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Introdução A Terra é um planeta de curiosos. Todo mundo gosta de saber os Desejos dos outros e, muito mais ainda, quais os seus segredos. Este é o principal argumento desta obra. Outro é não ter o que fazer no momento.


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O lugar favorito Já me perguntaram qual o meu lugar favorito neste Mundo. Ainda não havia encontrado o Espiritismo, Por isso respondi: meu lugar favorito é “indo embora”.


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Vida de escritor Quando um meu aluno perguntou se era fácil Escrever um livro, não hesitei: É só sentar de frente para o computador e abrir uma veia.


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Bom doutrinador Ainda não encontrei um bom doutrinador. Caso exista, ele deve chamar-se Emmanezes, Uma mistura da disciplina de Emmanuel Com a doçura de Bezerra de Menezes.


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Corte com vidro Uma vez, andando descalço, cortei o pé com cacos de vidro. Sabendo que todos iriam perguntar como aquilo havia acontecido, preguei em cima do chinelo um cartão com a frase: FOI CORTE COM VIDRO. Ao tomar o ônibus algumas pessoas me olharam espantadas enquanto outras sorriam. Na escola onde trabalho, o diretor ensaiou perguntar sobre o ocorrido, mas mostrei o cartão no chinelo. Ele o leu bem humorado e prosseguiu: Muito bem, mas quero saber detalhes. Então retirei do bolso um bilhete e passei às suas mãos: “Foi assim: Imprudentemente saí do apartamento sem os chinelos, com a intenção de colocar o lixo na lixeira e pisei sobre os cacos de vidro que algum abençoado deixou no chão. Voltei correndo para o apartamento, disse vários palavrões e fiz o curativo.


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Andanças A morte a tudo faz pequeno A vastidão do Saara As pirâmides de Gizé As geleiras polares De repente nada mais importa Pois a morte a tudo devora Mas quem morre aqui sempre nasce alhures E a vida a tudo torna imenso A pequenez do grão de areia A delicadeza da mostarda São milagres incontestes Pois a vida a tudo perpetua


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A nuvem A nuvenzinha suspensa no céu De arredondada foi se alongando Formou um chapéu Uma flor Um abajur Transformou-se em flocos de lã E se desfez em lágrimas azuis


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Memórias Não se escreve um livro em um dia Não se faz um filho em um ano Mas um gesto de amor atravessa os séculos Por isso minha vida tem dias de prosa, de poesia E de silêncio. Não saberia estabelecer uma ordem de valores

Entre esses três presentes que a vida me deu.


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Entrega A minha alma mudou-se para o teu corpo Perdi meu nome Esqueci meu rosto Atei ao cais os saveiros Silenciei a pena Despedi os serviรงais E gota a gota Entreguei a liberdade De ser eu mesmo.


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Cantigas A onda que beija as pedras O vento que embala as folhas Teu corpo nu As flores bebendo a chuva A estrela piscando longe Tua alma nua Cantigas sĂŁo como sonhos ImpalpĂĄveis Prefiro teu corpo nu


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Livros Minha cabeça é cheia de livros que ainda não escrevi. Espero conseguir tempo Para retirá-los de lá e ofertá-los aos amigos.


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Os urubus Quando moleque gostava de ficar deitado no chão observando urubus cruzarem o céu. Naquele tempo, havia muitos deles alegrando o azul que me cobria. Um dia, vi vários com suas batinas pretas comendo um cachorro morto. Fiquei horrorizado, mas entendi o significado da frase que minha mãe, às vezes, dizia: “a situação está mais para urubu do que para colibri”. Deixei, então de observa-los. Muito tempo depois, descobri a utilidade deles, mas já era tarde, raramente via um urubu no céu.

Espírito encarnado Certa feita, eu e meu amigo Dr. Célio Moura, fomos fazer uma palestra para as bandas de Russas. Falamos quase duas horas sobre os malefícios do aborto, em um cinema, único local da cidade disponível para aglomerações. Quando terminamos, uma senhora abordou-me e fez a seguinte indagação: queria saber se só existe Espírito encarnado ou se tem de outras cores. A mulher tinha entendido só tudo da nossa palestra.


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Oásis Se pudesse definir minha vida diria que ela Foi um grande oásis pontilhado de desertos. Apesar de adorar os oásis, meu temperamento Sempre me empurrou para o deserto, que também Tem sua beleza. Se não tivesse a força de um tuaregue pouco teria Feito na vida, ou seja, no deserto.


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Desejos Nunca tive grandes desejos. Ter o alimento e onde dormir, para mim e aqueles aos quais amo, me parece uma alegria imensa. Dinheiro, poder, fama e outras alucinações não são minhas prioridades. A minha briga mais árdua na qual dediquei grande parte da minha vida foi a socialização do conhecimento, principalmente, espírita.


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Encontros Encontrei Romélia distribuindo medicamentos Entre os hansenianos. Foi uma dupla alegria, Estar entre irmãos e ver uma linda mulher movimentando-se Qual borboleta em um jardim. Não sei onde arranjei tanta coragem, pois me dirigi a ela Com uma flor do campo na mão, fiz aquela cara de bezerro Desmamado e disse através de mil gestos que gostara dela. Foi a primeira vez que mandei beijos para alguém.


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Mordaças Muitas pessoas tentaram me colocar mordaças. Umas atravÊs de gestos delicados e outras batendo de frente com a minha teimosia. Para as primeiras me fiz de surdo; para as segundas me fiz rochedo. Hoje escuto apenas os sussurros do meu anjo guardião e algumas palavras peneiradas das conversas com os amigos.


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Estilo Escrevo daquela maneira que já ultrapassou a prosa, mas ainda não é poesia.


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Saciedade Penso que alguĂŠm saciado teria que sentir o que Sente a perereca ao encontrar a pororoca.


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SilĂŞncio Sempre gostei do silĂŞncio. Se fosse amante das palavras jamais teria sido escritor.


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Passarinho Quando fazia o curso de Engenharia na Universidade Federal do Ceará, ao passar sob uma árvore, um filhote de passarinho caiu do ninho e ficou balançando junto aos meus pés. Botei os livros no chão, tirei os surrados sapatos e quase me esborrachei tentando recolocá-lo no ninho. Esse presente que eu dei à vida jamais esqueci.


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Pressa Ando muito depressa pelas ruas. Parece que estou competindo comigo mesmo. Preciso me cuidar para não deixar para trás a minha sombra e não chegar à frente de mim mesmo.


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Silêncio Sempre tive fama de pessoa fechada. É que falo pouco e observo bastante. Aprendi isso de um velho provérbio chinês: quando as palavras valem menos que o silêncio é melhor

que se fique em silêncio.


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Telefonema errado Sempre que alguĂŠm me telefona e pergunta: de onde fala? respondo sem nenhuma vergonha: da funerĂĄria Deus te leve.


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Site Ao saber que eu era escritor um meu aluno perguntou: qual o seu Site? Diabo, diabo, diabo, ponto c達o, ponto br, respondi.


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PĂŠrolas Cada homem tem dentro de si uma pĂŠrola. Em alguns ela estĂĄ exposta; em outros, dentro de uma concha; na maioria deles sob montanhas de cascalhos.

Finados Entrei no mundo em dia de saudades. Vivo no mundo entrando em saudades. Acho que vou partir dele sem me livrar de tantas saudades.


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Pirilampos Já vi muita beleza na vida. Mas como o pirilampo luzir na mata é difícil. É algo assim como chuva em dia de sol ou lágrima que vem do riso.


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Visita a um velho amigo Quando fui visitar meu velho amigo Descartes Gadelha ele estava muito maltratado pelo c창ncer. Muito do seu corpo parecia estar apagando. Apenas o bom humor permanecia intacto como sentinela de sagrado tesouro, a vida.


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Caรงadores Somos todos caรงadores. Uns caรงam palavras; outros, sentimentos. Todos caรงam alguma coisa na grande floresta da vida.


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Prazeres O prazer de degustar uma bala começa ao desenrolar o papel.Muitos restringem o prazer a um clímax. Estar vivo deveria ser um prazer. Morrer honestamente e no tempo certo, o clímax desse prazer. Quem morre em um lugar sempre renasce Em outro.


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Rimas Apesar de cola rimar com escola, tais palavras pertencem a mundos diferentes.

Franqueza Sempre falei abertamente o que pensava e jamais pensei fechadamente o que falava.


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A concha Cada vez mais me desinteresso por coisas materiais. A ciência, a filosofia, a religião e a arte são minhas canoas preferidas neste grande mar. O mundo me parece velho demais para a juventude que meu Espírito vai adquirindo. Estou criando concha como o caracol.


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Representações Quem me conhece um pouco sabe que não tolero essa coisa de representar o que não sou, em cada lugar que freqüento. Algumas pessoas, encarnam o Kid Gabolice, outras o Kid Sabedoria, terceiras, O Kid Santo. Com elas sou o Kid Abo. Sou chato com todo mundo, ou seja, sempre tive coragem de dizer o que penso em qualquer lugar.


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Medo Sinto saudade do tempo em que não tinha medo de nada. Andava descalço, entrava em lagoa poluída, subia em Coqueiros e até puxei o rabo de uma onça quando Fui visitar um circo. Hoje tenho medo que meus filhos e netos venham a Sofrer; que as dores me obriguem a parar de escrever; Que o amor que sinto por determinadas pessoas se Transforme em algemas na hora de ir embora. Ninguém cresce sem medo. Essa é a verdade.


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A morte A morte nunca me impressionou. Sempre a tratei com intimidade e naturalidade. A vida, esta sim, fez de mim um forasteiro, um amante da solid達o; um desafinado com o pensamento dos meus irm達os.


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Edifícios Jamais encontrei edifício algum, por mais diminuto e singelo, destinado a abrigar o amor, que não tivesse a Argamassa da renúncia e do sacrifício.

Pureza Por mais que tenha observado homens e fatos, nunca Identifiquei em um gesto de amor, qualquer traço de egoísmo.


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Intimidade Algumas pessoas podem atĂŠ pensar que sou ligado ao dinheiro. Um bom livro, um bom filme, uma boa mĂşsica, talvez. Dinheiro sempre foi um detalhe


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Cartão de crédito Estava cansado quando uma jovem perguntou-me Do outro lado da linha se não estava interessado Em um cartão de crédito. Já tenho um internacional, disse-lhe um pouco Aborrecido. - O senhor poderia dizer o nome do seu cartão? Las cardes, respondi de imediato.


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Medidas A vida está repleta de pérolas, mas alguns Homens têm os braços curtos demais.


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Bons escritores Como são difíceis bons escritores! Escolhe-se um texto feliz de um, Uma frase brilhante de outro, nos desperta uma emoção um terceiro, uma Frase que guardamos na memória, mas em síntese, tudo é fragmento.


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Traquinagem Mesmo com todas as desesperanรงas a espreitar-me a cada Esquina, o menino que teima em morar em mim ainda persiste.


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O vento O vento vinha ventando alucinado, incomodando as folhas e os Pequenos gr達os de areia. Ao encontrar a fresta da minha janela Se espremeu, assobiou e entrou uivando como um fantasma. Tudo isso apenas para beijar meu rosto.


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Solidão A solidão das planícies, das savanas, das estepes ou dos oceanos Nunca me maltratou. Nem mesmo a solidão dos desertos cálidos ou Gelados me afeta. O que me constrange é a solidão a dois, a três, a Mil, adotada por boa parte da humanidade terrena.


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Paródias O sapo, o urubu, o morcego, Alguém precisa amá-los. Pois se amarem apenas ao que parece belo Que mérito terão?


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A pluma A pluma vinha volitando dos confins do azul. Lá de onde o sol separa os cílios. Passou zombeteira pela minha janela Olhou o desalinho dentro do apartamento E como não tinha nenhuma criança à espera Saiu dançando rumo à pestana da lua.


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O palhaço O velho palhaço subiu no picadeiro com um enorme saco de Algodão cheio de macaquices. Deu uma flor para a Lívia Um sorriso para o Neo Uma pirueta para minhas netas Escorregou em uma lágrima e caiu de pernas para o ar Depois imitou um coxo Fingiu-se de médico Disse que falava com Deus E quase fez uma criança saltar da cadeira de rodas Quando desceu do picadeiro Foi que a vida voltou a fechar as mandíbulas.


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O cata-vento Ele pega qualquer vento Seja fraco, seja forte Venha do sul, caia do norte S贸 n茫o pega O vento frio da morte


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Beatriz Beatriz era qual falcão peregrino Gostava de viajar, caçar, planar nas alturas Mas quando a vida mostrava a conta Seu destino era o meu ninho


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Testamento Para que fazer testamento se o que tenho de Mais valioso nĂŁo posso deixar para ninguĂŠm?


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Cachorro de criança Bala era uma cadela de dentes afiados De ouvidos afinados De nariz afilado E rosto afogueado Para muitos, endiabrada Bala não corria, voava Não latia, uivava Ante pedradas, bailava Se me via triste, chorava Para mim, angelical


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O tempo O tempo, com sua fome voraz Desgasta todas as pedras Das catedrais. Deixa os telhados limosos Os corpos velhos, nodosos, Com espirais. O tempo come toda mentira Puxa, encolhe, estira No seu leva e traz. Vomita qualquer ofensa E ao mostrar que o amor compensa Se satisfaz.


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O bebê O bebê chorou baixinho Depois meteu-se no linho Todo cheiroso a lavanda. Mamou, mamou e feliz Sonhou com anjos de giz Cantando numa ciranda.

Para Luã


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O menino Jesus Um dia o menino Jesus fugiu de casa para ver um trigal Quando voltou tinha os pés pretos As unhas com areia Os bolsos com pedrinhas E um grande brilho nos olhos. Maria, sua mãe levou-o para uma fonte Tirou o preto dos seus pés A areia das suas unhas As pedras do seu bolso Mas, por mais lavasse seu rosto, não consegui tirar O imenso brilho dos seus olhos


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Antíteses A verdade é lago de águas claras Mas, para atingi-lo Quantos cortes na pele Quantas feridas na alma Quanta construção e nascimento A mentira é poço lodoso E para tingi-lo Quantas peles no corte Quantas almas na ferida Quanta destruição e enterros.


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Aconchego Chegaste com teu branco de alabastro A inquietar-me a negritude nua E te julguei no apogeu um astro E a mim um verme que da luz recua Mas veio a enchente e eu tinha um mastro Precisaste romper e eu tinha a pua Quiseste navegar, não tinhas lastro Só inventaste a palavra, tua. E embevecido por teus lindos seios Te dei mastro, pua, lastro, meios De evitar o travo da amargura E qual menino que não vê receios Deixei jorrar o amor, dos veios Que no peito abri para escoar ternura.


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A poesia A poesia olhou a rudeza da vida Com suas m達os calosas e sua alma curva Encerrara ent達o a sua busca Encontrara sua pr坦pria m達e.


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OpiniĂľes Se para o morto a morte chega rigorosamente na hora incerta Para a morte o morto jĂĄ vai tarde.


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Investimentos Eu n茫o miro em causas transit贸rias Nem invisto em dramas permanentes Gosto da perenidade da paz.


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Arcanjos Não sou aquele que atira pedra Nem o parvo que aceita tudo Sou canteiro onde a virtude medra Na injustiça um cacto pontiagudo Sou daqueles que empunham a lança E nem a fogo o caminhar recua A queda é rara nessa minha dança Meu levantar é que se perpetua Mas sou doce e meigo como arcanjo De rosto cheio, cachos, riso, banjo


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E olhos fixos no meu salvador Só que na hora da fuzarca feita Que apresse o passo quem me fez desfeita Se não quiser provar do meu relhador.

Máscaras Qual das máscaras que utilizo tanto Sobreviverá aos meus vendavais? Será a do meu grande espanto Frente às leis universais? E quantas inda desfarei em pranto E sobre restos a gritar jamais Sairei do susto para o desencanto De fabricar gestos teatrais? E com que cara enfrentarei a vida Se o rosto nu é tudo que ela pede Para cobrir a chaga em brancos véus?


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E qual ungüento porei na ferida Que de alçar vôo minha alma impede De atingir a imensidão dos céus?

Rudeza Se a caridade é da virtude o ápice E o orgulho dos defeitos clímax Não há como encontrar rimas Para um contraponto nessa melodia


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Firmeza

Quando chegar o dia em que estiver cansado De esperar pela flor do grão fecundo Do imenso amor que tenho buscado Mas que não coube em mim de tão profundo E revendo guerras que tenho travado Que me tornaram quase um moribundo Queira o espírito a este corpo atado Se evadir deste tão vasto mundo Que entenda a vida por corrente forte


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Que não se quebra com oração ou ira Mas por decreto que a lei edita Não adianta antecipar a morte A mão de Deus é que o ponteiro gira E bem tolo é quem se precipita

Acalantos Para cumprir do amor o zelo, a jura Subi montanhas, caminhei em brasas Escavei na rocha muitas covas rasas E me deitei descrente de uma cura Mas retirou-me o amor, da sepultura E preparou-me um leito como em casa Abriga a mãe o filho sob a asa Pedindo ao céu sua paz em prece pura E meus pedaços foi unindo calma Desfez a funda cicatriz da alma


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Que a dor deixara como tatuagem E com ungüentos, cantos, poesia Do meu escuro fez um meio dia Tornou real o que era miragem.

CORAÇÃO CIGANO

Coração cigano é tenda aconchegante De visgo e mel difíceis de esquecer Se abre as portas para o seu amante Põe nele amarras de puro prazer E nesse espaço tão desconcertante Que analfabeto quase chega a ler Um paralítico pode ser dançante Coração duro chega a derreter Quando a cigana solta seus cabelos E mostra aos poucos seus macios pelos Até profeta quer fugir confuso E se tira a roupa no clarão da lua


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Coisa mais bela que uma cigana nua e Deus já fez guardou para seu uso.

Para Romélia Dolores

A Música A música foi penetrando meu coração Como um sabre cortando a injustiça E foi destruindo gelo, correntes e grades Os sons, quais enormes aríetes Destroçaram montanhas de indiferença Os acordes trouxeram o vento rodopiante dos desertos E fizeram jorrar cascatas, lavar o lodo petrificado A música, com seus buris e cremalheiras


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Foi arrasando tudo que era indigno de construção E quando silenciou a última nota. Eu estava alado, construindo um castelo sem fosso

A Simplicidade Meu Espírito estava reclinado sobre a fonte E viu seu próprio rosto na água Estava feliz Havia encontrado uma semente de trigo E a levava para o vale da sombra.


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A vida Grande, enorme, infinito Terra, mundo, galรกxia Verme, homem, anjo Nascer, morrer, renascer Grande, descomunal, inimaginรกvel ร‰ a vida.


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Manhãs de abril Que me trará as manhãs de abril Além do sol, do vento e dos perfumes?

Em que bordado tece Deus o linho da minha vida? Que me reserva a natureza para estas manhãs? Pessegueiros, cardeiros, crisântemos, acúleos? Lágrimas, risos, suor, sangue?


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Que planejam os homens para macular as manhãs? Que comentam os anjos para salva-las? Vida! Interminável vida! Cuida para que a sombra da morte não escureça Nossas manhãs.

O lugar mais lindo O lugar mais lindo deste planeta não é o Tibet, os Alpes ou as montanhas da Áustria. Não é onde a neve cresce, o sol se esconde ou o vento adormece. Não é, tampouco, onde as macieiras lançam seus aromas no campo, a alfazema perfuma as manhãs ou o trigo faz ondas de ouro acalentado pela brisa. Não é onde o mar azul quebra na praia de areia branca, os passarinhos fazem seus ninhos em segurança nem onde as borboletas voam ou as cigarras cantam para alegrar a natureza. O lugar mais lindo deste planeta não é o ar colorido pelo arcoíris, onde as vozes só falam poesia e as mãos só encenam e praticam gestos de amor. Cachoeiras, rios, flores, chuvas, luas, cerejas, seja o que for não é o lugar mais belo deste planeta. Pois este lugar calmo, doce, perfumado, acolhedor, único em todas as minhas vidas é o colo da mulher amada.


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Decreto Por que será que os homens criam tantas palavras inócuas? Será a lâmina fria, o explosivo, a asfixia, a fome, a sede ou qualquer método imaginário ou real, capaz de provocar a morte? Louco é o que persegue o inexistente Tolo é o que acredita no irreal Deus é o autor da vida e não iria contradizer-se criando a morte Ninguém jamais enfrentou a morte Apenas lutava pela vida

Portanto, fica decretado a partir de agora que onde existir a palavra morte Leia-se mudança, viagem, migração, transformação ou alguma outra Com cheiro de eternidade E revoguem-se todas as disposições em contrário.


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Lições da mediunidade

Não tenha pressa. Antes de correr, aprenda o significado da palavra infinito E saiba que imortal é um dos seus títulos. Observe onde faz suas construções. Sinta se o terreno é pantanoso ou rocha firme Analise o que chama de amor É filho do interesse, da posse, da vaidade? Liberta ou aprisiona? Em que sentido caminha a sua fé? Ao encontro da razão ou do fanatismo? Não cultive obsessões por saltos olímpicos


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Passos lentos, mas seguros, possibilitam melhor visão nos detalhes da estrada. Como tem tratado a poesia das manhãs? Registra os versos nos poros ou os deixa escapar entre os dedos? Tem se lembrado de conversar com Deus, com os amigos que já se foram ou apenas come, deita e adoece? O que leva na mochila que a faz tão pesada? Pelo que aprendemos o amor, o perdão, a esperança são imponderáveis. Meu velho amigo, escutei dos Espíritos do Senhor que a vida é simples: Tratar com justiça a todos, a natureza, descobrir o prazer de servir Não menosprezar os fracos, não hostilizar os fortes, não aparentar o que não é. Buscar a sabedoria, não para fechá-la em cofres, mas para espalhá-la nas estradas Como o vento faz com os aromas silvestres. Trabalhar, amar, servir, disciplinadamente sem jamais cansar. Essa é a lição que a mediunidade, pacientemente tenta nos fazer seguir: Que eu

Jamais pense em deixar de ser útil, pois o único lugar aonde o sucesso vem antes do trabalho é o dicionário.


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A obsessão que queremos Aprender a amar a vida, de tal modo e constantemente, Que jamais pensemos no mal, a não ser para Auxiliá-lo a tornar-se amor. Construir o edifício da justiça, forte e eterno, Para nos orgulharmos da condição humana e ofertarmos paz a quem nos visite. Desejar desesperadamente que o amor Unido ao conhecimento, administre todos os atos, Não permitindo sequer que um vento mais forte Expulse do galho um ninho de pardais. Queremos a fascinação da caridade, Subjugação da fé raciocinada A doutrinação suave e mansa de Jesus. Queremos por obsessores que nos alerte A oração, a vigilância, a tolerância, sem, contudo, Abdicarmos do nosso senso crítico. E quando tivermos severamente obsidiados Que não nos doutrinem, mas caso o façam Que aconselhem apenas perseverança. Nesse dia, espero ter aprendido a voar. Gostaria de olhar da nuvem mais alta O brilho feliz de cada olho humano.


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Fragmento de biografia Nasci na terra tórrida do Ceará Caminhando de viés sob as dificuldades Já próximo à fronteira do cansaço Ao avistar a estrela da manhã Matriculei-me na escola da esperança Para um curso de vida inteira.

Só depois me disseram que aquela estrela se chamava Espiritismo.


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O sapo guloso O sapo comeu tanto grilo Que sua barriga virou uma orquestra N茫o satisfeito pediu mais um quilo E a cigarra, da sinf么nica mestra Depois rotundo bufou partituras Acabrunhado de si sentiu d贸 Cambaleou e com as pernas duras Se despediu do seu cafund贸


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Biografia de um político Se olharem bem esta peluda mão Verão que é de um rato bem criado A prova autêntica é meu coração De roedor, por certo transplantado Se à minha prática derem atenção Verão o oposto do que foi falado Para um hipócrita, havendo eleição Elevo a taça, sou ovacionado Ao que me elegeu fiz de idiota A todos jurei ser bom patriota É minha vida um eterno blefe Mas se o imbecil o voto regateia Merece mesmo é viver na peia Até que aprenda a escolher um chefe.


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_|uxÜwtwx Quem qualquer coisa quer reter Que esteja pronto, pois perder É tudo que conseguirá É libertando que se prende É dando tudo que se entende Que se reterá Quem a liberdade quer viver Deve prender-se ao desprender Para as algemas quebrar O imã maior da existência É o amor sem exigência É o que vale a pena guardar.


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Saudades Sinto saudade quando estou contigo Levo saudade quando me ausento Sentir saudade, esse é meu castigo Sentir saudade a qualquer momento Qualquer caminho, se tu vais, eu sigo Tanta saudade já não agüento A tua ausência é para mim perigo Um mau presságio a infligir tormento Como curar essa doença estranha Que combatida tanto mais se entranha Cortando a carne como adaga fria? Como matar esse desejo insano De ter saudade que cabe em um ano Em um segundo em tua companhia?


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A verdade A verdade não é ligeira Não se entrega por inteira Em uma vida somente É preciso que haja guerras Andanças por muitas terras Para encontrar sua semente É preciso um olhar atento Muito riso e sofrimento A espera que ela aflore Se o orgulho ela pressente Jamais se fará presente Mesmo que alguém implore


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A menina e o espelho Diante do seu espelho A menina empacou Olhou para seus seios Empinou os quadris Encolheu a barriga Camuflou uma espinha Encontrou alguns pelos E sorriu feliz. Depois se pintou Vestiu um sutiã Ficou na ponta dos pés Procurou estrias Inventou gordurinhas Beijou a si mesma E saiu convicta de que era Ir-re-sis-tí-vel.


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APELOS DO TEMPO Quem quer mesmo a verdade absoluta Sem quedar-se aos séculos para vê-la pronta, Muitos zeros receberá na conta Que o tempo faz para cedê-la em luta. Quem a verdade tem como impoluta E a guarda em frases que a razão afronta, Reconhecerá após a cova pronta O quanto foi vã sua disputa O imponderável, o absoluto, o definitivo, O que de tão belo faz cativo Só os milênios cederão um dia Busca no hoje o que te faça altivo No teu suor um grão de lenitivo Pois a verdade agora te espedaçaria.


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Caudal Primeiro foi o olho que brilhou tremeluzente E o rosto que se encheu de dor profunda Depois, com a esperança moribunda Cobriu-se o mundo em lâmina transparente E a garganta estreitou como se um laço Roubasse o ar restante que a movesse E de repente, sepultado o interesse O peito desejou da morte breve abraço E o dique que prendia as agonias Rompeu de vez, levando as águas frias As palavras vãs e o sonho já sem cor E o caudal que sufocava a alma Foi gota a gota desenhando a calma Usando a tinta do já morto amor


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A nação ovelha A ovelha aproximou-se do palácio em festa Avistou o lobo voraz, viu sua gula Humildemente ajoelhou-se e disse: Ó Lula Deixa-me ir com o sangue que me resta E o lobo com seu ar de protetor Taxou-lhe impostos, lhe fez sangrias E junto aos lobos de outras confrarias Com a lã da ovelha fez um cobertor


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Desertos Quantos sonhos construí na vida E quantos a vida destruiu sem dó Se o mundo é grande, maior é a ferida De quem o tempo a tudo reduziu a pó O mundo é caos, o monstro da esquina Devora a esperança dos mais crentes Se existe lei é a de sofrer a sina De pertencer à procissão dos indigentes Por isso há dias em que nos fechamos Cerramos lábios, corações e mentes E rechaçamos tudo com nossa revolta E mesmo àqueles que um dia amamos Trancamos portas por sermos descrentes Que no amor possa existir uma volta espinhos

Breves são os dias de encanto


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Efêmeros os momentos de paz Longo é o drama, o pranto O que nos cerca é voraz Profunda é a fisgada no peito Fugaz o cantar de algum hino De espinhos é a colcha do leito O que nos cerca é divino

Espera As pedras Não se formam lisas É o atrito O rolamento O tempo Que as tornam delicadas Os homens Não nascem gentis É a queda A dor O tempo Que os tornam gentis


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Charme Esses meus defeitos são o meu charme E o nó na garganta dos falsos deuses Essa resistência ao tacape inimigo Essa gozação na adversidade Essa teimosia em não se ajoelhar Tornaram-me lenda entre a ralé Como se enervam os donos da verdade Como se exasperam os falsos moralistas Como se sentem incomodados os tolos Diante desse charme


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Escolas Falta às escolas da minha terra a metade da vida. O verbo frio Equações certeiras Meandros de serras e de corpos lá estão. Mas falta o imponderável O espírito Para dançar sobre as infinitas possibilidades De utilização do que é ensinado.

Essências O poema que não fiz vive a perseguir-me Assim como outros fantasmas do passado A roseira que não reguei A guerra que perdi A lua cheia que escondi Talvez ainda haja tempo de me vestir de índio E fazer um quarup no quintal.


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CONFISSÕES E DESEJOS  

LINAS POESIAS

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