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ANO 1 NÚMERO 3 Dezembro de 2012\ Janeiro de 2013

A luta dos

Xavantes,

Guaranis Kaiowá e Nhandeva pela demarcação dos territórios


Carta ao leitor Olá, leitor!

V

ários conflitos envolvendo a demarcação de territórios indígenas estão acontecendo no centro do país e a

terceira edição da Revista Brasil 21 destaca a resistência dos moradores não declarados índios em

Ano1 Número 3 Dezembro de 2012\ Janeiro de 2013

abandonar a reserva de Marãiwatsédé, na região de Estrela do Araguaia, no Mato Grosso. E também a demarcação das terras dos povos Guaranis Kaio-

Editoração gráfica: Rosângela Menezes

wás e Guaranis Nhandeva em Paranhos, no Mato

Arte: Rosângela Menezes

atinge o norte do país: cerca de 50 famílias foram

Colaboladores: Allan Gomes Carlos Mello Beatriz Aguiar Jéssica Sant’Ana Regina Miranda Taynara Macedo Edição Rosângela Menezes Capa: Marcello Casal\ABr. Contra Capa: Gurgel Chugh Contato: rosangela@brasil21.net @ revistabrasil21

Grosso do Sul. Além disso, outra questão agrária

expulsas da fronteira com a Bolívia e há cinco anos esperam pelo assentamento prometido pelo INCRA. A entrevista é com o fundador da Rede Brasileira de Informação Ambiental Vilmar Berna, o jornalista fala sobre comunicação, Meio Ambiente e o futuro da sustentabilidade no Brasil. Outro destaque da edição é a lista de sites para exercitar o consumo colaborativo, prática comum nos Estados Unidos e na Europa, que chegou ao país e tende a diminuir o consumismo, já que estimula o empréstimo de objetos pessoais. Boa leitura! Equipe Brasil 21


Foto: Hermínio Nunes

Foto: Wilson Dias/ ABr.

Foto: Marcello Casal Jr./ ABr.

Sumário 4

EM FOCO

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ECONOMIA

Conflitos no assentamentos dos serigueiros do Rio Mamu e nas demarcações dos Guaranis

Consumo colaborativo chega ao país e traz vantagens para o Meio Ambiente

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CAPA

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ENTREVISTA

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ENERGIA

Acaba o prazo para os não-índios abandonarem a região de Marãiwatsédé

Vilmar Berna fala sobre a democratização do Jornalismo Ambiental

Os avanços do país no Ano Internacional da Energia para Todos


EM FOCO

Brasivianos continuam sem terra

A

s negociações sobre o assentamento de 50 famílias brasileiras expulsas do Rio Mamu, na Bolívia, ainda não chegou ao fim. Segundo o Secretário Geral da Embaixada Brasileira em La Paz, Kaiser Pimentel de Araújo, o processo está em andamento junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Os extrativistas reclamam da demora do processo, que se estende há cinco anos. As expulsões começaram a acontecer quando o presidente Evo Morales assumiu o poder na Bolívia, em 2006. Ele iniciou um projeto de reformar agrária que não permitia a presença de estrangeiros na faixa de terras fronteiriças pertencentes ao seu país. Com isso, as famílias brasileiras de seringueiros e coletores de castanhas tiveram que deixar o local onde moravam. Em 2008, as famílias expulsas reivindicaram as terras da região do Rio Mamu, na província de Frederico Román. A justificativa dada pelo grupo foi que eles já estavam instalados ali há pelo menos 50 anos e, por isso, tinham laços culturais e históricos com o local. O pedido foi negado pelo governo boliviano e eles foram obrigados a se instalar em Vila Extrema, distri-

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Foto: Divulgação

Por: Jéssica Sant’Ana

to de Porto Velho. Os extrativistas pedem que seja feito um reassentamento em terras rondonienses ou acreanas. A migração de famílias brasileiras para a região do Rio Mamu se intensificou com a chegada da pecuária na região amazônica, na década de 70, quando houve destruição de seringais nativos.

Cerca de 50 famílias esperam pelo assentamento prometido pelo Governo Federal

Agosto de 2008

Novembro de 2009

Novembro de 2009

Março de 2012

Seguireiros brasileiros do Rio Mamu, , na Bolívia, foram expulsos

O Itamarati e a OIM foram até Extremo para aplicar o Formulário de Preferência.

O INCRA recadastrou os Brasivianos, que seriam reassentadas no Acre,

Última reunião entre os colonos e o representante da embaixada brasileira em La paz

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Terras para os Guaranis Kaiowa e Nhandeva Os povos indígenas lutam pela demarcação do território no município de Paranhos, no estado do Mato Grosso do Sul Por: Carlos Mello

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Foto: Marcello Casal Jr./ ABr.

ais um conflito envolvendo tribos indígenas ocupa espaço na mídia nacional e internacional. Em um afastado rincão do Brasil, o município de Paranhos distante 469 km de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, é palco da batalha dos índios Guarani Kaiowá e Nhandeva para ver reconhecido o direito ao território originário. Na pacata cidade, que faz fronteira com o Paraguai, cerca de 600 índios vivem nas aldeias da região e desenvolvem atividades como a caça, pesca e agricultura familiar: não há conflitos entre os habitantes e os guaranis, o clima de tranquilidade é garantido pelas autoridades policiais, que atuam junto à comunidade indígena. Os Guaranis das aldeias Potrero Guasu e Arroyo Korá lutam pela criação de suas terras indígenas, onde poderão desenvolver os rituais e atividades típicos da etnia. Os estudos antropológicos e as demarcações foram realizadas pela Funai em 2009. Mas, a a área continua embargada pela Justiça. Após sete dias da homologação, o Supremo Tribunal Federal (STF) concedeu uma liminar aos donos de uma fazenda

Ládio Veron é filho do cacique MarcosVeron, assassinado em 2003


Foto: Marcello Casal Jr./ ABr.

de 184 hectares existente na região e suspendeu o decreto que demarcava o território de sete mil hectares para os Guaranis. A maioria dos fazendeiros busca diante do Poder Judiciário o direito à indenização pela desapropriação de suas terras, entretanto alguns vociferam discursos agudos e inflamados contra a criação das terras indígenas. As aldeias são comandadas pelos capitães. Eles são responsáveis pelas decisões da da comunidade e têm autoridade para representar os integrantes da tribo diante das autoridades do governo. A aldeia 07 Cerro é comandada pelo capitão Pedro, que dá exem-

Soldados da Força Nacional garantem a paz entre os moradores e os índios

plo de excelência em gestão de recursos coletivo. O capitão afirmou que, sempre busca inverter as conquistas financeiras para o bem coletivo da comunidade. A aldeia possui plantações de mandioca e milho. Além disso, existe uma

grande área sendo preparada para a ampliação do plantio do milho e a criação de uma plantação de soja. A pecuária extensiva também está nos projetos da aldeia, que já possui um rebanho de quase 100 cabeças de gado.

“Conclamamos toda a sociedade a continuar a exigir do governo a demarcação de todas as nossas terras”

tentar achar soluções para o conflito fundiário entre índios e fazendeiros, que há décadas disputam terras no estado. No documento aprovado ao fim da assembleia, os índios fazem uma série de reivindicações e voltam a criticar o governo federal pela "morosidade em demarcar as terras indígenas" já identificadas. Os Guaranis exigem que os governos federal e estadual consultem a Aty Guasu sobre qualquer iniciativa ou procedimento que afetem os interesses indígenas e pedem que

Guaranis se reunem em Aty Guasu Por: Alex Rodrigues *

A tradicional assembleia Guarani reúne lideranças de todas as comunidades da etnia existentes em Mato Grosso do Sul, além de idosos, crianças, homens e mulheres que se encontram para discutir os problemas e as principais reivindicações de cada terra, aldeia ou acampamento guarani sul-mato-grossense. Este ano, a assembleia ocorreu entre os dias 28 de novembro e 1 de dezembro, na Aldeia Lagoa Rica-Panambi, e contou com a presença de representantes de vários órgãos da estrutu-

ra federal, como a presidenta da Fundação Nacional do Índio (Funai), Marta Azevedo. Essas mesmas autoridades participaram, no dia 30 de novembro, de um encontro para

*Texto publicado na Agência Brasil dia 1 de dezembro de 2012 6

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Fotos: Marcello Casal Jr./ ABr.

medidas mais eficazes sejam tomadas para garantir a vida das lideranças, sobretudo daquelas de comunidades em áreas de conflito. A Aty Guasu também pede mais atenção e recursos à saúde indígena, alegando que os Guaranis são vítimas de um processo de "etnocídio" e estão "condenados a um sistema de saúde sucateado", no qual faltam profissionais dispostos ou aptos a atender as áreas indígenas. Situação semelhante à encontrada no campo da educação indígena, de acordo com o documento entregue às autoridades. Os índios também criticam o Poder Judiciário, que, no documento, é classificado como o maior "executor de penas que causam a morte de nosso povo". "Processos de demarcação há anos se arrastam nos porões do Judiciário; ordens de despejo são dadas a todo o momento e indiscriminadamente [...] quando é obrigação do governo brasileiro garantir escola, saúde, alimentação e documentação para nosso povo, onde quer que ele esteja", criticam os líderes indígenas presentes à Aty Guasu, afirmando que o Estado só age para garantir os direitos indígenas quando pressionado pela repercussão midiática e social de certos temas. "Repudiamos todas as violências, ameaças às lideranças e mentiras levantadas contra nossos parentes e reafirmamos para toda a sociedade que estamos unidos com o mesmo objetivo. Não permitiremos que outros povos sejam massacrados como o nosso. Por isso exigimos a demarcação das terras do povo Terena, Kinikinau e Ofaié, além da imediata devolução das terras do povo Kadiwéu".

Lideranças indigenas, anciãos e rezadores das tribos Guaranis Kaowá e Nhandeva se reuniram em Douradina para Aty Guasu, assmbleia tradicional que discute os problemas enfretados pelas comunidades dezembro 2012\janeiro 2013 www.brasil21.net

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ECONOMIA

Brasileiros descobrem o consumo colaborativo A troca, compartilhamento e intercâmbio de bicicletas, carros e objetos podem ser a saída para sustentabilidade

U

Por: Jéssica Sant’Ana

m dos fenômenos mais interessantes que surge em resposta à crise econômica mundial é o consumo colaborativo. Essa prática consiste na expansão de diferentes formas de acesso a produtos e serviços sem a necessidade de adquiri-los. A lógica é simples: compartilhar ao invés de comprar. Ou seja, um espaço que permita que as pessoas troquem e aluguem objetos que são poucos utilizados ou que não tenham mais serventia em seu dia a dia. Para facilitar o contato entre os interessados, grande parte das transações acontecem através de sites e redes sociais. As ofertas são as mais variadas possíveis: serviços de aluguel de carro, empréstimo de ferramentas, trocas de roupas, doações de livros ou qualquer coisa que – para o dono – não tenha mais tanta utilidade. Isso dá sobrevida aos bens reutilizáveis, ajuda a economizar dinheiro e a transformar consumidores passivos em colaboradores ativos. A ideia nada mais é do que uma adaptação da velha prática do “pegar emprestado com o vizinho”. A transformação desse hábito em uma tendência mundial aconteceu devido a três fatores que modificaram o comportamento do consumidor. São eles: crise econômica de 2008, preocupação ambiental e difusão do acesso a internet. 8

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Vantagens do Consumo

COLABORATIVO

1 Economia do usuário 2 Redução de resíduos 3 Reutilização dos produtos ao 4 Reciclagem final da vida útil

5 Solução de mobilidade A filosofia desse movimento é baseada na teoria dos 3Rs: redução do consumo de resíduos, reutilização dos produtos e reciclagem ao final da vida útil. A revista Times, dos Estados Unidos, publicou um artigo em 2011 que coloca o consumo colaborativo entre as “10 coisas que vão mudar o mundo”. O que faz a proposta ser tão atraente é a transformação de um bem em um serviço. Essa tendência é mais forte nos Estados Unidos e na Europa. Por lá, os sites de trocas são uma febre e o pensamento colaborativo já


chegou até nas crianças. Existem empresas que desenvolveram eventos de compartilhamento que incentivam, desde cedo, o pensamento sustentável. É o caso do site Swap que promove campanhas de trocas de livros e uniformes em escolas infantis. No Brasil, essa prática está no começo, mas já há plataformas que oferecem opções para quem deseja trocar ou alugar um objeto ou serviço. É o caso da Zazcar, uma empresa que oferece o serviço de compartilhamento de carros na cidade de São Paulo. O site começou a funcionar em 2009 e a meta para 2013 é passar dos dois mil usuários atuais para 30 mil e de uma frota de 60 para 500 carros. O consumidor, ao alugar o veículo, paga apenas pelo período de utilização. Segundo o site da empresa, um carro compartilhado retira outros 13 das ruas. O site DescolaAí, criado pelo engenheiro Guilherme Brammer foi o precursor dessa nova tendência no país. Acessando a plataforma, o usuário tem a opção de buscar os produtos que precisa ou disponibilizar aqueles que têm para troca ou aluguel. Assim que a demanda e a oferta forem identificadas, eles vão ser colocados em contato para decidirem qual a melhor maneira para fazer a transação. O DescolaAí conta também com a opção de se criar grupos privados e corporativos para as trocas. Em entrevista ao site Ideia Sustentável, o empresário afirmou que o fator mais importante do consumo colaborativo é a economia. O empréstimo de produtos diminui a necessidade da compra, o que reflete na extração de novas matérias primas. Além disso, quem não podia pagar caro por um produto agora pode ter acesso a ele por um preço muito menor, o que é um benefício social.

Colabore você também DeslocaAí – o site é um dos mais populares portais de consumo colaborativo e oferece aluguel e troca de produtos e serviços diversos. Acesse: www.descolaai.com Dois Camelos – é um aplicativo para Facebook que facilita a troca de produtos entre os usuários cadastrados. Atualmente, conta a página conta com mais de 43 mil usuários e quase 5 mil ofertas. Acesse: http://apps.facebook.com/doiscamelos BuscaLá – o site promove troca ou aluguel de móveis, eletrônicos, artesanato, acessórios esportivos, entre outros itens. Acesse: http:// buscala.com.br/ Zazcar– é a primeira empresa de compartilhamento de carros na América Latina. Oferece todos os benefícios de um carro particular, sem ter que arcar com os custos e responsabilidades de um dono de automóvel. Acesse: www.zazcar.com.br Livra Livro – é um site destinado a troca de livros entre os usuários. Disponibiliza gêneros variados. Acesse: www.livralivro.com.br Núcleo Educativo da Casa das Rosas – promove, mensalmente, uma feira de troca de livros, gibis e brinquedos. A Casa das Rosas está situada na Avenida Paulista, 37, São Paulo. Para mais informações acesse: http://nucleoeducativocasadasrosas.blogspot.com.br/ Escambo Chique – é um evento mensal, chamado de “Desapegue”, voltado ao público feminino. Promove a troca de peças de vestuário usadas como roupas, calçados e acessórios. Acontece no Bar do Santa, na Vila Madalena (SP). Para mais informações, acesse: www.desapegue.com.br BBzum – é uma loja de aluguel de brinquedos. Oferece cerca de 600 produtos para aluguel diário, quinzenal ou mensal. Acesse: www. bbzum.com.br Airbnb – é um mercado comunitário para as pessoas anunciarem e reservarem acomodações em todo o mundo a preços populares. Acesse:www.airbnb.com.br

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CAPA


Marãiwatsédé Após uma batalha judicial de 17 anos, começou a desapropriação dos nãoíndios da reserva Marãiwatsédé, homologada por decreto aos Xavantes. Alguns moradores resistem em sair do local desde o dia 6 de dezembro, prazo máximo para abandonar a região, localizada no Posto da Mata, no Mato Grosso. Por: Allan Gomes e Regina Miranda

Foto: Wilson Dias\ ABr.


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Foto: Marcello Casal Jr./ ABr.

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população dos mu- na área, essa seria a maneira mais nicípios Alto Boa eficaz de evitar um conflito na reVista, Bom Jesus gião. Alguns moradores mais exaldo Araguaia e São tados ensaiam resistência ao cumFélix do Araguaia, primento da desocupação desde o no nordeste do Mato Grosso, vive dia 7 de dezembro. Mas a grande em clima de guerra desde o início maioria demonstram ser pessoas de novembro. Os policiais da For- pacíficas que apenas lutam pelo ça Nacional de Segurança Pública, direito à propriedade. Polícia Rodoviária Federal e soldaCom a chegada da data para dos do Exército Brasileiro estão na retirada dos posseiros, a batalha região para garantir as notificações judicial ganhou novos episódios e posterior desocupação da Terra na disputa, pelos 165 mil hectaIndígena Marãiwatsédé. res, que cortam os três municípios Após uma batalha pelos tribu- mato-grossenses. Desde o dia 6 de nais do Brasil, que começou em dezembro todos os ocupantes não1995, os indíos -índios da região Xavantes, ocu- “Faz 21 anos que devem abandonar pantes originais o local, caso o moda região, conse- estou nesta área, se rador não deixe a guiram, em 1998, eu sair vou perder área será utilizada a demarcação força policial. Por homologada por tudo, não tenho para conta disso, o clium decreto pre- onde ir. Então, eu ma de conflito têm sidencial e, desde se acirrado desde a então tentam re- prefiro morrer aqui” primeira semana tomar a área, pois de dezembro. As segundo as lideranças indígenas, notificações foram divididas para os índios ocupam aquele território serem distribuídas em quatro etadesde a década de 60. pas: na primeira foram notificados Em junho de 2011, o Tribunal os grandes fazendeiros, na segunda Regional Federal, em Cuiabá, sus- fase os médios produtores, depois pendeu o cumprimento da deso- os pequenos agricultores e no final cupação da terra indígena, tendo os habitantes do povoado do Posto em vista a aprovação de projeto de da Mata. lei estadual, que propôs a permuta Ainda assim, os agricultores da área pleiteada pelos Xavantes agarram-se à três alternativas que por outra dentro Parque Nacional podem impedir sua retirada do do Araguaia. Algumas lideranças local. Uma delas é a aceitação da indígenas, MPF, Advocacia Geral proposta feita pelo governo do Esda União e Funai se manifestaram tado de permuta de uma área no contrárias à permuta. Parque Estadual, localizado mais Para os agricultores que vivem a leste da área atual onde os índios

Os índios Xavantes ocupam a região do Alto da Boa Vista, São Félix do Araguaia e Bom Jesus do Araguaia, desde a década de 60.


seriam colocados para manter os produtores no mesmo lugar. O Congresso Nacional precisaria aprovar a medida. Outra saída seria anular o decreto presidencial que criou a reserva e a terceira é a reversão da decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que autorizou a desintrusão. Forças políticas de Mato Grosso, Tocantins e Goiás têm trabalhado fortemente nas duas últimas hipóteses. Mas, a população que vive na região não está de acordo com as ações da Funai. Os moradores do povoado alegam que têm títulos legítimos de propriedade rural e que a região não seria apropriada para os Xavantes. Para a vice-prefeita eleita de Alto Boa Vista, Irene Ro-

cha, a saída é levar os índios para o Parque Nacional do Araguaia. “O certo era eles irem para lá porque eles seriam mais beneficiados do que estão aqui, teriam uma vida digna, creio que eles teriam hospital, teriam tudo pra sobreviver, uma lavoura, plantar, porque assim como nós plantamos eles também sabem trabalhar, falta alguém pra dar os mecanismos pra eles sobreviverem”. Segundo Irene Rocha, o maior problema é que o assentamento do INCRA não tem estrutura para os moradores e falta inclusive estrada de acesso para o local. “Se eles ao menos tivesse um lugar a população ficaria contente. A insegurança que nós já vivemos aqui é muito grande, eu quero paz”, declara. dezembro 2012\janeiro 2013

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Fotos: Wilson Dias/ ABr.

Maraiwatsédé em disputa

A Terra Indígena Marãiwatsédé, foi vendida para a petrolífera italiana Agip, que foi obrigada a devolvê-la em 1992 14

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A Maraiwatsédé é uma reserva indígena extensa, não tanto quanto o Parque Indígena do Xingu com 2 milhões de hectares, mas cinco vezes maior que o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, por exemplo, que tem 30 mil hectares. No ano de 1980, a gleba rural, denominada de Suiá-Missú, que é a área da Terra Indígena Marãiwatsédé, foi vendida para a petrolífera italiana Agip. Em 1992, a multinacional foi pressionada a devolver a terra ao governo brasileiro durante a Eco92, no Rio de Janeiro. A Funai afirma que neste mesmo ano, a região começa a ser ocupada por não índios e que atualmente os índios ocupam uma área que representa apenas 10% do território a que têm direito. Ativistas das questões etnoambientais levaram o assunto para a Rio +20, conferência da ONU realizada no Rio de Janeiro em junho deste ano. Representantes dos Xavantes, do Judiciário Brasileiro e de ONGs ligadas ao tema debateram a situação da região em disputa: “Houve uma decisão de retirada dos Xavantes de sua terra pelo governo brasileiro durante o período da Ditadura Militar, e essa decisão foi cumprida com celeridade. Depois, o governo voltou atrás e decidiu restituir essa terra aos índios Xavantes. Essa decisão foi feita há mais de 20 anos e até hoje ainda não foi cumprida, então existem duas medidas diferentes pra mesma situação: quando se trata de defender direitos adquiridos pelos povos indígenas e quando se trata de defender interesses ecônomicos”, defendeu Marcelo Astrini, do Greenpeace Brasil, no documentário A terra não termina de Marcelo Bichara, que registrou a presença dos Xavante e sua atuação durante a conferência.


ENTREVISTA

Foto: Diego Gurgel

Vilmar Berna

Vilmar Berna recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da ONU para o Meio Ambiente em 1999

O fundador da Rébia fala sobre comunicação, MeioAmbiente e imparcialidade Por: Taynara Macedo

O

escritor Vilmar B e r n a fundou a Rede Brasileira de Informação Ambiental (Rébia) em 2003 e tem 10 livros publicados, entre eles: Como fazer educação ambiental, Criação e ação humana e O Desafio do mar. Em 1999, ganhou no Japão o Prêmio Global 500 para o Meio Ambiente, concedido pelas Organizações das Na-

ções Unidas e em 2003 ganhou o Prêmio Verde das Américas. Berna participou de várias organizações em prol da democratização da informação ambiental: UNIVERDE em São Gonçalo (RJ), Defensores da Terra no Rio de Janeiro (RJ) e há nove anos está à frente da Rébia. O escritor também é fundador e colaborador da Revista do Meio Ambiente e do Portal do Meio Ambiente, ambos vinculados a Rébia.

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Fotos: Hermínio Nunes

Brasil 21- Como surgiu a iniciativa de criar a Rede Brasileira de Informação Ambiental (Rebia)? Vilmar Berna - A Rebia surgiu de um contexto aonde percebemos que o principal problema para a sociedade de hoje é fazer a mudança entre o modelo de desenvolvimento predatório e o modelo de desenvolvimento sustentável. E para essa transição ocorrer é necessário ter informação de qualidade, que permitisse a ela fazer escolhas melhores, que a informação tivesse mais qualidade. A informação sozinha não produz necessariamente uma mudança no rumo da sustentabilidade. Uma pessoa, por exemplo, que esteja dominada por valores gananciosos, vai usar a informação, mesmo que de qualidade, para se apropriar de um recurso, para dominar melhor e controlar melhor algo que esteja em risco de acabar. Utilizando a água como exemplo, uma pessoa gananciosa pode querer se aproveitar melhor disso, quando a ideia é exatamente contrária. Você precisa 16

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trabalhar a informação e os valores. O jornalismo às vezes tem certa dificuldade em lidar com a questão dos valores, porque isso envolve a cidadania e entra numa outra área onde o jornalista questiona, o engajamento. Ele pensa: “Eu tenho que ser um jornalista, tenho que passar a informação da realidade, não tenho que ter compromisso

“Há um novo mundo acontecendo, um mundo de sustentabilidade, onde esse modelo predatório não tem mais lugar” de junto com essa informação, fazer um convencimento da sociedade de que ela tem de seguir para esse ou aquele caminho. Não considero isso um papel meu”. Já o professor começa a trabalhar mais a questão dos valores, mas é importante que o jornalista compreenda que a informação não é neutra, que o papel que ele exerce não é neutro.

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Não existe neutralidade na comunicação, dependendo da maneira como você aborda um assunto você vai fortalecer uma visão de mundo ou outra. Então o jornalista precisa estar muito atento sobre o papel social dele. A Rebia surge nesse contexto, onde trazemos o jornalista para esse debate, mas não queremos apenas o jornalista, queremos o educador ambiental, o professor e todo aquele que lida com a necessidade de cumprir uma função social, de comunicar alguma coisa no campo da sustentabilidade, para a sociedade, que não é só o jornalista, são vários outros profissionais. A Rebia não nasce como uma rede de jornalistas, mas como uma rede de pessoas comprometidas com a questão da democratização da informação ambiental, como uma estratégia para que a sociedade possa fazer escolhas melhores no rumo do desenvolvimento sustentável. B.21Entre as duas Conferências das Nações Unidas, a Eco-92 e a Rio+20, quais foram as principais


Fotos: Hermínio Nunes

mudanças na abordagem do tema? Houve avanços? V.B.- Em duas décadas nós tivemos uma mudança profunda de comportamento e de consciência das pessoas. Aconteceram alguns avanços muitos relevantes, mas a diferença entre a intenção e o gesto ainda é muito grande. Não podemos negar a existência da mudança, ela aconteceu, mas também não podemos esquecer que ela ainda não foi o suficiente para fazer a virada do modelo. Nós ainda continuamos requerendo mudanças de atitudes. As pessoas sonham em ter um mundo melhor, mais sustentável, mas as atitudes e os comportamentos não vão em direção dessa mudança. Acredito que ainda existe a necessidade de fazer a grande virada. B.21- Como o senhor se envolveu com as causas ambientais V.B.- Cada pessoa tem algo na sua vida que lhe toca o coração para ir em direção de alguma causa que ultrapassa a sua missão profissional. No meu caso, o que me moveu não foi a leitura de nenhum texto,

não foi algo que escutei, foi um momento da minha vida: aos 14 anos de idade, quando é natural que o jovem esteja querendo buscar caminhos. Eu sempre fui pacifista, era uma época da ditadura militar e então eu vivi um episódio no Rio Grande do Sul, durante uma caçada, onde os jovens estavam caçando animais e

“A pessoas sonham em ter um mundo melhor, mas as atitudes não vão em direção dessa mudança” eu estava no canto de uma tenda quando vi um ratãodo-banhado com seus filhotes assustados na minha direção, como se fosse pedindo ajuda e aquele “olhinho” olhou para mim, parecia que estava se comunicando comigo, então na mesma hora parece que ele me disse tudo. Desde então aquilo marcou o resto da minha vida, porque passei

a me dedicar para a causa ambiental, estudei, aprendi, mas aquele momento foi mágico para mim. B.21- Qual a importância para o senhor de que o jornalismo ambiental passe a ser abordado na academia? V.B.- É uma ilusão acharmos que apenas o jornalismo vai cumprir a demanda de toda a complexidade da sociedade. É uma ilusão acharmos também que o curso de graduação vai conseguir suprir todas as demandas. Talvez o jornalismo ambiental seja algo para ser estudado na pós-graduação, entretanto, na graduação as pessoas já precisam conseguir passar para o futuro profissional, que, diga-se de passagem, não só o jornalista, o engenheiro, o professor, todas as outras áreas de atuação. Há um novo mundo acontecendo, um mundo de sustentabilidade, onde esse modelo predatório não tem mais lugar, isso de uma maneira geral para qualquer profissão. Mas para se aprofundar nisso, acredito que as universidades devem tratar o tema nos programas de pós-graduação.

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ENERGIA

ONU incentiva crescimento através da economia verde

No Ano Internacional da Energia Sustentável para Todos, 43,9% da energia brasileira são resultantes de fontes renováveis como a eólica e a biomassa Por: Beatriz Aguiar

H

Foto: For Designer

á pouco mais de dois séculos, as máquinas a carvão simbolizavam a modernidade e o poder do homem na Revolução Industrial. Usado como substituto para a lenha nas máquinas a vapor, o carvão mineral se tornou a principal fonte de energia primária usada nas usinas termoelétricas para a geração de eletricidade. Para o homem moderno, o uso de combustíveis fósseis deveria significar desenvolvimento. Hoje se sabe que não é bem assim. Cerca de 2,7 bilhões de pessoas no mundo dependem de madeira, carvão, carvão vegetal ou resíduos animais para cozinhar e aquecer a residência. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), isso é uma grande barreira para a erradicação da pobreza, já que o problema da energia nos países industriali-

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zados está intimamente ligado com o desperdício e a poluição, e não ao abastecimento das cidades. Por este motivo, a ONU instituiu 2012 como o Ano Internacional da Energia Sustentável para Todos, com o objetivo de incentivar o uso da energia sustentável como fator para o crescimento econômico. A energia sustentável, diferente dos modos convencionais de produção de energia, é renovável e limpa, com pouco ou nenhum índice de emissão de CO2 (dióxido de carbono), principal causador do efeito estufa. Na categoria de fontes de energia alternativa entram os geradores de energia eólica, solar, hidroelétrica, geotérmica e outras menos conhecidas, como a energia das marés. No entanto, os índices de energia produzida de forma limpa ainda são baixos: segundo a Agência Internacional de Energia, as fontes de energia renovável são responsáveis por apenas 14% da produção energética mundial. A estimativa é que esse número alcance 17% até 2030. Do outro lado do oceano- No Brasil, o mercado de energia sustentável ainda é incipiente, mas apresenta alguns avanços. Atualmente, 43,9% da Oferta Interna de Energia (OIE) são resultantes de fontes renováveis, em comparação com a média de 6% nos países desenvolvidos. Dono da matriz energética mais limpa do mundo, o Brasil teve um aumento de 9,1% na


O estado com maior participação na produção de energia sustentável é São Paulo, com 55% das fontes limpas de 17 parques de energia renovável no estado. A novidade é o investimento na produção de energia a partir da força das marés: em Porto do Pecém, em São Gonçalo do Amarante (CE), foi construída a primeira usina do gênero na América Latina, com a produção ainda modesta de 100 quilowatts (KW), o suficiente para abastecer 60 famílias. Apesar disso, o estado com maior participação na produção de energia sustentável é São Paulo, com 55% do total produzido por fontes limpas. A vantagem vem na área de pesquisa e produção, que conta com maior infraestru-

Foto: Rahego

oferta de energia em 2010 – a que mais contribuiu foi a eólica, com um aumento de 50,5%, seguida pela biomassa, com 18,1% a mais de rendimento que no ano anterior. Desde a criação do Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), em 2002, pelo Ministério de Minas e Energia (MME), o Brasil vem apresentando consideráveis investimentos na área. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o valor das cotas para custeio do Proinfa será de R$ 2,58 bilhões em 2013; em contrapartida, o montante de energia elétrica gerado pelas 130 usinas integrantes do projeto atingirá 11 milhões de megawatts-hora (MWh). Entre os estados brasileiros, o Ceará se destaca como um dos maiores produtores de energia limpa no país. Dados da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica) atestam que o Ceará é responsável por 35% da matriz energética nacional, resultado do investimento de R$ 2 bilhões no setor, que permitiu a construção

O Ceará é um dos destaques em energia limpa no país

tura para o desenvolvimento de métodos de produção da bioenergia no Brasil. Os dados apontam que 80% da conta de luz paga pela classe média em São Paulo nos dias de hoje correspondem aos gastos com aquecimento de água. Caso metade da cidade instalasse painéis solares para gerar energia, seriam economizados R$ 8 bilhões e reduzida a emissão de 300 mil toneladas de gás carbônico no ar da cidade anualmente. Diante de tantos investimentos, o cenário é promissor para a produção de energia sustentável no Brasil. No futuro, a expectativa é que as residências aliem a produção de energia por meio de painéis solares a outras medidas para reduzir gastos e tornar as cidades mais ecológicas: melhor planejamento das casas, plantação de flores e jardins nas avenidas e parques da cidade, investimentos em telhados verdes e geração de energia eólica, entre tantas outras possibilidades para uma cidade sustentável. No futuro, quem sabe, a resposta da energia sustentável não resida na própria natureza, como se fazia antes da Revolução Industrial. dezembro 2012\janeiro 2013

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