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AFORISMOS 1 Pergunto e proponho: por que os métodos que pesquisam o drama, isto é, a tensão entre o pensamento mítico e o pensamento reflexivo, não se fazem tragédia? Este é um ponto fundamental porque se o Psicodrama e o Sociodrama, como consciência, comprometidos e situados na polis trabalhassem com o cidadão como foco fundante, talvez pudessem conquistar um lugar de maior inserção na construção da saúde coletiva. É a micro política se fazendo. Momentos de afirmação da Vida e de felizcidade. 2 O Projeto Socionômico original revela uma praxis humanista : busca melhorar a humanidade. Numa ótica aristotélica, insiste em se inscrever como ciência nos parâmetros da metafísica. Positivista-cartesiana quando busca uma Verdade que criaria um caminho de chegada ao paraíso do bem estar. A Sociometria tendo como instrumento o conceito de Tele, percebido como mutualidade de percepções corretas, referenciada no registro das representações, isto é, dos códigos, gera até a condição métrica para satisfazer o juiz cartesiano e as autoritárias escolas e instituições que usam de sua técnica - o sociograma - para desmontar grupos que se produzem num movimento onde a espontaneidade se concretiza no nível das relações. 3 Práxis: ação desveladora porque se sabe não isenta de sentido, intercessora sempre, portanto comprometida. Podemos concluir daí que toda prática é prenhe de um modo de pensar o mundo mesmo que não tenhamos consciência disso. Surge então a necessidade de se pensar e repensar constantemente nossa práxis filosófica. Sendo o fora e o dentro somente campos de imanência do real, nesta perspectiva nos resta ser Glauber Rocha onde sua produção nos dava a visibilidade que tudo estava em tudo, e ao mesmo tempo, e que os agenciamentos que estavam sendo feitos em cada situação já estavam gerando o devir. O role playing é um excelente método de visibilidade do jogo de papéis e da produção de situações geradas na dinâmica do grupo, anunciando o tipo de projeto que está sendo tecido na rede de relações. Facilita ao grupo perceber que existe uma malha que está ou não favorecendo a realização do projeto desejado. 4 O Projeto Socionômico transversalizado pelo pensamento de Heráclito - filósofo pré socrático de 450 a.C.- que naquele momento deu início a uma marca que percorre desde então o mundo filosófico, sintetizado no aforismo “ser E não ser” ao mesmo tempo e, no aforismo “o um é múltiplo” e, por seus antropófagos Nietzsche, Foucault, Deleuze e Guattari, tem a sua praxis transformada. Se faz consciência na polis, como reflexo do mundo sente o mal estar, se compromete com a diferença que se quer expressão e, rompe com a humanidade tal como se apresenta. Portanto, não se trata de melhorar a humanidade, mas de ressoar como ruptura dos paradigmas da forma homem tal como foi concebido na Grécia socrática.


Diz Nietzsche: “o homem está doente”. Mas qual a doença do homem? Resposta de Nietzsche: a doença é o homem, ou melhor, a forma de homem que ele construiu para si mesmo. Aí vem Foucault e diz o homem é uma invenção recente e, na verdade está morrendo. Foucault é um herdeiro direto de Nietzsche nesses termos. Foucault quando constatou que o homem está morrendo estava querendo dizer, essa idéia de homem tal como nós a conhecemos está com os dias contados. A idéia de homem nessa configuração moral, científica, religiosa, afetiva, etc, estava ou se apagando ou para ser apagada. 5 Portanto não temos nada que melhorá-la. Se o homem está mal é porque um outro nele quer ganhar expressão. Suely Rolnik tem um texto que diz que é a diferença que deita no divã. Pois, se o mal estar é gerado pela necessidade de outrar, sair dele é deixar morrer o mesmo, a identidade. Seria dizer um não ao aprisionamento nessa forma construída e, reconhecer-se lançado no devir. É o Amor Fati do Nietzsche - o amor ao devir. Seria este o homem espontâneo de Moreno? Aquele que as situações novas são a oportunidade de se produzir como uma nova resposta? Aquele que através de seus psicosocio-sociopsico-dramas briga para que suas forças hegemônicas sejam favoráveis à vida e não à repetição? Aquele que sendo um egoauxiliar faz a revolução do cotidiano pelo seu modo de trazer à visibilidade o que nos pertence e ainda não apropriado como coletivo? 6 O que a espontaneidade me pede é exercer em mim a possibilidade de outrar, verbo criado por Fernando Pessoa. O outro outra. O outro faz com que o mesmo se torne outro. É a multiplicidade se mostrando em mim. Sou grupo, isto é, um dentro somente como uma dobra do fora. Fluxos que me transpassam deixando marcas, fluxos que se agenciam formando campos de forças, forças que conflitam, campos que ganham hegemonia momentânea e que geram em mim um novo personagem, um novo papel que se relaciona, que opta, que intervém, que produz diferença. E assim sempre, a própria natureza em movimento que busca e afirma a Vida e se rebela contra a morte gerada pela doença. 7 Moreno, revisitado por nós através desses autores, alcança a contemporaneidade. O psicodrama e o sociodrama deixam o locus do “como se”, lugar necessário para a época da marginalidade e alcança o real, criando intercessores no acompanhamento da construção de novas subjetividades e, na expressão das singularidades. 8 Assim a função de Diretor é eliminada e a função de Ego-Auxiliar ganha nova vida na diversidade de territórios existenciais, vivendo e gerando multiplicidade. 9 O Projeto Socionômico volta ao jardim - o locus da espontaneidade, que é a relação do ego-auxiliar com o homem diferente que quer ganhar expressão se transvalorizando. 10


O trabalho sociométrico então acontece na atenção por onde os fluxos se encaminham, onde estão sendo formados novos agenciamentos e quais campos de forças estão presentes formando novos territórios. O próprio conceito de átomo social como a menor parcela social já se refere à multiplicidade do um. É através de seus múltiplos que o um agencia diferenças. É a sociometria articulada fazendo-se micro política. É mapeamento do mundo ali presente. Através da Tele, entendida como captação do devir no instante vivido, se diagnostica qual projeto está sendo construído na dinâmica e nos agenciamentos realizados intra grupo. O sentido dado é desvelado pelo protagonista e antagonistas, não no registro das representações, das codificações, mas sim no registro das marcas das intensidades. 11 Nessa Sociodinâmica os personagens-papéis que surgem são resultantes das articulações internas e externas e o jogo está em cena. O mais comum é o jogo do esconderijo que pede para entrar em cena ou um perseguidor ou um salvador. Resta saber se o ego-auxiliar vai ser capturado. Não sendo, é então o momento do duplo ou do espelho daquela realidade. É a vivência da utopia entendida como denúncia e anúncio. 12 Quando se pode ver-se a si mesmo, um palco se faz a seus pés e se recupera o riso! É Moreno dizendo do alívio de se perceber múltiplo. Compreendi que é este o momento em que uma luz se faz e se percebe o aprisionamento. O aprisionamento de um modo de ser, de um modo de jogar aquele jogo, o aprisionamento a um só personagem. Não estou reduzida àquela totalidade. Outras forças nos habitam. Da impossibilidade ressurjo como possível. É o momento do solilóquio - vivência coletiva de um modo singular. 13 Psicodrama ou Sociodrama ? A mesma coisa. É a Sociatria em movimento. É a singularidade recriando o coletivo. É o desfazimento da forma homem até então vigente. Conflito. Drama. O coletivo em mim insistindo na repetição. O mal estar se instala. Um outro em mim quer ganhar expressão. É o momento da interpolação de resistência à percepção do devir. É a volta do Ego-Auxiliar como locus da diferença, criando uma rede de sustentação para as rupturas e outramentos. Uma sociedade afetiva que se constroe - átomos sociais de acolhimento, em mim e comigo. É a desconstrução da Matriz de Identidade rumo à Heterogeneidade. 14 Revoluções silenciosas que derrubam mitos. O mito da humanidade como separada da natureza colocando-a à sua disposição. Lei do Engano. Penso que estamos vivendo a quarta ferida narcísica da humanidade - nenhum privilégio em relação ao restante de nosso coletivo: terras, mares, rios, fauna e flora, somente condensações diferentes da energia cósmica. Fluxos constantes num ecosistema que busca sua ordenação no caos - caosmose, diria Guattari. Afirmação da Vida e Amor pelo Devir talvez dessem maior condição de sustentabilidade ao Planeta Terra favorecendo a duração da Vida no Ecosistema. Será a Sociatria uma terapia ecológica? Por que, não?


Nota: Estas reflexões foram muito enriquecidas pelo acompanhamento que fiz da trajetória dos estudos e publicações de Alfredo Naffah Neto, das aulas e conversações com Suely Rolnik e pelos Seminários realizados por Peter Pál Pelbart na Role Playing - Escola de Sociopsicodrama - em 94 e 95; além de minhas próprias leituras de Moreno, Kurt Lewin e dos meus filósofos escolhidos Heraclito, Spinosa, Nietzsche, Foucault, Deleuze e Guattari. Antropófoga:

Marisa Nogueira Greeb –


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