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Esta talvez seja a última que te escrevo por um longo tempo, pois, ainda que longa espera tenha me atormentado e por pouco não removeu de meu espírito toda a esperança. Ah! Deixarei de formalidades contigo, velho amigo, pois que o tempo que nos une certamente me permite tal atitude. Falo espírito, como bem sabes, somente por força do hábito, já que este está adormecido há muito. Não seria válido se fosse rápido ou fácil rasgar as correntes de carne que nos prendem à Velha Matéria. Ainda assim, sendo esta a única jornada que realmente compete ao ser humano, foi nela que me atrevi a empenhar meus esforços. Espero que ainda sonhes com aquilo que sonhávamos quando crianças. Ainda que nossas correspondências tenham tratado ultimamente de uma vida corriqueira, de trabalho e de família, ao menos eu ainda alimento minhas esperanças e sonho com aquele Mundo Melhor, sobre o qual passávamos horas planejando. E, citada a esperança, peço perdão pela delonga, pois bem sabes que minha mente é terreno fértil para as fantasias, e se não me cuido vou completamente oposto à direção pretendida. Bem, quis o destino que eu


nascesse sob este signo sonhador. Ah! Volto-me ao assunto antes que novamente deixe-o longe: como dizia ao iniciar, esta pode ser a última vez que te escrevo em alguns anos, visto que aquela visita que fizemos à, como chamamos na época, Igreja das Pedras, teve um resultado que não poderíamos imaginar. Contá-lo-ei: Anos depois que por lá passamos, numa viagem pela mesma região, acabei sentindo-me tentado a voltar e rever o local. Eis que, quando chegava perto, fui interceptado por um jovem que parecia querer impedir-me de prosseguir. Após muito esforço para desvencilhar-me dele, cheguei à velha gruta e lá estava, da mesma forma, aquilo que chamamos de Igreja. No entanto, havia pessoas lá. O jovem que me havia tentado parar chegava correndo e avisou àquelas pessoas da minha presença. Fui interpelado pelo motivo da minha visita, e como, apesar do meu interlocutor mostrar-se amigável, o entorno parecia esperar apenas um sinal para dar cabo de mim, contei-lhes sobre nossa incursão e de como encontramos a Igreja. O homem riu-se quando chamei as instalações na gruta por este nome. Não obstante, pareceu achar-me inocente e imagino que julgou — corretamente — que eu não lhes denunciaria e assim me permitiu ir embora.


Sinto eu mesmo o medo das chamas. Nunca poderia denunciá-los, e, no entanto, aqui lhe confesso tudo, por saber que és meu amigo e acreditar que partilhas do meu entusiasmo. Bem, deixou-me ir, mas eu não o quis. Desejava ao menos ver a Igreja, e ele foi mui gentil em aceder à minha vontade. Olhei-a e logo fui embora. Mas, obviamente, isto não é tudo. Duas semanas atrás recebi uma carta, de alguém cujo nome não devo mencionar, oferecendo-me abrigo e instrução nessa sociedade. Por medidas de precaução, o grupo está se movendo para um novo local, que também não posso revelar. Assenti imediatamente, e preparo agora mesmo minhas poucas coisas para mudar-me, não sei por quanto tempo, para esta nova morada. É o Destino que me chama, disso tenho certeza. Espero que, com o tempo, possas também encontrar-me, e dar sequência à tua busca também. Despeço-me com os mais sinceros votos, Sempre seu,


Magno-1