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II PARTE Guerra dos Judeus Contra os Romanos


ADVERTÊNCIA Se a História dos Judeus mostrou-nos que josefo merece ser colocado entre os melhores escritores de todos os tempos, a sua obra que trata da guerra contra os romanos, a qual compreende a primeira e a maior parte deste segundo volume, não permite duvidar de que ele superou a si mesmo. Várias razões contribuíram para tornar este livro uma obra-prima: a magnitude do assunto, os sentimentos que produzia em


seu coração a ruína de sua pátria e a parte que ele tivera nos principais acontecimentos dessa sangrenta guerra. Que outro assunto poderia igualar-se ao deste grande assédio que mostrou a toda a terra como uma única cidade teria sido obstáculo à glória dos romanos, se Deus, por castigo de seus crimes, não a tivesse fulminado com os raios de sua cólera? Que sentimentos de dor podem ser mais vivos que os de um judeu e de um sacerdote ao ver em subverterem-se as leis do seu


país, das quais nenhum outro jamais foi tão zeloso e reduzir-se a cinzas o soberbo Templo, objeto de sua devoção e de seu zelo? Que parte maior pode ter um historiador em sua obra, do que ser obrigado a mencionar as principais ações de sua vida e a trabalhar para sua própria glória, revelando, sem bajulação, a dos vencedores e ao mesmo tempo referindo-se ao que devia à generosidade desses dois admiráveis príncipes, Vespasiano e Tito, aos quais cabe a honra de ter terminado essa grande guerra?


Mas, como encontramos nesta história tantas coisas notáveis, creio que os que a lerem descobrirão com prazer, num resumo mais exato — como o de Josefo, em seu prefácio — o que ela contém para passar, em seguida, da idéia geral aos particulares que dela dependem. A obra está dividida em sete livros. O primeiro e o segundo, até o capítulo 28, são um resumo da história dos judeus, referida no primeiro volume, já publicado, desde Antíoco Epifânio, rei da Síria, que depois


de ter saqueado o Templo, quis abolir a religião, até Floro, governador da Judéia, cuja avareza e crueldade foram a primeira causa dessa guerra, que eles sustentaram contra os romanos. Esse resumo é tão agradável que Josefo aparentemente quis mostrar que podia, como excelente pintor, representar com tanta arte os mesmo objetos, em maneiras diferentes, que não sabemos à qual dar o prêmio. No primeiro volume, essas histórias foram interrompidas pela narração de


coisas acontecidas ao mesmo tempo; aqui, são escritas na seqüência e dão aos leitores a satisfação de ver num único quadro, o que havia visto em vários, separadamente. Depois do capítulo 28 do segundo livro e até o fim, Josefo narra o que se passou depois da perturbação suscitada por Floro, até a derrota do exército romano, comandado por Céstio Galo, governador da Síria. No começo do terceiro livro, Josefo mostra o espanto que causou ao imperador Nero esse infeliz resultado de suas


armas, o que poderia ter suscitado a revolta de todo o Oriente e diz que tendo lançado os olhos para todos os lados, só encontrou Vespasiano, que poderia sustentar o peso de uma guerra tão importante e lhe deu, então, a chefia e o comando. Em seguida, aborda de que modo esse grande general, acompanhado por Tito, seu filho, entrou na Galiléia, de que Josefo, autor desta história, era governador e o sitiou em jotapate, onde depois da maior resistência que se poderia imaginar, ele foi aprisionado e


levado a Vespasiano, e como Tito tomou várias outras praças e realizou feitos de incrível valor. Vemos no quarto livro: Vespasiano conquistar o restante da Galiléia; a divisão dos judeus em Jerusalém; os facciosos, que tomavam o nome de zelotes, tornarem-se senhores do Templo, sob o comando de João de Giscala; Anano, sumo sacerdote, levar o povo a sitiálos; os idumeus virem em seu auxílio, praticarem crueldades incríveis e depois se retirarem; Vespasiano tomar diversas praças da Judéia, bloquear


Jerusalém com a resolução de sitiá-la e desistir desse intento por causa da morte dos imperadores Nero, Galba e Oton; Simão, filho de Joras, outro chefe dos facciosos, ser recebido pelo povo em Jerusalém; Vitélio, que se havia apoderado do império, depois da morte de Oton, tornar-se odioso e desprezível por sua crueldade e por sua devassidão; o exército comandado por Vespasiano declará-lo imperador; e, por fim, Vitélio ser assassinado em Roma, depois da derrota de suas tropas, por Antônio Primo, que


tinha abraçado o partido de Vespasiano. O quinto livro aborda a formação em Jerusalém de uma terceira facção, da qual Eleazar foi o chefe, e depois, como essas três facções se reduziram a duas, como era antes, e de que modo elas se faziam guerra; aí vemos também a descrição de Jerusalém, das torres de Hípicos, de Fazael e de Mariana, da fortaleza Antônia, do Templo, do sumo sacerdote e de várias outras coisas notáveis: o cerco dessa grande cidade, executado por Tito; as incríveis amarguras


e os atos de valor extraordinários que se praticaram de ambos os lados; a extrema carestia que afligiu a cidade e as espantosas crueldades dos facciosos. O sexto livro apresenta a horrível miséria a que Jerusalém se viu reduzida: a continuação do assédio com o mesmo ardor que antes; e de que maneira, depois de um grande número de combates, Tito, tendo forçado o primeiro e o segundo muros da cidade, tomou e destruiu a fortaleza Antônia e atacou o Templo, que foi


incendiado, não obstante o que esse príncipe tentou fazer para impedi-lo e como, finalmente, se apoderou de todo o restante. No sétimo e último destes livros vemos como Tito destruiu Jerusalém, exceto as torres de Hípicos, de Fazael e de Mariana; a maneira como louvou e recompensou seu exército; os espetáculos que deu ao povo da Síria, as horríveis perseguições feitas aos judeus em várias cidades; a incrível alegria com a qual o imperador Vespasiano e Tito, que tinha sido declarado César, foram recebidos em Roma


e seu soberbo triunfo; a tomada dos castelos de Herodiom, de Macherom e de Massada, que eram os únicos lugares que os judeus ainda ocupavam na Judéia, e como os que defendiam esta última mataram-se todos com suas mulheres e filhos. Eis, em geral, o que contém a História da Guerra dos judeus contra os Romanos: não há ornamentos com que esse grande personagem não a tenha enriquecido. Ele não perdeu nenhuma ocasião de embelezála, com descrições admiráveis de províncias, de lagos, de rios, de


fontes, de montanhas, de diversas raridades e de edifícios, cuja magnificência passaria por uma fábula, se o que ele diz pudesse ser posto em dúvida. Mas vemos que ninguém houve que ousasse contradizê-lo, embora a excelência de sua história tivesse suscitado contra ele tanta inveja. Podemos dizer com verdade que, quer ele fale da disciplina dos Romanos na guerra, quer descreva os combates, as tempestades, os naufrágios, a carestia ou o triunfo, tudo aí é de tal modo


perfeito, que ele se torna senhor da atenção de todos os que o lêem. Eu não tenho receio de acrescentar, que nenhum outro, sem excetuarmos Tácito, lhe foi superior nos discursos, tão nobres eles são, fortes, persuasivos, sempre presos ao assunto e proporcionados às pessoas que falam e às quais se fala. Podemos louvar também o juízo e a boa fé desse verdadeiro historiador, pelo equilíbrio que ele conserva entre os louvores que os romanos merecem por terem terminado


tão grande guerra e os que são devidos aos judeus, por tê-la sustentado, embora vencidos, com indômita coragem, sem que seu reconhecimento pelos favores que devia a Vespasiano e a Tito, nem seu amor pela pátria, o tenham feito pender contra a justiça mais do lado de uns do que de outros. Mas, o que eu encontro nele de mais estimável é que ele não deixa, em todos os fatos, de louvar a virtude, de estigmatizar o vício e de fazer reflexões excelentes sobre o adorável proceder de Deus e sobre o


temor que devemos ter de seus juízos rigorosos. Podemos afirmar com sinceridade que jamais se viu um exemplo maior que o da ruína dessa ingrata nação, dessa soberana cidade e desse augusto Templo, pois que ainda que os romanos fossem os senhores do mundo e esse cerco tenha sido obra de um dos maiores príncipes de que eles possam vangloriar-se em ter tido por imperador, o poder desse povo vitorioso sobre todos os outros e o heróico valor de Tito lhe teriam, em vão, formado o


desígnio, se Deus não os tivesse escolhido para executores da justiça. O sangue de seu filho derramado pelo mais horrível de todos os crimes foi a única causa verdadeira da ruína dessa infeliz cidade. Foi a mão de Deus que pesou sobre o infeliz povo; que, apesar da terrível guerra que o acossava de fora, era ainda internamente muito mais espantosa, pela crueldade daqueles judeus desnaturados, mais semelhantes a demônios do que a homens. Eles fizeram perecer pelas armas e pela


horrível carestia de que eles eram os autores um milhão e cem mil pessoas, e reduziram o restante a não poder esperar a salvação a não ser dos próprios inimigos, lançando-se nos braços dos romanos. Efeitos tão prodigiosos da vingança pela morte de Jesus poderiam passar por incríveis aos que não têm a felicidade de ser iluminados pela luz do evangelho, se não fossem referidos por um homem, dessa mesma nação, tão ilustre como Josefo, pelo seu nascimento, pela sua condição de sacerdote e


pela sua virtude. Claro, pareceme, que Deus querendo se servir do seu testamento para autorizar verdades tão importantes, conservou-o por um milagre, quando, depois da tomada de jotapate, dos quarenta que se haviam retirado com ele numa caverna, foi lançada a sorte, tantas vezes, para se saber quais seriam os que deveriam ser mortos primeiros. Ele e um outro, somente, ficaram com vida. Isso mostra que devemos dar a esse historiador uma posição bem diferente do que a


todos os demais, pois, enquanto eles abordam acontecimentos humanos, embora dependentes das ordens da divina providência, parece que Deus lançou seus olhos sobre ele para fazê-lo servir ao maior dos seus desígnios. Não devemos considerar somente a ruína dos judeus como o mais espantoso efeito da justiça de Deus e a imagem mais terrível da vingança que ele exercerá no último dia, contra os réprobos. Devemos também considerá-la como uma das provas mais brilhantes que lhe


aprouve dar aos homens acerca da divindade de seu filho, pois tão prodigioso acontecimento tinha sido predito por JESUS CRISTO, em termos precisos e claros. Ele tinha dito aos seus discípulos, mostran-do-lhes o Templo de Jerusalém, que todos aqueles grandes edifícios seriam de tal modo destruídos que não ficaria pedra sobre pedra. Ele lhes havia dito que quando vissem as armas rodear Jerusalém deviam saber que sua desolação estaria próxima (Mc 1 3.2; Lc 19.44; 21.20; 21.23,24).


Ele tinha notado em particular as espantosas circunstâncias dessa desolação: "Ai", disse Ele, "das mulheres que estiverem grávidas ou tiverem crianças de peito, naqueles dias, pois esse país será oprimido por males e a cólera do céu cairá sobre esse povo. Eles passarão pelo fio da espada; serão levados escravos para todas as nações e Jerusalém será calcada aos pés pelos gentios". Por fim, Ele tinha declarado que o efeito dessas profecias estava prestes a


acontecer; que o tempo se aproxima (Mt 23.33) e mesmo que aqueles que eram do seu tempo poderiam vê-lo. "Eu vos digo, em verdade", disse ele, "que tudo isso virá acontecer sobre essa raça que existe hoje" (Mt 23.36). Todas estas coisas tinham sido preditas por JESUS CRISTO e escritas pelos evangelistas, antes da revolta dos judeus, e quando não havia ainda nenhuma probabilidade de tão estranha mudança. Assim como a profecia é o maior milagre e a maneira mais


poderosa com que Deus autoriza a sua doutrina, essa profecia de JESUS CRISTO, à qual nenhuma outra é comparável, pode ser o encerramento e término das provas que deram a conhecer aos homens a sua missão e origem divina, pois nenhuma outra jamais foi tão pontualmente realizada. Jerusalém foi destruída por completo pelo primeiro exército que a sitiou e não ficou o menor vestígio daquele soberbo Templo, admiração do universo e objeto de orgulho dos judeus, e os males que os oprimiram


correspondem claramente a essa terrível predição de JESUS CRISTO. Mas, para que tão grande acontecimento pudesse servir também de aviso aos que deviam ainda nascer no correr dos tempos, como aos que dele foram espectadores, era além disso necessário, como eu já disse, que a história fosse escrita por uma testemunha fidedigna. Para isso, era necessário que fosse um judeu e não um cristão, para que dele não se pudesse suspeitar, de ter anexado os fatos às profecias. Era ainda


necessário que fosse uma pessoa de alto nível social, a fim de que estivesse a par de tudo. Era necessário que tivesse visto com os próprios olhos tantas coisas prodigiosas que deveria relatar, a fim de que se lhe pudesse dar fé. Por fim, era preciso que fosse um homem capaz de corresponder, pela grandeza de sua eloqüência e de sua inteligência, à magnitude de tal assunto. Todas essas qualidades exigidas para tornar esta história perfeita, em todos os seus particulares, encontram-se


em Josefo, o que torna evidente que Deus o escolheu para convencer a todos os entes racionais da verdade desse maravilhoso acontecimento. E certo que não parece que tendo contribuído dessa maneira à divulgação do evangelho, ele tenha aproveitado, nem tenha tomado parte nas graças que se difundiram no seu tempo, com tanta abundância, sobre toda a terra. Mas se nisso temos motivo de lastimar a sua infelicidade, temos também motivo de abençoar a providência de Deus,


que fez servir sua cegueira ao nosso bem, pois as coisas que ele escreveu de sua pátria, com relação aos incrédulos são incomparavelmente mais fortes para a consolidação da fé cristã do que se ele tivesse abraçado o cristianismo. Assim, podemos dizer dele, em particular, o que o apóstolo diz de todos os judeus: "Que sua infelicidade enriqueceu o mundo com os tesouros da fé e que sua pouca luz serviu para iluminar todos os povos: Delictum corum divitae sunt mundi et diminutio eorum divitae gentium" (Rm 11.12).


A segunda obra de Josefo, contida neste segundo volume, além de sua vida, escrita por ele mesmo, é uma resposta dividida em dois livros, ao que Ápio e outros tinham escrito contra sua história dos judeus, contra a antigüidade de sua descendência, contra a pureza de suas leis e contra o proceder de Moisés. Nada pode ser mais forte do que esta resposta. Josefo prova irrefutavelmente a antigüidade de sua nação, pelos historiadores egípcios, fenícios, caldeus e mesmo pelos gregos.


Ele mostra que tudo o que Ápio e esses outros autores alegaram em desabono dos judeus são fábulas ridículas, tal como a pluralidade de seus deuses, e revela de maneira admirável a grandeza dos feitos de Moisés e a santidade das leis que Deus entregou aos judeus por seu intermédio. O martírio dos macabeus vem em seguida. É um trabalho que Erasmo, tão célebre entre os sábios, chama de obra-prima de eloqüência: confesso que, não compreendo como, tendo dela com razão uma opinião tão


vantajosa, ele a parafraseou e não a introduziu. Jamais cópia saiu mais diferente do original. Apenas sp reconhecem alauns dos seus traços principais e se eu não me engano, nada pode elevar mais a fama de Josefo, do que sendo ele tão hábil, tendo querido embelezar sua obra, ao contrário, tanto lhe diminuiu a beleza. Mostra também como devemos apreciar Josefo porque não escreve como quase todos os gregos, de maneira muito extensa, mas com um estilo conciso, afirma que só quer dizer o necessário.


Muito me admiro de que não se fez até agora nenhuma tradução desse martírio, a partir do grego, quer para o latim, quer para o francês, pelo menos que tenha chegado ao meu conhecimento. Genebrard, em vez de traduzir Josefo, traduziu Erasmo. Eu me limitei fielmente ao original grego, sem seguir em absolutamente, esta paráfrase de Erasmo, o qual inventa nomes que não estão, nem em Josefo, nem na Bíblia, para dálos à mãe dos macabeus e a seus filhos. Parece que Josefo só relata esse célebre martírio,


autorizado pela Escritura Sagrada, para provar a verdade das palavras que escreveu no princípio, cujo fim é mostrar que a razão é a senhora das paixões; ele lhe atribui um poder sobre elas, de que haveria motivo de se admirar, se fosse estranho que um judeu ignorasse que esse poder só pertence à graça de JESUS CRISTO. Ele contentase em dizer que só entende falar da razão acompanhada de justiça e de piedade. Assim, todas as obras de Josefo estão compreendidas nestes dois volumes, que eu


determinei traduzir. Fílon, embora judeu como ele, também escreveu em grego sobre uma parte do mesmo argumento, mas que ele trata como filósofo e não como historiador; entre seus escritos, que são tão apreciados, nenhum o é mais, do que aquele que descreve sua embaixada ao imperador Caio Calígula, de que Josefo fala com elogio no capítulo 10 do livro 18 de sua história dos judeus. Julguei que esse trabalho, tendo tanta relação com ele, nos daria muito prazer, vermos pela tradução que eu fiz,


a maneira diferente de escrever desses dois grandes personagens. A de Josefo é sem dúvida muito mais breve e não tem nada do estilo asiático, que muitas vezes me obrigou a dizer em poucas palavras o que Fílon diz em muitas linhas. Poderíamos escrever a história deste imperador, unindo o que estes dois célebres autores escreveram, pois Fílon aborda tão particular e eloqüentemente os feitos de sua vida, como Josefo nobre e excelentemente escreveu sobre o que se passou em sua morte. Uma e outra


foram tão extraordinárias que convém se conservem tais imagens, para a posteridade, a fim de animar cada vez mais os bons príncipes a merecer, por sua virtude, tanto amor por sua memória, quanto de horror se sente por aqueles que se mostraram indignos da posição que ocupam no mundo. Uma exposição muito longa obriga a grande atenção, porque não se sabe onde descansar; por isso dividi em capítulos este tratado de Fílon, os dois livros de Josefo contra Ápio e o martírio dos macabeus,


onde não havia nenhum. Quanto à história da guerra dos judeus contra os romanos, eu não segui nos livros e nos capítulos a divisão de Rufino, que encontramos nas publicações bilíngües, gregas e latinas, porque me pareceu ruim. Mas limitei-me, como fez Genebrard, à das publicações gregas, que são sem dúvida muito melhores. Nada mais me resta a acrescentar; como estes dois volumes compreendem toda a antiga história sagrada, desejo que não sejam lidos apenas por divertimento e por curiosidade,


mas que se procure aproveitar, pelas considerações úteis de que fornecem tanta matéria. Foi esse o motivo que me levou a empreender esta tradução; do contrário, ela ter-me-ia, aos oitenta anos, feito empregar em vão muito tempo e dar-me muito trabalho numa idade na qual só devemos pensar em nos preparar para a morte. O tradutor


VIDA DE FLÁVIO JOSEFO Escrita por Ele mesmo Como a minha origem remonta a uma longa série de antepassados de família sacerdotal, eu poderia vangloriar-me da nobreza do meu nascimento, pois cada nação, estabelecendo a grandeza de uma família em certos sinais de honra que a acompanham, entre nós uma das mais notáveis é ter-se a administração das coisas santas. Mas não sou apenas oriundo da família dos sacerdotes: sou também da


primeira das vinte e quatro linhas que a compõem e cuja dignidade está acima de todas. A isso posso acrescentar que, do lado de minha mãe, tenho reis entre meus antepassados. O ramo dos hasmoneus, de que ela é proveniente, possuiu durante um longo tempo, entre os hebreus, o reino e o sumo sacerdócio. Eis a série dos últimos dos meus predecessores: Simão, cognominado Psello, avô de meu bisavô, viveu no tempo em que Hircano, primeiro desse nome, filho de Simão, sumo sacerdote,


exercia o sumo sacerdócio. Psello teve nove filhos, um dos quais de nome Matias, cognominado Aflias, desposou no primeiro ano do reinado de Hircano, a filha de Jônatas, sumo sacerdote, e teve Matias, cognominado Curo, que no nono ano do reinado de Alexandre teve um filho de nome José, que no décimo ano do reinado de Arqueiau teve um filho de nome Matias, do qual eu tenho meu nascimento, no primeiro ano do reinado do imperador Caio César. Quanto a mim, tenho três filhos: o primeiro dos quais, chamado Hircano,


nasceu no quinto ano do reinado de Vespasiano; o segundo, chamado Justo, nasceu no sétimo; e o terceiro, de nome Agripa, no nono ano do reinado do mesmo imperador. Eis minha descendência como está escrita nos registros públicos e que eu julguei dever relatar aqui a fim de desmanchar as calúnias de meus inimigos. Meu pai não foi somente conhecido em toda a cidade de Jerusalém pela nobreza de sua origem; ele o foi ainda mais, por sua virtude e por seu amor à justiça, que tornaram seu nome


célebre. Fui educado desde minha infância no estudo das letras, com um dos meus irmãos de pai e mãe, que tinha como ele o nome de Matias. Deus me deu bastante memória e inteligência, e eu fiz tão grande progresso que, tendo então só quatorze anos, os sacerdotes e os mais importantes de Jerusalém se dignaram perguntar minha opinião sobre o que se referia à interpretação das leis. Quando fiz treze anos, desejei aprender as diversas opiniões dos fariseus, as dos saduceus e as dos essênios, três


seitas que existem entre nós, a fim de, co-nhecendo-as, pudesse adotar a que melhor me parecesse. Assim, estudei-as todas e experimentei-as com muitas dificuldades e muita austeridade. Mas essa experiência ainda não me satisfez; vim a saber que um certo Bane vivia tão austeramente no deserto que só se vestia da casca das árvores e só se alimentava com o que a mesma terra produz; para se conservar casto, banhava-se várias vezes por dia e de noite, na água fria; resolvi imitá-lo.


Depois de ter passado três anos com ele, voltei, aos dezenove anos, a Jerusalém. Iniciei-me, então, nos trabalhos da vida civil e abracei a seita dos fariseus, que se aproxima mais que qualquer outra da dos estóicos, entre os gregos. Na idade de vinte e seis anos fiz uma viagem a Roma, por esta razão: Félix, governador da Judéia, mandou por um motivo qualquer alguns sacerdotes, homens de bem e meus amigos particulares, para se justificarem perante o imperador; eu desejei, com


muito entusiasmo, ajudá-los, quando soube que sua infelicidade em nada havia diminuído sua piedade e eles se contentavam em viver com nozes e figos. Assim, embarquei e corri um grande perigo, como jamais em minha vida. O navio no qual estávamos, umas seiscentas pessoas, naufragou no mar Adriático. Depois de ter nadado toda a noite, Deus permitiu que ao nascer do dia encontrássemos um navio de Cirene, que recebeu oitenta dos que entre nós haviam conseguido nadar tanto tempo; o restante havia


perecido no mar. Assim chegamos a Disearche, que os italianos chamam Puteoli (Puzzoli), onde travei conhecimento com um comediante judeu de nome Alitur, o qual o imperador Nero muito apreciava. Esse homem levou-me até a imperatriz Popéa, e obtive sem dificuldade a absolvição e a liberdade daqueles sacerdotes por intermédio dessa princesa, que me deu grandes presentes também, com os quais regressei ao meu país. Lá encontrei alguns


espíritos inclinados às mudanças que começavam a lançar as raízes de uma revolta, contra os romanos. Procurei dissuadir os sediciosos e lhes fiz ver, entre outras coisas, como tão poderosos inimigos lhes deviam ser temíveis, quer pela sua ciência na guerra, quer pela grande prosperidade e que eles não deviam expor temerariamente a tão grande perigo, suas mulheres, seus filhos e sua pátria. Como eu previa que tal guerra seria muito desastrada, não houve razões de que não me servisse


para dissuadi-los desse empreendimento. Mas todos os meus esforços foram inúteis; foime impossível fazer com que evitassem essa loucura. Assim, temendo que os facciosos, que já tinham ocupado a fortaleza Antônia, suspeitassem que eu favorecia o partido dos romanos e me fizessem morrer, retirei-me para o santuário, de onde, depois da morte de Manahem e dos principais autores da revolta, saí para me unir aos sacerdotes e aos principais dos fariseus. Encontrei-os muito


assustados, por ver que o povo havia tomado as armas, e estava muito indeciso sobre o partido que devia tomar, mas via ser perigoso opor-se à fúria daqueles sediciosos. Fingimos estar de acordo com seus sentimentos e aconselhamo-los a deixar as tropas romanas se afastarem, na esperança que tínhamos de que Cássio viria com grandes forças e acalmaria o tumulto. Ele veio, com efeito; mas depois de ter perdido vários dos seus num combate, foi obrigado a se retirar. Essa vantagem que os revoltosos


obtiveram contra ele custou caro à nossa nação, porque, tendolhes elevado o ânimo, vangloriavam-se de poder conseguir novas vitórias. Nesse mesmo tempo, os habitantes das cidades da Síria, vizinhas da Judéia, mataram os judeus que lá moravam, embora eles nem sequer tivessem tido o pensamento de se revoltar contra os romanos, e por uma crueldade mais que bárbara não pouparam nem mesmo as mulheres e as crianças. Os de Citópolis sobrepujaram aos demais em impiedade. Quando


os judeus vieram fazer-lhes guerra, eles obrigaram os seus compatriotas que viviam entre eles, a tomarem as armas contra seus irmãos, o que nossas leis proíbem expressamente, e depois de terem vencido, com o auxílio deles, esqueceram, por uma detestável perfídia, o favor que lhes deviam e a palavra dada, e os mataram a todos, sem poupar a um só. Os judeus que moravam em Damasco não foram tratados com mais humanidade. Mas como já narrei estas coisas, na minha História da Guerra dos judeus, basta-me


dizer isto de passagem, a fim de que o leitor saiba que não foi voluntariamente, mas obrigada, que nossa nação travou guerra contra os romanos. Depois da derrota de Géssio, os maiorais de Jerusalém que estavam desarmados e viam os sediciosos armados, temeram com razão cair em seu poder, e, sabendo que a Galiléia não se tinha ainda revoltado totalmente contra os romanos, mas uma parte dela se conservava fiel ao seu dever, mandaram-me para lá com dois outros sacerdotes,


Joazar e Judas, para persuadir aos amotinados a abandonar as armas e entregá-las aos chefes da nação, com a garantia de lhas conservar; mas que antes de se servirem delas, seria necessário saber-se qual a intenção do romanos. Tendo partido com essas instruções, constatei, ao chegar na Galiléia, que os de Séforis estavam a ponto de travar uma luta com os galileus, que ameaçavam devastar seu país, por causa do afeto que aqueles tinham pelo povo romano e da fidelidade que mantinham a


Sênio Galo, governador da Síria, livrei os seforitanos desse temor e acalmei os galileus permitindolhes mandar, todas as vezes que quisessem, a Dora da Fenícia, os reféns que tinham dado a Géssio. Quanto aos habitantes de Tiberíades, achei-os em armas. Esta era a razão: Havia naquela cidade três partidos; o primeiro era composto de pessoas da nobreza e Júlio Capela era-lhe o chefe; Herodes, filho de Miar, Herodes, filho de Gamai e Compso, filho de Compso, a ele se haviam


reunido; Cripso, irmão de Compso, que Agripa, o Grande, há muito tinha feito governador da cidade, permanecia ainda nas terras que possuía além do Jordão. Todos os outros de que acabo de falar eram de opinião de se permanecer fiel ao povo romano e ao seu rei, e Pisto era o único da nobreza que, para agradar a Justo, seu filho, não era desse parecer. O segundo partido era composto pelo baixo povo, que queria que se lhe fizesse guerra. Justo, filho de Pisto, era do terceiro partido. Ele mostrou


duvidar se seria preciso pegar em armas; mas, secretamente incitava a perturbação, na esperança de conquistar grandeza e grande vantagem com a revolução. Para conseguir o seu intento, disse ao povo que a sua cidade sempre havia ocupado um dos primeiros lugares entre as da Galiléia e lhe tinha mesmo sido a capital durante o reinado de Herodes, que a tinha fundado e lhe tinha submetido a de Séforis:, que eles tinham conservado aquela preeminência, mesmo sob o reinado do rei Agripa, o pai, até


que Félix fora feito governador da Judéia, e a tinha perdido somente depois que Nero os havia dado ao jovem Agripa. Mas Séforis, depois de ter recebido o jugo dos romanos, tinha sido elevada acima de todas as outras cidades da Galiléia; essa mudança os havia feito perder o tesouro dos privilégios antigos, e os rendimentos pertencentes ao rei. Justo, com semelhantes discursos, irritou o povo contra o rei e suscitou-lhes no espírito o desejo de se revoltar; acrescentou ainda que tinha


chegado o tempo de se unirem às outras cidades da Galiléia e de tomarem as armas para reconquistar os benefícios que lhes haviam injustamente arrebatado. Nisso seriam secundados por toda a província, pelo ódio que se tinha dos seforitanos, por sua ligação tão estreita com o Império Romano. Essas razões de justo persuadiram o povo, pois, ele era muito eloqüente; a graça, com a qual falava, levou-o a opiniões muito mais sábias e mais salutares. Ele tinha certo conhecimento da língua grega


para ter ousado escrever a história do que se passou então, a fim de desmascarar a verdade. No entanto, revelarei mais particularmente, em seguida, toda sua malícia e de como não foi preciso que ele e seu irmão tenham causado a inteira ruína de seu país. Justo, tendo-os então persuadido, obrigou a alguns daqueles, que eram de outro parecer, a tomar as armas; pôs-se em campo e queimou algumas aldeias dos ipinianos e dos gadareenses, que estão na fronteira de Tiberíades e de Citópolis.


Enquanto as coisas andavam como acabo de dizer, eis o que se passava em Giscala. João, filho de Levi, vendo que alguns de seus concidadãos, estavam resolvidos a sacudir o jugo dos romanos, empregou toda a sua habilidade para conservá-los no dever e na obediência. Mas tudo foi inútil, e os gadarenianos, os gabaranianos e os tirios, que estão próximos de Giscala, juntaram-se, atacaram a praça, tomaram-na e a destruíram completamente. João, irritado com esse ato, reuniu muitas


tropas, marchou contra eles, derrotou-os, reconstruiu a cidade e a rodeou de muralhas. Agora direi como os de Gamala permaneceram fiéis aos romanos. Filipe, filho de Jacim, lugar-tenente do rei Agripa, tinha, contra toda sorte de esperança, escapado do palácio real de Jerusalém, quando estava cercado, mas caiu em outro perigo, correndo risco de ser morto por Manahem e seus sediciosos, se alguns babilônios, seus parentes, que então estavam em Jerusalém, não o tivessem salvado. Ele disfarçou-


se alguns dias depois e fugiu para uma aldeia que estava perto do castelo de Gamala, onde reuniu um grande número de seus súditos. Deus permitiu que ele fosse tomado por uma febre, sem o que estaria perdido. Este acidente impediu-lhe de continuar a viagem e ele escreveu por um dos seus libertos a Agripa e à rainha Berenice; para fazê-los receber suas cartas, as endereçou a Varo, ao qual o rei e a rainha haviam deixado a guarda do palácio, quando saíram para encontrar-se com Géssio. Varo


ficou muito aborrecido por saber que Filipe tinha escapado, porque teve medo de diminuir-se seu prestígio perante o rei e a rainha e de que não tivessem mais necessidade dele, quando Filipe estivesse com eles. Assim, fez o povo crer que aquele liberto era um traidor, que lhe trazia falsas cartas, porque estava certo de que Filipe estava em Jerusalém, com os judeus que se haviam revoltado contra os romanos, e assim, mandou matar aquele homem. Quando Filipe viu que seu liberto não voltava, não


sabendo a que atribuir tal demora, mandou um segundo, com outras cartas. Varo, para prejudicá-lo empregou as mesmas calúnias, com que havia feito morrer o primeiro. Os sírios, que moravam em Cesareia, haviam-no reanimado e feito conceber novas esperanças, dizendo que os romanos tinham matado Agripa, por causa da rebelião dos judeus e que ele poderia reinar em seu lugar, porque era de família real, descendente de Soheme, rei do Líbano. Foi isso que o impediu de entregar ao rei as cartas de


Filipe e o obrigou a fechar todas as passagens, a fim de tirar ao príncipe o conhecimento do que se passava. Mandou, em seguida, matar vários judeus para satisfazer aos sírios de Cesareia e resolveu atacar, com o auxílio dos traconítidas, que estavam em Betânia, os judeus que eram chamados de babilônios e moravam em Ecbátana. Para conseguir esse intento, ordenou a doze dos principais entre os judeus de Cesareia, que fossem dizer, de sua parte, aos de Ecbátana, que o haviam avisado de que eles


estavam a ponto de se revoltar contra o rei, mas que não haviam prestado fé àquele aviso e assim os mandava a eles, para exortá-los a deixar as armas, a fim de mostrar com esse ato de obediência, que ele tivera razão em não acreditar no que lhe haviam dito em seu desabono. A isso acrescentou que para manifestar ainda melhor sua inocência, seria necessário que lhe mandassem setenta dos mais ilustres dentre os seus. Chegando a Ecbátana, os doze deputados acharam que os de sua nação só pensavam em se


revoltar, e os persuadiram a mandar a Varo os setenta homens que ele pedia. Quando os deputados reuniram-se perto de Cesareia, Varo, que os havia precedido no caminho, com tropas do rei, atacou-os e de todo aquele grande número um só se salvou. Varo marchou em seguida contra Ecbátana. Mas aquele que se havia salvado, precedeu-o e deu aos habitantes a notícia daquela horrível perfídia. Eles tomaram as armas, retiraram-se com suas mulheres e filhos ao castelo de Gamala e abandonaram suas aldeias, com


todos os seus bens e todos os animais que possuíam em abundância. Filipe, tendo sabido disso, dirigiu-se imediatamente a Gamala. O povo, alegre com seu regresso, rogou-lhe que fosse seu chefe e os conduzisse contra Varo e os sírios de Cesareia, pois espalhara-se a notícia de que eles haviam matado o rei. Filipe, para reprimir-lhes a impetuosidade, falou-lhes dos benefícios de que eram devedores àquele soberano, fê-los conhecer por meio de razões mui fortes que as forças do Império Romano eram


tão temíveis, que eles não podiam empreender a guerra contra ele, sem se expor a um evidente perigo e, por fim, persuadiu-os a seguir seu conselho. No entanto, o rei Agripa, tendo sabido que Varo queria mandar matar no mesmo dia todos os judeus de Cesaréia, que eram muitos, sem poupar nem as mulheres e as crianças, mandou Equo Módio para substituí-lo, como se pode ver em outro lugar. E Filipe conservou na obediência aos romanos, Gamala e a região dos


arredores. Quando cheguei à Galiléia, soube de tudo o que acabo de referir e escrevi ao Conselho de Jerusalém, para saber o que queria que eu fizesse. Ele determinou que eu ficasse, para cuidar da província e que conservarsse comigo os meus colegas, se eles o quisessem. Mas depois que eles ajuntaram muito dinheiro, o qual lhes era devido pelas décimas, preferiram voltar e me pediram que lhes desse somente um pouco de tempo, para regularizar todas as suas coisas.


Partimos depois todos juntos, de Séforis, para uma aldeia de nome Betmaús, longe quatro estádios de Tiberíades. De lá mandei alguns homens ao Senado daquela cidade e aos mais ilustres dentre o povo, para lhes rogar que viessem ter comigo. Eles vieram e Justo também veio. Eu lhes disse que tinha sido enviado pela cidade de Jerusalém com meus colegas, para lhes anunciar que era preciso demolir o palácio tão suntuoso que o tetrarca Herodes tinha feito construir e onde ele tinha mandado pintar diversos


animais, contra a proibição expressa de nossas leis. Dessa forma, eu lhes rogava que nos permitissem lá trabalhar com urgência. Capella e os de seu partido, não podendo resolver-se a destruir tão bela obra, opuseram-se por muito tempo. Mas por fim, nós os induzimos a consentir; enquanto tratávamos desse assunto, Jesus, filho de Safias, seguido de alguns barquei-ros e de alguns outros galileus do seu partido, incendiou o palácio, com a esperança de se enriquecer,


porque viam nele coberturas douradas; roubaram de lá várias coisas, contra a nossa vontade. Depois desta conversa que tive com Capella, retiramo-nos para a alta Galiléia. No entanto, os do partido de Jesus mataram todos os gregos que moravam em Tiberíades e todos os que tinham sido seus inimigos antes da guerra. Esta notícia muito me aborreceu. Fui imediatamente a Tiberíades, onde fiz tudo o que me foi possível para reconquistar uma parte do que havia sido roubado do rei, como candelabros coríntios, ricas


mesas, uma grande quantidade de dinheiro, em moedas, com o fim de o conservar para o soberano, e entreguei todas essas coisas nas mãos das autoridades do Senado e de Capella, filho de Antillo, com ordem de só os entregar a mim mesmo. De lá, fui como meus colegas a Giscala, para sondar o que João tinha em mente e pude logo conhecer que ele aspirava a um governo tirânico, pois rogoume que lhe permitisse servir-se do trigo que pertencia ao imperador e que estava


reservado, nas aldeias da alta Galiléia, para, com o seu produto, construírem-se muralhas. Como, porém, percebi a sua intenção, recusei-me, e determinei guardar aquele trigo ou para os romanos ou para as necessidades da província, em virtude do poder que a cidade de Jerusalém me tinha dado. Quando ele viu que nada podia obter de mim, dirigiu-se aos meus colegas e como eles apreciavam muito os presentes e não previam as conseqüências, concederam-lhe o que pedia, por maiores objeções que eu fizesse,


sendo sozinho contra dois. Ele usou ainda de outro ardil. Disse que os judeus que estavam em Cesaréia de Filipe queixavam-se da falta de óleo virgem, por causa das proibições que o rei lhes havia feito de sair da cidade para comprá-lo; tinham se dirigido a ele para obtê-lo porque não queriam se servir do óleo dos gregos contra o costume da nossa nação. Não era, no entanto, o zelo pela nossa religião, mas o desejo de um ganho sórdido, que os fazia falar dessa maneira, porque ele sabia que vendendo-se duas medidas


desse óleo por uma dracma em Cesaréia, oitenta medidas custavam quatro dracmas, em Giscala. Assim, mandou trazer a Cesaréia todo o óleo que havia na cidade, fazendo falsamente crer que o fazia com minha licença; eu não ousei opor-me para que o povo não me apedrejasse, e com essa fraude ele ganhou muito dinheiro. Despedi depois meus colegas, mandando-os para Jerusalém; entreguei-me diligentemente a fazer provisões de armas e a fortificar as praças. No entanto, mandei chamar


todos os indivíduos que viviam de roubo e saque; não conseguindo convencê-los a deixar as armas, persuadi o povo a pagar-lhes uma contribuição; o que se fez, como preferível, a sofrer os prejuízos que eles causavam aos campos; assim os despedi, depois de os ter obrigado com juramento de só voltar ao país se fossem chamados ou se lhes deixassem de pagar; proibi-lhes também de devastar as terras dos romanos e as vizinhanças. Como nada mais tinha a fazer do que manter a paz na Galiléia, fiz


amizade com setenta dos principais do país, a fim de que me fossem como outros tantos reféns, seguindo-lhes o conselho e as advertências em várias coisas, sobretudo nada fazendo contra a justiça e não me deixando subornar por presentes. Eu tinha então trinta anos; embora seja difícil, por mais que se proceda com moderação e prudência, evitarem-se as calúnias dos invejosos, principalmente quando se está constituído em dignidade e autoridade,


ninguém, no entanto, jamais ousou dizer que eu recebi presente algum ou permiti que se usasse de violência contra alguma mulher. Também não tinha necessidade desses presentes e estava tão longe de aceitá-los, que não cuidava nem mesmo em receber as décimas que me eram devidas, como sacerdote. Tomei, somente, depois da vitória que obtive sobre os sírios, uma parte de seus despojos, que mandei a meus parentes em Jerusalém. Eu vencera duas vezes os seforitanos, quatro vezes os de


Tiberíades, uma vez os gandarianos e aprisionei a João, que me tinha armado tantas emboscadas. No meio de tão felizes resultados, jamais quis vingar-me, nem dele, nem de todos os outros e como Deus tem os olhos abertos sobre as boas ações dos homens, atribuo a essa razão a graça que Ele me fez de livrar-me de tantos perigos de que falarei na continuação desta história. Todo o povo da Galileia tinha tal afeto por mim e tal fidelidade, que vendo suas cidades tomadas à força, suas


mulheres e filhos levados escravos, eles se sentiam menos tristes por essa desgraça, do que pela minha conservação. Essa estima e esse afeto tão geral para comigo aumentaram ainda mais a inveja de João. Ele escreveu-me pedindo permissão para ir a Tiberíades tomar banhos quentes, de que estava necessitando para sua saúde. Como não imaginava que ele tinha má intenção, não somente lho permiti, mas ordenei aos magistrados que lhe preparassem um aposento, a ele e aos seus companheiros, e lhes


fornecessem em abundância tudo o que lhes fosse necessário. Eu estava então em Canaã, cidadezinha da Galileia; apenas João chegou a Tiberíades, procurou logo induzir os habitantes a faltar-me à fidelidade e a se separarem de mim, para passar ao seu partido. Vários dentre eles, propensos à revolução, escutaram com prazer essa proposta, principalmente Justo e Pisto, seu pai; mas eu tornei inútil o seu mau intento. Silas, que eu havia dado por governador aos de Tiberíades, mandou com


grande rapidez avisar-me do que se passava e insistiu que eu me apressasse, se n達o quisesse, pela minha demora, deixar cair aquela cidade em poder de outro. Tomei imediatamente duzentos homens, caminhei durante toda a noite e mandei avisar os de Tibenades acerca de minha chegada. No dia seguinte, ao raiar da aurora, eu estava perto da cidade; os habitantes vieram ter comigo, e Jo達o com eles; cumprimentou-me com o rosto espantado e temendo que o mandasse matar, se viesse a


saber da sua perfídia, retirou-se para o seu aposento. Chegando à praça dos exercícios, conservei comigo apenas um homem e dez soldados. Subi a um lugar elevado e disse ao povo quanto lhe era necessário manter a fidelidade, pois do contrário eu não poderia mais confiar nele, e que se arrependeriam um dia de ter faltado ao seu dever. Enquanto falava, um dos meus amigos avisou-me que me retirasse, pois não era aquele o tempo mais apropriado para granjear a benevolência do povo, mas para me salvar de suas


mãos, pois João tendo sabido que eu estava quase sozinho, tinha escolhido, entre os mil homens que comandava, aqueles em quem mais confiava e os mandara com ordem de me matar. Com efeito, aqueles assassinos já estavam perto e teriam executado seu perverso intento, se eu não me tivesse afastado prontamente, com o auxílio de um dos meus guardas, de nome Jacó, e de um homem de Tiberíades, chamado Herodes, que me fizeram descer e me acompanharam até o lago. Ali,


por felicidade, encontrei uma barca que me levou a Tariquéia; assim, pude frustrar as esperanças dos meus inimigos. Os habitantes da cidade sentiram tanto horror pela traição dos de Tiberíades que tomaram logo as armas e insistiram comigo que os levasse contra eles, para se vingar de tal perfídia, e mandaram contar a toda a Galiléia tudo o que se tinha passado, convidando todos a se juntarem a eles e a marcharem sob meu comando. Esses povos reuniram-se em grande número junto de mim e


todos me rogaram que fosse atacar Tiberíades, que a destruísse inteiramente, vendesse em leilão todos os homens, as mulheres e as crianças; meus amigos, que haviam escapado do mesmo perigo, aconselhavam-me a mesma coisa. Mas o medo de atear uma guerra civil impediume que tomasse tal decisão. Julguei que era melhor acomodar a situação e lhes mostrei o mal que fariam a si mesmos, se quando os romanos viessem, os encontrassem divididos, a matarem-se uns aos


outros. Assim acalmei-lhes a cólera, e João, vendo que sua traição lhe havia saído tão mal, fugiu assustado de Tiberíades com seus homens para se refugiar em Ciscala. Ele me escreveu que não tivera participação no que havia acontecido, e fazia juramentos e estranhas execrações para me levar a acreditar em suas palavras. No entanto, um grande número de galileus veio ter comigo armados, e como sabiam que João era mau e perjuro, rogavam-me insistentemente


que os levasse contra ele, para derrotá-lo e castigá-lo, e exterminar os de Giscala. Eu lhes agradeci muito aquela demonstração de boa vontade e garanti que conservaria sempre grande gratidão, mas rogava que aprovassem o meu desejo de pacificar aquela perturbação, sem derramamento de sangue. Consegui persuadi-los e em seguida fomos a Séforis. Seus habitantes, que temiam minha vinda, porque estavam resolvidos a permanecer fiéis e obedientes aos romanos, procuraram levar-me a outra


parte e para isso pediram a Jesus, com oitocentos ladrões, comandados por ele, que estavam então na fronteira de Ptolemaida, para fazer-me guerra, a troco de grande soma de dinheiro. Tal recompensa fê-lo aceitar a proposta, mas antes de chegarmos às armas abertamente, ele procurou surpreender-me. Mandou dizerme que lhe permitisse vir cumprimentar-me. Permiti-lho, porque não desconfiava de nada; ele se pôs em seguida a caminho, com todos os seus


homens. Sua maldade, no entanto, não teve o êxito que ele esperava. Quando já estava muito perto de nós, um do seu bando veio avisar-me do seu intento. Então, sem dar demonstração alguma, fui à praça pública, acompanhado de grande número de galileus armados, entre os quais havia alguns de Tiberíades; ordenei que vigiassem todas as ruas e encarreguei aos que estavam nas portas, que não deixassem Jesus entrar, senão com um pequeno número e afastassem os outros; até mesmo os


repelissem, à força, se eles teimassem em querer entrar. Jesus veio, então, com apenas alguns homens e eu lhe ordenei que deixasse as armas, se não quisesse perder a vida; quando se viu rodeado de soldados, foi obrigado a obedecer. Os seus, que tinham ficado do lado de fora, quando souberam que ele estava preso, fugiram. Levei-o à parte e disse-lhe que não ignorava qual era seu intento, nem sabia quem eram seus cúmplices, mas que lhe perdoaria, se ele me prometesse ser fiel para o futuro. Ele me


prometeu e o deixei sair, permitido-lhe reorganizar suas tropas. Quanto aos seforitanos, declarei-lhes que, se não continuassem a obedecer, saberia muito bem como castigálos. Nesse mesmo tempo, dois senhores traconitidas, súditos do rei, vieram me procurar, armados, com cavalos e dinheiro. Os judeus não lhes queriam permitir permanecer com eles, se não se fizessem circuncidar; mas eu lhes disse que se devia deixar a cada qual a liberdade de servir a Deus segundo os movimentos


da própria consciência, sem usar de coação, nem dar motivo, aos que vinham procurar sua segurança entre nós, de se arrepender. Assim fiz o povo mudar de sentimentos e levei-o a dar a esses estrangeiros as coisas de que eles tinham necessidade. O rei Agripa mandou, nesse mesmo tempo, Equo Módio, com grande número de soldados, para tomar o castelo de Magdala; mas ele não ousou sitiá-lo e se contentou em perturbar Gamala, pondo soldados nas ruas. No entanto,


Ebúcio, outrora governador do Campo Grande, soube que eu estava em Simoniada, na fronteira da Galiléia, a sessenta estádios dele. Marchou a noite toda, para vir atacar-me com cem cavaleiros, duzentos homens de infantaria e o socorro que lhe mandaram os de Gaba. Enviei contra ele uma parte de meus soldados e, como ele confiava na sua cavalaria, fiz o possível para atraí-los à luta. Mas como eu tinha somente infantaria, não lhe quis dar essa vantagem. Assim, depois de ter valentemente resistido, quando


ele viu que a posição do lugar não lhe era favorável, regressou a Gaba, tendo perdido somente três soldados. Eu o persegui com três mil homens até uma aldeia da fronteira de Ptolemaida, de nome Bezara, distante vinte estádios de Gaba. Fiz colocar guardas nas avenidas para impedir o ataque dos inimigos e mandei carregar sobre muitos camelos, que mandara vir para esse fim, o trigo que a rainha Berenice tinha feito reunir naquele lugar, das aldeias dos arredores e o levei à Galiléia. Depois mandei desafiar Ebúcio


para um combate; ele não ousou aceitá-lo, tanto nossa coragem o havia deixado atônito. Dali, sem perder tempo, marchei contra Neapolitano, que, com a cavalaria que conservava na guarnição de Citópolis, saqueava os arredores de Tiberíades. Consegui impedir que ele continuasse suas correrias e entreguei-me todo ao governo da Galiléia. João, filho de Levi, que estava, como dissemos, em Giscala, vendo que todas as coisas sucediam-se felizmente, que eu era amado pelo povo e


temido pelos inimigos, considerou a minha boa sorte como um obstáculo à sua e, ardendo de inveja, alimentava a esperança de me poder sobrepujar instigando contra mim o ódio do povo. Para isso procurou agradar aos de Tiberíades e de Séforis, a fim de atrair para seu partido as três principais cidades da Galiléia; procurou também os de Gabara, fazendo crer que eles seriam muito mais felizes sob seu governo do que sob o meu. Mas Séforis nada quis, nem com ele nem comigo, porque pendia toda


para os romanos; Tiberíades, que achava perigoso revoltar-se, contentou-se em prometer-lhe viver em amizade com ele. Assim, os de Gabara foram os únicos que abraçaram seu partido, ante a insistência de Simão, que era seu amigo e um dos principais da cidade. Eles não ousaram, no entanto, declarar-se abertamente, porque temiam os galileus, dos quais haviam várias vezes constatado o afeto por mim, mas esperavam a ocasião de me surpreender com uma traição; pouco faltou, então, para que deveras isso


acontecesse, pelo fato que passo a narrar: Alguns jovens de Dabar, muito corajosos e ousados, tendo sabido que a mulher de Ptolomeu, intendente dos negócios do rei, atravessava o Campo Grande com magnífica equipagem e acompanhada de alguns cavaleiros para passar das terras do rei à província dos romanos, atacaram sua escolta; tudo o que a senhora pôde fazer foi salvar-se enquanto eles estavam ocupados com o saque. Depois disso, vieram procurarme, em Tariquéia, com quatro


mulas carregadas de muitas coisas de valor, baixelas de prata, e quinhentas peças de ouro. Como Ptolomeu era judeu e nossas leis proíbem tomar as coisas dos da nossa própria nação, mesmo quando fossem nossos inimigos, eu quis conservar essa presa para restituí-la; com esse fim, disse àqueles moços que devíamos guardá-lo, para vendê-lo e mandar o produto a Jerusalém, a fim de empregá-lo na reparação dos muros da cidade. Isso irritou-os de tal modo, porque esperavam aproveitar-se


de tudo, que fizeram correr o boato, nos arredores de Tiberíades, que eu queria colocar a província sob o domínio dos romanos; que o que eu havia dito sobre Jerusalém era falso, e minha verdadeira intenção era restituir tudo a Ptolomeu, e nisso eles não restavam errados. Mal haviam eles me deixado, entreguei tudo o que haviam apanhado a Dassiom e Jane, filhos de Levi, dois dos principais habitantes de Tariquéia, muito queridos do rei. Dei-lhes ordem de que lho entregassem e proibilhes, sob pena de morte, falar a


quem quer que fosse. No entanto, espalhou-se por toda a Galiléia o boato de que eu a queria entregar aos romanos. Decidiram matar-me; os de Tariquéia, tendo prestado fé a essa mentira, persuadiram os meus guardas e os soldados que me acompanhavam, a aproveitar, quando eu estivesse dormindo, para encontrar com os outros no Hi-pódromo,* a fim de deliberarem os meios de executar o seu intento. Foram todos e lá encontraram um grande número de pessoas já reunidas. De comum acordo


deliberaram tratar-me como traidor da República e Jesus, filho de Safias, que então era o principal juiz de Tiberíades e um dos piores homens do mundo, dos mais sediciosos, para incitálos ainda mais, mostrou-lhes as Leis de Moisés, que tinha na mão e disse-lhes: "Se não estais comovidos ante a consideração da vossa própria salvação, pelo menos não desprezeis estas santas Leis, que o pérfido Josefo, vosso governador, não tem receio de violar, o qual deveria ser castigado mui severamente por ter cometido tão grande


crime". Tendo assim falado e vendo que o povo aprovava com seus gritos o que ele dizia, tomou consigo alguns soldados e veio ao meu aposento, com o intuito de me matar. Como nada desconfiava e estava dormindo, cansado e fatigado, Si-m達o, um dos meus guardas, que tinha ficado comigo, vendo aquele grupo furioso, despertou-me, avisou-me do perigo em que me encontrava e exortou-me a morrer honrosamente, matandome antes que ser morto pelos inimigos. Eu me recomendei a


Deus, tomei uma veste negra, para me disfarçar, e levando somente minha espada,:passei pelo meio desse grupo e fui diretamente ao hipódromo, por um outro jcamiinbo. Lá, prostreime diante de todos, banhei a terra com minhas lágrimas, para comovê-los à piedade; quando vi que começavam a se enternecer, procurei dividi-los em seus sentimentos, antes que aqueles que me tinham ido matar estivessem de volta. Disse-lhes que não negava ter conservado aqueles despojos, como me acusavam; mas rogava-lhes que


me ouvissem, para saber com que fim o fizera, e se achassem que eu havia errado, poderiam depois mandar matar-me. Então toda a multidão ordenou-me que falasse; os que tinham ido procurar-me chegaram naquele mesmo instante e queriam lançar-se sobre mim mas foram contidos pela voz unânime do povo. Julgaram que, depois de ter confessado querer entregar aqueles despojos ao rei, eu passaria por traidor e eles poderiam executar o seu intento, sem oposição alguma. Assim,


toda a assembléia calou-se para me escutar e eu falei: "Se julgais que eu mereço a morte, não me recuso a sofrê-la; mas permitime antes declarar-vos toda a verdade. Como eu havia reconhecido que a beleza e a comodidade de vossa cidade atraem para ela os estrangeiros de todos os lugares e muitos dentre eles abandonam seu país para vir habitar aqui; para dividir convosco os vossos dias de felicidade e de adversidade, eu tinha intenção de empregar esse dinheiro lá fazendo construir muralhas". A estas


palavras, os habitantes e os estrangeiros puseram-se a gritar que todos me eram muito agradecidos e que nada mais eu tinha a temer. Os galileus, ao contrário, e os de Tiberíades, continuavam com sua animosidade. Estando assim divididos, uns me ameaçavam, outros me tranqüilizavam. Depois que prometi aos de Tiberíades e aos das outras cidades, cuja posição o permitisse, construir-lhes também muralhas, eles prestaram fé às minhas palavras, a assembléia se


dissolveu e me retirei com meus amigos e vinte dos meus soldados, depois de, contra toda sorte de esperança, ter escapado de tão grande perigo. Mas os autores da sedição, que julgavam que eu me vingaria, reuniram-se armados em número de seiscentos e marcharam para minha casa, com a intenção de incendiá-la. Avisaram-me disso em tempo, mas, julgando que me seria vergonhoso fugir, recorri à audácia, à coragem, para me defender. Assim, depois de ter mandado fechar as portas, subi


ao andar mais alto do edifício, de onde lhes gritei que mandassem alguns deles receber aquele dinheiro que era a causa do seu descontentamento e de suas queixas. Mandaram logo o mais revoltoso de todos; eu o fiz açoitar com varas, mandei cortar-lhe uma das mãos, que lhe penduraram ao pescoço, e o despedi nesse estado. Este ato tão ousado fê-los acreditar que eu tinha comigo um grande número de soldados e os assustou de tal modo, que todos fugiram. Assim, pela minha firmeza e sagacidade evitei este


segundo perigo. Alguns outros dos mais revoltosos continuavam ainda a incitar o povo, dizendo que era preciso matar aqueles dois senhores que se tinham refugiado junto de mim, pois recusavam-se submeter às leis de um país onde tinham vindo procurar sua segurança e eram envenenadores, que favoreciam o partido dos romanos. Quando vi que o povo se deixava enganar por essas palavras, disse-lhe que era injusto perseguir pessoas que tinham vindo procurar asilo entre nós; que aquele


envenenamento de que lhes falavam era pura imaginação e quimera, pois os romanos não tinham necessidade de manter um número tão grande de legiões, se podiam, com esse meio, desfazer-se de seus inimigos. Estas palavras acalmaram-no, mas os artifícios desses perturbadores, irritaramno de novo, e ele foi, armado, sitiar as casas dos dois senhores, com o fim de matá-los. Eu fui avisado disso; temendo que, se cometessem tão grande crime, ninguém mais desejasse vir para junto de nós, resolvi ir naquele


mesmo instante, acompanhado por alguns dos meus, à casa dos estrangeiros. Mandei também fechar as portas da casa, saindo por um canal, até o lago que estava perto, entrei com eles numa barca e os levei até a fronteira dos ipenianos. Ali paguei-lhes o valor dos cavalos que eles não tinham podido trazer e, dizendo-lhes adeus, exortei-os a suportar corajosamente a infelicidade que lhes havia sucedido. Na verdade, tinha o coração muito pesaroso, por ser obrigado a expor ainda uma vez,


num país inimigo, pessoas que tinham vindo buscar segurança entre nós. Julguei, no entanto, que era preferível pô-los em perigo de morrer nas mãos dos romanos do que vê-los assassinados diante de meus olhos, numa província que eu governava. Eles, porém, evitaram a desgraça que eu lhes imaginava, porque o rei Agripa acalmou-se e perdoou-os. _________________________ * Lugar onde se realizavam as corridas de cavalos.


Nesse mesmo tempo, os habitantes de Tiberíades escreveram ao soberano e prometeram-lhe entregar-se a ele, se lhes prometesse mandar tropas para a defesa de seu país. Logo que soube disso, fui procurá-los; como eles sabiam que Tariquéia já tinha sido rodeada de muralhas, rogaramme que cumprisse a palavra que lhes havia dado, de lhes fazer o mesmo favor. Eu o fiz e mandei buscar o material e os operários. Parti três dias depois de Tiberíades para Tariquéia, que


dista dali trinta estádios. Logo que saí, alguns cavaleiros apareceram perto da cidade e os habitantes julgaram que eram tropas do rei; começaram a me injuriar com toda espécie de impropérios. Um homem veio com toda a pressa avisar-me do que se passava e acrescentou que tudo fazia prever uma revolução. Essa notícia encheume de espanto, tanto mais que havia dispensado de Tariquéia todos os meus soldados, porque o dia de sábado estava perto e desejava que os habitantes pudessem celebrá-lo sem serem


perturbados pelos soldados; eu fazia sempre assim, naquela cidade, pela confiança que tinha no afeto dos habitantes o qual havia tantas vezesexperimentado. Assim, tendo comigo apenas sete soldados e alguns amigos, não sábia o que fazer. De um lado, não via probabilidade de reunir minhas tropas na véspera de um dia errxque nossas leis não nos permitem combater, mesmo nas ocasiões mais prementes; por outro lado, não me achavam bastante forte, quando mesmo tivesse podido, nessa ocorrência,


servir-me dos habitantes de Tariquéia e dos estrangeiros que lá habitavam, rogando-Ihes que me ajudassem na esperança de ricos despojos. No entanto, esse assunto não padecia demora, pois, por pouco que o adiasse, aqueles que, se dizia, o rei havia enviado, tornar-se-iam senhores da cidade e me impediriam de lá entrar. Na ansiedade em que me encontrava, dei ordem a alguns amigos meus, nos quais confiava, que montassem guarda às portas da cidade e não deixassem ninguém sair. Mandei


depois aos principais habitantes que subissem cada qual a um barco com um barqueiro somente para seguir-me até Tiberíades; eu também subi a um deles, com sete soldados e alguns amigos. Os de Tiberíades, que não sabiam que eu tinha sido avisado do que se passava, vendo que não haviam chegado tropas do rei e que todo o lago estava coberto de barcos, que eles julgavam cheio de soldados, ficaram tomados de tão grande temor que imediatamente mudaram de opinião; deixaram as armas e vieram à minha


presença, com suas mulheres e filhos, e desejando-me toda sorte de prosperidade, rogavam-me que continuasse a lhes demonstrar o meu afeto. Ordenei aos que dirigiam os barcos que me seguiam, que se detivessem longe da terra, para que eles não pudessem perceber as poucas pessoas que estavam dentro deles; aproximei-me da margem e dirigi severas recriminações aos da cidade, por terem violado tão levianamente a palavra que me haviam dado. Prometi-lhes, no entanto, perdoá-los, contanto que me enviassem dez dos


principais dentre eles, o que fizeram imediatamente. Pedi ainda mais outros dez; e continuei a usar do mesmo ardil, até que consegui enviar a Tariquéia todo o Senado de Tiberíades e um grande número de seus principais habitantes. Então o povo, vendo o perigo em que se achava, rogoume que castigasse o autor da sedição. Era um jovem de nome Clito, muito corajoso e muito atrevido. Fiquei muito embaraçado; pois, de um lado, não podia tomar a decisão de mandar matar um homem da


minha nação e, por outro lado, era assaz importante dar um castigo exemplar. Nessa dificuldade, tomei logo uma das resoluções, isto é, ordenei a Levi, um dos meus guardas, que o prendesse e lhe cortasse uma das mãos. Como visse que ele não ousava prendê-lo, no meio de tão grande multidão, não querendo que os de Tiberíades percebessem sua timidez, chamei Clito e disse-lhe: "Ingrato! Pérfido! Merecestes que lhe cortássemos ambas as mãos; sereis vós mesmo vosso algoz, se não quereis ser castigado ainda


com maior severidade". Ele então rogou-me que lhe conservasse pelo menos uma das mãos. Eu concedi-lho, mas fingindo resolver-me a isso, contra a vontade; no mesmo instante ele cortou a mão esquerda com a própria espada. Assim cessou o tumulto, e voltei a Tariquéia. Os de Tiberíades não se cansavam de admirar de como eu havia acalmado aquela revolta, sem derramamento de sangue. Depois que cheguei a Tariquéia, mandei meus prisioneiros virem cear comigo, dentre os quais estavam Justo e


Pisto, seu pai, e disse-lhes que sabia, como eles, qual era o poder dos romanos; mas que o grande número de facciosos impedia-me de manifestar meus sentimentos e aconselhava-os a permanecer como eu, no silêncio, esperando um tempo melhor. No entanto, eles deveriam se considerar mui felizes por ter-me por governador, pois nenhum outro poderia tratá-los melhor. Lembrei a justo, a esse respeito, que antes da minha vinda, os galileus tinham mandado cortar as mãos ao seu irmão,


acusando-o de ter escrito falsas cartas; que depois da partida de Filipe, os gamalitanos, numa contestação que tiveram com os babilônios, tinham matado Cares, parente de Filipe, ao passo que eu tinha feito sofrer um castigo muito leve a Jesus, seu irmão, que tinha desposado a irmã de Justo. Depois disso, pus em liberdade a Justo e a todos os seus. Pouco antes, Filipe, filho de Jacim, tinha partido do castelo de Gamala, pela razão que passo a expor: Logo que ele soube que Varo se tinha


revoltado contra o rei Agripa e que Equo Módio, que era muito seu amigo, lhe fora dado como sucessor, escreveu a este último para avisá-lo do estado em que se achava e rogar-lhe que entregasse ao rei e à rainha as cartas que lhes escrevia. Módio soube com muita alegria o que Filipe lhe dizia, e mandou as cartas ao soberano e à princesa. O rei soube então da falsidade do que se havia dito, de Filipe se ter tornado chefe dos judeus, para fazer guerra aos romanos; mandou buscá-lo com uma escolta de cavalaria e o recebeu


muito bem. Mostrava-o mesmo aos capitães romanos, dizendolhes: "Eis aquele que acusavam de se ter revoltado contra vós." Mandou-o depois com a cavalaria ao castelo de Gamala, para reunir todos os seus homens, restabelecer os babilônios em Batanéia e consolidar a tranqüilidade pública; Filipe partiu com essas ordens. No entanto, um certo José, que queria passar por médico, mas que era apenas um charlatão, reuniu os mais ousados da juventude de Gamala e atraiu também para si


os maiorais da cidade; assim persuadiu o povo a sacudir o jugo do rei e a tomar as armas para reconquistar a liberdade. Obrigou outros, contra a vontade, a entrar no seu partido, mandando matar os que se recusavam, dentre os quais estavam Cares Jesus, seu parente, e a irmã de Justo, que era de Tiberíades. Ele me escreveu em seguida para me pedir auxílio e operários para construir as muralhas da cidade, o que julguei conveniente conceder-lhe. Nesse mesmo tempo, a


parte da Galautida que se estende até a aldeia de Solima revoltou-se também contra o rei. Mandei rodear de muros Sogan e Selêucia, que são duas praças fortes e bem situadas, fortifiquei Jamnia, Amerite e Charabe, três aldeias da alta Galiléia, embora com dificuldade, por causa dos rochedos que lá existem, e dei ordem, principalmente, para fortificar Tariquéia, Tiberíades e Séforis. Mandei também rodear de muralhas algumas aldeias, como Bersobé, Seelamem, Jotapate, Cafarate, Comosgana, Nepafa, o monte Itaburim, e a


caverna dos arbelianos; ali mandei reunir grande quantidade de trigo, e dei-lhes armas para se defenderem. No entanto, João, filho de Levi, cuja raiva aumentava cada vez mais, não podendo tolerar minha prosperidade, resolveu prejudicar-me a todo custo. Assim, depois de ter feito cercar de muralhas Giscala, que era o lugar do seu nascimento, mandou Simão, seu irmão, e Jônatas, filho de Sisena, acompanhado por cem soldados, a Simão, filho de Gamaliel, para rogar-lhe que tudo fizesse


perante os de Jerusalém para revogar o poder que me tinha sido dado e que ele fosse feito governador em meu lugar, com o consentimento unânime de todo o povo. Simão, de Jerusalém, era de mui ilustre descendência, da seita dos fariseus e, conseqüentemente, observante das nossas leis, homem muito sábio e muito prudente, capaz de realizar grandes empreendimentos, antigo amigo de João, e que, então, me odiava. Assim, levado pelos rogos insistentes de seus amigos, ele disse aos sumos sacerdotes


Anano e Jesus, filho de Gamala, e aos outros que eram do seu partido, que era necessário tirar-me o governo da Caliléia antes que eu fosse elevado a um poder maior e que não havia tempo a perder, porque se eu viesse a saber de tudo, poderia atacar a cidade com um exército. Anano respondeu-lhe que o que ele propunha não era fácil de se executar, porque vários sacerdotes e alguns dos grandes do povo davam testemunhos muito vantajosos a meu respeito e, assim, não era razoável acusar um homem a


quem nada se podia censurar. Simão rogou-lhe que, pelo menos, conservassem as coisas em segredo e disse que ele se encarregava da sua execução. Fez vir depois o irmão de João e o encarregou de lhe dizer, que, para chegar ao fim do seu projeto, mandasse presentes a Anano. Este expediente deu resultado; porque Anano e os outros deixaram-se subornar pelo dinheiro, e resolveram tirarme o governo, sem que ninguém mais de Jerusalém, a não ser os do seu partido, viessem a sabêlo. Para esse fim, mandaram


quatro pessoas que, embora de diversas famílias e descendências, eram sensatas e hábeis; a saber, dentre o povo, Jônatas e Ananias, fariseus, e da casta sacerdotal, Gozor, também fariseu, aos quais se uniu Simão, o mais jovem de todos, descendente dos sumo sacerdotes . A ordem que deram foi de reunir os galileus e de lhes perguntar de onde vinha aquele grande afeto que sentiam por mim: se eles dissessem que era porque eu era de Jerusalém, eles lhes respondessem que todos os quatro eram-no


também; se eles dissessem que era porque eu era mui perito nas leis, eles lhes respondessem que eles eram não menos instruídos do que eu; e se dissessem que era porque eu era sacerdote, eles replicassem que dois dentre eles eram-no também. Jônatas e seus colegas partiram com essas instruções e com quarenta mil moedas de prata, que lhes foram dadas do tesouro público. Um certo Jesus, da Galiléia, nesse mesmo tempo veio a Jerusalém, com seiscentos homens, que ele comandava;


pagaram-no por três meses e a todos seus soldados e os induziram a segui-los, para fazer tudo o que eles lhes mandassem; uniram-se ainda a eles, trezentos habitantes de Jerusalém, aos quais pagaram também. Assim partiram, levando com eles a Simão, irmão de João e os cem soldados que haviam trazido. Tinham além disso uma ordem secreta de me levar a Jerusalém, se eu deixasse de boa mente as armas, e de matar-me, se eu oferecesse resistência, sem temor de serem castigados, pois faziam-no em


virtude do seu poder. Tinham também cartas dirigidas a João, exortando-o a fazer-me guerra e outras, aos habitantes de Séforis, de Gabara e de Tiberíades, para induzi-los a lhe dar auxílio. Jesus, filho de Gamala, que tivera parte em todos esses conselhos, e que era muito meu amigo, avisou a meu pai, que me escreveu longamente. A inveja de meus concidadãos tinha, por uma tão grande ingratidão, conspirado contra mim e deliberado matarme, mas eu estava ainda mais aflito pela insistência com que


meu pai pedia que fosse vê-lo, a fim de lhe dar, antes de morrer, a consolação de me abraçar ainda. Comuniquei todas essas coisas a meus amigos e disselhes que estava resolvido a partir dentro de três dias. Rogaram-me com lágrimas, a não expô-los, por meu afastamento, a uma ruína inevitável. Mas não podia resolver-me a atendê-los, porque eu mesmo estava ainda mais aflito do que eles. Nesse mesmo tempo os galileus, temendo que minha ausência os expusesse à


violência daqueles desordeiros, que devastavam continuamente os campos, comunicaram a toda a Galiléia a intenção que eu tinha de ir embora. Imediatamente eles vieram, de todos os lados, procurar-me na aldeia de Azoquim, no Campo Grande, com suas mulheres e filhos, não tanto, segundo minha opinião, pelo afeto que me tinham, mas pelo seu próprio interesse, porque julgavam nada ter a temer enquanto eu estivesse com eles. Tive então durante a noite um sonho esquisito.


Adormeci com grande tristeza no coração, por causa das cartas recebidas; parecia-me ver um homem que me dizia: "Consolaivos e não temais; a tristeza em que vos encontrais será causa da vossa felicidade e de vossa elevação e não somente saireis com vantagem deste perigo, mas também de vários outros. Não vos deixeis, pois, abater. Coragem! Lembrai-vos do aviso que vos dou, de que vos será necessário fazer a guerra que vos dou, de que vos será necessário fazer a guerra aos romanos". Levantei-me em


seguida, para sair do meu aposento; mas aquela multidão de galileus, homens, mulheres e crianças, apenas me viram, lançou-se de rosto por terra, rogando-me com lágrimas nos olhos, que não os abandonasse e não deixasse seu país à mercê dos inimigos; como eles viam que eu não me deixava comover por seus rogos, faziam mil imprecações contra os de Jerusalém, os quais não podiam tolerar que eles vivessem em paz sob meu governo. Tão grande aflição de todo o povo tocou-me o coração. Julguei que não havia


perigo ao qual não me devesse expor, para sua salvação; e assim, prometi-lhes ficar. Mandei que escolhessem cinco mil homens com armas e munições de boca para me seguirem e despedi todos os outros. Marchei com esses cinco mil homens, três mil soldados, que eu já tinha e oitenta cavaleiros para uma aldeia na fronteira de Ptolemaida, de nome Chabolom, para enfrentar a Plácido, que Céstio Galo tinha mandado com infantaria e uma companhia de cavalaria para incendiar as aldeias dos galileus,


que estão nos arredores de Ptolemaida. Ele acampou e fortificou-se perto da cidade e eu fiz a mesma coisa a sessenta estádios de Chabolom. Assim, estando muito próximos uns dos outros, saíamos freqüentemente de nossas fortificações, como para travar combate, mas aconteciam apenas ligeiras escaramuças, porque quanto mais Plácido via que eu desejava travar batalha, mais ele temia empreender uma grande luta e não quis afastar-se de Ptolemaida. Estando as coisas nesse


pé, Jônatas e seus colegas chegaram à província; como não ousavam atacar-me abertamente, procuraram surpreender-me e para isso escreveram uma carta cujas palavras eram estas: "Jônatas e seus colegas, enviados pelos de Jerusalém, a Josefo, saudação. Os mais da cidade de Jerusalém, tendo sabido que João, de Giscala, vos armou diversas ciladas, mandaram-nos para fazer-lhe severas recriminações e ordenar-lhe que obedeça


exatamente, para o futuro, em tudo o que lhe determinardes mas, porque nós desejamos conversar convosco, para prover com a vossa opinião, a todas as coisas, nós vos rogamos vir prontamente ter conosco, sem grande acompanhamento, porque esta aldeia é muito pequena para alojar um grande número de soldados." Esta carta fazia-os esperar que, se eu os fosse encontrar, desarmado, eles poderiam sem dificuldade prender-me, ou, se eu fosse com


soldados, far-me-iam declarar rebelde. Um jovem cavaleiro, muito corajoso e que outrora tinha servido ao rei, foi encarregado de trazer esta carta; chegou na segunda hora da noite, quando eu estava à mesa com meus amigos mais íntimos e os mais ilustres dos galileus. Um dos meus homens veio dizer-me que um cavaleiro judeu tinha chegado e eu ordenei que o fizesse entrar. Ele não cumprimentou a ninguém e disse somente, entregando-me a carta: "Eis o que vos escrevem os enviados de Jerusalém; dai-lhes


a resposta com urgência, pois eu tenho de voltar imediatamente." Os que estavam à mesa comigo admiraram a insolência do soldado, mas eu roguei-lhe que se sentasse e ceasse conosco. Ele recusou-o. Então, tendo sempre a carta na mão, sem abri-la, continuei a conversar com meus amigos sobre diversas coisas. Algum tempo depois, dei-lhes a boa noite, conservando somente quatro dos que mais mereciam minha confiança, e mandei que trouxessem vinho. Sem que ninguém percebesse, abri a carta; tendo visto o que ela


continha, tornei a dobrá-la, conservando-a sempre na mão, como se não a tivesse aberto. Ordenei em seguida que dessem àquele soldado vinte dracmas para as despesas de sua viagem. Ele as recebeu e agradeceu. Isso fez-me ver que ele gostava de dinheiro e que assim não me seria difícil suborná-lo; então, eu lhe disse: "Se quer beber conosco, dar-lhe-ei uma dracma, cada copo de vinho que beber." Ele aceitou a condição e bebeu tanto, para ganhar muito, que ficou embriagado. Não lhe sendo mais possível guardar segredo,


não foi preciso interrogá-lo para fazê-lo afirmar que me haviam armado ciladas e que eu tinha sido condenado a morrer. Estando assim informado do projeto daqueles que o haviam mandado, eu lhes respondi deste modo: "Josefo, a Jônatas e aos seus colegas, saudação. Tenho tanto mais alegria em saber que chegastes bem à Galiléia, quanto me é assim fácil entregar em vossas mãos o cuidado dos interesses desta província e satisfazer ao desejo que sinto,


há muito tempo, de voltar a Jerusalém. Assim, iria procurarvos em Xalom e muito mais longe, quando mesmo não me tivésseis convidado para isso. Mas, haveis de me perdoar se não posso fazê-lo agora, porque sou obrigado a ficar em Chabolom, para vigiar Plácido e impedir que ele faça uma incursão na Galiléia. É, portanto, muito mais conveniente que venhais aqui depois de terdes recebido minha resposta, como vos peço." Entreguei esta carta ao


soldado e mandei com ele trinta pessoas, das mais importantes da Galiléia, com ordem de saudar somente os enviados, sem lhes falar de assunto algum; dei a cada um, para acompanhálos, um dos meus soldados nos quais mais eu confiava, aos quais ordenei que observassem cuidadosamente, se aqueles gentis-homens galileus falariam com jônatas. Os enviados de Jerusalém, vendo-se assim ludibriados na sua expectativa, escreveram-me outra carta, cujas palavras são estas:


"Jônatas e seus colegas a Josefo, saudação. Ordenamosvos que venhais dentro de três dias encontrar-vos conosco em Gabara, sem acompanhamento de soldados, a fim de que tomemos conhecimento dos crimes de que acusastes a João." Depois de ter recebido os gentis-homens galileus e de terme escrito aquela carta, eles vieram a Jafa, a maior aldeia do país, melhor rodeada de muralhas e muito populosa. Todos os habitantes compareceram à sua presença,


com as mulheres e filhos, pedindo que se retirassem, sem invejar a felicidade de que gozavam, por ter um governador tão bom e honesto. Jônatas e seus colegas, embora muito irritados com essas palavras, não ousaram manifestá-lo, nem lhes responderam. Dirigiram-se a outras aldeias, onde foram recebidos do mesmo modo; todos clamavam que queriam a Josefo, como governador. Assim, nada podendo fazer, foram a Séforis. Seus habitantes são amigos dos romanos, e contentaram-se em comparecer à sua presença, mas


não falaram de mim de modo algum. De lá passaram a Azoquim, onde foram recebidos como em jafa e, então, não podendo mais conter a cólera, ordenaram aos soldados que os acompanhavam que fizessem aquela gente calar-se e os dispersassem a cacetadas. Prosseguiram para Gabara, onde João veio encontrá-los, com três mil soldados. Como eu havia sabido pelas cartas, que eles estavam resolvidos a me matar, tomei três mil dos meus soldados, deixei o restante no acampamento, sob o comando de


um de meus amigos, no qual depositava inteira confiança, e fui para Jotapate, para ficar perto deles, pois de lá dista apenas quarenta estádios. Escrevi então aos enviados desta maneira: "Se quereis absolutamente que eu vá ter convosco, há na Galiléia duzentas e quatro aldeias ou vilas; eu irei à qualquer uma delas, como vos aprouver, exceto Gabara e Giscala, pois uma é a terra de João e a outra tem uma ligação muito particular com


ele." Jônatas e seus colegas não me escreveram mais, depois de ter recebido esta carta, mas reuniram-se em conselho com os amigos de João, para deliberar sobre os meios de me atacar. João propôs escrever a todas as cidades, aldeias e vilas da Galiléia, dizendo que, em cada uma delas se encontravam pelo menos duas pessoas que não me estimavam; que as fariam comparecer à sua presença, para depor contra mim; que se faria um documento com suas declarações para provaros galileus me haviam declarado


inimigo e se enviaria esse documento a Jerusalém, para lá ser confirmado; isso causaria temor aos galileus, que me estimavam e os levaria a me abandonar. Essa proposta foi logo aprovada e mais ou menos pela terceira hora da noite, Sacheu veio trazer-me essa notícia. Vendo então que não havia tempo a perder, ordenei a Jacó, que me era mui fiel, que tomasse duzentos homens e os colocasse nas estradas que vão de Gabara à Galiléia, para deter todos os viandantes e mandá-los


a mim, principalmente os que fossem encontrados com cartas. Depois ordenei aos galileus, que no dia seguinte se encontrassem armados em Gabara, com víveres para três dias; separei em quatro grupos os soldados que restavam, dando-lhes como comandantes os meus oficiais nos quais tinha absoluta confiança, proibindo-lhes receber entre eles qualquer soldado desconhecido. No dia seguinte, quando cheguei a Gabara, pela quinta hora do dia, encontrei os campos cheios de galileus armados, que vinham


em meu auxílio e com eles uma grande quantidade de camponeses. Comecei a falarlhes e eles aclamaram a uma voz que eu era seu benfeitor e o salvador de seu país. Agradecilhes o afeto e exortei-os a não fazer mal a ninguém; e a se contentar com os víveres que tinham trazido sem nada tirar das aldeias, porque eu desejava acalmar aquela sedição, sem derramamento de sangue e sem violência. Naquele mesmo dia, os que levavam a Jerusalém as cartas de Jônatas caíram nas


mãos dos homens que eu havia colocado nas estradas. Fizeramnos prisioneiros, mandaram-me as cartas que encontrei cheias de calúnias e de injúrias contra mim. Dissimulei, não falei com ninguém, mas resolvi ir diretamente a eles. Logo que souberam que eu me aproximava, retiraram-se, e João com eles, para a casa de Jesus, que era uma torre grande e forte, pouco diferente de uma fortaleza. Lá ocultaram uma companhia de soldados, fecharam todas as portas, exceto uma e aguardaram-me, na


esperança de que eu os iria saudar. Haviam ordenado aos seus soldados que me deixassem entrar, a mim, sozinho, e afastassem a todos os outros, julgando que assim ser-lhes-ia fácil prender-me. Mas essa traição não deu resultado, porque eu me conservava sempre de sobreaviso e por isso entrei numa casa perto da deles e fingi ter necessidade de descansar. Eles julgaram que eu estava adormecido na verdade e saíram para induzir minhas tropas a me abandonar alegando que desempenhara muito mal o


meu cargo. No entanto, aconteceu justamente o contrário. Apenas os galileus os viram, começaram a dar logo demonstrações do afeto que nutriam por mim e censuraramnos, porque, sem que eu lhes tivesse dado o mínimo motivo, vinham perturbar a tranqüilidade da província; a isso acrescentaram que eles podiam regressar, pois não receberiam outro governador. Isso me foi referido e eu aproximei-me para ouvir o que Jônatas dizia. Todo o povo recebeu-me com aclamações de


alegria e com agradecimentos por tê-los governado com tanta justiça e bondade. Jônatas e os colegas, ouvindo-os falar daquele modo, perceberam não ter a vida muito segura e pensaram em fugir. Mas isso não estava mais em seu poder. Eu lhes disse que ficassem e eles estavam tão assustados, que pareciam fora de si. Depois de ter imposto silêncio a todo aquele povo, ordenei aos meus soldados, de mais confiança, que vigiassem as estradas e determinei que todos os outros se conservassem


armados, para impedir qualquer surpresa de João ou de nossos outros inimigos. Comecei por falar-lhes da primeira carta que aqueles enviados me tinham escrito, pela qual me diziam que eram mandados de Jerusalém para solucionar as divergências entre João e mim e me rogavam que os fosse procurar. Para que ninguém pudesse duvidar, apresentei a carta e acrescentei, dirigindo minha palavra a Jônatas: "Se, achando-me obrigado a me justificar diante de vós e de vossos colegas, das acusações de João contra mim,


eu tivesse trazido duas ou três testemunhas honestas, que prestassem fé à sinceridade de minhas ações, não é verdade que vós não poderíeis não me absolver? Mas agora, para dizervos de que modo tenho procedido no exercício do meu cargo, não me contento de apresentar três testemunhas; eu apresento todos os que vedes diante de vós. Interrogai-os sobre minhas ações e eles vos dirão se encontraram algo de repreensível em mim. E vós todos, acrescentei, dirigindo-me aos galileus, o maior prazer que


me poderíeis dar, é não dissimular a verdade, mas declarar corajosamente diante desses senhores, como se eles fossem nossos juizes, se eu cometi alguma ação digna de reprovação, no exercício do meu cargo." Depois de ter assim falado, todos, a uma voz, disseram que eu era seu benfeitor e defensor, afirmaram que aprovavam todos os meus atos e rogaram-me que continuasse a governá-los como tinha feito até então, afirmando todos com


juramento, que eu jamais tinha permitido que se atentasse à honra de suas esposas, nem lhes havia causado desprazer algum. Li depois, em voz bem alta, que todos os galileus puderam ouvir, as duas cartas de Jônatas, que tinham sido interceptadas e em que me acusavam, por pura calúnia, de ter agido mais como tirano do que como governador. E como não queria que eles soubessem como elas tinham vindo parar em minhas mãos, para que continuassem a escrever, disse que os mesmos mensageiros mas haviam


entregue. Estas cartas irritaram de tal modo toda aquela multidão, contra Jônatas e seus colegas, que se lançaram sobre eles e os teriam sem dúvida matado, se eu a não tivesse impedido. Eu disse a Jônatas que perdoava tudo o que tinha feito contra mim, contanto que mudassem de proceder e voltassem a Jerusalém, para dizer aos que o haviam mandado, de que maneira eu havia procedido no meu cargo. Eles prometeram-no e os despedi, embora não duvidasse de que me faltariam à palavra


dada. O furor do povo porém, continuava, e todos me pediam que permitisse castigá-los; embora procurasse, com todas as minhas forças, moderar-lhes a cólera e persuadi-los a perdoálos, fazendo-lhes ver que não há sedição que não seja prejudicial ao povo, eles queriam a todo custo atacar a residência de Jônatas. Vendo, então, que já não estava mais em mim contê-los, montei a cavalo e ordenei-lhes que me seguissem a Sogam, aldeia da Arábia, longe do lugar onde eu estava uns vinte


estádios e assim consegui impedir que me acusassem de ter começado uma guerra civil. Chegando a Sogam, mandei minhas tropas fazer alto, e depois de os ter avisado de que não se deixassem levar facilmente pela cólera, eu disse a uns cem dos mais ilustres dos galileus, pela condição como pela idade, que se preparassem para ir a Jerusalém, a fim de denunciar os que perturbavam a província; disse-lhes ainda que fizessem o povo compreender a razão, sendo preciso levá-los a escrever-me cartas pelas quais


me confirmariam no governo da Galileia e ordenariam a João que se afastasse. Eles partiram três dias depois com estas ordens e dei-lhes quinhentos soldados para acompanhá-los. Escrevi também a alguns dos meus amigos da Samaria para que cuidassem da sua segurança durante a viagem, pois aquela cidade já estava sujeita aos romanos e como aquele caminho era o mais curto, eles não teriam podido, se não o tivessem tomado, chegar a Jerusalém dentro de três dias. Eu os conduzi até a fronteira,


coloquei guardas nas estradas para impedir que se pudesse temer algo com sua partida e fiquei alguns dias em Jafa. Jônatas e seus colegas, vendo que todos os seus desígnios lhes haviam saído tão mal, mandaram João a Giscala e foram a Tiberíades, na esperança de se assenhorear dela, porque Jesus, que então lá exercia a soberana magistratura, lhes havia prometido persuadir o povo a recebê-los e submeter-se a eles. Sila, que lá eu havia deixado como meu lugar-tenente,


avisou-me logo do que se passava e insistiu que eu voltasse imediatamente; fazendo-o, expus-me a um grande perigo, pelo fato que passo a narrar: Jônatas e seus colegas, que já haviam chegado a Tiberíades, onde haviam levado vários dos habitantes que não me apreciavam, a se revoltar contra mim, ficaram muito admirados pela minha chegada; vieram ter comigo e depois de ter-me saudado, disseram-me que se regozijavam com a honra que eu havia conquistado pela maneira como


havia procedido no meu cargo, que nela tinham parte, como meus concidadãos. Protestaram em seguida que minha amizade lhes era muito mais importante do que a de João e rogaram-me que voltasse com garantia que me davam de entregá-lo mui breve em minhas mãos. Confirmaram-no com juramentos tão terríveis e tão sagrados entre nós, que eu julguei, em consciência, dever prestar-lhes fé; e, para que eu não julgasse estranho, eles insistiram tanto no meu afastamento, disseram-me que o


dia de sábado se aproximava e eles desejavam impedir que acontecesse alguma perturbação no meio do povo. Como de nada desconfiava, retirei-me para Tariquéia, mas deixei na cidade algumas pessoas com o encargo de observar tudo o que se diria de mim e o comunicassem aos que eu havia deixado em vários lugares, pelo caminho que vai de Tiberíades a Tariqueia, a fim de me darem a notícia com a máxima rapidez. No dia seguinte, todo o povo se reuniu num lugar bastante amplo que


era destinado à oração. Jônatas também lá estava e, não ousando falar abertamente de revolta, contentou-se em dizer que a cidade precisava mudar de governador. Mas Jesus, que era o principal magistrado, acrescentou, sem nada dissimular, que lhes era muito mais vantajoso obedecer a quatro pessoas do que a uma só, tanto mais que as quatro eram de origem ilustre e de singular prudência; e, assim falando, mostrava Jônatas e os colegas; Justo louvou esse conselho e atraiu alguns dos habitantes à


sua opinião. No entanto, o povo não participou desses sentimentos e teria sucedido certamente uma revolta, se a sexta hora do dia, que no sábado nos obriga a ir cear, não tivesse soado. A assembléia foi transferida para o dia seguinte e os deputados regressaram sem nada ter obtido. Logo que eu soube do ocorrido, resolvi ir bem cedo a Tiberíades; partindo de Tariqueia ao despontar do dia, achei o povo já reunido no oratório, sem saber porque lá se encontrava. Jônatas e seus


colegas, muito surpreendidos por me verem, fizeram correr o boato de que a cavalaria romana tinha aparecido perto de Homonea, distante apenas trinta estádios da cidade. Clamaram, então, que não se devia tolerar que os inimigos viessem, à vista de todos, saquear os campos. Isso diziam com o fim de me obrigar a sair para socorrer os habitantes da planície e ficar senhores da cidade, conquistando, com meu prejuízo, o afeto dos habitantes. Facilmente compreendi o ardil, e fiz o que eles desejavam, para


não dar motivo aos de Tiberíades de dizer que eu me descuidava da sua segurança. Saí, pois, rapidamente e vi que não havia o menor indício do boato que eles haviam feito correr. Voltei logo e achei o Senado e o povo já reunidos, e jônatas fazia um discurso inflamado contra mim, dizendo que eu desprezava o cuidado da guerra e só pensava em me divertir. Para isso, apresentava quatro cartas que ele afirmava ter recebido dos galileus das fronteiras, pelas quais lhe pediam um auxílio urgente


contra os romanos, que ameaçavam entrar, dentro de três dias, em seu país com um grande número de soldados de infantaria e de cavalaria. Os de Tiberíades facilmente acreditaram nessa acusação e se puseram a gritar que não havia tempo a perder, para que eu fosse remediar imediatamente a um perigo tão grave. Embora eu bem compreendesse o desígnio de Jônatas, não deixei de dizer que estava pronto para marchar, mas, que as quatro cartas que ele havia apresentado, tendo


sido escritas de quatro lugares igualmente ameaçados, seria necessário distribuirmos todas as nossas tropas em cinco corpos, que seriam comandados pelos deputados de Jerusalém respectivamente, pois, tão valentes como eles eram, deviam ajudar a república também com suas pessoas, bem como com seus conselhos. Esta proposta agradou a todo o povo que insistia que a executássemos. Os deputados, ao contrário, ficaram muito perturbados, por verem que eu havia novamente posto por terra seus projetos. A esse


respeito, Ananias, um deles, homem muito mau e muito astucioso, propôs publicar-se um jejum para o dia seguinte e que cada qual se dirigisse sem armas ao mesmo lugar, à mesma hora, para mostrar que nada eles poderiam fazer sem o auxílio e a assistência de Deus. Isso não dizia por zelo pela religião, mas para me desarmar e a todos os meus. Eu fui, no entanto, obrigado a consentir, para que não parecesse que desprezava o que parecia ser grande demonstração de piedade. Logo que se dissolveu a


assembléia, Jônatas e seus colegas escreveram a João, para que viesse ter com eles no dia seguinte, com o maior número possível de soldados para me prender e assim conseguir o que ele desejava, naquela fácil contingência. Estas cartas muito o alegraram e ele procurou pôrse em condições de executar tal projeto. No dia seguinte, eu disse a dois dos meus guardas, mui valentes e mui fiéis, que escondessem espadas curtas sob as vestes e me acompanhassem, a fim de que, se fosse necessário, pudéssemos nos defender dos


inimigos. Tomei também uma couraça e uma espada que não se viam e fui ao lugar onde se haviam reunido. Chegando com meus amigos, Jesus, que estava à porta, não permitiu a nenhum dos meus entrar e, quando se ia começar a oração, ele me perguntou o que eu havia feito dos móveis e do dinheiro, não em moedas, que haviam tomado no palácio do rei, quando o haviam incendiado; isso ele fazia apenas para ganhar tempo, até que João chegasse. Eu respondi que havia entregue tudo a Capella e a dez dos principais habitantes


de Tiberíades e que podia perguntar-lhes se eu não estava dizendo a verdade. Capella e os outros afirmaram que era mesmo assim. Jesus perguntoume em seguida o que eu havia feito de vinte peças de ouro que havia tirado de alguns móveis que tinha posto à venda. Respondi que as havia fornecido àqueles que mandara a Jerusalém, para as despesas de sua viagem. Jônatas e seus colegas disseram, então, que eu havia feito mal, pagando-as, às expensas do público. Tão grande malícia irritou o povo; quando vi


que ele estava prestes a se rebelar, disse para incitá-lo ainda mais que se eu tinha feito mal em dar aquelas vinte peças de ouro do dinheiro público, me prontificaria a pagar do meu, para que eles terminassem as suas queixas. Estas palavras fizeram ver até que ponto chegava a sua injustiça contra mim e o povo fremiu ainda mais; quando Jesus viu que esse assunto tomava um rumo totalmente contrário ao que eles haviam esperado, ordenou ao povo que se retirasse e disse que somente o Senado deveria ficar,


porque essa espécie de assunto não devia ser tratada de forma tumultuada. O povo, porém, disse que não me queria deixar sozinho com eles, e nesse momento um homem veio dizer baixinho a Jesus que João já estava perto com suas tropas. Jônatas não pôde mais se conter, e Deus assim o fez, talvez, para me salvar, pois de outro modo não poderia ter evitado minha morte, nas mãos de João. "Deixai", disse ele, "habitantes de Tiberíades, de vos incomodar por causa dessas vinte peças de


ouro, porque não é por esse motivo que Josefo merece ser morto; é porque ele vos engana e tornou-se vosso tirano." Dizendo estas palavras, ele e os de seu partido fizeram menção de me matar. Mas os que tinham vindo comigo, sacaram das espadas, e o povo pegou em pedras para atacar Jônatas e tiraram-me das mãos dos meus inimigos. Quando me retirava, vi chegar João com os seus; alcancei o lago por um caminho escondido, subi a uma barca e salvei-me, dirigindo-me para Tariquéia, escapando assim de um grave


perigo. Reuni imediatamente os principais da Galiléia e disselhes de como, contra toda espécie de justiça, pouco faltara que Jônatas e os de seu partido não me tivessem assassinado. Eles ficaram tão irritados, que me rogaram não demorasse mais em levá-los contra eles e permitisse que exterminassem a João, a Jônatas e a todos os colegas. Eu os retive, dizendo que antes de pegar em armas, era preciso esperar a volta daqueles que havia mandado a Jerusalém, a fim de nada se


fazer sem o seu consentimento. No entanto, João, vendo que seu plano havia falhado, voltara a Giscala. Pouco tempo depois, os que havia mandado a Jerusalém voltaram e me disseram que o povo tinha achado muito mal que o sumo sacerdote Anano e Simão, filho de Gamaliel, tivessem, sem sua participação, mandado deputados à Galiléia para me destituir do cargo e que pouco faltara para que eles incendiassem as casas. Entregaram-me também as cartas pelas quais os principais


da cidade, com a autoridade e o consentimento do povo, confirmavam-me no governo e ordenavam a J么natas e aos seus colegas que voltassem. Depois que recebi estas cartas, fui a Arbella, onde havia mandado que se reunissem, e l谩 meus enviados me contaram de que modo o povo de Jerusal茅m, irritado com a maldade de J么natas, me havia mantido no cargo e lhe havia ordenado que se retirasse com seus colegas. Mandei em seguida a estes quatro deputados as cartas que lhes seriam dirigidas, e ordenei


ao que disso fora encarregado, que observasse a atitude deles. Eles ficaram terrivelmente perturbados e mandaram logo chamar a João. Reuniram-se, em seguida, com o Senado de Tiberíades e os principais de Gabara, a fim de deliberar sobre o que haveriam de fazer. Os de Tiberíades foram de opinião que Jônatas e seus colegas deviam continuar a se ocupar do governo, para não abandonar uma cidade que se havia entregado às suas mãos, e isso tanto mais porque eu tinha me resolvido a atacá-los, o que eles


afirmavam falsamente. João aprovou esse parecer e acrescentou que era necessário mandar dois dos deputados a Jerusalém para me acusarem diante do povo de ter governado mal a Galiléia. Que seria muito fácil persuadi-lo disso, quer pela consideração de sua qualidade, quer pela leviandade que lhe é tão natural. Todos aprovaram esta proposta. Jônatas e Ananias partiram imediatamente; seus dois colegas ficaram em Tiberíades, onde lhes deram cem homens para sua guarda. Os


habitantes puseram-se em seguida a trabalhar na reparação das muralhas, tomaram as armas e mandaram pedir tropas a João, em Giscala, para se servirem delas, em caso de necessidade, contra mim. Jônatas e os que o acompanhavam chegaram a Darabite, pequena aldeia situada no Campo Grande, nas fronteiras da Galiléia; os meus homens, postados nas estradas, prenderam-nos, obrigaram-nos a deixar as armas e os conservaram prisioneiros, naquele mesmo lugar. Levi, que


comandava esses homens, escreveu-me logo, narrando tudo. Eu dissimulei-o durante dois dias, e mandei dizer aos de Tiberíades que deixassem as armas e que fizessem voltar para sua cidade os que eles haviam mandado vir em seu socorro. Na persuasão e na esperança de que Jônatas já tinha chegado a Jerusalém, eles só me responderam com injúrias. Julguei, no entanto, dever continuar a agir, mais pela astúcia do que pela força, a fim de não me tornar culpado de ter ateado uma guerra civil.


Assim, para atraí-los para fora dos muros, tomei dez mil homens escolhidos e os dividi em três corpos. Ordenei a uma parte que ficasse na aldeia de Domez; coloquei mil numa vilazinha que está na montanha, longe quatro estádios de Tiberíades, com ordem de só partir depois que eu lhes houvesse dado o sinal, e avancei, com um outro corpo, à vista de Tiberíades. Os habitantes saíram, fizeram várias incursões contra meus soldados e empregaram palavras ofensivas contra mim. Sua


imprudência foi mesmo tão longe que eles mandaram buscar um esquife e fingiam, por zombaria, chorar a minha morte. Eu, porém, em meu coração, zombava de sua loucura. Como eu tinha ainda a intenção de me apoderar de João e de Joasar, os outros dois colegas de Jônatas, que tinham ficado em Tiberíades, eu lhes disse que avançassem para fora da cidade, com seus amigos e guardas que quisessem escolher para sua segurança, porque eu desejava conversar com eles sobre os meios de entrar em algum


acordo para dividir o governo da Galiléia. Simão, animado por uma proposta tão vantajosa, foi tão incauto que aceitou; Joasar, ao contrário, desconfiando de que haveria aí alguma intenção falsa não caiu na cilada. Eu fiz grandes reverências a Simão e aos amigos, por terem vindo; e tendo-o afastado pouco a pouco de seus homens, com o pretexto de lhe dizer alguma coisa em segredo, agarrei-o, e o entreguei aos meus, que o levassem àquela aldeia onde eu tinha soldados escondidos. Dei-lhes depois o sinal e marchei para


Tiberíades. Começou então o combate. Foi muito renhido. Os meus estiveram a ponto de fugir, se eu não lhes houvesse dado mais coragem. Finalmente, depois de termos corrido o risco de uma derrota, obriguei os inimigos a voltar para a cidade. No entanto, alguns daqueles que eu havia enviado pelo lago, com ordem de incendiar a primeira casa que tomassem, executaram essa ordem, e os habitantes imaginaram que a cidade havia sido tomada de assalto, depuseram as armas e rogaram-


me, com suas mulheres e filhos, que os perdoasse. Eu o fiz, e detive o furor dos soldados. A noite chegava rapidamente; mandei então tocar a retirada e fiz trazer Simão para jantar comigo, consolei-o e prometi darlhe liberdade e levá-lo em segurança até Jerusalém, com tudo o de que ele teria necessidade para a viagem. Entrei no dia seguinte com dez mil homens armados em Tiberíades e mandei vir à praça os principais da cidade, aos quais ordenei que declarassem quais haviam sido os autores da


revolta. Eles o fizeram e eu os mandei manietados a Jotapate. Quanto a Jônatas e aos seus colegas, mandei levá-los com uma escolta a Jerusalém, provendo tudo o que era necessário para sua viagem. Os habitantes de Tiberíades vieram uma segunda vez rogar-me que esquecesse os motivos que tinha de me queixar deles, garantindome que reparariam, pela fidelidade, às faltas cometidas no passado, rogando-me que mandasse restituir o que havia sido roubado. Ordenei logo que trouxessem à grande praça tudo


o que tinha sido tomado. Como os soldados sentiam dificuldade em se decidir a isso, eu lancei os olhos sobre um deles, que estava muito mais bem vestido do que de costume e perguntei-lhe onde havia adquirido aquela veste; ele confessou que a havia roubado. Ordenei que o espancassem e ameacei tratar os outros ainda mais severamente se nĂŁo restituĂ­ssem tudo o que haviam pilhado. Obedeceram, entĂŁo, e eu mandei restituir a cada um dos habitantes o que lhe pertencia. Creio dever informar


neste ponto a má fé de justo e dos outros que, tendo falado deste mesmo assunto nas suas histórias, não tiveram receio, para satisfazer à própria paixão e ódio, de expor aos olhos da posteridade os fatos de uma maneira bem diferente da que na verdade eles se passaram. Em nada eles diferem dos que falsificam os atos públicos, senão nisto, que tendo resolvido tornar-se ilustre, escrevendo esta guerra, disse de mim muitas coisas falsas e não foi mais verdadeiro no que se refere ao seu próprio país. E o que me


obriga agora, para desmenti-lo, a relatar o que havia calado até aqui, e não nos devemos admirar por ter diferido tanto, pois, ainda que um historiador seja obrigado a dizer a verdade, ele pode não se deixar levar contra os maus; não que eles mereçam ser favorecidos, mas para permanecermos nos termos de uma sábia moderação. Assim, Justo, que pretendeis ser o historiador a quem mais se deve prestar fé, dizei-me, rogo-vos, como é possível que os galileus e eu tenhamos sido causa da revolta do vosso país contra os


romanos e contra o rei, pois que antes que a cidade de Jerusalém me tivesse mandado como governador à Galiléia, vós e os de Tiberíades tínheis já tomado as armas e feito guerra aos da província de Decápolis, na Síria? Podeis negar que não incendiastes suas aldeias e que um dos vossos lá não foi morto, do que eu não sou o único a testemunhar, porque tudo isso se encontra mesmo nos comentários do imperador Vespasiano, onde se vê que quando ele estava em Ptolemaida, os habitantes de


Decápolis rogaram-no que vos castigasse como autor de todos os seus males e ele o teria feito, sem dúvida, se o rei Agripa, a quem fostes entregue para que se fizesse justiça, não vos tivesse perdoado a rogo da sua irmã Berenice, o que não impediu que ficásseis por muito tempo na prisão? Mas as vossas outras ações fizeram também claramente conhecer qual tínheis sido durante toda a vossa vida e que fostes vós que levastes vosso país a se revoltar contra os romanos, como eu o


farei ver com provas assaz convincentes. Acho-me agora obrigado, por vossa causa, a acusar os outros habitantes de Tiberíades e a mostrar que vós não fostes fiéis nem ao rei nem aos romanos. Séforis e Tiberíades, de onde sois originários, são as maiores cidades da Galiléia. A primeira, que está situada no meio do país e que tem em redor de si várias aldeias que dela dependem, resolveu permanecer fiel aos romanos, embora pudesse facilmente ter se revoltado contra eles, jamais me quis


receber, nem tomar as armas pelos judeus. Mas no temor que seus habitantes tinham de mim, eles me surpreenderam com seus artifícios e me levaram mesmo a construir-lhes muralhas. Receberam depois, de boa mente, a guamição de Céstio Galo, governador da Síria, pelos romanos e me recusaram a entrada em sua cidade, porque nem mesmo nos ajudar durante o cerco de Jerusalém, embora o Templo que lhes era comum conosco estivesse em perigo de cair nas mãos dos inimigos, tanto eles temiam parecer tomar


as armas contra os romanos. É aqui, Justo, que devemos falar da vossa cidade. Ela está situada junto do lago Genesaré, longe de Hippos, trinta estádios, sessenta, de Gabara, e cento e vinte de Citopolis, que está sob a dominação do rei. Não está perto de nenhuma aldeia dos judeus. Que vos impedia, portanto, de continuar fiel aos romanos, pois que tínheis grande quantidade de armas em particular e em público? Se responderdes que eu então fui a causa disso, eu vos pergunto, quem o foi, depois?


Podeis ignorar que antes do cerco de Jerusalém eu tinha sido sitiado em Jotapate, que vários outros castelos tinham sido tomados e que um grande número de galileus tinham sido mortos em vários combates? Se, então, não foi voluntariamente, mas por coação que tomastes as armas, quem então vos impedia de abandoná-las e vos colocardes sob a obediência do rei e dos romanos, pois não tínheis mais nenhum temor de mim? Mas o que é verdade é que esperastes até que vistes Vespasiano chegar, com todas as


suas tropas, às portas de vossa cidade e então, o temor do perigo vos desarmou. Não poderíeis, no entanto, evitar ser obrigado pela força e levados ao saque, se o rei não tivesse obtido, da clemência de Vespasiano, o perdão de vossa loucura. Não foi, pois, minha culpa, mas vossa, e vossa ruína só veio porque sempre fostes no coração inimigo do império. Esquecestes de que, em todas as vantagens que obtive sobre vós, jamais quis mandar matar alguns dos vossos, ao passo que as divisões que cindiram vossas cidades, não por


vosso afeto pelo rei e pelos romanos, mas por vossa própria malícia, custaram a vida a cento e oitenta e cinco dos vossos concidadãos, durante o tempo em que eu estive sitiado em Jotapate? Não foram encontrados em Jerusalém, durante o cerco, dois mil homens em Tiberíades, dos quais alguns foram mortos e os outros feitos prisioneiros? Direis para provar que não éreis inimigos dos romanos, que vos tínheis então retirado para junto do rei? Não direi, ao contrário, que vós o fizestes apenas pelo medo que


tínheis de mim? Se eu sou mau, como vós apregoais, que sois vós então, vós a quem o rei Agripa salvou a vida, quando Vespasiano vos havia condenado à morte; vós, que ele não deixou de mandar por duas vezes à prisão, embora lhe tivésseis dado bastante dinheiro vós; que ele mandou duas vezes ao exílio; vós, que ele teria feito morrer, se Berenice, sua irmã, não vos tivesse obtido o perdão e em quem, por fim, ele constatou tanta infidelidade no cargo de secretário, com que ele vos havia honrado, que vos proibiu de vos


apresentardes jamais em sua presença? Não quero continuar a falar. De restante, admiro a ousadia com a qual afirmais ter escrito esta história, mais exatamente que qualquer outro, vós, que não sabeis somente o que se passou na Galiléia — pois estáveis então em Baruque junto do rei — e não podeis saber o que os romanos sofreram no cerco de jotapate, nem de que modo eu procedi nessa ocasião, pois não me seguistes e não ficou um sequer, dos que me ajudaram a defender aquela praça, para vos vir trazer as


notícias. Se disserdes que narrastes com mais exatidão o que se passou no cerco de Jerusalém, eu vos pergunto, como isso pode ser, pois lá não vos encontrastes e não lestes o que Vespasiano escreveu a respeito? Isso eu posso afirmar, sem temor, vendo que escrevestes o contrário. Se julgais que vossa história é mais fiel do que qualquer outra, porque não a publicastes enquanto Vespasiano vivia e Tito também, seu filho, que tiveram o comando de toda essa guerra, e enquanto viveu o rei Agripa,


bem como seus parentes, que eram tão peritos na língua grega? Pois a escrevestes vinte anos antes, e podíeis então ter por testemunhas da verdade aqueles que tinham visto tudo com os próprios olhos. Mas esperastes para publicá-la depois da morte deles, a fim de que ninguém vos pudesse acusar de não ter sido fiel. Eu não fiz o mesmo, porque não temia a ninguém. Mas, ao contrário, entreguei a minha a esses dois imperadores, quando esta guerra estava apenas terminada e a memória


dos fatos ainda era recente, porque minha consciência me dizia que só tendo dito a verdade, ela seria aprovada por aqueles que lhe poderiam dar testemunho; e nisto não me enganei. Eu a comuniquei imediatamente a muitos, dos quais a maior parte estivera presente a esta guerra, no número dos quais estavam o rei Agripa e alguns dos seus parentes. O próprio imperador Tito quis que a posteridade não tivesse necessidade de haurir numa outra fonte a notícia de tão grandes feitos; depois de tê-


la assinado com sua própria mão, ele ordenou que fosse publicada. O rei Agripa escreveu-me também sessenta e duas cartas, que dão testemunho da verdade das coisas que referi. Apresentarei aqui apenas duas, para provar o que estou dizendo: "O rei Agripa, a Josefo, seu mui caro amigo, saudação. Eu li vossa história com grande prazer e a achei muito mais exata que todas as outras. Por isso, rogo-vos, que me mandeis a continuação. Adeus, meu caro


amigo." "O rei Agripa a Josefo, seu mui caro amigo, saudação. O que escrevestes fez-me ver que não tendes necessidade de minhas instruções para dizer como todas as coisas se passaram. No entanto, quando eu vier, poderei dizer-vos alguns particulares, de que não sabeis." Vê-se, assim, de que modo esse príncipe, não por uma bajulação indigna da sua condição, nem por zombaria, tão longe do seu caráter, quis dar


testemunho da verdade. Eis o que justo obrigou-me a dizer, para minha justificativa, e devemos agora retomar a continuação da minha narração. Depois de ter acalmado as perturbações de Tiberíades, propus a meus amigos o assunto sobre João; deliberei com eles os meios de castigá-lo. Seu parecer foi de se reunirem todas as forças de meu governo e marchar contra ele, porque era ele a única causa de todo o mal. Mas eu não estava de acordo com esse projeto, porque desejava acalmar a província


sem derramamento de sangue, e para isso lhes ordenei que se informassem bem exatamente de todos os que seguiam o seu partido. Mandei, ao mesmo tempo, publicar uma ordem pela qual eu prometia esquecer todo o passado, em favor daqueles que se arrependessem por terem faltado ao dever e dentro de vinte dias voltassem à obediência; caso não quisessem deixar as armas, eu ameaçava queimar-lhes as casas e expor seus bens ao saque. Esta ameaça assustou-os tanto que quatro mil abandonaram João,


deixaram as armas e se entregaram. Os habitantes de Giscala, seus compatriotas, e mil e quinhentos estrangeiros tírios foram os únicos que ficaram com ele. Esse meu modo de agir me saiu tão bem, que o temor os obrigou a ficar em seu país. Os de Séforis, que confiavam na força de suas muralhas e que me viam ocupado em outros lugares, tomaram as armas, nesse mesmo tempo, e mandaram pedir a Céstio Galo, governador da Síria, que viesse rapidamente tomar posse de sua cidade, ou


lhes enviasse pelo menos uma guarnição. Ele o prometeu, mas não marcou o tempo; logo que recebi este aviso, reuni minhas tropas, marchei contra eles e tomei a cidade de assalto. Os galileus, então, não querendo perder esta ocasião de se vingar dos seforitanos, que odiavam mortalmente, tudo fizeram para destruir a cidade e os habitantes. Os homens haviamse retirado para a fortaleza e então incendiaram as casas que haviam abandonado, saquearam a cidade, e não puseram obstáculo ao próprio


ressentimento. Essa desumanidade causou-me profunda dor. Ordenei-lhes que cessassem o saque, fazendo-lhes ver que não deviam tratar daquele modo a pessoas de sua própria tribo. Vendo, porém, que nem minhas ordens, nem meus rogos podiam detê-los, tão violenta era sua animosidade, dei ordem aos mais fiéis dos meus amigos que fizessem correr a notícia de que os romanos estavam entrando pelo outro lado da cidade, com um poderoso exército. Este expediente deu resultado. O temor que este


boato lhes causou fê-los deixar o saque, para só pensar em fugir, vendo que eu também fugia, pois, para confirmar ainda mais a notícia, fingia ter tanto medo como eles. Eis o recurso de que me servi para salvar os seforitanos, quando estes não mais tinham esperanças de salvação; pouco faltou para que os galileus saqueassem também Tiberíades, como vou narrar. Alguns dos principais Senadores escreveram ao rei para rogar-lhe que viesse tomar posse de sua cidade. Ele respondeu-lhes que viria dentro


de poucos dias, entregando a carta a um de seus criados, de nome Crispo, judeu de nascimento. Os galileus prenderam-no, a caminho, reconheceram-no e mo trouxeram; quando souberam o que a carta dizia, ficaram tão agitados, que se reuniram, tomaram as armas e no dia seguinte foram procurar-me em Azoque, clamando que os de Tiberíades eram traidores, amigos do rei e pediam-me que lhes permitisse ir destruí-los, pois odiavam Tiberíades, não menos que Séforis. A este


respeito, eu não sabia que resolução tomar para salvar Tiberíades de seu furor, porque não podia negar que os habitantes daquela cidade tinham apelado para o rei porque a sua resposta mo fazia ver mui claramente. Por fim, depois de ter pensado bastante na maneira de como lhes devia responder, disse-lhes que a culpa dos de Tiberíades era inescusável e eu não queria impedir que saqueassem a cidade, mas que em semelhantes ocasiões, era necessário usar-se de muita prudência. E, assim,


pois que os de Tiberíades não eram os únicos traidores da liberdade pública, mas vários dentre os principais dos galileus seguiam-lhes o exemplo, eu era de opinião que se fizesse uma indagação bem cuidadosa de todos os culpados, a fim de castigá-los todos juntamente, como mereciam. Estas palavras acalmaram-nos e eles se dispersaram. Alguns dias depois, fingi ser obrigado a fazer uma pequena viagem e mandei chamar secretamente esse criado do rei, que havia


ordenado pôr na prisão. Disselhe que procurasse embriagar o soldado que o guardava e fugisse para junto de seu senhor. Deste modo, Tiberíades, que estava pela segunda vez a ponto de perecer, foi salva por meu intermédio. Quando estas coisas assim se passavam, Justo, filho de Pisto, foi para junto do rei, escapando, sem que eu o soubesse; esta foi a causa da fuga: no começo da guerra dos judeus contra os romanos, os de Tiberíades tinham resolvido não se revoltar contra eles e


submeteram-se à obediência do rei. Mas Justo persuadiu-os a tomar as armas na esperança de que a perturbação e as mudanças dar-lhe-iam ocasião de se apoderar do governo e de se tornar senhor da Galiléia e de seu próprio país. Não obteve, no entanto, o seu desígnio, porque os galileus, animados contra os de Tiberíades pela recordação dos males que deles haviam recebido antes da guerra, não quiseram tolerar a sua dominação; quando fui enviado de Jerusalém para governar a província, fiquei diversas vezes


tão encolerizado contra ele por causa da sua perfídia, que pouco faltou que eu não o mandasse matar. O temor que com isso ele sentiu obrigou-o a se retirar para junto do rei, onde julgou poder viver em segurança. Os seforitanos, que se viram contra toda esperança salvos de grande perigo, enviaram a Céstio Galo embaixadores, para lhe pedir que viesse prontamente à sua cidade, ou pelo menos mandasse tropas bastante fortes para defendê-los e impedir os ataques dos seus inimigos. Ele concedeu-


lhes aquele favor e à noite, mandou-lhes tropas de infantaria e de cavalaria. Quando vim a saber que essas tropas devastavam as terras dos arredores, reuni as minhas, e fui acampar em Gerizim, distante vinte estádios de Séforis. À noite, aproximei-me das muralhas, escalei-as e meus soldados se apoderaram de uma boa parte da cidade. Mas, como eles não conheciam bem todos os lugares, fomos obrigados a nos retirar, depois de ter matado doze soldados, dois cavaleiros romanos e alguns habitantes,


sem perder um único homem. Poucos dias depois travamos um combate na planície, onde depois de termos sustentado com muita coragem o ataque da cavalaria dos romanos, os meus, vendo-me rodeado pelos inimigos, ficaram assustados e fugiram; justo, um dos meus guardas e que outrora fora guarda do rei, foi morto nessa ocasião. Sila, comandante dos guardas desse príncipe, veio em seguida com um grande número de soldados de infantaria e de cavalaria acampar a cinco estádios de juliada e deixou uma


parte de suas tropas na estrada de Cana e do castelo de Gamala, para impedir que para lá se levassem víveres. Logo que vim a saber disso, mandei jeremias com dois mil homens acampar perto do Jordão, a um estádio de juliada, vendo que eles só cediam pequenas escaramuças, fui reunir-me a eles com três mil homens, coloquei no dia seguinte as forças de emboscada num vale mui perto do acampamento dos inimigos e procurei trazê-los ao combate, depois de ter dado ordem aos meus soldados de fingir uma


fuga; isso deu resultado. Como Sila pensou que eles fugiam de verdade, perseguiu-os até aquele lugar e encontrou então tropas, de que nem sequer suspeitava. Mandei então que meus homens fizessem meia volta, ataquei com tal ímpeto os inimigos, que os obriguei a fugir; teria obtido sobre eles uma assinalada vitória, se a sorte não se tivesse oposto à felicidade. Meu cavalo caiu sobre mim, atirando-me a um pântano; fiquei tão ferido numa das mãos que fui obrigado a ir a uma aldeia próxima de nome


Cefarnom; os meus, que me julgavam ainda mais ferido do que na verdade eu estava, ficaram tão perturbados que deixaram de perseguir os inimigos. A febre assaltou-me e depois que me medicaram, levaram-me a Tariquéia. Sila soube-o, criou ânimo e imaginando que minhas tropas estavam desprevenidas, mandou à noite, para além do Jordão, uma companhia de cavalaria, que colocou em emboscada; ao despontar do dia atacou os meus, que resistiram firmemente. Aquela cavalaria


apareceu, então, atacou, dispersou-os e os pôs em fuga. Somente uns seis morreram, porque correu a voz de que nossas tropas estavam para chegar de Tariquéia e Júlia, e então os inimigos fugiram. Pouco tempo depois, Vespasiano chegou a Tiro, acompanhado pelo rei Agripa, e os habitantes fizeram-lhe grandes queixas desse príncipe, dizendo que ele era seu inimigo e do povo romano e que Filipe, general de seu exército, tinha, por sua ordem, traído a guarnição romana de Jerusalém


e os que estavam no palácio real. Vespasiano censurou-os acremente por ousarem daquele modo ultrajar a um rei amigo dos romanos e aconselhou Agripa a mandar Filipe a Roma prestar contas de suas ações. Ele partiu para esse fim; mas não se avistou com o imperador Nero, porque o encontrou nos extremos do perigo em que a guerra civil o tinha reduzido; e assim voltou para junto de Agripa. Quando Vespasiano chegou a Ptolemaida, os principais habitantes de


Decápolis acusaram Justo, perante ele, de ter incendiado suas aldeias. Vespasiano, para satisfazê-los, entregou-o ao rei, como sendo seu súdito; o soberano, sem nada lhe dizer, mandou-o para a prisão, como vimos há pouco. Os de Séforis compareceram então à presença de Vespasiano e receberam uma guarnição dele, comandada por Plácido, ao qual eu fiz a guerra até que Vespasiano entrou na Galiléia. Escrevi mui exatamente na minha História da Guerra dos Judeus, o que se refere à vinda


desse imperador; como depois do combate de Tariquéia eu me retirei a Jotapate; como, depois de aí ter estado por muito tempo cercado, caí nas mãos dos romanos; como fui em seguida libertado da prisão; e, por fim, tudo o que se passou nessa guerra e no cerco de Jerusalém. Assim, não me resta que falar do que se refere a mim em particular, que ainda não foi relatado. Depois da tomada de Jotapate, os romanos, que me haviam aprisionado, vigiavamme severamente; mas


Vespasiano não deixava de me prestar muitas honras e desposei, por sua ordem, uma moça de Cesaréia, que era também escrava. Ela não ficou muito tempo comigo, pois quando fui libertado da prisão, segui Vespasiano a Alexandria e ela me deixou. Desposei outra na mesma cidade, de onde fui mandado, com Tito, a Jerusalém e me encontrei diversas vezes em grave perigo de vida, pois os judeus tudo faziam para me matar. Todas as vezes que a sorte das armas não era favorável aos romanos, eles


diziam que era eu que os traía, e insistiam muito com Tito, que então tinha sido declarado César, que mandasse me matar. Mas como esse príncipe bem conhecia as vicissitudes da guerra, nada respondia a essas queixas. Ele me permitiu, mesmo diversas vezes depois da tomada de Jerusalém, tomar a parte que eu quisesse no que restava das ruínas do meu país. Nada, porém, era capaz de me consolar em tão grande desolação e me contentei de lhe pedir os livros sagrados e liberdade de algumas pessoas, o que ele de boa


vontade me concedeu. Pedi-lhe também a liberdade de um meu irmão e de cinqüenta de meus amigos, que ele me concedeu do mesmo modo; tendo entrado, com sua licença, no Templo, lá encontrei no meio de uma grande multidão de escravos, tanto de homens como de mulheres e crianças, mais ou menos cento e noventa amigos meus, ou conhecidos, que foram todos libertados, a meu rogo, sem pagar resgate e restaurados em seu primitivo estado. Tito mandou-me em seguida com Cerealis e mil


cavaleiros a Técua, para ver se aquele lugar seria próprio para um acampamento. Ao meu regresso, soube que tinham crucificado vários escravos, dentre os quais reconheci três amigos meus. Fiquei muito sentido e fui, banhado em lágrimas, dizer a Tito o motivo de minha aflição. Ele ordenou no mesmo instante que os tirassem da cruz e que os curassem com todo o cuidado. Dois deles morreram nas mãos dos médicos, mas o terceiro sobreviveu. Depois que Tito pôs em


dia todos os problemas da Judéia e toda a região estava tranqüila, vendo que as terras que eu tinha nos arredores de Jerusalém ser-me-iam inúteis por causa das tropas romanas, que eram obrigadas a lá permanecerem, para a defesa do país, ele deu-me outras em lugares mais afastados e quando voltou a Roma, concedeu-me a honra de subir ao seu navio. Quando chegamos, Vespasiano tratou-me da melhor maneira possível. Fez-me hospedar no palácio em que ele morava antes de ser imperador, quis que fosse


recebido no número dos cidadãos romanos, deu-me uma pensão, sem nada diminuir dos seus benefícios para comigo; isso causou contra mim tamanha inveja dos meus compatriotas, que me pôs em grande perigo. Um judeu chamado jônatas, tendo provocado uma rebelião em Cirene e reunido dois mil homens da região, que foram todos severamente castigados, foi mandado, atado de pés e mãos ao imperador e ele acusoume falsamente de lhe ter fornecido armas e dinheiro; Vespasiano, porém, não


acreditou na sua impostura e mandou cortar-lhe a cabeça; Deus livrou-me ainda de outras falsas acusações dos meus inimigos, e Vespasiano deu-me na Judéia uma propriedade de grande extensão. Nesse mesmo tempo, os costumes de minha mulher se me tornaram insuportáveis; eu a repudiei, embora tivesse três filhos dela, dois dos quais haviam morrido, restando-me apenas Hircano. Desposei outra, de Creta, judia de nascimento, filha de pais nobres e muito virtuosa. Dela tive dois filhos,


Justo e Simão, cognominado Agripa. Este é o estado dos meus assuntos domésticos. A isso devo acrescentar que continuei a ser sempre honrado com a benevolência dos imperadores, pois Tito não ma demonstrou menos que Vespasiano, seu pai, e jamais escutou as acusações que se faziam contra mim. O imperador Domiciano, que o sucedeu, acrescentou novos favores aos que eu já havia recebido, mandou cortar a cabeça a judeus que me haviam caluniado e castigar um escravo eunuco, pre-ceptor de meu filho,


que era do seu número. Este soberano acrescentou a tantos favores um sinal de honra mui ilustre, como libertar todas as terras que eu possuía na Judéia, e a imperatriz Domícia sempre teve prazer em me obsequiar. Poder-se-á por este reduzido resumo dos fatos de minha vida imaginar quem fui eu. Quanto a vós, ó mui virtuoso Epafrodita, depois de vos ter dedicado a continuação das minhas antigüidades, não vos direi mais coisa alguma.


PREFÁCIO DE JOSEFO De todas as guerras que se travaram, quer de cidade contra cidade, quer de nações contra nações, nosso século ainda não viu outra tão grande, e nós não sabemos que tenha havido outra semelhante, à que os judeus sustentaram contra os romanos. Houve, no entanto, pessoas que se dispuseram a escrevê-la, embora por si mesmos nada soubessem dela, baseando apenas seus conhecimentos em relações vãs e falsas. Quanto aos que nela


tomaram parte, sua bajulação pelos romanos e seu ódio pelos judeus, fê-los relatar as coisas de maneira muito diferente, da que de fato eram na realidade. Seus escritos estão cheios de louvores de uns e de censuras dos outros, sem se preocupar com a verdade. Foi isso que me fez decidir a escrever, em grego, para satisfação daqueles que estão sujeitos ao Império Romano, o que escrevi há pouco em minha língua, para informar as outras nações. Meu pai chamava-se Matatias, meu nome é Josefo,


sou hebreu de nascimento, sacerdote em Jerusalém. No princípio combati contra os romanos e a necessidade, por fim, obrigou-me a empreender a carreira das armas. Quando essa grande guerra começou, o Império Romano era agitado por questões internas; os mais jovens e os mais exaltados dos judeus, confiando em suas riquezas e em sua coragem, suscitaram tão grande perturbação no Oriente para aproveitar dessa ocasião, que povos inteiros tiveram receio de


lhes ficar sujeitos, porque eles tinham chamado em seu auxílio os outros judeus que habitavam além do Eufrates, a fim de se revoltarem todos juntamente. Foi depois da morte de Nero que se viu mudar a face do império. A Gália, vizinha da Itália, sublevou-se. A Alemanha não estava tranqüila; muitos aspiravam ao soberano poder; os exércitos desejavam a revolução na esperança de com isso serem beneficiados. Como todas estas coisas não poderiam deixar de ser mais importantes, a tristeza que senti por ver que se


desvirtuava a verdade tinha-me já feito tomar cuidado de informar exatamente aos partos, aos babilônios, mais afastados, entre os árabes, aos judeus que habitam além do Eufrates e aos atenienses da causa desta guerra; de tudo o que se passou e de que modo ela terminou; e não posso ainda agora tolerar que os gregos e os romanos que ali não estavam presentes o ignorem e sejam enganados por esses historiadores bajuladores que só lhes narram fábulas. Confesso não poder compreender sua imprudência,


quando, para fazer passar os romanos pelos primeiros de todos os homens, eles queriam rebaixar os judeus e ajam assim contra sua intenção. Será uma grande glória superar inimigos pouco temíveis? Ignoram eles as forças poderosas empregadas pelos romanos nessa guerra, durante o tempo que ela durou e as dificuldades que suportaram? Não consideram eles que é diminuir a estima do mérito extraordinário de seus generais diminuir a da resistência que o valor dos judeus fê-los experimentar na execução de


tão difícil empreendimento? Evitarei bem imitá-los, relevando além da verdade os feitos dos de minha nação, como eles fizeram com os dos romanos. Farei justiça a uns e a outros, relatando-os sinceramente; nada afirmarei que não possa provar; não procurarei outro alívio em minha dor, senão deplorar a ruína da minha pátria. Mas, o que pode melhor, que o imperador Tito, que teve a direção de toda a guerra, dela referiu como testemunha, dar a conhecer que nossas divisões domésticas foram a causa da


nossa derrota e que não foi voluntariamente, mas por culpa daqueles que se tinham tornado nossos tiranos, que os romanos incendiaram nosso Templo? Esse grande príncipe, não somente teve compaixão desse pobre povo, vendo-o correr para sua ruína, pela violência daqueles facciosos, mas ele mesmo, muitas vezes diferiu a tomada da praça, para lhe dar tempo e ocasião de se arrepender. Se alguém julgar que meu ressentimento pela infelicidade de meu país levame, contra as leis da história, a


acusar fortemente aqueles que lhe foram autores, que acrescentaram ladroeira pública à sua tirania, devem perdoar-me e atribuí-lo à minha extrema aflição. Poderia ela ser mais justa, pois entre tantas cidades sujeitas ao Império Romano não se encontrará uma que como a nossa, tendo sido elevada a tão alto grau de honra e de glória, tenha caído em miséria tão espantosa, que não creio que desde a criação do mundo algo se tenha visto de semelhante. A isso acrescente-se que não é a inimigos externos, mas a nós


mesmos, que devemos atribuir nossas desgraças; como me poderei conter em tamanha dor? Se, no entanto, se encontrarem pessoas que não se deixem comover por esta consideração, mas queiram ainda condenar com rigor um sentimento que me parece tão razoável, poderão ater-se à minha história, somente nas coisas que eu refiro, e não se incomodar com minhas queixas, admitindo-as apenas como uma efusão da alma do historiador. Confesso que muitas vezes censurei, com razão,


parece-me, os mais eloqüentes gregos, porque embora as coisas acontecidas no seu tempo sobrepujem de muito as dos séculos que os precederam, contentam-se em julgá-las sem nada escrever e em censurar os que as escreveram, sem considerar que, se eles lhe são inferiores em capacidade, têm sobre a vantagem de ter servido o bem público, com seu trabalho; esses mesmos censores dos outros escrevem o que se passa entre os sírios e os medas, como tendo sido mal narrado pelos antigos escritores, embora não


lhes sejam menos inferiores, na maneira de bem escrever do que no intento que tiveram, escrevendo-as. Esses primeiros só referiram e quiseram referir as coisas de que tinham conhecimento e teriam tido vergonha de falsear a verdade diante daqueles que as tendo visto como eles, poderiam desmenti-los. Assim, não poderíamos não louvá-los assaz por ter dado à posteridade o conhecimento do que se passou no seu tempo, que ainda não tinha aparecido em público; eles devem ser tidos como os mais


hábeis, que em vez de trabalhar sobre as obras de outros e em trocar somente a ordem, escrevem coisas novas e compõem um corpo de história que somente a eles se deve. Por mim, posso dizer que, sendo estrangeiro, não houve despesa que eu não fizesse, nem cuidado que eu não tomasse, para informar os gregos e os romanos de tudo o que se refere à nossa nação. Os gregos, ao contrário, falam muito quando se trata de sustentar seus interesses, quer em particular, quer perante os juizes, mas calam-se quando é


preciso reunir com muita dificuldade tudo o que é necessário para compor uma história verdadeira; e não acham estranho que aqueles que nenhum conhecimento têm dos feitos dos príncipes e dos grandes generais e são mui incapazes de os descrever, ousem fazê-lo. Isto mostra que quanto procuramos a verdade da história tanto os gregos a desprezam e disso se descuidam. Eu poderia dizer qual foi a origem dos judeus, de que maneira saíram do Egito, por quais províncias vagaram


durante longo tempo, as que ocuparam e como passaram a outras. Mas, além de que isto não se refere a este tempo, eu o julgaria inútil, pois vários da minha nação já o escreveram, com muito cuidado, e os gregos traduziram-lhe as obras para sua língua sem se afastar muito da verdade. Assim, começarei minha história por onde seus autores e nossos profetas terminaram as suas. Referirei particularmente, com toda a exatidão que me for possível, a guerra que se travou no meu tempo e contentar-me-ei


em tocar brevemente o que se passou nos séculos precedentes. Direi de que modo o rei Antíoco Epifânio, depois de ter tomado Jerusalém e de tê-la possuído durante três anos e meio, de lá foi expulso pelos filhos de Matatias, hasmoneu. Como a divisão suscitada entre seus sucessores, com relação à posse do reino, atraiu os romanos sob o comando de Pompeu. Como Herodes, filho de Antípatro, com o auxílio de Sósio, general do exército romano, pôs fim à dominação desses príncipes hasmoneus.


Como depois da morte de Herodes, sob o reinado de Augusto, Quintílio Varo, governador da Judéia, o povo se revoltou. Como no décimo segundo ano do reinado de Nero, começou a guerra; o que se deu sob Céstio, que comandava as tropas romanas; os primeiros feitos dos judeus e as praças que eles fortificaram. Como as perdas sofridas em várias ocasiões por Céstio, fizeram Nero temer pelo êxito de suas armas e ele as entregou a Vespasiano. Como esse general, acompanhado pelo mais velho de


seus filhos, entrou na Judéia com um grande exército romano; como um grande número de suas tropas auxiliares foi desbaratada na Galiléia, como ele tomou algumas cidades dessa província e outras se entregaram a ele. Referirei também sinceramente, segundo o que vi e constatei com meus próprios olhos, o proceder dos romanos nas suas guerras, sua ordem e sua disciplina: a extensão e a natureza da alta e da baixa Galiléia, os limites e as fronteiras da Judéia, a qualidade da terra, os lagos e as


fontes, que aí se encontram e os males suportados pelas cidades que foram tomadas. Não deixarei de falar do mesmo modo daqueles que experimentei em minha vida e que são bem conhecidos. Direi também como a morte de Nero aconteceu quando Vespasiano se apressava para marchar contra Jerusalém, os interesses dos judeus estavam já em péssimo estado e os do império chamaram-no a Roma; os presságios que teve da sua futura grandeza; as mudanças sucedidas nessa


capital do império; como foi contra sua vontade declarado imperador pelos soldados e como foi ao Egito para dar as ordens necessárias; como a Judéia foi agitada por novas perturbações e como surgiram tiranos, uns contra os outros; como Tito à sua volta do Egito entrou duas vezes naquela província, de que maneira e em que lugar ele reuniu seu exército, de que modo e quantas vezes ele viu mesmo em sua presença sucederem-se as sedições em Jerusalém; suas aproximações e todas as dificuldades que


empreendeu para atacar essa praça; qual a torre dos muros da cidade, sua fortificação e a do Templo; a descrição do mesmo Templo, suas medidas e as do altar; nisso nada omitirei. Falarei das nossas festas solenes, das cerimônias que nelas se observam, das sete espécies de purificação; das funções dos sacerdotes, suas vestes e os do sumo sacerdote; da santidade desse Templo, sem nada deturpar, sem nada acrescentar. Farei ver também a crueldade de nossos tiranos contra os da própria nação e a


humanidade dos romanos conosco, que éramos estrangeiros com relação a eles; quantas vezes Tito fez tudo o que pôde para salvar a cidade e o Templo e reunir os que estavam tão obstinadamente divididos. Falarei dos muitos e diversos males suportados pelo povo, que depois de ter sofrido todas as misérias que a guerra, a carestia e as sedições podem causar, por fim se viu reduzido à servidão, pela tomada dessa grande e poderosa cidade. Não me esquecerei também de dizer em que desgraças caíram os


desertores da sua nação, a maneira como o Templo foi queimado, contra a vontade de Tito, a quantidade de riquezas consagradas a Deus que o fogo destruiu; a destruição completa da cidade, os prodígios que precederam essa extrema desolação, a escravidão de nossos tiranos, o grande número daqueles que foram levados cativos e suas diversas vicissitudes, de que maneira os romanos perseguiram os que escaparam da guerra e depois de os ter vencido, destruíram completamente as praças e os


lugares para onde eles se haviam retirado. Por fim, falarei da visita feita por Tito a toda a província para restabelecer a ordem; da sua volta à Itália e do seu triunfo. Escreverei todas estas coisas em sete livros, divididos em capítulos, para satisfação das pessoas que amam a verdade e não tenho motivo de temer que aqueles que tiveram a direção dessa guerra ou que lá se encontraram presentes, me acusem de ter faltado à sinceridade. Mas é tempo de começarmos a executar o que prometi.

II PARTE Guerra dos Judeus Contra os Romanos  

VIDA DE FLÁVIO JOSEFO Escrita por Ele mesmo Flávio Josefo é considerado como um dos maiores historiadores judeus de sua época, e além de es...

II PARTE Guerra dos Judeus Contra os Romanos  

VIDA DE FLÁVIO JOSEFO Escrita por Ele mesmo Flávio Josefo é considerado como um dos maiores historiadores judeus de sua época, e além de es...

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