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Roteiro de uma fala na Comsefe

Davi Emerich

Concurso – Considero um erro acreditar que o caminho do concurso garante uma certa superioridade ao servidor público – no caso específico, ao jornalista da SECS. Esse entendimento, obviamente minoritário, perpassa vez por outra intervenções de companheiros quando se coloca em discussão a relação jornalista de mercado e jornalista do serviço público, na verdade uma falsa dicotomia. Por definição, concurso seleciona pessoas inteligentes e com um padrão geral de informação acima da média. Entretanto, não necessariamente seleciona profissionais competentes, com equilíbrio emocional que garanta o bom convívio coletivo e, principalmente, garra, gana, espírito profissional. Novas Tecnologias – Elas vêm para ficar e são fundamentais ao exercício das profissões. É impensável exercer jornalismo sem computador, gravador, celular, laptops, difusão da informação primária em tempo real e outros recursos que já estão disponíveis ou adentrando o nosso dia-a-dia. Se isso é verdade, também devemos considerar que elas ensejam alguns perigos para o jornalismo: burocratismo, afastamento das fontes, frieza nas abordagens e nas matérias, relatorialismo. Ou seja, conquistas que sob certas circunstâncias podem agredir o bom jornalismo. Jornalismo e serviço público – A rigor não há nenhuma contradição entre jornalismo e serviço público, entre a condição de jornalista e a de servidor. Só que os jornalistas da SECS fizeram concurso para uma profissão específica, com valores, utopias e técnicas próprias. Nesse sentido, o ser jornalista não é a mesma de o ser servidor, esta última atividade algo mais geral, embora também regida por valores, normas e ética próprios. Portanto, temos um horizonte profissional duplo, mesmo não havendo antagonismo nisso. Jornalismo e barnabismo – A seleção não tão eficaz do concurso público e o advento de novas tecnologias, somados a uma inércia comum ao serviço público (não que esta inércia seja obrigatória, porque o serviço público pode ser também dinâmico e criativo; e o é em várias instâncias e atividades), podem levar perigo ao jornalismo quanto a alguns aspectos: o espírito, a gana pela notícia, o prazer de informar. Nesse sentido, para não


permitir que se instale em nosso meio uma espécie de barnabismo torna-se necessária a boa tensão, que martele constantemente em nossas cabeças a certeza de que temos uma atividade profissional clara pela frente, que deve ser bem exercida. Não podemos perder novatos com grande potencial profissional para a inércia; nem tampouco jornalistas experimentados, esses pelo desânimo e desesperança. Na boa linha – E como fazer isso? Não existe um só caminho. Reforçar a SECS, buscar espaços de independência cada vez maiores, reunir-se, polemizar, democratizar relações, girar a roda da SECS e cargos de comando, praticar intercâmbios internos, sugerir, ter consciência clara do papel do Senado como instância republicana e democrática. Por dentro da corporação e da SECS as mudanças não se completam plenamente. É necessário também consciência externa para movimentar a esquadra. A Comsefe, se distanciada de questões paroquiais e de viés sindical (não que hoje tenha esse viés ou que seja paroquial), pode cumprir bem com esse papel. Fundamentada em bons conceitos, pode sugerir, criticar, formular, negociar, pressionar, colaborar. Jornalismo de esfera pública – Falta um conceito melhor, mas podemos já falar da existência de um jornalismo do serviço público, que emerge nos anos 80 e se fortalece a cada dia que passa. Um jornalismo que não necessariamente está atrelado ao Estado, às fontes, que não é de chapa branca. Um jornalismo que busca a estratégia da objetividade e da verdade (uma utopia, o caminho do arco-íris) e que, em linhas gerais, abre-se mais ao contraditório do que o jornalismo da iniciativa privada. Contraditório manifestado de forma diferente, pela força plural do voto e das manifestações independentes de cada parlamentar. Portanto, diferente do contraditório reducionista do mercado, de ouvir o outro lado só depois do tiro de canhão ou então dizer que o personagem não foi encontrado. Esse jornalismo, da esfera pública, é diferente do que poderíamos chamar jornalismo de Estado, muito representado pelos assessores de imprensa, cuja função principal é vender a verdade do assessorado. Fato e notícia – Como todos sabem, fato não é notícia. Fazer jornalismo (o resultado dele é dado pela edição, pelo que é impresso e pelo que vai ao ar) é separar fatos, publicar alguns como notícia e jogar o resto no lixo. Das centenas de fatos produzidos diariamente pelo Congresso, a quase totalidade vai para o lixo na mídia privada. Em nossa mídia ocorre exatamente o contrário: a grande maioria desses fatos é disponibilizada em forma de notícia ao público externo, daí a nossa importância, pois levamos um Poder estratégico à sociedade.


Democracia e estabilidade. O nosso jornalismo contribuiu para reforçar uma outra dimensão, a da estabilidade democrática. Com a mídia pública, e cada vez mais depurada dos movimentos que buscam a sua privatização (por certos políticos e detentores de poder), acabou a era de um canal de TV ou um grande jornal regional gerar crise e derrubar regime. O tempo dos Carlos Lacerdas virou página de história, não dá mais para alguém/e ou grupo/e ou família manipular um país, mesmo que denúncias e coberturas distorcidas possam gerar impactos fortes (e até negativos) ao processo institucional. Se não a todo o povo, os líderes de opinião, dos mais altos aos mais colados ao chão, têm acesso direto às informações dos legislativos, do Judiciário, do Executivo. O reino absoluto do privado ruiu. O jornalismo que praticamos não veio para concorrer ou criar problemas para a mídia privada, pois no fundo a interdependência se impõe. Veio para falar sem as amarras do privado, sem estar condicionado pela publicidade; emergiu para externar outras visões, posturas e realidades. Força a mídia privada a ampliar a sua dimensão pública, é verdade, ela existe. Mar de rosas e/ou de espinhos – Claro, avançou-se mas ainda há muito para caminhar. Em nosso jornalismo ainda há amarras (e incompreensões, da nossa parte e de quem pensa que é dono dele - alguns parlamentares). Teremos conflitos pela frente, em alguns momentos o céu vai turvar-se, porém o horizonte não poderá ser suprimido do firmamento. Se cultivarmos o espírito jornalístico, um espírito que anda, como o Fantasma, avançaremos, saltaremos obstáculos. Quanto à SECS e o futuro do jornalismo no Senado, verdade ninguém tem. Há idéias, sugestões, formulações ainda não muito claras, mas isso já basta. Não podemos é ceder ao comodismo. Vamos fundir secretarias? Como incorporar novas tecnologias? Devemos aceitar o definhamento histórico do impresso e apostar nos meios tecnológicos e eletrônicos? É o caso mesmo de ampliarse fisicamente para todo o país? Podemos incorporar ao nosso noticiário outros atores (TCU, IBGE, deputados, ministros, populares, ONGs etc)? Devemos ter colunas, comentaristas críticos, colunas de notas ? Será que é acertado a Agência continuar a fazer cobertura universal do Plenário, bem como TV e Rádio continuarem transmitindo a totalidade das sessões plenárias? Que tal termos “correspondentes” na Câmara, Justiça e Planalto? Como vamos nos articular com o Parlasul? Ou seja, muitas questões e poucas respostas. Identidade – Não temos nada a dever, em competência e em jornalismo, ao que é praticado pela iniciativa privada. Crise de identidade, nesse contexto, é vã. Identidade ainda incompleta, talvez, mas já a temos. Não podemos é perdê-la, ou perder o rumo.

Ideias do Davi Emerich para o debate  

Roteiro utilizado para discussao no primeiro Ciclo de Debates Comsefe.