Artigos Público - Francisco Miguel Valada

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Artigos publicados no “Público” por Francisco Miguel Valada autor de Demanda, Deriva, Desastre – os três dês do Acordo Ortográfico (Textiverso, 2009)


Público • Quinta-feira 7 Janeiro 2010 • 31 Contribuinte n.º 502265094 Depósito legal n.º 45458/91 Registo ERC n.º 114410 Conselho de Administração Presidente: Ângelo Paupério Vogais: António Lobo Xavier, Cláudia Azevedo, Cristina Soares, Luís Filipe Reis, Miguel Almeida, Pedro Nunes Pedro E-mail publico@publico.pt Lisboa Rua de Viriato, 13 – 1069-315 Lisboa; Telef.:210111000 (PPCA); Fax: Dir.

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Bartoon

Maia. Capital Social €50.000,00. Detentor de mais de 10% do capital: Sonae Telecom, BV Impressão Unipress, Travessa de Anselmo Braancamp, 220, 4410-350 Arcozelo, Valadares; Telef.: 227537030; Imprejornal - Sociedade de Impressão, SA. Quinta Velha, Santo Antão do Tojal, Estrada Nacional nº 115 ao km 80, 2660-161 Loures. Telef. 210129700 Distribuição Logista Portugal – Distribuição

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Luís Afonso

O bom silêncio

Miguel Esteves Cardoso Ainda ontem

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e fosse um romance português, daqueles antigos que agora se escrevem, chamar-se-ia O Homem que Comprava o Silêncio dos Outros. Assim se poderia descrever uma situação que sempre existiu e da qual se fala muito mas pouco se escreve. É o indivíduo incompetente de quem nunca se diz mal nem bem. Fala-se dele. Mas não em público. E ele sobrevive graças a esse silêncio. Por ser boa pessoa. Sabe que aquilo que faz não presta e não chateia ninguém para falar dele. Mais: agradece o silêncio, sabendo quanto custa abafar os grandes desagrados que causa. Para ele, os outros é que são boas pessoas por guardar o segredo e consentir o sofrimento que inflige ao público. Pode ser também uma pessoa com azar, que faz pena. É o coitado. Não se diz mal dele porque é coitado. O coitado escusa de ser um gajo porreiro. Pode até ser um sacana de primeira. Pode chatear toda a gente para falarem dele, invocando o azar que faz dele um coitado. Mas é tão mau o que ele faz que ninguém consegue descer a esse ponto. Oferece-se, em vez disso, o silêncio. E com o silêncio, lá se vai governando o coitado. É este o tom superior de quem lamenta a impunidade dos gajos porreiros e dos coitados em Portugal e assim explica por que triunfa a mediocridade entre nós. É verdade que ajudam a triunfar a mediocridade. Mas pouco. Porque todos nós já beneficiámos ou iremos beneficiar desse silêncio, numa altura ou noutra, nem que seja só pela velhice. Afinal é um acto de decência humana.

As razões da ortografia são linguísticas, não devendo estas ser ofuscadas por luzes que do rigor há muito se afastaram

Os ii do Acordo Ortográfico, ponto por ponto

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debate em redor do Acordo Ortográfico voltou à estaca zero, com o artigo de José Mário Costa, no PÚBLICO de 4/1/2009. No artigo, intitulado “Alguns pontos nos ii sobre o Acordo Ortográfico”, nem se vislumbra qualquer referência aos vícios do Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90), assinalados em pareceres técnicos e em comentários Francisco razoados, nem se manifestam as razões linguísticas que demonstram a inaptidão do AO 90 para um sistema de Miguel escrita de base alfabética, nem se atalha o facto de o AO Valada 90 ter passado incólume ao crivo especializado e a estudos e avaliações, ao contrário do que sucede com qualquer projecto com incidência no quotidiano. José Mário Costa apresenta a questão da dupla grafia, ignorando a questão central. Em nenhuma ortografia sucede a facultatividade irrestrita prescrita pelo AO 90. A dupla grafia que José Mário Costa apresenta para o inglês não se aplica às letra e forma do AO 90. Os dicionários ingleses (por exemplo, o New Oxford Dictionary of English de 1998) sublinham, para theatre, plough ou sceptic, as grafias theater, plow e skeptic, com a menção explícita “US”. Em alemão, em contextos específicos, que não vou explanar, para não maçar aqui os leitores, o uso do Eszett (ß) não se aplica à Suíça, sendo esse facto explicitamente mencionado no texto do Acordo de 1996, determinando-se que na Suíça se pode escrever sempre “ss”. Pelo contrário, se José Mário Costa conferir o VOLP da Porto Editora, verá que carácter se grafa caráter e/ou carácter, constituindo duas grafias para o mesmo significante na mesma norma culta, ao contrário de grafias “duplas” que Malaca Casteleiro apresenta, à laia O AO 90 é um mau de justificação, no Preâmbulo do VOLP da Porto Editora, como arena e areia. Qualquer leigo sabe instrumento linguístico, que areia e arena não são a mesma palavra, pois com consequências numa arena há areia e areia pode haver noutros locais que não numa arena. O VOLP da Porto negativas para o futuro

Editora, da responsabilidade de Malaca Casteleiro (igualmente co-autor e negociador do AO 90), pretende aplicar-se exclusivamente à norma do português europeu. O desastre que se segue à aplicação do AO 90 é evidente. Se acrescentarmos o facto de no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (2001), organizado por Malaca Casteleiro, o segundo c de carácter se pronunciar, não havendo excepção a esta regra, o desastre é total. Se recordarmos que se prepara a coexistência de três Vocabulários para a norma do português europeu com o VOLP da Academia Brasileira de Letras, o desastre seria risível, não fosse real. Erro crasso, porque prenhe de subjectividade, é o comentário de José Mário Costa: “Quem está contra o Acordo Ortográfico, este ou qualquer outro, estará até ao fim dos seus dias”. Eu, autor de livro contra o AO 90, sou favorável a uma reforma ortográfica (sob forma de acordo ou sob outra forma), desde que se respeitem os princípios de uma ortografia de base alfabética e que se não limite a sua base teórica a um “critério de pronúncia” vago, errado e ambíguo. Sou favorável ao Acordo Ortográfico de 1945, com críticas a opções de pormenor, mas não aos seus princípios gerais. Não sou favorável a um Acordo publicitado como “uma das medidas mais urgentes para a unificação da língua portuguesa“, como afirmou Solange Parvaux, em 2004, na Fundação Calouste Gulbenkian , esquecendo que as divergências morfossintácticas e lexicais impedem tal projecto, no mínimo, megalómano. Sou favorável a uma reforma ortográfica que dignifique a minha língua e não a qualquer documento nem a qualquer processo que se baseie exclusivamente em relações de poder, em questões que envolvam “locomotivas” e “inevitabilidade”, quando as razões da ortografia são linguísticas, devendo estas ser escutadas e analisadas por quem de direito e não ofuscadas por luzes que do rigor há muito se afastaram. Adenda: Preparava-me para enviar este artigo, quando me deparei com a “Heterodoxia ortográfica” do professor

Vital Moreira (PÚBLICO, 5/1/2010). Permito-me sublinhar cinco pomos de discórdia: 1 – A “confusão duradoura em matéria ortográfica” aplicase, não à louvável iniciativa da Direcção do PÚBLICO, mas a este AO 90, como acabei de demonstrar ; 2 – As “intensas discussões académicas e políticas” aplicamse, não ao AO 90, mas ao seu antecessor, o AO 86. Se a existência de uma discussão legitima decisões contrárias ao resultado dessa discussão, deveremos todos rever o conceito “discussão”; 3 – Quanto à “convergência ortográfica” e à “uniformidade fonética”, recordem-se dois pontos cruciais: a) Este AO 90 promove grafias diferentes na mesma norma culta, à custa de um “critério de pronúncia”, arbitrário por natureza; b) Este AO 90 promove a incoerência gráfica entre formas afins, a opacidade crescente e a ambiguidade semântica; 4 – A questão essencial continua a escapar a muitos espíritos, mesmo aos reconhecidos pela sua argúcia: o AO 90 é um mau instrumento linguístico, com consequências negativas para o futuro; 5 – Uma última nota, relativamente ao “conservadorismo ortográfico”. Em qualquer Ciência, o conservadorismo deve pautar-se pela presença em termos de método, para que o objecto definido (em Linguística, por natureza, mutável) possa ser descrito com exactidão e sobre ele se possa prescrever com rigor. Não pode é a disciplina potenciar mudanças no objecto, através da perversão do método. Quando coacção se tornar homófona de coação ou sempre que se duvidar se para é verbo ou preposição, os nocivos efeitos deste AO 90 começarão a reflectir-se no quotidiano. A tomada de posição por parte da Direcção do PÚBLICO é notável, pois mantém a aplicação de um instrumento ortográfico que respeita os princípios de uma escrita de base alfabética, não cedendo a outro (o AO 90), que tem muito de pseudofonético e pouco de ortográfico. Autor de Demanda, Deriva, Desastre – os três dês do Acordo Ortográfico (Textiverso, 2009)


Público • Segunda-feira 18 Janeiro 2010 • 29

Espaçopúblico

Nem a Einstein foi dado o impróprio privilégio de ver teorias não provadas serem directamente vertidas em texto legislativo

O Acordo Ortográfico, o “excludente” e o ornitorrinco

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ão diversos os argumentos a favor do Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90), mas todos partilham uma característica comum: são rebatíveis, quer no plano retórico, quando de retórica se alimentam, quer no plano factual, quando de factos alheios à realidade se servem. No plano técnico, continuamos todos à espera, uns impávidos, alguns serenos e outros nem uma coisa nem outra, que se rebata o irrebatível e se proponha o princípio revolucionário, com bases de sustentação, aniquilador de toda a doutrina em matéria ortográfica e de todos os pareceres fundamentados, escalpelizadores deste AO 90. Escalpelizadores e reprovadores, sublinhe-se. Sentados, continuaremos todos à espera. Nem a Einstein foi dado o impróprio privilégio de ver teorias não provadas serem gratuitamente abraçadas e directamente vertidas em texto legislativo. Já agora, nem ao LNEC. Einstein, para provar que Newton estava errado, teve de aguardar por um eclipse solar. O LNEC, para ver conclusões suas transformadas em lei (refirome ao relatório sobre o novo aeroporto de Lisboa), teve de levar a cabo estudos. Quanto aos autores do AO 90, não precisam estes da teoria sancionada nem de estudos, servindo-se do eclipse científico. Felizmente, para todos nós, a Física vale-se exclusivamente de factos comprováveis e a quem avalia aeroportos e pontes não basta tecer uma avaliação subjectiva, devendo apresentar argumentação tecnicamente válida. A Linguística também tem factos comprováveis e comprovados para apresentar, mas já todos percebemos que há ciências mais iguais do que outras. Um argumento factual, que eu julgara definitivamente afastado da argumentação pró-AO 90, porque medularmente falso, adrede ligeiro e notoriamente avulso, é o da ortografia “excludente”. Já alhures tive oportunidade de rebater este argumento, perante o Sr. Embaixador Lauro Moreira. Devo repetir-me, aqui e agora, perante a incrível frase de José Mário Costa “Há toda a diferença entre uma língua, a nossa, com duas ortografias oficiais (repito: ortografias oficiais), antagónicas e excludentes entre si, e o inglês” (PÚBLICO, 12/01/2010). O princípio “excludente” carece de explicação e passo a explicá-lo. “Excludente”, na argumentação pró-AO 90, significa que uma criança brasileira reprovará numa

Francisco Miguel Valada

escola portuguesa se utilizar a norma ortográfica do Português do Brasil e que uma criança portuguesa reprovará numa escola brasileira se utilizar a norma ortográfica do Português europeu. Pretendem os defensores do AO 90 que este quadro se alterará com a aplicação do AO 90. Nada de mais falso. Se uma criança portuguesa escrevesse numa redacção a improvável frase: “Após o doutoramento do meu pai, comecei a sentir-me afectado”, não creio que, numa escola brasileira, se concentrassem tanto no c de “afectado”, mas antes se preocupassem com o “doutoramento” que deveria ser “doutorado”, com o “do meu pai” que se imporia ser “de meu pai” e com o “a sentir-me” no lugar de “me sentindo”, ou seja: “Após o doutorado de meu pai, comecei me sentindo afetado”. Poderíamos então, à ortografia “excludente”, acrescentar a morfossintaxe e o léxico “excludentes”. Mas não nos centremos na subjacente ideia de “unificação da língua portuguesa”, pois de ortografia aqui se trata. Vamos aos factos. Segundo José Mário Costa, a ortografia “excludente” não se aplica ao Inglês. Limito-me, como matéria de séria reflexão, a deixar duas notas sobre a redacção em Inglês, a nível académico: uma da Universidade de Oxford (Reino Unido) e outra da Universidade de Stanford (EUA), para que as coisas surjam como são e não como se pensa que poderiam ser. A primeira distingue um “não” em maiúsculas (“NOT”) relativamente ao putativo uso da grafia consuetudinária do Inglês dos EUA (“Use British English rather than American English, e.g.: towards; amid; while; NOT toward; amidst; whilst”) (1) e a segunda, em caso de dúvida, aconselha um dicionário americano e não um britânico (“Please use American spelling. If unsure, please consult Webster’s Tenth New Collegiate Dictionary and use the first entry of spelling”) (2). Posso voltar a este argumento, mas penso que ficámos esclarecidos. Acresce ainda não poder esta matéria ser “arrumada na prateleira da história” ( José Mário Costa, PÚBLICO, 12/01/2010), considerando a relevância dos argumentos por mim e por outros apresentados. Arrumam-se argumentos, após dissecados e determinada a sua improcedência. Quando não, a sua relevância mantém-se. Pelo contrário, faltam aos argumentos do AO 90 estudos que os sustentem, tornando-os numa espécie de orni-

NUNO FERREIRA SANTOS

“Bissectriz”, segundo o AO 90, passa a “bissetriz”, mantendo-se, contudo, “trissectriz”. Porquê? Perguntai aos autores, que assim decidem em Vocabulário

torrinco, um enigma na classificação, um desafio semiótico. As conclusões do AO 90 foram traçadas, quer numa bissectriz contrária à doutrina, quer numa trissectriz que ignora a realidade. A propósito, “bissectriz”, segundo o AO 90, passa a “bissetriz”, mantendo-se, contudo, “trissectriz”. Porquê? Perguntai aos autores do AO 90, que assim decidem em Vocabulário, ou olhai os lírios do campo e obtereis a mesma resposta. O AO 90 limita-se a ignorar toda a doutrina, pretendendo-se parecer, mas sem método visível para sequer o parecer. Ao contrário do ornitorrinco, que tem acção benigna no meio que o envolve, o AO 90 apenas se distingue por ser diferente. Autor de Demanda, Deriva, Desastre – os três dês do Acordo Ortográfico (Textiverso, 2009) 1) http://www.ox.ac.uk/branding_toolkit/writing_and_style_guide/ spelling.html 2) http://ual.stanford.edu/pdf/pwr_boothestyleguide.pdf

Presidência espanhola da União Europeia constitui uma oportunidade única para Portugal

O último tango em Madrid

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spanha vai protagonizar neste primeiro semestre de 2010 mais uma Presidência da União Europeia. Uma oportunidade única que o nosso país não pode deixar de aproveitar. Portugal e Espanha compõem uma Ibéria que, no quadro da União Europeia, protagoniza o difícil compromisso entre uma periferia geográfica que o pragmatismo da globalização tem acentuado e um simbolismo de “articulação estratégica” com determinadas zonas (em especial América Latina e África) onde, em grande medida, reside um “capital estratégico” de afirmação internacional de reserva. Num mundo cada vez mais plano, onde os índices de crescimento são liderados pelas potências emergentes (China, Índia, Brasil, entre outros) e a União Europeia se pauta por uma “estagnação doentia”, Madrid vai ser palco de um tango de esperança positiva no futuro. A afirmação de um “nacionalismo” global como imagem de marca de uma capacidade de eficácia e criatividade tem sido o elemento de distinção operacional de Espanha um pouco por todo o mundo. Ciente das suas “vantagens competitivas”, apesar dos tempos de profunda crise por que passa, o país vizinho tem con-

seguido de uma forma única assumir as fronteiras das suas capacidades endógenas, partilhadas pelos diferentes actores do tecido social (regiões autónomas, empresas, universidades, centros de saber) e marketizadas sob uma imagem comum de identidade corporativa que de modo algum põe em causa as virtualidades da especificidade de cada território ou protagonista social. Espanha é assim claramente um player vitorioso no aproveitamento da “competência da nação” no quadro global. Torna-se imperioso para Portugal saber ler os “sinais vitoriosos” que emanam do país ao lado. Não se trata de “convergência cultural” nem muito menos de “cumplicidade nacionalista”. As especificidades da marca portuguesa, nas suas múltiplas dimensões, são mais do que evidentes e têm a força de uma história cultural sustentada no tempo e no tecido social. O que importa é “agarrar” a atitude proactiva da afirmação positiva na concorrência global das nossas competências, tendo por base a inovação, qualidade e criatividade dos talentos, investimentos e competências. O “diálogo” entre Portugal e Espanha constrói-se no diaa-dia das relações económicas e sociais entre os diferentes

Francisco Jaime Quesado

actores do território. Iluda-se quem pense que o jogo do relacionamento estratégico entre os dois países se joga nas “cumplicidades por decreto” decididas em Lisboa e Madrid. A verdadeira identidade da “relação ibérica” joga-se entre o Norte de Portugal e a Galiza, entre o Alentejo e a Andaluzia, com projectos de cooperação como o Instituto Ibérico de Nanotologia em Braga ou a Plataforma Logística de Chaves que alimentam a ambição de um novo paradigma de desenvolvimento para as populações e os territórios de uma Ibéria que tem que se reinventar. Espanha protagoniza de forma sustentada a “ambição” da modernidade num quadro de renascimento global das suas competências um pouco pelo mundo fora. Trata-se claramente de um acto de “cumplicidade colectiva” da sociedade espanhola, cabendo ao Estado a função de monitorização estratégica e de garantia das condições de enquadramento das operações dos agentes no terreno. Este “acto de mudança para o futuro” que marca a Espanha de hoje e que vai ser a marca da Presidência da União Europeia tem que ser percebido por Portugal. Para que mais do que nunca Portugal seja verdadeiramente Portugal. Gestor do Programa Operacional Sociedade do Conhecimento


Público • Sexta-feira 26 Fevereiro 2010 • 41 Contribuinte n.º 502265094 Depósito legal n.º 45458/91 Registo ERC n.º 114410 Conselho de Administração Presidente: Ângelo Paupério Vogais: António Lobo Xavier, Cláudia Azevedo, Cristina Soares, Luís Filipe Reis, Miguel Almeida, Pedro Nunes Pedro E-mail publico@publico.pt Lisboa Rua de Viriato, 13 – 1069-315 Lisboa; Telef.:210111000 (PPCA); Fax: Dir.

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Maia. Capital Social €50.000,00. Detentor de mais de 10% do capital: Sonae Telecom, BV Impressão Unipress, Travessa de Anselmo Braancamp, 220, 4410-350 Arcozelo, Valadares; Telef.: 227537030; Imprejornal - Sociedade de Impressão, SA. Quinta Velha, Santo Antão do Tojal, Estrada Nacional nº 115 ao km 80, 2660-161 Loures. Telef. 210129700 Distribuição Logista Portugal – Distribuição

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Luís Afonso

Arrepiemos caminho

Miguel Esteves Cardoso Ainda ontem

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unca fui sindicalista mas começo a ser. Sinto que nós jornalistas somos, em termos ambientais, uma espécie em extinção. Estamos a ser comidos pelos gabinetes de imprensa e de relações públicas dos poderes, políticos ou económicos. Temos medo dos nossos governantes e patrões. José Gil tocou num nervo. Tornámo-nos comedidos ou histéricos. Os sintomas são diferentes mas a doença é a mesma. Elogiei aqui Henrique Granadeiro, por ter dito que se tinha sentido “encornado” por um subordinado da PT. No PÚBLICO de anteontem fiquei a saber, pelo depoimento do director do JN, José Leite Pereira, “que, quando Henrique Granadeiro liderou a Lusomundo Media, pediu aos directores que o informassem com antecedência sobre as notícias que os jornais publicassem sobre a PT – então dona do grupo. E apontou o dedo a Rui Rio, que pressionou diversas vezes a administração para ‘demitir a direcção do jornal’”. Nem pedir para informar nem pressionar para demitir são actos ilícitos ou sequer desumanos. Mas fazem pensar. E demonstram que, cada vez mais, os poderosos têm privilégios para controlar o que os jornalistas dizem acerca deles. Não é só a Internet. É o patronato. São os governos, sejam de que partido forem. As leis do mercado e da força estão do lado deles e contra nós, jornais e jornalistas. Deveríamos unir-nos devagarinho. Para colar melhor. Sejamos de que cor formos. Corremos perigos. A liberdade não é só o nosso ganha-pão: é o nosso dever e a nossa desculpa.

Entre um artigo indefinido “uma” e um definido “a” vai uma distância entre o Porto e Fortaleza

Um acordo de corda “Faz sentido a comunicação social portuguesa adoptar o Acordo Ortográfico. O Expresso vai, seguramente, adoptá-lo e só ainda não o fez porque temos alguns problemas técnicos relacionados com o sistema editorial e com o corretor ortográfico que estamos neste momento a tentar superar” Henrique Monteiro, director do Expresso, in PÚBLICO online, 30.01.2010

I

Francisco

maginemos que, do meu ponto de vista, a constru- Miguel ção de uma ponte entre o Porto e Fortaleza, com Valada quatro variantes (Bissau, Cidade da Praia, São Tomé e Luanda), constituía um projecto positivo para a CPLP atlântica. Partamos agora do princípio que todos os governos da CPLP atlântica partilhavam o meu ponto de vista. Pensemos agora que se incumbia a tarefa a um gabinete de engenharia civil e que este apresentava o Projecto da Ponte de Corda. O meu ponto de vista manter-se-ia válido, eu continuaria favorável a uma ponte. No entanto, consciente do material proposto para a sua execução, tornar-me-ia opositor de tal empresa e jamais me veriam a passar na ponte de corda. Entre um artigo indefinido “uma” e um definido “a” vai uma distância entre o Porto e Fortaleza. Desde há muitos anos que a direcção do Expresso é defensora de qualquer acordo ortográfico, seja ele de corda, de betão, de aço ou alumínio. Esta Não conheço qualquer posição teve o seu remate final numa “Nota da Direcção”, após ficarmos a saber que cada jor- tese fundamentada nalista da agência Lusa “esteve um dia a reflecque determine tir” sobre questões tão cativantes como a filosofia geral do acordo. Claramente se percebe que assertivamente ser ao argumento principal do Expresso (“Do nosso ponto de vista, as novas normas não afectam – a ortografia afectada antes contribuem – para a clarificação da língua pela fonética portuguesa.”) falta o nexo de causalidade: de que forma, como, de que modo? Se eu disser e não o contrário

que uma ponte de corda contribui para unir os falantes atlânticos da língua portuguesa, tenho de apresentar os motivos da minha afirmação. Dizer “do nosso ponto de vista”, não chega. Ao Expresso falta perceber que, ao defender um acordo de corda em vez de (no mínimo) betão, fragiliza a sua posição. Não se conhecem os estudos linguísticos que validam o segundo argumento (“Não consideramos a ideia de que a ortografia afecta a fonética, mas sim o contrário”). Uma tese deve sustentar-se em provas e, salvo me tenha escapado algum dos princípios ortográficos que grassam em textos técnicos sobre a matéria, não conheço qualquer tese fundamentada que determine assertivamente ser a ortografia afectada pela fonética e não o contrário. Peço encarecidamente à direcção do Expresso que me faculte tais referências, pois, das duas uma: ou não existem, ou, se existem, não as conheço. Aconselho a leitura das páginas 64 a 76 do livro Fonética do Português Europeu (Guimarães Editores, 2009), do professor António Emiliano, para que no Expresso se perceba a diferença entre um fone e um fonema, uma letra e um grafema. Recordo igualmente as recentes palavras de Maria Helena Mira Mateus, num parecer do ILTEC para o Instituto Camões: “A ortografia portuguesa é fonológica e etimológica, e não fonética. ” O terceiro argumento do Expresso é demolidor para o próprio Expresso: “O facto de a partir de 1911 a palavra phleugma se passar a escrever fleugma e, já depois, fleuma não trouxe alterações ao modo como é pronunciada. Assim como pharmacia ou philosophia.” Entre pharmacia e farmácia não se percebe se o Expresso se refere ao ph que passou a f ou ao a que passou a ter acento. O ph e o f não poderiam sofrer ambiguidades fonéticas, pois ambos os grafemas se realizam foneticamente da mesma forma. Quanto ao acento que o a ganhou em 1911, nada tem a ver com as opções do acordo que o Expresso de-

cidiu aplicar: basta ver que pára perde o acento. Entre a farmácia de 1911 e o para de 1990, temos a diferença entre uma reforma ortográfica de betão e um acordo ortográfico de corda e a prova provada de que, quando matérias técnicas são exclusivamente defendidas com argumentos políticos, o desastre é inevitável. A propósito da regionalização, afirma o professor Freitas do Amaral, no Curso de Direito Administrativo: “Pior do que não ter a regionalização será fazer uma má regionalização, isto é, uma regionalização mal estudada, mal concebida ou mal executada.” Recentemente, na cimeira de Copenhaga, o Presidente do Brasil, Lula da Silva, afirmava: “O que nós não estamos de acordo é que as figuras mais importantes do planeta Terra assinem qualquer documento, para dizer que ‘Nós assinamos documento’”. O acordo que o Expresso, a Lusa e o Diário Económico estão já a aplicar foi mal estudado, mal concebido e, por conseguinte, será mal executado. É pena que, em vez de promoverem uma reforma da ortografia bem planeada, adequadamente concebida e sustentavelmente executada, o Expresso, a Lusa e o Diário Económico tenham decidido aplicar “qualquer documento”. Em vez de um acordo de betão, aço ou alumínio, preferem um acordo de corda. E a corda lá acabará por rebentar. Inevitavelmente. Para mal de todos nós. Adenda: “O país não pode fechar-se em si mesmo. Não faz sentido vivermos de costas para o que é hoje o centro da lusofonia, que é o Brasil.” Esta frase de António Costa, do Diário Económico, demonstra bem que a subserviência ultrapassa qualquer resolução técnica. Julgávamos nós que a CPLP era uma comunidade de primus inter pares. Segundo o Diário Económico, afinal, estávamos todos completamente enganados. Enquanto o Expresso faz um esforço técnico, ainda que incipiente, o Diário Económico vai ao cerne da questão. Autor de Demanda, Deriva, Desastre – Os três dês do Acordo Ortográfico (Textiverso, 2009)


Público • Sábado 3 Abril 2010 • 31 Contribuinte n.º 502265094 Depósito legal n.º 45458/91 Registo ERC n.º 114410 Conselho de Administração Presidente: Ângelo Paupério Vogais: António Lobo Xavier, Cláudia Azevedo, Cristina Soares, Luís Filipe Reis, Miguel Almeida, Pedro Nunes Pedro E-mail publico@publico.pt Lisboa Rua de Viriato, 13 – 1069-315 Lisboa; Telef.:210111000 (PPCA); Fax: Dir.

Empresa 210111015; Dir. Editorial 210111006; Agenda 210111007; Redacção 210111008; Publicidade 210111013/210111014 Porto Praça do Coronel Pacheco, nº 2, 4050-453 Porto; Telef: 226151000 (PPCA) / 226103214; Fax: Redacção 226151099 / 226102213; Publicidade, Distribuição 226151011 Madeira Telef.: 934250100; Fax: 707100049 Proprietário PÚBLICO, Comunicação Social, SA. Sede: Lugar do Espido, Via Norte,

Maia. Capital Social €50.000,00. Detentor de mais de 10% do capital: Sonae Telecom, BV Impressão Unipress, Travessa de Anselmo Braancamp, 220, 4410-350 Arcozelo, Valadares; Telef.: 227537030; Imprejornal - Sociedade de Impressão, SA. Quinta Velha, Santo Antão do Tojal, Estrada Nacional nº 115 ao km 80, 2660-161 Loures. Telef. 210129700 Distribuição Logista Portugal – Distribuição

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Luís Afonso

A boneca do Magoito

Miguel Esteves Cardoso Ainda ontem

A

nteontem fomos ao Magoito, sempre surpreendidos pelas novidades da Primavera. A rua do Chão Verde, em Fontanelas, deu-nos as primeiras vinhas de chão de areia, a nascer em folha. Está quase Maio! A meio de Maio, a Maria João deixa de ser radio-activa e poderá voltar a apanhar malmequeres sem torná-los azuis. O fim dos tratamentos está à vista, rodeado por princípios de novas vidas, todas a correr para o Verão, a acompanhar-nos e a dar-nos força e vontades. Na Praia Grande, o mar destapou grandes rochas, dividindo e complicando a praia, tornando-a ainda mais bonita. O mar faz e refaz as praias conforme quer, como se nunca estivesse satisfeito, como um bruto a torcer um bocado de plasticina, a ver se se distrai e a não conseguir. A areia que falta à Praia Grande foi parar à Praia do Magoito, tapando quase todas as rochas. Parece a Praia Grande. E a Praia Grande mais parece o Magoito. E a coisa não há-de ficar por aqui. Nunca fica. No Magoito, conhecemos uma menina, sentada ao vento a ver o mar, que nasceu em “treze”, há 97 anos. Estivemos a conversar. Quando era pequenina, sobreviveu à pneumonia. Chamavam-lhe “a boneca” por ser tão bonita e pequenina. Estava na mesma. Mais boneca ainda. Dantes vinha para o Magoito de burrinho e era um pulo. Agora tinha de ir a Sintra apanhar a carreira. Mas valia a pena, por causa do iodo. A médica tinha-lhe receitado aquela praia: “Vá ao Magoito!” E ela lá estava, muito bonequinha e com muito prazer.

Não deve a língua portuguesa girar nem em redor do Brasil, nem de Portugal, nem de qualquer país

O Acordo Ortográfico e o Sistema Solar “O Sol nasce e o Sol põe-se e visa o ponto donde volta a despontar” – Eclesiastes 1:5 “Não faz sentido vivermos de costas para o que é hoje o centro da lusofonia, que é o Brasil” – António Costa, director do Diário Económico, in PÚBLICO online, 30.01.2010

A

Francisco

segunda frase em epígrafe pressupõe uma modificação conceptual. Enquanto nos princípios da Miguel CPLP se podem ler preceitos como “igualdade Valada soberana dos Estados membros” e “reciprocidade de tratamento” e nos seus objectivos se inclui “a materialização de projectos de promoção e difusão da língua portuguesa”, o director do Diário Económico preconiza uma abordagem completamente diferente. Michel Foucault considerou estas mudanças conceptuais como “cortes epistemológicos”. Na linguagem de Foucault, este conceito corresponde a uma mudança de paradigma, com consequências em todas as áreas do saber. No século XVI, a obra de Copérnico De revolutionibus orbium coelestium propunha a teoria heliocêntrica, vindo a provocar uma alteração nos valores até então consagrados e desferindo um golpe misericordioso na concepção geocêntrica, exemplificada na minha referência ao Eclesiastes. Em suma, com Copérnico, a Terra deixava de ser o centro das atenções, passando esta e todo um conjunto de planetas a descrever uma órbita em redor da fonte da vida: o Sol. Caso tenham reparado, a teoria sobreviveu a Copérnico, pois a sua veracidade é mais do que comprovável. Apesar de me ter convenci- A defesa deste do, há quatro anos, durante um nascer do Sol péssimo instrumento no deserto do Mojave, de que o movimento de translação era do Sol relativamente à Terra e corresponde apenas a não o contrário, a minha convicção desse mo- um inusitado regresso mento perderá sempre para a crua realidade copernicana, kepleriana e galileana. É certo e à Idade Média

sabido, desde Galileu: eppur si muove! Contudo, António Costa convida-nos a um regresso ao passado, a um retrocesso epistemológico e a um novo tipo de centrismo: o jupitercentrismo linguístico. Não concordando com a despromoção de Plutão a “anão”, justificada por a sua massa ser inferior, por exemplo, à massa da nossa Lua, devo realçar que esta despromoção me facilita os cálculos para o tema em apreço. O Sistema Solar é agora composto por oito planetas. A CPLP é composta por oito Estados-membros de pleno direito. A conhecida disposição dos oito planetas seria impossível sem o Sol e a CPLP não existiria sem a língua portuguesa. Em termos proporcionais, tendo em conta uma relação entre massa de corpos celestes e área ou dimensão populacional de países, Júpiter equivalerá ao Brasil e Urano a Portugal. Pense-se no Sistema Solar e na posição de Júpiter relativamente ao Sol. E agora imaginese uma grande revolução no Universo, em que o Sol e Júpiter trocam de posição. O facto de o Sistema deixar de ser Solar, para passar a Jupiteriano, é uma preocupação secundária. Não é o nome que aqui está em causa, nem a confusão orbital, nem a impossibilidade de o Sol poder ser capturado pelo campo gravitacional de Júpiter, nem a possibilidade de tal revolução implicar consequências inimagináveis na estrutura do Universo. No entanto, a improbabilidade de um astro com massa cerca de 333 mil vezes superior à da Terra girar em torno desta a uma distância média de cerca de 150 milhões de quilómetros foi uma verdade indesmentível. Até Copérnico. Subitamente, eis que a Ciência se vê ignorada e ultrapassada pela opinião não sustentada. A partir do momento em que pensarmos a língua exclusivamente em termos de dimensão populacional, área territorial ou poder económico, abriremos as portas para a justificação da adopção de qualquer instrumento técnico, independentemente da sua péssima qualidade. Justificar-se-á, a esta luz e só a esta

luz, o injustificável Acordo Ortográfico de 1990. Não deve a língua portuguesa girar nem em redor do Brasil, nem de Portugal, nem de qualquer país. A língua portuguesa deve estar no centro das preocupações e é em torno dela que os argumentos devem gravitar. As mudanças em aspectos com ela relacionados podem ser de iniciativa política, mas a sua promoção deve ser corroborada por estudos científicos e não apoiada em argumentos que voguem pela arbitrariedade, pela discricionariedade e pela subjectividade. Caso contrário, a língua deixará de ser veículo de comunicação de todos, para passar a mais uma carta no baralho de um jogo dominado por um, mas em que todos saem perdedores; em vez de impulso civilizacional, passará a instrumento individual, quando constitui um património colectivo. Considero nefasta e, em última análise, perniciosa uma mudança de paradigma, sem se preverem as consequências do corte epistemológico. Para se confirmar a validade da minha consideração, convido à leitura do Acordo Ortográfico de 1990 e dos comentários que o justificam e o elogiam. Perceber-se-á rapidamente que a defesa deste péssimo instrumento corresponde apenas a um inusitado e pouco recomendável regresso à Idade Média. Adenda: Na minha crónica anterior (26/2/2010), houve uma nódoa no pano, um primus que caiu pessimamente antes do inter pares. Culpa minha, minha enorme culpa. Agradeço o reparo de Daniel Jesus, meu estimado amigo, colega e leitor. Agradecendo e corrigindo: “Julgávamos nós que a CPLP era uma comunidade de relações interpares.” O mundo moderno é moldado assim: quem erra deve analisar, corrigir e agradecer a correcção. Talvez não fosse má ideia os autores do Acordo Ortográfico de 1990 adoptarem este tipo de comportamento. Dispensa-se o agradecimento, mas a análise e as correcções são indispensáveis. Autor de Demanda, Deriva, Desastre – os três dês do Acordo Ortográfico (Textiverso, 2009)


Público • Segunda-feira 28 Junho 2010 • 29

Espaçopúblico

Se não conseguis defender o Acordo Ortográfico 90, não tenteis desviar a conversa para foros de indelicadeza

A Evanildo Bechara, gramático e filólogo A crítica em Portugal é a de que os brasileiros estão mais interessados e se acham mais ávidos porque os portugueses vão ter que alterar mais do que os brasileiros. Não é verdade. Quem diz isso não leu o acordo. Evanildo Bechara, entrevistado por Fabiana Godoy, PÚBLICO, 10/6/2010

E

m entrevista ao PÚBLICO (10/6/2010), Evanildo Bechara, “considerado o pai do acordo ortográfico no Brasil”, produz afirmações graves, como a que surge em epígrafe. Nada de surpreendente, vindo de quem, em declarações à Folha de S. Paulo (6/8/2009), chamou “balela” à crítica fundamentada da falta do vocabulário ortográfico comum, previsto no artigo 2.º do Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90). Esse vocabulário deveria ter sido elaborado até um ano antes da entrada em vigor do AO 90, conforme então prevista no artigo 3.º. As datas são claras e não requerem relevante formação jurídica para a sua interpretação: 1 de Janeiro de 1993 para o vocabulário e 1 de Janeiro de 1994 para a entrada em vigor. Claríssimas como água. O Acordo do Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa dá uma nova redacção ao artigo 3.º, relativamente à entrada em vigor do AO 90, mas o artigo 2.º mantém-se inalterado. De um gramático e filólogo, apenas espero uma resposta esclarecedora, académica e científica e não uma “balela” para atirar a conversa para canto ou para escanteio, dependendo da norma escolhida. De Bechara, que acuso publicamente de contribuir para a destruição da norma ortográfica do português europeu, exijo uma resposta digna de um académico (com explicações, remissões e referências) e não que despache o assunto como se lhe estivessem a perguntar as horas e não tivesse nem tempo, nem paciência, nem relógio para responder. Mas concentremo-nos na recente entrevista ao PÚBLICO. Afirma Bechara que quem diz terem os portugueses “que alterar mais do que os brasileiros (...) não leu o acordo”. Quem nitidamente não leu o AO 90, nomeadamente a Nota Explicativa, quando avança percentagens que não requerem formação em estatística para serem percebidas, foi Bechara. Não repetirei argumentos sobre

cálculos, já alhures desmascarados e inclusive publicamente comprovada a sua inexactidão por responsáveis pela execução técnica do AO 90. Contudo, para que não restem dúvidas, transcrevo, na simplicidade de uma frase, informação ignorada ou omitida por Bechara e veiculada pelo Ministério da Educação do “A unificação da ortografia acarretará alterações na Francisco Brasil: forma de escrita em 1,6% do vocabulário usado em PortuMiguel gal e de 0,5%, no Brasil”. Um académico desactualizado e desinformado é um académico que transmite informações Valada erradas. Citá-lo em contexto académico constitui um exercício extremamente perigoso. Não recomendo. Bechara refere, entre os “pontos em que havia desacordo”, a existência “em Portugal” [sic] de “consoantes que não se articulam, como por exemplo ‘director’”. Bechara deveria saber que há mais vida para além da mera articulação. Bechara não leu Maria Raquel Delgado Martins, quando refere, em Ouvir Falar – Introdução à Fonética do Português, entre as excepções à regra de redução vocálica, as marcadas ortograficamente por acento agudo ou “por uma consoante muda etimológica, como em baptismo ou director”. Director, professor Bechara. Director! Bechara não leu Ivo Castro e Inês Duarte, em A Demanda da Ortografia Portuguesa, quando realçam que no português europeu “a presença de uma consoante etimológica constitui (...) uma instrução que indica que se está perante um caso excepcional em que o timbre da vogal não é alterado”, nem ouviu Antônio Houaiss, no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 10/12/1990, quando disse: “[esse c] em Portugal, ele tem valor diacrítico”. Diacrítico, para quem não souber, vem do grego διακρητικός e significa, entre outras coisas, “sinal gráfico que permite distinguir a modulação das vogais”, segundo o Dicionário da Língua PorE como é que uma tuguesa Contemporânea, organizado por João criança que está Malaca Casteleiro e prestes a desactualizar-se, a começar a escrever por iniciativa e publicidade do seu organizador, apesar de a 1.ª edição (2001) ter menos de dez em português vai anos de idade. Se Fabiana Godoy me tivesse acerca do “gasto desnecessário de escrever ‘homem’ se ela perguntado dinheiro” e da “imposição das academias”, teria sido esta a minha resposta. não ouve este h?

Com uma aplicação do AO 90, a norma ortográfica do português europeu finda, como diria o João da Ega, por dispersão e insensivelmente. As conclusões de Martins, Castro, Duarte e Houaiss deixarão de ser verdade, não porque haja qualquer erro científico nas suas conclusões, antes pelo contrário, mas devido a um processo puramente administrativo e absolutamente anticientífico. Como se Vénus pudesse passar a ter uma rotação no mesmo sentido da rotação da Terra apenas porque a administração Obama assim determinasse e a NASA em conformidade obedecesse. Bechara pergunta: “Como é que uma criança que está começando a escrever em Português vai escrever ‘Egipto’ se ela não ouve este p?”. Ficar-me-ia mal aconselhar a leitura de livros e artigos científicos sobre o tema, a um académico que os deveria conhecer melhor do que eu. Mas como é evidente que não os leu, recomendo vivamente a sua leitura. Agora, pergunto eu: como é que uma criança que está a começar a escrever em português vai escrever “homem” se ela não ouve este h e como é que essa criança vai diferenciar o (cito da Base V do AO 90) “emprego do e e do i, assim como o do o e do u, em sílaba átona”, como em “cardeal” e “cordial”, “mágoa” e “tábua”? Perdei meia hora do vosso precioso tempo, professor Bechara, e respondei-me a estas dúvidas dilacerantes. Embora as respostas se encontrem nas Bases II e V do AO 90, por vós aparentemente desconhecidas (“por força da etimologia”, “pela etimologia e por particularidades da história das palavras”, por “condições etimológicas e históricofonéticas”), podeis dispor de argumentos adicionais. Respondei-me, professor Bechara, com argumentos científicos, daqueles que surgem em livros, teses, artigos, aulas, debates e seminários. Mas não chameis “balela” a coisas sérias e que dizem respeito a todos os que escrevem e lêem. Se não conseguis defender o AO 90 na vossa área de conhecimento, não tenteis desviar a conversa para foros de indelicadeza, dizendo que “os portugueses sempre se consideraram os donos da língua”. De outro modo, devo concluir que “balela” é todo o processo do AO 90. Para bem da nossa língua, espero estar enganado. Contudo, lamentavelmente, quer-me parecer que não estou. Autor de Demanda, Deriva, Desastre – os três dês do Acordo Ortográfico (Textiverso, 2009)

Tenho para mim que o valor da Justiça encerra uma importante vertente de decência. Ser justo, é ser decente

O favor político e a independência das magistraturas

1.

As palavras que se seguem receberão, por certo, uma pretensa resposta do escriba de serviço da corporação. Sempre foi assim e nada leva a crer que agora o não seja. As corporações têm sempre alguém de serviço para vender o que não é possível quando alguém ousa afirmar-se de uma forma corporativamente tida como incorrecta. Já estou habituado. Não obstante, alguém tem que dizer o que adiante se pode ler. Cabe-me a mim uma vez mais. 2. O actual Vice-Procurador-Geral da República foi nomeado em ambiente legal, no mínimo, pejado de dúvidas. O Público de sexta-feira dá conta que ainda correm nos tribunais dois processos onde se pretende ver declarada a ilegalidade dessa nomeação. No meu modesto entender (mas deve ser disparate), tal nomeação foi, de facto, ilegal, o que põe em crise todos os actos que praticou ao longo do mandato que agora cessou por limite de idade. Cessou? Se a idade não perdoa e é um dado objectivo – não se pode fugir à idade com argumentos jurídicos, mais ou menos peregrinos ou rebuscados -, o actual (?) Vice-ProcuradorGeral da República cessou funções, nos termos legais, ao completar a idade que a lei prevê para a aposentação de funcionários do Estado, ou seja, 70 anos (ou gloriosas primaveras, como diria o meu pai).

3. Chegados aqui, eis que surge uma providencial iniciativa do Governo, a Proposta de lei nº 31/XI, aprovada no Conselho de Ministros do passado dia 8, a ser discutida e votada, em breve, na Assembleia da República. O que nos diz, em resumo, a sua exposição de motivos? Em primeiro lugar, que é positivo que os magistrados jubilados, quando em comissão de serviço, se mantenham em exercício de funções. É muito importante para o interesse público, pois tais magistrados estão carregados de experiência e conhecimento. Depois, em variados casos (?), os magistrados mais habilitados para o exercício de certa função, têm o azar de fazer 70 anos, quando ainda “têm reconhecidas capacidades e vontade para continuar a servir o interesse público”. Seria um desperdício não os aproveitar. E, não menos importante, a mesma solução já está prevista para o exercício de funções no Supremo Tribunal de Justiça. Basicamente estamos perante um tipo de discurso que nenhum comentador desportivo – que molda o seu comentário em directo às nuances do resultado – desdenharia subscrever. Logo, como fugir a este objectivo argumentário e não consagrar que o Vice-Procurador-geral da República não cessa a sua comissão de serviço – “não deve” –, mesmo que o bilhete de identidade – ou o cartão de cidadão – afirme

José Manuel Meirim

o contrário? É isso que vem afirmar a nova redacção do n.º 3 do artigo 129.º do Estatuto do Ministério Público. E, relembre-se, que já a primeira parte dessa norma fora introduzida perante a factualidade concreta de um outro Vice-Procurador-Geral da República. Ou seja, um preceito com duas lei-medida. Nada mau, em termos de eficácia. O que vem proposto para o artigo 148.º – nomeação, a título excepcional e por razões ponderosas de serviço de magistrados jubilados - serve tão-somente para embrulhar o presente constante do artigo 129.º. 4. Tenho para mim – outro disparate, por certo – que o valor da Justiça encerra uma importante vertente de decência. Ser justo, é ser decente. Muito pragmaticamente, quando a um jurista é colocada uma questão de interpretação da lei é certo e sabido – nem que seja por desafio intelectual – que procurará encontrar uma leitura que se coadune com o pretendido. Umas vezes mesmo, ultrapassando todos os limites. A mínima dúvida justifica o resultado. Mas, assim vejo a Decência impor, quando o que está em causa é um interesse próprio, pessoal ou corporativo, a mínima dúvida deve jogar contra tal interesse. Assim se devem comportar as elites, os magistrados e se dá o exemplo. E se ganha autoridade moral e independência. Professor convidado da Faculdade de Direito da UNL


Público • Domingo 22 Agosto 2010 • 33

Bartoon

Luís Afonso

O whiskey de Beckett

Miguel Esteves Cardoso Ainda ontem

S

amuel Beckett era um escritor de génio e por aí tudo deveria ficar. Lê-se o que ele escreveu e não há mais nada a saber. Era um anglo-irlandês, que não gostava de ser anglo-irlandês. Nem da parte inglesa nem da parte irlandesa. Nem protestante nem católico nem nada. Fugiu da Irlanda, da Inglaterra e das religiões e foi viver para Paris. Durante um grande bocado da vida dele (o meio) até fugiu da língua inglesa, revelando-se em francês. Em Paris viveu e morreu. E não faltam relatos de encontros com ele. A questão que ainda não se resolveu é que whiskey ele preferia. Irlandês era com certeza. Acompanhado, nalguns testemunhos, não por Guinness, mas, escandalosamente, pela branca e continental lager. Embora haja fotografias e memórias dele a beber Guinness. Sempre se disse de Beckett que era bebedor do whiskey da Irlanda do Norte: do Bushmills branco e do preto, formidáveis. Estando no Reino Unido e não contendo whiskey “pot still” consideram-se, estupida e facciosamente, whiskies protestantes. No entanto, nos últimos meses de vida dele, num lar de terceira de Paris chamado Tiers Temps, aqueles que o visitaram não viram Bushmills: só Jamesons e Tullamore Dew. Jamesons é o whiskey católico da Irlanda. Tullamore Dew é o whiskey irlandês que os irlandeses não têm clima para apreciar. O whiskey de Beckett, afinal, eram todos os whiskies da Irlanda – excepto os da destilaria Cooley, que ainda é muito nova. Há aqui uma lição a beber.

Não se pode nem defender nem atacar um instrumento científico com opiniões pessoais não sustentadas

Acordo Ortográfico: o derradeiro recurso “Ainda me lembro, fotograficamente, do revisor do jornal, elogiando a minha prosa” Jaime Bernardes, “E o meu sofrido português, como fica?”, Expresso, 16/08/2010 (1)

A

o falar-se sobre o Acordo Ortográfico, não se deve tratá-lo com o estilo e a abordagem nem da Francisco compaixão pelo sofrimento de As Terças com Morrie, nem da complacência pelo adultério Miguel de As Pontes de Madison County. Confesso que Valada li os dois livros, que desaconselho em termos formais, mas que ajudam a ver a floresta escondida por detrás do discurso lamecha e com o seu quê de autopsicografia (vamos falar de Pessoa, não tarda nada). Por isso, bem vistas as coisas, até aconselho. O Expresso, como se sabe, pela sua teoria arrancada ao éter, poupa letras. Como se depreende da sua redacção actual, gasta acentos e admite facultatividades na capitalização, violando na prática as Bases do Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90), que defende em Editorial. Por lhe faltarem autoridades com argumentos sólidos, recorre a textos de profundidade emotiva. Eu choraria convulsivamente perante o texto de Jaime Bernardes, não fosse o AO 90 assunto demasiado sério para perder tempo com choradeiras. A diferença é que eu li o AO 90 e aí reside a fronteira entre um choro gratuito e Quando se começa uma cabeça esclarecida. Jaime Bernardes escreve um texto que o Ex- um comentário sobre presso apoda de “comentário”. Há uns anos, Ivo Castro e Inês Duarte escreveram um “Comentá- ortografia com a rio do Acordo” (de 1986) e não divagaram. Um citação de Bernardo comentário situa-se entre uma análise e uma divagação, tendendo muito para a primeira e Soares “A minha pátria pouco para a segunda. Para o Expresso é igual. é a língua portuguesa”, Tanto faz como fez. Os méritos do Comentário de Castro & Duarte são ignorados pelo Expresso, o resto é previsível

que prefere divulgar o “comentário” de Bernardes. A palavra “ortografia” não faz parte do “comentário” de Bernardes. A palavra “Base” está ausente. A palavra “consoante” também. Bernardes tem uma opinião pessoal. Não se pode nem defender nem atacar um instrumento científico com opiniões pessoais não sustentadas. Há teses de doutoramento sobre ortografia, há artigos científicos sobre a dita. O texto de Bernardes não é um comentário sobre o AO 90: trata-se de uma pura, mera e simples divagação. Aliás, a única referência à ortografia no escrito em apreço é a seguinte: “Em 1967, começaram por tirar da língua escrita um montão de acentos desnecessários, embora tenham ido buscar e instituído o trema, um lapso inexplicável para quem, inteligentemente, passou a considerar, em definitivo, o português como a língua do Brasil.” Trata-se de uma opinião inteiramente subjectiva e descosida. Não existe qualquer análise, apenas se adjectivam os acentos (“desnecessários”) e se comenta a acção da instituição do trema (“lapso inexplicável”). O porquê é um enigma. A razão, um mistério. Quando se começa um comentário sobre ortografia com a citação de Bernardo Soares “A minha pátria é a língua portuguesa”, o resto é previsível. Se Copérnico tivesse começado o seu texto revolucionário citando o Eclesiastes, estaria tudo perdido. Como Bernardes gosta desta frase de Soares, devemos depreender que ele ama a língua portuguesa. Como defende o AO 90, pretenderá que quem o defende ama a língua portuguesa. Pior: depreenderá que quem o ataca não ama a língua portuguesa. Se eu começasse um texto sobre o AO 90 com a citação “Philosophia deve escrever-se com 2 vezes PH porque tal é a norma da maioria das nações da Europa, cuja ortografia assenta sobre bases clássicas ou pseudoclássicas”, o que diria Bernardes? O autor da citação é Fernando Pessoa. Em que ficamos? Quem acha que Filosofia se deve escrever

NUNO FERREIRA SANTOS

“com duas vezes” F não ama a língua portuguesa? O autor é o mesmo, embora haja um heterónimo de permeio. Bernardes continua o seu texto, afirmando que “para os portugueses eu passei a falar à brasileira, enquanto que [sic] para os brasileiros continuei a falar à portuguesa”. Afinal não se trata de um comentário do AO 90, pois Bernardes teima em falar sobre tudo, evitando a ortografia. Adianta ainda que, antes de determinado programa de rádio, dois brasileiros e dois portugueses “discutiam todos os dias quais as palavras mais normais e supostamente mais compreensíveis tanto para portugueses como brasileiros”. Cá temos: léxico. Léxico em vez de ortografia. Continua a senda dos comentários sobre um tema sem se referir o tema. Este texto de Bernardes é o arquétipo da defesa possível do AO 90, perante o descalabro da sua aplicação, apoiada na divagação, na elogiosa referência autobiográfica (ver a epígrafe) e na menção ao sofrimento como derradeiros recursos, uma vez que o rigor não lhe vale. Portugal assim não vai lá e a língua portuguesa muito menos. A fase da Deriva já passou. Estamos no momento do Desastre. Nota: agradeço a Nuno Ferreira, meu antigo colega de curso e Amigo, a chamada de atenção para este texto, que, de outro modo, me teria passado despercebido. Autor de Demanda, Deriva, Desastre – os três dês do Acordo Ortográfico (Textiverso, 2009) 1) http://aeiou.expresso.pt/e-o-meu-sofrido-portugues=f599319