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A guerra tomou tudo de mim. Minha família. A minha casa. Minha inocência. Em um país atingido por guerras e assolado por dificuldades econômicas, uma menina órfã e jovem como eu, tem muito poucas opções quando se trata de sobrevivência. Assim, eu faço o que preciso para viver, para comer, e eu tento muito duro não considerar o custo para minha alma. Meu coração está vazio, e minha existência brutal. A única impossibilidade na minha vida é o amor. E então eu o conheço. A guerra é o inferno. Leva um pedaço da alma de um homem fazer os tipos de coisas que a guerra demanda de você. Você vive com medo, você vive com a culpa, e você vive com os pesadelos. Caso você não tenha passado por isso, não há entendimento. Guerra não deixa espaço para o amor, não há espaço para a ternura ou suavidade. Você tem que ser duro, fechado e pronto para lutar a cada momento de cada dia. Perca o foco por uma fração de segundo, e você está morto. Agora, a única coisa que pode me salvar é ELA.

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“A tradução em tela foi efetivada pelo Grupo Pégasus Lançamentos de forma a propiciar ao leitor o acesso à obra, incentivando-o à aquisição integral da obra literária física ou em formato e-book. O grupo tem como meta a seleção, tradução e disponibilização apenas de livros sem previsão de publicação no Brasil, ausentes qualquer forma de obtenção de lucro, direto ou indireto. No intuito de preservar os direitos autorais e contratuais de autores e editoras, o grupo, sem prévio aviso e quando julgar necessário poderá cancelar o acesso e retirar o link de download dos livros, cuja publicação for veiculada por editoras brasileiras. O leitor e usuário ficam cientes de que o download da presente obra destina-se tão somente ao uso pessoal e privado, e que deverá abster-se da postagem ou hospedagem do mesmo em qualquer rede social e, bem como abster-se de tornar público ou noticiar o trabalho de tradução do grupo, sem a prévia e expressa autorização do mesmo. O leitor e usuário, ao acessar a obra disponibilizada, também responderá individualmente pela correta e lícita utilização da mesma, eximindo o grupo citado no começo de qualquer parceria, coautoria ou coparticipação em eventual delito cometido por aquele que, por ato ou omissão, tentar ou concretamente utilizar da presente obra literária para obtenção de lucro direto ou indireto, nos termos do art. 184 do código penal e lei 9.610/1998."

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Ave-maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. As palavras foram sussurradas baixinho, seus dedos esfregando as contas do rosário. Seus olhos estavam fechados com força, com as mãos tremendo. Ele não conseguia ficar de pé, só poderia cair de joelhos e bater suas costas magras contra a áspera, pedra fria da parede. Não tinha certeza se o silêncio era real ou se sua audição tinha sido explodida. Seja qual for o caso, o mundo ficou em silêncio ao seu redor. Uma bala bateu na parede perto de sua cabeça, e ele se jogou para o lado. Sentiu uma breve fisgada de dor quando sua cabeça bateu contra o chão. Não ouviu nenhum tiro, assim seus ouvidos não deveriam estar trabalhando. Outra bala, uma terceira e quarta, e, em seguida, toda uma chuva de granizo assassino impactando o muro e a estrada de terra, fragmentando a pedra e manchando-o com cacos de picadas de rocha. Lançou-se a seus pés, tropeçou em uma corrida, e mergulhou por uma porta. As balas o seguiram, batendo na madeira da porta, desaparecendo escuridão adentro, ziguezagueando e ricocheteou. Deixou-se cair no chão, em seguida, virou-se e se encolheu no canto. Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Seus ouvidos zumbiram, estouraram, e liberaram. Imediatamente, o som de tiros de rifle de assalto encheu o ar, um duro ‘hackhackhack’, uma pausa... ‘hackhackhack’, o apito do assobio de um RPG, seguido por um breve, cheio, expesso silêncio... Uma explosão ensurdecedora da granada explodiu nas proximidades, sacudindo a poeira do teto.

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Um homem gritou estridentemente em árabe poucos metros de distância... ―Allah! Allah! Outra voz, mais longe, gritando palavrões em inglês. Silêncio. Silêncio. Hackhackhack... Uma M16A2 retornando fogo.

AK-47;

crackcrackcrackcrack...

Uma

Ele conseguiu ficar de pé sem vomitar ou ter um colapso. Não estava de forma alguma pronto para isso. Ele se inscreveu para tirar fotos, escrever uma história, não para ser baleado. Ele era um jornalista, não um soldado. ― Parem de atirar em mim! - Queria dizer, mas não podia. Se encolheu contra a parede e inspecionou sua câmera, deu um suspiro de alívio surpreso ao vê-la intacta. Um pequeno milagre, na verdade, considerando como estava atirando-se ao redor. Ele enfiou a cabeça pelo canto, examinando a cena por um instante. Lá: um homem em um keffiyeh1 xadrez vermelho e branco que está em um telhado disparando uma AK-47, o estoque de um RPG cutucando acima de sua cabeça. O fotógrafo trocou a lente grande angular para telefoto, com foco na insurgente; ‘snap’, peguei ele quando levantou a espingarda ao ombro, um olho vesgo; ‘snap’ de novo quando ele levantou o rifle acima da cabeça em júbilo. O fotógrafo deixou-se cair ao nível da rua, deitado de bruços, ‘snapsnapsnap’, capturando a queda, e queda de um fuzileiro naval, a descrença torturada em seu rosto, os braços apertaram-se sobre sua garganta vermelho-gritante, então ‘snapsnapsnap’ como seu companheiro se ajoelhou na rua ao lado dele para tirar o talão na insurgente, crackcrackcrack... Crackcrack... O keffiyeh caiu e foi manchado de vermelho. Ele ouviu um barulho e um gemido vindo de um canto: um menino e sua irmã amontoados, segurando firmemente um ao outro. O menino levantou-se devagar, o endurecimento em seus olhos. Ele estendeu a mão para o chão, levantou um rifle, e apontou. O fotógrafo levantou as mãos para mostrar que estava desarmado, o garoto tagarelava alguma coisa em árabe, acenou para o fotógrafo com o focinho. Ele balançou a cabeça, afiado para trás, abaixou as mãos: ele 1

É o cocar tradicional Oriente Médio formado a partir de um quadrado, geralmente de algodão, lenço.

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tinha uma Beretta 9 milímetros na parte baixa das costas, uma precaução que esperava que ele nunca tivesse que usar. Se ele tivesse aprendido alguma coisa como um jornalista incorporado, foi à única regra de guerra: matar ou ser morto. Ele já estava dando justificativas, desculpas. O menino começou a gritar, estridente e com raiva. O fotógrafo apoiado contra a parede, batendo a mão lentamente em direção ao nódulo duro da pistola contra sua espinha. Ele segurou a arma com força, preparando-se para abrir fogo. Se ele tivesse sido confrontado com um adulto, o movimento teria sido óbvio, mas este era um garoto, apenas um garoto, não mais do que dez ou onze anos. Ele segurou a AK como se soubesse como usá-la, no entanto, o terror desesperado em seus olhos falou de uma vida curta em uma zona de guerra perpétua. Ele provavelmente era embalado para dormir por tiros e explosões, tanto quanto a música de mãe e os braços do pai. Ele provavelmente tinha brincado com o rifle como uma criança, sentada no colo de seu pai; levantou, fingiu disparar, fazendo os sons com que os meninos fazem em todo o mundo quando se brinca de soldado. Este rapaz, porém, tinha visto guerra. Ele brincou e fingiu coisas que tinha visto, e não apenas cenas da imaginação de crianças abrigadas. Ele tinha visto tios e primos envoltos por cobertores velhos, parados e frios, tinha visto Marines através de sua aldeia, altos e arrogantes. Talvez ele tivesse ganho uma barra de chocolate de um, um punho na cabeça por outro, um olhar frio de um terceiro. Talvez seu pai tenha sido morto por um americano no deserto. Talvez ele fora deixado sozinho com sua irmã. Agora, aqui havia um americano e ele tinha a chance de igualar o placar. O que esse menino sabe sobre regras de engajamento, ou a desonra de matar um não-combatente desarmado? É claro que o menino não podia saber nada disto, e, claro, o jornalista não estava desarmado. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores... Ele puxou a pistola, o mais rapidamente possível e sem problemas, disparou uma vez, duas vezes. O menino puxou o braço para o lado, para a esquerda, florescendo o vermelho, tamborilando poeira a partir do segundo tiro perdido. O menino caiu em câmera lenta, o sangue floresceu como uma rosa, espalhando vermelhidão. O olhar em seus olhos era algo que o fotógrafo nunca iria esquecer. O

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menino olhou para o americano, com uma expressão triste, acusando, perplexo, magoado, como se um brinquedo tivesse sido roubado. Sua irmã estava gritando, mas o jornalista não podia ouvi-la, sua audição se perdeu de novo, mas sua boca estava escancarada e seu peito arfava e ela estava inclinada sobre seu irmão. Ela virou-se para o fotógrafo, gritando com ele, sacudindo a cabeça, não, não. Ele baixou a pistola, virou-se, agarrou a cabeça nas mãos trêmulas, tentando sacudir a visão do menino caído. Ele não viu a menina gritando parada e pegando o AK-47. Ela segurou-a como ela tinha visto tantas vezes antes: baixa em sua cintura, a cinta pendurada como uma barriga distendida, o preto vacilante da mordaça, dois dedos no gatilho, a estoque de madeira cheia de cicatrizes e arranhada, escondida em sua axila. Ela puxou o gatilho, e foi o barulho do rifle que o trouxe de volta ao presente. Ela se perdeu, e ele foi congelado. Ele poderia filmar seu irmão porque ele era um menino e iria crescer como um insurgente desde o momento que se tornasse um adolescente, se ele já não fosse. Esta era apenas uma menina, 12 anos de idade, no máximo. Talvez ela tenha apenas começado, vestindo o hijab2, talvez ela fosse à única mãe que o menino teve. Ele não podia matá-la. Ele simplesmente não conseguia. Não podia. Ela não tinha tais escrúpulos, ela não perderia pela segunda vez. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte... Agonia passou através dele quando as quentes balas rasgaram seu peito e estômago. Ela esvaziou o clipe inteiro nele, deixando cair o fuzil quando fez clickclickclick, vazio. Ela caiu de joelhos ao lado de seu irmão, chorando agora, mancando e chorando. Ela não olhou para o norte-americano enquanto ele estava deitado no chão, sangrando. Amém. Ele estava flutuando agora. Viu a garota, muito longe de alguma forma, os ombros magros tremendo. A dor era distante, e ele estava com frio. Não havia nenhum som mais uma vez, mas desta vez o silêncio era uma pausa bem-vinda a cacofonia do inferno. O silêncio era um casulo envolvente de conforto. 2

É um véu que cobre a cabeça e o peito.

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Ele ouviu a Ave-maria, mais uma vez, mas não estava pensando, não estava dizendo. Foi uma oração que sussurrou-lhe sobre o abismo da eternidade: Ave-maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da morte... Amém. Houve um peso significante com estas palavras, mas ele estava muito envolto em paz, lento, frio e à deriva para entender. Então: Que o Senhor Jesus Cristo o proteja e leve-o para a vida eterna! Ele reconheceu que... O que era? Onde ele ouviu essas palavras antes? Em seguida, veio a ele o capelão McGillis e disse-lhe, sussurrou para Jimmy Carson quando ele estava ofegante em seu último suspiro, para Andrew Chavez e Lucas Haney quando eles morreram. O ultimo ritual… O americano ouviu a voz de McGillis em sua cabeça enquanto ele sussurrava a Eucaristia e o Viático. Talvez não em sua cabeça. Talvez, ao lado dele, ajoelhando-se e beijando sua pequena cruz de prata, com os dedos na testa. O silêncio se espalhou, o frio aprofundou a paz como um rio, afogando-o em seu abraço negro... Não havia nenhuma luz branca. Havia apenas escuridão e silêncio, e frio.

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O norte-americano, ele morre lentamente. Não como Mama, que morreu instantaneamente, em um spray de sangue vermelho. Lembrome de quando mamãe morreu. Tentei limpar o sangue do meu rosto, mas eu só manchava pior, fazendo meu rosto pegajoso, como uma máscara de lama. Ele não morre como Papa também, que foi morto por uma bala perdida na cabeça, súbita e silenciosa. O norte-americano, ele morre como o tio Ahmed, lentamente, e com dor. Algo sobre ser baleado na barriga faz com que tal sofrimento seja horrível. Tio Ahmed clamou a Deus para salvá-lo, chorando copiosamente assim há tanto tempo que me esqueci de ficar triste e só queria que ele morresse para que o terrível gemido e xingamento parassem e pedindo iria parar. Deus me perdoe, mas eu queria isso. Não só uma, mas muitas vezes. Este norte-americano, no entanto, ele não é tão barulhento. Ele resiste, há sangramento da barriga e do peito, e fazendo um barulho de sucção cada vez que respira. Ele não chora ou grita, ou agarra a si mesmo, como se estivesse tentando manter sua vida com braços enfraquecidos. Ele simplesmente está lá, resmungando para si mesmo em voz baixa, olhando para o teto, tocando essas pequenas contas do rosário de madeira. Ele trabalha as contas como se lhe desse conforto, como se, junto com as palavras estranhas que ele fala, poderia tirar a dor. Hassan, meu pobre irmão, é barulhento, gemendo e xingando. Ele olha para mim, tentando respirar devagar, agarrando o meu braço, mexendo a boca. Eu choro em silêncio, coloco meus dedos sobre a boca, digo a ele que eu o amo, digo-lhe que ele vai ficar bem, ele vai ficar bem. Eu desembrulho meu hijab, rasgo um pedaço dele, e enrolo o comprimento do tecido firmemente em torno de seu braço sangrando. Hassan, ele apenas suspira, olhando aterrorizado, e tem o meu olhar e

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aperta os dentes enquanto eu circulo o pano apertado em torno de sua ferida. Eu sinto a vergonha lavar a culpa em cima de mim quando eu olho para o norte-americano, morrendo sozinho. A raiva que me assumiu, me fez pegar a arma e atirar, a raiva se foi e eu me sinto vazia, vazia como um jarro de água. Eu sei que Deus vai-me perdoar, mas o norte-americano? Ele não parece mal. Ele parece um pouco jovem. Ele é alto e magro, com cabelo vermelho e uma barba que não é bem uma barba, a barba por fazer e parece a nuca de um homem que não se barbeava há muitos dias. Seus olhos são azuis, muito brilhantes, surpreendentes em sua intensidade. Ele tropeçou em cima de nós, fugindo das balas pesadas, segurando uma câmera e respirando como se estivesse com medo, segurando as contas por seu queixo e orando. Eu não conseguia entender suas palavras, mas eu sabia que ele estava orando. Seus olhos estavam fechados, e sua boca estava se movendo, mas ele não estava falando em voz alta. A oração é a oração, mesmo que ele não estava orando a Deus como devia. Talvez Deus vá ouvi-lo de qualquer maneira, eu me lembro de pensar. Talvez todos os deuses sejam o mesmo Deus, apenas com nomes diferentes, e uma oração para um é uma oração para todos. Eu desejo que isso seja verdade, enquanto eu assisto a luta do americano para respirar, agarrando-se teimosamente à vida. Eu quero que ele tenha conforto, para ter a salvação que iria levar sua alma para o céu. Eu não quero tê-lo mandado para o inferno. Ele olha com tanto medo, esfregando as contas de madeira e orando, sangrando até a morte. Ninguém deveria ter que morrer sozinho e com medo. Ele tirou algumas fotos com sua câmera, enfrentando a tempestade de balas, olhando ao redor do umbral da porta e correu de volta, como eu já vi outros homens fazendo, só que eles fizeram isso com armas em vez de uma câmera. Eu me pergunto o que seus quadros se parecem. Eles mostram a morte em todas as suas formas? Minha gente morrendo, seu povo morrendo, cada um matando o outro. Eu não sei por que eles lutam. Em seguida, o norte-americano ouviu Hassan em movimento, e Hassan ficou com raiva, mas ele estava com mais medo do que raiva. Quando os meninos e homens estão com medo, eles transformam em raiva, rapidamente, e no caminho do céu azul quente fica escuro com nuvens negras, quando uma tempestade repentina ocorre dentro de

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Hassan que estava com muito medo. Ele só queria proteger-me, para ser um homem, ser corajoso, e assim ele se fez muito irritado, mas ele era apenas um menino. O norte-americano não era perigoso, não até que Hassan apontou a arma do Papai para ele. Eu não queria Hassan atirarando, mas eu estava paralisada de medo. Quando eu vi o americano chegando atrás das suas costas, eu sabia no meu estômago e meu coração de que algo ruim estava para acontecer. E o fez, tão rápido. O norte-americano sacou a arma, rápido como uma víbora impressionante, e o ar estava cheio com o estrondo de tiros. Hassan gritou, empurrou para trás, caiu no chão de terra. O som era ensurdecedor, tampei minhas orelhas. Fui tomada pela raiva depois. Ele era meu irmão, e ficamos sozinhos. Nós estávamos assustados. Eu tinha que proteger o meu irmão. A raiva tomou conta de mim. Eu não poderia ajudá-lo. Era como se eu estivesse sonhando, da maneira que eu estava em movimento sem ser capaz de controlar o que eu estava fazendo. Abaixei-me, vagamente ouvindo o som de gritos em algum lugar longe, peguei o rifle pesado, e disparei. Eu parei, pensei por um momento que ele poderia atirar em mim, mas não fez. Eu estava contente. Eu não quero morrer. Ele balançou a cabeça um pouco, e eu vi algum tipo de determinação endurecer lá em seus olhos azuis brilhantes. Ele resolveu me matar, pois eu tinha uma arma? Eu não podia morrer. Hassan precisa de mim. Tia Maida precisa de mim. Meu dedo puxou o gatilho, e o norte-americano foi rasgado, caiu no chão. Minhas pernas não me suportam por mais tempo, e eu sabia que os gritos estavam vindo de mim. Quando Hassan acalma e é capaz de sentar-se, deixei-me chorar lágrimas suaves, lágrimas silenciosas. Eu ouço o sussurro do americano, ouvi-lo soluçar e soltar a respiração, ouvi as contas clicando juntas. Eu me levanto, escovo a sujeira dos meus joelhos, e vou até ele. Ele olha para mim, mas eu não acho que ele me vê. Talvez ele veja alguém, talvez sua mãe, ou um amigo, ou uma esposa. Tomo sua mão na minha. Eu não me importo que ele é um infiel, e que ficarei impura de tocar um homem como esse. Eu só sei que Deus queria que eu orasse por ele. Portanto, eu rezo. Peço a oração para facilitar a sua passagem para os braços de Deus, não sabendo se o deus de sua reza era como o meu Deus, ou se as contas que segurava era seu deus, ou se ele só rezava para seus ancestrais, como as pessoas que eu aprendi na escola, antes de parar de ir. Eu oro e deixo-me chorar por

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ele, porque se ele tem uma mãe, ou uma irmã, ou uma esposa, eu sei que eles querem alguém para chorar a sua morte. Ele morre enquanto oro, e eu fecho seus olhos, como eu fechei de Mama e do Papa, e do tio Ahmed. Eu dobro as mãos sobre os rosários. Eles são suaves e desgastados de ser esfregado com tanta frequência. Eu coloco a câmera em seu estômago, bem como, para que, quando os outros americanos o encontrarem, eles serão capazes de ver suas fotos. Eu me levanto de novo e vou para a porta, tentando não ver o corpo do americano. Sinto-me muito crescida enquanto rastejo cuidadosamente para a casa da tia Maida, com Hassan se arrastando atrás de mim, segurando o braço, rangendo os dentes contra a dor. Eu me sinto velha no meu coração, na minha alma cansada. Eu estou feliz que eu rezei para o americano, e espero que seu Deus tenha me ouvido. Peço a meu Deus, a Allah, e me pergunto se ele me ouve. A luta passou longe de onde vivemos, Hassan e tia Maida e Eu. As bombas piscam durante a noite, sacudindo a terra até o amanhecer. Chocalhos e rachaduras de tiros, e há gritos fracos e distantes. É o som constante da morte. Eu ouço o ‘whump-whump-whump’ de helicópteros norte-americanos, o alto grito de jatos, o ruído dos tanques e as coisas que levam muitos soldados, como tanques, mas sem os canhões. É tudo muito longe agora, no entanto. O braço de Hassan cura lentamente, e ele queima com raiva, e com impaciência para se juntar à luta. ― Eu sou um homem! - Ele gritou. ― Eu vou matar os americanos, pois eles mataram a mamãe e o papai. Assim que eu estiver bem, eu irei e matá-los. Peço-lhe para ficar aqui, onde ele está seguro. Tia Maida apenas se senta à mesa, olhando com os olhos em branco na parede, e ela não diz nada. Depois que seu marido, o meu tio Ahmed, morreu, ela começou a se fechar em sua mente, onde ela não terá que perder mais ninguém. Ela vai morrer logo, eu acho, e então vai ser só eu e Hassan neste mundo. Tia e tio, mamãe e papai, cada um tinham pouco dinheiro, e agora é só tia Maida. A vida continua, apesar da guerra, apesar da morte por toda parte. As lojas abrem na parte da manhã para vender alimentos, as barracas com seus fornecedores com olhos de falcão. Eu tento pedir comida, para não roubá-la, mas tenho pouco. Hassan está com fome, e eu também, tia Maida não diz nada, não se move, mas 14


acho que seu corpo se come para mantê-la viva e, em breve não haverá mais corpo para comer, e ela vai fechar os olhos para sempre. Peço a Deus para salvá-la, para acordá-la, para que ela cuide de Hassan e eu, porque eu sou apenas uma garota e eu não sei como. Eu oro a Deus para proteger Hassan, para mantê-lo longe da luta. Penso no americano que morreu e em como sua oração não o salvou. Tio Ahmed chamou Deus para salvá-lo, e ele morreu. Orei por Deus para poupar a mamãe e o papai, mas eles morreram, também. Estou começando a me perguntar se Deus me ouve. Talvez porque eu sou apenas uma criança, ele não me escuta. Talvez ele só ouça as orações dos adultos. Eu não acho que eu vou orar mais, se a tia Maida morrer e deixar-nos sozinhos.

Eu acordei com luz do sol da manhã refletindo através da janela fechada com tábuas, perfurando o cinza sombrio da nossa pequena casa. Sento-me, ajustando o meu vestido em meus ombros. Meu véu, ou o que resta dele, está no chão ao meu lado, mas eu não vou colocá-lo ainda. Meu cabelo está longo, solto e emaranhado, brilhando preto e quase azul no meu ombro. Eu deveria escová-lo, mas eu não tenho tempo, porque devo continuar a procurar comida para a tia Maida, Hassan e eu. Eu olho em volta, sem me levantar. A casa é tão pequena que posso ver tudo de onde estou sentada na minha cama sob a janela, ao lado da porta. Não é a cozinha, um fogão e uma geladeira vazia. Não é o sofá, esfarrapado e rasgado, vazio. Hassan se foi. Eu sinto pânico na minha barriga, sabendo que ele é jovem demais para entender o que ele está fazendo, mas eu não posso ir atrás dele ainda. Alguma coisa está errada. Acho a tia Maida em sua cadeira olhando pela pequena TV preto e branco, agora como sempre fora do ar.

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Ela ainda está sentada em linha reta, as mãos cruzadas no colo, olhando para a parede, mas seu peito magro não subiu e desceu, pois tem sido por tantas semanas. Consegui alimentá-la por um tempo, um pouco de sopa aquecida no fogão, em seguida, um pouco de pão e feijão que eu comprei, encontrei ou roubei. Então ela virou o rosto e não quis comer nada. Ela me deixava deitar água na boca, assim, pelo menos ela não morreria de sede, o que eu acho que é pior do que morrer de fome, embora eu não saiba por que eu acho isso. Talvez seja porque a fome é apenas uma dor surda em sua barriga, crescendo mais nítida como os dias se movem passando. Você cresce mais com fome, sempre mais fome, como um buraco em sua barriga cada vez maior até que você acha que pode engolir suas costelas e seu coração e fígado e qualquer outra coisa que se esconde por trás da pele de seu peito, barriga e as partes eu não sei o nome. Sede, no entanto… é um desespero. Você faria qualquer coisa por um copo de água. Ter sede é pior do que estar com fome. Você pode comer um inseto, ou um verme, você pode pegar uma lata de feijão ou um pedaço de pão duro de uma tenda do mercado. Mas para encontrar água? Não é tão fácil. Uma garrafa de água é pesada. Ela não se encaixa sob as dobras de um vestido, ou em uma luva. Você começa a ter sede e fica sedento até que esteja com raiva ou ódio. Sua boca se transforma em um deserto, seco e arenoso e vazio, seus lábios rachados. Eu acho que é por isso que a sede é pior do que a fome. Tia Maida morre de fome, mas na verdade de um coração partido. Ela é velha, e ela amava o meu tio Ahmed por toda a sua vida, desde que era uma garotinha. Ele nunca bateu nela, como muitos homens fazem com suas esposas. Ele a amava. Quando ele morreu, eu acho que ela o fez também, só demorou mais tempo para o seu corpo perceber que o seu coração e mente já estavam mortos. Eu toco seu rosto e está frio, muito frio e duro. Seus olhos olham sem ver. Ela vê o tio Ahmed no céu, eu acho. ― Você vê Deus? - Eu não reconheço a minha voz ou por que estou fazendo perguntas a uma mulher morta. ― Tia Maida, ele está lá? - Perguntei-me por que ela não me responde! Ela não responde, é claro, pois ela está morta. Eu sou apenas uma menina, apenas quatorze anos, e os meus braços são fracos, mas a tia Maida é tão pequena, tão fina como um pássaro que eu possa arrastá-la da casa, ainda endurecida em uma posição sentada. Uma mulher idosa observa de uma porta aberta. Seus olhos são como pérolas marrons, duros e frios, ela não se move para me ajudar, ou fazer perguntas. Eu não tenho nenhum hijab, e ela enrola seu lábio em

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sinal de desaprovação. Eu arrasto minha tia morta pela rua, tanto quanto eu posso. Eu não sei onde vou colocá-la, o que fazer com ela. Não há ninguém para me dizer, eu acho. Pelo menos, eu não sei o que dizer. Então eu a arrasto tanto quanto eu possa até que meus braços e pernas e costas estão doloridas e vazios de força, e então eu deixo-a, sentada desajeitadamente em um beco, em meio às pilhas de lixo.

Eu fico sobre ela por um momento, sem saber o que dizer para o corpo morto. No final, eu não digo nada. Eu sussurro: ― Adeus, Tia Maida. - Para seu espírito, mas isso é só depois que eu voltar para casa. Um cadáver é apenas um corpo morto. Tia Maida foi embora há muito tempo. Estou preocupado com Hassan. Eu não acredito que ele volte, mas eu continuo esperando. Eu envolvo meu hijab esfarrapado e rasgado em volta da minha cabeça o melhor que posso e parto em busca de Hassan, para trazê-lo para casa e repreendê-lo ser um garoto estúpido. Ele falou em encontrar uma arma. Acho que naquele dia, há dois anos, no edifício destruído. Eu não sei de onde ele tirou esse rifle em primeiro lugar. Eu tinha ido embora, à procura de comida, e achei Hassan amontoado em uma porta enquanto tiros ressoavam nas ruas, a poeira levantando, gritos ecoando, em inglês e árabe. Eu me escondi em um canto, esperando o tiroteio parar, e quando isso aconteceu, corri em toda a rua para onde ele estava escondido, lágrimas secando no rosto. Ele não estava ferido, e eu segurei ele quando o tiroteio começou de novo. Ele estava segurando algo no peito, contra a parede, os joelhos e os braços em torno dela, seu pequeno corpo tremendo. Eu estava atrás dele, meus braços ao redor de seus ombros, meus dedos segurando as mangas. Um soldado americano correu por nós, o rifle levantou a sua bochecha. Ele fez uma pausa, olhou para nós, nos dispensou, e continuou, galopando para longe como um cão selvagem, uma ameaça clara na maneira como ele correu, curvado para baixo perto da terra. Quando ele parou, Hassan ficou tenso, e eu podia sentir o ódio fervilhando dele. Eles mataram a mamãe e o papai, então ele os odeia. É simples, para ele. Eu sei que as balas que tiraram suas vidas poderiam facilmente ter sido nossa, no entanto. Balas perdidas não reconhecem americano ou iraquiano. Eles só sabem que a carne é macia e o sangue vermelho. Eu não posso explicar isso para Hassan, porém, porque ele não vai se importar. Eu não posso explicar por que alguém está matando 17


ninguém, porque eu não sei a resposta por mim mesma. O Iraque nunca foi um lugar seguro, mas quando as bombas começaram a cair, explodir na distância e piscando como fogos-de-artifício, tornou-se ainda mais mortal. As ruas cheias de homens com armas, tanques, caminhões com guerreiros vestidos keffiyeh e segurando armas. Foi repentino, e não parou. A morte está em toda parte agora. Quando o soldado norte-americano morreu, nós corremos, e eu puxei Hassan atrás de mim, sem olhar para ele. Armas caíam e balas zumbiam ricocheteando na nossa frente, eu empurro Hassan em um prédio vazio, destruído por uma bomba ou um foguete. Nos escondemos no canto e esperamos. Então o homem americano veio com a câmera, não era um soldado, mas ainda assim um americano. Ele nos viu, e foi quando Hassan se aproximou, com uma arma em seus braços, grande demais para ele. Eu queria gritar com ele, perguntar-lhe onde ele tinha conseguido tal coisa, mas não podia. Minha garganta estava fechada, e se eu gritasse, estava com medo de o norte-americano ter uma arma que não podíamos ver e atirar em nós. E, em seguida, a arma disparou, a arma escondida do norte-americano. E então eu o matei. Eu ouvi um choro, e sabia que era eu. Eu sabia que as lágrimas não trariam de volta o americano morto. Eu não ia pranteá-lo, pois eu não o conhecia. Mas lamento sua morte. Eu choro por mim mesma, não por tê-lo matado. Vejo-o ainda agora, enquanto estou acordada, dois anos depois, olhando para o local onde ele morreu. Seus olhos azuis são largos, olhando para mim, mas não me vendo. O sangue se espalha por baixo dele, que escoa dos buracos na barriga e no peito, formando piscinas ao seu redor. Isso fede, o sangue. Cheira acobreado, e vagamente a merda. Deixei-me falar a palavra é ruim, já que não há ninguém para cuidar. Eu pisco, e ele se foi, deixando-me com o mau gosto de memórias e pesadelos acordados, sempre na boca faminta. É uma longa caminhada, já está bem escuro e tarde pelo tempo que eu encontrei alguém. Acho que um bando de soldados, com rifles pretos e marrons encostados na parede perto de suas mãos, ou através de seus joelhos. Há sete deles, fumando cigarros. Eles falam alto, proclamam seus feitos no campo de batalha, contando quantos norteamericanos mataram. Eles são todos mentirosos. Eu posso dizer pelo jeito que eles riem muito alto, riem através da fumaça que flutuava a seus narizes.

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Eles param quando me vêem, e arrastam os rifles mais à mão, mesmo que eu seja iraquiana, e apenas uma menina. ― O que você está fazendo aqui, garota? - Um deles rosna. ― É perigoso. Você deveria estar em casa com sua mãe e pai. Eu ignoro suas perguntas estúpidas. ― Meu irmão... - Minha voz é suave, muito suave. Eu a fortaleço. ― Meu irmão saiu correndo para lutar. Ele tem apenas 12 anos de idade. Preciso encontrá-lo. Eles riem. Um deles não, e ele fala para mim. ― Eu vi um menino. Horas. Com alguns outros homens. Ele tinha um rifle, uma filmagem feita pelos americanos. Ele abateu um, também, eu acho. ― Garoto estúpido! - Murmuro baixinho. ― Eu preciso encontrálo! - Eu digo, mais alto. O único que falou encolhe os ombros. ― Boa sorte. Só o vi uma vez, muito rapidamente. Ele foi para o oeste. - Olho ao meu redor, sem ter ideia de onde fica o oeste. ― Você pode-me mostrar? Ele olha para mim, então levanta um ombro. ― Eu poderia. Os outros estão olhando-me, com um olhar em seus olhos que me deixa nervosa. Eu quero ficar longe deles. ― Por favor, me mostre? Ele é apenas um menino. Ele não deveria estar lutando. ― Se ele pode disparar um rifle e matar os infiéis, ele é um homem! - Diz um dos outros. ― Você deveria ir para casa para sua mãe e deixar o menino fazer o trabalho de um homem. ― Nós não temos nenhuma mamãe ou papai. Eles morreram. Ele precisa de mim. Por Favor, ajude-me a encontrá-lo! O olhar estranho, com fome em seus olhos fortalece quando eles percebem que eu estou sozinha, sozinha. Seu olhar percorre o meu corpo, do meu rasgado hijab para o meu velho vestido, os seios e minhas pernas finas, o triângulo entre eles visíveis quando uma brisa sopra meu vestido liso contra mim. Eu sei o que eles querem. Eu sei muito. Eu vi o que os homens fazem com as mulheres, e eu sei que eu não quero que isso aconteça para mim com esses homens. Eu afasto-me, observando-os. Eles não se movem, e quem disse que tinha visto o meu irmão acena com a cabeça, ainda que levemente. ― Preciso de uma bebida! - Ele diz, um pouco alto demais, e os outros me esquecem quando eles saem em busca de álcool

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Eles perambularam para a noite, e o mais gentil olha de volta para mim. Ele é mais velho, talvez ele tenha ou tinha, uma filha da minha idade. Talvez ele também saiba o que iria acontecer comigo, e está tentando poupar-me da única maneira que pode. Eu aceno para ele, um silencioso obrigado. Ele estala os dedos perto de seu joelho, um rápido gesto silencioso me dizendo para ir. Eu me viro e saio através de uma rua lateral, correndo cegamente até que o som de suas risadas desaparece. Eu paro de correr, giro no lugar para recuperar meu fôlego. Os edifícios são os mesmos muros, cor canela escura na luz do luar, fachadas de lojas fechadas e barracos fechados. A cidade está deserta, parece. Não está, no entanto, não realmente. Pessoas estão fechadas em suas casas, onde eles têm pelo menos a ilusão de segurança. Sozinha, perdida, não tenho tal ilusão. Eu ando sem rumo, em direção a ruídos, em direção à luz dos fogos. Eu passo grupos de homens com os sempre presentes rifles. Eu fico longe deles neste momento, procurando os grupos debruçados sobre fumaças laranja de cigarros para uma figura menor. Peço a Deus, mesmo que eu prometi a mim mesmo que eu não faria. ― Deus, o todo-compassivo, o todo-misericordioso, por favor, deixe-me encontrar Hassan. Deixe-me encontrá-lo vivo, por favor, Allah. Talvez seja sorte, talvez seja Allah respondendo a minha oração, mas eu o encontro. Ele está fingindo ser um homem, pendurando a arma por cima do ombro pela alça, a terrível arma quase tão alta quanto ele. Ele está com um grupo de homens, rindo de uma piada que alguém tenha dito. Ele não a entendeu, no entanto. Eu posso dizer pelo jeito que ele olha em volta para ver se todo mundo está rindo, parando quando o fazem. Eu marcho até ele, o medo esquecido sob o rio de raiva incandescente. Eu agarro-o pela camisa de volta e puxo-o ao redor. Eu arrebato o rifle do ombro fino e o empurro para os braços do homem ao lado de Hassan. Eu estapeio Hassan em todo o rosto, uma, duas, tão duro quanto eu posso. ― Seu menino tolo! - Eu grito, alto. ― Você fugiu, seu pequeno idiota! Passei o dia inteiro procurando você. Os homens estão rindo, e Hassan está com raiva, vergonha. ― Deixe-me sozinho, Rania! Eu sou um homem, não um menino. Eu não preciso de você para ser minha mãe. Eu sou um soldado. - Ele pega a arma de volta do homem ao lado dele e a coloca nos ombros resolutamente. ― Eu sou um soldado. Matei um homem hoje. Atirei

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nele. Eu, Hassan. Vou conduzir os infiéis da nossa terra, e você não pode me parar. Eu o agarro pela orelha e a torço, puxando-o para um passeio. ― Você está voltando para casa. Você não é um soldado, você é um menino de doze anos de idade. Ele arranca livre e me dá um tapa em todo o rosto, com força suficiente para me girar. ― Foda-se! Eu paro, tocando minha bochecha, atordoada. ― Hassan! O que estaria Mama dizendo se ela te ouvisse falar assim? Seus olhos se enchem de lágrimas de raiva. Ele não as detém. ― Eu não me importo! Mama está morta! Papa está morto! Existe apenas você, e você é uma menina. E a tia Maida, ela vai morrer em breve, ― Ela morreu ontem à noite. Enquanto você estava fora. Tive de lidar com isso sozinha. Ele tem a decência de parecer envergonhado pelo menos. ― Eu sinto muito, Rania. - Ele volta a olhar nos meus olhos e suspira, deixando as lágrimas escorrerem de seus olhos. ― Ela já estava morta. Ela só não sabia. Seu corpo tinha de apanhar o resto dela. Ainda assim não estou voltando para casa. Um dos homens atravessa o círculo e me chama de lado, fala-me em voz baixa. ― Você não vai ganhar desta forma, menina. Você ficou zangada, e ele não pode recuar sem perder a cara. Basta ir para casa. Nós vamos cuidar dele. Ele é um bom garoto. Ele será um bom soldado ― Eu não quero que ele seja um soldado! - Eu digo, muito alto. O homem apenas encolhe os ombros. ― Você não pode pará-lo. Ele é a guerra. Ele está disposto e capaz de empunhar um rifle, então ele se torna um soldado. Se você arrastá-lo para casa agora, ele só vai fugir de novo assim que você for dormir. Eu cedo e puxo uma respiração profunda. Ele está certo, e eu sei disso. ― Ele é meu irmão. Tenho que protegê-lo. O homem sacudiu a cabeça. ― Você não pode. Ele viverá ou morrerá. Você não pode mudá-lo. Pelo menos assim ele começa a escolher o seu destino. ― Então, eu apenas deveria ir embora e deixar meu irmão de doze anos de idade brincar de soldado? ― Ele não está brincando. Ele atirou balas de verdade a partir de um rifle real em soldados reais. Balas reais foram disparadas para ele. Isso faz dele um verdadeiro soldado em qualquer livro.

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Hassan vem para mim, com as mãos nos bolsos. Ele parece um cruzamento estranho entre um homem e um menino. O olhar em seus olhos é grave, com essa distância e frieza dos homens que viram a guerra. Sua postura, no entanto, é a de um menino, de mãos nos bolsos da calça, pé chutando a sujeira com a ponta do sapato maltratado, mas ele tem um rifle pendurado no ombro, casualmente confortável com a arma. ― Esta é a minha escolha, Rania, não a sua. - Diz ele, sem olhar para mim, mas para o chão entre seus pés. ― Eles vão me alimentar e me dar um lugar para dormir. Menos para você se preocupar, certo? ― O que vou fazer? - Eu odeio como eu soo petulante. ― Cuidar de si mesma. Eu não sei. - Ele encolhe os ombros, um gesto que pegou claramente a partir desses outros homens. ― Pare de se preocupar comigo. Ele se afasta, me batendo nas costas como se eu fosse um amigo, em vez de sua irmã. Ele está se esforçando para ser um adulto. Eu o afasto. Eu sou apenas uma garota, descartável. Eu corro a distância, sem olhar para trás, com raiva, lutando contra as lágrimas vazias para o irmão que provavelmente vai morrer em breve. ― Rania. - A voz de Hassan ecoa atrás de mim. Ele me conhece bem o suficiente para ver a raiva no conjunto dos meus ombros. Eu não paro, mas grito as palavras sobre o meu ombro, ainda caminhando. ― Seja um soldado, então. Seja morto. Veja se eu me importo. Ele não responde. Eu ouço um dos homens dar um tapa nas costas de Hassan. ― Ela virá por aí, filho. Dê-lhe tempo. Eu continuo andando, sabendo que o homem está errado. Eu não vou chegar perto. Hassan está certo sobre uma coisa. Só ter que me alimentar vai tornar as coisas mais fáceis. Eu faço o meu caminho através da cidade escura, os tiros silenciaram agora. Eu não tenho certeza exatamente onde estou indo, mas eu finalmente encontro o meu caminho de casa. A pequena caixa que é a minha casa está escura e tem cheiro de morte. Não há comida, não há café ou chá, apenas água corrente na torneira e gás do fogão. Eu colapso na cama e deixo-me chorar pelo meu irmão.

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Os dias passam. Eu não vi ou ouvi sobre Hassan. Eu passo meus dias à procura de trabalho, uma maneira de ganhar dinheiro para que eu possa comer. Eu não encontro nada. Não há lojas querendo contratar uma garota, ou eles simplesmente não podem pagar uma outra pessoa. Acho uma velha que me dá dinheiro para ajudá-la a fazer sua roupa e limpar a casa dela. Isso me sustenta por alguns meses. É agradável. Vou à sua casa todos os dias para lavar suas roupas em sua pequena pia e pendurá-las para secar, lavar o chão e pia e banheiro, então ela me dá um pouco de dinheiro, o suficiente para comprar comida até a próxima vez. Eu começo a ter esperança de que vou ficar bem. E então um dia eu vou para a casa dela, e ela está deitada em sua cama, olhando para o teto. Seus olhos escuros estão nublados, seu peito caído, parada assim, as mãos paradas. Eu fico na porta de seu quarto e olho para o seu corpo, mais uma pessoa que morreu. Eu empurro a minha culpa e vasculho seu apartamento. Acho um pouco de dinheiro, algumas roupas, um pouco de comida. Eu empacoto tudo em um saquinho que encontro em seu armário e vou embora, deixando-a deitada em sua cama. A culpa me chama de volta. Eu bato hesitante na porta em frente à dela. Um homem de meia-idade, com uma barba espessa e uma camisa branca sem mangas amarela manchado de gordura na barriga atende a porta. ― O que você quer? Eu tento ignorar o cheiro de seu odor corporal. ― A mulher que mora lá. - Eu aponto para a porta atrás de mim. ― Ela morreu. Lavava sua roupa para ela. Cheguei hoje e ela estava morta. Acho que de velhice. ― Você tomou alguma coisa? - Pergunta ele, olhando a bolsa no meu ombro. ―Não. - Eu minto, orgulho da minha voz calma. ― Hmmm - O homem olha para mim. ― Você está mentindo. Esse é o seu saco. Que a vi com ele quando ela visitava sua filha em Beirute. Pânico brota através de mim. ― Por favor. Isto é apenas um pouco de comida. - Ele acena a mão para mim. ― Vá. Ela não vai precisar de sua comida, vai? ― Não, ela não vai. - O homem acena sua mão em mim de novo, me empurra e fecha a porta atrás dele para passar ao outro lado do corredor e ir ao apartamento da velha. Eu o assisto por um momento, em seguida, viro e vou para casa. O dinheiro me dura por um longo período de tempo. Eu sou capaz de viver com o dinheiro da velha por muitos meses, comer um pouco, roubando um pouco de onde posso

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para esticá-lo. E então, um dia, o dinheiro desapareceu. Eu não sei quanto tempo ele tem sido desde que eu vi Hassan, uma vez que a tia Maida morreu. Um ano, talvez mais? Eu não sei. Eu preocurei trabalho, roupa para lavar, cozinhar para alguém, alguma casa para limpar, mas ninguém quer nenhuma ajuda. Todos querem permanecer em suas casas, onde é seguro. Eles querem fingir que não ouvem os tiros, veêm os caminhões carregados por soldados com olhos duros, os aviões gritando em cima. Estou cada vez mais desesperada. O buraco da fome na minha barriga está crescendo. Minha casa está vazia de comida novamente. Eu não tenho dinheiro, eu não posso encontrar qualquer tipo de trabalho. Eu vago pela cidade, parando em lojas para pedir comida ou trabalho. Ninguém cede. Ninguém se importa. Eu sou apenas uma menina. Eu vou mais longe e mais longe de casa, até que um dia eu não posso voltar antes de escurecer. Eu me encolho em uma porta, observando a escuridão escoar através dos edifícios como dedos famintos. Estou quase dormindo quando o cheiro da cozinha cheia de alimentos bate em todo o meu rosto. Eu ouço o riso, do sexo masculino, forte, violento e bêbado. Eu me levanto, varrendo as ruas com o olhar. Eu vejo um lampejo laranja de um incêndio em um telhado, e antes que eu perceba, estou rastejando no outro lado da rua, pela porta enegrecida, ouço o rangido raquítico das escadas na parte de trás do edifício. Eu não tenho um plano, ou alguma ideia do que me espera aqui em cima, mas o cheiro de carne assada é suficiente para conduzir o cuidado da minha mente. Há vários homens sentados em caixas e baldes e um sofá velho, tudo arrastado em torno de um fogo construído dentro de um velho barril de metal de algum tipo. Há oito homens que eu posso ver. Seus rifles estão no chão ou encostados na parede do último piso. Garrafas de álcool estão sendo repassadas e bebidas de um gole. Um dos homens de meia idade vira para tomar uma garrafa oferecida e me vê. Ele empurra o homem ao lado e aponta para mim com a garrafa. ― Você não deveria estar aqui, menina! - Diz ele. ― Você tem comida. - Eu digo, quase um sussurro. Como se explicasse tudo. ― Sim, nós temos. - Diz ele. ― Eu estou com fome. Por Favor, você pode me dar um pouco? - Eu não passo em frente quando ele estende um pacote de folha para mim. Eu posso ver a carne nele, e meu estômago ronca alto. ― Venha buscála. - Diz ele. ― Eu não vou te machucar. Eu não tenho certeza se acredito nele. Ele tem o olhar faminto em seus olhos, o olhar arrastando sobre meu corpo. Eu quero virar e

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correr, mas a fome na barriga reina sobre mim. Eu avanço lentamente. Os outros homens estão parados e em silêncio, garrafas estabelecidas, os olhos apertados e assistindo a troca. Eles nem sequer parecem estar respirando. Um deles aperta os dedos no tecido das calças nos joelhos. Estão todos me observando. Medo golpeia em meu coração, mas eu não posso me afastar. A folha com a carne assada está dentro do meu alcance. Eu preciso disso. Eu não tenho comido em dias. Meu estômago ronca novamente, em voz alta o suficiente para que todos possam ouvir, e o homem segurando os alimentos sorri. Não é um sorriso bem-humorado, mas triunfante. Pego o pacote, e ele me permite levá-lo. Eu quero devorar toda a suculenta carne o mais rápido que puder, como um animal, mas eu me obrigo a ir devagar, mordidela, observando os homens. Eu dou uma mordida, mastigo cuidadosamente, quase gemendo de alívio. Outro, e eu quase esqueço os homens.

Quase. A grande mão dura trava ao redor do meu pulso. ― Nada é de graça, menina. - A voz é baixa, áspera e dura. Eu olho para cima para ver os olhos castanhos redondos olhando para mim. ― Eu não tenho nenhum... Nenhum dinheiro. - Eu entrego de volta o pacote, embora faça um grande esforço para fazê-lo. ― Leve-o de volta, eu não posso pagar. Sinto muito. ― Eu não disse nada sobre o dinheiro. - Ele ri como se algo fosse engraçado, mas eu não sei o que. Um dos outros fala. ― Ela é muito jovem, Malik. Não. - Aquele com o pacote de carne, cujo nome parece ser Malik olha para trás, ao outro com nojo. ― Ela é velha o suficiente. Você não tem que se juntar dentro. - Ele olha para mim. ― Você já sangrou? Estou confusa. ― O quê? Sangrei? - Tento me afastar. Seu aperto em meus braços aperta. ― Sim, menina. Sangue. Seu sangue mensal. Sangue de mulher. - Sinto-me horrorizada e a vergonha de pulsa através de mim. ― S-Sim. Mais do que um ano. Ele se vira para os outros homens, sorrindo. ― Vêem? Ela é uma mulher. Estou começando a entender o que está prestes a ocorrer. Eu balanço minha cabeça e tento me libertar. ― Por favor, não. Não. Malik não me deixa ir. Seu sorriso se alarga. ― Sim, menina. Sim. Você comeu minha comida. Agora você me paga. Ele não vai doer muito. Eu não sou um monstro. Eu não vou te compartilhar. ― Sim, você vai! -

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Alguém diz, ameaça em sua voz. Malik rosna, levanta o rifle do chão sem soltar meu braço. ― Não, eu não vou. Ela comeu minha comida.

― Você não precisa ser assim! - Diz o primeiro que protestou. ― Ela é apenas uma garota. Vou comprar mais comida. Deixe-a ir. - Malik cospe no chão, balançando um pouco. ― Você é fraco, Mohammed. Ele me puxa para longe do fogo, no sentido de uma mancha negra de sombras que escondem as escadas. Eu tropeço depois dele, o medo batendo por mim descontroladamente agora. As escadas rangem sob o seu peso, e na minha cegueira de medo eu sinto falta de uma escada, tropeçando. Malik me pega, me segura pelo pulso e puxame para os meus pés. Há uma pilha de cobertores no chão em um canto, uma garrafa vazia de bebida alcoólica, uma caixa de cartuchos, uma caixa de papelão com latas e outros alimentos na mesma, e ao lado da cama estão algumas revistas com uma imagem de americanas mulheres nuas na frente. ·. Eu me esforço, afasto-me, e tento chutá-lo. Ele vai para fora do alcance e, em seguida, me dá um tapa na cara, com força suficiente para estrelas explodirem em meus olhos e meus ouvidos soarem. Sinto cheiro de sua respiração enquanto ele empurra o rosto perto do meu. ― Ouça, menina. É um comércio justo. Você precisa comer, e nada é de graça. ― Eu tive só uma mordida. - Eu sussurro. ― Por favor, deixe-me ir. - Malik tira meu rasgado hijab da minha cabeça e joga-o no chão, puxando o cabelo solto no processo, mas eu quase não sinto isso. ― Eu vou fazer um acordo. Se você cooperar em silêncio, vou lhe dar mais comida e algum dinheiro. Fazem semanas desde que eu tive uma mulher, e você é muito bonita. Estou me sentindo generoso. Se você continuar lutando, eu poderia ser forçado a feri-la, e eu não quero fazer isso. Não a um rosto tão bonito como o seu. - Tudo em mim se encolhe longe dele, mas a minha necessidade de alimentação, a minha necessidade de sobreviver move minha boca. ― Comida? E o dinheiro? Ele ri. ― Isso chamou sua atenção. - Ele não me soltou, mas me empurra para os cobertores. Eu tropeço e caio à minha volta, tento ir para longe dele, mas ele se ajoelha perto do fim dos cobertores para remexer na caixa. Ele pega várias latas de comida, um pacote de carne seca, e uma garrafa de licor. Coloca essas coisas no chão, e depois chega ao bolso e tira um maço de dinheiro, conta algumas notas, e adiciona à pilha. ― Lá. Acho que é mais do que generoso. - Malik sorri para mim, e eu percebo que ele está bêbado. Eu acovardo contra a parede, olhando para a comida e o dinheiro, bem consciente de que o que ele está oferecendo vai me manter viva por pelo menos um mês, se

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eu for cuidadosa. Mas o que ele está sugerindo que eu faça para obtêlo... Eu não posso. Eu simplesmente não posso. Meus joelhos apertam, e os meus braços atravessam meu peito. ― Eu... Eu não. – Minha voz racha. Eu preciso de comida, mas eu não sei como concordar. Ferve medo através de mim, nojo do suor das axilas manchadas de sua camisa, a barba rala no queixo, os olhos castanhos duros, as cicatrizes de acne na testa. ― Vai ter terminado rápido, garota. Ele move e se ajoelha em cima de mim, empurra meu vestido por cima meus quadris com as mãos ásperas. Ele desabotoa a frente, e meu coração martela como ele descobre os meus seios, minha privacidade. Meus olhos estão fechados, meu corpo tremia. Meu estômago ronca, rói, alimentando meu desespero. Dedos duros agarram os meus seios, e eu choramingo. Dedos duros rasgam minha calcinha de algodão fino, e cavam meu íntimo suave. Eu choro em voz alta, mas ele me ignora. Eu tento me afastar, mas ele me mantém no lugar com uma mão no meu ombro. Retira um cinto, e o som torna-se gravado na minha alma. Um zíper vai abrindo, em seguida, seu peso está acima de mim. Eu aperto meus olhos fechados, tento fechar meus joelhos, mas ele já está entre as minhas pernas e algo duro está pressionando contra meu íntimo. Eu choramingo de novo, e então alguma coisa aperta, agudo e doloroso, e, em seguida, estoura.

Eu choro em silêncio para a minha virgindade.

Acaba rápido, e seu peso está desaparecido. Algo quente e úmido está na minha perna. Um pedaço de pano é jogada sobre meu peito, e então eu não posso sentir a sua presença, ou sentir o cheiro dele. Abro os olhos e vejo que estou sozinha. Deus, o que eu fiz? Eu não oro a Deus em um tempo muito longo, e eu não sei por que fazê-lo agora. Eu tomo o pano e me limpo. Não é grosso, é fluído, branco pegajoso escorrendo minhas coxas, misturado com sangue. Eu quase vomito, mas não tem nada no meu estômago para abrir, então eu só me seco e sinto sabor ácido. Eu tomo as latas e envolvê-los no meu hijab. O dinheiro que eu agarro na minha mão úmida.

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Eu corro para casa. Eu não choro, até que eu estou na minha cama. Eu tomo banho de manhã, mas não me sinto limpa, mesmo depois de esfregar até que minha pele está crua. Eu olho para a riqueza de alimentos, o dinheiro que pode me alimentar e me sinto um pouco melhor. Foi horrível, mas me manteve viva. Eu como, e afasto a minha autoaversão, o meu desgosto, a minha preocupação com o que vou fazer quando isso se for.

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O bar é fraco e borrado e giro quando eu termino minha cerveja. Eu já perdi a conta até agora. Dez? Doze? Pode ter havido algumas fotos de lá também. Não importa. Derek está ao meu lado, empoleirado no banco com um pé no chão de madeira riscado, flertando com uma garota de cabelos castanhos alta com seios redondos enormes. Ele está próximo de marcar, eu tenho certeza. Ele está trabalhando essa garota por mais de uma hora, jogando acima de suas melhores histórias de guerra da última turnê. Fomos para trás por um mês, e não somos esperados ao navio de volta para o Iraque por mais um mês, mas Derek aumentou bastante a milhagem fora de suas experiências. E por milhagem, quero dizer mulheres. Esta menina, por exemplo, está pendurada em cada palavra sua, inclinando-se mais perto e mais perto dele, arqueando as costas para fazer seu decote grande ainda maior. Ela está acariciando seu joelho, distraído, e ele está fingindo não perceber, ao mesmo tempo avançando sua própria mão até o joelho em direção a coxa, o que é quase nua, pelos ossos do quadril nos shortinhos cáqui que ela está vestindo.

Desejo-lhe sorte. Eu tenho o meu próprio pedaço de céu esperando em casa... Bem, sua casa. É onde eu estive hospedado desde que voltei dos EUA. Lani Cutler tem sido a minha namorada desde o meu segundo ano do ensino médio, e ela esperou por mim através da

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Faculdade, me deu um lugar para ficar até que eu fui enviado para fora, e depois me deu uma baita despedida de um guerreiro... Durante três dias em linha reta. E agora estou de volta e ela está aqui ainda, me dando boas-vindas de um guerreiro e uma cama quente. Eu não sei o que há entre nós, exatamente, o que é parte da razão que eu estou fora em uma noite. As coisas estão diferentes, difíceis e confusas. Eu continuo tentando iniciar a conversa com ela, mas ela sempre evita.·. Eu estive fora por mais de um ano, e eu sei melhor do que perguntar o que fez, ou com quem esteve, enquanto eu estava fora, já que eu nunca exigi que ela esperasse por mim. Ela é uma boa menina, doce, linda, inteligente, de boa família. Boa demais para mim, mas ela não parece saber disso. Ela alega que me ama, e eu acredito nela. Eu estive pensando em pedir para ela se casar comigo, para me certificar de que sempre tenho alguém para vir para casa, de forma permanente. Eu a amo, eu acho. Eu penso nela quando eu me for, sinto falta dela. Eu posso nos ver juntos. Eu mesmo comprei o anel. Pouca coisa, não é grande e caro, mas é alguma coisa. Mas eu tenho dúvidas. Em algum momento, a minha cerveja desaparece e é substituída por um copo de água com quatro fatias de limão. Um prato cheio de pretzel e nuggets balança na minha frente e, de repente, nunca provei nada tão bom quanto essas pequenas bolas espumante de bondade crocante. Derek ri de algo que a garota disse e se levanta. ― Vamos sair daqui, Hunt. Você está bem? - Concordo com a cabeça. ― Yep. 'M bom. Não é longe a caminhada a partir daqui. - Derek franze o cenho. ― Você está em qualquer tipo de condição de andar, mano? Você parace como três folhas ao vento. - Eu dou de ombros. ― Talvez duas folhas. Mas eu estou bem. ― Cara, não seja um idiota. Você está martelado. Entra no táxi com a gente. ― Foda-se. - Murmuro. ― Você primeiro, babaca. Derek está rindo de mim, mas eu estou muito tonto para me importar.

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― Oh, seja bom para o seu amigo! - Diz a garota. ― Você não pode ver que ele está sofrendo por uma garota? Derek ri. ― Querida, ele não está sofrendo. Ele vai tropeçar em casa e foder ela de lado. Eu estudo a garota, me perguntando se eu sou tão óbvio. ― Cala a boca, Derek. ― Eu insulto. ― De lado. Tenho certeza que é só isso. Foda. Apenas foda. Sem amor. Apenas sexo. ― Vê? - A menina dá um tapa no ombro de Derek. ― Ele está definhando. Ele a ama, mas ela não o ama. Eu sou uma barman. Conheço esse olhar. Agora, deixe o seu amigo em casa, e, em seguida, leve-me para o seu lugar. Então, eu estou tropeçando fora no inverno amargo de Iowa, curvado contra o vento. Eu tinha esquecido que era inverno, por um minuto. Eu estive no deserto tanto tempo que eu encontro o frio insuportável agora. Antes de ser enviado para fora, eu teria vestido uma T-shirt para jogar futebol americano com Derek e os caras. Esta pequena tempestade não nos teria parado de jogar bola. Nós nunca sequer nos preocupamos com casacos, até que a temperatura fosse abaixo de zero. Eu estou deslizando para o táxi, a garota ao meu lado, com o braço fino, macio pressionando contra o meu. Quer dizer, eu sei que ela está indo para casa com Derek, e eu tenho Lani esperando por mim, mas eu estou bêbado e eu não me importo com sua proximidade.·. ― Você tem um cheiro agradável, como baunilha. - Eu digo. Opa. Eu não queria dizer isso. Uma espécie de coisa boba a dizer. Felizmente, a garota é amável o suficiente e experiente o suficiente com bêbados e não me leva a sério.

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― Obrigada. - Ela ri, e os peitos dela saltam agradavelmente. Eu tento não olhar. Concentro-me para fora da janela sobre os flocos de neve chicoteando, as árvores e os edifícios do subúrbio de Des Moines. Ela ri novamente com algo que Derek diz, e agora que eu não tenho as mamas dela saltando para me distrair, o som de sua risada é realmente bastante desagradável, mas eu não posso entender porque. Algo sobre isso me irrita, me leva ao caminho errado.·. Oh, Deus, eu estou entrando na fase idiota de minha bebedeira. Eu suspiro para mim mesmo e me concentro em tentar ver objetos individuais ao invés de duplas. Paramos no complexo de apartamentos de Lani, e Derek enfia a mão em um par de notas aleatórias do meu bolso para cobrir a conta do bar e o táxi. ― Obrigado pela carona. - Eu digo. Pisco para eles, ou tento. Eu acho que na verdade, apenas fecho os olhos. Derek ri. ― Sim, cara, não tem problema. Dorme um pouco. Vamos acertar o ginásio amanhã. Concordo com a cabeça e estendo minha mão. Derek bateu na palma da minha mão e pega a minha mão como se estivéssemos prestes a ter uma queda de braço, e depois solta. Eu saio e tropeço na porta, olhando hesitante para o número para ter certeza que é o caminho certo. É, e eu entro, encontro o apartamento escuro e silencioso. Não há uma única vela acesa no balcão da cozinha, uma das perfumadas que Lani gosta tanto. Cereja de caramelo amanteigado, rum de coco, ou alguma merda assim. Eu joguei fora, porque Lani tende a deixá-las acesas durante toda a noite, o que é um risco de incêndio, mesmo que ela aja como se não fosse.·. Eu me inclino contra o balcão, respirando o cheiro de vela apagada. Eu sempre pensei o que faria uma vela que cheira como uma vela soprada. O relógio do microondas diz 01h55min, e eu sei que é pouco provável que eu vou ver qualquer ação com Lani esta noite. Ela é recepcionista em um consultório médico e tem que se levantar muito cedo para estar no trabalho, então ela vai para a cama cedo. Isso não

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me incomoda, normalmente, já que eu sou um madrugador e estou no Corpo de Fuzileiros Navais por um período tão longo. Mas hoje, estou com tesão. Estou a fim de transar. Agora que estou em casa e longe do conforto familiar do bar, estar bêbado é um pouco desagradável, estou tonto e desorientado. Eu quero dormir, mas eu sei que não vou ser capaz. Quero fazer amor com Lani, mas isso não vai acontecer, de modo algum. Ela pode acordar, ela pode até responder o suficiente para me deixar fazer o que eu quero, mas ela realmente não vai acordar, ela só vai se mover um pouco, fazer alguns sons de gemidos parcialmente falsos, e, em seguida, voltar a dormir. Eu abro uma Dr. Pepper da geladeira, pego uma caixa de CheezIts e deito na frente da TV, pego o controle remoto e vou sacudindo-o. Clico através de canais sem rumo, comendo e bebendo, parando em alguns minutos no jogo Purdue-Clemson, mas não segura o meu interesse. Alguns canais mais, e então eu entro na CNN, a cobertura da guerra. Eu tento mudar de canal, mas isso não acontece. Meu dedo não vai pressionar o botão.·. Eu vejo os flashes, os traçadores, ouço o clipe de imagens do hack-hack... hackhackhack de tiros AK, e de repente eu estou transportado, ajoelhando ao lado de uma porta aberta, a M16 escondida em meu ombro, chutando como eu posso, explosões triplas em um vermelho-e-branco-xadrez keffiyeh visível em um telhado. Minha cabeça dói, meus punhos cerram no peito, e os meus punhos apertam até ouvir o craqueamento remoto do plástico na minha mão, e em seguida, o segmento termina e um comercial de detergente Tide sacode-me fora dele. Eu desligo a TV e observo os DVDs na prateleira, mas nada parece interessante.

Há um Xbox aqui para quando o irmão mais novo de Lani vem depois da escola na quinta-feira à tarde. Alguns jogos, principalmente

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de esportes, um jogo de role-playing, e, em seguida, o mais recente Call of Duty. Eu não joguei esse ainda. Nós não temos os novos jogos lá com muita frequência. Eu coloco e mudo o canal para a entrada correta da TV. A abertura das telas de ciclo, e então eu estou na opção de jogo rápido. É assustadoramente realista. Os sons são mortos e filtrado através de alto-falantes, mas o suficiente para bater em minha cabeça e chamar a coisa real. Estou acumulando mortes como um louco, mordendo-o e rebatendo, e o controlador é escorregadio com o suor e eu estou inclinado para a frente, rangendo os dentes. Algumas partes são realistas, outros não. Os sons são os mais realistas. Sinto pequenas mãos suaves sobre os meus ombros, deslizando meus braços para pegar o controlador de mim. Eu a deixo levá-lo. ― Hunter O que você está fazendo, baby? - A voz de Lani é suave com o sono. Dirijo-me para longe da TV e olho para ela. Ela é tão linda, loira de cabelo ondulado, despenteado pelo sono, olhos azuis apertando os olhos contra a luz. Ela está usando uma das minhas t-shirt, uma camisa do concerto do Slipknot, e vem até o meio da coxa, os seios pequenos, alegres cutucando o algodão. ― Cheguei de volta do bar com Derek e não conseguia dormir. - Eu digo. ― Eu não senti que você voltou para a cama. - Eu dou de ombros. ― Eu não o fiz. Eu sabia que não seria capaz de dormir. - Ela circunda o sofá e senta-se ao meu lado. ― Não acha que o jogo é um pouco... difícil para você jogar? Eu não respondo imediatamente. Dou de ombros, eventualmente. ― Sim, acho que sim. Só por curiosidade. ― Você está bem? - Pergunta ela. Hesito, em seguida, decidi que agora não é o momento certo para abordar o que está em minha mente. Eu estou meio bêbado, e ela está meio adormecida. ― Nah. Apenas descendo e ficando cansado. ― Bem,

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por que você não vem para a cama? - Lani desliza a mão em volta do meu bíceps. ― Sim, eu vou lá dentro. Lani ri, uma risada ofegante, e é aí que eu percebo por que a risada da garota de Derek me irritava: era como de Lani. Eu empurro o pensamento longe e volto para ela. ― O que é engraçado? - Eu pergunto. Ela passa as unhas pelo meu braço. ― Eu quis dizer, venha para a cama... - e o tom de sua voz sugere que ela está se insinuando. ― Você não tem que acordar para o trabalho em poucas horas? Eu me pergunto por que estou discutindo e não dou uma resposta. ― É apenas duas e meia. - Diz ela. ― Eu não tenho que levantar até sete. Nós temos tempo. - Ela se levanta e vai em direção ao quarto. Sento-me e ao vê-la, sinto o zíper da minha calça jeans apertar quando ela despe sua camisa, revelando suas curvas nuas. Levanto-me e a sigo, tirando a minha camisa e calças enquanto eu vou. Eu estou duro e pronto, e ela está rastejando para trás na cama, espalhando cabelo sobre o travesseiro, a mão estendida para mim enquanto eu subo entre suas pernas. Sexo com Lani nunca deixa de ser espetacular. Ela é apaixonada e vocal, gritando quando ela vem, gemendo meu nome quando eu mergulho dentro dela, mãos macias segurando meus ombros. Seus olhos, porém, quando eu olho para ela, revela uma distância enquanto eles olham para mim. Uma espécie de apatia disfarçada. Como se ela está atuando. O pensamento me incomoda, e eu afasto-o. Eu libero com um grunhido suave, meu rosto enterrado em seu pescoço. Eu gostaria que ela colocasse a mão na minha cabeça quando eu enterro meu rosto contra ela assim. Ela nunca faz, no entanto, e eu sempre me pego desejando que ela fizesse. Eu nunca disse nada, porque ela faria isso, mas apenas uma vez eu pedi a ela para fazer. É

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uma coisa pequena, insignificante, mas de alguma forma parece sempre me atingir. Ela faz o que ela pensa que eu quero. Ela sabe que eu fico excitado quando estou bêbado, então ela tem sexo comigo quando eu volto do bar. Não tenho certeza se ela quer, no entanto. Não é verdade. Ela está dormindo novamente, se afastou de mim, ainda nua, bonita, e parece por um momento, como se estivéssemos em diferentes realidades. O absurdo do pensamento que me faz bufar. Eu rolo para trás e deslizo o meu braço sobre seu quadril. Ela é quente e macia e presente aqui comigo. Um brilho de carinho para Lani se espalha através de mim, substituindo minhas dúvidas. Ela me ama e eu a amo. Tudo está bem com o meu mundo, neste momento, pelo menos. Uma pequena voz na parte muito inferior mais sombria do meu coração fala. Certo? E então eu adormeço sem responder a essa pergunta.

As próximas semanas passam um pouco sem jeito. Lani está cada vez mais distante. Ela geralmente fica nos dias e semanas anteriores ao meu transporte para fora, mas isso é diferente. Mais pronunciado. Nós não temos relações sexuais novamente. Ela está em seu telefone muito, mandando mensagens de texto sem parar. Ela coloca-o no lado de sua cama e deita em silêncio. Às vezes é debaixo do travesseiro. Está sempre na mão ou na bolsa, ou no

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bolso de trás. Nunca, jamais, onde eu possa vê-lo. Se me aproximar dela enquanto ela está enviando mensagem, ou de plantão, ela faz uma pausa até que eu vá embora, colocando o telefone contra o peito.

Eu ignoro o melhor que posso, mas os sinos de alerta estão saindo. Eu ignoro aqueles também. Nada está acontecendo, certo? Quer dizer, eu estou prestes a embarcar em uma semana, por quê em nome de Cristo ela iria esperar até que eu estou indo para começar qualquer coisa, certo? Eu vou para a academia três dias antes do meu avião voar de Des Moines. Eu só estou lá por cerca de meia hora antes de sentir algo no meu ombro puxar e decido parar. Geralmente estou na academia por uma hora ou duas, como tem sido desde o colegial. O ginásio é um par de quilômetros longe do apartamento de Lani, e eu ando a distância, encolhido em um casaco grosso e calça de moletom, sentindo a mordida do vento através do algodão para congelar o suor nas minhas pernas. Ao me aproximar do complexo de apartamentos, o meu coração começa a bater no meu peito. Não há nenhuma razão para isso, mas é um sentimento que eu aprendi a reconhecer. É mau presságio. Premonição, talvez. A intuição. Aprendi a reconhecer esses sentimentos e confiar neles. Alguma coisa está errada. Eu sinto o formigamento da minha pele, o rastreamento da minha carne e o suor frio do medo, então eu não acho que é uma situação de perigo, mas algo está fora. Eu me aproximo da porta da frente de Lani e escorrego, em silêncio. As dobradiças não chiam, e o botão não raspa. Meus passos são furtivos no tapete. Eu não sei por que estou fazendo isso. Estou em um agachamento tático, e minhas mãos estão agarradas na minha frente, automaticamente, como se eu estivesse segurando um rifle. É hábito,

reflexo.

Todos

os

sentidos

estão

sintonizados.

Eu dou de ombros para fora do meu casaco e o coloco em uma cadeira.

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Minha pele aperta com apreensão. Lani está ferida? Não sinto cheiro de sangue. Sinto cheiro de suor...? Corpos. Sinto cheiro de sexo Então eu ouço: um suspiro, suave, breve e feminino. É um som que eu conheço muito bem. É o som que Lani faz quando ela vem. Ela não grita ou chora, ela me agarra apertado, os braços ao redor do meu pescoço, e suspira, quase um gemido, em meu ouvido. Eu quase posso sentir seus braços, ouvir o suspiro, mas eu não estou nesse quarto. Ela não está fazendo esse som pra mim. Eu espero, agachado junto à porta e ouço, só para ter certeza que eu não estou enganado. Talvez ela esteja dando prazer a si mesma. Eu não gosto dessa ideia muito mais, uma vez, por que ela precisa fazer isso se ela me tem? Mas... Não. Eu o ouço. Um suspiro profundo. Um grunhido. Palavras murmuradas, seu riso, um homem gemendo. Ela está tendo sexo, e isso não é comigo.

Foda-se. Ondulações da raiva escoam de mim, transformando minha vista em vermelho, fazendo minhas mãos tremem. Eu respiro, duro e profundo e rápido. Eu espero, forço o meu batimento a diminuir, forço as minhas mãos para não cerrar. Eu não posso pagar erros. Eu não posso me dar ao luxo de perder a paciência. Eu tenho sido muito cuidadoso sobre isso por muito tempo para mexer agora. Reformatório era ruim o suficiente. Eu não estou indo para a cadeia. Eu não vou chegar à corte marcial Quando estou tão calmo como eu posso conseguir, dadas às circunstâncias, eu abro a porta do quarto. Aqui está ela. Nua e bela, debaixo Douglas Pearson. Doug. Magrinho Doug, nerd, introvertido, acne, cicatrizes, trabalha em uma agência de seguros Doug porra Pearson. Eu resisto à vontade de jogá-lo para fora da janela do primeiro andar.

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― Sai fora, Doug. - Minha voz é um sussurro. Calma e mortal. ― Sai fora, agora. Vou embora em um minuto, e você pode tê-la de volta. Eu só preciso falar com ela. Doug se arrasta para fora da cama e se veste em tempo recorde. Ele para em frente a mim, os olhos arregalados de terror, suas narinas dilatadas, cheirando a medo. Mas ele para em frente a mim e me encara. Eu lhe dou crédito por ter algumas bolas. ― Você não vai... você não vai machucá-la? Se você estiver indo machucar alguém, me machuque. Eu rio. Não é um som divertido. ― Não me tente, pau-de-lápis. Não. Eu não vou machucar ninguém. Exceto se você não der o fora da minha frente. Ele sai. Lani agarra o lençol ao redor do peito, como se eu não a tivesse visto nua um milhão de vezes antes. Como se não perdemos a virgindade juntos aos quinze anos. Como se eu não tivesse um anel na minha mochila. Esse ato, a blindagem do meu ponto de vista, diz-me tudo o que eu preciso saber. ― Três dias, Lani. Três dias malditos. Você não poderia esperar três dias filha da puta? - Dirijo-me para longe dela e falo com a porta. Estou muito chateado para confiar em mim mesmo de frente para ela. ― Eu não entendo. Se você não me quer, por que diabos você não me contou? Quer dizer, porra. ― Pare de dizer essa palavra, Hunter. Que eu não gosto. Eu giro. ― Foda-se, Lani. Que eu sou um fuzileiro naval maldito. Tenho a porra de uma boca suja, e eu estou chateado. Você me traiu. Eu me forço a tomar dois longos passos pelo quarto dela. ― Eu nunca perguntei. Volto, e eu não lhe peço satisfação alguma. Estou fora por um longo tempo, e eu nunca perguntei o que você faz enquanto eu estive fora. Mas... enquanto eu estou aqui, eu meio que esperava que você fosse fiel. Isso é pedir muito? Lani não responde. 39


― Quanto tempo? - Eu peço. ― Há quanto tempo isso vem acontecendo com esse cretino? ― Não fale sobre Doug assim, Hunter. Ele é um bom homem. Ele... ― Eu não perguntei sobre ele. Eu não me importo. Como... por muito tempo. - Ele não vem como uma pergunta. ― Eu comecei a vê-lo cerca de dois meses depois que você saiu da última vez. - Ela abaixa os olhos para longe dos meus. Esse é um ano inteiro. Mais. Ela tem vergonha, e ela deve ter. ― E você está indo atrás de mim com ele o tempo todo que eu estive de volta? - Ela acena com a cabeça, um pequeno empurrão de seu queixo. ― Foda-se. - Eu quero bater em alguma coisa. Levanto minhas mãos em punho para perfurar a parede ou a porta, mas desisto. ― Incaralho-crível, Lani. Se você não me ama, tenha a coragem de dizê-lo. Ela se move para frente da cama, o lençol atrás dela, agarrando o peito. ― Não é que eu não te amo, Hunter. Eu faço. Mas... Eu não estou apaixonada por você. ― Qual é a diferença? Ela chega para mim e eu me afasto. Ela abaixa a mão. Seus vívidos olhos azuis brilham. ― Há uma diferença enorme. Eu desabo para trás contra a parede, desaparecendo raiva, a confusão e mágoa. Sem a raiva para me sustentar, eu sou mole. ― Vamos lá, explique-se. Ela tira a roupa das gavetas, olha para mim, e hesita. ― O quê? - Eu peço. ― Como se eu não tivesse visto você nua antes?

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― Não é isso. - Diz ela. ― É... Eu não sei. Sinto-me estranha sobre isso. Apenas vire-se e dê-me um segundo, ok? Por favor? Viro-me e olho pela janela para os desvios dos flocos de neve. Ignoro o farfalhar de pele e tecido, resisto ao impulso de me virar e olhar seu corpo. Só vai doer mais. ― Tudo bem. - Diz ela. ― Eu estou pronta. Eu escorrego para fora da sala para a cozinha sem olhar para ela. ― Eu preciso de uma bebida. - Ela me segue. Abro um par de cervejas e entrego-lhe uma. Ela segura sem beber. ― Hunter, ouça. Eu me importo com você. Eu te amo. Eu te amei desde o colégio. Mas... as coisas mudam. Você se foi. Você está lutando, e você não está aqui. É difícil ficar apaixonada por você quando você estiver a milhares de quilômetros por meses em um momento. Eu estava sozinha. Doug estava lá. Eu… o amo também. Estou apaixonada por ele. Sinto muito. Eu não posso imaginar como isso deve doer ouvir, mas você merece a verdade. ― Eu merecia os meses de verdade atrás, Lani.

Ela estremece. ― Eu sei. Eu me sinto terrível. É só que... ele é bom para mim. Ele cuida de mim. Ele está lá para mim. - Algo amanhece em mim. ― Ele sabia disso? Ele sabia sobre nós? Você e eu? E ele estava bem com isso? - Ela tem a decência de parecer decepcionada. ― Sim. Sei o que deve parecer, e ele... ele odiava isso, mas eu disse a ele que seria apenas por um pouco. Só até que você saísse de novo. ― Há quanto tempo você estava pensando em me manter junto? Minha cerveja já acabou e eu pego outra. Eu preciso para a fortificação contra a raiva.

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― Eu estava indo para enviar-lhe uma carta. - Sua voz é um sussurro. ― Deus, realmente? Um Querido John? Você estava realmente indo me enviar uma verdadeira carta Querido John? Porra, Lani. Essa é a merda mais cruel que você poderia ter feito. Não há nada pior. - De repente, essa segunda cerveja está desaparecida e uma terceira está quebrada. ― Devagar, Hunter. Por favor. Eu não posso ter essa conversa com você, se você estiver bêbado. ― Nós vamos ter essa conversa no entanto, a merda que eu quiser. Você me deve isso. Num impulso eu vou buscar o meu saco de lona, movo ao redor do apartamento empurrando minhas coisas para ele, e em seguida, remexo até encontrar o anel. Eu deixo cair a mochila no chão, perto da porta da frente, coloco meu casaco, e viro para Lani. Eu abro a caixa do anel e coloque-o sobre o balcão pela porta da frente. ― Para sua informação, eu tinha uma coisa mantida em segredo de você, também. Que eu te amei, Lani. Sempre fui fiel a você. Toda a vez que eu ía embora, eu nunca saía. Nunca. Todos os outros caras íam para os bordéis e bares e tal, e eu nunca fiz. Eu esperei por você. Porque eu te amo. Porque eu estava apaixonado por você. Lani atravessa o espaço para examinar o anel. ― Droga, Hunter. Maldito seja. - Ela nunca falava palavrão. ― Você não está apaixonado por mim. Você está apaixonado com a ideia de mim. Você nunca esteve com ninguém. Sinto-me confortável para você. Eu sou o que você conhece. Só isso. Isso é tudo que sempre foi e tudo o que sempre será. Hesito, juntando a minha voz para que ele não rache. ― Você era tudo que eu tinha, Lani. Agora eu nem tenho isso. Não tenho mais ninguém... - Eu olho para baixo, olhando para os meus sapatos, aperto

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meu controle. ― Talvez você esteja certa. Mas se você não me amava, você deveria ter me contado. Rompido comigo. Ela chora agora, lento, lágrimas tranquilas. ― Sinto muito. Eu não queria te machucar. Eu não quero ter que vê-lo em dor. - Eu a deixo ver a agonia nos meus olhos. ― Bem, você que se foda. Eu pego minha mochila e saio, empurrando para baixo a emoção até que não há nada restando, mas vazio. Sem raiva, sem mágoa. Nada. Eu vou embora, meu casaco abotoado apertado, a mochila pendurada nas costas. É frio lá fora. À noite. Sete, talvez oito. Escuro total. Montes de neve, mas não está realmente nevando, apenas o vento soprando alguns flocos. Eu não sei para onde estou indo, onde eu estou andando. Eu não consigo ver muito no escuro com a neve ardendo meus olhos. Eu não me importo. Fico feliz com a dor do frio agora. Ele me distrai da minha raiva. Estou chateado que ela me traiu por tanto tempo, chateado que ela não tem as bolas malditas para me dizer que não me amava. Principalmente, estou chateado que ela está certa. Nós perdemos a virgindade juntos, exploramos nossa sexualidade juntos. Eu nunca namorei ninguém. Nunca beijei ou transei com ninguém. Nunca sequer considerei. Eu me agarrei a ela por tanto tempo, porque ela é familiar e reconfortante. Ela é o que eu tenho. Tinha. Eu tento não pensar sobre estar sozinho, mas é inevitável. Estou me arrastando para baixo na calçada, tufos de neve guincham em volta dos meus pés enquanto eu passo por poças de luz dos postes. E então, de repente, eu tenho dezessete novamente. Na escola. Sentado elegante, rabiscando em vez de prestar atenção à aula desde que eu odeio matemática porque é chato e fácil. O diretor, o Sr. Boyd, chega e anuncia que ele gostaria de me ver lá fora por um momento. E depois me diz para pegar minha bolsa. Meu coração de repente pesa e minhas 43


mãos suam, algo está errado, errado, errado. Eu ouço as palavras do Sr. Boyd, ruído estático e dividido pela descrença: ― Acidente de carro... morto no impacto... estado crítico... passeio para o hospital... Eu sigo entorpecido pelos corredores, a mochila pendurada em um ombro. O hospital é calmo, enfermeiros e enfermeiras se movimentam sobre sapatos de borracha sibilantes, os médicos em jalecos com pranchetas e pastas de arquivos. Estou em um quarto, acortinado. Monitores apitando. O cheiro de antisséptico, produtos de limpeza e de morte agridem e adoecem minhas narinas. Mamãe, machucada, quebrada, sangrando. Morrendo. Tubos estão em sua boca e uma cânula de oxigênio no nariz. Ataduras na cabeça. Alguém está me puxando para longe para explicar sobre hemorragia interna, inchaço craniano. ― Será que ela vai morrer? - Eu pergunto, cortando a explicação. Uma voz masculina, profunda, calma, suave. Eu não olho para ele. ― É difícil dizer. Isso não parece bom, embora, meu filho. Sinto muito. Estamos fazendo tudo o que pudermos.

― O meu pai?

Silêncio. Outra voz e rosto, dando um passo na frente do meu olhar vazio. Um policial. ― Filho, eu sinto muito, mas seu pai não resistiu. Ele foi morto com o impacto. - O policial descansa a mão no meu ombro brevemente e depois abandona. ― Há alguém que podemos chamar para você, meu filho? Uma breve pico de pulsos de raiva dentro de mim. ― Eu não sou seu filho. Eu sou seu filho. - Eu inclino meu dedo na porta. ― Meu nome é Hunter.

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O policial concorda. ― Com certeza, Hunter. Desculpe. É apenas um hábito, não quis dizer nada com isso. Então, você tem um parente que poderíamos chamar para você? Eu balancei minha cabeça. ― Não. Não há ninguém mais. - O oficial parece chocado. ― Ninguém em tudo? Nenhumas irmãs ou tias ou avós? Eu engulo a vontade de socar seu rosto. ― Não, idiota. Isso é o que 'ninguém' significa. Meus avós estão todos mortos. Eu sou apenas uma criança. ― Cuidado, filho. ― Você vê, policial. Estou prestes a ser órfão. Acho que estou autorizado a ficar chateado. - Ele cede. ― Você está certo. Sinto muito. Então, onde você está indo? Eu dou de ombros. ― Os pais da minha namorada podem ser capaz de ajudar. Eu não sei. - Estou abalado fora da memória e de volta ao presente por uma derrapagem do carro a uma parada na estrada perto de mim. É Doug, conversando através da janela rolando para baixo de seu Mercury sensível sedan de quatro portas. ― Hunter, olha, eu sei que você não quer me ver, de todas as pessoas, mas deixe-me deixar você em algum lugar. É abaixo de zero aqui fora e caindo rapidamente, cara. Você vai ter hipotermia. Eu ignor-o e continuo caminhando. Ele puxa o carro e salta para fora, o carro de costas para mim, porta aberta, luzes acesas para iluminar uma faixa de neve caindo grossa. ― Hunter, cara, ouça... Eu tento continuar passando por ele, mas ele mantém o ritmo e para em frente a mim. Um grande erro do caralho. Eu paro, olho por cerca de três batimentos cardíacos enquanto eu espero por ele para se

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mover, então enfio meu punho do bolso do casaco e oscilo. Eu me conecto com o maxilar e o envio voando. Ele é apenas um rapaz, nenhuma carne, nenhum músculo, nenhuma experiência com lutas. Ele cai duro. Eu passo por ele para ter certeza de que ele não está seriamente ferido. Ele não está, apenas atordoado inconsciente. Ele acorda imediatamente e me vê de pé sobre ele, com os punhos cerrados. Ele engatinha à distância. ― Hunter, por favor, ouça. Eu estava...Me afasto. ― Foda-se. Eu não quero uma carona. Se eu te ver de novo, eu vou quebrar seu pescoço magro porra. Ele

tropeça

ao

seu

carro, segurando o queixo, e vai embora. O calor da raiva me mantém aquecido por um tempo. Eu finalmente lembro do meu telefone celular. Ele toca seis vezes antes de Derek pegar, fora do ar. ― Cara, o que houve? Eu... unnhh... maldita Maggie!... Estou ocupado. - Ouço um gemido de mulher em segundo plano. ― Desculpe, mano. Escute, eu peguei Lani na cama com Doug Pearson. Eu preciso de você para me pegar. Está foda de frio aqui fora. Eu ouço Derek prender o fôlego e ele sufoca um gemido, e a mulher suspira baixinho. Apenas Derek iria ficar no telefone durante o sexo. ― Claro que sim, cara. Esteja bem ali. - Eu ouço a voz gemendo de Maggie começar a fazer barulho quando ele desliga. Eu balanço minha cabeça em perplexidade. Derek é um cão. O homem consegue mais bucetas do que um gato consegue se lamber. Eu não entendo isso, mas é a sua coisa. Eu continuo andando, mantenho a cabeça baixa, ombros curvados, estranho gesto inútil que fazemos quando está frio. Eu ando mais meio quilometro ou algo assim antes de pegar o vermelho carro de Derek, a F-150 oscila em torno de uma curva virada e derrapa uma parada ao meu lado ilegal. Há uma lona sobre algumas ferramentas de construção na cama. Eu lanço minha mochila sob a lona e entro no caminhão. Derek se afasta em direção à casa de seus pais. ― Então. A cadela esta saindo fora, né? - Eu esfrego minhas mãos e mantenho-as na

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frente do aquecedor de ventilação. ― Sim. Tenho de voltar da academia e entrar com eles. - Eu gemo e pouso minha cabeça de volta no pano rasgado do banco de trás. ― Porra, cara. Com Doug Pearson. Doug, de todas as pessoas. ―Ele não é, tipo, um vendedor de seguros ou algo assim? - Derek pede. ― Sim. Algo como isso. - Derek balança a cabeça. ― Fodido, cara. Enganar uma besta como você com um merdinha magro como Doug? Eu esfrego minha mão sobre meu couro cabeludo com corte militar. ―Não merda. Não me lembre. Nós fomos para a escola com Doug Pearson. Graduamos-nos com ele. Ele foi o cdf que estava sentado sozinho no canto, enquanto Derek e eu nos sentávamos à mesa repleta de nossos amigos machistas Lettermen. Doug era o orador oficial, NHS, banda da escola, tudo isso. E

agora

ele

vende

seguros.

Nunca

vai

deixar

Des

Moines,

provavelmente. Mas ele ficou com a garota, não foi? Foda-se. ― Ei, cara, não se preocupe. Ela é uma vadia. Sua perda. Agora você pode obter algumas conexões reais acontecendo. Foda-se a puta. Lani sempre foi chave de cadeia. Você está melhor. - Lembro-me que ele tem boas intenções. ― Eu ia pedir para ela se casar comigo, D. - Minha voz é calma. Derek eleva uma sobrancelha para mim, incrédulo. ― Cara, graças a Deus você não fez. Você não precisa dela. Sei que esteve com ela desde sempre, mas ela não era para você. Eu nunca disse nada porque você não teria escutado, mas eu nunca gostei dela. Ela é gostosa e tudo mais, mas eu nunca tive a sensação de que ela te amava tanto quanto você a amava. Eu soco duro o braço de Derek. ― Da próxima vez fale alguma coisa, filho da puta. ― Esperemos que não haja uma próxima vez. - Ele sorri

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para mim. ― Vamos foder. Tenho uma garrafa de Johnny com o nosso nome nele de volta na casa dos meus pais. ― Parece bom. - Soa bem, naquele momento. Eu não quero nada mais do que esquecer a Lani por um tempo. Não vai mudar nada, nem apagar a dor, mas não vou deixar me esquecer. Eu aprendi da maneira mais difícil, depois que meus pais morreram que nenhuma quantidade de álcool ou maconha ou qualquer outra coisa vai tirar a dor. Eu parei de tentar enterrar a dor e só lidei com isso. Ainda bem que eu tenho prática, porque eu posso sentir a dor se estendendo nas rachaduras do meu coração. Isso vai levar algum tempo para cicatrizar. Ainda bem que nós iremos em breve.

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Aperto meu estômago e tento não gemer. A comida e o dinheiro que recebi do soldado me durou mais de dois meses. Agora que ele se foi, e eu estou com fome novamente. Desespero ondula por mim. Eu estive contra a parede, olhando uma tropa de soldados uniformizados iraquianos março passado. Soldados oficiais do governo. De olhar duro, áspero, impiedoso. Eu os odeio. Minha casa está desaparecida. Uma bomba de rua ou argamassa ou algo assim. Não tenho onde dormir. Nenhum outro lugar para ir. Ninguém para me ajudar. Hassan está longe de ser encontrado. Eu procurei. Eu não sinto no meu coração que ele está morto, ele acaba de encontrar uma vida melhor para si mesmo. Uma ideia começa a se formar no fundo da minha barriga. Eu ignorei por dias. Eu não posso fazê-lo. Eu não vou fazer isso. Mas a minha fome, minha sede, a minha necessidade para sobreviver, para não desistir, isso me deixa. Eu espero amanhecer e então esgueiro-me em toda a cidade, à procura de um edifício específico. Eu encontro-o, eventualmente. Eu me escondo em um beco do outro lado da rua, observando, esperando que eles estejam lá, esperando que não. A noite cai. Meu estômago ronca e ronca e amplia, vazio, roendo minhas costelas. Eu o vejo, andando pela rua, ponta de cigarro brilhando como uma estrela laranja movendo-se através das sombras. 49


Minhas pernas estão se movendo antes que meu cérebro tenha tempo para me parar. Ele me vê chegando. Seus olhos não são cruéis, mas ele ainda me olha com o olhar faminto, olhar sensual que eu vim a entender. ― Você não deveria estar aqui, menina. - Ele traga o cigarro e fala entre nuvens de cinza acre. ― O que você quer? ―

Eu...

-

Faltam-me

palavras. ― O que você me deu, ele se foi. Estou com fome. - Ele franze a testa. ― Você fez isso durar todo esse tempo? Garota, isso não foi o suficiente para alimentar um rato por uma semana. ― Eu não preciso de muito. ― O que você quer de mim? Eu não tenho o suficiente para darlhe comida ou dinheiro o tempo todo. Eu não sei como dizer isso. As palavras não virão. Em vez disso, eu chego e desembrulhar o meu hijab. Eu balancei meu cabelo e olho para

ele

através

das

ondas

de

preto.

Por

favor?

-

Ele suspira e joga o cigarro fora. ― Não. Isso foi uma coisa de uma só vez. Eu estava bêbado. Eu não queria transformá-la em uma prostituta. Eu dou de ombros. ― Eu não sei de que outra forma obter alimento. Ninguém vai me dar um emprego. Tenho procurado. Quase fui pega roubando. Eles quase cortaram minha mão. ― Não há nenhuma maneira para uma menina viver. - Ele parece desconfortável. ― Eu me senti mal, depois que você partiu. ― Que escolha tenho? Devo apenas deitar-me e morrer? Eu não quero fazer isso, você sabe. Mas eu não vejo outra forma de sobreviver. Ele sopra um hálito através de seus dentes. ― Tudo bem. Bela. Onde você mora? - Eu mudo desconfortável. ― Em lugar nenhum. Minha casa foi destruída. - Ele amaldiçoa. ― Há uma abundância de casas abandonadas por aqui, menina. Vamos. Vou te encontrar alguma coisa.

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Ele espreita na minha frente, murmurando algo para si mesmo. Eventualmente, ele encontra uma casa que está vazia e em razoável estado de conservação. Fica ao lado de uma mesquita bombardeada. A janela não tem vidro, a porta está quebrada fora de suas dobradiças, e a eletricidade não funciona. Mas há água corrente. Um verdadeiro banho. Uma verdadeira casa de banho. O soldado caminha ao redor da casa. Eu não sei o que ele está fazendo, então eu começar a trabalhar limpando a sujeira e detritos. A cozinha, sala, quarto e todos são um quarto. A parte da cozinha tem alguns armários, um fogão, uma geladeira vazia. Eu ouvi um estalo e um zumbido, e então a única lâmpada nua pisca no teto para a vida. Ele volta, enxugando as mãos em suas calças. Eu fico olhando para a lâmpada em reverência. ― Eu era um eletricista antes da guerra começar. - Diz ele à guisa de explicação. ― Obrigado. Ele encolhe os ombros. Corrige a porta, em seguida, olha em volta para o quartinho. ― Não é muito, mas é alguma coisa. A mesquita ao lado não é usada, obviamente. Você poderia... trabalhar lá. Dormir aqui. Ele ajuda a ter um lugar seguro para ir. - Eu rio. ― Seguro? O que é seguro? Ele ri também. ― Verdade. Mas é melhor do que nas ruas. O silêncio é estranho. Eu não sei o que fazer. Nem ele. ― Você está falando sério sobre isso? - Pergunta ele. ― Uma vez que você começar, eu não acho que vai ser muito fácil de parar. ― Você tem uma ideia melhor para mim? - Eu digo. ― Eu disse a você, eu não quero fazer isso. Isso me deixa doente de pensar. Mas... eu não tenho outra escolha. Tenho tentado de tudo. Eu não comi em uma semana. Roubei um pedaço de pão há alguns dias, e quase tive a minha mão cortada por isso. Ninguém vai me ajudar. Eu não sei mais o que fazer. Você... você me deu dinheiro e comida, por isso. Talvez alguém o faça, também. 51


Ele esfrega o rosto com as duas mãos. ― Qual é o seu nome? ― Rania. ― Rania, sou Malik. - Ele dá um passo mais perto. ― Você é uma menina muito bonita, Rania. Eu não sou seu pai ou seu irmão ou seu marido. Eu não posso te dizer o que fazer. Sou apenas um soldado. Eu não iria querer uma garota da minha família fazendo isso. ― Você poderia ajudá-la, apesar de tudo. Se ela estivesse desesperada. ― Sim, eu o faria. ― Não há ninguém para me ajudar. Você me ajudou. Eu não quero, mas eu tenho que fazê-lo, para comer. ― Eu acho que eu entendo isso. Gostaria que não viesse para isso. Gosto de você. Você tem espírito. Você é muito bonita. Ele dá mais um passo, e eu me forço a ficar quieta. Seus olhos me olham longo, cabeça aos pés. A mão dele deriva-se a tocar o meu quadril. Eu me recuso a tremer. Ele é bom nisso. Não forte, sem se mexer antes que eu esteja pronta. ― Eu não sei o que fazer. - Eu digo. ― Você vai aprender, eu acho.

Eu ouço, o som que vai se tornar a minha vida: um cinto tilintando. Não é tão mal dessa vez. Não dói como fez da primeira vez. Ele é mais suave agora que ele está sóbrio. Eu fecho meus olhos e fico quieta. E termina rápido. Ele me dá o dinheiro antes que ele parta. Ele para e olha para mim. ― Rania, se você estiver indo ganhar dinheiro fazendo isso, você

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tem que fingir que gosta. Vai ser melhor para você. - Ele esfrega o seu rosto como ele fez antes. ― Eu vou mandar alguém para você, para o trabalho. Um cliente. Ele se vira. ― Obrigado por me ajudar, Malik.

Ele encolhe os ombros. ― Eu não vou estar de volta. Eu pensei que não tinha consciência restando, mas isto... é muito estranho para mim. Fiz o que pude para você. Talvez Deus vá me perdoar, talvez não.

― Você acredita em Deus? Eu não acho que eu faço. ― Eu não sei. - Diz ele. ― Eu quero, mas as coisas que eu tenho visto me fazem pensar. Eu não quero pensar que um Deus que nos ama, deixaria uma garota bonita como você ter que recorrer a coisas como esta. ― É por isso que eu não acredito. Eu era uma boa menina. Fui a mesquita. Orei voltada para Meca. Eu usava o hijab. Respeitei meus pais. Mas aqui estou eu. Uma prostituta, agora. - Dói dizer essas palavras. Digo-os novamente para fazer doer menos. ― Eu sou uma prostituta. Malik se encolhe. ― Sim, eu suponho que você é. - Ele olha para a unha suja em vez de mim. ― Há coisas piores para ser. Eu fico olhando para ele. ― Como o quê? ― Um soldado. Um assassino. - Ele faz uma pausa, olhando para o polegar sujo. ― É pior do que estar morto, também. - Ele se foi, então. Eu compro alimentos, cobertores. Criei um pequeno ninho em um canto da mesquita, nas sombras. É escuro, então eu acho velas. Malik é

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fiel à sua palavra e envia um amigo, um oficial do exército do governo. Ele não é tão bom como Malik. Ele não é tão gentil. Eu tento fingir que gosto, embora eu esteja fingindo fazer algo que eu não sei nada sobre. Ele não parece notar, e ele me dá dinheiro. Quando ele sai, ele me diz o quanto devo cobrar para a próxima vez, já que eu não pedi, bem como o montante parece muito. O homem ao lado que vem, um outro oficial, eu cobro-o desse montante, e ele paga sem reclamar. Eu não estou mais com fome. Agora eu só uso o hijab, quando eu saio, para que as pessoas não me façam perguntas. Eu sinto que todo mundo que me vê sabe o que eu sou. Como se o que eu faço estivesse escrito na minha testa com tinta preta em negrito. Talvez o que está escrito na minha alma, agora, e eles podem ver nos meus olhos, as janelas de minha alma.

Eu não vejo Hassan por um tempo muito longo. Estou sentada do lado de fora da minha casa, esperando meu próximo cliente, como eu os chamo. Eu disse aos clientes meu nome é Sabah. Ninguém ouviu o nome Rania em um longo tempo, pois não há quem me conheça, exceto como Sabah. Meu cabelo é baixo, agora. Ondas pretas longas escondendo meu rosto. Eu vejo o homem caminhando na rua, um homem jovem, jovem, magro, confiante. Eu não olho para ele, mas tenho sua mão na minha e o levo para a mesquita. Algo sobre a sensação de sua mão na minha parece estranhamente familiar. Dirijo-me a espreitá-lo e meu coração para.

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Estamos no ninho de cobertores e posso sentir sua dura masculinidade pressionada contra meu quadril. Minha carne rasteja em desgosto, e eu me afasto dele. Eu me viro, empurro o meu cabelo para trás do meu rosto. Hassan amaldiçoa, os olhos arregalados. ― Rania! Que o que diabos é isso? Pensei que Sabah... Eu inclino minha cabeça, recusando a me envergonhar. ― Eu sou Sabah. ― Não. Não. Você... Você não pode ser. Ouvi os policiais falando sobre Sabah. Como... O que fizeram com você? - Ele parece prestes a vomitar. ― E você pensou que iria tentá-lo por si mesmo. - Eu empurro passando por ele e caminho de volta para a minha casa ao lado. ― Vá embora, Hassan. Esqueça que me viu. Ele me segue. ― Como você pôde fazer isso? Rania, isso é errado, você é minha irmã, você não deve ser, não posso deixar! Eu giro ao redor e o atinjo no rosto. A raiva está fervendo em mim. ― Você virou as costas para mim, Hassan. Você escolheu ser um soldado. Eu estava morrendo de fome. Tive que sobreviver de alguma forma. Isto é como. Vá embora! ― Não, Rania. Eu não posso acreditar... ― Não há nada para acreditar. Você pode se dar ao luxo de me manter viva? Você pode me dar o dinheiro suficiente para me deixar parar? Ele franze a testa, parece prestes a chorar. Ele ainda tem apenas quinze anos, depois de tudo. ― Não... Não. Eu não posso.

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― Então vá embora. Não diga a ninguém que você me conhece, ou o meu nome. Não volte. - Eu continuo andando. ― Eu não sou Rania, não mais. Sou Sabah. Ele se vira e se para na distância. Ele olha para mim por cima do ombro, confusão e horror, dor e uma confusão de emoções demais para citar em seu rosto. Eu o assisto, escondendo minha vergonha por trás dos olhos impassíveis. Quando ele se foi, eu deixei uma lágrima deslizar para baixo, por Hassan. Para a família que eu tinha. Eu sei que eu não vou ver o meu irmão de novo. Rania... Ela não existe mais. Ela não morreu, ela simplesmente não existe mais. Eu sou Sabah agora. Sabah é forte. Sabah sabe o que os homens gostam e como dar isso a eles. Eu tenho dinheiro suficiente agora. O suficiente para comer, ter roupas. Eu compro alguma tintura de cabelo e pinto meu cabelo amarelo, como uma garota americana. Quando estou a fazer, eu não me reconheço. Eu encontrei um espelho quebrado e gravei as bordas afiadas, fixei-o na parede. Os homens pagam mais, se eu usar maquiagem, então eu uso maquiagem. Os homens pagam mais, se eu usar roupas que mostram a minha carne, por isso uso trajes de uma prostituta. No espelho, agora, eu só vejo Sabah, a prostituta. Cintura fina, seios fartos exibidos por uma camisa sem mangas, quadris finos e pernas longas e nuas debaixo de uma pequena minissaia estilo norteamericano. Sem calcinha, porque prostitutas não precisam delas. Eu não sou uma garota muçulmana mais. Eu não sou uma garota árabe mais. Eu sou apenas uma prostituta, sem religião, sem qualquer deus, mas o dinheiro. É para sobreviver, eu digo a mim mesma. Não é porque eu gosto do que faço. Eu odeio isso. Eu mascaro a minha repugnância cada vez que eu chamo um policial ou soldado em 56


meu ninho de trabalho. Minha pele estremece quando me tocam. Meu coração se encolhe em um menor, nó mais difícil de insensível ódio cada vez que saio e eu tenho que me limpar e fingir sorrir para o próximo. Eles me amam. Sabah... Sabah. Ela é confiante, sorrindo um sorriso sedutor. É um jogo. Um ato. Eu odeio todos eles. Eu desejo matá-los como fazem o que eu faço. Eu não consigo pensar nas palavras. Eu faço isso, mas eu não posso falar sobre isso, pensar nisso. Eu sou paga para fazer sexo. Eca. Meu estômago aperta enquanto eu digo as palavras, sentada na minha janela sem vidros, esperando. Eu sou Sabah, a prostituta. Cabelos louros, nus no ninho de cobertores, cercado por velas, um oficial de barba ajoelhado em cima de mim, o corpo tocando a meu, a sua barriga flácida em minhas coxas, as mãos viscosas sobre meus seios, sua masculinidade áspera batendo em minha feminilidade macia e seca. Eu sou Sabah, perto de vomitar quando ele termina e joga um maço de dinheiro molhado de suor na cama ao meu lado, caminhando para longe como um arrogante, arrogante e satisfeito. Sorrindo. Rindo, batendo o seu companheiro nas costas como o próximo entra, se atrapalha com a fivela. Esse movimento, nesse momento, é sempre o pior. Sinto sempre a onda de nojo e medo quando o cliente primeiro se atrapalha com o cinto, odiando o tilintar de metal contra metal, forçando meu rosto a se contorcer de nojo em uma sensual, pose sedutora.

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Operação Liberdade do Iraque, Iraque, 2003. A guerra está chegando mais uma vez. Muitos anos se passaram.

Odeio ainda e ainda mais veemente do que nunca o que eu faço para sobreviver, mas Malik estava certo... Tudo muito certo. É impossível parar agora. Mesmo se eu usar o hijab para esconder o meu cabelo loiro, eles parecem saber, como se eu realmente tenho ‘prostituta’ tatuado na testa. Eles sabem e se viram para longe, a menos que seja para gastar meu dinheiro de prostituta em sua loja. Nunca trabalhar. Nunca para ganhar dinheiro ‘honesto’. Eu tentei, mil vezes. Implorei

por

trabalho.

Expliquei

como

estou

desesperada

para

encontrar um outro comércio, outro emprego. Ninguém vai me empregar, então eu sou obrigada a entreter os clientes para comer. A guerra está chegando. Eu sinto isso. Outra guerra. Mais morte. Mais soldados. Atrevo-me para fora com menos frequência agora. Lutar chegou, emboscadas, soldados americanos, e alguns de outros países. Carros-bomba detonando. Bombas explodem e os homens gritam, xingam em meia dúzia de línguas, mas principalmente inglês. Súbitas explosões de tiros quebram o silêncio da noite e da cacofonia do dia. Com

o

retorno

da

guerra

vem

o

retorno

do

medo.

Eu estou com medo. Recuso-me a mostrá-lo, mas ele está lá. Como um menino, o medo me deixa com raiva. Em seguida, o impensável acontece: Eu estou a caminho de casa de comprar comida quando vejo Hassan. Ele está com um grupo de rebeldes, rifle no ombro. Ele me vê. Em seguida, um deles nos dá uma guinada para o lado da frente, cai para o joelho, empurram sua arma para seu ombro, e abrem fogo em algo que eu não posso ver. Gritos de eco, tiros soam, ensurdecem. Eu me ajoelho ao lado de uma porta,

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observando Hassan disputar por cobertura, disparando. Espio para fora e

vejo

uma

fila

de

soldados

norte-americanos,

uma

patrulha,

acompanhado por um carro blindado de algum tipo. Os norteamericanos estão em desvantagem, embora eu não ache que eles percebam isso ainda. Há cerca de vinte americanos que eu vejo, e a tropa de Hassan tem pelo menos cinquenta, se espalham. Eu os assisto encontrar posições, à espera de uma patrulha de americanos. Os soldados norte-americanos saem com antecedência, porta por porta. Cada movimento é preciso, cada um coberto por vários outros. Os homens de meu irmão, pelo contrário, operam mais como um grupo de indivíduos, sem coesão, sem trabalho em equipe, nenhum líder real. Eles encontram a sua própria capa, o fogo em selvagens, rajadas indisciplinadas. Os norte-americanos abrem fogo, três tiros, pausa, atirar mais três. Eles escolhem as metas e objetivo. Hassan e seus homens disparam quase aleatoriamente. Alguns vêm perto de seus alvos, mas a maioria perde por uma grande margem.

Eu vejo como uns americanos caem. Em seguida, outros. Homens de Hassan eu penso neles como seus homens, embora ele é apenas um dos muitos em vez de qualquer tipo de líder está caindo, caindo, caindo. Eu

ouço

o

som

áspero

de

uma

AK-47

perto

de

mim,

hackhackhackhachack, então o som mais nítido de um rifle americano, cujo nome eu não sei, respondendo, crackcrackcrack. Tiros tamborilam e respingam na terra, e contra os centímetros da parede da minha cabeça. Eu suprimo um grito, aproximo mais perto do chão. Espio para fora, a necessidade de assistir conquistam o terror: Hassan está lá fora. O AK fala novamente, o som se aproximando, e então eu o vejo, Hassan, agachando-se na soleira da porta, rifle chutando o ombro

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magro, um olho fechado para apontar. Ele olha para mim, sorri, um sorriso demasiado casual torto, depois volta ao modo de disparo. O tempo diminui. Meu estômago enrola em um nó, meu sangue congela, e eu sei o que vai acontecer. Quero gritar, mas não posso. Um suspiro é tudo o que sai. Uma lágrima escorre para baixo, mesmo que ele ainda está disparando, disparando, e eu não consigo respirar. Acontece. Ele cai para trás, torcendo para os lados, flores vermelhas que florescem no peito e uma grande mancha nas costas, disforme e se espalhando. Ele está ofegante, agora, amaldiçoando. Eu me junto a ele, ajoelho-me em cima dele, mas ele me empurra, luta incrivelmente a seus pés. ― Hassan! - Seu nome finalmente escapa meus lábios, mas é tarde demais. Meu irmão cava no bolso, tosse, hemorragia, respiração ofegante, tropeça fora, puxa uma coisa redonda escura do bolso, empurra nela, atira, cai. Eu vejo o ponto preto, a granada, flutuar preguiçosamente pelo ar, cair aos pés de um soldado americano ajoelhado ao lado do corpo de um companheiro ferido. O soldado sem ferimentos grita, joga-se sobre o corpo de seu amigo e rola para o lado, segurando o amigo. A explosão é ensurdecedora, sacode toda a terra, corta o céu. Ondas de poeira, foguetes. Há gritos. A poeira se dissipa, e vejo uma confusão de sangue e de corpos e membros sangrando onde a granada tinha estado, e eu vomito. Os membros se esquivam e sobem, um americano banhado em vermelho sobe da camuflagem canela a seus pés, oscila, arrasta seu amigo, pela mão. Ele pressiona a palma para o seu lado, arrasta seu amigo com a outra mão. Manchas de sangue na lama.

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Algo puxa meu coração, assistindo a cena se desenrolar. Hassan está parado na estrada. Rasga tiros além do silêncio, um AK, e sopra a marca de sujeira onde as balas caminham para os norte-americanos, ambos feridos. De alguma forma, eu estou fora da estrada. Eu passo sobre Hassan. Alguém grita em árabe. ― Afaste-se, mulher! - Eu não sei o que estou fazendo. Algo vibra quente passando meu ouvido. Os americanos colapsam de joelhos, pegam seu rifle, mantém em seu quadril, e dispara. Uma maldição, um grito, o silêncio, algo bate molhada longe. Mais tiros. Os idiotas americanos mais uma vez, caem para trás e para o lado. Estou em outra porta, observando tudo. Dois corpos, mas só um respira, eu acho. Explosões esporádicas de tiros, afastando-se. Um Americano soldado vem em direção a seus amigos, disparando. Uma granada explode, jogando-o para o lado. Ele se levanta, aparentemente ileso, mas atordoado, e se afasta. Ele grita, grita, mas os dois no chão não respondem. A dor em seus olhos quando ele deixa seus amigos é visível e terrível. Tiros ricocheteiam, golpeando, soando, zumbido. Ele se vira e corre, e depois não há ninguém. A luta mudou. Deixo o meu esconderijo. O que estou fazendo? O pensamento flutua em minha mente, mas eu não tenho nenhuma resposta. O único que ainda respira desabou em cima de seu amigo. Eu empurro-o para que ele vire em suas costas. Ele geme, racha suas pálpebras para olhar para mim. Vívidos olhos azuis me prendendo, olhando para mim, e de repente eu tenho treze novamente, assistindo outro americano morrer. Eu sou apenas uma garota de novo, impotente. Hassan está morto. Eu sei isto. Mãe está morta, o pai está morto, a tia e o tio estão mortos. Os americanos estão mortos. Os iraquianos estão mortos. Todo mundo está morto, eu acho. Exceto esse homem. Ele se esforça para respirar, sussurra algo para mim em Inglês, e sua voz é um suspiro ofegante. Ele

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arranca-se mais, cada movimento, obviamente, excruciante e cutuca o amigo. Ele diz uma coisa, o nome de seu amigo, eu acho. Sua voz pausa. Uma lágrima cai. Ele olha para mim. Algo puxa meu coração, assistindo a cena se desenrolar. Hassan está parado na estrada. Rasga tiros além do silêncio, um AK, e sobe uma marca de sujeira onde as balas caminham para os norte-americanos, ambos feridos. Eu posso ver a morte de seu amigo. Eu me inclino de qualquer maneira, toco o pescoço, sinto, sem pulso. Eu balancei minha cabeça, e o americano soluça, cai, dizendo a mesma coisa uma e outra vez. Eu não sei inglês, mas parece que é: ― Derek, Derek. - Um nome. O norte-americano fica em silêncio, e eu sei que ele desmaiou de dor, pela perda de sangue. O que eu faço? Eu não posso deixá-lo morrer. Houve muita morte. Eu o arrasto para a minha casa, a vários quarteirões de distância. Estou exausta pelo tempo que eu levei para tirá-lo de lá. Eu não posso deixar de me perguntar mais uma vez, que eu estou fazendo.

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Operação Liberdade do Iraque, Iraque, 2003. CP rotina. Câmaras de compensação, agachando-se nas portas, e seguindo as APCs e Hummers. Rifle na mão, ouvidos atentos, de olhos bem abertos. Derek está ao meu lado, brincando com alguma coisa. A brincadeira sexual. Eu rio, mas eu não estou ouvindo ele. Eu tenho aquele nervosismo. Meu estômago está inquieto. Esta é a minha última patrulha. Estou sendo enviando para casa em breve. Meu passeio acabou, e meus quatro anos terminaram. Eu não vou voltar a me alistar. Tenho visto muita morte e sangue por toda a vida. Tudo o que tenho a fazer é passar por isso de patrulha sem nada acontecer, e eu estou em casa gratuitamente. Claro, eu não tenho uma casa para onde ir, mas eu vou resolver essa merda quando eu chegar em casa. Por enquanto, eu só tenho que focar nesta casa, nesta sala, nesta rua. Em seguida, a próxima e assim por diante através deste setor e, então, montar nas costas de sete toneladas para o MEK e estou de volta aos EUA dentro de uma semana. E, claro, eu tenho aquele nervosismo. Minhas mãos tremem, arrepios sobem pela minha coluna. Este é o meu instinto me dizendo que merda está prestes a ir para baixo, porque é claro, nada é fácil. Derek age indiferente, continua brincando. Eu quero dizer a ele para calar a boca e prestar atenção, mas eu sei melhor. Ele corre a boca porque ele está nervoso. Ele sente isso também. Ele vibra como um raio azul idiota quando ele está com medo. Eu posso ver seus olhos,

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consulto a tensão em seus ombros, na forma como o seu rifle está quase no seu ombro, pronto para disparar. Estamos em torno de um canto, e o meu intestino aperta. Eu lentamente digitalizo os telhados. Derek está fazendo o mesmo. ― Sente-o? - Eu peço. ― Foda-se! Sim. Merda está prestes a bater no ventilador. Os outros estão amontoados atrás de nós. Não vejo nada, então eu continuo, mesmo que meus instintos me dizem para parar, voltar, ficar, pegar o foda-se. Eu rastejo para frente mais alguns metros e, em seguida, meu intestino está gritando alto demais para ignorar. Enfio Derek para o lado e caio no chão por qualquer razão. Como eu gosto de terra, uma AK soa de um telhado. Tiros disparam o ar onde tinha estado. Porra sabia. Alguém atrás de nós atira de volta. Barrett, eu tenho certeza. Somente Barrett dispara assim, três-três, pausa, três. Então todo o inferno quebra solto. Tiros de AK irrompem em todas as direções, e de repente estamos divididos, meio a nossa unidade cortado da outra metade. Derek tem um talão de um insurgente no telhado à nossa frente, então eu espero até que uma mira-estoure, dá um local e coloco fogo nele. Eu vejo uma cabeça e estalam no ombro, preto metal e madeira castanho e olhos pretos localizam. Eu aperto o gatilho, e uma explosão de névoa rosa me diz que ele caiu. Há uma pausa, e Derek e eu guinamos em uma corrida, quebrando para uma posição melhor. Ouço botas batendo atrás de nós. Estamos quase lá, quando eu ouço um hackhackhack e então o tiro e dor aperta através de mim, centrado em meu ombro esquerdo e na coxa. Estou virando, caindo. Sou arrastado pela mão através da poeira, sangrando. A pressão sobre o meu ombro ferido quando eu sou puxado é

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agonizante. Vejo-me ao lado de Derek, disparando em uma porta. Eu vejo uma forma, uma explosão de balas salpicando a terra e a parede perto de nós. Derek atinge seu alvo. Eu vejo o mundo de lado, como a mira explode fica em silêncio. Derek muda, se prepara para me arrastar mais longe na tampa. Em seguida, uma figura, magro e jovem, tropeça da porta, sangrando. Ele joga uma granada, e eu tento mudar, mas Derek já está em cima de mim, rolando para longe de mim, e os segundos até a granada detonam na minha cabeça como tambores trovejantes, cada um num piscar de olhos. Calor, o fogo e a pressão em erupção, o som tão ensurdecedor, torna-se silêncio, e somos lançados. Eu me sinto propagando umidade, sinto pinos de dor me esfaqueando. O silêncio continua e eu me pergunto se eu fiquei surdo, mas, em seguida, o barulho enche meus ouvidos, e eu sei que minha audição voltará eventualmente. Derek está muito parado. Muito molhado. Acho que a bala perfurou a perna, recusando-se a apoiar-me, mas eu não me importo. Não posso me dar ao luxo de me importar. A adrenalina se apodera de mim. Eu aperto a mão vermelho-escorregadia de Derek e puxo-o, precisando que ele fique seguro. Os disparos de rifle se tornam um rugido distante, e eu vejo nuvens de poeira marcando a caminhada da Morte em direção a mim. Meu lado dói, baixo, perto do quadril. Estilhaços, eu acho. Eu empurro a minha mão contra ela, tentando em vão aliviar a dor com a pressão. Deixo Derek a poucos metros de distância, perto da porta que iria fornecer alguma cobertura, mas então eu sou atacado novamente no ombro. Eu caio de joelhos, encontro o meu rifle, disparo cegamente. Encontro um alvo, abro fogo. Caiu. Outro crackcrack, caiu. Foda-se, eu me machuquei.

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Uma bala de agonia atinge minha coxa, bem perto da ferida original. Eu não posso ficar em pé por mais tempo. Eu ouço mais rifles disparar, M-16, um AK, e, em seguida, uma detonação. Alguém grita o meu nome, o nome de Derek. Barrett. Eu quero responder, mas não tenho fôlego em meus pulmões. Tem sido roubado pela dor, por buracos de bala e estilhaços. Eu sucumbo à dor, deixo-me lavar. Eu derivo e flutuo, e então sinto algo me empurrar. Dor rompe sobre mim como uma onda quando eu bato à minha volta, e eu forço meus olhos abertos. Porra, ela é linda. É um pensamento estúpido, aleatório, fora do lugar neste campo de batalha, mas eu não consigo me livrar dele. Ela está ajoelhada em cima de mim, sua coisa de cabeça, lenço, uma Hidab, ou... Meu cérebro embaçado de dor não vai cuspir a palavra certa. Hijab. Essa é a palavra. Ele está solto ao redor do rosto, mechas de cabelo loiro-farmácia escapam à deriva em seu rosto delicado de feições. Eu quero tocar seu rosto finamente esculpido, mas minha mão não vai funcionar. ― O que você está fazendo aqui? - Eu pergunto. Ela

olha

para

mim em confusão. Ela não entende. Viro minha cabeça e vejo Derek. Ele é uma baita bagunça. Horror em pânico é um nó quente grosso na minha garganta. NÃO! Não Derek... Nós temos sido amigos desde sempre. Segundo grau. Ele me chamou de covarde e eu bati em sua bunda e temos sido amigos desde então. Nos alistamos juntos, tivemos sorte de conseguir passar o básico na mesma unidade, designados para o mesmo esquadrão. Sorte impossível, para ficar juntos assim por tanto tempo, por meio da guerra, pela morte. Agora ele está morto. ― Derek? - Eu rastejo na direção dele. Cutuco, ele odeia ser cutucado. ― Derek? 66


Eu olho para a menina, olhos castanhos brilhantes como terra banhadas pelo sol fixos em mim. Ela toca dois dedos no pescoço de Derek, olha para mim, balança a cabeça. Seu significado é claro. ― DEREK! - Eu não posso parar o grito. Eu sei que eu estou chorando, sinto o sal queimando meu rosto, mas eu não posso parar. Eu não me importo se eu estou chorando na frente de uma garota iraquiana linda, como uma espécie de maricas maldito. Derek está morto. Morto. Foda-se. Escuridão me engole.

Eu acordei na escuridão. Sombras me engolindo. Silêncio pesa no meu peito como um cobertor pesado e molhado. Eu olho ao meu redor, vejo formas nas sombras. Uma cadeira, uma mesa. Um espelho que reflete fragmentos da luz das estrelas. Um quadrado de preto mais leve, com uma amostra de alfinetada estrelas: a janela. Dura terra debaixo de mim. Eu quero levantar. Preciso me levantar. Não posso ficar aqui. Tenho de voltar para os caras. Eu levanto um centímetro para cima antes de parar com pura agonia através de mim e eu grito, um gemido suave, agudo e feminino. Choramingando como um maricas maldito. Eu cerro os dentes para me silenciar.

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Um movimento, um pano roçando. Em seguida, um rosto aparece em cima de mim, bloqueando minha visão das estrelas. Cabelo loiro caindo solto em longas ondas de seus ombros nus. Sou atacado novamente pela forma como ela é belíssima, mesmo na escuridão da meia-noite preto. Ela disse algo em árabe e toca o centro do meu peito para me empurrar para baixo, um toque de pluma de leve entre buracos de bala em cada ombro. Eu fico olhando para ela, incapaz de desviar o olhar. Eu queria que tivesse luz para que eu pudesse vê-la melhor. Ela

puxa

um cobertor fino sobre o meu corpo, e eu percebo que estou vestido apenas com as minhas cuecas. Ligaduras desajeitadas estão feitas com uma fita, fita não médica. Fita regular. Eu rio, o que dói. A menina inclina a cabeça em confusão. Eu aponto para a atadura, a fita. ― Você fez isso? Eu sei que ela não pode me responder, nem me entender, mas eu pergunto mesmo assim. Eu não sei o porquê. Eu só quero falar com ela. Ela diz algo de volta, sua voz aguda. Acho que ela pegou a minha crítica. Eu ergo minhas mãos para parar o som acusando de sua voz. ― Obrigado. - Eu acho que sei como se diz em árabe, mas eu tenho que pensar sobre isso. ― Chokran. Ela acena com a cabeça uma vez e se afasta, se deita, de costas. Seus ombros parecem tensos, e eu posso dizer que ela não confiava para realmente dormir comigo aqui, mesmo ferido. ― Você pode dormir, você sabe. - Eu digo. ― Eu não poderia machucar uma mosca agora.

- Ela rola e olha para mim, a pele obscura

estrelada pela lua prata. Ela sussurra algo, sacudindo a cabeça, encolhendo os ombros. ― Eu sei que você não me entende. Isso não importa. - Eu sorrio para ela, mas ela olha para mim, impassível. ― Sono.

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Eu faço mímica de dormir, as mãos cruzadas sob a minha cara, um ronco exagerado, em seguida, aponto para ela. Eu aponto para mim com um polegar. Eu tento mover e um gemido escapa. Eu olho para ela e dou de ombros, em seguida, faço mímica de dormir novamente. Ela franze a testa em pensamento, então me dá um pequeno sorriso. Ela entende-o. Ela fecha os olhos lentamente, suas pálpebras vibram, em seguida, fecha novamente. Sua respiração fica mais lenta, e então ela está dormindo. Eu a vejo dormir. Por que ela me trouxe aqui? Por que ela me ajudou? Eu teria morrido sangrando. Eu sou um fardo. Eu não vou ser capaz de fazer merda nenhuma por semanas. Vou precisar comer. Vou precisar de ajuda cagando. Como ela pode me ajudar? Esta casa é pequena. Ela não pode ter muito mais. Vou precisar de antibióticos, provavelmente. Eu gostaria de morfina, mas eu sei que não vou conseguir. Provavelmente não vou nem ter aspirina. Agora que ela está dormindo, deixei lavar a dor em cima de mim e me deixei mostrar. Dói assim tão ruim que é difícil respirar. Eu caio no sono novamente. Quando eu acordo, brilhante luz solar flui através da janela descoberta e quadrado. Eu estou no chão em um canto. Há uma outra cama à minha frente, um colchão na terra coberta por cobertores cuidadosamente dobrados. Há um velho fogão espancado em um canto, mais velho do que eu. Uma única lâmpada nua pendurada no teto, um grande pedaço de espelho com bordas gravadas encostado na parede. A menina está longe de ser vista. Eu fecho meus olhos novamente, e foi aí que eu ouvi os sons inconfundíveis de sexo. Grunhidos masculinos, gemidos femininos. Os gemidos de som forçado, muito alto, muito exuberante. Ele dura por um momento, depois para. Ouço botas coçando na sujeira e uma voz masculina murmurando baixinho em árabe. Outro momento, e em seguida, a menina aparece na porta, alisando o cabelo com os dedos.

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Ela não olha para mim, como se não me visse. Ela vai para o banheiro minúsculo com a pia de aço inox enferrujado, desliza para fora da saia, limpa-se com pano úmido. Eu assisto, embaraçado, mas incapaz de desviar o olhar. Ela é ágil, magra, de pernas compridas, com a pele escura impecável. Eu me faço desviar o olhar para lhe dar privacidade. Eu a ouço dizer algo, uma maldição se o tom de sua voz é qualquer indicação. Eu olho para ela. Ela está olhando para mim, quase em expectativa. Ela ainda está nua da cintura para baixo. Eu desvio meus olhos, rolo, gemendo de dor. Ouço farfalhar de roupas e ela está vestida de novo, em cima de mim. Ela tem dinheiro na mão, e foi quando eu coloquei dois e dois juntos. Compreensão deve ser visível no meu rosto, porque ela endurece. Cerra o punho em torno do maço de notas. ― Ei, não é da minha conta. - Eu digo. Ela responde, mas é claro que eu não entendo o que ela está dizendo. Ela parece com raiva. Ela aponta para si mesma, à porta, o que eu preciso para ser um gesto para o mundo em geral. Ela está explicando a si mesma, eu acho. Ela toca em seu estômago, curvando sobre ele, gemendo. ― Você não me deve nenhuma explicação. - Eu digo, como se nós estivéssemos tendo uma conversa. Fome. Eu percebo o que ela estava tentando dizer com sua mímica. Ela vendeu-se por alimentos. Pena deve ser registrada em meu rosto, e ela deve ter reconhecido isso. Seus olhos brilham com raiva, e ela joga o dinheiro para mim e pisa longe, embora ela só vá para o outro lado da pequena casa, de braços cruzados, curvando-se para trás para fora e o ombro levantando quando ela respira através de suas emoções.

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― Sinto muito. - Eu digo. Ela se vira para me olhar por cima do ombro e diz algo. Minha imaginação preenche a lacuna: não quero sua piedade. Ela se vira e abre um armário, encontra uma caixa, produz uma pílula, e secaengole. Controle de natalidade, eu imagino. Eu me pergunto se é difícil obter um aperto, aqui fora. Ela me traz pão achatado e uma garrafa de água, um pacote de papel alumínio contendo carne moída ou cordeiro. Eu me esforço para sentar, rangendo os dentes contra a dor pulsante. Ela movimenta-me a ficar no chão, faz mímica de me alimentar. Claro que não. Eu ignoro-a e obtenho meus ombros encostados na parede, ofegante e suando. Acho que tenho costelas quebradas. Eu me machuquei tão ruim que eu poderia chorar, mas eu me recuso. Ela me olha, franzindo a testa, balança a cabeça e murmura algo. Idiota teimoso, eu imagino que ela diz. Ela define o pacote de papel alumínio na minha barriga, o que prejudica a partir do esforço de me mover. Eu o alcanço, mas meu braço está fraco. Consigo algumas mordidas enquanto ela assiste. Ela claramente quer ajudar, mas não o faz. Estou feliz. Eu me recuso a ser alimentado como um bebê maldito. É cansativo e doloroso, mas eu consigo comer tudo, e beber a água. Eu me sinto melhor. Ela olha para mim, em seguida, puxa o cobertor de cima de mim. Se eu não soubesse melhor, eu acho que ela estava corando. É uma ideia ridícula, porém, dado o que ela faz para ganhar a vida. Ela não olha para mim quando descasca delicadamente a fita ao redor do curativo na minha perna. ― Faça isso rápido. - Digo a ela. Ela me olha com curiosidade. ― Rápido! - Eu mostro a ela, rasgando o curativo rapidamente. Dói como uma puta, e eu tenho que reprimir um gemido. Ela pega no curativo em um dos meus ombros, indo devagar novamente.

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― Não, faça rápido! - Eu faço mímica de rasgando rapidamente. Ela olha para mim, incrédula e diz algo. Eu dou de ombros. ― É melhor apenas acabar com isso. Ela descasca lentamente. Eu amaldiçoo, coloquei minha mão sobre a dela, e rasgo-o fora, assobiando por entre os dentes. Ela sacode a mão e cai para trás, batendo com raiva, apontando o dedo para mim. Ela não gosta de ser tocada, eu acho. Eu levanto as minhas mãos para cima. ― Sinto muito. Eu não vou fazer isso de novo. Eu coloquei minhas mãos no meu colo, cobrindo-me. Ela se move em direção a mim novamente e puxa a última bandagem, rapidamente neste momento. Concordo com a cabeça e ela balança a cabeça em descrença. Idiota estúpido, eu imagino ela dizendo novamente. Ela leva um rolo de gaze e rasga um pedaço longo e irregular. Eu franzo a testa, querendo mostrar-lhe como fazê-lo direito. Eu olho para o pé dos meus cobertores e vejo as minhas roupas, algumas das minhas artes. Minha faca de combate. Eu toco seu ombro, aponto para a faca. Ela balança a cabeça, mas eu aponto novamente. Ela a dá para mim e se arrasta para longe, deixando a gaze perto de mim. Eu a pego, os olhos fixos nos dela, e corto um quadrado puro, mostro a ela, em seguida, um segundo e terceiro. Eu embainho a faca e lanço fora do alcance. Ela se arrasta de volta para mim como um gatinho arisco, leva os quadrados de gaze de mim e cuidadosamente os coloca em uma das feridas. Há uma garrafa de peróxido antigo no balcão e eu aponto para ele. As feridas precisam ficar limpas. Ela franze a testa para mim, mas pega a garrafa para mim. Eu despejo uma pequena quantidade sobre a minha ferida, e meus dentes quase rachando a partir da estirpe de conter meu grito de dor. Foda-se, dói. 72


Ela tira de mim e faz o mesmo com o resto das minhas feridas, e no final eu desmaio de dor. Eu acordo, e a vejo desajeitadamente colocando a gaze, solta e fora do centro. ― Não, não. Não assim. - Eu digo. Ela começa e deixa a fita. Eu arranco o curativo que ela fez e recoloco, centralizado e apertado. Ela observa com cuidado, e, em seguida, faz o mesmo. Seus dedos na minha pele são suaves, cuidadosos, como roçar de penas. Ela olha para mim e eu aceno com a cabeça. ― Bom trabalho. Muito melhor. Grato. Chokran. Ela responde, e eu encolho de ombros. Ela aponta para mim, diz ― Chokran. - E depois aponta para si mesma e repete o que ela disse, que eu entendo que significa: ― De nada. - Eu repito-o, e ela corrige a minha pronúncia. Ela toca meu peito, e desta vez eu estava de volta para baixo, movendo-se lentamente para o chão, cada polegada uma agonia. Eu estava ofegante, os olhos fechados com força contra a dor. Abro os olhos para vê-la olhando para mim, com uma expressão inescrutável. Eu examino-a à luz do dia. Ela é a garota mais bonita que eu já vi. Sobre minha idade, vinte e três ou vinte e quatro anos, um rosto estreito, com maçãs do rosto salientes, orelhas pequenas, delicadas, lábios vermelhos cheios emoldurando uma boca larga. Seus olhos são como chocolate, escuro e líquido, observando-me vê-la. Seu corpo é esbelto. Lembro-me que a palavra de classe alta escola de inglês. Sua cintura é estreita, transformando seus quadris finos em curvas tentadoras, fazendo seus seios fartos ainda mais pronunciados. Lembro-me de seu comentário em mímica sobre a fome ser o impulso para se tornar uma prostituta, e percebo que sua figura magra é o resultado da verdadeira fome ao invés de qualquer desejo de ser magro por causa da aparência. 73


Ela recua sob o meu olhar, percebendo que eu estou olhando para ela em agradecimento, como um homem olha para uma mulher. Seus olhos se endurecem e os lábios franzem. Cerro os punhos. Eu desvio meu olhar, mas sinto seus olhos em mim por mais um momento. Ela vai até a porta, espreita para fora, e esquiva para trás. Seu rosto está fechado, duro, gelado. Ela reaplica o batom, retoca seu blush, muito. Ela tem um truque, eu percebo. Ela está totalmente diferente agora. Seu corpo está solto, balançando os quadris quando ela se move para a porta, antes, cada movimento era rigidamente controlado e preciso. Agora, ela é como líquido, exalando confiança sensual que eu percebo é totalmente falsa. Ela olha para mim, uma vez que ela se move fora de vista, e eu vejo um flash de alguma emoção inescrutável lá e foi embora. Eu ouço a voz de um homem, o atendimento dela, baixa e doce. Falso. O ar ainda é hoje, e eu posso ouvir tudo. Um barulho de um cinto, fracamente. Sua voz, gemendo, falso, muito alto. Sua voz, grunhindo, suínos. Vômito agita na minha barriga, pulsos de raiva em meu peito. Ódio. Ciúme. Nojo. De onde é que isto vem? Eu não a conheço. Nem sequer sei o nome dela. Então por que estou reagindo fortemente assim? Não há uma resposta, mas a cada momento aumenta o ritmo da minha raiva, batendo com meu coração frenético. Cada som faz com que meu intestino aperte. Sua voz, por isso falsamente entusiasmada, deixa meus nervos em frangalhos. Eu reconheço as emoções agora. Todos juntos, eles formam um único sentimento: o desamparo. Eu quero parar com isso, mas eu não posso. Fisicamente, eu não posso nem mexer. É a sua escolha, a vida dela, não minha. E eu sou completamente dependente dela.

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Foda-se. Depois de muito tempo, um período de talvez dez minutos, ela reaparece, repetindo o processo de limpeza no minúsculo banheiro sem porta. Ela corrige os cabelos e batom e blush e roupas. Eu não assisto esse tempo. Ela olha para mim, uma vez que ficou pronta. Eu tento bravamente manter meu rosto neutro. Eu não sei o que ela vê, mas ela se afasta de mim e vai para fora, encostada do lado de fora de sua casa, perto da janela, apenas dentro da visão. Posso vê-la de volta, uma tira de pele visível entre saia e camisa. Eu não deveria querer tocar essa faixa de pele, mas eu faço. O desejo é esmagador. Eu alavanco-me levantado do chão, prendendo a respiração contra a dor, e depois me deixo cair de volta para baixo. Relâmpagos de dor excruciante atiram em mim, me cegando, me torturando até eu desmaiar. Escuridão flutua em cima de mim, bem-vinda ao alívio dos desejos que eu não deveria ter e não entendo.

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Ele está dormindo. Tão bonito. Eu não entendo o que está acontecendo comigo. Desde o primeiro momento que o vi, algo nele chamou o meu sangue e fez cantar. Mesmo agora, o meu último cliente do dia foi quando o sol se pôs, meu corpo arranha apenas olhando para ele. Sua mandíbula é quadrada e forte, com o cabelo negro como a hora mais escura da noite, fazendo que seus olhos incrivelmente azuis pareçam ainda mais vivos. Claro, ele está dormindo agora, então eu não posso ver seus olhos, mas eles secam em mim, no entanto, se estou acordada ou dormindo, trabalhando ou em repouso. Seus olhos parecem ver-me, o meu verdadeiro eu. Seu corpo... Pele clara, lisa e sem pêlos com exceção de uma trilha fina de cabelo de seu umbigo abaixo da banda de cueca. Ele é extremamente musculoso, cada membro fino e grosso e poderoso. Seu peito é amplo e duro, mesmo com o músculo relaxado no sono. Sua barriga é como um campo arado, quadrados de músculo delineado por sulcos profundos. Seus braços são como cordas de corda trançada, os bíceps maiores que minhas coxas, as mãos grandes, ásperas e poderosas. Suas pernas são como os troncos retorcidos das árvores velhas, quase tão grande como a minha cintura. Nenhum homem que eu já vi se parece com ele. Claro, os homens que eu conheço, eles simplesmente tilintam os cintos, retiram sua masculinidade e fazem o seu negócio rápido e sujo em mim. Eles nunca se despem completamente. Eles nunca estão nus. Para fazê-lo seria

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permitir-se ser vulnerável. Para ficar vestido demonstra seu poder sobre mim. Devo ficar nua enquanto permanecerem vestidos e me pagar o dinheiro para que eles possam me violar. Este homem, este americano. Ele não está nu. Ele tem sua cueca, e eu não a tirei, então eu não o vi nu. Mas, mesmo assim, ele parece mais completamente nu do que qualquer homem que eu já vi. Eu quero olhar para longe dele, mas eu não posso, e quando eu olho para ele, coisas estranhas vibram através de mim, pulsam nos lugares secretos do meu coração, alma e corpo. É como a fome, mas não. Lembro-me de Malik, o meu primeiro cliente. Eu me lembro muito bem do jeito que ele olhou para mim, e eu me lembro de pensar que ele parecia faminto então. É isso o que é isso? O pensamento me encharca com frieza e desprezo. É este sentimento em meu ventre e entre as minhas coxas a fome de sexo. Não. Isso não serve para nada, mas trabalho. Dinheiro. Os homens são porcos. Eu não sou uma mulher, eu sou uma coisa. Um objeto, um servo para suas necessidades. Sexo é uma ferramenta. Mas... Mesmo assim, eu não posso parar de olhar para ele. Ele deve estar com dor. Ele geme, mesmo enquanto ele dorme, tentando rolar em seu sono, mas a dor o impede. Lembro-me de sua mão tocando a minha quando ele me mostrou como rasgar fora a bandagem. Queimei minha mão, como se tocada por um raio, um único toque, inocente que deixou todo o meu ser em chamas. Eu não pude parar a minha resposta irritada. O toque dos homens deixa meu estômago doente, e todo o tempo que eu estou trabalhando eu devo conter meu desgosto e disfarçá-lo com o pretenso desejo, prazer fingido. O mais alto e mais falso os sons que eu faço, mais eles gostam.

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Seu toque, este americano... Não deixa minha barriga se revoltando, o que foi o catalisador da minha raiva. Eu deveria odiá-lo. Ele matou o meu povo. Ele pode ter matado meu irmão. Mas eu não o odeio. Eu não sei porque não o deixei onde ele estava, sangrando até a morte. Eu não sabia, porém, e isso é o fato. Eu o trouxe para minha casa. Minha casa. Ele dorme a poucos metros da minha própria cama. Ele sabe o que é que eu faço. Ele não gosta, mas eu não posso dizer o porquê. Talvez eu lhe dê nojo, embora eu duvide que nojo o suficiente para impedi-lo de se utilizar dos meus serviços quando ele estiver capaz. Eu vi olhando para mim. Ele não tenta, o que é estranho. Eu sou uma prostituta. Por que ele deveria se preocupar com a minha privacidade? Mas ele faz. Ele desvia o olhar quando eu me limpo para o próximo cliente, quando eu mudo e reaplico a maquiagem. O que ele pensa quando olha para mim com aqueles olhos azuis? Será que ele tem fome para mim como todos os outros homens? Eles têm fome para mim com o desejo da carne. Eles me vêem como boa para uma coisa somente. Eles mal sabem o meu nome. E ainda assim, nem é o verdadeiro. Talvez ele me veja como uma mulher, uma pessoa. Não. Certamente não. Por que faria isso? Eu pisco, e ele está acordado, observando-me vê-lo. Eu me forço a encontrar seus olhos sem desviar o olhar ou vacilar. Eu quero esconder dele. Eu não posso sacudir o sentido que ele vê em mim. Que, talvez, ele possa ver meus pensamentos, meus desejos secretos, apesar da barreira da língua entre nós. Ele fala para mim, diz algo macio em sua voz baixa, áspera como um trovão distante. Eu assisto o seu pomo-de-adão em sua garganta, assisto seus lábios movimentarem. Eu gostaria de saber o que ele

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estava dizendo. Ele me faz uma pergunta e aguarda uma resposta como se eu entendesse. Ele toca seu peito com a palma da mão, e diz uma palavra: ― Hunter. - Então ele aponta para mim e encolhe os ombros. Ele quer saber o meu nome. Encaro-o, considerando. Eu não disse a ninguém o meu nome real em um tempo muito longo. Não, desde Malik. Eu

toco

meu

peito

entre

os

meus

seios.

Rania.

-

Por que eu digo-lhe o meu nome real? Não é como se ele soubesse a diferença. ― Rania. - Ele diz o meu nome lentamente, como se estivesse o saboreando na sua língua. Então eu entendo, quando ele fala o meu verdadeiro nome: Eu não quero que ele conheça Sabah, a prostituta. Eu quero que ele conheça Rania, a mulher. Por quê? Eu não sei. Mas isso é o que eu quero. Eu tento seu nome: ― Hunter. Ele sorri quando eu digo o nome dele. Eu desejo poder fingir para mim mesma que o seu sorriso, mesmo um pequeno como este, apenas um ligeiro subir de seus lábios, não fez algo ferver e vibrar na minha barriga, bater em meu coração secreto. Seu sorriso é genuíno. Como se ele não quisesse qualquer coisa de mim além de me ver sorrir de volta. Eu o conheço melhor. Eu sei o que ele quer. Então, por que estou sorrindo de volta? Os cantos da minha boca estão levantando em um sorriso real, não um falso, um como eu dou aos clientes. É um sorriso que vem em meu coração e empurra afastando a escuridão pesada. Meu

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sorriso é desenhado a partir do dele, inspirado pelo dele, e ele se sente bom em minha face, em minha alma. A realidade me bate e eu começo a mover meus pés e mover-me para a janela. Por que eu estou sorrindo para ele? Por que ele está aqui? Por que eu quero salvá-lo? Outro par de olhos azuis olhando para mim, este morto há muito tempo, há muito banido para o mundo da memória. Outro americano, morrendo por minha mão. No reino de lembranças, minhas mãos tremem, meu peito tem pontadas com o pontapé de dor, e não é um rugido ensurdecedor. Um americano, jovem, bonito, de olhos azuis e de aparência inocente, morre. Eu o vejo morrer. Vejo perder o fôlego. Tive pesadelos por muito tempo sobre os olhos azul-céu olhando pra mim, velado pela morte. Eu acordava sozinha em meus cobertores, com a respiração raspada da tia Maida nas proximidades, o ronco de Hassan no outro lado, e eu ainda iria ver os olhos azul-celeste vidrados para mim, vendo a minha alma com o olhar vazio de um fantasma. Eu

ainda

acordo

algumas

noites,

vendo

aqueles

olhos

moribundos. Aquele homem de olhos azuis morto há muito tempo é porque este americano, Hunter, está em minha casa. Talvez se eu salválo, eu não vou sonhar com morte e olhos azuis mais. Talvez eu vá ver os olhos vivos, os olhos de Hunter. Não apenas o céu azul, mas a quente, afiada sombra de um raio, do oceano, o que eu vi uma vez em uma viagem como uma menina com a mãe e o pai para ver alguém em Beirute. O oceano foi ondulando, as ondas quebrando infinitas e tão, tão azuis, como um campo de muitas safiras. Eu vejo essa mesma sombra nos olhos de Hunter, e isso me assusta. Dói quando ele olha para mim. Seus olhos picam através das minhas duras paredes e veem segredos escondidos no fundo de minha alma. Eu posso sentir seus olhos em mim quando eu olho para fora da janela, e eu desejo que pudesse perguntar o que ele está pensando. Eu

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percebo que eu posso dizer o que eu quiser. Ele não vai saber o que estou dizendo. Viro-me e olho para ele por cima do meu ombro e deixo as palavras

derramar,

sabendo que meus

segredos estão seguros.

― O que você está fazendo para mim, americano? É como se você estivesse rastejando debaixo da minha pele, de alguma forma. Sinto em meu coração, e eu não te conheço. Seus olhos vêem em mim. Eu odeio e amo isso. Eu não quero que você me veja. Sou suja. Sou feia por dentro. Os homens veem minha beleza, mas não a minha feiúra. Ou talvez eles a vejam, e é por isso que todo mundo me odeia, exceto quando querem me pagar por sexo, pagam-me pela minha beleza. - Volto a sentar de pernas cruzadas sobre o palete de cobertores ao lado dele. ― Eu me pergunto o que você vê, quando olha para mim. Você me quer? Você quer me tocar? Você quer que eu seja uma prostituta para você? Minha voz está com raiva até o final, não grito, mas sim intensamente tranquila. Eu posso ver a confusão em seu rosto quando ele me ouve falar, mas não entende nada. Ele ouve a raiva, porém, e sente que ela seja dirigida a ele. Eu não me sinto mal por sua confusão, mesmo que ele não tenha feito nada de errado para mim ainda. Ele o fará. Ele espera que eu seja uma prostituta para ele, um dia. Ele sabe o que eu sou, e isso é tudo o que posso ser agora. Eu não sou Rania, a mulher, eu sou Sabah, a prostituta. Agora e sempre. Para ele e para todos os outros homens. Eu me afasto e preparo a comida para nós dois. Eu me mantenho focada na comida quando eu o ouço lutando para se sentar. Ele odeia mostrar dor. Sei isso sobre ele já. Ele tem que ser forte o tempo todo. Sem dor. Nenhuma fraqueza. Eu trago a comida para ele, e ele come devagar, com cuidado. Cada movimento causa dor. Eu gostaria de ter algum tipo de

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medicamento para aliviar a dor, mas eu não tenho. É muito dinheiro, especialmente agora que eu estou alimentando dois. Ele me agradece quando termina de comer, usando a única palavra em árabe que sabe. Desta vez, quando eu digo: ― De nada. Que eu ensinei a ele ontem, ele me ensina a dizê-lo em Inglês. Ele diz ― Obrigado. - Em árabe, e, em seguida, repete em inglês, com a mão no peito dele. Então ele aponta para mim e diz: ― De nada. - Em árabe, e repete-o em inglês. Passamos a manhã trocando palavras. Eu mostro-lhe pão e ensino-lhe a palavra para ele, e ele me ensina o equivalente inglês. Objetos são fáceis de aprender, mas conceitos abstratos como - Por favor - são mais difíceis. Eu quero falar com ele. Eu quero saber como os seus pensamentos fluem em palavras. Meu primeiro cliente está previsto para logo após o almoço. Encontro-me temendo-o ainda mais do que o habitual. Eu odeio a expressão indecifrável nos olhos do Hunter quando eu vesti uma saia absurdamente curta e uma blusa com um grande decote, os meus seios poderiam

muito

bem

estar

descobertos.

Eu

odeio

o

olhar

de

desaprovação que ele me dá quando eu me entupo na maquiagem. Eu odeio mais do que tudo a dor em seus olhos quando eu saio de casa para esperar do lado de fora da mesquita para o meu cliente. Este cliente é um cliente fiel. Ele vem a cada semana, neste dia, neste momento. Ele é casado, eu sei. Eu vejo o anel em seu dedo, ou a sombra dele quando ele se lembra de tirá-lo. Ele me diz que seu nome é Abdul, mas nem sempre lembra-se de responder a ele quando me dirijo a ele por esse nome, então eu sei que não é o seu nome real. Como se eu me importasse com quem é. Se ele é casado ou tem filhos. Eu não tenho nenhum lugar para lançar a culpa se ele quer gastar o seu dinheiro em mim, se ele precisa encontrar a liberação sexual comigo ao invés de sua esposa.

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Se ele paga uma prostituta para fazer sexo, ele é um porco. Se ele não consegue encontrar o que quer ou precisa com uma mulher que não exige dinheiro para ele, então ele é um porco. Claro, eu não sei nada dessas coisas, nunca tive relações sexuais com um homem que não me pagou por isso. Talvez todo o sexo é pago de alguma forma. Eu acho que isso é verdade. Um homem que leva uma mulher para jantar em primeiro lugar, a leva para beber, diz que ela é bonita, paga seu pai para arranjar um casamento com ela... Isto está pagando por sexo. É envolto em costumes e tradições, mas o domínio sexual

do

homem

sobre

a

mulher,

ainda

é

prostituição.

Eu não estou disposta a isso. Eu não escolhi essa vida. Eu faço o que devo para sobreviver. É isso, ou morrer de fome. Estas são as justificativas que repito para mim mesmo uma e outra vez como Abdul se aproxima de mim, uniforme em linha reta e vincado, medalhas polidas, arma tão ajustada, botas brilhando. Eu odeio Abdul. Seus olhos são crueis. Seus dedos são duros e fortes quando me agarra de cima para baixo, a minha saia para cima. Seu hálito cheira a alho e seu corpo sujo de suor masculino e musk, é flácido. Sua barriga paira sobre o zíper de sua calça enquanto ele se revela, de joelhos em cima de mim. Sua boca se torceu em um sorriso cruel, como se soubesse um segredo que encanta nele. Existem diferentes tipos de clientes. Há aqueles que me entregam o seu dinheiro antes de começar, desviando os olhos enquanto eu guardo-o debaixo dos meus cobertores. Há aqueles que desenterram fora de seus bolsos, enquanto eles se vestem e depois vão embora sem me olhar nos olhos. Eles são os únicos que se sentem um pouco de vergonha por aquilo que fazem comigo. Depois, há homens como Abdul. Ele não perde tempo. Ele esquiva minha camisa, puxando meu top para baixo até que meus seios saltam livres, e então ele agarra na minha saia, empurrando-a para descobrir as minhas partes íntimas. Ele leva um momento para olhar para mim, a

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fome, o sorriso maldoso nos lábios finos, e então ele enfia o membro curto, gordo em mim. Ele leva apenas alguns momentos, graças a Deus, e então ele termina. Ele ergue-se a seus pés, puxando suas calças de volta no lugar, e afivela o cinto. Ao mesmo tempo, seus gananciosos, olhos escuros maliciosos olham para mim. E então, depois de um momento de silêncio triunfante, ele cava a mão no bolso e tira um maço de dinheiro. Ele não se preocupa em contar. Ele sabe a quantidade correta, que está no bolso de antemão, com o único propósito de ser capaz de jogar o maço de dinheiro sujo para os meus seios nus. Ele faz isso o tempo todo. Ele faz isso para mostrar seu poder sobre mim, para me machucar. Eu jogo o meu próprio jogo. Ele espera que eu lute para contá-lo, mas eu não. Espero, imóvel, enquanto ele sai. Eu não me cubro. Eu não escovo as notas gordurosas de lado ou empilho-as ou conto-as. Eu deixo-as no lugar, e dou-me sob o seu olhar, deixo-o olhar, deixo-o sentir-se poderoso. Quando ele se foi, eu recolho-as juntos, empilho-as com o resto do meu salário, e vou me limpar, escondê-lo no gabinete. Hoje, quando Abdul joga o dinheiro em cima de mim, ele espera. ― Pegue-o, prostituta! - Ele rosna.

Eu não respondo, faço nenhum

movimento para cumprir. ― Eu lhe dei uma instrução, prostituta. Você deve obedecer. ― Você não me paga para obedecer-lhe. Você paga-me para deixá-lo fazer sexo comigo. Você já acabou. Você pode sair agora. Seus olhos estreitam e crescem com raiva. Medo reúne baixo no meu intestino, mas eu me recuso a deixá-lo mostrar. ― Eu pago para fazer qualquer merda que eu lhe digo. Eu lhe disse para pegar o dinheiro. Contá-lo. Agora. - Eu levanto o meu queixo ligeiramente. A recusa. Ele rosna como um animal raivoso, vem para mim, pega minha camisa em suas mãos e me levanta para os meus pés. Ele me levanta do chão com facilidade, me mantém no ar. Eu me recuso a mostrar medo. Recuso-me a sacudir para ele. Ele me diminui para os meus pés,

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leva a mão da minha camisa, e me dá um tapa no rosto. Pica, mas não foi um golpe na intenção de causar dano, apenas para demonstrar poder. Então ele sorri para mim. O brilho mal dos seus olhos faz com que a primeira explosão de pânico real. Ele pega meu mamilo e belisca, torcendo-o. Eu grito com os dentes cerrados. Ele solta, sorrindo com satisfação, em seguida recua e bate o meu peito com tanta força que colapso de joelhos, ofegante de agonia. ― Pegue o dinheiro, prostituta. - Ele fica em cima de mim, olhando para mim. ― Conte-o. - Eu faço o que ele diz, a raiva queimando em meu peito enroscado com a dor. ― Agora você vai se lembrar. - Diz ele. ― Você vai fazer o que eu digo. Você é uma prostituta. Você é paga para me agradar. Eu permaneço em meus joelhos, o rosto para o chão, escondendo minhas lágrimas e meu ódio. Ele ri e vai embora. Quando seus passos se foram, eu ajusto a minha roupa, mas meu peito dói tanto de seu golpe que eu não posso suportar ter nada tocá-lo. Eu levo o meu dinheiro e deixo as ruínas da mesquita, tropeçando os poucos pés de volta à minha casa. Hunter está de joelhos, o cinto de lona uniforme entre os dentes, lutando para chegar a seus pés. Ele está roncando, um som longo contínuo de dor e determinação. ― O que você está fazendo? - Eu peço. Ele para, e a preocupação e a raiva nos olhos dele me assusta. ― Rania?

-

Ele

diz

alguma

coisa

que

eu

não

entendo.

Você está bem? Eu imagino que ele está dizendo. Eu balancei minha cabeça para ele. Quero dizer, não se preocupe com isso, mas ele entende que eu não estou bem. Ele tornou-se de pé, e a dor é gravada em cada linha de seu rosto. Ele põe a mão na parede e

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cambaleia na minha direção. Aponto para o chão. ― Deite-se para baixo. Você vai começar a sangrar de novo. - Eu digo. Ele

balança

a

cabeça.

Chega

para

mim.

Preocupação,

preocupação, raiva. Ele me ouviu gritar, ouviu os golpes. Ele está na frente de mim agora, arfando, ofegando, suando, gemendo a cada respiração.

Mantenho-me

perfeitamente

imóvel,

sentindo

estranhamente como uma presa capturada pelo olhar de um predador. Só que, este predador parece preocupado por mim. A mão de Hunter levanta lentamente. Eu quero recuar para longe, mas eu não faço, não consigo descobrir o porquê. Eu deveria. Eu deveria ter medo de Hunter, pois ele é um homem, como Abdul. Mas... Hunter não é nada como Abdul. Isto é tão claro para mim como a diferença entre um dia ensolarado e uma tempestade. Os dedos de Hunter escovam minha bochecha, e eu percebo que ele pensa que é onde eu fui atingida. Ele percebe que as minhas bochechas estão sem mácula, e seu rosto mostra a sua confusão. Ele diz alguma coisa, perguntando onde eu estou ferida, provavelmente. Eu balancei minha cabeça, a minha única resposta possível. Ele toca meu queixo e, em seguida, inclinando meu rosto para cima e para longe, para um lado e depois o outro . Ele gentilmente me empurra para trás, examinando o resto de mim. Eu não posso deixar de agarrar os braços sobre os meus seios em um movimento instintivo para me proteger. Os olhos estreitos de Hunter, movem para baixo para os meus seios. Eu olho para baixo tão bem e vejo que o meu peito direito está avermelhado onde Abdul me bateu. Os olhos de Hunter mudam, e eu estou com medo dele de repente. Ele parece pronto para matar. Ódio emana dele. Ele estende a mão para me tocar, e eu recuo para longe, cruzo os braços apertados. O contato é demais e eu me encolho, solto os braços, e embalo-me suavemente. Eu quero tirar a minha camisa, mas

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não me atrevo. Não com Hunter aqui. Eu não confio em meus próprios desejos. Ele deixa cair sua mão, mas a raiva não se dissipa a partir de seus olhos. Ele diz alguma coisa, uma frase curta, a sua entonação fazendo parecer uma pergunta. Encolho os ombros e as costas, de frente para o canto. Eu preciso tirar essa camisa. Minha mama pica. Eu tiro a minha camisa, e o ar abafado sente frio no quente, a carne machucada do meu peito. Eu sinto os olhos de Hunter nas minhas costas, sinto-o ainda em pé lá. Ouço o grunhido, o som do arrastar de um passo. Eu torço meu pescoço por cima do meu ombro para vê-lo lutando para manter o equilíbrio, de pé sobre uma perna, palma na parede, mas não o suficiente para mantê-lo na posição vertical. Sua boa perna está tremendo, e eu posso ver que ele está prestes a ruir. Eu amaldiçoo, em seguida, viro, segurando minha camisa para o meu peito, fazendo uma careta de dor, meu ombro escora sob o seu. Seu peso sobre mim é enorme, um enorme fardo arrogante, e eu posso dizer que ele não está nem mesmo inclinando-se sobre mim. Eu endireito as minhas pernas, o ouço assobiar quando este movimento solavanca o ombro, que está ferido também. Ele não se afastou. Ele só fica lá, me usando como uma muleta, recuperando o equilíbrio. Seu braço está pendurado para baixo ao redor do meu, seus dedos arrastando no meu quadril. Eu tento ignorar o toque, o formigamento disso, o não-sentimento imundo, não-desagradável dele. Ele finalmente agarra meu ombro com sua mão, salta para a cama, e eu passo com ele, lenta e gradualmente. Ele faz uma pausa em cima da cama de cobertores, como se estivesse tentando descobrir como ele pode levar-se para baixo, sem ferir a si mesmo. Ele abaixa-se sobre uma perna, uma manobra estranha, sua perna ferida estendida na frente de si mesmo. Ele chega a uma posição

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quase sentada, depois suspira suavemente e deixa-se cair, grunhindo quando cai. A bandagem em torno de sua coxa escoa vermelho. Ele finge não perceber. Eu dou de ombros para trás em minha camisa, e seus olhos me seguem, fixam no meu corpo avidamente antes dele se desviar. Eu não sei o que sentir sobre o seu olhar em mim. Eu deveria estar zangada com ele por estar me admirando, mas não. Então, eu sou uma prostituta, e devo estar acostumada a olhos masculinos em mim, e eu estou. Mas de alguma forma Hunter é diferente. Ele não deve ser uma exceção, mas ele é. Eu quero que ele olhe para mim, e isso me deixa com raiva de mim mesma. Eu

recoloco

o

curativo na perna, tentando não tocá-lo. Apronto-me para o próximo cliente, e os olhos de Hunter escurecem com raiva, com outra coisa que não me atrevo a identificar.

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Eu não tenho nada a fazer senão pensar. Nada além de memória e dor. Derek está morto. Isso finalmente bateu em mim. Eu estava muito envolvido na dor e no mistério da Rania, mas agora, sozinho, enquanto ela ‘trabalha’, tudo o que tenho a fazer é sentir a dor. Derek está morto. Deus. Ele era meu melhor amigo. Meu único amigo real. O meu irmão. Eu matei por ele. Nós cobríamos um ao outro. Ele se foi, mas a dor não me deixa chorar. Eu não posso. Eu não sei mais. Depois que meus pais morreram, eu chorava, sozinho em um banheiro. Eu não faço mais isso. Eu não vou chorar por Derek, também. Ele não iria querer isso. Ele me dizia para ficar bêbado em sua memória. Pegar uma gostosa por ele. Claro, nada disso vai acontecer agora. A realidade da minha situação está me batendo. Estou ferido, rodeado por rebeldes. Não há nenhum sinal da minha unidade. Eles podem, eventualmente, voltar para mim, ou pelo menos encontrar o meu corpo. Até então, eu estou preso aqui. Confiando nesta menina, este pedaço de uma coisa, esta prostituta. Rania. O nome dela é a música. Seus olhos são veladas piscinas de expressão. Ela se esconde por trás da raiva, atrás de resistência. É tudo uma encenação. Eu vejo a dor. Vejo o medo. Vejo a necessidade. Ela é solitária. Ela odeia o que faz. Acho que a confundo tanto quanto ela me faz. Ela está de volta, se limpa. É um padrão familiar agora. Ela volta do prédio ao lado, uma mesquita semidestruída, eu acho que ele é

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chamado. A ironia de uma prostituta operacional em uma igreja bombardeada não é perdida em mim. Ela vai até o banheiro, limpa a si mesma, depois senta-se comigo, e trocamos aulas. Estou captando árabe mais rápido do que ela o inglês, eu acho. Faz apenas um par de dias, mas posso entender algumas palavras aqui e ali, digamos, um pouco da minha própria. Quero ser fluente, para que eu possa falar com ela. Então, eu posso entender o que ela diz. Nós dois temos uma tendência a dizer o que estamos pensando como se o outro pudesse nos entender. Contei a ela sobre Derek antes. Como nos conhecemos, como temos sido amigos a vida inteira. Quanto eu sinto falta dele. Como ele salvou a minha vida, e acabou morrendo por isso. Ela ouviu a dor em minha voz e me deixou falar, mesmo que ela não sabia o que eu estava dizendo. Foi catártico, de certa forma. Como uma confissão, se eu fosse católico. Posso dizer as coisas mais verdadeiras em meu coração, sem ter que me preocupar em me sentir vulnerável. Ela não pode contar a ninguém. Não pode me julgar. Não pode nivelar expectativas para mim. Por que me sinto tão podre quando ela vai sair por aquela porta? Por que eu ligo para o que ela faz? Conheço muitas vagabundas, homens e mulheres. Pessoas que dormem com qualquer coisa que se move, tudo com seios e um idiota, qualquer coisa com um pau e bolas. De certa forma, isso é pior. O que Rania faz, ela faz por necessidade. As outras pessoas sacaneiam, é totalmente diferente. Eles não têm autorespeito, sem pudor, sem moral. Eles fodem por causa da foda, como se isso não significasse nada. Derek era assim. Total prostituto. Só que ele era honesto sobre isso. Ele as dobrava com bebidas e levava para casa e as fodia, deixava claro que era somente isso e ponto final. Rania... O olhar em seus olhos no momento antes que ela saia pela porta, é resignação. Nojo, dor, por um momento estão lá, e então desapareceram, escondidas atrás da fachada cuidadosamente criada de sedução aplicada. Em privado, comigo, ela é outra pessoa. Calma, reservada. Ela odeia ficar perto de mim, odeia me tocar ou ser tocada. Como se ela tivesse medo do que vai acontecer se eu tocá-la. Eu acho

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que ela espera que eu tente dormir com ela. Para tentar usá-la como... Bem, como uma prostituta. Eu não vou negar a atração. Ela é linda, e o que eu vi do seu corpo fez minha boca seca e meu pau duro. Eu consegui impedi-la de perceber, mas eu tenho que manter meus olhos dela quando ela se esquece que eu estou aqui e muda na minha frente, ou limpa na minha frente. Ela está acostumada a ficar sozinha. Ela esquece que eu estou aqui e então se lembra, cora, fica irritada com a minha presença, para os meus olhos sobre ela. Não posso deixar de olhar para ela. Eu tento, mas não consigo. Não há privacidade nesta pequena casa. Nem porta do banheiro, sem cortina, para onde mudar. Quando ela tira a camisa dela para mudar isso, eu tento não olhar para seus seios cheios, influenciados na penumbra. Ela tira a saia, e eu tento olhar para a parede ou o chão, mas meus olhos são atraídos para o triângulo escuro entre suas pernas, a curva de seus quadris. Ela é toda mulher, mas ela é... Fruto proibido. Seus clientes são soldados inimigos, oficiais, os insurgentes. Devemos estar perto de uma base de operações ou algo assim. Eu não sei. Tudo que eu sei é que eu não deveria querer ela. Mas eu quero. Ela está sentada ao meu lado, olhando para mim. Seus olhos castanhos se estreitaram inescrutáveis. Ela está ao nosso alcance. Eu poderia estender a mão e tocá-la no joelho, sua magra coxa. Minha mão treme debaixo do cobertor, lutando contra o meu autocontrole. Ela salvou minha vida. Eu devo a ela. Ela não me quer. Como poderia? Eu sou um americano, um homem, um soldado... Por tudo o que eu sei, posso ter matado alguém que ela ama. Minha mão desliza para fora de debaixo do cobertor para descansar no meu joelho. Rania está me olhando com uma expressão cautelosa, ocultando seus pensamentos, seus sentimentos. Minha mão 91


se move em direção a ela, e eu sinto-a congelar. Ela já estava parada, mas agora ela não está nem respirando. Eu não posso ajudá-lo. Meus dedos tocam o joelho. Apenas o joelho. Seus olhos ardem em mim. Atrevo-me a ir mais longe, mas me imploram para não. Tão conflituoso, tanto de nós. Ela quer, não quer. Eu quero, não quero. Sua pele, tão suave. Tão delicada. Rania olha para mim, suspira suavemente, um som de exaustão, em seguida, agarra a barra inferior de sua camisa e levanta-se, cruzando os braços para tirá-la. Eu sou o único congelado agora. Seus seios, sem serem objeto de um sutiã, são redondos e cheios, com pequenos mamilos cercados por campos escuros de largura de aréola. Minhas mãos se movem mais rápido do que o meu desejo, mais rápido do que meus desejos. Eu quero continuar a olhar. Eu quero tocá-la. Eu quero que ela continue se despindo. Em vez disso, agarro seus pulsos e puxo-os para baixo. Ela luta, tentando puxar a camisa. Eu sou fraco, agora, cada movimento causando uma dor insuportável, mas eu ainda consigo dominá-la facilmente, sem machucá-la. Eu forço as mãos dela e puxo sua camisa para baixo, os seios magníficos são cobertos, mais uma vez. Ela olha para mim em confusão. Minha mão pousou sobre o joelho mais uma vez, e ela olha para ele incisivamente. Eu retiro minha mão e ela dá um suspiro, se em alívio ou decepção, eu não sei. Rania se levanta e afasta longe, para fora da porta e para o calor e o brilho da tarde.

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Quando ela volta, não vai sequer olhar para mim. Ela está me ignorando. Eu dou-lhe algum tempo, não há relógio aqui, então não tenho nenhuma maneira de medir a passagem do tempo, exceto a ascensão e queda do sol e, em seguida, decidir quebrar o gelo. ― Rania. - Eu digo. Ela me ignora. ― Rania. Por favor me ouça. – Falo em inglês. Seus ombros mexem quando eu digo o nome dela, mas esse é o único reconhecimento que recebo. Vou ter que reivindicar a sua atenção, então. Eu aprendi a dizer - sinto muito - no outro dia. Levou um monte de mímica, mas eu acho que isso é o que queria dizer. Eu me alavanco para a posição sentada. Minhas costelas quebradas gritam, enviam raios de agonia através de mim, tenho que parar e ofegar para manter a respiração em meus pulmões. Meus ombros machucam também, mas isso é uma dor constante maçante, não como as pontas afiadas que me perfuram quando minhas costelas são empurradas. Eu espero até que meu estômago não esteja mais embrulhado com a dor, e então eu me forço ao meu joelho bom. Mais ofegante,

mais

ofegante,

o

movimento

lança

brilhos

de

dor.

Eventualmente eu faço isso para os meus pés, ou melhor, o pé, salto e manco para o outro lado da sala ao lado de Rania. Estou sem nada para me equilibrar, como ela está sentada de pernas cruzadas no chão, longe das paredes, sem fazer nada. Apenas olhando pela janela para o céu azul sem nuvens. Eu passo por isso estou de pé na frente dela. ― Rania.

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Ela abaixa a cabeça para olhar para o chão. Eu solto grunhido de frustração, pulando no lugar para manter o equilíbrio. Eventualmente, eu tenho que colocar meu outro pé no chão, mas cai debaixo de mim e eu caio no chão. A expressão de Rania está fechada, e eu posso dizer que ela quer se mexer para me ajudar, mas não está deixando a si mesma. Eu deito ofegante, atordoado, lutando contra a dor, e então trabalho de volta na posição vertical na minha bunda, perna jogada estendida na frente de mim. Ela não olha para mim, mas agora eu sei que ela é consciente. Ouve. ― Eu sinto muito, Rania. - Eu digo em árabe, e eu sei que atingiu ela, pelo modo como seus lábios contraem. Eu nem tenho certeza do que eu fiz para irritá-la além de tocá-la. Eu não deixei tirar. Eu acho que ela queria fazer sexo comigo, pensando que é o que eu esperava. Mas por que ela está com raiva? Eu acho que seria um alívio, sabendo que eu não esperava isso dela. Ela finalmente olha para mim, olhos castanhos procurando os meus. ― Eu não vou tocar em você de novo. - Eu digo em Inglês. Tempo para uma aula de árabe. Eu toco o meu joelho e digo ― Toque. - Eu toco o chão, o que ela me disse que a palavra, e me repito. Toque várias coisas ao seu alcance, repetindo a palavra ― Toque. Eventualmente, ela entende e diz-me a palavra em sua língua. Eu sei que estou assassinando a gramática em um presente, mas eu digo isso de qualquer maneira. É importante que ela confie em mim. Eu não sei porque, mas é. ― Eu não toco. - Eu digo, em hesitante árabe. Ela

franze

a

testa.

Balança

a

cabeça.

Pensa.

Ela toca seu peito, o nosso símbolo para ― Eu. - Em seguida, produz uma nota cuidadosamente dobrado do bolso e mantém-se, aponta para sua virilha, então para mim, então gesticula com o dinheiro. Diz uma palavra.

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Prostituta. Meretriz. Ela está me dizendo que ela é. Não. Não é o que ela é. O que ela faz. Há muito mais para ela do que isso. Eu dou de ombros, faço uma pausa. Em seguida, aponto-lhe: ― Rania. Eu não sei qual meu ponto. Talvez mostrar-lhe que eu a vejo, não o seu trabalho. É um trabalho para ela, eu percebo. Não é uma profissão. Não é um estilo de vida. Ela olha para mim em confusão. Diz alguma coisa, uma frase longa em que eu pego uma referência para si mesma, a palavra que ela tinha usado antes, o que eu preciso para significar ‘prostituta’. E então aponta ao lado, onde ela diverte os Johns, e diz: ‘Sabah’. É um nome. Eu sei. Em seguida, ela aponta para a casa ao nosso redor, e diz: ―Rania. - Demora um tempo para compreender seu significado. Acho que ela está dizendo que ela usa um nome diferente para os Johns. Para eles, ela é Sabah. Eu aponto para ela. ― Você Rania. - Eu digo. ― Nenhuma Sabah. - Seu rosto cai fechado. ― Não. Não Rania. Sou Sabah. Só Sabah. Rania está... - e ela diz uma palavra que eu não reconheço. Ela imita estar morto, os olhos revirando em sua cabeça, língua pendurada para fora, fazendo um engasgos, ofegante som. Rania está morta. O sentimento faz meu coração apertar para ela. Ela só é Sabah, a prostituta, para si mesma. Por que isso é tão triste? Isso é tudo o que ela tem? Tudo o que ela sabe? Será que ela já conheceu o amor? Será que ela já conheceu a beleza do sexo, a alegria de fazer amor? Para ela, ele deve ser um vergonhoso ato feio e sujo. Duvido que ela ganhe qualquer prazer com ele. Eu gostaria de saber como me comunicar com ela. Mostrar a ela. Eu gostaria que houvesse uma maneira que eu poderia lhe dar alegria. Dar-lhe ainda um momento de paz ou prazer. Seus olhos ardem dentro de mim, à procura de minha

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reação. Eu não sei o suficiente de sua linguagem para expressar o que eu quero dizer. ― Não. Não morta. - Eu uso a palavra que ela fez, esperando que isso signifique que eu estou supondo que ele faz. ― Rania. Ela balança a cabeça e olha para longe. Eu começo a falar em inglês, precisando dizê-lo. ― Há muito mais na vida. Você está presa aqui. Presa nesta vida de merda. Presa por ser uma prostituta. Você merece muito mais. - Eu não sei porque me sinto assim em relação a ela. Eu a conheço por uma questão de dias, e eu não posso nem ter uma conversa séria com ela. ― Você é mais do que isso, e eu gostaria que você pudesse vê-lo. Eu gostaria de poder levá-la para longe. Dar-lhe algo melhor. Exceto... Eu não tenho nada para lhe dar. Eu não posso nem andar sozinho. Ela fala, as palavras lentas e tristes. Olhos baixos. Eu pego referências a si mesma, a prostituição, a mímica para a fome. Ela aponta para a rua, imita um rifle. ― Hassan está morto. - Este Hassan deve ser o cara que atirou a granada e morreu na rua. Ela o conhecia. Eu aponto para seu dedo anelar, em seguida, digo o seu nome, aponto para ela. Ele era o seu marido? Ela parece confusa por uma fração de segundo, então entende. ― Não. Não! - E a palavra para o marido, eu assumo. ― Mama. - Diz ela, em seguida, imita uma barriga de grávida, curvando a mão sobre a barriga, aponta em si mesma e mantém-se um dedo, depois diz o seu nome, imita grávida novamente, e mantém-se um segundo dedo. Eu

tenho

que

trabalhar

no

significado,

mas

obtê-lo

eventualmente. Ele era seu irmão mais novo. Derek matou seu irmão, e Hassan matou a coisa mais próxima de um irmão que eu já tive. Nós dois nos calamos então, ambos refletindo sobre nossos irmãos perdidos. Derek tinha família, a mãe e o pai e uma irmã. Eu me pergunto se eles 96


sabem que ele está morto. Eu me pergunto se não-sei-o-nome, a garota que ele ficou com nas férias, a... Megan? Algo parecido com isso. Eu me pergunto se ela vai estar triste pela morte dele. Se eles estavam sério. Se eu morrer, ninguém vai se importar. A família de Derek talvez, um pouco. Eu passei muito tempo com eles crescendo, especialmente depois que mamãe e papai morreram. Eu olho para Rania. ― Sua mãe? - Ela hesita, não olha para mim. ― Morta. ― A minha também. - Eu digo no meu árabe quebrado. ― Papa, também? - Pergunta ela. Eu estou supondo que nessa última palavra. Concordo com a cabeça. ― Sim. Papa morto. Mama morta. Apenas eu. Ela olha para fora, como se estivesse vendo a rua onde Hassan e Derek morreram. Deveríamos odiar um ao outro por nossas perdas. Em vez disso, eu me sinto mais perto dela por isso. Ela encontra os meus olhos, e deixa-me ver a sua dor. Sua mão está descansando em seu joelho, e eu, talvez estupidamente, descanso minha mão sobre a dela. Ela olha para mim rapidamente. Eu mantenho meus olhos nos dela, mantenho a minha mão sobre a dela. É concebido como um gesto de conforto, mas eu não tenho certeza de que ela o vê dessa maneira. Ela deixa a minha mão sobre a dela por um tempo. Talvez ela consiga o conforto disso, talvez não. Ela não parece brava neste momento. Ela se levanta, pega a minha mão na sua, e me ajuda a meus pés e, em seguida para o ninho de cobertores que é minha cama. Quando eu finalmente estou deitado de novo, cada fibra do meu corpo está pulsando com a dor e eu não consigo respirar, e ela está retocando a maquiagem. Eu ouço um motor. Em seguida, ele desliga-se, e há passos. Rania olha para mim, e depois eu assisto ela se tornar Sabah. A dor é empurrada para longe, o flash de desgosto que atravessou seu rosto quando ela ouviu o veículo está desaparecido, substituída por um

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sorriso sedutor de seda que não atinge os olhos. Minha barriga aperta, meu coração, minha mente rebelde gritam. Não. Não. Eu quero agarrála e empurrá-la de volta para a casa. Ir lá fora e bater a porra do John esperando por ela. Ela é minha. Mas ela não é. De onde diabos esse pensamento vem? Eu escuto os sons de falso entusiasmo e tento banir o turbilhão de pensamentos da minha cabeça. Seus seios piscam na minha mente. Seus olhos em mim. Seus lábios enquanto ela sorri, um sorriso de verdadeiro significado para mim. Pequeno e hesitante, como se ela tem que se lembrar de como sorrir.

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O cliente, Mahmoud, está terminando lento. É difícil reunir a força necessária para um gozo falso. Ele é fino, de todos os ângulos duros e ásperos, mãos desajeitadas. Mahmoud é um dos meus poucos clientes que ainda não é um soldado. Ele é um homem mais velho, viúvo. Solitário. Ele me paga bem, é respeitoso e não me bate ou tenta extorquir mais de mim do que o que ele pagou. Mas ele é desajeitado. Assim lento. Sem querer bruto. Tudo o que posso pensar é Hunter. Seus olhos em mim quando tentamos travar uma conversa. Sua mão na minha, um conforto estranho. Apenas um toque. Uma mão na minha mão. Mas ele me diz que eu não estou sozinha. Não busca ganhar qualquer coisa, desde o contato, mas sim dar alguma coisa, dar alguma coisa. Ele também perdeu seus pais. Acho que ele estava muito perto do soldado que morreu. Derek. Eu o vi de luto, quando ele pensava que eu não estava olhando. Ele não chorou, e eu não acho que ele pode, mais do que eu. Hassan escolheu ser um soldado, por isso sua morte não foi uma surpresa, mas ainda dói. Meu coração ainda chora por ele. Eu sempre sentia falta dele, eu não o via por muitos anos. Agora ele está morto e realmente se foi. Mas eu não posso chorar por Hassan. Já chorei todas as minhas lágrimas, e agora a minha tristeza não tem jeito de sair exceto através da raiva. Eu acho que Hunter é o mesmo, exceto a sua raiva é mais forte, mais profundo. Mantido no fundo, no fundo de sua alma. Eu não acho que ele reconhece ou entende a sua própria raiva.

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Sua solidão. Mahmoud sai, entregando o meu dinheiro sem olhar diretamente para mim. Quando eu volto para casa, Hunter está dormindo, ou fingindo. Eu senti seus olhos em mim quando eu me limpei, e eu infiltrei olhares para ele e vi o seu desconforto. Mahmoud foi o meu último cliente do dia, assim eu tomo um banho. É rápido e frio. Eu não tenho nenhuma privacidade, e eu sei que Hunter está tentando não me ver. Sua determinação para me dar alguma aparência de privacidade é difícil para eu aceitar ou entender. Eu sou uma prostituta. Por que eu deveria me importar se ele vê o meu corpo nu? Mas eu me importo. Ele sabe disso, e ele faz algo sobre isso. Quando ele tocou no meu joelho pela primeira vez, eu tinha certeza que ele queria levá-lo ainda mais. Eu tinha certeza que ele queria me tocar, eu tocando-o, e então eu tentei dar a ele. Pensei que era o que ele esperava, eu aprendi da maneira mais difícil que os homens vão parar em nada para conseguir o que quer de mim. Hunter está ferido e fraco agora, mas ele ainda pode me machucar. E quando ele curar, ele poderia fazer pior. Há poucas coisas piores do que ter um homem obrigando-se em mim. Mesmo quando eles me pagam depois, eles ainda me estupraram. Algo no meu coração me diz que Hunter não faria isso, mas eu não posso confiar em meu coração.

Abdul vem hoje, o que significa que faz uma semana. Hunter está na minha casa há mais de uma semana.

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Abdul não é o primeiro a me bater, para forçar sua vontade sobre mim. Eu não tenho poder para detê-lo, agora que ele me tem. Ele poderia me matar e ninguém iria saber ou se importar. Ele podia baterme sem sentido, e ninguém faria nada. Se Abdul descobre sobre Hunter, ele mataria a nós dois. Eu tento me distrair do meu medo de falar com Hunter, a aprendizagem de línguas uns dos outros. Hunter aprende rapidamente, mais do que eu. Ele pode dizer muitas coisas, mas não o suficiente para nos permitir realmente conversar. Em breve, ele será capaz disso, eu acho. Ele está fazendo o salto repetindo palavras de frases amarrando juntos, fazendo pensamentos completos. Quando ele puder, o que vamos falar? Está na hora. Abdul está chegando. Espero ele na mesquita. Eu tenho uma faca escondida nos cobertores próximos. Eu não sei o que eu faria com ele, mas me sinto melhor com ela na mão. Eu me recuso a deixar um homem como Abdul ser o meu fim. Ele está aqui. Arrogante, gordo na barriga, brilho maligno no olhar. Como um porco gigante, ouriçado, gorduroso, violento, perigoso. Eu não irei me submeter, enquanto ele se pavoneia para dentro eu olho para ele, encontrando seu olhar. Ele fica em cima de mim, sorri, então desata o cinto. Sempre me levava à minha volta e fazia o seu negócio. Eu posso dizer pelo toque do mal de seus lábios que ele tem outra coisa em mente. Ele deixa cair as calças, revelando o seu, membro curto e grosso, duro e esticado para fora. Ele aponta para si mesmo. ― Chupa, prostituta. ― Custa extra. ― Eu vou pagar o que eu desejo, cadela. Chupe-o. ― Pague primeiro. Cem extra.

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Eu nem sequer vejo o seu movimento de mão. Encontro-me deitada no meu lado, com a bochecha latejando. Abdul está acima de mim, uma pistola pressionada para minha testa. ―Puta! - Ele grita. ― Faça o que eu digo a você, ou eu vou te matar. Você não passa de uma prostituta imunda. Eu pago porque eu sou generoso. Hoje, você vai me dar o que eu quero, e você não será paga. O pagamento será sua vida. Você entendeu? Eu só posso concordar. Ele agarra meu cabelo e me arrasta de pé, empurra meu rosto contra sua virilha. Seu membro solavanca meus lábios fechados. Eu considero mordê-lo, mas eu sei que ele vai me matar. O tiro vai alertar Hunter, que vai arrastar-se aqui procurando por mim. Ele será morto, e então o meu trabalho para salvá-lo será desperdiçado. Eu faço o que me disse. Ele está sem lavar. Ele tem um gosto vil. Ele põe as mãos nos meus cabelos, me puxa contra sua virilha, espetando-se em minha garganta violentamente, me sufocando. Eu sufoco, quase vomito, que é quando ele termina, enchendo minha garganta com a sua semente. Eu não posso pará-lo então. Eu viro minha cabeça para o lado e vomito no chão de telha rachada ao lado dos cobertores. Abdul ri. ― Da próxima vez, não discuta. - Ele se inclina e coloca seu rosto junto ao meu, como eu ofego. ― Se você argumentar comigo de novo, eu vou te matar. Ele balança a distância, afivelando o cinto. Eu permaneço lá, ajoelhada no chão duro, continuo o vômito. Eventualmente, eu sou capaz de parar, e eu faço o meu caminho de volta para casa, limpando minha boca. Minha bochecha pulsa, machucada. Eu tropeço até o banheiro e escovo os dentes obsessivamente. Eu não posso olhar para Hunter. Ele me vê, porém, e exclama com raiva em inglês. Tenta se levantar. ― Não. Sente-se! - Eu digo. ― Eu estou bem.

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― Não! - Diz ele em árabe. Ele começa a longa e tortuosa luta em pé, então eu ajoelho ao lado dele e deixo-o olhar para mim. Ele pega meu queixo entre os dedos suaves, vira o rosto para o lado para examinar meu rosto. Sua testa sulca, e raiva dispara em seus olhos azuis. Ele toca minha bochecha, seu dedo um pincel de pluma leve ao longo da pele inchada. Quanto mais ele me toca, mais quente a raiva nos olhos dele cresce. Ele diz algo em Inglês, uma única questão rosnada. Eu não preciso saber o significado da palavra para saber o que ele pediu. Quem? Eu balancei minha cabeça. ― Não. - Ele entende muito. ― Eu não quero que você se envolva. Ele vai te matar. Ele vai matar nós dois! ― Quem? - Ele diz isso de novo em Inglês. ―Abdul. - Eu tenho que pensar muito sobre como usar gestos e nossa limitada compreensão mútua

para

comunicar

quem

Abdul

é.

Soldado,

general.

-

Ele balança a cabeça, encolhe os ombros. Eu me levanto, tento assumir uma posição de ‘atenção’, calcanhares juntos, costas retas, e eu saúdo. Hunter ri da minha pantomima, mas acena com a cabeça, em compreensão. Chamo meus dedos em um grande retângulo acima do meu peito esquerdo, ou seja, a linha de medalhas e outras coisas coloridas que um soldado de alta patente usa lá, então bato meus ombros, ou seja, a insígnia categoria. Hunter parece confuso ainda. Eu suspiro. Eu tive uma ideia. Coloco meu dedo indicador no meu lábio superior, indicando um bigode, e digo: ― Saddam. - E seguro a minha mão em cima da minha cabeça. Então eu movo minha mão para baixo a poucos centímetros, o que indica um grau um pouco menor, e digo: ―Abdul.

Os olhos de Hunter alargam quando ele compreende o que quero dizer. Abdul é um general de alto escalão não muito abaixo do próprio

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Saddam Hussein. Ou, ele foi, até Saddam ser derrubado pelos americanos. Abdul tem sido um cliente regular por muitos anos, desde antes de alcançar seu posto atual. Sento-me novamente, e Hunter toca meu rosto mais uma vez. ― Não. - Diz ele. Sua voz é forte, bravo, determinado. ― Eu morto-o. Eu rio de seu árabe mutilado e balanço a cabeça. ― Não. Diga: ― Eu vou matá-lo. - Repito usando a mímica de esfaqueamento. Ele balança a cabeça e repete o que eu disse. ― Eu vou matá-lo. Não há humor nos meus olhos ou voz agora. ― Não! - Eu digo isso em inglês e árabe. ― Não. - Ele não responde, não discute, mas eu posso ver em seus olhos que ele não mudou sua mente. Ele tem a intenção de matar Abdul por me bater. Eu não posso fazê-lo entender. Esta é a minha vida. Este é o meu trabalho. Como eu sobrevivo. Se Abdul acaba morto, poderia estragar o meu negócio, o valor de estabelecer os clientes de dez anos e uma reputação como Sabah. Mas algo em meu coração anseia que Hunter faça o que ele quiser. Algo em mim dá pontadas e contrações musculares, como um músculo não utilizado voltando à vida. Ele quer me proteger. Ele vê eu me machucar, e há dor em seus olhos, a raiva por mim. Ele não me conhece. Ele nem sequer verdadeiramente fala a minha língua, nem eu a dele. Não sabemos nada um do outro. Somos inimigos. Nosso povo está em guerra. Ele não pode me proteger. Não de nomes como Abdul. Nem de ninguém. Os olhos de Hunter estão a meros centímetros dos meus. De repente eu percebo o quão perto eu estou dele. Sua coxa roça a minha. Seu corpo está perto o suficiente para eu sentir o calor derramando dele. Eu posso ver os cabelos individuais da barba crescendo no queixo e nas bochechas, grosso e preto. Uma gota de suor desliza para baixo em sua testa, curva sobre a maçã do rosto para se misturar com o restolho de barba. Ele limpa o rosto em seu ombro, manchando o suor em uma mancha brilhante de umidade.

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Seus olhos perfuram os meus, tão azuis, quentes, profundos e trêmulos, com um emaranhado de emoções. Eu me pergunto o que ele está pensando. Ele lambe os lábios, a ponta da língua deslizando sobre seu lábio inferior, um dardo rosa. Eu não percebo o que está acontecendo em primeiro lugar. Seu rosto se aproxima do meu, os olhos arregalados e fixos nos meus, tão, tão azul, tão perto. O que ele está fazendo? Não posso me mover. Estou congelada por sua proximidade, tremendo de medo e expectativa. É isso. Agora, ele vai levar o que ele quer de mim. Ele ainda está atormentado pela dor, eu posso vê-lo na forma como os cantos dos olhos dobram e o modo como sua mão livre aperta o cobertor com tanta força, que as juntas dos dedos ficam brancas. Mas a outra mão ainda está tocando meu queixo, a pele debaixo da minha orelha, seu toque suave como uma brisa. E agora seus lábios estão tocando os meus, por quê? O que é isso? Ele está me beijando? Os clientes não beijam. Eles não tentam, e eu não iria deixá-los. É sexo, não amor. Lembro-me de minha mãe beijando o meu pai uma vez, quando ela pensava que eu não estava olhando. Eles se amavam, mamãe e papai. Ela colocou seus lábios contra os dele, e suas bocas se moviam juntas, como se estivessem comendo as línguas uns dos outros. Eu não entendi, mas agora eu sei. Ele tem um gosto levemente a carne e o alho e mais alguma coisa única e indefinível. Algo claramente masculino. Eu não sei o que fazer. Tenho medo desse beijo, o que significa, o que começou, onde ele vai levar, por que isso está acontecendo. Tenho medo de Hunter. Ele é confuso. Forte, e enorme, e duro, mas gentil comigo. Com raiva quando eu estou ferida. Tenho visto homens feridos antes, e eles eram fracos, mal conseguindo se mover. Uma vez, há alguns anos atrás, um cliente me bateu no lado porque eu não faria o que ele queria. Ele quebrou minha costela, e eu não pude trabalhar por muitos dias. Eu quase morri de fome. Eu disse

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a Abdul o que havia acontecido, porque eu não poderia entretê-lo, e Abdul fez alguma coisa. Fez o cliente nunca mais voltar. Não é para mim, mas assim Abdul poderia continuar a desfrutar de meus serviços. Cada movimento era incrivelmente doloroso. Cada respiração doía pior do que o golpe que quebrou a costela. Eu não podia mover-me pela dor. Hunter tem pelo menos uma nervura quebrada, e continua a mover-se. Dói, eu posso ver, mas ele se move de qualquer maneira. Beijou-me com cuidado. Hesitante. Sua boca é macia e molhada e quente. Eu não paro. Eu quero parar, quero correr para longe dele e seus olhos que me vêem, as mãos que me tocam de uma maneira que eu não me importo, mas deveria. Sua presença me confunde. Eu não fugi. Eu deixei ele me beijar, e eu sei que não deveria, mas eu faço. Ele se afasta, finalmente, com a palma da mão no meu rosto, os olhos buscando uma reação. Eu não sei como reagir. Como se sente. Estou confusa. Então, viro minha cabeça para baixo, por ele e pelo beijo que eu não posso me mover, não consigo respirar. Algo pica quente e salgado de meus olhos. Estou sangrando? Eu toco meus olhos e olho para o meu dedo. Eu estou chorando. Por quê? Eu não sei. Estou triste? O que é este sentimento em meu coração, em meu peito? É um aperto, quente e grosso, espalhando-se por mim. Minha pele formiga onde ele me toca. Minhas coxas tremem, e entre elas... Eu sinto uma umidade, calor e um aperto estranho, uma tensão como necessidade. Seu polegar roça a lágrima do meu rosto, em seguida, do outro lado. Ele ainda está perto o suficiente para sentir sua respiração no meu rosto. Meus lábios formigamento e palpitando onde seus lábios me tocaram. É loucura, eu sei, mas eu me vejo beijando. Pressionando meus lábios contra os dele, uma lenta aproximação. Seus lábios separam e sua mão apanha ao redor da parte de trás do meu pescoço, me mantém na nuca e me puxa para mais perto, me beija de volta.

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Algo toca meus dentes, meus lábios. Sua língua. É uma sensação estranha. Invasiva e assustadora. Eu me afasto e olho para ele, e eu posso sentir a expressão confusa no rosto. Por Allah, o que eu estou fazendo, beijando esse soldado americano? Eu fujo, me perguntando por que eu de repente chamei Allah, por que eu deixei Hunter me beijar, por que eu o beijei de volta, porque a língua na minha boca não era desagradável. Eu me pergunto, como os meus pés fraquejam seu caminho através das ruas e becos, por que eu sinto uma profunda necessidade enrolando na minha barriga para beijá-lo novamente? O que eu faço? O que está acontecendo comigo? O que eu fiz?

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Por que diabos eu a beijei? Não era um pensamento consciente ou intenção. É só que... Aconteceu. Ela estava lá ao meu lado, sua perna roçando a minha, esse pequeno ponto de contato queimando-me com a consciência relâmpago. Seu rosto estava machucado e arroxeado, enviando lanças ardentes de raiva dentro de mim. Eu ouvi a coisa toda. Ouvi uma voz masculina dar uma ordem, a resposta na voz de Rania com calma, e depois a sua vez, com raiva. Ouvi um smack, punho na carne. Ouvi-a gritar. Em seguida, o tilintar de um cinto e uma ordem. Engasgos. Vômito. Não é difícil descobrir o que aconteceu. Juro por Deus que eu vou matar o filho da puta. Vou cortar sua garganta maldita e cortar seu pênis e enfiá-lo em sua garganta, pela porra do pescoço. Eu tenho que respirar profundamente para acalmar a raiva. Meu temperamento foi um problema para mim toda a minha vida, está voltando com força de furacão. Eu aprendi a controlá-lo, mantê-lo contido, não atacar como eu costumava fazer. Eu quase não terminei o ensino médio, porque eu passei tanto tempo suspenso por lutar. Eu quase fui expulso quando uma criança foi parar no hospital depois de uma briga comigo. Claro, ele começou. Me atacou no estacionamento depois do treino de futebol. Bateu na minha bunda, também. Me derrubou, arrancou um dente solto, e quebrou meu nariz. Ele não esperava eu levantar, mas eu fiz, e eu tenho o meu. Ele passou uma semana no hospital com um monte de merda quebrada.

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Agora este Abdul idiota está batendo em Rania, e eu não consigo ver direito. Não consigo pensar direito. Eu não deveria estar reagindo assim. Ela parece estar sob a impressão que este personagem Abdul é um general da alta no exército iraquiano. Eu não me importo. Eu ainda vou matá-lo se ele tocá-la novamente. Ela correu após nosso beijo. Depois que ela me beijou. Eu não vi essa. Ela estava lá ao meu lado, exuberante e bela e sofrendo e precisando de conforto. Precisando de proteção. Nenhuma mulher jamais deveria ser atingida. Nenhuma mulher deve ser forçada a fazer o que ela fez. Algo primordial dentro de mim reagiu à sua proximidade e sua dor. Meus lábios tocaram os dela antes que eu soubesse o que eu estava fazendo, e então eu estava perdido na doçura suave de seus lábios. Porra, mas eu estou ferrado. Ela tinha gosto de pasta de dente de hortelã. Senti como o céu. Foi apenas um beijo, mas ele me pegou tão forte que eu pensei que eu ia explodir, mesmo sem ser tocado. E então ela se afastou, chorando. Eu não entendo por que ela estava chorando. Ela não parece saber como beijar. Ela não respondeu, apenas deixou nossos lábios tocar, todo o seu corpo ficou tenso e congelado. E então ela estava chorando. Acho que foi o seu primeiro beijo. Parece impossível, mas parece verdade. Então ela me beijou, inclinou-se e tomou meus lábios com os dela, e eu acho que gozei em minhas calças um pouco. Eu ainda estou dolorosamente duro. Dolorosamente duro. Ela se foi, agora, fugindo de mim, do nosso beijo. Ela está tão confusa como eu estou, se eu sou qualquer juiz de suas expressões faciais. Estou tão duro, dói ainda. Preciso de alívio. Poderia cuidar disso eu mesmo, mas então eu não teria nenhuma maneira de limpar. Eu lento e dolorosamente me desloco até a posição deitado e me concentro em pensar em outra coisa, que não Rania. Eu chamo-me numa

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memória de combate, mas isso só leva a lembrar o rosto de Rania em cima de mim quando ela me salvou. Devo-lhe a minha vida, e eu me recuso a deixá-la ser derrotada. Minha faca de combate, a única parte do meu equipamento, além de minhas roupas que pareciam fazê-lo aqui comigo, está deitado no canto perto dos meus pés. Leva vários minutos agonizando para recuperá-la. Eu tenho que me manter parado para recuperar o fôlego e deixar os raios de dor diminuirem. Dói tanto que eu poderia vomitar, mas eu cerro os dentes e avanço através dele. Escondo a faca debaixo dos meus cobertores, próxima à mão. Da próxima vez que eu ouvir algo como isso acontecer, eu vou pará-lo. Eu não me importo o quão ruim essa porra de ferimentos doa. Eu não me importo se eu rasgar minhas feridas e quebrar de novo minhas costelas. Eu não vou deixar que isso aconteça novamente. Esta fúria animal dentro de mim com o pensamento de Rania sendo ferida me machucou, me confundiu. Eu não sei de onde vem, mas eu não posso explicá-la ou ignorá-la. Não é apenas o meu temperamento, ou a minha educação. Meu pai me inculcou em toda a minha vida que as mulheres devem ser protegidas. Nunca, nunca atingidas. Nunca. As mulheres são para serem valorizadas e cuidadas. Papai abria portas para a mamãe. Ele a tratava como uma rainha. Ele era um homem duro, zangado, perturbado e quebrado a partir de suas experiências de guerra, mas nunca transformou isso em violência contra mim ou a mãe. Meu desejo de proteger Rania é outra coisa. Algo mais profundo, mais forte, mais feroz. Não me atrevo a analisar muito de perto o que é, porque isso é impossível. Impraticável. Estou exausto de dor agora. Eu fecho meus olhos e tento não ver a imagem do rosto de Rania, tento não me lembrar de seus lábios. Não funciona, embora, e eu passo para uma imagem de seus olhos castanhos brilhantes como o chocolate derretido, os lábios vermelhos e sua pele macia.

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Ela me beijou. Porra. Eu só preciso curar o suficiente para andar para que eu possa fugir daqui e voltar para a base. Eu não posso lidar com isso. Com ela. Com seus lábios nos meus, como uma fatia de doce, céu hipnótico, os seios esmagados contra o meu peito, suave mas firme, seus mamilos em pedra.

O

cheiro

de

sua

excitação

flutuando

até

meu

nariz.

Meu pau está latejando, duro. Veja? Merda. Ela está sob minha pele. Ela está na minha cabeça. Que porra é essa que eu vou fazer? Eu não posso beijá-la novamente. Não podemos deixar isso acontecer. Certamente, não pode ir mais longe. Eu não sou fisicamente capaz, no momento de qualquer maneira, mas... Não seria certo. Seria... Um erro. Ela é uma prostituta. Iraquiana. Eu vou dar o fora daqui, em algum momento, e eu nunca vou vê-la novamente. Além disso, ela ainda tem que trabalhar. Seus truques estão colocando comida na minha barriga. Água. Bandagens. Pomada antibiótica. Sem seus Johns, eu vou morrer de fome. Se alguém souber sobre mim, eu estou morto e ela vai ser, também, ou pior. Como eu poderia dormir com ela e, em seguida, ficar aqui e ouvir a sua vez um trabalho? Eu não podia. Eu ia virar o inferno. Foda-se. Por que eu estou até pensando em dormir com ela? Eu não posso. Eu não vou. Mas, porra, ela é sexy. Tentadora. Esse cabelo fino, grosso, brilhante loiro drapeados em seu rosto, seus grandes olhos escuros brilhando com tanta emoção, tanta coisa que eu não posso identificar, não posso entender. Seu ágil, corpo exuberante empurrado perto de mim.

Eu gemo e esfrego meu rosto com um suspiro. Meu pau está emaranhado e inclinou-se dolorosamente de lado. Eu empurro o 111


cobertor para baixo pelos meus quadris e ajusto-me dentro das minhas calças. Mas então, caramba, me tocar foi um erro. Eu tenho um caso louco de bolas azuis acontecendo. Beijar Rania, e depois pensar nela... Está me dando uma perpétua ereção. Eu pego meu pau no meu punho e considero novamente cuidar disso sozinho. Quando eu estou me tocando, fico com a sensação de outra presença. Rania fica na porta, me olhando com uma expressão estranha no rosto. ―Merda. - Eu digo, jogando o cobertor sobre mim rapidamente. Constrangimento inunda através de mim. Eu lancei um olhar hesitante em Rania, que ainda está na porta, olhando para mim. Eu esperava que ela olhasse triste, ou revoltada, ou... Eu não sei. O que eu não esperava ver são as bochechas coradas, seu olhar agora correndo ao redor da sala como se estivesse tentando esquecer o que viu, mas que quer ter outra visão. ― Sinto muito. - Eu digo no meu parado, quebrado, árabe mal acentuado. Ela encolhe os ombros, não olhando para mim. Eu quero explicar, mas eu não posso. Mesmo que ela fosse fluente em inglês, ou eu em árabe, não conseguia explicar. Eu não seria capaz de obter as palavras. Ela finalmente balança a cabeça como se banisse a visão e vai para a cozinha. Ela tem alguns sacos de mantimentos em suas mãos, que eu não tinha notado. Eu quero levantar levá-los a partir dela, colocá-los fora para ela, mas eu não posso. Ela não olha para mim, e quando seus olhos fazem deslizam em toda a sala menos em mim, eu não posso segurar seu olhar. Eu me pergunto se ela sabe que foi ela quem me deu o tesão. Tem diminuído por agora. Deus me ajude, se ela chegar muito perto. Ele vai saltar de volta totalmente ereto se ela olhar olha para mim de forma errada. Ou certa, dependendo de como você vê isso. A pior parte é que nunca haverá liberação. Isso não pode acontecer. Eu tenho que ser inteligente. Não seria apenas sexo, mesmo que isso não

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aconteceu. Eu posso dizer. O jeito que ela fica sob a minha pele, a forma como martela meu coração quando ela me olha, me toca, o jeito que eu quero tão desesperadamente que ela sente e fale comigo... Seria emocional, se alguma coisa acontecesse. Eu sou inteligente o suficiente para perceber isso, agora eu só tenho que ser inteligente o suficiente para impedir qualquer coisa de acontecer. Eu tenho que continuar dizendo a mim mesmo para pensar com meu cérebro, não com o meu pau. Não com o meu coração. E então ela olha para mim, a curiosidade madura em seu olhar, os olhos deslizando do meu peito nu para a minha virilha, coberto com o cobertor, e ela cora e olha rapidamente para longe, mordendo o lábio. Foda-se. Isso vai ser difícil.

Nós dois estamos mais cautelosos pelos próximos dias. Ela não se senta perto o suficiente para tocar, e eu não tento. Minhas mãos ficam no meu colo, ocupadas, inquietas. Ela começa de costas para mim, quando ela tem que mudar ou limpar, e certifica-se de desviar o olhar. Estou aprendendo bastante árabe todos os dias, agora que somos capazes de ter travar conversas. Eles contêm uma grande quantidade de explicações em mímica e de palavras estranhas, mas são conversas. Falamos de coisas neutras. Normalmente próprias, significados e contextos e conotações de palavras. Não sei mais o que falar, eu acho. Seu falso entusiasmo quando trabalha um John é mais silencioso agora. Eu a ouço menos. Ela parece estar tendo um momento difícil e

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mais difícil convocando a capacidade de fingir. O desprezo em seu rosto leva mais tempo para desaparecer. Nós começamos a trocar olhares longos e duros. Sim, nessa fase. Onde eu estou assistindo um pássaro no telhado visível através da janela, observando suas asas vibrarem, e então eu sinto seus olhos em mim e me viro para ela, ela está me olhando, sua expressão ao mesmo tempo dura, curiosa, suave, tenra e assustada. Quando nossos olhares se encontram, ela cora e olha para o lado, sua expressão como um cofre fechado. Então, eu vou estar olhando para ela, perguntando o que ela está pensando, tentando não olhar para a bunda dela, tentando não desejar que ela se ajoelhasse ao meu lado e me beijasse de novo, e então ela vai me pegar olhando para ela. Eu vou ser o único a mudar o meu olhar para longe, esperando que os meus pensamentos não sejam visíveis no meu rosto. Sim, nessa fase. O problema vem depois dessa semana. Ela sai para alguma coisa, me deixa com a porta fechada. Ouço passos do lado de fora, acho que é ela, mas eles passam, retardam ao lado, onde ela trabalha. Uma voz masculina grita, em seguida, novamente com raiva. Meu estômago se agita, e os meus instintos dizem-me para levantar-me, mover-me, esconder-me. Eu agarro minha KA-BAR no meu punho direito e luto para os meus pés, rangendo os dentes para não gritar de dor mordendo todo o meu corpo. Eu não posso respirar. O fogo queima em meu peito, meus pulmões, meu estômago, costelas quebradas protestando meus movimentos. Um ofegante, ralar gemido arranha dos meus lábios enquanto eu manco e pulo para o banheiro, o único lugar para se esconder nesta casa. Eu empurro-me para um canto do banheiro. Pouca cobertura, pouca proteção, mas o melhor que posso fazer.

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Ouço a porta aberta e os passos dentro de casa. O rastejando da minha carne, o formigamento da minha pele e os arrepios na espinha e descarga de adrenalina me diz que não é Rania em casa. Eu não posso ser encontrado e relatado. Por mim e Rania. É a vida e a morte. Os passos, pisando, arrastando as botas masculinas, movem-se ao redor da sala minúscula. A voz de fumo áspera chama. ― Sabah? Você está aqui? Prendo a respiração. Minha faca está apertada num punho nos dos dedos brancos, de ponta para cima. O tremor na minha barriga me diz que isso não vai acabar bem. Os passos se aproximam da casa de banho, e eu me preparo. Seguro o fôlego, as mãos espalhadas, pronto para atacar. Lesões são esquecidas. Adrenalina mascara a dor de estar na posição vertical. ― Sabah? Minha primeira visão dele é um par de botas militares gastas, então as calças iraquianas militares. Ele olha dentro, vê o chuveiro vazio, o vaso sanitário. Meu coração martela e eu quero vomitar, mas não posso. Como ele não pode me ver? Talvez eu saia dessa sem ter que matá-lo. Não... Ele me vê. Eu paro, movo minha mão em um soco violento dos dedos em sua garganta, silenciando-o. Minha faca pisca para fora e para dentro de seu estômago. Peças de carne macia facilmente, então o osso para a lâmina. Ele cambaleia para trás, ofegando. Eu enfio os lados da lâmina em toda a sua garganta, perdendo uma inundação de sangue para baixo na sua frente. Foda-se. Eu estou fazendo uma bagunça disso. Eu dou uma facada de novo, e desta vez eu bati em seu coração, mesmo entre as costelas. Porra de sorte. Isso é mais difícil do que a maioria das pessoas imagina. Ele cambaleia, tropeça, falha para trás no chão. Eu não posso deixá-lo sangrando no chão. Um pânico absurdo me bate, e eu carrego

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seu corpo para o chuveiro para que ele sangre fora pelo ralo. Não há muito

sangue

no

chão,

a

maioria

está

em

cima

dele.

Mas o que diabos eu faço com o corpo? A adrenalina está usando, e a agonia está punçando através de mim, roubando o fôlego. Apenas ficar na posição vertical leva cada grama de obstinação, tenacidade e força que me resta. Não vai durar muito tempo. A

voz

de

de

Rania.

Hunter?

-

Preocupada,

confusa.

Eu tropeço fora do banheiro, a faca ensanguentada em uma mão pintada de vermelho. Rania suspira. ― Nós temos um problema. - Eu digo em árabe. ― Um homem veio. Soldado. Eu matei-o. Rania amaldiçoa suavemente e olha para o banho no corpo. ― Ahmed. ― O que vamos fazer com... - Eu não posso pensar na palavra para o corpo. ―... O homem que está morto? Caio contra a parede, Rania corre os dedos por seu cabelo loiro solto, assobiando por entre os dentes. ― Eu não sei. - Ela me corrige com um olhar confuso. ― O que ele estava fazendo aqui? Eu estou supondo isso um monte de seu significado. Eu entendo algumas palavras, e pode-se inferir o resto do contexto. Eu dou de ombros. ― Procurando por você. Por Sabah. Fui para a outra porta primeiro, depois aqui. Ele me vê... Estou morto. Ele me vê, ruim para você. Ruim para mim. Então... Ele morre. Eu odeio como eu soo. Eu não sou um homem eloquente verbalmente, mas eu odeio saber que as minhas palavras são tropeçadas e gaguejantes. Ela tem que pensar para entender muito do que eu digo. E isso é o máximo que eu consigo. Eu caio para frente, impotente para parar a minha queda. Não tenho tempo para pensar que quando

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eu cair isso vai doer. E dói, como uma cadela. Eu caio no chão sobre meu ombro e meu rosto. Eu sei melhor do que tentar me segurar em minhas mãos ou pulsos, com a forma como os meus ombros estão. Meu lado ferido dos estilhaços leva o impacto da queda, junto com minhas costelas já quebradas. Eu acho que eles se refraturaram. Lances de agonia atiram em mim, e eu não posso respirar pela dor. Não posso sequer suspirar. Eu arrasto um suspiro longo e arquejo, o rosto na terra, as narinas entupidas com sujeira, os olhos ardendo com a sujeira. A faca ainda na minha mão, e eu carrego para baixo com toda a minha força, até que ofego rangindo. Eu tusso, vomitando sujeira. Rania está ao meu lado, me rolando nas minhas costas, abrindo meus olhos primeiro, meu nariz, meus lábios. Seus dedos são macios e suaves, limpando cada partícula individual com a almofada de seu dedo indicador. Seus olhos estão enormes, levemente preocupados enquanto ela limpa a sujeira do meu rosto. Os contornos nítidos de seu lindo rosto são levados em alto-relevo pelo sol da tarde brilhando através da janela, a criação por trás do telhado do prédio em frente. Eu odeio que os meus olhos se desviam a seus seios, balançando enquanto ela se inclina sobre mim. Eu deixo meus olhos fechados, tento me concentrar na dor, em vez de como ela é linda, o quanto meus dedos querem deslizar sob sua camisa para tocar a seda de sua pele. O quanto eu quero puxá-la para baixo para outro beijo. Durante esse tempo. Há um homem morto no banheiro, e eu estou tentando não beijar Rania. O que diabos está errado com você, Hunter? Quando eu abro meus olhos, ela está sentada de pernas cruzadas ao meu lado, me olhando, sua expressão cheia de emoções que eu reconheço dentro de mim. Sua mão repousa sobre minha barriga, na linha média exata entre a intimidade de meu peito e a zona erógena mais abaixo. Momentos passam e nossos olhos procuram o outro, oscilando, voando de um lado para outro. Estamos cada um desafiando o outro a dar o primeiro

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passo, olhar para longe, afastar-se, ou fazê-lo. Aproxime-se mais. Incline-se para frente. Um fio quente me avisa que a minha coxa está sangrando. Eu não me importo. Ela cheira a mulher: suor, excitação, desodorante. Sua mão treme na minha barriga. Ela está respirando profundamente,

de

forma

constante,

como

se

para

evitar

a

hiperventilação. Suas narinas alargam a cada respiração, seus lábios carnudos perseguem e relaxam, tremendo com as emoções contidas. Seus seios incham e encolhem, atraindo meu olhar. Sua saia, ela sempre usa uma saia, um pouco curta demais, marcando a sua profissão nesta terra de extrema modéstia, caiu em cima de suas coxas, sua outra mão casualmente cobrindo a si mesma. Suas pernas são infinitas, quilômetros de sombras e de pele puxando minha mão em direção a elas. Estou tentando duro como o inferno para resistir a sua influência hipnótica sobre mim. Sou Ulisses amarrado ao mastro, seduzido pela canção mortal das sereias. Exceto que os laços que me restringem são fracos e que vêm soltos, cordas intangíveis que apenas se desintegram. A lógica é totalmente contra o poder de sua beleza. O conhecimento de certo e errado não tem sentido na memória de seus lábios vasculhando meus. Foda-se. Eu beijo-a. Eu movo-me lentamente, como me aproximo de um animal selvagem arisco, uma mão que se estende até puxá-la para baixo. Medo amplia seus olhos castanhos já grandes. Seu tremor se espalha para todo o seu corpo, mas ela não se afastou. Meus lábios separam, abertos para provar sua quente, boca macia, úmida e o céu explode através de mim. Meus olhos fecham por conta própria, sob o peso da glória de seu beijo. Ela é tão hesitante, tão cuidadosa e comedida. Não me atrevo a tocá-la. Não me atrevo. Um beijo, um beijo, apenas um beijo. Mas Deus, tão incrível. Estou eletrificado, enrolado, endurecidos por seu sabor, a sensação

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dela. Intoxicado por ela. Estou tremendo com o esforço de manter as minhas mãos para mim mesmo, para manter o beijo casto. É uma batalha perdida, impossível. Em seguida, a mão deixa seu colo e toca meu rosto, palma contra a bochecha, seus dedos enrolando no cabelo em volta da minha orelha. Algo dentro de mim incha em proporções impossíveis na ternura naquele gesto, crescente até que eu poderia estourar, quebrar, chorar ou gritar de alegria. Um toque simples e inocente, mas tão significativo. Esta mulher que vende toque, que deve achar que os homens são tais criaturas desagradáveis, esta mulher que viu o pior dos monstros que são os homens, ela está beijando e me tocando. Ela não deveria. Eu não sou melhor. Eu matei. Com a arma, com a faca. Eu quebrei os homens com minhas próprias mãos. Eu separei famílias com meu rifle. Eu fiz essas coisas horríveis. E eu desejo a ela, quero ela. Eu preciso dela, carnalmente. Ela precisa de um príncipe encantado para levá-la longe deste inferno de poeira e pecado e da guerra, e eu não sou ele. Mas, ainda assim seus lábios se movem sobre os meus, sua língua varre os meus dentes e se movimenta confusa com a minha, suas mãos agarram o meu rosto para me aproximar, para aprofundar o beijo. Meu controle sobre minhas mãos é picado pelo fervor do seu beijo, e eu me encontro envolvendo minhas mãos em sua cintura, só a cintura, quadris acima e abaixo das costelas. Ela é tão pequena, tão delicada, que as minhas mãos quase cobrem a cintura. E agora a mão desce do meu rosto para o meu ombro, a centímetros da ferida. Estremeço ao aguilhão da dor, e ela se afasta, quebrando a magia. Seus olhos me procuram, e eu não tento esconder o que estou sentindo. É a única maneira que eu posso comunicar o que estou sentindo, através dos meus olhos. Eu não posso ajudar, mas pergunto o que ela vê. Eu sei o que estou sentindo, mas eu não sei como isso se traduz, como ela interpreta.

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Sua palma ainda segura meu rosto, já não tremia. Sua boca se abre como se fosse falar, mas depois fecha de novo, e ela se foi, de repente desapareceu, correndo para a porta, e eu fico ofegante, confuso mentalmente e emocionalmente. Estou ao mesmo tempo feliz por sua ausência para que eu possa pensar sobre o que está acontecendo, e sentindo falta de sua presença. O que diabos aconteceu? Algo mudou entre Rania e eu durante esse beijo, e eu não sei exatamente o que era, ou o que isso significa, mas sei que não posso voltar atrás.

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Novamente. Beijei-o novamente. Ele me beijou, e eu devolvi. Deixei-o me tocar. Toquei-lhe de volta. O que está acontecendo comigo? O que estou fazendo? Por que o salvei? Por que eu arranquei os fragmentos de metal de seu corpo e enfaixei suas feridas e alimentei-lhe da minha comida? Por que ele está no meu coração? Seus lábios são suaves e fortes, suas mãos suaves, mas poderosas. Eu tenho sangue na minha camisa de sua mão. Meus lábios formigam de seu beijo. Meu corpo cantarola de suas mãos na minha cintura. Meu coração dói, palpita, e não a partir de um vazio neste momento ou de dor, mas com uma estranha, plenitude aterrorizante. Oh, sim. Estou começando a senti-lo dentro de mim, no meu coração e minha alma, e isso não é bom. Este é o início de necessitar de alguém. Já tenho saudades dele, e eu definitivamente não deveria. Eu empurro o problema e o mistério de Hunter da minha mente e tento me concentrar no problema mais urgente: o cadáver de Ahmed. Hunter tinha razão para matá-lo. Eu conheço Ahmed bem o suficiente para saber que ele não teria hesitado em matar Hunter sem parar para perguntar. E então ele teria ido direto para o Abdul e diria a ele que eu tenho um americano em minha casa. Mas o que eu faço com o corpo? Eu não sou forte o suficiente para eliminá-lo eu mesma, e Hunter mal consegue ficar em pé. Eu não

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sei como ele ainda conseguiu fazer o que fez. Não deveria ter sido capaz, mas ele fez. Defendeu a minha casa, eu e ele mesmo. Nós. Eu descarto esse pensamento. Não há nenhum nós. Uma ideia me parece. Masjid. Ele é um dos meus clientes mais estranhos

e

assustadores.

Ele

raramente

fala,

aparece

esporadicamente. Eu não sei o que ele faz, mas eu sei que é perigoso, com ele não se brinca. Eu também sei que ele não tem amor para os problemas do governo e da política. Ele é um criminoso de algum tipo, eu acho. Um contrabandista, talvez. Não importa quem ou o que ele é. O que importa é que eu acredito que com o incentivo certo que ele vai se livrar do corpo, sem fazer perguntas. O truque é dar o corpo a Masjid sem que ele descubra sobre Hunter. Quando Masjid veio pela primeira vez passar algum tempo comigo, ele me deu um número de pager onde eu poderia contatá-lo para lhe dizer quando estivesse disponível. Eu uso um telefone em uma loja não muito longe de onde moro, digitando o código que Masjid me deu, e depois volto para casa. Hunter está esperando, estóico, como sempre. Eu não sei como ele tolera o tédio. Eu não tenho tempo ou inclinação para o entretenimento. Sobreviver é a única parte do meu dia. Lembro-me de encontrar algo para ele fazer enquanto eu estiver fora, o que é muitas vezes. Sento-me ao lado dele e penso em como explicar o meu plano. ― Você tem que se mover. - Eu digo. ― Eu tenho um plano, mas não deve ser visto. ― Onde? - Ele pergunta. Nós dois estamos falando em árabe, ele fala a minha língua bem o suficiente para ser entendido. Eu aponto para a parede, ou seja, a mesquita ao lado. Seu olhar endurece, escurece. Eu sei porque ele está com raiva, e não posso fazer nada sobre isso. ― Existe uma sala, separada. - Eu digo. ― Eu vou ajudá-lo.

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Levanto e estendo a mão para ele. Ele me olha por várias respirações, e, em seguida, pega a minha mão na sua, apoiando-se contra a parede, de costas, impulsionando para cima com a força de sua perna boa. Ele não usa a mão em tudo, até que ele precisa adquirir o equilíbrio. Quando ele está pronto, coloco meu ombro no seu e ajudoo a mancar até a porta, e então eu espio. Não vejo ninguém, por isso nós nos movemos. Hunter entende o perigo e se move o mais rápido que puder, usando sua perna ferida mais do que deveria. Ele está cerrando os dentes com tanta força que eu posso ouvi-los moendo na boca. O suor escorre pelo rosto e todo o seu corpo treme, mas ele não faz um som diferente de sua respiração áspera. A mesquita está escura dentro, iluminada por uma lasca de luz da porta, relativamente fresco em comparação com o opressivo calor do lado de fora. O interior é enegrecido, desintegrando-se em alguns pontos. Um lance de sol brilha para baixo em um canto, iluminando o fino, manchado, colchão listrado azul-e-branco, onde eu faço o meu trabalho. Há velas brancas grossas dispostas ao longo da parede e para os lados, iluminação para os clientes noturnos. Há uma caixa de preservativos, um jarro de água, e nada mais. Hunter para, olhando para o colchão. Seu rosto está sombreado, por isso não posso ver sua expressão,

mas

eu

posso

sentir

o

desprazer

irradiando

dele.

Ele olha para mim, depois afasta, com um suspiro profundo. ― Onde? Ele pergunta. Aponto para uma linha fina de sombras mais escuras que marcam a porta do outro quarto. Eu nunca vou lá, porque eu não tenho nenhuma razão, mas eu sei o que está lá. Meus pais não costumavam ir à mesquita, exceto para os dias santos. A sala onde Hunter irá se esconder é escura como breu, cheirando ainda a madeira carbonizada, fumaça, e outra coisa, mais escura, adocicada e assustadoramente familiar que eu não posso identificar. Hunter para na entrada e cheira. ― A morte. - Diz ele. ― A morte estava aqui. Eu sinto o cheiro. - Agora eu sei o que é cheiro. Eu senti o cheiro quando a tia Maida morreu. Eu sinto quando me deparo com os

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corpos depois que uma bomba foi detonada. É o cheiro da morte, como disse Hunter. Eu deveria estar apoiando ele, mas de alguma forma, ele está me confortando. Eu vejo aqueles que morreram a piscar diante de mim como fantasmas visíveis. Hassan, olhando para mim a partir do meio da estrada, ele sangra, balas passando entre nós. Mama. Papa. Tia Maida. Tio Ahmed. Tantos outros, sem nome, sem rosto. Todos mortos. Hunter se equilibra com uma mão na parede, enrola o braço em volta da minha cintura e me puxa para o seu peito. Ele não diz nada. Não precisa. Ele também viu a morte. O bastante para saber como ela cheira. Por que estar sendo segurada por este homem me dá esse conforto? Não deveria. Ele não deveria. Eu deveria estar com medo dele, fugindo dele. Eu deveria tê-lo deixado morrer. Mas aqui estou eu, escondendo ele. Segurando-o. Sendo segurada. Consolados. Protegidos. Eu me afasto de seus braços, me xingando mentalmente por saber como eu me sinto vazia quando não estou perto dele. ― Você deve sentar-se. - Eu digo. ― Não importa o que ouvir, continue escondido. Há uma longa pausa enquanto ele traduz as minhas palavras para si mesmo. ― Se você estiver ferida, eu vou vir. - Diz ele. Eu ouço as costas deslizando contra a parede, e então sua mão se estende para enrolar em volta do meu tornozelo. ― Esteja segura. Por favor. Não quero fazer nada mais do que agachar-me ao lado dele, segurar seu rosto com barba rala e áspera em minhas mãos e beijá-lo até que nenhum de nós consiga respirar. Eu não faço. Concordo com a cabeça, em seguida, percebo que ele não pode ver o gesto. ― Eu estarei segura. - Digo, então, saio antes que os meus desejos traidores obtenham o melhor de mim. Masjid estará aqui em breve.

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Masjid é alto, magro e escuro. Ele me lembra uma faca. Sua postura é rígida, o rosto estreito, seu proeminente, nariz adunco e apontado dá créditos ao queixo para a nitidez de suas características. Ele tem marcas de varíola em sua pele, ao redor da testa e na bochecha direita. Seus olhos são pequenos e quase pretos, brilhando com inteligência e malícia. Ele não usa um keffiyeh, normalmente. A barba é espessa e atravessada com cinza. Quando ele vem para mim, é reservado e mecânico, não áspero ou violento, mas não como qualquer um. Acho que para Masjid, o sexo é apenas uma tática para ajudá-lo a concentrar-se, para que ele não se distraia quando estiver trabalhando. Ele é como um fantasma, aparecendo aparentemente à vontade, fora do ar. Estou do lado de fora da mesquita, esperando por ele. Eu olho para baixo da rua em uma direção, e quando olho para o outro lado, ele está ali, a poucos metros de distância, as mãos nos bolsos de suas calças soltas cáqui. ― O que é isso, Sabah? Estou ocupado. - Sua voz é calma e atada com ameaça latente. Um aviso para não desperdiçar à toa o tempo de Masjid. Eu não tenho realmente medo de muita coisa, mas estou com medo de Masjid. Ele nunca mostrou nada além de distanciamento profissional, e ainda, de alguma maneira intrinsecamente, entendo que ele poderia e iria me matar sem sequer piscar, se eu o irritasse. ― Peço desculpas, Masjid, mas eu tenho um problema, e estou esperando que você possa me ajudar.

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― Eu não sou um gênio, Sabah, que você pode chamar-me para resolver seus problemas. - Seus olhos estreitos e suas mãos inquietas nos bolsos. Eu engulo meus nervos e tento não deixar meu medo mostrar. ― Eu sei. Eu não teria chamado você se tivesse outra escolha. Eu sei que você está ocupado. Ele me examina com seus rígidos, olhos escuros. ― Muito bem. Vou ver o que posso fazer para ajudá-la. Mas este é um negócio, não é? Vou esperar... Pagamento. ― É claro. - Permito-me três respirações profundas para acalmar meu coração batendo, e então me movo em direção a minha casa, apontando para Masjid a seguir. Eu mostro-lhe o corpo de Ahmed, resfriado e endurecido no chuveiro, ainda escorrendo sangue grosso e escuro. Masjid examina o corpo com a facilidade de alguém acostumado a tais visões horríveis. Ele pega uma caneta do bolso e investiga as feridas de faca em sua garganta, estômago e peito. Ele se levanta e olha para mim. ― Você não matou esse homem. Quem fez isso entendia do negócio. - Eu não digo nada, não faço nada. Só espero. ― Ahmed era um porco. Ninguém vai chorar sua morte, apesar de que sua ausência será notada. ― Sim. - Eu digo. ― Eu preciso que ele vá. Por favor. Eu não posso lhe responder as perguntas. Masjid olha em volta do corpo, então desliga sua lanterna, e guarda em sua camisa antes de embolsar mais uma vez. ― Meu instinto me diz que você está envolvida em algo com que eu não quero ter nada a ver. Mas eu vou te ajudar. - Ele faz uma pausa, olhando-me pensativo. ― Eu vou ajudá-la, porque você é uma boa menina. Você não foi feita para ser uma prostituta, Sabah. Mas você é, e uma boa. ― Obrigado, Masjid.

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― Eu vou esperar.. ― Eu sei. - Eu interrompo. ― Eu sei qual o seu pagamento será. Ele acena com a cabeça. ― Bom. É melhor eu cuidar disso agora. Se o seu amigo... Abdul... - a inflexão em sua voz me diz que ele sabe exatamente quem Abdul realmente é. ―... Fica sabendo disso, não vai ser bom para você. - Ele acena em direção à porta. ― Vá às compras ou algo assim. Volte em uma hora. Quando eu volto, Masjid removeu o corpo e limpou quaisquer vestígios de sangue. Agora vem o pagamento. Masjid me segue para a mesquita, parando na rua para despejar água de uma garrafa em suas mãos, esfregando-as juntos. Ele produz uma pequena garrafa de claro líquido com cheiro de álcool, que ele limpa em suas mãos, em seguida, aponta para a mesquita. Olha em volta com atenção, mesmo que ele esteve aqui centenas de vezes antes. Ele pode saber que Hunter está a meros metros de distância? Eu forço no meu rosto uma expressão em branco, e então um sorriso sedutor. Eu passo em direção a Masjid, alcançando seu cinto. Eu tenho que distraí-lo. Ele bate minha mão. ― Salve o teatro, Sabah. É negócio. Basta deitar-se. Eu engulo, tentando molhar minha garganta seca, em seguida, faço o que ele diz. Seus olhos procuram as sombras, mesmo quando ele se move em cima de mim. Eu fico olhando para o teto por cima do ombro, sem me preocupar em fingir. Ele termina em breve, e eu deito no lugar, esperando por ele sair. Ele faz uma pausa na porta da mesquita, iluminado pelo sol da tarde brilhante. ― Tenha cuidado, Sabah. O que você faz é perigoso, e não apenas para você. - E então ele se foi. Estou me perguntando o quanto ele sabe, e o que ele vai fazer sobre isso. As respostas não são agradáveis.

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A escuridão desta sala pequena úmida é opressiva. O cheiro da morte é avassalador. O tempo deixa de passar. Não me atrevo a mudar a partir do canto, mal me atrevo a respirar. Eu não sei o que Rania tem planejado, mas eu não posso fazer nada para ajudá-la. Apenas a respiração é excruciante. Se eu mudar de posição, a dor queimando se espalha por cada centímetro do meu corpo. Eu estava começando a curar, começando a ter alguma aparência de mobilidade, e agora ele se foi. Estou de volta ao sentimento tão ruim como no dia em que fui ferido em primeiro lugar. Porra é uma merda. Mas pelo menos eu sei que minha presença ainda é um segredo. E então, de repente, eu não estou sozinho. Eu sinto o cheiro dele em primeiro lugar. Sangue, limpador agressivo, suor. Eu agarro minha KA-BAR no meu punho e tensiono. Eu tenho força suficiente para uma estocada, e tenho que acertar. Não posso ver nada, nem mesmo formas dentro de sombras. Eu sinto-o por perto, recolho as minhas pernas debaixo de mim, movimentos de cobra lenta. Sua voz é baixa e grossa. ― Eu não faria isso, meu amigo. - Forte sotaque inglês. ― Por que você está aqui? - Eu não sei o que dizer. ― Sabah, ela... ― Você matou Ahmed? ― Sim.

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― Por quê? Eu hesitei, sabendo que a minha resposta segura minha vida ou morte. ― Para me proteger. Para proteger Sabah. - Tenho o cuidado de usar o seu nome assumido. ― Você pode protegê-la de você? - Sua voz é casual, mas eu posso sentir a ameaça. ― Estou tentando. ― Tente mais duro. - Um passo embaralha, feito de propósito para que eu saiba que ele está indo embora. ― Abdul, ele vai matá-la em breve. Ele é mau. Um diabo na carne de homem. Ele tem fome de coisas que nenhum homem deveria. Ela vai recusar, e ele vai matá-la. Eu deixo-o vivo para que você possa detê-lo. ―Eu vou. ― Sim, você vai. Ou eu vou fazer a sua morte lenta. - Eu nem o sinto mover-se, mas de repente há uma ponta afiada cavando em meu peito. Minha faca encontra carne, uma ameaça de retorno para que ele saiba que eu não sou completamente indefeso, ele não se mexe, e nem eu. ― Ela não é para você, americano. Não tenha ideias. E então ele realmente se foi. Eu não percebo ou sinto o cheiro dele mais. Uma quantidade desconhecida de tempo mais tarde, eu ouço passos e vozes. Dela e dele. Ele diz algo que eu não pego, e então algo sobre negócios, diz-lhe para se deitar. Meu estômago aperta, e minha mão treme ao redor da minha faca. Eu sei o que está prestes a acontecer, e eu quero morrer, então eu não tenho que ouvir. Eu me concentro na respiração, respirações lentas, superficiais, cada um a riqueza da agonia. Ouço farfalhar de pano, o tapa de carne contra carne, gemidos masculinos, e depois um gemido prolongado de liberação. Eu quase vomito. Eu tenho que cerrar os dentes contra a bile amarga. Ódio arde em meu peito. Eu poderia matar todos neste momento. Porra! Cada pessoa no mundo, exceto Sabah. Eu até a odeio

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por um breve momento, por deixar isso acontecer. Por ser uma prostituta. Por passar através dos meus muros e no meu coração, onde eu tenho que cuidar dela. Eu não quero me importar. Eu não quero sentir esse inferno de fogo do ciúme e do ódio. Ele sai, dizendo algo sobre o perigo. Estou muito chateado de ser capaz de traduzir. Eu a sinto, a cheiro. ― Você está bem, Hunter? - Ela pergunta. ― Não. Suas mãos tocam o meu ombro, me procuram pelo tato. ― Você está ferido? ― Não. - Eu empurro as mãos dela. ― Ahmed se foi? ―

Sim.

-

Ela

toma

minhas

mãos

nas

dela

e

puxa.

Eu deixo ela me levantar aos meus pés, sibilando de dor da ajuda. Nós laboriosamente voltamos para sua casa, e mais uma vez eu tenho que mancar rapidamente para minimizar minha exposição na rua. Quando estou deitado de novo, estou suando em bicas, ofegante, os punhos cerrados, enquanto a dor pulsa através de mim. Ela fica a poucos metros de distância, fora do alcance, me observando. Eu aceno com a mão em direção à mesquita. ― Ele, isso, era para pagar? Ela acena com a cabeça, os olhos baixos. Mil coisas diferentes voam pela minha cabeça, mas eu não posso dizer qualquer uma delas. Eu

não

acho

que

ela

queira

ouvi-los,

de

qualquer

maneira.

Fecho meus olhos, tentando deixar claro que eu não tenho nada a dizer. Eu ouço seu movimento, e, em seguida, sua mão toca no meu peito. ― O que você está pensando? - Ela pede, em hesitante inglês. ― Eu sinto suas palavras. Fale-as. - Ela sente as minhas palavras. Estranhamente, eu sei o que ela quer dizer. Eu balanço minha cabeça. ― Muita coisa. Não é bom. - Eu falo em árabe. Quanto mais eu uso, mais eu melhoro.

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― Diga! - Ela toca meu queixo, esfregando o polegar ao longo da minha mandíbula. O gesto faz algo em meu coração dar uma pontada, inflar, e explodir. ― Foda-se. - Murmuro em inglês. Então, em árabe. ― Eu odeio... Eu gesticulo na direção da mesquita. ―... Isso! O que você faz. Ela pega a mão dela de volta, examina as unhas. ― Eu também. Ela encolhe os ombros. ― Não há escolha. É isso, ou morrer de fome. Você também. ― Eu sei. - Eu raspo uma série de linhas na terra com o dedo. ― Eu irei em breve. Eu olho para o que meu dedo desenhou no chão: RANIA. Eu limpo com força. Ela olha fixamente para as minhas palavras. ― Não. Você morre. - Ela muda para o árabe. ― Se você me deixar agora, você vai morrer. Você não está bem o suficiente para sair. Você não pode nem andar por conta própria. ― Se não fosse por mim, você não teria que fazer isso. - Eu digo em inglês, sabendo que ela não vai pegar tudo e não me importo. ― Se não fosse por mim... - Há muitas maneiras que eu poderia terminar essa declaração, e não digo nenhuma delas. ― Se não fosse por você, eu estaria sozinha. - Ela fala devagar em árabe, para que eu possa traduzir. ― Eu estava sozinha por tanto tempo. Agora, você está aqui, e eu não estou sozinha. Eu gosto de não estar só. Ela olha para baixo, como se estivesse envergonhada de sua admissão. ― Nós somos diferentes. - Eu digo em árabe. ― Muito diferentes. ― Eu sou uma prostituta iraquiana. Você é um soldado americano. Eu sei. Mas... Ainda. Deve ser... É... São coisas diferentes. -

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Não é essa a porra da verdade. Deve ser e são coisas completamente diferentes. Eu não posso evitar. Não posso deixar de beijá-la. Eu sei o que aconteceu ao lado e desgosto fuzila por mim, mas é suprimido sob o tsunami de necessidade dela. Há tanta dor em seus olhos, crua e potente, e eu só quero apagá-la. Foda-se, ela tem um gosto bom. Ela se sente bem. Ela é como uma droga girando através do meu sistema, banindo intenções e lógica. Tudo o que resta é o desejo. Minhas mãos famintas de sua pele, sua pele sedosa. A palma da minha mão encontra a bainha de sua camisa e roça, para segurá-la na cintura. Meus dedos roçam-lhe a espinha, traçam os botões e sulcos para as colisões de suas omoplatas, projetando-se quando ela se ajoelha em cima de mim, com as mãos em cada lado do meu rosto, joelhos próximos ao peito. O cabelo dela deriva e cai em torno de nós, uma cachoeira de ouro brilhando à luz no início da noite.·. Ela tensiona com o meu toque no início, então relaxa e deixa a minha mão percorrer suas costas. Quando os nossos beijos terminam, ela se inclina para trás para se sentar com as pernas dobradas embaixo dela. ― Eu sei o que você quer. - Diz ela, em tom resignado. ― Eu vou dar a você. Basta ficar parado. - Ela desabotoa os dois primeiros botões da braguilha antes de eu ter a coragem de detê-la. ― Não, Rania. Você não sabe o que eu quero. - Ela luta contra o meu aperto em seus pulsos. ― Sim, eu sei. Você é homem. Eu sou mulher. Eu sei. - Seu inglês é fraturado pela emoção, mas claro. ― Não é assim. - Eu não solto-lhe os pulsos. ― Você os beija? - Eu pergunto, apontando para a mesquita. Ela recua em minhas palavras. ― Não. Nunca! ― Será que eles te beijam?

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― Não! - Ela parece confusa. ― Por que você... ― Eu não sou eles. Eu não sou um deles. Eu não quero você, como eles fazem. Seus olhos buscam os meus, marrom brilhando com lágrimas. ― Então o que você quer comigo? - Ela balança a cabeça, percebendo sua gafe gramatical, e muda para o árabe de novo. ― O que você quer comigo? Eu não... Eu não sei fazer mais nada. Isto é o que eu sei. Eu solto meu controle, e ela se liberta para desfazer o terceiro botão. Eu estou duro com o pensamento dela me tocando, mas eu não posso permitir-me deixá-la. Eu seguro-lhe os pulsos em minhas mãos novamente e puxo-a para baixo para mim. Ela resiste, então se aquieta. Eu providencio para que ela esteja colocando a cabeça no meu peito, um braço em volta dos ombros, o outro mantendo as mãos amarradas. Seu peso sobre a porra do meu peito dói como o inferno, mas eu ignoroo. Ela parece natural, embalada em meus braços. Ela está tensa, mas lentamente vai relaxando. ― Há mais, Rania. - Eu digo em árabe. ― Mais do que apenas sexo. ― Não há para mim. ― Há cuidar. Há... - Eu procuro as palavras certas em sua linguagem. ―... Há querer, mas com o coração e também o corpo. ― Querer com o coração? Isto é amor? - Diz ela em inglês. Nós vamos e voltamos assim na linguagem do outro, tentando entender as palavras que conhecemos, até se esgotarem e mudamos para um vocabulário só nosso. ― Pode ser. Ele não tem que ser.

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Um silêncio longo, cheio de pensamentos não ditos. ― É, para você? - Ela pede. ― Isso é amor? O seu desejo com o coração? Por mim? Esta é uma aterrorizante, conversa perigosa. Fomos para evitar este dia. Perdi a noção de quanto tempo eu estive aqui com ela. Dias correm juntos, noites correm juntos. Tem sido semanas? O mais provável. Nós não deveríamos estar falando desse jeito. Como podemos estar falando de sexo e amor quando isso poderia ser qualquer coisa, levar a qualquer lugar? Esta é uma fantasia mórbida. Se eu sobreviver, vou acabar deixando-a para voltar para Camp Fallujah ou Ramadi, ou qualquer outro inferno, e depois para casa. Estados Unidos. Eu vou voltar a saltar de sete toneladas e atirando barras de chocolate para os moradores. IEDs e bombas e emboscadas no vacilante carro, sufocando de calor. Ela vai continuar entretendo homens para se alimentar. Tudo isso vai ser um sonho. Bom sonho, sonho ruim. Apenas um sonho. Se eu deixar alguma coisa acontecer, só vou me machucar. Eu já estou quebrado da traição de Lani. O amor é uma piada. Eu amei Lani, e ela fodeu em torno de mim. Me ferrou. Como eu posso fingir que alguma coisa poderia acontecer entre Rania e eu? É besteira completa. Eu não a amo. Ela é uma garota sexy-como-inferno local. Fora dos limites. Não é para mim. Eu sou um perigo para ela, e ela para mim. E ela está certa: Tudo que eu quero é dormir com ela. Foder ela. Isso é o que seria, certo? Apenas foda? Sim, certo. Eu não posso me enganar. Seria mais. Ela salvou minha vida. Ela atravessou o inferno para me manter alimentado e enfaixado e livre de infecção. Eu já a beijei. Eu estou sendo carinhoso com ela agora. Lani nunca quis que eu a segurasse assim. Ela saía da cama para se limpar e, em seguida, deitava-se longe de mim. Ela nunca ficou em meus braços assim.

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Eu sei que estou chateado com o quanto a palavra ― Foda-se! Está passando por minha cabeça. Lani sempre afirmou seu barómetro para o meu humor, era como muitas vezes eu deixei cair a F-bomba. ― Hunter? É isso? - Eu percebo que não respondi. Ela estica o pescoço para olhar para mim. Seus grandes olhos castanhos estão vulneráveis, suplicantes. Eu não sei se ela está suplicando-me para dizer sim ou não. Ela merece a verdade, apesar de tudo. ― Eu não sei, Rania. Talvez. Sim. ― Talvez? Talvez sim? Ou sim? Qual é? Eu não posso olhar para ela. Seus olhos puxam muito de mim, incitam muitas emoções que eu não sei como lidar com isso. ― Eu não sei, Rania. - Encontro-me acariciando seus cabelos, alisando os longos cabelos branco-ouro sob meus dedos. ― Se eu sei, e daí? O que significa para você? - Eu estou falando em Inglês. Ela não respondeu por um longo tempo. ― Eu não sei. Eu quero que você diga sim, mas também diga não. - Suas mãos estão livres agora e descansam em mim, uma traçando a lacuna entre as costelas, a outra no meu estômago. ― Eu nunca tive nada disso. - Diz ela, apontando para a mesquita. ― Nunca? Ela balança a cabeça. ― Eu tinha... Quatorze anos, eu acho. Quando me vendi pela primeira vez. Não foi por dinheiro, então. Foi por alimentos. Eu estava morrendo de fome. Tão perto de morrer de fome. Não consigo entender o que ela está me dizendo. Ela tem vinte e três ou vinte e quatro anos, o que significa que ela tem sido uma prostituta há mais de dez anos, pelo menos. Mais como onze ou doze anos. Insanidade. Eu não posso fazer isso ter sentido na minha cabeça.

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Como é que ela evitou a gravidez e doenças de todo esse tempo? Talvez ela não tenha evitado. ― Sinto muito. - Eu digo. Ela encolhe longe de mim. ― Por quê? O que você fez? ― Não. Sinto muito... O que você está passando. ― Ah. - Ela encolhe os ombros. ― Eu tenho sobrevivido. É o suficiente. ― Alguma vez você já foi feliz? - Eu peço. Ela olha para mim como se eu tivesse brotado chifres. Como eu sugeri um conceito irrelevante e estrangeiro. ― Feliz? Eu não sei. Talvez quando eu era uma menina. Antes da guerra. Antes de mamãe e papai morrerem. Antes que o outro americano... ― O outro americano? - Ela não respondeu por um longo tempo. Quando ela faz, é numa entonação calma, um árabe lento. ― Quando eu era uma menina, durante a primeira guerra com os americanos e os outros soldados, meu irmão e eu estávamos escondidos. Um americano veio. Hassan tinha uma arma. Ele só estava me protegendo, mas o norte-americano, ele não era um soldado. Era uma repórter. Mas ele tinha uma arma, uma pistola. - Ela está indo e voltando entre inglês e árabe, enquanto conta a história. ― Hassan atirou nele, e perdeu. Ele atirou de volta e atingiu meu irmão. Eu peguei a arma e o matei. O norte-americano. Hassan fugiu para ser um soldado, a minha tia morreu, então eu não tinha ninguém. Consegui por um tempo viver. E então não havia comida, sem dinheiro, sem trabalho. Pedi um soldado por comida, e ele me deu. E então ele me fez ter relações sexuais com ele. ― Ele estuprou você? - Eu peço isto em inglês.

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― Não. Não... Não realmente. Ele me disse que só daria a comida se eu concordasse em deixá-lo fazer sexo comigo. Eu não tinha comido em dias. Eu estava com tanta fome... Ela se cala, e eu sinto a umidade escorrer no meu peito. Ela está chorando em minha camisa. Chorando sua infância perdida. ― Uma escolha de merda. - Eu digo em Inglês. Ela não responde, e eu abraço-a. Deixo-a chorar por um longo, longo tempo. Eventualmente, ela se levanta e vai ao banheiro, prepara-se. Eu desvio o olhar. Vê-la se preparar se transformou em um ritual. Eu vejo-a vestir o uniforme, a maquiagem, o rosto branco, os olhos duros, o sorriso sedutor. Eu odeio isso. Ela se torna Sabah, e Rania, o tipo, menina vulnerável se foi. ― Não vá! - Eu digo. Ela olha para mim, tudo Sabah agora. ― Preciso. Abdul está chegando. - Estou confuso. Eu pensei que ele vinha durante a tarde. É quase escuro lá fora agora. Ela vê minha confusão. ― Ele mandou um recado. Ele está chegando agora, não amanhã. Eu nunca sei como ela organiza seus compromissos. É claro que ela tem uma lista de clientes que vem a ela. Ela não trabalha nas ruas, tem uma série de Johns que a visitam, e eles parecem sempre apenas mostrar-se, mas ela sabe quando esperar eles. Não há um telefone que eu tenha visto, um computador, ou qualquer coisa. Mas ainda assim ela sabe. É um mistério para mim. ― Ele te machuca. - Eu digo. ― Ele pode. Ele é poderoso. - Ela encolhe os ombros, parecendo destemida. Eu vejo o medo à espreita por trás dos olhos, no entanto. Ela sai, então, e meu intestino agita. Meus instintos me dizem que algo ruim está prestes a acontecer. Eu me preparo para a dor. Eu me preparo para matar.

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Terror persegue todos os meus batimentos cardíacos enquanto eu espero por Abdul. Ele vai me machucar de novo. Obrigar-me a fazer algo terrível. Sento-me no colchão e espero. Eu não vou recebê-lo. Não vou fingir ou brincar com ele. Ele é um monstro, e tudo o que posso fazer é tentar sobreviver a ele. Ele vem. Como ele pavoneia através da barriga da porta em primeiro lugar, seus olhos redondos de porco, arrastam em cima de mim, indo primeiro para os meus seios. ― O que, sem beijo para seu amante? - Ele pergunta, rindo como se tivesse dito uma piada hilariante. Eu não respondo. Basta esperar, olhando para ele. Ele lambe os lábios, em seguida, puxa o cinto com o coldre da arma, puxa a arma para fora do couro e prende-a ao seu lado. Seu comportamento muda, e eu sei que já começou. ― De joelhos, prostituta. - Eu passo para os meus joelhos, de frente para ele, com as mãos apoiadas sobre as coxas. ― Tire a roupa. Todas elas. - Eu tiro, e depois ajoelho nua na frente dele. Minhas pernas tremem, e minha pele está úmida, fria e suando tudo de uma vez. Meu coração é um tambor louco no meu peito, e eu podia vomitar, se eu não soubesse que iria enraivecer Abdul. Esta é uma questão de sobrevivência, eu me lembro. Não se trata de orgulho. ― De joelhos, prostituta.

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― Eu estou. - Eu digo, não discutindo, mas calmamente apontando fatos. ― Não! Como um cão. Como a cadela que você é. Enfrente longe de mim. Eu engulo em seco e passo a cumprir, tremendo tanto que mal consigo me mover. Tenho feito muitas coisas ruins, como uma prostituta. Eu enfrentei o medo. Eu fui espancada, ameaçada, ferida. Abortos forçados. Estuprada. Mas isso, o que Abdul está fazendo para mim... Isso é diferente. Poucas coisas me causam verdadeiro terror. Mas agora, meus joelhos cavando através do colchão fino no chão, os cotovelos e os braços mal capazes de suportar meu peso pelo tremor, agora eu sinto o terror como nunca antes. Eu sei que ele vai me empurrar a um certo lugar, e então eu vou recusar, e ele vai me matar. E então ele vai terminar. Eu ouço o sinal, o cinto estridente, e minha boca fica seca. Eu penduro

minha

cabeça,

arqueio

os

ombros

e

minhas

costas,

preparando-me para a sua entrada brutal. Em vez disso, ele dá um tapa na minha bunda tão forte que eu não posso evitar, mas grito de dor. Uma e outra vez, ele dá um tapa na minha bunda, até que eu me afasto para longe. ― Fique de joelhos, prostituta! - Ele grita. ― Eu não acabei com você. Eu me forço para a posição, lutando contra as lágrimas de dor. E agora ele bateu o outro lado da minha bunda, uma e outra vez, até que minha bunda está ardendo, queimando, como se em chamas. Ele ri. ― Olhe para você, prostituta. Sua bundinha está vermelha. Você está pronta. - Ele acaricia minha bunda, absurdamente delicada

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após seu abuso. ― Eu vou te foder na bunda, prostituta. Você vai gostar. Você entendeu? Eu sinto o cano de metal frio da pistola contra a traseira da minha cabeça. Não posso me mover. Eu sei o que é isso. Essa é a minha linha dura. Eu não deixaria qualquer homem fazer isso comigo. Fui espancada por isso antes, mas eu sempre recusei. E eu vou recusar agora. É preciso várias tentativas para engolir saliva o suficiente para que eu possa falar. ― Não! - Ele é um pequeno sussurro feroz. ― O que você disse? - A voz de Abdul é baixa e mortal. ― Eu disse que não. - Minha voz está mais alta agora. Estou pronta para a morte. ― Você não vai fazer isso. Eu vou deixar você fazer tudo aquilo que você quer. Vou deixar você me foder. Eu vou chupá-lo. Eu não vou brigar com você. Mas você não vai me tocar lá. Eu ainda estou em minhas mãos e joelhos, eu percebo, e me mudo para virar e encará-lo. Ele é muito rápido, agarra meu cabelo pela raiz e empurra ele, duro. Eu grito. Ele enfia o topo da minha cabeça com a coronha da pistola, brutalmente duro. Eu vejo estrelas, e uma faca de dor brota pela minha cabeça. Algo escorre quente e úmido no meu couro cabeludo e na minha testa. ― Vamos lá! - Eu grito. Estou empenhada em lutar com ele agora. Ele empurra o meu cabelo de novo, e eu sou levantada do chão. Seus joelhos sulcam na minha espinha, e eu estou sem fôlego. O fundo da sua pistola inclina para o meu lado, o meu rim, e agora não consigo nem ficar em pé pela a agonia cegante, não posso sequer respirar ou chorar.

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Ele me obriga a ficar de quatro, a mão ainda empunhando no meu cabelo. Seus joelhos empurram minhas pernas, e agora eu sinto sua masculinidade na dobra do meu traseiro. Pânico corre através de mim, me contorço e caio contra seu aperto, gritando. Eu chuto para trás, e meu pé descalço encontra carne macia. Ele ruge e seu aperto no meu cabelo solta, mas não o suficiente para me deixar livre. Ele enfia o punho no meu rim novo, e a dor me para contra a minha vontade. Algo duro e quente cutuca meu traseiro, mas não penetra, tentando e esfaqueando, quase rasgando a carne delicada lá. Estou gritando o melhor que posso, apesar da dor roubando minha respiração, lutando. Lutando. Desejo, fulgazmente que Hunter pudesse me salvar, mas ele não pode. Então Abdul desaparece, e ele está gritando, rugindo. Eu caio para as minhas costas, e através da névoa de lágrimas vejo Abdul recuando, apertando sua mão. Eu luto para trás longe de Abdul, vejo algo molhado e vermelho jorrando entre seus dedos. Sangue quente pegajoso encharca minhas costas e meu cabelo. Há coisas cor-de-rosa no chão a seus pés. Dedos, desmembrados. Abdul está gritando. Suas calças estão em torno de seus tornozelos, e ele está lutando para se livrar deles para que ele possa passar para lutar. Hunter de pé, iluminado pelas chamas das velas escuras. Seu rosto é uma máscara de raiva, manchada de sangue. Sua faca é segurada em um punho, baixo perto de sua cintura. Pinga sangue da lâmina no chão de azulejo com um som pit-pit-pit lento. Exceto por isso, reina o silêncio, agora que Abdul parou de gritar. Os homens se enfrentam. É quase cômico, Abdul fica nu da cintura para baixo. A arma encontra-se no chão, fora do alcance. Não posso me mover, congelada pela violência. Não há nenhum aviso. Hunter está de pé, e então ele impacta com Abdul, mais velozes do que uma cobra impressionante. Eu ouço o barulho de colisão de corpos, e Abdul tropeça para trás, sangrando do estômago. Eu

quero

estar

desmaiar,

mas

o

reflexo

é

congelado.

Hunter não está tentando fazer isso rápido. Abdul está na posição

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vertical, segurando o estômago com os dedos da mão direita. Ele sangra, sangra. Ele está mortalmente ferido, eu acho, mas Hunter não terminou. Ele não disse uma palavra. Hunter atira novamente e vejo o flash de estremecimento, revelador em seu rosto, que me diz que ele ainda está sentindo a dor, mas se recusa a deixá-la detê-lo ou retardálo. A faca dispara em todo o peito de Abdul, e o general tropeça para trás mais longe ainda. Os lábios de Hunter enrolam com nojo e desprezo. Ele atravessa o espaço intermediário e bate Abdul ao chão com um golpe brutalmente duro. Hunter está sobre ele, olhando para baixo, com um sorriso de vitória, mas, em seguida, ele balança, branqueando, pálido e tonto, atrapalha para trás para manter o seu equilíbrio. Ele não vê a mão de Abdul alongada, atingindo, segurando a pistola. Eu grito um aviso, mas é tarde demais. A pistola racha com um flash de fogo, e Hunter grunhe, gira para o lado e cai. Alguém está gritando... Eu, eu acho. Abdul rola para o lado, pega as calças e tropeça fora, pingando sangue. Ele não vai morrer, mas ele está muito ferido e não vai estar de volta em breve, eu acho. Isso não é um fim aos meus problemas com Abdul, mas é um alívio, por agora. Eu deixo-o ir e luto ao lado de Hunter. À bala o atingiu na lateral, e eu sei o suficiente para perceber que isso é mais grave do que todos os seus outros ferimentos. Um órgão pode ter sido atingido, ou algo assim. Eu não sei. Eu só sei que é um ferimento grave. Eu estou chorando, apertando a minha mão no buraco carmesim escorrendo. Hunter atinge com a mão e puxa levemente a minha camisa, que fica perto de sua mão, tenta pressioná-lo na sua ferida, mas, em seguida, desmaia. Estou gritando, esmagando a camisa ao seu lado. Eu não sei o que fazer. Eu sacudi-o, sacudi-o. Ele acorda. ― O que eu faço, Hunter? - Peço-o. ― Preciso de... Um médico. Cirurgião. Alguém.

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Eu entendo o seu inglês, graças a Allah. Lá vou eu de novo, pedindo a Deus, em quem não acredutei desde que eu era menina. Eu puxo minha saia, puxo ao lado de uma camisa para me cobrir, em seguida, corro para a clínica onde eu recebo o meu controle de natalidade e exames de doenças. Ele fica a vários quarteirões de distância, mas faço-o em tempo recorde. Eu tenho sangue em minhas mãos. O médico que eu conheço melhor, um homem chamado Hussein, está de plantão. ― Sabah! O que aconteceu com você? Você se machucou? - Eu balancei minha cabeça. ― Não, eu não. U-um amigo. Por favor, venha comigo. Ele precisa de ajuda. - Hussein olha-me cautelosamente. ― O que você está me envolvendo? ― Doutor, por favor. Você me conhece. Tenho vindo a você por anos. Por favor, ajude o meu amigo. Por favor! A expressão de Hussein muda, e sei que isso não vai ser livre. Eu costumo pagar Hussein com o dinheiro, mas eu sei que pelo brilho lascivo nos olhos dele que ele vai reclamar mais do que dinheiro, neste momento. Ele vai alegar-me. ― Você vai ter o que você quer, Doutor Hussein. Mas, por favor, venha. Ele balança a cabeça, uma vez. ― Muito bem, Sabah. Deixe-me pegar minha bolsa. Eu levo-o para a mesquita, mas impeço-o antes de entrar. ― Doutor, antes de ver o meu amigo, eu tenho que pedir... Por favor, apenas mantenha isso entre você e eu. É importante! Os olhos de Hussein estreitam. ― Algo me diz que não vou gostar disso. Mas

eu

estou

aqui,

e

eu

levei

― O quê?

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o

juramento

de

Hipócrates.


Ele balança a cabeça. ― Um juramento para ajudar aqueles que precisam de ajuda. Mas eu não vou por a mim ou a minha família, em perigo Sabah. - Eu aceno e levo Hussein na mesquita. Ele para em suas trilhas quando vê Hunter. ― Um americano? Você está louca, Sabah? Eu não posso responder, exceto por um sussurro. ― Por favor! Hussein procura meu rosto. ― Deus me ajude, Sabah. Você está louca. Você o ama! Eu balanço minha cabeça, mas eu não tenho certeza se estou negando o que ele está dizendo, ou me recuso a responder. Hussein só sopra um suspiro suave entre lábios grossos, carnudos, coça a barba grossa, e depois se ajoelha ao lado de Hunter. Ele empurra a camisa de Hunter passando a ferida, examinando-o antes de fazer qualquer coisa. Ele investiga a ferida com o dedo, em seguida, puxa Hunter e olha para as costas. ― Bem, ele atravessou, portanto, não há bala para extrair. Sem qualquer equipamento, não posso dizer se a bala atingiu alguma coisa importante, mas a julgar pela colocação, eu diria que o seu... Amigo, ficará bem, eventualmente. Claro, ele perdeu muito sangue já, e ele tem uma série de outras feridas. - Ele olha para mim. ― O norte-americano é muito resistente. Ele analisa outros ferimentos de Hunter, limpa e recoloca as ataduras, bem como o novo, então escava em sua bolsa. ― Essas feridas na perna estão crescendo infectadas. Ele vai precisar de antibióticos. ― Você tem? - Eu peço. Hussein olha para mim, um sorriso toca seus lábios. ― Sim, mas são caros. - Eu suspiro. ― Eu entendo. Hunter, que eu pensei que estava inconsciente, agarra o pulso de Hussein. Hussein empalidece e tenta se afastar, mas eu sei bem o poder de aderência de Hunter, mesmo enfraquecido. ―Não. - Hunter diz em árabe. ― Não isso. Deixe-me ficar doente, mas não peça isso a ela.

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― Hunter, por favor! - Eu digo em inglês. ― Você vai morrer sem a medicação. Hunter olha pra mim. ― Não. Não mais. Não por causa de mim. Hussein se levanta e gesticula para eu segui-lo fora. ― Isso é loucura, Sabah! - Diz ele. ― Se a infecção não for parada agora, ele poderia morrer. Ou perder a perna. ― Eu sei. ― Eu digo. ―... Ele não gosta do que eu faço. ― O que você vai fazer? ― O preço não mudou? Hussein balança a cabeça. ― Você sabe que não. ― Tudo bem. Eu não vou deixá-lo morrer. Venha. - Eu gesticulo na porta da minha casa. Hunter vai ficar com raiva de mim, eu sei disso. Meu estômago se embrulha no que estou prestes a fazer, mas isso deve ser feito. Hussein exige muito de mim, antes que ele considere a dívida paga. Ele me ajuda a colocar Hunter de volta ao lado de minha casa. Hunter finge estar inconsciente até que Hussein sai, e então olha para mim, com um brilho que me faz encolher de medo. ― Você fez isso de qualquer maneira. - Não é uma questão. ― Sim. - Eu respondo. ― Eu fiz isso por você. Hunter está quieto por um longo tempo, olhando para mim. Eu entrego-lhe o frasco de comprimidos que Hussein me deu antes de ir embora. ― Pegue-os! - Eu digo. ― Está feito. Não usá-los seria estúpido! Ele pega um com um gole de água. Eu olho para as minhas mãos, ainda cobertas de sangue. 145


― Hunter, eu... Obrigado. Por me salvar de Abdul. ― Eu tive que parar com isso. Eu o ouvi bater em você. Eu ouvi você gritar. Eu tive que... - ele balança a cabeça e recua, raiva contorcendo seu rosto. ― Você está bem? Será que ele, que ele te machucou? Ele está preocupado comigo? Depois de levar um tiro, ele está preocupado por mim? Eu balanço minha cabeça. ― Não. Alguns tapas. Eu estou bem. - Hunter estende a mão para enxugar alguma coisa do lado do meu rosto. ― Você está sangrando. - Eu limpo o sangue. ― Nada. Não é nada. Pare de se preocupar comigo. - Ele não olha para mim, quando ele fala a seguir. ― Eu não posso parar de me preocupar com você. Eu não tenho resposta para isso. Me afasto e tomo um longo banho frio, esfrego meu corpo e meu cabelo furiosamente até que minha pele pica do sabão, até que cada centímetro de mim é lavado, purificado. Estou tremendo de água gelada quando estou fazendo. A noite cai. Deito-me em minha cama, viro do meu lado. Os olhos de Hunter encontram os meus, seu rosto de prata na luz das estrelas fraca. Nós não falamos. Lembro-me do conforto quente de deitar nos braços de Hunter e desejo que eu pudesse senti-lo novamente. Eu estou tão fria. Então, com medo. Eu não deveria seduzi-lo. Eu vejo Hunter dormir por muito tempo, tentando me manter na minha própria cama pela força de vontade. Não está funcionando.

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Algo

suave

aninha

suavemente

contra

meu

lado

ileso,

despertando-me de um sono leve. Eu respiro, cheiro o cabelo limpo, sabonete, perfume de mulher. Rania. Meu braço enrola ao redor dela. Deus, ela está na minha cama. Ela está tentando-me tão mal, mas ela não percebe isso, eu acho. A última coisa que me interessa agora é a dor disparando através de mim. Tudo o que eu quero é rolar e fixar Rania no chão e beijá-la até que ela não possa respirar, explorar seu corpo exuberante com meus dedos e minha boca. Eu não posso. Não depois do que ela apenas passou. Eu tento me contentar com apenas segurando-a. Ela é quente e macia. Ela faz um som em seu sono, um som baixo contente no fundo da sua garganta, e então se move para perto de mim, enterrando-se como se não pudesse chegar perto o suficiente. Meus olhos abrem e eu estou olhando-a dormir, olhando o luar lançar um brilho prateado em toda a sua pele. Sua camisa está amontoada logo abaixo dos seios, e sua minissaia habitual é vincada por seus quadris. Tanta pele à mostra. Puxo uma respiração tão profunda quanto minhas costelas permitem, convocando o meu autocontrole. Foda-se.

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Minha mão me trai, toca seu ombro pelas costas a roça em toda a pele exposta acima de sua saia. É um toque roubado bastante inocente, apenas suas costas, mas ele me tem duro, precisando de mais. Precisando de carne, calor, toque. Ela move-se novamente, com uma perna longa deslizando para cima de uma das minhas pernas. Maldição. Agora a saia dela está tão agrupada fora do lugar que a bunda está totalmente exposta. Eu aperto meus olhos fechados, trabalhando em autocontrole. Autocontrole. Mãos para si mesmo, idiota. Eu sou fraco. Só não posso me ajudar. Ela é tão linda e foda, apesar de sua profissão, estranhamente inocente. É claro que ela nunca conheceu o amor, nunca conheceu afeto. Ela nunca teve uma amante, nunca teve um namorado. Duvido que ela já teve um orgasmo. Por que diabos eu estou pensando sobre orgasmo de Rania? Não está ajudando. Não está ajudando. Caramba. Agora a imagem está presa em minha cabeça: Rania acima de mim, o cabelo como um halo dourado, olhos castanhos-claros, brilhando com prazer, o suor entre os gloriosos seios, as mãos apoiadas sobre as coxas, enquanto ela me cavalga, cabeça jogada para trás agora e gemendo, o verdadeiro gemido impotente de puro prazer.·. Eu aperto meus olhos e abro-os, concentro-os em seu cabelo para banir a imagem. Minha mão está colocada na sua coxa logo acima do joelho, na parte de trás de sua perna. Para cima, agora. Sua pele é como cetim, puro calor, suavidade pura. Ela geme docemente e meneia em mim quando eu toco sua perna, movimento mais para cima a perna ao vinco logo abaixo da bolha inchada de sua bunda. Oh, senhor. Oh, Deus. Por que estou me torturando assim? Eu sou um idiota, acariciando a garota em seu sono. Eu fecho meus olhos, clamo a força de vontade de um cavalheiro, em vez do bastardo lascivo. De repente, estou ciente de sua respiração. Não é o sussurro suave dentro e fora, rítmico e profundo. Eu olho para baixo com cautela, e

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com certeza, seus olhos estão abertos, brilhantes sob o luar. Ela não disse nada. Ela não se afasta ou encolhe a partir de meu toque. Está congelada, olhando para mim, mal respirando. Como se a qualquer segundo ela poderia fugir. Lembro-me de nada mais do que estar na floresta em uma fria, ainda manhã de janeiro, logo após o amanhecer, um novo manto de neve silenciando tudo, uma enorme corça andando graciosamente entre os

arbustos,

os

olhos

arregalados

de

compreensão

e

olhando

diretamente para me avaliar, assistindo. O olhar de Rania está em mim nesse momento, quando as narinas contraem do cervo e seus ouvidos estalam, e então ela se foi, pulando para dentro da floresta. Minha mão ainda está em sua coxa, logo abaixo de sua bunda. Eu posso ver as engrenagens girando em sua cabeça. Eu não sei o que fazer. Devo mudar a minha mão? Ela está com raiva de mim? Será que ela gosta? Devo beijá-la? O tempo para, e momentos passam em intervalos alongados, o peito sobe contra o meu lado enquanto ela suga uma respiração trêmula, com os olhos presos nos meus, sua pele quente na minha mão. Ela parece ter chegado a alguma decisão, pois o medo nos olhos dela, a cautela, evapora. Altera. Agora o medo é diferente. Ela não tem medo de mim. Eu sei isso muito. Ela tem medo do que está acontecendo. Talvez, o que está prestes a acontecer. Estou com medo disso também? Diabos, sim! Eu sei que não há como voltar agora. Neste momento, nossos olhares se encontraram e ela delicada, forte de corpo mole, aninhada em meus braços... Este momento é impresso indelevelmente em meu coração. Se nada mais acontecer, eu sempre vou lembrar-me disso. Rania desliza a mão por entre os nossos corpos para tocar meu rosto. Eu deslizo a palma da mão para baixo em sua coxa, paro em seu joelho, e então começo a deriva hesitante volta. Quando a minha mão se aproxima da sua bunda, seus olhos se arregalam e sua respiração

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cresce superficial. Eu paro onde eu tinha antes, logo abaixo da curva. Ela levanta o queixo, sem tirar os olhos de mim, um gesto desafiador. Vá em frente, a elevação do queixo diz, me toque. Eu te desafio. Ela está desafiando a si mesma, não a mim. Eu respiro fundo, reunindo minha coragem, e roço a palma da mão, oh, tão lentamente sobre o inchaço tenso da bunda dela, colocando o rosto. Eu posso sentir seu coração batendo furiosamente em seu peito. Ela está apavorada. ― Rania, eu... Ela me corta pressionando os dedos em meus lábios. Seus dedos se arrastam pelo meu queixo, meu pescoço, meu peito, minha barriga, parando no ziper da minha calça. Sei que mais uma vez ela está tentando fazer isso como ela acha que eu quero. Mas não podemos seguir por esse caminho. Isto deve ser a respeito dela. Eu seguro seus dedos e afasto-os, coloco a palma da mão na minha bochecha. Sua testa enruga em confusão. Eu quero que ela sinta prazer. Para experimentar um momento de felicidade que ela não pagou por meio do sacrifício. Ela abre a boca para falar, e eu cubro seus lábios com os meus, um beijo rápido e inocente para acalmá-la. Ela choraminga na garganta quando os nossos lábios se encontram. Move-se para me beijar de novo e eu me inclino para longe com um sorriso, balançando a cabeça. Agora, sua expressão é abertamente perplexa. Eu rio, uma agitação silenciosa de meus ombros, e depois volto para beijá-la. Ela geme baixinho e se contorce para perto de mim. Eu aprofundo o beijo, provo a sua língua com a minha, e sinto a flor bem fechada que é a minha dor e coração partido abrirem um pouco, com a ansiedade com que ela volta para o meu beijo. Ela está descobrindo isso pela primeira vez, a alegria da ressurgência de um beijo, a forma como o seu coração se expande e incha com o toque de lábios nos lábios, o cheiro estranho de línguas pendurados. Eu começo a explorar lentamente a pele dela agora. Ela está perdida no beijo. Faz um ruído na parte de trás de sua garganta quando

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roço minha palma em toda a bunda dela, segurando um globo firme e, em seguida, forma um arco de um lado para o outro. Seus quadris pressionam sua bunda de volta em minha mão, um sútil movimento quase imperceptível, mas o suficiente de um encorajamento. Ela gosta do meu sensível toque. Eu escorrego a minha mão levantando-a de volta, debaixo da camisa, circulando-a de volta, seus ombros, traçando sua coluna vertebral, e, em seguida, de volta abaixo para a bunda dela. Seu corpo ficou tenso, tenso com os nervos. Nós nos beijamos languidamente, e eu faço um circuito de seu corpo, tranquilizante e emocionante de uma só vez. Ela cresce acostumada ao meu sensível toque e sua tensão declina. Eu quebro o beijo, seguro o rosto dela com a minha mão, escovando o osso malar com o meu polegar. Eu beijo-a novamente, mas desta vez coloco todas as minhas emoções nascentes nele, todo o meu medo, o meu desejo, a minha necessidade, meu... O quanto eu me importo com ela. Que é tão longe como vou deixar eu mesmo ir, mesmo em meus próprios pensamentos. Ela sentiu tudo isso no beijo. Quando recuo, os olhos dela estão molhados, seu queixo trêmulo. ― O que você está fazendo comigo, Hunter? - Sua voz racha, um sussurro árabe que eu mal consigo ouvir, tenho de trabalhar para entender.

Eu

sorrio

para

ela.

Meu

coração

está

batendo

furiosamente, antecipando o que eu estou prestes a fazer. ― Confia em mim? - Eu pergunto em árabe. Ela hesita, procura meus olhos com os dela, em seguida, acena com a cabeça. Eu empurro-a gentilmente, para que ela fique deitada de costas, e então levanto o cotovelo. É doloroso, mas isso não importa. Eu posso levá-lo. Isto é sobre ela. Eu beijo-a, e quando ela relaxa e se inclina para aprofundar o beijo, eu descanso minha mão em seu joelho, hesito, e depois deslizo lentamente para cima ao longo da pele incrivelmente sedosa de sua coxa, avançando cada vez mais perto de seu centro.

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Ela se afasta do beijo, os olhos me sondando. O medo ĂŠ galopante em seu olhar. Eu parei, esperando por ela decidir o que quer.

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Este é um novo tipo de terror. Ele se funde com excitação, antecipação. Sua mão sobre a minha carne é assustador, mas glorioso. Ele me toca tão gentilmente, tão cuidadosamente. Ele espera até que tenha certeza que eu quero que ele continue, e depois, quando me toca de uma maneira nova, ele abre os meus olhos para um novo mundo de sensações. Eu não sabia que meu corpo ou minha alma podiam sentir essas coisas. Meu coração está ao mesmo tempo com medo e pronto. Eu sinto a abertura, como um músculo não utilizado se alongando. Por que ele não me permite tocá-lo? Eu pensei que isso é o que os homens gostam. Isso é o que ele espera, não é? Agora eu não sei. Toda vez que eu acho que ele vai fazer sexo comigo, ele interrompe. Não me deixa tocá-lo. Nós nos beijamos, e eu posso sentir que ele me quer. Ele olha para mim. Ele gosta do jeito que meu corpo parece. Mas ele não me tocou sexualmente até agora. Eu nunca, nunca fui tocada dessa forma. Os meus clientes... Eles me apalpam. Pagam-me para deixá-los me tocar. Eles não pedem permissão. Eles não são gentis. Eles tocam possuindo meu corpo. Hunter, toca para me fazer sentir alguma coisa. Ele não faz nada, a não ser que ele tenha certeza que eu o deixo. Eu não pude evitar ficar na cama com ele. Estava quase dormindo, mas incapaz de cair sobre a borda. Seu braço foi arremessado para o lado, como se estivesse me convidando para me aninhar no oco. Eu rastejei pela fresta de luar prata e me enrolei em seu braço. Instintivamente, o braço apertado ao meu redor, me puxou para mais perto. Por breves momentos abençoados, eu me sentia segura. Eu sabia que ele iria me proteger. Ele

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sofreu dores e lesões para me proteger. Ele levou um tiro por mim. Em seus braços, eu sabia que estava segura. Adormeci, sem sonhos, sem memórias. Apenas os braços do Hunter, seu cheiro e sua força. Acordei gradualmente. Eu sabia desde o frescor do ar e o silêncio que ainda era noite. Eu senti algo áspero e suave deslizando por minhas costas. Hunter, me tocando. Foi um toque reconfortante, não um toque sexual. Como se ele apenas quisesse saber o que eu sentia. Eu me perguntei se ele queria se aproximar de mim do jeito que eu quero estar cada vez mais perto dele. Eu quero seu toque. Meu medo não é que ele vá me machucar. A essa altura eu sei que ele não vai. Meu medo é que uma vez que deixá-lo me tocar, uma vez que deixá-lo fazer o que quiser comigo, que ele não vá me querer mais. Ele irá embora e me deixará sozinha novamente. Ele esperará que eu seja a prostituta, Sabah para ele, ao invés de Rania. Eu tenho medo do quanto eu quero que ele se mantenha tocando. É estranho, não natural, esse poderoso desejo. Eu não desejo coisas. Eu tenho o que eu preciso para me manter viva, e isso é tudo. A única coisa que eu sempre desejei é não ter de vender o meu corpo mais. Hunter não pode me dar isso. Ninguém pode. Vou ser uma prostituta, até que eu esteja muito velha e muito feia para os homens me quererem, e depois vou morrer de fome como eu deveria ter morrido há tantos anos atrás. Estou congelada, incapaz de responder, incapaz de parar as mãos explorando. Minha perna está estendida sobre a dele, casualmente íntimo. Eu quero puxá-la de volta para mim, reunir meus pés debaixo de mim e correr para a noite, longe deste desejo ardente pelo meu corpo e alma como fogo consumindo papel. Logo, a minha vontade de resistir será cinzas ao vento. Allah me ajude, ele está acariciando minha perna agora. Um pouco acima do joelho, ainda inocente, mas cada vez mais ousado e familiarizado com cada centímetro que a palma da mão desliza subindo. Eu tenho que lutar contra mim mesma para manter a mentira de estar

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dormindo. Inspiro, expiro, respirações lentas, firmes e profundas. Talvez eu seja capaz de simplesmente deitar aqui e deixá-lo me tocar. Eu não tenho de retribuir o seu carinho. Eu posso resistir. Meu desejo não tem que ditar as minhas ações. Oh, eu sou uma tola por pensar assim. Agora sua mão está descansando assustadoramente, tentadoramente perto do meu traseiro. A borda da mão escova a parte inferior da minha nádega esquerda, e Allah, Allah, eu quero que ele se mova mais. Eu quero que ele me toque intimamente, sexualmente. Eu quero. Devo admitir a verdade para mim, só para mim mesma. Eu também devo admitir que eu tenho medo, por tantas e tantas razões. Eu não deveria deixá-lo. Eu não deveria me deixar. Mas eu vou, não vou? Não há nenhum ponto em fingir por mais tempo, não é? Não, realmente não. Eu aperto meus olhos fechados apertados, me xingando por ser mil vezes tola. Então eu abro os olhos, olho para ele. Seu perfil é tão bonito, tão forte. Seu cabelo é grosso, negro como as sombras mais profundas, e ficando um pouco longo, enrolando em seu pescoço e varrendo a testa. Ele não está olhando para mim, seus olhos estão fechados, apertados, como os meus estavam. Ele também está lutando pelo controle, eu acho. Nós dois estamos lutando contra isso, lutando contra nós mesmos. Ele olha para baixo, agora, encontra os meus olhos, e eu sei que eu perdi a minha batalha para resistir a esse guerreiro americano. Seus olhos estão brilhando à luz do luar, o azul lavado em esferas prateadas, sua pele bronzeada como o mármore. Eu não tenho orado nos últimos anos. Chamei a Deus, blasfemo talvez, em momentos de dor ou medo. Mas desde que eu era uma menina que eu falei a Deus como uma entidade ou deus que possa cuidar, ou ouvir. Eu faço agora. Deus, o todo-misericordioso e todo-compassivo, me ouça agora. Protejame de mim mesma. Proteja Hunter da loucura de que estou prestes a fazer. Você vê que eu sou fraca, Allah. Você vê, e se você se importa, esteja aqui agora.

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Eu me sinto infantil, tola, por rezar neste momento. Eu sou incapaz de me parar agora, porque eu sinto a decisão no meu corpo, no meu coração. Minha mente, minha razão e a lógica, eles me dizem que eu sou uma idiota, uma menina fraca para estar deitada nos braços deste homem, a deixá-lo me tocar assim com tanta familiaridade. Ainda mais por considerar a intenção que está girando como fogo no meu sangue. Todo esse tempo, os olhos de Hunter estão fixos em mim, me observando. Eu sei que se eu deixasse claro que não queria a sua mão em mim, ele iria respeitar esse desejo. Eu quase pedi para ele parar de me tocar, simplesmente para testar a minha teoria, mas no final eu não preciso. Eu sei. Eu não respiro, e meus pulmões protestam. Tomo a decisão de lançar-me para fora da borda desse abismo, dos fluxos de desejo que correm por mim como as águas de enchentes por meio de um barranco, e eu sugo uma respiração tremente, queimando meus pulmões queimando com ar frio. Eu subo minha mão por entre nossos corpos até tocar seu rosto barbado. Sua mão desliza para baixo da minha perna, na direção errada, e então de volta para cima, e eu sinto minha respiração crescer rasa, em pânico ofegante. Ele para na borda de fora da minha bunda de novo, mais uma vez, esperando que eu o pare. Levanto o meu queixo ligeiramente, um gesto silencioso de permissão. Ou, talvez, desafiando-o a me tocar. Não, não é isso. Eu estou me desafiando. Deixe-o me tocar, a elevação diz. Ele faz. Meu coração martela loucamente enquanto sua mão queima um rastro quente sobre minha bunda, escavando e acariciando. Eu poderia chorar a partir da pressão de prazer que seu toque provoca. ― Rania, eu... - Ele começa. Eu toco meus dedos sobre os lábios, silenciando-o. Não quero palavras, em qualquer idioma. Eu quero a linguagem do toque. Ele diria, ele iria discutir, iria tentar me convencer,

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convencer a si mesmo porque não. Não me importo com nada disso mais. Eu sei o que ele quer, e eu sei o que eu quero. Corro os dedos na frente do seu corpo para os botões da calça de camuflagem. Tenho medo deste momento. Tanto medo de muitas coisas. Não é nada que eu não tenha feito, mil, mil vezes desde que primeiro permiti Malik ter seu jeito comigo em troca de comida. Mas... Isso é diferente. Eu quero o conforto de Hunter, eu quero seu toque, e esta é a única maneira que eu conheço para me certificar de que ele não me afaste. Devo dar o que ele quer. Eu fortaleço minha determinação, sentindo a dureza se formando em meu estômago. É a dureza de fazer o que eu preciso. Sim, isso é diferente, isto é obter algo que eu quero ao invés de algo que eu preciso, mas... É o suficiente. Eu passo para desfazer o primeiro botão, mas meus dedos são presos por Hunter. Seus olhos estão me sondando, olhando para mim. Seus dedos emaranhados com os meus e os move longe de suas partes íntimas, de volta até seu corpo, colocando minha mão em seu rosto mais uma vez. Não estou entendendo. Eu pensei que isso era o que ele queria? Ser tocado? Para alcançar a liberação? Eu disse que não queria palavras, mas eu sinto a minha boca se abrindo para perguntar o que ele quer de mim. Em vez disso, ele me beija. Eu quero chorar, mas não posso. Este prazer é a dor. Seus lábios nos meus são quentes, molhados e famintos, devorando minha boca, como se estivesse morrendo de fome. Sua mão segura minha bunda e explora-a. Não posso deixar de lamentar o que desliza para cima da minha garganta. É um som de desespero. Como ele sabe o que eu quero? Ele pode ler minha mente? Meu medo está desaparecido, evaporado pelo calor do seu beijo. Tudo o que sei é o seu corpo duro contra o meu, sua boca procurando a minha, a mão sobre a minha carne, incitando tal desejo ardente que vou ser em

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breve consumida por ele. Ele recua para trás para olhar para mim, mas não é isso que eu quero. Mais beijos. Mais. Eu preciso dele. Deus, me ajude, eu preciso dele. Eu não sei o que fazer, o que está acontecendo. Tudo o que sei é que sua boca na minha é mais felicidade do que eu já conheci, e não quero que ele nunca, nunca pare. Eu movo-me para beijá-lo, mas ele se afasta, me provocando. O que é este novo jogo? Eu não gosto dele. Quero seus lábios. Ele ri de mim, divertindo-se com algo que não consigo entender. Então ele me beija de novo, para acalmar as perguntas que deve ver borbulhando em mim. Eu me afogo em seus beijos. É como estar caindo, cercada por ele. Envolta por ele. Eu lamento mais uma vez, e sinto o seu corpo responder. Ele me quer. Eu conheço o desejo que um homem sente. Ele não faz nada para aliviar seu desejo. Ele só me toca, desliza pelas minhas costas, a minha perna, acaricia minha bunda, de um lado e depois

o

outro,

tão

ternamente.

Seu

toque

acalma

a

minha

preocupação, enterra meu pânico sob o fogo do desejo e algo mais, algo mais suave e mais potente do que o mero desejo. Nos separamos novamente, e seus olhos, oh, Deus, eles contêm muito. Eu não posso colocar nomes nas emoções que eu vejo em seus olhos. Eu não me atrevo. Isso seria convidar ainda mais desgosto. Ele está jogando um jogo comigo. Ele vai conseguir o que quer, e o que vai ser isso. Ele é um homem. Os homens são todos iguais. Ele vai descer para o sexo. Talvez ele não vá me pagar, mas esperá-lo gratuitamente. O que me faz ainda mais tola, não é mesmo? Eu não posso resistir à atração magnética que ele tem sobre mim, a magia que ele está usando para controlar meus desejos, as minhas ações. Seu beijo, este encontro de lábios, contém tudo o que eu vi em seus olhos. É... Muito. Um sol explode em meu coração, iluminando o meu corpo em chamas, queimando as altas paredes erguidas para proteger o meu coração.··.

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Eu choro agora, porque o meu coração será quebrado. Eu estou mentindo para mim mesma. Eu sei melhor. Eu choro porque eu nunca senti tanta ternura vulnerável voltada para mim em toda a minha vida como Hunter expressa isso em um beijo. Primeiro, ele está com fome, por mim, desejo de um homem para uma mulher, então ele está me beijando como se... Como se ele sentisse... Não! Eu não posso permitir tal loucura errante em qualquer lugar no meu coração. Mas eu choro, porque eu sei o que eu sinto por ele, mesmo que não possa e não me atreva a permitir que isso seja nomeado. ― O que você está fazendo para mim, Hunter? - Minhas palavras sussurradas são ditas para mim, mas ele ouve, compreende-as. Ele olha para mim, e então eu vejo resolução firmando em seus olhos. Sim. Agora ele virá. Mas suas palavras me param.·. ― Confia em mim? - Seu sotaque é horrível, sua pronúncia massacra as sílabas simples, mas eu entendo o seu significado. Confio? Devo fazer isso? Eu não sei o que ele vai fazer. Nada sobre esse homem é o que eu espero. Eu estou balançando minha concordância, embora não tenho certeza de nada. Medo novamente brilha através de mim, e ele não está me beijando para diminuir sua queima. Ele empurra o meu ombro, por isso estou deitada de costas. Seus olhos traem senão ternura hesitante, o desejo silencioso. Meu coração está batendo rapidamente quando ele próprio alavanca para cima, apoiando-se em um braço. Eu não sei como ele é capaz de estabelecer-se como está apoiado em um cotovelo, mas ele é. Eu posso ver a tensão nos cantos de seus olhos, mas ele parece simplesmente afastar a dor e se concentrar em mim. Eu sou uma estátua, imóvel nas minhas costas, apenas os meus olhos se movendo para procurar seus brilhantes olhos azuis. Agora ele me beija, e transforma o medo fervente em necessidade. Sua mão está no meu joelho. Minha bunda está contra o chão, então eu

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sei que ele não pode me tocar lá. Onde a sua mão se moverá agora? Para cima a palma da mão desliza, e eu sei a intenção dele então. Minha garganta fica seca, e as batidas do meu coração se intensificam. Ele pode realmente ter intenção de fazer o que eu acho? Meus clientes, eles pagam por uma coisa: alívio. Uma mulher disposta que não espera nada em troca. Um par de pernas para abrir, mas que não vai ter filhos para que eles sustentem. Os homens não me tocam lá. Eles não têm nenhuma razão para querer.·. Minha respiração é superficial, aproximando-se de pânico, e até mesmo seu beijo não pode me acalmar. Eu me afasto e assisto os olhos de Hunter. Ele para seu deslizar para cima no meio da coxa e espera de olhos abertos. Ele está pedindo a minha permissão para tocar-me no meu lugar mais privado. Por que eu estou com tanto medo? Homens empurram sua masculinidade dentro de mim lá. Não é uma coisa sagrada privada, a minha feminilidade. Mas... Sim, ele é. Seus dedos, não? Deus, eu estou aterrorizada com a ideia. As mãos são o meio de expressão, como os olhos são as janelas da alma. O que ele quer? Por que ele quer me tocar lá? Ele não me deixou tocá-lo, mas ele vai me beijar. Ele vai me tocar, explorar minha pele. Ele pede permissão antes de empurrar os limites. Estou confusa e assustada, mas meus desejos vão me varrendo. Eu quero que ele me toque. Em todos os lugares. Sua mão na minha bunda sentiu-se maravilhosa. Foi emocionante. Não? Minha feminilidade? Eu não posso usar os termos vulgares. Eu não sei o porquê. Deixa-me desconfortável, como se usar os termos de gíria vulgar para as partes íntimas do corpo me faria ainda mais suja, mais ainda a prostituta. Eu faço o que devo para sobreviver, mas no meu coração mais secreto, eu ainda sou uma menina, inocente e pura. Eu não sou, na realidade, mas eu quero ser. Eu desejaria ser. Minhas ações refletem uma primitiva, necessidade primal e profunda para sobreviver, mas em minha alma, nos meus sonhos, eu sou uma boa

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menina, uma mulher que não cede à luxúria. Se não fosse a guerra, estaria casada e com filhos. Eu teria ido para a mesquita para adoração, em vez de atender clientes numa. A palavra maldição flutua em minha mente como uma mancha se espalhando. Ele ainda está esperando. Observando-me com paciência. Deve ver a guerra dentro de mim escrita no meu rosto. Se ele pode ler a minha ansiedade e minhas dúvidas, então ele pode ler o livro das minhas características bem. Para ler expressões de uma pessoa em seu rosto e enxergar sua alma. Posso lê-lo também. Ele quer que eu queira isso, mas ele não vai me apressar ou forçar-me, ou fazer qualquer coisa a não ser o que eu quero. Eu movo minha perna, assim pressiona contra a sua e eu sinto sua excitação, grossa e dura por trás de suas calças. Acho que entendo o seu jogo. Ele vai me deixar tocá-lo, porque ele acha que, corretamente, eu estou fazendo o que eu acredito que ele quer, esperar. Então, ao invés disso ele me mostra o que eu quero. Ele sabe o que eu quero, mesmo que eu não faça. Como é estranho. Sua mão está sobre minha coxa, seus olhos buscando os meus e meu coração bate tambor alto. Eu coloquei minha mão sobre a dele e, sem tirar os olhos de seu polegar, nossos dedos sobem lentamente, lentamente para cima, mais perto de minha intimidade. Eu engulo em seco e respiro profundamente. Levanto as sobrancelhas e sua mão diminui a velocidade. Ele sabe que eu estou com medo. Eu balanço minha cabeça e fecho os olhos. Minhas coxas são pressionadas firmemente juntas, a proteção instintiva. Eu não posso falar, não posso formar palavras, assim que eu digo a ele para continuar forçando minhas pernas a relaxarem. Seus dedos estão traçando círculos em cima da minha perna, patinando no meu músculo da coxa para o meu osso do quadril, o tecido apanhado da minha saia. Agora, ele desliza a mão achatada sobre o oco onde o quadril encontra o núcleo, e eu tremo, com tanta

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antecipação e medo. O que será sentir a sua mão em mim? Em mim? Eu não posso começar a imaginar. Desceu para o interior da minha perna agora, minhas coxas ainda tocando um ao outro, pressionando perto, e seus dedos deslizam entre eles a descendo. Eu preciso tocá-lo. Talvez isso vá me dar a coragem de deixá-lo ir mais longe. Eu coloquei minha mão em suas costas, sentindo o músculo vasto, duro e sulcado sob minha palma. Mais contato, mais calor. Eu deslizo minha mão sob a camisa, então eu estou tocando a pele quente, carne nua. Seus lábios encontram os meus, e agora necessidade dispara através de mim. Mais. Sim. Eu arqueio minhas costas e levanto o rosto para aprofundar o beijo, e agora a minha língua encontra sua boca para saboreá-lo, explorá-lo. A mão dele deriva para o meu joelho e aplica uma pressão suave para fora. Eu movo minha perna de lado uma polegada, e depois dois. Seus lábios se fecham sobre o beijo, e ele se afasta um pouco para ver o meu rosto enquanto move a mão na fenda entre as minhas pernas, calos ásperos escovam a pele macia. Ele não para neste momento, e seu dedo indicador faz o primeiro contato com a minha intimidade. Eu vacilo, e ele faz uma pausa, ao lado de seu dedo contra o meu núcleo. Minhas coxas estão esmagadas juntas, e eu forço-as separadas novamente, atraindo coragem com um profundo suspiro. Minhas coxas estão longe o suficiente, agora que ele é capaz de virar a mão para a sua palma segurar o monte de carne sensível. Minha respiração está entrando em pânico, suspiros curtos. O calor está ondulando pelo meu corpo, centrado em meu núcleo. Ele se move muito lentamente, como uma duna de areia rastejando. Seu dedo médio traça acima do vinco da minha condição de mulher, sem penetrar, apenas tocando. Eu lambo meus lábios e seguro seus ombros, viro a cara para pressionar contra a coluna de seu braço. Eu sinto vergonha subindo na minha garganta como desfiladeiro. Como posso deixar isso acontecer? Eu não deveria. Eu deveria parar

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com isso. Mas eu não quero. Seu toque é bom. Seu dedo médio traçando o vinco mais uma vez, envia um raio por mim. Eu deslizo minhas pernas mais distantes, aceno com a cabeça contra seu braço. Ele hesita, no entanto. Ele cutuca a minha testa com os lábios, empurrando meu rosto para longe de seu braço para que eu seja forçada a olhar para ele. ― Não sinta vergonha! - Diz ele em árabe mutilado. ― Você quer isso? Eu vou fazer você se sentir bem, se você me quiser. Suas palavras são confusas, mas eu sei o que ele quer dizer. Eu beijo seus lábios, convoco a minha coragem, e encontro seus olhos. ― Toque-me! - Eu digo na sua língua. ― Tenho medo, mas eu também quero. - Estou ciente de que eu destroço sua linguagem como ele faz com a minha, mas não me importo, contanto que ele entenda o que eu pretendo dizer. Ele me beija, ao princípio lentamente, docemente, castamente, em seguida, com a intensificação do calor. Eu cedo ao desejo, paro de lutar contra ele e beijo-o de volta com toda a necessidade que eu sinto em fúria dentro de mim. Eu beijo-o duro, enrolo a minha mão em torno da volta de seu pescoço para que ele não possa quebrar o beijo, esmago-o mais perto, provo a sua língua e

os

dentes.

Minhas

pernas

caem

abertas,

meus

calcanhares

ligeiramente puxados em meus joelhos deitados no chão. Ele toma isso como o convite é, e seu dedo fatia a linha das minhas partes íntimas e volta para baixo, empurrando sempre tão pouco com cada movimento para cima e para baixo. Sinto-me ao mesmo tempo quente e úmida lá embaixo, como se estivesse querendo que ele solte uma inundação dentro de mim. Preocupa-me que ele vá sentir a umidade dentro de mim e acho que é grave, e quase aperto minhas pernas fechadas, mas não o faço. Seu dedo desliza para dentro de mim, e eu ouço a sua respiração parar. Eu forço meus olhos abertos para que eu possa assistir o

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desgosto em seu rosto, mas eu só vejo o desejo, o prazer, um sorriso de alegria, mas a preocupação toca seus olhos. Então, algo selvagem, mágico e aterrador acontece. Ele enrola seus dedos para cima e escova a pequena saliência de carne sensível perto do topo das minhas partes íntimas e, quando a ponta de seu dedo me toca lá, meu universo explode. Eu ouço um gemido, alto e vergonhosamente devasso, fugir de mim. Eu pensei que estava repleto de calor e desejo úmido antes, mas no instante de contato do seu dedo com meu clitóris, um dilúvio de fogo e líquidos atira através de mim, me encharcando. Meu rosto queima de vergonha. Eu posso sentir o cheiro do meu desejo, e eu sei que ele faz, também. Certamente que o cheiro vai transformar seu desejo em cinzas, porque o rosto enruga em desagrado. Certamente. Eu vejo seu rosto, mas tudo que eu vejo é o seu olhar azul queimando no meu, e não há nada em seus olhos, mas preocupação para mim, e uma necessidade tão intensa captura minha respiração. Ele gosta disso. Suas narinas abrem e ele puxa uma respiração profunda, puxando o meu cheiro. Sua cabeça cai sobre meu peito entre os meus seios, e seu peito se ergue. Seus dedos enrolam contra meu clitóris, mais uma vez, tão lentamente quanto à mudança de areias do deserto. Minha garganta trai meu prazer com um longo e agudo gemido, meu corpo arqueia limpando fora da terra como um raio atinge o meu núcleo. O que ele está fazendo comigo? Eu não posso aceitar. É muito intenso. É muito. Meus calcanhares raspam a sujeira quando a onda de ecstasy rola em cima de mim. Ele espera até que minhas costas retornem a terra, e depois ele faz isso mais uma vez. Desta vez, porém, ele circunda o pequeno botão de carne com o dedo, devagar ainda, mas sem parar. Minha respiração arranha passando minha garganta, e um gemido bate os dentes e força minha boca aberta. Eu posso sentir meu rosto se contorcendo, meus olhos cerrados fechados, o rosto elevando

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para o teto, quando sensações que eu nunca soube que era possível passam

através

de

mim.

Tal

prazer

intenso

parafusa

quase

dolorosamente através de mim, enraizada no meu âmago. Tremo de êxtase lançando-me quando seus dedos redemoinham em volta do meu clitóris. Agora, ele se afasta do meu botão e seus dedos, dois deles, descem e empurram delicadamente na minha feminilidade... Minha vagina. Eu sei que existem outras palavras, eu ouvi tudo isso antes, mas eu não os quero na minha cabeça. Estou lutando com a vergonha o suficiente como é. Os sons que eu estou fazendo são devassos, altos e sem vergonha, apesar de minha mente continuar tentando me dizer para ficar quieta. Eu não posso. Eu não tenho controle sobre o meu corpo agora. Eu sou um fantoche, e os dedos de Hunter dentro de mim estão me controlando. Eu deixo meus olhos abertos e olho para baixo para vê-lo, vendo seu lado, seu dedo médio e anelar empurrando nas minhas partes íntimas. Ele está dentro de mim até a junta agora. Vejo-o acontecer. Deixo que isso aconteça. Aproveito. Sua palma enfrenta o meu corpo, e agora seus dedos curvados para cima, exploram minhas paredes internas. Minha respiração está chegando rasa, suspiros curtos, gemidos. Seus dedos enrolando escovam-me em um determinado ponto, alto no interior, e os relâmpagos tremem mais quentes do que nunca, enviam-me em uma contorção, espasmos impotentes, e ele não se contenta, mas pressiona o dedo para o meu clitóris e move-o em círculos rápidos, mal me escovando. Sinto uma pressão dentro de mim, e meus quadris estão se movendo por conta própria, balançando-se em sua mão enquanto ele move o polegar contra mim e os seus dedos dentro de mim. A pressão está subindo, subindo, transformando-se em fogo, em terremotos dentro de mim. Eu não sei o que está acontecendo. O medo é uma onda fria em meu coração, ameaçando apagar os incêndios que castigam em mim.

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Eu me sinto como uma chaleira prestes a transbordar.

Cada

toque seu me contorce e faz-me gemer. Sua cabeça repousa sobre o meu peito, na minha camisa, e sua respiração lava quente contra o meu pescoço. Ele também parece estar sobrecarregado, mal segurando a sua sanidade mental ou seu controle.·. Eu toco seu queixo para que ele olhe para mim. A vulnerabilidade que eu vejo em seus olhos é o que faz dentro de mim, eu estou numa borda, prestes a cair na loucura. Quero ver seus olhos, para que eu possa manter alguma aparência de controle em tudo isso.

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Meu Deus, ela é tão bonita. Ela mal segura. Eu posso ver como está com medo do que está além da borda. Ela está tão perto, a ponto de gozar, mas não vai permitir a si mesma. Ela está olhando para mim, o medo em seus olhos, o desejo em seus olhos, confusão, necessidade, preocupação, vergonha. Vergonha. Ela tem vergonha disso. Eu a vi corar quando eu a tocava. Ela está tão molhada, seu desejo um aroma pungente que me tem tão duro que eu poderia gozar se ela só escovar sua coxa contra o meu pau. Apenas o cheiro da sua buceta é suficiente para me fazer perder o controle. Eu não consigo tirar os olhos por mais tempo. Eu deixei minha cabeça baquear para baixo contra o peito. O algodão fino de sua camisa está tenso pela elevação de seus seios, cada monte puxado pela gravidade. Seus mamilos são contas cutucando o algodão, tentando minha língua. Ainda não. Ela ainda não está pronta para isso. Meus dedos deslizam dentro de seu canal, e seu corpo se contorcendo contra mim. Eu toco seu clitóris com o polegar e eu sinto-a quase perdê-lo logo em seguida, mas não o faz. Ela está com medo. Como faço para fazê-la esquecer do seu medo? Eu a beijo. Deus, ela tem um gosto tão bom. Seus lábios me deixam louco, o jeito que ela morde no meu lábio inferior, a forma como a língua traça meus dentes... Eu quero beijá-la para sempre, mas não posso. O clitóris está um botão duro, intensamente sensível. Só de escovar seu clitóris, ela choraminga. Seu ponto G é áspero, remendo com nervuras de pele, e ela geme quando eu esfrego-o com os dedos, quadris resistindo contra a minha mão.

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Estou tão duro, tão duro. Estou prestes a gozar nas minhas calças apenas por tocá-la, apenas por ouvi-la gemer para mim. Obrigado foda por ela não estar tentando me tocar, porque eu não teria autocontrole suficiente para impedi-la. Eu quero desesperadamente sentir seus dedinhos finos envolver em torno de meu pau, alisar e me tocar. Não. Isto é sobre ela, não eu. Ela se move debaixo de mim, deslizando para baixo, para os joelhos levanta-se, seus calcanhares batendo contra sua bunda, coxas bem abertas, enquanto eu a levo selvagem com meus dedos. Deslizando sua camisa ainda mais, e agora o inchaço fundo de uma mama é visível. Caralho porra! Eu não posso levá-lo, não posso ajudá-lo. Eu queria beijar os seios desde o primeiro momento em que ela acidentalmente me piscou durante a mudança. Eu os vi de novo desde então, mas eu sempre forçei meu olhar. Olhar era querer. Agora eu tenho meus dedos em sua buceta e seus sucos espalham na minha mão, e tudo que eu quero é tocar seus seios. Preciso. Foda-se. Eu desisto, cutuco a bainha com o meu nariz e seu seio fica completamente nu. Meu Deus... Tão perfeito. Um tenso, globo rodado de pele doce e sedosa, e com amplas auréolas escuras e altas, mamilos rígidos implorando por minha boca. Eu engulo em seco, trabalhando a minha língua para produzir saliva. Minha boca está seca, minha garganta fechou-se. Estou nervoso, estranhamente. Não é como se eu nunca fiz isso. Não por um longo tempo. Mas isso, com Rania... É diferente, de alguma forma. Eu olho em seus olhos, e ela está me olhando novamente através de olhos encapuzados. Eu retardo meus dedos dentro dela, e seus quadris diminuem a selvageria de sua resistência. Sua boca está aberta e os olhos traem suas emoções encharcadas. ―Por favor. - Sussurra.

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Eu não sei o que ela está pedindo. Parar? Mais? Fazê-la gozar? Eu não sei. Eu não quero machucá-la ou assustá-la. Eu quero que ela tenha esta experiência. O medo em seus olhos me diz que ela nunca sentiu isso antes, e eu não estou surpreso. Sexo para ela deve ser uma coisa impessoal, uma transação. Eu não posso imaginar que alguém já tomou o tempo ou o esforço despendido para lhe dar prazer. Isso deve ser confuso e assustador para ela, especialmente se acha que eu vou usá-la como ela está acostumada a ser usada. Eu não posso dizer que não vou. Não tenho as palavras, e eu quero. Eu quero estar dentro dela. Ela está tão perto de gozar, e eu quero-preciso, pra caralho me mover sobre ela e empurrar para dentro dela e sentir seu aperto em volta de mim. Ela é apertada, também. Eu não esperava isso, considerando seu trabalho. Culpa e vergonha ao pensar isso queima dentro de mim, mas é verdade. Eu não esperava que ela fosse apertada, mas ela é. ― Por favor! - Sussurra novamente, e toca o meu rosto para que eu a olhe. Ela arqueia as costas e balança seus quadris. Ela quer mais. Olha nos meus olhos, e, em seguida, tira a camisa dela de modo que está nua da cintura para cima, gloriosos seios nus ao meu toque, nua da minha boca. Deixei-me olhar por um tempo, então tomo a extensão da pele e montes de carne. Sua respiração vem em ofegos rasos, e eu posso sentir a tensão em seus músculos. Descobrindo como isso está tomando esforço, coragem. Eu quero tocar seus seios. Eu gostaria de poder ajoelhar-me em cima dela, por isso tenho as mãos livres para tocar todo o seu corpo, mas as minhas feridas não vão deixar, e não acho que ela iria reagir bem em ter-me em cima dela assim. Eu levo meus dedos dela, e ela geme em protesto. Suas bochechas em chamas de vergonha quando eu levanto os meus dedos ao meu nariz para inalar seu cheiro aromático. Eu acho que ela tem vergonha do musk do desejo de seus sucos. Coloco meus dedos na minha boca e provo sua essência, encontrando seus olhos o tempo todo. Seus olhos se arregalaram em puro choque e

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descrença, talvez até mesmo algo como repugnância. Eu não posso evitar um pequeno riso de escapar a expressão em seu rosto. Eu furto em sua fenda, novamente, reuno essência em meus dedos e lambo-a novamente, só para provar o ponto. Sua testa enruga, e ela balança a cabeça. Eu deslizo minha mão em suas costelas, e sua expressão suaviza em prazer quando eu seguro o peso pesado de um seio na minha mão. Ela me olha enquanto eu baixo o meu rosto para a pele, beijo-lhe a carne entre os seus seios, amassando-o. Eu esfrego a palma da mão em seu mamilo, e ela engasga. Quando eu rolo entre meus dedos, ela morde o lábio para não gemer alto. Eu gostaria de poder dizer a ela o quanto eu amo os barulhos que ela faz por mim. Eu não posso, não tento. Palavras me falham. Sua beleza me captura, prende a minha capacidade para a linguagem. Tudo que posso fazer é prestar uma homenagem ao templo do seu corpo. Eu belisco o mamilo novamente, deliciando-me no suspiro que rasga dela, e então eu tomo seu mamilo em minha boca e mamo, e sinto a alegria explodir através de mim quando ela geme tão alto que é quase um grito.·. Eu me pergunto que louco êxtase que eu poderia fazê-la se eu descesse nela. Deus, ela iria responder tão bem. Eu posso quase sentir as coxas apertando meu rosto enquanto ela se contorce contra a minha boca. Eu posso quase sentir os dedos puxando meu cabelo e ouvir sua voz crescer em prazer. Eu não sei se ela está pronta para isso. Eu lambo sua pele, agito seus mamilos, um de cada vez, com a minha língua, e eu volto meus dedos para sua buceta, deslize-os contra seu clitóris

lentamente,

circulando

suavemente,

consciente

de

sua

sensibilidade. Ela suspira e geme e geme, todo o controle sobre suas respostas vocais disparam para o inferno agora. Eu amo isso. Foda-se, eu tenho que parar de pensar nessa palavra. Essa palavra não é possível. Ela se

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sente tão bem pra caralho. Sua pele é quente flamejante contra mim, os seios mais suaves do que a seda macia, seus quadris balançando e se contorcendo contra meus dedos. Eu tenho que lutar contra mim mesmo para ficar aqui, para me impedir de assustá-la muito. Ela ainda está arisca. Mas, caramba, eu quero prová-la. Eu sei que ela gostaria disso, uma vez que o choque passasse. Eu realmente não deveria. Iria assustá-la. Mas eu quero fazê-la gozar, quero provar como ela se desfaz em torno de mim.··.

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Deus, eu estou tão perdida no êxtase que Hunter dá que eu não tenho controle sobre nada que faço. Ouço minha boca fazendo esses sons chocantes, não falsificados agora, mas reais. Meus joelhos estão aderindo-se no ar, meus calcanhares contra minhas costas, meus quadris se movendo como se eles estivessem vivos, enquanto Hunter move os dedos contra mim. Sua boca está nos meus seios, passando de um para o outro freneticamente, mordendo, beijando, lambendo. De vez em quando ele morde meu mamilo, com força suficiente para fazer-me louca, para enviar jatos de prazer girando dentro de mim. Eu senti-o mover-se, mas não posso imaginar o que ele poderia estar fazendo. Eu não posso pensar, não posso formar ideias coerentes. Tudo o que eu sei é que seus dedos estão dentro de mim, com a boca nos meus seios. Seus dedos nunca deixam seus movimentos, e estou prestes a explodir, mas não posso. Ainda não. Eu não sei porque, mas eu não posso cair sobre a borda. Tenho medo do que está além, o que vai sentir, mas eu também quero, mais do que já quis alguma coisa. Eu senti-o movendo-se lentamente, ajustando sua posição, mas os meus olhos estão colados fechados equanto seus dedos me tocam, movendo-se devagar e, em seguida, rápido e lento, me preenchem. Eu sinto seus ombros escovarem meus joelhos, e eu sei que ele vai me montar agora, e não estou mesmo com medo, especialmente se isso significa alívio desta pressão em ebulição dentro de mim. Mas ele não me monta. Seus lábios tocam meus seios, o peito vestido de camisa escova meu estômago. Então, incrivelmente, terrivelmente, ele se move para baixo. Em direção às minhas partes íntimas. Não. Não. Eu

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tensiono, congelo, mas seus dedos no meu clitóris assumem em mim e eu movo mais uma vez, mas o meu medo não diminui. Quando ele lambeu os dedos que estavam dentro de mim, eu quase morri de vergonha. O cheiro é bastante embaraçoso, mas quando ele lambeu a umidade fora, a umidade que eu podia ver brilhando em seus dedos, era mortificante. E agora... E agora ele está se movendo como se colocasse a boca na minha vagina. Eu ouvi isso, é claro. Soldados são bestas vulgares, e eles contam piadas vulgares, sugerem coisas vulgares. Eles sugerem isso mesmo, mas quando eles me visitam com seus gordurosos, notas dobradas, eles não seguem adiante. Não que eu teria deixado-os. Eu tenho que manter algum senso de poder se vou sobreviver. Eu ditar o que eles podem fazer, e deixar que um homem faça o que Hunter está prestes a fazer, estaria dando o pequeno vestígio de poder que realmente têm. Isso seria vulnerabilidade. Só que eu vou deixar isso acontecer. Sua boca sai do meu peito e eu sinto sua respiração no meu estômago, e agora é quente nas minhas partes íntimas, me queimando. Eu sei que estou em pânico, verdadeiramente em pânico agora. Minha respiração sai em suspiros irregulares, e meu coração está trovejando como os cascos de mil cavalos. Seus dedos continuam a mover-se, e o desvio de prazer centrado fortemente no meu núcleo é a distração suficiente para que eu não vá completamente louco. E então sua língua volteia em meu âmago, e estou perdida.

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Meu Deus, ela tem um gosto tão bom. Suas fortes coxas macias descansam sobre os meus ombros, tremendo como uma folha ao vento, e eu não posso acreditar que ela iria me deixar fazer isso, mas ela vai. Seu corpo inteiro está tremendo, tremendo. Sua respiração está em pânico, cada inspiração um gemido, cada expiração um gemido. Esta posição, no meu estômago, é insuportável. É muito peso sobre as minhas costelas curando, e eu mal posso respirar pela agonia, mas não me importo com nada, nada, exceto Rania neste momento. Ela está mais perto agora. Eu furto a minha língua até sua fenda e ela geme baixo em sua garganta, sacudindo a cabeça, negando o quê eu não sei, e seus quadris elevando caem. Eu colo a minha língua contra o clitóris, um impulso para cima com a ponta da minha língua, e ela engasga um grito. Eu faço isso de novo e de novo, e cada vez ela faz um som tão incrivelmente erótico que meu pau empurra e quase o perco novamente. Eu tenho que reprimir com cada músculo do meu corpo para não explodir ali mesmo, como se eu tivesse quatorze anos e virgem novamente. Eu lambo seu clitóris em um ritmo, e agora seus quadris vão à loucura, e sim, Deus, sim, seus dedos agarram meu cabelo. Ela não parece saber empurrar-me contra sua vagina ou me afastar. Ela se contenta com apenas enrolando os dedos no meu cabelo com força suficiente que dói, mas a dor é apenas uma gota no oceano se comparado ao fogo em minhas costelas, a queima em meus pulmões. Quero dizer, foda-se machuca. Eu não paro, no entanto. Eu vou parar quando ela gozar. Ela está perto, tão perto.

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Eu quero a sentir quebrar em torno de mim. Suas pernas estão apertadas tão forte que eu quase estou preocupado que ela vá estourar minha cabeça como uma uva, mas, em seguida, ela se lembra e diminui a pressão.·. Eu deslizo os dedos debaixo do meu queixo em sua boceta, concentrando a minha língua sobre seu clitóris em círculos cada vez mais rápidos, e eu esfrego o ponto G com os dedos para combinar com o ritmo. Eu levo seu clitóris em minha boca e chupo-o, sacudindo-o com a minha língua como fazia com... Não, não vá lá, nem mesmo pense o nome dela, ela não responderia assim. Rania tenta abafar um grito cerrando os dentes, seu corpo arqueado do chão, com os dedos entrelaçados no meu cabelo. Sim, agora...

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Oh, Deus, oh, Deus, oh, doce céu...·. Apelo ao deus cristão, o deus do meu pai. As palavras são arrancadas de meus lábios, gritos reais. Passei o sentimento de vergonha para os ruídos que estou fazendo. Sua boca faz coisas com o meu corpo que eu não consigo entender, não consigo entender, não posso suportar. É muito, muito intenso.·. Eu quero enfiar seu rosto na minha intimidade, mas eu não posso permitir-me fazê-lo, porque é demais para parar. Sua língua move em meu clitóris e eu quase choro, mas suspiro em vez. Seus dedos deslizam para dentro de mim, assim como eu começo a pensar que não posso sentir mais incrivelmente intenso, e eu poderia morrer da tempestade de fogo em minha barriga.·. Como isso pode continuar? Como ele pode fazer isso? Eu posso ouvir o grunhido em seu peito, a teimosa recusa a capitular à dor, e eu não posso acreditar que ele é capaz de se mover, e muito menos de me dar tanto prazer incrível. Este é um presente, eu percebo. Vou guardar isso toda a minha vida, aconteça o que acontecer uma vez que isto terminar. Meu corpo está se contorcendo como uma serpente, minhas costas ondulando, meus quadris levantando e caindo. Minhas mãos estão em sua cabeça, meus dedos em seu cabelo. Eu ainda estou

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dividida entre instintos conflitantes para afastá-lo e puxá-lo para mais perto. Quando seus dedos dentro de mim vão de novo e acham esse ponto

infalivelmente,

eu

perco

a

luta.

Eu

agarro-o,

puxo-o

desenfreadamente, egoisticamente contra a minha feminilidade. Então sua boca forma uma sucção no meu botão e eu grito. A minha barriga incendeia a pressão, a tempestade, ele está prestes a quebrar. Ele fica mais lento, apenas naquele momento, e eu gemo em protesto. ― Hunter... - Seu nome sai da minha boca, arrancado de mim. Eu aperto meus dedos em seu cabelo até que eu sei que deve machucá-lo, mas estou além da capacidade de me preocupar com alguma coisa. Puxo-o contra mim, empurro o rosto mais profundo dentro de mim, as minhas pernas em torno de seus ombros. É preciso toda a minha força para não esmagá-lo com as minhas pernas. E depois... E então acontece.·. ― HUNTER! - Eu grito seu nome quando eu explodo, chegando a rebentar pelas costuras. Cada fibra do meu corpo está em chamas e eu sou impotente, presa pelo raio, todos os músculos apertando e soltando, luzes explodindo atrás dos meus olhos, meus quadris empurrando contra sua boca loucamente como ele suga e lambe e movimenta com a língua, levando a detonação dentro de mim em ondas cada vez mais furiosas de orgasmo. Eu não posso sustentar isso e fico inerte, incapaz de me mover, desabo em exaustão. Hunter para então, quando eu entro em colapso. Ele descansa seu rosto contra o meu quadril, e eu posso sentir as manchas suor na testa. Seu corpo treme. Eu me inclino para frente e puxo seus braços. Ele rasteja lentamente de volta ao meu lado e, em seguida, cai em suas costas. Ele está ofegante, suor está escorrendo de sua face, e seus olhos estão fechados. Suas mãos estão cerradas em punho.

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Eu toco seu peito. ― Hunter? Você está bem? - Ele acena com a cabeça. ― Tudo bem. Só... Preciso de um minuto. - Ele responde em inglês. Eu mal posso respirar, e eu sinto os meus olhos ardendo. Eu ainda estou tremendo, e até mesmo quando eu deito me preocupando com Hunter, um tremor me atinge, uma mini-explosão através de mim, e eu enrolo contra o lado de Hunter até que ele diminui. Seu braço envolve em torno de mim, puxando contra ele. Nós trememos e trememos juntos por longos minutos. Meu olhar percorre seu corpo, seus músculos grossos relaxando enquanto a dor regride, seu estômago não está mais exigente com cada respiração. Meus olhos pegam sua virilha. Eu posso ver sua masculinidade marcando atrás dos botões de sua calça. Ele está enorme e duro. Ele ajusta-se com a mão, empurrando a sua masculinidade através de suas calças, empurrandoo de lado, de uma maneira e depois o outro, como se estivesse em busca de um conforto que não virá. É hora de retribuir-lhe. Eu toco seu estômago, minha mão deriva para baixo, mas ele pega meu pulso novamente. Eu encontro seu olhar. ― Por quê? - Pergunto, em inglês. Ele responde em árabe. ― Não é para mim. Não esta noite. Outra. Talvez. - Ele me beija suavemente. ― Isto era para você. Só você. - Seus olhos traem o fato de que ele ainda está em agonia, as linhas de sua testa profunda, os cantos de seus olhos enrugados em foco. Ele enrosca nossos dedos em seu estômago, como se

quisesse

certificar-se

de

que

eu

não

vou

tentar

tocá-lo.

Isso realmente foi um presente para mim. Não espera nada em troca. Ele colocou-se através da dor inimaginável para me dar prazer, o maior prazer que eu já conheci, e não me deixa fazer nada para ele em troca. Eu não posso parar os soluços então. Isso é demais para suportar. O que vou fazer quando ele se for? Outro pensamento me ataca, e este é preocupante, me fazendo soluçar incontrolavelmente: Como eu vou trabalhar agora? Eu provei o céu, e eu não posso esquecer. Eu conheci o prazer que é possível. Vai ser difícil. Não, será impossível.

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Eu olho para Hunter. Ele está dormindo, suas belas feições relaxadas. A testa ainda está enrugada com a dor. Eu não posso parar a minha mão de tocar seu rosto, suavizando as linhas. Eu toco seu rosto e maravilho-me que um homem pode conter tanta fúria que eu vi quando ele lutou com Abdul, junto com a ternura com que ele me beija, a força e a teimosia de recusar que sua dor o paralise. Eu sei que ele me quer. Vejo o jeito que olha para mim. Senti quando ele me tocou, quando beijou meus seios, quando se moveu para começar a sua jornada para baixo. Ele negou-se o prazer, em vez de tomar a dor. Deixou-me chorar, pressionando meu rosto contra o peito, longe da área sensível em que foi ferido e, eventualmente, caí no sono, segurada perto nos braços de Hunter, contente, confusa, repleta de prazer físico e dor emocional. Um último pensamento penetra a neblina de sono iminente: Isso é amor?

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Sou acordado por uma voz masculina gritando o nome de Rania. Rania, não Sabah. Antes de podermos nos mover, um jovem de aspecto familiar aparece na porta, arfando e suando de esforço extremo. Rania suspira, e eu olho para ela. Ela está pálida e visivelmente abalada. ― Hassan? Merda. Esse é o seu irmão, a quem tanto pensava estar morto. Rania ainda está nua, exceto por sua minissaia, e ela se senta, nua com os mamilos enrugados no ar frio. Seu irmão para na porta, para com o que vê: sua irmã nos braços de um soldado americano. Ele começa a tagarelar em árabe muito rápido para eu seguir. Rania escuta, segurando o lençol contra o peito. Meu coração está batendo, e eu posso sentir a adrenalina começar a correr através do meu sistema. Minha pele está formigando, e minha coluna está tremendo. Estou suando, mesmo que faça frio na madrugada. Batalha. Rania me diz que seu irmão está afirmando que Abdul está vindo para nos matar. Aquele covarde mal do caralho, buceta de camelo que tentou estuprar Rania. Ele acha que vai se vingar.

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A fúria ferve através de mim. Há cerca de cinquenta homens que vêm para nós, Hassan diz. Dirijo-me a Rania, que colocou uma camisa e sapatos. ― Esconda-se. Não saia por nada. Não importa o que você ouvir, fique escondida. Eu virei para você. Ela balança a cabeça. ― Hunter, você não pode fazer isso! - Seu inglês é quase ininteligível. ― Você está machucado gravemente. Por favor. Venha comigo. Vamos fugir! Eu arrebato o rifle das mãos de Hassan, verifico o clipe, e depois miro para fora da porta. Minha perna arde com cada passo engatado, mas não tenho tempo para a dor. ― Eu não estou fugindo, Rania. Eu sou a porra de um fuzileiro naval. Marines não correm! Hassan me segue, tagarelando em um rápido árabe zangado. Eu não pego nada disso, mas estou supondo que o irritei por ter tomado seu rifle. Eu oscilo em torno e enfrento-o. ― Proteja a sua irmã. Esconda-a. Proteja-a! ― Dê-me a minha arma, americano! – Diz ele lentamente, em árabe. Eu entrego-lhe a minha faca. ― Use isto. ― Espere! - Disse Rania. Ela sai arrastando um pacote envolto em um lençol. ― São suas armas, Hunter. Eu não sabia o que fazer com elas, então eu escondi. Eu abro o pacote para ver o meu M16, peças de clipes, e armadura corporal, que está golpeada e manchada de vermelhoferrugem, com o meu sangue.

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― Foda sim! - Eu digo para mim mesmo. Lanço a Hassan seu rifle de volta e tiro a armadura em cima do meu batedor. Meu M16 poderia ter um pouco de amor, mas não há tempo para isso. Eu posso sentir a merda que vem. Meu sangue corre quente, pronto para a batalha. Eu vou eliminar esse maldito bastardo Abdul. Ele está morto, ele só não sabe disso ainda. Eu sinto uma pequena mão no meu braço, e a respiração de Rania no meu pescoço. Eu envolvo-a perto com um braço. ― Esconda-se, Rania. Eu vou ficar bem. Isto é o que eu faço. - Ela olha para mim, os olhos castanhos líquidos agora, chocolate quente emoldurado por mechas loiras soltas. ― Por favor, Hunter. Venha comigo. Vem. São muitos deles. Você é apenas um homem. Eu... Por favor. - Ela cola os lábios quentes e macios nos meus. Suas próximas palavras são sussurradas. ― Eu preciso de você! - Estou abalado até o âmago da minha alma por sua admissão. Ela precisa de mim? Estou tentado. Seria fácil apenas correr. Mas, taticamente, eu sei melhor. Eles vão nos pegar. Eu não posso correr. Eu posso emboscá-los, combatê-los de porta em porta. Desço balançando. Dar a Rania uma chance. Eu não espero fazê-lo por isso, mas eu vou muito bem dar-lhe uma tentativa. Ooh-rah. Eu não sei o que dizer a ela. Estou em modo de batalha. Desligado. Duro. Eu não sou mais o Hunter que ela conhece. Sou Lance Corporal Lee, USMC. Sempre pronto, cadelas! Eu olho para ela, escovo uma mecha de cabelo atrás da orelha com o meu dedo indicador. ― Vai ficar tudo bem. Eu prometo. - Ela franze a testa e se afasta de mim. ― Vá, então! - Ela parece estar com raiva. ― Homens estúpidos. Sempre dispostos a lutar! - Ela se vira e corre, desaparece em torno do lado da mesquita. Hassan ri. ― Ela tem medo por você, americano. Ela está com raiva de mim por me tornar um soldado. - Seus olhos são duros e desafiadores. ― Eu matei muitos de sua espécie.

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Eu pisco. ― Só mantenha-a segura. - Ele cospe. ― Pela primeira vez na minha vida, eu vou! - E então ele se foi, correndo atrás dela. Finalmente, estou sozinho. Giro no lugar, procurando o melhor local. Lá, uma lataria de carro que foi queimado empurrando contra a parede em um ângulo, não muito longe de um beco. Cobertura e um retiro. Eu manco para ele, me escondo em um agachar agonizante. Posso ver a estrada em ambos os sentidos, e o beco atrás de mim não é um beco sem saída. Tudo o que tenho a fazer é esperar. Lá, um cara escuro abaixo do vermelho e branco de um keffiyeh. Espero por ele. Meu dedo espasma no gatilho, vendo o rifle em suas mãos, mas eu espero. Broto a emboscada depois que eles estão comprometidos. Dois, três... Seis... Dez. Todos em uma linha. Eu não tenho nada além de granadas, meu rifle e três clipes. Eles estão parando, agora, aglomerando-se ao redor da mesquita. Vejo Abdul, caminhando no meio de um grupo de bandidos fortemente armados. Agora! Crackcrackcrack. Eu deixo cair duas, um spray molhado rosa formando uma névoa, flores vermelhas em caixas. Eu não entendo Abdul, que abaixa e corre assim que os tiros ecoam. Crackcrack... Crackcrack... Crackcrack. Mais quedas, espalhando vermelho vivo no pó. Eles ainda não podem ver a partir de onde estou disparando, então eu continuo disparando. Minha perna ruim está abaixo de mim, gritando, minha boa perna apoia o meu peso, tenso, pronto para me impulsionar em voo quando avistar minha mira explodir. Eles estão caindo como moscas. Eu não sinto pena. Há muitos deles agrupados na rua. Estavam esperando emboscar, não serem emboscados. Foda! Obrigado pelo aviso Hassan! Então eles me vêem. Ou melhor, eles vêem o flash de fogo do meu M16. Eu abaixo atrás do carro enferrujado, ouvindo a conversão metálica e silvar de balas acertando o veículo, o estalo, a vibração, um

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assobio

passando

próximo

ao

meu

ouvido.

Eu

rolo

de

lado

laboriosamente, mudando posições. Meu peito queima, os músculos ainda não curados não estão prontos para empunhar um rifle, mas não há outra escolha. Hackhackhackhack... Hackhackhack. Algumas balas bateram muito próximas para o meu gosto, passando através do enfraquecido, enferrujado, metal enegrecido. Hora de mudar. Eu guino para os meus pés e me jogo para trás, disparando na massa. Eles estão se espalhando agora, em busca de janelas e portas. Eu passo pelo beco, esquivo através de uma porta aleatória, e rastejo para fora da janela, ignoro a mãe encolhida, as crianças e a avó velha no canto. Eu caio para o chão aproximadamente, xingando enquanto tento recuperar o fôlego. Eu rolo para o meu estômago, ofegante, entro em pânico quando meus pulmões lutam para liberar. Eu ouço o som abafado de uma ronda passando meu rosto, rolo mais uma vez, levanto o rifle e encontro, miro e abro fogo. Acerto, o feri, mas não o matei. Então eu ouço um som mais bem-vindo do que qualquer coisa que eu já ouvi em toda a minha vida: o crackcrack de resposta ao M16 à distância. Marines. Eu disparo novamente, picoto um cotovelo saindo de trás de uma parede. Crackcrackcrack. Lá, a partir do leste. Agora o fogo de uma AK vibra, vozes fuzilam individuais e se misturam com uma cacofonia. Acho que ouvi quatro rifles. Uma Infantaria. Lá, há o SAW, rajadas zumbido, serras curtas. Eu poderia chorar, estou tão aliviado! Faço isso para os meus pés e, em seguida abaixo novamente quando balas lamentando passam próximas ao meu ouvido, me lembrando que estou fora no aberto. Sinto um corte queimar picando ao longo do meu braço nu, uma bala risca uma linha vermelha. Eu corro sem jeito, arrastando minha perna dura atrás de mim. Eu preciso encontrar essa Infantaria.·.

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Eu rodo numa esquina e tenho que embaralhar de volta. Há um conjunto de lenços-de-cabeça vindo, eu sinto uma pontada de culpa ao insulto racial, pensando em Rania e nos insurgentes que se reuniram com Abdul no centro. Eles estão em torno de uma porta, e há um monte de gritos, apontando rifles, mas ninguém está atirando. Eu tenho que arrastar uma tradução apressada da minha cabeça girando: ― Me dê ela, Hassan! ― Não! Você é um diabo, Abdul! ― Um último aviso, rapaz...·. Eles têm encurralado Rania e Hassan. Porra! Merda! Foda-se! O que eu faço? Eu deslizo um clipe novo no lugar, olho ao virar da esquina, conto. Sete, além de Abdul. M16s ladram a algumas centenas de metros de distância, respondidas por AKs e interrompidas pelo SAW, e depois há o glorioso som de um M203, que tosse com uma granada, seguido pelo trovão maçante da explosão. Um RPG assobia bum. Não muito longe, movendo nessa direção. Eu tenho que corrigir isso. Não podemos deixar esse bosta-otário Abdul colocar as mãos sujas em Rania. Eu lambo meus lábios, arrasto uma respiração ardente, amasso o músculo uivante da minha coxa lesionada, desejo que isto acabe logo, gostaria de ainda estar segurando o doce corpo nu e suave de Rania contra o meu na cinza escura da madrugada. Não há tempo para isso, idiota! Rolo em torno do canto, na lareira, balanço o cano na horizontal, de forma imprudente, contra todo o treinamento. Miro nos filhos da puta para baixo. Levo-os olhando para cá. Uma bala agarra na parede de pedra e o silvo estala, agora tenho a sua atenção, penso comigo mesmo. Espero... Espero... Caio a um joelho, pivô, fogo. Flores de sangue, Abdul está gritando, gritando

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ordens. Preciso que ele morra. Porra morra, babaca! Gritos em árabe, maldições e insultos são direcionados para mim, e eu percebo que eu gritei duro em voz alta. Há três restando, além de Abdul. Eles estão vindo para cá, agachando-me, disparando, esgueirando. Abdul tem uma AK segurada em um lado, as ações realizadas em todo o antebraço da mão de dedos enfaixada. Que se dane se ele não é bastante preciso dessa maneira também. Eu recuo, sabendo que não posso ganhar um confronto 4X1 em campo aberto. Eles viram a esquina, assim quando eu esquivo em uma porta, pressionando meu ombro apertado contra a madeira fragmentada. Hesito, chupo o meu medo, empurro para baixo a dor, ranjo os dentes com tanta força que meu maxilar dói, o suor escorrendo pelo meu rosto, juntamente com gotas de sangue a partir de onde fragmentos de bala me pulverizaram restos de pedra das paredes. Respiro fundo, rolo e atiro, caio para trás. Um abatido. Eles lutam de volta ao abrigo. Rolo para fora, suprimindo fogo, espero... Vislumbro um corpo que espreita para fora, deixo-o com buracos feios, caio de volta trás de cobertura. Novo clipe, o último. Minha respiração vem em grunhidos, suspiros rasos. A dor está ganhando. Não posso dar uma merda por isso, eu cerro os dentes e suprimo um gemido de agonia. Eu vejo Hassan espreitar à porta, o cano do rifle primeiro. Ele se arrasta para fora da estrada em um razoável rastejar tático, rifle contra seu ombro, mas não dobrado para cima, à espera de um destino. Eu rolo para fora, ele me vê, eu aponto para o beco sem saída, beco onde Abdul e o último estão esperando. Ele acena com a cabeça. Eu seguro dois dedos, um tapinha no meu ombro para indicar hierarquia, embora eu não tenha certeza se Hassan vai entender isso. Foi o gesto que Rania usou pela primeira vez. Hassan encolhe os ombros, levanta dois dedos. Eu faço mímica de um corte para os meus dedos com a faca de um lado, em seguida, faço um punho, e Hassan balança a cabeça, compreendendo.

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Eu rastejo em direção a Hassan e a boca do beco, murmurando maldições sob a minha respiração a cada passo. Uma dor latejante jorra através de mim com cada movimento, cada respiração, a cada passo, a cada piscar de olhos. Estou em pé por pura teimosia agora. Abdul tem que morrer antes que eu entre em colapso. Nos apressamos no beco de uma vez, juntos. Abdul está esperando por nós, o seu último homem de pé ao lado dele, segurando Rania cativa. O capanga tem seu braço em volta do pescoço, uma mão apalpando seus seios avidamente, o outro apontando uma pistola nela, perto dela, não pressionado diretamente em sua cabeça. É um impasse. Hassan tem seu rifle visando Abdul e eu estou de joelhos, meus olhos fixos no outro. Silêncio tenso. Hassan muda seus pés, tirando o olhar do homem que segurava Rania. É toda a distração que eu preciso. Crack. Rania foge no instante em que sente o aperto afrouxar. A proliferação de buracos negros vermelhos no centro da testa. Rania está por

trás

de

mim

agora,

Hassan

ao

meu

lado.

Abdul nem sequer pestanejou. Seu rifle desloca entre Hassan e eu, como se ele não pudesse decidir em quem vai atirar primeiro. Um impasse de novela mexicana real. Os segundos passam lentamente. Explosões disparam ensurdecedoras no beco confinado.

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Eu vejo isso acontecendo. Vejo o dedo de Abdul apertar o gatilho. Eu não sei em quem ele está mirando, porque Hunter, Hassan e eu estamos todos juntos agora. Hassan se move como uma serpente impressionante. Ele se atira na frente de Hunter quando o rifle dispara, e

eu

o

vejo

pular,

o

imbecil,

idiota!

Abdul

está

atirando

descontroladamente. Estou no chão, ilesa, assistindo, impotente. Hassan está no chão, também, mas está sangrando na poeira. Novamente. Hunter está em movimento, a faca na mão, colidindo com Abdul. A negra lâmina dispara e Abdul grita. Gritos. Hunter rosna como um animal selvagem, um rosnado irracional, sua lâmina é uma garra e Abdul está morto e borbulhante, mas Hunter não para, dá facadas, facadas, rasga, corta, dilacerando o corpo do homem que já está morto.·. Eu o afasto e ele quase me corta antes de me reconhecer. Seu rosto de repente muda de uma maldade, raiva e sede de sangue em uma de alívio, amor. Amor. Esse olhar diz muito. Seus olhos são suaves. Onde antes era um assassino, agora ele é o amante. Ele está diante de mim, a poucos centímetros de distância, chegando a me tocar, a me beijar. Algo dentro de mim derrete. Ouço gritos, um motor rugindo de um veículo, pneus derrapando. Tiros ecoam atrás de nós, respondem e são silenciados por rifles americanos. Eu não vejo nada disso. Apenas o belo rosto de Hunter. Seus olhos azuis céu brilhantes em mim, me banhando como água a um homem morrendo de sede no deserto.··. Ele se desloca para frente, penso que está se movendo para me beijar, então eu envolvo meus braços em volta de seu pescoço e pressiono os meus lábios contra os dele, mas em vez de me beijar de volta a sua forte boca está frouxa e prensa seu peso sobre mim.

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― Hunter? - No começo eu só estou confusa. Eu recuo para olhar para ele. ― Hunter? Fale comigo. Por favor! - Ele não faz. Seus olhos estão rolando em sua cabeça, e ele está caindo em cima de mim. Eu tento pegá-lo, mas ele é muito grande, muito homem para uma menina frágil como eu segurar. Ele cai duro, cai no chão. Isso o desperta o suficiente para olhar-me através dos olhos de pálpebras pesadas. ― Rania? - Sua voz é fraca. Há sangue por ele. É muito. Tanto. Seu, de Abdul. ― Eu estou pronto para ir, Rania. - Eu balanço minha cabeça. ― Não. Não. Seus amigos estão aqui. Eles vão fazer tudo ficar bem. - Eu estou tendo problemas com a sua linguagem, mas sei que ele está muito machucado, cansado demais para falar a minha. ― Por favor. Não desista! - Viro-me e vejo os americanos em camuflagem se aproximando de nós. Os olhos de Hunter olham para trás e se alargam em estado de choque. ― Derek? – A voz de Hunter racha. ― Sim, homem, sou eu. Eu estou aqui. Hora de ir para casa, amigo. - A voz de Derek é um sotaque rouco. Hunter olha para mim com olhos suplicantes. ― Venha comigo, Rania. Eu vou fazê-los trazê-la. Eu vou fazê-la minha. - A última frase foi em árabe ininteligível. ― Irei com você! - Ele ainda está lutando, ainda lutando para subir, para se mover, eu toco em seu peito para ele parar. ― Eu irei com você. Em qualquer lugar! - Eu beijo-o suavemente. ― Eu vou a qualquer lugar com você. Eu te amo. Eu te amo. - Eu repito-o em inglês e árabe.·. Seus olhos se arregalam com as palavras, e eu ainda sinto, mesmo agora, o pânico que ele não vá me querer se eu professar amálo. Mas ao invés disso ele levanta o braço, tentando se mover até mesmo seu próprio apêndice, como se fosse um grande peso, toca o meu rosto. ― Eu te amo. - Ele desmaia, e eu sou levada longe dele por mãos 189


ásperas, mãos enluvadas e armas americanas. Empurrada. Descartada. Ignorada. Ele está me observando, sussurrando, implorando. Eles não o escutam, ou não querem escutar. Ele luta no veículo norte-americano, uma daquelas coisas como um carro feito em um tanque, e por último os seus olhos estão sobre mim antes que ele desmaie. Ouço gritos e percebo que sou eu. Minhas palavras são ininteligíveis, mesmo para mim. Eu me ouço como um estranho. ― Não o levem de mim! Por favor, me levem com vocês, por favor, eu o amo! - Mas eles não estão vendo, Hunter se foi e eu estou sozinha. Hassan

sangra

na

sujeira,

e

eu

posso

ouvi-lo

ofegante.

Eu me ajoelho ao lado dele. ― Irmão! - Eu não sei mais o que dizer, eu não posso mentir para ele agora, no último. ― Você o salvou. Você me salvou! ― Você é... Minha irmã! - É a única explicação que ele tem força para dar. É suficiente. Minhas mãos estão em seu peito, cobertas pelo seu sangue, e eu estou chorando. Por ele, sim. Mas por mim também, por Hunter. Por meu coração partido. Levaram-no, apesar de que ele me amava, e teria me feito dele. Eu queria ser sua. Só sua e de mais ninguém. Mais ninguém!

Hassan morre em silêncio, me observando, até que seus olhos assumem o vazio perspicaz da morte, e eu sei que ele tem ido para estar com Deus, se Deus existe. Eu me ajoelho no chão na lama de sangue, curvando o corpo frio do meu irmão, a minha última ligação no mundo, e choro.

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Ele estava morto, e então estava milagrosamente vivo novamente, me protegendo. Agora ele está morto mais uma vez. Realmente morto. Eu sinto o cheiro dele, o cheiro da morte. E então eu os ouço atrás de mim. Irritados, feridos, homens sanguinários. Iraquianos. Eu dei abrigo a um americano. Eles querem o meu sangue em pagamento. Eles podem tê-lo.

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Eu acordei com a dor, e de repente, intensa necessidade de me lembrar de algo que eu estou perdendo, ou algo que eu tenha esquecido. Foda-se se eu me lembro. Lances quentes de crua agonia apunhalam através de mim, braços, pernas, peito, pulmões, cabeça... Meu coração. Não é o meu coração físico, mas meu coração emocional. O meu núcleo. Onde Rania vive. Eu levanto, atinjo o queixo de alguém, causando uma maldição. ― Onde ela está? - Eu exijo. Derek está ao meu lado, segurando um bíceps sangrando. ― Quem? E sim, de nada por resgatar sua bunda, filho da puta. É bom ver você também. Sim, não se preocupe comigo, eu estou bem. ― Onde ela está? - Eu estou olhando em volta de mim, sentindo o barulho familiar do Humvee abaixo de mim. Vejo Dusty, dirigindo, voltando-se para olhar para mim, o sangue escorrendo pelo rosto de um corte profundo na testa, profundo o suficiente para mostrar osso branco espreitando debaixo das ranhuras e a carne. Fenda está lá, com uma espingarda, olhando para mim, sem falar, fazendo uma careta, sujo, com dor, mas não sangrando onde eu possa ver. Benny, com o braço dobrado e escorrendo sangue. Derek, confuso, irritado com a minha falta de gratidão. Foda-se a gratidão!

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― De quem diabos você está falando, Hunt? - Derek está irritado e com dores. ― A garota. A menina loura. Rania. Onde está Rania? ― Oh, ela? - Derek faz um gesto de um lado desconsiderado. ― Nós deixamos ela lá, mano. Ela era apenas uma prostituta nativa, cara. Você está no caminho de casa. ― Volte! - Eu foco no Derek, e ele vê a seriedade nos meus olhos. ― O quê? Você está fodidamente louco? - Ele se inclina para frente. ― De jeito nenhum, cara. Uh-uh. Esse lugar está repleto de cabeças de pano! ― Não os chame assim, D. e vire ao redor. Eu não estou pedindo. ― Você mal pode se mover. - Diz Derek. ― Não vai acontecer. - Eu cavo fundo a força e balanço meu punho, acerto contra o assento. Então, eu me inclino e arrebato a pistola de Benny do coldre na cintura antes que ele possa reagir. Tensão enche o Humvee como eu pressiono o cano na testa de Derek. ― Vire. De a volta. - As palavras são baixas, ríspidas, cheias de sussurros de morte. ― Juro por Cristo, eu vou te matar se você não fizer. - Derek empalidece. ― Porra, cara, tudo bem. Okay. Vire, Dusty. Nós estamos indo para trás. - Ninguém diz uma palavra enquanto Dusty vira o veículo em uma derrapagem, uma curva deitada. Ele dirige de forma imprudente e rápido agora. As armas em punho dos homens batem os clipes. ― Ela é importante para você, hein, cara? - Diz Derek, depois que eu baixo a pistola. ― Você não tem ideia. Ela está sozinha. Seu irmão está morto. Os outros locais estarão assustados e com raiva. Ela vai ser um alvo fácil. ― Ela era muito boa, não era? - Derek está tentando persuadir-me a um estado de espírito melhor. ― Será que você bateu sua bunda, Hunt? - Eu rosno para ele, um som selvagem. ― Cale a maldita boca,

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Derek. Você não sabe nenhuma coisa do caralho sobre ela. Nenhuma. Então cala a boca. - Derek cai para trás, confuso, eu nunca agi assim antes. ― Jesus, cara. Tome uma pílula. Era uma piada. Vamos recuperá-la, mano. Estamos quase lá. Nós vamos buscá-la. Hospede-se no caminhão caralho. Ouço gritos em árabe, e então o Hummer desliza a uma parada e os meninos empilham fora. Estou com eles de alguma forma, movendome em pura raiva, em pânico e instinto de proteção. A pistola está presa no meu punho. Eu vejo vermelho. Uma multidão se reuniu em um semicírculo, e agora que a batalha parece ter acabado, eles não nos dão muita atenção. Corto através deles. Um grupo de homens iraquianos estão agrupados em torno de uma figura de bruços. Chutes voam. Eu vejo pele, sangue, tecido rasgado, um flash de loiro. Eu disparo, impensado. A cabeça explode rosa e um corpo cai. Os homens se viram de Rania, mas eu estou muito enfurecido. Eu disparo novamente, e então a pistola é despojada de mim, braços se enrolam em volta de mim, mas eu arremesso-os fora e estou atacando com mãos e pés. Eu não sinto nenhuma dor. Soco, chute, cabeçada, joelho. Corpos são dispersos, maldições em ebulição em árabe e inglês alto em torno de mim. A multidão está irritada, inquieto, mas os caras estão segurandoos de volta, fazendo o papel familiar de controle de multidões. Eu caio de joelhos ao lado de Rania, ela está com os lábios cortados, olhos inchados, hematomas, sangue correndo de sua boca. Suas roupas estão rasgadas, e eu posso ver hematomas em sua pele. Eu pego-a em meus braços. Lágrimas picam meus olhos, e eu pisco-as. Então ela rola a cabeça para olhar para mim e sorri. ― Você voltou. Árabe, mas bastante simples, eu entendo, mesmo com minha adrenalina, raiva, dor, pânico e medo. E o amor. ― Eu voltei. Eu estou aqui. - Acho que algumas dessas palavras saíram em árabe, algumas em inglês. Não sei, não me importo.

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― Vamos lá, cara, mova-se. - Chines, bate em mim por trás, de costas. ― Essas pessoas estão furiosas. Vá! - Eu tropeço, movo-me com a forma preciosa de Rania da Humvee. Minhas pernas me traiem, e eu vacilo, embaralho. Derek está lá, me pega, pega Rania de mim, embalando-a com cuidado, e sobe no caminhão. Estou vazio agora, a fúria esvaziou. Agonia lava branca sobre a minha visão, e eu vomito na poeira, entrando em colapso. Mãos transportam-me para o Humvee, e eu não consigo ver nada, mas cheiro Rania, a sinto, a ouço. Estou sentado e sinto seu movimento, caio em cima das minhas pernas. Eu quase desmaio novamente, mas consegui aguentar. O resto sobe, e nós estamos nos movendo, Dusty conduz insanamente rápido, derrapando nas curvas. Tiros tocam fora, pingam fora dos lados das teias de aranha no vidro, e depois nós estamos fora de alcance, só há o barulho dos pneus, silêncio e respiração. A cabeça de Rania está no meu colo, os olhos castanhos olhando para mim. Balança a cabeça com o bater da estrada, e a escuridão me invade, a dormência se espalhando através de mim. Eu me empurro ao limite, mas ela está segura agora, bem agora. Eu posso parar de lutar. A última coisa que eu vejo antes da escuridão me tomar é o doce sorriso de Rania, seu cabelo loiro preso nos lábios, na testa, no queixo e espalhados por todo o rosto finamente esculpido.

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Hunter dorme por um longo tempo, durante sua cura. Ele foi atingido por outra bala, segundo me disseram. Seu amigo, Derek, diz que os médicos americanos estão espantados que ele esteja vivo ainda. Ele não deveria ter sido capaz de fazer as coisas que fez. Derek fala comigo através do tradutor, um homem curdo chamado Suran, baixo, atarracado, com uma fina e rala barba preta, banguela, inteligente o suficiente para falar a língua de sua terra natal, o curdo, além de árabe, urdu, inglês, e vários outros dialetos. Meu Hunter é forte. Eu sinto orgulho por ele. Ele sofreu muito, e ainda voltou para mim. Eu conheço Derek durante os dias do longo sono de Hunter. Suran passa muitas horas traduzindo para nós. Derek quer saber sobre mim, sobre como eu salvei Hunter, e por isso, o que aconteceu. Digo-lhe, de forma estranha. Eu não esperava gostar dele num primeiro momento, esse amigo de Hunter. Mas eu faço. Ele tem bondade, mas é enterrada. Ele arriscou sua vida, e de outros três homens, para salvar seu amigo. Ele é corajoso. E assim digo a ele. As palavras derramam, e Suran traduz tudo fielmente. É mais fácil dizer tudo em árabe e deixar Suran traduzir. Falo inglês suficiente para saber que o que ele diz é verdade. Eu falo do fotógrafo, o homem que matei há muito tempo. Sobre Hassan se tornar um soldado ainda um menino de apenas doze anos. Inanição. Desespero. Digo-lhe, hesitante, de Malik. A estranha espécie de ajuda que ele me mostrou ao me dar comida, me fazendo pagar por isso com o meu corpo, e no processo de me mostrar uma maneira de sobreviver quando eu certamente do contrário teria fome. Eu odeio ser uma prostituta, mas me manteve viva. Malik me salvou, mas a um custo elevado. Eu não tenho certeza se iria agradecêlo, se o visse novamente.

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Então eu olho para o rosto relaxado de Hunter, bonito em repouso, e eu sei que eu faria. Eu sobrevivi para que pudesse conhecêlo, e ele me salvou. Um dia, ao meio-dia, Hunter acorda. Eu estou ao lado dele, como sempre estou, exceto para comer ou dormir. ― Rania! Ele olha em volta, me encontra. ― Você está bem? Concordo com a cabeça. ― Eu estou bem. - Movo minha cadeira mais próxima e escovo uma mecha de cabelo do rosto. ― Como você se sente? ― Melhor. Vai demorar um pouco até estar de volta cem por cento, mas eu vou viver. - Eu tenho que adivinhar muito disso, pois é em inglês rápido. Não posso ajudar, mas me inclino e beijo-o, no início é suave, terno, mas depois ele se transforma com fome, desesperado. Eu penso naquela noite em minha casa, deitada no escuro com as mãos dele em mim e o incrível ecstasy que ele me mostrou, o presente de prazer que me deu, tudo sem levar nada para si mesmo. Eu o quero. Preciso dele. Quero beijá-lo até ficar sem fôlego, até me derreter nele. Agora, que senti o desejo, e soube o que meu corpo pode sentir sob o cuidado de suas mãos e seus lábios, eu quero isso de novo. Não tenho medo. Eu quero conhecer o seu amor, seu toque. Eu quero... Quero estar nua para ele. Minha pele em camadas sobre a sua, movendo-se contra a sua, o meu corpo sussurrando acima do dele. Eu quero isso, essa coisa, esse ato. Pela primeira vez na minha vida, eu quero fazer sexo. Fazer amor. Eu preciso disso com Hunter. Seria nos unir, trazer a nossa jornada ímpar para a conclusão. Hunter se afasta quando Derek limpa a garganta atrás de nós. ― Desculpe a incomodá-los, vocês dois, mas temos que conversar. - Eu pego mais isso de Derek. Hunter esforça-se para sentar, pega a minha mão. Ele tem uma expressão no rosto que me faz perceber que ele sabe o que está por vir, mas eu não. Suran aparece do nada, deslizando-se

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ao meu lado. Ele cheira a cigarros. Sussurra uma tradução em meu ouvido. Derek puxa uma cadeira para perto de mim, do outro lado de Suran, enfrentando-o para que ele sente-se. ― Ela não pode ficar aqui por tempo indeterminado, Hunt. Você sabe disso. Hunter concorda. O medo me atinge. Ele vai me mandar embora agora. ― Sim. O Sargento te disse isso? ― Não. Vem direto do Coronel. A nossa pequena escapada... Não passou despercebida, você sabe. As pessoas estão chateadas. Ela é uma local, mas não está conectada a nada aqui. Ela está apenas... Aqui. Agora que você está acordado, eles querem que ela se vá, ou que algo seja feito. Hunter aperta o lençol fino entre os dedos, liberta-o. ― Eu não vou deixá-la ir, D. eu não vou. ― Eu sei, cara. Eu falei com ela enquanto estava dormindo. Ela me contou sua história, e homem, ela tem vivido um inferno. E ela te ama. Você a ama. Está claro como o dia. - Derek olha para mim, sabendo que eu entendi e que Suran está traduzindo. ― Há realmente apenas uma solução. Hunter concorda. ― Sim. Eu sei. Vá pegar o capelão e algumas testemunhas. Sua equipe. Dusty e os meninos. - Derek concorda. ― É isso aí. - Ele se levanta, olha para mim de novo, e, em seguida, em Hunter. ― Você tem certeza disso? - Hunter apenas balança a cabeça, olhando para o cobertor. ― Claro! Que merda, D. Dê-nos um minuto. A última parte foi destinada a Suran, que balança a cabeça e desaparece. Hunter pega a minha mão na sua, esfrega um dedo com o polegar. ― Você sabe o que está acontecendo? - Eu dou de ombros. ― Eu acho que sim. Não posso ficar. Não sou americana, não trabalho, não traduzo. Então, eu vou.

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Hunter faz uma carranca, franzindo a testa. ― Não, Rania. Quero dizer, sim. Você não pode ficar, desde que você não é... Bem, eles querem que você volte para... Volte. Mas há uma maneira que você pode ficar. - Olho para ele. Esperança me atinge como dor. Eu não quero ter esperança, mas é difícil não ter. ― Que caminho é este? Você não vai me mandar embora? Ele me puxa para baixo para pousar na beira da cama, envolve seu braço em volta da minha cintura. ― Não, Rania. Não. Você pode ficar se você se casar comigo. Voltar para os Estados Unidos comigo. Choque me balança. ― Casar? - Eu não tenho certeza se ouvi direito. Eu mudo para o árabe. ― Ser a sua esposa? Ele acena com a cabeça. ― Eu... Não tenho um anel. - Diz ele em inglês. ― Mas... Eu vou te dar um, assim que puder. Não é apenas uma maneira de você ficar, apesar de tudo. É o que eu quero, quero que você seja minha. Eu balanço minha cabeça, incrédula. ― Você... Você me quer, para sempre? Eu não tenho nada. Ninguém. Se você me levar para a América e depois não me amar, pra onde eu irei? Voltar a me prostituir? - Hunter toca meu rosto, beija meu queixo. ― Eu sempre vou te amar. Você me salvou, Rania. Eu balanço minha cabeça. ― Não, você me salvou! ― Nós salvamos um ao outro, então. - Diz ele. Eu sorrio concordando. ― Então você vai casar comigo? - Ele pergunta. ― Sim! Eu digo, derramando uma lágrima. ― Sim. Eu o farei. Derek retorna com os outros soldados que eu reconheço do resgate de Hunter, e outro homem, mais velho, com o rosto suave e gentil de uma pessoa religiosa, e não os olhos de um assassino, mas os pacíficos. Ele é um sacerdote. Um homem santo, mas eu não sei a palavra em inglês. Eu penso, me faço lembrar. Capelão, disse Hunter.

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Essa é a palavra. O capelão segura um livro preto e grosso, um livro religioso. Não é o Q'uran, mas o livro cristão. A Bíblia. Hunter luta em pé, fica de frente para mim, toma minhas mãos, com o capelão na frente de nós. Estamos no hospital da base Americana. Fallujah Camp, acho que é chamado assim. Eles se referiam a ele como algo mais, três letras. M-E-K, ou algo parecido. Meu conhecimento das letras em inglês é quase nada, e isso não importa. Os olhos de Hunter são macios nos meus, azul como o oceano nas fotografias que vi nas revistas e lojas, azul como o céu em um dia quente. Ele está sorrindo, calmo, confiante e me tranquilizando. Temores pulsam através de mim. O casamento é para sempre. Casar é pertencer a esse homem. Eu nunca tenho pertencido a ninguém. Eu nunca quis pertencer a ninguém. Eu sou sozinha. Eu sobrevivo. E agora esse americano que conheço apenas há algumas semanas tem me varrido para longe da única vida que eu conheço, e eu me caso com ele. Parece louco, insensato, erupção cutânea. Mas... Isso é certo. É o que eu quero. Eu quero pertencer a ele. Ele não vai me bater, como sei que muitos maridos fazem com suas esposas. Ele não vai me fazer tirar o hijab, eu não acho. Ele não vai me fazer continuar a ser uma prostituta. Não vai me deixar continuar a ser uma prostituta, acho que é mais verdadeiro. Ele me quer toda para si mesmo. Eu não sei porque, mas ele faz. Engulo em seco, minha garganta tem um bolo, grosso e seco. O capelão fala, e Suran traduz. ― Estamos reunidos para testemunhar o casamento deste homem, Hunter Lee, e essa mulher, Rania...- Ele faz uma pausa e olha para mim, então Hunter, eu percebo que ele quer o meu sobrenome. Hesito. Eu não pensei no nome da minha família em um tempo muito longo. No final, não importa. ― Só Rania. - Eu digo.

― E esta mulher, Rania... - O capelão continua. ―... Nos laços do sagrado matrimônio... - Ele diz muitas outras coisas, a respeito da

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santidade do casamento e a noiva de Cristo, que eu não entendo, já que Hunter é Hunter, não Cristo e, em seguida, ele pede a Hunter para repetir depois dele, e há um momento embaraçoso em que o capelão termina compreendendo que não há anéis, mas eu não ligo para essas coisas. Eu nunca possuí jóias, e nunca esperei. Em seguida, o capelão me pede para repetir depois dele. ― Eu, Rania, aceito, Hunter Lee, para ser meu marido legalmente casados, para ter e manter, na riqueza ou na pobreza, na saúde e na doença, até que a morte nos separe. - Repito as palavras, e quero dizerlhes com toda a minha alma. Eu serei tudo o que posso para Hunter durante o tempo que ele vai me ter, através de qualquer coisa. E então nós dois dizemos “Eu aceito”, e Hunter me beija, um beijo curto, mas apaixonado, algo clica dentro de mim. Meu medo diminui, meu medo de que Hunter não me queira, meu medo de que tudo isso é algum tipo de jogo, ou truque. Encontro-me chorando novamente, as lágrimas tranquilas, lágrimas suaves. Hunter escova-as com o dedo. ― Você está bem? - Ele pergunta. Concordo com a cabeça. ― É só... Muito. Tão rápido. Isso é real? - Eu estou sussurrando por algum motivo. Os outros homens saíram, Hunter e eu estamos sozinhos, mas é como se meus medos devessem ser expressos, mas não muito alto para não se tornarem realidade. ― Temo que isto não seja real. Tenho medo de que você não vá me amar até a morte nos separe. Eu não sei o que fazer. Eu não sei o que vai acontecer comigo. ― É real. - Diz Hunter, me puxando para baixo na cama do hospital estreita com ele. Eu deito ao lado dele, me aconchego em seus braços. ― Eu prometo que é real. Foi rápido para mim também, mas... Eu não posso deixar você ir. Eu não posso... Não vou deixar você voltar para lá, voltar a ser uma prostituta. Eu te amo. Você pertence a mim!

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― Eu pertenço a você! - Hunter franze o cenho. ― Eu espero que você entenda alguma coisa, Rania. Você é sua própria pessoa. Quando você vier para casa comigo, você vai ser... Livre. Você pode fazer o que quiser. Você pode aprender. Você é inteligente. Você não pertence a mim, como um cão ou um carro. Eu não possuo você, e eu não vou tentar controlá-la. Concordo com a cabeça. ― Mas eu sou só sua. Você não vai... Se separar de mim. – Os olhos de Hunter incendeiam. ― Nunca! Você é minha. - Ele toma o meu rosto nas mãos. ― Você não é uma prostituta mais, Rania. Nunca mais. ― Então... O que vou fazer, para comer? Hunter faz uma carranca como se confundido. ― Eu vou cuidar de você. ― Mas... Então... - Eu não sei como dizer o que estou pensando. Eu começo de novo. ― Nada é de graça, Hunter. Se eu não sou uma prostituta, e você me alimenta e veste-me e dá uma casa, então tenho que trabalhar para ganhá-lo. Eu não posso fazer nada. Você estará simplesmente me pagando em alimentos, em vez de dinheiro. ― Pagar? Pagar para quê? ― Sexo. Hunter arrasta a mão pelo cabelo. ― Rania, ouça. Eu não espero nada dessa forma. Eu nunca vou pedir ou esperar nada de você. Eu vou cuidar de você, alimentá-la e dar-lhe roupa e compartilhar minha cama com você, ou dar-lhe a sua própria, se é isso que você quiser, porque eu te amo. Eu vou cuidar de você, e eu nunca vou lhe pedir nada em troca. Você não me deve sexo. Você não tem que me obedecer. Você não... Ele recua, olhando pela janela para um grande caminhão com soldados na parte de trás enquanto ele pula. Parece estar à procura de

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palavras para me fazer entender alguma coisa. ― Algumas coisas são gratuitas, Rania. Meu amor por você é livre. Tudo que você tem a fazer é levá-lo. Aceitá-lo. Se você quer trabalhar, eu vou ajudá-la a encontrar um emprego. Mas não é porque você tem que ganhar seu sustento. Você é minha esposa. O que é meu é teu agora! Eu balanço minha cabeça. ― Eu nunca... Eu não... - Eu me levanto e vou para longe, volto e fico na frente dele. Ele envolve os braços em volta da minha cintura, olhando para mim. Tento novamente, desta vez em árabe, lentamente para que ele possa seguir. ― Esta é uma nova maneira de pensar. Tenho sobrevivido, fazendo o que eu devo para ganhar comida. Eu nunca soube de mais nada. Eu sou uma prostituta, porque era a maneira que poderia conseguir dinheiro para comprar comida. Você diz que vai cuidar de mim. Vou ter que aprender a deixá-lo fazer isso. Eu não sei como. Ninguém jamais tomou conta de mim. Eu cuido de mim mesma. O olhar de Hunter endurece. ― Você não é uma prostituta mais, Rania. - Ele me puxa para mais perto e descansa a cabeça no meu corpo debaixo dos meus seios. Eu não posso impedir meus dedos de emaranharem em seu cabelo, e percebo que agora, eu não tenho que me parar. ― Tudo vai mudar para você agora, Rania. Eu sussurro minhas próximas palavras, porque não tenho certeza se elas são ditas para ele ou para mim mesma. ― Isso é o que eu tenho medo.

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Eu não consigo dormir. Estou me sentindo melhor, mas o doutor me disse que estou preso no hospital para observação por mais alguns dias. Eu só quero ir para casa. Eu quero ter Rania sozinho. Estamos casados, mas não posso ter uma hora de intimidade com ela, malditos médicos indo e vindo o tempo todo. Eu nem tenho certeza se ela quer isso. Ela está um pouco arisca ainda. Hesitante em me tocar, como se não tivesse certeza de que ela é permitida. Estou basicamente sozinho nessa parte do hospital, de modo que ela vem se esgueirando na cama ao meu lado, a cortina entre nós puxada de volta. Não é um monte de privacidade, mas também não temos necessidade.·. É estranho estar de volta aqui, de volta entre os americanos, na base. Rania está claramente insegura aqui. Ela usou a máscara de Sabah para sobreviver, eu acho, mas no fundo, ela ainda é uma garotinha assustada. Agora, sem a falsa confiança de Sabah, ela não sabe quem é. Ela está tão sozinha por tanto tempo, não conhece nada de diferente. Ela ainda não sabe o que é felicidade, eu acho. Eu vou ter que lhe ensinar. Ela está dormindo, enrolada em cima dos cobertores, vestindo um par de calças camufladas e uma T-shirt retiradas dos suprimentos. Seus pés estão descalços, as meias e as botas que eu tenho definido por ela ordenadamente ao pé da cama. As luzes do hospital estão desligadas, o luar filtra através da janela. Tem ar condicionado aqui, está frio. Eu posso ver sua pele formigando com arrepios.

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―Foda-se! - Eu sussurro para mim mesmo. Escorrego para fora da cama, arrastando meu cobertor comigo, e me deito na borda da cama atrás de Rania. Ela sussurra em seu sono, mas não se move. Eu armo o cobertor sobre nós dois e enrolo meu braço sobre sua cintura, íntimo, mas não sexual. Eu quero tocá-la, quero beijá-la e deslizar minha mão por baixo de sua camisa. Droga. Aquela noite foi uma merda de tal provocação. Eu não posso parar a voz da minha cabeça, as imagens da maneira insana erótica, que ela se contorcia e gemia quando gozou, a seda quente de sua pele... Estou brincando comigo a pensar sobre isso. Estou ficando duro, e não posso evitá-lo. Eu deveria estar dormindo. Deveria ter ficado na minha cama, porque isso só vai tornar as coisas mais difíceis para mim. Ela torce na cama, fazendo um pouco de barulho em sua garganta quando faz isso. Ela está de frente para mim agora, e suas mãos estão unidas entre nossos peitos, quase como se estivesse orando em seu sono. Eu coloquei a minha mão sobre sua cintura, e não posso evitar, mas deixála deslizar para baixo em seu quadril. Em seguida, seus olhos estão tremulando abertos e ela está olhando para mim. Não para mim, mas dentro de mim. Tão linda, suave e encantadora. Uma de suas mãos se desenrola, achatando contra meu peito. Eu pisco duro, desesperadamente, pateticamente esperando que ela me toque. Eu me sinto como um adolescente novamente, trabalhando tão duro por um primeiro beijo, sem jeito tateando no escuro banco de trás do meu carro, esperando que ela me toque em qualquer lugar, esperando que ela me queira como eu a quero. Isso é loucura. Estou casado com ela, mas a nossa relação é tão estranha, tão hesitante, tão cuidadosa e exploratória. Os minutos passam, a minha mão em seu quadril, a dela no meu peito, nenhum de nós se movendo, mal respirando. Eu me pergunto se deveria tentar fazer um movimento, beijá-la, tocá-la ou deixá-la ditar o ritmo. Meu

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instinto me diz para ficar quieto e ver o que ela fará, eu aprendi a confiar no meu instinto. Seus olhos se arregalaram ligeiramente e vacilam quando o seu olhar se desloca no meu. Ela passa a mão sobre meu ombro e no meu braço, apenas as pontas dos dedos ao longo do bíceps. Então ela está deslizando a palma da mão no meu peito novamente, torcendo-lhe a mão para que os dedos enfrentem os lados, tocando minha cintura e meu lado. Fico congelado, deixando-a me tocar. Ela se afasta para o lado ao longo da borda da cama, me puxa em sua direção, e, em seguida, empurra-me para deitar de costas, ajustando sua própria posição novamente para que esteja deitada metade em mim, no meu braço agora segurando a cabeça dela. ― Ok. – Ela sussurra. ― Não estou te machucando, estou? Eu balanço minha cabeça. Meus dedos estão torcendo nos cabelos, alisando-a, brincando com as mechas. Apenas assisto-a, examino suas feições encantadoras, memorizando, admirando. Ela coloca a mão no centro do meu peito, olhando para o meu corpo agora ao invés dos meus olhos. Seus dedos se movem para baixo do tecido da minha camisa, uma T-shirt verde camuflada, regulamento adequado agora. Ela desliza os dedos sob a borda inferior da camisa e explora para cima, empurrando o algodão enquanto ela vai subindo. Eu levanto as minhas costas um pouco para que a camisa fique livre para dispor sob meus ombros. É um pouco desconfortável, então eu puxo a camisa com uma mão e atiro-a no chão ao lado da cama. Não sei o que os médicos estão monitorando, pois eu não estou ligado a qualquer máquina, um, sem rumo, o pensamento deslocado aleatório. Sua mão repousa sobre meu músculo peitoral direito, e ela traça em volta do meu mamilo, esfrega o polegar sobre a ponta do mesmo, em seguida, traça o arco do meu peitoral com um dedo. Agora, o estômago, a palma da mão deslizando sobre minha barriga esticada, traçando os sulcos entre os meus abdominais, como ela fez aquela noite em sua

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casa. Eu resisto à tentação de flexionar os músculos. Ela corre até o outro lado do meu corpo, então de volta para baixo. Mais longe, mais perto e mais perto da minha cintura. Ela está criando coragem para ir mais longe. Eu não vou impedi-la dessa vez. Acho que ela está apenas explorando, por si mesma. Explorando seu próprio senso de desejo. Ela toma uma respiração lenta e profunda, deixo-a enquanto serpenteia a palma da mão abaixo no meu torso para o zíper da minha calça. Eu inconscientemente contraio minha barriga um pouco, então me forço a relaxá-la. Ela olha para mim, insegura. Enfio um cabelo rebelde atrás da orelha, corro o lado do meu polegar sobre sua bochecha, em seguida, beijo-a, tão lento, suave e doce quanto posso controlar. Isto parece dar-lhe coragem. Ela torce o primeiro botão livre, então o segundo. Para, olha para mim. Eu inclino um lado da minha boca em um pequeno sorriso e continuo jogando com seu cabelo. Ela olha para longe, sorrindo timidamente. Tão inocente, se aproximando quase como uma virgem. Eu lambo os lábios e me concentro em respirar uniformemente quando ela desabotoa minha braguilha o resto do caminho. Coloca os dedos no cós da cueca, então hesita, balança a cabeça. ― Hey! - Eu digo. ― Está tudo bem. Isto é o que você quer. Sem pressa, ok? Apenas... Apenas relaxe. ― Eu não estou com medo. - Diz ela. ― Estou apenas nervosa. Certa do que eu quero, ou o que estou fazendo. ― Basta fazer o que quiser. Se você não tiver certeza, é só perguntar. - Ela morde o lábio e olha para mim, longo e duro. ― Eu quero... Eu quero vê-lo. - Diz ela. ― Ver-me?

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Ela

acena

com

a

cabeça,

sem

olhar

para

mim

agora,

envergonhada. ― Apenas ver como você se parece, em primeiro lugar, como um homem. ― Oh. Quer dizer que você quer que eu tire minhas calças? Ela acena com a cabeça no meu peito novamente. ― Está tudo bem? Eu rio em seu cabelo. ― Claro. Tudo está bem. Ouça, só faça o que quiser, ok? Eu te disse, eu não espero que… ― Eu quero! - Ela interrompe. ― Eu só não estou tão certa do que querer, ou como querer. Você sabe? Eu nunca desejei um homem antes. ― E você me deseja? Ela acena com a cabeça. ― É assustador, um pouco, o quanto eu quero te tocar. Ser tocada. - Eu posso sentir seu coração batendo forte no peito. ― O que você fez, antes, para mim. Me fez... - Ela faz um gesto explodindo com os dedos. ―... Que era ... Eu gostei. Muito. Eu rio. ― Eu também. Ela inclina a cabeça para olhar para mim, o nariz enrugado em confusão. ― Mas você... Eu não fiz nada por você. ― Não é apenas sobre isso. Eu gostei tanto quanto você, mas de uma maneira diferente. Assistindo você... fazendo você sentir essas coisas... Eu adorei. Eu vou fazer isso de novo, se você me quiser. Ela balança a cabeça. ― Ainda não. Em primeiro lugar, isto. Tenho medo de tocá-lo, mas ainda quero. Eu não posso ter apenas medo. Eu preciso saber em meu coração que está tudo bem querer. Tocar.

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Eu acho que entendi o que ela está dizendo. ― Isso é diferente para você. Diferente de... Estar com alguém como Sabah. - Ela recua e fica tensa. ― Isso não é estar com. É... - faz uma pausa. ― Você vê a diferença? Sabah... Ela é aquela que permite que os homens façam o que querem. Sabah? Ela não sente. Ela é fria. Tão fria que não pode sentir. ― Dormente. ― Dormente. ― Essa é a palavra para quando você está tão frio que você não pode sentir nada.·. ― Oh. Então sim. Sabah é insensível. Ela finge. - Um longo silêncio. ― Eu não sou Sabah. Eu sou Rania. E eu sinto. ― Bom. Não há mais Sabah. Apenas Rania. - Ela acena com a cabeça. ― Mas você está certo. Isto é muito diferente. Talvez você pense que porque eu era uma prostituta por muitos anos, eu deveria saber muito sobre sexo, sobre os homens. - Ela balança a cabeça. ― Não. Eles fazem. Eu... Não faço nada. Apenas deixo-os e faço os ruídos que gostam. ― Não mais. - Eu digo. Ela encolhe os ombros, um pequeno movimento. ― Talvez. Se você disser que sim. - Ela está se afastando. Eu estraguei tudo. Ela está distante agora, esfriou. Pensando em seguida. Sobre Sabah. ― Me desculpe, eu a trouxe na conversa. Ela encolhe os ombros. ― Você precisa saber essas coisas. Não sei nada sobre sexo. Dos homens. O que fazer, nem como. O que você pode querer. O que eu deveria querer, ou gostar de sentir. É tudo estranho

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para mim. Eu gostei do que você fez. Eu não sabia que podia sentir desse jeito. Eu rolo um pouco e a beijo. Ela congela num primeiro momento, como sempre faz quando eu a beijo, mas amolece rapidamente, abre a boca com a minha, e cutuca mais de perto, se dá para o beijo. Sua mão desliza de volta para as minhas costelas, flutua em torno de minhas costas, e explora-a enquanto nós nos beijamos, pausa para respirar, e beijamos novamente.·. Quando paramos, ela toca no meu peito de novo, à deriva de volta para a minha braguilha aberta. Ela olha para mim, e o olhar é o pedido. Eu levanto os meus quadris e mexo para fora da minha calça, tirando a cueca com eles, e então eu estou nu debaixo do cobertor. Sinto-me estranhamente nervoso, embora eu geralmente me sinta confortável com a minha nudez. Ela empurra o cobertor passando meus quadris lentamente. Sua respiração é superficial, enquanto olha para mim. Estou endurecido sob seu olhar. O escrutínio é quase embaraçoso, estressante. Estou perfeitamente imóvel, exceto para o meu peito subindo e descendo com a respiração, e meu pau se erguendo lentamente. Sua mão repousa sobre minha barriga, por cima do meu umbigo. Mais uma vez, algum instinto bizarro faz com que eu contraia minha barriga, quando ela começa lentamente, tão lentamente movendo sua mão para baixo. Estou totalmente ereto agora, espesso, endurecido. Ela olha para mim, depois de volta para baixo. Ela estende um único dedo e traça meu comprimento da ponta até a base, apenas a ponta do seu dedo deslizando os cumes e sulcos da pele. Agora, a palma da mão, ao longo do comprimento. Tem sido um longo tempo, e eu estou cheio de desejo furioso, ardor, dolorido com a necessidade, mas eu tenho que contê-lo. Mantê-lo, mantê-lo de volta. Deixo o seu toque, e é isso. Deixo-a explorar. Concentro-me em seu cabelo, brincando com as mechas frias entre meus dedos.

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Eu ofego uma respiração profunda quando ela me leva na mão, levanta-me para longe do meu corpo, de lado a lado. Deus, como suas mãos no meu pau se sentem tão bem. Tão malditamente incrível. Suas mãos pequenas, dedos longos, magros, fortes e quentes, me agarrando, deslizando ao longo de mim. Estou apertado com todos os meus músculos. Ela não tem ideia do que está fazendo comigo. Eu estou tão perto. Que porra que eu faço? Eu luto comigo mesmo, tremendo, me esforçando para segurar enquanto ela me acaricia me examina. Ela traça o meu comprimento, aperta-me, vamos segura minhas bolas em uma mão, toca-as e explora-as, em seguida, retorna ao meu pênis. Estou vazando. Estou prestes a gozar, e eu tenho que segurá-lo dentro. Preciso. Ela só está a explorar. Isto não é sexo. Eu não posso esperar muito mais tempo.··.

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Seu corpo inteiro está tremendo, como se ele estivesse flexionando cada músculo. Suas costas estão duras, os olhos fechados, seus dedos se enredaram no meu cabelo. Sua masculinidade é uma coisa de contradições, tão suave e tão duro. É longa, reta e grossa, deitada contra sua barriga. Parece tão grande, e eu tenho um pouco de medo de quando vamos fazer sexo, embora eu saiba que vai ficar tudo bem. Eu empurro esses pensamentos. Isso não é agora. Deixo-me tocá-lo. Não há problema em tocá-lo. Eu gosto de tocá-lo. Gosto da maneira como ele se sente na minha mão, enchendo o meu punho. Ele está fazendo pequenos ruídos na garganta, embora eu ache que não está ciente disso. A outra mão está apertando o punho no lençol da cama. Eu olho para baixo, para seus pés, espreitam para fora debaixo do cobertor, e os dedos dos pés estão enrolados. Seus braços estão flexionados, os seus músculos abdominais são flexionados. Ele está tenso, e toda vez que eu toco sua masculinidade, ele recua, move os quadris um pouco para o toque. ― Por que você está contraindo os músculos? - Eu peço. Eu tenho tentado usar somente inglês com ele, e ele tenta responder apenas em árabe. Desta vez, ele responde em inglês. Eu não acho que é capaz de árabe agora. ― Eu estou... Segurando. - Eu não entendi a princípio, mas depois consciência amanhece em mim. Ele está prestes a liberar, mas está segurando. ― Por que segurar? - Eu pergunto, agarrando-o mais firmemente agora e deslizando minha mão nele. Ele ri uma vez. ― Porque isto não é... Sobre... Mim. - Ele está movendo os quadris ao ritmo da minha mão

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sobre sua masculinidade. ― É sobre você. Fazendo o que você quiser. Aprendendo a desejar. Além disso, porque vai ser uma bagunça. Eu sei o que eu deveria fazer. Eu não estou completamente pronta, mas é o melhor caminho. Eu começo a desabotoar as calças. Hunter me para. ― Não, não assim. Eu quero que seja especial. Apenas... Pare de me tocar durante um minuto e eu vou... Eu vou ficar bem. ― Você não quer fazer sexo comigo? ― Não. - Diz ele, e meu coração se encolhe, ferido. Mas ele continua. ― Eu quero fazer amor com você. É diferente. Minha

mão

ainda

está

nele,

mas

não

se

move.

― Oh! - eu digo. ― Mas não agora? Ele balança a cabeça e toma meu pulso em sua mão, tenta me afastar. ― Não, agora não. Quando nós temos todo o tempo do mundo. Quando tivermos uma grande cama e privacidade. Eu não quero parar de tocá-lo. Eu quero vê-lo se soltar. Eu não me importo com a bagunça, ou privacidade. Eu gosto de tocá-lo. Eu entendo um pouco agora o que ele disse sobre desfrutar de fazer-me sentir bem. ― Você gosta de como eu estou tocando em você? Será que se sente bem? - Eu pergunto. Ele suspira e libera minha mão. Eu movo minha mão em torno de sua masculinidade, e me sinto mais confiante nele agora. Sua cara me dá a minha resposta, mas ele acena com a cabeça de qualquer maneira. ― Sim! - Diz ele. ― Deus, sim. É tão bom. Eu amo isso. Eu não quero que você pare. Mas... Eu não posso segurar por muito tempo. Eu continuo a mover a minha mão sobre ele e, agora, seus quadris estão começando a balançar. Inclinando-me perto de seu ouvido, eu sussurro-lhe: ― Eu quero que você se sinta bem. Estou

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gostando disso. Eu não quero parar. Eu não quero que você se segure. Você pode liberar. Eu sei algo que eu poderia fazer. Antes de ter a chance de pensar sobre isso, eu movo minha cabeça para baixo em direção a sua masculinidade. Ele me para. ― Não, Rania. Não isso. - Algo em sua voz me diz que ele está falando sério, então eu volto a inclinar-me em seu braço. Eu posso ouvir sua voz sob o que ele pode estar pensando, e eu penso nisso também, mas afasto-o. Estou feliz que ele não me deixou. Teria me dado memórias de outras coisas, coisas ruins. Eu beijo sua boca e sinto seu suor, sua barba, sua pele. Eu tinha abrandado a minha mão sobre ele quando começou a se mover para baixo, então agora eu acelero. Meu punho está solto em torno dele, pele a pele mal escovando. Agora eu seguro-o com mais força, movo-me lentamente, de cima dele para o fundo. Ele está empurrando, deslocando-se e caindo. Ele suspira, inclina a cabeça para trás. ― Ah... Oh, meu Deus... Eu estou prestes a... - Ele diz as palavras entre dentes e, em seguida, fica em silêncio e arqueia as costas. Agora. Ele vai ainda ao ápice de seu arco, e sua masculinidade empurra na minha mão. Uma corrente grossa de sementes brancas viscosas jorra dele, com um jato firme em seu torso, em seu umbigo. Eu continuo movendo minha mão sobre ele, e seus quadris giram sua masculinidade em meu punho. Outro fluxo se sobrepõe ao primeiro, não tanto agora, nem atira tão longe, e depois um terceiro jato, ainda menos, e seu corpo cai para baixo contra a cama. Ele está ofegante, contorcendo os quadris. ― Deus... Maldição! - Ele está sem fôlego, surpreendido, corado.

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Eu sinto um arrepio de algo poderoso dentro de mim, quente, inchar por cada centímetro de mim. É uma simpatia, a felicidade. Ele gostou, e eu também fiz ele se sentir bem, e senti uma alegria em troca de ter dado a ele. Sinto-me contente. Ele ri, um ruído surdo em seu peito. ― Merda, agora eu sou uma bagunça! Eu olho para ele, no rio grosso de sementes brancas em sua barriga. ― Eu vou limpá-lo. Vou para a casa de banho não muito longe, molho algumas toalhas de papel, e volto para a cama. ― Eu posso fazer isso. - Diz Hunter, alcançando as toalhas. ―Não. - Eu digo. ― Deixe-me. Por favor. Ele deixa cair a sua mão e me olha quando eu esfrego a semente de sua carne, dobrando as toalhas e limpando até que ele está limpo, os finos cabelos encaracolados baixo em seu ventre úmido e aderem a sua pele. Eu lanço as toalhas de papel fora e deito-me ao lado dele novamente. Ele envolve o cobertor sobre nós e me puxa para cima dele. ― Rania, isso foi… Eu beijo-o, e ele fica tranquilo quando nos beijamos. ― É um começo! - eu digo.

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Toda a papelada foi assinada. Ela é oficialmente Rania Lee agora. Maldição. Eu sou um homem casado. Que louco! Estou oficialmente dispensado e estamos a caminho de casa. Bem, de volta aos Estados Unidos. Eu não mencionei a ela que eu não tenho uma casa real ainda. Se fosse só eu, provavelmente passaria a noite no sofá dos pais de Derek, mas isso não é uma opção. Muitas perguntas. Derek. Porra Derek subiu. Diz que quer ser Sargento. Eu poderia chutar a bunda dele por dividir-nos assim, mas é a sua escolha, eu acho. Ela só é uma merda. Esta será a primeira vez desde a segunda série maldita que Derek e eu não vamos fazer a mesma coisa juntos. Estou indo para casa para fazer uma vida com minha esposa, e ele está ficando para trás para fazer outra turnê no grupo Foda-se que é OIF 2talvez Afeganistão no próximo, se a fofoca é verdade.·. Nós estamos em um avião para o oeste. Rania está no assento ao meu lado, segurando minha mão com tanta força que eu acho que posso realmente ficar com hematomas nos ossos. Eu não a culpo. Estamos no meio de uma tempestade terrível e o maldito avião está resistindo como um boi amarrado. Primeira viagem de avião da pobre moça, e é o mais turbulento que eu já estive.·. Eu preciso distraí-la. ― Hey, Rania. - Ela se vira para olhar para mim, os dentes cerrados, os olhos arregalados. ― Então, quando nós

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chegarmos a Des Moines, vamos olhar as casas. Isso vai ser divertido, certo? Ela só olha confusa. ― Olhar casas? O que isso significa? ― Isso significa que nós vamos escolher uma casa.·. ― Eu pensei que você disse que estávamos indo para casa. Eu dou de ombros. ― Eu só queria dizer a cidade, Des Moines, onde eu cresci. Eu não tenho um lugar meu próprio. Entrei para os fuzileiros navais na saída da escola, então eu nunca tive um lugar. ― Por isso, estamos a sós, sem casa? ― Sim, baby. É só você e eu. Nós vamos encontrar um lugar agradável juntos.·. ― Baby? Eu não sou um bebê. - Ela franze o nariz. Eu rio. ― Não, eu sei. É... Um termo carinhoso. - Ela me dá um olhar em branco. ― É como ‘mel’ ou ‘querida’. Ela

ainda

parece

não

saber

o

que

quero

dizer.

Eu rio e balanço a cabeça. ― Significa apenas que eu te amo.·. ― Se você disser que sim. - Diz ela. ― Mas é estranho, chamar a mulher que você ama como bebê. Mas, em seguida, os americanos são estranhos. ― É um pouco estranho. - Eu concordo. ― Eu nunca pensei sobre isso antes. Acho que é uma coisa cultural. Nós chamamos nomes uns aos outros de animais. É uma maneira de demonstrar afeto..., eu acho. Ela acena com a cabeça. ― Ah, agora isso eu entendo. Gosto de chamar um filho ou um irmão 'Habibi', mesmo que ele não é mais um menino.

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Concordo com a cabeça. ― Sim, basicamente. - Ela muda de assunto. ― Então, vamos escolher uma casa juntos? Será que eles não custam muito dinheiro no seu país? ― Sim, mas nós não vamos comprá-la agora. Eu tenho um bocado de dinheiro guardado, e eu consigo um empréstimo oficial em um banco na cidade, por isso vamos fazer um bom negócio. Nós vamos ter um bom lugar. ― Se você disser que sim. - O avião atinge uma fase difícil de turbulência, e ela desliga, apertando minha mão novamente. Deixei-a esmagar os meus dedos e tento imaginar ter uma casa minha, com Rania. É uma imagem agradável.···.

Eu alugo um apartamento mobiliado no centro da cidade em uma base de mês a mês até encontrar um lugar permanente. Rania não tem nenhuma roupa, nada dela própria, então a primeira coisa que faço é levá-la às compras. No início, ela só quer andar entre as prateleiras da Macy, parecendo intrigada. Eventualmente, ela para e se vira para mim. ― O que eu devo fazer? Há muitas coisas aqui. - Eu rio. ― Escolha o que você gostar. Escolha um monte de coisas que você gostar e experimente-as. Mantenha as coisas que você se encaixa bem e parece ser bom, e deixe o resto. Ela tira uma saia da prateleira, em seguida, coloca-a de volta. Faz isso uma dúzia de vezes. ― Eu não sei o que eu gosto.

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No final, eu peço um dos colaboradores da Macy para ajudá-la, e ela acaba com um monte de boas roupas. Ela está usando uma delas agora, uma saia justa encaixada ao redor de seus quadris e coxas e soltas na altura dos tornozelos. O top é uma blusa de botão-baixo que acentua sua forma, sem ser muito reveladora. Tive o cuidado de que nenhuma das roupas, mesmo remotamente, se assemelhasse à suas antigas roupas, todas minissaias e tops decotados. Tudo é de bom gosto e modesto, saias até os joelhos, pelo menos, tops que não mostram muito decote. Pego seus sutiãs e calcinhas, maquiagem, pijamas, sapatos, sandálias, shampoo, condicionador, tudo o que eu sei que as meninas gostam. Rania parece sobrecarregada. ― Por que eu preciso de todas essas coisas? Eu nunca tive nada disso. Um pouco de maquiagem, algumas roupas para vestir. Tudo isto... É muito. - Eu rio. ― Você não precisa delas. Mas eu quero que você fique com elas. São só coisas. ― Mais coisas que eu já possuí em toda a minha vida. Você não deve desperdiçar tanto dinheiro comigo. - Inclino-me do outro lado da cabine e beijo-a. ― Não é desperdício, Rania. ― Se você disser que sim. Eu rosno. Essa é a sua frase padrão, quando ela discorda, mas não digo mais nada. ― Rania. Sério. Discorde de mim às vezes. Não basta aceitar o que eu digo. Eu quero que você me diga a sua opinião e fique com ela. Se você não gosta do que eu estou dizendo, me diga. Se você acha que eu estou errado, me diga. ― Você é meu marido. É meu dever apoiá-lo. ― Besteira. Você é minha esposa, e é o seu dever me dizer quando eu estou sendo um idiota teimoso. Não basta rolar e aceitar tudo.

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Ela olha para fora da janela, sem responder por um longo tempo. ― Eu nunca tive o luxo de opiniões. - Diz ela em árabe. ― Como muita coisa, vou ter que aprender. ― Você vai aprender. Vou ajudá-la. - Eu digo a ela em árabe. ― Eu quero que você se torne a pessoa que você quer ser. Quem é Rania? O que ela quer? O que ela gosta? Quais são seus sonhos? - O táxi para e deixa-nos, e eu carrego as sacolas em nosso condomínio. Rania atravessa a sala para ficar na janela, braços cruzados sob os seios. ― Eu não sei as respostas para essas perguntas. Essas são as respostas de alguém que está vivendo, e não apenas sobrevivendo. Eu não sei como viver. Como ser... Uma pessoa. Eu vou atrás dela e envolvo meus braços ao redor da sua cintura. ― Eu não tenho certeza do que você quer dizer. - Como ser uma pessoa. ― Você é uma pessoa. - Ela balança a cabeça, seu cabelo fazendo cócegas no meu nariz. ― Não. Bem, talvez agora eu esteja me tornando uma. Antes, eu era apenas uma prostituta. Uma prostituta é uma coisa. Como uma geladeira, ou uma vaca usada para leite. Eu fui concebida para ser utilizada. Uma prostituta não tem sonhos ou desejos para o futuro. Não é só o próximo cliente. ― Isso não é mais quem você é. Você é uma pessoa, agora. Uma pessoa maravilhosa. - Ela gira em meus braços para me enfrentar. ― Você acha que eu sou uma pessoa maravilhosa? Eu sorrio e beijo seus lábios. ― Sim. - Ela deita a cabeça no meu peito. ― Então é isso o que eu sou. Sua pessoa maravilhosa. - A primeira noite que estávamos de volta, estávamos tão cansados da viagem que só poderíamos cair no sono, caímos de lado a lado, mas não nos tocamos. Hoje à noite, eu espero diferente. E então eu percebo que toda a sua vida mudou, toda a sua razão de existência tem sido arrancados, e ela está confrontada com a tarefa

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de reinventar a si mesma em um novo país, casou-se com um homem que conheceu por talvez um mês. Talvez eu devesse dar-lhe espaço. Deixá-la se ajustar ao invés de empurrá-la para as coisas. Eu a desejo pra caralho, mas novamente... Não posso apressá-la. Eu mostro-lhe o chuveiro quando terminamos de comer o nosso jantar. Eu pedi pizza, e Rania estava temerosa no começo. Ela só comeu um pouco, o que provavelmente era inteligente. Eu comi mais do que podia. Pizza é uma das coisas que eu sempre sinto falta no deserto. Ela tira inconscientemente, está à porta aberta do chuveiro, um braço sobre os seios, a outra mão por baixo do spray, testando a temperatura. Seu chuveiro no Iraque foi quase sempre frio. Ela define a água quente, escaldante. Eu não posso evitar, mas vê-la, com as pernas longas piscando no vapor, a pele molhada e brilhante, é uma tentação. Seus longos cabelos louros são uma cortina molhada nas costas, pendurada entre as omoplatas. Eu quero tanto entrar lá com ela. Vejo-a olhar para mim com o canto do olho, e me pergunto se ela está me esperando para ir com ela. Se ela quer eu vá. Tenho medo de empurrá-la muito rápido. De fazê-la pensar que eu esperava isso. Eu quero que ela me queira em seus termos, em seu tempo. Eu quero que ela me queira em seu próprio jeito. Vai levar tempo. Eu poderia explodir antes que isso aconteça, mas não vejo muita escolha. Eu me afasto, e quando eu faço então vejo um flash de algo quase como decepção em seus olhos, mas ela não me chama de volta. Eu dispo a minha cueca e deito na cama, à espera. Ela sai em uma toalha, para, de frente para mim na cama. Seus olhos estão arregalados. Minha garganta está seca, meu pulso batendo. Eu posso me sentir endurecer. Eu vejo uma gota de água correr para baixo do pescoço e entre os seios, por baixo da toalha. Estamos ambos respirando fundo, nenhum de nós fala. Eu faço um voto de deixá-la sempre dar o primeiro passo, de esperar por ela. Isso está testando meu controle agora. Ela está úmida e limpa e sexy

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como o inferno, tudo que eu quero fazer é rastejar em cima da cama, rasgar a toalha de cima dela, e beijar cada centímetro de seu corpo, exuberante e ágil. Não me atrevo, e eu tenho que cerrar minhas mãos no lençol para me parar.

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Ele não faz nada, apenas me observa. Eu o conheço bem o suficiente, agora que eu vejo o desejo em fúria em seus olhos. Sua masculinidade está dura, e as suas mãos estão agarrando os lençois. Mas ele não faz nada. Será que ele não me quer? Eu estou limpa, e o chuveiro era glorioso. Tão quente. A água quente, caindo em mim, me aquecendo. Me limpando. Eu me sinto mais limpa do que eu já estive. Mas ele não se move. Apenas me assiste. Eu não sei o que ele espera. Eu o desejo. Eu quero sentir seus braços em volta de mim, me segurando. Eu ainda estou nervosa com a ideia de sexo de verdade com ele, mas mesmo assim eu quero, e até mesmo o próprio desejo é uma sensação estranha e desconhecida.·. Tudo sobre a minha vida agora é estranha e desconhecida. Estou neste enorme, ocupado, lugar rico. Ele comprou-me tanto, mais do que eu preciso ou pensei existir. Maquiagem eu não sei como usar. Coisas para o meu cabelo, seis tipos diferentes de sapatos. Roupas o suficiente para que eu pudesse ficar um mês e nunca usar a mesma coisa duas vezes. A quantidade de dinheiro que ele gastou o número que eu vi no computador na loja, era mais do que eu poderia compreender, e ele nem piscou quando lhes deu o cartão dele. E nada disso importa, não agora. Meu coração bate como um tambor no meu peito. Eu quero deixar a toalha cair, quero dizer-lhe para me mostrar como fazer amor com ele. Minhas mãos tremem enquanto eu seguro a toalha onde está enrolada apertada em volta do meu peito. Minhas coxas tremem, e eu me lembro como eu tremia e

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gemi quando ele me tocou lá, me beijou lá entre as pernas. Eu quero que ele faça isso de novo. Quero pedir-lhe, por favor, me toque, por favor, me beije. Quando ele beija e me toca eu não estou com muito medo, e eu posso esquecer a escuridão horrível que era a minha vida... Minha existência. Eu preciso disso. Preciso. Preciso esquecer que só existo quando estou em seus braços fortes. Minha língua está congelada e as minhas palavras estão presas. Eu não posso falar. Eu tento, movo meus lábios, mas não sai nada. As ações são a única maneira que eu posso pedir-lhe para me dar o que eu preciso. Eu faço meus pés se moverem, e de repente estou de pé ao lado dele. Ele fica do lado esquerdo da cama, vestindo apenas um par de roupa interior solta vermelha e preto como calções. Boxes acho que ele os chamou. Eu posso ver sua dureza formando uma tenda do tecido, e há uma lacuna no material, mostrando-me lampejos de sua masculinidade. Eu quero tocá-la novamente. Meus seios sobem e descem em respirações curtas e afiadas, tornando a toalha apertada e solta. Eu não tenho medo dele me ver nua, ele viu antes. Tenho medo de realmente ceder aos meus desejos, porque então eu vou precisar dele completamente. Ser capaz de resistir o quanto eu quero senti-lo e tocá-lo é o último da minha independência. É uma coisa pequena, uma coisa tola. Eu o desejo, e ele é o meu marido, por isso é natural que compartilhemos essa coisa que tanto ambos desejamos. Mas eu preciso dele. Eu nunca precisei de nada, exceto dinheiro para comida e um lugar para dormir. Agora, eu preciso desse homem.·. ― Eu preciso de você. - Eu sussurro em árabe. ― É por isso que eu tenho medo.·. Ele não responde. Se senta, balança as pernas longas e grossas para fora da cama e enquadra meus joelhos com os seus. Ele põe a mão na minha coxa logo abaixo da borda da toalha.

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― Eu preciso de você, também. - Diz ele em árabe. ― E é por isso que eu tenho medo.·. O conhecimento que ele tem os mesmos medos que eu me conforta, corrói o aperto me paralisando. Agora eu posso sorrir para ele, um verdadeiro sorriso. Eu não estou tentando ser sedutora, porque eu sei que ele me quer. Suas mãos estão enrolando em torno das costas das minhas coxas, me puxando para mais perto. Eu olho para seus olhos azuis suaves, amorosos e encontro a coragem para puxar a ponta da toalha livre. Seus olhos se arregalaram, e ele lambe os lábios. Suas mãos apertam em torno de minhas coxas.·. Eu acho que ele pode ouvir meu coração batendo tão forte que minhas costelas tremem. Está feito. A toalha está esvoaçando aberta em torno de mim, caindo no chão, e eu estou nua diante dele. Não há como voltar agora. Eu poderia hiperventilar, mas não. Eu mantenho a respiração, me forçando a puxar o ar longo, lento, levanto o queixo e olho para baixo para ele. Seu queixo escova meu umbigo quando ele olha para mim entre os meus seios. ― Diga-me o que você quer Rania. Diga-me o que você quer, então eu posso dar a você. Só posso sacudir a cabeça. ― Eu não... Eu não sei. ― Sim, você sabe.·. Ele está certo. Eu sei. Eu emaranho meus dedos em seus cabelos e puxo seu rosto bonito, duro-cinzelado contra mim, contra minha barriga. Eu recuo um pouco, e seu rosto é menor. Ele vira a cabeça de lado um pouco, olha para mim, sorri.·. ― Diga Rania. Eu sei o que você quer, mas eu quero ouvir você dizer isso. ― Por quê? Estou envergonhada. Eu não posso dizer isso.

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― Sim, você pode. - Sua voz é suave e confiante. Seus lábios tocam minha barriga, quente e úmidos em minha carne, que queima com necessidade. Entre minhas pernas eu estou molhada, quente e tremendo. Agora eu sei como os lábios sentem e a língua, pressionado lá, movendo-se lá, e oh, por Allah e Maomé o seu santo profeta, eu quero tanto. Eu sinto uma onda de culpa por jurar assim, mas então eu não me importo mais. Blasfêmia ou não, eu não acredito mais em Deus. Ele não me resgatou, Hunter Lee fez. E eu quero a boca de Hunter nas minhas partes íntimas. ― Eu quero que você me beije... Lá embaixo. - Minhas palavras são sussurros tão baixos, tão suaves e hesitantes que eu mal posso me ouvir. Hunter me ouve. Sua boca toca um dos meus quadris, o caminho certo, a língua faz cócegas e o calor surge. Então minha coxa, o vinco da pele onde a minha perna se junta ao meu quadril. Eu amplio minha postura, as pernas se espalhando mais distantes. Seus beijos trilham até a minha perna, e seus braços envolvem em torno de minha cintura para que suas mãos fortes possam segurar minha bunda. Ele me puxa para mais perto, e eu suspiro quando sua língua volta contra a minha entrada. ― Oh, Deus! - Diz ele. ― Que gosto bom pra caralho! Eu coro furiosamente com suas palavras, mas não posso falar o meu constrangimento. Minhas costas arqueiam e a cabeça cai para trás. Ele não me dá satisfação imediata, mas chama-a. Oh, que alegria excruciante seu jogo me dá, sua língua correndo para dentro de mim, lambendo

meus

sucos

fluindo,

sacudindo

a

minha

pequena

protuberância sensível de nervos. Uma de suas mãos poderosas permanece em concha no globo da minha nádega e a outra anda por aí, acaricia minha coxa ao lado de seu rosto, e então eu estou ofegante de novo, porque seus dedos estão

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investigando em mim, movendo-se nas dobras molhadas e macias, em seguida, mais dentro, enrolando para arrastar esse pequeno ponto sensível dentro de mim. Minhas pernas não querem manter o meu peso, mas o braço de Hunter enrola sob minha bunda para me segurar, e eu estou agarrando seu cabelo tão forte que deve doer, mas ele não protesta. Fogo ondeia dentro de mim, centrado no meu quente, tremente núcleo feminino. Oh, isso é tão bom. Isto é o céu! Seus dedos varrem dentro de mim, sua língua roça meu clitóris, e, em seguida, ele pressiona seus lábios em torno de mim, me lambendo. Eu não posso parar o meu gemido e não tento. Eu não me importo que me ouça. Minhas pernas continuam a ceder abaixo de mim, e então eu encontro a minha força de novo e me levanto. Isso se transforma em um ritmo quando ele me lambe me beija, me dedilha. Estou à beira do abismo novamente, e desta vez eu pulo de bom grado. Uma tempestade me ultrapassa, varre-me em êxtase pulsante. Hunter se afasta no auge do prazer, e eu olho para ele em pânico. ― Por favor, não pare agora! - Eu digo. Estou implorando, e eu não me importo. ― Por favor, não pare! - Hunter lambe-me, mas isso não é o suficiente para me conduzir ao longo da borda. ― Diga alguma coisa para mim, baby.·. ― Qualquer coisa. ― Eu quero que você diga “eu vou gozar”.·. ― Gozar? ― É a palavra que usamos em inglês. Isso significa o orgasmo. Ele

me

lambe

de

novo,

lentamente,

muito

lentamente.

Eu afundo quase em um agachamento com a lentidão glacial de sua língua contra a minha feminilidade. ― Por favor, Hunter. Estou indo gozar. Por favor, me faça gozar.

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Ele rosna contra minhas pregas. ― Foda-se. Eu vou fazer você gozar tão forte, Rania! Ele move os dedos dentro de mim, roçando aquele lugar especial rapidamente agora, e sua língua círcula meu clitóris e eu estou curvando minhas pernas para chegar mais perto dele. Eu não sei quando, mas em algum momento ele caiu de joelhos na minha frente. Ele está de joelhos na minha frente. Isso me faz querer chorar, mas eu não sei o porquê. Eu explodo sem aviso prévio. Estou no limite, oscilando, cada vez mais perto, e então eu estou caindo contra ele, incapaz de suportar o meu peso. Estou ofegante, tornando agudos ruídos como ele suga e lambe e movimenta meu clitóris, me deixando em explosão após explosão.·. Então eu sei que eu não aguento mais. ― Por favor, Hunter, me pegue. Eu não posso levantar-me mais. Minhas pernas cedem, e seus braços estão em volta de mim, em meu pescoço e minha bunda. Ele me levanta sem esforço. Eu poderia ser segurada por ele assim para sempre. Assim, contente, tão segura em seus braços, no peito dele para que eu possa sentir seu coração batendo. Ele me coloca na cama e se inclina para perto de mim. Ele não faz nada, exceto olha para mim por um momento. ― Você é tão linda! - Ele sussurra. ― Você sabia? - Eu balanço minha cabeça. ― Eu sei que os homens pensam...·. Ele me interrompe com um beijo. ― Homem. Um homem. Eu. Eu sou tudo o que importa. Ninguém mais pode tê-la. Você é minha! Eu tremo ao ouvir suas palavras. ― Você me promete?

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― Sim, meu amor. Eu prometo! - Ele beija a minha mandíbula, então meu pescoço, e eu ainda estou tremendo com a força do meu orgasmo. Mas ele não terminou comigo. Ele beija meu ombro, depois o meu peito, em seguida, a parte inferior do meu peito. Uma de suas mãos está itinerante em meu corpo, roçando minha cintura e minha barriga e meu outro seio, arrastando no meu rosto, em seguida, até a minha perna e minha coxa.·. Ele está inclinado não completamente contra mim, mas perto o suficiente para que eu possa sentir sua masculinidade cutucando meu quadril. ― Eu quero tocar em você. - Eu digo. ― Eu quero fazer você gozar. ― Você vai. - Ele sussurra sua boca em volta do meu mamilo. ― Eu prometo você vai. Primeiro, deixe-me te beijar. - E ele faz. Ele passa uma eternidade apenas me beijando. Ele beija cada centímetro do meu corpo, meus braços, minhas mãos, meus dedos, joelhos, as solas dos meus pés, ele me rola na minha barriga e beija minha coluna, minhas nádegas, as costas das minhas coxas. Beijou-me até que eu não poder suportar isso por mais tempo. Eu detenho-o, empurro-o para a suas costas, e tiro seus boxes fora dele. Eu não tenho certeza que é a palavra certa. Antes de jogá-los no chão, eu seguro-os. ― Qual é a palavra para esse tipo de cueca? - Eu peço. ― Boxes? Algo parecido com isso? Eu não posso pensar nisso. Ele ri duro. ― Boxes? Oh, Deus, Rania. É engraçado. Boxers. Eles são chamados de boxers, querida. - Eu franzo a testa para ele. ― Você está tirando sarro? Eu não sei todas as palavras certas ainda. Ele pega meu rosto e puxa-me em seus braços, ainda rindo.

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― Não! Não, querida. Não. Eu não estou tirando sarro de você. É muito engraçado. Quero dizer, “boxers” é uma palavra engraçada, agora que penso nisso, mas, por algum motivo, “boxes” é mais engraçado. Ele para de rir, e de repente nós estamos olhando um para o outro. Seus olhos, a única coisa sobre ele que prendeu minha atenção em primeiro lugar, eles são incrivelmente azuis na luz do banheiro. Ele coloca a mão na minha bochecha. ― Eu te amo, Rania Lee. Eu recolho a minha coragem, mais uma vez, e digo-lhe o que eu quero. ― Faça amor comigo, Hunter. Eu toco a sua masculinidade, acho duro como pedra e vazando líquido da ponta, mas quando eu agarro-o na minha mão, ele é mais suave do que parece, e eu adoro essa maravilhosa contradição, como eu amo o jeito que ele arqueia seu corpo quando eu toco-o assim. Como eu amo os lábios em mim, como eu amo a sua voz quando diz meu nome. Eu o amo. É tão inacreditável, ainda assim, nesta casa incrivelmente luxuosa que ele chama de condomínio, que um homem como Hunter poderia me amar, uma prostituta. Mas eu não sou, sou? Ele estaria com raiva de mim por pensar isso. Eu não devo pensar nisso. Eu não sou uma prostituta. Eu não sou Sabah. Eu sou Rania Lee, e eu sou a esposa de Hunter. Hunter me beija e eu me perco em seus lábios, seu corpo duro e forte ao meu lado. Estou pronta. Eu fico em minhas costas, uma posição tão familiar, e me preparo para ele. Ele me beija, planta a mão ao lado do meu rosto, move-se lentamente em cima de mim. Eu não posso evitar o pânico que bate, o sentimento da memória me ultrapassa, de tantos outros homens que se deslocaram acima de mim. Meus dedos se curvam em garras em seus ombros e eu luto, luto tão duro, mas eu não posso, e minha respiração vem em suspiros agudos curtos. Meus olhos estão bem fechados apertados, os joelhos

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apertados, e Hunter está sussurrando no meu ouvido, mas eu não posso ouvi-lo, não posso compreendê-lo. Em seguida, o movimento. As mãos de Hunteres estão na minha cintura e eu estou rolando, deitada em cima dele. Eu enterro meu rosto em seu ombro e choro. ― Eu sinto muito, Hunter. Não posso. Eu pensei que eu poderia, mas... Ele toca meus lábios. ― Hey, está tudo bem. Sinto muito, eu não pensei, eu não sabia que teria esse efeito em você. Está tudo bem. Eu não consigo parar de chorar. Tenho que deixá-lo sair, e eu não posso fazer o que tanto eu quero o que eu sei que ele quer. ― Eu sinto muito, Hunter. - Eu proponho sair da cama, ficar longe dele, de sua decepção. ― Ei, espere um segundo. - Diz ele, e não me deixa sair. ― Olhe para mim.·. Eu levanto a minha cara, e seu polegar roça minhas lágrimas. Ele me beija, e por um momento eu estou perdida, mais uma vez no céu de seu beijo. Eu começo a me esquecer, e cresco com fome dele, beijo-o desesperadamente. Ele se afasta e encontra meus olhos. ― Isso não é a única posição, você sabe.·. ― O quê? - Eu não sei o que isso significa em primeiro lugar. ― Quero dizer... Olha, eu não estou tentando apressá-la ou pressioná-la. Se não for possível, se você não está pronta, isso está totalmente bem. Eu balanço minha cabeça. ― Eu quero. Mas... Só foi tão assustador. Havia tantas coisas na minha cabeça e no coração que eu não conseguia respirar. Mas eu não quero deixar você na mão.

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Ele toma o meu rosto e me aproxima. Ele me sobe mais alto e agora estou sentada em cima dele, montando sua cintura como se ele fosse um cavalo e eu um cavaleiro. Seus olhos brilham. ― Você não poderia nunca me deixar na mão, Rania. Se você não está pronta, está tudo bem. Eu quero que isso seja algo que você quer. Quando você quiser. Como você quiser. Só o que você quiser. Você entendeu? Você não pode e não vai me decepcionar. Nunca pense isso. ― Eu não quero pensar isso. É confuso, Hunter. Tanto de mim quer isso, quer você. Mas... Uma outra parte tem medo, e essa parte sente medo quando você está em cima de mim. - Ele sorri e esfrega as minhas coxas. Sento-me reta com seu toque. Suas mãos deslizam para cima das minhas pernas, mais perto do meu núcleo, e o meu desejo queima quente. Eu posso sentir a evidência líquida da minha necessidade dele aquecer dentro de mim, me enchendo. ― Eu não tenho que estar acima de você. - Diz ele. ― Não? ― Não - Ele sussurra de volta, sorrindo. Ele passa as mãos no meu torso, acaricia meus seios, desliza as mãos sobre meus ombros e nas minhas costas antes de deslizar as mãos sob minhas nádegas, me levantando. Eu me inclino para frente e me preparo com minhas mãos em seu peito. Minha intimidade está pairando sobre seu corpo agora. Ele se move, muda um pouco abaixo de mim, e então eu sinto a ponta grossa suave de sua masculinidade sondando na minha entrada, apenas tocando, apenas escovando. Eu suspiro uma forte, respiração surpresa. ― Como isso? - Ele esfrega as mãos em círculos reconfortantes nas minhas costas. ― Só assim, meu amor.·. Meu amor. As palavras me batem no fundo do meu coração, espetando nos lugares mais secretos da minha alma. Eu sou o seu amor. Como pode ser isso? Como eu poderia valer o seu amor? Ele

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espera. Me assiste. Hunter nunca faz nada a não ser que ele tenha certeza que eu quero. Ele está se esforçando, tenso, precisando de mim. Eu posso sentir isso nele, saboreio-o no ar. Eu beijo-o, provo sua necessidade em seus lábios, em sua saliva, em seu hálito, em sua língua. Será que ele sente a minha necessidade? Eu preciso dele. Eu quero ele. Mas ele não está se movendo, apenas esperando, e eu acho que não vai fazer isso por mim. Devo fazê-lo. Minha garganta está apertando firme, tão seca, e eu estou suando, tremendo em cima dele. Minhas coxas estão em torno de seus quadris, e seu tenso, estômago está debaixo da minha essência, e seus braços estão em volta de mim, com as mãos em mim. ― Beije-me, para que eu possa fazer isso! - Eu digo. Ele se aproxima de mim lentamente, com os olhos em mim até o último momento. Eu vejo quando as pálpebras deslizam fechadas, nosso nariz esfrega um contra o outro e nossos lábios tocam, e então eu estou perdida, tão docemente perdida. Chego entre os nossos corpos e seguro seu pênis, guio-o para a minha entrada e, em seguida, uma pausa. Ele sabe as palavras que eu preciso ouvir: ― Eu te amo, Rania. Ele está dentro de mim. Eu poderia estourar dividir aberta as costuras, ele me preenche completamente. Ele está imóvel, com as mãos na minha cintura, os olhos azuis arregalados, quentes, amorosos, fixos em mim dessa forma buscando a alma que ele tem. Ele não está totalmente imerso em mim, apenas uma parte do caminho. Eu engulo em seco e inclino-me sobre ele, deslizo minhas mãos sob a cabeça e agarro seu cabelo, pressiono os meus lábios em sua garganta. Estou tremendo como um pedaço de papel numa ventania. Eu movo meus quadris, retirando-me, e um gemido desliza para fora da minha garganta. Hunter geme no fundo do peito e aperta as mãos na

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minha cintura, mas ele não faz nada para me pedir mais rápido ou mais profundo. Quando ele está quase escorregando para fora de mim, eu reuno uma respiração profunda de ar em meus pulmões famintos, me fazendo perceber que eu estava segurando a minha respiração, e então eu deslizo para baixo de seu corpo, deixando-o profundamente, totalmente em mim, exalando quando ele me espeta.·. ― Deus! - Diz Hunter, mas a palavra é estendida, um gemido, enquanto sua respiração exala, combinando com a minha. ― Por favor, me toque! - Eu sussurro. ― Diga-me o que você está sentindo. Sua voz... Quero ouvir a sua voz enquanto fazemos amor. Suas mãos derivam para acariciar meus lados, subindo para os meus seios, tomando seu peso e sentindo sua suavidade. ― Você se sente tão bem, Rania. Estar dentro de você assim é... É foda, céu, baby! Eu movo novamente, levanto meu quadril alto, portanto, apenas a cabeça larga, suave de sua masculinidade permanece em minhas partes íntimas, e então eu pauso, esperando que ele fale, para ouvi-lo respirar, ouvir o raspar de ar passado suas cordas vocais. Meus olhos estão fechados, e todos os outros sentidos são apertados como uma corda. Eu posso sentir o cheiro dele, o suor, a fraca colônia, desodorante, sabonete... E eu, o meu cheiro misturado com o dele. Seu corpo está abaixo de mim, enchendo o meu sentido de tato. Não há nada para sentir, exceto Hunter, com as mãos sobre mim, suas pernas como pedra coberta de carne, sua masculinidade dentro de mim, sua respiração no meu rosto enquanto ele fala.·. ― Eu amo esse cheiro. Eu amo a sua pele. - Ele se move, só um pouco, seus quadris sempre tão à deriva suavemente para cima e, em seguida, de volta para baixo. O ligeiro movimento envia foguetes de alegria explodindo em mim, e eu deixo-me deslizar para baixo, para seus quadris baterem os meus, levando-o fundo, no fundo dentro de 234


mim. ― Eu amo os seus olhos. Eu amo a sua respiração em meus lábios. E então eu me movo novamente. Eu deslizo para cima de seu comprimento e de volta para baixo, e não apenas com meus quadris agora, mas com tudo de mim, todo o meu corpo balançando na dureza do seu. Ele se move comigo, apenas um impulso docemente lento, e isso é tão bom que eu tenho de agarrar meus dedos em seus ombros e gemer. ― Mova comigo, Hunter! Ele geme. ― Graças à foda! Segurando-me ainda assim é a coisa mais difícil que eu já fiz. Ele passa as unhas em minhas costas e eu estremeço, contorcendo-me em cima dele e levando-o profundamente. Uma pequena, vibração explode através de mim quando ele está todo o caminho dentro, e agora... Algo se rompe dentro de mim, quando ele começa a se mover, deslizando devagar em mim. Não há mais medo, nem preocupação, não há memória, apenas Hunter e as incríveis sensações que ele me dá. ― Oh, Deus, você se sente tão bem, tão bem pra caralho! - A voz de Hunter é um rosnado baixo no meu ouvido, me deixando mover mais rápido. Eu amo que eu o faço se sentir bem. Eu quero mais. Eu beijo seus lábios, famintos e necessitados. Agora o empurrão é um pouco mais rápido, e eu igualo a ele. Eu não posso ajudar, mas me mover em sincronia com ele. Sua masculinidade desliza em mim, enche-me, me estende, e agora vou para a realização. Ele não apenas enche o meu corpo, a minha feminilidade. Ele me preenche. Meu coração, minha alma. Ele preenche o vazio horrível que se abriu dentro de mim toda a minha vida. No momento em que ele deslizou para dentro de mim, eu sabia.

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Levou tanto tempo para compreender a estranha sensação que agora flui em minhas veias no lugar de sangue: Felicidade. Eu permito o fluxo de lágrimas, deixo-me chorar. Eu nunca paro de me mover, e agora eu assumo o controle do ritmo, caio em cima de Hunter, meu amor, meu marido, minha plenitude, e movo-me como uma

louca,

como

uma

mulher

possuída.

Estou

deslizando

e

escorregando em cima dele, levando-o para dentro de mim e puxando para cima e para fora até que ele quase sai de mim, e então ele está profundo novamente. Nossos corpos batem juntos em uma sinfonia perfeita, meus gritos de prazer cada vez mais altos e mais desesperados, mais apaixonados. A voz de Hunter se junta a minha, e eu adoro o som de sua voz levantada alto de prazer, êxtase dado a ele por mim, pelo meu amor. ― Eu te amo, Hunter. Por favor, não pare. Nunca pare. ― Eu não vou, eu prometo. Nunca. Eu vou te amar para sempre. Eu vou fazer amor com você até que não haja eu e nem você, só nós juntos assim para sempre! ― Sim, por favor! Eu quero isso, sempre. Só nós. Eu amo isso. Eu amo isso. - Minhas palavras são ditas ao ritmo da união dos nossos corpos, deixando de funcionar em conjunto, deslizando e deslizando para longe, o ritmo como uma música, e meus pensamentos são desarticuladas poesias, minhas palavras são uma mistura de inglês e árabe, e tudo o que posso é não chorar em cima dele e passar por cima dele e beijá-lo em meus lábios, arrastar ao longo de sua pele e agarrá-lo apertado. Calor floresce e enrola dentro de mim, esmagado mais quente pelo corpo de Hunter dentro de mim, e agora o calor está explodindo e espalhando e todo o meu corpo entra em convulsão e eu estou enrolando em uma bola em cima dele, chorando, impotente. A maneira 236


como ele me fez sentir no passado parecia tremer a terra, mais intensa do que qualquer coisa que eu poderia ter imaginado. Mas isso... Isso é além desses orgasmos por vários graus de intensidade. Eu gozo e gozo, e ainda Hunter está se movendo dentro de mim, tornando-se desesperado agora, e eu só posso me apegar a ele enquanto ele bate em mim, não mais gentil, agora furioso, e eu não quero que ele mude ou pare, ou seja, gentil novamente.·. ― Sim, Hunter! - Eu sustento minhas mãos no peito dele e movo os quadris para encontrar o dele, e ele está dirigindo tão profundamente em mim, eu acho que ele não pode ir mais fundo, então ele me empurra na vertical, me inclina suavemente para trás, eu levanto com minhas pernas e ele dirige-se com os quadris e ele está ainda mais completamente dentro de mim, eu gozo mais uma vez, eu tenho um pensamento lúcido errante. Essa frase dele, gozar em referência ao orgasmo, é perfeita, tão certa para a experiência de atingir o orgasmo com o homem que você ama. Você não apenas encontrar um lançamento físico, você está entrando em um novo reino, chegando ao céu, entrando nele, tornando-se ele. E então ele goza, acho que eu realmente me perdi dentro dele. Ele explode, e eu sinto a sua semente em mim, quente e molhada dentro de mim preenchendo e eu adoro isso também. Adoro a maneira como ele geme sem palavras, quase gritando, mergulhando duro e duro e duro, eu caio em cima dele, passando os braços ao redor de seu pescoço e chorando, chorando em seu ombro, meu corpo soluça, quebrando. Nós ainda estamos juntos.·. ― Por que você está chorando, Rania? Você está bem? - Eu suspiro, estremecendo com réplicas de gozo e os soluços recuam. ― Sim. Mais do que bem! - Eu levanto e rolo, então sou embalada por ele, com a palma no seu rosto e deixo-o ver a minha alma através dos meus olhos. ― Eu estou chorando porque foi tão maravilhoso, tão

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bom que eu não sei as palavras para descrever isso na minha língua ou na sua. Ele suspira profundamente e deixa, me segurando perto. ― Para mim, também. Essa foi a coisa mais incrível que eu já experimentei. ― Você se lembra de ter me perguntar se eu já estive feliz? ― Sim. ― Estou feliz agora. Você me deu a felicidade. - Eu vejo seus olhos brilharem na luz trêmula, aperta os braços em volta de mim e eu vejo um traço de lágrima escorrendo pelo rosto. ― Você me fez feliz, também, Rania, eu não achava que poderia ser feliz novamente depois que meus pais morreram. ― Nós podemos ser felizes juntos. ― Sim, por favor! - Ele sussurra. ― Eu gostaria disso.

238


Dormimos depois de fazer amor, e eu acordei com o mais furioso tesão da minha vida. Rania está aninhada contra mim, em conchinha comigo, de costas para a minha frente, e sua bunda embala dolorosamente o meu pau duro. Ela é tão suave em meus braços, tão quente, tão frágil e pequena, mas eu sei que ela é forte, tão incrivelmente forte.·. Eu não me importo quem ela foi, o que ela foi. Eu conheço alguns caras que não seriam capazes de esquecer o fato de que ela era uma prostituta, mas isso não importa para mim. O que importa é que ela me ama tão completamente, e ela não esconde isso. Eu pensei que iria morrer de puro êxtase quando ela deslizou pelo meu corpo e empurrou meu pau em sua quente, boceta molhada. Eu morri, eu acho. Morri e fui para o céu, permaneci imóvel enquanto ela se encontrava, enquanto ela aprendia a deixar-se sentir, essa foi a coisa mais difícil. Como, sempre. Eu queria mergulhar dentro dela, duro e selvagem e desesperado, mas eu não podia. E eu estou tão, tão feliz que eu não fiz. Levou um tempo, ao que parecia, para ela entender a alegria de fazer amor, para ela abrir seu coração, sua mente, seu corpo e deixarme amá-la de verdade, mas ela fez, e ela balançou meu mundo.·. Agora eu quero fazê-lo novamente. A palma da minha mão desliza por sua própria vontade até a coxa, em seguida, através de sua barriga, até os seios. A sombra cinza de luz corre no meio da janela e nos dá um brilho suave de iluminação da madrugada. Eu seguro seu seio,

239


suavemente brincando com o mamilo. Ela geme em seu sono, se desloca. Eu deslizo minha mão entre as coxas ao triângulo apertado e ela se move, só um pouco, solta as pernas apertadas. Eu não tenho certeza se devo empurrar isso, mas não posso deixar de tocá-la, desejá-la. Meu dedo médio alcança o topo de sua fenda e desliza para dentro. Agora ela está acordando, suas pálpebras tremulando ao me conceder vislumbres de seus olhos cor de chocolate. ―Hunter? - Sua voz é grossa e sonolenta, hesitante. ― Sinto muito. - Eu digo. ― Você é tão sexy quando você dorme, eu não podia deixar de tocar em você. Ela sorri, escova uma mão esticada em seu rosto, gemendo enquanto ela flexiona seus músculos e tensiona languidamente, como um gato. Seus seios arqueiam para cima e para fora, deslizo minhas mãos sobre eles, então, quando ela está no auge de seu estiramento, eu inclino-me para sugar o mamilo, sacudindo-o com a minha língua. Ela geme um som incrivelmente erótico. Eu levo meus dedos até sua buceta lisa e deslizo-os dentro dela, repentino e sem aviso prévio. Ela ri e estremece, me puxando mais para ela. O som de sua risada, o verdadeiro, riso inocente... É a coisa mais incrível que eu já ouvi. Eu estou em cima dela, dividido entre as coxas, o peso em meus cotovelos, lábios a centímetros dos dela, e seus risos desaparecem. Eu não tinha a intenção de pousar em cima dela, só aconteceu acidentalmente. Meu pau cutuca sua entrada, e eu tenho que tensionar cada músculo do meu corpo para manter-me de mergulhar dentro dela. Seus olhos estão arregalados, sua risada foi, mas as mãos dela estão sobre os meus ombros, e ainda não tremem. Eu movo-me para sair, mas ela balança a cabeça. ― Não, por favor. Basta esperar. - Sua voz é tão gentil, tão hesitante, tão inocente. Espero. Enquanto espero, eu a beijo. Ela parece encontrar algum tipo de coragem, algum tipo de consolo em meus lábios em sua pele. Eu começo em seu ombro, o arco pleno perfeito, onde se reúne o braço no ombro e, em seguida, passo

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para a clavícula, a garganta, o vazio entre a garganta e o peito. Ela choraminga, mas não se move, não fala. Eu arrisco, beijo o seu seio, um e depois o outro, em seguida, tomo o mamilo na boca e língua, o mamilo ereto, um e depois o outro.·. Seus braços deslizam em volta do meu pescoço, enquanto eu beijo seus seios. Então eu movo-me para beijar-lhe os lábios e as mãos deslizam suave pelas minhas costas segurando minha bunda. ― Olhe para mim. - Diz ela. Eu olho para os olhos. Ela está com medo de novo, mas eu vejo determinação em sua expressão. ― Rania. Você não tem que provar nada para mim. - Ela balança a cabeça. ― Não para você. Para mim. - Ela acaricia minha bunda, pequenos círculos hesitantes. ― Este era o lugar de Sabah, em suas costas. Quero torná-lo meu, de Rania. Nosso. Eu não quero deixar Sabah roubar o meu prazer. Nós compartilhamos o silêncio por um longo momento, e então ela puxa-me, pedindo-me suavemente que me aproxime. Suas pequenas mãos quentes na minha bunda me levam para ela. Faço uma pausa antes de entrar.·. ― Você tem certeza? - Eu peço. Ela acena com a cabeça. ― Sim. Apenas... Lentamente. E me beije. - Ela toca meus lábios com os dela, e então diz: ― Eu preciso de seus beijos para fazer as memórias desaparecerem. Desta vez, sou eu. Eu tenho que fazer isso perfeito, fazer a coisa certa. Eu inspiro o cheiro dela e beijo seus lábios doces. Eu beijo-a com todo o carinho, todo o amor até os ossos, toda a paixão da alma, agitação brotando em mim para essa mulher. Há tanta coisa. Eu não tinha a porra da pista que eu poderia me sentir assim, isto é muito. É como um poço profundo que se abriu dentro de mim e, agora, todo o amor em todo o mundo está sendo derramado por mim dentro dela.

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Ela puxa a minha bunda, insistentemente, ajusto meu peso, espalho os joelhos ligeiramente, e movo-me dentro dela. Eu entro nela com uma lentidão de uma só vez excruciante e encantadora, tão lento que não é quase movimento em tudo. Ela choraminga novamente, alto na parte de trás de sua garganta, e eu deslizo mais profundo, sua voz se arrasta para um gemido.·. Nossos corpos se encontram e ela arqueia as costas enquanto eu me enterro até o punho dentro dela, agora é a minha vez de gemer. ― Deus, Rania... Você se sente tão incrível. Eu amo estar dentro de você. ― Por favor, mais! - Ela sussurra. ― Mais, mais! Eu dou-lhe mais, mas lentamente, com cuidado. Eu tento fazer amor com ela tão suavemente quanto eu a beijo, não como se ela fosse frágil, mas com ternura. Eu vou tão lentamente que cada deslize, cada deslizamento para fora parece levar uma eternidade, uma infinidade de céu. Ela agarra minha bunda, me puxa contra ela, e eu vou um pouco mais rápido, um pouco mais profundo. Eu altero o ritmo dos meus impulsos, um impulso lento, uma retirada um pouco mais rápida. Ela geme, suspira, e agarra-me, respirando cada vez mais difícil. Eu sinto um brilho de suor deslizar em seu corpo, misturando-se com o meu próprio suor. ― Hunter! - Rania suspira. ― Eu amo isso, com você. Não pare. É tão bom, tão certo. Por favor, me dê mais, um pouco mais. Algo sobre suas palavras me parece incomum, e leva-me algumas batidas para descobrir o que: ela usou uma expressão. Eu não me incomodo dizendo que não poderia parar, nem se eu quisesse. Só posso mover-me com ela, sentindo seu corpo doce, exuberante, como um escorregar da mais suave seda por baixo de mim, saboreando seus

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lábios, sua respiração. Deus, eu a amo. A amo pra caralho deve ser impossível, e eu a amo mais a cada respiração que eu tomo, com cada mergulhar do meu pau no céu da sua buceta.·. Eu a amo mais, e mais, e eu quero saber o quanto eu poderia amá-la em dez ou vinte anos. Eu tento imaginar, e minha cabeça gira. Suas unhas arranham pelas minhas costas, e ela choraminga, grita, e agora as pernas se enrolam em minha bunda e ela me puxa para dentro, vou cada vez mais duro. É o céu, é uma doce perfeição gloriosa, o anjo do amor que se fez carne, se fez mulher, cujo nome é Rania. Seus seios estão esmagados contra o meu peito, firmes e sua respiração está em meu ouvido, soltando eróticos gemidos, a trilha sonora do sexo, do amor. Seus músculos internos estão apertando em torno de mim, apertando quando eu dirijo dentro, liberando quando eu escapo, e maldita, eu não sabia que uma garota poderia fazer isso. Parece que sua buceta está me agarrando e soltando, e é a coisa mais quente que eu já senti porra! Eu deslizo meus braços sob o pescoço e beijo-a até

o

esquecimento, sem fôlego para abandonar, eu a beijo até que ela fica ofegante e resistindo dentro de mim, tomada pela paixão em selvageria. Ela é um animal de repente, arqueando as costas, agarrando-se a mim com seus braços e pernas, com todo o seu corpo, gritando o meu nome quando ela goza, e eu não posso segurar, só posso gozar com ela, e oh, meu Deus do caralho, é a experiência mais intensa, purificação da minha vida, meu corpo inteiro está mergulhado em fogo, em êxtase.·. ― Rania... - Eu suspiro seu nome. É a única palavra que eu sei, naquele momento. Tudo o que sei é ela. O nome dela. Seu corpo, seu amor. Nada jamais existiu. A guerra, as memórias terríveis malditas: a morte, a traição de Lani... Tudo está desaparecido, ido, perdido no rio do amor de Rania. Ela ainda está segurando firme em mim, agarrando-se a mim como se

243


eu fosse um mastro e ela uma náufraga, sua respiração vindo em longos e profundos, suspiros irregulares, os seios arfando contra o meu lado. A palma da mão repousa baixo na minha barriga, a centímetros de distância do meu pau. Sua perna está jogada sobre a minha, ela traça círculos em minha pele com o dedo, em seguida, desce para tocar meu pau, esfregando a palma da mão ao longo de seu comprimento, brincando com a ponta.·. Nós não falamos, e ela brinca comigo, então estou duro e ela está escalada montando em mim de novo. Ela lança-se sobre mim e senta-se comigo profundamente dentro de seu corpo lindo, ela sobe e desce, seu longo cabelo loiro-farmácia está em seu rosto, em seus ombros e escovam os mamilos. Eu levo os quadris em minhas mãos e levanto-a, esmago-a. Eu beijo sua barriga. Eu beijo seus seios. Seguro, enrijecendo, até que ela goza, pela primeira vez, e então eu sento e guio as pernas em volta das minhas costas e movo-me com ela, sentado, cara a cara, beijando, fazendo amor, um deslizando para o outro, e eu sinto o rio ampliar, aprofundar, seu amor me enchendo e fazendo-me amá-la ainda mais.

O FIM

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TINTORIAIS

Des Moines, Iowa, 2005.

Uma mulher está na frente de um espelho embaçado com vapor. Ela tem uma toalha azul do robe enrolado em seu peito. Ela limpa a raia em todo o espelho com a palma da mão magra, a limpeza de uma faixa que vê seu reflexo. Sorri uma doce curva dos lábios vermelhos. Desenrola a toalha limpa e o espelho o resto do caminho. Ela sorri para seu reflexo mais uma vez, sua expressão surpresa, quase como se estivesse vendo alguém conhecido, alguém que não é visto em muitos anos. Ela arrasta os dedos pelo cabelo, escovando o topo de seus ombros. Um homem entra no banheiro, murmurando a apreciação de seu corpo nu. Desliza suas mãos para baixo aos lados de seus quadris, em seguida, sobre a barriga ligeiramente arredondada e até seus seios, que ele segura com mãos ternas. Ele repousa o queixo no ombro dela e vê em seu reflexo com ela. Levanta a mão para correr uma mecha de seu cabelo de tinta preta recém-tingido por entre os dedos. ― Eu adorei Rania. - Diz ele. ― Gostou? - Ela se vira para olhar para ele, beija seu nariz. ― Sim, gostei. Eu realmente amo isso. Parece tão perfeito. Tão você.

245


― Por isso, não se parece comigo, antes que eu pintei meu cabelo? - Sua voz tem um tom de provocação. O homem apenas bufa. ― Você sabe o que eu quis dizer. Ela ri. ― Sim, meu amor. Eu simplesmente desfruto brincando com você. - Ele ri com ela, então move a mão do peito para baixo entre as coxas.·. Ela tira a mão. ― Nós não temos tempo para isso, Hunter. Temos o médico em meia hora. Ou você não quer saber se o nosso bebê é um menino ou uma menina? Ele se afasta, mas não antes de dar a sua parte traseira um tapa brincalhão. ― Bem, então, é melhor sermos rápidos, não é? Ela bufa, voltando-se para bater seu braço enquanto ele dança para fora do caminho. Quando ele se foi, ela se vira para olhar para si mesma novamente, passando os dedos pelos cabelos. Sua expressão é distante, como se estivesse vendo uma menina no espelho, jovem e inocente. A mulher sacode a cabeça, e a menina se foi substituída mais uma vez por seu próprio reflexo. Mas por semanas depois disso, às vezes ela vê aquela menina no espelho, a vê no brilho de cabelo tão negro quase azul, nos grandes olhos

castanho-escuros,

que

agora

realização.

246

possuem

amor,

felicidade

e


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