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Capítulo 1 Mia P.: Você alguma vez já teve um caso de uma noite?

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o dia mais importante da minha vida, acordo pensando: Ah, merda, cadê minha calcinha? Penso nisso porque, por acaso, acordo na cama de um estranho, com a coxa nua sendo atravessada por um raio da luz verde-amarelada de Los Angeles, e não há nem o menor dos menores sinais de calcinha, sutiã ou qualquer outra peça de roupa. Isso é tão pouco a minha cara! Mas, enfim, aqui estou, enrolada em lençóis mornos que definitivamente não são meus. Vagos fragmentos da noite anterior abrem caminho pelo meu cérebro amortecido pela ressaca. Lembro-me de estar no Duke’s, depois da entrevista que tive com Adam Blackwood, louca de ansiedade e com a sensação de que finalmente eu iria deslanchar. Conseguiria terminar meu filme sobre Nana, exibi-lo e dizer sayonara para a faculdade. E esse estágio em uma das maiores empresas de mídia do país se transformaria numa carreira de verdade no cinema, com a qual eu poderia encontrar 7

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a mim mesma e achar o meu estilo, deixando de seguir apenas os estilos que imitei feito um papagaio nos anos que passei na faculdade. E quase me lembro do cara também. Ombros largos, simpático e a sensação de tesão e possibilidade. Mas só. Nada de rosto. Nem de nome. Nem a menor ideia de como isso — esse pequeno milagre de rolar sexo na minha vida real — acabou acontecendo. Infelizmente, talvez esse mistério tenha que continuar sem solução. Preciso ir embora. Eu me levanto com dificuldade e puxo com todo o cuidado as mechas do meu cabelo cacheado de debaixo do ombro — belamente definido e bronzeado — do meu novo amigo. Minha cabeça mais parece um liquidificador preparando um frapê, e o gosto que sinto faz parecer que um bicho qualquer se enfiou na minha boca e morreu lá dentro. Pouso os pés descalços no chão frio de concreto e me levanto, me esforçando para afastar o enjoo que ameaça tomar conta do meu corpo. Valeu mesmo, tequila Patrón Silver. Dou a volta de fininho na cama para ver se, dessa vez, tenho mais sorte e encontro minha calcinha — ou qualquer peça de roupa, na verdade — naquele lado do mundo. E, vou confessar, também estou morrendo de vontade de dar uma espiada no cara. Minha curiosidade é definitivamente recompensada. Embora o rosto dele esteja esmagado no travesseiro e o cabelo curto cor de caramelo tenha colado na sua cabeça por causa do suor, ele é supergato. Tem um maxilar forte, bem desenhado e com uma covinha discreta, lábios grossos e o tipo de cílios escuros e compridos que as garotas se matam para conseguir passando camadas e mais camadas de rímel. Com o corpo esticado coberto por apenas uma beiradinha do lençol — minha culpa, por ter puxado quase tudo para mim —, seus pés oscilam para fora da cama. O que significa que ele é alto. E, mesmo dormindo, seu rosto tem uma intensidade interessante, com a testa franzida, como se sonhasse que está salvando o mundo. Tenho certeza de que ele deve ter uma personalidade brilhante, ou eu jamais teria acordado em sua cama. 8

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Não encontro nenhuma embalagem de camisinha, o que me faz perguntar o que, exatamente, rolou na noite anterior. Com certeza não é a minha cara ser descuidada. Será que nada aconteceu? Mas estou sem calcinha! Enquanto tento desvendar esse enigma, meu olhar se fixa no relógio da mesinha de cabeceira. Os números 8:02 perfuram meu torpor e a adrenalina inunda cada molécula do meu corpo. Meu estágio na Boomerang — resultado de eu ter me tornado mais do que a filha de uma fotógrafa famosa, de ter começado minha vida verdadeira e guardado para a posteridade a vida da pessoa mais querida do mundo — vai começar daqui a exatamente cinquenta e oito minutos. E não faço a menor ideia de onde estou nem de onde foi parar minha maldita calcinha. — Merda, merda, merda. Passo as mãos pelo cabelo, faço um rápido registro daquele quarto e concluo que minhas roupas devem estar em algum outro lugar. Isso vai ser divertido. Ao andar apressada por um corredor estreito, vejo de relance fotos esportivas e pôsteres motivacionais com águias voando e pores do sol em montanhas. Um desses cartazes diz: “A vida começa onde acaba sua zona de conforto.” Quer dizer então que minha vida, com certeza absoluta, está apenas começando. Neste. Exato. Momento. Estou numa sala com um típico sofá de homem solteiro, cheio de calombos, uma mesa de centro suja e uma televisão de tela plana gigantesca, na qual bate a luz do sol que tenta entrar por duas janelas que foram tapadas com cobertores. O lugar também tem o típico fedor que encontramos em quase toda sala de homem solteiro: uma mistura de bebida alcoólica e suor que tem como toque final um cheiro de gambá morto. Há livros e revistas espalhados em quase todas as superfícies, além de uma tonelada de controles remotos que sugerem a existência de algum esconderijo subterrâneo, um laptop que parece velho o bastante para ter sido de Fred Flintstone e várias peças de roupa — um moletom, shorts de ginástica e... bingo!, meu vestido da noite anterior. 9

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Eu o pego do chão e o analiso. Está tão amassado que parece ter sido atropelado por um caminhão de lixo; em alguns pontos há partes duras e, no topo, está com uma mancha em forma de V. Por que não escolhi alguma coisa menos provocante para a reunião com Adam Blackwood?, penso, enquanto tento alisar aqueles vincos. Mas não: usei este vestido, e hoje Adam vai vê-lo de novo. Só que, dessa vez, vai parecer que o roubei de uma moradora de rua. Ouço molas rangendo, então o som de uma porta se abrindo e se fechando, seguido pelo ruído de água de um chuveiro. Então o cara acordou. Que ótimo. Talvez ele possa me dar uma mãozinha na Missão Impossível: Etapa Calcinha. Isso não vai ser nem um pouco estranho, não é mesmo? Depois de procurar pela sala inteira, inspecionando roupas, caixas de pizza, estojos de videogames e diversos equipamentos esportivos, consigo encontrar meus sapatos, minha bolsa e — sobre a bancada da cozinha americana — meu sutiã. Mas nada da calcinha. Será que ela simplesmente desapareceu? Acabou se dissolvendo no meu corpo? Nesse caso, o cara é demais mesmo. Evan? Não, não é esse o nome dele. Mais um motivo para eu querer me lembrar, nem que seja de poucos minutinhos, da noite anterior. O relógio do micro-ondas exibe 8:09. Junto meus sapatos, meu sutiã e vestido e volto correndo até o quarto. Jogo tudo na cama, bato na porta do banheiro e logo vou abrindo. As delicadezas já foram mesmo atiradas pela janela em algum momento entre minha reunião com Adam Blackwood e o instante em que minhas roupas se espalharam por esse apartamento como camisetas num jogo do Lakers. — Hã, ei... — Como é mesmo o nome desse cara, pelamordedeus? — ...você — digo, do jeito mais tosco do mundo. — Hã... sem querer ser esquisita nem fazer pressão, mas tô superapressada. É meu primeiro dia num emprego novo. Tudo bem se eu entrar e... Ele afasta a cortina do boxe e enfia a cabeça para fora, me proporcionando um vislumbre de torso definido nesse processo. Acrescente a isso os olhos azuis expressivos e a água se acumulando nas cavidades de suas clavículas e, bom, é demais para absorver logo de manhã cedo. 10

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Obviamente ele também tem a mesma impressão que eu, porque seus olhos percorrem depressa o meu corpo de cima a baixo e então ele balbucia alguma coisa. — O quê? — pergunto, levando a mão à boca. — Tem alguma coisa nos meus dentes? Ele ri. — Você está completamente pelada. Sorrio. — Desculpe, é mesmo. Tem problema? Entre posar para minha mãe, fazer oito apresentações por semana pelada numa montagem de verão de Hair e ser a dublê que abaixa as calças nos filmes dos meus colegas do curso de cinema, tenho a impressão de que passo metade do tempo nua. Será que vou também passar metade do tempo envergonhada e pedindo desculpas por isso? Não, de jeito nenhum. Seu olhar percorre meu corpo e seus lábios se abrem num sorriso, embora ele faça um belo esforço para me olhar nos olhos ao dizer: — Claro. Tudo ótimo. Faça o que precisar. — Legal. —Viro as costas e deixo o cara tomar seu banho. Limpo o vapor condensado no espelho e dou uma olhada em mim, principalmente no cabelo, que sempre é um caso à parte. Ele está cheio de frizz que apontam para múltiplas direções, mas com certeza já esteve pior. Ou seja, percebo, com uma pontada de arrependimento, que obviamente a gente não transou. Sexo — sexo bom, pelo menos — sempre deixa meu cabelo bagunçado. Uma zona estilo cogumelo nuclear, é o que quero dizer. Mas, no momento, ele parece em um estado intermediário, o que indica que caprichamos na pegação, mas nada além disso. Pelo visto, a maldição da seca continua. Encontro uma escova, penteio o cabelo e depois coloco um pouco de pasta de dentes no dedo a fim de escová-los. Então gargarejo mais ou menos um litro de enxaguante bucal e tomo alguns goles de água da torneira. — Eu sei que é uma pergunta idiota, mas por acaso você faz ideia de onde a minha calcinha foi parar? 11

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Ele fecha o chuveiro e estica o braço para pegar a toalha, que entrego para ele pela lateral da cortina. Ele afasta o tecido listrado e a toalha enrolada em sua cintura acentua seu abdome impressionantemente definido. — Não tenho certeza — responde, com um sorriso. — Deixe só eu me vestir e já te ajudo a encontrar. Depois de tomar uma chuveirada rápida, volto ao quarto dele e visto o sutiã e o vestido, que me parece estranhamente assimétrico sem a calcinha. — Onde você trabalha? — pergunta ele, enquanto abotoa uma camisa branca bem passada. Por um instante, o visualizo vestido num terno na noite anterior e me lembro de enfiar os braços por dentro do paletó para sentir suas costas fortes. Ele parece estar acostumado a usar roupas boas, provavelmente devido à sua profissão. Por outro lado, tem uma grande quantidade de equipamentos esportivos. Talvez seja treinador de basquete. Esses caras usam terno, não usam? — Para onde mesmo você precisa ir? — pergunta ele de novo, e percebo que estou viajando. Corando, respondo: — Century City, mas vou chegar tão atrasada... Ele continua abotoando a camisa. — Eu também — murmura, mais para si mesmo do que para mim. — Mas daqui até lá leva só vinte minutos, se o trânsito estiver bom. Você vai conseguir chegar a tempo. Isso significa que preciso sair agora mesmo. Ele me ajuda a vasculhar o apartamento, revirando os estofados, checando atrás das cortinas. — Tem certeza de que estava de calcinha quando veio pra cá? — Você acha que vim pra cá sem calcinha? Será que vim sem calcinha? Ele puxa o cordão do ventilador de teto que fica acima de uma mesinha da cozinha, sorrindo, enquanto adia a resposta. 12

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— Parece possível. Eu também não me lembro direito dos detalhes, mas pelo visto a gente se divertiu pra caramba. Talvez não tanto quanto você pensa, sinto vontade de dizer, mas por que tocar nesse assunto? Encontro um elástico no balcão da cozinha e prendo meu cabelo num coque baixo. Dou mais uma olhada no meu vestido e me dou conta de que não vai dar mesmo para aparecer no trabalho desse jeito. — Ei, será que você poderia me emprestar uma camisa? — pergunto. — Que eu possa usar como um vestido-camisa. Eu... hã, depois devolvo. — Torço para que isso não me faça parecer uma dessas garotas esquisitas que ficam no pé dos caras, mas minha necessidade de não passar a impressão de que arranjei minhas roupas no chão de uma taverna é maior do que minha preocupação com primeiras (ou segundas) impressões. — Sim, claro — diz ele, e segue para o quarto. Volta com uma camisa azul abotoada e a entrega para mim. — Talvez fique um pouco grande. — Tenho certeza de que vai ficar — respondo, mas visto a camisa e resolvo o maior dos problemas com um cinto, que aperto ao redor da cintura. Agora só estou parecendo uma esquisita amarrotada. Mas, se meu novo chefe anda com frequência com gente do cinema, não vou ser a única esquisitona na vida dele. O cara pega uma cueca boxer xadrez preta e branca que está jogada sobre uma cadeira da cozinha. — Eu estava usando isso ontem à noite, então estamos chegando perto. Minha ansiedade aumenta cada vez mais à medida que ele vai encontrando as próprias peças de roupa. — Desculpe, Mia — diz ele, depois de abrir cada armário e olhar em todos os cantos do apartamento modesto. Sinto uma leve onda de prazer com o fato de ele saber o meu nome, que rapidamente é suplantada pelo constrangimento de ser a idiota que não se lembra do dele. 13

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Na cozinha, ele se serve de um copo de suco da geladeira e desliza um para mim pela bancada. — Não tenho a menor ideia de onde possa estar. Onde foi parar essa maldita calcinha? Será que é melhor chegar atrasada no meu primeiro dia de trabalho ou chocar todos os novos colegas com a minha indecência? Decisões, decisões. Pego o celular da bolsa — 8:29 — e suspiro. — Tudo bem — decido. — Acho que vou sem calcinha. — Sair sem calcinha. — Ele dá um sorriso. — Aí está uma coisa que gosto numa garota. — Não seja por isso, obrigada. Fique com ela de lembrança, caso a encontre. — Pode deixar. A menos que seja uma daquelas calcinhas enormes de vovó. Mas, enfim, se fosse uma dessas, teria sido mais fácil de achar. — É claro que não é uma calcinha enorme! É uma... Ele ri, de costas para mim. — Uma calcinha rosa-shocking? Com borboletas brancas? — Isso mesmo! Como é que você... Ele dá um passo para o lado e abre o seu forno elétrico Breville. Lá, jogada de qualquer jeito sobre a grelha, está minha calcinha.

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Noelle August - Bomerang  

Primeiro capítulo

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