trz o rosto o gosto o gesto Fecho os olhos e os olhos (vendados) veem o resto REVERSO Cansada de fazer poemas que ninguém lê hoje vou vestir minhas rimas obscenas e me despir pra você IDENTIDADE Também sou de repente de rompante sou dos detalhes dos retalhos sou de intriga de entrega: e é isso que me faz da guerra ou da paz

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AILA MARIA LEITE SAMPAIO (1965)

Poeta cearense, é professora universitária. Desde adolescente participa de movimentos literários. Escreve contos, crônicas, poemas e ensaios, que vem publicando esparsamente em jornais, revistas e blogs. Publicou dois livros de poemas: Desesperadamente Nua (1987) e Amálgama (2001)

SEPARAÇÃO Deixo teu corpo como quem deixa a pele e em carne viva se expõe ao sol. Como o filho que deixa a casa, deixo teu corpo em silêncio sem itinerário e só. Deixo teu corpo como quem abandona o cais e perde-se mar adentro sem medo de não voltar. Como quem naufraga, deixo teu corpo e minha alma nele nua a dardejar. Como quem se mutila, deixo teu corpo como quem deixa a vida. AUSÊNCIAS O que me habita é feito de ausências: a casa perdida nos abismos da memória, o amor feito lembranças do que poderia ter sido, a criança que insiste em rasgar o tecido do tempo em que borda sua história. O que tenho são metades, nunca inteiros. Sou feita assim, dessa argamassa vil dos crédulos que sonham sem medo dos interditos e dos desesperos.

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LAZARA PAPANDREA (1965)

Poeta mineira, é formada em história e pós graduada em teoria literária. Coordenou até 2011 o grupo Café com Poesia e Arte, que ainda faz apresentações regulares no Museu de Arte Moderna Murilo Mendes. Publicou o livro de poemas Tudo é Beija - Flor (2016) Vive atualmente em Juiz de Fora.

ou uma coisa ou outra é sempre assim começo e fim ai de mim ai de nós conceitos prontos sem pós só contras só afrontas dois pesos muitas medidas a conta gotas! CRISE HÍDRICA seco o corpo o copo o vento o medo a rua o alento. secura de não dar enredo de não poder poesia de não saber candura. seco feito placa dura de cimento num esquecimento de séculos. seco, e nossos dedos rígidos de pecado e dádivas. ....................................................................................... E a gente vai levando E a gente vai lavando Água suja escorrendo Pelos quatro cantos Do pranto Que vira riso Enquanto a vida, de improviso, Arruma de ser fonte! 102 jeito AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA


MÁRCIA FRIGGI (1965)

Poeta gaúcha, é professora graduada em letras, especialista em linguística. Nasceu na pequenina cidade Mata, no Rio Grande do Sul, que tem apenas 5 mil habitantes e é dona de um dos maiores sítios arqueológicos com madeira petrificada do mundo. Hoje vive em Indaial, Sta Catarina e conquistou grande visibilidade quando sofreu agressão de um aluno em sala de aula. Seu primeiro livro será publicado no segundo semestre de 2019. Sobre voltar a dar aulas ela disse: Volto ansiosa, um pouco temerosa, mas cheia de esperança, afinal é ela -a esperança - a matéria prima do trabalho dos professores de ensino básico.

VALE

(A todas as vítimas de Brumadinho: aos que se foram e aos que ficaram)

A eles - o minério o nióbio o níquel

A nós - a pupila incendiada e os olhos postos como um sol amargo sobre o plexo dos sonhos A eles - o carvão o manganês o potássio A nós - o punhal da morte sobre os ombros e um cemitério imenso sob escombros A eles - A Vale do ferro dos Royaltis do lucro A nós - O vale de lama lágrimas e luto

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ANA PELUSO

(1966)

Poeta paulistana, é designer gráfica. Abandonou Letras e Psicologia pelo Desenho Publicitário. Não deu certo. Aos treze anos sonhava ser Alquimista. Aos cinco, Bailarina, Pianista, Pintora. Aos sete, Professora. Escrevia Diários. Participou de algumas antologias, dentre elas “Hiperconexões – Realidade Expandida”, Vols I e II, “É que os Hussardos chegam hoje”, “Moscas”, organização de Marcelino Freire. Publicou, recentemente, o livro 70 poemas.

Primeiro transformou a casa em uma casa menor por isso dobrou a casa depois transformou a casa em uma menor ainda e por isso dobrou de novo até perceber que morava em um origami de pássaro só porque a casa voou VERSOS SOLTOS Os versos são soltos. Os pensamentos também. Apenas poeira ao vento, nada de fundamento. Nada de especial. Centelhas elétricas, as palavras ficam no éter até encontrarem o papel. ....................................................................................... Existem fatores preponderantes para que eu pense que o mundo é um jogo de WAR gigante onde o exército majoritário pertence a quem não devia e o filho da mãe só tira seis cinco e seis nos dados vermelhos e nos amarelos também

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RITA ALVES

(1966)

Poeta paulistana, historiadora, ensaísta, crítica de arte e literatura. Recebeu em 2010 o prêmio Literatura da Comunidade África Brasil pela publicação do seu livro de poemas Tela de Letras. Na introdução, Rita adverte preferir as palavras brutas, as palavras sem lapidação.Textualmente, confessa: “Procuro palavras que completem os veios de esmeralda sob a profundidade do ser”. Rita é a responsavel pelos Caminhos Efêmeros da Poesia, projeto que fixou a poesia no chão de vários parques de São Paulo. Versos de vários poetas podem ser vistos no Parque Ibirapuera, Parque Ecológico do Tietê, Parque da Juventude e Villa Lobos.

AS PALAVRAS Entre o pensamento e a palavra Entre palavra e o sentimento Há um enorme espaço deserto Plátano, oásis, miragem Até que a mão chegue ao caderno Para libertar as palavras Agarradas ao tinteiro Leva uma vida e o mundo inteiro Paridas e ainda molhadas Não se reconhecem nos pais Tomam formas inesperadas Em desespero se agitam Presas às folhas, condenadas A serem postas à prova Pelos olhos de quem as lê, Não dizem o que são São o que se vê.nos seus braços A CASA, AS ROSAS Arranquem as roseiras e plantem daninhas Substituam abelhas e borboletas por cigarras e formigas E nas paredes da casa Só palavras: As mais sonoras E independentes.

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TATIANA ALVES (1966)

Poeta carioca, contista e ensaísta. Participou de diversos concursos literários, tendo obtido vários prêmios. É colaboradora da Revista Samizdat e do site Escritoras Suicidas, já tendo escrito para os sites Anjos de Prata, Cronópios e Germina Literatura. É filiada à APPERJ, à Academia Cachoeirense de Letras e à AEILIJ. Possui quinze livros publicados. É doutora em letras e leciona Língua Portuguesa e Literatura no CEFET.

HARPOESIA Minha língua viva e sedenta Saliva Maldita E roça em profanas palavras Minhas mãos suadas e errantes Tateiam Malditas E tocam profanas palavras Por entre línguas e mãos Toma forma a poesia Sádica Lúdica Lúbrica No prazer do trava-língua No ardor de uma mão-boba A poesia se toca Harpoesia DELÍRIO Batidas na porta: Aldrava Ofício maldito: Escrava Vulcão que se agita: A lava Voz que se liberta: Destrava Delírio poético: Palavra

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LAIS CHAFFE

(1966)

Poeta gaúcha, é cineasta, jornalista e produtora cultural. Participou de várias antologias de contos e de poesia. Publicou os livros Medusa, poemas infantis (2011) e Carne e Trigo (2012).Já foi premiada algumas vezes e está à frente do projeto Cidade Poema, que vem levando poesia às ruas e espaços públicos de Porto Alegre.Já dirigiu o Instituto Estadual do Livro, está à frente do selo editorial Casa Verde, e dirigiu, roteirizou e produziu o documentário Canto de Cicatriz (38min, 2005).Seu último livro de poemas, Segue Anexa Minha Sombra, saiu este ano.

CACTUS Seguem regando cactus com seus versos consumados, seus desejos de fatiota, seus gestos de pince-nez. No ar, punhais se aposentam, restam punhos descerrados, pulsões de terno e gravata e impulsos protocolares. Seguem regando cactus, aram desertos, cimento. Há vigilância nos atos e assepsia nos leitos. DEPOIS Aí veio aquela dorzinha que não é dor de morte, muito menos de amor perdido. Veio aquela coisa inefável que se sente ao retirar o último enfeite da árvore de Natal, ao recolher os copos no final de festa, ao arrumar a cama na manhã seguinte. PRESSA Era um tipo de angústia que ansiava por engolir o mundo. E em seu desespero errava as garfadas e mordia a própria língua. E morria à míngua.

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MILENE SARQUISSIANO (1966)

Poeta gaúcha, é jornalista formada pela Universidade Católica de Pelotas. Funcionária pública concursada trabalha há mais de 19 anos na Prefeitura local. Atua também como free-lance em rádio e tv a cabo. Começou a escrever em 2009 e publica seus poemas em blogs e sites da internet.

ALUADA fatio o dia em pedaços de mil delícias saboreio lentamente mas se à noite a lua cheia de açucar escorrer pela janela pra dormir no meu umbigo me melar e virar calda perco o foco e as metas dou adeus às dietas devoro de colherada EMBOSCADA não é na força bruta que se ganha a luta nessa guerra de arranha é preciso alguma manha um olhar de emboscada uma língua revirada destemida e servil que mire o inimigo e finja que não o viu pernas firmes e ligeiras deslizando sorrateiras frente à zona de perigo chamando pro combate sem direito de resgate lábios seios e umbigo e tudo 108 mais AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA que morra e mate


LOU VILELA

(1966)

Poeta potiguar, é administradora especialista em logística. Vive no Recife desde a infância. Possui poemas publicados na agenda da Tribo (2012/2013/2014), e em diversos sítios na internet. Foi incluída no livro Maria Clara – uniVersos Femininos (2010). Publicou o livro de poemas Pulgas de Concreto(2014)

IX a moça da saia vermelha nada me dizia estava ali, impassível, em sua beleza ácida queria voar não havia asas apenas poesia – ponte aérea entre vãos e todas aquelas vozes celulares ar rarefeito unindo motivos, vidas, saguão REFLEXOS é esse teu olhar invasivo que atordoa... essa tua tatuagem olfativa que embriaga... tuas unhas que marcam, tua saliva que cura. são os teus trejeitos que ins.piro, os teus trajetos que invado entre mentes dentes dedos e falo. enquanto transbordas me alago. FLUIDEZ Acordei com o sal da palavra. Logo hoje, dia de deslembrar, Invade-me traçado Um corpoema. Acordei com o sal da palavra. Toda a metáfora liquefeita Entre os vãos De minhas coxas, Vontade de escorrer Sem margens. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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GISELLE RIBEIRO (1967)

Poeta paraense, é professora de teoria literária na UFPA. É autora também dos livros de poemas: Objeto Perdido (2004), Pequeno livro de poemas para vestir bem (2011) e Isso não é um livro. Isso é um caracol (2013), lançado na XV Feira Pan-Amazônica do Livro. Seu último livro, 69 (2014) reúne 69 poemas de amor erótico.

TAREFAS DA VIDA COTIDIANA Lavamos todos os dias a palavra amor até desbotar. Passamos a ferro todos os dias a palavra desejo até evaporar. Depois, lavamos as mãos. E quando a iluminura do amor se apaga, gradativamente, dizemos aos sonhos: a convivência mata. ROLEPLAY Interessa-me aqui, as pernas grossas do poema Para abrir e fechar Quando eu quiser entrar. Interessa-me também O beijo de língua molhado ou seco Do poema Pedindo para me tocar. Interessa-me muito também A vontade, a voluptuosa vontade do poema Em me ter completamente nua Para ser só sua. O resto desta história, Eu deixo aberto, Como as pernas grossas do poema Para quando você também quiser entrar.

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IOLANDA COSTA (1967)

Poeta baiana, é filósofa, arte-educadora e especialista em História Regional. Estreou como poeta na antologia Poetas Novos da Região Cacaueira, em 1987. Editou, artesanalmente, folhetos de poesia: Às Canhas as Palavras Realizam Mil Façanhas (1990), A Óleo e Brasa (19991) e Antese (1993). Tem poemas publicados em jornais, antologias e blogs. Participou da agenda Livro da Tribo (2013). Em 2004, lançou seu primeiro livro individual, Poemas Sem Nenhum Cuidado e, em 2009, Amarelo Por Dentro. Na sequência, Filosofia Líquida (2012) e Colar de Absinto (2017).

VIOLINOS QUE MIAM últimas horas dessa cronologia obsoleta travessia de tempo retirado. nenhuma praia do sul arderá em mim mais que a poesia torta encurvada em pélvis e em pêlos - nossos sais. a poeta, o colchão o violino e seus miados. COLAR DE ABSINTO do colo ao quadril adorna e flamba a carne adereço que a restaura, abjurada em chamas. formoso é o pescoço e as sete vértebras que o estende aos ares: lava. pira. serpe. o pescoço de labirinto e de fogo por onde ardeja, verde o absinto que me trazes. a losna-maior farfalhando como folha (em nervura e delírio), teus exílios.

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PAULA VALÉRIA ANDRADE (1967)

Poeta, escritora, professora, diretora de arte e artista visual. Publicou dezoito livros: de poesia, arte-educação, didáticos, antologias e seis livros-brinquedo infantis de pano. Recebeu prêmios literários em Portugal, Itália, Alemanha, EUA. No Brasil: Jabuti e APCA. Em 2016, foi o primeiro lugar no Prêmio ACIMA do Salone Internazionale Del Libro Di Torino, Itália, por seu texto “A Beija-Flor Dodô e Gil Girassol”. Recebeu ainda em 2016, “Menção Honrosa” por sua poesia na FALARJ (*). Em 2017, foi membro integrante do júri do Prêmio São Paulo de Literatura, da Secretaria de Cultura SP. Seu último livro, Amores, líquidos e cenas é de 2018.

NATIONAL GALLERY Cristo loiro alemano, Cristo ruivo judeu. Cristo moreno romano. Em quantas cores fazem o Cristo, em mundano? TIPO PARTICULAR cada pessoa tem um lugar um beat no dna original pulsar iris prisma olhar cada pessoa

encontra escolhe procura

um tipo de cadarço para dar o laço ou nó cego no seu passo dilema de compasso NAS NUVENS caminho nas nuvens a passos soltos flutuo fluindo em ares de encanto e no universo, de quem só usa sapatos, gosto de andar de pés descalços 112

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FLAVIA PEREZ

(1967)

Poeta carioca, é formada em biologia, com mestrado em Microbiologia Agrícola. Vive em Campinas. Participou de várias antologias (Bar do Escritor Terceira Dose, Quinta Barnasiana, En la Otra Orilla del Silencio (Mexico, 2011), Vide-Verso). E publicou os livros Leoa ou Gazela, Todo Dia é Dia Dela(2009), Poesia se Escreve com T(2011) e AntropoFlágica(2015).

AUREOLADA Eu tão anjo tenho andado que em mim nasceram asas. O que me perde pro céu é esse meu grande rabo endemoniado e minhas coxas grossas... NÃO CULPEM NELSON Eu sou um INA 38 na sua gaveta embrulhado em lingerie de renda preta. Sou puro sangue e desatino: Nelson Rodigues filmado por Tarantino. AUTORAL É de outros, se coloco entre aspas. Quando ponho entre as pernas é só meu e ninguém tasca. A LÍNGUA (DE) QUE FALO Nenhuma língua falada nesse mundo fala a nossa, e ainda assim a lingua que entrou na minha boca aquela tarde não estava morta.

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FERNANDA CRUZ FILHA (1967)

Poeta goiana, é psicóloga, mestre em Performances Culturais pela Universidade Federal de Goiås. Publicou os livros de poesia: Regatos do Instante (2007 ) e O ar mais próximo (2012). Antes de enveredar pelos caminhos da poesia, atuou em artes cênicas e também como cantora de mpb e música edudita.

silente, a noite aberta contorna as pedras e os pés é quando retorna a primeira sede água imensa... um dia a teus pés mergulharemos a inteira imersa imensidão dos dias enquanto o caminho descansa e dança a brisa farta e os pés o musgo alcança A SE DAR o silêncio aberto e minhas mãos percorrem a aparente distância que há nos lugares a água nesses rios que sempre correm é a mesma, é a chuva a se dar nos ares no tempo tudo vai e vem a unir aproximam-me terra e céu, noite e dia os enredos lá se vão ao que há de vir que a memória há de ver-se no que via a aparência nas coisas não revela o fulgor do instante que não se acaba a luz de uma página que amarela entre a flor e a raiz há um leve traço de silêncio, na seiva que há tanto se dava e de tanto se dar há de ser o espaço

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SONIA BARROS (1968)

Poeta paulista, nasceu em Monte Mor e desde a infância mora em Santa Bárbara d´Oeste (SP). Formada em letras, fez teatro, dança e canto. Publicou 17 obras de literatura infanto juvenil, dentre eles: Coisa boa, O gato que comia couve-flor, Asas de dentro . Em poesia, 3 livros: Mezzo Voo (2007 ), Fios (2014) e Tempo de dentro, estes dois últimos vencedores do Prêmio Paraná de Literatura, na categoria poesia. em 2014 e 2017 respectivamente.

HERANÇA PATERNA Não nasci sem pai: ele esperou até que eu nascesse. Depois, ao constatar o sexo frágil de sua quarta frágil-filha-mulher, ele, o homem forte, se foi. Como herança, deixou-me esta aptidão para vôos interrompidos: eterno fugir de onde nunca estivemos. MAHLER MONUMENTAL Ouvir com todos os sentidos: espírito absorto peito a expandir-se paz e desconforto nostalgia e angústia na mais profunda, nua solidão. Desintegrar-se ao som de sopros, sonhos, saltos por entre escombros de vidro e veludo: espírito partido disforme sempre suspenso sobrevoando pântanos e colinas à exaustão – sôfrego percurso de toda a humanidade num só homem perdido em céus de impossível redenção. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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ROSANE CARNEIRO (1968)

Poeta carioca, é redatora, mestre em Literatura Brasileira e integrou diversas antologias, incluindo 80 Poetas do Rio, da I Mostra de Poesia Moacyr Félix e Poemas Cariocas. Coordenou encontros poéticos (Ponte de Versos e Poema Expresso) e teve poemas publicados na revista Poesia Sempre. Já publicou Excesso (1999), Prova(2004) e Corpo Estranho (2009). Em 2012 foi para Londres fazer doutorado--e continua lá.

PLATAFORMA Absorva o vão. Entre a realidade e o que se gosta, toda e qualquer faixa se mostra morta. Não há sentidos nas zonas subterrâneas. Ultrapasse. Esse é o destino. ANDAR ENTRE CRIANÇAS correr feito crianças estar como crianças na marginalidade da inocência VIDRO pedrada tal que não se restringe ao frágil encontro fosse eu de aço e tudo estaria pronto mas sou areia sólida em puro magma depois daquele gosto estilhacei e só quero a pedra, a pedra, a pedra : meu criminoso

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KATIA BORGES

(1968)

Poeta baiana, é jornalista, escritora, professora universitária. mestre em teoria e crítica da literatura e da cultura pela Universidade Federal da Bahia. Publicou De volta à caixa de abelhas (2002), Uma balada para Janis (2009), Ticket Zen (2010), Escorpião Amarelo (2012), São Selvagem (2014) e O exercício da distração(2017)

DICOTOMIA Estou só. Não quero o homem que me quer E há um sol que eu quero em meu rosto. Crescer é fogo, amor, consome. Perdoe o medo, o nojo, a fome. Amar é doce, enjoa. Não quero o pássaro que tenho nas mãos. Eu preciso é dessa ave que voa. AMOR Por todo o caminho, te levo comigo, como quem carrega o próprio coração nas mãos, pulsando. Como quem bebe um vinho precioso, deixando que o líquido se espalhe e molhe o rosto. Por todo o caminho, te levo comigo, como quem arranca um punhado de mato e põe no bolso, só para sentir a raiz entre os dedos. Te levo comigo, sobre os ombros, até o alto da mais alta das montanhas. LUTO Não haverá outro dezembro como aquele em que beijei meu pai pela última vez, a testa fria de um homem morto. Que ontem foi aquele em que, juntos, enfeitamos a árvore? O silêncio é de ouro, me dizia. Sinto em mim cada quilate

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ALINE YASMIN

(1969)

Poeta capixaba, estudou propaganda e marketing no Rio de Janeiro e depois filosofia em sua cidade natal. Em 2013 foi estudar na Universidade Nacional de Córdoba.Mudou-se para Bari e depois para Bruxelas onde também estudou na Universidade e onde vive agora. É consultora de projetos culturais e trabalha também com caligramas, estilo empregado na mostra Atos Reflexos, em 2004.

ALTERO MEU RITMO entre rimas alternadas ora acelero e peço pressa ora - contemplo a madrugada ora - sorrio flutuante ora - entorno ríspida

alvejante

ora - sabia ora - falante ora eu ora tu ora bolas VAZIO é um nó é um só bem fundo tem cheiro de festa desfeita cara amarela buraco sem rumo doença sem cura ferida loucura pão velho sopa estragada chá com açúcar roupa jogada esse vazio tão só tem cara de sol na cabeça de jardim sem cuidar e uma dor no peito rasgando bem devagar tem jeito de gato miando num velho filme noir

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ADRIANA ZAPPAROLI (1969)

Poeta paulista, nasceu em Campinas, fez doutorado em farmacologia pela Unicamp e é professora de biologia dessa mesma universidade. Publicou os livros de poesia A Flor da Abissínia (2007), Cocatriz (2008), Violeta de Sofia (2009), Tílias e Tulipas (2010), O Leão de Nemeia (2011), Flor de Lírio (2012), Flor de Lótus (2013). Teve poemas divulgados em revistas impressas, como Etcetera, A Cigarra e Poesia Sempre, e eletrônicas, como Zunái e Mnemozine. Escreveu o e-book de poesia: Erótica.

NUM MOMENTO roer a unha telúrica do tempo saltar para dentro da vulva no movimento da válvula tricúspide tugúrio o tule abafa o trilo da úvula no dedo o gosto da uva úmida TATUE UM POEMA tatue um verso dinodonte diminuto em meu dorso etéreo reverso tatue beijos cabelos extensos seu rosto tatue sentidos discretos lábios textos explícitos arriscado fogo astro sem esforço tatue um imortal dionisíaco tatue meu corpo todo poema inteiro AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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ISABELA LEAL

(1969)

Poeta carioca, é graduada em psicologia, doutora em literatura portuguesa pela UFRJ e professora de literatura portuguesa na Universidade Federal do Pará.. Tem ensaios publicados em revistas de literatura e alguns poemas publicados na internet, em blogues de poesia, na Zunái, na Inimigo Rumor e nas Escritoras Suicidas. Fez sua estreia solo com o livro A Intrusa(2017), composto por vários textos que se articulam entre si, oscilando entre a prosa e a poesia. Além disso, tem produzido trabalhos de videoarte que estabelecem um diálogo entre texto e imagem.

MARÇO NO CENTRO era o começo de março no centro seu corpo junto ao meu corpo, uma proximidade assustadora. primeiro um sorvete de creme derretia com o calor e as frases que dizíamos escorriam sobre os livros do andar de baixo. confissões de chocolate. depois pedimos um café e eu olhava espantada uma palavra que se debatia no líquido escuro. pensei em socorrê-la com a colher, mas logo vieram outras palavras e mergulharam no copo d´água. (na mesa a margarida inclinava-se) era tudo tão claro, apenas aquela palavra turvava a nitidez do dia. olhei novamente e ela jazia no fundo da xícara, imóvel.

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SILVANA GUIMARÃES (1969)

Poeta mineira, é socióloga e escritora. Organizou e participou de algumas coletâneas, entre elas, Hiperconexões — Realidade Expandida Vol. 2 (Org. Luiz Bras, Patuá, 2014) e 1917-2017 — O Século sem Fim (Org. Marco Aqueiva, Patuá, 2017). Editora da Germina — Revista de Literatura & Arte e do site Escritoras Suicidas. Lança seu primeiro livro, de poesia, em 2018.

HABEAS CORPUS nada como a esperança para curar as dores de uma era oca: beco da morte-sem-saída nada como o ódio para acelerar o rumo de uma história infeliz de busca & apreensões [quando a minha fome beija a sua sede meus olhos se encontram com meus olhos minha alma fareja o que sobrou dos restos mais humanos do corpo ultrajado: o meu] descarregaram a ira em apenas um que era multidão: ela atira tinta em vez de sangue aqui não é paris: mas a estrela brilha sobre os ratos de ocasião: dizem que vão pegá-los que venham os bárbaros: inda que seja tarde que cheguem com mais fúria: com mais medo MAMUSKAS a trisavó cresceu com a mania de recolher nuncas a bisavó passou a vida colecionando nãos a avó, entre rezas, reunia quimeras a mãe empilhava lamúrias ela habituou-se aos muros a filha junta janelas a neta, pássaros  

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KAREN DEBERTOLIS (1969)

Poeta paranaense, escritora, jornalista, mestre em comunicação e informação (UFRGS) e peformer. Gravou o cd de poesia “A Mulher das palavras” (2009) que deu origem a um espetáculo que tem circulado desde 2009 por vários espaços públicos e ganhou o prêmio Trem das Onze 2011, na categoria literatura, concedido pela Rádio UEL FM, da Universidade Estadual de Londrina. Ministra cursos de escrita criativa. Publicou: Guardados(2003) A Estalagem das Almas (2006) e Prosa de Palavras (2012).

DESAPARECIDO sou o seu duplo o invisível nos escombros do self a sombra por detrás dos espelhos o desapercebido que passa como um vulto uma sensação apenas um frio na espinha silenciosamente esgueira-se pelas beiradas confunde-se com os restos de papelão em frente às lojas de departamento recosta-se nas colunas das marquises com medo e frio e observa o mundo com a lucidez da realidade solitariamente ALICE E O ESPELHO Ontem de manhã quebrei o espelho e Alice foi embora pelo vão da árvore como não era de costume e antes que sem Alice eu me acostume disse hoje de manhã não compro outro espelho

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CLAUDIA QUINTANA (1969)

Poeta paulistana, é médica geriatra formada pela USP e especialista em Cuidados Paliativos pelo Instituto Pallium e Universidade de Oxford, além de pós-graduada em Intervenções em Luto. É pioneira no Brasil na área. Publicou o livro de poemas Linhas Pares (2012) e colaborou no livro Cuidando de quem cuida (2015). Seu último livro é A morte é um dia que vale a pena viver.

PREFIXOS Tenho um pré-sentimento de dias muito longos Uma noite com um pós-sentimento que des-colore os dias e dolore o sonho. Re-sentindo, caminho. Não tenho mais verso, só re-verso. A TRAIÇÃO a vida que se entrega para a morte que trai que chega sorrateira, meio sombra não diz que vai te levar dali alguns dias e tudo parece tão rotineiro que nem vale a pena gastar um tempo pensando no fim a morte que chega hoje, que chega agora que chegou há pouco, tão rotineira a morte tão rotineira a vida. A tarefa do dia é reconstruir tua ausência.

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RITA SANTANA

(1969)

Poeta baiana, nasceu em Ilhéus, é atriz, escritora e professora. Graduou-se em Letras em 1997 com habilitação em língua francesa pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Em 2007, fez pós-graduação em História Social e Cultura Afro-brasileira. Participou do elenco da novela Renascer e do filme Tieta do Agreste, de Cacá Diegues. Estreou com o livro de contos Tramela, vencedor do prêmio Braskem, em 2004. Dois anos depois publicou seu primeiro livro de poemas:Tratado de Veias. Em 2012, veio a público Alforrias.

SOLITUDE DO VENTO Labutar com a morte É ofício de santos. Despedida sem volta, Sem súplicas. Nem réplicas. É relíquia de anjos, Vício do Nada, Arrelia das gentes, Solilóquio Do Pranto. Labutar com a morte É cantar para pedras, É sorrir ao silêncio, Solitude do vento. É um bater de portas na Escuridão. CATEDRAL DE MARFIM Ele atropela regras de pertencimento E toma posse dos meus feudos, Naufraga em meus açudes rasos, Desperta carícias clandestinas Na corporeidade do desejo. Decifra meus rastros arrastados no chão da Casa, Lambe o osso exposto do meu sexo, Rompe seus votos de castidade, E me põe à vontade em sua Catedral de Marfim. Ele é assim, afeito aos meus mistérios E dono testamental dos meus dotes.

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LOU ALBERGARIA (1969)

Poeta mineira, é economista. Tem mantido publicação contínua nas redes sociais, blogs e revistas literárias como Germina e site Vidráguas e também na Revista E – Sesc/ SP. Publicou os livros Pessoas e Esquinas (2009), O Cogumelo que nasce na bosta da vaca profana (2011) e Doida Alquimia(2015).

COSTURO O POEMA NA PELE Minha poesia tem cheiro, som Excreta e expele. Ouço e aparo as arestas Entrego o verbo Feito carne Para ser devorado Pelos abutres e estetas. Devora-me! E te lapido, edifico Desmorono, retifico Só não te deixo ficar aí parado No vácuo Com cara de palerma. Mudo! BAGAGEM A vida não é justa é estreita quente & úmida onde você penetra o seu medo de falhar Não, amor, eu não posso carregar os seus medos Estou retida na alfândega - há séculos por excesso de bagagem ULTRABIOGRAFIA O que dizer de mim que já não esteja nos muros da cidade e no álbum the wall: Nos sonhos quero molduras de ar e na cidade – fora das gaiolas – uma paisagem de pássaro AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA ao Sol.

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SIMONE HOMEM DE MELLO (1969)

Poeta paulista, tradutora e libretista. Seus poemas em português estão reunidos nos livros Périplos (2005) e Extravio Marinho (2010 ). Viveu de 1993 a 2010 na Alemanha – Colônia e Berlim—e escreveu o libreto das óperas Orpheus Kristall (Munique, 2002), Keine Stille außer der des Windes (Bremen, 2007), UBU (Gelsenkirchen, 2011). Como tradutora, dedica-se à poesia moderna e contemporânea de língua alemã.

DOS TERRITÓRIOS(UM ROTEIRO) Prestes a romper o cerco, não mais contracenar com seus senos e cocientes. Sem pensar duas vezes, dispensar sentidos e sentinelas, rebaixar a guarda de fronteiras, proscrevê-la. Abolir alfândegas, clãs e destinos. Sem prós e póstumos túmulos, decepar a rosa dos rumos, dissipar ventos (oito deles), despir-se de pares e díspares. Minar a margem (terceira) de um rio anônimo. Extraditá-lo.

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CLARISSA MAIORINO ZELADA (1970)

Poeta paulista, nasceu no interior de São Paulo: São José dos Campos. É formada em psicologia pela USP e atualmente é graduanda em letras na mesma universidade. Publicou o livro Tatu Inverso (2013), e Fugacidade(2016). Morou dois anos na Espanha e de volta à São Paulo passou a dar aulas e dançar profissionalmente, atividade que foi substituindo ao longo dos anos pela de professora e tradutora de espanhol. Considera a poesia um ato vertiginoso e inseparável de sua vida dividida entre a família, as aulas, a dança e as linhas de bordar e de escrever.

PUDIM Meu seio na concha da tua mão pousado lembra uma colherada de pudim roubado num assalto à geladeira no meio da madrugada balança sem pratos desequilibra-se transgride a lambida nas costas da colher mulher adormecida. FALTA No mundo dos excessos sinto apenas falta sinto pelas minhas faltas sinto pelos meus excessos sinto pelo mundo a tua falta tão una tão simples a duras penas a tua, apenas.

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ADRIANA BRUNSTEIN (1970)

Poeta paulistana, é PhD em física, escritora, dramaturga e roteirista, com trabalhos em várias vertentes e meios da comunicação. Ganhou o prêmio de melhor roteirista nacional pelo roteiro da Graphic Novel Prontuário 666 – Os Anos de Cárcere de Zé do Caixão e foi contemplada no 13º Cultura Inglesa Festival pelo roteiro do curta-metragem Olhos de Fuligem. Publicou o romance Estado Fundamental.

A gente envelhece dormindo às dez acordando às seis ameaçando pernilongos em voz alta antes de errar o tapa A gente envelhece medindo a circunferência do braço evitando usar regatas se cadastrando em site de receitas e consultando horóscopos A gente envelhece dormindo de meias falando pra manicure no pé um rosinha básico A gente envelhece cantarolando a música de Ao mestre com carinho descobrindo na wikipedia que o sidney poitier ainda tá vivo A gente envelhece recusando convites lembrando que piqueniques eram chamados de convescotes nos clássicos que não lemos A gente envelhece gerundiando esperando uma oferta incrível da garota do telemarketing .................................................................................... Tenho o nome de outro cara tatuado no cóccix caso você queira saber antes de tirar a minha roupa que as coisas pra mim mesmo as que não se apagam não duram muito tempo 128

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IRACEMA MACEDO (1970)

Poeta potiguar, formou-se em filosofia na UFRN e concluiu mestrado na mesma área na UFPB. Doutoramento foi feito na Unicamp. Alguns anos viveu em Ouro Preto e trabalhou na UFMG. Atualmente, é professora no Instituto Federal Fluminense, em Cabo Frio. Publicou Lance de Dardos(2000), Invenção de Eurídice (2004) e Poemas Inéditos e Outros Escolhidos ( 2010).

RÙSTICOS cercas de arame farpado sob a chuva alegria nas pedras do lajedo e nos alpendres fogueira mítica acesa entre escritos rupestres meninos e meninas nus dançando ao redor coice de cavalo, vela acesa dentro da geladeira à gás, açudes de água morna, cactos, carroças estávamos todos lá antes da luz elétrica preparados para perdas e recomeços UM POMAR NO ESCURO Marimbondos estalando pelo corpo cacos de vidro verde sobre o muro mínimos guardiões desse desejo de furtar teus frutos e desabotoar essas paredes, calhas, luzes, rochedos que dividem e separam minhas chamas das tuas DANDARA Eu só acreditava em Drummond: O amor chega tarde Não conhecia o amor que fulgura sem aviso esse que se sabe proibido o amor que já se sabe perdido desde o início Eu não acreditava no impossível vinha tão sóbria, tão cheia de medidas não conhecia o esplendor da queda nem a violência dos abismos

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ADRIANA LISBOA (1970)

Poeta carioca, romancista, contista e autora de livros infantis. Morou na França, passou algum tempo no Japão e vive nos Estados Unidos. Entre seus principais livros estão os romances Azul-corvo e Sinfonia em branco. Publicou poemas em algumas antologias. Seus livros foram publicados em doze países. Foi saudada assim por José Saramago, prêmio Nobel: “Adriana é uma autora para o presente e para o futuro.”

POR UM INSTANTE DE PENUMBRA Há sol demais por aqui. As sombras expatriam-se dentro das coisas, sem uma chance. A luz é cáustica, esta luz de inquérito sob a qual o preso não tem outra alternativa. Você optaria por um mundo em claro-escuro, mas tudo se revela (pior: se demonstra, como num laboratório, como no corpo aberto de uma cobaia) com enorme zelo e não admite perfis, murmúrios, vislumbres. Essa luz medonha que se esfrega na sua cara – o quanto você não daria por um instante de penumbra. Por um segundo de indecisão. POESIA Pense nela como o dedo cavando a fresta onde há ainda uma pequena chance, algo semelhante à colher numa cela de presídio investindo contra o chão de barro: um túnel, a vaga ideia de liberdade.

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ELAINE PAUVOLID (1970)

Poeta carioca. Publicou: Brindei com mão serenata o sonho que tive duran­te minha noite-estrela... ( 1998), Leão lírico (2008) e O silêncio como contorno da mão (2011). Colaborou ativamente com resenhas literárias durante 10 anos (1999/2009) para jornais, como: O Globo e Jornal Commercio. Ultimamente também vem se dedicando às Artes visuais.

Escrevo e desenho para pedir socorro, mandar um sinal, senão eu morro. Alguém ouve o traço, vê o grito e manda resposta. Ou sou eu que leio, vejo, traço, respondo e movo o que não é novo. A VELA

A Gerardo Mello Mourão in memorian Sólida, esqueci de ser eu mesma. Areia, virei estrela. Mas estrelas que são, senão rasgos da luz nova? Palavras utilizadas, lume. Palavra, dobrada palavra. Por minhas entranhas encontrá-la dita e salgada, cristalizá-la. Fechar os olhos, lembrar-me do mar. O mar que lembra o fechar dos olhos e o riso deles nos nossos ouvidos. Vela acesa nas noites sonâmbulas. Deixá-la queimar perene e calma, transportando o silêncio para além, prometendo a eternidade na chama queimando, penitente, a transmutar-se chama sempre, queimando por dias, ensolarada vela de insônia, do sem-nome. Um homem que, podendo navegar e cerrar os olhos, o faz serenamente.

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LUCIANA BARRETO (1970)

Poeta nascida na cidade de Brasília, é formada em comunicação/jornalismo pela UnB e exerceu essa profissão sem abandonar o que sempre perseguiu: a literatura. Com mestrado e doutorado em Teoria Literária pela UnB, desenvolveu pesquisas nos universos de Hilda Hilst e Osman Lins, participando de congressos e publicando diversos artigos relacionados em livros e periódicos acadêmicos. Atua como professora de literatura portuguesa na UnB. O seu primeiro livro de poemas – (des) memória blues - está prestes a sair da gaveta, ainda em 2018.

NAU Em ti tudo é centro, joia e dor Até quando colhes lírios, luz, hibiscos É o solo dos teus mortos que estás pisando. Em ti tudo é centro, joia e dor E em tua risada de brados e dentes É o grito da tua mãe que ainda gira na vitrola. Em ti tudo é centro, joia e dor E do lado de cá (do muro que guardas) Em tua casa de branco caiada Tantos grilos trêmulos Tantas asas (de gesso) assustadas. Em ti tudo é centro, joia e dor E mesmo do lado de lá (dos mares de Ulisses) A vida é nau injusta, tormento dentro - Fosso de luas, ácida travessia. GIRASSÓIS NOTURNOS Assim como Ícaro se lança aos céus e Sísifo insiste cume acima (des)asas declinam desatinam alturas (teço desteço a espera infinda radiosa Penélope amorosa e bela) Pois diurna me faço puras flores lençóis e sábia – serena – aguardo silente os cálidos e acesos girassóis noturnos.

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DANIELA DELIAS (1971)

Poeta gaúcha, é psicóloga e professora universitária. É autora de Boneca Russa em Casa de Silêncios (2012) e Nunca Estivemos em Ítaca (2015). Tem poemas publicados no Livro da Tribo e em diversas revistas literárias. Edita os blogs de poesia Sombra, Silêncio e Espuma (http:// danieladelias.blogspot.com.br/) e Alice e os dias (http://deliasdaniela.blogspot. com.br/). Mora na Praia do Cassino, extremo sul do Brasil.

TEAR ela tece com fio lilás as rotas do seu olhar mas quando ele chega ensaia outras cores inventa moda cobre-se de rendas ele anseia por suas saias e rende-se às suas teias TRÊS você ouviu bem, meu amor três navios partiram em direção ao rochedo mas não pergunte sobre o mar e as bocas entreabertas à mercê de naufrágios entenda os desertos a sede compartida a metafísica das águas : beba ROTAS ontem refiz seus passos guardei seus gestos depus sobre a pedra a solidão e os sapatos nas mãos o buquê de amarílis nos olhos antigas ternuras na carne os mapas em que traçamos as mesmas rotas de silêncio e fuga AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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EDILAMAR GALVÃO (1971)

Poeta amazonense, é jornalista e professora de Estética nos cursos de pós-graduação em História da Arte e Jornalismo Cultural da FAAP. Na graduação, é responsável pela disciplina Estética nos cursos de Cinema. Foi repórter, apresentadora e diretora em 1994 e 95 na TV Cultura do Amazonas. Atuou, também, como colaboradora do jornal Folha de São Paulo, de 1997 a 99. É autora do livro de poemas DUVIDA DIVIDA DADIVA(2009).

JAZ Não me interessa a poesia, nem que seja essa: escrita sem nada que a valha; corta-me — não por dentro — a navalha, sem contar a dor — não essa — mas aquela outra mais funda que jaz perene por detrás. EURÍDICE 1 Um caminho tão longo a perseguir e depois dizer: foi tudo pra você, e você dizer: eu não estava ali.

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GRETA BENITEZ (1971)

Poeta curitibana, é pós-graduada em marketing e trabalha como redatora publicitária. Tem poemas publicados nas revistas literárias eletrônicas Zunái, Oroboro e Et Cetera. Participou de várias antologias, entre elas Todo começo é involuntário. É autora do livro Rosas Embutidas – Premio Jorge de Lima – Brasil 500 Anos, concedido pela Academia Carioca de Letras e União Brasileira de Escritores, 1999. Também é autora do livro Café Expresso Blackbird, em 2006.

Estou pronta pra tudo que você imagina. Deixei minha inocência na pior esquina. CÃES DOS JARDINS Lindos cães dos Jardins Deitados sob as mesas Onde seus donos estão sentados Olhando a cidade que se move Línguas ondulam em caimento perfeito Olhar feito de puro ensinamento Dignidade Honestidade Tudo isso mora Dentro dos cães dos Jardins E sobre a mesa Um café preto, água mineral E um jornal Que contém todo horror do mundo. MEU HERÓI Pinto as unhas os olhos e o coração de preto encho os pulmões de fumaça e ar esperando o dia em que o Batman vem me salvar .................................................................................... Era ninfeta chinesa freira. Agora, passada a bebedeira não é hora de escolher e ser?

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LUCIANE LOPES (1971)

Poeta paulista, nasceu e vive em Mirassol. É letrista e raramente passa um dia sem escrever algum poema. Estudou publicidade e propaganda na UNIRP, São José do Rio Preto e possui uma empresa de RH. Seu primeiro livro, O miolo do mundo é macio, foi publicado em maio deste ano e conta conta com 76 textos selecionados em parceria com a cantora e compositora Amanda Barros, com quem Luciane escreveu a canção Indizível, vencedora do Festival Nacional de MPB Vinicius Nucci Cucolicchio em 2009.

ON THE ROAD Por favor: um amor pra viagem e um suco de eternidade O AMOR QUANDO É ANTIGO O amor sim é bicho estranho atrevido Se veste de monstro marinho, faz carinho nas minhas nádegas. Arrebenta ondas nas ancas -um pescador – debaixo dessas anáguas INTERVENÇÃO CELESTE minha oração é mais subversiva [do que a tua] enquanto suporta a salve rainha te mordo as mãos postas e o osso sacro CAUSA MOTRIZ Bobagem justificar me afoguei porque quis Me deram um mar na entrada do corpo e tinha lua e fogueira Eu bebi Só isso. 136

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LUCILA DE JESUS (1971)

Poeta paulistana, é psicóloga com mestrado em Saúde Pública pela USP. É membro do Departamento de Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiae e do subnúcleo Psicologia e Povos Indígenas do Núcleo Terra, Raça e Etnia do Conselho Regional de Psicologia/SP. Publicou o livro de poemas para atravessar(2012)

É DO BURACO QUE NASCE O CORAÇÃO para juliano pessanha A palavra também tem braço. Pega no colo, faz cafuné e põe pra dormir . CONTORNO Tocar a coisa dói. Toda vez que conto um segredo perco a pele. É terrível. As veias ficam expostas a qualquer contato mais bruto vazam, transbordam. Nessa hora é urgente um abraço. O corpo do outro recolhe o derramamento coloca tudo no lugar e milagre, faz a pele regenerar. Mas tem que ser em silêncio. HILÉTICA Tudo o que sei sei sem saber. Não aprendi, só encontrei. É que nasci com os tendões hiperextendidos.

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MICHELINY VERUNSCHK (1971)

Poeta pernambucana, é romancista, historiadora, doutora em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela PUC de São Paulo. Publicou os livros de poesia Geografia Íntima do Deserto (2003) e Cartografia da Noite (2010).Foi uma das finalistas do concurso Portugal Telecom em 2004. O romance Nossa Teresa - vida e morte de uma santa suicida - ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura 2015 - categoria melhor romance de 2015 - e foi finalista do Prêmio Rio de Literatura 2015. Colabora em revistas e jornais de literatura e participa de diversas antologias de poesia brasileira contemporânea.

DA ROTINA Varrer o dia de ontem que ainda resta pela casa, o dia, que persiste, quase invisível, pelo chão, nos objetos, sobre os móveis da sala. Varrer amanhã, o pó de hoje. varrer. Varrer hoje. (e domingo quebrar os dentes o copo e sua água de vidro ... segunda, não esquecer : varrer todos os vestígios). III se fartar de carne que a carne é fraca tanto se lhe morda o dente a acha tanto se lhe busque a mão a alma olho que a desnude peito pêlo lábios broto lua grelo saudemos nossa caça se fartar de carne que a carne é graça tecido que se esgarça terra e casa.

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NORMA DE SOUZA LOPES (1971)

Poeta mineira, é professora em Belo Horizonte, fez pósgraduação em educação comunitária e pós-graduação em mídias na educação. Publicou dois livros de poemas: De mim ninguém sai com fome (2017) e Borda (2014) Para ela “escrever é essa costura cotidiana quando posso tecer e juntar as pontas soltas da memória.”

MAMÃE TRAZIA LIXO NA BOLSA às quatro e meia ela chegava era gari se a casa não estivesse limpa apanhávamos trazia lixo na bolsa comida revista livro se achasse cigarros fumava se achasse terço rezava mamãe foi a primeira ambientalista que conheci A OLHO NU nem morta volto atrás sem óculos coloridos aquele passado do chão do banheiro da área de serviço era esquisito a olho nu não há beleza em ler ou comer lixo EM CHAMAS esta manhã eu fui uma mulher em chamas e carreguei comigo o calor e as cores das chamas por falta de um mapa de incêndios e de companheiros incendiários ardi em altas chamas completamente desperdiçadas

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ROSY FEROS

(1971)

Poeta paulista, nasceu em Santos, é escritora, fotógrafa, publicitária e pesquisadora em comunicação Telemática. Presente em várias coletâneas impressas e sites na internet. Lançou em 2000 no Rio de Janeiro o livro de poesia “Tecendo Diários”, premiado no II Concurso Nacional Blocos. Participou em 2001 como poeta convidada da peça teatral “POESIA. BR”, de Leila Míccolis. Seus poemas estão presentes em várias antologias e foi pioneira ao divulgar poemas na rede videotexto brasileira.

MEMÓRIAS memórias não são feitas de plástico, memórias são feitas de elástico. elas vão e vêm, ao sabor do vento das lembranças, como se fossem hoje. perecer é quebrar o elástico. NÃO SEI DEITAR NADA FORA não sei deitar nada fora. guardo tudo deitado, dentro. afora isto, durmo encolhida sobre a gaze de quando nasci. ou quase. ETERNO GERÚNDIO meu ser começou a evoluir muito antes de eu começar a andar. minha história não inicia no momento em que a começo pensar. meu começo é agora, embora eu o esteja iniciando há tempos, pela vida afora.

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TEREZA DUZAI

(1971)

Poeta catarinense, natural de Itajaí, é também contista, cronista e professora de língua portuguesa e literatura. Atualmente, a autora tem se dedicado à produção e à divulgação de sua obra literária. Seus poemas têm sido publicados em revistas, blogs e jornais brasileiros.

VOLÚPIA Todas nós, mulheres do mundo, somos Virgens Marias, parimos virgens e continuamos virgens; todas nós, mulheres do mundo, temos um José ausente, insuficiente; todas nós, mulheres do mundo, queremos um anjo Gabriel que nos visite ao anoitecer, todas nós, mulheres do mundo, temos um amante invisível, que nos acende, nos santifica e nos penetra com seu fogo sagrado; todas nós, mulheres do mundo, somos o nosso próprio milagre, o nosso próprio deus, o nosso próprio diabo. Todas nós, mulheres do mundo, somos mães, irmãs e filhas de nós mesmas. CONDOR A noite se encheu de estrelas mortas, estrelas de sombra filhas, netas, bisnetas de meus antepassados; esposas de Deus, amantes de Maria - penetradas e lambidas. Invejei-as. Clamei pelo sêmem divino, desnudei-me, santifiquei-me. Um minuto de silêncio, um sussurro débil; e renasci como um poema oculto no ventre de uma casa vazia, presa à sombra de um verso nu. Um dia, talvez, Deus haverá de me comer.

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VÁSSIA SILVEIRA (1971)

Poeta paraense, nasceu em Belém, cresceu em Rio Branco e viveu um bom tempo em Florianópolis. É jornalista, escreve cronicas, e literatura infantil. Possui mestrado em Estudos da Tradução pela Universidade Federal de Santa Catarina e bacharelado em Letras Espanhol também pela UFSC. Tem experiência nas áreas de literatura, tradução e comunicação. É autora dos livros Febre Terçã (poesia), Indagações de Ameixas (crônicas) e dos infantis Quem tem medo do Mapinguari? e Braboletas e Ciuminsetos. É uma das autoras da antologia Blasfêmeas: mulheres de palavra (poesia).Atualmente vive em Rio Branco.

FIM DE CENA Quando as luzes apagarem-se E eu ficar a sós, Dividirei com a dor Do instante A silenciosa lágrima Que teimou Em não ser vista. E rasgarei, até o último fio, As vestes que encobriram Meu fracasso – empilhando, como peças de dominó, Sonho após sonho. Quando as luzes apagarem-se E eu ficar a sós, Acenderei o cigarro, quebrarei os copos E andarei nua, Sob a tempestade. O CADERNO No caderno da menina lia-se: Há nas lesmas qualquer coisa de gente e nas pedras uma vontade de sono no caracol um desejo solitário de lar nas plantas rasteiras uma fome de terra e nos fins-de-tarde um cheiro de coisa velha – como velhas são minhas tias, minha avó, minha mãe. E sem saber mais da (i)mobilidade das coisas, a menina fechou o caderno... (ela desconhecia, mas sob seus pés, repousavam asas)

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VIRNA TEIXEIRA (1971)

Poeta cearense, nasceu em Fortaleza e reside em São Paulo. Publicou três livros de poemas Visita (2000), Distância (2005), e Trânsitos(2009), participou da antologia Fin de Siècle (2007) e traduziu os poetas Edwin Morgan(escocês), Richard Price (inglês).

NOITE branca, a sala a cor desta ausência teto inalcançável sofá, o vulto imaginário de um corpo. VISITA Criado-mudo: Bíblia e rosário de contas. Na cama, ao lado a nudez sem nome. RÉQUIEM Onze meses depois: uma pedra sobre o túmulo reter apenas as lembranças necessárias DISTÂNCIA um telefonema de três minutos depois, o silêncio do outro lado da linha. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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KARIN KROG

(1972)

Poeta paulista, é formada em farmácia e fez mestrado e doutorado em biologia molecular na USP. Já viveu em Diamantina, São Luiz e Ribeirão Preto. Atualmente mora em São Paulo. Tornou-se contadora de histórias e publicou seu primeiro livro infantil Dondila e Jurema (2014). Insídia (2016) é seu primeiro livro de poemas.

POEMA DO ÚNICO DONO O suor dedilha minhas costas. Pequenas patas de besouro. Débil na escalada dos alpes de minhas nádegas, ele retorna e encontra suas mãos sujas de tinta óleo. Na inércia do pós-êxtase seus cabelos de nanquim formam caminhos no travesseiro florido. Sigo com os olhos cada um deles até encontrar a paleta de cores Seu corpo O TEU TRAVESSEIRO A teia negra dos teus cabelos contrasta o branco da falta O cheiro vencido do xampu se une as marcas rançosas de sua baba Respiras pela boca como se quisesse engolir o mundo Toca a maciez do algodão egípcio com seus ouvidos como se ouvisse o detrás da porta Marca o peso de tua cabeça carregada de fardos O amarelo do teu suor abandona-se na antes alvura Dorme o sono tranquilo da tarja preta com álcool.

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ANA MARIA RAMIRO (1972)

Poeta paulistana, tradutora, ensaista, é graduada em direito ela USP. Participou de algumas antologias e tem poemas, traduções e ensaios publicados nas revistas Zunái, Germina, Critério e Grumo. Publicou os livros de poemas: Menina-Poesia(1999), Desejos de Gaia(2007) e Fronteiras da Pele (2009).Em 2006, organizou e traduziu a plaquete Para Fazer um Talismã, com poemas de cinco autoras argentinas: Alejandra Pizarnik, Elizabeth Azcona Cranwell, Dolores Etchecopar e Olga Orozco. Participou da antologia 8 femmes (2007) e da Antologia de poesia brasileira do início do terceiro milênio (2008), lançada em Portugal.

TAUROMAQUIA

a Michel Leiris No oco da boca paira um segredo mal guardado, embotado pela fêmea que o habita. Vórtice semi-cerrado de dentes e lábios, magna fenda de um universo a ser tragado, deglutido e novamente soerguido, a boca regurgita. Mas a quem caberá o jorro do abate? Quem vai preparar a ceia do ocaso? No oco da boca crescem flores de fogo, mas no fundo do olho permanece a menina alheia e em chamas, uma menina que grita. INICIAÇÃO Oráculos em sonhos, Inconscientes rituais, Como posso possuir alma cigana, se me prendo a tantas convenções? Procuro um mago, um alquimista, um pai, um guru, um artista, Que me instrua na ciência inexata, mas absoluta das transformações. Que através de sua abstrata teoria, Possa eu, luz em redoma, transformar, não mais vil metal em ouro, mas em amor, as paixões. AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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RENATA BONFIM (1972)

Poeta capixaba, ensaísta, artista plástica, mestre e doutora em letras pela Universidade Federal do Espírito Santo. Tem especialização em arte terapia na saúde e na educação e em psicologia analítica junguiana. Mestre e doutora em Letras pela UFES/UÉvora e pesquisadora do CNPq, Renata estuda, desde 2007, as obras dos poetas Florbela Espanca (portuguesa), e Rubén Darío (nicaraguense), bem como, dedica especial atenção à literatura capixaba. Publicou dois livros de poemas: Mina (2010) e Arcano Dezenove(2011).

A FLOR sim seus pistilos eram doces perturbam-na insetos e pássaros e ela, objeto, se ofertava em dores cálice divino a derramar-se em pleno jardim das delícias fruição e pavor em perfeita harmonia sacrifício estigma Sua assinatura sinistra. SEDE E FOME Dedicado ao poeta Pedro Sevylla de Juana Tenho uma sede insaciável De Deus... Por isso bebo a flor e o orvalho. Por mais tardio que seja o olhar, Colho as suas lágrimas. Por mais silenciosa que seja a boca, Colho o seu sorriso. Sinto fome de infinito, A língua passeia pelas palavras: saber, sabor e arte! Devoro teus verbos intransitivos. O vazio me invade: Resto plena de tudo o que não sou eu.

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ELISANGELA BRAGHINI (1972)

Poeta paranaense, nascida em Brasilândia do Sul, é formada em direito e advoga há mais de 20 anos. Já morou em Ariquemes (Rondônia), Maringá, Curitiba e atualmente vive em João Pessoa. Fez pós-graduação na ESMAT 13, Escola Superior da Magistratura Trabalhista da Paraíba.

PORTA-RETRATO Ao amor não assiste perguntas ou respostas de joelhos agradeço mendigo palavras que auroram poesia engasga-se revelando-me o futuro seu silêncio místico... linguagem de sinais copio incompreendido nas mensagens o socorro garrafas lançadas ao mar naves sem rumo em desconhecidas órbitas sigo (estrelas que não existem) enquanto a ampulheta traga o deserto de rosas na praia o milagre do tempo espero sem medo revolto o mar navego repousa tranquilo em meu colo autorretrato vitrificado o desejo explícito seu olhar salgado

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MARCIA PFLEGER (1972)

Poeta paranaense, é jornalista e escritora. Publicou seu primeiro livro de poemas, Caneca de Café com Versos, no ano passado, pela editora 7Letras. É autora dos blogs Unha que risca a lousa (poemas) e Prosálias in vitro (prosa poética). Tem textos publicados na antologia Paralelos – Contos Fantásticos, da Editora Inverso, na revista de literatura Parênteses, e no Dossiê Woolfiana: Mulheres Escritoras dos Séculos XX e XXI. Vive em Curitiba.

AMANHECER Amanhecer na praia, um tesouro: o céu me sorri com um dente de ouro… DESÍGNIO E a Mão que me desenhou um dia, entregou-me o lápis para que escrevesse minha história antes que minha própria mão tombasse fria... Mas, o que sei eu desse desígnio? se não rabiscar, com torta caligrafia, um diário, por vezes, inverossímil... Por isso, com humildade Te peço, como se voltasse a ser menina: Senhor, não consigo sozinha... Segura a minha mão e me ensina. CONTRARIANDO Contrariando a regra Não corro atrás do que destino nega Mas lanço-me na onda que o mar me entrega Contrariando o estatuto Prefiro o amor próprio ou o respeito mútuo à puxação de saco que ceva o mau fruto Contrariando a expectativa Vês? Pra teu governo eu continuo altiva Apesar do veneno da tua saliva Contrariando o estilo Minha alma, de sementes é um silo Por isso escrevo de forma vária Contrariando Quem me chamou de pária

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INES CAMPOS

(1973)

Poeta mineira, nasceu e vive em Belo Horizonte. É advogada e seus poemas foram publicados na iniciativa Mulheres que Escrevem (projeto voltado para a escrita de mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como dar visibilidade, abrir novos diálogos e criar um espaço seguro de conversa sobre essa questão) Geografia particular (2017) é seu primeiro livro. Atualmente trabalha na finalização de seu segundo livro de poemas.

DIAMANTINA eu também quero o gosto de melado com cará os primeiros passos de um filho não nascido a compreensão nos olhos de um outro homem a minha coluna vertebral intacta quero me enraizar nas montanhas de minas e depois renascer borboleta sem ter que ser lagarta TRÁS-OS-MONTES apesar disso o sol se esparramou atrás dos montes em algum momento comovida pela urgência sacudi minhas penas e ameacei um voo esqueci: ninguém voa assim impunemente então guardei minhas asas fechei as janelas e liguei a TV

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ANDRÉIA CARVALHO GAVITA (1973)

Poeta curitibana, estudou ciências biológicas e produção multimídia. Atualmente trabalha com farmácia hospitalar e web design. Tem poemas publicados na revista eletrônicas Zunái, Germina e Eutomia.Publicou os livros de poemas A Cortesã do Infinito Transparente(2001) Camafeu Escarlate (2012) e Grimório de gavita, (2014). Participou como poeta representante brasileira, em evento comemorativo organizado pelo MIL, Movimento Internacional Lusófono, em 2012, na cidade de Lisboa.

INDEX LIBRORUM PROHIBITORUM Conhecer-te Foi feito abrir um livro antigo Sabe-se das literaturas seculares Que nos serão reveladas No dia de um trígono celeste pardo E era noite, Quando os olhos são tochas de candelárias AMADEO reina a mão em minha pele amadeo e leve com ígnea prece a lamúria da injúria-veste em breu ao cremado manto enfloresce lírio negro amadeo a palma do sudário santo em domínio ateu doutrinado orvalho já devolve à mortalha cortejada o toque amado de um deus

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CLAUDIA SCHROEDER (1973)

Poeta gaúcha, é formada em publicidade e propaganda pela PUCRS .Publicou um livro aos 14 anos e outro aos 17 na sua cidade natal, Santo Ângelo. Ficou em segundo lugar no Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody com o poema Jantar (2009); foi classificada no Prémio Off Flip de Literatura com o poema Casamento (2010). Publicou o livro de poemas Leia-me toda (2012) e ficou em terceiro lugar no Prémio Biblioteca Nacional de 2011. Hoje é diretora de criação de uma agência de propaganda e mãe de Theodoro.

EU Eu só queria que você olhasse para a minha alma e visse a calma a cama a ama a dona a chorona a fraca a frágil a mesma. Por fora sou uma. Por dentro sou tantas aos prantos (Mas só de vez em quando). ÚNICO No fundo, no fundo no fundo do útero da banheira plástica do berço e da casa somos só eu e você. Qualquer terceiro nos sobra. eu finjo distração e morro por segundos nos seus braços

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Após um longo trabalho garimpando vozes femininas dentro da poesia brasileira, realizamos em dezembro de 2017 o primeiro Sarau das Mulheres Poetas, no auditório do IAMSPE (Hospital do Servidor). Naquela ocasião, reunimos 15 poetas e uma atriz que apresentou a performance-esquizofrênica Sou ela ou serei eu? No segundo Sarau das Mulheres Poetas, realizado em maio de 2018, na Casa das Rosas, resolvemos ultrapassar os limites do efêmero e conferir maior durabilidade e capilaridade ao evento. Esse é o sentido desse livrinho*, de pequena tiragem, mas feito com esmero e cuidado profissional. Espero que ele possa contribuir na direção desse projeto. Ou seja: que o ótimo trabalho que as mulheres poetas estão realizando mereça a atenção e o interesse

de leitores e críticos. França e Inglaterra ocorFoi por essa razão que reu o mesmo boicote com iniciei esse trabalho de escritoras do século 19. pesquisa em meados de Hoje essas questões estão 2011. Após um tremendo sendo revistas e resgadesabafo em meu site, tadas. Algo que é bom criticando esse boicote, re- para todos nós. E posso solvi correr atrás das vozes adiantar que a transformapoéticas das mulheres. E ção dessa série, que reúne para que isso não ficasse mais de 400 poetas e mais circunscrito a mim mesmo, de 1600 poemas, em livros meu site virou o site das digitais está concluída.São mulheres poetas. Nesses 6 3 volumes, todos já pronanos e meio deixei de pu- tos e disponíveis gratuiblicar qualquer outra coisa. tamente aos interessados E usei os dois espaços que na plataforma Issuu. O tenho no facebook para di- primeiro obteve a assivulgar cada poeta incluída natura de Maria Valeria na série. Rezende na apresentaPosso garantir que não me ção.O segundo de Wanda arrependi. Garimpando em Monteiro e o terceiro de diversas regiões do Brasil Mirian de Carvalho. encontrei muito ouro e Vencida essa primeira muita pedra preciosa. etapa, agora vou batalhar Lamentavelmente, grande para que alguma editora parte dessa riqueza estava transforme esse trabalho escondida através do em livro impresso.Conto legado remanescente do com a colaboração e ajuda machismo e da educação de todos. patriarcal. Mas é bom que rubens jardim (* fizemos um livrinho com minise152 esclareça: em Portugal, AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA bio e poemas das participantes.)


Rubens, ficou muito bom o livro! Muito útil num universo cultural em que a poesia masculina parece sempre ter mais peso. Tomara que consiga transformá-lo em livro impresso! Marina Colasanti Rubens Jardim, grande divulgador da poesia, acaba de dar mais uma notável contribuição, reunindo no livro As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira muitos dos seus principais nomes. Valdir Rocha Minha homenagem para o seu trabalho pioneiro: AS MULHERES POETAS. Por sua contribuição ficará para sempre na História da Literatura Brasileira. Viva Rubens Jardim. Sonia Sales Queridíssimo, que trabalho hercúleo! Só mesmo um poeta sósia de Zeus se lançaria a uma aventura dessas. Que imenso prazer poder estar na companhia de tantas belas poetas, pela mão de um poeta de tamanha percepção e sensibilidade. Angélica Torres Lima Este maravilhoso projeto de Rubens Jardim é um grande e especial presente deste poeta tão generoso com a arte, a poesia, a cultura e a literatura - para nós. Um presente para nós, poetas mulheres brasileiras. Um presente para leitores, professores e pesquisadores. E, sem dúvida, para a própria Poesia. É uma honra fazer parte. Rubens merece todos os aplausos, pois, mantendo ativa sua vibrante produção individual, também organiza e coordena muitos projetos sempre voltados à divulgação da literatura, ao congraçamento, ao encontro e aos diálogos. Parabéns, Rubens, por fertilizar de arte o nosso cotidiano e o nosso universo. Beatriz Helena Ramos Amaral Belo trabalho, meu caro poeta! Ronaldo Werneck Que as utopias se inspirem em você, Rubens Jardim Beth Brait Alvim O Rubens Jardim tem feito um trabalho lindo de divulgar a poesia feita por mulheres no Brasil. Esse trabalho, de anos, começa agora a ser publicado em livro digital. Simone Teodoro Forte e linda antologia “As Mulheres Poetas”... fruto da dedicação, esplêndida pesquisa do querido poeta Rubens Jardim!!! Imperdível leitura! Patrícia Claudine Hoffmann AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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Por que a poesia, por que as palavras? Eu não poderia nem me conceber como alguém sem as vozes que me invadiram desde antes d’eu nascer! Quanto mais vozes me chegam, mais ampla e funda me tornam. Preciso de todas elas. Até há pouco, as vozes das mulheres, cada uma única, mais da metade da humanidade, estavam silenciadas ou esquecidas. É urgente resgatá-las, proclamá-las, para salvar nossa humanidade em perigo. Rubens Jardim percebeu o desafio e aqui nos traz uma primeira dose indispensável dessa poesia, no momento exato para que não pereçamos sufocados! Salve, Rubens Jardim! Salve, mulheres poetas! Salvem-nos Maria Valéria Rezende Rubens Jardim, que há anos estuda e divulga nossas mulheres poetas, lança um livro - gratuito - sobre elas. Recomendo. Renato Janine Ribeiro Parabéns pelo excelente trabalho. Antonio Carlos Secchin Livro digital organizado por Rubens Jardim faz um rico mapeamento da poesia brasileira contemporânea de autoria feminina. Claudio Daniel Trabalho memorável, potável, cantável poetável, historicável, encantável do minerador de jardins gerais da poesia feminina brasileira, Rubens Jardim. Mulheres poetas de todos os pontos do país vstíssimo,diretamente musas, sem intermediários.O traballho de Rubens, reinstalando e melhorando o cânone vai contra o destrabalho da midia patrocinada pelo sistema financeiro antinação. Não mais submersa,a verdadeira literatura brasileira,retorna ao seu lugar central de energia no espaço da literatura mundial. Carlos Emilio C. Lima Rubens Jardim, poeta e incansável ativista cultural, de há muito e de forma generosa vem divulgando a poesia feita por mulheres no Brasil. Como se não bastasse, a compilação e divulgação de centenas de poetas em seu blog, pioneira cartografia do gênero, agora ele contribui definitivamente com a história da literatura brasileira, publicando o primeiro volume digital dessa série que pode ser lido em PDF gratuitamente. Trata-se de um inestimável trabalho, merecedor de todo aplauso. . Dalila Teles Veras Está maravilhoso, Rubens! Que trabalho acurado e bonito. Parabéns! Chris Herrmann Obrigada, suas ações pela poesia são atitudes pela vida. Rita Alves 154

AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

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AS MULHERES POETAS - Volume 2  

No segundo livro gratuito estão reunidas 136 poetas, desde Maria Luiza Ribeiro (1954) até Claudia Schroeder(1973).A apresentação é da poeta...

AS MULHERES POETAS - Volume 2  

No segundo livro gratuito estão reunidas 136 poetas, desde Maria Luiza Ribeiro (1954) até Claudia Schroeder(1973).A apresentação é da poeta...

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