Page 1

12

6 de Março de 2012 •

• 6 de Março de 2012

Entrevista

“O Governo tem que suspender a aplicação

13

Entrevista

do Acordo e impedir o desastre completo”

“O Acordo Ortográfico é um disparate científico” DUARTE BRANQUINHO

foi mestre de Aristóteles?” ou “como é que um homem de 39 anos pode compreender que Borges Coutinho foi presidente do Benfica , João Moutinho joga no FCPorto e José Mourinho treina o Real Madrid?”. A resposta que os autores do AO dão à primeira dúvida posso dar eu às duas outras: “à custa de um enorme esforço de memorização”. E qual é o valor da minha resposta? Zero. Onde está a prova da minha resposta? Nenhures. Qual a reacção do poder? Fuga para a frente. António Caeiro traduziu para português a Ética a Nicómaco, de Aristóteles. Quem quiser saber o valor de uma fuga para a frente, encontra-o na página 86, se não me engano.

Agora que começa a entrar em casa dos portugueses, o Acordo Ortográfico (AO) está a gerar cada vez mais polémica e começa a levantar-se uma oposição crescente. Francisco Miguel Valada é intérprete de conferência em instituições comunitárias e reside em Bruxelas. Tem denunciado o AO em vários debates e artigos publicados na imprensa e é autor do livro “Demanda, Deriva, Desastre – os três dês do Acordo Ortográfico”. O DIABO entrevistou-o. O DIABO – O que o motivou a escrever um livro contra o Acordo Ortográfico (AO)? Francisco Miguel Valada – Motivos exclusivamente linguísticos. O AO é um disparate científico, uma precipitação. O AO é uma teoria que não foi aceite pela comunidade científica. Acontece a muitas teorias. Mas esta teve direito a tapete vermelho. Por si só, esse motivo basta para o AO ser suspenso. A única entidade que não manifestou reservas quanto à aplicação do AO foi a Academia das Ciências de Lisboa (ACL). A ACL é o órgão consultivo do Governo em matéria linguística e foi a responsável pelo projecto AO em nome do Estado português. Agora, pense numa obra pública. Quem foi o responsável pela construção da ponte internacional do Guadiana, um projecto internacional? O LNEC? Não. O LNEC emite pareceres e faz estudos. A quem foi adjudicado o projecto da ponte, ao LNEC? Claro que não. Foi a uma empresa espanhola e à

Teixeira Duarte. Imagine que o Estado português decidia consultar diversas entidades, a Teixeira Duarte tecia loas à ponte e o LNEC sugeria a imediata interrupção do projecto, porque detectara problemas estruturais. Algum dos responsáveis políticos deste país que defendem o AO defenderia a construção da ponte? Não creio. Mas defendem o AO, sem perceberem os enganos do processo, sem terem lido os pareceres, enfim, muitos sem terem lido o próprio AO. O seu livro teve boa recepção? O livro deu o seu contributo na tentativa de chamar

a atenção para um problema que muita gente teima em defender sem ler o AO. E através do livro, pelo menos, consegui que algumas pessoas que me disseram ser, em princípio, a favor do AO, declarassem publicamente a mudança de opinião. A estabilidade de uma norma ortográfica não se põe em causa com argumentos falaciosos. Estas três dúvidas têm exactamente o mesmo valor: “como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que concepção tem pê mudo e correcção tem cê mudo?”, “como é que um jovem de 15-16 anos pode compreender que Sócrates foi mestre de Platão e que Platão

Acha que a questão do AO passou ao lado dos portugueses? Passou evidentemente ao lado dos portugueses. A prova disso são políticos que utilizam a norma europeia do português e que estão directamente ligados à promoção do AO. Pedro Santana Lopes foi quem assinou o acordo ortográfico, em 1990, e em 2012 continua a achar que facto passa a fato; o cidadão Pinto Ribeiro, meses depois de deixar de andar a promover o AO na qualidade de ministro, dizia que «Ato [sic] jurídico é fácil, agora “fato” em vez de “facto”...»; Gabriela Canavilhas, em estreia na Assembleia da República, para além de dizer que o debate ficara lá para trás, disse que se calhar daqui a uns anos ainda escreveria facto com cê. São um núcleo duro, o “grupo do fato”. Se o AO passou ao lado de quem o decidiu, parece-me ainda mais evidente que passou ao lado dos outros portugueses. Mas parece que agora muitos estão a despertar... Porque deixou de ser um problema teórico, uma mera possibilidade, para afectar o diaa-dia das pessoas. Os autores do AO esqueceram-se de que a sociedade portuguesa é grafocêntrica. Temos palavra escrita por tudo quanto é sítio. Vera Curiel, minha colega, durante a apresentação que António Emiliano fez do meu livro em Lisboa, disse que a morte do AO

aconteceria quando este começasse a ser aplicado. Nunca desejei que este momento chegasse, mas chegou. Esperemos que a profecia se concretize.

Há alguma vantagem para a lusofonia com o AO? O conceito “lusofonia” é a primeira e mais óbvia vítima de todo este processo. Já tive colegas brasileiros que me perguntaram porque é que “nós” já não escrevemos ‘aspecto’ com cê ou ‘recepção’ com pê. Pois… Estávamos unidos pelo “aspecto” e pela “recepção” e agora deixámos de estar. A única vantagem para a “lusofonia”, e se entendermos “lusofonia” como a esfera da CPLP, é a de se perceber a falta de rigor como matérias sérias são tratadas. Uma decisão sensata da CPLP seria abandonar imediatamente o AO.

Como comenta as atitudes de Vasco Graça Moura e de Mota Amaral? Com uma ovação de pé. Os três deputados do PSD-Açores vão ao âmago da questão e têm toda a razão quando falam em “degradação da escrita da língua portuguesa”. Acho interessantes as reacções de determinadas pessoas relativamente à louvável atitude de Vasco Graça Moura. Não ouvi essas pessoas pronunciaremse sobre os pareceres da consulta que o Instituto Camões (sob tutela do MNE) levou a cabo em finais de 2005 e que estiveram a acumular bolor numa gaveta. Proponho que se pergunte aos deputados que votaram favoravelmente o 2.º Protocolo Modificativo se leram esses pareceres, em que os professores Ivo Castro e Inês Duarte recomendavam que este não fosse votado e que o processo do AO fosse suspenso… Note-se que o útltimo parecer chegou ao destino em meados de 2006 e só por iniciativa da deputada Zita Seabra é que os pareceres foram tornados públicos, em 2008, quando o 2.º Protocolo Modificativo foi votado. Como Vasco Graça Moura leu esses pareceres, é natural que tenha feito o que fez. Outra atitude seria impensável. E as recentes declarações de Francisco José Viegas? Percebeu as consequências negativas do AO. Aliás, essa percepção não é inédita. O actual secretário de Estado da Cultura já tinha aludido a essa hipótese em Outubro do ano passado. As pessoas esquecem-se de que a pasta da Cultura está na dependência directa do primeiro-ministro e que não é o cidadão Francisco José Viegas quem está a manifestar opinião. Agora, o Governo, depois de demonstrar sensatez, tem de assumir rapidamente uma posição, dizer quais são as alterações que tem em mente, suspender a aplicação do AO e impedir o desastre completo. Não nos podemos dar ao luxo de deixar arrastar este dossier. Deve evitar-se a todo o custo esta fragmentação a que actualmente assistimos. Já se viu

Isso explica as reservas de Angola e Moçambique? Isso e não só. Em Moçambique, queixam-se de falta de clareza sobre o que se pretende com o AO e têm toda a razão. Além disso, apresentam argumentos económicos e fizeram a avaliação dos custos, coisa que ninguém se lembrou de fazer em Portugal. Repare: Moçambique não adoptou o AO e tem uma estimativa. Pergunte a qualquer responsável português quanto custa o AO. Não sabem, não fazem ideia. Não sou diplomata, mas quando os defensores do AO passam a vida a dizer que há um motor da língua, um centro da lusofonia, que há quase 200 milhões, esquecem-se de que Angola e Moçambique têm uma palavra a dizer. Quando num editorial do “Jornal de Angola” se diz que “nenhum país tem mais direitos ou prerrogativas só porque possui mais falantes”, acho que já percebemos que a falaciosa conversa dos dez milhões que não podem ter autonomia ortográfica pode convencer algumas almas em Portugal, mas que não convence quem tem meios para se tornar uma potência de facto. Trata-se de matéria diplomática, sensível, mas que foi tratada a camartelo.

que o AO é uma caixa de Pandora ortográfica. Logo, o dossier deve ser imediatamente encerrado. O actual Governo tem vários membros que se disseram contra o AO, mas no entanto não o suspendeu. Porquê? Porque foi apanhado a meio do processo, com uma Resolução completamente abstrusa nos braços. Contudo, deste Governo, a única coisa que espero é que suspenda este processo e que devolva o AO à procedência. Não há um único argumento técnico válido a favor do AO. Se me disserem que o AO é uma questão política, pergunto então por que razão se dirigiram à ACL para negociar o AO, por que motivo pediram a opinião

da Associação Portuguesa de Linguística e das universidades. Telefonavam aos embaixadores, perguntavam a opinião dos ministros e pronto. Poupavam dinheiro, não roubavam tempo precioso a quem dedica gran-

de parte da vida ao estudo e o resultado seria exactamente o mesmo. As respostas dos académicos foram para a gaveta, os políticos não leram nem o AO nem os pareceres e tudo ficou como dantes. Até agora.

O que acha dos jornais, como “O Diabo”, que recusam o AO? Na minha opinião, prestam um autêntico serviço público e são sensatos, ao contrário de outros, que, apesar de discordarem e ainda por cima profundamente do AO, se rendem, em vez de tentarem esclarecer os leitores. ■

O DISPARATE CIENTÍFICO  

Entrevista a Francisco Miguel Valada, O DIABO n.º 1836 (6 de Março de 2012) / págs. 12-13

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you