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A “Classe Débora” e o Hospital Evangélico Introdução Estou, há tempos, com um assunto a tratar sobre um erro de informação sobre uma foto antiga, na qual está retratado um grupo de membros da Igreja Presbiteriana de Sorocaba – a Primeira Igreja da Rua Santa Clara, igreja mãe das demais outras igrejas Presbiterianas da cidade –, que tem sido publicada em reportagens de cunho histórico, feitas pela mídia escrita e repetidas pela mídia social, tendo a foto sido relacionada, nesses históricos, à fundação do Hospital Evangélico em Sorocaba. Essa foto saiu publicada pela primeira vez numa reportagem sobre o Hospital Evangélico na “Revista do Médico” (número 36 Ano XI - jul/ago 2005), órgão informativo da Sociedade Médica de Sorocaba, que tinha como matéria jornalística os aspectos históricos do hospital, em razão da comemoração dos setenta anos do lançamento da campanha para sua fundação, ocorrida em 1935.

“Revista do Médico” – n. 36 – Ano XI – jul/ago 2005, pag. 3.

A foto saiu na revista como ilustração dessa matéria, encimada pela identificação “Classe Débora”, sem outra informação qualquer e sem a identificação das pessoas ali retratadas: para mim, parecia ser, apenas, uma ilustração com uma foto temática antiga para mostrar os antigos protestantes, recurso muito usado em jornalismo, sem a preocupação de ordem histórica com a matéria. Claro, para quem não conhecesse a foto, lendo o artigo, bem poderia concluir, por intuição, por indução, ou por vício de leitura, que aquela foto antiga pudesse ser, mesmo, a “Classe Débora”, justamente aquela classe da Escola Dominical da Primeira Igreja, onde, no ano de 1935, segundo o histórico da matéria, teria se iniciado o movimento para a criação do hospital da comunidade protestante local. Mas para quem conhece a foto, e conhece a história dos Presbiterianos locais, sabe, pelo aspecto das pessoas retratadas e pelas suas histórias, que a foto é do início dos Anos 20 do século passado, e mesmo que não saiba,


é claro que percebe, de pronto, a impropriedade de chamar por “Classe Débora” a aquele grupo de pessoas retratadas, pois, ali, há alguns homens adultos retratados junto com várias mulheres, evidenciando, assim, pessoas pertencentes a mais de uma classe da Escola Dominical. Sem dúvida, que para interpretar a foto desse modo é preciso saber que a “Classe Débora” da Escola Dominical da Primeira Igreja sempre foi uma classe feminina, de mulheres adultas, assim como a “Classe Heróis da Fé” era uma classe masculina, de homens adultos; tanto os homens como as mulheres da foto preenchem esses requisitos para pertencer a uma ou outra classe e, por essa evidência, já se vê que há, pelo menos, duas classes da Escola Dominical representadas ali, pois há quatro homens e treze mulheres na foto. Apesar dessa constatação, entretanto, tendo, eu, considerado a presença da foto nessa reportagem como mera ilustração jornalística – apenas uma foto antiga, usada a esmo como referência aos evangélicos mais antigos –, achei que as pessoas iriam perceber isso prontamente, e não me importei mais com a história. Cheguei a pensar, minimizando o fato, que se tratava, simplesmente, de falha humana: na hora da montagem da página, no afã de informar, o profissional cometeu, de boa fé, a falha humana de interpretar a foto conforme o sentido da matéria, e, aí, sem dolo, fez a nomeação da foto. Deixei pra lá... Achei que isso até iria passar desapercebido para todo mundo. Engano meu.

“Revista do Hospital Evangélico” – 29 de março de 2008, pag. 18.


O que eu tinha achado apenas uma falha humana passou para história oficial, três anos depois, em 2008, quando o próprio “Hospital Evangélico de Sorocaba” veio a completar setenta anos de funcionamento – planejado em 1935, começara a funcionar, de fato, em 1938 –, e comemorou a data com vários eventos, tendo soltado uma publicação na qual traçava aspectos históricos sobre o hospital e republicava aquela foto ilustrativa da matéria jornalística de 2005. Eu não imaginei em nenhum momento que essa ligação do fato à foto pudesse vir a acontecer assim, parece que por inércia, mas foi o que ocorreu: a “Revista do Hospital Evangélico”, de 29 de março de 2008, uma edição oficial da “AEBS-Associação Evangélica Beneficente de Sorocaba”, publicou a matéria ligando as duas coisas: e, assim, pois, a foto saiu nessa revista comemorativa do hospital, ilustrando a mesma história já contada na “Revista do Médico”, quase uma cópia do artigo original, só que, nessa nova publicação, a foto veio com informações novas: usada na primeira publicação com a legenda “Classe Débora”, agora, acompanhando essa mesma legenda, vinha a data de 1935, atribuída a foto, e os nomes de cada uma das pessoas retratadas, ligando-as à fundação do hospital. Depois disso, o fato e a foto se espalharam nesses últimos cinco anos pela mídia social e impressa, espalhando essa presumida ligação histórica da foto com os trabalhos que iniciaram o projeto do “Hospital Evangélico”. Ora, com isso vem ocorrendo a perpetuação de sérios enganos históricos cometidos por essas revistas com relação ao nome e à data atribuída à foto, assim como com relação ao nome correto dos retratados. Além disso, o erro acarreta conseqüências importantes sobre a história real do “Hospital Evangélico”, gerando confusão quanto aos atores do processo, e, ao mesmo tempo, prestando homenagens indevidas para algumas pessoas que não participaram dos fatos, e deixando de nomear e homenagear outras que realmente pertenciam à “Classe Débora” em 1935, uma injustiça com os verdadeiros atores dessa história.

Parte 1 Bem, por obrigação de ofício de quem faz uma revisão crítica do assunto, eu li de novo essas revistas; ouvi comentários, de amigos e parentes, sobre as informações veiculadas nessas publicações; acessei, pelas midias sociais, essas mesmas informações históricas sobre a fundação do “Hospital Evangélico”; e, agora, recentemente, li no jornal Cruzeiro do Sul, de 18 de agosto de 2013, na coluna do Celso Ribeiro, idêntica repetição da mesma história, com a mesma foto datada de 1935, “Classe Débora”, e os nomes dos dezessete personagens já acumulando falhas de quem conta um conto, aliás, falhas que já começam na primeira publicação que os identificou, há cinco anos. É preciso registrar, no entanto, antes de entrar no assunto específico destas anotações, algumas reflexões críticas com relação aos históricos publicados: é fundamental reconhecer que, em linhas gerais, as informações dessas mídias impressas e sociais, de cunho mais jornalístico – nem sempre historicamente documentadas –, dão conta de boa parte do recado ao traçar, genericamente, a história do “Hospital Evangélico”: datas, pessoas, ideação, organização e fases do projeto, entrevistas com pessoas da atualidade do hospital, e coisas assim.


Em alguns pontos mais específicos, porém, essa história é pobre de informações, e deixa bastante a desejar como pesquisa histórica, apontando para a necessidade de aprofundar a escrita desse episódio que tanto enche de orgulho os protestantes de Sorocaba, uma importante contribuição que deram à área de Saúde da cidade. Além disso, é preciso compreender que esse episódio contado nas reportagens sobre a “Classe Débora”, em 1935 – que, ao acontecer, propiciou a oficialização do que já era um desejo há muito acalentado e discutido pelos membros da comunidade evangélica –, esse episódio pode ter tido o mérito de desencadear a organização dos evangélicos para a construção do hospital, porém, sua escolha para ser o fio condutor dessa história é apenas em função de ser uma boa metáfora, jornalística e midiática, para representar o que foi um sonho e realização de todos. Claro, que esse modo crítico rigoroso de ver esses fatos, sob a ótica da História, enquanto pesquisa e documentação sem mitificação de pessoas ou grupos de pessoas, não deve contar como uma crítica de rejeição às reportagens ou às revistas que as publicaram. Ao contrário, é apenas uma colaboração para a correção desse sério engano cometido com a foto publicada, para que essa história seja revisada, conforme é o compromisso de todos com a verdade histórica. E, claro, também, é preciso entender que essa falta de detalhes sobre essa foto e a ausência de aprofundamento nesses fatos históricos conforme comentado nestas anotações, isso pode ter sido apenas em função de o trabalho ter um objetivo jornalístico, com espaço editorial e tempo contados, o que gera sempre algumas lacunas e imprecisões. E os jornalistas sabem disso, e, por isso mesmo, sabem, também, que não são historiadores, mas que podem colaborar com a História. Parte 2 Focando a abordagem no motivo básico destas anotações, é preciso registrar que o assunto, diferentemente de uma simples opinião crítica sobre a reportagem, é bem mais sério, envolvendo método e pesquisa histórica, pois diz respeito aos enganos históricos cometidos com a foto em questão, quanto à data e ao nome atribuído, e quanto aos nomes das pessoas retratadas, falha que muda bastante essa história de haver alguma relação do “Hospital Evangelico” com a tal foto publicada. O fato é que a foto é de uma década e meia antes da data que lhe foi atribuída no histórico da “Revista do Hospital Evangélico”: essa foto somente poderia ter sido feita entre os anos de 1920 e 1924, pela questão da autoria da mesma, que é conhecida; e, dentro desse espaço de tempo, eu posso afirmar que essa foto só poderá ter sido feita no ano de 1920, pelo fato de conhecer a história da foto e de várias das pessoas aí retratadas, alguns meus parentes, fundamentalmente, meu avô e avó, que, pelos fatos históricos de suas vidas, são as provas mais fortes e evidentes para essa datação mais precisa da foto. Sou possuidor de um original dessa foto, bem melhor conservado que o que saiu na mídia, que contém um detalhe fundamental: mostra a chancela em relevo do fotógrafo, seu autor, feita por sinete na margem cartonada da foto.


E possuo, também, mais duas fotografias, uma, original, e outra, cópia – de um original pertencente a Moema Aidar, filha de Amim Aidar e Catarina Grohman Aidar –, que formam, com a foto em questão, uma trinca de fotos gêmeas, feitas, ao que tudo indica, em um mesmo dia de 1920: uma mostrando meu avô e avó, outra mostrando os homens da Igreja, com a presença do meu avô ao centro, e essa, a foto em questão, mostrando alguns homens e mulheres da Igreja com minha avó, à direita, a mais velha da foto. .

João Carlos de Campos e Ana Osse de Campos, em foto de 1920. (Foto da foto: Tiago Macambira)

Ora, nessas fotos estão algumas pessoas de minha família, meus queridos parentes, sobre quem conheço muitas histórias, e muitas outras pessoas que eram membros da Igreja Presbiteriana, bons amigos de meus pais. Além dessa foto de casal de meus avós, as outras duas, fotos de grupo, poderiam ser chamadas, se as fôssemos nomear, a dos homens, por “Classe Heróis da Fé”, e a das treze mulheres e os quatro homens, poderia ser uma mistura de “Classe Débora-Classe Heróis da Fé”, isso, lá no ano de 1920... Si non é vero é bene trovato, ainda que eu não ouvisse elas serem assim chamadas em minha casa.


Homens da Igreja Presbiteriana de Sorocaba, em 1920: em pé, a partir da esquerda: Joaquim Diógenes Wanderico, Jesi de Campos, Onofre Nascimento, Carlos Pacheco, dois a identificar, Amim Aidar e Floriano Pacheco; sentados, a partir da esquerda: dois a identificar, João Carlos de Campos, e dois a identificar. (Foto da foto: Nilze de Campos)

Homens e mulheres da Igreja Presbiteriana de Sorocaba, em 1920: no terceiro plano, a partir da esquerda: Joaquim Diógenes Wanderico, Amim Aidar, Abdiel Lopes Monteiro e Onofre Nascimento; no segundo plano, a partir da esquerda: Ana Lopes Monteiro (D. Nicota), Loyde Leme, Durvina Sewaybricker, Cenira Maldonado de Campos, Ermelinda Sewaybricker, Noeme de Moura; no primeiro plano, a partir da esquerda: Cândida de Souza (D. Candinha), Cenira Teixeira Monteiro, Maria José de Souza (D. Mariquinha), Maria Cândida Grohman de Campos (D. Cota), Maria José Germano Gutierres (D. Mulata), Elisa de Souza e Ana Osse de Campos. (Foto da foto: Tiago Macambira)


Nos serões familiares de antanho havia aquele momento de ver fotografias do passado, com meu pai, Jesi de Campos, casado em segundas núpcias com minha mãe, sua prima em segundo grau, Orminda de Campos, ambos comandando o espetáculo: eram elas mostradas em grupos do tipo ‘fotos de casamento’, ‘fotos do tempo da fazenda’, ‘fotos dos avôs’, ‘fotos dos tios’, ‘fotos da infância’, ‘fotos dos amigos’... E, assim, se chegava a um grupo classificado por ‘fotos antigas da Igreja’, onde estava inserida a foto em questão, referente ao período dos seis anos de minha mãe, ainda criança, ou dos vinte anos de meu pai, ainda solteiro; ou, como ouvi de minha mãe, que marcava, para mim, o tempo dessa trinca de fotos, apontando para a figura envelhecida e magra de meu avô João Carlos, pai de meu pai: “Essas fotos são do último ano de vida de Tio João, seu avô, pai de seu pai. Olhe como ele está magro e envelhecido, aquele homem forte e tão bonito que ele era... E ele só estava com sessenta e um anos, a idade em que morreu, em março de 1921. Tio João, emagreceu e envelheceu muito, em muito pouco tempo: deve ter tido um tumor maligno de pulmão, pelo que seu pai me conta. Eu tinha seis anos e me lembro dele... Nos últimos meses de vida, ele ficou tão mal que nem saia mais de casa. Teve que se afastar do seu trabalho, da maçonaria e da igreja. Foi seu pai que foi assumindo os negócios dele e o sustento da família, com dezoito para dezenove anos, quando ele adoeceu... Essa foto foi feita numa das últimas vezes em que ele foi à Igreja, antes de piorar de vez, no final de 1920, e, daí, ficar acamado...” E, assim, corriam as histórias dessas fotografias, que, algumas, me vieram às mãos, ou sempre estiveram nelas, por meu pai, com os seus comentários, e por minha mãe com sua pontuação precisa e cuidadosa, durante os inumeráveis e intermináveis serões de minha vida com eles, eternamente a ressoar em minha memória: ver, conhecer e reconhecer o pessoal antigo da Igreja Presbiteriana de Sorocaba e Votorantim, juntos em muitas fotos, era conhecer a História da Igreja e reconhecer o exemplo dos antigos membros da comunidade evangélica, revelando-se uma atividade que se constituía em um respeitoso ritual, quase religioso, pois, essas pessoas eram cosideradas uma nova e grande superfamília para os protestantes locais. Para os Campos do Rio Acima, então, o compromisso com as pessoas da comunidade evangélica era tão grande que a igreja quase que era a própria casa da família, ou vice-versa, a casa da família se tornava igreja, como se pode bem ver nas outras fotografias dessa época, as fotos da Escola Dominical do Rio Acima, em Votorantim, acontecendo na casa de Tia Isabel, antes da inauguração do “Templo da Linha”, em 1923. Quase sempre, nesses serões, as histórias começavam com a foto, também, de 1920, de boa parte dos membros da igreja reunidos em frente ao “Templo Velho”, na Nogueira Martins; depois, vinha a foto do meu avô João Carlos com minha Vó Ana, só os dois juntos; e, aí, as duas fotos gêmeas dessa: uma, a foto dos homens da Igreja e, outra, a foto em questão, com quatro homens e treze mulheres, onde, em ambas, estava tanta gente contemporânea de vida dos meus pais. E lá vinham muitas histórias desse tempo, terminando a sessão pelas fotos da comunidade de Votorantim, na Escola Dominical que funcionava lá na casa de Tia Isabel, antiga moradia dos seus pais, João Batista de Aguiar e Ana Augusta Vaz de Campos, localizada em frente ao “Templo da Linha”, ainda em construção a esse tempo, bem ali no quintalão do sítio do Rio Acima de meu


bisavô-trisavô de quem carrego o nome, José Carlos de Campos, o patriarca da família Campos e um dos patriarcas do Protestantismo sorocabano. Pois é, assim conheci essas fotos desde menino, e notadamente, essa, em questão: ao ver essa fotografia, nos serões que, hoje, faço em casa, para os mais novos, posso localizar, ali, os vários parentes e amigos de meus pais. Infelizmente, como não possuo o dom da onisciência (felizmente!...), minha memória jamais poderá substituir as vivências reais de meus pais com suas histórias, principalmente, a memória brilhante de minha mãe. Mas espero poder contar, mesmo que muito apagadamente, algumas das histórias que ouvi e vi nas fotografias. Alí, nessa foto em questão, está Vó Ana, Ana Osse de Campos, minha avó torta, a segunda mulher de meu avô João Carlos de Campos, pai de meu pai; ali está Cenira, Cenira Maldonado de Campos, antes de se casar com meu pai, e de se tornar a mãe de meus sete irmãos mais velhos; ali está minha Tia Cota, Maria Cândida Grohman de Campos, casada com Tio Bima, o Professor Abimael Carlos de Campos, irmão mais velho de meu pai; ali está Joaquim Diógenes Wanderico, tio por afinidade, casado que fora com Tia Eunice, falecida em 1918, irmã de Tia Isabel. Isto só para falar dos parentes, mas é bom lembrar-se dos amigos e dos contraparentes: então, nessa foto está “Mulata” – como a chamava minha tia Jemima de Campos Knipel, ambas melhores amigas desde a juventude –, amiga de meus pais, a D. Mulata, apelido familiar de D. Maria José Germano Gutierres, casada com Manoel Gutierres, ambos, proprietários da “Papelaria, Tipografia e Livraria Gutierres”, célebre pelos cadernos “Sorocaba Ensina”; ali está, também, Seu Amim Aidar, amicíssimo de meu pai – na minha infância, me lembro, viam-se, em casa, um sábado por mes, até o passamento de meu pai, em 1978 –, e que era casado com D. Catarina Grohman Aidar, irmã de minha Tia Cota, sendo, ele, portanto, concunhado de meu Tio Bima, e pai de alguns queridos contraparentes, primos dos primos. E, assim, posso até ir percorrendo minha memória e me lembrando de algumas histórias dessas outras pessoas da foto, porque algumas delas até cheguei a conhecer: os irmãos Abdiel Lopes Monteiro e Ana Lopes Monteiro, a D. Nicota, as irmãs Cândida de Souza, a D. Candinha, e Maria José de Souza, a D. Mariquinha. As demais pessoas da foto, entretanto, somente as conheço por referências de meus pais ou, essas, fotográficas: é o caso de Cenira Teixeira Monteiro, esposa de Abdiel Lopes Monteiro, Elisa de Souza, Loyde Leme, as irmãs Durvina e Ermelinda Sewaybricker, Noeme de Moura, Joaquim Diógenes Wanderico e Onofre Nascimento. Hoje, sem deixar de lado essa visão muito rica do passado entretecida pela família, uma deliciosa lembrança das vivências do início da vida com esses incontáveis serões que ressoam na memória, hoje, como documento, o que mais me vale e vem corroborar a historicidade dessas fotos é o carimbo em relevo constante nelas, que mostra para mim a intrincada unidade histórica dessas fotos, graças, é claro, ao socorro intelectual da memória do historiador Adolfo Frioli, que me passou esse conhecimento sobre a história da fotografia em Sorocaba, desde Hercules Florence até os tempos atuais. O fotógrafo, autor dessas fotos, Pedro Neves dos Santos, chegou a Sorocaba em 1920, tendo falecido em 1924, fatos históricos documentados que anulam qualquer possibilidade de a foto ser posterior a dezembro de 1924. E, apenas para argumentar, fosse a foto feita em 1935, como afirma a revista do


“Hospital Evangélico”, então, o fotógrafo teria que ser Pedro Hoffman, o profissional dessa época em Sorocaba. Pedro Neves dos Santos era um jovem maçon – o Frioli possui foto em que ele, o próprio fotógrafo, aparece ostentando uma faixa maçônica –, e se revelou um excelente fotógrafo, montando seu atelier fotográfico em Sorocaba, o único da cidade em sua época. No mes de janeiro de 1924, ele teve o prazer e o orgulho pessoal de publicar uma série de cartões-postais sobre Sorocaba. E nesse mesmo ano, entretanto, em dezembro de 1924, veio a falecer precocemente, aos trinta e um anos de idade. Além desse trabalho, cerca de sessenta fotos feitas em 1920, que veio a se constituir na maior série de cartões-postais sobre a cidade de Sorocaba – hoje, muito valiosos para colecionadores e historiadores –, ele produziu, ainda, suas fotos particulares, não editadas, restando nelas, além de sua marca de artista da imagem, a sua marca profissional como fotógrafo, representada pelo seu carimbo em relevo constante na margem cartonada de suas fotos. Ora, essa constatação histórica documental sobre a autoria da foto, colocou as coisas no rumo certo que deveriam estar, conforme as histórias que meus pais me contavam sobre a época dessas fotos: sendo de Pedro Neves dos Santos, não há dúvida, só pode ter sido feita entre 1920 e 1924; mas, além disso, é possível afirmar, com segurança, que a foto só pode ser de 1920, conclusão tirada pela análise das pessoas retratadas, cotejando com os acontecimentos de suas vidas; e se pode afirmar, também, pelos mesmos motivos, que a foto não pode ser de 1935. E, vários são os motivos históricos dos personagens retratados que permitem essas conclusões interligadas. Meu avô João Carlos de Campos veio a falecer em março de 1921, após doença consuptiva que o enfraquecera muito, impedindo-o, nos últimos meses de sua vida, até mesmo de se locomover até sua querida Igreja Presbiteriana, que ele frequentava desde a infância e, na qual era Presbítero, assim como Secretário do Conselho da Igreja, há quase quarenta anos. Nesse lustro final de sua vida, desde 1915 – ano em que falecera seu cunhado, João Batista de Aguiar, o mais antigo Presbítero da Igreja Presbiteriana de Sorocaba, desde sua organização, já que o outro, Francisco Rodrigues Pacheco, que era antigo como ele, passara para a Igreja Presbiteriana Independente, em 1903, sendo um de seus organizadores –, João Carlos de Campos passara a ser o decano da Igreja Presbiteriana de Sorocaba, muito querido e muito respeitado, o terceiro Presbítero na história da Igreja, desde a organização, em 1869: tendo crescido desde seus sete anos em um lar converso ao Protestantismo, em 1866, pelo contato com o ex-padre José Manoel da Conceição, e tendo sido membro da Igreja Presbiteriana desde os primeiros momentos de consciência intelectual e religiosa de jovem, era, agora, seu mais antigo Presbítero. Claro que, ao final de sua existência, devia sentir falta de seu amigo e cunhado, João Batista de Aguiar, nos trabalhos da Igreja, mas, devia sentir-se, também, muito recompensado, de um lado, por ocupar essa posição histórica de decano da Igreja, fato apenas decorrente de seu modo de ser – “sal na Terra e luz no Mundo” –, e de outro, por ter o prazer e a honra de ter como pastor de sua Igreja, o Rev. William Cleary Kerr, seu genro, casado com sua filha Aurora de Campos Kerr. E, ainda, de quebra, para mais alegria sua, seu filho mais velho, Abimael Carlos de Campos, aos vinte e sete anos, acabara de ser eleito Presbítero e era, agora,


seu par no Conselho da Igreja, enquanto seu outro filho, Jesi de Campos, o mais novo – ambos de seu primeiro casamento com Tibúrcia Euphrásia Ferreira do Prado de Campos, falecida em 1904 –, chegava aos vinte anos, como professor da “Classe Heróis da Fé”. Uma chuva de bençãos o atingia ao final de sua vida cheia de espiritualidade, quando podia dizer, como o Apóstolo S. Paulo: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.” E, seguramente, apenas aguardava a prometida coroa da justiça. O fato é que ele faleceu em março de 1921 e, logo em seguida a sua morte, minha avó Ana, com seus cinco filhos menores, e mais meu pai, com 21 anos, último filho solteiro do primeiro casamento de meu avô, mudaram-se para Votorantim, em propriedade da família, passando a frequentar o trabalho religioso da comunidade do Rio Acima, de onde eram originários, época em que essa comunidade estava terminando de construir o “Templo da Linha”, quando os protestantes de Votorantim se constituíram em igreja local com vida administrativa própria a partir de 1923. A partir da morte do marido, então, minha Vó Ana, já em Votorantim, passou a frequentar outro local de culto, e não mais o templo de Sorocaba, o mesmo acontecendo com toda família, inclusive meu pai, o que inviabilizaria a realização dessa foto depois da morte de meu avô em março de 1921, pois ela já estava em outra localidade. Admitindo a possibilidade, por hipótese, de que essa foto em questão tivesse sido feita posteriormente à morte de meu avô, mas, ainda em 1921, antes de a família ter-se mudado para Votorantim, posso afirmar – pois conheço minha família e sei seus encravados costumes – que minha Vó Ana, nessa situação, com certeza absoluta, estaria vestindo luto fechado, e não a roupa engalanada que porta na foto em questão, e esse luto duraria, pelo menos, um ano, com mais algum tempo de luto aliviado. Ora, meu pai, também morando em Votorantim desde a morte de seu pai, casou-se ao final desse ano de 1921 com Cenira Maldonado de Campos, e foram morar em Votorantim, onde, já em 1923, tinham um casal de filhos e ele se tornara Presbítero da “Igreja da Linha”, além de regente do coral que ele mesmo ali tinha organizado, hoje, o “Coral Jesi de Campos”. Depois, em 1926, por motivo de trabalho de meu pai, mudaram-se para São Paulo, com o casal frequentando e sendo membro da Igreja Presbiteriana do Brás, onde ele, também, foi regente do coral dessa igreja e, também, do coral da igreja Congregacional, até que, ao final de 1929, batendo nele o seu forte lado caipira e a saudade do Rio Acima, resolveu tocar a vida por conta própria, explorando as terras herdadas de família, no Sítio do Campo Verde, em Ibiúna, e por lá ficou até o início de 1936. Desde o casamento, portanto, em 11 de dezembro de 1921, Cenira Maldonado de Campos tinha acompanhado o marido, não frequentando mais a Primeira Igreja Presbiteriana da Santa Clara, mas, sim, a Igreja de Votorantim, depois, a Igreja do Brás, em São Paulo, mais tarde, o incipiente trabalho religioso dos Presbiterianos Independentes de Ibiúna, e, no cotidiano, cumprindo os trabalhos religiosos domésticos, na própria casa da família, no Campo Verde. Ora, em 1935, Cenira, com seus sete filhos menores, o mais velho com doze para treze anos, a mais nova com dois anos, e mais um sendo gestado no ventre, morando no Sítio do Campo Verde, em Ibiúna, sem recursos modernos de locomoção, tendo apenas animais de montaria e de tração para tanto, ela não poderia jamais estar frequentando a “Classe Débora”, aos domingos, na Escola


Dominical da IPB de Sorocaba, nem poderia ter mais aquele ar de menina de 18 anos que tem na foto de 1920, depois de transcorridos quinze anos e oito gravidezes. E, aí, no início de 1936, a família foi atingida por uma tragédia absolutamente perturbadora: ao final de sua oitava gestação, Cenira, primeira mulher de meu pai, veio a falecer, junto com o nascituro, em trabalho de parto. Viúvo e com sete filhos pequenos, meu pai voltou a Votorantim, para morar no sítio onde já morava, por direito de herança, seu irmão Abimael Carlos de Campos, o Tio Bima, que, com oito filhos menores, abriu sua casa para acolher o irmão com os seus sete, aos cuidados todos de sua cunhada, minha Tia Cota, Maria Cândida Grohman de Campos. E quase três anos assim se escorreram. Pois é, minha Tia Cota, grande mãe, mulher de fibra, descendente dos alemães protestantes que por Sorocaba aportaram no Século XIX, uma segunda mãe de meus irmãos, pois é, Tia Cota é outra das pessoas da família que não poderia estar presente em foto tirada em 1935 na Primeira Igreja, pois morava em Votorantim, no Sítio do Rio Acima, desde o final de 1925, quando seu marido tinha assumido sua cadeira de professor nessa localidade, e, eles e os filhos tinham passado a freqüentar o “Templo da Linha”, onde Tio Bima era Presbítero. Bem, com todas essas evidências familiares históricas que demonstravam a impossibilidade de ser essa foto de 1935, fui procurar subsídios para tentar fazer a comprovação documental de sua data, que, tudo indicava, deveria ser de 1920, segundo os dados das histórias dos retratados. E, assim, para isso consultei o historiador Adolfo Frioli, conforme já relatado, que resolveu essa questão definitivamente do ponto de vista histórico documental a partir do carimbo presente na foto. Tollitor quaestio: está resolvida a questão.

Chancela gravada em sinete na margem cartonada. (Foto da foto: Tiago Macambira)

Na fotografia que possuo, autêntica da época, essa foto está colada em papel cartonado – diferentemente da foto publicada, que


teve suas margens recortadas, não sei se pela edição, ou pelo desgaste do tempo –, com uma barra marrom enquadrando a foto retangular, ao centro, e trazendo no canto inferior direito da margem cartonada a gravação em relevo de um carimbo circular, com diâmetro de dois centímetros, mostrando um conjunto de raios saindo do centro do círculo, como uma representação do sol, circundado por um círculo que delimita, com o círculo externo, um espaço circular de meio centímetro, onde está a identificação do autor: “PHOT NEVES SOROCABA”. CONCLUSÃO 1. A foto é de 1920. 2. Não se trata, simplesmente, de uma foto da “Classe Débora”, por causa da presença de homens na foto. 3. Sendo a foto de 1920, ela pode até estar mostrando algumas pessoas da “Classe Débora”, dessa época, mas, forçosamente, não são exatamente as mesmas pessoas de tal classe em 1935, pois muitas dessas pessoas retratadas podem ter tido outro destino, mudado para outras localidades, conforme o que ocorreu com meus parentes. 4. Algumas das pessoas retratadas na foto de 1920 poderiam estar arroladas e frequentando a “Classe Débora”, em 1935, é claro: é o caso, pode-se afirmar, de D. Mulata, das irmãs Candinha e Mariquinha, dos irmãos Nicota Lopes Monteiro e Abdiel Lopes Monteiro com sua mulher Cenira Teixeira Monteiro, que, segundo sei, ficaram todo esse tempo na mesma igreja. 5. Não conheço, por não ter dados mais precisos e, ainda, não os ter pesquisado, a história mais detalhada das demais pessoas retratadas na foto de 1920, como é o caso de Joaquim Diógenes Wanderico e de Onofre Nascimento, e é o caso de Elisa de Souza, Loyde Leme, as irmãs Durvina e Ermelinda Sewaybricker e Noeme de Moura, nada podendo, ainda, concluir sobre a presença delas na “Classe Débora”, em 1935. E, por fim, fica bastante óbvia a conclusão de que a “Classe Débora”, de 1935, não está retratada na foto em questão, que é de 1920, fato que demanda estudos para a descoberta de quem eram, então, realmente, as alunas dessa classe nesse ano de 1935, aquelas que participaram da aula de seu professor, Abdiel Lopes Monteiro, e que aceitaram o desafio lançado por ele para iniciar os planos de criação do “Hospital Evangélico de Sorocaba”, onde começa esta nossa história... Com esse conjunto de anotações, ou sugestões para pesquisa e estudo, fica clara e inegável a necessidade de reconhecer que uma abordagem histórica mais detalhada dos fatos e personagens precisa ser, ainda, realizada, com o esmero e cuidado requerido por quem pratica a Ciência Histórica, no sentido de tornar a história do “Evangélico” menos jornalística e midiática e mais detalhada e histórica. Sorocaba, 01 de setembro de 2013. José Carlos de Campos Sobrinho Membro do IHGGS – Cadeira Walter Edgar Maffei


A classe débora e o hospital evangélicoii