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CADERNO DEZ!

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NA REAL ❚ Entre a herança dos caciques e a vontade de mudar,

o partido Democratas [ex-PFL] tem o público jovem como alvo

Afinal, quem são eles? RICARDO SANGIOVANNI rsangio@grupoatarde.com.br

Cronos, deus que representa o tempo na mitologia grega, na tentativa de não ser por ele consumido, cultivava o tenebroso hábito de engolir os próprios filhos: temia que um deles o aniquilasse. Na política brasileira – que, se não chega a ser mitológica, vive às voltas com pitadas nem sempre sutis de surrealismo –, a lógica é um pouco diferente. Por aqui, ao que parece, crianças são os filhos que tentam engolir os pais para evitar serem eles mesmos corroídos pelo tempo. Em bom politiquês: desde os último dia 28, o Partido da Frente Liberal [PFL] mudou de nome. Agora se chama Democratas [DEM]. A nova legenda nasce para oxigenar a débil antecessora. Em tempo, vale lembrar que a Frente Liberal surgiu em 1984, de uma dissidência do Partido Democrático Social [PDS]. A sigla, por sua vez, rebatizara o Arena, em 1979, herdeiro direto da elite conservadora que, junto com os militares, derrubou o presidente João Goulart, em 1964, para instalar a ditadura. FILHOTES – A estratégia de rejuvenescimento do DEM aposta no audacioso desafio de atrair uma militância jovem. Para tanto, rostos joviais, como o do presidente Rodrigo Maia [RJ], 36, e ACM Neto, 28, [BA], passaram a ocupar cargos da linha de frente no novo partido. Embora se auto-rotule novo, fato é que a renovação do Democratas está sendo conduzida pelos herdeiros do cacife político de antigos medalhões, como os senadores ACM [BA], Jorge Bornhausen [SC], Marco Maciel [AL] – influentes já nos tempos do Arena –, Agripino Maia [RN] e Efraim Morais [PB], além do

“Mudamos porque, em política, para se manter forte, é preciso mudar” José Carlos Aleluia, deputado federal pelo Democratas ❚

“Pelo perfil e origem social, o partido não muda muito. São só novos porta-vozes” Antônio Guerreiro, historiador ❚

prefeito do Rio de Janeiro, César Maia. “Lado a lado com os filiados experientes, que nos dão segurança para avançar, devemos dar espaço aos jovens para vencer o desafio de construir um país melhor“, afirma Rodrigo Maia, em nota no site oficial do DEM. Lado a lado sim, ma non troppo: um dos principais articuladores da mudança, o deputado federal José Carlos Aleluia [DEM-BA] prefere falar num “encontro de tendências, novos líderes, pessoas sem envolvimento com a ditadura. Ninguém é obrigado a herdar este legado. Teremos linguagem e ações contemporâneas“. O cordão umbilical, contudo, permanece. “A transformação

partiu da decisão do senador Bornhausen, que resolveu passar o bastão“, conta Aleluia. Sobre as perdas que o PFL vem amargando nas urnas – de 105 deputados eleitos em 1998, passou para apenas 62 cadeiras em 2006 e hoje são só 57, além da redução do número de prefeitos e apenas um governador [DF] –, o deputado diz que o partido encolheu porque não mudou. “E, em política, para se manter forte, é preciso mudar. Com a mudança, o partido vem mais para o centro. Queremos ser uma alternativa de participação na política brasileira“. SERÁ POSSÍVEL? – O cientista político Luciano Dias, do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos, de Brasília, não vê problemas no fato de o partido resolver adotar uma nova cara. “Eles querem mudar a identidade e não as pessoas. Falta mostrar se é mudança para valer ou só trocaram os personagens“. Já o historiador e professor da Universidade Federal da Bahia Antônio Guerreiro vê a questão com outros olhos. “É só uma nova apresentação para a mesma essência. Só que, agora, quem vai aparecer são os ‘meninos‘“. O historiador atenta para uma tendência, na política brasileira, de os partidos sempre convergirem para o centro. Caminho que, segundo ele, não é privilégio apenas dos conservadores ou da direita. “Essa tendência geral ao pragmatismo é uma forma de não assumir posturas, projetos, ideais. O ‘ideal‘ é ocupar o poder”. Sobre a meta do DEM de atrair uma militância jovem, Guerreiro é cético. Ele enxerga uma sociedade despolitizada, sem grandes sonhos. ”E militância é movida por ideais. Na juventude, as pessoas são movidas pelos sonhos. E que juventude vai querer sonhar junto com as crias de Magalhães, Bornhausen, Maciel...?”

SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 17/4/2007


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8 “Pelo perfil e origemsocial, o partido não muda muito. São só novos porta-vozes” RICARDO SANGIOVANNI JoséCarlosAleluia, deputado federal p...

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