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VESTIBULAR

SALVADOR, SEGUNDA-FEIRA, 2/4/2007

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IDÉIA FIXA ORLANDO GRILLO | DIVULGAÇÃO

DOUGLAS RIFF ❚ Paleontólogo e

DR – A Antártica chama atenção pela fragilidade de seus e ecossistemas, que seguem o ritmo do avanço e recuo do gelo ao longo do ano. Infelizmente, notamos alguns pontos onde os recuos tem predominado sobre os avanços, provavelmente por conta do aquecimento que vivemos e provocamos. Mais que o calor que sentimos aqui nas cidades, lá na Antártica é que sentimos mesmo os efeitos do aquecimento mundial.

professor da Uesc na Antártica

Histórias de um continente muito gelado

AT – Que resultados a expedição trouxe para o Brasil? DR – A maioria do que trouxemos são fósseis de troncos, folhas e conchas. Ainda falta a confirmação, mas há grande possibilidade de termos encontrado um ictiossauro – réptil marinho contemporâneo dos dinossauros – que nunca havia sido descoberto na Antártica. Achamos também vestígios de florestas, árvores parentes da araucária brasileira. Foram 2,6 toneladas de rochas e amostras.

Não é só coisa de filme: paleontólogos existem de verdade e vivem se metendo em aventuras fabulosas. Prova disso é a história do professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Douglas Riff. Paleontólogo formado pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro, ele acaba de voltar de uma expedição de 37 dias de trabalho na Antártica. Junto com mais oito pesquisadores brasileiros, Riff integra o projeto Paleoantar, que estuda fósseis de vertebrados do período cretáceo. Em conversa com o repórter Ricardo Sangiovanni, ele fala da experiência de trabalhar no continente gelado. “É uma mistura de esplendor e receio“.

A TARDE – Professor, por que logo a Antártica? DOUGLAS RIFF – Escolhemos o norte da península Antártica porque ali se concentram os depósitos mais representativos, em termos de diversidade, da fauna e da flora do cretáceo [aproximadamente 75 milhões de anos atrás]. O projeto teve financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico [CNPq]. A viagem foi resultado do edital do Projeto Antártico Brasileiro, do governo federal. Ficamos na ilha James Ross, que nunca havia recebido pesquisadores brasileiros. Montamos um acampamento grande, com suprimento para o dobro do tempo previsto, porque estávamos a cerca de 500 km da Estação Antártica Brasileira, que funciona lá desde 1984. AT – Como era o cotidiano, enfrentar o frio para sair para trabalhar? DR – No mês de janeiro pegamos tempo aberto, dias de sol, entre cinco e dez graus positivos. A neve estava derretida, então era só recolher os fósseis. Mais fácil que no Brasil, onde as construções urbanas e a vegetação atrapalham um bocado. O verão é a época certa para este tipo de trabalho também pela luz. Saíamos às 8 da

manhã, levávamos lanche e almoço e só voltávamos à noite, às 8, 10 horas. Usávamos mapas e o GPS, para evitar ficarmos perdidos, mas aos poucos os locais foram ficando familiares. AT – Então a neve não chegou a pregar peças... DR - Pregou sim. Em fevereiro, o tempo já não estava tão aberto. Como o tempo lá é muito instável, era vital a comunicação com o navio da Marinha, que nos informava a previsão para o dia seguinte. Mesmo assim, um dia fomos surpreendidos por uma nevasca que nos obrigou a largar as ferramentas e correr para o acampamento. Na volta, achamos tudo. Tudo congelado. AT – Qual a sensação de estar num lugar tão ermo? DR – Como não há vestígio de civilização, dá para ter um contato bem mais íntimo com a natureza. À noite, dá para ver o céu bem limpo, satélites, estrelas... dá uma sensação grande de liberdade, tranqüilidade. Mas, por outro lado, é um lugar muito bruto – de repente, bate um vento frio e tudo se torna muito inóspito. É uma mistura de esplendor e receio: lá, o homem não é tão poderoso para resolver as coisas. Quem manda é a natureza.

Na Antártica já se notam os efeitos do aquecimento global, diz Riff

“Há uma grande possibilidade de termos encontrado um ictiossauro. É um réptil marinho do período dos dinossauros, que nunca tinha sido descoberto na Antártica“.

AT – Então, vocês estavam absolutamente sozinhos... DR – Isso, a ilha é desabitada. O único contato com outras pessoas que tivemos foram os cientistas tchecos da Estação Gregor Mendel, primeira do país na Antártica. A atmosfera de gentileza e colaboração mútua era muito bacana. Eles nos passaram dados inéditos sobre a posição das rochas na ilha. Experimentaram nossa comida, adoraram castanha de caju. Na despedida, deixamos de presente uma camisa da seleção brasileira, assinada por todos do Paleoantar. É um gesto simbólico, mas é deste tipo de contato que podem surgir importantes acordos bilaterais. AT – Muito se tem discutido sobre o aquecimento global. A Antártica corre mesmo perigo?

AT – E para onde vai este material? DR – A maior parte vai para o acervo do Museu Nacional, no Rio. Mas eu trouxe uma boa quantidade de amostras para a Uesb, que é uma universidade pequena e pode crescer muito com estas coleções. O Museu Nacional deve fazer uma exposição sobre a expedição ainda este ano. É importante, porque estimula o contato com a ciência e a curiosidade do público jovem. Afinal, toda criança já nasce cientista. AT – O que é preciso para se tornar um paleontólogo? DR – No Brasil, não há curso de paleontologia na graduação. Quem sempre teve vontade de ser ”caçador de dinossauros“ e quer seguir a profissão tem dois caminhos: fazer biologia [para estudar a evolução das espécies] ou geologia [para estudar a idade das rochas]. Paleontologia mesmo, só na pós-graduação. O campo de trabalho para o paleontólogo, no Brasil, é geralmente a pesquisa nas universidades e nos institutos públicos. VEJA | fotos e mapas da expedição brasileira na Antártica em vestibular.atarde.com.br |


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