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Réquiem para um bozo

Wanderley Tribeck, que há 30 anos incorporava o personagem mais benquisto e bem pago da TV nacional, hoje lida com o seu restaurante e o seu passado em Balneário Camboriú por Rosielle Machado, com fotos de Bruno Ropelato


O helicóptero sobrevoou a fila da marginal Tietê e aterrissou no Playcenter. Da cabine se ouvia a multidão de crianças ansiosas movidas a algodão doce, pipoca e refrigerante. Algumas já puxavam o coro de “Começa! Começa!”. Atrás do palco, recém-saído do helicóptero, estava o responsável pela gritaria, pelo engarrafamento, pelos ingressos esgotados e pela histeria infantil. Ao ouvir o sinal de que estava na hora do show, ajeitou o nariz vermelho e pegou o microfone:

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– Alô criançada, o Bozo chegou, trazendo alegria pra você e o vovô! O mar de crianças pulava junto, elas de bocas abertas e ele de braços escancarados, as mãos frenéticas, os pés enlouquecidos: o rockstar infantil dos anos 1980. Três décadas depois, as mesmas mãos agitadas e pés serelepes estão lá, em algum lugar no homem de 60 anos que caminha no calçadão em Balneário Camboriú. De agasalho Adidas e tênis amortecedor de impacto, ele se confunde com os outros senhores meio calvos, meio ofegantes que caminham para manter-a-saúdeque-nem-o-médico-mandou. Mas nenhum dos outros senhores meio calvos, meio ofegantes, tem o que Wanderley Tribeck guarda na carteira: um cartão de visitas em que se lê “o primeiro Bozo do Brasil”. A vida de Wanderley já foi uma mistura de fama e correria, agenda lotada e pó de arroz. Hoje, o ex-bozo passa a maior parte dos dias com a mulher e a filha no restaurante que abriu há 10 anos em Balneário, o Ex-Petinho do Wandeko, especializado em pratos-feitos a r$ 8,50 (com direito a dois tipos de carne). Quando não está lá ele assiste televisão, lê a bíblia e reza na Assembleia de Deus. Quebra a rotina com as viagens que faz para outras igrejas, onde dá testemunhos sobre a mudança que Jesus fez em sua vida. Nesses testemunhos, a referência ao Bozo entra sempre nos primeiros minutos: “Os irmãos imaginem uma pessoa que foi sucesso no mundo inteiro. Eu fui o maior palhaço do mundo!”, proclama. E não exagera. O Bozo, franquia criada nos Estados Unidos, existiu em 30 países. No Brasil, o fenômeno alcançou tal proporção que ia ao ar duas vezes por dia, quatro horas de duração cada programa. Misturava desenhos infantis a esquetes e outras loucuras de auditório: Show de calouros do Bozo, Papai Papudo, Vovó Mafalda, Professor SalsiFufu, Bozo Corrida, Bozo Game, Bozo Memória, King Bozo, Bozo Coelhão. Wandeko foi o primeiro de seis intérpretes nacionais do palhaço. Seu reinado no SBT durou de 1980 a 1985, mas foi soberano apenas até 1983. No terceiro ano do programa outros atores começaram a se revezar


no papel para cumprir a agenda que às vezes exigia a presença do Bozo, no mesmo dia, em São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Era a Bozomania.

Crupiê Lageano, Wanderley já era humorista há 10 anos quando fez o teste para Bozo. Após ter se aventurado como engraxate, lavador de carro, cobrador de ônibus e ponta direita do Internacional de Lages, decidiu ganhar a vida sendo engraçado. Com 20 anos começou a se apresentar em boates de Florianópolis, Rio Grande do Sul e Curitiba com o nome de Wandeko Pipoca. Passava as noites sentado ao lado de travestis esperando a hora de subir no palco, eles com vestidos de paetês, ele de smoking. Até que cansou, comprou uma passagem para São Paulo e embarcou para tentar a sorte. Foi lá que ouviu falar do teste para um tal de Bozo. Wandeko não tinha ideia de onde estava se metendo. Nunca nem havia se vestido de palhaço. Quando passou os olhos pelos concorrentes e viu o comediante Moacir Franco, pensou que seria difícil conseguir o papel. Mas se enganou: foi como se tivesse nascido para seu destino. Assim que os dois americanos e o diretor do programa pediram que ele cantasse, Wandeko engatou um verso de Criança feliz. Pediram que ele risse e o som saiu automático, “hohohoho”. Na hora de dançar, se concentrou e exibiu o melhor rebolado possível. Quando viu já estava apertando a mão dos gringos, pronto para começar um treinamento de 35 dias. Era o início da fase da vida em que Wanderley passaria a maior parte do tempo de cara pintada, ostentando a distinta peruca vermelha na cabeça. A ponto de, em 1982, no dia em que a filha Ludmilla nasceu, sair da maternidade às 6h da manhã maquiado, dirigindo por São Paulo vestido de Bozo. Tudo para cumprir a rotina diária de gravação, das 8h às 14h. Foram anos corridos, insanos, com seis horas de sorrisos, pulos, cantorias e bitocas no nariz por dia – isso sem contar os shows. Não importava. A correria sufocante

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era compensada por discos de ouro e troféus. O Wandeko de 30 anos de idade respirava fundo e inspirava forte aquela sensação poderosa: o sucesso. Hoje, é com dezenas de fotografias expostas no ExPetinho que Wanderley homenageia o próprio passado. “Eu tinha o maior salário da televisão brasileira”, conta à Naipe, sentado em uma cadeira de plástico, de costas para a pintura desbotada do Bozo na parede do restaurante. “Tudo que tenho hoje”, diz, abrindo os braços, “tudo que tenho hoje foi por causa do Bozo”. E quando ele diz tudo, é tudo mesmo. Até a esposa com quem é casado há três décadas. Os dois se conheceram no estúdio enquanto Deise, com 14 anos, assistia a gravação do programa. O Bozo estava pronto para entrar em cena quando notou a morena de largo sorriso no auditório. Para a garota, por baixo da maquiagem o palhaço deveria ser um velho careca feioso, mas na entrega do Troféu Imprensa ela o viu de cara limpa e mudou de ideia. Não teve jeito: se apaixonou, casou e até hoje dorme com o Bozo. “Tive uma vida antes e outra depois do programa. Ele me deu minha mulher, me deu mais uma filha [além dela, teve um filho da primeira esposa, falecida], cinco troféus imprensa, disco de ouro, de platina, título de Embaixador da Boa Vontade da Unesco”, enumera Wandeko, apontando os prêmios expostos em uma prateleira capenga do restaurante. Nos testemunhos que dá na Assembleia de Deus, ele é mais dramático. “Deus me deu até minha família e eu, arrogante, desperdicei tudo”. Wandeko hoje sabe: a teimosia foi a culpada por ter deixado para trás a vida de hotéis cinco estrelas, de jantares na casa de Sílvio Santos, das chegadas de helicóptero no Playcenter. Os atritos com o SBT começaram por causa de seu desagrado quanto a algumas novidades do programa: a corrida de cavalo, a batalha naval, o bingo. Wandeko pensava – e ainda pensa – que não havia sentido em colocar crianças para apostar em cavalos branquinhos, pretinhos e malhadinhos. “O Bozo virou crupiê”, declarou em uma reportagem da época. Dos desentendimentos com a produção à demissão foi só questão de tempo. Os jornais noticiaram sua saída

com o furor dispensado às celebridades: uns disseram que Wandeko havia morrido, outros que tinha recebido uma proposta milionária para mudar de emissora, ou ainda que estava na pior, desempregado. O Notícias Populares, ao saber que ele comprava uma churrascaria em São Paulo, anunciou: “Bozo troca criança por carne”.


Frentista Depois que deixou de ser Bozo, Wandeko peregrinou alguns anos por outras emissoras. Fez a Turma do Pipoca, na Gazeta, e a TV Criança, na Band. No começo dos anos 1990, abandonou as (ou foi abandonado pelas) câmeras e passou a fazer shows de humor e música com a esposa. Até o fim da década, a dupla Wandeko & Deise apresentouse em festas de peão e boiadeiro, inaugurações de boliche, encontros de terceira idade e o que mais aparecesse pela frente. Chegaram a participar de 400 eventos em um ano, mas a nova vida não andava bem: o ex-Bozo estava exausto, bebendo, descontando as frustrações na família. Uma noite, depois de um show, ao chegar em casa não encontrou Deise, que tinha ido embora. Wanderley chorou durante cinco meses, entrou em depressão, emagreceu 25 kg. Fora de si, andava com um revólver debaixo do braço para matar a mulher. Com a conta bancária no vermelho, foi pedir emprego num posto de gasolina em Balneário Camboriú, cidade onde vivia desde antes do abandono da esposa. O dono do posto balançou a cabeça, fez que não. Falou que conhecia a história do humorista e que não iria deixá-lo terminar a carreira como frentista. Apontou para a esquerda: “Tá vendo aquela árvore? Pega aquele espaço ali e faz um negócio pra você. Depois a gente acerta aluguel, essas coisas”. Wandeko ficou mudo e ainda ouviu: “Mas se você montar qualquer coisa sem Deus, você vai cair de novo”.

Na TV de hoje Wandeko acompanha alguns programas, mas não sem o mesmo olhar desconfiado de 25 anos atrás: gosta das sacadas do CQC, mas se incomoda com os palavrões. Prefere um humor mais inocente, à la Paulinho Mixaria. “Sabe, aquele tipo de piada como ‘Azeitona tem perna? Não? Então acho que comi um gafanhoto’.”

Foram as palavras mágicas para a conversão. No domingo seguinte, lá estava Wandeko na Assembleia de Deus – ele, que sempre teve nojo da igreja. Naquele mesmo dia foi até a praia e atirou o revólver no mar. Depois, comprou uma bíblia e fez de tudo para reconquistar a esposa e construir, no espaço anexo ao posto, seu restaurante. Conseguiu as duas coisas. Hoje o Ex-Petinho, com 10 anos, é administrado pela filha Ludmilla. Para Wanderley, sobra a tarefa de fazer uma ou outra reforma, ajustar a borracha da geladeira, consertar o telhado. Os dias de jogos do Brasileirão são os mais movimentados: sempre tem quem queira o conhecer, conversar e ouvir uma velha piada. Lá está o ex-Bozo sempre de prontidão, distribuindo cartões de visita. “Se eu tiver que tirar fotografia o dia inteiro, eu tiro. Só faço isso da vida, eu nem trabalho”, sorri.


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