Page 1

Volkodlák

VOLKODLÁK por Roxane Norris

1


Roxane Norris

2


Volkodlák Notas da Autora Essa história contém fatos verídicos entrelaçados á trama fictícia. Datas e nomes foram mantidos no intuito de transmitir mais autenticidade ao leitor. Lady Alice Le Kyteler foi realmente acusada de ser bruxa, mas fugiu para Inglaterra, salvando-se das chamas; Petronella de Meath era sua criada e foi a primeira bruxa irlandesa a ser queimada na fogueira em 1324. Earl Pemboke era dono do castelo de Kilkenny em 1192, que conheceu seu auge pelas mãos do Clã Butler, muitos anos depois. Robin MacArt foi o demônio acusado de ter se deitado com Lady Alice. O romance, entretanto, entre esses quatro personagens foi criado pela autora como entretenimento para os leitores. Dificilmente suas vidas reais se refletem nessas linhas. Nove milhões de pessoas morreram na Inquisição, e isso não há como ser romanceado. Foi uma barbárie... Little Channel é um bairro de Nova Orleans dedicado ao proletariado estrangeiro, aproveitei-o em homenagem aos irlandeses, franceses e espanhóis que ali viviam. La Nube e o sobrenome Aragón foi retirado descaradamente do filme “Caminhando nas Nuvens”, também numa homenagem á obra. 3


Roxane Norris Apesar do sobrenome de Rhett, personagem Clark Gable em O Vento Levou, ser Butler, foi puramente coincidência. Na época em que determinei o sobrenome de Joseph, ainda não havia sequer pensado em escrever sobre a Guerra de Secessão. Todavia, fica aí uma homenagem ao filme que encantou muitas gerações.

4


Volkodlák

A Bruxa

Kilkenny – Irlanda, 1324

– Minha senhora... – A moça de intensos olhos azuis prestou uma única reverência à mulher a sua frente, sentada numa cadeira recoberta de peles, á lareira. – Não vai se deitar? – A febre baixou? – indagou sem lhe dirigir o olhar. – Não, senhora. – Baixou a cabeça, fitando o vestido de lã amassado entre seus dedos. Os cabelos ruivos presos á uma pequena rede, por onde fugiam alguns cachos sobre as orelhas. A pele de sardas sombreada pela luz bruxuleante das chamas. 5


Roxane Norris – Não tenho sono, então – determinou ao se erguer fracamente da lareira, a túnica longa de algodão cintada por um fio delicado de ouro ocultando-lhe os passos. Os cabelos pretos e ondulados, desgrenhados sobre os ombros, demonstrando as noites passadas em claro. Os lábios sem cor, na pele clara, ainda mais pálida sobre a luz amarelada do calor das toras, que crepitavam quebrando eventualmente o silêncio daquela sala. Lady Kyteler flutuava pelo chão de pedra, sem sons, sem respiração. – Já fizemos todo o possível, milady – a criada sentenciou num murmúrio: – As marcas começaram a surgir por seu corpo, é a peste. – E o que sugere que eu faça? – Os verdes viraram em sua direção, cintilantes. – Quer que eu o abandone? Os passos rápidos dela agora estalavam no chão enquanto se aproximava da ruiva. – Dane-se os boatos! Ele veio a mim! Os verdes vidraram nos azuis. As mãos claras fecharam-se nas dela. – Milady... – Precisamos salvá-lo, Meath. 6


Volkodlák – Mas, minha senhora, aquele Bispo, Ledrede, está na cidade – ela ponderou incerta. As imagens do sacerdote em sua mente, a boca amarga envolvendo-lhe em calúnias. – Ele já perguntou tanto pela senhora... Sobre sua vida. Se fizermos isso novamente, talvez não lhe restará escapatória. – Tolice – rasgou o ar num esgar insano. – Não irei deixá-lo morrer! A criada fitou-a se afastar, num olhar compadecido. Poucas vezes a vira tão desesperada, mesmo com todos os boatos a seu respeito e a Inquisição batendo-lhe ás portas. – O que precisaremos? – cortou o silêncio em dois, decidida. – Nove galos e nove pavões... – Tem certeza? A ruiva respirou fundo e assentiu. – Então será feito essa madrugada, enquanto a lua ainda está negra. – Como queira, milady. – Curvou-se novamente em respeito e deixou-a sozinha. *** O céu estava escuro, sem lua, quando ela pisou o 7


Roxane Norris terreno lamacento da floresta ao redor da casa. Havia deixado as aves próximas ao local escolhido e com a ajuda de um cavalo, arrastara o corpo do enfermo até o local. Não deviam chamar atenção, por isso ela tomara cuidado em se locomover aos poucos, em diversos horários. Agora, escorregava sozinha pela noite, encoberta pela capa escura de lã. Penetrando na floresta até somente ouvir os sons da natureza. Os sons de todos os seres que respiravam e viviam em harmonia com a terra, o ar, a água e o fogo. O cheiro do orvalho em flor e folhas... da lama que sujava seus pés. Com cuidado, se aproximou do corpo ali perto, fazendo os galos eclodirem num cacarejo assustado. Ainda que o homem dentro da camisola não se mexesse. Ordenou seus azuis sobre o rosto sem cor, suado, belo até mesmo na dor. Os cabelos castanhos curtos, á meia altura do pescoço, espalhados sobre a maca improvisada que o trouxera ali. A vida parecia esvair do corpo talhado nos campos, e depois, nas batalhas, conforme as manchas pretas o cobriam sem que se pudesse controlar. O esforço que ela imprimiu para arrastá-lo até o centro da clareira, desenhando ao redor dele, com um athame, um círculo no sentido anti-horário. Começando pelo Norte. Dividindo-o em quadrantes depois de feito. Terra preta ao Norte, a vela azul acesa ao Sul; a água na vasilha de barro á Oeste, reluzindo um espelho branco; e as aves ao Leste. As penas que baniriam a doença daquele corpo. As 8


Volkodlák palavras que ela deixou à volta deles, calmamente, enquanto retirava a capa e entrava no círculo, ajoelhando-se próximo ao corpo: "Pelo Poder da Deusa e do Deus, pelos Guardiões dos Quatro Quadrantes, eu traço este Círculo Sagrado. Deste espaço só o Mal que habita esse corpo sairá, e nele nenhum Mal poderá entrar...” Ela continuou com cuidado, desfazendo-se do vestido de lã curto, sem botão e branco, unindo-se á natureza. Pedindo com toda a força de sua alma que banisse para longe a Peste, que os livrasse daquele Mal. “Que venham as forças antigas, e a Deusa use sua sabedoria e purifique a carne; que o Deus tenha pena dele e devolve-lhe o sangue de um guerreiro. Bravo como era antes de padecer...” O vento soprou em seu rosto e, então, ela rastejou até as aves. Tomando o athame novamente nos dedos, salpicando a terra de vermelho dezoito vezes... As penas oscilando ao vento. O sopro quente seguido do uivo. Os azuis voltados para as copas das árvores que sibilavam no mesmo ritmo, londo e agonizante. O corpo do homem que tremeu sobre a maca, o som das folhas amassadas por patas. – Faoladh... – um suspiro escapado de seus lábios róseos. 9


Roxane Norris O olhar dourado em meio a névoa crescente, que tomava o círculo. A respiração rápida dela, a falta de ar, a fraqueza quando a névoa se deslocou até o corpo, fazendo-a tombar por cima dele enquanto desaparecia totalmente. Sem vestígios. A consciência que ela retomou aos poucos, incrédula no que acontecera... Como ela evocara aquilo? O corpo quente abaixo do seu, atirando-a para longe, assustada, ao descobrir dourados sobre si. Dourados que se abriram para fitá-la do corpo outrora pestilento. Um corpo não mais maculado ou agonizante, e azuis se alargaram. As mãos que ela levou aos lábios enquanto ele erguia o tronco e perguntava: – O que faço aqui? O que era ele? Ela se perguntou incapaz de reagir. Nunca fizera algo parecido. Não tinha respostas. A falta de roupas que ele notou que havia nela, e o vestido que ela puxou rapidamente contra seu corpo. Escondendo-o sob a lã branca. Branca como um cordeiro a ser abatido por um lobo. Fitou-o mais uma vez. – Faoladh – ela balbuciou de novo. – O que disse? Ela não repetiu, precisava terminar o feitiço e expulsar o lobo dali. Aqueles não eram os olhos do homem que conhecera em vida. Então o corpo dele 10


Volkodlák cobriu-se de pêlos castanhos, sem que ela nada pronunciasse. Sua altura alcançou quase dois metros enquanto urrava como se alguma faca o partisse em pedaços, e ela recuou. Recuou até um ponto seguro, sem quebrar o círculo. Ainda podia salvá-lo, tinha certeza. No entanto, uma mão capturou-a pelo braço. Forçando-a a sair dali. Rompendo o selo. – Bruxa! – a voz do homem sentenciou. – Não negue! E os dourados a fitaram uma vez mais, vertendo fumaça pelas narinas naquela noite fria... Só então, fazendo o bispo se dar conta da besta. A besta que se preparava para atacá-lo num golpe só de sua pata, conforme ele largava a moça no chão. O golpe desferido que desmaiou o sacerdote enquanto o lobo se preparava novamente para o ataque. Um ataque fatal. – Não! – Ela se colocou entre os dois. O vestido sujo de lama. Os dourados nos azuis, que piscaram até compreenderem o que ela queria. A cabeça que ele abaixou até que ela pudesse tocá-lo e acarinhar seu pêlo. – Eu vou devolvê-lo a sua forma original... – sussurrou. – Eu juro. – Ela está por aqui! – gritavam mais vozes ao 11


Roxane Norris longe, na borda da floresta. – Vá... Deve ir – ela pediu baixo. – Na próxima lua cheia eu estarei aqui e desfarei esse feitiço. Você me entende? Um único movimento de cabeça do lobo. – Obrigada – ela agradeceu, beijando a lista branca em sua testa. Um uivo longo e doloroso, e o lobo corria para longe, sumindo na escuridão da floresta. – Achem-na! As tochas iluminaram a cena de um crime e os cães ladravam irritados. Um pentagrama quebrado e um bispo caído, mas a prova final tinha sido usurpada. Não havia bruxa ou craven no local. Os castanhos reluziram enquanto os seus homens se espalhavam pela floresta em busca de rastros. *** A porta foi açoitada pela mão do homem uma, duas... três vezes seguidas, até que os ferrolhos fossem destravados e a criada ruiva delimitasse uma fresta para poder fitá-lo. – Devo falar com sua senhora – ele rosnou de dentro de sua cota de malha. – Ela não está... – disse, estreitando a distância 12


Volkodlák entre a madeira e o beiral. – Eu não vou ser escorraçado da casa de uma bruxa! – bramiu ao vetar-lhe o movimento com o braço forte contra a madeira, impedindo que a porta se fechasse. Os castanhos cintilando sobre a moça ao arremessá-la ao chão e dar-se passagem para a sala. – Diga aonde ela está – exigiu, avançando até ela. Erguendo-a do chão frio pelos cabelos acobreados. – Eu só vou perguntar mais uma vez, entendeu? – Entendi... – a voz veio detrás de si, fazendo-o virar-se para fitar a morena. – Solte-a Gilbert! – Alice... – um sibilo de castanhos, deixando os cabelos cor de fogo escorregarem por seus dedos. – Aonde está aquele estrangeiro? – Estrangeiro? – Ela sorriu sob o olhar escuro dele. – Robin MacArt – sentenciou irritado. – Não sei do que está falando? Em duas passadas, estava sobre ela, agarrando-a pelos ombros. – Não brinque comigo! – O ar quente batendo contra seu rosto, os verdes nos castanhos enfrentando-os. – O demônio com quem se deitou, 13


Roxane Norris sua bruxa! – Não me deitei com demônio algum! – Ele sacolejava-a como a uma boneca de pano, mas os riscos de altivez não desapareciam. Pelo contrário, mexiam com seus nervos. Sempre fora assim... Alice sempre mexera com suas entranhas, entrando em sua mente como veneno. Bruxa amaldiçoada! – Me deitei com homens, ricos... guerreiros... – A boca vermelha sangrava indecências, escorrendo pela pele macia dela. Queria tocá-la, rasgá-la ao meio em sua insanidade. Ela lhe tirava juízo, maldita mulher! – Mas nunca com Gilbert de Bohun! Nunca o quis! – Cale-se! – Ergueu-a do chão com apenas um braço. – Você está em minhas terras! – Você, sim, é um demônio! – rebateu seca, chutando-o com os bicos dos sapatos de couro curtido. – Normando imundo! – Eu mandei calar-se! – Atirou-a contra a parede. Os castanhos presos ao choque dela contra a parede de pedra. O rubro escorrendo pelo cinza. – Alice... – a consciência voltando á mente. Ele se aproximou, os cabelos encaracolados escuros emoldurando os castanhos estreitos... Ternos. Como podiam facilmente mudar de aparência?, refletiu a morena. – Saia! – Ela chutou-o uma vez mais. – Não me 14


Volkodlák toque! – Alice... – A mão bruta parada a centímetros de seu rosto. – Ele, ao menos, era mais gentil. Sabia como tratar uma mulher... – Os verdes verteram lágrimas em pares. – Me esqueça, Gilbert! Os castanhos que perderam o brilho paulatinamente, retirando de dentro da indumentária, um pergaminho. Esticando-o á ela. – Essa é uma decisão do Bispo de Ossory. Seus filhos ficarão sob sua custódia enquanto as autoridades verificam a acusação de bruxaria imposta a você. – Meus filhos? – Os verdes oscilaram nos castanhos ao tomar o pergaminho entre os dedos e fitá-lo. – Não podem fazer isso! – Eles já nos revelaram como suas heranças não lhes foram legadas... – Deixou seu olhar abandonar o rosto belo dela e fixar o teto sobre sua cabeça. – E como seu atual marido enlouqueceu. – Voltou a encará-la, a mesma raiva riscando os castanhos. – Só não souberam dizer nada sobre o paradeiro de Robin MacArt. Os verdes luziram nos castanhos enquanto ele aproximou seu rosto do dela. 15


Roxane Norris – Foi mais cuidadosa dessa vez, bruxa... – Sorriu bestialmente. – Mas eu vou encontrar algo que prove o que é capaz de fazer aos homens... Como os enfeitiça. – Você está louco! – Veremos. – Afastou-se dela. – Por hora, as crianças vão comigo. – Não! – Não quero envolver meus homens nisso, Alice... – Pela primeira vez, naquela sala, ela recuou. – Vejo que sob as palavras certas, você pode ser bastante compreensiva. Virou-se para a criada ruiva, que se erguera do chão há alguns minutos, após ter passado o efeito da pancada. – Traga-os... – Ela não se moveu. – Não me ouviu, mulher? Silêncio. – Está tudo bem, Meath – consentiu a morena. – Traga-os. – Sim, senhora. E numa mesura ostensiva, deixou a sala. – Não me surpreenderia, se ela estivesse metida 16


Volkodlák nisso com você. – Deixe Petronella fora disso... Ele riu abertamente. – Não está mais em minhas mãos decidir seu destino, Alice. As crianças entraram num alarido, acercando-se da mãe. – Escutem-me, vocês irão com Earl Pembroke... Eles assentiram e ela os beijou a testa, um por um... Sem baixar nenhuma vez seu olhar na frete dos castanhos. Quando a sólida porta se cerrou atrás dele, nem mesmo a prestativa Meath foi capaz de suportar o peso do corpo da morena. – Meath... – Agarrou-se ao vestido da ruiva, enterrando seu rosto nas dobras da lã. – Acalme-se, milady. – Afagou-a nos braços. – Os meninos provarão sua inocência... *** Um homem de cabelos castanhos se aproximou da clareira na primeira lua cheia da estação. Os olhos cor de mel que vasculhavam a escuridão, tentando encontrá-la. A bruxa ruiva. As nuvens cobriam parcialmente a lua, e ele ouvia 17


Roxane Norris apenas os sons da floresta. Sons que imitavam os seus próprios... Afinal, o que ele se tornara? Escondera-se por um quase um mês, abrigando-se em cavernas e lugares isolados com medo de si mesmo. Lembrava-se vagamente do que lhe acontecera, da febre no corpo e como procurara Lady Alice. E exatamente ali, instalara-se uma lacuna branca... Ao menos até olhar a ruiva. A bela ruiva nua a sua frente, que não pode tocar porque se tornara um lobo... E, então, ela lhe dissera que estaria ali, na próxima lua cheia. Desfaria o feitiço. Um feitiço que o tornara um animal. Assim ele achava, nas roupas esfarrapadas que roubara de um varal qualquer. Desde aquela noite ele era humano, não houvera transformações, mas queria ter a certeza de que não voltaria a ser lobo... Lembrou-se do receio nos azuis dela, não queria ter aquela sensação novamente. Ver aquele brilho escuro nos azuis. Talvez quisesse apenas vê-la de novo. A noite já avançara muito quando a lua saiu detrás da nuvens, tornando os mel em dourados. Fazendo o corpo dele vergar, os cabelos castanhos cobrirem-lhe as feições enquanto soltava um uivo. As unhas cresciam, rasgando-lhe a pele... transformando-a em pelos. Pelos castanhos que se espalhavam pelo corpo de homem. E ele era lobo uma vez mais. Um lobo com sede e fome. A corrida empreendida por entre as árvores, veloz como vento que batia-lhe nos pêlos. Um vento frio contra sua respiração quente. As veias latejando até 18


Volkodlák avistar uma corsa, empinar o corpo e saltar em sua jugular, lacerando-a. As presas afundando na carne tenra, sorvendo o sangue quase instantaneamente. O prazer que desfrutou ao se alimentar da corsa... Na fome do animal que era. Faoladh... Ele lembrou que ela o chamara assim. Os dourados na escuridão e a boca cheia de sangue. Ele não podia ser essa fera. Os sentidos alertados pelo cheiro humano, cada músculo seu tencionado para a caça. E nada o seguraria, cada célula sua clamava por aquele cheiro, desejava seu gosto. Na espreita da carroça carregada de lenha, ele atacou no êxtase da batalha que corria sua mente, dominando-a. A força de mil homens destrinchando a carne clara... A sede saciada na última gota rubra que desceu por sua garganta antes do uivo que inundou a floresta. O uivo do monstro que se tornara. O monstro que devia aprender a controlar até que conseguisse achar a bruxa. O lobo que habitava seu corpo a cada lua cheia... Era um amaldiçoado e pagava por suas escolhas erradas, estava claro agora . *** – Vamos, confesse! – ele exigiu em dentes expostos de sua raiva, dentro da roupa preta e 19


Roxane Norris branca. A face escura dos cães de Deus, o Inquisitor. Com as roupas rasgadas, os braços estavam para traz e seus pulsos amarrados por uma corda que se estendia até uma roldana e um eixo. O sangue coagulado marcava-lhe as pernas, resquícios da tortura sofrida anteriormente. A respiração era pesada e a pele que cobria o corpo tinha uma cor arroxeada devido aos hematomas de variados tamanhos, que sucediam uns aos outros, conferindo uma aparência grotesca á mulher. Havia gangrena em um dos pés, e as mãos deformadas não podiam se agarrar em nada. Os cabelos ruivos haviam sido cortados e estavam colados á cabeça. – E agora, Petronella? – A corda foi puxada violentamente pelo torturador, através deste eixo, arrancando dela um urro de dor. – Não seria melhor confessares? Um movimento dos lábios ressecados, rachados em veios vivos de sangue. As paredes de pedra que ela cansara de fitar infinita vezes em busca de absolvição, mas só encontrava mais dor. – Diga alto! – ele riu enquanto deslocava os ombros e provocava diversos ferimentos nas costas e braços dela. O desmaio e a sentença dos lábios odiosos de Ledrede: – Deixem-na aí um pouco mais, talvez quando 20


Volkodlák recobrar a memória, queira cooperar conosco. – Eu sou uma bruxa – era um sopro que chegava até seus ouvidos quando ele já cruzava os portões de ferro do calabouço. Um sorriso em seus lábios de vitória, e ele nem se deu ao trabalho de voltar até ela. – E será queimada amanhã, em praça pública, para absolvição de seus pecados; a expugnação de Satã de seu corpo e um aviso para aqueles que ainda tem o coração imerso em trevas. Você servirá de exemplo aos que ainda professam essa religiãi pagã e se intitulam cordeiros quando afugentados pela verdade de Nosso Senhor! És uma herege proclamada e mostrarás sua verdadeira face num auto de fé. Ela voltou a cerrar os olhos e a fechadura rangeu ao ser lacrada. – A luz será gravada em seu corpo através do fogo e a levará a seu verdadeiro senhor. – Fez o sinal da cruz e a deixou sozinha. Estaria livre ao amanhecer... Livre de tudo. Lembrou-se dos olhos de Lady Kyteler ao deixar a Irlanda, ainda altivos, como se a Inquisição nunca a alcançasse. A falta de notícias que invadira a casa em Dubin por meses até eles baterem nas porta, precedidos por Earl Pembroke e a levarem dali, 21


Roxane Norris culpada por se aliar a uma bruxa. Então, na primeira tortura, quando o rastelo açoitou sua carne, viu os olhos dourados invadirem sua alma, em pelos castanhos de lobo. O homem que ela transformara em lobo, que não pudera salvar... Era uma bruxa. Bruxa. Pediu desculpas por sua falha com ele, por não ter sido tão boa representante da Deusa. Achava que aquela era sua missão, mas por algum motivo, fora abandonada. Pediu desculpas à Deusa por se desviar de seu caminho, e quando abriu os olhos, havia o povo que gritava ao seu redor. Havia o cheiro de enxofre na camisola que vestia, mas não havia medo em seus olhos. Os gritos de: queimem!, eram distantes. Os rostos claros sucediam uns aos outros na sua visão, não havia ninguém conhecido até o capuz dele ser baixado e os mel pousarem nela intensamente. Os lábios que se moveram vagarosamente e nada mais importava: – Eu a abençôo. Ela sorriu sem se importar com as chamas que começavam a crepitar abaixo de si, estava em paz antes dela tocarem seu corpo frágil. Os mels que desviaram da imagem dantesca quando viu a cabeça dela pender para o lado sem vida. Não havia mais nada ali para ele... Não ao menos por hora. Um dia ele iria amaldiçoá-lo como haviam feito a eles. Ele jurou em dourados diante dela quando o 22


Volkodlák crepúsculo banhava a praça e ninguém mais o via. Os raios pálidos revelando um brilho arroxeado entre as cinzas, que ele trouxe até seu campo de visão em forma de pedra. Uma ametista. Os dedos que se fecharam ao redor da pedra, esbranquiçando os nós. O uivo que cortou o ar conforme um lobo corria para longe, na direção da floresta.

23


Roxane Norris

24


Volkodlรกk

25

Volkodlák  

Capítulo 1 degustação