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Ezequiel introdução e comentário B. Taylor

SÉRIE CULTURA BÍBLICA


DIGITALIZAÇÃO: EMANUENCE DIGITAL

EDIÇÃO: ADRIANO LOPES


EZEQUIEL John B. Taylor


EZEQUIEL

Introdução e Comentário por John B. Taylor, M.A. Arquidiácono de West Ham, Essex

SOQIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA e ASSOCIAÇÃO RELIGIOSA EDITORA MUNDO CRISTÃO Rua Antonio Carlos Tacconi, 75 e 79 —Cid. Dutra —04810 São Paulo-SP


Título do Original em inglês: Ezekiel, An Introduction and Commentary Copyright © 1969, por John B. Taylor Publicado pela primeira vez pela Inter-Varsity Press, Inglaterra

Tradução: Gordon Chown Revisão: Júlio Paulo T. Zabatiero Primeira Edição: 1984 —5.000 exemplares

Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos re­ servados pela SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA e ASSOCIAÇÃO RELIGIOSA EDITORA MUNDO CRISTÃO Rua Antonio Carlos Tacconi, 75 e 79 —Cid. Dutra —04810 São Paulo-SP


PREFÁCIO GERAL O alvo desta série de comentários é equipar o estudante da Bíblia com um comentário conveniente e atualizado sobre cada Livro, ressaltando-se em primeiro lugar a exegese. As questões criticas de maior importân­ cia se discutem nas introduções e notas adicionais, mas detalhes técnicos desnecessários foram evitados. Nesta série, os autores individuais são, naturalmente, livres para fa­ zer suas próprias contribuições distintivas, e para expressar seu próprio ponto de vista sobre todas as questões controvertidas. Dentro dos limites necessários do espaço, freqüentemente chamam a atençío a interpretações que eles pessoalmente nffo sustentam, mas que representam as conclusões declaradas de colegas crentes sinceros. Ao fazer tudo isto, o autor deste comentário demonstrou que é possível fazer um livro da Bíblia —em mui­ tos casos pouco lido e estudado, com exceção dalgumas poucas passagens bem-conhecidas — destacar-se de modo novo no seu contexto histórico e profético, sem deixar de ter significado, relevância e aplicação para o leitor sério em nossos dias. No Antigo Testamento, especialmente, nenhuma tradução é sufi­ ciente, por si mesma, para refletir o texto original. Os autores destes co­ mentários, portanto, citam livremente várias versões, ou oferecem sua própria tradução, na tentativa de tomar significantes em nossos dias as passagens ou palavras mais difíceis. Quando há necessidade, palavras do Texto Massorético hebraico (e aramaico) que subjazem estes estudos são transliteradas. Desta maneira, o leitor que talvez nío tenha familia­ ridade com as línguas semíticas, será ajudado a identificar a palavra sob discussão, podendo, assim, acompanhar o argumento. A cada passo nes­ tes comentários, pressupõe-se que o leitor tenha à mão uma boa versão da Bíblia em português, ou até mais. Há sinais de um interesse renovado no significado e na mensagem do Antigo Testamento, e espera-se que esta série venha a promover o es­ tudo sistemático da revelação de Deus, da Sua vontade e dos Seus cami­ nhos conforme se vêem nestes registros. É a oração do editor e da edito­ ra, como também dos autores, que estes volumes ajudem muitas pessoas a compreenderem a Palavra de Deus e a corresponderem a ela hoje. D. J. Wiseman


ÚMDICE PREFÁCIO GERAL..............................................................................

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PREFÁCIO DA EDIÇÃO EM PORTUGUÊS.......................................

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PREFÁCIO DO AUTOR.......................................................................

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ABREVIATURAS PRINCIPAIS........................................................... 10 INTRODUÇÃO..................................................................................... ..13 O Livro de Ezequiel ; .................................................................. ..13 Ezequiel, o Homem.........................................................................20 Fundo Histórico..............................................................................28 A Mensagem de Ezequiel............................................................. ..38 O T exto........................................................................................ 44 ANÁLISE................................................................................................47 COMENTÁRIO........................................................................................ 50


PREFÁCIO DA EDIÇÃO EM PORTUGUÊS Todo estudioso da Bíblia sente a falta de bons e profundos comentá­ rios em português. A quase totalidade das obras que existem entre nós pe­ ca pela superficialidade, tentando tratar o texto bíblico em poucas linhas. A Série Cultura Bíblica vem remediar esta lamentável situação sem que peque, de outro lado, por usar de linguagem técnica e de demasiada aten­ ção a detalhes. Os Comentários que fazem parte desta coleção Cultura Bíblica são ao mesmo tempo compreensíveis e singelos. De leitura agradável, seu con­ teúdo é de fácil assimilação. As referências a outros comentaristas e as hotas de rodapé sáb reduzidas ao mínimo. Mas nem por isso são superfi­ ciais. Reúnem o melhor da perícia evangélica (ortodoxa) atual. O texto é denso de observações esclarecedoras. Trata-se de obra cuja característica principal é a de ser mais exegé­ tica que homilética. Mesmo assim, as observações nío sâó de teor acadê­ mico. E muito menos são debates infindáveis sobre minúcias do texto. Saro de grande utilidade na compreensão exata do texto e proporcionam assim o preparo do caminho para a pregação. Cada Comentário consta de duas partes: uma introdução que situa o livro bíblico no espaço e no tem­ po e um estudo profundo do texto a partir dos grandes temas do próprio livro. A primeira trata as questões críticas quanto ao livro e ao texto. Exa­ mina-se as questões de destinatários, data e lugar de composição, autoria, bem como ocasião e propósito. A segunda analisa o texto do livro seção por seção. Atenção especial é dada às palavras-chave e a partir delas pro­ cura compreender e interpretar o próprio texto. Há bastante “carne” pa­ ra mastigar nestes comentários. Esta série sobre o V.T. deverá constar de 24 livros de perto de 200 páginas cada. Os editores, Edições Vida Nova e Mundo Cristão, têm programado a publicação de, pelo menos, dois livros por ano. Com pre­ ços moderados para cada exemplar, o leitor, ao completar a coleção, terá um excelente e profundo comentário sobre todo o V.T. Pretende­ mos, assim, ajudar os leitores de língua portuguesa a compreender o que o texto vétero-testamentário de fato diz e o que significa. Se conseguirmos alcançar este propósito seremos gratos a Deus e ficaremos contentes porque este trabalho nfo terá sido em vâò. Richard J. Sturz


PREFÁCIO DO AUTOR Os comentários podem ser divididos em duas classes. Alguns têm a intenção de ajudar os leitores da Bíblia a compreender melhor as partes que léem. Os outros tém a intenção de ajudar as mesmas pessoas a atacar as partes que, doutra forma, negligenciariam. O presente comentário tem a intenção de se classificar nesta segunda categoria. Para aqueles que luta­ ram confiantemente com os problemas das visões de Ezequiel, e que po­ dem passar horas felizes deslindando o cumprimento das suas profecias, estas páginas têm pouco para oferecer. Mas aqueles que nffo fizeram mais do que folhear tentativamente seus quarenta e oito capítulos serffo enco­ rajados, espero eu, a aventurar-se mais. Visando o benefício deles, procu­ rei evitar tecnicalidades indevidas e, mesmo quando achei necessário re­ ferir-me ao hebraico original, procurei tomar meus comentários claros e de fácil leitura, de modo que o próprio leigo total nunca se sentirá per­ plexo. Meu sucesso será julgado, portanto, não pelo número de pessoas que lêem este livro, mas, sim, pelo número delas que leiam também Eze­ quiel. Estou muito grato ao Professor D. J. Wiseman pelo seu encoraja­ mento pessoal bem como por várias sugestões e melhorias que fez; ao Rev. Arthur Cundall por ter feito um exame cuidadoso do manuscrito e indicado inexatidões que eu talvez nunca tivesse percebido; e ao Sr. Alan Millard pela sua ajuda no preparo da tabela cronológica na Intro­ dução. Devo, também, meus agradecimentos à Sra. Valerie Everitt e à Sra. Joy Hills por sua ajuda inestimável em datilografar o manuscrito. Acima de tudo, gostaria de expressar minha gratidão à minha esposa e aos meus filhos, que, com boa vontade, fizeram sacrifícios a fim de que este livro pudesse ser escrito, e que me encorajaram mais do que posso dizer. Domingo de Páscoa, 1969 John B. Taylor

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ABREVIATURAS PRINCIPAIS Ac. ANEP ANET ARA ARC ARI AV BA BASOR Bertholet BJRL BZAW Cooke Comill Davidson de Vaux DOTT EB Eissfeldt Ellison ET EW

Acadiano The Ancient Near East in Pictures de J. B. Pritchard, 1954. Ancient Near Eastern Texts relating to the Old Testament2 de J. B. Pritchard, 1955. Almeida Revista e Atualizada Almeida Revista e Corrigida Archaelogy and the Religion o f Israel3 de W. F. Albright, 1953. Versão Inglesa Autorizada da Bíblia (“Rei Tiago”) Biblical Archaelogist Bulletin o f the American Schools o f Oriental Research Hesekiel2 de A. Bertholet (Handbuch zum Alten Testa­ ment), 1936 Bulletin o f the John Rylands Library Beihefte zur Zeitschrift für die alttestamentliche Wissens­ chaft A Critical and Exegetical Commentary on the Book o f Ezekiel de G. A. Cooke (International Critical Commen­ tary), 1936. Das Buch des Propheten Ezechiel de C. Comill, 1886 The Book o f the Prophet Ezekiel de A. B. Davidson (Cam­ bridge Bible for Schools and Colleges), 1892. Ancient Israel: Its Life and Institutions de Roland de Vaux, Tr. ing. 1961. Documents from Old Testament Times editado por D. Winton Thomas, 1958. Encyclopaedia Biblica editada por T. K. Cheyne e J. S. Black, 1899-1903. The Old Testament, an Introduction de Otto Eissfeldt, Trad. ing. 1965. Ezekiel, The Man and his Message, de H. L. Ellison, 1956. Expository Times. Versões em Inglês (empregado quando AV, RV e RSV con10 1


cordam entre si) Ezechiel, de G. Fohrer (Handbuch zum alten Testament), 1955 GK Hebrew Grammar1 de W. Genesius, E. Kautsch e A. E. Cowley, 1910. HDB Hasting’s Dictionary o f the Bible Hengstenberg Commentary on Ezekiel, de E. W. Hengstenberg, Trad. ing. 1869. Hemtrich Ezechielprobleme, de V. Hemtrich, 1932. Hitzig Der Prophet Ezechiel, de F. Hitzig, 1847 Howie Ezekiel, Daniel, de C. G. Howie {Layman’sBible Commen­ taries), 1961. HUCA Hebrew Union College Annual. IB The Interpreter’s Bible, Vol. 6. The Book o f Ezekiel In­ trodução e Exegese de H. G. May; Exposição de E. L. Allen, 1956. IDB The Interpreter’s Dicionary o f the Bible, em quatro volu­ mes, 1962. BJ Biblia de Jerusalém, 1980. JBL Journal o f Biblical Literature. JSS Journal o f Semitic Studies. JTS Journal o f Theological Studies. Keil Biblical Commentary on the Prophecies o f Ezekiel, de C. F. Keil, Trad. ing. sem data (2 vols.). Kliefoth Das Buch Ezechiels, de Th. Kliefoth, 1864-5. Klostermann Studien und Kritiken, de A. Klostermann, 1877. Knox The Holy Bible2 traduzida por Ronald Knox, 1956. Koehler Lexicon in Veteris Testamenti Libros, de L. Koehler e W. Baumgartner, 1953. Kraetzschmar Das Buch Ezechiel, de R. Kraetzschmar (Handkommentar zum Alten Testament), 1900. Lat. A Versão Latina Antiga. LXX A septuaginta (versão grega pré-cristã do Antigo Testamen­ to). May Ver IB. mg. margem. Moffatt A New Translation o f the Bible, de James Moffatt, 1935. MS manuscrito. NDB O Novo Dicionário da Bíblia, editado por J. D. Douglas, Fohrer

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OTMS PEFQ Peake RSV RV Skinner Stalker Sir. TB TM Toy VT ZA W Zimmerli

1962. Edições Vida Nova. The Old Testament and Modem Study, editado por H. H. Rowley, 1951. Palestine Exploration Fund Quarterly Statement. Peake’s Commentary on the Bible, editado por Matthew Black e H. H. Rowley, 1962. Seção sobre Ezequiel de J. Muilenburg. American Revised Standard Version, 1952. English Revised Version, 1885. The Book o f Ezekiel, de John Skinner (The Expositor’s Bible), 1895 (2 vols.). Ezekiel, de D. M. G. Stalker (Torch Bible Commentaries), 1968. Versão Siriaca. Talmude da Babilônia. Texto Massorético. Ezekiel, de C. H. Toy (Polychrome Bible), 1899. Vetus Testamentum. Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenchaft. Ezechiel, de W. Zimmerli (Biblischer Kommentar: Altes Testament), a partir de 1955.

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INTRODUÇÃO I. O LIVRO DE EZEQUIEL Para a maior parte dos leitores da Bíblia, Ezequiel é quase um livro selado. O conhecimento que têm dele vai pouco além da sua visão miste­ riosa do carro-trono de Deus, com suas rodas dentro de rodas, e a visão do vale de ossos secos. Fora disto, o livro dele é tão proibitivo no seu ta­ manho quanto o próprio profeta na complexidade da sua personalidade. Na sua estrutura, porém, senão no seu pensamento e na sua lingua­ gem, o livro de Ezequiel tem uma simplicidade básica, e seu arcabouço bem-organizado faz com que seja de fácil análise. Depois da visão inicial, em que Ezequiel vê a majestade de Deus nas planícies da Babilônia, e rece­ be sua chamada para ser profeta à casa de Israel (1-3), segue-se uma longa série de mensagens, algumas das quais simbolicamente encenadas, mas a maioria em forma oral, prevendo e justificando a intenção de Deus de cas­ tigar a cidade santa de Jerusalém e seus habitantes com destruição e morte (4-24). Depois, à altura da metade do livro, quando a queda de Jerusalém é representada como tendo ocorrido (embora a notícia ainda não tivesse chegado até os exilados), a atenção do leitor é desviada para as nações em derredor de Israel, e o julgamento divino contra elas é pronunciado numa série de oráculos (25-32). Nesta altura, o leitor já está preparado para a surpresa estarrecedora da notícia da destruição de Jerusalém, e 32:21 registra a declaração do fugitivo: “Caiu a cidade!” Já, porém, está raiando uma nova era, e uma nova mensagem está nos lábios de Ezequiel. Com uma comissão renovada e uma promessa de que Deus está para restaurar Seu povo à sua própria terra, sob uma liderança piedosa mediante um tipo de ressurreição nacional (33-37), Ezequiel passa então a descrever, em termos 13


INTRODUÇÃO apocalípticos, o triunfo final do povo de Deus sobre as hordas invasoras provenientes do norte (38, 39). O livro termina, conforme começou, com uma visão intrincada, não, desta vez, do carro-trono do Senhor avançando por sobre os ermos vazios da Babilônia, mas, sim, da nova Jerusalém com o átrio e santuário interior do seu templo, onde Deus habitaria entre Seu povo para sempre (4048). Não é surpreendente, portanto, que a maioria dos comentaristas mais antigos considerasse Ezequiel livre da fragmentação literária impos­ ta, pelos críticos, às profecias de Isaías, Jeremias e a alguns dos doze pro­ fetas menores. A introdução de A. B. Davidson ao seu comentário sobre Ezequiel (1892) começou com um veredito freqüentemente citado: “O livro de Ezequiel é mais simples e mais perspícuo na sua disposição do que qualquer outro dos grandes livros proféticos. Foi, provavelmente, regis­ trado por escrito na parte posterior da vida do profeta, e, diferentemente das profecias de Isaías, que foram pronunciadas esparsamente, foi publica­ do na sua forma completa de uma só vez. Vinte anos mais tarde, G. B. Gray ainda pôde tirar a conclusão de que “nenhum outro livro do Antigo Testamento é distinguido por mar­ cas tio decisivas de unidade de autoria e integridade quanto este.”2 Já na época em que McFadyen escreveu sua Introduction to the Old Testament (edição de 1932), porém, teve de empregar linguagem mais cau­ telosa: “Temos em Ezequiel a rara satisfação de estudar uma profecia cuidadosamente elaborada cuja autenticidade tem sido, até recentemente, praticamente indisputada.”3 A frase “até recentemente” refere-se à obra de estudiosos tais como Kraetzschmar, Hõlscher, C. C. Torrey e James Smith. Antes, porém, de considerarmos os pontos de vista destes, faça­ mos um resumo breve dos argumentos sobre os quais tem sido baseado o conceito tradicional da unidade de Ezequiel. Há seis razões principais para atribuir o livro a um único autor, o profeta Ezequiel. 1. O livro tem uma estrutura equilibrada, conforme já observamos, e este arranjo lógico estende-se do capítulo 1 até o capítulo 48. Não há interrupções na continuidade da profecià, a não ser onde (como no caso dos oráculos contra as nações, 25-32), isto é feito para produzir um efeito deliberado. A única parte que poderia ser facilmente separada do restante, 1. Davidson, pág. ix (grifos meus). 2. G. B. Gray.^4 Criticai Introduction to the Old Testament, (1913), pág. 198. 3. McFadyen, pág. 187.

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EZEQUIEL a visão do novo templo (4048), parece formar um equilíbrio nítido com a visão de abertura dos capítulos 1-3, e é melhor considerá-la uma conclu­ são apropriada para a totalidade, embora seja manifestamente de data algo posterior (cf. 40:1). 2. A mensagem do livro tem uma consistência interna que se encai­ xa com o equilíbrio estrutural. O ponto central é a queda de Jerusalém e a destruição do Templo. Esta é anunciada em 24:21ss. e é relatada em 33:21. Desde o capítulo 1 até 24, a mensagem de Ezequiel é de destrui­ ção e denúncia: é um atalaia colocado para advertir o povo de que esta é a conseqüência inevitável dos pecados da nação. Mas desde o capítulo 33 até 48, embora ainda se considere um atalaia com uma mensagem de re­ tribuição e responsabilidade individuais, seu tom é de encorajamento e de restauração. Antes de 587 a.C., seu tema era que a deportação de 597 a.C., da qual ele mesmo foi uma das vítimas, certamente não era o fim do castigo de Deus aplicado ao Seu povo: coisa pior estava para vir, e os exilados deviam estar prontos para enfrentá-la. Depois de vir esta coisa, e o pior ter acontecido, Deus agiria para reedificar e restaurar Seu povo Israel, uma vez disciplinado. 3. O livro revela notável unidade de estilo e de linguagem. Isto se deve, em grande medida, à fraseologia repeticiosa usada no decorrer do li­ vro. May4 dá uma lista de nada menos que 47 frases tipicamente ezequielianas, que aparecem periodicamente nas suas páginas, e muitas destas são peculiares a este profeta. Isto, naturalmente, nada comprova acerca da autoria propriamente dita, porque um redator poderia facilmente ter colhido frases típicas de Ezequiel, encaixando-as na matéria adicional que incorporava, mas é forte evidência em prol da unidade e da coerência do livro na sua etapa final, e sugere que o redator da obra acabada, se não foi o próprio Ezequiel, identificava-se estreitamente com o ponto de vis­ ta e as crenças de Ezequiel. 4. O livro tem uma clara seqüência cronológica, com datas apare­ cendo em 1:1, 2; 8:1; 20:1; 24: 1; 26:1; 29:1; 30:20; 31:1; 32:1, 17; 33:21; 40: 1. Nenhum outro profeta maior tem esta progressão ló­ gica de datas, e somente Ageu e Zacarias, entre os profetas menores, ofe­ recem um padrão comparável.5 5. Diferentemente de Isaías, Jeremias, Oséias, Amós e Zacarias, to­ 4. IB, págs. 50-51. 5. A cronologia de Ezequiel é estudada mais detalhadamente na seção III da Introdução, abaixo, pág. 36.

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INTRODUÇÃO dos os quais combinam matéria na primeira e na terceira pessoa do singu­ lar, aspecto este que é usualmente considerado um sinal seguro de compi­ lação editorial, Ezequiel é escrito de forma auto-biográfica do começo ao fim. A única exceção é a introdução dupla (1:2, 3), que dá uma impres­ são muito forte de ser a explicação, feita por um redator, do versículo de abertura que certamente precisava dalgum tipo de interpretação para seus leitores (ver o Comentário, pág. 51). Mas esta é a única ocorrência deste tipo. 6. O retrato do caráter e da personalidade de Ezequiel parece con­ sistente por todo o livro; há a mesma sinceridade, a mesma excentricida­ de, o mesmo apego sacerdotal ao simbolismo, a mesma preocupação fas­ tidiosa com detalhes, o mesmo senso da majestade e da transcendência de Deus. A despeito destas evidências, nunca faltou um pequeno número de críticos céticos acerca da unidade de Ezequiel. A declaração de Josefo,6 de que Ezequiel nos deixou dois livros, não deve ser forçada a carregar uma parcela grande demais da culpa disto. Há um século, Ewald distin­ guiu dois elementos em Ezequiel, sendo que o primeiro representava orá­ culos proféticos falados, e o último era a produção literária de um profe­ ta escritor. Não achava, no entanto, que esta divisão exigisse que a unida­ de do livro fosse abandonada. Alguns anos mais tarde, Kraetzschmar ar­ gumentou fortemente contra a unidade literária pelo motivo de ter conse­ guido detectar numerosas inconsistências no texto, repetições e versões paralelas, que o levaram a postular duas recensões do livro, uma na pri­ meira pessoa e uma na terceira pessoa. A fraqueza da conclusão de Rraetzschmar era que as únicas passagens na terceira pessoa eram 1: 3 e 24:24 (onde Javé diz: “Assim vos servirá Ezequiel de sinal”), e não é surpreen­ dente que recebeu pouco apoio para sua teoria. Estudiosos tais como Herrmann,7 que viram a validade das evidências de Kraetzschmar mas que re­ jeitaram sua conclusão, preferiram a estimativa mais conservadora de Eze­ quiel como sendo uma unidade compilada pela própria mão do profeta, mas com acréscimos editoriais posteriores. No mesmo ano em que Herrmann produziu seu comentário sobre 6. Antigüidades, x.5.1: . . Ezequiel também, que foi a primeira pessoa que escreveu, e deixou por escrito dois livros, a respeito destes eventos” (tradução de W. Whiston). 7. Ezechielstudien (Beiträge zur Wissenschaft vom Alten Testament, 1908) e Ezechiel (Kommentar zum Alten Testament, 1924), ambos de J. Herrmann.

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EZEQUIEL Ezequiel, no entanto, Gustav Hölscher publicou um estudo8 que inverteu seus próprios pontos de vista conservadores de dez anos antes,9 e sujeitou o livro de Ezequiel àquilo que Rowley descreveu como sendo “o desmem­ bramento mais dramático que já sofreu.”10 Tomou como ponto de parti­ da a crença de que Ezequiel era um poeta e, portanto, é improvável que ele tivesse escrito muitas das passagens de prosa no livro. Além disto, cortou as passagens poéticas que não seguiam a métrica que ele considerava ca­ racterística de Ezequiel. Saíram, também, as passagens em que havia sim­ bolismo misturado com fatos concretos, porque argumentava que um ver­ dadeiro poeta não faria tal coisa. Ainda mais arbitrário foi seu ponto de vista de que a doutrina da responsabilidade individual devia ser pós-exílica, de modo que estas passagens, também, tiveram de ser relegadas a redatores. O resultado desta análise drástica foi que Ezequiel, o profeta, ficou com apenas 170 versículos de um total de 1.273 contidos no livro que recebeu seu nome. Embora as conclusões de Hölscher fossem revolu­ cionárias, sua metodologia não era original (Duhm tratara o livro de Je­ remias de modo bem semelhante em 190311) e não demorou muito para um estudioso norte-americano, W. A. Irvin, chegar a conclusões semelhan­ tes através de um raciocínio diferente.12 Irwin começou com um estudo detalhado de Ezequiel 15, e deduziu disto que havia uma discrepância en­ tre o oráculo propriamente dito e sua interpretação, que não passava de puro mal-entendimento. A interpretação, portanto, não poderia ser a obra de Ezequiel. Aplicando este princípio ao restante do livro, deixou Eze­ quiel com cerca de 250 versículos genuínos, ou seja: apenas uma quinta parte do livro. Por mais radicais que estas avaliações possam ser, parecem conser­ vadoras em comparação com o -ponto de vista de C. C. Torrey,13 que excluiu totalmente o profeta Ezequiel. Para ele, Ezequiaj. era um per­ sonagem fictício, inventado originalmente c. de 230 a.C., por um autor 8. G. Hölscher, Hesekiel, der Dichter und das Buch (1924). 9. G. Hölscher, Die Profeten (1914), págs. 298ss. 10. O ensaio de H. H. Rowley, “The Book of Ezekiel in Modem Study”, BJRL, XXXVI, 1953-54, págs. 146-150 (agora mais fácil de adquirir no seu livro: Men o f God: Studies in Old Testament History and Prophecy, 1963), do qual esta citação é tirada, é um panorama admirável da literatura extensiva sobre Ezequiel que pode apenas ser ligeiramente mencionada nesta Introdução. 11. B. Duhm, Das Buch Jeremia übersetzt (1903). 12. W. A. Irwin, The Problem o f Ezekiel (1943). 13. C. C. Torrey, Pseudo-Ezekiel and the Original Prophecy (1930).

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INTRODUÇÃO que estava tentando escrever um pseudepígrafo alegadamente escrito por um dos profetas que pregava em Jerusalém durante o reinado de Manassés (c. de 696-642 a.C.; cf. 2 Rs 21:1-17). Seu raciocínio era que 1-24 tratavam primariamente de Jerusalém e que provavelmente tivessem sua origem ali (veremos este problema voltar a ocorrer mais tarde), e que as idolatrias descritas em Jerusalém (8:1-18) nSo poderiam ter ocorrido de­ pois das reformas de Josias que ocorreram em 621 ft.C. A forma atual do livro, com seu contexto babilónico, era a obra de Um redator posterior, anti-samaritano, que o reformulou e que acrescentou os capítulos 4048 como a planta de um novo templo que excederia o esplendor daquele que a seita samaritana construiu no Monte Gerizim. James Smith14 tam­ bém atribuiu o ministério de Ezequiel ao reinado de Manassés, mas consi­ derou-o um personagem histórico cujo ministério foi exercido parcial­ mente na Palestina e parcialmente entre os exilados do reino do norte, o de Israel (cf. as muitas referências de Ezequiel a “toda a casa de Israel”). Pode até mesmo ter sido o sacerdote referido em 2 Reis 17: 28. Como Torrey, Smith postulou um redator posterior que transformou o livro e lhe deu seu contexto babilónico. Hemtrich15 fez uso da obra destes dois homens para dar a Ezequiel um ambiente palestiniano para a totalidade do seu ministério profético. NSo os seguiu em fazer este ministério remontar até ao reino de Manas­ sés, mas concentrou-o nos anos 593-586 a.C. Um discípulo de Ezequiel, posteriormente, revestiu sua obra em roupagens babilónicas e acrescen­ tou os capítulos 1 e 4048, bem como outra matéria editorial. A obra de Hemtrich foi importante e influenciou vários escritores,16 o princi­ pal entre eles sendo o alemão Alfred Bertholet, cujo segundo comentá­ rio sobre Ezequiel17 incorporou a declaração clássica do ponto de vis­ ta de que Ezequiel exerceu um ministério duplo. A partir de 593 a.C., a data da sua chamada, Ezequiel profetizou em Jerusalém até a sua queda; foi, entao, levado para o cativeiro e continuou seu ministério na Babilônia. Fischer18 modificou o ponto de vista de Bertholet no 14. J. S. Smith, The Book o f the Prophet Ezekiel: a New Introduction (1931). 15. V. Hemtrich, Ezechielprobleme (BZA W, 1932). 16. Cf. Oesterly e Robinson, An Introduction to the Books o f the Old Testa­ ment (1934), pág. 325; J. Battersby Harford, Studies in the Book o f Ezekiel (1935), 17. A. Bertholet, Hesekiel CHandbuch zum Alten Testament, 1936). Seu co­ mentário anterior foi publicado em 1897 como Das Buch Hesekiel (Kurzer HandCommentar zum Alten Testament). 18. O. R. Fischer, The Unity o f the Book o f Ezekiel (1939) (nSo publicado).

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EZEQUIEL seguinte: acreditava que Ezequiel recebeu sua chamada inicial na Babi­ lônia, não em Jerusalém, que envolveria um deslocamento grande demais do texto, mas que sua chamada era para ir à casa de Israel, o que fez ao empreender a viagem para Jerusalém descrita em 8: 3. Entre outros que adotam o conceito de um ministério duplo na Palestina e na Babilônia, há Pfeiffer,19 Wheeler Robinson,20 Auvray,21 eMay.22 Contra este ponto de vista, G. A. Cooke23 insistiu na interpreta­ ção mais tradicional, fornecida pelo texto bíblico, de uma localidade exclusivamente babilónica para o ministério de Ezequiel, explicando em bases psicológicas os problemas da consciência aguda que Ezequiel tinha dos eventos em Jerusalém e, mais especialmente, do estranho rela­ to da morte de Pelatias (11:13). Durante muito tempo, a voz de Cooke ficou solitária, mas a monografia de Howíe, publicada em 1950,24 voltou com todo o entusiasmo para as conclusões tão geralmente aceitas no começo do século. Não se tratava de mero conservadorismo por amor a si mesmo, mas, sim, do resultado de um exame cuidadoso das teorias anteriores, que o levou à conclusão de que havia menos dificuldades em aceitar o ponto de vista tradicional do que em postular alterações edito­ riais extensivas do texto. Howie foi seguido em linhas gerais por vários comentaristas do pós-guena, tais como George Fohrer,25 Walter Zimmerli,26 Eichrodt,27 Muilenburg28 e Stalker,29 bem como por escritores tais como Orlinsky,30 Rowley31 e Eissfeldt.32 19. Robert H. Pfeiffer, Introduction to the Old Testament (1941). 20. H. Wheeler Robinson, Two Hebrew Prophets (1948), págs. 7 5,81ss. 21. P. Auvray, Ezéchiel (Témoins de Dieu, 1947). 22. IB, pág. 52. 23. Cooke, págs. xxiii-xxiv. 24. C. G. Howie, The Date and Composition o f Ezekiel (JBL Monograph Se­ ries IV, 1950). 25. G. Fohrer, Ezechiel (Handbuch zum Alten Testament, 1955). 26. W. Zimmerli, Ezechiel (Biblischer Kommentar, 1955 em diante). 27. W. Eichrodt, Der Prophet Hesekiel (Das Alte Testament Deutsch, 1959 e 1966). 28. Peake, págs. 568-9. 29. D. M. G. Stalker, Ezekiel (Torch Bible Commentaries, 1968). 30. Em BASOR, CXXII, 1951, págs. 34-36. 31. Rowley, Men o f God (1963), págs. 209-210. 32. Eissfeldt, pág. 372, comenta: “No que diz respeito ao período e à locali­ dade do profeta, devemos ficar satisfeitos com a observação de que não há argumen­ tos lealmente decisivos contra a fidedignidade da tradição que acha expressão em muitas passagens do livro.”

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INTRODUÇÃO Muilenburg expressou suas conclusões nos seguintes termos: “Que o livro tem passado por uma história literária longa e complicada, dificilmen­ te pode ser questionado, e fica aparente que representa uma compilação de tradições de grande diversidade. Mesmo assim, o peso da evidência parece cair a favor de um ponto de vista não muito diferente daquele que era sus­ tentado por estudiosos de gerações anteriores. A considerável falta de con­ cordância entre os resultados conseguidos pelos estudiosos recentes não inspira confiança na sua validez. Embora a presença de expansões e de su­ plementos possa muito bem ser admitida, mesmo neste caso a dificuldade é que as passsagens são tão semelhantes quanto ao estilo e ao conteúdo, que não se pode ter certeza absoluta do seu caráter secundário . .. Nossa conclusão, portanto, é que o livro como um todo provém dele.”33 Este é o ponto de vista adotado no presente comentário. As tentativas no sentido de isolar a própria obra de Ezequiel daquela do seu redator foram evitadas por serem uma ocupação por demais incerta.34 A homogeneidade do livro inteiro é tal que nos inclinamos ao ponto de vista de que o profeta poderia, muito provavelmente, ter sido seu próprio redator. Muitos leitores, no entanto, consideram esta questão como pouco conseqüente, e vêem ao livro de Ezequiel ansiosos para compreender a mensagem do livro, e para ouvir a palavra do Senhor falando à sua própria geração, assim como falava aos judeus do século VI a.C. II. EZEQUIEL, O HOMEM Ezequiel era o filho de Buzi; era um sacerdote, e provavelmente fi­ lho de um sacerdote.35 Foi levado para o cativeiro em 597 a.C., quando os exércitos de Nabucodonosor, rei da Babilônia, tomaram Jerusalém de­ pois de um breve cerco. Com o jovem rei Joaquim e “todos os príncipes, todos os homens valentes, todos os artífices e ferreiros” (2 Rs 24:14), foi removido do Templo, que haveria de ser sua vida, e estabelecido nas planícies poeirentas da Babilônia. No quinto ano do seu exílio, i.é, 593 33. Peake, pág. 569. 34. Cf. S. Mowinckel,Prophecy and Tradition (1946), págs. 84-5. 35. O fato de que esta informação é achada em 1: 2,3, a passagem na tercei­ ra pessoa do singular que pode muito bem ter sido uma interpolação editorial, nSo in­ valida, de modo algum, a veracidade destas declarações. Se não tivéssemos sido infor­ mados que Ezequiel era um sacerdote, quase certamente teríamos adivinhado que ele o era.

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EZEQUIEL a.C., veio a ele a chamada de Deus para exercer um ministério profético dirigido à casa de Israel. Se temos razão para pensar que o “trigésimo ano” referido em 1:1 era o seu trigésimo ano de idade, segue-se que Ezequiel era um homem jovem, com vinte e tantos anos, quando começou o exílio, e isto deixaria espaço para o período considerável de tempo duran­ te o qual se estendeu seu ministério. A data mais avançada que é atribuí­ da a um dos seus oráculos é o vigésimo-sétimo ano do exílio (29:17), e is­ to o levaria até à idade de 52 anos. Nada se sabe da sua vida à parte daqui­ lo que é contido no livro que leva seu nome, nem existe tradição alguma que nos diga onde ou como morreu. Sabemos que era casado, e que sua esposa morreu na ocasião da queda de Jerusalém (24: 18). Era um homem de influência, sendo consultado pelos anciãos entre os exilados (8:1; 20:1); e embora isto talvez se deva ao seu ministério profético e à reputa­ ção que rapidamente adquiriu, é igualmente provável que seja atribuível à sua posição social herdada do seu pai, Buzi. À parte da sua visita visionária a Jerusalém (8:3-11:24), o único lo­ cal com o qual Ezequiel tem conexões é, ou sua casa, ou a planície (ou “o vale”; 3:22-23; 37:1), perto do rio Quebar num lugar chamado Tel Abibe. O rio Quebar tem sido tentativamente identificado com o naru kabarí, ou “grande rio,” referido em dois textos cuneiformes de Nipur. Era o nome dado a um canal de irrigação que trazia as águas do Eufrates numa volta para o sudeste, da Babilônia via Nipur, e de volta para o rio principal perto de Uruque (a Ereque bíblica). Seu nome moderno é Shatt en-Nil. Não se conhece nada acerca da geografia de Tel Abibe, a não ser que talvez represente Ac. til abübi (“cômoro de dilúvio”?). A primeira palavra é uma descrição comum dada a um cômoro que cobria os restos de uma sucessão de cidades enterradas (cf. Tel el-Amama, Tel es-Sultan, etc.), e uma comparação com Esdras 2: 59 (onde alguns dos exilados que voltavam eram provenientes de lugares tais como Tel-Melá e Tel-Harsa) su­ gere que os cativos judeus tinham recebido permissão para edificar suas co­ munidades de exílio em velhos sítios arruinados deste tipo, que até hoje estão espalhados pelas planícies da Babilônia. Quanto à casa de Ezequiel, podemos deduzir que era feita de tijolos de barro, típicos da localidade, e isto sugere um modo de vida razoavelmente estabelecido para os exila­ dos.36 O profeta parece ter tido razoável liberdade de movimentos para 36. O tijolo mencionado em 4:1 era deste tipo, e a açío de escavar a parede em 12:5 sugere este tipo de construção.

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INTRODUÇÃO entrar e sair à vontade, e a evidência da chegada do fugitivo (33:21) e da correspondência de Jeremias com os exilados (Jr 29) indica que a exis­ tência deles não era a de um campo de concentração. Deve ter havido res­ trições, mas a organização comunitária (i.é, a existência de anciãos, 8: 1; 20: 1), a agricultura, o culto e a instrução, o casamento e os vínculos de comunicação com Jerusalém eram todas permitidas. É quase certo que puderam visitar algumas das grandes cidades do país, das quais a princi­ pal era Babilônia com seus jardins suspensos mundialmente famosos, suas vastas fortificações e a magnífica Porta de Istar. Ezequiel deve ter visto os zigurates, ou templos-torres, com seus degraus, que relembravam a tor­ re de Babel, e talvez tivesse consciência da sua semelhança formal com o grande altar com degraus no Templo de Salomão, que incorporou, com modificações muito leves, no seu próprio templo do futuro (43: 13-17; Fig. IV). Deve ter ficado consciente das estranhas criaturas compostas, se­ melhantes a esfinges, que eram retratadas em todo lugar, ou como divin­ dades, ou como guardiãs dos deuses, e não é impossível que a vista destas tenha encorajado a sua imaginação, para pensar em termos semelhantes, quando descrevia as suas visões, embora nunca deva ser esquecido que seu treinamento sacerdotal do Templo de Jerusalém o teria levado a co­ nhecer os querubins retratados ali. Sua impressão mais marcante, no en­ tanto, deve ter sido a da combinação da idolatria excessiva e do esplen­ dor mundano. A multiplicidade dos templos, a prosperidade incrível da cidade, a colméia de realizações e de cultura, tudo isto teria feito qual­ quer cativo hebreu sentir quão pequena era sua pátria e quão grandes eram os deuses de Nabucodonosor, que a tudo conquistavam. Mas uma vez que Ezequiel tinha tido sua visão da merkabah, do carro-trono de Javé, confirmando para ele que o Deus de Jerusalém estava vivo e triunfante mesmo nesta terra pagã e politeísta da Babilônia, não é surpreendente des­ cobrir que seu tema recorrente é a majestade do Senhor e que sua mensa­ gem reiterada é que a casa de Israel, os exilados, as nações do mundo, até mesmo as forças das trevas, todos “saberão que eu sou o Senhor.” A jul­ gar pela freqüência do uso desta expressão (mais de cinqüenta vezes ao todo), este alvo era a paixão consumidora de Ezequiel. Tudo isto pressupõe que o ministério de Ezequiel foi realizado na Babilônia. Contra este ponto de vista, os defensores de um ministério par­ cial ou total na Palestina, argumentam que seu conhecimento íntimo das idolatrias que estavam sendo praticadas no Templo (8:1-18), sua aparen­ te confrontação com Pelatias (11:1-13) e sua consciência telepática de eventos tais como o começo do sítio de Jerusalém (24:2) e sua queda ul22


EZEQUIEL terior (33:22), indicam que esteve pessoalmente em Jerusalém parte do tempo, ou até mesmo o tempo todo. Além disto, argumentariam que sua comissão era para a casa de Israel, que muitas das suas mensagens diziam respeito a Jerusalém (4: 1-5: 17) e que eram dirigidas ao povo de Jerusa­ lém e de Judá(6:1-7:13; 16:3ss; 21: l-17;etc.), e que é difícil contemplar (nas palavras de Cooke), “um profeta na Babilônia lançando suas denúncias contra os habitantes de Jerusalém através de 1.100 km de deserto.37 Nin­ guém, no entanto, ainda insistiu que os oráculos de Ezequiel dirigidos às nações estrangeiras deveriam ter sido entregues no território dos amonitas ou no Tiro ou no Egito, e não há necessidade de supor que seus oráculos dirigidos a Jerusalém devam, portanto, ter sido entregues na cidade santa e não à frente dos exilados. Conforme Ellison38 indica com razão: “Ezequiel estava realmente profetizando acerca de Jerusalém mas não para Je­ rusalém.” Embora vários anos tivessem passado desde a ocasião da sua de­ portação, os exilados ainda viviam para Jerusalém e para o lar. Era o cen­ tro dos seus interesses e das suas esperanças; cada pedacinho de notícias que chegasse até a Babilônia era tratado como um grão de ouro em pó. À parte da duração da sua permanência no exílio, os eventos em Jerusa­ lém eram o único fator supremamente relevante no pensamento deles. Seria deveras estranho se Ejsequiel não lhe desse o destaque que merecia no seu ministério aos exilados. Isto ainda não resolve o problema da visita de Ezequiel a Jerusa­ lém, de modo semelhante a um êxtase. Aqui, porém, estamos enfrentan­ do o problema da facilidade de comunicação entre a Babilônia e Jeru­ salém. É altamente improvável que Ezequiel tivesse tido licença para voltar do exílio para Jerusalém, e a sugestão de Bentzen39 de que a permissão talvez tivesse sido concedida, a fim de que Ezequiel pudes­ se ser usado como joguete da propaganda babilónica, pouca coisa tem para recomendá-la. Se for exigido um ambiente palestiniano para qual­ quer parte do ministério de Ezequiel, seria preferível argumentar que tal ministério deveria ter seguido uma chamada original na Palestina, e não na Babilônia. Mas postular uma chamada original na Palestina envol­ ve muitos deslocamentos e rearranjos do texto conforme o temos nos capítulos 1-3. Um estudo dos esforços feitos pelos comentaristas para se37. Cooke, pág. xxiii. 38. Ellison, pág. 20. 39. Aage Bentze, Introduction to the Old Testament (1948), Vol. II, pág. 128. [Editado em português pela ASTE.]

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INTRODUÇÃO parar dois fios literários distintos nos capítulos 1-3, sendo que um perten­ ceria a uma chamada original na Palestina, e o outro seria um novo comis­ sionamento na Babilônia, bastará para convencer a maioria dos leitores de que a engenhosidade e as emendas necessárias para a tarefa condenam a teoria como sendo altamente implausível. E Orlinsky pergunta, de mo­ do pertinente: “0 que Ezequiel (ou um redator) poderia ter esperado ga­ nhar com a mudança da localidade da chamada inicial de Judá (se foi lá) para a Babilônia?”40 A pergunta de Orlinsky não recebeu uma resposta sa­ tisfatória, mas os expositores de um ministério duplo argumentam, do ou­ tro lado, que a teoria; deles oferece uma explicação melhor dos problemas associados com os poderes aparentemente telepáticos de Ezequiel. Ao presente escritor parece, no entanto, que aqueles que adotam este ponto de vista estão se esforçando demasiadamente para reduzir Ezequiel a um nível de completa normalidade. A anormalidade dalgum •tipo era um aspecto essencial do ministério carismático do profeta véterotestamentário. Ele tinha uma consciência incomparável de Deus, seja a partir de uma experiência sobrenatural, visionária, que se constituía na sua chamada, seja a partir da consciência interior de ter uma mensagem de Deus implantada na sua mente. Era um homem para o qual o milagroso não tinha surpresas, especialmente quando este tinha conexão com o cum­ primento de palavras que falara sob constrangimento divino. Se os pode­ res extra-sensórios de Ezequiel tivessem operado com freqüência demasia­ da, ou tivessem sido ligados à vontade, poderíamos sentir alguma suspei­ ta; dão, porém, a impressão de terem sido raros, memoráveis, e vincula­ dos exclusivamente com eventos de importância crucial. Ao mesmo tem­ po, devemos precaver-nos contra uma avaliação exagerada destes pode­ res, porque boa parte dos conhecimentos que Ezequiel revela ter do esta­ do das coisas em Jerusalém pode muito bem ter chegado a ele através dos canais normais de informações, mormente visto que ele teria sido um dos primeiros a receber notícias confidenciais acerca das questões do Templo.41 As “coincidências” verdadeiras parecem ser a morte de Pelatias (11:13) e o começo do cerco de Jerusalém (24:2). 0 caso de Pelatias está encaixado no contexto da visão de Ezequiel, em que se sentiu transportado para Jerusalém. Ainda na visão, vê vinte e cinco anciãos à entrada da porta oriental do Templo, e consegue identi­ ficar dois deles, Jaazanias, filho de Azur, e Pelatias, filho de Benaia. É 40. BASOR, CXII, 1951, pág. 35. 41. Note o uso da frase “veio a mim” em 3 3:21.

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EZEQUIEL razoável supor que ambos eram bem conhecidos, conhecidos pelo nome por Ezequiel e pelos anciãos entre os exilados, em cuja presença diz-se que Ezequiel teve esta visão, e aos quais o profeta subseqüentemente descre­ veu tudo (11:25). Enquanto Ezequiel profetizava, Pelatias caiu morto. O texto não estipula que foi por causa das palavras de Ezequiel que ele morreu (como no caso de Ananias e Safira em At 5:5, 10), mas a coinci­ dência foi suficiente para deixar Ezequiel chocado e amedrontado (11: 13b). A relevância deste evento é dupla. Primeiramente, é significante que Ezequiel tinha a capacidade de ter consciência de uma ocorrência no­ tável, que se realizava a uma distância de centenas de quilômetros, no mesmo momento em que ele estava num tipo de êxtase em Tel-Abibe. Em segundo lugar, quando a notícia deste evento chegasse aos anciãos no exílio, seria uma confirmação poderosa dos poderes sobrenaturais de Ezequiel e autenticaria a ele e à sua mensagem aos olhos deles. A impor­ tância deste incidente não é, portanto, demonstrar que Ezequiel tinha o poder de fulminar um homem com uma única palavra a uma distância de 1.100 kms, conforme alguns interpretariam. Essa era a última coisa que Ezequiel desejava ou pretendia que acontecesse. Pelo contrário, ilustra sua consciência de um evento de importância que ocorria a uma grande distância e é, portanto, um paralelo exato com os outros exem­ plos deste mesmo poder em conexão com a cronologia do cerco e da queda de Jerusalém. Desejar negar a um profeta de Deus exibições oca­ sionais de tal poder, demonstra uma falta de compreensão do poder do Espírito de Deus num homem, e negar este poder a Ezequiel, entre todas as pessoas, é procurar fazer dele uma pessoa diferente do que era. Segundo o nosso modo de julgar, é igualmente errado procurar categorizar Ezequiel, especialmente a esta distância no tempo, em ter­ mos psicológicos modernos. Seu comportamento incomum e seus atos simbólicos altamente imaginativos têm sido explicados de várias manei­ ras. Stalker comenta: “Ezequiel tem sido chamado um cataléptico, um neurótico, uma vítima do histerismo, um psicopata, e até mesmo um esquizofrênico paranóico específico, além de ter sido creditado com po­ deres de clarividência e de levitação.”42 Transferir seu ministério para Jerusalém talvez remova o estigma dalgumffi destas acusações, mas não soluciona o problema de modo satisfatório, porque, conforme temos vis­ to, levanta jnais problemas do que soluciona. Boa parte do comporta­ mento “anormal” de Ezequiel é questão de interpretação. Logo de iní42. Stalker, pág. 23.

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INTRODUÇÃO cio, conforme já observamos, um certo grau de “anormalidade” era nor­ mal para um profeta; era arrebatado em êxtase, e freqüentemente reforça­ va seus oráculos com atos dramáticos (cf. Zedequias, filho de Quenaaná, 1 Rs 22:11; e Jeremias, Jr 13:1-14; 19:10-13). Ezequiel também era um sacerdote por treinamento e criação, e, portanto, o simbolismo em grande escala era uma segunda natureza para ele, especialmente um simbolismo que combinava palavras e ações. Independentemente daquilo que pensa­ mos acerca do aspecto estranho dalgumas das suas ações, acerca da sua tris­ teza silenciosa na ocasião da morte da sua esposa, da sua mudez, dos seus longos períodos deitado num só lado, impressiona-nos como sendq uma personalidade supremamente controlada, preso por um zelo apaixonado por Deus, e não sujeito a alguma doença mental. “Ele é melhor compreendi­ do,” escreve Howie, “como sendo uma alma humana sensível presa nas correntezas conflitantes da história, impulsionado por um zelo ardente por Deus, dolorosamente consciente da tragédia em que seu povo estava envolvido.”43 Sua sensibilidade pode ser julgada pela breve descrição dos seus sentimentos pela sua esposa (24:15-18), pela sua petição sincera no sentido de Deus poupar Seu povo e não destruí-lo completamente (9:8; 11:13), e pela ternura da sua descrição de Deus como o Pastor das Suas ovelhas (34:11-16). Isto contrabalança a severidade de muitas das suas profecias de julgamento, e a fria lógica da sua insistência de que Deus agirá “não por amor de vós . .. mas pelo meu santo nome” (36:22). Para Ezequiel, tudo tinha um significado. As ações que praticava, as palavras que usava, todas visavam uma finalidade. Sua mudez é típica de sua personalidade. Não poderia ter sido uma mudez literal, senão, te­ ríamos de deslocar todos os oráculos que foram atribuídos a ele antes de 33:22. Certamente o redator da obra acabada não quis que interpretás­ semos desta maneira a sua mudez. A única alternativa é que era uma “mu­ dez ritual,” a proibição imposta, e aceita de bom grado, de qualquer fala a não ser que se tratasse de um pronunciamento dado pelo Senhor. Com­ preendia assim, pode-se entender quanta consideração adicional seria atri­ buída às suas ações simbólicas e aos oráculos que as acompanhassem. Suas visões eram exemplos clássicos deste sentido simbólico. A visão inaugural do carro-trono continha significado em cada linha; boa parte dela não é compreendida por nós hoje, mas mesmo assim, o esboço geral ainda pode ser discernido. Procurava descrever o indescritível e dizer na linguagem da experiência espiritual algo acerca do Deus que representava. A visão do no43. Howie, pág. 15.

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EZEQUIEL vo templo, do outro lado, empregava o simbolismo sacerdotal para dizer o que este Deus requeria dos Seus adoradores. É vinculada com conceitos de santidade, e com a exigência de ordem e perfeição, de reverência e simetria. Como escritor, Ezequiel é freqüentemente enfadonho e repetitivo.44 Certo número limitado de frases e temas ocorrem freqüentemente, e isto pode ser desanimador para os leitores modernos que não têm familiarida­ de com as antigas convenções literárias. Ocasionalmente, emprega poesia, mas na maior parte escreve prosa; não uma prosa pitoresca e descritiva, mas, sim, uma prosa sombria e profética, com cadência, mas sem métrica discemível. Quando recita uma poesia, é freqüentemente uma elegia ou lamentação (Hb qinâ\ veja a nota sobre 19:1), uma poesia escrita no rit­ mo pesaroso de 3:2. Às vezes, colhe um fragmento de um cântico, tal co­ mo o cântico da èspada (21:9, 10) ou o cântico da panela (24:3-5), e os interpreta da sua própria maneira. Revela ter uma imaginação vívida na sua lamentação sobre os reis de Israel (19:1-14), e na sua descrição do naufrágio do navio Tiro (27:3-9, 25-36), bem como na visão do vale dos ossos secos (37:1-10), mas noutras ocasiões demonstra uma notável falta de imaginação. A única coisa que não lhe falta é uma paixão intensa para com Deus, para com sua mensagem, e para com seus ouvintes. Tu­ do era subordinado ao seu senso quase esmagador de obrigação e respon­ sabilidade. Era um atalaia, e se deixasse de advertir seu povo, o sangue deste recairia sobre ele. Com esta finalidade em mira, estava disposto a auscultar a disposição de espírito que prevalecia entre os exilados e a res­ ponder às objeções deles. Retomava provérbios populares (11:3; 12:22, 27; 18:2) e demonstrava que não tinham validade alguma. Respondia ao atordoamento inexpressado que estava no coração dos homens (18:19, 25; 20:32). Em síntese, combinava de maneira sem igual o senso que o sa­ cerdote tem da santidade de Deus, o senso que o profeta tem da mensa­ gem com que foi confiado, e o senso que o pastor tem da sua responsabili­ dade para com seu povo. 44. Exemplos de frases freqüentemente usadas por Ezequiel numa variedade de formas são: “saberão que eu sou o SENHOR” (66 vezes); “vindicarei a santidade do meu grande nome” (8 vezes); “eu (o SENHOR) falei (e eu o farei)” (49 vezes); “assim como eu vivo, diz o SENHOR” (15 vezes); “os espalharei entre as nações, e os derramarei pelas terras” (9 vezes); “vos congregarei das terras . . . (10 vezes); “der­ ramarei minha ira (satifarei minha furia) sobre vós” (16 vezes); “veio a mim a palavra do SENHOR” (49 vezes); “pelo . . . por isso . . . ” (37 vezes).

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INTRODUÇÃO ffl. O FUNDO HISTÓRICO O primeiro período da vida de Ezequiel testemunhou o fim do do­ mínio do Império Assírio, um breve período interino da influência egíp­ cia nos negócios de Judá, e depois, o crescente controle dos reis da Babi­ lônia sobre a política do Oriente Próximo. Os reis de Judá em cujo reinado Ezequiel viveu foram: Josias Jeoacaz Jeoaquim Joaquim Zedequias

640-609 a.C. 609 a.C. 609-597 a.C. 597 a.C. 597-587 a.C.

O programa extensivo que Josias realizou, de consertos no Templo e de reformas religiosas, é bem conhecido a todo leitor do Antigo Testa­ mento (2 Rs 22:1-23: 30; 2 Cr 34: 35). Seu reinado foi uma marca divisó­ ria no desenvolvimento espiritual de Judá. Embora suas reformas fossem baseadas na descoberta do livro da lei durante as obras de reconstrução no Templo (quase certamente se tratava de Deuteronômio, completo ou em parte), sua liberdade para levá-las a efeito devia-se parcialmente às con­ siderações políticas. No Oriente Próximo antigo, a vassalagem freqüente­ mente envolvia a parte inferior numa obrigação de aceitar a adoração aos deuses do suserano, bem como o pagamento de tributos ou outros impos­ tos. Destarte, o culto às divindades astrais ou o levantamento de ídolos pelos reis anteriores de Judá freqüentemente eram sinais de submissão à autoridade assíria. A reforma religiosa, portanto, não era simplesmente um ato interno, nascido do despertamento espiritual, mas também pode­ ria ser interpretada como um movimento de rebelião contra o domínio de um aliado poderoso. Foi o fato da influência da Assíria enfraquecerse que deixou Josias levar a efeito as reformas que, tanto seus próprios desejos, quanto a descoberta do rolo tão longamente negligenciado, o encorajavam a realizar. O colapso da Assíria pode ser datado pela queda de Nínive em 612 a.C., e a supremacia da Babilônia foi garantida sete anos mais tarde, quando Nabucodonosor derrotou de modo esmagador o exército do Egi­ to em Carquemis, no Eufrates, em 605 a.C. Entre estas datas ocorreu a morte misteriosa do malfadado Josias às mãos do Faraó Neco II do Egi­ to. Muitas traduções bíblicas (2 Rs 22:29) sugerem que Neco iria lutar 28


EZEQUIEL contra a Assíria, e é um mistério por que Josias desejaria se opor a ele a favor da Assíria. Sabemos, porém, pela Crônica Babilónica,45 que o Egi­ to estava indo socorrer a Assíria contra a ameaça babilónica [a palavra hebraica traduzida “para” pode ser intepretada “contra” ou “a favor de”, daí a tradução bíblica depender doutras informações. N.Tr.]. Ago­ ra, o problema muda: por que Josias tomou uma posição aparentemen­ te pró-Babilônia? É improvável que já estivesse em aliança com a Babilô­ nia, de modo que somente podemos supor que ele sentisse que uma vitó­ ria egípcia faria mais danos a Judá, em última análise, do que uma vitó­ ria babilónica. De qualquer modo, sua ação suicida lhe custou a vida, e Jeoacaz, seu filho (também chamado Salum), ficou sendo rei no seu lugar. A campanha de Neco contra a Babilônia foi mal-sucedida e, por­ tanto, numa tentativa de estabelecer seu domínio sobre a Síria e a Pales­ tina, mandou deportar Jeoacaz para o Egito depois de um reinado de apenas três meses,46 e colocou no seu lugar seu irmão, Eliaquim. Ao mes­ mo tempo, demonstrou sua autoridade e a condição de vassalo de Elia­ quim ao dar-lhe o nome oficial, como rei, de Jeoaquim, e ao impor um fardo pesado de tributo sobre a terra (2 Rs 23:31-35). Jeoaquim foi um governante totalmente irresponsável no que dizia respeito às necessidades do seu povo, e mereceu o total desprezo de Jere­ mias, especialmente por seus planos grandiosos para reformas no palácio e pela imposição de trabalhos forçados para levá-las a efeito (ver Jr 22:1319). As reformas religiosas de Josias tomaram-se sem efeito, sem dúvida parcialmente por causa da morte trágica daquele bom rei, que, decerto, parecia a muitas pessoas uma contradição da fé que defendia, e todos os ti­ pos de práticas idólatras entraram paulatinamente na vida de Jerusalém. Os cultos pagãos referidos por Ezequiel em 8:1-18 não passaram da con­ tinuação de um movimento que começou com a ascensão de Jeoaquim. No quarto ano de Jeoaquim, o exército de Neco, que tinha mantido vigi­ lância cautelosa nas fronteiras do norte da Síria, perto de Carquemis, foi completamente esmagado, primeiramente em Carquemis (605 a.C.) e depois, outra vez, enquanto estava em plena retirada, em Hamate. Pouco depois, Jeoaquim veio a ser tributário de Nacubodonosor (2 Rs 24:1), 45. A Crônica Babilónica é um relato fidedigno, factual, dos anais do Im­ pério Babilónico desde 626 até 539 a.C. As partes atualmente existentes abrangem os anos 626-622, 610-594, 556, 555-539 a.C., e freqüentemente lançam luz sobre a cronologia do Antigo Testamento. Algumas seções relevantes se acham em DOTT, págs. 75-83. 46. Para uma elegia sobre Jeoacaz, ver Jr 22:10-12 ;Ez 19:24.

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INTRODUÇÃO mas diante do primeiro sinal de fraqueza da parte dos babilônios (uma batalha indecisiva entre Neco e Nabucodonosor em 601 a.C. levou este último a voltar para casa a fim de reorganizar seu exército), o rei judeu rebelou-se. Foi-lhe permitido apenas um período temporário de folga. Enquanto Nabucodonosor estava muito ocupado tratando de outros pro­ blemas, enviou contingentes menores das suas forças, juntamente com ban­ dos incursores dos seus vassalos sírios, amonitas e moabitas (2 Rs 24:2; Jr 35:11), para pilhar Judá. Depois, em dezembro de 598 a.C., avançou com todo o seu exército contra Jerusalém. Ao mesmo tempo, Jeoaquim morreu, possivelmente assassinado,47 e seu filho de dezoito anos, Joaquim (também chamado Conias ou Jeconias, Jr 22:24, 28; 1 Cr 3:16), teve de escolher entre a resistência ou a capitulação. A ajuda esperada da parte do Egito deixou de concretizar-se (2 Rs 24: 7) e, depois de um sítio de três meses, o jovem rei entregou-se no segundo dia de Adar de 597 a.C., i.é, 16 de março. Juntamente com a rainha-mãe e os palacianos, e todos prin­ cipais cidadãos da terra (os príncipes, todos os homens valentes, todos os artífices e ferreiros, são mencionados especificamente; 2 Rs 24:14), foi levado para o cativeiro na Babilônia onde, segundo parece, viveu o decurso normal da vida. Há somente uma outra referência a ele, em 2 Rs 25: 27-30, que completou o relato da monarquia ao acrescentar que no trigésimo sétimo ano do seu exílio, no ano da ascensão de Evil-Merodaque, rei da Babilônia (i.é, Amel-Marduque, 562-560 a.C.), foi liberto do cárcere, ou da prisão domiciliar, mais provavelmente, e ficou sendo um pensionista vitalício à mesa do rei. Um notável raio de luz foi lançado sobre o cativeiro de Joaquim pela descoberta, feita por R. Koldewey, de grande número de tábuas cuneiformes armazenadas nas adegas subterrâneas palacianas da Babilônia, não muito longe da Porta de Istar. Pareciam ser registros de rações de azei­ te e cevada distribuídas aos prisioneiros pelo administrador principal. Em­ bora fossem descobertas no começo do século e trazidas para o Museu Kaiser Friedrich em Berlim, foi somente em meados da década de 1930 que um assiriólogo, E. F. Weidner, começou a lê-las e traduzi-las. No de­ curso do seu trabalho, achou o nome Ya’u-kinu, Joaquim, e a identifica­ ção foi confirmada pela descrição “rei da terra de Yahudu.” A tábua de 47. Jeoaquim morreu antes dos exércitos babilónicos chegaxem a Jerusalém, e a declaração em 2 Cr 36: 6 pode indicar que foi seqüestrado por um partido próBabilônia. 48. Para uma tradução e avaliação, ver DOTT, págs. 84-86.

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EZEQUIEL rações transmite poucas informações por si só,48 mas a relevância acha-se na descrição de Joaquim como um rei. Aparentemente, ainda era conside­ rado pela administração babilónica como o legítimo titular do trono, e Zedequias era considerado apenas como um regente temporário. Se as­ sim for (e uma das tábuas que mencionam o nome de Joaquim pode ser datada em 592 a.C.,49 i.é, no tempo de Zedequias), dá motivos adicionais para a expectativa confiante dos exilados de que a volta dele para Judá, e a repatriação deles, era iminente.50 Ajuda-nos, também, a compreender porque Ezequiel, embora não participasse do otimismo dos exilados, re­ jeitava a realeza de Zedequias, evitava escrupulosamente a atribuição a ele do título de rei (rnélek), e datava todos os seus oráculos segundo o exílio do “Rei Joaquim” (assim descrito em 1:12). Lá em Judá, Zedequias, irmão de Joaquim, que fora nomeado rei-títere em Jerusalém, era um fraco, e totalmente incapaz de enfrentar as cor­ rentezas políticas cruzadas do seu tempo. Embora tivesse sido nomeado pelos babilônios, e devesse lealdade a Nabucodonosor, havia influências poderosas pró-egípcias que o encorajavam a rebelar-se. Um dos seus conse­ lheiros era Jeremias, cuja defesa de umá política de submissão à Babilônia granjeou-lhe muito ódio entre o povo. Zedequias procurava protegê-lo, mas a descrição dos seus esforços, feita em Jeremias 37 e 38, indica que o poder real ficava com o partido pró-guerra, e que o poder do rei era severa­ mente limitado. Uma crise política ocorreu cedo no seu reinado quando houve, aparentemente, um movimento da parte dos vizinhos de Judá (Moabe, Edom, Amom, Tiro e Sidom estavam envolvidos)51 para unir-se em re­ belião contra Nabucodonosor, mas Jeremias opôs-se fortemente a isto, e parece que veio a dar em nada.52 Finalmente, no entanto, o entusiasmo público pela revolta foi atiçado pelos exaltados políticos, e com o apoio do faraó do Egito, Psamético II (593-588 a.C.), Zedequias, um pouco con­ tra sua vontade, deu o salto mortal.53 49. W. F. Albright, “King Joiachin in Exüe”, BA, V, 1942, págs. 49-55. 50. Esta expectativa também era acalentada em Jerusalém, e era alimentada pelas palavras de profetas tais como Hananias (Jr 28:14). 51. Jr 27:2ss. 52. A rebelião pode muito bem ter sido fomentada por notícias da revolta na Babilônia em 5954 a.C., em que muitas das tropas de Nabucodonosor tiveram de ser executadas antes dela finalmente poder ser esmagada. Se assim for o caso, a visita de Zedequias à Babilônia em 594-3 a.C. (Jr 51:59) pode ter tido a finalidade de ali­ viar suspeitas e de afirmar sua lealdade pessoal ao rei. 53. O único outro país que apoiou a revolta foi Tiro, e é digno de nota que

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INTRODUÇÃO A retaliação foi rápida. Já em janeiro de 588 a.C. o exército da Babi­ lônia estava às portas de Jerusalém, e dentro em breve, somente Laquis e Azeká, de toda as cidades fortificadas de Judá, ainda estavam resistindo. Numa coleção de cartas, escritas para o comandante da guarnição em La­ quis, e também escritas da parte deste, e descobertas ali em 1935, a queda de Azeká é descrita vlvidamente.54 No verão de 588, a aproximação de um exército egípcio provocou um levantamento temporário do cerco de Jeru­ salém, mas logo foi afugentado e o cerco recomeçou.“ Em julho de 587 os muros foram rompidos numa parte, e Zedequias aproveitou a oportuni­ dade para escapar, mas foi apanhado perto de Jericó e levado prisioneiro para Riblá, o quartel-general de Nabucodonosor para esta campanha. Seu castigo foi ter de ver seus filhos trucidados, e depois ter os olhos vazados, para, então, ser levado acorrentado à Babilônia, onde morreu. Um mês mais tarde, Jerusalém foi reduzida a chamas, com o acompanhamento de mais execuções de líderes civis e militares, e de mais uma deportação pa­ ra a Babilônia. 0 pouco que sobrou de Judá foi incorporado numa província babi­ lónica, e um membro do gabinete de Zedequias, Gedalias, foi nomeado governador. Posto que o pai deste, Aicão, certa vez salvara a vida de Je­ remias (Jr 26:4), não é impossível que Gedalias, também, fosse ami­ go de Jeremias e o tenha apoiado na sua política de aplacar a Babilônia. Is­ to explicaria sua nomeação para seu novo cargo, mas era considerado por muitas pessoas como um colaborador do inimigo e, dentro de pouco tem­ po (pode ter sido poucos meses ou poucos anos) foi assassinado em Mispa por um grupo de homens liderados por Ismael, um membro da família real. Este foi o sinal para um êxodo geral de Judá, provavelmente por cau­ sa do temor da represália; e, muito contra a sua vontade, Jeremias foi levaas condenações mais fortes de Ezequiel foram dirigidas contra o Egito e Tiro (Ez 26-32). A satisfação maligna com a queda de Jerusalém, que Ezequiel atribuía a Amom, a Moabe, a Edom e à Filístia (Ez 25), talvez seja um indício de que estes países ou se retiraram da aliança rebelde, ou até mesmo tomaram ativamente parti­ do com Nabucodonosor quando perceberam a direção que os eventos estavam to­ mando. 54. Estas cartas oferecem registros contemporâneos fascinantes dos even­ tos em Judá neste período, e devem ser lidas em DOTT, págs 212-217. Na sua preleçío “Tyndale”, The Prophet in the Lachish Ostraca (1946), o Professor D. Winton Thomas discute as evidências em prol de identificar com Jeremias o profeta referido nas cartas. 55. Ver a advertência de Jeremias quanto a isto, em 37:5-10.

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EZEQUIEL do junto com estes imigrantes políticos para o Egito, onde terminou seus dias (Jr 4044). Antes de procurar encaixar a cronologia de Ezequiel neste pano­ rama histórico, vale a pena fazer a pergunta: por que Jeremias e Eze­ quiel não fazem referência explícita um ao outro? Embora fossem se­ parados por uma grande distância, os dois eram homens de destaque na mesma esfera da religião profética, tratavam de temas semelhantes, e fre­ qüentemente seus ensinos coincidiam ou se encaixavam de modo bem notável. Alguns sugeriram que os dois homens se opunham um ao outro, que Jeremias classificava Ezequiel com os profetas no exílio, tais como Acabe, filho de Colaías, e Zedequias, filho de Maaséias, aos quais con­ denou severamente em 29:15, 20-23, e que a crítica de Ezequiel aos lí­ deres em Jerusalém ocultava uma alusão a Jeremias. Mas há falta total de evidência em prol disto. Não é necessário que a falta de dois profetas contemporâneos mencionarem um ao outro pelo nome cause surpresa: Amós e Oséias, Isaías e Miquéias, Ageu e Zacarias, são outros exemplos de silêncio sem qualquer animosidade subentendida. Ao presente escri­ tor parece que estes dois profetas do exílio revelam seu conhecimento um do outro com numerosas alusões ao ensino do outro, ou, pelo me­ nos, aos mesmos temas que ocupam a atenção do outro. Os dois, aparen­ temente, estavam tomando uma posição solitária em prol da verdade: um deles em Jerusalém, e o outro na Babilônia: os dois insistiam que o fu­ turo de Israel achava-se com os exilados e não com aqueles que foram deixados para trás em Jerusalém; os dois rejeitavam o fatalismo daqueles que citavam o provérbio acerca dos pais que comeram uvas verdes e os dentes dos filhos que foram embotados; os dois censuravam os pastores de Israel que deixavam de cuidar do rebanho; os dois enfatizavam o prin­ cípio da retribuição individual e a necessidade do arrependimento indivi­ dual; os dois previam um exílio prolongado, seguido pela restauração sob uma liderança piedosa; os dois falavam em termos de uma nova aliança que seria apropriada intema e pessoalmente; e os dois falavam contra os falsos profetas que profetizavam a paz quando não havia paz. Estes paralelos e semelhanças entre Jeremias e Ezequiel não respon­ dem à pergunta que foi originalmente feita, mas sugerem, isto sim, que os dois homens quase certamente tinham consciência da existência um do ou­ tro, e provavelmente tinham simpatia um com o outro. Se, naturalmente, um ambiente palestiniano para o ministério de Ezequiel fosse postulado, o problema da sua falta de menção um do outro, enquanto viviam e prega­ vam como vizinhos próximos entre si, seria consideravelmente agravado, 33


INTRODUÇÃO mas já rejeitamos tal possibilidade, por outros motivos. Finalmente, de­ vemos lembrar-nos de que, embora conheçamos pelo nome somente es­ tas duas grandes personalidades proféticas do exílio, juntamente com os nomes de umas poucas figuras obscuras tais como Urias (Jr 26:20-23) e Hananias (Jr 28:1-17), deve ter havido dezenas de homens em Israel que diziam ser profetas, e nem sempre teria sido fácil para os verdadeiros serem distinguidos dos falsos. Entre tais profetas havia, sem dúvida, uns poucos do calibre de Urias, mas muitos outros devem ter sido do tipo de Hananias, contra quem foram dirigidos capítulos tais como Jeremias 23 e Ezequiel 13. Devemos, portanto, acautelar-nos contra tirar conclusões in­ devidas a partir de evidências mínimas, e devemos ter cuidado, ademais, em evitar a fabricação de grandes problemas a partir de casos sobre os quais a Bíblia não parece ter comentário algum a fazer. A cronologia de Ezequiel Ezequiel é sem igual entre os profetas do Antigo Testamento pela sua se­ qüência ordeira de datas para muitos dos seus oráculos. Estas datas podem ser alistadas no seguinte quadro. Referência

Evento descrito

DatadeEze- Data pelo calenddrio JulianoS7 q uief6 Dia mês ano Dia mês ano

1: 1: 2 8: 1 20 1 24 1 26 1 29 1 29 17 30 20 31 1 32 1 32 17 33 21

A chamada de Ezequiel A chamada de Ezequiel A visão da idolatria em Jerusalém A delegação dos anciãos Começa o cerco Oráculo contra Tiro Oráculo contra o Egito Do Tiro para o Egito 0 braço quebrado do Faraó Oráculo contra o Faraó Lamentação sobre o Faraó 0 Faraó no Seol “A cidade caiu”

5 5 5 10 10 1 12 1 7 1 1 15 5

40:1

Visão da nova Jerusalém

4 30 31 jul (4) 5 >> ” 6 6 17 set 5 7 9 ago 10 9 15 jan (11) 11 12 fev 7 jan 10 10 1 27 26 abr 1 11 29 abr 3 11 21 jun 12 12 3 mar (12) 12 17 mar 10 12 8 jan (ou melhor) (5 10 U ) 19 jan 10 1* 25 28 abr * lit. “no começo do ano”

593 592 591 588 586 587 571 587 587 585 585 585 586 573

56. As datas entre parênteses são aquelas que foram supostas no comentá­ rio onde o TM não é explícito, ou onde ocorrem variantes. 57. Estas datas baseiam-se nas tabelas dadas em R. A. Parker e W. H. Du-

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EZEQUIEL Pode-se ver, com base neste gráfico que, se descontarmos a coleção de oráculos contra as nações (25-32), que incorpora nada menos do que sete das quatorze datas, as demais datas estão numa ordem exata e lógica. Isto é verdade, quer sigamos o TM da notícia da queda de Jerusalém (33:21), quer emendemos “o ano duodécimo” para “o ano undécimo,” conforme parece preferível (seguindo Albrigth, Howie). Das datas nos ca­ pítulos 25-32, duas não fazem menção ao mês (26:1; 32:17), mas o orá­ culo que segue 26:1 pressupõe que Jerusalém caiu e, portanto, deve ser datado depois da data citada em 33:21, e a sugestão no sentido de pre­ encher o undécimo mês não parece irrazoável. Isto faz com que o orácu­ lo contra Tiro venha menos do que um mês depois da notícia da queda de Jerusalém ter chegado em Tel Abibe. Os oráculos contra o Egito es­ tão em seqüência cronológica, com a exceção de 29:17 que é manifesta­ mente uma explicação posterior encaixada deliberadamente naquela altu­ ra da seqüência, e de 32:17, embora se o mês omitido for entendido co­ mo sendo o duodécimo, este, também, encaixa-se no padrão ordeiro. O problema que ainda fica é a interpretação do trigésimo ano em 1:1. Muitos estudiosos apelaram a emendas textuais, sendo que a mais co­ nhecida é a de Hemtrich,58 que o emendou para o terceiro ano, e ele foi seguido mais recentemente por C. F. Whitley.59 A sugestão de Bertholet de que deva ser emendado para o décimo terceiro ano, em que foi seguido por Auvray e Steinmann,60 tem relacionamento com sua reformulação do ministério de Ezequiel, de modo que a visão marcasse a inauguração do segundo período (babilónico), mas foi fortemente refutada tanto por Fohrer como por Zimmerli. Aqueles que procuraram compreender o texto conforme consta têm sugerido: (i) que era o trigésimo ano após a reforma de Josias, i.é, c. de 591 a.C.; (ii) que era o trigésimo ano da idade de Ezequiel, idéia esta que remonta a Orígenes; (iii) que era o trigésimo ano do exílio de Joaquim, e que a referência não dizia respeito à visão inaugural bberstein, Babylonian Chronology, 626 a.C. - 75 d.C. (1956), pág. 26. Não devem ser usadas por demais dogmaticamente, porque tomam por certas questões acerca das quais há mais de uma interpretação. Por exemplo, nffo podemos ter certeza se Ezequiel seguiu um calendário que ia de um outono até ao outono seguinte, ou da primavera até à primavera seguinte. As datas citadas supra supõem que se trata de um calendário primaveril. 58. Hemtrich, pág. 63. 59. C. F. Whitley, “The ‘thirtieth’ year in Ezekiel 1:1,” VT, IX, 1959, págs. 326-330. 60. J. Steinmann, Le prophète Ezéchiel et les débuts de I’e xil (1953).

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INTRODUÇÃO de Ezequiel, mas, sim, à data da redação ou compilação final do livro inteiro (assim Beriy,61 Browne,62 Albright,63 e Howie). A primeira destas sugestões pode ser descontada porque não há evi­ dência em prol de qualquer datação semelhante de um evento, por mais importante que seja, sem referência específica ser feita a ele. A menção do reinado do rei Joaquim em 1:2 indica que se o trigésimo ano após a reforma de Josias estava em mira, o redator não percebeu o sentido, e se ele não conseguiu entendê-lo ficamos duvidando se qualquer leitor contem­ porâneo teria sido mais bem sucedido.64 Os argumentos em prol da teoria do “ano da compilação” são atraen­ tes e se encaixam bem com o padrão posterior de datas, viz. o vigésimo quinto ano para a visão de 4048, e o vigésimo sétimo ano para a predição do avanço de Nabucodonosor contra o Egito após seu fracasso em Tiro. Não havendo qualquer ponto de referência no texto, parece altamente razoável inferir o mesmo ponto de referência que é aplicado a todas as demais datas no livro. Os argumentos em prol desta interpretação são bem colocados na monografia de Howie.6S Do outro lado, exigem uma leve recomposição dos w. 1-3 de Ezequiel 1, e rejeitam o esforço do redator para fazer uma harmonização na sua referência ao quinto ano de Joaquim em 1:2. Se Howie tiver razão, o redator não poderia ter sido o próprio Ezequiel (conforme ele supõe), porque a confusão das datas nos w. 1 e 2 teria sido demasiadamente aparente para uma compilador inteligente permitir. Conforme foi transmitido para nós, 1:2 não pode ser outra coi­ sa senão uma glosa explanatória sobre a dats desvinculada em 1:1 e, além disto, o problema de 1:1 deve ter sido tio completamente reconhe­ cido pelo redator que nem sequer lhe ocorreu que se referisse à compila­ ção dos oráculos de Ezequiel no trigésimo ano do exílio de Joaquim. Para o redator, de qualquer maneira (e não podemos chegar mais perto das 61. JBL, LI, 1932, pág. 55. 62. L. E. Browne, Ezekiel and Alexander (1952), pág. 10; mas interpre­ ta o livro inteiro como um comentário dos fins do século IV a.C., sobre as campanhas de Alexandre, e o trigésimo ano é datado a partir da sucessão de Artaxerxes III. 63. JBL, LI, 1932, pág. 96. 64. A mesma objeção também deve ser aplicada a variantes desta teoria, e.g. que era o trigésimo ano da vida de Joaquim (Snaith, ET, LIX, 194748, págs. 315-6); ou do reinado de Manasse's (C. C. Torrey, Pseudo-Ezekiel and the Origi­ nal Prophecy (1930), págs. 634); ou de um período do jubileu (S. Fisch, Ezekiel, Soncino Bible, 1950, pág. 1). 65. C. G. Howie, The Date and Composition o f Ezekiel (JBL Monograph Series IV, 1950).

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EZEQUIEL fontes do que ele), o trigésimo e o quinto ano do exílio eram o mesmo ano. Ficamos, portanto, com as seguintes possibilidades: ou que estas cifras representam dois sistemas alternativos de datas,66 idéia esta que atraiu pouco, ou nenhum, apoio dos especialistas atuais na cronologia vétero-testamentária, ou que o trigésimo ano era o trigésimo ano de Ezequiel. Muita coisa há que se possa dizer em prol desta última idéia. Pri­ meiramente, é prima facie mais provável que, quando uma reminiscência pessoal está sendo registrada na primeira pessoa do singular, qualquer referência a um ano específico, a não ser que haja explicação em contrário, significaria o ano da idade do escritor. Em segundo lugar, há a evidência de Gênesis 8:13 no sentido de que esta era uma forma aceitável de expres­ são hebraica.67 Em terceiro lugar, há boa razão para se supor que o trigésimo ano da vida de um homem era a idade em que podia assumir todos os deveres do sacerdócio. Este argumento baseia-se no fato de ser esta a situação dos levitas, conforme Números 4:3 e 1 Crônicas 23:3, embora houvesse etapas de treinamento preliminar para a obra, a partir do vigésimo68 e do vigésimo quinto ano.69 A evidência do judaísmo pos­ terior mantém um silêncio estranho quanto ao assunto da idade da inicia­ ção no sacerdócio, mas trinta anos volta a ocorrer como a idade de plena maturidáde, e não dexia de ter significado o fato de que trinta anos era a idade de nosso Senhor na ocasião do Seu batismo e do começo do Seu ministério.70 Se assim for, o significado do seu trigésimo ano, na introdu­ ção autobiográfica de Ezequiel, não passaria desapercebido aos seus leito­ res, e algo do aspecto patético das suas esperanças frustradas de servir no Templo apareceria. Pode, portanto, ser suposto que foi como compensa­ ção pela sua perda de privilégio, por causa do exílio, que o Senhor cha­ mou Ezequiel para o ministério de profeta e atalaia no quinto ano do rei Joaquim.

66. Assim Cooke, págs. 3-4, seguindo Begrich. 67. “No primeiro dia do primeiro mês, do ano seiscentos e um, as águas se se­ caram de sobre a terra.” A referência é à vida de Noé, conforme 7:6 e 7: 11 tomam claro. Devo esta referência a S. G. Taylor, Tyndale Bulletin, 17,1966, págs. 119-120. 68. 1 Cr 23:24. 69. Nm 8:24. 70. Lc 3:23.

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INTRODUÇÃO IV. A MENSAGEM DE EZEQUIEL 0 impacto total de um livro é freqüentemente muito maior do que a mensagem pretendida pelo autor, e, da mesma forma, a mensagem que o livro de Ezequiel contribui à revelação de Deus nas Escrituras Sagradas é muito maior do que as meras palavras de Ezequiel dirigidas a seus com­ panheiros de exílio. Se não tivéssemos de lidar com nada mais do que isso, poderíamos resumir o ensino de Ezequiel em duas frases: Deus destruirá e, depois de 587 a.C., Deus restaurará e reconstruirá. Mas para relacionar isto com as necessidades dos homens e das nações hoje, conforme é a tare­ fa da exposição bíblica, devemos olhar abaixo da süperfície, nos princí­ pios subjacentes da natureza de Deus e dos Seus tratos com os homens, que o profeta reconheceu e aplicou, à sua maneira, às situações dos seus próprios tempos. O profeta vétero-testamentário, pois, era essencialmen­ te um intérprete, aplicando o que sabia da natureza e das leis de Deus às condições sociais, políticas e religiosas dos seus dias. A tarefa dele, por­ tanto, era arriscada. Tinha de pesar os fatos e tirar as conclusões certas. Tinha de falar com destemor, sabendo que muito provavelmente sofre­ ria oposição ou seria mal entendido. Tinha de falar alto, e de modo memo­ rável, porque seus problemas de comunicação eram muito maiores do que os nossos hoje. Acima de tudo, tendo poucos precedentes como base, e nenhuma Bíblia atrás da qual pudesse esconder-se, tinha de ter dupla cer­ teza de que as palavras que falava não eram dele, mas, sim, dAquele que o enviara. E tinha de fazer tudo isto no meio-ambiente das palavras doutros homens que professavam ser profetas, mas cujos oráculos eram uma ladai­ nha sem a autoridade derivada de terem experimentado a palavra de Deus dentro de si mesmos. Uma boa parte da linguagem de Ezequiel é repeticiosa. Isto às vezes toma a leitura enfadonha, mas ajuda a ressaltar seus temas recorrentes. Cinco destes foram escolhidos para serem comentados aqui. Como as es­ trelas que perfazem uma consteláção, são os pontos fixos em derredor dos quais o padrão da sua mensagem pode ser construído. a. A Transcendência de Deus Toda profecia começa com o caráter do Deus que a inspira. No caso de Ezequiel, que foi criado nos círculos sacerdotais em Jerusalém, é inevitável que o aspecto de Deus que ele sentia mais profundamente era Sua santidade. Esta não era uma qualidade moral, embora pudesse mostrar38


EZEQUIEL se em ações morais, e fazia assim mesmo (cf. Is 5 :16b). Era uma palavra que expressava relacionamento. O significado da raiz de qõdes (“santida­ de”) é “estar separado”, e assim, ser desligado doutros relacionamentos e usos comuns para cumprir uma função peculiar, uma que pertence a Deus, o Santo. O Deus de Israel não possuía, simplesmente, esta qualidade; Ele era esta qualidade. Tudo quanto tinha ligação com Ele derivava dEle a santidade. Podia, portanto, haver um lugar santo onde Ele era adorado, pessoas santas que agiam como Seus ministros, vestes santas que usavam e equipamentos santos que empregavam. Seu nome também era santo, Seu povo Israel era santo (até quando estava vivendo na injustiça), e o lugar onde fez Sua habitação era Seu santo monte. A visão do Senhor montado no Seu carro-trono (1-3) tipificava este senso de transcendência e de majestade. Era indizivelmente esplêndido, misteriosamente intrincado, sobre-humano e sobrenatural, infinitamente móvel mas nunca preso à terra, onividente e onisciente. É assim que Deus Se revelou a Ezequiel, não por proposições acerca do Seu caráter mas, sim, no encontro pessoal. Os rabinos que insistiam que ninguém abaixo da ida­ de de trinta anos deveria ler esta parte do livro de Ezequiel, estavam cons­ cientes de que aqui estavam em terra santa. Ezequiel tinha a mesma cons­ ciência. Como Simão Pedro ao ser confrontado pela capacidade sobre­ natural de Jesus (Lc 5:8), somente podia cair com o rosto em terra como morto. Este foi o contexto da sua comissão para profetizar, e a partir de então, levou consigo, no decorrer da totalidade do seu ministério, um sen­ so de reverência e de santo temor. É a marca distintiva do profeta verda­ deiro em cada geração. O falso profeta pode tagarelar levianamente acer­ ca de Deus, porque nunca se encontrou com Ele. O homem de Deus sai da Sua presença indelevelmente marcado com a glória do seu Senhor. Ezequiel deve ter sabido que o Deus de Israel era o Deus do mundo inteiro, como seu Criador e Sustentador. Suas tradições sacerdotais ensi­ naram-no, decerto, que Ele era o Deus de todas as nações, e o Juiz de­ las. Mas, mesmo assim, deve ter sido um grande consolo para ele, e para os exilados, saber que este Deus, cuja habitação ficava no monte Sião po­ dia aparecer-lhes ao lado do rio Quebar, em meio de todo o paganismo e idolatria sórdidos da vida babilónica. Se qualquer israelita sentisse que estava separado do seu Deus, bem como do seu Templo (cf. SI 137:4), es­ ta teofania na Babilônia poderia ser entendida como sinal de que Deus ainda Se importava com o Seu povo, mesmo no castigo do exílio. 39


INTRODUÇÃO b. A pecaminosidade de Israel Ezequiel foi confrontado com reações conflitantes às desgraças re­ centes da nação. Alguns achavam que o castigo devido pela sua desobe­ diência já fora esgotado pelos eventos de 597 a.C., e que nada restava a fazer senão esperar a repatriação. Outros adotavam a linha fatalista e se consideravam os herdeiros infelizes dos pecados dos seus antepassados pelos quais um Deus injusto agora os castigava. A maioria sentia certa me­ dida de segurança nisto: como eram o povo do próprio Javé, Ele nunca poderia castigá-los por demais drasticamente sem desprestigiar-Se aos olhos dos pagãos. Uns poucos achavam que Javé já tinha ficado humilhado, e fora demonstrado incapaz diante dos deuses da Babilônia. O modo do profeta tratar destes pontos de vista, conforme é demonstrado no comen­ tário sobre os capítulos 12-24, revela que é competente e disposto a encontrar-se com seus ouvintes no terreno deles e a respoder às objeções que levantam. Na maior parte, no entanto, seu alvo é convencer o povo da sua total indignidade de qualquer consideração da parte de Deus, a fim de levá-lo pelo caminho da vergonha até chegarem ao verdadeiro arrepen­ dimento. Faz isto de duas maneiras: a geral e a específica. No primeiro caso, emprega a alegoria para descrever historicamente a história da persistente infidelidade de Israel à aliança graciosa de Deus. Três passagens tratam dis­ to: 16:1-63; 20:1-31 e 23:149. Cada uma delas esquematiza o passado de um modo levemente diferente. A parábola da enjeitada (16:1-63) co­ meça com Israel, ou talvez Jerusalém, como uma enjeitada desatraente (“a revolver-te no teu sangue”), mas quando ficou moça e chegou à idade dos amores, o Senhor entrou em aliança com ela, purificou-a e embelezou-a, e deu a ela generosamente riquezas e honrarias de rainha. Como paga por is­ to, Israel, confiando na sua beleza, prostituiu-se com estrangeiros e despre­ zou seu Benfeitor divino. O capítulo 20 vê a história de Israel como um ciclo de atos desobedientes, cada um dos quais foi seguido por uma deci­ são graciosa da parte de Deus nó sentido de não castigar mas, sim, de re­ ter a Sua mão. É notável aqui a frase repetida: “O que fiz, porém, foi por amor do meu nome, para que não fosse profanado diante das nações, no meio das quais eles estavam” (20:9, 14, 22). A ação de Deus em revelarSe a Israel, em fazer uma aliança com ele, e até mesmo em discipliná-lo, foi inicialmente para seu benefício (“a fim de que soubessem que eu sou o “SENHOR,” etc.; 20:12, 20, 26), mas em última análise Seus tratos com Israel olhavam além dos próprios interesses daquela nação para a preocupação no sentido de o nome de Deus ser conhecido e respeitado 40


EZEQUIEL pelo mundo inteiro. Esta era uma doutrina que colocava o orgulho de Israel na sua eleição firmemente no seu lugar adequado. Finalmente, a alegoria das duas irmãs (23: 149) desconsidera até mesmo a possibili­ dade da inocência original de Israel. Oolá e Oolibá prostituíram-se no Egi­ to na sua mocidade. Dificilmente poderiam ser descritas como mulhe­ res caídas, porque nunca estiveram noutro lugar senão no esgoto. Sua única característica era um apetite insaciável pela fornicação, e o casti­ go delas seria completo —de modo correspondente. A intenção destes panoramas históricos era envergonhar e horro­ rizar. Se os estudiosos têm razão em supor que um aspecto regular do culto israelita era uma recitação litúrgjca das tradições sagradas do pas­ sado, as “obras maravilhosas” (niplã’ô t) do Saltério, então Ezequiel po­ deria quase ser acusado de parodiá-las com as distorções monstruosas que fazia. Mas quanto mais de perto eram examinadas, tanto mais evi­ dente apareceria que não eram, na realidade, tão distorcidas como algu­ mas pessoas talvez pensassem. A versão que nosso Senhor deu da história judaica não era mais distorcida, e Seus ouvintes reconheciam que era desconfortavelmente leal aos fatos (Lc 20:9-19). Mais especificamente, Ezequiel cita no capítulo 8 os delitos que, se­ gundo ele sabia, estavam sendo praticados no Templo. Tratava-se, natu­ ralmente, de desvios religiosos, e incluíam a idolatria descarada, a ado­ ração aos animais, a adoração à natureza, e a adoração ao sol. Embora alguns aspectos da sua descrição sugiram que estes possam ter sido epi­ sódios mais típicos do que concretos, não deixaram de ilustrar o grau de sincretismo que estava afetando a adoração a Deus em Jerusalém. Cons­ tituíam-se, também, em justificativa abundante para a decisão de Deus no sentido de castigar o povo de Jerusalém com uma matança que relembraria a praga na ocasião da Páscoa (9: 5-6) e de chover destruição sobre a cidade como nos dias de Sodoma e Gomorra (10:2). Tanto aqui quanto nos três panoramas do passado, os pecados de Israel têm sido principalmente pe­ cados religiosos. O povo tem sido idólatra, fez alianças e se prostituiu com potências estrangeiras (e isto envolvia a subserviência religiosa também, conforme vimos), de modo que não cumpriu suas responsabilidades se­ gundo a aliança, não observou as ordenanças e os juízos que o Senhor lhe deu no Sinai (5:6-7). Numa palavra, profanara o nome santo de Deus (20:9; 37:20-23); e, porque para Ezequiel Deus era a santidade, este era o pecado mais horrendo. Em comparação com isto, os pecados sociais que Amós atacara dois séculos antes quase nem são mencionados. 41


INTRODUÇÃO c. O fato do julgamento Esta não era nenhuma doutrina nova para um profeta vétero-testamentário. Mensagens de julgamento tinham sido a produção regular dos profetas já havia muitos anos. Mas este próprio fato tomou mais difí­ cil a tarefa de Ezequiel. Havia muita diferença entre ameaças de julga­ mento e uma mensagem de que o julgamento era iminente. Foi por isso que Ezequiel sentia tão agudamente sua responsabilidade de agir como atalaia nacional para Israel, a fim de adverti-lo quanto à desgraça que es­ tava para desabar sobre ele. A mensagem de Deus para Israel era que o Deus que falava também agiria: “Eu, o SENHOR, o disse, e o farei” (17:24; 22:14; 24:14; 36:36; 37:14). Deus pronunciara a palavra do julgamento, e os homens já não podiam desconsiderá-la, dando de om­ bros, com a desculpa de que, embora os profetas tivessem ameaçado, na­ da acontecera até então (12:22), ou que tudo se referia ao futuro distan­ te (12:27). A palavra de Deus agora era: “A palavra que falei se cumpri­ rá” (12:28). d. A responsabilidade individual Von Rad71 indicou que a posição de Ezequiel como atalaia era “qua­ se contraditória, visto que é Javé que não somente ameaça a Israel como também, ao mesmo tempo, deseja adverti-lo a fim de que seja salvo.” A possibilidade da salvação de um remanescente é freqüentemente ofereci­ da, mesmo nas predições da destruição (e.g. 5:3,10; 6:8;9:4), e a inten­ ção de Ezequiel ao agir como atalaia é que o perverso se arrependa e sal­ ve a sua vida (3:18). Isto é declarado de modo mais explícito em 18:1-29 onde, num contexto de tentação ao fatalismo (18:2-3) Ezequiel faz ques­ tão de dizer que cada homem é tratado como um indivíduo por Deus. Aquilo que lhe acontece não depende puramente da hereditariedade (os pecados do seu pai), nem ainda do meio-ambiente (os pecados da nação), mas, sim, é condicionado pela escolha pessoal. A escolha que importa é a dedicação a Deus. Destarte, o perverso pode voltar-se da sua perversi­ dade para Deus, comprovando sua dedicação mediante a obediência aos mandamentos, e sua perversidade não será contada contra ele. Inversa­ mente, o justo deve ser advertido de que não pode confiar na sua justiça como desculpa para brincar com o mal; se assim fizer, demonstrará que sua 71. G. von Rad, Old Testament Theology, vol. II (Trad, ing., 1965), pág. 230. [Editada em português pela ASTE.]

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EZEQUIEL verdadeira dedicação não é a Deus, e sua justiça não será creditada à sua conta. Esta não é uma declaração da justificação pelas obras; está dizendo que a vida do homem é uma questão do seu coração. Deus não tira uma média geral da vida de um homem; é a direção da sua dedicação que conta. E o fato básico da análise feita por Ezequiel da questão inteira é que Deus não tem prazer na morte do perverso (18:23, 32); quer que ele se con­ verta e viva.72 Este é um individualismo radical que faz mais do que contrabalan­ çar o senso da responsabilidade e da culpa corporativa que tipificava boa parte do pensamento popular pré-exilico. Aparece outra vez em 14:12-20, onde se ensina a lição de que ninguém pode esconder-se por detrás da jus­ tiça dos outros, nem sequer de homens tais como Noé, Daniel, e Jó, na destruição que está para cair sobre Jerusalém. A salvação será numa base puramente individual. (Compare o sinal de isenção que foi colocado à tes­ ta daqueles que gemem por causa de todas as abominações que se come­ tiam na cidade: 9:4).73 Não se segue daí que Ezequiel foi, virtualmente, o inventor da religião individual, o protestante entre os profetas, e que tu­ do antes dele era coletivista. Não somente Jeremias, como também muitos dos salmos individuais e as experiências pessoais de patriarcas e reis dão testemunho da realidade da piedade individual e de uma consciência pes­ soal de Deus. Foi o gênio de Ezequiel declarar a aplicação do princípio da responsabilidade individual diante do juízo coletivo que estava para sobre­ vir a Jerusalém. A destruição estava chegando, mas os homens podiam arrepender-se e ser salvos. Ezequiel, o atalaia, também era Ezequiel, o evangelista. e. A promessa da restauração Embora o arrependimento seja para o indivíduo, a salvação deve ser desfrutada por ele como membro de uma comunidade restaurada. O novo Israel será milagrosamente vivificado pela operação do Espírito de Deus, o Único que pode fazer viver os ossos secos (37:5). Será uma comunidade sem as velhas divisões de Israel e de Judápara separá-la (37:17). Desfruta­ rá das bênçãos de uma aliança eterna, e a divisa da aliança: “eles serão o 72. Uma exposição excelente desta passagem acha-se em von Rad, op. cit., vol. I, págs. 3934. 73. O relacionamento entre esta passagem e a intercessão de Abraão em prol de Sodoma é discutido de modo breve no comentário, in loc.

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INTRODUÇÃO meu povo, e eu serei o seu Deus,” será escrita na sua constituição (11:20; 14:11; 36:28; 37:23, 27). À testa da comunidade haverá “o meu servo Davi,” o Rei Messias (37:24-5). Nenhuma tentativa é feita para identificar esta pessoa, e rebuscamos o livro de Ezequiel em vão para qualquer elabo­ ração deste tema específico. Esta pessoa, no entanto, terá o direito de ser chamada o rei (melek) de Israel, além de ser seu príncipe (nàst’), termo es­ te que na era messiânica futura terá perdido suas implicações pejorativas (cf. 37:25; 45:7, etc.). Remará de modo justo e consciencioso, e cuidará dos fracos e dos aleijados entre o rebanho (34: 23). A terra prosperará e florescerá, e de dentro do santuário na nova Jerusalém fluirá o simbólico rio da vida para regar os lugares desertos da terra (47:1-12). Tudo isto, no entanto, é apenas o aspecto externo da restauração que Deus promete ao Seu remanescente justo. Internamente, Ele faz a oferta de um novo co­ ração e de um novo espírito para o israelitada individual, de modo que possa ser purificado da imundícia dos seus pecados e da impureza do exí­ lio, e possa ser motivado interiormente para viver de acordo com os man­ damentos de Deus (36:24-28). Nestas palavras Ezequiel dá uma defini­ ção adicional à profecia de Jeremias sobre a nova aliança (Jr 31: 31-34), acerca da qual parece ter sido informado com bastantes pormenores, e em especial, explica como esta esperança pode ser efetuada mediante um transplante espiritual, mediante o dom de Deus, que é um coração de car­ ne em troca do coração de pedra do homem. A mensagem é clara: a maior pedra de tropeço do homem está nele mesmo, e nada pode resolver este problema a não ser a ação graciosa de Deus na renovação e na regeneração espiritual.74 V. O TEXTO O texto hebraico de Ezequiel sofreu mais do que a maioria dos li­ vros do Antigo Testamento no processo da transmissão, e as notas de ro­ dapé da RSV dão testemunho às muitas ocasiões em que os tradutores tinham de apelar às Versões ou à conjectura a fim de descobrir o senti­ do de uma frase especialmente obscura. Isto não é surpreendente, porque Ezequiel fez uso de várias palavras raras e termos arquitetônicos que não 74. Para ura estudo completo e penetrante da mensagem de Ezequiel, que in­ felizmente foi publicado depois desta Introdução ter sido escrita, ver W. Zimmerli, “The Message of the Prophet Ezekiel,” Interpretation, XXIII, 1969, págs. 131-157.

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EZEQUIEL se poderia esperar que copistas posteriores conhecessem. Não é sábio, no entanto, corrigir por demais facilmente o texto hebraico, que talvez seja difícil, com base num texto muito mais inteligível da LXX, porque nunca podemos ter certeza se o tradutor da LXX não estava tentando melho­ rar seu original sem bases adequadas para fazê-lo. A LXX permanece sen­ do, naturalmente, uma ajuda inestimável para todos quantos procuram descobrir o melhor texto hebraico. Ela representa uma tradução feita pa­ ra o grego, provavelmente perto do fim do século III, a.C., e dá testemu­ nho, portanto, de uma etapa muito anterior na transmissão do texto hebrai­ co do que o MSS dos quais nossas Versões são traduzidas. Mas antes de seus textos serem aceitos como sendo superiores àqueles do texto hebrai­ co posterior, o estudioso deve ter certeza dos seguintes aspectos: (i) deve ter certeza de que o texto da LXX é correto e não sofreu deturpação, ele mesmo, no decurso da transmissão; (ii) deve julgar com exatidão qual era o texto hebraico que subjazia a tradução na LXX; (iii) para fazer isso, precisa conhecer as capacidades do tradutor da LXX, e.g. se conhecia bem o hebraico, ou apenas toleravelmente, se o traduzia ao pé da letra ou idio­ maticamente, se não tinha hesitação em incorporar uma tendência teológi­ ca toda sua, e assim por diante.75 No caso da LXX de Ezequiel, parece provável que a tradução foi fei­ ta por duas ou até três pessoas, embora houvesse um redator geral que produziu um efeito unificador sobre o livro inteiro.76 Estas pessoas fizeram seu trabalho de modo competente, mas em certo número de oca­ siões parafrasearam ao invés de traduzirem; omitiam aquilo que conside­ ravam frases repeticiosas ou encaixavam comentários explanatórios sem autoridade alguma senão a deles próprios; e há ocorrências em que altera­ ram a tradução para fazê-la concordar com o próprio ponto de vista de­ les. Destarte, a necessidade de grande cuidado em interpretar a LXX é sublinhada. No presente comentário, a política tem sido de cautela, e a emenda na base da LXX tem sido seguida somente no caso em que o he­ braico tem parecido ser, ou ininteligível, ou obviamente deturpado. As demais Versões, a Siríaca, a Latina Antiga e a Vulgata, têm valor apenas limitado para corrigir o Texto Massorético, porque todas dependem pe­ 75. Isto, necessariamente, toma por solucionada a questão dos assim-chamados estudos proto-septuagintais, viz., a questão da possibilidade de se descobrir um texto original da LXX, ou de se certo número de recensões paralelas sempre existi­ ram lado a lado. Para um resumo da posição, ver OTMS, págs. 250-252. 76. Ver H. St. J. Thackeray, The Septuagint and Jewish Worship (Schweich

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INTRODUÇÃO sadamente da LXX. A LXX de Ezequiel é bem representada nos códices principais, mas, em anos recentes, interesse especial tem sido focalizado nos papi­ ros Scheide, que contêm um testemunho do início do século III d.C. ao texto grego de Ezequiel 19:12-39: 29.77 Um resultado interessan­ te destes estudos tem sido a sugestão de que a forma incomum do nome divino no livro de Ezequiel, “o SENHOR Deus” (’adõnãy yahweh), foi produzida pela expansão de um yahweh original por escribas contrários à pronúncia do nome santo à sua pronúncia. A pronúncia mais tarde a pa­ dronizar-se sem a necessidade de qualquer inserção no texto, mas per­ maneceu no texto hebraico transmitido de Ezequiel.

Lectures, 1921); Nigel Turner, “The Greek Translators of Ezekiel,” JTS, VII, 1956, págs. 12-24. 77. Para uma bibliografia destes estudos, ver IB, pág. 6 8, nota 77.

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ANÁLISE I. A VISÃO, A COMISSÃO E A MENSAGEM DE EZEQUIEL (1:15:17) a. Introdução (1:1-3) b. A visâo do carro-trono do Senhor (1:4-28) c. A comissão para ser porta-voz do Senhor à casa de Israel (2:13:15) d. O atalaia silencioso (3:16-27) e. Quatro mensagens encenadas (4:1-5:17) i. O cerco de Jerusalém (4:1-3) ii. Os dias do castigo de Israel e de Judá (4:4-8) iii. A fome em Jerusalém (4:9-17) iv. A tríplice ruína do povo de Jerusalém (5:1-17) II. ORÁCULOS DE JUÍZO (6:1-7:27) a. A profecia contra os montes de Israel (6:1-14) b. “O fim vem” (7:1-27) III. A VISÃO DO CASTIGO DE JERUSALÉM (8: 1-11:25) a. As idolatrias sendo praticadas no Templo (8:1-18) b. Os sete algozes: o castigo pela matança (9:1-11) c. O carro-trono do Senhor: o castigo pelo fogo (10:1-22) d. A morte de Pelatias (11:1-13) e. Um novo coraçSo para o povo de Deus no exílio (11:14-25) IV. ORÁCULOS ACERCA DOS PECADOS DE ISRAEL E JERUSA­ LÉM (12:1-24:27) a. Mais duas mensagens encenadas (12:1-20) 47


INTRODUÇÃO b. c. d. e. f. g. h. i. j. k. 1. m. n. o. p.

i. Indo para o exílio (12:1-16) ii. O terror dos habitantes de Jerusalém (12:17-20) Corrigidos dois ditos populares (12:21-28) Profecia contra os profetas e as profetizas de Israel (13:1-23) A condenação daqueles que se entregam àidolatria (14:1-11) Os poucos justos não evitarão o juízo (14:12-23) A parábola da videira (15:1-8) Jerusalém, a infiel (16:1-63) A parábola das duas águias (17:1-24) A lei da responsabilidade individual (18:1 -32) Uma lamentaçSo sobre os reis de Israel (19:1-14) Um retrospecto da história de Israel e dos planos futuros de Deus para ele (20:1-44) O julgamento pelo fogo e pela espada (20:45-21:32) Três oráculos sobre a imundícia de Jerusalém (22:1-31) Oolá e Oolibá (23:149) A panela enferrujada (24:1-14) A morte da esposa de Ezequiel (24:15-27)

V. ORÁCULOS CONTRA AS NAÇÕES (25:1 -32:32) a. Contra nações vizinhas (25:1-17) b. Contra Tiro e Sidom (26:1-28:26) i. A profecia da destruição de Tiro (26:1-21) ii. O naufrágio de Tiro (27:1 -36) iii. A queda do príncipe de Tiro (28:1-10) iv. A lamentação contra o rei de Tiro (28:11 -19) v. A profecia contra Sidom (28:20-26) c. Contra o Egito (29:1-32:32) i. Os pecados do Egito (29:1 -16) ii. O Egito e a Babilônia (29:17-21) iii. O julgamento contra o Egito (30:1-19) iv. Quebrado o braço de Faraó (30:20-26) v. O grande cedro (31:1-18) vi. Lamentação contra Faraó (32:1-16) vii. Faraó desce para o Sheol (32:17-32) VI. ORÁCULOS RELACIONADOS COM A QUEDA DE JERUSALÉM (33:1-37:28) a. Reafirmados os deveres do atalaia (33:1 -20) 48


EZEQUIEL b. c. d. e. f.

A cidade cai, mas o povo não se arrepende (33:21 -33) Os pastores do passado e o Pastor do futuro (34:1-31) A denúncia da traição de Edom (35:1-15) Uma terra restaurada e um povo transformado (36:1-38) O renascimento espiritual do povo (37:1-28)

VII. A PROFECIA CONTRA GOGUE (38:1 -39:29) a. A invasão dos exércitos de Gogue (38:1-16) b. O massacre (38:17-39:24) c. Os propósitos finais de Deus para Israel (39:25-29) VIII. OS PLANOS PARA A NOVA JERUSALÉM (40:148:35) a. A visão do templo (40:142:20) b. Volta a glória do Senhor (43:1 -12) c. Regulamentos para o culto no templo (43:1346:24) i. O altar, suas dimensões e sua consagração (43:13-27) ii. Os ministros, seus deveres e qualificações (44:145:8) iii. As ofertas e outros regulamentos (45:946:24) d. As águas vivificantes (47:1-12) e. A divisão da terra (47:1348:35)

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COMENTÁRIO I. A VISÃO, A COMISSÃO E A MENSAGEM DE EZEQUIEL (1: 1-5:17) a. Introdução (I: I-I3) Estes versículos introdutórios consistem em duas declarações distin­ tas, uma na primeira pessoa e a outra na terceira pessoa. O primeiro versí­ culo dá uma data —no trigésimo ano, mas temos de adivinhar como esta deve ser calculada — e descreve o que aconteceu a Ezequiel junto ao rio Quebar com a frase se abriram os céus, e eu tive visões de Deus. Esta frase naturalmente se liga com v. 4 onde o conteúdo da visão é descrito também na forma autobiográfica. À primeira vista, os w. 2 e 3 parecem não ter relacionamento com seu contexto. Repetem a localidade do minis­ tério profético de Ezequiel, junto ao rio Quebar; introduzem uma nova data, com o mesmo dia do més mas um ano diferente, embora desta vez seja ancorada num sistema reconhecido de datação, e descrevem o que aconteceu a Ezequiel, não em termos de experiência visionária, mas, sim, nos termos proféticos mais tradicionais, veio a palavra do SENHOR, e esteve sobre ele a mão do SENHOR. Alguns argumentariam que temos aqui dois sobrescritos à obra do profeta, que vêm de coletâneas originais diferentes. O v. 1, no entanto, faz tão claramente parte do capítulo que se segue a partir do v. 4, que é preferível considerar que esta é a própria maneira de Ezequiel introduzir a visão que se constituiu na sua vocação, e entender que os w. 2 e 3 são uma nota parentética, fornecida, possivel­ mente, a fim de explicar o trigésimo ano enigmaticamente indefinido com que começa o livro. 50


EZEQUIEL 1:1-3 Na forma em que o livro chegou até nós, os w. 2 e 3 são parte inte­ grante do todo, porque fornecem não somente uma situação histórica pa­ ra a visão de Ezequiel, como também um título necessário para a obra, fornecendo as informações costumárias acerca da identidade do autor. Esta matéria já foi discutida mais extensivamente na Introdução,1 onde notamos que a data era provavelmente o trigésimo ano da idade de Eze­ quiel que coincidia com o quinto ano do cativeiro de Joaquim, ou seja: 593 a.C. E se tivermos razão em supor que esta era a idade em que um sacerdote teria assumido seus deveres no Templo, ficará claro que Eze­ quiel considerava que sua visão e sua chamada para ser o porta-voz de Deus aos exilados veio num ponto crucial na sua vida. Era, em certo sen­ tido, uma compensação pelo ministério sacerdotal que o infortúnio do exí­ lio arrebatara dele. Quando seu momento de ministério estava para come­ çar, Deus o conclamou para outra esfera de trabalho. O sacerdote foi co­ missionado como profeta. Não há contradição entre as idéias da experiência visionária, expres­ sada no v. 1, e a palavra do SENHOR vindo a Ezequiel no v. 3. Esta últi­ ma é, naturalmente, a expressão mais freqüentemente associada com o profeta do Antigo Testamento (1 Sm 15:10; 1 Rs 12:22; Is 38:4; Jr. 1:2; Os 1:1; J11:1). Mas o profeta israelita também era um vidente (Heb. rò’eh ou hôzeh). A primeira palavra é usada em 1 Samuel 9:9 para denotar o nome anteriormente dado ao nâbt\ “profeta,” mas não é, de modo al­ gum, restrita ao uso arcaico: Isaías a emprega em 30:10, e o Cronista des­ creve tanto Samuel quanto Hanani com este termo. A segunda palavra tem mais o significado de “ver uma visão” e também é usada, especialmente pe­ lo Cronista, como um título para os profetas do passado, tais como Gade, Ido e Asafe. Seu emprego por Amazias, o sacerdote de Betei, quando, com desprezo, mandou Amós voltar para sua terra natal de Judá e profetizar ali (“Vai-te, ó vidente” ; ver Am 7:12) não é típico. Na verdade, a profecia de Isaías começa com as palavras: “Visão (hàzôn) de Isaías . .. que teve (hãzâ) a respeito de Judá e Jerusalém.” A experiência visionária era então uma marca tão natural e reconhecida do profeta quanto era a palavra compul­ siva do Senhor dentro dele. Estes dois aspectos da revelação de Deus à consciência profética acham-se lado a lado em, por exemplo, 1 Samuel 3:21: “Continuou o SENHOR a aparecer em Silo, enquanto por sua pala­ vra se manifestava ali a Samuel.” Sobre a localidade do rio Quebar, ver a Introdução, pág. 21. (1) Ver págs. 14ss.

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EZEQUIEL 1:4-9 b. A visão do carro-trono do Senhor (1:4-28) A teofania que Ezequiel agora descreve deve ter sido experimentada por ele quando estava sozinho na planície arenosa a certa distância do arraial principal dos exilados, que era seu lar. Este tanto é indicado por 3:14-15, e aqueles versículos também ilustram o grau de liberdade para perambular que ele e seus patrícios aparentemente desfrutavam na Babi­ lônia. 4. A sós com seus pensamentos, e sem dúvida compartilhando dos conceitos melancólicos dos seus colegas exilados, no que diz respeito à sua separação da presença de Deus em Jerusalém, de repente teve cons­ ciência de uma nuvem preta tempestuosa que se avolumava no norte. E possível que na sua experiência real começasse observando algum fenô­ meno natural deste tipo, a partir do qual desenvolveu-se a visão sobrena­ tural da glória do Senhor que ocupa a maior parte deste capítulo. O físi­ co e o visível levaram para o espiritual e o visionário. Alternativamente, o acontecimento inteiro, do começo ao fim, foi uma experiência visio­ nária, sem ponto de partida na realidade. De qualquer maneira, a descri­ ção da visão avança do normal para o supranormal, começando com uma nuvem de trovão, preta e ameaçadora, com o brilho do sol do deserto iluminando suas extremidades, e com raios riscando o céu escurecido. A última frase do v. 4 começa a mostrar que este é mais do que um fura­ cão comum dos desertos: sua aparência é vividamente descrita “como me­ tal brilhante que saía do meio do fogo.” A palavra hebraica rafa hasmal, empregada aqui e no v. 27, bem como em 8:2, não é “âmbar” (ARC), mas, sim, algum tipo de metal brilhante: em todos os casos, descreve o esplen­ dor ofuscante do Senhor, e assim prepara o caminho para os aspectos so­ brenaturais da visão que se segue. 5-11. A atenção do profeta é focalizada primeiramente nos quatro seres viventes grotescos que sustentavam a plataforma ou firmamento (2223) por cima do qual ficava o tróno de Javé. Os seres viventes eram basica­ mente de forma humana, o que presumivelmente significa que andavam retos (cf. v. 7: as suas pernas eram direitas), mas cada um tinha quatro ros­ tos olhando em quatro direções diferentes, quatro asas além de mãos huma­ nas, e a planta dos seus pés era como a de um bezerro. Esta última referên­ cia não parece ter relevância discemível, e alguns tradutores, portanto, revocalizaram a palavra para dar o sentido “arredondada,” mas isto difi­ cilmente ajuda. É possível que o bezerro tipifique agilidade (cf. SI 29:6; Ml 4: 2), senão, devemos concluir que qualquer sentido que tivesse então, 52


EZEQUIEL 1:9-11 agora está perdido para nós. 10. Os quatro rostos representavam as formas mais altas de vida a serem achadas entre os vários reinos da criação de Deus: o homem co­ mo supremo vinha primeiro, e olhava para a frente; o leão e o boi eram os reis entre as feras e os animais domésticos (o que o escritor de Gênesis 1 chama de “animais selváticos” e “animais domésticos” [“gado” em ARC]); e a águia era a principal das aves do céu. Os seres viventes que ras­ tejam e os peixes do mar não foram representados! Os seres viventes for­ mavam um quadrado e, visto que cada um olhava para fora com seu ros­ to humano, o efeito deste padrão simétrico era que, seja qual for a direção da qual se olhava os quatro seres, um rosto diferente era visto de cada la­ do, de modo que todos os quatro rostos eram visíveis ao mesmo tempo de qualquer ângulo. O rosto mais perto de quem olhava seria mostrado como o de um homem, o do lado esquerdo ficaria na sua frente como boi, o do lado direito, como leão, e o ser no fundo estaria revelando sua aparência como águia. É tentador procurar algum tipo de protótipo para estes se­ res viventes entre as figuras animais compostas esculpidas nos templos ba­ bilónicos e nas portas das cidades hetéias, mas não há evidência em prol de nada mais do que uma influência geral das formas de arte egípcias e dou­ tras partes do Oriente Próximo com que Ezequiel deve ter tido familiarida­ de.2 Quase certamente a forma final é do próprio Ezequiel, e reflete sua paixão pela simetria que veremos outra vez na arquitetura do futuro tem­ plo. O quadrado oco que estes seres viventes formavam era realizado por serem ligados juntos às pontas das suas asas. Apenas duas das suas quatro asas eram estendidas para este propósito, sendo que as outras eram usadas para ocultar seus corpos (11). Em Isaías 6 os serafins tinham fceis asas, das quais duas eram usadas para cobrir o rosto em adoração, duas para cobrir os pés em modéstia, e com as outras duas voavam. Em Ezequiel não havia necessidade de movimento, e as asas esticadas imóveis simplesmente serviam de suportes para a plataforma em cima. Embora não estivessem adorando a Javé, a santidade da presença divina era o suficiente para exigir que seus corpos humanos nus fossem cobertos de modo decente. Além das asas, também tinham mãos das quais fariam bom uso mais tarde (10:7) É me­ lhor traduzir o v. 8 com Cooke, assim: “E as mãos de um homem estavam (2) A. comparação mais estreita que a arqueologia oferece é com as figuras de querubins que ladeiam o trono de Hirão, rei de Biblos (ver IDB, vol. 1, págs. 131-2; também NDB, figs. 186 e 99).

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EZEQUIEL 1:11-17 nos lados dos quatro deles.” 0 hebraico aceita este significado, e nos poupa a necessidade de atribuir quatro mãos a cada ser vivente, o que algu­ mas versões parecem subentender. 12-14. No meio do quadrado oco havia carvão em brasa (13), as­ pecto este que Isaías também tinha na visão dele, só que o dele estava em­ pilhado no altar. Para Ezequiel, o fogo que simbolizava o julgamento esta­ va no coração da presença de Deus, e periodicamente resplandecia em re­ lâmpagos. (Cf. SI 18:8; 50: 3; e para a referência às tochas, Gn 15:17; Êx 20:18). O resultado de ter este âmago de fogo era que, por onde iam os seres viventes, ziguezagueavam à semelhança de relâmpagos (14). Não havia, no entanto, nada que se pudesse chamar de movimento independen­ te para os seres viventes: a totalidade do carro-trono do qual faziam par­ te movimentava-se de modo uniforme, juntamente sob o impulso do es­ pírito (12; heb. rúah). Esta palavra tem sido compreendida de várias ma­ neiras como sendo (a) o Espírito de Deus, (b) o vento que trouxe a grande nuvem do norte, (c) o espírito dentro dos seres viventes, e (d) “a energia vital ou impulso mediante o qual Deus, do Seu trono, agia sobre eles.”3 Todos estes significados podem ser atribuídos à redação em hebraico. A semelhança da frase no v. 20: “o espírito dos seres viventes,” sugere que um dos últimos dois significados deva ser preferido. Destes, porém, (c) subentende quase que os seres viventes se movimentavam segundo seu próprio impulso interno, e isto é menos provável do que o fato deles se­ rem motivados pelo impulso de Deus agindo dentro deles. 15-18. Ao lado de cada um dos seres viventes havia uma roda, e era esta que fazia o contato com o chão. Quanto à aparência, era como o berilo (16; heb. tarsís), pedra esta que Petrie identificou como o jaspe amarelo,4 nias que a maioria dos comentaristas chama de “topázio”, se­ guindo Myers.s As versões antigas a traduziram como “crisólito,” mas a questão da sua identidade geológica não é solucionada assim. O berilo é uma pedra de cor esverdeada, e é bem diferente. Os w 16b e 17 sugerem que cada roda consistia em duas rodas, provavelmente discos sólidos, que se dividiam em partes iguais em ângulos retos, permitindo, desta maneira, o movimento em qualquer uma das quatro direções sem serem giradas. O v. 17: em quatro direções, quer dizer, nas quatro direções para as quais os seres viventes olhavam. (3)Cooke, pág. 15. (4)HDB, s.v. “Stones, Precious.” {5)EB, col.4807.

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EZEQUIEL 1:18-25 18. Iit. “Quanto às cambotas, altura a elas e medo a elas”, i.é, eram altas e aterrorizadoras, descrição esta que é aparentemente confir­ mada por estarem cheias de olhos. O hebraico não é fácil e as versões tiveram dificuldade em traduzi-lo, mas o TM pode fazer sentido, e é melhor aceitá-lo do que procurar melhorar o texto, na maneira em que muitos estudiosos ocidentais consideram irresistível. 19-21. A descrição até esta altura prepara o caminho para aquilo que há de seguir. A Deidade é, por assim dizer, levada para cima na pla­ taforma, sustentada pelos representantes da Sua criação. O homem, ape­ sar da sua superioridade ao reino animal, é igual a eles em agir como guar­ da e servidor do seu Senhor. Cumpre, porém, seus deveres sem movimen­ to e aparentemente sem esforço. As rodas se movimentam, mas os seres viventes estão imóveis, e, mesmo assim, o palanquim inteiro viaja com ra­ pidez e leveza acima da terra, em qualquer direção que o impulso orienta­ dor dirige. E, como se fosse para demonstrar que Deus não está preso à terra, o carro-trono pode se elevar para os ares e voar. Móvel sem esforço algum é o Deus da visão de Ezequiel. 22, 23. A tradução firmamento não é uma boa interpretação para o hebraico ràqta' no v. 22. Tem sua origem na palavra firmamentum, da Vulgata, que é uma interpretação literal do grego sterôma, que, por sua vez, procura de modo bem correto, indicar o significado hebraico dalguma coisa “tomada firme”, por bater ou carimbar, e.g., uma obra de metal mar­ telado. Geralmente, se refere à curva dos céus, que, para o observador na terra, tem a aparência de uma vasta bacia azul, invertida. Em passagens como Génesis 1:6; Salmo 19:1; 150: l;Daniel 12:3,claramente tem este significado, mas em Ezequiel tem o sentido de uma superfície ou platafor­ ma firme e nivelada. No livro do Apocalipse, esta mesma frase fica sendo “um como que mar de vidro, semelhante ao cristal” diante do trono de Deus (Ap 4:6). A menção de cristal no v. 22 é derivada da LXX, que tra­ duz assim o hebraico querah, gelo ou geada. As traduções modernas se­ guem a LXX, mas realmente a expressão acompanhante, que metia medo, é mais apropriada para “gelo” do que para “cristal”, e seria melhor enten­ der que Ezequiel viu “algo como uma plataforma, brilhando horrivelmen­ te como gelo, estendida por sobre as suas cabeças.” 24, 25. Enquanto movimentava-se, havia um zumbido estranho, à medida em que os quatro pares de asas esticadas vibravam poderosamente. O barulho era como uma torrente montanhosa (muitas águas) ou como o ribombar do trovão (a voz do Onipotente) ou como o som de um exército avançando. A LXX omite todas estas três expressões, menos a primeira, 55


EZEQUIEL 1:25-28 mas são símiles vívidas, e transmitem bem a idéia da terribilidade de Deus, ouvida pelo ouvido, bem como vista pelos olhos. Além do som do movimen­ to, o profeta também menciona a voz de Deus que pode ser ouvida vindo de cima da plataforma. Nenhuma palavra é citada no v. 25, mas o Deus da visão mais tarde estará falando a Ezequiel e, assim, é mencionado o som de uma voz nesta etapa inicial da descrição. 26-28. Finalmente, o profeta pode erguer mais os seus olhos pa­ ra descrever o que está em cima da plataforma. Ele já estava começando a fazer isto com a máxima cautela, iniciando com os aspectos mais distan­ tes, mas, finalmente, chega a descrever o trono (como safira, ou “lápis lazúli”, uma pedra altamente estimada no mundo antigo) e Aquele que Se sentava sobre ele. Aqui, ou seus olhos ou sua coragem lhe faltam. Em­ bora os quatro seres viventes pudessem ser descritos com pormenores, tu­ do quanto podia dizer acerca de Deus era que tinha forma humana e que era como fogo (27). Todavia, mesmo dizer isto, era incrivelmente ousado, porque não era Javé invisível e, portanto, indescritível? Era uma idéia profundamente embutida no pensamento israelita de que nenhuma pessoa comum podia fixar os olhos em Deus e viver para descrever a experiência! Agar, Jacó, Moisés, Gideão e Manoá, todos tiveram experiências notáveis que comprovavam a regra (Gn 16:13; 32:30; Êx 33:20-'23; Jz 6:22; 13: 22; cf. Dt 5: 24), mas no caso deles, tiveram um encontro com quem pare­ cia inicialmente ser uma pessoa humana, que, subseqüentemente, revelou ser um anjo ou alguma outra manifestação de Deus. O senso de choque que tiveram era baseado no fato de se tomarem sábios depois do evento e, por­ tanto, em não ter prestado a devida deferência ao mensageiro divino. No caso dos profetas, no entanto, algum tipo de experiência com Deus mes­ mo puramente auditiva ou, como aconteceu com Isaías e Ezequiel, numa visão, era quase uma necessidade a fim de autenticar os seus ministérios. Para Moisés, Deus falou do meio de uma sarça ardente (Êx 3:1-6). Jeremias não teve experiência visual, embora sua chamada fosse associada a duas mensagens baseadas na visão de uma vara de amendoeira e de uma panela ao fogo (Jr 1:11 ss.). Isaías, porém, teve uma visão muito impres­ sionante, a totalidade da qual narra (Is 6), exceto pela real aparência do Senhor, cujas abas das vestes enchiam o templo. Ezequiel abre um pouco mais a porta, para que Deus seja visto num contorno humano, porém com esplendor tão ofuscante que nada mais poderia ser visto ou dito. Resta pa­ ra Daniel ir até o fim e descrever em detalhes as feições do Ancião de dias (Dn 7:9sss). É isto apenas outro exemplo de antropomorfismo? Não indica que 56


EZEQUIEL 1:28-2:1 a imagem e semelhança de Deus à qual o homem foi criado era, na realida­ de, a aparência física, e não sua capacidade espiritual? Embora Ezequiel conhecesse os primeiros capítulos de Gênesis e empregasse sua linguagem e expressões figuradas (especialmente no capítulo 28), nada há para indicar que foi assim. Era uma doutrina profundamente sustentada pela religião israelita desde Moisés, que Deus não podia ser expressado visivelmente, e, exatamente por esta razão, a idolatria era excluída. Dada, porém, a possi­ bilidade de uma teofania, nenhuma forma, senão a forma humana, poderia ter sido usada para representar a Deidade. Não era, porém, nenhum mero ser humano que Ezequiel viu: Sua radiância era cercada pela glória de um arco-íris, e o profeta não podia mostrar seu temor de outra maneira se­ não caindo com o rosto em terra diante do seu Deus (28).6 c. A comissão para ser porta-voz do Senhor à casa de Israel (2: 1-3: IS) 1. As primeiras palavras que Deus dirige a Ezequiel colocam apro­ priadamente o profeta no seu lugar correto diante da majestade que via na sua visão. A frase filho do homem é um hebraísmo que enfatiza a in­ significância ou a mera humanidade de Ezequiel. “Filho de” indica “par­ ticipando da natureza de” e, assim, ao ser combinado com ’adam, “ho­ mem,” significa nada mais do que “ser humano.” No plural, é uma ex­ pressão comum para “humanidade.” Outros exemplos deste uso são: Isaías 5:1, onde o “outeiro fertilíssimo” é literalmente “um outeiro, fi­ lho de azeite,” e Jonas 4:10, onde o Senhor diz acerca da planta que abrigou Jonas por um tempo táo curto que “era filho de uma noite e pe­ receu filho de uma noite.” A mesma construção é refletida em Lucas 10:6, onde Jesus avisou os setenta que deviam hospedar-se somente numa casa onde houvesse “um filho da paz,” o que significa um homem de boa vonta­ de, que lhes daria as boas-vindas em paz. Depois deste emprego mais simples e não-técnico da frase “filho do homem,” que ocorre mais de 90 vezes em Ezequiel, e é característica da consciência da fragilidade humana, pelo profeta, diante do poder e ma­ jestade temíveis de Deus; esta mesma frase assume relevância especial através do seu uso em Daniel 7:13, 14 para descrever a personificação do Israel espiritual, “os santos do Altíssimo” (v. 18). Em si mesmo, este (6) Para um comentário adicional do significado desta visão para Ezequiel, ver Introdução, pág. 39.

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EZEQUIEL 2:1-3 ainda não é um título messiânico, porque em Daniel simplesmente indica a distinção qualitativa entre os reinos do mundo, representados por um ser humano. Já no tempo em que foram escritas as Similitudes de Enoque (46:1,2), porém, o Filho do homem chegara a significar especificamente o Messias. O uso que nosso Senhor fez do titulo parece ter aproveitado a ambigüidade entre os significados simples e técnico, de modo que, num sentido, não pudesse ser acusado de fazer qualquer reivindicação aberta ao messiado, ao passo que, no outro sentido, não excluía aqueles que ti­ nham o entendimento espiritual necessário para aceitarem o significado mais completo da Sua pessoa. 2. A despeito da prostração de Ezequiel, ele foi conclamado para ficar em pé a fim de ouvir a comissão da parte de Deus. Sobre o v. 1, Davidson comentou muito bem: “Deus não deseja a paralisia diante dEle, mas, sim, o serviço razoável . . . É o homem ereto, o homem na sua varonilidade, com quem Deus quer ter comunhão e com quem Ele falará.”7 As palavras de Deus o revivificaram e “espírito” entrou nele — não ne­ cessariamente o Espírito, como em ARA, mas, sim, energia espiritual, que sentia dentro dele, fortalecendo-o, e infundindo a totalidade do seu corpo. 3. O ministério de Ezequiel devia ser prestado aos filhos de Israel, às nações rebeldes que se insurgiram contra mim. A extensão do seu minis­ tério na realidade é discutida mais plenamente na Introdução,8 onde são dadas razões para justificar o argumento de que Ezequiel profetizou so­ mente na Babilônia, aos israelitas exilados que estavam ali juntamente com ele. Embora não seja impossível que a influência do seu ministério pudesse ter se estendido de volta para Jerusalém, pelo menos antes da sua destrui­ ção total em 587 a.C.; no que dizia respeito a Ezequiel a casa de Israel coincidia com a parte dela que ele via em território estrangeiro, a saber: o remanescente exilado. Se a palavra nações (3) não deve ser omitida (com LXX e Lat.) ou emendada para uma forma no singular (como em Syr.), de­ ve ter algum significado de desprezo, porque normalmente nunca se refere a Israel e a Judá mas, sim, somente às nações do mundo, aos pagãos. Is­ to não é, de modo algum, impossível aqui, pois está associado com a idéia da rebeldia delas contra Deus. É uma característica da mensagem de Eze­ quiel que não via nada de bom na história passada de Israel (cf. capítulos 16 e 23), de modo que descrever o povo como “pagão” e “rebelde” (i.é, (7)Davidson, pág. 15. (8) Ver págs. 20ss.

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EZEQUIEL 2:3-7 idólatra), bem no início da palavra de comissionamento dada por Deus, está em plena harmonia com o desenvolvimento da mensagem do profe­ ta no restante do livro. Toy comenta apropriadamente que o termo “ex­ pressa com exatidío peculiar o conceito que Ezequiel tinha da história da nação, que considera como uma apostasia ininterrupta.”9 4, 5. O povo é descrito, também, como de duro semblante, e obs­ tinados de coração. A primeira frase sugere a atitude desavergonhada do homem que não abaixa seu olhar mas prefere ser descarado; a segunda descreve a vontade teimosa que não cede, e que se recusa deliberadamen­ te a recuar mesmo quando se sabe culpada. A frase semelhante, “de dura cerviz,” é achada várias vezes no Pentateuco (Êx 32:9; 33:3, 5; 34:9; Dt 9:6, 13; 31:27) mas não ocorre em Ezequiel. Para a mesma idéia, cf. Isaías 48:4: “Eu sabia que eras obstinado, e a tua cerviz é um tendão de feno, e tens a testa de bronze.” Parece, portanto, que Ezequiel tinha pouca ou nenhuma esperança de ter ouvintes simpáticos. Na sua visão, Deus deixou claro que apenas duas coisas eram realmente importantes. Em primeiro lugar, que a mensagem de Ezequiel havia de ser Assim diz o SENHOR Deus, a marca distintiva de todos os porta-vozes genuínos do Senhor desde os dias de Moisés até ao tempo presente; e, em segundo lu­ gar, que a conseqüência do seu profetizar não seria tanto o arrependimen­ to ou a fé, nem mesmo a atenção às suas palavras, mas, sim, a certeza de que esteve no meio deles um profeta (5). O testemunho fiel do mensagei­ ro era mais importante do que uma reposta bem-sucedida da parte dos seus ouvintes. Uma previsão semelhante foi feita no caso de Isaías quando ele foi comissionado (Is 6:9-10), e Jeremias, embora não fosse explicitamente advertido de que a mesma coisa aconteceria a ele, logo descobriu que esta­ va quase condenado a ser desconsiderado ou entendido erroneamente. 6-7. Ezequiel dificilmente recebe uma oportunidade para argumen­ tar com Deus, na tradição de Moisés (Êx 3:114:17) e de Jeremias (Jr 1:6), porque Deus imediatamente previne quaisquer hesitações ao exortálo a ser corajoso (2:6-8), e segue-se um antegozo da sua mensagem (2:93:3). Isto, por sua vez, é seguido pela promessa de que terá poder para perseverar diante da oposição (3:4-9). A julgar pelo seu ministério subse­ qüente, Ezequiel não dá a impressão de ser outra coisa senão destemido. É quase como se fosse imune às muitas reações humanas de medo, insufi­ ciência e tristeza que seguem as pegadas da maioria dos servos de Deus. É, portanto, bastante iluminador ver o modo repetido segundo o qual Deus (9) Toy, pág. 97.

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EZEQUIEL 2:7-10 precisa mandá-lo livrar-se dos seus temores naturais e nem se assustar com os seus rostos. O verbo aqui é uma palavra muito enfática, que significa “fi­ car esmiuçado.” E os exilados israelitas são descritos assim:ainda que haja sarças e espinhos para contigo, e tu habites com escorpiões. Os sentimentos do profeta serão dolorosamente feridos pelo tratamento cruel e rancoroso que, segundo deve esperar, receberá dos exilados como resposta aos seus oráculos. Mas será fácil para ele suportá-los se perceber que tais reações são inteiramente típicas no que diz respeito aos seus ouvintes, porque são casa rebelde (6). 8-10. Vem, então, a ordem estranha: come o rolo de um livro que lhe foi estendido na visão. Mais uma vez, a hesitação natural é prevenida pelas palavras: não te insurjas, porque a desobediência a esta altura iden­ tificaria o profeta com a casa rebelde à qual devia falar a palavra do Se­ nhor, Ezequiel devia ser diferente dos seus ouvintes pelo menos neste aspec­ to. E, de fato, obedeceu mesmo e, assim, agiu de conformidade com o Servo do Senhor que pôde dizer: “O SENHOR Deus me abriu os ouvidos, e eu não fui rebelde, não me retraí” (Is 50:5). O teste da obediência foi prestado com aprovação. O rolo estava escrito por dentro e por fora (ou “na frente e no ver­ so,” RSV, v. 10), um aspecto incomum, porque os rolos normalmente eram escritos somente no lado de dentro. Talvez quisesse subentender que Deus tinha muita coisa para Ezequiel dizer. A idéia é retomada em Apoca­ lipse 5:1, mas nenhum indício é dado quanto ao significado deste aspecto da descrição do rolo. Os comentaristas medievais eram menos reticentes. Cooke cita Nicolas de Lira, que disse: “O livro estava escrito por dentro e por fora: por fora, no que diz respeito ao significado literal, mas por den­ tro, no que diz respeito ao significado místico que se acha oculto por de­ baixo do literal (sub littera latentem)”!10 A sugestão de Ellison é mais pro­ vável, de que não sobrou lugar para quaisquer acréscimos pelo próprio pro­ feta. O escrito consistia em lamentações, suspiros e ais, que é uma reflexão razoável do conteúdo da pregação de Ezequiel durante o período até à queda de Jerusalém. Mas dizer que Ezequiel era exclusivamente um profeta da condenação é tirar uma conclusão injustificável. Isto, porém, é o que Hölscher fez com base neste versículo: nega ao Ezequiel “genuíno” todas declarações e oráculos ligados com a restauração ou a esperança. (Ver a Introdução11 para uma declaração mais completa dos seus pontos de vis(10) Cooke, pág. 35 (11) Ver pág. 17.

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EZEQUIEL 2:10-3:5 ta.) A razão de ser desta descrição é, pelo contrário, enfatizar o contraste entre o conteúdo aparentemente desagradável do rolo e o gosto doce de mel que deixou na boca do profeta. Esta doçura nada tinha a ver com a na­ tureza do conteúdo, veio simplesmente do fato de que estas eram as pala­ vras de Deus, o que faz com que a experiência mais amarga da vida seja docemente satisfatória. Jeremias expressou o mesmo pensamento quando escreveu: “Achadas as tuas palavras, logo as comi; as tuas palavras me fo­ ram gozo e alegria para o coração” (Jr 15:16; cf. também SI 19:10; 119: 103). 3:1-3. Comer o rolo foi associado com o mandamento: vai e dize as palavras de Deus à casa de Israel. Ainda que esta comissão fosse repeti­ da três versículos mais tarde, depois do rolo ter sido comido, não se deve pensar que comer e o falar fossem dois atos separados. Implícito no recebi­ mento da palavra de Deus, simbolizado pelo ato de comer o rolo, havia a aceitação da responsabilidade de pronunciá-la sob a orientação de Deus. A palavra de Deus que fosse impedida de ser pronunciada se tornaria, como se tomou para Jeremias, “no coração como fogo ardente, encerrado nos meus ossos; já desfaleço de sofrer, e não posso mais” (Jr 20:9). O profeta verdadeiro, enviado e inspirado por Deus, invariavelmente tinha este senso de compulsão interior. De maneira bem semelhante, Pedro e João testifica­ ram diante do Sinédrio: “Nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (Atos 4:20). 4-9. A linguagem da comissão que Deus deu para Ezequiel nestes versículos causa perplexidade à primeira vista, porque parece que repete boa parte daquilo que já foi dito em 2:3-7. Para entendê-la, é necessário reconhecer que a seção anterior tinha a ver com a vocação de Ezequiel: es­ tes últimos versículos representam o revestimento do profeta com as qua­ lidades das quais necessitará a fim de cumprir sua comissão. De início, parece que Deus está dizendo que a tarefa de Ezequiel não é especialmente difícil: irá para compatriotas e não para estrangeiros cuja fala seria tão in­ compreensível para ele como a dele seria para eles. Tu não és enviado a um povo de estranho falar nem de língua difícil (5): o hebraico é literal­ mente “profundo de lábio e pesado de língua.” As duas frases ocorrem uma vez cada noutros trechos: a primeira acha-se em Isaías 33:19, onde também se refere a povos estrangeiros “de fala obscura, que não se pode entender;” a segunda é uma frase usada por Moisés em Êxodo 4:10 para descrever sua própria falta de eloqüência, e traduzida: “pois sou pesado de boca e pesado de língua.” Na primeira frase, “profundo” tem o signi­ ficado de “insondável”; na segunda, a palavra “pesado” pode abranger 61


EZEQUIEL 3:5-9 tanto a idéia de “moroso, lerdo” (conforme Moisés professava ser) e tam­ bém o sentido de “monótono” e difícil de se entender. Tendo dito isto, no entanto, as palavras de Deus passam a mostrar o outro lado dá moeda, e indicam que uma comissão para pregar a bárba­ ros seria uma coisa relativamente mais fácil, porque Se eu aos tais te en­ viasse, certamente te dariam ouvidos (6). A linguagem, naturalmente, é me­ tafórica, e não há necessidade de ver aqui qualquer conexão com os even­ tos do Dia de Pentecoste: de qualquer maneira, os ouvintes de Pedro não eram bárbaros, mas, sim, judeus da Dispersão e prosélitos gentios. As pala­ vras são usadas para ressaltar o contraste entre a incapacidade desculpável de pessoas compreenderem quando são de língua estrangeira, e a teimosia totalmente indesculpável dos ouvintes israelitas de Ezequiel. A interpreta­ ção desta frase é levemente complicada pelas diferentes maneiras de enten­ der as palavras “certamente, se” (heb. ’im lòr). Alguns comentaristas mais antigos, tais como Keil, entenderiam a expressão como sendo adversativa: “nem a muitos povos . . .; mas a eles [os israelitas] te enviei, eles podem entender-te.” Esta interpretação, no entanto, perde o contraste poderoso retido pelas versões modernas, e é duvidoso se a frase te dariam ouvidos possa ser traduzida da maneira que Keil desejaria. ARC e ARA devem ser seguidas, portanto. A oposição que Ezequiel deve esperar, conforme é pre­ cavido, não deve, porém, ser considerada nem incomum, nem dirigida con­ tra ele pessoalmente. Mas a casa de Israel não te dará ouvidos, porque não me quer dar ouvidos a mim (7). Depois de tantos anos de surdez persisten­ te à voz de Deus através de profetas inspirados e mediante desgraças nacio­ nais, é pouco provável que o povo se comoverá diante da pregação de Eze­ quiel. Tudo quanto Deus pode oferecer é a capacidade de resistir-lhes face a face, e, para isso, Ele endurece o rosto e a fronte do profeta. Esta repe­ tição da palavra duro nos w. 8 e 9 (heb. hazaq) talvez seja um jogo de pa­ lavras deliberado com o nome do profeta, porque Ezequiel significa “Deus fortalece” ou “Deus endurece” (heb. y ehezqè’l). Certamente era uma mar­ ca característica do seu ministério - que conseguiria durar mais do que seus opositores e não ser desgastado pela intrangisência aparente deles. Neste aspecto, de qualquer maneira, recebera um nome apropriado. A palavra traduzida diamante (9) é o hebraico sãmir, que Isaías emprega freqüentemente no sentido de “espinheiros.” A não ser que se trate de duas palavras separadas, o único vínculo com o uso presente é o da agudeza, que se ressalta claramente em Jeremias 17:1: “e com diaman­ te pontiagudo [está] gravado.” A partir daí, é usada como palavra prover­ bial para a dureza, tanto literal quanto metafórica (cf. Zc 7:12). A pala­ 62


EZEQUIEL 3:9-13 vra pederneira usualmente se referia a facas feitas de pederneira (cf. Êx. 4:25; Js 5:2-3;SI89:43). 10,11. Nas palavras finais da sua visão, Ezequiel ouve a esfera do seu ministério especificamente definida, como sendo o povo no exílio (lit. “à Gôlâ, aos filhos do teu povo”). Para todos os propósitos práticos, os exilados eram a casa de Israel no que dizia respeito a Ezequiel; e eram seu povo, pelo qual era responsável. Não devia ser influenciado pelas suas rea­ ções às suas palavras, mas, sim, devia declarar de modo autorizado uma mensagem que nâò era sua própria: Assim diz o SENHOR Deus. Ao mes­ mo tempo, a frase todas as minhas palavras que te hei de falar deixa lugar para a possibilidade de revelações adicionais que ainda virão a Ezequiel pa­ ra ele assimilar e passar adiante aos seus ouvintes. 12, 13. Ainda no contexto da sua experiência visionária, Ezequiel tinha consciência de ser levantado pelo mesmo impulso divino que ante­ riormente o pusera de pé (2:2). Isso não foi uma levitação psíquica, mas, sim, uma experiência subjetiva de sentir-se levantado aos ares, acompanha­ da pelos sons audíveis do tatalar das asas e o barulho das rodas, o sonido dum grande estrondo, que o profeta nòtara em 1:24. O TM sugere que, com este grande ruído, veio o som de uma peã de louvar: “Bendita seja a glória do Senhor, desde o seu lugar” (12, ARC). A expressão foi conserva­ da nas devoções judaicas, e acha-se no culto matutino do Livro Judaico de Orações, mas existem as seguintes razões fortes para não retê-la no tex­ to original: (a) se as palavras pretendiam ser uma doxologia pronunciada pelos seres vivos, teríamos esperado que houvesse alguma indicação neste sentido: as palavras seguem imediatamente ouvi por detrás de mim uma voz de grande estrondo, (b) A interpretação natural do grande estrondo é o som do carro-trono começar a movimentar-se, e, portanto, incorporar umas palavras faladas de uma fonte não especificada é desnecessário e ines­ perado. (c) A frase não tem paralelo no hebraico bíblico, e é especialmente desajeitada ao ser seguida por “do seu lugar.” Traduzir a bênção quase co­ mo uma inserção parentética, e ligar “do seu lugar” com a frase principal, conforme faz Keil, apenas enfatiza a necessidade dalgum rearranjo do tex­ to. Ele traduz: “E um vento me levantou, e ouvi por detrás de mim uma voz de grande tumulto: ‘Louvada seja a glória de Javé,” do lugar deles para cá.” Portanto, é melhor ler a palavra bãruk, “bendito,” como berüm (as letras kaph e mem são facilmente confundidas na escrita hebraica antiga), e traduzir, com RSV, levantando-se a glória do SENHOR do seu lugar, ouvi por detrás de mim . . . [N. Tr. ARC traduz fielmente o hebraico na forma em que se acha, e ARA faz excelente sentido com uma transposi­ 63


EZEQUIEL 3:13-15 ção da ordem das palavras], 14,15. Tudo isto ocorreu enquanto Ezequiel estava em êxtase, mas no v. 15 vemos o profeta voltando do lugar da teofania para a po­ voação em Tel Abibe.12 O efeito da sua visão, no entanto, não o deixa­ ra totalmente, porque emprega frases tais como a mão do SENHOR se fez muito forte sobre mim (14; cf. v. 22) que são típicas do êxtase profé­ tico, e isto explicaria o período de sete dias durante o qual permaneceu atônito,13 entre os exilados, dominado por uma mistura de horror e admi­ ração diante daquilo que vira e ouvira. Ezequiel descreve suas primeiras reações enquanto foi levado embora do cenário da sua visão com as pala­ vras eu fui amargurado na excitação do meu espírito. A LXX omite a pa­ lavra “amargura” e traduz: “fui embora com o impulso do meu espírito,” mas isto não está à altura da linguagem enfática do TM. O hebraico mar, “amargo,” pode expressar fúria ou ira feroz, como no caso de uma ursa roubada dos seus filhotes (2 Sm 17:8); descontentamento, como o dos adulamitas (1 Sm 22:2); ou desdita, como a de Jó (Jó 3:20) e Ezequias (Is 38:15). Destes significados possíveis, a frase associada (lit. “calor de espírito”) indica a ira como a emoção dominante no coração de Ezequiel. Não é impossível que ele tenha sido levado a semelhante amargura pela perspectiva de ser dedicado a um ministério obviamente mal-sucedido da palavra do Senhor. Seus sentimentos naturais se rebelaram contra sua vo­ cação, de modo que era necessário que a mão do Senhor pesasse sobre ele, para subjugá-lo e controlá-lo. A interpretação mais usual, no entanto, é considerar isto como um exemplo do profeta ficar arrebatado na ira jus­ ta de Deus contra Seu povo, de modo que participa do fardo de “lamen­ tações, suspiros e ais” que se constituem na mensagem de Deus para Is­ rael (2:10). Skinner diz apenas que Ezequiel ficara “num estado de pros­ tração mental.”14 Isto, é lógico, era perfeitamente verdadeiro, e é con­ firmado pelo uso da palavra atônito no v. 15, mas não parece que solu­ ciona adequadamente o problema desta frase específica. Davidson pro­ (12) Ver Introdução, pág. 21. (13) A palavra é particípio Hiphil da raiz s-m-m, “ser intimidado”, “desola­ do”. GK a descreve como transitivo interno (pág. 53 d) e a classifica com um núme­ ro de outros verbos que expressam "atingir uma certa condição e estar na mesma”. Keil compara Ed. 9: 3-4 e traduz “rigidamente, sem movimento” e, portanto, “sem movimento e mudo”. Koehler retém a força causal do Hiphil e a toma como “causan­ do (seus observadores) choque de terror, desconcertando-o”. Mas o verbo descreve mais propriamente a condição em que se achava Ezequiel. (14) Skinner, pág. 52.

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EZEQUIEL 3:15-17 vavelmente tem razão ao comparar com Jeremias 6:11 e comentar: “O profeta foi erguido a um nível de empatia com Deus, e compartilhava da Sua justa indignação contra Israel.”15 Sobre o período de sete dias (15), compare a experiência de Esdras, de ficar assentado num estado de horror até à hora do sacrifício da tarde (Ed 9:4). Os amigos de Jó ficaram assentados com ele sete dias e sete noi­ tes, sem lhe falar palavra alguma (Jó 2:13). Saulo de Tarso precisou de três dias sem comer e sem enxergar, para recuperar-se da sua experiência na estrada de Damasco (At 9:9). Talvez não seja sem significado o fato de que sete dias era o período da consagração de um sacerdote (Lv 8: 33), e é possível que Ezequiel tenha considerado este acontecimento como a pre­ paração para sua ordenação ao sacerdócio profético. Certamente ainda não estava pronto para abrir a sua boca em profecia. Um período de reajusta­ mento era necessário enquanto ficava assentado com seus companheiros no exílio e deixava que a visão e a mensagem penetrassem na sua persona­ lidade. A mensagem que recebera era horrorizante, de juízo e desgraça e derramamento de sangue. O que a tomava mais horrorizante era que tinha de proclamá-la não apenas aos ventos, mas, sim, a pessoas reais que conhe­ cia e das quais gostava, que tinham sofrido com ele na longa viagem de Jerusalém para a Babilônia, e com as quais aprendera a viver na estranha nova comunidade dos exilados. “O zelo por Deus se toma temperado e humanizado no serviço prático” (Davidson). d. O atalaia silencioso (3:16-27) 16-21. Assim como Habacuque se postou na sua torre de vigia (Hc 2: 1), assim também Ezequiel é nomeado atalaia para o povo de Israel (17). A expressão empregada é, literalmente: “Dei-te para ser atalaia,” o que significa que a nomeação de Ezequiel como profeta para avisar os exilados acerca da sua ruína iminente era, na realidade, um ato de graça da parte de Deus. O termo atalaia era comum para os verdadeiros profetas de Javé (cf. Is 56:10; Jr 6: 17; Os 9:8). A função deles era ficar alerta à situação em derredor deles, escutar a palavra de Deus sempre que ela vinha a eles, e repeti-la ao povo com exatidão. Inevitavelmente isto significava que, tão freqüentemente como o contrário, os profetas agiam como mensageiros de julgamento para um povo pecador, e Ezequiel não era exceção. Sua (15) Davidson, pág. 21

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EZEQUIEL 3:17-20 mensagem dizia respeito às conseqüências sérias do pecado. Para o perver­ so, ou seja, o homem que não temia a Deus e vivia uma vida de desafio aberto aos Seus mandamentos, sua mensagem era: Certamente morrerás (18). O justo também precisava de ser avisado: se estava se desviando do caminho da justiça, precisava de uma advertência tanto quanto o perverso, e ainda que estivesse conservando-se na sua justiça, continuava necessitan­ do do ministério constante de ser advertido a não pecar. O santo precisa dos avisos do atalaia tanto quanto o pecador. Dizer, no entanto, que Ezequiel, mediante as suas advertências, salva­ ria a sua alma (19, 21) é muito enganoso. A palavra hebraica nepes tem uma vasta gama de significados, desde “garganta” até “pessoa,” mas signi­ fica “alma” somente no sentido em que chamamos uma pessoa de “uma alma.” O hebraico não tem conhecimento de alma como uma parte consti­ tuinte do homem. O homem era nepes, uma pessoa, uma unidade. A RSV, portanto, tem razão em traduzir “tu terás salvo a tua vida.” O que se quer dizer com ò justo (20)? Devemos tomar o cuidado de não atribuir a doutrina do Novo Testamento ao Antigo e interpretar esta palavra à plena luz da justificação paulina. O justo (Heb. saddtq) era essencialmente o homem que demonstrava, pela sua vida virtuosa, lealdade à aliança. Nem é preciso lembrar que era obediente na realiza­ ção das observâncias religiosas necessárias, mas os profetas do século VIII deixam claro que muitos as realizavam com entusiasmo, e estavam longe de serem justos. Mesmo assim, dentro da esfera da comunidade da aliança, que incluía todos os israelitas, alguns seriam considerados como “tendo justiça” diante do tribunal imaginário da justiça de Deus, e assim possuiriam a retidão (heb. sedeq), ao passo que outros seriam condenados e classificados com os perversos. Não havia nenhuma regra prática fácil para guiar o homem em fazer esta avaliação, e não podia, portanto, haver qualquer coisa que se aproximasse de uma doutrina cristã da segurança. Ser atrevido para com a aliança era conhecidamente o primeiro passo no caminho para a condenação. Reduzida a uma base mínima, a qualificação para a justiça era a observância dos Dez Mandamentos, as estipulações da aliança. Na prática, porém, estes eram bem pouco observados, e as exigên­ cias cultuais da lei mosaica recebiam, proporcionalmente, muito mais consideração; de modo que cada um dos profetas tinha de reiterar as exi­ gências morais e espirituais da aliança para o benefício de uma geração mal-ensinada. Destarte, as exigências constantes da justiça de Deus eram expostas: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos: cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; atendei à 66


EZEQUIEL 3:20-21 justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a cau­ sa das viúvas” (Is 1:16-17). Ou, ainda: “Buscai o bem e não o mal . . . Aborrecei o mal e amai o bem, e estabelecei na porta o juízo: talvez o SENHOR, o Deus dos Exércitos, se compadeça do restante de José” (Am 5: 14-15). Ou, ainda: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça e ames a mise­ ricórdia, e andes humildemente com o teu Deus?” (Mq 6:8). Este não era nenhum ensino novo, pelo contrário, era uma chamada de retomo às exi­ gências de Javé, o Deus de Israel, conforme a antiga aliança, que teve sua origem nos dias de Moisés e do monte Sinai. Era uma exigência de ações justas que refletiriam um coração (i.é, a totalidade da personalidade, abran­ gendo a mente, a vontade, as emoções e as atitudes) humilde diante de Deus e um estado de paz (heb. sàlôm) com Ele. Tendo em vista este fa­ to, fica claro que não se pensava na justiça como uma característica in­ delével: podia ser por demais facilmente perdida, e então, os atos justos prévios do homem não valeriam nada. O aviso que dizia que o perverso morreria tinha uma referência puramente temporal. Dentro dos limites de nossa compreensão, Ezequiel provavelmente não tinha um conceito claro sobre a ressurreição, e muito menos da vida etema; e a ameaça inerente nesta palavra de advertência era que o perverso teria uma morte precoce ou violenta. A morte que vinha no fim de uma vida longa não era adversidade alguma, especialmente se o homem tinha filhos e netos para continuar seu nome após ele. Mas uma vida curta e um fim precoce eram castigos mesmo. Se isto acontecesse co­ mo resultado da falta de profeta quanto a cumprir seu dever de advertir o perverso a se converter dos seu caminhos, Deus disse: O seu sangue da tua mão o requererei (18,20). Esta alusão ao princípio expressado em Gê­ nesis 9:5-6 subentende que, assim como o sangue de um homem assassina­ do exigia a retribuição por meio do parente próximo vingar-se do assassino, assim também um homem que morria sem ser avisado em tempo seria con­ siderado virtualmente a vítima de um assassinato cometido pelo atalaia que fracassara no seu dever. A questão é colocada metaforicamente, é cla­ ro, mas nem por isso deixa de enfatizar a responsabilidade esmagadora con­ fiada a Ezequiel. A responsabilidade do cristão no sentido de avisar uma geração perdida não é, por certo, menos aterrorizadora. A palavra tropeço (20; heb. miksôl), como seu equivalente no grego do Novo Testamento, skandalon, significa uma “ocasião para tropeçar,” ou literalmente, ou num sentido ético. Não indica aqui que Deus deliberada­ mente Se propõe a derrubar o justo e fazê-lo estatelar-se no chão, mas, 67


EZEQUIEL 3:21-24 sim, que deixa oportunidades para o pecado nos caminhos dos homens, de maneira que, se seu coração está decidido no sentido de praticar o pecado, poderão fazê-lo, e assim merecer a sua condenação. Não há nenhum sentido em que o tropeço é inevitável: sempre envolve a escolha moral, e havia, também, a palavra de advertência da parte do atalaia pa­ ra indicar onde estavam os tropeços e o que eram. 22-27. Mais uma vez sob o efeito do êxtase, Ezequiel sai para o vale. A palavra significa literalmente uma “fenda,” e, portanto, uma área entre montanhas: alguns a traduziriam uma “planície no vale.” É muito possível que se refira a uma localidade específica que Ezequiel freqüentava nos seus períodos de solidão, e era, sem dúvida, o lugar on­ de haveria de ter sua visão do vale (a mesma palavra) dos ossos secos (cf. 37:1). A frase a glória do SENHOR estava ali (23) resume, não somente uma parte, mas, sim, toda a visão que o profeta vira no capítulo 1. A lem­ brança que permanecia não era dos equipamentos do carro-trono celestial, mas, sim, dAquele que estava assentado sobre ele. Ezequiel também indi­ ca que esta era uma localidade diferente daquela da sua visão original jun­ to ao rio Quebar. Para um comentário sobre entrou em mim o Espirito (24) cf. sobre 2:2. Não fica claro se esta visão adicional da glória do Senhor aconteceu quase imediatamente depois da sua comissão para ser atalaia, ou se, entre os w. 21 e 22, houve um período em que Ezequiel profetizou de acordo com os termos que lhe foram dados. Se assim fizera, isto explicaria a apa­ rente inversão da sua comissão que os versículos seguintes contêm. Falara a palavra de advertência da parte de Deus; não lhe prestaram atenção; por­ tanto, agora foi ordenado a ficar confinado à sua casa, e silencioso. A dificuldade é que a cronologia destes primeiros capítulos quase não deixa tempo algum para isto. A diferença entre as datas de 1:1 e 8:1 é de so­ mente um ano e dois meses, e se esse período deve incluir os 390 dias de ficar deitado sobre o lado esquerdo para o castigo de Israel (4: 5), so­ bra pouquíssimo tempo para qualquer coisa senão um ministério brevís­ simo como atalaia. Parece, portanto, preferível considerar 3:22-27 como o episódio final num período prolongado de comissionamento que durou vários dias, durante o qual aconteceram estas várias experiências culminan­ tes, nas quais Deus falou para Ezequiel, e o curso e o padrão do seu minis­ tério foram paulatinamente revelados. Seria improvável que um profeta, numa só teofania, obtivesse a compreensão, não só da sua chamada, como também da sua mensagem e da terrível responsabilidade da sua tarefa, e 68


EZEQUIEL 3:25-27 da maneira em que deveria cumpri-la. Para Ezequiel, tudo isto veio por eta­ pas, e somente quando foi alcançada a última etapa é que foi conclamado a fazer seu primeiro pronunciamento público no drama simbólico das obras de cerco contra Jerusalém (4:1). Aqueles que defendem um ministério abortivo entre estas duas se­ ções argumentariam que a frase eis que porão cordas sobre ti (25) referese ou a restrições físicas impostas sobre Ezequiel por seus oponentes, ou, metaforicamente, ao silenciar dos seus oráculos por formas de oposição menos violentas mas igualmente eficazes. O mesmo tipo de interpretação não pode, no entanto, ser atribuído à profecia de sua mudez, e, portanto, é melhor pensar numa restrição auto-imposta do que numa causada pela oposição aos oráculos anteriores. A RSV interpreta desta maneira ao to­ mar o verbo “porão” como um plural impessoal, que denota voz passiva: “cordas serão postas sobre ti, e serás ligado com elas.” É importante perce­ ber que tanto o ligar com cordas quando a mudez “não eram para evitar o exercício da sua vocação, mas, pelo contrário, tomá-lo apto para a reali­ zação bem-sucedida da obra que recebeu (Keil).16 As limitações impostas sobre ele eram parte integrante da sua mensagem: eram uma demonstra­ ção ritual ao povo de Israel que eram casa rebelde (26,27). Farei que a tua língua se pegue ao teu paladar, ficarás mudo, e inca­ paz de os repreender (26). O silêncio não deveria ser total: de vez em quan­ do, Deus falaria com o profeta, e permitiria que passasse adiante uma men­ sagem para seu povo. Esta mudez, portanto, não foi do mesmo tipo que aconteceu a Zacarias, pai de João Batista (Lc 1:20). Duraria um tempo limitado, até que a queda de Jerusalém fosse anunciada para os exilados cerca de seis anos mais tarde. Então chegaria ao fim (33:22). Outras re­ ferências ao fato ocorrem em 24:27 e 29: 21, mas em nenhum outro lu­ gar. Neste interim, Ezequiel teve chance de fazer muitos pronunciamen­ tos, alguns em conjunção com suas mensagens silenciosas, encenadas, e outros como simples oráculos diretos. Em certa ocasião (20: 3) recusou-se a responder a alguns anciãos que vieram a ele “para consultar o SENHOR,” mas não o fez sem dar uma explicação completa das razões para não sa­ tisfazer a curiosidade deles. Noutras ocasiões em que os anciãos vieram pa­ ra ele a fim de procurar seus conselhos, não há qualquer sugestão que não esperassem que ele lhes pudesse responder de maneira perfeitamente nor­ mal (cf. 8:1; 14:1). Já notamos17 várias sugestões no sentido de Ezequiel (16) Keil, pág. 65. (17) Ver a Introdução, pág. 25.

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EZEQUIEL 3:27-4:1 sofrer de catalepsiã ou dalgum distúrbio nervoso grave, e já vimos que ne­ nhuma explicação deste tipo, que introduz a disfunção orgânica ou psico­ lógica, soluciona de modo satisfatório os problemas levantados por uma aceitação literal destas palavras. É muito mais satisfatório e realista enten­ der que esta é uma mudez ritual, ou seja: uma recusa divinamente ordena­ da de fazer pronunciamentos públicos, anão ser sob o impulso direto da palavra de Deus. Daquele momento em diante, Ezequiel seria conhecido unicamente como o porta-voz de Javé. Quando falava, era porque Deus tinha algo para dizer; quando ficava silencioso, era porque Deus estava si­ lencioso. As duas palavras hebraicas: hassõmèa yisma\ lit. “que o ouvinte ou­ ça,” ou “o que ouve ouvirá” (27), são o protótipo para a fórmula predileta do nosso Senhor: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.” A mensagem fala­ da visa confirmar os homens na sua atitude para com o Deus que a inspi­ rou: ou a escutarão e obedecerão, ou a desconsiderarão e serão condena­ dos. A resposta do ouvinte é ditada pelo íntimo do seu ser. e. Quatro mensagens encenadas (4:1-5:17) i. O cerco de Jerusalém (4:1-3). Devemos imaginar que as ações estranhas que Ezequiel foi ordenado a realizar deveriam ser feitas ou na entrada da sua casa ou, mais provavelmente, no espaço aberto na frente da sua porta. As ações não teriam razão de ser a não ser que pudessem ser observadas por um grande número de pessoas, e devemos supor que não demorou muito até que se espalhasse a notícia de que Ezequiel estava fa­ zendo algumas coisas incomuns perto da sua casa. Numa comunidade com­ pacta como a dos exilados de Tel Abibe, nada poderia ser conservado em segredo por muito tempo. Histórias acerca da vida nos campos de prisio­ neiros de guerra durante a Segunda Guerra Mundial demonstraram bem claramente como as notícias podiam espalhar-se como rastilho de pólvoro entre milhares de internados. O estado de Ezequiel, como de transe, descrito em 3:15, obviamente fora notado, e, portanto, não seria surpre­ endente que algum pronunciamento ou sinal sobrenatural ou extático se seguisse. A peça central da sua charada silenciosa era um tijolo grande, retan­ gular, e endurecido ao sol (tijolo = heb. fbènâ), sobre o qual desenhara o esboço facilmente reconhecível das fortificações de Jerusalém, dominadas pela silhueta do topo do Templo de Salomão. Colocou este tijolo na areia 70


EZEQUIEL 4:2-3 para todos verem. Depois, preparou-se para edificar contra ela fortificações. Como isto foi feito deve ser assunto para conjectura. Sugerir que todos os pormenores do v. 2 foram desenhados num único tijolo não parecer ser realista: para a mensagem deste drama ser compreendida, tinha de ser fei­ ta em grande escala.18 É mais do que provável que eles foram retratados ou pelo uso de modelos feitos para cercar a representação central de Jeru­ salém, ou simplesmente por marcas na areia, que facilmente poderiam re­ tratar a aparência de torres de cerco, de trincheiras e de acampamentos militares. A palavra traduzida fortificações é um substantivo coletivo, dãyèq, que sempre ocorre no singular. Aparece em 2 Rs 25:1 (= Jr 52:4), onde parece significar uma cadeia de tones para ofensiva, edificadas ao redor da cidade cercada. A palavra deve ser distinguida da trincheira, sõflâ, que era de terra “empilhada” (raiz heb. s-l-í) fora do muro de uma cidade, de mo­ do que os sitiantes ficassem no mesmo nível que os defensores nos muros. Alguns dos baixos-relevos assírios mencionados na nota 18 ilustram tor­ res semelhantes às dãyèq, guarnecidas por arqueiros, e às vezes móveis e equipadas com um aríete embutido. (Cf. Ez 21:22; 26:8-9). Depois de ter feito tudo isto, Ezequiel recebeu a seguinte ordem: To­ ma também uma sertã de ferro, e põe-na por muro de ferro entre tiea ci­ dade (3). A sertã era provavelmente o grande pedaço de metal com forma­ to de pires que os israelitas usavam para assar pão. Ao ser colocada inverti­ da sobre o fogo de brasas vivas, logo se esquentava para formar uma chapa quente convexa bem útil, sobre a qual se podia assar os pães achatados de cevada, ou as panquecas (heb. ‘ugâ). Ewald achava que era um símbolo das fortificações poderosas de Jerusalém, contra as quais o cerco foi montado, e, neste caso, Ezequiel devia estar representando os sitiantes apertando o cerco contra ela. Alternativamente, é possível que simbolizas­ se “a severidade implacável e férrea do cerco” (Davidson), mas isto ainda deixaria o profeta no papel do sitiante. Parece mais de acordo com o sim­ bolismo de Ezequiel como o profeta do Senhor que, na realidade, estava representando Javé neste drama, e que a sertã, ou o muro de ferro, repre­ sentava a hostilidade resoluta de Javé contra a cidade santa. Trazer exérci­ (18) Alguns comentaristas comparam placas assírias esculpidas descrevendo o cerco militar (como no NDB,figs. 106 e 112), mas este não é o significado natural do Heb. f bènâ. Se pudesse ser traduzido como “obra de alvenaria”, tratar-se-ia, certa­ mente, de uma instrução a Ezequiel para descrever toda cena sobre a parede externa de sua casa.

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EZEQUIEL 4:3 tos contra Jerusalém foi ato de Deus; foi o Deus de Jerusalém que a rejei­ tou e que dentro em breve a nivelaria ao chão. Desta maneira, não somen­ te a ação simbólica como também o papel desempenhado nela por Ezequiel veio a ser sinal para a casa de Israel. Um dia, isto haveria de acontecer. A esta altura, é necessário considerar até que ponto a atividade sim­ bólica pode ser classificada como magia simpática. Este é um nome dado a uma forma reconhecida de comportamento primitivo, em que um indiví­ duo realiza certos atos, freqüentemente com a ajuda de modelos ou efígies, que visavam produzir o efeito que a ação simbolizava. A forma mais gros­ seira é o método de amaldiçoar, conhecido em tempos clássicos, que era levado a efeito por meio de escrever o nome da vítima num óstraco, que depois era esmagado contra uma parede.19 Este não era simplesmente um método de dar expressão ao seu ódio; visava seriamente trazer à vítima o esmagamento que seu nome sofrera. Versões mais sofisticadas incluiriam a queima de efígies dos inimigos, feitas de cera, a fim de destruí-los. Muitas das práticas de feitiçaria e de adivinhação usadas no Egito, na Assíria e na Babilônia antigos seguiam este princípio e, com base na semelhança ge­ ral dos padrões culturais do Oriente Próximo, algumas pessoas considera­ riam que os profetas israelitas, que freqüentemente empregavam atos sim­ bólicos da maneira que Ezequiel fazia, agiam de modo idêntico aos seus contemporâneos pagãos. Tomar esta atitude, no entanto, obscurece o ca­ ráter distintivo da religião de Israel, e deixa de levar em consideração as freqüentes condenações explícitas da feitiçaria e da bruxaria que se acham nos escritos dos profetas (cf. Is 8:19; 28:15; 47:9-13; Ez 13:17-23). Tais práticas eram consideradas uma contravenção contra a lei de Javé, porque dependiam de tentativas para obrigar forças psíquicas (e, portanto, espíri­ tos malignos) a fazer a vontade do homem. Eram, portanto, uma rejeição do poder de Javé e deviam ser condenadas. Ora, poderia ser argumentado que os profetas estavam levando a efeito coisas boas por estes meios, atra­ vés do poder do Espírito de Deus, mas na prática a distinção seria dema­ siadamente sutil para o circunstante compreender, e devemos, portanto, rejeitar tais ações como sendo contraditórias ao ensino normal dos profe­ tas. Sobra, portanto, a explicação muito mais provável: estas ações eram sinais daquilo que Deus pretendia fazer, e não tentativas para dobrar a vontade de Deus para Ele fazer aquilo que a ação simbolizava. No caso de Ezequiel, este tipo de procedimento foi virtualmente forçado sobre ele pelo silêncio ritual que teve de observar. (19) Comparar textos de execração egípcia, ANET, págs. 328, 329.

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EZEQUIEL 4:3-5 Exemplos doutros profetas que empregavam ações simbólicas para acompanhar ou ilustrar seus pronunciamentos são: Aias (1 Rs 11:30); Zedequias (1 Rs 22:11); Eliseu (2 Rs 13:17); Isaías (Is 20:24); Jere­ mias (Jr 13: 1-14; 19: l-10);Ágabo (At 21: lOss.). ii. Os dias do castigo de Israel e de Judá (4:4-8). Há uma nítida impressão que o modelo do cerco de Jerusalém foi montado como uma ajuda visual semi-permanente, que ficava ali enquanto Ezequiel levava a efeito estas ações adicionais. Ao passo que, no início, 0 profeta desempenhava o papel de Javé, com seu rosto dirigido contra Jerusalém; no segundo caso desempenha o papel do seu próprio povo e age como quem suporta o castigo em prol dos pecados dele. Não se deve entender, de modo algum, que se trata de um ato vicário, como se pudes­ se sofrer no lugar do seu povo. É puramente descritivo, e seu alvo é de­ monstrar a duração do castigo das duas nações, e também que Judá, e não somente Israel, compartilhará dele. Os sofrimentos de Israel eram aparen­ tes: a partir da ocasião em que sua capital, Samaria, foi destruída em 722/ 1 a.C. por Sargão II da Assíria, depois de um cerco que durou três anos, feito por Salmaneser V; Israel tinha ficado despopulada, e seu povo espa­ lhado por todas as partes do Império Assírio. A ação de Ezequiel demons­ trou, agora, que Judá estava para sofrer de modo semelhante, embora por muito menos tempo. 4. Não é necessário emendar o TM para ler, como na RSV: “Porei o castigo da casa de Israel sobre ti.” A emenda não tem apoio nos MSS, e não torna o significado mais simples. Conforme o versículo consta, pa­ rece dar a entender que, assim como o profeta faz o grosso do seu peso descansar sobre seu lado esquerdo, assim também este é um símbolo do peso do castigo que Israel está suportando pelos seus pecados. O simbo­ lismo de sobre o teu lado esquerdo provavelmente era ajudado pela ação do profeta em deitar-se no chão numa direção leste-oeste, com a cabeça na direção de Jerusalém, e olhando para o norte, em direção a Israel, en­ quanto estava sobre seu lado esquerdo, e para o sul, em direção a Judá, enquanto estava sobre seu lado direito. 5, 6. O número de anos representado pelos 390 dias para Israel e pe­ los 40 dias para Judá apresenta problemas tanto do texto quanto da sua interpretação. Que é calculado na base de os anos . . . segundo o número de dias é fato claro, e precisa de pouco comentário. O mesmo simbolismo é achado em Números 14:34; Daniel 9:24ss. Os quarenta anos atribuí­ dos ao castigo de Judá é uma cifra arredondada que não precisa ser enten73


EZEQUIEL 4:5 dida por demais literalmente. Claramente relembra a peregrinação no de­ serto. A duração real do exílio foi de 59 anos, calculando a partir do cati­ veiro de Ezequiel em 597 a.C., ou 49 anos a partir da queda de Jerusalém. A cifra dada por Jeremias, de 70 anos (Jr 25:12; 29:10) refere-se, não ao período do exilio propriamente dito, mas, sim, ao período da supremacia babilónica, i.é, desde 605 a.C., a batalha de Carquemis, até 539 a.C. (Ver especialmente Jr 25:11: “estas nações servirão ao rei de Babilônia setenta anos.”). De onde, porém, vem a cifra 390? As seguintes considerações devem ser conservadas em mente: (a) Nos dois casos o período de tempo referido significa o período de sofrimento pelos pecados previamente cometidos. (b) A restauração não ocorrerá até que estes período de expiação pelos pe­ cados do passado tenham sido suportados. Somente então poderá ser dito: “Falai ao coração de Jerusalém bradai-lhe que já é findo o tempo da sua milícia, que a sua iniqüidade está perdoada e que já recebeu em dobro da mão do SENHOR, por todos os seus pecados” (Is 40: 2). (c) A restaura­ ção há de vir ulteriormente (cf. 37 : 16ss.), e será simultânea para Judá e para Israel. Estas considerações levam à conclusão de que os dois períodos devem ser tomados como sendo concomitantes no seu término, e de que o tempo do castigo de Israel é de um período de 350 anos sozinho e mais 40 anos juntamente com Judá. Contra isto pode ser argumentado que a ação de Ezequiel, ao deitar-se no seu lado esquerdo por 390 dias, e depois (Quando tiveres cumprido estes dias) deitar-se por mais 40 dias no seu lado direito, dificilmente se encaixa com uma interpretação que faz os períodos concomitantes. Devemos, no entanto, precaver-nos contra confundirmos as ações simbólicas com nossa interpretação daquilo que representam. Re­ presentam períodos totais: um total de 390 anos para o castigo de Israel, e um total de 40 anos para o castigo de Judá. Uma vez que isto fica claro, conforme as ações de Ezequiel realmente deixaram claro, resta-nos inter­ pretar a aplicação histórica da mensagem às respectivas nações. Não deve­ mos, portanto, insistir necessariamente que o profeta deveria ter passado seus últimos quarenta dias deitando-se sobre seus dois lados para represen­ tar tanto Israel quanto Judá sofrendo ao mesmo tempo. Por razões crono­ lógicas, no entanto, isto se revela ser provável. Ellison indicou que a dife­ rença cronológica entre as datas mencionadas e m l : 2 e 8 : l é d e u m ano e dois meses. Com base em um ano lunar de 354 dias (sendo que seis meses de 30 dias cada eram alternados com seis meses de 29 dias cada), isto per­ mite um total de apenas 413 dias para a realização desta ação. Mesmo ad­ mitindo que pudesse ter sido um dos anos com um mês adicional, o total 74


EZEQUIEL 4:5-6 não pode ser estendido além de 442 dias. Isto deixaria que Ezequiel gastas­ se 430 dias para suas ações, levando em conta a necessidade de acrescentar os sete dias de 3:15 e quaisquer outros dias adicionais que fossem necessá­ rios para seus preparativos. Embora reconheça assim que é possível adotar o conceito consecutivo destes períodos, Ellison realmente opta pelo con­ ceito concomitante, à luz dos 390 dias mencionados em 4:9. Parece ser a melhor saída de uma situação difícil. Pode ser, naturalmente, que estejamos sendo desnecessariamente lite­ rais em nossa tratamento destes versículos. A paixão de Ezequiel por aqui­ lo que é simbólico facilmente pode encorajar o leitor a passar por cima das realidades da situação e se importar pouco com aquilo que realmente aconteceu —se aconteceu algo. Mas já que Ezequiel realmente usava ações simbólicas para transmitir suas mensagens, é importante procurarmos en­ tender o que ele realmente fazia e como o fazia. Isto claramente importava para ele, e importava aos seus observadores que o observassem com exati­ dão e interpretassem corretamente o que queria dizer. Se vamos fazer a mesma coisa, devemos colocar-nos na situação dos exilados, companhei­ ros dele, e assentar-nos onde eles se assentavam, e observar cada movimen­ to dele tão rigorosamente quanto nos for possível. Antes de deixarmos esta seção, deve ser feita referência ao texto da LXX, que tem 190 ao invés de 390 nos w. 5 e 9, com uma cifra de 150 também inserida no v. 4. Isto claramente pressupõe o entendimento conco­ mitante das cifras. Muitos comentaristas seguem este texto (e.g. Toy, Davidson, Skinner, Stalker), argumentando que é não somente mais razoável como também mais de acordo com a história. Presumivelmente é calcula­ do a partir da queda da Samaria, mas a partir de então até o começo dos sofrimentos de Judá em 587 a.C., o período é somente de 134 anos, não de 150. A cifra fica mais próxima ao ser levada para o fim do exílio de Ju­ dá, na ocasião da queda da Babilônia em 539 a.C.: resultaria em 182 anos para o período total. A maior exatidão do segundo cálculo, no entanto, su­ gere a probabilidade de que a cifra na LXX tenha sido encaixada depois do evento como uma correção mais razoável de um original hebraico dificíli­ mo. Os 390 anos do TM provavelmente visem remontar além do cerco da Samaria, até à própria fundação do Estado separado de Israel por Jeroboão, filho de Nebate, que levou Israel a pecar, i.é, até c. de 931 a.C. Se este período total do pecado de Israel pode ser considerado o período do castigo pela sua iniqüidade é questão disputável. Nenhum dos textos nestes MSS está isento de problemas, e a maioria dos comentaristas decide o que prefere conforme critérios de probabilidade e de interpretação. Seja dito, 75


EZEQUIEL 4:6-8 apenas, que o TM pode ser interpretado de modo satisfatório segundo as linhas que indicamos, e que este é provavelmente um caso em que se deva aplicar o princípio de preferir a leitura mais difícil. 7, 8. Não seria possível para Ezequiel levar a efeito todas as instru­ ções dadas em 4:9-5:4 se suas mios ficassem permanentemente atadas, conforme é sugerido em 4:8. Ou isto deve ser entendido de modo metafó­ rico ou, mais provavelmente, passava parte de todos os dias deitado, olhan­ do para a direção requerida, com seu rosto contra o modelo da cidade si­ tiada, com o braço descoberto, simbolizando a disposição para a ação drás­ tica (cf. Is 52:10), e seu corpo amarrado com òordas. Uma vez que tives­ se feito esta demonstração diária, poderia soltar-se e realizar alguns dos ou­ tros atos simbólicos associados com o cerco. Depois, presumivelmente, quando não havia espectadores presentes, poderia voltar a uma maneira mais normal de conduta dentro da sua casa. iii. A fome em Jerusalém (4:9-17). Durante os 390 dias da demons­ tração, Ezequiel devia limitar-se a uma dieta rigorosa. Duas lições se com­ binam aqui: primeiramente, que Israel e Judá deverão viver com rações de fome, e, em segundo lugar, que sua dieta deverá ser imunda. Há certa con­ fusão na aplicação destes aspectos, porque não fica bem claro se represen­ tam as condições do cerco dentro da cidade sitiada de Jerusalém, ou a imundícia, bem como as economias forçadas, de viver nas condições do exílio. Wellhausen20 entendia que a seção inteira se referisse ao cerco que, segundo pensava Ezequiel, duraria 390 dias (v. 9). Além disto, considerava que os 390 dias do v. 5 representassem um erro transportado do v. 9 por um engano, de modo que aquilo que visava ser no v. 9 uma referência aos dias do cerco, ficou sendo, no v. 5, o número de anos do exílio de Israel. O v. 13 deveria, então, ser tratado como uma glosa, cuja existência se devia a esta confusão. Comill reconstruiu o texto do capítulo inteiro ainda mais drasticamente a fim de agrupar as seções que se referissem ao cerco e ao exílio, respectivamente. O resultado foi que os w. 4-6, 8, 9, 12-15 eram atribuídos a uma mensagem acerca da imundícia do exílio, e os w. 1-3,10, 11, 16, 17 a uma mensagem acerca da carência durante um cerco. O v. 7 sofreu a sina inevitável de ser omitido como glosa. Conforme consta o tex­ to, no entanto, devemos concluir com certa timidez que não há nenhuma resposta definida a esta aparente confusão: as más condições de vida dos exilados israelitas no território assírio são misturadas com os horrores da (20) History of Israel, Eng. tr. 1885, pág. 273, nota.

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EZEQUIEL 4:8-13 fome durante o cerco e com a imundícia de viver no exílio na Babilônia. Tálvez aqueles que observavam Ezequiel pesando sua comida, medindo sua raçãfo diária de água, fizessem tantas interpretações diferentes do seu signi­ ficado como os comentaristas modernos. 9-11. A dieta imposta sobre Ezequiel consistia em uma refeição diá­ ria de vinte siclos de pão, feito de uma mistura de todos os tipos de grãos, sendo que o trigo e cevada normais eram aumentados pelo acréscimo de favas e lentilhas (“e milho e aveia” (ARC), ainda), A última palavra das seis, “aveia”, pode ser “espelta” (cf. Êx 9:32; Is 28:25), que era aparente­ mente semeada e ceifada para produzir um tipo inferior de farinha. Não havia contaminação ritual na mistura destes grãos, dentro dos limites da­ quilo que conseguimos perceber em Levítico 19:19;Deuteronômio 22:9; e na Mishna. Com o siclo calculado em cerca de 11,4 gramas, a ração se­ ria de 228 gramas de pão por dia. A medida de água, da sexta parte de um him, seria de 0,61 litros. Isto não fica muito abaixo de rações de fome, qualquer que seja o modo de calcular, e parece incrível que Ezequiel pu­ desse ter sobrevivido assim por mais de um ano. Do outro lado, não ficaria fora de harmonia com nossa interpretação desta passagem se argumentás­ semos que esta dieta dizia respeito somente aos seus atos públicos demons­ trativos, e se pelo menos admitíssimos a possibilidade dele aumentá-la com outros alimentos na ausência de espectadores. 10. De tempo em tempo. Esta é a tradução literal, mas transmi­ te a impressão errada. O sentido correto é “uma vez por dia.” Uma frase semelhante ocorre em 1 Crônicas 9: 25, que toma claro que se refere a uma ação recorrente, e isto no mesmo horário todos os dias. Cooke traduz “em tempos determinados”, mas isto não fica suficientemente claro sem sua nota explanatória: “i. é, num certo horário num dia, e no horário cor­ respondente no dia seguinte.” 12-17. Embora o profeta pudesse aceitar calmamente as limitações impostas sobre sua dieta, a totalidade do seu ser revoltava-se diante da or­ dem no sentido de assar seu pão sobre um fogo feito de excrementos hu­ manos. Esta ação visava demonstrar a contaminação que sobreviria aos exi­ lados por causa de serem obrigados a viver e comer num ambiente pagão. Não poderiam assegurar-se que a carne que compravam ou recebiam tinha sido abatida corretamente de acordo com as exigências levíticas, nem poderiam saber se tinha sido primeiramente oferecida nos sacrifícios pa­ gãos. (O mesmo problema era enfrentado pelos cristãos primitivos nos tem­ pos apostólicos; cf. 1 Co 8: lss.; Ap 2:14, 20). Manter a pureza cerimonial em tais circunstâncias era quase uma impossibilidade, e este fato, combina­ 77


EZEQUIEL 4:13-5:1 do com a separação de Jerusalém, fazia com que os exilados fossem classificados, na sua totalidade, como ritualmente imundos. Ezequiel de­ monstrou sua consciência do significado deste símbolo ao advertir que ele, mesmo que não houvesse outro, se conservara puro, certamente no que di­ zia respeito à carne impura (14). Como uma concessão aos sentimentos de­ le, Deus alterou o combustível para esterco de vacas (15), que era uma forma perfeitamente normal de fazer um fogo no Oriente, e assim permanece até ao dia de hoje. Provavelmente não era considerado imundo pelos israelitas, e talvez tenha estado em uso regular tanto entre eles quan­ to entre seus vizinhos. Os dois tipos de carne imunda mencionados no v. 14, o animal mor­ to de si mesmo e a carne do animal dilacerado por feras, eram proibidos porque o sangue não poderia ter sido drenado corretamente (ver Lv 17: 11 ss.; Dt 12:16). Os regulamentos acham-se em Êxodo 22:31; Levítico 22: 8; e Deuteronômio 14:21. A Carne abominável (heb. piggüf) referese, em Levítico, à carne sacrificial que se tomou imunda por causa de ter sido conservada por três dias sem ser comida (Lv 7:18; 19: 7), mas em Isaías 65: 4 é usada em paralelo com a carne de porco, como sendo algu­ ma coisa inerentemente imunda. Davidson sugere como seu significado: “carne podre.” Parece estranho que Deus mandasse uma coisa e depois, com igual rapidez, a retraísse ou a modificasse. Certamente não tratou o apóstolo Pedro da mesma maneira quando ele viu a visão do lençõl que continha animais imundos, e que foi descido diante dele no eirado de uma casa em Jope (At 10:14-15). Talvez o mandamento original nunca visasse fa­ zer outra coisa senão ilustrar a imundícia da dieta deles, que nunca teria impressionado Ezequiel nem seus observadores (cf. v. 12, à vista do povo; ist poderia ter sido simplesmente encenado?), se o esterco de vaca tivesse sido usado desde o início. De qualquer modo, é gratificante notar a conces­ são que Deus graciosamente fez à escrupulosidade sacerdotal do Seu ser­ vo nesta ocasião. iv. A tríplice ruína do povo de Jerusalém (5:1-17). Cada uma das quatro ações descritas em 4: 1-5:4 tratava de um as­ pecto diferente da desgraça que dentro em breve sobreviria a Jerusalém. Em primeiro lugar, veio o fato do cerco (4:1-3), e depois, a duração do castigo de Israel e de Judá (4:4-8), e depois as condições de fome no cer­ co e no exílio (4:9-17). Em último lugar, veio o oráculo encenado da ruína dos habitantes de Jerusalém (5: 14). 78


EZEQUIEL 5:1-4 1-4. A ação que Ezequiel é ordenado a realizar pode ser dividida em duas etapas. A primeira etapa é descrita nos w. 1 e 2, e consiste na pesagem dos cabelos cortados do profeta, em três partes iguais. Depois de liqüidá-las segundo as três maneiras diferentes descritas no v. 2, o profe­ ta é ordenado, quase como pensamento posterior, a recuperar uns pou­ cos cabelos da terceira porção e tratá-los de acordo com instruções distin­ tivas adicionais (3, 4). Não há nenhuma necessidade de concluir que a pro­ fecia original de Ezequiel consistia apenas dos w. 1 e 2, e que o restante era matéria secundária, porque a totalidade é necessária para a compreen­ são da mensagem do profeta. O simbolismo é óbvio: uma terça parte dos habitantes de Jerusalém seria destruída dentro da cidade, uma terça par­ te seria morta pela espada nas lutas em derredor da cidade, e uma terça parte seria espalhada entre as nações, e continuaria a ser acossada por forças hostis. Dentre esses sobreviventes emergiria o punhado daqueles que seriam preservados. A palavra hebraica para a espada afiada (1) é a palavra comum para “espada,” só que precisava de um fio muito cortante para os dois trabalhos para os quais seria usada. Primeiramente, tinha de ser usada como navalha de barbeiro (não um implemento separado) para cortar os cabelos e a barba do profeta. Raspar a cabeça era uma marca de luto (Is 15:2; Jr 48: 37) ou de vergonha (2 Sm 10:4), e talvez as duas nuanças estejam incorpo­ radas no simbolismo aqui. Em segundo lugar, seria usada para retalhar a porção dos cabelos ao redor da cidade (2), e seria brandida atrás dos cabe­ los que foram espalhados ao vento. Não é necessária muita imaginação para ver Ezequiel em ação. Primeiramente, amolando a lâmina da espada até formar um fio cortante agudo, enquanto a multidão se reunia para ver que nova ação seria realizada. Depois, o grito sufocado de horror da par­ te dos circunstantes enquanto Ezequiel se colocou a trabalhar com sua na­ valha grosseira, para em seguida pesar meticulosamente os cabelos na ba­ lança. Finalmente, depois de todos os cabelos terem sido queimados ou retalhados em pedacinhos, ou jogados aos ventos, deixou de lado a espa­ da para ir procurar na areia uns poucos cabelos que sobraram, para prendêlos nas abas da sua veste, e até mesmo alguns destes seriam jogados no fogo que ardia ao lado do tijolo que representava Jerusalém. Nas abas da tua veste (3); trata-se das extremidades inferiores da tú­ nica (heb. kuttõnet) longa que ia até aos tornozelos, e que podiam ser le­ vantadas e encaixadas no cinto para formar um bolso no qual se podia carregar objetos (cf. Ag 2: 12. O significado do v. 4a é que alguns dos que escaparem da queda da cidade não deixarão de perecer com ela, embora 79


EZEQUIEL 5:4-10 não necessariamente dentro dela, i.é, compartilharão do mesmo destino daqueles que são destruídos na derrota da cidade. A frase adicional, dali sairá um fogo contra toda a casa de Israel (4v), deve referir-se, no contex­ to, a uma devastação adicional flamejando de Jerusalém, possivelmente uma referência ao remanescente aviltado que fora deixado na vizinhança da cidade destruída e que tinha de ser expurgado depois da volta do exílio (ver Ed 4:1-4).21 5-17. Estes versículos contêm uma explicação dos símbolos que fo­ ram encenados e uma justificativa para o modo severo de Deus tratar com Seu povo. A f r a s e to é Jerusalém (5) nos leva de volta a 4:1 e ao símbolo do tijolo gravado. A situação dela no meio das nações reflete não somente a própria disposição do cerco e dos exércitos que a cercavam, como tam­ bém sua posição teológica como a peça central do favor de Deus no mundo e o objeto do Seu amor conforme a aliança. A partir desta idéia surgiu o conceito de Jerusalém como “o ponto central da terra” (38:12), crença esta que era popular nos escritos rabínicos, e foi transferida para os Pais primitivos e para a cartografia medieval.22 6-10. O crime do povo de Jerusalém foi que, a despeito de todos os favores de Deus, tinha sido rebelde contra Seus juízos e estatutos. Estas são palavras que Ezequiel emprega freqüentemente, em comum com Levítico e Deuteronômio, e se referem a um corpo estabelecido de lei, a obe­ diência ao qual fazia parte integrante da aliança. Pior do que isto, o povo excedera as demais nações na sua perversidade, e nem sequer procedendo segundo os direitos das nações que existiam ao redor dele (7). Por causa de todos estes crimes, o julgamento fica claro: Eis que eu, eu mesmo, es­ tou contra ti (8). O pecado sem paralelo exige castigo sem paralelo (9). O canibalismo que não é desconhecido em condições desesperadas de cer­ co (cf. 2 Rs 6:28-29; Jr 19:9; Lm 4: 10) é descrito como um julgamen­ to executado por Deus (10), e tudo será feito à vista das nações (8) de mo­ do que a santidade Deus fosse vindicada e Seu povo dèsobediente servis­ se de exemplo público. (21) Keil, entretanto (págs. 85-86), contesta, plausivelmente, o ponto de vista de Kliefoth de que o fogo foi um fogo de purificação e não de julgamento. Ele compara o teor de 6: 8-10, anunciando a conversão do remanescente dos israelitas dispersos, e também cita Lc. 12:49. Este poderia ser o verdadeiro significado se a frase fosse interpretada como acréscimo posterior, mas, naturalmente, não é pró­ prio ao texto dar 2 significados diferentes para a palavra fogo. (22) Conf. Jubileus 8:12, 19; TB, Yoma 54b; Sanhedrin 37a; e o mapa do mundo por Richard de Haldinghan na Catedral Hereford (c. 1280).

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EZEQUIEL 5:11-15 11. Além da desobediência e da rebeldia veio a profanação do san­ tuário de Deus com coisas detestáveis e abominações. Esta é a primeira re­ ferência em Ezequiel às práticas corruptas que estavam sendo realizadas no Templo entre o cativeiro de Joaquim e a destruição final da cidade em 587 a.C. O capítulo 8 descreve esta situação com pormenores horripilan­ tes. Por tudo isto, diz Deus: eu retirarei sem piedade os meus olhos de ti. A expressão “os meus olhos” é um acréscimo explanatório a um texto difícil. Uma variante diz: “Eu vos abaterei.” 12. A chave para o simbolismo do v. 2 agora é dada, e notamos que ser queimado com fogo é interpretado como sendo a morte pela pesti­ lência e pela fome, i.é, durante o cerco e não nas chamas que engolfaram a cidade na ocasião da sua captura. Na realidade, foi cumprida a profecia encenada por Ezequiel, porque muitos morreram durante o cerco, e outras centenas foram executadas quando Zedequias fez uma tentativa de forçar caminho para fora da cidade sitiada. A narrativa bíblica pode ser lida em 2 Reis 25: 1-21; 2 Crônicas 36: 17-21; Jeremias 30:1-18. 13-17. Neste parágrafo final, os julgamentos que Deus prometera no v. 8 são descritos mais plenamente. Palavras semelhantes àquelas usa­ das em Isaías 1: 24 acerca da ira do Senhor contra Seus inimigos agora são usadas contra Seu próprio povo (13). Satisfarei neles o meu furor é literal­ mente “aquietarei o meu furor” no sentido de “apaziguar” ou “acalmar” (como em Zc 6:8); e a frase me consolarei (hinnehamtí) subentende, de modo semelhante, o alívio que vem depois de descarregar emoções podero­ sas, tais como a mágoa ou a ira. O objetivo do castigo é fazer de Judá e de Jerusalém uma advertência às nações que estão ao redor de ti (15). Isto importa numa inversão da in­ tenção da aliança, que era, originalmente, que Israel fosse testemunha dian­ te das nações a respeito da veracidade e da misericórdia de Deus: em Israel, todas as nações da terra seriam abençoadas (Gn 22: 18). Mas o resultado dos pecados da nação foi que ela veio a ser opróbrio e ludíbrio, de escarnamento e espanto (15). As palavras estão empilhadas umas sobre as ou­ tras para expressar o acúmulo de ridicularização que sobrevirá à cidade aflita de Jerusalém. O cumprimento delas se acha em Lamentações 2:15, 16. Os castigos consistirão nas malignas flechas de fome (16), sendo que malignas tem seu sentido regular de “danosas” mais do que “perversas” no sentido moral. O castigo da fome, que é o tema do v. 16, fica sendo apenas um entre quatro grandes males mencionados no v. 17. A fome, a pestilência e a espada são três deles que freqüentemente aparecem nos 81


EZEQUIEL 5:15-6:1 escritos apocalípticos, e as bestas-feras às vezes são acrescentadas (cf. Dt. 32:23-25; Ap 6:8). Um quarteto semelhante é achado em Jeremias 15: 2. A peste o sangue (17) formam um par aliterativo de palavras que deve ser entendido como uma unidade. Todas estas desgraças são para comprovar a Israel e às nações que Eu, o SENHOR, falei (13, 15, 17). Quanto mais indiferentes os homens ficam diante das leis de Deus, tanto mais alto Ele precisa falar. 0 v. 13 acrescenta a expressão no meu zelo. A palavra hebraica qin’â sugere “ardor,” “sentimento apaixonado” (o significado da raiz é “ficar com rosto roxo”), e, portanto, abrange tanto o zelo como os ciúmes, bem como o ressentimento e a indignação diante de uma ofensa contra sua própria honra ou a doutra pessoa. Neste último sentido é freqüentemente atribuída a Deus, não em qualquer sentido peca­ minoso ou sub-cristão (como nossa palavra “ciúmes” usualmente suben­ tende) mas, sim, com a idéia de que Deus é despertado para sentimentos profundos de preocupação em prol da santidade e da justiça. O cristão nunca precisa sentir-se envergonhado quando suas emoções são atiçadas de modo semelhante. Semelhante paixão é rara demais na religião do século XX. II. ORÁCULOS DE JUÍZO (6:1-7: 27) a. A profecia contra òs montes de Israel (6:1-14) Depois desta condenação dramatizada de Jerusalém e do seu povo, Ezequiel agora se dirige à totalidade da terra de Judá, e especialmente aos montes, que seleciona não somente por tipificarem o terreno aciden­ tado de Judá, mas também porque foram as localidades para os lugares al­ tos que contaminaram a terra. Muitos profetas antes dele tinham atacado os lugares altos, e isto com boa ràzão. Embora a adoração ali realizada fos­ se nominalmente e em nome de Javé, a maioria deles tinha sido original­ mente santuários cananitas que os israelitas adotaram para seus próprios propósitos. A idéia talvez tenha sido boa em essência, mas na prática ofus­ cava o aspecto distintivo da religião de Israel e levava para todos os tipos de corrupções locais da adoração de Javé. Os profetas, sem exceção, deplo­ ravam esta política, e lutavam para remover os lugares altos para sempre, mas tinham pouco sucesso. Os reis de Judá que eram adoradores de Javé removeram muitos santuários e símbolos idólatras, mas a maioria deles 82


EZEQUIEL 6:1-6 empacava diante da destruição total dos lugares altos. As duas exceções notáveis foram Ezequias (c. de 716-687 a.C.) e Josias (c. de 640-609 a.C.), mas a reforma de Ezequias foi imediatamente invertida pelo seu sucessor, Manassés (2 Rs 21: 3), e não parece que os esforços de Josias fossem coroa­ dos com muito mais sucesso. Em contraste com este capítulo, vale a pena ler 36:1-15, onde a palavra é dirigida aos montes de Israel mais uma vez, num contexto da promessa da sua restauração. 1, 2. A fórmula: Veio a mim a palavra do SENHOR dizendo (lit. “e uma palavra de Javé era para mim, dizendo”), dá a entender que uma nova seção está começando, sem qualquer vínculo cronológico necessário com o que foi dito antes. Ocorre muito freqüentemente em Ezequiel co­ mo introdução aos seus oráculos. Vira o teu rosto para (2) é uma frase que pode ser usada, ou, no sentido de direção (Gn 31:21), ou de propó­ sito (1 Rs 2:15), ou de oposição. Ezequiel emprega as palavras principal­ mente neste último sentido (como em 13:17; 21:2;25;2;28:21;38:2), embora não seja impossível que, enquanto pronunciava sua profecia, se voltasse para olhar para o ocidente, em direção a Judá. Se a prática de vol­ tar-se em direção a Jerusalém para orar já estava pegando entre os exilados (cf. Dn 6:10), haveria ironia especial nesse seu ato numa profecia de con­ denação. 3-7. Os altos que Deus diz que destruirá com uma espada, o símbo­ lo da destruição, são, em hebraico, bàmôt, os santuários situados usual­ mente, porém não necessariamente, nos altos das colinas, onde o povo da localidade adorava sob a liderança dos sacerdotes locais. Nos dias antes do estabelecimento do Templo em Jerusalém, eram considerados inócuos. Samuel ministrava em certo alto (1 Sm 9:14), provavelmente em Ramá, e havia um alto famoso em Gibeom, onde Salomão sacrificou (1 Rs 3:4). Isto foi suavemente criticado pelo autor de Reis, mas desculpado “por­ que até àqueles dias ainda não se tinha edificado casa ao nome do SE­ NHOR” (1 Rs 3:2). Uma vez, porém, que o Templo foi edificado, a adora­ ção formal em qualquer outro lugar foi oficialmente proibida, e depois da divisão do reino, Jeroboão I de Israel teve de estabelecer os altares em Dã e Betei para se rivalizarem com Jerusalém com os centros cultuais do nor­ te. Porque nenhum controle eficaz podia ser exercido sobre os altos, esta­ vam totalmente abertos à influência de práticas cananitas de cultos de fer­ tilidade, da adoração aos ancestrais, e da idolatria de vários tipos. Cada alto teria seu altar para sacrifícios, e talvez um pilar (heb. massêbâ), que prova­ velmente era considerado como um símbolo fálico, e uma imagem das deu­ sas cananitas, Aserá ou Astorete. Finalmente, há os altares de incenso 83


EZEQUIEL 6:6-12 (ARC os chama de “imagens do sol”).23 Todos estes aspectos idólatras se­ rão profanados pelo contato com os cadáveres dos filhos de Israel e com seus ossos (5; cf. Nm 19:16). A redação do v. 5 ecoa Levítico 26:30, e é uma lembrança da prática de Josias de queimar ossos sobre os altares dos altos como.maneira eficaz de fechá-los (2 Rs 23:20). Para o salmista, o castigo ulterior dos ímpios é expressão nas palavras: “Deus dispersa os os­ sos daquele que te sitia” (SI 53: 5) e: “Como quando alguem lavra e sulca a terra, são os nossos ossos espalhados à boca da sepultura” (SI 141: 7). Ver um paralelo contemporâneo em Jeremias 8: 1-2. 8-10. Nestes versículos oferece-se a perspectiva de um remanescen­ te dos exilados que se lembrarão do Senhor e que terão vergonha dos ma­ les que cometeram. A misericórdia de Deus nunca está muito longe do Seu juízo: Mas deixarei um resto (8). A mesma ideia é expressa em 12:16 e em 14: 22, e em cada caso fica claro que o propósito de Deus em poupá-los é que aprendessem através da severidade dos seus castigos, e confessassem seus pecados e reconhecessem a justiça dos seus sofrimentos. Me quebran­ tei (9); as Versões colocam na voz ativa, e muitas traduções modernas co­ locam na passiva. A inserção de por causa de (2 vezes) e ARC e ARA evita as dificuldades que têm sido achadas no restante do versículo. A pa­ lavra para ídolos (heb. gillülím) é uma das favoritas de Ezequiel, e ocorre nada menos de 38 vezes, em contraste com 9 vezes no restante do Antigo Testamento. Sua derivação é incerta, mas é bem provável que seja uma palavra especialmente composta, que consiste nas vogais do hebraico siqqüs, que recebe nos dicionários a tradução eufemística de “coisa destestada” e as consoantes de um substantivo que significa “bolinha de ester­ co.”24 A combinação final leva consigo, talvez, o máximo de desdém e nojo que uma palavra pode expressar. 11-14. Um novo oráculo é introduzido com a fórmula: Assim diz o SENHOR Deus. Ê um tipo de cântico de triunfo diante da vindicação da honra de Deus no julgamento. Bater as palmas e bater com o pé eram gestos de deleite zombeteiro, mais apropriados aos amonitas dos tempos de Ezequiel (cf. 25: 6) do que ao leitor cristão de hoje. O cântico de zom­ baria, no entanto, era uma categoria literária da poesia hebraica que poderia até mesmo ser colocada na boca de -Deus sem se sentir que era inapropria(23) Para uma discussão mais pormenorizada sobre isto, ver ARÍ, pág. 215, nota 58. (24) Pode haver uma ligação aqui com a Palmiere gelàlà, “uma esteia de pe­ dra” ; conf. Ac. galàlu, um lodo de pedras, tratado de algum modo especial.

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EZEQUIEL 6:13-7:1 da. Talvez devamos, portanto, interpretá-la por aquilo que dizia acerca de uma situação específica, e reconhecer que o zelo poético por Deus prova­ velmente seria expresso de modo algo diferente à luz fria da prosa. Em har­ monia com o estilo do cântico de triunfo, a palavra «4fc! deve ser entendida como expressão de júbilo —sendo que a anomalia das palavras que a se­ guem pode ser esclarecida quando se compreende que é o julgamento das terríveis abominações que é recebido com júbilo, e não as próprias abomi­ nações. Quanto à expressão: O que estiver longe... o que estiver perto (12), cf. 22: 5; Jeremias 25: 26; Daniel 9: 7. É um termo abrangente tipicamen­ te hebraico, tal como: “aquele que sai e aquele que entra,” com o signi­ ficado de todos sem distinção. O que ficar de resto refere-se a qualquer pessoa que escapar aos julgamentos da peste e da espada. Por meio destes julgamentos, a profanação virá a todo lugar onde houver um altar, não so­ mente em todo outeiro alto e em todos os cumes dos montes, como tam­ bém debaixo de todo carvalho espesso onde se oferecia sacrifícios. O fato de que sepultamentos também eram realizados debaixo de carvalhos (Gn 35:8; 1 Cr 10:12) sugere a existência nestes locais de santuários para a adoração aos ancestrais. Todos estes seriam profanados com cadáveres, e a terra de Judá ficaria desolada e devastada (14; semàmd ü-mesammâ uma aliteração bonita para um julgamento devastador). Desde o deserto até Dibla; RSV tem “Ribla”, que depende de uma leve variação do texto, mas em hebraico “d” e “r” são freqüentemente confundidos, e há algumas evidências nos MSS em prol de Ribla. Ribla, ou Riblate, ficava no extremo norte no rio Orontes, no distrito de Hamate. Compare a frase: “desde a entrada de Hamá até ao ribeiro de Arabá” (Am 6:14), que também signi­ fica: “de uma extremidade do país até à outra.” O alvo do julgamento divino é descrito quatro vezes neste capítu­ lo: Então sabereis que eu sou o SENHOR (7, 10, 13, 14). As palavras ti­ pificam a mensagem e o anseio de Ezequiel, de que Javé seja conhecido por todos os homens, israelitas e não-israelitas, por aquilo que Ele é —o único Deus verdadeiro, o Deus do mundo, o Deus da história, o Deus que fala, e que não fala debalde (10). b. “O fim vem” (7: 1-27) Uma nova coletânea de pronunciamentos é introduzida com a mes­ ma fórmula que deu início ao capítulo 9. Os vv. 2-13 consistem em três oráculos curtos, todos de teor semelhante, ligados pela frase comum: “o 85


EZEQUIEL 7:1-9 fim vem,” “vem a tua sentença,” “vem o tempo.” o fato de que a mensa­ gem precisava de tanta reiteração pode ser compreendido somente dentro do fundo histórico da crença popular na inviolabilidade de Jerusalém. A destruição dela era inconcebível à mente israelita. Enquanto Deus fos­ se Deus, o Templo de Deus e a cidade de Deus ficariam em pé. Esta fora a mensagem de Isaías quando os reis de Judá tinham temido pela segurança da cidade e estavam cogitando pedir a assistência de exércitos pagãos. Ago­ ra, porém, a situação era diferente. A confiança de Isaías já não podia ser justificada após 150 anos de apostasia cada vez maior. O povo estava vi­ vendo no passado, mas Deus estava julgando o presente. Seu veredito era que o fim estava iminente. 1-4 Ezequiel não foi o primeiro a usar o refrão O fim vem. Amós o empregara (8:2) quando fez seu famoso jogo de palavras com o cesto de frutos de verão.25 A partir de então, veio a fazer parte da linguagem co­ mum da escatologia, e associava-se com o dia em que Deus julgaria todos os homens. Para Ezequiel, a destruição de Jerusalém era um ato de intensida­ de quase apocalíptica; era uma culminação trágica, porém necessária, de séculos de pecado humano e de longanimidade divina. O padrão não pode­ ria repetir-se para sempre: para Deus ser consistente, teria de parar tudo em certa altura. Inúmeras vezes já Se apiedara e poupara Seu povo. Agora, finalmente, diz: Os meus olhos não te pouparão, nem terei piedade (4). O fim viera. 5-9. É impossível captar o estilo staccato do texto hebraico em qualquer tradução, mas uma indicação dele acha-se na repetição das pala­ vras, especialmente do verbo vir, que ocorre seis vezes nos w. 5-7 (no ori­ ginal). Juntamente com isto, há um jogo de palavras, que relembra Amós, que liga fim com despertou-se (6). As palavras hebraicas são: qès, “fim,”; haqqès “ofim ;”hèqts, “despertou-se.” Tua sentença (7, 10) apresenta um problema não solucionado. A pa­ lavra (heb. septrâ) ocorre, fora destes versículos, somente em Isaías 28:5, onde significa “diadema” ou “grinalda.” Uma palavra semelhante em aramaico significa “manhã,” mas isto normalmente sugeriria bênção e não calamidade. Outros pensam numa “reviravolta dos eventos” e, portanto, no “infortúnio,” e assim veio a ser usada a palavra sentença. Não pode, no entanto, ser descrita como sendo qualquer coisa mais do que uma boa con­ jectura que se encaixa no contexto.26 A descrição de Deus assim: eu, o (25) Ver a RSV mg. sobre Am. 8: 2. (26) Ac. sabaru, uma deformação no muro antes de cair, pode dar uma expli­

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EZEQUIEL 7:9-22 SENHOR, é que firo (9) clama por alguma emenda por aqueles que deixam de ver a sinistra ironia que existe em grande parte dos escritos proféticos. Para os ouvintes e os leitores que estavam acostumados a nomes de Deus tais como “Jeová-Jire” e “Jeová-Nissi” (Gn 22:14; Êx 17:15), deve ter si­ do tremendamente impressionante vê-Lo descrito como “Jeová-Makkeh.” O Senhor que provera e protegera estava a postos para ferir. 10-13. A iminência do dia é assemelhada a uma vara (10) que já floresceu e, como a vara de Arâto, deve agir “por sinal para os filhos rebel­ des” (Nm 17:10). A vara, pois, tipifica a soberba que já reverdeceu (10) e a violência que já cresceu (11). Mas não permanecerá nenhuma das coi­ sas nas quais o orgulho se satisfaz: a riqueza, os rumores (a fama), a gló­ ria. (11), tudo passará. Uma vez que esta sentença cai, as transações comer­ ciais nada mais significarão, e o sorriso do comprador que pensa que fez uma pechincha e a cara comprida do vendedor que finge que se saiu mal serão coisa do passado (12). E quanto à restituição no ano do jubileu, nem se pensa nisto (13; cf. Lv 25:10, 13-14). Mais uma vez, o oráculo é uma mistura de ironia e de jogos de palavras; em certa altura, a ira (heb. hàzôn) está sobre toda a multidão deles (12), e logo após, a profecia (heb. hàzôn, lit. “visão”) está contra a multidão (13). O vendedor não tomará e a profe­ cia não voltará atrás (13: a mesma palavra). 14-22. Embora o povo se prepare para resistir à desgraça iminente, e tocaram a trombeta e prepararam tudo (14), a defesa é inútil. Diante da­ quilo que está vindo, os joelhos ficarão fracos como água (17). A única coi­ sa que os defensores poderão fazer é vestir-se de pano de saco e jogar seu dinheiro fora das ruas (18, 19): a sua prata e o seu ouro será impotente, desta vez, para lhes fazer bem algum. Nenhuma soma de dinheiro poderá comprar alimento quando o alimento não está disponível. Destarte, as próprias coisas que os israelitas desviados tinham prezado, e que tinham sido o motivo da queda deles, ficariam sendo como sujeira (19, 20) no dia da ira de Deus. Esta palavra, niddâ, pertence á linguagem da impureza fe­ minina, e expressa o nojo que será sentido não somente das suas riquezas, como também das suas preciosas jóias (20), que tinham usado para enfei­ tar de modo dispendioso os seus ídolos. Muito mais horripilante ainda se­ rá que o recesso (22; lit. “lugar de estima”) sofrerá profanação pelos es­ trangeiros. Esta é uma referência clara ao Templo, que é descrito em termos igualmente carinhosos em 24:21, 25. As palavras emotivas aqui empregadas são uma lembrança sadia ao leitor de que, quando Deus age cação etimológica para esta palavra.

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EZEQUIEL 7:22-8:1 em julgamento, Ele mesmo sofre dor e mágoa bem como aqueles aos quais Sua santidade condenou. 23-27. Faze cadeia para levar os exilados para o cativeiro, excla­ ma o profeta. O hebraico, porém, é difícil, e LXX junta as palavras ao versículo anterior, no sentido de “e farão desolação.” Como ocorre tão freqüentemente, a variante nos mostra pouco mais do que o olhar de desespero do tradutor, desespero este que tem seu paralelo naquele dos israelitas aflitos que, no meio do seu sofrimento, buscarão paz (25), mas será tarde demais. Já então, os canais reconhecidos da orientação divina terão sido bloqueados. Os profetas, os sacerdotes e os anciãos nada terão para dizer (26): o rei, o príncipe e o povo ficarão incapacitados no seu desespero (27). Uma ameaça semelhante fora feita por Miquéias (Mq 3:5-7), e as palavras podem muito bem ser uma resposta à arrogância dos contemporâneos de Jeremias que pensavam que “não há de faltar a lei ao sacerdote, nem o conselho ao sábio, nem a palavra ao profeta” (Jr 18:18). Nota-se que não há sugestão alguma de um conflito entre o profeta e o sacerdote: os dois são porta-vozes aceitos na vida religiosa de Israel. 0 profeta recebia oráculos através da experiência religiosa (vi­ sões)-, o sacerdote dava instrução (lei; heb. tôrâ) baseada em julgamen­ tos conhecidos, ou codificados como lei ou transmitidos pela tradição; os anciãos davam conselhos ao rei nos negócios do estado. Ezequiel nor­ malmente evita a palavra para rei (heb. melek), e prefere o termo riasi’, príncipe, de modo que talvez tenhamos em 27a uma repetição que expres­ sa uma só idéia em duas frases. Esta possibilidade é reforçada pela LXX, que omite a frase o rei se lamentará. III. A VISÃO DO CASTIGO DE JERUSALÉM (8:1-11:25) a. As idolatrias sendo praticadas no Templo (8:1-18) Exatamente quatorze meses depois da sua primeira visão, Ezequiel teve outra experiência semelhante. Naquelas semanas intervenientes fica­ ra claramente reconhecido e respeitado como profeta, e os anciãos dos exilados de Judá vinham para ele na sua casa a fim de consultá-lo. Na oca­ sião específica descrita em 8:1, é mais do que provável que os anciãos, tendo vindo para lhe fazer perguntas acerca de um assunto, até mesmo talvez acerca da situação em Jerusalém, estavam assentados diante dele es­ perando sua resposta. Esta poderia demorar muito, porque um profeta ver­


EZEQUIEL 8:1-4 dadeiro tal como Ezequiel nunca daria uma resposta sob o impulso do mo­ mento, conforme alguns profetas menos dignos tendiam a fazer, mas, sim, esperaria uma palavra da parte de Deus através de uma experiência visioná­ ria ou depois de um período de meditação espiritual prolongada. Quando, finalmente, vinha a mensagem ou era dada a visão (e, naturalmente, não havia garantia de que isto aconteceria), nunca havia dúvida na mente do porta-voz ou dos ouvintes de que viera da parte de Deus. Se houvesse a mínima dúvida em qualquer ocasião, a prova final da autenticidade do profeta achava-se no cumprimento das suas palavras (cf. Dt 18:21-22). Foi numa ocasião destas que Ezequiel foi arrebatado no êxtase que é descrito de 8: 2 até 11:24. Começa quando se sente levado pelo Espírito para Jerusalém, onde a ligação com sua visão anterior é completada e vê ali a mesma visão do carro-trono de Deus que vira ao lado do rio Quebar. Então, em quatro movimentos separados, são-lhe mostradas quatro das “abominações” que supostamente ocorrem dentro do recinto do Tem­ plo (8:5-18). É freqüentemente debatido se Ezequiel estava descrevendo o estado real das coisas em Jerusalém, ou se apenas falava simbolicamente. Como, por exemplo, haveria de saber o que estava acontecendo a centenas de qui­ lômetros? Tinha fontes secretas de informações, humanas ou sobrenatu­ rais? Mesmo admitindo que fosse possível a comunicação entre Jerusalém e a Babilônia,27 é concebível a possibilidade de as práticas descritas neste capítulo terem sido toleradas pelas autoridades do Templo? Tendo em vis­ ta os problemas levantados por tais perguntas, parece preferível considerar as quatro abominações como sendo simbólicas, ou, melhor, típicas, dos des­ vios religiosos de segmentos diferentes da comunidade de Jerusalém. A pri­ meira (a imagem dos ciúmes;provavelmente este fosse um fato real) dizia res­ peito ao rei e ao povo; a segunda (a adoração aos animais) dizia respeito aos anciãos de Israel; a terceira (a lamentação por Tamuz) absorvia o inte­ resse das mulheres; e a quarta (o culto ao sol) era limitada ao átrio interior, onde somente sacerdotes e levitas podiam entrar. Se, porém, todas estas coisas estavam acontecendo conforme a descrição de Ezequiel, significaria que ocorrera uma desintegração completa da religião nacional; e tal coisa não seria impossível, de modo algum. 8:1-4. Transportado para Jerusalém. Para a cronologia, ver a Intro­ dução, págs. 34-37. Mais uma vez, a experiência como de êxtase é descrita (27) Ver Introdução, pág. 23.

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EZEQUIEL 8:4-6 com as palavras ali a mão do SENHOR Deus caiu sobre mim (cf. 1:3; 3:14, 22). O ser angelical que imediatamente fica diante dele é muito se­ melhante à descrição daquele que estava assentado no carro-trono (1: 2627). Aquilo que Davidson chama de “imprecisão reverenciai” da descrição (note a repetição da palavra “como”), nos convence que este deve ser um encontro com o Senhor. Estendeu, não Sua mão (assim seria por demais antropomórfico) mas, sim, uma semelhança de mão, e Ezequiel foi levanta­ do pelo Espírito e levado para Jerusalém, onde foi colocado à entrada da porta do pátio de dentro, que olha para o norte (3). A porta do norte era uma das três que davam acesso do átrio externo do Templo para o átrio in­ terno (as outras duas olhavam para o leste e o sul, respectivamente). A en­ trada da porta ficaria no lado do átrio exterior. Uma olhada na planta na pág. 230 (embora esta, naturalmente, não represente o formato do Templo de Salomão) mostrará que Ezequiel foi colocado no átrio exterior exata­ mente ao lado desta porta, não muitos metros de onde a imagem dos ciú­ mes tinha sido erigida. Uma nota explanatória no fim do v. 3 demonstra que era chamada a imagem dos ciúmes porque provoca o ciúme, i. é, era um ultraje contra Deus, contra Seu Templo e contra Seu povo. É notável que, a despeito de todas as corrupções que existiam, Eze­ quiel ainda diga: Eis que a glória do Deus de Israel estava ali (4). Era como se quisesse ressaltar em alto relevo a diferença entre o Deus cujo lugar era ali, e os desvios que estavam sendo praticados ali, fazendo, assim, os cri­ mes parecerem tanto mais hediondos. Talvez também quisesse dizer que Deus permaneceria com Seu povo até o último momento da sua rejeição. 8: 5, 6. A imagem dos ciúmes. Manassés tinha colocado uma imagem de madeira de Aserá, a deusa cananita, na casa do Senhor (2 Rs 21: 7), e embora 2 Crônicas 33:15 narra como ele subseqüentemente a removeu, deve ter reaparecido, porque Josias mais tarde mandou retirá-la para ser queimada ao lado do ribeiro Cedrom (2 Rs 23: 6). As palavras de Ezequiel dão a impressão de que um dos sucessores de Josias tinha feito outra, colo­ cando-a ao lado da porte do norte.28 Esta era a mais honrosa das três por­ tas, porque, sendo que o palácio real estava no lado norte do Templo, o (28) Albright (ARI, págs. 165 e 166) descreve o cap. 8 como “uma descri­ ção válida do sincretismo sirio-mesopotâmico nos círculos sacerdotais e nobres de Jerusalém.” Interpreta a imagem (Heb. semel) como uma “lama figurada” esculpi­ da com cenas cultuais e mitológicas, e compara achados similares de Gozan e Carquemis. Sobre este capítulo, ver também T. H. Gaster, em JBL, LX, 1941, págs. 289-310.

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EZEQUIEL 8:6-14 rei a usaria cada vez que entrasse para adorar. É chamada a porta do altar (5), porque as vítimas sacrificiais eram imoladas “ao lado do altar, para a banda do norte, perante o SENHOR” (Lv 1:11). 8: 7-13. O culto aos animais. A localidade exata disto não pode ser identificada, nem parece necessária tal identificação. Essencialmente é al­ go praticado em segredo, e o profeta é informado como obter acesso a es­ ta câmara de horrores e surpreender os anciãos em flagrante. Gravados nas paredes (pintados, 10, é inadequado para uma palavra que significa “enta­ lhado” ou “esculpido em relevo”) havia toda forma de répteis e de animais abomináveis, e ídolos. Répteis (heb. remes)são especificamente menciona­ dos como parte da boa criação de Deus (Gn 1:24); não são todos impu­ ros por definição, conforme sugere ARC em Levítico 11:41, porque a pa­ lavra traduzida “réptil” naquele contexto é o hebraico seres. A palavra in­ clui, no entanto, muitos répteis e pequenas criaturas verminosas que desli­ zam sobre a terra, desde cobras até escorpiões, e estes certamente eram imundos. As divindades -serpentes conhecidas nas religiões egípcias, cananitas e babilónicas dão motivo para supor que este incidente reflete a in­ fluência generalizada das seitas estrangeiras sobre o culto israelita, cultiva­ das, sem dúvida, por motivos mais políticos do que puramente religiosos. Setenta homens dos anciãos... de Israel (11): não se tratava de uma assembléia oficial, tal como o Sinédrio posterior, mas, sim, um número redondo dos líderes de Israel. O tamanho do grupo, no entanto, subenten­ de que era a maioria que reverenciava as divindades estrangeiras. A men­ ção nominal de Jaazanias, filho de Safã sugere uma acusação direta por Ezequiel de um homem cuja família se destacara na vida pública de Jerusa­ lém. Safã provavelmente deva ser identificado com o secretário de estado de Josias (2 Rs 22:3), e Aicão, outro filho de Safã, era um partidário in­ fluente de Jeremias (Jr 26: 24). Claramente, Jaazanias era a ovelha negra de uma família digna. Enquanto os anciãos praticavam seus mistérios secretos, queimando incenso aos seus deuses emprestados, o acompanhante divino de Ezequiel indica que esta visão é típica daquilo que todos eles estão fazendo indivi­ dualmente, cada um nas suas câmaras pintadas de imagens (12). A frase difícil sugere que cada ancião tinha um quarto em casa onde subrepticiosamente se entregava às suas inclinações idólatras, confiante de que não ha­ veria nenhum Javé presente, nem para ver, nem para Se importar (12). 8:14,15. A adoração à natureza. Provavelmente imediatamente 91


EZEQUIEL 8:14-17 fora do recinto sagrado, à entrada da porta... do norte que dava para o átrio exterior do Templo, Ezequiel viu as mulheres chorando a Tamuz. Tamuz era um deus sumeriano da vegetação, que na mitologia popular morreu e ficou sendo o deus do mundo dos mortos. O culto associado a ele era parcialmente um ritual de luto, mas também incorporava ritos de fertilidade. Tomou-se extremamente popular no Oriente Próximo antigo e no Mediterrâneo Oriental, onde assumiu formas gregas e se ligava com os nomes de Adónis e de Afrodite.29 As indicações da sua influência nos tem­ pos do Antigo Testamento são poucas, mas uma delas pode ser achada em Isaías 17:10-11, o plantio de “jardins de Tamuz.” 8:16-18. A adoração ao sol. A abominação suprema estava para ser praticada na própria entrada do templo do SENHOR (16). Ali, no lugar em que deveriam estar chorando e clamando a Deus para que Ele poupasse Seu povo (J1 2:17), os sacerdotes estavam deliberadamente virando as cos­ tas a Ele. Por causa da sua direção, do leste para o oeste, o Templo podia ser usado para o culto ao sol, e o fato de que Josias, na sua reforma, teve de tirar “os cavalos que os reis de Judá tinham dedicado ao sol” e quei­ mar “os carros do sol” (2 Rs 23:11) indica que alguns reis de Judá ti­ nham explorado as possibilidades.30 A cifra citada, cerca de vinte e cinco homens, sugere que não foi grande o número dos sacerdotes que sucum­ biram a esta forma específica de adoração. Mesmo assim, eram homens de posição (9:7 os chama de “ancião”) e estava publicamente abusando do Templo para uma prática que era uma negação total do propósito santo para o qual foi dedicado. E, como se isto não bastasse, ainda en­ chem de violência a terra e tomam a irritar-me (17). Quando a liderança da igreja se toma corrupta, não há limite ao caos que é semeado na vida da nação. Ei-los a chegar o ramo ao seu nariz (17). Muilenburg o descreve como sendo “algum rito obscuro, provavelmente em conexão com as práticas do culto a Adónis.”31 O hebraico, porém, é duvidoso. Seu nariz, ’appàm, é tradicionalmente considerada uma correção de escriba para “meu nariz,” ’appí: é um desejo compreensível de evitar uma referência grosseira a (29) Ver artigo “Tamuz” no NDB, pág. 1562; também E. Yamauchi “Tammuz and the Bible”, JBL, LXXXIV, 1965, pgas. 283-290. (30) Ver também H. G. May, “Some Aspects of Solar Worship in Jerusalem”, ZAW, LV, 1937, págs. 269-281. (31) Em Peake, pág. 574.

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EZEQUIEL 8:17-9:2 Deus. A palavra para chegar realmente significa “emitir.” Os antigos co­ mentaristas judaicos traduziam zemôrâ (ramo) como “fedor.” O resultado: “emitem um fedor diante do meu nariz,” ainda fica um pouco obscuro, mas agora cai mais apropriadamente na categoria da obscenidade mais do que da adoração a Tamuz, que não é necessária neste contexto. Dizer que algo “fede nas narinas de Deus” não é uma frase bonita para se usar, mas, afinal das contas, estas formas de idolatria não eram bonitas tampouco.32 b. Os sete algozes: o castigo pela matança (9:1-11) O castigo pronunciado em 8:18 contra o povo de Jerusalém, agora é executado numa visão. Primeiramente, no capítulo 9, há a matança dos descrentes individuais pelos executores angelicais do julgamento divino. Depois disto ter sido realizado, é hora para a cidade ser apedrejada pelas brasas vivas da destruição (10:1-2). Há muitas semelhanças aqui com des­ crições apocalípticas posteriores do juízo final, de modo que podemos considerar estes versículos como sendo, em certo sentido, arquétipos.33 As idéias, porém, não são completamente originais, conforme revelará uma rápida olhada em Amós 9 :1; Isaías 6:6; e a narrativa da Páscoa.34 Mas se há qualquer verdade na descrição de Ezequiel como sendo o “pai da apo­ calíptica,” é para estes capítulos que se volta procurando as evidências mais antigas. 1, 2. Os executores da cidade (de um verbo que significa “visitar,” i.é, com castigo) são convocados pelo Senhor, que também está agindo co­ mo guia de Ezequiel, e claramente devem ser entendidos como anjos, em­ bora sejam descritos como homens (2). Aparecem da direção da porta superior, que olha para o norte, i.é, ou vindo do lugar onde estivera “a imagem dos ciúmes” (8:3) ou de onde as mulheres estiveram chorando a Tamuz (8: 14). Seis deles tinham, cada um, armas esmagadoras na mão (2), também descritas como armas destruidoras (1), sendo a primeira ex­ (32) Uma interpretação bem diferente tem sido sugerida com base em dese­ nhos assírios ilustrando alguns remédios. Ver Iraq, XX, 1958, pág. 16. Uma comple­ ta discussão pode ser encontrada no artigo de H. W. F. Saggs, “The Branch to the Nose”, JTS, New Series XI, 1960, págs. 318-329. (33) Conforme, por exemplo, os sete anjos de Tobias 12:15 e Apocalipse 8: 2ss; a marca dos fiéis em Apocalipse 7:3 e o registro dos anjos de Enoque 89: 59ss. Ver também TB, Shabbath 55a. (34) Éx. 12: 22ss. Conf. também 2 Sm. 24:16.

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EZEQUIEL 9:2-5 pressão quase idêntica à palavra para “martelo de guerra” empregada em Jeremias 51:20. Ao lado deles havia certo homem vestido de linho, uma marca de dignidade, conforme seria apropriada para um sacerdote (Êx 28:42; 1 Sm 2:18; 22: 18) ou para um mensageiro de Deus (Dn 10:5). Ao seu lado havia um estojo de escrevedor: a palavra é peculiar a este ca­ pítulo, e talvez seja um empréstimo da língua egípcia, onde se refere ao equipamento para o escriba escrever, incluindo a pena, o chifre de tinta, e uma tábua de cera para se escrever nela. Juntas as sete personagens sole­ nes entraram no átrio interior e ficaram em pé, esperando, junto ao altar de bronze (cf. 2 Rs 16:14). 3-7. Há certa confusão acerca dos movimentos exatos da glória do Deus de Israel nesta seção, porque em certo momento Ele é representado como a Personagem celestial no carro-trono, e, no momento seguinte é o guia pessoal de Ezequiel. Mas não se deve esperar exatidão em demasia naquilo que era, afinal das contas, uma experiência visionária, e não deve­ mos exigir explicações pormenorizadas. Há, no entanto, relevância na des­ crição da glória que se levantou do Querubim (3), o lugar no Santo dos Santos onde se pensava que Deus residia,35 indo até à entrada da casa (cf. 10:4, onde as palavras são repetidas), porque este foi o movimento preliminar antes do Senhor finalmente partir do Seu Templo (11:23). Nesta nova posição, que dominava o cenário, deu Suas instruções, pri­ meiramente para o anjo do registro (4) e depois para os seis (5,6). O sinal que deve ser marcado na testa dos homens é o tàw, a letra final do alfabeto hebraico. Os comentaristas cristãos primitivos foram rápidos em notar que, na escrita hebraica mais antiga, a letra era escrita com X, uma cruz. Para o leitor hebreu, isto significava nada mais do que um sinal usado como assinatura (como em Jó 31:35) ou um asterisco na margem de um livro (assim como os escribas de Cunrã anotaram algumas passagens messiânicas num dos seus rolos de Isaías).36 Muitos cristãos, no entanto, ecoariam o veredito de Ellison de que “este é um dos muitos exemplos de como os profetas hebreus falavam melhor do que sabiam.”37 Vale a pena notar que o procedimento para aplicar o castigo de Deus era seletivo, de acordo com o princípio de 18:4: “a alma que pecar, (35) Mas ver abaixo, págs. 97. (36) Este, portanto, é um importante apoio ao argumento do Dr. J. L. Teicher, em identificai a seita de Qumran com um grupo judaico-cristão, conforme seu artigo, “The Christian Interpretation of the Sign X in the Isaiah Scroll” , VT, V, 1955, págs. 189ss. (37) Ellison, pág. 44.

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EZEQUIEL 9:6-11 essa morrerá.” A base para a isenção da matança era a profunda preo­ cupação do indivíduo (que suspiram e gemem, 4) por causa da apostasia da cidade. Foi isto que Amós procurou entre os devassos amantes do lu­ xo em Jerusalém e Samaria, aos quais fustigava com a língua. Seu peca­ do mais culposo era que “não vos afligis com a ruína de José” (Am 6:6). Nos dois casos, o critério necessário não era rigorosamente uma qualida­ de religiosa, tal como a fé, ou um ato externo, tal como o sacrifício, mas, sim, uma questão do coração —um zelo apaixonado por Deus e pelo Seu povo. Faltando isto, nenhum sinal era aplicado, e o julgamento se se­ guia tão suguramente quanto fizera no caso dos lares que não tinham o sangue nas vergas das portas na noite da primeira Páscoa. Não havia outra isenção: a idade e o sexo não entravam em consideração (6): somente o sinal salvaria. 0 julgamento começou, conforme sempre deve (cf. 1 Pe 4:17), com os da casa de Deus. Os primeiros a serem mortos pelos seis algozes foram os anciãos que estavam diante da casa, provavelmente os vinte e cinco sacerdotes adoradores do sol, de 8:16. A chacina deles importava na profanação do lugar santo (7), mas este era um preço pequeno a pagar pela vindicação do nome de Deus. 8-11. Aflito diante da eficiência horrorosa da matança, o profeta apela a Deus para Ele não destruir todo o restante de Israel (8). O povo de Deus tinha sido paulatinamente reduzido. Em primeiro lugar, as tribos do norte se foram, com a despopulação da Samaria; depois, o povo de Judá fora dizimado pela invasão e pelo exílio. Se o castigo divino tivesse de ser tão severo quanto esta visão sugeriu, dificilmente sobraria qualquer remanescente, por menor que fosse. O apelo, porém, de nada adianta: o pecado de Israel fora longe demais para qualquer intercessão. Compa­ re com isto a petição de Abraão a favor de Sodoma (Gn 18:22ss.), e as tentativas de Amós no sentido de interceder em prol da Israel (Am 7:16). Apesar da aparência externa de Ezequiel, de severidade, por detrás da casca dura havia um coração que sentia profunda simpatia por seu povo. Não tinha prazer na mensagem de julgamento que era obrigado a entregar, e muito menos na realidade que se seguiu quando a mensagem foi rejeita­ da. Este era um dos segredos da sua grandeza. Embora sua fronte fora dei­ xada dura como diamante (3:9), seu coração sempre era um coração de carne (36:26).

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EZEQUIEL 10:1 c. O carro-trono do Senhor: o castigo pelo fogo (10:1-22) Os seis algozes desaparecem do cenário, e são substituídos por uma descrição adicional, mais pormenorizada, do carro-trono do Senhor, que acrescenta algo ao conhecimento que recebemos de 1:13-25. O elo de vinculação é o homem vestido de linho que, após ter sido o agente do livra­ mento no cenário anterior, agora fica sendo o agento do juízo pelo fogo. É uma personagem estranhamente anônima, e sua aparência de anonimidade é aumentada ainda mais pelo fato de que nunca temos licença de vêlo operando. Apenas sabemos que sua primeira tarefa foi completada por causa do relato lacônico em 9:11, e quanto à segunda, tudo quanto se declara explicitamente é que tomou as brasas vivas das mãos de um que­ rubim e saiu (7). Escritores posteriores certamente teriam desejado darlhe um nome e fazer dele um Gabriel ou um Rafael, mas nos dias de Ezequiel os anjos não tinham nomes! O aspecto importante a respeito do carro-trono, incorporado por es­ te capítulo, é a identificação dos “seres viventes” de 1: 5ss. com queru­ bins (15). É desconcertante saber porque levou tanto tempo para esta iden­ tificação ser feita, mas é possível que Ezequiel esteja dizendo que só quan­ do viu os querubins no Templo é que reconheceu que estas eram as mes­ mas criaturas que tinha visto na sua visão junto ao rio Quebar. Esta é uma explicação razoável, porque Ezequiel ainda não se qualificara como sacer­ dote antes de ir para o exílio e, portanto, nunca teria visto pessoalmente as figuras de querubins entalhadas nas paredes internas do Templo (1 Rs 6:29) e nas portas duplas (1 Rs 6: 35) e nos móveis do Templo (1 Rs 7:29, 36), onde somente os sacerdotes podiam vê-las claramente. Mas não é necessário insistir demasiadamente neste argumento, porque ele dificil­ mente poderia ter sido criado numa família sacerdotal sem este tipo de conhecimento. É simplesmente que por razões de artifício literário, delibe­ radamente retém a identificação até esta etapa, e, ao fazer assim, habil­ mente preenche o momento de suspense que segue a saída do anjo da pre­ sença do Senhor a fim de levar a efeito a sua tarefa de destruição. No Antigo Testamento, os querubins desempenhavam uma varieda­ de de papéis. Pouca coisa pode ser aproveitada da etimologia da palavra, que tem paralelos em línguas cognatas com os significado de “abençoar,” “interceder” e “ser poderoso.”38 Uma melhor avaliação é obtida do seu (38) Heb. ffrü b conf. Ac. Karàbu, “orar”, Karibu, “intercessor”. Segundo Cooke (pág. 112), a palavra era usada para descrever o touro alado com cabeça hu­

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EZEQUIEL 10:1 contexto e uso no hebraico. Sua primeira responsabilidade era agir como acompanhantes e protetores de um santuário sagrado, como no caso do Templo de Salomão e conforme a continuação do seu papel no templo ideal do futuro, visualizado por Ezequiel (41:18-20). A proteção também era o seu papel no Jardim do Éden, onde brandiam a espada flamejante para impedir o caminho para a árvore da vida (Gn 3:24). Sua função assim como as duas figuras na tampa da arca no Santo dos Santos, provavelmente visava incluir adoração e não somente proteção. Conforme Êxodo 25:1820, ficam com as cabeças inclinadas, com os rostos sempre olhando para baixo, em direção ao propiciátório, como se em adoração perpétua e si­ lenciosa. Uma sugestão adicional, que seria aplicável em alguns casos, é que os querubins eram realmente representados como animais-tronos sobre os quais a Divindade Se assentava. A idéia vem de um grupo de refe­ rências que descrevem o Senhor “entronizado acima dos querubins,”39 ou do Salmo 18:10, onde Ele “cavalgava um querubim, e voou; sim, levado velozmente nas asas do vento.” Isto não fica muito longe do papel desempenhado pelos querubins na visão de Ezequiel, em que levantam o trono de Deus sobre suas asas estendidas e fornecem a força motriz para toda a estrutura complicada. Quanto à aparência, variavam consideravalmente entre si. Ezequiel descreve de modo bem diferente as criaturas com quatro rostos, com asas, patas, e mãos, em 1: 5-8, e as figuras decorativas com dois rostos, no apai­ nelamento do seu templo ideal em 41:18-20. Os dois tipos, no entanto, são chamados querubins. Para mais sugestões acerca da sua aparência, con­ sultar o artigo “Querubins” no NDB, págs. 1357-8, e especialmente figs. 186 e 99. 1. Este versículo interrompe o fluxo natural do episódio que vai desde 9:11 até 10:2, e é semelhante àquilo que já foi descrito em 1:26. Mesmo assim, leva o leitor mais uma vez à visão do primeiro capítulo, que agora ocupa o centro do quadro, e não pode ser simplesmente omi­ tido como se fosse uma nota de repetição. Descreve somente o trono, como para subentender que estava vazio, esperando o momento em que o Senhor voltaria a ocupá-lo (10:18). Estamos forçados a indagar a nós mesmos onde este trono esteve no decurso da visão. O v. 8:4 simplesmente mana que ladeava a entrada dos templos e palácios; pensava-se que intercediam junto aos grandes deuses em favor dos homens. Outros atribuem ao nome mais a idéia de “protetor” ou “guardião” contra influências malignas. (39) 1 Sm. 4:4; 2 Sm 6: 2;2 Rs. 19:15; 1 Cr. 13: 6;S1. 80:1 e 99:1.

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EZEQUIEL 10:1-21 declarou que “a glória do Deus de Israel estava ali.” Onde? Há duas pos­ sibilidades. Uma é que a glória estava em (ou sobre) o Santo dos Santos no Templo, i.é, no lugar próprio do Senhor. De lá, levantou-se e foi para a entrada do Templo, conforme a descrição em 9 : 3, onde foram pronun­ ciados os mandamentos executivos de julgamento. Alternativamente, a referência aos “querubins” em 9 : 3 é uma antecipação do carro-trono do capítulo seguinte, e devemos então imaginar que 8:4 simplesmente significava que o Senhor, assentado no Seu carro-trono, estava no átrio do Templo. Subseqüentemente, desceu do Seu carro de querubins (9: 3) e colocou-se em pé na estrada. Embora esta segunda sugestão deixe sem explicação a referência repentina aos “querubins” em 9 : 3 , tem a vanta­ gem de nos deixar no início do capítulo 10 com um trono vazio (v. 1), com o Senhor ainda em pé na entrada para dar Suas instruções ao homem vestido de linho e para dele receber relatórios. De qualquer forma, 10:4 apresenta uma dificuldade, mas é melhor entender que é um mais-queperfeito, voltando para o que foi descrito em 9 : 3. 2. Para as brasas acesas, cf. 1:13. Em Isaías 6: 6 uma brasa viva foi usada para purificar o pecado do profeta, e não como símbolo de julga­ mento. Na idéia de Ezequiel, Jerusalém estava para ser tratada da mesma maneira que Sodoma e Gomorra (Gn 19:24). 7. Num toque incomum de realismo, baseado, talvez, em Isaías 6:6, Ezequiel descreve como um querubim (lit. “o querubim,” i.é, aque­ le que estava mais próximo do homem quando este se aproximou do carrotrono), entregou-lhe as brasas acesas que eram para ser espalhadas sobre a cidade. Possivelmente, visasse demonstrar que até mesmo um mensagei­ ro angelical, como o homem vestido de linho, tinha de manter distância do reverenciável trono de Deus. 9-17. Destes versículos, 9-12 são quase idênticos a 1:15-18, substi­ tuindo-se, porém, querubins por “seres viventes.” O v. 14, de modo inespe­ rado, usa querubim onde esperaríamos “boi” com base em 1:10. É prova­ velmente devido a um erro ortográfico.40 18-22. Finalmente a glória do SENHOR saiu da entrada do Templo (pelo que devemos supor que o anjo destruidor tinha voltado com mais um relatório), e parou sobre os querubins. Este era o sinal para o carrotrono subir e avançar em direção à porta oriental (19), a caminho da mon­ (40) Cooke cita TB, Hagíga 13b, sobre a omissão do boi. “Resh Lakish disse que Ezequiel implorou ao Misericordioso com relação ao boi e Ele o trans­ formou num querubim”.

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EZEQUIEL 10:22-11:1 tanha ao leste de Jerusalém (11:23), para então ir embora. Mas para adiar a partida final, o episódio descrito em 11:1-21 é inserido a esta altura. d. A morte de Pelatias (11:1-13) Antes da glória do Senhor finalmente afastar-se de Jerusalém, Ezequiel tem dois recados para transmitir: um deles diz respeito às perspecti­ vas das pessoas em Jerusalém (11:1-13), e o outro, àqueles que já estão no exílio com ele (11:14-21). O primeiro recado é dirigido a um grupo político que é acusado de defender políticas prejudiciais a Jerusalém (2). O que realmente era a política depende da tradução dada ao v. 3, que será discutida abaixo, mas, ou era um partido militante a favor da guerra, que conclamava todos os esforços para repelir os exércitos babilônios, ou des­ considerava as advertências de Ezequiel acerca do julgamento vindouro, com a serena confiança que tudo acabaria bem. Para esta pessoas, o pro­ feta predisse a morte pela espada, fora dos muros protetores da cidade ( 10- 11). A despeito das hesitações que têm sido expressas por muitos co­ mentaristas, parece melhor entender que a totalidade deste capi'tulo faz parte da visão iniciada em 8:2 e que termina em 11:24. Isto significa que Ezequiel profetizou no contexto da sua visão e que, ainda somente em visão, um dos seus ouvintes, chamado Pelatias, caiu morto. Qual­ quer outra interpretação exige algum deslocamento ou emenda ao texto conforme o temos, e é claramente nosso dever procurar compreender o que foi dado antes de nos aventurarmos a fazer melhorias. Uma discus­ são das várias sugestões que têm sido feitas será oferecida no comentário sobre o v. 13, e, à medida em que todo o assunto tem conexão com a locali­ zação do ministério de Ezequiel, na Babilônia ou em Jerusalém, deve-se fazer referência à Introdução.41 1-4. Ezequiel é transportado à porta no lado oriental do Templo, ou seja, fora da área sagrada, e ali, num lugar tradicionalmente usado para assembléias públicas (cf. Jr 26:10), vê um grupo de vinte e cinco homens. Estes homens nada têm a ver com os vinte e cinco sacerdotes adoradores do sol em 8:16, mas, sim, são um grupo de pressão política encabeçado por príncipes do povo, i.é, membros da nobreza de Israel.42 (41) Ver pág. 22ss. (42) A maioria dos líderes do povo, no entanto, haviam sido deportados

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EZEQUIEL 11:1-3 Entre eles havia Jaazanias, filho de Azur, que não deve ser confundido com seus três contemporâneos com o mesmo nome: a saber, o filho de Safã (8:11), o filho de Jeremias, o recabita (Jr 35:3), e o filho do maacatita (2 Rs 25: 23; Jr 40: 8; 42: l);43 bem como Pelatias, filho de Benaia, que doutra forma nos é desconhecido. O aconselhar perversamente, de que estes homens são acusados, é resumido pelo obscuro lema atribuído a eles: Não está próximo o tem­ po de construir casas; esta cidade é a panela, e nós a carne (3). As possí­ veis interpretações a estas palavras são as seguintes: (a) AV traduz: “Não está próximo” (i.é, p julgamento ameaçador); “construamos casas.” Es­ te sentimento expressa a confiança de que tudo estará bem e, se construir casas for tomado como símbolo da atividade pacífica (cf. 28: 26), defende uma política de desprezo a ameaça de uma outra invasão pelos babilô­ nios. Uma variação desta interpretação é entender que as casas são “for­ tificações,” mas ela não é justificada pela palavra comum hebraica bàttím, embora se adaptassem a um contexto de preparativos bélicos. Uma fra­ queza mais séria desta interpretação é de natureza lingüística. O hebraico diz lò ’ beqàrôb benôt bàttím, lit. “não à mão construir casas.” O infinitivo “construir” dificflmente poderia se tomar no exortativo “edifiquemos,” e a palavra “à mão” ou “perto” deve ser complemento da idéia de “cons­ truir casas.” (b) Na base de Jeremias 29:5, Keil entendeu a “construção de casas” como sendo uma referência à vida no exílio, e e este lema como sendo uma tentativa deliberada de ridicularizar a política de Jeremias. O significado, portanto, seria: “a construção de casas no exílio ainda está bem longe; não chegará a isto, que Jerusalém cairia... nas mãos do rei da Babilônia.”44 Esta sugestão engenhosa pressupõe, no entanto, que os lei­ tores, bem como os ouvintes, reconheceriam automaticamente a alusão ao ensino de Jeremias, e isto deve ser considerado muito duvidoso, (c) RV mg. e RSV mg. colocam a frase como uma pergunta: “Não está próximo o tempo de construir casas?” Ou seja: “Estamos em total segurança; conti­ nuemos nossas ocupações normais dos tempos de paz.” Isto não é impos­ sível, e LXX também traduz de forma interrogativa: “As casas não foram recentemente reedificadas?” ; mas não é fácil perceber por que os defenso­ com Ezequiel em 597 a.C., de forma que aqueles que peimaneceram em Jerusalém não eram provavelmente de alta qualidade. (43) Jaazanias, servo do rei, cujo brasão foi descoberto em 1932 em Tell en-Nasbeh (Mizpa, da Bíblia), pode bem ter sido “o filho do maacatita”, coman­ dante do exército de Gedalias em Mizpa. Ver DOTT, pág. 222,; NDB, pág. 789. (44) Keil, págs. 144-145.

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EZEQUIEL 11:3-13 res de tais políticas pacíficas devessem ser condenados por Ezequiel por “maquinar vilezas e aconselhar perversamente.” (d) Há, portanto, muita coisa, pela lingüística e pelo contexto, a favor da tradução inicialmente citada da ARA, a saber: que é impróprio estar construindo para a paz en­ quanto o perigo ameaça. A única política certa é preparar-se para a guer­ ra com a firme certeza que as .defesas da cidade serão impregnáveis: os de­ fensores estarão tão resguardados dos fogos de guerra quanto fica a carne na panela protegida das chamas. Ezequiel facilmente veria que tal atitude seria pura estultícia e merecedora da mais severa condenação. Não somen­ te desprezava as advertências explícitas de Jeremias de que a resistência à Babilônia traria maior desgraça do que a submissão a ela (cf. Jr 21:8-10), como também cheirava a auto-confiança altaneira que haveria de ser o mo­ tivo da ruína de Jerusalém. 5-12. Em contraste com o conceito deste partido de que eles eram a came (3), a parte digna da nação, contra as sobras que foram para o exí­ lio, Ezequiel responde que os verdadeiros homens de valor em Jerusalém foram os muitos homens inocentes que tinham sido mortos (6), ou pe­ los expurgos políticos ou, mais provavelmente, na guerra que era o resulta­ do destas políticas perversas. Estava virtualmente dizendo: “O único bom jerusalemita é um jerusalemita morto.” Mas quanto aos fomentadores de guerra (note a repetição do vós enfático nos w. 7-12), serão tirados da pa­ nela (7, 9) e morrerão muito longe, nos confim de Israel (10, 11), uma re­ ferência àquilo que aconteceria em Ribla depois do cerco (ver 2 Rs 25:1821).

13. Morreu Pelatias. O texto não insiste no fato, mas parece razoá­ vel supor que Pelatias fosse uma personagem bem-conhecida em Jerusalém, e que sua morte, que foi vista na visão, realmente ocorreu longe em Jerusa­ lém naquele exato momento. Relatórios subseqüentes acerca do incidente, chegando aos exilados, devem ter confirmado a autenticidade da visão e dos poderes sobrenaturais de Ezequiel. Exemplos semelhantes podem ser achados nos eventos relacionados com o cerco e a queda de Jerusalém (cf. 24: 2, 16, 27). O incidente amedrontou Ezequiel, tanto quanto outro fa­ to semelhante fez com a igreja primitiva (At 5: 5), e mais uma vez clamou a Deus em prol do seu povo (cf. 9:8). É esta intercessão que leva à sua segunda mensagem neste capítulo, relatando um futuro esperançoso para os exilados desprezados.

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EZEQUIEL 11:14-18 e. Um novo coração para o povo de Deus no exílio (11:14-25) É muito cedo para achar a esta altura uma profecia de esperança para a comunidade exilada. De modo geral, tais profecias foram reserva­ das para o período após a queda de Jerusalém, i.é, do capítulo 33 em diante. Mas outras passagens nestes oráculos iniciais indicam que Deus tinha planos para restaurar um remanescente do Seu povo (e.g. 5:3; 6:8, 9; 12:16; 16:6, etc.), e estas pessoas voltariam para sua terra na­ tal e se tomariam herdeiras de toda a herança da sua nação e, também, des­ frutariam de um novo relacionamento com seu Deus, mediante a aliança. Nisto, Ezequiel estava em harmonia com a previsão esperançosa do seu contemporâneo mais velho, Jeremias (cf. Jr 24:7, 31:33; 32:3940). 15. A voz da ortodoxia falava de modo claro e lógico. Os exila­ dos tinham partidos da cidade santa; estavam em solo estrangeiro; eram imundos e abandonados por Deus. Aqueles que permaneceram em Jeru­ salém eram os justos, e eram os beneficiários de todos os favores de Deus. Ezequiel viu a situação de modo diferente. Deus lhe mostrou que seus ir­ mãos no exílio (lendo com LXX, “homens do teu exílio,” gàlütekâ, ao invés do TM homens do teu parentesco ou “da tua redenção,” t f ’ullàtekâ) agora representavam toda a casa de Israel, acrescentando todos eles como se fosse para completar a identificação. Longe de serem os rejeita­ dos de Israel, os exilados se tomaram o verdadeiro Israel. A expressão zombeteira: Apartai-vos para longe do SENHOR relembra a lamentação de Davi em 1 Samuel 26:19: “Pois eles me expulsaram hoje para que eu não tenha parte na herança do SENHOR, como que dizendo: Vai, serve a outro deuses.” 16-18. A prova de que os exilados eram o povo de Deus é extraí­ da daquilo que Deus fizera por eles (16) bem como daquilo que Ele lhes promete (17ss.). Enquanto estavam espalhados pelas terras, Deus lhes ser­ vira de santuário, por um pouco de tempo, sendo-lhes a compensação pela falta de um templo e de sacrifícios, sendo sua proteção e sua fonte de forças. Este retrospecto encorajador é vinculado à promessa da dádi­ va da terra de Israel (17). Tais palavras têm um som mosaico, como se a terra prometida de Canaã estivesse sendo mais uma vez oferecida aos er­ rantes no deserto. A experiência do deserto não duraria para sempre: um dia, possuiriam a terra —não por reivindicações arrogantes (como no v. 15), mas, sim, por uma dádiva graciosa de Deus —e sua adoração seria purificada de todas as corrompedoras influências estrangeiras que haviam acossado os israelitas desde os dias de Josué. 102


EZEQUIEL 11:19-22 19-21. Mais do que isso, num ato supremo de graça, seria dado a eles um novo coração e um novo espirito. Segundo o TM, a dádiva é de um só coração, implicando na reunião dos antigos reinos do norte e do sul, como em 37:15-22, mas isto é menos provável do que os variantes “novo” (alguns MSS heb., sir.) ou “outro” (LXX), especialmente à luz da promessa de substituir seu coração de pedra por um coração de carne (19). A personagem bíblica clássica que recebeu este dom foi Saul (1 Sm 10:9), mas é uma característica que volta a ocorrer nas profecias de Jere­ mias e de Ezequiel (Jr. 32:39, LXX; Ez 18:31; 36:36; cf. SI 51:10). Co­ mo isto ocorrerá não é explicado, mas as palavras sugerem um transplan­ te radical, bem diferente daquilo que havia sido habitualmente conhecido e experimentado antes. Resultaria numa obediência quase espontânea aos mandamentos de Deus, que só podem ser plenamente compreendidos pelo dom do Espírito Santo dado à igreja no Pentecoste. Parece haver neste versículo um eco proposital do v. 18 na repetição do verbo “tirar” ou “remover.” Cooke45 nota o paralelo e comenta: “Se os judeus que voltam para casa tirarem os obstáculos externos (v. 18), Javé tirará o interno.” A preparação para a obra de Deus no homem de­ via ser a disposição do homem para arrepender-se e para dar passos práti­ cos a fim de demonstrar seu arrependimento. Isto não significa que os se­ res humanos devem purificar suas vidas em prontidão para que Deus as habite, mas certamente significa que Deus nada pode fazer em prol do ho­ mem que não quer reconhecer seus pecados e converter-se deles. Como sempre, a promessa da aliança com bênção e união com Deus com Seu povo peculiar (20), é colocada lado a lado com as conseqüências solenes que sobrevirão àqueles cujo coração se compraz em todas as prá­ ticas corruptas das quais devem conservar-se livres (cf. 18). É válido lem­ brar que as bênçãos de Deus sempre têm um lado reverso, além do lado anverso. Nunca devem ser consideradas como uma coletânea superlativa de benefícios disponíveis a todos aqueles que desejarem aproveitá-los. Moi­ sés colocou diante do povo “a bênção e a maldição” (Dt 11:26); Cristo falava de dois caminhos, sendo que um conduz para a perdição, e o outro para a vida (Mt 7:13-14). O infinito lucro do céu sempre tem seu paralelo bíblico na perda irreparável que é o inferno. 22-25. A glória do Senhor elevou-se, então, da sua posição imedia­ tamente ao leste do Templo (11:1), e afastou-se para o monte das Olivei­ ras, o monte que está ao oriente da cidade. Ali parou, como se relutasse (45) Cooke, págs. 125-126.

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EZEQUIEL 11:22-12:1 em ir mais longe. Nenhum outro movimento é descrito, como se o profeta dissesse que embora o Senhor tenha deixado Seu Templo e a cidade san­ ta, ainda está atento caso haja arrependimento da parte do povo. Alterna­ tivamente, é possível que devamos inferir que a glória do Senhor realmente continuou avançando além do monte das Oliveiras, e que Ele transferiu Sua presença para o acampamento dos exilados na Babilônia. A direção oriental da partida fornece apoio a este ponto de vista, mas não passa de uma suposição. Quando, finalmente, a glória voltou ao Templo, confor­ me a descrição em 43:14, ela veio do oriente. Keil46 sugere que o Senhor estava esperando no monte das Oliveiras para executar o julgamento pro­ metido sobre a cidade, e compara Zacarias 14:4, Lucas 19:41, e mesmo Lucas 24:50, considerando a ascensão de Cristo como um ato de julga­ mento contra os judeus. O Espírito que trouxe Ezequiel da sua visão de volta para a realida­ de de enfrentar os exilados em sua própria casa, foi a mesma energia divi­ na que o transportara para Jerusalém pelos cachos da cabeça (cf. 8:3). Pa­ ra a frase de mim se foi a visão, cf. Gênesis 17:22; 35:13. Era a única ma­ neira apropriadada de descrever a volta do profeta aos seus sentidos natu­ rais. Os anciãos que haviam ficado à espera durante todo este longo perío­ do, enquanto Ezequiel estivera com eles e ao mesmo tempo a uma distân­ cia de muitos quilômetros, agora tinham muitas coisas para escutar (25). IV. ORÁCULOS ACERCA DOS PECADOS DE ISRAEL E DE JERUSA­ LÉM (12: 1-24:27) O argumento do livro, até esta altura, tem consistido principalmente na reiteração da mensagem de Ezequiel de que Jerusalém está condenada à ruína. Demonstrou-a pelas ações simbólicas, pelas visões e pelos orácu­ los falados. Forneceu justificativa adequada para semelhante destino, me­ diante a descrição das iniqüidades, religiosas e morais, que o provocaram. Agora, uma nova série de ações e oráculos procura tratar das objeções que as pessoas fazem diante desta perspectiva amedrontadora. A seção poderia ser chamada, na linguagem de hoje, “Objeções ao Julgamento,” sendo compreendido, porém, que as objeções são levantadas para então serem demolidas. São as objeções daqueles que dizem: “Já ouvimos todas estas ameaças em ocasiões anteriores, mas sempre acabam em nada.” Ou dos (46) Keil, pág. 154.

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EZEQUIEL 12:1-3 falsos profetas que reivindicam autoridade igual para oráculos que prome­ tem a paz e a segurança, ou daqueles que pensam que é impossível o Se­ nhor rejeitar Seu povo. Devem forçosamente ser libertos, ou por amor à justiça de poucos, ou na base das misericórdias da aliança de Deus, em tempos passados. O profeta, no entanto, antes de tratar com todos estes variados pontos de vista, tem a realizar mais alguns atos simbólicos. Obser­ ve o paralelismo entre as profecias encenadas nos capítulos 4 e 5, seguin­ do diretamente o primeiro relato da sua visão, e as do capítulo 12, que se­ guem o segundo relato. a. Mais duas mensagens encenadas (12:1-20) 1. Indo para o exílio (12:1-16). A essência desta ação é que deve ser realizada á plena vista dos curiosos compatriotas de Ezequiel. Assim como antes se reuniam ao redor para observar o ritual diário de deitar no chão com as mãos atadas (4:4ss.) e pesar as escassas rações do profeta (4:10-11), assim também, agora ele é ordenado a desempenhar o papel de um exilado para que todos vejam. Sem dúvida, as estranhas ações de Ezequiel estavam se tomando assunto de debate geral entre os exilados, e nunca faltavam espectadores para observar cada detalhe daquilo que fa­ zia, e para tagarelar a respeito. Desta maneira, logo se desenvolveu um sis­ tema de comunicações tão bom como qualquer outro em Tel Abibe. A ação consistiu em duas partes: de dia, reuniu o mínimo essencial para a longa viagem ao exílio; depois, ao entardecer, escavou uma saída pela parede da sua casa, como se fugisse secretamente, e saiu para a noite carregando sua bagagem no ombro. Ao fazer assim, devia cobrir os olhos, conforme v. 6, embora isto seja omitido na descrição do versículo seguinte. 2, 3. É atraente supor que a casa rebelde, que tem olhos para ver, e não vê, tem ouvidos para ouvir, e não ouve seja uma alusão às mensagens encenadas já entregues, mas, provavelmente, ainda não respeitadas pelos exilados. Deus agora fala a Ezequiel e expressa a esperança: Bem pode ser que o entendam. Há certamente um eco aqui de 2:3-7, bem como de Isaías 6:9-10 e Jeremias 5:21. O uso por Jesus do método parabólico de ensino é mais uma indicação do princípio de que, no serviço de Deus, o conhecimento da parte do pregador de que suas palavras serão desconside­ radas, nunca deve ser tido como desculpa para não pronunciá-las (cf. Mt 13:13-15; Mc 8:18; Jo 12:37-41). Ezequiel, tal qual Jeremias, precisava lembrar que sempre era possível que alguns entendessem, e nisto pode ser 105


EZEQUIEL 12:4-13 considerado como exemplo para todos os obreiros cristãos em situações que parecem impossíveis ou em esferas de serviço singularmente infrutí­ feras. Sempre deve haver o elemento de bem pode ser que o entendam em semelhante ministério. E embora o resultado ainda seja negativo, o dever de falar ainda existe, mesmo se for somente para justificar a condenação do ouvinte. 5-7. A parede referida é a de uma casa (heb. qtr; em contraste com hômâ, que significa o muro de uma cidade) e é uma indicação do modo de vida dos exilados, que certamente moravam em habitações tipicamen­ te babilónicas, construídas, com tijolos secos ao sol (cf. também 8:1; Jr 29:5). Estes tijolos podiam ser removidos com a mão (7), embora não sem esforço, e isto indicaria as dificuldades de fuga de Jerusalém como tam­ bém, mais especificamente, a tentativa de Zedequias em fazer uma brecha nos muros e evacuar a cidade sitiada, conforme a descrição em 2 Reis 25:4; Jeremias 39:4. Tel Abibe não teria, por certo, muros para que Ezequiel demonstrasse sua mensagem com mais exatidão. 8-16. O significado do ato simbólico. A ação primeiramente orde­ nada (2-6), e depois obedecida (7) é explicada pela manhã (9-16). Dá-se a impressão de que nem mesmo Ezequiel estava plenamente consciente do significado das suas ações no dia em que as realizou, a não ser do sig­ nificado geral da perspectiva de mais exílio para o povo de Jerusalém. Estes versículos não somente confirmam este significado simbólico como também indicam que suas ações eram proféticas quanto àquilo que aconte­ ceria ao rei Zedequias, o príncipe em Jerusalém (10)47 Ele fugiria da cida­ de, sem cerimônias, a altas horas da noite. A frase cobrirá o rosto (12) po­ de referir-se a algum disfarce, e neste caso Ezequiel provavelmente teria usado algo para cobrir a cabeça como disfarce, ou pode ser uma visão do futuro, quando foi cegado pelos seus captores em Ribla (fato referido cla­ ramente no v. 13, mas não a verá), que o profeta podia ter representado ou com uma venda, ou cobrindo os olhos com a mão. A LXX segue a pri­ meira interpretação, ao traduzir o v. 12: “cobrirá o rosto para que não seja visto por olhos.” 13. Zedequias iria descobrir que não somente os exércitos de Nabucodonosor estavam contra ele, mas também o braço do Senhor. O fra­ casso do seu plano de fuga e sua captura pelos babilônios resultaram da operação de Deus. Para a figura de Deus como um caçador (minha rede... (47) Observe, novamente, o uso do termo príncipe e não rei, conf. Intro­ dução, pág. 44.

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EZEQUIEL 12:13-20 minhas malhas), cf. Oséias 7:12. Ver também Lamentações 1:13; Ezequiel 19: 8. 14-16. A linguaguem do v. 14 relembra 5:2, enquanto todos os exércitos e os que o ajudam (lit. “ajuda,” sendo que o abstrato é usado para o plural pessoal) são espalhados com a espada. As suas experiências lhes ensinarão aquilo que de outra forma nunca teriam aprendido, a sa­ ber: que eu sou o SENHOR (15). 0 que os homens deixam de compre­ ender na prosperidade, ocasionalmente aprenderão através da adversida­ de. Como em 6:9-10; 7:16; 14: 22, Deus permitirá alguns poucos esca­ parem de modo que possam testificar à Sua verdade e vindicar a Sua hon­ ra (16). Somente à medida em que confessarem entre as nações os peca­ dos do seu povo é que se verá que o Deus de Israel é tão santo quanto poderoso. Sem confissões deste tipo, Ele simplesmente seria considerado incapaz de proteger Seu próprio povo contra o inimigo. Ezequiel demons­ tra aqui sua paixão pela vindicação de Javé em circunstâncias que, sem sua mensagem, nada sobreviria a não ser vergonha ao Seu nome diante dos olhos dos pagãos. ii. O terror dos habitantes de Jerusalém (12:17-20). A segunda ação é muito breve, e dificilmente pode ser comparada à primeira. Sim­ plesmente envolve o modo segundo o qual o profeta deve comer as rações de economia que lhe foram alocadas em 4:9-17. Ele deve demonstrar me­ do e terror, como um símbolo da violência e destruição aterrorizadoras que virão sobre o povo da terra (19). Esta frase (heb. ‘am hã ’ares ) é usada de modo consistente referindo-se à população camponesa de Judá, em con­ traste com as classes dominantes, e especialmente às pessoas que foram deixadas ali durante o exílio.48 Aqui se aumentam as palavras pela frase explanatória, os habitantes de Jerusalém, na terra de Israel. Tudo isto acontecerá por causa da violência de todos os que nela habitam, i. é, na terra. Os sofrimentos que a população terá de padecer são atribuídos di­ retamente aos sofrimentos que causara a outros. A violência gera a violên­ cia. E se alguém ousar questionar seu destino, a resposta será encontrada nele mesmo. A perversidade humana sempre imagina que, havendo uma dose razoável de sorte, seja possível pecar com impunidade. Ezequiel de­ clara que, pelo menos neste caso, a opressão receberá sua retribuição apro­ priada. Ao assim fazer, Deus demonstrará que Ele é justo, e o pecador fi­ nalmente reconhecerá que eu sou o SENHOR (20). (48) Para uma discussão completa desta frase, ver de Vaux, págs. 70ss.

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EZEQUIEL 12:21-22 b. Corrigidos dois ditos populares (12: 21-28) Segue-se agora um grupo de oráculos, que se estende desde 12:21 até 14: 11, sendo que todos eles se relacionam com o problema da verda­ deira e da falsa profecia. Este deve ter sido um problema crítico para todos os profetas dos tempos vetero-testamentários, e especialmente para ho­ mens tais como Jeremias e Ezequiel, cuja mensagem não era endereçada de modo natural aos seus ouvintes. A luta entre Jeremias e Hananias (Jr 28) ilustra a questão de modo claro. Aqui estavam dois homens proferin­ do palavras contraditórias, ostensivamente da parte do Senhor. Os circuns­ tantes eram incapazes de saber qual era a verdade. A simples regra prática dada em Deuteronômio 18:22, a saber: o cumprimento da palavra falada, era distante demais para servir de guia imediato, eo teste da ortodoxia da­ do em Deuteronômio 13: lss. não era relevante à questão. Naquelas cir­ cunstâncias, a contenda verbal cresceu ao ponto de Jeremias pronunciar uma profecia de morte, que foi cumprida e que serviu como sua vindicação. Mas isto dificilmente poderia acontecer todas as vezes. O mesmo problema atingia a igreja apostólica, onde a profecia era um aspecto carismático, e as profecias espúrias podiam tão facilmente en­ ganar. Mais uma vez, várias advertências e regras simples foram feitas pa­ ra a orientação dos crentes (cf. 1 Ts 5:21-22; 2 Ts 2:1-3; 1 Jo 2:18-23; 4:1-3). Em última análise, porém, o critério achava-se no ouvinte (“Quem é de Deus ouve as palavras de Deus,” Jo 8:47), e na vida do profeta (“Pe­ los seus frutos os conhecereis,” Mt 7:16). Ezequiel, assim como seu contemporâneo, Jeremias, tinha uma men­ sagem inaceitável para entregar: era ameaçadora e pouco esperançosa. Ine­ vitavelmente, seus ouvintes agiram preconceituosamente contra ele, e era fácil para eles reagirem desconsiderando as suas palavras, porque não viam qualquer cumprimento imediato. Poderiam quase apelar a Deuteronômio 18:22 para apoiá-los, se assim desejassem. Ou, se fosse exagerar dizer que as profecias de Ezequiel eram fálsas, podiam sempre aquietar suas cons­ ciências consignando o cumprimento das suas palavras para o futuro dis­ tante, sem relevância alguma para o dia presente. Ezequiel passa agora a li­ dar com estas duas atitudes. 22. Aquilo que começara como uma opinião assumira a forma de um provérbio (heb. màsãl) hábil e expressivo, e já fora “canonizado.” Moffatt “O tempo passa, mas nenhuma visão leva a nada” capta bem o sen­ tido, mas ainda lhe falta a pungência das quatro palavras hebraicas, que di­ zem literalmente: “Prolonguem-se os-dias (sujeito) e-morre toda-visão.” 108


EZEQUIEL 12:22-13:1 Um lema memorável pode exercer tremenda influência tanto para o bem como para o mal. 23-25. A resposta de Deus também vem na forma de um lema: “Aproximam-se os-dias e-a-palavra-de toda-visão.” “Palavra” em hebrai­ co é usada aqui no sentido de cumprimento', trata-se da realização eficaz da mensagem na visão. Esta era a natureza da palavra de Deus: não volta­ ria vazia (Is 55:11), porque era uma palavra viva que saía com toda a vitalidade e autoridade do Deus que a pronunciara. O cumprimento se­ ria a morte dos falsos lemas, por mais cativantes que fossem, bem como da falsa profecia que, por meios duvidosos, produzia mensagens “suaves” ou lisonjeiras. A adivinhação (24) sugere que os falsos profetas usassem meios mecânicos para obter seus oráculos, ou pelo uso de sortes, ou por meio de jogar flechas no ar e estudar a maneira de caírem, ou por outros métodos de augúrio. O termo claramente tem implicações de opróbrio. Tudo isto será aniquilado e não haverá mais demora em levar as palavras de Deus à frutificação. O longo acúmulo de ameaças logo será transforma­ do em ações, e será em vossos dias, ô casa rebelde (25) que a palavra fala­ da será cumprida. 26-28. A segunda atitude é um pouco diferente, embora a respos­ ta que lhe é dada seja idêntica. É menos cética do que a primeira, mas en­ gana-se por classificar todas as ameaças de Ezequiel como ditos acerca do “dia do Senhor” ainda distante. Mais uma vez, o Senhor respondeu-lhe com uma promessa de que não haveria mais demora. A propriedade desta seção para conceitos atuais acerca da segunda vinda de nosso Senhor é notável. Alguns daqueles que escutam as asseverações cristãs de que Cristo voltará para esta terra reagem, dizendo que mais de 1.900 anos se passaram sem nada acontecer, de modo que a dou­ trina pode ser seguramente ignorada. Outros consideram que é um con­ ceito tão futurista que não tem relevância alguma para o mundo em que atualmente vivem. Estes dois pontos de vista são perigosos, porque os dois desconsideram a qualidade imediata da profecia. Quer o cumprimento demore muito, quer esteja perto, a igreja que recebe tal profecia tem o dever de viver à luz do seu cumprimento. Para o problema semelhante nos dias apostólicos, ver 2 Pedro 3:3-13. c. Profecia contra os profetas e as profetisas de Israel (13:1-23). Depois de tratar no capítulo 12 dos errados pontos de vista do po­ 109


EZEQUIEL 13:1-3 vo, Ezequiel dirige-se aos falsos profetas que o haviam enganado. Embora não lhes negue o título de profetas, denuncia-os severamente pelos efei­ tos nocivos que seus pronunciamentos levianos estão causando e têm cau­ sado, sobre a vida dos israelitas. Subverteram a estabilidade da nação num tempo em que ela precisava ser edificada (5), e deram sua bênção ao edi­ fício do estado que se desmoronava, quando este deveria ter sido conde­ nado e reconstruído novo (10). 13:1-7. A acusação de subverter a nação. O âmago desta denún­ cia é a frase como raposas entre as ruínas, figura que sugere que os profe­ tas não têm nenhuma real preocupação para com o povo entre o qual vivem. Vão cavando entre os alicerces sem qualquer respeito para com o bem-estar do local, resolutos apenas em fazer covis para si próprios, ou, mudando de metáfora, em puxar a brasa para a sua sardinha. Tal atua­ ção não é apenas estulta e irresponsável, como também é moralmente repreensível, e Ezequiel emprega uma palavra mais enfática para descre­ ver sua estultícia. Loucos (3) é o hebraico nabal, que abrange muito mais do que a mera tolice. O louco era espiritual e moralmente insensível; inclinava-se à blasfêmia (SI 74:18) e ao ateísmo (SI 14:1); era sovina e ar­ rogante, como o homem que tinha este nome, Nabal do Carmelo (1 Sm 25); era capaz de imoralidade grosseira (2 Sm 13:13). Era, na realidade, a própria antítese de tudo quanto o sábio representava em termos de per­ cepção espiritual, auto-disciplina, controle-próprio, piedoso temor e hu­ mildade. Descrever profetas com a palavra louco era, portanto, linguagem muito forte, mas quando nos lembramos que Jeremias havia acusado dois deles de adulterarem com as esposas dos vizinhos (23:14; 29:23), perce­ bemos que era plenamente justificada. A totalidade de Jeremias 29 precisa realmente ser lida em conjunto com as denúncias de Ezequiel a fim de se apreciar a complexida do problema que estes dois homens de Deus tinham de enfrentar. A condenação dos profetas é baseada, no entanto, não em qualquer imoralidade ou vilania da qual fossem culpados, mas, sim, na maneira em que compõem seus pronunciamentos. Isto, incidentalmente, lança muita luz sobre a genuína consciência profética em Israel. Estes profetas loucos profetizam o que lhes vem do coração (2; em hebraico, o coração, lèb, era o órgão do pensamento e da vontade como também a sede das emoções). A frase paralela, que seguem o seu próprio espírito (3), sugere um confli­ to entre o espírito humano e o Espírito de Deus. O profeta verdadeira­ mente inspirado devia estar tão dominado pelo Espírito de Deus que seu próprio espírito ficasse em sujeição à Sua influência. Havia na profecia 110


EZEQUIEL 13:4-9 o senso da invasão divina que produzia uma mensagem de qualidade “ou­ tra”, sobrenatural em si mesma. Não era simplesmente o produto de uma mente humana. Isto não significa que os processos comuns do pensamen­ to fossem desprezados pelos profetas: o artifício e a perícia das suas com­ posições dão testemunho deste fato. Significa, no entanto, que o pensa­ mento humano tinha de ser aceso e elevado a um grau de intensidade mais alto por meio do Espírito antes de um profeta ter a certeza de que era ver­ dadeiramente um porta-voz do Senhor. Embora alguns procurassem for­ çar este estado por meios inflingjdos a si mesmos, tais como os profetas de Baal no monte Carmelo, o profeta verdadeiro sabia que não era sua pró­ pria realização. “Falou o SENHOR Deus, quem não profetizará?” (Am 3:8). Longe de ser subvertido, o que Israel necessitava era ser fortalecido na sua hora de crise. A linguagem destes versículos não indica se Ezequiel está pensando mais na vida em Jerusalém ou na vida de Israel no exílio: havia profetas, bons e maus, nas duas comunidades. Mas as necessidades eram semelhantes em Jerusalém e em Tel Abibe. Aquilo que estava der­ rubado precisava de defesa e de restauração, e os falsos profetas tinham fracassado exatamente nesto ponto (5). 5. O dia do SENHOR refere-se, em Ezequiel, ao dia de julgamento que o Senhor decretou sobre Seu povo e especialmente sobre Jerusalém. Deve ser identificado aqui com o saque de Jerusalém em 587 a.C., dia este em que a tempestade do julgamento finalmente desabou. Mas a pró­ pria ocorrência de um ato de julgamento não esgota o significado da fra­ se: nunca se pode dizer que o dia do Senhor ocorreu de modo final. Sem­ pre é futuro e consiste no próximo ato de Deus, sucessivo e culminante, em julgamento, ou às vezes em vindicação. 13: 8-16. A acusação de encorajar a falsa segurança. Os dois primei­ ros versículos desta seção citam a condenação que os falsos profetas de­ vem sofrer. Basicamente, significa que merecem a oposição implacável de Deus: Eu sou contra vós outros (8). Não têm, portanto, esperança al­ guma de sucesso ou reconhecimento ulteriores para seu ministério, e sua expectativa de que o Senhor lhes dará o cumprimento da palavra (6) se­ rá rudemente esmagada. O seu castigo será tríplice (9). Primeiramente, per­ derão o lugar de honra que por muito tempo desfrutaram entre os princi­ pais cidadãos de Israel: o conselho significa o círculo interior da comuni­ dade. Em segundo lugar, serão tirados do registro civil de cidadãos com pleno direito, perdendo, assim, um dos mais prezados direitos de qualquer 111


EZEQUIEL 13:9-16 homem israelita. E, em terceiro lugar, nunca voltarão para a terra de Is­ rael, e assim serão privados da única perspectiva de esperança que tomava suportável o exílio. 10. A parede que o povo levanta é um tabique fraco (heb. hayis, palavra esta que se acha somente aqui, e descrita por Kimchi como sendo “uma parede-meia inferior”). Representa as esperanças vazias que estão construindo para si mesmos, e que os falsos profetas estão agradavelmen­ te endossando. Caiam (ARA corretamente; cal não adubada, ARC, é basea­ do numa identificação incorreta com uma palavra que significa “não tem­ perada”) tem relacionamento estreito com uma raiz que significa “rebocar por cima,” empregada em Jó 13:4; e Salmo 119:69, significando besuntar uma pessoa com mentiras. Destarte, as esperanças fúteis do povo são enco­ rajadas pelos acalentos dos profetas, que mentirosamente cantam a paz. É uma falha comum entre os pregadores, este desejo de proferir ao seu povo palavras que agradam a aplacam, mas se querem ser fiéis à sua vocação, de­ vem certificar-se de. que estão recebendo e transmitindo nada mais do que a palavra clara de Deus, independentemente das conseqüências. Quando os líderes da igreja encorajam seu povo à prática de padrões sub-cristãos ou de modos não-bíblicos, tomam-se duplamente culpados. 11. Haverá chuva de inundar. Vós, ô pedras de saraivada, caireis. Há um duplo sentido oculto na primeira destas frases. A palavra para “de inundar”, além deste sentido de “inundar” como no caso de uma torren­ te furiosa, também significa “enxaguar totalmente,” como se o efeito do aguarceiro fosse levar de enxurrada a cal e deixar o tabique fraco, des­ nudo e exposto às pedras destrutivas de saraivada. A maioria dos comen­ taristas acha incomum o apelo a vós, ô pedras de saraivada, e preferem revocalizar para dar o sentido: “e farei cair pedras de saraivada.” Isto é pre­ ferível à omissão das palavras “e vós” (RSV). 12. O efeito do julgamento de Deus é fazer a obra dos falsos profetas parecer desprezível, enquanto seu fracasso toma-se assunto de escárnio: Onde está a cal... ? Istó, porém, será apenas o prelúdio, porque dentro em breve a própria parede cairá (14) e os falsos profetas da paz perecerão com ela (15, 16). A esta altura, a figura da parede, que co­ meçou como representação do otimismo popular, vem a ser identifica­ da com a cidade de Jerusalém, em cuja impregnabilidade suas vãs espe­ ranças se centralizavam. A condenação mais forte, no entanto, não é contra o povo, mas, sim, contra os que o levaram ao erro. “Ai do homem pelo qual vem o escândalo!” (Mt 18:7). 112


EZEQUIEL 13:17-18 13:17-23. A acusação contra as profetisas. Há apenas poucas passa­ gens no Antigo Testamento que criticam uma classe de mulheres, e esta passagem forma um grupo com Isaías 3:16-4:1; 32:9-13 e Amós 4:1-3. As únicas profetisas que nos são conhecidas são mulheres como Débora (Jz 4:4ss.) e Hulda (2 Rs 22:14), embora a irmã de Moisés, Miriã, fizes­ se jus ao título (Êx 15: 20) e Neemias se refira à “profetisa Noadia” en­ tre seus intimidadores (Ne 6 :14).49 Embora se reconheça, portanto, que a profecia estava aberta às mulheres bem como aos homens, não parece ter havido muitas mulheres deste tipo, e é provavelmente um engano pensar numa classe ou ordem de profetisas. Na realidade, a linguagem de Ezequiel sugere que eram mais como bruxas ou feiticeiras que praticavam artes má­ gicas estranhas (cf. 1 Sm 28: 7). Em tempos de decadência ou crise nacio­ nal, tais charlatãs freqüentemente sobem à tona, e tomam como presa mentes crédulas e ansiosas. Não é de se estranhar que, nesta ocasião, Is­ rael tivesse sua quota delas. Sem dúvida, a intromissão bem-sucedida da in­ fluência babilónica, onde abundava a divinação e a necromancia, acrescen­ tou mais coragem à sua obra. 18. Não fica muito claro o que estas mulheres faziam. Que cosem invólucros feiticeiros para todas as articulações das mãos segue de perto o hebraico. “As articulações das mãos” são interpretadas como sendo “co­ tovelos” por RV, e “pulsos” por RSV. As duas palavras são possíveis, e a escolha deve ser determinada na base de fazer sentido. A palavra para invó­ lucros feiticeiros, ou “travesseiros” ou “faixas mágicas” ocorre somente aqui e no v. 20. É uma palavra comum no hebraico moderno para almofa­ das ou travesseiros, e é assim que a LXX a traduziu, embora alguns escrito­ res antigos pensassem em termos de amuletos ou até mesmo filactérios.50 As práticas babilónicas sugerem, no entanto, que este pode ter sido um atar mágico dos pulsos do interessado para simbolizar o poder obrigatório do sortilégio ou encanto que o acompanhava. Juntamente com estes, as mulheres faziam véus, palavra esta que significava um longo cortinado que chegava até ao chão, envolvendo o corpo inteiro, e, segundo parece, estes existiam em todos os tamanhos para cabeças de todo tamanhol Este, pois, era, o seu equipamento para caçarem almas! Não é possível que a palavra para alma (heb. nepes) pudesse ter o significado de um espírito desincorporado: este é um conceito totalmente não-hebraico. Significa a pessoa total, (49) No Novo Testamento, ver Lc. 2 :36ss e At. 21:9. (50) Assim Ephraim, o sírio, cujo comentário é citado em Cooke, pág. 145, e a coluna hebraica de Hexapla de Origem.

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EZEQUIEL 13:18-23 o próprio eu, não apenas uma parte. Mediante suas feitiçarias, estas mulhe­ res procuravam possuir e dominar os que caíam sob sua influência, e, co­ mo tantas feiticeiras, tinham sobre elas o poder da vida e da morte. A maneira como empregavam seus poderes ocultos não fica claro. Cooke sustenta que o interessado tinha seus punhos atados e que a feiti­ ceira cobria a cabeça com o véu, mas é necessário fazer uma leve emenda ao texto para obter este significado. A despeito dos argumentos que Cooke apresenta,51 parece mais de acordo com o texto hebraico entender que tanto a aplicação dos invólucros quanto a dos véus era feita pela feiticeira ao seu cliente. Por meio de uma variedade de feitiços e encantamentos, ela o prendia e alegava ter o poder para mantê-lo vivo mediante o pagamento de certas somas. Daí a acusação de que preservam outras almas para vós mesmas i.é, para seu próprio lucro. 19. Os punhados de cevada e pedaços de pão, que antigamente eram considerados como pagamentos em espécie que as mulheres rece­ biam, eram, na realidade, usados na adivinhação, ou no acompanhamen­ to das ofertas sacrificiais ou mais provavelmente presságios a serem exa­ minados a fim de ver se um cliente doente viveria ou morreria.52 20. Como aves; o texto é provavelmente confuso, e ARA segue a emenda de Comill para dizer: soltarei livres como aves as almas que pren­ destes. O sentido fica claro, mesmo que o texto hebraico seja difícil. 22, 23. Em contraste com a condenação dos profetas (8-9, 13ss.), parece que as profetisas são tratadas de modo mais brando. O poder delas é quebrado, e suas visões falsas já não são vistas, mas aparentemente na­ da mais sofrerão do que a perda da sua influência e do seu meio de vida (23). A sua falta não é mais do que esta: entristeceram o coração do jus­ to e fortaleceram as mãos do perverso (22). Na realidade, causaram danos para a moral do povo, e abusaram da influência que os tempos incertos colocaram nas suas mãos. Foram sanguessugas morais num período em que o poVo precisava, como nunca, de confiar totalmente no único Deus santo que trata a todos como indivíduos, com a mais rigorosa eqüidade e impar­ cialidade. Ofereciam a promessa de uma salvação espúria, quando a segu­ rança verdadeira estava disponível a todos quantos quisessem voltar-se dos seus caminhos perversos. Por branda que fosse, certamente mere­ (51) Ver Cooke, pág. 146. (52) É válido ler os rituais hititas contra impotência e brigas domésticas, citados em ANET, págs. 349-351, para apreciar o procedimento detalhado de tais magias.

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EZEQUIEL 14:1-6 ciam sua condenação.53 d. A condenação daqueles que se entregam à idolatria (14:1-11) Estas palavras foram dirigidas a um grupo específico de anciãos que se assentaram diante de Ezequiel (cf. 8:1; 20:1). Tinham chegado, presu­ mivelmente, na esperança de ouvir algum oráculo acerca da duração do seu exílio, ou acerca da situação da pátria, em Jerusalém. O oráculo foi dado, mas não foi aquilo que esperavam. 3. Note a expressão de desprezo: estes homens. A acusação contra eles é que se deixaram afetar pelo seu meio-ambiente babilônio e com os atrativos da sua religião idólatra. Nada mudara extremamente na sua leal­ dade ao Senhor, mas tomaram ídolos dentro em seu coração e, ao assim fazerem, colocaram diante de si mesmo a pedra de tropeço que os levaria a cair na iniqüidade. A frase: tropeço para a iniqüidade, é peculiar a Eze­ quiel (7:19; 14:3, 4, 7; 18:30; 44:12) e geralmente se refere aos ídolos, os quais o profeta reconhecia como sendo supremamente “a ocasião para pecado” ao seu povo. O Senhor exige uma lealdade exclusiva, interna quanto externamente, da parte do Seu povo, e aqueles que O consultam ou oram a Ele, enquanto acalentam outros deuses no seu coração, não serão ouvidos (cf. SI 66:18). 4. Em lugar de uma resposta, Deus dá ao profeta um oráculo de jul­ gamento que coloca em termos gerais (Qualquer homem da casa de Is­ rael que...) aquilo que acontecerá quando o homem de lealdade dividida inquirir de um profeta verdadeiro. Nenhum oráculo será dado, mas eu, o SENHOR... lhe responderei, com ações e não com palavras. As palavras têm um som sinistro, e o v. 8 narra mais acerca do seu significado, mas o alvo final é expressado de modo positivo nos w. 5 e 11.0 Senhor preten­ de captar os corações do Seu povo alienado, de modo que este possa tor­ nar-se Seu povo na realidade. 6. O caminho para este correto relacionamento é através do arre­ pendimento (Convertei-vos) e a rejeição (dai as costas) da sua idolatria. O termo usual para o arrependimento, proveniente da raiz hebraica nàham, é basicamente uma palavra emotiva com o significado de “estar triste,” “lastimar-se.” Ezequiel, no entanto, escolhe a palavra mais prá(53) Um estudo completo dessa passagem foi feito por W. H. Brown-lee, “Exorcising the Souls from Ezekiel xiii, 17-23”, JBL, LXIX, 1950, págs. 367-373.

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EZEQUIEL 14:6-12 ticá “voltar atrás” (heb. süb) e a emprega duas vezes, em formas leve­ mente diferentes, para produzir o efeito conservado em RV: “Voltaivos, e voltai dos vossos ídolos.”' 7. A introdução do estrangeiro (heb. gêr), o peregrino residente com direitos e deveres limitados, sugere que o oráculo de Ezequiel é de aplicação mais ampla do que simplesmente aos anciãos no exílio, mencio­ nados no v. 1. A LXX os interpreta como sendo “prosélitos.” 9. Se um profeta realmente atende a um inquiridor deste tipo, é uma indicação clara de que é um falso profeta. Está enganado, e foi o Se­ nhor quem o enganou. Cooke comenta: “Semelhante declaração somente é inteligível quando nos lembrarmos que pensamentos antigos desconsi­ deravam as causas secundárias, e atribuíam os eventos diretamente à ação de Deus.”S4 Compare também Amós 3:6 e Isaías 45: 7. Não se quer dizer com isto que o profeta que age erroneamente não é um agente livre, e que não tem responsabilidade alguma. Está enganado porque perdeu sua per­ cepção espiritual. Deixa de detectar a insinceridade do seu inquiridor, e consegue produzir alguma resposta, como faziam os falsos profetas do ca­ pítulo 13, sem uma verdadeira inspiração divina. Um caso comparável é a contenda entre Micaías e os profetas mentirosos de Acabe (1 Rs 22:1823). Segundo a aparência, os profetas mentirosos produziam palavras sa­ bendo que agradariam: estavam profetizando “o que lhes vem do cora­ ção.” Mas, no sentido mais profundo, era o Senhor que era responsável pe­ la reação em cadeia que se revelava em semelhante comportamento. Su­ cumbiram à cegueira espiritual, e, assim, ás mentiras que proferiam, rece­ beriam também o julgamento de Deus. 10. Destarte, e com toda a razão, levarão sobre si a sua iniqüida­ de, o falso profeta e o inquiridor idólatra da mesma forma, porque repar­ tem suas responsabilidades entre si. e. Os poucos justos não evitarão o juízo (14:12-23) Estes versículos são uma resposta às objeções daqueles que dizem que Deus não seria tão implacável no Seu julgamento quanto diziam os profetas tais como Jeremias e Ezequiel, porque Ele não pode ignorar a justiça de alguns dos Seus seguidores fiéis. Proceder assim, alegam eles, tomaria Deus injusto. Deus, por certo, pouparia Seu povo por ter respei­ (54) Cooke, pág. 151.

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EZEQUIEL 14:12-13 to às orações e à piedade da minoria dos homens fiéis, que a Ele tudo dedicavam. Esta atitude é nada menos do que usar os santos como apóli­ ce de seguro para cobrir os pecadores. Tem sido uma falha humana em to­ das as gerações. A comunidade fica um tanto envergonhada por ter um san­ to entre seu número, mas deriva um senso de segurança da sua presen­ ça, um pouco como a posse de um talismã religioso para dar sorte. Uma família sem pretensão alguma à espiritualidade, freqüentemente se alegra em ter um ministro da religião numa das suas ramificações, por mais dis­ tante que seja. A mensagem de Ezequiel é que não há passagens coletivas para a libertação. O homem justo não salva ninguém senão a si mesmo. A mensagem é elaborada em duas etapas. Primeiramente, nos versí­ culos 12-20, é declarado o princípio geral de que se, e quando, Deus enviar um dos Seus quatro julgamentos (a fome, as feras, a espada, e a pestilência) sobre uma terra, nem a presença de três santos como Noé, Daniel e Jó sal­ vará alguma pessoa senão eles mesmos. Depois, este princípio é aplicado, nos w. 21-23, a Jerusalém. Muito menos os justos poderão salvar os perver­ sos quando o julgamento divino cair sobre a cidade santa. Mas se poucos sobreviventes forem poupados, não será porque são justos e se salvaram a si mesmos. Terão licença para irem embora ao exílio, a fim de que os que já estiveram lá possam ver seus caminhos e ações (22) e reconheçam quão justo foi Deus nos Seus julgamentos. Talvez fosse argumentado que havia justificativa para crer que o remanescente justo salvaria a cidade inteira, na base da intercessão de Abraão em prol de Sodoma (Gn 18:23ss.). Claramente a atitude mental que Ezequiel estava procurando corrigir tinha sua origem num conheci­ mento desta antiga tradição. A sua lição, porém, é que embora Sodoma tivesse recebido a oferta de segurança se um número suficiente de justos fosse achado dentro dos seus muros, o pecado de Jerusalém era tão gran­ de que nenhuma misericórdia deste tipo era aplicável ao seu caso. Esta é a doutrina da responsabilidade pessoal levada à sua conclusão lógica. Não havia saída: a responsabilidade devia recair sobre o pecador, assim como caiu, como toda a justiça sobre Sodoma (16:4649). 13. Cometendo graves transgressões traduz um verbo hebraico enfático com seu acusativo cognato. O significado da raiz é “agir traiçoei­ ramente” na quebra de uma aliança solene. É empregado para o pecado de Acã com relação às coisas condenadas (o herem, Js 7:1) e ao ato adúltero de uma esposa (Nm 5:12), sendo que os dois incorriam na pena da morte. O significado aqui diz respeito, de modo semelhante, a um país que pela sua infidelidade merece o castigo máximo. 117


EZEQUIEL 14:14-22 ,14. Quase certamente, estes homens representam os antigos exem­ plos de piedade na tradição hebraica. Não somente a história do Dilúvio era conhecida pelos leitores de Ezequiel, como também o caráter do seu herói como “homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos,” que andava com Deus (Gn 6:9). Jó, também, era conhecido como “homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desviava do mal” (Jó 1:1). So­ mente Daniel é desconhecido na Bíblia. Dificilmente pode ser o contem­ porâneo de Ezequiel no exílio: de qualquer maneira, a palavra usada aqui é “Danfel” e não “Daniyye’1” como no livro que leva seu nome. A proba­ bilidade é que se trata do “Dan’el” da antiga épica cananita descoberta em 1930 em Ras Shamra, a antiga Ugarite, no litoral setentrional da Síria, com data de cerca de 1.400 a.C.ss Aparece ali principalmente como o dispensador da fertilidade, mas também como o justo, julgando a causa da viúva e do órfão. Devemos supor, ou que esta antiga literatura semítica era conhecida por gerações posteriores dos hebreus, ou, mais provavelmen­ te, que antigas tradições hebraicas que não sobreviveram incorporaram matéria centralizada em uma personagem do mesmo nome, e de caráter semelhante ao Dan’el ugarítico. 16. Noé conseguiu salvar seus parentes mais próximos na arca, mas a justiça de Jó não serviu para salvar seus sete filhos e três filhas (Jó 1:18-19). É o padrão de Jó que deverá ser seguido no caso de Jerusalém. 21. Para os quatro meios clássicos do julgamento divino, a espada, a fome, as bestas-feras e a peste (não há relevância na variação da ordem, comparada com os w. 13:19), ver a nota sobre 5:17. Muilenburg nota que na Épica Babilónica de Gilgames, que contém a famosa versão paralela do Dilúvio, depois de as águas terem baixado e Utnapistim ter oferecido sacri­ fícios aos deuses, a deusa-mãe Ea zombou do deus Enlil que enviara o di­ lúvio e perguntou-lhe por que não enviara o leão, o lobo, uma fome ou uma pestilência.56 Isto sugere que estes quatro julgamentos correspondiam às desgraças que eram universalmente temidas em todas as partes do anti­ go Oriente Próximo. 22. Três interpretações possíveis têm sido propostas para a frase o seu caminho e os seus feitos. Para Hitzig, significa os “atos justos” dos sobreviventes que mereceram sua libertação, o que consolaria, assim, os exilados com pensamentos sobre a justiça de Deus. Outros viram na fra­ (55) O Conto de Aqhat, ver DOTT, págs. 124-128; ANET, págs. 149-155. (56) Em Peake, pág. 577. A referência pode ser encontrada em DOTT, pág. 23 ou em ANET, pág. 95.

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EZEQUIEL 14:22-15:1 se uma referência à “desgraça e aos sofrimentos” dos sobreviventes, que assim se revelariam ser um testemunho vivo diante dos exilados quanto à severidade do julgamento divino. Mas a maioria dos comentaristas recen­ tes reconhece que estas palavras se referem a “ações injustas” para as quais o devido castigo foi distribuído, e Cooke ressalta que em Ezequiel feitos sempre tem um mal sentido. Dessa forma, o remanescente dos fu­ gitivos seria composto de homens maus; levarão fora assim filhos como filhas de uma maneira que nem sequer os três heróis justos teriam o direi­ to de fazer (16, 18, 20); e tudo aconteceria a fim de convencer os exila­ dos quanto à justiça de Deus, e de que não fora sem motivo que levara a efeito a destruição de Jerusalém (23). 23. À primeira vista, é difícil imaginar como a visão de homens perversos sofrendo castigo vos consolarão. A palavra é incomum. No seu âmago, a palavra hebraica nãham significa “respirar com hálito forte.”57 Na forma em que é usada aqui, tradicionalmente traduzida pelas palavras “confortar” e “consolar,” significa aliviar, acalmar, levar alguém a respi­ rar devagar e fundo. Semelhante consolo é transmitido em se trazendo boas notícias (como em Is 40:1), ou dando razões adequadas para expli­ car aquilo que, doutra forma, seria perturbador (como aqui). Conforme Snaith indicou, a palavra em hebraico não significa consolar na tristeza mas, sim, consolar para fora da tristeza, i. é, aplicar novos fatos a uma si­ tuação, de maneira que a atitude mental do ouvinte seja transformada.58 Foi com este mesmo propósito em vista que os sobreviventes perversos da derrota de Jerusalém deviam ter licença para escapar. Somente então é que os exilados amargurados veriam a justiça em tudo isto. f. A parábola da videira (15:1-8) Nesta poesia, Ezequiel compara Israel a uma videira, comparação esta que teve uma longa história na tradição hebraica, remontando até a bênção de Jacó (Gn 49:22), no mínimo. Usualmente, a aplicação do sí­ mile acha-se nas propriedades frutíferas da videira, que a toma tão alta­ mente estimada entre os homens, mas que eram raramente evidentes na vida de Israel como nação (cf. Dt 32:32; Is 5:1-7; Jr 2:21; Os 10:1). (57) Ver D. Winton Thomas, “A Note on the Hebrew Root a n r , ET, XLIV, 1933, págs. 191-192. (58) N. H. Snaith, “The Meaning of the Paraclete”, ET, LVII, 1945, págs. 47-50.

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EZEQUIEL 15:1-6 Ezequiel, no entanto, nâfo leva em conta os frutos, deixando subentendi­ do que não há meio de Israel produzir qualquer coisa boa, e, pelo contrá­ rio, retrata uma videira bravia da floresta, cujo único ponto de compara­ ção é a qualidade da sua madeira. Esta é notoriamente inútil, não haven­ do firmeza nem para se fazer um pino onde se pudesse pendurar uma pa­ nela, e tem menos valor ainda depois de ter sido chamuscada pelo fogo. A figura aqui empregada é a madeira sendo jogada ao fogo como lenha, sendo subseqüentemente arrancada de lá para não se consumir — mas com que propósito? A aplicação passa a ser feita a Jerusalém: insignifi­ cante, e indigna de ser comparada com as nações e cidades vizinhas; cha­ muscada pelos fogos da invasão inimiga nos dias de Joaquim; poupada da destruição em 597 a.C., mas sem utilidade para nada mais senão para ser jogada de volta ao fogo e ser totalmente consumida. Implícita na parábola é a resposta do profeta àqueles que imagina­ vam que Israel, como a videira plantada pelo Senhor, era indestrutível. Po­ dia ser cortada, pensavam eles, mas era apenas um revés temporário e den­ tro em breve o tronco brotaria de novo e Israel floresceria como nos dias do passado. Este otimismo ingênuo era o objeto da condenação incessan­ te de Ezequiel. Acabaram-se Israel e Jerusalém. 2. A frase: o sarmento que está entre as árvores do bosque está em aposição a videira da primeira metade do versículo, mas, tendo em vista a comparação, é quase impossível traduzi-la de modo compreensível. O senti­ do fica claro: É melhor a madeira da videira do que qualquer outra ma­ deira? Resposta: não é melhor. É melhor o ramo da videira (do que qual­ quer outro ramo) entre as árvores da floresta? A resposta: de modo ne­ nhum. A palavra sarmento (a mesma que se acha em 8:17), é um ramo fino que é podado na época própria, e o seu uso por Ezequiel serve para sublinhar a relativa insignificância de Israel como nação. 3. A estaca (heb. yãtêd) é a palavra comum para uma estaca de ten­ da, mas também pode ser usada aqui no sentido de um pino de madeira fixada numa parede. Desenvolve o significado de alguém que era digno de confiança, como em Isaías 22:23ss.; Zacarias 10:4; cf. Esdras 9:8. Israel não era útil nem fidedigno. 4. Nenhuma parte de Israel ficou sem ser afetada pelas experiências cauterizantes sofridas. 6-8. Somente a esta altura é que Ezequiel começa a aplicação da­ quilo que até agora era uma parábola sem relacionamento (cf. o padrão semelhante em Is 5: 1-7). Não se deve traduzir o segundo verbo como as­ sim entregarei, depois de colocar a palavra idêntica no pretérito perfeito 120


EZEQUIEL 15:7-16:1 nas linhas métricas anteriores. 0 sentido, bem como a gramática, exige: “assim dei,” porque os habitantes de Jerusalém, conforme a analogia, foram consignados ao fogo quando os babilônios investiram contra a sua cidade pela primeira vez. Era um evento do passado não afetado pelo alívio temporário do reinado do títere Zedequias. E assim, ao v. 7 deve se­ guir: “saíram do fogo, mas o fogo (ainda) os consumirá.” Sobre a frase cometeram graves transgressões, ver a nota supra sobre 14:13. g. Jerusalém, a infiel (16:1-63) Foi típico de Oséias compreender o relacionamento entre o Se­ nhor e Seu povo em termos de aliança de casamento, e aproveitou as experiências da infidelidade da sua própria esposa para demonstrar o adultério espiritual de Israel. Oséias ressaltara, por contraste, o amor fiel à aliança ainda demonstrado por Deus à Sua esposa inconstante (Os 2:14-20). Ezequiel fez uso desta analogia do vínculo do casamento, mas colocou-a em termos que poderiam muito bem ter sido emprestados de uma história oriental popular sobre uma criança enjeitada sendo salva por um viajante que a achou, e finalmente desposada por ele. A idéia do enredo de “farrapos para riquezas” tem sido apreciada por toda geração e toda cultura que gosta de ouvir boas histórias. Conforme é contada por Ezequiel, no entanto, a história já não é apreciada. No seu conceito, tem um aspecto profundamente patético, mas ao ser contada, tem somente uma crueza trágica. O leitor cristão talvez sinta náusea, e não surpreen­ dentemente, diante do realismo indelicado da linguagem de Ezequiel, mas assim Ezequiel quis falar. Contou acerca de pecados graves, fazendo a parábola refletir os fatos. Ao invés de tratar com uma objeção específica, expressa ou suben­ tendida contra sua mensagem de julgamento sobre Jerusalém, Ezequiel, neste capítulo, oferece um panorama da história espiritual de Israel, des­ de suas primeiras origens até os seus próprios dias. Isto, por si só, deveria ser suficiente para justificar o Senhor na Sua ação decisiva contra Jerusa­ lém. Ao mesmo tempo, Ezequiel vê além da catástrofe imediata do julga­ mento para o propósito final de Deus, de restauração e perdão (53-63), mas isto pode ter sido incorporado por ele depois da destruição de Jeru­ salém ter acontecido (ver as notas abaixo). 16:1-7. A enjeitada indesejada. Embora a parábola seja especifi­ 121


EZEQUIEL 16:1-4 camente dirigida à cidade de Jerusalém (2, 3), ela é aplicável à toda nação e sua história, e observações interessantes são feitas acerca da descendên­ cia física dos hebreus. Sua origem e seu nascimento procedem da terra dos cananeus (3), alusão esta ao fato de que Jerusalém era uma cidade cananita (assim Davidson, in loc.), ou, mais provavelmente, porque foi em Canaã que Israel primeiramente se tomou uma nação estabelecida. A de­ claração está carregada de ironia, pois o termo “cananita” era proverbial para a decadência moral. Não devemos tomar a acusação da descendência mista fora do seu contexto satírico, porque a tradição hebraica remonta­ va a origens aramaicas puras (Dt 26:5) através dos patriarcas. O elemen­ to de verdade nas palavras de Ezequiel acha-se no fato indubitável de que Israei assimilou muitas influências estrangeiras do seu meio-ambiente ca­ nanita, bem como de origens não-semíticas. Os amorreus eram um dos povos que povoavam Canaã, segundo as listas das nações em Êxodo 13: 5; 23:33, etc. Eram um povo semítico ocidental cuja existência no Orien­ te Próximo é atestada desde um período antigo, no terceiro milênio a.C. Depois de serem um povo do deserto, infiltraram-se na Babilônia e estabe­ leceram o reino poderoso que Hamurabi tomou famoso, bem como outras cidades-estados tais como a célebre Mari, escavada entre 1933 e 1960 por André Parrot. Na época da conquista de Canaã, dominavam a maior parte da Transjordânia, e a derrota dos seus reis, Siom e Ogue, foi o prelúdio pa­ ra a bem-sucedida invasão comandada por Josué. Freqüentemente se acham vinculados com os heteus no Antigo Testamento, mas estes últimos eram originalmente uma nação indo-européia com seu centro na Ásia Me­ nor. Os heteus de Canaã eram um pequeno grupo de imigrantes que se mu­ daram para longe da sua habitação original.S9 4. A exposição de criancinhas do sexo feminino não é desconhecida no Oriente até mesmo nos dias de hoje. Sobre a obstétrica do versículo, Cooke cita o Dr. Masterman na sua descrição dos costumes atuais entre os árabes: “Tão logo o cordão umbilical é cortado, a parteira esfrega toda a criancinha com sal, água, e azeite, e envolve-a com roupas, apertando-as bem, durante seté dias. No fim daquele período, remove as roupas sujas, la­ va a criancinha e a unge, embrulhando-a depois outra vez durante sete dias —e assim por diante até ao quadragésimo dia.”60 O sal parece ter tido uma (59) Ver também conferência Tyndale Biblical Archaeology de H. A. Hoffner em 1968, sobre “Some Contributions of Hittitology to Old Testament Study”, Tyndale Bulletin, XX, 1969, págs. 27ss. (60) Cooke, pág. 162, citando de PEFQ, 1918, págs. 118-119.

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EZEQUIEL 16:5-9 qualidade antisséptica mais do que cerimonial. A sugestão de que era um ritual de dedicação, comparável a aliança de sal (Lv 2:13; Nm 18:19; 2 Cr 13: 5), tem pouco para recomendá-la. A palavra para te limpar (heb. fm is’í) é desconhecida em outro lu­ gar. O Targum tem “para limpar,” baseado provavelmente numa raiz ára­ be afim que significa “lavar.” A expressão na Vulgata: in salutem liga-a com a raizyãsa’, “salvar.” A LXXe muitos comentaristas omitem a palavra totalmente. A tradição do Targum é seguida pela ARC e ARA, e faz bom sentido, mas a palavra continua sendo um mistério filológico.61 6. Vários MSS bem como as Versões omitem a repetição da frase: Ainda que estás no teu sangue, vive. Vários comentaristas querem dividir as palavras de modo diferente, e traduzir: “no teu sangue vive”, mas não conseguem concordar quanto ao significado da preposição: “A despeito do teu sangue, vive!” (Davidson); “com teu sangue sobre ti, continua vi­ va” (Cooke); “Embora deitada no teu sangue, em que inevitavelmente san­ graria até morrer, viverás” (Keil). A omissão da repetição tem a virtude de expressar simplesmente o ato divino da salvação: achando a criança en­ jeitada revolvendo-se no seu próprio sangue, Ele a ordenou à vida no es­ tado em que a achou. 7. Chegaste a grande formosura (lit. “chegaste a ornamentos exce­ lentes”); estudiosos que consideram não haver sentido no original literal, propuseram uma pequena alteração ao texto para dar o significado: “che­ gaste ao tempo da menstruação” que RSV expressa: “e te tomaste moça formada.” 16:8-14. O casamento e o adomamento. Na segunda vez que o viajante passa por ali, descobre que a criança abandonada, por ele salva, já chegara à idade do casamento. Prática o ato simbólico costumário de estender sobre ela as abas do seu manto, i.é, a parte inferior da sua túni­ ca longa e ondeante (cf. 3:9), reivindicando-a, assim, em casamento. Pas­ sa, então, a lavá-la e purificá-la, porque seu estado externo não melhorou com o decorrer do tempo e ela ainda estava nua e manchada de sangue. Mas com as atenções do seu benfeitor, e com seus presentes de roupas e jóias, veio a ser uma rainha entre as nações, e sua beleza se tomou renomada por toda a parte. A referência no v. 8 a entrar em aliança contigo, embora seja uma (61) Ac. tem 2 palavras de uma raiz cognata, maS'a‘u, uma significando “ungir” (conf. Heb. m-l-h), e a outra significando “afastar”.

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EZEQUIEL 16:9-14 expressão legítima para o contrato do casamento (cf. Pv 2:17; Ml 2:14), dá um indício da realidade histórica da qual esta estória é apenas a alego­ ria. Parece, portanto, perfeitamente legítimo historicizar a descrição des­ ta corte, e ver aliança do casamento como sendo uma referência à alian­ ça do Sinai, o momento em que Israel, no propósito de Deus, atingira a maioridade como nação. A primeira vez que passou o Senhor por ela seria ou nos tempos patriarcais (Davidson) ou quando Israel estava no Egito (Keil). Skinner62 duvida que Ezequiel teria chegado a apresentar o período patriarcal sob tão fraca luz, e acha que o noivado e o adomamento de Israel se encaixam melhor na era de Davi e de Salomão do que nos austeros dias do deserto. Certamente, o período de nudez e de polui­ ção corresponde bem ao período no Egito, onde Israel cresceu ate' ser uma grande nação, mas é mais difícil resolver com exatidão se os tempos pa­ triarcais foram levados em conta nesta alegoria, ou não. Provavelmente a ordem: vive (6) represente a vontade de Deus para salvar a Israel por meio de José numa ocasião em que a tribo poderia tão facilmente ter se perdido pela fome (cf. SI 105:17ss.). Seguiu-se, então, o período de crescimento até que, finalmente, o Sinai estabeleceu a aliança do casa­ mento. 10. As peles de animais marinhos são a mesma matéria usada para cobrir o Tabernáculo (Nm 4:6ss.). As várias traduções oferecem: “peles de foca”, “de doninha,” “de texugo (ARC)”, e “couro.” “Texu­ go” certamente não está certo, porque a pele tinha de ser não somente apropriada para sapatos mas também de tamanho suficiente para que uma delas cobrisse a arca. O candidato mais provável é o dugongo, um animal semelhante à foca, da ordem Sirenis, que é encontrado no mar Vermelho; sua pele é usada pelos beduínos para fazer sandálias. É bem possível que haja uma conexão entre o nome árabe deste animal (tuhas) e a palavra hebraica aqui empregada (tahas).63 11,12. Estas são as jóias da noiva (cf. Gn 24: 22) que cabia ao noi­ vo fornecer. Um pendente no riariz seria preso na parte exterior da nari­ na (ver também Gn 24:47; Is 3:21; Os 2: 13). 13. Para as comidas ricas, que relembram a generosidade de Deus para com Israel, ver Deuteronômio 32: 13-14; Oséias 2: 8. 14. Este versículo traz o clímax da generosidade graciosa e pro­ fusa a Israel, que não a merecia. Sua vida, sua condição de esposa, suas (62) Skinner, pág. 130. (63) Ver IDB, vol. 2, pág. 252.

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EZEQUIEL 16:14-22 riquezas, sua belezas, tudo se deve inteiramente ao Senhor que livremente escolheu agir assim em seu favor. Ela não teve nenhum mérito ou dignida­ de própria, era tudo pela graça. A mesma verdade é expressa por escrito­ res vetero-testamentários em Deuteronômio 7:7-8; 9:4ss.; 32:10; Jere­ mias 2:2; Oséias 9:10. Além disto, é transportada para o pensamento do Novo Testamento, por representar de modo perfeito o amor e a iniciativa de Deus ao achar, salvar, e entrar em aliança com pessoas que, doutra forma, seriam condenadas a morrer. Depois de fazê-las pertencer-lhe, derrama-lhes toda dádiva e bênção que a terra ou o céu podem oferecer (cf. Rm 8:32;Ef 2: 3-8). 16:15-34. As prostituições da noiva. As próprias coisas que Deus dera a Israel vieram a ser os meios da sua ruína: sua beleza (15), seus ves­ tidos (16, 18), suas jóias (17) e seu alimento (19). Até os filhos da sua união com o Senhor foram- oferecidos como sacrifício pagão (20-21). Esquecera-se da advertência de Deuteronômio 6:10-12: “Havendo-te, pois, o SENHOR teu Deus introduzido na terra que, sob juramento, pro­ meteu a teus pais... te daria, grandes e boas cidades, que tu não edificas­ te; e casas cheias de tudo o que é bom, casas que não encheste... guarda-te, para que não esqueças o SENHOR, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão.” 15. Para a prostituição indiscriminada, cf. Gênesis 38:14ss.; Je­ remias 3:2. 16. Os lugares altos adornados de diversas cores indicam as corti­ nas coloridas das tendas que eram armadas nos lugares altos (ver nota so­ bre 6:3), e que Ezequiel via como lugares para festas, fornicação, idolatria e o sacrifício de crianças. Em 2 Reis 23:7, as mulheres teciam tendas ou cortinas para Aserá no recinto do Templo, até que Josias acabasse com suas atividades. 20, 21. Passar crianças pelo fogo a Moloque (frase esta que se acha em Lv 18:21; 2 Rs 23:10; e Jr 32:35) é explicado aqui como primeira­ mente matar a criança, e depois queimar seu corpo como sacrifício ao deus. Acaz foi culpado de fazer isto (2 Rs 16:3) bem como Manassés (2 Rs 21:6). Era abominável à religião verdadeira de Israel, cuja antiga tradi­ ção acerca do impedimento de Deus ao sacrifício de Isaque no monte Moriá, deve ter servido de lembrança permanente de que semelhante compor­ tamento não era requerido (Gn 22:13). Embora alguns considerassem, er­ roneamente, que se tratasse do último grau da devoção religiosa, Miquéias ensinou que algo muito mais profundo e exigente era pedido por Javé da 125


EZEQUIEL 16:23-28 parte dos Seus adoradores (Mq 6:6-8). 23-25. Ezequiel, depois de tratar do pecado da idolatria nos lugares altos, volta-se contra a prática de cultos pagãos na cidade de Jerusalém. A linguagem seguere que santuários eram estabelecidos nas esquinas das ruas, mas tendo em vista termos tais como “lugar eminente” (ARA prostíbulo de culto, 24), e elevados altares (24,25), é possível que se trate de santuá­ rios nos telhados, que eram situados em posições estragégicas e dominan­ tes nos cruzamentos das ruas da cidade. Seriam usados para ritos de fertili­ dade em conexão com a religião cananita, ao invés de simplesmente luga­ res para a prostituição comercial. Abriste... refere-se ao seu exibicionismo e auto-exposição. 26-29. As prostituições específicas com os egípcios (26), os filisteus (27), os assírios (28) e os babilônios (29) referem-se não somente à infide­ lidade religiosa como também à intriga e às alianças políticas. Estas eram atacadas repetidas vezes pelso profetas, notavelmente por Isaías (Is 20:5, 6; 30:1-5; 31:1) e por Oséias (Os 7:11; 12:1), mas a tentação para o pequeno estado de Judá voltar-se para seus vizinhos mais poderosos sem­ pre era grande, ainda que nunca isto lhe fizesse algum bem quando sucum­ bia à tentação. Ezequiel relata um apelo ao Egito da parte de Zedequias (17:13-17), mas isto somente proveu alívio temporário (cf. Jr 37:3-5). A hostilidade dos profetas contra semelhantes afiliações políticas era ape­ nas parcial porque consideravam que demonstravam uma falta de confian­ ça no poder protetor de Javé. A razão principal era que, em qualquer alian­ ça deste tipo entre uma potência menor e uma maior, era normal que a parte mais fraca adotasse ao seu sistema religioso os deuses e o culto da par­ te mais forte, como sinal de que aceitava o seu patrocínio. Aqui, portanto, o aspecto religioso e o político estão estreitamente entrelaçados na inter­ pretação da alegoria. Ezequiel indica de modo incidental as conseqüências da prostituição de Israel. A reação de Deus foi tomar-se irado (26), e o cas­ tigo que lhe determinou era diminuir a sua porção (27), que se refere à per­ da de algum território mediante a anexação por inimigos. Sabemos através do Prisma de Taylor que Senaqueribe agiu exatamente assim em 701 a.C.64 Seus amantes, embora aproveitassem a sua licenciosidade, realmente fica­ vam enojados e envergonhados por sua causa (27). E ela própria não acha­ va satisfação alguma naquilo que fazia, mas, sim, ansiava insaciavelmente (64) “Suas (de Hezequias) cidades que eu havia despojado, eu as cortei de suas terras, dando-lhes a Mitinti, rei de Asdode, Padi, rei de Ecron, e Sillibel, rei de Gaza, e assim reduzi sua terra.” (DOTT, pág. 67).

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EZEQUIEL 16:29-42 por mais (28,29). Bem à parte da interpretação alegórica destes versículos, constam como uma observação sagaz, para qualquer geração, sobre os efei­ tos da prostituição sobre as três partes mais estreitamente envolvidas. 30-34. A perversão que marcava o comportamento de Israel é que, ao passo que a prostituta comum exercia sua profissão por pagamento, Is­ rael desprezou a paga (31). Ezequiel, na realidade, vai ao ponto de dizer que ninguém a procurava, mas, sim, ele procurava os homens e até mesmo os subornava a virem a ela (33, 34). Ellison comenta muito bem: “A adúl­ tera talvez seja desculpada por alguns pela força da sua paixão e amor ce­ go, mas para a prostituta não há desculpa senão a pura necessidade. Para Israel, porém, nem sequer há esta desculpa. Não foi paga pelos seus aman­ tes — pelo contrário, pagou àqueles que obtiveram dela o seu prazer”65 (cf. Os 8:9). 16:35-43. O castigo de Israel. Visto que Israel cortejara os favores dos reinos pagãos e os subornara para receber seu apoio em tempos de emergência nacional, e por que se entregava a todo tipo de prática pa­ gã, e com boa mente absorvia as seitas estrangeiras conforme o seu ca­ pricho, Deus lhe pronuncia Sua inconfundível palavra de julgamento. Mantendo a linguagem da alegoria, Ele promete que os próprios aman­ tes de Israel serão os agentes da sua devastação. Eles a cercarão e a des­ mascararão publicamente (37) e aplicarão a ela o castigo devido a adúl­ teras e a infanticidas (38). Isto se aplica bem às devastações pelos exér­ citos babilônios de Nabucodonosor, mas Ezequiel fustiga os amonitas, os moabitas, os edomitas e os filisteus também pelo seu papel na destrui­ ção total, de modo que as palavras todos os teus amantes (37) são mais verídicas do que apareceria à primeira vista. Quanto ao castigo da expo­ sição, cf. Oséias 2:10, e quanto à traição dos amigos de Israel, cf. Lamen­ tações 1: 2. Nffo se deve admirar o fato de que estas nações sejam tanto as agentes do julgamento divino contra Israel como também os objetos da Sua ira por assim terem procedido (cf. Ez 25). Isaías falou da Assíria co­ mo sendo a vara da ira de Deus bem como sendo culpada do pecado da ar­ rogância ao cumprir Seu propósito (Is 10:5, 12). A vontade determinativa de Deus está baseada na Sua presciência das intenções humanas, e não for­ nece isenção alguma à responsabilidade humana. Somente depois de tudo isto ter acontecido para que todos vissem (41), e depois de Israel ter se tomado incapaz de se prostituir mais, é que a (65) Ellison, pág. 63.

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EZEQUIEL 16:43-48 fúria de Deus será aplacada e não mais Se indignará (42). Tais referências à fúria, ao zelo e à ira são facilmente mal interpretadas pelos leitores do Antigo Testamento (embora o Novo Testamento não esteja isento de se­ melhante linguagem), que as vêem como qualidades essencialmente huma­ nas e pecaminosas. Certamente, as expressões são vigorosamente antropo­ mórficas, mas, assim deve ser qualquer linguagem acerca de um Deus pes­ soal. Devem ser compreendidas, não à luz das emoções humanas de vingan­ ça e malícia, mas, sim, no contexto da justiça, da santidade e da pureza consistente de Deus. Tasker resume bem o assunto ao dizer: “Assim como o amor humano é deficiente se o elemento da ira está totalmente ausen­ te... assim também a ira é um elemento essencial ao amor divino. O amor de Deus está inseparavelmente ligado à Sua santidade e Sua justiça. Deve, portanto, manifestar ira ao ser confrontado com o pecado e o mal.”66 16:44-58. Samaria e Sodoma. Nesta altura, Ezequiel lança mão de uma alegoria completamente nova, mas liga-a à primeira, mediante a refe­ rência à descendência mista de Israel, para que a alegoria pareça uma ex­ pansão daquilo que foi dito antes. Duas irmãs, sendo Samaria a mais velha e Sodoma a mais jovem, são imaginadas para a Judá pecaminosa, mas o profeta diz que embora elas, nos seus dias, fossem um provérbio de prospe­ ridade e orgulho complacentes (Sodoma, 49, 50), e de abominações reli­ giosas de todos os tipos (Samaria, 51), os pecados de Judá ultrapassaram os seus, tanto em número como em intensidade (52). Ao proceder assim, Judá, diz-se, justificou as suas irmãs (52), ou, melhor: “fizeste tuas irmãs parecerem justas” (RSV). Haverá, no entanto, um dia de restauração para Sodoma, Samaria e Jerusalém; mas isto nada trará para a cidade prostituí­ da senão um senso maior de vergonha e mais humilhação. 45. É fácil ver como Samaria e Sodoma tiveram nojo de seu mari­ do e de seus filhos: o marido era Javé (cf. Os 2:16), a quem haviam rejei­ tado mediante seus modos orgulhosos e idólatras, e os filhos eram aqueles que haviam sacrificado nos altares pagãos É um pouco mais difícil ver a lógica da mãe hetéia tendo nojo do seu marido, a não ser que entendêsse­ mos que também se trata de uma referência a Javé, a quem até mesmo os pagãos tinham de servir.67 Comill resolveu a dificuldade omitindo as duas p.v.

(66) R. V. G. Tasker, The Biblical Doctrine of the Wrath of God, 1951, (67) Conf. comentário de Teodoreto: “Ele mostra assim, que não é Deus

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EZEQUIEL 16:48-62 frases; Cooke supunha que estava ali simplesmente “para aumentar a ex­ pressão figurada.” Talvez não devamos forçar os pormenores muito estreita­ mente quando Ezequiel está dizendo nada mais de que havia uma tendên­ cia de família em rejeitar o Senhor e Seus padrões, em virtude da descen­ dência mista, cananita, de todas elas. 49. 0 pecado de Sodoma, conforme é descrito aqui, bem diferen­ te da interpretação tradicional, tem muita coisa para dizer ao mundo oci­ dental afluente dos nossos dias. 51. Nosso Senhor estava usando a mesma idéia de Ezequiel quan­ do repreendeu a cidade de Cafarnaum em Mateus 11:23-24. 53. Restaurarei a sorte delas (ARA) é uma expressão que deve substituir “farei voltar os cativos” (ARC) em todas as partes do Antigo Testamento. 56. Ler como pergunta (ARA continua a frase até o v. 57, e ali há o ponto de interrogação). A palavra semú’â significa um “relatório”, um “item noticioso” (ARA tem provérbio). Antes de seus próprios pecados virem à luz, Jerusalém podia orgulhosamente mexericar acerca de Sodo­ ma, mas não depois dela mesma começar a desempenhar o mesmo papel entre as mulheres tagarelas de Edom (não Aram, Síria) e da Filístia (57). 16: 59-63. A aliança eterna. Estes versículos finais pressupõem a queda de Jerusalém, a qual, de qualquer forma, Ezequiel considerava cer­ ta, e olham além para um novo relacionamento baseado no perdão, que du­ raria para sempre. A mensagem segue as mesmas linhas da promessa de Jeremias no sentido de que Deus escreveria Suas leis nos corações do povo (Jr 31:31-34) e é semelhante ao oráculo posterior de Ezequiel acerca do novo coração e do novo espírito (36: 25-32). Pode ser argumentado, con­ forme faz Ellison, que esta seção foi escrita depois de 587 a.C., e que se en­ caixaria melhor na parte posterior do seu livro, pelo motivo que seria in­ consistente com a melancolia dos seus oráculos a esta altura, dar semelhan­ te palavra de esperança. Isto pode ser verdadeiro, mas já vimos que muitos oráculos antigos de ruína continham um nítido raio de esperança e, decer­ to, não há inconsistência em permitir um semelhante vislumbre aqui. 61. Não pela tua aliança, i.é, o privilégio de ter de volta a responsa­ bilidade por Samaria e por Sodoma não era devido à velha aliança de Judá, porque ela a quebrara. Seria “um ato da bondade de Deus, que não depen­ dos judeus somente, mas também dos gentios, pois Deus lhes dera oráculos uma vez, antes de escolherem a abominação da idolatria.” (citado por Keil, pág. 222).

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EZEQUIEL 16:63-17:2 dia, de modo algum, de relacionamentos anteriores” (Davidson, inloc.). 63. Quando Deus perdoa nossos pecados, também os esquece (Is 43: 25). O pecador, no entanto, nunca pode esquecer-se completamente. Paulo se lembrava que tinha perseguido a igreja (1 Co 15:9; 1 Tm 1: 13); John Newton lembrava-se dos seus tempos de traficante de escravos. O va­ lor de tal lembrança é que impede o homem de se tomar orgulhoso. Nem sequer o pecador justificado deve se esquecer de que tem um passado do qual tem razão em envergonhar-se. h. A parábola das duas águias (17:1-24) O tema deste capítulo é a traição de Zedequias, o rei-títere nomea­ do por Nabucodonosor para substituir Joaquim, que estava no cativeiro. Foi como resultado desta traição que Nabucodonosor finalmente marchou contra Jerusalém para sitiá-la (587 a.C.), mas visto que o fato foi predito por Ezequiel no v. 20, fica claro que o pronunciamento desta parábola de­ ve ser datado um ou dois anos antes, digamos em cerca de 590 a.C. Isto es­ tá bem de acordo com a posição deste oráculo no livro, porque a última data anterior (8:1) era 592 a.C., e a data seguinte (20:1), onze meses depois. O capítulo é dividido em três seções: (a) a parábola (1-10); (b) seu significado (11-21); (c) uma promessa de dias vindouros maravilhosos (22-24). 17:1-10. As duas águias. A poesia que Ezequiel recita é um enig­ ma (2; heb. htdâ), que significa qualquer coisa colocada de forma enigmá­ tica e que requer uma explicação, e uma parábola (ou “alegoria” ; heb. masàl), que é a mesma palavra traduzida “provérbio” em 12: 22. O màsãl era um tipo literário extensivo, que. abrangia desde uma sátira incisiva e uma alegoria ou um salmo de certa extensão. O significado radical é o verbo “ser semelhante a,” “comparar,” mas isto não restringe seu uso a símiles ou parábolas. A essência da poesia hebraica é o paralelismo, a repetição de uma idéia em termos levemente diferentes, como num versículo do seguin­ te tipo: “Meus olhos de mágoa se acham amortecidos, envelhecem por causa de todos os meus adversários” (SI 6:7). 130


EZEQUIEL 17:3-9 No livro de Provérbios este paralelismo usualmente tira uma antítese, co­ mo em “O mau mensageiro se precipita no mal, mas o embaixador fiel é medicina” (Pv 13:17). Nos dois exemplos, no entanto, o paralelismo toma-se uma forma de “comparação,” e, portanto, a palavra hebraica mà’sàl pode ser aplicada a ele. O verbo denominativo másal pode, na realidade, ser traduzido “falar em frases poéticas.” Neste capítulo de Ezequiel, a alegoria é desenvolvida detalhadamen­ te.68 A primeira grande águia é Nabucodonosor que, com seu enorme dis­ positivo militar, vem para Judá (representada pelo Líbano), arrebata sua nobreza (a ponta dum cedro, 3) e a remove para a Babilônia. Depois toma da muda da terra, i.é, um membro da família real, Zedequias, tio de Joa­ quim (cf. 2 Rs 24: 17) e o planta como salgueiro69 numa sementeira fér­ til (5; lit. “num campo de semente”), que não pode ser outro lugar senão sua cidade natal, Jerusalém, onde floresce devidamente. Mesmo assim, nunca passa de videira mui larga, de pouca altura (6), como poderes e influência limitados, sempre dependente do seu senhor babilónico, e com seus ramos virando-se em subserviência para a águia. A segunda águia (7) é o Egito, para onde esta videira se vira procurando sustento, mas o profe­ ta não vê futuro algum neste passo. A videira se secará e será arrancada com a máxima facilidade pelo rei da Babilônia (9, 10). O v. 8 apresenta um problema de interpretação. ARA e ARC parecem subentender o estado feliz de Zedequias sob a autoridade de Nabucodono­ sor. As palavras são virtualmente uma repetição do v. 5, para mostrar quão desnecessário e estulto era, da parte dele, estar cortejando o Egito. RSV, traduzindo: “Da sementeira onde estava plantada ele a transplantou,” ou melhor, com mg., “foi transplantada,” sugere que o apelo de Zedequias ao Egito era mais como um transplante de uma videira nova e tenra, que a tor­ naria mais fraca e mais vulnerável. Esta é uma interpretação atraente e le­ gítima do TM, mas confunde o quadro. Antes, Zedequias havia sido plan­ tado nas terras férteis e irrigadas da Palestina, “terra de ribeiros de águas” (68) Ver também R. S. Foster, “A Note on Ezekiel, xvii 1-10 e 22-24”, VT, VIII, 1958, págs. 374-379. (69) Heb. sapsapâ, a tradução de RSV para esta rara palavra é confirmada pela observação de G.R. Driver em Biblica, XXXV, 1954, pág. 152.

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EZEQUIEL 17:10-20 (Dt 8:7; 11:11), onde pôde crescer, dependente da Babilônia. Uma mu­ dança da direção no crescimento da videira é uma coisa bem diferente do que ser transplantado para uma situação totalmente diversa. Isto signifi­ caria que Zedequias estava transferindo sua corte de Jerusalém para o Egi­ to, e nada de tão drástico já foi contemplado, pelo que saibamos. A única maneira de defender logicamente a interpretação de RSV é explicando o v. 5 como sendo o plantar do membro da família real (Joaquim ou Zede­ quias?) na terra irrigada da Babilônia, i. é, na esfera da sua lealdade. É as­ sim que Howie, por exemplo, interpreta, mas ele complica mais a questão ao entender que a primeira ponta era Joaquim, prosperando no cativeiro, e que a videira no v. 7 era Zedequias, cuja lealdade foi transplantada para o Egito.70 De modo geral, a interpretação de ARA e ARC é mais consisten­ te com a parábola que está sendo contada. 17:11-21. A parábola explicada. O aspecto mais notável da expli­ cação do profeta é a maneira de demonstrar como o relacionamento de dependência imposto por Nabucodonosor sobre Zedequias é considera­ do como sendo o equivalente a uma aliança solene que o vassalo rompe com grande risco para si. Seja o que for que se pense dos padrões das nações pagãs, a política de Nabucodonosor era indubitavelmente tomar seus vizinhos fracos e mantê-los assim(14). Zedequias não tinha opção senão submeter-se ao seu suserano. Ao enviar embaixadores para o Egito, desprezou o juramento, violando a aliança (18), e, diz Javé, tratava-se de meu juramento e minha aliança (19). Semelhante rebelião traria não so­ mente o desagrado da Babilônia, como também o castigo da parte de Deus - embora, na prática, aquele era idêntico a este (20). As implicações desta atitude são de grande alcance. Indica que acor­ dos feitos e obrigações assumidas pelos adoradores de Deus são tão obri­ gatórios como se tivessem sido feitos com Deus pessoalmente. O que era aplicável no código elementar da política internacional entre os pequenos estados do Oriente Médio no século VI a.C., decerto deveria ser aplicável com igual força aos acordos internacionais no mundo mais esclarecido (?) de hoje. E aquilo que se aplica às nações deve, presumivelmente, ser obri­ gatório para os relacionamentos sociais e pessoais também. A violação de um tratado, de um contrato, de uma promessa ou de qualquer outro tipo de aliança envolve Deus, além da pessoa que é assim lesada. A situação histórica esboçada nestes versículos é iluminada pela nar­ (70) Howie, págs. 44-45.

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EZEQUIEL 17:21-18:1 rativa em Jeremias 37, que mostra que uma força egípcia foi aparentemen­ te enviada em direção a Jerusalém, provavelmente no verão de 588 a.C., em resposta às propostas de Zedequias. A aproximação deste exército pro­ vocou um levantamento temporário do cerco de Jerusalém que uma for­ ça punitiva babilónica já havia iniciado em janeiro do mesmo ano (2 Rs 25:1; Jr 52:4). Nada sabemos do destino dos egípcios, mas podemos supor que seus esforços foram mal-sucedidos, e, além do mais, tíbios, porque logo o cerco foi renovado por mais um ano, até que Jerusalém fi­ nalmente caiu em julho de 587 a.C. Uma referência cruzada interessante acha-se nas cartas de Laquis, uma coletânea de vinte e um óstracos achada nas ruínas escavadas de Laquis (moderno Tell-ed-Duweir) que inclui rela­ tórios enviados ao governador militar local por um dos seus comandantes num posto avançado, acerca do progresso da campanha contra os exérci­ tos babilónicos. Um destes, que pode ser datado cerca de 590 a.C., dá a informação de que “Conias, filho de Elnatã, comandante do exército, des­ ceu a caminho do Egito.”71 Resta-nos conjecturar o objetivo da sua via­ gem, mas é bem possível que fosse para obter assistência do Faraó Psametico II (593-588). 17: 22-24. Outra parábola do cedro. Desta vez, é o Senhor Deus que atua. Depois da falha das duas águias em estabelecerem o estado de Israel sob seu extensivo e poderoso patrocínio, Deus diz: Também eu (enfático) a plantarei sobre um monte alto onde crescerá, se tomará conspícua e atrairá as aves do céu para abrigar-se sob sua proteção. O renovo tenro da ponta de um cedro (22) refere-se a um membro da dinastia davídica, em­ bora Ezequiel dificilmente poderia saber como isto seria cumprido. A linhagem real, no entanto, floresceria de modo contrário a todas as aparên­ cias, e as demais nações seriam incorporadas sob seu domínio seguro e de grande alcance. Ao assim fazer, o Senhor inverteria a ordem esperada das coisas, de modo que nações poderosas tais como a Babilônia e o Egito (a árvore alta, a árvore verde) secariam e murchariam, ao passo que a bai­ xa e a seca floresceriam mediante a Sua palavra (24; cf. 1 Sm 2:4-8; Lc 1:51-53). i. A lei da responsabilidade individual (18:1-32) A objeção com que Ezequiel lida neste capítulo é expressa nas pala­ (71) DOTT.pág. 214.

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EZEQUIEL 18:1 vras de um provérbio muito usado: “Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram” (2). Que este era um provérbio co­ mum no Israel antigo daquele período é evidenciado pela referência que lhe faz Jeremias (Jr 31:29), embora o usasse num contexto levemente diferente de Ezequiel.72 O significado é comum às duas referências, por­ que o provérbio está dizendo que os sofrimentos de uma geração são devi­ dos aos dos seus antepassados. Tanto Jeremias quanto Ezequiel conside­ ravam perniciosa esta doutrina, porque inevitavelmente levava a um espí­ rito de fatalismo e de irresponsabilidade. Se a culpa realmente pudesse ser atribuída a uma geração anterior, aqueles sobre os quais o julgamento estava caindo poderiam razoavelmente dar de ombros diante de qualquer senso de pecado, e acusar Deus de injustiça (“O caminho do SENHOR não é direito,” v. 25). Antes de tomarmos o partido de Ezequiel em deplorar esta atitude, notemos, em primeiro lugar, dois fatores que tomaram o provérbio emi­ nentemente razoável e que, sem dúvida, explicam sua atração generaliza­ da. Em primeiro lugar, o conceito de uma responsabilidade continuada pe­ los pecados ancestrais é uma crença profundamente arraigada, herdada dos Dez Mandamentos no Sinai. “Eu sou o SENHOR teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem” (Êx 20: 5). Em segundo lugar, havia sido a base de boa parte dos ensinos do próprio Ezequiel, a saber: os sofri­ mentos do exílio remontavam à persistente rebelião, idolatria e infidelida­ de à aliança da parte de gerações prévias dos israelitas. O exílio era, em efeito, meramente a devida conseqüência destes atos acumulados de deso­ bediência. Além disto, havia o elemento de aparente injustiça na maneira indiscriminada que o julgamento divino caía sobre a nação, sobre os maus e os bons igualmente. A isto, Ezequiel responde com a asseveração, sem, porém, argumen­ tar sobre a questão, de que as pessoas, aos olhos de Deus, são indivíduos, e Ele as trata como tais. Cada homem é um assunto de solicitude para Ele. “Eis que todas as almas são minhas” (4). O justo viverá; o ímpio morrerá. Toda pessoa será responsável diante de Deus por sua própria conduta. A isto, Ezequiel certamente acrescentaria que, longe de terem motivo para (72) O uso em Jeremias é escatológico (observe as frases, “Eis que vêm dias”, “Naqueles dias”, “Eis aí vêm dias” em Je. 31:27, 29, 31). A cessação do uso desse provérbio é um aspecto associado por Jeremias aos dias vindouros da nova aliança que Deus faria com Judá e Israel.

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EZEQUIEL 18:1-4 culpar seus antepassados pecaminosos pelos seus sofrimentos presentes, os exilados eram mais culpados do que seus pais, porque tinham pecado mais e suas idolatrias eram maiores (cf. cap. 8). Nem toda a culpa poderia ser atribuída a Manassés e seu reinado de impiedade. Para reforçar sua asseveração acerca da liberdade do indivíduo, Ezequiel passa, nos w. 21ss., a oferecer a possibilidade de uma vida transfor­ mada. O julgamento individual nunca é tão definitivo que não possa ser invertido por uma transformação de coração e de conduta. O perverso pode arrepender-se e praticar a justiça e viver, e, pela proposição inversa, o justo pode recair em caminhos pecaminosos e incorrer no julgamento da morte. Numa palavra, o julgamento cairá sobre cada homem no estado em que for achado. Esta declaração clássica da responsabilidade individual não deve, no entanto, ser entendida em completo isolamento. Não é uma contradição total do conceito tradicional da responsabilidade coletiva. É mais um con­ trapeso a ele. A unidade da família ou do grupo tribal era da essência da psicologia hebraica. Era vinculada a idéia da continuação da linha da fa­ mília através da filiação direta, além do relacionamento segundo a alian­ ça que existia entre o Deus de Israel e a comunidade de Israel. Para negar tudo isto teria necessitado mais do que uma mera asseveração. Toda ati­ tude para com a vida teria que ser radicalmente reescrita e dogmaticamente reformulada por Ezequiel. A solidariedade comunitária e a responsabilida­ de coletiva eram fatos sobre os quais a experiência testificava. O alvo de Ezequiel é demonstrar que não são os únicos fatos. A comunidade redimi­ da de Deus é uma nação de indivíduos justos ou arrependidos. E na situa­ ção com a qual o profeta estava imediatamente preocupado, era perigoso par os exilados ficarem ocultos por detrás de um conceito desequilibrado da sua responsabilidade nacional a fim de evitarem a exigência profética para arrependimento e um novo modo de vida. 2. A atitude é bem expressa em Lamentações 5:7: “nossos pais pe­ caram, e já não existem; nós é que levamos o castigo das suas iniqüidades.” 3. Jeremias previa um dia futuro em que este provérbio já não seria usado (Jr 31:29); mas Ezequiel insiste em que cesse imediatamente. 4. Como em 13: 20, a palavra almas não deve ser entendida em ter­ mos de espíritos desincorporados. A alma (nepes) hebraica representava a totalidade da pessoa ou da força vital dentro dela. Nenhuma palavra isola­ da em português pode traduzir as várias nuanças transmitidas pelos qua­ tro usos de nepes neste versículo. Talvez a tradução mais aproximada, pa­ ra evitar a palavra ambígua “alma,” seja: “Eis que todas as vidas são mi135


EZEQUIEL 18:5-9 nhas; a vida do pai... a vida do filho... a pessoa que pecar, essa morrerá.” 18: 5-20. Três casos para ilustrar o princípio. Os exemplos dados são: um homem justo praticando a justiça (5-9); o filho ímpio de um pai justo (10-13); e filho justo de um pai iníquo (14-18). Descritos em termos de três gerações de uma só família, é bem possível que sugiram as vidas dos três grandes reis do século VII: Ezequias, seu filho Manassés, e Josias, neto de Manassés. 6. A lista consiste principalmente em qualidades morais, embora os dois primeiros itens sejam delitos religiosos. Comendo came sacrifica­ da nos altos significa “comendo sobre os montes”, participando de refei­ ções sacrificiais ali, apropriadamente acompanhado pelo levantar dos olhos, presumivelmente em oração ou em algum tipo de subserviência, para os ídolos (para o heb. gillülim, ver sobre 6: 9). O delito do adultério, expressamente proibido no Decálogo, vem acompanhado por uma contami­ nação cerimonial referida em Levítico 15:24; 18:19. Embora a segun­ da destas ações não seja repetida nas listas nos w. 11 e 15, não é argumen­ to para omiti-la aqui, como se fosse um acréscimo; os dois delitos ocor­ rem outra vez em 22: 10-11. 7. A opressão era a ação arbitrária de um proprietário ou mercador poderoso contra o pobre endividado ou contra o fraco que não conhecia seus direitos de cidadão ou que não podia fazer uso deles. O órfão e a viú­ va e o estrangeiro residente (o “peregrino”) eram alvos fáceis para os inescrupulosos (cf. Am 2:6-7; Ml 3: 5). Tomando ao devedor a coisa pe­ nhorada refere-se a tarefa de devolver a um devedor qualquer artigo to­ mado como penhor, que lhe fosse necessário para sua existência ou para seu bem-estar, e.g. sua capa à noite (cf. Êx 22: 26; Dt 24: 6; Am 2: 8). 8. A proibição da usura, que se acha aqui e em listas similares de exigências éticas (e.g. SI 15: 5), refere-se a empréstimos caridosos para pes­ soas necessitadas. Deuteronômio 23: 19-20 permitia juros sobre emprés­ timos a estrangeiros, mas não a outros israelitas. A prática destruía o espí­ rito da caridade verdadeira, abria o caminho para a extorsão através de altas taxas de juros, inevitavelmente levava à escravização do devedor que não conseguia saldar a dívida. Trata-se de uma coisa bem diferente das prá­ ticas modernas de emprestar dinheiro para propósitos comerciais. Nos dois casos, no entanto, exige-se o princípio do verdadeiro juízo entre homem e homem. 9. As exigências finais, resumindo, por assim dizer, as exigências religiosas e morais determinadas, são claramente religiosas. Na mente 136


EZEQUIEL 18:10-24 de Ezequiel, como no caso de todos os escritores do Antigo Testamen­ to, a moralidade era a expressão da religião do homem. Não podia haver divórcio entre as duas. 13. Não viverá... será morto. Esta última frase traduz a fórmu­ la jurídica comum para a condenção. O que significa? Provavelmente os destinos alternativos da vida e da morte se refiram àquilo que aconte­ cerá no julgamento que é iminente. Mas Muilenburg tem razão em suge­ rir que “há mais do que uma implicação de que os justos experimentam a vida, e os ímpios experimentam a morte, aqui e agora.”73 Os conceitos hebraicos da vida e da morte representam, não dois estados distintos, mas, sim, os dois poios na única escala graduada da existência. Na sua ex­ tremidade inferior há a morte, o sofrimento, a doença e até mesmo o can­ saço e na sua extremidade superior há vários graus de prosperidade, tendo a felicidade e a bênção divina como o sumo bem. Este, na realidade, não está muito aquém da “vida abundante” ou “vida eterna” do Novo Testa­ mento, a saber: uma vida vivida na presença de Deus e com Sua bênção. 19. Os três casos que acabam de ser descritos levam de volta ao problema das uvas verdes. Se se pensa no filho como sendo uma parte do pai, uma continuação da sua personalidade numa geração posterior, por que não deve sofrer juntamente com seu pai e compartilhar do seu casti­ go? A negação categórica de Ezequiel declara que a iniqüidade não é ne­ cessariamente herdada, assim como a justiça não é herdada. A justiça ou a iniqüidade do indivíduo ficará sobre ele (20). 18:21-32. O caso de uma vida transformada. O desenvolvimento lógico do argumento anterior de Ezequiel é continuar dizendo que o indi­ víduo não precisa viver debaixo da sombra dos seus pecados anteriores. Se puder voltar-se dos pecados do seu pai, presume-se que poderá voltarse dos seus próprios. 23. Não se trata, entretanto, de mera lógica. A razão por detrás da asseveração é a preferência (se esta não for uma palavra fraca demais) que Deus tem em os homens se arrependerem e viverem. É o anseio e a vontade e o propósito do Senhor que os homens sejam salvos. Seme­ lhante anseio deve ser compartilhado por todo pregador que se aventura a falar acerca do julgamento divino. Cf. 2 Pedro 3: 9. 24. O inverso, tristemente, também é verdadeiro: um início reto pode ser arruinado por uma queda no pecado. A referência não diz respei­ (73) Peake, in loc.

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EZEQU1EL 18:25-19:1 to a um lapso temporário, mas, sim, a uma escolha persistente do mal, que altera o curso da vida de um homem. A acusação de injustiça que é feita contra o Senhor (25,29) é devol­ vida contra os acusadores. São eles cujos caminhos não são justos (são... tortuosos). A lei da responsabilidade individual que Ezequiel está expon­ do é supremamente justa, porque cada homem tem sua própria escolha pessoal e a oportunidade para viver. Deus julgará cada um segundo os seus caminhos (30). É a combinação deste fato com o conhecimento de que Deus não tem prazer na morte de ninguém (32) que leva Ezequiel a apelar ao povo, em nome de Deus, no sentido de se arrepender e de se voltar a Ele. Como um povo, talvez sejam rebeldes e idólatras,.mas como indiví­ duos, pode-se apelar a eles e, através do seu arrependimento, podem ser salvos. 31. Criai em vós coração novo e espirito novo. A linguagem é aquela da exortação humana. Seria injusto para com Ezequiel sugerir que considerasse estes como sendo oútra coisa senão as dádivas de Deus. Ele mesmo diz assim em 36:26: “Dar-vos-ei coração novo, e porei dentro em vós espírito novo.” O esforço e a atividade são necessários, no entanto, a nível humano, a fim de levar a efeito o arrependimento e possibilitar a realização da reforma espiritual. O fatalismo resulta na inatividade e é mor­ tífero para a alma. Viver segundo o provérbio do v. é capitular e morrer. Por que morreríeis, ô casa de Israel? j. Uma lamentação sobre os reis de Israel (19:1-14) Este poema é o primeiro exemplo que Ezequiel nos deu da qinâ, que é traduzida de várias maneiras: “endecha,” “elegia,” ou “lamentação.” Consiste numa composição escrita nos tons tristonhos distintivos do rit­ mo qinâ, em que os dois membros da estrofe têm comprimento desigual, no padrão de 3:2. É rara a possibilidade deste ritmo ser captado numa tra­ dução em português, porque em hebraico os tons são usualmente um por palavra, e quando uma única palavra hebraica é traduzida, freqüentemen­ te exige várias palavras em português para expressar seu significado. O v. 2b expressa melhor a métrica: 1

2 3 de-leões deitada 1 2 cnoui seus-cachorros

No-meio

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EZEQUIEL 19:1-4 Outros exemplos da mesma métrica em Ezequiel acham-se em 26:17-18; 27:3-9; 28:12-19; 32:2-8. Ocorre freqüentemente em outras partes do Antigo Testamento, especialmente nos Salmos (onde até mesmo Salmo 23 a emprega) e nas lamentações proféticas e, naturalmente, é típica de boa parte de Lamentações. Os sujeitos da lamentação de Ezequiel eram: Jeoacaz, filho de Josias, que foi levado preso para o Egito em 609 a.C. (4); Joaquim, filho de Jeoaquim, que foi exilado para a Babilônia em 597 a.C. (9); e Zedequias, também um filho de Josias, que foi o último da linhagem davídica de soberanos, e virtualmente terminou a dinastia. (14). Se o poema de­ ve ser datado com o restante da seção que acompanha, entre 592 e 591 a. C., a primeira parte é um retrospecto histórico, mas Zedequias ainda não se rebelara nem sucumbira diante do poder babilónico. Alguns, portanto, considerarariam os w. 10-14 como sendo um acréscimo posterior, e isto pode ser a verdade, mas não há necessidade de negá-los a Ezequiel, cujo estilo seguem estreitamente. Alternativamente, a referência ao fim desas­ troso de Zedequias pode ser profética, e o poema pode, neste caso, ser considerado uma unidade. O tema aplicado a todos estes três reis é o da grandeza humana que é reduzida a nada. Apesar de toda a sua proeza e todo o seu renome, estes homens foram vítima do julgamento de Deus sobre suas vidas. Isto não quer dizer que Ezequiel os teria descrito to­ dos como sendo totalmente corruptos, embora pouca coisa de bom tives­ se a dizer acerca de Zedequias. É provável que compartilhasse da avalia­ ção feita pelo escritor de 2 Reis, que fizeram “o que era mau perante o SENHOR” (2 Rs 23: 32; 24:9; 19). Seu zelo pela aliança davídica, no en­ tanto, não permitia que ele visse três dos herdeiros da aliança desaparece­ rem para o exílio sem tristeza e emoção profundas. Este não era um cân­ tico de zombaria. O julgamento do Senhor podia ser muito doloroso, e Ezequiel o sentia agudamente. 1. Note outra vez que a palavra melek, “rei,” é evitada em favor da palavra mais geral nàsí, “príncipe.” Cf. 7: 27; 12: 12. 2-4. O destino de Jeoacaz. A leoa deve ser entendida como sendo, não Hamutal, esposa de Josias e mãe de Jeoacaz e Zedequias, mas, sim, como a nação que fora a mãe destes reis. Os leões, aliás, eram comuns na Palestina até pouco depois das Cruzadas, e o hebraico tem cinco pala­ vras diferentes para descrevê-los (sendo que todas elas ocorrem em Jó 4:10-11, e três delas se acham aqui no v. 2). Para o leão como parte da linguagem figurada nacional, cf. Gênesis 49:9; Miquéias 5:8; e possi­ velmente 1 Rs 10: 19-20. Muilenburg refere-se ao leão real no sinete de 139


EZEQUIEL 19:4-9 Shema achado em Megido.74 Jeoacaz reinou somente durante três meses, de modo que a descri­ ção do seu renome deve ser considerada uma transferência poética para ex­ pressar a glória da linha davídica que Jeoacaz representava. Foi levado preso para o Egito pelo faraó Neco (2 Rs 23:33), conforme Jeremias pre­ vira (Jr 22:10-12; Salum era outro nome para o mesmo homem). 19:5-9. O destino de Joaquim. O sucessor de Jeoacaz foi seu ir­ mão Jeoaquim, mas Ezequiel o deixa de lado e passa diretamente para o filho deste, Joaquim. Ele também reinou apenas três meses antes de se tomar a vítima da má conduta do seu pai. Jerusalém já estava sendo atacada, porque Jeoaquim recusou-se a pagar tributo a Nabucodonosor, quando o príncipe de dezoito anos de idade subiu ao trono. Seu reinado foi breve e patético, e seu exílio na Babilônia longo e cansativo. Ver 2 Reis 24: 8-15; 25:27-30.75 5. Frustrada é uma conjectura, numa tentativa de fazer sentido nu­ ma forma hebraica rara. Uma leve emenda, proposta por Comill, dá o sen­ tido: “agira estultamente,” mas a dificuldade ainda permanece. 7. Aprendeu a fazer viúvas. O hebraico para viúvas e “cidadelas” é muito semelhante e ocasionalmente confundido (e.g. Is 13 :22), e a raiz “saber” quase certamente tinha as mesmas letras (y-d-”) de uma raiz que significa “humilhar”, e esta era fonte de confusões freqüentes. Devemos entender aqui, portanto: “Subjugava suas cidadelas,” o que oferece um paralelismo perfeito com a frase seguinte. 9. A palavra para jaula (heb. sugar) é emprestada do acad. sigam, que significa ou uma jaula de animal, oü um colar para o pescoço por meio do qual fileiras de prisioneiros eram ligados por cordas. A palavra no he­ braico moderno significa uma “coleira para cachorro”! 19:10-14. O destino de Zedequias. Embora a ilustração tenha sido alterada, a mãe ainda deve ser entendida como sendo a nação de Israel. O símbolo da videira e da vinha era predileto de Ezequiel (15:1-6; 17:110) bem como de outros escritores (Is 5:1-7; 27:2-6; SI 80: 8-16; cf. Mt •21:33-41; Jo 15:1-8). Tinha uma ascendência honrosa desde Gênesis (74) Em Peake, pág. 579a; a esfinge é ilustrada em ANEP, nr. 276, ou em A. Reifenberg, Ancient Hebrew Seals (1950), fig. 1. (75) Para uma visão mais detalhada do fundo histórico desse capítulo, ver Introdução, págs. 30-31.

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EZEQUIEL 19:9-20:1 49:9-12, onde se acha a mesma linguagem figurada que Ezequiel usa aqui: leões, cetros, e videiras. Nesta alegoria, a videira, plantada numa terra com muitas águas, floresce e brota varas fortes, tais como cetros reais, e estes representam a sucessão dos soberanos da nação. Quando a videira foi arrancada pelas raízes, portanto, seu tronco forte secouse, e foi queimado. A videira foi transplantada para uma terra deserta, e, ao mesmo tempo, fogo saiu do seu ramo principal e destruiu todo o seu fruto e o restante da sua folhagem. Esta é claramente uma referência a Zedequias, o último soberano de Israel, que era considerado a causa do colapso final da nação. 10. De sua natureza. A tradução supõe que heb. dam, “sangue,” foi confundido com dàmâ, “ser semelhante.” Outro texto proposto é rãmâ, “altura,” “altivez.” O TM daria: “no teu sangue.” 14. O versículo se refere à rebelião de Zedequias que trouxe como conseqüência as medidas punitivas da Babilônia que virtualmente termina­ ram com a identidade nacional de Israel, pelo menos durante muitos anos, e certamente levou fim a linhagem davídica. Logo, a causa da sua própria destruição foi achada dentro de si mesma, e vale a pena notar que a maio­ ria das instituições humanas que envolvem seres humanos terminam de modo muito semelhante. k.

Um retrospecto da história de Israel e dos futuros planos de Deus para ele (20:1-44)

Diferentemente da ilustração da criança enjeitada (cap. 16) e da parábola de Oolá e Oolibá (cap. 23), temos aqui uma descrição da história passada de Israel em rebelião contínua contra o Senhor, expressa em ter­ mos históricos reais, sem a ajuda de metáforas e de alegorias. Este capítulo segue as linhas gerais dos principais eventos do passado, começando no Egito e indo para o Êxodo, a experiência no deserto, a vida em Canaã, e a dispersão final entre as nações. Há certo número de temas que voltam a ocorrer: (a) a rebelião de Israel, a despeito do modo misericordioso pelo qual Deus o trata, dando-lhe numerosas bênçãos e repetidas vezes refrean­ do Sua ira - deixando de derramá-la sobre ele. (b) As peregrinações no deserto, sendo mais do que simplesmente um episódio na história de Is­ rael. Representavam um estado mental e as suas conseqüências. Assim, o período final da história de Israel, a dispersão no exílio, é visto como uma volta à vida do deserto que antecedera a colonização em Canaã 141


EZEQUIEL 20:1-4 (v. 35: “Levar-vos-ei ao deserto dos povos”), (cj O tema da preocupação de Javé com Seu próprio nome. Este é um aspecto novo nos escritos de Ezequiel, e aparece mais tarde nos capítulos 36 e 39, mas não está total­ mente ausente, em lugar algüm, do pensamento do profeta. Sua relevân­ cia é que representa uma cessação da parte de Deus das Suas bênçãos para com Israel, segundo a aliança, porque os israelitas tinham abando­ nado completamente suas próprias responsabilidades sob a aliança. Todas as exigências da aliança, tais como os estatutos e as ordenanças do Sinai, tinham sido violadas, e o sinal da aliança, o sábado, fora profanado. Deus, portanto, era justo em aplicar as sanções da aliança. Ainda era, no entan­ to, o Deus da misericórdia; agora, porém, Seus atos de misericórdia eram motivados primariamente por uma preocupação com Seu próprio “nome” (i. é, glória, reputação), tendo em vista as conclusões a que che­ gariam as nações do mundo que observavam. 20:1-4. A consulta dos anciãos. A data é dada como sendo o dé­ cimo dia do mês de Ab (julho-agosto) do ano 591 a.C.76 Nenhuma indica­ ção é dada quanto ao propósito da visita dos anciãos. É possível que te­ nham vindo assentar-se diante de Ezequiel com a esperança de ouvir algu­ ma notícia da pátria ou uma palavra da parte de Deus acerca da duração do seu exílio, como em 14:1. Podem ter feito a Ezequiel uma pergunta específica à qual desejavam uma resposta. O v. 32 tem sido interpretado por alguns para sugerir que os anciãos estavam defendendo uma forma de sincretismo, e que estavam procurando obter o apoio de Ezequiel para a sua política. Isto certamente estaria de acordo com a rejeição decisiva na res­ posta de Ezequiel, mas a questão permanece sendo inteiramente especu­ lativa. A razão dada para a recusa em responder à pergunta dos anciãos é enigmática: as abominações de seus pais (4). Interpretar isto como sendo uma acusação contra os anciãos com base nos pecados dos seus antepas­ sados envolveria uma negação de boa parte daquilo que Ezequiel estava argumentando no que diz respeito à responsabilidade individual. A lição é que, por alguma razão não explicada, a pergunta é impertinente, e pre­ cisa de nada mais senão um panorama dos pecados passados de Israel pa­ ra demonstrar que a história já respondeu à pergunta deles. Assim fica explicada a impaciência da frase repetida: Julgá-los-ias? (4), que tem a força de um imperativo: “expõe as acusações contra eles.” (76) Ver notas cronológicas em Introdução, pág. 34.

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EZEQUIEL 20:5-10 20: 5-9. Israel no Egito. A freqüência da palavra enfática levantan­ do a minha mão (RSV “jurei”), nos w. 5, 6, 15, 23, 28 e 42, ilustra a abundância da graça de Deus ao Se obrigar de tal maneira às Suas miseri­ córdias para com Israel, conforme Sua aliança. Esta graça foi primeiramen­ te demonstrada na auto-revelação de Javé a Moisés (Êx 6:2-8) nas palavras: Eu sou o SENHOR (i.é, Javé) vosso Deus. Esta passagem é considerada co­ mo sendo o momento no tempo em que o Senhor escolheu Israel, aliás a única ocasião em que esta palavra é usada em Ezequiel. A história de Is­ rael começa, portanto, não com Abraão mas, sim, com Moisés e a sarça ardente, e com o nome de Javé revelado como o nome definitivo do Deus de Israel segundo a aliança. 6. A primeira etapa da história de Israel é marcada pela promessa de Deus de uma terra... a qual mana leite e mel, uma descrição conscien­ temente fantástica de uma bênção de valor superlativo (cf. Jr 3:19). A única exigência feita foi a rejeição dos ídolos do Egito (7), mandamen­ to este que foi totalmente ignorado (8). Não há indicação no Pentateuco acerca da vida religiosa dos israelitas no Egito, mas pode-se supor com se­ gurança que não tinham muito sucesso em manter esta pureza religiosa, se a história posterior pode servir de indício, e podemos imaginar a tarefa longa e difícil que Moisés tinha, no sentido de educar seu povo para acei­ tar a revelação de Javé que lhe fora feita na sarça ardente. A exigência do primeiro dos Dez Mandamentos subentende que Israel devia sair da etapa da aceitação de outros deuses para entrar numa adoração exclusiva a Javé. 9. O nome de Javé expressa Sua natureza, Sua personalidade total conforme Ele Se revelou. É paralelo à Sua “glória,” i.é, Sua majestade gloriosa, e pode referir-se à Sua reputação aos olhos dos homens. Se os homens pensarem retamente acerca dEle e reconhecerem Seus atributos pelo que são, e assim O adorarem, pode-se dizer que o “santificam”. Pela proposição inversa, entender erroneamente a Sua natureza e estimá-Lo me­ nos do que deveria ser estimado é profanar Seu nome. É o dever do novo Israel, assim como o era do velho Israel, cuidar para que o nome de Deus não seja profanado através de um testemunho inadequado à Sua natureza e à Sua verdade. Os pecados e as deficiências do crente inevitavelmente re­ sultam em semelhante profanação. Deus, porém, pode tomar medidas espe­ ciais para contrabalançar tal coisa, e freqüentemente o faz, e assim garante que o fiel testemunho a Ele e ao Seu poder não seja completamente extin­ guido. 20:10-26. Israel no deserto. O padrão de graça, rebeldia, e ira re­ 143


EZEQUIEL 20:11-26 freada, que é atribuído à história de Israel no Egito nos w. 5-9, agora é desenvolvido em conexão com o período do deserto. Primeiramente, nos w. 10-17, mencionam-se a graciosa libertação no Êxodo, a dávida da Lei, e o estabelecimento do sábado como sinal da aliança. Vale a pena notar que, a despeito das severas críticas neotestamentárias ao valor espiritual da lei como um instrumento da salvação (e.g. Jo 1:17; At 13:39; Rm 3:20; G1 3: 19ss.), é bem claramente considerada uma dádiva graciosa de Deus, por meio de Moisés, ao Seu povo, e foi ordenada de modo que, pela' observância dela, o homem viverá por ela, i.é, “prosperará,” tanto material quanto espiritualmente (cf. Dt. 4:40; Js 1:7-8). Diante da rejei­ ção por Israel da Sua graça, o Senhor disse que os consumiria totalmente (13) e furou não deixá-los entrar na terra de Canaã (15), mas até mesmo es­ tas decisões foram alteradas diante da Sua sobrepujante preocupação com Seu nome. Nada há de inconsistente quando a Deidade muda Sua opinião, ou Se “arrepende”, em tais circunstâncias. Em segundo lugar, nos w. 18-26, Deus oferece uma oportunidade se­ melhante à segunda geração dos israelitas no deserto, mas a resposta é idên­ tica àquela dos seus pais. Desta vez, embora Deus Se refreie mais uma vez em derramar a Sua ira, deixa Israel com dois legados infelizes, a saber: a ameaça da dispersão, a partir de Canaã, entre povos estrangeiros (23, 24), e a ordenança nociva do sacrifício dos primogênitos (25, 26). Esta última apresenta um problema agudo de interpretação. Segundo parece, refere-se à prática de “queimar a seu filho como sacrifício a Moloque,” uma forma de sacrifício infantil tão forte e constantemente condenada no Antigo Tes­ tamento que é bem possível que tenha ocorrido com muito mais freqüên­ cia do que os eventos ocasionais mencionados (e.g. 2 Rs 21:6; 2 Cr 28:3; cf. 2 Rs 17: 17; 23:10, 13; Jr 7:31; 22:35). Isto, no entanto, nun­ ca poderia ser descrito como um estatuto de Deus. Pode ser que o estatu­ to referido seja o da oferta do primogênito, com sua insistência de que tu­ do quanto abre a madre pertence ao Senhor. Este estatuto é modificado pela lei da redenção, mediante a qual uma substituição, ou preço de res­ gate, pode ser providenciada para os primogênitos (Êx 22:29; Nm 18: 15ss.). Mas a continuação ocasional do sacrifício infantil era provavelmen­ te devida a uma falsa interpretação desta lei, de modo que Ezequiel pudes­ se dar a entender que foi Deus, em última análise, que a fizera assim. A al­ ternativa é entender estes versículos segundo Romanos 1:24, que diz que a conseqüência da perversidade espiritual é que Deus “entrega os homens” a pecados mais grosseiros. 144


EZEQUIEL 20:27-44 20:27-29. Israel em Canaã. A rebelião culminante da história de Israel foi que quando, finalmente, pela misericórdia de Deus, entraram na terra prometida, imediatamente adotaram os santuários pagãos cananitas nos altos das colinas como seus próprios lugares de sacrifício, e ofertas que deveriam ter sido aceitáveis a Deus foram nada menos do que provo­ cantes (28; “uma irritação”). Bamah (29), “lugar alto,” é introduzida por causa do jogo de palavras em mâ (“o quê?”) e bà' (“ir”). Não deve ser en­ tendido como uma tentativa séria da parte de Ezequiel de tratar da etimo­ logia. O resultado é: Que alto é este, aonde vós ides?” 20:30-39. As conseqüências do passado de Israel. A palavra agora vem para a atual casa de Israel, que cometia aquelas práticas idólatras até ao dia de hoje (31). Em especial, a mensagem é dirigida aos anciãos que vieram inquirir ao Senhor, informando-os que não haveria palavra para eles. Não será permitido que aconteça a atitude insidiosa de assimilação dos modos idólatras dos pagãos (32). Deus intervirá, e isto com a mesma mão forte e braço estendido que salvaram Israel no Êxodo; Ele Se toma­ rá Rei sobre eles e os levará em julgamento para outra experiência do de­ serto (cf. Os 2:14-15; 12:9). Esta experiência servirá de purificação para Israel; os impuros não voltarão mais, e aqueles que desejam a idolatria po­ derão praticá-la, mas isto em isolamento dos israelitas fiéis, para não mais profanarem o nome de Deus (39). 20:40-44. Os bons propósitos de Deus para Israel. Um remanes­ cente purificado adorará ao Senhor no seu santo monte, no monte Sião, o centro determinado para o culto a Ele e o lugar da Sua habitação. As ofertas melhores selecionadas serão feitas, a adoração do povo será aceita, e isto acabará sendo uma manifestação diante de todas as nações da santi­ dade de Javé (41 ).-Serei santificado em vós significa: “Serei reconhecido como Deus entre vós,” e isto, mais do que qualquer preocupação pessoal com Seu povo rebelde, permanece sendo o alvo final de Deus (ver a nota supra, do v. 9). Ao mesmo tempo, o povo estará totalmente dominado pe­ la vergonha dos seus pecados do passado (43) e supõe-se que seu espírito de arrependimento também testificará da natureza e da santidade de Deus. É precisamente neste aspecto, por causa da falta de um senso de ver­ gonha e de um espírito de arrependimento, que os anciãos são mostrados como culpados, e achados indignos de receber uma palavra de um Deus santo. 145


EZEQUIEL 20:45-21:5 1.

O julgamento pelo fogo e pela espada (20:45-21: 32)77

20:45-49. Um incêndio na floresta do Sul. Ezequiel é ordenado a dirigir suas palavras para o sul (46). Embora a palavra Sul ocorra três vezes neste versículo em ARC (uma das vezes é oculta em ARA), o hebraico emprega três palavras diferentes (têmànâ, dãrôm e negeb). Destas, as duas primeiras são palavras poéticas gerais para descrever uma direção suli­ na, ao passo que a terceira se refere a uma área geográfica com nome, até hoje chamada Neguebe no Israel moderno, ao sul das colinas de Judá. Ho­ je, é deserto árido, menos onde colônias agrícolas a irrigaram para tomálo cultivável, mas sabemos que nos tempos do Antigo Testamento havia maior reflorestamento em todas as partes da Palestina, de modo que uma referência ao bosque do Sul não precisa ser considerada completamente figurada. Ezequiel pode ter reforçado suas palavras ao voltar-se para a di­ reção sulina enquanto pronunciava seu oráculo, predizendo que o Senhor fará com que um incêndio de floresta varra o país do sul até o norte. To­ dos o verão, e ninguém poderá evitar o seu calor (47; com ele se queima­ rão todos os rostos). Os homens reconhecerão que foi enviado pelo Se­ nhor como ato de julgamento. O v. 49 pressupõe que Ezequiel já pronun­ ciou seu oráculo e que foi ridicularizado pelos seus ouvintes como proferidor de parábolas, ou, para conservar a forma cognata do hebraico: “um enigmador de enigmas.” Tendo em vista tudo que fora falado, a queixa não é totalmente sem justificativa. 21:1-7. A parábola explicada. A fraseologia dos w. 2-5 é compos­ ta para adaptar-se com a de 20:4648. O Sul toma-se, primeiramente, Jerusalém, depois, os santuários, e finalmente, a terra de Israel. O incên­ dio da floresta toma-se uma espada, que matará assim o justo como o per­ verso (“toda árvore verde e toda árvore seca”), e todos os homens reconhe­ cerão que é o Senhor quem fez isto (5). O tema da espada do Senhor re­ monta até a visão de Josué, às margens do rio Jordão, do comandante do exército do Senhor com sua espada desembainhada na mão (Js 5 :13ss.). Ali, Ele lutava em prol do Seu povo, para capacitá-lo a entrar vitoriosa­ mente na terra prometida. Noutras passagens, especialmente nos profetas, Deus brande Sua espada contra os inimigos de Israel (Dt 32:41; Is 31:8; 34:5-8; 66:16; Jr 25: 31; 50:35ss.; Sf 2:12). A espada, portanto, é Seu (77) A unidade desta seção é melhor esclarecida pelo texto hebraico, onde capítulo 21 começa em 20: 45 (EW ) e continua por 37 versículos.

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EZEQUIEL 21:5-13 instrumento de julgamento, e é destacada com ênfase nas cenas apocalíp­ ticas de batalhas, nos escritos intertestamentários. Ezequiel, entretanto, a emprega aqui com respeito ao castigo divino contra Israel, embora em outras profecias dê a entender que a espada do Senhor fora colocada nas mios do rei da Babilônia para que o julgamento divino pudesse ser executado por meio dos seus exércitos, contra o poderio de Faraó, rei do Egito (30:24; 32: 11-15). Na coletânea de oráculos que perfaz esta seção, parece que o único fator uniflcante que os uniu é a repetida ocor­ rência deste tema da espada do Senhor (w. 3-5, 11-15; 19, 20, 28). 6, 7. A aflição de Ezequiel é ainda outro símbolo da aflição assoberbante que sobrevirá a Israel no seu momento de julgamento. Assim co­ mo sua falta em prantear a morte da sua esposa é tratada como símbolo de um pesar grande demais para lágrimas (24:23), assim também aqui pro­ fere sua mensagem com o simbolismo, não de ações, mas de emoções. De coração quebrantado, lit. “com o quebrar dos teus lombos,” é uma frase que expressava profunda aflição emocional. Os lombos eram considera­ dos o centro das forças, de modo que isto representa um colapso total, nervoso e físico (cf. 29: 7; SI 69:23; Na 2:10). O mesmo senso de pâni­ co e de paralisia emocional afligirá o povo quando ouvirem as novas:... eis que elas vêm. 21:8-17. O cântico da espada. Parte desta seção está claramente na forma poética, mas não é possível discernir a poesia dos comentários em prosa pois estão entremeados. A única parte reconhecível é a copla de abertura que pode ser traduzida: Uma espada, uma espada! Está afiada e polida também. Afiada para morte e matança, polida como raio. Esta pode ser uma adaptação de uma poesia mais antiga, um pouco seme­ lhante ao Cântico de Lameque (Gn 4:23-24), igualmente expressivo, ou pode até mesmo tratar-se das palavras que acompanhavam uma dança da espada. Howie pensa que Ezequiel pode ter acompanhado estas palavras com o brandir de uma espada. Logo faz uma pausa, no entanto, Alegremonos'. Isto e a frase que se segue não se podem compreender no TM. A RSV emenda levemente a vocalização, com o resultado: “Desprezaste a vara, meu filho, com tudo o que é de pau.” Entendido assim, o profeta está repreendendo seus ouvintes pela falta de atenção (“pensam que estou 147


EZEQUIEL 21:13-21 brincando?”), e acusando-os de desprezarem todos os anteriores instru­ mentos de castigo. O cetro sugere a descrição dos assírios feita por Isaías, como sendo “o cetro da minha ira” (Is 10: 5). Agora, porém, a madeira cederá lugar ao aço, e não será apenas uma prova (13); será a destruição em grande escala do meu povo. Dar pancadas na coxa (12) era um gesto de pesar e desespero (Jr 31:19). 14. Embora a identidade do matador não seja citada no v. 11, fica evidente que Ezequiel tem participação na matança, mesmo somen­ te fornecendo aplausos ao acompanhá-la. Isto indica que, com toda a probabilidade, ele tenha encenado esta advertência do julgamento imi­ nente, e desempenhado o papel de um espectador exultante enquanto se dava a atuação da espada. Os suspiros e gemidos que anteriormente haviam saído dos seus lábios são evidência suficiente de que não era da sua natureza exultar sobre a destruição, mas devemos compreender que era um acompanhamento necessário e descritivo do oráculo que, como porta-voz de Deus, tinha de cumprir. Procedendo assim, portanto, de­ monstrava a aprovação de Deus diante de tudo quanto estava aconte­ cendo: Também eu baterei as minhas palmas uma na outra, diz o Se­ nhor (17). 21:18-27. A espada do rei da Babilônia. A palavra que ocorre mais freqüentemente nesta seção é sum ou sím em hebraico (19, 20, 22 duas vezes, com a tradução em ARA: propõe, indica, dispor, colocar). A palavra original é modesta, e significa simplesmente “colocar.” Suge­ re, no entanto, mais uma vez, que Ezequiel deve combinar sua mensa­ gem aqui com uma encenação simbólica do avanço do rei da Babilônia ao longo da estrada para Jerusalém, com roteiros apropriados marcados no chão como mapa. O primeiro ato é demarcar a estrada que sai da Ba­ bilônia, ou provavelmente do norte, com o formato de um Y invertido, com Jerusalém e Rabá de Amom (com indicadores apropriados) nas ex­ tremidades dos seus dois forcados. Depois, são encenados os vários tipos de adivinhação praticados pelo rei, enquanto pára no ponto da separa­ ção dos dois caminhos. As alternativas eram um ataque contra a capi­ tal amonita (moderna Amã) ou um cerco de Jerusalém. 21. São descritos três métodos de adivinhação. O primeiro é sa­ cudir (não “aguçará” — ARC) as flechas, ou a belomancia. Neste mé­ todo, as flechas eram marcadas com nomes de pessoas ou lugares, sacu­ didas numa aljava, e uma era tirada, como se tirando sortes. O segundo é a consulta dos ídolos do lar, pequenas imagens de deuses do lar ou dos 148


EZEQUIEL 21:21-27 ancestrais, cuja posse desempenhava um papel importante nas questões da herança legal (cf. Gn 31:19ss.). Ás vezes, eram usados de modo idólatia ou para a necromancia, e estavam entre as abominações removidas por Josias (2 Rs 23: 24). A sua aparência, ou como eram consultados, não sa­ bemos. Mas se eram figuras de ancestrais, presumivelmente seriam usados como médiuns para obter oráculos dos defuntos.78 O terceiro é a hepatoscopia, o exame do fígado ou das entranhas de uma vítima sacrificada. Este era um aspecto comum da adivinhação babilónica e continuou na Ro­ ma antiga. A interpretação das marcas em tais órgãos era uma das perí­ cias nas quais os adivinhadores do antigo Oriente Próximo eram instruí­ dos, conforme grande número de modelos em barro escavados pelos arqueólogos parecem indicar.79 22. A primeira das duas frases, dispor os aríetes, incluída por re­ petição acidental depois de Jerusalém, deve ser omitida. Sobre terraple­ nos (sõflâj e baluartes (dàyèq), ver nota sobre 4: 2. 23. Não adiantará para o povo de Jerusalém dar de ombros dian­ te destas advertências e considerá-las como oráculo enganador. Nabucodonosor virá e o fará ver sua culpa. A frase: têm em seu favor juramen­ tos solenes, é difícil, e alguns a omitiriam (com LXX). Conforme cons­ ta (lit. “juramentos de juramentos a eles”), pode sei que fomeça a base da sua iniqüidade, ou seja: a aliança de Zedequias com a Babilônia, a qual violara (17:16ss.), ou sua anistia aos escravos que foi subseqüentemente retratada (Jr 34:8ss.). Alternativamente, ao traduzir sàbú’a como “sete,” e não como “juramento,” a tradução “têm sete vezes sete” = “sete sema­ nas,” ou “semanas de semanas,” poderia subentender que o povo de Je­ rusalém pensa ter tempo ilimitado para preparar-se contra a ameaça do cerco. 25, 26. Zedequias é tratado tipicamente, não colmo “rei,” melek, mas, sim, como príncipe, nàsí, palavra esta sem implicações messiânicas. O diadema é o “turbante” (de uma palavra que significa “enrolar”) usado pelo sumo sacerdote (Êx 28:4, 37, 39; 29:6; 39: 28, 31; Lv 8:9; 16:4). Somente aqui é usado como símbolo da realeza. Não há evidência de que Zedequias o tivesse acrescentado aos seus crimes pela usurpação das fun­ ções sacerdotais. 27. A tríplice repetição de uma palavra é a superlativa mais forte que a língua hebraica pode ter (cf. “Santo, santo, santo” em Is 6: 3, ou a (78) Ver NDB, art. “Terafins”, pág. 1582. (79) Ver NDB, fig. 101, pág. 617.

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EZEQUIEL 21:27-22:1 fórmula de Jr 7:4). Assim Ezequias declara a ruína da linhagem real, e termina com uma referência enigmática a Gênesis 49:10 com sua pers­ pectiva distante dAquele que sempre havia sido esperado e a quem per­ tencia genuinamente o direito da dignidade real. Quando Ele finalmente aparecer, a coroa e o diadema Lhe serão dados, porque Ele será a culmi­ nância de tudo que a casa davídica e a realeza messiânica em Israel sem­ pre indicaram.80 21:28-32. A espada de Amom. Numa passagem muito obscura, mas que tem afinidades óbvias com partes anteriores do capítulo, especial­ mente os w. 9-17, os amonitas estão representados brandindo uma espada contra Israel. Isto talvez reflita o período durante o cerco de Jerusalém, ou depois dele, quando os amonitas se juntaram com outros povos para tirarem proveito da triste situação de Judá, atacando e despojando suas terras. Isto, aparentemente, foi feito sob a influência de falsos agouros e visões mentirosas (29), mas Deus os freia e os conclama: Toma a tua espa­ da à sua bainha (30). Seguem-se palavras de condenação e, na sua própria terra, Amom será julgado e castigado. Sofrerá às mãos dos homens brutais, mestres de destruição (31), que são mais tarde designados como os “filhos do Oriente” (25:4), i.é, os homens selvagens das tribos do deserto. Assim, os planos vindicativos dos amonitas voltarão contra eles mesmos, conforme deixa claro outro oráculo acerca do seu destino (25:1-7). Seu destino final será pior do que o de Israel, e pior até mesmo do que o do Egito, porque já não serás lembrado. Para a mente semítica, nada poderia ser mais terrí­ vel do que nenhuma perspectiva de restauração, nenhuma continuidade nas gerações posteriores, nenhum memorial, nem sequer uma lembrança. Total esquecimento. m. Três oráculos sobre a imundícia de Jerusalém (22:1-31) Este capítulo consiste em três oráculos, e cada um começa com a frase: Veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: (1, 17, 23). É possí­ vel que originalmente fossem pronunciados em ocasiões separadas, mas foram agrupados porque compartilham do mesmo tema da acusação for­ mal de Jerusalém por todos os seus pecados. May descreve o capítulo na sua forma atual como sendo um sermão com três divisões, da parte do re­ dator final de Ezequiel, desejando que seus contemporâneos se previnam (80) Ver NDB, págs. 1523-1524, art. “Silo” .

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EZEQUIEL 22:1-2 por causa da ruína de Jerusalém. O primeiro oráculo (2-16) condena Je­ rusalém por ser a cidade do sangue, e alista a variedade de pecados, religio­ sos, sexuais, sociais e judiciais, que nela se acham. As duas palavras que mais freqüentemente se usam são: sangue (2, 3, 4, 6,9, 12, 13) e no meio de ti [uma só palavra em hebraico, N.Tr.] (6, 7, 9, 10, 11, 12, 16). O cas­ tigo por tudo isto é a dispersão entre as nações, para que isso capacite o Se­ nhor a consumir a imundícia da cidade do seu meio (15). O segundo orá­ culo (17-22) emprega a metáfora da fusão da prata, e isto indica as longas e dolorosas agonias de provas pelas quais Israel passará. Todos os elemen­ tos na nação serão reunidos em Jerusalém e ali experimentarão o fogo da ira de Deus. Não se menciona qualquer prata refinada resultante deste processo, embora a prata possa ser contada entre os elementos que com­ põem Israel. Ver abaixo uma discussão da passagem. O veredito sobre Is­ rael é que todos são escória (19). O terceiro oráculo (23-31) faz críticas pormenorizadas contra as diferentes classes da sociedade de Israel — os príncipes, os sacerdotes, os profetas, os nobres, e o povo da terra. Todas fracassaram nas suas responsabilidades; não foi achado um só homem que ficará isento. Assim, o Senhor derramará sobre elas a devida recom­ pensa por suas más ações. A sua sorte está selada. Muitos comentaristas seguem Hölscher e Hemtrich ao verem este terceiro oráculo como sendo uma composição posterior, interpretando o v. 31, não como um pretérito perfeito profético, mas, sim, como um tempo passado real, relembrando a queda de Jerusalém. Uma referência paralela é feita regularmente a Sofonias 3:14, mas a data e a autoria daqueles ver­ sículos também são questões de dúvida81 e o exato relacionamento entre as duas passagens não está totalmente claro. É bem possível que o oráculo tenha sido colocado na forma escrita depois do evento e, portanto, isto foi refletido na sua linguagem, mas é igualmente admissível ver os verbos co­ mo sendo pretéritos perfeitos proféticos visando ressaltar iminência e a qualidade absolutamente definitiva do julgamento vindouro. 22:1-16. A cidade sanguinária. Como em 20:4 e 23:36, a frase jul­ garás (ou “hás de julgar?”, BJ) significa muito mais do que simplesmente agir como árbitro. Envolve o profeta na tarefa que hoje é realizada em par­ te pelo promotor, e em parte pelo juiz, quando profere a sentença con­ (81) Para maiores discussões, ver J. P. Hyatt, “The Date and Background of Zephaniah”, JNES, VII, 1948, págs. 25-29; L. P. Smith e E. R. Lacheman, “The Autorship of the Book of Zephaniah”, JNES, IX, 1950, págs. 137-142.

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EZEQUIEL 22:3-17 tra um homem que já foi declarado culpado pelo júri. Dessa forma, o “jul­ gar” realizado por Ezequiel consiste em demonstrar à cidade culpada de Jerusalém tanto a extensão dos seus crimes quanto as conseqüências que lhe serão inflingidas. Em certo sentido, ele está “justificando” tanto o veredito quanto o castigo. A combinação de derramamento de sangue e de idolatria no v. 3, é uma lembrança de que a adoração aos ídolos real­ mente envolvia o derramamento de sangue na forma do sacrifício infan­ til (“oferecendo vossos filhos para serem consumidos pelo fogo para Moloque”; cf. 16:21; 20:26, 31; 23:37). Mas, a acusação também teria abrangido assassínio judicial e opressão, segundo o padrão de Nabote (1 Rs 21) bem como privação dos cidadãos da sua liberdade e meios de vida, ou cometimento de qualquer ato de violência que incorria em culpa de sangue. Para a lista de pecados enumerados aqui, compare 18:15-17. Alguns dizem respeito aos Dez Mandamentos, mas a maioria às leis levíticas no assim chamado Código de Santidade (Lv 17-26). Sobre o desprezo aos pais (7), cf. Êxodo 20:12; sobre o estrangeiro (heb. gêr) e o órfão e a viúva, cf. Êxodo 22:21-22. Ver também Levítico 19:3; 20:9; e 19:33, onde se expressam preocupações semelhantes. Outras comparações podem ser feitas de modo útil, como segue: com o v. 9, cf. Levítico 19:16; com o v. 10, cf. Levítico 18:7, 19; com o v. 11, cf. Levítico 18:20; 20:10,12,17. O suborno (12) é condenado em Êxodo 23: 8, bem como em Isaías 1:23; Amós 5: 12; Miquéias 3:11. A rapacidade foi uma ocupação que absor­ veu todas as atenções, de modo que sobrou tempo para pensar em Deus. “A moralidade social depende de lembrar-se de Deus” (Cooke). Deus res­ ponde a estes pecados com um gesto de desprezo, de indiferença total (13). Quando Ele agir em julgamento, a sua coragem se derreterá82: serão espalhados entre as nações, e serão profanados à vista dos pagãos (16). A emenda “serei profanado entre vós” não faz sentido ao lado da intenção declarada de que Israel saberá que eu sou o SENHOR. O quadro geral de extorsão, de derramamento de sangue, de incesto e da falta de re­ ligião é uma descrição aterrorizadora de qualquer nação cuja hora determi­ nada se aproxima. Que os comentaristas políticos tomem nota. 22:17-22. O forno da aflição. A figura da refinação de metais pre­ ciosos é freqüentemente empregada pelos escritores do Antigo Testamen­ (82) frentai ...? ”

O verso 14 poderia ser interpretado como “Serão vocês capazes de en­

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EZEQUIEL 22:18-26 to (cf. Is 1:22, 25; 48:10; Jr 6: 27-30; 9 :7;Zc 13:9; Ml 3: 2-4), mas em­ bora geralmente o propósito seja produzir o metal refinado, Ezequiel em­ prega a figura para demonstrar que Israel não passa de escória sem valor. Por esta razão, devem ser reunidos mais uma vez e colocados ao forno pa­ ra suportar o calor ardente do julgamento divino. Nenhum bem virá disto senão o conhecimento de que é a fúria do Senhor que está sendo derrama­ da sobre eles (22). O v. 20 descreve o processo, propriamente dito, sobre o qual a metáfora é baseada, mas parece que o v. 18 diz que a operação é, de fato, desperdício de esforço. Israel não contém prata alguma: está total­ mente desprovido de valor, só escória. É melhor considerar prata (v. 18) como mera glosa do tradutor. 22:23-31. Os pecados de todas as classes da sociedade. A terra é descrita neste oráculo como sendo privada das bênçãos da chuva. A maio­ ria dos comentaristas prefere seguir a LXX no v. 24, que traduz, ao invés de purificada, “que recebeu chuva” : assim: “uma terra sem chuva e sem agua­ ceiro.” Semelhantemente a LXX parece ter preservado um melhor texto no v. 25: “cujos príncipes” (’‘‘ser neét’êha), em lugar do TM Conspiração dos seus profetas (qesernebi’êhà). Esta palavra para “príncipe” (nãsT) é di­ ferente da que é usada no v. 27, onde a palavra é sarim, “nobres.” A pri­ meira refere-se a membros da casa real e a última refere-se aos líderes ou chefes do povo. A acusação formal contra a família real em Israel baseia-se na sua prática de extorquir riquezas do seu povo, quase certamente acompa­ nhada de violência e assassinato. Claramente, a sina de Nabote não era um incidente isolado. Passagens como 11:6 sugerem que alguns dos reis me­ nos escrupulosos de Judá bem possivelmente tenham liquidado inimigos vi­ sando, ou os lucros materiais, ou as vantagens políticas. Para a frase, multi­ plicam as suas viúvas (25), cf. Jeremias 15:8. Semelhante realeza era con­ trária aos princípios enunciados por Deus na aliança davídica, onde a obe­ diência aos Seus mandamentos e estatutos era uma condição primária. A li­ nhagem de Davi, portanto, falhara notoriamente nas suas responsabilida­ des. Os sacerdotes também, eram culpados. Tendo-lhes sido confiada a lei (tôrâ) de Javé, violaram tanto a ela quanto a santidade que deviam con­ servar. Tudo fora reduzido a um nível comum de impureza, seja a santida­ de da adoração, a dos alimentos, ou a dos tempos e estações (26). Sua fa­ lha em manter a qualidade distintiva das coisas de Deus significa que Ele era desconsiderado e tratado com desprezo. Os nobres compartilhavam de algumas das acusações de extorsão e crueldade feitas contra seus sobera­ 153


EZEQUIEL 22:26-23:1 nos (cf. 27 com 25). Os profetas os apoiavam agindo como tranqüilizan­ tes religiosos (lhes passam caiação) que pintam de branco os seus crimes com fórmulas corretas, porém vazias (28). Sobre caiação, ver as notas so­ bre 13:10-11. Finalmente, o povo da terra (29) segue os padrões de comportamen­ to estabelecidos pelos seus líderes. O ’am hà ’ ares era o povo comum; não, obviamente, os mais pobres entre os componeses, mas, sim, todos aqueles que possuíam plenos direitos como cidadãos. Tinham, portanto, a capacidade de julgar algumas pessoas menos privilegiadas do que eles mesmos, as quais podiam tiranizar. Com este grau de corrupção universal, Deus procura em vão por um só homem que tente interpor-se para cessar a ruína nacional. Não ha­ via, porém, ninguém com a coragem moral para lutar contra a maré; os líderes eram ímpios, e os que deveriam ser piedosos haviam comprome­ tido a sua posição. Presumivelmente Jeremias era uma exceção à conde­ nação geral feita por Ezequiel, mas não tinha posição de realeza e pou­ cas pessoas escutavam suas palavras. Qualquer nação que sofre a falta de uma liderança piedosa, como era o caso de Israel naquele tempo, por certo está a caminho da ruína. Cf. Isaías 59:16; 63:5, onde, em contras­ te, a continuada ausência de “quem me ajudasse” leva o Senhor a obter a vitória com Seu próprio braço. Para Ezequiel, no entanto, este estado de coisas era apenas o prelúdio do ato iminente e final de julgamento contra os cidadãos de Jerusalém, quando, então, seu próprio procedimento se­ ria recompensado sobre suas próprias cabeças (31).83 n.

Oolá e Oolibá (23:1-49)

A alegoria da história de Israel que ocupou o capítulo 16 continua neste capítulo numa forma levemente diferente, e com pormenores ainda mais repulsivos. Conta acerca de duas irmãs, Oolá e Oolibá, que represen­ tam a Samaria e Jerusalém. Embora não sejam descritas especificamente (83) Para o pensamento do homem que permanecerá nas brechas, conf. 13: 5. Alguns vêem esta frase como uma contradição da visão de Ezequiel, expressa em 14: 12-23, que nem mesmo a presença de três homens justos na cidade seria sufi­ ciente para salvá-la da destruição. Mas n«o faz sentido neste capítulo que o homem que permanecer na brecha salvará a cidade simplesmente por estai lá. Ele precisa ad­ vertir o povo do julgamento iminente, paia levá-lo a resistir contra a maré de iniqüi­ dade e influenciá-lo em direção ao arrependimento. O assunto aqui é sensivelmente diferente daquele tratado no capítulo 14.

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EZEQUIEL 23:1-5 como sendo noivas de Javé, algum relacionamento deste tipo está clara­ mente subentendido no v. 4, “e foram minhas,” e no v. 5, “Prostituiu-se Oolá, quando era minha.” O capítulo trata »das suas intrigas com potên­ cias estrangeiras, descritas nos termos mais grosseiros, e sua ruína sub­ seqüente. A despeito do tema desagradável e da linguagem indelicada, o leitor destes versículos deve reconhecer que esta é a linguagem do nojo indivízel. Deve procurar reconhecer a paixão que Ezequiel tinha pela honra de Deus, e sua fúria diante da conduta adúltera do Seu povo da aliança. A sensação de náusea despertada por um capítulo como este é cul­ pa, não do escritor do capítulo, nem mesmo do seu conteúdo, mas, sim, da conduta que tinha de ser descrita com termos tão revoltantes. Ao mesmo tempo, é possível ver que a linguagem de Ezequiel demonstra uma cons­ ciência considerável das características fundamentais da apostasia. O capítulo pode ser dividido em quatro parágrafos convenientes, que tratam, primeiramente, de cada uma das irmãs por sua vez (1-10, 11-21); segue-se, depois, a ruína de Oolibá (22-35), e, finalmente, os atos abominá­ veis das duas irmãs são revistos e seu julgamento é pronunciado (36-49). 23:1-4. Introdução. Os pormenores introdutórios da alegoria não devem ser demasiadamente forçados. As irmãs representam cidades e seus habitantes, ao invés de tribos. De qualquer maneira, Judá e Efraim não eram nem sequer irmãos, porque Efraim era um dos dois filhos de Jo­ sé e, portanto, era o sobrinho de Judá. As lições ensinadas são simples­ mente que as duas cidades têm estreita afinidade desde o passado distan­ te com suas origens no Egito, e o início da sua conduta subseqüente re­ monta até sua pré-história no Egito. Os nomes, Oolá e Oolibá, derivam do hebraico ’òhel, que signifi­ ca uma “tenda.” Podia ser uma referência a uma tenda de adoração, mas não fica claro se é o tabernáculo de Israel no deserto, ou um santuário pagão. O nome da esposa de Esaú, Oolibama (Gn 36:2), ou “tenda do lugar alto,” sugere a última alternativa, assim como a sugerem as tendas dos deuses descritas nos textos ugaríticos. Do outro lado, Oolá, pode sig­ nificar “a tenda dela,” e Oolibá quase certamente significa “minha tenda (está) nela,” sugerindo que Javé responsabilizava-se por Jerusalém. Mais uma vez, porém, os pormenores não devem ser demasiadamente forçados. Basta saber que os nomes tinham um sabor cultual. 23: 5-10. Oolá. A depravação de Samaria é demonstrada pela ini­ ciativa de Oolá em oferecer-se aos seus amantes assírios. Oséias, também, havia feito insinuações deste tipo: “Porque subiram à Assíria; o jumento 155


EZEQUIEL 23:6-10 montês anda solitário, mas Efraim mercou amores” (Os 8:9; cf. 5:13; 7:11; 12:1). A historicidade da acusação é apoiada por bom número de evidências. 0 Obelisco Negro de Salmaneser III retrata Jeú prostrando-se diante do rei assírio (a data seria cerca de 840 a.C., no começo do reinado de Jeú) e oferecendo dádivas, possivelmente visando comprar apoio con­ tra Hazael de Damasco.84 Adade-Nirari III (c. de 812-782 a.C.), numa ins­ crição achada em Ninrude, também declarou ter recebido tributo do “ter­ ritório de Onri,” e não há razão para duvidar da veracidade disto.8S 2 Reis também descreve o pagamento de tributo por Israel à Assíria nos reinados de Menaém (c. de 745-738 a.C.) e de Oséias (c. de 732-724 a.C.); ver 2 Reis 15:19ss.; 17:3. Os amantes assírios são descritos vividamente como sendo “guerrei­ ros” (5; ARA tem vizinhos), seguindo uma emenda menor baseada na palavra assíria qumdu, “guerreiro,”86 vestidos em deslumbrantes tecidos cor de violeta (heb. fkèlet', ver IDB, Vol. 1, pág. 450, s.v. “Blue”). Gover­ nadores e sátrapas são palavras emprestadas do acadiano, sendo que a pri­ meira significa “governadores distritais,” tais como Zorobabel ou Neemias (Ag 1: 1; Ne 5 : 14), e sátrapas representam quaisquer oficiais de menor categoria. As prostituições de Israel com eles não eram meramente liga­ ções políticas, mas também envolviam uma aceitação dos ídolos assírios, conforme deixa claro o v. 7b. Em tudo isto, ela estava meramente perpe­ tuando os padrões de comportamento aprendidos no Egito. O hebreu nunca achou fácil resistir às tentações e seduções de civilizações mais so­ fisticadas do que a sua, seja tratando-se das panelas de carne do Egito, ou dos valentes vistosos dos regimentos de cavalaria assírios. Mas a recompen­ sa de Israel foi muito diferente das suas expectativas. Tendo sido possuí­ da e usada, foi então desprezada, exposta à zombaria pública, e, finalmen­ te, atacada e destruída. (84) Ver DOTT, págs. 48-49 e ilustração 3. (85) Ver DOTT, págs. 50-52. Uma inscrição adicional descrevendo o tribu­ to tomado por Adad-Nirari III de Jeoás de Samaria encontra-se publicamente em Iraq,XXX, 1968, 142. (86) Não é impossível chegar-se a mesma conclusão sem emendar o TM, qerôbim. Embora seja a palavra normal para “aqueles que estão perto”, “vizinhos” (de qualquer forma dificilmente apropriada para assírios), havia uma palavra pos­ terior no Heb. qeràb, significando “guerra”, da qual semelhante forma poderia ter sido desenvolvida no TM. Alternativamente, havia um oficial assírio chamado qurbutu, íntimo do rei e que foi usado em missões de inteligência.

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EZEQUIEL 23:11-25 23:11-21. Oolibá. A culpa de Jerusalém é ainda maior do que a da sua irmã. Imitou a Samaria ao prestar corte à Assíria, não conseguindo, aparentemente, aprender a lição da ruína da Samaria. O episódio históri­ co óbvio por detrás desta acusação é a tentativa de aproximação de Acaz aos assírios durante a guerra siro-efraimita (2 Rs 16:8). Isaías a condenou redondamente (Is 7: 7-9), e advertiu Acaz quanto às conseqüências de tais propostas estultas e infiéis. A mensagem de Ezequiel, no entanto, concen­ tra-se nas outras prostituições cometidas por Jerusalém com os babilônios. Novamente, a tentação veio através da visão de militares com aparato des­ lumbrante (14-15), não em carne e sangue, mas, sim, pintados numa glorio­ sa técnica de cores (no típico estilo babilónico) nas paredes dos edifícios. A fascinação daquela visão sugeria um convite para desfrutar dos prazeres sensuais do adultério, e este, uma vez fruído, transformou-se em nojo (17). Ela não estava só nisto, no entanto, pela sua sensualidade levara o Senhor a desgostar-se dela. Assim sendo, mais uma vez, o padrão de vida iniciado no Egito repetiu-se na história posterior de Judá. O v. 17 reflete o balanço do pêndulo, de uma política pró-Babilônia que marcava a história política de Judá durante os cem últimos anos antes do exílio. As referências ao Egito em 19-21 possivelmente refletem intrigas políticas pró-egípcias (cf. Jr 37: 5), mas não é necessário serem interpreta­ das assim. O pensamento dominante é a influência da formação de Judá no Egito. 23:22-35. A ruína de Oolibá. Esta seção consiste em quatro orácu­ los, começando com a fórmula: “Assim diz o SENHOR Deus” (22, 28, 32, 35). Destes, os dois primeiros e o último compartilham de certa quan­ tidade de linguagem em comum, mas o terceiro está numa classe separa­ da e consiste em uma poesia acerca do copo do julgamento. O primeiro oráculo (22-27) retrata Oolibá sob o julgamento dos seus amantes estran­ geiros, conclamados por Deus para cercá-la em ordem de batalha, como um exército sitiando uma cidade. Consistem em babilônios e caldeus, embora estes não fossem povos separados, e mencionam-se especialmente as tri­ bos marginais nas fronteiras do império babilónico, Pecode, Soa, e Côa. Es­ tas são normalmente identificadas, embora com alguma incerteza, com Puqüdu, Sutü e Qutü, tribos araméias ao leste do rio Tigre, conhecidas através de certo número de inscrições assírias e babilónicas. Todos estes povos, juntamente com todos os filhos da Assíria com eles (embora mui­ tos considerem estas palavras como uma inclusão posterior), serão os ins­ trumentos do castigo divino sobre Jerusalém. Embora fossem eles que in157


EZEQUIEL 23:26-33 fligiriam a cruel mutilação e matança descritas no v. 25, fica claro que, em última análise, a ação é da parte do Senhor e que Sua vontade permis­ siva está por detrás de tudo isto. O v. 26, como 16:39, talvez até mesmo se refira ao tratamento dado aos egípcios por Israel na ocasião do Êxodo. Finalmente a retribuição chegou. O segundo oráculo (28-31) tem uma redação menos forte. Os babilô­ nios não são descritos como amantes, mas, sim, como sendo aqueles a quem aborreces, mas o princípio de reciprocidade é mantido: £7es te trata­ rão com ódio (29). Não se descreve atrocidade alguma, mas os resultados de uma invasão hostil são indicados pela remoção de todo fruto do teu tra­ balho, i.é, as riquezas que obtivera e por ser deixada nua e despida, de­ pois da destruição dos seus exércitos ou das suas fortificações. O v. 31, que relembra o v. 13, demonstra que a ruína de Jerusalém é iminente. Ela está para beber do copo da ira de Deus e participará do terrível destino da Sa­ maria. A referência ao seu copo (31) é o vínculo de conexão que introduz a poesia sobre o copo de Samaria (32-34). Esta é uma estranha pequena estrofe e não parece dizer muita coisa nova, e sua interpretação é dificul­ tada ainda mais por incertezas textuais. Seu impacto principal é feito por sua linguagem marcante e suas frases sugestivas, conforme ocorre tão freqüentemente neste tipo de poesia hebraica. Representá-la em portu­ guês exige tanta paráfrase e interpretação que o efeito, especialmente da métrica 3: 2, usualmente é perdido. A ARA procura conservar-se perto do hebraico; BJ também. Sua rigidez pode ser julgada pela seguinte interpre­ tação literal: Cor da-tua-irmã beberás (que é) profundo e-largo Ela/tu/será(s) por-riso e-escámio muito para-conter Embriaguez e-angústia serás-cheia-de, copo-de-devastação e-desolação. Copo da-tua-irmã, Samaria, beberás e-(o)-esgotarás; E seus-pedaços quebrarás (?) e-teus-peitos rasgarás-de-tudo. A RSV segue o siríaco: “e arrancarás teus cabelos” para a primeira metade da última linha, e isto se encaixa bem no paralelismo. Mas a frase tem pouco colorido, e o TM, embora empregue palavras incomuns, pode ser de158


EZEQUIEL 23:34-45 fendido com o substantivo significando “seus cacos”, os fragmentos de cerâmica do copo espatifado, e o verbo “roer” (um ato de demência) ou “quebrar,” geralmente no caso de quebrar ossos, mas aqui, despeda­ çando o copo em fragmentos. Daí ARA: e lhe roerás os cacos. É bem possível que aqui tenhamos um cântico popular acerca do copo do desti­ no, que Ezequiel adaptou às necessidades da sua mensagem (assim BJ, no­ ta de rodapé). O oráculo final (35) repete o veredito de 22:12, no sentido de que o castigo pela licenciosidade e promiscuidade da nação é baseado no seu esquecimento prévio e na deliberada rejeição do seu Senhor. 23:36-49. O julgamento das duas irmãs. Esta seção final recapitu­ la e desenvolve muita coisa que já foi dito antes. Ezequiel, tendo descrito as suas histórias separadamente, agora as classifica juntas, e comenta as semelhanças dos seus pecados e de seu castigo. Mais uma vez, julgar (36) significa declarar e tomar conhecido. Os delitos especificados são religio­ sos (37-39) e também políticos (40-44). Entre os primeiros, estão as as­ sociações idólatras, que são identificadas como adultério-, o sacrifício de crianças, que deixa nas suas mãos a culpa de sangue (37); a profanação do Templo de Deus ao adentrá-lo ainda com a culpa do sacrifício de crianças; e a profanação dos sábados (38). Note-se que as duas irmãs são acusadas de profanar o santuário de Jerusalém num registro de que a sepa­ ração entre Israel e Jerusalém ainda era lembrada com amargura, a menos que isto se refira aos sucessores dos israelitas (mais tarde chamados samaritanos). Estes ainda viajavam para o sul para adorar a Javé em Jerusalém (cf. Jr 41: 5), e, segundo o ponto de vista de Ezequiel, contaminavam o lu­ gar pela sua própria presença. Os convites às alianças estrangeiras são retra­ tados com a figura de uma prostituta com olhos pintados (cf. 2 Rs 9:30; Jr 4: 30), reclinada num divã (cf. Pv 7:16), entretendo seus clientes. A esta altura, o plural passa para o singular, e os pretendentes são denegridos como sendo uma gentalha de moradores do deserto ou bêbados.61 que tra­ zem pulseiras e braceletes como pagamentos aos serviços da prostituta (42). 45. Os homens justos dificilmente podem ser os amantes dos w. 22-24, mesmo que as nações eventualmente possam ser os instrumentos do castigo divino. O significado deve ser que os que julgarem as duas irmãs (87) Heb. tem ambos: “trazidos” (múbãTm) e “bêbados” (sãba’im , traduzi­ do por alguns como Sabeus), mas provavelmente trata-se de uma ditografia e uma pa­ lavra deve ser anulada.

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EZEQUIEL 23:46-24:1 as julgarão com justiça. Ressalta-se o modo pelo qual o julgmento será rea­ lizado, e não quem o realizará. O castigo será a pena comum para todas as adúlteras e todos os que derramam sangue, i.e., a morte pelo apedrejamen­ to, acrescentando-se a destruição das suas propriedades no fogo (cf. Lv 20:10; Dt 21:21). A semelhança desta penalidade com o estado de cerco de uma cidade bombardeada com pedras de catapulta e mísseis incendiá­ rios dificilmente pode ser uma coincidência. A vergonha da pessoa culpada pelo seu fim, de conformidade com a lei mosaica, corresponderá exatamen­ te a ruína de Samaria e de Jerusalém. o.

A panela enferrujada (24:1-14)

Com estes versículos, chegamos ao clímax de tudo quanto Ezequiel procurou dizer nos doze capítulos anteriores. Seu propósito principal, con­ forme notamos, tem sido justificar o julgamento vindouro de Jerusalém. Chamamos esta coletânea de oráculos “Objeções ao Julgamento” (ver pág. 191), e já vimos argumentos que foram erguidos e demolidos, um por um, e acusações feitas contra a conduta passada e presente do povo de Jerusa­ lém. Quase nada mais há para ser dito. Chegou a hora. O julgamento está para vir. A seção começa, portanto, com um mandamento divino para que o profeta anote o dia, pois era o dia em que o cerco começaria (1, 2). Seguese, então, uma alegoria poética acerca de uma panela sendo colocada ao lume, simbolizando o estado de sítio da cidade (3-5). Depois, uma decla­ ração em prosa, que consiste em dois oráculos curtos, cada um dos quais começando com as palavras: “Ai da cidade sanguinária!” (6, 9), que de­ senvolvem e interpretam a alegoria e, ao mesmo tempo, introduzem a idéia da ferrugem simbólica da panela. 24:1, 2. Definindo o dia. A data normalmente é fixada como sen­ do 15 de janeiro de 588 a.C., e é a mesma data mencionada em 2 Rs 25: 1 e Jeremias 52:4. Além disto, sabe-se com base em Zacarias 8:19, que esta data tomou-se em dia de Jejum para os exilados, para comemorar um dos dias críticos na queda da cidade santa. A possibilidade de Ezequiel possuir intuição para saber a data exata de um evento acontecendo a uma distância de centenas de quilômetros, alarma muitos comentaristas. A im­ probabilidade de tal intuição e um dos principais argumentos para se colo­ car Ezequiel numa localidade na Palestina a esta altura do seu ministério. 160


EZEQUIEL 24:2-5 Nada há, porém, inerentemente errado com o fato dele ter consciência de semelhante evento a tal distância, quer isto lhe ocorresse mediante a sensibilidade telepática, ou mediante uma revelação sobrenatural dire­ ta da parte de Deus. A despeito de todos os argumentos em contrário, esta última possibilidade parece estar muito mais em harmonia com a consciência de Deus que era característica de Ezequiel, e seria mais uma autenticação dos seus dons proféticos. Havia previsto este evento, e ha­ via convivido com ele por tanto tempo que não seria necessário um mi­ lagre ou uma teofania marcante para que seu espírito profético desenvol­ vesse dentro em si a profunda convicção de que “hoje é o dia.” Muitos homens inferiores a Ezequiel têm obtido sucessos mais notáveis com na­ da mais de que pressentimentos inspirados para ajudá-los. 24: 3-5 O cântico da panela. Esta poesia não contém linguagem religiosa, e é bem possível que se derive originalmente de um cântico de cozinha doméstica, mais ou menos como “Um dois, feijão com ar­ roz.” Empregar um dito ou estória ou poema popular extraído da vida de todos os dias, transformando-o em mensagem, era um modo tipicamen­ te profético de falar, e muitos pregadores populares de hoje ainda empre­ gam a mesma técnica. A linguagem figurada relembra a visão de Jeremias da panela ao fogo (Jr 1: 13-14), e a mesma linguagem já foi empregada por Ezequiel em 11:3, 7, 11, embora com uma interpretação diferente.88 Alguns pensam que os verbos imperativos são dirigidos ao profeta e que é, portanto, mais uma parábola encenada de Ezequiel, mas se assim fosse, esperaríamos uma frase final tal como: “E fiz conforme o SENHOR me ordenou...” Mesmo assim, a poesia é uma alegoria, e tem sua aplicação pormenorizada às circunstâncias daqueles dias, como teria qualquer pará­ bola encenada. A panela é Jerusalém, o fogo embaixo e em derredor é o cerco, os pedaços de carne são os habitantes de Jerusalém. A palavra para panela (heb. sir) normalmente se refere a qualquer utensílio para lavagem ou para a cozinha, grande e com boca larga, embora neste caso descubra­ mos no v. 11 que é feito de cobre.89 No v. 5 há algumas emendas textuais. A primeira referência a “ossos” sàmtm), lenha em ARA; o acusativo (88) Conf. também Mq. 3:2-3. (89) Para informações adicionais, o leitor deve dirigir-se aos verbetes “Va­ sos” e “Oleiro, cerâmica” no NDB, e para uma consideração mais específica ver J. L. Kelso - “Ezekiel’s Parable of the Corroded Copper Caldron” e seu estudo por­ menorizado The Ceramic Vocabulary o f the Old Testament, BASOR, Supplemen­ tary Studies, 5-6, 1948.

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EZEQUIEL 24:5-13 cognato, desconhecido fora deste texto, em “ferver suas ferveduras” (r^tãhêhâ), faze-a ferver bem em ARA, seria preferivelmente alterado, confor­ me ocorre em dois MSS, para “seus pedaços” (netàhêhâ), palavra que é es­ pecialmente usada para cortes de carne. O verbo final pode ser facilmente alterado para um imperativo: cozam-se... os ossos, mas isto é menos neces­ sário. BJ tem: “até que fiquem cozidos os ossos que ela contém.” 24:6-14. Ai da cidáde sanguinária! Aqui há dois oráculos que de­ pendem um do outro e da poesia da panela. O primeiro (6-8) trata da culpa de sangue de Jerusalém, fazendo referência à mensagem de 22:1-16, e in­ troduz o assunto fazendo um jogo de palavras com a corrosão que o fer­ ver da panela trouxe à tona, provavelmente na forma de uma escuma fer­ ruginosa. O hebraico hel’â (“escuma,” ferrugem) ocorre somente aqui no Antigo Testamento. É possível que tenha relação com uma raiz que signi­ fica “doença” ou mesmo “sujeira,” mas seu significado deve ser extraído principalmente do seu contexto. Do meio desta mixórdia avermelhada, o conteúdo deve ser removido pedaço por pedaço indiscriminadamente. Is­ to quer dizer que os habitantes da Jerusalém sitiada devem ser espalhados em todas as direções. Mas a culpa de Jerusalém ainda permanece, como sangue derramado numa penha descalvada, não coberto pela terra num sepultamento e, portanto, ainda clamando a Deus por vingança (cf. Gn 4: 10; Lv 17:13; Jó 16:18; Is 26:21). A dispersão dos judeus não forneceu uma solução para esta questão maior da culpa da nação. O segundo oráculo (9-14) trata da questão de modo diferente. No v. 5, a lenha era empilhada debaixo da panela para ferver o conteúdo do cozido; agora, o Senhor pretende acender um fogo que acabará derreten­ do a própria panela. Com esta finalidade, primeiramente se desfaz o con­ teúdo (RSV: “cozinha bem a carne, e esvazia o caldo, 10), os ossos da car­ ne são queimados, e então a panela vazia é colocada sobre as brasas, para que se tome incandescente e toda a sua sujeira e ferrugem sejam derreti­ das. As duas primeiras palavras do v. 12, “ela cansou (-me com seu) traba­ lho,” não estão na LXX, e muitos pensam tratar-se de uma repetição do versículo anterior; mas o versículo passa a mostrar que nem sequer este drástico tratamento a Jerusalém traz o efeito desejado. A ARA capta um bom sentido para o contexto: Trabalho inútill Knox parafraseia: “Tão profunda 'aquela ferrugem, que nem sequer o fogo a afastará,” e acres­ centa, numa atraente nota de rodapé: “Mas não ficà claro que este é o sentido”! Numa passagem de tamanha dificuldade, os pormenores da tra­ dução devem freqüentemente ser sacrificados visando o propósito de fazer 162


EZEQUIEL 24:14-15 sentido de modo global. E no v. 13 o sentido realmente fica claro na RSV: “A sua ferrugem é tua luxúria imunda. ” 0 restante coincide com a ARA: porque eu quis purificar-te e não te purificaste, não serás nunca purifica­ da da tua imundícia, até que eu tenha satisfeito o meu furor contra ti. Os sofrimentos apavorantes padecidos pelo povç.de Deus desde 588 a.C. em diante, no cerco e no exílio, eram devidos à sua indisposição em dei­ xar que Deus lidasse com eles mais cedo na sua história de desobediência. E agora, a sentença foi pronunciada, veio o momento da execução. Nada pode fazê-la voltar. Eu, o SENHOR, o disse (14). Sua decisão, Sua pala­ vra e Sua ação são igualmente irrrevogáveis. p.

A morte da esposa de Ezequiel (24:15-27)

Nestes versículos vislumbramos o interior de Ezequiel, raramen­ te exteriorizado, aparentemente severo e inflexível. Sua austeridade e sua rígida auto-disciplina, sua paixão pela verdade e pela honra do nome santo de Deus, quase escondem o coração tenro que possui. Sem o dese­ jo de romantizar Ezequiel de qualquer maneira, é válido comentar que fre­ qüentemente o homem é visto como realmente é, somente quando junto a sua esposa. Ao passo que nos demais quarenta e sete capítulos ficamos impressionados, senão intimidados, pela personalidade de Ezequiel, neste capítulo, no coração do livro que leva seu nome, o encontramos atraente com emoções humanas como as nossas. Este fato é confirmado pela fra­ se que emprega para descrever sua esposa: “a delícia dos seus olhos, aquela em quem seus olhos se deleitam.” Skinner escreve: “Aquela frase, por si só, revela que havia uma fonte de lágrimas retida dentro do peito deste severo pregador.”90 Sua recusa em prantear abertamente não era nenhum ato de escolha pessoal mas, sim, uma exigência simbólica que Deus lhe fez, que apenas lhe acentuou a amargura da sua perda. E. L. Allen (em IB), comenta que os homens chamados por Deus, freqüentemente têm de pa­ gar um alto preço por sua solicitude com as necessidades huínanas e por sua identificação com o propósito de Deus. “Estão conclamados, uma vez após outra, para entregar sua vida particular às exigências da sua res­ ponsabilidade pública.” Para Ezequiel, certamente, haveria o fardo adicio­ nal de ser mal entendido e criticado por demonstrar insensibilidade. Por detrás da frase lacônica no v. 18: “Na manhã seguinte fiz segundo me ha­ via sido mandado,” devem ter ocorrido longas horas de insônia e de angús­ (90) Skinner, pág. 210.

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EZEQUIEL 24:16-18 tia espiritual. 16-18. 0 tipo de morte da sua esposa, que foi aparentemente pre­ nunciada na manhã do dia em que ocorreu (e não há razão para supor que não fosse dentro de poucos dias após a data mencionada em 24:1), é descrita como sendo às súbitas. Isto não exige uma morte repentina, porque lit. “golpe” pode significar “praga” ou “pestilência,” ou qual­ quer coisa que seja um golpe mortal. Não seria, portanto, impossível que a esposa de Ezequiel já estivesse doente, e isto daria mais sentido ao ato de Ezequiel falar ao povo de manhã para contar-lhe o que estava para acontecer e para avisá-lo que havia sido proibido de prantear (18). Alter­ nativamente, podemos entender esta morte como sendo totalmente sem aviso (do ponto de vista de sintomas físicos), a não ser a predição da parte de Deus que lhe viera mais cedo naquele dia, e a primeira frase do v. 18 pode ser compreendida assim: “Estava cumprindo meu dever normal de falar ao povo de manhã, e à tarde, sem prenúncio, minha esposa morreu.” É muito difícil imaginar Ezequiel contando para tudo e todos que sua es­ posa estava para morrer naquele mesmo dia, enquanto fazia os serviços do­ mésticos, em perfeitas condições de saúde, conforme as aparências. Sem dúvida, ela haveria de protestar! É muito mais concebível supor que, em­ bora Ezequiel recebera advertência prévia, conservasse a mensagem como seu segredo até que tivesse de aproveitar a triste ocasião para mais uma ação simbólica. Os costumes de luto refletidos nestes versículos são interessantes. Cinco aspectos podem ser observados, (a) Geme em silêncio (17): a palavra “gemer” é normalmente usada para os gemi­ dos altos dos feridos, e relembra as lamentações rituais que existiam re­ gularmente em ocasiões fúnebres (cf. Mc 5: 38). (b) Prende o teu turban­ te: no luto, o turbante, o ornato normal da cabeça do sacerdote (cf. Êx 39:28; Ez 44:18), embora fosse também o ornato festivo da cabeça do leigo (Is 61: 3, 10), seria removido e a cabeça coberta de pó e cinzas (cf. Js 7: 6; 1 Sm 4:12; Jó 2:12). (3) Mete as tuas sandálias nos pés: as san­ dálias eram tiradas em tempos de aflição, como em 2 Samuel 15: 30 (cf. também Is 20: 2). (d) Cobrir os bigodes era compulsório para o leproso (Lv 13:45), e era sinal de vergonha (Mq 3:7). Tratava-se de cobrir com véu a parte inferior do rosto, desde o nariz para baixo; embora às vezes seja traduzida como “lábios,” sãpam realmente significa “bigode,” e con­ tinua significando no hebraico moderno, (ej Não comas o pão que te man­ dam, lit. “o pão dos homens”; Wellhausen alterou o texto para “pão de tristezas” (,anüstm ao invés do TM ,anãsimJ, e algumas versões antigas traduzem: “pão dos enlutados,” mas o TM, mais difícil, merece ser con­ 164


EZEQUIEL 24:19-25 servado. A frase “dos homens” significa “usual,” “comum” (conforme seu uso em Dt 3: 11, Is 8: 1), de modo que o mandamento aqui e' não co­ mer comida usual, i.é, a refeição funerária para os enlutados. Cf. Jere­ mias 16: 7. Realmente, é útil comparar estas palavras com a seção inteira em Jeremias 16: 5-13, onde Deus proibiu Jeremias de entrar na casa de luto, e foi conclamado a dar suas razões quando o povo o desafiou. 24:19-24. O sinal interpretado. Quando Ezequiel deliberadamen­ te refreou-se dos procedimentos costumários do luto, é fato a seu favor e dos seus companheiros de exílio que estes imediatamente suspeitassem haver nisto algo de especial relevância. A visita feita por eles ao seu lar, na manha seguinte que a notícia da morte da sua esposa havia passado como um raio pela povoação, provavelmente fora para oferecer simpatia e apoio. Ao invés disto, acharam-se pedindo uma palavra da parte de Deus. Não era nenhuma mensagem nova, mas, por causa da ocasião que lhe deu vazão, falavam com mais força do que em qualquer tempo anterior. Deus estava para profanar Seu santo Templo destruindo-O. Assim como o ente mais querido de Ezequiel lhe fora tirado num só golpe, assim também a nação iria perder seu objeto mais querido, seu mais alto or­ gulho, o anelo de sua alma. O povo de Jerusalém perderia seus filhos, também pelas ações hostis dos inimigos. E a mensagem era: Fareis como eu fiz (22). Howie entende que se trata de uma condenação da incrível falta de aflição ou senso de arrependimento da parte do povo, por causa das tragédias que o ameaçam. A falta de aflição da parte de Ezequiel ressaltava quão errônea era a falta e preocupação da parte do povo. O con­ texto, no entanto, exige que ao refreamento da aflição seguisse a catástro­ fe. Ezequiel não chorara, e Israel não choraria tampouco; isto porque, nos dois casos, a tragédia era demasiadamente profunda e estonteante para qualquer expressão de mágoa revelar-se adequada. Conforme a expressão de Cooke: “O pranto será inapropriado na presença de uma tão completa desgraça.” 24:25-27. O fim da mudez de Ezequiel. O capítulo termina com mais uma palavra que antevê a segunda fase principal do ministério de Eze­ quiel, depois do capítulo 33. Trata do impacto que a destruição de Jerusa­ lém trará sobre o próprio profeta; note a expressão enfática: “E tu, filho do homem,” que começa o parágrafo. No que dizia respeito a Ezequiel, esta desgraça revelar-se-ia um ponto crucial na obra da sua vida. Sua men­ sagem seria vindicada, e pela primeira vez, teria ouvintes bem dispostos. 165


EZEQUIEL 24:26-25:1 Mais especificamente, a mudez ritual que lhe fora imposta na ocasião do seu chamamento, seria afastada da sua boca, e ele poderia falar livremen­ te (cf. 3:26, 33:22). A construção das frases na passagem é um pouco confusa, e dá a impressão de que a mente do escritor corre mais rapida­ mente do que sua pena. Conforme consta no texto, parece que a frase nesse dia do v. 26 refere-se ao mesmo dia que v. 25, mas é claro que a que­ da da cidade e a transmissão da noticia por um fugitivo a Ezequiel não poderiam ter acontecido no mesmo dia, a não ser que Ezequiel se encon­ trasse na Palestina naquele tempo, e a menos de um dia de viagem distan­ te de Jerusalém (assim Hemtrich). É melhor supor que o escritor, escreven­ do consciente do que estava para vir, reuniu num só episódio o evento e a sua narração. Apoiando esta idéia, vale mencionar que algum que escapar (26) é realmente “aquele que escapar” lit. “o fugitivo,” como se o escri­ tor soubesse o que haveria de vir em 33:21. Está dizendo, portanto: “quando este fato acontecer e a notícia chegar aos teus ouvidos, então tua boca será aberta e já não ficarás mudo.” Esta libertação da restrição que lhe foi imposta, será, em si mesma, um portento, e o povo reconhecerá a mão do Senhor em tudo aquilo (27). Então, finalmente, Ezequiel estará livre. Já não será necessário pronunciar suas profecias de ruína. Poderá agir como pastor e atalaia para seu povo. Estará livre para trabalhar de modo construtivo, visando a edificação de uma nova comunidade, de um novo Israel. V. ORÁCULOS CONTRA AS NAÇÕES 25:1-32:32) Embora os profetas do Antigo Testamento dirigissem suas mensa­ gens primariamente ao seu próprio povo, ou pelo menos a uma parte da comunidade da aliança de Deus, era sua característica ter uma visão glo­ bal das demais nações do mundo a fim de demonstrar a soberania do Se­ nhor sobre os pagãos, e não somente sobre Israel. Este é o padrão em Isaías (capítulos 13-23), em Jeremias (capítulos 46-51) bem como em Amós (ca­ pítulos 1, 2). O propósito deste tipo de literatura é duplo. Em primeiro lu­ gar, surge de uma crença no monoteísmo, e visa demonstrar as operações do monoteísmo. Se Javé é o Deus da terra inteira, claramente tem algo pa­ ra dizer acerca da história e do destino de outras nações além de Israel. Em segundo lugar, as perspectivas futuras de Israel, quer sejam concebidas em termos de um dia do juízo, do messianismo davídico, ou de uma nova aliança, devem ser emparelhadas ao julgamento contra os povos que fre­ 166


EZEQUIEL 25:1 qüentemente desconsideraram de modo flagrante as leis pelas quais toda a humanidade deve ser julgada. Pecados nacionais tais como a agressão, a ar­ rogância, as atrocidades e a quebra de alianças, para mencionar poucos, merecem a ira de Deus, quer sejam cometidos por potências judaicas, quer por gentias. Provavelmente há alguma relevância no fato de que, nesta coletâ­ nea de oráculos, o número de nações tratadas é sete (Amom, Moabe, Edom, Filístia, Tiro, Sidom, e o Egito). O mesmo número aparece em Amós, embora alguns considerem um ou dois dos seus oráculos como sendo acréscimos posteriores. Devemos ter em mente, porém, que os orá­ culos de Ezequiel foram entregues em ocasiões diferentes, sendo obvia­ mente colecionados e encaixados nesta parte do livro, e na presente ordem com algum propósito. Não é improvável que o responsável por este item de trabalho editorial fosse consciente do fator “sete” na sua compilação. Outro sinal de planejamento editorial é o padrão geográfico dos oráculos, a começar com Amom ao nordeste de Jerusalém, dirigindo-se para o sul, através de Moabe, até Edom ao sudeste, depois circulando para a Filístia à oeste, e finalmente indo mais longe na direção setentrional para Tiro e Sidom, antes de terminar na grande potência distante, o Egito, ao sul. Inevitavelmente, a omissão da Babilônia provoca comentários, e este fato recebe várias explicações. Cooke entende que a Babilônia fica à parte das demais nações, por ser o instrumento do castigo divino sobre Israel. Skinner vai mais longe e considera os invasores babilônios como sendo os instrumentos do julgamento de todas as nações aqui mencionadas, e não somente de Israel. Ellison propõe a idéia fascinante de que Tiro deva ser entendido como um código para “Babilônia.”91 Argumenta que qual­ quer predição sobre a queda da Babilônia seria arriscado, e o profeta sofre­ ria as conseqüências. Tiro, porém, foi descrita talvez um pouco profusa­ mente demais para aquele tempo, de modo que o leitor com discernimen­ to pode perceber o segundo sentido.Certamente., a concentração de tanta atenção sobre a prosperidade comercial de Tiro parece ser um pouco incomum, mas deve ser lembrado que o passo seguinte de Nabucodonosor, depois da queda de Jerusalém, era sitiar Tiro, e o cerco haveria de durar treze anos. Era, portanto, da máxima importância para os exilados judeus, (91) L. Finkelstein também contesta isto (The Pharisees, vol. I, 1938, págs. 335ss.) mas é difícil ver porque tanto é feito de Tiro uma potência marítima, se representava a Babilônia e porque Nabucodonosor seria responsável pela sua que­ da.

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EZEQUIEL 25:1-3 que Tiro recebesse o mesmo tratamento que haviam recebido em Jerusa­ lém, e naturalmente estariam muito interessados em saber como o cerco terminaria. Assim, a despeito de ser atraente a sugestão de Ellison, não pa­ rece que o contexto a exige. Mais uma observação precisa ser feita. O editor, seja Ezequiel, seja outro, encaixou estes oráculos entre os capítulos 24 e 33 a fim de ressal­ tar a dramática tensão em esperar a notícia sobre a queda de Jerusalém que estava para irromper no meio dos exilados que duvidavam. Ao mes­ mo tempo, esta seção marca um hiato claro entre o ministério e mensa­ gem de Ezequiel antes de 587 a.C., e seu tratamento bem diferente aos exi­ lados uma vèz que a calamidade tinha vindicado suas palavras e criado a atmosfera de atordoante arrependimento na qual poderia começar a res­ taurar a confiança da nação nos bons propósitos de Deus. a. Contra nações vizinhas (25:1-17) A maioria dos comentaristas notam a prosa pouca pitoresca destes quatro oráculos (assim Cooke, May, Muilenburg, Eissfeldt, inter al), e isto é verdade em comparação com o esplendor poético dos oráculos sobre Tiro e Egito. Não se segue daí, porém, que se trata de matéria se­ cundária. Assim como os oráculos de Amós (Am 1:3-2:3), estes foram escritos na forma estereotipada, e seguem o padrão “visto que... eis que...” do oraéulo agressivo (cf. 26:2; 34:8-10; 36: 2, etc.) que parece ser caracte­ rístico de Ezequiel. Além disto, há muitas frases que são típicas do esti­ lo de Ezequiel, tais como: “profanando o meu santuário,” “estendendo minha mão,” “executando juízos,” e, naturalmente, a frase sempre pre­ sente: “e sabereis que eu sou o SENHOR.” Esta última frase ocorre no fim dos dois oráculos contra Amom (5, 7), e no fim dos oráculos contra Moabe e contra a Filístia (11, 17), mas no caso de Edom é variada para “e eles conhecerão a minha vingança.” Todos os oráculos tratam da atitu­ de destes quatro estados vizinhos para com Judá na ocasião da queda de Jerusalém. 25:1-7. Contra Amom. Os amonitas estavam freqüentemente em conflito com os israelitas desde os tempos dos Juizes (cf. Jz 10; 11; 1 Sm 11; 2 Sm 10, etc.). Tinham lucrado às expensas do reino do norte cerca de 722 a.C. (cf. Jr 49:1) e também haviam colaborado, mais recentemente, em perturbar Jeoaquim (2 Rs 24:2). Depois da queda de Jerusalém, pa­ rece que o rei amonita, Baalis, encorajou Ismael a assassinar Gedalias (Jr 40:14). O seu crime, neste oráculo, era de haver exultado maliciosamente 168


EZEQUIEL 25:4-12 sobre o infortúnio de Judá (3, 6; a terra de Israel, que significa o territó­ rio de Judá, não o antigo reino do norte), e o seu castigo seria a invasão pelas tribos nômades do deserto (os filhos do Oriente, 4) que usariam a capital, Rabá, como lugar para pasto a seus camelos (pastagem, RSV, me­ lhor do que estrebaria, ARA, ARC). O segundo oráculo (6, 7) tem a mes­ ma forma e trata do mesmo delito que o primeiro, porque bater as pal­ mas e pisar forte com os pés era obviamente “um gesto de deleite mali­ cioso” (Davidson). O castigo, no entanto, é mais específico: os amonitas se tomarão presa de povos estrangeiros, e serão completamente destruí­ dos como nação. Não é fácil perceber como a frase final do v. 7 se enqua­ dra nisto. Pode ser que o conhecimento do Senhor será experimentado so­ mente na calamidade da destruição final. May compara as promessas de resutaraçâo depois da destruição que são achadas em Jeremias (48:47; 49:6, 39) e pensa tratar-se de um indício de que finalmente haverá pa­ gãos adorando a Javé como o Deus verdadeiro. 25:8-11. Contra Moabe. A hostilidade entre Moabe e Israel remon­ ta até Balaque e Moisés (Nm 22-24). Como nação, estavam estreitamente associados a seus vizinhos amonitas (cf. Gn 19:30-38), mas eram um povo mais estabelecido, e tinham uma cultura bem desenvolvida. O seu crime é o desprezo por Judá e a rejeição das suas declarações de ser um povo pe­ culiar com um Deus com poder sem igual. Supõe-se que a derrota de Judá na guerra fosse considerada uma justificativa adequada por este desprezo, mas não era menos culpável por isso. Moabe compartilharia a ruína dos amonitas. Seu flanco (9; lit. “ombro”) seria exposto ao ataque, mediante a destruição das suas cidades poderosamente fortificadas. Três delas são mencionadas pelo nome, e sua exata posição pode ser vista em um bom atlas bíblico, ou em NDB, pág. 1059, Fig. 152. Oráculos contra Moabe ocorrem nos escritos de outros profetas também (cf. Is 15; 16; Jr 48; Am 2:1-3; Sf 2:8-11). Vale a pena notar que, não muito tempo depois disto, tanto Amom quanto Moabe foram devastadas por tribos nabatéias e deixaram de ter qualquer existência independente como nações. 25:12-14. Contra Edom. Israel e Edom tinham uma rixa de longa data, que, na tradição antiga, remontava até seus ancestrais gêmeos (Gn 25: 23). De tempos em tempos este ódio irrompia violentamente, confor­ me aconteceu na queda de Jerusalém, quando, então, os edomitas apro­ veitaram-se da triste situação de Judá de tal forma que mereceram a ani­ mosidade imorredoura e amarga do tipo que se reflete no Salmo 137:7-9; 169


EZEQUIEL 25:13-26:1 Obadias 1-21 e Malaquias 1:3-5 (para outros oráculos, ver Is 34:5-7; Jr 49: 7-22; Lm 4: 21-22; Ez 35; Am 1:11-12). Não podemos dizer com certeza o que os edomitas realmente fizeram, mas certamente tomaram parte com Nabucodonosor contra Jerusale'm, e depos do exílio há evidências da ocu­ pação do sul de Judá pelos edomitas.92 O seu crime de agir vingativamente é expressado por Ezequiel nos termos mais enfáticos (12), e seu castigo se­ guirá o mesmo estilo. Israel deverá ser o agente para esta vingança (14, por intermédio do meu povo de Israel), e é interessante notar que Edom pro­ priamente dito também foi infestado pelos nabateus, os ancestrais dos árabes modernos. Os sobreviventes edomitas foram subjugados posterior­ mente, de início por Judas Macabeus e depois por Joâo Hircano, que os incorporou à raça judaica mediante a circuncisão compulsória. Ezequiel, no entanto, não prediz que em algum tempo virão a “saber que eu sou o SENHOR.” 25:15-17. Contra os filisteus. Estes habitantes da parte sulina da faixa litorânea da Palestina também eram inimigos inveterados de Israel durante sua história primitiva, mas não tinham vínculos de parentesco e eram originalmente “povos do mar” Mediterrâneo, da área do Egeu. Davi finalmente quebrou a sua ascensão militar, mas continuava a causar problemas ocasionais durante a monarquia, embora nâo tenhamos outro registro, a não ser este oráculo, sobre sua hostilidade na ocasião da que­ da de Jerusalém. Os queretitas, que eram regularmente vinculados a eles, bem podem ser etimologicamente idênticos aos cretenses, conforme tra­ duz a LXX. Davi os empregava no seu exército regular de mercenários, e é provável que “os peletitas”, que compartilhavam com eles este dever fossem filisteus com nome um pouco diferente. O castigo que lhes foi pronunciado por suas injustiças vingativas contra Jerusalém (sem dúvida, eles também tomaram parte com a Babilônia), é expresso na forma de um jogo de palavras: eliminarei (hikratti) os queretitas (’et kerêttm). Depois do tempo dos macabeus, os filisteus desapareceram totalmente como um povo, e permaneceram apenas os nomes das suas cidades. b.

Contra Tiro e Sidom (26:1-28:26) Dizer que Ezequiel nestes oráculos volta-se das nações, ao redor de

(92) Ver W. F. Albright, BASOR, LXXXII, 1941, págs. 11-15, conf. tam­ bém I Esdras 4:50.

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EZEQUIEL 26:1 Judá para potências mais distantes tais como Tiro, Sidom e Egito, é per­ feitamente verdadeiro, mas deve ser dito com cautela. É muito fácil esquecer-se da pequena escala da geografia da Terra Santa. Por exemplo, to­ dos os territórios referidos no capítulo 25 podem ser vistos de Jerusalém à olho nu. A distância de Tiro é apenas comparativa, porque são simples­ mente 56 km em linha reta a partir do mar da Galiléia, e apenas 160 km de Jerusalém. Para aqueles que comerciavam, a distância seria coberta em poucos dias a camelo. A preeminência de Tiro no comércio mundial era devido à sua si­ tuação natural, com dois portos excelentes, um deles no lado continen­ tal onde uma parte da cidade estava construída, e o outro na ilha a pouca distância da praia que deu à cidade o seu nome (Tiro = sõr = rocha). Os dois portos eram ligados por um caminho elevado construído no século X a.C. por Hirão I, e isto duplicou efetivamente o potencial comercial da cidade. Ao mesmo tempo, quando o perigo ameaçava, o caminho elevado possibilitava a retirada para ilha de refúgio, que assim tomava-se em lugar para se guardar tesouros, armazém e fortaleza inexpugnável para os seus habitantes. Como centro comercial, Tiro era famosa pelos seus artigos de vidro e artigos coloridos, fazendo uso da púrpura obtida do marisco murex local. Inevitavelmente, era uma presa para a qual potências estrangeiras olhavam gananciosamente e teve de pagar pesado tributo a Assíria como preço pela sua liberdade comercial. Sua prosperidade contínua teria enco­ rajado o surgimento de um senso de complacência para consigo mesma e de ciúmes nos vizinhos menos privilegiados. Essas atitudes são completa­ mente refletidas nos oráculos de Ezequiel. Há cinco grandes sub-divisões nesses capítulos, cada uma começan­ do com “veio a mim a palavra do Senhor” (26:1; 27:1; 28:1, 11, 20). São elas: (I) A profecia da destruição de Tiro (26:1-21); (II) a lamenta­ ção do naufrágio de Tiro, ilustrada como um próspero navio-mercante (27:1-36); (III) o oráculo sobre a queda do príncipe de Tiro (28:1-10); (IV) o lamento sobre o rei de Tiro (28:11-19); (V) a profecia contra Si­ dom (28: 20-26). i. Profecia da destruição de Tiro (26:1-21).93 Mais uma vez a pro­ (93) O longo cerco de Tiro pelos exércitos de Nabucodonosor terminou em cerca de 587-574 a.C. Sobre os detalhes históricos desse capítulo, deve-se referir S. Smith, “The Ship Tyre”, Palestine Exploration Quarterly, LXXXV, 1953, págs. 97-110.

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EZEQUIEL 26:1-7 fecia pode ser sub-dividida em distintas seções, cada uma introduzida pela fórmula oracular Assim diz o Senhor Deus (26: 7, 15, 19). Isto, entretan­ to, mantém unida a mensagem principal do capítulo e acrescenta-lhe significância. A primeira parte (1-6) usa o estilo típico do capítulo anterior “porque... portanto...”. A falta de Tiro é que se alegra com a queda de Jerusalém congra­ tulando-se por ter perdido um sério competidor comercial. A porta dos po­ vos (2) sugere que Jerusalém está em meio a numerosas rotas comerciais internacionais e assim era capaz de impor as suas taxas. Provavelmente, Ti­ ro esperava assumir esse encargo para si mesma. 1. A data apresenta um problema não havendo referência ao mês do ano. O v. 2 sugere que Ezequiel, bem como os habitantes de Tiro sabiam da queda da cidade e isso não,foi conhecido na Babilônia até o décimo mês do duodécimo ano (33:21). Há, portanto, sérias dificuldades nesta data em 33: 21. Se assim for, 26:1 pode ser sustentado e seria seguro assumir que o mês que é destacado é o undécimo, confundido com o número do ano. Este oráculo, portanto, foi pronunciado, de modo raro, um mês de­ pois da notícia da queda de Jerusalém ter chegado aos exilados. Pode ter sido adiantada através de uma antipática nota de algum comerciante de Tiro que passava por Tel Abibe quando os exilados ainda sofriam diante da notícia do desastre. 4-6. O castigo sobre Tiro é que se tomará um visível afloramento de rocha (jogo de palavras sobre seu nome) sem construções ou solo para cultivo. Serviria apenas para pescadores estenderem suas redes para secagem.94 Suas filhas são as aldeias no continente que se tomariam pre­ sas fáceis dos ataques dos exércitos. 26: 7-14. Nabucodonosor. É agora visto como instrumento do jul­ gamento de Deus sobre Tiro e sua estratégia militar é descrita com alguns detalhes (cf. 4:13; 21:22). Sobre o terrapleno (8, ARA; muro de cerco, RSV) e telhado de paveses, ver as notas sobre dayèq e sòflâ na pág. 71. Levantar os escudos é corretamente interpretado por ARA como telhado (94) Um viajante, visitando Tiro cerca de um século atrás, escreveu: “A ilha, como tal, não tem mais de 1.600 metros de extensão. A parte que se projeta além do istmo, tem talvez, 400 metros de largura sendo rochosa e irregular. Atualmen­ te está desocupada, exceto por pescadores, como lugar usado para estenderem suas redes.” Citado em W. M. Thomson, The Land and The Book, 1910, pág. 155n.

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EZEQUIEL 26:8-27:1 de paveses, como a tartaruga romana (testudo). A descrição do cerco vem estranhamente em conexão com uma ilha de refúgio em Tiro, onde, cer­ tamente, cavalos não poderiam atuar. Talvez Ezequiel estivesse usando formas convencionais sem considerar a realidade (assim May), mas é me­ lhor entender que se trata da descrição de um cerco na altura das mura­ lhas, assim como adotaram os assírios quando sitiaram Tiro em 673 e 668 a.C. Quando Alexandre, o Grande tomou Tiro, fez uso de opera­ ções de cerco semelhantes, construindo um enorme dique desde o conti­ nente até as fortificações da ilha. 26:15-18. O desalento dos príncipes do mar. Um dos resultados da estrondosa queda de Tiro, será o desalento sentido pelos governado­ res dos principados vizinhos, dependentes do comércio de Tiro para a sua prosperidade, e abatidos com a destruição de tão poderosa líder. As ilhas (ARA) são, na realidade, as terras costeiras (RSV), i.e., as pequenas cidades-estado na costa do Mar Mediterrâneo. Seus príncipes prantearão e le­ vantarão lamentações (qtnâ), a tradicional canção de lamentação na métri­ ca 3:2. 26:19-21. A descida de Tiro ao inferno. Em linguagem altamente figurada, a cidade-ilha de Tiro é mostrada submersa sob as ondas do mar. Mas tomou-se em ondas da torrente mitológica cósmica, as águas do caos, que a tragaram por fim. Linguagem semelhante é usada para o Egito em 31:14-18; 32:13-32; e a canção triunfal de Isaías sobre o rei da Babilô­ nia merece também ser comparada (Is 14:4-21). A passagem dá a impres­ são que a cova (Heb. bôr), que é identificado com Sheol, é o lugar de on­ de não há retomo e de perdição eterna (21). Não há esperança de ressur­ reição, simplesmente uma contínua existência obscura junto ao povo an­ tigo entre as ruínas do passado; realmente um fim tenebroso. ii. O naufrágio de Tiro (27:1-36). Este capítulo é composto de duas partes isoladas: um longo poemá na métrica qtnâ (3b-9, 25b-36), e uma prosa incluída em meio ao poema (10-25a). O poema é uma alego­ ria sobre o navio mercante Tiro, suntuosamente armado e com uma habi­ lidosa tripulação, porém tão carregado com mercadoria que em mares bra­ vios afunda até as regiões mais inferiores do oceano. Em seguida, todos os navegantes do Mediterrâneo reunem-se na praia para lamentar sua perda. 27:1-9. Um grandioso navio mercante. A descrição excessiva de 173


EZEQUIEL 27:1-11 cada detalhe do navio comercial que representa a cidade de Tiro é expres­ sa como uma elaboração da opinião pessoal de Tiro sobre a sua incomparabilidade: “Eu sou perfeita em formosura” (3). Não há indicação no poema que esta é a razão de sua queda, como é explicitamente declarado no capí­ tulo seguinte (28:2-8), mas o poema é tão sutilmente construído que a ra­ zão só não seria reconhecida pelo mais estúpido leitor. O v. 4, teus termos (alguns diriam “suas amarras ”) estão no coração dos mares, é semelhante a descrição feita por Assurbanipal dos habitantes dominados de Tiro como aqueles que “habitam no meio dos mares”95 A construção de navios era feita de forma estreita com vigas oriundas de Senir, o nome amorreu para Hermom (assim Dt. 3:9), com mastros do Líbano, remos de Basan, ma­ deira e material de adorno feitos com o pinho de Chipre (de acordo com RSV) que era revestido com marfim. As velas eram feitas com os mais fi­ nos linhos do Egito, bordadas em variadas cores servindo como bandeira ou flâmula, e seu toldo tinha duas variações do roxo proveniente de Elisa. Esta é, provavelmente, Alásia em Chipre, sendo que alguns preferem uma localidade na Síria.96 A tripulação vinha de Sidom e de Arvade, uma ilha a 160 km ao norte; os pilotos, lit. “aqueles que esticam as cordas”, pode­ riam ser simplesmente “marinheiros”, todos homens habilidosos de Zemer (assim RSV, 8), cidade associada a Arvade (Gn 10:18), identificada como a moderna Sumra, alguns quilômetros ao sul de Arvade. Os mais experi­ mentados artífices de Gebal (moderna Biblos) estavam a bordo como car­ pinteiros (lit. “reparadores de fendas”). Era procurada por todos os navios do mundo para participarem da troca de sua mercadoria (9). 27:10-25a. O corpo de mercadores. E precedido nos versos 10 e 11 pela menção dos mercenários que serviam no exército de Tiro. Vi­ nham da Pérsia, Lídia, na Ásia Menor (Lud, EW ) e Pute que parece ser Cirenaica na África do Norte ao invés da tradicional identificação com Somália. A LXX traduz Pute com “líbios”, consistentemente, e isso re­ presenta a área geral. Outros mercenários de Arvade, Heleque (= Cilicia, Ac. Hilakka; RSV está certa ao reescrever esta palavra que no TM signi­ fica seu exército) e Gamade (provavelmente a Kumidi das cartas de Tell el-Amama). O quadro do navio é mantido com os escudos dos seus ocu­ pantes pendurados de cada lado. (95) Pritchard, ANET, pág. 296-297. (96) Ver NDB, pág. 494 e May, IB, in loc. para referências mais detalhadas.

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EZEQUIEL 27:12-25 12. A lista de cidades que comercializavam com Tiro é dada em ordem geográfica, começando com Társis, ao oeste de Rodes, lado orien­ tal do Mediterrâneo, vindo do norte de Edom para Damasco, com Ará­ bia e Macedônia por último. Társis (12) tem sido normalmente identifi­ cada com a Tartessus na Espanha, mas pode ter sido o nome fenício pa­ ra a antiga cidade de Nora na Sardenha.97 Javã (13) é a mesma palavra que Ionia, mas, normalmente, cobria uma grande parte da Grécia. Tubal e Meseque eram tribos da Ásia Menor, conhecidas pelas suas inscrições cuneifoimes e pela História de Heródoto, onde aparecem juntas como Moscoi e Tibarenoi. Estavam envolvidas em um nascente tráfico de escravos com Tiro, fato este que não pode ser isolado do seu papel nos oráculos de Gogue e Magogue (38; 39). Togarma (14, ARA) era provavelmente Armênia. DedS (15, ARA) tem sido vista por RSV, de acordo com a LXX, como Ro­ des, em contraste com DedS do v. 20. Comercializavam marfim e ébano, que teria vindo do interior da África através de mercadores fenícios da cos­ ta da África do Norte. Edom (não Síria, conf. ARA), Judá e Damasco par­ ticipavam do vasto fluxo comercial com Tiro. 19. Também Vedã e JavS (ARA), certamente não está correto e RSV omite a primeira palavra traduzindo e vinho de Uzal, referindo-se ao nome do local provavelmente identificado com a moderna Sana, capital do Yemen. Millard sugere ler wedannê, “e barril de”, para wedan, “e Vedã” e traduz “e barris de vinho de Izalla”, um distrito na Anatolia, fa­ moso pela qualidade de seus vinhos.98 Cássia era um perfume feito de uma casca aromática; era usada com cálamo ou “cana doce”, como ingrediente para óleo de unção dos sacerdotes (Êx 30:23, 2 f; cf. também Is 43:24; Jr 6:20, para o uso cultual do cálamo). 20-25a. Para a localização desses nomes de locais, ver May, IB, in loc.; NDB; ou L. H. Grollenberg, Atlas o f the Bible (1956). Os navios de Társis (25) tem sido compreendidos como “a frota de refinaria”, com base no artigo de Albright em BA SOR, citado acima no v. 12. 27:25b-36. Naufrágio e lamentação. No exato lugar onde se pensa­ va que Tiro era suprema, no coração dos mares (conf. v. 4), ela foi derrota­ (97) Ver W. F. Albright, “New Light on the Early History of Phoenician Colonization”, BASOR, LXXXIII, 1941, págs. 17-22. (98) Ver A. Millard, “Ezekiel XXVII, 19: The Wine Trade of Damascus”, JSS, VII, 1962, págs. 201-203.

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EZEQUIEL 27:26-28:2 da pelo desastre. O poderoso vento oriental (conf. Sl. 48: 7) espatifou-a e afundou-a, levando consigo toda tripulação e seus exércitos e mercadorias (é relevante que isto venha em primeiro lugar na lista?). As praias (28, ARA), que supriram muitos dos que estavam à bordo, serão abaladas com o som dos marinheiros clamando com choro por ajuda, e todo o mundo navegànte reune-se para lamentar a perda de tão suntuosa embarcação. Para os sinais de pranto nos versos 30, 31, ver 7:17-18. 32. Esse é um caso incomum de lamentação sobre lamentação, pois todo o capítulo foi assim descrito em 27: 2. Ele começa com vívido contraste ao verso 3, Quem-é como-Tiro destruída no-meio-dos-mares? Ironicamente, os empreendimentos de Tiro são recontados nos termos dos benefícios que seu comércio trouxe aos reis da terra. Nenhuma referência se faz ao vasto lucro que ela própria acumulara para si — certamente um toque deliberado da parte de Ezequiel. No tempo (34, ARA) ela é quebra­ da pelos mesmos elementos que lhe trouxeram prosperidade. Seus negócios (de novo em primeiro lugar) e sua tripulação haviam sido submersos. To­ dos os principados litorâneos ofegarão diante da surpreendente catástrofe, mas o terror em suas faces é a expressão do medo pelas conseqüências que cedo lhe sobrevirão. Mercadores assobiarão em esmorecimento (conf. 1 Rs 9:8). Dirão literalmente: “Tomaste-te em terror”, ou como RSV parafra­ seia, “Chegaste a um tenebroso fim”. A mesma palavra é usada (ballàhôt) ao concluir o capítulo 26.' iii. A queda do príncipe de Tiro (28:1-10). Abandona-se a metáfora neste poema e o príncipe de Tiro (heb. nãgfd, governador), Itobal II, é vigorosamente atacado por causa das suas reivindicações de deidade. Is­ so não significa, necessariamente, que Tiro acreditasse num reinado divino, pois a crítica não é tanto pessoal, mas é um sério ataque ao estado. Tiro considerava-se toda-poderosa, sobre-humana e virtualmente eterna; era pos­ suidora de bens e sabedoria acima das outras cidades, e isso nos leva à incrível arrogância pela qual Tiro foi notória. O oráculo começa com a rei­ vindicação do príncipe de Tiro que diz: Eu sou Deus. Esta reivindicação, que é a base da condenação, é esporadicamente repetida através do orácu­ lo (2b, 6, 9). O príncipe, assim, não é um deus, mas homem (2, 9). Sua rei­ vindicação de sabedoria, que não lhe é negada (3-5), levou seu coração, de 176


EZEQUIEL 28:3-18 modo estúpido, a se exaltar. Entâfo terá seu fim encontrando a morte nas mios dos estrangeiros, de maneira totalmente impossível para manter sua imagem de grandeza. Porque eu o falei, diz o Senhor Deus, e Deus tem sempre a palavra final. O Daniel do v. 3 deve ser entendido com as características que apare­ ce em 14:14, 20. Embora ali seja famoso pela sua retidão, aqui destaca-se pela sua sabedoria. A rara soletração (DanVel) é comum a ambos, e a figura patriarcal do passado é a que parece ser referida. É muito difícil dizer dog­ maticamente que é a mesma do Daniel ugarítico, mas os dois não podem ser totalmente separados (ver sobre 14:14). É interessante notar que tanto a retidão como a sabedoria eram duas qualidades do Daniel da Bíblia (cf. Dn 1:17-20; 2:47; 4:18, etc.), e este foi um clássico exemplo do homem que não se exaltou por causa do seu sucesso. Os mais terríveis estrangeiros dentre as nações (7) são os babilônios, como em 30:11; 31:12; 32:12. iv. Lamentação sobre o rei de Tiro (28:11-19). Estes versos abun­ dam em alusões a Gênesis 2,3 e à história do Paraíso. A ligação é, sem dúvi­ da, o pecado do orgulho, do qual tanto Adão como Tiro são culpados, mas não é clara a figura que Ezequiel tinha em mente. O Éden é tanto o jardim de Deus (13) quanto o monte santo de Deus (14,16), um conceito não en­ contrado em Gênesis. O rei (observe a palavra comum, melek que Ezequiel evita para os reis de Israel), é apresentado como um epítome do primeiro homem perfeito, Adão, mas é coberto com todas as pedras preciosas, lembranças do peitoral do juízo do Sumo-sacerdote (Êx 28:17-20). O TM traz somente nove, mas a LXX dá as doze, e está, provavelmente, correta. O querubim da guarda ungido (14, ARA) está no Éden com o homem per­ feito, mas parece não ter função até expulsá-lo do meio das pedras de fogo (lit. “pedra muito dura”, mas provavelmente aqui referindo-se às pedras preciosas do v. 13). Assim, a figura depende não somente da história de Gênesis, da qual diverge significantemente. Ao invés de supor que outra tradição do Éden estava em circulação, preferimos afirmar que a imagina­ ção de Ezequiel trabalhava livremente, chegando a uma variedade de fun­ dos simbólicos todos inter-relacionados à mensagem sobre a queda de Tiro. Assim, as pedras preciosas se referem a prosperidade de Tiro e a tentação do pecado chega, não sem origem, mas da ganância e orgulho internos (15-17). Em adição ao castigo de ser expulso do Éden e lançado abaixo da terra, como espetáculo público (17); diz-se que o fogo (a espada flamejan­ te?) a atinge e a reduz à cinzas (18). A semente da destruição da nação é, geralmente, encontrada nela mesma. E o comentário daqueles que a vêem, 177


EZEQUIEL 28:19-29:1 novamente é feito: vens a ser objeto de espanto, e jamais subsistirás (conf. 26:21; 27: 36). v. Profecia contra Sidom (28:20-26). Este é um breve oráculo di­ rigido a Sidom, ao qual são acrescentadas algumas palavras relativas ao fu­ turo da casa de Israel (24-26). A forma do oráculo é semelhante àquele endereçado aos amonitas (25:1), mas falta a cláusula introdutória “visto que”. Nenhuma indicação da falta de Sidom é referida. É expresso na tí­ pica fraseologia de Ezequiel e descreve os julgamentos que Javé trará a Sidom como indicações da sua glória (22). Quando isto e todos seus outros atos de julgamento se completarem, a casa de Israel poderá viver livre do dano de seus estados vizinhos (24). Não haverá mais o “toque do espinho e o abrolho de dor” (Cooke). Então eles, assim como as nações punidas, saberão e conhecerão que Javé é Deus. 25, 26. Finalmente, olhando para os dias pós-exílicos, Ezequiel pre­ diz a reunião dos exilados dispersos e sua habitação em segurança, de no­ vo na sua própria terra. Este ato de Deus será a maneira de manifestar Sua santidade através do Seu povo diante das nações do mundo. O povo san­ to é o canal através do qual o Deus Santo Se revela. Não são menciona­ dos julgamentos contra Israel; presumivelmente, considera-se que tal idéia é coisa do passado. As nações contra as quais estes oráculos foram pronun­ ciados serão julgadas, e Israel habitará seguro em prosperidade simples e agrícola. c.

Contra o Egito (29:1-32:32)

Os oráculos contra Tiro e Sidom são seguidos por quatro capítulos contra o Egito. Estes contêm sete “palavras do SENHOR” dirigidas à nação, ou ao seu soberano, Faraó, e todas elas, menos uma, recebem uma data específica (29:1, 17; 30:1, sem data; 30: 20; 31:1; 32:1, 17). Parece es­ tranho que uma duodécima parte do livro de Ezequiel seja dedicada ao desmascaramento desta única potência estrangeira, assim como parece es­ tranho achar uma seção tão grande quanto esta (capítulos 25-32) tratando exclusivamente de assuntos não-judaicos. A razão, entretanto, não é difí­ cil de se achar. Já tivemos motivo para notar a flnitude geográfica de Judá em relação ao Oriente Médio daqueles tempos, e nenhum comentário sobre a vida e as perspectivas futuras do seu povo seria completo sem referência 178


EZEQUIEL 29:1-3 aos poderosos vizinhos que se acotovelavam ao seu redor, lutando pela ascensâío. A própria existência de Judá estava vinculada às políticas exter­ nas de nações tais como a Assíria e a Babilônia, o Egito e a Pérsia. Eram elas que determinavam se o pequeno reino hebreu teria licença de manter à sua independência, como uma pequena Suiça, ou se deveria tomar-se um satélite político ou um lugar de infra-estrutura militar, ou um assunto de negociações internacionais. Não poderiam ser desconsideradas, assim co­ mo os Estados Unidos e a Rússia hoje, nas políticas de um estado na Euro­ pa ou no sudeste asiático. O que Ezequiel fazia questão de indicar, no entanto, era que a deci­ são final sobre o destino de Israel não era delas, mas, sim, de Deus —e Deus era o Deus de Israel! Mais do que isto, disse que até mesmo o desti­ no das grandes potências, tais como o Egito, estava nas mãos do Deus de Israel. Javé controlava tudo. A situação, na realidade, era totalmente o in­ verso daquilo que parecia ser. O historiador secular via Israel reduzido pe­ los poderosos vizinhos ao tamanho de um insuficiente anão, o comentarista religioso, o profeta, via as grandes potências presas firmemente à mão do poderoso Deus do pequeno Israel. Não é difícil extrair uma lição para a mi­ noria cristã. i. Os pecados do Egito (29:1-16). A data para este oráculo é cita­ da como janeiro de 587 a.C., quase exatamente um ano depois do dia em que se iniciou o cerco de Jerusalém (ver 24:1). Mas embora as datas des­ tes oráculos contra o Egito abranjam o período da queda da cidade, pouco há nelas para indicar que os egípcios estavam especialmente interessados naquilo que acontecia em Judá naqueles tempos. O único indício acha-se em 29:6-7, onde o Egito é criticado por ser um péssimo apoio para Israel no seu momento de necessidade: “encostando-se eles a ti, tu te quebraste.” Esta é uma clara referência à resposta tíbia do Faraó Hofra ao apelo de Zedequias por socorro (cf. Jr. 37: 7). Pouco se sabe acerca desta ação a não ser que produziu um alívio apenas temporário no cerco em Jerusalém, mas podemos supor que era pouco mais do que uma incursão simbólica da parte dos egípcios. Pode ser argumentado que as repetidas ameaças de Ezequiel contra o Egito nestes quatro capítulos possam ser atribuídas, to­ das elas, a este único ato de infidelidade. Contudo as evidências limitadas dificilmente justificam semelhante conclusão, e provavelmente tenhamos mais razão em ver nestes capítulos o clímax da hostilidade egípcia da qual este único ato conhecido era um exemplo recente. 3-5. Faraó é comparado a um enorme crocodilo (heb. tanntn, 179


EZEQUIEL 29:4-16 “monstro marinho”), palavra esta que, além de representar o crocodilo, que infestava o Nilo, também se referia ao monstro do caos, da mitolo­ gia semítica. Aparece em várias passagens do Antigo Testamento, identi­ ficado ou como “a serpente,” ou como “Leviatã” ou “Raabe” ou “dra­ gão” (e.g. Jó 9: 13; 26:11-13; SI 89:10; Is 27:1; 51:9; Am 9:3), mas nunca permitiu-se considerá-lo um oponente real e eficaz de Javé, como acontecia com a divindades guerreiras da religião cananita. Na realidade, Gênesis 1:21 menciona especificamente os tanmnim como sendo parte da criação de Deus, matando, assim, de modo decisivo, o mito da sua pre­ existência rival. A linguagem da mitologia foi freqüentemente importada pela poesia hebraica e era um símile específico para o antiqüíssimo inimi­ go, o Egito, cujo deus-sol, Rê\ alegava ser auto-gerado (“eu me fiz por mim mesmo,” 3, RSV mg.). Por causa da sua arrogância, o monstro seria preso com anzóis, arrastado para fora do rio, e deixado em seco no ermo até deteriorar-se como carne putrefata. Com ele iriam os peixes dos teus rios (4), i. é, o povo ou mercenários ou os aliados do Egito (cf. os “auxi­ liadores do Egito” em Jó 9:13). 6-9. Uma segunda metáfora, própria para o Egito, a terra das ca­ nas, passa agora a ser usada. O Egito é uma cana quebrada que frustra todos aqueles que nela confiam. As palavras de Rabsaqué a Ezequias em Isaías 36:6 (= 2 Rs 18:21) sugerem que a descrição era quase pro­ verbial. Não toma muitos exemplos para estabelecer reputação de irrespon­ sabilidade. O v. 9b ressalta ainda outro motivo para a declaração de Javé: Eis que estou contra ti (3,10; cf. 28:22). O Egito, cuja prosperidade dependia da irrigação do rio Nilo, alegava até mesmo ser seu dono e criador. 10-16. O castigo do Egito é expresso em termos semelhantes ao de Judá, bem como também a sua restauração (cf. 4:4-6). Será desolado desde Migdol, no Delta, até Sevene, moderna Asuã, na fronteira meridio­ nal do Egito com a Etiópia. Durante quarenta anos o país não teria habi­ tantes (11), um período simbolicamente longo, e então viria a restauração. Diferente da restauração de Judá, seria limitada a volta à terra de Patros (14), i.é, o Egito Superior, onde continuaria como um enfraquecido e humilde reino, para nunca mais ter domínio sobre os outros. Em termos de cumprimento literal, estas ameaças nunca se transformaram em reali­ dade e o Egito nunca passou por um exílio como Judá. Mesmo assim, sua história subseqüente consistiu em repetidas conquistas e humilhações. Nunca foi mais de que um reino humilde e é improvável que em qualquer tempo venha a desfrutar novamente .da glória que, em certa época, lhe pertenceu.

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EZEQUIEL 29:17-21 ii. O Egito e a Babilônia (29:17-21). Este oráculo tem a data mais avançada de todo o livro, o Dia de Ano Novo de 571 a.C. Embora seja muito posterior a qualquer outro oráculo contra o Egito, é encaixado a esta altura porque liga o castigo do Egito ao levantamento do cerco de Tiro, evento que ocorreu em c. de 574 a.C. É, portanto, colocado tão próximo ao grupo de oráculos contra Tiro quanto permite o contexto. O cerco de Tiro, feito por Nabucodonosor, durara treze anos, e já no fim daquele período toda cabeça se tomou calva, e de todo ombro saiu a pele, uma descrição pitoresca do esfolamento causado pelos capacetes e pelo carregamento de fardos para as obras do cerco. Não sabemos se Tiro foi ou não capturado pelas forças babilónicas, embora poucos anos mais tarde oficiais babilónicos fixaram residência na cidade e a suserania babi­ lónica foi reconhecida. Tudo quanto Ezequiel nos conta é que as recom­ pensas do cerco não eram proporcionais ao esforço envolvido. Os despojos não foram suficientes para pagar o exército (talvez os tesouros tivessem sido evacuados por via marítima), e, desta maneira, Nabucodonosor teve de dirigir suas atenções à presa mais lucrativa que era o Egito. Este país é visto como lhe sendo uma dádiva da parte de Deus, posto que seus esfor­ ços contra Tiro tinham sido feitos sob ordem de Javé e, assim, fazia jus à sua recompensa (trabalharam por mim, 20). O fato é que a força expe­ dicionária babilónica não atacou o Egito senão depois da data deste orá­ culo (c. de 568-567 a.C.) e não temos registros contemporâneos de seu grau de sucesso, porque as inscrições babilónicas que registram a campa­ nha foram danificadas. Amose II (Amasis), que suplantara o Faraó Hofra em 571 a.C., teve de negociar condições com os invasores, e assim pode­ mos supor que Nabucodonosor ganhou o tribo para pagar seus exércitos, conforme Ezequiel profetizara. Jeremias também predisse a campanha de Nabucodonosor (cf. Jr 43:8-13; 46:1-25). 21. O capítulo termina com uma frase dirigida a Ezequiel, pre­ dizendo que no dia da humilhação do Egito (naquele dia) o poder (lit. “um chifre”) brotaria da casa de Israel. Esta pode ser uma declaração mes­ siânica (cf. SI 132:17), mas a linguagem não a exige, podendo ser uma re­ ferência geral à futura restauração de Israel. Para o “chifre” como símbo­ lo da força, ver 1 Samuel 2:1; 1 Reis 22:11; Jeremias 48:25. Ao mesmo tempo, os lábios de Ezequiel serão abertos para falar com maior confian­ ça. Interpretar este versículo com relação à mudez ritual de Ezequiel exige a compreensão isolada do seu contexto, porque já na data deste oráculo sua mudez era coisa do passado (cf. 33:22). Parece melhor enten­ dê-lo simplesmente como uma referência à autenticação da profecia de 181


EZEQUIEL 29:21-30:9 Ezequiel mediante seu cumprimento. O oráculo termina com o refrão: e sa­ berão que eu sou o SENHOR, que já pontuou este capítulo três vezes (w. 6, 9 e 16). É o desejo dominante de Ezequiel. iii. O julgamento contra o Egito (30: 1-19). Este oráculo, o único sem data nesta coletânea contra o Egito, provavelmente deva ser datado pouco depois de janeiro de 587 a.C., a data registrada em 29:1. O orácu­ lo seguinte (30: 20-26) é dado apenas três meses mais tarde. Nada há nes­ tes versículos, no entanto, para indicar a sua data, a não ser a referência no v. 10 a Nabucodonosor como o agente da ruína do Egito. Cooke argu­ menta a partir da ausência de qualquer data, da pobreza da linguagem (muitas da linhas consistem em frases convencionais de Ezequiel), e da enumeração casual das cidades, que a passagem é secundária e não da au­ toria de Ezequiel. Seus argumentos são válidos, mas não a sua conclusão. Se todas as frases típicas de Ezequiel lhe fossem negadas, restaria bem pou­ co do seu livro! Longe de ser pobre a linguagem, a seção é composta de quatro oráculos, cuidadosamente construídos (2-5, 6-9, 10-12, 13-19) tra­ tando de temas correlatos, cada um contribuindo distintivamente ao livro inteiro, conforme mostrará a exegese. 2-5. O dia do SENHOR, que anteriormente foi anunciado somen­ te com relação a Israel (cf. 7:2-12), agora é proclamado como o dia em que o julgamento pela espada cairá sobre o Egito. Cf. também a profecia da “espada” em 21:1-17. A passagem precisa ser comparada a outros en­ sinos acerca do “dia do SENHOR” em Isaías 2:12-17; Joel 1:15; 2:1,2; Amós 5:18-20; Sofonias 1:7, 14-18. Naquele grande dia, em que virá o julgamento sobre os gentios (bem como sobre o Israel infiel, contraria­ mente a expectativa popular), os aliados do Egito também compartilha­ rão do seu castigo. A RSV tem razão em entender o TM Cube (5) como um lapso para Lube, ou “Líbia,” segundo muitas Versões. Mas não é neces­ sário emendar hà’ereb, os outros aliados, à hàarab, “os árabes”. A pala­ vra hebraica é suada em Jeremias 25:20 para todos os povos estrangeiros no Egito, o “misto de gente;” e, assim, pode ser usada aqui para mercená­ rios ou estrangeiros residentes. 6-9. O oráculo seguinte entra em mais detalhes sobre a ruína dos aliados e satélites do Egito: foram destruídos todos os que lhe prestavam auxílio (8). Por toda a extensão do país, cairão à espada (sobre Migdol e Sevene, ver a nota sobre 29:10), e os etíopes, que habitam seguros à som­ bra do seu poderoso vizinho, ficarão aterrorizados quando mensageiros forem a eles em navios (9), subindo as hidrovias do Nilo para contar-lhes 182


EZEQUIEL 30:9-19 da queda do Egito. Serão enviados de diante de mim, i.é, da parte do Se­ nhor, porque Ele estará presente no Egito operando Sua destruição sobre suas cidades. 10-12. O agente deste julgamento agora é citado pelo nome: Nabucodonosor, mas a atuação não seria somente sua. Causará a destruição do povo no Egito (11), mas é o próprio Deus quem “secará o Nilo” e será responsável pela devastação levada a efeito. Por detrás dos estrangei­ ros, que parecem agir como Seus agentes, está a palavra de Deus (eu o SENHOR é que falei), que é o agente ulterior, onipotente, que pode trans­ formar a profecia falada em fato real, 13-19. Finalmente, numa grande demonstração de conhecimento geográfico, a devastação total da terra do Egito é expressa mediante um tumulto de nomes de localidades. Este era um modo predileto de expres­ são hebraica (cf. Is 10:27-32; Mq 1:10-15; Sf 2:4) e a descrição feita por Cooke, como sendo “enumeração casual” resume bem a situação, mas nada comprova quanto à autoria. Caso comprove, sua característica a autentica como sendo um bom estilo profético. Os nomes das localidades merecem comentário. Mênfis (“Nofe,” ARC, 13, 16), é a moderna Mit Rahneh. Antigamente era a capital do Egito Inferior, e permaneceu como importante centro até a conquista por Alexandre Magno. Havia uma colô­ nia de judeus morando ali nos tempos de Jeremias (cf. Jr 44:1). Patros (14) é a região do Egito Superior que se estende para o sul até Assuã. Zoã (14) era uma importante cidade na região oriental do delta do Nilo; seu nome clássico era Tânis. Tem sido identificada, de modo variado, com Aváris, a capital setentrional da dinastia dos Hicsos, e com Ramessés, a cidade-celeiro (Êx 1:11), mas não com certeza. Nô (14, 15, 16) é a clás­ sica Tebes, moderna Camaque e Luxor; foi a capital de todo o Egito du­ rante boa parte da sua história e era o centro cultual para Amon, o deussol. Naum a chama de Nô-Amom (Na 3: 8). Sim (15, 16) é Pelúsio, atual Tel Farama, no litoral do Mediterrâneo perto de Porto Said, em uma es­ tratégica posição de defesa contra invasão. Âven ou Om (17) é a clássica Heliópolis, a cidade do deus-sol e uma das mais antigas do Egito. O sogro de José, Potífera, foi sumo sacerdote ali (Gn 41:45). Jeremias a chama de Bete-Semes, “a casa do sol” (Jr 43:13). Sua vocalização como Áven (heb. ’àwen), que significa “iniqüidade,” pode muito bem ter sido um jo­ go de palavras, comentando a religião que a cidade representava. Pi-Besete (17) é a moderna Basta, ao nordeste de Cairo. Tafnes (18), é Daphnai em grego, atual Tel Defenneh, 16 km a oeste de Qantara no Canal de Suez. É famosa como sendo a cidade da fronteira para onde Jeremias 183


EZEQUIEL 30:19-31:3 foi levado depois do assassinato de Gedalias (Jr 43: 7; Cf. 44:1). iv. Quebrado o braço de Faraó (30:20-26). A data deste oráculo é abril de 587 a.C., mas diz respeito ao evento do ano anterior quando o exército do Faraó Hofra, enviado para Jerusalém em resposta à petição de Zedequias, foi repelido pelas tropas babilónicas que sitiavam a cidade (cf. Jr 37: 1-10). Esta derrota é descrita como sendo a quebra do braço de Faraó (21), e Ezequiel acrescenta que o dano não será reparado; não se atará o membro quebrado para que possa voltar a brandir uma espada. Pelo contrário, Deus quebrará os dois braços de Faraó e o debilitará com­ pletamente, fortalecendo Nabucodonosor e dando-lhe Sua espada para que possa ser o agente do Seu julgamento contra os egípcios (25). Antes de Nabucodonosor invadir o Egito, depois do fim do cerco de Tiro, Hofra já tinha sido morto numa guerra civil. Havia levado a efeito uma campanha desastrosa na Líbia, que provocou uma revolta de grandes dimensões da parte de uma facção rival chefiada por Amose, que tomou-se responsável pelo assassinato de Hofra. Não devemos interpretar um oráculo como este de Ezequiel em termos por demais pessoais, mas claramente se ajusta de modo admirável ao destino de Hofra. Mais uma vez, temos de encarar a incerteza acerca do resultado da campanha de Nabucodonosor no Egito, mas este é um problema somente para os que insistem em descobrir um cumprimento literal para toda predição na Escritura. Não devemos sem­ pre esperar que isto ocorra, embora os contornos globais dos eventos usual­ mente se cumpram, e devemos confessar que ainda esperamos o cumpri­ mento da declaração de que todo o Egito saberá que eu sou o SENHOR (26). v. O grande cedro (31:1-18). Este capítulo tem uma clara unida­ de, indicada pelo seu assunto: a alegoria do cedro e sua queda; bem como pelas frases introdutórias e finais, nos w. 2a e 18d. Tem três secções: a poesia da árvore magnífica à qual Faraó é assemelhado (2-9), e dois orácu­ los de prosa que descrevem sua queda nas mãos dos estrangeiros (10-14) e sua descida para o além (15-18). A data registrada no v. 1 é de dois me­ ses depois daquela do oráculo anterior (30:20), i.e., junho de 587 a.C. 2-9. O uso de um cedro no Líbano como alegoria para uma nação poderosa não é novidade alguma. Ezequiel usou a mesma idéia em 17: 110, 22-24, e outros ecos da linguagem deste capítulo podem ser achados em 19:10-14; 26:19-21; 28:11-19. A descrição feita por Isaías da desci­ da do rei da Babilônia para o além (Sheol) tem nítidas semelhanças (Is 14:4-21), e a descrição feita por Daniel do sonho de Nabucodonosor 184


EZEQUIEL 31:4-12 emprega linguagem figurada muito semelhante (Dn 4:1-12, 19-27). Parte da linguagem é transportada para o Novo Testamento, como na parábola do grão de mostarda (Mt 13:31-32). A referência à Assíria (3) é clara­ mente um erro, porque aquela nação não tem lugar numa alegoria diri­ gida a Faraó. A RSV emenda o texto do hebraico ’assür, “Assíria,” para ’aswekà, “eu te assemelharei,” alterando uma só consoante; mas tem base para interpretar a palavra hebraica como uma forma variante de f ’assür, uma árvore verdejante corretamente identificada por Zohary como sendo o cipreste (Cupressus sempervirens).99 Neste caso é usado em aposição a palavra para cedro, e assim traduziríamos: “Eis um cipreste, um cedro no Líbano . . .” Suas raízes são nutridas por abundância de água (4), em linguagem que relembra tanto a irrigação do jardim do Éden (Gn 2:1014) quanto, mais diretamente, a rede de ribeiros que irrigam o Egito a par­ tir do rio Nilo. A larga extensão dos seus ramos fornece abrigo para as aves e os animais, símbolos das nações do mundo que, em vários perío­ dos, desfrutam do patrocínio do Egito. A linguagem bajuladora dos w. 7-9 não deve ser interpretada de forma muito literal, a menos que vise refletir a adulação que um Faraó tal como Hofra recebia dos seus satéli­ tes, inclusive Zedequias. Seu efeito, no entanto, é ressaltar o senso de que­ da quando finalmente ocorrer, como na descrição igualmente extravagan­ te do navio mercante de Tiro (27: 3-9). Nada mais poderia se comparar àquele cedro quanto à beleza, nem mesmo as melhores árvores no Éden, o jardim de Deus. Aqui temos outro eco da narrativa do Gênesis (Gn 2: 8-9), que aparece também na lamentação contra o rei de Tiro (28:1219), ilustrando ainda mais a disposição de Ezequiel em recorrer ao sim­ bolismo do passado, simbolismo este que seus leitores ou seus ouvintes presume-se entendiam. 10-14. Este oráculo dá as razões para a queda do cedro (10), des­ creve sua ruína (11, 12), e acrescenta a intenção que motivou Deus a con­ cluir semelhante catástrofe (14). O padrão demasiadamente familiar do orgulho que antecede a queda é ressaltado no v. 10 (cf. Tiro, 28:2; Babel, Gn 11:4). É descrito como sendo perversidade (11), um delito positivo que incorre em culpa, não simplesmente uma falha humana à qual todos têm chance de desculpa. O resultado é que Deus o expulsa, assim como expulsou Adão e Eva do jardim do Éden. Dessa forma, privado do favor (99) Ver seu artigo no NDB, verbete “Plantas”, pág. 1290. A identifica­ ção de te ’aSSür com o buxo (Buxus longifolia) parece não ser mais sustentável no meio geográfico.

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EZEQUIEL 31:13-18 e da proteção de Deus, o cedro toma-se presa dos mais terríveis estrangei­ ros das nações (12; cf. 28: 7; 30:11; 32:12) sendo cortado e espalhado por todo país. As aves e os animais que antes se abrigavam debaixo dos seus ramos tirarão proveito das suas sobras (13), e o evento acabará sendo uma lição prática para que todas as outras nações não aspirem a tais altu­ ras, porque são humanas, e os seres humanos não têm outro fim senão o que é comum a todos: as profundezas da terra e a cova (14). A morte é a grande niveladora e o antídoto mais seguro contra um excesso de ambi­ ção. Mesmo os Egitos deste mundo, com histórias de sucesso a despeito da sua impiedade, precisam aprender a lição que talvez esteja oculta no v. 9, de que Formoso o fiz (o sujeito é Javé). A prosperidade dos ímpios, em última análise, é totalmente devida à misericórdia e à bondade de Deus. 15-18. O oráculo final trata das reações dos seus contemporâneos diante da morte do Egito. Assim como no caso do afundamento do navio mercante de Tiro, há consternação geral porque uma nação tão poderosa foi humilhada desta maneira. Que chance haveria para nações menores, tais como elas? O mundo da natureza ficará de luto por sua causa; a profun­ deza (heb. tehôm) lamenta-se e as muitas águas são detidas; o Líbano ves­ te-se de luto e as árvores se definham todas como numa seca (15). As na­ ções, também, estremecem por causa da reverberação da sua queda; to­ dos os reinos mais nobres, tipificados pela frase as árvores do Éden (16), consolam-se ao reconhecerem que, assim como já floresceram e morreram, também o grande cedro do Egito veio a ter um fim semelhante. O retrato de árvores descendo para o além é estranho, e May sugere que isto refle­ te algum mito da descida das árvores do Éden para o além (Sheol) depois da queda do homem. Compara a tradição em Enoque 25:4-6 do transplan­ te da árvore da vida, tirada do Éden, para uma alta montanha de Deus à noroeste, até que fosse removida, mais tarde, para o templo em prol dos justos. A idéia tem muita coisa para recomendá-la, mas, naturalmente, não pode ser comprovada. A alternativa é ver nestes versículos uma mistu­ ra dos símbolos da queda dos estados, representados por árvores, e a des­ cida para o além de grandes homens que representavam as nações por eles governadas. A confusão nota-se especialmente nos w. 16 e 18. O in­ sulto final é reservado para o último versículo do capítulo. O Egito, cuja glória e grandeza eram incomparavelmente superiores às dos seus vizinhos, agora jazerá lado a lado dos mais humildes mortos do além, a saber: com os incircuncisos e com os que foram traspassados à espada. Isto é interpreta­ do por Eissfeldt como alusão aos assassinados e executados, e por Cooke, 186


EZEQUIEL 31:18-32:5 como aqueles que não receberam ritos funerais. Seja como for, receberam uma posição inferior no além, e Faraó e toda a sua pompa a compartilharia com eles (18). vi. Lamentação contra Faraó (32:1-16). Os dois últimos oráculos contra o Egito, que são o conteúdo deste capítulo, são igualmente data­ dos no ano duodécimo, i.é, 586/5 a.C., pouco tempo depois das notícias da queda de Jerusalém terem chegado aos exilados (cf 33:21). Cooke su­ gere que isto talvez explique o tom de amargura do profeta: o Egito faltou a Jerusalém na hora da sua necessidade. Este argumento, no entanto, não deve ser forçado demasiadamente, porque Ezequiel já havia abandonado qualquer esperança de achar apoio da parte da “cana rachada”, o Egito (cf. 29:6-7). O teor do seu oráculo aqui não é mais rancoroso do que o esti­ lo convencional do “cântico de zombaria” ou lamentação (cf. Is 14, e exemplos anteriores de Ezequiel, como no capítulo 19). 1. A data é março de 585 a.C., conforme o TM. As Versões variam entre o duodécimo ano e o décimo mês (LXX, Vaticanus; Lat.), o undé­ cimo ano e o duodécimo mês (LXX, Alexandrinus; Sir.), e o décimo ano e o décimo-segundo mês (Áqüila, segundo Jerônimo). A confusão parece surgir de um desejo de manter todas as datas em Ezequiel na ordem cro­ nológica, e fazer com que as datas em 32:1 e 32:17 sejam ateriores àque­ la que é citada em 33:21. Isto é totalmente desnecessário. Não é desarra­ zoado esperar que a coletânea egípcia de oráculos seja disposta na ordem cronológica (com a exceção óbvia de 29:17) explicada acima, mas o texto não deve ser emendado para adaptar-se a outros padrões sobre ele impos­ tos. O texto hebraico, seguido por ARA, ARC, etc., deve, portanto, ser respeitado. 2-8. Sobre lamentações (heb. qtnâ, “elegia”), ver a nota sobre 19: 1-14. O estilo geral da qtnâ pode ser achado nesta poesia, mas é quase impossível traçar a métrica típica de 3: 2 que a palavra usualmente suben­ tende. A poesia começa com o mesmo símile de 19:2, dirigido aos prín­ cipes de Israel. Embora o leão fosse uma figura associada a casa de Davi (cf. o leão de Judá; Gn 49:9), não era exclusiva a Israel, e May observa que a esfinge egípcia era uma criatura com corpo de leão.100 Assim, não é necessário emendar o texto, conforme fazem Fohrer e Bertholet, para se desfazer da alusão. O argumento de Ezequiel é que Faraó não é semelhan­ te a um leão, como se imagina, mas, sim, um tannin, um “dragão” (ARC) (100) IB, pág. 238.

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EZEQUIEL 32:5-16 ou um crocodilo (ARA). A palavra é a mesma usada em 29:3, e, mais uma vez, compartilha da dupla inferência do crocodilo egípcio e do mito­ lógico monstro do caos, Tiamate, morto pelo deus Marduque depois de haver sido preso numa rede.101 Nenhum dos símiles visa ser lisonjeador. Como um crocodilo, o rei do Egito nada nas águas lamacentas do Nilo, tomando-as ainda mais lamacentas com seus movimentos, e, como Tia­ mate, será preso na rede e puxado para fora, para a terra seca, onde sua carcaça será presa para os carniceiros da terra e do céu. O país inteiro ficará encharcado com seu sangue (6), e os luzeiros celestiais cessarão de dar luz (7, 8). Tais frases sugerem o que acompanhará o dia do Senhor, como em Isaías 13:10; Joel 2:30; 3:15; Amós 8:9. Mas também vale notar que ecoa a linguagem das pragas do Egito (Êx 7:20-24; 10:2123), como subentendendo um padrão semelhante à confrontação ante­ rior de Deus com Faraó através de Moisés. 9-15. Esta seção começa com uma interpolação em prosa (9, 10), que abandona a linguagem figurada do trecho anterior e descreve a cons­ ternação que será sentida por outras nações ao verem o destino dos egíp­ cios. A combinação entre o cativeiro (9; a notícia da tua destruição deve ser: “teu cativeiro,” que faria sentido com as duas cláusulas anteriores em ARA) e a espada (10) é suficiente para levar as nações a temerem pela sua própria vida, caso sejam as próximas vítimas do julgamento. Esta idéia introduz a poesia seguinte (11-15) que retoma o tema muito comum da espada do Senhor (cf. 21:9; 30:25), colocada nas mãos do rei da Babilô­ nia para ser brandida contra os egípcios. Tão grande será a matança e a de­ vastação que o Egito não será habitado nem por homens, nem por ani­ mais, e os w. 13-15 descrevem vividamente o país em semelhante estado. As águas não serão agitadas por pé de homem nem por unhas de animais; se­ rão límpidas e fluirão macias como azeite pela zona rural devastada. Não sobrará homem algum no Egito para saber que eu sou o SENHOR (15), de modo que, a não ser que entendamos ser este um fecho convencional e estereotipado para um oráculo deste tipo, devemos supor que se refere às nações que observam, as únicas a se beneficiarem de semelhante ato da parte de Deus. 16. As carpideiras profissionais das nações são finalmente comis­ sionadas para entoar as palavras desta lamentação sobre o Egito e sobre todo o seu povo (cf. Jr. 9: 17-20), como um dos aspectos dos seus ritos funerários. (101) Enuma elish, IV, linha 95, citado no DOTT, pág. 9.

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EZEQUIEL 32:17 vii. Faraó desce para o além (32:17-32). A coletânea de oráculos contra o Egito termina com esta notável descrição de Faraó no além, e das sombras das nações do mundo que vê jazendo ali, sofrendo a mesma humilhação. A linguagem é altamente poética, e os pormenores não de­ vem ser tomados muito literalmente. Não é este 0 capítulo que se deve abrir se alguém desejar compreender o ensino da Bíblia acerca da vida no além. Mesmo assim, ilustra alguma coisa acerca do conceito da morte que era comum no pensamento do Oriente Próximo e do qual o Antigo Testamento constantemente procurava libertar-se com grande esforço. O além (Sheol), o lugar dos finados, era concebido como sendo uma vasta câmara de sepulcros, onde cada cova era ligada dalguma maneira, conceptualmente se não espacialmente. Conforme a expressão de Pedersen: “O Sheol é a inteireza na qual se fundem todos os túmulos... ónde houver um túmulo, ali está Sheol, e onde estiver Sheol, ali está um túmulo.”102 Nes­ ta habitação sombrosa, os indivíduos continuam a manter algum tipo de existência, embora por razão da natureza poética das passagens que des­ crevem o além, é impossível produzir qualquer quadro consistente de co­ mo se imaginava esta existência. Para alguns, era tudo silêncio e trevas (Jó 10:20-21; SI 115: 17), para outros, haviam conversas e atividades li­ mitadas (cf. Is 14:10). Ezequiel pinta um quadro de compartimentos no além, onde as nações jazem juntas em covas reunidas ao redor do seu rei ou representante nacional. Reconhecem-se vários níveis de categoria so­ cial, e os guerreiros que tiveram um enterro apropriado desfrutam, segun­ do parece, de uma posição de maior honra do que seus vizinhos menos afortunados (27). Mas isto, tampouco, não pode ser forçado; Jó diz que não há distinções no além (Jó 3: 17-19). Claramente, Israel não tinha ne­ nhuma doutrina firme e segura sobre o além (Sheol). O que os escritores do Antigo Testamento realizaram foi tomar o Sheol cada vez menos um lugar além do âmbito do interesse e da autori­ dade de Deus. Deus tinha poder sobre o Sheol e podia, no caso dos Seus servos mais seletos, deixá-lo de lado e trasladar homens tais como Eno­ que e Elias para Sua presença imediata. Esta também parece ser a espe­ rança do salmista nos Salmos 49: 15 e 73:24. Para a maioria, no entan­ to, inclusive para os justos, o Sheol era o destino comum, até que pers­ pectivas posteriores de ressurreição trouxessem uma esperança mais bri­ lhante para aqueles que eram aceitáveis a Deus em razão da sua fé, integridade e obediência à Sua vontade. (102) Pedersen, Israel, Its Life and Culture, H l, 1926, pág. 462.

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EZEQUIEL 32:17-27 17. A data omite o número do mês e ARA segue a LXX ao acres­ centar do primeiro mês. Ê mais natural supor que devesse ser o “duodé­ cimo mês,” como em 32: 1, e que, ou foi omitido deliberadamente (sen­ do o mesmo anteriormente registrado), ou desapareceu confundindo-se com o ano duodécimo. A data seria, então, uma quinzena mais tarde em março de 585 a.C. 18-21. Visto que esta seção é outro canto fúnebre (cf. 32:16), Ezequiel é ordenado a entoá-lo como um tipo de encantamento que teria o efeito de enviar o Egito e sua multidão para baixo, para o reino dos mortos. As filhas das nações formosas (18) devem significar os satélites do Egito que descerão para a cova (Sheol) com ele, mas uma mudança mínima da vocalização produz o melhor sentido, de que são as mulheres que acompanharão Ezequiel na sua lamentação: “tu e as mulheres das na­ ções poderosas” (Moffatt). Assim como aconteceu com Tiro (28:8-9), a muito jactada grandeza do Egito será como nada quando estiver na en­ trada do reino dos mortos e for arrastado para baixo, onde jazerá perto dos incircuncisos mortos à espada (20). Será saudado com palavras zombetei­ ras pelos chefes poderosos que já estiverem lá. 22-32. Agora começa a excursão organizada das nações no além: “os poderosos conquistadores da história passam em revista” (Muilenburg). Há muita repetição de frases, do tipo que usualmente se acha na poesia, mas é impossível metrificar estas palavras sem virtualmente reescrever o texto (conforme faz Hõlscher; ver Cooke, pág. 350), e devemos nos satisfazer descrevendo-a como prosa rítmica. A primeira a ser mencionada é a Assíria (22), o grande tirano do passado, cujo único epitáfio era que, antigamente, tinha causado espanto na terra dos viventes. Elão (24) era uma nação antiga ao leste da Babilônia, conhecida por suas tradições guer­ reiras e anteriormente absorvida no grande Império Assírio. Sobreviveu às ondas de choque na queda de Nínive em 612 a.C., que subjugou a Assí­ ria, e, aparentemente, ainda era uma potência a ser considerada, porque posteriormente contribuiu com os exércitos de Ciro na derrota da Babi­ lônia. Ela, também, espalhara terror, mas agora passava vergonha. Meseque e Tubal (26) parecem ser uma estranha escolha de nações. May suge­ re que representam o tradicional “inimigo do norte,” mas nós, a esta dis­ tância, sabemos relativamente pouco acerca delas a não ser que acossavam os assírios na sua fronteira setentrional (ver sobre 27:13). Não tinham licença de jazer no além com os guerreiros tombados e enterrados com ple­ nas honras militares (27), embora alguns comentaristas sigam a LXX omi­ tindo não no começo do versículo, que cancelaria, assim, este pequeno 190


EZEQUIEL 32:28-33:1 gesto de discriminação. No v. 28, a palavra é dirigida a Faraó, não a Meseque e Tubal. Edom (29) tem seu lugar, com seus reis e príncipes, bem como os príncipes do Norte, possivelmente os governantes das cidades fenícias ao norte da Palestina, e os sidônios (30). Faraó verá a todos, e obterá uma pequena dose de consolo pelo pensamento de que está em boa companhia com outras nações que, nos seus dias, provocavam terror e, agora, foram abatidas. Nestes oito capítulos, deve-se ter notado que toda nação, menos a Babilônia, foi mencionada. Devemos supor que este era um silêncio deliberado, uma investida violenta diretamente contra os captores seria uma provocação por demais óbvia. Mas os ouvintes e os leitores de Ezequiel devem ter logicamente concluído que, se estes países estavam prontos para receber o julgamento de Deus, a própria Babilônia não po­ deria escapar impune. Também aqui havia consolo para os exilados. VI. ORÁCULOS RELACIONADOS COM A QUEDA DE JERUSALÉM (33:1-37:28) a.

Reafirmados os deveres do atalaia (33:1-20)

Depois do longo hiato entre os capítulos 25-32, logo após a morte da esposa de Ezequiel e seu paralelo simbólico na trágica queda de Jerusa­ lém, esperaríamos que esta nova seção começasse com o episódio de 33: 21, 22. Por alguma razão, no entanto, Ezequiel nos conserva em suspense por mais algum tempo enquanto repete duas declarações que tratam da responsabilidade humana, sendo que as duas já apareceram em formas levemente diferentes. A primeira destas, 33:1-9, diz respeito à responsa­ bilidade do profeta em advertir seu povo quanto ao perigo que se apro­ ximava, e deve ser comparada a 3: 16-21. A segunda diz respeito à res­ ponsabilidade do ouvinte num ato individual de arrependimento a fim de que viva e não morra, com estreitas semelhanças em 18:21-29. O fato destes dois temas introduzirem este capítulo, indica uma nova fase no ministério de Ezequiel, pelo que estas ligações com seu ministério ante­ rior representam um tipo de comissionamento. Durante o período abran­ gido pelos primeiros vinte e quatro capítulos do seu livro, sua preocupa­ ção principal era com Jerusalém como foi e tem sido. A partir do capí­ tulo 33, está principalmente interessado naquilo que ela será. Enquanto se prepara para esta nova fase na obra da sua vida, Deus o lembra mais 191


EZEQUIEL 33:1-8 uma vez acerca da sua tremenda responsabilidade como atalaia, uma fi­ gura solitária que se dedica à tarefa de, estando à parte dos seus seme­ lhantes, e em vigília constante, advertir seu povo sobre os perigos que ja­ zem à frente. Ao mesmo tempo, seus ouvintes são responsáveis por agi­ rem de acordo com as advertências do atalaia. Não devem confiar na sua própria justiça, nem desesperar-se e, dando de ombro de modo fatalista, ceder às suas infelizes circunstâncias. Não devem procurar saída fácil, di­ zendo que todos os seus infortúnios devem-se à injustiça de Deus. Cada homem tem sua oportunidade e deve agir de conformidade com a pala­ vra que Deus lhe dirige. Estes são os termos de referência de Ezequiel, e somente depois de terem sido claramente enunciados é que a notícia de que a cidade caiu e que a palavra de Ezequiel se comprovou verdadei­ ra, surge sobre os exilados que aguardam. 33:2-6. O dever do atalaia. A ilustração é extraída do que era a prática comum em tempo de guerra. O homem incumbido pela sua cida­ de para agir como seu atalaia e para advertir sobre a aproximação de uma força inimiga, tinha uma pesada responsabilidade. Devia soar o alarme, de modo que os habitantes da cidade que estivessem cultivando as terras ao seu redor, pudessem recuar para trás dos muros da cidade e prepararse para a batalha. Qualquer homem que desconsiderasse a advertência, es­ taria virtualmente assinando sua própria sentença de morte, mas nenhuma culpa seria atribuída ao atalaia. Se, porém, o atalaia fracassasse quanto ao seu dever de advertir, seria considerado responsável pela morte de todos quantos fossem achados desprevenidos., A trombeta (heb. sôpàr; 3ss.) era um chifre comprido, curvado para cima na extremidade, extensivamente usado em Israel para ocasiões tanto militares quanto religiosas (cf. Js 6: 4; 2 Sm 2: 28; SI 81:3; J1 2:15; Am 3:6). Esta trombeta ainda é usada nas sinagogas judaicas, especialmente no Ano Novo. A frase o seu sangue demandarei (6), reflete o conceito da culpa do sangue, que é comum em boa parte do pensamento vetero-testamentário, segundo o qual o derramamente do sangue de um homem por outro, propositadamente, aciden­ talmente, ou ainda por falta de responsabilidade, envolvia aquele que derramou o sangue no estado de culpa, e o parente próximo do morto no dever de vingar a sua morte. 33:7-9. O dever do profeta. O perigo acerca do qual o profeta de­ ve advertir seu povo é a ameaça de julgamento pela palavra do Senhor (7). Quando esta palavra condena o perverso, o profeta deve passar adian­ 192


EZEQUIEL 33:9-17 te a mensagem ou ser considerado responsável. A exposição dos deveres do profeta é mais breve do que em 3:16-21, onde há referência específica a advertir o homem justo bem como o ímpio, mas o princípio permanece idêntico nas duas passagens. 33:10-16. Um convite ao arrependimento. Pela primeira vez, des­ de o início do livro, mostra-se que os exilados têm consciência do seu pró­ prio pecado (10). O versículo, conforme o temos corretamente em ARA e ARC, sugere uma profunda convicção de pecado e um sentimento esma­ gador de desespero. Expressões anteriores de culpa colocavam a responsa­ bilidade nos ombros alheios (cf. 18:2), mas agora, finalmente, o ensino insistente de Ezequiel surtiu efeito. A reação imediata do profeta não é, no entanto, apontar-lhes os seus pecados, mas, sim, proclamar o perdão de Deus para aqueles que se arrependerem. Não tem prazer no julgamen­ to mas, sim, deseja que os homens se arrependam (11; cf. 2 Pe 3:9), e este aspecto fundamental da teologia de Ezequiel precisa acompanhar todo oráculo de julgamento que seu livro contém. Quando o profeta pro­ clama o julgamento, é com o propósito final de haver arrependimento e salvação (cf. 18:21; 33:5b; Jr 1:10), embora a luta que Jonas travou consigo mesmo sugira que esta idéia freqüentemente ia contra a natureza da pessoa (Jn 4: lss.). Contudo, na mesma base de liberdade do homem em arrepender-se, há o corolário de que o justo também precisa arrepen­ der-se quando cair em pecado; não pode confiar na sua justiça anterior para salvá-lo (12, 13). O v. 13 não significa que o justo perde o direito à salvação ao cometer o pecado e nada tem com o medo da igreja primi­ tiva do pecado pós-batismal ou com questões mais recentes de “uma vez salvo, salvo para sempre.” Simplesmente declara, de modo inverso, o prin­ cípio da responsabilidade individual. O arrependimento é obrigação de to­ dos os homens; a indisposição para arrepender-se é uma negação do verda­ deiro espírito de fé na misericórdia de Deus. A doutrina evangélica da se­ gurança deve sempre ser equilibrada pela palavra de precaução: “Aquele, pois, que pensa estar em pé, veja que não caia” (1 Co 10:12). Para o signi­ ficado da frase os estatutos da vida (15), ver 20:11, 13 (cf. Lv 18:5). Para ser genuíno, o arrependimento precisa demonstrar-se numa qualida­ de de vida marcada pela obediência às leis de Deus. 17-20. Como no caso das palavras em 18: 25-30, a queixa do povo é que Não é reto o caminho do SENHOR, e emprega uma metáfora incomum extraída da ação de pesar na balança. O verbo significa literalmente “não está ajustado ao padrão certo,” que é a ação de um vendedor deso­ 193


EZEQUIEL 33:18-26 nesto. A situação, no entanto, está invertida. É o povo que está fora da medida, e Deus julgará cada um deles para mostrar que foram achados em falta (20). A culpa é individual e pessoal, além de nacional e coletiva. b.

A cidade cai, mas o povo não se arrepende (33:21-33)

Finalmente, veio o golpe e a notícia de que Jerusalém caíra, che­ gou aos exilados. Embora isto lhes viesse com o impacto de uma tragédia, o próprio Ezequiel estava plenamente preparado para recebê-la. A ele, é claro, fora dada presciência profética do evento (cf. 24:2), mas também estivera em estado de êxtase na tarde anterior, e sua mudez ritual fora ali­ viada, por alguma razão. Conforme 24:27, esta libertação do seu silêncio divinamente imposto era uma indicação de que estava para raiar o dia da notícia trágica. Significava que agora podia falar pública e livremente acerca de todas as coisas que estavam fermentando dentro de si. Quando de fato falou, suas primeiras observações consistiram em mensagens acer­ ca do povo que fora deixado na terra de Judá (23-29) e acerca dos seus companheiros de exílio (30-33). 21. A data parece ser de dezoito meses completos depois da que­ da da cidade, e a maioria dos comentaristas consideram que este período de demora é longo demais e irrealista. Alguns MSS e o Siríaco têm “no ano undécimo”, ao invés do TM, No ano duodécimo, e esta data é muito mais provável, mormente considerando que as duas palavras diferem no hebrai­ co escrito, por apenas uma consoante, e quase não há diferença na língua falada. Esdras e seu grupo levaram quatro meses para completar a viagem mais de um século mais tarde (Ed 7:9), de modo que uma viagem de seis meses feita por um fugitivo exausto não é irracional para ò presente con­ texto. May prefere manter o texto do TM e explicar a discrepância pela confusão entre um calendário vemal e um outonal. 33:23-29. Oráculo contra os que permaneceram em Judá. Pare­ ce que os que escaparam às devastações feitas pelas forças babilónicas, aos quais Jeremias descreveu como sendo “os mais pobres da terra”, deixados para serem “vinheiros e lavradores” (Jr 52:16), estavam secreta­ mente se apoderando de propriedades não reclamadas por seus donos, considerando-se os herdeiros das promessas feitas aos seus antepassados. Isto não era novidade, porque aqueles que foram poupados do exílio em 597 a.C. haviam feito reivindicações semelhantes (cf. 11:15). Naquela ocasião, alegaram que os que estavam no exílio, tendo ido longe do Se194


EZEQUIEL 33:27-31 nhor, já não tinham direito aos privilégios de possuir terras em Judá; agora, argumentavam de modo incrivelmente ingênuo, que se um homem, Abraão, tinha herdado a terra de Canaã, a fortiori, eles que enumeravam alguns milhares tinham um direito muito maior. A passagem ilustra com notável propriedade a arrogância presunçosa da minoria que desperta um dia e descobre que é a maioria. Além disto, como tantas minorias, vivem no passado e esforçam-se para recorrer a precedentes antigos a fim de re­ forçar reivindicações insubstanciais para o presente. Nosso Senhor preci­ sou responder a reivindicações semelhantes da parte dos judeus nos Seus dias (Jo 8:33-40), assim como fez João Batista antes dEle (Lc 3:8). A resposta de Ezequiel foi a acusação amarga de que moral e religiosamente não tinham base alguma (25, 26). Seus pecados eram os mesmos que trou­ xeram destruição sobre os habitantes de Jerusalém (22:6-12; cf. 18:1013). As chances de escaparem impunes eram nulas. “O direito que Abraão tinha à terra era por sua justiça” (Stalker). Vós vos estribais sobre a vossa espada traduz com perfeição uma frase difícil, dando o sentido idiomáti­ co sem se afastar da linguagem original (Ellison: “viveis pela violência”). Esta acusação é confirmada pela ação de Israel e seus adeptos, que assas­ sinaram Gedalias, o governador, em Mispa (2 Rs 25:25; Jr 41:1-3). Que direito, pergunta Ezequiel, têm os homens que cometem tais crimes de possuir a terra? (26). Pelo contrário, virão a espada, as feras e a pestilên­ cia, os tradicionais instrumentos de julgamento (27), e a terra será com­ pletamente desolada. 33: 30-33. O povo e o profeta. A questão em discussão na se­ ção anterior (23-29) era a identidade do verdadeiro Israel, entre a nata dos que estavam no exílio, e o povo da terra de Judá. Jeremias tratou do mesmo conflito na visão das duas cestas de figos, e a ele fdi revelado que a escolha de Deus achava-se entre os exilados, os figos bons, e não entre Zedequias e o remanescente em Jerusalém (Jr 24). Ezequiel claramente to­ mava o partido do veredito de Jeremias. Era cético, no entanto, quanto à profundidade da sinceridade dos exilados, mormente num tempo em que era tratado como celebridade e ouvido como o profeta cujas palavras ha­ viam se cumprido. Todos falavam dele e se encorajavam a escutar-lhe o que tinha para dizer. As reuniões religiosas nunca haviam sido tão bem freqüen­ tadas. Mas, estava a mensagem penetrando profundamente? Ezequiel con­ cluiu que n3o. O povo escutava bem e falava com muito amor (31), mas traía-se pelas suas ações, demonstrando suas verdadeiras prioridades: mas o coração só ambiciona lucro. Como no caso de Simão, o mago (Atos 195


EZEQUIEL 33:32-34:1 8: 18), sua receptividade à palavra de Deus era distorcida pelo sentimento íntimo de “que vantagem há nisto para mim?” A despeito da perspectiva de bênçãos e restauração futuras oferecida pelo profeta, a sua atitude era interesseira. Escutavam Ezequiel como os homens escutam canções de amor (especialmente de um tipo altamente sensual) e como a quem tem voz suave e tange bem. 0 relacionamento gramatical entre estas frases não fica bem claro, e as traduções variam um pouco entre si, mas o sentido é claro. A música popular, em todas as eras, tem sido renomada por sua ca­ pacidade de comover os ouvintes —mas apenas de modo fugaz. May per­ gunta se Ezequiel salmodiou seus oráculos com um acompanhamento musical (cf. 1 Sm 10: 5; 2 Rs 3:15), mas não há evidências para isto. 33. Quando vier isto. As palavras são típicas de uma declaração de crise, que usualmente prenunciam o juízo, mas aqui devem referir-se à crise de restauração que, a partir de agora, é o tema de Ezequiel. Embo­ ra sejam agradáveis ao ouvido, não são mais observadas do que suas pro­ fecias de ruína. Mas serão cumpridas, com igual certeza, e no cumprimen­ to a posição de Ezequiel como profeta será vindicada. A nossa era não é a única que trata os porta-vozes de Deus como se fossem entretenimento público. c.

Os pastores do passado e o Pastor do futuro (34:1-31)

Não é incomum, nem no Antigo Testamento nem em outros escri­ tos do antigo Oriente Próximo, ver governantes designados como pastores (cf. Is 44:28; Jr 2:8; 10: 21; 23:1-6; 25:34-38; Mq 5:4, 5; Zc 11:4-17). Moisés e Davi recebem esta descrição (Is 63:11; SI 78: 70-71) e, não sem relevância, estes dois homens receberam sua chamada à liderança enquanto realmente serviam como pastores de rebanhos. A palavra “pastor” sugere a liderança e o cuidado, e era, portanto, uma metáfora apropriada para se usar no caso de monarcas hereditários que, doutra forma, poderiam pen­ sar somente em termos de dominar seu povo. A história israelita demonstra quão raramente foi atingido este ideal de liderança responsável, e Ezequiel estava especialmente consciente dos fracassos dos últimos reis antes do exí­ lio (cf. 19:1-14; 21:25). É por isso que, antes de prometer acerca da boa liderança do porvir, faz um ataque causticante contra a ganância e o egoís­ mo dos líderes do passado. Tinham explorado o povo como se o rebanho lhes pertencesse. O povo, porém, era o rebanho do Senhor (minhas ove­ lhas, 6) e os reis reinavam sobre eles por nomeação do Senhor (meus pas­ 196


EZEQUIEL 34:1-10 tores, 8). Por isso, seriam castigados e as ovelhas dispersas pelo exílio, se­ riam livradas, levadas de volta para suas próprias pastagens e cuidadas por Deus, seu bom Pastor. Ele as julgaria com justiça, e nomearia Seu servo, Davi, como Seu vice-regente e príncipe (24), e tudo seria paz e harmonia, bênção e prosperidade. A passagem ilustra um ideal elevado da realeza no Antigo Testamento e do lugar de Javé como o verdadeiro melek-rei de Is­ rael, de quem a realeza da casa de Davi derivava. Vale também notar que a estreita conexão entre o rei e o tema do pastor nos justifica ao vermos uma certa qualidade de realeza em passagens bem conhecidas como o Salmo 23 (onde a vara no v. 4 é a mesma palavra para o cetro real) e João IO.103 34:1-10. A condenação dos pastores. As três acusações feitas con­ tra os reis de Israel são, primeiramente, que exploravam cruelmente o po­ vo debaixo dos seus cuidados, “tosquiando-o” e engordando-se às suas ex­ pensas (2, 3); em segundo lugar, não demonstravam nenhuma das qualida­ des pastorais exigidas da sua parte, a saber: cuidar dos membros fracos e indefesos da comunidade (4); e, em terceiro lugar, ao invés de guardar o re­ banho junto, em segurança, deixaram as ovelhas ir desgarradas por toda a terra (a palavra traduzida espalhar/desgarrar ocorre três vezes nos w. 5 e 6, e é a palavra predileta de Ezequiel para descrever a dispersão dos exila­ dos). Isto significava que eram uma presa fácil para todas as feras do cam­ po, aqui representadas pelas nações hostis do mundo. Estavam no mais pa­ tético de todos os estados, pelo menos para a mentalidade oriental, eram como ovelhas sem pastor (cf. 1 Rs 22:17; Mt 9: 36). Por causa de tudo isto, Deus declara estar contra os pastores, embora reinassem sob a sua providência. Tendo fracassado nas suas responsabilida­ des, não teriam permissão para continuar reinando; o rebanho seria remo­ vido dos seus cuidados, e eles seriam depostos do seu cargo. Este é um veredito um pouco mais brando do que aquele em Jeremias 23:2, onde foi ameaçado castigo aos pastores. Ezequiel não profetiza, a esta altura, o castigo dos governantes, mas, sim, somente que o povo seria salvo das suas garras vorazes. Na realidade, o exílio já removera muitos israelitas da jurisdição dos seus soberanos nacionais, mas a frase no v. 10b parece suben­ tender que o jugo do governo real (Gedalias, talvez?) haveria de ser remo­ (103) Ver a discussão sobre isto por Raymond Brown no seu comentário sobre João 1-12 (Anchor Bible), págs. 396-398, onde ele insiste contra Bultmann, que a imagem em Ezequiel de Deus (ou do Messias) como o pastor ideal, serviu de modelo para a própria imagem de Jesus como o pastor ideal.”

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EZEQUIEL 34:11-20 vido até mesmo daqueles que foram deixados na terra de Judá. 34:11-16. O bom Pastor. Um rebanho de ovelhas deve ser cuidado por alguém, e aqui Deus Se apresenta como quem assume o papel de Pas­ tor do Seu povo. Seu trabalho será encontrar as dispersas, livrar as perdi­ das, apascentar todo o rebanho e cuidar dele, dedicando atenções espe­ ciais aos membros fracos e doentes. O retrato do pastor buscando a desgar­ rada (12), é um prenúncio notável da parábola da ovelha perdida (Lc 15: 4ss.), que nosso Senhor, sem dúvida, baseou nesta passagem em Ezequiel. Ilustra, claramente, mais do que qualquer coisa, as qualidades ter­ nas e amorosas do Deus do Antigo Testamento, e golpeia mortalmente aqueles que procuram forçar uma cunha entre Javé, Deus de Israel, e o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Além disto, esta não é a única passagem que fala do terno pastor (cf. SI 78: 52-53; 79:13; 80: 81; Is 40: 11; 49:9-10; Jr 31:10). A referência a um dia de nuvens e de escuridão (12) tem implicações escatológicas (cf. SI 97: 2; J1 2:2; Sf 1:15) e sugere que esta libertação será o dia do Senhor para Israel, ou seja, o dia em que o Senhor agir com salvação e com julgamento para introduzir uma nova era do Seu reino justo na terra. 16. A RSV emenda o hebraico, que diz: a gorda e a forte destrui­ rei (ARA, ARC), para dar o sentido: “zelarei pela gorda e a forte,” seguin­ do as Versões LXX, Siríaca, e Latina, e que é recomendado por muitos co­ mentaristas como sendo “mais apropriado para o Pastor” (Cooke). Mas permanece o fato de que todos os MSS, menos dois, têm o texto mais seve­ ro, que se encaixa muito melhor na frase imediatamente seguinte (apascentá-las-ei com justiça, ou “como é apropriado”) e ao teor dos w. 17-22, on­ de estão as ovelhas gordas e fortes do rebanho que oprimem as fracas, condenadas por assim agirem. Keil, portanto, provavelmente tem razão em concluir que “a destruição destes opressores demonstra que o cuidado amoroso do Senhor está associado a justiça” (Keil, in loc.). 34:17-22. O julgamento no meio do rebanho. Até este ponto, Ezequiel pronunciara o julgamento divino somente contra os maus pastores, i.é, os governantes reais. O bom Pastor agora toma-se Juiz e trata das ove­ lhas más no meio do rebanho, i.é, os nobres opressores ou a classe mercan­ til intimidadora. Uma confusão de interpretação surge aqui por causa da inclusão dos carneiros e bodes no v. 17. A comparação com Mateus 25: 3133 tem levado alguns a impor o padrão neotestamentário de uma separa­ ção entre ovelhas e bodes nesta altura em Ezequiel. Mas a distinção está 198


EZEQUIEL 34:21-23 entre as gordas, fortes, e as fracas, indefesas (20). O rebanho nos tempos bíblicos, assim como hoje no Oriente Médio, consistia regularmente em uma mistura de ovelhas e bodes, e a palavra hebraica seh em 17, 20, 22 (traduzida de modo igualmente equívoco como gado, ARC, e ovelhas, ARA) simplesmente significava um membro do rebanho, fosse ovelha ou cabrito. Ezequiel diz que os cidadãos poderosos e prósperos, que tomavam gananciosamente para si todas as coisas boas da terra negando o seu bene­ fício aos seus semelhantes, seriam julgados pelo Pastor.104 O rebanho real­ mente será purificado, não somente da sua má liderança, como também dos seus maus membros. A linguagem desta metáfora coloca Ezequiel po­ sitiva e diretamente na tradição profética de Amós, para quem a justiça so­ cial e a libertação da opressão dos pobres pelos ricos eram os dois princí­ pios centrais da sua mensagem. Seria interessante saber se Ezequiel tinha em mente quaisquer exemplos específicos de opressão enquanto falava es­ tas palavras. O tratamento ordinário que os escravos hebreus receberam durante o cerco de Jerusalém certamente era um exemplo apropriado da veracidade das suas alegações (Jr 34:8-11). 34: 23, 24. O Pastor Messiânico. Cada novo parágrafo deste capí­ tulo aumenta ainda mais a analogia. Se o capítulo for tomado como um todo, dará a impressão de estar cheio de inconsistência, mas se cada se­ ção for tomada separadamente, ficará óbvio que idéias novas estão sen­ do acrescentadas a cada passo. Parece que estes versículos abandonam o conceito de Deus como o único bom Pastor, pois Ele planeja instalar Seu próprio representante escolhido para agir como pastor do Seu povo. O contexto é a consumação da presente era e o início da nova era. O reba­ nho disperso será reunido de volta na sua própria terra num ato escatológico de livramento, não sem seu elemento de julgamento. Unidas e purifi­ cadas, agora entram na era sobrenatural de ouro, de paz e de prosperida­ de. Acima delas está colocado o personagem messiânico que é descrito de várias maneiras como sendo meu servo, príncipe, e Davi. Quem é esta pes­ soa? Não é, conforme alguns acreditariam, o Davi histórico ressurreto, nem é um rei humano da linhagem davídica, porque estamos tratando de uma figura sobre-humana que reinará para sempre (cf. 37: 25). É o servo do Se­ (104) A sugestão de Mau que a distinção aqui é entre as ovelhas israelitas e pagãs, com base que os opressores são contrastados com minhas ovelhas e meu rebanho (19, 22) e são responsabilizados pela dispersão do rebanho no exílio (21), parece incorporar idéias novas e estranhas à metáfora.

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EZEQUIEL 34:24-27 nhor, representado por um Davi idealizado: Davi, pois, foi o homem a quem Deus escolheu e em quem Se deleitava; o rei que triunfou contra todos os seus inimigos e que estendeu seu reino em todas as direções; o homem de Judá sob cujo gênio toda nação esteve unida por um período. Estes aspectos da pessoa e do reino do líder messiânico têm mais significa­ do para Ezequiel do que a sucessão física da linhagem de reis davídicos. Não via futuro algum para reis daquele tipo sobre Israel. Eram condena­ dos, e a sina de Zedequias apenas serviu para selar aquela condenação. Assim, este novo personagem messiânico é descrito, não como rei, mas, sim, como príncipe (nàst"), e com essa capacidade será o soberano justo da comunidade salva de Israel.105 Os cristãos podem ver o cumprimen­ to desta experiência no caráter do futuro reino messiânico de Cristo, do qual a atual era cristã é um mero prenúncio, mas a linhagem davídica de Jesus é ligada a outras profecias vétero-testamentárias e não as de Ezequiel (e.g. Is 11:1 ; Jr 23:5). 34:25-31. A aliança da paz. A nova era será marcada por uma nova aliança que banirá as feras da terra e garantirá a segurança, a fertilidade e a produtividade para aqueles que nela habitarem. A ausência de feras não produz exatamente o mesmo quadro que se acha em Isaías 11:6-9, por­ que, para Ezequiel, a segurança dos habitantes baseia-se na remoção do pe­ rigo, como em Levítico 26:6, ao passo que, para Isaías, havia uma harmo­ nia real entre inimigos tradicionais (cf. Os 2:18). A fertilidade abundante da terra, no entanto, tem paralelos em outras profecias da era de ouro, tais como: Oséias 2: 22; Joel 3:18; Amós 9:13-14; Zacarias 8:12, sendo que todas elas vêem as bênçãos futuras de Deus em termos de prosperida­ de agrícola. Os relacionamentos são freqüentemente descritos em termos de uma aliança, e a frase aliança de paz (25; cf. 37:26; Is 54: 10) significa simples­ mente “uma aliança que funciona.” A palavra paz é usada para descrever a harmonia que existe quando as obrigações segundo a aliança são cumpri­ das e o relacionamento é sadio. Não é um conceito negativo, que suben­ tenda a ausência do conflito ou preocupação ou barulho, conforme o usa­ mos, mas, sim, um estado totalmente positivo em que tudo está funcionan­ (105) O uso por Ezequiel do termo m íV (lit. “levantado”) não significava a grande diferença de função daquela de melek; atribui-se principalmente ao seu desejo de evitar a associação da segunda palavra com a monarquia judaica. Pode ha­ ver, entretanto, uma súbita insinuação de uma distinção no uso de no meio delas ao invés de “sobre elas”, no vers’'" ’lo 24. 200


EZEQUIEL 34:28-35:1 do bem. A área de segurança prometida ao povo de Deus inclui o deserto, as pastagens não cultivadas, e os bosques, o cerrado, usualmente o lugar de algum perigo por causa das feras. Era, porém, centralizada no Monte Sião (meu outeiro, 26), como na maioria das profecias acerca da era mes­ siânica. A chuva a seu tempo refere-se às chuvas temporãs, que interrom­ pem a seca do verão, em fins de outubro e em novembro, e as chuvas se­ rôdias (gesem), que saturam a terra entre dezembro e março. Da sua regula­ ridade e abundância dependia a fertilidade de toda a terra da Palestina. 29. Plantação memorável (lit. “lugar de plantio para um nome”). Se isto for correto, o significado deve ser que Deus providenciará para Seu povo plantações que lhe trarão renome entre as nações em razão da sua produção abundante. Mas a frase é deselegante para a leitura e muitos co­ mentaristas seguem a LXX e Sir. na transposição de duas letras para formar “plantação de paz,” ou “prosperidade.” 31. Homens deve ser omitido, como a LXX e Lat. d.

A denúncia da traição de Edom (35:1-15)

Os edomitas receberam uma breve referência nos oráculos contra as nações (25: 12-14), e surge inevitavelmente a pergunta: por que um capí­ tulo inteiro lhes é dedicado nesta etapa específica no desenvolvimento do livro, quando a restauração de Israel é o tema predominante? A respos­ ta fácil é considerar o capítulo como sendo uma interpolação, mas este conceito nâo sustenta o exame, porque o oráculo tem estreitos vínculos com o capítulo 36, tanto no estilo agressivo das suas profecias (“visto que... eis que...”) quanto nos discursos contrastantes às montanhas de Edom e de Israel (35: 3; 36:9). A resposta provável é que sabe-se que os edomitas traíram seu relacionamento com Israel despojando sua terra no momento em que Jerusalém estava a ponto de colapso, e que esta ação explicaria o rancor da profecia bem como a sua posição imediatamente após as notícias da queda de Jerusalém. Além disto, se o antecedente à restauração de Israel haveria de ser a remoção dos seus vizinhos hostis (as “feras” da terra em 34:25?), então, mais uma vez, a profecia da de­ solação de Edom está bem colocada aqui. A palavra “Edom,” sem dúvi­ da, nunca ocorre neste capítulo: é sempre o monte Seir. Trata-se de uma referência à, região montanhosa ao leste do Arabá, da fossa tectônica que vai para o sul a partir do mar Morto, no âmago da qual se acha a cidade de cor vermelho-rosa, Petra (Sela na Bíblia). A cor da pedra porfiróide 201


EZEQUIEL 35:2-6 era quase certámente a origem do nome Edom (que em heb. significa “vermelho”), embora certa explicação tradicional se associasse a aparên­ cia de Esaú na ocasião do seu nascimento (Gn 25:25). Nesta área monta­ nhosa habitavam os edomitas, descendentes do irmão gêmeo de Jacó, e mantinham hostilidade constante contra seus parentes israelitas (a inimi­ zade perpétua do v. 5). Com toda a eqüidade, deve ser acrescentado que a culpa não estava toda concentrada num só lado. (Para um panorama bí­ blico do relacionamento entre eles, ver Gn 25:22ss.; 27:1-41; Nm 20:1421; 2 Sm 8:13-14; 2 Rs 8:20-21; 14: 7; SI 137:7; Is 34; Jr 49:7-22; La 4:21-22;Am 1: ll-12;Ob;Ml 1:2-5). Os habitantes do monte Seir são acusados em três instâncias:/^ por causa do seu ódio perpétuo contra os filhos de Israel e seus ataques contra estes no tempo da calamidade (5); (b) por causa das suas aspirações ao en­ grandecimento territorial, que talvez os levou a negociar seu apoio a Nabucodonosor em troca da promessa de partes de Judá e Israel (10); (c) por causa das suas jactâncias arrogantes e da sua satisfação maliciosa e cruel com a queda de Jerusalém (12-15). A hediondez específica destes delitos é expressa nos w. 10, 12 e 13. Em resposta, Ezequiel declara que as rei­ vindicações de Edom ao território eram inválidas, porque Judá e Israel eram o território de Deus (o SENHOR se achava ali, 10), e povos desau­ torizados o possuíam com grande perigo para si (cf. a ruína dos colonizado­ res assírios no território do norte em 2 Rs (17:24-28). As ofensas arro­ gantes arremessadas contra o povo de Judá eram equivalentes a blasfê­ mias que o Senhor ouvira contra Si. Em cada caso, o julgamento pronun­ ciado por Deus estava na forma da retribuição. A lex talionis é invocada para trazer a matança como paga pelo derramamento de sangue que Edom causara; ódio por ódio, e desolação por desolação. 3. Desolação e espanto. A frase hebraica é aliterativa: semàmâ ú-mesammâ, e se acha também em 6: 14; 33: 28, 29. 5. No tempo da calamidade deve referir-se aos eventos de 587 a.C., e não a alguma suposta destruição posterior de Jerusalém pelos edomitas, que, conforme sustentam alguns defensores de uma data avançada, é refe­ rida indiretamente em Neemias 1:3. A frase paralela e do castigo final indica que o julgamento em 587 era a culminância dos sofrimentos de Je­ rusalém, conforme também toma claro Isaías 40: 2. Sobre o incidente aqui aludido, comparar Obadias 10-14. 6. A culpa de sangue, na qual foi envolvido pela traição de Edom, era mais séria por causa do seu parentesco primitivo com Israel. Embora o texto deste versículo não seja inteiramente claro, a quádrupla referên­ 202


EZEQUIEL 35:6-36:1 cia a sangue (dàm) pode ser, propositadamente, um jogo de palavras com o nome não mencionado de Edom. 7. O que por ele passa, e o que por ele volta (lit. “quem passa e quem volta”) é um hebraísmo, assim como “o que compra e o que ven­ de” (7:12) e “o que sai e o que entra,” subentendendo-se: “todos sem exceção.” 9. O ódio do v. 5 é emparelhado ao castigo das perpétuas desola­ ções. Este é um destino ainda muito mais severo do que aquele pro­ nunciado contra nações tais como o Egito e Amom, que ao menos tinham a perspectiva da restauração colocada diante de si (29: 14; Jr 49:6). 10. As duas nações são Israel e Judá. Os edomitas, fechados nas suas fortalezas montanhosas, devem ter freqüentemente lançado olhares gananciosos sobre as terras mais férteis a noroeste deles. Mas sua única chance de sucesso dependia da fraqueza de Judá que procuraram explo­ rar. É interessante notar que, até mesmo no julgamento de Judá, Deus ainda é considerado como estando na terra, e é mostrado identificandoSe com Seu povo (12). 14. O significado é que assim como Edom se regozijou sobre Je­ rusalém, assim também Deus a tomará em desolação de modo que toda a terra possa exultar sobre ela. e.

Uma terra restaurada e um povo transformado (36:1-38) As promessas de Ezequiel quanto à restauração de Israel começaram no cap. 34, com a perspectiva de uma nova liderança na pessoa do Senhor como o bom Pastor e o Messias davídico como Seu representante. A espe­ rança futura agora é retomada com a perspectiva, primeiramente, de uma nova terra e, finalmente, de um povo renovado para habitá-la. A ordem de líder, terra e povo é uma indicação interessante tanto do reconhecimento da importância da liderança nacional em Israel, como também do relacio­ namento inseparável entre um povo e os contornos físicos da terra que ha­ bitavam. Quanto à primeira consideração, facilmente a reconhecemos ho­ je, mas a segunda é mais difícil para apreciarmos. Não subentende neces­ sariamente uma crença nas deidades localizadas, muito embora o Antigo Testamento realmente tivesse alta consideração pelas localizações dos santuários onde Deus apareceu aos seus antepassados, e.g. El Bete-el, o Deus de Betei (Gn 31:13; 35: 7). Mas este fato deve ser colocado lado a lado com fatos tais como o lugar de Canaã, a terra prometida, nas alianças abraâmica e mosaica, e a escolha de Jerusalém ou o monte Sião como o 203


EZEQUIEL 36:1-4 lugar onde se pensava que o Senhor habitava de maneira especial, e onde o culto a Ele devia ser realizado. Para aqueles que acham que este é um conceito de Deus por demais materialista, e por demais limitador para o Deus de toda a terra, o israelita esclarecido provavelmente responderia que não era mais desarrazoado do que o Deus de todo o tempo declarando um dia entre sete como sendo Seu, e o Deus de toda' a natureza declaran­ do um dízimo dos seus produtos como também exclusivamente Seu. A au­ toridade sobre a totalidade é testemunhada pela entrega de parte dela. As­ sim, os hebreus consideravam a própria terra que habitavam, as monta­ nhas, os vales, as planícies e os rios, como um tipo de terreno de Deus no mundo, e o bem-estar deste terreno estava intimamente vinculado ao bemestar do povo de Deus que o habitava. Assim como isto era aplicável no capítulo 35 ao monte Seir, e, por implicação, aos seus habitantes, também agora Deus Se dirige às montanhas de Israel (1-15), e isto leva a oráculos a respeito do povo de Israel (16-38). A estrutura do capítulo é a seguinte: (a) O oráculo dirigido aos mon­ tes de Israel tem duas partes. Os w. 1-7 prometem que as nações ao redor de Israel, e Edom em especial, sofrerão opróbrio por causa da maneira segun­ do a qual trataram a Israel. Os w. 8-15 falam mais da perspectiva de fertilida­ de para os montes de Israel e da repopulação da terra pelos exilados voltan­ do para casa. (b) A segunda seção principal consiste em uma reprise intro­ dutória do passado de Israel, demonstrando que era o zelo pelo Seu santo nome que induziu o Senhor a castigar Seu povo (16-21), seguido por três oráculos que tratam das novas bênçãos que o povo há de receber e fruir (22-32, 33-36, 37, 38). 36:1-7. Os inimigos das montanhas de Israel. A estrutura das fra­ ses é confusa, e os críticos têm procurado, com pouca concordância en­ tre si, separar a redação original de acréscimos posteriores. Parece mais satisfatório, no entanto, ver a confusão de expressão como sendo uma marca de emoção intensificada, enquanto o profeta se inflama na sua in­ dignação. Certo crítico mais antigo comenta: “Ezequiel está tomado de fervor incomum, de modo que, depois da breve declaração no v. 2, ‘por­ tanto’ é repetido cinco vezes, sendo que as acusações levantadas contra estes inimigos forçam seu caminho para dentro, uma vez após outra, an­ tes da profecia fixar-se calmamente nos montes de Israel, aos quais real­ mente era aplicáveis.”106 A ocasião para este discurso ardente foi a alega­ (106) Ewald, citado em Keil, Vol. II, päg. 102.

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EZEQUIEL 36:5-14 ção exultante dos inimigos de Judá de que: Os eternos lugares altos são nossa herança (2). O uso da palavra bàmôt (lit. lugares altos) é anômalo como descrição da região montanhosa de Judá, por causa das suas asso­ ciações idólatras. Mas a palavra também pode ter uma interpretação neu­ tra e, portanto, não há necessidade de seguir a LXX e emendar para semàmôt, “desolações” (cf. Dt 32:13; Am 4: 13). O adjetivo eternos sublinha a crença de que a terra pertencia a Judá em razão de promessas primevas, e, assim, toma as alegações do inimigo ainda mais enfurecedoras para Ezequiel. Desafiavam, não simplesmente as fronteiras territoriais de Judá, mas, sim, as promessas do Senhor, de longa data, e isto chegava perto da blas­ fêmia. Foi isto que despertou o fogo do Seu zelo (5) e Seu zelo e furor (6), o ardor que queima dentro do homem profundamente ferido pelas pala­ vras ou ações de outra pessoa. Levou Deus a um forte juramento (Levan­ tado eu a minha mão jurei, 7; cf. 29: 5—que o desprezo que as nações pa­ gãs haviam empilhado sobre Judá voltaria sobre as suas próprias cabeças. 36: 8-15. Os montes de Israel são abençoados. O contraste com o que foi escrito antes é marcado pelas enfáticas palavras de introdução: Mas vós. As promessas de serem férteis e densamente populados são exa­ tamente o oposto do destino colocado diante dos montes de Edom (35:3, 7, 15). E os benefícios da frutificação da terra serão desfruta­ dos pelos exilados, pelo povo de Israel, o qual está prestes a vir (8).101 Nenhuma contradição deve ser vista aqui com a declaração de Ezequiel expressa em 4:6 de que o castigo da casa de Judá duraria quarenta anos. Agora que o castigo de Jerusalém foi cumprido, Ezequiel nada vê senão o cumprimento iminente da promessa de restauração, num tipo de redução profética das dimensões do futuro imediato. Isto é porque Deus está convosco (9), i.é, ao lado de Israel, em contraste com Sua atitude para com Israel em termos idos (6:2, 3b) e com Sua atitude para com as nações em derredor (26:3; 28: 22; 29: 3; 35:3). E por esta razão, repopulará os mon­ tes de Israel com toda casa de Israel, presumivelmente com Israel e Judá jun­ tos, e as cidades arruinadas serão reedificadas, as terras devastadas voltarão a ser cultivadas e darão seus produtos. Conforme acontece tão freqüentemen­ te, quando Deus age para abençoar, vos tratará melhor do queoutrora (11). Não é fácil ver como os montes de Israel poderiam desfilhar a terra (107) A tradução de ARA, o qual está prestes a vir, toma como sujeito, não a Isiael, mas os frutos prometidos. Isto é perfeitamente possível, mas o con­ texto parece favorecer a tradução da RSV que diz: pois eles virão logo para casa.

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EZEQUIEL 36:15-21 de suas crianças (12) e devorar os homens (14), conforme se diz. Alguns comentaristas pensam em termos de causar a fome através da seca (Davidson, May), ou da morte através da fome e das feras (Cooke), ou da dizima­ ção do povo através da guerra e invasão (Stalker). Skinner, menos especifi­ camente, refere-se a Números 13: 32, onde os espias relataram que as terra era “terra que devora os seus moradores,” e conclui que “a terra, em misteriosa simpatia com a mente de Javé, parece estar animada com uma disposiçlo hostil para com seus habitantes... Seu caráter inóspito era bem conhecido entre os pagãos... Mas no futuro glorioso tudo isto será muda­ do.”108 36:16-21. Retrospecto histórico. Mais uma vez, Ezequiel repete sua asseveração de que os pecados de Israel tinham merecido o castigo de Deus. O povo contaminara sua terra e a tomara impura, como a impureza de uma mulher menstruada (17; uma figura para a idolatria, ver nota sobre 7:19). Este Deus, pois, os espalhara entre as nações e as julgara, não poderia fazer outra coisa. Então, assim, Seu ato de julgamento reper­ cutiu contra Seu próprio bom nome, porque os pagãos haviam ficado atô­ nitos porque semelhante ruína sobreviera ao povo do Senhor, e isto os le­ vou a pensai levianamente acerca de um Deus que permitisse que Seu povo fosse assim tratado. A doutrina expressa em tive compaixão do meu santo nome (21), representa a máxima humilhação para o pecador. Não há ne­ nhuma consideração por ele, nenhum respeito para com seus sentimentos, nenhum amor a ele como ser humano. Fica condenado por causa dos seus pecados, e perde todo o direito diante de Deus. É simplesmente um peão no tabuleiro de xadrez que é o mundo, onde a preocupação princi­ pal de Deus é que todos os homens e todas as nações saibam que Ele é o Senhor. Colocar esta consideração desta forma, em toda a sua inflexibili­ dade, talvez pareça severo, e uma contradição do cristianismo, mas é um aspecto da verdade de Deus conforme revelado no Antigo Testamento. É o aspecto básico para a declaração de Paulo em Romanos 5:8: “sendo nós ainda pecadores...” Não tínhamos direitos diante de Deus, éramos Seus inimigos, éramos incapazes de fazer alguma coisa para nos salvar a nós mesmos: Deus, porém, agiu em salvação. Ao assim fazer, demonstrounos o Seu amor, e também a todo o mundo. Mas a humilhação da doutri­ na de Ezequiel é necessária em primeiro lugar, a fim de que possamos dar valor à maravilhosa graça de Romanos 5. (108) Skinner, págs. 332-333.

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EZEQUIEL 36:22-26 36:22-32. Deus vindica Sua santidade ao restaurar Israel. Neste capítulo, estamos no âmago da teologia de salvação de Ezequiel. Ele nos conta não somente o que Deus fará, como também por que está agindo desta maneira. Conforme já vimòs, os dois enfoques dos pro­ pósitos de Deus são Seu próprio nome e as nações do mundo, e os dois se relacionam entre si. Quer que Seu nome seja grande, de modo que as nações possam considerá-Lo, não como um deus tribal ineficaz, mas, sim, como o Senhor de toda a terra. E Israel será o canal através do qual esta vindicação será realizada (a RSV tem “através de vós” na última frase: “quando através de vós eu vindicar...” 23). Deve ter sido muito difícil para Israel aceitar este papel, e o único indício de que alguns em Israel podiam aceitá-lo acha-se nos assim chamados Cânticos do Servo em Isaías 40-55, onde Israel, como Servo do Senhor, cumpre Sua missão entre os gentios através do sofrimento.109 A igreja também considera o papel de difícil aceitação, mas em uma era onde o poder de Deus é por demais desacreditado em razão dos fracassos do Seu povo, a igreja precisa estar pronta para ser tratada duramente por amor à maior glória de Deus no mundo. 24-30. No caso dos exilados, no entanto, Deus agora vindica Sua glória, não através dos seus sofrimentos, mas, sim, através da sua restaura­ ção. Numa série das declarações proféticas, Ezequiel descreve o que Deus fará. Em primeiro lugar, vem a ação puramente física de devolver os exilados à sua terra natal (24). Segue-se, então, certo número de trans­ formações morais e físicas, para as quais são empregadas várias expres­ sões figuradas. Aspergir com água pura (25) significa mais, por exemplo, do que o mero perdão dos pecados. Seu simbolismo é derivado de lavagens rituais com água, que visavam a remoção da impureza cerimonial (cf. Êx 30:17-21; Lv 14:52; Nm 19: 17-19), e este simbolismo é aplicado à purificação do povo da imundícia da idolatria (e de todos os vossos ído­ los vos purificarei, 25).110 Os termos coração e espirito (26) também precisam de compreen­ são cuidadosa. NIo são tanto partes da constituição do homem quanto as­ pectos da sua personalidade total. O coração inclui a mente e a vontade, (109) Isto, certamente, não exaure a interpretação destas canções (a saber, Is. 42:1-4, 49:1-6; 50:4-9; ; 52:13-53:12), pois elas têm forte tonalidade messiâ­ nica, mas é um elemento que não deve ser omitido no desejo de vê-las somente como prefigurando Cristo. (110) É o mesmo ritual que se desenvolveu variadamente nas freqüentes purificações da seita Qumran e na prática cristã do batismo.

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EZEQUIEL 36:27-14 bem como as emoções; é, na realidade, a sede da personalidade, a natureza mais interior do homem. O espirito é o impulso que o dirige e regula seus desejos, seus pensamentos, e sua conduta. Os dois serão substituídos e renovados; o coração que é teimoso, rebelde e insensível (o coração de pe­ dras) por um que é macio, impressionável e responsivo {coração de carne), e o espírito da desobediência pelo Espírito de Deus. Nada há na palavra hebraica para “carne” que sugira a tendência corrompedora do Grego sarx, conforme é usado no Novo Testamento e especialmente pelo apóstolo Pau­ lo em Romanos 8. O resultado deste transplante psicológico é que Israel passará por uma verdadeira mudança de sentimentos e se tomará, pela ini­ ciativa graciosa de Deus, o tipo de povo que, no passado, deixara de ser de modo tão marcante. A implantação do Espírito de Deus dentro deles transformará seus motivos e lhes capacitará a viver de acodo com os esta­ tutos e os juizos de Deus (27). Jeremias, em passagem semelhante da sua profecia, sobre a qual Ezequiel parece estar baseado (Jr 31:31-34), não faz referência ao dom do Espírito, mas sua referência a imprimir “as mi* nhas leis” na sua mente, e a inscrevê-las “no coração” claramente produz os mesmos resultados. O revestimento do Espírito era um sinal da era mes­ siânica (cf. Is 42:1; 44:3; 59: 21; J1 2:28-29), e Ezequiel tinha consciên-. cia disto e o mencionou em ocasiões posteriores (37:14; 39: 29). Para ele, portanto, a restauração de Israel era o início dos últimos dias, a era do Messias. Em harmonia com aquela idéia, o relacionamento da aliança entre Deus e Israel seria renovado (vós sereis o meu povo, e eu serei o vosso Deus, 28), e além da purificação das imundícias do passado, haveria a perspecti­ va de uma Canaã com superabundância de prosperidade natural (29). 31, 32. Estes versículos finais parecem soar como uma nota nitida­ mente destoante depois da lista de benefícios que os precede, mas repre­ sentam um elo essencial com a premissa teológica segundo a qual são da­ das as bênçãos da nova era. Subjaz a tudo, o ponto de vista de Ezequiel de que as ações de Deus não visavam beneficiar Seu povo, mas, sim, de­ monstrar Sua glória ao mundo. A reação de Israel é que a bondade de Deus o envergonhará até chegar a um estado de arrependimento e nojo de si mesmo (cf. 20:43), e, então, confessará a Deus como nunca fizera antes. 36:33-36. As nações aprendem por meio da história de Israel. Ago­ ra, finalmente, o propósito por detrás das ações de Deus acha seu cumpri­ mento apropriado. A reedificação das cidades devastadas de Israel e a re­ cuperação das terras de lavoura levarão aqueles que as vêem a maravilharem-se, e considerarão que o Senhor assim fez a fim de cumprir Sua pala208


EZEQUIEL 36:35-37:1-28 vra. Eu, o SENHOR, o disse, e o farei (36). A declaração do v. 35 está em contraste marcante com o veredito anterior do v. 20. Está de acordo com o ensino de muitas profecias de uma “idade de ouro” em que os dias glo­ riosos do porvir serão como uma volta à bem-aventurança do Éden antes da Queda(cf.Is 11:6-9; 51:3; J13 :18;Am9< 13-15). Será um ato da cria­ ção de Deus tanto quanto foi o jardim do Éden original. Deus, e não o ho­ mem, será responsável pela consumação desta presente era. 36:37, 38. O aumento da população. Como pós-escrito à promes­ sa de terras e cidades restauradas, vem a declaração de garantia de que abundarão em homens para lavrá-las e trabalhar nelas. A linguagem figu­ rada, semelhante àquela que é usada no capítulo 34, é provavelmente ex­ traída da visão de rebanhos de vítimas sacrificiais apinhando-se nas estrei­ tas ruas de Jerusalém em tempos de festas. Rebanho dos santos (38) é li­ teralmente “rebanho de coisas santas” e evidentemente refere-se a animais destinados para o sacrifício. Assim as cidades reedificadas de Israel fica­ riam repletas de multidões de homens. Este símile do sacrifício teria ocor­ rido de modo natural a Ezequiel, o sacerdote. É tentador perguntar se ele pensava além da mera semelhança numérica no quadro de um povo dispos­ to a ser oferecido, como aquelas ovelhas, em sacrifício vivo no serviço de Deus. f.

O renascimento espiritual do povo (37:1-28)

A familiaridade deste capítulo, o mais conhecido de todos em Ezequiel, facilmente pode cegar os leitores ao seu significado verdadeiro. A visão do vale de ossos secos tem sido entendida por alguns como sendo o ensino de uma doutrina vetero-testamentária da ressurreição do corpo, e por outros, tem sido vista simplesmente como uma analogia para a rege­ neração espiritual. O símbolo dos dois pedaços de pau tem sido usado tan­ to para promover quanto para refutar as teorias dos “israelitas britânicos” [diz-se que as tribos perdidas de Israel foram para a Grã-Bretanha. N. Tr.]111 Mas a chave para entender este capítulo corretamente é vê-lo pelo seu contexto. Ezequiel estava prometendo ao seu povo uma mudança pa­ ra sua sorte, uma nova liderança, uma terra restaurada, cidades reedifica* das, e muitos dos aspectos da era messiânica. Não é de se admirar que foi (111) Ver a discussão em Ellison, pág. 13 lss.

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EZEQUIEL 37:1-28 tratado com ceticismo: a queda de Jerusalém significara o colapso da fé nacional, e não iria ser restaurada tio facilmente assim. Os israelitas olha­ vam para as sobras espatifadas do seu povo no exílio, e somente podiam dizer: “os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança. Acaso poderão reviver estes ossos?” A resposta parece ser, inconfundivelmente: “Não.” Ezequiel, no entanto, acreditava que assim poderia acontecer. Se o propósito de Deus era restaurar Israel, Ele o faria, não importa quão grande fosse o milagre necessário. Tanto a visão quanto o oráculo dos dois pedaços de pau transmitiam esta mensagem. No caso da visão (1-14), foi demonstrado à nação que o Espírito de Deus tinha o poder de transfor­ mar o que parecia ser uma hoste de esqueletos num exército eficaz de ho­ mens, um quadro de Israel restaurado de novo à vida e cheio do Espírito. No oráculo (15-28), Ezequiel demonstra que as antigas divisões entre Is­ rael e Judá passarão e a nova nação unirá os remanescentes dos dois po­ vos numa só terra sob um só rei, sem sua animosidade tradicional. 37:1-14. A visão do vale dos ossos secos. Os ossos representam os israelitas no exílio. Já estavam ali havia mais de dez anos, e quaisquer vislumbres de esperança que tinham no início, quando lá chegaram, já es-, tavam totalmente extinguidos. Sua esperança se perdera e, como ossos, estava muito seca. A visão é uma reflexão razoável do desânimo que Ezequiel enfren­ tava, embora deva ser reconhecido que suas profecias anteriores tinham, pelo menos parcialmente, contribuído para o desespero do povo. Agora, porém, quando o profeta profetizou, os ossos ajustavam-se cada um no seu lugar num estalido, tomando-se seres vivos. Israel voltou à vida. Na visão, isto ocorreu em duas etapas. Na primeira, Ezequiel é ordenado: Profetiza a estes ossos e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do SENHOR. O resultado é apenas uma restauração parcial; os esqueletos espalhados são transformados em cadáveres individuais, mas ainda continuam mortos como antes. Na segunda etapa, Ezequiel tem de profetizar ao espirito (a palavra é rãah, “fôlego” ou “espírito”) e apelar-lhe para que venha asso­ prar sobre estes mortos, para que vivam (9). Desta vez, os cadáveres revi­ veram, colocaram-se em pé, e o milagre se completou. Qual é o significado das duas etapas? A diferença entre elas deve ser achada, certamente, na direção das profecias de Ezequiel; primeiramente, aos ossos, ordenando-lhes que ouçam, e em segundo lugar, ao espírito, in­ vocando sua inspiração. A primeira parte deve ter sido para Ezequiel mui­ to semelhante à sua ocupação profissional, exortando pessoas sem vida a 210


EZEQUIEL 37:1-28 escutarem a palavra de Deus. 0 efeito era limitado e é verdade que alguma coisa de notável aconteceu, mas os ouvintes continuaram mortos. A se­ gunda ação era equivalente à oração, à medida em que Ezequiel rogou ao Espírito de Deus que efetuasse o milagre da nova criação, que soprasse nas narinas do homem o fôlego da vida (cf. Gn 2:7). Desta vez, o efeito foi devastador. Aquilo que a pregação por si mesma deixou de realizar, a ora­ ção transformou em realidade. O que se enfatiza nesta seção, entretanto, não é o método utilizado, mas sim, o fato da revivificação. Isto se toma claro nos versículos explanatórios no fim desta visão (11-14), onde as suas duas etapas já não são levadas em conta. Ao invés disto, uma nova metáfora é invocada: a da res­ surreição dos mortos das suas sepulturas. Há uma inconsistência real aqui, porque os ossos da visão anterior não tinham sido enterrados. Mas isto somente comprova que as metáforas reforçam o fato daquilo que Deus está planejando fazer, a saber: levar a efeito a revivificação do Seu povo desanimado, Israel. As figuras de linguagem não têm validade em si. Es­ ta passagem, portanto, não ensina uma doutrina da ressurreição dos mor­ tos, seja geral, nacional ou individual. Também não subentende uma cren­ ça na ressurreição de Ezequiel ou dos seus ouvintes. Tudo quanto pode ser dito no caso é que Ezequiel emprega a linguagem da ressurreição pa­ ra ilustrar a promessa da volta de Israel a uma nova vida em sua própria terra, após seu estado de morte, no exílio babilónico. Alguns duvidariam que Ezequiel ao menos tivesse consciência da possibilidade de uma ressur­ reição física, conforme é descrita em Daniel 12:2, e traçariam a origem da sua metáfora na encenação cultual de um deus que morria e ressuscita­ va,112 ou, na Bíblia, na narrativa javista da criação do homem em Gêne­ sis 2.113 Talvez seja um exagero do argumento, porque, conforme Skinner observou,114 “que Deus pudesse mediante um milagre restaurar a vida aos mortos nunca foi duvidado por qualquer israelita piedoso,” e passa a citár 1 Reis 17 e 2 Reis 4:33ss.; 13:21, como exemplos desta rara ocorrência miraculosa. Mas não há evidência que Ezequiel cresse muna doutrina de ressurreição dos mortos, nem de tê-la ensinado ou revelado conhecimento dela. Se comentaristas judaicos ou cristãos atribuírem esta doutrina ao ca­ pítulo 37, estarão atribuindo a Ezequiel interesses que não eram seus, per­ (112) H. Riesenfeld, The Ressurrection in Ezekiel xxxvii and in-the DuraEuropos Paintings, 1948. (113) Ver R. Martin-Archard, From Death to Life, 1960, págs. 93-102. (114) Skinner, pág. 348.

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EZEQUIEL 37:1-6 dendo a lição essencial da sua mensagem. Quando Tertuliano, por exem­ plo, procurou refutar os gnósticos, ao sustentarem que Ezequiel 37 se refe­ ria somente à restauração de Israel, e não à ressurreição pessoal, é prová­ vel que, desta vez, os heréticos estivessem com a razão. 1,2. O vale é a mesma palavra para a “planície” (ARA “vale”) em 3:22 (heb. biq a), e provavelmente a referência seja ao mesmo local. Eze­ quiel teve a visão da majestade de Deus no mesmo local em que também viu a desolação dos exilados, com seus ossos branqueados pelo sol do de­ serto, como num campo de batalha alguns meses depois de ocorrida. A visão pode ter sido instigada pela própria lembrança dos israelitas mor­ tos e espalhados do lado de fora de Jerusalém, ou ao longo da estrada do deserto por onde Ezequiel e seus companheiros foram para o exílio. 3. A maneira em que é feita esta pergunta: Acaso poderão reviver estes ossos?, juntamente com a sua descrição como sendo sequíssimos (i.é, mortos há muito), indica que a resposta óbvia é “Não.” Apesar dis­ to, o fato de que a pergunta vem da parte de Deus, o Deus que mata ê que faz viver (Dt 32:39), é suficiente para que Ezequiel seja cuidadoso na sua resposta. Tinha conhecimento suficiente para não negar a capaci­ dade de Deus, mas faltava-lhe a fé para crer nela. Martin-Achard conclui que “as palavras do profeta dão testemunho do fato que, nos tempos de Ezequiel, a possibilidade da ressurreição dos mortos não era cogita­ da em Israel; vários séculos mais tarde, a atitude de Marta, irmã de Lázáro, seria bem diferente (Jo 11:23ss.)115 5. Parte da arte deste capítulo é o emprego habilidoso da palavra hebraica rúah. Aparece aqui em três sentidos diferentes: como “Espírito” nos w. 1 e 14, como “fôlego” nos w. 5, 6, 8, 9 e 10, e como “vento” ou “ventos” no v. 9. Mas, na realidade, é a mesma palavra, e nenhuma tradução moderna pode tratar com justiça sua variedade de significados. A palavra grega, pneuma, compartilha da flexibilidade do hebraico, e a LXX conseguiu usá-la consistentemente nesta passagem. É a mesma palavra que subjaz o duplo significado de “vento” e “Espírito” em João 3:8. Na sua raiz, rúah denota o sentido de “ar em movimento,” i.é, “ven­ to” ou “fôlego.” Este significado pode estender-se desde a brisa mansa até ao vento tempestuoso, ou de uma respiração calma até uma paixão violen­ ta. Vem a significar não somente o espírito ou a disposição do homem, como também qualidades emocionais tais como vigor, coragem, impaciên­ cia e êxtase. Abrange não somente o fôlego vital do homem, que lhe é da­ (115) Martin-Archard, op. cit., págs. 95-96.

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EZEQUIEL 37:6-15 do ao nascer e deixa seu corpo no seu último alento, como também o Espírito de Deus que outorga este fôlego. Assim é a rica variação da pala­ vra aqui usada por Ezequiel.116 7. Um barulho é interpretado pela RV como sendo “um terremoto” que acompanhou o milagre e a RSV traz “chocalhar,” o ruído dos ossos ao se juntarem (como em ARA). Os dois sentidos são possíveis, e ocorrem em Ezequiel (ver 3:12-13; 12:18; também 38:19). 9. Os quatro ventos representam os quatro cantos da terra (cf. 7:2). Note que, no decurso desta visão, Ezequiel agiu conforme as ordens recebi­ das e até descreveu sua obediência implícita aos mandamentos de Deus (7, 10). Ao fazer assim ressalta que esta obra de reavivamento é de Deus, do começo ao fim. Se o homem pessoalmente desempenha qualquer papel, é somente em obediência à orientação de Deus. O mesmo pode ser dito acer­ ca da contribuição humana a qualquer reavivamento espiritual. 11-14. Há, talvez, um leve jogo de palavras aqui, porque a palavra traduzida ossos é etimologicamente ligada a uma raiz que significa “força.” Dessa forma, o uso metafórico desta palavra numa frase comum, tal como o tristonho lema aqui citado, pode conceptivelmente ter governado a for­ ma da visão à medida em que se desenvolvia no subconsciente do profeta. Estamos de todo exterminados (11; heb. nigzamü lànú, lit.: “fomos-cortados por-nós); a LXX oferece a tradução numa só palavra: “estamos perdi­ dos” ; a RSV parece ter emendado para “somos-cortados todos-nós” (kullãnu), sem declarar a correção feita. A melhor solução é a de Perles que alte­ ra a divisão das palavras para nigzar nôlènü, “nosso-fio-de-vida foi-cortado.” O equilíbrio com pereceu a nossa esperança está, então, completo.117 37:15-28. O oráculo dos dois pedaços de pau. Mais uma vez, o pro­ feta fala com a ajuda de uma ação simbólica (cf. 4:1; 5:1). O Senhor ordena-lhe tomar dois pedaços de pau e neles marcar: Para Judá e Para José. Estes representam os dois reinos dos dias anteriores, antes da Samaria ser tomada pelos assírios sob a liderança de Sargom II (722/1 a.C.) e Israel, o reino do norte, perder a sua identidade. Deve tomar um deles na sua mão direita escondendo uma extremidade no seu punho cerrado. Depois, deve tomar o outro pedaço e juntá-lo ao primeiro, extremidade contra ex­ tremidade. Com o punho cerrado, então, segurará a parte onde os dois (1,16) Para uma discussão mais detalhada do rüah, ver Aubrey Johnson, The Vitality o f the Individual in the Thought o f Ancient Israel, 1964, págs. 23-37. (117) F. Perles em Orientalische Literaturzeitung, xii, 1909, págs. 251-252, citado em Koehler.

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EZEQUIEL 37:15 pedaços de pau se unem, e parecerá estar segurando uma longa va­ ra pelo meio. Compreendida a ação, não será necessário pedir qualquer ti­ po de milagre para aquele ato simbólico. O significado da ação é que, no Israel restaurado, as antigas divisões do norte e do sul serão abolidas e as nações serão unidas na mão de Deus. A sua interpretação, no entanto, levanta certo número de questões controvertidas. Se os habitantes de Israel/Samaria foram espalhados por todo o Império Assírio, há qualquer perspectiva de seus descendentes serem literalmente trazidos de volta, com os exilados de Judá, para a terra prometida? Ou devemos entender que “Israel” consistia simplesmente de homens originários das tribos do norte que se associaram com Judá de tempos em tempos? Ou alegorizamos tudo e o vemos simplesmente como um quadro da igreja, o novo Israel, unido ao reino futuro de Deus? Os problemas se tomam especial­ mente agudos quando o leitor aborda a passagem com a seguinte pergunta ocupando o primeiro lugar na sua mente: “Esta profecia foi cumprida?” O cumprimento da profecia é uma questão secundária para ser conside: rada depois de solucionada a questão da exegese correta. O que, então, Ezequiel está dizendo? A explicação dada em 21-28 é futurista. Descreve o reino messiâ­ nico ideal dos últimos dias. Os filhos de Israel serão reunidos dentre as nações por onde foram dispersas (21); serão restabelecidos na sua própria terra; se tomarão um só reino, sob um só rei davídico (22, 24); já não praticarão a idolatria, mas, sim, serão purificados de toda a sua imundí­ cia (23). Viverão uma vida de obediência ao Senhor e desfrutarão de uma aliança perpétua com Ele (24, 26). O Senhor estabelecerá Seu santuário no meio deles para todo o sempre, e os pagãos saberão que eu sou o SE­ NHOR que santifico a Israel (26-28). Ora, tudo isto é a linguagem da idade de ouro que Israel antegozava sendo a culminância da sua existên­ cia religiosa nacional. Qualquer questão de “cumprimento” deve ser relacionada com todo o quadro que é pintado, e não com seus aspectos isola­ dos. A resposta do Novo Testamento a esta futura esperança de Israel é que aconteceu, porém não foi cumprida. A idade de ouro raiou na vinda de Jesus, o Messias e o cumprimento começou. Mas não foi completada. A experiência da igreja descobre que muitas das expectativas do passado se tomaram realidades, mas mesmo as realidades são apenas um antegozo da alegria messiânica plena e definitiva, do mundo vindouro. Uma interpre­ tação demasiadamente literal de algum aspecto isolado desta esperança fu­ tura, impede a pessoa de perceber que o profeta está principalmente preo­ cupado com o ideal da união dentro do reino messiânico, i.é, um padrão 214


EZEQUIEL 37:15-28 espiritualizado do Israel futuro, baseado no precedente histórico de monarquia unida de Davi, que foi a idade de ouro no passado. 16. Para José é o nome dado ao reino do norte, de Israel, ou Efraim. O termo “Israel” era usado livremente para descrever o reino do sul, de Judá, uma vez que o norte fora devastado pelos assírios, e, portan­ to, seu emprego aqui teria sido ambíguo. A inscrição nos pedaços de pau relembra a ação semelhante de Moisés em Números 17:2ss. Compare também o oráculo das duas varas chamadas Graça e União (Zc 11: 7ss.), baseado nesta passagem em Ezequiel. 22. O mesmo anseio por uma cura das divisões entre 0 norte e o sul era um aspecto marcante em certas profecias anteriores (cf. Is 11:13; Jr 3:18; Os 1:11). 23. Para os ídolos (heb. gillülím) e as abominações (heb. Síqqüsfm), ver a nota sobre 6:9. Para “os lugares de sua residência” (ARC; heb. môifbòtêhem) a maioria dos comentaristas lê (com Símaco) mesúbõtêhem, suas apostasias (cf. ARA). 24. Davi é descrito como sendo meu servo, um título nitidamen­ te messiânico, bem como rei (reinará) e príncipe eternamente (25). Já no­ tamos que Ezequiel evitou descrever qualquer dos seus contemporâneos hebreus como sendo rei (melek), mas, reservou este título para o líder davídico do futuro (cf. sobre 7:27; 12:10). O estado de permanência que faz par­ te deste reino futuro é que é expresso na frase repetida para sempre (25, 26, 28), sendo uma forte indicação de que Ezequiel está aqui pensando, não tanto numa linhagem de reis davídicos, conforme os conhecera no passado, mas, sim, num Ser com realeza sobrenatural em quem seriam concentradas todas as qualidades da sabedoria, do revestimento do Espírito Santo, da justiça e da paz que eram esperadas do Soberano ungido por Deus. 26. Meu santuário no meio do povo restaurado é uma promessa, não da proteção, mas, sim, da eleição por Javé do Seu povo. Mais uma vez, lhe é ligado por Sua aliança e habita no seu meio. Isto, por si só, testificará diante das nações ao redor que a catástrofe de Jerusalém foi invertida, e que o povo de Israel, mais uma vez, é o povo de Javé. A pa­ lavra “santifico” (28) significa “separar como santo”, i.é, para uso e gló­ ria do próprio Deus, e é freqüentemente usada em paralelo com palavras que significam “escolher.” A restauração do Templo, portanto, é muito mais do que uma simples questão de reparar danos de guerra. É o modo pelo qual demonstra que não está morto e que Israel ainda é Seu povo. Dessa forma, o capítulo termina com uma nota que facilmente introdu­ zirá a visão dos capítulos 4048. 215


EZEQUIEL 38:1-39:29 VII. A PROFECIA CONTRA GOGUE (38:1-39:29) Estes capítulos podem ser isolados do seu contexto de modo muito semelhante às profecias contra as nações nos capítulos 25-32. Parece que interrompem a seqüência dos capítulos 33-37 e 40-48, que nos oferecem o retrato de uma nova posição de liderança para Israel, uma terra renovada e um povo renascido, conduzindo para a visão final da planta, da organiza­ ção do templo e da sua adoração nesta nova comunidade. Como um orácu­ lo apocalíptico como este se encaixa em semelhante padrão? A dificuldade já era sentida numa etapa recuada da transmissão do texto de Ezequiel e isso é testemunhado pelo fato de que os papiros Scheide colocam 38-39 imediatamente após 36.118 Sua posição atual entre 37 e 40 deve-se à obra editorial do compilador, seja quem tenha sido, que reu­ niu a matéria substancialmente na forma em que nos foi transmitida pelo TM e Versões. O seu arcabouço básico era cronológico (com a exceção conhecida de 29:17ss.), e todos os oráculos sem data tinham de ser en­ caixados onde melhor coubessem. O exegeta, portanto, deve constante­ mente perguntar-se por que um certo capítulo é colocado no seu contex­ to imediato. É possível que, 40-48 ligando-se claramente e com uma data, avançada (“no ano vinte e cinco do nosso exílio,” 49:1), tenha compeli­ do o redator a colocá-los no fim do livro, e esta consideração cronológica tem pesado mais do que a consideração lógica; uma vez que a derrota finaldos poderes das trevas deve vir depois do raiar da nova era, e não antes. A questão é importante para aqueles que se esforçam em encaixar a figura do milênio no padrão bíblico das últimas coisas. Uma outra dificuldade adi­ cional surge ao supormos que o livro de Ezequiel é, na realidade, dois li­ vros, conforme era aparentemente sustentado por Josefo no século I d.C.119 A interpretação mais provável desta declaração é que os capítulos 40-48 eram considerados por Josefo como um apêndice isolado, que até mesmo pode ter circulado separadamente nos seus dias, e que os capítulos 1-39 eram a parte principal da profecia de Ezequiel. Compreendidos desta maneira, os oráculos contra Gogue eram uma conclusão apropriada dos ca­ pítulos 1-39.120 Pendemos ao ponto de vista de que os capítulos 38 e 39 são uma (118) Um texto da LXX, datado provavelmente do início do terceiro sécu­ lo AD, contendo Ezequiel 19:12-39: 39. Ver OTMS, pág. 2;49n. (119) Josefo, Antiguidades, x.5.1: “Ezequiel . . . o deixou de lado ao escre­ ver dois livros a respeito daqueles eventos.” (120) Isto é muito refutado por Skinner, págs. 367-368.

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EZEQUIEL 38:1-39:29 composição separada, escrita num gênero literário diferente, e acrescen­ tados a 1-37 como um pós-escrito, e de que 4048 eram um apêndice pos­ terior desenvolvido sobre o capítulo final da obra original, 1-37. Isto ex­ plicaria tanto as ligações verbais entre 37:24-28 e 4048, quanto a falta de tais ligações entre 38, 39 e seu contexto. Esta seção consiste em sete oráculos, cada um dos quais é introdu­ zido pela fóimula: Assim diz o SENHOR Deus (38:3-9, 10-13, 14-16, 17-23; 39:1-16, 17-24, 25-29). Descrevem como Gogue, o príncipe-chefe de Meseque e Tubal, invadirá a terra de Judá, vindo do norte, para des­ pojá-la e destruir o povo que, mais uma vez, está pacificamente restabele­ cido na sua terra. O Senhor, porém, vindicará a Sua santidade massacran­ do os invasores, de modo que seus cadáveres ficarão espalhados nos montes de Israel como presas para as feras, e seus restos mortais levarão sete meses para serem enterrados no Vale das Forças de Gogue. Além disto, suas armas fornecerão ao povo de Israel lenha que servirá para sete anos. Ora, a idéia de uma enorme batalha escatológica entre as forças do mal, ou o norte, e o povo fiel de Deus, não era nova. Ezequiel tinha cons­ ciência de que falava de um cumprimento de eventos que porta-vozes an­ teriores profetizaram. (38:17; 39:8), e suas palavras ecoavam a linguagem de outros, especialmente Jeremias (Jr 4:5-6:26; cf. J1 2:20). Estava, na realidade, representando os últimos dias em termos da linguagem figurada do “dia do Senhor” que dominava o futuro para profetas tais como Joel (J1 2:28-32), Amós (Am 5:18-20) e Sofonias (Sf 1:14-18), e que aparece de modo destacado em partes de Isaías (Is 29:5-8; 66:15ss.), e de Zacarias (Zc 12:1-9; 14:1-15). Este é um quadro totalmente diferente do tema da “idade de ouro,” em cuja linguagem fora descrita a volta do exílio para a terra prometida. Até que ponto é possível reconciliar as duaS abordagens num esquema cronológico consistente, fica para o julgamento de outros, com base nos esforços daqueles que já fizeram a tentativa. O que importa notar é que Ezequiel, aparentemente, conseguiu usar as duas formas de lingugem figurada sem qualquer senso de contradição, embora não ofereça qualquer orientação clara quanto à maneira de equilibrá-las. Mais uma palavra de cautela deve ser dita acerca da interpretação destes dois capítulos. A linguagem é a linguagem apocalíptica: em grande medida, é simbólica, e às vezes deliberadamente obscura e até mesmo enig­ mática. Embora os pormenores sejam vagos, o impacto principal é expres­ so com clareza e destaque. A interpretação, portanto, deve corresponder ao conteúdo, e as tentativas de atribuir significados demasiados aos detalhes incidentais da profecia, revelam a engenhosidade do especulador mais do 217


EZEQUIEL 38:1-2 que a sobriedade do exegeta.121 a.

A invasão dos exércitos de Gogue (38:1-16)

2. Gogue tem sido identificado, de variados modos, com Giges, rei da Lídia, que é chamado Gügu nos registros de Asssurbanípal, e com o no­ me geográfico, Gagaia, referido nas cartas de Tell el-Amama como país de bárbaros. Nos escritos'de Ras Shamra achou-se um deus, Gaga, identi­ ficação esta que também tem sido sugerida (Enuma elish, III: linha 2). Outros têm visto em Gogue uma personagem histórica tal como Alexan­ dre Magno. A sugestão mais provável é a primeira, mas a origem do nome é menos relevante do que aquilo que simboliza, a saber: o cabeça personi­ ficado das forças do mal que intentam a destruição do povo de Deus.122 O nome Magogue é desconhecido no Antigo Testamento à parte da única referência em Gênesis 10:2 (= 1 Cr 1:5), onde é um filho de Jafete e o fundador de uma nação. Em Apocalipse 20:8, Magogue é uma pessoa as­ sociada a Gogue, mas em Ezequiel a palavra quase certamente visa repre­ sentar o país onde morava Gogue (ARA, ARC). A descrição de Gogue como. príncipe-chefe de Meseque e Tubal é uma tentativa de dar sentido a um trecho hebraico difícil. Se pudesse ser confirmado um topónimo “Rosh”, a melhor tradução seria: “príncipe de Rosh, Meseque e Tubal” (RV), mas na falta de qualquer identificação satisfatória, e tendo em vista a freqüen­ te ligação entre os nomes Meseque e Tubal (Gn 10:2 = 1 Cr 1:5;Ez 27: 13; 32:26), devemos supor que rò’s (= “cabeça,” “chefe”) está em apo­ (121) Isto é particularmente próprio de tais figuras, perpetuadas na Bíblia de Referências Scofield: “a primeira referência é aos povos do norte, encabeçados pela Rússia, todos concordam. A referência a Meseque e Tubal (Moscou e Tobolsk) é a clara marca de identificação”. Esta seção trata, de fato, não com os vizinhos próximos a Israel, considerados totalmente nos capítulos 25-32, mas sim as nações à margem do mundo conhecido. Isto pode ser tomado como representação dos pagãos que não tinham nenhum conhecimento do verdadeiro Deus, ou podem ser vistos co­ mo simbolizando as forças mitológicas das trevas (“o norte”) colocadas contra Javé e seu povo. O mesmo motivo para a batalha escatológica é encontrado em Ap. 16:14, 20: 7-10; e ocorre em alguns escritos pseudofráficos e nos Rolos do Mar Morto (li­ vro de Enoque, 56:5-8; 4 Esdras 13:5-11; Batalha dos Filhos da Luz e dos Filhos das Trevas). (122) Para um estudo mais detalhado, ver W. F. Albright, “Gog and Magog”, JBL, XLIII, 1924, págs. 378-385; J. L. Myres, “Gog and the Dangerfrom the North in Ezekiel”, PEFQ, LXIV, 1932, págs. 213-219.

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EZEQUIEL 38:2-14 sição à palavra príncipe, ou mesmo é uma glosa sobre ela. As tribos men­ cionadas são as Moscoi e “Tibarenoi (ass. Tabal e Musku)-, ver sobre 27:13. 38:3-9. O exército é convocado. As palavras introdutórias demons­ tram que a invasão vindoura não é simplesmente o plano do inimigo, mas, sim, do Senhor que traz os exércitos de Gogue contra Israel com Seus pró­ prios propósitos (cf. os w. 16 e 17). A linguagem usada no v.4 (Far-te-ei que te volvas, porei anzóis nos teus queixos) talvez seja um eco consciente da captura mitológica do grande monstro marinho (ver sobre 29:3-5), e se for assim, reforçaria a crença de que Gogue deve ser entendido como a personificação das forças cósmicas do mal. Juntamente com Gogue vêm mais cinco nações, das quais as três primeiras certamente não provêm do norte, sendo que Pute é provavelmente Cirenaica na África do Norte (cf. 27:10, portanto, onde serviram no exército de Tiro). A casa de Togarma é provavelmente a Armênia (cf. 27:14), e Gômer é usualmente identifica­ do com os Gimir-rai dos assírios, ou os cimerianos da literatura grega, cu­ ja origem estava ao norte do mar Negro. Com estes aliados, Gogue prepa­ ra-se para reunir suas vastas hordas contra a minúscula nação que fora reunido e que agora habita em segurança sobre as montanhas de Israel. O ataque finalmente virá no fim dos anos (8), uma clara indicação escatológica, e a aproximação dos exércitos invasores será como uma nuvem de tempestade (9) ou como a nuvem de gafanhotos de Joel (J1 2:1-11). 38:10-13. A má intenção de Gogue. Este breve oráculo retrata a invasão como sendo da iniciativa do próprio Gogue, e sua trama diabó­ lica é contrastada com a paz e segurança idílica dos israelitas, que nem sequer têm muralhas para protegê-los (cf. Zc 2:4) e que, portanto, são uma presa fácil para as depredações dos inimigos. Sobre a alegação de Is­ rael de que habita no meio da terra (12), ver a nota sobre 5 :5 .0 significa­ do do v. 13 parece ser que o empreendimento de Gogue despertou a cobi­ ça de outras nações, que desejarão participar dos despojos, ou comerciali­ zar os bens roubados. Isto é típico das pessoas que não querem ser os ini­ ciadores dos delitos, mas que estão ansiosas para lucrar com as somas apu­ radas por estes meios. A frase, “todos os seus leõezinhos” (18, ARC), pode ser revocalizada para se ler “todas as suas aldeias” (LXX, Sir.), mas nenhum dos dois textos fica sem seus problemas. Governadores ra­ paces (ARA) toma o primeiro texto num sentido figurado. 38:14-16. A invasão. Ao passo que o oráculo anterior considerava 219


EZEQUIEL 38:14-23 Gogue como sendo plenamente responsável por planejar a operação, estes versículos demonstram que Deus o traz contra Israel. Não há inconsistên­ cia alguma aqui: “o propósito divino prevalece enquanto faz uso de um vil motivo humano” (Cooke). O mesmo paradoxo marca o ensino de Isaías sobre a invasão assíria (Is 10:5-19) e a atitude de Habacuque diante da ameaça dos caldeus (Hc 1:5-11). Não significa que Gogue é um joguete infeliz na mão de um Deus onipotente, porém imoral. Gogue age livremente confoime os ditames da sua cobiça pela conquista e pelo depojo fácil, mas por detrás de tudo no universo (e especialmente no que diz respeito ao povo de Deus) está a mão controladora de Deus, que ordena todas as coisas ten­ do em vista a vindicação final da Sua honra entre as nações. Aquilo que Gogue imagina ser uma vitória para si mesmo, o Senhor transforma em oportunidade para a Sua glória (16; terei vindicado a minha santidade em ti, i.é, serei reconhecido como santo e como o único Deus verdadeiro). b.

O massacre (38:17-39:24)

38:17-23. Deus Se levanta com furor. A defesa do Israel desprote­ gido é empreendida diretamente por Deus. Ele se indignará diante da invasão não-provocada pelas hordas do norte, e lhes trará todos os tipos de desastres naturais. Todos estes estão descritos no tempo futuro, porque não somente a passagem prediz aquilo que há de vir nos últimos dias, co­ mo também Ezequiel tem consciência de que aquilo que está dizendo equivale a um cumprimento das profecias do passado (17). Não que Go­ gue já tenha sido especificamente mencionado por profetas anteriores, mas, as suas predições acerca do perigo vindo do norte haveriam de ser cumpridas nele. As armas que serão usadas contra Gogue são terremotos (19-20; cf. Is 24:18-20; J1 3:16; Ag 2:6-7), a espada (21), a pestilência e o derramamento do sangue (22; cf. 5:17; 28:23), e chuvas torrenciais, pe­ dras de saraiva, fogo e enxofre (22; cf. Gn 19:24; SI 11:6; Is 30:30; 34:9). Todas essas armas, menos a espada, são agentes não-humanos fre­ qüentemente associados aos julgamentos de Deus, e em parte por isso, a RSV segue a LXX ao emendar 21 de Chamarei contra ele a espada so­ bre todos os meus montes (ARA) para “Chamarei contra ele todos os ti­ pos de terror.” A despeito da dificuldade do texto hebraico, no entanto, a tradução da ARA está em plena harmonia com passagens tais como 5:17; 6: 3; 11:8; 12:14, etc., e somente ela dá sentido ao trecho poste­ rior: a espada de cada um se voltará contra o seu próximo, à medida em 220


EZEQUIEL 38:23-39:16 que os pagãos desmoralizados se matam uns aos outros no seu pânico e aumentam a destruição geral (cf. Jz 7:22; 1 Sm 14:20; Ag 2:22; Zc 14:13). 39:1-16. A destruição dos exércitos invasores. A derrota de Gogue e das suas forças aqui é contada de novo em linguagem diferente. Isto é típico da poesia hebraica e do tipo de escrita semi-poética que é usada nestes oráculos. Gosta das repetições e deleita-se em voltar para declara­ ções anteriores e aumentá-las, ainda que o resultado seja destruir todo sentido de arranjo consecutivo. A falta de apreciação a este fato tem leva­ do muitos comentaristas ocidentais a achar “textos repetidos em duas for­ mas,” contradições e inconsistências, e, assim, a pressupor uma autoria múltipla onde isto é totalmente desnecessário. Os dois primeiros versí­ culos repetem 38:3, 4, mas ao invés da frase “porei anzóis nos teus quei­ xos,” uma nova palavra é empregada em 39: 2 que AV erroneamnte con­ jectura ter o significado de “deixar apenas a sexta parte de ti” (ARC: “te porei seis anzóis”). Embora a raiz deste verbo tenha afinidades com a pa­ lavra hebraica para “seis,” as Versões provavelmente tenham razão em tra­ duzi-la “dirigir adiante,” conduzir (ARA). O quadro diz respeito a Deus conduzindo Seus inimigos a certo local a fim de desarmá-los e destruí-los (3-5), e a sua vergonha suprema será a falta de sepultamento dos seus cor­ pos, para que as feras os devorem (4). O oráculo passa a descrever como os despojadores serão despojados, sendo que suas armas servirão de lenha pa­ ra os israelitas durante os sete anos seguintes (9, 10), e como o remanes­ cente do exército será enterrado no Vale das Forças de Gogue (Hamongog, “a multidão de Gogue”) a leste do mar Morto, e, portanto, a pouca distância do território israelita. Esta operação de limpeza levará sete meses, tamanha a matança ocorrida; e depois daquele período uma co­ missão permanente será estabelecida para procurar quaisquer despojos mortais insepultos, e certificar-se de que nenhuma causa de poluição fique sobre a terra (14, 15). A repetida referência ao número “sete” é uma lembrança de que se trata de simbolismo apocalíptico, e, portanto, o cumprimento literal destes pormenores não deve ser esperado. O pro­ pósito por detrás deste massacre é descrito em termos de (a) o cumpri­ mento da palavra profética de Deus (eu falei, 5; tenho falado, 8); (b) o desejo de vindicar o santo nome de Deus, ao qual os sofrimentos e o cas­ tigo de Israel tanto fizeram para colocá-lo em descrédito (7); e (c) a ilu­ minação dos pagãos (as nações saberão que eu sou o SENHOR, 7), embo­ ra Ezequiel não vá até o ponto de ver a salvação final deles através deste 221


EZEQUIEL 39:17-23 conhecimento, conforme viam outros profetas. 39:17-24. A grande festa sacrificial. Mais uma vez, o profeta volta a uma declaração anterior para seu tema, e 39:4 fica por detrás desta es­ pantosa linguagem figurada do Senhor convidando aves e feras para uma grande refeição sacrificial festejada com a carne e o sangue dos guerrei­ ros mortos. Vista desta maneira, a inconsistência do sepultamento dos des­ pojos seguido pelo ato de serem devorados, já não existe. A idéia do sa­ crifício do Senhor tem sua origem em Isaías 34:6-7; Jeremias 46:10; Sofonias 1:7-9 ; e a linguagem de Ezequiel é levada adiante em Apocalip­ se 19:17-21. É um quadro vívido, embora seja horripilante; mas os me­ lindrosos devem ser lembrados que atos atrozes exigem expressão em lin­ guagem figurada correspondente, assim como as bênçãos do justo reino de Deus são simbolizadas pela linguagem da idade de ouro. O julgamento é uma coisa horrorosa, e quanto mais devastadora for sua descrição, tanto mais os homens o temerão. Ezequiel certamente nunca incorreu na culpa de modificar a mensagem de Deus para agradar os homens. Mesmo assim, conforme comenta Skinner, “voltamo-nos com alívio destas figuras de car­ niça e morte para o propósito moral que escondem” (21-24). Aqui expres­ sa-se o pleno propósito da ação de Deus, que até agora foi sugerido apenas de modo indireto. Antes de tudo, ajudará Israel a saber que o Senhor ain­ da é seu Deus e que a rejeição aparente, indicada pela expulsão da sua pá-tria, não era permanente (22). Em segundo lugar, as nações da terra apren­ derão destes eventos que o castigo de Israel era a intenção de Deus, e não um sinal da Sua fraqueza, e que o exílio era a demonstração, feita por um Deus justo, da Sua justiça, para que o mundo inteiro visse (23,24); um Deus santo castiga a iniqüidade do Seu próprio povo bem como dos ou­ tros. Assim, o Senhor que demonstrar Sua glória entre as nações, porque as experiências de Israel deviam ser uma demonstração do Deus de Israel (21), e o escândalo de 36:20 seria silenciado para sempre. c.

Os propósitos finais de Deus para Israel (39:25-29)

A referência ao Exílio no v. 23 leva Ezequiel de volta, neste orácu­ lo final, à sua situação atual. Alguns diriam que estes versículos não têm lugar no apocalipse de Gogue, e é bem verdade que seu estilo e conteú­ do já não são escatológicos. Parecem, no entanto, ser uma tentativa delibe­ rada de arrematar os oráculos de Gogue e de relacionar sua mensagem 222


EZEQUIEL 39:24-40:1 às necessidades imediatas da geração de exilados de após 587 a.C. Nada de novo é acrescentado àquilo que Ezequiel já disse em ocasiões anterio­ res, mas, como resumo do seu ensino, representam uma conclusão conve­ niente aos capítulos 1-39, antes da visão do novo templo ser acrescenta­ da no capítulo 40. 25. Agora tomarei a mudar a sorte de Jacó (ARA; não como em ARC) é uma frase freqüente, quase um termo técnico, para a restauração da bênção a uma pessoa ou a uma nação (cf. 16: 53;29:14; Jó 42:10;SI 14:7; 85:1; 126:1; Am 9:14, etc.). É colocada aqui no contexto da mi­ sericórdia de Deus tanto para Israel quanto para Judá (toda a casa de Is­ rael) e do Seu zelo pelo Seu santo nome. 26. Esquecerão a sua vergonha (ARA) é uma pequena emenda do TM, que diz: “E levarão sobre si a sua vergonha” (assim ARC), sendo que esta última tradução deve ser preferida por ser mais compatível ao ensino de 6:9; 16:61; 20:43; 36:31. Cooke descreve a atitude como “uma íntima sensação de censura feita a si mesmo, quando Israel se re­ lembra do passado em meio a felicidade do presente.” 28,29. O oráculo termina prometendo uma total inversão do exí­ lio. Os exilados serão ajuntados na sua própria terra; nenhum deles será dei­ xado entre as nações (o fato de que muitos preferiram permanecer na Babi­ lônia depois do edital de Ciro não é relevante); e, acima de tudo: Já não esconderei dele o meu rosto, uma promessa de bênção e favor perpétuos. Finalmente, 36:27 é repetido com a declaração poderosa, colocada no tempo pretérito perfeito profético, de que “derramei o meu Espírito so­ bre a casa de Israel” (RV). Colocar esta expressão no futuro (como em ARA) enfraquece a força dramática desta asseveração. É verdade que Deus, na realidade, ainda não fizera assim; mas era uma palavra tão segura que podia ser pronunciada por Ezequiel corno se fosse um fato consumado. VIII. OS PLANOS PARA A NOVA JERUSALÉM (40:1-48:35) Estes últimos nove capítulos de Ezequiel, embora fossem escritos alguns anos mais tarde do que o restante do livro, com a exceção de 29: 17-21, fazem parte integrante dos ensinos do profeta, e equilibram certos aspectos encontrados nos capítulos 1-39. É especialmente apropriado que o livro terminasse, conforme começou, com uma visão. Os capítulos 1-3 apresentam Ezequiel e a visão de Deus visitando Seu povo no exílio; os capítulos 40-48 apresentam Ezequiel e a visão de Deus voltando a habitar 223


EZEQUIEL 40:1-48:35 no meio do Seu povo, agora restaurado e restabelecido na sua própria térra. Estes capítulos também têm ligações com a profanação do Templo e o afastamento da glória do Senhor para longe de Jerusalém (8:1-11:25), porque retratam o templo reedificado para o qual volta a glória do Senhor (43:5). Deve-se, portanto, pensar neles, não como sendo uma composi­ ção completamente independente, apenas frouxamente unida ao corpo principal da obra de Ezequiel, mas, sim, como um clímax real do seu pensamento depois de haver amadurecido durante vinte anos de oração, de meditação e de ministério. Na sua visão, Ezequiel é transportado para um alto monte perto da cidade santa (refere-se provavelmente ao monte Siâo) e ali encontra um personagem angelical que o acompanha por toda a área do templo, medindo tudo com uma vara de medida de construtor. Começa com um estudo pormenorizado de uma das portas que davam para o átrio exte­ rior (40: 6-16), antes de nele entrar e ver as câmaras voltadas para den­ tro, para o pavimento ao redor do seu muro externo. Depois de olhar as outras duas portas para o átrio exterior (40:20-27), é levado para a por­ ta que leva do átrio exterior para o interior onde somente os sacerdotes têm licença para ir, e novamente, há mais três, para o norte, leste e sul, respectivamente (40: 28-37). O templo fica a oeste, sem portas, nem para o átrio interno nem para o extemo (ver Fig. II, pág. 230). Uma breve refe­ rência ao equipamento sacrificial especial e às câmaras reservadas aos sa­ cerdotes sacrificantes (40:38-47) prepara o caminho para uma descrição pormenorizada do Santo dos Santos (40:4841:26), depois do profeta ter vistoriado a área externa do templo (42:1-20). Depois, em visão, Eze­ quiel vê a glória do Senhor reentrando o templo, e é instruído sobre o que deve fazer com as informações que lhe foram dadas (43:1-12). O restan­ te do capítulo é dedicado às medidas do altar do sacrifício e à maneira de ser usado (43:13-27). O capítulo 44 trata de vários regulamentos que dizem respeito à organização do templo, em especial aos levitas e aos sa­ cerdotes zadoquitas que ministrarão ali, seguida por uma descrição da divisão das terras em derredor do templo, com alocações específicas para os oficiais do templo e para o príncipe (45:1-17). Seguem-se regulamen­ tos adicionais a respeito de festas, ofertas e sacrifícios (45:1846:24), mas o capítulo 47 introduz um assunto novo: a torrente de água derrama­ da do santuário, na direção do Arabá, trazendo vida e fertilidade às áreas infrutíferas do vale do mar Morto (47:1-12). A visão termina com uma descrição das fronteiras da terra, e a alocação de várias porções para as do­ ze tribos de Israel (47:1348: 35). 224


EZEQUIEL 40:1-48:35 0 principal problema nestes capítulos é o da interpretação .Quatro pontos de vista principais têm sido sustentados. O primeiro pode ser cha­ mado de interpretação profética literal. Segundo esta interpretação, temos aqui a planta de um templo que Ezequiel pretendia que fosse construí­ do quando os exilados voltassem a Jerusalém. É, na realidade, uma espe­ cificação de construção. Deve ser dito em defesa desta teoria que Eze­ quiel esperava com confiança uma volta literal do exílio, logo, não seria surpreendente que ele, como personagem sacerdotal além de profético, es­ boçasse o formato do novo templo que por certo haveria de ser reedifica­ do em Jerusalém. A redação de 43:10-11 (no heb., embora não na LXX; ver o comentário abaixo) encoraja aqueles que adotam este ponto de vista. Por outro lado, conforme comenta Hengstenberg123, “esta opinião olvida que não estamos tratando com um arquiteto, mas, sim, com um pro­ feta — com alguém cuja especialidade não está nas mãos, mas, sim, no co­ ração.” Se fosse a especificação de um arquiteto, esperaríamos muito mais pormenores acerca dos materiais a serem empregados, e embora mui­ tas medidas sejam citadas, o projeto fundamental deixa dúzias de porme­ nores à imaginação do construtor em perspectiva, segundo descobriram, com muito pesar, os que procuraram reconstruir o templo de Ezequiel. Além disto, toda a visão (40-48) deve ser tomada como uma unidade, e há elementos tão impraticáveis que uma interpretação completamente literal deve ser excluída (e.g., a localização do templo no topo de um alto mon­ te, 40:2; a origem e curso impossíveis do rio da vida, 47:1-12; a irrealida­ de das divisões das tribos que nunca poderiam ser aplicadas geograficamen­ te no Israel tão montanhoso). A segunda interpretação é a cristã simbólica, favorecida por muitos comentaristas mais antigos. Sustentavam que esta visão teve seu cumpri­ mento simbólico na igreja cristã. Há veracidade neste ponto de vista, e re­ cebe ímpeto pelo uso da linguagem de Ezequiel no livro do Apocalipse, onde o quadro da nova Jerusalém é baseado, em linhas gerais, no padrão de Ezequiel. Mas é exagerar referir-se a visão de Ezequiel diretamente a um “cumprimento” cristão, sem perceber um contexto real para os leito­ res dos dias do próprio profeta, e que este contexto original deve ser a preocupação primária do exegeta do Antigo Testamento. Uma variação desta interpretação, à qual se chega mediante princí­ pios hermenêuticos, é o ponto de vista dispensacionalista. Este é conheci­ do de modo mais popular através da Bíblia de Referências “Scofield”, (123) Hengstenberg, pág. 350.

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EZEQUIEL 40:1 -48:35 que dá a Ezequiel 40-48 o título de “Israel na Terra durante a época do Reino.” A abordagem é literal e futurista. Refere-se aos últimos dias, quando se supõe que todas as profecias acerca do futuro glorioso de Is­ rael serão literalmente cumpridas numa nova dispensação. Se a partir daí conclui-se que as festas, os sacrifícios de sangue, o sacerdócio e a ado­ ração no templo, todos conforme o Antigo Testamento, devem ser reintroduzidos, depois da revelação do Novo Testamento de Cristo e Sua obra completa,124 mostra quão completamente este ponto de vista traz uma in­ terpretação errônea do significado da salvação em Cristo e como lança dú­ vidas sobre a consistência da maneira de Oeus lidar com a humanidade. Sua falha, portanto, acha-se basicamente em considerar Ezequiel 40-48 como profecia e em insistir num cumprimento literal, se não no passado, então no futuro. O quarto ponto de vista é considerar estes capítulos, não como pro­ fecia, mas, sim, como apocalíptica, e interpretá-los de acordo com os câ­ nones deste estilo de literatura hebraica. Seus aspectos são o simbolismo, a simetria numérica, e o futurismo. Já notamos como 38-39 foram expres­ sos neste estilo, e 40-48, embora seus conteúdos sejam bem diferentes, pen­ dem na mesma direção. Este era o padrão de Ezequiel para a era messiânica • que estava para vir. Jazia no futuro, mas, mesmo assim, desenvolvia-se a partir do presente. Foi expressa em termos tangíveis, mas estas eram mera­ mente as formas em que os princípios gerais da atividade de Deus eram en­ tesourados. A visão do templo era, na realidade, um tipo de encarnação de tudo quanto Deus representava, exigia e poderia fazer em prol do Seu po­ vo na era que estava para raiar. Segundo este ponto de vista, que, entre to­ das as interpretações parece adotar o conceito mais realista do caráter lite­ rário da matéria em epígrafe, a mensagem de Ezequiel nestes capítulos po­ de ser resumida da seguinte maneira: (a) a perfeição do plano de Deus para Seu povo restaurado, ex­ pressa simbolicamente na simetria imaculada do edifício do templo; (b) a centralidade da adoração na nova era, sendo que sua im­ portância é expressa na atenção escrupulosa aos pormenores na observân­ cia de todos os seus ritos; (c) a presença permanente do Senhor no meio do Seu povo; (124) Da forma que deduz a nota de Scofield sobre 43:19: “Sem dúvida, es­ sas ofertas serão memorial, relembrando a cruz, assim como as ofertas sob a velha aliança eram antecipatórias, olhando para a cruz.” É dado a toda visão dispensacionalista um exame minucioso no Velho Testamento. Allis, Prophecy and the Church, 1945.

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EZEQUIEL 40:1-4 (d) as bênçãos que fluirão da presença de Deus para os lugares ári­ dos da terra (o rio da vida); (e) a alocação ordeira dos deveres e dos privilégios à todo povo de Deus, conforme demonstram os deveres no templo e a distribuição da ter­ ra (tema este que é retomado em Ap 7:4-8). Estes são, naturalmente, segundo parecem, apenas os temas princi­ pais que Ezequiel está expressando nesta seqüência apocalíptica. Há mui­ to mais matéria que pode ser aduzida mediante a exposição detalhada. Se, no entanto, a visão for interpretada segundo estas linhas, e não como uma profecia no sentido convencional, aos leitores será poupada a necessidade de esforçar-se para achar algum cumprimento das palavras na história pas­ sada ou futura. a.

A visão do templo (40:1-42:20)

40:1-4. O homem com a cana de medir. A data é 573 a.C., no principio do ano (1) e, certamente, sugere o primeiro mês, podendo ha­ ver associações conscientes com a Páscoa (Êx 12:3) ou a entrada em Canaã sob a liderança de Josué (Js 4:19). Mas se for admitido que o ano co­ meçava no outono, significaria o sétimo mês, Tisri, o décimo dia, o Dia da Expiação (Lv 23:27; 25: 9), e há indicações de que era um Dia de Ano Novo.125 A nova era começava com o ano novo. O monte muito alto (2) parece ser o monte Sião, como em 17:22, mas se o texto da RSV (seguin­ do a LXX) defronte a mim for preferido ao TM,para a banda do sul (ARA), pode ser entendido como sendo o monte das Oliveiras, com uma vista que domina toda a área do Templo. O arquiteto angelical (cf. Zc 2:1) é seme­ lhante ao escriba de 9:1-11, que age como guia e intérprete para o profeta nas suas visões, e isto é típico da forma apocalíptica de revelação (cf. Dn 8:15; 10:5). Seu caráter sobrenatural é evidenciado por sua aparência como a do bronze (3; cf. 1:4; Dn 10:6), e levava um cordel de linho (pa­ ra medir distâncias longas) e uma cana de medir na mão. Compare Apoca­ lipse 21:10-15 para um eco desta linguagem figurada. Ezequiel é ordena­ do a olhar, a escutar, e a concentrar sua atenção naquilo que lhe for mos­ trado (põe no coração ou na mente, 4), e a relatá-lo por extenso à casa de Israel. (125) Ver J. Morgentern, HUCA, I, 1924, págs. 22-28; X, 1935, págs. 8, 29.

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EZEQUIEL 40:5-10 40:5-16. A porta oriental do átrio exterior. Ezequiel está usando o côvado longo para todas as suas medidas, i.é, aproximadamente 52,1 cm., em contraste com o côvado costumário de 44,5 cm.126 A cana de medida do anjo teria, portanto, 3,13m de comprimento, e esta seria a espessura e a altura do muro sólido que cercava a área do templo, demarcando de modo eficaz os limites entre o sagrado e o mundo secular lá fora. A por­ ta aqui descrita tem semelhanças interessantes com a porta de Salomão da cidade de Megido, com suas três reentrâncias, ou câmaras da guarda, a cada lado da entrada.127 Somente com a máxima dificuldade pode ser entendida sem a ajuda de um diagrama, e o leitor é aconselhado a acom­ panhar o texto juntamente com a Figura I. Fig. I A PORTA ORIENTAL

P: C: L: V:

Pilares (do vestíbulo) Câmaras Limiar Vestíbulo

M: Muro E: Espaço (ou “barreira”, provavelmente uma mureta)

(126) Ver artigo de D. J. Wiseman no NDB, verbete “Pesos e Medidas”, págs. 1277-1283; também de Vaux, pág. 197. (127) Isto é mais completamente discutido por G. B. Howie em BASOR, CXVII, 1950, págs. 13-19; e em sua monografia, The Date and Composition o f Eze­ kiel (JBL, Monograph Series IV), 1950.

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EZEQUIEL 40:11-19 Ezequiel é conduzido escadaria acima , até o limiar, ou saguão de entra­ da, e vê que a porta (ou “pórtico”) consiste em uma passagem com três celas com reentrância nas paredes de cada lado; na outra extremidade há outro saguão de entrada, que leva a outro vestíbulo espaçoso (8x20 côvados de tamanho), que, por sua vez, dá abertura para o átrio exterior do templo. A maioria das medidas são inteligíveis em ARA, mas as cifras no v. 11 podem confundir. A largura da entrada da porta se refere ao limiar, com 6 côvados de profundidade (7; 5 + 1 côvados) e 10 côvados de largu­ ra; a cifra de treze côvados refere-se ao corredor do pórtico no seu ponto mais largo, ou seja: entre as câmaras laterais onde ficam os pilares das ja­ nelas um metro atrás do espaço ou da “barreira” (12, RSV), ou mureta divisória das câmeras laterais. O v. 13 cita a largura global como sendo de 25 côvados, i.é, 1 (grossura da parede) + 6 (câmara lateral) + 11 (corre­ dor sem a reentrância de um côvado) + 6 + 1 = 25. A frase: uma porta defronte da outra, sugere que uma porta dava para o átrio exterior a par­ tir de cada uma das câmaras, uma probabilidade razoável que permitia aos porteiros levíticos chegarem às suas posições para controlar as multidões que abarrotariam as entradas nas ocasiões festivas. O v. 14 tem o texto defei­ tuoso, e as emendas seguidas por ARA pelo menos têm o mérito de fazer sentido. As palmeiras, esculpidas nos pilares (16), eram um enfeite comum, achadas também dentro do Templo de Salomão (1 Rs 6:29-35). 40:17-19. O átrio exterior. Construídas encostadas ao muro ao re­ dor do átrio exterior, e voltadas para dentro, para uma área pavimentada (o pavimento inferior, 18, em contraste com o pavimento superior do átrio interior) havia trinta câmaras (17), provavelmente dispostas em três grupos de dez contra os muros setentrional, oriental e meridional, com as portas dividindo os dez em dois grupos de cinco. Seu emprego não é descrito, mas quase certamente teriam servido ou para os adoradores ou para os levitas de plantão no templo (cf. Jr 35:2 para um possível uso delas). A medida de cem côvados (19) representa a distância entre a parte mais interior da porta externa e o limiar da porta correspondente que dá para o átrio in­ terior.

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Fig. II. PLANTA DA ÁREA DO TEMPLO DE EZEQUIEL

Escala em côvados: !■■■■■ 0

A: E: C: P: Cz:

Altar Edifício Câmara Pórtico Cozinha

100

■ 200

300

Pv: CS: CzS: AT: 230

I 400

Pavimento Câmaras dos sacerdotes Cozinhas dos sacerdotes Átrio do templo


EZEQUIEL 40:20-44 40:20-27. As outras duas portas do átrio exterior. Estes versícu­ los indicam que as portas nos muros setentrional e meridional do átrio exterior da área do templo seguiam um padrão idêntico à porta oriental já descrita (7-16). Nada acrescentam ao nosso conhecimento senão que chegava-se até elas por sete degraus (22, 26), cifra esta que é omitida pe­ lo texto hebraico do v. 5, e isto indica que a área do templo é concebida como sendo uma enorme área levantada, construída acima do nível do terreno em derredor. 40:28-37. As três portas para o átrio interior. Embora não seja de­ clarado aqui, devemos supor que outro muro cercava o átrio interior. Es­ te era atravessado por mais três portas, idênticas às três portas exteriores, e posicionadas diretamente contra elas a uma distância de 100 côvados. A única diferença era que os vestíbulos destas portas interiores voltavamse para o átrio exterior. O átrio interior também era erguido acima do ní­ vel do exterior e oito degraus (31,34, 37) subiam para as entradas interio­ res. “Cada elevação sucessiva representa um grau mais alto de santidade” (Stalker). Concorda-se de modo geral que o v. 30 é ininteligível e uma ditografia do 29; vários MSS e a LXX o omitem. 40:38-43. O equipamento para o sacrifício. Não fica claro se as mesas para o sacrifício aqui referidas estavam no vestíbulo da porta orien­ tal ou da porta interior setentrional. Aquela é sugerida por 46:2; esta, por certa interpretação do texto obscuro de 40:40, e por 46:19-20. Não é im­ possível que cada uma das três portas tivesse este equipamento sacrificial, e que os adoradores pudessem aproximar-se através de qualquer uma das três entradas. O posicionamento exato das doze mesas mencionadas em 41, 42 é desnorteante; oito delas eram usadas para imolar as vítimas sacri­ ficiais, e havia quatro mesas menores disponíveis para se colocar os instru­ mentos para o sacrifício. Não é possível fazer muitos outros comentários positivos. Se estavam de cada lado do vestíbulo (condiçOes realmente aper­ tadas) ou se algumas estavam dentro e outras fora do vestíbulo (mas como se pode chegar àquelas do lado de fora?), o texto hebraico não diz com cer­ teza. Para o 43b, a LXX tem “e acima das mesas, no alto, havia um toldo para abrigar da chuva e do calor,” o que certamente sugere que algumas das mesas estavam ao ar livre, mas não há autoridade do MSS heb. para es­ te texto. 40:44-47. As câmaras dos sacerdotes. Nos lados setentrional e me­ 231


EZEQUIEL 40:45-41:2 ridional do átrio interior, adjacentes às portas, havia câmaras para os sacer­ dotes sacrificantes (não cantores, que a LXX omite). O guia explica que aquelas no lado setentrional eram para os sacerdotes responsáveis pelo an­ damento cotidiano do templo (45; cf. 44:10-14), ao passo que aquelas no lado meridiano (voltadas para o norte) eram para os sacerdotes que sacrifi­ cavam no altar (46), a saber, os zadoquitas, cuja categoria é descrita còm mais detalhes em 44: 15-21. O quadrado de 100 côvados que forma o átrio interior (47) é calculado desde o limiar interior dos três pórticos até o átrio interior, levando em conta uma medida de cerca de 50 côvados de profundidade (o comprimento de cada pórtico), que talvez tenha incorpo­ rado as câmaras descritas acima e em 42:3. O altar estava exatamente no centro deste quadrado, defronte às portas do templo. Ver Fig. II. 40:48, 49. O vestíbulo do templo. Finalmente, o profeta é levado a subir (dez degraus — “dez” está no hebraico desta vez, 49), para o ves­ tíbulo do templo, onde o anjo acompanhante continua a tirar todas as me­ didas relevantes. A LXX conservou um texto melhor aqui, notavelmente ao registrar a largura do vestíbulo como sendo de doze côvados, e não onze; concordando assim com as demais medidas. Nosso pensamento inverteria os termos comprimento e largura em 49, porque o vestíbulo tinha 20 cô­ vados de largura, que correspondia à largura da entrada e do santuário in­ terior, mas o hebraico sempre chama a medida mais longa de “comprimen­ to,” independentemente da sua direção. As colunas junto aos pilares não são descritas, nem são dadas as suas medidas, mas Ezequiel decerto tinha em mente as colunas de Salomão, chamadas Jaquim e Boaz (1 Rs 7: 1522) que se erguiam independentemente do restante da construção.128 41:1-4. O templo e o Santo dos Santos. (Ver Fig. III). Como o Templo de Salomão, o de Ezequiel tem três partes: o pórtico ou vestíbulo, a nave (aqui “templo”) e o Santo dos Santos (heb. cfbtr, de uma raiz que significa “fundo,” “parte traseira”).129 Ezequiel é conduzido para a nave, o Lugar Santo, onde tem o direito de entrar, como sacerdote, mas pára diante da entrada do santuário interior, onde somente o acompanhante (128) Para outra discussão desses pilares, ver R.B.Y. Scott em JBL, LVIII, 1939, págs. 143-149; H. G. May, BASOR, LXXXVIII, 1942, págs. 19-27 e artigo “Jaquim e Boaz”, no NDB, pág. 786. (129) O mesmo padrão tri-partite é encontrado no Oriente Próximo, nota­ velmente em Tell Tainat no Orontes, e Hazor (ver NDB, fig. 18, pág. 137; BA, rv, 1941, págs. 20-21; XXII, 1959, págs. 3-8).

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EZEQUIEL 41:3-7 entra (cf. Lv 16; Hb 9: 7). Nóte-se como a largura da entrada para cada sa­ la estreita-se desde 14 côvados (40:48) para 10 côvados (41:2) e 6 côvados à entrada do Santo dos Santos (41:3, RSV). O estreitamento progres­ sivo simboliza o aumento da santidade. Fig. III. O TEMPLO DE EZEQUIEL

Escala em côvados: CL: Câmaras laterais (41: 5-7) C: Colunas (40:49): posição incerta V: Vestíbulo (40:48,49) T: Templo, ou Lugar Santo (41:1,2) SS: Santo dos Santos (41:3,4) Para o pavimento elevado, ou plataforma, ver 41:8-11. 41:5-12. As câmaras laterais. Estas eram enfileiradas ao redor de três lados do templo, o setentrional, o meridional e o ocidental, e consis­ tiam em trinta câmaras em cada um dos três andares. Eram provavelmente armazéns para os equipamentos e a mobília do Templo, e para os dízimos e ofertas que eram pagos aos que serviam ao Templo (cf. Ml 3:10). São se­ melhantes àquelas que se acham na descrição do Templo de Salomão (1 Rs 6: 5-10), mas as medidas são um pouco diferentes. As paredes do tem233


EZEQUIEL 41:4-15 pio, contra as quais são edificadas, têm reentrâncias de um côvado por an­ dar, de modo que as câmaras inferiores têm 4 côvados de largura (5), ao passo que no andar superior teriam 6 côvados de largura (sendo que a parede que dava para o templo tinha reentrâncias correspondentes). Chega­ va-se às câmaras por duas entradas, uma na parede setentrional e uma na parede meridional (11), de onde uma escadaria subia até à parte superior. Cercando o templo havia um pavimento elevado, ou área pavimentada, 6 côvados acima do nível do átrio interior (8), que se estendia por 5 côvados ao redor do beiral do prédio do templo propriamente dito (9). Entre esta plataforma e as câmaras dos sacerdotes situadas ao norte e ao sul, havia um espaço de 20 côvados de largura, descrito em ARC como um “lugar sepa­ rado” (12) e em ARA como uma área separada; a RSV diz: uma “área do templo” (heb. gizrâ). No lado ocidental, ao invés de câmaras havia um edifício grande (12), cujo tamanho era de 70 x 90 côvados, que presumi­ velmente também era usado para fins de armazenamento. 41:13-15a. As medidas do templo. Estas podem ser computadas como segue. O templo propriamente dito tinha 100 côvados de compri­ mento, i.é, pilares (“ombreira,” RSV) 5 (40:48) + vestíbulo 12 (40:49) + pilares 6 (41:1) + templo (“nave”) 40 (41:2) + pilar 2 (41:3) + Santo dos Santos 20 (41:4) + parede 6 (41: 5) + câmara lateral 4 (41:5) + pa­ rede externa 5 (41:9) = 100. A área aberta e o edifício ao oeste do tem­ plo estendiam-se por mais 100 côvados, i.é, a área aberta 20 (41:10) + o edifício 70 (41:12) + duas paredes do edifício 10 (41:12) = 100. A frente oriental do templo e da sua área aberta também era de 100 côva­ dos, medida esta que era igualada pela largura global do edifício ao lado ocidental (90 + duas paredes de 5 côvados cada = 100 côvados). Somente um homem como Ezequiel poderia ter tido tamanho prazer neste tipo de precisão simétrica. Para ele, significa que tudo quanto dizia respeito ao templo sè encaixava com perfeição e nada estava fora de lugar. 41 :15b-26. Os adornos e a mobília do templo. Muita coisa aqui é obscura, e a ARA deve ser seguida de modo geral. O interior do templo era intrincadamente apainelado e cercado por um arranjo artístico de palmei­ ras alternadas (cf. 40:16) com querubins de dois rostos, que talvez fossem engastados em marfim, como aqueles achados na Samaria,130 ou esculpi(130) Ver G. E. Wright, “Solomon’s Temple Resurrected”, BA, VII, 1944, págs. 65-77. Como ilustração de um desenho similar, ver A. Parrot, The Temple o f Jerusalem, 1957, pág. 65.

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EZEQUIEL 41:16-42:1 dos no apainelamento e cobertos de ouro, como no Templo de Salomão (1 Rs 6:29-32). Estes cobriam as paredes desde o chão até acima do ní­ vel das portas (20), ou seja, quase até os peitoris das janelas altas, chanfra­ das, numa galeria superior, iluminando a nave de cada lado, acima do ní­ vel das câmaras laterais. (O santuário interno, o Santo dos Santos, era, na­ turalmente, conservado em total escuridão). Na frente das portas duplas que davam entrada ao Santo dos Santos havia “algo que se assemelhava a um altar” (RSV, juntando o fim do v. 21 com o começo do v. 22). Era feito de madeira, com pouco mais de 1 metro de cada lado, e uma altura de 1,53 metros. Foi chamado especificamente a mesa que está perante o SENHOR (22), mas é melhor conhecida, por causa da sua equivalente em Êxodo 25:23-30; Levítico 24:5-9; 1 Reis 6:20, como a mesa da Presen­ ça, ou a mesa dos pães da proposição. Não era, a rigor, um altar (daí sua descrição como sendo “algo que se assemelhava” a um altar), mas, sim, uma mesa sobre a qual eram colocados, todos os sábados, doze bolos de flor de farinha recém-assados para servir, não somente como oferta para Deus, como também de lembrança perpétua de que Deus era “o Provedor e o Sustentador, e que o homem vive constantemente na presença de Deus.” 131 As portas que separavam o vestíbulo da nave, e a nave do Santo dos Santos, eram portas duplas, e cada porta consistia em duas folhas (24) que podiam ser totalmente dobradas. Seria, portanto, possível uma porta ser aberta somente uma quarta parte da largura da entrada, e isto seria o necessário, por exemplo, quando o sumo sacerdote fazia sua entrada anual no Santo dos Santos no Dia da Expiação. O baldaquino (25) de madeira representa uma palavra hebraica desconhecida, ’àb,eé mera conjectura; ocorre também em 1 Reis 7:6. Talvez se refira a um tipo de pórtico coberto com baldaquino, em frente ao vestíbulo, feito com pranchas que se esten­ diam da frente do vestíbulo (ver ARC), mas não podemos ter certeza. 42:1-14. As câmaras dos sacerdotes no átrio do templo. O profeta agora passa a descrever as acomodações nos lados setentrional e meridio­ nal do átrio interior, abrindo para a área do templo. Esta descrição não de­ ve ser confundida com a das câmaras laterais, descritas em 41:5-11, que es­ tão encostadas nas paredes do templo, voltadas para estas “celas” ou “câma­ ras dos sacerdotes, no outro lado da área separada. Aqui, também, uma boa parte do texto hebraico é obscura, e, portanto, os pormenores arquitetônicos não podem ser plenamente compreendidos. A RSV, mais uma vez, depende (131) NDB, art. “Pão”, pág. 1188.

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EZEQUIEL 42:2-20 consideravelmente da LXX, que é seguida em boa medida pela ARA, e que às vezes prefere o TM [átrio exterior, v. 1]; e esta é a reconstrução que se­ guimos aqui. As construções no lado norte estão descritas mais plenamen­ te, porque as do lado sul são suas réplicas exatas (10-12). Cada lado consis­ te em dois complexos de construções, abrangendo uma área total de 100 x 50 còvados. Um destes voltava-se para a área separada e consistia em câ­ maras para os sacerdotes se trocarem e câmaras para comerem ou deposi­ tarem as ofertas que lhes fossem feitas (13, 14). O outro complexo, sepa­ rado do primeiro por um passeio de dez còvados de largura, era uma qua­ dra de três andares, voltada diretamente para o átrio exterior. A quadra só tinha 50 còvados de comprimento (8) mas era continuada por um mu­ ro que se projetava por mais 50 còvados para contrabalançar o compri­ mento de 100 còvados da primeira quadra de salas (7). Havia uma entra­ da na extremidade oriental deste complexo, que talvez tenha permitido o acesso direto, por uma escadaria privativa, do átrio exterior (9), mas po­ de simplesmente ter sido na extremidade mais próxima às portas internas. As várias ofertas descritas em 13 e 14 serão estudadas mais de perto no co­ mentário de 44:29. 42:15-20. As dimensões externas da área do templo. O hebraico tem quinhentas canas. (ARA; ARC) para as medidas dos quatro lados da área do templo (16-19), mas isto obviamente está errado e devemos en­ tender “quinhentos còvados” (RSV; BJ), que corresponde a todas as me­ didas previamente dadas, a não ser que devamos supor que a referência aqui diga respeito a um muro exterior, não mencionado até esta altura, medindo 3.000 còvados de cada lado (assim Kliefoth, Keil), mas isto é improbabilíssimo. A soma de 500 còvados pode facilmente ser calcula­ da do norte para o sul ao se somar o comprimento do pórtico setentrio­ nal 50 + a largura do átrio externo 100 + o comprimento do pórtico interno setentrional 50 + a distância atravessando o átrio interno 100 + o pórtico interior meridional 50 + o átrio externo 100 + o pórtico extemo meridional 50 = 500 còvados. Do oeste para o leste as medidas co­ meçam com o edifício e a área separada 100 (41:13) + o comprimento do templo 100 (41:13) e depois continuam conforme acima, com os átrios interior e exterior e os comprimentos de dois pórticos. Mais uma vez, vemos a perfeição e o equilíbrio da disposição do santuário de Deus. O muro do templo fazia uma separação eficaz entre o sagrado, do lado de dentro, e o secular, do lado de fora (20). 236


EZEQUIEL 43:1-6 b.

Volta a glória do Senhor (43:1 -12)

Já havia dezenove anos que Ezequiel recebera a visão da glória do Senhor deixando Seu templo (10:18-22; 11:22-24). Agora, vê a Sua vol­ ta, para ocupar e consagrar este novo edifício para ser Seu santuário. Sua aparência era a mesma de antes, junto ao rio Quebar (ainda outra ligação que esta visão final tem com o escrito anterior de Ezequiel) e induziu a mesma resposta de reverente temor e adoração. O acompanhante ange­ lical ainda está com Ezequiel, e continuará a dar explicações e instruções sobre a lei do templo, mas a esta altura há uma palavra especial da parte do Senhor, de dentro do templo, que é virtualmente uma declaração de con­ sagração. 43:1-5. A glória do Deus de Israel. Conforme 42:15, Ezequiel já estava perto da porta que olha para o oriente, e o v. 1, portanto, deve ser tomado como introdução estilizada a esta nova seção. A descrição da presença de Deus não somente recorre à visão anterior do carro-trono le­ vantado nas asas dos querubins (o ruído de muitas águas, 2; cf. 1:24), co­ mo também ao simbolismo solar que freqüentemente é associado a glória do Senhor (a terra resplandeceu por causa da sua glória, 2; cf. Dt 33:2; Is 60:1-3; Hc 3:3-4). Há uma referência adicional à visão do anjo destrui­ dor de 9:1-11 na frase: “quando veio destruir a cidade” (3, RSV; não quando vim, ARA, que pressupõe que Deus está falando). A glória do Senhor aproxima-se do oriente (2), porque foi naquela direção que fora vista se afastar (11:23), e entra pela porta que olha para o oriente, que parece sempre ter tido especial relevância litúrgica como estando em linha reta com a entrada principal ao templo.132 Tendo entrado, a glória enchia o templo, como na ocasião da consagração do Templo de Salomão (1 Rs 8:10-11;2 Cr 5:14;cf. Is 6:1-3). 43:6-12. O Senhor fala do interior do templo. O âmago daquilo que o Senhor diz está em 7a e 12. Estas palavras declaram que o novo templo é consagrado ao tomar-se mais uma vez Sua habitação, e que, por­ tanto, o princípio que governa a disposição e a ordem do templo deve ser o princípio da santidade. O lugar onde o Senhor ficar, será santíssimo. Ao discurso é "acrescido uma estipulação de que Israel não deve contami(132) Para um estudo mais completo, o leitor deve consultar J. Morgens­ tern, “The Gates of Righteousness”, HUCA, VI, 1929, págs. 1-37.

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EZEQUIEL 43:6-13 nar a santidade de Deus, conforme fizera no passado (7b-9), e uma ins­ trução ao profeta no sentido de mostrar à casa de Israel a planta do templo ( 10, 11). 7. As palavras aqui ecoam a oração de Salomão em 1 Reis 8:12,13, 27. O Santíssimo do templo é considerado a sala do trono do Senhor (cf. Jr. 3:17; 17:12), e como o escabelo dos Seus pés (cf. SI 99:5; 132:7), embora, por estranho que pareça, esta idéia não parece contradizer o pon­ to de vista de que, na realidade, o Senhor habita no céu. O templo é sim­ plesmente Sua habitação terrestre. A contaminação que anteriormente acontecera ali tinha sido por prostituições, i.é, idolatria e prostituição cul­ tual (2 Rs 23:7), e, aparentemente, pela prática de sepultar os reis dentro do recinto sagrado. Sabemos, de conformidade com os livros dos Reis, que quatorze reis de Judá foram sepultados “na cidade de Davi,” i.é, onde estavam o templo e o palácio real, e parece que a falta estava na au­ sência de qualquer linha clara de demarcação entre o que era sagrado (o templo propriamente dito) e o que era profano (o palácio e quaisquer túmulos a ele associados). Esta separação era o grande apelo de Ezequiel, conforme já notamos. O v. 8 refere-se ou às construções do palácio, que estavam dentro do complexo do templo, ou à edificação de lugares para sepulcros reais nas proximidades. No Templo de Salomão, não havia um átrio exterior fechado por um muro que separasse o Templo do terreno não consagrado do lado de fora. A visão de Ezequiel retificou esta falha. 10-12. Se a frase: para que ela se envergonhe das suas iniqiüdades, for original e não, conforme pensam alguns, um acréscimo, ecoa 16:6163. Estes versículos, no entanto, são confusos, conforme indicam as varia­ ções da LXX, e não fica claro se a ordem para que mostrasse a planta do templo à casa de Israel era para envergonhá-la mediante a demonstração dos padrões da santidade do Senhor, ou para encorajá-la a obedecer à planta, construindo de acordo com ela. A lei do templo (heb. tôrâ) é seu “padrão” de santidade; a LXX traduz com diagraphè, “delineamento, ” “esboço,” mas esta palavra pode refletir um texto hebraico sürâ, “forma.” c.

Os regulamentos para o culto no templo (43:13-46:24) i. O altar, suas dimensões e sua consagração (43:13-27). 43:13-17. As medidas do altar estão especificadas segundo o côvado mais comprido (ver 40:5). Albright descreve o altar da seguinte ma­ neira: “o altar do holocausto foi construído em três plataformas qüadra238


EZEQUIEL 43:13-17 das, cada uma com um lado dois côvados más curto do que a plataforma abaixo dela; os lados das três plataformas tinham, respectivamente, doze, quatorze e dezesseis côvados de comprimento. A plataforma inferior era colocada numa plataforma de alicerce, chamada o “seio da terra” (heq ha-’ares). Esta plataforma de alicerce estava posta no pavimento, estan­ do sua superfície superior aparentemente nivelada com o pavimento em derredor, mas distinguida deste por uma ‘borda’.”133 (É a borda do v. 13, ARA). A altura total, excluindo os chifres que se projetavam mais um côvado para cima (15, RSV), era de 10 côvados (2 + 4 + 4), que cor­ responde à altura do altar de Salomão (2 Cr 4:1). Albright continua, di­ zendo que os 20 côvados que o escritor de Crônicas declarou serem a me­ dida do comprimento e da largura do altar podem, ou ser uma cifra redon­ da, ou refletir o tamanho da plataforma de alicerce que parece ter fica­ do entre 18 e 20 côvados ao quadrado.134 O formato do altar, portanto, lembra o do zigurate babilónico, com um degrau para dentro em cada uma das suas plataformas (ver Fig. IV). Albright continua sugerindo que em última análise, o padrão do altar derivou da cosmologia mesopotâmica, e associa o “seio da terra” (a base) à mesma expressão em acadiano (irat ersiti), usada para a plataforma de alicerce do templo de Marduque na Ba­ bilônia, e também a lareira do altar (heb. har’èl ou ^ rVèl) com o acadiano Arallû, a “montanha dos deuses” ou o além. Isto não subentende uma transposição de idéias religiosas babilónicas para a religião de Israel, mas, sim, dá testemunho eloqüente da influência do país de exílio sobre Ezequiel. Os chifres no altar (15) estavam nos quatro cantos. Eram considera­ dos como de máxima santidade, e o sangue sacrificial era aplicado sobre eles (Êx 29:12; Ez 43:20); eram também considerados como lugares de refúgio (cf. 1 Rs l:50ss.; 2:28ss.). Um altar com chifres foi achado em Megido, entre outros lugares.13s Os degraus do altar voltavam-se para o oriente, e podemos supor com segurança que tinha uma largura de até 10 côvados. Os degraus dos altares foram proibidos em Êxodo 20:24-26, mas o tamanho maior dos altares posteriores tomou-os necessários.

(133) Albright, ARI, pág. 150. (134) Não há, no entanto, necessidade de se supor que o altar de Ezequiel seguia os padrões do de Salomão (pace Albright); ver de Vaux, pág. 412. (135) NDB, fig. 9, pág. 64.

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EZEQUIEL 43:18-27 Fig. IV O ALTAR DO HOLOCAUSTO

Fp NÍVEL DO CHÃO? Bd

Escala em côvados: 2

ARA L: Lareira (^ri’èl) B: Base (hêq) C: Chifres

4

6

FG: Fiada grande FP: Fiada pequena Bd: Borda

43:18-27. As determinações para o altar. Esta seção contém certo número de termos técnicos ligados aos sacrifícios que podem ser compa­ rados proveitosamente aos termos de legislação no Pentateuco. O que, en­ tretanto, é básico para a ação descrita aqui é o alvo de separar o altar para sua função sagrada e purificá-lo de qualquer mácula daquilo que é secular, processo este que leva sete dias inteiros. Depois do primeiro dia, quando um novilho é sacrificado como oferta pelo pecado, um bode passa a ser a oferta, sendo sacrificado diariamente, e além disto, um novilho e um car­ neiro são oferecidos diariamente como holocausto (23). Depois de assim ter sido feito durante sete dias, o altar pode ser usado para os sacrifícios 240


EZEQUIEL 43:18-27 costumários de holocaustos e de ofertas pacíficas (27).136 18. O altar devia ser usado com dois propósitos: para oferecer so­ bre ele o holocausto e para a aplicação do sangue sacrificial. Esta aplicação era feita ou jogando-o da sua bacia contra o lado do altar, ou besuntando os quatro chifres e outras partes relevantes com o sangue, usando o dedo (cf. 20). 19. Os únicos sacerdotes que tinham licença de ministrar nas coi­ sas sagradas (chegar-se pode ser usado aqui num sentido cultual) são aque­ les da descendência de Zadoque (cf. 40:46; 4 4 :15ss.). Os não-zadoquitas eram excluídos do cargo sacerdotal por causa das suas associações idóla­ tras passadas com os santuários rurais (44:10), e apenas tinham licença de trabalharem como servos do templo. Ezequiel tende a anular a distin­ ção entre estes dois grupos descrevendo-os como levitas, embora, seja is­ to naturalmente, perfeitamente correto, a rigor, mas de outras maneiras fazia clara distinção entre eles. A oferta pelo pecado (hatta Y) era ofereci­ da a fim de purificar o altar (20; hittê’, lit.: “des-pecar”) e fazer... expia­ ção por ele (heb. kippèr, de uma ràiz que significa ou “cobrir” ou “apa­ gar”), e sua eficácia derivava do sangue que era a vida da vítima sacrifi­ cada diante de Deus. O restante do animal devia ser queimado fora da área sagrada (21), i.é, fora do arraial (cf. Lv 8:17; Hb. 13:11-13). 23,24. Todos os dias, o altar devia ser assim purificado e então um holocausto (heb. ’ôlâ) era oferecido ao Senhor. Este holocausto era totalmente consumido no fogo, e assumia a natureza de um presente a Deus da parte dos adoradores, visto que estes não recebiam benefício al­ gum da morte do animal, pois nem eles, nem os sacerdotes, tinham licen­ ça para comer qualquer porção dele. Para a aspersão com sal, compare Levítico 2:13; Marcos 9:49. 27. As ofertas pacíficas (heb. selãmfm) tinham mais o aspecto de refeições comunitárias; somente as partes gordurosas eram queimadas no altar, e a carne ficava para que os ofertantes a comessem (depois de certas porções serem dadas aos sacerdotes) como uma expressão da comunhão en­ tre eles mesmos e Deus. Nestes dois sacrifícios mais freqüentemente ofe­ recidos, os holocaustos e as ofertas pacíficas, o alvo religioso era primá­ rio — que os adoradores fossem aceitos por Deus. E foi isto que Ele pro­ (136) Contrastar Éx. 30:28, 40:10; onde o altar na tenda da congregação foi consagrado pela unção. O altar do Templo de Salomão foi consagrado por uma festa de sete dias de holocaustos e ofertas pacíficas (2 Cr. 7:1-9). Mas comparar Lv. 8 :14ss.

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EZEQUIEL 44:1-9 meteu fazer: Eu vos serei propicio, diz o SENHOR Deus. ii. Os ministros, seus deveres e suas qualificações (44:1-45:8). . 44:1-3. A porta oriental fechada. Do átrio interior onde Ezequiel tinha ficado em pé para receber suas instruções acerca do altar (43:5), foi leva­ do de volta por seu acompanhante para a porta oriental do átrio exterior, e achou-a fechada. Isto foi porque a glória do Senhor havia entrado por es­ te caminho (43:4), de modo que nenhum ser humano podia usá-la sem certo grau de profanação. A única concessão era que o príncipe tinha li­ cença de entrar no pórtico (pelo vestíbulo, i.é, a extremidade ocidental) para comer ali a sua refeição sacrificial (3). Este privilégio talvez reflita um vestígio da realeza sacra pré-exílica, em que se pensava que o rei ocu­ passe um lugar importante na prática religiosa como o representante da Deidade. Seja qual for o grau de verdade que haja nesta sugestão, este con­ solo é bem limitado, agora que os direitos sacerdotais dos reis anteriores tinham sido despojados dos seus sucessores pós-exílicos. Não há evidência que a porta oriental do templo de Zorobabel ou o de Herodes ficasse fe­ chada, embora seu uso talvez tenha sido restrito aos sacerdotes,137 e a Por­ ta de Ouro no atual muro oriental de Jerusalém reflete uma tradição pos­ terior e não deve ser relacionada com esta passagem. 44:4-9. A proscrição de estrangeiros. Ezequiel voltou para o átrio interior através da porta interna setentrional (preparando o caminho para o regulamento de 46:1?), e mais uma vez ficou face a face com a glória do Senhor no Seu templo. Desta vez, Deus lhe fala acerca de quem pode ser admitido para Seu santuário, e quem não pode (cf. os regulamentos éticos de SI 15:1-5; 24: 3-6), e é estabelecido o critério para ser membro da comunidade da aliança. Os estrangeiros, que eram incircuncisos de co­ ração e incircuncisos de carne (7), não eram membros da aliança e, portan­ to, profanavam o santuário pela sua presença. Os israelitas que permitiam que isto acontecesse estavam violando a aliança (violastes, 7, ARA; não “invalidaram” como se tratasse dos estrangeiros, ARC) tomando suas próprias ofertas a Deus nulas e sem efeito. A culpa era atribuível à práti­ ca antiga de deixar estrangeiros atuar como servidores do templo, e.g. os guardas cários do templo (2 Rs 11:4), e isto agora era rigorosamente proi­ bido como sendo uma profanação das minhas coisas sagradas (8). Estas restrições, com a ênfase renovada dada à santidade, à aliança e à circunçisão, eram um aspecto destacado do judaísmo pós-exílico, e foram levadas (137) Mishna,Middoth, 1.3.

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EZEQUIEL 44:9-16 mais longe por Ageu, Esdras e Neemias (Ed 4:1-3; 10:10-44; Ne 13:19; Ag 2:14). O Templo de Herodes tinha um cartaz de advertência colo­ cado em lugar visível, proibindo os gentios de passarem além de certo pon­ to, sob pena de morte.138 Como contraste, ver sobre 47:22-23. 44:10-14. As responsabilidades dos levitas. Ao invés dos estrangei­ ros, os levitas devem agir como ministros do templo e guardas das portas. Seus deveres são descritos (11) como (a) a supervisão das portas do tem­ plo, parcialmente como porteiros e parcialmente como policiais para con­ trolar as multidões; (b) o serviço no templo, que envolve tarefas tais como a imolação dos animais trazidos para o sacrifício e ajudar nas cozinhas (46:24); e (c) ministrar ao povo, ajudando-o nos seus deveres rituais. Podiam, portanto, “estar perante o povo” (11), ao passo que os sacerdo­ tes “estarão diante do Senhor” (15). Este era um rebaixamento da sua posição, causado pelo seu comportamento idólatra nos anos anteriores às reformas de Josias no século anterior (10,12), porque estas tarefas eram servis. Apesar disto, eram tarefas que tinham de ser feitas, e o povo comum não tinha licença para realizá-las, de modo que devemos acautelar-nos con­ tra denegrir os deveres dos levitas no templo de Ezequiel. Têm seus equi­ valentes hoje em todos os aspectos da vida da igreja e, sem dúvida, naquele tempo assim como hoje, muitos consideravam que era um privilégio estar servindo o povo de Deus nos pormenores mais triviais da sua religião. Afinal das contas, estavam realizando seus deveres por nomeação divi­ na (14). 44:15-27. As responsabilidades dos sacerdotes zadoquitas. Somen­ te os filhos de Zadoque tinham licença para ministrar no santuário como sa­ cerdotes. Eram, em última análise, descendentes de Arão, conforme a ge­ nealogia em 1 Crônicas 6: 50-53, mas Zadoque era um sacerdote nos tem­ pos de Davi juntamente com Abiatar (2 Sm 8:17; 15:24ss.) e tomou-lhe o lugar como sumo sacerdote sendo bem-sucedido em apoiar Salomão como sucessor de Davi (1 Rs 1: 8, etc.). A nomeação da linhagem zadoquita em Ezequiel é, portanto, uma nítida restrição do privilégio sacerdotal, e deve ter provocado a hostilidade de sacerdotes doutras linhagens. A li­ nha zadoquita, no entanto, manteve sua superioridade no decurso do pe­ ríodo do segundo Templo, e reteve o sumo sacerdócio até 171 a.C., quan­ (138) Reproduzido em Illustrations from Biblical Archaeology de D. J. Wiseman, 1958, págs. 84, 92.

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EZEQUIEL 44:16-31 do Antíoco IV o transferiu a Menelau, um benjamita. É interessante que os pactuantes de Cunrã antegozavam a restauração da linhagem zadoquita em Jerusalém. 17-19. As vestes sacerdotais deviam ser feitas de linho, que era leve e de aparência limpa (cf. Êx 39:27-29; Lv 6:10; 16:4), e não de lã, que mais facilmente provocaria a perspiração do corpo, levando à impureza ri­ tual (18). As vestes deviam ser removidas antes de os sacerdotes entrarem no átrio exterior e se misturarem com o povo, para evitar qualquer suspei­ ta de contágio entre aquilo que era santo e aquilo que era profano (19). Uma preocupação semelhante, embora com uma conclusão diferente, achase em Ageu 2:10-13. 20-27. Uma série de outros regulamentos que governam o compor­ tamento dos sacerdotes abrange o corte dos cabelos (20), o uso do vinho (21), e o casamento (22). Em cada caso, o propósito é: A meu povo ensi­ narão a distinção entre o santo e o profano (23). Os sacerdotes deviam ser exemplos de consagração, mediante as suas vidas; sua santidade ritual visa­ va promover a santidade ética entre o povo ao qual foram chamados para servir. Os regulamentos relembram os votos do nazireado (Nm 6:1-21), que também eram escrupulosos acerca da contaminação através do contatõ com pessoas mortas (25-27). Regulamentos semelhantes para sacerdotes podem ser achados em Levítico 21:1-9. De conformidade com seu dever de serem exemplos de santidade para o povo, os sacerdotes também ti­ nham certos deveres de caráter jurídico e como guardiães para a obser­ vância correta das festas e dos sábados (24). 44:28-31. A herança deles. Os sacerdotes terão uma herança; eu sou a sua herança segue o TM. Quem acha a frase deselegante, como pa­ ralelo da segunda metade do versículo, emenda com a Vulgata: “não te­ rão herança alguma: eu sou...” Porque o Senhor supre as suas necessidades através do Seu povo, não precisam ter terras deles mesmos, e nenhuma possessão em Israel (a palavra é lit. a “propriedade” de imóveis). Têm pa­ ra seu uso a oferta de manjares (minhâ), a oferta pelo pecado (hattâ ’t; cf. 43:19), a oferta pela culpa (’àsàm; que é virtualmente impossível distin­ guir da oferta pelo pecado), toda coisa consagrada (hèrem; alguma coisa prometida a Deus que não pode ser subseqüentemente redimida), e o me­ lhor de todos os primeiros frutos (cf. Êx 23:19; Dt 18:4). A proibição do v. 31 era aplicável igualmente a todos os israelitas (Lv 7:24). 244


EZEQUIEL 45:1-8 Fig. V A DIVISÃO DA TERRA

45:1-8. A repartição da porção santa da terra. Estes versículos são facilmente inteligíveis com a ajuda de um diagrama (Fig. V). Tratam exclu­ sivamente da porção central da terra, e as divisões tribais continuam em 47:13-48:35, com alguma repetição da presente matéria em 48:8-22. 0 distrito sagrado é chamado uma oferta (1; heb. terúmâ), a palavra cemumente traduzida “oferta movida” em ARA, mas designava mais exata nente uma “arrecadação” ou contribuição compulsória.139 Este era o direito legítimo do Senhor a uma porção de terra que Lhe pertencia totalmente. Novas idéias são introduzidas no v. 2 com a referência à área aberta (ARC “arrabalde”) que cerca a área do templo (um tipo de “cinturão verde” entre o sagrado e o profano), e também no v. 5 com uma área especial demarcada para as cidades levíticas (BJ segue a LXX: “com as cidades para a sua residência,” em preferência ao TM, seguido por ARA: para vinte câ­ maras), ao invés do padrão proposto em Números 35: 2-8. À cidade, ou ao Estado, também é alocada uma área de terra anexa a esta porção santa central (6), e ao príncipe também (7, 8). Todo o restante é para as tribos habitarem e não haverá mais alienação de terras alheias a favor da famí­ lia real no Estado que está para vir (cf. Is 5:8). A história da vinha de Nabote nunca mais se repetirá (8). (139) Ver G. R. Driver, JSS, 1 ,1956, págs. 97-105.

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EZEQUIEL 45:9-17 iii. As ofertas e outros regulamentos (45:9-46:24). 45:9-12. Um apelo à honestidade. As palavras finais da seção ante­ rior introduzem a exigência, feita no verdadeiro estilo profético (cf. Jr. 22:3-4, 13-17), que os príncipes de Israel abandonem os pecados que sua posição privilegiada de influência toma possível, e que dediquem sua aten­ ção ao seu dever verdadeiro, a promoção da justiça na terra (9). Até mes­ mo no novo Israel restaurado, há o reconhecimento de que o poder pode corromper. Uma expressão prática desta justiça é ter pesos e medidas pa­ dronizados, as variações dos quais eram uma causa freqüente de queixas no Antigo Testamento (e.g. Lv 19:35-36; Dt 25:13-16; Pv 11:1; Am 8: 5; Mq 6:10-12).140 O efa e o bato eram medidas de capacidade, para se­ cos e molhados respectivamente, de aproximadamente 22 litros. Dez des­ tas medidas perfaziam um ômer lit. uma “carga de asno”), de 220 litros. O siclo pesava 20 geras, o que normalmente equivale 11,4 gramas. Se, po­ rém, seguirmos o TM de 12b, a mina (ARC “arrátel”) consistiria em 60 siclos (20 + 25 + 15, ARC), ao invés da cifra mais comum de 50 siclos, e isto talvez represente uma desvalorização do siclo para equipará-lo ao uso babilónico. 45:13-17. Ofertas ao príncipe. Tributos específicos devem ser pa­ gos pelo povo da terra ao príncipe, e este terá a responsabilidade de forne­ cer as ofertas e os sacrifícios em todas as festas. Como regulamento, este é exclusivo em Ezequiel, e ilustra a responsabilidade cultual real (embora limitada) alocada ao cabeça civil do povo. A contribuição deve ser propor­ cional: uma sexagésima parte no caso do trigo e da cevada (13), uma centé­ sima parte no caso do azeite (14), e uma cabeça entre duzentas do rebanho (15). A libação (17; heb. nèsek) normalmente acompanhava o holocausto, e usualmente consistia em uma oferta de vinho, a maior parte do qual era bebido na refeição sacrificial (Nm 15:5; 1 Sm 1:14; Os 9:4; cf. SI 116: 13). Ezequiel talvez tivesse em mente que a libação fosse de azeite e não de vinho, porque não há menção de vinho em qualquer parte aqui. (140) D. J. Wiseman, no seu artigo “Pesos e Medidas”, no NDB, escreve: “Visto que as balanças antigas tinham uma margem de erro de até 6% (PEQ, LXXIV, 1942, pág. 86), e que ainda não foram encontrados dois pesos hebreus da mesma de­ nominação inscrita que fossem exatamente de peso idêntico, a importância dessa exortação pode ser percebida.”

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EZEQUIEL 45:18-46:8 45:18-25. Alguns regulamentos para as festas. Estes são descritos de modo muito resumido, e pressupõem que os rituais mais pormenoriza­ dos eram conhecidos e seriam observados sem necessidade de elaboração aqui. Abrangem o Ano Novo (18-20), a Páscoa (21-24) e a Festa dos Ta­ bernáculos (25). Vários comentaristas explicam os regulamentos dos w. 18-20 como sendo ritos de purificação no início das duas divisões princi­ pais do calendário religioso (o primeiro e o sétimo mês), preliminar as fes­ tas naqueles meses. Isto explicaria a omissão surpreendente da terceira festa principal, a Festas das Semanas, mas exige que sigamos a LXX no v. 20: “no sétimo mês, no primeiro dia do mês.” É difícil entender por que, no TM do v. 20, uma segunda expiação deve ser feita seis dias depois da primeira, por causa dos que pecam por ignorância, e por causa dos simplices (20, ARA), a não ser que seja um “Dia de Expiação” modifica­ do. Seja qual for a intenção —uma modificação da prática anterior ou uma norma padrão projetada por Ezequiel - ilustra o fato de que, no Israel antigo não menos do que hoje, a experimentação litúrgica era exigida por novas situações.141 Quanto ao ritual do v. 19, cf. Êxodo 29:35-37. Um him de azeite (24) é a sexta parte de um bato, i.é, 3,66 litros. 46:1-8. Nos sábados e luas novas. O príncipe tinha a obrigação de fornecer as ofertas, não somente para as festas principais, como tam­ bém para os sábados e as luas novas (i.é, o primeiro dia do mês). Assim, tinha privilégios em relação a porta oriental fechada do átrio exterior (44:3), e também tinha licença para entrar pela porta oriental do átrio in­ terior e penetrar até seu limiar interno (2). Ah, teria uma vista integral daquilo que estava acontecendo no altar central, mas não tinha licença para pisar dentro do átrio interior, que era reservado exclusivamente para sacerdotes e levitas. O privilégio era reservado para as luas novas e os sá­ bados; nos dias de trabalho a porta oriental para o átrio interior ficaria fechada (1). Os sacrifícios oferecidos nestas ocasiões especiais eram os mesmos: seis cordeiros e um carneiro para o holocausto, o efa obrigató­ rio de farinha como oferta de manjares para acompanhar o carneiro, mais uma oferta de manjares opcional para acompanhar cada cordeiro, mais um him de azeite para cada efa (4, 5). Além disto, na lua nova, um novilho e um efa de farinha deviam ser oferecidos (6, 7). Esta, mais uma vez, é uma variação dos sacrifícios para o sábado descritos no Pentateu(141) Paxa um estudo mais detalhado, ver J. Morgenstem, “The Calendar of Ezekiel 45:18-25”, HUCA, XXI, 1948, págs. 493^96.

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EZEQUIEL 46:9-18 ca (Nm 28:9-10) e daqueles para a lua nova (Nm 28:11-15). 46:9, 10. A entrada e a saída. Aqui se encaixa um pormenor (en­ sejado, sem dúvida, pelo v. 8) para garantir um fluxo ordeiro de adorado­ res através da área limitada do átrio exterior. Aqueles que entram pela porta do norte devem sair pela porta do sul, e vice-versa. O v. 10 parece sig­ nificar que em todos os dias não-festivos, o príncipe será considerado co­ mo um do povo, e entrará e sairá da mesma maneira que este. 46:11-15. Regulamentos gerais. Estes dizem respeito a várias ou­ tras ofertas que o príncipe faz em prol do povo. São tratadas três situa­ ções: (a) solenidades e festas fixas, i.é, festas principais e ocasiões fixas tais como os sábados e as luas novas. Para todas elas há a estipulação (11) de que a quantidade da oferta de manjares será de um efa de farinha com um novilho ou um carneiro, uma quantidade opcional com um cordeiro, e o azeite deve ser acrescentado à medida de um him para cada efa (cf. 5, 7). (b) Quando o príncipe quiser fazer uma oferta voluntária (heb. nedàbâ), que é um acréscimo aos sacrifícios estipulados, o regulamento conforme 46:1 poderá ser posto de lado, e a porta oriental poderá ser aberta espe-, cialmente para a ocasião (12). (c) Além disto, um holocausto ao SENHOR, cada dia, também será oferecido manhã após manhã, e consiste em um cor­ deiro e quantidades fixas de farinha e azeite (13-15). Ezequiel não deixa lugar para um sacrifício da tarde (Êx 29:38-41; Nm 28:3-8; cf. 2 Rs 16: 15), mas talvez seja devido à natureza incompleta dos regulamentos rituais que fornece. 46:16-18. Proibida a alienação de propriedades. O apelo apaixona­ do de 45:8-9 é expressado aqui em termos de um regulamento com auto­ ridade divina. Ao príncipe é permitido presentear na forma de terras aos seus filhos, e estes têm o direito de possuí-las como herança perpétua. Os presentes em terras dados aos servos reais no entanto, somente podem ser possuídos na base de arrendamento gratuito devendo ser devolvidos no ano da liberdade (17), i.é, no sétimo ano, quando os escravos eram li­ bertos (cf. Jr 34:14), ou mais provavelmente no qüinquagésimo ano, o ano do jubileu (cf. Lv 25:10-13; 27:24). Desta maneira, a herança do prínci­ pe é salvaguardada e conservada dentro da família, e, devido a regra adicio­ nal de que o príncipe não pode alienar as propriedades dos outros (18), os direitos de herança do povo comum também estão protegidos. Afinal das contas, a terra não é deles, mas, sim, do Senhor, e tanto o príncipe quanto 248


EZEQUIEL 46:19-47:1 o povo são Seus inquilinos. 46:19-24. Disposições para cozer as refeições sacrificiais. Nestes versículos voltamos para a excursão organizada do templo na qual Ezequiel era levado no capítulo 42, e muitos gostariam de transpor esta se­ ção para o fim de 42:14. Certamente, no que diz respeito ao contexto, alguma parte do capítulo 42 seria mais apropriada como lugar para encai­ xar este trecho. Por outro lado, é bem compreensível que os versículos que tratam do modo de consumir os sacrifícios tivessem sido adiados até que os regulamentos pormenorizados que os regeriam fossem explicados. O profeta tem primeiramente uma visão da cozinha na extremidade ocidental da fileira setentrional das câmaras dos sacerdotes no átrio inte­ rior, e podemos seguramente supor que houvesse também um lugar seme­ lhante no lado meridional do átrio. Ali, os sacerdotes deviam cozer a car­ ne das ofertas pela culpa e pelo pecado, e assar a farinha da oferta de man­ jares, tomando muito cuidado para que nenhuma destas coisas fossem le­ vadas para o átrio exterior, para não “comunicar santidade” ao povo (20). O profeta vê, então, as quatro áreas para cozinhas nos quatro cantos do átrio exterior do templo, onde os levitas (os ministros do templo, 24) co­ zem os sacrifícios do povo por eles. Destarte, o templo era um lugar para sacrificar, cozer e comer, bem como para a oração e as atividades chama­ das “espirituais.” A igreja cristã tem se empobrecido quando traça uma linha divisória firme entre a vida espiritual e as atividades sociais. No tem­ plo de Ezequiel, pelo menos, contemplava-se uma fusão sadia dos dois elementos, e isto era típico de boa parte do culto no Antigo Testamento. d.

As águas vivificantes (47:1-12)

O quadro do rio que flui abaixo do limiar do templo e que fertiliza as áreas estéreis do vale do mar Morto é um claro exemplo de simbolismo e expressa as bênçãos que fluirão da presença de Deus no Seu santuário para outras partes da terra. Procurar tomar isto literalmente, conforme al­ guns têm feito, é perder completamente a lição que está sendo ensinada. Não precisamos, portanto, perder tempo com as tradições que sugerem que o monte Sião, sobre o qual o templo foi edificado, ocultava debaixo do seu exterior rochoso “uma fonte inexaurível de águas e represas subterrâneas” (cf. a Carta de Aristéias). Nenhuma hidroscopia confirmará Ezequiel 47. O fato de que isto representa uma idealização das bênçãos abundantes de 249


EZEQUIEL 47:2-8 Deus é confirmado por passagens tais como Salmos 46:4; 65:9; Isaías 33: 20-21. A bênção, a fertilidade, e a água são idéias quase intercambiáveis no Antigo Testamento. O comentarista, no entanto, é justificado em procurar paralelos e antecedentes para este tipo de simbolismo, e deve voltar-se para a narrativa da criação em Gênesis 2. O paraíso original rega­ do pelo rio com quatro braços (Gn 2:10) agora tem seu paralelo na nova criação, com seu rio e suas árvores (7). Se acrescentarmos a isto o fato que já foi observado (sobre 28:1-19), de que, possivelmente, Ezequiel conhecia uma tradição do paraíso ligado ao “monte santo de Deus” (28:14, 16), bem como do “jardim de Deus,” o paralelo com nossa presente passagem toma-se quase completo. O rio aumenta seu volume à medida que desce para o leste através das montanhas em direção ao Mar Morto, e, rapidamente, aprofunda-se demais para ser atravessado. A total impossibilidade física de tal coisa (por­ que não se mencionam afluentes que aumentariam a corrente e, na realida­ de, anulariam a mensagem simbólica de que tudo advém da única fonte verdadeira), embora possa nos deixar preocupados, não contém inconsis­ tência alguma para o escritor. Aceita-se, pois, a linguagem figurada apoca­ líptica neste caso, o que diz e o que significa são mais importantes do que . a lógica da maneira em que é expressada.142 O contexto do simbolismo é a continuação da visão de Ezequiel. Depois de visitar as cozinhas no átrio exterior, o profeta é levado de volta, para a porta do templo (1) onde vê a água correndo suavemente do canto meridional do limiar do templo. Flui de lá, passando pelo altar do holo­ causto, ainda no sul, e finalmente sai da área do templo, ao sul da porta oriental fechada (2). Ezequiel é. obrigado a dar uma volta pela porta se­ tentrional a fim de ver a água, porque até mesmo na sua visão estava preso à terra. A mil côvados para o leste, a partir do muro do templo, é levado a passar pela corrente, e vê que as águas lhe davam pelos artelhos (3; heb. mê ’opsàytm, lit. “água de artelhos”). Esta frase parecia tão estranha ao tradutor da LXX que virtualmente a transliterou, resultando em “água de remissão” (hydõr apheseõs), e a conseqüência foi que muitos comen­ taristas cristãos primitivos aplicaram este simbolismo às águas do batis­ mo, Que sirva de advertência tanto aos tradutores quanto aos intérpre­ tes! Frases semelhantes seguem à medida em que as águas chegam até (142) Outra comparação pode ser feita com Zc. 14:8, onde as águas fluem de Jerusalém nas direções oriental e ocidental; com Jl. 3:18, e com Ap. 22:1-3, que aproxima-se muito de Ez. 47.

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EZEQUIEL 47:9-14 aos joelhos e aos lombos (4), tomando-se, então, impossível atravessar o rio a pé. O acompanhante que mostra tudo isto a Ezequiel e que mede com seu cordel de medir (3; cf. 40:3) explica que o rio flui para a região orien­ tal, à campina (8, “à Arabá,” RV, RSV), que é “a depressão” (árabe ’elGhôr) do vale do Jordão, do Mar Morto e do Wadi el-’Arãbâ, que de lá cor­ re para o sul. Embora o rio seja descrito nos w. 5-9 como sendo um nahal (ou “uádi,” que é seco durante boa parte do ano), é óbvio que é um rio perpétuo e que traz consigo a fertilidade permanente. As águas estagnadas do Mar Morto tomam-se doces e os peixes as enchem (8, 9), e as árvores florescem nas suas ribanceiras, produzindo frutos frescos todos os meses (12). Até mesmo suas folhas terão propriedades medicinais, e a razão dada para tudo isto é porque as suas águas saem do santuário (12). O templo será a fonte da vida, da cura e da frutificação. Por meio milagrosos o impossí­ vel será realizado.; Antes de deixarmos esta seção, note que Ezequiel demonstra algum conhecimento da área do Mar Morto. En-Gedi (10) é uma cidade a meiocaminho ao longo da margem ocidental do Mar Morto, e tem o mesmo nome até hoje; En-Eglaim fica provavelmente ao norte de En-Gedi e temse tentado identifica-la com Ain Feshka, a fonte de águas doces onde foram descobertos os Rolos do Mar Morto. Embora o Mar Morto tomese um paraíso dos pescadores, os pântanos em derredor mantêm sua sali­ nidade (11), de modo que estes ricos depósitos de minerais ainda possam ser explorados, presumivelmente para o uso doméstico bem como o litúrgico (43:24). O visionário ainda mantém um toque de realismo prático. e.

A divisão da terra (47:13-48:35)

47:13-21. As fronteiras da terra. No estado de Israel restaurado, a terra seria dividida de modo eqüitativo entre as doze tribos de acordo com as promessas de Deus, feitas aos patriarcas (14). Levi não tinha porção alguma (44:28), porque os levitas já tinham as provisões das ofertas do povo e das terras na porção sagrada central ao norte do santuário (45:4-5; 48:13), de modo que a José foram alocadas duas partes em nome dos seus dois filhos, Efraim e Manassés (47:13; 48:4, 5). Desta maneira, o número doze foi reservado para as tribos de Israel.143 As fronteiras geográficas da (143) Este expediente, que antecede o período de Ezequiel, tem deixado

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EZEQUIEL 47:14-22 terra seriam o Mediterrâneo a oeste (o Mar Grande, 20) e o rio Jordão a leste (18). A fronteira do norte devia seguir uma linha traçada aproxima­ damente de Tiro no litoral para as cabeceiras do Jordão, a sudoeste de Damasco (15-17). É impossível definir com certeza os nomes das locali­ dades. Hamate é conhecido como a moderna Hama no Rio Orontes, 184 km. ao norte de Damasco, mas provavelmente “a entrada de Hamate” (15, RSV) era a depressão de 160 km. de comprimento que ia na direção sudoeste entre a cadeia do Líbano e a do Hermom-Antilíbano (o Beqa’). Era a extremidade setentrional do reino de Salomão (1 Rs 8:65) e uma fronteira ideal para a defesa contra o ataque do norte através dos vales do Orontes e do Leonontes.144 Hetlom pode muito bem ser a moderna Adlun, uma cidade litorânea cerca de 16 km. ao norte do Tiro (a identifica­ ção com Heitela, ao leste de Trípoli, fica muito para o norte). Zedade, Berota, e Sibraim (15, 16) podem muito bem ser cidades no Beqa’, e nes­ te caso, Berota pode ser a moderna Breitan, ao sul de Baalbeque (= Berothai, 2 Sm 8:8) e Sibraim pode ser a mesma cidade de Sefarvaim (2 Rs 17:24) mas sua localidade é desconhecida. Hazer-Haticom (16), “Hazer central,” é provavelmente a mesma cidade de Hazar-Enom (17), e tem-se tentado identificá-la com Baniyas na nascente do Jordão (= Cesaréia de Filipos nos tempos neotestamentários). Haurã é uma região ao leste do Mar da Galiléia, quase a mesma área chamada Basl. O v. 17 descreve a terra que fica ao norte da fronteira setentrional como sendo o territó- • rio (ARA, termo) de Damasco e de Hamate. Cf. Números 33:7-9. A fronteira oriental segue o Jordão para o sul, até ao Mar Morto (o mar do oriente, 18). Tamar provavelmente ficava perto da extremida­ de meridional do Mar Morto, e marcava o começo da fronteira meridio­ nal que ia para o ocidente passando por Meribá-Cades (“as águas de con­ tenda;” cf. Nm 27:14), i.é, Cades-Baméia, moderna ‘Ain Qadeis, até o Ribeiro do Egito, wadi el-Arish, no litoral do Mediterrâneo. A totalida­ de da área da terra merece ser comparada com as fronteiras citadas em Números 34:1-12, e com a extensão do reino de Salomão em 1 Rs 8:65. 47: 22, 23. O lugar dos estrangeiros. Um exemplo interessante de muitos problemas para escritores subseqüentes que têm chegado a 14 nomes para daí escolher as chamadas “doze tribos” ; e.g. Ap. 7:4-8, onde Levi, José e Manas­ ses são incluídos, e Efraim e D£, excluídos. (144) Y. Aharoni tentou recentemente mostrar que “a entrada de Hamate” era de fato o nome de uma cidade, Lebo-hamath, situada em uma das nascentes do Orontes (Land o f the Bible, 1967, págs. 65ss.).

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EZEQUIEL 47:23-48:13 liberalidade é incorporado a esta altura, e é a única indicação dentro da visão de que quaisquer pessoas não israelitas de puro sangue podem ter algum lugar real no Israel restaurado do futuro. Os estrangeiros (heb. gèrím) que residem entre os israelitas devem participar da herança da tribo com que vivem. Isto está de conformidade com os regulamentos do Pentateuco (cf. Lv 24: 22; Nm 15:29) e com o ensino de Isaías 56:3-8, e não é inconsistente com as palavras anteriores de Ezequiel (cf. 14: 7; 22:7). É baseado no princípio de que se estes homens escolheram a aceitação dos padrões, da religião e do modo de vida dentro de Israel de modo perma­ nente, i.é, como prosélitos que se estabelecem e têm filhos ali (22), então têm direito ao mesmo tratamento dos israelitas natos. 48:1-7. As sete tribos do norte. O padrão que a alocação da terra segue é que, estando a porção santa central bem ao sul, sete tribos têm terras ao norte dela e as outras cinco têm terras ao sul. As tribos do norte (começando no extremo norte) são: Dã, Aser, Naftali, Manassés, Efraim, Rúben e Judá. Destas, vale a pena notar que as três que estão mais longe do santuário são tribos descendentes de filhos das concubinas de Jacó, sendo que Dã e Naftali nasceram da serva de Raquel, Bila, e Aser nasceu da serva de Lia, Zilpa (Gn 30: 5-13). O quarto filho da concubinagem, Gade, está mais distante do santuário entre o grupo de tribos que fica ao sul (27). Judá tem o lugar de honra imediatamente ao norte da porção central, por ser o herdeiro da promessa messiânica através da bênção de Jacó (Gn 49: 8-12), tirando a primazia de Rúben, o primogênito, que está na posi­ ção seguinte para o norte. Os outros dois lugares são ocupados pelos dois netos de Raquel, os filhos de José. 48:8-22. A porção central. Uma boa parte deste trecho é uma ex­ pansão daquilo que já foi explicado em 45:1-8. A porção santa, ou região sagrada, consiste basicamente de um quadrado de 25.000 côvados145 no centro, com terras até as fronterias oriental e ocidental pertencentes ao príncipe (21, 22). A divisão deste quadrado entre os levitas, os sacerdo­ tes e a cidade pode ser melhor compreendida com a ajuda do diagrama (Fig. V, pág. 245. É descrito como sendo uma “oferta” (heb. früma) ou “porção santa” (ver nota sobre 45: 1), ou, mais especificamente, como a região que haveis de separar ao SENHOR (9). Segundo o v. 9 (TM), esta (145) A palavra para “côvados” nunca é usada no TM, mas AV e RS estão erradas ao inserir canas em 8 e 9.

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EZEQUIEL 48:14-31 última frase descreve uma seção de apenas 25.000 x 10.000 côvados, presumivelmente a região santa para o uso dos sacerdotes, mas no v. 14 a porção dos levitas, com o mesmo tamanho, é acrescentada, e o trecho inteiro é chamado santo ao SENHOR (14). A LXX tem a medida de 25.000 x 20.000 em 45: 1 bem como em 48:9, 13, e isto certamente seria mais consistente. Como no caso do território do príncipe (46:17), não deve ha­ ver alienação alguma desta terra que é santa ao SENHOR (14). 15. À cidade reparte-se a última faixa de terra ao sul da porção dos sacerdotes. Continha a cidade propriamente dita, um quadrado de 4.500 côvados, com um cinturão de 250 côvados de “terra aberta” (17, RSV; arredores, ARA),146 flanqueado por dois trechos de terras aráveis, de 10.000 x 5.000 côvados cada. Estas terras eram para o cultivo dos tra­ balhadores da cidade, tanto industriais quanto agrícolas, que pertenciam a uma variedade de tribos (19). A área total deste quadrado central, 25.000 côvados x 25.000 côvados, seria de cerca de 50 milhas quadradas segundo o côvado convencional, ou 69 milhas quadradas segundo o côvado mais longo usado em Ezequiel (cf. 40:5), correspondentes a 129,5 km2 e 179,6km2. 48:23-29. As cinco tribos do sul. Ao sul da porção santa ficam as áreas alocadas para as cinco tribos restantes. Benjamim tem a posição privilegiada mais perto do santuário, como o filho caçula do seu pai com Raquel; Simeão, Issacar, e Zebulom, todos nascidos de Lia, vêm em se­ guida; e finalmente, conforme já notamos, Gade, filho da concubina Zilpa. Não exige muita imaginação reconhecer que, à parte de Judá e Benja­ mim, que ladeiam a porção santa, sempre tiveram o interesse geográfico mais estreito em Jerusalém, as outras dez tribos estão distribuídas sem qualquer consideração para com sua posição original na terra de Israel na ocasião da conquista. Mais uma vez, tratou-se do padrão simbólico que Ezequiel oferece para o futuro de acordo com seu próprio julgamen­ to inspirado. 48: 30-35. As portas da cidade. Há doze portas na cidade, três de cada lado, e estas tomam os nomes das doze tribos. Nesta lista, no entan­ to, Levi tem um lugar (31), e José (32) substitui a Efraim e Manassés a fim de manter o mesmo número. Isto não dá a entender uma autoria diferen­ (146) A palavra hebraica usada, migras, realmente significa “terra-comum”, talvez para pastagem de gado.

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EZEQUIEL 48:32-35 te para estes versículos; meramente ilustra a maneira do profeta elaborar seus esquemas intrincados. Não é tão fácil perceber o pensamento por de­ trás deste arranjo como o era no caso das divisões entre as tribos, mas emergem algumas indicações claras. No lado setentrional, que é o lado que olha para o santuário, as portas tomam os nomes de Rúben, o primogê­ nito; de Judá, o ancestral davídico; e de Levi, o fundador do sacerdócio. Ao sul, acham-se Simeão, Issacar e Zebulom, e este padrão corresponde à sua localização geográfica no sul. A oeste ficam três tribos descenden­ tes de concubinas: Gade, Aser e Naftali (34). Talvez o trio menos consis­ tente seja o grupo de tribos no lado oriental, onde José e Benjamin, os dois filhos de Raquel, estão ligados a Dã, um filho da serva de Raquel. A passagem inteira nos leva a comparar Apocalipse 21, com sua des­ crição do novo céu e nova terra, e a visão da nova Jerusalém descendo do céu, da parte de Deus. Ela, também, tinha doze portas com os nomes das doze tribos de Israel, mas também tinha doze fundamentos inscritos com os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro (Ap 21:12-14). O escri­ tor do Apocalipse devia muita coisa à vívida linguagem figurada de Ezequiel, e não tinha medo de cristianizá-la, porque via que o simbolismo ainda possuía relevância para a igreja cristã dos seus dias, e não somente para os judeus do exílio. As palavras finais de Ezequiel dão à cidade seu novo nome: Yahweh Shammah, O SENHOR está ali (35). Este era o final grandioso do seu livro e do seu ministério. Durante seus vinte e cinco anos de exílio, e no decur­ so dos quarenta e oito capítulos do seu livro, Ezequiel vira o Senhor retirar-Se do Seu templo por causa dos pecados que estavam sendo cometi­ dos ali, tivera um encontro com Ele perto das águas da Babilônia na vi­ são do carro-trono, prometera aos exilados que haveria uma nova alian­ ça quando Deus estaria com Seu povo como seu Deus para sempre, vira em visões simbólicas o templo e o Israel do futuro. Agora, finalmente, o Senhor estaria ali com Seu povo, para sempre. Para Ezequiel, o clí­ max fora atingido; mas ainda era apenas uma visão. João, o exilado em Patmos, que viu as palavras de Ezequiel cumpridas na vinda de Cristo como Emanuel, Deus conosco, também antegozava o dia em que uma grande voz seria ouvida, vinda do trono, dizendo: “Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus” (Ap 21:3). A glória do céu é o cumprimento final de tudo isto. É para este grande clímax que todos os leitores de Ezequiel devem ser levados. 255


C O M E N T Á R IO S B ÍB L IC O S D A S É R I E C U L T U R A B ÍB L IC A

Estes comentários são feitos de modo a dar ao leitor uma compreensão do real significado do texto bíblico.

A Introdução de cada livro dá às questões de autoria e data, um tratamento conciso mas completo. Isso é de grande ajuda para o leitor em geral, pois mostra não só o propósito como as circunstâncias em que foi escrito o livro. Isso é, também, de inestimável valor para os professores e estudantes, que desejam dar e requerem informações sobre pontos-ebave, e aí se vêem combinados, com relação ao texto sagrado, o mais alto conhecimento e o mais profundo respeito.

Os Comentários propriamente ditos tomam respectivamente os livros estabelecendo-lhes as seções e ressaltando seus temas principais. O texto é comentado versículo por versículo sendo focalizados os problemas de interpretação. Em notas adicionais, são discutidas em profundidade as dificuldades específicas. O objetivo principal é de alcançar o verdadeiro significado do texto da Bíblia, e tornar sua mensagem plenamente compreensível.

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