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A escolha perfeita? Depois de ter sido usado e abandonado pela mulher que acreditava amar, o bilionário Blair Coleman abriu mão de sua vida social. A única pessoa na qual ele realmente confia é Niki Ashton, filha de seu melhor amigo. Blair é forte, cabeça-dura e apaixonante. E são exatamente essas qualidades que o fazem ser o homem dos sonhos de Niki. Porém, sempre que ela tentava se aproximar, Blair se afastava. Foi preciso um trágico acidente para que ele se livrasse de suas ressalvas. Agora, Blair está disposto a tudo: casamento, filhos e “felizes para sempre”. Mas será que não é tarde demais?


Diana Palmer

CORAÇÕES FORTES

Tradução Vera Vasconcellos

2016


CAPÍTULO 1

O

de Nicolette Ashton sempre tentava estimulá-la a sair com rapazes. A filha se interessava mais por formações rochosas do que por homens. Era uma jovem introvertida, tímida e reservada diante de desconhecidos. O rosto gracioso, cor de pêssego, era emoldurado por um cabelo longo, platinado e macio. Os olhos tinham a tonalidade de uma manhã nebulosa de setembro. A estrutura corporal era igualmente bela. Mas Nicolette se recusava a namorar. Havia um homem em sua vida. Faltava apenas ele saber. O príncipe que lhe povoava os sonhos a considerava muito jovem, mas isso não a impedia de suspirar por ele. E por esse motivo, Nicolette continuava solitária. Até então, conseguira evitar sair com rapazes enquanto cursava a faculdade, divertindo-se apenas com as amigas. Mas elas viviam a aconselhando a se envolver com homens. Insistiam que Nicolette precisava deixar o casulo, sair para o mundo e namorar alguém. As amigas tinham boa intenção. Talvez devesse mesmo sair para se divertir com mais frequência. Afinal, o objeto de sua afeição jamais corresponderia aos seus sentimentos. PAI


Portanto, quando se aproximava o fim do semestre, as amigas lhe marcaram um encontro com um dos estudantes. Ela não o conhecia. O rapaz não era de Catelow, Wyoming, onde Nicolette vivia com o pai, em uma fazenda de gado, mas, sim, de Billings, Montana, onde ficava a faculdade. No momento, ela desejava nunca ter concordado com aquele encontro às cegas. O rapaz se mostrou descortês e até mesmo rude, quando ela insistiu para que a levasse para casa, em vez de concordar em ir para o apartamento dele. A fazenda não ficava distante dali. Apenas a vinte minutos de carro. Mas Niki sabia o que aconteceria se concordasse em ir para o apartamento do universitário. Por mais antiquada que parecesse entre suas amigas na faculdade, recusava-se a imitar o comportamento delas. Harvey, o rapaz com quem saíra, parecia não admitir que uma garota pudesse resistir às suas investidas. Afinal, além de belo, era o astro do futebol da faculdade e acostumado ao assédio feminino. Mas Niki não estava interessada. – Deve estar louca – resmungou o jovem Harvey, enquanto cruzava em alta velocidade o caminho que levava aos degraus da frente da enorme mansão vitoriana. – Não existe nenhuma mulher neste país que não vá para a cama com um homem, pelo amor de Deus! – Há algumas. Eu sou uma delas – retrucou Nicolette. – Concordei em jantar com você. Nada mais. Harvey deixou escapar um ronco raivoso da garganta, enquanto estacionava e a estudava sob o reflexo das luzes da varanda da frente. – Seu pai está em casa? – perguntou. – Ainda não – respondeu ela, sem pensar. – Ele foi a uma reunião de negócios, mas um amigo dele está vindo passar


alguns dias aqui. Deve chegar a qualquer minuto. – Uma mentira calculada. De fato, existia um amigo, chamado Blair Coleman, dono de uma empresa petrolífera multinacional. Niki o via de vez em quando, nas ocasiões em que ele visitava o pai. Na verdade, nutria uma paixão ardente por aquele homem desde os 17 anos, mas o amigo do pai a tratava como uma criança. Blair Coleman chegaria, ela só não sabia a que horas. – Tenho de entrar – acrescentou. – Eu a acompanho até a porta – ofereceu ele. Harvey chegou até mesmo a contornar o carro para lhe abrir a porta. Havia uma intenção velada no olhar do jovem, mas Niki se encontrava muito aliviada para notar. Destrancaria a porta, entraria em casa e estaria livre. – Obrigada – agradeceu ela. – De nada – respondeu Harvey, com um meio-sorriso arrogante e enigmático. Quando Niki colocou a chave na fechadura, franziu a testa ao perceber que não precisaria destrancar a porta. Talvez o pai tivesse chegado. Mas ao girar para se despedir de Harvey, descobriu-se empurrada para dentro. O jovem atleta fechou a porta quando os dois se encontravam no interior da casa. – Agora... – começou ele em tom ameaçador. – Sua frígida provocadora! Fique sabendo que as garotas que saem comigo sempre acabam cedendo. Sempre! Agarrando-a pelo braço, Harvey a levou para a sala de estar e a atirou no sofá. Niki se encontrava fragilizada devido a uma infecção que a levara ao hospital e a deixara fraca e ofegante. Embora não fosse uma jovem pequena, era magra e não sabia se defender. Por ser


jogador de futebol, Harvey possuía a compleição muscular de um atleta. Com facilidade, ele a deitou de costas sobre o sofá. O cabelo loiro platinado e espalhado emoldurava o rosto oval de compleição delicada e olhos cinza-claro. Um rubor causado pela doença recente, que lhe deixara uma falta de ar residual, coravalhe a pele cor de pêssego. Niki tentou resistir, mas sabia que não levaria a melhor. Harvey estava tentando lhe tomar algo que ela deveria ter o direito de oferecer por opção. Encontrava-se furioso e aquela impotência a irritava ainda mais. – Solte-me! – vociferou ela. – Seu idiota. Não permitirei que você...! – Não pode me impedir – ofegou ele, rasgando-lhe a parte superior do vestido, enquanto a mantinha cativa sob o peso do corpanzil. – E não há ninguém nesta casa que possa. – Oh, eu não apostaria dinheiro nisso. – Uma voz grave e profunda soou sarcástica da soleira da porta. Niki ergueu o olhar naquela direção. E lá estava ele, maior do que nunca. A razão que a levava a não sair com rapazes. Blair Coleman. Harvey encontrava-se embriagado o suficiente para não perceber o tamanho do problema que o aguardava. Ao menos, não até que o homem com dimensões de um pugilista o arrancasse de cima de Niki pelo colarinho e o atirasse ao chão. – Não pode fazer isso comigo! Sou jogador de futebol! Vou fazê-lo varar a parede! – protestou Harvey, erguendo-se e partindo na direção do grandalhão. Uma risada abafada ecoou na sala de estar. O rompante de Harvey foi recebido pelo arremesso de um punho do tamanho de um tronco que colidiu com o diafragma do atleta e o fez se dobrar sobre os joelhos.


Enquanto o jovem tentava se recuperar do impacto, o grandalhão o ergueu pelo colarinho, recuou o punho e lhe desferiu um soco que o arremessou sobre o sofá, onde uma Niki chocada ainda se encontrava deitada. – Vou contar para o meu pai! – vociferou o astro de futebol. – Ele tem um time de advogados. – Também tenho alguns. Levante-se e peça desculpa a essa jovem pelo que estava tentando fazer – acrescentou Blair com um rosnado ameaçador. – Eu... não pedirei desculpa nenhuma. – O rapaz vacilou. – Você é quem sabe. Não hesitarei em envolver o xerife neste caso. – Blair retirou o telefone celular do bolso enquanto falava. – Nicolette, sinto muito mesmo – disse Harvey em um só fôlego. O rosto rubro enquanto a encarava. Niki se encontrava de pé agora, tentando segurar o tecido rasgado do corpete contra o corpo. Os olhos claros flamejantes pelo ultraje e a vergonha. – Não tanto quanto sentirá quando eu contar para o meu pai o que você tentou fazer – prometeu ela. – Ele também tem bons advogados. – Eu estava bêbado! – exclamou Harvey, fitando-a, furioso. – E não se esqueça de ler os comentários que farei sobre você na minha rede social – acrescentou, com um sorriso sarcástico. O grandalhão se aproximou, fazendo-o recuar um passo. – Permita-me lhe dar um conselho – começou Blair com voz calma. – Nem pense em se vingar dela pela internet. Incumbirei meu pessoal de ficar atento. A primeira referência que fizer a ela, é melhor estar fora do país, antes que meus seguranças o encontrem. Fui claro? – perguntou ele. A postura tão ameaçadora quanto a voz.


– Si... Sim. Muito claro. Demais. Blair gesticulou com a cabeça em direção à porta. Harvey aproveitou a deixa e partiu. Não saiu correndo na direção do carro, mas, quando se encontrou atrás do volante, disparou pelo caminho que levava à saída. Niki observou seu salvador, quando ele retornava da janela, onde se certificara de que Harvey partira. Blair trajava roupas informais, mas a calça de grife famosa se colava às coxas grandes e musculosas e a camisa verde de linha lhe valorizava o peito de músculos bem definidos. O rosto era largo, com um nariz grande e uma boca estonteante e bem delineada. A compleição era morena. O cabelo, ondulado e preto, tinha insipientes fios prateados. Os olhos eram enormes e cor de azeviche, encimados por sobrancelhas grossas. Os pés pareciam tão exagerados quanto as mãos. Blair tinha a estrutura perfeita para um homem daquele porte. Não havia um só grama de gordura sobrando em seu corpo. Niki se apaixonara por ele desde que o pai o trouxera para uma visita, anos atrás. Mas, como na ocasião estava apenas com 17 anos, não havia nenhum homem em sua vida. Aquele lhe colorira os sonhos e lhe trouxera anseios que ela sequer sabia definir. – Obrigada – agradeceu Niki em tom suave. – Não conseguiria impedi-lo – acrescentou com a respiração ofegante. Blair franziu a testa. – Você tem asma, certo? Niki anuiu. – E estou me recuperando de uma pneumonia – disse ela, com um sorriso. – Obrigada, sr. Coleman.


Um sorriso gentil curvou os lábios de Blair, e o semblante feroz se desfez. – Chame-me de Blair – corrigiu ele. – É bom revê-la – acrescentou. – Bem, seria melhor em outras circunstâncias – apressou-se a dizer, enquanto a varria com o olhar. Niki conseguiu soltar uma risada fraca. – Eu, também. Fico feliz que estivesse aqui quando cheguei. – Ela ainda segurava o vestido rasgado. – Ele a machucou? – perguntou Blair com voz suave. – Acho... que não. – Vamos ver. – Ele a sentou no sofá e escorregou as mãos longas sobre o tecido rasgado. – Nada disso – repreendeu Blair ao interpretar o rubor de excitação que lhe corava o rosto como timidez. – Sou muito velho para me aproveitar de uma menina de sua idade. Além disso, estou noivo. – Oh! – A história da minha vida, disse Niki a si mesma, o único homem por quem me interessei me considera uma criança. E iria se casar. Ela sentiu como se o coração se partisse ao meio, mas conseguiu disfarçar e relaxou as mãos que seguravam o tecido rasgado. – Desculpe. Tive uma noite péssima. – Percebi. – Blair afastou o tecido, revelando o sutiã pequeno de renda. Mas não era a peça delicada que lhe atraía o olhar e sim as manchas vermelhas sobre a pele viçosa dos seios pequenos, acima do bojo. Niki possuía um belo par de seios, empinados e firmes. Afastando as sensações que não deveria estar experimentando, principalmente agora, ele se concentrou nos hematomas que cobriam os ombros delicados com expressão desgostosa. – Gostaria de tê-lo socado com mais força – disse em um tom frio e cortante.


– Ele ficou tão chocado quando você apareceu – relembrou Niki, com uma risada que lembrava o repique de pequenos sinos. – Harvey é o astro do time de futebol da faculdade – disse ela, com expressão contrariada. – Meu Deus! Como sou idiota. Nem percebi que ele se sente no direito de tomar à força tudo que deseja na vida. – Infelizmente, alguns homens pensam dessa forma. Vire-se, querida. – Ele a girou para lhe examinar as costas, onde encontrou mais algumas manchas vermelhas. – Está muito feio? – perguntou Niki. Blair inspirou fundo e a girou outra vez até que ficasse de frente para ele. Os olhos negros faiscando, perigosos. – Acho que é melhor levá-la ao hospital e depois reportar ao xerife. Esses ferimentos são um acinte. – Seria a minha palavra contra a dele – retrucou ela, em tom calmo, procurando-lhe os olhos enormes. – Eu presenciei quase tudo – argumentou Blair. – Sim, mas não estava conosco no carro. Harvey pode alegar que eu prometi fazer o que ele quisesse e depois mudei de ideia. Blair soltou um xingamento baixo. – Não me agrada deixar que ele saia incólume depois do que fez. – Ele terá muito trabalho para explicar todos aqueles hematomas – retrucou Niki com um arroubo de humor. – E quando eu voltar para a faculdade, afirmarei para todo mundo que sei quem o deixou naquele estado – acrescentou com uma risada breve. Blair também riu. – Ele virará uma lenda viva.


– Sim, pode ter certeza – prometeu ela, antes de inclinar a cabeça para o lado e o fitar com olhar curioso. – Não parece um homem acostumado a brigar – disse ela. Blair deu de ombros e sorriu. – Meu... pai... – Niki achou estranho a forma como ele hesitou, antes de dizer a palavra. – Fundou uma empresa petrolífera, a transformou em uma corporação multinacional e me preparou para administrá-la. Mas, para me tornar um gestor, decidiu fazer com que eu começasse da base. Portanto, entrei para a empresa como plataformista, auxiliando na perfuração, em plataformas de petróleo. – Ele pressionou os lábios em uma linha fina. – O filho do patrão não era muito bem visto. A maioria dos homens achava que eu seria um fracote. – Acho que não tardaram a reconhecer que estavam errados – retrucou Niki, sorrindo. – De fato, não – concordou ele. – Ficará com hematomas. Sinto muito mesmo. – Teria sido pior se não estivesse aqui – respondeu ela, percebendo o perigo que enfrentara e estremecendo. – Tive outros encontros às cegas durante o colegial, mas nunca nenhum tentou... – Um soluço lhe escapou da garganta. – Desculpe – disse ela, hesitante. Blair a ergueu nos braços fortes, sentou-se em uma poltrona e a acomodou no colo. – Chore. Não tenho medo de lágrimas – sussurrou ele, roçando os lábios sobre o cabelo platinado e macio. Niki deixou escapar um gemido da garganta. Consolo era algo raro em sua vida. O pai nunca fora um homem afeito a carinhos. Amava-a, mas nunca lhe beijara os ferimentos ou a confortara. Assim como Blair, era um empresário do ramo do petróleo e


também trabalhara em plataformas quando jovem. A mãe de Niki morrera quando ela cursava o ensino fundamental, portanto, na maior parte de sua vida, fora apenas ela e o pai, ali, naquela imensa fazenda de gado que ele herdara do pai. Ela estava com 19 anos, quase 20 e aquela era a primeira vez que alguém lhe oferecia um ombro amigo. Bem, exceto por Edna Hanes, a empregada. Pressionando o rosto ao peito largo e musculoso, Niki lamentou perdê-lo. Blair iria se casar. Ela sempre acalentara o sonho idiota de que um dia cresceria o suficiente para que o amigo do pai a notasse. Um sonho impossível que se transformara em cinzas naquela noite. Ao menos, pensou Niki, ele a salvara daquele brutamonte agressivo. – Pobrezinha – murmurou ele contra a testa de Niki. – Sinto muito. – Não sabia que os homens podiam ser assim – confessou ela com voz embargada. – Não costumo sair com rapazes. Gosto de viver ao modo antigo. Teria me adaptado muito bem na era vitoriana. Não... consigo me identificar com estes tempos modernos. – Nem eu – confessou Blair, erguendo a cabeça e lhe procurando o olhar. – Ainda é virgem? Niki anuiu. Estranho, mas não se sentia envergonhada em ter aquela conversa com ele. Era como se o conhecesse há uma eternidade. Bem, de fato, o conhecia havia alguns anos, mesmo que a distância. – Papai me levava à missa todos os domingos, até eu ir para a faculdade – confessou ela. – Algumas meninas, que estudam comigo, dizem que sou uma tola por pensar que existe homens que desejam se casar com uma mulher inocente. Dizem que preciso ser experiente para atraí-los. – Ela o fitou


com a mesma expressão de um passarinho curioso. – Isso é verdade? Blair lhe afastou uma mecha de cabelo úmido do rosto. Aquela jovem parecia um ser de outro mundo. Partes inconvenientes de seu corpo pulsavam com aquela reação. Niki era uma criança comparada a ele, mesmo que estivesse cursando a faculdade. – Acho que a inocência é algo raro e belo – respondeu ele após um minuto. – E seu marido será um homem de sorte. Um sorriso tímido curvou a boca de Niki. – Obrigada – respondeu ela, comprimindo os lábios em seguida. – Quer me perguntar alguma coisa? – questionou ele. – Vá em frente. – Sua esposa será uma mulher de sorte? – perguntou Niki, ousada. Uma risada escapou da garganta de Blair. – Não. Posso lhe garantir que não. – Ele procurou os olhos cinza-claro e brilhantes. – Você não é fácil, sabia? Niki uniu os braços atrás do pescoço largo. – Sei. – E com um sorriso, acrescentou: – Como ela é, quero dizer, sua noiva? – Ela tem o cabelo preto, olhos azuis, é bonita, sofisticada e do ramo das artes – resumiu ele. – E você a ama muito? Blair retribuiu o sorriso. – É a primeira mulher que pedi em casamento. Estive muito ocupado, ganhando dinheiro, para me dedicar à vida pessoal. Bem, ao menos a algo permanente. – Ela é uma boa pessoa?


Blair franziu a testa. – Que pergunta! – Quero saber se ela cuidará de você quando ficar doente, se ficará em casa tomando conta dos seus filhos, quando os tiver – perguntou Niki, porque, já que não podia tê-lo, desejava que ele fosse feliz, acima de tudo. As perguntas o deixaram incomodado. Elise não suportava doença. Evitava-a como uma praga. E já lhe dissera que, se concordasse em ter filhos, teria de ser recompensada e que só os teria em um futuro distante. Por que não pensara sobre isso antes? Na verdade, estivera tão ocupado, que acabara ficando noivo sem levar em conta a compatibilidade ou os filhos. Estava tão atraído por Elise que faria qualquer coisa para tê-la, incluindo se casar. Ela o mantinha sempre em ponto de bala, sempre recuando na hora H... – Você quer ter filhos? – perguntou Niki. Blair afastou uma mecha do cabelo loiro platinado para trás da orelha delicada. – Sim – respondeu, embora parecesse perturbado. – Disse algo inconveniente? – perguntou ela, quando o viu franzir a testa. – Não. Claro que não – respondeu ele com um sorriso frouxo. – Nunca parei para pensar nessas coisas, mas tenho certeza de que ela tomará conta de mim, quando eu ficar doente. – Isso é bom. – Niki ergueu o olhar para fitá-lo, com um sorriso. – Acho que será um ótimo marido. Os olhos negros rumaram para o tecido rasgado do vestido de Niki. – Pobre criatura! – disse em tom suave. – Sinto muito que tenha tido uma noite tão ruim.


– Terminou melhor do que começou – retrucou ela. A porta da frente se abriu e Todd Ashton, o pai de Niki, entrou. Mas, no mesmo instante, estacou, surpreso, ao ver a filha sentada no colo de Blair, com o vestido rasgado. E ela parecia... – Minha amiga Laura marcou um encontro às cegas com Harvey, o Terrível – disse ela ao pai, sem sair do colo de Blair. – Ele me arrastou aqui para dentro, quando me recusei a ir para o apartamento dele. Se o sr. Coleman não estivesse aqui para impedi-lo, ele teria... – Niki se calou, engolindo em seco. – Mandarei meus advogados entrarem em contato com os pais desse rapaz – disse Todd em tom ameaçador. – Ofereci-me para levá-la ao hospital e telefonar para o xerife, mas ela se recusou. – Minha pobre menina – disse Todd, com expressão consternada. – Sinto muito. Deveria estar em casa, mas aquele maldito corte no orçamento me arrastou para uma reunião de emergência. – Sei como é – concordou Blair, baixando, em seguida, o olhar à menina sentada em seu colo. – Está melhor agora? – perguntou com voz suave e um sorriso terno. – Bem melhor. Obrigada por tudo que fez – acrescentou Niki, enquanto se erguia relutante. – Foi bom me sentir protegida. Blair soltou uma risada baixa. – Gostei de saber que não esqueci como esmurrar um homem. – Você o surrou? Fez muito bem! – disse Todd, conciso. – Vou subir – anunciou ela com voz cansada. – Estou exausta. – Não deveria ter voltado às aulas tão cedo – disse o pai. – Não podia perder os exames finais – protestou ela. – Fiz o último hoje. Pouco antes de Laura me arranjar esse jantar de


comemoração com Harvey. – E com um suspiro exasperado, acrescentou: – E que comemoração! – Quando se formar, Elise e eu a levaremos para um jantar com champanhe e lagosta – prometeu Blair. Niki forçou um sorriso e tentou fingir que seu coração não estava se partindo. – Isso só acontecerá daqui a um ano ou dois, mas obrigada de qualquer forma. Seria ótimo. – Elise? – Minha noiva – esclareceu Blair com uma risada abafada. – Vamos nos casar dentro de dois meses, em Paris. Faço questão de lhes enviar um convite. – Duvido que possamos ir, mas lhe enviarei um presente – disse Todd, com um sorriso. – Algo de bom gosto, prometo. – Boa noite – disse Niki. Os dois lhe desejaram uma boa noite. – Maldito canalha – resmungou Blair quando ele e Todd tomavam alguns tragos de conhaque. – Eu o fiz dobrar de joelhos e pedir desculpas, mas ela ficou muito abalada. – Não tenho sido um bom pai – confessou o homem mais velho. – Niki tem ficado muito sozinha. Talvez mais do que deveria. – Quantos anos ela tem? – Blair quis saber. – Tem 19. Em breve, fará 20 anos. – Lembro-me dos meus 19 anos. – Blair soltou uma risada baixa, afastando da mente o desejo que sentira quando Niki estava em seus braços. Ela era muito mais jovem que ele. Além disso, estava quase casado. – Lá na Idade Média. Ela é uma boa menina. Fez um excelente trabalho como pai.


– Obrigado. E agradeço-lhe por tê-la salvado das garras do herói do futebol. Blair deu de ombros. – Para que servem os amigos? – perguntou, com um piscar de olhos. UM ANO depois, Blair retornou ao rancho para passar alguns dias na fazenda. Todd o encontrara em algumas ocasiões sociais, mas ele não retornara à fazenda desde a noite em que Niki passara por aquela péssima experiência. Blair e Elise estavam tendo problemas sérios. Embora macambúzio, ele não quis conversar sobre o assunto com Todd, mas o fez com Niki. Era época de Natal, e a árvore estava deslumbrante. Apesar da crise de asma que durara alguns dias, Niki conseguira cuidar de toda a decoração, sozinha. A árvore tinha quase três metros de altura e estava enfeitada com fios de contas vermelhas e laços de veludo da mesma cor, com todos os tipos de ornamentos natalinos imagináveis, principalmente os mecânicos. Haviam trens que corriam, dançarinos que rodopiavam e naves espaciais que produziam sons barulhentos. Um esplendor. – Nunca tive uma árvore de Natal – Blair se viu obrigado a confessar. – Mas estou tentado, depois de ver essa. Niki soltou uma risada suave. – Deveria pedir a Elise para decorar uma para você. A expressão de Blair se fechou. – Ela não gosta muito dessas ocasiões. Niki inclinou a cabeça para o lado e o fitou com olhos afetuosos, que não conseguiam disfarçar a curiosidade. – E você também não?


Blair deu de ombros. – Gosto de Natal. Era o feriado favorito de minha mãe. Ela sempre comprava os enfeites. Ainda os tenho guardados. – Você parece triste – disse ela. – Ela morreu há pouco mais de um ano. Fiquei meio solitário. – Não tem irmãos? Blair negou com a cabeça. – Meu... pai morreu há dez anos. – Mais uma vez, aquela estranha hesitação. – Éramos apenas minha mãe e eu. – Agora é Elise e você – retrucou ela, baixando o olhar. – Portanto, ainda tem uma família. – Sim. Blair não parecia muito animado e a fez imaginar por quê. Ele parecia tão feliz na última vez em que se viram, conversando sobre o casamento iminente, desfiando as qualidades da noiva. Agora se mostrava macambúzio, tristonho. – Dizem que certos casamentos são difíceis no começo, mas depois são muito felizes – disse ela sem pensar. Blair baixou o olhar para fitá-la, com os olhos faiscando. – É mesmo? – Tudo bem, não sou nenhuma sumidade no assunto. Deve se lembrar da minha primeira e última tentativa nesse sentido – acrescentou Niki com uma risada. – Não me diga que não saiu com mais ninguém, desde aquele episódio desagradável – retrucou Blair, surpreso. As feições de Niki se contraíram em uma expressão de desagrado. – Bem, fiquei meio temerosa de tentar outra vez – confessou. – Não sabia se você estaria por perto para me salvar quando o rapaz me trouxesse para casa – acrescentou com um sorriso.


Não podia confessar que não havia nenhum homem no mundo que se comparasse a ele, em sua mente e coração. Blair enfiou as mãos nos bolsos da calça. – E o que foi feito do astro do futebol? – Ele voltou para o Leste logo depois que os advogados do meu pai tiveram uma conversa com o pai dele – explicou ela. – Estranho, não acha? – Muito. – Se ele tentar fazer isso outra vez, espero que o pai da garota pertença à máfia e que ele seja encontrado flutuando em algum rio, dentro de um tambor de petróleo – disse ela em tom de voz firme. Blair soltou uma risada baixa. – Que menina má! – Tem razão. Não foi algo elegante de se dizer. Pode colocar isto na árvore para mim? Não consigo alcançar. – Ela indicou um ponto na árvore, onde queria pendurar o último laço. – Sim, consegue – retrucou Blair, segurando-a pela cintura e erguendo com uma facilidade impressionante até o galho indicado. Niki era tão leve. Tinha a impressão de estar erguendo uma pena. A sensação de tocá-la e a fragrância inebriante o perturbaram. Niki soltou uma risada. – Você é muito forte – comentou, quando ele a pousou de volta no chão. Blair tratou de se afastar rapidamente. – É o resultado das lutas constantes com meu conselho executivo – retrucou ele. Niki se afastou alguns passos, observando a árvore. – Acha que está razoável?


– Está linda. – Blair franziu a testa. – Você e seu pai não tem outros parentes? – Na verdade, não. Ele tem uma tia que vive no exterior. Não tem irmãos. Minha mãe tinha um irmão, mas ele morreu quando eu estava no ensino fundamental. – Ela ergueu o olhar para fitá-lo. – Elise não quis acompanhá-lo? Adoraria conhecêla. Tenho certeza de que meu pai também ficaria encantado. – Aquela era uma mentira deslavada. Não queria conhecer a esposa de Blair, enquanto pudesse evitar. – Ela está na Europa com alguns amigos – explicou ele. – Oh! – Niki se viu sem palavras, portanto voltou a se dedicar à decoração, mas notara que a voz de Blair soara chiada. – Você está bem? Blair inspirou fundo. – Estou sentindo o peito um pouco apertado. Acho que deve ser alguma alergia. Costumo tê-las nesta época do ano. – Eu, também – confessou Niki. – Mas, no meu caso, costuma levar à pneumonia. Comecei a ter as crises no início da adolescência. E, desde então, se repetem. É tão injusto. Nem ao menos fumo. – Eu também não – retrucou Blair. – Mas as pessoas com quem convivo fumam. Vim direto da Arábia Saudita. Estava tossindo antes de entrar no avião. Acho que deve ser apenas uma alergia. Niki anuiu. Porém, a voz de Blair soava igual à dela quando estava com infecção pulmonar. Os homens sempre hesitavam em admitir que estavam doentes. Talvez achassem que era sinal de fraqueza.


NA MANHÃ seguinte, Blair não apareceu para o café da manhã. Preocupada, Niki pediu para o pai ver como estava o hóspede. Não sabia se ele dormia de pijama e não queria pegá-lo desprevenido. O pai retornou após um minuto, parecendo preocupado. – Acho melhor chamarmos o dr. Fred para examiná-lo. Blair está com febre e com chiado quando respira. Talvez seja bronquite ou algo mais grave. Não era necessário perguntar como o pai sabia. Ele a assistia durante as repetidas pneumonias e nunca confundiria os sintomas. – Boa ideia – concordou ela. O DR. Fred Morris examinou Blair e prescreveu um potente xarope para tosse, além de antibióticos. – Se ele não apresentar melhoras dentro de três dias, me telefonem – O médico recomendou a Todd. – Assim o farei. – E você se mantenha longe do quarto de Blair até que o antibiótico faça efeito – disse Fred a Niki. – A última coisa que precisa é de mais uma pneumonia. – Talvez não seja contagioso – protestou ela. – Mas talvez seja. Faça isso por mim. Niki conseguiu conjurar um sorriso frouxo. – Está bem. – Boa menina. Estarei no consultório até tarde se precisarem de mim – disse Fred a Todd, enquanto trocavam um aperto de mão. – Está bem, obrigado. – De nada.


NIKI INSISTIU para que o pai telefonasse para Elise, dissesse que Blair estava doente e que precisava dela. Embora relutante, Todd insistiu com o amigo até conseguir o número de telefone de Elise e fez a ligação. Niki não ouviu o que foi dito, mas Todd saiu do escritório com expressão furiosa. – Ela virá? O pai deixou escapar um som rude da garganta. – Ela disse que é para isso que servem os médicos. Para curar as pessoas. Que não gosta de doenças e que não se exporá ao que ele tiver. Além disso, irá com uma amiga a um baile em Viena, amanhã à noite. Niki se sentiu nauseada. Com que tipo de mulher Blair se casara, afinal? – Esse não é um problema seu – lembrou o pai. – Blair foi tão gentil comigo quando Harvey me atacou – retrucou ela. – Pensei que ele havia encontrado uma boa mulher que quisesse lhe dar filhos e cuidar dele. – Não há a menor possibilidade daquela mulher ter filhos – resfolegou Todd. – Isso atrapalharia sua vida social! Niki deixou escapar um suspiro. – Bem, eu cuidarei dele. – Eu e a sra. Hanes faremos isso, até que não haja mais perigo de contágio – contrapôs o pai. – Não arriscarei sua saúde. E não adianta insistir. Com um sorriso a lhe curvar os lábios, Niki abraçou o pai. – Está bem. – Essa é a minha menina. – Todd lhe beijou o topo da cabeça. – Pobre homem. Se já está assim com apenas um ano de casamento... – Ele deixou a frase morrer.


– Talvez as coisas melhorem – respondeu ela, embora não acreditasse no que dizia. – Sim, talvez. Que tal pedirmos à sra. Hanes para nos preparar algo para comer? – Farei isso. EDNA HANES trabalhava na casa dos Ashton há mais de doze anos. Niki a adorava e a considerava quase como uma mãe. Em suas crises de asma, era a empregada quem cuidava dela, mesmo quando Todd estava em casa. Ele era um homem gentil, mas não sabia o que fazer em caso de doenças. Não que não se preocupasse com a filha, muito pelo contrário. – Então, ela não virá? – perguntou Edna a Niki, referindo-se à esposa do hóspede. – Não. Preferiu ir a um baile em Viena – respondeu ela, com um olhar sugestivo. Edna fez uma careta. – O sr. Coleman é um bom homem – disse ela, separando as panelas para fazer o almoço. – Detesto vê-lo casado com alguém como essa mulher. Talvez esteja interessada no dinheiro dele, mas deveria saber que é preciso cuidar de um para ter o outro. – Blair disse que ela é linda. – A beleza não é tão importante quanto a bondade – retrucou Edna. – É o que eu penso, também. – É uma pena que não seja mais velha, minha menina – disse Edna com um suspiro. – Por quê? – perguntou Niki com um sorriso. Às vezes, Edna se esquecia o quanto aquela jovem era inocente.


– Nada – apressou-se em dizer. – Estava falando sozinha. Que tal picar algumas cebolas para mim, enquanto começo o preparo do guisado? – Claro. BLAIR NÃO estava se recuperando bem. Niki conseguiu entrar no quarto de hóspedes, no dia seguinte, quando o pai saiu para falar com o capataz da fazenda e Edna estava fazendo compras. O peito largo e musculoso se encontrava nu, embora as cobertas estivessem puxadas até a altura do diafragma. Ele possuía um peito deslumbrante, pensou ela com anseio incontido. Largo e coberto de pelos crespos. Musculoso e másculo. Blair abriu os olhos vermelhos e febris para fitá-la, quando ela lhe tocou a testa. – Não deveria estar aqui – disse ele em tom suave. – Pode ser contagioso. – Não estou preocupada. Bem, não comigo. Deveria estar melhor. Quando um antibiótico começa a fazer efeito, dá para sentir a diferença. Blair tossiu e fez uma careta de dor. – Ele me prescreveu penicilina. Costuma dar resultado. – Acho que não desta vez. Vou telefonar para o médico agora mesmo. Niki se retirou e telefonou para o dr. Fred, que se mostrou descontente com o fato de ela estar cuidando de Blair. – Ouça, se você pegar essa bactéria de novo, poderá ter pleurisia – disse ele. – Ora, dr. Fred – retrucou ela em tom suave e divertido. – O senhor sabe que acabei de fazer um ciclo de antibióticos. Não


pegarei nada. Além do mais, não há ninguém para cuidar dele. Edna está ocupada com as refeições e papai está fechando um negócio. Não que ele seja do tipo cuidador – acrescentou com uma risada. O médico deixou escapar um suspiro do outro lado da linha. – Entendo. Coleman não é casado? Onde está a esposa dele? Telefonou para ela? – Há um baile em algum lugar da Europa, onde ela tem de dançar – respondeu ela, sem conseguir disfarçar a raiva no tom de voz. – Entendo – respondeu o médico sem esboçar nenhuma emoção. – Bem, vou prescrever algo mais potente. E um xarope de tosse mais eficaz, também. Tente lhe dar bastante líquido. E não quero ver você aqui em meu consultório com o mesmo problema... – Tomarei cuidado, doutor – prometeu Niki, antes de agradecer e desligar. MAIS TARDE, ela enviou um dos empregados da fazenda à cidade para comprar os novos medicamentos que ela convencera o farmacêutico, um jovem cabeludo, amigo dos tempos do colégio, a enviar com a máxima urgência. Blair resmungou quando a viu entrar com mais remédios. – Acabará contraindo esta maldita doença – reclamou ele. – Fique calado e engula esta linda pílula – interrompeu-o Niki, entregando-lhe um copo de suco de laranja com gelo picado. Blair franziu a testa. – Como soube que gosto desse suco? Niki soltou uma risada.


– Não sabia, mas agora sei. Vamos, tome a pílula – insistiu ela até que Blair abrisse a boca. Em seguida, colocou a enorme drágea sobre sua língua. – Déspota – resmungou ele naquele tom de voz grave. Niki se limitou a sorrir, enquanto o observava engolir a pílula com o suco e fazer uma careta. – Deus! Isso é muito ácido. Desculpe. Vou lhe trazer algo mais suave. Talvez uma dessas bebidas isotônicas? – Não, prefiro o suco. Gostaria de... – Pastilhas para garganta? – concluiu ela, enfiando a mão na sacola dos medicamentos. – Que sorte eu ter pedido a Tex para trazer algumas. E também pode tomar o xarope para a tosse – Ela retirou uma colher do bolso e serviu uma dose do xarope potente que o médico prescrevera. Blair engoliu o xarope com os olhos brilhando, divertidos e afetuosos, ao encontrar os dela. – Seu pai ficará furioso se a surpreender aqui dentro. Niki fez uma careta. – Edna me perguntou mais cedo se você gostaria de algo leve para o jantar. Talvez uma omelete? Ela a faz com ervas frescas. Blair hesitou. – Não estou com muito apetite – disse ele, sem querer ferir os sentimentos de Edna. Detestava ovos. – Gosto de ovos. Temos ovos frescos na maior parte do ano, quando nossas galinhas não estão na muda das penas. – Ela fez uma pausa, estreitando o olhar, enquanto observava o belo rosto largo de feições leoninas. – Você não gosta de ovos, mas não quer incomodar ninguém – disparou. – Que tal uma canja? Blair soltou uma risada. – Droga! Como descobriu?


– Não sei – respondeu Niki com sinceridade. – Eu prefiro a canja, se não for muito trabalhoso – confessou ele. – Detesto ovos. Um sorriso curvou os lábios de Niki. – Direi a Edna. Blair lhe estudou o rosto com os olhos estreitados. – Quando recomeçarão suas aulas? – Em janeiro – retrucou ela. – Já decidi o que farei. – Como você faz para ir de casa para a faculdade e vice-versa quando chega a neve? Niki soltou uma risada. – Papai incumbiu um dos rapazes de me buscar e levar. Um dos vaqueiros dele cresceu no norte de Montana, portanto consegue dirigir em qualquer tempo. – Seria mais sensato alugar um apartamento para você, próximo ao campus – sugeriu ele. – Não gosto de morar sozinha – retrucou Niki. Blair esticou o braço e entrelaçou os dedos delicados nos dele. – Nem todos os homens são animalescos. Niki deu de ombros. – Suponho que não. Mas não consigo deixar de imaginar o que teria acontecido se você não estivesse aqui naquela noite. O semblante de Blair se tornou tenso. Assim como toda sua postura. Niki era uma jovem frágil, como uma orquídea de estufa. Incomodava-o o fato de ela estar ali, arriscando a própria saúde para ficar com ele, enquanto Elise se divertia a valer na Europa e nem ao menos lhe dava um telefonema, o que dizer voltar para cuidar dele. Blair nunca dissera a Niki o verdadeiro motivo que o levara a se casar com Elise. Tivera mais a ver com a aparência da esposa


do que o tipo de pessoa que ela era. Elise se parecia muito com a mãe que ele tanto amava e que havia perdido. Ela o abordara em uma festa durante o período que Blair ainda estava de luto e o fizera se apaixonar à primeira vista. Apesar da aparência física, a esposa não possuía a compaixão e a alma bondosa de sua mãe. Era estranho, mas Niki tinha muito mais da essência da mãe de Blair do que Elise, embora a compleição fosse muito diferente. Não estaria exagerando em dizer que a esposa tinha a mesma compaixão de um tubarão faminto. – Está muito calado – comentou ela. Blair lhe dirigiu um sorriso gentil. – Você é uma boa menina – retrucou ele com voz suave. – Estou com quase 20 anos – protestou Niki. – Querida, tenho quase 37 anos – rebateu ele, com a voz grave repleta de ternura. – É mesmo? – Ela o estudava com aqueles olhos cinza-claro suaves e surpresos que, no momento, adotavam uma tonalidade prateada contra o reflexo da luz do abajur. Um sorriso lhe curvou os lábios macios. – Não aparenta. Não tem nem cabelo grisalho. Não me diga – prosseguiu ela em tom debochado – que os colore? – Blair não conseguiu conter uma risada, que logo se transformou em tosse. – Oh, Deus, desculpe! – Niki se apressou em dizer, com as feições contraídas em uma expressão compassiva. – Não deveria ter aberto a boca! Blair recuperou o fôlego. – Você é como um sopro de primavera – disse ele. – Não, eu não pinto os cabelos – acrescentou. – Meu pai era grego e ainda tinha cabelo preto quando faleceu, na casa dos 60 anos. – Ele não esclareceu que seu verdadeiro pai era grego. Não se importava com a nacionalidade do padrasto, o homem que o criou.


– Lembro-me que meu avô... – Que diabos está fazendo aqui? – rosnou Todd quando entrou no quarto e se deparou com Niki sentada na cama, ao lado de Blair. – Oh, droga, fui pega em flagrante! – resmungou ela.


CAPÍTULO 2

– JURO QUE tentei convencê-la a não entrar aqui – disse Blair ao amigo, com semblante tristonho. – Mas ela não obedeceu. – Telefonei para o dr. Fred – disse Niki ao pai. – Blair não estava apresentando melhoras. No segundo dia de antibióticos, costumo recuperar toda a minha energia. O dr. Fred prescreveu novos medicamentos, e eu pedi a Tex que fosse buscá-los na cidade. – Terá uma recaída – disse o pai em tom sério. – Não terei. Acabei de fazer um ciclo de antibióticos. E não o estou beijando ou algo parecido – acrescentou ela, indignada. – Estou apenas lhe administrando a medicação. Bem, e o fazendo beber suco de laranja – explicou com um sorriso. Blair ergueu o olhar para fitá-la e foi invadido pelo desejo repentino de envolvê-la nos braços e testar para ver se aqueles lábios eram tão macios e doces quanto aparentavam. O pensamento o deixou tão chocado que o fez soltar a mão de Niki. Devia estar perdendo o juízo. Bem, estava doente. Se é que isso servia de desculpa. – Sinto muito por fazê-la perder tempo com um doente nos feriados de Natal – começou ele.


Mas Todd o interrompeu com uma risada baixa. – Niki adoece em quase todos os Natais – retrucou ele. – Estamos acostumados. Blair franziu a testa. – Nos Natais? – Sim – respondeu o amigo com um suspiro resignado. – No ano passado, nos certificamos de que Niki não se aproximasse de ninguém que estivesse gripado e, mesmo assim, ela pegou uma pneumonia. Os olhos negros de Blair se estreitaram. – Vocês colocaram um pinheiro natural lá embaixo, na sala. – Sim. Sempre fazemos isso – retrucou Niki, sorrindo. – Amo árvores naturais. Ela vem com torrão, portanto podemos plantála, depois... – Muitas pessoas são alérgicas a árvores naturais. Niki e o pai se entreolharam, confusos. – Usávamos árvores artificiais até três anos atrás – informou Todd. – Mas você quis uma árvore natural, como viu na casa de uma de suas amigas. – Comecei a ficar doente no Natal exatamente há três anos. Nunca liguei minhas crises à árvore natural. – Pedirei a Tex que a leve lá para fora – decidiu Todd. – Compraremos uma artificial na loja de ferragens da cidade e você pode decorá-la como quiser. Niki soltou uma risada. – Acho que terei de fazer isso. – E relanceando o olhar a Blair. – Foi muito astuto em captar o que eu e meu pai deixamos passar despercebido. – Bom para mim – brincou ele.


– Vou falar com Edna sobre aquela sopa – disse Niki, enquanto pousava o frasco do xarope para tosse no criado-mudo e erguia a colher. – Quer mais um pouco de suco? Blair fez que não com a cabeça. – Estou satisfeito, obrigado. Niki sorriu e deixou os dois conversando a sós. – Não consegui impedi-la – começou Blair em tom suave. – Niki é obstinada quando toma uma decisão. Não a encorajei a entrar aqui. – Eu sei. – Todd o tranquilizou, deixando-se afundar em uma cadeira ao lado da cama. – Martha, a mãe dela, era idêntica – disse ele. – Adorava ajudar os enfermos. Niki se preocupa com todos. – Sim. Todd estreitou o olhar. – Telefonei para Elise. O semblante de Blair se fechou. – Ela detesta lidar com doentes. Todd nada respondeu, mas a expressão do rosto disse tudo. Blair se limitou a dar de ombros. – Ela o faz se lembrar de Bernice, certo? – perguntou Todd, porque os dois eram amigos de longa data. Fora ele ter sido chamado quando Blair quase enlouquecera, após o acidente que deixara a mãe paralítica e, pouco tempo depois, lhe causara a morte. A expressão de Blair se fechou. – Sim. Todd não sabia o que dizer. – Sinto muito.


– Eu, também. Mas tentarei fazer o casamento dar certo – acrescentou. – Nenhuma mulher é perfeita. NO DIA seguinte, Blair estava se sentindo bem melhor. Sentou-se na cama para comer a refeição que Edna lhe serviu em uma bandeja e estava sorrindo quando Niki enfiou a cabeça pela abertura da porta para saber como ele estava passando. – Não morrerei tão cedo – garantiu Blair com um sorriso que ela retribuiu. – Muito bem. Fico feliz em vê-lo melhor. Não precisarei mais perturbar o dr. Fred. – Você está se sentindo bem? – Blair quis saber. Niki anuiu. – Acho que não pegarei sua infecção. Não estou nem com dor de garganta. – Vou torcer para que não pegue – disse ele. – Não quero ser o responsável por colocá-la de molho na cama de novo. – Obrigada, mas estou bem. Quer mais um pouco de suco? – Por favor. – Volto já. DURANTE A convalescência de Blair, Niki se revelou uma companhia constante. Certa vez, trouxe-lhe o tablet e lhe apresentou um romance gráfico da série Alien vs. Predador, que ambos adoraram. – Isso é legal – disse ele, soltando uma risada abafada. – Podese levar romances gráficos para todos os lugares, sem precisar de uma mala para carregá-los. – Foi o que pensei. Tenho a coleção de Calvin e Hobbes aí também. É um dos meus favoritos.


Blair anuiu. – São meus, também. Obrigado. – De nada. – Ela se ergueu. – Tenho de ajudar Edna e as duas cozinheiras temporárias com os pães. É necessário fazer uma grande fornada para o jantar de Natal. – Mas será apenas na quinta-feira – lembrou ele. – Sim, e hoje é terça-feira. Começamos a assá-los hoje para depois recheá-los. Ainda temos de cozinhar os miúdos das aves para o molho, além de fazer as tortas e os bolos. Isso leva tempo. Colocamos uma mesa enorme, toda ornamentada, na sala de jantar, e convidamos os vaqueiros e as esposas, divididos em turnos para cear conosco. Essa é uma tradição que data do tempo do meu avô. – Parece divertido – comentou ele. Niki sorriu. – Eles trabalham duro para nós durante o ano inteiro. É o mínimo que podemos fazer. Compramos presentes para eles, para os filhos e colocamos sob a árvore de Natal. O dia de Natal aqui é bem agitado. Espero que esteja totalmente recuperado para aproveitá-lo conosco. – Nunca participei de comemorações natalinas. – Nem mesmo quando criança? – perguntou Niki, surpresa. – Meu... pai era agnóstico – disse ele, detestando a lembrança do padrasto. – Não celebrávamos o Natal. Niki hesitou. – Sua mãe também não gostava? A expressão de Blair se fechou. – Ela lhe obedecia. Era de uma geração diferente da sua, querida. Ele era antiquado. Minha mãe, que Deus a guarde,


suportava as esquisitices dele. Mas sentiu a falta do marido quando o perdeu. – Tem certeza de que você também sentiu. – Do meu jeito. – Servimos gemada com bebida alcoólica na noite de Natal – disse ela, ansiosa por deixar a atmosfera mais leve, porque a expressão de Blair se tornara sombria. – Sou eu quem faço – prosseguiu, percebendo as feições do belo rosto moreno se contraírem em uma careta de nojo. – Já sei. Não gosta de ovos, portanto não deve gostar de gemada, também, certo? – Certo. Prefiro meu uísque puro a poluí-lo com ovos – disse ele. Niki forçou um suspiro exasperado. – Você é sempre um comensal tão exigente assim? – perguntou ela, desanimada. Blair soltou uma risada. Os olhos negros faiscando nos dela. – Gosto de tudo que não leve ovo. Mas não esqueça o uísque. Niki suspirou, enlevada. Blair era um homem lindo. Amava o modo como aqueles olhos negros enrugavam quando ele sorria. Adorava as linhas perfeitas da boca larga, os ossos malares proeminentes, o cabelo espesso e ondulados que lhe emoldurava o rosto leonino. O peito largo era uma obra de arte. Tinha de se forçar para não deixar o olhar se perder naqueles músculos bem definidos sob uma camada de pelos escuros e encaracolados que se estreitavam formando uma linha escura em direção do cós da calça do pijama de seda. Ao que parecia, Blair não gostava da camisa do pijama, porque nunca a usava. Os braços eram musculosos, sem exageros. Uma estrutura corporal capaz de encantar qualquer artista. – Por que está tão distraída? – Blair refletiu em voz alta.


– Estava pensando que qualquer artista adoraria pintá-lo – disparou ela, sentindo um rubor subir do pescoço para o rosto em tempo recorde. – Desculpe. Falei sem pensar. Blair ergueu as sobrancelhas. – Srta. Ashton – resfolegou ele. – Não está flertando comigo, certo? – Sr. Coleman, esse pensamento nunca me passou pela mente! – Não alimente fantasias comigo – disse ele em tom firme, embora o brilho divertido no olhar o traísse. – Sou um homem casado. Niki deixou escapar um suspiro. – Sim, graças a Deus! – As sobrancelhas escuras de Blair se ergueram em uma expressão questionadora. – Bem, se você não fosse casado, provavelmente seria minha perdição. Imagine tentar violar um homem doente e acamado, por estar obcecada pela aparência dele, sem camisa! Blair soltou uma gargalhada. – Saia daqui, sua menina levada! Os olhos cinza-claro também faiscaram, divertidos. – Vou para a cozinha, fazer ótimos quitutes para você comer. – Esperarei, ansioso. Com um sorriso, Niki partiu. Blair a observou, invadido por emoções conflitantes. Ele tinha uma esposa. Infelizmente, uma que se revelara um desapontamento em todos os sentidos. Elise era uma mulher fria, que só exigia, sem dar nada em troca. Casara-se pensando que ela era a imagem de sua mãe. A esposa se mostrara muito diferente durante o namoro. Mas, no instante em que ele lhe colocara um anel no dedo, Elise come��ou a viajar pelo mundo,


gastando cada vez mais dinheiro e levando consigo velhos amigos, de quem custeava as despesas. Nunca ficava em casa. Na verdade, fazia questão de evitar o marido sempre que possível. Mas aquela fora a gota d’água. Ignorá-lo enquanto ele estava doente. Fora doloroso saber que Todd e Niki haviam percebido a superficialidade daquele casamento. O importante era que ele não estava com nenhuma doença grave. Bem, talvez tivesse de repensar muitas coisas quando deixasse a casa dos Ashton, certo? O DIA de Natal foi tumultuado. Niki, Edna e três outras mulheres se revezavam colocando a comida na mesa para uma interminável sucessão de pessoas que trabalhava para os Ashton. A maioria era composta de vaqueiros, mas alguns executivos da empresa do ramo de petróleo de Todd também estavam presentes. Niki gostava de todos eles, mas sua preferência pelas crianças saltava aos olhos. Ela sonhava em ter filhos um dia. Passava horas nas lojas de departamentos, observando os artigos de bebês. Niki se sentou próxima à árvore de Natal, rodeada de crianças, que vibravam com a abertura dos presentes. Uma menina de 6 anos de idade ganhou uma boneca Barbie com motivos natalinos e começou a chorar quando abriu o pacote vistoso. – Lisa, o que foi, querida? – perguntou Niki, aconchegando-a ao colo. – Papai nunca me comprou uma boneca. Adoro bonecas. Obrigada, Niki – sussurrou a menina, beijando-a no rosto e lhe dando um abraço apertado.


– Deveria dizer a ele que gosta de bonecas, querida – respondeu Niki, retribuindo o abraço. – Eu disse, mas ele me deu um caminhão amarelo enorme. – O que ele te deu? – Um caminhão – repetiu a criança com um suspiro resignado e adulto. – Ele queria ter tido um filho menino. Foi isso que meu pai disse. Niki não conseguiu disfarçar a indignação, mas se forçou a sorrir para a menina. – Acho que meninas são adoráveis – retrucou ela, afastando o cabelo escuro do rosto da criança. – Eu também – concordou Blair, ajoelhando-se ao lado delas e sorrindo para a menina. – Gostaria de ter uma filha. – É mesmo? Está falando sério? – perguntou Lisa, admirada. – Sim. Lisa se ergueu do colo de Niki e abraçou o homem enorme. – Você é muito legal. Blair retribuiu o abraço, surpreso ao perceber o quanto desejava ter um filho. – Você também, princesa – disse, quando a soltou com um sorriso. – Vou mostrar a boneca para minha mãe! – disse Lisa. – Obrigada, Niki! – De nada. A menina saiu correndo na direção da sala de jantar, onde os adultos terminavam de comer a sobremesa. – Pobrezinha – sibilou Niki. – Mesmo que ele pense assim, não deveria externar esse desejo diante da filha. – Lisa é uma criança maravilhosa – disse ele, erguendo-se e baixando o olhar para fitá-la. – E você, também.


– Obrigada, acho eu – retrucou ela com uma expressão não muito satisfeita. Mas os olhos negros de Blair refletiam algo que ela nunca vira antes, quando se fixaram em sua cintura e rumaram para cima, antes de ele se virar de costas. – Será que ainda tem café? O meu está frio. – Edna deve ter feito um fresco – disse ela, desconcertada com a atitude de Blair. Por que ele a fitara daquela forma?, pensou, seguindo-o com o olhar, enquanto ele cruzava a sala de jantar, assomando sobre todos os outros homens. Lisa lhe sorriu e Blair lhe embaralhou o cabelo. Blair desejava ter filhos. Era fácil perceber. Mas, ao que parecia, aquela não era a vontade da esposa. Que desperdício, pensou Niki. Que esposa ele arranjara! Lamentava por Blair. Quando estava noivo, ele lhe dissera que era louco por Elise. Por que aquela mulher não se dera sequer ao trabalho de vir vê-lo quando ele adoecera? – Isso não é da minha conta – disse a si mesma, determinada. E não era. Mas não a impedia de lamentar por ele. Se Blair tivesse se casado com ela, estariam com a casa repleta de crianças. Certamente cuidaria dele, o amaria e o mimaria quando estivesse doente... Niki se repreendeu em silêncio. Ele era um homem casado. Não devia alimentar aqueles sonhos. NIKI HAVIA comprado presentes pela internet para o pai, Edna e Blair, mas tomara o cuidado de comprar algo impessoal para o amigo do pai. Não queria que Elise a interpretasse mal. Escolhera um prendedor de gravata, uma fleur de lis em ouro maciço. Não entendera por que escolhera aquele artigo. Blair


tinha descendência grega, até onde ela sabia, e não francesa. Obedecera apenas a um impulso. O pai fora atender ao telefonema de um parceiro de negócios, que queria lhe desejar feliz Natal, deixando Blair e Niki a sós na sala de estar, ao lado da árvore. Ela estava se sentindo uma idiota por ter feito aquela compra. Agora, Blair estava desembrulhando o presente, e ela trincou os dentes quando o viu abrir a tampa da caixa e observar o conteúdo com os olhos negros arregalados de surpresa. – Desculpe – começou ela, constrangida. – O recibo de venda está na caixa, se quiser trocar... Os olhos de Blair encontraram os dela. A expressão do belo rosto a faz deixar a frase inacabada. – Minha mãe era francesa – disse ele em tom suave. – Como sabia? Niki vacilou, não conseguindo encontrar as palavras. – Não sabia. Foi um impulso. Os dedos longos acariciaram o prendedor. – Na verdade, tenho um igual a este, que ela me deu quando me formei na faculdade. – Blair engoliu em seco. – Obrigado. – De nada. Os olhos negros prenderam os dela. – Agora, abra o seu. Niki se atrapalhou com a caixa pequena que ele havia guardado na mala até aquela manhã. Após desfazer os laços, ela a abriu. Dentro, encontrava-se o mais lindo broche que ela jamais vira. Era uma orquídea de ouro encravada em um fundo de marfim. A orquídea era cor púrpura com o centro amarelo, feita de uma ametista delicada, topázio e ouro. Niki o fitou com os olhos arregalados.


– É lindo... Um sorriso de afeição genuína curvou os lábios de Blair. – Lembrei de você quando vi esse broche na joalheria – mentiu ele, porque havia encomendado a joia em uma joalheria famosa, exclusivamente para Niki. – Uma pequena orquídea de estufa – provocou ele. Um rubor se espalhou pelo rosto cor de pêssego enquanto ela retirava o broche da caixa e o prendia no corpete do vestido preto de veludo que estava usando. – Obrigada. Blair se ergueu e a puxou para perto. – Eu é que agradeço. – Ele se inclinou na intenção de roçar os lábios aos dela, mas se forçou a desviar o beijo para a bochecha do rosto sedoso. – Feliz Natal. Niki sentiu aquele abraço desde o topo da cabeça aos dedos do pé. Blair exalava as fragrâncias de colônia sofisticada e sabonete. A sensação daquele corpo forte pressionado ao dela a fez vibrar por dentro. Encontrava-se agitada com aquela proximidade, mas, ao mesmo tempo, desconcertada por Blair ser um homem casado. Com uma risada, ela se afastou. – Vou usar todos os domingos, quando for à missa – prometeu, sem lhe sustentar o olhar. Blair limpou a garganta. O contato também o afetara. – Usarei o meu nas reuniões de diretoria, como um amuleto – provocou ele em tom gentil. – Para afastar os tubarões de negócios mais agressivos. – Tenho certeza de que surtirá efeito – retrucou ela, com um sorriso.


Todd voltou à sala de estar e, de repente, o silêncio tenso foi quebrado. A conversa rumou para política, clima e Niki participou, forçando uma expressão alegre. Mas não conseguia parar de tocar o broche de orquídea que prendera ao vestido. O TEMPO passou. As visitas de Blair à fazenda rarearam até quase se extinguirem. Todd disse que o amigo estava se esforçando para fazer seu casamento dar certo. Niki refletiu, em seu íntimo, que seria necessário um milagre para transformar a amante do divertimento, Elise, em uma dona de casa. Mas forçou-se a não se concentrar na vida de Blair. Ele estava casado. Ponto final. Niki se obrigou a sair em companhia das amigas com mais frequência, mas nunca mais em um encontro às cegas. A experiência com Harvey a deixara mais traumatizada do que imaginara. O dia da formatura não tardou a chegar. Niki gostou de cursar o ensino superior. A viagem diária entre a faculdade e a casa era cansativa, principalmente no inverno, mas, graças a Tex, que tinha facilidade de dirigir na neve, nunca se tornara um empecilho. A média que obtivera foi boa o suficiente para lhe render uma graduação magna cum laude. E Niki havia comprado o anel de formatura meses antes. –Blair e Elise virão? – perguntou ela ao pai, quando se separaram dentro do auditório, pouco antes da cerimônia. Todd pareceu incomodado. – Acho que não – disse ele. – Os dois tiveram um desentendimento sério – acrescentou. – O mordomo de Blair, Jameson, me telefonou ontem à noite. Disse-me que ele se trancou no escritório e se recusava a sair de lá.


– Oh, Deus! – exclamou Niki, preocupada. – Ele não tem a chave para entrar? – Vou sugerir que ele faça isso – prometeu o pai, forçando um sorriso. – Vá a sua formatura. Esforçou-se muito para conseguir. Um sorriso curvou os lábios de Niki. – Sim, é verdade. Agora, tudo que tenho a fazer é decidir se quero seguir para a pós-graduação ou arranjar um emprego. – Um emprego? – resfolegou Todd. – Como se você precisasse trabalhar! – Você é rico – lembrou ela. – Não eu. – Você também é rica – argumentou o pai, inclinando-se para lhe depositar um beijo no rosto, um tanto desconcertado. Todd não era um homem de demonstrar afeto em público. – Estou muito orgulhoso de você, querida. – Obrigada, papai. – Não se esqueça de girar a borla para o lado contrário quando o reitor lhe entregar o diploma. – Não esquecerei. A CERIMÔNIA foi longa, e o orador, entediante. Quando chegou ao fim, a plateia se encontrava agitada, e Niki só queria sair dali. Foi a terceira a receber o diploma. Após agradecer ao reitor e girar a borla do capelo para o lado contrário, enquanto deixava o palco, ela sorriu em seu íntimo, imaginando a expressão satisfeita do pai. Demorou para que todos os formandos recebessem o diploma, mas, enfim, a cerimônia terminou, e Niki se encontrava do lado de fora, em companhia do pai, parabenizando os colegas de classe e se encaminhando ao estacionamento.


Quando entraram no carro, ela percebeu as linhas que vincavam a testa do pai em uma expressão preocupada. – Eu girei a borla – lembrou ela. Todd deixou escapar um suspiro. – Desculpe, querida. Estava pensando em Blair. O coração de Niki deu um salto dentro do peito. – Telefonou para Jameson? – Sim. Por fim, ele admitiu que Blair não está sóbrio há três dias. Ao que parece, o divórcio é definitivo. Parece que ele descobriu coisas graves a respeito da esposa. – Oh, Deus! – Niki tentou não se sentir feliz com o fato de Blair estar livre. Várias vezes, ele havia deixado claro que a considerava uma criança. – Que tipo de coisas? – Não posso lhe contar, querida. É um assunto muito íntimo. Niki deixou escapar um longo suspiro. – Deveríamos buscá-lo e trazê-lo para a fazenda – disse ela, decidida. – Blair não deveria ficar sozinho, nesse estado. O pai exibiu um sorriso terno. – Sabe que estava pensando a mesma coisa? Telefone para Dave e diga para ele trazer o jato até aqui. Pode me acompanhar se quiser. – Obrigada. Todd deu de ombros. – Talvez eu precise de ajuda – brincou ele. – Blair fica um pouco perigoso quando bebe, mas jamais machucaria uma mulher – acrescentou. Niki anuiu. – Está bem.


BLAIR NÃO respondeu ao pedido de Todd para que abrisse a porta. Xingamentos abafados podiam ser ouvidos do outro lado, assim como sons produzidos por um corpanzil colidindo com a mobília. – Deixe-me tentar – pediu Niki em tom suave, enquanto batia na porta. – Blair? – chamou ela. Seguiu-se um silêncio, quebrado por passadas que se aproximavam da porta. – Niki? – soou a voz grave e pastosa do outro lado. – Sim, sou eu. Blair destrancou a porta e a abriu. Estava com péssima aparência. As feições desfiguradas pelo álcool. O cabelo negro, desgrenhado. A camisa azul que ele usava se encontrava amarfanhada, desabotoada e para fora da calça, também amarrotada. Parecia ter dormido com a aquela roupa. Os olhos percorreram o rosto de Niki, afetuosos. Esticando o braço, ela lhe tomou a mão nas dela. – Venha conosco – disse em tom gentil. – Vamos, agora. – Está bem – concordou Blair sem um único protesto. Jameson, que se encontrava em um canto, fora de vista, deixou escapar um suspiro de alívio e sorriu para Todd. – Estou muito bêbado – confessou Blair. – Tudo bem – retrucou Niki, ainda lhe segurando a mão. – Não deixaremos que você dirija. Uma risada escapou da garganta de Blair. – Engraçadinha! – resmungou ele. Niki sorriu.– Enfeitou-se toda para me visitar? – perguntou ele, alternando o olhar entre ela e Todd. – Hoje foi o dia da minha formatura – explicou Niki. Blair fez uma careta.


– Droga! Eu pretendia ir. Juro. Comprei-lhe um presente – acrescentou, tateando os bolsos da calça. – Oh, droga! Está na minha mesa. Esperem um minuto. Blair conseguiu cambalear até a mesa sem cair e ergueu um pequeno embrulho de presente. – Mas não pode abri-lo até que eu esteja sóbrio – disse ele, entregando o presente a Niki. – Oh, está bem, então – concordou ela, inclinando o cabeça para o lado. – Quer ver qual será minha reação ao abrir? Acha que desmaiarei de emoção e terá de me amparar? Os olhos negros faiscaram. – Quem sabe? – É melhor partirmos, antes que ele mude de ideia – disse Todd em tom brincalhão. – Não mudarei – garantiu Blair. – Há muita bebida alcoólica disponível aqui e você só tem conhaque e uísque escocês – lembrou ele. – Mas já mandei Edna esconder todas as garrafas. – Já bebi muito. – Sim, bebeu. Venha – disse Niki, puxando-o pela mão. Blair a seguiu como um cordeirinho, sem nem ao menos reclamar do tom autoritário que ela utilizou e sem perceber que Todd e Jameson sorriam, divertidos. QUANDO RETORNARAM a Catelow e chegaram à fazenda dos Ashton, Niki levou Blair até o quarto de hóspedes e o sentou na cama. – Durma – ordenou ela. – É o melhor remédio para você. – Não durmo há dias – retrucou Blair, deixando escapar um suspiro exasperado. – Estou muito cansado.


Niki acariciou-lhe o cabelo negro e espesso. – Você vai superar isso – afirmou com uma sabedoria incomum para sua faixa etária. – É apenas uma questão de tempo. Está recente. É como uma ferida aberta. Tem de sarar para passar a dor. Blair estava gostando da sensação da mão delicada em seu cabelo. Mais do que deveria. – Às vezes, sinto o peso dos anos. – Você se considera velho? – recriminou ela. – Temos um vaqueiro chamado Mike que acabou de fazer 70 anos. Agora, adivinhe o que ele fez ontem? Aprendeu a andar de bicicleta. Blair arqueou as sobrancelhas. – O que está querendo me dizer com isso? – Que a idade está na mente de cada um. Um sorriso sardônico curvou os belos lábios de Blair. – Minha mente também é velha. – Sinto muito que não tenha conseguido ter filhos – mentiu ela, sentindo-se culpada por se sentir feliz. – Às vezes, os filhos são a salvação do casamento. – E às vezes o condenam ao fim – rebateu ele. – As chances são meio a meio. – Elise nunca arriscaria mudar a silhueta para ter um filho – disse ele em tom frio. – Ela mesma disse isso. – E com expressão desgostosa, acrescentou: – Tivemos uma briga feia depois do Natal que passei aqui. Fiquei desapontado com a atitude dela, que preferiu ir a uma festa com amigos a sequer telefonar para saber como eu estava. Na verdade, Elise me disse que gostava muito do dinheiro e era uma pena ter de me suportar para consegui-lo.


– Sinto muito – disse ela com compaixão genuína. – Não posso imaginar que tipo de mulher se casaria com um homem pelo que ele tem. Jamais faria isso, mesmo que fosse muito pobre. Blair fitou os olhos cinza-claro. – Não – concordou ele. – Você é do tipo capaz de chafurdar na lama com o marido e fazer tudo que estiver ao seu alcance para ajudá-lo. Isso é raro. Como aquele broche de orquídea de estufa que lhe dei de Natal. Os lábios macios de Niki se curvaram em um sorriso. – Eu o uso o tempo todo. É tão lindo! – Como você. Niki fez uma careta. – Não sou linda. – Sua essência é – respondeu ele, com sinceridade. Um leve rubor corou o rosto delicado de Niki. – Obrigada. Blair deixou escapar um suspiro e estremeceu. – Oh, Deus... – Ele se ergueu da cama de um pulo e quase não conseguiu alcançar o vaso sanitário a tempo de devolver todo o café da manhã e uma boa quantidade de uísque. Quando terminou, o estômago lhe doía. E lá estava Niki, com uma toalha molhada, limpando-lhe o rosto, antes de acompanhá-lo até a pia do toalete, onde ele lavou a boca. Em seguida, ela o levou de volta à cama. Blair não pôde evitar a lembrança da mãe. A doce francesa que tanto se sacrificara por ele, que cuidara dele e o amara. Era doloroso se lembrar da mãe. Pensara que Elise era igual a ela, mas era aquela jovem, aquele anjo diante dele que se assemelhava à sua mãe.


– Obrigado. – Blair conseguiu agradecer com um grasnido rouco. – Você ficará bem – garantiu ela. – Mas, só para garantir, vou descer agora mesmo e esconder todas as garrafas de bebida. Havia uma cadência alegre na voz de Niki. Erguendo a toalha molhada que ela lhe pousara sobre os olhos, ele a fitou através de um cérebro latejante. Um sorriso curvava os lábios macios e graciosos de Niki, e ele teve a impressão de ver o sol nascer. – É melhor esconder bem – provocou Blair. – Quer algo antes de eu sair? – Não, querida. Ficarei bem. Querida. Niki sentiu todo o corpo pulsar quando ouviu aquela palavra. Tentou disfarçar a reação, mas não tinha experiência suficiente para conseguir. Blair percebeu e ficou preocupado. Não podia permitir que Niki se afeiçoasse demais a ele. Era muito velho para ela e nada poderia mudar essa realidade. Niki se ergueu e caminhou em direção à porta. – Ei! – chamou ele. – Obrigado – agradeceu quando ela girou para fitá-lo. Niki se limitou a sorrir antes de sair e fechar a porta. – PODEMOS ESCONDER o restante das bebidas alcoólicas? – perguntou Niki ao pai com um sorriso. Todd deixou escapar uma risada abafada. – Ele não beberá mais. Imagino que a cabeça de Blair esteja pesando uma tonelada e o enjoo deve ser infernal. – Pode acreditar – concordou ela, com semblante sério. – Aquela mulher horrível! Se queria dinheiro, porque não arranjou um emprego para ganhá-lo? O pai a fitou com uma mistura de orgulho e atenção.


– Esse é o pensamento de uma moça como você, minha filha. Elise é feita de outra matéria-prima. Ela queria uma vida glamourosa e seduziu Blair para que acreditasse que ela o desejava. – O pai fez um movimento negativo de cabeça. – Acho que o Natal foi a gota d’água. Ele estava doente. Elise não deu a mínima importância e não fez nenhuma questão de esconder sua indiferença. Claro que ela lutará nos tribunais para receber pensão – acrescentou em tom irritado. – Até a morte, imagino eu. – Ou até que ela se case outra vez – opinou Niki. – O que não deve demorar muito. O pai a fitou com um olhar estranho. – Duvido muito que ela se case outra vez. – A vida continua – retrucou Niki. – Sem dúvida. – Todd lhe depositou um beijo na testa. – Feliz dia de formatura, querida – desejou ele com voz suave. – Estou muito orgulhoso de você. Sinto muito que seu dia tenha terminado dessa forma. – Fiquei feliz por conseguirmos trazer Blair para cá – respondeu ela. – Deus sabe o que ele poderia ter feito se continuasse sozinho, rodeado por tantas garrafas de bebida. – Um tremor a perpassou. – Ele amava Elise com todas as forças. – Niki refletiu em voz alta. – Blair ficou impressionado com ela. Meu amigo não é nenhum playboy. Nunca foi. – Você o conhece há muito tempo, certo? O pai confirmou com um gesto de cabeça. – Blair é um bom homem. O melhor amigo que já tive. – Ele se tornou meu amigo, também – disse ela, sorrindo. – Não sei o que teria feito se Blair não estivesse aqui na noite que


Harvey me trouxe em casa, após o nosso encontro. – Niki inspirou fundo. – Sabe que ainda estou com medo de sair com rapazes. – Querida, não pode levar esse trauma para o resto da vida – aconselhou o pai. – Nunca será feliz sem um marido e filhos. Sei o que estou dizendo. Niki abraçou o próprio corpo. – Minha saúde é frágil – argumentou ela. – Isso espanta os homens. – Não importará para o homem que a amar de verdade. – Acha mesmo? – Niki tinha suas dúvidas, mas, de qualquer forma, sorriu. – Vou ajudar Edna na cozinha. – Está bem, princesinha. Acho que vou assistir ao noticiário. – Pode ver como Blair está quando passar pelo quarto de hóspedes? Só para garantir? –perguntou ela. Todd sorriu. – Claro que sim. Niki queria ir pessoalmente verificar como ele estava, mas a forma como Blair a olhara não a encorajava. Achava-o atraente e não conseguia esconder aquela admiração. E isso ainda iria lhe causar problemas.


CAPÍTULO 3

BLAIR

conseguiu se levantar no dia seguinte. A cabeça latejava e os pés pareciam não o sustentar. – Acho que mereço isso – disse ele, quando Niki lhe trouxe bolinhos de batata com bacon na cama. – Não diga isso – repreendeu ela em tom suave. – Tinha todo o direito de tomar uma bebedeira. Sinto muito que a vida esteja tão difícil para você no momento, mas vai melhorar. Pode acreditar. Blair ergueu o olhar para fitá-la. – Você é otimista. Eu não. Encaro os fatos por uma perspectiva diferente. Assim como você fará, quando for mais velha – acrescentou ele em tom amargo. – Pelo amor de Deus, em breve farei 22 anos – disparou ela. – Acabei de me formar na faculdade! – E há todo um mundo lá fora para você explorar – retrucou Blair. – Novas pessoas. Novos lugares. Novos homens – acrescentou de maneira deliberada. Niki cruzou os braços sobre o peito. – Não. MAL


Blair franziu a testa, estacando com o bolinho de batata espetado no garfo. – O que quer dizer com “não”? Niki mordeu o lábio inferior. – Como acha que os homens se comportarão quando eu estiver a sós com eles? Sei que não tenho experiência com rapazes, mas o incidente com Harvey me serviu de alerta. Se você não estivesse lá... – Os olhos cinza-claro pareciam atormentados, enquanto ela movia a cabeça em negativa. – Venha cá. Niki se sentou ao lado dele, na cama. A mão longa e forte segurou a dela. – Fique sabendo que poucos homens recorrem à força. Aquele garoto havia bebido um bocado. – Eu sei. Tentei fazê-lo parar. Ele me disse que eu era antiquada. – Niki suspirou. – Acho que sou. Não consigo acompanhar o comportamento moderno das pessoas. Vivo no campo, gosto de flores silvestres e crianças. Não bebo, não fumo, não uso drogas... – Ela fez uma careta de desgosto. – É uma pena que eu não tenha nascido há cem anos. Por certo, me adaptaria muito bem. – Há outras pessoas como você no mundo – afirmou ele com voz suave. – Você as encontrará. Tem de arriscar, Niki. Tem de sair para o mundo e enfrentá-lo. Está se escondendo neste lugar, querida. Fugindo da vida. Isso é covardia. Não tem nada a ver com você. Niki sentiu o rosto queimar enquanto se erguia com um movimento rápido e se afastava dele, como uma criança que tivesse se queimado ao brincar com fogo. Como dizer a Blair que


estava apaixonada por ele e não se escondendo da vida? Estava esperando, ansiando, rezando para que um dia... O coração de Blair ficou apertado quando se deparou com a expressão do rosto cor de pêssego. Fora rude com ela. – Desculpe. Niki engoliu em seco. Ele a estava tratando como uma criança, e aquela sensação era dolorosa. – Tenho de ajudar Edna a limpar a cozinha. E desapareceu pela porta, antes que ele tivesse tempo de se amaldiçoar por ter estampado a dor naquele rosto suave. Blair sentiu-se culpado pelo restante do dia, ainda mais quando ela não retornou ao seu quarto. Niki se mostrou reservada pelo resto do dia. Tratou-o com educação no jantar, mas ele conseguiu ler nas entrelinhas daquele comportamento. – Está muito calada esta noite – disse Todd à filha, com a testa franzida. – Algum problema? Niki brincava com a comida no prato. – Nenhum. Apenas não estou com muito apetite – explicou com um sorriso para que o pai não suspeitasse de nada. Blair tomou um gole do café. – Pensei em ir até Yellowstone para apreciar a paisagem, quer vir comigo, Niki? A pergunta inesperada lhe fez o coração subir para a garganta. – Vá com ele – disse o pai em tom firme. – Precisa sair um pouco. Fará bem a você. Mas não se esqueça de levar o spray inalador – acrescentou. – Estamos na época do início da floração e é melhor não se arriscar a contrair outra infecção respiratória. – Aflito – criticou ela. – Eu tomo conta de Niki – interveio Blair em tom sereno.


– Tenho certeza – retrucou Todd, terminando de tomar o café. – Tem um minuto? Gostaria de conversar com você sobre aquela nova locação da sonda que vou arrendar. – Claro. – Blair se ergueu e o seguiu na direção do escritório. Niki ajudou Edna a lavar a louça. – Pode esconder do seu pai, mas de mim não, mocinha – repreendeu-a a empregada enquanto dispunham os pratos na máquina de lavar louça. – O que há de errado com você? Niki deu de ombros com um movimento quase imperceptível. – Blair disse que estou me escondendo da vida. Dos homens. – E de fato estava, mas não podia dizer o motivo a Edna. – Ele tem razão. – A resposta soou inesperada. – Está permitindo que aquele encontro às cegas de anos atrás a mantenha paralisada. Querida, nem todos os homens tentarão tê-la à força. O que aconteceu foi uma adversidade. – Eu não teria conseguido detê-lo – recordou Niki, angustiada. – Se Blair não estivesse aqui... – Eu sei. – Edna parou o que estava fazendo e a abraçou, acariciando-lhe o cabelo longo e macio. – Mas ele estava. Não pode viver presa ao que aconteceu. Você tem um futuro brilhante e feliz pela frente. Tem de seguir com sua vida. Niki deixou escapar um suspiro e sorriu contra o ombro da empregada. – Papai e eu somos afortunados em ter você – disse ela. – Não sei se teríamos conseguido nos recuperar da perda que sofremos. Principalmente papai. Ele amava muito minha mãe. Edna inspirou fundo. – Sim. Ele era louco por sua mãe – concordou Edna com um sorriso tristonho. – Eu amava meu marido da mesma forma.


Quando ele morreu, pensei que minha vida tivesse acabado. E, então, o sr. Ashton me ofereceu um emprego e você estava cursando o ensino fundamental... – A empregada engoliu em seco. – Nunca consegui engravidar. Foi uma bênção, um privilégio, cuidar de você. Niki recuou. Os olhos estavam serenos e enevoados quando encontraram os de Edna. – Você é como uma mãe para mim – afirmou. – Só Deus sabe no que eu poderia ter me tornado se fosse apenas papai e eu – acrescentou com uma risada para tornar a atmosfera mais leve. – Acho que teria aprendido a jogar pôquer, beber uísque e me envolver em brigas com os vaqueiros. Edna deixou escapar uma risada abafada e a soltou. – Foi o que seu pai fez. Embebedou-se e permaneceu assim por um mês, após o funeral. A maioria dos vaqueiros aprendeu a se esconder no estábulo até que ele bebesse o suficiente para apagar. Mas, a favor deles, devo dizer que nenhum pediu demissão. – Ele está mais calmo – disse Niki. – Não muito. Ele e o amigo Blair são feitos do mesmo material. – Edna fez uma careta desgostosa. – Fico com o coração apertado em ver o sr. Coleman nesse estado. A esposa dele era um demônio. – Ele a amava muito – retrucou Niki. – Lembro-me do tempo em que os dois estavam noivos. Quando Blair falava dela, o semblante se iluminava e os olhos brilhavam – comentou, enquanto entregava outro prato a Edna para que ela colocasse na máquina. – Como pode uma mulher achar mais importante ir a uma festa idiota do que cuidar do marido doente?


– Elise tinha suas prioridades – respondeu a empregada, sucinta. – Dinheiro e outros homens. Que pena! Ela destruiu as chances do sr. Coleman de se casar de novo. Ele nunca mais vai querer se arriscar. – Ele demorou muito para se casar – disse Niki. – Sim. Seu pai disse que o sr. Coleman ficou muito traumatizado com a morte da mãe. Estava vulnerável. Talvez tenha sido dessa forma que aquela tigresa conseguiu envolvê-lo em suas garras. Enganou-o, fingindo se preocupar com ele, seduzindo-o. A maioria dos homens não resiste quando uma mulher usa seus atributos físicos para tentá-lo. Uma mulher experiente pode fazer gato e sapato de um homem, ainda mais quando ele está vulnerável. – É difícil imaginar Blair Coleman tão suscetível assim. – Ele é homem, querida – retrucou a empregada com uma risada baixa. – Todos os homens são suscetíveis. – Não tenho muito conhecimento do assunto. – E nunca terá, trancada dentro desta casa o tempo todo – rebateu Edna. – Tem de se abrir para o mundo, conhecer pessoas. Homens. Querida, você foi feita para ter um marido e filhos. Niki não podia contar à empregada sobre a paixão platônica que nutria por Blair, portanto optou por improvisar. – Estou sempre doente. Que tipo de homem desejaria uma mulher assim? – Sua mãe também tinha saúde frágil – argumentou Edna. – Mas seu pai a amava. Ele não se importava com isso, embora passasse muito tempo cuidando dela – acrescentou, com um sorriso gentil. – Amamos as pessoas pelo que elas são e


aprendemos a conviver com seus problemas. Essa é a fórmula para um casamento bem-sucedido. – Tenho minhas dúvidas se um dia irei me casar – disse Niki. – Não consigo me enturmar com as pessoas. Principalmente com os homens. – Você se dá muito bem com o sr. Coleman – lembrou Edna. – Sim, mas não estou... Qual o termo que usou? Seduzir? Não estou tentando seduzi-lo. – Melhor assim – retrucou a empregada com um sorriso. – Ele lhe passaria um sermão se tentasse. O sr. Coleman a considera muito nova para ele. – Eu sei – disse Niki, revirando os olhos para que Edna não percebesse o lampejo de dor refletido neles. – Acho que eu deveria arranjar um emprego. Há uma vaga em aberto no escritório da empresa de mineração de Blair em Catelow. Colocaram anúncio, solicitando para uma vaga administrativa. – É formada em geologia – começou Edna. – Ouvi o sr. Coleman dizer que também há uma vaga aberta para geólogo de campo. – Sim, é verdade – retrucou ela. – Mas pode me imaginar trabalhando em campo? Teria de usar máscaras e carregar uma batelada de sprays inaladores e medicamentos comigo. E ainda assim, seria capaz de adoecer. As feições de Edna se contraíram em uma expressão desgostosa. – Desculpe, falei sem pensar. – Tudo bem. É sinal de que não me acha uma inválida. Mas, nesse sentido, é o que sou. Meus pulmões me impedirão de exercer várias atividades. Tenho dificuldade até mesmo de me


sentar na igreja ao lado de mulheres que parecem gostar de tomar banho de perfume para chamar atenção. – Nunca entendi isso – concordou Edna. – Tenho uma amiga que sofre de enxaquecas constantes e nunca se atentou para ligar o perfume forte que usa às dores de cabeça. Além disso, ainda usa uma quantidade absurda de talco que tem um aroma tão forte quanto o de um perfume. Na missa da semana passada, ela me causou um acesso de espirros. – Acho que somos todos cegos para nossos defeitos – disse Niki. – Irá a Yellowstone com o sr. Coleman, então? Niki deu de ombros. – Acho que vou – respondeu, furtando-se a acrescentar que estava nervosa com o fato de ficar sozinha com ele. Não por não desejar, mas porque Blair era um homem experiente e Niki não sabia como esconder a forma como o próprio corpo estava começando a reagir a ele. Mas teria de se esforçar para conseguir. Seria humilhante se Blair descobrisse que era o objeto de seu desejo. NA MANHÃ seguinte, os dois partiram cedo, no carro de luxo que Blair alugara no aeroporto. Ele relanceou o olhar a Niki para se certificar de que ela estava usando o cinto de segurança. Blair suprimiu um sorriso diante da figura que ela compunha naquele vestido de verão amarelo, com alças finas e saia comprida e rodada. O lindo cabelo loiro estava solto e lhe chegava na cintura. Niki era muito bonita. E muito frágil. O pensamento o fez franzir o sobrecenho. – Trouxe seus remédios? – perguntou de repente.


– Sim – respondeu ela, com uma expressão não muito satisfeita. – Desculpe, não tive a intenção de soar como um pai super protetor. – Tudo bem. – Niki não se importava que ele a tratasse como uma criança. Claro que não. Ela pressionou a bolsa ao colo e olhou pela janela. – Quero lhe pedir desculpas pelo que lhe disse ontem, também – acrescentou ele. – Mas estava falando sério. Não pode passar a vida se escondendo do mundo, por causa de um encontro malfadado com um bêbado idiota. Niki inspirou fundo. – Acho que não. – Um homem que goste de você não será rude – prosseguiu Blair. – Não tentará forçá-la a nada. – Eu sei. Niki não sabia. Ele imaginou qual seria a experiência daquela jovem com os homens. Ela lhe dissera que ainda era virgem na noite em que a salvara daquele encontro fatídico. Mas aquilo acontecera dois anos antes de ela se formar. Não deveria estar curioso para saber. Não era da sua conta, mas... – Já teve algum relacionamento íntimo com um homem? O ofego breve que ela deixou escapar foi resposta suficiente. Blair trincou os dentes. – Acho que aquele broche que eu lhe dei foi mais adequado do que imaginei. Você é mesmo uma orquídea de estufa, certo? – sibilou ele. Niki mordeu o lábio inferior, incapaz de lhe sustentar o olhar. – Frequento a igreja – começou ela.


– Muitas pessoas o fazem, mas isso não significa que deva viver sob voto de castidade – retrucou Blair sem rodeios. Niki franziu a testa. – Não sinto... coisas. Quero dizer, com os homens. O coração de Blair deu uma cambalhota no peito. – O que quis dizer com isso? Niki manteve o olhar fixo no cenário que passava apressado, lá fora. A distância, podia-se distinguir os contornos azuis das Montanhas Rochosas. Próximo à estrada, pinheiros americanos cresciam em aglomerados por todo o pasto aberto. Ela avistou um veado saltando sobre a vegetação rasteira, antes de desaparecer na floresta. – Niki? – Nunca namorei – confessou ela. – Os meninos do ensino médio costumavam caçoar de mim pelo fato de eu ir à igreja todos os domingos – explicou. – Um deles me fez uma proposta indecorosa no meio do corredor em alto e bom som. Quando fiquei nervosa e rubra de vergonha, todos eles caíram na gargalhada. Blair franziu a testa. – Deve ter sido horrível. – E só piorou. Ele achou tão engraçado que postou o episódio em sua página no Facebook. – Niki fechou os olhos e não viu a expressão no rosto de Blair. – Meu pai descobriu, acionou nossos advogados e a postagem foi retirada. Na verdade, o menino teve de acabar com sua página na rede social. Papai tem um temperamento explosivo. As mãos de Blair apertaram o volante com força. – Ele fez muito bem.


– Mas esse foi o único episódio de fato desagradável que aconteceu até eu sair com aquele jogador de futebol da faculdade. – Saiu com outros rapazes antes dele, certo? – Bem, fui ao baile de formatura do ensino médio com minha melhor amiga e o namorado dela. Dancei muito, mas nunca saí com um rapaz para valer – confessou ela, com expressão desgostosa. – A notícia do episódio da rede social se espalhou pela escola. – Que droga! Niki se inclinou para trás no assento do carro. – Papai é super protetor em relação a mim – explicou ela. – Um inspetor da associação dos agropecuaristas, que costumava visitar nossa fazenda e o veterinário que vacinava o gado, me convidaram para sair, mas meu pai lhes passou um sermão. – Niki soltou uma risada. – Disse que o inspetor era casado e o veterinário tinha uma reputação que o fazia corar. Blair não fez nenhum comentário. Todd sempre fora protetor em relação à filha. No lugar do amigo, também seria. Niki era frágil. Linda. Doce. O extremo oposto da mulher fria e calculista com quem estivera casado por dois anos. – Engraçado – disse ela, de repente. – O quê? – Como me sinto à vontade para conversar com você sobre esses assuntos. Não consigo me abrir nem mesmo com Edna. – Não sou judicioso. E sou velho. Ao menos, comparado a você, princesinha – acrescentou ele com um sorriso terno. Niki deixou escapar um suspiro. – Você é muito lindo para ser velho, mesmo que se considere. Olhe, não é um búfalo? – exclamou ela, demasiado absorta com


a visão do animal para notar o rubor que se espalhara pelo rosto de Blair. Nunca nenhuma mulher lhe dissera algo semelhante. – Sim, é um búfalo – confirmou ele, com um sorriso. – Uma vez fui com papai a uma fazenda de búfalos. Havia sinais de advertência espalhados por todos os lados. E a área onde eram mantidos tinha cerca dupla. O proprietário disse que os búfalos são muito mais perigosos do que as pessoas imaginam. Ele sempre prevenia os visitantes para não se aproximassem demais da cerca. – Sim, eles podem ser muito perigosos – concordou ele. – Como é característico dos animais selvagens. – E algumas pessoas, também – acrescentou Niki. – Sim. E algumas pessoas. O trajeto de carro foi longo até chagarem ao parque em Old Faithful. De vez em quando, os carros ficavam estacionados no meio da estrada e os donos corriam para ver um dos residentes do parque. Às vezes, um alce, outras vezes, um pequeno rebanho de carneiros selvagens ou um antílope. Niki estava rindo, encantada com as travessuras de um casal de filhotes de veado que seguiam a mãe. Blair baixou o olhar para fitá-la e sentiu todo o corpo se contrair com a tensão sexual. Niki era dona de uma beleza radiante. O vestido se colava nos lugares certos. Era discreto, mas o colo ficava à mostra. A pele era cor de creme. Os ombros delicados exibiam um discreto bronzeado. Os braços delgados o fizeram imaginar a sensação de tê-los fechados em torno de seu pescoço. – Eles não são adoráveis? – perguntou um rapaz da mesma faixa etária de Niki, acercando-se dela e a devorando com o


olhar. – Eu trabalhei em uma reserva natural, cuidando de filhotes selvagens abandonados. Adoro animais. – Eu também – retrucou Niki, embora não se mostrasse entusiasmada. Na verdade, se recostou a Blair como à procura de segurança, aconchegando-se a um dos ombros largos. A atitude de Niki o fez se derreter por dentro. Escorregando uma das mãos longas pela cintura delgada, Blair a puxou para perto, com mais força do que pretendia. Niki lutava para controlar os batimentos cardíacos. Aquela proximidade equivalia a uma viagem ao paraíso. – Viemos até aqui de carro para ver o gêiser – disse Blair ao jovem em tom amistoso, embora com ameaças veladas no olhar. – É mesmo? Estou aqui acampando por alguns dias, com meu irmão e minha cunhada. Bem, divirtam-se – disse ele, dispensando um último olhar cobiçoso a Niki. A mão de Blair escorregou para cima até pousar logo abaixo de um dos seios pequenos e firmes, onde pôde sentir os batimentos acelerados do coração de Niki. Ela respirava de forma ofegante. – Tome cuidado – disse ele em tom de voz grave e enigmático. – Cuidado? – perguntou Niki, lutando contra o desejo de se recostar à estrutura musculosa daquele corpo espetacular e mover a mão de Blair um centímetro para cima. Era fácil sentir o corpo de Niki arquear como que por instinto. Ela estava reagindo àquele contato. Assim como ele, mas jamais ousaria deixá-la perceber o quanto. – Os carros estão se movendo outra vez. Temos de ir. Blair se apressou em soltá-la e a guiou até o carro. Depois de acomodá-la e deslizar para trás do volante, começou a seguir a


fila de carros que se movia com lentidão. – Desculpe – disse ela. – Aquele rapaz me deixou nervosa. – Você é linda – retrucou Blair entre dentes. – Não pode esperar que os homens não notem. – Não flertei com ele! – Não foi isso que eu disse. – Blair inspirou fundo. – É por esse motivo que não sai de casa, certo? Os homens a assediam e você não gosta. Niki contraiu as feições em uma expressão desgostosa. – Sinto-me... perseguida. – Por todos os homens, exceto por aquele que desejava, teve vontade de acrescentar, mas não o fez. Aquela era uma forma estranha de se expressar, mas Blair compreendeu. Quando relanceou o olhar na direção dela, a encontrou agitada, mudando de posição no banco. – Eu não o deixaria assediá-la. – Sei disso. – Niki engoliu em seco. – Obrigada. Blair estava se sentindo super protetor em relação a Niki. Tivera vontade de socar o rapaz apenas por ter flertado com ela. Desejava-a apesar de Niki ser bem mais jovem que ele. Deus, como a queria! – Diabos! – disparou ele. Ao girar para fitá-lo, ela reparou que o rosto de Blair se encontrava tenso. – Qual o problema? – perguntou. – Nada. Não há problema algum. Lá está o desvio, se conseguirmos chegar lá! – acrescentou ele, avistando a placa que indicava Old Faithful a uma pequena distância. – Agora temos de torcer para chegar a tempo do próximo jato. Eles só acontecem em horas espaçadas. Não poderemos ficar esperando para vê-lo.


Niki sabia que ele tinha razão. A viagem de volta seria longa. Sem esperar pelo jato, só chegariam na fazenda à noite. Blair entrou no estacionamento e manobrou até encontrar uma vaga próxima a um enorme hotel e uma loja de presentes. – Eu ficaria dando voltas por mais meia hora, antes de encontrar uma vaga – disse ela, em uma tentativa de humor. – Você sempre encontra vagas ótimas. – Sorte – disse ele. Blair saltou do carro, ajudou-a a sair e trancou a porta do veículo. Em seguida, encaminharam-se ao local onde o gêiser ficava localizado e leram a placa, onde estavam relacionados os horários aproximados dos jatos. O próximo aconteceria aproximadamente em meia hora. Niki ergueu o olhar para fitá-lo com expressão inquisitiva. E ele se perdeu naquelas profundidades acinzentadas. Blair lhe ajeitou o cabelo despenteado pelo vento, com expressão ilegível. – Podemos tomar um café e visitar a loja de presentes enquanto aguardamos – disse ele. Niki sorriu. – Ótima ideia. Obrigada. – Por que nunca veio aqui antes? – Ele quis saber, enquanto entravam. – Na verdade, estive aqui uma vez. Fiz uma disciplina em antropologia e nossa turma veio visitar este lugar. Mas não conseguimos ver os jatos. – Também fiz um curso de antropologia na faculdade, lá na Idade Média – disse ele com humor seco. Niki parou dentro da loja de presentes e ergueu a cabeça para fitá-lo. Sua figura delgada quase desaparecia ao lado da


magnitude da estrutura enorme e musculosa daquele homem. O topo da cabeça mal chegava à altura do nariz de Blair. Ele era forte, como um pugilista, mas se movia com graça sensual. Envergonhada, recordou-se da imagem daquele peito nu, que tanto desejara tocar quando ele estava adoecido, na fazenda. Blair ergueu o braço e, com o a ponta do polegar,traçou-lhe o contorno dos lábios, que, no mesmo instante, se entreabriram. Aquela reação o excitou. Nenhuma mulher conseguiria fingir aqueles sinais, e os de Niki eram patentes. A expressão de Blair se fechou. Não podia estimular aquela atração. Niki era muito jovem e inocente. Não podia se aproveitar de algo que ela não conseguia controlar. E o pior, a diferença de idade entre ambos era como uma imensa barreira de tijolos. Blair deixou pender a mão como se aquele contato o tivesse queimado e lhe virou as costas. – Vamos tomar café. – Ele nada falou até quase terminar de tomar a bebida quente e encorpada. – Está pensativo outra vez – acusou ela. Blair ergueu o olhar, com as sobrancelhas arqueadas. – Podemos voltar agora se quiser. Não quero fazê-lo esperar pelo próximo jato do Old Faithful. Imagino que tenha outros compromissos. – Não me importo de esperar – retrucou ele. Os olhos se estreitaram enquanto a encarava. – Também nunca vi os jatos. Algo na rigidez daquele rosto largo a deixou curiosa. – Esteve aqui antes, certo? – perguntou ela em tom suave. Os músculos da mandíbula quadrada se contraíram. – Passei minha noite de núpcias aqui. Niki prendeu a respiração com expressão culpada. – Oh, droga, desculpe!


– Você não sabia. – Blair desviou o olhar. – E a ideia de vir até aqui foi minha, não sua. De alguma forma, aquilo tornava tudo ainda pior. Blair estava recordando um casamento fracassado. Até o momento, ela desconhecia aquela ligação com Yellowstone. Em um gesto impulsivo, Niki escorregou a mão delicada sobre a dele. – Vive me repreendendo por eu ter permitido que uma experiência malsucedida me deixasse presa ao passado. Não está fazendo o mesmo? – perguntou ela em tom de voz suave. Os olhos negros pareciam conturbados. Blair sentiu o toque da mão fria e delicada e a cobriu com a dele. – Criei grandes expectativas. – É mesmo? – Ela era linda, culta, experiente – explicou ele com um sorriso oblíquo. – Elise disse que me amava. Eu me casei com ela e a trouxe para cá... – Blair olhou ao redor. – Para que minha esposa provasse o que dizia. – Niki aguardou, limitando-se a fitá-lo com olhar curioso. Ele soltou uma risada sarcástica. – Elise riu o tempo todo. Um sorriso curvou os lábios de Niki. – Deve ter gostado do lugar. Por que isso o entristece? Blair a observou com atenção. Ela não fazia a menor ideia do que ele estava falando. Engolindo em seco, desviou o olhar. – Beba o seu café. Podemos visitar a loja de presentes até a hora de ver o jato – disse Blair, soltando-lhe a mão. Niki não conseguia entender por que ele estava tão transtornado. Talvez fosse uma daquelas características masculinas, uma tristeza que as mulheres não conseguiam entender. Ela terminou de tomar o café, aguardou enquanto Blair pagava e o seguiu até a ampla loja de presentes.


NIKI SE apaixonou por um bracelete. Uma peça em couro cru, ornada com medalhão redondo de chifre de veado. – Eles vendem prata e turquesa aqui – lembrou ele, surpreso com o entusiasmo de Niki diante de uma bijuteria tão simples e barata. – Gostei desta. É elementar, não acha? – acrescentou ela. – Uma pequena porção de natureza. Niki era um quebra-cabeça inexplicável. Todd era um homem abastado, mas não tanto quanto ele. A filha poderia ter escolhido a peça mais cara da loja e ele a compraria com prazer. Niki sabia disso, mas tinha os mesmos desejos de uma criança. Gostava da simplicidade. Lembrou da ganância da esposa, o modo como Elise procurava os mais caros diamantes em uma joalheria e suplicava para que ele os comprasse, enquanto estavam namorando. Na verdade, ela havia encontrado um conjunto de turquesa ali, naquela loja, e exigiu que ele o comprasse. Estava tão entusiasmado naquele dia, que teria comprado todo o estoque de joias para a esposa. Pouco depois, a levou para a cama e teve seus sonhos desfeitos... – Está fazendo isso de novo – disse Niki quando se encaminhavam ao Old Faithful. – O quê? – perguntou ele. – Remoendo tristezas. Blair estacou e girou na direção dela. – Você não gosta de coisas caras, certo? – questionou de repente. Niki pestanejou várias vezes, confusa. – Bem, gosto de esmeraldas e pérolas – respondeu ela. – Mas tenho uma caixa de joias cheia delas. E amei este bracelete – acrescentou, parecendo surpresa.


– Minha esposa escolheu um colar Navajo, que fazia conjunto com brincos e bracelete – disse ele, referindo-se às joias dos índios americanos de preço exorbitante, feitas em prata e turquesa, que, naquele dia, eram exibidas na vitrine, provavelmente feitas por um artista Navajo, apesar de estarem em uma loja de Wyoming. – E exigiu que os comprasse para ela. Niki lhe procurou os olhos negros. – Você a amava muito, certo? – perguntou em tom suave. – No início, sim. – Sinto muito que seu casamento não tenha dado certo. A testa de Blair estava vincada em uma expressão aborrecida. As mãos longas cerradas em punhos e enfiadas nos bolsos. Detestava aquelas recorda��ões, principalmente as que aconteceram ali, naquele hotel, com a esposa, na primeira noite. Odiara a humilhação, o golpe mortal em seu orgulho e masculinidade. Abominava a forma como aquele trauma o deixara fechado em uma concha. – Não tem a menor ideia, certo? Sobre a vida? – refletiu ele, em voz alta. O semblante estava endurecido, enquanto a fitava. – Ainda está usando sapatos boneca, vestidos de laços e babados e seguindo os pezinhos dos coelhos para encontrar ovos de Páscoa. Os olhos cinza-claro se arregalaram. – O que disse? Blair virou de costas. – O jato está jorrando. Desorientada, Niki o seguiu até o gêiser. Não entendia o que ele quisera dizer. Blair estava triste e ela não sabia por quê. Em seguida, lembrou o que ele dissera sobre a esposa. Por que o fato de Elise rir para ele o irritara? Pelo amor de Deus, será que


Blair não queria que a esposa ficasse feliz com o que acontecera entre os dois, na noite de núpcias? Os homens eram tão estranhos! Mas, quando sentiu a água do gêiser, que o vento soprava em seu rosto, empurrou os pensamentos desagradáveis para o fundo da mente e riu, encantada como uma criança.


CAPÍTULO 4

BLAIR

o olhar para fitá-la, observando a beleza estonteante daquela jovem, enquanto a água do Old Faithful, trazida pelo vento, lhe beijava o rosto delicado e ela ria, deleitada. Observou-a erguer as mãos, apreciando a sensação. Ela era tão jovem. Blair sentiu o coração se contrair diante da visão inebriante que ela compunha. Outros homens, até mesmo os casados, a observavam com a mesma admiração. Niki era a personificação da primavera. Os respingos do jato de água começavam a molhar o corpete do vestido de verão. Sob o tecido, os mamilos de Niki se tornaram enrijecidos pela água fria. Ainda rindo, divertida, ela relanceou o olhar na direção de dois jovens que a fitavam com uma intensidade que o irritou. A forma com que a devoravam com o olhar era inconveniente. Um deles começou a se aproximar, sorrindo como um predador. Ela estacou e lançou um olhar preocupado a Blair. – Venha cá – disse ele em um tom de voz sussurrado, puxando-a contra a lateral do corpo de modo que os seios macios ficassem pressionados contra seu peito. Em seguida, BAIXOU


dirigiu um olhar fulminante ao jovem que voltou para perto do amigo e os dois se apressaram em sair dali. – Por que eles estavam olhando para mim daquela forma? – perguntou ela em voz baixa. – Blair fitou os olhos cinza-claro arregalados pela curiosidade. Lembravam a bruma setembrina, pensou ele. Suaves e calorosos, cheios de sonhos. – Blair? – insistiu ela. Inclinando a cabeça de modo que os lábios encostassem na orelha delicada de Niki, ele sussurrou: – Seu corpo está reagindo à umidade fria e eles pensaram que era por causa deles – respondeu Blair entre dentes cerrados. Não lhe agradava a ideia de outros homens a cobiçando. – Não entendi – sussurrou ela de volta, abalada com a proximidade daquele corpo forte e das batidas vigorosas do coração de Blair contra seu peito. Blair recuou. Os olhos negros que a fitavam, intensos, tinham o brilho de uma emoção indefinida. – Não entende mesmo? – Ele recuou mais um pouco, fixando o olhar no corpete do vestido úmido. Niki baixou a cabeça para lhe seguir o olhar, mas não viu nada que pudesse perturbar alguém e se limitou a fitá-lo com expressão curiosa. Aquela jovem era tão inocente que Blair teve vontade de atirar a cabeça para trás e gritar. Ela não fazia a menor ideia dos segredos que o próprio corpo trazia. Sem outra opção, ele girou na direção do gêiser. – Eu lhe explicarei quando estivermos no carro. Agora, observe os jatos. O braço musculoso a envolveu mais uma vez. Niki pressionou a lateral do rosto ao peito largo, amando a sensação daquela


rigidez e dos pelos crespos sob o tecido da camisa de algodão que ele usava. Adorava estar em contato com Blair. As pessoas que os rodeavam desapareceram. O gêiser estava em atividade, mas ela quase não notava. O braço forte que a segurava era quente e reconfortante. E, pela duração daqueles poucos minutos, era como se apenas os dois povoassem o mundo. Um momento fora do tempo e do espaço, onde o impossível parecia alcançável. Cerrando as pálpebras, ela saboreou a respiração de Blair contra a própria testa, a fragrância da colônia masculina, o calor do corpo forte a aquecendo contra a brisa fria da atmosfera primaveril. Blair tentava não perceber a reação do próprio corpo àquele contato. Niki era dezesseis anos mais nova que ele. Existia toda uma geração entre ambos. Mas os seios que lhe roçavam o peito eram firmes e macios. Desejava acariciá-los com os lábios. Ela precisava de um homem mais jovem. As batidas do coração de Niki eram tão vigorosas e ele podia sentir o tremor que lhe perpassava o corpo delgado. A respiração parecia ofegante. Blair baixou o olhar à boca em formato de arco, imaginando se aqueles lábios teriam sido beijados por um homem experiente. – Deus! Isso foi maravilhoso – exclamou um menino ao lado deles. – Podemos ficar para ver o próximo jato, pai? Por favor? Uma risada grave se fez ouvir. – Desculpe, filho, mas temos quartos reservados no hotel de Billings, que fica a quase oito horas daqui. – Ah, pai... As vozes dos dois foram se apagando conforme se afastavam. Blair recuou, sem lhe sustentar o olhar. – É melhor partirmos, também – disse ele. – A viagem é longa.


– Foi mesmo um espetáculo – disse Niki, sorrindo. – Levarei essa recordação por toda a minha vida. – Para ser sincera, não seria do gêiser que se lembraria, mas jamais ousaria confessar. BLAIR A acomodou no carro e ocupou o lugar do motorista. – Prometeu me dizer o que aconteceu no gêiser – lembrou ela. Os olhos negros se estreitaram enquanto ele a observava em silêncio. – O que você sabe sobre os homens caberia na cabeça de um alfinete – disse ele com um suspiro. – Não tem a menor ideia do que se passou. – Por que não me diz? – perguntou ela com um sorriso. A mão longa e forte lhe embaralhou o cabelo de maneira afetuosa. – Pode parecer grosseiro. – E daí? – Niki lhe procurou o olhar. – Você é meu amigo. – Sou. – Blair inspirou fundo. – Querida, o corpo de uma mulher emite sinais que traem seus segredos. Os respingos do gêiser molharam o corpete do seu vestido e enrijeceram seus mamilos. Niki corou, mas não desviou o olhar. – E...? – E água fria não é a única coisa que enrijece os mamilos das mulheres. O desejo sexual causa o mesmo efeito. Aqueles dois rapazes não desviavam os olhos de você. Quando a viram sorrir para eles, interpretaram como um convite para que se aproximassem – acrescentou ele, em tom sereno. – Eu... não sabia! – Niki desviou o olhar e cruzou os braços sobre o peito. – Oh, Deus! Fiz uma faculdade e não sabia que


meu próprio corpo podia reagir assim – disse, tristonha. – Eu não deveria ter dito nada. Não queria constrangê-la. Sinto muito. Niki mudou de posição no assento, olhando pela janela e lutando contra a timidez. – Nunca abordaram esses assuntos na aula de saúde – disse ela. – Papai nunca teve esse tipo de conversa comigo, e Edna é tão reprimida quanto ele. Eu não sabia! Blair a envolveu nos braços e a apertou contra o corpo, enterrando o rosto na lateral do pescoço macio e inspirando a fragrância de flores que o cabelo macio e platinado exalava. – Você é tão desinibida – gemeu ele. – Amo esse seu jeito. Os homens a desejam, querida. É uma reação muito natural. Você é muito bonita. Niki inspirou fundo, sentindo-se capaz de morrer de felicidade. Aninhou-se nos braços fortes, sentindo-se segura e protegida. O rosto ficou aconchegado ao pescoço largo e quente. Ela teve de lutar contra o desejo de beijá-lo naquele ponto. – Isso sempre acontece quando as mulheres sentem desejo? – perguntou ela em um tom rouco e tímido. – Sim. – E com os homens também? – perguntou Niki de supetão, arrancando-lhe uma risada. – Sim, mas os homens enrijecem em outros lugares. Niki sentiu o rosto queimar. – Blair! Não sou tão obtusa assim! – Esqueça – disse ele. – Vamos deixar essa discussão para uma outra hora. Agora... – disse ele, afastando-a. – Precisamos voltar para casa. Já estará escuro quando chegarmos. Niki ajustou o cinto de segurança.


– Obrigada – agradeceu ela, sem lhe dirigir o olhar. – Por quê? – Por me explicar o que aconteceu – respondeu Niki, dando de ombros. – Sou muito ingênua. – Todos somos, um dia. Não se preocupe com isso. Niki inspirou fundo e tocou o bracelete que ele lhe comprara. – Obrigada pelo presente, também – disse ela, relanceandolhe o olhar. – Sinto muito se aquele hotel lhe trouxe lembranças tão ruins. – Eu me casei pensando que seria perfeito – retrucou ele com um suspiro. – Eu me lembro – disse Niki com um sorriso. – Parecia muito feliz quando estava noivo. Eu pensei que seria um casamento feliz, que teriam filhos, e Elise cuidaria de você... – Ela se calou quando percebeu a expressão de Blair. – Desculpe – apressou-se em dizer. – Acha que encontraremos mais animais interessantes na estrada para admirar? – Talvez. Mas voltaremos por outro caminho, por onde não veremos muitos. – De qualquer forma, vou ficar atenta aos veados – disse ela. – Lembro-me de que um dos amigos do meu pai atropelou um na estrada. O animal atingiu o carro dele e quase o matou. O veado fugiu, mas, no dia seguinte, ele o encontrou morto, em uma vala, próximo ao local do acidente. – Esses animais podem causar graves acidentes. – Você caça? Blair sorriu. – Não tenho tempo. Os negócios consomem uma boa parte de minha vida. – A expressão do rosto moreno endureceu. – Não tenho tido tempo para muitas coisas.


– Se estou me escondendo dos homens, dentro de casa, não estaria fazendo o mesmo se enterrando no trabalho? – Niki refletiu em voz alta, mas logo trincou os dentes por ter feito uma pergunta tão pessoal. – Desculpe. Não deveria ter dito isso. Blair apertou o volante até que as juntas dos dedos se tornassem esbranquiçadas, mas, aos poucos, relaxou. – A única vez em que não me escondi tive meu coração despedaçado – disse ele em tom frio. – Isso não se repetirá. O tom angustiado da voz grave lhe partiu o coração. Ele amara a esposa. Fora muito traumatizante acabar o casamento daquele jeito e perdê-la. Mas era doloroso ouvi-lo colocar o sentimento por Elise em palavras. Amava Blair e ele nunca lhe corresponderia. Odiava Elise pela forma como ela o tratara, mas não havia como contabilizar os sentimentos humanos. As pessoas não tinham controle sobre o amor. Niki lhe relanceou o olhar. – Não há nenhuma chance de ela voltar? – perguntou em tom suave. Queria que ele fosse feliz, mesmo não sendo ao seu lado. – Não quero mais falar sobre esse assunto. – O tom ácido da voz grave a atingiu como um punhal. Blair nunca antes o usara para se referir a ela. Niki considerou se desculpar mais uma vez, mas pensou melhor e decidiu não o fazer. Desviou o olhar para a janela e observou a paisagem que passava lá fora, até que a escuridão descesse. A VIAGEM foi longa e silenciosa após aquela conversa. Blair estacionou em frente à casa da fazenda, mas Niki não esperou que ele lhe abrisse a porta. Saltou do carro e seguiu na frente, disparando pela porta. – A televisão da sala de estar estava


ligada. Niki teve um vislumbre do cabelo loiro do pai, antes de a mão forte de Blair lhe segurar o braço e puxá-la para fora outra vez. Após fechar a porta, baixou o olhar para fitá-la sob a luz frouxa que incidia pelas janelas. – É difícil para mim falar sobre Elise – disse ele, após um minuto de silêncio. – Não estou acostumado a conversar sobre meus sentimentos mais íntimos com ninguém. Mas isso não justifica a rispidez com que a tratei. Desculpe-me. – Tudo bem. – Niki conseguiu dizer. – Não farei mais isso – acrescentou, com um sorriso. Em seguida, se afastou e entrou. Dentro da casa, trocou algumas palavras com o pai, antes de dar uma desculpa e se retirar para o próprio quarto, suprimindo as lágrimas durante todo o tempo. Quando se levantou, na manhã seguinte, após uma noite insone, o rosto de Niki trazia a devastação que não conseguira disfarçar com a maquiagem. Ao descer, estacou, hesitante, à porta da sala de jantar. Ninguém estava acordado, exceto Blair. Trajado com uma calça comprida cinza e uma camisa de linha amarela e de grife, encontrava-se sentado à mesa, tomando goles de café. – Bom dia – disse ele. – Bom dia – respondeu Niki. – Edna já acordou? Blair fez que não com a cabeça. – Eu fiz o café. – Obrigada. – Ela se encaminhou à cozinha e retirou uma xícara do armário. Estava se servindo do café quando sentiu o corpo quente de Blair atrás dela. A mão longa lhe tocou a cintura e a apertou. A respiração quente lhe soprava a parte posterior da cabeça.


– Você não dormiu, certo? – perguntou ele. Niki engoliu em seco. – Eu disse umas bobagens... Blair a girou até que ela o encarasse, mas não lhe soltou a cintura. – Eu também – retrucou ele. – Bobagens que magoam. Não posso partir desse jeito. Não com você me detestando. – Eu... não o detesto. – Niki conseguiu dizer. Blair lhe afastou o cabelo longo e loiro para trás. Os olhos negros, intensos nos dela. – Tenho dificuldade de compartilhar meus sentimentos – começou ele. – Mantenho-os sempre guardados. Detestei meu casamento e odeio me lembrar dele. – Eu sei. A culpa foi minha. Nunca deveria ter tocado no assunto. Blair inspirou fundo. Em um gesto impulsivo, ela ergueu o braço e acariciou a linha profunda que lhe vincava o espaço entre as sobrancelhas. – Não alimente tanta tristeza – disse ela em tom suave. Os olhos cinza-claro o adorando. – A vida é maravilhosa. Cada dia é um milagre. Tem de olhar para a frente não para trás. A ponta do polegar grosso lhe acariciou os lábios sedosos. Os olhos negros os fitava de uma forma estranha. – É o que dizem – retrucou ele em tom suave. – Vou me candidatar à vaga disponível em sua empresa de mineração – disse ela com um sorriso maroto. – O que acha disso para começar a sair de casa? Mais uma vez, Blair franziu a testa. – Trata-se de uma vaga para geólogo de campo – argumentou ele. O pólen...


– Não estou me referindo a essa – corrigiu Niki. – E sim à de auxiliar administrativo. Para trabalhar no escritório. – É muito qualificada para esse tipo de trabalho. Niki deu de ombros. – Ora, é um emprego, certo? – provocou ela. – Não é um emprego de auxiliar administrativo, e sim de secretária, no escritório do vice-presidente. Ele ainda não começou a fazer as entrevistas, mas, se você quiser, a vaga é sua. – Isso não seria justo... Blair a calou com a ponta do polegar sobre os lábios. – Sou o dono da maldita empresa. Contrato quem eu quiser. O contato daquele dedo em sua boca era perturbador. Com o coração batendo acelerado, ela soltou uma risada. – Está bem. Mas se eu for agredida pelas outras mulheres que desejavam a vaga... – Mande-as vir falar comigo. Resolverei o problema. – Está bem. Obrigada. Os olhos negros se estreitaram. – Nunca trabalhou antes, certo? – Trabalhei para o meu pai – respondeu ela. – Organizava a contabilidade em casa, arquivava, fazia pesquisas na internet, coisas do tipo. Sei digitar muito bem. – Não era a isso que estava me referindo – disse Blair. – Não teve de cumprir um expediente de 9h às 17h, cinco dias por semana. – Ele a observou com olhar preocupado. – É uma jornada puxada, até mesmo para quem vende saúde. Niki empinou o queixo. – Teddy Roosevelt tinha crises terríveis de asma e mesmo assim fazia exercícios, se esforçava e realizava coisas incríveis. Posso seguir seu exemplo.


Blair ergueu uma das sobrancelhas e sorriu. – Está bem, mas tente não exagerar. – Então, prometa-me o mesmo – repreendeu ela. Os olhos negros de Blair se suavizaram. – Você é minha única confidente – disse ele, após um minuto. – Não quero perdê-la. O coração de Niki deu um salto dentro do peito, mas ela tentou não supervalorizar o comentário impulsivo e se limitou a sorrir. – Não sou forte, mas sou obstinada. Não vou a lugar algum. – Então, está bem. – Faça uma boa viagem. Blair anuiu e lhe procurou o olhar. – Voltaremos a Yellowstone outra vez e veremos os alagadiços e os outros gêiseres. Talvez possamos subir até Hardin, Montana, e caminhar pelo Campo de Batalha de Little Bighorn. – Seria maravilhoso. – Talvez você tenha razão – concedeu ele. – Talvez eu esteja me escondendo atrás do trabalho. Niki sorriu. – Se eu posso parar de me esconder, você também pode. Blair deixou escapar uma risada melancólica. – É mais fácil falar do que fazer. – Tenha um bom voo. – Terei. Blair hesitou, parecendo desejar dizer algo mais, quando ouviu passadas se aproximando. No mesmo instante, ele a soltou e abriu a porta. – Estou ouvindo o café da manhã sendo levado para a mesa – brincou ele.


Niki soltou uma risada. – Eu também. Vamos tomá-lo. PASSARAM-SE VÁRIAS semanas até que ela visse Blair outra vez. Ele estava participando de uma conferência no Colorado e resolveu vir até a fazenda conversar com Todd sobre uma nova locação da sonda. – Deveria passar a noite aqui – sugeriu Niki, preocupada com a aparência cansada de Blair. – Não tenho tempo, querida. Estou entre uma e outra reunião de negócios. Niki franziu a testa. – Qual é a próxima? – Segunda-feira, em Los Angeles – Hoje é sábado – lembrou ela. – Pode acordar cedo amanhã e pegar o avião, certo? Isso lhe dá um dia inteiro, antes da reunião. Blair inspirou fundo e lhe dirigiu um olhar severo. – Aflita? – disse ele, fazendo-a sorrir. – Como está o novo emprego? – Está ótimo – respondeu ela. – O sr. Jacobs é um chefe maravilhoso. A antiga secretária dele ainda trabalha na empresa, só que em outro escritório, como executiva. Ela tem me ensinado as tarefas nas horas vagas. Gosto das pessoas que trabalham lá. – Escolhi Jacobs a dedo para o trabalho, principalmente por ser um homem discreto – explicou ele em tom significativo. – Entendo – retrucou Niki, entrando na provocação. – Isso inclui não espalhar segredos, como a forma com que consegui esse emprego. Blair deixou escapar uma risada abafada.


– Algo do tipo. Não que eu ache que haveria fofoca. A maioria dos executivos sabe que eu e seu pai somos muito amigos. Deduziriam que eu lhe devo favores, se soubessem que você foi colocada na vaga em atenção a um pedido meu. Niki se limitou a anuir. Blair inclinou a cabeça para o lado. – Conheceu um rapaz solteiro e legal por lá? – perguntou com um brilho malicioso nos olhos negros. – Sim, tem um rapaz de São Francisco – respondeu ela. – Ele me faz companhia na lanchonete, na hora do almoço. A informação não o agradou, mas Blair conseguiu disfarçar. – Ele é jovem? Niki sorriu. – Apenas alguns anos mais velho que eu. – Sim, mas da mesma geração, presumo. – Blair se esticou e gemeu. – Deus! Detesto viajar de avião! – Não é de admirar, já que fica sentado de modo desconfortável em uma poltrona durante horas a fio, mesmo em um jato executivo – retrucou ela. – Se já não tivesse um jato particular, compraria um – disse ele. – Detesto aviões comerciais. A última vez em que tive de viajar em um, só havia assentos na classe econômica – comentou Blair com expressão desgostosa. – Sentei-me ao lado de uma mulher com um bebê de colo e uma criança de cinco anos. Ela falava o tempo todo. E não estou exagerando. Era o tempo todo mesmo, de Seattle a Fort Worth! Niki soltou uma risada alta. – Oh, pobre homem! – Aquilo quase me fez desistir de ter filhos para sempre. – Quase? – arriscou ela.


Blair deu de ombros e sorriu. – Amo crianças, mas, naquele dia, estava acordado há vinte e quatro horas e com sinusite. – E viajar de avião não deve ter lhe feito nada bem – disse Niki. – Pode ter certeza. – Então, ficará aqui? – pressionou ela. – Edna fez bolo de chocolate – acrescentou para tentá-lo. – Droga! – As sobrancelhas de Niki arquearam sobre os olhos cinza faiscantes. – É impossível partir e deixar de comer o bolo de chocolate de Edna – resmungou ele. – Você pegou no meu ponto fraco, certo? Niki se limitou a sorrir. BLAIR ASSISTIU à televisão na companhia de Todd e Niki até tarde da noite. Estava sendo exibido um filme de aventura e comédia que agradou aos três. Ela amava ouvir a risada de Blair. Era genuína e encorpada. Os olhos negros brilhavam, os cantos daquela boca sexy se curvavam para cima e o peito largo arfava. Niki imaginou se ele se entregava com o mesmo entusiasmo a tudo que fazia. Adorava vê-lo sorrir. Afinal, era tão raro! Todd recebeu um telefonema de alguém do outro lado do mundo e se encaminhou ao escritório para atendê-lo. Niki caminhou ao lado de Blair até o quarto de hóspedes. – Você parece bem, apesar do pólen – brincou ele. – Estou tomando minha medicação religiosamente. Não quero prejudicar você ou sua empresa, faltando por doença. Blair se aproximou e lhe ergueu o queixo com a mão. – Se você adoecer, fique em casa. Ficarei sabendo se não o fizer e isso não me deixará nem um pouco satisfeito.


– Agora quem é que está se mostrando aflito? – repreendeu ela. – Sua saúde é frágil, mocinha – disse ele, traçando o contorno lateral do pescoço delicado com um dedo. – Não quero que se arrisque por minha causa. Aquele dedo suscitava sensações eróticas, fazendo-lhe a pulsação acelerar e a respiração se tornar ofegante, como se ela tivesse corrido uma longa distância. Rubra, Niki tentou disfarçar com uma risada. – Não me arriscarei. Prometo. Blair inspirou profundamente e ela percebeu a tensão que contraía as feições do belo rosto. – O que há de errado? – perguntou Niki em tom suave. – Posso ajudá-lo? – É Elise – confessou ele, com expressão pesarosa. – Sua ex-mulher – disse Niki. Blair anuiu. – Ela quer outro aumento de pensão. Alega que não está conseguindo comprar as roupas de grife necessárias ao seu estilo de vida – explicou ele, com evidente desgosto, enquanto recordava o entusiasmo de Niki com o bracelete barato, quando Elise nunca sequer lhe agradecera pelos presentes que ele lhe comprava. Niki não sabia o que dizer. Ele parecia... derrotado. Blair baixou o olhar para fitá-la e a expressão do belo rosto delicado lhe dissipou toda a dor. Inspirando fundo, ele conseguiu conjurar um sorriso. – Não lido muito bem com essas questões. Meus advogados se encarregam de tratar com ela e de lhe entregarem os cheques. Não tive mais contato com Elise. É melhor para ambos.


Niki o encarou com expressão tristonha. – Por que o dinheiro é tão importante para certas pessoas? – perguntou ela. – Você não pode levá-lo quando morre. Por que comprar roupas maravilhosas para impressionar outras pessoas, que também as estão usando para impressionar você? Blair deixou escapar uma risada suave. – Que modo bizarro de colocar a questão! – brincou ele. – Iludidos iludindo iludidos – prosseguiu ela, comprimindo os lábios. Os olhos cinza faiscavam de raiva. – É como um conto do vigário com roupas. – O comentário o fez atirar a cabeça para trás com uma risada. – Assim está bem melhor – disse ela com um sorriso. – Você é como um raio de sol que dissipa as nuvens negras. Esse é um dom raro, Niki. – Otimismo incurável – retrucou ela, com um sorriso. – É contagioso. – Deve ser. Quando cruzei aquela porta tinha a sensação de carregar o mundo nas costas. – Tenha uma boa noite de sono. Depois, pode descansar um dia inteiro e outra noite, antes de voltar às negociações. – Boa ideia. – Espero que durma bem – disse ela. – Sempre durmo bem nesta fazenda. Os sons da noite são calmantes. Nenhuma sirene de polícia ou ambulância. – Você mora em Billings. – Sim. É mais próximo da empresa. Niki não deu voz ao pensamento. Em sua opinião, era muito próximo. Blair passava muito tempo no trabalho e quase não se divertia.


– Tenho de viajar para Cancun na próxima semana por conta de negociações comerciais. – Ele hesitou. – Vá comigo. Os lábios em formato de arco se entreabriram com um ofego. – Eu? Ir com você? A expressão de Niki o deixou confuso. – Sim, comigo. Niki mordeu o lábio inferior. Desejava ir, mais do que tudo na vida. Mas que comentários suscitariam? – Oh, entendi. – Blair comprimiu os lábios. – Eu deveria ter dito que seu pai também participará desses acordos comerciais, no hotel em que ficaremos hospedados. Era como se o sol tivesse atravessado as nuvens espessas e brilhasse em todo seu esplendor. – É mesmo? – Sim. Não me esqueço de preservá-la, srta. Ashton, com suas ideias antiquadas e tudo mais. Tenho certeza de que seu pai aprovará – acrescentou ele, com um brilho divertido no olhar – o cuidado que tenho com a reputação de sua filha. – Não caçoe de mim – disse ela em tom suave, corando. – Querida, eu gosto de você do jeito que é – afirmou Blair com ternura. Em seguida, inclinou a cabeça e roçou os lábios na bochecha sedosa do rosto delicado. – Durma bem. – Você, também... Oh, Deus! Não poderei ir. Tenho de trabalhar no escritório! – exclamou ela, de repente se lembrando dos compromissos. – Jacobs não estará no escritório na sexta-feira e nem na segunda-feira. Não precisa ir trabalhar quando ele não está. Mas, para garantir, conversarei com ele. – O sr. Jacobs pensará que foi um pedido meu!


– Não, não pensará. – Blair a puxou para os braços por alguns segundos, saboreando o contato com aquele corpo jovem e macio. – Pare de se preocupar. – Mais uma vez, inclinou a cabeça. A boca estava a apenas alguns centímetros dos lábios macios de Niki, por alguns tensos segundos, antes de ele erguer o rosto para lhe depositar um beijo na testa. Em seguida, Blair a soltou de modo abrupto, entrou no quarto e fechou a porta. Niki caminhou pelo corredor em direção ao próprio quarto, quase flutuando. Ele queria levá-la para Cancun. E ainda mais excitante do que isso fora o modo como Blair a envolvera nos braços. Tivera intenção de beijá-la e não de modo casto. Fora fácil perceber aquela intenção estampada no belo rosto moreno. Niki se encontrava tão excitada que não conseguiu dormir. Levantou-se muito cedo com os olhos vermelhos e movendo-se como um zumbi. Edna a encontrou na porta da cozinha. – Deus do céu, o que aconteceu com você? – exclamou a empregada. – Não consegui dormir nada – confessou ela, com uma risada. – Oh, querida, você está se sentindo bem? – Sim. Meus pulmões estão ótimos. – Niki se apressou em dizer. – Então, por que não dormiu? – Mais tarde lhe conto – respondeu Niki, porque, se o pai não concordasse em levá-la, não deixaria o país com Blair, não importava o que sentisse por ele. NO DIA seguinte, estavam no meio do café da manhã quando Todd ergueu o olhar para fitá-la, com as sobrancelhas arqueadas.


– Soube que vamos para Cancun na próxima semana – brincou ele. – Foi o que eu fiquei sabendo, também. – Nós dois achamos que você precisa tirar uma folga – disse Blair. – Os acordos comerciais durarão um dia ou pouco mais. Sobrará tempo para explorarmos o local. Estou precisando descansar um pouco, e Todd também. A Península de Iucatã é fascinante. Podemos visitar as ruínas maias e nosso hotel fica bem no Golfo do México. Lá existem praias extensas e paradisíacas. – Parece maravilhoso! – exclamou Niki, embora a razão que o levara a convidá-la lançasse sombras em seu entusiasmo. Blair soava como se estivesse dando um presente a uma criança. Não duvidava de que talvez fosse aquela sua intenção. Ele estava determinado a manter distância entre ambos. Talvez por causa do casamento malfadado. Por ter se apaixonado e aquela bruxa ter lhe destruído o coração. Agora, Blair não confiava mais nos próprios sentimentos e não deixaria que outra mulher se aproximasse. Nem mesmo ela. Mas Roma não fora feita em um dia, pensou ela, estampando um sorriso no rosto como se nada a preocupasse, enquanto o ouvia discorrer sobre os planos de viagem.


CAPÍTULO 5

NIKI NÃO contou a ninguém no trabalho sobre o fim de semana em Cancun. O sr. Jacobs estaria fora da cidade na sexta-feira e na segunda-feira, portanto ela também não era esperada na empresa. Viajaria para Cancun com o pai e Blair na quinta-feira e voltariam na segunda-feira. Seria uma viagem longa, mas Niki estava animada e ansiosa por chegar o dia. Pelo que lera, Cancun era uma mistura do moderno e do antigo. Pesquisara a cidade na internet e estava cada dia mais ansiosa. Dan Brady, seu coloca de trabalho, mencionou uma caminhada por trilha que faria com um grupo. – Vamos até Jackson Hole e percorreremos algumas trilhas na floresta – explicou ele. – Podia vir com a gente – acrescentou. – Seu pai a protege demais, Nicolette. Nunca vai se fortalecer se não sair desse casulo em que ele a está mantendo. Niki tentou não se sentir ofendida. Dan não sabia nada sobre sua família. – Sou a única família que ele possui – disse ela em tom leve. – Claro e ele a ama. Mas os pais podem prejudicar os filhos se não os deixarem por conta própria. E seus pulmões não vão se fortalecer se não os usar mais. Não deixe que as alergias a


impeçam de aproveitar a vida ao ar livre! Existe uma porção de ervas medicinais para combater esse problema. Com a dieta correta e as ervas certas, você será uma nova mulher! – Niki não queria ferir a suscetibilidade do colega. Dan era um bom rapaz. Portanto, se limitou a sorrir e anuir, concordando com tudo que ele dizia. Mas, em seu íntimo, estava exasperada. A asma não se curava apenas com uma mistura de ervas medicinais e dieta. Sabia disso, ao contrário de Dan. Mas, às vezes, era melhor não questionar as crenças das pessoas, portanto sequer tentou. – Quer vir conosco este final de semana? – insistiu ele. Niki sorriu. Dan era um belo rapaz. Alto, bronzeado, loiro e de olhos azuis. Tinha um lindo sorriso também. – Não posso – respondeu ela. – Papai tem um compromisso e vou acompanhá-lo. Sairemos da cidade. – Haverá outro passeio no mês que vem. Vamos, diga que irá. Niki soltou uma risada. – Está bem, eu irei. – É assim que se fala! Vou imprimir um planejamento dietético para combater alergias e uma lista de ervas medicinais que fortalecerão seu sistema imunológico contra os alérgenos. Niki ficou tentada a perguntar onde ele conseguira o diploma de medicina, mas de nada adiantaria. Portanto, ela concordou com um gesto de cabeça. Dan a acompanhou até o escritório do sr. Jacobs e estacou diante da porta. – Você é muito bonita, sabia? – disse ele de repente, com um brilho no olhar. – Por que não tem namorado? – Não... estive interessada em arranjar um. Tive uma péssima experiência com um rapaz na faculdade – explicou ela.


– Oh, entendo – disse ele. – Coração partido, amor perdido, essa ladainha toda? – perguntou Dan, interpretando-a de maneira equivocada. – Não permita que isso a deixe travada. Também tive relacionamentos ruins. Mas temos de superar e seguir em frente. Que tal almoçarmos amanhã? Vou levá-la a um restaurante de frutos do mar. – Frutos do mar? Dan anuiu. – Eles fazem uma salada de caranguejo espetacular no Buster’s – informou ele, citando uma lanchonete local. –É a promoção do dia. Sem lactose. – Ele sorriu. – O que me diz? – Acho uma boa ideia – concordou Niki. – Fico feliz que pense assim, Nicolette – disse ele. – É um belo nome. Por que o escolheram? – Era o nome do meio da minha mãe. – E você se parece com ela? – Meu pai diz que sim. Não me lembro bem dela. Minha mãe faleceu quando eu era muito pequena. – Que chato! – É verdade. Mas tenho Edna. Nossa empregada. – Não é capaz de fazer suas tarefas domésticas sozinha? – perguntou ele em tom de crítica. – Meu pai gosta de tudo muito organizado. Estamos com Edna desde que minha mãe faleceu. É como uma pessoa da família – explicou ela. – Bem, se acha isso. Eu faço minhas tarefas domésticas. Lavo roupa e até cozinho. – Niki se limitou a anuir. – É melhor você voltar ao trabalho. Vejo-a mais tarde – despediu-se Dan com um sorriso, precipitando-se na direção da própria sala.


Niki o observou se afastar com olhar furioso. Dan era um bom rapaz até abrir a boca. Imaginou se alguma outra mulher desejara estrangulá-lo também. O pensamento lhe pareceu divertido e ela teve de suprimir um sorriso quando entrou no escritório do sr. Jacobs e se sentou à sua mesa. – Srta. Ashton? – chamou o chefe pelo vão da porta aberta. – Pode redigir uma carta, por favor? – Claro, senhor – respondeu ela, em tom educado, antes de pegar o bloco. O sr. Jacobs ditava com voz serena e lenta, de modo que não era necessário lhe pedir para parar ou repetir qualquer palavra. Os termos lhe eram familiares, já que, durante anos, ajudara o pai com a papelada de trabalho. – Essa carta terá de ser enviada hoje – acrescentou ele, quando concluiu. – Sim, senhor. – Fiquei surpreso, srta. Ashton – disse ele, de repente. Niki girou. – Não entendi, senhor. O chefe deu de ombros. – Blair Coleman me pediu para empregá-la, sem nenhuma explicação. Desculpe-me, mas fiquei imaginando se há alguma razão pessoal que justifique essa atitude. Niki ergueu o queixo. – Há. Ele atendeu a um pedido do meu pai. O sr. Jacobs anuiu com um sorriso. – Foi o que imaginei. Você é muito jovem para um homem da idade dele – acrescentou o chefe com uma risada abafada. –


Você me surpreendeu de uma forma positiva. É eficiente, cortês e sabe se expressar bem. Estou muito satisfeito com seu trabalho. – Obrigada, senhor. – Soube que estará fora da cidade até segunda-feira – disse ele. – Bem, sim, se não se incomodar. Meu pai fará alguns acordos comerciais em Cancun e quer que eu o acompanhe. – Niki corou. Sentia-se demasiado insegura para mencionar o nome de Blair. – Gosto do seu pai – disse ele. – Ele construiu um império. Como nosso patrão, o sr. Coleman. Claro que não precisa vir trabalhar quando eu não estiver aqui. Mas ambos teremos de compensar esse tempo. Talvez implique em algumas horas extras na próxima semana. – Não há problema algum, senhor – garantiu ela, com um sorriso. – Você é geóloga, certo? – O sr. Jacobs quis saber. – Sim, senhor. – A vaga de geólogo de campo que temos em aberto não lhe seria mais adequada? – perguntou o chefe em tom gentil. Niki deixou escapar um suspiro. – Sim, mas eu sofro de asma, senhor. Um cargo que exija muitas atividades ao ar livre, principalmente na primavera e no outono, é muito arriscado para minha saúde. – Saúde. – O sr. Jacobs revirou os olhos. – Minha filha, Deus a abençoe, tem artrite reumatoide. Com apenas 10 anos. O sr. Brady disse que poderia lhe prescrever uma dieta e uma lista de ervas medicinais que a curariam do dia para noite. Como se gerações de pesquisadores já não tivessem quebrado a cabeça


para tentar encontrar a cura ou ao menos um alívio temporário para a dor e a inflamação! – Ele disse que podia curar minha asma com uma dieta e ervas medicinais também. – Sentindo que o sr. Jacobs pensava como ela, acrescentou. – Eu me limitei a sorrir e lhe virar as costas. – Deveria ter feito o mesmo. – O sr. Jacobs soltou uma risada baixa. Mas logo o sorriso secou. – Tive uma discussão acalorada com ele. Imagino que asma também seja um problema difícil, mas a artrite reumatoide... Às vezes, eu a escuto chorar à noite. Ela não quer que eu saiba o quanto dói. Ervas medicinais. Dieta... – Deveríamos amarrar o sr. Brady a uma cadeira e entupi-lo de comidas gordurosas – sugeriu ela. O sr. Jacobs atirou a cabeça para trás com uma gargalhada estrondosa. – Da próxima vez, sorrirei e lhe virarei as costas – disse ele, com sinceridade. – Obrigado, srta. Ashton. A senhorita é um bálsamo. – Obrigada, sr. Jacobs. – Digite a carta que lhe ditei, então. Tenho de dar alguns telefonemas. Niki anuiu e, com um sorriso, desapareceu pela porta. Mais um desastre evitado, pensou. Ao menos o sr. Jacobs não achava que Blair tinha segundas intenções em relação a ela. O que provavelmente era verdade. Blair podia achá-la bonita e até sentir atração física por ela, mas não esquecera Elise nem o passado de ambos. Ainda estava muito amargurado para ter pensamentos românticos com qualquer mulher, o que dizer com ela.


Bem, Blair dissera que sua vinda para a empresa poderia suscitar fofocas. Ela não imaginara o que poderia parecer, quando Blair insistira em colocá-la naquele cargo. Por outro lado, o fato do sr. Jacobs achá-lo muito velho para ela a magoara. A quem estava enganando?, pensou Niki, tristonha. Blair a achava muito jovem para ele. Dissera-lhe isso várias vezes. Por que a surpreendia o fato de outras pessoas pensarem da mesma forma? A mente de Niki se voltou para a filha do sr. Jacobs, que convivia com tanta dor. Um dia, descobririam a cura para aquela doença terrível e até mesmo para a asma. Enquanto isso, só lhe restava tomar os remédios e evitar tudo que pudesse desencadear uma crise. Niki se sentou diante do computador e começou a trabalhar. DAN A estava aguardando na saída, quando ela bateu o cartão de ponto e se encaminhou ao estacionamento. – Está disposta a correr comigo? – perguntou o rapaz com um sorriso. – Farei apenas de 4 a 6 quilômetros. Nada muito puxado. Aquilo era “nada muito puxado”?, pensou ela. – Prometi ao meu pai digitar umas cartas para ele esta noite. São importantes. – Oh, entendo. – De qualquer forma, obrigada – agradeceu Niki com um sorriso. – Tudo bem. Você é quem vai sair perdendo – provocou ele, enfiando as mãos nos bolsos. – Você não gosta muito de exercícios físicos, certo? Pagará por isso no futuro.


– Vejo-o amanhã, Dan. – Niki se limitou a dizer, com seu sorriso polido estampado no rosto. Em seguida, se afastou, entrou no carro e deu partida. MAS, NO instante em que transpôs a porta de casa, as sobrancelhas do pai se arquearam. – Princesinha, o que aconteceu com você? – disparou ele. Niki estacou e o fitou, confusa. – O quê? – Acho que nunca a vi tão irritada – explicou Todd, com o sobrecenho franzido. – Alguém fez algum comentário sobre a forma como conseguiu aquele emprego? O sr. Jacobs fizera, mas Niki não queria contar ao pai e ver Blair atirar o executivo pela janela. Aquilo complicaria tudo. Além disso, gostava do chefe, agora que sabia mais sobre sua vida. O sr. Jacobs era um bom homem. Após pousar a bolsa, ela retirou o suéter leve que estava usando sobre um vestido bege. – Não. Foi um dos meus colegas de trabalho, o Dan Brady. Ele acha que eu me protejo demais e ficou irritado porque eu não quis acompanhá-lo em uma corrida de seis quilômetros esta noite. – Seis quilômetros? – exclamou o pai. – Sim, o que ele chamou de “nada puxado”. – Niki inspirou fundo. Estava difícil até mesmo respirar, com todo aquele pólen na atmosfera, nem sequer ficara muito tempo ao ar livre. Era mais fácil expirar do que inspirar. – Sinceramente, aquele cara é louco. Todd fez que não com a cabeça. – Existe maluco para tudo no mundo – disse o pai.


– Sim, e eu costumo encontrar um em cada esquina – resmungou Niki. – Quer que eu tenha uma conversinha com ele? – perguntou o pai. As sobrancelhas loiras arqueadas. – Não, obrigada. – Niki apressou-se em dizer, porque Edna já lhe contara sobre as “conversinhas” do pai. Todd comprimiu os lábios. – Ora, vamos! Eu não surraria o rapaz. Ao menos não com muita força. Niki deixou escapar uma risada suave e o abraçou, embora tímida. – Você é o melhor pai do mundo, e eu o amo muito. Mas posso lidar com um colega de trabalho chato, sozinha. Eu lhe garanto. – Está bem. – O pai hesitou. – É melhor não contar a Blair o que ele disse – acrescentou, de repente. – Niki o fitou com a testa franzida.Todd deu de ombros.– Blair é muito protetor em relação a você – justificou ele. Um sorriso curvou os lábios de Niki. – Ele é meu amigo. Ainda sorrindo, o pai inclinou a cabeça para o lado. – Apenas amigos? Niki anuiu, escondendo os verdadeiros sentimentos. – Apenas amigos. Embora não conseguisse disfarçar a expressão estranha no olhar, Todd deu de ombros e se afastou. O JATO particular de Blair os aguardava no aeroporto de Billings, com toda a equipe de bordo incluída: o piloto, o copiloto e um comissário de bordo.


– Qual o objetivo de se ganhar dinheiro se não for para utilizá-lo? – disse Blair com uma risada abafada, quando Niki e Todd embarcaram atrás dele. – Eu lhe disse que não gostava de viajar em aviões comerciais. – Eu também não – concordou Todd. – Mas algumas pessoas não têm essa opção. Blair se limitou a sorrir. – Não importa, se possuir amigos, têm. Lá vamos nós! – acrescentou, quando o jato começou a taxiar na pista. CANCUN ERA incrível. O hotel em que se hospedaram era um dos muitos dispostos em uma enorme extensão de praia separada do continente da península e variavam de chiques a suntuosos. Ao que parecia, Blair era proprietário do mais opulento de todos, em frente à praia, com um restaurante cinco estrelas no térreo. Além da suíte que ele ocuparia, reservara outra para Todd e Niki, ampla o suficiente para que desfrutassem de quartos amplos e salas de estar confortáveis. – Isso é um exagero – protestou Todd. – Sou dono deste hotel – lembrou Blair com um sorriso. – Não se trata de extravagância. – Está bem, obrigado, então – respondeu Todd, também com um sorriso largo. – Mas tenho outros motivos também – confessou Blair. – Os representantes das indústrias mexicanas com quem nos encontraremos ficarão hospedados aqui, portanto não gastaremos tempo com os trajetos entre hotéis. – Entendi – disse Todd. – E eles terão o pacote completo? Uma bela praia, comida excelente e todas as cortesias.


– Claro. E – acrescentou Blair, malicioso. – um grupo de supermodelos de fama internacional está filmando um comercial aqui. Um colírio para os olhos – disse ele, relanceando o olhar a Niki, que parecia furiosa. – Finja que não escutou o que eu falei. – E quando ela fez uma careta desgostosa, acrescentou: – Você é muito mais bonita do que todas elas – afirmou em tom brincalhão, embora a expressão dos olhos penetrantes, ainda mais escurecidos e serenos, parecesse sincera. O rubor indesejado que se espalhou pelo rosto de Niki concorreu apenas para lhe aumentar o constrangimento. – Acho que vou desfazer a mala – disse ela. – Vocês, homens, podem continuar conversando sobre... trajes de banho e coisas parecidas – disse ela com um sorriso malicioso, enquanto partia. SIM, TRAJES de banho. Podia imaginar Blair, aquele moreno estonteante, cercado de modelos esbeltas com rostos e corpos perfeitos, enquanto a pobre Niki, trajada em seu maiô preto recatado, torrava sob o sol em uma toalha a poucos metros de distância. Não. Aquilo não iria acontecer. Havia uma bela butique no andar térreo, e Niki resolveu ir às compras. Acabou optando por um maiô, mas de cor dourada, tecido elástico e com três argolas douradas vazadas que deixavam uma boa quantidade de pele à mostra, sem parecer vulgar: uma de cada lado da cintura e outra logo abaixo dos seios. O sutiã, com bojo, a deixava mais bem-dotada do que de fato era. Niki comprou também um vestido coquetel em renda preta, que poderia usar com suas sandálias de tira preta e salto agulha e uma bolsa carteira. Deixou a loja se sentindo extravagante,


embora estivesse gastando o dinheiro que herdara da mãe falecida, que, por sua vez, também havia sido uma herdeira. Quando estava se encaminhando à porta de saída, avistou Blair. Quase foi ao seu encontro para mostrar o que acabara de comprar, mas, naquele instante, uma mulher se juntou a ele. E não era uma modelo. Parecia apenas alguns anos mais jovem que Blair. Trajada com elegância, usava o cabelo negro atado em um coque sofisticado. Os dedos com unhas perfeitas e pintadas escorregavam ao longo da camisa que ele usava, enquanto a mulher falava. Blair não se mostrava pouco à vontade com aquele toque. Na verdade, sorria. Era evidente que se conheciam. Não era preciso ser um gênio para perceber. E, ao que tudo indicava, não se tratava de um relacionamento apenas platônico. Havia uma familiaridade na postura de ambos, na forma como se olhavam. Uma exnamorada, talvez, pensou Niki, tristonha. Bem agora, que ela começava a alimentar esperanças de que Blair a enxergasse como uma mulher mais madura e desejável, pensou ela. Niki girou em um impulso e quase colidiu com o pai. – Olhe para onde anda, princesinha! O que esteve fazendo? – Algumas compras, apenas – disse ela, exibindo uma tentativa malograda de sorriso. Todd olhou por sobre a cabeça da filha. – Ora! É Janet Hardman, ali, conversando com Blair. – Você a conhece? – perguntou Niki, tentando soar desinteressada. – Sim. Os dois tinham um relacionamento, antes de ele se casar com aquela interesseira e ter a vida virada de cabeça para baixo. Janet é executiva de uma companhia cinematográfica. Ao


que parece, estão produzindo o comercial a que Blair se referia há pouco. É uma bela mulher, não acha? – perguntou, com um olhar astuto que Niki não percebeu. – Sim – respondeu ela, hesitante. – Ele gosta de morenas, certo? – comentou, lembrando a foto de Blair e a esposa que um tabloide estampara, pouco antes de eles se casarem. – Elas o fazem lembrar da mãe. Blair a amava muito. Aquela boa mulher tinha uma relação difícil com o padrasto dele. O homem estava longe de ser um marido perfeito e, além disso, era bruto com Blair. A mãe dele gostava de Janet, se bem me lembro. A mente de Niki mal conseguiu processar o comentário sobre o padrasto de Blair. Estava se sentindo arrasada. O coração partido em mil pedaços. Nunca mais seria a mesma. Desejava ter ficado em casa. Queria... – Vou à praia – disse ela. – Está bem, mas observe as bandeiras indicativas antes de entrar na água. Se estiverem vermelhas, não coloque sequer a ponta do pé no mar. Niki franziu a testa. – Bandeiras? – Sim, indicativas da condição do mar – explicou o pai. – Vermelha significa perigo. Correntes de retorno. – Oh, está bem. O hotel tem piscina, se eu quiser nadar – disse ela, com um sorriso. –Não gosto de sujar meu maiô com areia. Todd soltou uma risada breve. – Concordo. Vá em frente, divirta-se. Nós a veremos no jantar.


– Claro – concordou ela, embora achasse que Blair talvez não se juntasse a eles. Ou, pior, convidasse a antiga namorada para participar do jantar. De qualquer forma, ela estava planejando inventar uma forte dor de cabeça para não comparecer. – Não demorarei – disse ela, tocando a testa, estou com um pouco de dor de cabeça. – É melhor não se expor ao sol – aconselhou o pai, preocupado. – Ficarei pouco tempo. Não consigo resistir. Adoro praia! – Eu sei. Então, não se exponha por muito tempo. – Está bem – concordou Niki com um sorriso, antes de se afastar. Pelo canto do olho, viu Blair se juntar a Todd e olhar na direção dela com expressão estranha. Ignorando-o, seguiu em frente. O MAIÔ produziu um efeito incomum na aparência de Niki. Com os óculos escuros de grife e o cabelo platinado cascateando pelas costas até a cintura, parecia uma mulher mais velha, experiente e liberada. O visual a deixou encantada. Colado aos contornos de seu corpo, o traje de banho revelava segredos que nunca ficavam visíveis. Como as pernas longas, bronzeadas e bem torneadas. Os seios eram empinados e firmes. A cintura fina e os quadris, curvilíneos. Enfim, Niki era dona de um corpo quase perfeito. Em geral, não a agradava exibir aqueles atributos. Preferia se vestir de maneira conservadora. Mas, naquele dia,sentia-se ousada, como se não tivesse nada a perder. Blair encontrara uma mulher do passado, cujo o interesse por ele era óbvio. E, ao que parecia, também estava hospedada naquele hotel. Pela primeira vez na vida, Niki experimentou o estímulo da competição.


Resolveu descer para a praia sem nem ao menos uma saída de praia. Antes de pisar na areia, pegou uma toalha com um funcionário do hotel e lhe sorriu, tentando ignorar o olhar apreciativo do homem. Em seguida, escolheu um local, próximo a um casal de idosos, estendeu a toalha e se deitou. O sol estava forte, mas a sensação dos raios quentes contra a pele era inebriante. Ajeitando os óculos de sol, ela se sentou sobre a areia macia. Acima, as aves grasnavam. Gaivotas, a julgar pelo som, cruzando o céu com voos elegantes. Niki sorriu em seu íntimo. O pai mencionara que havia uma excursão de um dia para as ruínas maias em Chichen Itza. Pensou em visitá-las no dia seguinte, mesmo que seus acompanhantes não tivessem tempo de se juntar a ela. Aquela seria uma viagem única. Niki arqueou as costas para abrandar a tensão provocada pela longa viagem, relaxar um pouco e, quem sabe, tirar uma soneca, tentando não lembrar o modo como Blair olhara para a morena, no hotel. Por que nascera loira? Por que não era mais velha e experiente? Por quê? Por quê? Por quê? Quando jantara com Dan Brady, no restaurante de frutos do mar, ele lhe passara um sermão interminável sobre seu estilo de vida, falta de energia e alimentação. Ainda mais quando ela pediu peixe frito. De certa forma, gostava de Dan. Ele era uma espécie de rascunho de Blair. Ambos se preocupavam com seu bem-estar, mas ela se sentia muito mais atraída pelo segundo do que pelo primeiro. Bem, desejar o impossível não lhe traria benefício algum. Blair estava determinado a mantê-la a um braço de distância e não havia nada que ela pudesse fazer. Tinha de encontrar uma


forma de aceitar aquela realidade e seguir em frente. E chafurdando em autopiedade, Niki acabou adormecendo. UM LEVE esguicho de água no rosto a acordou. Quando abriu os olhos, se deparou com Blair assomando sobre ela, com expressão crítica. Trajava apenas um calção de banho branco e justo. O corpo daquele homem era estonteante. Niki se consumia de desejo só de olhar para ele. Os ombros eram largos, os quadris retos, as coxas pareciam toras de árvores, bronzeadas e musculosas. O peito era coberto por uma camada de pelos escuros que afinavam até o cós do calção. Os pés, assim como os dela, estavam descalços. Blair a observava. Com olhar intenso. Niki havia virado de lado durante o sono e o decote profundo do maiô proporcionava uma boa visão de seus seios. Os olhos negros estavam cravados neles e ela sentia aquele escrutínio em todas as células vivas do corpo. E, naquele momento, Niki percebeu o que lhe atraía o olhar. Os mamilos haviam enrijecido no instante em que ela pousara os olhos em Blair. Seu desejo era evidente e ele percebera. Constrangida, Niki se sentou sobre a toalha encolhendo os joelhos para esconder os seios. Em seguida, soltou uma risada tentando soar leve. – Eu já ia entrar – disse ela, antecipando a razão para aquela expressão desaprovadora. – Papai me alertou sobre as bandeiras vermelhas – prosseguiu, apontando para os tecidos vermelhos tremulando nos mastros a alguns metros de distância. Sentia o desejo que dele exalava como nunca antes. O calção de Blair estava molhado, assim como o cabelo. Até mesmo os pelos no peito reluziam com as gotículas de água. Ele se esforçava ao máximo para conter as reações do corpo. Com


aquele maiô, ela era a mais bela mulher que jamais conhecera.Niki era muito jovem para o que ele tinha em mente, mas, ainda assim, não conseguia desviar os olhos daquele corpo escultural e viçoso. E, com uma rapidez impressionante, se viu incapaz de esconder a reação física em resposta à visão estonteante. Inclinando-se para a frente, ele a ergueu nos braços. Em seguida, virou na direção do mar. – As bandeiras estão... vermelhas – gaguejou ela. Blair baixou o olhar para fitá-la, recostando-a contra o corpo de modo que ela sentisse os pelos crespos que lhe cobriam o peito musculoso contra a parte superior dos seios, exposta pelo maiô. Os olhos negros não se desviavam dos lábios macios, alheios ao mundo que os rodeava. – Por que tinha de vestir esse maldito maiô? – perguntou ele em tom áspero. Blair abriu caminho pela água, imergindo até a altura das costelas. A pulsação de Niki disparou. Podia sentir as batidas vigorosas do coração de Blair sob os músculos rígidos e quentes do peito largo. Uma cadência que acelerava a cada segundo. Blair baixou o olhar à boca macia. Em seguida, inclinou a cabeça e, quase em câmera lenta, tocou os lábios aos dela em um contato etéreo, como o roçar das asas de uma borboleta. Niki cravou as unhas nos ombros largos. Era como se estivesse voando. Sonhara com aquele beijo por tanto tempo, ansiara por aquele momento, imaginando qual seria a sensação. O som das gaivotas desapareceu, assim como as risadas das crianças na areia. Não conseguia ouvir nem mesmo o som da rebentação.


Tudo que sentia era o reverberar das batidas do próprio coração contra o peito. Os lábios quentes e firmes forçaram os dela a abrir, roçandolhe a pele sensível em um movimento que era pura sedução. O braço musculoso se contraiu nas costas de Niki, pressionandolhe os seios contra o peito e o fazendo ciente dos mamilos enrijecidos. – Blair – gemeu ela com voz rouca. – Abra a boca – disse ele, antes de lhe morder de leve o lábio inferior. – O quê? – sussurrou Niki, entontecida por aquele contanto. – Abra a boca para mim, querida – murmurou ele. – Deixeme entrar. As palavras roucas tiveram um efeito hipnótico. Niki obedeceu, sentindo a invasão lenta e aveludada da língua experiente em todos os pontos do corpo. E experimentou um forte tremor diante da primeira sensação de desejo real. Blair a sentiu estremecer, a resposta ávida e tímida. Os dedos delicados enterrados no cabelo de sua nuca, acariciando-o. O corpo viçoso e macio estava trêmulo, assim como as pernas de Blair. Abaixando-se ainda mais na água, ele a puxou contra a rigidez do próprio corpo, permitindo que Niki sentisse toda a potência de seu desejo. Um ofego escapou daqueles lábios em formato de arco. Blair ergueu a cabeça, apenas o suficiente para captar o choque estampado nos olhos cinza, que brilhavam como prata contra a luz do sol. – Estou louco para arrancar esse maiô e a deitar na areia – sussurrou ele enquanto os lábios provocavam os dela. – Penetrar


você devagar, até o fundo e a sentir me engolindo, enquanto a possuo... Os lábios firmes pressionaram os dela, fazendo-a estremecer, quando ele escorregou as mãos para os quadris curvilíneos e a pressionou contra a masculinidade excitada. Blair não estava mais pensando. Vivia e respirava através do contato com o corpo macio e quente de Niki. Desejava-a à loucura. Nunca sentira desejo tão intenso. Nem mesmo por Elise, quando acreditava que morreria se não a tivesse. Niki pensou em protestar, mas o contato daquela boca exigente era como uma droga viciante. Desejava se fundir ao corpo musculoso de Blair. Não conseguia se saciar daquele homem. Guiada pelo desejo, envolveu o pescoço largo com os braços como uma náufraga que se agarrasse a uma tábua de salvação. As lágrimas lhe faziam arder os olhos diante de um prazer torturante que parecia capaz de a partir ao meio. Ansiava por... algo desconhecido. Mais intenso. Todas as células de seu corpo pulsavam. Um soluço impotente lhe escapou dos lábios. As mãos longas se contraíram nos quadris curvilíneos, enquanto Blair recuava para observá-la. Ela se encontrava entregue, excitada. Poderia tê-la naquele momento. Levá-la de volta ao hotel e possuí-la na cama king-size de seu quarto, com o sol incidindo pelas janelas. Poderia mostrar o paraíso a Niki. Era óbvio que ela correspondia ao seu desejo com igual intensidade. Mas, à medida que a água do mar começou a lhe esfriar o corpo quente e excitado, Blair sentiu os tremores que a perpassavam, o choque estampado no rosto delicado e rubro. Aquela era Niki. Ele a estava tratando como uma mulher experiente, mas tinha de lembrar que ela era virgem. Nunca se relacionara com um homem antes.


O pensamento o excitou ainda mais. Fechando os olhos, ele experimentou um tremor. Em seguida, envolveu-a nos braços, mas sem a excitação de minutos atrás. – Blair – soluçou ela contra o pescoço largo. – Fique parada até essa sensação passar – disse ele. – Não se mexa, querida. Niki tinha apenas uma vaga lembrança dos comentários que ouvira de mulheres mais velhas sobre os efeitos da excitação nos homens e como era doloroso para eles. Blair talvez negasse, mas a desejara com desespero. Sentira a reação dele. Fechando os olhos, ela se permitiu sonhar, enquanto os dois permaneciam colados, com os corpos imersos no mar frio e batido. Ele não seria capaz de se afastar e fingir que nada acontecera. Mas, pelo visto, estava enganada. Um minuto depois, Blair recuou com o semblante fechado. – Temos de sair daqui. Estamos próximos às correntes de retorno – disse ele. Erguendo-a no colo, Blair a levou de volta à areia, detestandose pelo que fizera, por ter permito que ela o tentasse. – Você já havia entrado na água – disse ela, ofegante. – Sei o que fazer quando o mar está puxando. Já me vi nessa situação. – Blair a pousou na areia. Niki o fitou com o coração refletido no olhar, aguardando, esperançosa e envergonhada. – Tenho alguns telefonemas a dar no hotel. Vejo-a mais tarde – disse ele, sem lhe sustentar o olhar. E, em seguida, afastou-se. Simplesmente foi embora, como se nada tivesse acontecido, como se não a tivesse abraçado, beijado e lhe sussurrado palavras... tão íntimas. Sequer olhou para trás. Era como se nunca a tivesse tocado.


Niki ergueu a toalha, sacudiu-a e a estendeu outra vez na areia. Em seguida, colocou os óculos escuros e se deitou, tentando acalmar as batidas do coração. Percebeu que Blair havia levado a toalha e os óculos escuros que trouxera com ele. E agora?, refletiu Niki. Para ela, era como se a Terra tivesse se deslocado dois graus, mas era óbvio que, para Blair, nada de mais acontecera. Talvez pela presença de Janet ali. Estaria ele disposto a acender a velha chama? Niki sentiu o coração descer para os pés. Seria esse o motivo que o levara a beijá-la com tanta avidez? Por que estava pensando em Janet e ela, naquele maiô exíguo, e isso acabara o tentando? Niki lutou para conter as lágrimas. Ao menos estava de óculos escuros. As poucas pessoas que se encontravam na praia não perceberiam. NO CAMINHO de volta ao hotel, Blair se sentia morrer por dentro, enquanto se afastava da tentação que deixara na areia. Fora frio com Niki, quando o último sentimento que experimentava era indiferença. A verdade era que aquela jovem lhe conquistara o coração. Há muito tempo. Mas achava que ela merecia mais do que um magnata do petróleo velho e usado, que vivia para o trabalho. Não podia permitir que Niki se fixasse nele. A mente de Blair recuou nos anos: Niki envolta em seus braços, após o encontro às cegas desastroso. Cuidando dele quando tivera bronquite. Sentada com as crianças, no Natal, rindo, o rosto iluminado como a data em si. Levando-o para casa, para cuidar dele, junto com o pai, quando se encontrava afogado em angústia e álcool, após o divórcio. Nunca em toda a sua vida uma mulher cuidara dele com tanto carinho e ao mesmo tempo o deixara louco de desejo. Mas para o bem de


Niki, teria de atenuar aquele sentimento. Não podia ceder à tentação e arruinar a vida dela. Desejava-a ao ponto do desespero, mas ela era a única mulher na face da terra que nunca poderia ter. Jamais! MINUTOS DEPOIS, Niki se ergueu, pegou a toalha e voltou a passos lentos para o hotel. Todos os seus sonhos de amor com Blair pareceram prestes a se realizar. Mas ele não a queria. Ficara aborrecido, apesar de ter tentado esconder. Talvez estivesse irritado com ela, também. Afinal, agira como uma devassa. Niki corou de vergonha. Blair lhe proporcionara uma visão do paraíso, mas tudo que ela lhe dera em troca fora a dor física da satisfação não alcançada. Ele lhe virara as costas, como se a culpasse pelo que aconteceu. E não sem razão. Havia comprado um maiô indecente que lhe deixava quase todo o corpo à mostra para tentá-lo. Sabia que Blair a desejava, embora se esforçasse em disfarçar. Mas o instinto a fizera perceber aquela atração. Vestira o maiô dourado na tentativa deliberada de seduzi-lo a agir com base no desejo carnal. Mas nada saíra como Niki esperava. Os sonhos de um futuro com Blair se desfizeram como fumaça no ar. Ele a desejava. Beijara-a e gostara tanto quanto ela, mas fora algo apenas físico, concluiu, chocada. Blair não a desejava para um relacionamento permanente. Repetira várias vezes que a achava demasiado jovem e não mudara de opinião, mesmo após o interlúdio excitante no mar. Tentá-lo apenas suscitara em Blair uma resposta física não emocional. Ele sentira prazer em beijá-la, da mesma forma que com outras mulheres. Provavelmente com Janet, com quem estivera conversando, mais cedo, no hotel.


Niki recordou, com uma pontada de tristeza, a expressão de Blair sempre que se referia a ela. Gentil, suave e alegre. Tratavaa com ternura, mas só quando fingia que ela era uma criança. Depois daquele contato físico no mar, ele agira como se tivesse detestado o que fizeram. A esperança de Niki deu lugar à vergonha e ao constrangimento. Antes, havia um sentimento crescendo entre ambos, algo terno, profundo e agradável. Mas sua maldita impaciência, o desejo de tentá-lo até que ele não mais resistisse, arruinara tudo. Conseguira o que queria. Tivera-o em seus braços, beijando-a e a desejando. Mas não era para ser. Niki lembrou do velho provérbio “cuidado com o que deseja, pois pode conseguir”. Após o fiasco daquela tarde, não havia como refutá-lo.


CAPÍTULO 6

BLAIR DISSE a Todd que não lhes faria companhia no jantar. Niki sabia o motivo e ficou devastada, mas não podia deixar transparecer. – Você está comendo menos do que um passarinho. – repreendeu-a Todd durante o jantar. – O bife está excelente. Quase tão bom quanto o do gado que criamos. E você mal o beliscou. – Desculpe – disse ela com um sorriso amarelo. – Estou mesmo com dor de cabeça. Não deveria ter me exposto ao sol por tanto tempo. O pai pousou o garfo e tomou um gole do vinho tinto, observando-a com atenção. – Ele e Janet são amigos. Apenas amigos. Niki ergueu o olhar, fingindo surpresa. – Janet? O pai franziu a testa. – Pensei que estava macambúzia porque Blair não veio jantar conosco. – Não. Não é por isso – negou ela, apressando-se a arranjar uma desculpa. – O sr. Jacobs ficou intrigado pelo fato de eu ter


conseguido a vaga sem passar por um processo de seleção. – Ela ergueu uma das mãos quando o pai, com expressão furiosa, fez menção de falar. – Eu lhe disse que Blair atendeu a um pedido seu para me contratar. Ele perguntou apenas por curiosidade. O sr. Jacobs é um bom homem. Sabia que a filha dele sofre de artrite reumatoide? O pai fez que não com a cabeça. – Não. Não sabia. – Dan lhe deu os mesmos conselhos “úteis” que me dispensou. Ervas medicinais e uma dieta que pode curar o que a filha do sr. Jacobs e eu temos, sem necessidade de médicos – acrescentou ela com uma risada. – Meu Deus! – Mas Dan é um bom rapaz. – Niki hesitou. – Ele me convidou para fazer uma trilha com um grupo de caminhadas. Eu disse que iria. – Ela ergueu o olhar e se deparou com a expressão desgostosa do pai. – Levarei meus remédios e tomarei cuidado. Em um ponto Dan tem razão. Eu me protejo demais. – Nada disso – discordou o pai, sem disfarçar a preocupação. – Seus pulmões são frágeis e nada vai curá-los. Não com os recursos da medicina atual. Seu amigo Dan me parece um desses naturebas radicais. Niki deixou escapar uma risada suave. – Acho que sim. Mas ele é gentil, da maneira dele. Dan acha que os exercícios físicos me ajudarão. – Tenho certeza que tiraria de letra uma corrida de seis quilômetros – respondeu Todd, destilando sarcasmo. – Oh, pai! – repreendeu ela. – Não permitirei que Dan me arraste para uma aventura dessas. Teria uma síncope após os


primeiros cinco minutos de corrida. Tenho plena ciência disso, embora ele discorde. – Está bem, mas leve seu telefone celular no bolso. Se tiver uma crise, podemos localizá-la pelo GPS. – Levarei. O pai inspirou fundo e tomou mais alguns goles de vinho. Tudo parecia ir tão bem entre Blair e Niki. E, de repente, a filha estava se envolvendo com aquele rapaz que mais lhe parecia um lunático e Blair tentando reacender velhas chamas. Todd não ignorava a diferença de idade entre os dois, mas sabia, melhor do que ninguém, o quanto isso era insignificante quando havia amor. Ele era quase dezoito anos mais velho que a mãe de Niki e os dois se amaram com uma paixão intensa até ela falecer, ainda muito jovem, de câncer de pulmão. Um tremor o perpassou. Câncer de pulmão. Testemunhara a esposa ser consumida por aquela doença. Ser submetida a cirurgia após cirurgia, quimioterapia, radioterapia e mais quimioterapia, por quase dois anos, até morrer. Permanecera na cabeceira do leito da esposa cada minuto. Quando Niki fora diagnosticada com asma, ficara arrasado. A filha tinha pulmões fracos, assim como a mãe. Todd insistia para que Niki fizesse radiografias do pulmão todos os anos para se certificar de que ela estava bem. O próximo seria dentro de algumas semanas. Ele costumava prender a respiração, enquanto aguardava o resultado, embora o médico o achasse obsessivo. Não podia perder Niki. Seria como perder a doce esposa outra vez. Não conseguiria suportar. – Está pensativo – disse Niki. – Sim, desculpe. Está quase na época do rodeio no rancho – disse ele com expressão sofrida.


O suficiente para arrancar Niki da própria tristeza. – Encarregue Tex dessa tarefa – sugeriu ela com um sorriso, referindo-se ao vaqueiro que gerenciava o rancho. Um homem conhecido apenas pela abreviatura do estado de onde viera. – Ele já está encarregado, mas existem decisões que cabem apenas a mim – retrucou ele. – É verdade. Mais uma razão para aproveitar essas férias enquanto pode – disse ela, erguendo a taça de água gasosa. – Saúde. Com uma risada baixa, o pai tocou a taça de vinho à dela. – Saúde – respondeu, esvaziando o conteúdo. NIKI HAVIA se recolhido muito antes de Blair passar pela suíte que ela ocupava com o pai. Todas as luzes estavam apagadas, portanto, não entrou para conversar com Todd. Sentia-se exausto. Janet conversara por horas sobre a carreira cinematográfica atrás das câmeras, das responsabilidades que tinha e da triste vida solitária que levava. Por educação, ele sorrira e se fingira interessado, mas, por dentro, agonizava pela forma como tratara Niki. Não deveria ter cedido à tentação. Aquele maldito maiô lhe minara todas as reservas com relação à diferença de idade entre os dois. Mas o pior fora a forma como a ignorara logo depois. Como Niki deveria ter ficado magoada ao vê-lo rejeitá-la, sem sequer uma palavra sobre o que acontecera ou o que ele estava sentindo. Não quisera discutir o assunto. Sentira-se assustado, sufocado e angustiado pela forma como respondera a ela. Desejara lhe dizer o quanto a paixão entre ambos o encantara, como fora doce e excitante tê-la daquela forma, sentir a primeira reação de Niki ao


prazer físico. Fora sua primeira experiência íntima e ele a transformara em uma lembrança vergonhosa. O corpo macio e perfeito de Niki dentro daquele maiô seria capaz de tentar até mesmo um santo. Não conseguira resistir e era aquela falta de controle que o estava corroendo por dentro, não as tentativas tímidas de Niki em lhe atrair o interesse. Afastara-se furioso, apesar de ela ter se entregado sem reservas. Niki sequer lhe questionou o comportamento. Ao que parecia, ela pensara que o havia desapontado e se calara. Não fizera escândalos, não discutira. Nenhuma mulher que passara em sua vida fora tão gentil quanto ela. Estava acostumado a mulheres temperamentais e geniosas, que nem sequer agradeciam os presentes que recebiam, que viam nesse gesto uma obrigação. Aquilo nunca o incomodara antes. Mas Niki era uma experiência nova em vários sentidos. Ele a tratara de uma forma vil. E agora tudo que desejava era compensá-la, mas não sabia como. Niki era muito jovem para ele. Nenhum argumento poderia alterar aquela realidade. Mas não suportava a ideia de retroceder, de deixá-la pensar que ele desejava apenas alguns minutos de paixão. Que ele desejava... a eternidade. Blair se esforçou ao máximo para sufocar o próprio desejo. Encontraria um jeito, uma maneira gentil de afastá-la de sua vida. Com outra mulher, enviaria um colar de diamantes, um casaco de pele, a chave de algum carro exótico. Mas nenhum daqueles presentes satisfaria uma jovem que se apaixonara por uma tira de couro, ornada com um pedaço de chifre de veado. A total falta de ganância de Niki o intrigava. Perdê-la o destruiria. Blair se sentou no sofá da própria suíte, escorou a cabeça nas


mãos e se serviu de outra dose de uísque. Se bebesse o suficiente, seria capaz de sobreviver àquela noite. NA MANHÃ seguinte, Niki voltou à praia, trajando o maiô novo. Sabia que Blair não se aproximaria, mas queria apreciar a espuma das ondas, sentir a luz do sol e tentar esquecer o que acontecera no dia anterior. Mal conseguira dormir à noite, sentindo os lábios firmes de Blair nos dela, o corpo musculoso, rígido e próximo, desejandoa. Ouvindo a voz rouca pela excitação sussurrar palavras que a faziam corar. Até então, não conhecia o significado da paixão física. Agora que a experimentara, sentia uma dor e um anseio quase dolorosos. Desejou que ele nunca a tivesse tocado. Blair a despertara para um novo universo de prazer, apenas para soltála como se ela fosse uma ferradura incandescente. Niki tinha certeza de que jamais entenderia os homens. Mas quando chegou à praia, percebeu que os homens eram um problema real e iminente. – Ooooh, gatinha, olhe para você! – exclamou um homem malvestido, soltando um assobio estridente e a rodeando para observá-la de todos os ângulos, como se Niki estivesse exposta em uma vitrine.– O que acha de vir comigo para o meu quarto para arrebentarmos as molas do colchão? Niki ofegou. Nunca nenhum homem lhe dissera palavras tão rudes. – Eu não o conheço – disparou ela. – Bem, claro que não. Mas está muito vestida! Você parece uma lebre muito quente. – O homem soltou uma risada abafada. – Venha – disse ele, segurando-lhe a mão.


Niki se soltou com um solavanco e segurou a toalha diante do corpo como um escudo. As feições do homem se contorceram. Os olhos vermelhos como se estivesse... com alguma coisa. Bêbado, talvez. – Você se acha muito boa para os habitantes locais, certo? – rosnou ele. – O que está querendo, desfilando por aí desse jeito? – Ele gesticulou na direção do traje de banho de Niki. – Nenhuma mulher usa um maiô como esse se não tiver intenção de caçar homens! Niki estremeceu. Não fora exatamente isso que Blair pensara? Que ela estava se oferecendo para uma aventura qualquer? Não sabia o que fazer. Não conhecia técnicas de autodefesa. Não havia ninguém por perto a quem pudesse pedir ajuda, embora os empregados do hotel talvez viessem em seu socorro se gritasse. Niki estava quase pondo o pensamento em prática, quando um milagre aconteceu. – Ora, suma daqui, sua mosca de padaria. – A voz áspera de uma mulher soou atrás dela. Em seguida, ela surgiu na linha de visão de Niki, trajada com um maiô e uma saída de praia de gaze. – Xô! Vá perturbar outra pessoa! O homem hesitou, como se estivesse chocado por ser tratado daquela forma. Janet gesticulou na direção de um funcionário do hotel e o chamou. Em seguida, sorriu diante da expressão preocupada do assediador. – Que acha de parar atrás das grades, queridinho? – perguntou ela. – Tenho certeza de que eles têm celas muito confortáveis aqui, mas aposto que você já está em liberdade condicional, certo?


– Maldita mulher! – O homem saiu correndo. Rápido o suficiente para escapar do funcionário que se aproximava. – Aquele homem a estava incomodando, señorita? – perguntou ele a Janet. – Não a mim, mas a ela. – Janet indicou uma Niki rubra. – Você o conhece? – Sim – respondeu o empregado com expressão desgostosa. – Ele vem para cá vender drogas aos turistas. Nós sabemos e, quando o vemos, o expulsamos daqui. Ele se mostra mais agressivo com nossas hóspedes mulheres. Sinto muito. Vou ligar para a polícia. – Isso seria ótimo – concordou Janet. – Obrigada. – Sim – acrescentou Niki. – Muito obrigada – agradeceu, ainda trêmula. Quando o funcionário partiu, dirigiu-se a Janet. – Obrigada. Eu... nunca ouvi esses desaforos de um homem. Não sabia o que fazer. – Você é muito jovem – retrucou Janet, gentil, pensando que aquela pobre criança devia ter sido superprotegida pelo pai. Fora o que Blair lhe dissera na noite anterior. – Não sabe quase nada sobre a vida, certo? As feições de Niki se contraíram em uma expressão pesarosa. – Soube mais esta manhã do que durante toda a minha vida. Você se arriscou muito. Aquele homem podia tê-la machucado. Janet deu de ombros. – Tae Kwon Do. Faixa marrom. – Os olhos da mulher faiscaram. – Se ele me tocasse, estaria estirado ao chão, inconsciente no segundo seguinte. Talvez você se beneficiasse com algumas aulas de autodefesa. – Talvez. Mas... não sei... se ajudaria... – De repente, Niki se viu incapaz de respirar. Vasculhou na pequena pochete que


trouxera, retirou de lá o spray inalador e o utilizou. A respiração voltou, mas ainda lenta. – Asma? – perguntou Janet, preocupada. Niki anuiu. Esperou um minuto e utilizou o spray inalador outra vez. – Tomo medicação preventiva e sempre carrego meu spray inalador na bolsa – explicou com um sorriso frouxo. – Tenho uma saúde frágil. – Estou vendo. – Janet fizera uma ideia totalmente errada de Niki e imaginou se Blair de fato a conhecia. Por fim, o remédio fez efeito. Niki ergueu a toalha que havia atirado à areia durante o episódio desagradável com o assediador. – Não vá embora – disse Janet. – Não deixe que aquele patife estrague seu dia. Deite-se aqui e converse comigo. Não conheço ninguém, além de Blair, naquele hotel – acrescentou ela com um sorriso repleto de lembranças agradáveis. Niki se esforçou ao máximo para disfarçar a pontada de dor que lhe varou o peito. – Meu pai está aqui a negócios – explicou ela, sem mencionar Blair. – Você também faz parte desses acordos comerciais? – Oh, não. Trabalho no cinema. Quer dizer, na indústria cinematográfica – acrescentou ela com uma risada divertida. – Estou aqui porque a companhia onde trabalho está fazendo um comercial para um fabricante de refrigerantes. Trouxemos cinco supermodelos e um ator de primeira linha para filmar. Agora, estou temendo que o operador de câmera esqueça de colocar o filme. Ele fica babando quando as meninas chegam. Niki soltou uma risada apesar da tristeza. – Deve ser um trabalho prazeroso.


– Sim, é. Gostaria de me casar e ter filhos, mas Blair não está mais disposto. Nunca pensei que ele fosse se casar. E então, surgiu Elise. – E com os dentes cerrados, acrescentou: – Aquela mulher deveria ser enforcada em praça pública pelo que fez com ele. Niki sabia mais sobre aquele assunto do que Janet. – Ele a amava – afirmou ela. – Ou ao menos foi isso que meu pai me disse – acrescentou para se certificar de que não estava deixando transparecer mais do que devia para Janet. – Blair pensou que a amava, mas ela o curou dessa ilusão em tempo recorde. Conhece aquele ditado “O que você vê é o que você obtém”? Acho que não era esse o caso. Blair não tinha a menor ideia do que estava obtendo até que fosse tarde demais. Agora, Elise vive lhe arrancando dinheiro enquanto viaja pelo mundo, convivendo com socialites. O pai era bombeiro hidráulico e a mãe trabalhava como cozinheira em um restaurante. – Janet hesitou. – Acho que estou parecendo esnobe – disse com um sorriso. – Mas não sou. Meu pai era policial. Minha mãe trabalhava como assistente social. Nunca tive uma vida glamourosa. – Como conheceu Blair? – perguntou Niki, tentando não parecer muito interessada. – Eu conheci a mãe dele primeiro – respondeu Janet com uma risada. – Em uma lanchonete. Conversamos e ela deve ter gostado de mim, porque convenceu Blair a ir ao estúdio de fotografia, onde eu trabalhava para que fizéssemos um retrato dele. Namoramos por algumas semanas maravilhosas. – Você disse que ele não queria se casar. – É verdade – retrucou Janet. – Tentei convencê-lo de todas as formas, mas Blair era muito cabeça-dura. Vivia para o


trabalho. E para a mãe, a quem adorava. Durante o tempo em que ela esteve viva, Blair se dedicou a compensá-la pelo que o marido lhe fizera. – Quer dizer, o pai de Blair? – Harrison não era pai de Blair – esclareceu Janet com semblante fechado. – O pai biológico morreu, antes mesmo de ele nascer. Harrison era rico, dono de poços de petróleo. Apaixonou-se pela mãe de Blair, que ainda estava grávida. Era uma mulher bela e culta e os dois frequentavam os mesmos círculos sociais. Harrison a convenceu a se casar com ele. Mas, quando ela deu à luz Blair, o marido começou a mostrar as garras. Harrison detestava ter de criar o filho de outro homem, ainda mais quando ficou sabendo que era estéril e que não poderia ter os próprios filhos. Descontou sua revolta em Blair e na mãe. – Janet hesitou. – Punia Bernice batendo no filho, quando ela fazia algo que o desagradava. Ao menos, até o dia em que o enteado cresceu o suficiente para virar o jogo e lhe dar uma boa sova de cinto. Depois disso, o clima se tornou mais calmo naquela casa. Os dois estavam viajando quando Harrison morreu enquanto mostrava a um dos funcionários a maneira certa de montar uma sonda. Infelizmente, ou não, ele resolveu fazer a demonstração alcoolizado, alheio ao fato de que não tinha a menor ideia do que estava fazendo. – Que vida ele deve ter tido! – disse Niki, com o coração constrito. – Acho que Blair nunca teve ideia do que é um casamento feliz – comentou Janet. – Mas qualquer homem pode ser enganado por uma mulher inescrupulosa. Todas as vezes que eu via Blair e Elise juntos, aquela mulher estava agarrada a ele como uma hera, seduzindo-o e recuando quando Blair tentava


levá-la para a cama. – Ela deu de ombros. – Acho que, por fim, conseguiu o que queria. Mas ela o fez sofrer do mesmo modo que o padrasto fez com sua mãe. – Elise ainda se faz presente, certo? – perguntou Niki, distraída. – Em todos os eventos beneficentes que Blair comparece, para tentar fisgá-lo de volta – soou a resposta chocante. A expressão de Niki falava por si. – Você não sabia? – perguntou Janet com um sorriso divertido. – Acho que não. Mas seu pai, que é o melhor amigo de Blair, deve saber. – Espero que ele tenha juízo para não cair na mesma armadilha – disse Niki em tom pesaroso. – Eu, também. Mas eu estou com algumas ideias para não permitir que isso aconteça – acrescentou ela. – Poderia me convidar para jantar com você e seu pai, hoje à noite, se não se importar – acrescentou, se fazendo de tímida. – E se Blair aparecer... Bem, melhor eu do que Elise. – E com um suspiro, deitou-se na toalha, alheia à expressão desgostosa de Niki. – Ao menos Elise me ensinou um método infalível de levá-lo ao altar. Quem sabe, desta vez, eu tenha mais sorte! NIKI CONVIDOU Janet para jantar. Em seguida, telefonou para o aeroporto, fez uma reserva em um avião comercial, deixou um bilhete para o pai e voltou para casa, deixando o maiô dourado descartado na lata de lixo do quarto de hotel. Sabia que nunca mais teria coragem de usá-lo. TODD E Blair voltaram aos próprios quartos, após um longo dia de discussões sobre perfuração de petróleo em Iucatã. As negociações foram bem-sucedidas porque Blair gozava de


reputação na indústria petrolífera. Não era um poluidor. Todd geria uma empresa que vendia equipamentos para as empresas de petróleo, portanto haviam comparecido pela mesma razão. O México tinha seus interesses no ramo petrolífero e Todd desejava ramificar seus negócios em um mercado maior. – Foi muito produtivo – disse Todd com um sorriso cansado. – Agora talvez possamos aproveitar o restante de nossas pequenas férias sem a interferência dos negócios. – Assim espero – respondeu Blair. Temia se encontrar com Niki. Nenhum dos dois seria capaz de disfarçar o constrangimento diante de Todd e aquilo suscitaria perguntas que ele não estava disposto a responder. Os dois entraram na suíte de Blair, quando chegaram ao andar onde estavam hospedados. Bebiam uísque e decidiam onde iriam jantar quando ouviram uma batida à porta. – Deve ser Niki, procurando por mim – disse Todd com uma risada baixa. – As reuniões se estenderam até tarde. – Sim, é verdade. – Blair se preparou para não esboçar reação quando abriu a porta. Mas não se tratava de Niki, e sim de Janet, com um vestido coquetel prateado colado ao corpo, parecendo sofisticada e bela. – Estou atrasada? – perguntou ela. – Para quê? – Blair quis saber. – Para jantar, claro. Niki me convidou para jantar com vocês – explicou ela, com um sorriso. O coração de Blair perdeu uma batida. – Onde a encontrou? – Na praia, esta manhã. Houve um pequeno incidente – acrescentou ela. – Um dos traficantes de drogas locais a assediou. Fiz com que ele a deixasse em paz e chamei um dos


funcionários do hotel para tirá-lo de lá. Pobrezinha – prosseguiu Janet com voz suave. – Niki estava chocada. Teve até mesmo uma crise de asma. Graças a Deus que ela estava com o spray inalador na bolsa. – Quem era o homem? – perguntou Blair, mal contendo a fúria. Quando Janet percebeu a expressão do belo rosto moreno, todas as esperanças que nutrira caíram por terra. Ele estava lívido. Durante todo o tempo em que se relacionaram, Blair nunca reagira daquela forma quando alguém a tratava mal, embora se mostrasse solícito. Agora, os olhos negros tinham um brilho homicida. – O funcionário do hotel o conhecia – disse Janet, perturbada. – É um traficante de drogas da região. Blair retirou o telefone celular do bolso e começou a fazer ligações. Os olhos faiscando como carvão incandescente. – Obrigado pelo que fez por minha filha – agradeceu Todd com um sorriso. Também estava surpreso com a atitude de Blair. Aquela reação revelava o que o amigo nunca seria capaz de lhe contar. – Gostei dela – disse Janet. – Niki é tão frágil, não é mesmo? – acrescentou em tom gentil. – Tão sensível e bela como a mais fina porcelana. – Como a mãe dela – disse Todd, com a dor da perda ainda refletida no olhar, mesmo após tantos anos. – Eu a perdi quando Niki era muito pequena. – Nunca pensou em se casar de novo? – perguntou Janet. Todd fez que não com a cabeça, exibindo um sorriso suave. – Nunca. Guardo lembranças que me sustentarão para o resto da vida. E o nome de minha esposa será exalado junto com meu


último suspiro. As palavras a fizeram rever os próprios sentimentos. Janet nunca imaginara um amor tão profundo e duradouro. Nunca sentira algo tão intenso. Nem mesmo por Blair, a quem amara. Janet lhe lançou um olhar discreto. Ele estava passando uma descompostura em alguém ao telefone, em um espanhol perfeito. Quando desligou, fez outra ligação. – Estou quase sentindo pena do traficante de drogas – disse Janet, sarcástica. – Eu, também. Blair parece um trem desgovernado, descendo uma montanha quando determinado em conseguir algo. Eu deveria estar fazendo essas ligações, mas meu espanhol não se compara ao dele. – E com uma expressão desgostosa, acrescentou: – Minha pobre Niki, ela é tão magnânima... – O que não é ruim, estamos precisando de pessoas assim nos dias de hoje – retrucou Janet. – Tem razão, mas eu a protegi durante toda a vida. Talvez mais do que deveria. Minha filha tem 22 anos, mas sua experiência com homens não é nada encorajadora. Blair a salvou de um episódio desagradável, anos atrás. Ele colocou o canalha para correr e eu acionei meus advogados, que o obrigaram a sair do estado. – Todd se inclinou na direção dela, com uma risada suave. – Achei que Blair acabaria com ele se eu não o tirasse dali. Ele não deixou Niki perceber, mas ficou furioso. Deu uma boa surra no rapaz, antes de atirá-lo porta afora. Quando cheguei em casa, Niki estava aninhada no colo dele. Naquela ocasião, Blair estava noivo, sonhando com um casamento feliz. – Todd fez uma careta desgostosa. – Que felicidade a esposa lhe proporcionou! – Eu sei. Bernice teria odiado Elise – concordou Janet.


– Uma vez, Blair veio passar um Natal conosco e adoeceu, enquanto ainda estavam casados. Niki me obrigou a telefonar para Elise e lhe contar que o marido estava doente. Ela me disse que tinha de comparecer a uma festa e que não gostava de cuidar de doentes. – Bem característico dela – retrucou Janet em tom frio. – Niki cuidou dele, arriscando-se a ter uma pneumonia. O médico a repreendeu, mas de nada adiantou. Janet estava começando a formar uma ideia sobre o que existia entre Niki e Blair e aquilo não concorreu em nada para lhe fortalecer o ego ou os planos para o futuro. Os dois tinham uma ligação muito forte. Ao que parecia, Blair estava lutando contra os próprios sentimentos com unhas e dentes. Niki fingira não se importar quando ela lhe contara sobre seus planos para seduzir Blair, mas devia tê-la magoado. Blair desligou o telefone e tornou a guardá-lo. Os olhos ainda faiscando de raiva. – Coloquei a polícia no encalço dele. O patife está em liberdade condicional por assalto. Ele voltará para a prisão, garanto-lhe. Ninguém trata Niki dessa forma! Todd se aproximou do amigo e pousou uma das mãos em seu ombro. – Acalme-se – disse em tom gentil. – A polícia o encontrará e ele pagará pelo que fez, mas precisamos falar com Niki. Estou arrependido de trazê-la para esta viagem – acrescentou, tristonho. – Queria penas lhe proporcionar um descanso. O sentimento de culpa estava corroendo Blair. Ferira Niki, talvez mais do que o traficante de drogas. Temia encontrá-la. – Sugeri que ela fizesse aulas de defesa pessoal, quando coloquei o traficante de drogas para correr – comentou Janet,


quando deixaram a suíte de Blair em direção à de Todd. – Sou faixa marrom em Tae Kwon Do. Talvez as aulas de defesa pessoal ajudem a estimular a autoconfiança de Niki. A fortalecê-la um pouco mais. – Você o colocou para correr? – perguntou Blair. Janet anuiu. – Pobrezinha. Ela estava chocada com o que ouviu daquele homem. Dava pena ver. – Agradeço por ajudá-la – disse Blair em tom de voz calmo, mal suportando a dor por ter perdido Niki de vista. O modo como se comportara a deixara magoada. E aquele episódio servira apenas para lhe aumentar o sofrimento. Tinha de encontrar uma maneira de se desculpar, explicar, compensar o que fizera com ela. Nunca deveria tê-la tocado. Tentara colocar a culpa em Niki e no maiô que deixava muito daquela pele cor de creme e macia à mostra. Mas o único culpado era ele. Não tinha nada a lhe oferecer e permitira que o corpo lhe comandasse o cérebro. Em muitos aspectos, aquele fora o mais doce interlúdio de sua vida. Mas Niki não podia saber disso. Tinha de encontrar uma forma gentil de mantê-la a um braço de distância e, dessa forma, protegê-la de si mesmo. – NIKI? – CHAMOU Todd quando entraram na suíte, mas não obteve resposta. A porta do quarto de Niki estava fechada. – Ela me disse que estava com dor de cabeça. Talvez tenha se deitado. Vou verificar. Todd abriu a porta com o amigo logo atrás dele. Mas o quarto estava vazio. Os olhos negros de Blair percorreram o quarto e pousaram na cômoda. Havia um bilhete ao lado do móvel. Na


cesta de lixo, encontrava-se o maiô dourado que Niki usara na praia. Aquilo o fez trincar os dentes. Todd também avistou o bilhete. Ao lê-lo, contraiu as feições em uma expressão pesarosa. – Ela voltou para casa – disse por fim. – Acho que o incidente desta manhã foi demais para Niki. – Ele voltou à sala de estar. – Vou telefonar para me certificar de que ela chegou em casa em segurança. O olhar de Blair estava cravado no cesto de lixo. As feições tensas. Janet se postou ao lado dele. – Eu contei a Niki que nós fomos namorados, no passado – confessou ela em tom de voz baixo, erguendo a cabeça para fitálo. Os olhos astutos captando a expressão de Blair. – Sabe o que ela sente por você? – Niki é uma criança e a filha do meu melhor amigo. É só. – Blair conseguiu conjurar um sorriso frio. – Está apenas empolgada comigo. No ano passado, era com o cantor de uma banda pop. Depois, com o ator de uma série policial de televisão. – Ele soltou uma risada abafada, fazendo piada da situação. – Até o Natal, será outro. – Oh, entendo – A expressão de Janet se iluminou. – Bem... Todd entrou no quarto. – Ela está chegando em Billings agora. Pedi a Tex para buscála. Os olhos de Blair se estreitaram. – Tex gosta dela? – Sim. – Todd soltou uma risada. – Embora de nada adiante. Tex não sai muito e Niki está sempre por perto, principalmente durante o rodeio. Na verdade, ela acompanha os vaqueiros para


ver a marcação do gado. – Todd exibiu uma expressão desgostosa. – É poeira para todo lado, mas não consigo impedila. Ao menos, consegui convencê-la a usar uma máscara cirúrgica. Blair girou, relanceando o olhar ao maiô e deixando escapar um suspiro. – Bem, é melhor irmos jantar – sugeriu Todd. – Janet, você nos acompanha? – Claro, se não se incomodarem – respondeu ela. – Teremos prazer em sua companhia. Blair inspirou fundo. – Vão na frente. Tenho outro telefonema a dar. – Esperaremos você para fazer os pedidos – avisou Todd. – Peça apenas uma salada e um bife para mim. Ao ponto – disse Blair. – Sem sobremesa. – Está bem. Janet? – Todd lhe deu o braço e a guiou na direção do corredor. Quando os dois saíram, Blair retirou o maiô do cesto de lixo. Observou o traje de banho, recordando como ficara em Niki e revivendo a sensação maravilhosa de tocá-la, abraçá-la...e beijála. Encostando os lábios ao tecido elástico, levou o maiô para o próprio quarto e o guardou na mala. O JANTAR transcorreu quase em silêncio. Blair se mostrava macambúzio. Todd não conseguia disfarçar a preocupação com a filha. Mas também estava apreensivo com o amigo. Voltara ao quarto para perguntar ao amigo que tipo de molho ele desejava na salada e o encontrara ao lado da cômoda, segurando o maiô que Niki descartara. Logo depois, o levara aos lábios com uma ternura que ele nunca o vira expressar.


Todd se retirara em silêncio, antes que Blair lhe percebesse a presença. O amigo estava apaixonado por Niki e lutava contra aquele sentimento com todas as forças. Janet tentou tornar o clima mais leve, conversando sobre assuntos interessantes e fazendo piadas. Ao que parecia, Blair ainda estava preocupado com o assédio que Niki sofrera. Mas ele deixara claro que não desejava um relacionamento permanente com a filha do amigo. Ainda tinha uma chance, pensou Janet, e tentaria aproveitá-la. Após o jantar, enquanto passeavam na praia, Janet lhe contou sobre a conversa que tivera com Niki, acrescentando que a jovem lhe dissera que tentara seduzi-lo a se casar com ela. E que, por esse motivo, decidira usar o maiô sedutor. Blair não fez nenhum comentário. Limitou-se a lhe segurar a mão e perguntar como estava indo o comercial que ela estava produzindo. Janet experimentou uma pontada de culpa. Niki era frágil e não conseguia esconder seus sentimentos por Blair. Mas aquela era uma guerra. Janet o vira primeiro, por assim dizer, e não abriria mão dele sem lutar. NIKI OLHOU ao redor, procurando por Tex no aeroporto de Billings. Um terminal pequeno, mas moderno e bonito. A mala tinha rodinhas, portanto fácil de ser carregada. Sentia-se arrasada e tudo que desejava era chegar em casa. Tex surgiu em sua linha de visão, sorrindo de orelha a orelha quando a localizou. – Olá, criança – provocou ele, utilizando o apelido carinhoso com que a tratava. – Está feliz em voltar à civilização?


– Civilização e vaqueiros são duas palavras que não combinam – retrucou Niki com uma risada breve. – Obrigada por vir me buscar. – Seu pai estava preocupado. Você não deveria voltar na segunda-feira, com ele e o sr. Coleman? – Tive um contratempo na praia que estragou a viagem para mim – respondeu ela, desviando o olhar enquanto os dois caminhavam. Tex guardou a mala na camionete preta que costumava dirigir e girou na direção dela, empurrando o chapéu Stetson para cima. – Que tipo de contratempo? – perguntou. Os olhos azulclaros faiscando no rosto bronzeado. – Um traficante de drogas me abordou na praia, fazendo comentários vulgares e querendo me levar para o quarto dele – explicou Niki. – Diabos! Espero que seu pai tenha acionado a polícia para colocá-lo atrás das grades pelo resto da vida – disse Tex em tom áspero. Um sorriso terno curvou os lábios de Niki. O vaqueiro era apenas alguns anos mais velho do que ela, mas maduro, gentil e paciente. Gostava muito de Tex. – Obrigada. Eu também. – Estranho o sr. Coleman não ter dado uma boa surra naquele canalha – disse Tex em tom divertido, quando se encontravam na camionete, a caminho de casa. – Como fez com aquele jogador de futebol idiota um tempo atrás – acrescentou com uma risada abafada. – Ele estava ocupado no momento – retrucou Niki, esforçando-se para a voz soar normal. Fui à praia, sozinha. Mas


uma antiga namorada de Blair apareceu e colocou o traficante para correr, com a ajuda de um dos funcionários do hotel. Ela é uma boa pessoa. Acho que, se Blair se casar com ela, não será tão infeliz desta vez. Ao menos, ela é muito melhor do que aquela ex-mulher horrorosa que se recusou a abrir mão de uma festa para cuidar dele, quando Blair estava doente. – Você tem uma queda por esse amigo do seu pai, certo? – perguntou Tex, enquanto dirigia. – O sr. Coleman é um bom homem. Um dos meus amigos trabalha para ele. É um sondador. Ele me disse que o sr. Coleman não se importava de retirar o terno de grife e colocar a mão na massa quando havia algum problema nas sondas. É um homem justo e honesto, que trata bem todos os funcionários. – É isso que o papai diz, também – concordou Niki. Era verdade que tinha uma queda por Blair, como Tex comentara de forma casual, mas não queria conversar sobre o assunto. – A irmã de Harry trabalha em um restaurante no centro da cidade – prosseguiu ele. – Disse que viu você e Dan Brady jantando juntos. – Sim. – Niki deixou escapar um suspiro. – E quando pedi peixe frito, a guerra começou. – Ela relanceou o olhar ao vaqueiro. – Sabia que qualquer alimento gostoso faz mal? Devíamos nos limitar a comer brotos de alfafa e tomar ervas medicinais. Tex franziu o sobrecenho. – Está com febre ou algo parecido? Niki soltou uma risada. – Esse é o discurso de Dan. Segundo ele, eu tenho asma porque não me exercito o suficiente e não como os alimentos certos. – Ela o observou sob os cílios longos.


– Se um homem quer mudá-la é porque não a ama – retrucou Tex. Um sorriso terno curvou os lábios de Niki. – É muito perspicaz. – Sou um observador da natureza humana – disse ele. – Além disso, fiz algumas disciplinas de psicologia quando estava cursando a faculdade, depois de sair do exército. – Deus! Nunca me disse que serviu ao exército. – Não costumo conversar sobre isso – respondeu Tex. – Estive no Iraque. – Entendo. O vaqueiro lhe relanceou o olhar. – As batalhas eram brutais. Algumas experiências são dolorosas. Niki estudou o rosto magro e belo do vaqueiro, vincado por mais rugas do que ela percebera até então. Tex não era tão jovem quanto imaginara. – Pensei que você era apenas alguns anos mais velho que eu, mas me enganei, certo? Tex fez que não com a cabeça. – Vou fazer 34 anos. Niki sorriu. – Velho e acabado, certo? Seus pobres ossos rangem quando você se movimenta? – provocou ela. Tex deixou escapar uma risada. – Por acaso, acertou. Eu estava em um veículo blindado quando o primeiro, que liderava nosso comboio, foi atingido por uma bomba de fabricação caseira. – Ele deixou escapar um suspiro lento. – Todos nós fomos vítimas dos estilhaços. Fui atingido no quadril. Portanto, posso prever com certeza quando


vai chover – acrescentou. – Ferimentos ósseos podem levar a artrite nas juntas. – Sinto muito. Não tive intenção... – Pare com isso – disse Tex com uma risada abafada, fitandoa com olhar terno e afetuoso. – Todos temos cicatrizes, criança. Algumas profundas – acrescentou, como se soubesse como ela se sentia em relação a Blair. Niki fixou o olhar na bolsa que girava nas mãos em vez de encará-lo. – Sim – confessou. –Algumas são... muito profundas – concordou, dirigindo o olhar à pastagem, enquanto se aproximavam do desvio que levava à fazenda. Nenhum dos dois fez nenhum comentário.


CAPÍTULO 7

BLAIR E

Todd retornaram à fazenda dos Ashton na segundafeira, mas Niki não estava presente. No mesmo instante, o pai telefonou para Tex. – Onde ela está? – perguntou. – Niki foi trabalhar – retrucou o vaqueiro com um suspiro. – Ela disse que, apesar de o chefe não estar presente, havia trabalho a fazer e, dessa forma, não teria de cumprir horas extras quando ele retornasse. – Está bem. Obrigado. – Espero que eles peguem aquele patife traficante de drogas – disse Tex em tom furioso. – E o coloquem na cadeia pelo resto da vida. – Eu, também. Falo com você mais tarde. – Sim, senhor. – Já submeteu os bezerros puro-sangue ao processo? – perguntou Todd, porque o gado reprodutor paria os bezerros ao final da primavera. – Quase todos – respondeu Tex. – Terminaremos amanhã. Temos muitos bezerros para marcar, vacinar e etiquetar – acrescentou com uma risada baixa. – Não estou reclamando! É


bom ver os pastos cheios outra vez, depois do pesadelo daquele inverno, dois anos atrás. Há dois anos, os pecuaristas haviam perdido mais de cem mil cabeças de gado na pior das tempestades de inverno que tiveram no território, em muitos anos. – Concordo – disse Todd ao vaqueiro. – Se precisar de alguma coisa, compre na loja de ferragens e mande colocar na minha conta. Tex já sabia disso, mas nada respondeu. O sr. Ashton estava demasiado preocupado com filha para raciocinar direito. – Pode deixar, patrão – retrucou ele, antes de desligar. Blair arqueou as sobrancelhas. – Niki foi trabalhar – disse ele. – Acho que não quis ficar em casa, deprimida. Blair deixou escapar um profundo suspiro. – Então, é melhor eu ir para casa... – Durma aqui – interrompeu-o Todd. – Fizemos uma longa viagem. Não se sobrecarregue. Precisa descansar. Blair hesitou, mas acabou concordando. Desejava ver Niki. Queria uma chance para se explicar e contornar aquela situação com ela, se fosse possível. Magoá-la não era uma opção. E ele já a fizera sofrer o bastante. DAN BRADY podia ser uma boa companhia, mas, naquele dia, estava levando Niki à loucura. – Ouça, agradeço seu interesse em minha saúde – disse ela, após ouvir Dan discursar por dez minutos sobre as ervas medicinais que queria lhe prescrever. – Mas eu sou alérgica a muitos tipos de ervas. Deseja se explicar com meu pai quando


eu tiver um choque anafilático por usar ervas sem o conhecimento do meu alergista? Dan se limitou a fitá-la. – Como as ervas medicinais poderiam causar choque anafilático? – perguntou ele, com expressão exasperada. – Só fazem bem! – Não farão bem a mim se eu for alérgica a elas! Dan atirou as mãos para o alto. – Desisto. Você não quer sequer tentar! – Dan – começou Niki com uma paciência que estava longe de sentir. – Não pode sair por aí prescrevendo substâncias ou acabará sendo processado, sabia? Não é formado em medicina, pelo amor de Deus! Dan fez menção de responder no instante em que o sr. Jacobs entrou, vindo do estacionamento, parecendo cansado e desgrenhado. Ao ouvir parte da conversa, lançou um olhar furioso ao rapaz. – Concordo com a srta. Ashton – disse ele. – Quem prescreve medicamentos são os médicos! Em seguida, lançou um olhar severo aos dois e se afastou sem acrescentar mais nada. – Desculpe – disse Niki quando se encontrava no escritório do chefe com a porta fechada. – Ele estava ficando inconveniente. – Não lhe dê ouvidos – O sr. Jacobs aconselhou. – As ervas podem ser benéficas, concordo, mas há especialistas se quiser seguir por esse caminho. Eu não arriscaria minha saúde ou a de minha filha com base do que diz um... curioso metido a sabichão! – Obrigada, sr. Jacobs – disse ela com um sorriso. – Dan se preocupa com as pessoas, mas, de vez em quando, exagera.


O chefe inclinou a cabeça para o lado. – Quer saber que tipo de pessoa é Dan Brady? Aquele é capaz de deixá-la se afogar no rio e depois comparecer ao seu funeral para criticar a forma como você se afogou. Niki teve de suprimir uma risada com um acesso de tosse forçado. – Desculpe. O sr. Jacobs soltou uma risada baixa. – Já que veio trabalhar e eu voltei antes do previsto, é melhor colocamos a mão na massa. Que tal Cancun? – Quente. – Niki se limitou a responder. O chefe anuiu. – Mas linda. Chegou a visitar as ruínas? – Não deu tempo – retrucou ela, concisa. – Talvez em outra oportunidade. – Talvez – concordou Niki. DAN SE encontrava na porta da frente quando Niki deixou o escritório. – Ouça – começou ele. – Acho que acabei exagerando. Só queria ajudá-la. Não tive intenção de aborrecê-la. Niki sorriu. – Tudo bem. Não é um defeito defender seus pontos de vista com eloquência. – Claro que não. Fará a trilha conosco, daqui a duas semanas, certo? Lembre-se que prometeu. Niki inspirou fundo. – Gostaria de ir. – Ótimo! Eu a colocarei a par dos detalhes mais para a frente. Vai direto para casa?


– Sim, meu pai chegará de viagem. Dan franziu a testa. – Achei que vocês haviam viajado juntos. Niki rezou para que o rubor do rosto não estivesse evidente. – As negociações se prolongaram e ele teve de ficar mais um dia – mentiu ela. – Oh, entendo. – Dan sorriu. – Bem, vejo-a amanhã. Boa noite. – Para você, também. NIKI DIRIGIU para casa devagar, temendo conversar com o pai. Não poderia lhe contar o que de fato acontecera. Seria muito complicado. Mas tinha de inventar uma desculpa que o convencesse. O episódio com o traficante de drogas na praia seria suficiente. Por certo, Janet jantara com eles, após pressioná-la para que ela a convidasse e devia ter colocado os dois a par do incidente. Niki lembrou que atirara o maiô no cesto do lixo. Se o pai o tivesse visto, saberia que aquele acontecimento desagradável na praia fora o motivo que a fizera voltar mais cedo. Com um pouco de sorte, ele não perceberia que sua partida precoce tivera mais a ver com a frieza com que Blair a tratara do que com o encontro com o traficante de drogas. NIKI ESTACIONOU o carro na garagem da fazenda e entrou com passos lentos na casa. Sentia-se cansada. A viagem de volta para casa fora desconfortável e ela sequer descansara, já que decidira ir trabalhar. E o pólen na atmosfera estava começando a


incomodá-la. Era tanto que o caminho até a varanda da frente se encontrava amarelo. Quando abriu a porta, quase colidiu com Blair Coleman. Um rubor intenso lhe corou o rosto. Niki engoliu em seco, apertando a bolsa. – Blair – começou ela, cumprimentando-o com gesto de cabeça, enquanto tentava seguir adiante. Mas de nada adiantou. Com os lábios comprimidos em uma linha fina, ele a segurou pelo braço, puxou-a para fora e a guiou até o carro que alugara. Após acomodá-la, escorregou para trás do volante e deu partida. Niki não disse uma palavra. Não conseguia pensar em nada que não piorasse uma situação que já estava ruim. Blair parou o carro no acostamento da estrada, desligou o motor, ajudou-a a saltar e caminhou na direção de um rio largo e raso ao lado dela. Um aglomerado de pinheiros americanos ocultava uma clareira de quem passava na estrada. Ele enfiou as mãos nos bolsos, observando o rio. – Janet nos contou o que aconteceu na praia – disse ele, de costas para Niki. Os olhos negros, que ela não podia ver, encontravam-se congestionados. – Seu pai e eu acionamos as autoridades. Ele será pego e enviado à prisão, custe o que custar – acrescentou em tom amargo. Não a surpreendia o fato de o pai desejar se vingar, mas a atitude de Blair era curiosa. Niki abraçou o próprio corpo, e permaneceu calada ao lado dele, observando o fluxo das águas. – Comprei aquele maiô novo, porque o achei lindo. Parecia sofisticado e eu pensei... – Ela trincou os dentes. – Foi um erro que não repetirei. – Sinto... muito por tê-lo usado na praia... – deixou a frase morrer, incapaz de prosseguir.


Um gemido rouco se formou na garganta de Blair. As mãos longas se cerraram em punhos dentro dos bolsos. – Não. A culpa foi minha – retrucou, conciso. – Nunca deveria tê-la tocado. Então, ele se arrependera. O que ela esperara? Que Blair dissesse que não lamentava o que acontecera? Aquilo só acontecia em filmes e livros românticos, não na vida real. – Eu o joguei fora – disse ela, esperando tranquilizá-lo. Blair fechou os olhos diante da onda de dor que o atingiu. Niki ficara tão linda naquele maiô. Levaria aquela imagem na mente para o resto da vida, mas não ousaria confessar. Havia passado dos limites com ela. Agora, tinha de se controlar, embora não fosse fácil. – Ficarei um tempo fora – disse ele, sem lhe sustentar o olhar. – Preciso visitar algumas divisões da empresa e comparecer a várias conferências com meus gerentes. Descuidei-me um pouco dos negócios, após o divórcio. – Janet é muito agradável – disse Niki, desviando o olhar. – Ela espantou o traficante de drogas. – Eu sei. Janet nos contou – retrucou ele, distraído. – Conheço-a há muito tempo. – Janet me disse que sua mãe gostava dela. – Sim. Ela era muito afeiçoada a Janet. Niki engoliu a amargura em seco. – Ela é morena, também – acrescentou, tentando sorrir. – Você gosta de morenas. – Sempre gostei. – Não estava sendo totalmente sincero. Estava apaixonado por uma jovem loira que se encontrava a um braço de distância, mas que parecia estar em Marte.


O som da correnteza, borbulhante e tranquilo, foi tudo que se ouviu por alguns minutos. – Janet disse que vocês tiveram uma relação íntima. – Foi por isso que a convidou para jantar conosco e depois pegou o primeiro voo disponível de volta? – questionou ele, com sutil amargura na voz. – Achei que o agradaria – retrucou Niki. – Afinal, você a levou para jantar na noite anterior. Sim, era verdade. Apenas na tentativa de evitar Niki e o que acabaria acontecendo se passasse mais tempo ao lado dela. Ainda mais depois de sentir seu sabor, na praia mexicana. Aquela simples lembrança era capaz de levá-lo à loucura. Niki inspirou fundo. – Sinto muito mesmo... pelo que aconteceu – sibilou ela, entre dentes. – A culpa não foi sua – retrucou ele. – Não pode se responsabilizar por idiotas que fazem comentários vulgares a respeito da escolha de seu traje de banho. Eles o encontrarão e aquele patife pagará por pelo que fez, custe o que custar! Niki girou, hesitante, com o rosto corado. Os olhos da cor da neblina de agosto quando os ergueu para fitá-lo. – Estava me referindo ao que aconteceu no mar... Blair baixou o olhar para fitá-la. As feições do rosto largo, tensas. Os olhos negros faiscando. Ela estava usando um terninho bege sobre uma blusa amarela-clara. Não era decotada ou sugestiva, mas os mamilos estavam enrijecidos sob o tecido. Aquela visão o fez experimentar uma pontada de dor. Niki sentia uma atração forte por ele, que a inexperiência a impedia de esconder. Aquilo o lisonjeava e enlouquecia, porque seria


impossível fingir aquele tipo de reação. Por ser bem mais velho, teria de fazê-la acreditar que ele não sentia nada... – Oh, Deus! – rosnou ele, antes de puxá-la contra o corpo e envolvê-la nos braços de modo que a cabeça de Niki se encaixasse na curva de seu ombro. Os olhos cravados nos dela. Blair lhe percebeu a dificuldade em respirar. Podia sentir o coração de Niki batendo forte contra as costelas. Ele deixou o olhar vagar para os lábios macios. – Eu tentei – sussurrou ele com voz rouca, antes de inclinar a cabeça. Niki sentiu o desejo intenso de Blair, antes da boca quente e firme cobrir a dela. Embora um pouco impetuoso, pela excitação, ele se mostrou lento e paciente. Quando a mão forte escorregou por suas costelas para lhe tocar o seio pequeno, ela sequer protestou. Blair lhe mordeu de leve o lábio inferior. – Ajude-me – disse ele. – Está bem. – Niki lhe envolveu o pescoço largo com os braços e subiu nas pontas dos pés para tentá-lo ainda mais. – Não... foi... isso... que eu quis dizer – sussurrou ele contra os lábios ávidos de Niki. Mas mesmo enquanto as palavras lhe escapavam, o corpo enrijecia contra o dela. – Tem certeza? – perguntou ela com um fio de voz. Blair a pressionou ainda mais contra a parede sólida do próprio corpo. Os seios amassados contra o peito largo, enquanto ele aprofundava o beijo até um nível de prazer que jamais experimentara com nenhuma outra mulher. Niki enterrou as mãos delicadas no cabelo negro e ondulado, adorando a frieza dos fios contra os dedos, amando a intensidade daquela boca firme pressionada à dela.


– Ora, perdido por cem, perdido por mil – disse ele, erguendo-a nos braços e a levando para o carro, sem interromper o beijo. Blair abriu a porta, acomodou-a no banco do passageiro e a soltou por tempo suficiente apenas para contornar o carro e entrar. Assim que se sentou, puxou-a para os braços outra vez.– Isso não vai acabar bem – sussurrou contra os lábios macios, enquanto lhe desabotoava a blusa com dedos ávidos. – Não me importo. – Niki arqueou as costas, enquanto ele lhe abria o fecho frontal do sutiã. Os olhos negros a devoraram da cintura para cima, deleitando-se com a pele creme e macia dos seios empinados e com os mamilos rosados. Ele os tocou quase reverente, estimulando-os até vê-la ofegar e arquear as costas mais uma vez. – Todos cometemos erros – disse Blair, inclinando a cabeça para baixo. – Mas esse é o pior que cometi em uma década. – Ninguém é perfeito, é por isso que os lápis têm borrachas – retrucou ela, esperançosa. – Nenhuma borracha será suficiente para apagar este erro – rebateu ele. Os lábios se entreabrindo para, em seguida, se fecharem em torno de um dos mamilos enrijecidos. A língua o estimulando. Os gemidos ofegantes e crescentes que ela deixava escapar o atingiam como ondas gigantescas de prazer. Blair lhe sugou a pele sensível com extrema suavidade e suscitou uma reação violenta. Niki arqueou o tronco na direção dos lábios que a estimulavam e estremeceu. As unhas se cravando na nuca larga. Em seguida, ondulou o corpo contra a boca de Blair, enquanto


era arrastada em uma enxurrada de prazer, convulsionando em espasmos que deixaram encantado o homem que os provocara. Quando os tremores cederam, ela colapsou sobre o peito forte com lágrimas lhe escorrendo pelo rosto. Blair as beijou, abalado com a intensidade com que ela se entregara à paixão, com a reação que Niki não conseguiu evitar. Durante toda a sua vida adulta, as mulheres o desejaram pelo que ele possuía e podia lhes proporcionar. Niki apenas o desejava e de uma forma tão sincera que ele sentiu como se uma faca lhe perfurasse o coração. Também a desejava, mas era muito velho para ela. Tinha ciência de que a estava privando de uma vida ao lado de um jovem que a amasse, cuidasse dela e lhe desse uma família. Filhos! Blair gemeu em seu íntimo. A mão longa se espalmando no ventre macio. A imagem de Niki, com o filho de outro homem nos braços, se formou em sua mente e a dor que suscitou se assemelhava a uma estalactite cravada no coração. Erguendo a cabeça, ele fitou os olhos prateados e mareados de lágrimas. Niki ainda sentia os últimos espasmos do clímax. Parecia envergonhada... e chocada. – Não – sussurrou ele, inclinando a cabeça para lhe capturar os lábios com um beijo terno. – Não se envergonhe disso. Em toda a minha vida, nunca vi uma reação como essa em uma mulher. Niki engoliu em seco. – Nunca? Blair confirmou com um gesto negativo de cabeça. Os olhos negros vagando para os seios empinados. Aquele que sugara


ostentava uma marca avermelhada. Ele a tocou com ternura, amando a forma como aquele corpo viçoso reagia. – As mulheres me desejam pelo que eu tenho – afirmou, com um traço de amargura. – Apenas pelo que tenho e posso lhes proporcionar. A mão delicada lhe tocou o rosto, escorregando em seguida para os lábios intumescidos e sensuais. – Eu, não. – Não – concordou ele com um sussurro. – Você, não. Mais uma vez Blair lhe capturou os lábios em um beijo terno, enquanto sentia os dedos delicados trabalhando nos botões de sua camisa. – Não – protestou ele. Porém, sem firmeza na voz. Niki lhe desabotoou a camisa e lhe expôs o peito musculoso. – Adorava ver você assim, quando estava doente, lá em casa. Blair deixou escapar um suspiro trêmulo. – É mesmo? – Sim. Mas você estava casado – lembrou ela. Inclinando a cabeça para baixo, Niki lhe depositou um beijo no músculo peitoral sobre a camada de pelos negros. Blair prendeu a respiração, hesitante, mas a tentação acabou por vencer a batalha. Movendo o rosto de Niki, posicionou-lhe os lábios contra o próprio mamilo. – Como... você fez comigo? – sussurrou ela. – Sim. Niki fechou os lábios sobre o mamilo plano e o sugou. Blair arqueou o tronco, estremecendo, ansiando por tê-la, amando o toque da boca macia, amando saber que Niki estava gostando daquela intimidade tanto quanto ele.


Só desta vez, prometeu Blair a si mesmo. Uma última vez, antes de se afastar para o próprio bem de Niki e a deixar livre para um homem mais adequado. Só... desta... vez! Erguendo-a do assento, ele a puxou e a sentou sobre o colo. Os seios firmes pressionados ao peito largo, enquanto ele inclinava a cabeça para se apossar da boca macia. Mas, logo em seguida, hesitou. Os olhos cravados nos dela. – Nunca mais – disse ele contra os lábios tentadores. – Está entendendo? – Não. Os lábios firmes ainda provocavam os dela. – Ambos estávamos curiosos, mas só podemos ir até aqui. Quando eu a levar de volta para casa, partirei e não voltarei até que esse fogo entre nós se apague. – Você me deseja – sussurrou ela contra a boca sensual de Blair. – Sim, eu a desejo, mas nunca mais me casarei. E você é uma moça para casar – disse ele com voz rouca. – Merece um rapaz que a ame e que tenha filhos com você. Os lábios de Niki se colaram aos dele. – Você não quer ter filhos? Blair deixou escapar um gemido, antes de aprofundar o beijo. Puxando-a contra o corpo, sentiu a maciez dos seios firmes contra o peito e se deixou afogar em um mar de prazer. Sim, queria ter filhos. Queria engravidá-la e ver o ventre de Niki crescer. Era tudo que desejava na vida. Mas os dezesseis anos que os separavam representavam um fardo que Niki ainda não conseguia entender. À medida que envelhecesse e ela ainda tivesse muitos anos de juventude pela frente, Niki não poderia...Não iria desejá-lo. Ele faleceria anos


antes dela ou talvez adoecesse e se transformasse em um peso morto. E, então, Niki desejaria um homem mais novo e ele não seria capaz de abrir mão dela. Portanto, por mais doloroso que fosse se afastar agora, seria ainda pior mais adiante, ainda mais se consumassem o ato sexual. Jamais conseguiria afastar aquela lembrança da mente e do coração. Seria incapaz de seguir em frente. Niki o desejava à loucura. Gemia, impotente, com a pressão dos lábios firmes contra os dela, amando a sensação da pele de Blair, os braços fortes que a envolviam, aconchegavam, adoravam. – Blair – gemeu ela com voz rouca. – Não podemos...? A insinuação o fez erguer a cabeça e fitar os olhos cinza úmidos, faiscando no rosto corado de Niki. Os lábios macios se encontravam intumescidos pela ânsia de seus beijos. Os mamilos avermelhados e enrijecidos pelo mesmo desejo que quase o levava à loucura. – Não – respondeu ele, após um minuto. – Não podemos. Você sabe disso. Sabe o motivo. – Blair a afastou o suficiente para se deleitar com uma última visão daqueles seios firmes e macios, antes de lhe abotoar a blusa. Em seguida, dispensou o mesmo tratamento à camisa que estava usando. Niki voltou a se acomodar no banco do passageiro, fitando-o com um desejo impotente. Mas ele já estava envolto em gelo outra vez, tão distante quanto uma estrela. Blair inspirou fundo e se recompôs antes de lhe dirigir o olhar. – Tenho de partir. Os lábios de Niki se encontravam doloridos pela pressão dos beijos, assim como o mamilo que ele sugara, mas era uma dor


agradável. – Não quero que vá – disse ela com sinceridade. – Mas não tentarei fazer com que se sinta culpado. – Você é muito jovem, querida – retrucou Blair, após um minuto. Os olhos negros refletindo toda a sabedoria e a vivência sexual que ele possuía. – Um dia fui como você. Ardendo de curiosidade e desejo. Mas eu os satisfiz com uma horda de mulheres experientes. Para mim, não há mais mistérios a desvendar – acrescentou, com voz serena. – Não estou mais curioso. – Um sorriso frouxo, com um traço de sarcasmo, lhe curvou os lábios. – Não preciso de uma virgem curiosa de 22 anos. Portanto, não crie expectativas sobre o que acabou de acontecer. Nós nos satisfazemos mutuamente. Ao menos em parte. Foi só. Como um rasgo de paixão após um dia longo e exaustivo. Amanhã, sequer lembrarei do que aconteceu. E terei outras mulheres para satisfazer meu desejo. Janet ainda está disponível – concluiu com um sorriso frio. – Ela também me deseja. Era como se ele cravasse uma adaga no peito de Niki, mas ela não deixaria transparecer. Portanto, se limitou a sorrir. – Sim, é verdade – respondeu. – Tenho certeza de que Janet está disposta a começar de onde vocês pararam. E ela é quase da sua idade. – Claro – concordou Blair. Em seguida, ligou o carro e voltou à estrada. Os movimentos controlados, tão calmos que a convenceram de que ele estava dizendo a verdade. Blair não se importava em deixá-la. Não estava subindo pelas paredes com o desejo insatisfeito. E tudo não passara de apetite sexual.


Algo dentro dela se enroscou como uma criatura ferida. Nutrira esperanças de que Blair sentisse algo mais do que desejo carnal, de que a ternura que ele demonstrara significasse afeto verdadeiro, mesmo que apenas um pouco. Mas, afinal, Blair sempre fora terno com ela. Quando a salvara do jogador de futebol, a aninhara ao colo, até que ela parasse de tremer. Na maior parte do tempo, tratava-a como uma criança querida. Aquele desejo repentino não passara de um acaso feliz. Ela o tentara e Blair era homem, portanto reagira à paixão. Mas era só. Ele não acreditava mais no casamento ou no amor. Muito menos com ela. Niki observou a paisagem sem ver, enquanto cruzavam a longa estrada que levava à fazenda dos Ashton. – SEU PAI pensa que você está aborrecida por causa do episódio com o traficante de drogas – disse ele, após um minuto. – Deixe que ele continue acreditando nisso. – Era essa minha intenção. Blair inspirou, exasperado. Ela parecia tão derrotada, rejeitada. Odiava ver a dor estampada naquele belo rosto e saber que fora ele a suscitá-la. – Foi apenas sexo – disse ele em tom frio. – Quando o fizer, aprenderá como funciona. Um homem pode desejar uma mulher sem ter nenhum sentimento por ela. – Pobre Janet. Ela sabe disso? – perguntou Niki, sarcástica. As feições de Blair congelaram. – Janet é assunto meu. Não quero discuti-lo com você. Niki lhe procurou os olhos negros, com expressão triste. – Um dia, fomos amigos.


Um sorriso que rivalizava com as geleiras do Alasca curvou os lábios de Blair. – Sim – concordou, fechando o semblante em seguida. – Até você tentar me seduzir. Mas não terá uma segunda chance. Não a quero – acrescentou, com voz áspera. – Nunca quererei, exceto em um aspecto e você sabe a que estou me referindo. – Claro que sim – concordou ela, tentando disfarçar o sofrimento. – Você ainda acredita em contos de fadas, felizes para sempre e outras bobagens românticas – disparou ele, com os olhos faiscando. – É tudo mentira. Para um homem tudo que importa é o sexo. A cor abandonou o rosto de Niki. – Entendo. – Se você não fosse tão ingênua, saberia isso desde o começo! Tem um corpo lindo e eu o desejo. Qualquer homem desejaria. Mas foi só. Ingênua. Niki se limitou a anuir. Sim, era ingênua. Inexperiente e desinformada em relação aos homens. – Adeus– disse ela, sem lhe sustentar o olhar. A expressão do rosto de Blair não trazia nenhuma emoção. – Adeus. Niki abriu a porta do carro e saiu. Em seguida, fechou-a com cuidado, sem lhe dirigir o olhar. Entrou na casa, sem falar com o pai ou com Edna e se encaminhou direto ao próprio quarto. Quando trancou a porta, sentou-se na cama e deu vazão às lágrimas quentes e silenciosas. Eu o esquecerei, Blair Coleman, prometeu a si mesma. Eu o esquecerei.


NO ANDAR térreo, Blair se encontrava tão agoniado que mal podia suportar. Edna o observou acompanhar a figura de Niki desaparecer e virou o rosto, antes que ela lhe pudesse ver a expressão. O que quer que ele tivesse dito para fazer com que Niki subisse a escada tão arrasada, havia lhe causado dor pior. Nunca vira uma expressão como aquela estampada no rosto de um homem. Exceto uma vez: no dia em que a mãe de Niki falecera. O sr. Ashton também exibira aquele mesmo semblante. Nunca fora capaz de esquecer a dor e perda refletidas na fisionomia do patrão. Blair estava errado. Achava Niki muito jovem. Um sorriso triste curvou os lábios da empregada. Alguém deveria ter lhe contado sobre o sr. Ashton e a esposa. Mas agora era tarde demais. BLAIR DISSE a Todd que Niki ainda estava aborrecida devido ao incidente com o traficante de drogas. Se o amigo acreditou ou não, só Deus soube. Niki chorou até esgotar as lágrimas. Blair fora implacável ao afirmar que não queria um futuro que a incluísse e que seu único interesse por ela era sexual. Tinha de admitir que passara dos limites no México, na tentativa de atraí-lo. Nunca deveria ter comprado aquele maiô sensual, muito menos tentar um homem que não desejava nada com ela, além do prazer físico. Em vários momentos, Niki estivera certa de que Blair sentia algo mais profundo, terno e duradouro por ela. Mas ele não hesitara em lhe arrancar aquela esperança da mente e do coração. Blair desejava uma mulher, apenas isso, e tinha uma horda delas ao seu dispor. Ao que parecia, Janet estava no topo


da lista. Ele não queria se casar outra vez, porque Elise lhe ferira o orgulho. Mas Janet aprendera com a ex-mulher de Blair como lhe minar as defesas. Niki riu de si mesma. Um som superficial e destituído de humor. Sabia, assim como Blair, que com um pouco mais de pressão, ela teria cedido sem resistir, mesmo sem esperanças de um dia se casar com ele. Desejava-o à insanidade, com tanta paixão, que o simples pensamento do modo como reagira a deixava chocada. Blair também percebera, mas não achara suficiente. Teria outras mulheres. Ele mesmo dissera que não havia mais mistérios no sexo, era apenas uma reação física que não conseguia controlar. Sim, ela o tentara. Deliberadamente. Fora um último recurso para fazê-lo ver que era uma mulher madura suficiente, não uma criança, e que a diferença de idade entre ambos não importava. Mas, para Blair, a idade era fundamental. Esse era o âmago da questão. Poderia oferecer tudo que ele quisesse e não seria suficiente. Janet lhe dissera que seguiria as táticas de Elise para conquistá-lo. Deixá-lo louco de desejo para levá-la ao altar. Talvez funcionasse. Mas aquela lhe parecia uma forma vil de tratar um homem. Era desonesto. Brincar com seus sentidos e coração. Sim, Janet poderia se valer do desejo sexual para conseguir que ele lhe colocasse uma aliança no dedo, mas, se Blair não a amasse, além da atração física, seria tão infeliz quanto fora com Elise. Niki fitou a parede com o coração despedaçado no peito. Fora amiga de Blair. Tivera nele um protetor, confidente e


companheiro. Mas sentia como se tivesse atirado tudo pela janela por alguns minutos de paixão no México e no carro dele. Acabara por perder o respeito de Blair. Agora, ele se manteria afastado, na esperança de fazê-la esquecer aquela paixão. Ao menos, fora o que lhe dissera. O que Blair não sabia era que ela nunca o esqueceria. Seu amor não era fruto da necessidade de satisfazer um desejo repentino. Queria ter filhos e um futuro ao lado dele. Algo que Blair não poderia lhe proporcionar. Ele a desejava, mas não a amava. Que vida vazia e fria teriam se tivessem avançado o sinal e Blair se sentisse obrigado a se casar com ela, tendo de lidar com um amor indesejado e a possibilidade de um filho que não queria. Ao menos, ambos se pouparam de um destino como aquele. Niki limpou as lágrimas, retirou o terninho do trabalho, vestiu uma calça jeans e uma camiseta, mas não se sentia capaz de descer para jantar ao lado de Blair. Encará-lo depois do que acontecera lhe exigiria mais força do que possuía. Minutos mais tarde, o pai bateu na porta do quarto. – Niki, não vai descer para jantar? – perguntou em tom gentil. – Desculpe, pai – respondeu ela, esforçando-se para esconder a rouquidão da voz. – Estou com uma forte dor de cabeça. Tive uma espécie de desentendimento com Dan, hoje, no trabalho. – Que tipo de desentendimento? – Todd quis saber. Niki entreabriu a porta. – Ele ficou repetindo o mesmo discurso sobre ervas medicinais e dieta – respondeu ela com um suspiro suave. – Tem insistido comigo e com o sr. Jacobs sobre esse assunto. O pai franziu a testa.


– O que exatamente ele acha que esse tratamento alternativo fará por você? Niki comprimiu os lábios e forçou um sorriso. – Acha que curará asma e artrite reumatoide. Pode-se dizer que ele foi o causador de uma aliança entre mim e o sr. Jacobs. – Acho que esse rapaz precisa ser chamado à razão. Eu poderia pedir a Blair... – Não! – Niki engoliu em seco. – Não. Por favor. Isso apenas pioraria a situação. Acho que Dan percebeu que passou dos limites. Ele se desculpou. Seu único erro é se preocupar demais com as pessoas. Só deseja ajudar e não percebe que está sendo inconveniente. O pai inspirou fundo e brincou com as moedas que tinha no bolso, fazendo-as tilintar. – Está bem. Você é quem sabe. – Ele inclinou a cabeça para o lado. – Quer que Edna lhe traga o jantar no quarto? – Não, obrigada. Os últimos dias foram difíceis e exaustivos – retrucou ela, forçando uma risada. – Minha cabeça está explodindo. Acho que vou dormir mais cedo. Diga a Blair que faça uma boa viagem e lhe agradeça pelas miniférias. – E que férias! Você sendo insultada por um traficante de drogas nas imediações do hotel – retrucou Todd. – A propósito, o caso foi resolvido. Telefonamos para as autoridades locais. Niki anuiu. – Janet foi muito gentil comigo – disse ela, sorrindo. – Ela é uma boa pessoa. Blair poderia arranjar coisa pior. Todd nada respondeu. Estava recordando a reação quase homicida de Blair quando ficara sabendo do incidente de Niki com o criminoso na praia. E a visão do amigo, colando os lábios


ao maiô que a filha deixara para trás. Teve vontade de contar a Niki, mas não seria certo trair Blair. – Acho que tem razão – disse ele, após um minuto. – Boa noite, pai. – Boa noite, querida. Durma bem. Niki esticou a cabeça para fora da porta e lhe beijou o rosto. – Você é o melhor pai do mundo. – Gostaria que tivesse tido tempo para visitar as ruínas de Chichen Itza. Sei que estava ansiosa para conhecê-las – disse Todd. – Talvez em uma outra oportunidade. O pai anuiu. – Combinado. Da próxima vez, vamos você e eu. E passaremos um dia inteiro nas ruínas. Que tal? Um sorriso curvou os lábios de Niki. – Parece maravilhoso. Todd piscou um olho. – Vejo-a pela manhã, querida. Niki anuiu e, com um sorriso, fechou a porta. BLAIR ERGUEU um olhar expectante quando o amigo entrou na sala de jantar, mas não se surpreendeu ao vê-lo sozinho. – Dor de cabeça – disse Todd, sentando-se. – Ela teve alguns problemas no trabalho com... – Ele se calou, antes de deixar escapar o que não devia. – Um equipamento novo que ela não conhecia, é só – acrescentou. – Entendo. Edna estava servindo a comida e os dois se engajaram em uma conversa sobre novos locais de exploração de petróleo.


CAPÍTULO 8

NIKI

vestiu para trabalhar e desceu para tomar o café da manhã, esperando que Blair já tivesse partido há muito tempo. Mas o encontrou sentado à mesa, tomando uma xícara de café puro. O pai não se encontrava presente. Estacando na soleira da porta, ela se preparou para não agir como uma idiota. – Bom dia – disse em tom formal. Blair ergueu o olhar. Linhas profundas lhe vincavam o rosto. Os olhos negros estavam avermelhados, como se ele tivesse passado a noite em claro. – Meu piloto se atrasou – disse ele. – Entendo. Bem, faça uma boa viagem. – Vai sair sem tomar café? – perguntou ele, conciso. – Nunca tomo café da manhã – mentiu Niki. – Bem, não mais. Prefiro tomar no trabalho. Blair não lhe devolveu resposta e se limitou a tomar outro gole do café. Niki enfiou a cabeça pela porta da cozinha. – Edna, vejo-a logo mais, à noite. SE


– Tome cuidado – disse a empregada. – A atmosfera está repleta de pólen. – Estamos na primavera – retrucou ela com um sorriso frouxo. Em seguida, se encaminhou à porta da frente, estacando apenas para pegar a bolsa e o suéter leve sobre um cabideiro. Blair a estava seguindo. Podia sentir o calor do corpo forte às suas costas. Não seria capaz de encará-lo. Portanto, abriu a porta e saiu. Blair fez o mesmo e fechou a porta. Niki estacou e girou, resignada e arrasada, incapaz de forçar o olhar a subir além da gravata estampada que ele usava. – Quer me dizer mais alguma coisa? As mãos longas enfiadas nos bolsos da calça estavam cerradas em punhos. – Sim. Quero deixar tudo bem claro entre nós. O que você está sentindo é mera empolgação. Isso é lisonjeiro, mas não é real. – Os dedos delicados se enroscaram contra o couro macio da bolsa. Niki sabia que o rosto estava rubro e não conseguia encontrar palavras para argumentar. Os músculos da mandíbula de Blair se contraíram. – Pelo amor de Deus! Não crie uma história romântica com base em alguns beijos quentes! Foi apenas desejo, se quiser rotular o que aconteceu. Desejo carnal! É desrespeitoso tentar transformar isso em um caso de amor. – Desrespeitoso. Niki sentiu o sangue descer para os pés. Desrespeitoso. Os mais doces momentos de sua vida. Desrespeitoso. – Maldita ingênua! – rosnou ele. – Maldita empolgação juvenil. E maldita seja você por tentar me fazer de otário, com trajes de banho insinuantes e as táticas de Elise! O choque a fez erguer o olhar para encará-lo.


– As táticas de...? – Não percebeu? – perguntou ele, sarcástico. – Minha exmulher me deixava louco de desejo apenas para recuar na hora H. Deixou-me louco, sofrendo como um adolescente. Por fim, casei-me com ela apenas para satisfazer aquele desejo. – Niki não sabia o que dizer. Os olhos negros se estreitaram. – Janet me contou que você planejava usar as mesmas táticas comigo – acrescentou ele em tom frio. – Para me forçar a casar. Bela tentativa, mas não funcionou. Estou imune. – Boa jogada, Janet, Niki pensou furiosa. Na verdade, era ela quem tencionava usar aquela tática, mas resolvera culpá-la. Talvez por temer a concorrência no jogo. Empinando o queixo, Niki o encarou, decidida a não deixar transparecer que seu coração sangrava. – Eu me encontrarei com Janet em Nova York, no final da semana – informou ele. – Deveria ter tido mais juízo quando jovem. Ela é mil vezes melhor do que Elise. Ao menos Janet saíra vencedora. A traidora que atacava pelas costas. – Ora, ao menos se alguém quiser atacá-lo, Janet pode salvá-lo com golpes de Tae Kwon Do – disse ela com um sorriso vago. O rosto de Blair se tornou pétreo. Niki girou enquanto ele absorvia aquele último golpe e se dirigiu ao carro. As lágrimas tornavam o caminho que levava à saída um pouco embaçado, mas ainda assim ela girou na direção de Blair com um sorriso e acenou. DAN BRADY se mostrou preocupado com Niki durante o intervalo para o café. – Não está parecendo você mesma hoje – disse ele.


– Tive uma noite bem desagradável – retrucou Niki. – Além de uma péssima viagem a Cancun. Estou feliz por estar de volta. Os olhos de Dan se estreitaram. – Coleman foi com você e seu pai, certo? – Sim. Ele encontrou uma antiga namorada no hotel, durante as negociações dos acordos comerciais. Ela é uma pessoa muito agradável – mentiu Niki de maneira descarada. – Ao que parece, os dois foram quase noivos, alguns anos atrás. Ela ainda é louca por Coleman. – Entendo. Como Dan ainda se mostrava desconfiado, ela soltou uma risada. – Ora, não está pensando que tenho uma paixão secreta pelo sr. Coleman, certo? – provocou Niki. – Deus! O homem tem quase 40 anos! O último traço de preocupação abandonou o belo rosto de Dan. – Não, claro. Não foi o que pensei! Agora, ambos estavam mentindo, mas Niki se limitou a sorrir e mudar de assunto. BLAIR ESTAVA terminando a segunda dose de uísque durante o voo, no jato corporativo. Não trocara uma só palavra com a tripulação ou a comissária de bordo. Recusara-se a comer e se concentrara no computador para afastar Niki da mente. Não tivera a intenção de magoá-la, mas fora necessário. Não podia permitir que ela alimentasse esperanças de um relacionamento entre ambos e abrisse mão de encontrar um homem jovem, saudável, que pudesse lhe proporcionar um lar e filhos.


Blair se considerava um homem talhado para relacionamentos casuais. Após Elise, estava certo de que não seria capaz de suportar a ideia de se casar outra vez. Por certo, não com Niki. Estava convencido de que ela acabaria dando chance àquele rapaz de quem Jacobs lhe falara. Dan Brady. O natureba obsessivo. Blair cerrou os dentes. Bem, o rapaz e Niki pareciam se dar muito bem e Dan era inteligente e ambicioso. Daria um bom partido. Blair fixou o olhar na tela do computador sem ver. Diante dos olhos, descortinavam-se os últimos e dolorosos momentos com Niki, quando lhe mentira sobre seus sentimentos. Fora rude, ao acusá-la de utilizar as táticas de Elise e de sentir apenas uma empolgação juvenil. Empolgação. Por certo, não passava disso, claro. Niki era demasiado jovem para sentir algo permanente por um homem. Ele a iniciara na paixão e lhe suscitara a curiosidade. Um rubor se espalhou pelo rosto de Blair ao se lembrar da sensação de tê-la nos braços, sentir aquela boca macia, tão ávida sob a dele. O desejo que sentira por Niki fora tão intenso que seria capaz de tudo para tê-la. Janet o prevenira de que ela poderia tentar aquela tática. Contara-lhe quando jantara com ele e Todd em Cancun, que aquelas haviam sido as palavras de Niki. Segundo Janet, ela afirmou que o desejava e que seria fácil consegui-lo, já que Blair era um homem mais velho e se sentia atraído por ela. Seria divertido ter um homem vivido e experiente a seus pés. Ele se encontrava vulnerável e Niki queria testar com que rapidez seria capaz de fazê-lo se apaixonar.


Estranho, aquele comportamento não era característico de Niki, uma jovem tímida e reservada com a maioria das pessoas. Até mesmo com ele, no início. Porém, quanto mais pensava nas palavras de Janet, mais acreditava nelas. Niki comprara aquele maiô de propósito para tentá-lo. Chegara até mesmo a admitir que o fizera. Detestava a forma como agia quando ela estava por perto. Odiava se sentir vulnerável. Niki era volúvel, como todas as jovens. Estava apenas testando seus poderes femininos, e ele se encontrava à mão. Talvez, não tivesse imaginado que Janet lhe contaria tudo. Lamentava que a situação tivesse chegado a esse ponto com Niki. Durante quase dois anos, ela fora sua confidente e amiga. Confortara-o, cuidara dele quando estivera doente, o fizera rir. Em muitos aspectos, Niki o ajudara a superar o inferno em que Elise transformara sua vida. E o que ele lhe dera em troca? Fizera com que ela se sentisse envergonhada por corresponder ao seu ardor, por desejá-lo, por gostar dele. Esvaziando o conteúdo do copo, Blair gemeu em seu íntimo. Niki atirara aquele lindo maiô no lixo porque ele a fizera se envergonhar de tê-lo usado para tentá-lo. Era inexperiente, ingênua, terna, e ele lhe dilacerara as emoções, o orgulho. Desejava-a mais do que a qualquer outra mulher que conhecera na vida. Queria cuidar de Niki, mimá-la, ter filhos com ela, confortá-la... Blair riu de si mesmo. Janet dissera que Niki queria seduzi-lo para que se casasse com ela. Mas aquela não era a Niki que conhecia. A filha do seu melhor amigo era demasiado honesta. Nunca duvidara disso. De certa forma, se utilizara das insinuações de Janet para justificar um distanciamento entre


ambos, antes que ela se aproximasse ainda mais e o fizesse priorizar as próprias necessidades e esquecer as de Niki. Estava convencido de que ela precisava de um rapaz gentil e terno que a amasse e a fizesse feliz. Blair se certificaria de lhe dar aquela chance, sumindo de cena. Niki estivera se escondendo do mundo e dos homens, enquanto se apegava cada vez mais a ele, e isso a cegara para as diferenças entre ambos. O dois não tinham chance de serem felizes juntos. Esperava ter lhe aberto os olhos para essa realidade. Blair pensou no natureba obsessivo com quem ela costumava frequentar os restaurantes e experimentou uma pontada de dor no coração. Brady era um rapaz trabalhador, segundo Jacobs lhe dissera, embora tivesse se mostrado curioso com as perguntas que ele lhe fizera sobre o funcionário. Blair mentira, dizendo que era o pai de Niki quem desejava aquelas informações, porque estava preocupado com alguns conselhos que Dan dera a filha. Jacobs confessara que Brady se mostrava insistente com ele e Niki sobre as propriedades curativas das ervas medicinais, dos exercícios físicos e de uma dieta equilibrada. Se ao menos a vida fosse tão simples, Blair pensou, furioso. Esperava apenas que Niki não entrasse em um relacionamento apenas para fazê-lo ver que não estava sentindo sua falta. Mas como poderia sentir saudades, depois de tudo que ele lhe dissera? Desejava retirar algumas daquelas palavras rudes, principalmente sobre o relacionamento de ambos se limitar ao desejo sexual e ser desrespeitoso. Fora fácil perceber o sofrimento no rosto delicado de Niki. Mas afirmara que se encontraria com Janet, portanto era melhor se relacionar com a ex-namorada por algum tempo, apenas para fazê-la acreditar que ele estava com outra mulher.


Janet. Blair riu em seu íntimo. Ela era uma mulher autossuficiente, ambiciosa, que amava a vida de luxo e seria capaz de tudo para se tornar milionária. Fora assim, anos atrás. Ele percebera mesmo antes de a mãe cair em si e se dar conta de que Janet não era a nora que ela pedira a Deus. Mas ele era capaz de lidar com Janet. Não a amava, mas a exnamorada lhe proporcionaria um bom disfarce, enquanto ele tentava superar o fato de ter despedaçado o coração de Niki. Pretendia dar alguns diamantes a Janet para compensá-la quando a dispensasse. O pensamento lhe trouxe a lembrança do entusiasmo de Niki com um bracelete de couro cru ornado com o medalhão de chifre de veado. Blair ergueu o copo para que a comissária lhe servisse outro drinque. DUAS SEMANAS depois, Blair estava quase enlouquecendo enquanto tentava ajustar a vida à ausência de Niki. No passado, costumava lhe telefonar com frequência, apenas para conversar, além de lhe enviar mensagens de texto. O contato entre os dois era constante. Agora, era inexistente. E aquela falta de comunicação era mais dolorosa do que ele imaginara. Tudo que lhe restava era a lembrança de Niki em seus braços, pressionada a ele, desejandoo. Conhecia-a ainda melhor do que antes, experimentara a onda de felicidade que o invadira ao sentir aqueles lábios macios se abrindo sob os seus. O corpo viçoso e macio se arqueando para que ele o tocasse. As boas intenções o estavam matando. Um gemido alto lhe escapou da garganta ao recordar o doce interlúdio que tiveram no carro alugado. Niki em seus braços, ávida de desejo. E,


depois, ele a afastara e lhe dissera que se tratava apenas de atração física. Saíra com Janet uma ou duas vezes, mas ela percebera que Blair a estava usando apenas como fachada. Na verdade, ele dera um jeito de serem clicados por um fotógrafo em uma pose em que ele envolvia os ombros da ex-namorada com um dos braços. Janet ainda alimentava esperanças de atrair seu interesse. Sentia uma pontada de arrependimento pelo que lhe dissera sobre Niki e estava certa de que ele nutria sentimentos mais profundos do que queria admitir pela filha do amigo. Mas, ainda assim, continuava a cercá-lo, telefonando-lhe quando ele não lhe dava notícias, deixando mensagens de texto e o perseguindo de todas as formas. Blair respondia, mas de maneira educada. Não sentia nada por ela. Nunca a amara. Janet sabia que nunca passara de alguém para acompanhá-lo a restaurantes de vez em quando, um ouvido para escutá-lo e nada mais. Nunca sequer dormira com ela. Talvez, pensou ele, fosse por isso que Janet não desistia. Estava tentando resgatar o passado. Afinal, era uma produtora de filmes que lutava para sobreviver e ele um magnata. Blair lhe dera um anel na última vez em que se encontraram. Uma quinquilharia para fazê-la feliz. Mas, enquanto Janet se deleitava com a joia mais cara que ele encontrara na joalheria, Blair se recordava mais uma vez da euforia de Niki com o bracelete de couro cru ornado com um medalhão de chifre de veado. A comparação lhe foi dolorosa. O DIA do aniversário de Niki chegou, e ignorá-lo não era uma opção, apesar de toda a dor que ele lhe causara. Blair lhe enviou um buquê de rosas de todas a cores, mescladas com orquídeas.


No cartão que o acompanhava, limitou-se a congratulá-la e assinar. Dias depois, telefonou para Edna para se certificar de que o buquê de rosas havia chegado, porque não recebera nem ao menos uma mensagem de texto de agradecimento. Não que esperasse um retorno. O tabloide que publicara a nota sobre as atenções de Blair para com a bela produtora de filmes em ascensão chegara às bancas no mesmo dia em que ele lhe enviara as flores. – Olá, sr. Coleman – disse Edna em um tom cordial. – O sr. Ashton não está no momento... – Ela doou as flores para a igreja, rasgou o cartão em mil pedaços e o atirou no lixo, certo? – perguntou ele com um suspiro resignado. Edna se descobriu tão chocada que não encontrou palavras para responder. Pouco antes de o buquê chegar, Niki atirara o tabloide sobre a bancada da cozinha e apontara para a foto, dizendo que Blair queria lhe provar que estava fora de alcance para sempre. Ele deixou escapar uma risada superficial e amarga diante do silêncio da empregada. – Foi o que pensei. – Niki disse que você posou para aquela foto na revista de propósito – disparou Edna. Blair hesitou por instantes. – Acho que Niki e eu nos conhecemos muito bem, certo? – Acho que sim – concordou Edna. – Espero que ela tenha tido um aniversário feliz de qualquer forma. – O pai a levou ao cinema – informou a empregada. – Blair se sentou aliviado. Ao menos, Niki não saíra com outro homem. O que não deveria deixá-lo tão presunçoso. – E o sr. Brady, aquele


que trabalha com ela, a levou a uma boate em Billings para celebrar – acrescentou Edna após alguns segundos. Blair sentiu cada palavra como uma facada no peito. – Ele me disse que Niki precisa ser mais independente e que eu e o sr. Ashton a paparicamos demais – prosseguiu em tom desgostoso. – Aquele rapaz é uma figura! Blair tentou controlar a raiva. E quase conseguiu. – A vida é dela, Edna. – E que vida Niki terá ao lado dele! – retrucou a empregada. – Bem, isso não é da minha conta. – Nem da minha. Diga a Todd que liguei. – Sim, senhor. Blair desligou. Não tinha o direito de interferir na vida de Niki, mas não conseguia deixar de pensar que ela estava cometendo um erro. Aquele rapaz só lhe traria problemas. Mas logo recordou que fora ele a empurrá-la para os braços de Brady e pousou o fone. Em seguida, entrou em um avião para Frankfurt, embora não se lembrasse como transcorreu a viagem. Nunca se sentira tão infeliz em toda a sua vida. NIKI ACEITARA o convite para fazer a trilha com Dan Brady, embora com certas reservas. – Não vamos apostar corrida – garantiu Dan com uma risada enquanto ela se certificava de que os cadarços estavam amarrados, antes de iniciar a caminhada. – E todos estamos com nossos telefones celulares. Não a abandonaremos para morrer à margem da estrada. – Niki se limitou a fazer uma careta. – Muito bem, pessoal, certifiquem-se de que estão levando água suficiente e não se separem do grupo. Fiquem atentos às cobras.


Niki não estava preocupada com cobras, mas com algo que acabara de descobrir. – Está muito calada – comentou Dan. Niki forçou um sorriso. – Não dormi bem à noite – justificou ela. – Oh, deveria tentar um chá de ervas – sugeriu Dan. – Camomila com algumas gotas de mel, antes de dormir. É tiro e queda! Não funcionaria se fosse no pulmão dele que tivessem descoberto uma imagem suspeita no raio-X, pensou ela, amarga. Ainda mais com sua história familiar. O câncer da mãe começara dessa mesma forma. Uma imagem suspeita no raio-X de pulmão. Dois anos depois, ofegante e cianótica, deitada sobre o sofá, com apenas vinte por cento da capacidade pulmonar e tentando colocar oxigênio suficiente para dentro dos pulmões, o coração da mãe por fim parou de bater. Niki estava presente. Assistira a toda a cena. O pai tentando se matar pouco depois. Fora Edna e um dos antigos vaqueiros que o encontraram a tempo de impedi-lo. Todd vira a esposa amada ser submetida a uma cirurgia, seguida de tratamentos agressivos, apenas para que o nódulo reaparecesse quatro meses depois e começasse tudo outra vez. Ela fora operada duas vezes. E por duas vezes, os médicos afirmaram que haviam extirpado todo o tumor e que ela ficaria bem. Na terceira vez, o câncer havia se espalhado para ambos os pulmões e não havia mais esperança. Niki sabia como era ter câncer de pulmão. Apesar de o dr. Fred lhe garantir que não parecia nada de grave e que a tomografia certamente descartaria a possibilidade de câncer, Niki não se convencera. Sabia o que aconteceria se estivesse com aquela doença.


Durante toda a sua vida, sonhara em ter filhos. Costumava frequentar lojas de artigos infantis. Amava os feriados porque os funcionários do rancho traziam os filhos para celebrar na casa da fazenda. Agora, não haveria filho algum. Um dia, esperara que Blair ficasse com ela, após se divorciar. Sabia que ele também desejava ter filhos. Nutrira esperanças de que talvez ele quisesse ter um com ela. Mas esse sonho havia se apagado. Assim como o futuro. O seu futuro. Nunca seguraria o próprio filho nos braços. Nunca teria um marido, um lar e uma vida além daquela que vivia no presente. Portanto, não importava o que acontecesse com ela. A trilha atravessava um dos maiores pomares do vale, e as árvores, que floresciam tardiamente, espalhavam pólen aos baldes. Sabia que estava tomando uma decisão covarde, mas nada mais lhe importava. Perdera Blair e, com ele, o significado da vida. Queria apenas pôr um fim à própria existência. Decidira deixar o spray inalador em casa. Experimentou um momento de pânico quando lembrou como se sentia durante as crises. Conseguiria apenas inspirar um mínimo de ar e não seria capaz de expirar. Era como sufocar. Mas ela esperava que fosse rápido. Encontravam-se longe o suficiente e o tempo agiria em seu favor. Era pouco provável que a equipe de resgate chegasse ali, antes de ela dar o último suspiro. Sofria de asma severa. Uma crise sem a ajuda do spray inalador poderia matá-la em poucos minutos. Mas nem aquela perspectiva terrível importava. Niki seguia adiante como uma autômata com a pochete em torno da cintura e os pés calçados com botas caras sob a calça jeans. Estava vestindo uma camiseta, sem suéter, e a manhã estava fria, mas


também não se importava. Ouviu a voz de Blair lhe dizendo que o que havia entre eles era apenas desejo sexual, que não a queria e estava reatando o relacionamento com Janet. E estava sendo sincero, porque aquela foto no tabloide falava por si. Janet se encontrava pressionada ao peito de Blair, fitando-o com olhar de adoração. E ele lhe envolvia os ombros com um braço, sorrindolhe do mesmo modo como o fizera no hotel em Cancun, quando Niki se deparara com os dois. Ao menos Janet tinha um futuro a almejar. Talvez, conseguisse fazê-lo feliz. – Niki, desça à Terra! Onde você está? – provocou Dan. Afastando os pensamentos da mente, ela sorriu. – Estou aqui. – Ótimo. Vamos em frente! A PRESENÇA de Janet em Frankfurt irritou Blair. Ainda mais quando ficou sabendo que ela reservara um quarto no hotel ao lado do seu. – Estou fazendo um filme aqui, querido. Não foi ótimo estarmos na mesma cidade ao mesmo tempo? – ronronou ela. – Tenho compromissos de trabalho durante todo o dia e parte da noite – retrucou Blair em tom calmo. – Não me sobrará tempo para o lazer. Desculpe. – Oh, tudo bem. Talvez possamos tomar o café da manhã juntos – sugeriu Janet com os olhos faiscando, esperançosos. – Talvez. Blair se afastou, com o coração apertado. Deveria ser Niki a estar ali, com ele, naquele hotel, no mesmo quarto, em sua cama, envolta em seus braços.


O pensamento quase o fez gemer em voz alta. A saudade de Niki era maior do que jamais imaginara. Agora, Janet o perseguia da mesma forma que fizera Elise, tentando pegá-lo em uma armadilha. Mas Janet não podia saber que de nada adiantaria. Não sentia nada por ela. Aliás, por mulher alguma, exceto Niki. Ainda mais depois de sentir seu sabor. O mesmo que lhe assombrava os sonhos, o enlouquecia de desejo e o torturava na calada da noite. Fora ousado o suficiente para lhe enviar uma mensagem, perguntando como ela estava passando, mas não obtivera resposta. Bem, não exatamente. Recebera um emoji que tinha a expressão visual de quem perguntava: “que importa?” Aquilo o deixara abalado a ponto de ligar para Todd com a desculpa de falar de negócios. – Como está a venda daqueles equipamentos para o México? – perguntou ele, enquanto caminhava pela calçada ao sair de mais uma reunião com um distribuidor europeu. – Arrastada. – Todd soltou uma risada abafada. – Como todas as negociações que fazemos ao sul da fronteira. Estão muito mais cautelosos do que costumavam ser. – O México tem tido seus problemas com os interesses externos e isso data de um longo tempo. – Sim. – O amigo hesitou. – E como vão as coisas com você e Janet? Soube que ela está fazendo um filme em Frankfurt. Seguiu-se um silêncio prolongado. – Ela está bem, acho eu. Tenho estado muito ocupado e não tive tempo de me encontrar com Janet. – Blair hesitou. – E como está Niki? – Taciturna. Blair franziu a testa.


– Não é uma característica dela. – Eu sei. – A voz de Todd refletia um traço de preocupação. – Ela teve uma consulta com o médico. Niki não me disse se havia algo errado e não consegui convencer o dr. Fred a me dizer do que se tratava. Talvez algum problema feminino que ela não queira discutir com o pai – acrescentou com uma risada abafada. Mas era fácil perceber a preocupação de Todd, apesar da tentativa de humor. – Estamos na primavera – Blair lembrou. – Ela sempre tem problemas respiratórios nesta estação. – Eu sei. Assim como a mãe – acrescentou Todd, sem pensar. – Nunca me contou sobre Martha – comentou Blair. – É um assunto muito doloroso – confidenciou o amigo. – Fui ao fundo do poço quando a perdi. Jamais esperei que isso acontecesse. Martha era muito mais jovem que eu. Sempre pensei que eu a deixaria viúva. – Mais jovem? Todd inspirou fundo. – Dezoito anos mais jovem. Passei por todos aqueles temores referentes à diferença de idade, o que as pessoas pensariam, sobre como seria se eu acabasse em um asilo, enquanto Martha ainda era jovem... Esse tipo de preocupação. O coração de Blair lhe martelava as costelas. – Mas, ainda assim, casou-se com ela. – Contra todos os meus melindres. Martha foi um dos dois maiores acertos que fiz nesta minha maldita vida. Niki foi o outro. Fomos casados por apenas oito anos, mas foram os melhores e mais belos que vivi. Daria tudo, qualquer coisa, para tê-la de volta! – O que aconteceu?


Todd engoliu em seco. – Câncer de pulmão. Martha era frágil, como Niki. Alérgica a pólen e também sofria de asma. Passei muitas noites nas salas de emergência de hospitais quando as crises se intensificavam. Ela detestava ficar doente – lembrou o amigo com uma risada suave. – Sentia-se como um fardo. Eu lhe dizia que ela era o mais doce fardo que um homem poderia carregar e lhe propunha considerar aquelas noites no hospital como um encontro romântico. Poderíamos passear pelas salas de emergência, conhecer novos equipamentos hospitalares e pessoas. Isso sempre a fazia rir. – Blair sentiu a dor do amigo na medula dos ossos. Niki também era frágil. Pensou na possibilidade de perdêla e sentiu todos os músculos do corpo se contraírem pela tensão. Podia imaginar o que Todd passara. – Enlouqueci quando ela faleceu – recordou ele. – Embebedei-me por duas semanas e tentei me matar de todas as formas possíveis. Mas Edna havia começado a trabalhar para mim e se incumbia de me lembrar de que a Niki restara apenas um dos pais e eu tinha de pensar nela em vez de mim. – Não se casou outra vez. – Não – concordou Todd com voz serena. – E nunca me casarei outra vez. Tive o melhor casamento que um homem pode sonhar, vivi com a mais doce e terna mulher da face da terra por oito felizes anos. Por que diabos trocar essas lembranças preciosas por alguma mulher que só esteja interessada em casacos de pele e carros de luxo? Blair deixou escapar um longo suspiro. – Sinto muito. Eu não o conhecia nessa época. – Foi há muito tempo. Blair refletia em silêncio.


– Niki está em casa? – perguntou, porque era uma manhã de sábado. Talvez pudessem conversar e fazer as pazes. – Não – soou a resposta preocupada. – Foi fazer uma trilha. – Trilha? – perguntou Blair com a testa franzida. – Não é perigoso, com tanto pólen na atmosfera? – Nosso amigo Brady acha que não devemos paparicá-la demais – disse Todd em tom desgostoso. – Ela levou bastante água. – E o spray inalador? – Tenho certeza de que levou – retrucou o amigo. – Ela sabe que não pode sair sem o spray inalador nesta época do ano. Blair hesitou. – Talvez vá visitá-lo por alguns dias, na próxima semana, se não se importar. – Por mim, pode vir – respondeu Todd. – Mas acho que deveria perguntar a Niki, também. Ela não tem falado bem de você ultimamente. As feições de Blair se contraíram em uma expressão desgostosa. – Cometi alguns erros com ela. Graves. – É melhor os corrigir, antes que ela acabe se casando com o natureba californiano– retrucou o amigo. – Niki passa muito tempo ao lado dele e sofre sua influência. Asma não é um sintoma psicológico. Um homem como ele pode acabar a forçando a se extenuar. Uma vez, ela teve uma crise que quase a matou por não estar com o spray inalador por perto. E se encontrava em casa. Tex, Deus o abençoe, agiu com extrema rapidez ou a teríamos perdido. Ele encontrou o spray inalador e chamou imediatamente uma ambulância.


– Ele gosta muito de Niki – disse Blair, sem conseguir disfarçar um traço de desagrado na voz. – Tex é louco por ela – corrigiu o amigo. – Mas Niki o considera apenas amigo. Como todos os outros homens. Um alívio o invadiu, mas o californiano ainda o preocupava. E muito. – Niki não deveria andar com um obcecado insensível que a leva a lugares que não deveria frequentar. Fazer uma trilha! Pelo amor de Deus! – disparou ele. – Bem, não posso impedi-la – retrucou Todd. – E acredite em mim, eu tentei. Dan Brady a convenceu de que ela é apenas mimada, que não é tão frágil quanto pensa e que os exercícios físicos e o ar fresco a transformarão em uma amazona. – Impossível – rosnou Blair em tom furioso. – Nós sabemos disso. Niki, não. Ela tem se mostrado diferente desde que voltamos do México – acrescentou Todd com voz serena. – Minha filha amadureceu diante dos meus olhos. Sinto saudades da Niki que brilhava como uma joia, sempre sorrindo, mesmo nos momentos difíceis. – Blair fechou os olhos e estremeceu, porque sabia o que a deixara assim. Tinha plena ciência de quem a fizera amadurecer de um dia para outro. – Acho que será bom você vir para a fazenda por alguns dias – acrescentou Todd. – Mas... Uh... Não traga Janet, está bem? – Gostaria de deixá-la em Frankfurt para sempre – respondeu Blair, conciso. – Agora sei como os animais se sentem na temporada de caça. – Janet é apaixonada por você. – Ela é apaixonada por meu dinheiro – disparou Blair. – Esse é o único objetivo dela.


– Eu não diria isso – discordou Todd. – Você é um bom homem. Ela teria sorte se conseguisse fisgá-lo. Blair inspirou fundo. – Eu a conheci anos atrás. Éramos apenas amigos. Mas ela queria compromisso, e eu, não. Ao menos, até Elise me induzir a me casar com ela em uma capela em Las Vegas. – Que terminou mal. – Sim e agora Janet quer começar de onde Elise parou. – Blair soltou uma risada destituída de humor. – Mas não está funcionando. Não suporto sequer a presença dela. Mandei meu advogado preveni-la de que, se ela aparecer em mais um lugar onde estou, acionarei a polícia para prendê-la por assédio sexual. – Isso pesaria no bolso de Janet. – É o único ponto vulnerável daquela mulher – concordou Blair com um suspiro, olhando ao redor do quarto solitário de hotel, na Alemanha. Distraído, pensou que passara quase toda a sua vida em quartos como aquele. Possuía uma casa para onde quase nunca ia. Detestava-a por lhe parecer vazia. Assim como ele e a vida que levava.– Talvez eu esteja precisando de uma folga dos negócios – disse por fim. – Acho que isso lhe faria bem. – Não deixe que ela se case com o natureba obsessivo – pediu Blair em tom sereno. – Não posso impedi-la de fazer o que quiser – soou a resposta irônica. – Sabe disso. – Todd fez uma pausa. – Se quer impedila, venha para cá e o faça você mesmo. Blair comprimiu os lábios. – Talvez tenha razão. Claro que isso suscitaria comentários maldosos das pessoas. – Tudo suscita comentários maldosos das pessoas. E daí?


Blair sorriu. – Eu lhe telefonarei um dia antes de chegar. – Combinado. E se cuide aí. – Sempre me cuido. Até lá. – Até lá. Se tinha dúvidas da opinião do melhor amigo sobre seu relacionamento com a filha, aquela era a resposta suficiente. Era como se um peso lhe tivesse sido arrancado dos ombros. Talvez estivesse enganado. Talvez desse certo entre ele e Niki. Recordou o desejo avassalador com que ela respondia ao seu toque, o brilho daqueles olhos prateados, a reação que não conseguia esconder quando ele a envolvia nos braços. Blair trincou os dentes. A ordem do dia era voltar para casa e ver Niki. – VOCÊ ESTÁ ficando para trás – resmungou Dan, retornando para saber porque Niki estava demorando. – Não pode se desgarrar do grupo. – Estou... tentando – ofegou ela. Era difícil até mesmo respirar. Aquele plano impulsivo parecia mais ridículo a cada esforço para colocar algum oxigênio dentro dos pulmões. Mas o problema era que não conseguia expeli-lo. O pouco ar que entrava, não saía. Niki se sentia tonta. Fitou Dan com olhos que mal o focavam através do desconforto. – Eu... não... consigo... respirar. – Tem de exercitar seus pulmões – retrucou ele. – Vamos, respire! Se ela tivesse forças, o derrubaria de um só golpe, mas não conseguiu fôlego sequer para responder.


Nancy, uma mulher mais velha que se encontrava no grupo, voltou para ver o que estava acontecendo, com a testa franzida. – Você trouxe seu spray inalador? – perguntou ela. Niki conseguiu negar com um gesto débil de cabeça. – Eu... esqueci... A mulher lhe ergueu a mão e lhe observou os dedos e os lábios. – Ligue para o 911 – disse ela referindo-se a Dan. – Agora! – Mas estamos quase a meio caminho da trilha – argumentou Dan, sem entender o que estava se passando. – Ela vai conseguir. Precisa apenas descansar por alguns minutos e se concentrar em respirar. – Seu obtuso idiota! – disparou a mulher. – Não vê que ela está cianótica? – Ela ergueu os dedos azulados de Niki. – Entrará em choque anafilático se não chamar a emergência agora! – Oh, isso é ridículo – argumentou Dan. Niki começou a arquejar de forma mais intensa e desabou no chão. – Sou enfermeira. Sei reconhecer uma emergência médica! – disse ela, retirando o próprio celular do bolso e fazendo a ligação.


CAPÍTULO 9

NIKI FOI

resgatada da trilha de helicóptero. As lembranças da viagem estavam muito confusas. Deram-lhe uma injeção e oxigênio. Nancy, a enfermeira que estava na trilha e que chamou a emergência, acompanhou-a e ajudou os paramédicos com a administração das soluções salinas. – Aquele é o homem mais idiota que já vi na vida – reclamou ela. – O pateta queria esperar e depois fazê-la completar a trilha! O paramédico fez um gesto negativo de cabeça. – Já vi pessoas morrerem com essas crises. E rápido. Foi uma sorte você estar presente e saber o que fazer. – Sorte foi eu sempre levar uma garrafa térmica com café forte para onde quer que eu vá – retrucou a enfermeira com um sorriso. Ela dera goles de café a Niki enquanto aguardavam o helicóptero. – Como está se sentindo, querida? – perguntou Nancy a Niki, tocando-lhe de leve a mão. – Niki conseguiu fazer um gesto positivo de cabeça com um sorriso frouxo. Seu plano idiota levara todos àquela situação. Não podia revelar àquelas pessoas gentis que esperara não ser salva a tempo. Pensando bem, aquela seria uma morte horrível. A respiração ainda não se estabilizara.


– Poucas pessoas sabem que café forte é capaz de abrandar a crise de asma – concordou o paramédico com uma risada abafada. – Eu o utilizei em um colega de trabalho que começou a tossir ao lado de um canteiro de flores e não conseguia parar. Algumas pessoas tossem em vez de apresentarem dispneia. Ele procurou um médico e recebeu o diagnóstico. – Como soube disso? – perguntou a enfermeira, curiosa. O paramédico exibiu um sorriso. – Também sou asmático. – Aposto que não se embrenha por trilhas com guias idiotas – disse a enfermeira. – Não como aquele que estava liderando a caminhada de vocês – retrucou ele, sem titubear. – Pelo que entendi, ele seguiu até o fim da trilha com o restante do grupo? – Oh, sim. Nem ao menos se importou em saber se Niki ficaria bem. – A enfermeira se inclinou na direção do paramédico. – Aquele boçal pensou que ela estava fingindo para chamar a atenção dele! Niki bloqueou aquela conversa e fechou os olhos. O café estava gostoso e ajudou a abrandar a falta de ar. Tinha de se lembrar de retribuir a gentileza da mulher que a ajudara. Mas o futuro se estendia, sombrio, adiante e não sabia como lidaria com a doença. Seria terrível para o pai reviver tudo outra vez. Mas ele ainda não sabia. Niki fizera o dr. Fred prometer nada lhe dizer. Aquele era um problema seu. Portanto, apenas a ela cabia a decisão. Quando por fim soubesse o que queria fazer, contaria ao pai. O DR. Fred a examinou na sala de emergência, onde estava de plantão naquela manhã. Quando soube que Niki não levara o


spray inalador, fitou-a com um olhar severo. – Dan disse que eu me protejo demais – começou ela com voz rouca. – É categórico em afirmar que não preciso de sprays inaladores ou medicação preventiva. Apenas de... – Niki fez uma pausa para respirar. – Ervas medicinais, vitaminas e ar... fresco. – O ar fresco quase a matou. Diga-lhe isso! – retrucou o médico, irritado. – Não acredito que seu pai permita que você saia com um tolo como esse! – Acabei... de fazer 23 anos – lembrou ela. – Idade e maturidade nem sempre caminham juntas – rebateu o dr. Fred, conciso. – Apesar de ter melhorado, eu a deixarei internada aqui, até amanhã. – Não farei o exame, portanto não comece – preveniu ela. O médico trincou os dentes. – Pode não ser nada de grave – lembrou ele. – Pode haver muitos diagnósticos, além daquele que está temendo. Niki se recostou para trás e fez uma careta. – Meu peito está dolorido. – Teve uma crise grave de bronquite. Vamos tratar disso enquanto está internada aqui. Antibióticos e descanso. E nada de caminhadas em trilha! Niki deu de ombros. – Dan disse que seria bom para mim. O médico não lhe dirigiu resposta. Estava com vontade de socar o homem que a levara para aquela trilha. Quando Todd descobrisse, Dan Brady estaria correndo perigo. E se Blair Coleman ficasse sabendo, seria melhor o rapaz fugir do país. – Telefonou para o seu pai? – perguntou o médico. Niki fez uma careta. – Não levou o telefone também, certo? – Não.


– Suponho que Dan tenha achado que não lhe faria bem – resmungou ele, enquanto a deixava aos cuidados da enfermeira. – Leve-a para um quarto, por favor – disse ele por sobre o ombro. – Telefonarei para o pai de Niki. – Sim, doutor – retrucou a enfermeira, sorrindo para a paciente. EM SEGUIDA, administrou-lhe medicação para a dor, além dos antibióticos pelo sempre presente soro intravenoso. Niki adormeceu, exausta com o trauma do dia. Horas mais tarde, sentiu alguém lhe tocar o cabelo. Descerrou as pálpebras e esboçou um sorriso. – Olá, papai. – Você nos deu um susto, princesinha – disse ele, tentando disfarçar o terror que sentira quando o dr. Fred telefonara para lhe dar a notícia. – Deixou o telefone e o spray inalador em casa. Menina esquecida. – Estava tão entusiasmada com o passeio – mentiu ela. – Que só lembrei no meio da trilha. – Quando não adiantava mais. – Tem razão. – Estou devendo um jantar àquela enfermeira – disse o pai. – O paramédico contou a Fred Morris o que ela fez. Por sorte, a enfermeira levava café forte em uma garrafa térmica e a fez tomar enquanto esperavam o resgate. Pode-se dizer que ela salvou sua vida. – Sim. Ela foi muito gentil. – E com uma expressão desgostosa, acrescentou: – Nancy passou uma descompostura em Dan.


– Estou esperando ele aparecer por aqui para que eu possa lhe mostrar todo o meu desagrado – disse o pai. Os olhos azuis brilhavam como cristais de gelo. – Ele foi capaz de completar a trilha sem você! – Dan pensou que eu estivesse fingindo – disse ela. – Meu Deus! Niki estudou a expressão do pai. – Não... conversou com Blair sobre isso, certo? – perguntou ela. Todd franziu a testa. – Deveria, dessa forma ele... – Não! – Sei que vocês tiveram um desentendimento, mas... – Não! – Querida, ele gosta de você – começou o pai. – Ele gosta de Janet – rebateu Niki em tom áspero. – Não viu o tabloide? Ela me disse que conseguiria conquistá-lo. – Fechou os olhos, cega para a expressão estampada no rosto do pai. – Blair me disse que Janet era mil vezes melhor do que Elise e que se arrependia de um dia ter terminado o relacionamento com ela. Portanto, não telefone para ele. Esse não é um problema de Blair. É nosso. Todd mordeu o lábio inferior com força. – Niki... – Estou falando sério. O pai cedeu, como sempre fazia quando ela se mostrava irredutível. – Se é esse o seu desejo. Niki fechou os olhos.


– É. Blair viria para cá apenas por lealdade a você e mais nada. Ele me disse o que achava de nosso relacionamento. Afirmou que eu estava apenas empolgada por ele e que isso era desrespeitoso. As feições de Todd se contraíram. Blair passara dos limites e seriam necessárias mais do que palavras para consertar o erro que cometera. Entendia que o amigo se sentia em conflito e sabia o que ele sentia por Niki. Mas, ao que parecia, Blair dilacerara o orgulho de sua filha e ela o estava evitando. Era melhor um homem muitos anos mais velho do que um rapaz que quase a matara. – Nunca mais sairá com Dan Brady – disse Todd, conciso. – Estou falando sério. Se me desobedecer, darei a Blair todas as informações necessárias para que ele o demita. – Papai! Niki nunca vira tanta austeridade estampada no rosto de Todd. – Esse rapaz devia voltar de onde veio e montar uma loja de alimentação natureba. Dessa forma, poderia passar o tempo todo aconselhando as pessoas a se recuperarem de seus problemas de saúde com métodos que os pesquisadores nunca ouviram falar! – Niki não pôde evitar um sorriso. O pai podia ser eloquente quando aborrecido. Ele deu de ombros. – Ora, você é minha filha. E eu a amo. O sorriso de Niki se alargou. – Eu também o amo. – Em seguida, inspirou fundo, feliz por conseguir. – Obrigada. Todd lhe acariciou o cabelo revolto. – Por que está me agradecendo? – Por ser meu pai.


Todd teve de lutar para conter as lágrimas. – Durma, querida. Não sairei daqui. – Desculpe. – Não tem por que se desculpar. NIKI SE sentiu ainda mais culpada ao ver o pai tão transtornado com o incidente na trilha. Agira de forma egoísta, levando em consideração apenas sua vontade e não pensando nele. Todd não sabia e ela não seria capaz de lhe contar sobre a decisão impensada que tomara em um momento de pânico. Estava com medo, mas não podia dividir seus temores com o pai. Não depois de tudo que ele passara durante o tratamento da esposa. Se ele estava tão preocupado agora, ficaria aterrorizado quando soubesse o que estava se passando. Não podia lhe contar. O medo a consumia. Se aquela imagem nodular no pulmão se provasse o pior e ela tivesse de ser submetida à radiação, nunca poderia engravidar. Pesquisara sobre o assunto na internet e lera que outras mulheres tentaram engravidar após o tratamento, mas acabavam por abortar. Se ela fosse estéril, talvez não fizesse muita diferença, mas Niki tinha certeza de que não era. Não podia suportar aquele pensamento. A mente voltou à viagem a Yellowstone que fizera com Blair, quando estavam felizes juntos. Quando ele lhe sorria, a mimava e lhe dedicava todo o afeto. Era doloroso recordar a última vez em que se falaram. Aquela lembrança a mantinha decidida a não querer mais vê-lo. Blair tinha Janet agora. Os dois se casariam e seriam felizes. Era o que devia lhe desejar se, de fato, o amasse: que ele fosse feliz. Era egoísmo querê-lo apenas para si, ainda mais sob as atuais circunstâncias. Talvez não lhe restasse futuro algum.


Niki girou a cabeça no travesseiro, para que o pai não percebesse as lágrimas que ameaçavam rolar por seu rosto. DAN BRADY apareceu no hospital naquela mesma noite. O pai descera até a lanchonete para comer alguma coisa. Niki o fitou com olhar furioso. Não ousaria ter uma discussão acalorada, porque aquilo só lhe traria a falta de ar de volta, apesar da medicação que estava recebendo. Portanto, limitou-se a fulminá-lo com o olhar. Dan entrou no quarto e olhou ao redor. As mãos enfiadas nos bolos, parecendo hesitar. – Acho que não estava fingindo, afinal – disse ele. O olhar de Niki se tornou ainda mais letal. Dan se aproximou um passo. – O pessoal do grupo de caminhada pediu para lhe dizer que estima suas melhores em breve. – Niki nada respondeu. – Ora, vamos – resmungou ele. – É isso que acontece quando uma pessoa é superprotegida! Não consegue nem mesmo viver ao ar livre! Se passasse mais tempo em contato com a natureza e se ingerisse alimentos que fortalecessem seu sistema imunológico, não teria nenhum problema respiratório! Niki o observou, imaginando se teria forças para se levantar por tempo suficiente para atirá-lo pela janela. BLAIR ACABARA de chegar em casa, vindo de Frankfurt. Sentia-se exausto e ainda irritado com a insistência de Janet. Havia cancelado uma das reuniões em cima da hora, para se livrar dela. Aquela grudenta não tinha motivos para segui-lo até Montana. Se o fizesse, mandaria prendê-la por assédio sexual, prometeu a si mesmo.


Não conseguia afastar Niki da mente. Ele a magoara com as coisas que lhe dissera no afã do momento. Tomara aquela atitude para o próprio bem de Niki, mas isso não lhe diminuía o sentimento de culpa. Uma mulher como aquela só surgia uma vez na vida de um homem. Janet tentara convencê-lo de que Niki armara um plano para seduzi-lo, mas estava mentindo. Ele a conhecia o suficiente para saber que Niki não era uma sedutora. Não sabia sequer como beijar, até que ele lhe tivesse ensinado. Blair gemeu em seu íntimo, recordando tudo que lhe ensinara, primeiro no México e depois na floresta, próxima à fazenda dos Ashton, nas cercanias de Catelow. Niki sequer tentara resistir. Correspondeu ao seu desejo com igual intensidade. Mas ele a fizera sentir vergonha. Dissera que o que haviam compartilhado era desrespeitoso. Blair fechou os olhos. A culpa o fazendo estremecer por dentro. Fazer uma mulher como aquela se envergonhar da paixão que sentia... Oh, aquele não era o papel de um homem. O sentimento de culpa o corroia por dentro. Precisava ir até a residência dos Ashton e encontrar um modo de se desculpar. Talvez ela nunca o perdoasse, mas tinha de tentar. Pensou sobre o novo namorado de Niki, o obsessivo por alimentos naturebas e temeu que fosse tarde demais para compensá-la. Se ao menos não tivesse sido tão estúpido! Blair pegou o telefone celular e discou o número de Todd, mas estava desligado. Tentou a residência. O telefone tocou três vezes, sem ninguém atender. Estava quase desligando quando uma voz cansada soou do outro lado da linha. – Residência dos Ashton. – Edna?


– Oh, olá, sr. Coleman. – Todd está? Não consegui falar com ele pelo telefone celular. A empregada hesitou. Em seguida, engoliu em seco. Não devia revelar nada sobre Niki. – Ele não está no momento. – Niki está em casa? – insistiu ele. – Não. – A voz de Edna se tornou embargada. Blair sentiu como se tivesse sido esfaqueado no peito. – O que está acontecendo? – perguntou. – Não deveria lhe dizer – respondeu a empregada, mas a voz soava tão fraca que ele mal conseguia ouvi-la. – Meu Deus! – sussurrou Blair aterrorizado. – Aconteceu alguma coisa com Niki! Conte-me, por favor! O desespero na voz grave do outro lado da linha dissipou a determinação da empregada. – O sr. Ashton está no hospital, sr. Coleman – disse ela, com as lágrimas rolando pelo rosto. – Niki teve de ser resgatada de helicóptero. Aquele rapaz idiota levou-a para fazer uma trilha e ela esqueceu o spray inalador... – Ela está bem? – perguntou Blair, com a voz tão atormentada quanto a dela. – Eles a estabilizaram, mas os pulmões da pobrezinha estão um caos, portanto a mantiveram no hospital. O sr. Ashton está lá. Caso aquele rapaz abobado apareça, ele lhe arrancará o couro. Desculpe, senhor – acrescentou a empregada. – Estou indo para aí. Não diga nada a eles. – Sim, senhor. Dez minutos depois, Blair estava a caminho de Catelow em seu jato particular, rezando durante todo o trajeto. Se não tivesse agido como um idiota, Niki nunca permitiria que aquele


maníaco a convencesse a fazer uma trilha. Estaria em casa, no trabalho ou com ele. Fechou os olhos quando uma onda avassaladora de culpa o atingiu. Estivera fugindo como um tolo. Mas iria compensá-la. Estava na hora de permanecer e lutar pela mulher que amava. – SEI QUE não concorda comigo, que os exercícios físicos são a solução – prosseguiu Dan. – Mas tornam seu corpo mais forte, o que é bom para os pulmões, também. Tem de parar de se autoproteger e permitir que seu pai a cerque de cuidados... Os olhos de Niki começaram a se arregalar enquanto ele falava, mas Dan não percebeu por que, até ser girado e sentir um punho enorme se arremessar contra sua mandíbula. O rapaz voou pelo ar e caiu sentado no corredor. Um homem do tamanho de um rolo compressor avançou na direção dele, com os olhos negros faiscando como os de uma cobra venenosa e os punhos enormes cerrados nas laterais do corpo. – Levante-se – ordenou com um ronco que mais lembrava um trovão. Dan se encontrava esparramado ao chão, ofegando diante de Blair, quando Todd Ashton dobrou uma esquina do corredor e se deparou com aquela cena. – Diabos, poderia ter deixado um pouco para mim! – disse em tom sarcástico. Blair não respondeu. Fervilhava de raiva. Retirou o telefone do bolso e discou um número. – Ed? Quero esse maníaco californiano fora do escritório e dentro de um avião de volta para São Francisco nas primeiras horas da manhã. Isso mesmo. Posso lhe dar a chance de salvar o emprego, caso aceite. Mas se ele recusar... – Blair fixou o olhar


em Dan Brady. – Despeça-o. – Desligou o telefone, lançou um último olhar furioso ao rapaz caído ao chão e voltou para o quarto de Niki. – Ele não pode me demitir. Quem ele pensa que é? – perguntou Dan, enquanto se erguia com dificuldade, esfregando a mandíbula. – Esse é Blair Coleman – disse-lhe Todd. – E não perderá apenas seu emprego se não aceitar essa oferta. – Blair Coleman? – gaguejou Brady, com o rosto rubro. – O sr. Blair Coleman? – Só existe um. – Todd gesticulou com a cabeça na direção da escada. – Se eu fosse você, pensaria muito bem antes de lhe dar outra razão para voltar aqui. – Estava apenas tentando ajudar – protestou Dan, irritado. – Quase ajudou minha filha a dar entrada em um necrotério – rebateu Todd, sem titubear. – Fora daqui. Dan não hesitou. Todd Ashton era quase tão grande quanto Coleman. – Niki nunca vai se curar se não parar de paparicá-la – disse ele, já se dirigindo à escada. Todd deu um passo decidido na direção de Brady, o suficiente para fazê-lo disparar pela escada. Uma enfermeira que trabalhava em sua mesa dirigiu-lhe um olhar divertido e voltou a se concentrar no computador. PARALISADA PELO choque, Niki observou Blair nocautear Dan Brady com um soco que o lançou no corredor. Não sabia que ele havia retornado a Montana. Nunca o vira perder a cabeça daquela forma, nem mesmo quando ela fora agredida pelo jogador de futebol, três anos atrás.


Blair conversou com alguém ao telefone e retornou ao quarto, no momento em que o pai apareceu no corredor e começou a conversar com Dan. Os olhos negros ainda faiscavam de raiva quando ele estacou ao lado da cama. – Como está se sentindo? – perguntou. Niki baixou o olhar ao cobertor. – Já estive melhor. – A voz ainda soava rouca. – Pedi que não... lhe contassem. – Ninguém me contou – afirmou ele em tom convincente. – Fui visitar seu pai. Ele não se encontrava lá e Edna parecia quase histérica. Não precisei de mais nenhuma informação para descobrir o motivo. – Oh! Blair enfiou as mãos nos bolsos, esforçando-se para controlar a raiva. Ainda sentia todos os músculos do corpo vibrarem. – Pedi a Ed que colocasse Brady no próximo avião para São Francisco. Niki mordeu o lábio inferior. – Ele não me obrigou a fazer a trilha – retrucou, com voz cansada. – Não. Eu fui o culpado, certo? – perguntou Blair. – Eu a empurrei para os braços dele. Niki não se viu capaz de lhe sustentar o olhar. – A decisão foi minha. A culpa, também. Por tudo que aconteceu. – Ela fechou os olhos, procurando inspirar fundo, mas ainda era difícil. – Dan tem boa intenção. Tenho certeza – acrescentou. Blair se sentia tão ofegante quanto Niki, porque ainda fervilhava de raiva. Ele desviou o olhar na direção da janela e


percebeu que o sol se punha. Todd entrou no quarto, pondo um fim no silêncio constrangedor. – Disse a Brady para ir embora ou se arrependeria. – O rosto do pai estava tão tenso quanto o de Blair. – Ela lhe contou o que esse rapaz fez? – perguntou, enraivecido. – Pai, por favor... – começou Niki. – Ele a abandonou! –Niki quase entrou em choque. – Se não houvesse uma enfermeira na trilha que sabia o que fazer e ligasse para o 911, ela estaria morta! – Pai, você está gritando – protestou Niki, enfraquecida. O rosto de Blair se tornou pálido. – O quê? – Aquele idiota pensou que ela estava fingindo – prosseguiu Todd em tom metálico. – A enfermeira lhe deu café forte de uma garrafa térmica que trazia com ela e isso a ajudou a respirar. Também chamou o resgate aéreo para levá-la ao hospital. Brady pensou que ela estava fingindo e seguiu a trilha com os outros! A enfermeira ajudou os paramédicos e acompanhou Niki no helicóptero para contar ao médico do setor de emergência o que havia acontecido. – Blair se descobriu sem palavras. Nunca sentira tanta raiva na vida. Se Brady ainda estivesse por perto, seria capaz de matá-lo. – Eu sei – disse Todd, dando palmadas no ombro do amigo. – Pensei a mesma coisa, mas Niki teria de nos visitar na prisão, se matássemos Brady. Além disso, não ficaríamos bem com roupas cor de laranja. Blair inspirou e expirou várias vezes. Fora àquela situação que ele a submetera com sua frieza e medo. Pelo amor de Deus, ela poderia estar morta. Queria evitar que Niki ficasse presa a um


homem mais velho e fosse obrigada a vê-lo morrer. Como fora ingênuo e estúpido! A saúde de Niki era tão imprevisível, que o desafio seria mantê-la viva. Aquela jovem frágil precisava de alguém que cuidasse dela, que a amasse. Dan, o idiota maníaco por alimentação natureba, quase a matara, convencendo-a de que ela se autoprotegia e de que o pai a mantinha em um casulo! Quanto mais Blair pensava no assunto, mais furioso ficava. – Se você não relaxar, seus músculos vão atrofiar nessa posição. Que tal um café? – perguntou Todd, após um minuto. Blair engoliu em seco. – Acho que estou precisando de uma xícara. – Eu, também. Volto já. – Todd sorriu para a filha e os deixou a sós outra vez. Niki se viu obrigada a lidar não só com o próprio sentimento de culpa, mas com aquele que parecia estar matando Blair. – Fiz uma besteira – começou, baixando os olhos à coberta. – Várias besteiras. Não as repetirei. – Ela relanceou o olhar às belas feições de Blair e voltou a baixá-lo. – É melhor voltar outro dia, quando meu pai estiver mais calmo, para que possam conversar sobre negócios. – Não vim até aqui para conversar com seu pai. – Blair se aproximou da cama com as mãos ainda enfiadas nos bolsos da calça. – Não pode ao menos olhar para mim? – perguntou em tom calmo. Niki tentou sorrir. – Na verdade, não. – Ela engoliu em seco. – Estou cansada. – E fechando os olhos acrescentou: – Não quero conversar, está bem? Blair fitou o rosto pálido e abatido. Estava se recordando da jovem alegre, com o sol se refletindo em seu rosto, brincando e


sorrindo, sempre otimista. Que contraste com aquela que se encontrava deitada no leito do hospital no momento. – Cometi muitos erros com você – começou ele em tom sério. – Não sei como encontrar uma forma de lhe pedir desculpas. – Não importa. Não mais. Blair trincou os dentes. – Niki... Na tentativa de ocultar as lágrimas que se formavam nos cantos dos olhos, ela virou o rosto. Mas não foi rápida o suficiente. Niki o ouviu inspirar fundo, sentiu a fragrância da colônia masculina e do frescor da camisa que ele usava. Em seguida, os lábios firmes estavam lhe roçando as pálpebras, sorvendo-lhe as lágrimas. A mão longa estava pousada no travesseiro ao lado de sua cabeça. – Não chore – sussurrou ele com voz rouca. – Já estou com vontade suficiente de dar um tiro na cabeça. – Não... é culpa sua. – Tudo é culpa minha – retrucou Blair, tristonho. A boca se movia para a bochecha do rosto delicado, subindo para têmpora e voltando para os olhos que ela mantinha fechados. – Desculpe, querida. Desculpe-me. O pedido, feito em um tom repleto de sofrimento, em nada contribuiu para lhe cessar o pranto. Pressionando a cabeça de Niki contra a lateral do pescoço, ele lhe acariciou o cabelo despenteado. O rosto estava tão atormentado, que a enfermeira que entrava naquele instante para verificar como estava a paciente tornou a sair. Blair a segurou naquela posição enquanto ela dava vazão às lagrimas. Quando Niki se acalmou, ele retirou um lenço


impecável do bolso e lhe limpou o rosto. – Se parar de chorar, eu lhe compro um colar de couro com apliques de chifre de veado para combinar com o bracelete que lhe dei – disse ele. Niki ergueu a cabeça para se deparar com um par de olhos negros tristes em um rosto transtornado. Mas um sorriso curvava os lábios sensuais de Blair. Ela baixou os olhos ao peito largo, antes que ele percebesse o amor e a angústia refletidos neles. Era tarde demais. Mas era melhor assim. Não queria Blair envolvido em sua vida, em face do que o futuro lhe reservava. Ele já estava carregando um fardo de culpa pesado o suficiente e sem necessidade. Não tinha culpa se não conseguia corresponder ao seu amor. Niki se recostou para trás nos travesseiros. – Desculpe – disse ela. – Acho que foi a tensão do dia. Blair se ergueu com expressão pesarosa ao ver o estrago que as lágrimas, a dor e o medo causavam naquele belo rosto delicado. Estranho, mas o temor ainda se encontrava refletido em seus olhos. Niki estava segura agora. Por que ainda sentia medo? E de quê? BLAIR SE sentou na cadeira ao lado da cama. – Deveria ir embora – disse ela. – Não deixarei Catelow até que o seu amigo idiota, comedor de brotos, esteja longe daqui – retrucou Blair sem hesitar. A raiva ainda assombrando os olhos negros quando a fitou. – Estou bem – garantiu Niki. Blair deixou escapar um longo e profundo suspiro, entrelaçando os dedos aos dela na beirada da cama.


– Não, querida. Você não está bem. Algo está errado. Além do que aconteceu. Niki virou a cabeça no travesseiro. Os olhos arregalados e assustados. Sim, acertara em cheio. Havia mais. Os dedos longos começaram a acariciar os dela. – Não cheguei onde estou, deixando escapar detalhes – disse ele em tom suave. Os olhos se moviam pelo rosto de Niki como o pincel de um artista que delineasse cada detalhe. – Não quis levar o celular e o spray inalador com você, certo? Poderia acreditar que esqueceu um ou outro, mas os dois, não. – Niki sentiu o rosto corar. Tentou soltar a mão, mas ele a segurou com força. – Está com medo de alguma coisa, mas não contou ao seu pai. – O olhar de Blair se estreitou. – Vamos, conte-me. Niki engoliu em seco. – Não é da sua conta – disse ela, forçando um sorriso frouxo. – Não é da minha conta. – Ele baixou os olhos às unhas curtas, graciosas, bem aparadas de Niki, cobertas apenas por uma camada de base. – Costumava ser. Éramos amigos. – Sim, até Cancun... Blair lhe pressionou a palma das mãos aos lábios com força. – Deus do Céu! De todos os erros que cometi na vida, esse foi sem dúvida o pior! – rosnou ele. – Éramos amigos até aquele momento – retrucou Niki com voz rouca. – Sinto muito mesmo! – Querida, não se sinta culpada – suplicou ele, com voz atormentada. A testa vincada, enquanto pressionava os lábios com força à palma delicada. – Não fez nada de errado. A culpa foi toda minha. Perdi a cabeça e fiquei tão envergonhado que me afastei, sem nada lhe dizer.


– Você disse que era desrespeitoso. – Deus! – Blair inclinou a cabeça sobre a mão pequena, apertando-a com tanta força que quase a machucou. Niki não conseguia entender o comportamento de Blair. – Tudo bem – disse ela. – Sei que era apenas... empolgação – completou, forçando um sorriso, embora o rosto estivesse lívido. Blair ergueu a cabeça e fitou os olhos atormentados. – Eu disse isso também, certo? E muito mais – concordou ele. O rosto moreno estava tenso e tristonho. O peito largo arfava e os olhos negros se fixaram na mão de Niki outra vez. – Pensei que estava fazendo o melhor para você – justificou em um tom rouco e suave, levando os dedos delgados aos lábios e os beijando com imensa ternura. – Queria que fosse feliz. – Era o que eu desejava para você, também – respondeu ela. Os olhos prateados lhe traçavam as feições como mãos que o acariciassem. Mas quando ele ergueu a cabeça, Niki os desviou. – Janet é uma mulher gentil e você a conhece há muito tempo. – Engoliu em seco. – Ela cuidará de você. Os olhos de Blair se estreitaram. – Nunca disse que estava planejando me seduzir, certo? – perguntou ele. – Niki lhe evitou o olhar. Mais uma vez os dedos longos se entrelaçaram os dela. – Janet tem me seguido pelos quatro cantos do mundo nas últimas semanas – confessou ele. – Eu não a estimulei. Parti de Frankfurt um dia antes para escapar dela. Janet continua insistente, como sempre foi. – Blair se levantou da cadeira, forçando-a a erguer o olhar para fitá-lo. – Não lhe ocorreu que, se eu quisesse me casar com ela, o teria feito quando éramos namorados? Niki mordeu o lábio inferior.


– Às vezes, as pessoas não enxergam o que está bem diante do nariz – retrucou, em tom leve. – E, às vezes, enxergam a tempo – disse ele, em tom gentil. – Estou com o seu maiô – disparou ele. – O quê? – Seu maiô. Eu o trouxe na mala e o guardei em meu guardaroupa. Niki sentiu o rosto ferver. – O quê? Por quê? – gaguejou ela. – Você disse... – Querida, eu disse muitas coisas – interrompeu ele. – E faria tudo para retirá-las, mas é tarde demais. Agora temos de seguir em frente. – A confusão de Niki era evidente. Um sorriso terno curvou os lábios de Blair. – Primeiro, o mais importante. – Os olhos negros se estreitaram. – O que há de errado? O que a levou a se embrenhar pela floresta com Brady, sem levar seu spray inalador ou telefone celular? Niki vasculhava o cérebro à procura de uma mentira convincente quando a porta se escancarou e o pai entrou com dois copos de café. – Café com leite para mim, cappuccino para você – disse ele, entregando um dos copos a Blair. – Desculpe, querida, mas eles seriam capazes de me enforcar se eu lhe comprasse um. – Deixe que eles me enforquem. – Blair ergueu a cabeceira da cama, destampou o café e o levou aos lábios de Niki. – Sempre pede cappuccino em todos os lugares em que vamos – acrescentou. Niki tomou um gole, com os olhos cravados nos dele e o coração disparado no peito. Ele se limitou a sorrir. O pai comprimiu os lábios e tentou não notar a ligação entre ambos.


– Obrigada – sussurrou Niki, com voz instável. Os olhos de Blair lhe fitavam os lábios com tanta intensidade que não foi difícil lhe adivinhar a intenção. Niki corou de leve e ele ergueu o tronco, com aquele sorriso arrogante e pecaminoso lhe curvando a boca sensual. Em seguida, tomou um gole do cappuccino no local exato onde os lábios de Niki tocaram. Uma atitude deliberada que ele fez questão de lhe mostrar antes de virar de costas. – Volto já – disse Blair. – Quero conversar com Ed Jacobs. – Ele não conhece nenhum matador – comentou Todd. – Puxa, que azar! – Blair sorriu, relanceou o olhar a Niki e saiu. – Seu ex-companheiro de trilha acordará com um olho roxo amanhã – disse o pai, com expressão arrogante, enquanto se deixava afundar na cadeira ao lado da cama. – Blair é assustador quando perde a cabeça – comentou Niki. – Isso nunca aconteceu. Não dessa forma. Se eu não tivesse aparecido, talvez ele acabasse respondendo por homicídio. A propósito, Edna mandou dizer que sente muito – prosseguiu o pai. – Ela estava tão transtornada que não conseguiu disfarçar e Blair acabou lhe arrancando a verdade. – Tudo bem – retrucou Niki, com voz serena, fitando a porta com o coração refletido no olhar. – Mas isso tornará tudo mais difícil. – A que está se referindo? – Todd quis saber. Niki procurou pensar rápido. – Janet. – Oh, ela. – O pai fez um movimento negativo de cabeça. – Blair está tentando se livrar dessa mulher há duas semanas. Tomara que ela caia em si agora.


– Ela pode estar almejando a riqueza de Blair, mas eles eram íntimos quando a mãe dele ainda era viva. Todd se inclinou para a frente. – Por que a mãe de Blair insistiu e ele fazia tudo para agradála. – O pai sentou com a coluna ereta. – Se Bernice ainda fosse viva na ocasião, teria botado Elise para correr, antes de ela conseguir prendê-lo em suas garras. – A expressão de Todd endureceu. – Agora, ela voltou a persegui-lo. A vida é dura. – E depois você morre – completou Niki com uma risada. Aquela era uma máxima de Dempsey and Makepeace, um antigo seriado de televisão que o pai amava. Os dois assistiam aos episódios, juntos, na internet. – Posso lhe dizer uma coisa? – perguntou Todd. – Claro. O que é? – Os homens não são tão violentos com os outros se sentimentos profundos não estiverem envolvidos. – Ele é meu amigo. – Não, filha. Blair não é apenas seu amigo – rebateu o pai em tom suave. – E você sabe disso. Blair entrou a tempo de poupá-la de uma resposta. – Está sorrindo – observou Todd. – Ed conhecia algum matador? – Não, mas acompanhou Brady até aeroporto e o viu partir. – Ele comprimiu os lábios, fitando Niki. – Ao que parece, seu amigo pensou que estaria mais seguro, alguns estados afastado de mim.


CAPÍTULO 10

BLAIR SE recusou a deixar o hospital. Uma enfermeira mais velha e autoritária tentou fazer com que ele saísse quando o horário de visita chegou ao fim, antes que as outras pudessem avisá-la para não o fazer. Blair pegou o telefone celular, discou o número da residência do diretor do hospital e entregou o aparelho para a mulher. Rubra, a enfermeira concluiu suas funções e saiu do quarto se desculpando. – Você é intimidante – comentou Niki. Blair deu de ombros. – Não a deixarei. – Aquelas palavras e muitas mais estavam estampadas nos olhos negros que a fitavam, penetrantes. – Vou com você até o fim – acrescentou com voz rouca. Um sorriso curvou os lábios de Niki, ao ouvi-lo repetir a frase que ela mais gostara no filme Capitão América: O Soldado Invernal, que vira na companhia deles, meses atrás. Anuindo, Blair retribuiu o sorriso. – Foi um ótimo filme. Uma amizade verdadeira, fortalecida pelo tempo e as circunstâncias.


– Não era muito aficionada do Capitão América até ver o filme Os Vingadores. Adorei a participação dele na história e então me interessei em ver o filme só do Capitão América. O personagem é bárbaro, assim como o ator que o interpreta. – Sim, concordo. – Blair inclinou a cabeça para o lado. – Quando vai confiar em mim o suficiente para me contar seus segredos? O sorriso desertou o rosto de Niki. – Alguns segredos são para serem guardados – retrucou ela, em tom suave. – Além do mais, você já tem mulheres suficientes em sua vida no momento, certo? – acrescentou com uma risada forçada. – Todas, menos a certa – soou a resposta sincera. – Eu a expulsei da minha vida para seu próprio bem. E viu onde isso nos levou? – Mais uma vez, Niki baixou o olhar à coberta, em silêncio.– Tenho condições de trazer os especialistas mais renomados do mundo até Billings para consultá-la – disse ele, do nada. – Não contarei nem mesmo ao seu pai, se não quiser. – Niki mordeu o lábio inferior para impedi-lo de tremer. Blair se ergueu, inclinou-se sobre a cama e lhe depositou um beijo no rosto. – Conversaremos sobre esse assunto depois, quando tiver alta do hospital. – Ele ergueu o tronco. – Sei que não lhe dei razões para confiar em mim nos últimos tempos, mas estou determinado a recuperar sua confiança se me der uma chance. Nunca sofri tanto como nestes dias, depois que voltamos do México. – Mais lágrimas rolaram pelo rosto delicado. – Se amizade for tudo que deseja de mim – acrescentou ele, com voz rouca –, tentarei me contentar com isso. Não é apenas o que desejo, mas me conformarei com qualquer condição, desde que permaneça em minha vida.


Niki ergueu a cabeça para fitá-lo com os olhos cinza quase prateados pelo brilho das lágrimas. – Você me repeliu! Disse que o que eu sentia por você era... desrespeitoso! – disse ela, repetindo as palavras que mais a feriram. Um tsunami de culpa o fez fechar os olhos. – Eu menti. Deus me perdoe, mas eu menti para você. Estou com quase 39 anos – argumentou ele. – E o que isso tem a ver com a sua atitude? – perguntou Niki como se de fato não soubesse. – Sou dezesseis anos mais velho que você. Essa diferença de idade vai pesar um dia – disparou ele. – Para quem? – perguntou Niki, sensata. – Não para mim. – Você é muito jovem. – Blair sentia como se estivesse sendo partido ao meio. – Brady não foi o homem certo, mas existem bons rapazes, na sua faixa etária. Você poderia encontrar um que a amasse e cuidasse de você. – Dan disse que eu sou muito paparicada e que preciso cuidar de mim mesma – respondeu ela. – Talvez ele tenha razão. De fato, não faço exercícios físicos e minha alimentação não é muito saudável. – Posso citar a teoria de Ed Jacobs? – perguntou ele. – Talvez seja expulso do hospital por usar um linguajar obsceno se repetir as palavras que ele usou. A questão é que, embora os exercícios físicos, a dieta certa e os suplementos ajudem, não são capazes de curar uma doença incurável. Muito menos a artrite reumatoide da pobre filha de Ed ou mesmo sua asma. – Niki mudou de posição na cama, não sabendo o que dizer. Os olhos negros de Blair faiscavam como raios. – Gostaria de tê-lo socado com mais força.


– Oh, Blair. – Ela o fitou com os olhos cinza suaves e faiscantes. Aquela era a primeira vez, desde que fora resgatada da trilha, que se sentia de fato feliz. A figura que Niki o fez prender a respiração. Mesmo com o cabelo platinado desgrenhado e o rosto pálido pela crise de asma, ela era como a luz de sol. – Maste – disse ele, pronunciando a palavra mah-shday. – O quê? – perguntou Niki, curiosa. – É uma palavra Lakota – explicou ele. – Um dos meus seguranças é de origem Lakota, de Dakota do Sul. Ele me ensinou algumas palavras na língua de seu povo. Significa “luz do sol”. É o que me vem à mente quando penso em você. Os olhos cinza se iluminaram. Niki se sentia aquecida por dentro, enquanto o observava. – Você parece exausto. – Tenho viajado muito – retrucou ele. – Talvez, por tempo demais. Fui pessoalmente a reuniões, quando podia ter delegado um representante. Acho que estava tentando escapar de minha consciência. – E, com suspiro, acrescentou: – De nada adiantou, mas me deixou ocupado enquanto eu estava atormentado. – Por quê? – Você sabe por que – retrucou ele. Os olhos negros se estreitaram enquanto lhe percorria o corpo de cima a baixo. – Sim, você sabe. Sentir seu sabor apenas uma vez não foi suficiente. Niki fechou os olhos com um gemido silencioso. Em seguida, os abriu. – Janet lhe contou que eu comprei o maiô para tentar seduzilo e prendê-lo em um relacionamento que você não desejava, certo?


– Ela mentiu. Sei que não quer entregá-la, mas ambos sabemos que não é verdade. Os olhos cinza procuraram os dele, ávidos. – Nunca poderia fazer algo tão desonesto – afirmou Niki. – Pensei... que você soubesse disso. Blair se encaminhou à janela para não revelar a angústia refletida no olhar. – Disse-lhe que acreditei nela porque precisava de uma desculpa. – Ele tocou a persiana coberta por uma fina camada de poeira. – Para fugir, me afastar de você, antes de tomar uma atitude irreversível. Niki não entendia o que ele estava dizendo, portanto se limitou a observá-lo com olhar curioso. Blair girou para fitá-la. – Deixemos essa conversa para outra hora – disse ele. – Deve estar quase na hora de seu jantar. – Deveria descer até a lanchonete para se alimentar, também – sugeriu Niki. – Não precisa ficar aqui o tempo todo. Blair se aproximou. – Não posso deixá-la. – As palavras eram simples, mas o que se refletia nos olhos negros parecia bem mais complexo. – Não encontrarei paz em mais nenhum outro lugar do mundo. As lágrimas ameaçaram rolar pelo rosto de Niki outra vez. Estava parecendo uma represa aberta. Talvez como resultado do trauma recente. Mas, antes que pudesse encontrar uma resposta, uma copeira entrou com uma bandeja na mão. Em seguida, ajustou a mesa de refeição hospitalar à cama de Niki e pousou a refeição diante dela. – Gelatina e sopa, certo? – perguntou Niki, resignada.


– Oh, não. Algo bem melhor. – A copeira ergueu o cloche de metal. – Guisado de carne? É meu prato preferido! – exclamou Niki, entusiasmada. – E sorvete de morango? A copeira trocou um sorriso cúmplice com Blair. – Bem, o administrador do hospital achou que lhe faria bem, já que é seu prato favorito – brincou ela. – Bom apetite – acrescentou, antes de sair. O olhar de Niki procurou o rosto moreno, de traços leoninos. – Mas que homem ardiloso! – provocou ela. A fadiga e preocupação desertaram Blair no mesmo instante. Um sorriso se estampou nos lábios sensuais e não mais se apagou. – Tudo que fiz foi doar uma máquina moderna de ressonância magnética ao hospital – retrucou ele. Isso me possibilitou conseguir a aprovação dos médicos para fazer algumas adições ao seu cardápio. A menção à máquina a deixou apreensiva e o sorriso se apagou dos lábios de Niki. – Ora vamos, não deixe que esse banquete tão difícil de conseguir esfrie – disse Blair em tom suave. Encontraria uma forma de resolver o que havia de errado com Niki, não importava o que custasse. Os olhos cinza encontraram os dele, preocupados. – É que... Blair pegou o garfo e ergueu um pedaço de batata. – Abra a boca – sussurrou, sorrindo. Niki obedeceu e ele a alimentou. Enquanto mastigava, ela o observava, fascinada. Blair a fez comer tudo, até mesmo o


pequeno pote de sorvete de morango. Os olhos prateados não o abandonaram durante todo o processo. Depois que outra copeira recolheu a bandeja e a última medicação do dia lhe foi administrada, Blair puxou o cobertor para cobri-la. – Tente dormir, querida. Eu estarei aqui. – Não pode dormir em uma cadeira – argumentou Niki. – Não adianta reclamar – sussurrou ele, inclinando-se para roçar os lábios com extrema suavidade aos dela. – Não a deixarei. Nunca. Em seguida, beijou a nova leva de lágrimas que rolavam pelo rosto de Niki, entrelaçou os dedos de ambos e permaneceu naquela posição muito tempo após ela adormecer. QUANDO NIKI despertou, na manhã seguinte, com os ruídos hospitalares vindos do corredor, Blair dormia, sentado na cadeira. A insinuação da barba de um dia lhe tornava o rosto ainda mais escuro. Ele nem ao menos ressonava. Quando ouviu Niki se mexer, despertou no mesmo instante. – Preferia que você fosse para casa e dormisse em uma cama – disse ela em tom gentil. – Irei para casa quando você tiver alta – retrucou Blair, erguendo-se e se espreguiçando. Quando tocou o próprio queixo, sorriu. – Bem, talvez dê um pulo em sua casa para me barbear e tomar um banho. Mas estarei de volta, depois que eles lhe derem um banho e lhe servirem o café da manhã – prometeu, inclinando-se para lhe depositar um beijo na testa. – Não tente fugir. – Está bem – concordou Niki, fitando-o com olhar suave e sonhador.


O cérebro de Blair mal conseguia comandar os pés para deixar o quarto. Apesar de tudo que ele fizera e dos erros que cometera, Niki o estava perdoando, amando-o outra vez. Agradecendo a Deus pelo milagre, rumou para a fazenda dos Ashton. TODD ESTAVA começando a tomar o café da manhã. – Como ela está? – perguntou. – Melhor – respondeu Blair. – Eles a estavam preparando para o banho e o café da manhã, portanto achei melhor aproveitar e passar por aqui para me barbear e tomar uma ducha rápida. – Pode tomar o café da manhã, também – ofereceu Todd com uma risada abafada. – Ouça, conversei com Fred Morris. Ele me disse que podem providenciar uma cama de armar para você no quarto de Niki. Blair fez que não com a cabeça. – Estou me punindo, não percebeu? – perguntou com voz suave. – Eu a fiz sofrer, agora está na hora de pagar o preço. Todd fez um movimento negativo com a cabeça. – Está bem. Mas é melhor dormir em uma cama do que em uma cadeira. – Logo ela terá alta – retrucou Blair. – Niki está escondendo algo que a preocupa. Não consegui fazê-la falar. Mas estive pensando em levá-la para minha casa, quando ela melhorar. Enquanto Jameson a mima, tentarei lhe arrancar a verdade. Todd deixou escapar um suspiro. – Eu sei. Também não consegui que ela desabafasse comigo. O dr. Fred tem se mostrado constrangido em minha presença, mas, quando o questionei, ele foi evasivo. É óbvio que sabe de


alguma coisa, mas não consegui pressioná-lo o suficiente para que revelasse. – Eu a farei falar, mas de um modo suave e saboroso – afirmou Blair, comprimindo os lábios. – Niki gosta de chocolates suíços e doces franceses? Posso encomendar os chocolates e Jameson sabe fazer os doces. Também temos uma máquina de cappuccino. Todd soltou uma risada. – Uma casa cheia de regalias, certo? Naquele instante, o telefone celular de Blair tocou. Ao verificar o identificador de chamadas, uma expressão furiosa se estampou no rosto moreno. – Alô? – Olá – ronronou Janet. – Estava imaginando se você se importaria em ter uma hóspede por alguns dias? – Desculpe, mas estou esperando outra pessoa. – Oh! – Janet hesitou. – Talvez em outra oportunidade? – Talvez – disparou ele – seria melhor você encontrar outro homem para perseguir, senão quiser se confrontar com uma ação judicial por assédio. Acho que meu advogado foi claro nesse ponto. Também conheço o dono da companhia cinematográfica onde você trabalha. É melhor se lembrar disso. Seguiu-se um silêncio tenso. – Eu... pensei... Quero dizer, você me levou para jantar em Nova York e me presenteou com diamantes – começou ela. – Os diamantes eram uma forma delicada de dispensá-la – acrescentou ele, em tom áspero. – Sinto muito ter de usar de ameaças para fazê-la entender, mas não me deixou outra opção. Janet hesitou.


– Entendo. É por causa de Niki, suponho – arriscou ela. – Peço-lhe desculpas. Acho que interpretei tudo errado. Deixeime levar pela lembrança do que aconteceu conosco no passado e pensei que pudéssemos resgatar aquela relação. Acho que me excedi um pouco, sinto muito. – Blair também sentia. Janet soltou uma risada nervosa. – Desculpe se não entendi a mensagem. Não o perturbarei mais. Pode acreditar. – Agradeço-lhe. – Adeus, Blair. Espero que seja feliz. Sem retornar resposta, ele desligou. – Janet outra vez, suponho? – perguntou Todd. – Algumas mulheres não desistem. – Nunca tive esse problema – retrucou o amigo com uma risada. – Mas você é muito mais rico que eu. Mulheres gostam de joias. – Comprei um bracelete para Niki em Yellowstone – recordou Blair com um sorriso. – Uma tira de couro cru com um medalhão feito de chifre de veado. Foi o que ela mais gostou na loja. – A expressão de Blair se fechou. – Quando levei Elise naquela mesma loja, em nossa lua de mel, ela escolheu uma joia de turquesa, a mais cara da joalheria, e nem ao menos me agradeceu. – Seus advogados conseguiram contornar aquela situação? – perguntou Todd. Blair deu de ombros. – Contratei um detetive particular – revelou ele. – Deve conhecê-lo. Dane Lassiter, de Houston. – Não, mas já ouvi falar dele. – Há algo na vida de Elise que não consigo entender – prosseguiu Blair. – Ela ganha uma pensão mais do que suficiente


para lhe proporcionar uma vida confortável, mas exige cada vez mais. A princípio, pensei que fosse ganância, mas depois imaginei se alguém não a estaria chantageando. Todd arqueou as sobrancelhas. – Chantageando-a por quê? Ela não trabalha, certo? – Na verdade, sim. Elise é atriz. O produtor da peça que ela está estrelando no momento lhe concedeu participação nos lucros. Se for um sucesso, Elise ficará rica por seus próprios meios, sem ter de depender do dinheiro que lhe dou. – Ele comprimiu os lábios. – Ao que parece, o que ela mais gosta na vida é de representar e essa é sua grande chance. – Elise é uma linda mulher – disse Todd, com expressão desgostosa. – Não tanto quanto Niki – retrucou Blair em tom suave. – A beleza de Elise é apenas exterior. A de sua filha se reflete como a própria luz do sol. Todd tomou um gole de café e fingiu não perceber a expressão arrebatada do amigo. – Deixei minha mala no carro. Se não se importar em ter um hóspede por alguns dias...? – perguntou Blair. – Não seja ridículo – respondeu Todd com uma risada divertida. – Vá se barbear que é disso que está precisando – acrescentou com os lábios comprimidos. – Está parecendo um urso cinzento. – O que aconteceu com aquele vaqueiro que estava comprando brinquedos de menino para a filha e se queixando por não ter um filho homem? – perguntou Blair de repente, lembrando-se do Natal que passara ali. – Oh, a filha de Roy Blake. – Os olhos de Todd faiscaram. – A mãe acabou de ter um garotinho. Portanto, Daisy ganhou um


boneco de verdade de aniversário. – Que bom! – Niki ama crianças – disse Todd. – Quando era mais nova, sempre que saíamos, ela dava um jeito de escapar para a seção de artigos infantis das lojas de departamentos. O coração de Blair se contraiu dentro do peito. Também desejava ter filhos. Niki ficaria linda com um filho seu nos braços. – Vou tomar um banho e descer para tomar o café da manhã, obrigado – acrescentou. Todd se limitou a sorrir. NIKI SE encontrava sentada na cama do hospital, lendo um livro no tablet. Um drama romântico, passado em Paris, com uma heroína que enroscava os dedos dos pés quando via o homem amado. Ela ergueu o olhar quando Blair entrou, trajando uma calça comprida marrom-clara e uma blusa de linha amarela de grife. Era a imagem da elegância e beleza masculinas. – Parece mais descansado – observou ela. – Você, também, querida. – Blair se inclinou e roçou os lábios de leve aos dela. – Está se sentindo melhor? A carícia breve a deixou abalada, mas Niki tentou disfarçar. – Sim, bem melhor. O dr. Fred me dará alta amanhã. Blair se sentou na cadeira ao lado da cama. – Gostaria que fosse passar uns dias em minha casa, o que acha? – Niki hesitou. – Jameson é um homem discreto, mas atencioso. – Blair prosseguiu com um sorriso provocante. – Posso colocar uma tranca na porta do seu quarto e dizer a todos os visitantes que você é minha parente. – Pare com isso – disse Niki, corando.


Blair soltou uma risada abafada. – Nada acontecerá – garantiu ele com voz suave. – Eu a levarei de carro até Hardin e veremos o campo de batalha. Mas não caminharemos muito. E eu me encarregarei de levar seu spray inalador e telefone celular, para que não os esqueça – acrescentou, sarcástico. – Não sei. – Hesitou ela. Blair entrelaçou os dedos de ambos. – Não quer contar ao seu pai, mas dirá a mim – afirmou ele, prendendo-lhe o olhar. – Seja o que for, o que estiver errado, eu darei um jeito. Prometo. – E se não for possível? – perguntou ela. Pela primeira vez, Blair experimentou um medo real. – O que está havendo? Niki desviou o olhar. – Não quero falar sobre esse assunto. Ainda não. Os dedos longos se contraíram nos dela. – Mas me contará? Se eu prometer não dizer nada ao seu pai? – Niki permaneceu calada por um minuto. Mas, por fim, anuiu. Blair não estava envolvido de fato com ela. Não queria nada além de amizade, portanto não sofreria tanto. Tinha de contar a alguém. Aquele temor a estava corroendo por dentro. – Promete? – Sim – concordou ela. – Prometo. A ENFERMEIRA que lhe salvara a vida durante a trilha apareceu para lhe fazer uma visita. Ela trabalhava no hospital de Billings, mas estava visitando uma amiga em Catelow. – Está com uma aparência muito melhor – disse a enfermeira, sorrindo. Em seguida, lançou um olhar curioso a Blair, que se


encontrava sentado ao lado da cama, segurando a mão de Niki. Ele se ergueu. A educação de berço o fazendo sorrir. – Esse é Blair. Essa é Nancy, a mulher gentil que ficou ao meu lado o tempo inteiro na trilha e me deu goles de café forte até o helicóptero do resgate nos trazer para o hospital. – O pai de Niki e eu estamos em grande débito com você – disse Blair, trocando um aperto de mão com a enfermeira. – Fico feliz em ter podido ajudar – retrucou a mulher, mas logo seu semblante se fechou. – Embora esteja com vontade de esganar aquele rapaz que pensou que ela estivesse fingindo. – Eu lhe dei um soco que o fez voar até o corredor – informou Blair, complacente. – Fez muito bem! – retrucou a enfermeira com um sorriso. – Graças a Deus, você sabia o que fazer – continuou Blair. – E tinha GPS no seu celular. – É muito útil. Sempre gostei de fazer trilhas. O ar fresco é muito bom para a saúde. – E desviando o olhar a Niki. – Exceto quando se sofre de asma e a atmosfera está repleta de pólen – acrescentou com olhar significativo. Niki corou e deixou escapar uma risada suave. – Deixei que Dan me convencesse de que eu estava exagerando em não aproveitar a vida ao ar livre. – Dan é um idiota. Um dia prescreverá alguma mistura de ervas medicinais a alguém e se descobrirá com um processo às costas ou será acusado de homicídio – disse Nancy, com um movimento negativo de cabeça. – Creio que essas substâncias sejam benéficas, mas o fanatismo é muito perigoso. – Concordo – disse Blair. A enfermeira o estava observando. – Estranho, mas sua fisionomia me é familiar.


Os olhos de Blair se estreitaram. – Tive a mesma impressão. Nancy pensou por um minuto e soltou uma risada. – Você é Blair Coleman. Claro! Eu trabalhei como enfermeira particular de sua mãe, quando estava recém-formada. Ela havia se submetido a uma cirurgia de vesícula biliar e fiquei cuidando dela alguns dias, em casa. – A expressão da enfermeira suavizou. – Ela era uma mulher extraordinária. Compassiva e terna. Preocupava-se pensando que eu me machucaria ao erguê-la. – Ela fez um movimento negativo de cabeça. – Uma pessoa rara. Ainda mais nos dias de hoje. – Ela a tinha em grande consideração. A enfermeira loira, que se encontrava na casa dos 50 anos, sorriu. – Agora estou gerenciando uma ala do hospital de Billings e não faço mais atendimento particular. – E relanceando o olhar a Niki: – Fico muito feliz que esteja se recuperando. Temi que aquele helicóptero não chegasse a tempo. Deve sempre levar uma garrafa térmica com café forte com você quando sai, só para garantir. – Lembrarei disso – retrucou Niki. Nancy sorriu. – Estou voltando para casa hoje, mas queria saber como você estava passando. Cuide-se. – Sim. E mais uma vez, muito obrigada. Nunca a esquecerei. – Eu também não. Sr. Coleman – disse ela, cumprimentandoo com um gesto de cabeça, antes de deixá-los a sós. – Meu pai e eu deveríamos compensá-la de alguma forma – disse Niki um minuto mais tarde.


– Nós três deveríamos compensá-la – acrescentou Blair, fitando-a com ternura. O DR. Fred passou para visitá-la naquela tarde e se surpreendeu ao ver Blair ainda sentando ao lado da cama, em uma cadeira desconfortável. – Está se recuperando muito bem – disse o médico, estacando ao lado do leito. – Eu a liberarei amanhã cedo, mas quero que use o nebulizador. Tem albuterol para colocar nele? – Sim, senhor – respondeu ela. – Duas vezes ao dia. Continue tomando os antibióticos e aquele ciclo de esteroides que também lhe prescrevi. E nada de passeios ao ar livre, a não ser que use máscara. – Sim, senhor. – Niki suspirou. O médico relanceou o olhar a Blair. – Não deixe que aquele idiota comedor de tofu faça isso com ela outra vez. – Ele deixou a cidade. – Blair se limitou a dizer. Fred comprimiu os lábios. – Fiquei sabendo que houve uma briga e que os sr. Brady saiu daqui ostentando alguns hematomas... – Bastou um soco – disse Blair. – E não com tanta força quanto eu desejava, quando fiquei sabendo o que aconteceu. O dr. Fred a estudou. – Não mudará de ideia sobre o que conversamos? – Não – respondeu Niki com voz tensa. Blair dirigiu o olhar ao médico. – Ela passará um tempo em minha casa. Vou suborná-la com chocolates suíços, cappuccinos e ela me contará o que está acontecendo. Eu lhe prometi não contar nada a Todd.


– Graças a Deus! – exclamou o médico. – Eu fiz o parto de Niki – prosseguiu ele. – Ela está cometendo um erro e não quer me dar ouvidos. – Ela dará a mim – garantiu Blair com voz suave, sorrindo para Niki. – Não é, querida? Niki corou, incapaz de responder. O dr. Fred se limitou a sorrir. – Está bem, assinarei sua alta para amanhã, bem cedo. A enfermeira preparará sua prescrição. Telefone para o meu consultório e marque consulta para daqui a uma semana. Quero examiná-la para me certificar de que não houve complicações. – Sabe o que tem a fazer, certo? – perguntou ele a Blair. – Qualquer congestão que produza escarro ou febre...? – Sim, sei – garantiu Blair, fitando Niki com uma expressão que o médico sabia reconhecer. – Cuidarei dela muito bem – acrescentou com voz rouca. Niki permaneceu calada, perdida nas profundezes escuras daqueles olhos negros. NA MANHÃ seguinte, o pai e Blair chegaram para buscá-la. – Os dois? – Niki soltou uma risada, sentando-se na cadeira ao lado da cama, vestida com uma calça jeans e um pulôver de linha branco. O cabelo loiro estava solto. Um pouco oleoso, mas ainda assim, lindo. – Serei o motorista – anunciou o pai com um sorriso. – Blair se encarregará de empunhar o revólver, caso seu amigo Brady tente se esgueirar de volta à cidade. – Oh, meu Deus! Meu emprego! – exclamou Niki. – Não lembrei de avisar ao sr. Jacobs...!


– Jacobs contratou uma assistente temporária. – Blair a tranquilizou. – E você está de licença médica por duas semanas. Não se preocupe – acrescentou com um sorriso quando ela fez menção de argumentar. – Ele ficou tão feliz com a notícia que Brady deixou a cidade que está disposto a concordar com tudo. – Tenho pena da filha do sr. Jacobs – disse Niki em tom suave. – Imagine uma criança sofrendo de dores constantes. – Um dia descobrirão a cura – afirmou o pai. – Para ela e para você. Niki desviou o olhar. – Seria ótimo – concordou ela, mas não estava pensando na asma. O coração pesava como chumbo no peito. O medo a assombrava outra vez e, apesar de seus esforços em disfarçar, Blair percebeu. Os dois a levaram de volta à fazenda. Niki ainda tossia um pouco, mas o dr. Fred garantiu que seus pulmões estavam limpos. Blair não se sentia seguro em levá-la em uma viagem de avião, portanto, alguns dias depois, solicitou que uma limusine viesse buscar para levá-los à sua casa, em Billings. – Fiz um bolo para vocês – disse Edna a Blair e Niki, entregando-lhes um bolo de limão em uma cesta. É o favorito de ambos. – E com um sorriso luminoso a Blair. – Eu lhe faria um estrogonofe, se ficasse mais tempo. Foi muito gentil de sua parte. – A que está se referindo? – perguntou ele. – À surra que deu no sr. Brady – retrucou a empregada, concisa. – Adoraria ter lhe dado uns bons pontapés – acrescentou, pensativa, corando a seguir. – Desculpe. – Não precisa se desculpar – retrucou Niki. – Também considerei chutá-lo – acrescentou, depositando-lhe um beijo no


rosto. – Não ficarei fora por muito tempo. Vamos visitar o campo de batalha de Little Bighorn! – Com um spray inalador, um telefone celular e uma máscara cirúrgica – acrescentou Blair. O pai deixou escapar uma risada abafada, enquanto envolvia a filha em um abraço. – Divirta-se. Nós a veremos em breve, quando voltar para casa. – Eu o amo, papai – sussurrou ela ao ouvido de Todd. – Eu, também, princesinha – retrucou o pai, enquanto lhe depositava um beijo no rosto. – Tenham uma boa viagem. – Teremos. – Blair entregou a mala de Niki ao motorista, que a colocou no porta-malas junto com a do patrão. Em seguida, partiram. AS DUAS únicas partes que Niki conhecia naquela casa suntuosa eram a sala de estar e a porta que dava para o escritório, desde aquela vez em que ela e o pai foram buscar Blair e o trouxeram para a fazenda, após o divórcio. O restante da casa teve o sabor de uma aventura. Havia uma enorme piscina interna, cercada por plantas em vasos e um mini jardim de inverno com plantas exóticas, como orquídeas. – É linda. – Niki ofegou, observando o cenário com olhos admirados. – Acrescentei a piscina e o jardim de inverno há dois anos – disse ele. – Oh. Para Elise. Blair lhe estudou a expressão. – Não. Para você. – Um sorriso curvou os lábios de Blair diante da expressão surpresa que ela não conseguiu disfarçar. –


Elise nunca passou sequer uma noite aqui. Ela detestava Billings. Vivia no circuito Paris-Roma-Nova York. – Não gosto de metrópoles – disse Niki, distraída. – Gosto de Billings – retrucou ele. – Na verdade, também gosto de Catelow. Montana e Wyoming têm muito em comum, inclusive espaço ao ar livre o suficiente para não permitir que um homem se sinta enclausurado. E não. Não gosto de metrópoles. Niki sorriu, tímida, enquanto tocava com extrema suavidade uma orquídea amarela, que florescia de um talo alto. Apenas um roçar das pontas dos dedos. – Sempre amei orquídeas. – Você se parece com elas – retrucou Blair com voz serena. – Percebi isso desde o primeiro instante em que a vi. Niki girou. – O broche que me deu não estava exposto em nenhuma vitrine – disse ela, sapiente. Blair deu de ombros, sorrindo. – Não. Encomendei especialmente para presenteá-la. Você é como uma orquídea – afirmou ele. A expressão do rosto moreno se tornando séria. – Precisa ser tratada com cuidado. – Ela mordeu o lábio inferior e desviou o olhar enquanto se encaminhava aos fícus plantados em enormes vasos. – Não se trata de uma crítica – disse ele, logo atrás de Niki. Em seguida, segurou-a pela cintura e a puxou contra o corpo, de modo que ela lhe sentisse o calor e a força. – Quis dizer apenas que precisa de cuidados. É só. Os dedos delicados descansaram sobre os dele, em uma carícia distraída.


– Meus pulmões sempre foram fracos – concordou ela. – Blair sentiu um arrepio lhe percorrer o corpo. Niki inclinou a cabeça para trás, recostando-a ao pescoço largo. – É um problema sério – prosseguiu em tom sereno. – Não sei o que fazer. Estou com tanto medo. Blair a girou com cuidado, emoldurando-lhe o rosto com as mãos fortes. – Conte-me. Niki observou os olhos negros que não conseguiam disfarçar a preocupação. – Sabe como minha mãe morreu? – Sim. Seu pai me contou. – Eles encontraram uma pequena imagem em seu pulmão. Um nódulo pequeno. Disseram que seria tranquilo, que o extirpariam, fariam quimioterapia, radioterapia e que ela ficaria bem. Repetiram isso duas vezes. E, por fim, ela morreu, agonizando, lutando para respirar. – Ela inspirou fundo. – Eu estava segurando a mão da minha mãe quando ela morreu. Tinha apenas 7 anos. Blair a puxou para os braços, embalando-a contra o corpo. – Não sabia desse detalhe. – Papai não gosta de falar sobre o assunto. Isso o entristece. Ele a amava mais do que tudo no mundo. Blair podia sentir o medo que a consumia por dentro. – O que está escondendo de seu pai tem algo a ver com aqueles exames que fez antes do passeio na trilha e a crise de asma? – perguntou ele com voz grave e serena. – Sim. Agi de forma egoísta e covarde. – Niki fechou os olhos e recostou o rosto ao peito musculoso. As batidas do coração de Blair estavam aceleradas e vigorosas. – Pensei em como foi com


minha mãe e em forçar meu pai a passar por tudo de novo. Pensei... que seria rápido... Mas não foi e acabei causando transtornos a muitas pessoas. Além de quase matar meu pai de susto. E de nada adiantou. Blair engoliu em seco. Os braços se estreitando em torno do corpo delgado. – O que está tentando me dizer? – Niki não sabia como explicar. Não pensara que o afetaria daquela forma, mas podia sentir o leve tremor dos braços fortes que a envolviam. Blair ergueu a cabeça e fitou os olhos cinza, enormes e entristecidos. Eram da cor da neblina que se desprendia do rio no fim do outono, pensou. – Vamos, diga-me. Niki inspirou fundo. – Eles encontraram um nódulo em meu pulmão no raio-X.


CAPÍTULO 11

BLAIR PERMANECEU imóvel durante um minuto, enquanto tentava digerir o que ela acabara de lhe contar. Pensou no tempo que perdera fugindo de Niki e agora talvez não lhes restasse nenhum. Como fora tolo! – O que o dr. Fred sugeriu? – Ele quer que eu faça uma tomografia – respondeu ela, pesarosa. – Não vejo nenhuma utilidade. Não quero passar pelo que minha mãe passou. Meu pai não merece sofrer tudo outra vez! – Ouça – começou ele, determinado. – Posso conseguir os melhores especialistas do mundo para você. Encontraremos uma forma de vencer isso! – E se conseguirmos? Quando eu for submetida a tratamentos com radiação, nunca poderei ter filhos. Jamais. – As lágrimas lhe faziam arder os olhos quando ela o fitou. – Que tipo de vida será essa? Sempre sonhei ter filhos – A voz de Niki falhou enquanto ela se soltava e envolvia a própria cintura com os braços. – Eles extirparão e tratarão, extirparão e tratarão até eu me transformar em um espectro de gente. E ainda assim, morrerei.


– Não morrerá – afirmou Blair entre dentes cerrados. – Custe o que custar! Niki girou. Os olhos tão cansados e opacos como os de um ancião. – Não é possível vencer certos tipos de câncer. Sei disso. – O rosto de Blair se tornou pálido. Os olhos negros, assustados. – Agora entende o que fiz? – perguntou ela. – Estava tentando poupar meu pai. Sei que foi uma estupidez deixar que Dan me convencesse a fazer a trilha e não levar meu remédio. – Niki fechou os olhos e estremeceu. – Só percebi o quanto seria terrível aquela morte quando a crise começou. Senti-me uma idiota. Todas aquelas pessoas tentando me salvar, papai quase enlouquecendo de preocupação. Eu devia estar louca! – Não. Estava apenas assustada. Não a culpo. Mas a vida vale a pena ser vivida, seja por quanto tempo for. – Eu... – Não tem de tomar nenhuma decisão hoje – disse Blair, após um minuto. – Jameson pediu à cozinheira que preparasse um jantar especial. Vamos comer e ver televisão. Depois, terá uma boa noite de sono. Amanhã voltaremos a conversar sobre o assunto. Combinado? – Não mudarei de ideia – garantiu ela. Blair lhe estudou o rosto abatido. – Qual o tamanho desse nódulo? – Não perguntei. Os olhos negros se estreitaram. – E o dr. Fred está convencido de que é câncer? Niki hesitou. – Bem... Não. Ele disse que pode haver vários outros diagnósticos. Mas com a história da minha mãe...


– Entendo. – Blair se aproximou e a envolveu nos braços. – Se for muito pequeno – começou em tom suave –, talvez seja possível removê-lo e isso lhe possibilite ter um filho, antes que se torne perigoso. Niki ergueu o olhar para fitá-lo. – Acha mesmo? – Vamos descobrir. Tenho um amigo de faculdade que é oncologista. Posso trazê-lo até aqui para examiná-la. A expressão de Niki se iluminou. – Existem clínicas de fertilidade. Blair a calou com um dedo sobre os lábios. – Conversaremos sobre o assunto quando chegar a hora – disse ele com voz rouca. A agonia de Niki era evidente. – Não sei o que fazer. Mesmo que eu tivesse um filho, acabaria morrendo. Meu pai teria de criá-lo... A expressão de Blair endureceu. – Todas as decisões podem esperar até que saibamos com que estamos lidando, certo? – Esse é o problema – respondeu ela com expressão desgostosa. – Não sei se quero descobrir com que estou lidando. – Mais uma vez, ela fechou os olhos e estremeceu. – Quando eles me derem a notícia... Blair a puxou para perto e enterrou o rosto no pescoço macio. Pensava em Todd, na terrível perda que o amigo sofrera. Mas lhe restara Niki, o símbolo vivo do amor que ele perdera, uma razão para continuar a viver. Niki queria um filho mais do que tudo na vida. Ele também desejava, mas, acima de qualquer outra coisa, queria tê-la em


sua vida. Não suportava sequer pensar nos anos longos e vazios sem ela. Blair forçou o pensamento para o fundo da mente. Não importava o que acontecesse, o que custasse, não perderia Niki. Não interessava o que tivesse de fazer, encontraria um jeito! Com semblante tenso, ele a soltou devagar. Os olhos negros brilhando com os sentimentos intensos. – Um dia de cada vez. Está bem? – Niki lhe buscou o olhar. Todo o corpo parecia vibrar com a força que dele emanava. – Está bem? – perguntou ele novamente em tom suave. – A determinação de Blair começou a lhe alimentar a esperança. Niki anuiu. – E tem de parar de se preocupar até termos certeza do que se trata – concluiu ele em tom firme. Niki ergueu o braço e lhe traçou o contorno da mandíbula com um dedo. – Você é o meu melhor amigo – disse ela com voz rouca. – Obrigada. Por tudo... – Telefonarei para Trevor esta noite e lhe contarei o caso. Se ele tiver um tempo livre, mandarei buscá-lo amanhã para consultá-la. Trevor e o dr. Fred podem providenciar para que faça uma tomografia no hospital daqui. Eu a acompanharei. Niki trincou os dentes. – Tão cedo? – perguntou, angustiada. – Quanto antes, melhor – retrucou ele. A voz grave preocupada. – Saber é sempre melhor do que ficar imaginando. Não se pode lutar sem se conhecer o inimigo. Niki deixou escapar um suspiro. – Está bem. Blair pressionou os lábios à testa delicada. – Não custa nada ser otimista.


Uma risada escapou dos lábios de Niki. – Tem razão. – E se aproximando ainda mais. – A propósito, amei sua casa. Um sorriso bailou nos lábios de Blair, enquanto ele lhe envolvia os ombros com um dos braços. – Que bom que tenha gostado. – Ele se inclinou e roçou os lábios aos dela com ternura. – Em seguida, ergueu a cabeça e procurou os olhos cinza-claro. Sentia-se como se caminhasse nas nuvens. – Vamos ver o que a cozinheira fez para o nosso jantar. – Está bem – respondeu Niki, sorrindo. APÓS O jantar, que incluiu todos os pratos favoritos de Niki, ele tomou duas dozes de uísque enquanto os dois assistiam a um filme na televisão. A mente não conseguia parar de se preocupar com o futuro. Niki percebeu que o copo de Blair estava sempre cheio e lhe lançou um olhar apreensivo. – A bebida me relaxa quando tenho preocupações na mente – justificou ele, inspirando fundo. – Tomei metade de uma garrafa no dia em que você e seu pai vieram me buscar. – E com uma expressão de desagrado, acrescentou: – O dia de sua formatura. Que dia infernal para você. – Ao contrário. Foi um dia agradável. Eu me formei e depois evitei que meu melhor amigo cometesse um ato desesperado. – Ela lhe dirigiu um sorriso terno. – Sinto muito que seu casamento não tenha dado certo. Lembro-me de como parecia feliz quando estava noivo de Elise. – Ela se parecia com minha mãe, fisicamente – disse ele em tom suave. – Mas apenas no exterior, o que, para minha tristeza, acabei descobrindo tarde demais.


– Papai me disse que ela queria aumentar o valor da pensão que você lhe dá – disse Niki, sem lhe sustentar o olhar, enquanto passavam os comerciais na televisão. – Elise gosta de levar uma vida luxuosa. – Blair terminou de tomar o segundo uísque. – Mas acho que há outra razão por trás disso. Tenho quase certeza de que a estão chantageando. – Elise não lhe contaria se fosse esse o caso? – Depende – respondeu Blair, deixando-se afundar no sofá ao lado dela. – Se isso me desse uma razão para parar de lhe pagar a pensão, talvez não. – Por que Elise precisa de pensão? – Niki quis saber. Blair a fitou com olhar divertido. – Por que ela gosta de comprar casacos de pele novos a cada estação e dirigir uma Ferrari. – Niki o fitou com olhar confuso, como se ele estivesse falando um idioma desconhecido. – Você se encantou com um bracelete de couro cru com um medalhão de chifre de veado – lembrou ele, trincando os dentes. – Poderia ter pedido o que quisesse naquela loja! Elise sempre escolhia diamantes, casacos de pele e carros. – Nunca almejei nada disso – retrucou ela. – Uma orquídea de estufa rara – disse ele, puxando-a para perto e lhe fitando os olhos cinza e ternos. – Gostaria de ter feito Brady rolar a escadaria daquele hospital. Niki lhe tocou a boca larga e sexy com as pontas dos dedos. – Já concordamos que foi decisão minha fazer a trilha. Dan não me forçou. Blair lhe beijou os dedos e os pressionou contra a lateral do rosto. – Não consigo me lembrar de nada que tenha me assustado tanto. Nunca ouvi Edna aos prantos ao telefone antes.


– Você disse que foi até nossa casa... Blair deu de ombros. – Menti. Eu telefonei. Minha consciência pesava por tudo que havia lhe dito – confessou. – Queria fazer as pazes com você. – A expressão de Blair endureceu. – É incrível como tudo se torna claro como água quando pensamos que não teremos tempo para consertar um erro. – Agi como uma idiota... – Tudo que fez foi usar um maiô e ficar muito sexy. Amei sua aparência naquele traje de banho. E não consegui controlar o que senti quando a vi vestida daquela forma. – Niki o fitou sem entender. – Você não é nem um pouco experiente – brincou ele, puxando-a para o colo, de modo que a cabeça de Niki descansasse no ombro largo. Os olhos negros prenderam os dela por um longo tempo. – Perdi o controle com você, no mar. Nem ao menos percebeu, certo? Niki negou com a cabeça, fascinada. A mão longa lhe traçou o contorno do queixo e a curva do pescoço. Os dedos descendo pelo colo macio até se espalmarem sobre um dos seios firmes. – Foi isto que me fez perder a cabeça, o motivo por não ter me contido. Se estivéssemos sozinhos, teria sido bem mais sério. – Um rubor intenso se espalhou pelo rosto de Niki. Os olhos negros se estreitaram. – As pessoas podem fazer sexo de pé, querida, e nós estávamos com a água na altura do pescoço. Ninguém perceberia. – De pé? A expressão surpresa e fascinada de Niki o encantou. – Sim, querida, de pé.


Os olhos cinza-claro se fixaram na boca sexy. Hesitante, ela esticou o braço e lhe traçou o contorno dos lábios com a ponta dos dedos. – Senti-me muito envergonhada depois – confessou. – E eu fiquei com a consciência tão pesada pelo que fiz, que me vi incapaz de encará-la durante o jantar – confessou ele. – Por isso, convidei Janet para sair. Para que pensasse que eu não me importava com você. – Blair inspirou fundo. – Você é dezesseis anos mais nova que eu. E isso é um empecilho. – Por quê? – Porque um dia desejará um homem mais novo, querida – respondeu Blair com naturalidade. – Acha mesmo? – Você não tem experiência de vida – afirmou ele. – Saiu apenas com dois homens. Um idiota bêbado e um doente mental. Existem bons rapazes no mundo. Os dedos delicados brincaram com o lábio inferior de Blair. – E acha que o que desejo é um homem jovem? Blair roçou os lábios de leve aos dela. – Um dia, quem sabe. As mãos delicadas escorregaram pelo cabelo negro, espesso e ondulado. Alguns fios prateados começavam a lhe permear as têmporas. – Se você fosse vinte anos mais novo ou mais velho, não faria diferença alguma. Gosto do homem que você é. – Sou o único com quem teve intimidade – argumentou ele. Niki pressionou a lateral do rosto ao peito largo, escutando as batidas vigorosas do coração de Blair. – Nem tanta intimidade assim.


– A noite é uma criança – brincou ele, com uma risada. Os dedos delicados começaram a trabalhar nos botões de sua camisa. – Não é uma boa ideia – acrescentou, segurando-lhe as mãos. – Tem certeza? – questionou Niki, ousada. Talvez tivesse pouco tempo de vida e aquilo era algo que sempre quisera experimentar. Desejava Blair. – Não poderíamos brincar um pouco? – Brincar? – provocou ele. – E de que acha que consiste essa brincadeira? – Talvez do que fizemos no México – respondeu Niki. – Eu estava sóbrio naquela ocasião. Niki inclinou a cabeça para o lado, erguendo o olhar para fitálo com um sorriso. – E qual é a diferença? – Homens alcoolizados têm menos capacidade de se controlar do que eu tive naquele dia – explicou ele. – Então... talvez não consiga parar? – Talvez não. Os dedos de Niki brincaram em torno de um dos botões da camisa que ele usava. – E se eu não me importar? Blair sentia o coração lhe martelando as costelas. – Primeiro, terá de fazer uma tomografia, depois conversaremos com o oncologista. – Se fizermos isso, talvez você queira tomar uma atitude nobre e não dormir comigo. – Quero que você viva, querida. Niki ergueu o olhar para fitá-lo.


– E eu quero ter um filho. – Inclinando a cabeça para cima, ela roçou os lábios de modo lento e suave contra os dele. – Mais do que tudo. A mão que ele mantinha espalmada no seio firme, começou a se mover em uma carícia delicada. Os lábios se entreabrindo para capturar os dela. Blair mal conseguia respirar, o coração disparado dentro do peito. Desejava-a tanto e há tanto tempo, que não conseguia se impedir de tocá-la. A possibilidade de estar grávida talvez lhe devolvesse um pouco de esperança. Ao menos, era isso que o cérebro levemente embotado pelo álcool lhe dizia. Desejava-a à loucura. Seria pouco provável que Niki engravidasse após uma única noite. Os homens de sua faixa etária não eram tão férteis quanto os jovens. E Elise nunca engravidara. Talvez fosse estéril. Mas Niki não sabia disso e, daquela forma, poderia trazê-la à razão. Se ela pensasse que havia concebido, talvez lutasse com unhas e dentes pela vida. – Por favor? – sussurrou ela contra os lábios firmes. Blair se viu incapaz de resistir. Havia pelo menos uma dezena de razões para fazê-lo, mas a combinação do álcool e do corpo macio e viçoso de Niki em seus braços o impediam. – Por favor? – repetiu ela, arqueando o tronco na direção da mão que a acariciava. Um tremor violento o perpassou. – Está bem – concordou Blair, sussurrando contra os lábios macios. – Mas terá de me deixar guiá-la desta vez – acrescentou, enquanto se erguia com ela nos braços. – Não quero que sua primeira experiência seja algo que prefira esquecer. Entendeu? – Sim – concordou Niki com voz suave, fitando-o com olhar terno e apaixonado, enquanto ele desligava a televisão e seguia


pelo corredor ainda a segurando nos braços. – Jameson... – lembrou de repente. – Ele dorme na outra extremidade da casa – informou ele com os lábios encostados aos dela. – E tem um sono pesado – acrescentou, antes de lhe morder de leve o lábio. – Pode gritar, se quiser – provocou em tom rouco, enquanto cruzava o longo corredor. Em seguida, abriu a porta do próprio quarto, equilibrando-a em um só braço. – Gritar? – perguntou Niki, curiosa. – Mas disse que não ia doer... – Deus! – rosnou ele. – Você não tem a menor ideia de como é o sexo! Enquanto Niki tentava entender o que ele dissera, Blair fechou a porta com um ombro e a colocou de pé no chão por tempo suficiente para girar a chave na fechadura. Em seguida, fechou os lábios sobre um dos seios empinados. Um arrepio violento a percorreu. Fazia muito tempo que ele a tocara daquela forma. Inclinando o tronco para a frente, deliciou-se com a sensação da boca firme e quente, mesmo através das camadas de tecido. Erguendo-a mais uma vez nos braços, Blair a carregou para a cama, estacando apenas para puxar o edredom e os lençóis, antes de pousá-la sobre o colchão. Ainda havia luz lá fora e Niki era tímida. Mas ele parecia não perceber, enquanto retirava os sapatos, despia-se até ficar apenas com a cueca de seda preta, retirava-lhe os calçados e começava a desnudá-la. Niki se encontrava rubra de vergonha quando se descobriu usando apenas as roupas íntimas.


Uma risada baixa e pecaminosa escapou da garganta de Blair, mas ela lhe segurou a mão quando a sentiu no fecho do sutiã. – Detesto lhe informar, querida, mas não podemos fazer amor vestidos – sussurrou ele com os lábios a milímetros dos dela. – Blair! – exclamou Niki, fazendo-o soltar uma risada. Em seguida, ele começou a lhe provocar os lábios, enquanto que, com movimentos lentos e precisos, livrava-a do sutiã e o atirava para o lado. Os olhos negros rumaram para os seios firmes e pequenos, encimados por mamilos rosados, já enrijecidos pelo desejo. Com a ponta de um dedo, Blair lhes traçou o contorno. A respiração soando ofegante. Com os lábios, roçou os mamilos intumescidos, saboreando-os com a língua. Niki arqueou o corpo e estremeceu. – Foi assim, logo após voltarmos do México, no carro – sussurrou ele, erguendo a cabeça para fitar os olhos cinza-claro. – Nunca desejei tanto uma mulher em toda a minha vida. Fui cruel, mesmo contra minha vontade. – Você me acha muito jovem – sussurrou Niki também. – Não, sei que é muito jovem – corrigiu ele. A mão longa se espalmando em um dos seios outra vez. Mas não me importo mais com nossa diferença de idade. Não a perderei. Os dedos de Niki lhe tocaram a boca firme, traçando-lhe o contorno com adoração. O rosto delicado, tristonho. – Pensei que nunca poderia tê-lo – confessou ela com voz rouca. – Fiz a trilha com Dan Brady porque nada mais importava. Você havia saído da minha vida e a deixou vazia... Os lábios firmes cobriram os dela. Um gemido escapou da garganta de Blair enquanto a beijava com avidez e pressionava o


peito largo aos seios firmes. A sensação do calor que dele emanava a fez estremecer de prazer. – Está gostando? Fica ainda melhor – afirmou Blair com um sussurro rouco. – Será que... é possível? – ofegou ela, antes de corresponder ao beijo com igual paixão. – Espere e verá. Niki lhe envolveu o pescoço com os braços. – Vai doer? – perguntou preocupada. Uma risada suave escapou dos lábios de Blair. – Devo lembrá-la que isso foi ideia sua. Mas por ora... – Blair a tocou de uma forma como nunca fizera. O choque a fez erguer o tronco da cama, enquanto tentava lhe segurar o antebraço para detê-lo. Mas logo os movimentos hábeis da mão longa a deixaram sem fôlego para protestar. Dominada pela excitação, ela soltou um grito suave quando estrelas explodiam em sua mente. – E estamos só começando – sussurrou ele, antes de fechar os lábios sobre um dos mamilos enrijecidos. NIKI CORRESPONDIA àquela paixão com igual intensidade. Ele sentia o corpo macio e viçoso enquanto a tocava e saboreava. A boca experiente estava por todos os lugares. Nos seios firmes, no abdome reto, na pele aveludada do interior das coxas. Ela arqueava o corpo na direção da fonte de seu prazer, enterrando as unhas nas costas largas enquanto as sensações excitantes escalavam em uma velocidade vertiginosa. Niki nunca vira as formas como ele a tocava descritas nos romances que costumava devorar. – Nunca nos contaram... na aula de educação sexual... que era assim! – ofegou ela.


– Não ousariam – retrucou Blair com uma risada abafada. Um novo tremor a varou quando as mãos fortes deslizaram por seu corpo e lhe ergueram os quadris na direção da boca experiente. Não havia tecido algum a lhe cobrir a intimidade, mas Niki não se lembrava de ele ter lhe removido a roupa íntima. Não lhe importava se a luz ainda incidia pela janela enquanto o sol se punha. Limitou-se a fitar os olhos negros enquanto o desejo a catapultava a alturas inimagináveis. – Calma – sussurrou ele, enquanto se posicionava entre as coxas macias. – Devagar, querida. Não vou machucá-la. Está pronta para me receber. Niki não entendeu o que ele quis dizer até sentir a invasão lenta e suave em seu corpo, enquanto Blair lhe fitava os olhos arregalados e chocados. Um ofego alto escapou da garganta de Niki. Até mesmo nos seus mais eróticos sonhos, nunca imaginara aquela sensação. Blair se movia com maestria, intensificando-lhe os espasmos de prazer. Ela o sentiu rígido, investindo cada vez mais para dentro dela. Uma pontada aguda de dor a fez morder o lábio inferior e virar a cabeça para o lado no travesseiro. – Não – sussurrou ele, experimentando um forte tremor. – Não desvie o olhar. Deixe-me vê-la. Nunca fui o primeiro homem de uma mulher. Quero levar essa lembrança comigo enquanto viver. Niki girou o rosto chocado para fitá-lo, permitindo que ele lhe visse o olhar. As unhas curtas se cravando nos ombros largos quando Blair voltou a se mover.


– Só mais um pouco – sussurrou ele. Os quadris se movendo com extremo cuidado. As belas feições contraídas em uma expressão tensa. – Sim! Niki se sentiu possuída por completo. A sensação chocante reverberando por todo o seu corpo. Permaneceu imóvel, observando-o sentindo a pressão do corpo grande e musculoso, enquanto ele erguia e baixava os quadris em um ritmo lento. – Qual é a sensação de me sentir todo dentro de você? – sussurrou ele. Um tremor intenso a varou. – Blair! – gritou ela, erguendo os quadris de repente para que a penetrasse ainda mais fundo. – Oh, Deus! – Sim – rosnou ele. – Faça isso de novo. Sim. Sim! Niki se movia no ritmo que ele imprimia, erguendo os quadris, exigente, enquanto uma onda de calor avassaladora a envolvia como um jorro de lava derretida. Ela prendeu a respiração. Não conseguia pensar ou sequer existir sem a cadência que Blair lhe ensinava. Espasmos lhe sacudiam o corpo a cada investida forte. Encontrava-se tão enlevada com aquele misto de sensações eletrizantes que era como se vivesse através dele. Blair nunca imaginara sentir algo tão intenso. Nunca em sua vida um ato sexual lhe proporcionara sensações tão exacerbadas. Ele se moveu com Niki até identificar a mesma paixão explosiva que estava experimentando estampada naquele rosto delicado. – Mais rápido agora – orientou ele, sentindo a tensão sexual o empurrar para a beira de um abismo de prazer. – Mais forte, Niki... Forte. Mais forte...! Niki escancarou as pernas o máximo que pode. As unhas enterradas na pele firme das costas largas, à medida que a tensão


crescia de maneira vertiginosa até explodir como em uma chuva de fogos de artifício e a fazer gritar em um tom de voz que nunca antes ouvira. Ela lhe mordeu o ombro, com força, quando experimentou o primeiro clímax de sua vida. Blair a acompanhou em cada explosão de prazer. O corpo forte estremecendo com os espasmos violentos. Um gemido rouco lhe escapou dos lábios, os quadris arqueados contra os dela, o peito erguido, a cabeça atirada para trás, enquanto se sentia como se estivesse sendo lançado ao espaço em um foguete. Niki o observou, fascinada, mal conseguindo respirar. Os músculos estavam mais relaxados agora, quando sentia o peso do corpo forte sobre o dela. A respiração de Blair soava ofegante. A estrutura sólida e pesada ainda estremecendo com a força do êxtase. – Uau! – sussurrou Niki. Uma risada involuntária escapou da garganta de Blair. Podia sentir o encantamento de Niki com o que acabaram de compartilhar. Ela era virgem e experimentara um clímax pela primeira vez. Por fim, ele ergueu a cabeça e fitou o rosto corado e arrebatado de Niki. – Uau? – provocou. Niki se estirou sob o corpo forte, o prazer ainda reverberando no movimento suave de seus quadris. – Uau – sussurrou ela, sorrindo-lhe com o coração refletido no olhar. Blair sustentou o peso do corpo nos cotovelos e roçou os lábios aos dela. – Para uma primeira vez, foi cataclísmico.


– Sim, foi. Blair rolou para se deitar de costas e a puxou contra o peito enquanto ambos tentavam recuperar o fôlego. Niki se sentou na cama, sem disfarçar a timidez enquanto o fitava, sorvendo a incrível masculinidade daquele corpo musculoso, do peito largo coberto de pelos crespos e negros, das coxas enormes. Blair era um colírio para os olhos. – Estudando anatomia? – brincou ele. Um sorriso suave curvou os lábios de Niki. Com uma risada, ele a puxou de volta para aninhá-la à lateral do corpo. Niki se aconchegou ao calor que dele emanava. Ele não usara nenhum método contraceptivo. Esperava com toda a força de seu coração que tivesse engravidado, não importava o que o futuro lhe reservasse. Ela inspirou fundo. Fizera algo que jurara nunca fazer: dormir com um homem com quem não estivesse casada. Mas amava Blair com todo o seu ser. Talvez Deus a perdoasse. Sob as circunstâncias atuais, talvez nunca mais fizessem amor. Talvez não vivesse tempo suficiente para que isso acontecesse. – Está taciturna outra vez – murmurou ele. – Desculpe. Blair se ergueu, encaminhou-se ao frigobar dentro do quarto, pegou uma cerveja e a abriu no caminho de volta à cama. Em seguida, tomou um gole e lhe entregou a lata. – Sei que detesta cerveja. Mas está gelada. – Argh! – resmungou ela, mas tomou vários goles da bebida cor de âmbar. Blair também tomou alguns goles. Em seguida, colocou a lata sobre o criado-mudo e girou na direção dela com os olhos ainda


mais escurecidos e serenos. – Pense que o amanhã não existe – disse ele, puxando-a de volta para os braços. – Apenas nós dois. Apenas esta noite. Niki lhe envolveu o pescoço largo com os braços. – Sim – concordou em tom suave. – Apenas esta noite. Capturando-lhe os lábios com um beijo profundo, ele a deitou contra o colchão outra vez. NAS PRIMEIRAS horas da manhã seguinte, Blair a levou para o chuveiro e a ensaboou como se tivesse feito aquilo durante toda a sua vida. Niki achou aquela intimidade fascinante. Nunca imaginara como seria ter aquele tipo de relação com um homem. Ela o fitava com olhar renovado e se sentia diferente ao lado dele. Os olhos cinza-claro refletindo todo o amor que sentia. Não conversaram sobre amor. Sabia que Blair a desejava, mas ele não professara nenhum sentimento mais profundo. Ela também não insistiu. Não havia mais tempo. Talvez, aquele dia lhes trouxesse respostas indesejadas. Com os corpos enrolados em toalhas, ele lhe secou o longo cabelo loiro e permitiu que Niki fizesse o mesmo com os dele. Durante todo o tempo, a observava como se não se saciasse com a visão daquela mulher. – Tem alguma verruga gigante nascendo na ponta do meu nariz? – provocou ela, enquanto pousava o secador de cabelo. Blair alisou o cabelo loiro e macio. – Você é linda. Não me canso de admirar sua beleza. Niki sorriu. – Obrigada. Blair inspirou fundo.


– Sinto muito. – Por quê? – Sobre ontem à noite – retrucou ele. – Bebi além da conta e não consegui me controlar. Não queria que acontecesse desse jeito. – Oh! Blair lhe ergueu o rosto. – Não finja que não está preocupada, também. Niki engoliu em seco. – Estou vivendo um momento suspenso no tempo – tentou explicar. – Não sei o que vem a seguir. Agradeço-lhe... por ter me ajudado a sobreviver a esta noite. O sexo entre eles teria significado apenas isso para ela? Sabia que Niki gostara e que lhe tinha afeto, mas Blair esperava que tivesse significado mais. No mesmo instante, recriminou-se em silêncio. Provara o doce sabor de Niki, que desejava há anos. Agora era hora de colocar suas necessidades egoístas de lado e se concentrar nas dela. – Telefonei para Trevor, antes de você acordar – disse Blair. – Ele e o dr. Fred providenciarão a tomografia para esta tarde. – Entendo. Blair roçou os lábios à testa delicada. – Temos de enfrentar seja o que for. Depois faremos tudo que estiver ao nosso alcance, certo? Niki mordeu o lábio inferior. – Certo. – Vamos nos vestir. Niki parecia perturbada. – O que foi?


– A cama – disse ela, corando ao lembrar da pequena mancha de sangue no lençol. – Jameson... Blair lhe traçou o contorno do lábio inferior com o polegar, invadido pelo sentimento de culpa. – Jameson e as empregadas são pagos para agir com discrição. Ninguém nunca comentará sobre o assunto. – Está bem. Se tem certeza. Blair a puxou para os braços e a embalou. – Descobriremos o que está acontecendo com seu pulmão e depois faremos planos. Está bem? – Sim. – Niki engoliu em seco. – E se eu tiver engravidado? – perguntou, hesitante. – Seria capaz de me odiar...? – Odiá-la? Meu Deus! – O peito largo arfou com a indignação. Os braços fortes de Blair se contraíram em torno dela. Os olhos negros se fechando quando ele enterrou o rosto na lateral do pescoço delicado. – Seria como uma manhã de Natal – sussurrou. O coração de Niki deu um salto dentro do peito. Ele não soava relutante com a atitude que tomara. – É mesmo? Os lábios quentes roçaram a pele aveludada do ventre de Niki. – Eu desejaria esse filho com toda a força do meu coração. Apenas... – Apenas o quê? Blair ergueu a cabeça e suspirou ao encontrar os olhos cinzaclaros. – Querida, um homem perde um pouco da fertilidade com o passar dos anos – disse com expressão dolorosa. – Nunca tentei engravidar uma mulher. – Na verdade, tentara engravidar Elise e não conseguira, mas não seria capaz de confessar. Niki mordeu o


lábio inferior. – Não me olhe desse jeito – disse ele com voz rouca, puxando-a contra o corpo. – Podemos tentar. Deus sabe que desejo um filho tanto quanto você. O nó dentro do peito de Niki se afrouxou. Claro que um homem como Blair desejaria um filho com todas as forças. Lembrou-se do Natal em que ele consolara a garotinha, cujo pai desejava que ela fosse um menino. – Não me importo quanto tempo leve. – Niki escorregou a ponta dos dedos pelo peito largo e musculoso, com as feições contraídas em uma expressão pesarosa. – É que... não sei por quanto tempo... eu... Bem... – A angústia estampada naquelas belas feições masculinas a encheu de culpa. Niki envolveu o tronco forte com os braços. – Tudo bem. Se eu... Se o nódulo for algo... Seria uma estupidez ficar grávida. Estaria colocando a criança em risco, também. – Ela ergueu a cabeça para encontrar o olhar preocupado de Blair. – Estava com medo e me agarrando a qualquer esperança. Não quero forçá-lo a uma situação para a qual não está preparado. – Niki se sentia culpada pelo que dissera. Ele não mencionara casamento e lá estava ela insistindo no assunto de ter um filho. Não era justo colocá-lo naquela posição. Amava Blair, mas fora o desejo físico que o levara a carregá-la para o quarto. Tinha de encarar a verdade. Ele a percebera desesperada para se agarrar a algo que lhe devolvesse a esperança e lhe fizera a vontade. Talvez não passasse disso. Blair acariciou o cabelo longo e loiro, sentindo-se impotente. Estava mais do que preparado para a paternidade, aquele não era o problema. Ele começou a falar no instante em que o telefone celular tocou. Soltando-a, ele se encaminhou ao quarto para atender.


– Sim? – Em seguida, fez uma pausa e escutou, relanceando o olhar a Niki. – Sim, tudo bem. Eu a levarei. Obrigado. – E desligou. – Era Trevor. Ele nos encontrará no hospital às 13h. Niki engoliu em seco, o constrangimento substituído pelo terror diante da tomografia e o possível resultado. – Está bem – concordou. Blair a segurou pela mão e guiou ao próprio quarto. – Vista-se. Depois tomaremos o café da manhã – disse ele. – Vamos enfrentar isso juntos, certo? Niki anuiu. – Certo. Com o coração partido dentro do peito, ele a acompanhou até a porta do quarto. Nunca deveria ter ido tão longe com Niki. Ela era virgem. Aquele tesouro devia ter pertencido ao seu marido, a um homem mais jovem que pudesse lhe proporcionar uma vida plena e feliz. Niki estava aterrorizada e ele tentara lhe dar razões para continuar vivendo, mas deveria ter feito isso apenas com uma boa conversa. Em vez disso, com o medo de perdê-la, levara-a para a cama. Sentia vergonha de si mesmo. Mas estava rezando para que a vida de Niki não terminasse tão rápido. Mesmo que tivesse de abrir mão dela para sempre, desejava-a viva.


CAPÍTULO 12

NIKI

sentiu o sabor da comida. Blair se encontrava silencioso e sombrio. Era óbvio que a culpa o corroia por dentro. Ele se culpava por ter avançado o sinal com ela. Mas fora ideia sua. Desejava um filho, mas só se fosse de Blair, porque o amava. Talvez ele achasse que qualquer homem serviria para aquele propósito. Ela nunca lhe confessara seu amor. Temia fazê-lo. Mas Niki tinha certeza de que ele não a amava. Dormira com ela não por estar apaixonado, mas porque havia bebido e a desejava. Há muito tempo. Fora seu melhor amigo. Agora era também seu amante. Decidira sacrificar todos os seus princípios para atender ao desejo sexual de um homem. Tinha vergonha de si mesma. – Não está comendo – disse Blair, conciso. – Niki baixou o olhar à omelete intocada com bolinhos de batata fritos e torradas. E por alguma razão, a preparação com ovos lhe fez revirar o estômago. – Pensei que gostava de omelete – insistiu ele. Blair estava comendo panquecas com bacon. Detestava ovos. – E gosto. Estou apenas preocupada. É só – assegurou ela. – Ao menos coma as torradas – sugeriu ele. Niki inspirou fundo. MAL


– Não quero fazer a tomografia. – Também preferia que não tivesse de fazê-la, mas não pode fugir da vida. Tem de enfrentá-la, com todos os seus percalços. Niki conseguiu forçar um sorriso. – Acho que tem razão. Blair tomou um gole do café e franziu a testa. – Temos várias horas vagas. Acho que poderíamos ir ao campo de batalha. – É uma longa viagem, certo? – perguntou ela. Blair deu de ombros. – Não tão longa. Iremos de limusine para dar aos turistas algo a mais para admirarem – acrescentou, com um sorriso forçado. – Que tal? – A ideia me agrada. – Leve o spray inalador no bolso – disse ele em tom firme. Niki inspirou fundo, mas os olhos cinza lhe sorriram. – Já coloquei. Blair anuiu. A VIAGEM até Hardin, Montana, próximo onde ambas as reservas Crow e Cheyenne do Norte ficavam localizadas, foi longa. Mas fez um excelente tempo. O dia estava ensolarado e belo. O cenário, embora monótono em algumas regiões, era deslumbrante. Porém, nenhum dos dois prestava atenção. Temiam o que estava por vir. Hardin era conhecida como “a cidade com um propósito”. E o propósito, segundo constava em um panfleto do início do século XX, era o progresso, já que a cidade era o ponto de embarque para a agricultura. Niki a achou charmosa. O campo de batalha de Little Bighorn ficava apenas a 24 quilômetros de distância.


Blair entrelaçou os dedos aos dela, enquanto galgavam com passos lentos a colina até o monumento de Little Bighorn. – Após a Batalha, Custer e seus homens foram enterrados em covas rasas. Os predadores e o calor tornaram a identificação dos corpos quase impossível. Marcaram a cova de Custer com uma tenda, cobertores e pedras, mas, um ano após a batalha, quando seu corpo seria transferido para West Point, a tenda, os cobertores e os outros marcadores haviam desaparecido. A primeira vez em que pensaram estar de posse do corpo de Custer, a identificação foi questionada. Na segunda, tiveram certeza de que se tratava dele. Ainda havia um tufo de cabelo vermelho-dourado preso ao escalpo e Libby Custer identificouos como da cor exata do cabelo de seu marido. – Os corpos foram dispersados por predadores, certo? – perguntou ela, lembrando um documentário que assistira na televisão. – Sim. Portanto, eles supostamente enterraram Custer em West Point – explicou Blair. – Mas conseguiram encontrar apenas alguns ossos e acho que sequer tiveram certeza se todos pertenciam a ele. Talvez, ainda hajam restos mortais de Custer por aqui, assim como os de seus homens. Niki girou na direção dele. – Qual a sua teoria sobre o que aconteceu de verdade? – Acho que Custer foi assassinado logo no início da batalha, talvez quando ele avançou pelo rio na direção da aldeia com alguns homens. Um dos Cheyenne relatou que um oficial branco foi abatido no rio, e os homens o carregaram colina acima para um último reduto. Claro que, se o oficial não fosse Custer, o teriam largado no rio. Os nativos estavam atacando os soldados por todos os lados. Não faz sentido eles se arriscarem a


ser mortos para resgatar um corpo, a não ser que se tratasse de seu comandante e pensassem que ele não estava morto. Niki anuiu. O olhar abarcando toda a paisagem. O vento soprava sem trégua. – Este lugar é tão solitário! Um sorriso curvou os lábios de Blair, enquanto os dedos longos se contraíam nos dela. – Nem tanto – provocou ele, indicando as dezenas de pessoas que rodeavam o monumento, tirando fotos e vagando pela trilha que levava ao campo de batalha em si. Niki se recostou ao peito largo com um suspiro. – Ainda assim é solitário. Blair lhe soltou a mão e a envolveu nos braços, puxando-a ainda mais para perto. – Em 25 de junho de 1876, era um lugar agitado. Os ecos do dia da batalha se propagam até o presente. – Papai me disse que temos um primo que lutou aqui. Blair soltou uma risada abafada. – Também tenho um primo distante que lutou aqui. – Ele se inclinou para a frente. – Mas o meu era Cheyenne. Suponho que o seu fosse da reserva oponente. Niki também sorriu. – Imagino que sim. Cheyenne? Blair anuiu. – Um dos meus ancestrais franceses se casou com uma pessoa da tribo. – Eles eram caçadores de peles? – Sim, e montanheses. Niki observou o campo de batalha.


– Fico feliz em não ter vivido no tempo em que isso aconteceu. Posso imaginar como as viúvas se sentiram. E deixar aqueles homens enterrados ali durante tanto tempo, longe dos familiares que os amavam... – A voz de Niki soou embargada. – Pobre sra. Custer, esperando que trouxessem os restos mortais do marido de volta para a cidade onde moravam e sem saber se de fato pertenciam a ele. – Era uma época diferente e as pessoas no poder não se mostravam muito sensíveis. – Os arqueólogos fizeram muitas descobertas nos últimos anos – disse ela. – Assisti a um documentário sobre o assunto na televisão. – Não costumo assistir televisão – disse ele com uma risada baixa. – Compro DVDs. Detesto os comerciais. – Mas como conhece os produtos que precisa comprar se não assiste aos comerciais? – provocou Niki, erguendo o olhar para fitá-lo. – Pode perder algo de abalar as estruturas. Blair roçou os lábios à testa delicada. – Vivenciei algo de abalar as estruturas, ontem à noite – sussurrou e, quando ergueu a cabeça, tinha o semblante sério. – A mais bela e erótica experiência de toda a minha vida, cuja lembrança levarei comigo até a morte. As palavras a emocionaram. – Eu também – retrucou ela, logo se lembrando que talvez não fosse por muito tempo, em seu caso. – Não fique tão preocupada – disse Blair, puxando-a para perto. – Enfrentaremos o que for. Aconteça o que acontecer, estamos nisso juntos. Niki recostou o rosto ao peito largo e fechou os olhos. – Está bem.


JAMESON OS levou de volta direto para o hospital de Billings. Niki foi encaminhada ao setor de radiologia, onde retirou a blusa, o sutiã e vestiu um roupão descartável, antes de o técnico realizar o exame. Demorou apenas alguns minutos. Quando acabou, ela se juntou outra vez a Blair, na sala de espera. Um dos braços musculosos lhe envolveu os ombros. – Terminou? – Sim – respondeu ela. – Preenchi os formulários, antes de eles me trazerem de volta – lembrou. – Disseram-me que o médico nos telefonará mais tarde, quando tiver o resultado. Blair fez uma careta desgostosa. As próximas horas seriam um pesadelo. Os dois passearam pela cidade, visitando lojas apenas para apreciar as mercadorias. Blair estava preocupado. Niki estacou diante do departamento de artigos infantis e franziu a testa. Quando percebeu a expressão de Blair, seguroulhe a mão e o puxou na direção da seção de roupa de cama. A fisionomia daquele belo rosto moreno lhe transmitira o que ela não queria saber. Desejava ter um filho, mas ele estava apenas tentando tornar uma situação ruim no melhor possível. Nada nunca a ferira tanto. Blair nada dissera, mas as feições do seu belo rosto falavam por si, quando ela o puxou para a outra seção. Niki observou um belo edredom na vitrine e, de repente, lembrou-se de algo que ele lhe dissera, quando passeavam em Yellowston. Girando, ela o fitou, horrorizada. – Um dia me disse que Elise ria durante o tempo todo – começou, corando de leve. – A primeira vez em que estiveram


juntos. Blair anuiu. E conseguiu forçar um sorriso em meio à tristeza. – E agora entende o que quis dizer, certo? – Elise não sentiu nada. – Não. Acho que nunca sentiu. Às vezes, era como se estivesse se forçando a fazer amor comigo. – A fisionomia de Blair se fechou. – Era um golpe muito duro em meu orgulho, portanto vivíamos separados a maior parte do tempo. Niki não podia imaginar uma mulher que não desejasse Blair na cama. Ele era tudo que sempre sonhara. A lembrança do prazer que compartilharam ainda reverberava em seu corpo, enquanto permanecia ao lado dele. Blair ergueu uma das sobrancelhas. – Por que está me olhando dessa forma – provocou ele. – Estou pensando que Elise devia ser maluca – respondeu Niki com sinceridade. As duas sobrancelhas de Niki arquearam. – Por quê? – Para não desejar ficar ao seu lado – explicou ela, desviando o olhar para o peito largo. – É um excelente amante – sussurrou, com voz trêmula. O peito de Blair se estufou de orgulho diante daquelas palavras. Sabia que Niki havia gostado. Não lhe restara dúvidas, mas era agradável ouvi-la traduzir em palavras. Ele lhe envolveu a nuca com uma das mãos e a puxou contra o peito, fechando os olhos em seguida. – Você também, querida – sussurrou de volta. – Mas eu não sabia como agir. Blair ergueu a cabeça e lhe procurou os olhos cinza.


– Não importa o que não conhecia sobre o sexo, mas sim o que sentiu. Niki deixou escapar um suspiro trêmulo. – Poderia viver da lembrança da noite anterior para o resto da vida – confessou. Tocando-lhe os lábios com o dedo indicador, ele gemeu por dentro. Não queria pensar no que se encontrava adiante. Se a perdesse agora, seria melhor abrir uma cova e se enterrar ao lado dela. Não lhe restaria razão para viver em um mundo sem Niki. Quando fez menção de falar, o telefone celular vibrou em seu suporte, no cinto. Ele o pegou, verificou o identificador de chamadas e, com expressão desgostosa, atendeu. – Coleman – disse e esperou alguns instantes. Em seguida, fitou Niki como se estivesse de posse de uma revelação. – Sim, claro. Iremos para aí imediatamente. – Era Trevor – disse, quando desligou. – Ele quer que voltemos ao hospital agora mesmo. – Oh, Deus... – começou ela, preocupada. – Trevor disse que tem boas notícias. – Blair se apressou em dizer, com o rosto iluminado. Em seguida, a ergueu nos braços e a rodopiou, com uma risada. – Ele disse que não é câncer, querida. – Oh, meu Deus! – exclamou Niki. No segundo seguinte, os lábios firmes de Blair capturaram os dela com avidez, ali mesmo, no meio da loja. Sentia-se tão aliviado. Ele a pousou de pé no chão outra vez, antes que começassem a chamar atenção dos outros clientes da loja. – Vamos! – disse, segurando-a pela mão.


O DR. Trevor Mannheim os aguardava ao balcão de recepção. Após cumprimentá-los, guiou-os até o escritório que o administrador havia colocado à disposição dos três. – Muito bem. Vou lhes dizer o que encontramos – começou o especialista. – Você tem um pequeno nódulo no pulmão direito do tamanho de um chumbinho, que vejo com muita frequência em minha prática médica. Quase sempre é benigno – esclareceu com uma risada abafada. – E não cresce. Teremos de monitorar o crescimento com tomografias anuais. Mas aposto minha vida que nunca terá de se preocupar com isso. – O médico dirigiu o olhar a Niki, cuja fisionomia brilhava mais do que o sol e agitou um dedo na direção dela. – E é para isso, mocinha, que existem os exames diagnósticos. Para as pessoas não morrerem de preocupação com as diversas possibilidades. Niki o envolveu em um abraço tímido. – Muito obrigada. Não sei como agradecer. Um rubor se espalhou pelo rosto de Trevor, antes de ele soltar uma risada. – De nada. – Em seguida, trocou um aperto de mão com Blair. – Gostaria de ter tempo para tomar uns drinques com você e conversar sobre os velhos tempos. – O médico verificou a hora no relógio de pulso. – Mas tenho uma consulta marcada para discutir um diagnóstico muito diferente deste. Preciso voltar para casa. – Meu jato o está esperando no aeroporto – disse Blair. – Obrigado, Trevor. Não pode imaginar o quanto estou grato. – Oh, posso imaginar – disse o homem mais velho com uma risada quando percebeu a forma como o amigo olhava para a jovem ao seu lado. Cuide-se. – Você, também.


BLAIR A levou de volta para casa, com Jameson ao volante da limusine. Almoçaram na sala de jantar, mas nenhum dos dois se mostrava loquaz. – Você precisa voltar para a fazenda. – Blair quebrou o silêncio com uma voz serena. Niki ergueu o olhar, com expressão desgostosa. – O quê? Por quê? Blair empurrou o prato para o lado e levou a xícara de café aos lábios. O gole da bebida quente lhe queimou a língua, mas a dor facilitou dizer o que era necessário. – Excedi-me na bebida e fiz algo que nunca deveria ter feito com você. Sinto muito. Jamais deveria ter acontecido. – Ele trincou os dentes diante da expressão no rosto delicado de Niki. – Ficará bem agora. Teve uma segunda chance. Daqui para a frente, deve fazer algo produtivo de sua vida. – Você não me quer? – perguntou ela, hesitante. Blair fechou os olhos. – Não – mentiu. Claro que desejava tê-la ao seu lado, mas voltara ao ponto de partida, com a diferença de idade lhe corroendo a consciência. Além da possibilidade real de ser estéril. Afinal, Elise nunca engravidara. Niki desejava tanto ter um filho! Inspirando fundo para se acalmar, ele a fitou nos olhos. – Sou muito velho para você. Isso não mudou, apesar de estar eufórico pelo fato de você não ter nada de grave. – Entendo. – Niki brincou com a xícara de café. – E você não... quer um relacionamento duradouro comigo. – Exatamente – respondeu ele, desviando o olhar. – Tenho pensado sobre Elise nos últimos tempos. Ela está precisando de ajuda. Ainda acho que alguém a está chantageando. Pretendo encontrá-la para descobrir o que está acontecendo.


Niki sorveu o último gole de café. – Você ainda a ama, certo? – perguntou com os olhos cravados no tampo da mesa. – Mas ela não o queria, na cama... – Tudo pode mudar – continuou Blair mentindo. Queria forçá-la a partir. Tinha de fazê-lo. Agora, Niki recuperara a esperança de viver. Tinha um futuro pela frente. Tivera a noite perfeita que tanto desejara com ela. Podia viver com aquela lembrança para sempre. Ela era muito jovem. Precisava de um homem de sua faixa etária. O que Niki sentira fora apenas desejo e curiosidade em descobrir que tipo de amante ele era. E fora maravilhoso, mas não era o suficiente. Não poderia engravidá-la. Logo, Niki se cansaria dele e o abandonaria. Tudo que poderia lhe oferecer era uma vida incompleta. Seria como sangrar até a morte por ter de abrir mão de Niki para um homem mais jovem. Sabia que esse desfecho seria inevitável, mesmo que ela discordasse. Tinha de deixá-la livre. Niki inspirou fundo e forçou os lábios a se curvarem em um sorriso. – Não se preocupe. Não tentarei fazê-lo se sentir culpado. Obrigada por cuidar de mim e chamar o dr. Mannheim. – De nada. – Acho que voltarei para casa e retornarei ao trabalho – disse ela. Niki o fitou com um anseio doloroso no olhar, mas desviou o rosto para que ele não percebesse. Em seguida, encaminhou-se ao quarto de hóspedes para fazer a mala, tentando não lembrar o que acontecera no quarto de Blair, na noite anterior. Do encantamento de ter se sentido preenchida por ele. Blair a desejara com tanta intensidade que quase a convencera de que era amor. Mas um dia ele lhe dissera que era capaz de fazer sexo


e se afastar, sem nenhum arrependimento. Talvez acabasse entendendo aquele mecanismo. Não lhe restava outra opção. DENTRO DE algumas horas, Niki estava de volta à fazenda, com Jameson ao volante da limusine, que a deixou diante da entrada da casa. O pai a recebeu à porta, com um abraço apertado. – Sua tola! – repreendeu ele. – Por que não me contou o que estava acontecendo? – Eu estava apavorada. Não queria preocupá-lo até saber de que se tratava. Blair acionou um amigo médico que foi maravilhoso... – Eu sei. Ele me telefonou a caminho da França – acrescentou. – E me contou toda a história. – França? – perguntou Niki. – Ele se encontrará com Elise. – O pai a soltou com a mandíbula contraída. – É um tolo. Aquela mulher o mastigará e o cuspirá em pedacinhos outra vez. Blair deveria deixá-la lidar com seus problemas, sozinha. – Ele acha que Elise está precisando de ajuda – disse Niki, abatida. – Sabe como Blair é generoso. – Sim, eu sei. Bem, ele é adulto e capaz de escolher como viver a própria vida. Mas eu esperava que... – O pai se calou com um sorriso. – Não importa. Estou feliz que esteja em casa e com saúde. – Sim, estou. Edna surgiu, vinda da cozinha. A expressão iluminada quando a viu. A empregada a envolveu em um abraço maternal. – Deveria ter nos contado! – disse, chorando. – Está tudo bem agora, portanto são águas passadas – assegurou ela. – O que tem para comer? Estou faminta! Jameson


nos serviu um almoço maravilhoso, mas isso foi há horas. – Fiz guisado de carne e sorvete de morango caseiro – respondeu Edna, presunçosa. – Estamos celebrando, certo? Portanto, fiz seus pratos favoritos. Niki a envolveu em um abraço aperto. – Oh, é tão bom estar de volta! ERA BOM estar de volta, mas coisas estranhas estavam acontecendo com Niki. Ao final da segunda semana, não suportava sequer olhar para um ovo, fosse cru ou cozido. Sentiase nauseada nos momentos mais imprevistos, e o sono constante lhe dificultava se manter de pé. Niki estava certa de que se tratava de um vírus, portanto ignorou os sintomas. Trabalhava durante o dia, ajudava Edna em casa e assistia à televisão com o pai à noite. Outro homem entrara na vaga de Dan Brady. Era uma pessoa agradável, mas estava noivo. O que agradou Niki. Não queria sair com mais nenhum rapaz. Nunca mais. Tex a estava levando e buscando no trabalho, enquanto o carro de Niki se encontrava na oficina. – Tem estado muito calada nos últimos dias – provocou ele. Niki soltou uma risada. – Envelheci – respondeu, girando para fitá-lo com os olhos cinza faiscando, divertidos. – É só isso mesmo? – Tex freou o carro para fazer uma curva e entrar na estrada principal. – Ficamos muito felizes com o resultado da tomografia que fez – acrescentou. – Estávamos todos preocupados até saber que deu tudo certo. Niki sorriu. – Obrigada.


– Para que servem os amigos? – perguntou Tex. Recostando a cabeça para trás, ela fechou os olhos. – Acorde-me quando chegarmos se eu cochilar – murmurou. – Não consigo me manter acordada ultimamente. Tex soltou uma risada. – Acho que o sono está no ar. Estamos tangendo os touros para o pasto de verão. Um trabalho pesado que consome muitas horas. Ninguém está reclamando de insônia. Pode acreditar. – Acredito. Tex hesitou. – Tem tangido gado para o pasto de verão, também? – perguntou com um sorriso. – Sinto-me como se estivesse – retrucou Niki, sorrindo, embora não abrisse os olhos. Tentou em vão não pensar em Blair. Ele deixara claro que não a queria. Tinha de se conformar com o fato de que Blair nunca a desejaria, além da cama. A consciência a assombrava sobre o que acontecera naquela noite. A despeito das circunstâncias atenuantes, sentia-se culpada da mesma forma. Fora fiel aos seus princípios durante toda a vida. Agora, que feriria um dos mais importantes, sentiase incomodada. Desejara com toda a força de seu coração ter ficado grávida após aquele interlúdio perfeito, mas Blair afirmara que não seria provável. Talvez tivesse sido melhor assim, já que ele não a queria para um compromisso sério. Não seria justo forçá-lo a aceitar um filho indesejado. Ainda mais agora que Blair estava considerando voltar para Elise. Niki recordou como ele amava Elise a princípio, como estava feliz quando os dois ficaram noivos. Pensara que ele nunca deixaria de amá-la. Entendia aquele sentimento. Nunca deixaria


de amá-lo. Mas podia aprender a viver sem Blair. Não lhe restava outra opção. ELISE FITOU Blair, horrorizada. – O que quer dizer com... alguém... estar me chantageando? – gaguejou ela, com o rosto corado. – Você entendeu muito bem. Desembuche. Elise mordeu o lábio inferior. Era uma linda mulher e tinha plena ciência do poder daquela beleza. Geralmente, ela tentava provocá-lo e seduzi-lo, mas Blair a desestimulou no instante em que se sentaram naquele restaurante exclusivo. O garçom se aproximou para anotar as bebidas e lhes entregar os cardápios. Quando ele se afastou, Elise o encarou do outro lado da mesa com expressão determinada. – É uma mulher – confessou, arrasada. – Ela está ameaçando procurar o produtor da minha peça e... Bem, lhe contar coisas. Ele é um homem religioso e de princípios muito rígidos... – Contar o quê? – perguntou ele. Elise hesitou. – Ora, vamos – disse Blair em tom suave. – Sabe que não contarei a ninguém. Elise engoliu em seco. O garçom retornou com as bebidas. Ela aceitou o martíni, agradeceu e bebeu quase todo o conteúdo da taça de um só gole. Blair segurava o copo de uísque com água, observando-a com olhar surpreso. – Você deve ter deduzido – resmungou ela. – Quero dizer, percebeu que eu não gostava quando estávamos juntos, na cama. – Sim. Elise deixou escapar um profundo suspiro. – Não gosto de homens. Não nesse sentido. Nunca gostei – revelou ela, desviando o olhar. – Estava tentando esquecer uma pessoa. Você era inteligente, rico e sexy. Pensei que poderia dar


uma chance a um relacionamento com um homem, mas não consegui. – Elise deixou escapar um profundo suspiro. – Gostaria de ter sido a esposa que você esperava. Fui egoísta e cruel. Blair brincou com o copo. – A princípio, tinha esperanças de que você quisesse manter o casamento. – Um sorriso lhe curvou os lábios. – Pensava que, se você engravidasse, acabaria sossegando. – Isso seria impossível. Eu tomava pílula – confessou Elise, alheia à expressão chocada no belo rosto moreno. – Não queria ter filhos. Nunca quis. Deve ter percebido que meu período menstrual não falhava um mês. Elise estava demasiado absorta na própria tristeza para notar o choque que aquela revelação causara no homem diante dela. Blair tomou um gole de água, mesmo sem vontade. – Pensei ser estéril, quando não consegui engravidá-la. – Era pouco provável. Eu me protegia para não engravidar. Sabia que não ficaríamos casados por muito tempo. – Elise engoliu em seco. –Não gosto de homens e sim de mulheres – confessou, evitando-lhe o olhar. – Soube disso aos 10 anos de idade. Meu pai me deu uma surra quando descobriu. Ficou horrorizado com a possibilidade de alguém vir a saber. Tive de esconder minha orientação sexual até sair de casa. Blair anuiu. – Eu já sabia que você é homossexual. Elise não conseguiu disfarçar o choque. – Como descobriu? – Contratei um detetive particular para investigá-la quando assinamos o divórcio e ele me informou. – Blair omitiu que quase enlouquecera e se embebedara. Foi quando Niki e o pai


vieram resgatá-lo e o levaram para a fazenda. Nunca contara aos dois o motivo que o deixara tão transtornado. – Não tive coragem de lhe contar. Escondi minha orientação sexual durante toda a vida. Pensei que seria capaz de ser com você o que minha família esperava que eu fosse. Mas não consegui. Eu... não sentia nada. Essa mulher de quem lhe falei. Eu a amava mais do que tudo no mundo. Tivemos um relacionamento de dois anos. Ela morreu em um acidente de carro e eu afundei em depressão. Foi quando o conheci. – Elise lhe procurou o olhar. – Desculpe. Nunca deveria ter me casado com você. Comecei a beber, experimentar drogas. Fui cruel quando você adoeceu, porque estava drogada, no exterior. Entrei para uma clínica de reabilitação, mas era tarde demais para nós. Sei que não consegue me perdoar. Não mereço perdão, mas... – Não pode controlar o que sente, o que você é – retrucou ele com voz calma. – Gostaria que tivesse me contado, assim que nos casamos. Você estraçalhou meu orgulho. – Posso imaginar. – Elise inspirou fundo. – Bem, o fato é que estou sendo chantageada e não há nada que eu possa fazer, senão pagar o valor que essa mulher está pedindo. – Uma ova que não há. – Blair retirou o telefone celular do bolso, procurou por um número e discou. Elise escutou enquanto ele relatava o problema a um detetive particular, a questionava sobre o nome da mulher e o incumbia de se encarregar do caso. – Faria... isso por mim? – gaguejou ela. – Depois do modo como o fiz sofrer? – Claro – respondeu Blair. – Vou fazê-la parar. Não se preocupe.


– Essa é a peça que sempre sonhei em representar. Sei que conseguirei. Só preciso dessa única chance. – Elise o encarou com expressão desgostosa. – Sinto muito mesmo! – Tudo bem. Elise lhe procurou o olhar. – Você parece tristonho. É aquela moça, Niki, certo? – Um sorriso triste curvou os lábios de Elise. – Foi o que pensei – disse ela, quando a fisionomia de Blair lhe traiu a emoção. – Deveria parar de pensar na diferença de idade entre vocês e ficar com ela. Niki tem cuidado de você todos esses anos. As mulheres não fazem isso se não sentirem um amor profundo. – Eu a expulsei da minha vida – retrucou ele, conciso. – Então, traga-a de volta – estimulou Elise. Blair deixou escapar um suspiro profundo. – Acho que é tarde demais. – Se você a ama, encontrará um modo de reconquistá-la – disse Elise em tom suave. – Ou ao menos tentar. Blair se inclinou para trás na cadeira. – Você está diferente agora. Elise conseguiu conjurar um sorriso. – Conheci uma pessoa. Ela é tudo que sempre sonhei. Doce, atenciosa e companheira. – Elise mudou de posição na cadeira, desconfortável. – Acho que o estou deixando nauseado falando dessa forma. – Claro que não – respondeu Blair, surpreendendo-a. – As pessoas são o que são. Acho que não temos o direito de julgá-las. – Você é mesmo um homem maravilhoso – disse Elise. – Espero que tudo dê certo com Niki. – É pouco provável. Mas farei com que dê certo para você. Que tal outro martíni?


Elise sorriu. – Adoraria, obrigada – acrescentou. Blair deu de ombros. – Para que servem os amigos? MAIS TARDE, sozinho, no quarto de hotel, Blair tomou dois copos de uísque. Acreditara ser estéril. Dissera a Niki que uma gravidez seria pouco provável, mas não se justificara. Não conseguira engravidar Elise, mas saber que ela tomava pílula, mudava tudo. Não tomara nenhuma precaução para evitar uma gravidez quando fizera sexo com Niki. E se a tivesse engravidado? Afastara-a na intenção de lhe dar uma chance, permitir que ela conhecesse um homem mais novo, que pudesse lhe dar um filho. Acabara expulsando-a de sua vida. Outra vez. Agora, Niki poderia estar grávida. E não lhe contaria, mesmo que estivesse. Ou, pior, talvez decidisse interromper a gravidez no intuito de poupá-lo de ter um filho, por achar que ele não o desejava. Nem ao menos lhe dissera que a amava, que a queria para sempre em sua vida, que ansiava por ter um filho com ela. Deus do céu, pensou ele, tristonho. O que faria agora? Continuava repetindo os mesmos erros na intenção de protegêla. Blair apoiou a cabeça nas mãos e gemeu. Não tinha ideia de como tentar salvar o trem desgovernado da própria vida. NIKI SE sentia mais saudável do que nunca. Usava os remédios regularmente, mas começou a sair outra vez. Havia um novo vice-diretor na empresa, um homem divorciado, mais velho que ela, mas muito agradável. Ele adorava lhe contar sobre a exesposa. Niki não se importava, porque adorava contar ao novo amigo sobre Blair. Não que mencionasse o nome dele. Apenas


dizia que amara um homem no passado e ele não a correspondera. Algo que ele parecia compreender muito bem. Os dois saíram para jantar em um clube latino, em Billings. Ele sabia dançar e a ensinou. Niki parecia florescer enquanto se acostumava a ter uma vida além da fazenda. Durante todos os anos de faculdade, escondera-se atrás dos livros e dos estudos. Não desejara o convívio social. Blair a acusara de estar se escondendo da vida e tinha razão. Mas decidira não mais se esconder. Comprou roupas que lhe valorizavam o corpo esbelto, em cores que combinavam com sua compleição e as usava no trabalho. Claro que tivera de escolher um número maior, porque parecia estar ganhando peso. Adotou um corte mais moderno de cabelo e aprendeu a usar maquiagem. Entrou também para um curso de oratória na instituição técnica de ensino superior de Catelow para superar a timidez e aprender a debater. Era como um botão de flor se abrindo. Claro que seria melhor se não continuasse a sentir sono durante o dia e náuseas nos momentos mais esquisitos. Devia ser aquele vírus insistente, dizia ela a si mesma. – Não me canso de admirar a mudança que se operou em você – disse o pai com um sorriso. – Minha filha amadureceu. – Já estava na hora – retrucou Niki com uma risada. – Gosto do seu novo amigo. – Devlin? – perguntou ela. – Eu, também. Ele é uma excelente companhia e ótimo dançarino. – Sim, foi o que fiquei sabendo. – Todd brincou com a xícara de café. – O relacionamento de vocês é sério? – E ao ver a filha hesitar, acrescentou: – Desculpe, não quis ser inconveniente. Os dedos delicados escorregaram pela xícara de café.


– Para mim, só existe Blair – confessou Niki com melancolia na voz. – Se eu vivesse 100 anos, só existiria ele. Mas Blair voltou para Elise... – O quê? – perguntou Todd, sem esconder a surpresa na voz. – Ele não lhe contou? – questionou Niki com um sorriso abatido. – Blair me disse que cometera um erro a expulsando de sua vida e queria tentar de novo. Esse foi o motivo da viagem que fez à França. A expressão do pai era demasiado complexa para ser definida. – Deus do céu! – Todd tomou um grande gole de café que lhe queimou a língua. – Por que está parecendo tão surpreso? O pai franziu a testa. – Não sabe sobre Elise? – Sei o quê? – perguntou Niki, com o esboço de um sorriso. Todd pensou em revelar o que o amigo havia lhe contado, mas aquele segredo não lhe pertencia. Teria de ser Blair a confiá-lo. Ultimamente, ele parecia chafurdar em tristeza e lhe fazia perguntas esquisitas sobre Niki. – Blair pensou que alguém a estava chantageando – lembrou ela. – E de fato estava, mas ele pôs um ponto final nisso. Niki sentiu o coração apertado dentro do peito. – Acho que ele ainda gosta de Elise. – Ele provou que gostava de você o suficiente para vir correndo para cá no minuto em que soube que estava internada no hospital – contrapôs o pai. – E surrar Brady. – Causei muitos problemas – disse ela. – Não sabe o quanto me arrependo. O pai esticou o braço e lhe deu palmadas leves na mão.


– Todos entendemos sua intenção, querida – disse com voz suave. – Queria nos poupar do trauma de um tratamento de câncer. Mas, por fim, não era nada do que estava pensando. – Fiquei tão feliz! – disse ela, animada. – Foi um grande susto. Blair foi maravilhoso comigo. Mas, quando ficamos sabendo que eu não ia morrer, ele me atirou porta afora. – Ele a considera muito jovem – disse o pai. – Um dia, pensei como Blair, quando estava apaixonado por sua mãe. – Um sorriso triste se estampou nos lábios de Todd. – Levei muito tempo para me convencer. Promovi até mesmo um encontro entre ela e um colega meu na esperança que sua mãe se envolvesse com ele. Claro que ela só tinha olhos para mim, mas eu não percebia. Niki tomou um gole de café. – Minha situação é um pouco diferente. Blair ainda ama a exesposa. Assim como Devlin. – Um sorriso tristonho bailou nos lábios de Niki. – Acho que é melhor aproveitarmos o que a vida nos proporciona e tentar não almejar o que não podemos ter. – Tudo ia bem entre você e Blair antes da viagem ao México. Niki conseguiu evitar o rubor e disfarçar o embaraço. – Naquela ocasião, éramos amigos. – E agora não são? Em um gesto deliberado, Niki conferiu a hora no relógio de pulso. – Tenho de ir. O sr. Jacobs não estará no escritório hoje e eu tenho de chegar mais cedo. O telefone não para de tocar quando ele se ausenta – acrescentou com uma risada. – Tento ignorar o meu – disse o pai, com expressão saudosa. – Oh, era maravilhoso o tempo em que todos os telefones eram conectados às paredes por fios.


– Essas também são as palavras do sr. Jacobs – retrucou Niki com uma risada. –Vejo-o à noite. – Tenha um bom dia. Niki escorregou para trás do volante e dirigiu até o trabalho, tentando não refletir sobre o que o pai dissera a respeito de Blair estar ajudando Elise. Imaginou quando os dois anunciariam que se casariam outra vez e desejou não se importar tanto.


CAPÍTULO 13

– QUANDO CONSULTARÁ um médico? Niki fez uma careta de desagrado para Edna da pia onde estava lavando o rosto, após uma crise violenta de náusea logo pela manhã. – Devo estar com esse vírus que anda por aí – mentiu ela. Edna cruzou o quarto e fechou a porta. – Você está grávida e sabe disso – retrucou a empregada em tom gentil. As feições de Niki se contraíram. As lágrimas lhe rolando pelo rosto pálido. – Ele voltou para Elise. O que acha que devo fazer? Bater à porta de Blair e lhe dizer que será pai, quando ele está discutindo com a ex-mulher a possibilidade de reatar o casamento? Que belo presente de bodas! – Ele gosta de você... – insistiu Edna. – Eu o fiz perder o controle e ele só cedeu por sentir pena de mim. – Niki baixou o olhar à toalha úmida com que limpara o rosto. – Não é culpa dele. Eu estava assustada e desesperada. Coloquei na cabeça e ideia louca que poderia ter um filho antes de ser submetida a uma cirurgia e passar pelo tratamento contra


o câncer. Mas não havia nenhum câncer e agora não sei o que fazer. – Imaginei que teria sido algo assim. O sr. Coleman ama crianças – acrescentou a empregada. Niki inspirou fundo. – Ele acha que não pode ter filhos – revelou ela com voz serena, fitando a pia. – Afinal, Elise não engravidou. É capaz de Blair não acreditar que o filho seja dele, mesmo que eu lhe conte. – Ele lhe disse que é estéril? – perguntou Edna, alarmada. – Bem, não. Blair disse ao papai que pensava ser incapaz de gerar filhos e ele me contou. E há outro problema – prosseguiu ela, relanceando um olhar a Edna enquanto limpava os olhos úmidos. – Blair contou também que, na época em que estavam casados, Elise usava drogas, por isso agiu daquele jeito. Agora, ela voltou ao normal e trabalhará como atriz. Sabe que ele era louco por Elise. – Eu sei – disse Edna. – Mas, querida, o filho é dele. O sr. Coleman tem o direito de saber. – Mas não saberá. Não por mim. – Criança, não pode esconder esse filho para sempre – argumentou a empregada. – Sei disso. Pensei em me mudar para o Colorado ou Arizona e arranjar um emprego em outra empresa de mineração. – Acha que seu pai não descobriria? E que não contaria ao sr. Coleman quando ficasse sabendo? – perguntou Edna. Niki fez uma careta. – Acho que isso parece um pouco improvável. Os lábios de Edna se comprimiram.


– Suas emoções estão conturbadas. Não está pensando com clareza. – Não tenho certeza de que estou grávida – insistiu Niki, obstinada. – São necessárias várias semanas para saber, certo? – É necessário apenas um dia se fizer um exame de sangue. Deveria consultar um médico para se certificar. – O dr. Fred telefonaria para o meu pai. E, em seguida, para Blair. – Poderia consultar um médico em outra cidade – sugeriu Edna. – Bebês requerem muitos cuidados no pré-natal – acrescentou preocupada. – Você precisa fazer exames de sangue, tomar vitaminas e ter consultas regulares com o obstetra. Niki sabia de tudo isso. Tinha quase certeza de que estava grávida, mas não era corajosa o suficiente para contar a alguém. Principalmente a Blair. Estava a ponto de fazer Edna jurar segredo quando uma nova onda de náusea a atingiu. Mais uma vez, inclinou-se sobre o vaso sanitário, tentando não pensar no cheiro de ovos. ENQUANTO NIKI vomitava, Edna retornou à cozinha para preparar um chá de camomila que lhe abrandaria o enjoo. Quando passou pela sala de jantar, Blair transpôs a porta. Estava sério, calado e parecia ter visto seu mundo ruir. – Como ela está? – perguntou, preocupado. – Niki está bem agora, certo? Um pensamento ocorreu a Edna, cujos olhos brilharam. – Deixe-me mostrar como ela está. Venha comigo. Edna o guiou até o toalete e entreabriu a porta. Uma transformação radical se operou na expressão de Blair. O semblante triste e desesperançoso foi substituído por absoluta


alegria. Levando um dedo aos lábios, entrou no toalete e fechou a porta. Niki estava tão absorta com a náusea que nem olhou para trás, embora tivesse ouvido passos atrás dela. – Edna pode... umedecer outra toalha, por favor? – perguntou com voz cansada, apoiando a cabeça no braço sobre a tampa do vaso. Ela ouviu a água correr. Em seguida, uma toalha úmida lhe foi pressionada à mão. Um homem enorme, agachou-se ao lado dela e lhe virou o rosto para que o encarasse. – Niki – sussurrou ele com voz rouca. – Niki! Sem forças para protestar, ela permitiu que as lágrimas lhe rolassem pelo rosto. Blair não parecia preocupado ou triste. Na verdade, nunca vira aquela expressão no rosto moreno de feições leoninas. – Oh... Deus...! – A náusea havia voltado. Blair não saiu de perto enquanto ela não se sentiu em condições de levantar. Após ajudá-la a lavar o rosto e usar o antisséptico bucal, ele a ergueu nos braços como o tesouro raro que Niki era e a carregou para o quarto. Em seguida, sentou-se em uma poltrona diante da lareira e a aconchegou ao colo, enquanto pressionava o pano molhado à sua testa. – Não sabia como lhe contar – começou Niki, aflita. – Papai me contou que Elise nunca engravidou e que você pensava ser estéril. Temia que sequer acreditasse que o filho era seu! – Claro que sei que é meu, querida – retrucou ele com voz suave. – Elise acabou confessando que tomava pílula anticoncepcional durante todo o tempo em que estivemos casados. Niki prendeu a respiração.


– Sem lhe dizer nada? Blair fez que não com a cabeça com expressão tristonha. – Vamos ter um bebê. – Ele inspirou fundo, com o semblante se iluminando de felicidade. – Mal posso acreditar – acrescentou com uma risada rouca. – Não posso acreditar! Que surpresa maravilhosa! Uma onda de prazer a engolfou. Blair lhe afastou o cabelo desgrenhado do rosto e sorriu. Os olhos negros e fascinados nos dela. A mão longa lhe alisou o tecido da blusa e se espalmou, possessiva, no ventre de Niki. – Não está... aborrecido com essa notícia? – perguntou ela, preocupada. Blair inclinou a cabeça para baixo e lhe beijou as pálpebras, obrigando-a a fechá-las. – Oh, não. Não estou aborrecido, querida. Niki relaxou e soltou todo o peso sobre ele. – Estou muito enjoada – gemeu ela. – Consultou o dr. Fred? – Estava protelando – Niki confessou com um suspiro cansado. – Ele pode lhe prescrever algo para as náuseas. Você precisa tomar vitaminas e fazer exames de sangue também... Um bebê! – sussurrou ele com voz rouca. O rosto iluminado. – Deus, é Natal! Niki o fitou com os olhos cinza arregalados e fascinados. – Não está mesmo aborrecido? Blair deixou escapar uma risada suave. – Estou parecendo aborrecido? Nem um pouco, pensou ela. Blair parecia ter renovado alguns anos. O semblante cheio de vida e esperança.


– Não – concluiu Niki. Blair a puxou para perto e descansou o queixo sobre o cabelo macio. – Teremos de apressar o casamento – começou ele, pensando alto. – Mas não o anunciaremos ou a imprensa cairá sobre nós como moscas de padaria. Já tenho problemas suficientes com os repórteres, sem envolver minha vida pessoal. Você precisará de um vestido e eu terei de providenciar as alianças... Niki ergueu a cabeça. – Você quer se casar comigo? – perguntou, sem conseguir disfarçar a incredulidade. Blair lhe traçou o contorno dos lábios com um dedo. – Sempre quis me casar com você, querida – respondeu ele. – Mas havia a questão da diferença de idade. E quando você começou a expressar o desejo de ter um filho, lembrei que Elise não engravidara e temi ser estéril. Estava com medo de fazer um exame para comprovar. – Isso soa familiar – disse Niki com um suspiro. Blair a beijou com ternura. – Somos dois covardes – provocou ele. Uma risada suave escapou da garganta de Niki. A mão delicada tocava o rosto largo de feições leoninas. – Sim, somos. Blair lhe segurou a mão e lhe beijou a palma. – Poderíamos realizar a cerimônia aqui, se conseguirmos encontrar um padre para nos casar. Do contrário, terá de ser um juiz de paz. – Por quê? – questionou Niki, confusa. – Alguns padres ainda se recusam a casar homens divorciados com outras mulheres – explicou ele.


– Gostaria muito de ser casada por um padre – disse ela. – Mas não me importo se tiver de ser de outra forma. Mais uma vez, Blair lhe beijou a palma da mão. – Procurarei saber. Talvez seu pai tenha alguma boa ideia. Como se aproveitasse a deixa, Todd abriu a porta. – Edna me disse que você está nauseada... – Ele estacou de repente ao ver a filha deitada nos braços de Blair, sobre a enorme poltrona. Com as engrenagens no cérebro funcionando a todo o vapor, ele curvou os lábios em um sorriso. – Enjoos matinais? – perguntou com expressão iluminada.Blair soltou uma risada e Niki corou.– Ora! – exclamou Todd. – E eu que temia nunca ter netos! Ouçam, vocês têm de se casar... – Era exatamente isso que estávamos discutindo. – Blair apressou-se em dizer. – Gostaríamos de nos casar aqui na fazenda com um padre. – Tenho um amigo que foi ordenado padre – disse Todd. – E não é muito convencional. Gostariam que eu perguntasse a ele? – O quanto antes, melhor – respondeu Blair, enquanto Niki se erguia, apressada, e corria na direção do toalete. – Com licença – disse ele, enquanto a seguia. – Estou me adaptando ao papel de pai o mais rápido que posso. Todd se limitou a rir. BLAIR A levou ao consultório médico em um carro de luxo alugado e permaneceu sentado ao lado de Niki, de mãos dadas, até que ela fosse chamada. E não a soltou nem mesmo no caminho para a sala do médico. O dr. Fred comprimiu os lábios ao vê-los de mãos dadas e somou dois mais dois com incrível percepção.


– Enjoos matinais? – perguntou. Niki soltou uma risada. – Como soube? – Ele não está conseguindo disfarçar. – Apontou para Blair. – Está em êxtase porque vai ser pai. Mas temo que isso não tenha cura. O semblante de Niki reluzia. – Estou tão feliz! – Dá para notar. Muito bem, vamos colocar a mão na massa – disse o dr. Morris. – Primeiro um exame de sangue, depois a examinarei e conversaremos. Você vai ficar? – perguntou a Blair. Ao vê-la corar, ele disse: – Talvez seja melhor eu me sentar na sala de espera e sonhar acordado enquanto o senhor a examina – decidiu. Em seguida, depositou um beijo na testa de Niki com uma risada baixa. – Se nos disser que ela não está grávida, pularei do telhado – acrescentou ele dirigindo-se ao médico. – Juro. – Procurarei me lembrar – retrucou o dr. Fred, rindo. Blair se encaminhou à porta e piscou para Niki, antes de fechá-la. – Muito bem! – exclamou o médico. – Se alguém tivesse me dito que Blair Coleman ficaria tão eufórico com a ideia da paternidade, eu não acreditaria. – Eu também não – concordou Niki com um gesto negativo de cabeça. – Não sabia como contar a Blair. A primeira esposa dele não engravidou e ele pensava ser estéril. – Acho que poderemos descartar a teoria da esterilidade de Blair se os exames confirmarem o motivo desses enjoos matinais – disse o médico. – Agora deixe-me chamar a enfermeira e faremos um exame rápido.


NIKI SENTIA como se estivesse andando nas nuvens quando deixou o consultório médico. – Não posso acreditar – disse excitada. – Eu suspeitava, mas poderia haver muitos outros motivos para o enjoo. Blair contraiu os dedos nos dela, com semblante presunçoso. – Sim, poderia, mas você disse no caminho para cá que suas náuseas começaram com ovos. Detesto ovos. – Os olhos negros vagaram para o abdome de Niki, enquanto ele deixava escapar uma risada breve. Ele também detesta. – Ele? – provocou Niki. Blair escorregou um braço sobre os ombros delicados, enquanto os dois caminhavam na direção do carro. – Querida, há cinco gerações não nasce uma menina na minha família – informou ele com voz suave. – Adoraria uma menina, mas é mais provável que seja menino. Niki ergueu a cabeça para fitá-lo com o coração refletido no olhar, quando alcançaram o carro. – Por favor, diga-me que não está apenas fingindo toda essa felicidade e apenas tirando o melhor proveito desta situação. Mesmo que tenha de mentir. Blair lhe traçou o contorno dos lábios com a ponta do dedo. – Não sou um bom mentiroso – lembrou ele, procurando os olhos cinza-claro, amando o brilho no rosto delicado e a beleza de Niki à luz da tarde. – Estou extasiado – confessou por fim. – De todas as experiências que tive na vida, esta é sem dúvida a mais intensa. Fizemos um filho na primeira vez. – Um sorriso brincou nos lábios de Blair quando ela corou. Inclinando a cabeça, depositou-lhe um beijo suave nos lábios. – E que primeira vez!


– Oh, sim – concordou ela, envolvendo-lhe o tronco com os braços. – Temos de fazer compras – sugeriu Blair. – Quero um vestido de casamento de alta costura para você. Algo que possamos deixar para nossos filhos e netos. Os olhos cinza-claro procuraram os dele, famintos. – Estava com tanto medo de lhe contar. – Eu sei. – Blair a puxou para perto e a embalou nos braços.– Pensei que era estéril. Sei o quanto quer ter filhos e, quando achei que talvez não pudesse lhe satisfazer esse desejo... Niki recuou e o fitou chocada. – Pensou que eu me importaria? – perguntou. Blair franziu o sobrecenho. – Claro. Niki esticou o braço e lhe tocou a boca larga e sexy, a mandíbula quadrada, e os ossos malares elegantes. – Quero esse bebê porque é seu – confessou, hesitante. – Essa é a única razão porque o quero tanto. – O coração de Blair perdeu uma batida, mas ele se limitou a fitá-la. – Deve saber que eu... o amo – gaguejou Niki. – Ora, há anos faço tudo para lhe provar meu sentimento. Só faltou eu escrever na minha testa...! Niki foi obrigada a se calar porque ele a estava beijando. A avidez evidente, enquanto devorava os lábios, fora de controle. Ele nem sequer reparou os olhares divertidos que lhes lançavam no estacionamento, quando a ergueu nos braços e gemeu com os lábios pressionados aos dela. – Desculpe, mas... isso machuca – gemeu ela contra a boca sensual, referindo-se à pressão dos músculos rígidos em seu peito. – Machuca?


– Meus seios estão muitos doloridos – sussurrou ela, corando outra vez. – Faz parte dos sintomas... – Desculpe, querida! Sinto muito! – Afrouxando a força com que a segurava, ele lhe beijou a boca, o nariz e os olhos. – Jamais a machucaria de propósito. – Eu sei. Não estava reclamando. Não por ser beijada – acrescentou Niki com uma risada suave. Blair a rodopiou com um sorriso lento e afetuoso, antes de lhe depositar um beijo terno nos lábios e a colocar de pé no chão. Os braços fortes tremiam de leve e ele a fitou com uma expressão que escapou ao entendimento de Niki. – Temos de fazer compras – repetiu ele. – O que acha de voarmos para Dallas? – Está bem – concordou Niki, com estrelas cintilando no olhar. Mas, logo em seguida, franziu a testa. – Por que Dallas? – Porque lá fica localizada uma das mais conceituadas lojas de departamentos do mundo – explicou ele com os olhos negros faiscando. – Para comprarmos um vestido de noiva e as alianças. – Você também usará aliança? – perguntou ela, surpresa. – Pertenço a você, certo? – provocou Blair. O rosto de Niki irradiava a felicidade que sentia. – Sim, pertence – concordou, sorrindo-lhe com o coração refletido no olhar. Blair podia não a amar, mas lhe tinha muito afeto, desejava-a e queria o filho que ela estava esperando. Era mais do que suficiente para começar. O amor, lembrou a si mesma, poderia florescer, se bem cultivado. A FAMOSA loja de departamentos era imensa, pensou Niki, enquanto Blair a guiava à seção de roupas de estilistas famosos. Ainda se sentia um pouco nauseada, mas estava melhor e se viu


fascinada com todos aqueles vestidos deslumbrantes. Nenhum parecia ter o preço na etiqueta, comentário que ela não se furtou a fazer. – Sou dono de uma empresa petrolífera – sussurrou ele, divertido. – Pode comprar o que quiser nesta loja. O que desejar. Niki lhe procurou o olhar. – Será que eles têm braceletes de couro cru? – provocou ela. Blair deixou escapar uma risada baixa. – Posso perguntar. – Primeiro, me preocuparei em encontrar um vestido de noiva. – Certifique-se de comprar o véu, também – disse ele, com expressão solene e terna. – Um véu? Blair anuiu, aproximando-se e lhe tocando o rosto com as pontas dos dedos. – É uma tradição antiga, que eu adoro. Elise usou apenas um vestido curto, cor púrpura – acrescentou conciso. – Com você, quero tudo que tenho direito. Inclusive um véu que eu possa erguer quando o padre nos declarar marido e mulher – disse com voz rouca e grave. – Para que eu seja o primeiro a vê-la como minha esposa, antes de qualquer outra pessoa. Lágrimas rolaram pelo rosto de Niki. Aquelas eram as palavras mais românticas que ele lhe dissera. – Oh, Blair – sussurrou ela, invadida pela emoção. Os olhos negros também estavam mareados de lágrimas e ele se apressou em desviá-los. – Escolha um vestido lindo. – Deixe comigo. Blair a fitou faminto.


– Você tem um brilho radiante – elogiou ele. – Maste – acrescentou em Lakota. – Luz do sol. Niki sorriu, a alma tão iluminada quanto o rosto. – Posso ajudá-la? – perguntou uma vendedora, sorrindo ao se aproximar. – Sim, por favor – respondeu Niki. – Quero escolher um vestido de noiva. Algo ímpar. E um véu, também – acrescentou relanceando o olhar a Blair. – Acho que temos o vestido certo para você – respondeu a mulher, percebendo a conexão entre os dois. – Acompanhe-me, por favor. – O QUE escolheu? – perguntou Blair, quando o traje de noiva se encontrava embalado e fora do alcance de seus olhos, enquanto ele pagava. – Um modelo lindo – respondeu ela. E, de fato, era. Branco, com uma profusão de renda, um decote em gota, com minúsculas mangas bufantes, que afinava na cintura e se abria em uma saia trapézio com cauda longa em renda. Fazia conjunto com um véu, seguro por uma tiara, que pendia até a cintura na parte da frente. Era o mais belo vestido que Niki jamais sonhara em ter. E agora lhe pertencia. Para se casar com o homem dos seus sonhos. – Obrigada – agradeceu ela. Blair não conteve uma risada baixa. – Suponho que ainda não possa vê-lo? Niki fez que não com a cabeça, mas um sorriso lhe curvava os lábios. – Tradição. – Ah! Venha – disse ele, após agradecer à vendedora e guardar o cartão de crédito.


– Para onde vamos agora? – perguntou ela, animada, segurando-lhe a mão. – Para o departamento de joias. Mas antes... Blair a levou à seção de lingerie. Não mostrou o menor pudor enquanto apontava para os mais caros conjuntos de camisola e penhoar. Em seguida, estacou diante de um conjunto de lingerie em tom creme com corpete em renda. – O que acha? – perguntou com voz rouca. – É lindo. – Niki mordeu o lábio inferior, parecendo hesitar. – O vestido de casamento é branco... Blair lhe tocou a boca com um dedo. – Nós nos pertencemos há dois anos. Um pedaço de papel e um pronunciamento oficial é necessário, mas não tive nenhuma outra mulher desde o divórcio. Niki o fitou, chocada. – Mas... você viajou para a Europa. Janet estava lá e... depois Elise. – Eu só queria você – afirmou Blair, sem rodeios. Os olhos negros brilhando nos dela. – Branco – decidiu ele. Niki deixou escapar um suspiro. O rosto voltando a se iluminar. – Branco. MAIS TARDE, entraram na seção de joalheria. Os anéis tinham preços obscenos, que a fizeram hesitar. – Dinheiro não é problema, querida – sussurrou-lhe Blair ao ouvido. – Além disso, este é um compromisso eterno. Não há caminho de volta, o que significa que não vai poder me deixar. – Como se isso fosse possível! – retrucou ela, fitando-o com olhar terno.


Um leve rubor escureceu ainda mais o rosto moreno, antes de ele desviar o olhar. – Podemos ver estes? – perguntou ele ao vendedor. – Claro, sr. Coleman – concordou o homem com um sorriso. Blair era um daqueles clientes preciosos, que sempre sabiam o que queriam e podiam pagar por qualquer mercadoria. – Ele o conhece? – perguntou Niki, quando o vendedor foi buscar uma fita métrica. – Foi aqui que encomendei aquele broche de orquídea que lhe dei no Natal que passei com você e seu pai. – Entendo. Blair empurrou o conjunto de anéis na direção dela. – O que acha? O diamante era amarelo-canário. Blair queria lhe comprar um de três quilates, mas ela desejava algo mais sutil, portanto optaram pelo de dois quilates, encravado em um anel de ouro de dezoito quilates. A aliança de casamento era cravejada de diamantes amarelo-canário. – Esses diamantes lembram você – disse ele. – Como o sol capturado em ouro. Luz do sol. Niki se inclinou contra o corpo forte. – Achei lindo. – Eu, também. Blair experimentou a aliança masculina com três diamantes amarelo-canário em um enorme anel de ouro, que lhe serviu como uma luva. Assim como os dois anéis de Niki. – Impressionante – disse o vendedor. – Acho que é a primeira vez que isso acontece. Blair baixou o olhar para fitá-la. – Eu diria que é um bom presságio.


– Concordo – disse ela. O vendedor as embrulhou, aceitou o cartão de crédito que Blair lhe entregou e concluiu a compra. Quando estavam saindo da loja, o telefone celular de Blair tocou. Ele o atendeu e, com uma risada baixa, informou à pessoa do outro lado da linha que estava fazendo compras para o seu casamento. Após uma pausa, sorriu e agradeceu. – Era a administradora do cartão de crédito para se certificar de que era de fato eu quem estava fazendo compras – esclareceu ele. – Você gastou uma fortuna nessa loja! – exclamou Niki, sem disfarçar a preocupação. – Para vestir minha linda noiva grávida – sussurrou Blair, inclinando-se para beijá-la. – Sou o homem mais feliz do mundo no momento. – E eu, sem dúvida, a mais mulher mais feliz – sussurrou ela em resposta. NIKI MOSTROU o vestido de casamento para Edna, que ficou sem palavras diante da beleza do traje. – Meu Deus! Deve ter custado uma fortuna – exclamou. – Sim, mas ele insistiu. Será uma herança de família – revelou Niki com um sorriso ousado. – Blair cuidará muito bem de você – disse Edna, de repente. – Nunca precisará de nada enquanto viver. Exceto amor, Niki pensou. Blair a desejava e ao bebê também, mas nunca dissera que a amava. Mas não esperara ouvi-lo professar algo tão profundo por ela. Um dia, talvez viesse a amála. Ao menos viveria daquela esperança. Enquanto isso não


acontecia, se dedicaria a fazê-lo feliz, não importava o que custasse. SEMANAS DEPOIS, o padre os casou na sala de estar da casa do pai, sob um caramanchão repleto de rosas brancas sedosas e heras. Quando Blair escorregou a aliança no dedo anular delicado, junto com o anel de noivado, as lágrimas ameaçaram a rolar pelo rosto de Niki. Mas, quando o padre os declarou marido e mulher, tornou-se impossível segurá-las. Blair ergueu o véu devagar e o atirou para trás, cobrindo-lhe o longo cabelo platinado. Os olhos negros a estudavam com uma intensidade que lhe fez disparar o coração. Com um movimento terno, ele inclinou a cabeça e lhe beijou as lágrimas, antes de lhe capturar os lábios em um beijo profundo por um minuto. E agora estavam casados. A casa da fazenda estava apinhada de pessoas, além do fotógrafo e um repórter que fariam a matéria exclusiva. Entre os convidados, figuravam Jacobs, a esposa e a filha. O dr. Fred permaneceu por tempo suficiente para assistir à cerimônia, mas logo recebeu um chamado. Tex exibiu um sorriso radiante e lhe beijou o rosto. O restante dos vaqueiros fez fila para cumprimentá-los. – Foi o mais belo casamento que assisti em muito tempo – disse Todd, com um suspiro, enquanto beijava a testa da filha. – E devo dizer que já estava mais do que em tempo de vocês se acertarem. Blair suspirou e sorriu para a esposa. – Tinha apenas de colocar minhas prioridades em ordem – comentou, fitando-a com olhar apaixonado. – Acho que a idade não é o mais importante – acrescentou. Os olhos se fixaram no


abdome ainda reto de Niki, corada pela emoção. – Eu havia perdido a esperança de ter um filho. Meus Deus! Que surpresa maravilhosa! O semblante de Niki se iluminou. Ainda estava preocupada com o fato de Blair se sentir preso em uma armadilha, apesar de ele negar. Mas os sentimentos expressos naqueles olhos negros não poderiam ser forjados. Niki sentia-se de fato querida. – Acho que uma neta está fora de cogitação. – Todd brincou. – Eu diria que é uma possibilidade remota – admitiu Blair com um sorriso. – Mas ter filhos homens também é muito divertido. O vice-presidente da minha empresa tem três e joga futebol com eles. – Deixou escapar um suspiro profundo. – Acho que terei de aumentar a frequência com que me exercito para ficar em forma. – Para três meninos? – provocou Todd. Niki soltou uma risada. – Ou quatro – acrescentou, dirigindo um sorriso malicioso a Blair. – Podemos pedir aos vaqueiros que aprendam futebol para ajudá-lo – sugeriu o pai. Mas logo a expressão se tornou tristonha. – Acho que optarão por morar em Billings? – acrescentou. Blair o fitou com expressão presunçosa. – Na verdade, não. Semanas atrás, comprei a velha fazenda dos Vining, vizinha à sua – revelou, surpreendendo o melhor amigo e a esposa. – Precisa de reformas, mas ficará um espetáculo. Gosto de cavalos. Estou pensando em criar a raça puro-sangue quarto de milha. Já contratei um gerente de criação de gado e, em breve, entrevistarei um gerente para administrála. – Ele relanceou o olhar a Niki, que resplandecia de felicidade.


– Podemos nos mudar para lá na próxima semana se tudo sair de acordo com o planejado. Enquanto isso – acrescentou com um sorriso terno –, estaremos descansando em uma bela praia na Jamaica em nossa lua de mel. – Adorei saber que viveremos próximos do papai e de Edna – retrucou Niki, irradiando alegria. Mas, em seguida, trincou os dentes.– Oh, Deus, meu emprego! Naquele instante, o sr. Jacobs se juntou ao grupo. – Foi um belo casamento – disse ele, trocando um aperto de mão com Blair e beijando Niki no rosto. – Parabéns. Acho que perderei minha assistente – acrescentou com um suspiro, relanceando o olhar a Niki. – Acho que sim – concordou Blair com uma risada abafada. – Quero a presença da minha esposa em tempo integral. Ainda mais agora. – Ainda mais agora? – perguntou Jacobs. O semblante de Blair se iluminou. – Niki está grávida – anunciou, segurando a mão da esposa. – Oh, mais uma vez, meus parabéns – disse Jacobs com uma risada. – Você é um homem de muita sorte. Filhos são os maiores tesouros do mundo. Deus sabe o quanto amo a minha – concluiu, olhando na direção da filha. A menina se apoiava em uma bengala ao lado de uma bela morena, a esposa de Jacobs. – Espero que descubram algo que possa ajudar sua filha algum dia – disse Niki em tom suave. Jacobs anuiu. – A todo o instante surge um tratamento novo. Mas ela reage de uma forma impressionante. Está sempre sorrindo apesar da dor e da incapacidade.


– O senhor é um bom homem, sr. Jacobs – disse Niki. – Sentirei falta de trabalhar em seu escritório. Jacobs sorriu. – Obrigado. Detesto a ideia de perdê-la, mas fico feliz de ter perdido aquele natureba obsessivo – acrescentou, lançando um olhar furtivo a Blair. – Esqueci de lhe contar sobre ele! – apressou-se em acrescentar, quando o semblante do patrão se fechou à simples menção do ex-funcionário. – Dan se demitiu e foi trabalhar como gerente de uma loja de alimentos naturais na Califórnia! Niki e Blair explodiram em uma risada. – Ao menos, agora, ele tem uma desculpa para dar conselhos que julga úteis – disse ela. – Que ele faça isso em qualquer lugar, exceto em Wyoming – retrucou Jacobs. – Amém – concordou Blair. A VIAGEM de avião à Jamaica foi longa. Niki estava adormecida quando o jato tocou o solo em Montego Bay. – Está na hora de acordar, dorminhoca – provocou Blair em tom suave. – Chegamos. – Deus! Já? – Niki ocultou um bocejo com a mão e se espreguiçou. – Acho que dormi quase o tempo todo. Desculpe. – Não tem importância. Aproveitei para me inteirar dos negócios. – Ele apontou para o laptop que acabara de colocar na maleta. Quando conseguiram se livrar dos trâmites da alfândega, Niki estava exausta e ele se apressou em conseguir um táxi que os lavasse ao hotel, em frente à praia.


– É lindo! – exclamou ela, após darem entrada e serem acompanhados ao quarto. As portas de vidro do pátio se abriam para o mar, adiante. O quarto era amplo e suntuoso, com quadros nas paredes, mobília moderna e uma banheira de hidromassagem enorme no toalete. – Aqui temos todo o conforto de uma casa – concordou Blair, aproximando-se por trás, puxando-a contra o corpo e roçando os lábios à lateral do pescoço delicado. – Está cansada? – Exausta – gemeu ela, girando no círculo forte dos braços do marido para fitá-lo. – Sinto muito... – Niki parecia incapaz de sequer manter os olhos abertos. Um sorriso complacente curvou os lábios sensuais de Blair. – É a gravidez, querida – disse ele em tom suave, ao mesmo tempo em que se inclinava para beijá-la. – O bebê está crescendo. Mas as náuseas abrandaram com o remédio, certo? Niki anuiu. – Estou bem melhor. Acho que as vitaminas me ajudarão com a fadiga, mas ainda estou nos primeiros meses. – Não há pressa. Quero aproveitar cada minuto dessa gravidez – disse ele com voz grave e rouca pela emoção. – Nunca sonhei ser capaz de engravidá-la – sussurrou contra os lábios macios. – E desejava tanto! – Você pensava ser estéril. Blair ergueu a cabeça e anuiu. A expressão do belo rosto moreno era solene. – Elise se desculpou pelo que fez. Ela tomava pílula anticoncepcional sem o meu conhecimento. – Blair a embalou com suavidade nos braços. – Também pediu perdão por ter se casado comigo. Ela estava tentando superar a morte da pessoa amada. Usou drogas, tomou pílulas anticoncepcionais, bebidas


alcoólicas, tudo que possa imaginar. Tudo sem meu conhecimento. Esse foi o motivo da frieza de Elise quando adoeci em sua casa e acabei sendo tratado por você. Niki detestava a menção ao nome da outra mulher e se tornou séria. – Você a amou – disse ela, erguendo o olhar para fitá-lo, preocupada. – Se não ficasse sabendo da minha gravidez, talvez tivesse voltado para Elise... Por que está rindo? Blair lhe capturou os lábios em um beijo faminto. – Porque voltar para Elise nunca foi minha intenção. – Não? Quando ele ergueu a cabeça, os olhos negros se encontravam serenos e suaves. – Querida, há algo que você não sabe sobre Elise. – O que é? Blair lhe afastou o cabelo longo e loiro para trás das costas. – Ela é homossexual.


CAPÍTULO 14

NIKI O fitou com o coração refletido no olhar. – Ah, sinto muito – disse ela, sem saber o que acrescentar. Blair lhe segurou a mão e lhe pressionou a palma contra os lábios. – Tudo bem. Há muito tempo não sentia mais nada por Elise – confessou. – É algo que ela não podia controlar. As pessoas são o que são. Niki anuiu. – Ela deveria estar sofrendo muito quando se casou com você. – Sim, estava. O pai a tratou com violência quando descobriu que Elise não sentia atração por homens. Acho que ela lutou para encontrar a própria identidade durante toda a vida. – Blair lhe depositou um beijo na ponta do nariz. – Sabe de uma coisa? Naquela primeira noite, em que a sentei em meu colo sobre a poltrona, depois de seu malfadado encontro às escuras, lamentei estar noivo, apesar do que pensava sentir por Elise. – É mesmo? – perguntou Niki com os olhos arregalados. Blair anuiu, traçando-lhe o contorno dos lábios com a ponta de um dedo. – Você me fez desejá-la e não apenas no aspecto físico. Quando fiquei doente e você contrariou ordens médicas


para cuidar de mim, enquanto Elise sequer se deu ao trabalho de voltar aos Estados Unidos para me ver, percebi o erro que havia cometido. Divorciei-me pouco depois. – Eu me lembro. – Um sorriso triste se estampou no rosto de Niki. – Você se embebedou no dia da minha formatura. Foi quando eu e meu pai o levamos para a fazenda. Blair suspirou. – Havia acabado de descobrir a homossexualidade de Elise e estava lutando contra minha consciência também – acrescentou, sem querer admitir que o desejo que sentia por Niki fora uma das causas daquela bebedeira. – Por quê? Blair a estudou com olhos atentos. – Esse é um assunto para depois. – Ele a ergueu nos braços e a carregou para a cama. – Você precisa dormir – acrescentou em tom suave. – Pedirei para que nos tragam o jantar quando acordar. – E o que vai fazer? – Caminhar na praia – respondeu Blair com um sorriso. – Não posso me dar ao luxo de desfrutar de um tempo livre com muita frequência. – Ele lhe retirou os sapatos, a calça comprida, a blusa e, por último, o sutiã. Por alguns segundos, observou os belos seios empinados e sorriu. – Estão mais escurecidos aqui – disse, depositando um beijo sobre o mamilo enrijecido. – Estão mais sensíveis também, certo? – acrescentou, quando ela ofegou. – Sim – concordou Niki. Blair lhe vestiu uma camisola pela cabeça e a deitou, puxou as cobertas para cobri-la e lhe ajeitou o cabelo sobre o travesseiro. – Meu doce anjo – disse em tom baixo. – Você é tão linda! – Não sou linda – resfolegou ela.


– A beleza está nos olhos de quem vê – lembrou ele. – Precisa de mais alguma coisa, antes de eu ir? Niki fez que não com a cabeça. – Desculpe por estar tão cansada. – Compensaremos mais tarde – provocou ele. – Está bem? Um sorriso sonolento curvou de leve os lábios de Niki. – Está bem. – Durma bem. Blair apagou as luzes, saiu para o pátio e rumou em direção à praia, onde as ondas varriam a costa, sentindo-se o homem mais afortunado do mundo. QUANDO NIKI acordou, horas depois, o marido estava deitado ao seu lado, trajando uma bermuda marrom-clara e uma camisa de linha amarela. Tinha uma aparência espetacular, com o cabelo preto, ondulado e lavado e o rosto recém-barbeado. Exalava as fragrâncias de sabonete e de uma colônia suave. Niki pensou que aquele devia ser o homem mais belo do mundo. O peito era largo e os pelos crespos escapavam pelo decote da camisa. Lembrou da fricção que produziam contra os seios desnudos e corou mesmo sem querer. Os olhos baixaram às pernas musculosas, também cobertas por uma camada rala de pelos mais macios. Uma risada suave de pura satisfação escapou dos lábios de Blair diante do intenso escrutínio da esposa. – Não consigo parar de admirá-lo – confessou ela. – Você é estonteante. – Você, também – retrucou ele. Uma das mãos longas lhe afastou o cabelo para trás. Os olhos negros suaves e ternos em seu rosto.


– Ainda está se sentindo nauseada? – Só um pouco – respondeu ela. – A fadiga é pior. – Vai melhorar – afirmou Blair. – Li um livro sobre os primeiros estágios da gravidez. Aquelas vitaminas, com o tempo, vão fazer você se achar capaz de levantar um caminhão – prosseguiu ele, com uma risada abafada. – E os enjoos matinais logo passarão. – Ele se inclinou para a frente. – Desde que não tente comer ovos – provocou. Niki rolou na direção dele e se aninhou nos braços fortes. – Estou feliz por não ter ficado aborrecido com esta gravidez – disse ela. – Eu estava apavorada com a possibilidade de não poder ter um filho e acabei o fazendo perder o controle... Blair soltou uma risada divertida. – Eu já havia perdido o controle. Eu já a desejava à loucura há dois anos e o tempo só intensificou esse desejo. Niki girou a cabeça no travesseiro para fitá-lo nos olhos. – É mesmo? Blair lhe traçou o contorno da boca com o dedo indicador. – Sim. Excitava-me mais a beijando do que fazendo sexo com qualquer outra mulher. – Uau. Está dizendo a verdade? Blair não conseguiu conter uma risada. Fora isso que ela dissera, depois que fizeram amor. – Você me faz sentir como um gigante. Niki se aconchegou ainda mais ao peito largo, escorregando a ponta de um dedo pela linha da mandíbula quadrada. – E você faz com que eu me sinta linda. – Você é linda – corrigiu ele, pressionando-a ao corpo. – Por dentro e por fora. E não pode imaginar o quanto eu desejo esse filho. Quase tanto quanto a quero.


Niki lhe afastou uma mecha de cabelo negro da têmpora. – Pensei que amasse Elise e que nunca seria capaz de esquecêla. Depois, surgiu Janet – acrescentou ela, tristonha. – Janet – repetiu Blair, beijando-lhe a testa. – Comecei a sair com ela para esquecer o que eu senti na praia – confessou. – O desejo por você estava me enlouquecendo e eu mal podia suportar. Janet foi uma distração, querida. Apenas isso. Poderia ter me casado com ela anos atrás, se essa fosse a minha vontade. Da minha parte, era apenas amizade. Nada mais. – Nós éramos amigos – lembrou ela. Blair lhe mordeu o lábio inferior. – Eu estava tentando protegê-la de mim. Uma risada suave escapou da garganta de Niki, porque ele estava sorrindo. – Por quê? – Devido à nossa diferença de idade – disse ele, com o semblante sério. – Mas quando pensei que você estava com câncer, percebi que o tempo de vida de uma pessoa é imprevisível e que eu poderia viver mais do que você. Uma realidade chocante. Não sabe o que senti quando me contou sobre o nódulo em seu pulmão. Foi por isso que bebi além da conta e a levei para a cama. Não foi você que me pressionou. Difícil seria não fazer amor com você. Estava desesperado para tê-la. Um sorriso preguiçoso se estampou nos lábios de Niki. – Percebi. Blair deixou escapar um suspiro enquanto lhe beijava a ponta do nariz. – A vida é imprevisível. Temos de vivê-la um dia de cada vez e não tentarmos antecipar o que acontecerá no futuro. Cuidarei


de você para o resto da minha vida – acrescentou com ternura. – Enquanto eu estiver respirando, a adorarei. – E eu cuidarei de você. – Niki roçou os lábios aos dele, sorrindo com a reação instantânea do corpo forte. Blair a puxou para perto. – Acha que... – Niki se sentou na cama com um movimento repentino, levando a mão à boca. Ele a seguiu na direção do toalete e molhou uma toalha, enquanto Niki se debruçava sobre o vaso sanitário. – Oh, droga...! – exclamou ela, enquanto devolvia o pouco conteúdo do estômago. Blair tocou a testa com a toalha molhada e sorriu. – Vamos superar isso juntos, querida – afirmou, agachado ao lado dela. – Vai melhorar. Prometo. MAIS TARDE, ele pediu que o jantar lhes fosse servido no quarto. Niki conseguiu tomar uma sopa. Blair lhe ofereceu colherada por colherada, observando-a como se ela fosse a coisa mais fascinante que jamais vira. – Meu nariz está torto? – provocou ela. Blair deixou escapar uma risada. – Nunca convivi com uma mulher grávida – explicou ele. – Cada minuto parece fascinante. Niki se encontrava pálida e letárgica, sem maquiagem e ainda trajando a camisola com que ele a vestira. Mas aquela aparência não o incomodava. A expressão naquele belo rosto moreno era apaixonante. – Eu também estou fascinada – respondeu ela. – Sempre quis ter filhos, mas, depois que o conheci, só os queria se fossem seus. Costumava sonhar em gerar um filho seu. – Niki parou de


comer. – E se tudo isso for apenas um sonho? Prefiro morrer a acordar! – Eu, também. – É melhor me beliscar. Só para garantir – sugeriu ela. Blair se inclinou e lhe beijou a ponta do nariz. – Não tenho coragem de torturar mulheres grávidas – retrucou em tom divertido. Sorrindo de orelha a orelha, Niki aceitou outra colherada da sopa. Naquela noite, ela dormiu envolta nos braços fortes de Blair, aninhada ao corpo forte, como um tesouro, segura e estimada. Ele podia não a amar, pensou Niki, mas lhe tinha um grande afeto. E o fato de ele querer o bebê a deixara nas nuvens. A única desvantagem era a náusea que não a capacitava a dar prazer físico ao marido em plena lua de mel. Esperava que aqueles enjoos passassem em breve para que pudesse se sentir como naquela única, porém inesquecível noite com Blair. NA MANHÃ seguinte, Blair tentava tomar o café da manhã entre os constantes telefonemas de negócios. Niki sabia que as responsabilidades o seguiam para onde fosse. Ele passava muito tempo delegando tarefas, respondendo perguntas e orientando seus gestores. Blair percebeu o sorriso apaixonado no rosto da esposa e esqueceu o que estava dizendo. A pessoa do outro lado da linha pressionou por uma reposta. Ele a orientou e encerrou a ligação. Em seguida, atirou o telefone sobre uma mesa próxima à janela que dava para o pátio. – Detesto telefones celulares – resmungou. – No instante em que o ligamos, não é possível ter um minuto de paz.


Niki se aproximou e se aconchegou no círculo protetor dos braços fortes do marido. – Você é um empresário importante. Muitas pessoas dependem de suas decisões para manter a empresa em andamento – disse ela. O peito largo arfou com um suspiro resignado. – Tem razão. – Blair lhe beijou o topo da cabeça. – Você é muito tolerante. Poderia estar aos berros, puxando-me as orelhas por eu permitir que os negócios interfiram em nossa lua de mel. – Está bem. Considere suas orelhas puxadas – respondeu ela com uma risada suave. Os braços musculosos se contraíram em torno dela. – A vida é tão descomplicada com você – disse ele, tentando colocar o sentimento em palavras. – Tranquila. Vivo em um constante turbilhão no trabalho, lidando com pessoas impacientes, executivos que só sabem reclamar, funcionários insubordinados. E quando a levo para um passeio na praia, todo o estresse desaparece. O simples fato de estar em sua companhia... Não sei explicar. Um sorriso de pura satisfação brincou nos lábios de Niki. – Não sou uma pessoa estressada – limitou-se a responder. – Não o desafio, nem tento competir com você. – Ela recuou para fitá-lo com toda a adoração que sentia. – Eu o amo – sussurrou. – Nunca faria nada que lhe causasse sofrimento ou o chateasse. – E com uma careta, acrescentou: – Bem, já fiz, como a vez que decidi me aventurar em uma trilha e o estresse que lhe causei por temer o resultado do raio-X. – Nada disso foi culpa sua, querida – retrucou Blair em tom suave. – Estava apavorada e esse medo a dominou. Você jamais


faria nada que causasse problemas às outras pessoas. – Ele lhe afastou o cabelo para trás. – Minha mãe era como você – afirmou. – Tranquila, afetuosa e gentil. Tinha personalidade forte e sabia discutir quando necessário, mas era uma companhia excelente. Assim como você. Niki sorriu. – Minha mãe também era assim – disse ela. – Papai a amava muito. Achei que o perderia quando ela morreu. Ele ficou arrasado. Blair baixou o olhar para fitá-la. – Sei como é a sensação – confessou em voz rouca. – Quando pensei que você estava com câncer e me vi confrontado com o fato de que poderia perdê-la... – O semblante de Blair se fechou. – Eu a afastei porque achava que você precisava de um homem mais novo, que pudesse viver mais tempo ao seu lado e que não era justo atrelá-la a um marido tão mais velho. Nunca me ocorreu que eu poderia ter uma vida mais longa do que a sua. – Ele fechou os olhos e tornou a abri-los. A agonia estampada naquelas profundezas escuras. – Depois disso, nada mais teria sentido. Se o câncer a matasse, eu não teria uma vida. Não desejaria viver. O coração de Niki pareceu subir para a garganta. A mente retrocedeu no tempo, quando estava internada no hospital e Blair permaneceu ao lado do leito, recusando-se a deixá-la até mesmo para dormir. Ele contratara especialistas, cuidara dela e se mostrara disposto a se casar, mesmo se ela estivesse diante de uma sentença de morte. Quando descobriu que ela estava grávida, agira como se tivesse ganhado na loteria e, no mesmo instante, a pedira em casamento. Blair lera tudo que conseguiu encontrar sobre gravidez, fazia questão de participar de cada


segundo daquela experiência. E apesar de todas essas atitudes, ela não fora capaz de perceber a profundidade dos sentimentos de Blair. – Você enxergava – disse ele, beijando-lhe as pálpebras. – Mas não conseguia ver, certo? – sussurrou. Niki estremeceu nos braços fortes, pressionando o corpo ao dele. – Não, nunca sonhei... – Ela engoliu em seco. – Pensei que... talvez não passasse de desejo. – Se tudo que eu quisesse fosse apenas uma noite com você, teria sido fácil seduzi-la, querida – sussurrou ele ao ouvido de Niki. – Queria muito mais do que apenas uma noite. – Você cuidou de mim – disse ela. – Sempre me mimando, providenciando tudo que eu precisava, sempre presente quando adoeci. – E sempre estarei enquanto eu viver. – Os braços musculosos aumentaram a pressão com que a apertavam. – Você também cuidou de mim, quando tive bronquite. Arriscou a própria saúde para ficar ao meu lado. Naquele momento, percebi que o que sentia por mim ia além da amizade. – Não percebi – sussurrou ela. Blair deixou escapar uma risada suave. – Quando se deseja cuidar de alguém com tanta dedicação, não se trata apenas de amizade. E, na manhã de Natal, quando aquela menina que queria uma boneca me abraçou e vi o brilho no seu olhar... – Blair fez uma pausa, engolindo em seco. – Comecei a pensar em ter filhos. Nunca os desejei tanto. O semblante de Niki se iluminou. – Eu também queria, mas só se fossem seus. De ninguém mais.


Blair inclinou a cabeça e a beijou. – Fui tão rude com você no México – disse ele com um suspiro pesaroso. – Sabia que você estava saindo com aquele natureba obsessivo e supus que talvez gostasse dele de verdade. Brady era mais jovem e mais adequado para você, ou assim pensei. – A expressão de Blair se fechou diante da lembrança. – A verdade é que aquele rapaz acabou fazendo com que fosse internada no hospital. Deixei tudo e corri para lá. Ele teve sorte de receber apenas um soco. Minha vontade era estrangulá-lo! Niki escorregou os dedos pelo rosto do marido. – Não saiu da beira do meu leito durante todo o tempo em que estive internada – recordou ela. – Sequer para dormir. Não pode imaginar como fiquei feliz em perceber o quanto se importava comigo. Pensei que você havia partido para sempre, que não me quisesse. Blair levou a palma da mão delicada aos lábios e a beijou com ardor. – Não poderia deixá-la depois disso – retrucou ele com voz rouca. – Fiquei apavorado com a possibilidade de perdê-la. Ainda mais quando me contou sobre o resultado do raio-X. – Ele fechou os olhos. – Nunca experimentei um medo tão grande em minha vida. – Nem eu – confessou ela. – Quase enlouqueci, pensando que acabaria como minha mãe. – Queria uma noite com você, para guardar a lembrança em meu coração e mente para o resto da minha vida. – Blair a fitou nos olhos. – E foi a noite mais perfeita que jamais tive. – Para mim, também, embora fosse minha primeira vez. – Niki pressionou o rosto ao ombro largo. – Nenhuma teoria é capaz de nos preparar para a verdadeira sensação.


– Senti como se estivesse explodindo por dentro. Um prazer avassalador – sussurrou ele. – Nunca foi assim antes em toda a minha vida. Niki sorriu contra o pescoço do marido. – Espero podermos desfrutar de outra, assim que eu parar de vomitar – gemeu ela. – Os enjoos passarão – garantiu Blair, erguendo a cabeça com um sorriso. – Li tudo sobre esses sintomas nos livros. Sei o que fazer para ajudá-la. Até mesmo com as dores nas costas, quando a gravidez estiver mais avançada. – Ficarei com a aparência de uma abóbora gigante durante meses – disse ela, fitando os olhos negros e sorrindo. – Não se importa? – Claro que não – respondeu ele com uma risada abafada. – Tirarei dezenas de fotos e as colocarei sobre minha mesa de trabalho. – Farei o mesmo com as fotos que eu tirar de você. – E estou planejando reduzir o ritmo de reuniões. Procurarei não viajar tanto, principalmente enquanto você estiver grávida. – Do nosso bebê – disse ela, escorregando uma das mãos pelo cabelo preto e ondulado, inebriada com a maciez e a textura. – Tive tanto medo que você pensasse que o bebê não era seu. Lembrei que havia me contado sobre Elise não conseguir engravidar... – Não sabia que ela estava usando pílulas anticoncepcionais – retrucou Blair, mas logo um sorriso se estampou em seu rosto. – Mas, querida, como eu poderia pensar que o bebê era de outro homem? Fui seu primeiro amante – sussurrou. – Lembro-me de cada doce segundo. Nunca duvidaria de que o bebê fosse meu.


– Não? Mas por quê? – perguntou ela, com curiosidade genuína. – Porque você me ama. – Blair se limitou a dizer. Niki sorriu. – Sim. Muito. – Pensei ter amado duas vezes em minha vida – começou ele. – Mas ambas foram alarmes falsos, porque eu não sabia o que era o amor. – Os braços fortes se apertaram em torno do tronco de Niki. – Eu o encontrei onde menos esperava. Em uma jovem calada e tímida que soube me deixar ávido para ter uma família, por um lugar a que pertencer. Niki sorriu contra o peito largo. Os olhos cinza mareados de lágrimas. – Você tem esse lugar. Pertence a mim. Blair roçou o rosto à orelha delicada da esposa. – E você pertence a mim, querida. – Estou me sentindo tão cansada – disse ela com um sorriso. Mas logo as feições de Niki se contraíram em uma careta desgostosa. – Oh, Deus...! Blair a ergueu nos braços e a levou para o toalete bem a tempo. Em seguida, molhou uma toalha e lhe entregou. Niki a pressionou aos lábios e à testa. E começou a chorar. – Querida, o que foi? – perguntou Blair, preocupado. – Estamos em nossa lua de mel – guinchou ela. – E vou passála debruçada sobre o vaso sanitário! Uma risada terna escapou dos lábios de Blair. – Você está grávida – disse ele, divertido. – Faz parte dos sintomas. Não me importo. Pode acreditar. – Blair lhe tomou a toalha das mãos e começou a lhe limpar o rosto. – Na saúde e na


doença, querida – lembrou ele em tom suave. – Eu lhe prometi no altar. – Também cuidarei de você, se precisar – disse ela. Blair se sentiu aquecer por dentro, não apenas pelas palavras, mas pelo amor com que ela as exprimiu. Era o homem mais afortunado do mundo e essa realidade nada tinha a ver com o dinheiro. – Fui sozinho durante toda a minha vida, até agora – confessou ele, afastando-lhe o cabelo para trás quando ela por fim conseguiu se erguer. – Eu também, exceto por papai e Edna – retrucou Niki. – Sinto-me péssima. Blair a ergueu nos braços com todo o cuidado e a levou de volta para a cama. Em seguida, a pousou sobre a coberta, enquanto procurava a camisola amarela nova de Niki. – Estamos em pleno dia – protestou ela. – Está se sentindo mal – respondeu Blair com um sorriso. – Quando estiver melhor, poderá se levantar da cama. Depois de lhe retirar o vestido longo, ele lhe colocou a camisola amarela pela cabeça. Era uma das que compraram na famosa loja de departamentos de Dallas. Em seguida, a cobriu. – Quer beber alguma coisa? – perguntou em tom gentil. – Será que tem água tônica no frigobar? – perguntou ela. – Vou verificar. – Blair encontrou uma lata, abriu-a e a entregou à esposa. – Obrigada – agradeceu ela, erguendo o olhar para fitá-lo com um sorriso. – Poderia pegar minhas pílulas que estão na mala? São dois frascos. Um é de vitaminas e o outro é do remédio para enjoo.


– Espere um minuto. – Blair pegou o frasco na mala e lhe entregou. – Esqueci de tomá-lo esta manhã – confessou Niki, com um sorriso envergonhado. – É um remédio novo, que não estou acostumada a tomar. – Tudo é novo, certo, querida? – perguntou ele, radiante. – Para nós dois. – Você disse que, depois do fracasso com Elise, nunca mais iria se casar. Blair se sentou na cama ao lado dela. – Era essa minha intenção. Até conhecer Elise, nunca desejei me casar. – Nunca? Blair fez que não com a cabeça. – Mas, mesmo antes de me divorciar, eu já a desejava. Seria capaz de morrer para tê-la. Mas você era tão jovem! Niki lhe acariciou os dedos e pousou-os sobre o decote profundo da camisola. – Não existe limite de idade para o amor – afirmou ela. – Eu o amaria se você tivesse a minha idade ou fosse mais velho do que é. Amo-o pelo que é por dentro. Não tem nada a ver com o exterior, apesar de sua aparência ser estonteante – acrescentou ela, devorando-o com o olhar. Um rubor cobriu os ossos malares pronunciados de Blair, mas os olhos negros faiscaram, maliciosos. – Estonteante? – Oh, sim – disse ela, com expressão tristonha. – E eu gostaria de estar aproveitando toda essa beleza. – Outra náusea? – perguntou Blair com voz suave.


Niki se sentou na cama, engolindo em seco. Em seguida, tomou a pílula para enjoo e voltou a se deitar. – É péssimo me sentir dessa forma, em plena lua de mel em um paraíso – gemeu ela. – Daqui a pouco se sentirá melhor e então faremos um tour pela ilha, mesmo que tenhamos de carregar um balde conosco. A expressão do marido a fez soltar uma risada. – Está bem. – E é isso que amo em você – disse Blair com voz terna. – Nunca conheci ninguém de tão fácil convivência. – Você – retrucou ela. – Apenas com você, querida – garantiu Blair com semblante sério. – A maioria de meus executivos se esconde quando me vê chegar. Sou temperamental. Ou, ao menos, era – acrescentou. – Acho que o casamento talvez abrande meu temperamento. A expressão de Niki se iluminou. – Eu me esforçarei nesse sentido. Blair deixou escapar uma risada breve. – Durma um pouco, enquanto eu cuido dos negócios – disse ele, pegando o telefone celular. – Vou lá para fora. Assim, ficarei à vontade para gritar com meus subordinados, está bem? – perguntou, beijando-lhe a testa. – Se precisar de mim, estarei por perto. – Obrigada. Blair lhe beijou as pálpebras. – Minha querida – sussurrou ele. – Está tão linda, mesmo pálida como o lençol e sem um pingo de maquiagem. Niki lhe depositou um beijo no rosto. – Meu marido maravilhoso. Você é o homem mais lindo do mundo.


Blair fez uma careta engraçada, piscou para ela e saiu pelas portas de vidro deslizantes que davam para o pátio, com o telefone na mão. NIKI ACABOU adormecendo outra vez após a última crise de náusea. Quando acordou, Blair estava deitado ao seu lado, com o peso do corpo apoiado em um dos cotovelos, observando-a. Vestia apenas um short. O peito largo estava exposto e os pés, descalços. Ela teve de prender a respiração diante do peito largo, coberto por pelos pretos e crespos. As pernas eram enormes e musculosas. Até os pés de Blair eram perfeitos. Grandes, mas proporcionais. – Poderia ficar horas apenas a observando – confessou ele em tom suave. – Você é tão linda! – Estava pensando o mesmo – retrucou Niki, divertida. – Você é deslumbrante. – Como está se sentindo? Niki se espreguiçou. – Bem melhor. – Ela rolou na cama, envolvendo-lhe o tronco reto com os braços e apoiando a cabeça no peito musculoso com um leve suspiro. – Terminou de gritar com seus subordinados? – Por hoje, sim – respondeu Blair com uma risada. – Desliguei o telefone celular. Os negócios estão ficando entediantes. Niki deslizou a mão sobre o peito largo, amando a contração daqueles músculos rígidos ao seu toque. Ele era quente e forte. Girando o rosto, ela depositou um beijo na pele sob os pelos crespos. O corpo de Blair enrijeceu. Niki se descobriu extasiada com aquela vulnerabilidade. O pensamento a encheu de ousadia.


Erguendo o tronco, ela recostou o peito ao dele e lhe beijou a boca. O decote da camisola era profundo e a parte superior dos seios entrou em contato com a pele firme e quente de Blair. Ele a fitou com olhar divertido. – Está tentando me seduzir? Niki comprimiu os lábios. – Hummmmm... – murmurou. Os dedos delicados se enterrando nos pelos crespos do peito musculoso e deslizando para baixo. O corpo forte enrijeceu ainda mais pela tensão sexual. – Que ideia maravilhosa – sussurrou ela. Blair soltou uma risada baixa. – Vá em frente. Sou fácil. – É mesmo? – sussurrou Niki. Os lábios se moviam sensuais contra os dele. Amava beijá-lo. A boca de Blair era larga, esculpida e quente. Com a ponta da língua, ela a explorou. Mas quando ele lhe mordeu o lábio inferior, se descobriu perdida. Girando-a com um movimento lento, Blair a tornou cativa sob o corpo. As mãos longas seguraram as alças da camisola e as desceram quase em câmera lenta, roçando o peito coberto de pelos contra os seios sensíveis, até que a repentina sensação prazerosa a fizesse ofegar. Blair atirou a camisola para o lado. E logo a calcinha que ela usava e suas próprias roupas tiveram o mesmo destino. A boca experiente imprimiu um caminho de fogo até um dos seios empinados. A língua deslizava suave sobre o mamilo enrijecido. Niki arqueou o corpo, fazendo-o soltar uma risada breve, antes de rumar para baixo, explorando o corpo macio de curvas perfeitas. Beijos molhados percorram-na da nuca às panturrilhas e fizeram o caminho de volta, pela lateral dos quadris. Durante todo o tempo, ele a tocava nos lugares mais sensíveis, excitando-


a a um ponto que Niki quase foi às lágrimas quando por fim ele a deitou de costas sobre a cama e se posicionou entre as coxas macias e trêmulas. – Sim, está pronta para me receber – disse ele, quando a tocou entre as pernas. – Pronta? – perguntou Niki, concentrando-se no movimento lento dos quadris retos, quando ele começou a penetrá-la. – Seu corpo produz um lubrificante eficaz – sussurrou ele contra a boca macia. Investindo os quadris, ele a sentiu engolfálo. – Está vendo? Isso facilita a penetração. Niki corou, porque aquela intimidade ainda era nova para ela. – Entendo. Os lábios de Blair capturaram os dela, provocando-os, explorando-os, enquanto os quadris se moviam em uma cadência lenta, um ritmo tranquilo que, em poucos segundos, fez o corpo de Niki responder. – Temos de aprender a dar prazer um ao outro – sussurrou ele. – Nas primeiras vezes, é difícil, mas depois vai ficando mais fácil. Gosta disto? – Ele moveu os quadris de um lado para o outro, fazendo-a estremecer e soltar um grito. – Sim, acho que gosta, certo? – provocou Blair. – E que tal isto? Os movimentos se tornaram rápidos e fortes. Niki começou a gemer e cravar as unhas nos braços musculosos. Aquela primeira noite não fora nada comparada ao que ela estava sentindo agora. Estremecia a cada movimento do corpo forte de Blair. Ele parecia bem mais potente do que da primeira vez. Arqueando o corpo cada vez mais, ela abriu os olhos, surpresa, diante da onda de prazer avassalador. – Você... Você está mais... Do que da última vez – ofegou ela.


– Muito mais – sussurrou Blair, prendendo-lhe o olhar. – Os homens são mais potentes em uma ocasião ou outra. E esta é definitivamente uma delas. – Ele se enterrou fundo, estremeceu e sussurrou em voz rouca quando o êxtase o dominou: – Oh, Deus! Querida, acho que não... conseguirei... aguentar por muito tempo! – Não precisa – retrucou Niki, movendo-se no ritmo que ele impunha. Em seguida, segurou os ombros largos com força. O corpo sacudido por espasmos. – Por favor, agor...! – A voz falhou quando o início de clímax se aproximou. Gritos lhe escapavam da garganta a cada movimento rápido e cadenciado dos quadris de Blair. Os olhos prendiam os dele durante todo o tempo e aquilo intensificava o prazer que já atingira proporções inimagináveis. As mãos longas apertaram o travesseiro nas laterais da cabeça de Niki, enquanto ele se entregava ao êxtase. – Oh, Deus! Querida... Oh, Deus... É como morrer... e chegar ao paraíso! Niki fechou os olhos, deixando-se levar pelo tsunami de prazer. Sentiu o corpo forte arquear contra o dela. Não se comparava ao que sentira antes. Convulsionava sob o ritmo que os quadris de Blair impunham, estremecendo, gemendo enquanto todo o corpo parecia se derreter em uma poça de lava incandescente. Quando Niki pensou que não pudesse ficar melhor, constatou que se enganara. Os espasmos do primeiro clímax abrandavam quando ele se enterrou fundo dentro dela, arrastando-a mais uma vez a alturas que Niki nunca sonhara existir. Soluçando contra o ombro largo, ela sentiu o corpo seguir o ritmo de Blair


de maneira involuntária, como se tivesse adquirido vida própria. Faminto, suplicante, selvagem. Um último espasmo sacudiu a estrutura musculosa de Blair e ela o sentiu pulsar dentro de seu corpo. As mãos delicadas lhe acariciando as costas úmidas e as envolvendo. Ele tentou poupála do próprio peso, mas Niki o puxou para baixo. – Não – sussurrou ela. – Gosto de sentir você deitado sobre mim. Deste jeito. Amo seu peso sobre o meu corpo. – E você parece seda sob o meu – murmurou ele, ofegante. – Foi rápido demais? – Está brincando, certo? – respondeu ela com uma risada rouca. – Na primeira noite, foi maravilhoso, mas nada se compara ao que acabei de sentir. Pensei que fosse morrer... de prazer – acrescentou, corando, enquanto envolvia as pernas musculosas com as dela, adorando aquela intimidade. – É delicioso ficar assim, com você. Blair rolou para o lado e deixou escapar um suspiro profundo. – Cansado? – perguntou ela, apoiando o rosto ao peito musculoso. – De uma maneira deliciosa – respondeu Blair, extasiado. – Eu, também. – Quer um pouco de água tônica? – Sim, seria ótimo. Blair se ergueu da cama, caminhou até o mini bar, pegou uma lata do refrigerante e a abriu no caminho de volta, enquanto Niki permanecia deitada de lado o observando. – Oh, você é mesmo estonteante. Sou uma mulher de sorte. Blair soltou uma risada abafada. – Acho que terei de me exercitar mais para não decair tão cedo.


Niki se sentou na cama e lhe envolveu o pescoço com os braços. – Não precisa de nada disso – respondeu em tom sereno. Os olhos apaixonados brilhando nos dele. – Eu o amo tanto! Mais do que tudo no mundo. Um leve rubor cobriu os ossos malares proeminentes. Ele lhe entregou a água tônica. – Se eu começasse a contar minhas bênçãos agora, estaria de bengala e com o cabelo todo branco quando terminasse – disse ele, procurando-lhe o olhar. – Você é o meu mundo agora. Tudo para mim. Somos apenas você e eu. Para sempre. Niki recuou, linda em sua nudez, estudando-o com atenção. – Procurando um tesouro perdido? – perguntou Blair com uma risada. – Oh, algo do tipo – concordou ela. – Estava pensando... – Pensando? – perguntou Blair ao vê-la se inclinar em sua direção e montar sobre ele com os joelhos fincados no colchão de cada lado dos quadris retos. Em seguida, o posicionou para penetrá-la, satisfeita por encontrá-lo mais do que preparado. Sentando sobre ele com um ofego, ela sussurrou: – Estava pensando como seria se eu fizesse... isto. As mãos longas a ajudaram, porque lhe faltava a energia para manter o ritmo. O prazer a atingiu de uma forma tão repentina que ela teve a impressão de estar despencando de uma altura vertiginosa. – Blair! – gritou, estremecendo com os espasmos de prazer. – Oh, nessa posição é delicioso – ofegou ele, movendo-se com força dentro dela. – Tão bom... Bom...!


– Sim... – concordou ela, soltando com um grito ofegante quando a intensidade do prazer atingiu um patamar quase insuportável. O corpo de Niki estremeceu com violência, as sensações tão intensas que ela teve a impressão de que partiria ao meio, enquanto Blair lhe segurava os quadris e a penetrava fundo, deixando-a cega, surda e muda para o mundo ao seu redor. – Agora... – ofegou ele. – Agora, agora...! – Um som gutural lhe escapou da garganta, rivalizando com os gemidos altos que Niki deixava escapar enquanto os dois se entregavam ao orgasmo juntos. – Deus! – gemeu ele ao ouvido de Niki, quando se viu capaz de respirar outra vez. Niki se colou a ele, chorando. – Isso é... Isso é... Não consigo encontrar palavras para definir! – Como o paraíso – sussurrou ele. – É isso, sra. Coleman – acrescentou, usando o sobrenome de casada de Niki pela primeira vez. – O paraíso. Um sorriso lento curvou os lábios macios. O corpo em perfeita sintonia com o dele. Os olhos, cegos pelo amor, fitavam o rosto moreno do marido. – Sim, o paraíso. UMA SEMANA depois, voltaram para casa, bronzeados e tão apaixonados que logo se tornaram inseparáveis. Mudaram-se para a propriedade ao lado da fazenda dos Ashton e o pai de Niki e Edna os visitavam com frequência. Os longos meses de gravidez culminaram em um parto rápido. Blair mal conseguiu levá-la a tempo para o hospital,


antes de o menino nascer. A criança ergueu os olhos azuis na direção dos pais. – Nosso filho – sussurrou ela. Blair lhe beijou os lábios e, em seguida, a testa minúscula do bebê. – Não é preciso morrer para viver no Éden – disse ele com voz suave, fitando-a nos olhos. – Se tiver sorte, é possível encontrá-lo aqui na Terra. Como aconteceu comigo. – A boca sensual roçou a dela. – Eu a amo tanto que chega a doer – sussurrou com voz embargada. – Oh, Deus, querida, seria capaz de morrer por você! Lágrimas inundaram os olhos cinza-claro. – E eu por você – sussurrou ela. O brilho do amor que se refletia no olhar de Niki quase o cegou. – Nunca o deixarei – afirmou, dissipando aquela pontada de medo que às vezes se estampava nos olhos negros do marido. – Nunca. Blair engoliu em seco. Os lábios capturando os dela, ávidos. – Cuidarei de você enquanto eu viver. Um sorriso terno se estampou no rosto de Niki. – E eu cuidarei de você, meu querido, durante toda a minha vida. – Niki puxou o rosto moreno na direção dela e o beijou. Ainda era mágico amar tanto e se sentir amada com igual intensidade. E ter um filho, nascido daquele amor, símbolo do sentimento profundo e eterno que os unia. De fato, era o paraíso na Terra. Niki soltou o rosto do marido e mudou o bebê de posição nos braços, beijando-lhe o topo da cabeça miúda com veneração. – Ainda não escolhemos o nome. – Gosto de Todd – sugeriu Blair. – Em homenagem ao seu pai.


– Sim, também gosto. Mas para o nome do meio. Qual é o primeiro nome do seu pai? – perguntou ela. – Jacob. Os olhos cinza se suavizaram. – Jacob Todd Blair? – sugeriu ela. Um sorriso curvou os lábios do marido. – Soa bem. – Soa muito bem. – Niki lhe tocou os lábios com as pontas dos dedos. – Eu o amo desde que tinha 17 anos – começou com voz suave, soltando uma risada com o choque estampado no rosto de Blair. – Mas tive de envelhecer um pouco para convencê-lo de que era madura o suficiente para você. Blair roçou os lábios aos delas. – Você me convenceu – confessou com uma risada rouca, procurando-lhe o olhar. – Minha pequena orquídea de estufava. Eu a amo à loucura. Niki se sentiu aquecer por dentro, amada e segura. – Eu também o amo à loucura – sussurrou com emoção na voz. Os lábios de ambos se encontraram com avidez por alguns segundos até que o bebê se mexesse, inquieto nos braços da mãe. Ambos baixaram o olhar ao filho. As mãos unidas sobre o corpo miúdo da criança e os semblantes irradiando felicidade.


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

P198c Palmer, Diana Corações fortes [recurso eletrônico] / Diana Palmer; tradução Vera Vasconcellos. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Harlequin, 2016. recurso digital Tradução de: Wyoming rugged "MEB" Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-398-2203-4 (recurso eletrônico) 1. Romance americano. 2. Livros eletrônicos. I. Vasconcellos, Vera. II. Título. 16-32987

CDD: 813 CDU: 821.111(73)-3

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: WYOMING RUGGED Copyright © 2015 by Diana Palmer Originalmente publicado em 2015 por HQN Books


Gerente editorial: Livia Rosa Assistente editorial: Tábata Mendes Editora: Juliana Nóvoa Estagiária: Caroline Netto Arte-final de capa: Ô de Casa Produção do arquivo eBook: Ranna Studio Editora HR Ltda. Rua Nova Jerusalém, 345 Bonsucesso, Rio de Janeiro, RJ – 21042-235 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br


Capa Texto de capa Rosto Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Créditos


Rainhas do romance 114 corações fortes diana palmer