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Table of Contents Folha de Rosto Querida leitora Expediente Sobre a autora Agradecimentos Prologo Capitulo I Capitulo II Capitulo III Capitulo IV Capitulo V Capitulo VI Capitulo VII Capitulo VIII Capitulo IX Capitulo X Capitulo XI Capitulo XII Capitulo XIII Capitulo XIV Capitulo XV Capitulo XVI Capitulo XVII Capitulo XVIII Capitulo XIX Capitulo XX Capitulo XXI Capitulo XXII Capitulo XXIII Capitulo XXIV Capitulo XXV Capitulo XXVI Capitulo XXVII Capitulo XXVIII Capitulo XXIX Capitulo XXX Capitulo XXXI Capitulo XXXII Epilogo Proximos lancamentos


Mary Jo Putney

O Conde Cigano Tradução Vania Canto Buchala


Querida leitora, A vida de Clare, filha de um pastor metodista, sofre uma reviravolta quando ela decide pedir ajuda a Nicholas Davies, um conde de descendência cigana. Em troca por sua interferência para salvar o vilarejo onde Clare mora, o conde impõe a condição de que ela viva três meses com ele, o que sem dúvida arruinará para sempre a reputação da recatada professorinha. Mas nenhum dos dois estava preparado para as surpresas e perigos que os aguardavam... Você vai viver emoções indescritíveis com a leitura deste romance sensacional de Mary Jo Putney! Leonice Pomponio Editora


Copyright ©2011 by Mary Jo Putney PUBLICADO SOB ACORDO COM MARY JO PUTNEY Todos os direitos reservados. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. As publicações da Editora Nova Cultural não podem ser reproduzidas, total ou parcialmente, seja qual for o meio, mecânico ou eletrônico (inclusive digitalização), sem a permissão expressa da Editora. A reprodução das publicações sem a devida autorização da Editora constitui crime de violação de direito autoral previsto no Código Penal brasileiro. TÍTULO ORIGINAL: THUNDER AND ROSES EDITORA Leonice Pomponio ASSISTENTE EDITORIAL Patricia Chaves EDIÇÃO/TEXTO Tradução: Vania Canto Buchala CAPA E DIAGRAMAÇÃO Mônica Maldonado ISBN 978-85-13-01441-7

© 2011 Editora Nova Cultural Ltda. Rua Texas, 111 – sala 20ª – Jd. Rancho Alegre – Santana do Parnaíba São Paulo – SP — CEP 06515-200 www.romancesnovacultural.com.br


Sobre a Autora Mary Jo Putney nasceu e foi criada em Nova York, nos Estados Unidos. Ela estudou na Syracuse University, onde se formou em Literatura Inglesa e Desenho Industrial. Trabalhou como editora de arte na revista The New Internationalist, em Londres, e como designer na Califórnia, EUA, antes de se estabelecer em Baltimore, Maryland, em 1980, quando começou a trabalhar como autônoma em desenho gráfico. Depois de comprar seu primeiro computador, Mary Jo percebeu que seria muito fácil começar a escrever. Seu primeiro livro, um romance da Regência, vendeu em uma semana. A editora americana Signet gostou tanto do livro que ofereceu a ela um contrato para escrever mais três. Os livros de Mary Jo Putney figuram nas listas de mais vendidos do New York Times, USA Today e Publishers Weekly. A maior parte de suas obras são romances históricos, embora ela tenha escrito também três romances contemporâneos. As histórias de Mary Jo têm a característica de abordar assuntos incomuns, incluindo alcoolismo, morte e abuso doméstico. Ela já ganhou duas vezes o prêmio RITA, da Associação de Escritores da América, e foi finalista nove vezes. Também ganhou duas vezes o prêmio Êxito de Carreira da revista Romantic Times e quatro vezes o prêmio Folha de Ouro. Mary Jo mora em Baltimore com seus gatos. Ela não é casada. Visite-a no site: http://www.maryjoputney.com e no Facebook, e acompanhe novidades exclusivas no blog www.wordwenches.com.


Agradecimentos Para Marianne e Karen, minhas queridas!


Prólogo

País de Gales, 1791 A neblina típica do inverno preenchia o ar enquanto eles escalavam o muro que cercava a propriedade. A paisagem lúgubre não apresentava sinais de vida, e ninguém viu quando intrusos pularam a muralha e abriram caminho através das terras bem-cuidadas. — Vamos roubar um frango aqui, mãe? — Nikki perguntou baixinho. Marta negou com um gesto de cabeça. — Temos coisas mais importantes para fazer do que roubar galinhas. O esforço para falar desencadeou uma crise de tosse, e ela se agachou, o corpo magro tremendo. Inquieto e angustiado, Nikki tocou-lhe o braço. Dormir sob arbustos estava piorando sua tosse, e havia poucos alimentos. Tomara que pudessem voltar logo para o acampamento cigano, onde haveria comida, fogo e companhia. Marta se endireitou, o rosto pálido, porém determinado, e eles continuaram a andar. A única cor na cena invernal era o roxo berrante de sua saia. Por fim, emergiram das árvores para uma faixa gramada que rodeava uma gigantesca mansão de pedra. — Mora algum lorde aqui? — Nikki indagou, impressionado. — Sim. Olhe bem, pois isto um dia será seu. Ele obedeceu, sentindo um estranho misto de emoções: surpresa, agitação, dúvida e, por fim, desdém. — Os roms não vivem em casas de pedra que escondem o céu. — Mas você é didikois, mestiço. É normal que viva em um lugar assim. — Não! — Chocado, ele se virou para encará-la. — Eu sou tacho rat, puro-sangue, não gorgio!


— Seu sangue vem tanto dos roms como dos gorgios. — Marta suspirou, o belo rosto abatido. — Embora tenha sido criado como um rom, seu futuro está com os gorgios. Nikki começou a protestar, porém a mãe o silenciou com um movimento rápido da mão ao ouvir o som de cascos de cavalos. Esconderam-se atrás dos arbustos e viram dois cavaleiros galopando pela estrada e parando diante da casa. O homem mais alto desmontou e subiu depressa os largos degraus de pedra, deixando a montaria aos cuidados de seu companheiro. — Belos cavalos — Nikki sussurrou com uma ponta de inveja. — Esse deve ser o conde de Aberdare — Marta murmurou. — É exatamente como Kenrick me disse. Esperaram que o homem alto entrasse e que o cavalariço tivesse levado os cavalos para longe. Em seguida, Marta acenou para Nikki, e eles correram pelo gramado, subindo os degraus. A aldrava de bronze tinha o formato de um dragão, e ele teria gostado de batê-la, mas era alta demais para que a alcançasse. Em vez de bater, contudo, sua mãe tentou a maçaneta, que girou com facilidade. Entrou, e Nikki seguiu logo atrás. Seus olhos se arregalaram quando se viu em um salão com piso de mármore, grande o suficiente para abrigar uma Sociedade Cigana inteira. A única pessoa por perto usava o uniforme elaborado de um lacaio. Com uma expressão chocada no rosto comprido, o homem engasgou. — Ciganos! — Correu para um sino e o tocou para dar o alarme. — Saiam imediatamente! Se não estiverem fora da propriedade em cinco minutos, serão entregues às autoridades! Marta segurou a mão de Nikki. — Estamos aqui para ver o conde. Tenho algo que pertence a ele. — Algo que roubou? — zombou o lacaio. — Nunca esteve perto de Sua Graça o suficiente para tanto... Fora daqui! — Não! Preciso vê-lo!


— De jeito nenhum! — o homem rosnou enquanto avançava. Marta esperou até que ele estivesse bem perto, e então disparou por uma passagem lateral. Praguejando, o criado deu uma guinada, tentando agarrar os intrusos, ao mesmo tempo que mais três empregados apareciam, atraídos pelo sino. Com um olhar feroz na direção dos homens, Marta sibilou uma ameaça: — Preciso ver o conde! Minha maldição recairá sobre qualquer um que tentar me impedir! Eles estacaram, e Nikki quase riu diante de suas expressões. Embora fosse mulher, Marta enganava e assustava os gorgios sem qualquer problema. Tinha orgulho dela. Quem, a não ser um rom poderia exercer tal poder com meras palavras? A mão da mãe apertou a sua, e ambos seguiram mais para o fundo da casa. Antes que os criados pudessem rechaçar seu medo, uma voz profunda ecoou: — Que diabo está acontecendo?! — Alto e arrogante, o conde adentrou o saguão. — Ciganos! — exclamou com expressão de repugnância. — Quem permitiu que essas criaturas imundas entrassem aqui? — Eu trouxe o seu neto, lorde Aberdare — Marta falou sem preâmbulos. — Filho de Kenrick, e o único neto que terá na vida. O recinto mergulhou no silêncio enquanto o olhar chocado do conde se desviava para Nikki. — Se duvida de mim... — Marta recomeçou. Após um momento tenso, o homem finalmente se manifestou. — Não. Acredito, mesmo, que esse pirralho revoltante seja de Kenrick. Sua ascendência é visível. — O conde lançou a Marta o olhar guloso que os gorgios costumavam dirigir às mulheres roms. — É fácil perceber por que meu filho foi para a cama com você, mas um


bastardo cigano não me interessa. — Meu filho não é bastardo. — Marta procurou dentro do corpete e tirou dois papéis dobrados e imundos. — Como os gorgios atribuem grande importância a papéis, eu mantive as provas comigo: a certidão do meu casamento e o registro de nascimento de Nikki. Lorde Aberdare olhou sem muita paciência para as folhas, em seguida enrijeceu. — Meu filho se casou com você? — Sim — confirmou ela, orgulhosa. — Em uma igreja gorgio, mas também nos moldes dos roms. E deveria estar feliz que ele o tenha feito, senhor, pois agora tem um herdeiro. Com seus outros filhos mortos, não terá nenhum outro. — Muito bem — rosnou o conde com uma expressão selvagem. — Quanto quer por ele? Cinquenta libras está bom? Por um instante, Nikki viu a raiva nos olhos da mãe. Então sua expressão mudou, transformada em astúcia. — Cem guinéus de ouro. O lorde tirou uma chave do bolso do colete e a entregou ao criado mais antigo. — Apanhe no meu cofre. Nikki riu alto. — Esse foi seu melhor plano, mãe! — falou em romani. — Não apenas convenceu esse gorgio velho e estúpido de que sou mesmo do seu sangue, mas também a lhe dar ouro! Vamos nos esbaldar o ano inteiro! Quando eu escapar esta noite, onde deverei encontrá-la? Que tal no velho carvalho que costumávamos usar para pular o muro? Marta balançou a cabeça e respondeu na mesma língua: — Não deve fugir, Nikki. O gorgio é realmente seu avô, e esta agora é a sua casa. — Ela correu os dedos pelo cabelo do filho. Por um momento, Nikki pensou que ela iria dizer mais alguma coisa, pois não era possível que estivesse falando a verdade. O criado voltou e entregou a Marta uma bolsa de couro que


tilintava. Após avaliar habilmente seu conteúdo, ela levantou a saia superior e guardou-a em um bolso interno. Nikki ficou chocado com a atitude da mãe. Aqueles gorgios sabiam que ela os havia contaminado, tornando-os marhime, impuros, ao levantar a saia em sua presença? Eles pareceram ignorar o insulto, no entanto. Marta lançou-lhe um último olhar, depois voltou a se concentrar no conde quase com selvageria. — Trate-o bem, senhor, ou minha maldição irá segui-lo até o túmulo. Quero morrer esta noite se eu não estiver falando a verdade. Virou-se, então, e se afastou pelo chão polido, as várias camadas de saias se agitando. Um empregado lhe abriu a porta. Inclinando a cabeça como uma princesa, ela saiu. Dominado por um súbito horror, Nikki percebeu que a mãe falara a sério. Tinha realmente a intenção de deixá-lo com os gorgios! Correu atrás dela, gritando. — Mamãe! Antes que pudesse alcançá-la, porém, a porta se fechou em seu rosto, prendendo-o na casa que escondia o céu. Conforme segurou a maçaneta, um lacaio o agarrou pela cintura. Nikki o chutou nas pernas e arranhou seu pálido rosto gorgio. O criado gritou de dor, e outro correu para ajudá-lo. — Eu sou rom! — Nikki gritou, agitando pés e punhos. — Não vou ficar neste lugar horroroso! O conde franziu o cenho, revoltado com a exibição. Tal comportamento deveria ser restringido, assim como todos os outros vestígios do sangue cigano daquele infeliz. Kenrick também era violento e mimado pela mãe, lembrou-se com um suspiro. E fora a notícia da morte de Kenrick que a levara à apoplexia, a qual, por sua vez, transformara a condessa na morta-viva que era agora. — Levem o menino para o quarto de crianças e limpem-no —


ordenou, áspero. — Queimem esses trapos e encontrem para ele algo mais adequado. Foram necessários dois homens para dominar o garoto. Nikki ainda gemia, chamando pela mãe, quando estes o carregaram se debatendo escada acima. Com uma máscara de amargura no rosto, o conde olhou novamente para os documentos, os quais provavam que o menino de pele escura era seu único descendente vivo. Kenrick Nicholas Davies, de acordo com o registro de nascimento. Era impossível duvidar de sua linhagem. Se o garoto não fosse tão moreno, poderia ter sido Kenrick na mesma idade. Mas, meu Deus, um cigano! Um cigano de pele morena, aparência estrangeira e olhos escuros. Sete anos, e tão afeito a mentiras e roubos quanto avesso à vida civilizada. No entanto, aquela criatura suja e maltrapilha era o herdeiro de Aberdare... E pensar que ele tinha rezado desesperadamente por um sucessor, sem imaginar que suas preces pudessem ser respondidas daquela forma! Mesmo que sua inválida condessa morresse e o deixasse livre para se casar, os filhos de uma segunda esposa seriam suplantados por aquele ciganinho. Enquanto pensava, seus dedos se fecharam sobre os papéis. Talvez, se ele conseguisse se casar outra vez e ter mais filhos, algo pudesse ser feito. Enquanto isso, porém, precisava fazer o melhor com o menino. O reverendo Morgan, pastor metodista do vilarejo, poderia lhe ensinar leitura, boas maneiras e outros princípios necessários a Nicholas antes que fosse enviado para uma escola adequada. Virou-se e entrou em seu gabinete, batendo a porta para abafar os gritos angustiados que ainda ecoavam tristemente pelos corredores de Aberdare.


Capítulo I

País de Gales, Março de 1814 Chamavam-no de o “Conde Cigano” e, às vezes, de “Velho Nick”, como na lenda. À boca pequena, dizia-se que havia seduzido a jovem esposa do avô, partido o coração deste e, no fim, levado a própria esposa para o túmulo. Contavam também que era capaz de qualquer coisa. Apenas esta última afirmação interessou a Clare Morgan, conforme seu olhar seguia o homem que galopava em seu cavalo pelo vale, como se todo o fogo do inferno o perseguisse. Nicholas Davies, o Conde Cigano de Aberdare, finalmente tinha chegado em casa após quatro longos anos. Talvez fosse permanecer ali, mas era possível que partisse de novo na manhã seguinte. Por isso ela precisava agir depressa. Demorou-se um pouco mais, no entanto, sabendo que ele nunca a veria em meio às árvores de onde o espionava. O conde montava seu garanhão em pelo, exibindo sua habilidade com o animal, e estava vestido de preto, com exceção do lenço vermelho amarrado no pescoço. Mas estava longe demais para que ela visse seu rosto. Clare se perguntou se ele havia mudado, em seguida decidiu que a verdadeira questão não era “se”, mas “quanto”. Fosse qual fosse a verdade por trás dos acontecimentos violentos que o tinham levado para longe, estes deviam ter sido devastadores. Será que se lembrava dela? Provavelmente não. Ele só a vira umas poucas vezes, e ela não passava de uma criança naquele tempo. Chamado de visconde Tregar na época, era quatro anos mais velho que ela, e crianças mais velhas nunca prestavam muita atenção às mais novas. Já o contrário não era verdade. Enquanto voltava para a aldeia de Penreith, Clare repassou


mentalmente seus argumentos e justificativas. De uma forma ou de outra, deveria convencer o Conde Cigano a ajudá-la. Ninguém além dele poderia fazer isso. Por alguns breves minutos, enquanto seu garanhão rasgava a propriedade como uma rajada de vento, Nicholas foi capaz de se perder na alegria de sua velocidade. A realidade, contudo, logo se abateu sobre ele quando o passeio terminou e ele se viu outra vez em casa. Em seus anos no exterior, tinha sonhado muitas vezes com Aberdare, dividido entre o desejo e o medo do que iria encontrar por lá. As vinte e quatro horas após seu retorno provaram que seus temores eram justificados. Havia sido um tolo em pensar que quatro anos de distância pudessem obliterar o passado. Cada quarto daquela casa, cada acre daquele vale evocava lembranças. Algumas eram felizes, porém estas tinham sido encobertas por acontecimentos mais recentes, contaminando tudo o que ele um dia amara. Talvez, em seus momentos de fúria antes de morrer, o antigo conde houvesse rogado uma praga sobre o vale, de modo que seu desprezível neto nunca mais fosse conhecer a felicidade por ali. Nicholas caminhou até a janela do quarto e olhou para fora. O vale continuava lindo como sempre: selvagem nas alturas, bem-cultivado mais embaixo. Os verdes delicados da primavera começavam a se mostrar, e logo haveria narcisos. Quando menino, ele ajudara os jardineiros a plantar suas sementes sob as árvores, ficando todo enlameado no processo, o que seu avô vira como mais uma prova de sua inadequação como herdeiro. Ergueu os olhos para o castelo em ruínas que pairava sobre o vale. Durante séculos, suas paredes espessas haviam sido a fortaleza e o lar da família Davies. Tempos de paz tinham levado seu trisavô a construir a mansão, considerada mais adequada a uma das famílias mais ricas da Grã-Bretanha. Entre outras vantagens, a casa tinha muitos quartos, pelo que ele


ficara agradecido no dia anterior. Nunca considerara utilizar o cômodo que fora do avô, e entrar em seu próprio quarto provara ser uma experiência angustiante, pois lhe era impossível ver seu antigo leito sem imaginar Caroline nele, o corpo nu e exuberante esperando-o de braços abertos. Por isso tinha escolhido um dos quartos de hóspedes. Ao menos este lhe garantiria segurança e o quase anonimato de um hotel caro. Mesmo assim, Nicholas dormiu mal, assombrado por pesadelos e lembranças. Tanto que, pela manhã, chegou à dura conclusão de que deveria cortar todos os laços com Aberdare. Ele jamais iria reencontrar sua paz de espírito ali. Assim como não o fizera em quatro anos de constantes viagens. Seria possível para ele abrir mão da herança e vender seus bens? Precisava perguntar a um advogado. A ideia de vender a propriedade doía. Seria como amputar um braço. Mas, se um membro estava podre, não havia escolha. Por outro lado, uma venda teria suas compensações. Agradava-lhe pensar que o fato de ele se livrar de tudo provavelmente causaria ao avô, onde quer que o hipócrita estivesse naquele momento, o equivalente a uma “apoplexia do além”. De repente Nicholas deu meia-volta, marchou para fora do quarto e desceu a escada para a biblioteca. O modo como levaria o restante de sua vida era um tema muito triste para se contemplar, porém ele decerto poderia fazer algo a respeito nas horas seguintes. Com um pouco de esforço e uma boa dose de conhaque, qualquer problema poderia ser resolvido. Clare nunca tinha estado dentro de Aberdare antes. A casa principal da propriedade era tão grande quanto ela esperava, porém sombria, com a maioria dos móveis ainda escondidos sob cobertas de linho cru. Quatro anos de vazio tinham deixado o lugar com um ar desamparado. E o mordomo, Williams, parecia igualmente depressivo. Não queria


levá-la até a presença do conde sem antes anunciá-la. Clare, entretanto, havia crescido na aldeia, e por isso conseguiu persuadi-lo. Williams a acompanhou por um longo corredor e abriu a porta da biblioteca. — A srta. Clare Morgan deseja vê-lo, milorde. Disse tratar-se de um assunto urgente. Reunindo coragem, ela adentrou a biblioteca, não querendo dar tempo para o conde recusar sua presença. Se falhasse naquele dia, não teria outra chance. Ele se encontrava junto à janela, olhando o vale. Tinha jogado a casaca sobre uma cadeira, e a informalidade da camisa de mangas longas lhe dava um ar jovial. Estranho que fosse conhecido como Velho Nick, quando mal chegara aos trinta, matutou Clare. Quando a porta se fechou atrás de Williams, o nobre se virou, o olhar incidindo sobre ela. Embora não fosse excepcionalmente alto, irradiava poder, e Clare concluiu que, mesmo em uma idade em que a maioria dos rapazes era desajeitada, Nicholas se movia com absoluta segurança. À primeira vista, parecia o mesmo. Isso se não estivesse ainda mais bonito do que era quatro anos antes... Ela não imaginara que fosse possível. Mas ele havia mudado de fato. Podia ver isso em seus olhos. Antigamente eles brilhavam com um humor que levava os outros a rir com ele. Agora pareciam tão impenetráveis como uma pederneira galesa. Os duelos, os casos flagrantes e os escândalos tinham deixado sua marca. Quando ela hesitou, perguntando a si mesma se deveria iniciar a conversa, ele perguntou: — É parente do reverendo Thomas Morgan? — Sou filha dele. E também professora em Penreith.


— Ah, claro. — O conde lançou-lhe um olhar entediado. — Lembrome de ele viver com uma pirralha suja por perto. — Eu não era mais suja do que você — retrucou Clare, chocada. — Provavelmente não — concordou Nicholas com um sorriso nos olhos. — Eu era um desastre. Durante as aulas, seu pai se referia a você como um modelo de decoro... Eu a odiei sem nem mesmo tê-la conhecido. Aquilo não deveria ter doído, mas doeu. — Pois, para mim, ele disse que você era o menino mais inteligente que já havia ensinado, e que tinha um bom coração apesar da selvageria — Clare replicou com doçura. — O julgamento de seu pai deixa muito a desejar — respondeu o conde, a leveza momentaneamente esquecida. — Como filha do pastor, imagino que esteja à procura de fundos para alguma causa digna e aborrecida. Da próxima vez, procure meu mordomo em lugar de me incomodar. Tenha um bom dia, srta. Morgan. — O que quero discutir não é assunto para o seu mordomo — ela acrescentou depressa, quando ele começava a se afastar. O conde torceu os lábios benfeitos. — Mas deseja alguma coisa, não é? Todos desejam. — Nicholas caminhou até um armário repleto de bebidas e encheu a taça que levava na mão. — Seja o que for, não vai conseguir nada de mim. Prestar favores aristocráticos era uma peculiaridade do meu avô. Agora, por favor, retire-se enquanto a atmosfera continua civilizada. Clare percebeu, então, que ele estava meio embriagado. Pois muito bem. Já tinha lidado com bêbados antes. — Lorde Aberdare, as pessoas estão sofrendo em Penreith, e o senhor é o único por aqui em condições de ajudar. Vai lhe custar muito pouco tempo ou dinheiro e... — Eu não me importo se é pouco ou não! — ele a interrompeu à força. — Não quero nada com aquela aldeia ou com as pessoas que vivem nela! Está claro? Agora dê o fora daqui.


Clare sentiu sua obstinação aumentar. — Eu não estou pedindo sua ajuda, milorde, estou exigindo! — retrucou, trêmula. — Devo explicar agora, ou esperar até que esteja sóbrio? O conde a olhou com espanto. — Se alguém aqui está bêbado, deve ser você. E se acha que o fato de ser mulher a poupará de força física, está enganada. Vai sair por bem, ou terei de colocá-la para fora? — Ele se moveu em sua direção com passos decididos, a camisa branca aberta no colarinho enfatizando a amplitude intimidadora dos ombros. Resistindo ao impulso de recuar, Clare enfiou a mão no bolso da capa e puxou o pequeno livro que era a sua única esperança. Abrindo o volume na inscrição manuscrita, ergueu-a para que ele o visse. — Lembra-se disto? A mensagem era simples: Reverendo Morgan, espero que algum dia eu seja capaz de retribuir tudo o que tem feito por mim. Com carinho, Nicholas Davies. Os rabiscos de menino fizeram o conde estacar como se tivesse sido atingido. Seu olhar frio se deslocou do livro para o rosto de Clare. — Joga para ganhar, não é? Acontece que está segurando as cartas erradas. Qualquer obrigação que eu poderia ter seria para com seu pai. Se ele deseja favores, deveria vir pedi-los pessoalmente. — Ele não pode — respondeu Clare sem preâmbulos. — Meu pai morreu há dois anos. Após um silêncio constrangedor, o conde suspirou. — Eu sinto muito, srta. Morgan. Seu pai foi, com certeza, o único homem verdadeiramente bom que já conheci. — Seu avô também era um homem bom. Ele concedeu muitas benesses para o povo de Penreith: o fundo para os pobres, a capela... — Poupe-me — Nicholas a interrompeu antes que Clare listasse outros exemplos de caridade do antigo conde. — Eu sei que meu avô adorava dar exemplos de moral para as classes menos abastadas, mas isso não me comove.


— Ao menos ele assumiu suas responsabilidades — ela retrucou. — Você não fez uma só benfeitoria para a propriedade ou para a aldeia desde que as herdou. — Padrão que tenho toda a intenção de manter. — Nicholas terminou a bebida e pousou a taça sobre a bandeja com um tilintar. — Nem o exemplo de seu pai nem o moralismo do antigo conde conseguiram me transformar em um cavalheiro. Não dou a mínima para ninguém nem para nada, e prefiro assim. Clare o encarou, chocada. — Como pode dizer tal coisa? Ninguém é tão insensível! — Srta. Morgan, sua inocência é tocante. — Ele se recostou na borda da mesa e cruzou os braços sobre o peito largo, parecendo tão ardiloso quanto seu apelido. — É melhor sair antes que eu a desiluda ainda mais. — Não se importa que seus vizinhos estejam sofrendo? — Em uma só palavra, não. A Bíblia diz que os pobres sempre estarão conosco e, se Jesus não pôde mudar isso, certamente não serei eu quem o fará. — Ele abriu um sorriso zombeteiro. — Com a possível exceção de seu pai, nunca conheci um homem de caridade que não tivesse lá os seus motivos para trabalhar nesse âmbito. A maioria dos que demonstram generosidade o faz ou porque almeja a gratidão de seus subordinados, ou para se justificar. Eu, com meu honesto egoísmo, ao menos não sou hipócrita. — Um hipócrita pode fazer o bem, mesmo que seus motivos não sejam dignos... o que o torna mais valioso do que alguém que carregue uma bandeira de honestidade — ela argumentou, seca. — Mas, que seja. Já que não acredita na caridade, do que gosta? Se é o dinheiro que lhe desperta algum entusiasmo, há muito que lucrar em Penreith. Nicholas balançou a cabeça. — Desculpe, mas também não me importo muito com dinheiro. Já tenho mais do que eu poderia gastar em dez vidas.


— Que bom para você — Clare murmurou, desejando poder dar meia-volta e sumir dali. Mas fazer isso seria admitir uma derrota, e ela nunca tinha sido boa nisso. Pensando que deveria haver alguma maneira de atingi-lo, perguntou: — O que seria necessário para fazê-lo mudar de ideia? — Minha ajuda não está disponível por qualquer preço que esteja disposta a pagar. — Vamos ver... — Isso é uma proposta? — Os olhos escuros do conde a percorreram da cabeça aos pés de um modo quase ultrajante. Ele tivera a intenção de chocá-la, e conseguira. Imediatamente, o rosto de Clare assumiu um tom vermelho e humilhante, porém ela não desviou o olhar. — Se eu dissesse que sim, conseguiria convencê-lo a ajudar Penreith? Nicholas a olhou com espanto. — Meu Deus, você realmente se deixaria arruinar caso isso fosse ajudar nos seus planos? — Se eu tivesse a certeza de que iria funcionar, sim — replicou ela, imprudente. — Minha virtude e alguns minutos de sofrimento seriam um preço pequeno a pagar se comparado ao das famílias passando fome e ao das vidas que serão perdidas quando a mina em Penreith vier abaixo. Um lampejo de interesse brilhou nos olhos escuros, e por um momento o conde pareceu prestes a convidá-la a se explicar melhor. Então sua expressão se esvaziou outra vez. — Embora seja uma proposta interessante, ir para a cama com uma mulher que agiria como Joana d’Arc indo para a fogueira não me atrai. Clare arqueou as sobrancelhas. — Eu pensei que libertinos gostassem de seduzir inocentes. — Pessoalmente, sempre considerei a inocência muito aborrecida.


Prefiro uma mulher experiente. — Posso ver que uma mulher comum não o seduz, mas, com certeza, uma com beleza o faria superar seu tédio — ela replicou, ignorando o comentário. — Há várias meninas muito bonitas na aldeia. Devo verificar se alguma delas estaria disposta a sacrificar sua virtude por uma boa causa? Com um movimento rápido, o conde se aproximou e segurou-lhe o rosto. Clare sentiu seu hálito de conhaque, e suas mãos lhe pareceram quase escaldantes. Enrijeceu, e então obrigou-se a ficar absolutamente imóvel enquanto ele lhe examinava o rosto com olhos que pareciam enxergar os segredos mais sombrios de sua alma. — Está longe de ser a mulher comum que finge ser — falou, quando ela já não podia mais suportar o escrutínio, deixando-a abalada. Para alívio de Clare, afastou-se e apanhou a taça, servindo-se de mais conhaque. — Srta. Morgan, eu não preciso de dinheiro e posso ter todas as mulheres que eu quiser sem a sua ajuda. Também não tenho o menor desejo de destruir minha reputação, tão duramente conquistada, tornando-me um benfeitor. Agora, vai me deixar em paz, ou terei de usar a força? Clare se viu tentada a dar meia-volta e sumir dali. Em vez disso, ergueu o queixo. — Ainda não estabeleceu um preço para o seu eventual auxílio. Deve haver alguma coisa. Diga-me, e talvez eu possa atendê-lo. Com um suspiro, o conde se largou no sofá e a estudou a uma distância segura. Clare Morgan era pequena e franzina, porém ocupava por completo o espaço onde se encontrava. Era uma mulher formidável. E suas habilidades provavelmente haviam sido aperfeiçoadas enquanto auxiliara o pai, agora falecido. Embora ninguém pudesse chamá-la de linda, não era feia, a


despeito de seus esforços para parecer séria. Suas roupas simples enfatizavam-lhe o asseio, e o modo como usava os cabelos escuros, bem presos, tinha o efeito paradoxal de fazer seus olhos azuis parecer ainda maiores. A pele de Clare possuía a suavidade de uma seda aquecida pelo sol, e os dedos dele ainda formigavam, percebeu, intrigado. Não, ela não era nenhuma beldade. Contudo era inolvidável, e não apenas por sua teimosia. Embora a moça fosse uma pedra no sapato, ele admirava sua coragem em ir até ali. Só Deus sabia que histórias circulavam sobre sua pessoa no vale. Os habitantes locais provavelmente o viam como uma ameaça em potencial para o corpo e a alma. No entanto, ali estava ela, com sua paixão e exigências. O pior era que estava perdendo seu tempo ao tentar envolvê-lo com um lugar e com pessoas que ele já decidira havia muito abandonar. Uma pena que ele não tivesse começado antes a tomar o seu conhaque. Se tivesse feito isso, talvez estivesse inconsciente no momento em que a indesejada visitante havia chegado. Mesmo com toda a sua rejeição, ela provavelmente continuaria sua campanha para conseguir ajuda, uma vez que parecia convencida de que ele era a única esperança de Penreith. Nicholas começou a especular sobre o que Clare Morgan desejava dele, em seguida parou quando se viu fazendo isso. A última coisa que queria era se envolver. Muito melhor seria fazer seu cérebro já enevoado pelo conhaque se concentrar em como convencê-la de que sua missão era impossível. Mas que diabo ele poderia fazer com uma mulher que se mostrava disposta a suportar um destino pior que a morte em busca de seus objetivos? O que poderia pedir de tão chocante que ela se negaria a fazer? A resposta lhe veio com a simplicidade da perfeição. Assim como o


pai, Clare devia ser metodista, parte de uma comunidade sóbria de crentes virtuosos. Seu status, sua identidade, tudo dependeria de como os companheiros a viam. Triunfante, Nicholas se acomodou e preparou-se para se livrar dela. — Tenho um preço, claro... Mas um que não irá se dispor a pagar. — E qual é? — indagou ela, cautelosa. — Não se preocupe. Sua virtude, oferecida tão a contragosto, estará segura. Tomá-la seria entediante para mim, e você provavelmente apreciaria se tornar uma mártir em meio aos meus desejos perversos... O que eu quero — ele fez uma pausa para dar outro gole no conhaque — é a sua reputação.


Capítulo II — Minha reputação? — Clare repetiu, inexpressiva. — O que quer dizer com isso? Parecendo muito satisfeito consigo mesmo, o conde explicou: — Se morar comigo, digamos, por três meses, farei tudo o que me for possível para ajudar sua aldeia. Clare sentiu uma ponta de apreensão. A despeito da contundência das próprias palavras, nunca tinha imaginado que o conde pudesse ter algum interesse por ela. — Quer que eu me torne sua amante mesmo com o “tédio” que teria de enfrentar? — rebateu com falso sarcasmo. — Não, a menos que fosse de boa vontade, o que eu não imagino que vá acontecer. Você me parece rígida demais para se permitir desfrutar os pecados da carne. — Seu olhar a percorreu novamente, dessa vez com fria especulação. — Apesar de que, se mudasse de ideia durante os três meses, eu ficaria muito feliz em acolhê-la. Nunca tive uma virtuosa amante metodista antes... Se formos para a cama, isso vai me levar para mais perto do Céu? — Você é... desprezível! — Obrigado. Eu tento ser. — Nicholas tomou outro gole de conhaque. — Voltando ao assunto, embora você fosse viver aqui de uma forma que a faria parecer minha amante, não teria de se deitar comigo. — E qual seria o objetivo de tal farsa? — quis saber ela, aliviada, porém confusa. — Quero ver até onde está disposta a ir para conseguir o que deseja. Se aceitar minha proposta, sua preciosa aldeia poderá se beneficiar. No entanto, dificilmente será capaz de levantar a cabeça por lá outra vez, pois sua reputação será destruída. Será que vale a pena pagar esse preço pelo sucesso de sua empreitada? Seus vizinhos perdoariam sua desgraça, embora beneficiados por ela? É uma


questão interessante, mas se eu fosse você, não confiaria muito na boa vontade deles. Compreendendo, Clare estreitou os olhos. — Para você, isso seria apenas um jogo sem sentido, não é? — Os jogos nunca são sem sentido. Mas é claro que eles precisam de regras. E quais deveriam ser as regras aqui? Vamos ver... — Juntou as sobrancelhas. — Os termos básicos seriam a minha ajuda em troca da sua presença em minha casa e, eventualmente, na minha cama. Um bom entrosamento nesse último campo seria uma aposta paralela, um bônus a ser apreciado por nós dois. No intuito de haver mais graça nessa tarefa de sedução, me seria permitido beijá-la uma vez por dia, em local e hora de minha escolha. E qualquer brincadeira além dessa teria de acontecer com consentimento mútuo. No entanto, após um beijo, você teria o direito de dizer “não”, e eu não poderia tocá-la de novo até o dia seguinte. Após três meses, você iria para casa, e eu continuaria a auxiliar nos assuntos da aldeia, desde que necessário. Ele franziu a testa. — Perigoso... Se eu me deixar levar pelos seus planos, posso continuar preso a este vale pelo resto da vida. Ainda assim, é justo que eu arrisque algo tão importante como minha liberdade, uma vez que você mesma perderá muito se aceitar minha proposta. — Essa ideia é absurda! — Pelo contrário. — O conde lançou-lhe um olhar inocente. — Acho que seria muito divertido. Sinto-me quase receoso de que não vá concordar com ela... Mas o preço é mesmo elevado, não? Sua virgindade poderá ser sacrificada sem que ninguém perceba, mas sua reputação é um bem frágil, público, facilmente perdido e impossível de recuperar. Ele fez um gesto de desprezo com a mão livre. — Agora que estabeleci os limites de seu desejo por martírio, vou lhe pedir mais uma vez que saia. Com certeza não vai querer me incomodar de novo — completou, ostentando a expressão perversa de


um negociante cigano que tinha acabado de vender um cavalo velho por cinco vezes o valor justo. A visão fez Clare perder o autocontrole. Ele parecia tão arrogante, tão insensível, tão absolutamente certo de que a havia vencido! Furiosa demais para se preocupar com as consequências, ela retrucou por entre os dentes: — Muito bem, milorde. Aceito sua proposta. Minha reputação em troca de sua ajuda. Por um momento, só se ouviu o silêncio. Então o conde sentou-se, muito ereto, no sofá. — Não pode estar falando a sério. Vai incorrer no desprezo de seus amigos e vizinhos e, eventualmente, ser forçada a deixar Penreith. E, sem sombra de dúvida, perderá seu emprego de professora. Vale a pena sacrificar a vida que tem em troca do prazer fugaz de me desconcertar? — A razão pela qual estou concordando com sua proposta é ajudar meus amigos, embora eu não negue que me agrada paralisar essa sua arrogância — ela admitiu com frieza. — Além do mais, penso que esteja enganado. Uma reputação de vinte e seis anos pode ser menos frágil do que pensa. Direi aos meus amigos exatamente o que estou fazendo e por quê, e espero que eles confiem no meu comportamento. Se minha confiança estiver equivocada e esse seu jogo me custar a vida... — ela hesitou, depois deu de ombros — ...que seja. — O que seu pai diria disso tudo? — Nicholas indagou, atordoado. Clare soltou o ar. Ela havia virado o jogo, e a sensação era inebriante. — O que ele sempre disse. Que é dever do cristão servir a seu próximo, mesmo que o custo pessoal seja alto; e que a nossa conduta é um assunto entre nós e Deus. — Vai se arrepender — ele prenunciou com convicção. — Talvez. Mas, se eu não fizer isso, lamentarei a minha covardia. — Seus olhos se estreitaram. — O que aconteceu? O grande


desportista ficou com medo de apostar em um jogo que ele mesmo engendrou? Antes que ela terminasse de falar, o conde se levantou do sofá e atravessou o cômodo, parando a um metro de distância, os olhos negros e brilhantes. — Muito bem, srta. Morgan. Ou melhor, Clare, já que está muito perto de se tornar minha amante... Vai ter o que queria. Aproveite o resto do dia para resolver seus assuntos na aldeia. Eu a esperarei aqui amanhã cedo. — Tornou a fitá-la dos pés à cabeça, dessa vez de forma mais crítica. — Não se preocupe em trazer muita roupa. Vou levá-la para Londres, onde poderá se vestir adequadamente. — Londres? Mas, suas obrigações estão aqui, Nicholas — ela se obrigou a enfatizar, embora sentindo o tratamento como uma terrível impertinência. — Não se preocupe, eu já disse. Cumprirei a minha parte da barganha. — Não quer saber o que precisa ser feito? — Haverá tempo suficiente para isso amanhã. — Parecendo mais relaxado, ele avançou um passo, ficando tão perto que eles quase se tocaram. O coração de Clare acelerou. Nicholas pretendia obter seu primeiro beijo?, perguntou-se, percebendo que a proximidade do conde neutralizara a ira que ela havia sentido até então. — Vou embora — falou, tensa. — Tenho muito que fazer. — Ainda não. — Ele abriu um sorriso lento e perigoso. — Iremos conviver intensamente ao longo dos próximos três meses. Já não é tempo de nos conhecermos melhor? Começou a levantar as mãos, e Clare quase desfaleceu. Parando, ele acrescentou com suavidade: — Talvez sua reputação sobreviva três meses debaixo do meu teto, mas e você? Será mesmo capaz de suportar essa situação? Ela umedeceu os lábios secos, em seguida corou quando o viu


estreitar os olhos diante do gesto originado por puro nervosismo. — Posso suportar qualquer coisa — garantiu, tentando parecer confiante. — Tenho certeza de que sim. Meu objetivo será ensiná-la a gostar do que está fazendo. Para sua surpresa, ele não tentou beijá-la. Em vez disso, ergueu as mãos e começou a tirar os grampos de seus cabelos. Dolorosamente ciente de sua intensa e enervante masculinidade, de seus dedos hábeis e do triângulo de pele morena visível na abertura da camisa, Clare respirou fundo. Subjacente ao aroma de conhaque, o conde exalava um perfume que a fez se lembrar de florestas de pinho e da brisa fresca e selvagem vinda do mar. Com o pulso acelerado, manteve-se imóvel enquanto seus cachos pesados se libertavam em uma cascata que lhe ultrapassava a cintura. Ele segurou uma mecha e a fez passar por entre os dedos como se esta fosse um cardo. — Nunca foi cortado? Ela fez que não com um gesto de cabeça. — É lindo. Castanho-escuro, da cor do chocolate, com uma pitada de vermelho. Você é inteira assim, Clare? Ardente sob uma aparência comportada? — Eu o vejo amanhã, milorde — respondeu ela, nervosa, e completamente desmoralizada. Quando tentou se desviar dele, o conde a segurou pelo pulso. Antes que ela entrasse em pânico, contudo, ergueu-lhe a mão e pôs os grampos em sua palma, soltando-a em seguida. — Até amanhã — murmurou, guiando-a até a porta com uma mão em suas costas. Fitou-a nos olhos, o humor mudando da provocação para a seriedade. — Se decidir não continuar com isto, não vou subestimá-la. Nicholas estaria lendo sua mente, ou compreendia a natureza humana além do normal?


Clare abriu a porta e saiu correndo da sala. Por sorte, Williams não se encontrava por perto para ver seus cabelos desgrenhados e seu rosto em chamas. Se o fizesse, ele decerto iria pensar... Prendeu a respiração por um instante. Se aceitasse o desafio do conde, moraria ali, e Williams iria encontrá-la todos os dias. Mas como o mordomo a veria? Com pena ou com desprezo? Acreditaria nela, caso ela se explicasse, ou a desprezaria como uma prostituta mentirosa? Sentindo-se à beira de um colapso nervoso, Clare disparou por uma porta aberta direto para uma sala pequena e empoeirada. Após fechar a porta, afundou em uma poltrona estofada e cobriu o rosto com as mãos. Ela mal conhecia Williams e, no entanto, já estava preocupada com sua opinião. Era uma demonstração nítida e terrível do que iria sofrer se continuasse com aquele plano insano. Como seria quando todos em Penreith soubessem que ela estava vivendo com um notório libertino? Perceber a crueldade no jogo de Nicholas a tirou do sério outra vez. Ele sabia o que estava pedindo. Na verdade, contara com o medo que ela sentia de ser publicamente censurada para dissuadi-la. O pensamento a ajudou a recuperar a compostura. Conforme se endireitou e recomeçou a prender os cabelos, Clare reconheceu que a raiva e o orgulho a incitaram a aceitar aquele desafio absurdo. Não eram as mais nobres das emoções, mas, ela mesma nunca fora a mais devotada das mulheres, por mais que tentasse. Uma vez recomposta, escapuliu do pequeno estúdio e deixou a casa. Em seguida, seguiu para os estábulos a fim de apanhar sua charrete. Ainda havia tempo para mudar de ideia. E não teria nem sequer de encarar o conde para admitir sua covardia. Tudo o que precisaria fazer era não aparecer no dia seguinte, e ninguém, exceto ela e Nicholas, saberia o que tinha acontecido. Mas, como já dissera anteriormente, o verdadeiro problema não


era ela e seu orgulho, tampouco o conde e seu egoísmo. Era Penreith. O fato a golpeou com violência quando a estrada dobrou num declive e o vilarejo surgiu à sua frente. Parou a charrete e olhou para os tão familiares telhados de ardósia. A aldeia era igual a centenas de outras comunidades de Gales, com fileiras de casas de pedra inseridas no verde luxuriante do vale. Embora não houvesse nada de extraordinário em Penreith, aquele era o seu lar, onde ela conhecia e amava cada pedra. Aquelas pessoas eram o seu povo, em meio ao qual vivera sua vida inteira. Se alguns deles eram mais difíceis de amar do que outros, bem, ela havia tentado fazer seu melhor. Uma torre quadrangular marcava a igreja anglicana, enquanto a capela metodista, mais modesta, ocultava-se entre as casas. De onde estava, ela mal podia ver a mina que ficava mais ao fundo do vale. A mina era, de longe, a maior empregadora da região. Era também a maior ameaça para a comunidade; um perigo tão volátil como os explosivos que utilizava. O pensamento acalmou sua mente agitada. Podia ter se comportado mal naquele dia, sucumbindo ao orgulho e à revolta, mas as razões para a sua missão eram válidas. Lutar pelo bem-estar da aldeia não podia ser errado. O desafio seria impedir que sua própria alma se tornasse mais uma vítima daquela guerra. Os encontros semanais eram o ponto alto da rotina metodista, e o grupo de Clare estava tendo mais um dos seus naquela noite. O que era conveniente, pois, dessa forma, ela poderia conversar com os amigos mais próximos de uma só vez. Ainda assim, conforme o grupo cantava o hino de abertura, seu estômago deu um nó. O líder da classe, Owen Morris, puxou uma oração. Em seguida, os membros da pequena congregação compartilharam as alegrias espirituais ou desafios que haviam experimentado nos últimos sete


dias. Fora uma semana tranquila, e, logo chegou a vez de Clare falar. Ela se levantou e olhou para cada um dos cinco homens e seis mulheres. Rezando para que sua fé neles não se provasse infundada, clareou a garganta. — Amigos, irmãos e irmãs... Estou prestes a embarcar em uma empreitada que, espero, possa beneficiar a todos em Penreith. É pouco ortodoxa, até mesmo escandalosa, e muitos irão me condenar. Entretanto, rezo para que não façam isso. A esposa de Owen, Marged, a amiga mais íntima de Clare, deu-lhe um sorriso encorajador. — Conte-nos a respeito. Não creio que fosse agir de forma a ganhar a nossa censura. — Espero que esteja certa. Clare olhou para as mãos firmemente unidas. Seu pai fora muito amado por todos os metodistas ao sul do País de Gales, e a admiração e afeição que inspirara haviam se derramado sobre ela. Por isso, outros membros da sociedade local lhe davam mais crédito do que ela merecia. Erguendo a cabeça de novo, ela finalizou: — O conde de Aberdare voltou à sua propriedade. Esta manhã, pedi a ele que use sua influência para ajudar a aldeia. Edith Wickes, que sempre tinha uma opinião na ponta da língua, fitou-a, horrorizada. — Falou com aquele homem?! Minha querida, isso foi sábio? — Provavelmente não. — Clare fez uma descrição sucinta de seu acordo com Aberdare. Não comentou como se sentira, como o conde se comportara, muito menos o fato de que ela concordara em deixar que ele a beijasse uma vez por dia. Tampouco podia revelar a insensatez de suas próprias reações. Desfalcada de tais detalhes, a explicação não tardou. Quando terminou, seus amigos a fitavam com diferentes graus de choque e preocupação estampados no semblante.


Edith foi a primeira a falar: — Não pode ir adiante com isso! — declarou, transtornada. — É indecente! Ficará totalmente arruinada. — Talvez, mas... — Clare levantou as mãos em um gesto de súplica — ...todos sabem como andam as coisas. Se há uma única chance de que lorde Aberdare resolva os nossos problemas, é meu dever tentar obter sua cooperação. — Não à custa de sua reputação! Um bom nome é o maior tesouro de uma mulher. — Até certo ponto — ela rebateu. — É um princípio primordial da fé que cada pessoa aja de acordo com sua própria consciência. Não devemos nos deixar intimidar por aquilo que o mundo pode pensar. — Sim — disse Marged, na dúvida. — Mas, tem certeza de que tem estrutura para fazer isso? Tentando parecer confiante, Clare abriu um sorriso. — Tenho. Edith fez uma careta. — E se Aberdare arruinar sua reputação e, em seguida, não fizer o que prometeu? Ele não lhe deu nenhuma garantia a não ser a própria palavra. E, apesar do título, o homem não passa de um cigano mentiroso. — Para o conde, o destino da aldeia é um jogo. E ele é um homem que leva jogos muito a sério — garantiu Clare. — A seu modo, também é honrado. — Ele não é confiável — Edith resmungou. — Quando menino, era selvagem como um falcão, e todos nós sabemos o que aconteceu há quatro anos. — Não sabemos o que aconteceu na verdade — Jamie Harkin, que fora soldado até perder a perna, interveio com seu jeito lento e calmo. — Houve muitos rumores, mas ele não sofreu nenhuma acusação formal. Lembro-me de Nicholas quando ele era ainda um menino, e ele sempre foi um rapaz decente... Ainda assim, não gosto da ideia de ver


Clare hospedada na casa grande. Nós a conhecemos bem demais para temer que se perca, mas outros irão falar e condená-la. Não seria fácil para você, moça. Marged olhou o marido, que trabalhava na mina como picador. Ele tinha sorte por estar empregado, mas ela jamais se esquecia de como seu trabalho era difícil e perigoso. — Seria maravilhoso se Clare pudesse convencer lorde Aberdare a melhorar as condições na mina. — Sem dúvida — concordou Hugh Lloyd, um jovem que também trabalhava lá. — O dono e o administrador não dão a mínima para aquele inferno... — Ele corou. — Perdão, irmãs. O que eu quis dizer é que eles não se importam com o que acontece a nós, mineiros. É mais barato para eles nos substituir do que instalar novos equipamentos. — Verdade — concordou Owen, muito sério. — Em seu coração, acredita que essa é a atitude mais certa, Clare? Parece disposta a arriscar o seu bom nome, mas ninguém esperaria que uma mulher fizesse algo tão ofensivo. Mais uma vez, o olhar de Clare percorreu a sala, pousando em cada um dos membros da congregação. — Nos dias em que membros da nossa sociedade foram perseguidos, meu pai arriscou a vida para pregar a palavra do Senhor. Por duas vezes, quase foi morto pela multidão, e carregou as cicatrizes das agressões até o dia de sua morte. Se ele se dispôs a arriscar a própria vida, como posso relutar em arriscar algo tão banal como a minha reputação? Por suas expressões, seus amigos tinham ficado tocados por suas palavras; contudo ainda relutavam em aceitar sua decisão. — Lorde Aberdare não fez segredo de que sua proposta não foi movida pela luxúria, mas simplesmente uma maneira de se livrar de mim — completou Clare, persuasiva, precisando sentir que eles a apoiavam. — Na verdade, ele apostou em como eu iria reagir, e perdeu.


Engoliu em seco, em seguida torceu a verdade até o limite: — Meu palpite é que, quando ele me tiver sob seu teto, vai me fazer trabalhar como governanta, ou talvez como secretária. O alívio se mostrou nos rostos ao seu redor. Uma governanta? Era bastante inofensivo. Apenas Edith se mostrou contrária à ideia: — Ser governanta não irá salvá-la se Sua Graça tiver ideias... Não é à toa que o chamam de Conde Demônio. Suprimindo uma pontada de culpa pelo fato de ter oferecido aos amigos um palpite que poderia se revelar errado, Clare deu de ombros. — Por que o conde teria “ideias” a meu respeito? Ele certamente tem sua cota de mulheres imorais e... — Ela procurou pelo termo. — Como é mesmo que dizem? “Rabos de saia”...? — Clare! — exclamou Edith, escandalizada. Jamie Harkin riu. — Nós todos sabemos que essas mulheres existem. Algumas delas até encontram o Senhor e se tornam boas metodistas. Por que ter papas na língua para falar delas? Edith lançou um olhar carrancudo ao velho soldado. Eles já haviam se enfrentado antes. Embora os membros do grupo compartilhassem suas crenças e desfrutassem afeição mútua, tinham vindo de diferentes posições na sociedade e nem sempre concordavam sobre todos os assuntos. — O que pretende fazer quanto à escola, Clare? Não terá tempo para lecionar. Mesmo que tivesse, a maioria das pessoas na aldeia ficaria escandalizada caso continuasse dando aulas e morando em Aberdare sob circunstâncias tão irregulares. — Marged pode assumir as turmas. — Clare olhou para a amiga. — Estaria disposta a fazer isso? Os olhos da moça se arregalaram. — Acha que eu tenho condições? Com exceção das aulas do domingo, nunca lecionei. Sem dizer que não tenho sua instrução. — Claro que tem condições — assegurou Clare. — O conteúdo é


muito parecido com o da escola dominical: leitura, escrita, ortografia, aritmética, prendas domésticas... A única diferença é que não se estudam tanto as escrituras, e os alunos mais velhos estão mais adiantados. Evidentemente, enquanto estiver ensinando, também irá receber o salário de professora. Como Clare já imaginava, a perspectiva de um pagamento fez pender a balança, pois Marged tinha grandes ambições para seus três filhos. — Muito bem, Clare, vou dar o meu melhor. — Ótimo, pois já fiz um rascunho das aulas e deixei várias anotações sobre o que as crianças estão fazendo. Se for para casa comigo depois da reunião, eu lhe darei tudo o que vai precisar. — Clare virou-se para Edith. — Marged estará muito ocupada nos próximos três meses. Sei que estou abusando, mas poderia assumir as aulas na escola dominical por mim? A mulher mais velha pareceu assustada a princípio, depois corou de prazer. — Ora, se isso puder ajudar, claro que sim, minha querida. — Moro bem perto, um pouco acima na estrada. Posso ficar de olho na sua casa — ofereceu Bill Jones, outro membro da congregação. — E quem falar mal de você terá de se ver comigo! — emendou sua esposa, Glenda. Clare mordeu o lábio. — Obrigada a todos vocês. Sou abençoada por ter amigos tão bons — murmurou, comovida, jurando a si mesma que jamais trairia a confiança deles. — E aqui está o resumo do que cada aluno está estudando. — Clare entregou a Marged o último dos papéis que tinha escrito após voltar de Aberdare. Marged percorreu as folhas com os olhos. — Céus! Três deles sabem quase tanto quanto eu. Afinal, não faz


muito tempo que fui sua aluna em uma das classes para adultos — comentou, preocupada. — Os alunos mais adiantados são os mais fáceis de lidar. Não apenas são um pouco autodidatas, como também ajudam com os menores. Será bem-sucedida — Clare assegurou. — Lembre-se, se tiver dúvidas ou problemas, estarei a apenas três quilômetros de distância. O sorriso de Marged foi um pouco trêmulo. — Como de costume, você tem tudo maravilhosamente bem organizado. Estou com medo, mas, ah, Clare, é tão emocionante saber que você confia em mim! Cinco anos atrás, eu não conseguia nem ler. Quem poderia imaginar que eu seria professora um dia? — Minha maior preocupação é que a escola não vá precisar mais de mim quando eu voltar. Embora proferisse as palavras sorrindo, Clare sentiu nelas um fundo de verdade. Com a experiência, Marged seria uma boa mestra; de certa forma, até melhor do que ela. E embora a moça não fosse muito instruída, tinha muito mais paciência. Uma vez concluído o acordo, Marged se recostou na cadeira e tomou um gole do chá que Clare havia preparado. — Como ele está? — Quem? — indagou Clare, apanhada de surpresa. — Lorde Tregar, ou melhor, lorde Aberdare, como é chamado agora. Nicholas. — Marged lançou-lhe um olhar maroto. — Não era raro que ele escapasse de seus detentores e viesse para a aldeia se divertir. E também não era um rapaz de quem se pudesse esquecer facilmente... Você era muito jovem. Claro que não deve se lembrar muito bem. Nicholas era travesso e até um pouco temperamental, mas não era mau, tampouco esnobe. E falava galês, assim como qualquer um de nós. Nunca foi como o antigo conde. — Eu não sabia que ele falava galês. Conversei o tempo todo em inglês quando fui vê-lo.


Como a língua e os costumes das classes mais altas do País de Gales geralmente pendiam para o inglês, Clare viu-se forçada a reconsiderar sua opinião acerca do jovem conde. — Eu ainda me lembro de quando ele deixou Oxford com seus três amigos — prosseguiu Marged, sonhadora. — Diziam que em Londres eles eram chamados de “Anjos Caídos”: Nicholas, o mais moreno e bonito, como todo cigano; Lucien, loiro e lindo como Lúcifer; Rafael, que agora é duque, e lorde Michael, antes de se tornar a perdição de Penreith... Talvez eles fossem, mesmo, um pouco malucos, mas eram os rapazes mais maravilhosos que já vi. — Ela sorriu. — Com exceção de Owen, é claro. Ainda bem que estávamos namorando, ou ele poderia ter me perdido! — Não exagere. — Só um pouco. — Marged tomou o último gole do chá. — E pensar que agora Nicholas é conde, e voltou para casa novamente após anos viajando por esses lugares pagãos! Ele continua tão bonito quanto antes? — Sim — Clare admitiu, tensa. Marged aguardou, ansiosa, por mais detalhes. Quando estes não vieram, suspirou. Percebendo que era hora de partir, levantou-se. — Você virá para as reuniões, não? — Claro. Sempre que eu puder... — Clare hesitou. — Lorde Aberdare disse algo sobre me levar para Londres. — Verdade? — As sobrancelhas da outra moça se ergueram. — Mas ele não precisaria de uma governanta lá. — Talvez me queira como sua secretária — conjeturou Clare, ciente de que a resposta era tudo menos honesta. — Ainda não sei bem qual será a minha função. — Tenha cuidado com o Velho Nick. Ele pode ser perigoso — advertiu Marged. — Duvido. Lorde Aberdare é arrogante demais para forçar uma mulher que não se mostre disposta a nada.


— Não é isso que me preocupa — replicou Marged. — O perigo é você ficar disposta a tudo. Não demorou muito para que Clare embalasse os poucos pertences que levaria para Aberdare, e não havia outras tarefas a serem feitas. Agitada demais para dormir, vagou pelos quatro cômodos da casa, tocando objetos familiares. Havia nascido sob aquele mesmo teto e nunca tinha vivido em outro lugar. O menor cômodo em Aberdare era grandioso, mas ela iria sentir falta daquelas paredes nuas e brancas e do mobiliário simples e resistente. Correu a ponta dos dedos pela tampa enegrecida do velho baú de carvalho esculpido. Era uma pena que provavelmente não fosse ter nenhuma filha para herdá-lo, pois este passava pelas mulheres da família havia muitas gerações. No interior da tampa, lia-se “Angharad, 1579” em letras esculpidas. Às vezes Clare se perguntava sobre a vida daquela sua ancestral distante. Decerto Angharad fora filha e esposa de pequenos agricultores, que tiravam o sustento da terra. Mas, e quanto a seu marido? Quantos filhos teria criado? Será que fora feliz? A estante que transbordava de livros em um dos cantos da sala era a única nota de luxo na cabana. Thomas Morgan nascera na pequena nobreza de Gales, fora educado em Oxford e ordenado vigário anglicano. Após experimentar uma conversão espiritual profunda ao ouvir John Wesley, o clérigo anglicano e fundador da igreja metodista, pregar, tornara-se pastor. Embora sua rígida e tradicional família o houvesse rejeitado, ele jamais se arrependera de sua escolha. Ao contrário, tinha se casado com a filha devotada de um pequeno arrendatário e se estabelecido em Penreith, pregando e ensinando a verdade que iluminara a sua própria vida. Thomas nunca havia perdido seu amor pelo aprendizado, e o passara à sua única filha. Sempre que iniciava um circuito de


pregação, tentava adquirir um livro usado e barato... e houvera muitos desses circuitos. Ela, por sua vez, tinha lido cada um daqueles volumes agora expostos na choupana. Clare suspirou. Sua mãe havia morrido doze anos antes, da mesma forma como vivera: em silêncio. Assim, o pai lhe sugerira que ela, na ocasião com catorze anos, ficasse com outras famílias metodistas enquanto ele pregava. Ela se recusara a deixar a casa, e essa fora a única vez que o desafiara. A certa altura, o reverendo aderira à sua vontade, com a ressalva de que os membros da congregação cuidassem dela enquanto ele cumpria o circuito. Aos dezesseis anos, Clare formara sua primeira classe, pequena e informal, ensinando mulheres adultas a ler e escrever. Quatro anos depois, Emily, a jovem segunda condessa de Aberdare, decidira fundar uma escola de caridade, e dezenas de moradores haviam trabalhado juntos para reformar um celeiro abandonado. Embora os professores fossem geralmente do sexo masculino, a experiência de Clare a tornara a escolha lógica para a nova escola, e ela lecionava ali desde então. Ao longo dos anos, vários moradores de Penreith haviam sido seus alunos em um momento ou outro. As vinte libras por ano que ela ganhava nunca a tornariam rica, mas eram o suficiente. Apenas Nicholas Davies fora capaz de afastá-la de casa e de sua vida bem-estruturada. Quando olhou para seu pequeno jardim, que ainda nem fora plantado para o ano, Clare estremeceu, incapaz de suprimir a sensação de que estava vendo tudo pela última vez. Não literalmente, talvez, mas bem no fundo, tinha certeza de que uma fase de sua vida estava terminando. O que aconteceria em Aberdare a mudaria para sempre. E embora duvidasse de que as mudanças fossem para melhor, havia se comprometido com aquele curso e não se desviaria dele.


Em uma busca desesperada por paz, ela se ajoelhou e rezou. Mas não houve resposta para suas orações. Nunca houvera. No dia seguinte, como sempre, ela teria de enfrentar seu destino sozinha.


Capítulo III Nicholas acordou com uma forte dor de cabeça, a qual ele merecia. Continuou deitado, os olhos fechados, e fez um balanço da situação. Aparentemente, seu lacaio, Barnes, o colocara na cama de pijama. Ele sempre preferira dormir nu, mas pelo visto, não estivera em posição de se queixar. Moveu a cabeça um milímetro, depois parou, pois era como se esta pudesse cair. Tinha agido como um idiota e agora pagava por isso. Infelizmente, não bebera conhaque suficiente para apagar da memória o que acontecera na tarde anterior. Enquanto pensava na combativa donzela que irrompera por sua porta adentro e aceitara seu ridículo desafio, não soube se devia rir ou chorar. Conhecendo as consequências para sua cabeça, entretanto, decidiu não fazer nem uma coisa nem outra. Achava difícil acreditar em algumas das coisas que havia dito, porém suas lembranças eram muito vivas para que duvidasse delas. Por sorte, Clare Morgan não fora armada, ou poderia ter decidido que era seu dever metodista livrar o mundo de um nobre parasita. Ele quase sorriu com o pensamento. Na verdade, tinha até apreciado o confronto, mas esperava, sinceramente, que após considerar sua proposta com sabedoria ela decidisse ficar em casa e esquecer aquela barganha. Uma mulher como ela poderia tirar um homem do sério. A porta se abriu e passos suaves se aproximaram. Devia ser Barnes, para ver se ele se encontrava acordado. Preferindo ficar sozinho, Nicholas manteve os olhos fechados, e os passos recuaram. Mas não por muito tempo. Alguns segundos depois, uma cascata de água gelada desabou sobre sua cabeça. — Maldição! — ele rugiu, sentando-se atabalhoadamente. Mataria aquele lacaio infeliz! Iria tirar sangue dele!


Mas não era seu criado. Quando abriu os olhos turvos pela água, deparou com Clare Morgan parada a uma distância segura, com um jarro de porcelana vazio na mão. A princípio, Nicholas se perguntou se estava tendo um pesadelo, mas jamais poderia ter imaginado a doce expressão de desdém no rosto da pequena Clare, tampouco a água fria que encharcava seu camisolão. — Por que, diabos, fez isso?! — “Amanhã cedo” se transformou em “amanhã à tarde”, e já esperei três horas — explicou ela, calmamente. — Tive tempo suficiente para tomar uma xícara de chá, organizar minha lista de pedidos para Penreith, e ainda fazer um breve levantamento do que precisa ser feito nesta casa para torná-la mais habitável. O que não é pouco, como estou certa de que vocês já notaram. Ou talvez não, afinal, os homens podem ser muito desatentos... Na verdade, resolvi acordá-lo por puro tédio. Pareceu-me o tipo de coisa que uma amante em potencial deveria fazer. Estou dando o melhor de mim para corresponder ao papel que está tentando me atribuir — acrescentou com uma pitada de sotaque galês e um tom de voz levemente enrouquecido. Vindo de uma solteirona afetada, o efeito era surpreendentemente erótico. — Minhas amantes sempre me acordaram de formas mais interessantes — ele retrucou, querendo desconcertá-la. — Quer que eu mostre como? — Não. — Clare pegou uma toalha do lavatório e a entregou a ele. Nicholas enxugou o cabelo e o rosto, depois parte da água em seu pijama. Sentindo-se um pouco mais adequado, jogou a toalha de volta para Clare. — Costuma se embebedar com frequência? — ela perguntou sem preâmbulos. — Muito raramente. E, com certeza, foi um erro beber desta vez.


Se eu estivesse sóbrio, não teria de suportá-la nos próximos três meses. — Se decidir não continuar com isto, não vou subestimá-lo — ela o imitou com cinismo. Nicholas piscou ao ouvir suas próprias palavras. — Sua língua é pior do que uma vespa. — Ele a encarou até que ela começou a ficar incomodada. — Gosto disso em uma mulher. Para seu deleite, Clare corou até a raiz dos cabelos. Insultos não a afetavam, mas elogios ou demonstrações de interesse masculino, sim. — Encontre meu lacaio e diga-lhe que traga água quente para o barbear — ordenou, sentindo-se mais animado. — Depois diga à cozinheira que prepare um bule de café bem quente. Vou descer em meia hora. — Jogou as cobertas para trás e começou a sair da cama. — Como quiser — Clare respondeu, desviando o olhar e batendo em retirada. Nicholas riu quando a porta se fechou. Clare Morgan era mesmo uma mulher intrigante. Quando lorde Aberdare apareceu no salão para o café da manhã, meia hora mais tarde, todos os vestígios de sua excessiva indulgência haviam sido removidos. Exceto pela pele morena e o cabelo mais longo, era o perfeito cavalheiro londrino. Clare decidiu que preferia quando ele se apresentava mais informalmente. Aqueles trajes a deixavam ciente demais da enorme lacuna social entre eles. Lembrou-se de Nicholas vestido com o camisolão, com parte do peito nu e o tecido molhado se agarrando aos ombros musculosos. Aquilo, sim, poderia ser chamado de informal... Informal até demais. Sem dizer nada, levantou-se e serviu-lhe uma xícara de café fumegante. Também sem proferir uma palavra, ele o bebeu em três goles e estendeu a xícara, pedindo mais. A segunda xícara desapareceu quase tão depressa quanto a primeira.


Dessa vez, porém, Nicholas a encheu por conta própria, em seguida acomodou-se em uma cadeira em frente a Clare. — Pode começar sua palestra acerca dos males enfrentados por Penreith e as soluções que espera que eu dê para eles — falou, em um tom profissional irritante. Por sorte, ela estava preparada. — Os problemas são econômicos e com diferentes causas. As coisas começaram a ficar difíceis cinco anos atrás, quando seu avô permitiu que o Parlamento aprovasse uma demarcação de propriedade privada. Com os habitantes das regiões mais altas impedidos de criar ovelhas em Aberdare, vários deles rumaram para a aldeia porque já não podiam mais tirar da terra o sustento para suas famílias. Os empregos são poucos, e a maioria deles está na mina de carvão. Com tanta mão de obra barata disponível, o administrador da mina reduziu os salários. Também não vê razão para comprar equipamentos melhores, nem mesmo para pagar pelos equipamentos de segurança mais básicos. Antes que ela prosseguisse, o conde ergueu a mão para detê-la. — Quantos homens morreram na mina? — Nos últimos quatro anos, um total de dezesseis homens e quatro meninos. — Isso é lamentável, mas é tão absurdo assim? A mineração sempre foi um meio de subsistência perigoso. E os mineiros que conheci sempre demonstraram certo orgulho em realizar um trabalho que exige tanta força e coragem. — Podem sentir orgulho, mas não são tolos. Os perigos da mina Penreith são muito maiores do que deveriam ser. Todos que trabalham lá dizem que é um milagre ainda não ter ocorrido nenhuma tragédia. Cedo ou tarde essa sorte vai ter fim, e quando chegar esse dia, dezenas, talvez centenas de pessoas irão morrer. Embora estivesse tentando ser fria e objetiva, Clare sentiu a voz embargada. Enquanto lutava para recuperar a compostura, Nicholas


estreitou o olhar. — Por acaso perdeu algum amigo na mina? — Não apenas um amigo. — Ela levantou a cabeça, a expressão endurecida. — Meu pai morreu lá. — Que diabo o reverendo Morgan estava fazendo lá?! — Nicholas indagou, inconformado. — O que ele sempre fazia: seu trabalho. Houve um desabamento. Dois homens morreram no local, e um terceiro, membro da nossa congregação, ficou preso nas rochas. A parte inferior de seu corpo foi esmagada, mas ele ainda estava consciente e chamou por meu pai. Enquanto os outros trabalhadores tentavam libertá-lo, meu pai segurou sua mão e rezou com ele. — Clare respirou fundo e completou: — Houve outro desabamento em seguida, e meu pai, o mineiro preso, e um dos trabalhadores que tentavam salvá-lo morreram. — Ninguém esperaria menos de seu pai — Nicholas disse baixinho. — Não lhe conforta saber que ele morreu como sempre viveu? Movido pela compaixão e pela coragem? — Muito pouco — respondeu ela, desolada. Após um silêncio constrangedor, Nicholas tornou a se manifestar: — Por que se aproximou de mim? Embora eu seja dono do terreno em que fica a mina, ele está alugado para a companhia de mineração. O locatário e o administrador são os únicos em condições de fazer mudanças. Clare apertou os lábios. — O administrador, George Madoc, é um irresponsável. Como recebe uma porcentagem dos lucros, seu único objetivo é obter cada centavo que puder, nem que seja à custa de vidas humanas. — Lorde Michael Kenyon ainda é o locatário? Imaginei que ele fosse sensível a esse tipo problema. — Já foram feitas várias tentativas de contato, mas lorde Michael não respondeu a nenhuma das nossas cartas e petições. E ninguém conseguiu falar com ele pessoalmente porque Kenyon não colocou os


pés no vale nos últimos quatro anos. — Quatro anos — repetiu Nicholas, a expressão enigmática. — Um intervalo interessante. Mas se Madoc e Kenyon não farão alterações, o que acha que eu posso fazer? — Converse com lorde Michael — ela disse numa súplica. — Ele é seu amigo. Se puder ser persuadido a fazer melhorias na mina, talvez nada mais seja necessário. — Michael era meu amigo, mas não o vejo há quatro anos. Mais do que isso, na realidade — corrigiu Nicholas, mastigando uma torrada, distraído. — Não tenho ideia de onde ele se encontra agora, e nem sei se eu ainda teria alguma influência sobre ele. Michael pode estar satisfeito com as coisas como elas estão. — Já pensei nisso. — Sabendo que estava prestes a descobrir até onde o conde iria cumprir sua parte no trato, Clare esfregou as palmas úmidas na saia cinza. — Se a mina não puder ser reformada, a solução seria criar outros tipos de emprego. E isso é algo que você poderia fazer facilmente. — Imaginei que fosse ter um plano — ele murmurou. Recostandose na cadeira, cruzou os braços. — Continue, srta. Morgan. — Para começar, você é de longe o maior proprietário de terras no vale, mas nada tem feito para incentivar uma agricultura mais sistemática. Seus arrendatários ainda usam os mesmos métodos que eram comuns na época dos Tudors. Melhorias na lavoura e na criação de animais aumentaria a riqueza do vale e criaria mais postos. — Ela apanhou um maço de papéis e o entregou a Nicholas. — Não sou nenhuma especialista, mas estudei alguns relatórios sobre agricultura científica na Inglaterra e fiz anotações sobre técnicas que poderiam ser eficazes aqui. — Existe algo em que não seja uma expert? — Após uma breve olhada nos papéis, Nicholas os colocou sobre a mesa. — Tirar a agricultura local da Idade Média deve me manter ocupado pelas próximas duas décadas, mas caso eu tenha algum tempo livre, tem


algum outro pedido? — Há uma coisa importante que poderia fazer e que teria efeito quase imediato — disse Clare, ignorando seu sarcasmo. — É mesmo? Vá em frente, srta. Morgan. Estou ansioso por ouvir. — Talvez não se lembre, mas é dono de uma antiga pedreira de ardósia no limite do vale. Embora esta não seja utilizada há anos, não tem por que não ser trabalhada novamente. — Clare se inclinou para a frente, o olhar intenso. — Reativá-la não apenas seria lucrativo para você, mas também iria proporcionar uma ocupação àqueles que estão sem nenhuma renda. As pedreiras Penrhyn, em Flintshire, empregam mais de quinhentos homens, e o serviço é bem menos arriscado do que a mineração. Não bastasse isso, Madoc teria de melhorar as condições de trabalho na mina ou perderia seus melhores empregados. — Eu me lembro da pedreira — admitiu Nicholas, pensativo. — Provavelmente todos os telhados das construções do vale vieram de lá. Mas será que ainda há ardósia suficiente nela para ajudar no desenvolvimento da região? — Há indícios de que a jazida seja muito grande, e sua qualidade sempre foi excelente. — Indícios... — ele repetiu. — Suponho, então, que tenha invadido minhas terras para avaliar meus recursos. Clare se moveu, inquieta. — A pedreira fica perto de uma via pública. — Contanto que não tenha assustado as ovelhas... — As sobrancelhas escuras se juntaram, demonstrando reflexão. — O problema com a ardósia é o custo do transporte do material para onde ele é necessário. Seria preciso construir trilhos até o rio, de onde a ardósia poderia seguir por barco até o litoral. — O que são trilhos? — São pares de carris de madeira ou ferro sobre os quais se colocam vagões puxados por cavalos. Não são baratos para se construir, motivo pelo qual provavelmente a mina de carvão não os


tenha, mas tornam possível transportar materiais pesados muito mais rápido do que nas estradas comuns. — Nicholas ponderou. — E no litoral, um novo cais teria de ser construído também. — Mas uma vez que esse cais fosse construído, poderia enviar a ardósia para qualquer lugar: do canal para Bristol, do Norte para Merseyside. Também poderia recuperar parte de seu investimento cobrando da mina de carvão pela utilização do cais. Suas instalações para transporte são totalmente inadequadas. Poderia ser tudo muito proveitoso para o senhor, lorde Aberdare. — Pare de usar o lucro como isca — ele falou, irritado. — Esse item não me interessa quase nada. — Tamborilou os dedos sobre a mesa de mogno. — Tem ideia de quantos milhares de libras seriam necessários para reativar a pedreira? — Não — ela admitiu. — Não consigo nem mesmo imaginar um número. É muito mais do que pode pagar? — Eu não disse isso. — Ele ficou de pé. — Sabe cavalgar? Clare piscou, confusa com a mudança de assunto. — Um pouco, mas não tenho feito isso ultimamente. Depois que meu pai morreu, vendi nosso cavalo, que era muito velho e lento. Minha experiência com cavalos é bastante limitada. — Deve haver algum animal nos estábulos que lhe sirva. Encontreme lá em quinze minutos com seu traje de montaria. Vamos dar uma olhada naquela pedreira. Nicholas deu meia-volta e marchou para fora da sala. Clare entrou na estrebaria e descobriu que Nicholas tinha chegado bem antes dela. No momento, ele se encontrava no meio de uma conversa séria com o ocupante de uma das baias. Os saltos de suas velhas botas levaram-no a erguer a cabeça para fitá-la. Nicholas parou, surpreso. — É comum em Penreith as mulheres usarem calças de homem para cavalgar?


— Há poucas mulheres no vale que sabem como fazê-lo, e menos ainda que podem se dar o luxo de ter um vestido tão caro e com um propósito tão limitado — ela explicou, seca. — Sinto muito que desaprove meu traje, mas este é o que costumo usar para cavalgar, e é o único que tenho. Ele abriu um sorriso lento e perigoso. — Eu não disse que o reprovava. Experimente usar essas calças de equitação em Londres... Aposto que vai lançar moda. Ou então provocar uma revolta. Embora Clare nunca tivesse se preocupado com a inadequação de seu guarda-roupa, não esperava que aquele exame acurado de suas calças de couro a fizesse se sentir tão exposta. Percebeu que corava e, com desgosto, que isso acontecera mais vezes naquele dia do que nos últimos dez anos inteiros. — Essa é a montaria que escolheu para mim? — perguntou, olhando para a baia. — Sim. Rhonda é uma puro-sangue galesa. — Seus dedos longos e benfeitos acariciaram o focinho manchado, fazendo com que a égua relinchasse, contente. — Ela é dócil, bem-educada, e muito mais inteligente do que a maioria dos cavalos. Pequena demais para mim, mas vai servir perfeitamente para você. Quando abriu a porta do estábulo e fez a égua sair, um cavalariço surgiu dos fundos, carregando uma sela lateral. — Não vamos precisar de uma dessas. Vá buscar uma comum para a srta. Morgan — ordenou o conde. Não sem lançar-lhe um olhar interessado, o cavalariço obedeceu e selou a montaria. O próprio Nicholas buscou o enorme garanhão preto em que ele havia chegado, no dia anterior, quando ela o vira pela primeira vez, e o cavalo dançou para fora da baia, fogoso. Ao ver Clare recuar, assustada, Nicholas se aproximou e soprou as narinas do animal, o que o acalmou imediatamente.


Diante da surpresa dela, o conde abriu um sorriso. — É um velho truque cigano para acalmar os cavalos. Muito útil quando se está tentando roubar um... — Deve ter tido muita experiência nessa área — ela observou com secura. Enquanto selava o garanhão, ele balançou a cabeça com pesar. — Infelizmente, não. Uma das consequências mais tristes de se ficar rico é que não há mais sentido nesse tipo de emoção. A melhor refeição que já tive na vida foi quando eu era menino e me recomendaram que eu roubasse uma galinha e batatas, as quais foram assadas sobre uma fogueira. Sabendo que sua atenção começava a ser fisgada, Clare virou-se para Rhonda e verificou ela mesma o aperto dos arreios. Pelo canto dos olhos, percebeu o conde acenando com aprovação diante de seu rigor. Quando ele fez um movimento em sua direção, contudo, montou às pressas, antes que ele viesse ajudá-la. Clare ficou ainda mais nervosa à medida que se afastavam da estrebaria, entretanto a égua provou ser tão bem-comportada como lhe fora prometido. Relaxou, assim, e tratou de aproveitar o passeio, mesmo sabendo que seus músculos protestariam mais tarde. Nicholas a conduziu pelo caminho que corria até a beira do vale. O dia estava excepcionalmente quente para um início de primavera, e o ar tão limpo que ela podia distinguir os diferentes tipos de árvores do outro lado do vale. Eram várias milhas até a antiga pedreira, e a princípio, eles cavalgaram em completo silêncio. Exasperada, Clare descobriu que seu olhar se voltava a todo instante para Nicholas. Ele montava como um centauro, tão em sintonia com seu cavalo que observá-lo era puro deleite. Sempre que ela se dava conta de quanto seu prazer era intenso ao fazê-lo, contudo, desviava a atenção para o cenário à sua volta. Quando a jornada chegou à metade, a trilha se alargou, e eles


puderam viajar lado a lado. — Cavalga melhor do que eu esperava de alguém que aprendeu naquele cavalo velho do seu pai... O bicho possuía uma boca que parecia granito de tão dura. Ela sorriu. — Se pareço competente, Rhonda é a responsável. É uma delícia cavalgar um animal tão sensível e com uma marcha tão suave. Willow tinha seus méritos, no entanto. Meu pai era um cavaleiro distraído, e nunca precisou se preocupar que o cavalo disparasse se negligenciado. — Isso dificilmente poderia acontecer. É mais provável que Willow tenha parado para pastar cada vez que seu pai divagava. — Nicholas estreitou os olhos. — Estou curioso quanto à minha reputação por aqui. O que as pessoas em Penreith dizem sobre os acontecimentos dramáticos de quatro anos atrás? Clare apertou as rédeas, e Rhonda parou e sacudiu a cabeça, incomodada. Ela se obrigou a relaxar. — Acredita-se que, após anos tentando partir o coração de seu avô, finalmente conseguiu isso ao seduzir sua esposa. E que quando ele os encontrou na cama juntos, sofreu um ataque de apoplexia que o matou. Dizem também que sua própria esposa, lady Tregar, ficou horrorizada quando os descobriu e que, com medo que você pudesse prejudicá-la, fugiu de Aberdare. Como era uma noite de tempestade, a carruagem dela acabou saindo da estrada, caiu no rio e ela morreu — Clare falou de uma vez. Nicholas bufou de leve. — Só isso? — Não é suficiente? — ela rebateu, nervosa. — Então talvez fique feliz em saber que houve especulações sobre o seu avô ter morrido por conta de um veneno cigano, e que a morte de sua esposa pode ter sido bem menos acidental do que pareceu. O fato de ter deixado Aberdare naquela mesma noite e nunca mais ter voltado alimentou


ainda mais os boatos. No entanto, todos sabem que a Justiça não encontrou evidências de conduta criminosa. — Certamente há os que acreditam que o Velho Nick foi capaz de subornar o magistrado para ocultar a verdade? — ele completou com ironia. — Com certeza. Mas o juiz era muito respeitado. Além disso, o condutor de lady Tregar jurou que tinha sido um acidente de verdade, que resultou de sua insistência para que ele fosse mais depressa, o que ia contra todo o bom-senso. — O cocheiro nunca mencionou aonde Caroline ia com tanta pressa? Vivo me perguntando isso. Clare pensou por um momento, depois balançou a cabeça. — Não que eu saiba. Isso importa? — Eu estava apenas curioso. Como sabe, fui embora logo em seguida, sem me inteirar dos detalhes. Mesmo assim... o condutor ainda vive no vale? — Não. Quando você foi embora, a maioria dos criados foi demitida e teve de ir para outro lugar. Ao menos trinta pessoas perderam seus empregos quando a casa foi fechada. Chegou a pensar nisso quando sumiu daqui daquele jeito? — ela perguntou, incapaz de resistir. Após um longo silêncio, Nicholas finalmente respondeu: — Para ser honesto, não. Clare estudou o perfil benfeito, notando uma tensão que desmentia o comportamento casual do conde. Tivera a intenção de espicaçá-lo, mexendo com sua consciência, mas agora que o tinha feito, via-se aflita para tranquilizá-lo. — Houve aqueles que o defendessem também... Meu pai nunca acreditou que tivesse se comportado tão mal. Assim como o pai, Clare também não queria acreditar no pior. Tinha esperança de que Nicholas aproveitasse a oportunidade para negar as acusações e oferecer alguma explicação plausível para tanta imoralidade.


— Seu pai era um santo — ele comentou em vez disso. — Já eu sou um pecador. — Parece sentir orgulho disso — observou ela, a decepção afinando a voz. — Claro. É preciso ter orgulho de alguma coisa. — Por que não orgulho de sua integridade, de sua caridade, ou de um aprendizado? — Clare inquiriu, irritada. — De virtudes de adulto em vez de vícios de um moleque? Por um momento, Nicholas pareceu desconcertado. Então se recuperou de seu desmazelo. — Em Aberdare, meu avô sempre reivindicou todas as virtudes. A mim só restou a desmoralização. — O conde morreu há quatro anos, e você já é adulto. — Clare comprimiu os lábios. — Encontre uma desculpa melhor, ou aprenda a se comportar melhor. A expressão dele endureceu. — Seu discurso soa mais como o de uma esposa do que como o de uma amante. — Creio que mais como o de uma professora — ela corrigiu, percebendo que falara demais. — Estou certo de que todas as suas lições serão sérias, dignas e magnânimas — Nicholas observou, pensativo. — Aliás, que lições pretende aprender comigo? Embora Clare ficasse em silêncio, sabia a resposta para aquela pergunta. E sabia também que quaisquer lições que aprendesse com Nicholas seriam, no mínimo, perigosas.


Capítulo IV Fazia anos que Nicholas tinha visitado a antiga pedreira pela última vez, e nessa ocasião, mal prestara atenção às suas instalações. Dessa vez, porém, observou os afloramentos rochosos com cuidado. — Toda esta área parece ser de ardósia, com uma fina cobertura de solo — disse, virando-se sobre a sela do cavalo. — Um amigo meu, que conhece bem a ardósia, diz que levaria décadas para se extrair tudo da pedreira. — Clare freou a égua e se preparou para desmontar, congelando quando Nicholas veio ajudá-la. Ele observou sua expressão alarmada e sorriu, tranquilizador. Vestida com aquelas roupas, ela parecia bem mais jovem e muito menos séria. Uma menina, em vez de uma professora. — Deveria se esforçar para ficar mais relaxada quando estou por perto, em vez de reagir como uma galinha encurralada por uma raposa. — Ele a ajudou a descer da égua e manteve a mão na dela. — Uma mulher deveria apreciar o toque de seu amante. Clare tentou retirar os dedos, ansiosa, depois aceitou que ele não iria soltá-los tão cedo. — Não sou uma amante de verdade. — Não precisa partilhar a minha cama, mas tenho a intenção de tratá-la como uma amante de outras maneiras. O que significa que vai achar os próximos três meses muito mais agradáveis caso se permita relaxar e se divertir. — Ele acariciou-lhe os dedos com o polegar. — Gosto de tocar a pele feminina. Ela é tão mais agradável do que a dos homens... Sua mão, por exemplo. É pequena, delicada, mas não a mão de uma mulher frágil, que nunca fez mais do que levantar um garfo. É visivelmente capaz. Se optasse por usá-la para fazer amor, seria muito habilidosa. Os olhos de Clare se arregalaram, e seus dedos delicados tremeram dentro dos dele. Mas não foi por aversão, notou Nicholas. Clare tinha fome de


carinho, embora talvez nem soubesse disso. Precisava usar essa carência e transformá-la em um desejo tão intenso que ela não poderia mais negá-lo. Precisava ir devagar, porém, pois Clare resistiria a cada milímetro desse caminho. Mais uma vez, ele se perguntou o que provaria ser mais forte: a força de vontade dela ou o seu poder de persuasão. E a incerteza do resultado o fez se sentir mais ansioso do que ele jamais havia ficado nos últimos anos. Soltou-a e juntou as duas montarias. Em seguida colocou a mão em suas costas casualmente, conduzindo-a pelo gramado até o afloramento de xisto mais próximo. Mesmo através das várias camadas de tecido, sentiu sua tensão; depois ela relaxava e aceitava a familiaridade. Enquanto saboreava seus movimentos flexíveis, Nicholas sorriu. A intimidade era como uma teia intrincada, e cada pequena sujeição por parte de Clare era um ponto ganho. Quando chegaram à formação rochosa, afastou-se dela e examinou as camadas irregulares da pedra escura que tão bem absorvia a luz. — Nunca reparei que a ardósia surgia em superfícies tão planas. — Nem sempre. Esse é um veio de alta qualidade, mas mesmo as camadas que têm argila misturada darão bons telhados. Uma ideia ocorreu a Nicholas. — Afaste-se. Ele levantou uma pedra de tamanho considerável e em seguida esmagou-a contra o afloramento com toda a força, provocando um barulho estridente e uma chuva de lascas. Uma grande placa se soltou, deixando vários centímetros de superfície totalmente plana. Nicholas espalmou as mãos contra a ardósia. — Isto daria uma excelente mesa de bilhar. Clare franziu as sobrancelhas. — Por que faria uma mesa de bilhar com ardósia?


— A madeira costuma envergar, principalmente em regiões úmidas como o País de Gales — explicou ele. — Junte várias placas desta ardósia, cubra-as com baeta verde, e obterá uma mesa de qualidade superior. — Seria fútil demais fazer isso com uma ardósia tão boa. — Pois aqui vai uma lição para você, professora... Às vezes a futilidade é bem mais rentável do que a necessidade. — Nicholas limpou as mãos uma na outra. — Vou pedir a um carpinteiro que cubra a mesa de Aberdare com estas lascas. Se der certo, teremos um mercado novo e lucrativo para esta ardósia. — Ele passou o braço pelos ombros de Clare. — Mostre-me o resto do lugar. Passaram a hora seguinte vasculhando o declive, estudando a extensão e a qualidade da ardósia exposta, e rindo do comportamento engraçado dos cordeiros que saltavam por cima de suas mães que pastavam. Nicholas descobriu que era tão divertido trabalhar com Clare quanto confrontá-la, pois sua mente rápida e seus modos diretos a diferenciavam de qualquer mulher que ele havia conhecido. Como um bônus, ela ainda parecia muito atraente com aquelas botas e as calças de montaria. Acabaram no menor afloramento da jazida. Nicholas estudou a encosta, em seguida apontou para uma cadeia que se curvava até o Sudoeste. — Este parece o melhor lugar para os trilhos. Não é tão longe do rio, e o terreno ainda está dentro de Aberdare. — Em quanto tempo seria possível começar a trabalhar na pedreira? Ele considerou a questão. — Provavelmente no meio do verão. Os trilhos poderão não estar concluídos, mas as chapas prontas podem ser armazenadas aqui até que estejam. Mas antes que esse trabalho comece, terei de ir a Londres conseguir um financiamento. Também precisamos visitar uma pedreira de ardósia maior para estudar os procedimentos, e talvez


contratar um administrador experiente. Depois ainda há a questão do novo cais no litoral. Temos de encontrar um local adequado e contratar um engenheiro. Nicholas observou o vale, distraído, pensando em todos os detalhes dos quais deveria cuidar. Dinheiro nenhum substituía tal atenção. — Está sorrindo — Clare comentou baixinho. — Como se estivesse ansioso para enfrentar esse desafio. — Confesso que estou confuso. Cheguei a pensar em vender Aberdare, e agora, tudo o que você me pediu para fazer irá me manter ainda mais preso aqui. Ao menos nos próximos dois anos. — Vender Aberdare? — Clare indagou, chocada, como se ele pudesse despachar a propriedade inteira, com ovelhas e tudo, em um navio para a China. — Mas você é galês, e este tem sido o lar dos Davies há séculos! — Eu não sou galês. Sou meio cigano e, apesar de meu avô adorar se proclamar descendente dos reis de Gales, a verdade é que várias gerações da família se casaram com herdeiras inglesas e tornaram o sangue dos Davies mais inglês do que galês. Aberdare representa apenas uma pequena parte da minha fortuna, e eu adoraria ir embora daqui para sempre. — Ao observar a expressão horrorizada da moça, Nicholas suspirou. — Essa hipótese a chocou mais do que qualquer outra coisa que fiz, não é mesmo? — Não poderia vender a propriedade, mesmo se quisesse. Aberdare não é uma herança inalienável, da qual você é apenas o arrendatário vitalício que deverá legá-la a seu herdeiro? Ele negou com um gesto de cabeça. — Um fideicomisso é recriado a cada geração. Normalmente, esse novo acordo é feito no vigésimo primeiro aniversário do herdeiro, ou por ocasião de seu casamento. Mas os filhos de meu avô morreram antes de herdar a propriedade. Como o antigo conde nunca me aceitou como seu sucessor, ficou adiando essa renegociação, a qual, após ele morrer de repente, ainda não tinha sido feita quando herdei


tudo. Se eu tentar, creio que posso romper meu vínculo com Aberdare. — Mas você é o herdeiro natural, e continuaria sendo mesmo se a segunda esposa dele tivesse lhe dado outro filho — ponderou Clare, perplexa. — O que ele esperava alcançar não aceitando isso? — Devia estar rezando por um milagre — Nicholas falou, seco. — Meu avô era muito religioso... Tinha certeza de que Deus iria lhe proporcionar algo melhor do que um legatário cujo sangue fora contaminado pelo sangue cigano. Diante do tom de zombaria, Clare o fitou, perspicaz. — Por isso o odiava? — Isso não é da sua conta, minha querida — ele retrucou, querendo saber por que havia revelado mais para uma quase estranha do que já fizera a seus amigos mais próximos. Segurou-a pelo braço e a conduziu até o aclive onde se encontravam suas montarias. — Alguém já lhe disse que é astuta demais? — Mais ou menos. Por que acha que continuo solteira? — Ela montou na sela e em seguida o encarou com seriedade. — Seu avô possuía a reputação de ser um bom cristão e um homem sensato. Estou começando a achar que a verdade sobre ele deve ser bem menos lisonjeira. — Clare, Clare... — Nicholas montou no cavalo e virou-se para a direção da qual eles tinham vindo. — Por que está tão preocupada com essa história? — Uma mulher não deveria se preocupar com seu amante? — indagou ela, delicada. Seus olhares se encontraram, e Nicholas sentiu algo mudar dentro dele, criando um momento de estranha vulnerabilidade. Clare Morgan poderia magoá-lo muito se ele não tomasse cuidado. — Uma mulher deveria se preocupar um pouco com seu amante, mas não tanto. O dinheiro e a paixão é que são a base desse tipo de relacionamento — observou, lançando mão do escárnio. — Uma vez que não desejo nenhuma dessas coisas, como é que eu


fico? — ela exigiu, recusando-se a se deixar abater. — Como a santa padroeira de uma pedreira de ardósia — Nicholas respondeu de pronto. — Talvez eu até possa chamá-la de “Santa Clara”. — Ao vê-la torcer os lábios numa careta, Nicholas continuou: — Por falar nos seus projetos, eu gostaria de visitar a mina de carvão. Poderia providenciar isso por meio de seus amigos? — Estou certa de que o administrador, George Madoc, ficaria feliz em receber a visita do maior latifundiário da região. — Não é Madoc quem eu quero ver; pelo menos, não ainda. Prefiro ir até a mina acompanhado de um bom guia, a fim de verificar por mim mesmo os problemas que mencionou. Mais uma vez, Clare sentiu-se como se apanhada por uma tempestade. Não esperava que Nicholas fosse agir tão depressa, ou que se mostrasse tão disposto a cumprir logo a sua parte no trato. — O líder do meu grupo da congregação trabalha como picador na mina. Tenho certeza de que ele se disporia a levá-lo até lá e explicar os riscos. — Isso não poria o emprego dele em risco? — Talvez — ela admitiu. — Mas, se ele for demitido, poderá contratá-lo para trabalhar na pedreira. É um excelente trabalhador. — Muito bem. Convoque-o para que façamos isso o mais depressa possível, de preferência em um momento em que Madoc não esteja lá. Não há razão para arrumarmos mais problemas. Ambos ficaram em silêncio. Era quase hora do almoço, e o dia estava excepcionalmente quente, mas, como Nicholas se encontrava com a cabeça descoberta, Clare decidiu que ela também poderia tirar o chapéu. Após um longo e frio inverno, sentir os raios do sol no rosto era maravilhoso. Nicholas desmontou para abrir um portão que dava para um pasto cheio de gado galês preto. Sabendo que ele iria simplesmente pular a cerca se estivesse sozinho, Clare sentiu-se grata pela cortesia. — Tem razão quando diz que as práticas agrícolas locais precisam


de mais atenção — comentou Nicholas enquanto fechava a porteira atrás dela. — Conduzir o melhor gado para Londres a cada ano fez com que a qualidade do rebanho se deteriorasse em todo o País de Gales. Enquanto estivermos em Londres, pretendo comprar uma boa parelha de touros para reprodução. Além de usá-los para melhorar o rebanho em Aberdare, posso deixá-los disponíveis para os pequenos agricultores locais. — Cuidar para que haja uma boa reprodução local é a primeira coisa em que alguém como você iria pensar, sem dúvida... — Clare viuse dizendo, enquanto concluía que a maledicência de Nicholas devia ser contagiosa. Em vez de se mostrar insultado, ele caiu na gargalhada. — Se não tomar cuidado, vou me convencer de que é dona de um senso de humor no mínimo perverso. Rhonda diminuiu o passo, e Clare percebeu que estava puxando as rédeas outra vez. Oh, Céus!, pensou. Como Nicholas podia ser encantador! — Venha comigo. — Ele virou o cavalo para a direita e a levou para uma área rochosa ainda maior dentro da propriedade. Então deixou o cavalo amarrado à beira de um bosque de plátanos e a ajudou a desmontar. — Vamos percorrer o resto do caminho a pé. Mais uma vez amparando-a pela cintura, Nicholas a guiou para dentro da floresta. Inquieta, Clare reconheceu como era agradável sentir-se protegida. Saíram da mata direto para um pequeno lago formado em meio ao solo rochoso. Clare parou e piscou, não acreditando no que seus olhos viam. — Que coisa linda! Meus alunos adorariam este lugar! Posso trazer minha turma aqui? Quando o conde ergueu uma sobrancelha, Clare se lembrou de que não trabalharia mais na escola. Ao menos não nos três meses seguintes. — Não vejo por que não — ele respondeu após algum tempo,


jogando uma pedrinha que quicou alegremente sobre a superfície límpida da água. — Eu poderia ficar aqui por horas. — Clare suspirou, deliciada. — Nunca vi uma lagoa tão convidativa... Mas é difícil imaginar um programa destes com o clima de Gales. — Todos reclamam do clima daqui, mas ele é a marca da identidade galesa. Tanto que eu até senti falta deste tempo esquisito quando estive fora. O clima aqui vive mudando, o que é muito mais interessante do que semanas e semanas de sol a pino. — Uma expressão travessa transformou o rosto do conde. — Aliás, o dia está quente e perfeito para um mergulho. Sem dizer mais uma palavra, afastou-se alguns passos pela praia de seixos, livrou-se da casaca e do colete e, em seguida, começou a desamarrar a gravata. Clare o observou, aflita. — Não pode simplesmente tirar a roupa e pular no lago? — Claro que posso. — Ele arremessou a gravata sobre o restante do vestuário. — Se fosse uma boa amante, viria também. Embora, nesse caso, talvez nem chegássemos até a água... — Não está falando a sério. — Ela riu, nervosa. — Ah, Clare! Bem se vê que não me conhece. — Nicholas sentouse em uma pedra e puxou as botas. Em seguida, de pé, abriu o colarinho da camisa. Quando ele a puxou por sobre a cabeça, expondo uma grande faixa da pele lisa e morena, Clare soltou o ar que vinha prendendo. — Pare com isso... Não é decente. — Por quê? Qualquer uma das criaturas da Terra vive apenas com a pele que Deus lhes deu. Não é natural que os seres humanos se cubram dos pés à cabeça. Tanto que nas partes mais quentes do mundo, ninguém faz isso. Rindo, Nicholas jogou a camisa na pilha crescente de roupas. Tinha o peito e os braços tão bem-torneados como uma estátua grega,


porém muito mais acolhedores e convidativos do que o mármore poderia ser. Clare continuou paralisada, incapaz de desviar o olhar dos pelos que lhe cobriam o peito, e que depois desciam pelo abdômen reto em uma linha escura que desaparecia por trás do cós. — Tem certeza de que não quer vir comigo? A água deve estar fria, mas o sol está quente... — Ele começou a desabotoar as calças. Clare deu meia-volta e fugiu. — Vou esperar com os cavalos — disse, sem olhar para trás. A risada do conde a seguiu floresta adentro. Clare correu até não poder mais ver o lago, então parou e se agarrou a uma árvore, o coração batendo forte. Enquanto lutava para recuperar o fôlego, fez uma descoberta estarrecedora. Ela queria ter ficado e visto o corpo nu de Nicholas. Lascas caíram do tronco da árvore. Como podia querer algo tão imoral? Como poderiam vinte e seis anos de comportamento irrepreensível ser esquecidos tão depressa? Sua mente febril procurou uma desculpa racional para que pudesse voltar lá e vê-lo nadar. Talvez, se observasse Nicholas naquele momento, pudesse aplacar um pouco do mistério que o cercava, e caso ele se comportasse de modo tão escandaloso outra vez, ela fosse capaz de encarar o fato com mais serenidade. Mesmo enquanto elaborava uma estratégia, Clare soube que era tudo pretexto. A verdade era que sua força de vontade não era tanta a ponto de impedi-la de voltar. Com os lábios apertados pela autocensura, virou-se e, devagar, refez seus passos através do bosque. Quando chegou à margem da floresta, escondeu-se atrás de um arbusto, sabendo que, se Nicholas a visse, morreria de vergonha. De costas para ela, ele entrava na água, a pele brilhando à luz do sol. Clare assistiu, fascinada, a arcada poderosa de sua espinha e os músculos tensos das nádegas e coxas benfeitas que se flexionavam a


cada passo. Nicholas era um ímpio, tão em harmonia com a natureza como o vento e as árvores. Prendeu a respiração, o coração doendo, certa de que nunca poderia ser uma Eva para aquele glorioso Adão. Ele mergulhou e desapareceu, ficando por tanto tempo submerso que Clare começou a ficar preocupada. Então apareceu do outro lado do lago, o cabelo negro penteado para trás. Quantas outras mulheres o teriam visto daquele jeito e ansiado por seu corpo másculo e estonteante? E quantas ele tinha seduzido e depois esquecido? O pensamento a fez recolocar os pés no chão. Nicholas era um libertino, um filisteu que nem mesmo se esforçava para negar que havia aprontado poucas e boas. E a presença dela em sua vida era acidental e temporária. Em vez de ficar ali, adorando-o como a um deus pagão, ela deveria mais era se concentrar em sobreviver nos três meses seguintes com a dignidade e a reputação intactas. Entretanto, a simples visão daquele homem lhe despertava emoções que ela não sabia ser capaz de sentir. Às cegas, deslizou para dentro da floresta e fez o caminho de volta até os cavalos. Sentindo-se insegura e terrivelmente sozinha, colocou os braços ao redor do pescoço de Rhonda e escondeu o rosto em seu pelo quente. Com um terrível mal-estar, reconheceu que era vulnerável ao charme letal de Nicholas Davies. Quando aceitara aquele desafio, acreditava-se muito forte, muito cheia de moral para sucumbir à fraqueza da carne. No entanto, bastaram algumas horas em sua companhia para que ela suspeitasse de que os ardis do jovem conde eram mais potentes do que seus princípios. Se fosse a mulher que as pessoas imaginavam, teria forças para resistir. Mas não era. Era uma fraude. Toda a sua vida, havia trabalhado muito para convencer aqueles ao


seu redor de que era altamente espiritualizada. Tinha sido o modelo da metodista devota, ajudando os que necessitavam, oferecendo conforto aos aflitos. E sua farsa fora bem-sucedida, pois nunca ocorrera a ninguém duvidar da fé da filha de Thomas Morgan. No entanto, em seu coração, ela carregava a vergonhosa certeza de que era uma impostora. Nunca experimentara aquela percepção divina que era o cerne de sua religião. Nem uma vez conhecera o êxtase da Divina Graça, embora a tivesse visto naqueles à sua volta. Essa falha sempre fora seu mais obscuro segredo. Não o revelara nem mesmo ao pai, que assumira ser o seu espírito tão verdadeiro quanto o dele, muito menos para Owen Morris, que, como líder da congregação, também atuava como seu guia espiritual. Não que ela não tivesse fé. Clare realmente acreditava que o mundo fora moldado por um propósito divino. Que era melhor se comportar com bondade do que com crueldade, e que servir ao próximo era seu maior objetivo de vida. Acima de tudo, acreditava... precisava acreditar... que atitudes eram mais importantes do que palavras. Talvez, quando chegasse o momento de ela ser julgada, suas obras fossem superiores às suas falhas espirituais. Clare levou a mão à boca para reprimir um soluço. Não era justo. Ela não era uma virgem pagã que poderia reagir a Nicholas sem culpa! No entanto, sua fé também não era suficiente para fazê-la resistir a ele com serenidade. Mas de uma coisa tinha certeza: os três meses seguintes iriam lhe ensinar tudo sobre o inferno.


Capítulo V Após secar-se com o colete, Nicholas vestiu-se e foi até os cavalos, assobiando baixinho. Clare estava sentada de pernas cruzadas embaixo de uma árvore, a expressão pensativa, e para seu pesar, não havia mais nenhum sinal da timidez encantadora que exibira quando ele começara a se despir. — Devia ter se juntado a mim — falou, oferecendo-lhe a mão. Ignorando o gesto, ela ficou em pé sem ajuda. — Não nado tão bem quanto você — respondeu, amuada. — Ah, então andou me observando — ele replicou com prazer. — Eu nunca disse que não observaria. As nuvens tinham coberto o sol e refrigerado o ar, e a viagem de volta foi bastante tranquila. Depois de guardar os cavalos, Nicholas acompanhou Clare até a casa, satisfeito em ver que agora ela aceitava seu toque casual. Seu bom humor se evaporou logo que ele entrou na casa do avô. — O que acha deste lugar, Clare? — indagou, conforme a conduzia para a sala principal. — É grandioso — ela comentou após uma pequena pausa. Nicholas estudou o cômodo com desgosto. — Gosta ou não? — Não é uma pergunta justa. — Ela franziu o cenho. — Sou uma mulher simples, com gostos de uma trabalhadora rural. Sei apreciar uma cadeira de carvalho, uma parede caiada de branco, uma colcha bem tecida, mas não entendo nada de móveis finos, arte ou do estilo aristocrático. — Isso não significa que sua opinião não tenha valor. Esta casa agrada aos seus sentidos? — Para ser honesta, acho que é opressiva. — Clare olhou ao redor. — É muito... entulhada. Cada centímetro parece estar cheio de padrões, tecidos, ou peças de porcelana cujo valor poderia alimentar


uma família pobre por um ano. Tudo da melhor qualidade, sem dúvida. — Ela correu um dedo por um quadro, então franziu o cenho diante da poeira. — Mas a limpeza deixe muito a desejar. De qualquer forma, prefiro a minha cabana. — Muito entulhada — repetiu Nicholas. — É exatamente assim que eu sinto. Ciganos não gostam de ficar em casa, e esta sempre me fez sentir ainda mais sufocado. — Pensa em si mesmo como um cigano? Ele deu de ombros. — Quando me convém. Nicholas ergueu uma estatueta de porcelana que representava um leão devorando uma criança desobediente. A peça de gosto duvidoso sempre agradara a seu avô, enquanto a vontade dele, Nicholas, era parti-la em mil pedaços. Por que não? Com um movimento rápido, lançou a figura na lareira, e esta se espatifou com um agradável estrondo. Satisfeito, ele se virou para Clare, que o observava, espantada. — Eu lhe dou permissão para mudar o que quiser aqui — decidiu. — Livrar-se destas quinquilharias, contratar mais empregados... Limpeza, pintura, papel de parede... o que achar melhor. Já que, por sua causa, vou gastar mais tempo neste mausoléu do que havia planejado, tem a obrigação de torná-lo mais habitável. Compre o que achar necessário e mande que enviem as contas para mim. Não apenas injetará dinheiro na economia local, mas também vai deixar Williams feliz da vida. Tenho a impressão de que ele considera sua função aqui um tanto aborrecida. Vou instruí-lo a seguir as suas ordens assim como as minhas. — É parte do trabalho de uma amante redecorar a casa? — perguntou ela com desânimo. — A maioria delas iria desmaiar de prazer com uma oportunidade destas — ele garantiu. — Gostaria de visitar o sótão? Há dezenas de outros móveis lá. É possível que encontre coisas que sejam mais do


seu gosto. — Mais tarde, talvez. Antes de fazer qualquer mudança, preciso observar tudo e pensar — Clare respondeu, parecendo um pouco atordoada. — É uma decisão sábia. — Nicholas olhou para o relógio de ouropel sobre a lareira. — Preciso encontrar meu mordomo agora, por isso vou deixá-la à sua própria sorte o resto da tarde... Jantaremos às seis. Se quiser se banhar primeiro, toque o sino do seu quarto, e os criados providenciarão água quente. Até mais tarde. Retirou-se, já se sentindo menos oprimido pela casa. A gerência de Clare sem dúvida operaria milagres em Aberdare. Talvez, com o tempo, ele até começasse a se sentir à vontade na casa do avô. Clare passou a hora seguinte examinando as dependências da casa. A planta era básica, e as proporções atraentes, mas a decoração parece ter sido escolhida mais pela grandeza do que pelo conforto, e havia muito de tudo. Quando terminou a pesquisa, rumou para o próprio quarto, que era do tamanho de sua cabana inteira. Este também era lotado de coisas, mas as cortinas azuis e as roupas de cama até que eram bonitas. Se ela tirasse tudo o que era desnecessário, além daqueles quadros horrorosos, ficaria bastante agradável. Sentindo-se exausta, permitiu-se jogar na cama, então cruzou as mãos atrás da cabeça e pensou sobre o que tinha acontecido desde o momento em que chegara a Aberdare. Era como se dias, em vez de horas, houvessem se passado. Mal podia acreditar que o conde simplesmente lhe passara as rédeas da casa, com carta branca para mudar o que ela desejasse. E, agora que havia se recuperado da surpresa, estava adorando a perspectiva de melhorar aquela mansão berrante e empoeirada. Tanto que pensou, fez listas e planejou pelo resto da tarde. Abandonou seus planos apenas quando o relógio bateu cinco horas. Já era hora de se preparar para seu primeiro jantar com


Nicholas. O trabalho a equilibrara, e Clare já não se sentia tão frágil como no lago. No entanto, estar em uma casa tão grande era enervante. Até mesmo tocar o sino para pedir água para o banho a fez sentir-se pouco à vontade, já que os Morgan nunca haviam tido empregados. Sua preocupação desapareceu quando a pequena criada que respondeu ao chamado revelou ser uma ex-aluna sua. Dilys era uma menina doce e bem-humorada que sempre a adorara, e que aceitou sua presença como se fosse perfeitamente natural para uma professora de escola ser hóspede de um conde. Por sua vez, Clare descobriu que pedir um banho a Dilys não era mais difícil do que dizer a um aluno para recitar a tabuada. No entanto, não se absteve de ajudá-la quando a menina cambaleou para dentro do quarto com dois enormes jarros de cobre com água quente. Se fosse uma daquelas damas de verdade, na certa teria deixado a criada se arranjar sozinha. A tina gigantesca era deliciosa. Ela jamais gozara do luxo de tanta água quente. Ficou imersa na água por tanto tempo que teve de arrumar os cabelos e se vestir às pressas depois. Apenas um de seus vestidos era adequado para usar à noite. Era velho e nunca havia estado na moda. No entanto, o tecido azul combinava com seus olhos, e o decote revelava vários centímetros de pele lisa abaixo do pescoço. Olhou para si mesma e tentou imaginar como ficaria em um vestido novo e mais decotado. Conformada, percebeu que, mesmo que possuísse tal peça de vestuário e tivesse a coragem de usá-la, o resultado seria absolutamente normal. Após escovar bem os cabelos e prendê-los em um coque brilhante na nuca, Clare examinou- se no espelho. O calor úmido do banho fizera os fios escuros cair em ondas suaves em torno de seu rosto, diminuindo sua habitual seriedade. Por sorte sua compleição era boa, e


tinha aquela pele rosada dos galeses. Seu reflexo exibia exatamente o que ela era: uma mulher modesta, de hábitos simples. Pelo bem de seu orgulho, julgou-se tão adequada quanto possível, mas comum demais para levar o conde de Aberdare à loucura. Deu graças a Deus por isso. Já era ruim o suficiente que ele considerasse um jogo seduzi-la. Se Nicholas se empenhasse em conquistá-la, ela talvez não conseguisse resistir a ele. Enxugando as palmas das mãos repentinamente úmidas, Clare desceu para jantar. O dia estava terminando, e ela não conseguia deixar de pensar quando o conde iria requisitar seu beijo. E o mais importante: como ela reagiria quando ele o fizesse? Nicholas já se encontrava na sala de visitas da família, servindo bebida de uma garrafa. Vestido com calças e uma casaca preta de excelente corte, parecia pronto para jantar com o príncipe regente. Clare parou na porta, abalada pelo absurdo da situação. Que diabo ela, Clare Morgan, fazia em Aberdare? Ouvindo seus passos, Nicholas ergueu a cabeça e parou com uma expressão de surpresa. — Está linda, Clare. Havia tanto calor em sua voz que ela estremeceu. Nicholas não era apenas rico e bonito. Tinha a habilidade de fazer uma mulher se sentir valorizada. Talvez esse fosse o talento natural de um libertino. Uma mulher daria tudo para manter aquela expressão nos olhos de um homem. — Obrigada — murmurou, tentando soar como se elogios fossem comuns em sua vida. — Seria impróprio dizer que você também poderia encantar qualquer mulher que se deixe impressionar facilmente? Ele a fitou, esperançoso. — Você se deixa impressionar facilmente? — Nem um pouco. — Clare tentou ficar séria, mas não pôde deixar


de sorrir. — Pena. — Nicholas pegou uma garrafa diferente. — Gostaria de uma taça de xerez? Por um momento, Clare considerou aceitar, mas balançou a cabeça. — Não, obrigada. — É comum os metodistas evitarem as bebidas fortes. — Ele pousou a garrafa. — Mas bebe cerveja, não é? — É claro. Todos bebem. — Então prove um pouco deste vinho alemão. É mais suave que a maioria das cervejas. Juro que isto não vai fazer você dançar sobre a mesa... — acrescentou ao vê-la hesitar; em seguida deu um suspiro teatral. — Infelizmente. Clare riu. — Está bem, vou aceitar um pouco. Mas não precisa temer por sua mesa. Eu também não danço. — Ah, eu tinha me esquecido. — Nicholas abriu a garrafa e despejou o vinho em uma taça. — Afinal, o que os metodistas fazem para se divertir? — Oramos e cantamos. — Vou ter de ampliar o seu repertório. — Ele entregou-lhe uma das taças. — Vamos beber em homenagem a uma conclusão mutuamente satisfatória do nosso acordo. — Muito bem. — Clare ergueu a taça. — Que daqui a três meses a mina esteja mais segura, e a aldeia de Penreith mais saudável, rica e feliz. E que você tenha sido iluminado e se tornado um homem mais sério e piedoso. E que eu tenha voltado para casa com a minha reputação e carreira intactas. Nicholas tocou a borda da taça na dela, os olhos negros brilhando. — Minha definição de “mutuamente satisfatória” difere em vários detalhes. — Em quais? Ele sorriu.


— É melhor eu não dizer. Você esvaziaria o restante do seu vinho na minha cabeça. Surpresa, Clare percebeu que estava flertando. E não apenas mantinha uma conversa provocante, em um tom sugestivo, como estava gostando de fazer aquilo. A intenção de se manter sofisticada e no controle da situação desapareceu quando ela cometeu o deslize de olhar para o rosto de Nicholas. Ele a fitava com tanta intensidade que a desconcertou. Diante do calor quase palpável nos olhos escuros, Clare se viu presa, incapaz de desviar o olhar. Sentiu o sangue correr nas veias com um calor incomum, apressando-se para cada ponto onde o olhar dele se movia lentamente. Primeiro foram seus lábios que formigaram, depois a base do pescoço; quase como se ele a estivesse acariciando com a ponta dos dedos. Quando o olhar de Nicholas pousou em seus seios, os mamilos enrijeceram, sensíveis. Santo Deus! Se ele podia afetá-la daquele modo a um metro de distância, o que aconteceria quando a tocasse? Antes que perdesse totalmente o rumo, Clare foi salva pelo tilintar suave de um sino anunciando o jantar. Nicholas desviou o olhar, livrando-a de seu feitiço. — Vamos ver do que o cozinheiro é capaz. Não tive uma refeição decente desde que voltei a Aberdare, então não faço ideia se ele é competente... Na verdade, não sei nem mesmo se é um cozinheiro ou uma cozinheira. — Eu conversei com Williams, e ele me contou que uma das duas empregadas, Gladys, foi designada como cozinheira temporária — esclareceu Clare, na esperança de já parecer recomposta. — Por isso eu digo: não precisa de uma amante. Precisa de uma governanta para pôr ordem na sua casa. — Não pode ser as duas coisas ao mesmo tempo? Mais uma vez, Nicholas colocou a mão na parte de baixo de suas costas possessivamente no intuito de guiá-la.


Clare prendeu a respiração. O vestido e a anágua eram bem mais finos do que as roupas de montaria que tinha usado antes, e o efeito foi quase tão íntimo como se ele tivesse lhe tocado a pele. Nicholas percebeu sua reação, claro. — E eu aqui pensando que já se sentia mais à vontade comigo... — falou baixinho. — Não precisa ter medo, Clare. Ela riu sem vontade. — Se eu tivesse algum juízo, estaria apavorada. Você é o dobro do meu tamanho, e provavelmente possui quatro vezes a minha força. Estou à sua mercê. O fato de eu ter vindo para debaixo do seu teto de livre e espontânea vontade lhe daria o direito de fazer qualquer coisa, menos cometer assassinato... E a maioria das pessoas ainda diria ser o que eu merecia, pela minha desavergonhada conduta. A expressão do conde endureceu. — Deixe-me repetir uma coisa: não tenho interesse nenhum em seduzir quem não me quer. Apesar da minha fama e de ser mais forte fisicamente, você detém o maior poder: tem o direito de dizer “não”. Por exemplo... — Ele levantou a mão e roçou seu rosto com os nós dos dedos. O movimento lento ardeu na pele de Clare, sedutor e alarmante, e ela sentiu-se vulnerável, como se o toque pudesse eliminar seu bomsenso e expor os anseios que não conseguia admitir. — Devo continuar? — murmurou Nicholas. Do fundo do coração, Clare quis dizer “sim”. — Não — respondeu em vez disso, e ele afastou a mão no mesmo instante. — Veja como é fácil me fazer parar. Nicholas pensava que ela havia feito aquilo com facilidade? Aparentemente, não era tão onisciente quanto parecia. — Por que não rouba o seu beijo do dia de uma vez e acaba logo com isso? — exigiu Clare com os nervos em frangalhos. — Vou desfrutar melhor o jantar se não estiver me sentindo como um rato


sendo perseguido por um gato. Ele sorriu, malicioso. — É a minha vez de dizer “não”. A expectativa é parte do prazer de se fazer amor. Como eu só posso ter a certeza de um beijo, quero adiar o momento tanto quanto for possível. Portanto, não tema... — Guiou-a para a sala de jantar. — Prometo não saltar sobre a mesa antes de ter se revigorado com a comida. O conde devia saber que seu verdadeiro medo não era que ele não se detivesse, mas que ela fosse incapaz de dizer “não”. O pensamento a fortificou. Sim, ele era poderoso e infinitamente mais experiente que ela, mas isso não significava que precisava perder aquela briga. Cabia a ela ser mais forte. Com esse objetivo, Clare o encorajou a falar sobre suas viagens em vez de assuntos mais pessoais. Para sua surpresa, Nicholas tinha viajado por todo o continente. — Como conseguiu ver tanto da Europa quando Napoleão a fechou para os britânicos? — indagou, quando ele mencionou uma visita a Paris. — Viajando com o meu lado “podre” da família... Nem mesmo os exércitos de Napoleão detêm os ciganos. Quando entrei para uma kumpania, uma sociedade cigana, tornei-me apenas mais um comerciante de cavalos. Ninguém imaginou que eu fosse britânico. — Parando de tomar a sopa de alho-poró, Nicholas serviu mais vinho nas taças. Clare empurrou o prato de sopa com alívio. Estava ruim demais. — Quer dizer, então, que se gostasse de espionagem, viajar como cigano teria sido o disfarce perfeito. Ele começou a tossir. Quando ela o observou, surpresa, conseguiu dizer: — Engoli pelo lado errado. Clare inclinou a cabeça de lado. — Isso foi coincidência, ou uma reação de culpa porque está


mesmo envolvido com espionagem? — Você é mesmo inteligente demais para o meu gosto. — Nicholas bebeu um gole do vinho, pensativo. — Suponho que não haja mal nenhum em dizer que um velho amigo meu é ativo no trabalho de inteligência. E que, às vezes, passo informações que possam auxiliá-lo. Já atuei como mensageiro quando isso se encaixou nos meus próprios planos. Mas nunca fui um espião de verdade. Daria trabalho demais. Clare ficou intrigada com a relutância do conde em admitir que havia servido a seu país. Talvez ele não fosse o irresponsável que fingia ser. Talvez simplesmente apreciasse um pouco de aventura. Williams e Dilys entraram na sala juntos. Com um olhar nervoso na direção do conde, a menina retirou as tigelas de sopa, enquanto Williams colocava um prato de cordeiro com aparência de queimado diante de seu patrão. Em seguida serviu-os com mais meia dúzia de outras iguarias. Após dispensar o mordomo, Nicholas cutucou o cordeiro. — Se a sopa foi um indicador, Gladys está longe de estar em condições de assumir a cozinha. E esta coisa não parece muito promissora, também. Quando Clare provou a carne dura, teve de concordar. Nicholas fez uma careta ao experimentar. — Precisamos tomar uma providência urgente quanto a isso. Vendo seu olhar especulativo, Clare pousou o garfo com um sorriso reticente. — Sim, eu sou boa cozinheira, mas não vou ter tempo para trabalhar na cozinha. E não tente me convencer de que uma mulher também tem de cozinhar para seu amante. — Eu não estava pensando em fazê-la gastar seu precioso tempo na cozinha. — Ele sorriu, travesso. — Mas uma amante também pode fazer coisas interessantes com alimentos... Devo descrevê-las? — Não! — Em outra ocasião, quem sabe... — Ele cutucou uma batata


cozida com o garfo, e esta se desintegrou em uma massa disforme. — Conhece alguma cozinheira decente que esteja à procura de trabalho? — Não no vale. Talvez encontre alguém em Swansea, mas provavelmente será melhor procurar em Londres. Deve haver agências especializadas em contratar chefs franceses para a aristocracia. — Chefs franceses são muito temperamentais, e a maioria ia ficar louca com o tédio no País de Gales. Não existem bons cozinheiros por aqui? — Sem dúvida. Mas seus pratos iriam parecer muito simples para um nobre. — Eu aprecio o trivial, desde que benfeito. — Após um exame minucioso, Nicholas empurrou um caroço de aspecto sinistro para o lado do prato. — Tem certeza de que não conhece ninguém competente que possa começar em breve? De preferência amanhã cedo? Sua impaciência aristocrática a fez sorrir. — Há uma mulher em Penreith que trabalhava em Aberdare como ajudante de cozinha antes de se casar. Não é uma cozinheira treinada, mas sempre que jantei na casa dela, a comida estava maravilhosa. E talvez ela fique grata pelo trabalho... O marido foi um dos que morreram na mina no ano passado. Nicholas separou mais uma substância misteriosa marrom e gordurosa no prato. — Que diabo é isto? Não, não me diga. Prefiro não saber. Se puder convencer a viúva a vir até aqui amanhã mesmo, serei eternamente grato. — Vou ver o que posso fazer. — Clare franziu o nariz para as couves-de-bruxelas frias e acinzentadas. — Também tenho todo o interesse no resultado dessa negociação. Após vários minutos mastigando sem entusiasmo, Nicholas suspirou. — Agora que teve tempo para refletir, já elaborou uma estratégia


de decoração para o solar? — O levantamento que fiz do piso térreo confirmou a minha impressão inicial: a retirada das quinquilharias e uma boa faxina irão fazer maravilhas. — Clare experimentou a torta de maçã, que estava insípida, porém não intragável. — Não farei nada muito radical. Afinal, quando for se casar novamente, sua esposa terá seus próprios planos. Nicholas pousou a taça de vinho sobre a mesa com uma força que quase a quebrou. — Não precisa se preocupar com isso. Eu nunca mais vou me casar. Clare piscou. Nunca o ouvira usar aquele tom antes. O rosto moreno ficara sombrio como nuvens prenunciando uma tempestade. Tudo levava a crer que o conde amara a esposa e lamentava sua morte. A falecida Caroline, ou viscondessa Tregar, também era filha de um conde, e tinha agregado seu título e fortuna ao casamento. Durante os meses que estivera em Aberdare, quase nunca fora vista na aldeia. Mas Clare tivera essa oportunidade em uma dessas ocasiões. A esposa de Nicholas era alta, graciosa e gloriosamente loira. Tão linda que, ao vê-la, havia parado para olhar. Não era nenhuma surpresa que sua perda ainda doesse nele. Sem dizer que sua dor devia ser ainda pior diante da parcela de culpa que lhe era atribuída na morte prematura da moça. Mais uma vez, Clare se perguntou o que acontecera naquela noite em que o antigo conde e lady Tregar haviam falecido. Era difícil acreditar que Nicholas estivesse tão enlouquecido de desejo pela mulher do avô a ponto de desafiar toda a decência. A segunda condessa, Emily, era apenas alguns anos mais velha que seu neto postiço, mas, mesmo sendo atraente, ninguém a olhava mais do que duas vezes se Caroline estivesse por perto. A menos que o jovem conde detestasse tanto o avô que tivesse tido a intenção de feri-lo da forma mais vil possível.


O pensamento de que Nicholas teria seduzido a condessa por tal razão revirou o estômago de Clare. Uma série de imagens aterrorizantes passou por sua mente: Nicholas e a esposa do avô sendo flagrados, o antigo conde entrando em colapso cardíaco, Caroline chocada com a descoberta e se retirando de cena... apenas para morrer enquanto fugia do monstro com quem se casara. Se isso tinha mesmo acontecido, Nicholas era moralmente responsável pela morte da esposa e do avô, mesmo que não os tivesse matado com as próprias mãos. Contudo, Clare se recusava a acreditar que ele tivesse se comportado de modo tão perverso. Embora fosse temperamental, não enxergava nenhuma maldade nele. Por outro lado, refletiu, séria, era possível que Nicholas tivesse agido por impulso em vez de uma agressividade calculada. E se tivesse mesmo provocado aquela tragédia, tinha muitos motivos para se sentir culpado. Nauseada, ela empurrou o prato. — Está certa em fazer isso — comentou Nicholas, sem ter noção de como seus pensamentos eram lúgubres. — Não se pode perder tempo com uma refeição destas. Por um momento, Clare sentiu-se desorientada. Era impossível conciliar tal pesadelo com o homem charmoso e brincalhão sentado à sua frente. Se pretendia passar três meses em sua companhia, decidiu, deveria esquecer aquelas especulações sobre seu passado, caso contrário iria enlouquecer. Nicholas franziu as sobrancelhas, perguntando-se o que havia de errado. — Posso me retirar e deixá-lo com seu vinho do Porto agora? — ela conseguiu dizer, não sem esforço. A expressão no rosto moreno se suavizou. — Prefiro dispensar o Porto. Considero-a muito mais interessante... assim como uma amante deve ser.


— Não me sinto muito interessante no momento. — Clare se pôs de pé. — Posso ir para o meu quarto, ou é parte do acordo lhe fazer companhia durante a noite? Nicholas se levantou também. — Não acho que seria justo forçá-la a me suportar o tempo todo, mas eu gostaria se ficasse de bom grado. Ainda é cedo. O tom levemente melancólico em sua voz a fez hesitar. Talvez o conde estivesse carente. Não que isso a surpreendesse, pois ele não contava com amigos ou familiares em Aberdare. Mas não havia lhe ocorrido que Nicholas pudesse sofrer de dores comuns como a solidão. A empatia com ele foi mais forte do que sua necessidade de ficar sozinha. — Como os nobres se divertem à noite? — Vendo um brilho familiar nos olhos negros, Clare se apressou em acrescentar: — Não, eu não vou fazer o que está pensando. Ele riu. — Não apenas é inteligente, como também pode ler pensamentos... Uma vez que já rejeitou minha primeira escolha, podemos jogar bilhar. — Não conhece nenhuma outra atividade respeitável além dessa? — ela indagou, desanimada. — Uma boa leitura na biblioteca seria bem mais tranquilo. — Outro dia, talvez. Mas, não se preocupe: não há nada imoral em jogar bilhar. A única razão para que pessoas decentes condenem o jogo é pelo risco de se cair em más companhias. — Seus lábios se curvaram. — Já que está aqui comigo, não vejo como isso pode piorar a sua situação. Clare viu-se rindo enquanto ele apanhava um candelabro e a levava para fora da sala. Ironicamente, percebeu que o verdadeiro perigo não era sua má companhia, mas o riso que Nicholas tinha o dom de provocar nela. Não seria fácil abrir mão disso quando chegasse a hora de ela


deixar Aberdare.


Capítulo VI A sala de bilhar ficava no outro extremo da casa. Enquanto Clare acendia as velas do candelabro que pendia do meio do teto, Nicholas atiçou o fogo para amainar o frio da noite úmida de primavera. Em seguida tirou a capa de veludo que protegia a mesa de jogo. A poeira acumulada voou em todas as direções, e ela espirrou. — Desculpe. — Ele dobrou a capa e a arremessou a um canto. — Outra falha de manutenção. — Estou começando a achar que meu papel como dona de casa não vai me deixar tempo para ser sua amante... — Posso conviver com a poeira — Nicholas apressou-se a dizer. Clare deu mais um de seus sorrisos involuntários e rapidamente reprimidos que o fascinavam. Arrancar dela aquele sorriso era como domar um potro: paciência era a chave. Ele apanhou um jogo de bolas de marfim no armário e o pôs sobre a mesa forrada de baeta. — Quer usar o bastão ou um taco? — Qual é a diferença? Nicholas entregou-lhe o bastão com uma cabeça larga e chata. — Esta é a maneira antiga de jogar bilhar. A bola é empurrada, como no shovelboard, se é que você já jogou isso. O jogador que o utiliza não precisa se curvar. — Ele bateu o bastão contra uma bola, e esta rumou para uma das caçapas. — E o taco? Nicholas tirou a casaca para que pudesse se mover livremente, em seguida se curvou, mirou o alvo e empurrou o taco. A primeira bola atirou a bola vermelha na caçapa e atingiu uma segunda, que também rumou para outro buraco. — O taco permite maior flexibilidade e controle, mas imagino que vá preferir o bastão, que não é tão imoral. Clare arqueou as sobrancelhas.


— Como um pedaço de madeira pode ser mais ético do que outro? — O bastão impede que uma dama com boa flexão exponha seus tornozelos para os depravados que estiverem presentes — ele explicou com naturalidade. Clare sentiu os lábios se movendo e tratou de apertá-los. — Por que não sorri de uma vez? — Nicholas perguntou, divertido. — Não deve ser fácil manter essa expressão séria do meu lado. A professora sóbria e dedicada caiu numa gargalhada em que ele não teria acreditado se não estivesse vendo com seus próprios olhos. — Está certo — admitiu, vencida. — Você nunca fala a sério, e está sendo muito difícil para mim manter a dignidade... Mas vou perseverar. — Levantou o bastão em uma das mãos e o taco no outro. — Não importa qual dos dois eu vá usar. Estou certa de que caí nas garras de um profissional. Nicholas fez rolar mais uma bola pelo feltro verde em direção a uma caçapa. Na metade do caminho, esta encontrou uma elevação e rumou para a direita. — Esta mesa está tão deformada que habilidade não conta muito. Estou ansioso por ver como a superfície de ardósia vai funcionar. — Quais são as regras? — Há várias modalidades diferentes, e os jogadores ainda podem inventar outras. Vamos começar com algo simples... Eu peguei seis bolas vermelhas, seis azuis e uma branca. A branca é utilizada para derrubar as outras nas caçapas, mas nunca deve cair nelas. Cada um de nós terá sua cor. Se você optar pelo vermelho, terá um ponto para cada bola vermelha que encaçapar, e perde outro se bater acidentalmente em uma azul. Quem estiver jogando continua até perder uma tacada. Clare deixou de lado o bastão e caminhou para o outro lado da mesa. Apanhando um taco, curvou-se e tentou um golpe. A ponta de madeira dura acertou a bola de marfim polido fora do centro, e esta rolou para o lado.


Ela torceu o nariz. — É mais difícil do que parece. — Tudo é mais difícil do que parece. Essa é a primeira lei da vida. — Ele contornou a mesa e se postou a seu lado. — Deixe-me fazer uma demonstração. Prometo que não vou olhar seus tornozelos. — Mentiroso. — Que moça mais desconfiada! — Nicholas ergueu a taco e repassou o processo de tacada passo a passo. — Coloque seu peso sobre o pé esquerdo e dobre bem os quadris. Os dedos de sua mão esquerda apoiarão a vara. Use o taco como mira e tente acertar a bola bem no centro. Quando Clare se inclinou para tentar, Nicholas se recostou na mesa, cruzou os braços e estudou-lhe os tornozelos ostensivamente. Ela revirou os olhos. Mas os tornozelos eram perfeitos, ele concluiu, assim como o restante dela. Clare não fazia o tipo espetacular que atraía a atenção do sexo masculino em uma sala lotada, e suas roupas disfarçavam mais do que lhe realçavam as curvas. No entanto, era esbelta, e quando estava relaxada tinha uma graça natural. Nicholas estava ansioso para ver como ela ficaria em roupas mais interessantes. Ou melhor, sem roupa nenhuma. Após Clare ter aprendido o básico, começaram uma partida. Nicholas deu-se uma desvantagem: suas tacadas não contariam, a menos que a bola batesse em duas bandas antes de cair em uma caçapa. A restrição, somada à irregularidade da superfície da mesa, equilibrava o jogo. Para seu divertimento, sua sóbria professora jogou como uma criança entusiasmada, fazendo caretas quando errava e sorrindo, feliz, quando acertava uma bola. Quantas vezes Clare se permitira fazer algo por prazer?, perguntouse, intrigado. Suspeitava que muito raramente. Decerto, desde que era criança,


ela havia gastado todo o seu tempo com trabalho e boas ações. Mas estava se divertindo agora. Tinha colocado duas bolas vermelhas em fila e se esticava sobre a mesa, tentando alinhar uma terceira. Vários fios dos cabelos castanhos se soltaram e caíram, sedutores, em torno de seu rosto. Sua posição também realçava a deliciosa curva dos quadris benfeitos, e ele se viu tentado a acariciálos. Com pesar, suprimiu o impulso para que a harmoniosa atmosfera entre eles não fosse rompida. Quando não estava irritada, Clare era excelente companhia: inteligente, espirituosa, e com uma concepção da natureza humana que compensava sua falta de experiência. Ela deu uma tacada, mas não acertou a bola de frente, que espirrou para um lado. — Droga! Outra estocada ruim. Nicholas sorriu. Embora o bilhar não pudesse ser considerado imoral, não havia como negar que bolas, varas, estocadas e caçapas fossem sugestivas para um depravado como ele. Clare, por outro lado, não reconhecia a obscenidade latente daquela conversa. — Linguagem forte, Clarissima... — ele a repreendeu, zombeteiro. — Talvez a exposição ao bilhar debilite mesmo a fibra moral. Ela colocou a mão na boca para esconder um sorriso. — Suspeito que a culpa não seja do jogo e sim da má companhia. Nicholas deu-lhe um olhar apreciativo, então se inclinou sobre a mesa, preparando a jogada seguinte. Movia-se com sensualidade, a camisa branca enfatizando a largura dos ombros e a cintura estreita. Era uma má companhia de fato. Moreno e diabolicamente bonito, o conde era o sonho de toda moça romântica ... e o pesadelo de qualquer pai protetor. No decorrer da partida, ele já se habituara aos calombos da mesa e, mesmo com a complicação de ter de fazer a bola passar longe deles, conseguiu encaçapar as quatro últimas bolas e pôs fim ao jogo.


— Sorte minha não termos apostado nada, ou você teria me deixado na miséria — ela observou. — Para uma novata, saiu-se muito bem, Clare — ele elogiou, cavalheiro. — Diminuiu a diferença em cada uma das partidas. Com prática, pode se transformar numa profissional. Ela ficou absurdamente feliz, embora o elogio fosse vergonhoso para uma moça metodista. — Vamos jogar outra partida? O relógio sobre a lareira começou a bater. — Onze horas, já? — Clare se surpreendeu. O dia estava quase acabando, e a hora da verdade havia chegado. Sua descontração se evaporou no mesmo instante. Na vã esperança de que Nicholas não se lembrasse de que tinha direito a um beijo, ela se apressou: — Hora de me recolher. Tenho muita coisa para fazer amanhã: encontrar a cozinheira em Penreith, marcar sua visita à mina, certificar-me de que minha amiga Marged está se saindo bem na escola... Milhões de coisas! Deixou o taco na prateleira e virou-se em direção à porta. Antes que desse um só passo, entretanto, o taco de Nicholas atravessou à sua frente, a ponta dura batendo na parede a seu lado. — Não está se esquecendo de nada? Clare se encolheu. — Eu não me esqueci... Mas pensei que você tivesse se esquecido. Ele a fitou com a expressão encantadora de um conquistador. — Nunca quando estive esperando por esse beijo o dia todo. Abaixou o taco e se aproximou. Quando levantou o braço, ela deu um passo para trás... e sentiu-se como uma idiota ao ver que ele apenas guardava o acessório no suporte. O conde lançou-lhe um olhar penetrante. — Ser beijada por mim é uma perspectiva assim tão terrível? Nunca tive reclamações no passado. Muito pelo contrário.


Clare tinha as costas coladas à parede e não podia recuar mais. — Vá em frente — disse, tensa. — Faça de uma vez. Uma súbita compreensão iluminou os olhos de Nicholas. — Clare... — Delicado, ele tocou seu queixo e o levantou, obrigando-a a encará-lo. — Você nunca foi beijada? Incapaz de negar um fato tão humilhante, ela respondeu secamente: — Nenhum homem quis fazer isso. Assim como no bilhar, Nicholas foi generoso e não a ridicularizou por sua inexperiência ou medo. — Garanto que há muitos homens sonhando com isso, mas você os intimida tanto que nenhum ousou tentar. — Ele começou a acariciar seus lábios com o polegar. — Relaxe, Clarissima. Meu objetivo é seduzi-la, não apavorá-la. O movimento era sensual, e o efeito foi ainda mais inquietante do que quando ele soltara seus cabelos no dia anterior. Os lábios de Clare se apartaram e, instintivamente, ela tocou-lhe o polegar com a ponta da língua. Ao sentir seu gosto salgado, corou de vergonha com a audácia de seu gesto. Nicholas deu um suspiro. — Se este é o seu primeiro beijo, vou começar devagar — sussurrou, ignorando o modo como ela recuou sutilmente. — Afinal, temos três meses pela frente... — Segurou-a pelos ombros e inclinou a cabeça. Clare se retraiu, preparando-se para um ataque, mas em vez de beijá-la na boca, Nicholas pressionou os lábios na pele macia de seu pescoço. Ela se imaginara preparada, mas não teve defesa contra aquela inesperada carícia. Sentiu o calor e uma pitada de umidade entre as coxas, e deixou-se recostar nele, enfraquecida e ofegante, conforme sua pulsação acelerava sob a pressão da boca sedutora. — Sua pele é deliciosa como seda... — ele murmurou, enquanto


traçava um caminho de beijos na curva sensível entre seu pescoço e ombro. — Suave e sedutora. Clare achou que deveria fazer alguma coisa, mas não tinha ideia do quê. Hesitante, enlaçou-o pela cintura, sentindo os músculos firmes sob a camisa de algodão. Nicholas exalou uma respiração quente em seu ouvido, então lhe mordiscou o lóbulo da orelha, os dentes fazendo um contraste erótico com a doçura de seus lábios, os dedos se movendo, inquietos, ao longo de suas costelas. Quando começou a acariciar seus ombros e braços, os olhos de Clare se fecharam, e ela se deixou levar por aquele mar de sensualidade, as mãos deslizando pelas costas largas numa incessante carícia. De repente, sentiu os cabelos caindo sobre os ombros, roçando sua pele sensível com a leveza de uma pluma. Sentia-se como se fosse feita de cera e pudesse ser moldada da forma como ele desejasse. Sentiu um leve puxão na nuca e, em seguida, a mão de Nicholas escorregou para baixo, a palma aberta aquecendo a área entre as omoplatas. Chocada, Clare percebeu que ele havia aberto um dos botões que lhe seguravam a parte de cima do vestido. Quando Nicholas começou abrir o segundo, ela se desvencilhou. — Não há um limite de tempo para se beijar? — exigiu com falsa compostura. — Certamente este já deve terminado. Ele não fez nenhuma tentativa para impedir que ela escapasse. Talvez sua respiração estivesse um pouco mais acelerada do que o normal, entretanto, não parecia tão afetado por seu abraço. — Não existe limite de tempo para um beijo. Ele só termina quando um dos participantes decide isso. — Muito bem. Então chega de beijo por hoje. — Clare ergueu os braços e abotoou o vestido com mãos trêmulas. — A experiência foi tão ruim assim, Clarissima? Não me pareceu tão insatisfeita.


Ela preferia não ter respondido, mas a honestidade a obrigou a isso. — Eu não disse que não tinha gostado. — Ainda está com medo de mim? — Nicholas tocou-lhe os cabelos soltos com tanta delicadeza que ela poderia nem ter notado. Mas percebia tudo o que ele fazia. Fechou os olhos por um instante, depois tornou a abri-los e encontrou seu olhar, determinada. — Aristófanes disse que meninos jogam pedras em sapos por brincadeira, mas que os sapos... esses morrem a sério. Vai partir meu coração em mil pedaços, milorde, e depois seguir em frente sem pensar duas vezes. Nicholas ficou muito quieto. — Só as coisas muito resistentes podem se partir em mil pedaços. Talvez seu coração precise mesmo ser despedaçado. Ela deixou escapar uma risada seca. — Isso soa muito profundo. Sua vida, por exemplo... foi destruída há quatro anos. Sente-se melhor ou mais feliz agora? A expressão do conde enrijeceu. — Definitivamente, é hora de nos recolhermos. Vou para Swansea amanhã, então a verei apenas no jantar. — Ele ergueu a capa de veludo empoeirado e a jogou sobre a mesa. Clare apanhou o pequeno candelabro e saiu da sala quase correndo. Não parou até que chegou ao quarto. Uma vez lá dentro, trancou a porta, colocou as velas num aparador e deixou-se afundar em uma cadeira estofada, as mãos pressionadas contra as têmporas. Já havia sobrevivido a um dia e um beijo. Mas, como, por Deus, iria sobreviver a mais quase noventa? Não só gostara do toque de um homem que não era seu marido, e cujas intenções eram claramente desonrosas, como também não conseguia evitar desejar outro abraço. Para o bem de sua alma, deveria deixar Aberdare. A aldeia poderia


seguir seu destino. Ninguém lhe pedira para que se sacrificasse por Penreith. A decisão havia sido apenas sua. O pensamento a fez se acalmar. O conde agora se mostrava disposto a fazer coisas que beneficiariam centenas de pessoas, e seria uma loucura pôr tudo a perder por conta de um típico ataque de nervos de solteirona. Estava exagerando ao que tinha sido apenas uma experiência nova. No dia seguinte estaria menos suscetível àquele tipo de cilada. Clare abriu a porta da escola e entrou no fundo da sala clara e caiada de branco. A maioria dos alunos trabalhava individualmente enquanto Marged ensinava uma operação aritmética para as crianças mais novas, em voz baixa. Cabeças se voltaram com a entrada da ex-professora, e uma série de sussurros e risos se fez ouvir. Marged também ergueu o olhar e, sorrindo, rendeu-se ao inevitável. — Hora do lanche, crianças! Digam “olá” para a srta. Morgan e depois podem sair. Uma vez dispensados, os alunos rodearam Clare como se ela tivesse ficado afastada por mais de um mês, e não apenas um dia e meio. Após aceitar o carinho dos pequenos e fazer os devidos elogios, ela seguiu para a frente da sala e deu um abraço em Marged. — Como está indo? Rindo, a amiga se empoleirou na borda da mesa. — Ontem eu achei que não fosse sobreviver. Se estivesse aqui, eu teria implorado de joelhos para que reassumisse as aulas! Mas hoje as coisas estão mais tranquilas. Mais umas duas semanas e acho que darei conta do recado. — Marged tocou uma mecha dos cabelos loiros enquanto procurava as palavras. — Não é um trabalho fácil, mas é tão gratificante quando eu explico alguma coisa e o rosto da criança se ilumina! Nem sei como descrever o sentimento. — Ela sorriu. — Você sabe o que estou dizendo.


Com uma pontada no peito, Clare percebeu que, embora acreditasse piamente na educação, fazia anos desde que tinha sentido tanto prazer no ato de ensinar. Com muita frequência ficava entediada com aquela constante repetição. Talvez por isso estivesse gostando do desafio de lidar com Nicholas. Era uma delícia trocar ideias com um adulto tão astuto e imprevisível, e cuja inteligência se equiparava à sua. Sentindo-se vagamente culpada pelos pensamentos, Clare suspirou. — Lorde Aberdare quer entrar na mina para ver como andam as condições de trabalho por lá. E prefere não fazê-lo sob a orientação de George Madoc. Será que Owen se disporia a deixá-lo entrar? Marged mordeu o lábio. — Se Madoc descobrir, poderá causar problemas para Owen. — Eu sei que é um perigo — Clare admitiu —, mas se o pior acontecer e ele for demitido, tenho certeza de que o conde lhe dará outro trabalho. Não conte a ninguém, a não ser a Owen, mas Aberdare diz que está disposto a reabrir e ampliar a pedreira de ardósia. — Então, você foi bem-sucedida! Clare, isso é maravilhoso! — É um pouco cedo para comemorar, mas por enquanto, está tudo bem. Nicholas também está disposto a falar com lorde Michael Kenyon sobre a mina, mas acho que ele quer ver os problemas por si mesmo em vez de levar em conta a palavra de uma mulher. — Será ótimo se ele entrar na mina. Ninguém que não esteve lá pode compreender. — Marged pensou por um momento. — Madoc sempre vai para casa no meio do dia, fazer uma refeição leve. Amanhã, por exemplo, teremos uma boa oportunidade para levar Sua Graça até a mina. Vou verificar com Owen quando ele chegar em casa esta noite. Se houver algum problema, enviarei uma mensagem para Aberdare, mas se eu não entrar em contato, poderá trazê-lo um pouco depois do meio-dia. — Isso resolvido, a moça fitou Clare com olhos brilhantes. — Como está se saindo com o conde?


— Bem. — Ela apanhou uma pena e o canivete de cima da mesa e começou a afiar a caneta. — Nicholas não ficou nada satisfeito quando eu decidi levar a sério seu desafio, mas aceitou a minha presença de bom grado. — Que tipo de trabalho vai fazer lá? O canivete escapou e quase cortou o indicador de Clare. — Vou ser uma espécie de governanta. Ele me deu licença para contratar criados, limpar e reorganizar tudo, a fim de tornar o solar mais habitável. — E o que Williams achou de tudo isso? — Falei com ele esta manhã, antes de vir para Penreith, e Williams ficou encantado. Disse que tem sido muito difícil cuidar daquela casa enorme com apenas duas criadas. — Ela fez um novo corte na pena. — Passei a manhã na aldeia, contratando pessoas para trabalhar temporariamente, mas com a possibilidade de estas assumirem suas funções em caráter permanente caso o conde decida ficar na propriedade. — Estou certa de que não teve dificuldade em encontrar gente disposta a fazer isso. Clare assentiu. — Não só encontrei, como todos já foram para Aberdare assim que terminei de falar. Williams deve ter ao menos uma dúzia de pessoas esfregando e tirando o pó por lá, e com a sra. Howell ocupada na cozinha. A casa ainda precisa ser redecorada, mas estará limpa em breve. — Lorde Aberdare não fez nada para fazer jus à sua reputação? O canivete partiu a pena pela metade. — Ah! Sinto muito. Acho que estraguei sua pena. — Clare recolocou o canivete na mesa, constrangida. — A meu ver, o conde parece mais solitário do que dissoluto. Talvez ele ainda chore a morte da esposa... Mas parece ter gostado de me ter como companhia. Ao menos tem alguém a quem provocar.


— Isso me parece bem mais interessante do que tarefas domésticas. — Ah, eu quase me esqueci — desconversou Clare. — Conheci uma lagoa fascinante na propriedade de Aberdare. E ele disse que as crianças podem ir visitá-la! — Que maravilha! Quem sabe daqui a algumas semanas, quando o tempo estiver melhor, possamos fazer um piquenique da escola. Certamente não teremos nenhum problema em pedir emprestado um par de carroças ao conde. As duas mulheres se envolveram numa animada conversa. Após Clare ter esclarecido as dúvidas de Marged, despediu-se e voltou para Aberdare. Entrar na sala principal foi como entrar em um furacão. O salão e a sala adjacente estavam repletos de gente trabalhando, e uma vez que todos eram galeses, cantavam em harmonia e com um entusiasmo contagiante. A música dava um ar festivo à intensa atividade, e Clare teve uma breve visão do que seria Aberdare sem sua habitual melancolia. Enquanto ela olhava ao redor, confusa, Williams parou de polir as luminárias de latão e a cumprimentou, o rosto comprido com uma expressão animada. — A casa está renascendo! — falou com orgulho. — Decidi seguir seu conselho e concentrar nossos esforços no salão e na sala de estar, uma vez que estes trarão maior impacto para o conde. — Já estão tendo impacto sobre mim. — Clare sorriu, admirada, quando entrou na sala de visitas. — É impressionante como ajudou tirarmos daqui aqueles móveis e objetos terríveis! — Tanta coisa tinha sido levada dali que agora havia muitas lacunas a ser preenchidas. — Sua Graça disse que ainda existe mobília guardada no sótão. Não há nada lá adequado a esta sala? — Há algumas peças bem bonitas. Vou levá-la até lá agora mesmo. — O mordomo pendurou o pano de limpeza em uma maçaneta, pegou


o chapéu de amarrar e o xale de Clare e conduziu-a escada acima. — Durante estes últimos anos, em que a casa ficou tão abandonada, eu às vezes pensava o que faria com o lugar se ele fosse meu. A vista das janelas e o tamanho dos quartos são ótimos. Com um pouco de esforço, Aberdare ficará magnífica... Mas eu não podia fazer nada sem autorização de Sua Graça. Eles pararam para acender as arandelas, então procederam à subida da escada estreita para os sótãos. — Já que o conde me deu permissão para fazer mudanças, conteme as suas ideias — pediu Clare. — Talvez possamos colocá-las em prática. Williams a conduziu através de um labirinto de formas sombrias e cobertas por tecidos até que chegaram ao sótão. — Eu gostaria de levar estas peças de volta para a sala, onde elas costumavam ficar. O mobiliário é antigo, de meados do século passado, mas muito benfeito. E há uma elegância natural em sua linha. — Ele puxou a capa, revelando um pequeno sofá. — Este pobre-coitado foi exilado pelos caprichos da moda. Lady Tregar foi quem o trocou por aqueles estofados horríveis com pernas de crocodilo... — Williams torceu os lábios numa careta. — Uma prova cabal de que berço e bom gosto nem sempre andam juntos. Clare sorriu, satisfeita. Williams não apenas estava disposto a aceitar suas ordens, como também a tratava com a franqueza típica de um morador de Penreith. Sabendo que não deveria fazer mexericos, mas incapaz de resistir à oportunidade de saber mais, ela arriscou: — Como era lady Tregar? A expressão do mordomo tornou-se impassível. — Não posso dizer, srta. Morgan. Eu era o mordomo substituto e muito raramente via Sua Graça. Mas ela era muito bonita... Gostaria de ver um retrato? — Ah, claro! Eu não sabia que existia um.


— O antigo conde o encomendou por ocasião do casamento do neto. Williams levou Clare do sótão principal para um menor. Um enorme armário de madeira, dividido em várias partes estreitas, ocupava toda uma parede. Nele, quadros cobertos por tecido preenchiam a maior parte dos espaços. — Pedi ao carpinteiro que construísse isto para que as pinturas fossem armazenadas com segurança. Ele puxou uma delas e tirou o pano que a cobria. Em seguida, ergueu a lanterna de modo a iluminar o retrato. Era uma representação soberba de uma moça vestida como uma ninfa grega, de pé em meio a um prado florido, com o vento soprando os cabelos dourados e moldando o traje branco à sua figura exuberante. Clare estudou o rosto perfeito, os olhos verdes e frios, e o leve sorriso que sugeria muitos segredos. Aquela era a mulher que havia se casado com Nicholas e compartilhara sua cama. E que agora assombrava suas noites, enchendo-o de dor e culpa. — Eu vi lady Tregar uma vez, à distância. Mas ela é ainda mais bela do que eu me lembrava. — Nunca vi igual — comentou Williams, sincero. — Por que este retrato está aqui e não lá embaixo? — Creio que a condessa viúva tenha enviado a pintura para cá pouco antes de fechar a casa e se mudar para Londres. Ele devia estar falando de Emily Davies, a segunda esposa do antigo conde. Será que ela amara o neto rebelde do marido e ficara com ciúmes da linda esposa de Nicholas? Apenas isso explicava guardar um retrato tão bonito naquele canto escondido do solar. A expressão de Clare se tornou sombria. Aquela casa fora o cenário de muitas emoções obscuras. Talvez fosse hora de trazer algumas delas à tona. — Este retrato ficaria lindo sobre uma das lareiras da sala de estar. Pode levá-lo para baixo.


Williams começou a protestar, contudo mudou de ideia. — Como quiser, srta. Morgan — respondeu, cordato. — Quer recolocar este sobre a outra lareira? Costumava ficar lá... A condessa também mandou guardá-lo na mesma ocasião. — Descobriu outro dos quadros do armário, revelando um retrato de corpo inteiro do antigo conde. Embora o cabelo branco mostrasse que este fora pintado já no fim da vida do nobre, sua postura continuava altiva, e sua expressão, arrogante como sempre. Era uma figura impressionante, mas Clare sabia que Nicholas não haveria de querer olhar para o avô todos os dias. — Deixe esse aqui em cima. Vou ver se há algo mais adequado em meio às outras pinturas. Pouco depois, encontrou duas paisagens encantadoras que mereciam ser penduradas. O último quadro era outro retrato. E, dessa vez, o rosto que a olhava da tela era o do próprio Nicholas. Ele fora pintado segurando as rédeas de um cavalo e com cães deitados a seus pés. Clare prendeu a respiração, incapaz de resistir ao encanto do jovem belo e sorridente. Aquele era o Nicholas que a tinha fascinado quando ela era criança. Franziu a testa, perplexa. As roupas que ele usava não pareciam dele. Eram muito antiquadas, e as cores estavam desbotadas demais. — Este é o pai de Sua Graça? Williams se agachou e olhou para a pequena placa fixada na moldura. — “Lorde Kenrick Davies” — confirmou o mordomo, endireitando o corpo. — Ele deixou a casa antes de eu começar a trabalhar aqui. A única vez que vi essa pintura, pensei que fosse lorde Nicholas. — Pendure-a sobre aquela lareira que fica mais próxima do salão, e coloque lady Tregar em cima da outra. — Clare limpou as mãos na saia. — Com sorte, teremos acabado a sala antes que lorde Aberdare retorne de Swansea.


E quando ele voltasse, ela queria estar lá para ver sua reação diante do retrato da falecida esposa.


Capítulo VII O sol da tarde começava a se pôr quando eles terminaram de reorganizar a sala de estar. Clare agradeceu a todos que tinham participado da mudança e, em seguida, os dispensou. Antes de subir para tomar banho, fez uma última vistoria no cômodo. Alguém mais crítico poderia até observar que seria necessário repintar as paredes e que os estofados já haviam passado da hora de serem trocados, porém o efeito geral era muito atraente. Torcendo para que Nicholas ficasse satisfeito, entrou na sala e respirou fundo, feliz. A nova cozinheira, a sra. Howell, estivera ocupada durante todo o dia, e um aroma tentador de carne cozida e pão assado flutuava pela casa. Para seu espanto, o conde escolheu esse momento para entrar pela porta, sem chapéu, o cabelo despenteado pelo vento e a chibata enrolada na mão. — Olá, Clare — saudou. — Teve um dia produtivo? Irritada, ela se perguntou por que a lama respingando de suas botas e da casaca de equitação o tornavam ainda mais irresistível, enquanto as manchas em seu vestido só a faziam ainda mais deselegante. A vida não era justa. — Muito. E você? — respondeu, desejando que ele tivesse se atrasado ao menos mais meia hora. — Localizei o engenheiro que construiu a maioria dos trilhos em Merthyr Tydfil, e encontrei um bom local para o cais no litoral. Vou lhe contar mais durante o jantar... — Ele aspirou o ar. — O cheiro está uma delícia... Conseguiu contratar uma boa cozinheira? — Sim, e esse não foi meu único progresso. — Clare o chamou para a sala de estar, tentando não parecer tão nervosa quanto se sentia. Quando Nicholas entrou, parou e deu um assobio de surpresa. — Meu Deus, está tudo tão limpo e bonito que é difícil acreditar


que ainda seja Aberdare! Como realizou essa façanha em tão pouco tempo? — Não posso levar todo o mérito. As ideias vieram de Williams, e o trabalho duro foi dos criados que contratei esta manhã. Aprovou o resultado? — Muito. — Nicholas abriu um sorriso devastador, em seguida, começou a olhar ao redor. — Onde encontrou flores no início da primavera? — indagou, tocando o vaso repleto de cravos perfumados. — Acredite ou não, vieram da estufa de Aberdare. O jardineiro continuou a cuidar das flores e vegetais porque ninguém mandou que ele parasse nos últimos quatro anos... O conde a fitou, assombrado. — O velho Iolo, da perna de pau? Quando Clare assentiu, ele suspirou. — É preocupante pensar o quanto tive de influência sobre Aberdare quando nem mesmo pensava neste lugar. Iolo, Williams, o restante dos criados que continuaram prestando serviço enquanto estive fora... Não sei se merecia tanta lealdade da parte deles. — Provavelmente, não. Mas se quer algum conforto, a lealdade dos empregados foi mais ao salário que você sempre pagou do que à sua pessoa. Tudo leva a crer que Iolo andou vendendo as flores não utilizadas no mercado de Penreith, ou seja, não passou tão apertado com a sua ausência. — Mesmo assim... — Nicholas parou quando olhou para cima e viu o retrato de Kenrick Davies. — Meu pai? — murmurou após um longo silêncio. — Assim diz a placa. A pintura estava no sótão. Nunca a viu antes? — Não. Meu avô provavelmente a levou para o sótão quando o deserdou. — Ele estudou o retrato. — Agora vejo por que o meu parentesco nunca foi contestado. — Não se lembra nem um pouco dele? — Muito pouco. Apenas que ria muito. Imagino que viver como


cigano era uma diversão para ele, e que adorava a vida. Se não tivesse morrido por conta de uma febre, acho que um dia teria retornado para o mundo gorgio. — Nicholas deu meia-volta e começou a caminhar pela sala. — Gostei do modo como organizou os móveis em vários ambientes. Dá à sala uma sensação de maior aconchego. Clare ficou satisfeita que o arranjo fosse ideia sua. Caminhou ao longo da parede, observando a expressão e as reações de Nicholas, a fim de saber do que ele gostara mais ou menos. Ele avaliou as mudanças também na base do toque. Deslizou a mão sobre a superfície brilhante de uma mesa cuja madeira era semelhante ao mogno, afofou as almofadas de uma cadeira com a chibata enrolada, usou a ponta da bota para testar um magnífico tapete persa que estivera enrolado no sótão. Voltando-se para ela, Nicholas ia abrir a boca para falar quando congelou. — De onde, diabos, veio isso?! Sua explosão foi tão repentina que Clare viu-se momentaneamente paralisada. Então se lembrou de que estavam bem debaixo do retrato de lady Tregar. Engoliu em seco. — Do sótão. Nicholas ergueu a chibata e a desenrolou com um só movimento do pulso. Clare levantou o braço para proteger o rosto e soltou uma exclamação ao ouvir um zunido fraco, seguido de um forte estalar. Não sentiu nada. Por um momento, perguntou a si mesma se havia sido atingida e ainda se encontrava anestesiada pelo impacto. Apenas quando Nicholas levou a chibata para trás e a fez descer novamente percebeu que não fora o alvo. O fio reduzira a farrapos o rosto pintado de sua esposa morta. — Livrem-se dessa droga. Agora! — rosnou o conde e, virando-se, marchou para fora da sala, batendo a porta com uma força que sacudiu as arandelas de vidro dos candelabros.


Atordoada, Clare afundou em uma poltrona. Esperava que Nicholas fosse reagir ao retrato com surpresa, talvez com dor, e até havia preparado mentalmente um pequeno discurso, aconselhando-o a aceitar sua perda e tocar a vida adiante. Sua ira, contudo, jogara por terra todos os pressupostos. Era até possível que tanta fúria fosse consequência do luto de um marido acossado pela culpa, mas a expressão em seu rosto tinha sido muito mais voltada para o ódio do que para o amor. Com as mãos trêmulas, ela tocou a sineta, chamando Williams. O mordomo apareceu de imediato, a expressão cautelosa. — Sua Graça não gostou da decoração? — Adorou. O problema foi o retrato. — Indicou a pintura. — Ele precisa ser removido imediatamente. Os olhos do mordomo se arregalaram quando viram que o belo rosto de lady Tregar fora reduzido a um “X”. Seu olhar desviou-se de volta para Clare, porém ele não fez perguntas. — Vou descê-lo agora mesmo. Quer que o espaço continue vazio? Clare fez um esforço para pensar com clareza. — Não. Pendure nele aquele quadro de um antigo castelo ao pôr do sol. É mais ou menos do mesmo tamanho. Em seguida, ainda aturdida, subiu e tocou o sinete, pedindo um banho. Dessa vez, Dilys contou com ajuda para levar a água quente, e entrou no quarto conversando alegremente com a nova colega. O Solar Aberdare parecia ter renascido. A água quente diminuiu a ansiedade de Clare e relaxou seus músculos doloridos. Após pensar com calma, ela decidiu agir como se o surto de Nicholas não tivesse acontecido. E isso significava vestir-se e se tornar disponível como dama de companhia, supondo que o conde ainda conversaria com ela, depois de tudo.


Após se enxugar, Clare ajeitou os cabelos de uma maneira mais austera do que na noite anterior. Precisou usar o mesmo vestido azul, já que não possuía nada mais adequado. Preparando-se para enfrentar qualquer situação, desceu a escada. A sala de jantar se encontrava vazia quando ela chegou, mas Nicholas apareceu quando o relógio começou a bater seis horas, tão impecável como em sua primeira refeição. — Podemos ir para a mesa? Estou ansioso para testar a habilidade da nova cozinheira. Clare se viu covardemente agradecida por ele parecer disposto a fingir que a cena na sala não tinha ocorrido. Quando aceitou seu braço, contudo, teve consciência da tensão dos músculos sob a manga da elegante casaca preta. Sua raiva não tinha diminuído, mas ao menos não era dirigida a ela. Nicholas começou a relaxar conforme o jantar foi servido por Williams e um dos lacaios recém-contratados. Quando a comida já havia sido colocada sobre a mesa e os dois criados começavam a se retirar, ele os chamou. — Williams, quero agradecer por terem contribuído substancialmente para a melhoria da sala de estar. Fizeram um excelente trabalho. O mordomo corou com prazer e lançou um olhar satisfeito na direção de Clare. — Eu é que agradeço, milorde. Foi um prazer. Clare teve de admirar Nicholas. Obviamente, ele sabia que algumas palavras de elogio eram uma maneira eficiente de ganhar lealdade. E, pelo que ouvira, essa era uma lição que o antigo conde nunca tinha dominado. Estabelecido o diálogo, Nicholas comentou: — Cordeiro de novo. Mas desta vez, bem assado, com uma crosta de gordura crocante e guarnecido com geleia de maçã... É isso? — Isso mesmo. Uma das especialidades da sra. Howell.


As batatas assadas também estavam quentes e crocantes, os aspargos, macios, e as trutas refogadas, conhecidas como gwyniad, delicadamente afastadas das espinhas. Era a melhor refeição que Clare comia em meses. Se Nicholas tivesse desprezado a simplicidade da comida, ela teria ficado tentada a deitar o alho-poró ao molho de queijo em sua cabeça... Mas o fato foi que ele comeu tudo com muito gosto. Após ter repetido um pouco de tudo, empurrou o prato para longe com um suspiro. — Dobre o salário da sra. Howell. Clare quase deixou cair o garfo. — Mas você não sabe quanto ela está ganhando. — Seja o que for, ela vale mais. — Como quiser, milorde. — Ela riu. — Para sua informação, a nossa cozinheira reprovada de ontem, Gladys, agora é a chefe das arrumadeiras. Ela é excelente para limpar. Nicholas sorriu e serviu-se de mais vinho, em seguida começou a descrever o que havia conseguido em Swansea. Quando terminou, Clare contou sobre os arranjos que tinha feito na rotina da casa, e também sobre a visita à mina que fora marcada para o dia seguinte. Foi uma conversa curiosamente doméstica. Os criados retiraram os pratos em silêncio e trouxeram café fresco enquanto os dois discutiam o que mais precisava ser feito. Clare ficou surpresa quando o relógio bateu dez horas. Sentindo-se cansada, ela se levantou. — Foi um dia cheio. Melhor eu ir para a cama agora. — Venha cá... — Nicholas convidou baixinho. Sua fadiga desapareceu instantaneamente, substituída por uma onda de ansiedade. Dado o que tinha acontecido naquela tarde, tivera esperança de que ele renunciasse ao beijo. Nicholas empurrou a própria cadeira para longe da mesa, mas continuou sentado. Quando ela se encontrava perto o suficiente,


pegou sua mão e a puxou para si até que ela ficou em pé ao lado dele. A despeito do nervosismo pela proximidade, Clare notou como seus cílios eram longos. Nicholas era bonito demais para ser de verdade. — Onde quer que eu a beije esta noite? — ele indagou em voz baixa, ainda segurando-lhe mão. O fato de ter a perna pressionada contra a coxa rija minou a Capacidade de julgamento de Clare. — Não me venha com retóricas. Você já se decidiu — retorquiu com voz de professora. Nicholas sorriu. — Ainda não. Seu olhar desceu para o pescoço macio, onde ele a havia beijado na noite anterior, e Clare sentiu o pulso bater mais forte. Quando os olhos escuros pousaram em sua boca, ela mordeu o lábio inferior. Era ali que, com certeza, ele a beijaria naquela noite. Mas Nicholas a surpreendeu novamente, pressionando os lábios em sua mão. A princípio, apenas aqueceu sua pele sensível com a respiração, depois virou a palma para cima e começou a provocá-la bem no centro com a língua. — O corpo da mulher é uma sinfonia — disse rouco. — Cada parte de vocês é um instrumento clamando para ser tocado. Ofegante, Clare o tocou no rosto com a ponta dos dedos, sentindo a pele barbeada e máscula num toque surpreendentemente erótico. Nicholas capturou-lhe o dedinho na boca; a pressão, o calor e a umidade lembrando a essência do desejo. Clare sentiu a respiração acelerada e o corpo fluido. Como que hipnotizada, foi se abaixando aos poucos até se sentar no colo dele. Percebeu a inadequação de seu comportamento, mas se encontrava à mercê de Nicholas tal qual uma folha ao vento. Com a boca, ele traçou um caminho de fogo até a pele alva e frágil de seu pulso. Enlevada, ela exalou o ar com força e, com a mão livre, acariciou-lhe os cabelos negros sedosos. Uma vez mais, experimentou


uma espécie de liquefação, e se perguntou como ele podia deixá-la naquele estado tão depressa. Sabia que deveria impedi-lo, porém o calor que fluía em seu corpo era delicioso. De repente, percebeu que a outra mão de Nicholas estava em sua perna, e que ele a acariciava, subindo lentamente. Num primeiro momento, considerou deixá-lo prosseguir até que chegasse ao ponto latejante entre suas coxas. Nicholas saberia como aliviá-la... Mas em seguida, sua sanidade voltou. — Basta. — Arrastou-se para fora de seu colo, cambaleando na pressa de fugir. Quase gritou quando Nicholas agarrou seu pulso, até perceber que ele apenas a impedira de cair. — Não foi o suficiente... mas amanhã será outro dia. — Ele soltoulhe o pulso, a respiração mais rápida que o normal. — Durma bem, Clarissima. Clare o fitou com olhos enormes, tal como um cervo encurralado por um caçador. Então, como fizera na noite anterior, pegou um castiçal e bateu em retirada. Nicholas começou a dobrar um guardanapo, distraído. Clare era diferente de todas as mulheres que ele conhecera. E, com certeza, não era como sua falecida esposa. Já havia se esquecido daquele retrato de Caroline, ou melhor, tinha varrido sua existência da memória. A pintura era absolutamente fiel à sua antiga mulher, e vê-la de forma tão inesperada fora um choque tão grande como ter visto um fantasma. Que ingenuidade a sua pensar que poderia esquecê-la enquanto estivesse morando naquela casa! Ao perceber que tinha torcido todo o guardanapo, jogou-o sobre a mesa com desgosto. Era muito melhor pensar em Clare e em sua doce feminilidade do que no passado. Suspirou. Quando haviam dado início àquele desafio, ele chegara a imaginar que talvez não conseguisse seduzi-la, mas essa hipótese


estava descartada. Aquele era mais um jogo que ele ia ganhar. Enquanto isso, iria se concentrar na única atividade que sempre lhe proporcionava consolo, decidiu, levantando-se e se dirigindo para o canto mais distante da casa. Uma vez na segurança do próprio quarto, Clare abriu a janela de caixilhos e inalou uma golfada de ar frio e úmido. Lá fora, uma chuva suave de primavera caía, e sua constância a ajudou a acalmar os nervos. Pesarosa, refletiu que nenhuma pessoa em Penreith iria reconhecêla como a professora séria e bem-comportada a quem poderia confiar os filhos. E já estava começando a pensar que Nicholas era um demônio, pois ele vivia para tentá-la. O problema era que reagia a ele em todos os sentidos. Precisava se lembrar de usar a cabeça, de ser racional em vez de emocional. Parecia tão fácil quando ele não estava por perto! Deixando a janela aberta, Clare vestiu a camisola e se acomodou na cama larga. Levou algum tempo para relaxar, mas o som repousante da chuva acabou por levá-la a dormir. Enquanto vagava entre a vigília e o sono, uma espécie de música começou a se mesclar aos pingos lá fora, como fragmentos de um sonho. No início, Clare gostou da sensação. Então a improbabilidade de aquilo estar acontecendo a despertou. Como poderia haver música no meio da noite em uma casa quase vazia? Sem dizer que a melodia era tão ilusória quanto uma canção de fadas. Os cabelos em sua nuca se eriçaram quando ela se lembrou de que diziam haver fantasmas em Aberdare. Não que ela acreditasse em fantasmas, claro! Saiu da cama, foi até a janela aberta e aguçou os ouvidos. No início, não escutou nada além da chuva e o balir distante de uma ovelha.


Em seguida, uma voz sombria pareceu soprar em seu ouvido num sotaque tão galês quanto os morros de pedra que guardavam o vale. E, embora ela a ouvisse como que através do ar frio da noite, parecia ter origem na casa. Muitos empregados novos iriam se deslocar pelo solar no dia seguinte, mas havia apenas seis pessoas dormindo em Aberdare. Clare se perguntou se Williams poderia ser o músico que praticava no meio da noite, mas ele crescera na aldeia, e ela nunca tinha ouvido falar que o mordomo possuísse dotes musicais. Com um suspiro, acendeu uma vela, calçou os chinelos e se enrolou no velho penhoar de lã. Sua curiosidade sobre a origem daquela música a manteria acordada, então era melhor que localizasse a fonte de uma vez. Com o castiçal na mão, destrancou a porta e saiu para o corredor. A chama dançou, projetando sombras trepidantes nas paredes, e a chuva lá fora a fez sentir como se estivesse em um melodrama gótico. Estremeceu e considerou acordar Nicholas, porém descartou a ideia logo em seguida. O Conde Demônio, nu em sua cama, era muito mais perigoso do que qualquer fantasma. Pé ante pé, caminhou pela casa escura, e sua busca a levou a uma sala no canto mais distante do solar. Uma luz fraca se insinuava por baixo da porta, o que ela considerou tranquilizador. Fantasmas não precisavam de lamparinas. Cautelosamente, virou a maçaneta e, quando a porta se entreabriu, ela estacou, espantada. Não era um fantasma que tocava na sala. Um fantasma, entretanto, a teria surpreendido menos.


Capítulo VIII Diante do piano encoberto pelas sombras, Clare deduziu que tinha encontrado a sala de música. Mas foi a visão de Nicholas que mais a fascinou. Ele estava sentado em uma cadeira perto do fogo bruxuleante, uma expressão sonhadora no rosto moreno e uma harpa pequena descansando no ombro esquerdo. Em contraste com a serenidade em seu semblante, seus dedos dançavam sobre as cordas de metal, extraindo delas uma melodia que soava como sinos. Embora ela o tivesse reconhecido, sua expressão o fazia parecer um estranho. Não era mais o aristocrata arrogante, tampouco o libertino ameaçador, e sim a encarnação de um lendário bardo celta: um homem com dons e dores além dos de um homem comum. Sua vulnerabilidade comoveu Clare, indicando que talvez ela e Nicholas não fossem tão diferentes, afinal. E tais pensamentos se provaram perigosos. De repente, ele começou a cantar em galês, e sua voz baixa de barítono preencheu a sala como o mais doce e rico mel. Primavera, a mais bela estação do ano Doces são as aves, verdes são os bosques... Após mais dois versos, a música mudou da primavera feliz para um lamento: Quanto mais os cucos cantam nas copas altas das árvores, Mais cresce a minha tristeza. A neblina se espalha, mas minha dor não pode ser escondida, Pois os meus já não estão mais aqui... Nicholas repetiu a última estrofe suavemente, a voz marcada pela angústia. Embora a canção não lhe fosse familiar, Clare reconheceu a letra como sendo de um poema medieval: O Livro Negro de Caermarthen, um das mais antigas obras galesas. Lágrimas lhe vieram aos olhos. As palavras nunca a tinham tocado tanto.


Quando as últimas notas findaram, ela suspirou, lamentando tudo o que havia perdido e tudo o que nunca teria. Ao ouvir o lamento, Nicholas ergueu a cabeça e seus dedos rasparam as cordas emitindo um som dissonante conforme sua vulnerabilidade se transformava em hostilidade. — Deveria estar dormindo, Clarissima. — Você também. — Ela entrou na sala e fechou a porta. — Por que me chama assim? A expressão do conde suavizou. — Clare significa “claro, brilhante, direto”. Clarissima é a forma superlativa em italiano. Mais clara, mais direta. Combina com você. Ela se aproximou e acomodou-se no braço de uma poltrona perto da dele. — Eu não sabia que tinha tanto talento para música. — Não é um fato amplamente conhecido — respondeu ele, seco. — Nos tempos antigos, um cavalheiro de Gales precisava ser hábil na harpa para ser considerado digno de seu posto, mas isso mudou nestes dias incivilizados. Eis o meu vício secreto. — A música não é um vício. É uma das grandes alegrias da vida — replicou Clare com convicção. — Se essa é uma amostra da sua vida “desregrada”, então sou obrigada a duvidar de que seja a pessoa dissoluta que dizem. — Meus vícios mais graves são públicos. Como tocar harpa tem uma conotação quase angelical, escondo o fato de forma a não arruinar minha reputação. — Ele tornou a arrancar das cordas uma nota dissonante. — Você e eu sabemos bem o valor disso. — Uma explicação divertida, mas sem qualquer valor. — Ela o encarou. — Por que ficou zangado quando eu o descobri aqui? A intimidade da noite foi, talvez, o que o fez dar uma resposta sincera, e não irreverente como de costume. — Um cavalheiro pode apreciar música, assim como pode gostar de arte ou de arquitetura, mas não desperdiça seu tempo com nada disso.


Se um nobre decide tocar um instrumento, ele normalmente escolhe algo como violino ou piano. Nenhum cavalheiro perderia seu tempo com algo tão simplório como uma harpa galesa. Nicholas tocou uma corda e correu os dedos por ela, fazendo-a soar como um lamento. Clare estremeceu. — Suponho que esteja citando o antigo conde... Mas é difícil acreditar que ele não gostava da sua música. Você toca e canta divinamente. Nicholas se recostou na cadeira e cruzou as pernas na altura do tornozelo, a harpa ainda no colo. — A maioria dos galeses prefere cantar a comer. Ciganos dançam até os pés sangrarem. Meu avô nunca aprovou tais excessos. O fato de eu querer tocar harpa era a prova de meu sangue plebeu e “contaminado”. — Tocou mais uma série de notas melancólicas. — Essa foi uma das razões pelas quais aprendi a falar galês. O Cymraeg é uma língua antiga, primitiva; uma língua de guerreiros e poetas. Eu precisava aprendê-la para fazer justiça à minha harpa. — Como aprendeu a tocar tão bem? — Com um pastor chamado Tam the Telyn. — Thomas, a Harpa — Clare traduziu para o inglês. — Certa vez, quando eu ainda era criança, eu o ouvi tocando. Foi maravilhoso. Diziam que ele era o harpista de Llewelyn, o Grande, que voltara para nos lembrar da antiga glória do País de Gales. — Talvez Tam fosse realmente um bardo reencarnado. Ele era inacreditável... Fez esta harpa com suas próprias mãos, ao estilo medieval. — Nicholas acariciou o braço de madeira esculpido. — A caixa acústica foi talhada a partir de um único pedaço de salgueiro e, como nas harpas antigas, as cordas são de arame e não de tripas. Segui suas instruções e fiz uma parecida, mas o tom não era tão rico. Tam me deixou esta quando morreu. — Você é melhor do que qualquer harpista que já ouvi competindo


no festival de Eisteddfod. Deveria participar dele. — Não há a menor possibilidade disso, Clare — garantiu Nicholas, toda a nostalgia esquecida. — Eu toco só para mim. — Porque não pode suportar a ideia de que as pessoas o admirem? Você me parece bem confortável com o desprezo. — Isso mesmo — ele confirmou. — Todo mundo precisa ter uma ambição, e a minha é ser um monstro sem alma, uma afronta a todas as pessoas decentes e tementes a Deus. Clare sorriu. — Não posso acreditar que alguém que ama música seja cruel. E meu pai nunca teria pensado tão bem de alguém que fosse mesmo mau. Nicholas tocou a harpa de novo, dessa vez com mais suavidade. — Se não fosse por seu pai, eu teria fugido de Aberdare. Não tenho certeza de que ele tenha me feito um favor ao me convencer a ficar, mas ainda sinto admiração por sua habilidade em domar uma criança temperamental. — Como ele fazia isso? Meu pai falava muito pouco sobre trabalho, pois se considerava apenas um instrumento de Deus. — Sabia que minha mãe me vendeu ao meu avô por cem guinéus? Antes que Clare expressasse seu horror após ouvir tal informação dita de modo tão casual, Nicholas tocou as cordas da harpa novamente, e notas profundas e carregadas vibraram no ar. — Quando vim para Aberdare, eu tinha sete anos e nunca tinha passado uma só noite dentro de uma casa. Fiquei enlouquecido como um pássaro preso em uma gaiola, lutando para escapar. Trancaram-me no quarto de crianças e puseram barras nas janelas para me impedir de fugir. Em seguida o conde chamou seu pai, Clare, cujos dons espirituais ele respeitava. Talvez pensasse que o reverendo Morgan pudesse expulsar meus demônios. — Meu pai não era exorcista. — Não. Ele simplesmente entrou no quarto com uma cesta de


alimentos e sentou-se no chão, junto à parede, de modo que sua cabeça ficou próxima da minha. Então começou a comer uma torta de carne de carneiro. Eu continuava desconfiado, mas ele me pareceu inofensivo. Além disso, eu estava ficando com fome porque não comia fazia vários dias. Sempre que um lacaio me trazia comida, eu a jogava em sua cabeça... Seu pai não me forçou a nada, tampouco me repreendeu quando roubei uma torta de carne da cesta. Depois que a devorei, ele ainda me ofereceu um gole de cerveja e um bolinho de groselha. Também me deu um guardanapo, sugerindo delicadamente que o meu rosto e dedos poderiam ficar mais limpos... Depois disso começou a me contar histórias. Josué e as muralhas de Jericó, Daniel na cova dos leões, Sansão e Dalila... Eu gostei da parte onde Sansão punha o templo abaixo, pois me sentia daquela forma desde que tinha chegado a Aberdare. Nicholas descansou a cabeça contra o encosto da cadeira, e a luz do fogo dourou as linhas de seu rosto. — Seu pai foi a primeira pessoa a me tratar como uma criança em vez de um animal selvagem a ser domado. No fim, acabei abraçado a ele, soluçando. Clare também teve vontade de chorar ao imaginar o menino abandonado e desolado... e que fora vendido pela própria mãe! — Meu pai foi o homem mais humano que já conheci — murmurou, engolindo o nó na garganta. Nicholas balançou a cabeça. — O antigo conde escolheu bem. Duvido que qualquer outra pessoa além do reverendo Morgan pudesse ter me convencido a aceitar a situação. Ele me disse que Aberdare era o meu lar e que se eu cooperasse com meu avô, acabaria tendo mais liberdade e riqueza do que qualquer cigano já tinha conhecido. Foi então que desci para falar com o antigo conde e propus um negócio. Pelo visto, tenho propensão para engendrar negócios estranhos... Ele fez uma careta.


— Eu disse ao meu avô que faria o possível para ser o herdeiro que ele queria onze meses por ano. Em compensação, queria ter um mês para viver com os roms. Naturalmente, o conde não gostou da ideia, mas o reverendo Morgan o convenceu de que essa seria a única maneira de eu me comportar. Foi nessa época que seu pai se tornou meu tutor, Clare. Nos dois ou três anos seguintes, ele vinha a Aberdare quase todos os dias em que não estava em um circuito de pregação. E além das disciplinas acadêmicas tradicionais, o reverendo me ensinava a agir como um gorgio. Logo fiquei apto a ser enviado para um colégio público, onde fui considerado um verdadeiro cavalheiro inglês. — Nicholas deu-lhe um olhar irônico. — Antes de eu sair, dei-lhe o livro com a dedicatória que você usou para tentar me chantagear. — Então preserva as suas origens voltando ao povo de sua mãe a cada ano — ela desconversou, recusando-se a se sentir culpada. — Foi uma barganha e tanto para uma criança. — Nem tanto. — Nicholas dedilhou mais algumas notas suaves na harpa. — Eu imaginei que poderia “vestir” a vida gorgio como uma muda de roupas e manter-me incólume quando a retirasse. Mas não foi assim tão simples. Quando se está sempre desempenhando um papel, cedo ou tarde a pretensão começa a se tornar real. — Deve ter sido difícil para você circular entre dois mundos tão diferentes — observou Clare. — Devia sentir-se como se não fosse uma coisa nem outra. — Às vezes. — Ele riu sem humor. — Quanto mais eu ouço, menos me surpreende que tenha odiado tanto o seu avô. Nicholas baixou a cabeça e tocou uma série de notas que subiu uma oitava, depois desceu novamente. — Dizer que eu o odiava é muito... simplista. Ele era meu único parente, e eu queria agradá-lo, ao menos por algum tempo. Aprendi boas maneiras, grego, história, agricultura, mas nunca conseguia satisfazê-lo. Sabe qual foi meu crime imperdoável?


Clare balançou a cabeça. — Estenda a mão... — ele pediu. Quando ela obedeceu, Nicholas segurou a própria mão ao lado da dela. Ao contrário da textura e brancura de sua pele céltica, a dele era morena como café com leite. — A cor da minha pele, Clare. Algo que eu não poderia mudar, mesmo se quisesse. Se eu fosse mais claro, acredito que meu avô teria sido capaz de esquecer a minha ascendência. Em vez disso, toda vez que ele me olhava, via um “maldito cigano”, como ele tão charmosamente me chamava... — Nicholas flexionou os dedos longos, estudando-os como se fosse a primeira vez. — É ridículo e, com certeza, nada cristão odiar alguém pela cor de sua pele. E no entanto, algo tão banal pode alterar toda uma vida — garantiu com a voz cheia de amargura. — Você é perfeito como é — Clare declarou com intensidade. Nicholas piscou, surpreso. — Eu não estava querendo um elogio. — Isso não foi um elogio; foi um julgamento estético — ela replicou com uma ponta de divertimento. — Uma mulher bem-educada nunca elogiaria um homem de uma forma tão vulgar. Ele sorriu, a expressão se suavizando. — Então agora também sou classificado como uma urna grega ou uma pintura renascentista... — É mais interessante do que qualquer uma delas. — Clare inclinou a cabeça para o lado. — A vida era mais fácil quando viajava com os ciganos? — Na maioria dos aspectos. Minha mãe era órfã, sem família por perto, por isso nos juntávamos a qualquer kumpania próxima de Aberdare. Eles sempre me levavam para dentro como um cachorrinho perdido... — Nicholas hesitou. — Eu gostava das visitas, mas conforme o tempo passou, comecei a ver meus parentes com outros olhos. Embora os roms se julguem completamente livres, na verdade são


prisioneiros de seus próprios costumes. O analfabetismo, o tratamento que reservam às mulheres, o orgulho na desonestidade, este geralmente à custa dos gorgios que menos podem pagar, os tabus quanto à limpeza... A certa altura, eu não consegui mais aceitar tais coisas sem fazer questionamentos. — No entanto, você aceita acampamentos ciganos em Aberdare. — Claro, eles são meus parentes. Qualquer um dos roms pode ficar o tempo que quiser. Em troca, peço-lhes que não incomodem as pessoas no vale. — Por isso não tem havido nenhum problema com os ciganos há anos por aqui — deduziu Clare. — Quando eu era pequena, lembro-me de que minha mãe me levava para dentro e fechava a porta sempre que eles vinham para a cidade. Dizia que os ciganos eram ladrões e pagãos, e que roubavam crianças. Nicholas riu. — As duas primeiras coisas podem ser verdade, mas os roms não têm nenhuma necessidade de roubar crianças, pois as têm em abundância. — Pois eu costumava sonhar em ser roubada pelos ciganos — ela confessou. — Imaginava que seria bom ser tão querida. Infelizmente, Nicholas compreendeu o que ela havia revelado na observação. — Sentia-se rejeitada, Clarissima? E pensar que, às vezes, eu ficava imaginando como seria ter o reverendo Morgan como pai! Um homem de força inabalável, piedoso, compassivo, com tempo para todos os que precisavam dele... — Tocou uma corda da harpa, melancólico. — Mas, pelo visto, nem mesmo os santos são fáceis de se conviver. Clare sentiu-se como se ele a tivesse esfaqueado. Como um devasso como Nicholas ousava enxergar o que ninguém jamais enxergara, e o que ela mal admitia para si mesma? — É muito tarde. Agora que sei que você não é nenhum fantasma,


preciso dormir um pouco — desconversou, os lábios apertados. — Como escapa rápido de uma pergunta capciosa — ele murmurou. — Obviamente é uma daquelas pessoas que gosta de sondar outras, mas não quer que ninguém a analise. — Não há nada para analisar. — Ela se pôs de pé. — Sou uma mulher simples e sempre levei uma vida descomplicada. Ele riu. — Pode ser muita coisa, mas não é simples, Clare. Sua mente borbulha com inteligência e emoções reprimidas. — Tocou a harpa de um modo que a fez pensar em um gato perseguindo um pássaro. — Precisa se sentir desejada, Clarissima?... Pois eu a desejo. Você tem a complexidade sutil e misteriosa de um bom vinho, que precisa ser saboreado mais de uma vez. E tornozelos adoráveis, também. Fiquei feliz por ter escolhido o taco para jogar bilhar. Sem se dar o trabalho de elaborar uma resposta, Clare apertou o robe em torno do corpo e caminhou em direção à porta. Nicholas tocou as cordas da harpa a cada passo seu. Ela se moveu mais rápido, e assim fez a harpa. Clare parou, e as notas também pararam. — Pare de zombar de mim! — ralhou, virando-se. Nicholas fez cessar o som das cordas, e em seguida colocou a harpa no chão. — Não estou zombando de você. Eu a estou convidando a participar do banquete da vida, que inclui o riso. — Levantou-se, e seu rosto pareceu uma coleção de sombras à luz do fogo. — E o desejo também. A paixão é a melhor maneira que conheço para esquecer as tristezas da vida. Clare estremeceu. — Agora vejo por que é chamado de Conde Demônio. Porque segue à risca a cartilha de Lúcifer. — No decurso da minha formação, até me empurraram um pouco de religião goela abaixo. Mas não me lembro de ter ouvido que o


prazer é intrinsecamente perverso. O maior mal é magoar os outros, enquanto a paixão é uma fonte de alegria mútua. — Ele começou a caminhar em sua direção. — Já passou da meia-noite, portanto é outro dia... Devo exigir meu próximo beijo? — Não. — Clare virou-se e saiu. A última coisa que ouviu foi o riso macio de Nicholas. — Está certa. Seria uma pena usá-lo tão cedo... Até mais tarde, Clarissima. Conforme Clare se apressava pelos corredores, rumando para a segurança de seu quarto, pensou, meio desnorteada, que quem dizia que de boas intenções o inferno estava cheio estava coberto de razão. Os pensamentos de Nicholas estavam começando a fazer sentido demais para ela. Ela não apenas se encontrava a meio caminho da perdição, como começava a ansiar por isso.


Capítulo IX Quando chegaram às cercanias da mina, Nicholas freou o cavalo e estudou seu destino. Não era um cenário agradável. A estrutura mais alta tinha uma chaminé que derramava fumaça escura no céu nublado; resíduos de pedras se erguiam ao redor dos prédios sujos, e não havia uma só árvore crescendo em um raio de ao menos cem metros. — O poço principal é o da direita, em meio àquelas construções. É utilizado para acesso, ventilação e para remoção do carvão — explicou Clare, depois fez um gesto para a esquerda. — Não pode vê-lo daqui, mas também há um poço menor e mais antigo, chamado Bychan. Hoje em dia é usado mais para ventilação, e às vezes como acesso para o extremo sul da mina. Embora estivessem a mais de quatrocentos metros de distância, o ruído de um motor a vapor era claramente audível. — É esse motor que bombeia a água da mina? — perguntou Nicholas. — Sim, é um velho motor Newcomen. Os modernos motores Watts são muito mais poderosos. Ele colocou o cavalo em movimento, e desceram a colina. — O motor é um dos problemas? Clare assentiu. — Não apenas é muito pequeno para uma mina desse porte, como também tem quase cem anos de idade, ou seja, não é nada confiável. — Por que ainda não foi substituído? Quando Michael Kenyon comprou a mina, planejava modernizar os equipamentos para melhorar a produção. — Lorde Michael fez algumas melhorias nos primeiros meses, mas logo perdeu o interesse e deixou a administração nas mãos de George Madoc. A mina tem vários áditos, túneis subterrâneos que drenam a água dos níveis mais inferiores, então Madoc decidiu que seria um desperdício de dinheiro comprar uma bomba melhor. Essa também é


sua desculpa para usar um elevador antiquíssimo. Um motor a vapor mais moderno seria bem mais rápido, poderoso e seguro. Foi muito pouca visão por parte de Madoc. Um novo equipamento seria caro, mas se pagaria em pouco tempo. Estou surpreso por Michael não ter mantido o controle das operações diárias da mina. Ele sempre teve cabeça boa para negócios. Nicholas a fitou. — Como vocês sabem, a família Davies era dona da mina, mas meu avô a considerava um incômodo que não valia a pena. Michael ficou interessado quando veio nos visitar. Imaginou que, com uma melhor gestão, a mina poderia ser muito rentável, e assim fez uma oferta. Meu avô deu graças a Deus por se livrar do negócio e, ao mesmo tempo, manter a posse da terra. — Por isso a mina mudou de mãos... — ela observou, seca. — E ninguém se deu o trabalho de explicar isso para as pessoas que trabalhavam nela. Diziam que lorde Michael tinha gostado do vale quando esteve de passagem, e que havia comprado a casa e o negócio por impulso. — Há alguma verdade nisso. Michael realmente se apaixonou por esta parte do País de Gales na primeira vez que visitou Aberdare. Como filho mais novo, ele não herdaria nenhuma das terras de sua família, então comprou Bryn House e a mina. — Um pensamento ocorreu a Nicholas. — Será que ele negligenciou o solar assim como fez com a mina? — Pelo que sei, faz anos que lorde Michael não põe os pés no vale, e ao menos mais quinze postos de trabalho se perderam quando Bryn House foi fechada. — Clare acompanhou o efeito de suas palavras, atenta. Nicholas torceu os lábios. — A nobreza não foi muito generosa com o povo do vale, não é mesmo? — As coisas têm dado errado há anos. Só mesmo o desespero


poderia ter me levado a procurar o seu auxílio... Vendo o brilho malicioso em seus olhos, Nicholas sorriu de leve. — Ao menos está se saindo bem. Pense na oportunidade esplêndida de martírio cristão que estou proporcionando. Seus olhares se encontraram, e ambos caíram na risada. Maldição, pensou Nicholas. Ele gostava daquele senso de humor ácido de Clare. Ela era mais do que capaz de se defender contra ele. Ambos ficaram sérios quando chegaram às construções sombrias. — O que é esse barulho vindo do barracão? — O carvão está sendo separado e classificado. A maioria dos mineiros que trabalha acima do solo fica lá dentro. Nicholas bateu nas manchas que apareceram em seus punhos brancos. — Também parece ser a origem do pó de carvão que cobre tudo por aqui. — Já que gosta de usar preto, não deveria se importar... — Ela apontou para outro galpão. — Não podemos deixar os cavalos aqui. Assim que desmontaram, um homem robusto e musculoso se aproximou. — Lorde Aberdare, este é Owen Morris — Clare apresentou. — Owen! — Nicholas estendeu a mão e levantou a voz para ser ouvido acima do ruído das máquinas e do carvão chacoalhando: — Clare não havia mencionado o nome do meu guia. O mineiro sorriu e devolveu o cumprimento. — E eu não tinha certeza de que fosse me reconhecer após todos esses anos. — Como eu poderia me esquecer? Mostrei aos outros rapazes como hipnotizar trutas, mas você foi o único que desenvolveu um verdadeiro talento para isso. Marged está bem? — Está. Muito mais bonita do que quando nos casamos — Owen disse com carinho. — Ela vai adorar saber que se lembrou dela. — Ora, vale a pena se lembrar de Marged... Claro que eu mal ousava lhe dizer “olá” por medo que você me quebrasse o pescoço.


Enquanto falava, Nicholas estudou o rosto de seu velho amigo. Sob o pó de carvão, Owen possuía a palidez dos mineiros, mas parecia saudável e feliz. Mesmo quando menino, ele fora dono de uma serenidade invejável. — É melhor se trocar para descer ao poço. Seria uma pena estragar essas roupas bonitas de Londres — aconselhou o encarregado. Nicholas seguiu o amigo até um galpão, tirou a roupa e a substituiu por camisa, um casaco largo e calças resistentes, semelhantes às que Owen usava. Embora as peças de flanela grossa tivessem sido cuidadosamente lavadas, ainda se encontravam impregnadas de sujeira antiga. Sorriu quando completou o traje com um chapéu de feltro acolchoado. Seu alfaiate de Londres teria desmaios à sua simples visão. — Prenda isto aos buracos dos botões — Owen orientou, entregando-lhe duas velas. — Tem pederneira e aço? Nicholas tinha, mas se não tivesse sido lembrado, os teria deixado na casaca. — Mais alguma coisa? — indagou, conforme transferia a pólvora para o bolso do casaco de flanela. O mineiro apanhou um punhado de argila mole de uma caixa de madeira e a usou para formar uma protuberância em torno da base das duas velas. — Leve um pouco disto. Quando tivermos de engatinhar, poderá usar o barro para fixar a vela no chapéu. Foram para fora e encontraram Clare à espera, também vestida com um traje próprio para a mina. Nas roupas folgadas, ela parecia um menino. — Vai conosco? — Nicholas perguntou com surpresa. — Não será a minha primeira visita a um poço — ela afirmou, fria. Um forte e irracional instinto de proteção quase o fez proibi-la de


seguir adiante, porém ele teve o bom-senso de segurar a língua. Não tinha o direito de dar ordens a Clare. Ela possuía mais experiência com minas do que ele. E, a julgar por sua expressão, provavelmente iria mordê-lo se ele tentasse impedi-la. Sorriu para si mesmo. Não que ele fosse se importar em ser mordido... Mas não era a hora nem o lugar. Precisaram contornar o sarilho, um grande fuso que se assemelhava a uma roda d’água, para alcançar a boca da mina. Movimentado por uma parelha de cavalos, este alimentava as polias que rangiam, pairando sobre o eixo principal. Quando se aproximaram, uma cesta de carvão empilhado alcançou o topo do poço. Dois operários balançaram a carga para um lado e despejaram o conteúdo em uma charrete. Conforme o carvão caía com estrondo dentro do veículo, um homem mais velho saiu de uma choupana. — Este é o seu visitante, Owen? — Sim. Lorde Aberdare, este é Jenkins, o encarregado de tudo o que entra ou sai da mina. Nicholas estendeu a mão. Após um momento de surpresa, o homem a tomou, apertou-a e tocou a aba do chapéu. — É uma honra, milorde. — O prazer é todo meu. Tentarei não atrapalhar. — Ele examinou o poço aberto. — Como podemos descer? Jenkins travou uma das polias e soltou uma risada enferrujada. — Acenda a sua vela, depois é só agarrar a corda, milorde. Olhando mais de perto, Nicholas viu que esta apresentava diversos nós em diferentes níveis. — Meu Deus! É assim que os trabalhadores entram e saem da mina? Pensei que fosse através de caçambas de metal. — Nas minas modernas, talvez — respondeu Clare. Mas a de Penreith era primitiva e insegura, razão pela qual Nicholas se encontrava ali. Ele observou Owen acender a própria vela, depois


prender os pés em um dos nós e, segurando a corda com uma só mão, equilibrar-se casualmente. Consciente de que estava debruçado sobre um abismo de centenas de metros, e sabendo que estava sendo testado, Nicholas fez o mesmo. Ser nobre de nada valeria ali se não tivesse a coragem de fazer o que todo mineiro fazia todos os dias. Enroscar-se em um nó não foi tão difícil como ver Clare fazer o mesmo. Quando ela desceu sobre o abismo, Nicholas teve de reprimir seu instinto de proteção mais uma vez. Com um rangido, a polia começou a girar, e eles desceram para a escuridão, pendurados na corda como uma réstia de cebolas. As chamas das velas balançavam enquanto o ar fumarento passava, e eles giravam enquanto desciam, o que fez Nicholas se perguntar se os mineiros nunca ficavam tontos e caíam. Como Clare estava pendurada um pouco acima dele, manteve-se atento. Se demonstrasse qualquer sinal de desequilíbrio, ele a agarraria instantaneamente. Mas ela parecia tão calma como se estivesse tomando chá em casa. Conforme a luz no topo do poço ia diminuindo, um ponto vermelho, abaixo deles, se expandia. Clare havia mencionado que deixavam uma fogueira queimando no fundo por conta da ventilação, por isso a fumaça e o calor ao seu redor. Na verdade, era como se estivessem descendo por uma chaminé. Nicholas olhou para baixo outra vez e viu que o fogo tinha desaparecido, obscurecido em parte por algo preto e enorme que subia vertiginosamente. Enrijeceu, mas só Deus sabia o que podia fazer para evitar uma colisão. Com um deslocamento explosivo do ar, o objeto passou por eles a uma velocidade letal, a centímetros de Owen. O mineiro nem sequer piscou. Nicholas expulsou o fôlego com alívio quando viu que era apenas


mais uma cesta de carvão. Ainda assim, se a corda que os descia tivesse oscilado, um deles poderia ter sido atingido. A mina precisava definitivamente de motores a vapor e um elevador. Após cerca de dois minutos, a velocidade da descida diminuiu, e eles pararam a vários metros do estrondoso fogo para ventilação. Conforme se desenroscavam da corda, Nicholas se deu conta de que se encontravam em uma grande galeria. A vários metros de distância, várias silhuetas enegrecidas pela poeira carregavam outra cesta para ser içada. — Este lugar tem uma incrível semelhança com os confins do inferno que seu pai tanto gostava de descrever — comentou com cinismo. — Então deveria se sentir em casa aqui, Velho Nick... — Clare esboçou um breve sorriso. Nicholas sorriu de volta, mas se havia um lugar em que não se sentia era em casa. Sua parte rom sempre ansiara por ar fresco e espaços abertos, algo que jamais poderia encontrar naquele buraco. Tossiu e piscou os olhos que ardiam, pensando por que motivo nunca tivera a curiosidade de ir até ali quando menino. — Vamos para a face oeste da carvoaria — sugeriu Owen. — Não é tão agitado lá. Assim vai conseguir ver mais. Meia dúzia de túneis saía da galeria principal. Ao atravessarem até aquele que os levaria ao seu destino, precisaram se desviar de pequenos vagões cheios de carvão. — São vagonetes, explicou o encarregado conforme o primeiro passava, empurrado por dois rapazes. — Podem levar até quinhentos quilos de carvão. Os homens que os empurram são chamados putters. Minas maiores têm trilhos para que os carros deslizem mais facilmente. Entraram em um corredor; Owen à frente, seguido por Clare, e Nicholas na retaguarda. O teto não muito alto obrigou Nicholas a se curvar, ao mesmo tempo que sentia um odor úmido de pedra, bem diferente daquele cheiro de terra de um campo recém-arado.


— O gás é outro problema — Owen disse por cima do ombro. — O dióxido de carbono que se acumula no fundo das minas pode até sufocar. O grisu é pior porque explode. Quando fica muito denso, temos um companheiro que se deita no chão, ateia fogo ao gás e deixa que as chamas passem por cima dele. — Jesus, mas isso é suicídio! — É. — Owen o fitou por sobre o ombro. — Mesmo assim, não deveria tomar o nome do Senhor em vão... Nem mesmo sendo um nobre — acrescentou com uma piscadela. — Você sabe que eu sempre fui um pouco profano. Mas vou tentar segurar a minha língua — prometeu Nicholas. Ocorreu-lhe que Clare também devia considerar seu linguajar ofensivo. Talvez devesse praguejar apenas em romani. — Agora que mencionou, lembrei-me de já ter ouvido falar em se queimar gás, mas pensei que a prática tivesse sido abandonada por conta do perigo. — Esta é uma mina muito tradicional, milorde — Owen respondeu, seco. — Se vai me censurar por causa dos meus maus modos, precisa me chamar de Nicholas novamente. — Ele enxugou a testa com a manga flanelada. — É imaginação minha, ou está mais quente aqui do que na superfície? — Não é imaginação sua — respondeu Clare. — Quanto mais fundo, maior a temperatura. — Olhou por cima do ombro. — Estamos cada vez mais perto do inferno, você sabe... O sorriso de Nicholas durou até que ele pisou em algo mole que guinchou e, em seguida, escapuliu com um ruído. Enquanto lutava para recuperar o equilíbrio, bateu a cabeça no teto e deixou escapar uma série de palavrões... em romani. Clare se voltou, preocupada. — Está bem? Ele pôs a mão na cabeça com cuidado.


— Esse chapéu acolchoado me salvou de estourar os miolos. No que foi que eu pisei, afinal? Ela o tocou na testa com a mão fria. — Provavelmente em um rato. Há muitos deles por aqui. — E todos bastante ousados — acrescentou Owen, que também havia parado. — Alguns até tiram alimento das mãos dos rapazes. — Alguém já considerou trazer gatos aqui para baixo? — indagou Nicholas, avançando outra vez. — Existem vários aqui, fazendo uma verdadeira festa... — contou Clare. — Mas mesmo assim, cada vez há mais ratos e camundongos. Um fraco barulho metálico soou à sua frente, e conforme fizeram uma curva, Nicholas viu que uma porta de metal bloqueava o túnel. — Huw, abra a porta! — Owen ordenou. Quando a porta se abriu com um rangido, um menino pequeno, de no máximo seis anos, pôs a cabeça para fora. — Sr. Morris! — saudou com prazer. — Há quanto tempo! Owen revolveu o cabelo do garoto. — Tenho trabalhado mais na face leste. Como anda a vida de encarregado da ventilação? — Não é difícil. Mas é muito solitário ficar sentado no escuro o dia todo — comentou Huw, melancólico. — E eu não gosto de ratos, senhor. Não mesmo! Owen apanhou uma de suas velas sobressalentes e a acendeu, entregando-a ao menino. — Seu pai não o deixa trazer uma vela? Ele balançou a cabeça. — Diz que é muito caro para uma criança que só ganha quatro centavos por dia. Nicholas franziu o cenho. A criança estava trabalhando naquele buraco por apenas quatro tostões por dia? Que atrocidade! Owen tirou um caramelo do bolso e o entregou a Huw. — Eu o verei quando voltar.


Passaram pela porta e seguiram pelo túnel. Quando se afastaram bem do menino, Nicholas bufou. — Que diabo esse menino está fazendo aqui? — O pai quer dinheiro — Clare explicou, transtornada. — A mãe de Huw morreu, e o marido, Nye Wilkins, é um bêbado bruto e ganancioso que trouxe o filho para a mina quando ele tinha apenas cinco anos. — Metade dos mineiros se dedica à igreja, a outra à taberna — emendou Owen. — Cinco anos atrás, a nossa Clare se levantou na Capela do Sião e disse que as crianças pertenciam à escola, não à mina. Houve muita discussão, mas antes de o dia terminar, cada um dos que estavam na capela tinha prometido não pôr os filhos para trabalhar antes dos dez anos. — Eu queria ter estado lá — comentou Nicholas, os olhos fixos nos dela. — Foi muito corajosa, Clare. — Eu faço o que posso — respondeu ela, tímida —, mas nunca é suficiente. Tem pelo menos uma dúzia de garotos da idade de Huw trabalhando na mina, sentados no escuro durante todo o dia para movimentar essas portas que controlam como o ar se move através dos poços. Passaram por uma escavação com várias madeiras pregadas sobre ela. — Por que este poço está fechado? — quis saber Nicholas. Owen parou. — Porque, no final, a rocha muda de repente e o veio de carvão desaparece. — Franziu as sobrancelhas. — Estranho que este esteja bloqueado... Parece haver muitas jazidas ainda. — Talvez o dióxido de carbono esteja muito forte neste túnel — sugeriu Clare. — Deve ser isso — concordou o encarregado. Continuaram, espremendo-se contra as paredes escarpadas sempre que um vagonete passava empurrado por um mineiro.


Finalmente, chegaram ao final da jazida. Em um espaço estreito, de forma irregular, cerca de doze homens trabalhavam com picaretas e pás. Após um breve olhar de indiferença na direção dos recémchegados, prosseguiram com sua tarefa. — Esses são os picadores — explicou Owen. — Estão trabalhando ao longo da parede. Conforme o carvão é retirado, os escombros ficam para trás e as escoras são movidas para a frente, a fim de dar suporte à área de trabalho. Os três observavam em silêncio. Argila era usada para fixar as velas em vários pontos, deixando as mãos dos picadores livres. Cada um deles tinha um vagonete atrás de si para acondicionar o carvão, uma vez que cada mineiro era pago conforme a quantidade de minério que extraía. Nicholas ficou fascinado pela maneira como os homens se contorciam para chegar ao carvão. Alguns estavam ajoelhados, outros se encontravam deitados de costas. Um deles estava curvado de forma a poder cortar a base da fenda. Seu olhar se demorou sobre um trabalhador no fundo da escavação. — Aquele homem não tem nenhuma vela... Como pode estar enxergando? — comentou, intrigado. — Ele não enxerga — respondeu Clare. — Blethyn é cego. — Está falando a sério? — Nicholas indagou, incrédulo. — Uma mina é um lugar perigoso demais para um deficiente. Como ele pode dizer se está cortando carvão ou refugo? — Pelo toque e pelo som das picaretadas — explicou Owen. — Blethyn conhece cada canto, cada curva daqui. Certa vez, quando uma inundação apagou nossas velas, ele conduziu seis de nós para fora em segurança. — Hora da carga! — um dos picadores avisou. Outro se endireitou e limpou o suor do rosto. — Bodvill, é a sua vez de arrumar a pólvora.


Um homenzarrão taciturno pousou a picareta, levantou um mandril e começou a perfurar a rocha. Os outros colocaram suas ferramentas nos carros e começaram a empurrá-los de volta pelo túnel. Conforme Nicholas e Clare se puseram de lado, Owen explicou: — Quando o buraco estiver fundo o suficiente, será preenchido com pólvora negra, que em seguida será acesa por uma mecha de combustão lenta. — E a explosão não vai derrubar o poço? — Não se for benfeita — respondeu Clare. Ao perceber a tensão nas palavras, Nicholas lançou-lhe um olhar intrigado e notou que ela também parecia a ponto de explodir. Por um instante, perguntou-se por quê. Então a resposta óbvia se fez clara, e ele teve vontade de bater a cabeça contra a rocha. Havia se esquecido de que o pai dela morrera ali embaixo. Mas não Clare. Seu perfil tenso era a prova de como era difícil para ela estar naquela mina. Nicholas teve vontade de passar os braços por seus ombros e dizer algo reconfortante, mas reprimiu o impulso. A julgar por sua expressão, Clare não queria piedade por parte de ninguém. O último picador a deixar a área era um sujeito atarracado, musculoso e com ar arrogante. Quando os alcançou, parou e olhou de soslaio para Nicholas. — É o Conde Cigano, não é? — Já me chamaram assim. — Diga ao seu amigo, lorde Michael, para ficar de olho em Madoc. O velho George vive melhor do que qualquer administrador de mina deveria — revelou, e voltou para o seu vagonete a fim de empurrá-lo ao longo do túnel. Quando o picador desapareceu, Nicholas voltou-se para Owen. — Acha que Madoc pode estar desviando recursos da mina? — Não sei dizer — resmungou o encarregado, pouco à vontade. —


É uma acusação muito grave para se fazer. — Você é bom demais — observou Clare. — Ponha um administrador ganancioso sob as ordens de um dono negligente, e o desfalque será líquido e certo. — Se isso é verdade, e lorde Kenyon descobre, eu não gostaria de estar na pele de Madoc — Nicholas falou. — Michael sempre teve um temperamento difícil. Bodvill retirou a broca e começou a enfiar um pó preto dentro do buraco. — Hora de irmos — alertou Owen. — Ainda há algo que eu quero lhe mostrar no caminho de volta. Após refazer seus passos por uma curta distância, eles viraram em uma escavação que levava a uma vasta galeria, cujo teto se encontrava sustentado por enormes pilares quadrados. Erguendo a vela para iluminar a área, Owen explicou: — Eu queria que você visse a mineração por realce e pilar, no qual grande parte do carvão é deixada para trás a fim de sustentar o teto da escavação. Veios maiores geralmente são trabalhados dessa maneira. Tem suas vantagens, mas cerca da metade do carvão é deixada nos pilares. Intrigado, Nicholas examinou um dos suportes e descobriu que a superfície cortada tinha o brilho negro do minério. — Cuidado com a cabeça, amigo! — Enquanto falava, Owen agarrou o braço de Nicholas e o puxou para trás. Um pedaço de rocha caiu bem onde Nicholas havia estado, espatifando-se no chão. Abalado, ele olhou para o teto escarpado. — Obrigado, Owen. Como viu isso a tempo? — As cavernas feitas por Deus são muito estáveis. As feitas pelo homem estão sempre caindo aos pedaços — explicou o encarregado com um toque de humor. — Quando se trabalha em uma mina, aprende-se a ficar de olho sobre o que está acima de sua cabeça. É preciso força e também inteligência para ser um mineiro de carvão.


— Um rom morreria se fosse forçado a trabalhar aqui — Nicholas falou, desgostoso. — Morrer é fácil, principalmente nesta mina em particular. — Owen apontou para a caverna sombria. — Madoc pretende explorar os pilares e tirar mais carvão deles. Diz que é um desperdício deixá-los assim. Nicholas franziu a testa. — E isso não vai fazer o teto vir abaixo? — É possível. — Owen apontou para uma das vigas. — Talvez não com mais aparas... Mas Madoc dificilmente irá bancar mais madeira. O conde torceu os lábios. — Ainda nem conheci esse tal de Madoc, e já não estou gostando dele. — Espere até encontrá-lo... — emendou Clare, sarcástica. — Sua antipatia vai virar ódio puro. — Essa não é uma declaração muito cristã, Clare — Owen a repreendeu delicadamente. — Vamos... Precisamos sair daqui. Conforme ela o seguia para fora da galeria, deu um longo suspiro. — Tem razão, Owen. Sinto muito. Nicholas não achou ruim por estarem voltando. Conforme foi caminhando atrás de Clare, manteve um olho no teto e outro no balanço gracioso de seus quadris. Já era hora de começar a pensar sobre o beijo daquela noite... Quando chegaram ao corredor principal e viraram em direção à cava, Owen fez uma careta. — A bomba falhou de novo. Nicholas percebeu que o zumbido constante e distante do motor havia cessado, deixando em seu lugar um profundo silêncio. — Isso acontece muitas vezes? — Uma ou duas vezes por semana. Espero que os engenheiros possam consertá-la depressa. — Ele retomou as passadas. — Com toda a chuva da primavera, haverá alagamento se a bomba ficar


parada por mais de uma hora ou duas. Nicholas passou a acompanhá-lo, em seguida fez uma pausa ao som abafado de uma explosão que ecoou através das passagens e galerias e fez vibrar a rocha sob seus pés. — A carga de Bodvill — Owen explicou por sobre o ombro. De súbito, Clare deu meia-volta para olhar o caminho por onde tinham vindo com uma expressão de urgência. — Escutem! Alerta, Nicholas se virou. A visibilidade estava prejudicada por uma curva cerca de sessenta metros atrás deles, mas o ar parecia estranhamente comprimido, e algo corria com um som borbulhante que ele não conseguia identificar. Antes que abrisse a boca para perguntar o que estava acontecendo, uma onda enorme explodiu ao redor da curva, preenchendo todo o túnel e rugindo em sua direção.


Capítulo X — Subam nas paredes e pendurem-se! — Owen gritou assim que a água surgiu. — Vou tentar ajudar Huw! — E correu para longe, desaparecendo com sua vela. Clare agarrou o braço de Nicholas e o puxou para a escora de madeira mais próxima. — Depressa! Precisamos chegar tão perto do teto quanto possível! Assentindo, ele soltou a vela, agarrou Clare pela cintura e a ergueu o mais alto que pôde. Ela escalou a mina, encontrando pontos de apoio nas rochas cortadas de forma grosseira, e Nicholas a seguiu. A vela que oscilava loucamente na aba do chapéu de Clare iluminou uma reentrância na madeira que deixava vários centímetros de espaço entre a escora e a parede rochosa. Nicholas conseguiu enganchar um braço em torno da madeira e, com o outro, segurou Clare. Um instante depois, as águas turbulentas os atingiram, apagando a vela e envolvendo-os completamente. A corrente jorrou, furiosa, e Nicholas precisou de toda a sua força para se manter agarrado à madeira. Algo pesado bateu neles e continuou, quase carregando Clare. Conforme ele lutava para mantê-la contra a força da água, ela se agarrou a seu corpo e, uma vez que a tinha segura, Nicholas virou-se de costas para a corrente até que ela se apoiou contra a parede rochosa e seu corpo a protegeu. Outro objeto o golpeou, ferindo-lhe as costelas e arrancando o pouco fôlego que lhe restava, mas dessa vez, pelo menos, Clare foi poupada. Segundos se passaram e a inundação não diminuía. Quando a queimação em seus pulmões se tornou insuportável, Nicholas começou a se perguntar se era seu destino se afogar ali, longe do vento e do céu. Pressionou o rosto contra os cabelos de Clare, sentindo os fios sedosos açoitar sua face. Que desperdício de duas vidas! E ele


pensando que teriam mais tempo... Sua visão começava escurecer, e o abraço de Clare a enfraquecer, quando a correnteza diminuiu. Sentindo que o nível da água descia, Nicholas ergueu o rosto e descobriu que havia agora uma estreita faixa de ar entre a água e o teto. Mesmo enquanto sugava o ar para os pulmões, desesperado, puxou Clare pelas costas, depois pelos quadris, levantando-a para que ela pudesse respirar. Uma vez com a cabeça acima da superfície da água, ela irrompeu em um acesso de tosse que lhe sacudiu o corpo convulsivamente. Mesmo na escuridão, Clare lhe pareceu muito frágil, e ele tornou a apertá-la contra o próprio corpo, preocupado. Por vários minutos, eles se abraçaram e se deleitaram com o luxo de respirar em espasmos. A água começou a descer devagar, até que ficou cerca de trinta centímetros abaixo do teto, e em seguida manteve-se estável. — Tem ideia do que aconteceu?! — Nicholas perguntou, ofegante. Clare tossiu de novo, mas em seguida conseguiu dizer: — A carga de pólvora deve ter aberto alguma nascente escondida... Acontece algumas vezes, mas a inundação geralmente não é tão terrível. — E a bomba a vapor está quebrada — ele lembrou, sério. — Espero que seja reparada em breve. A corrente fria ainda os puxava, e seu único apoio era a apara de madeira. Exausto, Nicholas explorou com o pé esquerdo até encontrar uma borda sólida que reduzisse a tensão em seu braço. Mesmo assim, indagou-se por quanto tempo ficariam pendurados ali. Mais cedo ou mais tarde, o cansaço e o frio venceriam. — Se a água começar a subir novamente, vamos ter de tentar nadar para fora, mas na escuridão, correríamos o risco de nos perdermos em uma encruzilhada. Por enquanto, acho melhor ficarmos aqui e rezar para que ela desça mais. — Você, rezando? — Clare tentou fazer graça. — Devo estar com


água nos ouvidos. Nicholas sorriu. — Meu amigo Michael era soldado antes de decidir ficar rico. E uma vez ele disse que no campo de batalha não existem céticos. Clare esboçou um sorriso, porém seu humor logo se esvaiu. Quando falou, sua voz soou embargada: — Acha que Owen e Huw conseguiram escapar da inundação? — Eles devem estar seguros — respondeu Nicholas, esperando que seu otimismo não fosse em vão. — Owen conseguiu se afastar bem de nós, e não creio que a porta onde o menino trabalha esteja muito distante. Eles podem estar agarrados a alguma escora, assim como estamos, mas com sorte, fizeram isso depois de fechar a porta atrás deles. Isso teria reduzido a velocidade da água e lhes dado tempo para chegar a um nível superior. — Que Deus te ouça — ela sussurrou, agoniada. — Outros mineiros também podem ter sido apanhados pelas inundações. Bodvill provavelmente não conseguiu se afastar muito depois de ter acendido a pólvora! — Clare se lembrou, estremecendo. Imaginando o porquê, Nicholas a fitou nos olhos. — Foi aqui que seu pai morreu? — Não. Aconteceu no outro extremo da mina. — Após um longo silêncio, contudo, ela explodiu: — Eu odeio este lugar! Meu Deus, como eu odeio isto tudo! Se pudesse fechar a mina amanhã, eu o faria. Tantos já morreram aqui! Tantos... — Sua voz sumiu em um soluço, e ela escondeu o rosto no ombro largo. — Perdeu mais alguém? — Nicholas indagou baixinho. A princípio, houve silêncio, exceto pela água em movimento. Então Clare suspirou, hesitante. — Um namorado. Nós dois éramos muito jovens. Eu tinha quinze anos, e Ivor era apenas um ano mais velho. Mas eu gostava dele, e ele de mim. Tomávamos conta um do outro. Às vezes conversávamos depois do culto, tentando dizer o que sentíamos. — Ela estremeceu


outra vez, as palavras saindo sombrias. — Mas antes que as coisas pudessem caminhar entre nós, houve uma explosão de gás e ele foi queimado vivo. Tendo crescido no vale, Nicholas fora testemunha da paixão inocente de vários adolescentes. Embora um cínico pudesse dizer que tais relacionamentos se baseavam em mera luxúria, ele sabia que não. Bastava se lembrar do namoro de Owen e Marged. Desde o início, aqueles dois haviam se unido de tal forma que era comovente vê-los juntos. Havia ficado com inveja, admitiu. Nunca fora tão inocente. Aos quinze anos, Clare devia ter sido como Marged: leal e pura de espírito. O jovem Ivor teria sido digno de seu amor? Ela nunca saberia. Assim como jamais experimentara a traição, pois seu amado tinha morrido quando o amor que brotara entre eles ainda não havia vislumbrado tantas possibilidades. Nicholas suspirou. Desde que chegara à mina, vinha reprimindo seu instinto de proteção em relação a Clare. De repente, decidiu abandonar aquela luta inglória e ofereceu o consolo que podia. — Que coragem a sua ter se aventurado nestas profundezas — sussurrou e, inclinando a cabeça, roçou o rosto molhado com os lábios, contornando-lhe a curva do pescoço. Clare soltou um suspiro quando ele a beijou, e inclinou a cabeça para o lado, apoiando-a em seu ombro. Tinha a boca deliciosamente quente em contraste com o rosto e, com a água sustentando-lhe o peso, seus corpos se moldaram com facilidade. As roupas encharcadas se aqueceram onde eles se tocavam, criando uma sensação de nudez. Clare não pareceu se importar por ele estar com as pernas entre suas coxas, ou que seus seios estivessem achatados contra seu peito. A princípio, Nicholas manteve o beijo simples, quase casto. Mas não havia nada casto no desejo que ela despertava nele... Entreabriu os lábios de leve. Clare fez o mesmo, e houve uma troca de ar


delicada. Enlevado, Nicholas tocou-lhe os lábios com a língua. Clare fez um movimento breve, meio surpreso, e por um doloroso momento Nicholas pensou que ela consideraria aquele o beijo do dia. Em vez disso, sua língua tocou timidamente a dele, e suas mãos o acariciaram nas costas. Nicholas suspirou. Clare era doce como vinho. Sabia que era loucura sentir um desejo tão forte quando suas vidas estavam em perigo, mas por um momento insano, esqueceu-se da água, da escuridão, do risco. Só existia ela. Levantou um joelho para que Clare se acomodasse melhor sobre sua coxa, as pernas se apoiando nas dele. Ela respondeu com o corpo todo, tão fluida quanto a água que os envolvia. E havia algo muito erótico naquela sua exploração: uma pitada de libertinagem inocente. Clare esperava ser sexualmente assediada quando Nicholas finalmente lhe beijou a boca. O que não esperava era a ternura com que ele o fez. Por instinto, soube que aquele abraço era diferente dos outros dois, quando ele apenas testara suas reações e a deixara atordoada pela expectativa. Aquele beijo era de partilha, pois o perigo os aproximara. E o perigo ainda não tinha terminado. Relutante, virou o rosto. — Eu... acho que é hora de parar. — Acha? Não tem certeza? Antes que ela respondesse, suas bocas se encontraram novamente, lançando um feitiço que dissolveu seu frágil bom-senso. Clare se apertou mais contra ele, e estremeceu quando Nicholas roçou a mão na lateral de seu seio, o toque provocando uma verdadeira descarga elétrica. A culpa e um profundo constrangimento vieram junto, porém, aumentando ainda mais quando ela percebeu que se esfregava contra ele de uma forma mais do que vergonhosa.


Recuou, aflita. — Tenho certeza. Nicholas segurou a respiração, então soltou um pesado suspiro de pesar. — Pena. — Seu abraço afrouxou. Clare se contorceu de modo a não ficar tão intimamente ligada a ele. Mas era difícil se manter digna quando continuavam enroscados um no outro, lutando para não cair e se afogar. O pensamento reacendeu o terror que ela sentira quando a inundação quase os havia arrastado. Nicholas fora sua tábua de salvação. Se ele não tivesse sido tão forte, tão obstinado, àquela hora ela seria mais uma das vítimas da mina. — Salvou a minha vida, milorde. Obrigada. — Puro egoísmo da minha parte. Sem você, minha casa viria abaixo. A provocação restaurou seu senso de humor. — Mas sem mim para lhe complicar a vida, estaria livre para deixar Aberdare. — Quem disse que a vida deve ser simples? — Ele acariciou seu rosto no ângulo entre o pescoço e o ombro. Clare prendeu a respiração. Seu acordo original envolvia beijos, mas, em sua ingenuidade, ela não imaginara quantas maneiras sedutoras havia de um homem tocar uma mulher. — A água baixou mais uns trinta centímetros — desconversou, tentando se distrair daquela perturbadora proximidade física. — Parece que sim. Vamos ver se consigo ficar em pé sem me afogar... — Nicholas pegou a mão dela e a fez prendê-la na madeira; depois a apoiou nas escoras e se afastou com cuidado. Os dedos de Clare escorregaram na madeira molhada, derrubandoa na água. Ela deu um grito sufocado e tentou se agarrar às tábuas novamente, mas encontrou apenas pedra escorregadia, a qual não lhe


proporcionou nenhum suporte. No mesmo instante, Nicholas a agarrou e puxou de volta. — Eu deveria ter perguntado se sabia nadar... Ela buscou o ar, ofegante. Lembrando-se de que ele não podia vêla no escuro, obrigou-se a falar: — Receio que não! — Muito bem. Vamos tentar novamente, com mais cuidado. Dessa vez, Nicholas colocou suas duas mãos ao redor da escora e certificou-se de que ela estava segura antes de se afastar. — A água está batendo no meu queixo, e a corrente não está tão forte — falou em voz alta. — Acho que é hora de sairmos. E você, srta. Morgan, terá de subir nas minhas costas. Não quero perdê-la na escuridão. — Eu não poderia estar mais de acordo — respondeu ela, com um riso nervoso. — Falando em escuridão, ainda tem a pederneira e o aço? Talvez possamos acender uma vela. — Você não? Acho que perdi tudo quando a inundação nos atingiu. Deveria tê-las prendido melhor. Deixe-me ver minha caixa de pólvora... — Clare ouviu a água chapinhando conforme ele localizava a caixa e a erguia acima da superfície. Após um momento, Nicholas disse com pesar: — Nada feito. Está encharcada. Pena eu não ser realmente o Velho Nick... Se fosse, poderia acender uma vela estalando os dedos. A água se moveu contra ela quando Nicholas se aproximou. — Estou me virando de costas para você... Pronto. Pode subir a bordo. Ela colocou os braços ao redor de seu pescoço e as pernas em volta da cintura, pensando que o corpo musculoso era muito mais seguro do que a madeira. Nicholas segurou sua perna esquerda com firmeza, então começou a remar na água com o braço direito, tentando mantê-lo o máximo à sua frente para que não trombassem com alguma parede. — Se eu colocar o braço para o lado, posso acompanhar a parede


lateral — decidiu Clare. — Boa ideia. Isso deve nos manter em curso. Ele se moveu com destreza através da água, os músculos do quadril se flexionando sensualmente contra a parte interna das coxas de Clare e, de repente, ela se lembrou de um fragmento de conversa que ouvira entre duas mulheres mais velhas. Uma delas, viúva, havia dito que sentia saudades de sentir um bom homem entre suas pernas outra vez. Ela havia se horrorizado com o comentário vulgar, mas agora podia compreender. Embora aquilo não fosse o que a viúva tinha em mente, os movimentos de Nicholas estavam lhe causando um estranho prazer. Sua vontade era roçar os quadris contra ele e aliviar aquela dor esquisita... Envergonhada, escondeu o rosto quente contra sua nuca. Após aquela intimidade indecente, como poderiam manter um relacionamento seguro? Por outro lado, ele nunca fora seguro; desde que ela havia ido para Aberdare em busca da cooperação do conde... Enquanto seus pensamentos borbulhavam, Clare corria os dedos pela parede da direita, sentindo a rugosidade da pedra trabalhada e pontuada por uma ou outra escora. Por duas vezes eles passaram por poços abertos. Foi então que ela tocou em algo diferente: um tecido, depois algo frio, escorregadio, flexível e com cerdas eriçadas. Clare deu um grito de horror e se afastou. — O que foi?! — Nicholas se alarmou. — Há alguém afogado aqui! — ela disse com voz trêmula. Ele parou de andar. — Será que ainda está vivo? Lembrando a sensação de flacidez na pele, Clare estremeceu e abanou a cabeça. — Não creio.


— Provavelmente é o pobre Bodvill. Algo pesado me atingiu durante a inundação, e pode ter sido um corpo. Se ele está morto, teremos de deixá-lo, Clare. O tom prático a ajudou a se recompor. Seu maior medo fora de que o corpo fosse de Owen, porém seu amigo estava bem barbeado e aquele pobre homem não. Nicholas começou a avançar outra vez. Quando haviam se deslocado mais alguns metros, ela limpou a mão na coxa em um gesto sem sentido, já que se encontrava quase submersa, e recomeçou a acompanhar a parede novamente. O poço não tinha fim. Pareciam ter percorrido muito mais do que quando contavam com luz. Clare começava a se perguntar se haviam, de alguma forma, se desligado do túnel principal, quando Nicholas parou de repente. — Acho que chegamos a um beco sem saída — concluiu, preocupado. Após um momento, porém, mudou de ideia: — Não, o túnel continua... mas o teto está abaixo da linha da água. Clare franziu a testa e tentou se lembrar. — Nós passamos por uma parte com um teto baixo, e acho que não era muito longa. Lembra-se? Você até precisou abaixar a cabeça. — Para ser honesto, eu não estava prestando muita atenção. Tudo que me lembro é de que, às vezes, conseguia andar ereto e às vezes não — ele respondeu com voz grave. — Não posso levá-la por baixo da água sem saber quanto tempo vamos demorar. Consegue segurar em alguma madeira enquanto faço um reconhecimento? A última coisa que Clare queria era ficar sozinha em um poço inundado e com um cadáver flutuando por perto, mas assentiu. — Há uma escora cerca de três metros atrás de nós. Vou ficar bem lá. Nicholas recuou até que ela estivesse próxima da madeira. — Consegue se firmar? — Esta madeira parece ter sido concebida para isso — ela


assegurou. Ele deu-lhe um beijo na testa. — Ah, droga, eu me esqueci... — Soltou uma risada sem humor. — Vou ficar sem beijo amanhã? — Acho que, nas circunstâncias, não vou levar este em conta. — Nesse caso... — Seus braços a envolveram, e ele a beijou na boca demoradamente. O abraço enviou uma onda de calor até os dedos de seus pés semicongelados pelo frio, mas Clare tratou de se manter séria. — É mesmo um impertinente, lorde Aberdare — fingiu ralhar quando ele se afastou. — Claro que sou. — Nicholas riu. Em seguida, sem o fardo de uma passageira nas costas, nadou até onde o teto abaixava. Clare escutou, atenta, seguindo suas ações por meio do som. Ele fez uma série de respirações profundas, enchendo os pulmões tanto quanto possível. Então, com a ondulação calma de uma lontra deslizando por um córrego, mergulhou. A água ao seu redor imediatamente pareceu dez graus mais fria, e ela estremeceu quando uma terrível possibilidade lhe ocorreu. Se eles tivessem se perdido do túnel principal, Nicholas poderia estar nadando para todo tipo de perigo. Respirando fundo, disse a si mesma que parasse de se preocupar; que o Conde Cigano já provara poder cuidar de si mesmo, e ela também. No entanto, levou uma eternidade antes que Nicholas retornasse, buscando o ar, desesperado, ao irromper pela superfície da água. Quando conseguiu falar outra vez, nadou na sua direção. — O túnel se inclina para cima mais à frente, portanto a água é mais rasa do outro lado. Acho que podemos atravessá-lo, mas não será muito confortável, pois será levada ao limite de sua capacidade pulmonar. Confia em mim para guiá-la?


— Claro que confio. Até porque também precisa de mim para manter sua casa organizada... Era fácil fazer piada quando ele estava a seu lado. Nicholas riu e a puxou pela água até que estivessem próximos do teto baixo. — Respire fundo várias vezes e depois segure minha mão esquerda com as suas duas. Quando estiver pronta, aperte-a. Clare seguiu as instruções e fechou as mãos em torno da dele. Quando sinalizou como prometido, Nicholas mergulhou, rebocando-a. Nadou de lado, as pernas dando poderosos golpes de tesoura abaixo dela. Parecia uma maneira fácil de fazer o percurso, porém ele estava certo sobre o desconforto. Embora Clare confiasse nele, conforme foi ficando sem ar começou a sentir o pânico invadi-la e teve ímpetos de se soltar. Em vez disso, com o coração batendo como um tambor, começou a exalar o ar lentamente. Quando pensou que não duraria mais nem um segundo sem encher de água os pulmões que já ardiam, Nicholas os impulsionou para cima e eles saíram para a superfície. Mais uma vez, Clare se agarrou a ele enquanto lutava para respirar. — Menina valente — ele falou, ofegante, acariciando-lhe as costas. — Não tenho nada de valente! — ela ofegou de volta. — E também não sou nenhuma menina... Sou apenas uma professora solteirona e mal-humorada. Nicholas riu e a beijou. Clare sabia que tinha o direito de impedi-lo, pois ele já ultrapassara a sua cota... mas não se importou. Seus beijos lhe davam coragem, e ela precisava de tudo o que pudesse ter. Só iria se preocupar com a própria moral quando estivessem a salvo, acima do solo. O desejo pulsou através dela, revitalizando seu corpo cansado, e Clare levou algum tempo para perceber que a pulsação não era apenas dentro dela, mas em tudo ao seu redor, vibrando através da pedra e da


água. Levantando a cabeça, ela sorriu com alívio. — A bomba está funcionando novamente! — Com cuidado, tentou sentir o chão e descobriu que já podia ficar em pé, embora apenas com o rosto fora d’água. — Aleluia! Isso exige um beijo de comemoração... Nicholas a puxou para os braços e procurou sua boca, mas, rindo, Clare o empurrou para longe. — Você não pensa em outra coisa? — Às vezes — ele admitiu. — Mas não por livre e espontânea vontade... — Ergueu-a nos braços e nivelou suas bocas. Estava ficando cada vez mais fácil para Clare se perder naqueles beijos e, mais uma vez, ela se viu flutuando em uma mistura inebriante de água e desejo. O paraíso em uma mina de carvão em ruínas, pensou, atordoada. Lutando para retomar o bom-senso, inclinou-se para trás. — Se não parar com isso, esta água vai começar a ferver! — Clarissima! — ele exclamou com prazer. — Essa foi a melhor coisa que já me disse. Felizmente, Nicholas não tentou beijá-la outra vez, pois sua resistência a ele nunca estivera tão baixa. Após colocá-la de volta no chão, ele a segurou pelos ombros à sua frente, e eles prosseguiram a jornada. Logo chegaram a uma parede que fez soar um barulho metálico quando Nicholas a investigou com a mão livre. — Acho que chegamos à porta onde ficava Huw. O local parecia misericordiosamente livre de corpos. Nicholas se abaixou e passou pela porta submersa, então pediu a Clare que o seguisse. Quando ela saiu do outro lado, piscando, ficou extasiada ao perceber luz de velas se aproximando. Meia dúzia de homens caminhavam na sua direção, chapinhando através da água que os


cobria até a cintura, com Owen na frente. — Clare, Nicholas! São vocês? — Estamos aqui e bem! — Nicholas respondeu enquanto a ajudava a se firmar sobre os pés. — Conseguiu salvar Huw? — Sim, mas foi por pouco. Depois de nadarmos para um nível superior, consegui levá-lo até lá em cima. O pobrezinho ficou apavorado. — Há um homem afogado em um dos túneis — contou Clare, sombria. — Houve outras vítimas? — Deve ser Bodvill... que Deus o tenha — orou Owen. — Mas não. Ninguém mais morreu ou se feriu gravemente. Tivemos sorte. — Vamos procurar Bodvill — sugeriu um dos outros mineiros. — Ele não está muito além do ponto onde o teto é mais baixo — instruiu Nicholas. O homem assentiu, em seguida levou três outros trabalhadores em direção à porta de metal. A água vinha baixando de forma constante, e agora já era possível manter as velas acesas. — Desculpem termos demorado tanto tempo para chegar até vocês. Uma parte da mina só ficou transitável depois que a bomba foi reparada — explicou Owen, enquanto Clare e os outros começaram a caminhar lentamente em direção à galeria principal. — Não houve maiores danos, embora eu já tenha passado tardes mais agradáveis — ironizou Nicholas. — As coisas costumam ser sempre assim por aqui, ou essa agitação toda foi em minha homenagem? Owen suspirou. — Tomara este tivesse sido um dia incomum. O acidente teria ao menos uma boa consequência, refletiu Clare, enquanto se deslocava, exausta, através da água. Agora que Nicholas fora obrigado a concentrar sua atenção na mina, sem dúvida haveria mudanças por ali muito em breve.


Capítulo XI Sabendo o quanto Clare estava esgotada, Nicholas a envolveu em um abraço firme conforme a corda rangia, erguendo-os para a superfície. Depois de tê-la carregado através da mina inundada, ele com certeza não se arriscaria a perdê-la na última parte da viagem. Ela se inclinou de encontro a ele, cansada, mas aparentemente feliz com seu apoio. Uma vez no topo, Nicholas se bandeou para a terra firme, em seguida ajudou-a a fazer o mesmo. O vento soprou forte e frio através de suas roupas encharcadas. Lá em cima, Huw esperava, ansioso, por seus companheiros. Sua expressão se iluminou quando viu Owen chegando ao mesmo tempo que Nicholas e Clare. — Ainda bem que está seguro, sr. Morris! Este lugar é maldito! Owen deu um tapinha no ombro do menino. — A mineração não é tão ruim, Huw, embora não seja do gosto de todos os homens. — Juro pelo Senhor Jesus que não vou lá para baixo de novo! — o menino disse, solene, em tom de promessa, não de blasfêmia. Enquanto falava, o sarilho trouxe mais mineiros à superfície. Um deles, um homem alto e magro, vociferou, com o rosto vermelho: — Ouvi o que disse, Huw, e não quero ouvir isso novamente! Pare de choramingar ou vou levá-lo para baixo agora mesmo! O rostinho do menino ficou branco. — Não, pai, eu não vou! — ele respondeu com voz trêmula, porém determinada. — Eu sou seu pai, e vai fazer o que eu digo! — o homem rosnou, avançando um passo e estendendo a mão para agarrar Huw pelo pulso. O garoto gritou e correu para trás de Owen. — Por favor, sr. Morris, não deixe que ele me leve!


— O menino quase se afogou, Wilkins — o encarregado interveio com calma. — Ele precisa de comida, de uma cama quente, e não de outra viagem até a mina. — Isso não é da sua conta, Morris. — Wilkins fez outra investida na direção do filho, quase caindo ao longo do processo. A expressão do encarregado se fechou. — Está bêbado. Deixe o garoto em paz até que esteja sóbrio. — Não me diga o que fazer com meu filho, seu metodista hipócrita! — O mineiro explodiu como pólvora, desferindo um soco com o punho ossudo. Owen se desviou com destreza. Então, com visível satisfação, derrubou seu agressor com um golpe bem colocado na mandíbula. Vendo Wilkins largado no chão, Owen ajoelhou-se ao lado da criança. — Melhor ir comigo à minha casa para o chá, Huw — disse, gentil. — Seu pai está fora de si hoje. Nicholas estremeceu diante do sofrimento no rosto do garoto, lembrando-se da própria infância. E a maneira como Owen falara a Huw o fez se lembrar do reverendo Morgan. Mesmo perdido nas lembranças amargas, virou-se a tempo de ver Wilkins se pôr de pé com uma pequena picareta na mão. Com o rosto transformado pela raiva, o homem avançou, cambaleante, para a parte de trás da cabeça de Owen. Conforme gritos de alerta espocaram, Nicholas se adiantou e arrancou a ferramenta das mãos do bêbado, torcendo-a com tanta força que Wilkins caiu no chão novamente. Rugindo como um louco, o mineiro começou a se erguer outra vez. Nicholas o chutou na barriga, fazendo-o cair de costas. Então apanhou a picareta e prendeu-lhe o pescoço com a cabeça da ferramenta. O mineiro fedia a uísque barato. Não tinha condições de cuidar nem mesmo de um cão, muito menos de uma criança.


— Tenho uma proposta para lhe fazer — o conde disse, frio. — O garoto é desobediente e não gosta de trabalhar na mina... não serve para você. Quer deixá-lo comigo por, digamos, vinte guinéus? É o que ele ganharia no ano como encarregado da ventilação, e irá se livrar das despesas que tem com seu alimento e roupas. — Quem, diabos, é você? — Wilkins indagou, confuso. — Lorde Aberdare. O rosto do mineiro se retorceu num sorriso desagradável. — Então, o Conde Cigano gosta de menininhos... — falou, sem pensar na própria situação. — Por isso sua esposa não o suportava? Nicholas apertou o cabo da picareta convulsivamente e precisou lutar para não esmagar o pescoço do homem. — Ainda não disse se aceita minha proposta — rosnou, enquanto recuperava o autocontrole. — Vinte guinéus, Wilkins. Pense em quanto uísque poderá comprar. A menção do dinheiro fez o mineiro se calar. — Se quer o moleque, poderá ficar com ele por vinte e cinco guinéus — decidiu após um momento. — Deus sabe o quanto ele é inútil. Não faz nada a não ser choramingar e pedir por comida. Nicholas olhou para os mineiros que observavam a cena em silêncio. — Vocês todos são testemunhas de que o sr. Wilkins abriu mão voluntariamente de todos os direitos que tem a Huw pela quantia de vinte e cinco guinéus? A maioria dos espectadores balançou a cabeça, as expressões mostrando seu repúdio pelo homem que se dispusera a vender o próprio filho. Nicholas removeu a picareta, e Wilkins se pôs em pé, não sem dificuldade. — Dê-me o seu endereço, e o dinheiro lhe será levado esta noite mediante um recibo que entregará ao meu mordomo. Após o minerador assentir, Nicholas jogou a picareta de lado e


concluiu com calma: — Agora que está em pé, ainda quer fazer qualquer observação sobre minha pessoa? Não estou mais armado. Podemos discutir suas declarações de homem para homem. Embora o homem fosse uns bons centímetros mais alto do que ele, seu olhar se desviou. — Coma quem quiser, cigano bastardo — falou por entre os dentes, de modo que apenas Nicholas pôde ouvir. Já farto das ofensas do infeliz, Nicholas virou-se para Owen. — Se eu pagar as despesas de Huw, promete criá-lo assim como a seus outros filhos? Ou, se isso não for possível, encaminhá-lo para outra família decente? — Marged e eu ficaremos com ele. — Owen ergueu o menino nos braços. — Gostaria de morar comigo para sempre, Huw? Lembre-se de que terá de ir para a escola... Lágrimas encheram os olhos da criança, que assentiu com um gesto de cabeça e, em seguida, afundou o rosto no pescoço do encarregado. Enquanto Owen consolava o menino com um tapinha nas costas, Nicholas refletiu cinicamente sobre o poder do dinheiro. Por meros vinte e cinco guinéus, uma criança teria uma nova vida. Claro que sangue nobre era mais caro... Ele próprio tinha custado quatro vezes mais ao antigo conde. E, sem dúvida, seu preço teria sido maior se não tivesse aquela mácula cigana. Decidido, ele se virou. O que importava era que Huw ficaria com pessoas que o tratariam com carinho. Clare observou toda a cena em silêncio, os olhos azuis penetrantes. — Ainda há esperança para Vossa Graça. — Não tenha ideias equivocadas sobre a minha filantropia — ele retrucou. — Agi por pura perversidade. Ela sorriu. — Deus o livre de estar associado a uma boa ação e de ser expulso


da Sociedade dos Libertinos por isso... — Ninguém pode me expulsar, sou membro fundador — Nicholas retorquiu, irônico. — Vá vestir roupas secas antes que congele até a morte. E também vai precisar de um bom banho... está parecendo um limpador de chaminés. — Posso dizer o mesmo do senhor, milorde. Ainda sorrindo, Clare entrou no galpão onde havia deixado suas roupas. Nicholas, Owen, e Huw adentraram outro. Embora Owen normalmente trabalhasse até mais tarde, a inundação provocaria um verdadeiro caos na rotina da mina, então ele decidiu levar Huw para casa mais cedo. — Tem certeza de que Marged não vai se opor a levar mais uma criança para casa? — Nicholas perguntou em voz baixa, enquanto trocava de roupa. — Ela não vai se importar — assegurou Owen. — Huw é um menino bom e bem-humorado. Mais de uma vez Marged desejou que ele fosse nosso. Desde que Wilkins o proibiu de ir para a escola dominical, ela lhe ensina o alfabeto e os números sempre que tem chance, e também o alimenta, pois o coitado está sempre com fome. Enquanto conversavam, Huw tirou a camisa molhada e esfarrapada, revelando um corpo esquelético e cheio de horrorosos vergões nas costas. Nicholas fez uma careta ao ver as marcas. — Estou tentado a ir lá fora e arrancar fora a cabeça daquele desgraçado... ou prefere fazer as honras? — Não me tente — pediu Owen, pesaroso. — É melhor esquecer agora que aquele crápula concordou em desistir do menino. Ele passou anos no Exército, e não deixa passar uma só oportunidade para uma boa briga... Não há necessidade de torná-lo mais inimigo do que já é. Além disso, Nosso Senhor é contra a violência. Nicholas sorriu e tirou a casaca. — Estou ouvindo isso de um homem que nocauteou Wilkins tão


bem quanto qualquer boxeador profissional? — Às vezes é preciso ser firme com o ímpio — explicou Owen com um brilho nos olhos. — Até Jesus perdeu a paciência e expulsou os vendilhões do templo. Huw veio e segurou a mão de Owen, confiante. Mais uma vez, Nicholas se lembrou do reverendo Morgan. Comprar o menino de seu pai violento fora um de seus melhores impulsos. Quando os três deixaram o galpão, o corpo de Bodvill tinha sido içado do poço e estava sendo colocado ao lado da cabana do encarregado. Um homem enorme, musculoso, vestido com roupas caras e um inegável ar de autoridade supervisionava o serviço. — Aquele é Madoc — Owen murmurou. Nicholas já havia imaginado. Suspirou. Embora quisesse conhecer o administrador, preferia fazêlo em outras circunstâncias. Olhou em volta e viu que Clare emergia do outro barracão, vestida em suas roupas de montaria. Dado o número de pessoas circulando por ali, seria fácil apanhá-la e aos cavalos, e deixar a área da mina discretamente. Mas a sorte não estava com eles. O olhar de Madoc deixou o corpo do afogado e recaiu direto sobre ela. — O que está fazendo aqui, sua encrenqueira? Eu já lhe disse para manter o traseiro longe da minha mina! Ali estava outra cabeça para ser arrancada, pensou Nicholas, cerrando o maxilar. Entretanto, tinha ido até a mina para investigar, e não para começar uma guerra. Antes que Clare respondesse, ele se adiantou: — Pode me culpar pela sua raiva, Madoc. Fui eu quem pediu à srta. Morgan que me trouxesse aqui — falou tranquilamente. Madoc deu meia-volta. — Quem, diabos, é você? — O conde de Aberdare.


O administrador pareceu desconcertado. Em seguida, retomou sua arrogância. — Está invadindo uma propriedade particular, lorde Aberdare. Saia daqui e mantenha-se distante. — A companhia de mineração fica na propriedade dos Davies — Nicholas lembrou uma com calma estudada —, portanto, eu sou o dono disto tudo. Deveria se lembrar das suas boas maneiras. Com um esforço visível, Madoc refreou a raiva. — Peço desculpas por minha indelicadeza, mas houve um acidente fatal, e este é um mau momento para os visitantes. — Seus olhos se estreitaram quando, de repente, um pensamento lhe ocorreu. — Estava lá embaixo, na mina? — Sim. Uma experiência inesquecível — confirmou Nicholas com eufemismo. Madoc se virou, olhando os trabalhadores reunidos. — Quem levou Aberdare lá para baixo? Supondo que qualquer um que admitisse tê-lo feito seria demitido imediatamente, Nicholas lançou um olhar de advertência a Owen. — Mais uma vez, a culpa é minha — afirmou em seguida. — Posso ter dado a impressão de que eu tinha a sua permissão. Seus empregados foram muito solícitos. O administrador estava a ponto de sofrer uma apoplexia. — Não me importa se é conde e dono destas terras — rosnou por entre os dentes. — Não tem o direito de passar por cima de mim e mentir para os meus operários! Acho que serei obrigado a chamar as autoridades e... — Vá em frente — incitou Nicholas em tom agradável. — Nunca vi o interior de uma prisão e estou curioso... Por outro lado, meu velho amigo, lorde Michael Kenyon ainda é dono da mina, não é mesmo? Eu estava pensando em visitá-lo agora que retornei. Imagino que ele não vá aprovar tal descortesia nas suas instalações. A intranquilidade de Madoc se fez notar na acidez de sua resposta:


— Sua Graça me deu total autoridade sobre a mina e nunca reprovou minhas atitudes. — Estou certo de que ele considera uma bênção ter um administrador tão consciencioso — Nicholas replicou com ironia, e olhou para Clare, que, calmamente, tirou os cavalos. — Vamos, srta. Morgan? Eu já vi tudo o que precisava ver. Ela inclinou a cabeça, e ambos montaram. Nicholas sentiu o olhar contrariado de Madoc em suas costas enquanto deixava as instalações. Se olhar matasse, ele seria um homem morto. Quando já se encontravam bem longe da mina, suspirou. — Fiz dois inimigos hoje, e nem é hora do chá. Nada mau para um só dia de trabalho. — Não achei graça — Clare respondeu, exasperada. — Nye Wilkins é do tipo que pode se embebedar e atear fogo a seu estábulo como forma de vingança por tê-lo humilhado. — Madoc é pior. Percebi por que pedir a ele que fizesse melhorias tem sido um desperdício de tempo. É um homem perigoso. Ela o fitou, surpresa. — Eu sempre senti isso, mas pensei que minha impressão fosse influenciada por minha antipatia pelo trabalho na mina. — É evidente que Madoc é um sujeitinho metido a valente; um pequeno tirano que vai lutar até a morte para manter o poder. Se ameaçado, ele seria tão violento como uma doninha — Nicholas comparou, pensativo. — Conheço o tipo. Espanta-me que Michael tenha contratado esse homem, e ainda mais que esteja satisfeito com o desempenho de Madoc. Estou começando a me perguntar que diabo Michael andou fazendo nestes últimos anos. Ele não pode estar morto, ou eu teria sabido; porém se tornou surpreendentemente negligente com coisas que lhe eram importantes. — Talvez elas já não sejam tão importantes — ponderou Clare. — As pessoas podem mudar em quatro anos.


— Verdade. No entanto, surpreende-me que Michael fosse adotar a indiferença. Ele sempre se preocupou muito com tudo e todos. Muitas vezes se importava até demais. — Nicholas acariciou o pescoço do cavalo, a mente no passado. — Quando eu chegar a Londres, perguntarei a um amigo comum, Lucien, onde Michael está, e o que ele tem feito. Lucien costuma saber de tudo um pouco. — Lucien é um dos “Anjos Caídos”? — ela indagou, lembrando-se de que Marged havia mencionado tal nome. — Meu Deus... — Ele a fitou com espanto. — Esse apelido chegou até o País de Gales? — Temo que sim. De onde ele vem? — Nós quatro, Lucien, Rafael, Michael e eu, nos tornamos muito amigos na Universidade de Eton. Em Londres, muitas vezes andávamos juntos. Os nobres adoram pseudônimos, e alguma anfitriã nos apelidou de “Anjos Caídos” porque éramos jovens, temperamentais como a maioria dos rapazes nessa idade, e dois de nós tinham os mesmos nomes dos arcanjos. Nada de mais. — Pois a história que eu ouvi foi que vocês eram tão bonitos como os anjos e nefandos como demônios — Clare contrapôs timidamente. Nicholas sorriu. — Boatos são mesmo maravilhosos. Muito mais interessantes do que a verdade. Nós não éramos santos, mas também não infringimos nenhuma lei. Não levamos nossas famílias à falência, tampouco arruinamos a vida de quaisquer moças — ele enumerou, pensativo. — Ao menos, não no momento em que adquirimos tal apelido. Mas não posso garantir que ninguém tenha feito algo assim nos últimos quatro anos. Ao ouvir o pesar em sua voz, Clare sorriu de volta. — Deve estar ansioso por rever seus amigos. — Estou. Michael pode ter desaparecido da face da Terra, mas Lucien tem um posto em Whitehall e Rafe continua ativo na Câmara dos Lordes. Portanto, com certeza se encontram em Londres agora. —


Ele a fitou. — Vamos partir depois de amanhã. Clare fitou-o, boquiaberta. — Vai mesmo me levar para Londres? — Claro que vou. Eu disse isso no dia em que veio para Aberdare a fim de me chantagear. — Mas você tinha bebido! Eu achei que ia se esquecer disso ou pensar melhor. — O que poderia ser melhor do que lhe comprar um guarda-roupa mais adequado? Ainda que a maneira como essa camisa velha esteja se agarrando ao seu corpo seja bastante atraente... Não está usando nada por baixo? As mãos dela apertaram as rédeas, retardando a égua, e Clare comprimiu os lábios. Já que estava fadada a se ver constrangida por Nicholas, precisava aprender ao menos a não deixar que suas emoções afetassem a montaria, pensou com desgosto. — Eu não podia vestir roupas íntimas molhadas sob as secas. — Uma boa decisão, tanto por razões práticas como por estéticas. Exceto que parece estar na iminência de congelar agora. — Ele tirou a casaca e a atirou para ela. — Embora seja contra os meus princípios incentivar as mulheres a vestir mais roupa, é melhor colocar isso. Clare tentou devolver a casaca. — Quem vai congelar agora é você. — Já passei noites demais dormindo sob as estrelas para me deixar incomodar pelo frio. Entregando-se ao inevitável, ela vestiu a casaca. O tecido ainda estava quente com o calor do corpo de Nicholas, e carregava um leve odor masculino que ela poderia ter identificado em qualquer lugar. Vestir aquela casaca era quase como ter os braços dele em volta do corpo... Apenas mais seguro. Seria interessante ir a Londres, mas a visita com certeza iria acabar com a estranha proximidade que começara a brotar entre eles. Na metrópole, Nicholas teria os amigos e, decerto, verdadeiras amantes


com que preencher seu tempo. Ele dificilmente se lembraria de sua existência, e a vida dela seria muito mais fácil. Deveria mais era ser grata pela perspectiva. O restante do dia correu como de costume. Clare tomou um longo banho para tirar o cheiro e a sujeira da mina do corpo e dos cabelos. Depois, mesmo ainda um pouco abalada com seu quase afogamento, começou a confabular com Williams a respeito da decoração da casa. Naquele dia, os criados haviam se concentrado na limpeza e na reorganização da sala de jantar, e os resultados foram esplêndidos. Entusiasmados, ela e o mordomo passaram a planejar quais os cômodos que seriam trabalhados em sua ausência, e fizeram listas de papéis de parede e tecidos, os quais ela poderia comprar em Londres. Após mais uma excelente refeição da sra. Howell, Clare e Nicholas retiraram-se para a biblioteca. Lá, ele se ocupou com as contas e a correspondência, trabalhando com uma concentração que desmentia totalmente sua reputação de esbanjador. Clare ficou grata pela oportunidade de conhecer a biblioteca, que superava todas as suas expectativas. Se ela e Nicholas conseguissem manter um relacionamento amigável quando aqueles três meses tivessem terminado, talvez ele a deixasse pegar alguns daqueles livros emprestados. Ergueu a cabeça e estudou seu perfil, vendo-o franzir a testa ao ler um documento. Como sempre, ele a surpreendia: era incrivelmente bonito, aristocrata e cigano ao mesmo tempo, e tão imprevisível quanto inteligente. Eles eram tão diferentes como água e vinho. Por isso era quase impossível imaginar um futuro em que pudessem ser amigos. Suspirou. Sem dúvida os três meses daquele desafio ridículo acabaria em desastre... e não seria o Conde Cigano quem iria sofrer. Dizendo a si mesma com convicção que ninguém a obrigara a vir a Aberdare, Clare voltou a se concentrar nas estantes. A coleção era bem organizada, com seções de literatura em ao menos meia dúzia de


línguas. Alguns dos volumes eram até mesmo em galês. Outras seções tinham sido dedicadas a temas como História, Geografia e Filosofia. Seu próprio pai, por vezes, havia pegado emprestado do antigo conde alguns livros sobre Teologia. Embora este último considerasse seu dever permanecer devoto à Igreja Anglicana, possuía tendências dissidentes. Talvez, por isso escolhera um pastor metodista para educar o neto. Bem no meio da estante, Clare encontrou uma Bíblia grande, ricamente encadernada em couro trabalhado e dourado. Deduzindo que aquele era o Livro Sagrado da família Davies, ela puxou o volume da prateleira e o colocou sobre uma mesa. Folheou-o distraída, lendo alguns de seus versículos favoritos. Havia uma árvore genealógica na página da frente, e ela observou as diferentes caligrafias e tintas registrando os nascimentos, óbitos e casamentos. Algumas manchas que poderiam ter sido lágrimas borravam uma data de morte. A entrada desbotada e centenária registrava o nascimento de Gwilym Llewellyn Davies, com uma nota em destaque bem ao lado: “Enfim, um filho varão!” Aquele bebê era o bisavô de Nicholas! Conforme examinava a folha solta, Clare começou a compreender por que o antigo conde tinha se preocupado tanto em ter um herdeiro. A família não fora muito prolífera, e Nicholas não possuía parentes próximos; ao menos não na linhagem masculina. Se ele se mantivesse firme em sua decisão de não voltar a se casar, o condado de Aberdare provavelmente morreria com ele. Virou a página a fim de olhar os registros mais recentes. Os dois casamentos e três filhos do antigo conde tinham sido registrados, sem dúvida, com sua própria caligrafia. E embora todos os três tivessem se casado, não havia registro de descendentes sob os nomes dos dois mais velhos. Clare comprimiu os lábios ao localizar o nome do pai de Nicholas. Em contraste com a tinta usada em todos os outros registros, seu


casamento com “Marta, sobrenome desconhecido”, e o nascimento de “Nicholas Davies Kenrick” estavam registrados a lápis. Mais uma prova da relutância com que o antigo conde havia aceitado seu único herdeiro. Se ainda este houvesse contemplado Nicholas com um décimo do calor que Owen dedicara a Huw, o qual não era nem mesmo de seu próprio sangue! Ainda pensando com tristeza em tanto desperdício, Clare virou mais uma página da Bíblia, e vários papéis dobrados escorregaram desta. — Que estranho — murmurou com o cenho franzido. Não havia tido a intenção de perturbar Nicholas, porém ele se recostou na cadeira e se esticou preguiçosamente. — O que é estranho, Clarissima? — Nada muito importante, acho... — Ela foi até a mesa e colocou os documentos sob a luz da lamparina a óleo. — Estes dois papéis são cópias autenticadas dos registros paroquiais do casamento de seus pais e do seu nascimento. Ambos estão gastos e manchados como se tivessem ficado por muito tempo no bolso de alguém. — Apontou os outros dois. — Estes também são duplicatas, embora tenham sido mal copiados. O que me causa estranheza é que eles não têm valor jurídico porque não foram autenticados por um notário. No entanto, estão dobrados e tão manchados como os originais. Imagino que seu avô tenha feito as cópias, mas não consigo entender para quê, ou como estas se tornaram tão desgastadas. Nicholas apanhou um dos exemplares sem autenticação e, de repente, os nós de seus dedos ficaram brancos, ao mesmo tempo que o ar pareceu crepitar como se um raio tivesse caído. Clare prendeu a respiração ao perceber que ele olhava para o documento com a mesma raiva que tinha demonstrado ao arruinar o retrato de sua falecida esposa. O que poderia ter provocado tanta fúria? Nicholas pegou as cópias mais novas e amassou os dois papéis


com raiva. Então se levantou da cadeira, atravessou a sala, e atirou os documentos ao fogo. As chamas se elevaram, em seguida voltaram a queimar normalmente em meio ao vermelho das brasas. — O que foi, Nicholas? — perguntou, abalada. Ele continuou olhando para o fogo, onde os papéis se desintegravam. — Nada com que você precise se preocupar. — A razão para a sua ira pode não ser da minha conta, mas a raiva em si é — ela contrapôs calmamente. — Uma boa amante não o incentivaria a falar sobre tudo o que o está perturbando? — Uma boa amante deveria perguntar, mas isso não significa que eu teria de responder — ele retrucou, frio. Então, lamentando sua indelicadeza, acrescentou de forma mais branda: — Aprecio suas boas intenções. Aborrecida, Clare decidiu que preferia os caprichos enlouquecedores de Nicholas àquela imitação de parede de tijolos. Suprimindo um suspiro, guardou os papéis mais gastos e recolocou a Bíblia no lugar. Nicholas a ignorou, o rosto duro como pedra, enquanto cutucava o fogo com um atiçador. — Amanhã é domingo, e tenho de ir à igreja... Melhor eu me recolher agora. Boa noite — ela falou apenas por educação, não esperando resposta. Mas ele ergueu a cabeça. — Pena que não tenho mais direito a nenhum beijo por hoje — disse sem muito humor. ��� Tolice minha ter usado toda a minha cota quando estávamos na mina. Sua fúria havia passado, deixando no lugar algo muito próximo da desolação. Só Deus sabia por que aqueles papéis o tinham afetado tanto, mas Clare não pôde suportar ver tanta tristeza no rosto moreno. Com uma ousadia que teria sido impensável quatro dias antes, atravessou o cômodo e colocou as mãos em seus ombros.


— Sua cota terminou, mas eu posso beijá-lo, não posso? Nicholas a fitou com um olhar assombrado. — Pode me beijar quando quiser, Clarissima — falou com voz rouca. Clare o sentiu tenso, porém ele a manteve diante de si, esperando que ela tomasse a iniciativa. Levantando-se na ponta dos pés, ela tocou os lábios nos dele. Imediatamente, braços fortes a envolveram com paixão. — Ah, é tão bom ficar com você! Ardentes, suas bocas se encontraram por um momento. Quando eles haviam se beijado na mina, a escuridão era total e a poupara do constrangimento de encará-lo. Envergonhada diante do olhar penetrante de Nicholas, Clare fechou olhos e se entregou ao beijo, apenas para descobrir que, sem a visão dele, seus outros sentidos se intensificavam. Os pingos de chuva na janela, a língua úmida e aveludada contra a dela, a fragrância única, misto de fumo, pinho e masculinidade que emanava dele, as respirações ofegantes, as brasas ardendo na lareira, as palmas das mãos roçando o tecido macio às suas costas... Nesse momento, uma porta se abriu. Clare abriu os olhos de leve e olhou além do ombro largo. De pé sob o batente, estava uma das novas criadas, Tegwen Elias, uma das mais novas frequentadoras da capela, cujos padrões morais eram tão elevados quanto o nível de veneno em sua língua. Em pânico, ela encerrou o beijo. A criada deu meia-volta e fechou a porta, apressada. Com toda a sua atenção voltada para Clare, Nicholas nem mesmo se dera conta do ocorrido. — Se já recuperou o fôlego — disse, passando a mão na lateral de seus quadris, sedutor... Clare o fitou, aflita e dividida entre o que experimentara em seus braços e o que tinha visto nos olhos de Tegwen.


— Preciso ir... — balbuciou, perturbada. Ele ergueu a mão na tentativa de detê-la, porém ela se esquivou e deixou a sala correndo. Nicholas mirou o fogo, contrariado. O que seria necessário para impedir que a mente de Clare continuasse em conflito com seu corpo? Era a mesma coisa a cada vez que eles ficavam juntos. Primeiro, ela se mostrava tímida e em dúvida. Depois começava a corresponder, abrindo-se como uma flor ao amanhecer... E, de repente, lembrava-se de que não deveria apreciar o que era tão natural. Esmurrou o consolo da lareira com frustração. Uma vez que Clare superasse aquela devoção religiosa exagerada, daria uma amante maravilhosa: sensual, dedicada, inteligente... Sua paixão pela caridade até podia ser cansativa, mas esse seria um preço pequeno a pagar para tê-la em sua cama, decidiu.


Capítulo XII Clare dormiu mal naquela noite. Era fácil disfarçar a gravidade de seu comportamento quando estava sob o feitiço de Nicholas. Um beijo era apenas um beijo, algo mais travesso do que pecador. Contudo, vendo-se através dos olhos de Tegwen, ela precisava confrontar sua própria conduta. Já não podia negar aquela luxúria, aquele desejo avassalador. Uma vez acordada, escutou o som da harpa de Nicholas. Mais do que qualquer coisa na vida, queria seguir aquele canto de sereia e esquecer a dor no calor de seu abraço. Mas isso seria agir como uma mariposa tentando curar sua atração pela vela mergulhando na chama. Levantou-se pela manhã com os olhos pesados e o coração mais ainda. A ideia de ir à capela a fez tremer, porém não poderia se abster disso. Nunca perdera um serviço de domingo em sua vida, e fazê-lo naquele dia seria uma admissão de culpa. Enquanto colocava seu sóbrio vestido cinza, ela se perguntou se Tegwen iria ao culto, e se a menina iria dizer aos outros o que tinha visto. Desolada, percebeu que a questão não era “se”, mas “quando”. Tegwen dificilmente esperaria muito até compartilhar com o todo o vilarejo a notícia escandalosa. A menina adorava ser o centro das atenções, e a história da professora beijando o Conde Cigano seria irresistível. Se a notícia já não fora dada, ela o seria muito em breve. Ao se dirigir a Penreith, Clare passou pela nova cozinheira, a sra. Howell, que também se encontrava a caminho da capela. A mulher aceitou uma carona com alegria e passou o restante da viagem agradecendo-a por seu novo posto em Aberdare. Pelo visto, ainda não ouvira nada sobre sua moral controvertida. Chegaram quando as pessoas começavam a tomar seus lugares. Normalmente, Clare teria encontrado conforto nos bancos familiares, nas paredes caiadas de branco, no chão de madeira que brilhava.


Naquele dia, porém, tudo o que conseguia fazer era ficar olhando para ver se algum dos outros fiéis a fitava de modo diferente. Um rápido exame da congregação mostrou que Tegwen não se encontrava presente. Quando Clare ocupou seu lugar de costume ao lado de Marged, sua amiga sorriu e apontou para Huw, que se sentara entre Owen e Trevor, o filho mais velho dos Morris. O rosto magro do menino estava iluminado pela felicidade, e seu pequeno corpo vestia roupas quentes e resistentes, herdadas de um de seus novos irmãos de criação. Pela primeira vez em sua curta vida, Huw possuía um verdadeiro lar. Ao pensar no quanto aquele menino tinha sofrido na mina e nas mãos do pai, Clare considerou seus próprios problemas insignificantes. O diácono no púlpito nomeou um hino e começou a cantar. A música era parte integrante do culto metodista, e costumava levá-la para mais perto de Deus do que qualquer oração. Conforme levantou a voz, sua tensão começou a se dissolver. Mas sua paz durou apenas até que, chegando tardiamente, alguém entrou e sentou-se no banco de trás. Em meio ao som suave de sussurros, Clare ouviu seu próprio nome. Tensa, fechou os olhos e se preparou para o que estava por vir. A Capela de Sião não contava com nenhum pastor permanente, portanto, o culto era conduzido pelos membros da congregação e alguns ministros que a visitavam. O sermão daquele dia seria dado por um pregador chamado Marcross, de um vale próximo, porém este parou quando os sussurros aumentaram de intensidade. — O que, por Deus, é mais importante do que a palavra do Senhor? — exigiu com voz de trovão. Houve mais resmungos e um ranger de madeira quando alguém se levantou. — O mal está entre nós hoje — uma voz feminina e rouca ecoou pela capela. — A mulher a quem temos confiado nossos filhos é uma pecadora e hipócrita. No entanto, ela se atreve a sentar-se conosco na


casa do Senhor! Clare engoliu em seco quando reconheceu a voz: era a mãe de Tegwen. Gwenda Elias possuía fortes opiniões sobre a posição das mulheres e nunca aprovara que ela lecionasse; tampouco sua pessoa. E agora a sra. Elias contava com uma arma para puni-la por cada discordância que as duas já tinham tido. Marcross franziu o cenho. — Essas são acusações graves, irmã. Tem provas? Se não tem, fique em silêncio. Na casa de Deus não existe lugar para intrigas. Cada cabeça na congregação virou-se para a mãe de Tegwen. Ela era uma mulher alta e corpulenta, o rosto esculpido por linhas de probidade. Levantando um dedo, ela apontou para Clare e acusou: — Clare Morgan, a filha do nosso amado pastor e ex-professor de nossos filhos, sucumbiu ao desejo. Há menos de quatro dias, ela se mudou para a casa de lorde Aberdare, aquele que chamam de “Conde Cigano”, alegando que seria sua governanta. Mas, ontem à noite, minha filha Tegwen, que trabalha em Aberdare, descobriu essa rameira descarada nos braços do conde, seminua e se comportando com absoluta indecência. Foi apenas pela graça de Deus que a minha criança inocente não a pegou no ato da fornicação. — Sua voz tremeu, teatral. — Apenas pela graça de Deus seu querido pai não está vivo para vê-la agora! Os olhos de toda a congregação se voltaram para Clare. Seus amigos, vizinhos, seus ex-alunos, todos a fitaram com choque e horror. Embora muitos rostos demonstrassem descrença, outros tantos mostravam que ela já tinha sido condenada. Perturbado por ter sido envolvido em uma disputa local, Marcross retomou a palavra: — O que tem a dizer em defesa própria, srta. Morgan? A fornicação é sempre um pecado, mas seria particularmente desprezível em alguém como você, que detém uma posição de confiança na comunidade.


Um burburinho de concordância se fez ouvir. O sangue se esvaiu do rosto de Clare, deixando-a prestes a desfalecer. Ela sabia que seria difícil, mas a realidade era mais dolorosa do que imaginara possível. Então Marged pegou sua mão e a apertou. Erguendo a cabeça, Clare viu a preocupação no rosto da amiga, mas também fé e amor. Seu apoio lhe deu forças para se levantar. Agarrando-se ao encosto do banco da frente, ela respirou fundo. — Tegwen foi minha aluna, e ela sempre teve uma imaginação fértil — falou com o máximo de serenidade que conseguiu reunir. — Não posso negar que ela tenha visto um beijo na noite passada. Eu estava me sentindo... grata a lorde Aberdare. Não apenas por ele ter me salvado a vida ontem, mas também por conta das providências que tem tomado para beneficiar a aldeia. — Fechou os olhos, procurando por palavras honestas, mas que não a incriminassem ainda mais. — Não vou fingir que o que fiz foi sábio ou direito, mas um beijo não constitui fornicação, e eu juro que estava tão decentemente vestida como estou neste momento. — O que é fornicação? — uma criança indagou em voz alta. Quase ao mesmo tempo, várias mulheres com seus filhos e filhas solteiras se levantaram e empurraram para fora seus descendentes. Mais de uma mulher lançou um olhar de reprovação por cima do ombro enquanto saía, mas não havia como deixar as crianças expostas a tal assunto. Enquanto Marged também reunia sua prole, deu a Clare um sorriso encorajador. Em seguida, também ela se retirou. Quando a sala estava livre de inocentes, a sra. Elias prosseguiu com seu ataque. — Não pode negar que está vivendo com o conde, tampouco que tenha se comportado indecentemente. — Sua própria filha está morando sob o teto de lorde Aberdare — lembrou Clare. — Não está preocupada com sua virtude?


— Minha Tegwen mora com os outros criados e mal vê o conde. Mas você está sempre na companhia dele. Não tente negar isso! Mesmo que esteja dizendo a verdade e ainda não for sua amante — o desdém na voz da sra. Elias enfatizava sua descrença —, será apenas uma questão de tempo até que sacrifique sua virtude. Nós todos sabemos como o Conde Cigano seduziu a mulher do avô, causando a morte do antigo conde e de sua própria esposa! — exclamou com a voz embargada por uma genuína emoção. — Eu era a camareira de lady Tregar, e ela mesma me contou sobre a infidelidade do marido com lágrimas nos olhos. Ele partiu seu coração com o adultério. Quando ela constatou tal maldade, fugiu para a morte! Seu tom se tornou peçonhento. — Você é tão presunçosa, tão cônscia de sua virtude, que pensa poder consorciar-se com Satanás e não ser corrompida. Que vergonha, Clare Morgan, que vergonha! Como filha de Thomas Morgan, sempre se achou melhor do que os outros. No entanto, eu lhe digo agora: se permanecer na casa daquele demônio, logo estará carregando um filho dele! Uma onda de raiva inundou Clare, dando-lhe forças. — Quem está mais interessada em condenar? A mim ou a lorde Aberdare? — retrucou bruscamente. — Sei que amava sua senhora e que continua a sofrer por ela. Mas ninguém, a não ser o próprio conde, sabe o que se passava entre ele e a esposa. Não temos o direito de julgá-lo. Sim, Sua Graça tem uma reputação manchada, mas, pelo que tenho visto dele, é muito melhor do que dizem. Alguém aqui tem conhecimento de algum comportamento violento por parte do conde? Pois eu não. Ele já seduziu alguma das moças da aldeia? Não que eu saiba. Ninguém em Penreith o nomeou pai de alguma criança. — Clare fez uma pausa, o olhar correndo sobre a congregação. — Juro diante de Deus que não serei a primeira. — Então agora o está defendendo! — Gwenda Elias rompeu o silêncio que havia se instalado. — Para mim, essa é a prova de que


Clare está sucumbindo aos encantos do conde. Pois muito bem. Fique com aquele demônio, mas não queira levar nenhum dos nossos filhos com você! E também não venha pedir o nosso perdão quando tiver arruinado a si mesma. — Ela admitiu ter tido um comportamento indecente — um homem sussurrou por perto. — Imagino o que não está admitindo... Os nós dos dedos de Clare embranqueceram contra o banco. Talvez submissão e confissão fossem atitudes mais cristãs, mas uma parte de sua natureza que nunca tinha reconhecido exigiu que ela revidasse. — Sr. Clun... — começou, olhando para o homem. — Fiquei com sua mãe todas as noites, durante uma semana, enquanto ela estava morrendo. Acha que eu fingia meu pesar? Encontrou outra face com expressão acusadora. — Sra. Beynon, quando eu a ajudei a limpar sua cabana após esta ter sido inundada e costurei cortinas novas para as janelas, achou que eu era imoral? — Seu olhar gelado seguiu em frente. — Sr. Lewis... Quando sua esposa esteve doente e o senhor estava sem emprego, coletei roupas e alimentos para sua família... Acha que me corrompi por isso? Todos os três desviaram o olhar, incapazes de encará-la. No silêncio que se seguiu, Owen Morris se pôs em pé. Como diácono e líder do grupo, era um dos homens mais respeitados na congregação. — A justiça pertence ao Senhor, sra. Elias. Não somos nós que devemos perdoar ou condenar. — Seu olhar sério pousou em Clare. — Não há outro membro nesta capela que tenha servido mais ao próximo do que Clare Morgan. Quando o conde exigiu que ela trabalhasse para ele em troca de sua ajuda para a aldeia, ela voluntariamente pediu demissão da escola para que nenhum indício de escândalo afetasse nossas crianças. Sua reputação foi sempre irrepreensível. Se ela jura inocência, não devemos acreditar nela? Um murmúrio de acordo se espalhou pelo salão, ainda assim, longe


de ser unânime. — Digam o que quiserem. Eu me recuso a adorar o Senhor sob o mesmo teto que uma mulher que é concubina de lorde Aberdare! — retorquiu a sra. Elias e deu meia-volta, marchando em direção à saída. Após um momento, outros homens e mulheres se levantaram e a acompanharam. Por um instante, Clare congelou, horrorizada, ao pensar que a congregação estava à beira de se indispor por sua causa. Se não fizesse algo imediatamente, os membros iriam se dividir. O resultado seria o ódio, e não o amor que era o propósito de sua comunhão. — Esperem! — falou em voz alta. O êxodo parou, e as pessoas se voltaram para ela. — Admito que minhas atitudes não estão acima de qualquer reprovação — disse com voz trêmula, e continuou: — Em vez de dividir a congregação da Capela de Sião, que meu pai tanto amava, é melhor que eu me retire. — Respirou fundo. — Prometo que não voltarei enquanto restar alguma dúvida sobre a minha conduta. Owen começou a protestar, então se calou. Lutando para manter a cabeça erguida, Clare caminhou em direção à porta. — Um exemplo de humildade cristã, como eu já esperava ver — murmurou uma voz que ela não conseguiu identificar. — Ela é esperta para sair antes de ser posta para fora, isso sim! — alguém replicou. — Com todas essas boas maneiras e educação superior, ela não é melhor do que ninguém aqui. Clare teve de passar por dois membros de seu grupo de oração. Edith Wickes torceu o nariz, não a condenando de todo, mas, com certeza, reprovando sua atitude. Jamie Harkin, o ex-soldado, por sua vez, estendeu a mão para tocar na dela e dar-lhe um sorriso encorajador. Sua simpatia quase a fez derramar as lágrimas que se esforçava para segurar. Comovida, Clare acenou para ele, depois abriu a porta e saiu para a fria manhã de primavera. As crianças estavam brincando lá fora enquanto a maioria das


mães rodeava as janelas, tentando escutar o que se passava no interior da capela, ao mesmo tempo que mantinham a curiosidade das filhas solteiras sob controle. Marged se aproximou e deu-lhe um abraço. — Oh, Clare, minha querida... tenha cuidado! Eu brinquei com você a respeito do conde, mas esse é um assunto muito sério. — Com certeza — ela concordou, tentando sorrir. — Não se preocupe, Marged. Eu prometi que não vou deixá-lo me arruinar. Incapaz de enfrentar o restante das pessoas, Clare apanhou sua charrete e foi embora. Era horrível saber que, dentro de um dia, toda Penreith estaria falando dela, e que muitos de seus companheiros não lhe dariam o benefício da dúvida. Mas, pior ainda, era ter consciência de que os céticos estavam certos: ela fora por demais atrevida, e era suscetível às tentações de Nicholas. E, apesar de sua corajosa promessa de que preservaria a própria virtude, Clare estava certa de uma coisa: se não saísse logo de Aberdare, acabaria encontrando a própria ruína. Sabendo que Clare fora para a capela, Nicholas saíra cedo para visitar o pastor que lidava com os rebanhos nos montes mais elevados de Aberdare, as pastagens que Tam the Telyn usara uma vez. Estava retornando quando viu movimento na trilha que levava às ruínas do castelo medieval. Protegendo os olhos, espreitou através do vale e, para sua surpresa, viu que a charrete de Clare subia lentamente a colina alcantilada. Observou-a até o ponto onde a trilha se tornava demasiado íngreme para o carro. Clare, então, desceu do veículo, amarrou o pônei e, em seguida, continuou a pé. O sol já tinha saído, portanto ela devia estar indo para o castelo a fim de apreciar a vista, que era a melhor do vale. Decidido a se juntar a Clare, Nicholas galopou por todo o caminho. Ao contrário do cavalo dela, seu garanhão era capaz de subir toda a


picada até o castelo. Deixando sua montaria a um canto onde estaria abrigada do vento, foi em busca de Clare. Encontrou-a no mais alto parapeito, o vento açoitando-lhe o vestido e o xale, e adicionando mais cor às suas faces. Alheia à sua aproximação, ela olhava fixamente para a paisagem. Daquele ponto de vista elevado, Penreith parecia uma coleção de pequenas construções de brinquedo, e a mina, apenas um punhado de fumo. Nos pequenos vales isolados ao Sul, narcisos abriam suas cabeças douradas. — Esplêndida vista, não? — ele falou baixinho para não assustá-la. — Este era o meu lugar favorito quando eu era criança. A altura das paredes de pedra dá uma impressão de segurança. — Mas é apenas uma ilusão. — Clare se voltou para ele, a expressão séria. — Deixe-me, Nicholas. Você já se divertiu bastante. Eu quero ir para casa. Um súbito medo o aguilhoou. — Está pedindo para que eu a libere do nosso acordo? — Agora que está indo para Londres, não precisa mais da minha companhia. — Exausta, ela passou os dedos pelos cabelos que tinham lhe escapado da touca. — Viu por si mesmo o que precisa ser feito para ajudar a vila, assim, também não precisa mais de mim para isso. — Não! — ele afirmou de forma explosiva. — Não farei nada para Penreith a menos que cumpra a sua parte do negócio. — Por que não? — ela indagou, perplexa. — Você se preocupa com as pessoas. Isso ficou claro pela maneira como se comportou na mina, pelo que fez por Huw. Com certeza, a esta altura vai querer ajudar os aldeões por caridade, não por conta dessa nossa aposta sem sentido. — Está superestimando o meu altruísmo — retrucou ele. — No dia em que voltar para Penreith, eu deixarei Aberdare e, por mim, a mina da aldeia pode ir para o inferno. Os olhos dela se arregalaram com o choque. — Como pode ser tão egoísta quando tem condições de ajudar


com tanta facilidade? — É da minha natureza — ele falou com sarcasmo. — Fui bem doutrinado por meu mais próximo parente. O egoísmo tem me servido muito melhor do que a confiança ou a generosidade, e não vou abandoná-lo agora. Se quiser que eu banque o salvador, terá de pagar o preço. — O preço é a minha vida! — Clare gritou, os olhos marejados. — Esta manhã pude perceber o quanto as pessoas estão condenando a minha decisão de permanecer em Aberdare. Até mesmo os meus amigos mais leais estão preocupados com o que estou fazendo! Levei apenas quatro dias para minar vinte e seis anos de vida virtuosa. Por conta de um capricho seu, estou perdendo meus amigos, meu trabalho, tudo! Doeu no coração de Nicholas ver sua angústia, mas recuar significaria perdê-la. — Sabia que o preço seria alto desde o início e concordou sem pestanejar — ele lembrou friamente. — É fácil ser valente quando não se é requisitado, mas agora que incorreu na primeira dificuldade, está mostrando do que é feita. É uma covarde, Clare Morgan. Ela enrijeceu e secou as lágrimas. — Quem é você para falar de covardia? Ou já se esqueceu de que respondeu a uma crise fugindo de casa por quatro anos? — A questão aqui não é o meu fracasso, mas o seu — ele retorquiu. — Se quiser ir embora, vá. Preserve a sua preciosa virtude, se isso é o mais importante para você. Mas eu não serei tolo a ponto de investir tempo e dinheiro em seus projetos, e depois não receber nada mais do que um sorriso condescendente. Se for embora antes dos três meses, a pedreira de ardósia permanecerá fechada, e eu não farei nenhuma tentativa para melhorar as condições na mina. E o solar também vai continuar vazio, sem empregados, até que eu possa encontrar uma maneira de vendê-lo. Os olhos de Clare se estreitaram com fúria.


— Acha que me mantendo prisioneira me deixará mais disposta a compartilhar sua cama? A raiva a levara a aceitar o desafio e, se ele não tomasse cuidado, o mesmo sentimento a levaria embora. — Não sou nenhum carcereiro, Clare — ele respondeu, abrandando a voz. — A decisão é só sua. Eu sei que deve doer muito ser condenado pelos amigos, no entanto, pelo que sei das crenças metodistas, o que importa é a sua consciência diante de Deus. Você pode afirmar que está envergonhada com o que se passou entre nós? Ela deu uma risada fraca. — A serpente deve ter falado assim a Eva. — Muito provável — ele concordou —, pois o conhecimento que a serpente ofereceu era carnal. Adão e Eva comeram a maçã, tomaram consciência de sua nudez e de sua sexualidade, e foram expulsos do Éden. Pessoalmente, eu sempre achei que o Paraíso deve ter sido um lugar muito aborrecido. Toda perfeição é aborrecida. Sem a capacidade de se fazer o mal, também não existe a chance de se fazer o bem. O mundo em que vivemos é um lugar mais cruel do que o Éden, mas muito mais interessante. E a paixão é uma das grandes compensações. — Decerto quando menino aprendeu religião o suficiente para saber como subvertê-la — ela observou, seca. — No entanto, perdeu a lição da misericórdia. O mundo deve estar cheio de mulheres bonitas e experientes que gostariam de receber sua atenção. Por que insiste em me manter a seu lado contra a minha vontade? — Porque, apesar de existirem mulheres mais bonitas, é você quem eu quero. — Ele se aproximou e colocou as mãos em seus braços. — Pode honestamente dizer que não gosta das minhas atenções? Clare enrijeceu. — O fato de eu gostar não é relevante. — Não? — Nicholas a beijou, e seus lábios frios logo se aqueceram sob os dele. — Isto foi contra a sua vontade?


Clare deixou escapar um protesto. — Não, maldição, não foi! É por isso que tenho medo de você. Ele percebeu o genuíno desespero na resposta. Para Clare, seu abraço significava um misto de consolo e ameaça. Se pudesse criar um vínculo entre eles, ela seria sua para sempre. Sem interromper o abraço, Nicholas puxou-a por alguns metros ao longo do parapeito, em direção ao abrigo de uma parede. Enquanto o vento agitava a saia em torno de seus tornozelos, desamarrou a touca terrível que ela usava. Um puxão apenas e esta se soltou, libertando uma cascata de cachos castanhos. Sem esperar mais, ele deslizou a mão por debaixo do xale e segurou um seio, acariciando o monte macio suavemente até sentir com o polegar o mamilo endurecido. Clare soltou uma exclamação, porém se arqueou de encontro a ele. Deus! Sua menor resposta o inflamava tanto! Moveu os quadris de encontro aos dela, prendendo-a contra a parede de pedra. Clare se contorceu, indócil, sem tentar fugir. Mais como se, instintivamente, procurasse a melhor forma de se encaixar nele. Enquanto mergulhava nas profundezas de sua boca, Nicholas deslizou a mão para as costas delgadas e localizou os colchetes que lhe mantinham o vestido de gola alta no lugar. O primeiro e o segundo se desprenderam com facilidade, e ele fez uma pausa para acariciar a pele macia. Em seguida, soltou mais o vestido e expôs os ombros pálidos. Seu perfume era um misto de lavanda e tomilho, tão modesto como a própria Clare, mas com um sabor doce e selvagem. Passou a beijá-la de leve abaixo do arco do pescoço, ao longo do ângulo da clavícula e, excitada, Clare roçou a pélvis na dele. Nicholas respondeu com um gemido e, por detrás das camadas de pano que os separava, ela sentiu o membro rijo que pressionava seu ventre. — Ah, Clare, você me enfeitiça! — ele falou com voz rouca.


Tomara ela pudesse lançar mão de bruxaria para não pensar na escolha devastadora que deveria fazer. No entanto, se já estava nos braços dele, talvez já tivesse escolhido. Perdida em um redemoinho de sensações, Clare demorou a perceber o ar frio em sua perna esquerda, e só então se deu conta de que Nicholas lhe erguera a saia e a anágua acima do joelho. Sua mão quente deslizou sobre a cinta liga e começou a acariciar a parte interna de sua coxa, traçando um caminho de fogo na pele nua. Sua respiração falhou e um desejo avassalador irradiou através dela. O que a salvou não foi a vergonha por seu comportamento, mas perceber que as partes mais íntimas de se corpo estavam se tornando quentes e úmidas. Não entendendo o porquê, mas mortalmente embaraçada, ela reuniu toda a sua força de vontade e respirou fundo. — Chega, Nicholas! — Se tem alguma dúvida, Clare, deixe-me continuar! — ele implorou com uma voz rouca e cheia de urgência. — Juro que não vai se arrepender! — Não pode garantir isso. É muito mais provável que eu nunca vá me perdoar! — Lágrimas arderam em seus olhos novamente, e ela o segurou pelo braço, mantendo-o distante. — Por que está tão determinado a me arruinar? Nicholas expulsou o fôlego, ofegante. — Não chore, Clare. Por favor... — Afrouxou o abraço, em seguida, virou-se e deslizou contra a parede até sentar-se. Pegando a mão dela, puxou-a para o colo, fazendo-a encostar a cabeça em seu ombro. Enquanto lutava com as próprias emoções, acariciou-a com ternura, tal como a uma criança assustada. Quando a febre que lhe invadira o corpo começou a diminuir, Clare se obrigou a encarar seu dilema. Ainda havia tempo para que deixasse Nicholas e retornasse à sua vida normal na aldeia. Haveria algum escândalo, mas ele iria embora em breve. Partir era a solução mais


simples, segura e ética. No entanto, se o fizesse, para o restante de sua vida teria de suportar a culpa por sua covardia. Nicholas possuía o poder de mudar centenas de vidas para melhor e, para ela, desaparecer de sua vida não seria apenas covardia. Seria egoísmo. Sacrificar sua reputação e seu modo de vida para ajudar o vilarejo estava sendo muito mais doloroso do que ela havia esperado. No entanto, poderia suportar seu martírio facilmente se não gostasse do que ele a vinha obrigando a fazer. Como uma mártir, sua consciência estaria limpa. A ironia que lhe causava aquele turbilhão de culpa e dúvida era o fato de que Nicholas estava lhe dando a maior felicidade de sua vida. Ele era um libertino e um adúltero, um egocêntrico confesso que não tinha a menor vontade de usar sua riqueza e poder para nada, a não ser para atender a seus próprios desejos. No entanto, afetava-a de uma maneira que ela nunca havia imaginado. E estranhamente, embora seus valores fossem antagônicos, ele a compreendia como ninguém. As tempestuosas rajadas de vento da primavera agitaram suas saias e brincaram com seus cabelos. O frio naquele canto, à sombra do parapeito, parecia ainda mais cruel, porém Nicholas era uma ilha de calor e conforto. Ela suspirou, apertando com força o braço sólido que a amparava. Contra toda a moral e sentido, sentia-se segura com ele. — Rosas nas faces... um clichê usado por todo admirador que já escreveu poesia ruim para sua amada — ele disse baixinho. — No entanto, nada descreve melhor a cor em seu rosto. É como se rosas galesas estivessem florescendo em sua pele. — Acariciou-lhe o rosto com as costas da mão. — Não me deixe, Clare! Mesmo que ela estivesse decidida a voltar a Penreith, sua determinação teria se desintegrado sob a ternura em sua voz. Por mais incrível que parecesse, era como se Nicholas realmente a quisesse a


seu lado, como se ela fosse algo mais do que um capricho ou passatempo. Embora tivesse estado consumida demais pela paixão quando se encontravam nos braços um do outro, agora se lembrava do modo como Nicholas havia correspondido. No entanto, o fato de ela poder afetá-lo não lhe garantia nenhuma segurança. Era mais provável que eles apenas pegassem fogo juntos. — Se eu for embora agora, talvez consiga recuperar a minha reputação — murmurou com tristeza, como que pensando em voz alta. — Ficar vai me fazer perder a única vida que conheci e me deixará arruinada. — Não concordo que a paixão sempre traga a ruína. Se a intimidade física gera alegria e ninguém fica magoado, como pode ser errada? — Imagino que os homens digam isso a donzelas inocentes desde que o mundo é mundo — ela falou, seca. — E as mulheres que são tolas o bastante para acreditar são levadas a deixar seus filhos nas ruas, ou então para ser criados em um reformatório. Quem disse que ninguém fica magoado? — Fazer filhos sem responsabilidade é errado; um verdadeiro crime contra a criança, assim como contra a mãe — ele concordou. — Mas a gravidez não é uma consequência inevitável da paixão. Existem métodos razoavelmente eficazes de prevenção. — Interessante se for verdade. Mas, mesmo quando não há risco de gravidez, uma relação casual seria errada. Nicholas balançou a cabeça. — Penso que se os métodos anticoncepcionais fossem bem conhecidos, as noções do que é certo ou errado iriam mudar. Nossa atual moral sexual existe para proteger as mulheres, as crianças e a sociedade das consequências perigosas da paixão descuidada. Se não houvesse consequências, se os homens e as mulheres pudessem decidir livremente se querem ou não partilhar seus corpos com base


no desejo, e não na moralidade, o mundo seria muito diferente. — Mas seria um lugar melhor? Talvez para os homens, que poderiam satisfazer seus desejos e então partir com o coração leve e a consciência limpa. Não sei se as mulheres conseguem ser tão indiferentes. — Algumas conseguem, Clare — ele afirmou com uma ponta de frieza. — Acredite, existem mulheres tão irresponsáveis e cruéis quanto qualquer homem. — Tenho certeza de que conhece um grande número de fêmeas dessa espécie. — Ela suspirou com tristeza. — É mesmo um demônio, Nicholas. Um demônio amoral e eloquente que torna o pecado doce como mel... Acha que, se eu for obrigada a ficar em sua companhia, um dia irei sucumbir aos seus encantos. Ele a beijou na testa de leve. — É o meu mais profundo desejo. O riso de Clare foi marcado pelo desespero e uma pitada de raiva. Nicholas estava tornando tudo muito difícil para ela. Já era hora de dar um rumo à sua vida. Brincou com um dos botões do vestido enquanto concatenava as ideias. Em primeiro lugar, deveria ficar para o bem das pessoas que poderiam se beneficiar da ajuda do conde. Seu senso de dever não permitiria outra coisa. E, sendo esse o caso, deveria se esforçar para passar incólume pelos três meses seguintes. Um pensamento repentino a assaltou. Nicholas era um homem do mundo, que só se preocupava com os próprios desejos. Com certeza logo se cansaria de simples beijos. Se ficasse frustrado o suficiente com sua recusa em permitir a intimidade final, talvez pedisse a ela para sair e, ainda assim, cumprir com honra a sua parte no trato. Clare brincou com a hipótese, transformando-a em sua mente. Para que tivesse alguma chance de sucesso, teria de aprender a inflamar o desejo dele, ao mesmo tempo que continuaria dizendo “não”. A sensualidade era um jogo perigoso, e Nicholas era muito mais


experiente naquilo do que ela. Mas talvez tal vantagem fosse anulada pelo fato de que as paixões dos homens eram bem maiores do que as das mulheres. — Minha consciência não me permite ir embora quando ficar vai fazer tanto bem — declarou, uma vez que teve sua opinião formada. — Mas devo avisá-lo: seu objetivo é a sedução, e o meu é fazer com que você decida que eu não valho o esforço. Nicholas exalou o ar com alívio, em seguida sorriu-lhe com uma doçura de tirar o fôlego. — Fico feliz que vá ficar. Será interessante ver o que vai fazer para me irritar... Mas não creio que vá conseguir fazer isso. — Veremos, milorde. Quando Clare fitou os olhos escuros, sentiu um tremor de expectativa... e também que já não era mais uma vítima indefesa da experiência e da resistência do conde de Aberdare.


Capítulo XIII Clare olhou pela janela da carruagem, os olhos se arregalando diante da visão de Londres ao crepúsculo. — Eu nunca imaginei que houvesse tantas pessoas no mundo! — falou com um suspiro. Nicholas riu. Estava sentado a seu lado, as costas largas confortavelmente instaladas no banco estofado, os braços cruzados. — Rato do campo também vem à cidade. Ela respondeu à provocação com uma careta. — Aposto que na primeira vez que veio a Londres também não ficou indiferente. — Nem um pouco. Eu tinha dezessete anos e fiquei tão encantado que quase caí da janela da carruagem. Pode-se amar Londres ou odiála, mas nunca ficar indiferente a ela. Quero que conheça o máximo possível da cidade enquanto estiver aqui. O coche deu uma guinada, e o condutor de outra carruagem desfiou um verdadeiro rosário de imprecações contra eles. Clare franziu a testa. — O outro condutor era estrangeiro? Não entendi nada do que ele disse. — Usou um dialeto típico do leste de Londres, assim como algumas palavras que uma moça bem-educada nem precisa reconhecer — Nicholas observou, desgostoso. Ela deu-lhe um olhar traquinas. — Não pode explicá-las para mim? Nicholas arqueou as sobrancelhas. — Embora não me falte vontade de corrompê-la, ensinar-lhe linguagem chula não é bem a maneira pela qual eu gostaria de fazer isso. Clare sorriu e olhou pela janela novamente. A longa jornada do País de Gales até Londres tinha sido rápida e cansativa, contudo ela


havia gostado. Uma vez que o doloroso episódio no castelo a obrigara a aceitar sua situação, sentia-se mais relaxada na companhia de Nicholas, e seu relacionamento agora era pontuado pelo bom humor. Melhor ainda: havia aprendido que era possível desfrutar seus carinhos sem se sentir subjugada. Seu beijo diário se transformara numa sequência deliciosa de carícias que duravam até que as mãos de Nicholas começavam a vagar perigosamente. Quando isso acontecia, ela tratava de detê-lo, e ele sempre obedecia de imediato. Percebeu que, assim como ela, Nicholas se continha, tentando se deliciar com seus beijos sem se deixar arrastar pelo desejo. Mas aquela situação não iria durar muito. Cedo ou tarde, ele lançaria mão de todo o poder de sua sensualidade para seduzi-la. Quando esse dia chegasse, entretanto, ela teria forças para resistir, pois, a cada minuto sentia-se mais forte, mais nivelada a ele. Ao menos dentro dos estreitos limites de seu estranho relacionamento. Enquanto isso, iria desfrutar Londres. As ruas se tornaram mais limpas e silenciosas, e, eventualmente, a carruagem parou. O condutor abriu a porta, baixou os degraus, e Nicholas ajudou Clare a descer. Já era quase noite, e tudo o que ela pôde ver do Solar Aberdare foi sua fachada ampla e clássica. — Será que este lugar também precisa de uma dona de casa? — perguntou, travessa. — Alguns dias atrás, informei o meu administrador de que estaria chegando a Londres, que a casa deveria estar limpa e contar com uma equipe de criados temporária. — Nicholas ofereceu-lhe o braço. — Mas claro que, sendo minha governanta, poderá fazer as alterações que quiser. Ironicamente, ela percebeu que essa era outra forma, mais sutil, de sedução. Era estimulante ser tratada com respeito, ter suas opiniões valorizadas. Sabendo que a situação era passageira, contudo, ajudou-a a mantê-la em perspectiva. Enquanto subiam os degraus de mármore, o bem-estar de Clare


começou a ruir. Até agora, Nicholas se divertira em tê-la como companhia. Mas Londres lhe apresentaria outras diversões mais excitantes. Na verdade, ele poderia até se aborrecer com ela e mandála para casa antes que a semana terminasse. Então ela teria ganhado aquela batalha. Ou não? Os cômodos amplos e o mobiliário luxuoso do Solar Aberdare provou estar em boas condições, embora os anos de vazio tivessem lhe dado o ar impessoal de um hotel. Nicholas a apresentou para a pequena equipe de criados como sua prima, assim como tinha feito ao se registrarem em quartos separados em pousadas no caminho para Londres. A princípio, os criados não souberam muito bem como agir em sua presença. Constrangida, Clare deduziu que devia parecer muito semgraça para uma aristocrata, assim como para uma candidata a amante. Mas os empregados eram londrinos e, como tal, dificilmente se chocavam com alguma coisa. Tanto que, em troca de seu polpudo salário, trataram de considerá-la com educada indiferença e de obedecer às suas ordens. No fim, ela se viu também indiferente às suas opiniões. Havia menos satisfações a dar a estranhos do que a pessoas com quem tinha convivido a vida inteira. Clare despertou excitada para seu primeiro dia na fervilhante Londres. Quando desceu, Nicholas já se encontrava na sala de refeições bebendo café e lendo o Morning Post. — Bom dia, minha querida. — Levantou-se educadamente quando ela entrou. — Dormiu bem? — Na verdade, não. Mayfair é quase tão barulhenta quanto a mina em Penreith. Mas espero me acostumar a ela. — Clare olhou para o jornal. — Imagine... Poder ler um jornal no dia em que ele foi publicado em vez de semanas mais tarde! Que luxo! Sorrindo, ele serviu-lhe uma taça de chá fumegante. — Londres é o centro do mundo, Clare. Grande parte das notícias


acontece aqui. Após ela ter se servido dos pratos aquecidos sobre os aparadores, ambos se sentaram. — Andei olhando as notas sociais e não vi nenhuma menção a lorde Michael Kenyon ou ao conde de Strathmoor, mas o duque de Candover se encontra na cidade. Clare sentiu uma ponta de alarme. — Um duque? — Eu quis dizer Rafe — ele a tranquilizou ao interpretar sua expressão. — Não se preocupe. Rafe pode ser duque, e mais rico do que Creso, mas nunca foi insuportável. Ele é um grande adepto da discrição. — Eu sempre tive curiosidade para saber o que torna um homem nobre além do dinheiro e dos antepassados certos. Nicholas sorriu e dobrou o jornal. — De acordo com Rafe, um cavalheiro nunca é rude... exceto quando precisa ser. — Não creio que essa seja uma definição muito confortante — ela respondeu, devolvendo o sorriso. — Suponho que o conde de Strathmoor seja seu amigo Lucien...? — Precisamente. Mas, como eu disse, não se preocupe. A despeito de seus títulos, meus amigos são muito condescendentes. Têm que ser para me aturar. — Sorriu com a lembrança. — Conheci Lucien em Eton, quando quatro rapazes decidiram que alguém moreno e de aparência estrangeira como eu devia apanhar... Lucien achou que o fato de eu estar em desvantagem não era justo, por isso se pôs a meu lado. A briga nos custou dois olhos roxos, mas conseguimos pôr nossos agressores para correr e, desde então, somos muito amigos. — Se é assim, acho que aprovo o conde de Strathmoor. — Clare terminou seus ovos com salsichas. — Algum dos Anjos Caídos é casado, ou isso vai contra o “Código dos Libertinos”? — Até onde sei estão todos solteiros, embora eu esteja afastado


deles há tanto tempo que alguma coisa pode ter acontecido. — Ele vasculhou os bolsos e tirou várias cédulas, as quais lhe entregou. — Pegue isto. Londres é um lugar caro, e vai precisar de dinheiro. Clare apenas tocou as notas com um sorriso sem graça. — Vinte libras? O mesmo que o meu salário de um ano como professora. — Se está insinuando que o mundo é um lugar injusto, não vou nem discutir. Mas, se é assim, talvez devesse pedir um aumento na escola de Penreith. — Vinte libras por lá já é uma remuneração generosa. Há professores no País de Gales que ganham menos de cinco libras por ano, embora geralmente tenham outros empregos. Também recebo em alimentos e serviços de muitos alunos e suas famílias. Não sei se pertenço a um mundo onde vinte libras não é nada. — Clare começou a deslizar as cédulas de volta para ele. — Pode pertencer a qualquer mundo que escolher — Nicholas replicou, sério. — Se vinte libras lhe parece um exagero, mantenha-as por garantia. Pode precisar delas para retornar a Penreith caso eu me torne insuportável... Tal possibilidade não pode ser descartada. Como de costume, seu bom humor a distraiu. — Está bem. Embora ainda me pareça estranho aceitar dinheiro de você. Os olhos dele brilharam. — Se eu fosse lhe pagar para fins imorais, não estaria aceitando o meu dinheiro. Considere estas vinte libras como uma compensação por eu tê-la trazido a Londres contra a sua vontade. Clare se rendeu ao argumento e embolsou as notas. — Está muito complicado ganhar uma discussão com você. — Nunca discuta com um cigano, Clare. Não nos guiamos pela lógica ou por uma suposta dignidade. — Ele se levantou e se espreguiçou. — Quando terminar o seu café da manhã, será hora de fazermos alguma coisa a respeito do seu guarda-roupa.


Ela baixou o olhar depressa para a xícara. Havia algo indecente no modo como Nicholas se esticava. Aquela sensualidade quase felina era mais do que suficiente para afetar a mais séria das mulheres. Suspirou. Já se considerara séria antes. Agora estava ficando cada vez mais difícil aceitar esse conceito. A elegante loja da costureira tinha o nome “Denise” discretamente pintado em uma pequena placa pendurada acima da porta. Mas não havia nada de discreto na própria Denise. Tão logo eles adentraram o estabelecimento, uma loira rechonchuda gritou e se atirou nos braços de Nicholas. — Por onde esteve, seu cigano ingrato?! — exclamou, chorosa. — Partiu meu coração! Nicholas a ergueu no ar e deu-lhe um beijo estalado no rosto, em seguida beliscou-lhe a nádega generosa enquanto a punha de volta no chão. — Aposto que diz isso para todos. — Claro que sim — ela admitiu com franqueza. — Mas, no seu caso, estou falando a sério. Aliás, como sempre fiz. — Duas covinhas surgiram no rosto rosado da mulher. Clare observou a cena em silêncio, sentindo-se invisível e mais do que perturbada. Embora soubesse que Nicholas poderia beijar quem bem entendesse, não havia gostado de testemunhar o fato, muito menos em se tratando de uma balofa como aquela! Antes que sua temperatura subisse a níveis mais perigosos, ele se voltou para ela. — Denise, esta é minha amiga, a srta. Morgan. Ela precisa de um guarda-roupa completo. A costureira sorriu e, devagar, começou a circundar sua nova cliente. Quando tinha terminado a inspeção, anunciou: — Precisa de cores mais fortes, linhas simples e provocantes, sem ser vulgar. — Foi o que pensei — concordou Nicholas. — Vamos começar?


Denise os conduziu até uma sala luxuosamente acarpetada, onde se juntaram a outra costureira e a uma aprendiz muito jovem. Clare recebeu ordens para ficar em cima de uma plataforma no meio do cômodo. Depois disso, passou a ser tratada como uma boneca inanimada, enquanto Nicholas e a mulher a envolviam em tecidos e discutiam estilos, cores e tecidos. A alegria de Denise era contagiante, e logo a antipatia inicial de Clare desapareceu. Era divertido ter toda a atenção de duas pessoas que se preocupavam mais com suas roupas do que com ela própria; ainda mais quando o vestuário em questão parecia tão diferente do que era considerado adequado no País de Gales. Se tivesse que escolher sozinha seu guarda-roupa, teria desistido diante da infinidade de opções. Para ocupar a mente, Clare decidiu pensar sobre o que gostaria de ver e fazer durante sua visita a Londres. Apenas uma vez se preocupou com o que estava sendo articulado à sua volta: quando Denise montou um drapeado de seda azul em volta de seus ombros. — Esta cor não fica perfeita nela? — Seu olho para essas coisas é infalível — concordou Nicholas. — Esse tecido vai dar um vestido de noite esplêndido. Enquanto eles discutiam possíveis modelos, a aprendiz se adiantou para rebobinar a seda. Como o pano tivesse se enroscado em torno de seu pescoço, no entanto, Clare involuntariamente pegou um punhado, e se viu incapaz de soltá-lo. Era a seda mais maravilhosa que já tinha visto! Brilhava com todos os tons de azul imagináveis e possuía a textura requintada de uma nuvem. Encantada, levou-a ao rosto e a esfregou contra a pele tal qual um gato, até que viu Nicholas olhando para ela e largou o pano, constrangida. — Não há nada de errado em apreciar algo que é bonito — ele falou, gentil. — Esta seda é muito extravagante — ela respondeu, tensa, embora sua pele ainda se deliciasse com o toque do tecido que a tocara. — Há


maneiras melhores para gastar seu dinheiro. — Talvez — Nicholas concordou, divertido. — Mas um vestido feito com essa seda fará maravilhas com o azul dos seus olhos. Aposto que vai se sentir linda quando usá-lo. Clare quis negar que fosse tirar proveito de uma peça de vestuário tão bonita e inútil, mas não conseguiu. Seu coração traiçoeiro ansiava pela seda azul. Também sabia que aceitar o desafio de Nicholas iria testar a sua força de vontade, e era deprimente ver como estava suscetível à ganância e ao materialismo. Perturbada, recitou em pensamento cada passagem bíblica que advertia sobre a vaidade. Mas nada a impediu de continuar desejando aquela seda inacreditável. Após vários estilos e tecidos terem sido escolhidos, Nicholas perguntou se havia ali algum traje pronto que servisse nela. No mesmo instante, Denise apanhou três vestidos, comentando, azeda, que a cliente que os encomendara não tinha pagado por aquele último lote e que, portanto, eles poderiam muito bem dispor dele. A fim de experimentar o primeiro traje, Clare ocultou-se atrás de um biombo. Ajudada pela costureira, Marie, vestiu uma anágua de musselina tão fina que era quase translúcida. Em seguida, a costureira amarrou-lhe o corpete curto e leve. Clare, que se preparara para abominar a peça, surpreendeu-se quando esta se revelou bem menos desconfortável do que imaginara. — Mam’selle tem uma cintura tão fina que o espartilho quase não é necessário — Maria murmurou. — Mesmo assim, ele vai melhorar o caimento. A moça tomou-lhe as medidas a ser utilizadas na confecção de outros trajes, em seguida a ajudou a colocar o vestido cor-de-rosa de challis, um tecido de lã fino, sobre a cabeça. Os botões nas costas foram a tarefa mais complicada, e Clare finalmente compreendeu por que damas necessitavam de criadas.


Antes de permitir que ela se olhasse no espelho da parede, Marie apanhou um ramo de rosas de seda creme e as prendeu na lateral de seus cabelos. — Très bien... Acessórios e um penteado diferente são sempre necessários, mas aposto que isto irá agradar monsieur le compte. Quando Clare foi finalmente autorizada a ver o próprio reflexo, piscou, surpresa. O challis rosa trouxera mais fulgor à sua pele, e seus olhos tinham ficado enormes. Parecia uma dama de verdade. Que os Céus a ajudassem, mas estava deslumbrante! Observou o decote generoso do vestido, inquieta. Este não apenas era baixo demais, como também lhe empinava o peito. Embora ela soubesse não ser tão bem-dotada, naquele vestido seus seios pareciam mais do que fartos. Lutando contra a vontade de se cobrir com as mãos, ela respirou fundo e, timidamente, saiu de trás do biombo. Nicholas e Denise interromperam sua conversa para olhá-la. Enquanto a costureira assentia com satisfação, ele se aproximou e a circundou com os olhos brilhando. — Eu sabia que esse vestido ficaria lindo em você, mas, mesmo assim, estou impressionado. Creio que apenas uma alteração se faça necessária... — Usou a ponta de um dedo para desenhar uma linha na frente do corpete. — Baixar o decote até aqui. Clare ofegou, não apenas porque ele estava tocando seus seios em público, como também pelo decote que ele desejava. — Eu me recuso a usar qualquer coisa indecente! — Mas o que estou sugerindo é bastante discreto... — Ele traçou outra linha sobre o tecido, desta vez mal poupando seus mamilos. — Isso, sim, seria indecente. Consternada, Clare olhou para Denise. — Ele só pode estar brincando...? — Que nada! — a costureira respondeu depressa. — Tenho clientes que não comprariam um vestido com um decote que não deixasse os


seios a ponto de saltar para fora. Dizem que esse tipo de coisa mantém todos interessados. — Não tenho dúvidas quanto a isso — Clare resmungou, mortificada. — Mas esse tipo de decote não é para mim. — Pois eu a considero mais ardente do que qualquer mulher que já conheci. — Nicholas murmurou, abrindo um sorriso malicioso. — O decote que estou sugerindo é mais ousado do que deseja, mas muito mais conservador do que eu gostaria. Não é justo? Clare teve que rir. E, lembrando-se de que nunca usaria aquelas roupas na frente de alguém que conhecia, capitulou. — Muito bem. Mas se eu pegar uma pneumonia, vai pagar caro. — Vou mantê-la aquecida, não se preocupe... — replicou ele com um brilho perigoso no olhar. Rapidamente, Clare se escondeu atrás do biombo, dizendo a si mesma que não importava se aquelas estranhas presumissem que ela era amante do conde. A peça seguinte era um vestido com um decote um pouco mais respeitável, embora ainda baixo o suficiente para assombrar toda a Penreith. Pouco mais tarde, quando não havia ninguém perto o suficiente para ouvir, Clare perguntou a Nicholas: — Que tipo de clientes Denise tem? Tenho a sensação de que este não é um estabelecimento muito respeitável. — Muito perspicaz de sua parte — respondeu ele, divertido. — As mulheres que vêm aqui são as que querem parecer o mais atraentes possível. Embora Denise tenha clientes das altas-rodas, muitas são atrizes e cortesãs. — Nicholas inclinou a cabeça. — Isso a escandaliza? — Deveria — ela admitiu. — Por outro lado, eu me sentiria um peixe fora d’água se não estivesse vestida assim num evento social. Além do mais, gostei muito de Denise. Sua conversa terminou quando a jovem aprendiz trouxe uma bandeja com chá e bolos. Nicholas e a costureira iniciaram uma


entusiasmada discussão acerca de meias, sapatos, luvas, capas e roupas de baixo, os quais ainda lhe seriam necessários. Clare ficou cansada apenas em ouvir seus planos. Nicholas, no entanto, parecia exultante. Quando deixaram a loja após três horas, ele lhe sorriu. — Agora, minha cara, vou lhe apresentar a experiência mais carnal da sua vida. — Oh, não... — ela falou, desalentada. — Estou tentando agir como uma boa concubina, mas não acho justo que queira me humilhar. — E quem falou em humilhação? — Ele a ajudou a subir no coche, em seguida, tomou as rédeas do condutor, que montou na traseira do veículo. À medida que Nicholas mergulhou no trânsito de Londres, Clare o fitou de soslaio. — Está me levando a algum tipo de orgia? — Clare! — ele exclamou, divertido. — Está me assustando... O que sabe sobre orgias? — Não muito, embora eu saiba que elas sejam abomináveis, impudicas, e envolvam muitas pessoas se comportando como animais de fazenda — respondeu, sarcástica. Ele riu. — Não é uma definição ruim. Existem devassidões de todos os gêneros, mas suponho que deva haver ao menos três partes envolvidas para que se possa chamar orgia... e nem todas envolvendo pessoas, é claro. Enquanto Clare engasgava com o embaraço, um carrinho de carga saiu de uma rua lateral, quase colidindo com eles. Habilmente, Nicholas conseguiu parar a carruagem e evitar um acidente, mas o carroceiro não ficou satisfeito. Com um charuto apagado, pendurado na boca, começou a gritar imprecações sobre “nobres esnobes” que pensavam ser os donos das estradas.


— Sujeitinho desagradável — comentou Nicholas. — Está na hora de ele aprender boas maneiras... Com um movimento poderoso do pulso, estalou a chibata, e o charuto desapareceu da boca do homem. O carroceiro, obviamente um cockney, morador da periferia de Londres, ficou apenas com um toco entre os dentes e uma expressão de surpresa estampada no rosto imundo. Impressionada e, ao mesmo tempo, horrorizada, Clare ofegou: — Meu Deus, se calculasse mal poderia ter arrancado o olho do sujeito! — Não sou de calcular mal — Nicholas replicou, e estalou o chicote outra vez. Desta vez, o gorro do homem veio voando e caiu no colo dela. Clare até percebeu o zunido no ar, mas a correia da chibata passou tão depressa que ela nem mesmo pôde vê-la. Enquanto olhava para o chapéu amassado, emudecida, Nicholas sorriu. — Embora se diga que um homem bom no chicote pode tirar uma mosca da orelha de um cavalo de parelha, são poucos os que realmente podem fazê-lo. — A chibata estalou mais uma vez, e o gorro tornou a girar pelo ar, aterrissando na cabeça do carroceiro confuso. — Eu sou um deles. Terminada a performance, Nicholas mergulhou no trânsito como se nada tivesse acontecido. — Retomando o fascinante tema das orgias, é uma fantasia comum do sexo masculino ir para a cama com duas mulheres ao mesmo tempo... — Ele fez o cabriolé virar em uma rua larga, ignorando a expressão abismada no rosto de Clare. — Na verdade, “cama” é o termo errado. É necessário tanto espaço que é mais provável que se acabe no chão. Curioso como sou, uma vez decidi experimentar essa fantasia em particular, e o resultado poderia ser chamado de orgia, claro. Mas, sabe qual a minha lembrança mais vívida dela?


— Eu não quero ouvir mais nada! — Clare tapou os ouvidos com as mãos, o rosto pegando fogo. — Queimaduras de tapete nos joelhos — Nicholas prosseguiu com satisfação, rindo de seu protesto. — A fim de manter ambas as moças satisfeitas, foi necessário que eu me arrastasse para trás e para a frente o tempo todo... Uma experiência desgastante. Manquei por uma semana. — Ele fez uma pausa, pensativo. — No fim, cheguei à conclusão de que algumas fantasias não precisam ser realizadas. — Você é deplorável! — ela acusou antes de irromper numa gargalhada. Só mesmo Nicholas para transformar uma história vulgar como aquela em algo hilariante! Respirou fundo. Talvez a “experiência mais sensual de sua vida” não fosse assim tão terrível. Não estava preparada, no entanto, para ver o coche parando diante de uma gigantesca igreja gótica. Reconhecendo a construção de uma cópia que tinha visto, Clare soltou uma exclamação, incrédula. — Mas essa é a Abadia de Westminster! Nicholas atirou as rédeas para o cavalariço, em seguida, ajudou-a a descer do cabriolé. — Está certa. Ficaram em silêncio por algum tempo, enquanto seu olhar ansioso varria a impressionante fachada. Mas nenhuma impressão poderia fazer justiça ao tamanho ou ao poder daquela construção. Cada linha da abadia e de suas torres gêmeas apontava para o céu; um tributo silencioso à fé daqueles que a haviam construído. Nicholas a segurou pelo cotovelo, e eles rumaram em direção à entrada. Se não estivesse sendo conduzida, Clare provavelmente teria tropeçado nos próprios pés, pois não conseguia tirar os olhos da catedral. E seu interior era ainda mais glorioso do que o exterior. Embora


outros visitantes e devotos estivessem espalhados, o teto alto tornava as pessoas insignificantes, ao mesmo tempo que proporcionava uma estranha sensação de privacidade. Sombras, janelas com pedras preciosas, arcos pontiagudos, uma floresta de enormes colunas... Clare estava tão atordoada com a riqueza visual que teve dificuldade para compreender a abadia como um todo. Segurou o braço de Nicholas enquanto vagavam por um corredor lateral. — É uma construção projetada para impressionar os seres humanos com o poder e a majestade de Deus — murmurou, sem querer levantar a voz. — Todos os grandes lugares destinados aos cultos são assim — ele acedeu. — Já estive em igrejas, mesquitas, sinagogas e templos indianos, e todos nos fazem pensar que há mesmo algo muito superior a nós. Mas também estive em santuários menores do que a Capela de Sião de Penreith, que pareciam ainda mais sagrados. Clare assentiu, distraída, e emocionada demais para manter uma discussão racional acerca de arquitetura religiosa. As paredes eram revestidas com monumentos a bretões famosos. Era incrível pensar que estava andando por sobre os ossos de tantos grandes homens e mulheres: Edward I, vulgo Longshanks, e Henrique VIII. Elizabeth, a Rainha Virgem e sua prima e inimiga, Mary, rainha da Escócia. Geoffrey Chaucer, Isaac Newton e William Pitts, tanto o mais velho como o mais novo... Quando chegaram à capela de Eduardo, o Confessor, que tinha sido rei e santo, ela disse em voz baixa: — Todas as pessoas importantes na história da Inglaterra estão sepultadas aqui? Nicholas riu baixinho. — Não, embora possa parecer assim. A combinação desta arquitetura espetacular com a história é muito impressionante. Ele tirou o relógio de bolso e verificou as horas, então se virou e a


conduziu de volta pelo corredor sul. Tinham coberto apenas uma curta distância quando o silêncio foi rompido por música. Clare prendeu a respiração e um arrepio lhe subiu pela espinha. Era um órgão. Nenhum outro instrumento teria poder e majestade para preencher uma igreja tão grande. E o harmônio foi acompanhado por um coro de anjos. Não, não eram anjos, embora as vozes fossem verdadeiramente angelicais. Escondidas em algum lugar do complexo espaço da abadia, dezenas de vozes masculinas se ergueram em uma melodia triunfante. A música ecoava pelas paredes de pedra e se concentrava ali dentro com tal poder que nem mesmo a música do paraíso devia ser igual. Nicholas respirou fundo, também extasiado. — Eles devem estar ensaiando para a Páscoa. Pegou a mão de Clare e a conduziu até um nicho parcialmente obscurecido por uma ostentosa escultura. Relaxando as costas contra a parede, fechou os olhos e se pôs a escutar a melodia, absorvendo as notas tal qual uma flor absorvia os raios do sol. Clare sabia que ele amava a música de sua própria harpa, mas a expressão no rosto moreno a fez perceber que “amor” não era uma palavra forte o suficiente. Nicholas parecia um anjo diante da redenção. Devagar, ela se aproximou dele até se recostar em sua camisa de linho branco, e Nicholas passou um braço em torno de sua cintura, puxando-a para si. Não foi um abraço sensual, e sim uma maneira de compartilhar uma experiência para a qual não havia palavras. Fechando os olhos, Clare se permitiu desfrutar o momento: o poder transcendental da música, a força e o calor de Nicholas. Aquilo era puro júbilo. A terceira composição foi Aleluia, de Handel, uma obra tão eletrizante quanto inconfundível. For the Lord God omnipotent reigneth... Ela estremeceu sob o impacto das emoções que ressoaram das profundezas de sua alma.


King of kings and Lord of lords... Fé e paixão, beleza e amor, sensualidade e ternura, o sagrado e o profano. Tudo se mesclava em uma gama inseparável que lhe trouxe lágrimas aos olhos. Talvez a justaposição de emoções tão díspares fosse uma blasfêmia, porém Clare não foi capaz de separá-las, ainda mais quando não poderia dizer onde ela terminava e Nicholas começava. Quando o coro terminou, o órgão entrou em um solo estrondoso que ameaçou soltar as pedras antigas da abadia. Lentamente, Clare saiu de seu transe. Abriu os olhos e deparou com a carranca de duas senhoras que passavam. Lembrou-se, então, que o braço de Nicholas ainda estava em sua cintura e, com relutância, afastou-se dele. Virou-se e o fitou. E não pôde mais desviar o olhar. — Eu sempre penso que o inferno deve ser a ausência de música — ele falou baixinho. Uma sensação de proximidade e união pulsou entre os dois. Havia algo diferente em Nicholas agora. Clare levou um momento para perceber que, pela primeira vez, ele baixara a guarda. Normalmente, Nicholas disfarçava sua esquiva com eloquência, mas agora as barreiras tinham sido derrubadas. Diante da vulnerabilidade nos olhos escuros, ela se perguntou quanto tempo se passara desde que ele se permitira enxergar com tanta clareza pela última vez. Isso se já havia permitido. Em seguida, começou a se questionar sobre o que ele poderia estar vendo em seus olhos. Inquieta, desviou o olhar, rompendo a conexão entre eles. Teve de clarear a garganta antes de falar: — Foi maravilhoso. Estava certo... Foi a experiência mais carnal da minha vida. — E absolutamente respeitável. — Ele ofereceu-lhe o braço. Clare ainda podia sentir o calor deste em volta da cintura e, sorrindo, colocou a mão na dobra de seu cotovelo. Saíram da abadia


em silêncio. Depois da performance daquele coral, qualquer outro som seria insignificante. Lá fora, depararam com um vento forte, perseguindo fragmentos de nuvens no céu em constante mudança. Nicholas chamou o cabriolé, e logo eles abriam caminho em meio ao tráfego na frente da catedral. As ruas tranquilas do elegante bairro de Mayfair foram um alívio, e Clare viu-se ansiosa por chegar ao Solar Aberdare. Após toda aquela agitação no ateliê da costureira e na abadia, ela merecia um cochilo. Nicholas, entretanto, ainda não tinha esgotado suas surpresas. Enquanto passavam por uma tranquila rua residencial, freou os cavalos de repente. — A aldrava está para cima... Ela deve estar em casa. Entregando as rédeas ao cavalariço outra vez, saltou para a calçada e estendeu a mão para Clare. — Quem está em casa? — ela perguntou enquanto se postava a seu lado. Com os olhos brilhando, ele a guiou até a escada e bateu na porta com a aldrava de cabeça de leão. — Minha querida e amada avozinha. Avozinha? Mas a mãe do pai dele havia morrido anos antes, e se a mãe de sua mãe cigana estivesse viva, não estaria vivendo em uma casa em Mayfair! Clare só compreendeu quando a porta começou a se abrir. Percebeu, com horror, que ele devia estar se referindo à viúva do avô: Emily, a condessa viúva de Aberdare, a mulher que, se acreditava, tinha sido sua amante, e que estivera no centro do escândalo que custara duas vidas.


Capítulo XIV Enquanto entrava na casa com Nicholas, Clare sentiu um desejo anticristão de torcer seu pescoço. Era do conhecimento de todos, em Penreith que, na noite em que o antigo conde e Caroline haviam morrido, os empregados tinham encontrado Nicholas no quarto da condessa. Mas, a despeito de todas as evidências, ela estivera relutante em tirar a conclusão mais óbvia. Embora na ocasião houvesse se considerado tolerante, em retrospecto supunha que simplesmente não quisera acreditar que Nicholas pudesse ser tão vil. E agora que poderia saber a verdade, vendo os dois juntos, descobria que não queria saber o que havia acontecido. Enquanto o mordomo os recebia dignamente e perguntava seus nomes, uma criança nua veio gritando pelo corredor central e arruinou a formalidade do momento. Correndo atrás do bebê, veio uma babá ofegante, seguida, poucos segundos depois, por uma sorridente mulher na casa dos trinta anos. Sua expressão mudou quando ela viu os visitantes. — Nicholas! — exclamou, estendendo as mãos para ele. — Por que não me avisou que tinha voltado para a Inglaterra? Ele segurou-lhe as mãos e a beijou em ambas as faces. — Eu só cheguei a Londres ontem, Emily. Clare assistiu a cena em silêncio, pensando que já vira Nicholas beijar mulheres demais naquele dia. A condessa viúva parecia radiante com saúde e felicidade, e parecia dez anos mais jovem do que quando vivia em Aberdare. E, a julgar pela afeição óbvia entre aqueles dois, era fácil acreditar que haviam mesmo sido amantes. Nicholas virou-se e chamou Clare. — Talvez se lembre desta minha amiga... Após um momento de perplexidade, a condessa sorriu.


— Não é a srta. Morgan, a professora de Penreith? Nós nos conhecemos quando Nicholas foi fazer uma doação para a escola. Foi a vez de Clare piscar, surpresa. — Nicholas fez a doação? Pensei que isso tivesse sido obra sua. — Engano seu. Como meu marido tendia a reprovar as ideias progressistas do neto, eu costumava me apresentar publicamente em seu lugar — explicou a moça. — Espero que a escola esteja indo bem. Você ainda é a professora? — Na maioria das vezes — Nicholas respondeu por ela. — Clare pediu uma licença de três meses... Está tentando me reeducar. O olhar curioso da condessa mudou de um para o outro, mas, antes que fizesse qualquer comentário, a jovem babá retornou com a criança nua e esperneando em seus braços. — Perdão, milady, perdão! — desculpou-se, aflita. — Não sei como o menino Guilherme conseguiu escapar desse jeito! A condessa se inclinou e beijou a bochecha do filho. — Sempre espertinho! — falou com orgulho. — Petinho! Petinho! — o bebê repetiu. — Então esse é meu afilhado. — Rindo, Nicholas tomou William dos braços da babá. — Considerando o quanto ele odeia usar roupa, não vai dar muitas despesas nos próximos anos. Típico amor cigano à liberdade... Após o comentário, Clare não conseguiu parar de buscar alguma semelhança entre Nicholas e William. Mas, se havia uma, ela não pôde vê-la. O menino era loiro e de olhos azuis. E também era muito novo para ser o fruto de uma ligação de quatro anos. A voz leve da condessa interrompeu seus pensamentos. — Perdoe a minha falta de educação, srta. Morgan. Como pode ver, a casa está uma desordem, mas não gostariam de se juntar a mim para o chá? Nicholas e eu temos muito que conversar. Nicholas riu e entregou William de volta para a ama. — É evidente o que andou fazendo nos últimos quatro anos.


A condessa ficou vermelha como uma adolescente conforme conduzia seus convidados para a sala de estar e tocava o sino, pedindo o chá. Pouco depois, Clare tomava a bebida quente e provava os bolos enquanto o casal trocava notícias. Para isso tinha vindo a Londres? Para ver Nicholas jogando seu charme para outras mulheres? O pensamento despertou nela uma profunda hostilidade. Depois de meia hora, Nicholas tirou um objeto redondo, de madeira pintada, do bolso. — Eu trouxe um pequeno presente para William. Veio das Índias Orientais, onde é chamado de ioiô. Ele enrolou uma linha de seda no dedo e fez o brinquedo subir e descer pelo fio, acompanhado por um som suave. — Meu irmão ganhou um brinquedo semelhante quando éramos crianças, mas o dele se chamava bandalore — lembrou a condessa. — Vamos ver se eu me lembro como faz... — Emily se esforçou, porém suas tentativas foram infrutíferas. Na terceira vez em que o ioiô acabou pendurado na linha, ela o devolveu para Nicholas. — Receio estar sem prática. — Se não se opuser, posso levá-lo até o quarto das crianças e fazer uma demonstração para William. — Ele vai ficar encantado! — A condessa chamou um lacaio e ordenou-lhe que levasse Nicholas até lá. Clare não se sentiu muito à vontade ao se ver sozinha com a mulher, mas logo relaxou quando esta voltou os doces olhos cor de avelã em sua direção. — Por favor, perdoe-nos por nossa indelicadeza, mas ficamos quatro anos sem nos ver, e esse vigarista mal me escreveu! — Imagino o quanto está feliz por ele estar em casa de novo, lady Aberdare — Clare respondeu em um tom neutro. — Sim, embora isso também faça com que eu me lembre daquela época terrível. — A moça apanhou um dos bolinhos de manteiga. —


Aliás, eu não uso mais esse título, srta. Morgan. Agora sou apenas a sra. Robert Holcroft. Ou Emily, como diz Nicholas. — Abandonou o título? Pensei que damas em sua posição geralmente mantivessem a distinção ao se casar com plebeus. A expressão de Emily endureceu. — Eu nunca quis ser condessa. Robert, meu marido, e eu crescemos juntos, e sempre quisemos nos casar. Mas ele era o filho mais novo de um latifundiário, com poucas perspectivas, enquanto eu era a filha do visconde. Quando o antigo lorde Aberdare nos fez uma proposta para lá de vantajosa, meus pais insistiram para que eu a aceitasse, embora ele fosse quarenta anos mais velho que eu. — Sinto muito — Clare falou, sem jeito. — Eu não fazia ideia. Você parecia tão serena que ninguém em Penreith adivinhou que o casamento não estava a seu gosto. — O antigo lorde Aberdare desejava apenas uma mulher jovem, que lhe desse mais filhos. — Emily apertou o bolinho de manteiga entre os dedos, e este foi reduzido a migalhas. — Ele foi bastante consciencioso ao exercer seus direitos conjugais, mas eu fui uma decepção. Foi uma época difícil... Nicholas acabou sendo um grande conforto para mim. Para Clare, aquilo soou como uma confissão de que ela e Nicholas tinham sido amantes, mas que aquele não fora um caso marcado pela paixão. Ao menos, não por parte de Emily. Embora ela não tolerasse o adultério, até compreendia que uma mulher infeliz no casamento pudesse ter se envolvido com o neto charmoso do marido, muito mais condizente com sua própria idade. — William é a prova de que não foi sua culpa não ter havido nenhuma criança nascida de seu primeiro casamento — comentou, sem saber o que dizer. — Não pense que encontrei alguma satisfação nisso — Emily retrucou, amargurada. — Onde quer que o quarto conde de Aberdare esteja agora, suspeito de que seja em um lugar muito quente. E


espero que ele saiba que estou longe de ser estéril... — Ela tocou o ventre. — No outono, William terá um irmão ou irmã. — Ah, meus parabéns! — Incapaz de conter seu espanto, Clare continuou: — Mas, por que está dizendo tudo isso a uma estranha? Emily deu de ombros. — Porque me senti à vontade com você. Porque Nicholas a trouxe aqui. Porque é de Penreith... Imagino que a última razão seja a mais importante. Se vive no vale, deve saber do escândalo em torno da morte de meu marido e da esposa de Nicholas. Só Deus sabe que histórias inventaram a nosso respeito, embora os rumores dificilmente possam ser piores do que a verdade. Saí do País de Gales assim que sepultei meu marido. Na época, eu estava abalada demais para me preocupar com o que as pessoas estavam pensando, mas esta parece ser uma boa oportunidade para esclarecer as coisas. Clare se perguntou como Nicholas se sentia sobre aquilo tudo. Ele amara Emily? Será que ainda amava? Claro que ela não poderia perguntar. — Houve uma grande especulação sobre o que havia acontecido, mas o assunto está quase esquecido agora. Com você e Nicholas longe do vale, e sem que ninguém soubesse mais nada, os rumores diminuíram. — Ainda bem. — Emily franziu as sobrancelhas. — Robert me ajudou a deixar isso tudo para trás. Mas creio que Nicholas não esteja sendo tão afortunado. Talvez possa ajudá-lo, como Robert me ajudou. — Esta conversa está sendo muito estranha — Clare confessou, impotente. — Imagino. — Emily sorriu. — Não sei exatamente o que há entre você e Nicholas, mas ele não a teria trazido até aqui se não fosse importante para ele. Nicholas precisa de alguém que cuide dele, Clare... Alguém em que ele possa confiar. Antes que ela pudesse explicar que a situação não era bem a que a moça pensava, Nicholas retornou do quarto de crianças, e a conversa


tornou-se banal outra vez. O que foi bom, Clare decidiu, pois não teria sido capaz de responder. Não sabia o que pensar, tampouco o que dizer. Fora criada em um mundo “preto e branco”, onde o certo era o certo e o errado era o errado. E, infelizmente, o que rodeava Nicholas era todo em tons de cinza. Poucos minutos depois, quando se preparavam para partir, o marido de Emily voltou para casa. Robert Holcroft era um homem loiro e atarracado, com um sorriso contagiante. Quando foi apresentado ao conde de Aberdare, apertou suas mãos com entusiasmo, dizendo o quanto estivera ansioso por conhecê-lo. Se sabia que Nicholas e Emily tinham sido amantes, não o demonstrou em nenhum momento. Quando eles já se afastavam no cabriolé, Clare suspirou. — Fiquei satisfeita em saber que lady Aberdare está feliz agora. Quando ela saiu do vale há quatro anos, após sepultar o marido, foi como se tivesse deixado a face da Terra. Ninguém em Penreith fazia ideia do que tinha acontecido. — Emily quis esquecer os anos passados no País de Gales, e dificilmente se pode culpá-la — observou Nicholas, sério. — Ela se casou com Holcroft um ano depois da morte de meu avô. Ele é advogado e, agora, uma estrela em ascensão no Parlamento. Algum dia ainda vai ser ministro. — Que jurisdição ele representa? — Leicestershire. — Nicholas diminuiu a marcha do coche, em seguida virou à esquerda, numa rua mais calma. — Eu mesmo controlo esse assento no Parlamento, e quando Emily me escreveu, contando que Holcroft gostaria de entrar para a política, decidi cedê-lo a ele. Pelo que ouvi, Robert está indo muito bem. É inteligente e tem mais princípios do que os colegas que o precederam. — Você controla a comarca de Leicestershire? — ela indagou, surpresa. — Entre outras. Nosso sistema político corrupto me proporciona o


controle de assentos em três municípios diferentes. Embora o título Aberdare esteja radicado no País de Gales, nos dias de hoje a maioria da fortuna da família é gerada em outro lugar. Clare ficou chocada por saber tão pouco sobre Nicholas. Não fazia ideia da riqueza e do poder que ele detinha com sua posição. — Não me admira que o sr. Holcroft tenha ficado tão feliz em conhecê-lo, uma vez que você é seu patrono político. Por isso, também, é padrinho de William? Nicholas sorriu. — Espero que amizade seja mesmo parte integrante disso tudo. Emily era uma ilha de carinho e compreensão em Aberdare. Obviamente, Nicholas gostava muito de Emily, mas não soava como um homem de coração partido. Clare sentiu uma satisfação absurda em saber que a moça não fora o grande amor de sua vida. — Se foi capaz de colocar Holcroft no Parlamento, deve ter mantido bem o controle de seus negócios enquanto esteve fora do país. — A cada seis meses e pouco, um malote de documentos chegava até mim, e eu enviava instruções para o meu procurador. — Nicholas deu-lhe um olhar irônico. — Não sou tão irresponsável quanto implica a minha reputação. — Ninguém poderia ser nessa posição — ela devolveu, sarcástica. Nicholas riu. — Você é uma rosa galesa perfeita: delicada, doce, perfumada e bem guarnecida com espinhos. — Estendeu a mão e roçou-lhe o queixo com os nós enluvados dos dedos. — E são os espinhos que a tornam ainda mais interessante. Aquilo não era muito lisonjeiro, mas Clare apreciou o comentário mesmo assim. Era melhor ser controversa do que convencional. Clare alinhou a bola cuidadosamente, em seguida, deu a tacada. O taco derrapou no marfim, e a bola desviou-se para longe de sua mira. — Droga! Errei de novo. — Ela levantou o taco com uma careta. —


Esta ponta de madeira é muito lisa. Seria errado colocar um material diferente na extremidade? Algo que não derrapasse tanto quanto madeira crua? — Acho que não, mas creio que nenhum amante do bilhar aprovaria. O desafio é jogar bem a despeito do equipamento, não por conta dele. — Nicholas inclinou-se, flexionando os músculos sob a camisa branca de algodão, e acertou uma bola. — Ao menos esta mesa é bem mais estável do que a de Aberdare. Aquela parece um campo arado no meio do inverno. Quando formos para casa, vou mandar cobri-la com um tampo de ardósia. Será interessante ver como ele funciona. Depois de um primeiro dia em Londres cheio de aventuras, foi agradável para Clare passar o início da noite com Nicholas. Sem dizer que havia suas vantagens em ser uma novata no bilhar, uma vez que pôde passar a maior parte do tempo vendo-o jogar. Ele se movimentava em torno da mesa com a graça de uma pantera; um espetáculo que agradaria a qualquer mulher. Com um pequeno arrepio de prazer, Clare se perguntou quando Nicholas iria requisitar o beijo daquele dia. Se não fizesse isso logo, ela mesma tomaria a iniciativa, pois ele parecia gostar quando fazia isso. Nicholas deu nova tacada, e a bola bateu em três laterais antes de encaçapar outra. Antes que Clare o cumprimentasse pelo feito, no entanto, uma voz preguiçosa falou da porta: — Certa habilidade no bilhar costuma ser a marca de um cavalheiro, mas jogar bem assim é sinal de uma juventude desperdiçada. — Lucien! — Nicholas largou o taco sobre a mesa e foi dar um forte abraço no visitante. — Recebeu minha mensagem... Fico feliz que tenha vindo esta noite. — Espalhafatoso como sempre — murmurou o rapaz, mas retribuiu o abraço com simpatia.


Enquanto os homens trocavam saudações, ela estudou o recémchegado, que se encontrava vestido com uma elegância próxima do dandismo. Era quase tão bonito como Nicholas, mas sua beleza era típica dos ingleses. Entre os Anjos Caídos, sem dúvida seria Lúcifer, a estrela da manhã que fora a mais brilhante e mais bonita antes de se rebelar contra os Céus. Ele também se movia tão silenciosamente como um felino, tanto que nem ela nem Nicholas tinham percebido sua chegada. Após soltar o amigo, Nicholas fez as apresentações. — Clare, já deve ter percebido que este é lorde Strathmoor. Lucien, minha amiga, a srta. Morgan. Nicholas e ela eram amigos? Tal descrição deixava muito a desejar. — É um prazer conhecê-lo, milorde — ela o cumprimentou sorrindo. — Nicholas fala muito do senhor. — Tudo mentira — ele replicou de pronto. — Nunca conseguiram provar nada. Clare riu, e Lucien se inclinou sobre sua mão. Quando se endireitou, ela viu que seus olhos eram de um verde-dourado incomum, o que a fez pensar novamente em um gato. Ele a estudou com curiosidade, como se estivesse tentando descobrir seu papel ali. Nenhuma solteira decente passaria uma noite sozinha na casa de um homem. Por outro lado, nem mesmo seus vestidos novos a fariam parecer com o tipo de mulher com quem o conde se divertiria... — É galesa, srta. Morgan? — indagou lorde Strathmoor. — E eu pensando que o meu inglês era impecável... — Esse toque de sotaque galês torna sua voz ainda mais melodiosa. Em termos de charme, seu sorriso rivalizava com o de Nicholas. — Clare, você se importaria se terminássemos o jogo mais tarde? — perguntou o conde. — Sem problemas. — Ela sorriu. — Até porque não vejo a menor


perspectiva de ganhá-lo. — Nesse caso... — Nicholas entregou o taco ao amigo. — Tente encaçapar as duas últimas bolas. Lucien inclinou-se sobre a mesa e deu a tacada. A bola atravessou a mesa como um raio, bateu na segunda, depois na outra, e ambas desapareceram nas caçapas. — Eu também desperdicei minha juventude. Após as risadas cederem, Clare deu um suspiro. — Bem... Acho que vou me recolher. Vocês dois devem ter muito que conversar. Nicholas passou um braço em torno de seus ombros. — Não vá ainda. Quero perguntar a Lucien sobre Michael Kenyon, e a resposta também lhe interessa. Lorde Strathmoor franziu a testa, mas nada disse até que os três estivessem confortavelmente instalados na biblioteca; ela e Nicholas sentados em poltronas adjacentes, enquanto ele descansava em um sofá oposto. Os homens optaram por beber conhaque e Clare por um cálice de xerez. Um fogo baixo na lareira aquecia e iluminava o cômodo, criando uma atmosfera calorosa e tranquila. Após uma breve descrição da situação na mina de Penreith, Nicholas suspirou. — Michael parece ter abandonado completamente o negócio, o que não é de seu feitio. Sabe onde ele está agora? Não temos contato desde que saí da Inglaterra, mas gostaria de vê-lo em breve, se possível. Lucien ergueu as sobrancelhas. — Não sabia que ele voltou para o Exército? — Meu Deus, eu não fazia ideia! Quando Michael entregou a patente, jurou que estava farto de ser soldado. — Sem dúvida ele quis dizer isso no momento, mas acabou assumindo outro posto, não muito tempo depois que você saiu do país. Nicholas torceu os lábios, e Clare viu a preocupação em seus olhos. — Não está querendo me dizer que o aquele tolo foi morto, está?


— Não se preocupe, Michael é indestrutível. Ele passou a maior parte dos últimos quatro anos lutando contra os franceses na península. É major, agora, e uma espécie de herói. Nicholas sorriu. — Isso faz bem o gênero dele. De qualquer modo, é melhor que dê vazão a esse temperamento feroz contra o inimigo em vez de com os amigos. Lucien rodou o conhaque ao redor da taça. — Por falar em temperamento, você e Michael perderam o contato porque tiveram alguma briga? — Não. Na verdade, eu mal o vi alguns meses antes de sair do país, embora ele estivesse em Penreith na maior parte do tempo. Michael andava muito envolvido com seus planos de melhorias para a mina, por isso é tão surpreendente que a tenha negligenciado desde então. — Inconscientemente, Nicholas segurou a mão de Clare. — Onde ele está agora? Com o Exército na França? — Não. Está com sorte... No inverno, Michael teve uma febre no acampamento, e foi enviado para casa por ordem de Wellington. Ele está em Londres, já recuperado, embora ainda em licença médica. — Lucien ficou em silêncio e contemplou, pensativo, o cálice de conhaque. — Você o viu e está preocupado com ele — Nicholas adivinhou. — O que aconteceu, afinal? — Muita guerra, imagino — Lucien murmurou. — Eu o encontrei no parque, andando a cavalo. Michael está magro e me pareceu meio desarvorado. Até meio fora de si. O país pode ter se beneficiado de seu serviço militar, mas creio que ele não. — Michael está hospedado no Solar Ashburton? Quero lhe fazer uma visita. — Não, ele alugou um quarto, mas não sei onde. Ficou feliz em me ver, mas não me deu qualquer informação... Parece uma raposa que foi para a toca. Embora esteja em Londres há vários meses, não faz


nada para tentar rever os velhos amigos. — Você pode descobrir onde ele está hospedado. Sempre sabe tudo sobre todos. — Mas eu raramente digo tudo o que sei. — Lucien ergueu os olhos muito claros, e estes brilharam à luz do fogo. — É melhor não tentar vê-lo. Quando Michael e eu estávamos conversando, seu nome surgiu não sei por quê, e ele só faltou arreganhar os dentes... Ao menos foi essa a impressão que eu tive. Os dedos de Nicholas apertaram os de Clare. — É preocupante que Michael esteja tendo esses acessos de raiva, mas precisamos conversar sobre a mina em Penreith. Se ele não quiser cuidar mais dela, podemos cancelar o contrato de arrendamento. São minhas terras e meu povo. Não vou permitir que as coisas continuem assim. Clare o fitou, surpresa com a intensidade das palavras. Era como se Nicholas tivesse assumido sua causa por completo apesar de sua ameaça de ir embora caso ela o deixasse. — Você é tão teimoso quanto Michael — reclamou Lucien com um traço de exasperação. — Se a coisa vai ferver, então é melhor que se reúnam em um lugar público. Rafe vai dar um baile na semana que vem, e Michael disse que iria. Claro que também será convidado assim que Rafe souber que já voltou. — Perfeito. — Nicholas relaxou e sorriu para Clare. — Os bailes de Rafe são famosos. Aposto que você vai adorar. Lucien franziu o cenho. — Não sei se esse é o tipo de evento ao qual deveria levar a srta. Morgan. — Não? — O olhar de Nicholas denotava desafio. — A alta sociedade pode não aprovar muito os eventos promovidos por Rafe, mas ele jamais partiria para a vulgaridade. Acho que Clare vai gostar. — Mesmo assim, não será lugar para uma moça solteira e respeitável.


— Mas eu não sou respeitável — volveu Clare com cinismo, pondose de pé. — Nicholas pode lhe contar acerca disso se estiver curioso... Foi um prazer conhecê-lo, lorde Strathmoor. Nicholas, nós nos veremos amanhã. Ele também se levantou. — Volto em um instante, Luce... Nicholas a acompanhou até o corredor e fechou a porta para a biblioteca. — Achou mesmo que iria escapar sem me dar o meu beijo do dia? Ela riu. — Eu estava torcendo para que você não se esquecesse. — Deixou-se abraçar e ergueu o rosto para o dele. Como sempre, o beijo foi inebriante e mexeu como todo o seu corpo. Ousado, Nicholas a segurou pelas nádegas e a pressionou contra ele. Clare quase o empurrou, mas então pensou, travessa, que Nicholas teria que retornar para a companhia do amigo em breve, por isso era seguro provocá-lo de uma forma que ela não ousaria fazer em outra situação. Delicadamente, mordiscou seu lábio inferior com os dentes. Ele ofegou e começou a acarinhá-la com mais volúpia, o corpo rijo investindo contra o dela como se estivesse tentando absorvê-la. Mesmo espantada com a própria ousadia, Clare se viu deslizando a mão para baixo até tocar a alarmante extensão que a pressionava. Esta pareceu ficar ainda mais rija, e o corpo másculo ainda mais tenso. — Luce que vá para casa! Vamos continuar isto lá em cima — decidiu ele com um suspiro. Um pouco perturbada com a intensidade de sua reação, Clare se desvencilhou do abraço. — Não deve ser rude com um amigo que não vê há anos — replicou meio sem fôlego. Conforme começou a subir a escada, Nicholas a segurou pela mão


e a fez se virar para ele. — Posso me juntar a você mais tarde e mostrar o que vem depois? — indagou com voz rouca. Ela sentiu um arrepio. Em parte por medo, em parte por emoção. Estava cutucando um tigre com vara curta e, se não tomasse cuidado, este iria jantá-la. Soltando-se, esboçou um sorriso. — Depois de um dia tão cansativo, preciso dormir uma noite inteira. — Logo vai dizer “sim”... — Os olhos negros se fixaram nos dela, exigentes e, ao mesmo tempo, promissores. — Eu juro. — Não conte com isso, Nicholas Davies. Lembre-se: seu objetivo é me seduzir, e o meu é levá-lo à loucura. Ele caiu na risada. — É mesmo uma sirigaita, Clare Morgan. Mas este é um jogo que pretendo vencer. Clare deu-lhe o mais doce dos sorrisos. — Prepare-se para o fracasso, milorde. — Em seguida, ainda sentindo o sangue correr quente pelas veias, correu escada acima. Sua excitação durou até que entrou no quarto. Após trancar a porta, encostou-se à madeira e permitiu que o olhar viajasse pelo cômodo suntuoso. Querubins dourados em relevo no teto, cortinas de veludo da mesma cor pendendo da cama esculpida, seus pés repousando sobre um tapete chinês que provavelmente custara mais dinheiro do que ela jamais iria ganhar em toda a sua vida... Santo Deus!, pensou, franzindo a testa, desorientada. O que a simples e sensível Clare Morgan, de Penreith, fazia em um lugar como aquele? Apenas boas intenções a tinham levado a procurar Nicholas a princípio, mas fora a raiva que a fizera concordar com aquele desafio diabólico. Desde então, eles dois vinham circundando um ao outro em uma dança elaborada, avançando e recuando, para depois se


aproximarem ainda mais. E, no centro daquele círculo, jazia a ruína. Tanto a espiritual como a social. Ainda assim, ela continuava dançando porque nunca se sentira tão viva na vida. Se todo o pecado era tão doce, tão emocionante, não admirava que a humanidade fosse uma raça de pecadores. Por um instante, Clare imaginou o pai parado à sua frente, fitandoa com uma decepção que feria mais do que a raiva teria ferido. Sabia que não estava correspondendo às suas expectativas. Nunca fora capaz disso, e, desde que se unira a Nicholas vivia cheia de orgulho, ira e luxúria. Uma onda de desolação a envolveu. Pela primeira vez desde que deixara Penreith, ajoelhou-se e tentou rezar. Pai Nosso, que estais no céu... Mas o Pai Celestial não a ajudou. Não quando deparara com a realidade quente e sólida de Nicholas. Ele a queria. E embora seu desejo pudesse ser passageiro, assim como a vontade de ganhar aquele jogo insano, era real e poderoso. Ninguém jamais a desejara tão intensamente. E significava muito para ela ser desejada. Seria mais fácil resistir a Nicholas se ele fosse mesmo do mal. Contudo, ele não era mais demônio do que ela era uma santa. Nicholas podia ser pagão e amoral, mas também fora gentil com ela. Às vezes, sentia nele uma solidão tão grande quanto a sua. E estava aprendendo que a solidão podia ser ainda mais devastadora do que o desejo. Clare tentou forçar a mente de volta para a oração, porém esta se perdeu outra vez. E não nos deixeis cair em tentação... Era tarde demais, pois a tentação a cercara. E ela suspeitava de que a principal razão por ainda não ter sucumbido era sua vontade de derrotar Nicholas naquele jogo. Se fosse honesta, teria de admitir que a virtude tinha muito pouco a ver com a sua resistência.


Se conseguisse preservar a virgindade, seria capaz de voltar a Penreith e enfrentar os rumores, pois sua consciência estaria limpa. Mas, o que seria dela caso se entregasse? Não conseguia se imaginar voltando para sua antiga vida como uma mulher arruinada. No entanto, não poderia haver futuro para ela com Nicholas, que a queria em sua cama principalmente para provar que podia fazer isso. Casamento estava fora de questão, e ela jamais poderia viver como sua amante, mesmo se ele continuasse a desejá-la. Abandonando a Oração do Senhor, fez-Lhe um pedido silencioso, do fundo do coração. Querido Deus, ajude-me a encontrar forças para romper com essa dança perigosa antes que eu me arruíne! Repetiu as palavras mais uma vez, e outra, na prece mais fervorosa de sua vida. Mas, embora se mantivesse em silêncio e escutasse, não houve nenhum sinal de que alguém a tinha ouvido. Não sentia nenhuma presença, nenhuma certeza de que caminho deveria seguir. Estava sozinha e sem qualquer orientação. A única realidade era a imagem daquela dança sedutora que protagonizara com Nicholas, a qual denotava escuridão, perigo e desejo. Clare se pôs a chorar com o rosto afundado nas mãos, sentindo-se mais sozinha do que nunca. Quando Nicholas readentrou a biblioteca, Lucien servia conhaque em ambas as suas taças. — A srta. Morgan disse não ser uma mulher respeitável e que você poderia me explicar isso se eu estivesse curioso. — Tomou um gole do conhaque. — O que eu estou... e muito. Em frases sucintas, Nicholas explanou a barganha que ele e Clare tinham feito: a presença dela em troca de sua influência na melhoria da vida dos moradores de Penreith. Embora ele não tivesse dado nenhum detalhe, quando terminou Lucien praguejou baixinho. — Maldição, Nicholas, que diabo deu em você? Já teve a sua cota


de aventuras, mas eu nunca soube que tivesse levado uma inocente para a ruína! — Clare não é nenhuma inocente — ele retrucou. — Ela tem vinte e seis anos de idade e teve educação o bastante para ser considerada sábia e até cabeça-dura. Está comigo por sua livre e espontânea vontade. — É mesmo? — Os olhos muito verdes de Lucien pareceram escurecer. — Se está com vontade de se vingar das mulheres, encontre uma cadela que mereça isso. Não arruíne uma moça decente, usando sua consciência e generosidade contra ela mesma. Nicholas pousou a taça de conhaque sobre a mesa lateral com um baque. — Maldição, Luce, eu nunca lhe dei o direito de me censurar! Por isso mesmo sempre agi como amador em vez de se tornar um membro oficial da sua organização. Lucien ergueu a mão. — Pax, Nicholas. Eu particularmente não aprecio esse tipo de intromissão na vida alheia, mas estou preocupado com a situação e, pelo visto, ninguém mais vai falar em nome da srta. Morgan. — Eu não tenho nenhuma intenção de prejudicá-la. — Mas já prejudicou. Sabe muito bem como são os rumores em um vilarejo. Será muito difícil para ela voltar à sua antiga vida. Nicholas se levantou e caminhou pela biblioteca. — Ótimo. Assim ela pode ficar comigo. — Como concubina? — Lucien se surpreendeu. — Por que não? Eu poderia fazer pior... e já fiz muitas vezes. — Se está se sentindo assim acerca da menina, então é melhor que se case com ela. — Nunca — Nicholas negou categoricamente. — Eu já me casei uma vez, e já foi demais. Após um longo silêncio, Lucien suspirou. — Eu sempre quis saber o que aconteceu entre você e a bela


Caroline. Nicholas fez meia-volta e olhou para o amigo, a expressão tensa. — Luce, a única maneira de uma amizade sobreviver é tendo limites que não podem ser ultrapassados. Se dá valor à nossa, cuide da sua vida. — Obviamente a coisa foi pior do que eu suspeitava... De qualquer forma, eu sinto muito. — Não sinta. Ao menos Caroline teve a consideração de morrer. — Nicholas tornou a apanhar a taça e, em seguida, levantou-a em uma saudação cínica. — A Caroline, que me ensinou muitas lições úteis sobre a vida e o amor. — Bebeu o restante do conhaque em um único gole. Lucien o observou em silêncio. Imaginara que quatro anos tivessem sido suficientes para Nicholas se recuperar do desastre que o fizera fugir da Inglaterra, mas aparentemente isso não tinha acontecido. Começou a ficar tão preocupado com Nicholas quanto estava com Michael. Mas ele próprio aprendera muitas lições naqueles últimos anos. Uma delas era que não havia muito que um homem pudesse fazer por um amigo... exceto ser um amigo.


Capítulo XV Clare dormiu pouco, mas no escuro da noite acabou reencontrando algum equilíbrio. A boa metodista deveria se guiar por seu autoconhecimento, e a única certeza que tinha era que queria ficar com Nicholas tanto quanto lhe fosse possível. Não como uma amante. Duvidava de que fosse capaz de perdoar a si mesma por tal lapso moral. Quando relembrava os momentos que passara com ele, entretanto, as cenas se reproduziam em sua mente em cores vivas, enquanto as do restante de sua existência surgiam apenas em tons de cinza. Encontrava-se com certeza na metade da vida, e pressentia que, quando aqueles três meses findassem, nada nem ninguém jamais a afetariam tanto como o Conde Cigano. E, sendo esse o caso, uma vez que já estava condenada ao inferno, poderia muito bem aproveitar o tempo com ele em vez de repreender a si mesma por sua vileza. Afinal, teria o resto da vida para se arrepender. Embora houvesse se vestido com esmero, imaginou que Nicholas iria dormir até tarde, já que devia ter ficado acordado até altas horas na companhia de lorde Strathmoor. Ficou surpresa, portanto, quando ele emergiu da sala de almoço quando ela desceu a escada, foi ao seu encontro e bloqueou-lhe o caminho. Sem dizer uma palavra, puxou-a para os braços e a beijou. O fato de ela estar um degrau acima, o que os deixava quase da mesma altura, revelou-se muito conveniente. Havia ternura no abraço de Nicholas, e uma surpreendente ponta de saudade. Quando colocou os braços ao redor de seu pescoço, Clare se perguntou se ele também tinha se sentido sozinho durante a noite. O beijo acabou, e eles continuaram nos braços um do outro. — Reivindicou seu beijo muito cedo — disse baixinho. — Gosto de surpreendê-la. Se quiser outro, hoje, terá que tomar a


iniciativa. Prometo cooperar se estiver disposto... — provocou, e apesar das palavras leves, seus olhos procuraram os dela, atentos. — Terei de cuidar de negócios na maior parte do dia, mas estarei de volta no final da tarde. Há algo em especial que gostaria de fazer esta noite? — Sempre tive o desejo secreto de visitar o Anfiteatro Astley — confessou Clare. — Seria possível? Os olhos dele brilharam. — Gosta de palhaços e espetáculos equestres? Perfeito. Deve haver uma apresentação esta noite. Pense sobre o que mais gostaria de ver em Londres. Se quiser, há guias na biblioteca. Ele passou um braço em torno de sua cintura e ambos caminharam lado a lado até a mesa do café da manhã. E o dia definiu o padrão para a semana. Nicholas passava parte de seu tempo cuidando dos negócios e o restante com Clare. E parecia estar gostando de ver os pontos turísticos de Londres tanto quanto ela. No período da manhã, cavalgavam juntos no parque e, na parte da tarde, visitaram de tudo: as joias da Coroa na Torre, o Egyptian Hall, o Week’s Mechanical Museum, que exibia um assustador relógio em forma de tarântula. Clare se recusou a ir ao museu de cera de Madame Tussaud, sabendo que as representações das vítimas da Revolução Francesa lhe dariam pesadelos, e Nicholas a levou a marceneiros e lojas de tecido para que ela pudesse escolher o novo mobiliário para Aberdare. Por várias vezes Lucien se juntou a eles para o jantar, seu humor requintado contrastando com o entusiasmo de Nicholas. Sua atitude para com ela era cortês e até um pouco protetora, como se ele fosse seu irmão mais velho. E, embora Clare achasse seu modo reservado um pouco intimidante, gostava muito dele. Por questões de segurança, tentou manter as sessões de beijo mais leves e divertidas. Nicholas não a forçava a nada, embora suas mãos cobrissem extensões cada vez maiores de seu corpo, e ela se encontrasse pouco inclinada a fazê-lo se comportar.


Ao final, foi uma semana idílica, embora Clare suspeitasse de que aquela era a calmaria antes de uma tempestade que se aproximava. Qual forma a tormenta tomaria, ela não podia adivinhar. Por isso tratou de não se preocupar com aquilo. O tempo continuava correndo, e o melhor que poderia fazer era aproveitar cada minuto com Nicholas. — Só mais um momento, senhorita... — A criada lidou com um último grampo. — Pronto. Perfeito! Clare estudou seu reflexo, impressionada. A moça havia prendido seus longos cabelos em cachos macios que se mostravam elegantes sem ser rígidos demais. — Trabalhou muito bem, Polly! Eu estava com medo que fizesse algo como um ninho de pássaro na minha cabeça. — Não faz muitos anos que as mulheres usavam esses ninhos na cabeça, para não falar de barcas e vasos de flores frescas! — Polly concordou, brincando. — Minha avó era criada de uma dama, e me contava histórias absurdas sobre aquelas perucas velhas. — Polly ajeitou alguns fios. — Mas você tem cabelos maravilhosos, tão espessos e brilhantes! Um estilo simples irá exibi-los melhor. — Agora, o principal... — Clare se levantou e ergueu os braços enquanto Polly a ajudava a colocar o traje de seda azul sobre a cabeça. O vestido tinha sido entregue naquela tarde, bem a tempo para o baile do duque de Candover. E aquela era a primeira vez que ela o experimentava. Enquanto Polly prendia ganchos e amarrava fitas às suas costas, Clare acariciou a saia, adorando a textura macia e exuberante do tecido. Aquela noite provavelmente seria a única em que ela iria usálo, uma vez que duvidava de que ainda fosse ter algum baile no futuro. Quando Polly terminou, Clare se virou para o espelho. Aquele era seu primeiro traje de noite formal, e ela ficou chocada com sua imagem de corpo inteiro. Parecia uma estranha... Mas uma estranha provocante e sofisticada.


Vendo sua expressão, a criada sorriu, encorajadora. — Está esplêndida, senhorita! — Eu nem me reconheço. — Os tons cintilantes e iridescentes da seda destacavam o tom delicado de sua pele, e seus olhos brilhavam como duas safiras. Virou-se um pouco, observando a forma como a seda se agarrava à sua cintura estreita e, em seguida, se armava sobre seus quadris. Quando se concentrou na extensão de carne nua exposta pelo decote, uniu as sobrancelhas, preocupada. — Como pode uma roupa transformar uma mulher normal em uma assim, tão voluptuosa? — A senhorita é perfeita. Alguns podem até dizer que faz o tipo comum, mas tem curvas o bastante para parecer exuberante no vestido certo, e também para parecer esbelta no restante do tempo. Pode se mostrar da maneira como quiser. Clare balançou a cabeça, em dúvida. — Não sei se vou ter coragem de usar isto em público. — Haverá muitas damas com decotes mais baixos. — Mas serão mesmo damas? — Clare indagou, melancólica. — Isto vai ajudar... Foi Sua Graça quem lhe enviou. — Polly apanhou uma caixa de veludo e a abriu. Clare arregalou os olhos quando viu o colar triplo de pérolas. Nicholas estava mesmo lhe tratando como uma amante, embora não estivesse recebendo nada de mais em troca. Polly levantou o colar e o prendeu ao pescoço de Clare. As pérolas frias lhe acariciaram a pele, sua cor clara combinando com as flores de seda que lhe adornavam os cabelos, e a fizeram sentir-se um pouco menos desprotegida. — Obrigada por seus esforços, Polly. Você conseguiu transformar uma orelha de porco em uma bolsa de seda! A empregada fez um gesto de desconsideração com a mão. — Tudo o que fiz foi melhorar o que a senhorita já tinha. Sei de damas que matariam para ter uma pele como a sua: sem qualquer


vestígio de pó ou ruge. — Mas estou me sentindo uma estranha. Não sei quem é essa mulher — Clare falou, gesticulando em direção à própria imagem. — Essa é a senhorita, embora, talvez, não a com que esteja familiarizada... — Polly franziu o cenho. — Deve haver uma maneira melhor de explicar isso, mas eu não conheço. O relógio bateu nove horas, e Clare suspirou. Precisava descer para encontrar Nicholas. Com um lindo xale de cashmere creme ao redor dos ombros, saiu para o corredor e desceu a escada. Nicholas a esperava na sala logo abaixo, parecendo ainda mais devastadoramente bonito do que o habitual. Como sempre, vestia preto contrastando com a camisa branca e um colete bordado desta mesma cor. Ao escutar seus passos, olhou para cima sorrindo. — Ninguém lhe explicou que uma dama nunca é pontual, Clare? — Eu não sou uma dama. Nicholas fez menção de responder, mas, quando ela entrou no círculo de luz da lamparina, ele prendeu a respiração. — Decididamente, ninguém que a vir vai acreditar nisso. O claro desejo em seus olhos a embaraçou, ao mesmo tempo que a fez sentir-se muito feminina. — Não vai mentir a si mesmo dizendo que estou bonita, vai? — ela não pôde deixar de dizer enquanto descia os últimos degraus. — Não está bonita... O coração de Clare se contraiu, entretanto, ela não queria que ele fosse hipócrita. — Está irresistível — completou Nicholas, tirando-lhe o xale a fim de rodeá-la. — Deve ser alguma feiticeira. — O xale escorregou para o chão e se agrupou em torno de suas chinelas delicadas. Sem se importar, ele se inclinou e tocou o ponto sensível entre seu pescoço e queixo com lábios quentes. — Uma mistura poderosa de inocência e sensualidade...


Uma sensação estranha e intoxicante a fez estremecer. De repente, Clare sentiu que era realmente aquela mulher do espelho: sedutora, feminina, capaz de lidar com as regras do jogo sensual imposto por Nicholas. Era como se estivesse possuída pelo espírito de outra mulher... E uma mulher nada respeitável. — Estou feliz que tenha aprovado. — Ergueu a mão e traçou os planos do rosto moreno e recém-barbeado com a ponta dos dedos, tomando o cuidado de não amassar as dobras impecáveis da gravata de seda. — Já mencionei que é, sem nenhuma dúvida, o homem mais belo da Grã-Bretanha, se não de toda a Europa? Ele riu e estendeu a mão para ela. — Vamos continuar essa troca de cumprimentos lá em cima? Clare se esquivou graciosamente, sabendo que seu movimento iria liberar mais da deliciosa fragrância de rosas que Polly havia sugerido. — Já é hora de irmos. Não podemos perder a chance de encontrar lorde Michael. — Está aprendendo rápido a ser sedutora, Clarissima — ele murmurou, o rosto marcado pelo desejo e uma ponta de divertimento. — Meu professor é dos melhores. Ele riu, em seguida apanhou o xale e o colocou em seus ombros. Apenas o roçar de suas mãos fez uma onda de fogo correr pelas veias de Clare. Ligeiramente ofegante, ela aceitou o braço que Nicholas lhe oferecia, e eles rumaram para a carruagem. — Por que lorde Strathmoor afirmou que não deveria me levar a esse evento? — Clare perguntou tão logo eles se instalaram no interior do veículo. — O duque é mesmo dado a orgias? — Deixou a mão pousar sobre a dele e a acariciou com o polegar. — Nada disso. Porém é verdade que poucas famílias deixam suas filhas solteiras participar das festas de Rafe. Nos eventos que ele promove é comum que um cavalheiro leve sua amante e acabe encontrando a própria esposa com o dela... — Nicholas riu, entrelaçou


os dedos com os de Clare e descansou ambas as mãos sobre os joelhos. — A maioria das mulheres que frequentam seus bailes é da alta sociedade, mas algumas são cortesãs de luxo. — E como se pode distingui-las? — As mais extravagantes são as das altas-rodas, acredite — ele explicou. — As prostitutas são mais discretas. Clare sorriu. Na penumbra da carruagem, era fácil flertar com Nicholas. Polly tinha razão: a mulher provocante no espelho era real... uma parte perigosa dela mesma que não conhecia. Deixou o joelho roçar no dele como se por acaso, e surpreendeu-se ao perceber que não sentia a menor culpa. Decididamente, não se arrependia do que estava se tornando. Em meio à escuridão, a boca de Nicholas encontrou a dela num beijo longo e atordoante que se intensificou quando ele deslizou a mão sob o xale e acariciou seus ombros nus. Trinta segundos mais, e ela iria derreter a seus pés e deixá-lo fazer o que bem entendesse. Lembrando-se de que o ataque era a melhor forma de defesa, colocou a mão na coxa firme e a apertou. Um tremor varreu Nicholas dos pés à cabeça. — É mesmo perigosa, Clare Morgan! — falou com voz rouca, segurando-lhe um seio. — Quer saber até que ponto é possível irmos em uma carruagem? Ela sorriu. — Você disse que a casa do duque era bem próxima da sua... — Não foi isso o que eu quis dizer, e sabe muito bem, espertinha. O mamilo endurecido sob seu polegar o provocou através da seda. Mais um pouco, e eles estariam testando os limites do coche de verdade. — Hora de parar, acho. — Ela respirou fundo. A mão de Nicholas deslizou para o território mais seguro de sua cintura.


— Pelo resto da noite? Ela pensou por um momento. — Por hora. É muito cedo para desistir disso pelo resto da noite. — Estou perfeitamente de acordo. Nicholas se recostou outra vez no assento de veludo, porém manteve a mão na sua. Enquanto Clare estabilizava a própria respiração, percebeu que a confiança era o que tornava aquele relacionamento possível. Sempre que ela pedia a Nicholas que parasse, ele obedecia; e seu autocontrole dava-lhe liberdade para desempenhar o papel de sedutora. Sorriu para a escuridão, perguntando-se qual seria a fase seguinte daquele jogo.


Capítulo XVI Enquanto esperavam na pequena fila de recepção em Candover House, Clare se inquietou. — Já viu o duque depois que voltou a Londres? — Fiz uma visita, mas ele não estava, então lhe deixei uma carta. — Nicholas sorriu. — Rafe enviou uma mensagem, convidando-me para o baile, e ameaçando arrastar-me até aqui pelo colarinho se eu não viesse. — Vocês provavelmente não conseguirão fazer muita coisa, exceto dizer “olá” um para o outro — ela lamentou. — Eu sempre ouvi dizer que um baile em Londres tem que ser muito grande para ser considerado bom. — Rafe não segue modismos, ele os define. E como não gosta de multidões, suas festas são menores e mais confortáveis, o que as torna mais exclusivas também. Clare deu-lhe um olhar provocante. — Será que ele não se preocupou em convidar moças solteiras, uma vez que estas normalmente não estão autorizadas a vir? — Rafe não tem interesse em donzelas comportadas — garantiu Nicholas. Apontando para a mulher de pé ao lado do anfitrião, acrescentou: — Aquela é lady Welcott, sua amante atual, de acordo com Lucien. — Uma mulher casada? Nicholas concordou com um gesto de cabeça. — O único tipo de mulher em que Rafe tem interesse. Elas conhecem as regras e não lhe causam problemas se apaixonando por ele. — O adultério é um modo de vida na sociedade moderna? — Clare indagou, seca, soando exatamente como a filha de um pregador. Ele deu de ombros. — Uma vez que muitos casamentos aristocráticos são feitos por


interesse, não é de surpreender que as pessoas procurem opções para o prazer. Por isso Nicholas tinha sido infiel à esposa? Nem mesmo vestida como estava, e segura de si, Clare teve coragem de fazer tal pergunta. — Com certeza, o duque está em condições de se casar com uma mulher de sua escolha, e não por questões de dinastia — comentou em vez disso. — Mas chegou perto disso uma vez. Apaixonou-se perdidamente por uma garota quando já havia deixado Oxford. Eu nunca a conheci porque ainda estava na universidade, mas ele me escreveu contando que a moça era uma verdadeira deusa, e que ficariam noivos quando a temporada acabasse. Foi a única vez em que Rafe me pareceu impressionado. — Será que a menina morreu e ele nunca mais conheceu outra mulher igual? — Clare perguntou em tom de brincadeira. — Não... Ela o traiu. — Nicholas respondeu com um brilho estranho nos olhos. — Mas, então, o amor não é assim? Clare sentiu como se todo o ar houvesse sido arrancado de seus pulmões. — Essa foi, sem dúvida, a observação mais cínica que já ouvi na vida. — É mesmo? Pois minha experiência diz o contrário. Todas as que juraram me am... — Ele se interrompeu de súbito. Percebendo que Nicholas tinha exposto uma das dolorosas verdades que o haviam transformado naquilo que ele era, Clare tomou-lhe a mão. — Suponho que muitas pessoas digam que amam quando o que sentem é carência, ou desejo de controle, ou outro motivo igualmente egoísta — falou, pensativa. — No entanto, também existem pessoas como Owen e Marged Morris, Emily e Robert Holcroft. Acha mesmo que o amor envolve apenas traição?


A mão dele apertou a sua. — Não, não acho. Talvez o amor sincero seja um talento, ou apenas uma sorte que algumas pessoas têm e outras não. — Também já pensei assim — confessou Clare, melancólica. — Mas, se não acreditarmos no amor, no que poderemos acreditar? — Na amizade, imagino — ele respondeu. — Menos mal que se possa acreditar na amizade... ainda que a amizade profunda também seja uma forma de amor. — Creio que sim. — Nicholas esboçou um sorriso cínico. — Mas, como o que está em jogo é bem menos arriscado, a traição nesse caso também é menos provável. Chegaram à ponta da linha de recepção, e Clare pôde ter sua primeira visão clara do duque de Candover enquanto ele conversava com o casal à sua frente. Era alto, bonito e quase tão moreno quanto Nicholas, com um ar aristocrático que lhe era tão natural quanto respirar. Educado, agradável, contido... a imagem do cavalheiro inglês. Os convidados seguiram em frente, e o duque se virou para eles. Seu rosto iluminou-se no mesmo instante. — Nicholas! Fico feliz que puderam vir. — Apertou-lhe a mão com verdadeiro entusiasmo. — Provavelmente não teremos muito tempo para nos falar esta noite, então espero que vá almoçar comigo no White’s amanhã. Assim como Clare havia aprovado Lucien por ter lutado para defender Nicholas na escola, também gostou do duque por seu evidente prazer no reencontro. Embora Nicholas não tivesse uma opinião muito favorável ao amor, com certeza tinha o dom de fazer bons amigos. — Rafe, esta é minha amiga, a srta. Morgan — apresentou, puxando-a para a frente. Sua conversa anterior acabara dando a Clare uma nova perspectiva do que a amizade significava para ele, portanto ela sorriu. — É um grande prazer, Vossa Graça.


O duque se curvou. — O prazer é todo meu, srta. Morgan. — Ao contrário dos de Nicholas, seus olhos eram de um cinza tipicamente inglês, e ela viu curiosidade e aprovação em suas profundezas. — Lady Welcott, o conde de Aberdare e a srta. Morgan — ele concluiu as apresentações. A amante do duque era vários anos mais velha do que ele. Devia ter seus quarenta anos, e era uma mulher atraente, de cabelos claros e ar sofisticado. Do tipo que caía de amores apenas por homens que gostavam de emoções fortes. Clare pensou na “verdadeira deusa” que tinha levado Rafe àquele tipo de relacionamento e reprimiu um suspiro. Pobre duque. Tanta gente queria amor, mas nunca parecia haver o bastante por perto. Lady Welcott deu um aceno superficial a Clare, porém seus olhos cintilaram quando se virou para Nicholas. — Lorde Aberdare... — saudou, calorosa, estendendo a mão. — Pode não se lembrar, mas nós nos conhecemos quando ainda era o visconde Tregar. Em Blenheim, creio eu. Nicholas se curvou sobre sua mão. — Claro que me lembro. Nunca me esqueço de uma mulher bonita. Lady Welcott era demasiado fina para sorrir com afetação, embora na opinião de Clare ela tivesse feito exatamente isso. — Agora que voltou para a Inglaterra, espero vê-lo mais em Londres — intimou, abanando o leque com uma graça estudada. — Sem dúvida. — O sorriso de Nicholas foi encantador. Sempre era. Ao contrário do duque, que parecia até se divertir com a situação, Clare teve que reprimir a vontade de chutar Nicholas, ou lady Welcott, no tornozelo. Ele lançou-lhe um olhar zombeteiro, e ela teve a certeza de que Nicholas havia lido seus pensamentos. — Estamos segurando a fila... — avisou, educado. — Se não tivermos a oportunidade de conversar esta noite, Rafe, eu o verei


amanhã no White’s. Pegou o braço de Clare e a conduziu até o enorme saguão de entrada. Em seguida, virou à esquerda em direção ao salão. — Para se ter sucesso na sociedade, Clare, deve aprender a controlar sua expressão. Fiquei com medo de que fosse morder lady Welcott. — Não tenho a menor pretensão de ascender socialmente — ela volveu com azedume. — Sem dizer que foi muito rude por parte da amante senil de Sua Graça ficar babando em cima de você na minha frente. Ele sorriu. — Estou detectando uma ponta de ciúme? Pensei que esse fosse um dos sete pecados capitais... — Ciúme não é pecado capital, e sim a inveja, a cobiça, a luxúria, a ira, a gula, o orgulho e a preguiça — retrucou ela, exasperada. — Conheço bem essa lista... — Os olhos dele sorriram, travessos. — Todo mundo precisa de objetivos na vida. Clare teve que rir. — Você é uma vergonha! — Eu tento ser — Nicholas respondeu com falsa modéstia. Passaram através de um arco de flores vermelhas que dava no salão principal, onde homens e mulheres muito bem vestidos dançavam. Embora aquele fosse o primeiro grande evento social de Clare, o que mais chamou sua atenção não foram as pessoas, e sim a decoração. As paredes e o teto elevado tinham sido pintados de preto, o que absorvia grande parte da luz dos candelabros e dava ao lugar uma atmosfera misteriosa e sombria. Mas a escuridão também fazia um pano de fundo espetacular para as estátuas de mármore bem-iluminadas que se erguiam em pedestais em torno da sala. Todas eram esculturas de mulheres em tamanho natural, vestindo apenas túnicas drapejadas que deixavam grande parte de seus corpos à mostra. — Os gregos e romanos eram mesmo uns artistas, não? — comentou, impressionada.


Nicholas sorriu. — Observe melhor as estátuas... Clare fez como ele sugeriu, então quase engasgou quando uma das figuras mudou de posição. — Deus Misericordioso, elas estão vivas! — Rafe gosta que seus bailes sejam memoráveis. — Nicholas apontou para onde uma das “estátuas” conversava com um homem encostado ao pedestal, logo abaixo dela. — Provavelmente são damas da noite, que estão sendo muito bem pagas para se cobrir com alvaiade e ficar paradas nos pedestais. Imagino que o colega, ali, esteja tentando fazer um acordo especial com a sua ninfa favorita. — O duque não vai se importar? — Bem, sem dúvida Rafe não gostaria que sua estátua saísse daqui agora, direto para uma alcova com um convidado, mas imagino que eles poderão fazer o que quiserem quando o baile chegar ao fim. Abismada, Clare assistiu a falsa escultura piscar uma pálpebra branca para o cavalheiro que acariciava seus pés, a veste reduzida deixando claro que sua figura marcante não se devia a nenhum artifício. — Estou começando a entender por que a maioria das pessoas não traria suas filhas aqui — comentou, nervosa. Os músicos postados em uma plataforma começaram a tocar, e um grupo de dança se formou de pronto, com homens e mulheres se posicionando em filas opostas. Enlevada, Clare viu-se acompanhando o ritmo animado com o pé. — Gostaria de dançar? — Nicholas perguntou. — Eu não sei dançar — respondeu ela, incapaz de manter o pesar longe da voz. — Ah... Eu tinha me esquecido de que os metodistas não dançam. — Ele a observou, vendo que ela ainda perseguia o ritmo discretamente. Quando Clare escondeu a sapatilha sob a barra do vestido, sorriu. — Na verdade, essa é uma dança típica bastante


simples. Se assistir uma vez, com certeza poderá participar da próxima. Se sua consciência permitir, claro... Após um momento, ela sorriu de volta. — Minha consciência tem sofrido vários baques nas últimas semanas... Dançar dificilmente pode piorá-la. A primeira dança foi seguida por outra semelhante, e eles se juntaram ao grupo. Foi delicioso, e Clare só tropeçou uma vez, por sorte quando Nicholas estava perto o bastante para ampará-la. Com a culpa reprimida, ela tratou de se divertir. A dança seguinte era uma valsa, assim eles se retiraram para a borda do salão. — Acha que a malfadada valsa vai provocar a queda da civilização ocidental? — provocou Nicholas. — Provavelmente não. — Ela observou os casais deslizando. — Parece-me que deve ser muito bom valsar com um parceiro de quem se goste muito, e bastante desagradável com um de que não se goste. — Se estiver interessada, posso conseguir um professor de dança para lhe ensinar. É um pouco complicado para se tentar sem nenhuma instrução. Era uma oferta tentadora, contudo a consciência de Clare se manifestou mais uma vez. — Obrigada, mas não imagino que vá ter a oportunidade de valsar no futuro. — Veremos — Nicholas respondeu, misterioso. De súbito, uma ruiva voluptuosa gritou e correu na sua direção. Ignorando Clare completamente, ela o abraçou. — Velho Nick, meu querido, você voltou! Precisa me fazer uma visita: Hill Street, número doze! Meu atual protetor não vai se importar. Nicholas a afastou delicadamente. — Isso foi o que me disse da última vez, Ileana, e acabei num duelo em Chalk Farms. Sorte minha que seu “ex” era péssimo de mira, pois eu não poderia contestar a justiça de sua queixa.


— Henry não era bom em quase nada... Por isso mesmo eu o convidei daquela vez. — Impenitente, ela bateu com o cabo de marfim do leque dobrado em seu pulso. — Quando poderá ir? — Desculpe, mas ando muito ocupado. — O olhar dele pousou no rosto lívido de Clare. — Além disso, nunca cometo o mesmo erro duas vezes. O coquetismo da ruiva se transformou em um muxoxo. — Eu só estava sendo educada pelos velhos tempos. — Abriu o leque e o abanou, nervosa. — Não que eu precise de você. Meu atual protetor tem um metro e noventa e cinco, e todo o resto é proporcional... Em vez de sentir insultado, Nicholas caiu numa gargalhada. — Se é assim, não devia perder seu tempo com um sujeito reles como eu, Ileana. Os lábios vermelhos da ruiva esboçaram um sorriso relutante e, pela primeira vez, ela olhou para Clare. — Divirta-se enquanto pode, querida... Não há ninguém como Nicholas. Dentro ou fora da cama. Conforme a moça se afastou, rebolando, Clare se voltou para ele, os olhos faiscando. — As mulheres aqui se dividem entre aquelas que você já levou para a cama no passado, e as que esperam ir para a cama com você no futuro? Nicholas reprimiu um sorriso. — É provavelmente um desperdício de fôlego eu lhe pedir para que não fique aborrecida, mas lembre-se de que não aceitei a oferta dela... Embora eu seja culpado de tentativa de sedução, de ter destruído a sua reputação, e de uma série de outras acusações menos importantes, algo que não vou fazer é humilhá-la na frente de outras pessoas. Colocou a mão em sua nuca e a massageou devagar. No mesmo momento, a tensão de Clare começou a diminuir.


Melancólica, ela percebeu o quanto Nicholas a entendia. Embora ela fosse inocente da maioria dos pecados mortais, com certeza era culpada pelo orgulho. Teria sido insuportável se ele houvesse publicamente favorecido aquela ruiva grosseira. — Disse que as cortesãs seriam mais discretas do que as mulheres. — Toda regra tem suas exceções. — Boa noite, Nicholas, srta. Morgan... — Uma voz familiar interrompeu a conversa, e lorde Strathmoor caminhou devagar até eles. — Acho que vi Michael indo para o salão de carteado, embora eu não estivesse perto o suficiente para ter a certeza de que era ele. — Vou atrás dele — Nicholas decidiu. — Fica com Clare até que eu volte? — Claro. Conforme Nicholas atravessava a multidão, Strathmoor suspirou. — Lá vai a prova viva do valor da miscigenação. — Como assim? — Clare indagou, curiosa. Lucien acenou em direção a Nicholas. — Compare-o ao restante desses aristocratas almofadinhas... Ela riu, compreendendo de imediato. Não havia um só homem naquele salão de baile com o magnetismo de Nicholas. — Entendo o que quer dizer. Perto dele, todos parecem sem graça. — Olhou seu companheiro com um suspiro. — Você também é mimado como os outros? — Claro que sim. O fundador da casa nobre de Strathmoor era um barão ladrão e libertino, porém seu sangue se diluiu ao longo dos séculos. Se nos casássemos com uma cigana ou duas poderíamos melhorar bem nossa linhagem. — Ele deu um sorriso angelical. — Como não costumo me deixar levar por minhas paixões, Nicholas sabia que seria seguro deixá-la aos meus cuidados... — Pois, em minha opinião, essa falta de paixão é uma falha em um libertino. — Não sou libertino, exceto por associação. — Ele sorriu. — Mas é


consenso que tenho misteriosos e obscuros segredos. — Então é um mestre em espionagem e não um libertino? — ela replicou, travessa. A leveza de Strathmoor se desfez, e ele franziu o cenho. — Nicholas lhe contou sobre... — Parou e, em seguida, torceu os lábios. — Acho que falei demais. Embora o comentário de Clare houvesse sido em tom de brincadeira, Strathmoor a levou a uma rápida dedução. — Nicholas comentou, uma vez, que suas viagens ao Continente incluíam a coleta de informações e favores a um velho amigo. Uma vez que trabalha em Whitehall, imagino que ele estivesse se referindo a você. — Tem a mente de um oficial da inteligência, senhorita. — O sorriso de Lucien o fez parecer mais jovem e muito menos cansado do mundo. — Embora eu admita que não seja tão inútil quanto pareço, eu apreciaria se mantivesse suas deduções para si mesma. — Essa conversa foi tão evasiva que não posso me imaginar citando-a a alguém, lorde Strathmoor. — Inteligente e discreta... — Ele deu um suspiro elaborado. — Por que não encontro outras mulheres como você? Vou ser obrigado a lhe pedir que me chame de Lucien, como meus amigos fazem. E pretendo chamá-la de Clare, se não se opuser, é óbvio. — Claro que não, Lucien. Ele ofereceu-lhe o braço. — Agora que somos oficialmente amigos, que tal encontrarmos uma taça de ponche? Está um pouco quente aqui dentro. Sorrindo, ela aceitou o convite e eles atravessaram o salão até um nicho onde o vinho jorrava em cascata de uma jarra de cristal empunhada por uma sereia nua. Desta vez era uma estátua de verdade, embora Clare tivesse a certeza de que, se houvesse alguma sereia disponível, o duque a teria contratado. Strathmoor segurou uma taça sob o fluxo de ponche para Clare,


em seguida, encheu uma para si próprio. — Está gostando do seu primeiro baile? — Sim, mas espero que não seja óbvio que não pertenço a esse tipo de ambiente. — Pois parece muito à vontade — ele garantiu. — Ninguém poderia adivinhar que é uma professora de Gales sendo arrastada por um mundo que lhe é totalmente estranho. Lucien acompanhou Clare de volta ao salão para que pudessem observar os dançarinos. — Nicholas merece uma boa surra pelo que está fazendo a você, mas, no fundo, posso entender seu impulso. — Espero que isso seja um elogio. — É claro que é. — Ele ficou sério. — Acho que não preciso lhe dizer que meu amigo é muito mais complicado do que parece. Nicholas sempre foi assim e, depois daquele episódio desastroso de quatro anos atrás, só Deus sabe o que se passa em seu lunático espírito cigano... Ele precisa de algo ou alguém, e você é sua melhor perspectiva. Embora tenha todos os motivos do mundo para se ressentir do que Nicholas está fazendo com a sua vida, espero que seja paciente com meu amigo. — Para ser honesta, devo dizer que esta situação é tão obra minha quanto dele. Eu não tinha nada que lhe pedir ajuda, assim como ele não devia ter me incitado a levar adiante esse desafio ridículo. — Clare pensou sobre o restante do que Lucien havia dito. — De qualquer modo, não sou de muita importância na vida dele, exceto pelo fato de tê-lo envolvido nessa questão de Penreith. — Ela sorriu. — Às vezes, acho que Nicholas não sabe se me trata como amante ou como um animalzinho de estimação. Lucien sorriu, porém balançou a cabeça. — É muito mais do que qualquer uma dessas coisas para ele, embora eu duvide de que ele próprio saiba disso. Os comentários de Lucien eram interessantes, contudo Clare não


acreditava neles. Enquanto bebericava o ponche, decidiu que o galante lorde Strathmoor não passava de um romântico. Era mais fácil crer nisso do que acreditar que ela era importante para Nicholas.


Capítulo XVII Metade dos convidados parou Nicholas no baile para lhe dar as boas-vindas. Além das saudações amigáveis, ele também recebeu três propostas indecentes e cinco não tão contundentes. Sorte sua ter deixado Clare com Lucien. Não que ele se importasse com seu ciúme, o qual ele considerava bastante cativante. A cada dia Clare se tornava mais mulher, e menos a virtuosa professorinha. No momento em que chegou à sala de carteado, Michael Kenyon já havia partido fazia tempo. Aborrecido, Nicholas perguntou a vários conhecidos se o tinham visto, porém ninguém sabia dizer. Por fim, frustrado, ele voltou para a companhia de Clare e Lucien. Quando atravessava o hall de entrada, notou um homem coberto de poeira de viagem sendo admitido no baile e correndo até o duque de Candover, que ainda recebia os retardatários. Ao ouvir sua mensagem, Rafe soltou uma exclamação, em seguida, virou-se e subiu a escada para a plataforma dos músicos de dois em dois degraus. Nicholas tentou adivinhar o que poderia ter despertado tal reação em um homem cuja calma lendária rivalizava com a de Lucien, mas faltou-lhe imaginação. Com um encolher de ombros, adentrou o salão, onde mais uma quadrilha se encontrava em andamento. Demorou alguns minutos para localizar Clare, mas a altura de Lucien e seu cabelo loiro eram inconfundíveis. Conforme se aproximava deles, a música parou no meio. No repentino silêncio, a voz de Rafe retumbou em meio ao baile: — Meus amigos... tenho uma notícia maravilhosa. Nicholas ergueu o olhar e viu o duque já sobre a plataforma, ao lado da pequena orquestra. — Acabei de receber a notícia de que Napoleão abdicou! A guerra está oficialmente terminada! — anunciou o anfitrião, comovido. Num primeiro momento, houve um silêncio atordoado, mas, quando uma única voz se levantou para um viva, as outras pessoas se


juntaram à aclamação, produzindo um rugido que sacudiu as vigas de Candover House. Juntando-se à ovação, Nicholas abriu caminho até Clare. Beijá-la seria uma maneira perfeita de comemorar. Mas, para seu profundo desgosto, Lucien, que se encontrava mais perto dela, tivera a mesma ideia, tomando-a num abraço esfuziante que a ergueu do chão. Tão logo ele a soltou, Nicholas a puxou para os próprios braços, estreitando o olhar para o amigo. — Suponho que seria indelicado arrancar seu fígado, mas da próxima vez que tiver de comemorar, faça-o com sua própria garota. Sem se intimidar, o outro sorriu e bateu-lhe nas costas. — A guerra que vem acontecendo desde que andávamos de calças curtas acabou, meu caro! Apesar de tudo, nós vencemos! Ainda aturdida, Clare abraçou Nicholas e o beijou apaixonadamente. Quando ficou sem ar, sorriu, extasiada. — Embora as forças de Napoleão tenham ficado na defensiva no ano passado, é difícil acreditar que o fim desse tormento tenha chegado! Até que em fim vamos ter paz! Nicholas pensou em todas as áreas devastadas pela guerra que tinha visto na Europa, e seus braços se apertaram em torno dela. — Gra��as a Deus a luta nunca chegou ao solo inglês. Nossas perdas foram mínimas se comparadas às da maioria das nações europeias. — Com sorte, eu nunca mais vou ter que servir ao meu país... — declarou Lucien, travesso. Nicholas riu. — Depois de tudo o que fez pela Inglaterra nos últimos anos, tem o direito de passar o resto da vida descansando. Cenas semelhantes de pura alegria os rodeavam. Ali perto, avistaram um homem mais velho, vestido num uniforme de guarda cuja manga pendia, vazia. Com seu único braço, ele envolveu a esposa


e ambos choraram copiosamente. Até mesmo as “estátuas” abandonaram suas funções e saltaram para o chão a fim de participar da celebração. Novos vivas foram erigidos para Wellington e suas tropas. Nicholas ergueu o olhar para a plataforma onde se encontravam os músicos e enrijeceu. — Não é Michael, ali, conversando com Rafe? Lucien acompanhou seu olhar. — Ele mesmo! Provavelmente quer saber se Rafe tem todos os detalhes. Basta olharmos para nosso amigo para ver que ele pagou um preço muito mais alto do que a maioria por essa vitória. — Com sorte, esse anúncio melhorou seu humor... Segurando a mão de Clare, Nicholas abriu caminho através da multidão em êxtase, com Lucien bem atrás deles. Clare quase teve de correr para acompanhá-lo. Subiram a escada do hall de entrada, em seguida viraram à esquerda em um corredor comprido e mal-iluminado que devia ser paralelo à parede superior do salão de dois andares. No final do corredor, o duque e um homem alto e magro surgiram de uma porta que dava para a galeria dos músicos. Atrás deles, a orquestra começou a tocar uma marcha triunfal que foi abafada quando o duque fechou a porta. Conforme o duque e seu companheiro vinham pelo corredor, falando, entusiasmados, Clare estudou lorde Michael Kenyon. Lucien o havia descrito como um homem esbelto e com cara de mau, e era verdade que sua recente doença o deixara quase esquelético. No entanto, os traços fortes de seu rosto ainda eram bonitos, e ele se movia com a firmeza de um atleta. Era uma adição valiosa para os Anjos Caídos. Principalmente, ela pensou, divertida, por aquele cabelo castanho e brilhante se encaixar bem entre os negros ou loiros dos outros membros. Com seu objetivo em vista, Nicholas diminuiu as passadas.


— Parabéns, Michael. Como um dos homens que lutaram por esta vitória, você tem mais motivos para comemorar do que a maioria. Lorde Michael parou, e a animação em seu rosto desapareceu. Seus olhos eram agora de um verde escuro e sombrio. — Nada como a sua presença para arruinar um momento feliz, Aberdare — disse, áspero. — Nas circunstâncias, vou renunciar ao que jurei fazer se o visse novamente, mas dê o fora da minha vista antes que eu mude de ideia. Nicholas ainda segurava a mão de Clare, e ela sentiu o frio em seus dedos. Percebeu, com dolorosa empatia, que embora Lucien o tivesse avisado, Nicholas não havia acreditado que seu velho amigo se tornara um inimigo. Mesmo agora, não devia acreditar, pois respondeu suavemente: — Estranha saudação essa sua, após tantos anos de distância. Vamos tentar de novo? — Ele se aproximou e estendeu a mão. — Faz muito tempo, Michael. Fico feliz que tenha sobrevivido à península. O outro homem se afastou como se estivesse diante de uma víbora. — Acha que estou brincando? Deve saber que não. — Se há questões a ser discutidas, meu escritório é um lugar melhor do que este salão — o duque os alertou, rígido. E, por questão de obrigação, os conduziu até uma sala ao final do corredor. Conforme acendeu várias velas, Rafe continuou: — Esta noite é para se converter as espadas em relhas de arados. Se algo se corrompeu ao longo dos anos, Michael, agora é um bom momento para resolver isso. Uma torrente de emoções percorreu o cômodo, e Clare percebeu que se tornara quase invisível. Aqueles homens haviam se conhecido em meio às árduas condições de uma escola pública e tinham crescido juntos. Como todos os grupos de amigos, estavam ligados por uma malha de experiências que se formara ao longo de muitos anos de alegrias e tristezas, conflitos e apoio. E agora um deles ameaçava


rasgá-la em pedaços. O major se retirou para trás da mesa do duque, e sua expressão furiosa lembrou a Clare um predador acossado. — Este assunto não lhe diz respeito, Rafe. Tampouco a você, Lucien. — Voltou-se para Nicholas e acrescentou com o que parecia uma genuína tristeza: — Quando eu soube que havia deixado o país, pensei que teria a decência de se manter longe. — Você se importaria em me dizer o que eu fiz? — Nicholas indagou, tenso. — Não banque o inocente, Aberdare. Os outros podem acreditar em você, mas eu não. Rafe começou a falar, porém Nicholas levantou a mão para detê-lo. — Esqueça meu alegado deslize por um momento, Michael. Precisa saber que sua mina em Penreith está sendo administrada de uma maneira muito perigosa. Seu administrador não apenas coloca em perigo a vida dos trabalhadores, mas há suspeitas de que ele também esteja desviando verba. Se não tiver tempo ou vontade de lidar com o caso, venda-me a empresa de volta para que eu possa fazer o que for necessário. Após um momento de incredulidade, o major deu uma gargalhada que provocou calafrios na espinha de Clare. — Se Madoc o está exasperando, eu deveria aumentar seu salário. Clare viu a própria raiva espelhada em Nicholas, contudo ele manteve a voz controlada. — Não transforme a mina em mais um ponto de discórdia entre nós, Michael. Os homens cujas vidas estão em risco são inocentes de tudo o que está me acusando. — Virou uma velha ranzinza, Aberdare — provocou o major, frio. — A mineração sempre foi perigosa e sempre será. Os próprios mineiros reconhecem e aceitam isso. — Há uma grande diferença entre coragem e imprudência — retrucou Nicholas. — Nas últimas semanas, andei perguntando sobre a


incidência de acidentes e mortes nas outras minas. A de Penreith é quatro ou cinco vezes mais perigosa que as outras, com um sério potencial para uma catástrofe. Eu vi com meus próprios olhos. — Você foi até a minha mina? — Os olhos verdes se estreitaram. — Pois fique longe dela daqui por diante! Se eu ouvir falar que invadiu meu espaço de novo, vou mandar Madoc processá-lo! — Estou começando a entender por que o deixou encarregado da administração. Age exatamente como ele — Nicholas acusou, seco. — Se não acredita no que digo, investigue por si mesmo. A menos que seja do tipo de comandante que gosta de ver seus homens abatidos, garanto que vai admitir: a mina precisa de melhorias com urgência. Você é o único em condições de fazer essas mudanças, portanto assuma suas responsabilidades, droga! O rosto de Michael ficou lívido. — Não há o que me obrigue a atendê-lo. — Então lembre-se de que sou o dono daquelas terras. Caso se recuse a melhorar as condições da mina, encontrarei uma maneira de romper o contrato de arrendamento. Eu preferia não levá-lo à Justiça, porque vidas podem ser perdidas enquanto os tribunais decidem, mas se isso for necessário, eu o farei. — A voz de Nicholas endureceu. — E juro que, se algum trabalhador morrer enquanto você alimenta seu mau humor, vou responsabilizá-lo sem pensar duas vezes. — Por que perder tempo esperando por uma crise? — Michael tirou um par de luvas amassadas do bolso e contornou a mesa. Antes que alguém percebesse o tinha em mente, bateu com as luvas no rosto de Nicholas com violência. — Está claro agora? Nomeie o seu padrinho de duelo, Aberdare. No silêncio chocado que se seguiu, os sons distantes das comemorações se fizeram audíveis. Clare sentiu uma onda de dormência invadi-la. Aquilo não podia estar acontecendo. Michael não podia querer uma luta até a morte com alguém que não via fazia anos; alguém que fora um amigo.


A face de Nicholas corou com a força do golpe, mas ele não revidou. Em vez disso, examinou Michael como se o visse pela primeira vez. — A guerra pode enlouquecer os homens, e isso é obviamente o que aconteceu com você. — Virou-se para Clare, e ela viu a angústia em seus olhos. — Não vou lutar com um lunático. Venha, Clare. É hora de irmos. Segurou-a pelo braço e a levou até a porta. Quando ergueu a mão para a maçaneta, a voz amarga de lorde Michael rosnou: — Covarde! Um silvo cortou o silêncio, terminando em um baque metálico quando a ponta de um punhal se enterrou na porta entre Clare e Nicholas. Ela arregalou os olhos para o objeto que ainda tremia, horrorizada com a proximidade da lâmina mortal. — Não se preocupe, Clare — murmurou Nicholas. — Se ele quisesse me matar, já teria feito isso. — Pegou a faca e a arrancou da madeira, em seguida, virou-se para o outro homem. — Não vou brigar com você, Michael — repetiu, controlado. — Se quer me matar, terá de cometer assassinato, e eu me recuso a acreditar que tenha mudado tanto. — Pois sua crença está equivocada, Aberdare. Eu prefiro matá-lo de forma justa — retrucou o major, fulminando-o com o olhar. — Lute, maldição! Nicholas balançou a cabeça. — Não. Pode me chamar de covarde o quanto quiser. Continuo indiferente às suas ilusões. — Segurou o braço de Clare novamente. Michael começou a tamborilar os dedos da mão esquerda sobre a mesa de mogno. — Essa rameira sabe que você matou seu avô e sua esposa? Com um movimento tão rápido que Clare mal pôde segui-lo, Nicholas arremessou a faca para o outro lado da sala, fazendo-a se fincar a milímetros de distância dos dedos de Michael.


— Clare é uma mulher digna, algo que parece não ter mais condições de reconhecer — rosnou em uma voz que não era mais a dele. — Muito bem, Kenyon... Se quer lutar, que seja. Mas já que você é o desafiante, a escolha de armas é minha. Lucien começou a falar, porém Michael o interrompeu. — Em qualquer hora, qualquer lugar, com qualquer arma — declarou, exultante. — Então será aqui, agora, e com chicotes — Nicholas decidiu, categórico. O rosto do major ficou rubro. — Chicotes? Não zombe de mim, Aberdare. A escolha é entre pistolas e espadas. Até mesmo uma luta corpo a corpo, se quiser, mas não com algo tão trivial. — Esses são os meus termos. É pegar ou largar. — Nicholas esboçou um sorriso sem humor. — Pense em como irá satisfazê-lo me dar uma surra de chibata se for bom o suficiente... o que eu não acredito. — Sou bom o suficiente para esfolá-lo vivo — Michael declarou por entre os dentes. — Muito bem. Vamos começar. — Isto já foi longe demais! — Rafe explodiu. — Vocês dois perderam o juízo! Não vou permitir esse tipo de coisa em minha propriedade! — Se Michael está determinado a agir com violência, é melhor que estejamos presentes — Lucien disse baixinho. Os dois amigos trocaram um longo olhar. — Tem razão — admitiu o duque com relutância. — Vai me apoiar, Luce? — indagou Nicholas. — Claro. O major voltou sua ira para lorde Strathmoor. — Os árabes têm um provérbio: “o amigo de meu inimigo é meu inimigo”. Deixe que ele encontre outra pessoa para apoiá-lo. — Considero ambos meus amigos. O dever mais importante de um


padrinho de duelo é tentar resolver o conflito sem derramamento de sangue — lembrou Lucien, muito sério. — Você poderia começar dizendo qual a sua queixa para que Nicholas tivesse a chance de se defender. Michael sacudiu a cabeça. — Não vou falar do que aconteceu. Nicholas sabe, admitindo ou não. Se insistir em apoiá-lo, não seremos mais amigos. — Se assim for, será por vontade sua, não minha — Lucien retorquiu com voz grave. Michael olhou para o duque. — Vai me apoiar ou também vai ficar do lado desse cigano mentiroso? Rafe o fitou com raiva. — Acho estranho apoiar um duelo onde um homem não sabe por que foi desafiado. — Vai me apoiar ou não? — repetiu o major. Rafe suspirou. — Muito bem. Serei seu padrinho, mas como tal, quero perguntar se há algo que Nicholas possa fazer para resolver isto de outra maneira. Um pedido de desculpas ou algum outro modo de compensálo por sua revolta talvez resolva esse litígio. Os lábios de Michael se esticaram em um sorriso desprovido de humor. — Não. O que ele fez não poderá nunca ser corrigido. Rafe e Lucien trocaram novo olhar. — Muito bem — o duque disse em seguida. — O jardim por trás do gazebo deve ser adequado. E está frio o suficiente para que não haja qualquer convidado por perto. Vou pegar dois chicotes e os encontrarei lá. Eles saíram do estúdio, e Rafe seguiu pelo corredor em direção à parte de trás da casa. Quando Clare os acompanhou, Lucien franziu o cenho.


— Não deveria vir. Um duelo não é cenário para uma mulher. Ela comprimiu os lábios. — Esse duelo é ridículo por si só. Duvido que minha presença vá fazer alguma diferença. Como Strathmoor hesitasse, Nicholas suspirou. — Economize seu fôlego, Luce. Se Clare pode manter uma classe inteira de alunos em ordem, então pode, com certeza, enfrentar qualquer situação. Ela o observou, percebendo que Nicholas era o que menos parecia perturbado entre eles. Tendo visto sua habilidade com um chicote, sabia que ele poderia realizar bem mais do que apenas empunhá-lo, contudo a atitude de lorde Michael a apavorava. Ele parecia estar possuído, e se não conseguisse matar Nicholas no duelo, só Deus sabia o que faria depois. Desceram uma escada estreita, depois seguiram para o lado de fora. Clare estremeceu quando saiu para a noite fria de abril. — Tome. — Nicholas tirou a casaca e a pôs sobre seus ombros. — Não vou precisar disto. Ela assentiu com um gesto de cabeça e puxou mais a lã quente em torno do corpo. Era difícil pensar que meia hora antes estava se divertindo como nunca na vida. O jardim era enorme para uma casa na cidade, e no extremo deste, o baile era quase inaudível. Atrás do gazebo havia um pequeno pátio que servia como pista de dança no verão. Tocheiros rodeavam a área, e Rafe e Lucien trouxeram uma braçada de tochas dos estábulos, pondo-se a iluminar o local. O vento soprava as chamas, fazendo com que sombras se projetassem descontroladamente por todo o lugar. O major parecia mais calmo agora que a ação era iminente e, assim como Nicholas, tirou o paletó e a gravata. Nicholas foi mais longe: livrou-se do colete, e também dos sapatos e das meias, ficando descalço. Com o campo preparado, Rafe e Lucien examinaram os dois


chicotes e concordaram que eram substancialmente similares. Quando estes foram oferecidos aos combatentes, Nicholas pegou o mais próximo, estalou-o e, em seguida, acenou sua concordância. Michael fez o mesmo, os olhos brilhando de expectativa. — Não existem regras para um duelo de chicote, então vamos estabelecê-las agora — decidiu o duque. — Fiquem de costas, caminhem oito passos cada um quando eu der o sinal, e em seguida virem-se. Vou deixar cair o meu lenço. Quando este atingir o solo, o combate terá começado. — Lançou um olhar duro na direção dos dois homens, porém este se demorou mais sobre o major. — A luta irá terminar quando lorde Strathmoor e eu assim concordarmos. Se algum de vocês não parar quando eu pedir, nós dois o faremos. Entenderam? — Perfeitamente — concordou Nicholas. Seu adversário não se incomodou em responder. Lucien se afastou dos outros homens e chamou Clare para a borda do pátio. — Fique aqui atrás — instruiu em voz baixa. — Esses chicotes costumam ter um longo alcance. Ela assentiu em silêncio, e tentou não pensar no que poderia acontecer. Embora uma chibatada pudesse não ser letal, poderia destruir um olho em um só estalar. Duvidava de que Nicholas pudesse deliberadamente mutilar seu oponente, mas Michael bem poderia cegar seu inimigo como vingança pelo que o revoltava. Num cenário sinistro, os duelistas cumpriram o ritual exigido de costas para, em seguida, começarem a caminhar ao sinal do duque. Quando fizeram meia-volta para se enfrentar, Rafe levantou o lenço e o deixou cair. Clare olhou para a musselina leve, hipnotizada, conforme esta flutuava em direção à terra. Pouco antes de o pano atingir o solo, porém, uma brisa o soprou para alguns centímetros adiante. Não percebendo que o lenço ainda não tinha tocado o chão, ou talvez incapaz de esperar mais, lorde Michael deu o primeiro golpe.


Desprevenido, Nicholas ergueu o braço esquerdo para proteger o rosto. A chibata se enrolou em seu antebraço com um zunido, rasgando sua camisa e a carne logo abaixo. Conforme a manga de Nicholas se tingia de vermelho, o major anunciou, exultante: — Primeiro sangue, Aberdare. — Da próxima vez que eu fizer isto, também vou me lembrar de começar antes do tempo... Enquanto falava, Nicholas devolveu o açoite. Ouviu-se outro zunido ameaçador, então uma fina linha vermelha brilhou na face e no queixo de seu oponente. Michael não conseguiu reprimir um gemido de dor, mas isso não o impediu de manusear a chibata novamente, de modo que esta atingisse os pés de seu inimigo. Nicholas saltou no ar, e o perigoso fio de couro passou por baixo dele. Antes mesmo de ter aterrissado, seu chicote estalou de volta. Uma fenda esfarrapada surgiu no peito de Michael, e mais uma vez o sangue correu. Implacável, o major voltou a atacar. Conforme Nicholas se afastava, levando uma chibatada no ombro, Clare tapou a boca, não querendo gritar. Já tinha visto brigas entre adolescentes e, uma vez, entre mineiros embriagados, mas o que assistia naquele momento tinha a selvageria primitiva da guerra. Com um rosnado, Michael avançou, de modo a atacar mais de perto. — Esperei anos por isto, seu canalha! Surpreendentemente, Nicholas moveu o pulso e seu fio interceptou o do outro homem. — Então pode esperar um pouco mais — rosnou e, uma vez com as tiras de couro entrelaçadas, puxou o chicote em uma tentativa de desarmar Michael. Seu oponente caiu de joelhos, e por quase um minuto os dois lutaram para desarmar um ao outro, os músculos se retesando. Mas as tiras de couro se desenroscaram de súbito, e ambos caíram


para trás. Em vez de atacar, Nicholas se curvou como um lutador e passou a andar de lado, levantando a chibata. Michael se pôs na mesma posição, e eles começaram a se rodear, os movimentos lentos em contraste com a fúria estampada em seus rostos. Mesmo sob a luz fraca, não havia como confundir os dois homens. Nicholas, o cigano, era ágil e veloz, e parecia um passo à frente de seu oponente no manuseio do chicote, enquanto Michael, o guerreiro, parecia mais agressivo, sombrio e determinado a destruir seu inimigo. Não se ouvia nenhum som, exceto um fraco raspar de botas contra a laje. Quando Nicholas se evadiu de mais um golpe, Michael riu, ofegante. — Sabe fugir como ninguém, seu cigano imundo. — Não tenho vergonha do que sou, Michael... — E com um movimento quase invisível do pulso, abriu mais um corte na camisa do outro homem. — Pode dizer o mesmo? O desafio provocou uma explosão de raiva. O major iniciou um ataque selvagem, produzindo uma sequência assustadora de açoites. Conforme os sons aterrorizantes de couro contra carne preencheram o pátio, Clare deixou escapar uma exclamação de pura agonia. Por que Nicholas não se afastava novamente em vez de resistir àquela punição com não mais do que um braço acima da cabeça? Ela soube por quê quando Michael se adiantou, colocando a maior parte do peso do corpo sobre um pé. Era o momento que Nicholas estava esperando. Com admirável precisão, ele estalou o chicote que, com um assobio, enrolou-se na bota de Michael. Embora a chibata fizesse pouco estrago naquele ponto, quando Nicholas a puxou com ambas as mãos o outro homem perdeu totalmente o equilíbrio, incapaz de se segurar de alguma forma. O golpe o ergueu no ar e, um instante depois, ouviu-se o rachar de sua cabeça contra o chão de pedra.


De repente, tudo estava acabado, com Michael imóvel em um silêncio gélido rompido apenas pela respiração áspera de Nicholas. Clare passou um instante dando graças por sua vitória, então se lançou pelo pátio e se ajoelhou ao lado do homem caído. Já havia lidado com a sua cota de lesões na escola, o que a autorizava a examinar cuidadosamente a cabeça de Michael. Nicholas se ajoelhou a seu lado. Tinha a camisa em farrapos, e o sangue escorria de ao menos uma dezena de cortes. Um só olhar, porém, garantiu a Clare que seus ferimentos eram apenas superficiais. Ele próprio, entretanto, não parecia preocupado consigo mesmo. Sua atenção estava toda voltada para o homem inconsciente à sua frente. — Michael está muito ferido? — perguntou com voz trêmula. Clare não respondeu antes de verificar o pulso e a respiração do rapaz, bem como o ferimento em sua cabeça. — Acho que não. Teve uma concussão, com certeza, mas não creio que o crânio esteja fraturado. Ferimentos na cabeça sempre sangram muito, então sempre parecem piores do que são. Alguém tem um lenço? Um quadrado de linho com um elegante “C” bordado foi direto para sua mão. Clare o apertou com firmeza contra a ferida. — Graças a Deus não aconteceu o pior — murmurou Nicholas. — Eu quis refreá-lo, não matá-lo. — Não se culpe — Lucien o tranquilizou, sério. — Michael o obrigou a isto. Se tivesse escolhido pistolas ou espadas, um de vocês estaria morto agora. — Foi muita estupidez minha deixar-me arrastar para qualquer tipo de luta — volveu Nicholas, com raiva de si mesmo. — Viu como Michael se comportou antes. Acha que ele vai considerar paga minha suposta dívida com ele? O silêncio que se seguiu foi resposta suficiente. Quando o primeiro lenço ficou saturado, Clare utilizou outro, dessa


vez com um “S” de Strathmoor. Felizmente o sangramento estava quase estancado. Nicholas pegou a própria gravata, e ela a utilizou para amarrar o segundo lenço no lugar como uma bandagem. — Lorde Michael deve se mover o menos possível. Ele pode ficar aqui, Vossa Graça? — indagou Clare, erguendo o olhar para o duque. — É evidente. E já que parece se encaixar tão bem nesta gangue de rufiões, é melhor me chamar de Rafe — o duque acrescentou com franca admiração. Clare sentou-se sobre os calcanhares. — Não sei se sou capaz de chamar um duque por seu primeiro nome. — Não pense em mim como um duque. Pense em mim como alguém que falhou miseravelmente em aprender com Nicholas como hipnotizar trutas. Ela sorriu, percebendo que seu humor era um sinal de alívio por nada de pior ter acontecido. — Está certo, Rafe. — Luce, o que acha de nós dois o levarmos para dentro da casa? — continuou o duque. — Prefiro não envolver os criados nisso. — Pode ser — foi a resposta lacônica. — Ele está pesando no mínimo dez quilos a menos do que devia. Enquanto os dois homens erguiam Michael com cuidado do chão de pedra, sua camisa rasgada caiu de uma vez, expondo um mosaico de terríveis cicatrizes que corriam do ombro esquerdo à cintura. Nicholas praguejou baixinho enquanto os outros olhavam, chocados. — Michael foi ferido por estilhaços em Salamanca — contou Rafe, pesaroso. — Obviamente, foi pior do que ele me contou na época. Quando o major se viu fora do chão, pareceu recuperar parte da consciência; o suficiente para que não agisse como um peso morto, enquanto seus amigos o faziam apoiar os braços sobre seus ombros. Nicholas calçou as meias e os sapatos, e depois recolheu os


chicotes. Enquanto seguia com Clare e os outros para casa, ela deu graças a Deus por o duelo não ter terminado em desastre. Mas seu alívio não durou muito, pois temia que Nicholas estivesse certo: a luta daquela noite não iria aplacar a fúria de lorde Michael.


Capítulo XVIII Com o rosto ainda marcado pela tensão, Nicholas recusou que lhe tratassem os ferimentos. Aceitou apenas uma capa de Rafe, já que vestir sua própria casaca de corte justo estava fora de questão. Poucos minutos depois, ele e Clare estavam indo para casa em seu coche. Os outros convidados ainda se encontravam tão ocupados celebrando que ninguém notou quando deixaram a mansão. Não houve nenhuma conversa enquanto a carruagem ribombava pelas ruas de Mayfair. Nicholas sentou-se do lado oposto de Clare, equilibrado na borda frontal do assento em vez de se reclinar sobre as costas machucadas. Também se moveu com dificuldade enquanto a ajudava a descer do veículo em Aberdare House. — Antes que vá para a cama, precisamos limpar e tratar essas feridas — ela declarou assim que entraram, lançando-lhe um olhar típico de professora enérgica. — Eu sei que gosta de se mostrar forte, mas há limites para isso. Ele deu um sorriso sem humor. — Concordo, pois estou mesmo no meu limite. Onde quer realizar a cirurgia? — No seu quarto, suponho. Vou mudar de vestido e irei ao seu encontro assim que Polly me trouxer uma caixa de primeiros socorros. Apressada, Clare seguiu para seu próprio quarto, onde Polly cochilava. A moça despertou de imediato, ajudou-a a troca de roupa e partiu em busca de curativos e medicamentos. Talvez como punição por sua vaidade, o vestido de seda azul tinha sido arruinado pelo sangue de lorde Michael e também quando ela se ajoelhara no chão. Conformada, Clare vestiu a camisola de noite flanelada e a cobriu com uma capa de veludo vermelho que fazia parte de seu guarda-roupa de Londres. Após escovar os cabelos e prendê-los em uma trança frouxa, sentou-se para esperar pelo retorno de Polly. O sangue-frio que mantivera durante o duelo e na volta para casa


desapareceu, substituído por um profundo cansaço. Exausta, ela se recostou na poltrona, apertou as têmporas com as mãos e começou a tremer quando as tensões da noite se fizeram sentir. Cada golpe daquele duelo medonho ficaria gravado em sua memória. Se lorde Michael tivesse exigido lutar com pistolas ou espadas... Estremeceu e tentou mudar o rumo dos pensamentos. Embora houvesse tido ímpetos assassinos ao ver Michael atacando Nicholas, agora que a luta terminara sentia o coração se apertar pelo major. Embora suas graves acusações contra Nicholas fossem fruto de uma mente perturbada, ele acreditava nelas, pois seu transtorno fora muito verdadeiro. Suspirou. Ele não era o primeiro soldado a ser destruído pela guerra, e não seria o último. Talvez se curasse com o tempo. Ou assim ela esperava. Entretanto, lorde Michael ainda era um perigo em potencial. Embora Nicholas não acreditasse que seu velho amigo fosse capaz de matá-lo, ela não tinha tanta certeza. Talvez fosse hora de voltarem para o País de Gales. Michael dera a entender que não teria ido atrás de Nicholas; então, com sorte, o que seus olhos não vissem seu coração não sentiria. Quando Polly retornou com uma bandeja contendo ataduras, unguentos e uma bacia de água morna, Clare forçou o corpo cansado a deixar a cadeira. Após levar a bandeja, dispensou a criada e desceu o corredor para o quarto de Nicholas. A porta estava entreaberta, e ela entrou. E quase deixou cair a bandeja quando o viu, pois sua primeira impressão foi a de que ele estava nu. Um segundo olhar, no entanto, mostrou que Nicholas se encontrava ajoelhado em frente à lareira, acrescentando carvão ao fogo, com uma toalha enrolada na cintura: o mínimo necessário para torná-lo digno, e muito menos que o necessário para sua paz de espírito. Era perturbador ver de tão perto o corpo bonito e musculoso que


ela admirara quando ele havia nadado. E ainda mais enervante era a visão de seus ferimentos. Muito tarde, percebeu que Nicholas se livrara da maior parte das roupas para que ela pudesse lhe tratar as feridas. O pensamento a tranquilizou. Estava ali como enfermeira, não como amante. Nicholas terminou de atiçar o fogo e recolocou a tela da lareira no lugar, então se levantou e apanhou uma taça da mesa. — Quer um pouco de conhaque? A noite é perfeita para que suspenda temporariamente suas objeções a uma boa bebida. Depois de um breve indecisão, ela sorriu. — A regra metodista é tomar decisões de acordo com o que vai em seu coração; e meu coração diz que algo calmante seria bem-vindo. Ele serviu uma pequena quantidade do conhaque e entregou-lhe a taça. — Beba com cuidado. É bem mais forte do que xerez. — Não deveria estar me incentivando a beber mais? Ouvi dizer que conseguir embriagar uma mulher é uma técnica padrão de sedução. — Eu tenho pensado em fazer isso, mas não seria muito esportivo da minha parte — respondeu ele com humor. — Vou seduzi-la de forma justa. — Não, não vai — Clare retrucou com segurança. Embora o primeiro gole de conhaque a fizesse engasgar, Clare apreciou a sensação que se seguiu. Enquanto bebia mais um gole, acompanhou Nicholas com o olhar. Seminu, ele era uma visão ainda mais perturbadora. Tentando ser objetiva, concluiu que os braços e a parte superior de seu tórax e dorso haviam sofrido mais danos. Mas as pernas musculosas também tinham sido marcadas... Seja fria, Clare. Lembre-se de ser fria. — Hora de começarmos a trabalhar. Sente-se naquele banco, por favor — acrescentou depressa, pousando a taça. Nicholas obedeceu em silêncio.


Clare começou lavando as feridas com água morna para retirar o cascalho e os fragmentos de pano inseridos pela chibata, enquanto ele tentava se concentrar num ponto qualquer do quarto, às vezes bebericando o conhaque. Controlada, ela tentou não se distrair com a ondulação dos músculos tensos quando Nicholas mudava de posição. Todo e qualquer pensamento carnal, no entanto, desapareceu quando a dor passou dos limites do estoicismo e ele pulou involuntariamente. — São muitos cortes, mas são bastante superficiais e nenhum continua sangrando. Pensei que estivesse pior — Clare confessou, enquanto polvilhava pó de basilicão sobre as feridas abertas. — Chicotes são mais perigosos quando a vítima não pode evitar a chibata... Como quando um soldado é amarrado a um poste e açoitado — ele lembrou, distraído. — Um alvo em movimento não implica em muitos danos. Clare transferiu a atenção para seu antebraço esquerdo, que fora lanhado e ferido em vários lugares. Nicholas apertou mais a taça enquanto ela limpava o sangue seco de um dos cortes em seu pulso. — Estranho que todas as feridas se concentrem na parte superior do seu corpo. Lorde Michael não teve muita imaginação... Bateu o tempo todo na mesma área. Nicholas estendeu a mão para a garrafa e serviu-se de mais conhaque. — Ele estava tentando quebrar meu pescoço. Se tivesse conseguido enrolar o fio em volta dele e puxar como fiz com seu tornozelo, teria uma boa chance de sucesso. Clare parou, estarrecida. — Quer dizer que ele estava mesmo tentando matá-lo? — Claro que sim. — Nicholas ergueu as sobrancelhas. — Michael afirmou que queria me matar, e sempre foi um homem de palavra. Clare começou a tremer. Ao vê-la lívida, Nicholas levantou-se e a guiou para uma poltrona próxima.


Ela escondeu o rosto nas mãos, incapaz de evitar a terrível visão do que teria acontecido se o major tivesse conseguido enrolar a chibata no pescoço de Nicholas. — Desculpe, eu deveria ter ficado quieto — ele murmurou, enquanto voltava ao banco. — De qualquer modo, não havia nenhuma chance de que Michael tivesse sucesso. Uma ou duas vezes vi brigas semelhantes entre os ciganos, por isso estou familiarizado com as táticas básicas de um combate a chicote. Após uma batalha intensa contra uma crise de choro, Clare ergueu o rosto. — Lorde Michael está mesmo fora de si. Tem ideia do porquê de ele ter concentrando sua ira em você? — Não faria mais sentido perguntar se Michael estava certo quando me acusou de matar minha mulher e meu avô? Ela fez um movimento impaciente com a mão. — Acho que ele estava apenas tentando chocar, e a morte repentina dos dois lhe forneceu a munição necessária. Além disso, duvido de que ele estivesse preocupado com minha reação. Estava mais interessado em contrariá-lo e em criar uma barreira entre você e seus outros amigos. Nicholas se levantou e começou a andar outra vez. — Ele foi tão frio... E, com certeza, a ideia de que eu poderia ser um assassino cruzou sua mente. — Eu considerei essa possibilidade quatro anos atrás, quando as mortes ocorreram. — Clare juntou as mãos no colo. — Mas embora tenha suas explosões, não creio que seja dado a esse tipo de violência. Nicholas brincou com um sino que pendia do teto, retorcendo-o ao redor da coluna da cama. — Há diferentes tipos de violência? — Claro — ela respondeu com segurança. — Por exemplo, é fácil acreditar que lorde Michael seja capaz de cometer assassinato. Acho que Lucien também seria em circunstâncias extremas. Com certeza ele


pode ser tão implacável quanto necessário. Mas, embora você possa ser perigoso, como provou esta noite, prefere rir de uma situação difícil ou sair dela de uma vez. Não consigo imaginá-lo matando alguém, a menos que seja em defesa própria. E, mesmo assim, apenas se não pudesse evitar. Os lábios benfeitos se retorceram com cinismo. — Eu quase matei Michael esta noite. — Foi um acidente — ela replicou de pronto. — Acha que eu não notei como se conteve? Ele é habilidoso com o chicote, mas você é mais. Poderia tê-lo cortado em pedaços se quisesse. Em vez disso, deixou-se ferir mais do que o necessário enquanto esperava uma chance de desarmá-lo. — É muito observadora. — Nicholas caminhou até uma cômoda de nogueira e começou a empilhar moedas por tamanho. — Talvez até demais. — Presto atenção em tudo o que diz respeito a você, Nicholas. O trabalho do meu pai trouxe muitas pessoas para a nossa casa... Não havia como eu não aprender algo sobre a natureza humana. — Foi incrível como soube analisar Michael, Lucien, e a mim em termos de nossa capacidade para a violência — observou ele, ainda concentrado nas moedas. — E quanto a Rafe? Clare pensou um pouco. — Eu mal o conheço. Mas meu palpite é que ele seja como você: o tipo de homem que não procura briga, mas que sabe se defender bem quando o confronto não pode ser evitado. — É ainda mais perigosa do que eu pensava — Nicholas concluiu com uma pitada de diversão. — Está certa quando diz que prefiro me afastar. Acho que essa é uma característica de todos os ciganos. Sempre fomos perseguidos e, para que nossa raça pudesse sobreviver, tivemos de aprender a desarmar nossas tendas e cair fora em vez de esperarmos para ser abatidos. — Já dizia Demóstenes: “Quando uma batalha está perdida, só os que fogem podem combater em outra”.


— Exatamente. — Perdendo o interesse nas moedas, Nicholas começou a brincar com a caixa de prata para cartões. — Você perguntou por que Michael me escolheu como alvo. Meu melhor palpite é que sua raiva tem a ver com o antigo conde. Embora ele tenha se afastado do próprio pai, o duque de Ashburton, por algum motivo, Michael e meu avô se davam bem. O velho conde nunca escondeu que gostaria que ele fosse seu herdeiro em vez de mim... — Nicholas apanhou os cartões da caixinha e os abriu em leque. — Meu avô foi um homem saudável e vigoroso até a noite em que morreu. Talvez Michael acredite que eu o tenha matado com algum veneno cigano ou magia negra... Concluindo que Nicholas parecia indiferente quanto a algo que devia lhe ser profundamente doloroso, Clare perguntou: — Ficou com ciúme do relacionamento que Michael tinha com seu avô? Ele juntou os cartões e os devolveu ao estojo com um suspiro. — Eu posso ter ficado quando era mais novo, mas quando meu amigo se mudou para Penreith, eu já não me importava. Se os dois estavam felizes por Michael bancar o neto perfeito, então, tudo bem. Até porque passei a maior parte do meu tempo em outros lugares. Clare se perguntou se o antigo conde não teria jogado os dois jovens um contra o outro como uma forma de ferir o neto. Poderia ter sido tão leviano e cruel? Se assim fosse, sua responsabilidade era imensa naquilo tudo. E assim como Emily, Clare esperava que ele estivesse pagando por seu pecado em um local muito, muito quente... Decidindo que era melhor terminar logo sua tarefa, ir para o quarto e se deitar, apanhou um pote de pomada de ervas, aproximou-se de Nicholas e começou a espalhar o bálsamo sobre as feridas menores, onde a pele estava em carne viva, mas não sangrando. Ele prendeu o fôlego quando ela tocou um ponto sensível nas costas, mas não se moveu.


— Qual é a sua capacidade para a violência, srta. Morgan? Não me parece do tipo que não mataria nem uma mosca... — Acredito que a paz seja melhor do que a guerra; e oferecer a outra face é melhor do que quebrar pescoços. — Espalhou unguento em um arranhão que ia da clavícula até as costelas de Nicholas. — Mas embora eu não tenha muito orgulho em admitir, suspeito de que poderia ser violenta em nome daqueles que me são caros. Se algum vilão viesse até a escola e ameaçasse os meus alunos, por exemplo... Ou se alguém o ameaçasse de novo, completou em pensamento, enquanto voltava para a bandeja em busca de uma bandagem. — Vou fazer um curativo nos cortes mais feios com isto. Envolveu-lhe o pulso, depois começou a enrolar a tira de musselina em volta do peito largo. — Como é o beijo de Lucien? — Nicholas perguntou de repente. — O quê!? — Clare ficou tão surpresa que quase deixou cair o curativo. — Ah, claro... Ele me beijou quando Rafe anunciou a abdicação de Napoleão. Foi bom, acho. Para falar a verdade, nem reparei... — Ela passou o final da bandagem por baixo de um braço e a atou em cima do ombro, notando como a musselina branca contrastava com a pele morena. — Ele não era você. — Da próxima vez em que eu tiver de baixar a crista de Lucien, vou lhe dizer como ficou impressionada com sua habilidade. Clare arregalou os olhos, alarmada. — Você não... Ah, está brincando! — É o meu forte. — Nicholas riu e girou o ombro, testando o curativo. — Por que diz que Lucien tem um laivo de crueldade? Está certa, mas é surpreendente que tenha deduzido isso após tê-lo encontrado tão poucas vezes, e enquanto ele adotava seu melhor comportamento. Ela começou a empilhar os suprimentos médicos na bandeja. — É uma questão de intuição. Embora ele faça o tipo superficial, há algo dentro de Lucien tão sólido como aço. — Clare sorriu. — Ele ficou


assustado quando dei a entender que seu posto em Whitehall envolvia coletar informações secretas, e que trabalhava para ele. — Meu Deus, deduziu isso tudo sozinha? Você mesma deveria trabalhar na inteligência. — Nicholas terminou o último gole de conhaque e tornou a olhar a garrafa. — Tome láudano — ela sugeriu. — É melhor do que tentar se anestesiar com conhaque. — Não preciso de nenhum dos dois. — Ele pousou a taça vazia ao lado da garrafa. — Aliás, obrigado pelos curativos... Lamento que seu primeiro baile tenha acabado assim. — Bem, foi com certeza uma experiência inesquecível. — Clare levantou a bandeja e caminhou em direção à porta. — Clare... Não vá ainda — disse Nicholas com uma nota tensa na voz. Ela deu meia-volta. — Sim? Ele olhava a rua tranquila através da janela, a respiração ligeiramente ofegante, a mão direita amassando a borda da cortina. Quando não respondeu, ela franziu o cenho. — Há algo mais que queira me dizer? — Clare... — Nicholas recomeçou como se cada palavra estivesse sendo arrancada dele à força. — Importa-se de ficar comigo pelo resto da noite? — Quer que eu durma com você? — indagou ela, mais chocada do que quando ele lhe perguntara sobre o beijo de Lucien. Nicholas se afastou da janela, e Clare percebeu que era a primeira vez que ele a encarava desde que tinham encontrado lorde Michael. E ficou chocada com a angústia que viu em seus olhos. De repente, ficou mais do que claro que sua aparente indiferença quanto ao que havia acontecido era uma farsa, e ela teve vontade de bater a cabeça na parede. Nem mesmo com toda a sua fama de perspicaz tinha interpretado a inquietação de Nicholas e sua recusa em


fitá-la nos olhos. Agora, aquela fachada cuidadosamente construída desmoronara, revelando o que havia por baixo. Clare sentiu o coração se apertar. Embora soubesse como devia ser doloroso para um homem se ver repudiado por um amigo, a realidade era muito pior do que ela imaginara. — Não como amante, mas como amiga — Nicholas acrescentou, perturbado, interpretando mal sua expressão. — Por favor. Ela quis chorar diante de tanta vulnerabilidade. Em vez disso, pousou a bandeja. — É claro que fico — murmurou. Nicholas atravessou o quarto e a envolveu em um forte abraço. — Eu não quero machucá-lo! — ela protestou, aflita. — Não vai me machucar. Clare não acreditou, mas era evidente que a carência de Nicholas superava a dor física. Sua necessidade de calor, de carinho, de qualquer coisa que aplacasse a dor da traição que tinha sofrido naquela noite era quase palpável. Tomando o cuidado de evitar as feridas, ela passou os braços em torno de sua cintura e encostou o rosto no dele. Ficaram assim por um longo tempo. Quando a respiração de Nicholas retomou um ritmo mais normal, ele a soltou. — Está tremendo — disse baixinho. — Vá para a cama onde está mais quente... Eu já volto. Ele rumou para o quarto de vestir enquanto Clare tirava a capa, colocava-a sobre uma cadeira e apagava as velas. Iluminada apenas pelas brasas ardentes na lareira, deslizou para baixo das cobertas. Embora tímida, não duvidou nem por um momento de que estivesse fazendo a coisa mais correta, pois a compaixão importava mais do que o decoro. Um minuto depois, Nicholas retornou vestindo um camisolão. Clare sorriu, certa de que o traje era em deferência à sua condição de donzela, já que parecia nunca ter sido usado.


Com as ataduras cobertas, ele parecia normal, exceto pelo olhar desolado. Acomodou-se no lado esquerdo da cama, a fim de deixá-la do seu lado menos ferido. Após beijá-la de leve nos lábios, fez com que Clare descansasse a cabeça em seu ombro e mergulhou os dedos em seus cabelos. — Não quero ficar sozinho — confessou num sussurro. — Também estou contente por não ter que dormir só esta noite — ela concordou, sincera, enquanto se ajeitava. Consciente da dor física e emocional de Nicholas, tinha certeza de que sua presença o ajudaria como a de nenhuma outra pessoa. E o inverso também era verdade. Ele falou apenas mais uma vez: — Michael sempre me chamava de Nicholas... E esta noite só me chamou de Aberdare. Tocada, Clare fez uma promessa em silêncio: não importava o que o futuro lhe reservasse... Ela jamais trairia a confiança dele em sua amizade.


Capítulo XIX Embora Nicholas não esperasse dormir, o calor suave de Clare superou sua tristeza e dor. Acordou ao nascer do dia e ficou quieto, não querendo perturbar o sono da mulher em seus braços. O pior tinha passado. Ele já havia sobrevivido a outras traições e iria sobreviver também àquele momento. Mas teria sido muito mais difícil sem Clare a seu lado. Na noite anterior, pensara estar disfarçando bem os próprios sentimentos, até o momento em que ela começara a sair. Então uma onda paralisante de desespero o engolfara. Naquele instante, teria ficado de joelhos e implorado para que Clare ficasse. E teria sido melhor se ele tivesse conseguido se conter até que ela tivesse ido embora, pois era sempre um erro revelar fraqueza. Por outro lado, não gostava de lamentar o que não podia ser mudado, e não o faria agora. Com certeza não se arrependia de ter Clare em sua cama. Um traço de seu perfume exótico ainda persistia, desencadeando uma memória viva de como ela estava deslumbrante na noite anterior. E naquela manhã, em sua camisola simples e com os cabelos escapando da trança, ela continuava adorável; ainda mais atraente do que a mais cara das cortesãs. Nicholas entregou-se à fantasia de que eles já eram amantes, e que logo ele iria acordá-la com um beijo que seria o primeiro passo para a realização. Pousou o olhar na boca rosada. Mesmo quando ela apertava os lábios em sua melhor expressão de professora, não conseguia disfarçar sua perfeição natural. À luz da manhã, estes pareciam tão deliciosos que ele precisou se conter para não tomá-los. Mentalmente, reviu os beijos mais memoráveis que tinham partilhado. A lista era longa, pois Clare se provara uma excelente aluna na arte da sensualidade. O fato não o surpreendera. Muito cedo ele havia aprendido que as mulheres inteligentes eram as melhores companheiras na cama. Quando eles se tornassem amantes de


verdade, ela seria única. Mas como ainda não havia acontecido nada, precisava controlar o desejo. Nicholas suspirou. Não achava que conter-se seria um problema até que se viu acariciando o corpo esbelto. Quando se obrigou a parar, sua mão estava sobre um dos seios de Clare e se recusava a sair de lá. Através do tecido flanelado, sentiu seu coração batendo contra a palma. Já era hora de tirar a mão dali, disse a si mesmo, e conseguiu levantá-la alguns centímetros, o suficiente para que a ponta de seus dedos provocasse o mamilo, que enrijeceu de pronto. Ele não sabia se ria ou se praguejava. Seu corpo se recusar a obedecer seria divertido se não fosse tão perigoso... Clare deu um suspiro de contentamento e se aconchegou mais, a mão descendo por seu torso. Um desejo voraz tomou conta de Nicholas, e ele se inclinou para a frente, disposto a beijá-la profundamente, de modo que ela já estivesse excitada quando despertasse completamente. Mal podia esperar para livrá-la daquela camisola de flanela e explorar sua pele de seda. Quando ele lhe beijasse os seios, ela deixaria escapar aquele som delicioso do fundo da garganta. Então seus olhos se fechariam enquanto seu corpo suplantava toda a razão... A fantasia era tão vívida que quase o fez soltar um gemido. Mas é claro que ele não poderia fazer nada daquilo. Por um momento ficou paralisado, preso entre o desejo e a consciência. Para romper o impasse, voltou a pensar no pior momento de sua vida; um acontecimento tão repulsivo que abafou qualquer traço de paixão. Não inteiramente, mas o bastante para que ele pudesse se mover. Após retirar com cuidado o braço direito de baixo da cabeça de Clare, saiu da cama, encolhendo-se quando todos os cortes e machucados pareceram ganhar vida.


Apesar de seu cuidado, Clare acordou. Seus longos cílios escuros piscaram um instante, e então ela o fitou, séria. Nicholas sorriu quando, em seus profundos olhos azuis, viu timidez e não arrependimento. — Conseguiu dormir? — ela indagou com voz rouca. — Melhor do que eu esperava. Ela se sentou com as pernas cruzadas, as cobertas enroladas em torno do corpo, e o fitou com curiosidade. — Fica dizendo que vai me seduzir, e está deixando passar uma oportunidade perfeita... Eu aprecio a sua reserva, mas confesso que ela me parece estranha. Ele sorriu com ironia. — Eu lhe pedi que ficasse como amiga; o tipo de solicitação que você acharia muito difícil recusar. Aproveitar-me disso seria uma desonra. Clare deu uma risada suave e rouca. — Os códigos de honra masculinos são muito estranhos e inconsistentes. — Verdade. — O olhar dele pousou no decote da camisola, onde um pequeno triângulo de pele nua se mostrava. Mas como esta era a única parte visível dela, tornou-se incrivelmente erótica. Sorte ele estar vestindo aquele pijama volumoso que escondia seu evidente estado de excitação. — A honra, assim como a fé metodista, é uma conveniência — explicou, tentando se concentrar em assuntos menos mundanos. — Não tenho escrúpulos em seduzi-la e arruinar sua reputação, mas não quero enganá-la. — Que tipo de cigano é você? — ela provocou. — Pensei que enganar os outros fosse um hábito entre o povo de sua mãe. Nicholas sorriu. — Sim, mas fui corrompido pela moral inglesa convencional. Clare mordiscou o lábio inferior, o que o fez querer fazer o mesmo.


A ideia era tão atraente que Nicholas quase perdeu seu comentário, quando ela prosseguiu: — Será que vamos voltar para casa logo? Londres é uma delícia, mas ainda há muito a ser feito em Penreith. — Está tentando me tirar da linha de fogo? — Sim — admitiu Clare. — Imagino que lorde Michael não ficará muito satisfeito com o resultado do encontro de ontem à noite. — Não, mas ele não vai atirar em mim pelas costas — afirmou Nicholas em tom tranquilizador. — Nem eu me permitirei ser arrastado para qualquer outro tipo de luta. Clare não pareceu convencida. — Espero que esteja certo. Mesmo assim, eu gostaria de voltar ao País de Gales em breve. Já vi tudo o que podia em Londres. — A maioria dos meus negócios deve ser resolvida dentro dos próximos dias, então poderemos ir. — Ainda bem. — Parecendo mais feliz, ela saltou da cama. — Já é hora de eu voltar ao meu quarto. É cedo ainda, e nenhum dos empregados precisa saber onde passei a noite. — Importa-se com o que eles pensam? Clare sorriu tristemente enquanto vestia a capa de veludo. — Talvez não, mas já que não fui criada como uma aristocrata, não sou tão indiferente às opiniões de outras pessoas. Quando colocou a mão na maçaneta da porta, Nicholas experimentou a mesma sensação dilacerante da noite anterior. Parecia mais suave naquela manhã, mas era inconfundível. — Acho que vou querer meu beijo do dia — disse, mesmo sabendo que estava fazendo papel de idiota. Clare se virou, em dúvida. — Não é melhor deixarmos para mais tarde? — Sempre se pode ter mais. — Nicholas cobriu a distância entre eles em dois passos e a puxou para os braços. Embora ela prendesse a respiração ao perceber sua ereção através


da roupa de dormir, não se afastou. Com uma calma estudada, ele mordiscou o lábio que tanto o atraíra. Clare abriu a boca, e sua respiração cálida acariciou-lhe a face. Quando os lábios de ambos se fundiram e a língua de Nicholas deslizou para encontrar a dela, esta a recebeu delicadamente para, em seguida, investir em um ousado convite para o prazer. O beijo continuou, deixando-os sem fôlego e com a pulsação acelerada. Nicholas percebeu que a tinha encurralado contra a porta, e que sua pélvis roçava a dela em uma simulação erótica do ato sexual. A capa e a camisola de Clare subiram sem dificuldade, e ele cobriu-lhe a nádega nua com a mão, apertando-a com mais vigor junto à própria virilha. — Clare... — falou com voz rouca. — Você é tão linda, tão desejável! Não deveria ter falado, pois as palavras levaram-na a abrir os olhos. — Já é hora de acabarmos com esse beijo — balbuciou, atordoada. Nicholas estava tão inebriado que nem se lembrara de seu acordo. Quando o fez, gemeu em voz alta. — Ontem não houve nenhum beijo oficial... Não posso exigi-lo agora? — Sem esperar por resposta, colou os lábios ao pescoço macio. — Não! — Clare exclamou. — Ontem acabou, e você não pode cobrar beijos retroativamente. Além disso, acho que tem havido beijos “não oficiais” demais! A parte mais primitiva do cérebro de Nicholas não desistiu, e ele continuou acariciando-lhe as nádegas, moldando-se às curvas firmes e suaves. — Então posso cobrá-lo amanhã? Ela deu uma risadinha nervosa. — Se fôssemos contar beijos futuros, a conta iria chegar em 1830. Basta, Nicholas. Ele soprou o ar e deixou as roupas cair sobre as pernas nuas e


torneadas, abominando o vazio. Apoiou as palmas das mãos na porta e se afastou. Olhe para outro lugar, não para esses lábios carnudos e para esses olhos enevoados de paixão... Honra, Nicholas. Lembre-se da honra. E agora abra essa maldita porta para que ela saia, antes que seja tarde demais! Uma coisa, porém, precisava ser dita: — Clare... — Ele engoliu em seco e se postou a uma distância segura. — Obrigado por ter ficado. Ela abriu um sorriso doce. — É para isso que servem os amigos — sussurrou e deixou o quarto. Nicholas ficou olhando para a porta fechada por um longo tempo, o corpo e a mente ainda vibrando, cheios de necessidades. Algumas simples, outras não. Quem imaginaria que uma professora tão séria pudesse ser tão sensual? E quem poderia prever que a mulher irritante que tinha vindo para Aberdare apenas para intimidá-lo iria se tornar sua melhor amiga? O porteiro cumprimentou Nicholas no White’s como se a sua última visita tivesse acontecido no dia anterior. O clube exclusivo parecia exatamente o mesmo em que ele estivera quatro anos antes, até porque qualquer mudança teria sido surpreendente. Uma vez que Rafe ainda não tinha chegado, Nicholas entrou na sala de leitura e pegou um exemplar do The Times. Como esperado, a renúncia de Napoleão dominava o noticiário, junto com especulações sobre o futuro e congratulações pelo triunfo da coragem e sabedoria inglesa. Ao ouvir uma voz familiar, ele ergueu o olhar e viu Rafe vindo em sua direção. Na metade do caminho, porém, o duque foi interceptado por um jovem excessivamente entusiasmado. — Já ouviu a última notícia, Vossa Graça? Dizem que a dinastia de Napoleão será anulada, e os Bourbon reassumirão o trono francês! — Não me diga... — Rafe replicou em tom frio, fulminando o rapaz


com o olhar. Diante da acolhida, o pobre se afastou com um muxoxo. Nicholas reprimiu um sorriso sardônico. — Está cada vez melhor na arte de aterrorizar seus admiradores — comentou, tão logo Rafe se aproximou. — Espero que sim — ele respondeu sorrindo. — Pratiquei bastante nestes últimos quatro anos. Nicholas teve de rir. — Quantas pessoas no mundo estão autorizadas a vê-lo como você é? — Meu lado arrogante é verdadeiro. Como lhe falta soberba, tem dificuldade em reconhecê-la nos outros — observou Rafe. — Mas se quer saber com quantas pessoas eu realmente fico à vontade... no máximo umas seis. Em uma rara demonstração de afeto, o duque colocou a mão no ombro de Nicholas, fazendo-o pular feito um cabrito. — Ah, maldição... desculpe-me. — Tirou a mão, apressado. — Parece tão bem que me esqueci de que suas costas devem estar parecendo um tabuleiro de xadrez. Como está se sentindo? Ele deu de ombros e fez outra careta. — Não estou tão mal. Rafe não pareceu convencido, mas deixou o assunto morrer. — Importa-se se formos direto para o restaurante? Ser o anfitrião ontem à noite praticamente me impediu de comer, e também perdi o desjejum. — Claro que não. — Conforme eles se dirigiam para o salão, Nicholas acrescentou: — Depois de ontem, eu não tinha certeza se você iria querer manter nosso compromisso. Michael pode interpretar mal este encontro... como se estivesse se aliando ao inimigo. — Não seja ridículo. Não vou deixar um amigo porque o outro está temporariamente incapacitado. — Rafe sorriu. — Além disso, ele não vai saber do nosso encontro.


No restaurante, uma variedade de frios e outros pratos haviam sido dispostos em um aparador para o café da manhã. Poucas mesas estavam ocupadas àquela hora, assim, depois de se servirem, os dois encontraram um canto sossegado onde poderiam conversar com calma. Ao ver o duque, o garçom trouxe uma garrafa de vinho branco sem que esta tivesse sido pedida e, em seguida, retirou-se. Quando ficaram a sós, Nicholas perguntou: — Como está Michael esta manhã? Rafe cortou uma cebola em conserva pela metade e a comeu com um pedaço de rosbife. — Fisicamente está bem, apesar de uma dor de cabeça terrível. O diagnóstico de Clare foi confirmado pelo médico que o examinou. — Lançou-lhe um olhar especulativo. — Gostei muito dela. Clare tem a cabeça no lugar. — Após pensar por um momento, acrescentou, travesso: — Uma cabeça muito bonita, aliás... — Eu sei — Nicholas anuiu, sem vontade de discutir sua excêntrica relação com a moça. — Fico contente por Michael não ter se ferido com gravidade, mas, e quanto a seu estado mental? — Quando eu o visitei esta manhã, ele parecia mais civilizado, mas muito contido; quase como se fôssemos estranhos. E não tocou no assunto do duelo. — Rafe hesitou, como se considerasse se deveria falar mais. — Quando mencionei seu nome, ele se fechou ainda mais. Não deu uma só pista do porquê de ter explodido daquela maneira ontem à noite, ou se tem a intenção de procurá-lo novamente. — Se ele o fizer, não vou deixar que me carregue para outra luta — Nicholas tornou a afirmar. — Nem mesmo se ele insultar a srta. Morgan? Ele apertou os lábios. — Nem mesmo assim. Minha paciência pode superar seus insultos. Também não darei a mínima se ele disser ao mundo que sou um covarde. Não tenho esse tipo de orgulho. — Você pode não querer violência, mas isso não significa que ele


não vá partir para isso. Nicholas encarou o amigo duque. — Não importa o quanto ele esteja fora de si. Michael não vai tentar me matar a sangue-frio. — Eu queria ter certeza disso. — Rafe parecia preocupado. — Você conhece Michael. Ele pode ser um idiota, teimoso, mas nunca iria faltar com a honra. — Quatro anos de guerra podem mudar qualquer um. Ele mesmo me disse isso. Como era Rafe que falava, Nicholas considerou a possibilidade. Conhecia Michael Kenyon havia mais de vinte anos, e eles tinham passado juntos por momentos bons e outros ruins. Michael sempre tivera um temperamento difícil, assim como um apurado senso de honra. Perigoso, sim. Traiçoeiro, nunca. Nicholas balançou a cabeça. — Ele não pode ter mudado tanto. Não Michael. — Tomara que esteja certo, e eu esteja me preocupando à toa. — Rafe encheu as taças com vinho branco do Reno. — Na verdade, ele estará ocupado demais para buscar vingança. Disse esta manhã que, já que a guerra acabou, vai entregar a patente em vez de voltar para o Exército. — Ótimo. Sem nenhuma batalha para alimentar sua loucura, com o tempo Michael deve voltar a ser ele mesmo. — Espero que sim. — Com alegria, Rafe mudou de assunto: — Você se lembrou, mesmo, de ter encontrado Jane Welcott em Blenheim, ou estava apenas sendo educado? — Lembrei-me, sim, embora, como o cavalheiro que sou, não possa revelar em que circunstâncias... — Nicholas sorriu. — Nem precisa. Eu posso imaginar. — Rafe experimentou a lebre cozida. — Acho que a moça e eu estamos prestes a seguir por caminhos diferentes... Jane anda por demais entediante. Uma vez que aquele não era o tipo de declaração que um homem


sábio deveria comentar, Nicholas se concentrou em sua torta. Os relacionamentos leves e civilizados de Rafe nunca duravam mais de seis meses, e lady Welcott dificilmente mudaria esse padrão. Pensou em Clare, com sua teimosia irritante, sua moralidade e honestidade exacerbadas e seu calor. Embora sua pequena rosa galesa também tivesse espinhos, ele preferia passar uma semana com ela a ficar um ano com qualquer uma das mulheres sofisticadas e mundanas de Rafe. Mastigou outro pedaço da torta. As semanas estavam passando rápido, e já era hora de ele fazer de Clare sua amante de verdade. Precisava usar bem aqueles dias seguintes, já que ela provavelmente ficaria mais à vontade em Londres, entre anônimos, do que no vale, onde lembranças de sua antiga vida estavam por toda parte. Terminou a taça de vinho branco. Clare precisava ser sua antes de os três meses se esgotarem. Não aceitaria nenhum outro desfecho, pois não queria deixá-la partir. — O que andou fazendo enquanto estive fora do país? — perguntou, afastando o prato vazio. — Ainda compete com aquele espantoso cavalo ruão vermelho? — Não, mas ele gerou um potro maravilhoso — respondeu Rafe, satisfeito. A conversa fluiu de cavalos para política, e foi além. Nicholas se divertiu imensamente. Rafe, assim como Lucien, era alguém com quem ele se sentia à vontade, não importando quanto tempo havia se passado desde seu último encontro. E com Michael também já fora assim. Afastando o pensamento, Nicholas se pôs de pé. — Preciso ir. Tenho uma reunião com meu advogado. Vou retornar ao País de Gales em poucos dias, mas espero estar de volta em breve. — Ótimo. Veja se consegue passar algumas semanas no Castelo Bourne neste verão. — Se as coisas em Penreith estiverem em ordem, eu ficarei feliz em


ir. E caso não possa, sabe que você é sempre bem-vindo em Aberdare. — Eu sei que não está preocupado com o que Michael possa fazer, mas... por favor, tenha cuidado — aconselhou Rafe, enquanto apertavam as mãos. Foram palavras sérias que deram o que pensar. Clare ficou intensamente feliz por Nicholas ficar o dia todo fora de Aberdare, pois precisava de tempo para se recuperar dos efeitos vertiginosos do abraço daquela manhã. Passar a noite com ele a tinha deixado muito suscetível, e por um triz ela não havia se entregado. Ainda a espantava o fato de ter sido capaz de dar um basta quando se portara como uma imbecil. Por sorte ele gastara seu beijo do dia, pois ela ainda se sentia vulnerável e sensível. Talvez devesse considerar também o beijo no pescoço que ele lhe dera enquanto não conseguia outro... Se considerasse este, estaria protegida contra seus avanços por mais algum tempo. No momento em que Nicholas voltou para o jantar, ela já conseguira se acalmar. Contanto que não passasse outra noite com ele, sua virtude continuaria intacta. — Vai se juntar a mim na biblioteca? — ele indagou quando terminaram de comer. — Eu queria que lesse o contrato de arrendamento para a mineração em Penreith. Talvez perceba algo que o advogado e eu não notamos. — Está procurando uma maneira de romper o contrato para assumir a mina? — Exatamente. Meu advogado me garantiu que qualquer coisa pode ser levada ao tribunal, mas este contrato de locação, em particular, é tão simples que fica difícil encontrar um ponto fraco. — Ele torceu os lábios. — Um documento longo e complicado seria mais fácil de contestar. Embora eles vivessem discutindo negócios, aquela era a primeira vez que Nicholas lhe pedia ajuda, e Clare sentiu-se lisonjeada. Na


verdade, pensou conforme caminhavam para a biblioteca, ele parecia diferente naquela noite. Um pensamento maravilhoso lhe ocorreu: agora que eram declaradamente amigos, talvez Nicholas abandonasse sua campanha de sedução. Seu relacionamento fora uma estranha mistura de desafio e companheirismo, mas ela sentia que algo tinha mudado na noite anterior: o que havia entre eles agora era mais profundo e mais quente do que simples luxúria. Nicholas sabia como sua vida poderia ser prejudicada se a seduzisse e, com certeza, não queria arruiná-la. Quanto mais pensava sobre isso, mais Clare se tornava segura de que já não temia os avanços de Nicholas. Colaborando com sua teoria estava o fato de ele não tê-la tocado uma única vez desde que voltara para casa, o que era incomum em um homem que gostava de tocar. Embora ela fosse sentir muita falta de seus beijos, não teria saudades daquele jogo perigoso que estavam jogando. Durante semanas vinha se equilibrando à beira de um precipício, a um passo de cair no abismo. Seria mais seguro e mais confortável que passassem o restante daqueles três meses como irmãos. E no final, ela poderia voltar a Penreith com sua virtude intacta. Não era tola a ponto de pensar que Nicholas iria abraçar o celibato. Uma vez que ele desistisse de levá-la para a cama, logo encontraria uma mulher mais cordata. O pensamento não a encantava. Na verdade, ele lhe virava o estômago. Mas contanto que Clare não soubesse dos detalhes, poderia suportar. Era melhor ser sua amiga do que mais uma em uma verdadeira procissão de amantes rapidamente esquecidas. Na biblioteca, Nicholas entregou-lhe uma cópia do contrato de arrendamento, e ela se sentou para estudá-la. Enquanto lia, ele pegou a harpa e começou a tocar. Depois de ler o documento três vezes, Clare o colocou de volta na mesa. — Entendo agora o que quis dizer sobre a simplicidade do contrato.


Tudo o que diz aqui é que lorde Michael Kenyon ou seus mandatários têm o direito de extrair o carvão com base neste acordo por vinte e um anos. Se a taxa de locação fosse baseada no lucro gerado pela mina, você poderia alegar que Madoc está aplicando um desfalque, mas como ela consiste em um montante fixo, esse argumento não vai funcionar. — E infelizmente, o aluguel de quinhentas libras é pago todo dia vinte e cinco de março, dia de Nossa Senhora — disse Nicholas. — Chequei os pagamentos, na esperança de que houvesse algum atraso, mas não dei sorte. — Existe alguma chance de que a mina tenha se estendido além dos limites das terras arrendadas? As sobrancelhas escuras de Nicholas se levantaram. — Está aí uma boa possibilidade. A área alugada é bastante grande, e provavelmente a mina tem ficado dentro do limite, mas vou examinar essa hipótese. Alguma outra ideia? — Receio que não. Essa foi a melhor que me ocorreu. Ele sorriu. — Pois sua ideia foi mais proveitosa do que a do meu advogado. Ele sugeriu que eu entrasse com uma ação, alegando que Michael levou meu avô a lhe alugar as terras para exploração, privando-me de parte da minha legítima herança. É um argumento fraco. Não apenas porque quinhentas libras era um preço justo, mas também porque meu avô se encontrava em sua plena capacidade mental quando assinou o contrato de arrendamento. Ainda assim, se continuarmos a pensar nessa linha, talvez possamos chegar a um desafio legal que dê certo. Nicholas começou a tocar harpa novamente e, dessa vez, a cantar em galês. Clare tirou os chinelos e se acomodou no sofá com os pés sob o corpo. Na segunda música, ele a persuadiu a cantar também. Embora sua voz fosse normal, uma vida cantando hinos religiosos a havia tornado forte e flexível e, como todos os seus compatriotas, Clare amava


música. Cantaram várias canções, às vezes em inglês, outras em galês. Clare cantava quando sabia a letra, e ouvia de bom grado quando não conhecia. Foi uma noite deliciosa, desfrutada por amigos, e ela aproveitou cada minuto e cada nota. Nicholas parecia cada vez mais romântico conforme se inclinava sobre a harpa, o corpo todo envolvido no ato de produzir música, mas o que importava era que eles pudessem desfrutar a companhia um do outro sem nenhuma tensão subjacente. Ao menos, foi o que Clare pensou até que ele começou a cantar canções de amor. A partir daí, cada um de seus olhares tinha o efeito de uma carícia, cada frase parecia destinada a ela, e Clare se viu a meio caminho da ruína. Sem um único toque, Nicholas estava conseguindo minar sua resistência, preparando-a para levá-la para a cama. Seu contentamento desapareceu. — Está tentando me seduzir outra vez — declarou em tom acusador, sentando-se no sofá. Ele parou a música com um sorriso de pura inocência. — Não toquei em você desde esta manhã. — Mas as músicas que está cantando foram feitas para virar a cabeça de qualquer mulher. — Espero que sim. — O sorriso dele se alargou. As esperanças de Clare caíram por terra quando ela percebeu que nada havia mudado. — Achei que fosse parar de tentar me seduzir — falou, amarga. — Se somos amigos, como pode querer destruir a minha vida? — O problema é que eu não vejo isso como uma paixão destrutiva. — Seus dedos dançaram sobre as cordas mais uma vez. — Vejo isso como uma libertação. Satisfação. Como eu disse quando ambos concordamos com este jogo, se eu ganhar, nós dois ganhamos. — E se eu ganhar, você perde — retorquiu ela, sarcástica. — Uma


possibilidade que eu prefiro. Clare levantou-se, calçou os sapatos e rumou para a porta. Era irracional sentir-se traída, pois a crença de que Nicholas tinha parado de jogar fora apenas dela. Mesmo assim, sentia-se profundamente magoada. Quando ele precisara de seu apoio na noite anterior, ela havia deixado de lado seus escrúpulos para ajudá-lo. No entanto, Nicholas não estava disposto a retribuir na mesma moeda. Encontrava-se quase na porta quando ele começou a cantar outra vez, e ela reconheceu a antiga canção de um poeta do século XII, um príncipe chamado Hywel ap Owain Gwynedd. E a melodia soara tão mágica. Minha amada é uma formosa donzela, em seu manto púrpura, tão bela... Encantada, Clare parou, então se virou lentamente para Nicholas. Sua voz aveludada entoava a canção que falava da saudade que um homem tinha de sua amada, e o calor nos olhos negros foi dissolvendo aos poucos sua raiva e resistência. És tu a minha escolhida... Quando haverás de me querer? Por que não dizes nada e preferes no silêncio te perder? Passo a passo, Clare atravessou o cômodo até ele. Os olhos de Nicholas brilhavam, e sua voz subiu para a conclusão da música. Escolhi uma donzela, e não sinto nenhum pesar Tão certo e doce é uma mulher leal amar. Quando as últimas notas se desvaneceram, ele levantou a mão pedindo silêncio e disse baixinho: — O próximo beijo deve partir de você. Tão poderoso era o seu feitiço que ela levantou a mão para tomar a dele. Pura magia cigana. O Velho Nick, em todo o seu poder.


Com desgosto, Clare viu que estava próxima de se render e deixou a mão pender ao lado do corpo. — Age como uma aranha armando uma teia para apanhar uma mosca desavisada... Mas isso não vai funcionar desta vez. O sorriso dele foi breve. — Fazer parte de outro ser é o ápice de uma união. É o que seres humanos se esforçam para fazer quando se acasalam, mas, mesmo na melhor das hipóteses, só o alcançam brevemente. — Acordes melancólicos fluíram da harpa, pontuando as palavras. — Quem pode dizer que a mosca não gosta dessa união final, que é o fim da solidão? Irritada com a capacidade de Nicholas de fazer tudo parecer romântico, ela retrucou: — É uma bonita metáfora, mas a realidade é que a mosca se torna o jantar da aranha. A mosca morre enquanto a aranha passa a devorar outras idiotas. — Ela deu meia-volta e marchou em direção à porta. — Encontre outra vítima. — Clare... Ela ouviu o ruído de cordas quando a harpa foi posta no chão e Nicholas atravessou a sala. Relutante, virou-se para ele. — Não tem o direito de me deter. Já teve o seu beijo de hoje, e o de amanhã também. — Eu sei disso — aquiesceu ele com tristeza. Pairava sobre ela, tão perto que o calor de seu corpo a acariciava. Mas não chegou a tocá-la. — Não posso beijá-la, mas você pode me beijar. — Abriu seu fascinante sorriso cigano. — Posso resistir se quiser... A raiva de Clare transbordou. — Eu não estou brincando, droga! — Por que está tão nervosa? — perguntou ele baixinho. Clare piscou para conter as lágrimas que ameaçava derramar. — Diz que acredita na amizade, mas nos seus termos. É egoísta demais, Nicholas, aliás, como a maioria dos homens que conheci. Ele recuou, e Clare viu, com satisfação, que as palavras o haviam


atingido. — Talvez a amizade entre homens e mulheres seja rara porque os gêneros a veem de forma diferente — ele concluiu, após uma pausa. — Obviamente, acha que a nossa amizade deve ser platônica, embora eu ache que a amizade só aumenta a paixão. — Ele acariciou seus cabelos, os dedos leves como uma teia. — Sim, eu quero fazer amor com você, e há algum egoísmo nisso. Mas se eu quisesse apenas satisfazer minha luxúria, seria mais fácil conseguir isso em outro lugar. Com você, a paixão significaria muito mais, Clare. A ternura em sua voz quase a desarmou, mas se ela cedesse, estaria perdida. Manter a raiva era mais seguro. — Essa sua conversa cigana e sedutora poderia vender carvão em Newcastle, mas não vai dar certo desta vez, eu já disse. Não importa o que diga, Nicholas, o fato é que seus desejos vêm em primeiro lugar, e o que eu quero sempre estará em segundo. Clare sabia que estava sendo irracional e não teria ficado surpresa se ele perdesse a paciência. Contudo, sua resposta foi moderada. — Foi você mesma quem disse que se preocupa mais com o povo de Penreith e com os mineiros do que com seu próprio bem-estar — ele ressaltou. — Estou fazendo o máximo possível para garantir que eles tenham a prosperidade e a segurança que queria. A paixão é meu objetivo neste negócio. Estou apenas tentando fazer você querer o mesmo. E estou conseguindo, não estou? Por isso está tão aborrecida. — Está certo, mas isso não me deixa menos irritada — a honestidade a obrigou a admitir. — Boa noite. Clare saiu e bateu a porta. Nicholas estava tentando fazê-la se esquecer de seus próprios interesses, mas, por Deus, ela iria virar a mesa! Ele a desejava, e ela usaria esse fato para fazê-lo se sentir tão perturbado quanto ela. No entanto, ele deu a última palavra, pois, quando ela já se encontrava deitada na cama, ouviu-o tocar a melodia cadenciada de The Raggle Taggle Gypsies, O!


As palavras da antiga balada dançaram em sua mente, contando a história da dama bem-nascida que desistira das sedas, do ouro e de seu noivo para fugir com os esfarrapados ciganos. A personagem da música devia ser uma louca, imoral, que precisava ter a cabeça examinada se preferia um campo aberto no frio a uma cama de penas de ganso... Mas se o cigano que a atraíra lembrava Nicholas, pensou Clare, não poderia culpá-la nem um pouco.


Capítulo XX Clare acordou menos irritada na manhã seguinte, porém não menos determinada a ensinar uma lição a Nicholas. Mas o que seria uma vingança adequada? O teto de seu dormitório fora pintado com um cenário rústico de sátiros perseguindo ninfas sorridentes, e a resposta lhe veio quando ela observou suas travessuras amorosas. A tática do avanço e do recuo era um padrão que se desenrolava incessantemente entre machos e fêmeas. A mulher fugia, querendo se guardar para o melhor companheiro, enquanto o homem continuava a investir, querendo o maior número de conquistas possível. E este último vinha sendo o padrão de relacionamento entre ela e Nicholas. Uma vez que esse padrão constituía o cerne da situação, sua vingança deveria ser à altura: iria bancar a ninfa para seu sátiro. Agiria como uma desavergonhada até que ele estivesse louco de paixão... E então iria embora, deixando-o afundar na sua frustração. Sem dúvida, seu desejo de vingança era anticristão. Entretanto, após um mês com Nicholas, sua alma estava tão maculada que mais um lapso moral não faria muita diferença. Preocupava-lhe mais saber que estaria agindo com imaturidade. Nunca se comportara de forma tão frívola na vida. Infelizmente, percebeu que ansiava por aquele sinal de sua deterioração moral. Mais grave ainda: havia o risco de que ela se deixasse levar pela paixão e desse a Nicholas o que ele queria. Se isso acontecesse, seria por merecimento. Mas tinha esperança de resistir a seus encantos. Afinal, conseguira dizer “não” após passar a noite em seus braços, um ato heroico que ainda lhe causava espanto. O maior perigo era que, se ele ficasse muito excitado, não seria


capaz de parar quando ela lhe pedisse. E se isso acontecesse, ela não poderia culpá-lo pelas consequências. Mesmo assim, tinha fé no seu autocontrole, visto tê-lo demonstrado mais de uma vez. Nicholas não era nenhum adolescente, assim como ela também não era nenhuma Helena de Troia, cujo rosto colocara mais de dez mil navios em marcha... Sorriu e apoiou as mãos atrás da cabeça. Agora que estabelecera sua estratégia, precisava apenas escolher quando e onde a colocaria em prática. Na manhã seguinte, Nicholas ficou aliviado ao ver que a raiva de Clare tinha passado. Embora ela estivesse calada, não parecia de mau humor. De sua parte, tratou de não requisitar nenhum beijo para compensar os dois extras que havia lhe roubado na manhã anterior. Mas precisava encontrar uma maneira de seduzir aquela teimosa. O problema era que Clare era diferente de todas as mulheres que ele conhecera. A maioria delas era louca por roupas e joias, enquanto Clare só concordara em usá-las para manter sua parte no acordo. As mulheres se derretiam quando os homens as cortejavam com poesia ou canções de amor. Clare nunca se deixava afetar a ponto de esquecer sua enfadonha moralidade. Se ela fosse mesmo uma devota, ele poderia compreender sua resistência; mas estava convencido de que sua religiosidade era muito superficial. No fundo, Clare possuía um traço de sensualidade pagã; ele já vira os sinais. Algo lhe dizia que o que realmente a mantinha virgem era a teimosia. Ela havia jurado não se deixar seduzir e manteria a promessa, nem que isso os matasse de frustração. Cabeça-dura. Sua obstinação, entretanto, jamais se igualaria à dele. No dia seguinte ao “sem beijo”, Clare apareceu para o jantar bonita demais. Nicholas a observou, admirado, enquanto ela atravessava a sala em sua direção com um vestido cor-de-rosa recatado e provocante ao mesmo tempo. Os cabelos também tinham sido


arrumados num estilo diferente, e ele se viu ansiando por correr os dedos pela delicada cascata de ondas e cachos. Ela não se parecia mais com uma professora, e sim com uma mulher sofisticada e sedutora. — Está linda esta noite — elogiou, oferecendo-lhe o braço. — Sua ama não estaria disposta a regressar ao País de Gales conosco? — Polly é excelente, mas não preciso de nenhuma criada — ela declarou, surpresa. — Passei a vida toda sem uma. — Mas creio que vá necessitar de assistência para vestir a maioria de suas roupas novas. Além disso, Polly é muito boa na arte de pentear cabelos. — Está bem — Clare concordou de bom grado. — Vou perguntar se ela está disposta a passar os próximos dois meses no País de Gales, até eu ir para casa. Nicholas detestava quando ela falava em deixá-lo, mas não fez nenhum comentário. Permitir que Clare ouvisse seus planos de longo prazo apenas agravaria sua teimosia. Puxou a cadeira para ela. — Já cuidei dos meus negócios mais urgentes para que possamos voltar a Aberdare depois de amanhã. O rosto delicado se iluminou. — Estarei pronta. — Antes de eu começar a trabalhar na pedreira de ardósia, gostaria de visitar Penrhyn para ver como uma pedreira de grande escala é gerida. — Ele se sentou também. — Se viajarmos para o centro de Gales, levaremos dois ou três dias para ir e voltar. Acha que poderia ir tão longe? — Se o ritmo não for muito puxado... creio que eu adoraria desfrutar um passeio pelo planalto na primavera. — Ótimo. Planeje-se para que possamos ir uma semana ou duas após voltarmos a Aberdare. A refeição foi longa, pois a conversa fluiu livremente. Era tão tarde


quando terminaram de tomar um café que Nicholas não teria se surpreendido se Clare tivesse pedido licença para se recolher. Em vez disso, ela o fitou com tanta inocência que ele começou a desconfiar. — Que tal um pouco de bilhar? — perguntou com casualidade. — Eu tenho praticado bastante e estou ansiosa para jogar com um bom adversário. Nicholas concordou de imediato, e os dois seguiram para a sala de jogos. Clare levantou o taco e o deslizou por entre os dedos. — Vamos apostar alguma coisa? — Deve ter praticado a valer — comentou ele, divertido, enquanto baixava o lustre que pendia sobre a mesa. — O que tem em mente? Um brilho surgiu nos olhos claros. — Se eu ganhar, não terá permissão para me beijar mais. — Nada disso — ele replicou de pronto. — A menos que você não possa dizer “não” esta noite, caso eu ganhe. — Nada feito — ela respondeu por sua vez. — Alguma outra sugestão? Enquanto Nicholas acendia as velas, considerou as alternativas. — Podemos jogar strip bilhar, onde o perdedor de cada jogo tem que remover uma peça de roupa... — Com certeza esse não é um jogo normal. — Não, mas eu jogava pôquer com base no mesmo princípio, e não há nenhuma razão para que não possamos fazê-lo com o bilhar... O perdedor é aquele que ficar nu em pelo primeiro. — Ele sorriu enquanto ajeitava a altura do candelabro e prendia a corda. — Que acha? Clare pensou por um momento. — Está bem, mas se eu ficar apenas de anágua, prefiro perder o jogo em vez de tirá-la. — É justo — ele aquiesceu, surpreso. — Mas precisamos começar


com o mesmo número de peças... — Contou mentalmente. — Se eu tirar a casaca, vou ficar com dez peças, o que deve corresponder ao que você usa. A menos que esteja vestindo saias extras sob esse vestido charmoso. Corando um pouco, Clare fez seu próprio inventário mental, em seguida, assentiu. — Também tenho dez. Vamos começar? — Primeiro as damas... Após ajeitar as bolas, ela se curvou para a primeira tacada. Sua negligência desaparecera, e fez mira com perfeita concentração. Uma mulher jogando bilhar oferecia uma miríade de delícias, concluiu Nicholas. Tornozelos sensuais, um traseiro arredondado, um decote irresistível... Enquanto ele admirava a vista, a danada encaçapou seis das bolas azuis, uma após a outra, e ganhou o jogo antes que ele tivesse a chance de começar. — Tem praticado mesmo... — ele comentou, rindo. Tirou uma das botas polidas e a encostou na parede. Em seguida, começou outra partida. Após acertar quatro das bolas vermelhas, perdeu a quinta quando esta atingiu o ponto errado da lateral e carambolou. Foi a vez de Clare de novo, e ela fez cair todas as suas seis bolas. Nicholas tirou a outra bota, com o cenho franzido. — Deixe-me ver esse taco... Ela o entregou de bom grado, e ele inspecionou a ponta. — O que é este botão? É feito de couro? — Isso mesmo. Mandei o sapateiro aqui perto fazer uma pequena adaptação no meu taco — contou, travessa. Nicholas ergueu as sobrancelhas. — Posso experimentá-lo? Assim que Clare lhe deu permissão, ele deu algumas tacadas com resultados surpreendentes.


— Clarissima, você pode ter revolucionado a antiga arte do bilhar — declarou, devolvendo-lhe o taco. — Nunca vi nada que permitisse tal controle. — Também me surpreendi com os resultados. — Ela mordeu o lábio. — Mas se estou com um taco superior, não é justo. Precisamos jogar de igual para igual... Não quero tirar vantagem de ninguém. — Sorriu, maliciosa. — Pode tirar vantagem de mim sempre que quiser — ele respondeu com voz quente. Esperava um olhar fulminante em resposta ao seu comentário sugestivo, mas Clare não se abalou. — Mais tarde, talvez. — Ela bateu os longos cílios. — No momento, só quero jogar. E vou dar tiros de carambola, também. — Isso deve nos equiparar mais ou menos. Enquanto Clare dava início a uma nova partida, Nicholas descansou contra a mesa, tentando descobrir o que a fazia parecer tão diferente naquela noite. Embora quisesse acreditar que ela parara de resistir e passara a apreciar o inevitável, não conseguia. A bruxinha provavelmente queria colocá-lo em seu devido lugar, acabando com ele no jogo. E com aquela sua melhoria no taco e habilidade incontestável, teria obtido êxito se sua lealdade inata não a tivesse feito equalizar suas diferenças. Nicholas descobriu que era difícil tirar os olhos de Clare, pois um erotismo sutil marcava todos os seus movimentos. Quando ela encaçapou a segunda bola, percebeu que ela agora tinha o ar típico de uma cortesã bem-sucedida, uma mulher ciente de sua feminilidade e de seu poder sobre os homens. Embora ele não acreditasse que ela também havia praticado ser uma cortesã além do jogo de bilhar, Clare com certeza estava revelando uma sensualidade inata. Estava tão absorto em seus pensamentos que ela precisou levantar a voz e repetir:


— Nicholas, é a sua vez... Ele se inclinou sobre a mesa e alinhou o taco. Por jogar bilhar muito bem e por lhe faltar instinto de competição, passara a jogar casualmente ao longo dos anos. Aquela nova habilidade de Clare, porém, devolveu-lhe seu valor. Em poucos instantes, limpou a mesa com eficiência, e foi sua vez de exigir que ela tirasse uma peça. Devagar, Clare se livrou de uma das sapatilhas de pelica, revelando uma ponta do delicioso tornozelo. — Hum... esse tapete é maravilhoso — comentou, movendo os dedos em meio às cerdas altas. Nicholas se viu tentado a se deitar para que ela pudesse andar sobre ele e fazer o mesmo. Em vez disso, ajeitou as bolas outra vez, prometendo a si mesmo jogar o melhor que podia, apenas para ver mais dela. A conversa diminuiu e a tensão aumentou conforme eles se dedicavam à partida tal como dois profissionais. Uma vez que suas habilidades se equipararam, irregularidades na superfície e nas laterais decidiram a maioria dos jogos. A gravata de Nicholas se juntou ao par de botas, e Clare perdeu seu outro sapato. Ao entregar também a partida seguinte, sentou-se e levantou a saia até o joelho. Nicholas assistiu, maravilhado, enquanto ela estendia uma perna bem-torneada no ar e começava a tirar a meia esquerda, muito séria, rolando a seda pálida sobre a panturrilha e o tornozelo. — A liga pode ficar sem a meia, mas não o contrário; então concluí que a meia deve ser a primeira a sair. — Muito lógico — concordou ele com a boca seca. Embora Clare tivesse coberto os tornozelos de novo, Nicholas perdeu seu lançamento seguinte. Sorrindo, maliciosa, ela encaçapou suas bolas com seis tacadas. Após tirar o colete de veludo cinza, ele se ajoelhou e atiçou o fogo


na lareira. A noite estava fria, e ambos estavam perdendo as peças de roupa a uma velocidade espantosa. Nicholas sorriu para si mesmo enquanto acrescentava mais carvão. Sua única vantagem era que ficar nu o incomodaria muito menos do que a Clare. A meia de seda seguinte foi embora com a mesma cerimônia da primeira. Desta vez, ele a observou com o mesmo prazer, mas conseguiu manter a cabeça fria e dar uma boa tacada. Infelizmente, as laterais da mesa não cooperaram em sua quarta tentativa; Clare assumiu a ponta e ganhou a partida. Conformado, ele tirou a primeira meia e, poucos minutos depois, também a segunda. O tapete era mesmo agradável sob pés descalços, pensou. A ansiedade quanto ao que Clare faria em seguida aguçou sua atenção, e ele ganhou a partida seguinte. Ela ergueu a saia de novo, desta vez o suficiente para revelar uma cinta-liga bem acima do joelho. Para deleite de Nicholas, esta era decorada com um delicado cetim rosa. Clare não se apressou para se livrar da cinta. Após colocar os pés no chão, olhou para o acessório por um momento, então ergueu o olhar e, com um sorriso provocante, jogou-o para ele. Nicholas o apanhou no ar e descobriu que o cetim ainda retinha o calor de seu corpo, bem como um tênue vestígio do perfume que ela usava. Amarrou a liga em seu pulso, depois se inclinou sobre a mesa e, ordenadamente, encaçapou quatro bolas. A quinta carambolou, descontrolada, e a vez passou para Clare. Ela tomou posição a seu lado, tão perto que suas saias flutuaram sobre os pés dele quando se inclinou. Nicholas poderia ter lhe dado mais espaço, claro, mas preferiu ficar onde estava. Enquanto Clare alinhava o taco, admirou suas costas, fascinado. Sua mão começou a se estender para dar-lhe um tapinha,


mas ele tratou de se afastar antes que cometesse um faux pas desastroso. Um cavalheiro nunca interferia no curso de um oponente. Clare encaçapou a bola e mudou de posição. Embora toda a sua atenção parecesse estar sobre a mesa, seus dedos dos pés roçaram os dele enquanto se movimentava. Nicholas pousou os olhos nos pés desnudos. O esquerdo agora se levantava no ar, deixando-a equilibrada sobre o direito enquanto dava a tacada. Deus!... Ele nunca tinha notado como seus pés eram delicados. — Nicholas? Ele piscou, saindo do transe. — Hora de tirar alguma coisa — ronronou Clare. Decidindo adotar a mesma tática que ela, abriu os botões na região do pescoço com uma casualidade elaborada. Após soltar a camisa do cós, puxou-a sobre a cabeça, fazendo os músculos saltar. Quando emergiu em meio ao linho, Clare o fitava com os olhos arregalados. Embora ele usasse uma camiseta, esta não possuía mangas e a gola baixa deixava à mostra uma boa extensão de pele morena. Ela engoliu em seco e desviou o olhar para a mesa, mas se desconcentrou e não conseguiu acertar mais nenhuma bola. Ansioso, Nicholas limpou a jogada em menos de um minuto. — Presumo que a próxima peça seja a outra liga? Clare deu-lhe um sorriso maroto. — Isso mesmo. — Empoleirou-se na borda da cadeira e levantou a saia a fim de repetir seu desempenho anterior, mas dessa vez a cinta não colaborou. Após um minuto de agitação, ela olhou para cima com um ar desolado. — Não consigo soltá-la. Pode me ajudar? Nicholas sentiu-se como uma truta sendo hipnotizada por um mestre na arte de pescar. A qualquer momento ele ia acabar ofegante na margem do rio... mas não se importava. Ajoelhou-se diante da cadeira e a fez apoiar o pé descalço em sua coxa. Então deslizou as mãos lentamente pelos contornos da perna


bem-torneada até alcançar a liga acima do joelho. A fita estava bem amarrada, e seus dedos sentiram-se da mesma forma conforme ele os movia, tentando desatá-la. A perna de Clare era quente e suave como seda, e ela estremeceu quando ele tocou a pele pálida. No momento em que conseguiu desfazer o nó, as saias tinham avançado até a metade da coxa, e ambos tinham a respiração acelerada. Nicholas desenrolou a cinta e a entregou. — Pronto. — Deixe-me amarrá-la junto com a outra... — ela pediu com voz rouca. Nicholas ergueu o braço, e Clare prendeu a liga em seu pulso. Seus olhares se encontraram, o dela deliciosamente enevoado, e Nicholas se perguntou se aquele seria o momento certo para reivindicar seu beijo do dia. Clare o poupou da decisão, inclinando-se para a frente e pressionando os lábios nos seus em um beijo quente de boca aberta... E tinha o gosto do mais puro mel. Antes sentado sobre os calcanhares, ele endireitou o corpo e o projetou para a frente, postando-se entre suas pernas e amassando as saias conforme a enlaçava pela cintura. Clare o acariciou no cabelo, zonza, até que, de repente, deixou a borda da cadeira e eles acabaram enroscados nos braços um do outro, ambos rindo da estranheza de sua posição. O riso morreu quando Nicholas sentiu o calor de seu ventre no dele. Estava prestes a beijá-la novamente, quando Clare o encarou. — Pronto para a próxima partida? Ele acariciou-lhe as costas. — Estou pronto para outro tipo de jogo... — Não quer ver como este vai acabar? — provocou ela, acompanhando a pergunta com o sorriso que Eva devia ter usado para


seduzir Adão. Nicholas deu uma risada rouca e, vencido, ergueu-se para longe dela. Clare não apenas estava dando vazão à sua sensualidade natural, mas parecia compreender instintivamente que uma demora aumentaria a gratificação final. Ele admirava sua sabedoria, mas não se importaria se ela capitulasse. Depois de ficar em pé, ajudou-a a fazer o mesmo. — Estou pronto, mas não me lembro de quem é a vez. Ela riu, deliciada. — A minha, acho. Quem começava normalmente levava a partida. E logo a camiseta de Nicholas foi descartada. Conforme ele a tirava sobre a cabeça, os dedos de Clare se apertaram em torno do taco. — Não vamos poder continuar por muito mais tempo — comentou baixinho, o olhar fixo no peito nu. — Mais um pouco e ficaremos nus. — Nada contra — ele observou, satisfeito. Era a sua vez de começar. A tacada ruim deu a vez a ela, entretanto Clare também estava sem sorte. A mesa mudou de mãos mais duas vezes antes que, por fim, ela perdesse. Suspirou, lançando-lhe um olhar provocante. — Vou precisar de ajuda novamente. Como você mesmo disse, vestidos como este não podem ser tirados sem ajuda. — Será um prazer — Nicholas afirmou sem preâmbulos. A parte traseira do vestido era protegida por um complicado arranjo de colchetes e laços. Sorte ele ter experiência na tarefa, ou o restante da noite poderia ter sido desperdiçado enquanto tentava desfazê-los. Quando os fechos se soltaram, deslizou o vestido pelos ombros delicados. O tecido rosa ondulou, caindo para os cotovelos e expondo


a pele acetinada. Incapaz de resistir, Nicholas se inclinou e a beijou na nuca em meio aos cachos de cabelos escuros. Clare exalou o ar com um arrepio. Ele transferiu a atenção para a ponta sensível de sua orelha, depois para a lateral do pescoço e a curva suave do ombro, ao mesmo tempo que forçava o vestido para baixo. Passou-o pela cintura, sobre os quadris, até que este caiu no chão, ao redor dos pés descalços. Clare virou-se para ele, vestida apenas com uma combinação, um espartilho e um saiote. Suas pupilas dilatadas tornavam seus olhos quase negros. Nicholas pensou que ela fosse se atirar em seus braços, mas ela apenas umedeceu os lábios. — É a minha vez. Como seus cabelos já estivessem se soltando, ele tirou o restante dos grampos antes que ela se afastasse, e estes caíram em cascata sobre os ombros, dançando em volta da cintura conforme ela apanhava o taco. Clare acertou cinco bolas seguidas, então errou uma tacada fácil quando uma mecha castanha caiu em seu rosto. Nicholas respirou profundamente para se controlar, e assumiu a mesa. Mais por sorte do que por habilidade, ganhou o jogo. — Precisa de auxílio para tirar o saiote? — perguntou, esperançoso. Ela riu e balançou a cabeça. — Não, mas se ganhar outra partida, precisarei de ajuda para me livrar do espartilho. Clare desfez o laço que segurava a saia em volta da cintura, depois se desfez do saiote leve e enfeitado com renda retorcendo o corpo com graça. Sob a saia, usava apenas uma combinação transparente, na altura dos joelhos. Foi difícil para Nicholas desviar o olhar para a mesa. Ocorreu-lhe que, em todas as outras vezes que estivera com uma mulher tão


escassamente vestida, havia feito amor com ela. Tomara o resultado não fosse diferente dessa vez, refletiu com um suspiro. Conseguiu encaçapar a primeira bola com Clare assistindo do outro lado da mesa. Enquanto ele preparava a segunda tacada, ela cruzou os braços em cima da borda e se inclinou sobre eles. Seus seios eram tão redondos e perfeitos como as bolas de marfim, e pareciam prestes a saltar do decote. Distraído, Nicholas cutucou o feltro, errando a jogada. — Não é justo! — reclamou, rindo. — Isso foi jogo sujo. — Eu não teria perdido a minha última tacada se você não tivesse soltado os meus cabelos — ela retrucou sem o menor arrependimento. Com um sorriso felino, acertou todas as bolas, então se endireitou e esperou que ele tirasse as calças. Com o olhar preso no dela, Nicholas desabotoou os botões e tirou a calça, ficando apenas com um par de ceroulas na altura dos joelhos. O jogo estava muito próximo do fim, mas ele não se deixaria abater antes de vê-la vestida apenas com a combinação. Clare começou a partida seguinte e encaçapou três bolas antes de a seguinte desviar em um pedaço de feltro careca. Era sua chance, pensou Nicholas. Concentrando-se como poucas vezes fizera na vida, deu a primeira tacada, depois a segunda. Sua mira não foi perfeita na terceira, porém acertou a bola-alvo o bastante para derrubá-la. Mais três para pôr fim à partida... Limpou as mãos na camisa descartada, então se inclinou e encaçapou a quarta. Numa bravata final, conseguiu derrubar as duas últimas bolas com uma só tacada. Tentando controlar a ansiedade, rolou as bolas azuis de Clare para dentro dos buracos. — Chegou a vez do espartilho, Clarissima... Com os quadris balançando, ela caminhou até ele e, em seguida,


virou-se de costas. Como seu corpo esbelto não necessitava de um corpete muito comprido, o dela era mais curto e confortável, terminando na cintura. Feito de algodão branco acolchoado, a peça ajustava-lhe ainda mais a cintura, e lhe apoiava os seios sedutoramente. Embora já tivesse feito aquilo inúmeras vezes, os dedos de Nicholas se atrapalharam enquanto puxavam os cadarços através dos ilhoses. Em nada ajudou o fato de a combinação ser tão transparente que ele podia ver as curvas de suas pernas e quadris. Quando o espartilho se soltou, ele deslizou as alças estreitas pelos ombros de Clare, sem esperar mais, passou as mãos sob seus braços e segurou-lhe os seios. Sob o tecido frágil da combinação, os mamilos enrijeceram. Conforme ele os acariciava com os polegares, Clare prendeu a respiração e recuou deliberadamente, moldando o corpo ao dele. O controle de Nicholas desapareceu. Pegando-a pela cintura, ele a ergueu e a colocou sentada sobre a borda da mesa de bilhar, nivelando seus rostos. O beijo foi selvagem, e ela o retribuiu na mesma medida. Inebriado, ele se postou entre suas pernas e acariciou as pernas roliças, puxando a bainha da combinação para cima. Então, para seu profundo espanto, a mão dela deslizou para baixo. Nicholas quase desfaleceu de prazer quando os dedos delicados se fecharam, hesitantes, em torno de seu membro intumescido. Cego de paixão, ele a fez se deitar de costas sobre a mesa. Enquanto se posicionava em cima dela, não teve outro pensamento além de remover as vestes leves que os separavam. — Chega, Nicholas! — A voz de Clare cortou o ar. — Pare agora! Ele tentou focar a vista enevoada em seu rosto. — Por Deus, Clarissima, não desta vez! — implorou com voz rouca, a mão subindo por sua coxa. — Deixe-me mostrar como... — Não! — ela o interrompeu, o rosto alternando uma gama de emoções. — Sua cota de hoje terminou.


Não havia dúvida em sua voz. Nicholas paralisou, incapaz de prosseguir, incapaz de se afastar. No silêncio tenso que se seguiu, as batidas do relógio da sala foram claramente audíveis. Um, dois, três... Doze. Ele sorriu, triunfante. — Meia-noite, Clarissima... Já é outro dia. E curvou-se sobre ela para cobrir um seio com a boca.


Capítulo XXI Clare havia precisado de toda a determinação do mundo para pedir a Nicholas que parasse, e sua resistência desmoronou quando a boca quente e úmida fez mágica em seu peito. Arqueou-se contra ele, incapaz de lembrar por que queria que aquilo acabasse. Ele puxou a alça da combinação de seu ombro e começou a beijar o outro seio, dessa vez sem o tecido fino. Clare acariciou-lhe as costas, febril, os dedos afundando na musculatura flexível. Os dedos de Nicholas traçaram um caminho de fogo em direção ao lugar mais secreto entre suas coxas. Quando ele a tocou intimamente, Clare gemeu e inclinou a cabeça para trás e para a frente, pois não tinha palavras para a paixão de sua resposta. Nicholas a acariciou com ardor, levando-a a se abrir por completo. Foi então que Clare sentiu a pressão de algo rijo e contundente, lento mas inexorável... Por instinto, sabia que ele lhe oferecia a satisfação pela qual seu corpo ansiava, e tornou a se erguer contra ele, recebendo seu peso. Uma dor a varreu. E tão lancinante que o desejo desapareceu. Assustada, ela empurrou os ombros largos. — Não! Nicholas congelou, o peso apoiado sobre ela, o rosto devastado pelo desejo enquanto a fitava. O eixo rígido que a pressionava palpitou como se decidido a invadi-la por conta própria. A dor e o medo a dominaram para além dos pensamentos de moralidade e vingança, e Clare implorou: — Chega, por favor! Nicholas respirou fundo. Por um momento, as consequências de seu ato pesaram na balança. Pouco depois, com os tendões dos braços destacando-se como bandas de aço, ele se ergueu, praguejando baixinho. Clare fechou os olhos por um instante, mas o alívio foi imediatamente seguido por uma imensa confusão. Santo Deus, como


podia ter permitido que aquilo acontecesse? Apertou o pulso contra a boca, tentando conter a vergonha que a dilacerava. Quem semeia o vento colhe tempestade. Sabendo que se encontrava a um triz de uma crise de choro, ela se obrigou a sentar e puxou a combinação de modo a se cobrir o máximo possível. Nicholas sentou-se no chão, a testa apoiada nos joelhos, o rosto invisível. Tinha a mão travada em torno de um pulso à sua frente e tremia tanto quanto ela. Clare desviou o olhar, a culpa açoitando-a tão quanto a dor física de alguns momentos antes. Apesar da raiva, não era aquilo o que ela pretendia. Queria apenas dar uma lição a Nicholas, não acabar com os dois. — Sua imitação de professora dedicada não é ruim, mas você é bem mais convincente como cortesã — falou, amargo. As lágrimas que Clare tentava conter explodiram, por fim, e ela começou a chorar copiosamente. — Não pare por aí. Não sou apenas uma vagabunda, mas também uma farsa, uma hipócrita — ela completou, odiando a si mesma. — Por alguns momentos eu quis ser uma mulher sem virtude, mas não consegui nem ao menos isso! — Escondeu o rosto nas mãos. — Tomara eu nunca tivesse nascido! — Não exagere — Nicholas murmurou após um longo silêncio. — O que seu pai teria feito sem você? — Meu pai mal sabia que eu estava viva. — A garganta de Clare quase se fechou, como se em retaliação pelo fato de ela ter dito em voz alta o que nunca havia admitido para si mesma. E Nicholas, desolado, compreendeu sua agonia. — Nunca se sentiu amada por ele? — indagou com voz mais controlada. — Ah, ele me amava... — ela replicou, fria. — Era um santo, amava a todos. Teve tempo, compaixão e sabedoria para todo mundo que pedia. Mas eu não podia pedir, então nunca houve nada disso para


mim. — Clare manteve a cabeça baixa, incapaz de olhar para Nicholas. — Você foi o único que me perguntou como era viver com um santo, por isso vou dizer a verdade: era um verdadeiro inferno. A primeira coisa que aprendi com minha mãe foi que a obra de Deus é mais importante do que a família do pastor, e que devemos colocar sempre o trabalho em primeiro lugar. Eu tentei tanto ser o que meu pai esperava, ser piedosa, serena e generosa, uma boa cristã como ele e minha mãe foram... Acho que acreditava que, se eu tornasse a vida do meu pai mais fácil, ele teria mais tempo para mim. Mas ele nunca teve. — Clare riu sem vontade. — Quando você me contou como ele o ajudou quando veio para Aberdare, fiquei com ciúmes porque obteve muito mais do tempo e atenção de meu pai do que eu. Não é muito bonito da minha parte, é? — É humano desejar o amor do pai. Talvez nunca superemos essa falta. — Não sei por que estou lhe contando isso — murmurou ela, enterrando as unhas nas palmas. — Sua família foi muito pior do que a minha. Ao menos meu pai nunca me vendeu para ninguém, nem disse que queria outra pessoa como filha. E quando ele se lembrava de que eu existia, sempre me agradecia muito por cuidar tão bem dele. — É fácil odiar alguém que trai você descaradamente — Nicholas observou. — Talvez seja pior ressentir-se de um santo altruísta que traiu de maneiras mais sutis, principalmente quando todos em sua comunidade pressupõem que deva ser altruísta e santa, também. Nicholas havia entendido tudo muito bem. Revoltada, Clare enxugou as lágrimas. — Eu nunca fui santa. Embora eu não me importasse de me doar, queria algo em troca, e nunca parei de lamentar por não ter conseguido. Sou egoísta e gananciosa. Clare não percebeu que Nicholas tinha se levantado e atravessado a sala até que seus dedos lhe tocaram os cabelos. — Pois me parece uma mulher incrível, Clare, mesmo não sendo


quem pensava ser. — Acariciou-lhe a nuca tensa. — Levará algum tempo para que saiba quem você realmente é. O velho tem de ser destruído antes que haja espaço para o novo, e esse é um processo doloroso. Embora, a longo prazo, vá ser mais feliz, peço perdão por têla levado a isto. Eu sei que parece contraditório, mas embora eu quisesse arruiná-la, nunca quis magoá-la. Clare descansou o rosto na mão morena, pensando em como aquela conversa era estranha. Ambos pareciam ter ultrapassado a raiva e mergulhado na resignação. — Não é culpa sua, Nicholas. Não me fez nada tão ruim quanto o que fiz a mim mesma. E estou envergonhada pelo que tentei fazer com você. — Ela tentou sorrir. — Agora entendo por que Deus reservou para Si próprio uma vingança... Quando um mortal faz isso, nada dá certo. — As coisas muitas vezes dão errado entre homens e mulheres — afirmou ele, irônico. — É impressionante como a raça humana consegue sobreviver. O acasalamento parece ser bem mais fácil para os animais irracionais. Talvez fosse esse o seu problema, ela ponderou, e suspirou. — Não sei por que confessei o que tenho de pior em mim... Expiação para o meu mau comportamento, acho. Nicholas a segurou pelos braços. — Estou bastante lisonjeado por ter me escolhido para ser sincera. Pare de castigar a si mesma, Clare. Seus pecados são mínimos, frutos apenas da confusão, e não da malícia. — Uma mulher da minha idade não deveria ser tão confusa. Ele se afastou por um momento, depois voltou para pôr a casaca sobre os ombros dela. — Vá para a cama. Eu cuido das coisas por aqui. Ninguém vai saber o que quase aconteceu. Mesmo agora, aquilo importava para Clare. Com a ajuda de Nicholas, ela desceu da mesa. Ainda não tinha coragem de encará-lo,


mas ficou feliz em ver que ele havia ao menos vestido as calças outra vez. Quanto mais barreiras entre eles, melhor. Saiu da sala de jogos e caminhou descalça pela casa adormecida. A lua estava quase cheia, e lançava luz suficiente para que encontrasse o caminho. Apenas quando chegou ao quarto percebeu que estava sangrando. Uma riso histérico ameaçou escapar de sua garganta. Aquilo queria dizer que ela não era mais virgem? Era possível ser parcialmente virgem? Nicholas devia saber, mas ela não se imaginava questionando-o sobre algo tão íntimo, mesmo que ele fosse o único responsável por seu estado de semivirgindade. Enquanto providenciava uma proteção para absorver o sangue, pensou em como era irônico que estivesse arruinada sem nem mesmo ter se beneficiado disso. Passou uma coberta em volta dos ombros e afundou na poltrona próxima à janela, tensa demais para ir para a cama. Relutante, voltou a pensar nos momentos loucos em que estivera cega para tudo, a não ser a paixão. Estremeceu com a lembrança do desejo que a assolara, e esta aqueceu os recantos secretos que Nicholas havia trazido dolorosamente à vida. Pela primeira vez, Clare compreendia como uma paixão podia cegar alguém para a honra, a decência e o bom-senso. Nem mesmo lhe ocorrera como fora ridículo e vulgar ser deflorada sobre uma mesa de bilhar. Se não fosse pela dor súbita e inesperada, ela e Nicholas seriam amantes agora. A despeito das várias referências feitas por mulheres casadas de que perder a virgindade era um tanto dolorido, Clare teve a impressão de que aquele desconforto logo passaria. Certamente a dor variava de mulher para mulher. Deveria estar contente por ter sido difícil para ela, e por a dor tê-la salvado daquela loucura, ou deveria lamentar não ter ido com Nicholas até o fim?


Provavelmente estaria mais feliz se tivesse se livrado de sua virtude de uma vez. Com certeza estaria bem menos confusa. Agora que tanto a paixão como a dor tinham diminuído, Clare se perguntava se havia planejado aquela pequena vingança com a secreta esperança de que Nicholas fosse dominá-la com sua masculinidade. Se ele tivesse conseguido fazer isso, agora ela estaria dormindo em sua cama, quente e protegida em seus braços. Uma pecadora... mas uma pecadora feliz. Olhou para a face branca da lua que flutuava sem paixão acima da intrincada colmeia de Londres. Na mitologia ocidental, a lua era sempre do sexo feminino, e Diana, deusa da Lua, fora uma virgem agressiva. O que ela teria feito com Nicholas? Clare sorriu, pesarosa. Provavelmente Diana teria jogado fora seu arco e flecha e o puxado para uma cama de musgo na floresta. Apertou a coberta com mais firmeza em torno de si mesma, pensando em como sentia falta da solidez de sua antiga vida. Embora ainda tivesse dúvidas, havia sido capaz de ignorá-las a maior parte do tempo. Então tinha se envolvido com Nicholas, e suas certezas se dissolveram como um castelo de areia, deixando-a em um estado constante de perturbação. No entanto, mesmo tendo admitido que era uma fraude como cristã, não conseguia descartar a moralidade. Em seu coração, ainda acreditava que seria errado se tornar amante de Nicholas. Se ela se entregasse por lascívia, iria desprezar a si própria assim que seu desejo fosse satisfeito. E de um ponto de vista prático, seria uma idiota caso se doasse a um homem que não a amaria, muito menos se casaria com ela. Ser ou não amante de Nicholas era irrelevante naquele momento. Embora ele tivesse sido sensato após o fiasco daquela noite, não imaginava que ele fosse desejá-la novamente. E isso significava que talvez ela pudesse obter sucesso em um de seus antigos objetivos:


fazer com que ele a mandasse embora. Ainda que isso não fosse fazê-la feliz. Com um suspiro, levantou-se da poltrona e foi para a cama. Não podia mudar os acontecimentos desastrosos da noite, e era muito cedo para entender que tipo de mulher era agora, já que não contava com mais nenhuma fachada atrás da qual se esconder. Em vez disso, precisava convencer sua mente cansada a pensar em como poderia enfrentar Nicholas pela manhã. Os negócios tiraram Nicholas de casa cedo, pelo que ele ficou grato. Era difícil acreditar que tão pouco tempo havia se passado desde que Clare tinha invadido sua vida. Eles pareciam estar comprimindo anos de complicações em semanas. Seu relacionamento mudara na noite anterior, e ele não fazia ideia do que viria a seguir. Desejava-a mais do que nunca, no entanto, seu quase colapso nervoso fora tão angustiante para ele quanto para ela. Quando conseguiu dar conta dos negócios, considerou brevemente parar em um estabelecimento muito caro e discreto, onde as meninas eram lindas, ardentes, e estavam sempre dispostas. Mas descartou a ideia de imediato. Deitar-se com uma estranha não eliminaria seu desejo por Clare e, com certeza, o deixaria mais deprimido do que satisfeito. Sua residência ficava perto de Hyde Park, e Clare costumava caminhar por lá àquela hora. Assim, Nicholas decidiu ir para casa por aquele caminho. Como o dia estava frio, o parque se encontrava relativamente vazio, e ele logo avistou Clare e a obediente dama de companhia que a seguia. Entregou as rédeas ao cavalariço, ordenando que este voltasse para casa, em seguida dispensou a ama com um gesto. Quando assumiu o passo ao lado de Clare, ela lançou-lhe um olhar sem surpresa. Usava roupas simples, e não havia sombras em seus olhos. Tinha recuperado sua compostura habitual. — Tem um talento nato para aparecer e desaparecer do nada —


observou apenas. — Parece um gato. Nicholas segurou-lhe o cotovelo, e eles caminharam em direção ao pequeno lago chamado Serpentine. — Fico feliz que esteja falando comigo. Clare suspirou e desviou o olhar. — Não tenho motivo para ficar zangada com você. Tudo o que aconteceu comigo pode ser atribuído à minha teimosia e péssima capacidade de discernimento. — Pode achar que não é uma boa cristã, mas com certeza já aplacou sua culpa. Clare virou-se para ele com uma expressão indignada. — Prefiro isso a não ter nenhuma consciência, como certas pessoas que conheço... Nicholas acariciou os dedos que descansavam em seu braço. — E eu prefiro quando está me criticando. Soa mais normal. Um sorriso relutante brincou nos lábios rosados. — Se “normal” significa ter vontade de lhe dar um tapa na orelha, estou em ótimas condições. — A primeira regra no combate cigano é nunca estapear a orelha de ninguém que seja vinte centímetros mais alto que você. — Vou me lembrar disso. Chegaram à beira do lago onde patos brigavam barulhentamente, e dois meninos pequenos lançavam seus veleiros de brinquedo sob o olhar atento de uma babá. Conforme os barquinhos começaram a circular na água, Nicholas apontou naquela direção com um gesto de cabeça. — Lucien diz que há planos em andamento para que as celebrações pela vitória sejam feitas aqui, em junho. Parece que o príncipe regente vai mandar reencenar a Batalha de Trafalgar no Serpentine. — Está falando a sério? — Verdade. Deve haver fogos de artifício, desfiles e uma feira para


o povo. Se quiser ver o espetáculo, posso trazê-la de volta para Londres depois. — Não consigo pensar no que vai acontecer daqui a dois meses quando mal posso imaginar como será o dia de amanhã. — Clare o fitou, os olhos azuis cheios de dor. — Não podemos continuar como estamos, Nicholas. Você sabe disso. — Por que não? — Armamos um jogo perigoso de sedução e provocação que está nos empurrando além dos nossos limites — ela explicou sem preâmbulos. — Em meio à minha neurose e à sua frustração, vamos nos destruir mutuamente se não pararmos agora. — Talvez esteja certa — concordou ele, com evidente relutância. — O que me propõe? — Com certeza será mais fácil para nós dois se eu voltar para a minha casa em Penreith. Uma onda de ansiedade o consumiu. — O que eu falei antes ainda está de pé — ele disse, áspero. — Se me deixar antes de terminados os três meses, abandonarei os meus planos para o vale. Clare parou de andar e o encarou. — Eu não consigo entender por que se importa tanto com a minha presença ou a minha ausência. A esta altura, penso que gostaria de prosseguir com o assunto da mina apenas para irritar lorde Michael. Nicholas também não entendia, mas sabia muito bem que não queria que ela fosse embora. Começou a levantar a mão, querendo convencê-la com um toque, porém Clare se retesou e esquivou-se sutilmente. Com um nó no estômago, Nicholas deixou pender a mão. Se ela começasse a temê-lo, não iria suportar. Conseguiu pensar em apenas uma solução aceitável, ainda que detestasse a ideia. — Eu renuncio aos meus beijos diários. Isso deve colaborar para que fiquemos juntos sem perder a sanidade. Não foi abstinência o que


sugeriu como aposta quando começamos a jogar bilhar ontem à noite? Clare franziu as sobrancelhas. — Agora estou entendendo menos ainda. Você se recusou terminantemente a desistir dos beijos ontem. — Isso foi antes. Minha proposta agora é essa. — Ele a segurou pelo braço e começou a andar outra vez, parecendo disposto a cumprir a palavra. — Deveria ser óbvio que gosto da sua companhia. Quando voltarmos para Aberdare, talvez eu arrume um cachorro, mas por enquanto, tem de cumprir esse papel. Clare sorriu, a expressão se suavizando. — Uma vez que colocou a questão em termos tão lisonjeiros, como posso recusar? Nicholas ficou feliz em vê-la sorrir. Mas, enquanto caminhavam de volta para Aberdare House, precisou encarar o fato de que tinha apenas dois meses para convencê-la a ficar... E não podia mais usar a paixão para persuadi-la. O duque de Candover voltou para casa e encontrou seu hóspede prestes a sair. — Tenho negligenciado muito você, Michael? — indagou Rafe, escondendo sua inquietação. — Nem um pouco — o amigo replicou, inexpressivo. — Mas não posso me dar o luxo de perder mais tempo agindo como um inválido. Tenho muito que fazer. Não há nada de errado comigo. Já levei pancadas piores na cabeça. — Lembrando-se das boas maneiras, acrescentou: — Obrigado por ter ficado comigo. — Por que não desiste de alugar aquele quarto e fica aqui? — Rafe sugeriu. — Eu iria gostar de ter companhia. — Vou deixar Londres. Já negligenciei meus negócios por tempo demais. É hora de eu cuidar deles pessoalmente. Rafe engoliu em seco. — Isso inclui a mina de Penreith, por acaso?


Michael apanhou o chapéu com o mordomo e o colocou, fazendo com que a aba lançasse uma sombra sobre seus olhos. — Inclui. O duque conteve o impulso de praguejar. — Uma guerra já acabou. Espero que não esteja indo para lá a fim de iniciar outra. — Ninguém ama mais a paz do que um soldado aposentado — garantiu Michael com uma expressão fria e indecifrável. — Virei procurá-lo quando eu voltar para Londres. Em seguida virou-se e saiu pela porta da frente sem olhar para trás.


Capítulo XXII Clare concluiu que passar sem os beijos de Nicholas era muito mais simples e confortável do que viver no limite do perigo. Infelizmente, era também bem menos agradável. Haviam perdido não apenas o contato físico em si, mas também a familiaridade. Agora Nicholas nunca a tocava, exceto em situações formais, como para ajudá-la a subir ou descer de uma carruagem. Embora eles ainda conversassem com desenvoltura, era como se parte dele tivesse se retirado. No retorno para Aberdare, Nicholas preferiu montar seu cavalo em vez de sentar-se na carruagem com Clare e Polly. Isso reduziu parte da tensão que os cercava, contudo tornou a viagem muito mais longa do que a anterior, para Londres. Clare sentiu um estranho misto de emoções ao voltar para o vale. Era a sua casa, o lugar mais familiar no mundo para ela. No entanto, sentia-se uma pessoa diferente da que tinha partido. Ela havia mudado e nunca mais seria a mesma. A primeira coisa que fez assim que chegou a Aberdare foi ir ao encontro de Williams. Após descrever o que tinha comprado para a casa e avisar quando as compras iriam chegar, perguntou sem preâmbulos: — Por acaso algum criado foi embora por não querer conviver com uma mulher depravada e imoral? Depois de um momento de hesitação, o mordomo respondeu com igual franqueza: — Dois deles: Tegwen Elias e Bronwyn Jones. Bronwyn não queria ir, mas sua mãe insistiu. Poderia ter sido pior. O código de conduta era algo muito sério no vale. — Haverá mais problemas? — Não creio. Eu poderia facilmente ter contratado mais duas


empregadas, mas pensei que seria melhor fazê-lo quando a senhorita voltasse. — Ele deu um sorriso. — Bons empregos são difíceis de encontrar. Eu mesmo não iria desistir de um trabalho por conta de alguns rumores. Então o pragmatismo estava do seu lado. Clare pensou em perguntar se Williams possuía alguma opinião sobre sua moral, ou a falta dela, mas decidiu que preferia não saber. No dia seguinte à sua volta para casa, Clare se viu ocupada em avaliar o que havia sido feito em sua ausência. Williams e os criados tinham feito um excelente trabalho nas várias salas, que agora estavam limpas, brilhantes, e não mais entulhadas de velharias. Com os papéis de parede, tintas e tecidos que ela encomendara em Londres, a mansão em breve ficaria tão linda como merecia. Embora as questões domésticas estivessem a contento, sua ansiedade aumentou ao longo do dia. Haveria uma reunião da congregação naquela noite, e Clare não estava certa do tipo de recepção que iria ter. No jantar, Nicholas notou seu humor e perguntou se havia algo errado. Quando ela explicou, ele deu um suspiro. — Eu me ofereceria para ir com você, mas desconfio de que isso só iria piorar a situação. E imagino que não vá querer faltar a esse encontro. — Seria muita covardia. Pior ainda, poderia parecer esnobismo perante meus velhos amigos chegar acompanhada da nobreza. — Comprimiu os lábios. — Se eles me pedirem para sair, ao menos eu vou saber em que posição me encontro agora. Depois do jantar, Clare subiu a escada e colocou um de seus antigos vestidos, que não necessitavam da ajuda de ninguém. Os membros do grupo eram seus amigos mais próximos e também as pessoas mais propensas a acreditar nela. No entanto, em seu coração, sentia que merecia ser expulsa da reunião. Embora ainda pudesse ser virgem, não havia dúvida de que


adotara uma conduta imoral. E o pior de tudo: não estava arrependida. Confusa e infeliz, sim, mas não arrependida. Seguiu com a charrete para a casa dos Morris, chegando um pouco antes de o encontro começar. Quando entrou, onze pares de olhos se fixaram nela. — Clare... — Marged quebrou o silêncio e se aproximou para lhe dar um abraço, sorrindo. — Estou feliz em vê-la. Precisa ir logo até a escola... As crianças estão com saudades. — E também estão ansiosas para visitar a lagoa de lorde Aberdare. Clare ficou feliz com o apoio da amiga, mas isso não significava que o restante do grupo se mostraria tão solidário. Olhou ao redor, oferecendo um sorriso hesitante. Vários dos outros membros sorriram de volta, e o jovem Hugh Lloyd deu-lhe uma piscadela. Seu olhar pousou em Edith Wickes, que tinha mais chances de condená-la. — Ainda sou bem-vinda aqui? — indagou, tímida. Edith estalou a língua. — Mostrou ser muito pobre de julgamento, criança. Metade do vale está convencida de que é uma meretriz. — Não me deitei com lorde Aberdare — ela se defendeu, profundamente grata por poder dizer a verdade. — Espero que não. Mas há aqueles que preferem pensar mal, como a sra. Elias. — Edith bufou, exasperada. — Quando o Senhor vier para separar as ovelhas dos cabritos no Juízo Final, não vai encontrar muita coisa boa nela. A sra. Elias afirmou que você não se dignaria a vir para a reunião agora que está trabalhando na casa grande, mas eu sabia que viria. Com um suspiro de alívio, Clare se inclinou e abraçou a velha amiga. — Deus a abençoe por confiar em mim. Não posso dizer que minha conduta tenha sido acima de qualquer suspeita, mas não fiz nada de


terrível. Como anda o ensino na escola dominical? — Deixemos a conversa para mais tarde, senhoras. Já é hora de começarmos a reunião — Owen lembrou, na qualidade de líder do grupo. — Cantemos um hino ao Senhor. Agradecida, Clare relaxou em meio ao ritual familiar de hinos, discussões e orações. Quando chegou sua vez de falar, contou brevemente que Londres era um lugar repleto de excitação e tentações, e que era bom estar em casa. Quando a reunião acabou, todos ficaram para um chá, bolos, e a oportunidade de ouvir Clare falar de sua viagem. Depois que ela os regalou com descrições da Torre, dos “monstros mecânicos” e de sua visita à Fundição, a qual fora a primeira capela de John Wesley, levantou-se com pesar. — Já é hora de eu ir embora. Conforme o grupo se despedia, Owen se aproximou. — Vou acompanhá-la de volta a Aberdare, Clare. Não a quero indo tão longe sozinha. Ela deu-lhe um olhar curioso, pois o vale tinha sido sempre muito seguro, mas concordou. Enquanto rumavam de volta para Aberdare em sua charrete, Owen explicou que seu objetivo principal era falar com Nicholas. Nada de muito importante, mas talvez Sua Graça pudesse se interessar pelo assunto. Ao ouvir o barulho da porta da frente, Nicholas surgiu da biblioteca como se estivesse esperando pelo retorno de Clare. Vendo Owen, ofereceu-lhe um largo sorriso e um aperto de mão caloroso. — Que maravilhosa coincidência! Tenho algumas perguntas que, espero, você possa responder. — Eu também tenho várias perguntas — retrucou Owen. — Devo estar presente ou ausente nessa conversa? — indagou Clare. — Presente — Nicholas respondeu conforme conduziu ambos para


a biblioteca. — Owen, você primeiro. Uma vez acomodado em uma das poltronas de couro estofadas, o encarregado respirou fundo. — Isso pode não significar nada, mas há alguns dias, eu vi algo estranho enquanto passeava com meus filhos... Ele descreveu uma choupana que Huw tinha encontrado à margem da propriedade de Michael Kenyon quando fora colher narcisos para Marged, e da qual viram Madoc e Wilkins saindo às escondidas. — Interessante — Nicholas comentou, intrigado. — Tem alguma ideia sobre o que isso pode significar? — Pela quantidade de fumaça saindo pela chaminé, eu diria que o lugar está sendo usado para processar metal de alta qualidade — opinou Owen com cuidado. — Possivelmente ouro, mas o mais provável é que seja prata. — E isso é possível? — Nicholas indagou com surpresa. — Eu sei que já encontraram ouro e prata no País de Gales, mas não muito, e nunca nesta área. — Às vezes se encontra prata bruta em torrões chamados “prata em fio” — explicou Owen. — Uma vez vi um exemplar que foi encontrado perto de Ebbw Valley, e era impressionante. Tão puro que podia ser derretido e moldado em lingotes em um forno quente... como o da cabana. Eu não creio que prata em fio seria encontrada em uma jazida de carvão, mas lembram-se daquela galeria fechada, onde eu disse que o veio tinha terminado quando a rocha mudava? É possível que essa rocha diferente contenha prata. Nicholas franziu as sobrancelhas. — Então, talvez Wilkins tenha descoberto prata e recorrido a Madoc. Se o metal surgiu em veios pequenos e é muito puro, pode estar sendo extraído da mina sem que os outros homens tenham percebido. E a propriedade de Kenyon é um local perfeito para derretêlo em segredo, pois lorde Michael não se encontra.


— Por que Wilkins teria procurado Madoc em vez de manter uma descoberta tão valiosa para si mesmo? — Clare perguntou, intrigada. — Nye Wilkins não é inteligente o suficiente para processar e vender prata sem um parceiro experiente como Madoc — Owen respondeu. — Se nossos palpites estão certos, eles podem estar fazendo um bocado de dinheiro extra. — Isso é exatamente o que precisamos! — Clare quase saltou da cadeira de tanta empolgação. — A locação de lorde Michael abrange apenas a extração de carvão, e não de outros minerais. Se Madoc e Wilkins estão roubando minério de prata ou qualquer outro mais valioso da mina, você tem motivos para romper o contrato de arrendamento, Nicholas! Mesmo que lorde Michael não saiba o que seus empregados estão fazendo, com certeza sua empresa é responsável por tomar qualquer coisa que pertença a você! Houve um silêncio tenso. Então Nicholas deu um grito, pulou da cadeira e puxou Clare para um beijo. Bem a tempo, lembrou-se de fazê-lo rapidamente. — Nós vimos lorde Michael Kenyon em Londres — ele contou, virando-se para Owen. — Ele esteve com o Exército na península, por isso andou negligenciando seu negócio. Uma vez que se recusou a fazer qualquer alteração, estávamos sendo obrigados a pensar em uma maneira de romper o contrato de arrendamento. E agora, por Deus, temos como fazer isso graças a você e Huw! Owen sorriu. — Está certo. É mesmo por obra de Deus. É difícil acreditar que foi por acaso que Huw encontrou o caminho para a cabana e depois me levou até lá. — Até agora, tudo isso não passa de especulação. O que precisamos é de provas, urgentemente. Poderia me levar para a mina de novo? Se constatarmos a mineração ilegal, poderei ir a tribunal, encerrar a operação já existente e, em seguida, iniciar a minha. Owen fez uma careta.


— Descer na mina não será fácil. Depois que Madoc o proibiu de visitar as instalações, também deu ordens para que o avisassem imediatamente caso você pisasse por lá. O encarregado que gerencia o poço principal é um rapaz decente, mas nunca iria contra uma ordem de Madoc. — Que tal descermos à noite? Uma vez estando no subsolo, não importa a que horas isso seja feito. — Não sei... Depois da sua visita, Madoc mandou construir uma cerca em torno do poço, e à noite, agora há um cão de guarda e uma sentinela. Talvez seja possível passar por eles, mas seria impossível operar o elevador sem sermos notados. Todos acharam Madoc louco de ter empenhado tantos esforços para mantê-lo afastado. — Owen deu de ombros. — Mas, no fundo, ele sempre foi assim. — O que você descreveu elimina a entrada principal, mas, e quanto àquele antigo poço chamado Bychan? — indagou Clare. — O que é usado principalmente para ventilação? Os olhos de Owen se arregalaram. — Que memória você tem, moça. Eu tinha me esquecido dessa entrada. — Seria útil? — Nicholas perguntou, ansioso. — Deve ser — respondeu o encarregado, pensativo. — É muito estreito, mas tem uma caçamba que é operada por um homem e um pônei, então precisaríamos de apenas outra pessoa para ajudar. Não bastasse isso, o eixo desce perto do túnel fechado. Dessa maneira, não teríamos de andar muito e arriscar sermos vistos. — Que tal daqui a quatro dias? Isso me dará tempo para que qualquer advogado de Swansea me oriente sobre os aspectos legais — ponderou Nicholas. — Além disso, antes de entrar na mina quero visitar esse barraco misterioso, para que possamos analisá-lo com mais cuidado. Se estiverem derretendo prata lá, deve haver vestígios ao redor do forno ou sobre o equipamento, ou seja, mais provas. Owen assentiu.


— Quatro dias, então. Isso também vai me dar tempo para verificar se a corda e a caçamba estão em bom estado de funcionamento. — Sua expressão ficou sombria. — Quanto mais cedo a coisa for feita, melhor. Na última quinzena, os problemas de gás foram piorando, e houve três colapsos de túnel por conta da droga do madeiramento. Ninguém morreu desde o dia em que você desceu, mas sinto que algo terrível está para acontecer. — Daqui a uma semana essa mina vai estar em minhas mãos, e eu poderei fazer todas as melhorias necessárias — afirmou Nicholas com confiança. Seu instinto cigano lhe dizia que tinham encontrado o caminho para tirar o controle de lorde Michael. E se Michael não gostasse, problema dele.


Capítulo XXIII George Madoc não teve tempo para se preparar para a visita de seu empregador. Lorde Michael Kenyon simplesmente caminhou para o escritório sem que o escrevente o anunciasse. E Madoc não teria reconhecido o visitante magro, de olhar duro, como o jovem aristocrata que o havia contratado quatro anos antes. No entanto, quando o desconhecido falou, sua voz profunda era inconfundível. — Desculpe-me chegar sem aviso, Madoc, mas decidi vir para Penreith por impulso. Madoc ficou de pé e apertou a mão que ele lhe oferecia, suando. — Lorde Michael, que surpresa... Eu não sabia que estava na GrãBretanha. — Fui enviado de volta dois meses atrás por estar convalescendo. Com o fim da guerra, estou vendendo minha patente e, por isso, agora poderei assumir um papel mais ativo nos negócios. — Sem esperar por convite, Michael sentou-se. — Para começar, quero ver os livros contábeis dos últimos quatro anos. — Tem queixas sobre a minha administração? — o encarregado indagou, ríspido, tentando parecer indignado em vez de preocupado. — De maneira alguma. Tem produzido lucros respeitáveis. Quero apenas me familiarizar com a operação novamente. — Ele deu um sorriso fraco. — Após anos no Exército, preciso reaprender os caminhos da vida civil. — Claro. — Madoc pensou depressa. — Os livros estão na minha casa. Vou apanhá-los e enviar tudo ao senhor de uma vez. Está na pousada? — Não. Em Bryn House. Estava a caminho de lá agora, mas decidi passar aqui primeiro. — Voltou para ficar? Kenyon deu de ombros.


— Não sei por quanto tempo. Não tenho pressa para ir embora... O País de Gales é muito agradável na primavera. — Gostaria de uma xícara de chá ou de algo mais forte? — Não é necessário. — Michael ficou em pé novamente e começou a andar sem descanso em torno do espaçoso escritório. — Lorde Aberdare lhe causou algum problema? — Sim — Madoc concordou, assustado. — Como soube? — Eu o vi em Londres, e ele me falou sobre a segurança da mina — Kenyon contou, seco. — Nós discordamos com alguma violência. Madoc bufou. — O conde não parece perceber que a mineração sempre foi um negócio perigoso. — Foi exatamente o que eu disse. — Sua Graça virou-se, a expressão dura. — Ele invadiu minha propriedade? — Uma vez. Mas ordenei que não fizesse mais isso e pus guardas para tomar conta da mina durante a noite. Ele não voltou mais. — Excelente. Se Aberdare fizer isso de novo, tome todas as medidas necessárias para mantê-lo fora daqui. Uma ideia brilhou na mente de Madoc. — Para ser honesto, embora ele estivesse incomodando, tive escrúpulos em negar a entrada do conde, afinal, ele é muito amigo seu. — Foi. Não é mais — afirmou Michael, em uma voz tão fria como o vento do inverno. — Aberdare já me prejudicou o suficiente. Não vou permitir que ele estrague também os meus negócios. Informe-me imediatamente se ele perturbar de novo. — Sim, senhor. E lhe mandarei os livros amanhã. Com um breve aceno de cabeça, Michael saiu do escritório, fechando a porta. Madoc afundou na cadeira, em seguida apanhou uma garrafa de uísque de uma gaveta da mesa e serviu-se de uma medida generosa com mãos trêmulas. Lorde Michael Kenyon sempre fora astuto, mas


agora parecia ameaçador. Por que o bastardo não tinha sido morto na península? Congratulou-se por ter tido o bom-senso de manter os livros-caixa falsos em dia. Daria mais uma olhadela neles naquela noite para ter certeza, mas não devia haver nada que chamasse a atenção de Sua Graça. Afinal, a mina continuava muito lucrativa. Não tanto quanto deveria, claro... Mas não havia nada nos livros de contabilidade que revelassem a quantidade de dinheiro que ele vinha desviando. No entanto, o retorno de lorde Michael era um desastre. Quando este comprara a mina e estivera envolvido com o negócio, o homem possuía o péssimo hábito de aparecer quando menos se esperava, mantendo-se lamentavelmente atento a cada detalhe. Portanto, ele poderia muito bem notar a discrepância entre a quantidade de dinheiro gasta com madeiramento e a real condição dos túneis. E também poderia desconfiar de sua rentável atividade paralela... Precisava interrompê-la por algum tempo. Conforme o uísque firmou suas mãos, Madoc se recostou na cadeira com uma carranca. Filho de um lojista de Swansea, havia trabalhado arduamente para obter tudo o que tinha. Por quatro anos, administrara aquela mina com tanto cuidado como se ela fosse sua, e de maneira nenhuma receberia ordens daquele aristocrata mimado. Infelizmente o maldito nobre era dono do negócio, e ele teria de bancar o empregado submisso por enquanto. Com sorte, Kenyon logo iria se aborrecer e deixar o vale, e as coisas voltariam ao normal. Mas, se isso não acontecesse... Madoc não se preocupou em completar o pensamento, porém, enquanto tornava a encher o copo de uísque, começou a considerar o que poderia fazer para melhorar sua posição. Sua primeira ideia teve a virtude da simplicidade, embora apenas uma chance razoável de sucesso. Se falhasse, tentaria um esquema mais complicado, que exigiria arregimentar outros homens. Isso era sempre um risco, mas se


fosse necessário, ele sabia onde encontrar bandoleiros que, além de fazer tudo o que ele ordenasse, segurariam a língua depois. Assim que terminou a bebida, deixou um sorriso desagradável se espalhar pelo rosto. Embora sua primeira reação ao retorno de lorde Michael tivesse sido de raiva, quanto mais pensava, mais percebia que aquela era a chance de conseguir o que ele merecia. Era mais esperto do que Aberdare ou Michael Kenyon, e havia trabalhado muito mais do que aqueles dois almofadinhas juntos. Já era hora de George Madoc se tornar o homem mais poderoso do vale. Clare riu enquanto olhava a multidão de crianças cheias de energia com satisfação. O piquenique estava sendo um sucesso. Um dia após a reunião do grupo da igreja, tinha combinado de levar os alunos para ver a lagoa com Marged. A amiga lembrara que o primeiro de maio se aproximava, e que não havia melhor maneira de celebrar a primavera do que um piquenique. A organização do passeio não fora difícil, embora elas tivessem contado com apenas dois dias para fazê-lo. Três carroças de Aberdare foram preenchidas com palha e levadas para a escola. Lá elas foram invadidas por crianças exultantes, além de várias mães cuja função era impedir que os pequenos caíssem dos veículos em sua animação. Em seguida, as carroças retornaram para Aberdare, atravessaram toda a propriedade e seguiram pela trilha até a lagoa. Até mesmo o clima instável da região tinha cooperado, e o dia nascera quente e ensolarado. Não que a chuva pudesse causar um adiamento. Os galeses eram uma raça resistente, inclusive as crianças. Ainda assim, era melhor um céu azul e uma brisa leve. Em vez de se acomodar em uma das carroças, Clare montou Rhonda, o manso pônei galês. Nicholas também foi a cavalo. Ela havia ficado surpresa quando ele se oferecera para ir com a expedição, contudo ele alegara, com um brilho nos olhos, que queria proteger sua propriedade. Fossem quais fossem suas razões, estava se divertindo tanto


quanto os pequenos. Clare o observou, refletindo que Nicholas possuía a habilidade de viver o momento, uma característica típica dos jovens. Raramente esse traço sobrevivia até a idade adulta. Ela o invejava por isso, pois não conseguia se lembrar de ter sentido aquele prazer descomplicado que via em seu rosto enquanto ele alimentava os peixes com pedaços de pão. Havia conhecido um tipo diferente de prazer em seus braços... Rindo, Nicholas tirou uma criança encharcada do lago, e ela se virou, o rosto pegando fogo. Embora eles estivessem vivendo como irmãos, sua memória rebelde não a deixava esquecer os momentos que tinham passado juntos. Fora melhor assim, disse a si mesma com convicção. E antes que sua mente discordasse, ela se juntou às outras mulheres, que começavam a servir as tortas de carne de carneiro e bolos de groselha preparados pela cozinheira de Aberdare. O céu começou a ficar nublado, então, quando todos já haviam comido, começaram a se preparar para voltar para casa. Nicholas colocou as crianças menores nas carroças, onde a maioria se aninhou junto à palha e adormeceram como anjinhos. Uma vez contados todos os alunos, ele sinalizou para os condutores, e os veículos retumbaram de volta pela clareira. Nicholas e Clare foram os últimos a sair. Devido a seu garanhão negro ser fogoso demais para perambular em meio a crianças curiosas, ele decidira montar um cavalo de caça castanho e sossegado. — Foi muito divertido. Temos de fazer isso de novo. Clare sorriu conforme incitava Rhonda a trotar atrás das carroças. — Fico contente por sentir-se assim, porque não vai ter escolha. Quando as crianças forem para casa contar sua aventura às famílias, será obrigado a programar uma tarde em que toda a aldeia possa participar. Uma tarde de sábado seria perfeito. — Por mim, tudo bem. — Ele riu. — Que tal no solstício de verão?


Mas se for para o vilarejo todo vir, seria melhor fazermos o piquenique em uma clareira maior. Clare sorriu, e eles passaram a cavalgar em silêncio. Lá na frente, a voz de Marged se ergueu em uma canção, e logo o ar se encheu com as vozes das crianças que continuavam acordadas. Para Clare, foi um daqueles momentos perfeitos, quando a taça da vida estava cheia até a borda. Tinham percorrido um terço da trilha que descia a montanha, quando Nicholas comentou casualmente: — Talvez você ainda não saiba, mas ontem Michael Kenyon voltou para o vale. Dizem que está hospedado em Bryn House e cuidando dos assuntos da mina. Clare virou-se para ele, preocupada. — Ele está aqui? — É o que dizem. — Nicholas esboçou um sorriso. — Não fique tão horrorizada, Clarissima. Bryn House é a única casa que Michael possui, portanto, é natural que tenha voltado. — Não é natural se ele está decidido a dar continuidade à briga de vocês. — Clare esquadrinhou as colinas ao redor, tensa. — Ele é perigoso, Nicholas. — Sim, mas também é inteligente. É pouco provável que vá tentar me matar quando seria o primeiro suspeito — ponderou Nicholas. — Meu palpite é que quando esfriou a cabeça depois do nosso duelo, Michael se lembrou do que eu disse sobre a mina e decidiu investigar. — Espero que esteja certo — Clare murmurou, insatisfeita. À sua frente, houve alguns segundos de silêncio enquanto uma canção terminava e outra era escolhida. O céu ficara completamente cinza, e um trovão ribombou à distância. Um instante depois, um novo estrondo se fez ouvir, dessa vez bem mais perto. O pônei de Clare recuou e o cavalo de Nicholas ergueu as patas no ar com um relincho, obrigando-o a se segurar sobre a sela. Após controlar a montaria, ele se inclinou e deu um tapinha no


flanco de Rhonda. — Siga pela curva em frente — vociferou. — Agora! O pônei disparou, seguido pelo cavalo de caça. Clare quase caiu, mas, após alguns momentos de pânico, conseguiu recuperar o equilíbrio. Eles voaram morro abaixo até a curva, depois subiram um barranco em direção a um deslocamento de rochas. — Pode desacelerar agora — explicou Nicholas. — Acho que estamos seguros aqui. Clare freou a montaria e o fitou, confusa. Antes que pudesse perguntar o que havia causado aquilo tudo, viu sangue escorrendo pelo pescoço do cavalo que ele montava. — Santo Deus! Aquilo foi um tiro de espingarda, não um trovão! — ofegou, apavorada. — Você está bem? — Estou. Apenas Cesar foi atingido. — Ele se abaixou e examinou a ferida no pelo castanho. — Foi só um arranhão. Ele vai ficar com uma cicatriz, mas não foi nada grave. — Não foi nada grave? — Clare começou a chorar. — Poderia ter morrido! — Não é a primeira vez que um caçador atira acidentalmente em alguém. Tivemos sorte. Ele acariciou o pescoço suado do cavalo castanho, murmurando palavras de conforto. Clare teve vontade de esmurrá-lo por sua estupidez. — Não acha coincidência demais que lorde Michael tenha voltado a Penreith em um dia e alguém tente acertar você com um tiro no outro? Nicholas considerou a hipótese com calma. — Não, Clare. Como Michael saberia onde me encontrar hoje? — Todos no vale sabiam desta expedição! — ela replicou, exasperada. — Se Michael quisesse me matar, não faria isso em meio a carroças repletas de mulheres e crianças. — Nicholas apertou um lenço no


pescoço do animal a fim de estancar o sangramento. — E também não iria errar o alvo. Sabendo que de nada adiantaria perder a cabeça, Clare respirou fundo. — Não seria mais sensato presumir que o atirador era lorde Michael? Tomar algumas precauções pode salvar sua vida. — O que quer que eu faça? — Nicholas incitou o cavalo a seguir adiante sem pressa. — Até imagino de onde veio esse tiro, mas quem disparou já foi embora faz tempo. Se eu for à Justiça e acusar Michael de tentativa de assassinato, serei ignorado porque não tenho nenhuma prova. Mesmo que essa bala tenha sido para mim, não vou passar o resto da vida encolhido dentro de casa e evitando janelas por medo de ser ferido. Prefiro morrer. — Nicholas olhou para ela. — Não estou dizendo isso para evitar que se preocupe, Clare. Sinceramente, creio que foi um tiro acidental de um caçador. Se Michael vier atrás de mim, será cara a cara, não dessa maneira. — Por quanto tempo mais vai arrumar desculpas para ele? — ela retorquiu, desanimada. — Ainda que eu admire a sua lealdade, não entendo como pode ter tanta certeza sobre o que Michael vai ou não fazer. Não o vê há anos, e ele mudou muito ao longo desse tempo. Nicholas permaneceu em silêncio por algum tempo. — Nenhum ser humano é totalmente previsível, mas é possível se conhecer uma pessoa suficientemente bem para enxergar seus limites — ele respondeu por fim. — E Michael é uma das poucas pessoas que eu conheço muito bem. Não me surpreende que esteja irritado, amargo e violento, características que sempre foram suas. Mas, ao mesmo tempo, a honra é tão parte dele como seu sangue e ossos. Sim, ele é perigoso... mas não acredito que seja vil. — Ontem visitou a choupana na propriedade de Kenyon e encontrou evidências de que prata está sendo processada lá — lembrou Clare. — Amanhã, você e Owen irão descer na mina para procurar provas da mineração ilegal. Se e quando encontrá-las, acha


que lorde Michael vai ficar de braços cruzados enquanto põe fim aos negócios dele? Nicholas a fitou com frieza. — Não quero pôr fim aos negócios dele. Tudo o que Michael tem a fazer é melhorar a segurança e mantê-la. Mas se ele optar por dificultar as coisas... — Nicholas encolheu os ombros. — Problema dele. — Não estou pedindo que passe o resto da vida dentro de casa, apavorado, mas poderia ao menos ficar alerta! — Não se preocupe. Enquanto estávamos em Londres, revisei meu testamento. Se alguma coisa acontecer comigo, vai se tornar a administradora de um fundo com dinheiro suficiente para fazer o que for necessário na mina de Penreith para mantê-la próspera. Incluí nele um estipêndio para compensá-la por seu tempo e esforço. — Ele deu um sorriso irônico. — Deveria estar rezando para Michael me matar, pois você e a aldeia iriam se beneficiar muito com a minha morte. Dessa vez, Clare bateu nele. Ou ao menos tentou, mirando o rosto moreno com a mão aberta. Nicholas a segurou facilmente, deixando-a imóvel no ar conforme freava o cavalo. — O que foi isso?! — perguntou, quando o pônei que ela montava também estacou. — Como se atreve a me dizer para rezar por sua morte?! — Lágrimas deslizaram pelo rosto delicado. — Certas coisas não devem ser ditas nem mesmo de brincadeira! — A vida é uma piada, Clarissima. — Ele tocou-lhe a mão com os lábios e, em seguida, a soltou. — E o riso é a única maneira de sobreviver a ela. Não perca seu tempo se preocupando comigo. — Não tenho escolha — ela replicou num sussurro. — E você sabe disso. A expressão de Nicholas se fechou, e ele se virou para a frente, tornando a pôr o alazão em movimento.


À medida que cavalgavam em silêncio pela trilha, Clare soube que Nicholas compreendia o que vira em seus olhos. Porém, assim como ela, não fora capaz de admitir.


Capítulo XXIV Nicholas acordou para um mundo envolto em neblina. Sorriu com satisfação. Era o clima perfeito para uma visita clandestina à mina. Depois de se vestir com roupas gastas de mineiro, desceu a escada para um rápido café da manhã. Clare já se encontrava na sala, e o fitou, séria, enquanto se levantava para lhe servir o café. — Tenha cuidado, por favor. — Eu terei. — Ele engoliu o café escaldante e o completou com um pedaço de pão com geleia de laranja. — Até o início da noite, tudo estará resolvido. Ainda mastigando o pão, saiu da casa e percorreu a trilha até os estábulos. As brumas que dançavam a seu redor tornaram a viagem para Penreith assombrosamente bela. Empolgado, ele quase cantarolou enquanto seguia pela estrada familiar. Estranho pensar como tinha resistido aos esforços de Clare para que se envolvesse com os assuntos do vilarejo. Agora ele se sentia mais vivo do que jamais estivera nos últimos anos. Se ainda conseguisse convencer Clare a terem um caso... O pensamento o deixou um pouco desanimado. Estava cada vez mais difícil para ele manter aquele maldito acordo “de irmãos”. Havia algo irresistivelmente erótico em Clare, uma mistura de decoro e paixão, e sua imagem o atormentava dia e noite. Nunca mais ele seria capaz de olhar para uma mesa de bilhar com os mesmos olhos... Sua aceitação logo se desvanecera. A presente situação era quase intolerável, e o futuro lhe parecia ainda pior, pois Clare tinha toda a intenção de partir quando os três meses se esgotassem. Sem dúvida devia haver uma solução para aquele dilema, mas, maldição, ele não fazia ideia de qual era! Foi um alívio chegar ao seu ponto de encontro, um grupo de árvores não muito longe da mina. Owen já o esperava, ao lado de um


homem mais velho com uma perna de madeira. Tão logo ele desmontou, o encarregado fez as devidas apresentações. — Este é Jamie Harkin. Ele vai operar a corda e a caçamba. Partiram silenciosamente para o seu destino, Nicholas puxando o cavalo. O ruído habitual nas proximidades da mina era abafado pela neblina. Estavam no fundo do vale e o nevoeiro continuava espesso, forçando-os a ir devagar ou correriam o risco de se perder. Nicholas não se incomodou. O poço Bychan ficava perto o suficiente do principal, e alguém poderia notar qualquer atividade suspeita. Mas naquele dia, o nevoeiro encobriria suas atividades. Quando chegaram ao poço, Nicholas amarrou o cavalo na corda da roda que operava a caçamba. Havia escolhido um potro forte e tranquilo para a tarefa. Owen verificou a roldana e a corda, em seguida assentiu. — Eu vou primeiro. — Acendeu uma vela e entrou na gaiola. — Jamie, faremos um sinal ao puxar esta linha, que toca um pequeno sino. Harkin pôs o cavalo em movimento e Owen saiu de cena, descendo pelo poço estreito, acompanhado apenas pelo rangido da roldana. Quando a campainha tocou, Jamie inverteu a direção do movimento, erguendo a gaiola para a superfície. Foi a vez de Nicholas. Com a vela acesa, ele entrou na caçamba e acenou com um gesto de cabeça para que Jamie o descesse. Quando o fez, concluiu que viajar em um engradado era apenas um pouco melhor do que sobre um laço de corda, como acontecera em sua primeira viagem às profundezas da mina. O poço Bychan era tão estreito que ele sentiu como se estivesse entrando em uma toca de coelho. O ar soprava ruidosamente ao passar pela gaiola, e esta balançava e batia contra as paredes. Pouco antes de ele atingir o fundo, a vela se apagou. Por sorte, Owen o aguardava com a sua própria. Nicholas saiu da caçamba e acendeu a vela na de Owen.


— Por onde vamos? — Por aqui. — Owen partiu para a direita. — Não é muito longe, mas farei um caminho alternativo para evitar que sejamos vistos. Aquela era uma das mais antigas seções da mina, e as vigas de apoio eram poucas e distantes umas das outras. Conforme seguia o outro homem, Nicholas se lembrou de sua primeira viagem lá para baixo e das deliciosas complicações ao ficar preso na enchente com Clare. Ela fizera grandes avanços na arte de beijar, naquele dia... Controlou os pensamentos, rigoroso. Já tinha aprendido que uma mina não era lugar para se distrair. Passaram por um dos áditos que escoava a água, em seguida esconderam-se em um trecho abandonado enquanto meia dúzia de meninos empurrava vagões vazios ao longo do túnel principal. Depois que o ruído das rodas desapareceu, eles continuaram. Quando cruzaram uma galeria onde o bater metálico das picaretas podia ser ouvido, Owen franziu o cenho. — É o lugar para onde os rapazes estavam levando os carros. Alguns dos nossos companheiros decidiram trabalhar em uma nova jazida aqui perto. Não gostei nada dessa ideia. Há muito gás nesta parte da mina, por isso ela não tem sido trabalhada nos últimos anos. Mas existe um bom veio no final do túnel, e por esse motivo, alguns se dispuseram a assumir o risco. Ainda mais depois que Madoc baixou ainda mais os pagamentos e fomos obrigados a extrair mais carvão para ganhar o mesmo que antes. Poucos minutos depois, chegaram ao túnel cuja entrada estava fechada por tábuas cruzadas. Owen se abaixou e passou por baixo delas, e Nicholas fez o mesmo, reparando que a poeira do chão tinha sido pisada recentemente, e várias vezes. Manteve um olho na parede e notou a mudança de cor na rocha conforme chegavam ao fim do poço. Owen começou a alisar a parede com as mãos. — Se houver mesmo o que estamos procurando, está aqui.


— E o que estamos procurando? — perguntou Nicholas, fazendo o mesmo. — De vez em quando, deparamos com bolsas de ar na pedra. Elas são chamadas voogs, e podem ser de qualquer tamanho: desde o de uma noz até o de um quarto. O lugar típico onde a prata em fio pode ser encontrada. Wilkins era um dos picadores quando esse veio estava sendo trabalhado. Meu palpite é que ele deve ter deparado com uma bolsa importante e manteve a boca fechada quando percebeu o que tinha encontrado. Como o túnel foi descartado e as obras pararam, ninguém notou. A mão de Nicholas desapareceu abruptamente em um buraco na altura de seu joelho. Ele se abaixou para um exame mais detalhado e encontrou uma fenda de cerca de sessenta centímetros de diâmetro. — Que tal esta? Conforme Owen se juntava a ele, deitou-se de barriga para baixo e se contorceu para dentro do buraco. — Vamos ver aonde isto vai dar... A cavidade se curvava para a esquerda e, em seguida, se abria para um espaço maior. Ele levantou a vela, então soltou uma exclamação de surpresa quando a luz se refletiu em milhares de superfícies brilhantes. Era uma câmara irregular e alongada, de aproximadamente dois metros e meio de comprimento por um e oitenta de altura. O que a tornava extraordinária era a quantidade de cristais que se projetavam das paredes. Movendo-se com cautela para não quebrar a cabeça em uma ponta de quartzo, Nicholas se endireitou e chamou: — Venha, Owen! Este lugar é incrível! Um momento depois, o encarregado se juntava a ele. Depois de ficar em pé, estudou o seu entorno, impressionado. — Uma caverna de cristal... Os antigos acreditavam que estes lugares eram mágicos, e talvez estivessem certos. Já vi menores, mas nunca uma tão grande.


Nicholas apontou para um aglomerado de quartzo esmagado. — É isso que estamos procurando? Owen remexeu os cacos de pedra e aproximou a vela. Conforme o fazia, a luz incidiu sobre uma lasca de prata brilhante. Ele apontou para o minúsculo fio de metal no centro da área demolida. — Isso mesmo — concordou, triunfante. — Isto é um filete que se rompeu quando um punhado de prata em fio foi esculpido. Vamos ver quantas áreas mais foram quebradas... Fizeram uma avaliação completa e encontraram cerca de quarenta pontos que haviam sido explorados. Vários apresentavam vestígios de prata em fio deixados para trás. E também descobriram outra passagem baixa. — Depois que Wilkins extraiu toda a prata daqui, provavelmente aproveitou para explorar ao redor, na esperança de encontrar uma caverna próxima a esta — deduziu Owen. Em seguida abriu caminho para a pequena bolsa de ar que também continha formações de quartzo, embora não tantas. Devia ter sido recém-descoberta, pois havia poucas áreas cinzeladas. Quando Nicholas levantou a vela e estudou o teto, um brilho capturou seus olhos. Ele olhou mais de perto e viu um emaranhado de prata em fio contornando irregularmente uma ponta de quartzo. — Eureca! — exclamou baixinho. — Uma formação intacta. Owen se aproximou e olhou por cima de seu ombro. — Quase bonita demais para se quebrar, não?... — Quase. Mas precisamos levá-la como amostra. Quando formos ao tribunal, isso vai nos ajudar a convencer um juiz que nunca viu um veio de prata na vida. Owen tinha levado várias ferramentas e começou a extrair o quartzo. — Leva algum tempo para extrair — comentou, enquanto trabalhava. — Além do mais, a maioria das formações fica escondida em meio aos cristais e não é tão fácil de encontrar como foi esta.


Desconfio que Wilkins já venha trabalhando aqui há meses, em momentos em que ninguém está prestando muita atenção. Owen libertou toda a formação, com quartzo e tudo, e a entregou a Nicholas. — Isto pertence a você. O veio cintilante era do tamanho de uma maçã, só que muito mais pesado. Para proteger o cristal delicado e os filetes de prata, ele o envolveu em um lenço e, em seguida, guardou-o em um dos bolsos do casaco. — Quando sairmos daqui, quero levá-lo até Swansea, então poderemos prestar nossos depoimentos perante um juiz. Meu advogado está pronto para pedir uma liminar. Até amanhã, a mina deve ser fechada. Owen franziu a testa. — Eu não o ajudei para que os mineiros fossem despedidos e morressem de fome...? — Claro que não — Nicholas assegurou. — Vou contratar todos com os mesmos salários. Eles podem trabalhar na pedreira de ardósia e iniciar a construção dos trilhos. Nenhum deles sairá prejudicado. Owen assentiu, aliviado, e se abaixou para deixar a bolsa de ar. Nicholas o seguiu, com os planos borbulhando na cabeça, e eles fizeram o caminho de volta até o corredor principal. Ao passarem pelo túnel que levava para o poço mais novo, ouviram homens caminhando em sua direção. — Eu sempre tive um talento especial para a detecção de gás, e este está mais pesado agora do que antes — comentou Owen num sussurro. — Se estivesse pior, teríamos de apagar nossas velas e encontrar o caminho de volta no escuro. Um dos rapazes também deve ter notado isso e convenceu os outros a sair, graças a Deus! — Ou então um deles enviou os outros para fora a fim de tentar a velha técnica de deitar, inflamar o gás e deixá-lo passar sobre ele... — Isso é feito às vezes, mas espero que não tentem fazê-lo agora.


— Na luz bruxuleante das velas, a expressão de Owen demonstrou preocupação. — Por conta da avareza de Madoc, o escoramento aqui é o pior da mina. A maior parte da madeira foi removida e reutilizada em túneis mais recentes. Não seria preciso muito para causar um desmoronamento. Há também o perigo de se provocar explosões de poeira. — Ele torceu os lábios. — Até a poeira do ar pode explodir sob as condições erradas... ou certas. Nicholas disse a si mesmo que os experientes mineiros não fariam nada que fosse perigoso, mas tratou de andar mais rápido. Em sua experiência, qualquer grupo tinha a sua cota de imbecis. Deu um suspiro de alívio quando chegaram à área aberta, onde a caçamba os esperava. De repente, ouviram um estrondo nas passagens logo atrás deles. Um homem gritou, agoniado, e outra explosão medonha trovejou através dos túneis, seguida por outra que sacudiu a terra sob eles. — Que Deus nos ajude, o lugar inteiro está vindo abaixo! — gritou Owen, pálido. Nicholas olhou para o engradado, a mente fervilhando enquanto tentava imaginar uma maneira em que ambos pudessem sair dali juntos, mas levou apenas um instante para perceber que era impossível. Agarrou o braço de Owen e o empurrou em direção à caçamba. — Você vai primeiro. Tem uma família. Owen hesitou por um instante, então recuou. — Não! Nicholas começou a dizer que a explosão provavelmente não os afetaria, mas não conseguiu terminar. Em vez de perder tempo falando, o encarregado desferiu um soco em seu maxilar. O golpe inesperado apanhou Nicholas desprevenido. Embora não perdesse a consciência, sua visão nublou-se e seus joelhos bambearam. Tentou protestar quando Owen o empurrou para dentro do engradado e enrolou suas mãos em torno de uma das cordas do


elevador, mas não adiantou. Quando estava preso de forma segura, o outro homem puxou o cordame para dar o sinal. O sino tocou acima de suas cabeças e, ainda tonto, Nicholas começou a subir em direção à superfície, praguejando. Abaixo dele, os sons do desastre iam se aproximando. O ar se deslocou através do poço, fazendo com que a caçamba batesse descontroladamente contra as paredes. Assim que chegou à superfície, Nicholas se jogou para fora, aos berros: — Desça essa droga de novo! Precisamos tirar Owen! Jamie Harkin obedeceu no mesmo instante. Desesperado para acelerar o processo, Nicholas puxou a cabeça do cavalo, usando todos os truques ciganos de que se lembrava para convencer o animal a trabalhar mais rápido. Mas era tarde demais. Abaixo deles a terra rugiu, e uma nuvem de fumaça negra e sufocante foi expelida violentamente pelo buraco, contrastando com o branco do nevoeiro. A força da explosão atirou o engradado para cima como um foguete e, arrebentando as cordas, o fez cair no chão a quinze metros de distância. Enquanto Nicholas assistia, horrorizado, o poço entrou em colapso, cortando a coluna de fumaça. A catástrofe que todos haviam preconizado havia finalmente atingido a mina de Penreith.


Capítulo XXV A explosão foi ouvida em todo o vale, e centenas de homens, a quilômetros de distância, convergiram para a mina a fim ajudar nas operações de resgate. Com o poço Bychan fechado, Nicholas correu para o principal e se juntou ao primeiro grupo de resgate para descer abaixo do solo. Embora alguns homens o reconhecessem, surpresos, ninguém lhe questionou o direito de estar lá. Na mina, ele não era um conde, e sim apenas outro par de mãos necessárias. Com um misto de revolta e energia, ele cavou as pedras quebradas durante horas, até sentir as mãos quase em carne viva e os músculos trêmulos de exaustão. A certa altura, afundou em meio a uma pilha de escombros e conseguiu libertar um rapaz que ainda estava vivo. Mais frequentemente, contudo, os trabalhadores que eram descobertos se encontravam além de qualquer ajuda. Após incontáveis horas de trabalho, alguém segurou seu braço e o levou de volta para o elevador, dizendo que ele precisava descansar ou iria atrapalhar mais do que ajudar. Quando Nicholas chegou à superfície, descobriu que o nevoeiro tinha se dissipado e que o sol estava se pondo, inundando o vale com raios avermelhados. Uma voz autoritária gritava ordens ali perto, mas ele estava cansado demais para prestar atenção às palavras. Apertou os olhos contra a claridade quando outro bom samaritano apontou para uma mesa onde sanduíches e chá quente estavam sendo servidos. Pensar em comida revirava-lhe o estômago, mas ele aceitou uma caneca de chá fumegante que alguém colocou em sua mão. A bebida estava doce demais, no entanto seu calor o ajudou a desanuviar um pouco a cabeça. Tinha um sem-número de arranhões e contusões, mas não sentia dor, percebeu. Na verdade, não sentia nada. O local borbulhava de gente. Embora alguns se movimentassem


energicamente, a maioria era de familiares esperando notícias dos mineiros desaparecidos. Alguns choravam, outros esperavam com um ar de fatalidade estampado nos rostos pálidos. Ele jamais se esqueceria daquelas expressões enquanto vivesse. Ficou surpreso ao ver Clare. Como uma ilha de força em meio ao caos, ela parecia comandar o fornecimento de alimentos aos trabalhadores. E embora estivesse a meio quilômetro de distância, devia ter percebido que era observada, pois ergueu a cabeça. Seus olhares se encontraram por um momento, e uma corrente de dor e compaixão fluiu entre eles. Nicholas virou-se, sabendo que, em seu estado atual, ela poderia ultrapassar suas barreiras. E se isso acontecesse, ele desmoronaria. Relutante, mas incapaz de impedir a si mesmo, caminhou ao longo dos resultados da carnificina: duas fileiras de corpos que tinham sido dispostos no chão e cobertos com sacos vazios de carvão. Contou vinte e oito. Enquanto observava, outra vítima foi colocada ao final de uma das filas. O cadáver estava todo queimado, porém uma mulher se jogou de joelhos a seu lado e, ao ver um anel, explodiu em prantos e gritos de dor. O corpo foi coberto, e um homem mais velho a carregou para longe. Dominado por náuseas, Nicholas deu meia-volta, apenas para se ver cara a cara com Marged Morris. Aos dezesseis anos, ela havia sido a garota mais bonita do vale. Depois crescera e se tornara uma mulher adorável. Agora seu rosto parecia desfigurado, e Marged aparentava o dobro de sua idade. — Não encontrei Owen — sussurrou, a voz irreconhecível. — Ele... Há alguma chance? Nicholas preferiria ter morrido na mina a ter de responder àquela pergunta. No entanto, precisava fazer isso, pois só ele sabia onde Owen se encontrava no momento da explosão.


— Creio que não, Marged — respondeu, dominado pelo pesar. — O poço Bychan veio abaixo, e os túneis sob ele também devem ter sido bloqueados. — Sua garganta se fechou, e ele se obrigou a engolir com dificuldade. — O engenheiro não acredita que haja algum sobrevivente naquela parte da mina. Por um momento, Marged apenas o fitou, a ponto de Nicholas se perguntar se ela havia compreendido. Então começou a tremer convulsivamente. Incapaz de suportar sua expressão, ele a puxou para si, querendo confortar-se tanto quanto a ela. Marged se agarrou a seu peito como alguém que se afogava, enquanto soluços sacudiam seu corpo magro. — Nunca faltará nada a você e às crianças, Marged, eu juro! — ele prometeu com voz rouca, os olhos marejados. Mas enquanto o fazia, tinha consciência de que dinheiro e conforto jamais substituiriam um marido e pai ausente. Com a face sombria, Clare veio se aproximando. Ao vê-la, Nicholas enviou-lhe um olhar suplicante por cima da cabeça da moça. Com um suspiro trêmulo, ela passou o braço pelos ombros da amiga e disse gentilmente: — Se houver mais alguma notícia, nós a avisaremos, querida... Precisa ir para casa agora. Seus filhos precisam de você. Devagar, Marged endireitou o corpo e enxugou os olhos com o dorso da mão. — Claro. Preciso ficar com as crianças. E também contar para a mãe de Owen... — completou sem emoção. Um instante depois, entretanto, seu rosto foi tomado pela revolta. — Mas eu nunca vou deixar que meus filhos trabalhem aqui. Nunca! — explodiu, as lágrimas banhando o rosto pálido. Apoiada por Clare, Marged virou-se e foi embora. Nicholas acompanhou as duas mulheres com o olhar até estas desaparecerem na multidão agitada. Já era quase noite, e as tochas estavam sendo acesas. A luz bruxuleante fazia as instalações da mina


parecer uma escabrosa pintura medieval do inferno. Sentindo o coração pesado como chumbo, ele caminhou até a entrada do poço principal e se juntou a um grupo de homens que voltavam para a mina após uma pausa. Cobertos pelo pó de carvão negro, quase não se podia distingui-los, e Nicholas soube que devia estar com a mesma aparência. Enquanto esperava para descer, uma voz familiar sobressaiu no burburinho. — Que diabo está fazendo aqui, Aberdare? Saia já da minha propriedade! Nicholas virou-se e viu Michael Kenyon avultando-se sobre ele. Só então se deu conta de que fora a voz de Michael que tinha ouvido dando ordens e organizando o trabalho de resgate com a eficiência e a frieza de quem já havia estado em meio àquele tipo de caos. — Segure sua birra até isto acabar — volveu, exausto. — Até lá, você vai precisar de toda a ajuda que puder conseguir. Quando o outro homem fez menção de protestar, Nicholas ergueu o punho. — Boca fechada, Michael! Mesmo na penumbra, foi possível ver o rapaz empalidecendo, porém ele nada disse. Com os lábios apertados em uma linha fina, deu meia-volta e se afastou. Após levar Marged para casa, Clare só voltou a ver Nicholas dois dias depois da explosão, quando Lewis, o carroceiro que fazia entregas em Penreith, trouxe o conde para casa desacordado. Quando Williams a chamou, apressado, Clare ficou chocada ao ver o estado de Nicholas. Além de esfarrapado e imundo, ele tinha manchas de sangue nas mãos e nas roupas. Vendo sua aflição, Lewis a tranquilizou: — Ele não está ferido, srta. Morgan, apenas esgotado. O conde pode ser um cigano, mas é um homem bom de verdade... Não teve medo de sujar as mãos. Disseram que ele não dorme há dois dias, mas


a carne é fraca e precisa descansar em algum momento. Williams e um lacaio tiraram Nicholas de cima da palha da carroça. Diante da expressão de Clare, o mordomo ofegou: — Não se preocupe, senhorita. Nós vamos cuidar bem dele. Tentando sair do caminho, ela se voltou para o carroceiro. — Já informaram o número final de baixas, Lewis? Ele torceu os lábios, pesaroso. — Trinta e dois mortos, dezenas de feridos, e ainda há cinco desaparecidos. Quase todas as famílias do vilarejo perderam alguém. E não esperam encontrar mais ninguém vivo. Uma equipe vai continuar a busca de corpos, e o trabalho na mina irá recomeçar amanhã, na parte que não foi afetada pela explosão. A vida tinha de continuar, concluiu Clare, pesarosa. E, sem dúvida, Madoc e lorde Michael não estavam dispostos a perder mais nenhum centavo. — Obrigada por trazer lorde Aberdare para casa. — Ela hesitou, em dúvida se deveria remunerar o carroceiro de alguma forma. — Não se preocupe, srta. Morgan — Lewis a tranquilizou, adivinhando seus pensamentos. — Lorde Michael Kenyon já me pagou por meus serviços. Ele é austero, porém justo. Desceu ele mesmo no poço várias vezes... — O homem baixou a voz em tom confidencial. — Os homens estão torcendo para que ele administre a mina a partir de agora. George Madoc nunca teria passado tanto tempo no trabalho de resgate. Então lorde Michael possuía mesmo suas qualidades. Depois de se despedir do carroceiro, Clare entrou em casa e parou no saguão, indecisa. Ela também trabalhara incansavelmente desde a explosão. Além de ter comandado a distribuição de alimentos no resgate dos trabalhadores e ajudado com cuidados básicos de enfermagem, havia ido para a casa de amigos enlutados para oferecer conforto e auxílio. Mas o esgotamento tomara conta dela desde o início daquele dia.


Após três horas de sono, vinha se preparando para voltar para a aldeia, contudo, pelo que Lewis dissera, o pior da crise tinha passado. Embora com certeza houvesse coisas que ela ainda poderia fazer, sua ajuda já não era fundamental, principalmente porque estava tão atordoada que nem conseguia raciocinar direito. Com um suspiro, subiu a escada e foi se deitar. Quando Clare acordou novamente, estava escuro. Embora ela ainda estivesse extenuada, sua maior dor foi saber que nunca mais iria ver Owen outra vez, e a devastadora sensação de perda aumentou ainda mais sua profunda tristeza por Marged e as crianças. A noite ecoava seu estado de espírito, pois uma tempestade se aproximava, com o vento assobiando em torno da casa e sacudindo os galhos contra a janela. Uma melodia se misturava tão sutilmente com o vento e sua angústia que ela levou algum tempo para reconhecer que esta não se encontrava em sua cabeça. Era como em sua primeira noite em Aberdare, só que dessa vez ela sabia de onde vinham os acordes. Nicholas havia acordado de seu sono. Incapaz de suportar a solidão, Clare se levantou, calçou os chinelos e jogou água fria no rosto, refletindo que nem sequer vestira uma camisola antes de dormir, e ainda usava o mesmo vestido, agora amarrotado, do dia anterior. Em vez de ajeitar os cabelos como de costume, amarrou-os com uma fita e saiu do quarto. Era tarde, e todos na casa ainda deviam estar dormindo. Encontrou Nicholas na biblioteca mal-iluminada, cantarolando um antigo lamento. Banhado e vestido como sempre em preto e branco, ele parecia quase normal, exceto por uma contusão no queixo e os dedos feridos que, mesmo assim, tocavam as cordas da harpa. Nicholas ergueu a cabeça quando ela entrou na sala, os olhos opacos. Depois voltou a inclinar-se sobre o instrumento. Sem dizer nada, Clare atravessou a sala e adicionou mais carvão ao fogo. Então sentou-se em uma poltrona e descansou a cabeça no


encosto, deixando a música fluir através dela. Já ajudava estar no mesmo cômodo que ele. O último acorde encheu a sala, depois morreu. No silêncio que se seguiu, o estrondo de um trovão soou à distância. — Eu deveria tê-la ouvido — ele murmurou, tenso, como se aquilo tivesse sido um sinal. Você me alertou como a mina era perigosa, mas eu não a levei a sério. Para mim, a coisa toda era apenas mais um jogo. Surpreendida pela autocensura de Nicholas, ela franziu a testa de leve. — Falou com lorde Michael e estava fazendo o que podia para romper o contrato de arrendamento. O que mais poderia ter feito sem autorização legal? — Muito mais. — Ele pousou a harpa e se levantou, caminhando pela penumbra da sala. — A culpa é minha se Owen está morto. — Não se culpe — pediu Clare, deprimida. — Todos que trabalhavam naquela parte da mina morreram. — Owen não trabalhava naquela parte da mina, ele estava comigo! Deveria estar vivo agora. Parando ao lado de uma janela, Nicholas abriu as cortinas, levantou a vidraça e respirou fundo, como se chamasse a tempestade para dentro de si mesmo. — Nós estávamos no fundo do poço Bychan, prontos para sair, quando aconteceu a primeira explosão e os túneis começaram a vir abaixo. A caçamba só podia levar um homem. — Seus dedos se apertaram no peitoril. — Eu disse para ele ir primeiro, pois tinha família, mas em vez de discutir, Owen me deu um soco para me deixar tonto e me empurrou para dentro do engradado. Mais um minuto ou dois e ele teria escapado com vida, mas não houve tempo... — À medida que sua voz foi diminuindo, os primeiros pingos de chuva bateram contra a vidraça, respingando através da janela aberta. Nicholas virou-se para Clare com a mesma expressão selvagem de


quando destruíra o retrato da falecida esposa. Sua ira, contudo, era voltada para si mesmo. — Se a minha vida vale cem guinéus de ouro, a de Owen não tinha preço — declarou com a voz entrecortada pela emoção. — Owen sabia como construir, como cantar, como rir... Ele amou e foi amado... Maldição! Por que ele e não eu?! Clare afundou as unhas nos braços da poltrona. No lugar de Nicholas, teria sentido a mesma coisa: que morrer seria mais justo do que viver à custa da vida de um amigo. — Se Owen se sacrificou por você, foi por conta do poder que tem de fazer mudanças — garantiu, querendo aliviar seu tormento. — Por sua causa, muitas vidas poderiam ser poupadas no futuro. — Isso não era o suficiente! Dominado pela revolta, Nicholas pegou a harpa e a arremessou pela sala com toda a força. O instrumento colidiu contra a parede com um som grotesco de cordas feridas e em seguida se espatifou no chão, deixando uma dolorosa nota dissonante no ar. Raios crepitaram no céu noturno, iluminando Nicholas e a harpa destruída de um modo sinistro. — Pare de culpar a si mesmo! — Clare gritou em uníssono com um trovão que ecoou por todo o vale. — Você não é Deus! — Pelo que pude ver, nem Deus é Deus — volveu ele, amargo. Clare sabia que deveria censurá-lo pelo sacrilégio, mas não podia. Era difícil acreditar na justiça divina quando pessoas de bem morriam tão tragicamente. A inquietação de Nicholas o levou até a lareira. Apoiando as mãos no consolo, ele fitou as brasas. — Se eu tivesse agido antes, se eu tivesse passado tanto tempo pensando na vida daqueles homens quanto passei pensando em levála para a cama, talvez isso não tivesse acontecido. Owen estaria vivo e os outros também. — Deixou escapar um suspiro trêmulo. — Duas das vítimas eram crianças mais novas que Huw Wilkins!


— Se existe alguém para culpar, esse alguém é Madoc. Ou lorde Michael, que detinha a autoridade, mas preferiu delegá-la a um ganancioso. — O jogo acabou, Clare — afirmou ele, não convencido. — Virou-se para ela, com expressão implacável. — Quero liberá-la do nosso acordo. Vá para sua casa em Penreith. Vou cumprir minha parte do contrato e fazer tudo o que queria para o vale. Mas farei isso sozinho, sem feri-la mais do que já feri. Clare o fitou, pálida, incapaz de acreditar que ele iria dispensá-la de modo tão arbitrário. — Você me ouviu, saia! — Nicholas ergueu a voz. — Nunca mais terá de suportar minha companhia egoísta e profana novamente. Para aliviar a culpa que o assolava, ele precisava se punir, Clare percebeu. E a estava mandando embora no momento em que mais precisava dela. Fitou-o nos olhos, impotente, a tormenta que varria o vale em consonância com a tempestade emocional que assolava a biblioteca silenciosa. Relâmpagos cortaram o céu escuro mais uma vez, e nesse instante de luz, Clare experimentou uma espécie de implosão que estilhaçou seus medos e dúvidas. No entanto, o resultado não foi a fragmentação, mas a plenitude. Por toda a vida ela havia ansiado por uma conexão espiritual e por amor. Na falta de ambos, tinha se desprezado, julgando-se muito fraca e pequena de alma para merecer tanto. Contudo, em um piscar de olhos, tudo mudara como num caleidoscópio. Embora ela jamais tivesse experimentado o amor divino ou a verdadeira consciência, a base de sua religião, ela agora tinha uma certeza: amava Nicholas. Sempre amara. E essa verdade colocou toda a sua vida em foco. Clare respirou fundo. Precisava ficar. Sem esperar mais, cobriu a distância que os separava e tomou as


mãos feridas nas suas. — Você disse desde o início que só as mulheres espontâneas lhe interessavam, Nicholas... — Beijou-lhe as pontas dos dedos, em seguida levou as mãos dele ao peito, fitando-o no fundo dos olhos. — Pois aqui estou. Nicholas enrijeceu ao mesmo tempo que outro trovão ribombava na noite. — Não quero nada por compaixão, Clare. — Não estou oferecendo minha compaixão. — Devagar, sem desviar o olhar do dele, Clare começou a desabotoar o colarinho de sua camisa. Quando o fez, deslizou as mãos sob o tecido e, devagar, massageou os músculos tensos em seus ombros. — Estou oferecendo minha amizade. Nicholas fechou os olhos com um suspiro trêmulo. — Eu deveria recusar, mas não posso... — Abriu os olhos novamente, a voz saindo num sussurro. — Que Deus me ajude, eu não posso... Clare ficou na ponta dos pés e pressionou os lábios nos dele, querendo transferir a dor que ele sentia para si própria e transformá-la com a força de seu amor. Dessa vez não haveria como voltar atrás. Com um gemido, Nicholas a puxou contra ele com tanta força que ela mal podia respirar. Suas mãos se moviam com desespero, como se ele jamais fosse se bastar dela. Pondo-se de joelhos, afundou o rosto entre seus seios, o hálito quente e irregular aquecendo-lhe a pele por cima do vestido. Fechando os olhos, Clare acariciou o cabelo sedoso, sentindo-o acarinhar todo o seu corpo e moldar as curvas de seus quadris e coxas. De repente, Nicholas a puxou para baixo e a fez se ajoelhar diante dele sobre o tapete. Clare sentiu o calor do fogo aquecê-la, enquanto, lá fora, a chuva açoitava as vidraças como se tentando invadir seu refúgio. A boca de Nicholas encontrou a dela e a devorou como se ele quisesse absorver sua essência. Seus dedos ágeis trabalharam nas


costas delgadas, desatando as fitas e abrindo os botões do vestido. Ansioso, ele também desamarrou as tiras da combinação, baixando ambas as peças a fim de segurar seus seios nus. Clare prendeu a respiração quando a aspereza de suas palmas ateou fogo por todo o seu corpo. Semanas e semanas de carícias e beijos sensuais a haviam deixado mais do que pronta para aquela tempestade de paixão. Precisando sentir a pele de Nicholas contra a sua, arrancou-lhe a camisa do cós das calças e deslizou as mãos por baixo do tecido fino. Seus dedos viajaram pelo peito largo, roçando os pelos escuros e macios que lhe cobriam o torso. Ao tocar um mamilo, veio a inspiração. Decidida, ela levantou a camisa, então se inclinou e beijou o cerne macio, até senti-lo enrijecer contra a língua. Nicholas soltou uma exclamação e inclinou a cabeça para trás, deixando à mostra a pulsação acelerada no pescoço. Transferindo a atenção para o outro mamilo, Clare o tomou entre os dentes com delicadeza. Ele deixou escapar um som abafado, em seguida puxou a camisa sobre a cabeça e a atirou de lado. O brilho avermelhado do fogo dançou ao longo de seu peito musculoso quando ele a fez se deitar sobre o tapete. Um turbilhão de sensações inundou a mente de Clare: o beijo exigente e possessivo, a pressão dos músculos rijos contra seus mamilos sensíveis, as cerdas do tapete e o calor seco do fogo... E depois o calor úmido da boca faminta em seu seio. Aturdida, ela cravou as unhas nos ombros largos. Queria sentir o calor e a força de Nicholas em todos os lugares ao mesmo tempo, porém mais ainda em sua essência, que pulsava. Ele ergueu-lhe as saias até a cintura, em seguida começou a acariciar a parte interna de suas coxas, a mão se movendo com cada vez mais ousadia até tocar o cerne escondido em sua pele. Clare deixou escapar um grito abafado com a sensação que


espiralou dentro dela: uma descarga que combinou com os relâmpagos deflagrados no céu. Seu corpo pareceu ganhar vida própria, então, movendo-se involuntariamente contra a mão quente; e ela quase chorou quando Nicholas fez uma pausa. Escutou um barulho de tecido e o leve estalar de um botão quase arrancado. Ficou tensa quando ele tornou a se pôr sobre ela, esperando pela dor, porém disposta a não demonstrá-la. Mas dessa vez, houve apenas um momento de desconforto, seguido por uma penetração suave e poderosa que, além de seu corpo, preencheu seu coração. Apoiado sobre as mãos, Nicholas mergulhou dentro dela com um gemido e, aos poucos, seus quadris estabeleceram um ritmo lento, depois mais urgente, que ela aceitou por instinto. Mas não tardou e este se transformou em uma paixão sem sutileza: uma necessidade primitiva de união que tomou conta de ambos e pareceu carregá-los para o centro da tormenta. A tempestade açoitava a casa com violência e estava por toda parte: ao redor dela, dentro dela, transformando-a com seu poder irresistível. Quando Clare convulsionou em torno de Nicholas, já não sabia onde ela terminava e ele começava, pois eram apenas um. Ele investiu uma última vez, gritando enquanto estremecia dentro dela. Raios estouraram sobre a casa, enchendo a biblioteca com sua luz branco-azulada, e um trovão poderoso sacudiu as janelas. Outro relâmpago riscou o céu, cobrindo os planos do rosto moreno de Nicholas com uma luz sobrenatural. Ele era insuportavelmente, devastadoramente bonito, concluiu Clare. E se era um Conde Cigano ou um Anjo Caído, um príncipe da luz ou das trevas, ela não sabia. Tudo o que importava era que ela o amava, e aquela partilha de corpo e alma era tudo pelo que havia esperado a vida inteira.


Capítulo XXVI Saciados, Clare e Nicholas repousaram nos braços um do outro diante do fogo. O pior da tempestade passara, e os trovões eram apenas um ruído distante ao longe. Clare acariciou a cabeça de Nicholas que repousava em seu peito. Nunca se sentira mais feliz ou completa na vida. Estranho que aquele amor profano tivesse curado suas fraquezas espirituais. Ou talvez não. Não se sentindo amado por seu pai terreno, seu espírito carente tinha sido incapaz de aceitar o amor divino. Estivera oca por dentro. Admitir seu amor por Nicholas abrira as portas de seu coração. No fundo, ela sempre soubera que o pai a amara da forma como sabia. Fora uma grande tristeza em sua vida perceber que o que ela precisava era diferente do que ele era capaz de dar. Agora, finalmente, conseguia aceitar o modo como o pai fora, e amá-lo sem ressentimento. Sentia-se renascida, viva como nunca. Ao tentar transformar a dor de Nicholas, havia transformado também a sua. Clare teve vontade de rir de alegria. Também questionou, sem ansiedade, o que iria acontecer. O fato de ela amar Nicholas não significava que ele a amasse também. Parou de acarinhá-lo. Iria morrer de saudade quando aquele relacionamento singular terminasse. Mas iria sobreviver, pois seu coração estava inteiro por fim. O fogo estava quase apagado, e um vento frio soprava pela janela aberta. Nem mesmo o corpo de Nicholas foi suficiente para mantê-la aquecida, e Clare começou a tremer. Soltando o ar pesadamente, ele a ajudou a sentar-se e a fitou. Embora seu rosto ainda estivesse sombrio e um pouco distante, aquela angústia gigantesca havia ido embora.


Clare abriu a boca para falar, porém ele a silenciou com um dedo. Depois de puxar suas roupas para o devido lugar, levantou-se e ajeitou as próprias. Ainda em silêncio, fechou a janela e as cortinas, apagou a única vela acesa e apanhou a camisa amarrotada do chão. Depois se abaixou para pegá-la nos braços e a levou da biblioteca, sem deixar vestígios do que havia acontecido ali. Com a cabeça apoiada em seu ombro, sonolenta, Clare se deixou carregar para o quarto. Depois de colocá-la na cama, Nicholas tirou-lhe a roupa antes de cobri-la com as cobertas. Embora timidez não fizesse sentido depois do que acabara de se passar entre eles, ela ficou feliz por estarem na penumbra. Achou que ele iria embora, mas, para sua surpresa, ouviu o som da chave girando na fechadura e o de roupas sendo removidas. Em seguida, Nicholas se juntou a ela na cama e a puxou para seus braços. Clare descobriu então que, embora tivesse vergonha de ser vista nua, não tinha nenhum pudor em aninhar o corpo nu junto ao dele. Com a consciência tranquila e o espírito em paz, ela adormeceu. Clare acordou com o barulho de alguém forçando a maçaneta. Já era manhã, hora de Polly trazer seu chá, e, por um momento ela não conseguiu entender por que a porta estava trancada. Então as lembranças da noite anterior inundaram sua mente. Polly, menina esperta, desistiu e foi embora. Graças a Deus não era do vilarejo. E também era discreta, Clare pensou. Se Polly desconfiasse que ela havia dormido com alguém, iria segurar a própria língua. Esticou um braço e descobriu que estava sozinha na cama. Mas, se Nicholas a tinha deixado, por que a porta ainda estava trancada? Sentou-se e olhou em volta. Gloriosamente nu, ele se encontrava perto da janela, os braços cruzados enquanto olhava o vale, a pele brilhando como bronze na pálida luz do alvorecer. Nicholas escutou seus movimentos, pois virou a cabeça e seus olhares se encontraram. Clare engoliu em seco ao ver nele uma


expressão que nunca vira antes. Não de culpa como na noite anterior, nem de fúria, como acontecera alguma vezes. Muito menos a expressão divertida que ela tanto amava. Em vez disso, Nicholas a fitava com determinação... ou, talvez, resignação. Parecia quase um estranho. E um estranho assustador. — Como está se sentindo esta manhã? — ela perguntou, hesitante. Ele deu de ombros. — Não menos culpado, mas bem menos louco. Vou sobreviver. — Seu olhar a percorreu. — Já você me parece extraordinariamente calma para a filha arruinada de um pastor. Consciente de que, com exceção dos longos cabelos, ela estava tão nua quanto um bebê, Clare tratou de puxar o lençol sobre os seios. — É um pouco tarde para o recato — observou ele com uma ponta de cinismo. Audaciosa, ela deixou cair o lençol até a cintura e afastou os cabelos para trás. Parte da empáfia de Nicholas ruiu, e sua respiração acelerou de leve. Com um esforço visível, ele ergueu os olhos para seu rosto. — Agora vamos ter de nos casar, e quanto mais cedo melhor. Vou pedir hoje mesmo que vão buscar em Londres uma licença especial. A calma de Clare desapareceu, e ela ficou boquiaberta. — Casar?... De que diabo está falando? — Pensei que fosse óbvio — ele respondeu, frio. — Matrimônio. Marido e mulher. Até que a morte nos separe. Embora seu espírito tivesse renascido, concluiu Clare, sua mente ainda era capaz de total confusão. — C-Como assim? — gaguejou. — Jurou que nunca iria ter outra esposa. Por que quer se casar comigo agora? — Por uma razão muito simples: pode estar carregando um filho meu. Clare suprimiu a onda de alegria que o pensamento lhe trouxe.


— Você me disse uma vez que existem formas de se evitar um filho. — Sim, mas eu não estava pensando nisso ontem à noite. — Pode ser que eu tenha ficado grávida — ela admitiu —, mas as chances são de que eu não tenha concebido. Seria mais prudente ter a confirmação em vez de fazer algo precipitado de que, em breve, irá se arrepender. — Talvez seja necessário esperar semanas antes que você saiba com certeza. Quer ter um bebê de sete meses, com todos em Penreith sabendo que foi obrigada a se casar? Quando era virgem, tinha a consciência limpa, o que lhe deu forças para enfrentar a condenação daqueles que acreditavam no pior. Mas isso já não é verdade. Eu lhe roubei a virgindade, e há apenas uma maneira de eu remediar isso. Clare ficou em silêncio. Embora não tivesse sentido vergonha de confortá-lo com o próprio corpo, detestava pensar que rumores poderiam considerar tal amor vil e condenável. — Por que era tão resistente à ideia de casamento antes? — ousou perguntar por fim. Os lábios de Nicholas se apertaram, e ele olhou pela janela, de modo que ela só podia ver seu perfil escuro. — A grande paixão do antigo conde era conseguir um sucessor para Aberdare. Recusar-me a lhe dar um herdeiro legítimo foi a maneira que encontrei de puni-lo. Talvez fosse uma vingança infantil da minha parte, mas era a única ao meu alcance. Mas já que ele está além de saber se haverá ou não um sexto conde... Ele se virou para Clare novamente. Como ficou de costas para o sol da manhã, entretanto, ela não conseguiu ler sua expressão. — Minha responsabilidade para com você deve suplantar a minha vingança sem sentido contra o meu avô. Embora eu já não estivesse mais preocupado com a possibilidade de arruinar sua reputação, tampouco de lhe fazer perder a virgindade, engravidá-la por acidente seria inaceitável. Por isso minha proposta de casamento.


Não havia nada no mundo que ela quisesse mais do que ser mulher de Nicholas, mas, antes daquela manhã, a ideia tinha sido literalmente inconcebível. Clare se perguntou se aquela decisão de se casar com ela não seria uma forma de expiar a culpa que sentia acerca da morte de Owen. — Desde que fechamos aquele acordo, está fazendo de tudo para me seduzir — observou, pensativa. — Não consigo entender por que o seu êxito produziu uma mudança tão brusca. O olhar de Nicholas foi cheio de sarcasmo. — Eu não a seduzi... muito pelo contrário. Clare sentiu o rosto arder. — Eu não estava tentando obrigá-lo a um casamento. — Eu sei que não, Clare — ele concordou, calmo. — Você me deu um grande presente, e pelo mais generoso dos motivos. Mas aceitá-lo impôs certas obrigações, e eu sempre honrei meus compromissos. Ela suprimiu um tremor involuntário. — Essa é uma base fria demais para um casamento. — Mas não é a única. — Uma luz familiar brilhou nos olhos escuros. — Quero dizer, agora que eu finalmente consegui o que queria com você, vou querer sempre. Muitas vezes. Quando ela hesitou, Nicholas sorriu. — Pelo visto, precisa ser persuadida... Em dois passos, ele chegou à cama. Antes que Clare tivesse tempo de recuperar o fôlego, estava deitada de costas e ele a beijava, uma das mãos mergulhada em seus cabelos, a outra acariciando-lhe os seios. Seu suspiro deve ter soado como entrega, pois Nicholas levantou a cabeça e murmurou: — Tem algum pedido especial para o casamento? Uma cerimônia discreta seria mais adequada, acho, mas tudo deve ser feito corretamente. Clare se obrigou a raciocinar, embora não fosse fácil com Nicholas


fazendo coisas maravilhosas em seu corpo ansioso. — Eu... Eu não disse que vou me casar com você. O rosto moreno estava a meros milímetros do seu, e Clare viu os olhos dele ficar ainda mais escuros. — Por que não? — perguntou Nicholas com uma ponta de aspereza na voz. — Parece gostar de fazer amor comigo. Claro que existem mulheres que dormem com homens com quem jamais irão conviver... — Não seja ridículo — Clare replicou, sarcástica. — É justamente o contrário. Condes não se casam com professorinhas de aldeia. — Assim como filhos de condes não se casam com meninas ciganas? Seu pai era um vigário, educado na nobreza, e sua mãe, filha de um respeitável proprietário rural. Muitos diriam que sua linhagem é melhor do que a minha. — A expressão dele tornou-se mais leve. — Precisa se casar comigo, Clare. Nosso filho precisa ter um nome. Ela deixou escapar uma risada nervosa. — Não estou nada convencida da existência desse filho. — Pois deveria estar. — Ele deslizou a palma da mão pelo ventre liso até chegar aos cachos suaves entre as coxas. — Afinal, estamos prestes a dobrar as chances da sua concepção. — Pare com isso! — Clare bateu na mão dele. — Não consigo pensar quando está fazendo essas coisas... Ousado, ele substituiu a mão pela outra e continuou. — Não é preciso pensar muito para dizer “sim”. Clare imobilizou-lhe a mão, determinada. — Posso aceitar o fato de que estaria se casando comigo sem amor, mas não que venha a me odiar por eu prendê-lo a um casamento que não deseja. — Eu nunca poderia odiar você, Clare — ele afirmou, sério. — Estou ciente do que quero e não vou puni-la por uma situação que eu mesmo criei. Ela hesitou, detestando a necessidade de sua pergunta seguinte. — Há algo mais.


Nicholas ergueu as sobrancelhas, encorajador, contudo o olhar dela se desviou para longe. — Dizem que não foi fiel à sua primeira esposa. Isso é verdade? O rosto moreno se fechou. — É. — Compreendo que os aristocratas vejam essas coisas de forma diferente, mas eu não sou aristocrata — lembrou Clare com dificuldade. — Eu não poderia suportar se tivesse outras mulheres. O silêncio se estendeu. O rosto de Nicholas tornou-se insondável e, quando ele finalmente falou, foi com neutralidade. — Vou lhe propor outro acordo. Serei fiel a você enquanto for fiel a mim. Mas caso se deite com outro homem, eu também me deitarei com outra mulher. Ela balançou a cabeça, inconformada. — Se está sendo honesto, milorde, terá uma vida longa e monótona, porque eu jamais terei outro homem. — Uma vida monótona? Com você? Não acredito. — Um sorriso brincou nos lábios benfeitos. — Isso significa que aceita a minha proposta? Clare fechou os olhos, querendo limpar a mente e ouvir sua voz interior. No mesmo instante, uma onda de segurança a invadiu, assim como na noite anterior. Aquilo era o certo; o que ela nascera para fazer. Como não achava que Nicholas fosse gostar de receber uma declaração de amor, abriu os olhos. — Sim, Nicholas. Com toda a minha alma e meu coração — contentou-se em dizer. Sem falar nada, ele rolou para fora da cama, foi até a escrivaninha e remexeu na gaveta. Quando voltou, trazia um canivete. Enquanto Clare o observava, ressabiada, ele levantou a mão e fez um pequeno furo no pulso com a lâmina. Uma gota vermelha formouse imediatamente em sua pele morena, logo seguida por outra. Em


seguida, ele ergueu a mão dela. Adivinhando o que iria acontecer, Clare não vacilou diante da incisão semelhante em seu pulso. Segurando o próprio pulso de encontro ao dela para que o sangue de ambos se unisse, Nicholas disse baixinho: — Sangue por sangue. Está feito, mulher. Clare olhou os pulsos unidos com uma profunda sensação de conexão. Sangue por sangue. Até que a morte os separasse. — É um ritual cigano? — Um dos muitos. Os dos roms são variados. — Ele sorriu. — Normalmente a festa de casamento termina com um sequestro simulado. Eles não consideram de bom tom por parte da noiva se mostrar muito disposta a deixar a própria família. Como você foi coagida a vir para Aberdare, podemos considerar o fato como sendo o rapto. — Nicholas ergueu seu pulso até a boca e chupou a gota de sangue. — Agora, que tal continuarmos com a consumação do casamento? Clare ergueu os braços para recebê-lo, os cabelos longos descendo até a cintura como um manto provocante. — Com todo o prazer, marido. Enquanto Nicholas a beijava, pensou como a vida era surpreendente. Três dias antes, a mina funcionava normalmente, Owen Morris estava vivo, e um casamento entre Clare e ele era algo improvável. Agora tudo havia mudado, e o destino traçara uma linha nítida entre seu passado e um futuro que ele nunca tinha imaginado. Para todos os efeitos, ele assumira um compromisso com a mulher em seus braços. Sua vida sem limitações fora suplantada pela perspectiva de uma existência convencional envolvendo uma casa e uma família. No entanto, conforme provava as delícias da boca de Clare, era


difícil lamentar seu novo curso. Dessa vez, ele não seria rápido e descuidado como fora na noite anterior, decidiu. Precisando desesperadamente de seu calor e compreensão, ele a tomara com uma urgência desmedida. Graças a Deus, Clare deixara de ser virgem, ou ele a teria ferido. Talvez ela tivesse suportado a dor, mas ele teria se odiado uma vez que aquele desejo incontrolável amainasse. Dessa vez, iria se controlar ao máximo para mostrar a ela o que a paixão podia ser. Clare era encantadora. Não uma mulher exuberante, porém macia nos lugares certos e absolutamente irresistível. — Deite-se e aproveite, Clarissima — sussurrou, enquanto a apoiava contra os travesseiros. — A noite passada foi apenas um ensaio... Esta é a versão original. Obediente, ela relaxou, os longos cabelos espalhando-se sobre o travesseiro, fascinantes. Nicholas beijou cada curva e vale até que ela gemeu. Ao percebê-la pronta, posicionou-se entre suas pernas de modo a acariciá-la bem no centro de seu prazer, ainda que sem penetrá-la. Duvidou de que Clare soubesse que este existia, mas, antes que tudo terminasse para ele, ela saberia... Tomou um seio na boca, o membro quente deslizando de encontro à pele macia. O atrito a fez abrir os olhos, atordoada. — A-Agora? — indagou com voz trêmula. — Ainda não... Embora ainda a acarinhasse com as mãos, a boca e a língua, Nicholas passou a investir com mais força numa sensualidade flagrante. Clare gemeu em uníssono com seus movimentos ritmados, então se contorceu de encontro a ele, procurando instintivamente o auge da satisfação. Nicholas soltou uma exclamação, a respiração quente fluindo ao redor do mamilo rijo. Apoiando-se nos braços, fez movimentos mais longos, acariciandoa com toda a extensão de seu desejo. As mãos de Clare se fecharam


em torno de seus braços, as unhas afundando em sua carne, a boca entreaberta expulsando lufadas de ar. Ele a levou à beira do ápice e a manteve lá até sentir seu corpo arder e vê-la virar a cabeça de um lado para o outro. Teve a intenção de diminuir um pouco o ritmo, mas, no calor do prazer, afastou-se tanto que acabou mudando de posição. De repente, pressionava a entrada do corpo de Clare, que o encaixou, sedutora. Ele ainda tentou se conter, os músculos tremendo, porém ela ergueu a pélvis e Nicholas se perdeu. Quando deslizou para dentro do corpo úmido, viu-se envolvido como que por seda. A princípio moveu-se lentamente, sem muita certeza de até onde poderia ir. Então começou a empurrar em um crescendo, recuando e investindo. Quando Clare gritou, ele a envolveu nos braços, afundando o rosto na curva delicada de seu ombro. Ousadas, as mãos dela se cravaram em seus quadris conforme um orgasmo violento a sacudia, e ele gemeu, dando continuidade ao profundo êxtase que os assolou de uma só vez. Os recantos do corpo de Clare eram os mais doces que ele já conhecera na vida. Continuaram deitados em um emaranhado de pernas e braços suados, tremendo de emoção. Quando a respiração de ambos começou a voltar ao normal, Clare balbuciou, ofegante: — Acho que entendo agora por que a religião desaprova os contatos sexuais... Pode-se esquecer de Deus fazendo isso, e desconfiar de que o Céu não tem nada melhor a oferecer. Nicholas riu. — Algo me diz que isso é uma blasfêmia. — Provavelmente. — Ela o acariciou na nuca. — Também estou começando a entender por que vivia tão interessado em me seduzir. Fazer amor é maravilhoso.


— Nem sempre... — Nicholas acariciou-lhe o ventre macio e se perguntou se uma nova vida florescia ali dentro. — Na primeira vez em que veio para Aberdare, eu sabia que daria uma amante extraordinária... Foi a vez de Clare rir. — Eu pensei que estivesse mais interessado em se livrar de mim. — Isso também — ele concordou. Ela levantou o braço e beijou a pequena incisão que ele havia feito com o canivete. — Mesmo que a cerimônia legal ainda esteja por vir, já me sinto casada. — Isso é bom, pois tenho a intenção de me juntar a você todas as noites a partir de agora... — Voltando à realidade, Nicholas sentou-se com um suspiro. — No entanto, para salvaguardar o que resta da sua reputação, vou entrar e sair daqui com cuidado. Ainda é cedo. Provavelmente não atraímos a atenção de ninguém além do meu valete e da sua criada, e o silêncio é parte do trabalho deles. Clare esboçou um sorriso triste. — Obrigada. Talvez seja bobagem minha se importar com o que os outros pensam, mas eu me importo. — Já que pretendemos viver no vale para o resto das nossas vidas, um pouco de discrição será bem-vinda. — Ele se inclinou para beijá-la, então se endireitou, resistindo à vontade de voltar para a cama. — Vou enviar uma mensagem para Lucien esta manhã e pedir que consiga uma licença especial de casamento. Ele é ótimo para cuidar dessas coisas. Provavelmente conseguiremos realizar a cerimônia em uma semana. Clare assentiu com um gesto de cabeça enquanto Nicholas se vestia e deixava o quarto, apressado. Tudo tinha sido tão repentino que ela mal acreditava no que estava acontecendo. Mas, embora lhe tivesse proposto casamento com certa relutância, Nicholas não parecia infeliz.


Fechou os olhos por um momento, prometendo a si mesma fazer de tudo para que ele não se arrependesse. E já que sua vida terrena parecia estar prosperando, decidiu que já era tempo de cuidar de seu lado espiritual. Saindo da cama, vestiu um roupão e, em seguida, ajoelhou-se à luz do sol que fluía através da janela. Com as mãos entrelaçadas, tratou de limpar a mente e, como um rio de fogo, uma enorme fé preencheu seu coração. Aquela era a paz divina e a alegria que seu pai experimentava todos os dias, as quais ele dedicara a vida a compartilhar. Conforme sua concentração se aprofundou, ela pôde sentir sua frágil presença e, admirada, compreendeu que ele soubera de suas fraquezas e rezara por sua salvação. E agora tinha vindo para compartilhar de seu despertar. Clare sentiu a presença do pai se desvanecer após alguns minutos e sorriu. Mesmo estando do outro lado, o reverendo devia estar ocupado, ajudando os menos afortunados... Mas ela já não se ressentia disso. Lágrimas de reverência e humildade lhe vieram aos olhos, e Clare fez uma oração em agradecimento. Agora que aquela luz se acendera dentro dela, sabia que nunca mais seria extinta. O amor havia lhe mostrado o caminho.


Capítulo XXVII Clare estava tão concentrada que foi um choque se levantar e descobrir que Polly tinha entrado e deixado chá e um bule de água fervendo. Lembrando-se de tudo que ainda havia para ser feito, lavouse e vestiu-se depressa, em seguida desceu a escada para o almoço. Antes, porém, passou na biblioteca. Resistindo à tentação de olhar para o tapete onde Nicholas e ela haviam feito amor, ajoelhou-se ao lado dos destroços da harpa. Continuava na mesma posição quando ele entrou no cômodo. — Muitos dos pinos quebraram e o arco se separou da caixa, mas parece que as peças podem ser unidas novamente — ela falou, hesitante. Nicholas se pôs sobre um joelho e ergueu as peças. — Tem razão. Não há nenhum dano que não possa ser reparado. — Ele acariciou a madeira com reverência. — Ainda bem. Tam foi um grande artista, seria um sacrilégio ter destruído seu trabalho. — Por sorte, a harpa é muito sólida. Fez um estrago considerável na parede. — Clare tornou a se sentar sobre os calcanhares. — Ontem, quando você a arremessou longe, senti como se estivesse tentando destruir a música dentro de você também... Espero que não tenha sido bem-sucedido. — Suponho que essa fosse a minha intenção, embora eu não estivesse pensando com clareza. — Ele arrancou uma corda que ainda estava tensa, fazendo soar uma nota melancólica. — Talvez eu devesse escrever uma canção sobre a explosão da mina. Homenagear os mortos é uma antiga tradição celta. Clare colocou a mão sobre a dele. — Faça isso, e cante-a no próximo festival Eisteddfod. Teria um grande significado para todos no vale. O rosto moreno se contraiu, e Clare soube o que Nicholas estava pensando: que teria mais significado se ele tivesse sido capaz de


efetuar as mudanças na mina antes daquela tragédia. Embora sua tristeza e culpa estivessem sob controle naquela manhã, elas não haviam ido embora. Talvez Nicholas nunca mais fosse se vir inteiramente livre delas. O silêncio foi quebrado quando Williams entrou com um garoto ofegante a seu lado. Reconhecendo Trevor Morris, o filho mais velho de Marged, Clare se pôs em pé, alarmada. — Sua mãe precisa de mim, Trevor? — perguntou, aflita. — Eu estava prestes a descer para a aldeia e... — Não, srta. Morgan! — Ele balançou a cabeça. — É uma notícia maravilhosa... Meu pai está vivo! Eles o encontraram esta manhã, e mamãe mandou que eu viesse avisá-los assim que o trouxemos para casa! O emocionado “Graças ao bom Deus!” de Clare foi suplantado pelo entusiasmado “Aleluia!” de Nicholas. Parecia bom demais para ser verdade, mas a prova estava na expressão exultante de Trevor. A de Nicholas refletia a mesma alegria, e Clare teve a certeza de que aquela notícia mudava tudo. — Williams, mande aprontar o cabriolé, rápido! — ele pediu, afoito. — Trevor pode nos contar essa história no caminho para a aldeia. Em cinco minutos, eles rumavam na direção de Penreith com uma velocidade que teria assustado Clare se o condutor fosse alguém menos hábil do que o próprio Nicholas. Espremido entre eles, Trevor explicou: — A explosão atirou meu pai em um dos túneis mais velhos e ele quebrou a perna. Ele ficou inconsciente por muito tempo, mas, quando acordou, lembrou-se de que estava perto de um dos áditos. — Aqueles velhos túneis de drenagem? — Nicholas indagou, desviando o olhar rapidamente da estrada. O garoto concordou com um gesto de cabeça. — Meu pai teve de cavar um caminho através de um teto caído para alcançá-lo. Quando chegou ao ádito, descobriu que a explosão


tinha diminuído o nível da água, então havia ar. Ele se arrastou para fora ontem à noite, e hoje de manhã um pastor o encontrou. — Um milagre — afirmou Clare com convicção. — Foi o que a minha mãe disse. Houve silêncio por algum tempo. — Como as famílias desses homens que morreram vão viver daqui por diante? — Nicholas perguntou, como se estivesse pensando em voz alta. — Existem duas instituições de apoio no vilarejo, onde as pessoas doam o que podem a cada semana para que haja recursos em tempos de dificuldade — respondeu Clare. — Mas tantas mortes deixarão essas instituições em maus lençóis — ele concluiu. — Acha que algum desses galeses orgulhosos ficaria ofendido se eu desse minha contribuição? — Estou certa de que ninguém vai se opor. Quando chegaram à cabana dos Morris, Nicholas pediu a Trevor que continuasse a conduzir o cabriolé devagar por ali, de modo a esfriar a musculatura dos cavalos, tarefa que o rapaz aceitou com entusiasmo. A porta da casa foi aberta por Marged. Apesar dos círculos escuros que tinha sob os olhos, estes eram insignificantes diante da alegria de seu sorriso. Clare caiu nos braços da amiga e as duas choraram. Quando se recompuseram, todos foram para dentro, onde Marged insistiu em servir chá e pães de groselha. Em voz baixa para não acordar Owen, Marged repetiu o que Trevor havia dito. — E há outras boas notícias — acrescentou com os olhos brilhando. — Mais dois homens foram encontrados vivos em um bolsão de ar. — Ela deu os nomes, e Clare agradeceu a Deus mais uma vez. Fora professora dos filhos deles. — Dizem que vai haver mudanças na mina — contou Marged. — Aparentemente, lorde Michael Kenyon não ficou satisfeito com o que


encontrou lá e assumiu a administração. Nicholas estreitou o olhar. — E quanto a Madoc? Marged sorriu com profunda satisfação. — Sua Graça não disse uma só palavra contra Madoc em público, mas não disfarçou o fato de que, para todos os efeitos, de hoje em diante ele atuará apenas como supervisor, e cumprindo suas ordens. Dizem que Madoc está furioso, mas que não se atreveu a reclamar ou perderia não apenas o salário como também a casa onde mora. Sua Graça colocou todos os homens para trabalhar no escoramento dos poços que restaram. Dizem que também mandou comprar uma bomba a vapor Watts e um motor de içamento, para que os homens não tenham mais de subir e descer por aquela corda horrorosa, como um cacho de uvas. — Graças aos Céus! — Clare exclamou fervorosamente. — Parece que tudo está voltando ao seu devido lugar. Com sorte, a mina nunca mais terá outro desastre. — E Michael parece estar retomando de onde parou quatro anos atrás — observou Nicholas. — Marged, se Owen estiver acordado, posso falar com ele? — Eu vou ver... — Ela foi até o quarto e voltou em seguida: — Ele está acordado e também quer vê-lo. — Imagino que Owen prefira esperar para me ver também. — Clare sorriu. — Que tal você e eu fazermos uma oração de agradecimento enquanto isso, Marged? — Estranho... — A moça piscou, curiosa. — Por um momento ficou tão parecida com seu pai! Obrigada por me fazer lembrar que é tempo para oração. Confesso que fiquei meio perdida nesses dias em que estava sem Owen. Enquanto as duas mulheres se ajoelhavam juntas, Nicholas subiu a escada. Owen e Marged compartilhavam um pequeno quarto na parte da frente da casa, não muito maior do que a cama de casal que


dominava o espaço. Owen estava pálido e sua perna esquerda fora praticamente despedaçada, contudo sua expressão era tranquila. Sem dizer nada, ele levantou a mão. Nicholas a apertou com força e se pôs de joelhos ao lado da cama. — Graças a Deus você está bem — disse, comovido. — É difícil acreditar que tenha sobrevivido a tal explosão e ficado três dias preso debaixo da terra. — Acho que não era a minha hora — respondeu Owen com a voz um pouco rouca. — Foi um milagre eu não ter morrido, e outro que eu estivesse perto o suficiente do ádito para poder cavar uma saída. — Também merece crédito — afirmou Nicholas. — Encontrar uma saída em um labirinto de túneis na escuridão, e com uma perna quebrada, foi um feito. — Eu tinha toda a motivação do mundo... Nicholas estudou o rosto do outro homem, pensativo. — Por que me fez ir primeiro? Tem uma família e é muito mais necessário do que eu. Owen sorriu. — Eu sabia que, se morresse, iria direto para o céu, mas tinha minhas dúvidas quanto a você. Por um momento, Nicholas perguntou se o outro homem estava brincando. Quando percebeu que Owen continuava sério, caiu na risada, descansando a cabeça na estrutura de madeira da cama. Mesmo em meio ao riso, no entanto, soube ter estado diante de uma demonstração incrível de fé, a qual iria afetá-lo para o resto da vida. — Está certo — falou, apenas, sem conseguir exprimir seus sentimentos. — Se o céu e o inferno existem, eu agora estaria fritando como um ovo. — Provavelmente. — Os olhos de Owen brilharam, divertidos. — De qualquer modo, agora terá uma chance de mudar seu rumo. Não que


seja mau, mas duvido que já tenha parado para pensar sobre o estado de sua alma. — Verdade. E Clare, sem dúvida, terá um efeito positivo nessa área. — Após uma pausa, ele acrescentou: — Vamos nos casar em uma semana. Você é o primeiro a saber. O rosto de Owen se iluminou. — Imagine só... Nossa Clare será condessa! Não poderia ter feito melhor escolha. Precisava mesmo de uma mulher que tivesse os pés firmemente plantados no chão. Percebendo que o amigo começava a se cansar, Nicholas se levantou. — Se estiver em pé até lá, talvez possa conduzir Clare até o altar. Acho que ela gostaria muito disso. — De muletas? — Owen indagou, descrente. — Ficaríamos felizes de tê-lo lá em uma cadeira de rodas. Sentindo-se como se uma pedra tivesse sido arrancada de seu coração, Nicholas desceu a escada novamente. Mais pessoas foram chegando, então ele e Clare se despediram de Marged e saíram para dar lugar às outras visitas. — Se você soubesse que Owen estava vivo, não teria acontecido nada ontem à noite, e agora não se veria obrigado a um casamento... — observou Clare enquanto voltavam para Aberdare. Ele deu de ombros. — O destino quis assim. O que está feito, está feito. Não tenho do que me lamentar. — Seus lábios se curvaram num breve sorriso. — Como deve ter percebido, há muito fatalismo na vida de um rom. — Contanto que esteja feliz... Nicholas lançou-lhe um olhar rápido, temendo que Clare tivesse se arrependido de ter concordado em se casar com ele, entretanto sua expressão era serena. — Aparentemente, Michael levou a sério o que eu disse em Londres. Agora que viu a situação por si próprio e tomou providências


para corrigi-la, não tenho por que romper o contrato de arrendamento. — Devo admitir que estou impressionada. Quando recuperou a calma, lorde Michael se transformou em uma pessoa mais do que razoável — afirmou Clare. — Agora você vai ter mais tempo para se dedicar à pedreira de ardósia. — Não quer passar a lua de mel visitando as pedreiras de Penrhyn? Apenas nós dois em meio às montanhas, narcisos, noites românticas sob as estrelas? Clare franziu as sobrancelhas. — E se chover? — Podemos usar aquelas cabanas para viajantes nas montanhas. É tão romântico quanto. — Interessante... — Ela deu-lhe um sorriso que o fez querer amarrar os cavalos e arrastá-la para trás dos arbustos. Após mais alguns instantes de reflexão, Nicholas fez exatamente isso. A semana seguinte correu em meio a um turbilhão. O casamento não requereu muito planejamento, pois eles se decidiram por uma cerimônia discreta em Aberdare. No entanto, havia muito a ser feito na aldeia para ajudar as famílias dos homens que tinham perecido na mina. Clare foi a uma dúzia de funerais e amparou inúmeras viúvas nos braços, tentando ajudá-las a planejar o futuro. Conforme correu a notícia de seu noivado, algumas pessoas passaram a fitá-la com reprovação ou ressentimento; mas o casamento não era nada em comparação com as consequências da explosão. Tristonha, ela pensou como era irônico que a preocupação da aldeia com o desastre tornasse mais fácil sua própria situação. Mais preocupante era a atitude de Nicholas. Não que ele não se mostrasse encantador e atencioso, ou que não encontrasse cada vez mais prazer em seu corpo. Mas era como se, em muitos aspectos, eles houvessem se tornado menos íntimos como amantes do que tinham


sido como adversários. Como se, para compensar sua proximidade física, ele tivesse recuado emocionalmente. Embora essa reticência não abalasse sua crença de que era direito eles se casarem, Clare não pôde evitar um certo pesar. Só esperava que a rotina do casamento dissolvesse todas as reservas. No quinto dia após seu noivado, quando voltava a Aberdare no final da tarde, foi recebida por Williams. — O conde de Strathmoor está na sala de estar, senhorita. Chegou há duas horas. — Oh, Deus! — murmurou Clare, preocupada, enquanto tirava o gorro. — E Nicholas não voltou de Swansea ainda? — Não, senhorita. Ela entrou na sala e encontrou o conde confortavelmente acomodado na companhia de um livro e de uma bandeja de chá. — Lucien, que surpresa... Nicholas não me disse que estava esperando por você. Ele se levantou e segurou suas mãos. Em seguida, beijou-a de leve no rosto. — Nicholas não estava me esperando. Fui eu que decidi trazer a licença para o seu casamento pessoalmente. Mas ele deve imaginar que eu não perderia isto por nada. Afinal, todo noivo precisa de um amigo ao lado... Pena que Rafe não pôde vir. Está ocupado na Câmara dos Lordes. Parece que uma de suas leis está para ser votada. Mas ele me pediu que desse um beijo na noiva em seu nome. — Lucien beijou sua outra face. — Ainda não sou bem uma noiva. — Então vou ter de beijá-la outra vez no dia do casamento — ele decidiu, travesso. — E duas vezes. A menos que Nicholas tenha alguma objeção, claro... — Sinto muito que tenha sido obrigado a esperar tanto tempo. — É o que um hóspede não convidado merece. — Quer dar um passeio no jardim? — ela sugeriu. — A tarde está


linda. — Se me lembro bem do clima do País de Gales, é melhor irmos logo, ou pode estar chovendo quando chegarmos lá. Clare torceu os lábios. — É triste, mas é verdade. O sol ainda brilhava quando eles saíram para o pátio de pedra. Um pavão abriu a cauda, exibindo-se, e os raios brincaram como mágica em meio ao padrão azul e verde de suas penas. — Linda criatura — Lucien comentou. — Mas muito estúpida. Uma prova viva da maldição da beleza. Clare riu. — Você e os outros Anjos Caídos também são lindos, e nenhum me parece estúpido. Lucien pegou a mão dela e a enfiou sob a dobra do cotovelo, os olhos verde-dourados cintilando, divertidos. — Verdade. Mas não nos tornamos amigos por conta de nossa aparência. — Existe algum motivo especial para que tenham se unido e continuado juntos por tanto tempo? Além do fato de desfrutarem a companhia um do outro, quero dizer? — A maioria dos grupos formados por rapazes tem um líder e seus seguidores — ele ponderou, pensativo. — Talvez tenhamos nos tornado amigos porque nenhum de nós quis liderar ou ser liderado. — Talvez porque todos sejam líderes natos. Cada um de vocês poderia estar à frente de um bando de bajuladores. — Mas não quisemos nada disso. Rafe tem verdadeiro desprezo por aduladores, e como herdeiro de um ducado, ele sempre os atraiu como um cavalo atrai moscas. Você conhece Nicholas: tentar levá-lo a fazer algo que ele não queira é como tentar controlar o vento, mas ele não tem nenhuma propensão a querer exercer poder sobre os outros. Coisa de ciganos, talvez. Michael, por sua vez, prefere testar a si mesmo enfrentando iguais a dominar alguém mais fraco.


— E quanto a você? — perguntou ela, intrigada com a análise. — Eu? Acho que, assim como Nicholas, não gosto de receber ordens, mas não aprecio muito a visibilidade que vem com a liderança. — Então nasceu mesmo para ser um espião. — Receio que sim. — Lucien observou o pavão que tentava impressionar uma fêmea sem muito sucesso. — Fale baixo... Essas coisas podem ser agentes franceses disfarçados. Clare riu enquanto desciam os degraus para o caminho de cascalho. — Nicholas pode ter um temperamento difícil, mas seu senso de responsabilidade o leva a fazer coisas que ele bem gostaria de evitar — comentou, taciturna. Lucien lançou-lhe um olhar astuto. — Está preocupada que ele esteja se casando com você por obrigação? — Estou. — E incapaz de resistir à oportunidade de discutir seu dilema, ela prosseguiu: — Quando fizemos aquele acordo maluco, eu era uma estranha, e foi fácil para Nicholas me ameaçar com a ruína. Mas quando ele me conheceu melhor, acho que começou a se sentir culpado, por isso essa proposta de casamento. Pouco antes, Nicholas se mostrava categórico quanto a não querer mais se casar. Espero que ele não se arrependa do nosso casamento. — Embora leve seus compromissos a sério, Nicholas não a levaria ao altar se não estivesse disposto a isso — respondeu Lucien. — Nunca o vi fazendo algo que realmente não quisesse. O antigo conde aprendeu isso à força... Por isso eles viviam em conflito. Os jardins haviam melhorado muito agora que o velho jardineiro contava com três jovens assistentes. Arriscando-se a despertar sua ira, Clare se abaixou para apanhar uma tulipa vermelha. — Como era o avô de Nicholas? Nunca tive oportunidade de conhecê-lo. — Um homem difícil. Sua atitude para com o neto era muito fria,


mas ele nunca foi muito caloroso com ninguém. Eles teriam se dado melhor se Nicholas fosse submisso. Embora meu amigo sempre o tenha tratado com o devido respeito, tinha um quê de rebeldia. — Eu entendo exatamente o que quer dizer — ela afirmou, pensando em como Nicholas a vinha tratando nos últimos dias. — É mesmo um pouco irritante. — Esse comportamento sem dúvida enlouquecia o velho conde. A caminhada os levou à horta. Conforme seguiam pelo caminho tortuoso, um pavão fêmea começou a gritar em um galho próximo. Clare olhou para a ave com o cenho franzido. — Ao menos os machos são bonitos de se ver... A forma como essas fêmeas gritam andam me tentando a experimentá-las num fricassé. Pensei que os pavões fossem elegantes e aristocráticos, mas eles fazem barulho demais. Não passam de faisões enfeitados. Foi uma desilusão. — Típico glamour da nobreza. — Lucien sorriu. — Por alguma razão, falar de pavões me faz lembrar da primeira esposa de Nicholas. Clare brincou com a tulipa, tensa. — O que achava dela? — Imagino que não devesse fazer comentários, mas será útil para você, uma vez que vai se casar com ele. — Lucien pensou por um momento. — Ela era muito bonita, claro, mas também muito consciente disso. Também era muito animada, mas nunca gostei muito dela. Caroline era dona de certa frieza que me incomodava. — Deu-lhe um olhar divertido. — Essa não é a opinião da maioria, porém. A maior parte dos homens que conheço se jogaria no chão para que ela passasse por cima. — Não sei se eu gostaria de caminhar sobre um tapete humano... — ironizou Clare. — Não deve ser nada confortável. — Por isso você e Nicholas combinam. Embora ele também tenha se encantado com Caroline, não se deu bem como capacho. Clare se perguntou se aquela fora a origem dos problemas no


casamento. — Ele a amava o suficiente para fazê-la sua esposa. — Aquilo não foi amor; foi um casamento arranjado. — Lucien franziu a testa. — Ou talvez não saiba. Foi ideia do antigo conde, claro. Ele queria garantir sua sucessão antes de morrer. Nicholas tinha dúvidas, mas concordou em desposar lady Caroline, o que me surpreendeu. Acho que ficou com medo que o avô escolhesse uma daquelas aristocratas com cara de cavalo e nenhuma conversa... Mas o conde era bastante inteligente para saber que se a menina fosse feia, Nicholas nunca iria cooperar. — Houve problemas no casamento desde o princípio? — Por ser um casamento arranjado, esse me pareceu mais auspicioso do que a maioria. Nicholas parecia até satisfeito com o acordo, mas depois de alguns meses... — Lucien encolheu os ombros. — Alguma coisa deu errado, e não tenho ideia do que foi. Nicholas mandou Caroline para Aberdare e permaneceu em Londres sozinho. — E caiu na libertinagem — completou Clare, uma vez que seu companheiro não parecia disposto a confessar. — Temo que sim — concordou ele, relutante. — Não que eu tenha algo contra a devassidão, mas acontece que Nicholas não parecia estar se divertindo muito. Embora eu o tenha visto em Londres, ele ainda não me conhecia muito bem... Então aconteceu aquele episódio terrível aqui em Aberdare, e Nicholas deixou o país. Você provavelmente sabe mais sobre isso do que eu. — Obrigada por ter me contado tudo isso. Preciso saber o máximo possível sobre Nicholas. — Clare colheu uma tulipa branca e a juntou à vermelha. — Às vezes sinto como se tudo fosse uma peça de teatro onde eu tivesse entrado no segundo ato e precisasse deduzir o que aconteceu antes. Lucien sorriu. — É assim que acontece na maioria dos relacionamentos. É justamente o que os torna interessantes.


— Por falar em relacionamentos, sabia que lorde Michael está morando na casa dele, do outro lado do vale? Lucien virou-se para fitá-la, preocupado. — Não, eu não sabia... Tiveram problemas? Clare o fitou, sensibilizada. Lucien era mesmo um homem formidável. — Um dia após lorde Michael voltar para Penreith, uma bala de fuzil quase atingiu Nicholas quando estávamos cavalgando. Fiquei com medo que Michael fosse o autor do atentado, mas Nicholas me garantiu que devia ter sido um caçador. — Houve incidentes parecidos? — Não que eu saiba. Lorde Michael tem estado muito ocupado. — Clare descreveu a explosão na mina e as medidas que Sua Graça vinha tomando para melhorar as condições no lugar. A expressão de Lucien se suavizou. — Parece que Michael está recuperando o equilíbrio — concluiu, quando ela terminou. — Obviamente, ele veio para cá por causa dos negócios, e não por conta de sua hostilidade sem fundamento para com Nicholas. — Espero que sim. Eu não gostaria nada de saber que ele voltou para pôr fim à vida do meu futuro marido. — Ela mordeu o lábio. — Uma vez que tirei o dia para lhe fazer perguntas indiscretas, quais são os pontos fortes de Michael? Ele deve ter alguns, ou não teria amigos tão admiráveis. — Coragem, inteligência, honestidade... — respondeu Lucien prontamente. — Com Michael, sempre era possível saber onde se estava pisando. Quando ele se encontrava de bom humor, o que era normal, era um companheiro espirituoso e muito agradável. E também muito leal aos amigos. — Michael não tem sido leal a Nicholas. — Sim, e eu gostaria de saber o porquê — emendou Lucien. — Ainda assim, parece que seu estado de espírito melhorou.


— Espero que sim, pois estamos destinados a ser vizinhos. Pretende visitá-lo enquanto estiver aqui no vale? — Acho que sim. Com sorte, ele vai me perdoar por ter apadrinhado Nicholas naquele duelo lamentável. — Lucien sorriu. — Falando no diabo... aí vem ele. Enquanto os dois homens apertavam as mãos, Clare se lembrou de como lorde Michael estivera no baile do duque de Candover. Embora quisesse acreditar que ele não representava mais nenhuma ameaça, era difícil crer que tanta hostilidade tivesse desaparecido da noite para o dia. Preocupada, rezou para que estivesse errada. Já era tarde da noite quando Nicholas se deitou na cama de Clare. Pensando que ele e o amigo conversariam até de madrugada, ela havia adormecido, porém acordou quando o colchão afundou sob seu peso. — Quem está aí? — falou brincando, com voz sonolenta. Escutou quando ele prendeu a respiração, e a temperatura do quarto pareceu cair vinte graus. — Quem, diabos, estava esperando? — volveu Nicholas, frio. Em um instante, Clare despertou por completo. — Era brincadeira, Nicholas... de mau gosto, concordo. — Muito. Ela se inclinou e passou os braços pelos ombros rígidos. — Não é preciso ser um gênio para adivinhar que Caroline foi infiel a você — falou com cuidado. — E imagino que essa tenha sido a causa de também ter cometido adultério. Mas eu não sou como ela... mesmo que o meu senso de humor não seja muito apurado. Para mim, a simples ideia de fazer amor com outro homem é absurda. — Sentindoo relaxar, ela acrescentou: — Considerando o tempo que levou para se deitar comigo, o que o faz pensar que qualquer outro homem seria bem-sucedido? Nicholas colocou a mão sobre a dela.


— Só alguém muito inocente poderia usar tal argumento, mas como também tive a minha cota de piadas sem graça, não estou em posição para atirar pedras — ele observou, para então ficar sério. — Você adivinhou, Clare. Minha nobre esposa era uma vagabunda, embora isso não seja algo que eu considere muito interessante. — Também sei de coisas mais interessantes — ela concordou, a mão deslizando ligeiramente para baixo até encontrar o que procurava. Nicholas suspirou. — É uma aluna esperta, srta. Morgan. Hora de passarmos para uma aula mais avançada... Com um movimento rápido, ele a virou e deslizou para baixo, fazendo coisas que a deixaram sem fôlego. Nicholas fez amor com ela naquela noite com uma ponta de raiva, como se tentasse marcá-la como sua. Clare aceitou de bom grado, ansiosa para fazê-lo esquecer seu comentário infeliz. Por alguns momentos, a distância que percebia nele foi consumida pelo fogo da paixão, e eles se entregaram de corpo e alma novamente. Tal sentimento tornou a desaparecer mais tarde, mas se aquilo havia acontecido uma vez, talvez pudesse acontecer de novo. Clare dormiu em seus braços, tão feliz como nunca tinha estado na vida. Antes de cair no sono, porém, pilhou-se com esperanças de que um inferno cheio de fogo e enxofre realmente existisse... E que Caroline Davies, filha de duque e esposa infiel, estivesse queimando nele. Michael Kenyon trabalhava em seu escritório quando o criado que vinha fazendo as vezes de mordomo, bem como de valete, veio anunciar que o conde de Strathmoor chegara para uma visita. Michael hesitou, atingido por um profundo desejo de ver seu velho amigo. Mais do que isso, encontrava-se ansioso para que sua vida voltasse a ser tão descomplicada como fora antes, quando ele, Luce, Rafe e Nicholas frequentavam a casa um do outro como irmãos.


Mas a vida não era simples assim havia anos e, em Londres, Lucien tinha se alinhado com Aberdare. — Diga a lorde Strathmoor que não posso receber ninguém. Uma ponta de reprovação se mostrou nos olhos do rapaz, contudo este aquiesceu. — Muito bem, milorde — murmurou, saindo da sala. Michael tentou retornar ao trabalho, mas era impossível se concentrar nas contas. Irritado, pôs a razão de lado e caminhou até a janela, mirando o vale. Quando viu Lucien se afastando, apertou os lábios. Ele devia ter vindo para o casamento de Aberdare, notícia que se espalhara por toda a região. Aparentemente Nicholas iria se casar com sua amante, a mocinha que havia estado com ele em Londres. Lembrava-se de ela ser atraente, e parecia sensata a despeito de ter se deitado com o conde. Entretanto, estava longe de lembrar sua antecessora. Michael sentiu o estômago se contorcer e desviou o olhar para a mina que se encontrava visível à distância. Viera para Penreith com um propósito, e por causa da explosão, talvez nem mesmo conseguisse realizá-lo. Todo o seu tempo fora preenchido: primeiro organizando os trabalhos de resgate, em seguida fazendo planos para implementar as melhorias que deveriam ter sido feitas anos antes. Era irritante que Nicholas tivesse falado a verdade sobre a mina quando se encontraram em Londres. Provavelmente também estava certo ao afirmar que Madoc dera um desfalque, embora ele ainda não tivesse encontrado a prova. Os números dos livros-caixa batiam, mas não faziam muito sentido. Tanto que estava inclinado a deixar de lado o assunto no momento. Se Madoc fora ganancioso, ele, Michael, havia lhe dado tal oportunidade. Sem dizer que o homem fora deveras útil. Além disso, tinha coisas mais importantes em que pensar. Excesso de trabalho não era desculpa para covardia. Assim, precisava resolver de uma vez o dilema terrível que o trouxera de volta a Penreith. E não


importava quão doloroso pudesse ser. A justiça deveria ser feita.


Capítulo XXVIII Clare tornou-se a condessa de Aberdare com extrema doçura. Usava um vestido simples e elegante, de cor creme, e levava nas mãos um buquê de flores do campo. Marged foi sua madrinha, e Owen a acompanhou até o altar com muletas e tudo. Os outros membros da congregação também foram convidados e participaram da cerimônia cheios de boa vontade e curiosidade. Nicholas nunca estivera mais encantador, e até Edith Wickes parecia convencida de que ele havia renunciado ao chamado do demônio em favor do amor de uma boa mulher. Durante a cerimônia, e no almoço de casamento, Clare portou-se com surpreendente calma. Talvez porque já se sentisse casada desde o ritual cigano de sangue que tinha realizado com Nicholas. Até mesmo os metodistas consumiram champanhe depois que ele lhes explicara persuasivamente que este não era mais inebriante do que cerveja comum. Como resultado, o bom ânimo abundou nas comemorações. Precisando retornar a Londres, Lucien deixou o pequeno almoço logo após o casamento, que durou até o início da tarde. Clare deu-lhe um abraço sincero, feliz que ele tivesse feito a longa viagem até o País de Gales. Suspeitava de que uma das razões pela qual ele tinha vindo fora mostrar aos bem-nascidos amigos de Nicholas que apoiava a união, a qual a maioria deles consideraria uma triste mésalliance. Depois que o restante dos convidados partiu, cantando com os típicos vigor e afinação galeses, Nicholas pegou a mão de Clare e a arrastou pela casa. — Tenho algo para lhe mostrar. Foi instalada ontem, enquanto estava fora. Quando ele a levou para a sala de bilhar, os olhos dela se arregalaram. — A mesa com tampo de ardósia? — Ela passou as palmas das mãos sobre a superfície verde e não encontrou uma única imperfeição.


— Suave como um espelho coberto de baeta! Isto pode lançar moda. — Estou prevendo que venderemos muita ardósia para esse fim, e a peso de ouro. — Ele posicionou as mãos na ponta da mesa e deu um forte empurrão, sem absolutamente nenhum efeito. — Uma vantagem que eu não havia pensado é que ela ficou tão pesada que foram necessários dez homens e um menino para trazê-la, ou seja, não teremos mais tacadas infelizes. O carpinteiro teve de reforçar as pernas e a estrutura para suportar o peso da pedra. — Vamos testá-la com uma partida de bilhar no dia do casamento? — Clare sorriu. — Apesar de que deve me vencer outra vez... Depois de duas taças de champanhe, nem mesmo meu taco com ponta de couro vai me ajudar nas tacadas. — No momento estou com outro tipo de jogo em mente. — Nicholas, estamos no meio da tarde! — Ela riu e escapuliu para o outro lado da mesa sem saber se ria ou se ficava séria. — E se alguém vir? — Os empregados estão desfrutando o champanhe em seus aposentos. — Ele se moveu em sua direção, determinado. — Esqueceu de que também era tarde no dia em que voltamos a Penreith? E também no palheiro há três dias. — Mas nessas vezes, aconteceu; não foi premeditado como agora — Clare protestou, contudo se inclinou e cruzou os braços na borda da mesa de modo a exibir melhor o decote. Os olhos de Nicholas se estreitaram. — Está dizendo que nessas outras ocasiões a coisa não foi premeditada? Então por que subiu a escada para o palheiro e pôs a mão na minha... — Milorde! — ela o interrompeu, rindo. — Precisa me lembrar das minhas fraquezas? — Prefiro pensar em como você é obediente. — Ele começou a circular a mesa, como um gato perseguindo um rato. — Precisei apagar da memória aquele jogo em Londres, sabia? Achei que nunca


mais fosse conseguir jogar bilhar novamente. Clare sentiu uma leve vertigem. Talvez tivesse tomado três ou quatro taças de champanhe, e não duas. — Nesse caso... É melhor adotarmos as mesmas regras. Clare sentou-se na beirada de uma cadeira, ergueu a barra do vestido e chutou a sapatilha de pelica. Em seguida levantou a perna e, lentamente, arrancou uma meia, tomando o cuidado de deixá-lo ter um vislumbre da parte interna da coxa. Tentou fazer tudo o que tinha feito em Londres, mas dessa vez o jogo teria um final diferente... O desejo começou a arder dentro dela só de pensar. Ofegante, jogou a outra meia em Nicholas. — Sua vez, senhor meu marido. Ele apanhou a seda pura e inalou seu perfume. — Uma inebriante fragrância de lilases e Clare... — Seus olhos escuros a observaram com intensidade enquanto se livrava da casaca com uma ondulação do ombro largo. Foi a vez dela de novo. De peça em peça, eles se despiram devagar e sem se tocar, exceto com calorosos olhares. Foi como uma dança exótica e devastadoramente erótica e sensual. Quando chegou a hora de remover o espartilho, Clare caminhou até ele, então virou-se em busca de ajuda. Para um homem que sempre atuava com absoluta maestria na peça, Nicholas sofreu um surpreendente ataque de imperícia, as mãos vagueando, ansiosas, por curvas bem distantes dos laços e ilhoses... Quando finalmente deixou cair o corpete de fustão, puxou-a para si, acariciando-lhe os seios com luxúria. Suspirando de prazer, Clare se inclinou para trás, incapaz de resistir à tentação de colar o corpo ao dele. E ficou evidente, considerando a pressão em suas nádegas, que ele se encontrava tão excitado como ela. Clare, entretanto, reuniu sua disciplina de professora e deslizou para longe novamente, pois retardar o processo apenas faria arder mais o fogo entre eles.


Nicholas tirou as ceroulas, revelando-se em toda a sua masculinidade. O único item que restava agora era a combinação fina que ela usava. Valorizando o momento, ela desamarrou o cordão, em seguida puxou a peça, provocante, por sobre a cabeça, fazendo o corpo ondular conforme a tirava. Deu um passo na direção de Clare com entusiasmo, porém ela ergueu a mão, detendo-o. Sentou-se na borda da mesa de bilhar e cruzou as pernas. Então puxou os grampos dos cabelos e os sacudiu para que caíssem em cascata sobre as costas e os seios como uma cortina de seda escura. O efeito foi explosivo. Com um forte suspiro, Nicholas a fez se deitar de costas no pano verde e completou o que não tinham terminado em Londres. Na última semana, seus corpos haviam entrado em extraordinária sintonia, e o sexo se tornara uma indizível fonte de prazer e alegria. Mais tarde, enquanto descansavam nos braços um do outro, saciados, Nicholas murmurou: — Sabe a que conclusão cheguei sobre se consumar o ato antes do casamento? Torna o dia do matrimônio muito mais agradável. — Isso é o que eu chamo de um pensamento subversivo. Aliás, exatamente o tipo de coisa que faz a fama de um homem dissoluto. — Clare riu baixinho. — Estava certo naquele dia quando disse que se eu perdesse, nós dois acabaríamos ganhando. Ele acariciou-lhe os cabelos. — Acho que foi um empate devido à sua administração inteligente. Nós dois vencemos sem que nenhum dos dois fosse obrigado a perder. Talvez Nicholas tivesse perdido a sua liberdade, mas, já que ele não parecia incomodado com o fato, ela não iria lembrá-lo, Clare decidiu em pensamento. — A nova mesa de jogo tem uma superfície maravilhosa — comentou, travessa —, mas acho que precisa ser mais pesada. Com


certeza essa nossa atividade deve tê-la movido uns dois ou três metros... — Assumiu um tom professoral: — Além do mais, a baeta não disfarça o fato de que a ardósia é bem mais fria sob uma pessoa nua do que a madeira. Sem esforço, Nicholas a ergueu por cima dele. — É melhor quando se fica sobre uma pessoa nua? — Hum... parece que sim. Mais uma vez, o amor que fizeram foi sublime, e Clare sentiu o coração tão cheio que não conseguiu mais se conter. Fitando os olhos negros, deu um longo suspiro. — Importa-se se eu disser que amo você? — balbuciou com uma ponta de melancolia. — Amo você desde a primeira vez em que o vi, acho. Eu estava com cinco ou seis anos de idade. Era primavera, e você foi à minha casa à procura do meu pai. Montava um cavalo malhado em pelo, e era a criatura mais fascinante que eu já tinha visto... mas nem percebeu que eu existia. Nicholas ficou muito quieto, o olhar preso ao dela. — Verdade? — Verdade. Eu ia olhar você sempre que podia, lembrava cada palavra que havia me dito. — Algumas deviam ser rudes, provavelmente. — Sim. Devo repeti-las? — Prefiro que não. — Ele a enlaçou pela cintura e a estudou, atento. — Se fosse apaixonada por mim, com certeza não teria agido como agiu quando veio até aqui para me forçar a ajudá-la em seus projetos. — Eu nunca pensei nisso como amor. Como poderia haver qualquer coisa entre o herdeiro de um condado e a filha pobre de um pastor? Era mais fácil querer guardar a lua no bolso... Mas você estava sempre lá, no meu pensamento. E no meu coração, embora eu não admitisse isso nem para mim mesma. Nicholas ficou em silêncio, as mãos acariciando-lhe a parte inferior


das costas e as nádegas. Mais uma vez, Clare sentiu que ele se retraía, e soube que seu amor era um fardo que ele não queria suportar. Descansou a cabeça no ombro largo, os cabelos se derramando sobre seu peito. — Sinto muito — murmurou, pesarosa. — Eu não deveria ter lhe contado. Soa como se eu tivesse sido terrivelmente calculista. Mas não foi nada disso, eu juro. — Está certa. Não deveria ter me contado — ele confirmou com um tom grave na voz. — Desconfio das pessoas que dizem me amar. Suas palavras sempre são usadas como arma. Aqueles em que eu mais confio são os que costumam dar a menor demonstração de afeto. Quem havia lhe declarado abertamente seu amor? A mãe dele? O avô? A esposa? — Esqueça o que eu disse — falou com um suspiro. — Eu me casei com você para dar ao nosso hipotético filho um nome, para ter um parceiro no bilhar, e porque um marido é algo muito agradável para se ter durante um inverno galês. Ninguém precisa de confiança. Nicholas sorriu, porém o sorriso não lhe alcançou os olhos. — Para todos os efeitos, confio em você tanto quanto confio em qualquer um. — Segurando-lhe o rosto entre as mãos, ele a beijou com uma estranha emoção, como se desejasse e ao mesmo tempo temesse seu afeto. Olhos frios observavam de longe enquanto o conde de Aberdare e sua novíssima condessa se afastavam de Aberdare casualmente vestidos e com os alforjes dos cavalos carregados. O intruso abriu um sorriso de satisfação diante da cena. Desde que havia decidido o que deveria ser feito, tudo estava indo às mil maravilhas. Aberdare não fizera segredo de seus planos de viagem para o Noroeste do País de Gales, tampouco de seu percurso. Bastava algum comentário por parte dos criados, e logo todo o vale sabia onde o conde estava indo, quando e por quê. Seria mais difícil nas proximidades de Penreith, mas uma vez que


Aberdare seguia para a região inóspita das montanhas, ele não teria dificuldade para armar a emboscada. Tudo fora planejado: o percurso, o número de homens contratados. Dentro de quarenta e oito horas, seus problemas seriam resolvidos, e a justiça seria feita. Na primeira noite de sua lua de mel, Clare e Nicholas dormiram sob as estrelas, assim como ele havia prometido. Depois de fazerem amor, Clare aconchegou-se em seus braços enquanto ele apontava diferentes constelações e contava lendas ciganas de como estas tinham ido parar no firmamento. Quando ela caiu no sono, Nicholas se perguntou como podia ser tão afortunado. Clare era tudo o que Caroline não fora. Ardente, inteligente, realista, perspicaz e leal, ela preenchera os espaços vazios que existiam em sua vida desde que ele era criança. Era um pouco perspicaz demais, talvez. Ele nem mesmo percebera o quanto havia revelado sobre o passado até ela ter dado um palpite preciso sobre Caroline... Felizmente, o detalhe mais sórdido daquela história nunca viria a ser conhecido. Suspirou. Imaginava que, com Clare, sendo ela aquele tipo de mulher, o amor e a lealdade iriam andar sempre juntos. E ele podia ter consciência de que ela o amava enquanto fosse discreta sobre o assunto. Era mais seguro não dizer muito, nem esperar demais. Rolou para o lado e a puxou para mais perto, então ajeitou o cobertor em torno de seu queixo. Um vento soprava na noite, suave, e ele sorriu. Era um verdadeiro acampamento rom. Algum dia ele teria de levar Clare para visitar o povo de sua mãe. Sorriu outra vez, imaginando que na certa ela iria querer mudar alguns dos hábitos ou então tentar ensinar leitura para as crianças ciganas... E, com o coração em paz, ele adormeceu. Clare sabia que iria desfrutar a viagem simplesmente por estar com Nicholas e porque, por alguns dias, não teriam nenhum dever além de andar a cavalo e aproveitar a companhia um do outro.


No entanto, ficou surpresa com o quanto estava se divertindo. Nas cerca de trinta e cinco horas em que estavam viajando, Nicholas se soltara, relaxando de uma maneira que ela nunca tinha visto. O ar livre devia trazer à tona o cigano que existia nele. Enquanto o fitava cheia de amor, notou algo escuro e enrolado debaixo da capa jogada sobre o alforje. — Por que trouxe um chicote? Não estamos com a carruagem. — Mais um hábito cigano. Um chicote tem muita utilidade. Por exemplo... — Sacou a chibata e a estalou. A ponta se enrolou no galho mais alto da árvore, acima de suas cabeças, e quando ele puxou o fio, o ramo se curvou ao seu alcance. — Se houvesse maçãs maduras lá em cima, poderíamos fazer um lanche. Clare riu. — Eu nunca pensei nisso, mas já percebi que viajar é uma sala de aula e tanto. Nicholas enrolou e guardou o açoite, então apontou para um pássaro em uma árvore próxima. — Há ciganos perto daqui. Clare estudou o pássaro preto e branco. — Para mim, isso parece uma alvéola-branca-enlutada, não um cigano. — Ele também é chamado de chiriklo romani, ou pássaro cigano — explicou Nicholas. — Se vir um, deve haver um rom na vizinhança. Clare olhou ao redor, mas estavam no alto da região montanhosa, e não havia sinais de presença humana, exceto a estrada estreita. — Eles se escondem bem. — Vamos ver... Cerca de oitocentos metros adiante, Nicholas apontou para uma árvore. — Está vendo aquele trapo cinzento pendurado no galho? — Quando Clare acenou com um gesto de cabeça, ele explicou: — É uma marca de trilha, uma maneira de uma kumpania dizer a outras que já


passou por aqui. A marca é chamada de patrin, que significa “folha”, mas pode ter muitas formas: montes de galhos, de pedras, ou então trapos como aquele. Veja como ele é amarrado acima do nível dos olhos... Se não souber como procurar, é fácil se perder. — Então, seus semelhantes deixam mensagens uns para os outros — comentou ela, intrigada. — Que inteligente... Conhece as pessoas que deixaram essa marca? — É provável. Visitei todas as kumpanias que viajam regularmente pelo País de Gales. — Nicholas estudou o pano. — Na verdade, posso dizer que foi um dos cinco grupos que frequentam a região. Conheço um acampamento romani alguns quilômetros mais adiante, nesta estrada. Gostaria de visitá-lo? — Eu adoraria — Clare respondeu, sincera. Mas o clima estava contra eles. Houve chuvas intermitentes durante toda a manhã, e conforme a tarde chegava, uma chuva torrencial começou a cair. Clare não se queixou. Aquilo era normal no País de Gales, mas acabou por tirar um pouco da graça do dia. — Há uma choupana de viajantes não muito longe daqui — Nicholas lembrou ao vê-la puxar mais a capa ao redor do corpo. — Vamos dormir lá? — Com prazer! A cabana ficava um pouco fora da estrada, quase escondida em um bosque de árvores altas. Com dois andares de altura e solidamente construída, ainda tinha um celeiro de um lado para abrigar cavalos. — Vá para dentro e se aqueça — Nicholas instruiu assim que desmontaram. — Não quero que pegue um resfriado em sua lua de mel. — Lançou-lhe um olhar malicioso. — Se for para ficar na cama, é melhor que seja por um motivo mais interessante. Clare riu e entrou na casa mobiliada apenas com uma mesa e várias cadeiras. Dois minutos depois, Nicholas trouxe os alforjes e uma braçada de lenha seca que fora armazenada no galpão. Em seguida saiu de novo para cuidar dos cavalos.


Nicholas também cuidava tão bem dela!, Clare pensou com carinho. E era uma delícia ser mimada. Depois que o fogo começou a crepitar, começou a explorar a cabana. Não levou muito tempo fazendo isso, porque o andar de cima era um salão amplo, igual ao de baixo, só que sem mobília. Uma tênue camada de poeira cobria toda a superfície, mas, exceto por isso, tudo se encontrava razoavelmente limpo. Estava descendo os degraus íngremes quando Nicholas entrou de novo. — Eu não esperava por isto — ela observou, impressionada. — Existem muitas choupanas nas montanhas? — Nenhuma tão boa como esta. — Ele tirou o chapéu e o casaco encharcado. — Em meados do século passado, um próspero comerciante de lã foi apanhado por uma tempestade de neve aqui, e teria morrido se o pastor não o tivesse acolhido. Como gratidão, o comerciante fez um acordo com a paróquia para construir e manter um abrigo para os viajantes. Sendo um homem sensível, ordenou que fosse construído um segundo cômodo: não queria que as mulheres fossem obrigadas a ficar no meio dos homens. — Pois eu estou gostando muito de estar presa aqui com um homem... — Nem todas as mulheres têm o seu bom-senso. — Nicholas lutou para descalçar as botas. — Assim, a cabana foi construída, e todas as primaveras a paróquia envia alguém para consertar os estragos do inverno. Nunca é necessário fazer muita coisa porque as pessoas que sabem sobre este lugar costumam cuidar bem dele. Por exemplo, antes de sairmos amanhã, vou providenciar lenha suficiente para substituir a que nós queimamos. Quando o próximo viajante chegar, ela já estará seca. — Impressionante. — Clare se ajoelhou e colocou mais lenha na fogueira. — Os roms costumam ficar aqui? — Nunca. Nenhum rom que se preze fica confinado quando há ar


livre disponível. Eles têm fome de vento. — Nicholas a fitou, pensativo. — Deveria tirar logo essas roupas molhadas. — Começou a atravessar a sala. — Deixe-me ajudá-la... Clare fazia ideia ao que aquela ajuda levaria, e estava certa. Mais tarde, eles cochilaram diante do fogo antes de levantar e vestir roupas secas. Clare preparou um jantar simples de presunto, batatas e cebolas, que foi acompanhado por uma garrafa de vinho tinto caro que Nicholas tinha trazido por conta da lua de mel. Passaram a noite deitados preguiçosamente na frente da lareira, conversando e tomando chá. — Vamos fazer uma viagem como esta a cada primavera — ela murmurou quando se enrolaram nas cobertas. Só nós dois. — Eu gostaria muito. — Nicholas a beijou de leve. — Não quero que vire uma condessa. Gosto de você exatamente como é. Ela sorriu. — Se é o Conde Cigano, isso significa que agora sou a Condessa Cigana? — Imagino que sim. Isso faz de você uma rawnie, uma grande dama. Mas isso você sempre foi. — Ele a trouxe de volta ao peito, abraçando-a com ternura. — Durma bem, Clarissima. Os membros do pequeno grupo se queixaram da chuva, mas o líder os calou, lembrando-os de como seriam bem pagos para o trabalho daquela noite. Irritou-se, porém, pois não esperava que sua presa fosse se abrigar entre quatro paredes. Enquanto esperavam pelas primeiras horas da manhã, passando entre si uma garrafa de uísque para aquecer os ossos, ele considerou a melhor maneira de realizar sua tarefa. Seria mais simples invadir a cabana, mas provavelmente a porta estava trancada, e arrombá-la iria eliminar o elemento surpresa. Também era provável que sua vítima estivesse carregando uma pistola, e ele parecia um sujeito perigoso. Afastando-se dos outros homens, o líder examinou a área ao redor da choupana. A construção era rude, as janelas pequenas e muito


altas para se subir com facilidade. Decidido a dar uma olhada dentro do galpĂŁo, na lateral, ele lentamente abriu a porta. Um dos cavalos relinchou, mas nĂŁo alto o suficiente para perturbar os que dormiam dentro da casa. Encostada Ă  parede havia algo escuro: lenha seca. Ele abriu um sorriso. Agora sabia qual a melhor maneira de agir.


Capítulo XXIX Nicholas acordou de repente. Por um momento ficou imóvel, pensando no que tinha alertado a parte de seu cérebro que nunca dormia. Fumaça! E era muita para ter se originado do pequeno fogo aceso na lareira. Sentou-se para examinar o quarto e viu um brilho fraco oscilando na janela em frente. A chuva havia parado e, no silêncio, ele ouviu estalos ameaçadores. A seu lado, Clare ainda dormia. — Acorde! — Ele sacudiu-lhe o ombro. — Há alguma coisa pegando fogo lá fora! Quando a viu abrir os olhos, levantou-se depressa e vestiu as calças, as botas e uma camisa. Não chegou a ficar muito preocupado. A porta se encontrava a apenas a alguns metros de distância, então não existia chance de eles ficarem presos lá dentro. Clare se levantou, piscando, atordoada. Ignorando sua deliciosa nudez, Nicholas jogou-lhe a camisola que ela não se dera o trabalho de vestir. — Ponha isso para que possamos ir lá para fora ver o que está queimando. Com sorte o fogo pode ser debelado, mas não podemos correr nenhum risco. Ela concordou e obedeceu, colocando as próprias botas e a capa enquanto se dirigia para a porta. Nicholas pegou o alforje que continha tudo o que possuíam de valor e seguiu logo atrás dela. No entanto, não pôde evitar a sensação de que algo estava muito errado. Faíscas da chaminé poderiam ter provocado um incêndio, mas seria muito estranho dada a umidade da floresta. E por que as chamas tinham atingido a lateral da cabana, em frente ao celeiro? Ele não se lembrava de ter visto nada inflamável lá. Conforme Clare destrancava a porta e começava a abri-la, Nicholas


percebeu que os estalos do incêndio vinham de ambos os lados da choupana. Segurou a respiração, alarmado. Se o galpão pegava fogo, por que os cavalos não estavam relinchando? E como poderia haver incêndios acidentais em dois lugares diferentes? Olhando por cima do ombro de Clare, viu um lampejo de movimento a cerca de seis a nove metros da porta: alguém erguendo um objeto longo e escuro. Um rifle! Dominado pelo terror, soltou os alforjes, agarrou Clare pela cintura e a jogou no chão. No mesmo instante, a espingarda disparou e uma bala explodiu acima de suas cabeças, na parede de trás. Agindo por puro instinto, ele abraçou Clare e rolou para longe da porta aberta. Quando estavam fora da linha de fogo, arrastou-se de volta e fechou a porta. Em poucos segundos, outras três balas atingiram a madeira pesada. — Santo Deus, o que está acontecendo?! — ela indagou, ofegante. — Alguém quer nos matar — ele respondeu, sério. — Ou, mais provavelmente, quer me matar e não se importa se você morrer junto. Nicholas ergueu-se e passou a trava na porta depressa, embora esta fosse lhes proporcionar uma proteção mínima. Havia trazido uma pistola, que arrancou da bagagem para carregar. Olhou pela janela da frente da cabana com cuidado. A área estava iluminada por chamas flamejantes de ambos os lados da construção. E a julgar pela quantidade de luz e fumaça, o galpão estava pegando fogo e a caminho de completar sua destruição. Cinco homens armados se encontravam no limite da luz. Além deles, viu os dois cavalos, que deviam ter sido retirados do celeiro antes de o incêndio ser provocado. Enquanto observava, um dos bandidos começou a se mover com cautela em direção à porta, levantou o rifle e apontou. Nicholas quebrou o vidro da janela com o cano da pistola e


disparou. O homem gritou e virou-se antes de cair no chão. Recarregando a arma depressa, ele atirou novamente, mas os outros assaltantes estavam além do seu alcance. Uma voz gritou uma ordem, e um dos homens começou a circundar a choupana em direção à parte traseira. Nicholas praguejou em voz baixa ao perceber que já não teriam chance de fugir pela janela de trás. — A cabana está em chamas, não é? — Clare concluiu, tensa, porém controlada. — Sim, e há ao menos quatro homens lá fora, armados e prontos para atirar se sairmos. — Rapidamente ele avaliou as alternativas. — Caso estejam atrás de mim, talvez a deixem em paz se eu me entregar. — Não! — A fumaça estava se tornando mais espessa, ardendo nos olhos e congestionando os pulmões. Em sua veemência, Clare inalou fundo e começou a tossir. — Eles não vão me deixar como testemunha do seu assassinato — afirmou quando conseguiu falar. Se nos rendermos, eles provavelmente irão me estuprar e depois me matar de qualquer maneira! E se eu tiver de morrer, será ao seu lado! — Não vamos morrer de jeito nenhum — decidiu Nicholas, quando uma possibilidade passou por sua cabeça. Enfiando a pistola no cós da calça, ele sacou a chibata. — Para o andar de cima, vamos! — Espere! — Ela arrancou uma camisola da bagagem, rasgou-a ao meio e mergulhou as tiras no pote de água que reservara. — Coloque isto na boca... Agachados para fugir do pior da fumaça, correram até a escada. A fumaça negra tornou-se irrespirável enquanto subiam, e a parte superior da choupana teria sido letal sem os panos úmidos. O calor já estava quase insuportável, e dentro de minutos, toda a estrutura seria engolida pelas chamas. — Não há como escaparmos daqui — concluiu Clare, resignada. — Foi um casamento curto, Nicholas, mas muito bom... Nunca tivemos


uma briga. — Tentou esboçar um sorriso e acabou tossindo. Recostouse na parede, o rosto apenas um pálido borrão na fumaça espessa. — Perdoe-me por dizer isso, mas eu amo você. E não lamento nada, exceto não termos mais tempo. As palavras tiveram o efeito de punhaladas no coração dele. Sua vida não podia terminar daquela maneira. Ele não permitiria. Olhou por uma das janelas do fundo, mas não conseguiu avistar o homem armado que cercara a casa. Isso significava que o sujeito também não podia vê-lo. A janela era de batente, então ele soltou a trava e a abriu. Chamas lambiam a parede externa poucos metros abaixo, e Nicholas começou a tossir quando mais fumaça veio de fora. Após calcular distâncias rapidamente e decidir que era possível escapar, ele acenou para Clare. — Temos uma chance! — avisou com urgência. — Agarre a borda do telhado e suba lá para cima! Não tenha medo, não vou deixar você cair! Ela assentiu. Nicholas subiu na janela e se firmou no batente, lutando para manter a consciência em meio ao calor e à fumaça. Clare rastejou para seu colo, depois ficou em pé no parapeito de costas, o corpo voltado para o lado de dentro. Nicholas a firmou enquanto ela estendia os braços e se agarrava ao beiral do telhado, em seguida impulsionou-a até vê-la subir com segurança. Rezando para que a fumaça ocultasse sua fuga de olhos inimigos, ele enrolou a chibata em torno da cintura, pôs-se de pé no batente e se pendurou na cobertura. Começava a se erguer quando seus dedos escorregaram na ardósia molhada. Antes que ele mergulhasse nas chamas lá embaixo, a mão de Clare agarrou a sua, impedindo a queda. Balançando como um acrobata, ele conseguiu levantar a perna esquerda acima da borda do telhado. De lá, levou apenas um momento para alcançar a superfície inclinada. O telhado parecia uma colcha de retalhos feita de luz e sombras.


Ofegante, Nicholas viu que Clare tinha se ancorado na cumeeira antes de ajudá-lo e agradeceu a Deus por ter uma esposa arguta. Até então, a fumaça e o ruído crescente dos dois incêndios ocultara os agressores, mas as circunstâncias eram por demais perigosas. O primeiro andar da cabana já queimava, e era apenas uma questão de tempo até que toda a construção fosse engolida. Agachado, ele ajudou Clare a passar para o outro lado da cobertura, mantendo uma das mãos sobre a viga mestra caso um deles escorregasse. À medida que derrapavam pela ardósia, pedia a Deus para que a árvore mais próxima fosse bastante firme. E era: um olmo alto e espesso que parecia ao alcance da chibata. A etapa seguinte era a mais perigosa, pois ele teria de se aprumar. Se fosse visto, seria um alvo fácil para um fuzil. Mas não havia mais nada a fazer. Decidido, Nicholas puxou o chicote da cintura e se levantou, apoiando um pé sobre a viga mestra em busca de equilíbrio. Em seguida atacou o galho que lhe pareceu mais forte para sustentá-los. O fio de couro se enrolou em torno do ramo e ele o puxou de leve, mas não sentiu segurança. Combatendo a impaciência, soltou a chibata e a puxou de volta. Talvez fosse sua imaginação, mas a ardósia parecia estar ficando mais quente, e as coisas pareciam estranhamente distorcidas. Quanto tempo tinha se passado desde o momento em que acordaram? Cinco minutos? Meia hora? Soprou o ar com força. O que importava era a quantidade de tempo que lhes restava. Esticando-se tanto quanto podia, lançou a chibata outra vez. Desta vez, quando a testou, o galho pareceu mais forte. Era bom que fosse mesmo, pois não havia mais tempo para outra tentativa. Estendeu a mão livre na direção de Clare. — Venha! Ela se arrastou até ele e se pôs em pé. Num impulso, Nicholas pressionou a boca na sua em um beijo que traduziu o que ele nunca


poderia colocar em palavras. Então a agarrou pela cintura. — Aguente firme... Clare passou os braços em torno dele. Um instante depois, voavam pelo vazio, sustentados apenas pelo couro escuro e flexível. O movimento os levou para baixo até que bateram no tronco da árvore. Clare sentiu o ar ser expulso dos pulmões, embora Nicholas tentasse absorver o choque com as pernas dobradas. Mesmo assim, a força do impacto quase o fez largá-la. Por um instante, ficaram pendurados, o peso de ambos sustentado apenas pelo braço direito de Nicholas. Ele percebeu quando o chicote começou a se soltar do galho. Se caíssem no chão, a queda poderia não ser fatal, mas seus agressores viriam para cima deles em questão de segundos. O chicote começou a se desenrolar perigosamente. Estavam a ponto de despencar da árvore quando ele ergueu a perna e conseguiu firmar o pé em um ramo não muito forte, mas que foi suficiente para ampará-los. Um momento depois, ambos se equilibravam em um galho mais grosso. Nicholas recolheu a chibata no exato momento em que o teto da choupana desabou com um estrondo terrível. Uma coluna de chamas e faíscas disparou em direção ao céu, e uma onda de calor escaldante os atingiu. Na luz vermelha e sinistra, eles viram a silhueta do homem que os esperava com o rifle em punho caso tivessem tentado escapar pela janela dos fundos. Apesar de não se encontrar a mais de nove metros de distância, o agressor não os tinha visto devido à fumaça e à escuridão. Enquanto eles observavam, o bandido baixou a arma e contornou a cabana em chamas, de onde ninguém teria saído com vida. Lá de cima, Nicholas também pôde avistar os bandidos que aguardavam do outro lado do incêndio. Um dos homens era alto, magro... e familiar. Seus lábios se apertaram numa linha fina enquanto Clare olhava na


mesma direção, estreitando os olhos. Respirando fundo, ele a tocou no ombro. Precisavam sair dali enquanto, fascinados, aqueles infelizes assistiam ao fogo varrer os restos da casa. Começaram a descer com cuidado. O galho mais baixo da árvore ainda se encontrava bem acima do chão, então a chibata foi posta em serviço novamente. Uma vez em solo firme, Nicholas enrolou o chicote, em seguida levou Clare direto para o mato, longe da cabana e da estrada. A terra ainda estava encharcada por causa da chuva que caíra antes, e o ar estava úmido e frio. Por sorte Clare ainda vestia a capa. Quando imaginou que estivessem a cerca de quase dois quilômetros da cabana, pararam para um breve descanso. A respiração de Clare era irregular, e Nicholas a puxou para seus braços. Ela tremia violentamente, e não apenas de frio. — Estamos seguros aqui — ele sussurrou. — Mesmo que aqueles malditos sejam espertos o suficiente para esperar até que o fogo se apague para verificar se há corpos nas cinzas, isso não vai acontecer antes do amanhecer. — Você viu, não viu? — indagou ela, a voz abafada contra seu ombro. — Vi um sujeito alto que poderia ser Michael, mas ainda não consigo imaginar que ele tenha querido me matar — Nicholas falou com voz grave. — Mas isso é uma questão para mais tarde. Agora temos de encontrar um lugar seguro. — Não há outras choupanas por aqui? — Não. Mas há algo melhor do que isso. — Ele passou o braço por seus ombros e recomeçou a caminhar, confiando no próprio senso de direção. — Vamos para o acampamento rom. Nicholas e Clare caminharam pela floresta durante horas, tropeçando no terreno acidentado e encharcados pela água que escorria das árvores. Clare deu graças a Deus por ambos terem


calçado as botas antes de fugir, ou estariam em apuros naquele momento. Mesmo assim, sentia-se esgotada e teria tombado sob um olmo se Nicholas não a estivesse praticamente carregando. Ele devia saber para onde estavam indo, embora, para Clare, todas as árvores parecessem as mesmas. O céu começava a clarear quando sentiram um leve odor de fumaça. — O acampamento está armado! — Nicholas exclamou com satisfação. Só então Clare se deu conta de que ele não tinha certeza se iria encontrar ajuda ali. De repente, uma explosão de latidos se fez ouvir, e os vultos de meia dúzia de cães dispararam ao seu encontro. Ela congelou, sem saber se corria ou se tentava subir numa árvore. Conforme o feroz grupo se aproximava, contudo, Nicholas executou um movimento com o braço, como se estivesse fazendo um longo lançamento. E, embora não tivesse jogado nada, o efeito foi mágico. Os cachorros imediatamente se calaram e começaram a rodeá-los enquanto os seguiam até o acampamento. Havia luz suficiente para ver que a kumpania consistia de três carroças. Formas escuras sob os vagões pareciam camas, e Clare imaginou que a chuva levara os roms a se abrigar ali embaixo. Despertados pelo barulho, vários homens se puseram em pé, alertas. Um deles carregava um chicote enrolado na mão. Nicholas passou um braço protetor em torno de Clare e estreitou os olhos para o homem mais próximo. — Kore, é você? Houve um momento de silêncio, então uma voz de barítono rugiu: — Nikki! De repente, eles foram cercados por várias pessoas que tagarelaram ruidosamente em romani. Nicholas conseguiu silêncio


levantando a mão. Com o braço ainda em torno de Clare, deu uma explicação concisa na mesma língua. Uma moça bonita segurou o braço dela, dizendo algo que ela não compreendeu. — Vá com Ani... Ela vai cuidar de você — Nicholas a tranquilizou. — Nos encontraremos mais tarde. Àquela altura, Clare não se oporia a colocar seu destino nas mãos de ninguém. Ani a levou para um dos vagões em arco e a ajudou a subir na pequena varanda que ficava na ponta. Quando a porta se abriu, Clare viu uma fileira de pequenas cabeças surgir por baixo de um edredom de penas, os olhinhos negros brilhando com curiosidade. Olhos iguais aos de Nicholas, percebeu. As crianças começaram a fazer perguntas, porém Ani as silenciou. No fundo da carroça, havia uma espécie de colchão fino. — Deite aqui — a moça falou em inglês com um leve sotaque. Clare tirou a capa molhada e lutou para arrancar as botas. Em seguida, mesmo com o vestido úmido e a bainha cheia de lama, deitou-se, exausta. Ani jogou um acolchoado por cima dela, e menos de três minutos depois, Clare estava dormindo. A manhã já se encontrava pelo meio quando Clare acordou com o braço de Nicholas em torno de sua cintura. Assim como ela, ele vestia as roupas com que havia escapado: ceroulas e uma camisa de cambraia aberta no pescoço. Ainda dormia, o rosto jovem devastadoramente bonito. Rolando de lado, Clare o beijou na testa de leve, e seus olhos se abriram. — Como está se sentindo? — Bem, obrigada. Com alguns machucados depois da nossa aventura na floresta, mas nada importante. — Ela suprimiu um tremor. — Você é um homem útil para se ter por perto quando há perigo, sabia?


Ele apertou os lábios benfeitos. — Se não fosse por mim, sua vida nunca teria ficado em risco. — Não podemos afirmar isso. — Ela deu-lhe um sorriso breve. — Foi uma aventura e tanto... Quantas pessoas podem se gabar de ter tido uma lua de mel como essa? Embora ele sorrisse, Clare pôde sentir sua desolação. Amargurada, perguntou-se como se sentiria se Marged, por exemplo, estivesse tentando matá-la. O pensamento produziu nela tal onda de dor e desesperança que ela tratou de expulsá-lo. Podia imaginar como devia ser perturbador para Nicholas, que acreditava e prezava tanto a amizade. — Para onde vamos agora? — perguntou, decidindo se concentrar nas questões práticas. — A kumpania está rumando para o Norte, mas eles se dispuseram a nos levar de volta para Aberdare, o que levará cerca de três dias à velocidade das carroças. Clare pensou em sua égua roubada e suspirou. — Espero que quem tenha pegado os cavalos cuide bem de Rhonda. — Quando chegarmos em casa, vou mandar alguém aqui investigar. Se algum daqueles bandidos vender os cavalos, talvez eu possa comprá-los de volta... o que também irá nos levar até eles. Ela assentiu em silêncio. — Há algo que eu deva saber sobre a rotina dos roms? Nicholas pensou por um momento. — Tente prestar atenção aos hábitos de limpeza. Em um acampamento, a água é retirada do rio em diferentes pontos. A que vem dos lugares mais altos, a “limpa”, é utilizada para beber e cozinhar. A água para limpeza e banho é retirada dos trechos mais baixos. Sempre se lave em água corrente antes de comer, nunca coloque utensílios de cozinha em água impura porque isso os torna marhime, contaminados, e eles teriam de ser jogados fora. — Lançou-


lhe um olhar irônico. — Você não vai gostar disso, mas as mulheres também são consideradas impuras. Nunca deixe suas saias encostar em um homem, a não ser em mim. E jamais ande na frente de um homem, ou entre dois deles, ou na frente dos cavalos. Clare franziu o cenho. — Tinha razão, eu não gostei nada disso. — Faz sentido para pessoas que vivem tão próximas — ele explicou, paciente. — Isso dá às mulheres um grau de privacidade e proteção que seria impossível de outra forma, além de reduzir a tensão sexual. Embora as mulheres ciganas tenham fama de ser sexualmente muito atraentes, a promiscuidade é quase desconhecida entre os roms. — Compreendo. Vou tentar não ofender ninguém. Atraída por suas vozes, Ani espiou dentro da carroça. — Desjejum... Você vai, Nikki. Eu trago roupas para sua esposa. Ele desceu da carroça, obediente, em seguida ajudou Ani a subir. A cigana vestia uma blusa de decote baixo e várias camadas de saias coloridas. Brincos de moedas de ouro combinavam com as dos colares que tilintavam em volta de seu pescoço, e um lenço estampado cobrialhe os cabelos. Clare foi vestida com um traje semelhante, embora sem as joias. Olhando para a blusa decotada, ela sorriu. — Nicholas vai adorar isto... Ani sorriu também, os dentes brancos se destacando na pele morena. — É bom Nikki ter esposa. Quanto tempo faz que vocês casaram? Clare contou mentalmente. — Três dias. — Tão pouco! — A moça tomou a mão dela e olhou seu pulso, assentindo, satisfeita, ao ver a pequena incisão já quase cicatrizada. — É bom. Teremos festa para homenagear casamento. Mas agora precisa comer — lembrou, prática.


Desceram da carroça feita de madeira e decorada com pinturas e entalhes. A chuva havia passado, deixando o céu claro e o ar fresco. Os homens se encontravam reunidos em torno dos cavalos amarrados a meia distância. Mais próximas, as mulheres se movimentavam pelo acampamento, e um bando de crianças quase nuas corria, gritando alegremente. Uma senhora de idade, cujo rosto era enrugado como uma noz, estudou Clare, atenta. Em seguida cumprimentou-a com um gesto de cabeça e voltou a fumar seu cachimbo. Uma panela de lata e um caldeirão tinham sido pendurados sobre as brasas de uma fogueira próxima da carroça. Faminta, Clare cheirou o ar. — Lavar primeiro. — Ani ergueu um jarro de metal e indicou que ela deveria esfregar as mãos sob o fluxo de água que começou a derramar. Clare obedeceu, feliz por Nicholas ter lhe explicado de antemão os costumes ciganos. Ani a serviu com uma caneca de café forte e doce, e um prato de linguiça com cebolas fritas. Ambos deliciosos. Enquanto comia, Clare viu que as mulheres começavam a arrumar as coisas para partir, mas sem nenhuma pressa. Nicholas voltou com três homens, todos eles falando, entusiasmados. Usava um colete largo de couro e um lenço vermelho no pescoço, parecendo totalmente à vontade entre seus semelhantes. Ela sorriu. Jamais o reconheceria como um nobre britânico. Quando ele a viu, começou a caminhar em sua direção, mas desviou-se do caminho ao avistar a anciã. — Keja! — chamou. A mulher deu-lhe um sorriso desdentado, e os dois começaram a falar em romani. Clare terminava o desjejum quando um menino correu para o acampamento.


— Os homens estão vindo para cá! — avisou, ofegante. — Fuzis! O coração dela quase saltou pela boca. Talvez fossem simplesmente caçadores, mas era mais provável que fossem os invasores da noite anterior à procura deles. — Por aqui! — Ani apontou uma carroça. Clare e Nicholas subiram dentro dela. — Deite-se — ele ordenou, adequando as ações às palavras. Quando Clare obedeceu, Ani trouxe uma braçada de edredons feitos de penas que estavam arejando do lado de fora. Um por um, ela os espalhou sobre eles até que ambos ficaram completamente cobertos por camadas de mantas. Em seguida colocou um peso em cima. Um peso que se mexia! Vendo a aflição de Clare, Nicholas apertou-lhe a mão, tranquilizando-a. — Ani colocou o filho de quatro anos no topo da pilha. Mesmo que alguém esteja procurando por nós, não vão olhar debaixo de Yojo. Ele vive imundo... Embora meio sufocada, ela se obrigou a ficar imóvel, a mão segurando a de Nicholas. Poucos minutos depois, ouviram os cachorros e uma voz de homem do lado de fora da carroça, falando em inglês. — Viu um homem e uma mulher viajando a pé? Estamos preocupados... Eles têm febre e se afastaram do nosso acampamento. — Nenhum gorgio hoje — garantiu um dos roms. — Quer ler sorte, senhor? — uma voz feminina falou. — Vejo linda mulher seu futuro, com mãos graciosas como as das aves... Dê mão aqui. — Não, senhor! — Ani interrompeu. — Eu sou melhor para dukkerin. Tenho verdadeira visão cigana... — Uma moeda pra eu, bom senhor! — pediu uma voz de criança. Um coro estridente de vozes infantis explodiu em seguida: — Pra eu, senhor!


— Um centavo, senhor! — Senhor, por favor! — Fiquem longe de mim, seus pirralhos! — rosnou o visitante. A porta da carroça se abriu com um guincho. Uma forte intuição alertou Clare de que um dos agressores procurava ali dentro, a apenas alguns palmos de suas cabeças. Tensa, ela apertou os dedos de Nicholas com força. De repente, a criança em cima deles começou a se mover. — Moeda!— exigiu Yojo. — Alguma coisa aí dentro? — outra voz indagou em inglês lá de fora. — Apenas outro moleque asqueroso — respondeu a primeira, bem perto. — Eles devem nascer esmolando... A porta se fechou, e as vozes foram sumindo à medida que se afastavam. Clare soltou o ar. Nicholas sabia o que estava fazendo quando os levara para se refugiar em meio a seu povo. Foi uma espera longa e abafada debaixo da cama de penas. Yojo logo saiu andando em busca de atividades mais agradáveis, contudo eles permaneceram no lugar até que uma voz masculina avisou: — Podem sair, Nikki... Os gorgios se foram. Melhor vocês ficar dentro dos vagões na estrada, mas acho que estão seguros agora. Nicholas afastou as mantas, e ambos se sentaram com alívio. De cócoras na pequena sacada da carroça, estava Kore, um homem bonito e atarracado. Era o marido de Ani e líder do grupo. — Era o gorgio de olhos verdes que eu descrevi? — Nicholas perguntou. Kore negou com um gesto de cabeça. — Havia quatro gorgios, mas não o que você falou. Os rapazes já voltaram depois de olhar cabana queimada. Não encontraram muita coisa. Tudo destruído e cavalos tomados. — Ele ergueu um jarro de pedra. — Perto essa jarra vazia de uísque... e isto. — Entregou-lhe


uma caixinha de prata. O coração de Clare se contraiu quando ela viu o objeto. Dentro, cartões de visita úmidos, porém legíveis: Lorde Michael Kenyon. Vendo a expressão de Nicholas, Kore educadamente se virou e desceu da carroça. — Eu sinto muito, Nicholas — ela sussurrou, mortificada. Ele fechou a caixa. — Não faz sentido — disse, a voz cheia de pesar. — Mesmo supondo que Michael tenha ficado louco e decidido vir atrás de mim, por que aqui, nas montanhas? Por que contratar homens para ajudá-lo a fazer o que ele é bem capaz de fazer por si mesmo? Se estava mesmo procurando por mim, iria procurar mais a fundo em um acampamento cigano. — Mas ele não estava com os homens. Talvez para ter certeza de que nenhuma suspeita recaia sobre ele — Clare ponderou. — A esta distância de Penreith, nossas mortes poderiam ter sido consideradas acidentais. Se houvesse uma investigação, bandidos seriam responsabilizados, uma vez que havia vários homens envolvidos. — Clare hesitou, depois prosseguiu: — Pode não fazer sentido, mas é provável que Michael não esteja raciocinando normalmente. Era tudo plausível. No entanto, conforme segurava a mão de Nicholas, ela desejou do fundo do coração que não fosse.


Capítulo XXX Embora Clare estivesse a cerca de apenas cem quilômetros de casa, viajar com os ciganos foi como visitar um país estrangeiro. Muitos de seus costumes eram ingleses, e todos falavam, ao menos, um pouco de inglês e galês, bem como um dialeto cigano. No entanto, de muitas outras maneiras, eles eram totalmente diferentes. Como esposa de Nicholas, ela foi capaz de vê-los como poucos gorgios já tinham visto, pois os roms a aceitaram com encantadora naturalidade, como se ela fosse um gatinho que tivesse invadido seu espaço. Embora não aprovasse algumas de suas atitudes, não pôde resistir à sua vitalidade e imenso calor humano. E observar os roms a ajudou a entender Nicholas melhor. Sua capacidade de viver o momento, como se não existisse passado ou futuro; seu alegre fatalismo; a liberdade graciosa de seus movimentos... Todos esses traços eram herança do povo cigano. No entanto, embora parecesse totalmente entrosado com os demais e fosse muito popular, aos poucos Clare percebeu que ele não era bem um membro do grupo. Havia partes de sua mente e espírito que tinham crescido para além do mundo restrito dos roms. Perguntou-se se Nicholas teria sido mais feliz se nunca tivesse deixado o povo cigano. Talvez um dia pudesse perguntar isso a ele, mas não naquele momento. Quando chegassem a Aberdare, Nicholas teria de decidir como lidar com Michael, e ela pôde sentir a tristeza que isso provocava no marido. Em sua última noite, a festa prometida foi realizada com uma abundância de alimentos, bebidas e risadas. A sensação do momento era um leitão recheado com maçãs e assado no fogo a céu aberto. — Espero que este leitão tenha sido adquirido honestamente, mas tenho medo de perguntar... — comentou Clare enquanto terminava de comer, beliscando alguns restos de carne ainda presos ao osso.


Nicholas sorriu. Naquela noite, havia deixado de lado suas preocupações e estava se divertindo como um verdadeiro cigano. — A carne é legítima. Por sorte, eu tinha um guinéu no bolso da calça quando escapamos. Eu o dei a Kore como contribuição por nossas despesas e vi quando ele o usou para pagar pelo porco. Ani se aproximou do tronco onde eles estavam sentados. — Como esta é festa em honra do casamento, vamos ter pequeno ritual. Não rapto, nem lamentação, mas algo para simbolizar união. — Eu não conheço muito os seus costumes — Clare falou, hesitante. — Vai ser simples — Ani apressou-se a dizer. — Não terá problemas. Vou pedir Milosh para tocar violino agora. Mais tarde, Nikki, vai tocar harpa para nós. Quando Ani se afastou, Clare repetiu, perplexa: — Lamentação...? — Normalmente a noiva canta uma canção para a mãe, lamentando o fato de ter sido vendida para o casamento e desejando estar morta — explicou Nicholas com naturalidade. Clare o fitou com os olhos arregalados. — E isso é motivo para festa? — É considerado muito comovente. O lamento e a encenação do rapto caracterizam bem a história cigana. Ela chupou os últimos vestígios de gordura dos dedos. — De onde vêm os roms? Antes de responder, Nicholas tomou um gole de vinho ao estilo cigano: bebendo de uma jarra apoiada no ombro. Uma cena estranha, mas muito curiosa. — Como os ciganos não têm língua escrita, ninguém sabe realmente. Um linguista de Oxford que estudou seu dialeto disse-me que desconfia de que os roms começaram sua peregrinação na Ásia. No norte da Índia, talvez. Pensando no que havia lido sobre a Índia, Clare observou as


pessoas de pele morena em torno dela e decidiu que a teoria do especialista era aceitável. — Ninguém conta a história do povo cigano? Verbalmente, quero dizer. — Muita gente. Mas a maioria se contradiz. — Ele riu. — Há até um velho ditado: faça a mesma pergunta a vinte ciganos e obterá vinte respostas diferentes. Faça a mesma pergunta vinte vezes a um cigano, e também irá obter vinte respostas diferentes... Clare riu. — Está me dizendo, então, que a coerência não é considerada uma virtude entre os roms. — Todos eles, do mais jovem ao mais idoso, podem mentir muito bem quando necessário. — Nicholas tomou outro gole da garrafa, em seguida entregou-a ao homem mais próximo do círculo. — Ou eles mentem por excesso de criatividade, ou por diversão. Um homem astuto é tão admirado aqui quanto um homem honesto é honrado entre os galeses. Do outro lado da fogueira, Milosh começou a tocar uma melodia no violino, enquanto outro cigano o acompanhava com um pandeiro. A conversa morreu, e as pessoas começaram a bater palmas no ritmo da música. Com o corpo exuberante ondulando, Ani se aproximou e presenteou Clare com um lenço vermelho. — Você e Nikki dançam juntos, segurando as pontas — ela explicou. — Para mostrar que agora estão juntos. Embora as habilidades de dança de Clare fossem quase inexistentes, ela se mostrou disposta a tentar. — Solte os cabelos — Nicholas sugeriu quando ela se levantou. Obediente, ela desamarrou o lenço com que os havia prendido e agitou as pesadas mechas, fazendo-as cair como um manto escuro e brilhante. Em seguida, ela e Nicholas seguraram as extremidades opostas do lenço de Ani e se moveram para o centro do círculo. — Aja como se estivesse flertando comigo — ele cochichou com


seu melhor sorriso de Conde Cigano. — Eu sei o quanto pode ser sedutora... Começaram a circular, o lenço esticado entre eles, e Clare tentou pensar em como se sentira ao se descobrir enfeitiçada por Nicholas: assustada com seu magnetismo, mas totalmente incapaz de resistir a ele. Deixou que as lembranças fluíssem através dela. Começou baixando os olhos, fingindo timidez. Em seguida, permitindo que a blusa decotada deslizasse sedutoramente por um ombro, virou-se para o outro lado. Flexível, Nicholas respondeu como um macho em busca de sua fêmea, puxando o lenço para trazê-la de volta. Clare deslizou para perto, então se afastou quando ele se aproximava. Quando ele a seguiu, passou por baixo de seu braço, os cabelos açoitando-lhe o rosto num movimento tanto de defesa quanto de sedução. Nicholas permitiu que ela recuasse, então puxou-a para perto de novo. Clare cobriu o rosto com o braço livre, mas quando rodou para longe, sua saia girou alta. Ele a perseguiu com a orgulhosa altivez de um garanhão, prometendo conquista e satisfação sem nenhuma palavra. Conforme a batida foi se tornando cada vez mais rápida, eles giraram em círculo, como que possuídos; os movimentos eram um ardente prelúdio para o inevitável fim de seu espetáculo. Com um último floreio selvagem, o violino parou, e Nicholas fez Clare se dobrar de costas em seus braços. Inclinada para trás, ela experimentou um momento de pânico que desapareceu tão depressa como tinha vindo. Sabia que Nicholas jamais a deixaria cair. Enquanto seus cabelos ainda roçavam a grama, ele deu-lhe um beijo que não deixou dúvidas quanto a ela ser sua, e os roms explodiram em vivas, batendo os pés com aprovação. Delicadamente, Nicholas a endireitou, o olhar varrendo-a numa


carícia. — Um último ritual, Clarissima... Temos de saltar sobre o galho florido que Ani colocou no chão. De mãos dadas, eles correram pela clareira e saltaram sobre o ramo carregado de flores. Sob os aplausos que se seguiram, ela sussurrou: — Pular um ramo de giesta é uma tradição antiga no país de Gales, que provavelmente nasceu com os Druidas. Ele riu. — Os roms são muito ecléticos. Eles adotam qualquer costume que lhes agrada. A rabeca soou novamente, e dessa vez, todos se juntaram à dança: desde Keja até qualquer criança que soubesse andar. Vários círculos se formaram, então se dividiram em grupos menores, com os músicos se revezando para que ninguém perdesse a festa. Para Clare, aquilo tudo foi uma revelação. Aquela dança não tinha qualquer conotação de pecado. Era uma homenagem à vida. E Nicholas era o mais entusiasmado de todos ali. Quando pegou suas mãos e a fez girar, Clare sentiu o pulsar de sua energia como um rio de fogo, e respondeu com toda a paixão que tinha florescido em tão pouco tempo dentro dela. Antes era a menina, agora dançava como a mulher, orgulhosa de sua feminilidade e totalmente confiante na própria capacidade de agradar seu homem. Mais tarde, quando, esgotadas, as crianças foram postas para dormir, e até mesmo os adultos se encontravam cansados demais para outra música, Kore trouxe uma pequena harpa galesa e a entregou a Nicholas. Ele roçou as cordas delicadamente, afinando-as, enquanto pensava no que tocar. Escolheu uma antiga balada cigana que parecia ter sido composta com base nas alegrias e tristezas de sua raça errante. Clare sentou-se a seu lado, de olhos fechados, absorvendo a beleza de sua voz rica e profunda.


Ao final, Nicholas cantou um verso em inglês: ...Como o vento que sopra, deve ser livre o amor Entre quatro paredes, morre o vento Abram-se as tendas, abram-se os corações Deixe soprar o vento com ardor... A pungência das palavras tocou o coração de Clare. Embora ela duvidasse de que as palavras fossem uma mensagem para ela, percebeu que a única maneira de segurar Nicholas era nunca aprisioná-lo. O amor deveria ser livre como o vento que soprava... Pouco depois, eles foram se deitar na cama que tinham armado a certa distância dos demais. Tendo apenas as estrelas por testemunha, fizeram amor com abandono. O desejo fora intensificado por sua dança de acasalamento e rumou para o ápice, ainda que em silêncio. Desejando que palavras de amor não estivessem proibidas entre eles, Clare deixou que seu corpo falasse por ela. Mais tarde, quando Nicholas dormia com a cabeça em seu peito, acariciou-lhe o cabelo negro, cheia de admiração pelo homem com quem havia se casado. Um cigano, um galês, um nobre, um bardo. Nicholas era tudo isso e muito mais. E ela sabia que iria amá-lo até morrer. Na manhã seguinte, Clare sentiu-se um pouco fraca. Tinha exagerado na noite anterior: comido demais, bebido muito vinho, dançado muito, e ainda fizera amor de modo quase selvagem com o marido. Mais de uma vez, na verdade. John Wesley não aprovaria aquilo nunca. No entanto, agora que ela seguia a própria orientação, sentia-se diretamente ligada ao Divino, e concluiu que Ele não se importava, pois o amor era a fonte de sua paixão. A ligeira dor de cabeça, porém, era um lembrete útil de que a moderação ainda deveria ter lugar em sua vida. Enquanto a kumpania desmontava o acampamento, a velha Keja se aproximou.


— Preciso falar — anunciou num resmungo. — Esta manhã, você no meu carroça. Clare ficou feliz em aceitar. Embora mal tivesse trocado uma palavra com Keja, sempre via a velha senhora a observá-la. As duas ficaram com uma carroça apenas para elas após Keja ter usado de sua influência para conseguir privacidade. Por muito tempo, a mulher apenas a fitou, fumando seu cachimbo. — Eu prima de pai de Marta, mãe de Nikki — disse de repente. O interesse de Clare se aguçou. Se assim fosse, Keja era uma das parentes mais próximas de Nicholas. — Por que Marta vendeu o filho? — perguntou, querendo aproveitar a oportunidade. — Isso calou fundo no coração de Nicholas. — Marta ia morrer doença de pulmão — Keja respondeu, seca. — Queria deixar Nikki com roms, mas tinha feito promessa para marido que o filho aprender os caminhos dos gorgios. — A anciã fez uma careta. — Era o que Kenrick queria. Ela sabia que logo não cuidar mais do menino, então o levou para avô, seu parente de sangue. — O fato de Marta tê-lo vendido por cem guinéus torna difícil acreditar que ela estava agindo desinteressadamente — retrucou Clare. — Como uma mulher pode vender o próprio filho? — O velho ofereceu dinheiro — contou Keja com desgosto. — Marta quis cuspir em rosto de gorgio, mas ela era rom. Se gorgio queria ser idiota, que fosse. Pensando no que aprendera sobre os roms, Clare concluiu, hesitante: — Em outras palavras, uma coisa nada tinha a ver com a outra. Ela só levou Nicholas até o avô por causa de Kenrick. Keja deu um sorriso banguela, assentindo com um gesto de cabeça. — Para uma gorgio, tem bom entendimento. Mostro prova de que Marta não vender o filho... — Abriu um baú e tirou dele uma pequena bolsa de couro pesada, que entregou a Clare. — Ela deixou isso


comigo. Para dar a Nikki quando chegar momento. Clare abriu a bolsa e prendeu a respiração ao ver a quantidade de moedas de ouro. — Tudo aí, exceto um ou dois guinéus. Marta usou para comprar comida no caminho de volta — garantiu Keja. — O que aconteceu com ela? Keja soprou o cachimbo com força, e o fumo lhe rodeou a cabeça. — Marta morreu no inverno... nos meus braços. O ouro eu guardei para Nikki. — Por que nunca contaram a ele que a mãe o deu porque estava morrendo? — Clare indagou, inconformada. — Saber disso teria feito uma grande diferença para Nicholas. E por que não lhe deu o ouro antes, Keja? Você o viu muitas vezes ao longo dos anos. — Marta me fez jurar que eu só contar isso à mulher de Nikki. Uma mulher sabe: mãe faz melhor que pode para o filho. — Mas Nicholas teve uma esposa antes de mim. — Bah! — Keja teria cuspido se estivesse ao ar livre. — Ele dormiu com ela. Mas aquela gorgio não ser verdadeira esposa. Marta previu: você é a única. Marta possuía dom. Jurou você vinha curar coração de seu Nikki. Clare olhou para as moedas de ouro com lágrimas nos olhos. Marta tinha realmente previsto a sua vinda? Havia morrido muito jovem, talvez mais nova que ela. Teria deixado Nicholas com seu avô se soubesse como o antigo conde era frio e perverso? Talvez imaginasse que a mãe de Kenrick fosse cuidar do neto... Mas a primeira esposa do conde já mergulhara no longo crepúsculo que tinha obscurecido sua mente em seus últimos anos de vida. — Pobre Marta — lamentou Clare. — Deve ter sido difícil para ela escolher entre seu próprio povo e a promessa ao marido morto. E ainda mais difícil entregar o filho a um desconhecido. Espero que esteja descansando em paz. — Está — assegurou Keja. — E está com Kenrick. Agora que você


veio cuidar Nikki, ela não vai mais se preocupar com filho. Clare sentiu os cabelos na parte de trás da nuca se eriçar. Como qualquer cristã, acreditava que o espírito era imortal. Também sabia que não eram raras as pessoas que possuíam a capacidade de saber coisas do além. Diziam que a própria mãe de John Wesley, e também suas irmãs, possuíam tais habilidades. No entanto, era estranho ouvir falar do sobrenatural com tanta calma e aceitação como demonstravam os roms. Estava aprendendo muito mais com aquele povo do que esperava. — Eu amo Nicholas e sempre farei tudo por ele — afirmou com convicção. E lembrando-se de um juramento cigano, acrescentou: — Que a terra se molhe com o meu sangue se eu falhar. — Que assim seja — proclamou Keja, muito séria. A carroça parou, e Nicholas chamou lá de fora: — Clare? Estamos em casa. Ela amarrou a bolsa de couro e a guardou em um bolso interno do vestido. Como Nicholas tinha preocupações mais urgentes no momento, iria esperar para contar a história de Marta. Mas não esperaria muito. Embora ele considerasse doloroso tocar em antigas cicatrizes, Clare estava convicta de que, dessa maneira, talvez pudesse varrer dele a sensação de que a mãe o havia traído. Beijou a face de sua companheira de viagem. — Obrigada por confiar em mim, Keja — murmurou, comovida. Em seguida, desceu da carroça. A kumpania se instalou diante de Aberdare e, como sempre, Williams desceu os degraus da frente da casa, aparentemente pronto para afugentar os ciganos. Parou, confuso, ao ver Sua Graça emergir de uma das carroças. Seguiu-se um burburinho de despedidas, e Clare abraçou Ani com força. — Virá me visitar? — Ah, sim... — A moça riu. — Assim como o vento, nós vamos e


voltamos. Após acenarem com um suspiro, Clare e Nicholas subiram a escada abraçados. Com uma expressão neutra, Williams manteve a porta aberta para eles. Clare se viu repentinamente consciente do decote profundo da blusa que usava, e também do comprimento deficiente de suas saias. Mesmo assim, manteve a cabeça erguida e passou pelo mordomo com tanta dignidade como se usasse um traje de gala. Em um acordo tácito, ela e Nicholas rumaram para o quarto. Clare tirou as botas, mexendo os dedos dos pés com prazer. — Vou tomar um banho. Embora eu tenha adorado o seu povo, senti muita falta de um bom banho de água quente! Nicholas sorriu, contudo ainda havia uma ponta de tristeza em seus olhos. — O que pretende fazer a respeito de lorde Michael? — ela indagou, ainda que a contragosto. Ele suspirou. — Levar as provas para as autoridades. Michael será preso imediatamente, imagino. Se ele não tiver um bom álibi, ficará encrencado. — Ele é um homem rico e poderoso. Isso não pode ser útil de alguma forma? Os olhos de Nicholas se estreitaram. — Eu sou o conde de Aberdare, Clare. Minha riqueza e poder são ainda maiores. Se ele está por trás do atentado contra as nossas vidas, não vai escapar da Justiça. Era a primeira vez que Clare via nele uma semelhança com a assertividade do avô. Aliviada por Nicholas estar disposto a usar sua influência para se proteger, ela exalou um longo suspiro. — Fico contente por não querer fazer justiça com suas próprias mãos. — Eu não acredito em duelos. Duelos são um resquício bárbaro da


Idade Média. — Ele tirou o colete e o lenço cigano. — Sua reunião da congregação é esta noite... Você vai? Céus!... Ela havia se esquecido. — Sim, a menos que prefira que eu fique. — Não. Pode ir ao seu encontro. Pretendo começar a trabalhar naquela música em homenagem aos mortos da mina. Tive algumas ideias nos últimos dias. Mas já que vamos passar a noite separados, acho que vou monopolizar seu tempo pelo resto da tarde... — Correu o olhar por ela com flagrante sensualidade. — Peça seu banho. Coisas interessantes podem ser feitas em uma tina. Mesmo corando, Clare fez o que Nicholas pedia com um sorriso enquanto ele rumava para o quarto de vestir. Em vez de tirar a roupa, porém, ele escapuliu pela outra porta, desceu para sua mesa na biblioteca e redigiu uma nota. Após selá-la, tocou o sinete para chamar o mordomo. — Mande entregar isto a lorde Michael Kenyon. O mais provável é que ele esteja na mina a esta hora. Se não estiver, quero que o mensageiro vá atrás dele e espere por uma resposta. E não conte a ninguém sobre isso, principalmente a lady Aberdare. — Sim, milorde. Com a tarefa cumprida, Nicholas voltou para o quarto. Não podia fazer mais nada, portanto iria usar seu tempo da melhor maneira possível.


Capítulo XXXI Michael Kenyon sentiu um aperto na boca do estômago ao reconhecer o selo no envelope. A mensagem era breve e ia direto ao ponto: Michael, precisamos nos falar a sós. Sugiro nos encontrarmos às sete da noite nas ruínas de Caerbach, mas estou disposto a vê-lo em qualquer momento e lugar de sua escolha, desde que seja em breve. Aberdare. — Maldição! — Michael rosnou. Amassando a nota na mão, arremessou-a furiosamente para longe. — Maldito Aberdare! — É essa a sua resposta, milorde? — o mensageiro indagou, educado. Michael tentou controlar a raiva. Molhou uma pena no tinteiro, depois rabiscou: Aceito o convite. Hoje, às sete da noite, em Caerbach, só nós dois. Kenyon. Selou a mensagem e a entregou ao homem, que inclinou a cabeça, depois partiu. Michael olhou um ponto qualquer do escritório, sentindo aquela agitação interior que sempre precedia uma batalha. O dia havia chegado. Sabia que não seria capaz de evitar aquele confronto, mas Deus sabia que ele tinha tentado. Olhou para a pilha de trabalho sobre a mesa, em seguida empurrou-a de lado. Com um suspiro, levantou-se, apanhou o chapéu e saiu da sala, fazendo uma pausa na mesa de Madoc. — Vou embora mais cedo, hoje. Há algo que precise discutir comigo antes disso? Madoc se recostou na cadeira maciça, os dedos entrelaçados sobre o abdômen. — Não, está tudo em ordem. Com um breve aceno de cabeça, Kenyon foi embora.


Madoc fingiu retornar ao trabalho, mas começou a matutar sobre a visita do mensageiro de Aberdare. Esperou mais dez minutos para ter certeza de que Kenyon se afastara, e entrou no escritório que fora seu durante quatro anos. Uma vez que não havia outros trabalhadores por perto, não se preocupou em esconder sua raiva. Até porque muitos dos registros sobre a mina eram mantidos no escritório de Kenyon, portanto ninguém estranharia vê-lo ali. O que, aliás, se mostrara muito conveniente em várias ocasiões. Viu o papel amassado e jogado no chão. Alisando-o, leu a mensagem uma vez, depois outra, incapaz de acreditar na própria sorte. Era a oportunidade perfeita. Deus estava definitivamente do seu lado. Como de costume, Nicholas tinha razão: coisas muito interessantes podiam ser feitas durante o banho... Após fazerem amor, eles cochilaram por algum tempo, depois se levantaram e fizeram uma refeição leve. Quando Clare terminou de comer, deu-lhe um beijo leve. — Vejo você depois da reunião. É daquele tipo de artista que não gosta de mostrar o trabalho em andamento, ou poderei ouvir os primeiros resultados de sua composição mais tarde? — Prefiro que espere até eu ter tudo pronto. — Ele a fitou por um momento, então deu-lhe um tapinha de leve no traseiro. — Fora daqui ou vai se atrasar. Depois de vestir o gorro, Clare saiu pela entrada lateral em direção aos estábulos, onde sua charrete a aguardava. Já tinha passado da frente da casa quando se lembrou de que pretendia levar alguns livros para Owen. Como ele ainda levaria algumas semanas para retornar ao trabalho, queria usar bem o seu tempo. Com um suspiro, parou a charrete e amarrou as rédeas em torno de um pilar. Entrando na casa, foi direto para a biblioteca, sem ver


sinal de Nicholas. Ele devia ter ido para a sala de música. Havia escolhido os livros e rumava para a saída quando um brilho chamou sua atenção sobre a escrivaninha. Curiosa, ela voltou e viu que os raios oblíquos do sol se refletiam num pedaço de quartzo com um filete de prata retorcida. Tomou-o nas mãos. Então aquela era a famosa prata em fio que fora extraída à custa de tanto risco e que, no final, nem tinha sido necessária! Com tudo o que acontecera na última quinzena, ela não a vira antes. Bem, ao menos a pedra dera um peso de papel interessante. Estava prestes a devolvê-la ao lugar quando viu a folha que se desdobrara sem o peso do quartzo. Aceito o convite. Hoje, às sete da noite, em Caerbach, só nós dois. Kenyon. Foi como levar uma punhalada no estômago. Jogando os livros sobre a mesa, Clare releu a mensagem, dominada por um misto de raiva e desespero. Maldito Nicholas! Depois de jurar que não faria nada de insensato, ele caminhava direto para a cova dos leões! Respirou fundo, a cabeça rodando num turbilhão. Um duelo formal exigiria padrinhos. Talvez Nicholas quisesse apenas conversar, mas como podia ser tão ingênuo a ponto de confiar em lorde Michael depois de tudo o que havia acontecido? E como ela pudera ter sido tão ingênua a ponto de acreditar nas promessas de Nicholas? Na noite anterior, ele tinha mencionado que os ciganos mentiam sem escrúpulos quando necessário e, obviamente, aquela também era uma habilidade sua. Ele devia ter enviado uma mensagem a lorde Michael antes de fazer amor com ela, e recebido a resposta antes do jantar. Aquele condenado, traiçoeiro, teimoso! Com uma série de imprecações ainda borbulhando na mente, Clare correu até os estábulos outra vez. Ao ver o cavalariço, apressou-se. — Lorde Aberdare já saiu? — Há cerca de cinco minutos, milady. — Sele um cavalo para mim — ordenou. Lembrando-se de que


perdera Rhonda, acrescentou: — Um dócil, de preferência... E use uma sela comum, não a lateral. O rapaz lançou um olhar duvidoso na direção de seu vestido, mas se afastou, obediente. Irritada, ela passeou na frente dos estábulos, consciente de que nunca se permitira sentir tanta raiva na vida. A paixão que Nicholas despertara nela possuía muitas faces, pelo visto. E nunca sentira tanto medo também. Cada detalhe de se encontro amoroso daquela tarde voltou com força, e Clare percebeu que Nicholas fora ainda mais intenso do que nas outras vezes. Estaria se despedindo, caso algo desse errado naquela noite? Sentiu o estômago dar um nó. Pensou em levar o cavalariço consigo, mas logo desistiu da ideia. Aquele não era o tipo de conflito que poderia ser resolvido por partidários armados, como no tempo dos cavaleiros medievais. Uma mulher contava com mais chance de impedir a violência entre dois homens. Ambos haviam sido criados como cavalheiros, e ela usaria esse argumento para desencorajá-los a desistir de uma eventual luta. O cavalariço trouxe uma égua castanha, e Clare a montou depressa. A saia subiu-lhe quase até os joelhos, expondo suas pernas, mas decência era a última coisa que tinha em mente no momento. — Por favor, leve minha charrete de volta para o celeiro. Não vou precisar mais dela. E então galopou para fora da estrebaria. Graças a Deus cavalgara bastante nas últimas semanas, e graças a Nicholas ela fora muito bem treinada naquela arte. Caerbach era uma pequena fortaleza em ruínas a meio caminho entre Aberdare e Bryn House. Originalmente, havia sido um posto avançado do castelo principal da propriedade dos Davies. Não levaria muito tempo para alcançá-la. Mas será que chegaria em tempo, antes de ouvir um tiro? Enquanto galopava ao longo da trilha, Clare rezou com o maior


fervor de toda sua vida. Caerbach ficava no topo de uma colina e proporcionava uma ampla vista do vale. Ao longo dos séculos, a floresta a tinha invadido, e suas pedras haviam sido levadas para ser usadas em outros lugares, deixando para trás apenas escombros e paredes pela metade no centro de uma ensolarada clareira. Para as crianças, era um lugar maravilhoso para brincar de esconde-esconde. Para os adultos, oferecia indiscutível privacidade. Nicholas se manteve atento às árvores conforme caminhava pela mata, mas não ficou surpreso ao descobrir que Michael já se encontrava na clareira, encostado a uma das paredes baixas, com os braços cruzados. Sua postura casual, entretanto, não combinava com as linhas tensas em seu rosto. — Está atrasado — rosnou quando ele desmontou. — Pelo visto, ainda anda com o relógio adiantado — contrapôs Nicholas, amarrando o cavalo a uma das pedras. — Sempre teve horror a se atrasar. — Não me faça perder tempo com reminiscências. Por que, diabos, quis vir até aqui? Sem pressa, Nicholas contornou as ruínas, as voltas do chicote golpeando a perna sob a casaca. Embora tivesse optado por não levar uma pistola para o encontro, não queria ficar totalmente indefeso. Parou a cerca de cinco metros de Michael. — Por uma série de razões, mas a mais importante é tentar entender por que passou a me odiar tanto. Desde que não se voltou contra Rafe e Lucien, presumo que o problema deve ser mesmo comigo. — Acertou. Quando não houve outros comentários por parte de Michael, Nicholas tentou encorajá-lo. — Posso imaginar apenas que seja por questões de desportismo. A juventude é um período competitivo, e muitas vezes nós nos


enfrentamos de alguma forma. Eu nunca ficava muito incomodado quando perdia, mas você odiava ser derrotado... É esse o problema? Eu o superei com muita frequência e não consegue aceitar isso? — Não seja ridículo — retorquiu Michael. — Brigas da adolescência não têm nada a ver com isto. Nicholas se recusou a ficar irritado, mas nunca tinha sido fácil extrair informações de Michael. — Então, o que eu fiz de tão terrível que nem mesmo você consegue falar a respeito? Um músculo no maxilar do outro homem se contraiu. — Quando eu disser o quê, a sorte será lançada. Não terei escolha a não ser matá-lo, Nicholas. O que Michael não queria... Isso Nicholas podia ver claramente. — Eu não vim aqui para morrer, mas lutarei, se necessário. — Ele abriu a casaca, expondo a chibata para o caso de o outro não tê-la notado. — Antes de chegarmos a isso, porém, preciso saber se foi o responsável pelas emboscadas que sofri. — Sentiu um breve surto da raiva que tentara manter sob controle até então. — A única coisa que acho verdadeiramente imperdoável é ter colocado também a vida de Clare em perigo. Por isso também me questionei se estava por trás de tudo isso. Ficou tão louco a ponto de se dispor a matar uma mulher inocente para me atingir? — Eu não tenho ideia do que está falando. — Um dia após eu ter retornado a Penreith, estava com Clare e várias crianças em um passeio da escola quando uma bala atingiu de raspão o meu cavalo. Ela jurou que haviam tentado me matar, mas eu descartei a hipótese, alegando ter sido algum caçador. Não teria errado aquele tiro. — Tem razão. Se eu quisesse atirar em você pelas costas, já teria feito isso. Deve ter sido outro inimigo seu. — Não consigo pensar em mais ninguém que queira me matar, por isso vou continuar atribuindo o incidente ao erro de um caçador — ele


respondeu com voz grave. — No entanto, é impossível explicar os cinco homens que nos atacaram na montanha. Atearam fogo na nossa cabana à meia-noite, e ainda esperaram armados do lado de fora caso tentássemos escapar. Os olhos de Michael se arregalaram com o que pareceu ser genuína surpresa. — E conseguiram sair ilesos? — Não, graças a você. — Nicholas tirou o porta-cartões do bolso e o jogou para ele. O movimento confirmou a suspeita de Nicholas de que o ex-amigo se encontrava armado. Alerta, Michael levara a mão à pistola que trazia na cintura, mas ao reconhecer a caixa, simplesmente a apanhara no ar. — Onde conseguiu a minha caixa de cartões?! — Ergueu o olhar com raiva. — Andou invadindo minha propriedade de novo? — Ela foi encontrada do lado de fora da choupana onde aconteceu a emboscada. Em um tribunal, isso pode ser suficiente para enforcá-lo — Nicholas lembrou. — Apesar das evidências, sinto dificuldade em acreditar que seria tão covarde a ponto de ter contratado bandidos para fazer o serviço no seu lugar. — Lembrar-se da bala que quase atingira Clare e da fuga terrível que se seguira abalou a compostura de Nicholas. — E então? O que tem a dizer em defesa própria? — Não tenho essa resposta, Aberdare, mas de certa forma, pensou certo. Fiz o que pude para dar cabo de você em Londres, e estou pensando em desafiá-lo para um duelo de verdade. Mas não tive nada a ver com essas emboscadas. — Michael levantou a caixinha de cartões. — Isto aqui sumiu há vários dias. Não sei exatamente quando ou onde, porque muitas vezes me esqueço de levá-la comigo. — Guardou-a no bolso. — Não serve como prova da minha traição. Deve ter mais inimigos do que imaginava. — Não seja idiota! Não percebe o que isso significa? Se está dizendo a verdade, alguém está tentando me matar para colocar a


culpa em você! — explodiu Nicholas. Michael franziu o cenho, preocupado. — Isso não faz sentido. — Tem uma teoria melhor? O silêncio foi quebrado pelo som de cascos. Nicholas virou-se e viu Clare galopando em meio às árvores, os cabelos e as saias esvoaçando, o rosto tenso pelo medo. Ela relaxou ao perceber que ele estava bem, porém fixou um olhar ansioso em Michael. — Deve se lembrar de Clare, daquele nosso pequeno entrevero em Londres — Nicholas disse num lampejo de humor. Clare freou o cavalo, atenta, e Michael torceu os lábios. — Não consegue controlar sua esposa, Aberdare? — É fácil ver que você nunca foi casado... — retorquiu ele, seco. — Mas ele está certo, Clare. Sua interferência aqui não é necessária, tampouco desejável. Com os lábios apertados, como se diante de dois adolescentes malcomportados, ela desmontou, exibindo uma extensão das pernas que fez Nicholas querer jogar a casaca à sua volta. — Os homens sempre dizem coisas como essas quando estão prestes a se comportar como idiotas. Espero que não estejam tentando se matar de novo. — Não creio que estejamos na iminência de cometer assassinato — replicou Nicholas. — O mais interessante no momento é que, com certeza, tentaram matar a nós dois. Michael nega qualquer envolvimento nas emboscadas. — E você acreditou nele? — Clare ergueu as sobrancelhas para o outro homem num desafio. — Se não foi lorde Michael, então quem foi? — Está prestes a descobrir, lady Aberdare — uma nova voz fluiu pela clareira. Todos os três se viraram para ver George Madoc sair de trás de


uma das paredes mais altas com um rifle nas mãos e o olhar gelado. Olhando para Clare, ele torceu os lábios num sorriso cínico. — Meus planos não incluíam você, mas não posso dizer que me incomoda muito matá-la junto com os outros... Sempre foi uma maldita instigadora. Michael fez um movimento mais brusco, e Madoc apontou a espingarda em sua direção. — Não tente nada, Kenyon, ou eu o mato agora mesmo. Assim... Gosto de vê-lo obedecendo às minhas ordens e não o contrário. Levantem as mãos, todos os três. — Sorriu, satisfeito. — Sabiam que Nye Wilkins era atirador quando estava no Exército? E dos melhores. E ele manteve contato com alguns de seus velhos amigos. Fiquei surpreso quando soube que conseguiu se livrar deles, Aberdare. É mais inteligente do que eu pensava. Mas os ciganos são mesmo conhecidos por sua astúcia... Enquanto Clare e os outros levantavam as mãos, Wilkins saiu de trás das ruínas com o rifle apontado para Nicholas. O mineiro era tão esguio quanto Michael, e ela concluiu que era mesmo o homem que ela e Nicholas tinham visto fora da cabana na noite em que haviam sido atacados. Os olhos de Michael se estreitaram ao fitar o encarregado da mina. — Imagino que tenha roubado o porta-cartões do meu escritório. — Sim, da mesma forma como quando achei a mensagem de Aberdare esta tarde. — Os olhos pálidos de Madoc brilharam, numa expressão desagradável. — Nunca me levou a sério, não é mesmo? Para você, eu sempre fui apenas um mercenário insignificante. Provavelmente não acredita que eu saiba como usar esta arma, mas saiba que tenho excelente mira. Pratiquei muita caça em suas terras enquanto esteve fora matando franceses. Na verdade, quase acertei Aberdare de uma distância que até um atirador profissional teria dificuldade. — Ele deu uma risada áspera. — Sou mais inteligente e resistente do que você... e agora vou tomar o que é meu.


— E o que é seu? — Michael perguntou. — A mina, claro. Trabalhei muito nela todos estes anos, e por uma questão de justiça, ela deve pertencer a mim. — Seus olhos faiscaram. — Fui eu que a tornei lucrativa. Mas mesmo quando eu lhe enviava uma boa quantidade de dinheiro, ainda me sobrava alguma coisa... E você sempre foi tonto demais para perceber o que estava acontecendo. — Engano seu. — O olhar de Michael foi firme como o de um tigre prestes a atacar. — Eu sabia que estava desviando recursos, mas não considerei isso tão importante até poder corrigir os outros problemas causados por sua má administração. Uma expressão cínica transformou o rosto de Madoc, e Clare ficou tensa, imaginando se Michael tentava deliberadamente provocá-lo. — Isso é tudo muito interessante, mas onde eu entro nessa história, Madoc? — indagou Nicholas, talvez pensando o mesmo. — Tivemos uma breve discussão quando visitei a mina, mas isso não me parece motivo suficiente para querer matar Clare e a mim. — Eu desprezo os dois. Você, mesmo contaminado com sangue cigano, tornou-se conde. E essa aí não passa de uma cadelinha de aldeia que foi promovida a condessa. Nenhum de vocês tem a minha inteligência ou ambição, e sem nenhum esforço, estão atolados em riqueza — Madoc falou com ódio. — Mas está certo quando diz que não o odeio como odeio meu patrãozinho... Por isso eu havia decidido lhe proporcionar uma morte rápida, deixando evidências de que Kenyon era o responsável. Ele abriu um sorriso de escárnio. — Eu estava ansioso para ver o nobre lorde Michael Kenyon sendo julgado e executado por assassinato. Dizem que é doloroso ser enforcado, mas não tão doloroso quanto a humilhação pública. Já pensou? Fazer tanto para provar o seu valor na guerra para ver tudo acabar no cadafalso? A tensão no rosto de Michael dizia que Madoc compreendia bem


seus fantasmas, mas quando ele respondeu, sua voz soou irônica: — Desculpe-me tê-lo privado de sua diversão. Madoc encolheu os ombros. — Ser inteligente também significa ser flexível. Já que eu falhei em matar Aberdare e jogar em você a culpa, agora terei de atirar em todos. Como o seu ódio por Aberdare é bem conhecido, vão pensar que dispararam um contra o outro, e que a nobre condessa foi pega no fogo cruzado. Uma tragédia. Mas não mais do que se poderia esperar de um cigano e de um soldado insano. Sua expressão era de zombaria. — E quando a poeira baixar, uma alteração muito bem forjada em seu testamento será encontrada, lorde Kenyon. Como recompensa pelo meu fiel serviço, estará me deixando a companhia de mineração, Bryn House e cinco mil libras. Não fui idiota de tentar incluir toda a sua fortuna, pois isso teria levantado as suspeitas de sua família. Não. Vou me contentar com a mina, a fazenda e um pouco de dinheiro. Com vocês dois mortos, serei o homem mais poderoso do vale. Madoc parecia muito orgulhoso de sua esperteza, e Clare se perguntou se haveria alguma forma de usar aquilo contra ele. Sua necessidade de se vangloriar o levara a estender aquela cena desprezível. Um homem mais sábio teria atirado neles sem pensar duas vezes. Madoc cometia o mesmo erro de que acusava Michael: estava subestimando seus oponentes. Ela olhou para Wilkins, e sua ponta de esperança desapareceu. Fossem quais fossem as fraquezas de Madoc, o outro homem continuava atento à sua triste missão. Uma onda de pavor ameaçou tragá-la. Acreditava que poderia haver outra vida e que sua alma possuía grandes chances de alcançar o paraíso. No entanto, embora não temesse a morte, não queria morrer ainda. Não quando ela e Nicholas tinham acabado de se encontrar. — Obrigado por responder às minhas perguntas — Nicholas


agradeceu, zombeteiro. — Eu odiaria morrer na ignorância. — Olhou para Michael. — Deveria ter trabalhado mais rápido, Michael. Agora perdeu a chance de acabar comigo. Talvez fosse imaginação de Clare, mas foi como se uma mensagem silenciosa passasse entre os dois homens. Seu coração deu um salto. Embora Nicholas e Michael fossem formidáveis, aparentemente estavam desarmados. O que poderiam fazer contra duas espingardas? Uma certeza a golpeou sem piedade: não tinha por que esperar passivamente que fossem abatidos. Nicholas e Michael deviam saber disso desde o início. A qualquer momento iriam tentar ataques suicidas aos homens armados, pois alguma esperança era melhor do que nenhuma, e existia mais dignidade em morrer lutando. Sua mente começou a fervilhar. Havia três deles e apenas dois rifles de um único tiro. Uma vez que as armas fossem descarregadas, a luta seria corpo a corpo e, se chegassem a isso, ela apostaria todas as fichas nos Anjos Caídos. Como era mulher, os bandidos mal prestavam atenção à sua presença. E era ela quem estava mais próxima de Wilkins. Se atacasse o atirador, a perturbação que se seguiria poderia dar a Nicholas e Michael o tempo de que necessitavam. A voz grave de Madoc interrompeu seus pensamentos. — Podem começar a rezar, se acham que isso vai lhes fazer algum bem. Wilkins, você fica com Aberdare e sua mulherzinha... Kenyon é meu. Antes que Clare pudesse colocar seu plano em ação, Nicholas interveio: — Esperem! Podem achar que sou um tolo sentimental, mas eu gostaria de dar um beijo na minha esposa. Madoc estudou Clare com interesse, como se a visse pela primeira vez. — Pensando bem, até que se transformou em uma cadela


interessante. Dizem que, no fundo, todas as filhas de pastor não passam de vagabundas... No seu caso, eu até acredito, já que abriu as pernas para um cigano. Wilkins, não a mate ainda. Podemos muito bem nos divertir um pouco depois de darmos cabo dos homens. — Ele acenou para Nicholas. — Vá em frente, pode beijá-la. Mas faça direito, assim ela vai ficar pronta para nós... Um ódio mortal brilhou nos olhos de Nicholas, e o coração de Clare quase parou. Se ele partisse para cima de Madoc naquele momento, seria um homem morto. Mordeu o lábio para se impedir de gritar, os olhos fitando-o num apelo angustiado para que ele não fizesse nada. Nicholas respirou fundo e conseguiu dominar sua fúria, em seguida cobriu a distância entre eles. — Eu amo você, Clare... Eu deveria ter dito isso antes — murmurou, ofegante. As palavras a surpreenderam tanto que ela quase perdeu o que ele sussurrou quando se inclinou para beijá-la: — Quando eu a empurrar para o chão, role para trás daquela parede, depois corra... O raciocínio de ambos tinha trabalhando na mesma linha. Ao se aproximar para beijá-la, Nicholas se encontrava agora mais perto de Wilkins, e seu abraço poderia fornecer o tipo de distração que ela havia planejado. Sabendo que uma negativa de sua parte poderia arruinar o plano, Clare assentiu, embora não tivesse a mínima intenção de sair correndo. — Eu também amo você, meu amor... — respondeu em voz alta. — E irei para onde for, nem que seja para o inferno! — completou, comovida. — Que a terra se molhe com o meu sangue se eu falhar. A expressão de dor no rosto moreno era genuína, notou, e soube que esta se espelhava no dela. Quaisquer que fossem os planos de Nicholas, as chances estavam contra eles, e aquele podia muito bem ser seu último beijo.


Uniram-se numa tempestade de emoções. Parecia impossível que em pouco tempo ela e Nicholas poderiam estar mortos, com o corpo dilacerado e sangrando. Mesmo em meio à sua angústia, percebeu o patente interesse dos pistoleiros. Abraçou-o com mais força por alguns instantes, então se obrigou a soltá-lo aos poucos de modo que, quando Nicholas a empurrasse, tudo acontecesse mais rápido. Afrouxar seu abraço foi o sinal por que lorde Michael esperava. Ágil, ele se atirou para o lado, longe da mira de Madoc. No mesmo instante, Nicholas empurrou Clare na direção da parede de pedra. — Agora! — gritou, e, quando ela caiu no chão, saltou para cima de Wilkins. Pego de surpresa, o atirador perdeu alguns segundos preciosos tentando atingi-lo. Antes que o fizesse, no entanto, Nicholas sacou o chicote e o estalou violentamente. O fio de couro se enrolou no cano, e os dois homens se engalfinharam num perigoso cabo de guerra. De trás das ruínas, Clare viu que Michael não estava desarmado e que sacara uma pistola. Ele e Madoc dispararam um contra o outro ao mesmo tempo, os tiros ecoando no silêncio da floresta. O grito do bandido foi interrompido por um borbulhar de sangue quando a bala atravessou sua garganta. Michael também caiu, rolando pelo chão, e Clare temeu que ele tivesse sido mortalmente ferido. Enquanto isso, Nicholas continuava tentando arrancar a arma do pistoleiro com o chicote. Num impulso, ela se pôs em pé e se arremessou na direção dos dois homens. A chibata se soltou do rifle de repente, e Nicholas foi arremessado para trás, cambaleando e caindo sobre um joelho. Wilkins recuou um passo, pondo-se fora do alcance da chibata, e mirou com um brilho maléfico nos olhos. Nicholas tentou se esquivar, porém, em sua posição, foi impossível para ele se mover com rapidez suficiente para evitar o tiro.


Dominada pelo pânico, Clare mergulhou em uma tentativa desesperada de bloquear a bala, no mesmo instante em que a arma explodia, ensurdecedora. Um golpe anestesiou o lado esquerdo de seu corpo e a fez girar e cair no gramado. Atordoada demais para se mover, ela permaneceu imóvel. — Clare! — Nicholas se ergueu, em pânico, e caiu de joelhos, erguendo a parte superior de seu corpo para o colo. Por cima do ombro dele, ela vislumbrou Wilkins recarregando a espingarda com espantosa velocidade. Quando o atirador ergueu a arma, ela tentou alertar Nicholas, mas não conseguiu emitir nenhum som. Outro tiro explodiu, dessa vez mais leve e agudo do que o do rifle. O peito de Wilkins se tingiu de vermelho, ele girou e caiu. Clare virou a cabeça e viu Michael deitado de bruços, ainda com a pistola entre as mãos de onde subia um fio de fumaça. Ele não apenas estava vivo, mas havia salvado a vida de Nicholas, pensou, comovida. O Senhor operava mesmo de forma misteriosa. Fechou os olhos, atordoada, sem entender como um conflito que durara apenas alguns segundos havia deixado dois mortos. Michael parecia ter saído ileso, pois ficou em pé, mas seu próprio corpo continuava muito dormente para que ela soubesse se havia sido gravemente ferida ou se encontrava em choque. Quando Nicholas rasgou sua manga esquerda, sentiu uma dor lancinante e choramingou. Após um rápido exame, ele suspirou, aliviado. — A bala atravessou seu braço. Deve doer como o inferno, mas não atingiu o osso. Vai ficar boa. Nem está sangrando muito. Ele arrancou a gravata e amarrou seu braço com força. A dormência que a invadira começou a passar. Como Nicholas havia dito, o braço doía demais, mas não era pior do que quando ela torcera o tornozelo. Sentou-se devagar, e Nicholas a puxou uns poucos metros para que


ela pudesse sentar-se amparada por uma parede. — Por que, diabos, fez algo tão estúpido? — exigiu, após acomodála. — Poderia ter morrido! Ela esboçou um sorriso. — Por que não fez nada para se proteger quando Wilkins estava recarregando a arma? — Porque eu sabia que Michael iria cuidar dele. E porque quando vi que tinha sido atingida... — A voz dele falhou. — Você arriscou sua vida por mim, meu amor. Como eu não faria o mesmo? — Clare replicou, emocionada. Emoções desencontradas se estamparam no rosto moreno. — Está tudo bem, lady Aberdare? — Michael indagou, antes que Nicholas pudesse responder. Nicholas respirou fundo e sua expressão se suavizou. — Sim, graças a você. — Tocou os cabelos de Clare com dedos trêmulos. — Então levante-se e afaste-se de sua esposa, Aberdare — Michael disse, áspero. — É hora de resolvermos o que nos trouxe aqui, e não quero que ela se machuque. O tom do outro homem preocupou Nicholas, e ele olhou para cima, cauteloso. Michael estava de pé, a silhueta recortada contra o pôr do sol, a pistola apontada para seu coração.


Capítulo XXXII Com o olhar fixo na arma, Nicholas se levantou e afastou-se de Clare. — Isso ainda, Michael? — indagou, confuso. — Por que não me diz de uma vez a razão de querer me ver morto? Michael se aproximou, e Nicholas pôde ver o desespero em seus olhos verdes. Qualquer que fosse o motivo daquele desatino, sem dúvida fora provocado pela violência que tinham acabado de sofrer. Lívida, Clare se esforçou para ficar em pé e se apoiou na parede de pedra. — Se matar Nicholas, terá de me matar também, lorde Michael — declarou, decidida. — Acha que vou ficar em silêncio se matar meu marido? — Claro que não. E vai me ver enforcado justamente por isso. Mas não importa... — Ele se aproximou da chibata jogada no chão e, mantendo o olhar em Nicholas, inclinou-se e a arremessou para longe de seu alcance. — Talvez eu poupe o carrasco da minha execução, pois não consigo me imaginar vivendo depois disso. — Então pare! — ela implorou aos prantos. — Por Deus, o que Nicholas fez para merecer essa sentença de morte?! — Eu prometi que a justiça seria feita, mas nunca pensei que seria chamado a cumprir a minha promessa — Michael murmurou, frio. — Quando chegou o momento, fui covarde. Depois passei quatro anos no Exército, na esperança de que uma bala me poupasse de ter de fazer isto... Mas o destino me preservou e me trouxe aqui. — Uma nova onda de dor transformou seu rosto. — E eu não posso mais lutar contra o destino. — A quem fez essa promessa? — Nicholas perguntou em voz baixa. — A meu avô? Ele me odiava e fazia o possível para afastar meus amigos, mas nunca pensei que quisesse me ver morto. — Fiz a promessa a Caroline.


Por um instante, fez-se um silêncio mortal. Então a raiva explodiu em Nicholas. — Cristo! Então também era um dos amantes dela! Eu deveria ter adivinhado... Havia dezenas de evidências, mas eu não queria... — A voz dele falhou. — Não você, Michael! — Nós nos apaixonamos desde a primeira vez em que nos vimos. Em seu casamento... quando já era tarde demais — contou o outro homem com uma expressão de culpa. — Porque era meu amigo, lutei contra os meus sentimentos, e ela também. Mas não conseguíamos ficar separados. — Então foi outra vítima das mentiras de Caroline — Nicholas falou com desgosto. — Não fale assim dela! — Os nós dos dedos de Michael ficaram ainda mais brancos sobre a coronha da pistola. — Caroline nunca teria sido infiel se você não a tivesse maltratado tanto! Ela me contou tudo: sobre sua crueldade, sobre as coisas revoltantes que a obrigava a fazer. No começo custei a acreditar. No entanto, como um homem pode saber como seus amigos tratam as mulheres? — E como um homem pode saber como uma mulher trata os outros homens? — revidou Nicholas, cáustico. — Eu vi os hematomas em seu corpo — Michael replicou, enojado. — Caroline chorou em meus braços, pois morria de medo de você! Disse inclusive que, se ela morresse misteriosamente, você seria o culpado, e que eu deveria me vingar. Eu lhe dei minha palavra, nunca imaginando que teria de cumpri-la. Embora a tenha tratado como um monstro, nunca acreditei que fosse capaz de assassinato. — Se Caroline tinha hematomas era porque gostava de sexo violento... Como seu amante, deve ter notado isso — Nicholas retrucou. — E se ela morreu em um acidente de carruagem, foi porque insistiu que o cocheiro fosse depressa demais. Não tive nada a ver com isso. — Talvez tenha causado o acidente, talvez não... Mas isso não


importa. Se ela não estivesse infeliz, não teria fugido de Aberdare quando foi pego na cama com a mulher do seu avô! Por isso é tão responsável como se tivesse atirado em seu coração. — Michael limpou o suor do rosto com a mão trêmula. — Sabia que ela estava grávida quando morreu? Ela estava carregando um filho meu, e estava vindo ao meu encontro. Eu tinha pedido que ela o deixasse, mas Caroline se recusou a partir por algum senso equivocado de honra. — Caroline não sabia o significado dessa palavra — Nicholas declarou, gélido. — Mas talvez fosse mesmo o pai do filho dela. Com certeza não era eu, pois fazia meses que eu não a tocava. Você não foi o único que teve esse privilégio, no entanto. — Não difame uma mulher que não pode se defender! A ponta de histeria na voz de Michael forçou Nicholas a conter a própria raiva. Embora nunca tivesse realmente acreditado que o amigo quisesse matá-lo, o fato de Caroline estar envolvida mudava tudo. Michael segurava uma arma agora, e se a disparasse, tudo estaria acabado. Respirou fundo. Ele teria de revelar o lado mais sórdido de toda aquela história. Não havia escolha. — Caroline era amante do meu avô. Houve um momento de horror em que Clare deixou escapar uma exclamação, chocada, e Michael gritou, transtornado: — Está mentindo! — Começou a apertar o gatilho, mas Clare deu um grito desesperado. — Não, Michael! Eu imploro! A urgência em seu apelo fez Michael hesitar, o rosto refletindo a fúria dentro dele. — Maldição, Michael, nós nos conhecemos há vinte anos, e na maior parte desse tempo fomos mais próximos do que irmãos! Precisa me ouvir! — argumentou Nicholas. A ira do outro homem pareceu abrandar, mas ele não baixou a pistola.


— Vá em frente... mas não espere que eu mude de ideia. Nicholas respirou fundo, sabendo que precisava ser calmo e convincente. — Como vocês sabem, meu casamento foi arranjado por meu avô para garantir sua sucessão. Quando conheci Caroline, acabei concordando com esse jogo de bom grado. Mas nosso casamento foi uma mentira desde o início. Quando fiz a proposta, ela me confessou, chorosa, que não era mais virgem, e que um homem mais velho, amigo da família, a tinha seduzido quando ela estava com quinze anos. Caroline chorou muito, e foi tão convincente que eu teria chamado o tal sujeito para um duelo se ela não tivesse me garantido que ele já estava morto. Eu me dispus a esquecer o que tinha acontecido, mas depois que nos casamos, comecei a me perguntar se ela tinha me contado a verdade. Caroline era ousada demais na cama para uma menina que se dizia próxima da virgindade. No mínimo, ela tivera um caso sério. Não gostei nada da ideia de que ela pudesse ter mentido, mas a maioria das mulheres não é devassa, então decidi que Caroline só estava se esforçando para ter um bom casamento. O rosto de Nicholas ficou tenso quando ele pensou em sua ingenuidade. — A verdade é que eu quis arrumar uma justificativa para seu comportamento. Ela dizia que me amava, e você sabe, Caroline era tão delicada que era fácil acreditar nela. E eu... não sei se eu a amava, mas queria amar — completou, pensativo. Então silenciou por um momento. Preferia estar morto a revelar mais daquela história sórdida. — Pensei que tínhamos um bom casamento até a noite em que fomos para a cama e percebi que Caroline tinha marcas de mordidas nos seios. Ela não fez nenhuma tentativa de negar sua infidelidade. Em vez disso riu e disse que também nunca esperara fidelidade da minha parte, assim como eu não deveria esperar isso dela. Alegou que sabia como evitar uma gravidez, e me deu sua palavra de que não iria ter


um filho que não fosse meu. Mais uma vez, Nicholas sentiu o desgosto que o assolara ao perceber que seu casamento era mesmo uma farsa. — Eu me recusei terminantemente a aceitar tais condições. Pensando que pudesse me fazer mudar de ideia, Caroline tentou me seduzir. Quando a rejeitei, ela ficou furiosa, dizendo que nenhum homem jamais a recusara, e jurou se vingar... E se vingou. Cristo, como se vingou! — Seus olhos focaram os de Michael. — Isso tudo aconteceu em abril de 1809. Seria justo dizer que o amor dela por você superou seus escrúpulos sobre o adultério poucas semanas depois dessa noite? A palidez de Michael foi resposta suficiente. Nicholas avançou um passo na direção do amigo antes de continuar. — Depois disso eu a mandei para Aberdare e permaneci em Londres. Deveria ter desconfiado de como Caroline veio de bom grado, mas eu estava confuso demais para pensar com clareza. Depois de algum tempo tentando encontrar o sentido da vida em garrafas e boudoirs, decidi que era hora de vir para Aberdare e conversar com ela. Imaginei que Caroline podia ter mudado, e que poderíamos tentar salvar nosso casamento... Em vez disso, protagonizamos uma cena típica de teatro: o marido ingênuo voltando para casa inesperadamente e encontrando a esposa na cama com outro homem. Só que, nesse caso, o homem era meu avô. Nicholas deu uma risada seca. — Foi uma traição além dos meus piores pesadelos. Sinto um nó no estômago até hoje, só de lembrar. Os dois riram de mim enquanto o antigo conde explicava, feliz, como fora inteligente... Pensando bem, ele era muito parecido com Madoc. Desde o começo, meu avô desprezava o meu sangue cigano e planejava uma maneira de contornar o que chamava de uma sucessão desastrosa. Ele já tinha sido prejudicado pela doença da primeira esposa, mas assim que esta


morreu, casou-se novamente. Entretanto, Emily também não conseguiu conceber, apesar de seus esforços. — Está mentindo — afirmou Michael com convicção. — Por que seu avô iria se esforçar para ter outro filho quando você herdaria tudo de qualquer maneira? — Está subestimando a astúcia dele — Nicholas retorquiu, seco. — Meu avô arrumou documentos falsos sobre o casamento dos meus pais e meu próprio nascimento. Se tivesse conseguido ter outro filho, teria destruído as certidões legítimas e levado as falsas para um advogado, dizendo com pesar que seu desejo por um herdeiro o levara a acreditar que eu era legítimo, mas que não poderia enganar a si mesmo por mais tempo. Eu teria sido deserdado e atirado para fora como o lixo que ele sempre pensou que eu era. Clare deixou escapar uma exclamação, indignada. — Os documentos falsos eram aqueles que encontrei na Bíblia da família e que você jogou na lareira, não eram? Ele a fitou, impassível. — Entende agora por que eu estava com tanta raiva? — Virando-se de novo para Michael, Nicholas continuou: — Acontece que meu avô não conseguiu engravidar Emily, então precisou encontrar outra maneira de me deserdar. Ele sempre foi um devasso, embora discreto sobre seus casos. Tinha horror de comprometer a própria reputação. Caroline já era sua amante quando ele teve a ideia de casá-la comigo. Provavelmente ela concordou, pois esse tipo de perversão era típico dela... Não duvido de que ela mesma tenha tido a ideia — murmurou quase para si mesmo. — A razão pela qual meu avô se dispôs a explicar tudo isso, tão satisfeito, foi porque Caroline havia dito a ele que estava grávida. E ele, triunfante, se convenceu de que o filho era dele, e do sexo masculino. Com isso, meu sangue cigano desapareceria da linhagem dos Davies. Embora ele não pudesse me impedir de herdar tudo, quando eu morresse seria sucedido pelo filho do meu avô...


A voz de Nicholas tornou-se sarcástica: — Ele prosseguiu, todo feliz, dizendo como Caroline era inteligente, e como ela havia tomado precauções para se assegurar de que eu não a engravidasse. Mas meu palpite é que, como ele falhou com Emily, a criança provavelmente era sua, Michael... Não que isso importe agora. Mas, se alguma vez estive para cometer assassinato, foi naquela noite. Acontece que não encostei a mão em nenhum deles. Em vez disso, jurei que ia levar Emily para Londres a fim de instituirmos o divórcio mais escandaloso da história da Inglaterra, e que eles dois seriam revelados como os crápulas que eram. Eu tinha o dinheiro herdado da minha avó, então estava em condições financeiras para fazê-lo. Nicholas cerrou os punhos. — O adultério, a traição ou incesto, que fosse, não incomodaram meu avô. Mas aparentemente, a ameaça de exposição desencadeou nele um ataque cardíaco no instante em que eu saí do quarto para ir ter com Emily. Ele morreu na cama. Assustada, Caroline apanhou suas joias e fugiu em meio à tempestade em busca de você, então, já que era sua melhor escolha. E mesmo na morte, teve sorte. Quando o valete de meu avô veio informar Emily de que seu marido estava morrendo, ele nos encontrou juntos... Emily de camisola. Por isso ela e eu fomos acusados de adultério, e Caroline morreu com a reputação de uma santa traída. — Está mentindo! — repetiu Michael, pálido. — Está inventando tudo isso para ocultar seus próprios crimes! — Sou esposa de Nicholas agora, Michael — Clare falou com voz suave. — Nosso relacionamento foi difícil no começo, e muitos homens poderiam ter sido levados à violência na mesma situação... Mas não Nicholas. Eu, que o conheço melhor do que ninguém, juro que ele jamais teria abusado de uma mulher da maneira como Caroline afirmou. Como Michael vacilasse, Nicholas começou a caminhar em sua direção, um passo de cada vez.


— Em todos esses anos em que convivemos, alguma vez eu menti para você? — Parou de se mover e prendeu a respiração diante da revolta nos olhos verdes. — Não que eu saiba — Michael concordou com voz rouca. — Mas eu o vi mentindo para outros. Eu o ouvi contando histórias absurdas sobre ser um príncipe indiano, um guerreiro turco, ou sabe Deus mais o quê. Mais tarde nós ríamos sobre como havia sido convincente... Era tão persuasivo que uma das cortesãs mais avarentas de Londres se deitou com você de graça porque pensou que fosse da realeza! Por que eu deveria acreditar no que diz? — Porque tudo isso não passou de brincadeira! Eu nunca menti para os meus amigos. — Nicholas avançou mais um pouco. — Cristo, se eu estivesse mentindo, acha que eu iria inventar uma história tão humilhante?! Ser traído pelo meu próprio avô?... Não apenas a própria ideia é obscena, como me faz parecer um completo idiota. Um último passo o pôs face a face com o outro homem. — Quando deixei a Inglaterra, pensei que não fosse voltar nunca mais. Acontece que fugir não aplacou a minha dor, assim como voltar para o Exército não amainou a sua. E cometer assassinato também não ajudará em nada... — Ele estendeu a mão devagar. — Dê-me aqui essa pistola. Michael recuou um passo, mas baixou a arma. Tinha o rosto lívido e tremia dos pés à cabeça. Era como se estivesse sendo dilacerado por dentro. Em silêncio, Nicholas tomou a arma dele. Após descarregá-la, jogou-a de lado. Michael caiu sobre os joelhos, dobrou-se em direção ao chão e enterrou o rosto nas mãos. — Eu sabia que o que eu estava fazendo era completamente errado — falou, cheio de angústia. — Mas eu não conseguia ficar longe dela, mesmo que isso significasse ir contra tudo o que eu acreditava. Clare cruzou a distância que os separava e se ajoelhou a seu lado. — Amar e ser amado é a mais poderosa das necessidades


humanas — disse com profunda compaixão. — O fato de Caroline ser indigna do seu amor foi uma tragédia, não um crime. — Gentilmente, ela tomou-lhe as mãos nas suas. — Deve ter sido terrível para você ficar tão dividido, mas acabou. Não se torture mais. — O que fiz foi imperdoável! — ele repreendeu a si mesmo, transtornado. — Nada é imperdoável se houver verdadeiro arrependimento — Clare afirmou com uma convicção que fez Nicholas se lembrar do pai dela. Sua bondade e segurança tiveram o efeito de um bálsamo, e ele próprio sentiu a amargura começar a dissolver. O que estava feito, estava feito, e ele não podia deixar que todo aquele veneno afetasse sua vida com Clare. Para Michael, foi mais difícil. Ele levantou a cabeça, as lágrimas banhando o rosto magro e bonito. — Em Londres eu a chamei de vagabunda, e por um triz não matei seu marido... Consegue perdoar isso? Eu não. — Você não matou Nicholas, Michael! — Clare ajeitou-lhe os cabelos para trás como se ele fosse um de seus alunos. — E o que importa são as ações, não as palavras. O mais importante foi não ter traído sua amizade. — Ela lançou um olhar suplicante na direção de Nicholas. Ele apertou os punhos. Doía muito saber que um de seus amigos mais próximos tinha sido amante de Caroline. Era mais fácil aceitar a loucura do que a traição. No entanto, conforme estudava o rosto atormentado de Michael, sentiu uma inesperada compaixão. Embora tivesse vivido um inferno com sua falecida esposa, ele não se autorrecriminava como o amigo. Suspirou e se ajoelhou à sua frente. — Caroline foi a pessoa mais vil que já conheci. Ela fez todos nós de tolos. Eu nunca a amei como você, e mesmo assim, ela quase me destruiu. Caroline fez o possível para acabar com a nossa amizade


também, porque sabia o quanto esta significava para mim. Vai permitir que ela tenha êxito depois de morta? — Clare ainda segurava a mão do rapaz, então ele colocou sua própria mão sobre a de ambos. — Todos sentimos sua falta. Já é hora de voltar para casa. Michael deixou escapar um som estrangulado, e em seguida abraçou Nicholas com força. Clare fez o mesmo, e os três ficaram assim por um longo tempo. Nicholas fez a mente regredir além da violência do passado e da traição, até as melhores lembranças de sua longa amizade com Michael. Como um garoto de aparência estrangeira que não se encaixava no mundo orgulhoso de Eton, ele precisara muito dos amigos. E Michael tinha sido uma rocha. Totalmente leal e confiável. Enquanto o crepúsculo os envolvia, o calor dessas lembranças dissolveu a raiva de Nicholas, e ele torceu para que parte deste chegasse ao outro homem. Por fim, Michael respirou fundo e levantou a cabeça. — Será que pode me perdoar? — indagou com dolorosa humildade. — Se nossos papéis se invertessem e tivesse se envolvido com minha esposa, eu não sei se eu poderia... — Nós somos diferentes de muitas maneiras, e isso é o que cria uma amizade. Além do mais, embora tenha considerado me matar, você não o fez. Pelo contrário, salvou a minha vida e a de Clare. Por isso posso perdoar qualquer coisa. — Ele estendeu a mão. — Paz...? Michael sacudiu a mão dele com força, como se segurasse uma corda que o salvaria de despencar para o inferno. — Paz. E obrigado... É um homem muito melhor do que eu. — Duvido. Mas sei que é mais fácil perdoar quando se está feliz. — Seu olhar tocou Clare. Com movimentos rígidos, Michael ficou de pé e, em uma tentativa frágil de humor, esboçou um breve sorriso. — Como agir depois de se fazer papel de idiota?


Nicholas se ergueu também e ajudou Clare. — Toca-se a vida adiante. Mostre-me um homem que nunca fez papel de tolo, e eu direi que ele é extremamente aborrecido. — Nesse caso, eu deveria ser o homem mais interessante da GrãBretanha... — Michael falou com um suspiro. Como a noite estava ficando fria, Nicholas tirou a casaca e a colocou em torno dos ombros de Clare. Ela a aceitou de bom grado, embora se retesasse quando o peso do tecido roçou-lhe o braço ferido. — Vamos para Aberdare, Michael — ela sugeriu. — Assim não passará a noite sozinho. Ele hesitou um instante, depois negou com um gesto de cabeça. — Obrigado, milady, mas acho que preciso ficar sozinho. — Clare, por favor. Já ultrapassamos os limites da formalidade. — Ela estudou o rosto magro, preocupada. — Janta conosco amanhã? Eu gostaria de conhecê-lo em condições normais, em vez de envolvido num melodrama... Vendo a incerteza de Michael, Nicholas reforçou o convite. — Venha, por favor. Aberdare é um lugar feliz agora. — Colocou a mão no ombro da esposa. — Se insistem... — Michael esfregou a têmpora, cansado. — Vão para casa. Posso informar as autoridades e cuidar dos corpos. Tenho experiência nessas coisas, depois de tantas batalhas. — Sua voz ficou mais forte com a perspectiva de ser útil. — Imagino que as autoridades vão querer falar com vocês, mas não tão cedo. — Cuida do cavalo de Clare? Quero levá-la comigo — explicou Nicholas. — Claro que sim. Posso levá-lo amanhã. Nicholas a ajudou a montar, subiu no cavalo e o fez dar meia-volta, tomando o caminho de casa. Talvez Clare pudesse fazê-lo sozinha, mas sentiu uma enorme necessidade de tê-la por perto. Ter seu peso morno de encontro ao peito ajudava a dissipar o terror que havia sentido quando temera perdê-la.


Estavam quase no solar quando ele resolveu falar. — Agora já sabe toda a história sórdida que se passou aqui. Ela aquiesceu de leve. — É muita ironia. Apesar de todo o orgulho de seu avô, de sua exaltada ascendência, você foi mais sábio, mais civilizado e mais generoso. É uma pena que ele não possa mais vê-lo para testemunhar o homem extraordinário que se tornou. — Não sei se sou extraordinário, mas é verdade que ele nunca me enxergou. Eu era uma lamentável obrigação, uma compilação das piores qualidades de meu pai rebelde e de minha mãe cigana. Como eu disse antes, como herdeiro ele me considerou melhor do que nada... mas apenas por algum tempo. — Como vocês sobreviveram a tanto ódio? Nicholas encolheu os ombros. — Depois que percebi que seu desprezo não tinha nada a ver comigo, eu o deixei seguir como o vento. E na maioria das vezes, consegui ser feliz apesar dele. — Michael é mais fácil de entender — observou Clare com um suspiro. — Ele precisava acreditar em Caroline. Trair um amigo foi terrível para ele... E reconhecer que havia feito isso por uma mulher totalmente indigna deve ter sido ainda pior. — Embora ele possa ter zombado da ideia, também precisava de um grande amor, o que o deixou vulnerável às artimanhas de Caroline — completou Nicholas. — Pobre diabo. É incrível que ele tenha sobrevivido a ela. — Michael é um homem forte — concluiu Clare. — Um dia ele vai ser feliz outra vez. Mas não consigo entender Caroline... — Seus dedos acariciaram o braço de Nicholas. — Como pode uma mulher querer outros amantes quando tinha você? Ele riu. — Você não existe... — Ele olhou para a cabeça escura, aninhada junto a seu ombro. — Mudou muito na última quinzena, Clare. Parece


mais serena... Eu gostaria de pensar que é um resultado do meu charme irresistível, mas suspeito que seja mais do que isso. — Não é. — Ela hesitou. — É difícil explicar, mas quando admiti para mim mesma que eu o amava, resolvi minhas questões espirituais. Enfim fiz a conexão com o Divino que eu desejava, e meu amor por você foi a chave. Nicholas a abraçou com mais força. — Fico feliz por isso — disse baixinho. — E algum dia quero ouvir mais sobre esse assunto. Haviam chegado a Aberdare. Deixando o cavalo aos cuidados do cavalariço, ele a carregou para dentro de casa até o quarto. — Não estou assim tão mal! — ela protestou. — Prefiro não arriscar. Após colocá-la na cama, Nicholas limpou a ferida com conhaque, em seguida aplicou um emplastro de ervas. — Um remédio cigano — explicou enquanto lhe enfaixava o braço. — Mantenho vários deles por perto. Este irá prevenir a infecção, e um dos ingredientes reduz a dor também. Amanhã chamaremos um médico para examiná-la. — Você sabe uma porção de coisas úteis. — Ela fez uma anotação mental para obter as receitas dos unguentos mais tarde. — Já está doendo menos. — Agora precisa descansar um pouco. — Ainda não. Já que hoje é dia de revelar segredos, há mais um... Clare sentou-se e tomou-lhe a mão. Então repetiu a história de Marta, e por que ela havia dado o filho. Enquanto ouvia, Nicholas permaneceu parado, a expressão inescrutável. Tão logo terminou de falar, Clare foi até o armário e apanhou a bolsa de couro que Keja lhe dera. Em seguida, voltou para ficar a seu lado. — Foi traído por seu avô e Caroline, mas não por sua mãe — ela


afirmou com segurança. — De acordo com Keja, Marta queria que eu lhe explicasse isso. Disse que apenas uma mulher que o amasse poderia saber que uma mãe sempre faria o melhor por seu filho. Marta amou você, Nicholas, e lhe deixou tudo o que tinha de valor... — Ela abriu a bolsa e despejou o conteúdo sobre a colcha. Entre os guinéus havia um anel de ouro trabalhado que Clare não notara antes. Nicholas o ergueu e colocou no dedo. — A aliança de casamento de minha mãe. — Fechou a mão com força. — Eu queria tanto ter sabido que ela estava doente! — Você a teria deixado partir se soubesse? Nicholas pensou, então balançou a cabeça. — Não. Nós éramos muito próximos, por isso foi tão devastador pensar que ela tinha me vendido. Mas se ela estava morrendo, meu lugar era a seu lado. — Talvez Marta tenha ficado com receio de que fosse contrair a mesma doença. Além do mais, se estivesse a seu lado quando ela morresse, os roms o teriam levado para a família de seu pai? — Nunca. Eles consideram um sacrilégio transformar uma criança cigana em gorgio; até mesmo um mestiço como eu. — Então, para cumprir a promessa que tinha feito ao seu pai, Marta não tinha escolha. Nicholas tentou sorrir. — Minha mãe tinha razão ao dizer que outra mulher poderia compreendê-la. Ou melhor, que você iria entender e ser capaz de me explicar tudo isso... — Fechou os olhos por um momento e engoliu com dificuldade. Clare o puxou para seus braços e apoiou-lhe a cabeça nos seios enquanto ele absorvia os fatos que haviam mudado sua vida. — É estranho. Sempre que eu pensava em minha mãe, doía muito... Ainda dói, mas de uma forma diferente. — Melhor ou pior? — Melhor, acho. — Ele suspirou. — Embora eu esteja de luto por


sua morte, acredito na minha infância de novo. Clare acariciou o cabelo farto. — Lamenta por ela não tê-lo deixado com os roms? Houve um longo silêncio antes que Nicholas respondesse, por fim. — Eu poderia ter sido mais feliz. Com certeza minha vida teria sido bem mais simples... No entanto, é como Adão ter provado a maçã. Uma vez que se conhece um mundo mais amplo, é impossível voltar atrás. — Ele levantou a cabeça e seus olhares se encontraram. — E se eu tivesse ficado com os roms, nunca teria conhecido você. — O que disse esta tarde antes de me beijar... — ela começou, tímida. — Era verdade ou apenas parte de sua tentativa de distrair Madoc? O rosto moreno suavizou. — Era verdade. — Nicholas a fez sentar-se na cama, a seu lado. — É notável como a perspectiva da morte nos faz enxergar as coisas com mais clareza. Desde que chegou a Aberdare, decidi não permitir que fosse embora. Por isso eu ameaçava retirar minha ajuda sempre que você falava em partir. Foi a única forma que encontrei para convencêla a ficar. Meu desejo de frustrar a vontade do meu avô era tão forte que nunca me ocorreu a maneira mais óbvia de mantê-la a meu lado. — Quer dizer... com o casamento? Nicholas soltou os grampos que lhe prendiam os cabelos e correu os dedos pelos cachos soltos. — Isso mesmo. Pense na rapidez com que eu lhe propus casamento depois que nos tornamos amantes. Eu não ousei esperar porque, se não estivesse grávida, eu não teria nenhuma desculpa para me casar com você. Pelo visto, a minha mente perturbada já havia concluído que nunca se tornaria minha amante, então eu precisava de um pretexto para reverter minha promessa de não me casar. Clare começou a rir. — É verdade que aceitou se casar com uma facilidade surpreendente.


— Não foi bem a ideia do casamento... Foi a ideia de amar você. — Ele ergueu-lhe o rosto, os olhos escuros e suaves como veludo negro. — Acho que eu sempre soube que, se ganhasse a sua lealdade, você nunca iria me trair. E estava certo, não estava? Esta tarde arriscou sua vida por mim. — Seus lábios se curvaram com ironia. — Creio que procurei esse tipo de lealdade por toda a minha vida. Mas nunca mais faça isso de novo! Se a bala de Wilkins a tivesse atingido em outro lugar... — Ele estremeceu. — Isso não aconteceu. — Clare o tocou no rosto. — Na verdade, teve um dia muito bom. Estamos vivos, está finalmente livre de seu avô e de Caroline, e ainda recuperou sua mãe e Michael. Nicholas a encarou, assombrado. — Colocando dessa maneira, foi mesmo um dia magnífico. — E creio que haja uma maneira de torná-lo ainda melhor... — Ela o fitou, travessa. — Meu braço não está doendo quase nada. Ele começou a rir. — Está pensando no que eu acho que está pensando, sua desavergonhada? — Estou — confirmou ela sem preâmbulos. — Quero sentir você dentro de mim. Depois de ter chegado tão perto da morte, desejo celebrar a vida. Nicholas baixou a cabeça e a beijou, cheio de ternura. — Eu amo você, minha adorada professora. E terei o maior prazer em experimentar outra lição de amor agora mesmo... Tem certeza de que seu braço não está muito dolorido? Rindo, ela se recostou na cama, puxando-o para junto de si. — Se me beijar de novo, não vou notar nada. Nicholas fez amor com sua amada delicadamente, como se Clare fosse o mais precioso ser sobre a face da Terra. Como seu amante, tinha arrebatado seus sentidos, e agora arrebatava sua alma, pois não precisava mais se conter, e nem ela. Eram um só corpo e um só espírito.


Epílogo

Agosto, 1814 Foi a maior celebração da história da mina de Penreith. Na verdade, devia ser a mais grandiosa ocasião que qualquer mina já tinha visto. Conforme Clare e Nicholas desciam suavemente pelo novo elevador a vapor, junto com uma dúzia de outros convidados, ouviam música acima do poço, a qual sobrepujava o som do motor Watts de bombeamento. Fora ideia de Michael comemorar as melhorias nas instalações com uma recepção no subsolo, e que todos no vale fossem convidados. A grande galeria na base do elevador brilhava com flores e velas, e a multidão transbordava pelos túneis. As pessoas circundavam as mesas dispostas com comida, e as crianças saltitavam em torno dos doces. Quando os músicos deram início a uma canção tradicional, casais começaram a dançar. Surpresa, Clare percebeu que alguns deles eram metodistas. Mas dificilmente seria pecado dançar em uma mina de carvão. Inevitavelmente, outros convidados começaram a cantar, e os ecos das vozes nas paredes de pedra a fizeram se lembrar do coro que tinha ouvido na Abadia de Westminster. Quando desceram do elevador, Michael veio cumprimentá-los com um sorriso no rosto. Havia engordado um pouco e parecia tão saudável e descontraído que era difícil se lembrar do homem atormentado de três meses antes. — O que acha da mina agora? — Surpreendentemente civilizada — respondeu Nicholas. — Mas, e quanto a você? O que pretende fazer agora que tudo está correndo tão bem? — Não se preocupe. Vou pensar em alguma coisa. — Rafe e Lucien já chegaram? — quis saber Clare.


— Estão em Bryn House desde ontem à noite. Clare sorriu. Nos meses após Michael ter posto fim à briga com Nicholas, ela pudera conhecer o encanto e o caráter que o fizera ter amigos tão admiráveis. Embora soubesse que quatro anos de inferno deviam ter deixado cicatrizes em sua alma, Michael havia retomado o rumo de sua vida. E após ter passado por aquela provação, sua amizade com Nicholas se tornara mais forte do que tinha sido no passado. Olhou ao redor e viu Lucien envolvido numa conversa com um engenheiro local. Mais próximo deles, Rafe ouvia atentamente uma menina de cinco anos de idade. — Lá está Rafe. Parece que ele já fisgou a loira mais bonita da festa... — Nicholas olhou para Clare. — Vamos até lá? — Só um minuto... Quero falar com Marged primeiro. — Não vá muito longe. — Fique tranquilo, meu amo e senhor. — Ela sorriu. Nicholas deu-lhe um tapinha no traseiro deveras impróprio, e em seguida se afastou para falar com os amigos. Clare encontrou Marged limpando restos de doce das crianças de uma mesa, e esta a puxou para um abraço. — Quem poderia acreditar que a antiga mina poderia ficar tão divertida? E estou tão contente que Owen tenha aceitado a oferta de Nicholas para trabalhar na pedreira de ardósia! Há menos risco de desastres lá. — Olhou para o local onde Nicholas, Michael, Lucien e Rafe estavam reunidos. — Eles ainda são os quatro homens mais bonitos que eu já vi — comentou com um suspiro. — Além de Owen, é claro. Conversaram por alguns minutos, até que um bando de crianças veio e levou Marged para longe. Clare observou o grupo um pouco melancólica. Havia momentos em que sentia falta de ser professora em tempo integral, ainda que vivesse ocupada.


E agora que tinha carta branca de Nicholas, poderia ajudar ainda mais as pessoas. Não existiam mais crianças com fome em Penreith, e o vale estava se tornando o lugar feliz e próspero com que ela sempre sonhara. Rumou na direção do marido, parando para conversar com os amigos ao longo do caminho. Se ainda existia algum ressentimento pela maneira como ela havia chegado àquele casamento, este parecia ter sido esquecido; até porque tanto ela quanto Nicholas eram agora parte integrante da comunidade. Nicholas pareceu sentir sua presença e, sem nem mesmo se voltar, esticou o braço para trás e a puxou para a frente, prendendo-a pela cintura. Clare relaxou contra ele, sentindo-se como se tivesse voltado para casa. Naquela noite, pensou com um discreto sorriso, ela diria a Nicholas que um novo Conde Cigano estava a caminho.

Fim


A Nova Cultural tem muito mais emoções para você! PAIXÃO SOMBRIASara Reinke Selo: Bianca Augustus Noble é um homem que convive com muitos segredos. Sua vida inteira foi construída com meias-verdades, traições e mentiras. Medidas desesperadas para manter a mulher que ele ama, Eleanor Trevilian, em seu poder. Patriarca de seu clã, Augustus lutou durante séculos para criar um império de riqueza e prestígio para sua amada. Agora, porém, tudo o que ele lutou está em perigo, e Augustus não pode deixar que um inimigo de longa data descubra uma verdade que poderá pôr os membros de seu clã em risco... Por direito de primogenitura, Eleanor Trevilian já teria garantida uma vida longa, além de seu casamento com o líder do clã lhe proporcionar também riqueza, luxo e conforto. Contudo, uma doença que secretamente devasta os membros de seu clã há gerações agora a aflige também. Seu prognóstico é sinistro, sua vida pode perder todo o sentido... Ao longo de quase duzentos anos, Eleanor amou Augustus Noble, uma paixão que desafiava até as mais sagradas leis da Confraria dos Brethren. Por esse amor, ele a forçou a partir... Para protegê-la, ele partiu seu coração. Agora, Eleanor precisa regressar à fazenda no Kentucky que um dia foi seu lar, e ao núcleo da família, para salvar não só os seus entes queridos, como também Augustus. Porque, se ela não fizer isso, se por alguma eventualidade ela falhar, tudo o que ela e Augustus conheceram será destruído, inclusive o amor que compartilham...

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ARDIL DE UM CORAÇÃOPatricia Rice Selo: Clássicos Históricos Dois enigmas deixavam Arianne Richards perplexa. Por que o atraente e rico lorde Galen Locke estava tão interessado no misterioso retrato que ela havia encontrado? E por que esse cavalheiro nobre, lindo e irresistível demonstrava tanto interesse por ela quando estava comprometido com sua prima, a carismática e cativante lady Melanie? Uma das perguntas atiçava a mente de Arianne... A outra inquietava seu coração... E ambas ofereceriam respostas tão surpreendentes quanto os fantasmas do passado e os segredos do amor...

O FEITIÇO DE BELTANEPatricia Rice Selo: Bianca Inglaterra, 1750 Ninian Malcolm Siddons vive sozinha numa cabana desde que perdeu a avó. Considerada como bruxa pela maioria dos moradores do vilarejo, Ninian não pode contar com ninguém, e tem de se conformar em ficar apenas observando, enquanto as moças e rapazes de sua idade saem e se divertem na noite de Beltane. Não que ela não seja uma jovem encantadora e atraente... Muitos rapazes adorariam namorála, não fosse o receio de serem vistos em companhia de uma bruxa... Drogo Ives é um dos poucos que não resistem aos encantos de Ninian.


Aproximados por um feitiço, nenhum dos dois consegue se afastar do outro. Entretanto, não é somente lenda, superstição e perigo que Drogo e Ninian terão de enfrentar... Eles terão de superar também a dificuldade de Drogo de confiar em alguém, e a maldição da família Malcolm. E à medida que o perigo se acerca cada vez mais, Drogo e Ninian precisam decidir se são capazes de confiar um no outro o suficiente para sobreviver ao caos e ser felizes juntos...

DESTINO INSÓLITOKathryn Kramer Selo: Clássicos Históricos Especial Escócia, 1565 Casada contra a sua vontade com um brutamontes das Terras Altas, a linda e graciosa Kylynn Gowrie sentiu-se reviver quando conheceu o atraente Roarke MadKinnon... Roarke irrompeu de repente na corte da rainha Mary da Escócia, para reivindicar suas terras, mas seus modos gentis e sua ternura conquistaram o coração de Kylynn, que ansiava por entregar-se àquela paixão proibida... Quando, porém, a rainha da Inglaterra tramou um ardil para a rainha da Escócia, a quem Kylynn venerava, o destino fez de Roarke seu inimigo. Seria o amor deles forte o suficiente para sobrepujar as agruras e as traições de uma guerra implacável?...

A FARSA DA CONDESSAJoan Wolf Selo: Clássicos Históricos Inglaterra, Século XIX Amiga leitora, Quero deixar bem claro que não foi minha a ideia de criar uma armadilha para o melhor partido da Inglaterra, o conde de Greystone, se casar comigo. Meu tio, lorde Charlwood, é que estava por trás dessa pequena tramoia. Se meu pai não tivesse sido morto e me deixado aos cuidados de Charlwood, nada disso teria acontecido... De repente, eu era lady Greystone, uma condessa e uma senhora casada. Aprender a ser condessa não foi tão difícil. Aprender a ser casada teria sido bem mais fácil se eu não corresse o risco de me apaixonar perdidamente pela única pessoa que estava além do meu alcance... meu marido!


Bem, se eu não podia conquistar o amor de Adrian, pelo menos eu estava determinada a me vingar, pelo meu pai. Eu jurei desmascarar o assassino dele, e não me importava de correr perigo para alcançar meu objetivo. Portanto, se você, caríssima leitora, está curiosa para saber como eu me saí dessa, leia esta história... Com todo o meu carinho, Kate, Condessa de Greystone