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tilรกpia

a nova promessa no tratamento de queimadura


sumário 01 introdução_____________________________________________________________05 02 ovo de colombo________________________________________________________06 03 aplicação do curativo_________________________________________________10 04 medida da dor _________________________________________________________12 05 lixo valioso ____________________________________________________________13 06 peixe do nilo ___________________________________________________________16 07 registro na anvisa _____________________________________________________18 08 espécies de peixe _______________________________________________________19 09 distribuição por região ________________________________________________19 10 FOTOS___________________________________________________________________20 11 FOTOS_________ __________________________________________________________21 12 conclusão ______________________________________________________________22 13 Referência_________ _____________________________________________________23

introdução A pele da tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus) surge como um possível subproduto, com aplicabilidade clínica de novos biomateriais utilizáveis para bioengenharia. Pertencente à família dos ciclídeos, é originária da bacia do Rio Nilo, no Leste da África, encontrando-se amplamente disseminada nas regiões tropicais e subtropicais. A pele deste peixe é um produto nobre e de alta qualidade, pois possui resistência peculiar como couro, entretanto, não existem estudos que evidenciem sua resistência como pele não submetida ao curtimento. Estes resultados puderam sinalizar a possibilidade de aplicação da pele da tilápia do Nilo como curativo biológico temporário em queimaduras. A realização de estudos pré-clínicos in vitro e in vivo deve fornecer informações preliminares de segurança e eficácia para que, posteriormente, sejam realizados estudos em seres humanos que comprovem os benefícios de sua utilização em pacientes com lesões causadas por queimaduras.


OVO DE COLOMBO O tratamento de queimaduras com a pele da tilápia é fruto de uma pesquisa iniciada em 2015 pela Universidade Federal do Ceará (UFC) em parceria com o Instituto Dr. José Frota. Os pesquisadores tiveram a ideia de aplicar o material na medicina depois de descobrirem que 99% da pele deste peixe vai parar no lixo. Pensando nisso, formaram uma equipe para estudar a viabilidade do uso deste material na cicatrização de queimaduras, baseando-se em outras experiências registradas. “Em outros países, são usadas peles de outros animais como porco, rã e cachorro”, explica Edmar Maciel, que também é o coordenador da pesquisa. “Mas descobrimos que a pele da tilápia tem alta concentração de colágeno, é resistente à pressão, tem boa umidade e por isso adere bem na pele humana e evita que o paciente perca líquido, uma das complicações das queimaduras”. Além disso, o material, por enquanto, sai de graça. O uso da pele ainda está em fase de pesquisa para queimaduras de segundo grau. Por isso, ela não é aplicada em todas as pessoas que chegam ao hospital. Há um critério que envolve idade e estágio da queimadura, além de o paciente

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precisar aceitar participar da pesquisa. “Já teve gente que não quis participar, por achar que poderia, por exemplo, ficar com cheiro de peixe no corpo”, conta Maciel. Mas isso não ocorre. Para ser utilizada, a pele da tilápia passa por um tratamento especial de limpeza e a esterilização, feitos nos laboratórios da UFC. Depois, o material é enviado a São Paulo, onde recebe uma irradiação para matar possíveis vírus. Só então volta para a Universidade, onde pode ficar armazenado sob uma temperatura de 3 a 4 graus por até dois anos. Ao todo, o processo de limpeza dura de sete a dez dias, incluindo o envio para São Paulo. O cheiro é totalmente eliminado. Hoje, 1.000 peles de tilápia formam o banco de peles da UFC, de onde são enviadas para o hospital à medida em que há necessidade. Odorico Moraes, diretor do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento em Medicamentos da UFC, explica que a demanda depende de fatores como a época do ano. “Em junho, época das festas de São João aqui no Nordeste, quando fazem fogueiras e soltam balões, a demanda cresce”, explica. Os médicos calculam que 97% dos casos de queimadura envolvem a população de baixa renda. A maioria dos acidentes são provenientes de choques elétricos e água quente, como o caso do garoto Cristiano, de seis anos. “Ele brigou com a irmã e ela atirou água quente nele, queimando parte da perna”, explicou a mãe, Rita de Cássia, 31. Ela autorizou o uso da tilápia no garoto, que apresentava acelerada cicatrização, dois dias após dar entrada no hospital.

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Em países como Chile, Argentina e Uruguai, o tratamento é feito com pele humana ou pele animal.


“Isto aqui é o ovo de Colombo”1, diz o professor Odorico Moraes. “A tilápia cresce rápido, ganha peso rápido, come de tudo, é criada no mundo todo e se adapta facilmente a diferentes ambientes”, diz. Por isso, seu uso é tão viável, assegura. O professor calcula que cada pele, de cerca de 10 x 20 centímetros, tenha um custo de 8 a 10 reais, mas ainda não é possível afirmar, com certeza, quanto custará no mercado. Neste momento, os pesquisadores estão em fase de seleção do laboratório que fará a produção em larga escala, para então, obter o registro na Anvisa e aí passar a comercializar o produto. Além do tratamento de queimaduras, os pesquisadores já utilizaram o material, também em caráter de pesquisa, para implante dentário,reconstituição óssea e da vagina. “Fizemos a reconstituição da vagina de duas pacientes que nasceram com a Síndrome de Rokitansky, uma síndrome rara em que a pessoa nasce sem a vagina”, explicou o doutor Edmar Macedo. “Nos dois casos obtivemos ótimos resultados”.

Segundo o cirurgião plástico Marcelo Borges, coordenador do SOS Queimaduras e Feridas do Hospital São Marcos, em Recife, idealizador do projeto, o tratamento tradicional é relativamente caro, justamente por conta da quantidade de material utilizado e das frequentes trocas de curativos, que também causam dor e desconforto ao paciente, o que gera a necessidade de administrar analgésicos e anestésicos, aumenta o trabalho da equipe e, consequentemente, os custos.

O tratamento das queimaduras pelo Sistema Único de Saúde (SUS), na maioria dos serviços de queimados, é feito com pomada e curativos feitos com gaze, que são trocados a cada dois ou três dias, conforme a gravidade da ferida. Segundo Fábio Carramaschi, cirurgião plástico do Hospital Albert Einstein, de São Paulo, a forma tradicional utilizada atualmente envolve o uso de pomada de sulfadiazina de prata.

Entrevista com Odorico Moraes

1 Ovo de Colombo é uma expressão popular que significa que algo muito difícil de se realizar, parece muito fácil, depois de concretizado.

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Coord. do núcleo de pesquisa e desenvolvimento de medicamentos da UFC

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aplicação do curativo As tilápias são retiradas do açude Castanhão, em Jaguaribara, maior reservatório de água doce do Ceará, localizado a 260 quilômetros de Fortaleza. “As peles são lavadas no local de retirada com água corrente pela própria equipe, colocadas em caixas isotérmicas e levadas para o Banco de Pele na Universidade Federal do Ceará”, explica Edmar Maciel, cirurgião plástico coordenador da fase clínica em andamento no Instituto José Frota (IJF).

De acordo com o médico, o resultado tem sido bastante positivo. “Até o momento não observamos nenhuma contraindicação. O que estamos estudando são ajustes de pele, formas de colocação, melhor maneira de dar maior conforto ao paciente”, salienta. Com o passar dos dias, o material vai se transformando em um couro duro e só é retirado, com a ajuda de vaselina, depois que a pele do paciente começa a cicatrizar. Essa é uma das vantagens do uso da tilápia: como o curativo não precisa ser trocado todos os dias, como no método convencional, o paciente sofre menos. Atualmente, o tratamento está disponível apenas para feridos por queimaduras do Instituto José Frota (IJF), em Fortaleza e já foi testado em mais de sessenta novos pacientes.

Depois de passarem pela esterilização1 inicial, são enviadas para São Paulo, ao Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) da Universidade de São Paulo (USP), onde passam por uma radioesterilização, procedimento que elimina possíveis vírus e garante a segurança do produto. Quando voltam para o banco de pele do estudo, após cerca de 20 dias, as peles são refrigeradas, e podem ser utilizadas em até dois anos. “A pele da tilápia, quando colocada, adere-se à pele ‘tamponando’ a ferida. Ela causa um verdadeiro ‘plastrão’”, explica Maciel. Com isso ela evita a contaminação do meio externo e que o paciente perca líquido e proteínas, causando desidratação e prejudicando a cicatrização.

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1 Processo de destruir todas as formas de vida microbianas que possam contaminar materiais e objetos, como vírus, bactérias, fungos e outros, por meio da utilização de agentes químicos ou físicos.

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lixo muito valioso

medida da dor Além do poder cicatrizante, os médicos pesquisam agora as propriedades analgésicas e anti-inflamatórias da pele da tilápia. “Como os pacientes que usam a tilápia relatam tomar menos remédio para dor do que aqueles tratados com o método convencional, acho que há algo aí que merece ser investigado”, explicou Mariana Vale, professora e pesquisadora da UFC. Os pesquisadores ainda não sabem, porém, se a dor melhora porque a pele do peixe isola os ferimentos, ou se, de fato, libera alguma substância analgésica. Para medir a dor, a pesquisadora utiliza um aparelho chamado analgesímetro, com uma extremidade pontiaguda feita de silicone. A médica espeta a ponta em uma parte do corpo e pede para que o paciente diga quando incomodar. A pressão feita é mensurada no aparelho, na medida de gramas. Depois, ela vai próximo da área queimada, e repete o procedimento. Dali é tirada uma média, que é refeita a cada dia, para observar o quanto a dor diminui. “O que já podemos dizer é que há muita diferença no limiar da dor entre aqueles que usam a tilápia e os que fazem o tratamento convencional”, conta a pesquisadora.

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Ao que tudo indica, vale mesmo a pena investir nessa ideia. Financeiramente a técnica também é um bom negócio. O custo desse tratamento é menor do que o com os meios utilizados atualmente: aproximadamente 57% mais barato, segundo os pesquisadores. Não que o processo todo possa ser de fato considerado muito simples. Apesar de ser uma superfície naturalmente rica em substâncias anti-inflamatórias e antibióticas, a preparação do couro da tilápia demanda uma série de etapas trabalhosas. Depois de retirado todo o filé do peixe, no Ceará, começam os processos de limpeza do couro. Em seguida, o material é enviado ao Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares da Universidade de São Paulo (Ipen-USP), lugar em que passa pela esterilização final — que conta com emissão de radiação ionizante gama cobalto 60. Só então o curativo faz as malas e volta pronto para o seu estado de origem. No entanto, mesmo com todos esses processos e viagens pelo Brasil, a técnica ainda é mais econômica do que os métodos

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Pacientes de 2 a 60 anos que participaram da pesquisa obtiveram sim resultados positivos

tradicionais. Isso porque o tratamento mais popular usado por aqui é feito com pomada à base de prata, que requer uma aplicação frequente, demandando trocas de curativos e causando dor ao paciente. “O couro desse peixe se molda e adere à ferida, criando uma espécie de tampão. Isso evita a contaminação de fora para dentro e evita também a perda de líquidos. Além disso, a pele se fixa na queimadura até sua cicatrização”, explica o coordenador Edmar Maciel. Quando questionados sobre as totais possíveis desvantagens da técnica, ambos os especialistas são taxativos: não encontraram nenhuma contraindicação referente à descoberta. “Não consigo pensar em nenhuma desvantagem até agora. Pacientes de 2 a 60 anos que fizeram parte da pesquisa obtiveram resultados positivos”, afirma Maciel. A expectativa dos especialistas é de que no período de um ano, no máximo, tudo esteja regulamentado junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a produção passe a ser feita em larga escala, podendo até ser levada para outros países. De acordo com Marcelo Borges, a pesquisa “100% brasileira” já está despertando interesse ao redor do mundo, do Japão ao Havaí (EUA). A ideia, segundo Maciel, é realmente expandir o uso da técnica: “Em breve, outros estados, como Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Pernambuco, Goiás e Santa Catarina, também utilizarão a pele de tilápia como curativo”, destaca.

A veterinária e pesquisadora da Universidade da Califórnia Jamie Peyton criou uma pomada para as patas dos animais, partes mais machucadas pelo incêndio, e fez a esterilização das peles de tilápia. A pele do peixe foi cortada exatamente do tamanho das patas dos animais e suturada enquanto eles estavam anestesiados. Bandagens feitas de papel de arroz também foram colocadas para manter o curativo intacto. “Nós esperávamos que as bandagens exteriores saíssem, mas tínhamos a esperança de que a tilápia fosse mantida sobre os ferimentos e servisse como pele artificial por tempo suficiente para acelerar a cicatrização”, explicou Jamie em entrevista para a Reuters. Após a cicatrização, as duas ursas foram liberadas na natureza novamente, em locais próximos de seu habitat natural, mas livres de incêndios, próximos a abrigos e a água. Por ser mais jovem do que as ursas, o puma foi encaminhado para uma instituição para se recuperar do acidente.

reportagem no programa “bem estar” Estudo avalia a pele de peixe para tratar queimaduras com menos dor e mais rápido

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peixe do nilo A tilápia, ou peixe do rio Nilo, chegou ao Brasil em 1971, no Ceará, e rapidamente se disseminou pelos outros estados e países vizinhos. “A tilápia é produzida em cativeiro e temos inúmeras pisciculturas no nordeste, principalmente na Bahia, em Pernambuco e no Ceará”, conta Maciel, que, junto de sua equipe, estudou a piscicultura do peixe.

nem disponibilizada no Ministério da Saúde para tratamento. O Brasil está atrasado no tratamento local com pele quase 50 anos”, salienta Maciel. Toda a pesquisa foi desenvolvida no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento em Medicamentos (NPDM), da Universidade Federal do Ceará, sob a coordenação do pesquisador Odorico Moraes, financiada por um convênio entre o Instituto de Apoio ao Queimado, organização não governamental, e pela Enel, empresa distribuidora de energia elétrica no Ceará.

Na primeira etapa do estudo, entre fases de laboratório e testes em animais, a análise da pele revelou que a tilápia contém uma grande quantidade de colágeno tipo 1 – duas vezes superior ao da pele humana – acelerando o processo de cicatrização. Além disso, a pele tem alto grau de resistência à quebra e elevado grau de umidade, características ideais para um curativo. Outra vantagem é que os animais aquáticos têm menor risco de transmissão de doenças que os terrestres, comumente utilizados em outros países, como nos Estados Unidos e Europa. “A pele de animal mais usada é a pele de porco. O Brasil nunca teve uma pele animal registrada pela Anvisa,

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registro na anvisa

Espécies de peixes mais criadas no Brasil porcentagen

nome

conhecido como

Kg/t

41%

Pseudocrenilabrinae

Tilápia

169,3t

22,6% Em 2016, a pesquisa foi premiada no Congresso Brasileiro de Queimaduras, na Bahia, e no Congresso Brasileiro de Cirurgia Plástica, em Fortaleza, pelo seu pioneirismo e criatividade. O prefeito de Fortaleza na época, Roberto Cláudio, visitou o centro de queimados com o objetivo de conhecer os resultados da pesquisa. Sua impressão com os resultados obtidos, o fez retornar em janeiro deste ano acompanhado do governador do Ceará, Camilo Santana, e do Ministro da Saúde, Ricardo Barros.

14,5% 6,3% 5%

Colossoma macropomum Colossoma macropomum (fêmea) + Piaractus mesopotamicus (macho) Pseudoplatystoma corruscans

Tambaqui

88,7t

Tambacu e Tambatinga

60,4t

Pintado

18,8t

Cyprinus carpio

Carpa

15,7t

distribuição por região

Em abril deste ano, começará a última etapa do estudo, segundo Maciel, para registro do tratamento, conforme exigência da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa). A pele de tilápia será testada em 120 pacientes, incluindo crianças – que, de acordo com dados do Ministério da Saúde, representam quase metade das ocorrências de acidentes por queimaduras. “Em maio, realizaremos o primeiro estudo multicêntrico – em outros locais –, que serão em outros três hospitais de Goiás, sob coordenação do médico Nelson Piccolo”, conta Maciel

Centro-Oeste

26,8%

Sul

22,4%

Noroeste

19,5%

Norte

18,6%

Sudeste

12,8%

*Fonte: Revista Globo Rural e Site revistagloborural.globo.com

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referência

conclusão A pele da tilápia apresentou boa aderência no leito das feridas induzidas por queimaduras nos ratos testados, interferindo positivamente no processo cicatricial e não causando alterações relevantes nos parâmetros hematológicos e bioquímicos de função renal e hepática, sendo um potencial curativo biológico para o tratamento desta natureza.

• Revista Veja Abril

Pele de tilápia: a nova promessa no tratamento de queimaduras - por: Mariana Felix www.veja.abril.com.br/saude

• Bem Estar Rede Globo

Estudo avalia a pele de peixe para tratar queimaduras com menos dor e mais rápido - por: Camila Lima www.globoplay.com.br/bem-estar

• BBC Brasil

O revolucionário método criado no Brasil para tratar queimaduras graves com pele de tilápia http://www.bbc.com/portuguese

• El País

A pele de tilápia (que ia para o lixo) vira “o ovo de Colombo” no tratamento de queimaduras - por: Marina Rossi www.brasil.elpais.brasil.com


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