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CADERNO DEZ!

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SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 30/1/2007

SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 30/1/2007

| FOTOS MARGARIDA NEIDE

CAPA ❚ Coletivo cultural mexicano viaja pela América Latina de

ônibus. Até o dia 4, eles ficam acampados em Salvador

Do lado de baixo do Equador RICARDO SANGIOVANNI rsangio@grupoatarde.com.br

Há quatro anos, o Equador abriu suas fronteiras a todos os países do mundo. Uma revolução provocada por um exército internacional, assim meio hippie, meio cigano. Sobre o assunto, nenhuma linha nos jornais. Porque o exército era pacífico, e nem sempre notícias pacíficas chamam a atenção dos jornais. Mas sobretudo porque o Equador que se transformava não era o de todos os equatorianos. Mudança mesmo aconteceu no Equador da pequena Carolina Mora. Hoje ela tem 15 anos. Deixou a vida normal em casa aos 11: não teve escolha quando a mãe, Verónica Sacta, 31, se apaixonou pelo fundador da Caravana Arcoiris por la Paz, o mexicano Alberto Ruz, 61. Por Alberto e pela Caravana: um coletivo nômade formado por 25 pessoas de diversas nacionalidades, que saiu do México em 1996 e desde então percorre toda a América Latina, a bordo de dois ônibus e um trailler-cozinha. Desde o dia 12 eles estão em Salvador, acampados na sede da ONG Escologia, que fica no Parque Metropolitano de Pituaçu. Por aqui permanecem até 4 de fevereiro. Por onde passam, os “caravaneiros” produzem oficinas culturais, de circo, teatro, dança, música e artesanato, além de reciclagem e outros temas curiosos, como tomada de decisões em consenso e permacultura [idéia que parte da agricultura e propõe criar comunidades sustentáveis, atendendo às necessidades humanas com o menor impacto possível ao meio ambiente]. VIDA NÔMADE – Verónica decidiu casar com Alberto e seguir com a Caravana. À filha não coube outra possibilidade senão ir junto com a

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A Caravana Arcoiris por la Paz saiu do México em 1996 e chegou à Terra do Fogo, na Argentina, em 2004, a bordo de dois ônibus e um trailler-cozinha. Desde 2006, eles percorrem o Brasil. Atualmente, o grupo é formado por cinco argentinos, cinco chilenos, cinco brasileiros, três equatorianos, dois italianos, um espanhol, um uruguaio e um mexicano.

mãe. “Naquela época, eu ainda não tomava minhas decisões“, conta Carol, feições de índia, do alto de seu não mais que metro e meio. A pouca altura desaparece na fala decidida de quem hoje conhece bem Peru, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil, e já é uma das comandantes das oficinas de dança e circo que o grupo promove. Carol virou professora na estrada. Em bom portunhol [idioma oficial da Caravana], conta que começou dando aulas de salsa, ritmo que aprendeu a dançar sozinha, ainda no Equador. No início, ensinava só aos colegas de grupo. Quando se deu conta, já estava dando aulas às pessoas das comunidades que visitavam. “Pensava: se eu sei, então posso ensinar. Não precisa ter um ‘nome enorme’ ou um título para dirigir uma atividade. Tem que ser hábil. Com 14 anos, eu era professora.“ E como em toda profissão, as manhas vão vindo com o tempo.

Vida de nômade tem dessas: acampados no Parque de Pituaçu, os caravaneiros têm que preparar o rango no trailler-cozinha, que leva as cores do arco-íris por toda a viagem

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“É como um Big Brother, só que com valores diferentes” Sair do conforto de casa e se jogar na Caravana foi uma experiência que já transformou a vida de mais de 400 pessoas em 10 anos, a maioria entre os 20 e os 35 anos. A norte-americana Gira Rossiter, 28, trocou o american way of life pela vida na estrada em 2001. Na Caravana conheceu o chileno Manuel, 26. Os dois são os pais de Estrella, 2, que nasceu na Argentina. “Muitos já foram concebidos na Caravana, mas ela foi a primeira a nascer aqui“, conta Gira, que enfrentou toda a gravidez na estrada. Manuel e Gira ainda vivem na Caravana, mas romperam o namoro. “Convivemos bem, dividimos as responsabilidades e nos respeitamos“, concordam os pais de Estrella.

Entre todos os alunos que teve, ela diz que os mais arredios são as crianças e adolescentes baianos. “Eles têm muita energia, mas não têm disciplina alguma! A cada oficina, tenho aprendido a ter mais paciência, a controlar os meninos... e a dançar cada vez melhor.” MALABARISMO – Nas comunidades onde deu aulas de circo, Carol observou as limitações que a pobreza impõe a jovens iguais a ela. “Nas favelas, por exemplo, às vezes, as pessoas não tinham como comprar os malabares, então eu orientava que treinassem com laranjas, mas que não desistissem.“ Carol conta que já teve de fazer malabarismo nos semáforos para arrecadar fundos para a Caravana. ”Na maioria das vezes, as pessoas olhavam com medo. Eu me preocupava em transmitir arte, alegria. Quando queriam dar algum dinheiro, melhor ainda.“ Desde o ano passado, entretanto, a Arcoiris passou a receber um subsídio de R$ 400 mil, através do projeto Cultura Viva, do Ministério da Cultura [MinC] do Brasil. Em troca, eles se comprometeram a visitar 48 entre os mais de 500 pontos de cultura espalhados por todo o País. Isso tudo no prazo de um ano, até maio de 2007. Ao fim da viagem, a Caravana deve publicar um livro sobre o contato com a cultura popular brasileira. Mensalmente, eles vêm prestando contas dos gastos e do trabalho ao MinC, através de relatórios das atividades. Em Salvador, além da Escologia, a Caravana visitará outros pontos de cultura em organizações não-governamentais baianas: Jovem Artista, Centro de Referência Integral de Adolescentes [Cria], Liberdade e Barra, Fundação Terra Mirim e a Escola Capoeira Angola Irmãos Gêmeos de Mestre Curió.

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PARADIGMAS – Manuel agora namora a argentina Ana Calvo, 21. Ela era violoncelista, trapezista e radialista em Buenos Aires. Soube da Arcoiris através da tia, uma antiga ”caravaneira“. No ano passado, tomou coragem e entrou para o grupo. “Em agosto, voltei a Buenos Aires

para resolver problemas legais. Foi muito louco. Não me adaptei. Já não era mais a mesma menina“. Pôr em crítica os paradigmas da vida urbana foi também o que motivou o gaúcho Juliano Motta, 22. Ele largou Porto Alegre e a faculdade de ciências sociais no ano passado para se tornar professor de teatro e música, eletricista, webmaster, cozinheiro e quebra-galho da Caravana. “Aprendi a dividir. Aqui enfrentamos o individualismo da cultura ocidental.“ Para ele, por onde passa, a Arcoiris deixa para as comunidades o “estímulo, o encantamento, a abertura de visão para outras formas de viver“. BIG BROTHER – O mexicano Alberto Ruz, criador da Caravana, explica que o ideal é transmitir a idéia de um ser humano que respeite mais o ambiente em que vive. ”Que as pessoas saibam conviver e conciliar e não só consumir e degradar. É como um reality show, mas que incentiva valores opostos aos do Big Brother“, ironiza. Cada ”caravaneiro“ recebe uma ajuda de cerca de R$ 200 por

mês para despesas pessoais. Quem quiser participar pode responder a um questionário no site www.lacaravana.org. A lista de espera já tem 25 pessoas. Até o dia 4, outra possibilidade é passar no Parque de Pituaçu para bater um papo com o grupo. Depois, eles seguem viagem rumo a Lençóis, na Chapada Diamantina.

serviço Agenda da Caravana antes de seguir viagem: ❙ Amanhã, às 16h o grupo se junta ao Cria e faz uma passeata em homenagem a Iemanjá. Todo mundo na rua, fantasiado, saindo da Praça Marechal Deodoro [Comércio] até o Mercado Modelo. ❚ Sábado, dia 3 tem festa de despedida, às 16h, na sede da ONG Escologia, no Parque de Pituaçu. Apareça. ❚

A estrada ensina o que não se aprende na escola

Estrella, 2 [à esq], foi a primeira criança a nascer na Caravana. Na foto, Lucas e Ana Calvo, 21

Se engana quem pensa que quem vive na estrada fica o tempo todo sem fazer nada. Todos revezam atividades essenciais, como cozinha, limpeza e reparos dos carros e equipamentos [três laptops, tv, fogão]. Todo mundo acaba aprendendo a se virar. Carol não se contenta em dar conta de problemas domésticos e ser professora de dança. ”Quando deixei de ir à escola, ia começar o ensino médio. Neste ano vou retomar. Quero ser veterinária.” Para quando estiver formada, o sonho é montar um centro de ajuda aos animais de rua. Mas, para retomar a escola, o jeito vai ser deixar a Caravana de lado por algum tempo. Ela não sabe se um dia vai voltar, mas ninguém se

espante se daqui a uns dez anos der de cara com um centro itinerante de ajuda aos animais parado na porta de casa. Dos testes que terá que fazer para entrar na nova escola, não tem medo. “Eu não deixei de estudar. Olha geografia, por exemplo: aprendi conversando, viajando, conhecendo os países.“ Carol prefere não antecipar a decisão. ”Estou entre voltar a estudar no Equador ou no Brasil. Meu pai mora nos EUA, mas não me vejo morando lá”. Qualquer que seja o destino, certo é que a Caravana devolverá à vida normal uma menina diferente daquela de quatro anos atrás. Ela agora tem estrada. E o Equador já não tem fronteiras.

Juliano Motta, 22, deixou o curso de ciências sociais em Porto Alegre para ensinar música na Caravana

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