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Com que roupa eu vou? Por Rodrigo Oliveira Gomes

idades e conhecimentos tão diferentes sejam “tratadas” da mesma maneira? Mas, mas no ensino médio da educação pública do Rio Grande do Sul, é assim que ocorre.

Conheça João, ele tem 45 é de profissão pedreiro e cursa no turno da noite o ensino médio após anos de afastamento da escola. A necessidade de qualificação para o mercado trabalho trouxe João novamente a escola. Agora, lhes apresento Clara, 16 anos, que apenas estuda no turno da manhã e a tarde ocupa com os temas, a televisão e as amigas. O que os dois têm em comum além de serem alunos da mesma escola da rede estadual de ensino público?

Segundo o censo da educação básica de 2009, realizado pelo INEP, só no Rio Grande do Sul são aproximadamente 350 mil alunos, na educação básica, com faixa etária acima de 18 anos, destes aproximadamente 150 mil cursam o ensino médio. Em dados aproximados, 27% dos alunos têm mais de 18 anos e podemos deduzir que tiveram em sua grande maioria alguma relação com o mercado de trabalho.

Resposta: Os dois têm a mesma aula de história! E não se trata apenas do mesmo conteúdo, é tudo igual; a mesma exposição; o mesmo enfoque; o mesmo currículo; o mesmo livro; o mesmo tempo de aula e até provas e trabalho iguais.

Se passarmos a analisar por turno, segundo o mesmo censo, veremos que o Rio Grande do Sul tem aproximadamente 125 mil alunos matriculados no ensino médio no turno da noite, esse número chega muito perto da totalidade daqueles que tem faixa etária maior que 18 anos. Fiz uso de estatísticas oficiais para que possamos comprovar claramente que não estamos tratando de uma parcela insignificante do contingente de alunos, mas sim uma grande

Alunos do Ensino Noturno

Não lhes parece estranho que pessoas tão diferentes, em

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freqüenta a escola à noite. Na realidade o cansaço evidente desses alunos acaba impedindo, ou sua freqüência regular, o aproveitamento integral do tempo de aula. Além disso, a carga horária excessiva acaba produzindo mais um fator de cansaço aos alunos, e isso em muitos casos gera evasão; não foram poucos os alunos que me informaram que estavam indo embora por não conseguir suportar mais alguns períodos em sua rotina diária. Não precisamos de estatísticas para evidenciar que o ultimo período deste turno as salas de aula ficam vazias. Então porque não diminuir a carga horária se ela só serve para prejudicar ainda mais os alunos. Penso que uma hora/aula a menos seria bastante adequado.

população que precisa receber educação apropriada a suas características para melhor explorar suas potencialidades. Esse é um dos tantos equívocos causados pela falta de planejamento na educação pública. O turno da noite das escolas, que teoricamente estaria aberto para receber aquele aluno que trabalha durante o dia, não é nada mais que uma réplica “afrouxada” do turno diurno. Como foi trabalhado anteriormente, não há diferença de tratamento institucional entre os turnos, para a escola a única coisa que parece acontecer é o efeito do tempo que fez as horas passarem e a noite chegar. Não passa pelos olhos dos gestores a diferença de faixa etária ou de características entre os turnos, ou se passa por seus olhos, não é suficiente para que eles proponham alguma alteração na estrutura escolar que ajuste a escola noturna às necessidades específicas de seus alunos.

Outra questão importante é a “rotatividade” das disciplinas e professores, assim como no turno diurno, em muitos casos os alunos têm cinco disciplinas e cinco professores deferentes durante um único dia letivo. E qualquer pessoa que já freqüentou uma sala de aula sabe que se perde cerca de 10 minutos a cada troca de professor. Se trocar quatro em uma noite, temos um período perdido. Não seria muito mais óbvio que o aluno tivesse apenas duas disciplinas por dia com um intervalo entre elas?

Quanto à carga horária, definida de fiscalizada pela secretaria da educação do estado os alunos, indiferentemente do turno escolar e de suas realidades, devem cursar 200 horas presenciais em sala de aula. O mesmo número de horas/aula de um adolescente em formação regular e sem atividade formal, continua sendo o indicado para um trabalhador que

E quando eu disse que a escola não se ajusta, fui impreciso. A escola se adéqua ao turno da noite, mas da pior maneira, com o tão famoso jeitinho brasileiro. 2


experiência dos alunos. Cabe ao professor investir em temas que estão em voga na mídia para despertar o interesse de seus alunos.

Frente as queixas dos alunos sobre o cansaço e a indisponibilidade de equilibrar as funções de trabalhador e aluno a escola toma partido “afrouxando” suas regras. Geralmente o aluno pode entrar na sala a hora que conseguir chegar à escola. E se não conseguir chegar a escola dá um “jeitinho” para abater as faltas. Os professores são estimulados a entender a situação dos alunos e “ajudar” no que for possível para diminuir os índices de repetência escolar. Tudo acaba se “organizando” e seguindo em frente, de forma tão trágica harmoniosa quanto um cortejo fúnebre.

Aqui trago como exemplo a atividade executada por mim, em uma turma de ensino médio do turno da noite, durante o período da Copa do Mundo de 2010, que teve como país sede a África do Sul, tinha em minhas mãos um bom tema que poderia ser abordado por vários ângulos. Um método que podemos aplicar com resultados muito bons é a discussão em sala de aula, chamar esses alunos mais velhos para opinião e discutir o que eles acabaram de aprender em relação com aquilo que eles pensam é bastante impactante, tanto para eles, quanto para o professor. Nessa primeira aula após apresentar a história da colonização da África do Sul e por extensão do continente, foi possível discutir conceitos bastante importantes como: colonização, propriedade e desenvolvimento. Diferentemente da maioria das crianças e dos adolescentes os alunos com mais idade sempre trazem para a discussão argumentos baseados em sua história de vida e esse relacionamento penso que é um acréscimo para o processo de aprendizagem.

A “missão” de fazer algo diferente recai mais uma vez aos ombros dos professores, que em pouquíssimos casos tem tempo ou até mesmo disposição física ou psicológica para tal tarefa. No nosso caso como professores de história o que seria possível fazer? Penso primeiramente no conteúdo, por mais que seja definido um conteúdo fixo para cada etapa escolar, nós como professor podemos flexibilizar o conteúdo e dar mais atenção ao que realmente possa ser mais bem absorvido pelos alunos. O professor do ensino noturno não deve incorrer na repetição de aulas “tradicionais”: giz, quadro, exposição e exercícios do livro didático. Penso ser fator decisivo para a aprendizagem o uso de recursos variados, aproveitando a 3


funcionariam com turmas de menor faixa etária. Mas além da experiência prática em sala de aula, dos usos que se pode fazer da historia de acordo com a idade e as características dos alunos, para saber mais sobre as diferenças de estudar no turno da noite para os outros turnos passei então a questionar meus alunos para que eles mesmos apontassem essas desigualdades, atribuindo pontos positivos e negativos do tratamento que é dispensado a eles.

África do Sul durante a Apartheid

Outra ferramenta pode ser o uso de meios áudios-visuais: fotos, músicas, filmes etc.. São bastante produtivos e estimulam mais os alunos. Neste caso para contar a história do Apartheid, fiz a exibição do filme “A história de Nelson Mandela” (Goodbye Bafana) que retrata, pelos olhos do carcereiro, o período em que o líder sul africano esteve preso. O filme foi fundamental para acender nos alunos o interesse pelo tema, o fato de todos conhecerem a figura de Nelson Mandela, mas não conheceram sua história e sua luta mexeu com todos e a partir dali as aulas passaram a ter um quorum muito maior, os alunos passam a questionar o que teriam nas próximas aulas.

A principal crítica dos alunos é quanto ao descaso estrutural que a escola oferece a esses alunos. A maioria dos elementos que estão disponíveis durante o dia não fica disponível à noite. Um bom exemplo disso é a biblioteca, alegando não ter funcionários suficientes às escolas mantêm a biblioteca fechada à noite, causando grande prejuízo aos alunos desse turno. Outro bom exemplo é o refeitório, na maioria das escolas eles estão indisponíveis à noite, assim como outros recursos como secretaria, xerox, etc. Aparentemente a escola pública não se programou para receber alunos nesse turno, ela apenas funciona (precariamente), como repartição pública em final de expediente.

E na aula seguinte optei por trabalhar com a discussão sobre a legitimidade das leis da Apartheid, sobre diferenças culturais e “raciais”. A idade e as experiências dos alunos foi decisão para a discussão, por mais que surgissem argumentos vazios baseados no “achismo” essa era uma das aulas que tenho certeza absoluta que não

Para os alunos essas diferenças são evidentes, os mesmos argumentam que percebem

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que a escola a noite é “mais fraca”, traduzindo a escola é mais negligente. Todos sabem que são prejudicados por vários dos fatores, pelo cansaço, pela falta de objetividade das aulas, pela desmotivação dos professores, pela falta de estrutura da escola, etc.. O turno da noite é um velado pacto pela mediocridade, apenas acentua a deficiência da educação publica, com uma “bela” camada de negligencia. E no final todos acabam felizes com seus diplomas em mãos, aptos para o mercado de trabalho, mas nem tanto para a vida.

“cara” vai apresentar a história aos seus alunos? Com a de sempre, como quem apenas exerce sua atividade sem ter um objetivo bem estabelecido? Ou você vai se vestir diferente e propuser algo adequado aos seus alunos e fizer a diferença na vida deles como Noel fez na nossa música. A escola precisa ser repensada gradativamente, a educação para o turno da noite deve ser focada e objetiva, deve atender estritamente as necessidades dos alunos, precisamos de um ensino dinâmico e otimizado. Tempo de aula não é diretamente ligado à aprendizagem, nem sempre mais é melhor e na escola quase nunca é.

O verso de Noel no título é uma deixa para os professores, com que roupa você vai? Com que

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