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SÉRIE CULTURA BÍBLICA

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EPÍSTOLAS PASTORAIS John N. D. Kelly


EPÍSTOLAS PASTORAIS Introdução e Comentário por John Norman Davidson Kelly Ex-Diretor do St. Edmund Hall Oxford, Inglaterra

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SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA e ASSOCIAÇÃO RELIGIOSA EDITORA MUNDO CRISTÃO Rua Antonio Carlos Tacconi, 75 e 79, Cidade Dutra Sío Paulo-SP. CEP 04810


Título do original em inglês: A Commentary on the Pastoral Epistles Copyright © 1963, John N. D. Kelly Publicado na Inglaterra pela A&C Black Publishers Ltd., em 1963, com reedições em 1972,1976 e 1978 Tradução: Gordon Chown Revisão: Júlio Paulo Tavares Zabatiero Primeira Edição: 1983 - 5.000 exemplares

Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos reservados pelas Editoras: SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA e ASSOCIAÇÃO RELIGIOSA EDITORA MUNDO CRISTÃO Rua Antonio Carlos Tacconi, 75 e 79, Cidade Dutra Sío Paulo-SP. CEP 04810


CONTEÚDO

PREFÁCIO DA EDIÇÃO EM PORTUGUÊS....................................... 6 PREFÁCIO DO AUTOR....................................................................... 7 ABREVIATURAS................................................................................. 8 INTRODUÇÃO . . ................................................................................. 9 1. As Personalidades..................................................................... 9 2. O Problema Crítico.................................................................. 11 3. A Situação Histórica Biográfica............................................... 14 4. Os Falsos Mestres..................................................................... 18 5. O Ministério ............................................................................ 20 6. A Atmosfera Teológica . . . . ................................................. 23 7. linguagem e Estilo........................................................ 28 8. Duas Conclusões Preliminares................................................. 34 9. A Questão da A utoria............................................................. 36 10. Data e Relacionamentos M útuos............................................ 41 BIBLIOGRAFIA SELETA.....................................................................44 A PRIMEIRA EPÍSTOLA A TIMÓTEO: Comentário ........................... 47 A SEGUNDA EPÍSTOLA A TIMÓTEO: Comentário...........................145 A EPÍSTOLA DE TITO: Comentário....................................................205


PREFÁCIO DA EDIÇÃO EM PORTUGUÊS Todo estudioso da Bíblia sente a falta de bons e profundos comen­ tários em português. A quase totalidade das obras que existem entre nós peca pela superficialidade, tentando tratar o texto bíblico em poucas linhás. A Série Cultura Bíblica vem remediar esta lamentável situação, sem que peque do outro lado por usar de linguagem técnica e de demasiada aten­ ção a detalhes. Os Comentários que fazem parte desta coleção Cultura Bíblica são ao mesmo tempo compreensíveis e singelos. De leitura agradável, seu conteúdo é de fácil assimilação. As referências a outros comentaristas e as notas de rodapé são reduzidas ao mínimo. Mas nem por isso são super­ ficiais. Reúnem o melhor da perícia evangélica (ortodoxa) atual. O texto é denso de observações esclarecedoras. Trata-se de obra cuja característica principal é a de ser mais exegé­ tica que homilética. Mesmo assim, as observações não são de teor acadê­ mico. E muito menos são debates infindáveis sobre minúcias do texto. São de grande utilidade na compreensão exata do texto e proporcionam assim o preparo do caminho para a pregação. Cada Comentário consta de duas partes: uma introdução que situa o livro bíblico no espaço e no tempo e um estudo profundo do texto a partir dos grandes temas do pró­ prio livro. A primeira trata as questões críticas quanto ao livro e ao texto. Examina as questões de destinatários, data e lugar de composição, auto­ ria, bem como ocasião e propósito. A segunda analisa o texto do livro se­ ção por seção. Atenção especial é dada às palavras-chave e a partir delas procura compreender e interpretar o próprio texto. Há bastante “carne” para se mastigar nestes comentários. Esta série sobre o Novo Testamento deverá constar de 20 livros de perto de 200 páginas cada. Os Editores, Edições Vida Nova e Editora Mundo Cristão têm programado a publicação de, pelo menos, dois livros por ano. Com preços moderados para cada exemplar, o leitor, ao comple­ tar a coleção terá um excelente e profundo comentário sobre todo o N.T. Pretendemos, assim, ajudar os leitores de língua portuguesa a compreender o que o texto neo-testamentário, de fato, diz e o que significa. Se conse­ guirmos alcançar este propósito seremos gratos a Deus e ficaremos conten­ tes porque este trabalho não terá sido em vão. Richard Julius Sturz

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PREFACIO DO AUTOR

Qualquer pessoa que trabalha num comentário sobre as Epístolas Pastorais deve ter cada vez mais consciência de quanto deve aos seus antecessores. Em meu caso, esta dívida é especialmente grande para com os exegetas clássicos dos tempos patrísticos e da Reforma, cuja expo­ sição permanece tffo estimulante quanto antes, e, entre seus sucesso­ res modernos, a W. Lock, E. F. Scott, J. Jeremias, M. Dibelius e C. Spicq, que passaram pelo terreno com tanta erudição e habilidade que deixa­ ram pouca coisa para outras pessoas respigarem. Lástima nSò ter podi­ do fazer uso da admirável edição compacta do Dr. C. K. Barrett, que somente veio ao público quando este livro estava nas provas de pagina­ ção. Inevitavelmente o problema da autoria avulta-se nas páginas se­ guintes, mas procurei fazer com que não eclipsasse as cartas propriamente ditas. Quer tenham sido escritas por Paulo ou por um discípulo, ins­ pirado (o partidário mais convicto de qualquer destes pontos de vista, se tiver mente aberta, deve reconhecer a força do conceito oposto), cer­ tamente não se encaixam na descrição demasiadamente comum delas como sendo meros manuais da piedade burguesa e da ortodoxia está­ tica. Estão cheias de declarações esplêndidas da verdade cristã e de cha­ madas inspiradoras ao testemunho cristão; e fornecem janelas incom­ paráveis para as condições e tensões da vida da igreja num período para o qual, segundo qualquer teoria razoável de atribuir a data, quaisquer outras evidências estão quase totalmente em falta. Como tais, merecem ser estudadas com a atenção mais devota pelo povo cristão de hoje. Basta apenas informar o leitor que, como outros redatores nes­ ta série, fiz minha própria tradução do original (seguiremos Almeida Revista e Atualizada no Brasil nas transcrições), e agradecer os nume­ rosos amigos que me deram ajuda e encorajamento. Entre estes, gos­ taria especialmente de mencionar o Professor F. F. Bruce, que bondo­ samente leu e comentou a Introdução, o Reverendo D. Guthrie, que ofereceu sugestões valiosas, e Sra. Etta Gullick, em cuja casa em Somerset o livro começou, e foi datilografado em parte. Dia da Ascensão, 1963.

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ABREVIATURAS

al. ARA ARC AV LXX m Moffatt MS (S) NEB N.T. A.T. PG PL RSV Vulgata

Aliter, i.é, “doutra forma.” Almeida Revista e Atualizada no Brasil Almeida Revista e Corrigida Authorized ou King James —Versão da Bíblia. Septuaginta (Versão grega do Antigo Testamento). Nota marginal. The Bible, A New Translation, por J. Moffatt. Manuscrito(s) The New English Bible (Novo Testamento) Novo Testamento. Antigo Testamento. Patrologia Graeca, ed. J. Migne. Patrologia Latina, ed. J. Migne. Revised Standard Version da Biblia em Inglês. A versão Vulgata, ou latina, da Bíblia.

Outros comentários usualmente têm sido citados pelos nomes dos seus autores.

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INTRODUÇÃO

1. AS PERSONALIDADES Estas três cartas, que formam um grupo distinto na coletânea paulina, declaram ser comunicações do grande Apóstolo enviadas a dois dos seus lugares-tenentes da maior confiança. Receberam o título de ‘Tastorais” desde o início do século XVIII porque estão endereçadas a pastores e, em grande medida, dizem respeito aos deveres deles. Timóteo é um dos mais conhecidos entre as personagens secun­ dárias do Novo Testamento. Filho de um pai pagão e de uma mãe ju­ dia convertida, juntou-se pela primeira vez à comitiva de Paulo em Lis­ tra, na Licaônia, no início da segunda viagem missionária deste. Já era um cristão de certa posição, tendo sido provavelmente convertido por Paulo quando este pregara na localidade um ou dois anos anteriormen­ te. Parece que o Apóstolo teve simpatia por ele e o persuadiu a acompanhá-lo, mas primeiramente o circuncidou como uma concessão às suscetibilidades judaicas (At 16:1-3). A partir de então, foi compa­ nheiro constante de Paulo e seu amigo íntimo, e cooperou com ele em várias das suas cartas (1 e 2 Ts, 2 Co, Fp, Cl e Fm), e foi encarregado de várias missões importantes, e.g. para Téssalônica (1 Ts 3:2) e para Corinto (1 Co 4:17). O Apóstolo o considerava seu “cooperador”, e seu “filho amado e fiel no Senhor” (Rm 16:21; 1 Co 4:17). Quando Paulo estava começando sua última viagem a Jerusalém, Timóteo fa­ zia parte do grupo (At 20:4), e estava ao seu lado durante sua prisão em Roma. Realmente, Paulo recebia consolo especial da sua presen­ ça e planejou o envio dele numa missão para a igreja filipense (Fp 2: 19-24). Nossas informações acerca de Tito são mais escassas, mas ele, tam­ bém parece ter sido um convertido de Paulo e ter desfrutado da mais plena confiança deste. Um pagão de nascença, escoltou seu mestre na

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EPISTOLAS PASTORAIS sua segunda viagem para Jerusalém, onde uma tentativa, mais prova­ velmente mal-sucedida, foi feita no sentido de submetê-lo à circunci­ são (G1 2:1-5). Mais tarde, quando os relacionamentos com a igreja de Corinto estavam a ponto de romper-se, foi para lá como o enviado pes­ soal do Apóstolo, levando a carta severa que era virtualmente um ulti­ mato. Parece ter manobrado a situação desajeitada com perícia, e ter restaurado a comunidade à lealdade e à obediência, e depois de dar seu relatório a Paulo na Macedônia, foi enviado de volta para Corinto a fim de entregar 2 Coríntios e completar a coleta ali (2 Co 7:6-16; 8:6; 12: 17-18). Ainda que não ficasse tão próximo do Apóstolo quanto Timó­ teo, deve ter tido um caráter mais forte, e seu serviço a Paulo deve ter começado antes e ter abrangido um período ainda mais longo. Conforme o quadro exposto nas cartas, Timóteo e Tito agora são delegados apostólicos temporariamente encarregados das igrejas de Éfeso e de Creta respectivamente. Timóteo, pelo menos, ainda é relativa­ mente jovem (1 Tm 4:12; 2 Tm 2:22), talvez com seus trinta e cinco anos ou mais, e temos a impressão que é um homem tímido e sensível, cuja disposição de ânimo precisa de apoio. 1 Timóteo o representa pre­ sidindo sobre a congregação de Éfeso; Paulo o deixou ali, ou de qual­ quer maneira pediu que continuasse ali, e planeja visitá-lo antes de pas­ sar-se muito mais tempo. Neste ínterim, encoraja-o a reestabelecer a tradição sadia do ensino cristão contra as tendências heréticas divisivas, tendo em vista aquele objetivo, organizar o ministério e a vida diá­ ria da congregação numa base apropriada. A carta a Tito, que é seme­ lhante na sua ocasião e no seu alvo, dá a entender que Paulo e seu cor­ respondente já tinham levado a efeito uma missão conjunta em Creta. O próprio Apóstolo agora foi para a Grécia, com a intenção de passar o inverno na cidade adriática de Nicópolis; Tito foi deixado em Creta com a tarefa de estabelecer um ministério apropriadamente ordenado em todas as cidades da ilha, e também de pôr fim aos falsos ensinos que são generalizados. Parece que seu empreendimento é considerado de duração menor, visto que Paulo antevê sua reunião com ele em Nicó­ polis. Estas duas cartas, embora sejam endereçadas a indivíduos, cla­ ramente visam (se são cartas verdadeiras) ser lidas em alta voz à con­ gregação reunida também. Este fato se ressalta especialmente nas sau­ dações no fim, que estão no plural. O tom de 2 Timóteo é muito mais pessoal, embora ela, também termine com uma saudação no plural. Tem a aparência a ser a última das três, quanto à data, visto que representa o Apóstolo em prisão rigorosa em Roma, acorrentado como criminoso 10


INTRODUÇÃO e esperando sua execução num futuro previsível. Timóteo, segundo parece, ainda está em Éfeso, e os falsos mestres ainda são uma ameaça com sua influência desmoralizadora; Paulo manda-o precaver-se con­ tra eles. Mas boa parte da carta consiste nas admoestações pessoais do Apóstolo ao seu discípulo no sentido de levar a efeito seu ministério com perseverança, seja qual for o sofrimento acarretado. Anseia por sua presença, e conclama-o a vir até ele antes do invemo começar. 2. O PROBLEMA CRÍTICO Se forem tomadas por aquilo que ostentam ser, as Epístolas Pas­ torais têm, assim, um interesse e uma importância especiais. Como car­ tas, diferem da maioria das paulinas, sendo escritas a indivíduos mais do que a igrejas, e diferem de Filemon porque seu caráter é oficial, em vários graus, e não exclusivamente pessoal. Levantam a cortina de mo­ do revelador, quanto a aspectos das atividades do Apóstolo que, de mo­ do geral, passam desapercebidos no restante da sua correspondência. Mostram-nos alguma coisa acerca dos seus relacionamentos com seus colegas mais íntimos e responsáveis, e ilustram sua solicitude pelos ar­ ranjos administrativos, sua abordagem aos problemas práticos, e as no­ vas ênfases na sua teologia posterior. Além disto, oferecem relances fascinantes da vida e da organização da igreja, e das distorções doutri­ nárias contra as quais tinha de lutar, na década dos sessenta, no século I. No que diz respeito ao próprio Paulo, nem é necessário dizer que a evidência delas no tocante aos seus movimentos e atitudes nos anos finais de sua carreira é incomensuravelmente preciosa. É como tais que as Pastorais eram tidas em grande estima pelos cristãos desde os tempos mais antigos até ao século XIX. Sua atesta­ ção na era sub-apostólica e no começo do século II tem sido declara­ da tão boa como a de qualquer das paulinas a não ser Romanos e 1 Coríntios. Várias passagens em 1 Clemente ( c. de 95), e de modo ainda mais convincente nas cartas de Inácio (c. de 110), parecem ecoar tão de perto passagens nas Pastorais que somente a cautela excessiva recusa-se a admitir a dependência direta. Neste último caso, o relaciona­ mento é tão estreito que foi proposta a contrá-teoria de que o autor das Pastorais foi ele mesmo o copista. Do outro lado, é praticamente certo, e poucos têm duvidado, que Policarpo de Esmirna as conhecia e que as citou na sua bem conhecida carta aos filipenses (no mais tar­ dar, c. de 135). Desde os meados do século II, sua posição está asse-

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EPÍSTOLAS PASTORAIS gurada, e são citadas como inquestionavelmente paulinas por Irineu, Tertuliano, o Cânon Muratoriano, e Clemente de Alexandria. É ver­ dade que o herege Márciom (c. de 140), nãò as incluiu no seu cânon mu­ tilado do Novo Testamento, mas a razão mais provável é que ele não tenha gostado do estilo anti-herético delas e da estima que dedicam ao Antigo Testamento, e não que elas ainda não pertenciam à coletâ­ nea paulina. O Evangelho da Verdade, plausivelmente atribuído a Valentino (c. de 150), não faz referência alguma a elas tampouco, embo­ ra cite de todos os demais livros do Novo Testamento. Mais uma vez, isto não é surpreendente; os gnósticos geralmente, segundo Clemente e Jerônimo, as repudiavam, e seu teor anti-gnóstico fornece uma ex­ plicação suficiente. O único fato realmente enigmático é que as Pastorais não cons­ tam do Papiro Chester Beatty (P 46), o códice paulino mais antigo (do começo do século III). Este fato tem sido explicado de vários modos. Como Filemom também falta no Papiro, é poss��vel que a coletânea ne­ le contida abrangesse apenas as cartas endereçadas às igrejas. Além dis­ to, não pode ser excluída a possibilidade de que o códice completo te­ nha contido as cartas. Conforme ele agora existe, faltam as sete últi­ mas folhas, e embora o espaço que teriam dado pareça curto demais pa­ ra as Pastorais, há sinais que o copista estava forçando cada vez mais palavras em cada página enquanto chegava perto do fim. Alternativa­ mente, é concebível que pudesse ter acrescentado mais três ou quatro páginas ao livro. De qualquer maneira, a inferência de que não perten­ ciam à coletânea paulina conhecida no Egito no começo do século III é injustificada, porque já notamos que eram familiares a Clemente. Infelizmente, não se pode ter certeza, de modo algum, hoje em dia, que as cartas realmente advêm do Apóstolo. Desde as primeiras décadas do século XIX uma nuvem de críticas tem sido dirigida contra a aceitação da reivindicação que elas mesmas fazem. A afirmação da autoria paulina é berrantemente inconsistente, os críticos argumenta­ ram, não somente com nossas informações acerca da vida e dos movi­ mentos de Paulo, como também com a psicologia, o espírito teológico, e o próprio estilo das Pastorais, sem mencionar as heresias e a organiza­ ção eclesiástica desenvolvida que retratam. Muitos têm achado estes argumentos irresistíveis, e embora o conceito tradicional ainda tenha quem o apoie, a opinião que prevalece é que as cartas conforme cons­ tam derivam da era sub-apostólica, talvez até mesmo em meados do século II, tendo sido compostas por algum entusiasta paulino que dese­ java combater os ensinadores dos erros e fortalecer a igreja dos seus pró12


INTRODUÇÃO prios dias com o peso da autoridade do Apóstolo. O máximo que alguns estão dispostos a conceder é que uns poucos fragmentos paulinos, prin­ cipalmente de um caráter pessoal, podem ter sido incorporados no tex­ to, que doutra forma é pseudonímico. Esta é claramente uma questão de importância suprema; nosso julgamento do valor das cartas bem como nosso entendimento da sua mensagem devem depender de se a voz que fala através delas é a de um discípulo inspirado. Nem pode ser solucionada ao simplesmente apon­ tar a declaração clara nos seus parágrafos iniciais, apoiada por referências diretas e indiretas noutros lugares, que é a voz de Paulo. A pseudonimidade, ou a prática de publicar suas próprias obras com o nome dalguma personagem reverenciada do passado, estava na moda tanto nos círculos judaicos como nos cristãos cerca do começo da nossa era. Uma grande proporção dos escritos judaicos, tanto dentro quanto fora da Bíblia, produzidos entre 250 a.C. e 200 d.C., têm os nomes de Enoque, de Daniel, dos patriarcas, e de outros. Livros cristãos primitivos tais como o Didaquê e os Evangelhos e Atos apócrifos alegam ter sua ori­ gem nos apóstolos e nas personagens tais como Nicodemos, e há algu­ ma razão para acreditar que certos livros do próprio Novo Testamento, tais como 2 Pedro, Judas, e Tiago, também são pseudonímicos. O lei­ tor moderno que sente um choque inicial acerca daquilo que entende ser fraude deve refletir que a atitude, abordagem e padrões literários daquela era eram totalmente diferentes daqueles que se aceitam hoje. O autor que atribuía sua própria obra a um apóstolo provavelmente tinha a convicção sincera que ela reproduzia fielmente o ensino e o pon­ to de vista do grande homem. É também provável que, no século I e no começo do século II de qualquer maneira, os cristãos tivessem pou­ co ou nenhum interesse pela personalidade do agente humano que es­ crevia seus livros sagrados. O Espírito que falara através dos apósto­ los ainda estava ativo em homens proféticos, e quando começavam a escrever, era Ele o autor real das suas produções. Era, portanto, legíti­ mo atribuir todos os escritos deste tipo (excetuando-se, naturalmente, composições que eram pessoais pela sua própria índole) a um ou ou­ tro dos Apóstolos, que tinham sido porta-vozes do Espírito, e cujos discípulos eram os autores, humanamente falando. Nas seções que se seguéni, ocupar-nos-emos principalmente, pe­ lo menos em primeira instância, com o problema crítico. À primeira vista, isto pode parecer uma abordagem um pouco unilateral, e tenden­ te a dar, na melhor das hipóteses, uma impressão parcial das cartas. À medida em que o problema é abordado, no entanto, a discussão inevi­ 13


EPISTOLAS PASTORAIS tavelmente passará por todos os seus aspectos-chaves, e o leitor assim será capacitado a vê-los na sua perspectiva e formar um ponto de vista compreensivo do seu conteúdo e caráter. 3. A SITUAÇÃO HISTÓRICA BIOGRÁFICA As referências a Paulo e às suas atividades nas cartas são claramen­ te de importância primária. Delas, podemos razoavelmente esperar que formaremos um quadro da situação em que as Pastorais foram escritas, e assim, talvez, obter um indício quanto à sua origem. Há concordância geral que não possam ser encaixadas na carreira do Apóstolo conforme ela pode ser reconstruída na base de Atos e das Epístolas reconhecidas como sendo paulinas, i.é, até a sua prisão em Roma registrada em Atos 28. Em 1 Timóteo a passagem-chave é 1:3, que revela que quando es­ tava viajando para a Macedónia, Paulo pediu a Timóteo que ficasse em Éfeso por causa dos problemas ali. Se supusermos, com a maioria dos comentaristas, que ele mesmo tivesse partido de Éfeso, é difícil inter­ pretar sua viagem como sendo uma mudança temporária para a parte continental da Grécia durante seus três anos de residência na cidade (At 19). Em nenhum lugar ficamos sabendo de semelhante mudança, e se Paulo tivesse feito assim, deve ter sido muito breve e não teria ne­ cessitado aimar Timóteo com autoridade plenipotenciária. Muito me­ nos pode ser identificada com sua partida final de Éfeso, mencionada em Atos 20:1. Sabemos que naquela ocasião enviou Timóteo para a frente, ao passo que sua própria destinação era Corinto, e, finalmente, Jerusalém; não há o mínimo indício do plano de revisitar Éfeso referi­ do em 1 Tm 3:14 e 4:13. Se, do outro lado, supusermos que seu pon­ to de partida fosse outro lugar que não Éfeso, sobra para nós sua visi­ ta muito anterior à Macedónia durante sua segunda viagem missioná­ ria (At 16:9ss.). Naquela data, no entanto, a igreja em Éfeso era, na melhor das hipóteses, embriônica e certamente não era o grande suces­ so retratado em 1 Timóteo. Tito apresenta dificuldades semelhantes, pois pressupõe um es­ forço evangelístico extensivo comparativamente recente da parte de Paulo e do seu jovem colega em Creta. A única visita à ilha que é co­ nhecida é aquela descrita em Atos 27, quando o navio que o transpor­ tava a Roma foi velejando pelo seu litoral. Sua única parada, no entan­ 14


INTRODUÇÃO to, foi temporária, em Bons Portos, o que dificilmente lhe teria dado oportunidade para a atividade missionária. Além disto, passou o inver­ no que se seguiu em Malta, não em Nicópolis (Tt 3:12). Tem sido suge­ rido que ele pudesse ter atravessado para a ilha ou partindo de Corinto ou de Éfeso durante suas permanências naqueles lugares. A primeira possibilidade, no entanto, é excluída pelo fato de que Tt 3:13 repre­ senta Apoio como um obreiro cristão ativo, ao passo que este não se convertera a não ser depois de Paulo ter deixado Corinto, e a última possibilidade é difícil de reconciliar (entre outras coisas) com o envol­ vimento de Tito durante o respectivo período com os negócios da igre­ ja de Corinto. Além disto, é dificilmente concebível que, apesar de to­ das as suas lacunas, Atos pudesse ter omitido qualquer menção de uma obra missionária em tão grande escala e tão importante. Conforme 2 Timóteo, Paulo está rigorosamente preso, quase cer­ tamente em Roma (1:17), e a despeito do resultado bem-sucedido da investigação preliminar, sabe que sua sorte está selada (4:6, 18). Quer que Timóteo, que provavelmente ainda está em Éfeso, venha a ele, apa­ nhando Marcos pelo caminho. Poderíamos ser tentados a inferir que este fosse o cativeiro em Roma registrado em Atos 28, se não fosse fato que Timóteo e Marcos estavam então em Roma com o Apóstolo (Cl 1:1; 4:10; Fm 24). Além disto, as referências à capa deixada em Trôade, a Erasto que ficou em Corinto, e a Trófimo que ficou em Mileto, doente (4:13, 20) sugerem que Paulo tinha estado recentemente na Ásia Menor, ao passo que sabemos que viera de Cesaréia para Roma, passando por Creta e Malta, e não estivera na Ásia Menor durante os três anos ante­ riores. Sua prisão durante dois anos em Cesaréia (At 23-26) tem, por­ tanto, sido proposta como uma alternativa. A favor disto está o fato de que o itinerário de Paulo antes de chegar em Cesaréia o levou por Corinto, Trôade, e Mileto. Do outro lado, visto que segundo At 21:29; 20:4 tanto Trófimo quanto Timóteo estavam com seu mestre em Je­ rusalém, é difícil ver como aquele pudesse ter sido deixado doente em Mileto, e explicar a presença do outro em Éfeso. A menção de Demas, também, cria dificuldades; em 2 Tm 4:10 é relatado que abandonou Paulo, mas pouco depois (segundo esta cronologia) o adiamos em Ro­ ma como um dos seus ajudadores (Cl 4:14; Fm 24). Mais importante de tudo, porém, é a declaração, sem ambigüidade, de 1:17, que apon­ ta Roma como sendo o lugar onde a carta foi escrita. Fatos como estes tomam impossível achar um lugar para as Pas­ torais na vida conhecida de Paulo. Isto é geralmente reconhecido, mas conclusões muito diferentes têm sido tiradas. Uma delas, que surge 15


EPÍSTOLAS PASTORAIS facilmente à mente, especialmente se for suposto que a morte de Pau­ lo aconteceu pouco depois dos eventos descritos em Atos 28, é que as situações retratadas, com seus vários incidentes e alusões pessoais, fo­ ram artificilmente excogitadas, sendo ou puras invenções, ou adapta­ ções de cenas reais na carreira de Paulo. Para confirmação, seus apoiadores indicam certas contradições, segundo as consideram, nas próprias cartas. Acham estranho, por exemplo, que em 1 Timóteo Paulo se des­ se o trabalho de escrever por extenso instruções e conselhos detalha­ dos para um discípulo que acabou de deixar e que se propõe a visitar de novo dentro em breve. Além disto, embora 2 Timóteo alegue ser escrita de Roma, os nomes pessoais e locais mencionados em 4:10-20 relembram de modo suspeito (conforme já foi aludido) a última viagem de Paulo à Cesaréia e seu julgamento ali. Por esta razão, alguns argu­ mentariam que o autor pretendia que esta carta evocasse a prisão de Paulo em Cesaréia. A menção de Roma em 1:17 é variadamente expli­ cada como sendo uma interpolação ou como um erro excepcionalmen­ te grave. Esta é a linha tomada por críticos que estão dispostos a duvidar da autoria paulina. Também é adotada, com as modificações necessá­ rias, pelos apoiadores da “hipótese dos fragmentos.” Estes concordam que o quadro geral dos movimentos do Apóstolo é artificial, mas ale­ gam que as cartas incorporam certos elementos autenticamente paulinos cuja data e lugar de composição podem, na maioria dos casos, ser plausivelmente identificados. As alegadas contradições internas serão discutidas no Comentário, e a validez desta “hipótese dos fragmentos” será examinada numa seção posterior desta Introdução. Nesta etapa, será apenas observado que, se as cartas forem realmente não-paulinas, é surpreendente que o autor não fez um trabalho mais convincente com seu arcabouço pseudo-histórico. Como, segundo esta suposição, tinha conhecimento de Atos e das dez Paulinas, teríamos esperado que ele representasse suas cartas originando-se em situações facilmente reco­ nhecíveis da vida do Apóstolo. O caso é, porém, que o pano de fundo que forneceu ou é inteiramente imaginário, como no caso de Tito, ou é um que somente pode ser reconciliado com Atos segundo ã teoria de erros inexplicáveis da sua parte, como no caso de 2 Timóteo. A explicação oferecida pelos críticos conservadores fica em con­ traste marcante com estas teorias. Segundo eles, as Pastorais, bem co­ mo as situações que pressupõem, pertencem ao período de vida de Pau­ lo subseqüente a Atos 28:31, e nSo há, portanto, necessidade alguma de ficar perturbado pela dificuldade de encaixá-las na carreira dele an16


INTRODUÇÃO tes disto. Destarte, rejeitam o conceito moderno generalizado de que seu cativeiro romano terminou com sua execução, argumentando que a brandura da sua prisão, e a natureza das acusações levantadas contra ele, tomam muito improvável tal coisa. Não há sugestão alguma em Atos de que houve tal desfecho; lido corretamente, o discurso de Paulo em Mileto (Atos 20:22-25), que é freqüentemente entendido como subentendendo este fim, meramente deu expressão à sua expectativa na ocasião. Sabemos que o procônsul Festo estava satisfeito quanto à sua inocência (Atos 26:31-32), e o relatório que enviou a Roma deve ter sido favorável. O próprio Apóstolo claramente antecipava que ve­ ria seus amigos dentro em breve (Fp 1:25-26; 2:24; Fm 22). Seu mar­ tírio não pode, de qualquer maneira, ser colocado antes de 64 d.C., o ano do surto do pogrom de Nero (Eusébio o coloca em 67), e é difícil ver como sua prisão domiciliar pudesse ter durado tanto tempo. É, por­ tanto, extremamente provável que foi solto; e, neste caso, temos o di­ reito de inferir que continuou sua obra evangelística até que fosse in­ terrompida por um segundo aprisionamento, desta vez definitivo, na ca­ pital. Tal curso de eventos, no entanto, claramente daria amplo espaço para a composição das Pastorais-bem como para as atividades subenten­ didas nelas. No que diz respeito ao seu relato da fase final da vida de Paulo, os conservadores formaram um argumento muito sólido. A questão da autoria das cartas, naturalmente, é logicamente separada, e pode ser deixada de lado por enquánto. Vale a pena indicar, no entanto, que, sejam autênticas, sejam pseudonímicas, elas mesmas devem provavel­ mente ser tomadas como a melhor evidência possível de que o Após­ tolo sobreviveu seu cativeiro de dois anos. Na igreja primitiva era ge­ ralmente aceito (e.g. Eusébio, Hist. eccl. ii.22) que fora inocentado e que empreendeu um ministério adicional de pregação antes de ser final­ mente preso e executado. Não há razão para supor que esta tradição meramente reflete a exegese contemporânea de 2 Timóteo. Já em 95 achamos Clemente de Roma declarando (1 Ciem. v.7) que Paulo tinha viajado “ao limite do oeste,” que para um escritor romano somente poderia significàr a Espanha; e menos de cem anos mais tarde, outro documento romano, o Cânon Muratoriano, explicitamente declara que foi de Roma para lá. É nãò-crítico rejeitar isto como sendo uma glo­ sa lendária baseada em Rm 15:24 e 28, onde o Apóstolo expressa sua firme intenção de visitar a Espanha. Clemente, de qualquer maneira, estava escrevendo, no máximo, trinta anos depois da morte de Paulo, numa igreja que tinha pleno acesso aos fatos, e em que pessoas que o 17


EPÍSTOLAS PASTORAIS conheceram bem, provavelmente ainda viviam para averiguar declara­ ções acerca dele. Por estas razões, a teoria de um segundo aprisiona­ mento parece firmemente fundamentada. Mas se de fato ocorreu, desa­ parece imediatamente a alegada dificuldade de achar um lugar para as Pastorais na carreira de Paulo. 4. OS FALSOS MESTRES Em todas as três cartas o escritor está grandemente preocupado com os hereges, conforme os considera, que vão mercadejando uma mensagem distinta de, e oposta a, o evangelho verdadeiro, que semeiam contendas e dissensão, e levam vidas moralmente questionáveis. Volta repetidas vezes ao tema, impressionando sobre Timóteo e Tito (sejam pessoas reais, sejam personagens na sua ficção) a urgência de tomar contra-medidas com todos os meios à sua disposição. Qual é esta “outra doutrina” (1 Tm 1:3) que tanto teme, e que já causou a queda espiritual de homens tais como Himeneu e Alexandre (1 Tm 1:19-20)? Seja qual for a teoria da autoria que se adota, é razoável supor que um tipo con­ creto de ensino, ou, de qualquer modo, de atitude diante do cristianis­ mo, esteja em mira, e ainda se (conforme é altamente provável, especial­ mente se as situações subentendidas são, em qualquer sentido, históri­ cas), assumiu formas algo diferentes em Éfeso e Creta, seu padrão geral parece ter sido o mesmo nos dois centros. A despeito de muita obscu­ ridade de detalhes, o seguinte quadro, reconhecidamente incompleto e tantalizante na sua vagueza, pode ser composto; uma discussão mais completa será achada nas notas. A característica mais óbvia da heresia é sua combinação de ingre­ dientes judaicos e gnósticos. De um lado, seus expoentes professam ser “mestres da lei” (1 Tm 1:7), embora, conforme o escritor, não saibam como fazer uso apropriado dela; em Creta um grupo deles até é chama­ do de “os da circuncisão” (Tt 1:10). Dedicam-se a disputas acerca da lei (Tt 3:9), e estão muito ocupados com “fábulas e genealogias” (1 Tm 1:4), para o que é provável um fundo judaico visto que ouvimos falar em “fábulas judaicas” em Tt 1:14. Do outro lado, não eram judaizantes do tipo que Paulo tinha de combater no seu ministério anterior. A doutri­ na deles era ascética, envolvendo, por exemplo, a renúncia do casamen­ to e a abstinência de certos tipos de alimento, possivelmente também do vinho (1 Tm 4:3; 5:23). Como corretivo, o escritor faz questão de 18


INTRODUÇÃO definir rigorosamente os limites dentro dos quais a auto-disciplina físi­ ca pode ser praticada de modo apropriado (1 Tm 4:8). Visto que ele também faz um esforço especial para enfatizar a bondade da totalidade da criação de Peus (1 Tm 4:3-5), pode haver pouca dúvida de que as pessoas que estava criticando faziam pouco caso da ordem material. Sua espiritualização da ressurreição, que era o equivalente de negar que o corpo participava da salvação (2 Tm 2:18), fazia parte integrante des­ te dualismo. Assim também era sua jactância no sentido de serem pos­ suidores de uma gnòsis superior, esotérica (1 Tm 6:20), que o escritor rejeita como não sendo conhecimento real de modo algum, mas, sim, apenas um espírito de ardorosa disputa (1 Tm 6:4). É possível, mas improvável, que também praticassem a magia (2 Tm 3:8,13). Por causa do seu colorido gnóstico, muitos identificam o falso ensino com o gnosticismo plenamente desenvolvido com o qual a igreja veio à luta em meados do século II. Acham apoio nas “fábulas e genea­ logias” de 1 Tm 1: 4 (cf. Tt 1:14; 3:9), entendendo que o último ter­ mo seja uma referência às famílias de eões que pensadores tais como Valentino interpunham entre Deus e o mundo. A improbabilidade des­ ta interpretação será demonstrada no Comentário (ver págs. 51-2). De modo geral, nada há nos indícios esparsos e vagos que recebemos para indicar que a doutrina atacada fosse tão elaborada ou coerente como os grandes sistemas gnósticos. Conforme vimos, tinha uma tendência marcantemente judaica, e seus expoentes ainda estavam dentro da igreja. Ainda menos plausível é a teoria de que era o marcionismo. Aqueles que sustentam esta idéia detectam nas “contradições do saber, como falsamente lhe chamam” (1 Tm 6:20) uma alusão às Antíteses de Márcion (m. c. de 160), e interpretam a solicitude do autor paia com o An­ tigo Testamento (1 Tm 4:13; 2 Tm 3:15-16) como sendo a reação con­ tra o pouco caso que Máicion fazia dele. Mas, bem à parte da ausência de qualquei tratamento oiganizado das doutrinas específicas do mar­ cionismo nas cartas, (a) Márcion não era um gnóstico a rigor, ao passo que os hereges tinham tendências gnósticas palpáveis; (b) é difícil vei co­ mo ele, com sua aboidagem liteialista, poderia tei tolerado “fábulas”; e (c) os partidários do eno estavam claramente ligados à Lei, para a qual Márcion não achava uso algum. É, de fato, uma falta de realismo olhar para os bem conhecidos sistemas gnósticos, ou quase gnósticos, do século II, para luz sobre o ensino que provocou as Pastorais. Tudo sugere que era algo muito mais elementar; e é significante que boa parte da polêmica do escritor é diri­ gida, não tanto contra qualquer doutrina específica, quanto contra a 19


EPISTOLAS PASTORAIS contenção e a vida dissoluta que encorajava. Talvez seja melhor defi­ nida como sendo uma forma gnosticizante do cristianismo judaico. Isto por si só é iluminador, porque é reconhecido hoje em dia que o judaís­ mo, e especialmente o judaísmo sectário, fornecia um solo fértil em que o gnosticismo vicejava livremente. Mas também tem uma aplica­ ção relevante à data das cartas. Fica aparente que já nos tempos de Gálatas Paulo se via confrontando com os assim-chamados cristãos que com­ binavam idéias gnósticas acerca dos dominadores do mundo com a aderên­ cia rigorosa à lei mosaica. É o cristianismo sincretista dos hereges de Colos­ sos, no entanto, com sua gnõsis, seus regulamentos ascéticos, e o legalismo judaico, que, a despeito das diferenças marcantes, nos fornece o paralelo mais instrutor. Se tiver de ser feita uma distinção, a heresia de Colossos parece ter sido mais avançada e mais destruidora da verda­ de cristã básica do que a heresia das Pastorais. Mas isto só serve para enfatizar que não há necessidade, a não ser que sejamos forçados por evidências obrigatórias em contrário, a olhar fora do século I, ou mes­ mo fora do decurso da vida de Paulo, para semelhante amálgama de traços judaicos e gnósticos no Oriente Próximo. 5. O MINISTÉRIO As referências nas Pastorais à organização da igreja e ao ministé­ rio têm interesse especial, embora inevitavelmente tantalizante. As Epís­ tolas Paulinas reconhecidas como tais não tratam do assunto de modo direto, embora contenham certo número de alusões aos clérigos e ou­ tros oficiais em contraste com os pneumáticos. A razão por isto não precisa ser, conforme às vezes é suposto, que a Paulo faltava interesse no governo eficiente das suas comunidades; é explicação suficiente que as situações que deram vazão a estas cartas não exigiam um tratamento do assunto. Se a posição é diferente nas Pastorais, este é o resultado da convicção do autor delas de que, na crise especial que ameaçava as igrejas pelas quais era responsável, o ministério deve ser uma das suas armas principais para combater o erro e defender a fé verdadeira. Destarte, Timóteo e Tito são representados como sendo as cabe­ ças das suas respectivas comunidades; são delegados apostólicos, e Ti­ móteo, pelo menos, foi ordenado pelo próprio Paulo (2 Tm 1:6). Têm plena autoridade para organizar a igreja, para disciplinar os transgres­ sores, e, de modo geral, promover a causa cristã. Logo abaixo deles,

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INTRODUÇÃO e nomeados por eles, segundo parece, ouvimos falar de superintenden­ tes (ou bispos) e anciãos (ou presbíteros). Em Éfeso, mas não em Cre­ ta, aparentemente, também há diáconos, e, com toda a probabilidade, diaconisas, e disposições são feitas em Éfeso para uma ordem de viúvas com regras rigorosas para a membrezia. Os diáconos de Éfeso claramen­ te são oficiais subordinados; cooperam com seus superiores na obra ad­ ministrativa e pastoral, sem, segundo parece, terem responsabilidades pelo ensino ou a hospitalidade. Os superintendentes e anciãos são re­ presentados presidindo sobre a comunidade, e recebem estipêndios re­ gulares. Visto que as qualidades exigidas dos dois são semelhantes e os dois títulos parecem intercambiáveis (Tt 1:5-7), é altamente provável que os caigos são idênticos, ou pelo menos que coincidam parcialmen­ te. O único argumento contra isto é o fato de que “o superintendente” é sempre usado no singular, ao passo que os anciãos usualmente são referidos no plural; mas é razoavelmente certo que o singular deve ser entendido genericamente (ver nota sobre 1 Tm 3:2). Os superintenden­ tes ou anciãos foram ordenados pela imposição das mãos (1 Tm 5:22) e possivelmente (mas ver nota sobre 1 Tm 4:14) formam um colégio com poder para ordenar, e parece que contêm um grupo interno que, além da supervisão geral, prega e ensina (1 Tm 5:17). Tem sido sugerido que estas disposições têm seu paralelo mais apto na descrição que Inácio de Antioquia fez das igrejas na Ásia Menor cerca de 110. Segundo esta descrição, cada igreja tinha seu bispo “mo­ nárquico,” seu senado de presbíteros, e um grupo de diáconos estreita­ mente ligados à pessoa do bispo. Quem, segundo esta interpretação re­ presenta o bispo nas Pastorais? Se for entendido que é o superintenden­ te conforme 1 Tm 3:2 e Tt 1:7, as objeções devem ser enfrentadas ^ de que o singular nestes textos é provavelmente genérico, e (b) de que não há indício noutro lugar nas cartas de que qualquer oficial local indi­ vidual possuía a autoridade dominadora e o prestígio do bispo inaciano. É, na realidade, difícil ver como semelhante episcopado de um só ho­ mem pudesse ter funcionado onde delegados apostólicos armados com os poderes de um Timóteo ou de um Tito estavam instalados. Tendo em vista este fato, tem sido proposto que as passagens que mencionam “o superintendente” tenham sido interpolações que refletiam uma eta­ pa posterior na evolução do cargo; mas este é um expediente de deses­ pero sem justificativa textual. Outros estudiosos, reconhecendo estas dificuldades, intrepidamente identificaram Timóteo e Tito como sendo bispos monárquicos, argumentando que é isto que são em tudo menos o nome. A impressão que é dada, porém, é que são os emissários pes21


EPÍSTOLAS PASTORAIS soais do Apóstolo, com um mandato temporário, ad hoc. Além disto, se o autor tivesse a intenção de representá-los como sendo bispos, teria decerto evitado o emprego do título ao tratar dos demais oficiais. O que as cartas inacianas revelam, de qualquer maneira, é uma hierarquia estreitamente articulada, com as funções de cada ordem e seu mútuo relacionamento claramente definidos. Disto não há sequer um sussurro nas Pastorais, cuja atmosfera é muito mais simples e menos sofisticada, indicando uma etapa consideravelmente anterior no crescimento do ministério. £ uma etapa que é congruente com o grau e tipo de organização galgado enquanto Paulo ainda estava com vida? Hoje em dia, não pode ser negado que, por mais respeito tenha sido dado aos profetas e a ou­ tros indivíduos movidos pelo Espírito, sempre havia oficiais de um tipo mais prático e funcional nas suas igrejas. Paulo menciona-os freqüentemente, e fala, por exemplo, de “os que trabalham entre vós, e os que vos pre­ sidem no Senhor e vos admoestam” (1 Ts 5:12), e de “pessoas que pres­ tam assistência e exercem governo” (1 Co 12:28 — ARA: “socorros, governos”). Em Fp 1:1 até mesmo os designa com os nomes usados nas Pastorais: “bispos e diáconos.” Freqüentemente é objetado que, embora isto seja verdade, o fato de que as cartas falam de anciãos tam­ bém é uma indicação segura de uma data pós-paulina. O próprio Após­ tolo, é argumentado, em nenhum lugar menciona estes pelo nome nas suas cartas reconhecidas, e o primeiro testemunho fidedigno deles, à parte de Atos, vem da era sub-apostólica (e.g. Tg 5:14; 1 Pe 5:1-2; 2 Jo 1). Em contrapeso a isto, no entanto, temos referências inconfun­ díveis em Atos à nomeação de anciãos por Paulo na Ásia Menor (14:23) e à conclamação dos anciãos em Éfeso, feita por ele (20:17). Uma ex­ plicação destas passagens é que Lucas deve ter adaptado sua terminolo­ gia para aquilo que era a prática comum quando escreveu, mas isto en­ volve (a) afastar bruscamente aquilo que parece ser testemunho de uma testemunha ocular, e (b) pressupor uma data muito posterior para a composição de Atos do que, na opinião de muitos eruditos atuais, pa­ rece plausível. Nenhuma importância, decerto, deve ser atribuída ao silêncio de Paulo nas suas cartas anteriores, visto que nelas se refere aos oficiais eclesiásticos apenas de passagem; nunca, por exemplo, teríamos sabido que conhecia superintendentes (“bispos”) e diáconos por aque­ les nomes se não fosse a alusão fortuita em Fp 1:1. Na realidade, toda comunidade judaica, na Palestina e na Dispersão igualmente, tinha uma mesa de anciãos na sua liderança, e, portanto, é extremamente prová­ vel que Paulo tivesse com naturalidade encorajado a nomeação de tais 22


INTRODUÇÃO mesas nas igrejas pelas quais era responsável. Nosso quadro da organização das Igrejas de Paulo é confessadamente incompleto. Nada há nele, no entanto, que exige que coloque­ mos as Pastorais fora do período de vida dele pela razão de que as dis­ posições administrativas que pressupõem são mais adiantadas do que qualquer coisa que ele pudesse ter conhecido. Devemos, de qualquer maneira, lembrar-nos de que as instituições da igreja estavam se desen­ volvendo rapidamente neste período. Há, de fato, outros indicadores de uma data recuada, tal como a ambigüidade no significado de “an­ ciãos”, a falta de exatidão quanto aos deveres dos superintendentes e diáconos respectivamente, a falta de um nome técnico para as diaconi­ sas, e os indícios ocasionais de que os profetas estavam ativos dentro do alcance da memória recente. No que diz respeito ao primeiro destes indicadores, é notável que a igreja de Éfeso parece estar apenas na etapa de apalpar seu caminho em direção a uma clara distinção entre a mesa de anciãos encarregados com a supervisão geral e os oficiais executivos da comunidade (ver nota sobre 1 Tm 5:17). A existência de uma ordem de viúvas, é verdade, tem sido saudada como algo que exige uma data pós-paulina, e a passagem em epígrafe certamente contém a menção ex­ plícita mais antiga de tal ordem. Atos, no entanto fornece evidência no sentido de que, desde o início, as viúvas eram tratadas como sendo um elemento importante nas congregações cristãs, e que eram formalmente organizadas como um grupo. De qualquer maneira, o caráter detalhado das instruções do escritor (1 Tm 5:3-16) talvez seja uma indicação de que a instituição eia uma novidade em Éfeso. 6. A ATMOSFERA TEOLÓGICA Do ponto de vista teológico as Pastorais apresentam um aspecto curiosamente ambíguo. De um lado, contêm numerosas passagens que, à primeira vista pelo menos, parecem refletir fielmente as idéias, atitude e espírito característicos do Apóstolo. Do outro lado, todo leitor tem consciência de certas diferenças marcantes no tom teológico, talvez tam­ bém na teologia, quando chega às Pastorais depois de ler as cartas reco­ nhecidas. Não há disputa quanto a esta impressão; a controvérsia surge quando se pergunta qual é o alcance das diferenças teológicas, e até que ponto são fundamentais, e quais conclusões devem ser tiradas delas. Nes­

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EPISTOLAS PASTORAIS ta seção, olharemos de relance uma seleção dos dados, e referiremos o leitor ao Comentário para uma discussão de detalhes específicos. Comecemos com os ecos, se é que são isto, do ensino autêntico de Paulo. Decerto podem ser ouvidos no reconhecimento do autor, do fundo do coração, da revelação da misericórdia de Deus em Jesus Cristo e da sua própria experiência dela como pecador e blasfemador (1 Tm 1: 12-17; Tt 3:3-7), na sua clara afirmação de que a justificação nada tem a ver com o merecimento humano mas, sim, depende inteiramente da graça de Deus (2 Tm 1:9; Tt 3:5), e na sua confissão de Cristo como sendo o novo homem, o Redentor que Se entregou a Si mesmo como resgate pelos pecadores (1 Tm 2:5-6; cf. 1:15). 'Pode ser acrescenta­ da sua descrição da vida eterna como sendo tanto o alvo para o qual os cristãos são chamados quanto alguma coisa que podem desfrutar aqui e agora (1 Tm 6: 12; cf. 2 Tm 1:1; Tt 1:2; 3:7), e da fé em Cristo co­ mo sendo o meio de atingi-la (1 Tm 1:16). Sua convicção, também, de que Deus nos chamou pela Sua graça antes de ter sido criado o mun­ do (2 Tm 1:9-10; Tt 2:11) está em harmonia com o ensino de Paulo, e sua atitude para com questões tais como o segundo casamento (1 Tm 3:2, 12; 5:9), os escravos (1 Tm 6:1), e o estado (1 Tm 2:1 ss.; Tt 3:1) é so­ lidária com a do Apóstolo. O mesmo se aplica à sua crença de que seus sofrimentos pessoais serão benéficos para os eleitos (2 Tm 2:10), bem como às suas observações acerca da consideração mansa e suave devi­ da aos irmãos que estão no erro (2 Tm 2:25). Pode ser notado que a fórmula caracteristicamente paulina “em Cristo” ocorre sete vezes em 2 Timóteo e duas vezes em 1 Timóteo. Em resumo breve, é isto que se pode dizer acerca da tendência paulina nas cartas; seu destaque é tanto mais notável visto que, de modo geral, estão ocupadas com questões não-doutrinárias. Agora trataremos das divergências delas daquilo que normalménte se entende ser o ensino de Paulo. Em primeiro lugar, devemos notar um aspecto que impres­ siona todo leitor das Pastorais: sua forte tendência a favor da ortodoxia, e sua preocupação exagerada com a transmissão da doutrina correta e da lealdade à fé herdada. Por exemplo, o escritor báte na tecla da “sã doutrina” e tem uma predileção pela expressão “o pleno conheiimento da verdade” (1 Tm 2:4; etc.), onde “a verdade” representa a crença or­ todoxa em Cristo. Parece claro que concebe da fé da igreja como sendo um corpo formulado de verdades que devem ser conservadas intatas a todo custo, e que fica em nítida antítese com todo sistema herético. Em harmonia com esta idéia há sua confiança em fórmulas do tipo de credos (e.g. 1 Tm 6:12-13; 2 Tm 2:8; 4:1). Assim, também, é sua ênfa­ 24


INTRODUÇÃO se na igreja e sua descrição dela como sendo “coluna e baluarte da verda­ de” (1 Tm 3:15), e sua suposição que seus oficiais formam uma sucessão de guardiães encarregados com a salvaguarda e transmissão da doutrina autorizada (e.g. 2 Tm 2:2). Em segundo lugar, as Pastorais como um todo, é argumentado, evidenciam aquilo que tem sido chamado uma atitude burguesa para com o cristianismo, pesadamente propensa à moralidade prática e à ética con­ vencional. As virtudes ressaltadas são as de uma comunidade fixa e esta­ belecida, e ouvimos falar muito acerca da moderação, do controle-próprio, e da conduta sóbria. O ideal religioso é epitomizado para o escritor no termo helenístico eusebeia, i.é, “piedade” ou “devoção,” que é estra­ nho ao vocabulário e pensamento de Paulo, e ele está repetidamente con­ clamando às “boas obras” de uma maneira que não tem paralelo nas Paulinas reconhecidas. Em teíceiro lugar, quando nos voltamos aos pontos teológicos es­ pecíficos, pode ser notado que várias das doutrinas prediletas de Paulo, ou suas ênfases doutrinárias, estão ausentes das Pastorais. A cruz, por exemplo, já não mantém a posição central que normalmente atribui a ela, e nada é dito acerca do conflito entre a carne e o espírito. Ao passo que “a religião de Paulo estava cheia do Espírito até ao último grau” (B. S. Easton), o Espírito Santo aqui recebe menção apenas perfunctória, ao passo que a idéia da união mística entre o crente e Cristo (segundo se alega) quase nem sequer está presente. O que é ainda mais relevante, o autor, conforme a alegação, entendeu erroneamente, e, como resulta­ do, descreveu erroneamente, várias doutrinas-chaves na teologia do Após­ tolo. Destarte, em 1 Tm 1:7ss. parece confundir a Lei de Moisés com a lei de modo geral, pensando nela somente como freio para os malfeito­ res. Além disto, seu conceito de Deus não é, como era o que Paulo sus­ tentava, o do Pai amoroso, mas, sim, é colorido por idéias judaicas e helenistas de distância remota e majestade inabordável (e.g. 1 Tm 1:17; 6:15-16). Cristo é para ele o “Mediador”, termo este que Paulo usou somente para Moisés (G1 3:19), ao passo que sua descrição dEle como “Salvador” (2 Tm 1:10; Tt 2:13; 3:6) e suas referências à Sua “mani­ festação” relembram o culto helenista ao invés da linguagem idiomática e pensamento do Apóstolo. Por “fé,” tambén) conforme se assevera, quer dizer, não uma confiança permanente em Cristo, ou a entrega de si mesmo a Ele no sentido paulino, mas, sim, ou uma virtude cristã en­ tre as outras (2 Tm 2: 22; 3:10; Tt 2:2), ou a crença aceita da igreja, entendida de modo objetivo (1 Tm 4:1, 6; 6:21; Tt 1:4). A graça, de mo­ do semelhante, não é o poder transformador que é para Paulo, mas, sim, 25


EPÍSTOLAS PASTORAIS uma mão de ajuda que dá vazão à cooperação da parte do homem (e.g. Tt 2:11-12). A reação dos estudiosos diante destes fenômenos aparentemente contraditórios tem variado grandemente. Muitos, atribuindo o máximo peso aos aspectos que acabam de ser enumerados (e outros semelhantes a eles), que parecem estranhos a Paulo ou francamente não-paulinos, vêem neles um obstáculo insuperável à autenticidade. Tomados em con­ junção com o tom geral das cartas, indicam conclusivamente, conforme o ponto de vista destes estudiosos, um período depois da vida do Após­ tolo, quando a fase criadora da teologia cristã tinha passado, e quando o institucionalismo estava se estabelecendo. As Pastorais, compostas em círculos onde Paulo era tido em alta estima, representam uma tentativa sincera no sentido de dar nova popularidade àquilo que, segundo se acre­ ditava, era o ensino dele, e de fazer com que fosse aceito como pedra de toque da ortodoxia. Uma dificuldade que estes críticos devem en­ frentar é a presença, lado a lado com estes traços, de tanta matéria con­ vincentemente paulina. A “hipótese dos fragmentos”, deve ser observa­ do, não oferece meio de evasão, pois nenhuma das passagens em consi­ deração consta entre os versículos que a hipótese aceita como genuínos. A explicação que é usualmente proferida é que, visto que o autor é um paulinista devoto que se embebeu nas cartas do seu mestre e esforçou-se para produzir as idéias e a própria linguagem delas, é dificilmente sur­ preendente se ele ocasionalmente chegou muito perto do sucesso. Mes­ mo assim, faz parte do argumento deles que um ouvido aguçado pode detectar uma nota não-paulina aqui e ali nas próprias passagens que são saudadas como sendo autenticamente paulinas. Este raciocínio, no entanto, não tem convencido todas as pessoas. Na opinião doutros estudiosos os traços paulinos são inescapáveis, e per­ manecem sendo a chave à origem das cartas. Reconhecem livremente, é lógico, o tom mais prosaico e a atmosfera mais institucional delas, bem como sua idiossincrasia teológica. Mas, em primeiro lugar, estas diferen­ ças não lhes parecem inesperadas, tendo em vista seu propósito especial, a data relativamente avançada em que foram escritas, e as circunstâncias alteradas de Paulo. Por exemplo, visto que a correspondência é dirigi­ da contra erros perigosos de doutrina, não é mais do que natural que ressaltasse especialmente a ortodoxia e o depósito da doutrina, cuidado­ samente conservado. Embora esta ênfase seja reconhecidamente excep­ cional, uma solicitude para com a tradição apostólica é visível nas cartas reconhecidas, e também é reconhecido hoje que estas abundam em cita­ ções ou pelo menos ecos de fórmulas confissionais semi-estereotipadas. 26


INTRODUÇÃO A ausência de referências a doutrinas que se destacam noutras cartas não precisa causar-nos surpresa, visto que as Pastorais tocam apenas incidentalmente em questões doutrinárias. De qualquer forma, Paulo nãò era forçado a desenvolver cada aspecto do seu ensino em cada car­ ta, e (escolhendo um só exemplo) menciona o Espírito Santo uma só vez em Colossenses, uma só vez em 2 Tessalonicenses, e nenhuma vez em Filemom. Além disto, certas novidades doutrinárias nas Pasto­ rais talvez tenham sido sugeridas a ele pelo ambiente alterado dos seus anos posteriores. Destarte, é bem provável que tenha derivado do culto imperial os termos religiosos helenistas com que se refere a Deus e Cris­ to; deste culto ele deve ter tido consciência cada vez maior, e já estava começando a explorar a linguagem dele para suas próprias finalidades em Fp 3:20. Em segundo lugar, estes estudiosos argumentam que, de qualquer maneira, as discrepâncias têm sido grandemente exageradas. Por exem­ plo, a atitude para com a lei subentendida em 1 Tm 1:7 ss. é percebida, mediante exegese cuidadosa, como estando de perfeito acordo com a posição paulina conforme é revelada noutras passagens. Além disto, ao conclamar às boas obras em 1 Tm 2:10; 5:10, 25, etc. (exigência esta que se encaixa naturalmente com seu alvo prático), o autor não está pen­ sando nas obras impostas pela lei mosaica, mas, sim, nos frutos visíveis da vida de fé do cristão, e há paralelos com isto em Paulo (e.g. Rm 2:7; 2 Co 9:8; G1 5:6; 2 Ts 2:17). Se somente chama Deus de ‘Tai” nas suas saudações de abertura, devemos lembrar-nos de que o título ocor­ re muito raramente no corpo de Romanos (6:4; 8:15; 15:6) e de 1 Coríntiós (8:6; 15:24), a despeito do maior tamanho e do conteúdo mais solidamente teológico destas cartas; ao passo que a sugestão de que ele é oprimido por um senso da distância remota de Deus não pode ser sus­ tentada tendo em visto o retrato que faz dEle como sendo o Salvador que deseja a salvação de todos os homens (1 Tm 2 :4) e cujo motivo pre­ dominante é a bondade e a misericórdia (Tt 3:4). A idéia da união mís­ tica com Cristo talvez esteja, tendo em vista a natureza das cartas, um pouco em segundo plano, mas está claramente pressuposta em pelo menos alguns dos usos da fórmula “em Cristo” (e.g. 1 Tm 1:14; 2 Tm 1:9, 13). Da mesma forma, o tratamento reconhecidamente pe­ culiar da fé nas Pastorais pode ser explicado, em grande medida, como sendo originário da preocupação delas com aquilo que é geralmente obri­ gatório para os cristãos ao invés de com a religião pessoal. Mesmo assim, devemos notar que Paulo, nas suas cartas reconhecidas, ocasionalmente dá à palavra o sentido objetivo de “a fé” (e.g. Fp 1:27; Cl 2:7), ao pas­ 27


EPISTOLAS PASTORAIS so que freqüentemente trata dela como sendo uma virtude lado a lado com outras virtudes cristãs (e.g. 1 Co 13:13; 2 Co 8:7; G1 5:22; 1 Ts 1:3). Nem mesmo é verdade que o significado caracteristicamente paulino está inteiramente ausente das Pastorais, pois certamente pode ser de­ tectado em passagens tais como 1 Tm 1:16; 3:13; 2 Tm 3:15. Um fator a ser levado em conta na tentativa de avaliar o caráter teológico das Pastorais, é o pano de fundo fortemente judaico, para não dizer rabinico, de várias passagens importantes (e.g. 1 Tm 1:9-10; 2: 13-15; 4:14). Isto deve nos ajudar a colocar os traços helenistas, nos quais a atenção freqüentemente é focalizada, na sua perspectiva apro­ priada. A discussão destas e doutras questões será continuada, com maiores detalhes e com alcance maior, no Comentário. Mas as ilustra­ ções já dadas indicam que o abismo teológico entre as Pastorais e as demais cartas pode muito bem ser mais estreito e menos relevante do que freqüentemente se alega. Deve ser reconhecido que, afinal das con­ tas, permanece certo número de peculiaridades, tanto no tom teológico geral quanto em pontos específicos e expressão doutrinária. Mas pode-$e perguntar com pertinência se elas não são mais provavelmente devidas ao próprio Apóstolo, cuja teologia nunca se tomou estereotipada e que estava disposto a adaptar seu pensamento ao ambiente que mudava, ou talvez ao seu secretário, do que a um imitador embebido nos seus pen­ samentos, de quem deveríamos esperar que tomasse cuidado em evitar qualquer coisa para a qual não havia um precedente claro no ensino do seu mestre. 7. LINGUAGEM E ESTILO Devemos voltar agora a nossa atenção à linguagem e estilo das Pastorais, acerca dos quais tem havido discussão intensa desde o come­ ço do século XIX. Há concordância geral, de um lado, que as cartas abundam em cláusulas, frases, até mesmo parágrafos curtos, com um som inconfundivelmente paulino, e que sua estrutura formal também é total­ mente paulina. Seu comprimento, por exemplo, como a maioria das cartas do Apóstolo, excede grandemente o comprimento médio das car­ tas contemporâneas, que se calcula em menos que noventa palavras; e sua abertura e seu encerramento seguem fórmulas não somente em es­ treita harmonia com as de Paulo, que eram notavelmente diferentes da prática corrente, mas que também se encaixam com perfeição no desen­ 28


INTRODUÇÃO volvimento progressivo pelo qual estavam passando (ver págs. 47—49). Do outro lado, estas concordâncias são contrabalançadas por diferen­ ças pelo menos igualmente notáveis. Não somente 0 vocabulário das cartas está cheio de surpresas, como também ao autor delas falta o vi­ gor e a variedade do Apóstolo; escreve frases regulares, freqüentemen­ te monótonas, ao invés de empilhar parênteses e anacolutos na luta de dar à luz os seus pensamentos. Alguns vão ao ponto de asseverar que podem detectar um sabor especificamente do século II no escrito dele. £ óbvio que, se forem corretamente interpretados, estes fenômenos têm uma aplicação importante à questão da autoria, e, de fato, têm si­ do usados como trunfo por aqueles que se acham incapazes de atribuir as cartas a Paulo. Primeiramente, é inegável que, quanto ao vocabulário, as Pasto­ rais ficam numa classe separada na coletânea paulina. Todo leitor com vista apurada tem alguma consciência vaga disto, e quaisquer dúvidas que possa sentir devem ser esclarecidas quando os dados são cientifica­ mente analisados. O pioneiro neste campo foi P. N. Harrison, que pro­ curou demonstrar, entre outras coisas, (a) que a proporção de “hapax legomena” (i.é, palavras que não se acham noutra parte, ou no N.T. ou nas demais Paulinas) é incomumente alta nas Pastorais em comparação com as Paulinas reconhecidas, (b) que um grande número de expressões caracteristicamente paulinas falta nas Pastorais, ao passo que certo núme­ ro de palavras comuns é usado com um significado diferente do que nas demais cartas, e (c) que as Pastorais têm uma predileção para certas ex­ pressões e formas de palavras que Paulo não emprega alhures. Exem­ plos destas últimas são os adjetivos “auto-controlado” (Gr. sòphròn) e “piedoso” (Gr. eusebés), juntamente com seus substantivos e verbos correlatos, o emprego de epiphaneia (“manifestação”) e charin echò (“agra­ deço”) no lugar das palavras normais de Paulo, parousia e eucharistõ, e a fórmula “Fiel é a palavra.” Harrison fez a consideração adicional de que um número considerável dos “hapax” das Pastorais ocorrem nos Pais Apostólicos e nos Apologistas, que lhe sugeriu que sua voga estava no começo do século II ao invés de no século I. As estatísticas de Harrison têm sido fortemente desafiadas, do modo mais bem-sucedido pela razão de que seu critério a cada passo era defeituoso: a média de palavras por página. Mesmo assim, os críticos dos seus métodos não conseguiram abalar suas teses de que o vocabulá­ rio das Pastorais é (a) homogêneo e (b) marcantemente diferente daque­ le das Paulinas reconhecidas. Trabalhos mais recentes, levados a efeito com técnicas modernas de estatística, somente têm servido para colocar 29


EPISTOLAS PASTORAIS estas conclusões numa luz mais clara e convincente. No que diz respei­ to a (a), tem sido demonstrado que se as palavras peculiares a cada uma das Pastorais e as palavras que as três têm em comum forem estudadas com relação ao vocabulário total, o resultado será um padrão notavel­ mente uniforme de distribuição, e um que é peculiar às Pastorais. No que diz respeito a (b), tem sido demonstrado, ao considerar a propor­ ção entre o vocabulário e o comprimento da passagem (em termos de nú­ mero de palavras) e também por estatísticas diretas: (a) que as Pastorais põem em uso um vocabulário muito mais rico e mais variado do que as demais Paulinas, e (b) que o caráter deste vocabulário, conforme é demonstrado pela escolha feita pelo autor de palavras individuais e ti­ pos de palavras, diverge notavelmente do uso normal feito por Paulo. Estatísticas exatas também confirmam que as Pastorais fazem menos uso das palavras da Septuaginta, e mais uso das palavras helenísticas, do que as demais cartas. Quando nos voltamos para o estilo propriamente dito, estamos confrontados por fenômenos geralmente semelhantes. A maioria dos estudiosos, por exemplo, tem notado a dicção correta e formal das Pas­ torais. Demonstram pouca ou nenhuma da tensão dialética, e poucos ou nenhum dos sinais do pensamento represado rompendo o próprio arcabouço da linguagem, que normalmente distinguem o Apóstolo; o escritor parece contentar-se, na maior parte, com asseverações e exor­ tações. De modo geral, o estilo das Pastorais, como seu vocabulário, re­ vela uma afinidade muito mais estreita com a do mundo helenístico edu­ cado e da diatribe popular do que as cartas reconhecidas. Se estas pare­ cerem considerações relativamente subjetivas, é possível indicar fatores objetivos e calculáveis, tais quais a ausência marcante de um enorme número de partículas, preposições, e pronomes que são uma caracterís­ tica das Paulinas reconhecidas. Além disto, em coisas tais como seu uso do artigo definido o escritor difere notavelmente do Apóstolo, visto que evita construções favorecidas por este último tais quais o artigo de­ finido com o infinitivo, com o nominativo ao invés do vocativo, com o número, com um advérbio, e com uma frase inteira. Além disto, não tem nenhum exemplo do uso paulino do advérbio ou conjunção hõs (= “conforme,” “como,” “de modo que,” etc.) com um particípio, um advérbio, ou ah. Um sub-produto interessante destas diferenças de esti­ lo, como também do vocabulário alterado, é o fato de que o comprimen­ to médio de uma palavra nas Pastorais é 5,50 letras (5,58 em 1 Tm;5,26 em 2 Tm; e 5,66 em Tt), ao passo que é de 4,82 letras nas Paulinas em geral. 30


INTRODUÇÃO Quando são ilustrados com uma riqueza de detalhes, estes fenô­ menos têm uma aparência impressionante, e os críticos da autoria paulina não têm sido lentos em tirar vantagem deles. A mais fraca e especu­ lativa das suas conclusões é que as Pastorais devem ser atribuídas ao sé­ culo II, e não pode haver dúvida que quanto a esta questão, de qualquer forma, foram além das evidências. De modo geral, deve ser quase impos­ sível, tendo em vista a pequena quantidade de literatura, e especialmente de literatura cristã, disponível, ter absoluta certeza de que esta ou aque­ la palavra ou emprego dela tem sabor de, digamos, 125 ao invés de 65. Mais especialmente, a alegação de que uma alta proporção dos “hapax legomena” pode ser achada nos Pais Apostólicos e nos Apologistas temse revelado um tiro pela culatra. Primeiramente, tem sido demonstrado que quase exatamente a mesma proporção dos “hapaxes” a serem acha­ dos, por exemplo, numa Epístola tão indubitável quanto 1 Coríntios ocorrem nestes mesmíssimos escritores. Em segundo lugar, a proporção em epígrafe, 93 entre 175 (a julgar pelas cifras de Harrison), dificilmente sugere, mesmo sendo aceita sem críticas, que o vocabulário do autor era distintivamente do século II. Em terceiro lugar, e de modo mais de­ vastador, tem sido indicado que quase todos os “hapaxes” nas Pastorais (nesta estimativa, 153 entre 175) estavam sendo usados por escritores gregos antes de 50 d.C. Claramente nada há no vocabulário por si só que exige uma data do século II para as cartas. O que se diz, portanto, da conclusão principal dos críticos, viz., que as discrepâncias entre as Pastorais e as outras cartas são inconsisten­ tes com a idéia daquelas serem a obra de Paulo? Os estudiosos conser­ vadores freqüentemente têm procurado contestá-la por meio de argu­ mentar que, se a abordagem estatística deve ser bem-sucedida, o corpo de matéria a ser examinado deve ser muito mais extenso do que todas as três Pastorais tomadas em conjunto. Hoje em dia, este argumento foi despojado da sua força pelo desenvolvimento de técnicas cujos re­ sultados são absolutamente fidedignos. A homogeneidade das Pastorais umas com as outras, e sua falta de homogeneidade com as demais Paulinas deve ser considerada um fato estabelecido. Embora isto deva ser livremente reconhecido, no entanto, não se pode insistir de modo forte demais que a inferência de que o Apóstolo não pode, portanto, ser o au­ tor delas, não se segue necessariamente. Duas linhas de argumento po­ dem ser propostas para apoiar esta última declaração. Primeiramente, embora a diferença da autoria claramente seja uma explicação possível das divergências estilísticas entre dois grupos de es­ critos, não é, de modo algum, a única possível, e o crítico é justificado

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EPISTOLAS PASTORAIS em concentrai-se exclusivamente nela somente se boa parte das demais evidências convergem na mesma direção. Se considerações importantes favorecem a identidade da autoria, o crítico está obrigado a inquirir quanto à existência doutras explicações que talvez esclareçam as discrepâncias. No presente caso, em que há indicadores específicos da auto­ ria paulina, várias explicações podem ser sugeridas. Por exemplo, as Pastorais são de um gênero de epístola totalmente diferente do restante da coletânea paulina; tratam de uma situação inteiramente nova, e abor­ dam assuntos, tais como a organização eclesiástica e as qualidades dese­ jáveis nos ministros, que Paulo não tinha tratado diretamente antes. Por causa disto, devemos esperar de antemão uma atmosfera diferente nas Pastorais. Além disto, o fato de que Paulo tinha vivido no ocidente du­ rante muitos anos, enfrentando novas formas da adoração e propagan­ da pagãs, e provavelmente conversando muito em Latim, também pode ter tido um impacto no seu vocabulário e estilo. Como confirmação, pode ser ressaltado que, se a linguagem das Pastorais está mais próxima do Grego helenístico cultivado do que o koinè que usualmente empre­ gava, seu estilo já estava pendendo nesta direção quando escreveu Filipenses. Finalmente, supondo-se que as Pastorais são a obra dele, o Após­ tolo era um homem muito mais velho quando foram escritas. Isto pode muito bem explicar o prosaísmo do seu estilo e a falta de fogo. Também poderia explicar, pelo menos até certo ponto, seu vocabulário relativa­ mente maior, visto que as considerações a priori e a observação sugerem que o vocabulário de um escritor aumenta com a idade e com maior experiência. A segunda linha de argumento é de maior alcance, e corta mais profundamente. Deve ser perguntado se a totalidade da abordagem lingüística não sofre de um defeito radical por tomar por certo que o Apóstolo era pessoalmente responsável por todas as frases e palavras nas suas cartas. £ absolutamente certo que empregou os serviços de um secretário para algumas delas, e é altamente provável que fizesse as­ sim para todas elas, inclusive Filemom (cf. 19). Claros indícios disto são a referência a Tércio em Rm 16:22, e sua declaração explícita nos parágrafos finais de várias cartas (1 Co 16:22; G1 6:11; Cl 4:18; 2 Ts 3: 17) que está acrescentando uma ou duas linhas de despedida de seu pró­ prio punho. De qualquer maneira sabemos que, devido ao difícil mane­ jo das matérias de escrita antigas, e a lentidão resultante do trabalho de escrever, era extremamente raro, na antigüidade, cartas do tamanho das de Paulo serem escritas pela mão do próprio remetente. Isto é geralmen­ te admitido, mas a suposição comum é quase sempre que o Apóstolo di­

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INTRODUÇÃO tava suas cartas palavra por palavra segundo o modo que é convencional hoje. As pesquisas modernas, no entanto, tomaram extremamente du­ vidosa esta suposição. Há motivo para se supor que, outra vez por cau­ sa das matérias disponíveis, o ditado era um processo muito mais lento e laborioso do que é hoje, e que, portanto, era o costume, ao invés de ditar palavra por palavra, permitir um amanuense de confiança muito mais liberdade na composição de uma carta. No caso de 2 Timóteo, tem sido indicado, se Paulo é o autor e a situação histórica aquela que é re­ presentada ali, a probabilidade de assistência secretarial extensiva é du­ plamente forte. Ele certamente não a poderia ter escrito por extenso, nem sequer ter feito um esboço detalhado, pessoalmente, pois segundo o texto era um prisioneiro em cadeias; e as outras duas, que são iguais a ela quanto ao estilo, devem ter tido sua origem da mesma maneira. Estas são considerações de grande relevância, e é surpreendente que tenham pouca ou nenhuma influência neste país. Os estudiosos na Europa continental têm estado muito mais dispostos a levá-las em conta e a reconhecer que colocam as diferenças de linguagem e de esti­ lo entre as Pastorais e as demais Paulinas numa luz inteiramente nova. É importante ficar claro quanto à exata questão em pauta, especialmen­ te porque os apoiadores da “hipótese do secretário” freqüentemente têm exagerado o argumento deles. £ altamente improvável, tendo em vista o estilo muito individual das Paulinas reconhecidas, com suas explosões de sentimento pessoal e argumentação característica, que o secretário encarregado de copiá-las recebesse em qualquer tempo livre autonomia. O amanuense que esboçou as Pastorais pode, por razões especiais, ter recebido maior medida de responsabilidade, mas também não pode ter tido liberdade completa, pois estão cheias de expressões, fraseologia, idéias, e seqüências de pensamento que relembram de maneira notável as demais cartas. Se pressupusermos, conforme seguramente devemos (nes­ tas, como em todas as demais cartas paulinas), a cooperação de um secre­ tário, devemos também inferir que estivesse em contato quase contínuo com o Apóstolo, sendo possivelmente supervisionado de tempo em tem­ po por ele, recebendo indícios e sugestões da parte dele. O que interessa é que, uma vez que é reconhecido que o processo não era de ditado pala­ vra por palavra, e que o secretário desfrutava até mesmo de um mínimo de iniciativa e responsabilidade em esboçar as cartas, toma-se infrutífero dedicar-se a comparações meticulosamente minuciosas de delicadas distinções estilísticas ou até mesmo teológicas. Se Paulo estava empregando um se­ cretário novo quando preparou as Pastorais (uma suposição plausível se Timóteo foi o secretário que o ajudou com as cartas imediatamente an33


EPÍSTOLAS PASTORAIS tenores), há amplo escopo para todas as divergências do vocabulário, tom lingüístico, estilo, e até mesmo da ênfase doutrinária, sobre as quais a atenção crítica tem-se lançado com tanto afã. Até mesmo temos o di­ reito de fazer a conjetura, à luz dos indícios que as próprias cartas forne­ cem, que este novo secretário pode ter sido um cristão judaico helenista, um homem perito na sabedoria rabínica e, ao mesmo tempo, alguém que dominava o koiné superior. 8. DUAS CONCLUSÕES PRELIMINARES As seções anteriores dão um esboço resumido daquilo que tem sido, e continua a ser, um debate imensamente intrincado. Agora está na hora de juntar os fios e procurar pronunciar um veredito. Como primeira “prestação”, duas conclusões preliminares podem ser registradas, cuja aceitação deve ajudar a reduzir as questões em aberto. Primeiramente, portanto, independentemente de qualquer decisão acerca da autoria, deve ficar claro que, seja qual for o ângulo do qual forem consideradas, as Pastorais têm muito mais probabilidade de terem sido escritas no século I, ou de qualquer maneira, antes de, digamos, 110, do que nalguma data bem dentro do século II. Vários estudiosos re­ centemente procuraram localizá-las entre 130 e 160 (ou até mesmo 180); alguns as colocariam no contra-ataque da igreja contra o marcionismo. A improbabilidade desta última sugestão já foi aludida, e será tratada mais no Comentário. Qualquer data muito avançada, no entanto, é di­ fícil de reconciliar com a citação freqüente por Ireneu das cartas como sendo a obra de Paulo na década dos 80 do século II, sem mencionar a virtual certeza do uso feito delas por Policarpo em c. de 135 no mais tardar. Somente poderia ser aceita se houvessem considerações abso-" lutamente esmagadoras a seu favor, e nada disto se apresenta. Não vale argumentar que Márdoni não poderia ter conhecido as cartas porque não as incluiu no seu cânon, pois nossa autoridade no assunto, Tertuliano, explicitamente declara que as rejeitou. Do outro lado, nada há de distintivamente do século Q no seu tom ou na sua linguagem, e já vimos que as heresias denunciadas ainda estão dentro da igreja e não parecem ter nada em comum com os sistemas gnósticos elaborados que estavam erguendo suas cabeças em meados do século II. Outros traços, tais co­ mo o retrato pouco lisonjeador de Timóteo, a aparente ignorância de Atos e da literatura joanina, e os indícios de que o Espírito ainda está

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INTRODUÇÃO visivelmente ativo, militam contra uma data relativamente, posterior. O argumento que resolve a questão, no entanto, é fornecido pela ordem eclesiástica que contemplam, pois a maioria das pessoas está satisfeita de que é pré-inaciana. £ relevante que os defensores de uma data muito avançada têm consciência intranqüila quanto a esta última dificuldade específica. Às vezes são forçados a argumentar ou que as cartas de Iná­ cio são espúrias, ou que a ordem eclesiástica que parecem descrever, lon­ ge de já ser estabelecida na Ásia Menor c. de 110, erâ meramente uma política ideal que um grupo minoritário estava fazendo agitação para impor a sua aceitação. Em segundo lugar, seja quem for o autor delas, as cartas parecem ser a obra de um só escritor; não há razão suficiente para duvidar da sua integridade. De vez em quando, referência tem sido feita à “hipótese dos fragmentos”, que tem desfrutado de considerável voga desde meados do século passado. De acordo com isto, as Pastorais como um todo foram compostas por um paulinista devoto, mas por um golpe de sorte este homem teve acesso a fragmentos de cartas genuínas do Apóstolo a Timóteo e Tito; trabalhou estas para fazer parte das epístolas pseudonímicas que estava preparando, a fim de lhes dar um ar de autenticidade ressaltada. £ bastante surpreendente que os apoiadores desta teoria não reconhecem como paulinas quaisquer das passagens doutrinárias alista­ das no § 6, mas, sim, confinam sua atenção quase exclusivamente às re­ ferências pessoais e locais em 2 Timóteo e Tito. Diferem largamente en­ tre si, também, quanto aos fragmentos que identificam como paulinos, e às situações na carreira do Apóstolo às quais os atribuem. Como um exemplo podemos citar a análise mais recente de P. N. Harrison,1 que é provavelmente a mais autorizada neste país (Inglaterra). Reconhece as três seguintes seções como paulinas: (1) Tt 3:12-15, que entende ter si­ do escrita a Tito da Macedônia vários meses após 2 Co 10-13 (a carta severa) e antes de 2 Co 1-9; (2) 2 Tm 4:9-15,20,21a, 22b, que, segundo sugere, foram escritos em Nicópolis depois de Tito ter mudado de lá; e (3) 2 Tm 1:16-18; 3:10-11; 4:1, 2a, 5b-8, 11-19, que descreve como sendo a “última carta” de Paulo, escrita de Roma depois da audiência preliminar do seu processo, em 62 aproximadamente. Os atrativos da “hipótese dos fragmentos” são óbvios. Os oponen­ tes da autoria paulina sempre têm ficado embaraçados pelas notas pes1. Ver Expository Times, lxvii, 1955, 80. No seu livro The Problem o f the Pastoral Epistles (1921) identificou cinco fragmentos, mas esclareceu-os de modo algo diferente.

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EPISTOLAS PASTORAIS soais, que são tão vividas e tão características de Paulo, mas que a maio­ ria das pessoas concorda ser muito improvavelmente invenções de um imitador, por mais inspirado que tenha sido. A teoria inteira, no entanto, é um emaranhado de improbabilidades, e é impossível achar um paralelo exato na literatura antiga. Por mais engenhosamente que sejam ajunta­ dos, os fragmentos não formam uma leitura como cartas reais; e se fo­ rem porções de trechos integrais maiores, o que aconteceu com o restan­ te destes? É, naturalmente, fácil, com nosso conhecimento parco dos movimentos de Paulo, propor momentos na sua carreira em que possam ser mais ou menos plausivelmente encaixados — especialmente se a pes­ soa se sentir livre para inventar situações acerca das quais não há evidên­ cia histórica, mas tudo é obra de mera conjectura, e a variedade de con­ jecturas propostas lança dúvidas sobre a idéia inteira. De qualquer ma­ neira, que razão temos nós para destacá-los do seu presente contexto? Não se pode sustentar com seriedade que estão em desarmonia estilís­ tica com seu contexto, e quanto aos assuntos, estão naturalmente coeren­ tes com eles. Outras perguntas, não totalmente capciosas, podem ser feitas, tais como: como é que tais fragmentos banais de correspondência, se alguma vez existiram avulsamente, vieram a ser conservados, e o que induziu o escritor a combinar seus fragmentos de modo tão laborioso e a esmo (e.g. o terceiro fragmento de Harrison está distribuído em três capítulos), porque não encaixou nada em 1 Timóteo, e se o procedi­ mento em epígrafe é psicologicamente atribuível a um cristão do século I ou do início do século II. Finalmente, sua ação levanta um dilema embaraçoso. Se já sabia que estes fragmentos eram paulinos, seu reapa­ recimento nestas cartas deve ter ocasionado surpresa; se não eram as­ sim conhecidos (suposição esta que dá vazão à pergunta intrigante de co­ mo, então, somente ele conseguiu obtê-los), deve ter sido muito otimis­ ta para pressupor que as pessoas imediatamente os saudassem como. garantias da autenticidade. 9. A QUESTÃO DA AUTORIA Se estas duas conclusões podem ser consideradas como sendo razoa­ velmente asseguradas, talvez seja otimismo demais esperar que a concor­ dância seja atingida com igual facilidade no que diz respeito à questão crítica principal. Certamente o problema das Pastorais permanece sendo um dos mais obstinados no Novo Testamento; às vezes fica-se tentado a

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INTRODUÇÃO inferir que a chave de ouro à situação ainda há de ser descoberta. Mesmo assim, há sinais de que em mais de um campo dos estudos do Novo Testa­ mento os estudiosos dos nossos dias não estão inteiramente contentes com todos os vereditos que a ortodoxia critica recentemente considera­ va estabelecidos. Em grande medida, isto se deve à sua apreciação aumen­ tada da complexidade da era apostólica, bem como do caráter tantálico, por ser fragmentário, do nosso conhecimento dela. Está evidente que então aconteciam muito mais coisas, no desenvolvimento das idéias e das instituições, bem como na interação entre forças das quais freqüen­ temente não temos a mínima idéia, do que aparece na superfície; em es­ pecial, nossa ignorância das condições sob as quais os primeiros escritos cristãos foram produzidos, é profunda. Paradoxalmente, um sub-produto deste ceticismo é uma disposição maior no sentido de examinar de no­ vo, não necessariamente de modo favorável, mas mais simpaticamente, as posições tradicionais que chegaram a ser consideradas fora da moda. No que diz respeito às Pastorais, a hora para semelhante reavalia­ ção parece já ter chegado há muito tempo. Três linhas de pensamento, no ponto de vista do presente escritor, merecem destaque por tomarem claro este fato. Primeiramente, a julgar por nosso exame dos aspectos que comumente são alegados como sendo incompatíveis com a autoria paulina, a força do argumento anti-paulino decerto tem sido grande­ mente exagerada. Os argumentos dos críticos variam consideravelmente na sua força, e os mais fracos indubitavelmente são aqueles que se ba­ seiam numa análise das heresias denunciadas e da organização eclesiás­ tica pressuposta. Por mais rigorosamente que a evidência for interpreta­ da, estes assuntos não são realmente inconsistentes com uma data na vi­ da do Apóstolo; e se sustentamos que esta vida se estendeu até aos mea­ dos da década dos 60, a dificuldade, se dificuldade houver, de encaixá-los desaparece inteiramente. O argumento da atmosfera teológica e das idiossincracias doutrinárias das cartas parece mais formidável à primei­ ra vista, mas aqui, mais uma vez, se a resposta dos conservadores ex­ posta no § 6 tem qualquer força, os críticos parecem ter forçado sua evidência. Não somente as discrepâncias são menores do que eles alegam, como também várias das mais importantes revelam-se, mediante inspe­ ção, representações de desenvolvimentos de idéias já presentes na cor­ respondência anterior; e de qualquer maneira é arriscado confinar o pensamento do Apóstolo dentro de um molde predeterminado, sem le­ var em conta o impacto dos tempos e circunstâncias que se alteram. O argumento baseado no estilo e do vocabulário, que muitos achavam es­ magador, também pode ser acusado de negligenciar o fator biográfico.

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EPÍSTOLAS PASTORAIS de extrema importância; mas entra em colapso completo, conforme vi­ mos, se levarmos em conta, conforme obviamente devemos, a assistên­ cia que Paulo derivava dos seus secretários em esboçar suas cartas. £ pouco surpreendente que a importância dada a isto nos círculos críti­ cos tenha diminuído visivelmente em anos recentes. Em segundo lugar, até mesmo um grau moderado de insatisfação com o argumento anti-paulino nos encoraja a levar o ataque para o ter­ ritório dos críticos. Nesta conexão, vale a pena observar que a teoria da pseudonimidade é exposta, em si mesma, a objeções de longo alcance. Entre outras coisas, nenhuma explicação adequada já foi produzida quan­ to à razão da existência de três cartas ao invés de uma, ou duas no máxi­ mo, visto que abrangem terreno quase idêntico nos três casos. Tem sido proposto que as três devam ser consideradas uma única comunicação cuja forma tríplice é um artifício literário, ou, alternativamente, que o escritor resoluto tenha decidido que sua bordada seria tanto mais eficaz se fosse dada em três salvas sucessivas; mas nenhum destes procedimen­ tos parece natural ou provável. Além disto, somente aqueles que fize­ ram a experiência podem reconhecer quão difícil é aplicar a teoria consistentemente na prática. Em todas as suas formas, a suposição é que o autor, usando o disfarce do Apóstolo, está dando conselhos a oficiais eclesiásticos contemporâneos a ele mesmo, mas sua seleção de delega­ dos apostólicos tais como Timóteo e Tito, que não tinham equivalen­ tes exatos na igreja dos fins do século I ou do começo do século II, re­ duz a aplicabilidade da mensagem. Esta aplicabilidade é ainda mais obs­ curecida pela riqueza de detalhes pessoais com que os personagens prin­ cipais são representados. Como ilustração podemos citar 2 Tm 1:5, que faz sentido excelente se for entendido que Paulo o dirigiu a Timóteo, mas que, conforme um expoente típico da teoria (F. D. Gealy), “é me­ lhor interpretado como demonstração da grande confiança e alegria do escritor nos ministros cristãos da terceira geração, e a segurança que sente no caso daqueles que, no lar, foram arraigados e fundamentados na forma recebida (paulina) do cristianismo. Não se deve dar demasia­ da confiança aos novos convertidos; trazem consigo um número dema­ siado de idéias e atitudes estranhas.” 0 único comentário necessário é que os que originalmente receberam a carta predsariam de ter aguçada finura para discernir as insinuações recônditas por detrás do significado claro e simples do texto. Prestidigitação exegética igualmente impro­ vável é exigida cada vez que as alusões pessoais não podem facilmente ser explicadas como sendo parte de um cenário artificial. Assim ficamos face a face, em terceiro lugar, com um aspecto das 38


INTRODUÇÃO Pastorais que não foi tratado diretamente por enquanto, mas que é de importância crucial em determinar sua origem. Consideradas por si mes­ mas, não oferecem uma leitura do tipo da ficção, mas, pelo contrário, dão uma impressão muito convincente de serem cartas legitimas. Parcial­ mente, esta impressão é criada pelos dados pessoais que contêm, e nos quais confia a “hipótese dos fragmentos”, informações pormenorizadas acerca do Apóstolo e dos seus cooperadores, e instruções, freqüentemen­ te triviais, aos endereçados. £ reforçada pelas passagens profundamente comoventes, mais destacadas em 2 Timóteo, mas presentes nas demais cartas também, em que parece que Paulo está falando a partir da sua profunda experiência religiosa, ou dando expressão a emoções pessoais profundas. Obtém apoio, também, dos relances ocasionais que são for­ necidos acerca de condições e acontecimentos locais em Éfeso e Creta. Exemplos disto são a menção da queda de Himeneu e Alexandre (1 Tm 1:20), as referências obscuras a “certas pessoas” que causam problemas (1 Tm 1:3, 6,18; 6:10, 21), e os indícios de que a heresia tinha um co­ lorido marcantemente judaico em Creta enquanto a organização eclesi­ ástica ali era mais embriônica. £ óbvio que aspectos como estes fornecem um argumento podero­ so em prol da autenticidade, e que são especialmente embaraçosos para qualquer teoria da pseudonimidade. Não basta procurar afastá-los, como alguns procuram fazer, com o argumento de que qualquer pessoa que fos­ se suficientemente habilidosa para projetar epístolas fictícias deve ter si­ do igualmente capaz de inventar uma situação vivencial convincente pa­ ra eles. Teoricamente, sem dúvida poderia; mas a pergunta é, em primei­ ro lugar, se nosso suposto autor pseudonímico do século I, ou do começo do século II, teria a probabilidade de possuir o toque psicológico seguro e arte consumada de introduzir, por exemplo, a nobre exortação de des­ pedida contida em 2 Tm 4:6ss., e então acrescentar a ela a fileira inteira­ mente humana e desconexa de pedidos, queixas e lembranças pessoais que enchem o parágrafo seguinte. Em segundo lugar, pode ser duvidado se o procedimento sugerido possa ser harmonizado com os motivos e ati­ tudes mentais que, se os interpretamos corretamente nas pág. 13s., subja­ ziam a prática cristã primitiva da pseudonimidade. £ uma coisa publicar sob o nome de Paulo ou dalgum outro apóstolo um tratado, seja na forma de uma carta ou dalgum outro gênero literário, que, segundo o autor sin­ ceramente acredita, expressa o ensino do grande homem, ou que ele até mesmo acredita ter sido revelado a ele pelo mesmíssimo Espírito que usou o grande homem como Seu porta-voz. £ outra coisa bem diferen­ te inventar para o tratado um arcabouço detalhado de alusões pessoais

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EPISTOLAS PASTORAIS concretas, reminiscências e mensagens, sem mencionar explosões de sen­ timento intensamente pessoal, que a pessoa sabe ser pura ficção mas que vai juntando com o objetivo de criar uma impressão de verossimi­ lhança. Conforme já foi observado, este aspecto das cartas é de importân­ cia de longo alcance. Se os críticos não o tratam com a devida justiça, uma dás razões, pode-se suspeitar, é a convicção inabalável da qual parti­ cipa a maioria deles de que a prisão registrada em Atos 28 marcou o ca­ pítulo final na carreira do Apóstolo. Sobre isto, há divergência real en­ tre os estudiosos, e, tendo em vista a falta total de evidências contempo­ râneas, isto talvez seja inevitável. Esta própria falta de evidência, no en­ tanto, deve ser uma advertência contra o dogmatismo, visto que suben­ tende que qualquer coisa como a certeza está fora de consideração. O pre­ sente autor tem procurado demonstrar (cf. § 3) que, totalmente à parte do problema, se o devido valor for dado à tradição (que num assunto como este deve ser o mais fidedigno possível) bem como às implicações das próprias Pastorais, a forte probabilidade é que um período adicional de atividade missionária, seguido por um segundo aprisonamento, defi­ nitivo, na capital, aguardavam Paulo depois dos eventos descritos em Atos. £ relevante que dois estudiosos tais como Hamack e Lietzmann, nenhum dos quais disposto a aceitar as Pastorais como sendo paulinas, estavam satisfeitos com a afirmação que as probabilidades apontavam nesta di­ reção. O efeito cumulativo destes argumentos é impressionante. Tomado em conjunção com o testemunho externo primitivo às cartas, a situação relativamente primitiva que pressupõem, e a massa de matéria convincen­ temente paulina que abrangem, inclina a balança perceptivelmente, no juí­ zo do presente escritor, a favor da teoria tradicional da autoria. Outros conceitos, naturalmente, permanecem sendo uma possibilidade, visto que estudiosos diferentes têm probabilidade de julgar as evidências de modo diferente, e nada mais do que uma conclusão provável, na natureza do ca­ so, pode ser esperada; mas reivindicaria um alto grau de probabilidade para este veredito. £ uma questão mais aberta a debate se o Apóstolo deve ser considerado pessoalmente responsável por cada palavra e frase nas Pastorais. £ possível argumentar que era mesmo, mas, se a discus­ são no § 7 teve base sólida, parece muito mais provável que, ao compor estas últimas cartas, dependia extensivamente — muito mais extensiva­ mente, provavelmente, do que no caso das suas cartas anteriores —da coo­ peração de um secretário. Mesmo assim, permanecem sendo, na subs­ tância, no espírito e na ocasião, a obra dele, e o cristão hodierno está jus40


INTRODUÇÃO tificado em supor que entesouram sua mensagem autêntica. 10. DATA E RELACIONAMENTOS MÚTUOS Se aceitamos que as Pastorais derivam de Paulo, tendo sido escritas por ele, ou diretamente, ou através de um secretário de confiança seguin­ do suas instruções, devemos colocar a composição delas no período, so­ bre o qual há pouca luz, entre sua soltura da sua primeira prisão em Ro­ ma e sua execução. Conforme é bem sabido, grande incerteza cerca a cronologia absoluta da sua vida. Segundo certo esquema largamente acei­ to, sua chegada original em Roma deve ser datada na primavera de 59, sendo a data da sua soltura, portanto, a primavera de 61. Segundo ou­ tro esquema, estes dois eventos pertencem a 61 e 63 respectivamente. O ano e as circunstâncias da sua morte são ainda mais obscuros, sendo que o único dado fidedigno é que ocorreu durante o reinado de Nero (54-68). Muitos estudiosos atuais, supondo que Paulo devesse ter sido uma das vitimas do surto anti-cristão que ocorreu após o incêndio de Ro­ ma, indicam com confiança 64, ao passo que Eusébio, no seu Chronicon, cita a data de 67. Qualquer semelhança à certeza está fora de cogitação, pois a fúria desencadeada pela tentativa cínica de Nero para achar bo­ des expiatórios não tem probabilidade de ter sido confinada à capital, ou de se ter esgotado em poucos meses. Fica claro, no entanto, que con­ forme quase qualquer cálculo ficamos com uma lacuna de dois ou três anos, no mínimo, em nossas datas terminais. Infelizmente, a escuridão quase completa envolve os movimentos do Apóstolo neste período. Realmente, à parte da tradição da sua via­ gem à Espanha, as únicas informações à nossa disposição são aquelas que podem ser colhidas das próprias Pastorais, e estas são bastante es­ cassas. Que 1 Timóteo foi escrita na Macedônia, i.é, a parte do nordes­ te da parte continental da Grécia, emerge de 1 Tm 1:3. Uma estadia ah está plenamente de acordo com aquilo que era de se esperar, pois a igreja de Filipos, com a qual tinha vínculos de tanta afeição, ficava na Mace­ dônia. Sua linguagem não subentende necessariamente que ele fora para lá diretamente de Éfeso, e alguns argumentaram que ele muito possivel­ mente pode ter chegado lá proveniente do ocidente, tendo talvez par­ tido para a Espanha imediatamente após a sua soltura. Esta suposição é perfeitamente possível, conforme será demonstrado no Comentário, mas, de modo geral, é menos aceitável. No que diz respeito a Tito, tudo

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EPISTOLAS PASTORAIS quanto podemos obter da carta à guisa de informação é que o Apóstolo deve ter levado a efeito uma viagem missionária extensiva em Creta du­ rante estes anos, e que quando esboçou a carta estava planejando passar o inverno em Nicópolis (presumivelmente a cidade com este nome no Êpiro). Somente 2 Timóteo dá informações realmente explícitas, pois representa-o como prisioneiro (pela segunda vez,- conforme acreditamos) na capital na ocasião de escrever, ao passo que a impressão clara deixada por 2 Tm 4:13ss. é que Trôade, Mileto, e Corinto foram os lugares que visitara mais recentemente antes da sua detenção. Estes dados espalhados dão uma colheita decepcionante. Seria mara­ vilhosamente satisfatório se pudéssemos tecê-los juntos para formar um esquema coerente que nos capacitaria a seguir o Apóstolo nas suas viagem pela Europa e pela Ásia Menor, e atribuir às suas três cartas datas, lugares, e situações bem definidos e razoavelmente bem apoiadas. Os estudiosos produziram certo número de reconstruções engenhosas, mas a matéria que têm como base de trabalho é tão fragmentária e tão desnorteante na difi­ culdade de juntá-la num quadro só, que talvez imo se possa confiar em qualquer delas. Deve ser lembrado que provavelmente temos vários anos para colocar em jogo, e que não temos meios de averiguar se Paulo partiu para a Espanha imediatamtne após a sua soltura, conforme é a suposição geral, ou se primeiramente dirigiu-se à Ásia Menor, que as Epístolas do Cativeiro parecem representar como sendo sua intenção. Os únicos resul­ tados assegurados são, primeiramente, que estava na Macedônia quando escreveu 1 Timóteo, e, em segundo lugar, que 2 Timóteo, remetida da sua prisão em Roma, deve ser a última das três cartas. Sua composição po­ de ser plausivelmente atribuída a 63 ou a 65/6, conforme o esquema cro­ nológico adotado. Além disto, não temos certeza alguma de onde Paulo estava quando escreveu Tito, nem de se antecedeu ou seguiu 1 Timóteo. A saudação com duas partes em 1:4, em contraste com a fórmula com três partes nas duas outras, tem sugerido para alguns, e aquilo que con­ sideram o estado mais primitivo do ministério subentendido tem sugeri­ do para outros, que deve ser a mais antiga do grupo, ao passo que ainda outros têm argumentado que deve ser posterior a 1 Timóteo, ou pela razão de parecer um resumo, quase uma repetição desta, ou na base da sua reconstrução dos movimentos de Paulo. Todas estas teorias são in­ teressantes, mas não convencem; para sermos honestos, devemos con­ fessar que, embora estas referências pessoais provavelmente sempre nos intrigarão e nos fascinarão, não nos oferecem quase nada para segurar­ mos com firmeza. Se uma conjetura puder ser arriscada, parece prová­ vel, tendo em vista o fato de que 1 Timóteo e Tito repassam quase 0 mes42


INTRODUÇÃO mo terreno em linguagem muito semelhante, que estas duas cartas, de qualquer forma, foram escritas com pouco lapso de tempo entre elas.

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BIBLIOGRAFIA SELETA

COMENTÁRIOS CLÁSSICOS Muita exegese valiosa ainda pode ser achada nas 34 Homílias de João Crisóstomo sobre as Pastorais (PG, lxii), e nos comentários de Teodoro de Mopsuéstia (ed. H. B. Swete), de Ambrosiastro (PL, xvii), de Jerônimo (PL, xxvi: somente sobre Tito), de Pelágio (PL, xxx: tam­ bém ed. A. Souter), de J. Calvino, de Guilaume Van Est (Éstio), de Dom Calmet, e de J. A. Bengel. EDIÇÕES C. K. Barrett, The Btstoral Epistles (New Clarendon Bible, Oxford, 1963). J. H. Bernard, The Pastoral Epistles (Cambridge Greek Testament, Cam­ bridge, 1899). M. Dibelius, Die Pastomlbriefe (Handbuch zum Neue Testament. 3a. ed., revisada por H. Conzelmann, Tübingen, 195S). B. S. Easton, The Pastoral Epistles (Londres, 1948). F. D. Gealy, The First and Second Epistles to Timothy and the Epistle to Titus (The Inteipieter’s Bible, 11, Nova York, 1955). D. Guthrie, The Pastoral Epistles (Londres, 1957). J. Jeremias, Die Briefe an Timotheus und Titus (Das Neue Testament Deutsch, 6a edição, Göttingen, 1953). W. Lock, A Criticai and Exegetical Commentary on the Pastoral Epistles (The International Critical Commentary, Edimburgo, 1924). R. St. John Parry, The Pastoral Epistles (Cambridge, 1920). E. F. Scott, The Pastoral Epistles (The Moffatt New Testament Com­ mentary. Londres, 1936). E. K. Simpson, The Pastoral Epistles (Londres, 1954). C. Spicq, Saint Paul: les Épitres pastorales (Études Bibliques, 3a ed., Paris, 1947).

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ESTUDOS, ETC. K. Aland, “The Problem of Anonymity and Pseudonymity in Christian Literature of the First Two Centuries” (Journal of Theological Stu­ dies, NS. xii, 1961). H. von Campenhausen, “Polykarp von Smyrna and die Pastoralbriefe” (Sitzungsberichte der Heidelberger Akademie, 1951); Kirchliches Am t und geistliche Vollmacht in den ersten drei Jahrhunderten (Tübingen, 1953). D. Daube, “The Laying on of Hands” {The New Testament and Rabbi­ nic Judaism, Londres, 1956). P. Feine, Einleitung in das Neue Testament (9a ed. revisada por J. Behm, Lipsia, 1950). (revisão por W. G. Kümmel, publicada por Edições Paulinas, São Paulo, 1981). K. Grayston e G. Herdan, ‘The Authorship of the Pastorals in the Light of Linguistic Statistics” (New Testament Studies, vi, 1959). D. Guthrie, The Pastoral Epistles and the Mind o f Paul (Londres, 1956); “The Development of the Idea of Canonical Pseudepigrapha in New Testament Criticism” ( Vox Evangélica, i, Londres, 1962). P. N. Harrison, The Problem o f the Pastoral Epistles (Londres, 1921); “The Authorship of the Pastoral Epistles” (Expository Times, Ixvii, 1955). F. R. Montgomery Hitchcock, “Tests for the Pastorals” (Journal of Theological Studies, xxx, 1929); “Philo and the Pastorals” (Hermathern, lvi, 1940). G. Kittel, “Die genealogiai der Pastoralbriefe” (Zietschrift für Neutestamentliche Wissenschaft, xx, 1921). G. Kittel e G. Friedrich, Theologisches Wörterbuch zum Neue Testa­ ment (esp. artigos sobre genealogia, gnosis, diakonos, episkopos, muthos, pistis, presbuteros, spendomai). W. Lütgert, Die Irrlehrer der Pastoralbriéfe (Gütersloh, 1909). C. Maurer, “Eine Textvaiiante klärt die Enstehung der Pastoralbriefe auf” (Theologische Zeitschrift, iii, 1947). B. M. Metzger, “A Reconsideration of Certain Arguments against the Pau­ line Authorship of the Pastoral Epistles” (Expository Times, lxx,

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1958). W. Michaelis, “Pastoralbriefe un Wortstatistik” (Zeitschrift für dieNeutestamentliche Wissenschaft, xxviii, 1929); Pastoralbriefe und Gefan­ genschaftsbriefe (Gütersloh, 1930); Einleitung in das Neue Testa­ ment (2a. ed., Berna, 1954). O. Michel, “Grundfragen der Pastoralbriefe” {Auf dem Grund der Apos­ tel und Propheten: Festschrift für D. T. Wurm, Stuttgart, 1948). J. Moffatt, The HistoricalNew Testament (Edimburgo, Í901). R. Morgenthaler, Statistik des Neutestamentlichen Wortschatzes (Franfurt a. M., 1958). 0. Roller, Das Formula' der paulischen Briefe (Stuttgart, 1933). C. Spicq, ‘Tastorales (Ëpitres)” (Supplément au Dictionnaire de la Bible, Fase. 36. Paris, 1961). H. Windisch, “Zur Christologie der Pastoralbriefe” (Zeitschrift für die Neutestamentliche Wissenschaft, xxxiv, 1935).

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A PRIMEIRA EPISTOLA

A TIMÓTEO 1. ENDEREÇO E SAUDAÇÃO. 1:1-2 As cartas gregas antigas tinham fórmulas padronizadas de abertu­ ra que consistiam no nome do remetente, o nome do endereçado, e uma breve saudação — usualmente apenas “Saudações.” Paulo, embora se conformasse' com este padrão, introduz modificações relevantes dele pró­ prio. Escreve, por exemplo, na primeira pessoa, tende a passar algum tempo falando da posição dele mesmo e dos seus correspondentes co­ mo sendo cristãos, e dá aos bons desejos, usualmente sem colorido, um conteúdo especificamente cristão. Sua fórmula revisada desenvolveu-se no decurso dos anos; conforme aparece nas Pastorais, ainda está pas­ sando por desenvolvimento, mas ao mesmo tempo reflete fielmente as etapas que atingira na sua correspondência anterior. 1. Seguindo sua praxe regular desde Gálatas (excetuando em Filipenses e Filemom, onde não tinha preocupação em apelar para a sua autoridade) Paulo começa com a lembrança de que é apóstolo de Cristo Jesus. Com isso quer dizer que não é mero representante de uma igreja local (para “apóstolo” usado neste sentido, cf. 2 Co 8:23; Fp 2:25), mas, sim, o embaixador do Senhor, pessoalmente escolhido por Ele, en­ carregado de testificar da Sua ressurreição e proclamar o Seu evangelho. Esta insistência é importante aos seus olhos por acrescentar peso à sua mensagem. Tem sido questionado se um colega leal tal qual Timóteo piedsaria de tais lembranças, mas têm razão de ser se a carta foi escrita ten­ do em vista sua leitura pública diante da congregação em Êfeso, onde havia muitas pessoas que não o queriam bem. O direito de Paulo ao título tem sido frequentemente contesta­ do, mas aqui, como noutros lugares (e.g. Rm 1:1 e 5; G1 1:1) declara que lhe foi dado divinamente; fora pelo mandato de Deus, nosso Sal­ vador, e de Cristo Jesus, nossa esperança. Usualmente, refere sua posi-

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I TIMÓTEO 1:2 ção apostólica à “vontade” de Deus (1 Co 1:1; 2 Co 1:1; Ef 1:1; Cl 1:1; 2 Tm 1:1), mas sua linguagem aqui é mais enfática. “Mandato” (Gr. epitagê) conota uma ordem, e é freqüentemente usada de mandamentos reais que devem ser obedecidos. Transmite vividamente a consciência de Paulo de que, longe de ser apenas um privilégio, o apostolado envolve res­ ponsabilidade; o apóstolo é um homem sujeito às ordens de Deus. A comissão viera a ele, presumivelmente na ocasião da sua conver­ são, da parte de Deus e Cristo, entre cujas ações não faz distinção. A des­ crição de Deus como Salvador é característica das Pastorais (1 Tm 2:3; 4:10; Tt 1:3; 2:10; 3:4) e fora delas é achada no N.T. somente em Lc 1:47 e Jd 25. Nas raras ocasiões em que Paulo emprega o termo alhures (Fp 3:20; Ef 5:23; 2 Tm 1:10; Tt 3:16), aplica-o a Cristo (ver nota sobre 2 Tm 1:10). O A.T. forneceu precedentes abundantes para chamar Deus de “nosso Salvador” ou “meu Salvador” (e.g. SI 25:5; 27:1, 9; Hc 3:18; Is 12:2; Eclo. 51:1), e o uso feito por Paulo aqui está claramente basea­ do na prática devocional judaica. Não há, portanto, nenhuma necessi­ dade de considerá-lo uma correção cristã do crescente costume de saudar 0 imperador como salvador. A expressão inteira, conforme Cristo Jesus, nossa esperança confir­ ma, tem uma orientação escatológica. Deus é nosso Salvador porque, na vinda de Jesus, inaugurou um processo de redenção que consumará para Seus escolhidos no último dia. Cristo é nossa esperança (a) de um modo geral, porque nEle colocamos nossas esperanças (cf. Cl 1:27: “Cristo em vós, a esperança da glória”), e (b) mais precisamente, porque ansiosamen­ te antegozamos Sua “manifestação” (1 Tm 6:14), quando a salvação da qual desfrutamos um antegozo será outorgada em plena medida. 2. Ao chamar Timóteo de verdadeiro filho (o substantivo grego é íntimo: teknori) na fé Paulo está ressaltando seu relacionamento de con­ fiança e afeição, e também, provavelmente, está relembrando que ele mesmo convertera e ordenara (2 Tm 1:6) seu jovem colega. Sobre seu encontro e cooperação, ver a Introdução, pág. 9 . A implicação de ver­ dadeiro (lit. “legítimo,” “nascido de um casamento lícito”) é que nada há de espúrio no cristianismo deste último. Por na fé Paulo não quer di­ zer “dentro da fé”, que daria um sentido demasiadamente concreto. A força da expressão pode ser instrumental, “pela fé,” enfatizando que é como resultado da sua fé que Timóteo é o filho espiritual de Paulo: cf. 1 Co 4:15. Ou pode denotar a esfera do seu relacionamento, e neste ca­ so 1 Co 4:17 (“meu filho amado e fiel no Senhor”) fornece um paralelo. Fora das Pastorais, a saudação regular de Paulo é “graça a vós e paz. . .” Aqui e em 2 Tm 1:2 encaixa misericórdia e, provavelmente por

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I TIMÓTEO 1:3-11 causa do ritmo, exclui “a ti.” “Graça” (Gr. charis) é uma versão cristia­ nizada da palavra pagã “Saudações” (Gr. chairein). “Paz,” do outro lado, era a saudação judaica usual, e há evidência (Tob. 7:12 no texto S; 2 Bar. lxxviii. 2) de uma bênção judaica “misericórdia e paz,” que o próprio Paulo adapta emG1.6:16. Seu emprego, aqui e em 2 Tm l:2(em nenhum outro lugar) de uma saudação judaica, revisada num sentido cristão, é provavelmente deliberado, e indica o pano de fundo mútuo de pensa­ mento e linguagem que, como judeus, ele e Timóteo tinham em comum. Paulo escreve da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor em lugar da sua expressão costumária “de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo.” £ um erro considerar que esta mudança e as demais men­ cionadas supra denunciam que o parágrafo não é da parte dele. A infe­ rência contrária é mais plausível, pois um imitador teria tomado o cui­ dado de modelar suas saudações exatamente segundo a fórmula nas car­ tas que tinha diante dele. 2. UMA ADVERTÊNCIA CONTRA FALSOS MESTRES. 1:3-11. Esta passagem imediatamente levanta a questão dos movimentos recentes de Paulo. Conforme a interpretação usual, ele mesmo estava trabalhando lado a lado com Timóteo em Éfeso, e tendo deixado a cida­ de, agora está repetindo, de modo formal e oficial, a essência das instru­ ções que anteriormente lhe dera verbalmente. Para muitos, tem parecido incrível que ele tivesse feito assim, especialmente porque sua comunica­ ção verbal deve ter sido mais pormenorizada e impressionante. Indica­ ram, portanto, que a linguagem do Apóstolo não requer, rigorosamente falando, que Éfeso tenha sido seu ponto de partida, mas, sim, é consis­ tente com sua viagem para a Macedônia a partir de, e.g., o ocidente, sen­ do que suas instruções originais tomaram a forma de notas resumidas às quais agora está acrescentando pormenores. Semelhante viagem, argu­ mentam eles, está mais de conformidade; com 3:14 e 4:13, onde o Após­ tolo fala em ir (não voltar) a Éfeso. Embora não seja de modo algum impossível, esta reconstrução dos eventos é, no cômputo geral, menos provável do que aquela que geral­ mente se aceita. Não há menção de instruções escritas em 3, e a inter­ pretação mais natural deste versículo é que Paulo as dera pessoalmente a Timóteo. Obtemos também« a impressão de que Paulo tem conheci­ mento em primeira mão da situação e das personalidades em Éfeso. De qualquer maneira, os que apóiam esta segunda reconstrução exageram

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I TIMÓTEO 1:3 as dificuldades do ponto de vista comum, olvidando não somente o cará­ ter oficial da carta como também os motivos de Paulo em escrevê-la. Es­ pera que seja lida publicamente em Éfeso, e provavelmente noutras loca­ lidades do distrito em derredor também, e depois, que seja preservada nos arquivos da igreja. Seleciona para a repetição, portanto, aspectos da sua instrução original que considera úteis para o aproveitamento geral. Ao mesmo tempo, visto que está ansioso por fortalecer a autoridade de Timóteo, adapta o tom inteiro da carta com este fim em mira. , 3. No original, a primeira frase começa: “Como te roguei. . .” que é um anacoluto desajeitado, conforme não é infreqüente com Paulo (e.g. Rm 2:17ss; 5:12ss.; 9:22ss.), sendo que seu pensamento corre na frente de modo tão precipitado que passa para uma segunda frase antes de completar devidamente a primeira. Nada sabemos acerca da viagem referida em Quando eu estava de viagem, rumo da Macedônia (i.é, a província romana com este nome, que abrangia a parte setentrional da Grécia, e que incluía Filipos, Tessalônica, e Beréia entre suas cidades principais), a não ser que não pode ser encaixada na carreira de Paulo conforme a conhecemos com base em Atos e nas cartas anteriores. Como os demais eventos imediatamente contemplados nas Pastorais, deve pertencer ao período obscuro sub­ seqüente à sua soltura da primeira prisão em Roma. Ver a Introdução, págs. 14-18. Éfeso era a cidade principal da Ásia Menor, a sede do gover­ nador da província e um centro religioso de grande importância. Podia jactar-se do famoso templo de Ártemis ou Diana (At 19:23ss.), e o novo culto estava fortemente estabelecido ali. A fundação da sua comunida­ de cristã pode ser atribuída a Áqüila e Priscila, aos quais Paulo deixou em Éfeso quando passava apressadamente por ali no seu caminho para Cesaréia (At 18:19), mas ele mesmo trabalhou ali por bem mais de dois anos (At 20:31). Não menos por causa do sistema de comunicações, que irradiava dali, a cidade era um ponto-chave na estratégia da igreja, e facilmente entendemos o afã de Paulo no sentido de ter um homem da sua confiança colocado ali como líder. Há uma sugestão no verbo permanecer (Gr. prosmeimí) que Timóteo tivesse desejado uma mudan­ ça; daí a insistência do Apóstolo de que sua continuada presença é indis­ pensável. A comissão de Timóteo é imediatamente definida; é para admoes­ tares a certas pessoas a fim de que não ensinem outra doutrina. Noutras palavras, deve tomar posição firme contra a disseminação de ensinos er­ rôneos. O verbo traduzido admoestar (Gr. paraggelleiri) é um termo mi­ litar que significa “dar ordens rigorosas”. A posição de Timóteo, nota­ 50


I TIMÓTEO 1:4 mos, é de autoridade; é nada menos do que um delegado apostólico, e, como tal, pode se dar o luxo de assumir uma linha dura. Visto que a carta é semi-pública, a identidade dos principais mestres do erro não é revelada. Como em 1:6, 19;6:10, 21 (cf. 1 Co 4:18; 2 Co 10:2;G11:7; Fp 1:15), são referidos, de modo vago porém com mau presságio, como certas pessoas, mas podemos ter certeza de que havia pouca dúvida na mente de Timóteo ou da congregação em geral, quanto à identidade deles. 4. O falso ensino é descrito primeiramente em termos gerais como sendo “novidades”: o verbo (Gr. heterodidaskalein), cunhado pelo Após­ tolo (ou pelo seu secretário), literalmente significa “ensinar uma doutri­ na diferente,” i.é, diferente daquela de Paulo, e sugere que há uma norma aceita para o ensino apostólico. Passa, depois, a ser definido mais espe­ cificamente como fábulas e genealogias sem fim. Estas palavras chegam quase a revelar o conteúdo da heresia, mas a interpretação delas está longe de ser clara. Muitos comentaristas modernos, seguindo Irineu e Tertuliano (que supunham que o Apóstolo estava refutando Valentino de antemão), explicam-nas como sendo uma referência ao gnosticismo do tipo plenamente desenvolvido que florescia em meados do século II. Por fábulas entendem os mitos elaborados através dos quais os pensado­ res gnósticos procuravam solucionar o problema do mal, e por genealo­ gias as famílias de emanações, ou eões, em ordem descendente, mediante as quais ligavam o abismo entre o Deus supremo, que não pode ser conhe­ cido, e a ordem material. Contra isto devemos notar: (a) que os sistemas gnósticos de eões nunca, pelo que saibamos, foram chamados de genealo­ gias; (b) que se o escritor os tivesse em mente, teríamos esperado que tivesse entrado mais plenamente no conteúdo deles ao invés de satisfa­ zer-se com uma alusão passageira com pouca precisão; (c) que também deveríamos ter esperado uma crítica muito mais contundente e de maior alcance do que aquela que diz que encorajam especulações ociosas e con­ tendas; e (d) que as fábulas são expressamente rotuladas de judaicas” em Tt 1: 14, ao passo que em Tt 3:9 as “genealogias” são mencionadas juntamente com os “debates sobre a lei.” A implicação clara desta última alusão é que o pano de fundo do falso ensino era judaico. Tem sido sugerido, portanto, que as fábulas e genealogias devem ter tido algo a ver com as interpretações alegóricas ou lendárias do A.T., centralizando-se nas árvores genealógicas dos pa­ triarcas. Boa parte da Hagadá rabínica consistia exatamente neste tipo de reescrever as Escrituras de modo imaginativo; o Livro dos Jubileus e o Liber antiquitatum biblicarum do Pseudo-Filo, com sua mania de 51


I TIMÓTEO 1:4 árvores genealógicas, são exemplos aplicáveis. Tem sido demonstrado, também, que no judaísmo pós-exílico havia um interesse intenso pelas árvores genealógicas, e que estas desempenhavam um papel nas contro­ vérsias entre os judeus e os cristãos judaicos. Visto nesta luz, os mestres do erro são judaizantes que se concentram em minúcias forçadas da exe­ gese rabínica, em detrimento ao evangelho. Nenhuma interpretação, no entanto, pode ser inteiramente satis­ fatória se deixar de reconhecer ique a heresia não era exclusivamente judaica ou gnóstica, mas, sim, uma mistura das duas. A própria fórmula fábulas e genealogias, que tinha sido um chavão grego desde os tempos de Platão, confirma seu caráter sincretista. No presente contexto prova­ velmente denota as especulações gnósticas baseadas no A.T., e Jeremias pode ter razão em vinculá-las, no que diz respeito às fábulas, com a histó­ ria da criação. Do outro lado, parece provável que as duas palavras de­ vam ser tomadas em estreita conexão entre si, sendo que a última define a primeira, e que por genealogias Paulo queira dizer “árvores genealógi­ cas” no sentido rigoroso. Na sua descrição da seita gnóstica conhecida como os ofitas (/fizer. i. 30, 9), Irineu dá um exemplo interessante de co­ mo as árvores genealógicas em Gênesis podiam ser trabalhadas até forma­ rem mitos, e é possível que Paulo tivesse em mente algo deste tipo. Pare­ ce infrutífero, no entanto, tendo em vista a completa falta de evidência, procurar definir sua referência com mais precisão. Tudo quanto pode­ mos inferir do seu tom geral é que estes esforços judaicos gnósticos de fazer exegese não tinham o alcance cosmológico ou implicações cristológicas de, por exemplo, a heresia colossense; as idéias por detrás deles eram provavelmente mais simples e mais elementares. Mesmo assim, Paulo não está satisfeito com o modo dos mestres do erro tratarem o A.T., que, no conceito dele, somente leva a especula­ ções vãs. A palavra tem um som pejorativo, mas ao usá-la, não está ne­ gando, conforme os críticos às vezes supõem, o direito do cristão, e seu dever, de refletir a respeito da sua fé. Pelo contrário, está condenando a massa de pseudo-problemas que a exegese dos heréticos engendra. A finalidade real do estudo bíblico deve ser uma apreensão do “plano salvífico de Deus” (tradução do autor). O substantivo grego assim traduzi­ do (oikonomian: melhor atestado do que oikodomén, i.é, “edificação”) originalmente conota a gerênda (“serviço,” ARA) de um lar ou de uma casa, mas com Paulo refere-se ou ao propósito redentor realizado na his­ tória (Ef 1:10; 3:9), ou à responsabilidade, ou mordomia, que Deus confia aos Seus delegados escolhidos para zelar pela sua realização (1 Co 9:17; Cl 1:25; Ef 3:2). Se este último sentido se aplica aqui, Paulo está 52


/ TIMÓTEO 1:5 querendo dizer que a exegese dos mestres do erra deixa de promover o desempenho fiel do serviço de Deus. O primeiro sentido, no entanto, parece preferível, visto que faz um contraste mais eficaz com as fanta­ sias puramente imaginárias das quais as cabeças dos falsos mestres estão repletas. Se isto for correto, o plano divino “opera pela fé” no sentido de que é apreendido, e assim se toma eficaz, mediante a fé da parte da­ queles que aceitam a Cristo. 5. O intuito último da admoestação de Paulo, assim como ocorre em toda a pregação moral cristã, não é meramente negativo. Se seu propósito inicial é frear o erro, tem o alvo adicional, mais positivo, de estabelecer o amor na congregação de Éfeso em lugar do espírito da contenda que os mestres do erro semearam ali. Esta mútua caridade somente pode brotar de coração puro e de consciência boa e de fé sem hipocrisia. A menção que Paulo fez de um coração puro relembra a sexta Bem-aventurança, bem como numerosas passagens do A.T. (e.g. Gn 20; 5-6; Jó 11:13; SI 24:4; 51:10) em que a pureza de coração é aplaudida. Na Escritura, o coração é o centro e a fonte da totalidade da atividade mental e moral do homem; se ali faltar pureza, obviamente não pode irradiar o amor cristão. Nem pode assim fazer a não ser que sua consci­ ência seja boa, i.é, não somente livre de auto-repreensão como também orientada pelo Espírito Santo. Precisa, também, de uma fé em Cristo que não envolve fingimento mas, sim, expressa-se em aceitação positiva da Sua maneira de viver (cf. G1 5:6 “a fé que atua pelo amor”). Tem sido objetado que Paulo nunca poderia ter qualificado a fé como sendo sem hipocrisia, pois não pode haver questão de insinceridade no relaciona­ mento direto entre a alma e Deus. Isto, porém, é tirar uma distinção de­ licada demais; Paulo pode falar (Rm 12:9; 2 Co 6:6) de “amor sincero,” a despeito do fato de que amor que é insincero não é mais amor do que a fé insincera seja o artigo genuíno. A idéia é que, embora a própria fé em si não possa ser insincera, é possível que alguém engane a si mesmo ou aos outros no sentido de possuí-la. “Consciência” (Gr. suneidêsis) ocorre duas, ou talvez três vezes na LXX; no N.T., à parte de Jo 8:9 (assim na maioria dos MSS), Hebreus, e 1 Pedro, é achada somente nas cartas paulinas e em discursos atribuídos a Paulo (At 23:1; 24:16). O termo, e a idéia por detrás dele, eram popu­ lares entre os estóicos, e também com Filo; parece que Paulo o tomou emprestado do seu meio-ambiente gentio. Seu significado básico é a per­ cepção interior que o homem tem da qualidade moral das suas próprias ações (e.g. Rm 2:15; 9:1; 2 Co 1:12), mas a consciência também pode 53


I TIMÓTEO 1:6 fazer pronunciamentos sobre as ações doutras pessoas (1 Co 10:28-29; 2 Co 4:2; 5:11). Passagens tais como Rm 13:5 e 1 Co 8:10 sugerem que Paulo pensava nela como sendo um guia para a vida, e fica claro em 1 Co 8:7-12 que reconhecia que podia ser imperfeitamente informada. Nas Pastorais, aprofunda a noção. Áo falar da consciência de here­ ges rebeldes como sendo “cauterizada” ou “ferreteada” (1 Tm 4:2) ou “corrompida” (Tt 1:15), descreve a dos cristãos fiéis como sendo “boa” (1 Tm 1:15, 19)ou “pura” (l Tm3:9;2Tm 1:3). Nas passagens em Atos registra-se que refere à sua própria consciência como sendo “boa” ou “pura”; cf. também Hb 9:14; 10: 22; 13:18; 1 Pe 3:16, 21. Há pou­ ca evidência para este uso na literatura grega do século I, embora Filo (De spec. leg. i. 203) tem a expressão “de uma consciência pura.” A ocor­ rência do equivalente em Latim (bom, al mala, conscientia) erá muito mais freqüente em escritores tais como Cícero e Sêneca, e alguns detec­ taram aqui a influência crescente de idéias e expressões idiomáticas oci­ dentais sobre o Apóstolo nos seus anos posteriores. Primariamente, uma consciência boa ou pura é uma que está livre de sentimentos de culpa. Nos escritores cristãos, no entanto, contém também implicações de maior alcance. A consciência está estreitamente vinculada com a fé, visto que pelo batismo o cristão recebeu perdão pelos seus pecados, e pelo influ­ xo do Espírito Santo passa por aquela “renovação da mente” que o ca­ pacita a “experimentar qual seja a . . . vontade de Deus” (Rm 12:2), além de colocá-la em prática. Destarte, em Rm 9:1, Paulo protesta que sua consciência lhe dá testemunho “no Espírito Santo”, i.é, o Espírito é o princípio que a informa e inspira. Seu uso de “uma boa consciência” nas Pastorais, com a sugestão de que faz parte da dotação do homem de fé e que não pode ser possuída por alguém que não tem fé verdadeira, é apenas a extensão lógica deste conceito subjacente. 6. É por desviar-se destas coisas, destas qualidades indispensáveis, que os falsos mestres, na opinião de Paulo, perderam-se do caminho cer­ to, e acabaram chegando àquilo que nada mais é do que uma massa de loquacidade frívola. O primeiro destes verbos (Gr. astochein: cf. 6:21; 2 Tm 2:18) pode ter o sentido mais positivo de “deixar de visar,” con­ forme é sugerido pela descrição do caráter dos mestres do erro em 6:3-5; cf. Eclo. 8:9. É característico de Paulo nas Pastorais (6:20; 2 Tm 2:16; Tt 1:10) considerar os ensinos deles como loquacidade frívola (Gr. mataiologia aqui). Estas duas palavras ocorrem somente nas Pastorais (embora para esta última cf. Rm 1:21), ao passo que “perder-se” (Gr. ektrepesthai) ocorre somente nelas (5:15; 6:20; 2 Tm 4:4) e em Hb 12:13, Todas as três pertencem ao koirtê superior, e ilustram sua influência sobre estas 54


I TIMÓTEO 1:7-10 cartas. 7. O caráter judaico do falso ensino, e também provavelmente sua preocupação com a exegese das Escrituras, ressaltam-se na declara­ ção de que seus expoentes desejam ser mestres da lei. Este é um título honroso no N.T., e em At 5:34 é aplicado a Gamaliel. Paulo o joga de volta contra eles com ironia, pois no seu modo de ver, o uso que fizeram dos seus métodos exegéticos mal-orientados comprova que não compre­ endem, todavia, nem o que dizem, nem os assuntos sobre os quais fazem ousadas asseverações. Não é que sejam judaizantes do tipo, por exem­ plo, atacado em Gálatas, que desejam impor sobre os cristãos a plena lei cerimonial. O que fazem é extrair da lei, i.é, a porção legal do A.T., mitos fantásticos e preceitos ascéticos (cf. 4:3) que serve para demons­ trar que não perceberam a lição do próprio A.T. nem do evangelho. 8-10. Isto leva o Apóstolo a uma digressão característica acerca do lugar e da função da lei. O tom de desprezo da sua referência aos mestres da lei pode dar a impressão de refletir desfavoravelmente con­ tra a própria lei. Destarde, apressa-se a assegurar Timóteo, e aqueles diante dos quais a carta deve ser lida, que naturalemente “Nós”, i.é, os cristãos bem-informados, sabemos que a lei é boa (para a fórmula con­ cessiva “estamos bem conscientes. . .” cf. Rm 2:2; 3:19; 8:28; 1 Co 8:1, 4; 2 Co 5:1), se alguém dela se utiliza de modo legitimo. Seu argumen­ to é que os cristãos que aceitaram o evangelho e vivem pelô Espírito plenamente estimam o lugar da lei e dos seus preceitos na elaboração do propósito de Deus; conforme observa em Rm 7:12 e 14, é “santa” e “espiritual” (cf. também 2 Tm 3:15-17). Ao mesmo tempo, suas li­ mitações também devem ser reconhecidas; ainda que seja a lei dada a Moisés por Deus, não é o evangelho, mas permanece sendo uma espécie de lei. E devemos reconhecer que a lei, i.é, lei de qualquer tipo, não se promulga para quem é justo, mas para pessoas que ainda estão debaixo do domínio do pecado. Embora a abordagem seja diferente, a atitude para com a lei expos­ ta aqui está em plena harmonia com aquela que é exposta em Rm 7:7-25 e G1 5:13-26. Nesta última passagem, por exemplo, está claramente subentendido que os que- estão sob a influência e que seguem os ímpetos dela na sua vida têm a lei aplicada a eles. Muitos pensam que Paulo, com sua reverência para com a lei, nunca poderia ter sido responsável pela declaração de que ela não é para os justos. A rudeza da declaração, no entanto, é grandemente reduzida se observarmos (a) que é à lei em geral (inclusive, naturalmente, a lei mosaica) à quál se refere, e (b) que justo não significa, simplesmente, “de caráter honesto e respeitável,”

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I TIMÓTEO 1:8-10 mas, sim, conota o cristão que vive pela fé (Rm 1:17; 5:19; G1 3:11; Hb 12:23). Tais transições de um sentido de lei para outra são bastante comuns em Paulo (e.g. Rm 2:14; 7:23; G1 5:14, 23). A aspereza da sua lin­ guagem aqui é, até certo ponto, condicionada pela posição dos mestres do erro que, segundo parece, estão selecionando e torcendo preceitos do A.T. de acordo com suas idéias arbitrárias. Paulo procede a elaborar seu argumento por meio de enumerar ti­ pos de pessoas para as quais, em contraste com os cristãos, a lei em geral e a lei de Moisés em particular, tem relevância muito direta. Se ele nos dá a impressão de escolher exemplos desnecessariamente chocantes, de­ vemos lembrár-nos de que é uma característica dele empregar cores lúridas, sombrias quando está retratando a conduta humana à parte do evan­ gelho (e.g. Rm 1:24-32; G1 5:19-21). Sua lista toma a forma de um ca­ tálogo de vícios de um tipo que ocorre freqüentemente (às vezes com um catálogo paralelo de virtudes) no N.T.: e.g. Rm l:28ss.; 1 Co 5:10-11; 2 Co 12:20-21; G1 5:19-23. Catálogos semelhantes eram usados pela seita de Cunrã e também por círculos contemporâneos helenísticos e judaico-helenísticos. As listas cristãs provavelmente seguiam o modelo destes, e isto explica os termos gerais em que usualmente se expressam. Exibem considerável grau de coincidência parcial, e é evidente que a igreja primitiva logo amontoou uma coletânea substancial de matéria exortativa que podia ser colocada em jogo na ocasião apropriada. O que é especialmente interessante na presente lista é que se baseia, em grande medida, no Decálogo. Destarte, começa com seis epítetos um pouco gerais, dispostos em pares —transgressores e rebeldes, irreveren­ tes e pecadores, ímpios e profanos —que abrangem os delitos contra Deus, e podem talvez ser entendidos como uma representação da primeira tábua do Decálogo. Depois fustiga separadamente os violadores dos cinco pri­ meiros mandamentos da segunda tábua. Parricidas e matricidas repre­ sentam exemplos flagrantes da quebra do Quinto Mandamento, homi­ cidas, do Sexto. Impuros e sodomitas são transgressores do Sétimo, que era interpretado como abrangendo o vício sexual em todas as suas formas, e raptores de homens, do Oitavo, visto que na exegese rabínica entendia-se que o furto incluía o tráfico de seres humanos (cf. Êx 21: 16; Dt 24:7). Mentirosos e perjuros claramente transgridem o Nono. Paulo completa seu catálogo, de modo semelhante a Rm 13:9 e G1 5:21, com a expressão que a tudo abrange: e para tudo quanto se opõe à sã doutrina. Vindo no fim de um inventório dos delitos mais grosseiros, alguns acharam este clímax grotesco, mas na realidade refle­ te vividamente o contraste entre as obras da carne e o fruto do Espírito.

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I TIMÓTEO 1:11 Este é o primeiro aparecimento da expressão sã doutrina (Gr. hugiainousa didaskalia) que é característica das Pastorais (2 Tm 4:3; Tt 1:9; 2:1; para a mesma idéia, cf. 1 Tm 6:3; 2 Tm 1:13; Tt 1:13; 2:2, 8), mas não é achada em qualquer outra parte do N.T. Para muitos, é um sinal con­ vincente do cristianismo “burguês” das cartas, e revela uma abordagem racional à ética que é estranha ao espírito de Paulo. Do outro lado, um imitador não tem probabilidade de ter tão repetidamente atribuído a ele uma expressão idiomática que não é achada em nenhuma das suas cartas reconhecidas, ao passo que nada é mais comum para um homem, numa certa etapa na sua vida, repentinamente adotar unja fraseologia que lhe parece apta, e depois usá-la até esgotá-la. O Apóstolo tira a pre­ sente metáfora do jargão filosófico em voga, em que “são” tinha a cono­ tação de “sadio” ou “razoável,” e aplica-a aqui para designar a mensa­ gem cristã autêntica conforme é aplicada à conduta. Expressa sua convic­ ção de que uma vida moralmente desregrada é, por assim dizer, doentia, e necessita de tratamento, viz, pela lei, ao passo que uma vida baseada no ensino do evangelho é limpa e sadia. Este é o tipo de convicção que decerto avultava-se na sua mente durante seus últimos anos. 11. A cláusula que se segue, segundo o evangelho. . . aplica-se a todos os três versículos anteriores, declarando que o ensino que contêm acerca do papel limitado da lei não é simplesmente a opinião pessoal de Paulo, mas, sim, um elemento real na revelação que recebeu. A expres­ são tipicamente pauliha do qual fui encarregado (cf. 1 Co 9:17; G1 2:7) imediatamente remonta até sua chamada na estrada de Damasco, e é uma lembrança da autoridade divina da sua mensagem. O evangelho con­ ta da glória do Deus bendito porque, em contraste com a lei, revela na pessoa de Cristo o poder, majestade, e compaixão divinos. A mesma idéia, de que através de Cristo, que é a imagem de Deus, o fulgor da Sua glória é manifestado aos crentes, aparece em. 2 Co 4:4. O adjetivo bendito (Gr. makarios), bastante comum no judaísmo helenístico (e.g. Filo) como uma descrição de Deus, é aplicado a Ele somente aqui e em 6:15 na Bíblia. A idéia que transmite não é que Deus é o objeto da bênção, mas, sim, que contém toda a bem-aventurança nEle mesmo e a outorga aos homens. Sua ocorrência aqui, ao invés do epíteto mais usual, e caracteristicamente semítico, eulogètos (Rm 1:25; 9:5; etc.) ilustra a linguagem idiomática helenística mais cultivada que distingue as Pastorais das demais cartas.

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I TIMÓTEO 1:12-13 3. PAULO E O EVANGELHO. 1.12-17 Esta passagem poderosa faz uma ligação natural com a matéria anterior. A referência de Paulo em 11 ao evangelho do qual fui encar­ regado o leva a relembrar, com espanto e gratidão, sua experiência da graça superabundante de Deus, como resultado da qual foi transforma­ do de inimigo amargurado de Cristo para um apóstolo dEle, o protóti­ po e exemplo doutros aos quais Ele, de maneira semelhante, chamará e equipará para Seu serviço. Ao lembrar Timóteo e a igreja efésia de modo geral acerca da sua posição apostólica, também transmite um in­ dício, para o benefício daquele, do poder ilimitado do evangelho para transformar pecadores e fortalecê-los para a obra de Deus. 12-13. O original de Sou grato é charin echõ, que é a expres­ são grega normal para “agradeço,” mas que Paulo emprega somente aqui e em 2 Tm 1:3. Sua expressão regular é eucharistõ. Se há qual­ quer relevância na mudança, além da assimilação à linguagem conven­ cional, talvez reflita a influência de residir no ocidente, visto que o equi­ valente em Latim é gratiam habeo. Os particípios gregos traduzidos me fortaleceu (o texto variante “me fortalece” é provavelmente uma assimilação com Fp 4:13) e designando-me, como o verbo me considerou, todos estão no aoristo; Paulo está relembrando a ocasião memorável quando Cristo Jesus nosso Senhor confrontou-o na estrada de Damas­ co. Aquilo que evoca sua gratidão especial é que, a despeito do seu com­ portamento, Cristo o julgou fiel; relembramos sua declaração em 1 Co 4:2 que a qualidade por excelência exigida de um mordomo de Deus é que “seja encontrado fiel.” A palavra escolhida (Gr. pistos) conscien­ temente ecoa encarregado (Gr. episteuthèn) em 11 supra. Como em 1 Co 15:9 e Gl. l:13ss., Paulo emprega a linguagem mais enfática acerca da sua conduta antes da sua conversão; quer desta­ car a maravilha da escolha que Deus fizera dele. Tinha sido, noutro tempo, blasfemo, não somente em pessoalmente negar a Cristo como também em forçar outros a seguirem seu exemplo (At 26:11). Tinha sido perseguidor e insolente, acossando a igreja e seus membros. Mesmo assim, pode dizer com gratidão: obtive misericórdia (o verbo passivo êleêthèn é típico: cf. Rm 11:30-31; 1 Co 7:25; e 2 Co 4:1) a despeito de tudo. É absurdo ver em o fiz na ignorância (Gr. agnoòn) “um exem­ plo da interpretação :intelectualista do cristianismo que caracteriza as Pastorais. . . derivada do conceito estóico da religião natural” (F. D. Gealy seguindo Dibelius). Paulo simplesmente está fazendo uso da dis­ tinção, convencional no judaísmo (Lv 22:14; Nm 15:22-31) e também

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I TIMÓTEO 1:14-15 na seita de Cunrã, entre pecados “de ignorância” e “presunçosos,” e liga a incredulidade com sua ignorância. Não alega que, como resultado, estava sem culpa, mas, sim, menciona o fato como uma explicação de como sua carreira antes da sua conversão ficou sendo o objeto da com­ paixão de Deus ao invés da Sua ira. No caso dele, a oração: ‘Tai, per­ doa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23:34), foi respondida. 14. Não somente Deus o chamara, apesar de ser perseguidor, co­ mo também a graça de nosso Senhor. . . lhe foi “outorgada com supera­ bundância” (ARA Transbordou). Por graça quer dizer, como sempre, o favor imerecido de Deus para com homens pecaminosos (cf. Rm 5: 20). O verbo composto que emprega (Gr. huperpleonazein) é um hapax no N.T. que tem paralelos noutros compostos semelhantes com huper, a maioria dos quais são hapaxes, que se acham nas demais cartas (Rm 5: 20; 8:26, 37; 2 Co 10:14; Fp 2:9; 1 Ts 4:6; 2 Ts 1:3). A graça divina trouxe consigo a fé para substituir sua incredulidade anterior, e amor no lugar da agressividade brutal que demonstrara àqueles que deveriam ter sido seus irmãos. Esta fé e este amor são caracterizados como es­ tando em Cristo Jesus (cf. 2 Tm 1:13), uma frase que, conforme a tra­ dução procura ressaltar, é muito mais do que uma perífrase para “cris­ tão”. Aqueles que assim limitam seu significado argumentam que on­ de “em Cristo” tem o pleno sentido místico que é usual em Paulo, é usado acerca de pessoas, e não de qualidades. Mas a fé e o amor não são qualidades penduradas no ar, mas, sim, sempre pertencem a pessoas; mesmo se permanecer sem ser mencionado, o possuidor pessoal delas sempre está subentendido. Aqui é sugerido que são a expressão visível do relacionamento vivo entre o cristão e seu Salvador. A fé e o amor estão ligados de modo semelhante em 1 Ts 1:3; Ef 1:15; 3:17; 6:23; Fm 5. Tem sido objetado que aqui estão sendo tratados, de modo não-paulino, como qualidades morais “separados da graça e dadas em adição a ela” (E. F. Scott), ou até mesmo que “são resultados da justificação, não sua condição” (F. D. Gealy), mas desta maneira a passagem está sendo entendida erroneamente. A linguagem de Paulo os liga do modo mais estreito com a graça de nosso Senhor. Conforme comenta D. Guthrie de modo apropriado: ‘‘Paulo concorda­ ria prontamente que, à parte da operação da graça divina, o amor e a fé seriam impossível, mas, sem estes últimos, não haveria evidência al­ guma da primeira.” 15. Paulo agora interpõe uma fórmula notável, Fiel é a palavra, que é achada com ou sem a elaboração: digna de toda aceitação, em quatro outros contextos nas Pastorais (3:1; 4:9; 2 Tm 2:11; Tt 3:8), 59


I TIMÓTEO 1:16 mas em nenhum outro lugar. Tem um som solene, e em cada caso é usa­ da para introduzir, ou para seguir, uma citação, provavelmente tirada de matéria catequética ou litúrgica primitiva, para a qual deseja chamar a atenção. A própria fórmula, ou pelo menos sua primeira parte (Fiel é a palavra), tem precedente judaico, e.g. a oração que segue o Shema; mas paralelos estreitos com a fraseologia das duas partes podem ser acha­ dos na literatura grega e nas inscrições contemporâneas. O emprego de­ las fornece evidência adicional do estilo culto das Pastorais. A citação que a fórmula aqui introduz: Cristo Jesus veio ao mun­ do para salvar os pecadores, parece a Paulo apta a epitomizar aquilo que estava dizendo. O próprio Apóstolo não fala normalmente de Cristo vindo para o mundo; a ênfase dada à encarnação é mais joanina (e.g. Jo 1:9; 3:17; 12:46-47; 16:28) do que paulina. As palavras, no entan­ to, ecoam a própria declaração de Cristo a Zaqueu (Lc 19:10): “O Fi­ lho do homem veio buscar e salvar o perdido.” A frase é provavelmen­ te uma seleção, bastante familiar a Timóteo, dalgum credo ou liturgia primitiva. Mas a menção, de pecadores desperta no Apóstolo uma súbi­ ta explosão de auto-humilhação — dos quais eu sou o principal Esta exclamação está no espírito da sua confissão em 1 Co 15:9 de que ele, que antes perseguira a igreja, é “o menor dos apóstolos,” e em Ef 3:8 que é “o menor de todos os santos.” Estes paralelos demonstram que, longe de haver algo de mórbido ou irreal nas palavras, estão totalmente de acordo com a psicologia de Paulo, e é difícil imaginar uma outra pes­ soa atribui-las a ele. O presente, Eu sou, é digno de atenção. Embora seus pecados tenham sido perdoados, Paulo ainda se considera um pecador, ou, me­ lhor, quem tem a posição de um pecador redimido, dedicado ao arre­ pendimento e ao serviço cada vez maiores. 16. É precisamente aqui, no fato de ser ele o primeiro e o prin­ cipal dos pecadores, que Paulo discerne a razão para o modo gracioso de Deus tratai com ele. me foi concedida misericórdia, declara, reto­ mando e repetindo o verbo de 13 e principal de v. 15, para que em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade. A longanimidade divina (cf. esp. Êx 34: 6; Nm 14:18) é, naturalmente, a disposição de Deus de tolerar maus tratos, insultos e provocações; e este fato tem sido demonstrado de modo notável na atitude de Cristo para com Paulo, pois, longe de castigá-lo como merecia, chegou a fazer dele Seu vaso escolhido. Além disto, o que aconteceu a Paulo é, por assim dizer, um esboço rápido (tal é o sentido do Gr hupotupõsis, “ilus­ tração”) daquela que será a bendita experiência de incontáveis pessoas 60


I TIMÓTEO 1:17-20 que, de modo semelhante, receberão graça de crer nele, i.é, aceitá-Lo pela fé e colocar nEle a sua confiança. Para o verbo “crer” com epi e o dativo, cf. Rm 9:33; 10:11 (citando Is 28:16, que pode estar na mente de Paulo aqui, também). Como resultado desta fé, ficarão asse­ gurados da vida eterna, i.é, a vida bem-aventurada do mundo do porvir, da qual os crentes têm um antegozo aqui. Paulo, portanto, é a prova definitiva que ninguém precisa desesperar-se da possibilidade da com­ paixão divina chegar a ele. 17. Esta passagem, que começou como ações de graças em tòm quieto, mas que subiu até às alturas da emoção enquanto Paulo relem­ brava a misericórdia assombrosa de Deus para com ele, chega ao seu clímax natural numa doxologia solene. Para seu uso de doxologias nou­ tros lugares, cf. Rm 11:36; 16:27; G1 1:5; Fp 4:20; Ef 3:21. A fórmu­ la que aqui emprega, como a doxologia paralela em 6:15-16, é quase certamente litúrgica, emprestada da sinagoga helenística pré-cristf. O primeiro título, Rei eterno (Gr. basilei tõn aiõnõn)ê provavelmente suge­ rido por vida eterna (Gr. zòèn aiònion) no v. 16. É uma fórmula de cul­ to que é achada em Tob. 13:7 e 11 e é ecoada em muitas orações judai­ cas hoje. Ressalta que Deus é o Rei supremo que govema todas as eras desde a criação do mundo, inclusive a era do próprio Messias, até ao fim do tempo. A descrição de Deus como “incorruptível,” i.é, imune à decadência, imortal, reflete os conceitos filosóficos gregos, mas Paulo já a usara em Rm 1:23. Os epítetos invisível e único são lugares-comuns do pensamento judaico acerca da Deidade; o primeiro tem paralelos em Rm 1:20; Cl 1:15, e o último em Rm 16:27; 1 Co 8:4-6. A doxologia conclui com o adjetivo verbal hebraico Amém, que era pronunciado nas sinagogas em assentimento às doxologias ou bên­ çãos do sumo sacerdote. A partir daí, passou para a liturgia cristã: cf. 1 Co 14:16; G1 1:5; Hb 13:21. Tem sido sugerido (J. Jeremias) que o leitor da carta devia fazer uma pausa no fim da doxologia propriamen­ te dita a fim de que a congregação que escutava pudesse dizer: “Amém.” 4. A INCUMBÊNCIA DE PAULO A TIMÓTEO. 1:18-20 Paulo agora volta ao tema da sua carta, do qual seu ataque contra os mestres do erro em 6 ss. e a explosão pessoal que o seguiu desviou sua atenção. Mas antes de definir em detalhes sua incumbência, solene­ mente relembra Timóteo dos sinais sobrenaturais que acompanharam seu chamamento, que dão ao próprio Apóstolo confiança na sua esco61


I TIMÓTEO 1:18-19 lha, e que também devem inspirar seu jovem discípulo a entrar de todo o coração no papel que lhe fora predestinado. 18,19. Com Este é o dever de que te encarrego, Paulo se refere à responsabilidade de extirpar a heresia e estabelecer a sã doutrina; a palavra traduzida dever ou “incumbência” (Gr. paraggelia) repete cons­ cientemente o substantivo e seu verbo cognato usados em 5 e 3. O que deseja enfatizar agora é que a incumbência de Timóteo não é alguma coisa arbitrária, mas, sim, está de acordo com a vontade de Deus con­ forme é expressada mediante seus profetas. Se Paulo o selecionou para esta tarefa árdua, fe-lo “dependendo de” (lit. segundo) as profecias de que antecipadamente foste objeto. Uma tradução alternativa é “as pro­ fecias que te indicaram a mim;” o verbo pode aceitar qualquer destes sentidos, e uma decisão entre eles é difícil. Paulo está pensando nalgu­ ma ocasião, ou talvez ocasiões, ainda vívida na mente de Timóteo, em que uns profetas se pronunciaram sobre a aptidão do jovem para o ser­ viço de Deus. Pode ter acontecido na ocasião da sua ordenação que, conforme somos informados, foi acompanhada por atividade profética (4:14), ou da sua nomeação em Éfeso, ou no decurso dalgum outro episódio da sua carreira. A história do comissionamento de Barnabé e Saulo em At 13:1-3, com sua menção de profetas e da clara declara­ ção do Espírito Santo, fornece uma ilustração instrutiva. Paulo lembra Timóteo destas profecias de maneira que, combate firmado nelas, o bom combate, i.é, a batalha, nobre pela sua própria na­ tureza, contra perversões da mensagem do evangelho. Paulo tem predi­ leção por metáforas militares, e em especial gosta de retratar o líder apóstólico como um guerreiro cristão (1 Co 9:7; 2 Co 10:3; Fp 2:25; 2 Tm 2:3-4). Uma descrição anterior do equipamento necessário do cristão incluirá a fé e o amor como sua couraça, e a esperança da salva­ ção como seu capacete (1 Ts 5:8;cf. Ef 6:11-16 para um relato variante). Aqui, meramente manda Timóteo estar armado com fé e boa consciên­ cia, sendo estas especialmente relevantes para sua campanha vindoura. Estas duas estão ligadas três vezes, ao todo, nesta carta (cf. 1:5; 3:9), o que sugere a estreita conexão na sua mente entre a religião e a mora­ lidade. Paulo está especialmente preocupado em ressaltar a importância de se ter uma consciência corretamente ordenada que está livre de re­ preensão (ver a nota sobre 5, supra): porquanto alguns, tendo rejeita­ do a boa consciência vieram a naufragar na fé. O particípio é enfático, e sugere um desprezo positivo da consciência ao invés de mero descuido. Na fé pode significar a fé cristã objetivamente entendida, o que recebe

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I TIMÓTEO 1:20-2:15 apoio de 6:21 e 2 Tm 2: 18. Mas o sentido subjetivo concorda melhor com o versículo anterior bem como com a ênfase dada à fé no capítulo inteiro. A lição que Paulo está ensinando é sadia: “mais freqüentemen­ te do que reconhecemos, o erro religioso tem suas raízes em causas mo­ rais mais do que intelectuais” (E. F. Scott). 20. Passa então, como advertência, a citar dois exemplos trági­ cos de homens cuja frouxidão moral levou à ruína da sua fé: E dentre esses se contam Himeneu e Alexandre, dois cooperadores em Éfeso, aparentemente. Ficamos sabendo em 2 Tm 2:17 que Himeneu era cul­ pado da crença errônea de que a ressurreição já passara. O outro tem si­ do identificado com o Alexandre que procurou falar diante da turba tumultuada por Demétrio em Éfeso muitos anos antes (At 19:33), mas além da coincidência do nome deles, aliás bastante comum, nada há pa­ ra apoiar a idéia. É muito mais provável que fosse o latoeiro menciona­ do em 2 Tm 4:14 por ter causado muitos males ao Apóstolo. Tão deplorável é o caso deles que Paulo solenemente os entregou a Satanás, expressão que relembra a sentença que pronunciara sobre o coríntio incestuoso (1 Co 5:5). A fórmula era técnica, e provavelmen­ te derivou de Jó 2:6, e conotava a excomunhão, i.é, a expulsão do peca­ dor da igreja, o âmbito do cuidado e da proteção de Deus, e a entrega formal dele para o poder de Satanás. Na mente da igreja primitiva, isto não significava simplesmente que deixava a congregação cristã e reinicia­ va uma vida pacífica na sociedade pagã; pensava-se que tal homem era realmente exposto à malícia do Maligno, e a desgraça física era plena­ mente antecipada. É praticamente certo, por exemplo, que em 1 Co 5:5 Paulo previa que sua sentença fosse seguida pelá morte do culpado. Cf. o fím de Ananias e Safira (At 5:1-11) e a cegueira de Elimas (At 13:11). No presente caso, Paulo não tem em mente propriamente a morte de Himeneu e Alexandre; o objeto da sua proscrição era para se­ rem castigados, a fim de não mais blasfemarem, o que sugere que espe­ rava a restauração deles a uma atitude mental melhor neste mundo. Mas o verbo empregado (Gr. paideuthòsin) é enfático; transmite a idéia de castigo severo mais do que instrução, e devemos inferir que uma doença, uma paralisia, ou alguma outra incapacitação física estava na mente do Apóstolo. 5. A ORDEM DO CULTO PÜBLICO. 2:1-15. Esta seção, que trata da importância do culto público e da con63


I TIMÓTEO 2:1-2 duta ali apropriada, e o capítulo seguinte, com suas diretrizes para o ministério, formam o manual mais antigo da ordem eclesiástica que possuímos. A necessidade de regulamentos claros para as reuniões congregacionais foi rapidamente reconhecida na igreja primitiva, e já em 1 Co 14 vemos que Paulo está preocupado com os mal-entendimentos e desordem causados pelo exercício sem supervisão da “profecia” e do “falar em línguas", bem como pelo afa das mulheres de se afirmarem nas reuniões. Sua regra áurea era que tudo quanto era feito na igreja devia ser feito “com decência e ordem” e contribuir para a edificação dos fiéis (1 Co 14:40,26). 1. A primeira exigência de Paulo é que se use a prática de súpli­ cas, orações, intercessões, ações de graça, em favor de todos os homem. Não é necessário forçar a exata distinção entre estes termos; seu objeti­ vo é insistir na centralidade da oração mais do que oferecer uma análi­ se sistemática dos seus tipos. A menção de ações de graças (Gr. eucharistias), no entanto merece ser notada. Como em 1 Co 14:16-17, devemos provavelmente ver aqui uma referência à eucaristia, que desde os tem­ pos mais antigos era considerada como sendo, em essência, uma ora­ ção de bendizer e agradecer a Deus por toda a Sua bondade, desde a criação do mundo até o envio do Seu Filho para sofrer, morrer, e res­ suscitar pela salvàção dos homens. A solicitude principal de Paulo é que a intercessão cristã deva ser em favor de todos os homens; este fato é confirmado pela sua lembran­ ça enfática em 4 e 6 que Deus quer que todos os homens saibam a ver­ dade, e que Cristo deu Sua vida por toda a humanidade. Devemos infe­ rir que havia um espírito exclusivista nalgumas seções da comunidade de Éfeso, provavelmente em conexão com a tendência judaico-gnóstica no pensamento dos mestres do erro. Paulo toma claro que uma atitude estreita deste tipo é uma ofensa contra o evangelho de Cristo. 2. Em especial, os cristãos devem orar em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, O primeiro teimo, reis, desig­ nava o imperador no oriente, e visto que é empregado aqui no plural, a in­ ferência tem sido tirada que a carta deve datar de depois de 136, quan­ do os imperadores tinham colegas associados com eles. A injunção é geral, no entanto, e o plural abrange não somente o imperador romano (no presente caso, Nero), como reis locais também. Os que se acham investidos de autoridade, também, é uma descrição geral para oficiais de destaque de quase qualquer tipo. O cristianismo logo teria bons moti­ vos para hostilidade contra o estado, e o Apocalipse demonstra que tal atitude tomou-se comum nalguns círculos. Mas o N.T. testifica de con64


I TIMÓTEO 2:3-6 siderável lealdade às autoridades imperiais e cívicas: e.g. Rm 13: 1ss.; 1 Pe 2:14, 17; Tt 3:1; Atos passim. No judaísmo, o sacrifício era regu­ larmente oferecido no Templo e intercessão feita nas sinagogas pelo poder civil pagão: cf. LXX Jr 36:7; Bar. 1:10-13; Ed 6:10; 1 Mac. 7:33. O costume logo arraigou-se no cristianismo, e tais orações eram estabele­ cidas na liturgia já em fins do século I (1 Ciem. lxi). De modo geral, no decurso das eras, o cristianismo tem inculcado respeito para com o poder civil, seja cristão, seja pagão, pelo menos até que começa a exercer uma tirania intolerável. A base teológica tem sido a convicção de que o po­ der e a autoridade terrestres têm seu lugar destinado na disposição provi­ dencial do mundo (cf. Rm 13:1 ss.). Duas razões são propostas para tais orações. A primeira (a segunda é dada em 3-6) é que, como resultado benéfico delas, os cristãos podem esperar que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito. Noutras palavras, não sendo expostos à suspeita da deslealdade, terão licença de praticar sua religião sem medo de serem molestados, e de viver a vida moralmente séria apropriada a ela. Os dois termos traduzi­ dos piedade (Gr. eusebeia) e respeito (Gr. semnotês) pertencem ao koinè superior; Paulo somente os emprega nas Pastorais, e fornecem mais uma ilustração do estilo distintivo delas. O primeiro (cf. 3:16; 4:7-8; 6:3, 5, 6, 11; 2 Tm 3:5; Tt 1:1) designa a atitude religiosa no sentido mais pro­ fundo, a verdadeira reverência a Deus que advém do conhecimento dEle; o último (cf. 3:4; Tt 2:7) conota a seriedade moral, que afeta o compor­ tamento externo bem como a intenção interior. Juntos, representam o equivalente helenístico das palavras hebraicas “santidade” (Gr. hosiotès) e “justiça” (Gr. dikaiosunè) combinadas em Lc 1:75. Resumem, confor­ me freqüentemente tem sido indicado, o ideal religioso das cartas, acen­ tuando-se a piedade estabelecida que se expressa numa vida bem organi­ zada, que muitos (ver a Introdução, págs. 24-25 acham difícil associar com Paulo. Do outro lado, (a) as palavras propriamente ditas podem ser devidas ao seu secretário; e (b) não podemos excluir a possibilidade de que a atitude de Paulo tivesse passado por uma mudança considerável como resultado do decorrer dos anos e das circunstâncias alteradas. 3-6. Paulo agora chega à sua segunda razão, n>ais profunda e teo­ lógica. Isto, declara ele, è bom e aceitável diante de Deus nosso Salvador. A intercessão geral, ele quer dizer, e a intercessão por autoridades em es­ pecial, é uma coisa boa em si mesma, mas, além disto, agrada a Deus, cu­ ja natureza é salvar (para nosso Salvador, ver sobre 1:1). Embora seja realmente o Salvador de nós, os cristãos (esta é a força de nosso), tam­ bém deseja que todos os homens sejam salvos, i.é, que escapem à ira di­ 65


I TIMÓTEO 2:3-6 vina no último dia, e, como um preliminar indispensável a isto, que che­ guem ao pleno conhecimento da verdade. Esta última frase é usada por Paulo apenas nas Pastorais (2 Tm 2:25; 3:7; Tt 1:1: cf. Hb 10:26), em­ bora a palavra para conhecimento (Gr. epignòsis) seja uma favorita dele, e ele fale da “verdade do evangelho” (G1 2:5, 14) ou da “verdade” (G1 5:7; Rm 2:8; 2 Co 6:7). É mais um exemplo da dicção helenística das cartas. “Conhecimento” inclui, não somente a apreensão racional da par­ te do crente, como também a aceitação pela fé, ao passo que a “verdade” é a totalidade da revelação de Deus em Cristo; nas Pastorais, quase cono­ ta a ortodoxia cristã. A expressão inteira, chegar ao pleno conhecimento da verdade, tem um som distintivamente joanino, e é o equivalente de “ser convertido ao cristianismo.” No decurso da história cristã esta frase tem provocado intenso es­ quadrinhar do coração e controvérsia. Como a vontade de Deus no sen­ tido de salvar todos pode ser reconciliada com (a) a crença quase univer­ sal que nem todos na realidade são salvos, e (b) o ensino acerca da pre­ destinação exposto pelo próprio Apóstolo noutros lugares (e.g. Rm 9)? O que fica claro ácima de tudo é que todas as qualificações sutis que fo­ ram propostas (e.g. a sugestão de Tertuliano que todos significa “todos quantos Ele adotou”, e a de Agostinho, que denota “todos os predesti­ nados, porque todos os tipos da humanidade estão entre eles”) são arti­ ficiais e fora de lugar. O mesmo se aplica igualmente à distinção muito mais sensata, feita por pais como João Crisóstomo, Teodoro de Mopsuéstia, e João Damasceno, feita entre a vontade geral e antecedente de Deus de que todos quantos criou devessem compartilhar da Sua bem-aventurança, e Sua vontade subseqüente que todos quantos se recusam a aceitar Sua livre graça fossem castigados. A verdade é que todas as per­ guntas que a teologia posterior haveria de fazer estavam remotas da mente do Apóstolo. Ao afirmar o escopo universal da vontade de Deus para salvar estava provavelmente consciente de discordar (a) da crença judai­ ca de que Deus determinou a destruição dos pecadores e a salvação dos justos somente, e (b) a teoria gnóstica de que a salvação pertencia somen­ te a uma elite espiritual. Para decidir seu argumento, Paulo encaixa, nos w. 5 e 6, o que é quase certamente (cf. as quatro cláusulas, compactas, equilibradas e rít­ micas) um extrato de uma fórmula catequética ou litúrgica que provavel­ mente já era familiar aos seus leitores. £ do tipo com duas partes, con­ forme cita noutros lugares: cf. esp. 1 Co 8:6. A primeira cláusula afirma a doutrina básica do judaísmo, repetida em cada culto na sinagoga e por judeus piedosos em todos os lugares (Dt 6 :4-9), há um só Deus. A con­ 66


I TIMÓTEO 2:3-6 junção de ligação Porquanto demonstra que a declaração é feita para apoiar o que antecede, e é digno de nota que Paulo noutros lugares (e.g. Rm 3:29) faz da unicidade de Deus o fundamento da universalidade do evangelho. A segunda cláusula continua: e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem. Destarte, exclui, de um lado, as idéias judaicas de Moisés (G1 3:19) ou dos anjos (Hb 2:6ss.; Test. xii Patr., Dn 6) agindo como intermediários, e, do outro lado, todas as divindades intermediárias, eões gnósticos, etc., aceitos nos círculos pagãos. Cristo pode desempenhar este papel sem igual precisamente por­ que Ele mesmo é homem. Temos aqui, em forma resumida, o conceito do segundo Adão, o inaugurador de uma nova humanidade, redimida, que Paulo expõe em Rm 5:12ss.; 1 Co 15:21-22; 45ss. Tem sido ob­ jetado que em nenhum outro lugar Paulo chama Cristo de Mediador, e que reserva esta descrição para Moisés (G1 3:19), mas contra isto deve­ mos notar (a) que estamos quase certamente tratando aqui com uma citação, e (b) que de qualquer maneira o ensino de Paulo acerca da reden­ ção é essencialmente mediatório visto que, de acordo com ele, os seres humanos são restaurados à comunhão com Deus por meio de Cristo e da Sua obra por eles. A confissão passa a definir esta obra: O qual a si mesmo se deu em resgate por todos. Esta é uma versão livre da declaração do próprio Cris­ to (Mc 10:45) que o Filho do Homem veio “para dar a sua vida em res­ gate por muitos.” Visto que Paulo não está expondo uma teoria da Ex­ piação da parte dele mesmo, mas, sim, citando o que viera a ser um cha­ vão teológico, é infrutífero especular acerca do complexo de idéias que o subjazem. As palavras importantes para ele eram por todos; é o fato de que Cristo morreu por todos os homens, sem qualquer tipo de favo­ ritismo, que toma obrigatório para os cristãos orar por todos eles sem distinção. A cláusula que se segue - testemunho que se deve prestar em tem­ pos oportunos (“assim prestando testemunho no bom tempo de Deus”) — é enigmática; as variantes dos MSS demonstram quanta dificuldade os exegetas primitivos tinham com ela. Muitos entendem que faz parte da citação de Paulo, mas a fórmula é mais nítida sem nenhum acréscimo final; realmente, é difícil ver sua relevância. Muito mais provavelmen­ te devemos entendê-la como um comentário do Apóstolo que fica em oposição frouxa (cf. Rm 12:1; 2 Ts 1:5 para a construção) à declaração antecedente. O que Paulo está dizendo é que, ao morrer por toda a hu­ manidade de acordo com o plano divino, Cristo deu testemunho esmagadoramente convincente ao desejo de Deus pela salvação de todos os 67


I TIMÓTEO 2:7 homens. Ele o deu “no tempo oportuno de Deus,” i.é, no momento de­ cisivo da história que Deus, na Sua providência, fixara para a realização do Seu propósito (cf. Rm 5:6; G1 4:4). Esta interpretação é confirmada por Tt 1:3, mas visto que a expressão (Gr. kairois idiois) também pode ter uma referência futura (6:15: cf. 2 Ts 2:6), alguns preferem este sig­ nificado aqui. Explicam, assim, que o texto significa que o ato de Cris­ to de sacrificar-Se foi “o testemunho para tempos determinados vin­ douros,” sendo que o “tempo” especialmente em mira é o evento final da redenção. Duvida-se, no entanto, se o grego pode dar este sentido, e tendo em vista a menção da morte salvífica de Cristo uma referência ao passado parece ser, de qualquer maneira, mais apropriada. 7. Como um argumento, final, Paulo apela ao seu próprio papel especial na propagação do evangelho. Para isto, exclama ele, i.é, a fim de espalhar em todos os lugares exatamente este testemunho, declara­ do em Jesus Cristo, da vontade universal de Deus no sentido de salvar, fui designado pregador e apóstolo. . . mestre dos gentios na fé e na ver­ dade. O “Eu” (oculto em português) é enfático, e designado ecoa a de­ claração de 1:12 de que a posição ministerial de Paulo é devida inteira­ mente à iniciativa divina. O acento, no entanto, recai na cláusula final, e para ressaltá-la faz a interjeição veemente, afirmo verdade, não minto (cf. a linguagem de protestação em Rm 9:1; 2 Co 11:31; G1 1:20). O fa­ to de que o próprio Deus o escolheu (cf. At 9:15; 13:47; 22:21) para pregar o evangelho aos gentios, i.é, o mundo gentio e não somente aos judeus, é prova definitiva do desejo de Deus no sentido de salvar todos os homens, e, portanto, a obrigação de orar por todos eles. Esta interpretação tem a vantagem de dar o valor integral à cláusu­ la final, e de fazer do versículo inteiro o desenvolvimento lógico de 5 e 6. O parêntese veemente é melhor explicado como sendo uma ênfase da­ da à declaração de Paulo de que a ele fora atribuída a comissão aos gentios, em contraste com as idéias exclusivistas dos mestres do erro; com suas tendências judaizantes é bem provável que criticassem a evangelização dos não-judeus. Logo, o parêntese olha para a frente, como em Rm 9:1. Uma explicação alternativa, que tem muito apoio, é que Paulo, segundo sua maneira costumária, está defendendo sua posição apostólica; o parên­ tese, portanto, olha para trás, para pregador e apóstolo. É bem possível, pois Paulo sempre estava sensível a respeito da sua autoridade, e embora Timóteo não precisasse ser assegurado acerca dela, há indícios (ver sobre 1:1) que pode ter sido questionada nalguns círculos em Éfeso. Este conceito, no entanto, não explica a violência surpreendente dó protesto de Paulo, e por meio de introduzir a questão irrelevante do seu aposto68


I TIMÓTEO 2:8-10 lado, deixa de integrai o versículo satisfatoriamente com aquilo que an­ tecede. Com qualquer das interpretações, na fé e na verdade acompa­ nham estreitamente mestre. . . e denotam (a) o assunto, ou contéudo, da instrução de Paulo, ou (b) a fidelidade e a veracidade com que ele o transmite. 8. Do escopo universal da oração, Paulo passa para as disposições e o comportamento apropriados a ela. Começa de modo cortês, porém firme, Quero, portanto. . . . empregando um verbo (Gr. boulomai) que no judaísmo helenístico transmite uma nota de mandamento autoritativo. Sua primeira regra é que os varões orem em todo lugar... Na sina­ goga judaica somente os homens tinham licença de recitar as orações; a ênfase dada ao sexo masculino sugere que esta convenção talvez estives­ se se rompendo em Éfeso (para Corinto, muito tempo antes, cf. 1 Co ll:5ss.; 14:33ss.), e isto é confirmado por 11 ss. abaixo. As orações de­ vem ser proferidas em todo lugar, onde for pregado o evangelho; a expres­ são relembra Ml 1:11, mas é quase técnica em Paulo (1 Co 1:2; 2 Co 2: 14; 1 Ts 1:8). Chega, entlo, à sua lição principal: durante as orações* os homens na congregação devem levantar mãos santas, sem ira e sem ani­ mosidade. O gesto externo é fútil, e até mesmo blasfemo, a não ser que o coração por dentro esteja livre de má-vontade. Relembramos o expres­ so ensino de Jesus (Mc 11:25; Mt 5:23-24; 6:12) de que a oração genuína é impossível para os que não perdoam, ou que guaidam ressentimentos. A atitude mais geral para a oração na antigüidade, para pagãos, judeus e cristãos igualmente, era ficar de pé com as mãos estendidas e erguidas, as palmas viradas para cima. Os afrescos de “orantes” e.g., nas catacum­ bas de Roma, fornecem ilustrações vívidas da vida da igreja primitiva. 9,10. Paulo passa, então, a tratar dos membros do sexo femini­ no na congregação: Da mesma sorte, que as mulheres, em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso. Visto que as mulheres não tinham licença de dirigir as orações, tem sido sugerido que Paulo deixou o assun­ to do culto público e que está pensando do vestuário das mulheres e do comportamento delas em geral. Isto é improvável em si mesmo, no en­ tanto, e tanto o advérbio, soltamente ligado, Da mesma sorte, quanto 11 ss. tomam claro que está definindo regras para as roupas e o compor­ tamento nas reuniões de orações. Embora suas observações se confor­ mem geralmente com as diatribes convencionais contia a extravagância feminina, o que provavelmente está em primeiro lugar na sua mente é a impropriedade de as mulheres explorarem seus encantos físicos em tais ocasiões, bem como os distúrbios emocionais eles tendem a causar aos seus parceiros masculinos na adoração. Este conceito é ressaltado 69


I TIMÓTEO 2:9-10 por modéstia e bom senso, que no original são representados pelos subs­ tantivos aidós e sõphrosunê. 0 primeiro, usado somente aqui no N.T., conota a reserva feminina em questão de sexo (= “pudor”). O segundo (somente aqui, 2:15 e At 26:25 no N.T.) basicamente representa o per­ feito domínio-próprio nos apetites físicos, e era uma das quatro virtu­ des cardinais de Platão (cf. Rep. 4:430 e). Ao ser aplicado às mulheres, ele, também, tinha uma nuança especificamente sexual (= “castidade”). Não era a idéia de Paulo que às mulheres que freqüentavam as reuniões da igreja devessem faltar adorno. Certamente não deviam enfei­ tar-se com cabeleira frisada e com ouro, ou pérolas, ou vestuário dispen­ dioso. Se estes itens são emprestados do arsenal de preletores morais con­ temporâneos, sua menção parece indicar a presença de convertidos com boa situação financeira na igreja de Éfeso. O substantivo traduzido cabe­ leira frisada (Gr. plegma) refere-se à prática de trançar ou entrelaçar os cabelos, que era um aspecto regular do penteado das mulheres da moda, judaicas e pagãs, no mundo greco-romano do século I. O Apóstolo quer que a seção feminina da congregação se torne atraente, porém com boas obras (como é próprio às mulheres que professam ser piedosas). A tradu­ ção alternativa “como é próprio às mulheres que dão prova da sua pro­ fissão religiosa mediante as boas obras” é possível pela sintaxe, mas o contraste entre adornar-se com finos adereços e dedicar-se a uma vida de serviço cristão dá um sentido bem mais natural. O subs. traduzido ser piedosas (Gr. theosebeia) ocorre somente aqui no N.T., e a expres­ são inteira reflete a influência do koinê superior. A ênfase dada às boas obras (uma frase que poderia ser menos en­ ganosamente traduzida “atos de caridade”) nas Pastorais é notável. São exigidas da parte de igreja como um todo (Tt 2:14; 3:8, 14), mas espe­ cialmente da parte dos seus oficiais (Tt 2:7) e dos seus membros em me­ lhores condições de vida (1 Tm 6:18), e também das mulheres e das viúvas (aqui e 5:10). A explicação acha-se, naturalmente, no objetivo prático de Paulo em escrever as cartas, embora a possibilidade não pos­ sa ser excluída de que os mestres do erro estavam tão ocupados nas suas especulações fúteis que perderam toda a apreciação para com o lado éti­ co da religião. Três aspectos devem ser notados: (a) Uma insistência no exercício prático da caridade, embora muito menos destacada nas Paulinas reconhecidas, não está de modo algum ausente delas (e.g. Rm 2:7; 2 Co 11:8; Ef 2:10; Cl 1:10). (b) Os Evangelhos estão cheios de evidên­ cias de que o ensino de nosso Senhor, conforme era transmitido e enten­ dido na igreja primitiva, dava imenso valor aos atos de caridade (cf. esp. Mt 25:31-46). (c) Não há sugestão nas Pastorais, assim como não há

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I TIMÓTEO 2:11-14 nos Evangelhos, de que as boas ações dos cristãos são feitas com o moti­ vo de adquirir mérito. Pelo contrário, quaisquer indícios que estas passa­ gens fornecem, parecem indicar que o bem que os homens fazem é a obra de Deus neles (2 Tm 2:21), e repudiam fortemente qualquer idéia que a salvação depende das boas obras (2 Tm 1:9; Tt 3:5). 11,12. Depois do vestuário e dos adornos externos, Paulo toca no papel que as mulheres devem desempenhar nas reuniões da igreja. A mulher, conforme ele preconiza, aprenda em silêncio, com toda a sub­ missão. A questão era ardente, porque ao passo que na sinagoga judaica o silêncio era esperado das mulheres, temos evidência de que um novo espírito de emancipação estava se espalhando nas novas congregações cristãs. Em 1 Co 11:4-15 Paulo requer que as mulheres que oram ou profetizam em voz alta nas reuniões usem o véu; a impressão que é deixa­ da é que, sem muita boa vontade, Paulo reconhece que as respectivas mulheres estavam sob a influência do Espirito. Em 1 Co 14:33-36 pro­ íbe totalmente as mulheres de dirigirem-se à congregação, e impõe silên­ cio sobre elas. Da mesma maneira, acrescenta aqui: E não permito que a mulher ensine. . . esteja, porém, em silêncio. Para uma mulher ensinar na igreja, sugere, é o equivalente a ela exercer autoridade sobre o marido (“um homem”), i.é, dominar e impor sobre ele as regras da fé; e isto, Paulo dá a entender, é contrário à ordem natural. Sua insistência repeti­ da nesta questão talvez seja devido a uma suspeita da parte dele de que os mestres do erro em Éfeso estavam explorando a disposição das mulhe­ res com tendências religiosas para reividicarem o que considerava um des­ taque imprópriopara elas mesmas. 13,14. Paulo propõe dois argumentos para apoiar sua proibição. 0 primeiro é que primeiro foi formado Adão, depois Eva. Noutras palavras, o que é cronologicamente anterior é considerado em certo sentido supe­ rior. Ensinara a mesma lição em 1 Co 11:8, indicando que “o homem não foi feito da mulher; e, sim, a mulher do homem,” e deduzindo daí a de­ pendência dela do homem. Seu segundo argumento é baseado no relato bíblico da Queda: Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão. Paulo, naturalmente, não está questionando a cul­ pa de Adão, que livremente reconhece noutros trechos (e.g. Rm 5:12ss.), e que no cômputo final deve ter sido ainda maior porque pecou com os olhos abertos. A lição que aqui ensina é que visto ter sido Eva uma víti­ ma tão ingênua das artimanhas da serpente, claramente não se pode con­ fiar nela para ensinar. Para seguirmos o raciocínio de Paulo, devemos lembrar-nos de que ele, tal como outros exegetas, judaicos e cristãos, considera Adão e Eva não somente como pessoas históricas, mas também 71


I TIMÓTEO 2:15 como arquétipos da raça humana. Seus caracteres e suas propensidades foram transmitidos aos seus descendentes, e no relacionamento entre eles pode ser visto, prenunciado, o relacionamento permanente entre o homem e a mulher. A profecia de Gn 3:16 de que o desejo de Eva seria por seu marido, e que “ele te governará” estava claramente na sua mente, e com igual clareza, que considera que se aplica ao sexo feminino inteiro. 15. A discussão anterior talvez deixe a impressão de que a mu­ lher está sujeita ao desagrado permanente de Deus, e Paulo apressa-se para corrigir tal impressão. Todavia, será preservada, acrescenta, referin­ do-se, naturalmente (conformer indica o verbo no futuro), não a Eva, mas, sim, às mulheres em geral. Mas atingirá a isto, não por meio de rea­ lizar tarefas masculinas tais como ensinar na igreja, mas sim, através de sua missão de mãe. Seu caminho para a salvação, noutras palavras, con­ siste em aceitar o papel que foi claramente destinado a ela em Gn 3:16 (“em meio de dores darás à luz filhos”). Até mesmo isto, no entanto, exige uma qualificação adicional, visto que a maternidade é o destino comum de todas as mulheres, e, de qualquer maneira, a salvação não é obtida mediante meras obras. Destarte, o Apóstolo acrescenta, como uma segunda condição vital, se elas permanecerem em fé e amor e santifi­ cação, com bom senso. A transição para o plural elas (ou “eles”) é difí­ cil, e tem levado os intérpretes a postular ou “o marido e a esposa” ou “seus filhos” como o sujeito oculto de permanecerem Mas é tão difí­ cil, aceitar uma mudança tão abrupta de sujeito quanto acreditar que Paulo está argumentando que a salvação da mãe depende do comporta­ mento cristão dos seus filhos. A dificuldade desaparece quando se lem­ bra que, no parágrafo inteiro, ou estava falando das mulheres no plural (9-10), ou falando e pensando nas mulheres de modo genérico. Esta parece ser a única interpretação natural da passagem, por mais desagradável que a atitude para com as mulheres aqui subenten-, dida seja vista por padrões cristãos contemporâneos. Os comentaristas têm proposto uma variedade de exegeses alternativas, desde “ela será salva mediante o nascimento,” i.é, através do nascimento por excelência em que a virgem Maria trouxe o Salvador ao mundo, até a de Moffatt: “No entanto, as mulheres passarão com segurança pelo parto, se. . Quanto à primeira, é verdade, é lógico, que quando Maria deu à luz des­ fez o dano causado por Eva, mas parece incrível que Paulo tivesse espe­ rado que a expressão vaga “por meio de dar à luz” fosse entendida, sem mais explicações, como referência à Natividade de Cristo. A última, além de oferecer um sentido intoleravelmente banal, pode ser extraída do grego somente com dificuldade. A chave à passagem, no entanto, 72


I TIMÓTEO 3:1-13 é claramente Gn 3:16, com sua predição de que a maternidade é o pa­ pel destacado para a mulher. Se ela ficar firme nisto ao invés de usur­ par funções masculinas, e a cumprir no espírito certo, obterá a salva­ ção. É também provável que Paulo, ao ressaltar de tal maneira a im­ portância de dar à luz para as mulheres, está atirando uma flecha con­ tra os falsos mestres que tinham conceitos de grande desprezo a respei­ to do sexo (1 Tm 4:3), e cujos sucessores gnósticos posteriores, segan­ do Irineu {Haer. i.24.2) declararam que “o casamento e o gerar dos fi­ lhos são de Satanás.” Em última análise, a salvação da mulher dependerá do seu estado espiritual, i.é, da sua fé em Cristo, da sinceridade do seu amor para com seus colegas cristãos, e da sua santificação, ou o grau até o qual sua vida de casada é consagrada e não meramente carnal (para a palavra, ver esp. 1 Ts 4:3, 4, 7). E estes dons devem ser combinados com bom senso (ou “castidade”); a palavra é a mesma (Gr. sòphrosune) que é empregada em 9 supra, onde foi notada sua nuança. 6. ORIENTAÇÕES PARA MINISTROS. 3:1-13. Paulo passa de modo natural do culto público para as qualidades a serem procuradas naqueles que detêm cargos na igreja. Embora estes sejam freqüentemente mencionados no N.T., em nenhum lugar recebem um tratamento tão detalhado quanto nas Pastorais (para a aplicação dis­ to à questão da data e da autoria, ver a Introdução, págs. 20-23,34). Nesta seção os oficiais do sexo masculino são chamados bispos (“superin­ tendentes”) (Gr. episkopoi) e diáconos (Gr. diakonoi), exatamente como em Fp 1:1. Mais tarde (5:17-18; também Tt 1:5) “presbíteros” (Gr. presbuteroi) são mencionados também, e o relacionamento entre os bis­ pos e presbíteros é um problema de vulto: ver a nota sobre 5:17. Embo­ ra a designação técnica falte ali, estes ministros quase certamente devem ser identificados com os “líderes” (Gr. próistamenoi; o mesmo verbo é empregado nos w . 4-5 abaixo) aos quais Paulo se refere em Rm 12:8 e 1 Ts 5:12, e os “pastores” aos quais menciona em Ef 4:11, bem como os “socorros” e “governos” em 1 Co 12:28. Tem havido muita discussão acerca de como estes funcionários emergiram na igreja primitiva. Na etapa mais antiga, apóstolos, profe­ tas, mestres, e operadores de milagres, todos inspirados pelo Espírito, desfrutavam de grande prestígio nas congregações paulinas, e o próprio 73


I TIMÓTEO 3:1 Apóstolo reconhece (1 Co 12:28) que Deus lhes atribuíra sua precedên­ cia especial. Nada indica, no entanto, que estes exercessem supervisão pastoral e administrativa, e é duvidoso se seus dons pneumáticos espe­ ciais os tivessem equipado para tais funções. Olhando de todos os pon­ tos de vista, parece provável que, lado a lado com eles, embora não ti­ vessem o mesmo impacto popular, sempre existiram oficiais de um tipo mais prático, encarregados com o que se pode descrever de modo geral como sendo a responsabilidade pastoral. De início, devem ter sido volun­ tários, como os membros da casa de Estéfanas (1 Co 16:15), mas no de­ curso do tempo devem ter paulatinamente adquirido o reconhecimento oficial; Que tal era realmente a situação é a implicação clara das passa­ gens citadas supra, que também parecem indicar que Paulo estava cada vez mais preocupado em cuidar no devido respeito que devia ser presta­ do aos ministros, e do reconhecimento destes como detentores de dons espirituais. Será argumentado que eram normalmente selecionados, co­ mo seria natural, da mesa dos presbíteros que tinha a superintendência dos negócios de cada comunidade. 1. Paulo abre sua discussão ao citar um refrão que, segundo se supõe, esperava-se que Timóteo reconhecesse: Se alguém aspira ao epis­ copado, excelente obra almeja. Visto que “superintendência” (Gr. episkopè - episcopado) não se refere necessariamente a um cargo eclesiásti­ co, mas, sim, pode conotar qualquer tipo de administração, este pode possivelmente ser um provérbio corrente que recomenda a ambição por cargos em geral. Se for assim, talvez reflita a relutância cada vez maior entre pessoas responsáveis nos séculos I e II em aceitarem deveres cívicos. Uma referência eclesiástica, no entanto, parece preferível no cômputo geral, e se isto for correto, a máxima sugere uma situação em que esfor­ ços deliberados estavam sendo feitos para aumentar a estima prestada a bispos, e assim encorajar bons candidatos a se oferecerem para o cargo. £ interessante notar que o Didaquê, que muito bem pode ter sido escri­ to poucos anos mais tarde, insiste (15:1-2) exatamente no mesmo espí­ rito na desejabilidade de escolher “bispos e diáconos que são dignos do Senhor. . . pois eles também realizam entre vós o ministério de profetas e mestres.” Com qualquer das interpretações, o objetivo de Paulo em ci­ tar o refrão é (a) vindicar a importância do ministério prático, e(b) refor­ çar sua exortação no sentido de os oficiais da igreja possuírem as mais altas qualidades. Conforme o texto, Paulo coloca como prefácio à sua máxima as palavras: Fiel é a palavra. Esta é a fórmula familiar das Pastorais (ver sobre 1:15), e levanta dois problemas, (a) Os exegetas têm perguntado, 74


I TIMÓTEO 3:2 nos tempos antigos bem como nos modernos, se não se refere de volta a 2:15. Embora usualmente anteceda sua citação, a fórmula ocasional­ mente (4:9; Tt 3:8) a segue, e é concebível que Paulo a tenha encaixado aqui para completar, por assim dizer, o ensino que acabara de dar acer­ ca da salvação das mulheres. Do outro lado, nem 2:15 nem qualquer dos versículos imediatamente anteriores impressiona o leitor como sendo uma máxima que talvez estivesse corrente na igreja apostólica, ao passo que 3:1b tem todo o estilo e som de um ditado popular, (b) Ao invés de Fiel (Gr. pistos) algumas autoridades lêem anthrõpinos (lit. “humano”). Vários críticos argumentam que pistos é o texto mais fácil e mais óbvio, e, portanto, o rejeitam, preferindo anthrõpinos, que traduzem como “popular.” A evidência para esta palavra nos MSS, no entanto, é muito fraca, e pode ser explicada como sendo uma nota marginal de desprezo, feita por algum escriba que, não captando a idéia de Paulo, considerava que o ditado não tinha peso espiritual e, portanto, era por demais “hu­ mano.” 2. Tendo ressaltado que o cargo vale a pena, Paulo logicamente pode insistir que É necessário, portanto, que o bispo seja irrepreensível, etc. A tradução tradicional de bispo para o Gr. episkopos deve ser rejei­ tada como enganadora. O episcopado posterior, baseado no conceito de um só bispo presidindo em cada área e tendo completa autoridade sobre ela em todos os departamentos, desenvolveu-se dos “superinten­ dentes” do século I, mas há diferenças tão importantes entre os dois car­ gos que parece desejável empregar termos distintos para eles. No N.T. fora das Pastorais, episkopos é achado somente em Fp 1:1; At. 20:28; e 1 Pe 2:25 (com referência a nosso Senhor). No mundo contemporâ­ neo grego, o termo era empregado para denotar uma grande variedade de funções, e.g., inspetores, administradores cívicos e religiosos, oficiais financeiros. Antigamente, muitas pessoas pensavam que a igreja apostó­ lica devia ter tomado o título emprestado deste último uso, visto que o episkopos cristão tinha as finanças da congregação (assistência aos po­ bres, etc.) sob seus cuidados. Do outro lado, se pudermos confiar nas Pastorais, e se tivermos razão em identificar os “líderes” e “pastores” das demais Paulinas como sendo episkopoi, fica claro que suas respon­ sabilidade abrangiam um campo muito mais largo do que o financeiro somente. Estavam encarregados, por exemplo, das relações externas da igreja, e como representantes dela, hospedavam cristãos visitantes. Na própria congregação exerciam um ministéro magisterial e pastoral, e tinham autoridade para disciplinar membros. De modo geral, presi­ diam sobre seus negócios como um pai cuida da sua família e do seu 75


I TIMÓTEO 3:2 lar. É, portanto, interessante que acham seu paralelo mais próximo no “superintendente” (em Hebraico mebaqqer) da comunidade de Cunrã. Segundo o Manual da Disciplina (esp. 6:10ss. e 19ss.) e o Docu­ mento de Damasco (esp. 13:7-16; 14:8-12), estes tinham o dever de or­ denar, examinar, instruir, receber esmolas ou acusações, tratar com os pecados do povo, e pastoreá-lo de modo geral. Parece, portanto, mais provável que o termo, bem como o sistema administrativo que repre­ sentava, tenha entrado na igreja a partir do judaísmo heterodoxo. A despeito do seu uso no singular tanto aqui quanto em Tt 1:7, é extremamente provável que “o superintendente” deve ser entendido genericamente, e que uma pluralidade de tais oficiais é pressuposta. Es­ ta idéia é apoiada não somente pelos paralelos em Fp 1:1 e At 20:28, como também pela posição intercambiável, ou pelo menos parcialmen­ te coincidente, dos superintendentes com os presbíteros (cf. 5:17; Tt 1:5-7). De qualquer maneira, não há sugestão do episcopado “monár­ quico” posterior nestas cartas. O singular pode ter sido sugerido pelo singular alguém no v. 1 supra. Quanto à predileção de Paulo pelo sin­ gular genérico, cf. sua discussão das viúvas em 5:4-10, onde fala de “a viúva,” etc., a despeito de ter o plural em 5:3. A lista de qualidades que se segue às vezes tem surpreendido os leitores pela sua generalidade; até mesmo tem sido dito, de modo algo injusto, que não contém nada de especificamente cristão, e muito me­ nos adaptado a um ministro cristão. Dois comentários podem ser fei­ tos. Primeiramente, paradigmas análogos de virtudes e vícios, prepara­ dos para vocações diferentes (e.g., governantes, generais, médicos) eram populares no mundo contemporâneo helenístico e judaico-helenístico, e estes, também, eram colocados em termos surpreendentemente gerais. A influência de tais paradigmas pode ser discernida noutros lugares do N.T., inclusive nas cartas de Paulo (e.g. 3:18 - 4:1; Ef 5:22 —6:9). O , fato de que está modelando seu conselho sobre eles, aqui, e noutros lugares nas Pastorais, explica suficientemente seu estilo aparentemente chão e sem colorido. Mas, em segundo lugar, este aspecto tem sido gran­ demente exagerado. Cada uma das qualidades exigidas era apropriada num superintendente, e algumas delas tinham relevância direta às suas funções. Se o leitor moderno às vezes é tentado a pensar que Paulo co­ locou suas exigências em nível surpreendentemente baixo, deve lem­ brar-se que os padrões de conduta não eram altos na Ásia Menor no sé­ culo I, que as pessoas para as quais as cartas foram escritas tinham saí­ do recentemente de um ambiente pagão e provavelmente ainda tinham estreitos contatos com ele, e que o Apóstolo era um realista. 76


/ TIMÓTEO 3:2 0 catálogo começa com um requisito que a tudo abrange; o supe­ rintendente devè ser irrepreensível. Ou seja: não deve apresentar nenhum defeito óbvio de caráter ou de conduta, na sua vida passada ou presente, que os maliciosos, seja dentro, seja fora da igreja, possam explorar para desacreditá-lo. Em especial, sua vida sexual deve ser exemplar, e os mais altos padrões devem ser esperados dele: deve ser casado uma só vez. O novo casamento, seja depois do divórcio no caso de um pagão convertido, ou depois do falecimento da sua primeira esposa, é censurado como sen­ do impróprio num ministro de Cristo. £ igualmente proibido aos diáco­ nos (3:12) e aos presbíteros (Tt 1:6), e conta como uma desqualificação nas aspirantes à ordem das viúvas (5:9). Este é o significando claro de esposo de uma só mulher. Alternati­ vas propostas como interpretações são (a) que as palavras são dirigidas contra manter concubinas ou contra a poligamia, i.é, ter mais de uma só esposa de uma vez - sugestões estas que são extremamente improváveis, visto que nenhuma destas práticas pode ter sido uma opção real para qualquer cristão comum, é muito menos para um ministro; (b) que me­ ramente estipulam que o superintendente seja um homem casado —isto está em harmonia com o alto valor que a carta atribui ao casamento (4:3), mas é muito improvável em si mesmo, e de qualquer maneira tor­ na sem sentido a palavra uma só enfática em Grego; (c) que o objeto é meramente preceituar a fidelidade dentro do casamento, tratando-se de “não cobiçar outras mulheres senão sua esposa” —mas isto é extrair do Grego mais do que o texto pode suportar. Quanto a esta questão, bem como em tantos outros assuntos, a atitude da antigüidade era marcantemente diferente daquilo que prevalece na maioria dos círculos hoje, e há evidências abundantes, tanto da literatura quanto das inscrições fu­ nerárias, pagãs e judaicas, que permanecer solteiro depois da morte da cônjuge ou do divórcio era considerado meritório, ao passo que casar-se de novo era considerado um sinal de auto-indulgência. Pâulo certamente compartilhava deste ponto de vista, e embora permitisse a uma viúva que se casasse de novo, estimava-a mais bem-aven­ turada se se abstivesse de um segundo casamento (1 Co 7:40). De modo geral, embora se opusesse ao ultra-ascetismo que desconsiderava o casa­ mento e que aplaudia façanhas de abnegação (cf. e.g., sua crítica das “uniões espirituais” em 1 Co 7:36-38), tinha grande respeito pela abs­ tinência sexual completa, considerando-a um dom de Deus, e também sustentava que o controle-próprio periódico dentro do casamento era de valor espiritual (1 Co 7:1-7). No contexto de táis pressuposições era natural esperar que os ministros da igreja fossem exemplos a outras 77


I TIMÓTEO 3:3 pessoas e que se satisfazessem com um único casamento. Nos primeiros séculos cristãos, devemos notar, o segundo casamento não era totalmen­ te proibido, mas era considerado com nítida desaprovação. O superintendente deveria, além disto, ser temperante, palavra esta (Gr. néphatíos; no N.T. somente aqui e em 3:11; Tt 2:2) que ori­ ginalmente denota a abstinência do álcool, mas que aqui, visto que a bebedice é expressamente estigmatizada no versículo seguinte, prova­ velmente tem o significado mais amplo e metafórico. Este sentido está em harmonia com o uso de Paulo do verbo relacionado néphõ em 1 Ts 5:6 e 8;cf. 1 Pe4:7. Os dois adjetivos seguintes, sóbrio (Gr. sõphrón; talvez tenha a mesma nuança que o subs. correlato em 2:9, ver a nota ali) e modesto, ressaltam traços essenciais no caráter e no comportamento do superin­ tendente respectivamente, ao passo que o terceiro, hospitaleiro, sublinha que na sua capacidade oficial, tem o dever de manter sua casa franquea­ da tanto para os delegados que viajavam de igreja em igreja quanto para os membros comuns da congregação que estavam necessitados. Cf. as instruções de Paulo aos seus correspondentes (Rm 12:13): “compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade.” Este serviço mútuo, ao mesmo tempo caridoso e diplomático, desempenhava um papel im­ portante na vida diária da igreja primitiva, conforme fica abundantemen­ te atestado (5:10; Hb 13:2 1 Pe 4:9; 3 Jo 5ss.; 1 Gem. 1:2; Hermes, Mand. 8:10), e cabia primariamente ao superintendente (Tt 1:8). Outro aspecto importante nas funções de um superintendente é indicado no pedido de que seja apto para ensinar. Os superintendentes provavelmente devam ser identificados com aquele grupo dentro do cor­ po dos presbíteros “que se afadigam na palavra e no ensino” (5:17, onde ver a nota). Estes deveres estão mais plenamente especificados em Tt 1:9, sendo que consistem em: (a) lealdade à tradição apostólica, (b) disposi­ ção para instruir nela a congregação, e (cj vigilância em confundir os que a pervertem. 3. O superintendente deve, além disto, estar vigilante contra ser dado ao vinho. Este epíteto (Gr. paroinos: somente aqui e em Tt 1:7 no N.T.) é enfático; o que é condenado não é beber vinho, mas, sim, a bebe­ dice. A mesma advertência é dirigida aos diáconos em 3:8, e aos presbíteros-superintendentes em Tt 1:7. As pessoas de hoje às vezes ficam surpreendidas que Paulo tivesse achado necessário fazer esta regra, mas o perigo deve ter sido real na sociedade desinibida no meio do qual as con­ gregações de Éfeso e de Creta eram colocadas. Lembramos que em Co­ rinto alguns cristãos tinham o hábito de ficar bêbados na Ceia do Senhor 78


I TIMÓTEO 3:4 (1 Co 11:21). Em semelhante atmosfera, tão distante da respeitabilidade burguesa de boa parte do cristianismo moderno, era especialmente dese­ jável para os clérigos manter-se afastados da intemperança e das suas con­ seqüências impróprias. Algumas destas talvez sejam sugeridas em não violento. Literalmente traduzido, o Grego significa “não alguém que dá murros,” e a referência pode dizer respeito à brutalidade freqüentemen­ te resultante da embriaguez. Mais provavelmente, no entanto, Paulo está fazendo alusão aos duros tratamentos que o superintendente impaciente pode ser tentado a administrar a membros irresponsáveis ou recalcitran­ tes do seu rebanho. Três séculos mais tarde, as Constituições Apostóli­ cas (VIII.xlw.27) acharam necessário depor bispos ou outros clérigos culpados de tal conduta. A partir destas proibições o Apóstolo passa para outras qualidades que, a despeito de uma forma superficialmente negativa, realmente são positivas no seu conteúdo. Por cordato (Gr. epieikès) significa a gracio­ sa condescendência ou longanimidade com a qual o pastor cristão deve tratar dos membros sob seus cuidados, por mais exasperadores que oca­ sionalmente possam ser. Cf. Tt 3:2: o subs. correlato epieikeia é usado em 2 Co 10:2 acerca do próprio Jesus, o modelo de semelhante paciên­ cia compreensiva. Longe de exibir o espírito de contendas, deve, con­ forme é subentendido, irradiar um espírito de paz e de mútua caridade na congregação. Finalmente, deve ser “livre do apego ao dinheiro” (não avarento) (Gr. aphilarguros: somente aqui em Hb 13:5 no N.T.). Esta exigência, que também é feita do presbítero-superintendente em Tt 1:7, tem não somente uma aplicação geral, sendo que a preocupação indevi­ da pelo dinheiro é imprópria para um cristão, mas além disto contém uma alusão à função do episkopos como guardião da bolsa da comuni­ dade e como responsável pela assistência aos pobres, administrada em seu nome. 4. Um teste adicional, e crucial, é acrescentado: o superintenden­ te deve ser um homem que governe bem a sua casa, criando os filhos sob disciplina, com todo respeito. É tomado por certo que normalmen­ te será um homem casado, e como tal deve vigiar para que a vida do seu lar seja ideal. A idéia é ecoada na liturgia de ordenação no Livro Comum de Orações (anglicano), onde se pergunta aos candidatos para o ministé­ rio: “Sereis diligentes para formular e formar a vós mesmos, e às vossas famílias, de acordo com a doutrina de Cristo, e fazer de vós mesmos e delas , até ao máximo das vossas possibilidades, exemplos e padrões sa­ dios para o rebanho de Cristo?” Alguns têm entendido as últimas três palavras do versículo como aplicando-se aos filhos (cf. Moffatt: .. con79


/ TIMÓTEO 3:5-6 serve seus filhos submissos e perfeitamente respeitosos”), mas o subs­ tantivo respeito, ou “dignidade” (Gr. semnotès) parece mais apropriado à atitude do pai. A lição é que deve manter disciplina rigorosa, mas sem lutas nem apelos à violência. 5. A razão subjacente para esta estipulação é ressaltada, numa per­ gunta retórica que é característica do estilo de Paulo (e.g. 1 Co 14:7, 9, 16): — (pois se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?) A palavra igreja não tem artigo, e pode ser traduzida “uma igreja de Deus,” i.é, qualquer congregação local. 0 Apóstolo vê sua vida e seus problemas refletidos em microcosmo naqueles da família humana, e dá a entender que as mesmas qualidades, essencialmente, são necessárias para a liderança em ambas: quanto à analogia, cf. Ef 2:19 (“sois da família de Deus”); 5:28 - 6:9. Sem entrarmos em sanálise de­ talhada, a comparação, e em especial o uso dos verbos governar e cuidar de, lançam uma luz reveladora sobre o papel de um superintendente de congregação no século I. 6. A exigência no sentido de que o superintendente não seja neó­ fito tem sido recebida como “uma confissão feita descuidadosamente de que as Pastorais são consideravelmente posteriores ao tempo de Pau­ lo” (E. F. Scott). Certamente exclui uma data recuada no ministério do Apóstolo, mas é bem consistente com uma data depois da sua primei­ ra prisão em Roma, quando, então, a igreja em Éfeso tinha tido pelo me­ nos uma dúzia de anos de existência. Está ausente, de modo significante, das instruções paralelas para a igreja de Creta, que tinha sido fundada apenas recentemente (Tt 1:6). Neófito (Gr. neophutos) literalmente sig­ nifica “recém-plantado;” esta é a sua única ocorrência no N.T., mas Paulo emprega a mesma metáfora para converter as pessoas à fé em I Co 3:6. A tentação para promover recém-convertidos, especialmente àque­ les de posição e influência sociais, deve ter sido grande numa igreja jovem como a de Éfeso, mas os perigos são óbvios. Em especial, Paulo selecio­ na o de se ensoberbecer. O verbo tuphousthai (somente aqui e em 6:4; 2 Tm 3:4 da Bíblia) literalmente significa “estar cheio, ou envolto, de fumaça.” Sempre é usado metaforicamente, e conota o anuviar da men­ te e do juízo, aqui como o resultado do orgulho engendrado pela pro­ moção demasiadamente rápida. O perigo que o novato arrogante e presunçoso realmente cone é que incorra na condenação do diabo. Esta expressão tem causado dificuldade desnecessária aos comentaristas. Porque a palavra grega diabolos, quando é usada no plural nas Pastorais (3:11; 2 Tm 3:3; Tt 2:3) 80


I TIMÓTEO 3:7-8 tem o significado de “mexeriqueiros,” “caluniadores,” alguns têm pensa­ do que deva ter aquele sentido aqui. Daí ter sido proposta a tradução: “e incorra a crítica de mexeriqueiros maliciosos.” Isto fornece, no en­ tanto, um clímax intoleravelmente fraco, pois estávamos esperando um fim muito mais drástico para o neófito ensoberbecido. De qualquer maneira, diabolos no singular, num contexto cristão, somente pode sig­ nificar o diabo, e este é o único significado que pode suportar em 2 Tm 2:26, e de longe o mais provável no versículo seguinte. Se for concor­ dado assim, duas interpretações seriam possíveis, o que depende de se o genitivo for entendido como objetivo ou subjetivo. No primeiro caso, o significado será “incorrerá na condenação pronunciada contra o dia­ bo;” no último caso, “incorrerá na sentença que o diabo pronunciará contra ele.” Qualquer deles é possível, mas o primeiro nada faz para preparar o caminho para 7, e introduz idéias acerca do fim do diabo que são irrelevantes para o contexto. O significado no segundo caso, pelo contrário, está em plena harmonia com a idéia contida no v. 7, e tam­ bém com a matéria e o espírito de 1:20. 7. Como líder e representante do seu rebanho, o superintendente deve ter bom testemunho dos de fora, i.é, entre os não-cristãos, judeus e pagãos, na localidade. É sempre importante para os cristãos, conforme Paulo freqüentemente impressionava sobre seus correspondentes (1 Co 10:32; Fp 2:15; Cl 4:5; 1 Ts 4:12; também 6:1; Tt 2:5) ter este alvo, e is­ to se aplica especialmente aos clérigos, por cujo caráter e conduta o mun­ do tende a julgar a igreja. O pastor que fracassa com respeito a isto está propenso a cair no opróbrio, visto que os de fora que têm antipatia pe­ la igreja aplicarão a interpretação mais desfavorável à sua mínima pala­ vra ou ação. Neste caso, é bem possível que ele caia no laço do diabo. Esta última frase poderia sei traduzida “aimadilha armada pelo calunia­ dor” (ver nota sobre 6 para o duplo significado do Gr. diabolos), e esta tradução às vezes tem sido aceita. Deve ser objetado, no entanto, que isto não somente dá a diabolos (no singular) um sentido muito impro­ vável, como também acrescenta pouco ou nada a cair no opróbrio. Do outro lado, o quadro do diabo armando laços para desacreditar o supe­ rintendente, e através dele a igreja, está em harmonia com 2 Tm 2:26, e também com o conceito geral das suas atividades exposto nas Pasto­ rais. 8. Paulo associa os diáconos muito estreitamente com o superin­ tendente; encontramos precisamente a mesma justa posição em Fp 1:1, bem como em documentos do século II tais como as cartas de Inácio. A implicação deve ser que, embora fossem subordinados quanto à sua 81


I TIMÓTEO 3:8 posição, as funções dos diáconos abrangiam quase o mesmo terreno que as dos episkopoi. O significado primário no N.T. de diakonein, pa­ lavra da qual se deriva “diácono”, é servir numa capacidade servil, tal como servir à mesa (e.g. Lc 17:8; 22:26-27; Jo 12:2), e Jesus ensinava que o papel dos Seus discípulos, como o dEle mesmo, podia ser apro­ priadamente comparado com o daquele que serve às refeições. Era o ter­ mo “diácono,” ou servo, que Ele empregava para expressar Seu próprio ideal revolucionário de relacionamentos de mútuo serviço que envolve a abnegação completa (Mc 10:43-45; Mt 20:26-28). Por uma transi­ ção natural, portanto, todo tipo de serviço na propagação do evangelho é descrito no N.T. como sendo uma diakonia, ou ministério. O trabalho realizado por Paulo e Barnabé na primeira viagem missionária é um desses tipos (At 12:25); em especial, a tarefa de coleta esmolas para a congre­ gação de Jerusalém, à qual Paulo dava alta prioridade, contava aos seus olhos como outro, também (Rm 15:31; 2 Co 8:4; etc.). um apóstolo é um “ministro de Cristo” (2 Co 11:23; cf. 4:1; Rm 11:13). Paulo se descreve como “ministro” da igreja (Cl 1:25), e nesta carta fala de Timó­ teo como sendo “ministro de Jesus Cristo” (4:6; cf. 2 Tm 4:5). (“Minis­ tro” aqui sempre traduz diakonos). A origem de uma ordem específica de diáconos na Igreja tem sido muito discutida, mas permanece envolta em obscuridade. A explicação tradicional, viz. que deva ser procurada na nomeação dos Sete (em ne­ nhum lugar chegam realmente a ser chamados de “diáconos”) em At 6, é quase certamente errada. Estêvão e seus companheiros não eram, fa­ lando a rigor, ministros em qualquer sentido análogo aos diáconos da era apostólica posterior e pós-apostólica. Eram representantes ad hoc dos interesses dos helenistas diante dos Doze, e são retratados como evangelistas disputando, ensinando, e batizando lado a lado com eles. A ascensão dos diáconos como uma ordem regular de ministros deve ter tido estreita conexão com a dos episkopoi (ver supra, págs. 73—75, de quem eram os associados. Se os episkopoi eram os “administradores” (lit. “governos”) mencionados em 1 Co 12:28, os diáconos devem ter sido os “assistentes” (lit. “socorros”) aos quais se refere ao mesmo mo­ mento. O papel subordinado e auxiliar deles é ressaltado (a) pela ausên­ cia de qualquer sugestão de que eram responsáveis pelo ensino ou pela hospitalidade, e (bj pelos indícios que seu escrutínio era até mesmo mais rigoroso do que o dos superintendentes. Embora seja freqüentemente desconsiderada como sendo sem colo­ rido e geral, a lista de qualidade exigidas dos diáconos realmente tem um estreito relacionamento com seus deveres. É apropriado, em primeiro 82


I TIMÓTEO 3:9 lugar, que sejam respeitáveis (Gr. semnos), adjetivo este que abrange ao mesmo tempo o temperamento interior e a postura exterior. O subs­ tantivo cognato já foi usado para designar uma qualidade essencial em cristãos em geral (2:2) e superintendentes em particular (3:4). A expres­ são traduzida de uma só palavra (Gr. me dilogous) tem sido entendida no sentido de “não difamadores,” havendo referência às oportunidades para diz-que-diz malicioso que os diáconos tinham na sua obra pastoral de casa em casa. Uma tradução literal, no entanto, daria “não com conver­ sa dupla”, e assim é provável que o sentido verdadeiro seja “não dizendo uma coisa enquanto estiver pensando outra” ou (mais provavelmente) “não dizendo uma coisa a um homem e outra coisa a outro.” A advertência contra serem inclinados a muito vinho ecoa em termos mais precisos o conselho da sobriedade dado em 3 ao superinten­ dente. Assim, também, não cobiçosos de sórdida ganância é um parale­ lo de não avarento no mesmo v. 3, embora o adjetivo (Gr. aischrokerdés: somente aqui e em Tt 1:7 no N.T.) seja muito mais enfático. Pode levar consigo, conforme alguns têm pensado, uma alusão a ocupações dúbias que os diáconos devem evitar com cuidado, mas Paulo provavelmente es­ teja pensando mais nas tentações às quais podem ficar expostos em meio às suas responsabilidade no que diz respeito às esmolas, à assistência aos pobres, e às finanças da congregação em geral. 9. Mais importante de tudo, no entanto, os diáconos devem ser ho­ mens de convicção cristã, conservando o mistério da fé com a consciên­ cia limpa. Acentuam-se aqui as últimas palavras, e Paulo está insistindo no relacionamento íntimo entre a crença sadia e uma consciência livre de mácula e de opróbrio; sem a última parte, a primeira deve ser estéril. Para consciência, ver a nota sobre 1:5. Como ocorre tão freqüentemente nas Pastorais, a fé representa a fé cristã considerada como um corpo obje­ tivo de ensino: cf. 4:1, 6; 5:8; 6:10; 2 Tm 3:8. O significado básico de mistério, no judaísmo como no cristianismo da era apostólica, é um segre­ do divino que agora foi divulgado. Logo, quando Paulo o emprega em Cl 1:26-27 (e em Rm 16:25, se for autêntico este texto), o que tem em mente é o plano redentor de Deus que tem sido conservado oculto des­ de o princípio, mas que finalmente foi manifesto, para aqueles que têm olhos para ver, na vinda de Cristo. Visto que o próprio Cristo é o enfo­ que do plano divino, o Apóstolo pode falar de modo sucinto do “misté­ rio de Cristo,” i.é, que consiste em Cristo (Cl 4:3), e que se fosse plena­ mente exposto, consistiria dos artigos-chaves do querigma ou credo cristão. Logo, o mistério da fé é equivalente à totalidade das verdades ocultas, inacessíveis à razão e divulgadas somente pela revelação divina 83


/ TIMÓTEO 3:10-11 (cf. 3:16; Ef 3:4). Muitos estudiosos, .especialmente os que questionam a autentici­ dade das cartas, têm dúvida quanto à esta interpretação. Segundo eles, mistério nesta passagem perdeu todo o sentido caracteristicamente paulino (cf. 1 Co 2:7; 4:1 13:2; 14:2; 15:51), e ou denota o que transcen-, de a compreensão comum, ou que se tomou um mero item de jargão teológico pesado. As referências dadas supra, no entanto, indicam que o abismo entre a exegese proposta e o uso normal de Paulo não é, de modo algum, tão largo quanto estes críticos sugerem. Pode ser questio­ nado, também (a) se as Pastorais dão a entender em qualquer lugar que “os homens não podem entender o evangelho” (E. F. Scott), e (b) se, mesmo na era pós-apostólica, “mistério” era usado para conotar simples­ mente verdades que ultrapassam o entendimento e que devem ser acei­ tas com fé cega. Até mesmo Inácio, por exemplo, quando fala de “três mistério a serem clamados em voz alta” (Eph. xix. 1), dá à palavra um sen­ tido rigorosamente em harmonia com o paulino. 10. Também estes, i.é, os diáconos não menos que os superin­ tendentes, sejam primeiramente experimentados. Somente se, depois de uma triagem cuidadosa a respeito do seu caráter, da sua conduta pas­ sada, e da sua adequabilidade, se mostrarem irrepreensível, devem ter licença de exercer o diaconato. Alguns têm pensado que esteja em miia um período de provação ou um exame formal, e qualquer um é pos­ sível, bem como os dois juntos. De modo geral, no entanto, tendo em vista o paralelismo com 7, alguma consideração menos formal dos seus antecedentes parece subentendida; a exigência pelos Doze que os Sete sejam “homens de boa reputação” (At 6:3) fornece um paralelo. Mesmo assim, a linguagem de Paulo parece indicar que o escrutínio era mais se­ vero para diáconos do que para superintendentes; e.g. o termo experimen­ tar não é usado para a escolha destes últimos. 11. O versículo seguinte contém um enigma que provávelmente nunca será solucionado de modo satisfatório a todos. Da mesma sorte, quanto a mulheres. É concordado de todos os lados que Paulo não pode, numa passagem que se ocupa com grupos especiais, estar injetando uma referência às mulheres da congregação em geral. As palavras poderiam, no entanto, significar: “Que suas esposas (i.é, dos diáconos) da mesma sorte. . e muitos comentaristas preferem esta interpretação. Mas se for este o sentido, (a) deveríamos ter esperado o artigo definido antes de mulheres, ou pelo menos o pronome no genitivo depois da palavra, ou alguma outra fórmula que ressaltasse que eram “suas esposas;” (b) é muito estranho que somente as esposas dos diáconos sejam seleciona84


I TIMÓTEO 3:12-13 das para menção, visto que as esposas dos superintendentes ocupavam uma posição de ainda maior influência; (cj o advérbio “semelhantemen­ te” (Da mesma sorte), repetido do v. 8, nos leva a esperar uma nova categoria de oficiais, assim como a lista de qualidades paralelas, embo­ ra não sejam idênticas, também nos leva a esperar. Por estas razões, é provável que a tradução “diaconisas” seja correta. A ausência do arti­ go, se influi, é um ponto ao seu favor. Mulheres está sendo usado qua­ se adjetivamente — “diáconos que são mulheres,” “diáconos mulheres.” Já tem sido perguntado por que, se Paulo quis dizer diaconisas, não em­ pregou um termo técnico separado, mas a resposta suficiente é que o N.T. não conhece algum. Febe, por exemplo, é simplesmente chamada “diácono (Gr. diakonos) da igreja em Cencréia” em Rm 16:1. A falta de um termo técnico para as diaconisas nas Pastorais é um indicador pequeno, porém relevante, à data primitiva destas. A emergência da ordem das diaconisas na igreja primitiva é muito obscura, assim como o relacionamenteo entre aquela e a ordem das viú­ vas (ver C. H. Turner, “Ministries of Women in the Primitive Church” em Catholic and Apostolic, ed, H. N. Bate, 1933). O cargo desenvol­ veu-se grandemente nos séculos III e IV, e é descrito em Didascalia (séc. III) e Constituições Apostólicas (segunda metade do séc. IV). Em 112, no entanto, Plínio, na sua bem-conhecida carta a Trajano (Ep. x.96) men­ ciona algumas diaconisas, e usou o termo técnico ministrae, e há toda razão para supor que oficiantes femininas fossem necessárias para deve­ res em conexão com mulheres (e.g. trabalho pastoral com as doentes e as pobres, assistência no batismo, a transmissão de recados oficiais, etc.) desde o início. Os indícios contidos em Rm 16:1 e esta passagem são evidência de que o caso era assim, e a breve lista de qualidade exi­ gidas oferece confirmação adicional. Como seus equivalentes masculi­ nos, devem ser respeitáveis e temperantes no uso do álcool, e, além disto, devem resistir a tentação de serem maldizentes^ que suas funções pasto­ rais colocaria no seu caminho. 12,13. Paulo volta, então, aos diáconos masculinos, e insiste que, como os superintendentes, devem ser marido de uma só mulher, i.é, ca­ sar-se uma só vez na vida (ver nota sobre 2 supra), e devem dar provas da sua competência para o cargo pastoral ao governar bem seus filhos e sua própria casa. Depois toca nas recompensas que lhes são reservadas se desempenharem com sucesso os seus deveres, com o espírito certo. Em primeiro lugar, os que desempenharem bem o diaconato, alcançam para si mesmos justa preeminência, i.é, garantem que seu cargo, apesar do seu título modesto e da sua aparência de subordinação, seja um de in­ 85


I TIMÓTEO 3:12-13 fluência e respeito na comunidade em geral. A palavra traduzida preeminência (Gr. bathmos: um hapax do N.T.) literalmente significa ou “base,” “fundamento” (e.g. de um pe­ destal), ou “escada,” “degrau.” Figuradamente pode ser usada para de­ notar um grau de promoção ou patente (e.g. no exército), ou, na reli­ gião, uma etapa do crescimento da alma no conhecimento (assim em Cle­ mente de Alexandria) ou no seu progresso para o céu (assim no Corpus Hermeticum). Uma exegese que se aceita de modo generalizado, por­ tanto, refere a palavra aqui a um passo no ministério; Paulo está pro­ metendo aos diáconos que, se servirem lealmente, podem esperar que serão promovidos para a posição de superintendente. Embora este seja o significado da palavra em escritores e liturgias posteriores, parece fora do contexto aqui, e, de qualquer maneira, é improvável que qualquer coisa como uma escada precisamente ordenada de promoção eclesiás­ tica estivesse em vigor no século I, ou até mesmo no começo do século II. Outros entenderam a palavra no sentido diante de Deus: os diáconos fiéis faião progresso espiritual, ou até mesmo estabelecerão um relacio­ namento mais estreito entre eles e Deus. Isto, mais uma vez, importa idéias estranhas, e olvida a conexão entre este versículo e o anterior; a transição da posse de virtudes quotidianas como as que se mencio­ nam supra para galardões celestiais parece muito abrupta demais. Por estas razões parece mais provável que Paulo esteja pensando na reputa­ ção e influência que os diáconos terão com sua congregação; seu enco­ rajamento a eles é paralelo à sua descrição do cargo do superintendente como sendo excelente obra, um caigo que vale a pena. Esta, porém, não é a única recompensa deles; ver-se-ão dotados com muita intrepidez na fé em Cristo Jesus, “intrepidez” (Gr. parrhêsia) é, com todos os seus cognatos, uma palavra predileta de Paulo. Seu sig­ nificado básico em todos os contextos é a coragem e confiança peculia­ res que o apóstolo verdadeiro traz na sua pregação da palavra. Usual­ mente é confiança diante dos homens (2 Có 7:4; Fp 1:20; 1 Ts 2:2), mas às vezes é confiança para aproximar-se de Deus (Ef 3:12). Aqui, a intrepidez prometida aos diáconos fiéis provavelmente inclui os dois tipos de confiança; terão consciência de uma .ousadia cada vez maior em proclamar o evangelho, e também de uma confiança cada vez mais profunda na sua aproximação de Deus. E esta intrepidez tem suas raí­ zes e força motora na fé em Cristo Jesus. Para a expressão, que signi­ fica muito mais do que “fé cristã” (B. S. Easton), ver sobre 1:14. O que o Apóstolo quer dizer é ilustrado por Ef 3:12, onde descreve sua segurança como estando baseado “na confiança nascida da fé nEle” 86


I TIMÓTEO 3:14-15 (NEB). 7. A CASA DE DEUS E O MISTÉRIO CRISTÃO. 3:14-16. Esta seção tem sido bem descrita (M. Dibelius) como sendo “a cesura” da carta, i.é, o ponto de divisão que lhe dá relevância. Não somente forma a ponte entre a primeira parte, com suas instruções acer­ ca da oração e do ministério, e as orientações práticas da segunda par­ te, mas, sim, ao ressaltar as funções verdadeiras de uma igreja, fornece a base teológica para as regras e os regulamentos, bem como para o ata­ que contra o falso ensino, que formam o corpo da carta. A essência da mensagem de Paulo é que a oídem, no senso mais amplo do termo, é necessária na congregação cristã precisamente porque é a casa de Deus, Seu instrumento escolhido para pregar aos homens a verdade salvífica da revelação do Deus-homem, Jesus Cristo. 14,15. A sintaxe dos dois primeiros versículos é desajeitada; Paulo teria expressado aquilo que queria dizer de modo mais claro se ti­ vesse escrito: “Embora espere ir ver-te em breve, escrevo-te estas coisas para que, se eu tardar, fiques ciente. . .” Para a situação contemplada, e o argumento de que demonstra traços de artificialidade, ver a nota so­ bre 1:3. As “instruções” (estas coisas) abrangem todas as exortações contidas na carta. Visto que há uma possibilidade real de atraso, Paulo naturalmente quer colocá-las por escrito, especialmente porque seu con­ selho acerca da ordem eclesiástica e a necessidade de manter a sã dou­ trina claramente visa um auditório maior do que Timóteo somente. Isto se aplica especialmente à presente passagem, com suas sugestões suben­ tendidas acerca das responsabilidades de ser membro da igreja. A tradução como se deve proceder na casa de Deus supõe que o Grego queira dizer “como a pessoa deve comportar-se,” e não “como você deve comportar-se.” A favor do último texto, que foi preferido por alguns dos pais, estão (a) o verbo no singular para que fiques ciente, e (b) o fato de que dependia de Timóteo, mais do que qualquer outra pes­ soa, cuidar que os ideais de Paulo fossem realizados em Éfeso. Do ou­ tro lado, o verbo “proceder” (Gr. anastrephestai) é compreensivo, e abrange de modo apto a conduta esperada de todos os grupos discuti­ dos, e os relacionamentos mútuos entre eles. Entender que se aplica à igreja em Éfeso de modo geral também concorda melhor com o cará­ ter semi-público da carta e com a idéia da congregação como sendo a família de Deus. 87


I TIMÓTEO 3:14-15 A casa de Deus tem sido traduzida assim ao dar-se ao Gr. oikos o sentido de uma “construção.” Isto é perfeitamente possível, e é apoi­ ado por (a) as metáforas arquitetônicas na segunda metade do versículo, e (b) a linguagem de Paulo noutros lugares (e.g. 1 Co 3:9, 16-17; Ef 4: 12). Nesta passagem, no entanto, Paulo está claramente retomando o pensamento de 3:4, 5, 12, onde oikos significa “casa” no sentido de “lar” e “família” (cf. 2 Tm 1:16; Tt 1:11) e a analogia entre uma igre­ ja e uma família humana está explícita ou implicitamente presente. Fa­ la de cristãos formando uma família entre si na fé em G1 6:10 e com Deus em Ef 2:19. É semelhante família ou casa, transformada numa unidade pela sua Cabeça divina, que cada congregação, ou igreja do Deus vivo, forma. Como em 3:5, não há artigo definido antes de igreja, e isto sugere que Paulo está pensando primariamente da comunidade local específica. Seu comentário pode ter implicações para a igreja universal, mas nenhuma doutrina dela é explicitamente exposta aqui. Paulo freqüentemente descreve Deus como sendo vivo (4:10; 2 Co 3:3; 6:16; 1 Ts 1:9). Toma emprestado o epíteto do A.T., onde serve para ressaltar o contraste en­ tre Javé e os ídolos mortos. A congregação local, Paulo acrescenta, é coluna e baluarte da ver­ dade. Como nas Pastorais de modo geral (ver sobre 2:4), a verdade re­ presenta a plena revelação de Deus em Cristo, mas leva consigo a nuan­ ça de “a fé ortodoxa.” A escolha da palavra aqui é motivada pela opo­ sição consciente aos mestres do erro que estão para ser denunciados em 4:1 ss. O que Paulo está dizendo é que a função e a responsabilidade de cada congregação é apoiar, reforçai, e assim salvaguardar o ensino ver­ dadeiro pelo seu testemunho consciente. Devemos notar (a) que balu­ arte é provavelmente a tradução mais exata do Grego hedraiõma (que não se acha em nenhum outro lugar) e (b) que a igreja local é descrita como coluna etc., e não “a coluna, etc.”, porque há muitas igrejas locais em todo o mundo que desempenham este papel. Duas outras interpretações da passagem devem ser mencionadas. Tem sido proposto que coluna e baluarte da verdade deva (a) ser tomada em aposição a Timóteo, o sujeito oculto de fiques ciente supra, ou (bj ser ligada àquilo que se segue e ser usada para qualificar o mistério da piedade. A última pode ser rejeitada imediatamente. Envolve uma tau­ tologia, visto que o mistério da piedade não é o apoio da verdade mas, sim, a própria verdade; e o anticlímax de Evidentemente grande vindo depois de coluna e baluarte é intolerável. A primeira é um pouco mais plausível. Mas, em primeiro lugar, há muita matéria interveniente en88


I TIMÓTEO 3:16 tre estas palavras e fiques ciente para permitir que sejam ligadas com aquele verbo; em segundo lugar, o assunto em pauta não é Timóteo, mas, sim, a função da igreja. Os exegetas têm apelado a estes expedien­ tes porque imaginaram que, conforme é comumente interpretada, a passagem deve subentender que a igreja é, dalguma maneira, o funda­ mento ou base do evangelho, ao passo que a verdade é exatamente o opos­ to disto (1 Co 3:11). Mas se a tradução e a explicação dadas supra fo­ rem corretas, a alegada dificuldade não existe. A única preocupação de Paulo é enfatizar que os membros de cada comunidade local devem ser um baluarte forte do evangelho contra os assaltos dos falsos mestres. 16. A menção da verdade estimula a exclamação quase extáti­ ca: Evidentemente, grande é o mistério da piedade. O advérbio tradu­ zido Evidentemente (Gr. homólogoumenòs) significa “por consentimen­ to comum,” e expressa a convicção unânime dos cristãos. Nalguns MSS, é dividido em duas palavras, homologoumen hòs, i.é, “confessamos que..,” mas isto é totalmente desnecessário e destrói a nota de ênfase solene. Como em 9 supra, o mistério representa o plano redentor de Deus que tem sido guardado em sigilo desde todas as eras mas que agora foi re­ velado. O original de piedade (“nossa religião”) é o Gr. eusebeia, tão característica das Pastorais: ver nota sobre 2:2. A frase inteira, que para todos os fins práticos é equivalente a “o mistéiio da fé” em 9 e “a verdade” em 15, pode ser parafraseada: “A revelação salvífica que subjaz a fé e vida cristãs, e que nelas acha expressão.” A fórmula grande é o mistério. . ., conforme tem sido indicado, tem uma semelhança estranha com o grito: “Grande é Diana dos Efésios” (At 19:28, 34). Há evidência nas inscrições e alhures que estas palavras eram uma aclamação cultual regular em Éfeso no século I. A se­ melhança é provavelmente mera coincidência, mas há alguma possibili­ dade de que Paulo esteja deliberadamente formulando sua própria decla­ ração cristã em termos que repudiavam a alegação pagã tão freqüentemen­ te ouvida em Éfeso. Para justificar sua alta estima de o mistério da piedade, Paulo epitomiza seu conteúdo com uma seleção de um hino primitivo acerca de Cristo. Que é um hino, e não um fragmento de um credo, ou um tre­ cho de matéria catequética, é demonstrado pelo paralelismo cuidadoso entre as estrofes, pela dicção rítmica, e a assonância deliberada (muito marcante no Grego) dos seis verbos na terceira pessoa do singular do aoristo. Para o uso semelhante de um hino, cf. 2 Tm 2:11-13. A cita­ ção é apenas um fragmento, uma cláusula relativa complexa que come­ ça com o pronome Aquele que (Gr. hos) sem qualquer cláusula princi89


I TIMÓTEO 3:16 pai. Parece que isto causava dificuldade aos exegetas e escribas antigos, alguns dos quais procuraram emendar o texto para produzir uma frase que fluisse suavemente. Destarte, a maioria dos MSS ocidentais colocam o neutro ho (= “que”) no lugar de hos, e assim ligam a cláusula com o mistério da piedade. Certo número de MSS posteriores registra theos (— “Deus”) em lugar de fios, que dá a tradução “Deus foi manifesta­ do. . Estas duas variantes são claramente secundárias, sendo tentati­ vas de eliminar a desarticulação superficial do texto verdadeiro. Inques­ tionavelmente, hos tem o melhor apoio nos MSS e representa o texto verdadeiro, e de qualquer maneira, não pode haver dúvida de que Cristo, e não Deus, deve ser o sujeito dos verbos seguintes. A ausência de um antecedente é explicada pelo caráter fragmentário da passagem citada. A essência do mistério cristão, Paulo afirma (cf. Cl 1:27) é o pró­ prio Cristo, encarnado e glorificado. A cláusula antecedente, que falta, decerto O mencionava pelo nome; agora, em seis estrofes compactas, a cláusula relativa expõe momentos-chaves na Sua glorificação. Visto que a seleção é um mero fragmento, e a linguagem da hinódia tende a ser de difícil interpretação, não é possível identificar todos estes mo­ mentos com exatidão, mas o primeiro, de qualquer maneira, é totalmen­ te claro. Ressalta a encarnação, e declara que Cristo foi manifestado em carne, i.é, apareceu na terra como um homem real. Como nas pas­ sagens cristológicas correlatas, Rm 1:3 (provavelmente em trecho ex­ traído de matéria catequética) e 1 Pe 3:18, carne, representa a humani­ dade do Deus-homem, e não, como tão freqüentemente em Paulo, a carne como o centro do pecado. Para o verbo “manifestar” (Gr. phanerousthai) cf. Hb 9:26; 1 Pe 1:20; o próprio Paulo não o emprega para a encarnação, embora fale (2 Tm 1:10) do “aparecimento” (Gr. epiphania) de Cristo. Sua pre-existência é provavelmente subentendida, embora não necessariamente. A segunda estrofe, justificado em espirito, é mais difícil. Visto que “vindicado” (Gr. edikaiòthê) literalmente significa justificado ou “declarado justo,” M. Dibelius argumenta que o que é afirmado é a exal­ tação de Cristo à esfera divina, à esfera da justiça. Reconhece-se que isto envolve dar a justificado um sentido que não tem em qualqüer ou­ tro lugar no N.T., mas isto não é problema sério, especialmente porque a passagem é uma citação. O verdadeiro problema é como extrair este significado do Grego, pois espirito não sugere naturalmente “a esfera do espírito.” Se esta interpretação for rejeitada, ficaremos com duas alter­ nativas. (a) Se espirito for entendido como rigorosamente paralelo a carne, as duas expressões devem representar os elementos divino e hu­ 90


I TIMÓTEO 3:16 mano, respectivamente, no Ser de Cristo, como em Rm 1:3 e 1 Pe 3:18. A cláusula afirmará, então, que embora o Salvador aparecesse na terra como um homem verdadeiro, foi justificado, i.é, declarado justo e de­ monstrado como sendo realmente o Filho de Deus, no que diz respeito à Sua natureza espiritual, sendo subentendido uma referência à ressur­ reição. (b) Outros, dando a em um sentido instrumental e entendendo que espírito denota o Espírito Santo, preferem a tradução: “Foi decla­ rado justo através de, ou por meio de, o Espírito Santo.” O significado será então que, embora Cristo fosse crucificado como malfeitor, Deus O vindicou e O declarou justo quando, através do Espírito Santo (cf. Rm 8:11), ressuscitou-0 dentre os mortos. É difícil decidir entre estas duas exegeses, especialmente porque no pensamento primitivo nenhu­ ma distinção clara era feita entre o Espírito Santo e a natureza espiritual do Senhor. Se for forçoso fazer uma escolha, provavelmente seria a fa­ vor de (a) tendo em vista o paralelismo manifesto entre carne e espirito e a dificuldade de atribuir a em antes desta última palavra um sentido instrumental. A terceira estrofe, contemplado por anjos, tem sido muito dis­ cutida, mas seu sentido geral realmente está além de disputa. Tentati­ vas têm sido feitas no sentido de explicá-la como referência ou aos men­ sageiros (a palavra grega traduzida anjos pode igualmente bem significar “mensageiros”) que relataram a ressurreição de Cristo, ou aos anjos que acompanhavam Sua vida na terra (Mc 1:13; Lc 2:13; 24:23; Jo 1:51), ou ao “conhecimento mais pleno da pessoa de Cristo que foi desvenda­ do às hostes celestiais pela encarnação” (J. H. Bemard, citando 1 Pe 1:12 e Ef 3:10 como apoio). Todas estas exegeses, no entanto, cometem o erro de pressuporem que as experiências encarnadas de Cristo estejam em mira, e assim perdem a lição que o hino está ensinando. O que está realmente ressaltando é a adoração prestada pelos poderes angelicais ao Cristo assunto e glorificado. Paralelos iluminadores são fornecidos por Fp 2:9-10; Cl 2:15; Hb 1:6, onde Sua exaltação é representada como um triunfo sobre o mundo dos espíritos, que elicita sua adoração. O tema era elaborado no ensino cristão popular primitivo: cf. Ascensão delsaias, 11:23. As três estrofes restantes apresentam um número relativamente menor de problemas. A quarta, pregado entre os gentios, afirma a prega­ ção em escala mundial do evangelho de Cristo. Gentios (Gr. ethnè) é ambíguo, e pode denotar ou as nações da terra, i.é, a humanidade, ou os gentios em especial. Nossa decisão entre estas alternativas deve ser determinada pelo conceito que adotamos quanto à estrutura do hino

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I TIMÓTEO 3:16 como um todo (ver o parágrafo seguinte). A quinta, crido no mundo, que enfatiza a aceitação universal do evangelho pregado, mais uma vez é ambígua, visto que mundo (Gr. kosmos) pode significar ou o univer­ so criado inteiro, ou simplesmente a totalidade da raça humana. Final­ mente, recebido na glória, que talvez pareça ser uma mera repetição das alusões prévias à exaltação de Cristo, contém, na realidade, muito mais do que ela. “Glória” é um termo técnico para o brilho ofuscan­ te com que a presença de Deus é cercada. Logo, a frase inteira dá a en­ tender, não apenas que Cristo subiu, mas, sim, que foi levado para o âmbito de glória divina, para reinar ali com o Pai. Mais luz sobre a aplicação do hino pode ser obtida por um estudo da sua estrutura e plano. Conforme alguns, há dois versículos, sendo que cada um contém três linhas. Segundo este ponto de vista, as três primeiras estrofes têm como seu tema as fases sucessivas na exaltação de Cristo - Sua encarnação, Sua ressurreição, Sua ascensão através da esfera superior dos poderes angelicais; ao passo que as três últimas es­ trofes demoram-se no assunto da universalidade do Seu reinado — en­ tre os gentios (ou talvez a humanidade em geral), no mundo inteiro (ou talvez no universo inteiro), no próprio céu. As objeções principais a este arranjo são: (a) os dois conjuntos de momentos significantes que devem ser ressaltados não se destacam, na realidade, de modo algum; e (b) olvida completamente o paralelismo manifesto entre carne e espi­ rito, anjos e gentios, e mundo e glória. Este paralelismo torna pratica­ mente certo que o hino realmente está disposto em três coplas, sendo que cada uma contém uma antítese cuidadosamente projetada. Pri­ meiro, o Cristo encarnado e, portanto, na forma de um servo, é visto vindicado na Sua ressurreição. Em segundo lugar, Cristo recebe a ado­ ração dos anjos e é pregado às nações da humanidade, i.é, é trazido ao conhecimento de todos os seres racionais, celestiais e terrestres. Em ter­ ceiro lugar, Ele é aceito tanto pelo universo criado inteiro (cf. Cl 1:23) quanto no próprio âmbito celestial. Trabalhando nesta base, J. Jeremias sugeriu que o padrão que in­ fluenciou, sem dúvida inconscientemente, a mente do autor desconhe­ cido deve ter sido o do antigo ritual de entronização do Egito e do Ori­ ente Próximo em geral. Este ritual envolvia três atos sucessivos —a exal­ tação do rei e sua aceitação dos atributos divinos, a apresentação do rei agora deificado ao círculo dos deuses, e sua entronização. Vê paralelos ao primeiro destes na elevação de Cristo ao âmbito da existência divina na primeira copla, ao segundo, na proclamação do senhorio dEle diante dos anjos no céu e da humanidade na terra, e ao terceiro, na aceitação 92


I TIMÓTEO 4:1 do Seu reino subentendida nas duas últimas estrofes. Esta proposta é engenhosa e atraente, e Jeremias discerne um paralelo em Hb 1:5ss.; mas (a) há dificuldades em desenvolver seu esquema (e.g., se for aceito, os paralelismos deliberados parecem perder sua razão de ser), e (b) é duvidoso se a semelhança superficial dos padrões seja mais do que coin­ cidência. 8. UMA ADVERTÊNCIA CONTRA O FALSO ASCETISMO. 4:1-5. Depois da sua breve digressão, louvando o mistério cristão, Paulo dirige sua atenção mais uma vez aos mestres do erro, sendo que quase nem sequer tocou no caso deles desde o cap. 1. Que um ataque haveria de ser lançado foi sugerido indiretamente em 3:15, com sua menção do comportamento correto na congregação cristã. Desta vez, fixa sua aten­ ção nos conselhos práticos dos heréticos, com sua tendência a favor de um asceticismo basicamente não-cristão, e contrasta com ele o tipo autenticamente cristão da autodisciplina. 1. Tais falsos ensinos poderiam ser um problema para a Igreja, se não fosse o caso de ter sido advertida de antemão: Ora, o Espirito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé. É, naturalmente, impossível identificar a profecia. Os críticos que ne­ gam a autoria paulina às vezes alegam que o escritor está pensando na predição de advertência feita pelo próprio Paulo diante dos presbíteros de Éfeso (At 20:29-30), mas mesmo conforme as pressuposições deles, tal coisa é desnecessária. A crença de que o falso ensino, que teria como resultado a apostasia, teria sido levada em conta no período em que a Parusia estava profundamente embutida no pensamento cristão primiti­ vo. Temos exemplos no dito do Senhor registrado em Mc 13:22 e em 2 Ts 2:3, 11-12; cf. também 2 Tm 3:1 ss. A seita de Cunrã, segundo parece, participava do ponto de vista de que “no fim dos dias” surgiriam blasfemadores (ver Comentário sobre Habacuque 2:5-6). Passagens tais como Atos 11:27-28; 13:1-2; 1 Co 14 dão ilustrações da maneira segundo a qual o Espírito transmitia Suas advertências à comunidade. Para a fé no sentido objetivo, ver sobre 3:9. O desvio, ou a apos­ tasia, foi profetizado para os últimos tempos. A expressão é equivalen­ te de “nos últimos (Gr. eschatais: aqui husterois) dias” em 2 Tm 3:1. O fato de que esta época crítica é considerada igual ao tempo presente indica que a esperança da Parusia iminente ainda está viva. A falha dos apóstatas, Paulo explica, é devida a obedecerem a espíritos enganadores 93


I TIMÓTEO 4:3 e a ensinos de demônios; noutras palavras, detecta nela os estratagemas maléficos de Satanás e seus aliados, assim como discernira sua influência operante na oposição em Corinto (2 Co 2:11) e, de modo mais geral, na resistência que os homens opõem à verdade (2 Co 4:4; Ef 2:2). Estes demônios, no entanto, empregam agentes humanos; logo, a apostasia é realizada pela hipocrisia dos que falam mentiras, e que têm cauterizada a própria consciência. Estes são, naturalmente, os próprios falsos mestres, que, portanto, são descritos como os que falam mentiras. Ao acusá-los às .hipocrisia Paulo está insinuando que seu ar de devoção e de rigor ético é apenas uma máscara ilusória. Além disto, são pessoas que estão a serviço de Satanás, e, como conseqüência, têm sua consciên­ cia ferreteada com a marca que indica que ele é dono deles. O verbo empregado (Gr. kaustêriazein: em nenhuma outra parte da Bíblia) sig­ nifica “ferretear com um ferro quente.” Uma interpretação alternati­ va possível é que sua consciência foi cauterizada, i.é, tomada insensí­ vel à distinção entre o certo e o errado. Isto concordaria com a descri­ ção de Paulo (Ef 4:19) dos pagãos que não têm conhecimento de Cris­ to “mortos a todo o sentimento” (“insensíveis,” ARA). É difícil ter certeza qual é certo, mas as marcas do ferrete que indicavam o direito do dono eram ferreteadas na testa dos escravos, e esta idéia talvez har­ monize melhor com a sugestão de que os mestres do erro são os instru­ mentos dos poderes demoníacos. 3. Paulo agora passa a definir um aspecto específico da doutrina deles: os mestres do erro proibem o casamento, exigem abstinência de alimentos. . . (não há exigem no original: o infinitivo “abster” é ligado a proibem por zeugma). No que diz respeito ao primeiro aspecto, a proibição do casamento, bem como do sexo de modo geral, era um tra­ ço nitidamente gnóstico, e passou para o primeiro plano nos grandes sis­ temas gnósticos do século II. Era baseado no dualismo que fazia parte integrante do gnosticismo, sendo que o princípio era que a matéria, in­ clusive o corpo humano e suas funções, era má, e que o homem reli­ gioso devia fazer o máximo que podia para viver emancipado dela. Tais idéias eram estranhas ao judaísmo de modo geral, embora Josefo relate {Bell. Iud. ii.8.2) que os essênios faziam pouco caso do casamento. Es­ te fato tem tentado muitos a identificarem os hereges como gnósticos propriamente ditos, mas fazer assim é olvidar o fundo histórico judaico do seu ensino, e o fato de que todos os aspectos principais do gnosticis­ mo desenvolvido estão ausentes dele (ver a Introdução, págs. 18—20). Há evidência de uma atitude negativa para com o sexo, não talvez tão radical como esta, na igreja de Corinto (1 Co 7:lss.;esp. 36ss.), e Pau­ 94


I TIMÓTEO 4:4 lo já tratara disto conforme seu modo sensato. O que temos aqui não é tanto um gnosticismo total quanto uma tendência incipiente naque­ la direção, manifestada por judeus convertidos num ambiente sincretista. Pode ser notado que Paulo, embora implicitamente a condene, não a refuta por argumento. A explicação provavelmente é que já deixara abundantemente claros seus conceitos da naturalidade e da propriedade do casamento no seu tratamento das qualidades requiridas nos detento­ res de cargos. Produz um argumento arrazoado, no entanto, contra os regula­ mentos alimentícios dos hereges. A natureza exata da abstinência exi­ gida não fica dara, embora talvez possamos deduzir de 5:23 que en­ volvia a abstinência do álcool, ao passo que Tt 1:10 ss. sugere que tives­ se alguma conexão com as proibições alimentárias rituais judaicas. O vegetarianismo rigoroso discutido em Rm 14:1 ss. fornece um parale­ lo instruidor. Como naquela passagem, provavelmente estejamos jus­ tificados aqui em inferir uma fusão de elementos gnósticos e judaicos, embora pareça que Paulo está subentendendo que as proibições em Éfeso fossem baseadas rium dualismo mais explícito que estigmatizava a matéria como sendo maligna. Talvez seja esta a razão da veemência do seu ataque aqui, em contraste, por exemplo, com sua relativa bran­ dura em Rm 14:1 ss. Reconhece que o ascetismo que tira sua força motriz do dualismo pressupõe a salvação mediante os esforços do pró­ prio homem, além de violar a doutrina da criação exposta em Gn 1 (“E viu Deus que isso era bom”) e retomada em Eclo. 39:16, 25-27). À luz disto, argumenta que Deus criou estes alimentos que eles proibem, com o objetivo específico de serem recebidos, com ações de graça, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade. A insistência nas ações de graça ecoa o ensino de Paulo em Rm 14:6; 1 Co 10:30; Fp 4:6; ver abaixo sobre o versículo seguinte. As palavras são enfáticas e devem ser ligadas estreitamente com aquilo que se segue: o cristão que crê e que entrou na plenitude da revelação de Deus (para a verdade como equivalente, nas Pastorais, ao evangelho cristão inte­ gral, ver sobre 2:4) tem uma razão especial para reconhecer com grati­ dão que todas as coisas materiais vêm da parte dEle. 4. O grande princípio que abole todas as leis alimentícias e os tabus sobre dieta passa agora a ser exposto: Pois tudo que Deus criou é bom. Já tinha sido enunciado, no contexto de uma discusão de re­ gulamentos rituais judaicos, pelo próprio Cristo (Mc 7:19), e tinha sido confirmado na experiência notável de Pedro descrita em Atos 10:9-16. Seu corolário inescapável é que nada é recusável, sendo que a única con­ 95


I TIMÓTEO 4:5-16 dição prévia é que seja recebido com ações de graça. Paulo está se refe­ rindo, não à gratidão em geral, mas, sim, à gratidão expressada nas ações de graças às refeições: cf. e.g., 1 Co 10:30. No judaísmo, fazer as ora­ ções às refeições não era considerado mera formalidade, e os evangelhos relatam como Jesus sempre bendizia a Deus antes de uma refeição, e proferia ações de graças depois dela (e.g. Mc 6:41; 8:6; 14:22-23; Lc 24:30). As passagens alistadas no parágrafo anterior ilustram a impor­ tância, aos olhos de Paulo, de render ações de graças. 5. As palavras seguintes, porque pela palavra de Deus, e pela ora­ ção, é santificado, visam contrabalançar os escrúpulos de quem talvez esteja em dúvida. Por mais comum ou impura que uma certa forma de comida possa ser convencionalmente considerada, o fato de que ben­ dissemos a Deus por ela, do fundo do nosso coração, reconhecendo, assim, que é Seu dom para nós, deve fazer com que seja certo aos olhos até mesmo dos mais escrupulosos. A frase não alega que uma santifica­ ção adicional, além e por cima da sua bondade intrínseca como cria­ tura de Deus, é transmitida ao alimento ao proferir ações de graças. O que declara é que a oração de gratidão coloca o alimento na sua pers­ pectiva verdadeira, e, dessa maneira, capacita-nos a considerá-lo sagra­ do. Não devemos entender com pela palavra de Deus, conforme alguns propõem, a palavra criadora de Deus, como se a santificação tivesse uma fonte dupla: a palavra divina mediante a qual o alimento veio a existir, e a oração humana. A frase inteira, conforme indica porque, visa ex­ plicar recebido com ações de graça. Corretamente interpretadas, por­ tanto, a palavra de Deus e oração devem ser lidas em estreita conexão, como expressão de uma única idéia; a última é a oração de bênção e ações de graças propriamente dita, e a primeira diz respeito aos trechos da Escritura que, segundo o costume judaico, formavam seu conteúdo. 9. A ATITUDE POSITIVA ESPERADA DE TIMÓTEO. 4:6-16. Paulo agora dirige-se a Timóteo pessoalmente, e explica como de­ ve cumprir as tarefas esboçadas e, em especial, como lidar com o falso ensino. O conselho é quase totalmente construtivo. Nenhuma tenta­ tiva é feita de denunciar ou refutar; toda a ênfase é colocada no dever de Timóteo de fazer-se um modelo para seu rebanho. Ao colocar diante deles um exemplo da fé, devoção e conduta cristãs, desviará a atenção deles da heresia, e, ao mesmo tempo, poderá dar vazão plena e frutí­ fera ao dotamento espiritual que possui em virtude da sua ordenação.

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I TIMÓTEO 4:6-7 6. Timóteo deve expor estas coisas aos irmãos. O verbo usado (Gr. hupotithesthai) não contém nenhuma nota de autoridade ou man­ damento peremptório. Conforme observa João Crisóstomo: “Não es­ creveu ‘ordenando,’ não escreveu ‘instruindo,’ mas, sim, ‘sugerindo,’ ou seja: como se desse conselho,” As “sugestões” (estas coisas) são os princípios resumidos em 1-5 e reafirmados em termos mais gerais em 7-10 abaixo. Os membros da igreja de Éfeso são chamados irmãos, pa­ lavra esta em que o sentimento de pertencer a uma família ainda fica vivo (cf. 5:1; 6:2; 2 Tm 4:21). Ao agir assim, Timóteo se comprovará bom ministro de Cristo Jesus. O Grego para ministro (diakonos) é o mesmo de “diácono;” embora a palavra estivesse passando pelo processo de tomar-se especia­ lizada (ver a nota sobre 3:8), ainda retinha seu significado mais geral (e.g. 1 Co 3:5; 2 Co 11:23), e pode ser aplicada a qualquer apóstolo ou homem apostólico realizando a obra de Cristo. A realização eficaz deste ministério, no entanto, pressupõe que ele está alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que tem seguido, i.é, estudado com diligência e praticado com perseverança. O particípio está no tempo presente (lit. “nutrindo-te com”), e sugere que alimentar-se com as ver­ dades do evangelho deve ser a tarefa diária de Timóteo. Para a metá­ fora da comida ou da bebida aplicada ao ensino cristão, cf. 1 Co 3:2. Mais uma vez (ver sobre 3:9) a fé representa a fé cristã objetivamente considerada; doutrina (Gr. didaskalia), também como em 1:10; 6:1, 3; possvelmente 2 Tm 3:10; 4:3; Tt 1:9; 2:1, 10, tem o sentido de o corpo objetivo do ensino cristão. Os críticos que consideram as cartas pseudonímicas interpretam a passagem no sentido de aconselhar a leal aderência à tradição pauliria, agora canonizada e considerada como a versão autêntica do evangelho. Não há dificuldade, no entanto, em en­ tender a palavra no seu sentido natural como um indício de que a me­ lhor refutação do erro acha-se numa apresentação positiva da fé cristã. 7. Em antítese direta às palavras da fé, etc., há aquelas fábulas profanas e de velhinhas caducas que os hereges mascateiam para apoiar seu ascetismo mal-orientado bem como seus demais erros. Para fábu­ las ver a nota sobre 1:4. Timóteo “nada deve ter a ver” com estas. São profanas (Gr. bebêlos), palavra esta que conota aquilo que é radicalmen­ te separado daquilo que é santo, e oposto a ele; Paulo a usa nas Pasto­ rais (cf. 1:9; 6:20; 2 Tm 2:16) para sugerir que o ensino dos hereges não tem base ou conteúdo religioso real. A realidade, só servem para velhas supersticiosas (Gr. graõdeis: um epíteto sarcástico que era fre­ qüente na polêmica filosófica e que transmite a idéia de credulidade 97


I TIMÓTEO 4:8 ilimitada). Ao invés de atentar a tais estultídas, Timóteo deve Exer­ citar-se pessoalmente na piedade (Gr. eusebeia: ver nota sobre 2:2), de maneira que possa crescer no cristianismo verdadeiro. A comparação entre a vida cristã e o exercido atlético ou o esporte é, naturalmente, uma das favoritas de Paulo: cf. esp. 1 Co 9:24-27. Sua escolha dela é induzida pelo pensamento de que, assim como os sectários se sujeita­ vam a formas mal pensadas dè auto-disciplina física, assim também há uma auto-disciplina genuinamente cristã que Timóteo deve praticar. Consiste, porém, não em formas desnaturadas de abstinênda, mas, sim, podemos supor, no controle-próprio geral, na devoção contínua à tra­ dição do evangelho, e talvez mais do que tudo (conforme sugere 4:10), na aceitação com bom grado da cruz de sofrimento que todos os cris­ tãos devem esperar. 8. O objetivo de Timóteo, conforme Paulo acaba de defini-lo, de­ ve ser, não a subjugação meramente negativa da sua natureza física, mas, sim, o progresso na “religião sadia” (piedade). Apoiando esta idéia, dta o que parece, pela sua harmonia, ser um refrão proverbial: “Pois o exercido fisico para pouco é proveitoso, mas a piedade para tudo é proveitosa.” Conforme era originalmente formulado, este apotegma deve ter sido dirigido contra o treinamento excessivo de atletas, que, segundo sabemos, era assunto de fortes críticas nos círculos estóicos e cínicos. Na presente passagem, naturalmente, o treinamento atléti­ co como tal não está sendo discutido, e uma referência a ele é rigoro­ samente irrelevante. Paulo introduz a citação (a) por causa da justapo­ sição de Exercitar (uma metáfora do atletismo) e piedade na frase an­ terior, que a sugerem; (b) porque a alusão à piedade com que a cita­ ção termina, comprova admiravelmente o valor do conselho que acaba de dar a Timóteo; e (c) porque a frase exercício físico, com sua falta completa de implicações, impressiona-o como uma caricatura apropria­ da para descrever a auto-disciplina exclusivamente física praticada pelos sectários. De modo geral, esta parece ser a maneira mais satisfatória de en­ tender esta passagem difícil. Alguns propuseram que tanto Exercita-te (Gr. gumnaze) no v. 7 e exercício fisico (Gr. sõmatikè gumnasia) no presente versículo devam ser entendidos metaforicamente como refe­ rência à auto-mortificação ascética. Segundo esta interpretação, os dois versículos poderiam ser parafraseados: “Ocupa-te, sem dúvida, na mortificação do corpo, mas ao assim fazer seja seu alvo o progresso na religião verdadeira, e não meramente a subjugação dos seus impulsos naturais. Semelhante ascetismo exclusivamente físico tem seu lugar 98


I TIMÓTEO 4:9 limitado na vida cristã, mas só a religião sadia em si mesma leva para a salvação.” Esta interpretação tem a vantagem de deixar de lado a alu­ são desajeitada e, à primeira vista, sem razão de ser, ao atletismo. Além disto, obtém apoio doutras passagens no N.T. onde a abnegação e o as­ cetismo por finalidades rigorosamente cristãs são encorajados (Mc 9:29; 1 Co 7:5; 8:13; 9:27). É duvidoso, no entanto, se as palavras gregas gumnaze e gumnasia possam, sem qualificação, suportar o significado requerido; e, além disto, parece incrível que, depois de denunciar o ascetimo dos sectários como sendo diabólico, Paulo acabasse reconhecendo que a mortificação física tem um valor limitado. As palavras finais, porque tem a promessa da vida que agora é e da que há de ser, definem as bênçãos que o homem que se dedica à pie­ dade pode esperar. Parecem ecoar as palavras de nosso Senhor registra­ da na tradição dos Evangelhos que oferecem exatamente esta recompen­ sa àqueles que renunciam a tudo por amor a Ele (Mt 19:29; Mc 10:30; Lc 18:30). Para a mesma promessa, cf. Tt 1:2. Podemos resumir a li­ ção de Paulo ao dizer que a piedade (i.é, eusebeia) cristã verdadeira não envolve o ascetismo físico como um elemento necessário; onde é prati­ cado, deve haver um propósito mais alto em mira, como nas passagens alistadas no parágrafo anterior. O cristianismo verdadeiro consiste, pelo contrário, em submissão sempre renovada ao controle do Espírito, com a aceitação bem disposta da labuta e do sofrimento (ver v. 10 abaixo) e a prática daquelas virtudes que são o fruto do Espírito. A vida eterna, tanto neste mundo quanto no mundo vindouro, é a coroa que pode ser esperada por aqueles que entram em semelhante caminho. 9. Se a primeira metade da frase é, conforme é proposto supra, um refrão corrente que critica o atletismo excessivo, que Paulo adotou para os propósitos dele, estas palavras finais acerca da promessa da vida não podem, naturalmente, ter formado parte dele. Devem ter sido acres­ centadas de passagem pelo próprio Apóstolo, ou talvez tenham estado presentes na adaptação cristã do apotegma que ele cita. Elas, também, têm uma qualidade proverbial e, conforme vimos, cristalizam idéias acer­ ca do galardão eterno do cristão fiel, idéias estas que derivam do ensino do nosso Senhor em pessoa. Paulo está quase certamente fazendo refe­ rência a elas quando interpõe: Fiel é a palavra e digna de inteira aceita­ ção. Para a fórmula, ver a nota sobre 1:15. Pode ou referir-se a matéria posterior, como em 1:15, ou a matéria anterior, como em Tt 3:8. Al­ guns têm argumentado que aqui refere-se ao v. 10, mas (a) este versícu­ lo apenas retoma o pensamento do v. 8 e lhe dá aplicação prática, e (b) seu vocabulário (cf. “labutar”, “esforçar-se,” “esperança,” “Deus nosso 99


I TIMÓTEO 4:10 Salvador”) é distintivo das Pastorais. Do outro lado, a segunda metade do v. 8 tem a qualidade epigramática bem como o peso da relevância cristã que procuramos numa das “palavras fiéis ” é fácil entender como a menção da promessa da vida induziu Paulo a fazer este comentário. 10. Depois da sua breve exclamação, resume o fio da meada, e as palavras seguintes: Ora, é para esse fim, relembram a promessa da vi­ da eterna mencionada de leve no v. 8. É com o objetivo de obter aquela vida bendita, declara o Apóstolo, que labutamos e nos esforçamos so­ bremodo (cf. Cl 1:29: “para isso é que eu também me afadigo, esfor­ çando-me o mais possível”). Certo número de MSS substituem “sofre­ mos opróbrio” (Gr. oneidizometha) onde se lê: nos esforçamos sobre­ modo, e este muito bem pode ser o texto correto, tendo sido substituí­ do por nos esforçamos sobremodo sob a influência de Cl 1:29; mas o texto tradicional tem o apoio mais maciço e se encaixa melhor no con­ texto. Paulo está continuando sua metáfora atlética (cf. esp. 1 Co 9:25, onde fala de correr para alcançar uma coroa que não murchará), mas seu interesse transferiu-se da luta espiritual de Timóteo para alcançar a piedade, para a labuta e esbofeteamento que ele e seus associados têm de agüentar (e agüentar com bom ânimo) nos seus esforços para pro­ pagar ó evangelho. Se puderem suportar tudo isto com confiança e sem esmorecer, é porque temos posto a nossa esperança no Deus vivo. Para esta descri­ ção de Deus, ver a nota sobre 3:15. Paulo a escolhe aqui porque Deus, sendo Ele mesmo vivo e a fonte da vida, pode conferir a vida aos ou­ tros e, portanto, pode-se confiar nEle para cumprir a promessa do v. 8. O perfeito do verbo temos posto a nossa esperança (cf. 1 Co 15:19; e 2 Co 1:10) deve ser notado; subentende um estado contínuo de espe­ rança, não apenas um ato único. E outra base da nossa confiança é o conhecimento de que Deus é Salvador de todos os homens, especial­ mente dos fiéis (ou: “dos que têm fé”). Para a idéia de Deus como Salva­ dor, ver sobre 1:1. A declaração, que significa muito mais do que Deus é Preservador (D. Guthrie), repete o pensamento de 2:4 (ver nota), on­ de é afirmado que a vontade de Deus é a salvação de todos os homerts. A distinção entre todos os homens e os fiéis não reflete necessariamen­ te (conforme sustentam alguns que são céticos quanto à autoria paulina) o ponto de vista da era pós-apostólica, quando foi reconhecido que os crentes propriamente ditos eram apenas uma fração da humanidade. O todos enfático, como em 2:4 e 6, vai contra as idéias exclusivistas dos mestres do erro: ver a nota sobre 2:4. Ao acrescentar: especialmen­ te dos fiéis, Paulo sem dúvida está dando expressão à sua convicção de 100


I TIMÓTEO 4:11-12 que a certeza da salvação pertence em grau especial àqueles que aceita­ ram a Cristo: cf. Rm 8:29, onde declara que é para os qüe amam a Deus e que são chamados conforme Seu propósito que todas as coisas coope­ ram para o bem. Mesmo assim, conforme nos relembra o advérbio espe­ cialmente, não está negando que outros possam obter a salvação. Seu objetivo principal nesta passagem, no entanto, não é discutir as ques­ tões profundas da predestinação e da graça, mas, sim, meramente tor­ nar claro além de toda a dúvida que os que fazem um esforço genuí­ no para praticar a eusebeia e viver uma vida plenamente cristã, colocan­ do sua esperança no Deus vivo, não ficarão decepcionados. 11,12. O conselho de Paulo, começando com as palavras perem­ ptórias Ordena e ensina estas coisas, agora assume um tom extremamen­ te pessoal enquanto encoraja seu representante a asseverar-se com vigor. O verbo Ordena é enfático, com implicações militares, e dá a entender que Timóteo deve falar de modo autorativo: ver sobre 1:3. Devemos inferir que o Apóstolo estava preocupado com a timidez de Timóteo, e que este último não se sentia muito seguro em ter que firmar-se sobre seus próprios pés. Como tal, a passagem é extremamente vívida, e con­ firma a impressão deixada por 1 Co 16:10-11 de que era uma pessoa temerosa de quem os outros tendiam a tirar vantagem. Aqueles que consideram a carta pseudonímica devem pressupor que o autor delibe­ radamente acrescentou estes toques pessoais para criar um ar de veros­ similhança. Segundo o ponto de vista deles, suas instruções, embora fossem aparentemente dirigidas a Timóteo, realmente visam todos os jovens que talvez sejam chamados a cargos de semelhante responsabi­ lidade na igreja. Esta explicação ilustra uma das dificuldades da teoria da pseudonimidade. Não é fácil perceber por que um escritor poste­ rior tivesse escolhido os jovens para conselhos deste tipo, e muito me­ nos por que imaginaria que jovens teriam a probabilidade de ocupar posições de responsabilidade tão incomum na congregação local. Do outro lado, a ênfase dada à juventude e timidez do endereçado é intei­ ramente natural se supusermos que é Paulo quem está escrevendo para Timóteo. Com estas coisas Paulo não tem em vista instruções específicas; está pensando em todos os conselhos dados na carta até aquela altura. Sua observação seguinte: “Que niguém te menospreze porque és jovem” (lit. Ninguém despreze a tua mocidade), embora, naturalmente, visas­ se ser um encorajamento ao próprio Timóteo, também visava produzir um efeito salutar na congregação de Éfeso em geral. Alguns detecta­ ram aqui uma prova que a carta não pode ter sido escrita na década dos 101


I TIMÓTEO 4:13 60, seja no começo, seja nos meados dela, visto que então Timóteo não poderia ser apropriadamente descrito como um jovem. Esta ênfase dada à mocidade, argumentam, é melhor interpretada como “uma indicação de que os endereçados são os clérigos subordinados ao escritor” (F. D. Gealy). Esta última sugestão é altamente artificial e implausível; pres­ supõe uma congregação em que os detentores dos cargos eram (o que deve ter sido muito incomum) predominantemente jovens. Na reali­ dade, na data em que a carta a Timóteo foi escrita, este, que não teria nascido antes do ano 30 d.C., provavelmente não passara dos 35 anos. Segundo o uso antigo, a descrição “jovem” (Gr. neos, etc.) podia ser aplicada a um adulto de idade militar. Políbio (xviii.12.5) fala de Flamínio como sendo “jovem” porque tinha apenas trinta anos, e Irineu (Haer. ii. 22.5) explicitamente declara que alguém pode corretamente ser chamado de “jovem” até quarenta anos de idade. Relembramos que Lucas designa Paulo como jovem na ocasião da morte de Estêvão, quando deve ter tido cerca de trinta anos (At. 7:58). Como homem muito mais velho, provavelmente acima de sessenta anos, Paulo, por­ tanto, tinha toda razão em dirigir-se a Timóteo desta maneira. Além disso, se a situação é histórica, um bom número dos membros da comu­ nidade de Éfeso, inclusive, sem dúvida, alguns dos presbíteros, devem ter tido bastante mais idade do que Timóteo, e é muito provável se ir­ ritassem em receber preleções de um oficial tão relativamente jovem, e em ter sua conduta pautada por ele, quanto mais se ele não tinha uma personalidade forte e de auto-asseveração. Para contrabalançar a desvantagem da mocidade, Timóteo é con­ vidado a tomar-se padrão dos fiéis. Este é um toque verdadeiramente paulino; o Apóstolo esperava que o líder cristão fosse um modelo aos outros (Fp 3:17; 2 Ts 3:9). São mencionadas cinco esferas em que é importante que ele assim fizesse. Primeiramente, na palavra se refere à sua conversa de todos os dias (sua pregação será mencionada mais tar­ de), e no procedimento diz respeito à conduta geral na sua vida; ambos devem, segundo se supõe, ser marcados por grande decoro e graça cris­ tã. Os outros três termos denotam qualidades interiores que, mesmo assim, afetam o comportamento externo do homem — o amor, i.é, a caridade fraterna no pleno sentido cristão; a fé, que provavelmente sig­ nifica a “fidelidade” (cf. Rm 3:3; G1 5:22); e a pureza (Gr. hagneia: também 5:2), que abrange não somente a castidade em questões de sexo, como também a inocência e integridade de coração que são denotadas pelo substantivo correlato hagnotés em 2 Co 6:6. 13. Já ficamos sabendo de 3:14 que Paulo está planejando uma 102


I TIMÓTEO 4:14 visita a Éfeso; no ínterim, Até a minha chegada, Timóteo é conclama­ do a aplicar-se com energia às suas funções ministeriais públicas. A lis­ ta é interessante e importante, e sua brevidade possivelmente indica sua data muito antiga. Se tivesse sido compilada no século II como espelho para os líderes da igreja, quase certamente teria sido mais plena e mais precisa, e uma referência aos sacramentos teria sido natural. No Grego, as palavras traduzidas leitura, exortação, e ensino estão precedidas, cada uma, pelo artigo definido (como na ARA); demonstrase assim que são itens reconhecidos na reunião congregacional para a ado­ ração. A leitura (da Escritura) denota, primariamente a leitura pública do A.T., que neste tempo era a Bíblia da igreja. Este era um aspecto do culto na sinagoga (Lc 4:16; At 15:21; 2 Co 3:14), e foi imediatamen­ te adotado pelas congregações cristãs. Esta é, na realidade, a referência mais antiga ao uso da Escritura na liturgia da Igreja. Documentos espe­ cificamente cristãos, no entanto, tais quais as cartas de Paulo e doutros líderes, ou as revelações dos profetas, também eram lidos em público (Cl 4:16; 1 Ts 5:27; Ap 1:3), e esta prática provavelmente também este­ ja em mira aqui. A leitura em público no mundo antigo exigia certa rea­ lização técnica, pois as palavras no códice não eram divididas. Desde os meados do século II, de qualquer maneira, a função era delegada a um oficial chamado lector ou anagnòstês (e.g. Hipólito, Trad. ap. xii; Tertuliano, De praescr. xli). A exortação significa a exposição e a aplicação da Escritura que seguia sua leitura pública, noutras palavras, o sermão. Assim lemos em At 13:15: “Depois da leitura da lei e dos profetas, os chefes da sina­ goga mandaram dizer-lhes: ‘Irmãos, se tendes alguma palavra de exor­ tação para o povo, dizei-a.’ ” Do outro lado, o ensino significa a ins­ trução catequética na doutrina cristã; esta, também, tinha seu lugar em reuniões para a adoração desde os tempos mais antigos, e fica evidente que grande quantidade de matéria catequética está incorporada nos es­ critos do N.T., inclusive as cartas paulinas. Paulo menciona estas duas funções juntas em Rm 12:7, e dá a entender que seu exercício exigia um charisma, ou revestimento do Espírito, especial. 14. A pergunta com que Timóteo é confrontado, por ser tímido e inseguro quanto a si mesmo, deve ser se tem o conhecimento, a capa­ cidade, e o são juízo necessários para realizar estas tarefas com sucesso. O Apóstolo responde às suas dúvidas não faladas com uma resposta fran­ ca e encorajadora: ele tem um dom especial, e na condição de não se fa­ zer negligente para com ele, deve estar amplamente equipado para en­ frentar quaisquer exigências. A referência, é claro, é à graça do Espíri­ 103


I TIMÓTEO 4:14 to Santo que Timóteo recebera na ocasião da sua ordenação ou consa­ gração ao seu cargo, e que ficará sem fruto se for negligenciada: cf, 2 Tm 1:6. Nas cartas de Paulo (e.g. Rm 12:6ss.; 1 Co 12:4ss.) charisma, ou “dom”, significa uma dotação especial do Espírito que capacita quem a receber a realizar alguma função na comunidade. Quando escreveu 1 Coríntios, seus correspondentes estavam inclinados a atribuir uma impor­ tância exagerada às dotações mais especificamente “pneumáticas,” tais como o falar em línguas e a profecia. Um dos seus objetivos em 1 Co 12 era corrigir esta situação e a persuadi-los que, devidamente entendi­ das, as funções mais rotineiras de dirigir a vida cotidiana da comunidade também eram “dons” neste sentido (cf. 1 Co 12:28). O restante do versículo é de grande importância para nossa com­ preensão tanto da carta como da emergência das instituições cristãs, e sua exegese levanta certos problemas. Não há dificuldade quanto à fra­ se mediante profecia. Forma um paralelo com “as profecias de qüe antecipadamente foste objeto” em 1:18 (ver a nota ali). Paulo está lem­ brando a confirmação da escolha de Timóteo pelos pronunciamentos, inspirados pelo Espírito, de homens proféticos (cf. At 13:1-3). Não há, tampouco, qualquer dificuldade com com a imposição das mãos. A ordenação, ou a nomeação para um cargo na igreja apostólica estava modelada de conformidade com o rito judaico contemporâneo para a ordenação de rabinos. Este, por sua vez, achou sua inspiração na orde­ nação de Josué conforme é descrita em Nm 27:18-23 e Dt 34:9, em que Moisés “impôs suas mão” (“encostou” ou “pressionou” seria uma versão mais exata) sobre seu sucessor em perspectiva. Supunha-se que, como resultado da ação, o espírito de Moisés tinha sido transmitido a Josué; tinha, por assim dizer, derramado algo da sua personalidade no homem mais jovem, e assim tornou-o seu substituto eficaz. Destar­ te, achamos os apóstolos, ou mais provavelmente o povo, impondo ou pressionando suas mãos sobre os Sete na sua nomeação (At 6:6), e os profetas e mestres impondo ou pressionando suas mãos em Bamabé e Saulo para consagrá-los como missionários (At 13:3). Esta ação de im­ por, ou melhor, de pressionar, as mãos sobre alguém (o verbo hebrai­ co é samakh), deve ser notado, é inteiramente diferente do “colocar” (verbo hebraico sim ou shith) as mãos empregado para bênçãos e cu­ ras, embora os dois sejam comumente confundidos e estejam traduzi­ dos pelo mesmo verbo grego tanto na LXX como no N.T. É acerca da interpretação da frase inteira, traduzida ‘juntamente com a imposição das mãos para a ordenação como um presbítero” que surge nosso problema. Literalmente traduzido, o Grego diz: com a impo­ 104


I TIMÓTEO 4:14 sição das mãos do presbitério, e esta é a versão que tem sido quase uni­ versalmente adotada. 0 quadro que propõe é que o grupo inteiro dos presbíteros em Éfeso, sem dúvida com Paulo como seu líder ou presi­ dente, participou na consagração solene de Timóteo, e participou em pressionar suas mãos sobre sua cabeça. 0 substantivo coletivo “presbi: tério” (Gr. presbuterion) é desajeitado (por que não “dos presbíteros”?), mas não é de modo algum impossível que esta seja a tradução correta. Em tempos posteriores, conforme sabemos, os presbíteros (“anciãos”) presentes numa ordenação tomavam parte na imposição das mãos, e a prática pode remontar aos tempos apostólicos. Do outro lado, se for este o significado verdadeiro da passagem, fica em aparente contradi­ ção com 2 Tm 1:6, que explicitamente declara que o dom especial que Timóteo possui foi outorgado “pela imposição das minhas mãos,” e também provavelmente com 1 Tm 5:22, onde o próprio Timóteo é acon­ selhado a não ser precipitado em impor suas mãos em pessoa alguma. O primeiro parece dar a entender que somente Paulo ordenou Timó­ teo; e a implicação do segundo de que Timóteo seria o único a orde­ nar somente pode ser evitada se pressupusermos que, neste contexto, a imposição das mãos refere-se, não à ordenação, mas, sim, a algum ou­ tro rito, tal como a outorga do Espírito e um convertido após o batis­ mo. Vários expedientes de harmonização têm sido propostos. Pode ser argumentado, por exemplo, que o papel de Paulo na ordenação de­ ve, de qualquer maneira, ser preponderante, o dos presbíteros deve ter sido de simples cooperação e assistência. Conforme outros, a ausência de referência aos presbíteros em 2 Tm 1:6 pode ser explicada pelo cará­ ter muito pessoal do contexto. Outros argumentos que a presente pas­ sagem deve refletir a forma corporativa primitiva de ordenação, ao pas­ so que 2 Tm 1:6 revela sua modificação posterior em conformidade com a emergência do episcopado monárquico. Nenhuma destas solu­ ções, no entanto, é totalmente satisfatória, e a verdadeira, conforme parece, foi fornecida por D. Daube.1 Seu argumento é que o Grego deste versículo (epithesis tõn cheiròn tou presbuteriou: lit. “imposi­ ção das mãos do presbitério”) é uma tradução do Hebraico semikhath zeqenim, um termo técnico cuja tradução literal é “a pressão das mãos dos anciãos,” e que com efeito significa “encostar ou pressionar as mãos sobre alguém com o objetivo de fazê-lo ancião ou rabino.” Num con1. Ver The New Testament and Rabbinic Judaism, Londres, 1956, págs. 244-246.

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I TIMÓTEO 4:15-16 texto cristão significará “ordenação por anciãos” ou, de modo mais geral, “a ordenação fomal ao cargo”. A adoção desta sugestão brilhante imediatamente elimina qual­ quer dificuldade acerca do substantivo “presbitério,” e, é lógico, acaba com a contradição entre as três passagens em 1 e 2 Timóteo. O quadro resultante é totalmente mais provável, visto que se Timóteo era o dele­ gado pessoal de Paulo, seria natural para o próprio Apóstolo comissioná-lo, e a cooperação dos presbíteros não parece necessária. Ao mes­ mo tempo, se esta for a interpretação correta da frase, é um indicador importante à data muito primitiva da composição da carta. Não é fácil imaginar um escritor do século II, ou até mesmo um que vivesse nas últimas décadas do século I, usando semelhante expressão idiomática rabínica. O uso de tal linguagem também sugere um período primitivo quando os cargos ministeriais não haviam se tomado, ainda, devidamen­ te demarcados. O resultado líquido é confirmar o conceito tradicional de que Timóteo é um delegado apostólico especial, aã hoc, e tomar ain­ da mais difícil a teoria de que ele é o líder eclesiásto ou bispo monár­ quico típico que está sendo demonstrado como um padrão para os clé­ rigos do século II. 15. A admoestação Medita estas coisas, e nelas sê diligente, ajunta os vários aspectos abrangidos pelos três versículos anteriores. O primeiro verbo (Gr. meletán) pode significar “meditar sobre,” mas sua nota predo­ minante é “levar adiante diligentemente” ou “praticar”, assim como um atleta treina; destarte, a metáfora esportiva de 7-10 é ecoada. O motivo continua sendo estabelecer a autoridade de Timóteo. Se prestar aten­ ção a estas diretrizes, fará progresso, e este a todos será manifesto. A congregação tomará nota dele, e deixará de considerá-lo um jovem inex­ periente cuja autoridade pode ser menosprezada. A palavra traduzida progresso (Gr. prokopê) era usada pelos estóicos para denotar os avanços feitos por um noviço na filosofia ou na ética; foi usada por Paulo em Fp 1:12 acerca do progresso feito em divulgar o evangelho, e em Fp 1:25 do desenvolvimento espiritual dos seus correspondentes. 16. Termina com uma admoestação dupla: Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Há um indício claro que a concentração exclusi­ va num ou noutra será perigoso. A cláusula seguinte é difícil; uma tra­ dução literal seria: “Apega-te a eles (Gr. autois)." É intolerável enten­ der o pronome “eles” como sendo uma referência a ti mesmo e da dou­ trina, e somos obrigados, portanto, a entender que se refere a estas coi­ sas em 15. Assim obtemos o que é com efeito uma paráfrase um pouco frouxa: “Apega-te às direções dadas.” 106


I TIMÓTEO 5:1 Finalmente vem o incentivo que Timóteo, e qualquer outro mi­ nistro de Cristo, deve colocar diante de si mesmo: fazendo assim, i.é, de acordo com as instruções preconizadas, salvarás tanto a ti mesmo co­ mo aos teus ouvintes. A primeira metade da frase nos lembra do temor que Paulo expressara em 1 Co 9:27, que depois de toda a sua pregação aos outros, pudesse no fim achar-se rejeitado. Timóteo estará seguro quanto a isto, se seguir os conselhos dados. Além disto, como resulta­ do dos seus esforços conscientes e devotos, terá a suprema alegria de ajudar o rebanho confiado a ele, que depende do seu ensino e liderança, para chegar à salvação. 10. UMA REGRA ACERCA DE RELACIONAMENTOS PESSOAIS. 5:1-2. A esta altura, o tom e o conteúdo da carta alteram—se de modo abrupto. A totalidade do presente capítulo, e os primeiros versículos do seguinte, consistem em conselhos para Timóteo relacionar-se bem com várias classes de pessoas na comunidade. A presente seção, uma regra geral para governar o comportamento de velhos e jovens dos dois sexos, parece estar modelada, tanto na estrutura quanto no conteúdo, nalgum paradigma helenístico que era tradicional na ética popular. Há um paralelo notável, por exemplo, na República de Platão (v. 463 c), onde se diz do Guardião: “Ele tratará toda pessoa com quem se encon­ tra ou como irmão ou irmã, pai ou mãe, filho ou irmã, neto ou avô.” Semelhantemente, muitas inscrições funerárias dos primeiros séculos antes e depois de Cristo louvam aqueles que trataram pessoas mais ido­ sas como pais e pessoas da sua própria idade como irmãos. Uma nuan­ ça especial, naturalmente, liga-se ao ideal conforme é inculcado por um mestre cristão, visto que tanto ele quanto seus ouvintes têm consciência do sentido profundamente espiritual em que seu relacionamento com Cristo os tornou pais e mães, irmãs e irmãos entre si (cf. Mc 3:31-35). 1. Destarte, Timóteo é admoestado a não repreender ao homem idoso com aspereza, mas, sim, exortá-lo como a pai. O primeiro ver­ bo (Gr. epiplêssein, ligado com plektès, i.é, “dado a violência,” “um que fere” — cf. 3:3) é severo, e conota tratamento rude. O segundo verbo, exortar (Gr. parakalein), é muito mais bondoso, e inclui as idéias de exortação, admoestação, e consolo. O substantivo traduzido homem idoso (Gr. presbuteros) pode denotar o oficial conhecido como “an­ cião” ou “presbítero,” como em 17 ss., e alguns o traduzem assim aqui. 107


I TIMÓTEO 5:2-16 0 contexto, no entanto, e acima de tudo, os paradigmas éticos já refe­ ridos, confirmam que aqui denota idade avançada. O problema de co­ mo administrar repreensões é sempre difícil para aqueles que estão em autoridade, e nunca mais do que quando, conforme parece ter sido o ca­ so de Timóteo, há discrepância quanto à idade. 2. No Grego, não- há verbo que representasse “tratar,” de modo que os acusativos: aos tnoços, como ã irmãos, bem como às mulheres idosas, como a mães, etc., estão todos, falando a rigor regidos por exor­ ta. Mas há pouca dúvida de que Paulo passou além da maneira verda­ deiramente cristã de achar defeitos. Agora está considerando quais de­ vem ser os relacionamentos gerais de Timóteo com os grupos diferentes no seu rebanho, e, destarte, subordina frouxamente estas cláusulas deri­ vadas do paradigma ético ao verbo que já usara. Demonstra realismo e franqueza em encaixar o indício de que, ao tratar as moças, como a ir­ mãs, seu delegado deve tomar o cuidado de agir com toda a pureza (Gí. hagneia: lit. “castidade”). 11. REGULAMENTOS ACERCA DE VIÚVAS. 5:3-16. Esta seção surpreendentemente longa lança uma luz preciosa so­ bre as condições na igreja apostólica, e os problemas que enfrentava. No judaísmo, as viúvas eram consideradas objeto de atenção especial (e.g. Dt 10:18; 24:17; SI 68:5; Is 1:17; Lc 2:37), sendo que a obri­ gação do bom judeu para com elas é deduzida do Quinto Mandamento, e o cristianismo naturalmente herdou esta atitude. Os vislumbres que podemos obter de Atos (6:1; 9:39ss.) revelam que na sua etapa mais primitiva a comunidade tratava as viúvas no seu meio como sendo uma responsabilidade importante, e elas, por sua parte, estavam agrupadas como úm corpo ocupado em ações de bondade para com os pobres. A situação não tinha se alterado essencialmente até o tempo em que as Pastorais foram escritas, mas a experiência estava forçando os cristãos a elaborar um código para lidar com elas. Dois fatos importantes emer­ gem da presente passagem. O primeiro é que, embora a igreja permane­ ce plenamente consciente do seu dever no que diz respeito às viúvas, a necessidade de distinguir entre aquelas cuja condição realmente exi­ ge sustento, e aquelas que seriam melhor deixadas aos cuidados de pa­ rentes se tornou urgente. O segundo é que em Éfeso há, agora, uma or­ dem oficialmente reconhecida de viúvas, com condições específicas de afiliação que Paulo, segundo parece, quer que sejam observadas de modo 108


/ TIMÓTEO 5:3-5 rigoroso, com deveres específicos a serem cumpridos por aquelas que es­ tio no rol. Esta é a primeira alusão clara na literatura cristã à existência de tal ordem; quanto ao seu desenvolvimento no século II, cf. Inácio, Smym, xiii.l; Polyc. iv.l; Policarpo, Phil iv. 3; Tertuliano, De virg. vel. v. 9. Alguns autores procuram distinguir entre 3-8, que, segundo o con­ ceito deles, tratam de viúvas que sâb o objeto da solicitude caridosa da igreja, e 9-15, que tratam especificamente da ordem da viúvas propria­ mente dita. O argumento tem alguma plausibilidade, mas na realidade os dois temas parcialmente coincidem e se fundem em um só. São aque­ las viúvas que são arroladas como tais que têm o direito à assistência ofi­ cial, embora o número daquelas que a recebiam devia ter sido maior do que o número daquelas nomeadas para realizar boas obras. 3. Paulo define, primeiramente, uma regra geral para Timóteo, e, através dele, para a igreja em Éfeso: “Reconhece oficialmente” (hon­ ra) as viúvas verdadeiramente viúvas. O verbo imperativo (Gr. timã) literalmente significa honra, e tem sido entendido por alguns como sen­ do um eco do Quinto Mandamento, que certamente era interpretado no judaísmo como sendo a base tanto do dever dos filhos quanto ao su­ prir as necessidades dos pais enviuvados, quanto da responsabilidade geral da comunidade para com os velhos. Mas o contexto, sem de modo al­ gum excluir semelhante referência ao Mandamento, sugere que a pala­ vra, além do seu sentido normal, tem uma nuança mais precisa e técni­ ca aqui (ver a nota sobre 17 abaixo, onde “dupla honra”[dobrados hono­ rários] também tem provavelmente um significado técnico). Com viú­ vas verdadeiramente viúvas Paulo quer dizer, conforme deixa claro mais tarde, nem toda e qualquer mulher cujo marido morreu, mas, sim, viú­ vas que (a) não têm parentes dos quais se possa esperar que as susten­ tem, e (b) preenchem as qualificações alistadas nos versos 5 e 9 ss. Seu motivo em restringir tão drasticamente a classe é assegurar-se que os recursos limitados da igreja sejam gastos onde são realmente necessários. 4, S. Por exemplo, se alguma viúva tem filhos, ou netos, Paulo sugere que estes aprendam, primeiro a exercer piedade paru com a sua própria casa, i.é, para com sua mãe ou avó que ficou viúva, conforme for o caso, e assim recompensar a seus progenitores. Noutras palavras, o peso de sustentá-la deve recair sobre eles, e não sobre a congregação. No original, aprendam não tem nenhum sujeito expresso, e a tradução e a interpretação dadas supõem que o sujeito oculto seja filhos ou ne­ tos, a despeito do fato de que são o objeto, e não o sujeito, na cláusula anterior. A alternativa é fazer com que o sujeito oculto fosse “viúvas com filhos ou netos,” que representaria o Apóstolo aconselhando as 109


I TIMÓTEO 5:6-7 viúvas com famílias e dedicar-se ao cuidado delas ao invés de fazer as obras caridosas esperadas daquelas que estão arroladas na ordem ofi­ cial. Visto que viúva está no singular, e aprendam está no plural, a pres­ são aplicada à sintaxe é quase intolerável, e é também difícil ver como por tal Conduta, as viúvas recompensam a seus progenitores. A exegese dada supra é muito mais natural, e, realmente, é exigida pelo contexto inteiro. A gratidão prática tal como esta, sugere Paulo, é uma expressão da “religião sadia” (piedade) (eusebeia: o verbo traduzido exercer pieda­ de é o Gr. eusebein — ver nota sobre 2:2). É também aceitável diante de Deus; esta é uma referência ao Quinto Mandamento e, mais geral­ mente, ao alto valor dado no A.T. ao dever dos filhos de cuidar dos seus pais. Por contraste, a viúva genuína, conforme a definição de Paulo, não tem amparo. Inevitavelmente, espera em Deus (o perfeito do verbo indica, como em 4:10, que sua atitude de mènte é fixa e contínua) pe­ la simples razão de que não tem outra pessoa em quem confiar; a res­ ponsabilidade por ela, portanto, recai legitimamente no povo de Deus. Demonstra sua confiança em Deus somente, pelo fato de que persevera em súplicas e orações, noite e dia. O quadro notavelmente semelhan­ te feito da velha profetisa Ana (Lc 2:37) ilustra a alta estima que, no ju­ daísmo, era ligada a semelhante conduta da parte de viúvas. A presen­ ça do artigo antes de orações provavelmente indica que Paulo está pen­ sando das reuniões da congregação para o culto. A ordem noite e dia é caracteristicamente judaica: cf. Lc. 2:37; 1 Ts 2:9; 3:10; 2 Ts 3:8; 2 Tm 1:3. 6. Entretanto, pode haver viúvas que, embora não tenham família e estejam sozinhas no mundo, não dão evidência convincente de fixar suas esperanças em Deus, mas, pelo contrário, se entrega aos prazeres. O verbo empregado (Gr. spatalõ) é raro, e ocorre somente aqui e em Ez 16:49; Eclo. 21:15; Tg 5:5: denota o abandono de si mesmo ao prazer e ao conforto - é totalmente desnecessário inferir que as mu­ lheres em epígrafe até mesmo se aviltaram à prostituição (B. S. Easton). Uma viúva com mentalidade mundana e que satisfaz seus próprios dese­ jos, deste tipo, mesmo viva, está morta (para a idéia, cf. Ap 3:1), e, por­ tanto, não tem direito algum às esmolas da igreja. 7. Paulo conclama Timóteo a “emitir estas instruções também,” i.é, acrescentar os critérios da viuvez genuiha às instruções que lhe fo­ ram dadas na primeira parte do cap. 4. O “também” refere-se a 4:11, e o Grego tauta paraggelle (prescreve estas coisas) aqui corresponde a

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I TIMÓTEO 5:8-9 paraggelle tauta ali. Paulo é especialmente insistente quanto a isto por­ que quer assegurar-se que sejam irrepreensíveis. Noutras palavras, in­ cluir viúvas indiscriminadamente na lista oficial não fará nenhum bem à ordem. 8. O versículo seguinte, que estigmatiza quem não tem cuidado dos seus e especialmente dos da sua própria casa, repete em linguagem mais franca o princípio definido no v. 4, viz., que a viúva que tem parentes próximos ainda com vida deve ser cuidada por eles e não pela congrega­ ção. O homem que deixa de observar este dever elementar realmente, por mais eloqüente que seja sua profissão do cristianismo, tem negado a fé (i.é, para todos os fins práticos, não no sentido formal da aposta­ sia: cf. Tt 1: 16) e è pior do que o descrente. Presumivelmente isto é porque até mesmo pagãos, que não conhecem os Mandamentos nem a lei de Cristo, reconhecem e estimam as obrigações dos filhos para com os pais. Para apelos semelhantes à moralidade pagã, cf. Rm 2:14; 1 Co 5:1; Fp 4:8. O versículo entra de modo desajeitado, pois a lição já foi ensinada, e alguns autores, portanto, pensaram que está deslocado ou que é uma glosa. Mas a repetição, e o tom mais severo do Apóstolo, talvez seja a ênfase que está dando à sua exasperação diante do egoís­ mo dalgumas famílias na igreja de Éfeso. 9. Nos w. 9 ss., Paulo trata, de modo direto e positivo, das quali­ ficações para a ordem das viúvas, e dá algum indício dos deveres envol­ vidos. Do começo ao fim recebemos a impressão da insatisfação agu­ da com as condições na igreja de Éfeso. A primeira exigência é que Não seja inscrita (na lista oficial) senão viúva que conte ao menos sessenta anos de idade. O verbo imperativo (Gr. katalegesthõ) literalmente sig­ nifica “ser arrolado;” é o termo técnico para ser colocado numa lista ou “catálogo” reconhecido, e toma absolutamente claro que havia uma ordem específica de viúvas. 0 limite da idade, de sessenta anos, é sur­ preendente à primeira vista, mas em 11-13 Paulo claramente indica o tipo de comportamento frívolo, especialmente comprometedor, ao qual as viúvas menos adiantadas em anos podem ser tentadas. Sessenta era a idade reconhecida na antiguidade quando alguém ficava sendo um “velho” ou uma “velha”, e as paixões sexuais da mulher podem ser considera­ das esvaziadas dos seus perigos naquela idade. As Constituições Apostó­ licas (III. i. 1-2) aceitavam o mesmo limite de idade para as viúvas, em­ bora seja interessante observar que alguns textos da Didascalia (III. i) dos fins do século III, a reduzem a cinqüenta. A estipulação que uma viúva oficialmente arrolada tenha sido es­ posa de um só marido corresponde à regra para os superintendentes

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I TIMÓTEO 5:10 (3:2), os diáconos (3:12), e os presbíteros (Tt 1:6), “marido de uma só mulher” sendo ali o equivalente de “esposa de um só marido” aqui. Para o significado, ver a nota sobre 3:2. Alguns interpretam a fórmula no sentido de uma mulher que foi fiel ao marido durante o casamento, mas a interpretação dada supra é confirmada pelo fato de que nas inscri­ ções pagãs, judaicas e cristãs dos primeiros séculos, o substantivo monandria (lit. “tendo um só marido”) sempre se aplica, usualmente como um termo de eulogia óbvia, a viúvas que se contentaram com um só casa­ mento. Muitos comentaristas acham esta exegese inconsistente com o pedido de Paulo no v. 14 de que as jovens viúvas se casem de novo, mas perderam a totalidade da razão de ser do seu argumento. Seu conselho às viúvas jovens é determinado pelo problema emocional de uma mulher que foi deixada viúva enquanto ainda na flor da vida. A atitude geral dele é clara e lógica: um casamento único seguido por uma viuvez per­ manente depois da morte do marido é o ideal, e deve ser exigido da par­ te das aspirantes à ordem das viúvas; mas a tensão que isto imporia sobre mulheres deixadas na viuvez quando ainda comparativamente jovens se­ ria excessiva na maioria dos casos, e assim seria melhor que se casassem de novo ao invés de arriscarem expor a igreja ao escândalo. 10. Membros da ordem das viúvas tinham deveres práticos a cumprir na comunidade; de modo que o melhor testemunho que uma re­ cém-chegada poderia produzir seria indicar zelo e eficiência em levar a efeito estas tarefas voluntariamente. Logo, ela deve ser recomendada pelo testemunho de boas obras. Para a ênfase dada às boas obras, ou me­ lhor, ao exercício da caridade prática inspirada pelo evangelho, nas Pasto­ rais, ver a nota sobre 2:10. Os exemplos citados dão um quadro razoá­ vel, embora não necessariamente completo, das tarefas que membros da ordem empreendiam. O verbo traduzido criar filhos (Gr. teknotrophein) significa criar seus próprios filhos, mas é absurdo supor que Paulo esteja julgando a capacidade à luz do seu currículo de criar filhos no passado remoto; de qualquer maneira, as viúvas com filhos ainda com vida e disponíveis para dar contas da sua boa criação não devem, confor­ me 4, ser elegíveis. É certo, portanto, que a palavra deve receber a cono­ tação mais ampla sugerida na tradução “tendo cuidado de crianças.” Um dos grandes problemas que a igreja primitiva enfrentava ôra o cuidado dos órfãos (cf. Hermas, Mand. viii. 10; Apost. Const. III. iii. 2, etc.); parece provável que as viúvas oficiais eram encarregadas destes. As palavras seguintes, tenha exercitado hospitalidade, revela que as viúvas tinham seu papel a desempenhar, lado a lado com os superinten­ dentes (cf. 3:2), na recepção e hospitalidade dos evangelistas itinerantes, 112


I TIMÓTEO 5:11-13 pregadores, mensageiros, e cristãos comuns viajando para lá e para cá, que formavam um aspecto destacado na vida diária da igreja primitiva. Cf. o exemplo de Febe (Rm 16:1-2). Um aspecto específico disto é indicado em lavado os pés aos santos (“cristãos”). Este era um serviço a visitas que ocupava um lugar de grande destaque na hospitalidade oriental; era, também, um ato que representava humildade e amor que o próprio Cristo recomendara aos Seus discípulos (Jo 13:14), e era, portanto, de importância especial quando as visitas eram “santos,” i.é, membros da comunidade redimida. Era inevitável, também, que as tarefas incontá­ veis incluídas em socorrer aos atribulados devessem, sob a supervisão ge­ ral dos supervisores, ser a incumbência das viúvas. 11,12. Paulo agora desenvolve o assunto do limite de idade que preceituou, e dá razões francas, e ao mesmo tempo ressalta que a afili­ ação na ordem das viúvas acarretava um compromisso ou voto formal. Sua primeira razão, e a principal, é que a paixão sexual ainda é um fator potente na personalidade das viúvas jovens, de modo que quando se tor­ nam levianas contra Cristo, querem casar-se. A linguagem sugere que se pensa em Cristo como sendo o noivo espiritual (cf. 2 Co 11:2). Logo, o desejo de casar-se de novo, bastante natural em mulheres jovens que perderam seu marido, é, com efeito, um ato de infidelidade a Ele. Tal passo, acrescenta Paulo, as envolveria, se já tinham sido admitidas à or­ dem, èm tomar-se condenáveis por anularem o seu primeiro compro­ misso. Evidentemente, ao afiliar-se à ordem, devem ter assumido o vo­ to da castidade; o termo traduzido compromisso (Gr. pis tis: lit. “fé”) indica um contrato ou obrigação, mais ou menos formal, do qual a co­ munidade provavelmente tinha conhecimento. Seria, portanto, perigo­ so para as mulheres, e poderia levar a danos para a igreja, se elas fossem colocadas, numa idade ainda suscetível, no terrível dilema de ter de escolher entre a continência rigorosa apropriada ao seu ofício, e os im­ pulsos apaixonados da sua natureza. 13. É provável que o conselho de Paulo, nisto e naquilo que se segue, fosse baseado na experiência. Agora acrescenta uma segunda razão, viz., que as viúvas jovens, estando ainda ativas e cheias de ener­ gia, provavelmente, ao serem arroladas na ordem, teriam muito tempo livre para dispor; logo, aprendem também a viver ociosas. No Grego, o adjetivo feminino ociosas (argai) e o verbo aprendem (manthanousin) são simplesmente justapostos, o que tem levado os comentaristas a infe­ rir que o infinitivo “tomar-se” deva ser subentendido. Numerosos para­ lelos, no entanto, comprovam que o verbo manthanein (“aprender”) com um substantivo que denota uma profissão ou ocupação era uma 113


I TIMÓTEO 5:14 construção idiomática que significava “qualificar-se a isto ou aquilo” (e.g., um médico, um lutador-livre, etc.). A tradução: “qualificam-se como ociosas” procura reproduzir esta expressão idiomática e, ao mes­ mo tempo, ressaltar o toque de sarcasmo subentendido. Destarte, se as viúvas são arroladas jovens demais, estão propen­ sas a explorar sua nova carreira andando de casa em casa, sem dúvida sob o pretexto de fazer visitas de caridade do tipo esperado dos mem­ bros da ordem. Há perigo, também, de se tornarem não somente ocio­ sas, mas ainda tagarelas e intrigantes, falando o que não devem. Se o significado integral do Grego é assim representado, Paulo está fazendo um quadro vívido das mexeriqueirices que causam prejuízos, ao que ele pensa que as mulheres ainda suficientemente jovens para estar em todas as atividades sociais serão especialmente propensas - embora a experiência mais plena da igreja tenha demonstrado que nem as mulheres mais velhas, nem os homens que detêm cargos são necessariamente isen­ tos da mesma tentação. É possível, no entanto, que Paulo esteja suge­ rindo a existência de algo mais sinistro. A palavra traduzida intrigantes é periergoi (lit. “cuidadoso demais,” “fazendo trabalhos desnecessários”), o plural neutro do qual (periergaj é empregado em At 19:19 e certos papiros mágicos como eufemismo para “sortilégios” ou “artes mágicas.” Talvez expresse, portanto, em linguagem discretamente velada, o temor de que jovens viúvas irresponsáveis, ao serem encorajadas a fazer visi­ tas de casa em casa, apelarão a sortilégios, feitiços, e fórmulas mágicas ao lidar, e.g., com doentes. Segundo esta interpretação, falando o que não devem conterá uma alusão aos feitiços e fórmulas ocultas que se empre­ gam. Cf. Tt 1:11 para uma expressão velada do tipo semelhante. 14. Por estes motivos Paulo está positivo na sua própria mente (Quero, portanto) que as viúvas mais novas se casem, criem filhos, se­ jam boas donas de casa. Não é, segundo seu modo de pensar, o ideal teorético, mas, sim, o único caminho sensato, tendo em conta as tentações específicas às quais mulheres solitárias na flor da vida estão expostas. Ter filhos satisfará os impulsos instintivos da sua natureza, e dirigir um lar absorverá suas energias excedentes. Argumenta-se freqüentemente que este conselho comprova que o escritor não pode ser o Apóstolo, visto que em 1 Co 7:25 ss., embora não se opusesse ao casamento, deu sua opinião que, tendo em vista a iminência da Parusia, era melhor pa­ ra o solteiro permanecer assim. Mas (a) sua regra em Corinto foi dada muitos anos anteriormente, e concorda-se que, à medida em que ele envelhecia, seu senso da proximidade da Parusia ficava sendo mais fra­ ca; e (b) de qualquer maneira, aquela regra era geral, ao passo que aqui 114


I TIMÓTEO 5:15-16 trata do caso muito especial de viúvas. £ claramente seu ponto de vista de que é idealmente melhor para qualquer pessoa, homem ou mulher, cujo cônjuge morreu, evitar um segundo casamento, mas seu bom sen­ so e seu realismo o levam a encorajar um segundo casamento quando a tensão envolvida em permanecer solteiro seria grande demais. Esta, na realidade, é exatamente a posição que adota em 1 Coríntios, onde 0 achamos (7:9, 36) especificamente recomendando o casamento para (a) solteiros e viúvos, e (b) parceiros no celibato espiritual, no caso de acharem impossível controlar suas paixões. Se estas viúvas mais jovens se casarem, haverá a vantagem adicio­ nal de que não dêem ao adversário ocasião favorável de maledicência. Como sempre (cf. 3:7; 6:1; Tt 2:5, 8), Paulo está ansioso que a con­ gregação tenha uma boa reputação e escape do escândalo que a conver­ sa caluniosa produzirá. As palavras ao adversário (Gr. ho antikeimenos) podem referir-se ou ao diabo ou aos difamadores humanos da igreja (cf. 1 Co 16:9). O primeiro é talvez preferível, tendo em vista o uso do singu­ lar com o artigo; o pensamento também está de acordo com 3:6. É im­ provável, no entanto, que Paulo fizesse uma distinção nítida na sua pró­ pria mente; os homens e mulheres que gostariam de rasgar em pedaços a reputação da igreja eram instrumentos do diabo (cf. 4:1). 15. Paulo sente-se confirmado no conselho que deu, pelo fato trágico de que Pois, com efeito, já algumas se desviaram, seguindo a Sa­ tanás. Tem em mente casos específicos de viúvas que foram admitidas jovens demais à ordem, e ou voltaram a casar-se, ou caíram nos demais tipos de indiscrição ou má conduta deliberada que estava enumerando. Para o verbo “desviar-se”, cf. 1:6. A declaração revela, conforme alguns têm argumentado, o fato de que a ordem de viúvas já estava funcionan­ do por algum tempo considerável, mas isto não é necessariamente suben­ tendido. O período de tempo é uma questão relativa, e a experiência de dois ou três anos bastaria para dar ao Apóstolo uma base útil para suas regras. 16. A seção inteira sobre as viúvas tem seqüência desajeitada, e, no versículo seguinte, somos inesperadamente trazidos de volta à questão geral do apoio caridoso que a congregação deve a elas. Se al­ gum crente tem viúvas, Timóteo é ordenado, socorra-as e não fique so­ brecarregada a igreja. Sobrecarregar (Gr. bareisthò: cf. 2 Co 1:8; 5:4. Para seus cognatos usados com uma conotação financeira, cf. 2 Co 11:9; 12:16; t Ts 2:9; 2 Ts 3:8). A razão dada é para que esta possa socorrer as que são verdadeiramente viúvas, i.é, viúvas, no senti­ do definido no v. 5 supra, que não têm ninguém de quem possam depen­ 115


I TIMÓTEO 5:15-16 der, senão Deus, e, portanto, Sua igreja. A mudança repentina de assunto tem sido enigmática para os co­ mentaristas, e alguns concluiram que este versículo, que parece ter cone­ xão lógica com ou 4 ou 8 supra, dalguma maneira ficou deslocado. Mas não há evidência disto nos MSS, e o modo abrupto da mudança não de­ ve nos perturbar, especialmente num autor como Paulo (cf., e.g., a estru­ tura de 1 Co 7 e 14). Supondo-se que a carta é genuína, é muito possí­ vel que tenha se lembrado de uma possibilidade importante, para inclui-la antes de passar para o assunto dos presbíteros. O problema real diz respeito àquilo que queria dizer, e, em particu­ lar, por que mulheres crentes (i.é, cristãs), e não homens crentes, sejam selecionadas. Certo número de MSS procuram solucioná-lo ao registra­ rem: “Se qualquer homem ou mulher crente.” Se isto for correto, e viúvas seja glosada como “parentes que são viúvas.” o versículo faz muito mais do que repetir o ensino de 4 e 8; mas este texto tem pouco apoio, e claramente representa uma tentativa de produzir um texto simples e direto. Deixando-o de lado, ficamos com duas alternativas. Primeiro, alguma crente tem sido considerada como alusão a uma viúva (ou jovem demais para participar da ordem ou uma que é qualificada para ela con­ forme sua idade) que realmente tem outras viúvas, parentes ou não, per­ tencendo ao seu lar. Tal mulher, sugere Paulo, ao invés de casar-se ou procurar afiliar-se à ordem, deve gastar suas energias em cuidar das viú­ vas que estão com ela, e assim poupar à congregação o trabalho e a des­ pesa. Contra isto, porém, é impossível estreitar o significado de algu­ ma crente para “viúva;” é há também a dificuldade que, se ela for uma viúva jovem, ministrar a outras viúvas no seu próprio lar não providen­ ciará nenhum alívio para as tensões emocionais dela, ao passo que, se ela for uma mulher de anos mais avançados, não parece haver razão porque deva limitar tão drasticamente seus esforços caridosos. Assim, somos deixados com aquela que é, afinal das contas, a úni­ ca interpretação natural, viz. que Paulo tem em-mente o caso de uma senhora na comunidade que tem uma situação financeira confortável, seja ela mesma casada, solteira ou viúva, cuja casa inclui uma ou mais viúvas, não parentes próximas (aquela situação já foi tratada suficien­ temente), mas, sim, empregadas ou dependentes ou amigas. Semelhan­ te mulher é exortada a tornar-se responsável pelo bem-estar delas ao invés de entregá-las para a caridade da igreja, que já está sujeita a um número grande demais de pedidos. A razão porque Paulo não impõe a mesma obrigação sobre um homem cristão de posição semelhante de­ ve ser óbvia. Se semelhante homem fosse solteiro ou viúvo, seria muito 116


I TIMÓTEO 5:17-25 impróprio para ele assumir a responsabilidade por um grupo de viúvas; ao passo que, se ele fosse casado, a responsabilidade, em todos os seus aspectos práticos, naturalmente recairia sobre a sua esposa. 12. ORIENTAÇÕES ACERCA DOS PRESBÍTEROS. 5:17-25. Se excluirmos 4:14, esta é a primeira ocorrência nas Pastorais, de “presbítero” (Gr. presbuteros) como título de um cargo; além da presente passagem é achado também em Tt 1:5. J. Jeremias e outros têm alegado que nestes dois contextos, a palavra simplesmente signifi­ ca, como em 5:1 supra, “homem idoso,” e que, portanto, não há qual­ quer menção aberta de uma ordem de presbíteros nestas cartas, assim como não há nas Paulinas reconhecidas. Duas dificuldades que devem enfrentar são (a) a referência a “dobrados honorários” em 17 abaixo, e (b) a declaração de Paulo em Tt 1:5 de que deixara Tito em Creta especificamente a fim de que “constituísse presbuteroi. ” Procuram afas­ tar- a primeira ao argumentar que o significado de “dobrados honorá­ rios” é que o estipêndio de homens idosos que aceitam um cargo minis­ terial (i.é, como superintendentes) deve ser o dobro do montante da pen­ são distribuída aos homens idosos que dependem as esmolas da congre­ gação. Visto que não há o mínimo indício de semelhante pensão paga a homens noutras partes das cartas, isto é de dificílima aceitação. No que diz respeito a (b), interpretam “constituir presbuteroi" no sentido de “nomear homens idosos como superintendentes,” mas este sentido não pode ser extraído do Grego. Se fosse este o sentido, um segundo acusativo, indicando o cargo, seria requerido. Mais uma objeção à teo­ ria é seu corolário aparente, e altamente improvável, que os oficiais ad­ ministrativos eram tirados exclusivamente das fileiras dos idosos. À parte das Pastorais, lemos acerca de oficiais chamados anciãos ou presbíteros em At 15 (cf. também 11:30; 16:4; 21:18), que os re­ presenta presidindo com os apóstolos sobre a igreja em Jerusalém; 14:23, de acordo com o qual Paulo e Bamabé estabeleceram presbíteros em todas as igrejas na sua viagem através da Ásia Menor; 20:17-38, que relata como o Apóstolo convocou os presbíteros de Éfeso para Mileto; também em Tg 5:14; 1 Pe 5:1; 2 Jo 1; 3 Jo 1; Ap 4; 5; 7, etc. Parece certo que as comunidades cristãs primitivas, que até mesmo em distri­ tos pagãos usualmente começavam com um núcleo judaico, e de qual­ quer maneira eram formadas por ex-judeus como Paulo, tomaram empres­ tado este tipo patriarcal de organização do judaísmo. Em todas as par117


I TIMÓTEO 5:17 tes do mundo, tanto na Diáspora quanto na própria Palestina, cada comu­ nidade ou sinagoga judaica tinha na sua liderança uma mesa de anciãos (a gerousia), que, nos tempos mais antigos, de qualquer maneira, eram freqüentemente chamados presbuteroi. A despeito do seu nome, não eram necessariamente pessoas idosas, mas, sim, representava os judeus notáveis da localidade. Tinham uma responsabilidade geral pelos negó­ cios financeiros e outros negócios da comunidade, embora a direção prática destes era delegada, na sua maior parte, a uma comissão execu­ tiva freqüenetemente conhecida como “os governantes” (Gr. archontes). Há um conceito generalizado de que, na primeira etapa da missão cristã, esta política patriarcal somente pode ter sido característica das igrejas que surgiram em áreas especificamente judaicas, e confirmação disto é achada na ausência de qualquer menção de presbíteros pelo no­ me nas cartas reconhecidas de Paulo. Conforme foi indicado na Intro­ dução (pág. 22), esta é uma premissa muito frágil para basear uma con­ clusão de tão grande alcance, pois o silêncio de Paulo não precisa ser significante, de modo algum. É altamente provável, visto que este era o único método de organizar uma comunidade do qual tivera experiên­ cia direta, que Paulo instintivamente teria estabelecido mesa de pres­ bíteros em todos os lugares onde fundava uma congregação, nas regiões gentias tanto quanto nas judaicas; e isto, conforme já vimos, é exatamen­ te o que Lucas relata que ele fazia (At 14:23). Não há razão para su­ por que seus convertidos gentios, que tinham plena familiaridade com o governo das cidades ficando nas mãos de um senado, tivessem acha­ do este plano estranho ou desagradável. É concebível, naturalmente, que o título “presbítero” pegasse mais rapidamente onde houvesse um elemento predominantemente judaico na congregação, pois relembra­ va a LXX; mas a política deve ter seguido linhas patriarcais, normalmen­ te. Isto fornece uma explicação muito mais natural e satisfatória da preponderância universal da ordem dos presbíteros já nos fins do sécu­ lo I, do que a hipótese da fusão, nalguma data não determina após a morte de Paulo, de dois tipos estranhos de organização. 17. A importância do primeiro requisito de Paulo, de que Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino, dificilmente pode ser exagerada; fornece um indício valiosíssimo não somente sobre a situação local em Éfeso, como também sobre os começos embriônicos do próprio ministério. Primeiramente, des­ creve a posição dos presbíteros; sua função é presidir (“exercer lideran­ ça”) em cada congregação. Quer dizer que exercem uma supervisão ge­ 118


I TIMÓTEO 5:17 ral sobre seus negócios de modo análogo à supervisão exercida pelos anciãos numa sinagoga judaica: para o mesmo verbo aplicado àqueles que são provavelmente os mesmos oficiais, cf. Rm 12:8; 1 Ts 5:12 (on­ de Paulo está insistindo que sejam respeitados “os que vos presidem no Senhor”). Em segundo lugar, no entanto, este texto sugere que uma distinção está começando a emergir entre o grupo principal dos anciãos que exercem esta supervisão geral, e o grupo mais restrito entre eles que tem tarefas mais específicas para realizar. Ressalta-se claramente na referência aos que se afadigam; etc., mas é provavelmente subenten­ dida na expressão que presidem bem. Estas palavras devem significar, não simplesmente os que se comprovaram bons presbíteros (a qualida­ de do seu serviço não pode ter sido a base de uma diferença de remune­ ração), mas, sim, os que participaram da administração de modo ativo e eficiente, possivelmente com tempo integral. Os exemplos mais ób­ vios destes devem ter sido os que se afadigam na palavra e no ensino, i.é, os superintendentes em distinção dos diáconos; ficamos sabendo em 3:2 e Tt 1:9 que o ensino era a responsabilidade deles, e, como os oficiais executivos principais, a pregação deve ter sido incumbência de­ les também. A palavra traduzida se afadigam (Gr. kipiõntas) literalmen­ te significa “labutando,” mas este sentido não deve ser forçado; o verbo era técnico no vocabulário de Paulo para a atividade ministerial (4:10; Rm 16:12; 1 Co 15:10; G 14:ll; Fp2:16; Cl 1:29; lTs5:12). Em terceiro lugar, a passagem revela que, embora todos os pres­ bíteros, em virtude do seu cargo, recebem algum tipo de estipêndio ou emolumento, Paulo é solícito em insistir que os oficiais executivos rece­ bem o dobro dos demais, presumivelmente porque dedicam mais do seu tempo e das suas energias às suas funções. A palavra traduzida hono­ rários (Gr. time) literalmente significa “honra,” e muitos preferem traduzi-la assim, alguns pela razão de que a lista de qualidades esperadas dos superintendentes e diáconos no cap. 3 possa ser entendida como in­ dicação de que normalmente retinham seus empregos seculares. Não é necessário atribuir muito peso a este argumento, pois a exigência de que não sejam excessivamente interessados em ganhos financeiros qua­ se certamente se refere à sua administração da bolsa em comum. A hon­ ra e o respeito da parte da congregação naturalmente estão em mira aqui, mas a inferência do v. 18 de que recompensas financeiras, ou de qualquer maneira materiais, estão sendo referidas primariamente aqui, não pode ser evadida. Não temos, é claro, qualquer idéia do caráter, escopo ou montante destas, mas a conclusão natural a ser tirada do v. 18 é que os respectivos presbíteros têm o direito de esperar da parte 119


I TIMÓTEO 5:18 da igreja a sua manutenção. Este princípio está em completa harmonia com a atitude de Paulo conforme é revelada noutros lugares. Embora preferisse não tirar vantagem dele pessoalmente (1 Co 9:3-18; 1 Ts 2: 7-9), sempre defendia vigorosamente o direito dos apóstolos e seus assis­ tentes serem materialmente sustentados pela comunidade. Nem é necessário dizer que esta passagem tem uma aplicação im­ portante ao problema da data e da autoria. Na Ásia Menor no começo do século II, se é que podemos confiar nas cartas de Inácio, a linha de demarcação entre os oficiais executivos (o bispo e seus diáconos) e a mesa dos presbíteros estava firme e claramente estabelecida, e não pode­ ria haver questão alguma do prestígio e dignidade extraordinários des­ frutados pelo bispo. Os arranjos retratados aqui têm um ar totalmente mais primitivo, porque (aj a linha de separação entre os dois tipos de ministros ainda está um pouco ofuscada, e (b) o direito dos superinten­ dentes de desfrutar de privilégios especiais ainda não era, conforme pa­ rece, completamente aceito, pois o escritor da carta sentia necessidade de insistir no assunto. 18. Paulo apóia sua proposição de que os ministros da igreja têm direito a apoio material com duas citações. Pois a Escritura declara é uma expressão totalmente paulina: cf. Rm 4:3; 9:17; 11:2; G14:30; etc. A primeira das suas citações é Dt 25:4 (versão da LXX), texto es­ te que aplica da mesma maneira em 1 Co 9:9. A intenção original de "Não amordaces, ” etc., era simplesmente garantir que um boi pudesse tirar algumas bocadas enquanto girava, pisando o trigo, mas em 1 Co 9:9 Paulo argumenta, de modo caracteristicamente rabínico, que Deus não pode ter tido somente o gado em vista quando fez com que estas pala­ vras fossem escritas. Destarte, acha nelas evidência inconfundível de que é da vontade divina que o apóstolo, ou o ministro cristão, seja sus­ tentado pela congregação. Tira a mesma lição aqui. A segunda cita­ ção: “O trabalhador é digno do seu salário,” não é tirado do A.T., mas,‘ sim, é um dito que Lucas (10:7) atribuiu a Jesus. À primeira vista, pa­ rece que o Terceiro Evangelho está sendo citado, e alguns acharam nisto prova convincente de que a carta deve datar da era pós-apostólica. Ou­ tros (e.g. C. Spicq) não pode ver razão alguma porque Paulo não estives­ se citando um esboço anterior do Evangelho segundo Lucas, e declaram que este é o primeiro exemplo de o N.T. ser designado como sendo Escri­ tura. Há certamente um problema aqui, mas sua solução não acarreta necessariamente qualquer destas duas conclusões. As palavras Pois a Escritura declara podem muito possivelmente referir-se somente à pri­ meira citação, e o dito do Senhor pode ter sido frouxamente anexado co­ 120


I TIMÓTEO 5:19-21 mo explicação ou confirmação. Alternativamente, a máxima pode deri­ var-se dalgum escrito apócrifo que contava como Escritura aos olhos do Apóstolo. Conforme tem sido freqüentemente indicado, Lc 10:7 deixa a nítida impressão de que Jesus está apelando a um provérbio comumente aceito. 19,20. Os próximos dois versículos estão estreitamente relacio­ nados entre si, e tratam da situação, bastante comum em qualquer co­ munidade, de acusações serem feitas contra detentores de cargos. Paulo pede a Timóteo: Não aceites denúncia contra presbítero, senão exclusi­ vamente sob o depoimento de duas ou três testemunhas. Este era um princípio perpétuo do procedimento jurídico judaico (Dt 19:15), e evi­ dentemente era prezado na igreja apostólica: cf. Mt 18:16; Jo 8:17; 2 Co 13:1. Não é surpreendente que os cristãos o adotassem; era uma regra esclarecida que dava ao judeu uma proteção quase sem igual nos códigos de justiça antigos. O que Paulo quer frisar é que os líderes da igreja não deviam estar à mercê de queixas frívolas ou feitas com má vontade, mas, sim, devem desfrutar pelo menos da proteção que qual­ quer judeu comum poderia reivindicar sob a lei. Do outro lado, quando a culpa de um presbítero é estabelecida desta maneira, Timóteo deve repreendê-lo na presença de todos, para que também os demais temam. Alguns ressaltam o presente do particípio aqui traduzido Quanto aos que vivem no pecado, e explicam que significa “os que persistem na prática do mal,” presumivelmente depois de uma chamada de atenção inicial e particular (Mt 18:15); mas isto introduz uma idéia inteiramente nova. Outros entendem que as palavras se referem, não aos presbíteros, mas, sim, aos pecadores em geral, e inter­ pretam 20-22 no sentido de tratar da sua censura e readmissão à congre­ gação; mas isto (a) envolve uma mudança demasiadamente abrupta de conteúdo, e (b) pressupõe um grau de desenvolvimento para o sistema de penitência que dificilmente podemos atribuir ao século I, nem mes­ mo ao começo do século II. Além disto, há muita disputa se na presen­ ça de todos subentende diante da congregação reunida ou diante da me­ sa dos presbíteros. Não ouvimos falar noutro lugar, no entanto, de tais sessões particulares, e o desmascaramento público diante da igreja está muito mais em harmonia com a atmosfera do cristianismo apostólico. Do outro lado, os demais provavelmente denota o restante dos presbí­ teros. 21. Uma nota de forte petição agora entra no estilo de Paulo enquanto conclama Timóteo a guardar estes conselhos, sem prevenção, nada fazendo com parcialidade. É difícil escapar à impressão de que 121


I TIMÓTEO 5:22-23 tem em mente um caso concreto, ou talvez casos, de escândalos surgin­ do do tratamento preferencial que presbíteros em erro têm recebido. Invoca Deus e Cristo Jesus e os anjos eleitos porque o julgamento final estará nas mios deles; Timóteo deve exercer suas funções judiciais como representante deles, e como alguém que também há de ser julgado por eles. Os anjos são descritos como eleitos em contraste com os anjos caídos: cf. Od. Sal. iv. 8. Para a crença de que participarão do último julgamento, cf. 4 Ed 16:67; Mt 25:31; Mc 8:38; Lc 9:26; Ap 14:10. 22. A ordem: A ninguém imponhas precipitadamente as mãos quase certamente se refere a ordenação. Esta interpretação se encaixa ad­ miravelmente no contexto; o reconhecimento que os presbíteros são passíveis de cair na má conduta, e do julgamento terrível que os aguar­ da caso assim fizerem, sublinha a importância de usar cuidado e delibedação extremos quando se nomeia tais oficiais. Além disto, está de acor­ do com a preocupação de Paulo nas Pastorais o fato de ser muito dese­ jável obter para o ministério homens de caráter firme e comprovado. Uma exegese alternativa que recebeu muito apoio explica as palavras como uma referência à restauração formal dos penitentes. O signifi­ cado seria, então: “depois de pronunciar sentença contra os culpados, não sê apressado em revogá-la e readmitir os pecadores à comunhão.” Sabemos que no século III e depois, os penitentes eram readmitidos me­ diante a imposição das mãos (e.g. Cipriano, Ep. lxxiv. 12; Eusébio, Hist. eccl. vii. 2; Apost. Const. II. xviii. 7). Tais considerações, no entanto, como (a) o fato que noutras partes nas Pastorais a imposição das mãos subentende a ordenação, (b) a ausência de qualquer outra evidência em prol de semelhante rito de readmissão no século I, e até mesmo no século II, se a carta for supostamente pseudonímica, e (c) a dificulda­ de de supor que, até qualquer das datas sugeridas para a composição das Pastorais, a Igreja tinha evolvido um procedimento formalizado des­ te tipo para restaurar os pecados, parecem pesar decisivamente contrá tal idéia. Uma razão sadia porque um pastor principal deve exercer prudên­ cia em ordenar é evitar a associação de si mesmo com os pecados de outrem. Ele poderia, com toda a justiça, ser considerado até certo pon­ to responsável se o homem a quem ordenara com pressa imprópria se tomasse ocasião de escândalo. Longe de permitir que isto acontecesse, o líder cristão que é conclamado a julgar, e também a castigar, outros deve (conforme Paulo admoesta a Timóteo) conservar-se a si mesmo puro, i.é, sua própria vida deve estar absolutamente acima de repreensão. 23. O conselho, Não continues a beber somente água; usa um 122


I TIMÓTEO 5:24 pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas freqüentes en­ fermidades, parece, à primeira vista, interromper a conexão entre v. 22 e w. 24-25, e os críticos freqüentemente têm suposto ou que ficou deslocado, ou que é uma glosa que acabou sendo incluída no texto. Não há nenhum apoio nos MSS para qualquer destas conjecturas, e, longe de ser um provável intruso, a própria banalidade deste versículo soa uma nota de autenticidade. Os que acreditam na autoria de Paulo não têm estado lentos em ressaltar este fato, e acrescentam que o estilo do Apóstolo freqüentemente é desarticulado. Realmente, não é, de modo algum, tão irrelevante ao contexto quanto se poderia julgar por uma olhada apressada. Paulo acaba de conclamar Timóteo a conservar-se puro. Isto o relembra imediatamente que uma das medidas de disciplina-própria que seu jovem discípulo adotou, e que, na sua opinião, é desnecessária em si mesma além de ter um efeito danoso na saúde de Timóteo, é a total abstinência. Logo, encaixa esta observação como parêntese, para qualificar puro. O conselho terá ainda mais razão de ser se estivermos justificados em supor (4:3 parece apoiar a idéia) que os mestres do erro estabeleceram a abstinência total como princípio, fazendo, assim, um contra-senso da verdade teológica que todos os dons de Deus são bons em si mesmos e permanecem assim, desde que usados com moderação e ações de graças. Os efeitos benéficos do vinho como remédio contra distúrbios dispépticos, como um tônico, e para contrabalançar os efeitos da água impura, eram geralmente reconhecidos na antigüidade, e viajantes mo­ dernos nos países mediterrâneos confirmaram seu valor para o terceiro destes propósitos, pelo menos. O autor de Provérbios (31:6) aconse­ lha seu uso para as doenças tanto do corpo quanto da alma; Hipócrates (De med. antiq. xiii) recomenda doses moderadas de vinho a pacientes para cujo estômago a água sozinha é perigosa; e Plutarco (De sanit. praec. xix) declara que o vinho é a mais útil das bebidas e o mais agradável dos remédios. 24. O Apóstolo agora volta ao seu tema da importância de esforçar-se por aquilatar o caráter de presbíteros em perspectiva. Há pessoas, indica ele, cujos “pecados são imediatamente óbvios, correndo na frente delas para o juízo” — uma maneira pitoresca de dizer que até mesmo o mais inexperiente e isento de discernimento entre os pastores principais não tem desculpa para não notar. Tem sido feita a pergunta se o juízo é de Deus ou de Timóteo, mas o primeiro parece mais preferível; até en­ quanto ainda estão com vida, tais pessoas não podem esconder o fato de que estão incorrendo a ira divina. Há outras pessoas, no entanto, cujo 123


I TIMÓTEO 5:25-6:2a pecado “vem arrastando-se por detrás delas,” i.é, somente serão trazidos à luz quando comparecerem diante do Juiz que a tudo vê. A existência de tais pessoas sublinha a necessidade de extremo cuidado em selecio­ nar ministros. 25. O mesmo princípio, Paulo acrescenta, opera com homens bons. Ao escolher candidatos para o presbiterato, Timóteo fará bem se se lembrar que, embora também as boas obras antecipadamente se evi­ denciem, e os que as praticam têm conseqüentemente, uma reivindica­ ção sadia à promoção, este não é sempre o caso. Permanece sendo um fato, no entanto, qué mesmo se os bons atos de um homem deixarem no momento de atrair a atenção que merecem, não podem ocultar-se para sempre. Isto quer dizer que certamente virão a lume no julgamen­ to final. A moral é que Timóteo não deve rejeitar, sem mais nem me­ nos, candidatos que, à primeira vista, não parecem possuir as qualidades exigidas. 13. OS DEVERES DOS ESCRAVOS. 6:l-2a Esta seção completa o conselho do Apóstolo dirigido aos vários grupos na igreja de Éfeso. Os escravos formavam um elemento impor­ tante nas comunidades cristãs primitivas, e Paulo, em especial, demons­ tra considerável solicitude para com eles: cf. 1 Co 7:21-23; G1 3:28; Ef 6:5-9; Cl 3:22-25; Fm 10-17. Seu ensinamento geral é que, visto que a verdadeira liberdade do cristão, bem como sua verdadeira servi­ dão, são constituídas pelo seu relacionamento com Cristo, não preci­ sa dar importância demasiada à sua posição social no mundo. Seja ela qual for, ele deve ter consciência de que em Cristo não há nem escravo nem liberto no sentido comum destas palavras. Logo, não fez tentati­ va alguma no sentido de alterar a instituição da escravidão, mas, sim, apressou-se em enfatizar que os vínculos de amor fraternal que unem o senhor cristão ao seu escravo também cristão transcendiam a posição relativa muito diferente atribuída a eles pela sociedade. Esta, dentro dos limites do espaço, é a atitude revelada pela pre­ sente passagem; se a ênfase parece ser dada principalmente ao dever da obediência, a premissa subjacente é o amor fraternal que une os cristãos. Muitas pessoas acharam surpreendente, para não dizer perturbador, que a igreja não começou desde seu início, a lançar um ataque total contra uma instituição tão degradante e tão contrária ao seu ensino fundamen­ tal. Devemos lembrar-nos, no entanto, (a) que na era apostólica os cris­ 124


IT3ÍÓTEO 6: l-2a tãos não estavam grandemente interessados na reforma das instituições sociais, visto que esperavam a rápida vinda do Senhor; (b) que de qual­ quer maneira sua solicitude principal era focalizar a atenção nalguma coisa muito mais importante do que a organização social, viz, a vida no­ va e bem-aventurada que estava aberta para o indivíduo através da co­ munhão com Cristo; (c) a idéia do serviço não era, em si mesma, tão repe­ lente a eles como às pessoas modernas, porque estavam vividamente cons­ cientes que o Senhor assumira o papel de um servo; e (d) que embora a es­ cravidão como instituição haveria de continuar por séculos, o cristia­ nismo imediatamente conseguiu modificar os relacionamentos entre o senhor e o escravo. 1. A expressão Todos os servos que estão debaixo de jugo é, natu­ ralmente, tautológica, visto que a própria posição de um escravo suben­ tende que está, metaforicamente, debaixo de um jugo. É desnecessaria­ mente sutil, no entanto, tirar daqui a suposição ou que os escravos de se­ nhores pagãos têm de carregar um jugo duplo, ou, alternativamente, que nada há de estranho na condição da escravidão, visto que todos os ho­ mens estão presos a alguma coisa. Este primeiro versículo trata com os escravos cristãos em geral, independentemente de se seus senhores são cristãos ou não. O motivo sugerido para tratar estes com toda honra é para evitar que o nome de Deus e a doutrina (cristã, ver sobre 4:6) sejam blasfemados. A linguagem relembra Is 52:5 (LXX: cf. Rm 2:24): “o no­ me de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa.” Como de costume (ver sobre 3:7 supra) Paulo está dolorosamente consciente da reação desastrosa que se seguiria se os escravos cristãos abusassem da sua nova liberdade em Cristo para se comportarem com insolência pa­ ra com seus senhores. 2a. No versículo seguinte, considera um segundo caso, viz. Os que têm senhores fiéis. Estes obviamente se constituem em problema especial, porque muito facilmente poderiam ser tentados a supor que, visto que todos são irmãos na comunhão com Cristo, têm o direito de “tomar liberdade com eles” (tratá-los com desrespeito). O verbo (Gr. kataphronein) é aquele que é usado em 4:12, onde a tradução é:“Ninguém o subestime.” Não significa “desprezar”, mas, sim, tratar sem a plena consideração devida à posição do outrp homem. Pelo contrá­ rio, Paulo ressalta, trabalhem ainda mais precisamente porque os mes­ tres aos quais servem são crentes e amados, i.é, cristãos. Lembramos o conselho de Paulo em G1 5:13: “Sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor.” A descrisão do trabalho que os escravos fazem como sen­ do bom serviço (Gr. euergesia) elabora a mesma lição ao lembrar aos

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I TIMÓTEO 6:2b-3 mestres que são os beneficiários, e aos escravos que as tarefas que acham tão trabalhosas realmente não passam de formas do serviço mútuo que os cristãos devem prestar uns aos outros. 14. OS PERIGOS DO FALSO ENSINO. 6:2b-10. Paulo agora terminou seu conselho a grupos específicos. Nesta seção final, renova seus ataques contra os pervertedores da ortodoxia, e acha a origem da sua atitude no orgulho e na concupiscência. 2b, 3. Os estudiosos têm debatido se Ensina e recomenda estas coisas deva ser vinculado estreitamente com a seção anterior acerca dos escravos, ou considerado como a introdução a um novo parágrafo. A úl­ tima interpretação é preferível, visto que um contraste está claramente em mira, entre Timóteo como um mestre, e os falsos mestres mencio­ nados na frase seguinte. Se for assim, estas coisas provavelmente abran­ gem todos os assuntos tratados e as instruções dadas na carta. Destarte, no versículo seguinte, Se alguém ensina outra doutrina não se refere à heterodoxia em geral, mas, sim, às questões específicas a respeito das quais os mestres do erro estavam desviando o povo. Para o verbo (Gr. heterodidaskalein), cf. 1:3. Mais tarde, veio a significar “ensinar here­ sia,” O fato de que, embora levasse um sabor peijorativo, ainda rete­ nha se significado original, é evidência em prol da data recuada da carta. O Apóstolo então coloca seu dedo naquilo que considera ser a cau­ sa radical do desvio dos mestres do erro ; não concordam com o evan­ gelho e com o ensino da igreja nele fundamentado. As sãs palavras de nos­ so Senhor Jesus Cristo devem referir-se às palavras propriamente fala­ das por nosso Senhor, e a passagem fornece confirmação interessante do fato de terem sido colecionadas em data recuada. Muitos preferem esta tradução, e acham nela uma expressão da convicção do Apóstolo de que Cristo e Seu ensino se constituem na autoridade suprema para os cristãos, e que desviar-se delas importa em desastre. Indicam o fato de que Paulo noutros lugares (e.g. 1 Co 7:10) evidencia um interesse nos ditos do nosso Senhor, e que os trata como uma norma de compor­ tamento cristão. Embora esta seja uma exegese atraente, há considerações impor­ tantes que pesam contra ela. (a) Não há artigo definido no Grego antes de “sãs palavras,” e deveríamos ter esperado um se o significado fosse “os ditos de Jesus,” Além disto, se este fosse o significado, é estranho que Paulo não escreveu simplesmente: “as palavras sãs de nosso Senhor 126


I TIMÓTEO 6:4 Jesus Cristo,” mas, pelo contrário, acrescentou “as do nosso Senhor Jesus Cristo” como tipo de qualificação de “sãs palavras.” (b) Os pronun­ ciamentos registrados de Jesus têm, na melhor das hipóteses, uma aplica­ ção indireta aos problemas discutidos nas Pastorais, (c) A descrição de­ las como sendo sãs é nitidamente condescendente, seja consideremos que Paulo é o autor, seja um paulinista posterior. Por estas razões parece mais satisfatório entender que “sãs palavras” denotam a mensagem cris­ tã sadia e geralmente equivalente a o ensino segundo a piedade, etc. Paulo então define esta mensagem como sendo de nosso Senhor Jesus Cristo, para ressaltar que sua fònte ulterior é o próprio Cristo, e que Ele é o tema dela. Para um uso semelhante do genitivo, cf. “a palavra do Senhor” (1 Ts 1:8; 2 Ts 3:1) e “a palavra da cruz” (1 Co 1:18). O adjetivo sã é um predileto de Paulo nesta conexão; ver sobre 1:10. Como de costume, denota que o evangelho, em contraste com as especulações mórbidas dos falsos mestres, é sadio em si mesmo e tam­ bém transmite bem-estar espiritual a qualquer pessoa que fundamenta sua fé sobre ele. 4. Com o ensino segundo a piedade (Gr. eusebeia — outra pala­ vra favorita: ver a nota sobre 2:2) Paulo quer dizer a fé ortodoxa con­ forme ele e Timóteo a sustentam. É divinamente garantida, estando ar­ raigada no evangelho de Cristo. Conseqüentemente, qualquer pessoa que a rejeita em favor dalguma doutrina particular dela mesmo só pode ser enfatuada (para o verbo grego tetuphòtai, ver sobre 3:6). Longe de possuir entendimento superior religioso e teológico, na realidade nada entende — podemos comparar a observação de Paulo em 1 Co 8:1 que pretensões ao conhecimento esotérico estão propensas e alimentar a vaidade da pessoa. Os assuntos pelos quais tem mania (o particípio grego nosón literalmente significa “estando enfermo,” e forma um contraste deliberado com sã no versículo anterior) acabam sendo nada mais do que questões (“especulações vãs”) e contendas de palavras, que não so­ mente deixam de levar a qualquer conclusão proveitosa (como poderiam fazê-lo, visto que não confiam no evangelho da salvação como sua autori­ dade ulterior?), mas, sim, somente provocam altercações, calúnias, e sus­ peitas mútuas, que não edificam e que são profundamente anti-cristãs. Como em 2 Tm 2:23; Tt 3:9, a palavra traduzida questões (“es­ peculações vãs”) (Gr. zètèseis: cf. ekzètêseis em 1:4) abrange muito mais do que “disputas” ou “controvérsias,” e denota a preocupação dos sectários com a teorização pseudo-intelectual. Paulo já a critica­ ra em 1:4. Agora a estigmatiza àinda mais como sendo uma batalha falsa acerca de palavras (Gr. logomachia: um hapax no N.T.), e pinta 127


I TIMÓTEO 6:5-6 em cores lúridas o orgulho que dá origem a ela, o espírito de amargu­ ra e suspeita anti-sociais que ele semeia na igreja, e a degeneração mo­ ral que acaba produzindo. O quadro é violento, e embora alguns dos pormenores talvez tenham sido emprestados de catálogos convencio­ nais de vícios, indica uma situação concreta que excitava a aflição e indignação de Paulo. 5. Agora descreve a degradação moral dos próprios sectários. Pri­ meiramente, conforme fica evidente nas suas altercações sem fim (este parece ser o sentido do hapax gr. diaparatribai), ficaram sendo homens cuja mente é pervertida ou depravada. A palavra “mente” (Gr. nous) é usada aqui para denotar a totalidade da sua atitude mental e moral, ou modo de pensar (cf. Rm 1:28), não apenas sua capacidade de racio­ cínio como tal. Em segundo lugar, como conseqüência direta disto, es­ tão privados da verdade. Com isto Paulo quer dizer, não tanto que per­ deram sua capacidade de apreender a verdade de modo geral, mas, sim, mais especificamente, que se tornaram cegos ao conteúdo verdadeiro da revelação cristã. Para este sentido de a verdade, ver sobre 2:4; cf. também 2 Tm 2:25; 3:7; Tt 1:1, 14. Assim se chega à terceira etapa da degradação, a mais chocante: chegaram a supor que a piedade é fonte de lucro. Como em 3, a palavra grega para a religião, aqui e no versículo seguinte, é eusebeia. Tem sido disputado se a acusação é que usavam sua demonstração de piedade co­ mo alavanca para ganhar promoção material, ou que exigiam emolu­ mentos pela instrução esotérica que davam aos seus aderentes. Esta última acusação é quase certamente a que está em mira, pois é mais coe­ rente com aquilo que se segue; e, além disto (se estivermos justificados em considerá-lo como paralelo), com o quadro dos seus métodos exte­ nuantes de propaganda mencionados em Tt 1:11. Além disto, é incon­ cebível que a profissão do cristianismo fosse materialmente vantajosa em qualquer dos períodos que têm sido seriamente propostos para a composição das Pastorais. Conforme já vimos (5:17-18; cf. 2 Tm 2:6), Paulo não tem objeção aos oficiais da igreja, especialmente os ensinado­ res, receberem emolumentos. Sua queixa contra os sectários parece ser que fazem do dinheiro seu objetivo principal, e que têm um preço específico para suas mercadorias. 6. Com um toque fino de ironia, portanto, retoma e reinterpreta de modo cristão as alegações blasfemas deles. De fato, grande fonte de lucro é a piedade, concorda ele, relembrando, talvez, sua declaração em 4:8 de que “a piedade para tudo é proveitosa.” Os benefícios que outorga, nada têm a ver com as riquezas materiais, porque aquilo que 128


I TIMÓTEO 6: 7-8 oferece ao crente é “a promessa da vida que agora é e da que há de ser.” Uma condição essencial disto é que, longe de entregar-se à cobiça, o ho­ mem deve ter contentamento, i.é, um espírito que aceita com gratidão os dons que Deus outorgou, e fica satisfeito. A palavra assim traduzida é autarkeia, ou “autosuficiência.” Este era um termo técnico na filoso­ fia grega, especialmente favorecido na tradição cínica-estóica, que o empregava para denotar a independência do sábio das suas circunstân­ cias. Vemos Paulo empregando-o em 2 Co 9:8 com o sentido de “su­ ficiência,” “meios adequados;” mas o significado mais profundo, e mais caracteristicamente cristão que possui aqui é ilustrado por Fp 4:11, on­ de declara: “aprendi a viver contente (Gr. autarkès: o adjetivo correla­ to), em toda e qualquer situação.” 7. O versículo seguinte dá uma razão sólida e prática para a ati­ tude contente do homem religioso; sabe que, do ponto de vista da eter­ nidade, nenhuma das coisas que as pessoas cobiçam tem qualquer per­ manência. As palavras: Porque nada temos trazido para o mundo, etc., expressam um lugar-comum tão familiar no pensamento judaico quan­ to no greco-romano: cf. Jó 1:21; Ec5:15; Sab. 7:6; Filo, Spec. leg. i. 294-5; Sêneca, Fp, cii. 24-25. Para paralelos cristãos, cf. Lc 12:16-21; Hermas, Sim. i. 6. O origirial grego contém uma construção desajeitada, pois as duas cláusulas estão vinculadas pela conjunção hoti, que deve sig­ nificar ou “porque” ou “que.” Certo número de MSS encaixa ou “está claro” ou “é verdade” antes de hoti, fazendo com que o texto seja “Por­ que nada temos trazido para o mundo; está claro (al. verídico) que coi­ sa alguma podemos levar dele tampouco.” Estas variantes e outras, no entanto, são claramente tentativas de alisar um texto mais difícil e, por­ tanto, intrinsecamente mais provável. Se hoti receber seu valor integral, deve ser “desde que”, e o sentido geral será que a razão porque nada trouxemos para o mundo é porque não vamos poder levar coisa alguma fora dele; mas isto parece intoleravelmente banal. A solução mais satis­ fatória é supor ou que hoti perdeu sua plena força causal, e tem o senti­ do mais fraco de “assim como”, ou até mesmo “e” (ou nem ARA), ou que a expressão de Paulo é confusa por causa da sua mistura de chavões proverbiais. 8. Afinal das contas, as necessidades básicas da vida são, na rea­ lidade, bem poucas e simples, e podem ser resumidas como sendo “comi­ da e roupa” (esta última palavra, Gr. skepasmata, pode incluir “abrigo” também, mas a evidência dos dicionários geralmente é contra isto). Estes são freqüentemente mencionados juntos como requisitos mínimos tanto na Bíblia (e.g. Dt 10:18; Is 3:7; Mt 6:25) e, ainda mais, no ensino es­ 129


I TIMÓTEO 6:9-10 tóico-cinico popular (e.g. Musônio, xviii-xix, ed. Hense; Diógenes Laércio, vi, 104; x. 131). Logo, alguns pensam que uma máxima estóica está sendo citada. O futuro “ficaremos contentes” é inesperado, pois uma construção admonitória tal como estejamos contentes pareceria mais apropriada. É possível que Paulo esteja incorporando um refrão prover­ bial sem se dar o trabalho de modificar a gramática. Alternativamente, o futuro pode ser um hebraísmo com o significado de um imperativo. 9. Estes pensamentos incentivam o Apóstolo a contemplar os efeitos desastrosos, sobre a alma, do amor desregrado ao dinheiro. Não são os ricos como tais que fustiga; havia alguns deles na igreja de Éfeso (cf. 17 abaixo), e embora Paulo tenha conselhos para eles, não condena suas posses como intrinsecamente erradas. Sua advertência é para os que querem ficar ricos, i.é, que fixaram seus desejos nas riquezas mate­ riais e fizeram delas seu motivo predominante; outra vez, provavelmen­ te esteja pensando nos sectários e no seu conceito da religião como sen­ do um empreendimento lucrativo. Como animais engodados para sairem do caminho seguro, os que pretendem ser ricos caem em tentação e cilada. Supõe-se que seu senso moral fica ofuscado como resultado da paixão que totalmente os domina, e ficam presa de muitas concupiscências insensatas e perniciosas, do tipo que afogam os homens na ruína e perdição. O verbo para afogar (Gr. buthizein) é vívido, e faz pensar no quadro de afogar alguém no mar, ao passo que os dois substantivos, ruína e destruição, se é que devem ser diferenciados entre si, podem sig­ nificar o desastre material e espiritual respectivamente. 10. Para justificar sua linguagem enfática, Paulo cita o que pare­ ce ser um provérbio corrente: Porque o amor do dinheiro ê raiz de todos os males. Este era um tema popular da ética popular judaica e pagã: para a primeira, cf. Eclo. 27:1-2; Filo, Spec leg. iv. 65; Test. xii patr. . , Jud. 19. A tradução (do autor) “Pois males de todos os tipos estão arraigados no amor ao dinheiro” talvez seja mais satisfatória, pois não há artigo de­ finido antes de “raiz” no grego original, e é extravagante asseverar que o amor ao dinheiro é a causa radical de todos os pecados. Na segunda metade do versículo, depois de citar o provérbio popu­ lar, Paulo revela que sua polêmica visa diretamente os sectários è sua co­ mercialização da religião. Relembra a Timóteo que alguns, nessa cobi­ ça, se desviaram da fé, não necessariamente apostatando no sentido rigo­ roso, mas, sim, vivendo vidas em desacordo com o evangelho. Por nessa cobiça significa a produção do dinheiro; no Grego a palavra concorda exatamente com o amor do dinheiro, mas a inserção global do adágio popular explica a conexão frouxa. Para a fé, ver sobre 3:9. Com alguns 130


I TIMÓTEO 6:11 (Gr. tines) faz uma referência deliberada a certos indivíduos que, sem dú­ vida, sSo tão familiares a Timóteo e à igreja de Éfeso quanto a ele mesmo. Estas almas infelizes, acrescenta ele, a si mesmos se atormentaram com muitas dores — ou “ficaram espetados,” uma metáfora pitoresca que des­ creve os espinhos de remorso e desilusão que agora os laceram. Os w. 6-10 freqüentemente têm sido representados como sendo um bloco de matéria principalmente helenística, sem qualquer tema es­ pecialmente cristão, e somente vinculado de modo frouxo com a polê­ mica que o antecede. Este, porém, é um modo completamente errado de interpretar a passagem. Há bastantes paralelos às suas idéias, confor­ me indicaram as notas, na moralização pagã popular, e algumas das pri­ meiras podem ser ecos diretos desta última. Deve, porém, ser observa­ do1que (a) os paralelos bíblicos e judaicos são igualmente impressionan­ tes, (b) que a atitude para com as riquezas coincide com a de Jesus, e (c) que até mesmo o v. 8, descrito por B. S. Easton como sendo “a pró­ pria essência do estoicismo,” reflete o conselho que Jesus deu aos Seus discípulos (cf. Mc 6:7ss. e par.;Mt 6:25-33 = Lc 12:22-31). Apeque­ na homília encaixa-se com perfeição nas críticas do Apóstolo, no v. 6, às tendências dos hereges à avareza, e se parece que passa quase ime­ diatamente para reflexões gerais, este fato é bastante natural; logo volta para as realidades dolorosas da igreja em Éfeso. 15. UMA EXORTAÇÃO PESSOAL PARA TIMÓTEO. 6:11-16. À medida em que sua carta vem chegando ao fim, Paulo dirige um apelo direto ao próprio Timóteo. A nota fortemente pessoal nele é inconfundível; é forçar demasiadamente a passagem interpretá-la co­ mo uma exortação ao pastor típico, e a sobrecarga na passagem fica sendo ainda maior se considerarmos que “Timóteo” representa o dis­ cípulo cristão em geral. 11. As palavras iniciais, Tu, porém, são enfáticas; formam uma nítida antítese com alguns no versículo anterior, e talvez também com Se alguém em 3. A conduta de Timóteo, e os princípios sobre os quais ele a baseia, devem ser exatamente os opostos daqueles dos bancarrotos morais que acabam de ser descritos. O título homem de Deus é aplica­ do a ele deliberadamente. Tem a conotação de que está no serviço de Deus, que representa a Deus e que fala em Seu nome, e é admiravelmen­ te apropriado a alguém que é um pastor (cf. 2 Tm 3:17). Uma tenta131


I TIMÓTEO 6:11 tiva tem sido feita, com a ajuda de paralelos de Filo, da literatura her­ mética, e da Epístola de Aristéias, de dar à expressão um significado semi-místico, como se o “homem de Deus” significasse o cristão bati­ zado em geral. Tais subtilezas, no entanto, são desnecessárias e artifi­ ciais, pois “homem de Deus” é regularmente usado no A.T. para desig­ nar os servos e agentes de Deus; cf. Dt 33:1 e Js 14:6 (Moisés); 1 Sm 9:6 (Samuel); 1 Rs 17:18 (Elias); 2 Rs 4:7 (Eliseu); Ne 12:24 (Davi). Timóteo, por ser consagrado ao serviço de Deus, deve fugir des­ tas coisas, i.é, primeiramente o amor ao dinheiro e os males dos quais ele é a causa radical, mas também, sem dúvida, os caminhos falsos e desastrosos que os sectários encorajam. Ao invés disto, deve seguir (“ter como alvo”, um uso bem paulino; cf. Rm 9:30; 12:13; 14:19; 1 Co 14:1; Fp 3:12, 14) a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão. A lista de qualidade é escolhida tendo em vista a necessida­ de de Timóteo no seu cargo pastoral. Achamos a justiça e a piedade formando um par, na forma de advérbios, em Tt 2:12. A palavra grega para a primeira (dikaiosunè) não significa a justiça no sentido caracteris­ ticamente paulino nem, mais estreitamente, a justiça rigorosa em con­ traste com a gula e a concupiscência dos sectários. É uma palavra geral para a conduta que é totalmente reta e imparcial com relação a todos os membros da comunidade: cf. 2 Tm 2:22; 3:16. Com piedade (mais •uma vez sua palavra predileta eusebeia) Paulo denota uma atitude reli­ giosa devota e inteiramente correta: ver sobre 2:2. A tríade fé, amor, constância volta a ocorrer em Tt 2:2; também é achada em 1 Ts 1:3. As duas primeiras palavras representam, é lógico, as graças cristãs supremas; tendo em conta a posição especial de Timó­ teo, como defensor da fé contra o erro e também como delegado apos­ tólico, é muito apropriado que a constância e a mansidão sejam acres­ centadas. Aquela palavra é freqüentemente usada por Paulo no senti­ do de um esforço perseverante; esta (Gr. praüpathia) é um hapax do N.T., mas o Apóstolo estava familiarizado com seu cognato praütès (e.g. 2 Co 10:1;G1 5:22). Âs vezes é argumentado (ver a Introdução, págs. 25,27) que o trata­ mento aqui de fé e amor, que para Paulo abrangiam a tudo, como sendo virtudes específicas que podem ser catalogadas juntamente com outras, é um traço espalhafatosamente não-paulino. Devemos, no entanto, ob­ servar que as duas, sem qualquer indicação de precedência, figuram na lista miscelânea do “fruto do Espírito” em G1 5:22. A objeção de que “para Paulo, estas são as dádivas de Deus, não as realizações humanas” (F. D. Gealy) é igualmente superficial. Se for necessário sermos literais, 132


I TIMÓTEO 6:12 o próprio Paulo aconselhou os coríntios, com linguagem idêntica, “Se­ gui o amor” (1 Co 14:1). De modo mais geral, a doutrina da primazia da graça não exclui todo o conselho e a exortação. 12. As palavras de desafio que se seguem, Combate o bom com­ bate da fé, trazem à mente o quadro de uma competição de luta-livre ou dalgum outro evento de atletismo; conforme procura ressaltar nossa tradução: “Desempenha tua parte na nobre competição da fé”, a metá­ fora é tirada do esporte, e não da guerra. Para o uso das analogias do esporte, da parte de Paulo, ver sobre 4:7;cf. também 1 Co 9:24ss.; Fp 2: 16; 3:12-14; 2 Tm 4:7. Paulo o chama o. . . combate da fé, ou porque é a luta que a fé verdadeira empreende contra o erro, ou, mais provavel­ mente, porque tem em mente “a guerra pessoal contra o mal à qual todo cristão é conclamado” (J. H. Bernard). O imperativo está deliberadamen­ te no tempo presente, o que indica que a luta será um processo contínuo. Do outro lado, o imperativo no aoristo Toma posse sugere que Timóteo pode apoderar-se da vida eterna (aqui concebida como sendo o prêmio para o evento atlético) imediatamente, num único ato. Destarte, é algu­ ma coisa que o cristão que leva a sério as exigências da sua fé pode des­ frutar em certa medida aqui e agora. Não há contradição entre isto e o ensino de Paulo noutros lugares. Se em Rm 6:22 e G1 6:8 fala da vida eterna como sendo uma bênção que o crente fiel ceifa no fim, há ou­ tras passagens (e.g. Rm 6:4; 2 Co 4:10-12; Cl 3:3-4) em que concebe da nova vida em Cristo como sendo uma realidade presente. Duas razões obrigatórias porque Timóteo deve empreender-se nesta luta vitalícia são (a) que Deus o tem chamado para a vida eterna, e (b) que publicamente reconheceu e aceitou aquela chamada. Quanto à chamada de Deus, cf. 1 Co 1:9; 2 Ts 2:14. A ocasião em que Timó­ teo a aceitou foi quando fez a boa confissão, perante muitas testemu­ nhas. Esta expressão às vezes tem sido explicada como sendo uma refe­ rência ou à sua ordenação ou à sua corajosa confissão de Cristo ao ser perseguido e arrastado diante dos magistrados civis (cf. Hb. 13:23 para uma menção da sua prisão). A primeira não é especialmente apropriada para o contexto, que diz respeito à chamada de Timóteo para ser cristão (este é, por certo, o significado de ser chamado para a vida eterna), não para ser ministro de Deus. De qualquer maneira, não temos razão para su­ por que uma solene confissão de fé em Cristo fosse exigida na ocasião da ordenação de um ministro: nenhum indício disto aparece nos relatos antigos do rito. A segunda explicação parece ainda menos apropriada, pois um comparecimento diante de um magistrado dificilmente pode ser chamada uma convocação à vida etema. Além disto, se Timóteo 133


/ TIMÓTEO 6:13 tivesse sofrido desta maneira, e se mostrasse corajoso, teríamos esperado alguma alusão mais direta ao assunto nas cartas, especialmente tendo em vista que elas tendem a ressaltar a sua timidez. Talvez o único por­ menor a favor desta exegese seja o paralelismo com o v. 13, que possivel­ mente (mas ver abaixo) relembre o julgamento de Cristo diante do go­ vernador romano. Embora isto sugira, no entanto, que as duas confis­ sões sejam paralelas, é desnecessário procurar um paralelismo rigoroso nas situações também. Muitos mais plausível do que qualquer destas interpretações é aque­ la que identifica a boa confissão de Timóteo com a profissão de fé que fez no seu batismo. Esta, acima de todas, era a ocasião em que se po­ dia dizer que o cristão aceitou a chamada à vida eterna, e na igreja pri­ mitiva este sacramento era administrado publicamento diante da con­ gregação reunida, i.é, perante muitas testemunhas. Desde os tempos mais antigos, seu clímax era uma solene afirmação de fé por parte do candidato, e Paulo quase certamente está citando semelhante afirma­ ção, ou uma seleção de uma delas, quando escreve (Rm 10:9): “Se com a tua boca confessares (o verbo que emprega, Gr. homologein, é o cognato do subs. homologia traduzida confissão aqui) a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentro os mor­ tos, serás salvo.” Nenhum argumento pode ser trazido de 2 Tm 3:15 contra esta exegese, porque, embora este trecho revele que Timóteo ti­ nha sido instruído nas Escrituras desde a infância, não dá a entender de modo algum que tivesse sido batizado na infância, o que, em quais­ quer circunstâncias, é extremamente improvável. O fato de que Paulo coloca o artigo definido antes de a boa confissão confirma que está falan­ do de uma fórmula que tem um caráter reconhecido e oficial. 13. Sua referência à confissão batismal de Timóteo leva-o, enquan­ to desenvolve sua admoestação, a fazer a elé um apelo solene final em linguagem que conscientemente relembra aquela mesma confissão. Escre­ ve: Exorto-te perante Deus, que preserva a vida de todas as coisas,-e pe­ rante Cristo Jesus que, diante de Pôncio Pilatos, fez a boa confissão. Estas duas cláusulas reproduzem a substância de um credo batismal pri­ mitivo. Se pudermos julgar pela prática de umas poucas gerações mais tarde, ao candidato a iniciação, enquanto ficava de pé na água, primei­ ramente se perguntava se acreditava em Deus Pai Todo-poderoso (ou palavras com este sentido), onde “Pai” denotava a fonte de toda a reali­ dade, que dava vida a ela. Esta pergunta aqui é representada por Deus, que preserva a vida de todas as coisas, sendo que a razão para as palavras específicas escolhidas é sugerir que Deus não somente é o Criador ori134


/ TIMÓTEO 6:13 ginal, como tembém no batismo outorga a vida nova e abençoada em Cristo para a qual Timóteo foi chamado. Tendo respondido afirmativa­ mente a esta primeira pergunta, perguntava-se, então, se acreditava em Jesus Cristo, que sofreu e ressuscitou. Muito freqüentemente, confor­ me sabemos pelo credo romano primitivo que subjaz o presente Credo Apostólico, este interrogatório incluía uma menção de Pôncio Pilatos, e este também era um aspecto dos resumos esquemáticos da pregação apostólica desde os tempos mais antigos: cf. At 3:13; 4:27; 13:28; Inácio, Magn. xi. 1; Trall. ix. 1; Smym. 1:2; Justino, 1 Apol. xiii. 3; lxi.. 13. Nestas fórmulas primitivas de credos, onde a forma usada era, como aqui, epi Pontioü Pilatou, o significado era “nos tempos de Pôn­ cio Pilatos,” sendo que a intenção era fixar a Paixão numa data especí­ fica da história, e este é quase certamente o significado das palavras aqui, também. Muitos estudiosos têm preferido a tradução “diante de Pôncio Pi­ latos” (a preposição grega epi pode aceitar qualquer dos dois sentidos). Isto lhes pareceu uma antítese boa a perante muitas testemunhas em 12, e uma boa concordância com fez a boa confissão no presente versículo, que interpretam como sendo uma referência à confissão de Cristo (Mc 15:5 e par.) de que era Rei dos judeus. O paralelo, no entanto, entre a confissão de Timóteo e a de Cristo não pode ser forçado em todos os seus detalhes, e é certamente desajeitado ter perante Deus, etc. e “diante de Pôncio Pilatos” em justaposição tão estreita. Além disto, é duvido­ so se Sua boa confissão sugeriria ao leitor, na ausência doutra explica­ ção, o reconhecimento da Sua posição (de qualquer maneira feito em linguagem reservada) que Cristo fez durante Seu interrogatório diante de Pilatos; e a quase certeza de que a passagem ecoa um credo batismal primitivo torna extremamente provável que as palavras se refiram à cru­ cificação do Senhor. Se for assim, “nos tempos de Pôncio Pilatos” de­ ve ser a tradução correta. 0 sentido resultante é excelente. Timóteo é exortado, perante Deus, seu Criador, que também lhe dá a vida eterna, e perante Cristo Jesus, que morreu por ele, a ser leal à sua comissão; e o apelo é reforça­ do por uma vívida lembrança tanto do compromisso solene que ele mes­ mo assumiu na ocasião do seu batismo, e do testemunho ainda mais impressionante que o Salvador deu na cruz. As palavras fez a boa confis­ são não devem ser forçadas por demais literalmente, pois Paulo delibera­ damente adaptou sua linguagem às palavras do v. 12. A lição que quer inculcar em Timóteo é que, ao passo que ele se identificou com a fé em Cristo quando aceitou o batismo, o próprio Cristo, por assim dizer, tinha 135


I TIMÓTEO 6:14-15 atestado a mesma confissão em atos (poderíamos quase dizer: encenou-a) quando morreu e ressuscitou. A moral é que o discípulo deve exibir a mesma perseverança e coragem indomitável de seu Mestre. 14,15. Tem havido muita discussão sobre aquilo que Paulo tem em mente ao exortar Timóteo a guardar o mandamento (sua comissão) maculado, irrepreensível. Talvez esteja pensando ou nas injunções es­ pecíficas com as quais o parágrafo começa (11-12) ou no ensino da car­ ta como um todo, mas nenhum destes conceitos parece ser suficiente­ mente abrangente em vista do elevado tom da passagem. Aqueles que in­ terpretam o v. 12 como uma referência à ordenação do Timóteo natural­ mente entendem o versículo como um encorajamento para ele ser fiel aos seus votos de ordenação. A referência ali, no entanto, é provavelmente ba­ tismal, e, portanto, é muito mais atraente entender por o mandado a tota­ lidade da lei de Cristo, a regra da fé e da vida ordenada pelo evangelho, à qual Timóteo se comprometeu no seu batismo e da quaL, como um lí­ der apostólico, ele está encarregado. É interessante notar que Cirilo de Jerusalém, ao citar o versículo (Cat. v. 13), registra “a fé que te foi entre­ gue,” i.é o credo que resume a regra da fé, no lugar de o mandado. Os adjetivos imaculado e irrepreensível também causaram dificul­ dade, sendo que alguns fazem com que qualifiquem a Timóteo, e outros, ao mandado. A primeira opção é gramaticamente possível, pois o Grego contém “te” no acusativo como o sujeito do infinitivo guardes, guardar, mas o fato de que os dois adjetivos estão separados de “te” por o manda­ do toma extremamente improvável que estejam em concordância com ele. Do outro lado, se forem entendidos juntamente com “o mandado”, ofere­ cem um sentido admirável que está inteiramente em harmonia com a preo­ cupação da carta, que visa a ortodoxia rigorosa. Em si mesma, é lógico, a fé do evangelho, que é o conteúdo da comissão de Timóteo, é imacula­ da e irrepreensível, mas Paulo agora relembra a este que é seu dever obri­ gatório conservá-la assim, imune das contaminações da heresia ou das' especulações vãs. As palavras até a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo contêm uma lembrança de que o próprio Cristo julgará Seus servos na Sua vinda. Embora Paulo não fixe nenhuma data específica para isto (ver a nota so­ bre 15 abaixo), parece que faz uma alusão indireta à possibilidade de ocorrer durante a vida de Timóteo. A importância de o cristão ser achado inculpável naquele dia é uma idéia totalmente paulina: cf. 1 Ts 3:13; 5:23; 1 Co 1:8; Fp 2:15-16. A palavra manifestação (Gr. epiphaneia) era um termo técnico na lin­ guagem da religião helenística contemporânea para a auto-revelaçâo de 136


I TIMÓTEO 6:15 um deus ou de um ser semi-divino (e.g. um rei, ou, no culto imperial, o im­ perador). Podia referir-se ao aniversário do deus, ou a alguma ocasião em que milagrosamente revelava a si mesmo ou ao seu poder divino, ou ao aniversário da coroação de um rei, ou à sua volta de uma viagem ao estran­ geiro. Nas Pastorais, denota em 2 Tm 1:10 a primeira vinda ou encarna­ ção de Cristo, mas aqui e noutros lugares (2 Tm 4:1, 8; Tt 2:13) sua es­ perada volta escatológica. Sua ocorrência aqui, ao invés da palavra comum do N.T., parousia, tem sido indicada como um traço suspeitamente não-paulino. Na realidade, Paulo a emprega para a segunda vinda (em con­ junção com parousia) em 2 Ts 2:8, e somente emprega parousia neste sentido em 1 Co 15:23; 1 Ts 2:19; 3:13; 4:15; 5:23; 2 Ts 2:1, 8, 9. À parte disto, tem uma variedade de expressões para a segunda vinda, tais como “o dia do Senhor” (1 Ts 5:2; 1 Co 1:8; 5:5), ou “a manifestação do Senhor Jesus” (2 Ts 1:7; 1 Co 1:7). A escolha da palavra aqui está epi harmonia com a prática de Paulo nas Pastorais de tomar emprestado seu vocabulário daquele da religião helenística. 15. Nos seus primeiros dias como cristão, Paulo antevia que ele mesmo viveria para ser testemunha da volta gloriosa de Cristo (1 Ts 2:19; 3:13; 5:23, etc.). A presente passagem confirma que na velhice ele veio a reconhecer que, no que dizia respeito a ele mesmo, a data dela jazia no futuro indefinido; ocorreria; exatamente quando Deus julgasse apropriado manifestar Seu Filho. Destarte, a qual em suas épocas determinadas, há de ser revelada pelo bendito e único Soberano; i.é, o próprio Deus faria esta manifestação no próprio tempo escolhido por Ele: ver nota sobre 2:6. Este versículo e o seguinte formam uma doxologja solene e esplên­ dida, bem no estilo de Paulo, embora a própria fórmula seja mais longa e mais semelhante a um hino do que as dele usualmente são. Totalmente judaico no seu tom, louva a soberania sem igual de Deus contra toda au­ toridade humana. Pode muito bem ser uma gema do tesouro devocional da sinagoga helenística que os convertidos tinham naturalizado na igreja cristã. Na sua aplicação a Deus, o bendito e único Soberano tem parale­ los em 2 Mac. 1:24 (“o único rei”); 12:15 (“o grande soberano do univer­ so”); Eclo. 46:5 (“o soberano altaneiro”). Já encontramos bendito usado como predicado da Divindade em 1:11, onde foi ressaltado seu sabor helenístico: ver a nota. Os títulos Rei dos reis e Senhor dos senhores são atribuídos a Javé no A.T. (Dt 10:17; SI 136:3; 2 Mac. 13:4), e, junta­ mente, a Cristo no N.T. (Ap 17:14; 19:16). No uso deles, tanto pe­ los judeus quanto pelos cristãos, era subentendida uma refutaç��o cons­ ciente das reivindicações dos potentados terrestres - no presente con­ texto, provavelmente, as do culto ao imperador. 137


I TIMÓTEO 6:16-19 16. A mesma crítica do culto imperial pode provavelmente ser detectada na expressão enfática: o único que possui imortalidade, vis­ to que no século I a prática de tratar o imperador falecido como sendo imortal estava entrando na moda. Deus foi definido como sendo imor­ tal em 1:17; a declaração aqui, com suas palavras mais detalhadas, não visa negar a imortalidade aos outros seres, mas, sim, ressaltar que per­ tence inerentemente e por direito somente a Deus, como a própria fonte da vida. A descrição de Deus que habita em luz inacessível relembra SI 104: 2, onde se diz que Ele está coberto de luz como de um manto, e também a referência de Paulo em Cl 1:12 aos “santos na luz,” i.é, que habitam no âmbito da luz de Deus. A idéia subjacente é a da glória divina, que na ex­ pressão idiomática hebraica indicava a pura espiritualidade e transcen­ dência da Sua natureza. Era esta radiância deslumbrante que O tomava inacessível aos homens. Êx 33:17-23, que descreve como Deus permitiu que Moisés contemplasse Sua glória, está na mente do autor da doxologia, conforme aparece em a quem homem algum jamais viu, nem é capaz de ver (cf. a advertência de Javé a Moisés, “homem nenhum verá a minha face, e viverá”: também Jo 1:18; 6:46) A doxologia termina com A ele honra e poder eterno. Amém. A for­ ma é costumária, mas normalmente se teria esperado “honra e glória,” co­ mo em 1:17. A substituição por poder é sugerida pelo tema geral, que ressalta o papel de Deus como potentado supremo sobre todos os pseudo-rivais, e para o qual poder é, claramente, mais apropriado. CONSELHOS POSITIVOS PARA OS RICOS. 6:17-19 Depois da doxologia magnífica da seção anterior, estes três versículos nos trazem de volta das alturas num solavanco. Porque são tão chãos em si mesmos, e introduzem uma nota tão prosaica no clímax que Paulo produzira, os comentaristas têm sido tentados a considerá-los ou deslocados da sua posição verdadeira (alguns argumentam depois ide v. 2, outros, depois do v. 10) ou interpolados num tempo quando cristãos prós­ peros estavam se tomando um problema na igreja. Semelhante desloca­ ção, no entanto, é em si mesma extremamente improvável, e um reda­ tor posterior decerto teria escolhido um lugar mais apropriado para en­ caixar nova matéria deste tipo. Na realidade, os três versículos não estão tão fora de lugar quanto estes críticos supõem, pois é a doxologia e o apelo exaltado que a ela leva que são a verdadeira digressão. Paulo fiça138


I TIMÓTEO 6:17-19 ra arrebatado, de modo bem típico dele, por sua própria exortação a Timóteo. Agora volta para seu conselho acerca das riquezas, reconhe­ cendo que alguma coisa de construtiva deve ser acrescentada acerca do uso delas a fim de equilibrar melhor suas observações negativas em 9-10. 17. Suas palavras iniciais sublinham a verdade de que a riqueza material somente é riqueza “no que diz respeito ao presente mundo.” Para a expressão, cf. 2 Tm 4:10; Tt 2:12; também Rm 12:2; 1 Co 2:6; 2 Co 4:4 (a redação é levemente diferente nestas três passagens). O con­ traste subentendido entre o presente século e a era do porvir é, natural­ mente, totalmente judaico. O pensamento relembra a advertência em Lc 12:21 acerca do homem que amontoa riquezas para si mesmo, e não é rico “para Deus.” A atitude que Paulo revela aqui para com as riquezas é moderada, e não as condena em si mesmas, mas, sim, limita-se a indicar as tentações às quais os ricos estão expostos. Estas são, primeiramente: ser orgulhosos, i.é, ser arrogantes e empregar suas riquezas para tirar van­ tagem de pessoas que não estão em condições financeiras tão boas, e, em segundo lugar, depositar suas esperanças nas suas possessões financeiras, que, conforme a natureza das coisas, são fugazes e “criam asas” (Pv 23:5). O segundo infinitivo está no perfeito; para o significado disto, ver a nota sobre 5:5. A advertência, com sua sugestão positiva que os ricos seriam melhor aconselhados em fundamentarem suas esperanças em Deus, relembra no­ tavelmente as palavras do Salmista: “Eis o homem que não fazia de Deus a sua fortaleza, antes confiava na abundância dos seus próprios bens” (SI 52:7); mas o pensamento é um lugar-comum no A.T. A confiança deve ser colocada em Deus, e não nas riquezas, precisamente porque Ele tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento. Estas últimas palavras são provavelmente enfáticas; Paulo completa seu reconhecimen­ to da beneficiência paternal de Deus com uma nova indicação aos sectá­ rios que seu ascetismo excessivo é contrário à intenção divina. 18,19. O pensamento da generosidade de Deus leva-o a uma ex­ posição construtiva do dever das pessoas que estão bem de vida. Devem empregar suas riquezas para praticar o bem, e assim serem ricos de boas obras; esta será uma forma de riqueza que realmente agradará a Deus. De fato, devem ser generosos em dar e prontos a repartir, assim como Ele é. Quanto ao valor atribuído à bondade prática nas Pastorais, ver a nota sobre 2:10. Se os ricos pautarem suas vidas segundo estes princípios, realmente não estarão se tomando mais pobres, mas, pelo contrário, estarão acumu­ lando para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro. Acen139


I TIMÓTEO 6:20-21 tua-se aqui para si; podem muito bem imaginar que apenas estarão aju­ dando aos outros, mas na realidade estarão amontoando grandes benefí­ cios para si mesmos. A linguagem da cláusula é desajeitada, pois acumu­ lando (o verbo gr. é apothêsaurizein: lit. “amontoar um tesouro”) e fun­ damento representam duas idéias bem diferentes (embora a palavra grega para esta última palavra, themelion, pode também, num sentido transfe­ rido, significar “fundo”). Mas Paulo mistura suas metáforas freqüente­ mente, e seu pensamento é claro. Nosso Senhor pessoalmente indicara que o homem somente poderia amontoar tesouro nos céus por meio de dar esmolas (Lc 12:33; cf. 18:22; Mt 6:20), e não é improvável que o Apóstolo tenha em mente estes ditos de Jesus. A cláusula final, a fim de se apoderarem da verdadeira vida, define a natureza deste tesouro celestial. É nada menos do que a “vida eterna” que Paulo aconselhou Timóteo a tomar posse dela no v. 12. Em contras­ te com a vida conforme é comumente vivida, não é transitória, e não co­ nhece vicissitude alguma; somente ela tem a qualidade que merece a des­ crição “vida.” Mais uma vez, Paulo está relembrando alguns ditos de nos­ so Senhor, que declarara (Lc 12:15) que a “vida” do homem não con­ siste na abundância dos bens que ele possui, e na Parábola do Rico Insen­ sato (Lc 12:21) retratara a ruína rápida do homem “que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus.” Estes ecos do evangelho (bem à parte da insistência em 2 Tm 1:9 de que nossa santa vocação não depen­ de das nossas próprias “boas obras”) devem excluir qualquer suspeita que as Pastorais estejam interessadas em patrocinar um moralismo pós-paulino baseado no mérito humano. EXOTAÇÃO FINAL. 6:20-21 Neste final breve o Apóstolo reúne numa só frase prenhe toda á sua solicitude para com a integridade do evangelho e todo o seu horror do desvio dele. A linguagem que emprega não sugere um quadro gene­ ralizado de heresia, mas, sim, parece ter em mira uma marca específica dela que já teve conseqüências desastrosas que são claras para todos ve­ rem. O tom fortemente pessoal talvez seja um sinal de que, segundo sua maneira usual, Paulo acrescentou estas linhas finais de próprio punho. 20,21. Paulo, com o que te foi confiado, que exorta Timóteo a guardar, quer dizer, não simplesmente as instruções específicas que lhe foram dadas para a realização da sua incumbência, mas, conforme o contexto confirma, a pura fé do evangelho que ele, como delegado apos­ 140


I TIMÓTEO 6:20-21 tólico, foi encarregado de guardar. No século II, este ensino tradicional baseado no querigma, haveria de ser conhecido como “a regra da fé” ou “o cânon da verdade,” mas já nos tempos de Paulo estava começando a assumir um formato e padrão específicos, conforme é mostrado pela matéria catequética e tradicional incorporada nas suas cartas ou clara­ mente subjacente a elas. O substantivo traduzido o que foi confiado (Gr. parathèkè) é achado somente aqui e em 2 Tm 1:12, 14. É um ter­ mo jurídico que conota alguma coisa que é colocada em confiança na salvaguarda doutro homem. A sugestão é que a mensagem cristã (“a fé” ou “a verdade,” conforme é tão freqüentemente chamada nas suas car­ tas) não é algo que o ministro da igreja elabora por si mesmo, ou ao qual tem direito de fazer acréscimos; é uma revelação divina que foi con­ fiada ao seu cuidado, e que tem o dever obrigatório de transmitir intacta aos outros. Em contraste agudo com isto há os falatórios inúteis (Gr. kenophõniai: lit. “sons vazios”) dos sectários, que Timóteo é aconselhado, de modo deliberado, a evitar. Exatamente a mesma frase volta a ocorrer em 2 Tm 2:16; está de conformidade com as descrições mordazes feitas por Paulo noutros trechos (e.g. 1:6; 4:7, onde ver anota sobre profano) da propaganda dos hereges. Parece claro que faziam grandes demonstra­ ções do seu jargão pseudoteológjco. Além disto, alegavam possuir, conforme indica a presente passagem, um saber, que o Apóstolo descreve com desprezo como sendo como falsamente lhe chamam (Gr. pseudõnumos: um hapax do N.T.). Sua alegação, bem como seu uso do termo téc­ nico saber (Gr. gnósis), reforçam a conclusão de que seu ensino tinha de qualquer maneira algum parentesco com a atitude religiosa geral mais tarde designada gnosticismo. Embora seja tentador, é desnecessário e erróneo insistir neste pa­ rentesco mais do que a evidência justifica. O “conhecimento” especial, ou gnósis, reivindicado pelos grandes sistemas gnóstidos do século II con­ sistia essencialmente de um entendimento esotérico do mistério do mun­ do superior e. do modo de o homem galgar a salvação por meio de des­ cobrir uma passagem de volta a dito mundo. Há pouco indício, ou ne­ nhum, disto nas cartas, nem, com toda a probabilidade, das famílias com­ plexas de elos (aiõn) mediante as quais os gnósticos ligavam o abismo en­ tre a ordem material e o Deus ulterior, incognoscível. O saber dos here­ ges, ou o seu entendimento alegadamente superior, provavelmente deve ser entendido em termos das suas “fábulas e genealogias intermináveis”, do seu ascetismo em questões de alimento e sexo, e do seu dualismo que envolvia a negação da ressurreição (ver a Introdução, págs. 18-20). Va141


I TIMÓTEO 6:20-21 le a pena relembrar que, ao passo que nas cartas reconhecidas de Paulo o próprio cristianismo é tratado como uma forma de “conhecimento” (e.g. 2 Co 2:14; 4:6; Fp 3:8; Cl 2:3) e os cristãos são, em certo senti­ do, “gnósticos” (e.g. 1 Co 1:5; 2 Co 8:7), o Apóstolo já está preveni­ do contra a presunção malorientada do conhecimento, divorciado da caridade, que em si mesmo se ufana e somente provoca escândalo aos irmãos (1 Co 8:1, 7, 10, 11). É este tipo de pseudo-ciência pretenciosa que parece que critica aqui, e não uma metafísica teosófica elaborada do tipo que mais tarde veio a ser conhecido como gnosticismo. Muita especulação tem se acumulado em derredor do termo con­ tradições (Gr. antitheseis) que emprega em conexão com a gnósis dos desviados. Rigorosamente falando, era um termo técnico na retórica, que significava uma contra-proposta (seu sentido literal é “tese contrá­ ria”) levantada num debate ou argumento. Em meados do século II, o famoso herege Márcion, que procurou libertar o cristianismo da sua tradição e fundo histórico vétero-testamentários, escreveu um livro tendo este mesmo nome como seu título: Antíteses. Nesta obra, parece ter dis­ posto em ordem as contradições, conforme as entendia, num total de 140, entre o A.T. e o evangelho de Cristo. Freqüentemente tem sido alegado, portanto, que neste versículo temos uma alusão ao tratado de­ le, e que, por conseqüência, a carta deve pertencer à segunda metade do século II. Esta identificação ousada tem pouco ou nada para recomendá-la a não ser a coincidência das palavras. Márciom não era realmente um gnóstico, conforme a linguagem do texto faria dele se esta exegese for aceita; de qualquer maneira, era violentamente anti-judaico, ao passo que o erro dos hereges é uma forma nitidamente judaica da gnósis. !Mas geralmente, nada há para demonstrar que professavam quaisquer das doutrinas características de Márcion. Destarte, a interpretação muito mais plausível de contradições é a mais simples e natural. Os hereges, conforme Paulo, do seu ponto de vista de suposto conhecimento supe­ rior, desenvolvem suas proposições sistematicamente em oposição a, e em contradição àquelas que são feitas pelos ensinadores cristãos sadios. Destarte, constroem e propagam uma coletânea de pseudo-crenças que acabam sendo uma negação do>evangelho. Não é de se admirar que alguns, professando-o (este conhecimento esotérico), se desviaram (para este verbo, ver nota sobre 1:6) da fé. A carta termina com uma bênção curta: A graça seja convosco. A fórmula usual de Paulo nas suas cartas mais antigas era do tipo: “Â gra­ ça do nosso Senhor Jesus Cristo. . .,” mas as palavras finais de Colossen142


I TIMÓTEO 6:20-21 ses são idênticas a èstas. A palavra final, convosco, está no plural; te­ mos exatamente a mesma forma em 2 Tm 4:22 e Tt 3:15. Muitos críti­ cos alegam estar perplexos por causa disto, visto que todas as três car­ tas ostensivamente estão endereçadas a indivíduos, e deve-se, portanto, esperar o singular. Alguns têm sugerido que o autor pseudonímico tal­ vez tenha esquecido a situação histórica da sua carta, e simplesmente adotou a forma normal paulina no plural, mas isto (a) levanta a pergunta de por que, então, não empregou a fórmula normal de Paulo (“a graça do nosso Senhor Jesus Cristo, etc.”) e (bj pressupõe um grau de descui­ do que é além do crível. Outros têm discernido um motivo mais sutil; embora a carta, segundo todas as aparências, era endereçada a “Timó­ teo,” realmente era para todos os ensinadores cristãos em posições de res­ ponsabilidade pastoral. Isto é ainda mais forçado e improvável; ficamos perguntando a nós mesmos por que o autor teria resolvido deixar cair no último momento sua ilusão desenvolvida com tanta perícia. Supondo-se que a carta é um item de correspondência legítima, a mudança do singular para o plural é facilmente explicada; embora a dirigisse ao pas­ tor principal da igreja de Éfeso, Paulo esperava que ele a mandasse ler em voz alta diante da congregação reunida, e a esta enviava sua bênção nesta frase final.

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A SEGUNDA EPISTOLA A TIMÓTEO SAUDAÇÃO 1:1-2 1. Como sua antecessora, a segunda das epístolas a Timóteo co­ meça com uma breve fórmula de saudação do padrão costumário. Con­ forme a maneira usual de Paulo, enfatiza-se que ele é apóstolo de Cristo Jesus (ou seja, não meramente o representante de uma igreja local), e que sua nomeação é pela vontade de Deus. Esta última expressão con­ trasta-se com “pelo mandato de Deus, nosso Salvador, e de Cristo Jesus, nossa esperança” em 1 Tm 1:1 e reproduz a forma paulina normal (1 Co 1:1; 2 C o l:l; Ef 1:1; Cl 1:1). Tem sido objetado, como em 1 Tm 1:1, que estas são renovações de confiança rígidas e formais que o cooperador tão íntimo quanto Timóteo dificilmente teria precisado. Mas esta objeção olvida o fato de que, como 1 Timóteo, esta carta não é simples­ mente um item de correspondência particular; Paulo muito bem pode ter desejado deixar a congregação, à qual espera que seja lida, sem dú­ vida alguma quanto à posição e à autoridade dele. As palavras de conformidade com a promessa da vida que está em Cristo Jesus (uma tradução literal) são obscuras à primeira vista. Acompanham bem de perto apóstolo de Cristo Jesus, não pela vontade de Deus. A preposição de conformidade com, i.é, “com referência a” (Gr. kata) define o alvo e o propósito do apostolado de Paulo, ao passo que promessa denota a promessa da vida eterna que, segundo a maneira cristã de entender o A.T., Deus desde o início ofereceu para aqueles que têm fé (cf. Tt 1:2). Destarte, o que é declarado é que a missão de Paulo é fazer conhecido que esta promessa recebe seu cumprimento mediante a comunhão com Cristo. Em Q 3:4 Cristo é descrito como sendo “nossa vida,” ao passo que em Fp 2:16 a mensagem do evangelho é "a palavra da vida.” O en­ sino de Paulo (que antecipa Jo 3:15) é que Cristo outorga novidade de vida, e que qualquer pessoa que, mediante a fé, “se reveste” de Cristo (G13:27) pode participar desta vida. À luz desta exegese temos o direi­ to de dar em Cristo Jesus nesta passagem a força integral que em Oisto regularmente tem nas cartas de Paulo. Representa a união mística com 145


II TIMÓTEO 1:2-3 Cristo que o crente desfruta como o fruto da sua fé. Alguns críticos (e.g. B. S. Easton) preferem o sentido enfraquecido “dada por Cristo.” Argumentam (ver sobre 1 Tm 1:14; 3:13) que, onde a frase leva o sig­ nificado místico, é quase invariavelmente usada de pessoas, e que visto que assim nunca é o caso nas Pastorais, seu significado ali deve ser “dado por Cristo” ou “pelo fato da existência de Cristo” ou, simplesmente, “cristão.” A teoria deles não recebe apoio algum de uma passagem como esta, onde o sentido místico “em união com Cristo” está completamen­ te no seu lugar apropriado, ao passo que as alternativas propostas são forçadas e artificiais. 2. Para a descrição de Timóteo como amado filho, e também para a tríade Graça, misericórdia e paz, e a estrutura da saudação co­ mo um todo, ver notas sobre 1 Tm 1:1-2. AÇÕES DE GRAÇAS 1:3-5 As cartas antigas começavam comumente, imediatamente após a saudação, com uma asseveração cortês de oração, ou alternativamente, uma expressão de gratidão, pela saúde e a prosperidade do endereçado. Paulo seguia este procedimento, adaptando os sentimentos à sua lin­ guagem cristã, na maioria das suas cartas (e.g. Romanos, 1 e 2 Coríntios, Filipenses), mas não em Gálatas, onde não era apropriado para seu estado de ânimo, nem em 1 Timóteo ou Tito. Volta ao procedimento aqui, e a profunda emoção e afeição espontânea que suas palavras irra­ diam comprovam que, para ele, não era nenhuma fórmula meramente convencional. A frase é longa e envolvida, mas seu sentido se toma cla­ ro se nos lembrarmos que o v. 4 é um parêntese de emoção calorosa. Seu propósito é estimular Timóteo a permanecer leal à fé e a estar dis­ posto a sofrer por ela. Para reforçá-lo relembra-o, com ações de graças a Deus, da sincera piedade que herdou da sua família. 3. Como em 1 Tm 1:12 (ver a nota ali), Paulo emprega a cons­ trução charin echô para Dou graças, ou invés de eucharistõ, que normal­ mente emprega. Estudiosos têm notado outros desvios do seu uso nor­ mal: (a) não há nenhuma frase-objeto “por vós (todos)” depois de Dou graças; (b) sem cessar é representado pelo adjetivo adialeiptos ao invés do advérbio (Rm 1:9; 1 Ts 1:2; 2:13); (c) mneian echó é usado para me lembro (“menciono”) ao invés de mneian poioumm, e en tais deèsesin mou para nas minhas orações ao invés de epi tõn proseuchõn mau. Estas diferenças podem ser devidas ao desenvolvimento do vocabulário do 146


II TIMÓTEO 1:4 Apóstolo, ou (mais provavelmente) a íima mudança de amanuense. Os críticos que são céticos quanto à autoria paulina naturalmente acham ne­ las apoio para seu argumento. Do outro lado, deve ser notado que a es­ trutura da passagem asssemelha-se de modo notável às ações de graças paulinas normais, incluindo no v. 4 uma cláusula participial seguida por uma cláusula final. O Apóstolo ressalta que o culto que presta a Deus não somente brota de uma consciência pura (“consciência” — ver a nota sobre 1 Tm 1:5), como também tem sido tradicional na sua família. Ao frisar o pri­ meiro fato, tem em mente mais do que a pureza de intenção indispensá­ vel em toda a adoração que vale a pena. Como na totalidade desta carta, está dolorosamente consciente da sua posição como preso acusado de delitos criminosos, e, por implicação, está protestando sua inocência (cf. At 23:1). A referência aos seus antepassados deliberadamente prepara o caminho para v. 5, onde deliberadamente sublinha a excelente situa­ ção familiar que o próprio Timóteo teve. Nada há de incongruente no or­ gulho que Paulo aqui revela na criação religiosa judaica que recebeu. O mesmo orgulho aparece em Rm 9:3-5 e Fp 3:4-6, e fica claro que, em­ bora, em certo sentido, sua aceitação de Cristo como seu Salvador repre­ sentasse um rompimento total com sua piedade ancestral, noutro senti­ do era seu desenvolvimento e florescimento apropriado. Até mesmo a lei, que, conforme sua convicção firme, tinha sido substituída, servira seu propósito em trazê-lo a Cristo. Paulo menciona Timóteo sem cessar. . . noite e dia, nas suas ora­ ções, assim como intercede constantemente pelos romanos (Rm 1:9), pelos filipenses (Fp 1:3), pelos colossenses (Cl 1:3), e, sem dúvida, por todas as comunidades que tinha evangelizado. As palavras noite e dia (a ordem judaica normal: ver sobre 1 Tm 5:5) estão ligadas por muitas autoridades com a cláusula seguinte, de modo que qualificam o particípio traduzido estou ansioso. Embora seja possível, é improvável, pois (a) noite e dia é um chavão que se associa regularmente com a oração, e (b) embora fosse convencional falar da oração ininterrupta, o quadro do Apóstolo ansiando vinte e quatro horas por dia por ver Timóteo pare­ ce afetado. 4. A afeição represada de Paulo irrompe no parêntese estou an­ sioso por ver-te, etc. Expressões semelhantes ocorrem em 1 Ts 3:6; Fp 1: 8; Rm 1:11, mas a intensidade do sentimento é mais urgente e pessoal aqui. Em Lembrado das tuas lágrimas Paulo está se referindo à sua sepa­ ração final do jovem, que parece ter dado vazão à emoção desinibida no Oriente. Alguns autores pensam que a referência, no caso de ser his-

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II TIMÓTEO 1:5 tórica, deve ser à cena de despedida em Mileto, quando se relata que to­ dos os presentes (At 20:37) se dissolveram em lágrimas, mas aquilo acon­ teceu vários anos antes, e Paulo deve ter visto Timóteo no intervalo. Supondo-se que a teoria de uma segunda prisão é correta, é natural inferir que Paulo está pensando na ocasião, decerto ainda recente na sua memó­ ria, quando, tendo sido preso mais uma vez, despediu-se pela última vez de Timóteo, presumivelmente em Éfeso, antes de ser levado para Roma. O Apóstolo quer ver Timóteo a fim de que transborde de alegria, e o mesmo desejo ansioso percorre a carta inteira. “Procura vir ter comi­ go depressa,” roga em 4:9, e em 4:21 repete com renovada urgência: “Apressa-te a vir antes do inverno.” A hora da sua execução está se apro­ ximando, e sua ansiedade em ver seu jovem assistente, dedicado como ne­ nhum outro, é compreensível. A justaposição da tristeza e da alegria é eficaz, e também é um toque caracteristicamente paulino (cf. 2 Co 7:8-9; Fp 2:17). 5. Paulo agora chega ao objeto das suas ações de graças: a fé sem fingimento de Timóteo, cuja recordação se repete sempre que pensa no jovem. Porque o particípio traduzido a recordação que tenho está no aoristo (“tendo recebido uma lembrança de”), alguns têm conjeturado que deve ser uma referência alguma lembrança mais específica, tal qual o recebimento de uma carta ou dalguma notícia acerca de Timóteo. Para a expressão fé sem fingimento, cf. 1 Tm 1:5 (ver a nota). Tem sido ar­ gumentado que, como naquela passagem, fé aqui deve ter o significado enfraquecido de sentimento religioso, pois “a questão da sinceridade não pode surgir naquele relacionamento último entre a alma e Deus que Pau­ lo usualmente define como sendo fé” (E. F. Scott). Na teoria, isto pode ser a verdade, mas não pode haver dúvida alguma de que Paulo esteja pen­ sando aqui especificamente da atitude de Timóteo para com Cristo. Pode ser sugerido que a fé no sentido rigorosamente paulino tem um aspecto externo bem como interno, e que a profissão dela pode ser irreal. Ao res­ saltar a sinceridade, Paulo está enfatizando que não pode haver questão disto no caso de Timóteo. A passagem talvez possa ser ilustrada por 1 Ts 3:5 ss., onde achamos o Apóstolo perguntando acerca da qualidade da fé dos seus correspondentes. Agora somos informados que esta fé primeiramente habitou na avô de Timóteo, Lóide e na sua mãe Eunice. O que Paulo quer dizer é que assim como sua própria vida religiosa tinha poderosas raízes familia­ res, assim também a de Timóteo estava fundamentada na da sua mãe e da sua avó. Tem sido argumentado que deve estar fazendo referência à criação devota judaica que as duas mulheres deram ao jovem na sua meni­ 148


II TIMÓTEO 1:6 nice, mas o contexto deixa çlaio que fé significa fé em Cristo. Se for as­ sim, a frase sugere ou que Lóide foi convertida ao cristianismo primeira, sendo seguida por Eunice, ou simplesmente (e mais provavelmente) que as duas mulheres eram as primeiras cristãs na família de Timóteo. Con­ forme At 16:1, sua mãe era “uma judia crente,” expressão esta que so­ mente pode significar uma convertida ao cristianismo, ao passo que seu pai era um pagão —fato este que explica a ausência de qualquer menção dele aqui. Uma passagem tal como esta, tão fiel à vida real e com sua nota delicadamente pessoal, cria dificuldades especiais para os que apóiam a teoria da pseudonimidade. Alguns deles estão dispostos a reconhecer que o escritor decerto estava fazendo uso de matéria genuinamente paulina. Do outro lado, a sugestão de que, ao descrever com pormenores os ante­ cedentes religiosos de Timóteo, seu objetivo real era impressionar sobre seus leitores sua “grande confiança e alegria nos ministros cristãos da terceira geração, e a segurança que sente no caso daqueles que, no lar, têm sido arraigados e fundamentados na forma recebida (paulina) do cris­ tianismo” (F. D. Gealy) é um exemplo das interpretações artificiais às quais às vezes são forçados. O DESAFIO AO TESTEMUNHO CORAJOSO 1:6-14 Depois das ações de graças breves, Paulo passa a procurar estimular a resolução do seu jovem discípulo, e, em particular, o encoraja a estar disposto a suportar o sofrimento por amor ao evangelho. A nota de an­ siedade que permeia a passagem advém parcialmente do reconhecimen­ to da parte do Apóstolo de que a inexperiência e a timidez natural de Timóteo precisam de reforços, e ainda mais porque está consciente das responsabilidades pesadas que logo devem recair sobre este. Mesmo as­ sim, pode indicar a comissão divina dada na ordenação, ao exemplo da sua própria perseverança, e à vida nova outorgada aos homens mediante Cristo, como motivos que impulsionam a um esforço corajoso. 6. A transição da seção anterior é fácil e natural. £ Por esta razão, i.é, porque sabe que Timóteo é um homem de fé solidamente estabele­ cida, que Paulo não hesita em exortá-lo a reavivar o dom de Deus, que há nele e que recebeu na sua ordenação. Há uma referência à ordena­ ção de Timóteo em 1 Tm 4:14, onde Paulo também diz que ela trans­ mitiu um “dom especial” (a mesma palavra que aqui: Gr. charisma) a ele. Aqui o dom é comparado a um fogo (cf. 1 Ts 5:19: “Não apagueis 149


II TIMÓTEO 1:7 o Espírito”), a sugestão reavivar (“reacender”) não é para significar que apagou-se, mas, sim, que as brasas sempre precisam de ser remexidas cons­ tantemente (o verbo está no presente do infinitivo). Notamos que, se a ordenação já é considerada como transmitindo uma graça positiva, a idéia de que esta graça opera automaticamente é excluída. O ministro cristão deve estar continuamente alerta para revitalizá-la. Paulo relembra que o dom fora transmitido pela imposição das minhas mãos. Para o significado disto, ver a nota sobe 1 Tm 4:14, onde a questão importante de se a ordenação foi realizada pelo próprio Paulo, ou por uma mesa de presbíteros presidida por ele, também é discutida. A linguagem aqui tem alguma possibilidade de estar consistente com es­ te último ponto de vista, mas, interpretada de modo simples e direto, favorece o primeiro. 7. A graça que Timóteo então recebeu, Paulo passa a indicar, tem uma relevância direta com sua presente situação, pois “o espírito que Deus nos deu” forneceu exatamente o equipamento que Timóteo precisa para ela. Não está fazendo referência, como alguns deduziram do plural “nos”, ao dom divino do Espírito Santo para os cristãos em geral, seja no Pentecoste, seja no batismo. O aoristo “deu” (que reflete o sentido do original melhor do que “tem dado”) relembra o culto de ordenação que mencionou, e com nos quer dizer Timóteo e ele mesmo. Poderia igualmente bem, e com efeito mais deliberado, ter escrito “a ti”, mas um tato bondoso o impediu de fazer assim. De modo oblíquo, está repreendendo Timóteo por sua timidez, mas amacia o golpe por meio de classificar-se juntamente com ele. O espírito que ambos receberam nó seu comissionamento não era espírito de covardia (para a expressão, cf. Rm 8:15), que poderia deixá-los hesitar ao serem confrontados com responsabilidades desafiantes, perigos, etc. Pelo contrário, era de poder (cf. 1 Co 2:4), capacitando-os a dominar qualquer situação com áutoridade moral; de amor, i.é, de serviço afetuoso e com abnegação, presta­ do aos irmãos; e de moderação (“auto-disciplina”) que se requer de cada líder cristão. A última destas três qualidades (Gr. sõphronismos) é mencionada somente aqui no N.T., mas cf. 1 Tm 2:9, 15 para o subs. relacionado sõphrosunè; 1 Tm 3:2; Tt 1:8; 2:2, 5 para o adjetivo sõphrõn; Tt2:12 para o advérvio sòphronôs; Tt 2:4 para o verbo sõphronizõ; e Tt 2:6 pa­ ra o verbo sophronein. Todas estas palavras expressam a idéia de “tempe­ rança,” “auto-controle.” Nas suas cartas reconhecidas, Paulo emprega sophronein duas vezes (Rm 12:3; 2 Co 5:13), mas a predileção das Pastorais pelo grupo inteiro é outro sinal da sua linguagem idiomática 150


II TIMÓTEO 1:8 helenizada. Mesmo assim, deve ser notado que a moderação não é consi­ derada aqui, como também o poder e o amor, como ou uma dotação natural, ou o fruto de esforços diligentes. Todos os três são aspectos de um charisma divinamente outorgado, pois embora espirito neste contex­ to não denota diretamente o Espírito Santo, define graças específicas das quais Ele é o mediador. 8. Paulo desenvolve seu rogo. Fortalecido desta maneira, Timó­ teo não precisa envergonhar-se, portanto, do testemunho de nosso Senhor. Para a idéia de ter vergonha do evangelho, cf. Rm 1:16. O Grego (lit. testemunho de nosso Senhor) pode significar ou “testemunho dado por Cristo,” ou “testemunho acerca de Cristo.” Se for aceito o primeiro, o sentido será o de 1 Tm 6:13, sendo que a referência diz respeito ao tes­ temunho que Cristo selou pela Sua morte sacrificial. O último, no en­ tanto, é preferível de modo geral, pois concorda com a frase paralela (Gr. to marturion tou Christou) em 1 Co 1:6. Também é mais apropriado para o contexto, cuja razão de ser é estimular Timóteo a ser um evange­ lista destemido. Sabemos, com base em 1 Co 1:23, que o evangelho de um Salvador crucificado impressionava os judeus como sendo blásfemo, e os pagãos como sendo puro contra-senso, e é compreensível que uma pessoa tímida como Timóteo (para este traço do seu caráter, cf. 1 Co 16: 10) se recuasse a incorrer no inevitável desprezo e ódio. Igualmente, não deve envergonhar-se, conforme muito bem pode­ ria ser tentado a fazer, de associar-se com o próprio Paulo, a despeito deste estar acorrentado (a palavra traduzida encarcerado, Gr. desmios, subentende isto) como um criminoso comum. Como noutros lugares (Ef 3:1; Fm 1), o Apóstolo trata o que os de fora poderiam julgar uma situação vergonhosa como uma fonte de humilde satisfação. Embora talvez pareça ser o encarcerado do imperador, realmente é o Seu, i.é, de Cristo. O pensamento subjacente é, não apenas que os homens o prende­ ram por ser seguidor de Cristo, mas, sim, que Cristo o fez prisioneiro pa­ ra Seus propósitos. Longe de ter vergonha das humilhações e dos sofrimentos de Paulo, Timóteo deve criar coragem e participar deles, Se assim fizer, redundará em. lucro para o evangelho —a favor do evangelho (um dativo de interes­ se). O verbo traduzido participa. .. dos sofrimentos (Gr. sunkakopathein) foi cunhado por Paulo, que tem uma predileção por compostos com sun (“com”). Se significado é, aqui, participa comigo dos sofrimentos a favor do evangelho, ao invés de “sofre com o evangelho” (Vulgata) ou “participa das aflições do evangelho” (AV, ARC). Paulo reforça seu ape­ lo ao assegurar-lhe que, se se robustecer para sofrer, será segundo o poder

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II TIMÓTEO 1:9 de Deus, i.é, o poder de Deus (cf. “espírito de poder” no v. 7) o susten­ tará. Os dois versículos demonstram, em termos comoventes, as razões porque Timóteo, e, na realidade, qualquer cristão em qualquer era, pode depender do poder de Deus para o avanço triunfante através do sofrimen­ to e da desgraça. Vem dAquele cujo propósito salvífico, baseado total­ mente na graça e não nas realizações dos homens, tem estado operante desde antes da fundação do mundo e fez aquilo que eles nunca poderiam ter realizado por si mesmos, redimindo-os e, na missão histórica de Cris­ to, rompendo os laços da morte e outorgando a vida eterna. No conceito de muitos estudiosos, estes versículos, que parecem ter o ar de um pa­ rêntese, são um extrato dalgum hino ou trecho litúrgjco primitivo, e in­ dicam suas antíteses cuidadosas, sua redação compacta, e seu tom ele­ vado. £ possível que tenham razão, mas contra a sugestão deles deve­ mos notar: (a) a passagem não subsiste, como as demais citações nas Pastorais, por si mesma, mas, sim, é sintaticamente subordinada à cláu­ sula anterior; (b) as idéias e a linguagem são paulinas, e também são ca­ racterísticas das Pastorais. Uma explicação mais provável seria, prova­ velmente, que Paulo, embora esteja fazendo uso de matéria catequética semi-estereotipada, molda-a livremente para seus propósitos e imprime sobre ela seu próprio selo. 9. A primeira lição de Paulo é que Timóteo, ao enfrentar o so­ frimento, pode confiar na assistência divina porque Deus nos salvou. O título “Salvador” é aplicado a Deus seis vezes nas Pastorais (ver a nota sobre 1 Tm 1:1); para o uso do verbo como aqui, cf. 1 Co 1:21. Esta salvação, que envolve a libertação do pecado e da morte, é algo que os cristãos desfrutam aqui e agora. Seu outro lado é expressado na decla­ ração de que Deus nos chamou com santa vocação. Na linguagem paulina o verbo “chamar” denota a primeira etapa no processo da salvação (Rm 8:30; 1 Tm 6:12), e o sentido da cláusula é que Deus, que é santo Ele mesmo, chamou os cristãos para fora do mundo para uma nova vida de consagração. São “chamados para ser santos” (1 Co 1:2), ou “cha­ mados em santificação” (1 Ts 4:7). A sugestão, proposta nos interes­ ses do ponto de vista de que a passagem é pós-paulina, e provavelmente do século II, que vocação tem aqui o sentido técnico do ministério cris­ tão é extremamente forçada. Não somente a palavra (Gr. klèsis) nunca tem este significado estreito no N.T. (1 Co 7:20 não é um paralelo, pois ali significa a posição que um homem tem na vida de modo geral), como também o contexto requer que a referência seja à chamada de Deus à santidade. 152


II TIMÓTEO 1:10 A segunda lição de Paulo é enfatizar (é o coração do seu evangelho) que a chamada divina não vem a nós segundo as nossas obras (“em virtu­ de de qualquer coisa que tenhamos feito”), mas, sim, somente conforme a sua própria determinação e graça. Se dependesse dos nossos méritos, nossa posição seria na melhor hipóteses precária, e, mediante uma estima­ tiva realista, desesperadora; mas visto que depende inteiramente de Deus, nossa confiança pode ser inabalada. Para a mesma rejeição de “obras,” cf. Tt 3:5. Para a determinação salvífica de Deus, cf. Rm 8:28; 9:11; Ef 1: 11; 3:11. Naturalmente existiu desde toda a eternidade, mas aqui o Apóstolo (ou o refrão catequético que está citando) afirma que esta graça nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos. 0 pensa­ mento tem relacionamento com aquele de Ef 1:4, onde está declarado que “. . . nos escolheu nele (i.é, em Cristo), antes da fundação do mun­ do.” As duas passagens pressupõem a idéia da preexistência de Cristo, e também dão a entender que Ele é o único Mediador que transmite a graça de Deus aos homens, mediante a união deles com Ele. 10. O propósito gracioso de Deus, determinado antes da criação do mundo, foi manifestado agora, i.é, tomado visível, até mesmo con­ cretizado, no processo histórico (cf. Rm 3:21; Cl 1:26), pelo apareci­ mento de nosso Salvador disto Jesus. Para manifestação (Gr. epiphaneia), ver a nota sobre 1 Tm 6:14. Noutros lugares, o termo denota a volta de Cristo em glória, mas aqui (para o uso do verbo cognato com o mesmo sentido, cf. Tt 2:11; 3:4) Seu aparecimento na terra na encar­ nação, não subentende necessariamente Sua preexistência, mas, tendo em vista o ensino do versículo anterior, é provável este sentido. Cristo foi revelado como nosso Salvador porque incorpora, e assim toma visí­ vel e eficaz, o propósito salvífico de Deus. Em 1 Tm 1:1 (ver a nota); 2:3; 4:10; Tt 1:4; 2:10; 3:4adescrição Salvador (Gr. sõtêr) é aplicada a Deus, mas aqui e em Tt 2:13; 3:6, a Cristo. Era geralmente corrente na religião helenística, pois era usado como título para os muitos deuses redentores do paganismo, e também para o imperador no culto estatal. £ digno de nota que Jesus nunca o reivindicou para Ele, e que o Messias nunca é chamado “Salva­ dor” no A.T. Estes fatos, combinados com suas associações helenísticas, provavelmente explicam por que o título nunca é usado para Cristo nas partes mais primitivas do N.T., que brotaram em solo palestiniano. Fora das Pastorais, vemos o uso começando em Fp 3:20 e Ef 5:23; de­ pois disto, estabeleceu-se rapidamente e tomou-se normal. Pode haver pouca dúvida de que um dos motivos principais por detrás desta dispo­ 153


II TIMÓTEO 1:11 sição crescente e sempre mais confiante de saudar Cristo como Salvador era a reação consciente contra as pretensões dos numerosos “salvadores” e do culto imperial, com sua aclamação Kaisar Sõtèr, em particular. A obra salvífica de Cristo agora é resumida de forma breve: não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, median­ te o evangelho. Paulo emprega o mesmo verbo “destruir” em 1 Co 15: 26, falando da morte como “o último inimigo a ser destruído.” O texto não subentende que os cristãos estão isentos da morte, mas, sim, que para eles perdeu seu aguilhão (1 Co 15:55). O verbo traduzido trouxe à vida (Gr. phõtizein) originalmente significa “iluminar,” “inundar com luz.” Aqui é usado metaforicamente (cf. 1 Co 4:5; Ef 3:9) para sugerir que, mediante Sua ressurreição, Cristo revelou aos homens a natureza da vida, ressurreta que agora pode ser deles. É uma vida caracterizada pela imortalidade (Gr. aphtharsia, i.é, “incorruptibilidade”). A palavra é re­ gularmente empregada por Paulo para o corpo da ressurreição (1 Co 15: 42, 50, 53, 54); denota para ele alguma coisa que somente Deus pode outorgar (Rm2:7). Para alguns, o conceito da salvação esboçado nesta passagem tem parecido semelhante ao dos gnósticos, por ressaltar o conhecimento; outros acharam a linguagem (cf. “vida,” “imortalidade,” e especialmen­ te “luz”) reminiscente dos mistérios. No que diz respeito a esta última sugestão, deve ficar claro que o vocabulário e as idéias são totalmente paulinos. A primeira sugestão é refutada pela cláusula final, em que Paulo afirma que esta revelação foi feita mediante o evangelho, com o que indica não apenas a mensagem cristã, como também a revelação inteira de Deus em Cristo que forma seu conteúdo. 11. Ao mencionar o evangelho, uma nota quase de exaltação en­ tra nas palavras que Paulo escreve. É para o qual (o evangelho) que ele, até mesmo ele (o eu é muito enfático no Grego), cujo encarceramento acaba de ser relembrado, foi designado pregador, apóstolo e mestre. A linguagem assemelha-se estreitamente àquela de 1 Tm 2:7, onde o ver­ bo designado (Gr. etethèn: cf. 1 Co 12:28) é também usado para subli­ nhar sua comissão divina. Alguns têm questionado se, sendo o escritor o próprio Paulo, teria precisado de convencer Timóteo do seu direito de pregar o evangelho. Assim, no entanto, perde-se a moral da alusão. Paulo não está tanto procurando impressionar Timóteo quanto maravilhando-se que Deus o tenha selecionado para tais responsabilidades. Se as palavras são dirigidas a Timóteo, até certa medida, visam indicar que ele também descobrirá, quando o manto do Apóstolo descer sobre ele, que o privilégio de testificar de Cristo acarreta o sofrimento. 154


II TIMÓTEO 1:12 Se distinções delicadas devem ser tiradas entre pregador, apóstolo e mestre, a primeira palavra ressalta a audácia e a publicidade com as quais o evangelista deve proclamar sua mensagem, a segunda ressalta sua comissão especial, ao passo que a terceira chama atenção às suas obri­ gações pastorais. 12. Por isso, i.é., porque foi nomeado um pregador do evangelho, Paulo está sofrendo estas coisas. Alguns argumentaram que esta é uma expressão deliberadamente vaga que pretende capacitar todo “Timóteo” a relacionar seus próprios sofrimentos com seu papel de ministro do evangelho. É mais natural interpretá-la como sendo uma referência exa­ ta à miserável situação em que Paulo se acha no momento de escrever. A despeito dela, exclama: não me envergonho; pelo contrário, é uma honra sofrer por Cristo. O verbo é aquele que usou no seu apelo a Timó­ teo no v. 8; sua repetição contém um indício que, se Paulo não acha mo­ tivo de vergonha no seu sofrimento, não pode haver razão para outros se envergonharem no deles. O Apóstolo passa a dar a razão para sua confiança: Sei em quem tenho crido. É difícil determinar se tem em mente Deus ou Cristo; há as duas possibilidades, mas tendo em vista que o poder de Deus foi res­ saltado no v. 8, a primeira parece mais provável. O significado do que está dizendo é que o cristão sabe, com base na experiência pessoal, bem como nos fatos do evangelho, que Deus nunca o decepcionará. Caracte­ risticamente, a fé à qual apela aqui não é a fé num credo, mas, sim, numa Pessoa. Como resultado, pode estar certo de que ele, i.é, Deus, é poderoso para guardar o meu depósito (i.é, a pessoa de Paulo) até aquele dia. A pala­ vra-chave aqui (Gr. parathèkè) ocorre também em 14 abaixo e 1 Tm 6:20 (ver a nota ali); é um termo jurídico que conota alguma coisa que uma pessoa coloca em confiança na salvaguarda doutra pessoa. É ambígua na presente passagem, e pode ser traduzida “o que confiei a Ele.” Se esta tradução for preferida, Paulo estaria asseverando que colocou-se a si mesmo (talvez também sua obra, até mesmo seus convertidos) nas mãos de Deus, e que está confiante de que, sejam quais forem os desastres que ocorram, Ele vigiará por ele. A objeção principal a esta interpretação é que entra em conflito com 1 Tm 6:20 e, acima de tudo, com o v. 14 imediatamente abaixo, onde parathèkè claramente denota alguma coisa que Deus confiou à sal­ vaguarda de Timóteo. Uma objeção menos importante é que a preocu­ pação com seu próprio bem-estar parece fora de harmonia com o tom ge­ ral do Apóstolo. Parece melhor, portanto, entender esta palavra, como 155


II TIMÓTEO 1:13 em 1 Tm 6:20, como a mensagem do evangelho considerada como um te­ souro confiado à igreja; assim, tem-se a vantagem adicional de harmoni­ zar bem com as instruções dadas em 2:2 abaixo. Com aquele dia ob­ viamente há referência ao grande dia quando “compareceremos perante o tribunal de Deus” (Rm 14:10). A expressão (cf. 1:18; 4:8) é fre­ qüente na LXX; Paulo a emprega numa citação do A.T. em 2 Ts 1:10, mas normalmente prefere alguma outra forma (e.g. “o dia do Senhor”). A passagem como um todo expressa assim sua certeza suprema de que, sejam quais forem os infortúnios que possam sobrevir aos Seus ministros, o próprio Deus conservará a fé a eles confiada, isenta de corrupção, de modo que os capacitará, por assim dizer, a devolver sua custódia a Ele intata no julgamento final. 13. Em 9-12 Paulo ficou arrebatado por sua exposição do poder redentor de Deus. Agora retoma os conselhos que estava dando para Timóteo nos w. 6-8, conclamando-o a basear seus ensinos nos do pró­ prio Paulo. Embora a construção do Grego não esteja livre de dificulda­ de, este é o significado claro da frase: Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste, uma tradução alternativa poderia ser: “Como mo­ delo de ensino sadio, mantém diante de ti o que de mim ouviste.” Paulo não está dizendo que Timóteo deve reproduzir seu ensino palavra por pa­ lavra, muito menos tem em mente alguma fórmula fixa de credo que de­ seja que recite sem alteração alguma. A palavra traduzida padrão (Gr. hupotupõsis: cf. 1 Tm 1:16) denota um esboço geral ou planta usado por um artista, ou, na literatura, um rascunho que forma a base de uma exposição mais plena. A sugestão contida na palavra, portanto, é que, embora Timóteo devesse ser leal à mensagem de Paulo, sem desvios, con­ siderando-a seu padrão, deve estar livre para interpretá-la ou expô-la da sua própria maneira. Quanto às sãs palavras (ou “ensino”), uma expres­ são predileta nas Pastorais, ver a nota sobre 1 Tm 1:10. Além disto, ao modelar seu ensino no do seu mestre, Timóteo de­ ve fazê-lo com fé e com o amor que está em Cristo Jesus. Embora este­ jam próximas do verbo ouvistes, estas palavras dão um sentido intolera­ velmente fraco se forem ligadas com ele. É muito mais satisfatório, e sintaticamente possível, ligá-las com Mantém o padrão e entendê-las como uma definição do espírito que deve caracterizar a ortodoxia de Timóteo. Ao expô-la aos outros, deve revelar, ele mesmo, “a fé e o amor que são nossos em Cristo Jesus” (NEB). Conforme mostra esta paráfrase, a fór­ mula em Cristo Jesus é muito mais rica no seu sentido do que “cristãos” (B. S. Easton: ver a nota sobre 1:1). Expressa a verdade de que a fé e o amor do cristão são os frutos da sua união com Cristo (ver nota sobre 156


II TIMÓTEO 1:14 1 Tm 1:14). 14. É precisamente este ensino de Paulo que agora é identificado como o bom depósito (Gr. parathèkè) que foi confiado a Timóteo, e que ele é exortado a Guardar, i.é, conservar contra distorção e corrupção às mãos dos sectários. A implicação clara é que o Apóstolo o considera seu sucessor e herdeiro. Ao levar a efeito este dever Timóteo deve confiar, não em recursos dele mesmo, mas, sim, mediante o Espírito Santo que habita em nós. Esta cláusula relembra Rm 8:9, onde Paulo fala do Espírito Santo habi­ tando em cristãos e dirigindo suas vidas. Muitos consideram que este é o significado aqui, mas tendo em vista o destaque dado ao equipamento espiritual dos ministros em 6-7, parece que o pensamento primário de Paulo diz respeito a ele. Ao empregar o pronome nós, portanto, realmen­ te significa, não cristãos de modo geral, mas, sim, “tu e eu.” Era seu conceito, é claro (cf. 1 Co 12: 4 ss.), que cada função ministerial na co­ munidade tinha seu apropriado revestimento do Espírito, e era natural que, assim como a necessidade de impedir os hereges de manipular er­ roneamente com o evangelho ficava mais premente e óbvia, devia esten­ der isto para as responsabilidades especiais de homens tais como Timó­ teo e ele mesmo, neste assunto. Dentro de muito breve (já a achamos claramente delineada em 1 Ciem. xlii. 2-4;xliv 2) haveria de ser elaborada a doutrina de que a hierarquia da igreja forma uma sucessão ordeira de mestres encarregados com a preservação da tradição apostólica e espe­ cialmente sustentada nisto pelo Espírito Santo. Alguns estudiosos acham esta doutrina nesta passagem, e, visto que sustentam que a igreja apostó­ lica era “criativa” e “profética” mais do que “transmissional” e “sacer­ dotal”, concluem que é um sintoma da data pós-paulina, provavelmen­ te no século II. Dois comentários podem ser feitos para criticar este argumento, (a) Embora o germe do qual a doutrina posterior desenvol­ veu-se (de modo legítimo ou ilegítimo) possa ser indubitavelmente de­ tectado aqui, é apenas o germe. Não há nenhum sinal de teoria, nenhu­ ma teologia consciente, no texto sob discussão; sugere uma situação mui­ to mais elementar, e presumivelmente mais primitiva, de que é pressu­ posta pela doutrina esmerada e bem articulada proposta até mesmo por um escritor tão antigo quanto Clemente, (b) A distinção entre as etapas “criativa” e “transmissional” na igreja do século I é inteiramente engana­ dora, pois a ênfase na tradição era destacada desde o próprio início. Qualquer análise das cartas reconhecidas de Paulo revelará como estão repletas de matéria tradicional, e é compreensível que, nos seus derradei­ ros anos, sua preocupação com a preservação da tradição se tomasse 157


II TIMÓTEO 1:15-16 cada vez mais evidente. 0 EXEMPLO DOS ASSOCIADOS DE PAULO 1:15-18 Estas reminiscências têm uma conexão mais estreita com Os versí­ culos anteriores do que talvez pareça à primeira vista. Timóteo está sendo exortado a demonstrar perseverança e coragem, e assim, Paulo lhe aponta exemplos de advertência, casos de bons amigos cristãos que 0 abandonaram, assim como lhe aponta um exemplo mais consolador de lealdade destacada. São notas como estas que criam em 2 Timóteo uma impressão especialmente vívida de autenticidade, e também dificul­ dades especiais para qualquer teoria de pseudonimidade. 15. Paulo começa apelando para o conhecimento de Timóteo do tratamento indigno que recebeu dos cristãos asiáticos, dos quais poderia ter esperado algo melhor tendo em vista sua longa residência em Éfeso. A tradução Estás ciente de que procura reproduzir o tom enfático do Grego. Ásia Menor (Gr. Asia), é a província romana oficialmente cha­ mada “Ásia”, que abrangia as partes ocidentais (inclusive a Mísia, a Lí­ dia, a Cária, grandes partes da Frigia, e as ilhas perto do litoral) da grande massa de terra conhecida pelo mesmo nome; Éfeso (ver a nota sobre 1 Tm 1:3) era sua capital. Como chefe da igreja de Éfeso, Timóteo estava numa boa posi­ ção para ter conhecimento em primeira mão da conduta dos cristãos da Ásia para com Paulo. É desnecessário forçar todos da Ásia de modo demasiadamente literal, como se fosse queixar-se de uma alienação geral, ou até mesmo de uma completa apostasia dos seus ensinos. Está escre­ vendo com o exagero natural na depressão. Aparentemente, todos os amigos-chaves dos quais pensava que podia depender o abandonaram. Embora o verbo Qit. “desviaram-se de”) seja usado da apostasia doutri­ nária em Tt 1:14, aqui refere-se ao seu abandono da pessoa do Após­ tolo. Não recebemos indício algum quanto às circunstâncias, embora seja natural pensar na ocasião em que foi preso. Alternativamente, tem sido proposto que Paulo esteja expressando decepção porque os cris­ tãos asiáticos em Roma deixaram de reunir-se para apoiar sua causa, mas isto é menos provável. Envolveria entender todos da Ásia como hebraísmo para “todos os provenientes da Ásia,” que é difícil, e que parece ainda mais excluído pela referência especial em baixo para a visita que Onesíforo fez a Roma. 16. Nada mais se sabe acerca de Figelo e Hermógenes, embora 158


II TIMÓTEO 1:18 possamos inferir do fato de Paulo os ter selecionado para menção es­ pecial que achou a deslealdade deles especialmente aflitiva. Por con­ traste, pode indicar outro colega cuja lealdade estava à altura das suas mais altas expectativas e fornece a Timóteo um exemplo inspirador. Onesíforo é mencionado outra vez em 4:19, onde ficamos sabendo que sua família morava em Éfeso. Conforme os Atos de Paulo e Tecla, do século II (ed. M. R. James Apocryphal New Testament, págs, 272-3), tinha sido anteriormente um cidadão de Icônio, que, juntamente com sua esposa, Lectra, hospedou Paulo na sua primeira viagem missionária, e foi convertido por este. A insistência de Paulo em falar da casa de Onesíforo (assim também em 4:19) e o tom da oração por ele no v. 18, sem mencionar quaisquer saudações pessoais para ele no fim, tomam praticamente certo que já morrera. A expressão Conceda o Senhor misericórdia ocorre somente aqui no N.T. Assim, também, me deu ânimo traduz um verbo (Gr. anapsúchein: lit. “refrigerar”) que não se acha em qualquer outra parte do N.T. (mas cf. At 3:20 para o substantivo relacionado anapsúxis). O significa­ do é, não que Onesíforo tenha ajudado Paulo em Éfeso materialmente ou com serviços práticos, mas, sim, que estimulou sua disposição de ânimo com sua comunhão. O que achou especialmente consolador é que Onesíforo nunca se envergonhou das minhas algemas. A declaração faz surgir imediatamen­ te um quadro nítido da humilhação da posição de Paulo, e da vergonha que lhe causava, e do comportamento covarde de muitos dos seus ami­ gos. Em contraste com eles, Onesíforo, tendo ele chegado em Roma, deu-se o trabalho de achar a pista (cf. me procurou solicitamente) da prisão de Paulo, e finalmente o encontrou. Supondo-se que a correspon­ dência é genuína, a ocasião era seu segundo cativeiro, durante o qual a comunidade cristã em Roma parece ter perdido contato com ele. Se tivesse sido o cativeiro anterior, conforme supõem vários autores, a ta­ refa de Onesíforo não teria sido difícil de modo algum, visto que o Após­ tolo então estava desfrutando de relativa liberdade (At 28:30-31) e seu paradeiro deve ter sido conhecido a todos os cristãos. 18. Na oração que se segue, achar, ecoa conscientemente encon­ trar (o verbo idêntico em Grego) no v. 17. A frase, com sua repetição de o Senhor, é de leitura desajeitada, especialmente em Português por­ que a ausência do artigo definido antes do segundo o Senhor não pode ser ressaltada. A construção não pode ser um hebraísmo (cf. LXX Gn 19:24), sendo que o Senhor denota Deus nos dois casos. Mais prova­ velmente, no entanto, O Senhor lhe conceda. . . refere-se a Cristo, em 159


II TIMÓTEO 2:1-2 harmonia com o uso das Pastorais (e.g. 2, 8, 16 supra), e da parte do Senhor refere-se a Deus, a quem Paulo noutros lugares (e.g. Rm 2:6; 3:6) representa exercendo julgamento, e que nas Pastorais é regular­ mente descrito como Salvador. Este uso é apoiado pela prática na LXX de empregar “Senhor” (Gr. Kurios) sem o artigo para Deus. É bem pos­ sível (assim J. Jeremias) que duas fórmulas (“O Senhor lhe conceda achar misericórdia,” e “Que ache misericórdia da parte do Senhor”) te­ nham sido fundidas. Na frase final, Paulo volta-se da ajuda pessoal que recebeu de Onesíforo para quantos serviços me prestou ele em Êfeso, i.é, o trabalho só­ lido que fez em prol da comunidade como um todo (a palavra me tem pouco apoio nos MSS, e é obviamente intrusa), e que Timóteo forçosa­ mente sabe “tão bem como qualquer um.” Esta última expressão re­ presenta o Gr. beltion (Lit. “melhor”). Este não é um comparativo ver­ dadeiro (melhor do que eu, embora seja preferido pela maioria dos auto­ res, não dá um sentido natural, visto que Paulo está perfeitamente fami­ liarizado com o serviço do seu amigo), mas, sim, é o uso ilativo que in­ tensifica a força do positivo. NOVOS ENCORAJAMENTOS AO SERVIÇO E AO SOFRIMENTO 2:1-13 1. Paulo agora aplica a moral da exortação anterior a Timóteo. Tu, pois. . . traduz literalmente o Grego, com seu tom enfático. O jo­ vem discípulo foi lembrado da sua ordenação, da devoção do próprio Apóstolo ao evangelho, e do brilhante exemplo de Onesíforo. Agora é a vez de Timóteo demonstrar seu valor e fortificar-se na graça que está em Cristo Jesus. O verbo é tipicamente paulino: cf. Rm 4:20; Ef 6:10; Fp 4:13. A força de na com graça é provavelmente instrumental: “por meio da,” ou “no poder da.” O acréscimo de que está em Cristo Jesus sugere que, embora Paulo sem dúvida tenha em mente o dom especial outorgado na ocasião da ordenação (cf. 1:6-7), seu pensamento real diz respeito à graça no sentido cristão mais amplo. A expressão inteira (ver as notas sobre 1:1, 13) pode ser parafraseada como “a graça da qual somos recebedores mediante a comunhão com Jesus Cristo.” Timó­ teo deve demonstrar hombridade- na sua resolução, mas a força verda­ deira dos seus esforços virá da graça que Cristo dá livremente. 2. Além disto, deve tomar medidas para transmitir o que ouviu da parte de Paulo a outros mestres fidedignos. O verbo (Gr. paratithes160


II TIMÓTEO 2:2 thai) tem relacionamento com o substantivo (Gr. parathèké) usado em 1:12 e 14 (também 1 Tm 6:20) para a mensagem cristã ortodoxa que é entregue a Paulo e Timóteo como um depósito sagrado. Logo, o que de minha parte ouviste não denota instrução geral na fé cristã, mas, sim, o próprio evangelho apostólico. Se o sentido geral daquilo que Paulo está dizendo fica claro, não fica tão fácil determinar exatamente o que quer dizer com através de (Gr. dia) muitas testemunhas. A maioria dos autores entende que atra­ vés de é o equivalente de “na presença de.” Paulo está ressaltando, por­ tanto, que quando pregou a Timóteo ou (o que parece mais provável) entregou a ele a mensagem do evangelho, estava na presença de muitos circunstantes. Desta forma, a solenidade da incumbência foi destacada ou, alternativamente, as pessoas presentes serviam para corroborar que sua doutrina era sã. Se tal idéia for aceita, seria natural interpretar o versículo como uma referência a alguma ocasião específica, tal como o batismo de Timóteo ou (melhor ainda) sua ordenação, quando se pode supor que o Apóstolo publicamente impressionou sobre ele um esboço da fé. Esta é provavelmente a melhor explicação do texto; também con­ corda bem, se a referência diz respeito ao comissionamento formal de Timóteo, com a ênfase sobre sua ordenação em 1:6 e 14. Outros auto­ res, no entanto, argumentam que assim o papel das testemunhas não es­ tá tratado à altura, e preferem dar a através de o significado de “com a atestação de.” Segundo esta exegese, duas alternativas estão abertas. (a) Paulo está lembrando Timóteo do seu hábito de citar autoridades para seu ensino (e.g. os profetas, os discípulos do Senhor: cf. 1 Co 15: 3-11), especialmente quando se tratava de assuntos dos quais não tive­ ra experiência direta. Mas se este fosse o significado dele, o que de mi­ nha parte ouviste não seria a maneira natural de expressá-lo; teríamos esperado algo como “O que transmiti a ti.” A lição de Paulo, portan­ to, deve ser, pelo contrário (bj que Timóteo teve a oportunidade de ave­ riguar a versão do evangelho que recebeu do seu mestre, mediante tes­ temunho independente, e, portanto, pode ter dupla certeza da sua au­ tenticidade. As muitas testemunhas devem incluir Barnabé, sua própria avó e mãe, e numerosas outras pessoas de peso e autoridade. Todas estas dificuldades, tem sido alegado (B. S. Easton), desa­ parecem se reconhecermos que se trata realmente de um Pastor no sécu­ lo II que, à guisa de Paulo, está dirigindo-se a um neófito no ministério que nunca viu nem conheceu o Apóstolo pessoalmente. Podemos, en­ tão, dar a dia seu significado original; é “através de” muitos intermediá161


II TIMÓTEO 2:3 rios, inclusive o próprio Pastor, que o neófito recebe a tradição paulina. Embora seja altamente engenhosa, duvida-se se esta proposta é admis­ sível mesmo se a teoria geral da qual faz parte pudesse ser aceita. Se es­ te tivesse sido seu significado, podemos ter a certeza que o escritor não teria dito de minha parte ouviste, que, mesmo admitindo a ficção, so­ mente pode dar a entender que o endereçado tinha sido pessoalmente um aluno de Paulo; nem testemunhas é uma descrição natural, na lingua­ gem idiomática do século II, de uma sucessão de (ensinadores acredita­ dos. £ possível notar que em 1 Tm 6:12 tem seu significado original de circunstantes que, dalguma maneira, testemunham ou atestam. Ne­ nhum crédito especial pode ser conseguido “pelo significado original” de dia, pois o uso técnico “na presença da” é bem apoiado. Finalmente, parece incrível que, depois de construir com tanta perícia sua fachada de verossimilhança, o autor pseudonímico tivesse repentinamente re­ solvido esmiuçá-la. O conselho de Paulo a Timóteo no sentido de passar o evange­ lho apostólico a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros é de interesse imenso por conter, em forma embriônica, as idéias germi­ nadas, estreitamente relacionadas entre si, da tradição da revelação ori­ ginal e de uma sucessão de pessoas autorizadas, encarregadas com a res­ ponsabilidade de transmiti-la intata: ver a nota sobre 1:14. Essencial­ mente as mesmas idéias, embora expostas de modo menos explícito, aparecem nas cartas anteriores de Paulo, e.g., 1 Co 11:23; 15:1 ss. Des­ de o começo, o conceito da tradição, ou da transmissão da revelação original, era integrante do cristianismo. Nesta passagem, onde se ressal­ ta o evangelho transmitido, estamos claramente numa etapa primitiva; em contraste, por exemplo, com 1 Qem. xlii. 2-4; xliv.2 (freqüentemen­ te citado como paralelo), não se expõe nenhuma teoria de sucessão apos­ tólica. Não há qualquer sugestão de apóstolos como tais transmitindo a fé para bispos e diáconos, mas simplesmente temos o próprio Paulo dando instruções a Timóteo, e seu interesse é mais na fidelidade do que na posição dos homens que Timóteo selecionará. 3. Paulo agora conclama Timóteo: Participa dos meus sofrimen­ tos. O destino de um evangelista e líder cristão é estar cheio de dificulda­ des, sendo que uma boa amostra está sendo providenciada pela presente situação difícil de Paulo. O mesmo verbo é usado como em 1:8. Como ilustrações, o Apóstolo passa a apontar a experiência do soldado, do es­ portista, e do lavrador. Todos os três —o primeiro com seu desvinculamento doutras coisas, o segundo com seu treinamento rigoroso, o tercei­ ro com sua labuta infatigável — refletem aspectos diferentes na vida de 162


II TIMÓTEO 2:4-5 qualquer pessoa que se dedica ao serviço de Cristo. Estes eram exem­ plos clássicos na diátribe popular daqueles tempos; o próprio Paulo ante­ riormente empregara todos os três no espaço de um único capítulo (1 Co 9:7,24). 4. Destarte, Timóteo é exortado a portar-se, a despeito do seu acanhamento e timidez naturais, como bom soldado de Cristo Jesus. Além de ser resistente sob as condições das piores provações, há duas características especialmente relevantes que pertencem a um homem em serviço ativo. Primeiramente, não se envolve em negócios desta vida (de civil); e, em segundo lugar, é dominado pelo desejo único de satisfa­ zer àquele que o arregimentou. Não somente o soldado é aliviado, por sua profissão, da necessidade, e até mesmo da possibilidade de ganhar sua vida da maneira normal, como também as exigências do serviço mili­ tar necessitam sua atenção total dada à realização dos planos do seu ofi­ cial comandante. A segunda cláusula, o seu objetivo é satisfazer. . ., faz uma cone­ xão um pouco desajeitada com a cláusula principal, mas o significado está claro. Às vezes tem sido tirada a conclusão que os ministros orde­ nados não devem ocupar-se em negócios ou no comércio, ou até mes­ mo no matrimônio, e que no ponto de vista do escritor há alguma coisa errada, ou de qualquer maneira de segunda categoria, nas atividades da vida comum. Esta é, no entanto, uma maneira pedante de aplicar erro­ neamente sua intenção, que é simplesmente insistir que Timóteo, e, pre­ sumivelmente, líderes cristãos numa posição análoga, devam cortar fora da sua vida qualquer coisa, por melhor que seja em si mesma, que tende a desviá-lo do serviço total a Jesus Cristo. Indica em 1 Tm 3:2, 12; Tt 1: 6 sua aceitação do fato de que os superintendentes e diáconos seriam casados. 5. Paulo tira sua segunda ilustração do atleta profissional que participava, dos jogos que eram um aspecto tão destacado do cenário greco-romano. Para seu emprego de metáforas do esporte, ver as notas sobre 1 Tm 4:7; 6:12. O atleta não é coroado, indica ele, ou seja: não pode ganhar o prêmio no evento específico, se não lutar segundo as nor­ mas. Tem havido muito argumento sobre se estas normas (o Grego tem o advérbio nominós, i.é, “licitamente:” cf. 1 Tm 1:8) são (a) as regras específicas do jogo em epígrafe, ou (b) os regulamentos impostos sobre os atletas que participam dos jogos públicos, os quais, a fim de manter padrões altos, incluíam preceitos acerca do treinamento. Como exemplo destes últimos, os competidores nos Jogos Olímpicos tinham de diante de uma estátua de Zeus, jurar que tinham ficado em treinamento rigoro163


II TIMÓTEO 2:6-8 so durante 10 meses (Pausânias, Graec. descr. v. 24. 9). Existem as duas possibilidades, mas visto que trapacear não é relevante ao tema de Paulo, ao passo que a árdua auto-disciplina o é, (b) parece ser muito mais plau­ sível do'que (a). 6. O pensamento de Paulo já começou a avançar das privações envolvidas no serviço cristão dedicado para o galardão que o coroará. Esta idéia fica sendo mais destacada na sua terceira ilustração,, tirada do lavrador que trabalha. A ênfase recai sobre o verbo, sendo que a lição de Paulo é que o lavrador que realmente se esforçou no campo deve ser 0 primeiro a participar dos frutos, i.é, tem prioridade sobre os que ou não fizeram nada ou ficaram totalmente desocupados. A analogia não é, conforme sugerem alguns autores, forçada, encaixada ali porque o escri­ tor notou sua ocorrência em 1 Co 9:10-11. A mente de Paulo foi natu­ ralmente dirigida aos galardões mediante sua menção da coroa do atleta. Por alguma razão, considera apropriado lembrar Timóteo acerca da bên­ ção especial que Deus derramará sobre o ministério de um evangelista trabalhador e fiel. Mas também tem em mente, não menos do que em 1 Co 9:10-11, o sustento material que o líder apostólico tem direito de esperar da parte da comunidade onde tem labutado (cf. 1 Tm 5:17-18). Deve ser notado que o verbo traduzido trabalha (Gr. kopiãn) é especial­ mente apropriado, sendo quase um termo técnico no vocabulário de Paulo para a obra ministerial (ver a nota 1 Tm 5:17). 7. No versículo seguinte, Pondera o que acabo de dizer, pode ser interpretado “Calcula ou que estou querendo transmitir” (Gr. noei ho legó). Com um tato fino, Paulo deixa Timóteo descobrir por si mesmo as implicações mais profundas das suas três parábolas, especialmente, talvez, a alusão a seus honorários da parte da comunidade. Esta exegese é confirmada pelo encorajamento que ele acrescenta, porque o Senhor te dará compreensão em todas as coisas, i.é, em matérias como estas não menos do que em questões mais pesadas. Para a iluminação que Deus dá ao homem espiritual, cf. 1 Co 2:10,15. 8. O v. 7 foi quase um parêntese; Paulo agora resume seu tema, e representa Cristo como a inspiração suprema do serviço cristão. O discípulo deve “ter em mente” (Lembra-te) o próprio Messias, que, embo­ ra agora, reine em glória, foi ressuscitado dentre os mortos. A sugestão provavelmente é que até mesmo Ele teve de palmilhar o caminho da cruz e provar da morte antes de seu exaltado. O Apóstolo faz sua lem­ brança tanto mais impressionante ao revesti-la de um fragmento de ma­ téria tipo credo, semi-esteriotipada, que Timóteo provavelmente sabia de cor. A ordem Jesus Cristo, sem precedentes em 2 Timóteo, e o acrés­ 164


II TIMÓTEO 2:9-10 cimo de descendente de Davi, que é irrelevante no contexto, bem como a estrutura, confirmam que o refrão é uma citação. A fórmula é primiti­ va, provavelmente de origem cristã judaica, e se assemelha àquela citada por Paulo em Rm 1:3-4. Estes são os dois únicos refrões tipo credo, desta natureza no N.T., que ressaltam a descendência davídica do Salva­ dor; para exemplos posteriores, cf. Inácio, Eph. xviii.2; Trall. ix. 1; Rom. vii. 3; Smym. i. 1. 9. “Este é o meu evangelho, ” declara Paulo; a frase parafraseia a expressão tipicamente paulina (cf. Rm 2:16; 16:25; 1 Tm 1:11): se­ gundo o meu evangelho. Noutras palavras, a verdade entesourada no frag­ mento de credo que acaba de ser citado é o coração da mensagem que foi confiada a Paulo, e “ao pregar o qual” (lit. no qual, que indica o evan­ gelho como a esfera dos seus sofrimentos) estou sofrendo até algemas, como malfeitor. Paulo volta, como faz tão freqüentemente nesta carta, a sua própria pessoa como exemplo para Timóteo. A palavra malfeitor (Gr. kakourgos) é enfática, e no N.T. é só usada fora deste trecho para os bandidos que foram crucificados juntamente com Jesus (Lc 23:32, 33, 39). Na linguagem técnica jurídica era reservada para assaltantes, as­ sassinos, traidores, e pessoas assim. O emprego dela aqui sugere as con­ dições da prisão nerônica mais do que o aprisionamento relativamente brando de At 28. Esta passagem contém ainda outra indicação da vergonha e do res­ sentimento que Paulo sentia por causa do seu confinamento. Tanto mais exultante, portanto, soa sua interjeição triunfante: contudo, a palavra de Deus não está algemada. Como em lT s2 :1 3 ; 2 T s3 :l. A palavra de Deus, que aqui é equivalente a meu evangelho supra, é quase personi­ ficada. A despeito das restrições impostas sobre seu pregador, continua a espalhar-se, conquistando homens para Deus. Ficamos lembrando Fp 1:12-18, onde nota que sua prisão (a primeira), longe de impedir o evangelho, deu aos seus colegas cristãos a confiança de pregar a pala­ vra de Deus com excepcional destemor. 10. Mas não está pensando primariamente, nesta passagem, da pre­ gação feita por outros. A idéia que quer transmitir a Timóteo é que os próprios sofrimentos que está deplorando têm uma relevância positiva, evangelística. Declara, portanto: Por esta razão, (as palavras referem-se às expressões que hão de seguir: por causa dos. . . e para que. . . ) tudo suporto por causa dos eleitos, para que também eles obtenham a salva­ ção em Cristo Jesus. Aqui os eleitos de Deus denota aqueles que a eter­ na predestinação de Deus escolheu para receberem a salvação (Rm 8:33; Cl 3:12; Tt 1:1), mas que ainda não corresponderam à Sua chamada. 165


II TIMÓTEO 2:11-12 0 que Paulo está dizendo não é simplesmente que o exemplo da sua per­ severança será uma inspiração para outros, mas, sim, que o motivo mais profundo da sua aceitação paciente das adversidades é a convicção de que, desta maneira, realmente está fazendo com que seja mais fácil para eles chegarem à salvação. Sua pressuposição aqui, como em Cl 1:24 (passagem esta que deve ser cuidadosamente comparada com a presente passagem), é que há um montante predeterminado de sofrimento que a comunidade messiânica, o corpo de Cristo, deve padecer antes do Fim poder vir. Para as tribulações que, conforme o pensamento cristão primi­ tivo, devem anteceder o fim, cf. Mt 24:6 ss.; Mc 13:7 ss.; Lc 21:9 ss. (esp. 24); 2 Ts 2:1-12. Quanto mais o próprio Paulo, portanto, sofre agora, tanto menos seus irmãos que também estão “em Cristo” terão de sofrer pessoalmente, de modo que ele apressará a vinda do Fim. Desta maneira, sua angústia e seu martírio realmente preparam o caminho para outros, para que também eles obtenham a salvação que está em Cristo Jesus. A certeza que o Apóstolo tem da sua própria sal­ vação é ressaltada notavelmente pela palavra também. As palavras a sal­ vação que está em Cristo Jesus transmitem muito mais do que o fato de que a salvação do cristão lhe advém de Cristo. Como em 1:1 ; 9,13; 2:1 (ver as notas ali), contêm a essência do evangelho de Paulo, que é que o crente é nova criatura como resultado de ser unido com Cristo (cf. 2 Co 5:17). E o resultado concomitante desta salvação será a eterna glória. Es­ te fato é ilustrado por Rm 5:2, onde Paulo descreve como os cristãos exultam na glória divina que há de ser deles. Quer dizer aquela glória refletida de Deus com que Adão era. revestido no Jardim do Éden, mas da qual os homens depois foram privados como resultado da Queda (Rm 3:23). É esta glória que será revelada em nós e para nós no Fim (Rm 8: 18), e que em 2 Co 4:17 o Apóstolo representa como sendo “eterno peso de glória, acima de toda comparação,” que deixará na sombra quais­ quer aflições que porventura soframos no presente momento. 11,12. Paulo completa esta seção com outra “palavra fiel.” Para esta expressão, um chavão nas Pastorais, cf. 1 Tm 1:15; 3:1; 4:9; Tt 3: 8. Alguns comentaristas, seguindo Joio Crisóstomo, identificam a pala­ vra com aquilo que antecede, ou de qualquer maneira com alguma parte dele (e.g. v. 8); apóiam este argumento dizendo que os versículos que se seguem não podem estar em mira, pois começam com a partícula (no ori­ ginal) “Pois.” Estão, porém, claramente enganados. O v 8 é separado por um espaço de dois versículos, e nada há de aforístico ou de qualquer maneira semelhante a uma citação no restante das observações de Paulo, 166


II TIMÓTEO 2:11-12 ao passo que as linhas seguintes (llb-13) têm precisamente este cará­ ter. A explicação óbvia de “Pois” e' que o extrato citado é incompleto; Paulo o começa numa altura relevante ao seu assunto, sem levar em con­ ta a abertura abrupta. Parece certo, portanto, que Fiel é a palavra se refere a w. llb-13. Sua estrutura paralela e seu caráter rítmico tomam provável que é um extrato de um hino litúrgico, provavelmente familiar a Timóteo e à co­ munidade (cf. 1 Tm 3:16 para o uso semelhante de um hino); a última linha (pois de maneira nenhuma pode. . .) que quebra o padrão, pode ser uma glosa acrescentada pelo próprio Paulo. O hino parece ser de pro­ veniência cristã judaica, sendo que sua primeira estrofe relembra Rm 6:8 e sua terceira estrofe, o dito do Senhor relatado em Mt 10:33. Tem sido descrito como um encorajamento aos cristãos enfrentando a perseguição, mas o rito do batismo (ver notas abaixo) tem uma reivindicação muito mais forte para ser a origem deste hino. É, no entanto, inútil agora es­ perar que possamos identificar seu âmbito original com perfeita preci­ são. Tudo quanto podemos saber com certeza é que o motivo de Paulo em citá-lo era inculcar a conexão entre a comunhão do cristão com Cris­ to no sofrimento e na glória. Um contexto batismal certamente é sugerido por se já morremos com ele, também viveremos com ele. Este morrer com Cristo não é pri­ mariamente, conforme muitas vezes tem sido proposto, a morte por meio de sofrer o martírio por Ele, mas, sim, a morte ao pecado e ao próprio-eu que todo cristão prova no batismo. Paulo expõe sua dou­ trina mística disto em Rm 6:2-23, onde desenvolve o pensamento (ver esp. v. 8, ao qual esta linha é quase idêntica) de que ser reunido com Cristo na Sua morte acarreta ser reunido com Ele na Sua ressurreição e participar da Sua vida glorificada. Cf. também Cl 3:3. Mas a morte do cristão com Cristo no batismo é apenas uma primeira prestação. É sua vocação, estando misticamente unido com o Crucificado, abraçar uma vida de provações e adversidades. Mesmo assim, recebe sua recom­ pensa, pois se perseveramos, também com ele reinaremos. A linha cris­ taliza a esperança cristã primitiva de que, quando Cristo voltar em gló­ ria para reinar (1 Co 15:24-25), os santos que perseveraram se assen­ tarão em tronos como reis lado a lado com Ele (Ap 1:6; 3:21; 5:10; 20:4). A chamada à perseverança, subentendida, também se encaixa com a situação batismal. O Evangelho segundo Marcos, escrito apenas uns poucos anos mais tarde, demonstra quão profunda era a convicção da igreja que a adversidade era da essência do discipulado. Mas o que acon­ 167


II TIMÓTEO 2:13-21 tece se o negamos na realidade? A resposta severa, baseada na própria advertência (Mt 10:33), é que ele por sua vez nos negará. A referência, outra vez, é ao Juízo Final, quando o Senhor Se recusará a reconhecer os que O negaram. 13. O hino passa, então, a considerar uma possibilidade original se somos infiéis. Alguns interpretam isto (Gr. apistoumen) como sendo equivalente a “se abandonarmos a fé nEle,” i.é, apostarmos. Mas as­ sim teríamos uma repetição do pensamento da frase anterior; desconsi­ dera, também, o fato de que o verbo está no presente (de ação contí­ nua?), e não no futuro, como negará. Daí, a paráfrase “se deixarmos de viver à altura da nossa profissão,” ou “se pecarmos e nos revelarmos instáveis nas provas e tentações,” parece ressaltar melhor o significado. A resposta que esperamos segundo a lógica rígida é: “Ele também será infiel,” mas o paradoxo do amor divino não permite tal coisa. A verda­ de é proclamada de modo triunfante: Ele permanece fiel. Isto não significa: “Deus cumpre Sua palavra tanto para a recom­ pensa quanto para o castigo” (W. Lock), i.é, inexoravelmente exige a penalidade devida à nossa apostasia. A grande afirmação do hino é que, por mais inconstantes e infiéis que os homens sejam, o amor de Deus continua inalterável, e Ele permanece fiel às Suas promessas. Confor­ me a expressão de Paulo em Rm 3:3-4, a infidelidade dos homens serve apenas para destacar a fidelidade de Deus; afinal das contas, Ele nos sal­ vou, “não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determi­ nação e graça” (1:9 supra). E a explicação, é lógico, é que de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo. Ser fiel no meio de tudo, a despei­ to do pior que os homens podem fazer, é a essência da Sua natureza. Conforme foi sugerido supra, a cláusula final pode ser um comentário explicativo do próprio Apóstolo, mas muitos sustentam que está plena­ mente dentro do espírito do hino e é necessária para completar o pensa­ mento. Seja qual for a certa entre estas duas interpretações, o alvo des­ ta quarta estrofe não é, naturalmente, abrir a porta para ao desvio e à apostasia, mas, sim, fornecer um bálsamo para consciências perturbadas. UMA CONCLAMAÇÃO PARA EVITAR O FALSO ENSINO 2:14-21 14. Tendo feito o melhor que podia para inspirar em Timóteo co­ ragem para enfrentar o sofrimento no espírito de Cristo, Paulo passa a instruções específicas acerca da sua pregação, prestando atenção especial

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II TIMÓTEO 2:15 à ameaça crescente da heresia. Já ressaltara a importância do ensino sa­ dio modelado no dele mesmo (1:12-14; 2:1-2), e agora manda-o: Re­ comenda estas coisas (“Continua lembrando as pessoas destas coisas”), i.é, na primeira instância, da verdade profunda do evangelho resumida nos w. 11-13, mas também, mais geralmente, da mensagem cristã con­ forme a aprendera do Apóstolo (2:2). O verbo (Gr. hupomimnêske: lit. “lembrar”) está no presente do imperativo, o que indica que esta deva ser a prática regular dele; daí a tradução “Continua...” É especialmente importante, ressalta Paulo, advertir as pessoas so­ lenemente (para Dá testemunho solene a todos perante Deus, cr. 1 Tm 5:21) para que evitem contendas de palavras. Esta tradução parece pre­ ferível à de Moffatt, “que não troquem argumentos”, que dá a entender que o Apóstolo está desencorajando debates públicos com os hereges. Esta interpretação não produz um quadro plausível em si mesmo; e de qualquer maneira o substantivo relacionado, “disputa acerca de pala­ vras” (Gr. logomachia) se acha em 1 Tm 6:4, onde indubitavelmente tem o significado de fazer sofismas acerca de palavras. O que Paulo es­ tá sublinhando aqui é o perigo de ficar envolvido naquele tipo de discus­ são teológica que, no fim, é puramente verbal, não tendo nada a ver com as realidades da religião cristã. Embora suas críticas severas tenham uma aplicação geral, visam, primariamente, indivíduos específicos em Éfeso. Seja qual for o conteúdo dos seus ensinos (infelizmente, Paulo apenas nos dá uns indícios muito fragmentários quanto a eles), está certo de que a discussão à qual dão origem é um perder-se em minúcias sem pro­ veito acerca de palavras, o tipo de argumentação que para nada aproveita, e que é só para a subversão dos ouvintes. IS. A linha construtiva para Timóteo seguir é dar provas das suas próprias qualidades como transmissor eficiente e totalmente fidedigno da sã doutrina. Paulo o exorta, portanto: Procura apresentar-te a Deus, aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar. Apresentar-te a Deus (para o verbo, Gr. parastèsai, cf. Rm 6:13; 1 Co 8:8) apro­ vado (o adjetivo grego dokimos tem a idéia de “testado” e “aprovado”). A figura em obreiro é a de um trabalhador agrícola (cf. Mt 20:1, 8). O adjetivo que o acompanha (Gr. anepaischuntos) pode significar “que não tem vergonha da sua profissão,” retomando e repetindo, assim, o pensamento de 1:8 (cf. Rm 1:16; Hb 2:11; 11:16). Mas este sentido é estranho ao contexto, que pinta o quadro do trabalhador que fez bem o seu serviço e que pode, portanto, submetê-lo ao seu empregador sem dúvidas ou embaraço. A cláusula seguinte contém o peso da incumbência dada por Paulo. 169


II TIMÓTEO 2:16 Timóteo cumprirá sua tarefa de modo eficiente, e assim se capacitará a enfrentar Deus sem sentir vergonha, ao manejar bem a palavra da verda­ de. Por palavra da verdade alguns têm entendido a Escritura, mas tanto o contexto como o uso por Paulo da mesma expressão noutros lugares (Ef 1:13; Cl 1:5) confirmam que representa o evangelho, a mensagem cristã como um todo. As demais palavras são uma tentativa de traduzir o verbo grego raro orthotomein (lit. “cortar retamente”), achado somente aqui e em Pv 3:6; 11:5. Alguns argumentam, com base no seu significado literal, que a figura de Paulo deve ser a de um pedreiro cortando uma pedra (aqui a palavra da verdade) conforme o padrão correto (i.é, o padrão do evangelho). Outros notando que o obreiro é um lavrador agrícola, seguem João Crisóstomo em supor que é a figura de um arado cortando um sulco reto. Do outro lado, nas duas passagens em Provérbios o verbo é usado com hodous (= “estradas”) e claramente significa “cortar uma estrada reta,” ou “fazer uma estrada numa direção reta;” há também muitos exemplos do verbo “cortar” sendo usado para fazer estradas. Uma interpretação possível, portanto, é que Paulo está admoestando Timó­ teo, quando prega o evangelho, a seguir um caminho estreito, sem ser desviado por disputas acerca de meras palavras ou por conversa ímpia. 0 debate, no entanto, é provavelmente infrutífero (um exemplo da logomachia que Paulo deplora!), pois o sentido geral parece bastante cla­ ro, e a imagem subjacente, seja qual for, perdeu seu frescor e seu impacto. 16. Se positivamente a tarefa de Timóteo é pregar o evangelho em toda a sua pureza, negativamente ele deve Evitar igualmente os fa­ latórios inúteis e profanos. Paulo outra vez está atacando o ensino dos sectários, em linguagem idêntica àquela que usou em 1 Tm 6:20. O subs­ tantivo sublinha sua futilidade, ao passo que o adjetivo sugere que é materialista na sua tendência, e que substitui a revelação divina pela especulação humana. Não admira que os que deles usam estejam conde­ nados a passar a impiedade ainda maior. A construção é desajeitada no original, porque não há nenhum sujeito para a terceira pessoa no plural, passarão. O contexto, no entanto, especialmente deles no v. 17, estabele­ ce que a referência é aos mestres do erro. Evidentemente, alegavam ser “avançados,” i.é, progressistas e intelectualmente vivos como cristãos (para o verbo prokoptein= “avançar” no sentido de fazer progresso, cf. Rm 13:12; G1 1:14; também 1 Tm 4:15 para o substantivo correlato prokopê). Daí a ironia deliberada no comentário de Paulo de que o único progresso que têm probabilidade de fazer está na direção da im­ piedade. 170


II TIMÓTEO 2:17-18 17. Igualmente desastrosa será sua influência sobre outros mem­ bros da igreja, porque a linguagem deles corrói (lit. “terá sua pastagem”) como câncer. Embora a tradução câncer às vezes tenha sido preferida, gangrena se adapta melhor tanto ao Grego (gaggraina) quanto ao sentido da passagem. Não são apenas os perigos do falso ensino aos aderentes deste que preocupam Paulo, como também sua tendência insidiosa de espalhar-se e infeccionar outras pessoas, assim como a gangrena se espa­ lha e devora os tecidos próximos. Dois dos falsos mestres agora são mencionados pelo nome. Não se ouve falar noutro lugar de Fileto, mas Himeneu é referido em 1 Tm 1:20, onde somos informados que Paulo o excomungara. A despeito disto, parece ter continuado suas atividades com êxito, visto que apa­ rece aqui como um dos líderes dos mestres do erro. Alguns têm acha­ do surpreendente este fato, e tiraram a conclusão de que 2 Timóteo deva ter sido escrita antes de 1 Timóteo. A inferência, no entanto, é totalmente desnecessária; não podemos tomar por certo que a interdi­ ção de Paulo fosse instantaneamente eficaz em silenciar um herege, e, de fato, só porque Himeneu aparentemente podia desconsiderá-la é uma ilustração da situação difícil na igreja em Éfeso. 18. Paulo declara que estes dois se desviaram da verdade. Para o verbo (Gr. astochein: lit. “errar o alvo”), cf. 1 Tm 1:6; 6:21. O erro deles, continua ele, consiste em asseverar que a ressurreição já se reali­ zou. Esta é uma indicação muito valiosa, a única que é realmente preci­ sa e concreta nestas cartas, às crenças teológicas propriamente ditas dos separatistas. Embora muita coisa fique obscura, a interpretação mais provável é que escolheram identificar a ressurreição, não com o levanta­ mento do corpo no último dia, mas, sim, com o morrer e ressurgir místi­ cos que o cristão experimenta a sua iniciação batismal. Que esta é a ex­ plicação correta do ensino deles, que assim, com efeito, negava a ressur­ reição do corpo, é corroborado pelo relato de Irineu (Haer. 1. 23. 5) do que o gnóstico samaritano Menandro, que era discípúlo de Simão Mago (At 8:9 ss.), ensinava seus seguidores que, como resultado de terem si­ do batizados por ele mesmo, já haviam passado pela ressurreição e nun­ ca envelheceriam nem morreriam. Cf. A tos de Paulo e Tecla xiv. A crença de que o corpo físico ressuscitará do túmulo era, natural­ mente, integrante do cristianismo desde o início. Lado a lado com ela havia a crença, que não temos motivo para supor ter sido confinada a Paulo (para sua versão dela, cf. Rm 6:1-11; Ef 2:6; 5:14; Cl 2:13; 3:1-4), que o cristão passa por uma morte e ressurreição mística com Cristo no batismo. A mentalidade grega, no entanto, com seu conceito 171


II TIMÓTEO 2:19 da alma como sendo imortal, e da soltura do corpo, que é a prisão dela, como sendo sua verdadeira felicidade, sentia uma repugnância instinti­ va pela idéia da ressurreição física. Destarte, nos círculos helenísticos, Paulo desde cedo achou necessário (cf. 1 Co 15; At 17:32) combater o ceticismo completo acerca dela. É compreensível que pessoas com esta maneira de pensar achassem a idéia da ressurreição sacramental no batismo muito mais apropriada, e que confinassem a ela o seu ensi­ no acerca da ressurreição. Tendências como estas tinham um atrativo especial sempre que o gnosticismo se estabelecia, e a presente passagem é evidência das tendênciias gnósticas dos sectários. Paulo declara que, ao ensinarem tais distorções, estão pervertendo a fé a alguns. É inevitável esse resultado, visto que a crença na ressurrei­ ção do corpo é a pedra angular do cristianismo; sem ela, conforme já asseverara aos coríntios (1 Co 15:17), “É vã a vossa fé, e ainda perma­ neceis nos vossos pecados.” O perigo era tanto maior onde (conforme quase certamente ocorria no presente caso) a negação tinha sua origem numa depreciação do corpo, que abria a porta, de um lado, para a idéia da salvação-própria por meio de práticas ascéticas (cf. 1 Tm 4:3), e, do outro lado, para a indiferença moral (cf. 1 Co 6:12 ss.). 19. Entretanto (Gr. mentoi: uma palavra enfática), em contraste com estes irmãos mais fracos que estão deslocados, como pedras mal colocadas na estrutura da igreja, o firme fundamento de Deus permane­ ce. Paulo, por mais deprimido que esteja pelos efeitos da campanha dos hereges, reconhece com gratidão que a construção principal é ina­ movível. Várias interpretações têm sido propostas para o firme funda­ mento: Cristo e Seus Apóstolos (cf. Ef 2:19-20), a verdade do evange­ lho, a igreja como um todo (cf. 1 Tm 3:15), ou o âmago inabalável de cristãos genuínos em Éfeso. Quase certamente representa estes últimos, ou de qualquer maneira a igreja de Éfeso considerada como parte da Igreja grande, visto que o Apóstolo está claramente contrastando o fir­ me fundamento com os poucos instáveis cuja fé foi subvertida. Isto é confirmado pelo conteúdo das duas inscrições que o firme fundamento tem gravado sobre ele, sendo que as duas se referem ao povo eleito e fiel de Deus. Em este selo temos uma alusão à prática de colocar numa cons­ trução, ou na sua pedra fundamental, uma inscrição ou outro sinal para indicar seu dono ou propósito (cf. Ap 21:14). Destarte, a comunidade do povo fiel de Deus em Éfeso está carimbado com dois lemas. O pri­ meiro: “O Senhor conhece os que lhe pertencem, ” é uma citação quase literal de LXX Nm 16:5, que consiste em palavras de severa repreensão 172


II TIMÓTEO 2:20 pronunciadas por Moisés na ocasião da rebelião de Coré, Datão, e Abirão. Alguns fizeram a conjectura de que é uma seleção de uma poesia cristã primitiva, mas nada há de especialmente poético na frase. Muito mais provavelmente era um refrão proverbial cujas associações eram familia­ res aos cristãos daqueles tempos. Conforme sabemos de Judas 11, Co­ ré logo veio a ser o exemplo clássico do ensinador apóstata. De qual­ quer maneira, o objetivo de Paulo em citá-lo foi encorajar Timóteo e outros, que estavam preocupados com a apostasia dentro da comunida­ de, ao lembrar-lhes que pode-se confiar em Deus para discriminar entre Seus servos leais e desleais. O segundo lema: “Aparta-se da injustiça todo aquele que profes­ sa o nome do Senhor, ” está repleto de lembranças bíblicas. Para a pri­ meira parte, cf. SI 6:8; Is 52:11; Mt 7:23; Lc 13:27; para a segunda, cf. LXX Lv 24:16; Js 23:7; Is 26:13. Mais uma vez, é uma divisa que Paulo supõe que será reconhecida pelos seus leitores. Reforça o primei­ ro lema ao definir quais são os servos verdadeiros de Deus; revelam que lhe pertencem ao apartar-se da injustiça, i.é, no presente caso, o ensino errôneo que, segundo o Apóstolo, inevitavelmente traz a corrupção mo­ ral no seu séquito. 20. Mesmo assim, permanece o fato de que, a despeito da estabi­ lidade real da comunidade e das divisas confiantes que leva, há nela ele­ mentos insatisfatórios, conforme os eventos tragicamente demonstram, e pode-se perguntar por que deve ser assim. Paulo procura tratar do pro­ blema ao comparar a igreja a uma grande casa, símile este que ocorre freqüentemente nestas cartas (e.g. 1 Tm 3:5, 15) e que forma uma co­ nexão natural com sua linguagem acerca do firme fundamento de Deus. Em semelhante habitação, ninguém fica surpreendido ao achar não so­ mente utensílios de ouro e de prata, como também de maneira e de barro. Da mesma forma, ninguém deve assustar-se porque a igreja con­ tém tanto cristãos bons quanto ruins. A lição é que os tipos diferentes de utensílios, e, assim, por analogia, os tipos diferentes de cristãos, exer­ cem funções inteiramente diferentes, e até mesmo opostas: Alguns, para honra; outros, porém, para desonra. A linguagem figurada do versículo, como também o estilo dele, são inescapavelmente paulinos, e muitos têm argumentado que isto é porque é modelado em passagens tais como 1 Co 3:12; 12:23-24; Rm 9:21. Mas as semelhanças são remotas e verbais, e o contexto é total­ mente diferente. Além disto, se um imitador paulino tivesse se baseado em Rm 9:21, decerto teria sido motivado a incluir alguma referência ao destino final dos falsos mestres. Na realidade, o modo desajeitado 173


II TIMÓTEO 2:21-22 e incompleto da comparação ser desenvolvida é um sinal da autenticida­ de da passagem. Paulo freqüentemente entra precisamente nestas difi­ culdades com seus símiles. Devemos logicamente esperar que ele tirasse a inferência de que os cristãos indignos, como utensílios de barro, têm sua função necessária, embora subordinada, na igreja; mas isto está, na­ turalmente, longe dos seus pensamentos, e de qualquer maneira, já está avançando para uma conclusão bem diferente. 21. Esta conclusão é que, longe de ficar satisfeito com aquilo que, segundo a analogia, talvez pareça ser a ordem natural das coisas, o cristão sadio e ortodoxo deve rigorosamente evitar seus irmãos indig­ nos. Conforme Paulo o expressa, procurando manter sua figura de uma casa com seus utensílios e panelas, Assim, pois, se alguém a si mesmo se purificar destes erros, será utensílio para honra, santificado e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa obra. O significado de des­ tes (ARA preenche: erros) somente pode ser “destes últimos utensílios,” i.é, os que são para propósitos ignominiosos. Reconhece-se que isto é muito desajeitado, pois um utensílio não é purificado doutro, mas, sim, das impurezas que o sujam, e por causa disto, alguns têm interpretado destes como sendo uma referência aos falatórios inúteis no v. 16. Mas a maneira dasajeitada de Paulo expressar-se tem paralelos noutros lugares, e, em si mesma, não é razão para rejeitar a exegese óbvia; além disto, é desnaturai vincular destes com um antecedente tão remoto quanto fala­ tórios inúteis. Tirando as metáforas, o conselho de Paulo a Timóteo é que ele deve separar-se rigorosamente de mestres tais como Himeneu e Fileto. Desta maneira, ficará sendo de real utilidade para ser Mestre, e estará num estado de prontidão para realizar toda boa obra (para a ênfase nas obras da caridade nas Pastorais, ver sobre 1 Tm 2:10) para as quais Ele o chamar (cf. Ef 2:10). ' A CONDUTA DE TIMÓTEO COMO MESTRE 2:22-26 22. Paulo agora retoma a nota pessoal que sua explosão contra os separatistas nos w. 16 ss. tinha interrompido. O conselho no sentido de fugir das paixões da mocidade nos lembra que Timóteo ainda é um jovem segundo os padrões antigos: ver sobre 1 Tm 4:12. A seqüela, com sua referência à justiça, etc., sugere que o Apóstolo não estava pensando tanto nas tentações sensuais quanto em certas falhas de caráter que jo174


II TIMÓTEO 2:23-24 vens teimosos tendem a demonstrar. Quer que Timóteo se liberte da parcialidade, da intolerância, das explosões de gênio, da auto-asseveração, e de coisas semelhantes, e que chegue assim à maturidade moral. Tinha colocado diante dele o ideal da justiça, da fé e do amor em 1 Tm 6:11, onde ver a nota. Agora acrescenta, como essencial para sua con­ duta como ministro, que deve cultivar a paz com os que, de coração puro, invocam o Senhor. Alguns ligam as palavras com. . . estreitamente com Segue, e tra­ duzem: “em companhia com” a fim de ressaltar o significado de modo mais eficaz. Se isto for correto, a lição de Paulo é que a comunhão com outros cristãos fornece o meio ambiente em que estas virtudes se desen­ volverão. Aquilo em que realmente está pensando, no entanto, é a con­ córdia fraternal que deve florescer entre o povo cristão (cf. Rm 12:18). São designados, notamos, os que invocam o Senhor, frase esta que (fre­ qüentemente como o acréscimo de “o nome do”) no A.T. denota a ado­ ração a Javé, mas, no N.T., o ato de invocar Cristo em oração. Para ser eficaz, deve ser feito de coração puro, i.é, em completa sinceridade. Pa­ ra a expressão, que é essencialmente semítica, ver a nota sobre 1 Tm 1:5. 23. Além disto, Timóteo, na sua capacidade de líder eclesiástico, deve repelir as questões insensatas e absurdas (“não ter nada o ver com especulações estultas e indisciplinadas”). Questões (Gr. zêtèseis) tem sido freqüentemente interpretado mais amplamente como “disputas,” “controvérsias.” Se este for seu significado verdadeiro, Timóteo está sendo aconselhado contra as alterações teológicas fúteis que não somen­ te não levam a nada como também provocam a ira. Parece preferível detectar aqui, porém, como em 1 Tm 6:4 (onde ver a nota), uma alusão às idéias imaginárias propostas pelos sectários, e isto é apoiado pela des­ crição que o Apóstolo dá delas: insensatas e absurdas (ou “indisciplina­ das,” que provavelmente sublinha seu desvio da fé tradicional). Não é o argumento teológico como tal ao qual levanta objeção nestas cartas, mas, sim, o levantar de modo controvertido de questões recônditas que des­ viam os homens do testemunho apostólico. 24. Tais pseudo-questões, Paulo relembra a Timóteo, só engen­ dram contendas. Do outro lado, o servo do Senhor, i.é, o pastor cris­ tão, não deve viver a contender. Todo cristão, é lógico, é um servo do Senhor, mas a frase é usada quase tecnicamente aqui do líder ou minis­ tro cristão. A fórmula mais usual do N.T. é “servo de Cristo” ou “ser­ vo de Deus.” Tem sido sugerido, com muita plausibilidade, que a lingua­ gem aqui, bem como o quadro inteiro de meiguice e mansidão que vem à mente, foi inspirada pelas passagens do Servo em Is 42:1-3; 53. 175


II TIMÓTEO 2:25-26 Quando surgir a controvérsia, até mesmo quando a heresia andar solta, o bom pastor deve ser brando para com todos, como o próprio Paulo tinha sido entre os tessalonicenses (1 Ts 2:7), exercendo sua auto­ ridade pastoral com meiguice construtiva. Em harmonia com isto deve ser apto para ensinar (Gr. didaktikos: cf. 1 Tm 3:2) sendo que a ênfase nesta palavra recai não tanto no seu conhecimento quanto na sua capa­ cidade de trazer à tona o que há de melhor nos seus alunos, e ao mesmo tempo paciente, i.é, quando o argumento se toma violento e as pessoas estão perdendo o controle-próprio, disposto a escutar com paciência ao invés de dar uma resposta irada. O adjetivo empregado (Gr. anexikakos) significa, literalmente, “disposto a agüentar o mal.” 25. Semelhantemente, quando disciplina. . . os que se opõem, o superintendente de caráter verdadeiramente cristão o fará com mansi­ dão (cf. 2 Ts 3:15). O particípio pode ser traduzido “corrigir,” “casti­ gar,” mas Paulo tem em mente a reeducação construtiva dos irmãos cristãos mal-orientados. Mansidão (Gr. praütés) inclui humildade e mei­ guice. É neste espírito, que é o espírito do próprio Cristo, que o líder cristão se colocará a trabalhar, sempre olhando na expectativa que Deus lhes conceda não só o arrependimento (ou “mudança de atitude,” Gr. metanoia), capacitando-os a conhecerem plenamente a verdade (para esta frase, característica das Pastorais, ver sobre 1 Tm 2:4). Esta será inteiramente a obra de Deus; mas ainda que o amor possa abrir uma porta à Sua graça, a violência somente pode obstruí-la por meio de exas­ perar os que desesperadamente têm necessidade dela. 26. O versículo seguinte define o que está envolvido nesta con­ versão: é o retomo à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo. Con­ forme indica a tradução, Paulo está misturando suas metáforas de modo incongruente, mas suas palavras vividamente delineam a condição trágica em que os falsos mestres colocaram a si mesmos e os seus seguidores. Com efeito, é o equivalente de estar bêbado e estupefato, pois o verbo (Gr. ananêphein) literalmente significa “voltar à sobriedade.” Na reali­ dade, é o resultado das maquinações de Satanás, que os envolveu nos seus laços (para a mesma figura, cf. 1 Tm 3:7). Â linguagem da segunda metade do versículo é tão descuidada que seu significado exato é obscuro. A tradução supra interpreta-a como uma elaboração da idéia do cativeiro sugerida por laços. Os falsos mes­ tres foram feitos cativos (o verbo grego zógrein significa “prender com vida,” uma figura diferente daquela que é contida em laços) por ele, i.é, o diabo, e, como resultado, devem cumprir a sua vontade (a do diabo). O sentido resultante é perfeitamente aceitável e, despeito da mudança 176


II TIMÓTEO 3:1 da metáfora, se encaixa admiravelmente no contexto. Há, porém, a ob­ jeção, que não se nota na tradução, que ele e sua são representados no Grego por dois pronomes totalmente diferentes, autou e ekeinou respec­ tivamente. No Grego clássico estariam forçados, colocados tão perto um do outro como estão no texto grego, a referir-se a sujeitos diferentes. Das várias exegeses que têm sido propostas, bastará mencionar duas. A primeira (RV) entende que por ele se refere ao servo do Senhor no v. 24 supra, e sua a Deus mencionado no v. 25. Paulo estaria dizendo, en­ tão, com efeito, que os desviados restaurados trocam os laços do diabo pelo cativeiro às mãos do seu pastor ou superintendente, achando-se, assim, trazidos de volta à obediência a Deus. É excelente no que diz res­ peito ao sentido, mas é extremamente difícil gramaticalmente tendo em vista o mau jeito de referir por ele a um antecedente tão distante quanto o servo do Senhor, especialmente depois de dois outros sujeitos terem sido mencionados. Além disto, a despeito dos paralelos alegados (e.g. 2 Co 10:5), ser presos vivos pelo superintendente não parece ser uma descrição natural da reconversão que está em mira. A segunda proposta (RVm, RSVm) é que, embora por ele se re­ fira ao diabo, como de fato a posição da palavra toma praticamente certo, a sua vontade tem relacionamento com Deus, e a cláusula inteira deve ser traduzida . . e devem recobrar seus sentidos do meio dos laços do diabo (tendo sido feitos cativos por ele), voltando, assim, à sujeição à vontade de Deus.” Mais uma vez, a tradução dá um sentido excelente, mas é intolerável quanto ao estilo, por causa do espaço de várias palavras, inclusive uma frase participial, entre o verbo principal “voltar à sensatez” e “à sujeição da Sua vontade,” que deve ser inter­ pretado juntamente com ele. Destarte, no balanço geral, a tradução de ARA, a despeito das suas dificuldades, está sujeita ao número menor de objeções. Sua aceitação fica sendo mais fácil se levarmos em conta que a distinção, originalmente nítida, entre autos (“ele”) e ekeinos (“aque­ le”) já tinha sido desfeita no koinè. Um paralelo quase exato, com os dois pronomes diferentes referindo-se numa só frase curta ao mesmíssi­ mo sujeito, pode ser achado em Sab. 1:16. DESGRAÇAS DOS ÚLTIMOS DIAS. 3:1-9 1. Como em 1 Tm 4:1 ss (ver as notas ali), Paulo agora relembra a Timóteo (Sabe, porém, isto) acerca da convicção cristã primitiva de que o período que antecederia a volta de Cristo seria de crise agonizante, 177


II TIMÓTEO 3:2 envolvendo um colapso de padrões morais. Visto que está fazendo uso de matéria profética corrente na igreja, naturalmente emprega o tempo do futuro, mas logo toma-se aparente que sua atenção está fixa no pre­ sente, quando aquelas predições estão sendo por demais exatamente cumpridas. Sua lição é que Timóteo, longe de ficar desanimado, deve ficar de sobreaviso, e, em certo sentido, até mesmo estimulado, pelas evidências ao seu redor da má conduta e da fé religiosa insatisfatória, que o Apóstolo classifica juntas, visto que todas fazem parte do padrão dos eventos que foi profetizado. Para a expressão Nos últimos dias, cf. At 2:17; Tg 5:3; 2 Pe. 3:3; Jd 18. Não é achada nas Paulinas reconhecidas (mas cf. 1 Tm 4:1: “nos últimos tempos”), denota o período pouco antes da Parusia e do fim da era presente. A igreja apostólica acreditava que o próprio Cristo predis­ sera que estes eventos seriam introduzidos por uma crise do mal, inclu­ sive a emergência, de impostores religiosos e uma apostasia geral (Mt 24; Mc 13; Lc 21), e a apocalíptica judaica previu um colapso total da mora­ lidade diante da vinda do Messias. Paulo, portanto, pode aceitar como verdade estabelecida (cf. 2 Ts 2:3-12) de que sobrevirão tempos difí­ ceis, i.é, penosos e perigosos para os servos verdadeiros de Deus, e a situa­ ção deplorável em Éfeso parece fornecer confirmação empírica do fato. A fim de descrever o colapso moral dos últimos dias Paulo introduz (w. 2-5) um catálogo de vícios do tipo que ocorre freqüentemente nas suas cartas reconhecidas: ver sobre 1 Tm 1:9. Esta lista específica tem uma semelhança notável, no conteúdo bem como na construção retóri­ ca e o uso de assonância, àquela em Rm 1:29-31, mas também há di­ ferenças que tomam implausível a hipótese de empréstimo direto. O fato de que os paralelos mais notáveis de estilo e de vocabulário achamse em Filo (ver C. Spicq, págs. 381-2) sugere que a origem documentá­ ria ulterior da matéria incluída na lista é ensino tradicional judaico ao invés de ser a diátribe helenística. 2. Paulo começa com uma declaração generalizante de que os homens serão vis de várias maneiras. Não está pensando primeiramente de grupos específicos, mas, sim, está. dando expressão aos prenúncios apocalípticos de um repúdio, geral à lei, à decência, ç à afeição natural. Os epítetos que se seguem parecem estar agrupados em pares, sendo que em vários casos são ligados por assonância. Destarte, os adjetivos egoístas e avarentos (lit. “amantes de si mesmos” e “amantes do dinhei­ ro”) têm, igualmente, o prefixo phil- em Grego. Pode ser notado que o catálogo é encerrado com um par construído de modo semelhante: amigos dos prazeres e amigos de Deus. Estes pares fornecem a chave 178


II TIMÓTEO 3:3-5 dos demais, visto que a corrupção moral completa tende a ser o resul­ tado quando os homens abandonam a Deus para ficarem ocupados com o próprio-eu e a satisfação material. Para o conceito do dinheiro como uma causa radical do mal, cf. 1 Tm 6:10. O segundo par, jactanciosos, arrogantes, expressam aspectos dife­ rentes, porém correlatos, do orgulho que brota do egocentrismo. Jactan­ ciosos tem a ver com palavras, gestos, e o comportamento externo, e arrogantes, com sentimentos interiores. Os dois adjetivos aparecem jun­ tos em Rm 1:30. O terceiro par, blasfemadores, desobedientes aos pais, abrangem conduta desnaturada com relação a outras pessoas e à própria família, respectivamente. O último destes vícios figura também em Rm 1:30. 3,4. Os dois membros do quarto par, ingratos, irreverentes, têm o prefixo adversativo a - no original, assim como têm desafeiçoados, im­ placáveis. O adjetivo desafeiçoado (Gr. astorgos) conota a falta de toda a afeição natural; é achado somente aqui e em Rm 1:31 no N.T. A pala­ vra grega traduzida implacável (aspondos) deriva de spondè (= “trégua”), e assim denota um homem que não consegue entender-se com outras pessoas. Os epítetos seguintes, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, ini­ migos do bem, pintam um quadro terrível dos homens que, embora te­ nham se afundado até ao nível dos instintos animais, permanecem sufici­ entemente humanos para reconhecerem a verdade e a bondade e para se­ rem animados pelo ódio para com elas. As duas últimas expressões têm o prefixo adversativo em Grego, e assim formam um par, Assim aconte­ ce também com traidores, atrevidos, sendo que as duas palavras têm o mesmo prefixo grego, pro-. É possível que traidores dê um indício da disposição dos sectários para trair seus irmãos, e até mesmo dar informa­ ções contra eles; mas não ficamos sabendo noutros lugares de proble­ mas entre a igreja e a autoridade civil, e não é necessário que cada item no catálogo, que em grande parte é convencional, deva ter uma referên­ cia exata. O homem que é atrevido não se detém diante de nada para obter seus propósitos. 5. Com enfatuados (ver a nota sobre 1 Tm 3:6; 6:4), antes ami­ gos dos prazeres que amigos de Deus, a lista talvez pareça completa, mas o Apóstolo interpõe, como clímax, a cláusula pungente: tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. É claro que agora deixou as generalizações do catálogo convencional, e que está fixando sua atenção na conduta e atitude reais dos mestres do erro em Éfeso. Sua acusação contra eles é mais do que uma de simples hipocrisia. Fazem uma grande 179


II TIMÓTEO 3:6-7 demonstração do cristianismo, e estão ativos em pregar e praticar aquilo que, segundo o conceito deles, é a fé verdadeira. Mas ao passo que o evangelho autêntico é uma força regeneradora, a qualidade desregrada da vida deles comprova que, para todos os fins práticos, o rejeitaram. Para uma acusação semelhante, cf. Tt 1:16. A palavra aqui traduzida forma (extra) (Gr. morphõsis) é usada por Paulo em Rm 2:20 (talvez a esteja tirando emprestada de um contexto rabínico) com o sentido algo diferente de “incorporação visível.” Não admira que Timóteo é admoestado: Foge também destes. O âmbito da predição apocalíptica agora é completamente abandona­ do, e Paulo não oculta o fato de que está falando dos sectários. O verbo (Gr. apotrepesthai) é enfático, e subentende que Timóteo deve evitá-los com horror. A referência não diz respeito tanto aos seus relacionamen­ tos pessoais com eles (já foi instruído, em 2:24-25, que deve ser bondo­ so com todos) quanto à sua atitude oficial. 6,7. Pessoas como estas, Paulo continua, são as que penetram sor­ rateiramente nas casas e conseguem cativar mulherinhas. Apesar da sua ironia mordaz, está desenhando um quadro vivo das táticas da propagan­ da religiosa. Visto que as mulheres na antigüidade eram, de modo geral, confinadas ao lar, foi por métodos semelhantes a estes que o cristianis­ mo ortodoxo conseguiu uma base segura na sociedade pagã no mundo greco-romano; foi, no entanto, infeliz o fato de que pudessem ser explo­ rados com sucesso pelo menos igual pelas formas falsificadas do cristia­ nismo. A menção de mulherinhas (“mulheres tontas”) (Gr. gunaikaria: um diminutivo de desprezo) também é um toque vívido. Paulo tem, sem dúvida, casos concretos em mente, e isto explica seu tom de desprezo; mas o fato permanece que as mulheres, com sua abordagem mais intuiti­ va e receptiva, são especialmente suscetíveis, em todas as eras, ao prose­ litismo, seja mau, seja bom. Com verdadeiro entendimento psicológico, Paulo observa que es­ tas criaturas sem valor, conforme ele as representa, caem como vítimas fáceis às manhas dos falsos mestres enquanto estão sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias paixões. Embora seu objeto imediato seja fustigar as falhas de indivíduos específicos, é um truísmo que ás mulhe­ res, e, naturalmente, os homens também, estão mais prontas a abraçar o evangelho na sua forma autêntica, mas também, lastimavelmente, na sua forma pervertida, quando têm mais consciência da sordidez e futilidade das suas vidas. As mulheres em epígrafe, no entanto, padecem, além da instabilidade que freqüentemente acompanha o diletantismo religio­ so. Conforme Paulo alega, aprendem sempre, i.é, com curiosidade ávi­ 180


II TIMÓTEO 3:8-9 da e talvez mórbida acerca da religião, e dispostas a enamorar-se de qual­ quer teoria nova que lhes é proposta, mas, visto que lhes falta um pro­ pósito sério e estão sendo simplesmente atraídas pela novidade por si só, revelam que jamais podem chegar ao conhecimento da verdade (para es­ ta última frase, cf. 2:25, e ver a nota sobre 1 Tm 2:4). 8. Com a menção da verdade, que no uso dele representa o evan­ gelho autêntico, Paulo volta aos falsos mestres, declarando que eles, na realidade, resistem à verdade, e o fazem exatamente do modo por que Janes e Jambres resistiram a Moisés. Estas personagens eram dois dos mágicos de Faraó que procuravam demonstrar que eram tão eficazes como Moisés quanto à operação de milagres (Êx 7:11; 9:11). Seus no­ mes não ocorrem no A.T., nem são mencionados por Filo ou Josefo, mas há referências a eles nos documentos de Cunrã bem como na litera­ tura judaica e pagã posteriores, e na literatura cristã primitiva. A lenda acerca de Moisés passou por grandes elaborações no judaísmo posterior, e seus detalhes eram evidentemente largamente conhecidos nos círculos cristãos do século I (e.g. At 7:22-23, 53; 1 Co 10:2; G1 3:19; Hb 2:2; Jd 9), Destarte, a comparação feita poT Paulo entre os hereges de Éfeso e os dois mágicos mal-fadados provavelmente era uma flecha eficaz. Além disto, é coerente com o tratamento tipológico do A.T. que ele compar­ tilhava com outros cristãos do século I, segundo o qual as experiências de Israel no Egito e no deserto eram um tipo de antecipação divinamen­ te ordenada daquelas da igreja. É possível, mas provavelmente enganoso, detectar por detrás da comparação de Paulo uma insinuação de que os sectários eram culpados de práticas mágicas. A soma da condição deles, acrescenta como final, é que São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé (“cuja fé não passou o teste”). Para a primeira metade desta descri­ ção, cf. 1 Tm 6:5. Na segunda metade, fé tem o artigo definido, e, por­ tanto, provavelmente conota, como tão freqüentemente nestas cartas (ver sobre 1 Tm 3: 9), o conteúdo da crença. 9. A diátribe pessimista de Paulo termina numa nota mais con­ fiante. Os falsos mestres, ele sente certeza, não irão avante (para o verbo, Gr. prokoptein = “fazer progresso,” cf. 2:16 supra). As tentativas deles de se imporem sobre as pessoas talvez tenham sido bem-sucedidas por enquanto, mas uma parada logo será ordenada a eles. Alternativamen­ te, poderemos desconsiderar a força comparativa das palavras traduzidas avante ou “mais longe” (Gr. epi pleion) e traduzir “não irão longe;” mas das duas versões possíveis, “mais longe” parece mais aplicável. O desfecho virá quando sua insensatez, i.é, a falsidade, e, realmente, a pu­ 181


II TIMÓTEO 3:10 ra estultícia das suas doutrinas (cf. corrompidos na mente no v. 8) será a todos evidente. O Apóstolo está convicto de que isto deve acontecer, visto que a daqueles, i.é, de Janes e Jambres, que foram prefigurações deles, foi desmascarada, com toda a sua impostura. O desmascaramento deles é mencionado de forma breve em Êx 7:12-13; 9:12, mas era pro­ vavelmente descrito com detalhes elaborados na lenda de Moisés. UMA EXORTAÇÃO À PERSEVERANÇA. 3:10-17 O Apóstolo, depois de pintar o quadro sombrio dos últimos dias, e dos cristãos desmoralizados cujo caráter e conduta fornecem uma indi­ cação prévia daqueles tempos, volta-se com alívio para Timóteo, confian­ te de que ele, pelo menos, ao modelar-se segundo seu mestre, deitou um alicerce seguro para seu ministério. Mesmo assim, a ansiedade que a na­ tureza temerosa e irresoluta do seu representante inspira nela ressalta-se na sua repetida exortação a ele no sentido de firmar-se na fé tradicional e, acima de tudo, de fazer da Escritura sua âncora de salvação. 10. Tu, porém, observa, deliberadamente contrastando' Timóteo com os ensinadores de doutrinas estranhas, tens seguido de perto o meu ensino, procedimento, propósito, fé, longanimidade, amor, perseveran­ ça. . . O verbo usado (Gr. parakalouthein) literalmente significa “seguir” no sentido de acompanhar, mas embora Timóteo tenha sido o compa­ nheiro constante de Paulo, este significado está em segundo plano aqui. É, também, um termo técnico que define o relacionamento entre um dis­ cípulo e seu mestre, e pode ser parafraseado “estudar bem de perto,” “seguir em espírito,” “notar cuidadosamente a fim de reproduzir,” e as­ sim “tomar por exemplo.” Este é o sentido que é apropriado ao presen­ te contexto, pois desde a sua conversão Timóteo tem sido o associado íntimo ao Apóstolo, e como tal deve ter assimilado, e aprendido a usar como modelo para si mesmo, seu ensino e procedimento (“modo de vi­ da”). Havia muito tempo, Paulo escrevera aos coríntios (1 Co 4:17) que estava enviando “Timóteo. . . o qual vos lembrará os meus cami­ nhos em Cristo Jesus, como por toda parte ensino em cada igreja.” Da mesma maneira, deve ter chegado a apreciar seu propósito, i.é, o moti­ vo orientador da sua vida e obra (Gr. prothesis: usado por Paulo noutros lugares exclusivamente acerca de Deus), e fé, ou convicção (cf. 2:22). As qualidades selecionadas até agora são aquelas imediatamente relevantes à antítese que Paulo está fazendo entre Timóteo e os falsos mestres. Mas por uma transição natural, ainda que não seja muito lógi­ 182


II TIMÓTEO 3:11-12 ca, é levado a continuar, mencionando outras que ele mesmo tinha sido conclamado a demonstrar e as quais, segundo sabe, serão necessárias a Ti­ móteo como um líder cristão. Seu discípulo tinha sido testemunha em primeira mão da longanimidade, amor e perseverança do seu mestre, e agora deve derivar deles inspiração para sua própria luta. 11. Estes naturalmente sugerem à sua mente suas perseguições e sofrimentos, e, na realidade, todas as coisas que lhe aconteceram em Antioquia, Icônio e Listra. Na sua primeira viagem missionária tinha sido ex­ pulso sem cerimônia da Antioquia da Pisídia (At 13:50), em Icônio es­ capara por pouco de ser atacado e apedrejado (At 14:5-6), e em Listra tinha sido apedrejado e arrastado para fora da cidade, tido por morto (At 14:19). Alguns comentaristas acham estranho que Paulo tivesse se­ lecionado estes exemplos mais antigos de maus tratos, que lhe acontece­ ram de qualquer maneira antes de ele ter conhecido Timóteo, ao invés das adversidades que devem ter sofrido juntos em várias ocasiões. A di­ ficuldade desaparece, argumentam, se supusermos que um autor pseudonímico tomou emprestado de modo não crítico estas ilustrações de Atos sem se preocupar com sua incongruência cronológica. Contra isto pode ser insistido que é precisamente uma incongrência aparente deste tipo que semelhante escritor, especialmente se perten­ cia a um círculo que admirava Paulo e que conhecia a história da sua vi­ da, teria tomado o cuidado de evitar. Certamente havia disponíveis exemplos mais óbvios (cf., e.g., At 16-17), e teríamos esperado que ele os escolhesse. Do outro lado, se o próprio Apóstolo é o autor, é fácil con­ jecturar razões pessoais especiais para sua preferência em mencionar estes incidentes específicos. Seu motivo, por exemplo, muito bem pode ter si­ do concentrar-se em sofrimentos que ocorreram pouco antes da conver­ são de Timóteo, os quais, segundo sabia, tinham deixado uma impressão indelével na imaginação do jovem. O verbo tens seguido de perto, con­ forme foi indicado supra, não subentende necessariamente que Timóteo tinha estado pessoalmente presente nos incidentes. 12. A exclamação que se segue - De todas, entretanto, me livrou o Senhor - expressa a gratidão espontânea de Paulo enquanto relem­ bra sua carreira; também visa ser um encorajamento a Timóteo, que po­ de confiar que receberá ajuda semelhante. As próprias palavras ecoam LXX SI 33:18 (“O Senhor. . . livrou-os de todas as suas aflições”). A cer­ teza que contêm é tanto mais apropriada porque, conforme Paulo agora impressiona sobre Timóteo, a perseguição tal como ele teve de suportar é o destino de todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus. O próprio Jesus tinha ensinado Seus seguidores a esperar que teriam de 183


II TIMÓTEO 3:12-15 carregar a cruz, e a experiência que Paulo tivera durante toda a sua vida (cf. e.g. 2 Co 11:23-29) convenceu-o que este era um ingrediente inescapável da vocação cristã (cf. esp. 1 Ts 3:4). A comunhão com Cristo no sofrimento realmente é parte integrante da união mística do cristão com Ele. A fórmula em Cristo Jesus, portanto, leva a implicação paulina normal de incorporação em Cristo (ver a nota sobre 1:2; tâmbém 1 Tm 1:14), e é arbitrário dar-lhe um sentido diluído. Para a “vida em Cristo Jesus,” cf. Rm 6:11,23. 13. Há, é lógico, outros, continua o Apóstolo com amarga ironia característica, cujo destino será diferente; estes são os homens perversos e impostores. Voltou ao seu ataque contra os sectários, e os termos se­ gundo os quais os descreve (impostores = Gr. goêtes: lit. “mágicos”) vi­ sam ligá-los com Janes e Jambres (cf. 8-9). Outra vez, como no v. 8, há concebivelmente uma alusão á prática superficial nas artes mágicas, da parte deles. Paulo declara que “avançarão” (para o verbo, Gr. prokoptein, cf. 2:16; 3:9), e esperamos que completará a cláusula com alguma referência ao “progresso” que farão. Ao invés disto, inverte o conceito e ataca com a expressão irônica de mal a pior. Apesar de toda a sua aparência de liberdade do desconforto e das aflições, a sorte deles realmente será lastimável, visto que estão, ao mesmo tempo, enganan­ do e sendo enganados (um refrão proverbial). 14. Paulo agora receita o remédio soberano contra serem enga­ nados por tais charlatães, viz, a adesão leal à mensagem do evangelho em contraste com as novidades imaginativas (cf. 2:16) que vão merca­ dejando. Tu, porém, diz ele, contrastando Timóteo com os enganado­ res especiosos que acaba de mencionar, permanece naquilo que apren­ deste, e de que foste inteirado. Sua confiança nestas verdades devia ter uma base dupla. Primeiramente, sabe de quem (o pronome está no plu­ ral no Grego) o aprendeste. Estas verdades da tradição cristã foram transmitidas a ele, não por aventureiros individualistas sagazes, para os quais ninguém pode ser fiador a não ser eles mesmos, mas, sim, por sua mãe e avó (cf. 1:5), o próprio Apóstolo, e outras testemunhas de fídedignidade comprovada; e deu seu assentimento firme a elas. 15. O segundo motivo para sua confiança deve ser a sólida base que rêCebèu na Escritura; desde a infância, conforme muito bem sabe, tem tido familiaridade com as sagradas letras. Esperava-se dos pais judeus que ensinassem aos seus filhos a Lei desde a idade de cinco anos. A expressão as sagradas letras (Gr. hiera grammatà) é achada somente aqui na Bíblia, onde o substantivo que denota a Escritura é normalmente graphè (singular ou plural). Os comentaristas têm feito esforços desne­ 184


II TIMÓTEO 3:16 cessários para excogitar as razões para sua escolha na presente passagem, e a teoria menos plausível é que o plural abrange especificamente os escritos cristãos, inclusive as cartas do próprio Paulo, bem como o A.T. Aqueles que adotam este ponto de vista acreditam que o escritor perten­ cia à segunda quarta parte do século II, e que, portanto, deve-se esperar uma referência à literatura cristã autorizada. Mesmo com esta pressupo­ sição, no entanto, (a) nada há na frase que dê a mínima sugestão dos escritos cristãos, e (b) é incrível, que o escritor, que, segundo se supõe, está fazendo o melhor que pode para representar o Apóstolo lembrando Timóteo da educação que recebeu na sua juventude, caísse num anacro­ nismo tão desajeitado. Realmente, por sagradas letras Paulo quer dizer, é lógico, o A.T.; há evidência abundante de que esta era uma designação clássica para ele no judaísmo de fala grega (cf. Filo e Josefo). A ausência do artigo defini­ do no Grego confirma que é usado de modo técnico. Seu uso da frase, no lugar da palavra mais usual graphê, está de acordo com sua predile­ ção (ou a do seu amanuense) nestas cartas por uma linguagem idiomáti­ ca mais rabínica. O A.T. era a única Escritura canônica para os cristãos bem como para os judeus na era apostólica, e por várias gerações depois. Irineu (c. de 180) foi o primeiro escritor a falar inequivocamente de um “Novo Testamento”; mas em data tão recuada quanto 2 Pe 3:15-16, as cartas de Paulo estavam sendo classificadas com “as demais Escrituras,” ao passo que para Inácio (c. de 110) “o evangelho” era uma autoridade equivalente a “os profetas” (e.g. Smym. v .l; vii. 2). A razão porque os livros do A.T. são tão preciosos é porque po­ dem tomar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Noutras pa­ lavras, transmitem, não simples fatos nem mesmo história sagrada, mas, sim, uma revelação do propósito salvífico de Deus. A “sabedoria” refe­ rida ( o Grego tem o verbo: tomar-te sábio) é o profundo entendimen­ to ou domínio que o crente normalmente possui, e é contrastada com a insensatez dos mestres do erro, estigmatizada no v. 9. E esta apreen­ são vem pela fé em Cristo Jesus. A chave à Escritura é Cristo, e esta na­ da pode dizer aos homens até que O tenham recebido como Salvador e Senhor. Este, no cômputo geral, é o sentido mais provável das pala­ vras finais, embora muitos prefiram entendê-las mais estreitamente com salvação. Segundo este ponto de vista, Paulo está enfatizando que a salvação sobre a qual o A.T. instrui os homens somente pode ser obti­ da mediante uma fé viva em Cristo. 16. Paulo desenvolve sua doutrina do valor do A.T. numa frase que os comentaristas têm achado ambígua e frustradora. Toda Escritu­ 185


II TIMÓTEO 3:16 ra, declara ele, é inspirada por Deus e útil. . . Não precisa haver hesita­ ção acerca do substantivo (Gr. graphê), pelo menos no que diz respeito à sua referência geral. Embora literalmente signifique “escrito” ou “li­ vro” e possa concebivelmente abranger escritos ou livros em geral, tan­ to o contexto quanto o uso no N.T. requerem que tenha o sentido mais restrito de Escritura, i.é, o A.T. Muito mais difícil é a expressão total (Gr. pasa graphê), traduzida aqui Toda Escritura. No singular, graphê pode denotar (a) um livro da Escritura, (b) a Escritura na sua totalidade (e.g. G1 3:8, 22; Rm 11:1; cf. também 1 Tm 5:18), ou (c) uma passa­ gem específica da Escritura (e.g. Mc 12:10; Jo 19:37; 20:9; At 8:35). O primeiro uso, freqüente no judaísmo helenístico, falta inteiramente no N.T., e provavelmente estamos justificados em exclui-lo aqui. Muitos preferem o segundo, e traduzem Toda Escritura, e a favor disto há o fato de que o Apóstolo está claramente pensando do A.T. na sua inteireza. Do outro lado, não há artigo definido no Grego aqui, e onde pas (= “to­ do” ou “cada”) é empregado com um substantivo no singular sem o ar­ tigo, usualmente significa “cada” ao invés de “totalidade” ou “todo.” O problema é complicado pelo fato de que não podemos ter certeza quão rigorosamente este dogma foi observado no koiné no século I, mas o equi­ líbrio do argumento parece favorecer Toda Escritura. Tendo falado de modo geral das sagradas letras, Paulo talvez agora esteja ansioso para en­ fatizar a importância delas em todas as passágens individuais que perfa­ zem a totalidade. Tem havido, também, muita discussão acerca da construção da frase, pois não há verbo que corresponde a é no original. Visto que a partícula traduzida e tem o significado alternativo de “também,” inspi­ rada por Deus pode ser interpretado ou como predicado conforme supra, ou como um adjetivo qualificador (“Toda Escritura inspirada, é também útil. . .”). Os comentaristas que favorecem esta última interpretação argumentam que uma afirmação direta da inspiração da Escritura está fora de lugar aqui, visto que Timóteo presumivelmente nunca a duvida­ ra e o objetivo de Paulo é ressaltar a utilidade do A.T. Mesmo assim, uma lembrança da sua origem divina é perfeitamente apropriada numa passagem que visa impressionar sobre seu discípulo o valor dela, tanto como a autenticação da mensagem cristã quanto como um instrumento pastoral. Uma decisão não é fácil, mas como apoio para a versão adota­ da pode ser argumentado que (a) parece natural, na ausência de um verbo, analisar os dois adjetivos da mesma maneira; (b) que a construção da frase é exatamente paralela com a de 1 Tm 4:4, onde os dois adjetivos são predicativos; (c) que se inspirada por Deus fossse atributivo, dever/a186


II TIMÓTEO 3:17 mos, nas circunstâncias, esperar que fosse colocado antes de Escritura, e, além do mais, “também” não teria razão de ser; e (d) que “Toda Es­ critura inspirada” parece conter uma insinuação qüe certas passagens da Escritura não são inspiradas. O adjetivo traduzido inspirada por Deus (Gr. theopneutos) não ocorre em qualquer outra parte da Bíblia Grega, mas é achado quatro vezes na literatura grega pré-cristã e nos Oráculos Sibilinos. Significa literalmente “soprado para dentro por Deus,” e expressa com exatidão o conceito da inspiração do A.T. que prevalecia entre os judeus do sécu­ lo I (cf. Josefo, C. Ap.' i. 37 ss.; Filo, Spec. leg. i. 65; iv. 49; Quis rer, div. 263 ss.). Á igreja o adotou na sua inteireza, conforme vemos na declara­ ção em 2 Pe 1:21 de que, na profecia, “homens santos falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo,” Porque o próprio Deus fala através dele, o A.T. é pastoralmente útil para o ensino, i.é, como fonte positiva de doutrina cristã (cf. o hábi­ to de Paulo de constantemente reforçar sua mensagem com citações bí­ blicas); para a repreensão, i.é para refutar o erro e para repreender o pe­ cado; para a correção, i.é, para convencer os mal-orientados dos seus erros e de colocá-los no caminho certo outra vez; e para a educação na justiça, i.é, para a educação construtiva na vida cristã. A palavra traduzi­ da justiça (Gr. dikaiosunê) também significa “retidão;” para este senti­ do, cf. 2:22; 1 Tm 6:11 - também Rm 14:17; 2 Co 6:14; 11:15. 17. Se a Escritura é usada de todas estas maneiras, preenche uma função específica, fazendo com que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. A cláusula é introduzida por a fim de que (Gr. hina), que no Grego clássico normalmente expres­ sa propósito, mas que no koinê freqüentemente era usado para denotar resultado. O último sentido parece preferível aqui. A frase homem de Deus poderia designar os cristãos em geral, mas o contexto e o uso deli­ berado do singular confirmam que, como em 1 Tm 6:11 (ver a nota ali), Paulo está pensando especificamente do líder cristão. Com a ajuda de um treinamento sadio na Escritura toma-se perfeitamente adaptado à sua tarefa, e pode enfrentar de modo firme as suas responsabilidades. As palavras finais repetem a ênfase dada às obras caridosas que é um aspecto tão destacado destas cartas: ver nota sobre 1 Tm 2:10; cf. tam­ bém 1 Tm 5:10;2 Tm2:21; T t3:1; etc.

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II TIMÓTEO 4:1-2

UM APELO FINAL NO SENTIDO DE PREGAR O EVANGELHO 4:1-8 À medida em que sua carta chega ao fim, Paulo reitera com serie­ dade solene o apelo que tem sido o tema principal dela do começo ao fim (cf. 1:6, 8, 13; 2:1-3, 8, 14; 3:14). Uma nota elevada lhe é trans­ mitida pela sua consciência de que seu próprio martírio não pode demo­ rar muito e que, depois da partida dele, Timóteo terá de firmar-se sobre seus próprios pés e arcar com as responsabilidades sozinho, como suces­ sor de Paulo. 1. Como em 1 Tm 5:21, faz do seu apelo uma petição: Conju­ ro-te, esta vez chamando como testemunhas Deus e Cristo Jesus que há de julgar vivos e mortos. A referência ao julgamento é especialmente apropriada, pois é Cristo quem, na Sua segunda vinda, julgará até que ponto Timóteo, e todo outro ministro do evangelho, tem desempenha­ do suas obrigações momentosas. A fórmula binitariana, como a de 1 Tm 6:13, tem um som litúrgico, e é provavelmente tirada de um credo batis­ mal primitivo. Ecos de matéria dos credos são freqüentes nos escritos de Paulo, e ‘juiz dos vivos e dos mortos” tomou-se estereotipado já em da­ ta recuada (At 10:42; 1 Pe 4:5). Paulo então varia a construção da sua frase, apelando a Timóteo pela, i.é, em nome da, manifestação de Cristo e pelo seu reino, artigos da fé e esperança cristãs que devem fortalecer sua resolução. Ao passo que em 1:10 “manifestação” (aparecimento, Gr epiphaneia) referia-se ao pri­ meiro aparecimento de Cristo na terra na encarnação, aqui, como no v. 8 abaixo, 1 Tm 6:14, (ver a nota ali), e Tt 2: 13, denota Sua volta futura em glória. Seu reino é naturalmente vinculado com ela, pois é após o jul­ gamento que consumará Seu reino para os eleitos (ver nota sobre 18 abaixo). 2. O versículo seguinte, com sua insistência: prega a palavra (cf. G1 6:6; Cl 4:3), resume aquilo que o Apóstolo acredita ser o dever prá­ tico urgente de Timóteo na presente situação crítica. Deve instar, quer seja oportuno, que não. O verbo (Gr. ephistanai) pode ter o significado militar de “ser postado,” “ficar o seu posto,” mas não há sugestão disto no contexto; seu sentido mais usual, “estar de prontidão,” “estar dispo-

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U TIMÓTEO 4:3-4 nível,” “estar na sua tarefa” (aqui com referência à liderança da igreja), ressalta exatamente o que Paulo quer dizer. Os dois advérbios formam uma aliteração proverbial (Gr. eukairõs, akairõs), e podem ser parafra­ seados: “Quer o momento pareça oportuno, quer não.” Embora, naturalmente, semelhante análise tenha estado longe da mente de Paulo, os três imperativos que se seguem têm sido tomados como ilustração do apelo tríplice do pregador à razão, à consciência, e da vontade. Timóteo deve corrigir o erro por argumentos arrozoados; e não deve hesitar em repreender quando a censura se toma necessária. Mais positivamente, deve exortar (que é uma tradução mais apropriada do que “encorajar,” que alguns preferem), i.é, conclamar seu rebanho ao arrependimento e à perseverança. Em todos estes papéis, no entanto, deve aplicar “todo tipo de longanimidade e ensino” (lit. com toda a lon­ ganimidade e doutrina). Seja qual a abordagem que esteja empregando (as palavras qualificam todos os três imperativos anteriores), nunca per­ derá a paciência com as pessoas (cf. 2:25; 3:10; 1 Tm 1:16), e sempre deve mostrar-se um ensinador sadio da verdade cristã, cheio de recursos. 3,4. O ensino destemido como este é tanto mais urgentemente necessário porque haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina. Como noutros lugares nas Pastorais (1 Tm 1:10 —ver a nota ali; 6:3; 2 Tm 1:13; Tt 1:9, 13; 2:8), a mensagem do evangelho, em contras­ te com outras doutrinas, e especificamente as dos mestres do erro, é descrita como sendo “sadia” ou “sã.” Não há necessidade de supor que um escritor posterior esteja retratando a crise dos seus próprios dias mediante o artifício transparente de colocar uma profecia na boca do Paulo histórico. Os homens e as mulheres já estão achando, confor­ me o Apóstolo não pode deixar de observar com dor, o evangelho desa­ gradável ao paladar, e ele, com seu senso vívido das crescentes tribula­ ções dos “últimos dias” pode facilmente prever que este é apenas um an­ tegosto de coisas ainda piores que se seguirão. Por exemplo, ao invés de ficarem satisfeitas com um único líder, como Paulo ou Timóteo, que prega o evangelho de modo honesto, quer as pessoas gostem, quer não, elas cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, i.é, que lhes contarão ou coisas que desejam ou­ vir, ou coisas que pretendem excitar sua imaginação ou aguçar sua curio­ sidade religiosa, independentemente, nos dois casos, da veracidade do que dizem. São as vítimas, acrescenta Paulo com um raiar de introspec­ ção na psicologia religiosa mórbida, de sentir coceira nos ouvidos. Tal se­ rá seu apetite por aquilo que é sensacional que se recusarão a dar ouvi­ dos (lit. “seu ouvir,” o mesmo substantivo que na cláusula participial an189


II TIMÓTEO 4:5-6 terior) à verdade (“desviarão seus ouvidos da verdade”), e, pelo contrá­ rio, acharão satisfação ms fábulas. Para estas, ver sobre 1 Tm 1:4; Pau­ lo está fazendo uma alusão sombria aos ensinos dos mestres do erro, e advertindo Timóteo que as enfermidades do futuro, com as quais terá de lidar, serão apenas uma intensificação dos sintomas presentes. 5. Os sectários, Paulo dá a entender (conforme já foi indicado, es­ tão muito presentes na sua mente, embora esteja olhando para o futuro quando Timóteo será o único encarregado), estão, com efeito, totalmen­ te estupefatos pelas suas especulações fantásticas, que tiveram sobre eles o efeito da bebida forte. Em contraste com eles (Tu, porém, é delibera­ damente enfático), Timóteo deve ser sóbrio em todas as coisas. O impe­ rativo usado (Gr. nêphe - “sê sóbrio”) dá a idéia, não que o ministro cristão deve ser calmo e imperturbável, nem sequer sempre alerta, mas, sim, que deve conservar-se longe do vinho forte, que sobe à cabeça, do ensino herético. Sua fidelidade talvez signifique que ele, como o próprio Paulo, deve suportar as aflições; se for assim, deve estar pronto para elas. Seu dever, afinal das contas, é fazer o trabalho de evangelista, i.é, pregar o evangelho que lhe foi confiado, em contraste com fábulas estranhas. Na igreja do século I, “evangelista” já se tomara um título de ofício (cf. At 21:8; Ef 4:11), que conota, conforme uns, um missionário, e con­ forme outros, um oficial que exercia a função de um apóstolo sem rece­ ber o título. Neste contexto, porém, a idéia de um ofício especial é bem inapropriada, e a palavra tem seu significado básico da pessoa que ensina e expõe o evangelho. 6. Enfim, deve cumprir cabalmente o seu ministério. A admoes­ tação tem urgência especial porque está para tomar-se o sucessor do Apóstolo. Este fato vem a lume no versículo seguinte, cujas primeiras pa­ lavras: Quanto a mim (Gr. Egõ gar), são extremamente enfáticas, € con: trabalançam Tu, porém (Gr. Su de) no v. 5. O próprio Paulo nada mais pode fazer, pois está sendo já oferecido por libação. Como em Fp 2: 17, quando, então, a possibilidade da morte se apresentava a ele, embo­ ra de fato esperasse sua soltura, emprega o verbo grego spendein (= “der­ ramar como libação”). Sua metáfora vívida provavelmente é tirada do costume litúrgico judaico de derramar, como o ritual preliminar da ofe­ renda diária no Templo e de certos outros sacrifícios, uma libação (ofer­ ta de bebida) de vinho ao pé do altar (Êx 29:40; Nm 28:7 —na LXX são empregados o mesmo verbo e o mesmo subs. correlato spondè). Paulo prevê que terá de morrer, e pensa na sua morte como um sacrifício; por detrás da sua linguagem há a crença judaica (cf. 4 Mac. 6:28-29; 190


II TIMÓTEO 4: 7 17:21-22) no valor da morte do mártir. Está consciente de que está morrendo no serviço de Deus, e que a ação sacrificial agora está come­ çando; seu sangue, que ainda não foi derramado, mas que dentro em bre­ ve o será, é, por assim dizer, uma libação oferecida a Deus. Há uma nota de orgulho e confiança na linguagem solene e quase hierática que emprega, e esta é continuada na cláusula seguinte, e o tem­ po da minha partida está perto (não, conforme muitos traduzem de forijia enganosa, é chegado). A metáfora altera-se, pois partida (Gr. analusis) evoca o quadro de um navio levantando âncora ou de um soldado ou viajante levantando acampamento. O verbo é usado no Grego poste­ rior como eufemismo para a morte, sendo que a sugestão é que o fale­ cido está indo para casa. Para o verbo cognato analusai, cf. Fp 1:23. O fato de que o mesmo par de metáforas é achado em contextos seme­ lhantes em dois capítulos consecutivos de Filipenses tem levado alguns críticos a inferir que estes últimos devem ser a “pedreira” da qual a pre­ sente passagem foi derivada. Nada há de realmente notável na coinci­ dência, no entanto, especialmente porque (a) “partir” era uma metáfo­ ra bastante comum para “morrer”, e (b) Paulo não teria probabilidade de abandonar a explêndida linguagem figurada acerca de ser derrama­ do como uma libação, uma vez que a tinha inventado. 7. Enquanto olha em retrospecto, o Apóstolo relembra com gra­ tidão: Combati o bom combate (“Lutei na competição nobre”). Como em 1 Tm 6:12 (ver anota ali), a figura não é da guerra, mas, sim, de uma competição atlética, provavelmente uma disputa de luta romana. Não há nenhuma nota de arrogância, como se tivesse se distinguido pes­ soalmente. É o jogo ou o esporte, viz, sua vocação e seu ministério apos­ tólicos, que é “nobre.” A ênfase recai sobre o verbo, que está no tem­ po perfeito: “Lutei na competição bem até ao fim.” A mesma lingua­ gem figurada atlética é continuada na cláusula seguinte: completei a car­ reira, embora o esporte seja outro. Finalmente, resume sua realização: “Fui leal ao que me foi confia­ do.” Estas palavras freqüentemente são traduzidas: Guardei a fé, i.é, o evangelho apostólico. Estas palavras se encaixam bem com a ênfase nes­ tas cartas dada à conservação da fé apostólica intata (cf. 1 Tm 6:20; 2 Tm 1:12, 14), e talvez sejam corretas. O presente contexto, no entan­ to, é geral mais do que particular, e uma referência a um só aspecto espe­ cífico do dever de Paulo (por mais importante que seja) como líder cris­ tão, se coloca de modo desajeitado entre cláusulas pesadamente carre­ gadas com metáforas. A fórmula empregada (Gr. tèn pistin têreiri) é uma expressão normal que significa “conservar a lealdade,” “ser leal ao jura­ 191


II TIMÓTEO 4:8 mento,” etc. Parece, portanto, preferível entender que Paulo está pro­ testando sua lealdade consistente, no decurso do seu ministério, ao seu mandado divino. Há, possivelmente, uma alusão passageira aos compro­ missos com os quais os atletas que competiam em jogos públicos se obri­ gavam a observar as regras (ver nota sobre 2:5). 8. Esta possibilidade é reforçada pela declaração confiante do Apóstolo: Já agora (lit. “do resto;” depois de três verbos no tempo per­ feito poderíamos parafrasear: “tudo quanto resta é receber minha recom­ pensa”) a coroa da justiça me está guardada. Sua mente ainda está reple­ ta da linguagem figurada do esporte, e a coroa relembra a cobiçada grinal­ da de lauréis do campeão atlético (cf. 1 Co 9:25). Paulo está assegura­ do que ela já está preparada para ele no céu. O verbo está guardada (Gr. apoiceitai), conforme comprovam numerosas inscrições, era um termo técnico empregado por soberanos orientais quando decretavam recom­ pensas por serviços leais. É mais difícil decidir exatamente o que a coroa da justiça conota. Na anlogia da “coroa da vida” em Tg 1:12 e Ap 2:10, alguns entendem que o genitivo é aposicional, e parafraseiam: “a coroa que consiste na justiça.” Se tiverem razão, Paulo está tratando a perfeita justiça como a bem-aventurança suprema dos que lutaram fielmente. Cf. G. 5:5, on­ de a justiça é considerada uma dádiva futura na qual se espera. Isto é possível, mas está aberto às objeções (a) de que o ensino normal de Pau­ lo é que o crente já está justificado, e (b) de que não é fácil ver como a justiça já pode estar preparada no céu. Há, portanto, mais evidência em prol da alternativa, mais geralmente aceita, de que a coroa da justiça re­ presenta a coroa, presumivelmente a vida eterna, que é a recompensa apropriada para uma vida de retidão. Para este sentido da justiça, ver a nota sobre 3:16. Paulo receberá sua coroa naquele dia, i.é, não ao completar sua grande carreira, quando sua vida é finalmente sacrificada, mas, sim, no dia glorioso da vinda de Cristo. E será entregue a ele pelo Senhor, reto juiz. A qualificação (cf. Rm 2:5-6) talvez expresse sua confiança na justiça do tribunal de Cristo, em contraste com aquela do seu julgamen­ to na corte do imperador, quando a verdadeira retidão das suas realiza­ ções será desconsiderada. Estes dois versículos, com sua nota de exaltada confiança, têm si­ do geralmente aclamados por revelarem o Paulo genuíno; nos casos em que a autoria paulina tem sido questionada, têm sido aceitos como sen­ do paulinos por aqueles que apóiam a “hipótese dos fragmentos.” Ou­ tros t��m duvidado se o próprio Apóstolo teria tratado exclusivamente 192


II TIMÓTEO 4:9 das suas próprias realizações, sem mencionar nem sua própria fraqueza nem a graça de Deus. Mas esta é uma crítica muito implicante, que não leva em conta a brevidade da passagem, nem as circunstâncias muito es­ peciais de Paulo. Na realidade, Paulo não está ocupado exclusivamente consigo mes­ mo, pois apressa-se a acrescentar que Cristo dará a coroa não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda. Paulo parece ser ansioso para evitar a impressão de que está reivindicando qualquer privi­ légio especial para ele mesmo. Seu objetivo principal é encorajar Timó­ teo com a lembrança de que qualquer pessoa que sinceramente anseia por (amar tem este significado aqui) a vinda de Cristo será elegível para 0 mesmo prêmio. Os cristãos são pessoas cuja pátria verdadeira está no céu, e cuja marca distintiva é que sempre estão antegozando a volta do Senhor em glória (Fp 3:20; cf. Tt 2:13, e a fórmula “Marana tha” em 1 Co 16:22). Para vinda (ou “manifestação,” Gr. epiphaneia) com o significado da Parusia de Cristo, ver v. 1, supra. PEDIDOS PESSOAIS E UMA ADVERTÊNCIA 4:9-18 9. A carta, excetuando-se algumas menções pessoais, virtual­ mente chegou ao fim. Paulo chega agora, numa seção que muitos da­ queles que questionam as cartas como um todo sentem-se forçados a re­ conhecer que foi composta de seções genuínas de Paulo (ver a Introdu­ ção, pág. 36), daquele que muito bem pode ter sido um dos seus moti­ vos principais ao escrever, viz. seu desejo ansioso para Timóteo lhe fazer uma visita no seu perigoso isolamento. Procura, pleiteia, vir ter comigo depressa. A linguagem sugere que a viagem já fora combinada em prin­ cípio; a ênfase recai sobre depressa, e a mesma insistência na rapidez se ressalta em antes do invemo em 21 abaixo. Alguns comentaristas acham este apêndice cheio de inconsistên­ cias com o restante da carta. Nele, segundo eles, Paulo tem dado um “adeus” elaborado, na previsão da sua execução iminente, e tem entre­ gue a ele a responsabilidade pela igreja de Éfeso na sua crise violenta. Aqui, vemo-lo incitando-o a deixar Éfeso, infestada com heresias, e fi­ car com ele. Embora até este ponto sua morte parecesse evidente, ago­ ra faz um pedido que, com todos os atrasos dos correios e das viagens, levará vários meses para cumprir. Este quadro, porém, desconsidera certos fatos e distorce a situação. Nas primeiras linhas da sua carta (1:4) 193


II TIMÓTEO 4:10 Paulo deu indícios das suas esperanças de ver Timóteo, e a descrição comum dela como sendo uma mensagem de despedida não é corrobo­ rada por seu conteúdo. Embora tenha os prenúncios mais sombrios do seu destino provável, seu julgamento formal (ver abaixo, págs. 198-200) ainda não foi realizado, e w. 6-8 não devem ser entendidos no sentido de que está esperando a sua execução imediatamente. Pode muito pos­ sivelmente ser adiada além dos três ou quatro meses necessários para a carta chegar a Timóteo e para este último chegar em Roma. Além dis­ to, as instruções do Apóstolo e Timóteo, embora sejam coloridas pela presente situação são endereçadas a ele pessoalmente e visam equipá-lo para um longo ministério. Nada há nelas para indicar que a crise em Éfeso era tal que exigisse sua presença ininterrupta ali. 10. O anseio de Paulo para ver Timóteo é aumentado pelo seu presente isolamento. Por exemplo, Demas. . . o abandonou. Sabemos que Demas (seu nome é grego, possivelmente uma forma abreviada de Demétrio) estava com o Apóstolo como “cooperador” durante sua pri­ meira prisão em Roma (Fm 24; Cl 4:14). O motivo da deserção dele não era, aparentemente, a apostasia no sentido rígido, mas, sim, por­ que amou o presente século. Trata-se, segundo supõe, de um desejo pela vida mansa e pelo conforto, juntamente com uma declinação de com­ partilhar das privações de Paulo. O contraste entre ele e os cristãos ver­ dadeiros mencionados no v. 8, cujos nomes não são dados, é ressaltado dramaticamente pelo emprego do mesmo verbo “amar” (Gr. agapãri) nos dois versículos, bem como pela antítese entre o presente século e a “manifestação” (vinda) gloriosa de Cristo. A presença do contraste toma provável, em contraste com algu­ mas versões da “hipótese dos fragmentos,” que quem escreveu este ver­ sículo também escreveu o parágrafo anterior. Outro pequeno indicador a favor da autenticidade é o fato de que Demas é apresentado numa luz diferente, mais desfavorável, do que em Filemom e Colossenses. Respon­ dendo, os críticos da autoria paulina argumentam que Demas deve ter-se tornado um apóstata depois da morte do Apóstolo, e o autor pseudonímico aqui está atualizando seu caráter, por assim dizer. Tal idéia parece ser muito implausível, visto que (a) a presente notícia não fala dà aposta­ sia de Demas, mas, sim, apenas da decepção de Paulo com ele numa jun­ tura específica, e (b) se fosse um caso de um lapso verídico da parte dele após a morte de Paulo, a data e as circunstâncias eram provavelmente conhecimento comum nos icírculos paulinos, e um imitador teria cau­ sado perigo desnecessário à verossimilhança da sua carta ao citar o acon­ tecimento antes da data real. 194


II TIMÓTEO 4:11 Demas se foi para Tessalônica: somente podemos fazer conjectu­ ras quanto ao seu objetivo, mas possivelmente era para levar a efeito tra­ balhos cristãos numa região onde se poderia esperar uma recepção mais amistosa. De modo semelhante, Crescente foi para a Galácia, Tito para a Dalmácia. Nada sabemos do primeiro, senão que uma tradição poste­ rior faz dele um dos fundadores da igreja de Vienne, perto de Lião. A maioria dos MSS dizem Galatian, mas uns poucos bons, Gallian. Até o sé­ culo II, o nome grego correto para a Gália era Galatia, sendo que a Galá­ cia na Ásia era denotada por uma perífrase (e.g. “a Galácia na Ásia”). Ga­ latian é sem dúvida o texto verídico aqui, mas a presença de Gallian nal­ guns MSS indica que a região referida era geralmente considerada como sendo a Gália; e tal, na realidade, era a exegese de vários dos pais (Eusébio, Epifânio, Teodorete, Teodoro). De modo geral, se cremos que a car­ ta foi escrita de Roma, parece mais sensato segui-los, especialmente ten­ do em vista o nome latino de Crescente, e a tradição antiga acerca da sua obra na Gália. O versículo, portanto, fica sendo uma testemunha importante à expansão da igreja em direção ao ocidente. Paulo parece entristecido pela partida de Crescente, mas não se queixa. É até mesmo possível que ele mesmo o tenha enviado nalguma tarefa missionária. 0 mesmo provavelmente se aplica a Tito, que, segun­ do parece, já deixara Creta. Dalmácia é a porção sulina da província im­ perial de. Ilírico, no litoral ocidental do Adriático (a atual Iugoslávia). Ficamos sabendo de Rm 15:19 que a atividade missionária de Paulo se estendera para lá. Esta notícia, também, apóia a autenticidade das Pas­ torais, pois um imitador não teria tido a probabilidade de representar Tito ativo em dois campos tão distantes entre si. Do outro lado, se Pau­ lo invemou em Nicópolis e Tito foi reunir-se com ele ali (cf. Tt 3:12), é bem possível que este tivesse avançado para o norte, na obra missioná­ ria. 11. Segundo parece, o único que sobra ao lado de Paulo é Lucas. Isto não subentende, conforme é freqüentemente suposto, que o Após­ tolo está literalmente só, mas, sim, que Lucas é o único membro do seu círculo íntimo que está com ele. Também tinha estado com Paulo du­ rante sua prisão anterior, e ganhou o título de “o médico amado” (Cl 4:14; Fm 24). O motivo da sua permanência, afeição à parte, pode so­ mente ser assunto de conjeturas; pode ter sido porque Paulo precisava de atendimento médico, ou assistência dalgum tipo especial. Sua menção de Lucas, por alguma razão, lembra-lhe Marcos, e as­ sim pede a Timóteo: Toma contigo a Marcos e traze-o. . . Havia muito tempo, quando estava começando sua segunda viagem missionária, recu­ 195


II TIMÓTEO 4:12-13 sara-se a levar Marcos consigo; perdera confiança nele por causa da sua relutância de compartilhar das dificuldades da sua viagem anterior (Át 15:38). Esta desconfiança, no entanto, agora era coisa do passado, pois achamos Marcos com Paulo durante sua primeira prisão em Roma, sen­ do até mesmo recomendado por este para a igreja em Colossos (Cl 4:10). Devemos supor que, no momento em que. a carta foi escrita, Marcos está nalgum Lugar ao Longo do itinerário proposto para Timóteo. Paulo ex­ plica porque deseja a presença dele: “Acho-o um assistente útil.” Uma tradução literal seria: pois me é útil para o ministério (Gr. diakonian), onde a última palavra significa ou o serviço pessoal a Paulo, ou o minis­ trar público. Qualquer das duas interpretações é possível, mas o tom da passagem favorece a primeira. 12. A referência quase parentética a Marcos interrompeu seu re­ lato de como lhe falta pessoal. Termina sua história ao registrar: Quan­ to a Tíquico, mandei-o até Éfeso. Este é o discípulo de confiança, de nascimento asiático, que o acompanhara na sua visita final a Jerusalém (Atos 20:4), e que transportara suas cartas aos colossenses e aos efésios (Cl 4:7-9; Ef 6:21-22). Na base da fraseologia até Éfeso, alguns exegetas têm deduzido que Timóteo pessoalmente não poderia ter es­ tado em Éfeso na ocasião, mas isto é totalmente injustificado. Toman­ do por certo que Timóteo estava ali, de que outra forma Paulo poderia ter-se expressado? Muito mais plausíveis são as conjecturas ou de que Tíquico haveria de ser o transportador da carta (neste caso mandei — Gr. apesteila — deve ser entendido como um aoristo epistolar), ou que Paulo pretendia que agisse como representante de Timóteo durante a visita deste último à capital. Se esta segunda sugestão for correta, é tal­ vez surpreendente que Paulo não tenha sido mais explícito acerca dela, mas é possível que a questão tenha sido decidida de antemão entre Ti­ móteo e ele. 13. A esta altura Paulo inclui uma comissão pessoal — Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade em casa de Carpo, bem como os livros, especialmente os pergaminhos. Seu realismo e sua naturalida­ de simples são tão marcantes que até mesmo os críticos que duvidam da autenticidade da carta como um todo freqüêntemente estão dispos­ tos a conceder que deve vir do próprio Apóstolo. É extremamente im­ provável que um imitador no mundo antigo tivesse pensando em inven­ tar detalhes banais como estes. Trôade era uma cidade que Paulo visita­ ra em várias ocasiões (At 16:8; 20:6; 2 Co 2:12), e através da qual po­ de ter passado recentemente enquanto estava sendo escoltado como pri­ sioneiro para Roma. Aparentemente prevê que Timóteo viajará via Trôa196


II TIMÓTEO 4:14-15 de através da Macedônia e assim, cruzaria o Adriático para Brindísio. Nada sabemos de Carpo, a não ser que o Apóstolo parece ter fica­ do alojado na casa dele. Uma capa (Gr. phailonés: do Latim paenula) era uma roupa externa grande, sem mangas, feita de uma única peça de teci­ do pesado, com um buraco no meio por onde era passada a cabeça, como uma casula sacerdotal, ou uma capa de chuva para andar de bicicleta. Era usada para a proteção contra o frio e a chuva. Os comentaristas suge­ riram que Paulo sentia a necessidade dela porque o inverno estava para chegar (cf. v. 21), e sua masmorra era fria. Com os livros (Gr. biblia) Paulo provavelmente quer dizer rolos de papiro. Não temos, naturalmente, meio de saber o que eles continham. A frase especialmente os pergaminhos tem causado problemas desneces­ sários. O substantivo, uma transliteração grega do Latim membrana, denota no singular um pedaço de pele ou velo preparado para os propó­ sitos da escrita. O pergaminho deste tipo, embora fosse mais caro do que o papiro, tinha várias vantagens sobre este, tais como a capacidade de ser usado de novo. Muitos entendem que os pergaminhos são uma re­ ferência aos documentos pessoais de Paulo, e.g. sua certidão de cidada­ nia. Mas (a) não temos evidência alguma que a palavra era usada assim, nem sequer que tais certidões tomavam esta forma na antigüidade; e (b) mesmo se tivessem esta forma, é improvável que Paulo os tivesse deixado fora da sua custódia numa juntura tão crítica. Ainda mais im­ provável é a conjetura de que a expressão signifique “meu estoque de pergaminho.” A fraseologia, especialmente a ausência de “e” com espe­ cialmente, indica que o Apóstolo está falando de um tipo específico de livro, o que é ressaltado na tradução. Na realidade, há evidência abun­ dante que o Latim membrana era um termo técnico, desde o século I a. C., para um códice, ou livro com folhas, feito de pergaminho. Tais có­ dices eram de uso geral como livros de anotações, livros contábeis, lem­ bretes, primeiros esboços de obras literárias, e outros escritos que não eram para os olhos do público; é também provável que estivessem sendo usados para propósitos literários no século I d.C. Devemos, portanto, inferir que a referência de Paulo diz respeito a livros paginados de ano­ tações, feitos de pergaminho, aos quais, por alguma razão, dava valor especial. Mais uma vez, ficamos às escuras quanto ao seu conteúdo, em­ bora a conjectura que consistiam de textos-provas do A.T. é uma dentre outras possibilidades. 14,15. A menção de Trôade, ou alguma associação de idéias que não podemos perscrutar agora, lembra Paulo de Alexandre, o latoeiro. Relembra que causou-me muitos males, e acrescenta: o Senhor lhe dará 197


II TIMÓTEO 4:16 a paga segundo as suas obras. Estas palavras ecoam o pensamento de SI 28:4; 62:12, e devemos notar que, visto que o verbo está nò futuro, não no optativo, expressam uma predição e não uma imprecação. Con­ forme ele mesmo aconselhou a igreja de Roma (Rm 12:19), Paulo está disposto a deixar o castigo daqueles que o lesam nas mãos de Deus. Mes­ mo assim, visto que Timóteo (conforme podemos razoavelmente inferir) tem a probabilidade de dar de encontro com Alexandre no futuro pró­ ximo, pensa que seja prudente adverti-lo de antemão: Tu, guarda-te tam­ bém dele, porque resistiu fortemente às nossas palavras. Estamos tão ignorantes de quem era este Alexandre quanto estamos da natureza exata da sua oposição a Paulo. É artificial identificá-lo com 0 Alexandre que foi empurrado para a frente e que fez um discurso de defesa na ocasião do motim atiçado pelos ourives de Éfeso durante a permanência anterior de Paulo na cidade (At 19:33). Seja qual a teoria que se sustenta da origem destas cartas, aquilo aconteceu muitos anos antes e Alexandre era um dos nomes mais comuns^ É mais provável, embora ainda longe da certeza, que ele era o Alexandre mencionado em 1 Tm 1:20 como tendo sido colocado sob a interdição, porque parece estranho que Paulo tivesse entrado em conflito com dois portadores do mesmo nome vinculados com Éfeso dentro de um período relativamen­ te curto de tempo. Aceitando isto, alguns têm argumentado que compro­ va que a presente carta é anterior a 1 Timóteo, visto não haver indício de uma excomungação formal aqui. A inferência, no entanto, não é ne­ cessária de modo algum. 1 Tm 1:21 deixa claro que a “entrega a Sata­ nás” de Alexandre era uma medida temporária, visando seu arrependi­ mento e sua reabilitação, e, de qualquer maneira, a referência aqui diz respeito a um ato específico de hostilidade ao invés da irregularidade doutrinária. Seja qual for a sua identidade, Alexandre era um latoeiro, embora a palavra assim traduzida (Gr. chalkeus) nem sempre tinha este sentido especializado no Grego posterior, e talvez não queira dizer mais do que um metalúrgico de modo geral. Não é fácil decidir se seu delito consis­ tiu em contradizer o ensino do Apóstolo ou nalguma forma mais pes­ soal de oposição. O uso que Paulo fez do aoristo sugere que tem em mente uma ocasião específica, e muitos têm inferido do contexto que fora em Roma, durante a prisão de Paulo, que Alexandre demonstrou sua má-vontade contra ele. Alguns têm suspeitado que ele possa até mesmo ter comparecido como testemunha da acusação. 16. A mente do Apóstolo agora volta à sua primeira defesa (Gr. prótè. . . apologia), quando, segundo ele relembra, ninguém foi a meu 198


II TIMÓTEO 4:16 favor; antes, todos me abandonaram. 0 problema principal, na suposi­ ção de a carta ser de autoria paulina, é determinar a situação em mira. Os Pais e a maioria dos comentaristas antes do século XIX identificaram-no com aquele processo anterior (primeira em contraste com o pre­ sente processo legal) em que culminou a prisão de Paulo em Roma regis­ trada em At 28, cujo resultado deve ter sido sua absolvição, V. 17 se en­ caixaria muito bem com esta exegese, sendo que a pregação ali referida seria, segundo esta hipótese, a vigorosa campanha missionária que em­ preendeu entre sua soltura e seu segundo cativeiro em Roma. Mas é di­ fícil acreditar que o Apóstolo fosse deixado inteiramente abandonado naquele processo anterior, nem que Timóteo precisaria de informações acerca de eventos que tinham acontecido havia tanto tempo. De qual­ quer maneira, a impressão deixada pela passagem é que a primeira defe­ sa é um incidente na experiência recente de Paulo. Uma explicação pro­ posta pelos apoiadores da “hipótese dos fragmentos” é que a referência diz respeito ao comparecimento de Paulo em Cesaréia diante de Félix (At 24:1-23), ou possivelmente diante do Sinédrio (At 23:1-10); o fato de que teve uma visão do Senhor encorajando-o (At 23:11) é citado co­ mo confirmação deste último ponto de vista. Mais uma vez, porém, além das dificuldades inerentes na teoria, a narrativa em Atos não dá sugestão alguma de Paulo ter sido abandonado pelos seus amigos, e indica que, neste último julgamento, os peritos jurídicos farisaicos falaram em seu favor, ao passo que a atmosfera do primeiro destes julgamentos era nota­ velmente menos severa do que a linguagem aqui dá a entender. Tendo em vista tais fatos, é preferível, juntamente com a maioria dos apoiadores atuais da autenticidade, localizar a primeira defesa de Paulo no seu presente cativeiro, i.é, no segundo, em Roma, e entender por ela, não o julgamento propriamente dito (que, é claro, haveria de resultar na sua condenação), mas, sim, o que na linguagem jurídica roma­ na foi chamado a prima actio, i.é, a investigação preliminar. Esta, aparen­ temente, tinha sido favorável ao acusado, pelo menos ao ponto de o juiz não poder resolver suas dúvidas, e, assim, pronunciar o veredito “Non liquet, ” ou “Amplius. ” Quando isto acontecia, a praxe jurídica romana exigia que uma investigaçãç adicional, ou secunda actio, devesse ser rea­ lizada, e uma demora considerável poderia ser envolvida. É bem possível que Timóteo ignorasse a direção que os eventos tomaram, e precisasse ser atualizado sobre o assunto. Permanece sendo um mistério por que nenhum membro da igreja romana, com a qual seus relacionamentos ti­ nham sido tão estreitos, foi a seu favor (Gr. paregeneto: o verbo é téc­ nico para uma testemunha ou um advogado apresentando-se no tribu199


II TIMÓTEO 4:17 nal para falar em prol do prisioneiro). Talvez nada mais do que o medo ou a fraqueza de caráter fosse a causa da deserção por eles; mas alguns têm detectado uma sugestão aqui de tensões pessoais profundamente arraigadas, ou até mesmo de divisões, dentro da comunidade. 17. Seja qual for a razão, não há amargura no coração de Paulo, e acrescenta a oração: Que isto não lhes seja posto em conta (para a idéia, cf. 1 Co 13:5; 2 Co 5:19). A deserção por eles, no entanto, serviu so­ mente para ressaltar o socorro divino, pois o Senhor me assistiu e me revestiu de forças. Recebeu, assim, um acesso de coragem e intrepidez, e o propósito providencial disto, conforme ele vê a questão, era que, por meu intermédio, a pregação fosse plenamente cumprida, e todos os gentios a ouvissem. À primeira vista, quem lê acha que Paulo fosse aludir-se a uma missão renovada e mais extensiva de pregação empreen­ dida depois da sua absolvição, e assim parece apoiada a teoria (ver a no­ ta sobre o versículo anterior) de que sua primeira defesa era seu julga­ mento anterior no fim do seu primeiro cativeiro em Roma. Mas sua ab­ solvição ainda não foi mencionada, e quando o é, parece ser o resultado deste esforço supremo de pregação. Devemos, portanto, interpretar a cláusula como sendo uma descrição, em termos algo hiperbólicos, de como Paulo explorou a investigação preliminar a fim de explorar o evan­ gelho. Sempre tinha usado seus julgamentos anteriores para este propó­ sito, e agora considera que seu comparecimento diante do augusto tribu­ nal da capital como sendo o coroamento da sua carreira como pregador. As palavras por seu intermédio são enfáticas, e o verbo utilizado (Gr. plèrophorein: cf. 5 supra) significa cumprir plenamente, “comple­ tar.” Sua idéia parece ser que a proclamação do evangelho atingiu um clímax especialmente glorioso quando foi feito na capital, e exulta por ter sido selecionado para ser o instrumento deste ato. Sua menção de todos os gentios continua e desenvolve o mesmo pensamento. É possí­ vel que seu significado seja que, tendo pregado o evangelho publicamen: te em Roma, já desincumbiu-se, num sentido muito real, de sua comissão de proclamá-lo “entre todos os gentios” (Rm 1:5). É muito mais prová­ vel, no entanto, que esteja se referindo ao auditório cosmopolita reuni­ do no tribunal imperial, diante do qual proclamou sua mensagem. O resultado foi um sucesso inesperado, ainda que temporário, pois foi libertado da boca do leão. Estas últimas três palavras são uma expressão proverbial para o perigo extremo (cf. SI 7:2; 22:21; 35:17; Dn 6:20 ss.; etc.). Não há, portanto, necessidade alguma de ver nelas uma referência ao anfiteatro, pois não havia questão de Paulo ser amea­ çado com ele,, nem a Nero, com quem os Pais gregos gostavam de identi­ 200


II TIMÓTEO 4:18-19 ficar o leão; nem a Satanás. O que Paulo quer dizer é simplesmente que, através da intervenção maravilhosa de Deus e como resultado da força que lhe foi dada para proclamar o evangelho, o juiz ou juizes deixaram de chegar a uma decisão no seu exame inicial, e, portanto, foi salvo da morte iminente. 18. Paulo tem consciência de que, a despeito da sua boa fortuna nesta primeira interrogação, mais processos jurídicos o aguardam,.e que seu resultado não tem a probabilidade de ser favorável. Mesmo assim, tomando sua deixa das suas próprias palavras acerca de ser libertado da boca do leão, exclama com triunfo: O Senhor me livrará também de to­ da obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial. Somente um literalismo insensível poderia ler estas palavras no sentido de suben­ tenderem uma expectativa de mais uma absolvição, em contradição com 0 pessimismo dos w. 6-8. Paulo está pensando na proteção espiritual mais do que a física, e está afirmando sua confiança de que nenhum ata­ que dos seus inimigos subverterá sua fé ou sua coragem, ou leva-lo-á a cair em pecado desastroso. Esta interpretação é confirmada pelos fatos (a) de que a frase parece um eco de ‘livra-nos do mal” do Pai Nosso, e (b) de que o clímax do seu livramento será sua admissão ao reino celes­ tial de Deus. O próprio Cristo prometera que “quem perder a vida por minha causa, esse a salvará” (Lc 9:24). Em certo sentido, o reino de Deus é uma realidade presente, tendo sido inaugurado na Pessoa de Cris­ to, mas para Paulo também é o alvo que os cristãos aguardam ansiosa­ mente na consumação dos séculos (cf. 1 Ts 2:12; 2 Ts 1:4-5; G1 5:21; 1 Co 6:9-10; 15:50; Ef5:5). É hábito de Paulo, depois de escrever longamente sobre o poder e a graça de Deus, irromper numa doxologia (cf. Rm 9:5; 11:33-36; G1 1:5; Ef 3:21; Fp 4:20; 1 Tm 1:17), e agora o pensamento do ma­ ravilhoso livramento que aguarda ansiosamente naturalmente induz a ex­ clamação: A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém. A fraseologia aqui é idêntica à de G1 1:5. Muitos autores alegam que há uma diferença, pois a doxologia ali é dirigida a Deus, ao passo que esta é dirigida a Cris­ to. Mas há pouco ou nada no contexto para corroborar esta idéia, e é mais seguro supor que, na totalidade destes textos, o Senhor denota a Deus. SAUDAÇÕES FINAIS 4:19-22 19. Nesta seção final, o Apóstolo primeiramente envia suas reco201


II TIMÓTEO 4:20 mendações (Saúda) a certos amigos especiais. Prisca e Âqiüla eram dois dos seus cooperadores mais antigos e dedicados. O último era um judeu de Ponto (agora parte da Turquia nordestina, no Mar Negro), e a primei­ ra (também chamada Priscila) era sua esposa; ela é mencionada antes de­ le seis vezes no N.T., possivelmente porque pertencia a uma família roma­ na nobre, ou porque tinha uma personalidade mais dinâmica. Ficamos sabendo deles em At 18:2, quando estavam estabelecidos em Corinto, tendo sido obrigados a deixar Roma como resultado do decreto de Gáu­ dio que expulsou os judeus. Paulo os levou consigo para Éfeso (At 18:19), e em 1 Co 16:19 nós os achamos juntamente com ele, enviando sauda­ ções para a igreja de Corinto. Ainda mais tarde, parece que estavam em Roma, pois em Rm 16:3-4, Paulo lhes manda saudações, observan­ do que “arriscaram as suas próprias cabeças” pela vida dele, e que não somente ele, como também todas as igrejas gentias, lhes deviam gratidão. O Apóstolo também manda lembranças à casa de Onesiforo. Seu tom e sua linguagem sugerem que o próprio Onesiforo já tinha morrido: ver sobre 1:16. 20. Paulo passa a mencionar, aparentemente como informações que seriam novas para Timóteo, que Erasto ficou em Corinto, e que deixou Trófimo doente em Mileto. Ouvimos em Rm 16:23 de um Eras­ to que era tesoureiro (Gr. oikonomos) da cidade de Corinto, ao passo que, conforme At 19:22, Paulo enviou um certo Erasto juntamente com Timóteo à sua frente para a Macedônia. É, naturalmente, impossível ter certeza de que um destes, ou os dois, podem ser identificado com este Erasto, mas se for este último, era natural que Paulo mantivesse Timóteo informado acerca de um antigo colega. O que parece estar subentendi­ do é que ele ficou para trás do grupo quando Paulo estava sendo levado sob escolta para Roma. Trófimo, também, era um antigo associado. Um cristão gentio de Éfeso, tinha estado com Paulo nas etapas finais da sua terceira viagem missionária quando foi para Mileto (At 20:4), e pouco depois foi visto com ele em Jerusalém (At 21:29). Alguns críticos têm achado incrível que Paulo e Trófimo pudessem ter estado juntos em Mileto duas vezes, mas nada há de realmente surpreendente nisto, visto que a cidade estava situada na estrada principal, e Trófimo era um Efésio. O versículo cria grandes dificuldades para a “hipótese dos fragmentos,” pois seus apoiadores gostariam de colocar a doença de Trófimo na visita anterior a Mi­ leto (conforme eles, a única visita autêntica), mas têm de confessar que, segundo esta suposição, ele deve ter sarado com estranha rapidez para estar em Jerusalém tão pouco tempo depois. Se a carta é genuína, é 202


II TIMÓTEO 4:21-22 natural supor que Trófimo acompanhou Paulo depois da prisão dele, mas ficou doente pelo caminho e deixou a comitiva em Mileto. Segun­ do alguns, esta referência fornece mais um argumento contra a presen­ ça de Timóteo em Éfeso quando a carta foi escrita. As cidades ficam tão próximas uma da outra que, se tivesse estado ali, forçosamente sa­ beria que Trófimo não tinha continuado até Roma, e por que. 21. Uma das razões de Paulo para enfatizar a ausência destes dois velhos amigos é impressionar Timóteo com a necessidade que sente da presença e do conforto dele. Acrescenta outra razão para a urgência com o rogo: Apressa-te a vir antes do inverno. Durante os meses do inverno o Adriático podia ser virtualmente fechado para a navegação, e a viagem de Timóteo podia ser atrasada indefinidamente se não se apressasse. O julgamento final seria feito antes de se passar muito mais tempo, e a não ser que Timóteo viesse logo, poderia chegar tarde demais. É, portanto, provável que a carta foi escrita em fins do verão, ou no ou­ tono. Para a data, ver a Introdução, págs. 41-43. Dos quatro nomes alistados na frase seguinte: Êubulo te envia sau­ dações; o mesmo fazem Prudente, Lino, Cláudia e os irmãos todos, todos, menos o primeiro, são latinos, fato este que confirma o ponto de vista de que a carta foi escrita de Roma. O primeiro é completamente desco­ nhecido, e embora lendas tenham se ocupado com o segundo e o quar­ to nome, o único que podemos identificar com qualquer grau de plausi­ bilidade é Lino. Ele é quase certamente o Uno que, segundo a tradição (Irineu, Haer. iii. 3.3), sucedeu Pedro como líder, ou bispo, da igreja romana, e que, como conseqüência, ainda é comemorado no cânon da missa romana. Nenhum dos quatro, conforme parece, pertencia ao cír­ culo íntimo do Apóstolo (ver sobre v. 11, supra). Não há qualquer con­ tradição real entre este versículo e a queixa de Paulo no v. 16 de que todos o desertaram no seu julgamento preliminar. Nenhum daqueles aqui mencionados era provavelmente de posição suficiente na ocasião para comparecer no tribunal em prol de Paulo; de qualquer maneira, era uma coisa enviar recados como estes numa carta, e outra, bem dife­ rente, dar o passo drástico de levantar-se no tribunal para dar testemu­ nho em prol de Paulo. 22. A primeira metade da saudação final, O Senhor (aqui prova­ velmente = Cristo) seja com o teu espírito, é endereçada a Timóteo pes­ soalmente, conforme indica o adjetivo teu. Assemelha-se muito a G1 6: 18 e Fm 25, havendo a diferença de que naquelas passagens a oração diz: “A graça do (nosso) Senhor Jesus Cristo seja com o vosso espírito.” A segunda metade, conforme demonstra o pronome no plural convos203


II TIMÓTEO 4:22 co (Gr. humòn), é endereçada à comunidade cristã, na qual Timóteo se acha, como um todo: ver sobre 1 Tm 6:21. Se 2 Timóteo for a última destas três cartas, quanto à data, conforme parece altamente provável, estas são as últimas palavras escritas pelo Apóstolo que sobreviveram até nós.

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A EPÍSTOLA A TITO SAUDAÇÕES 1:1-4 Esta saudação de abertura, construída de modo compacto e intrin­ cado, é mais esmerada e solene do que as de 1 e 2 Timóteo: para parale­ los, cf. Rm 1:1-7; Cl 1:1-5. De modo calmo, porém firme, repete a reivindicação de Paulo de que é apóstolo, e também define de modo mais completo do que qualquer outra passagem do N.T. o escopo e a função do apostolado; além de dar uma breve olhada na natureza da sua mensa­ gem. Sendo que é endereçada a um amigo pessoal (para o relacionamen­ to entre Tito e Paulo, ver a Introdução, págs. 9ss., muitos a acharam es­ tranhamente formal, e alguns têm sugerido que revela a mão de um imi­ tador, que poderia supor que seria esperada uma vigorosa asseveração da posição de Paulo como apóstolo. O acento, no entanto, cai menos nas reivindicações do próprio Paulo, e mais no propósito do seu ministério. De qualquer maneira, a dificuldade, se for dificuldade, desaparece se lembrarmos (ver sobre 1 Tm 1:1; 2 Tm 1:1) que a carta era para a igre­ ja de Creta em geral, e que estas cláusulas provavelmente foram esboça­ das com ela em vista. O fato de que várias fraseologias empregadas dife­ rem daquelas que normalmente são empregadas por Paulo também tem sido proposto como um argumento contra sua autenticidade. Realmen­ te este fato indica, se influi mesmo, a direção oposta; um imitador teria tomado cuidados para reproduzir a linguagem idiomática das cartas que conhecia. 1. Paulo começa, chamando-se servo de Deus, título este que emprega somente aqui. É difícil perscrutar o motivo de um imitador substituir por ela a expressão mais regular “servo de Cristo Jesus” (e.g. Rm 1:1). No A.T., Moisés, os profetas e os não-israelitas que cumprem os propósitos de Deus são designados “servos de Deus.” Paulo, portan­ to, está indicando, não tanto sua total subserviência a Deus (cf. a tradu­ ção menos exata: “escravo de Deus”), como o fato de que está no servi­ ço de Deus, levando a efeito uma tarefa para Ele. Este serviço é defini­ do mais precisamente em e apóstolo de Jesus Cristo (a partícula de em Grego pode sugerir o acréscimo de “também”).

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T n o 1:2

As palavras que se seguem, para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade, devem ser entendidas juntamente com apóstolo; definem duas das finalidades principais que o obreiro apostólico tem diante dele. Porque a preposi­ ção grega (kata) que começa a cláusula pode significar “segundo,” “de conformidade com,” alguns interpretam Paulo no sentido de subenten­ der que, como apóstolo, prega de acordo com a fé ortodoxa. O que diz, porém, é a fé que é dos eleitos de Deus, e é estranho que declaras­ se que sua mensagem dalguma maneira é regulada pela fé doutras pes­ soas. A preposição pode igualmente significar “com relação a,” “con­ cernente a,” como em 2 Tm 1:1, e se for entendida assim, apontará a esfera em que Paulo exerce seu apostolado e as finalidades que espera realizar por meio dele. Primeiramente, seu ministério tem a ver com a fé que è dos eleitos de Deus, i.é, prega o evangelho de modo que aqueles que Deus escolheu, e está chamando, possam vir para a fé, ou crescer na fé. Fé não é usada aqui com o sentido objetivo de “a fé,” mas, sim, com o significado sub­ jetivo usado em Paulo. A fórmula os eleitos de Deus é empregada so­ mente por Paulo no N.T. (Rm 8:33; Cl 3:12; mas cf. Mc 13:27, etc.); segundo o A.T., Israel era o povo eleito de Deus, mas, na nova dispensação, a igreja herdou aquele papel. Em segundo lugar, seu ministério tem a ver com o pleno conheci-, mento da verdade (para a frase, ver nota sobre 1 Tm 2:4; também 2 Tm 2:25; 3:7), pois a fé salvífica resulta num domínio correto da mensagem apostólica. Aqui, Paulo dá uma olhadela de antemão nos erros dos fal­ sos mestres cretenses, que, segundo ele subentende, estão defeituosos na verdade. A mesma insinuação está presente na cláusula segundo a pie­ dade, que qualifica a verdade. Piedade (Gr. eusebeia; cf. 1 Tm 6:3 e ver nota sobre 1 Tm 2:2) representa a atitude e vida religiosas basicamente sadias nas quais o cristianismo verdadeiro, em contraste com o ensino que a carta passará a criticar, acha expressão. 2. Paulo acrescenta uma terceira caracterização do seu apostola­ do: é na esperança da vida eterna. A preposição inicial é epi (lit. “sobre,” “para”), e não fica imediatamente claro como a cláusula deve ser ligada com aquilo que antecede. Não é fácil, nem gramaticamente, nem no ponto de vista do sentido, ligá-la com piedade, e ainda menos com fé ou conhecimento, mas é de excelente leitura como mais uma qualificação de apóstolo de Jesus Cristo, especialmente tendo em vista seu paralelis­ mo com a cláusula com kata supra. Se isto for correto, o significado de Paulo não é, conforme alguns supõem (ao traduzir epi por “em”), que

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TITO 1:3 como apóstolo é sustentado pela esperança da vida eterna; assim o pen­ samento fica sendo indevidamente estreitado, além de deixar-se de ver o paralelismo com a cláusula anterior. Ào invés disto, está sugerindo que é sua função promover aquela esperança. Para epi com o dativo no sen­ tido de “com vistas a,” “por amor a,” cf. Ef 2:10; 1 Ts 4:7; 2 Tm 2:14. A vida eterna, ou a vida do mundo do porvir, resume a bem-aventurança que os cristãos aguardam ansiosamente: cf. 3:7; 1 Tm 1:16; 6:12; 2 Tm 1:10. Esta esperança, continua Paulo, está firmemente fundamentada. Em primeiro lugar, o Deus que não pode mentir prometeu, antes dos tempos eternos. Se interpretarmos as últimas quatro palavras (Gr. pro chronôn aiôniõn: lit. antes dos tempos eternos) como em 2 Tm 1:9 (cf. Ef 1:4), seu significado é que a promessa formava parte do propósito eterno de Deus ratificado antes de existir a ordem criada. Esta é a exe­ gese da maioria dos Pais, e é provavelmente correta, especialmente por­ que temos exatamente o mesmo contraste entre a resolução pré-cósmica de Deus e sua resolução em Jesus Cristo em 2 Tm 1:9-10. Muitos intérpretes modernos, no entanto, preferem traduzir “eras atrás” e ar­ gumentam que a referência do Apóstolo deve ser às promessas do A.T. que, conforme os cristãos as entendem, são a base da esperança da vida etema. Em qualquer caso, pode-se confiar na promessa de Deus, pois é feita por Quem não pode mentir (Gr. apseudés: somente em Sab. 7:17 na Bíblia). Para a fidelidade de Deus àquilo que prometeu, cf. Rm 3: 4; Hb 6:18. 3. Em segundo lugar, em tempos devidos, Deus manifestou a sua palavra, i.é, demonstrou a veracidade da Sua promessa por meio de real­ mente revelar Sua promessa no plano da história. A frase envolve um anacoluto, pois esperaríamos uma segunda cláusula relativa, “mas que.. Paulo é forçado a mudar sua construção, à custa da elegância de estilo, porque não manifesta, falando a rigor, a esperança. Por sua palavra Pau­ lo não quer dizer, em primeira instância, o Logos preexistente, confor­ me alguns têm suposto; tal idéia parece excluída pela frase de definição que segue. A expressão representa, pelo contrário, o propósito de Deus (i.é, dar a vida etema aos eleitos) conforme é declarado no evangelho (cf. Cl 1:25). Para em tempos devidos, que faz um contraste deliberado com antes dos tempos eternos, cf. 1 Tm 2:6; 6:15; a idéia de que os eventos salvíficos aconteceram num momento especialmente oportuno fixado pelo conselho eterno de Deus é caracteristicamente paulina (G1 4:4; Rm5:6; Ef 1:10). A palavra de Deus não pode ser manifestada num vácuo; recebeu 207


TITO 1:4-9 expressão concreta mediante a pregação que me (o pronome é delibera­ damente enfático) foi confiada. Com a pregação Paulo quer dizer, não seu próprio ato de proclamar o evangelho mas, sim, mais concretamente (cf. 1 Co 1:21), a mensagem apostólica. Ao ressaltar que ele pessoal­ mente foi encarregado dele por mandato de Deus, nosso Salvador, está dando uma olhada tácita nos ensinos dos mestres do erro em Creta, que não podem reivindicar autoridade semelhante. A linguagem se assemelha de perto àquela de 1 Tm 1:1, onde ver a nota sobre Deus, nosso Salvador. 4. Finalmente, depois da sua abertura pesada, porém profunda­ mente significante, Paulo chega ao seu correspondente: A Tifo, verdadei­ ro filho, segundo a fé comum (“a fé que comparilhamos”). Para a expres­ são verdadeiro, i.é, legítimo, filho, ver sobre 1 Tm 1:2. Como naquela passagem, Paulo está relembrando que seu discípulo é um dos seus pró­ prios convertidos (ver a Introdução, pág. 9), e está vendo a origem do seu relacionamento especial na fé que foi instrumental em implantar nele. Alguns preferem a tradução a fé comum, i.é, a fé em que compartilham todos os cristãos, e comparam o uso de “comum salvação” em Jd 3; mas assim seria destruída a nota íntima e pessoal que o presente contexto requer. A saudação Graça e paz, em distinção de 1 Tm 1:2 e 2 Tm 1:2, conforma-se ao uso das Paulinas reconhecidas. Do outro lado, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus nosso Salvador é uma fórmula incomum. Esperamos “nosso Senhor,” mas Paulo talvez se sente impulsionado a encaixar nosso Salvador de tal modo que equilibre a descrição de Deus como “nosso Salvador” no v. 3. É relevante que suas duas únicas outras aplicações do título de “Salvador” a Cristo nesta carta (2:13; 3:6) se­ guem de perto versículos em que designou Deus pelo mesmo título. INSTRUÇÕES ACERCA DOS OFICIAIS DA IGREJA 1:5-9 Paulo passa imediatamente a lembrar Tito da tarefa que deve reali­ zar como seu representante em Creta. Essencialmente, é organizar as comunidades cristãs na ilha ao estabelecer ministros responsáveis e ao combater o falso ensino. Esta seção trata da primeira metade da sua ta­ refa, e pressupõe uma organização semelhante àquela que é prevista em 1 Timóteo, embora um pouco menos adiantada. Primeiramente, há a mesa de presbíteros, ou anciãos, que, como tais, conforme podemos conjeturar, não são ministros propriamente ditos, mas, sim, formam um

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TITO 1:5 tribunal com responsabilidade geral por cada comunidade. Normalmen­ te, mas não necessariamente, homens de idade seriam escolhidos; e al­ gum tipo de nomeação ou ordenação específica é subentendido. Ver sobre 1 Tm 5:17. Em segundo lugar, há oficiais executivos conhecidos como bispos ou superintendentes (em comunidades pequenas, poderia haver apenas um só) que cumpriam na prática os deveres ministeriais e pastorais necessários. Estes são selecionados das fileiras dos presbíte­ ros, de modo que os dois títulos são virtualmente, embora não rigoro­ samente, intercambiáveis. Para os superintendentes, ver a Introdução, págs. 20-23; também notas sobre 1 Tm 3:2; 5:17. A diferença princi­ pal de 1 Timóteo é que não há menção de diáconos nesta carta. Esta é evidência de uma etapa menos complexa, talvez menos avançada, de or­ ganização eclesiástica, vista que os diáconos eram os assistentes dos su­ pervisores. Ver sobre 1 Tm 3:8. 5. Por esta causa, Paulo começa, te deixei em Creta para que puses­ ses em ordem as coisas restantes. Não precisamos supor que esteja dan­ do a Tito informações pela primeira vez, muito menos que esteja respon­ dendo a um pedido para as tais. Como em 1 Timóteo, está recapitulan­ do instruções já dadas de forma geral, parcialmente, sem dúvida, porque era útil tê-las registradas no preto sobre o branco, mas também para o benefício do rebanho de Tito, ao qual esperava que comunicasse a carta. O contexto subentende que o próprio Paulo já dirigiu uma missão em Creta; o verbo empregado (Gr. apoleipein) transmite a idéia de deixar para trás. Esta não pode ser identificáda com a parada breve registrada em At 27, e, portanto, parece melhor datá-la depois do primeiro cati­ veiro romano (ver Introdução, págs. 14—17). Embora o cristianismo tenha fincado pé em certo número de dis­ tritos, a igreja em Creta parece estar numa condição bastante desorgani­ zada. Logo, entre as várias coisas que precisam de ser endireitadas, Paulo pede a Tito que constituísse presbíteros, conforme te prescrevi. Embora a existência dos presbíteros é pressuposta em 1 Timóteo, aqui estão sendo estabelecidos pela primeira vez. Para a prática de Paulo, cf. At 14: 23. Alguns, impressionados pelo fato de que Paulo em nenhum lugar menciona os presbíteros pelo nome nas suas cartas reconhecidas, prefe­ rem traduzir “nomear para os cargos pessoas de idade,” sendo que o car­ go é explicado no v. 7 como o de superintendente. Mas isto força muito desnecessariamente os vários contextos em que “presbítero” ocorre nas Pastorais, bem como força o Grego:: ver sobre 1 Tm 5:17. Notamos que a responsabilidade total pela escolha dos presbíteros parece ter sido dei­ xada com Tito, disposição esta que provavelmente fosse necessária pela 209


TTTO 1:6-7 imaturidade das comunidades cretenses. O “eu” (oculto em português) em conforme te prescrevi é enfático; a cláusula olha para o versículo se­ guinte e impressiona sobre Tito que seus presbíteros devem ser do tipo de homens que Paulo aprova. 6. A lista de qualificações, positivas e negativas, assemelha-se de modo muito próximo àquela que é, preceituada para os superintendentes em 1 Tm 3:2-7. Os presbíteros devem ser alguém que seja irrepreensí­ vel (o singular é usado no original, a construção sendo lit, “se alguém for irrepreensível. . .”). Ou seja: não devem oferecer qualquer lacuna para a crítica: ver sobre 1 Tm 3:2, 7. Além disto, devem ser marido de uma só mulher, expressão esta que provavelmente significa (ver sobre 1 Tm 3:2) “casado uma só vez,” sendo aplicável a um homem que não se casou ou­ tra vez depois da morte da sua esposa ou depois do divórcio. Os filhos, também, fornecem um teste útil da sua adequabilidade. Devem ser crentes, que compartilham da fé em Cristo do seu pai, e na sua conduta diária não devem ser acusados de dissolução (Gr. asõtia: o advérbio cognato é usado em Lc 15:13 do “viver dissoluto” do filho pródigo), nem são insubordinados. Para a última qualidade, cf. 1 Tm 3: 4; ao homem que não pode criar seus filhos para serem bem comporta­ dos deve carecer a combinação de simpatia e firmeza exigida num pres­ bítero. 7. Paulo dá uma razão para estas qualificações, e acrescenta mais uma fileira deles — Porque é indispensável que o bispo seja irrepreensí­ vel como despenseiro (lit. “encarregado de uma casa ou família”) de Deus. Por causa da introdução abrupta do “superintendente” (Gr. episkopos) no singular numa discussão acerca de presbíteros, e também porque Pau­ lo parece estar recomeçando sua lista e estar usando matéria que reapa­ rece em 1 Tm 3:2-7, vários autores colocam os w. 7-9 entre parênteses como uma interpolação. Pertencem a um período, argumentam elés, em que o episcopado monárquico, ou de um só homem, já se estabelecera. Os MSS, no entanto, não oferecem qualquer apoio a este ponto de vista, e a conexão dos versículos como o que antecede é confirmada pela repe­ tição de irrepreensível que já aparece no v. 6. Sua afinidade com 1 Tm 3:2-7 é facilmente explicada se supormos que em ambas as passagens Paulo está tomando emprestada uma lista convencional de qualidades desejáveis em oficiais da igreja. O singular o bispo é provavelmente gené­ rico: ver sobre 1 Tm 3:2. A mudança repentina de Paulo de presbíteros em geral para os superintendentes é bastante natural se, conforme é ar­ gumentado na Introdução págs. 20—23 e nas notas sobre 1 Tm 3:2; 5:17, estes últimos eram oficiais executivos escolhidos dentre as fileiras dos 210


TITO 1:8-9 primeiros. Uma congregação cristã, Paulo declara em 1 Tm 3:15, é “a casa de Deus;” logo, um superintendente é o despenseiro de Deus. A ênfase re­ cai em de Deus; é porque representa a Deus que deve ser irrepreensível. Cinco vícios que um superintendente deve evitar passam então a ser acres­ centados. Não deve ser arrogante, i.é, obstinado ou voluntarioso, não irascível, visto que o trabalho pastoral requer paciência, não dado ao vi­ nho, nem violento, (para estes vícios, ver sobre 1 Tm 3:3), nem cobiço­ so de torpe ganância. Esta última falha (ver ibid.) era uma tentação es­ pecial para os ministros que tinham de manusear as ofertas da igreja e a assistência caridosa. A queixa de muitos comentaristas modernos que os padrões subentendidos nesta lista, como em 1 Tm 3:2-7, são por demais terrestres e prosaicos, revelam uma falta extraordinária de realis­ mo. Paulo está colocando seu dedo nas tentações às quais os oficiais ecle­ siásticos decerto eram expostos, pela própria natureza das suas responsa­ bilidades e trabalho, tanto na era apostólica quanto mais tarde. 8. Para contrabalançar os cinco vícios, acrescenta sete virtudes que são ainda mais próximas daquelas que estão alistadas em 1 Tm 3:2 (ver as notas ali). 0 superintendente deve ser hospitaleiro, porque a res­ ponsabilidade de hospedar visitas em nome da comunidade recai sobre ele; amigo do bem (Gr. philagathos), adjetivo que conota a devoção a tudo aquilo que é melhor; sóbrio, em contraste com os traços desordei­ ros condenados no versículo anterior; justo, piedoso, i.é, exemplar nos relacionamentos tanto com seu próximo quanto com Deus (cf. 1 Ts 2:10 para as mesmas duas qualidades justapostas); que tenha domínio de si, virtude esta que é louvada em G1 5:23 como sendo um dos frutos do Espírito. 9. Finalmente, o ministro cristão deve ter o equipamento dou­ trinário certo de modo que tenha poder, assim para exortar pelo reto ensino como para convencer os que contradizem. É aqui, ha tarefa dupla de edificar os fiéis e de eliminar o erro, que, como um presbítero que também é um supervisor, enfrenta seu desafio principal. (Para reto ensi­ no, ver a nota sobre 1 Tm 1:10). Se é que quer enfrentá-lo com suces­ so, deve ser ele mesmo uma pessoa que é apegado à palavra fiel que é segundo a doutrina. Noutras palavras, deve ser dedicado de coração e alma à veracidade da mensagem apostólica, e, por implicação, convicto da veracidade dela - conforme se pode parafrasear a frase complexa li­ teralmente traduzida nas nove palavras supra. Aquela mensagem é fiel, i.é, é digna de confiança, quando concorda com a doutrina, i.é, fielmen­ te reflete “a forma de doutrina” Rm 6:17) que o próprio Apóstolo entre­ 211


TITO 1:10-11 gara. Há uma olhada crítica aqui no falso ensino que dentro em breve será denunciado. Pode também ser notado que o querigma primitivo já está começando a tomar forma como uma coletânea fixa de doutrinas ortodoxas (ver notas sobre 1 Tm 6:20; 2 Tm 1:13-14; 2:2). OS FALSOS MESTRES 1:10-16 A menção de os que contradizem no v. 9 provoca Paulo a lançar um ataque contra estes mestres mal-orientados, aos quais acusa de se­ rem moralmente corruptos além de semearem erro e confusão entre os fiéis. Parece evidente que são cretenses de nascença, e embora seu en­ sino tenha pontos estreitos de contato com os mestres do erro em Éfeso (1 Tm 1:3-11; 6:3-10; 2 Tm 2:14-18), tem certos aspectos especifi­ camente locais, e seu caráter judaico é ressaltado mais fortemente. A ação vigorosa é exigida de imediato, pois as congregações de Creta mal tiveram tempo de se estabelecer e já estão sendo subvertidas. 10. Com porque existem muitos insubordinados, Paulo está dando a razão porque a nomeação de superintendentes com o caráter e o equi­ pamento que ele mesmo estipulou é urgentemente necessário. Aque­ les que são descritos no v. 9 como os que contradizem a doutrina apos­ tólica são aparentemente por demais numerosos, e o adjetivo insubor­ dinados vividamente retrata sua propensidade para desconsiderar as au­ toridades da igreja. Também são palradores frívolos (Gr. mataiologoi; para o subs. cognato, cf. 1 Tm 1:6), usando linguagem impressionante com pouco ou nenhum conteúdo sólido da verdade, e, como resultado, são enganadores que logram seus ouvintes crédulos. Até aqui, a diatribe de Paulo é por demais generalizada para nos dar quaisquer informações concretas acerca da heresia deles, mas agora acrescenta que suas críticas severas se aplicam especialmente aos da cir­ cuncisão. Emprega esta expressão em Rm 4:12 para judeus, mas em G1 2:12 e Cl 4:11 (cf. também 10:45; 11:2) para cristãos judeus. Este último pode ser o significado aqui (cf. Moffatt: “os que vieram do juda­ ísmo”). Podemos, portanto, inferir que, embora o grupo rebelde consis­ tisse de cristãos tanto gentios quanto judeus, estes últimos formavam o elemento mais ativo. Há evidência (Josefo, Antiq. xvii. 327; Bell. Iud ii. 103; Filo, Leg. ad Gaium 282) de que os judeus eram numerosos em Creta. 11. Paulo está a favor de perder pouco tempo com os dissidentes — É preciso fazê-los calar. Esta tradução preserva a metáfora vigorosa do verbo gr. epistomazein (hapax), que significa colocar uma mordaça, e 212


TITO 1:12 não simplesmente um freio, na boca de um animal. É urgentemente ne­ cessário, porque andam pervertendo (o verbo significa lit. “estão viran­ do de cabeça para baixo”) casas inteiras, ensinando o que não devem. Es­ ta frase enigmática relembra 1 Tm 5:13 (“falando o que não devem”), onde (ver a nota) os estudiosos têm suspeitado uma referência velada às artes mágicas. Pode haver semelhante referência aqui, mas é igual­ mente possível, que Paulo esteja pensando nos falsos ensinos dos mes­ tres do erro. O que parece claro de qualquer maneira é que estas pessoas perigo­ sas, conforme o Apóstolo as vê, não estão movidas pelo desejo de servir a Deus ou a seu próximo, mas, sim, estão a fim de fazer “lucros sórdi­ dos” (torpe ganância). Acusa os dissidentes de Éfeso, também, de terem motivos mercenários (1 Tm 6:5), mas em nenhum caso indica se os lu­ cros esperados viriam de emolumentos, ofertas, ou dalguma outra fonte. Este, também, é um toque de colorido local, pois os cretenses tinham má fama na antiguidade por sua avareza (e.g. Políbio, Hist. vi. 46. 3). 12. Ao se comportarem assim, Paulo continua, estão meramente vivendo à altura do quadro pouco lisonjeiro do caráter cretense que den­ tre eles, um seu profeta, pintou. Passa então a citar a linha (é um hexâmetro no original), Cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos. Cita refrões semi-proverbiais semelhantes de Menandro em 1 Co 15:33 e (se At 17:28 registra com exatidão suas palavras) de Arato no seu discurso em Atenas. O poeta em epígrafe aqui é, segundo Clemen­ te da Alexandria (Strom. i. 59. 2), Epimênides de Cnosso, em Creta, um ensinador religioso e taumaturgo do século VI a.C. A linha às vezes tem sido atribuída a Calímaco (c. de 305 —c. de 240 a.C.) porque a primeira metade ocorre no seu Hino de Zeus, mas é provável que estivesse citan­ do uma frase que já era proverbial nos tempos dele. Paulo chama Epimênedes um profeta, e assim enfatiza a autoridade do julgamento dele; mas é interessante notar que Platão, Aristóteles, Cícero, e outros falam dele como sendo um homem inspirado, profético. Epimênides, segundo parece, estigmatizou os cretenses como sen­ do sempre mentirosos porque alegavam ter o túmulo de Zeus na sua ilha. Esta era uma impostura flagrante, pois Zeus era o principal dos deuses, e, no ponto de vista dos seus devotos, muitíssimo vivo. O dito, porém, tomou-se um lema popular, uma zombaria que dava expressão à reputa­ ção chocante que os cretenses tinham no mundo antigo pela sua falsida­ de. Este conceito predominava tanto que o verbo “cretizar” (Gr. krètizein) era uma palavra da gíria para “mentir” ou “lograr.” Os comentaris­ tas têm questionado se Paulo teria escrito de modo tão despojado de

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TITO 1:13-15 tato, para não dizer rudemente, numa carta real que visava ser lida em voz alta diante de um auditório cretense (conforme 3:15 sugere que es­ ta carta tinha tal destinação). Mas o Apóstolo está alarmado e zangado com a conduta dos sectários, e em tal disposição de ânimo as pessoas nem sempre deixam de falar francamente. De qualquer maneira, dificil­ mente teria esperado que os cristãos verdadeiros nas comunidades creten­ ses padecessem de sensibilidade nacionalista. 13. Nenhuma insinuação profunda precisa ser lida em feras terrí­ veis, ventres preguiçosos. Sem forçar os pormenores (é uma citação, afinal das contas), Paulo considera que a linha expressa, com exatidão prática, a falsidade, a grosseria, e a gula do grupo dissidente em Creta. Tal testemunho é exato, acrescenta ele. O tom da frase sugere que teve amarga experiência pessoal na ilha. Tito, portanto, deve repreendê-los, i.é, os dissidentes, não os cretenses de modo geral, severamente. Sua se­ veridade, no entanto, não deve ser negativa, mas, sim, deve visar garantir que sejam sadios na fé. Para a noção, característica nas Pastorais, que a ortodoxia doutrinária é “sadia,” ao passo que o erro é uma forma de doen­ ça, ver sobre 1 Tm 1:10; 6:4. 14. Nas palavras que se seguem, e não se ocupem com fábulas ju­ daicas, nem com mandamentos de homens desviados da verdade, Paulo finalmente lança alguma luz sobre o conteúdo dos ensinos dos mestres do erro. Primeiramente, consiste em fábulas (lit. “mitos”) judaicas, que provavelmente são muito semelhantes às “fábulas sem fim” atacadas em 1 Tm 1:4 (ver a nota ali), embora aqui sejam especificamente designadas judaicas. Em segundo lugar, os mestres do erro estão exigindo a observân­ cia de regulamentos que o Apóstolo desconsidera como mandamentos de homens. Estes não podem ser, conforme pensavam alguns dos Pais, os preceitos da Lei Mosaica, que, para Paulo, tinham origem divina. Nem po­ de a referência ser à “tradição dos antigos,” com sua distinção entre' car­ nes puras e impuras, etc., visto que acrescenta que os autores destas re­ gras são homens desviados da verdade. É razoavelmente certo de que o que ele tem em mente são exigências judaicas-ascéticas (e.g. a proibição do casamento e o repúdio a certos alimentos) tais quais estão subenten­ didas em 1 Tm 4:3-6. Pode ser notado que descreve as tendências ascé­ ticas da hereçia de Colossos como sendo “os preceitos e as doutrinas dos homens” (Cl 2:21-22). 15. Esta interpretação é confirmada pelo comentário que Paulo caracteristicamente interpõe na crítica da atitude dos mestres do erro: Todas as coisas são puras para os puros. A frase soa como um provérbio, e o princípio que incorpora foi enunciado pelo próprio Jesus ao tratar 214


T1T01:16 das leis alimentícias dos judeus ou das exigências dos fariseus quanto à pureza ritual (cf. Mc 7:15; Mt 15:10-11). Em Rm 14, Paulo tinha ex­ posto por extenso o conceito de que aquilo que toma um artigo especí­ fico da dieta “impuro” não pode ser qualquer qualidade do artigo, mas somente a atitude interior de quem o come. Assim, pois, argumenta aqui que a pureza ritual é na melhor das hipóteses artificial; se a condi­ ção moral de um homem é sadia, a distinção de “puro” e “impuro” não deve ter sentido algum para ele. Deve ser observado que o Apóstolo es­ tá fazendo um jogo com o sentido ritual e moral de puro. Quando os modernos citam o apotegma, usualmente tomam a palavra exclusiva­ mente no sentido moral e deduzem que o homem que é puro ele mes­ mo, não precisa temer a contaminação de qualquer coisa impura. Esta é uma meia-verdade perigosa, e longe do significado de Paulo. Paulo então leva o ataque para o território inimigo, reformulan­ do sua máxima na forma negativa: nada é puro, no sentido ritual ou em qualquer outro sentido, para os que, longe de serem puros na sua dis­ posição interior, são impuros e descrentes. Estas últimas palavras são, naturalmente, dirigidas contra os falsos mestres, embora tenham uma aplicação geral também. O problema é que tanto a mente como a cons­ ciência deles estão corrompidas, e perderam a capacidade de distinguir entre o bem e o mal. Para este tipo de corrupção, cf. 1 Tm 4:2; 6:5; 2 Tm 3:8.. 16. Paulo encerra sua diatribe com a acusação condenatória: No tocante a Deus professam conhecê-lo, entretanto o negam por suas obras. Visto que o falso ensino em mira tem traços gnósticos, há quase certa­ mente uma alusão aqui ao conhecimento mais alto, esotérico de Deus que os sectários reivindicavam. Contra isto, tem sido indicado que era a jac­ tância especial dos judeus de que, diferentemente do mundo pagão, co­ nheciam a Deus conforme Ele Se revelara aos homens (cf. G1 4:5; 2 Ts 4:5; 2 Ts 1:8). Visto que os hereges cretenses eram judaizantes, é, por­ tanto, possível que o Apóstolo esteja criticando a pressuposição compla­ cente de que eles eram uma elite que possuíam um conhecimento privi­ legiado de Deus. Estas duas interpretações, no entanto, não são, de mo­ do algum, mutuamente contraditórias, especialmente porque fica claro que elementos judaicos e gnósticos eram fundidos na heresia. Longe de serem justificados na sua jactância, Paulo argumenta, o negam por suas obras, i.é, sua conduta os refuta de modo eloqüente. As­ sim como a fé sem obras está morta, assim também a qualidade da vida de um homem é o teste decisivo do seu conhecimento de Deus (1 Jo 2: 4). Não fica claro se Paulo está pensando do comportamento frouxo dos 215


TITO 2:1-2 sectários em geral, ou mais especificamente das práticas ascéticas que equivaliam a uma negação da bondade da criação de Deus. A referência a regulamentos humanos em 14 e o paralelo em 1 Tm 4:4 parecem tor­ nar esta última idéia mais provável. Na realidade, longe de terem qualquer entendimento especial da natureza de Deus, os sectários são abomináveis, desobedientes e reprova­ dos para toda boa obra. O primeiro adjetivo é enfático, e deriva de um substantivo (Gr. bdelugma = “abominação” : cf. Lc 16:15) que denota o que causa horror e nojo a Deus. O segundo relembra insubordinados no v. 10,« sugere a recusa dos sectários de aceitar a Palavra de Deus con­ forme ela é exposta por Paulo e seus associados. Como resultado, ao pas­ so que “o homem de Deus” conforme é descrito em 2 Tm 3:7 está “per­ feitamente habilitado para toda boa obra,” eles nada valem na comuni­ dade cristã. CONSELHOS PARA CATEGORIAS DIFERENTES DE CRISTÃOS 2 : 1-10

Tendo feito provisões para a nomeação de ministros apropriados, e tendo deixado Tito de sobreaviso contra os sectários subversivos, Paulo volta-se para o supervisão pastoral das próprias comunidades cretenses. Como nas passagens correspondentes em Cl 3:18 - 4:1 e Ef 5:22 - 6:9, divide-as em grupos, embora a divisão aqui seja baseada na idade, no sexo, e na posição social ao invés da família. Como noutros lugares, parece que está adaptando listas correntemente aceitas de qualidades admiráveis. Ao requerer de cada um dos grupos que observe um alto padrão de conduta, está preocupado tanto com a boa reputação da igreja quanto com o avan­ ço do evangelho num ambiente de moralidade duvidosa. 1. Suas palavras iniciais, Tu, porém, (Gr. Su de: lit. “Mas tu”)", são enfáticas. Os falsos mestres fustigados na seção anterior têm desvia­ do as pessoas; a linha seguida por Tito deve ser exatamente a oposta. Destarte, seu ensino deve ser o que convêm à sã doutrina, em contraste com as “fábulas” e os mandamentos dos homens dos sectários. Para sã doutrina, cf. 1:9; ver também nota sobre 1 Tm 1:10. O conselho de Paulo vai ser rigorosamente prático, mas não oculta sua convicção de que a base do bom comportamento é a crença correta. 2. Primeiramente, trata da seção dos mais idosos na comunida­ de. O conselho que Tito deve dar é que: Quanto aos homens idosos, que sejam temperantes, respeitáveis, sensatos. Não há verbo imperativo

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TJTO 2:3-4 no Grego aqui, que tem um acusativo e uma construção no infinitivo nos w. 2-5. Provavelmente depende do mandamento não expressado, subentendido em “fala” ou “ensina” no v. 1. Para temperantes (Gr. nèphalios), ver sobre 1 Tm 3:2; refere-se aqui ao controle-próprio geral em satisfazer os desejos. Para respeitáveis (Gr. semnos) e sensatos (Gr. sõphón), ver sobre 1 Tm 2:2; 3:8; 11 e 1 Tm 2:9; 3:2; Tt l:8respectivamente. Até mesmo um código pagão pode insistir na gravidade do com­ portamento e no auto-domínio dos idosos; agora, Paulo acrescenta um to­ que especificameente cristão ao requerer deles que sejam sadios na fé, no amor e na constância. Para a tríade, cf. 1 Tm 6:11 (ver a nota ali) e 2 Tm 3:10. Nada há de não-paulino nele, como comprova sua ocorrência em 1 Ts 1:3. O Apóstolo talvez tenha selecionado constância ou porque era uma qualidade especialmente apropriada em homens que estavam enfren­ tando as dificuldades e os desencorajamentos da idade, ou, mais prova­ velmente, porque era especialmente necessária nas igrejas perturbadas como as da Creta, onde, portanto, os idosos deveriam dar um exemplo desta virtude. Em sadios na fé (cf. 1:13; para o antônimo, ver 1 Tm 6: 4 e Rm 14:1 — “débil na fé”) não está se referindo à exatidão da doutri­ na, sendo fé equivalente de “a fé,” mas, sim, à atitude subjetiva dos ido­ sos; esta interpretação é apoiada pela conotação subjetiva dos outros dois substantivos. 3,4. O conselho de Paulo para as mulheres idosas relembra parcial­ mente o que foi dado para as diaconisas em 1 Tm 3:11. Devem ser sé­ rias em seu proceder, onde o substantivo denota comportamento ou pos­ tura vistos como a expressão do caráter interior ou disposição da pessoa, ao passo que o adjetivo sugere o comportamento de uma boa sacerdoti­ sa desempenhando as funções do seu cargo. As duas exigências adicio­ nais, não caluniadoras, não escravizadas a muito vinho (cf. 1 Tm 3:11), fixam-se de modo realista nas fraquezas às quais senhoras (e homens) idosas estão sujeitas em todas as eras, se não tomarem cuidado. Os críti­ cos que objetam que o Apóstolo não poderia ter incluído tais qualidades na sua lista têm um conceito mais prometedor da natureza humana é da igreja do século I do que ele tinha, e devem reler 1 Coríntios com seus olhos abertos. Mais positivamente, o papel destas mulheres idosas é resumido no adjetivo mestras do bem (Gr. kalodidaskalous). Não se trata de dar ins­ trução formal (que é proibido em 1 Tm 2:12, e não há razão porque Paulo adotasse uma linha diferente em Creta), mas, sim, o conselho e encorajamento que podem dar particularmente, pela palavra e pelo exem217


TITO 2:5 pio. Assim, Paulo pode fazer sua transição para o setor jovem da comu­ nidade. As mulheres mais idosas deve demonstrar um padrão alto, a fim de instruírem as jovens recém-casadas a amarem a seus maridos e a seus filhos. . . Na antigüidade, entre os pagãos e os judeus igualmente, estas virtudes-gêmeas eram consideradas á glória do caráter das mulheres jovens, e freqüentemente são mencionadas nas inscrições funerárias. Cf. o epitá­ fio, freqüentemente citado, dos tempos de Adriano, numa lápide acha­ da em Pérgamo, na Mísia: “Julius Bassus. . . à sua dulcíssima esposa, de­ dicada ao seu marido e dedicada aos seus filhos.” 5. Além disto, as jovens esposas devem ser encorajadas a serem sensatas (no sentido do auto-controle: qualidade esta constantemente referida nas Pastorais), honestas, boas donas de casa, bondosas, sujeitas a seus próprios maridos. Os dois primeiros adjetivos ressaltam o decoro da sua vida sexual. A palavra traduzida boas donas de casa (Gr. oikourgos) literalmente significa “trabalhando em casa.” Alguns MSS regis­ tram oikourous, i.é, “conservando-se em casa,” mas oikourgos é a mais rara destas palavras, e também tem mais apoio nos MSS; de qualquer maneira, a diferença de significado é leve. Os antigos, tanto os judeus quanto os pagãos, estimavam a esposa que se conservava em casa, e Paulo tinha razões especiais para preferir que não andassem à toa (ver sobre 1 Tm 5:13). Alguns preferem entender o original de bondosas (Gr. agathous) por “boas” e tratar a palavra como adjetivo que qualifica a palavra ante­ rior, tomada por substantivo (“boas trabalhadoras no lar”). Assim, po­ rém, fica destruído o ritmo da frase, e é, de qualquer maneira, desneces­ sário, visto que agathos pode ter o significado de “bondoso,” “benevo­ lente” (cf. Mt 20:15; Mc 10:17-18; 1 Pe 2:18). A lição de Paulo é que, embora a jovem dona de casa devesse estar ocupada com suas tarefas do lar, não deve esquecer-se da bondosa simpatia que deve à sua família e às suas empregadas domésticas. Quanto aos conceitos de Paulo sobre o dever das mulheres de se­ rem sujeitas a seus próprios maridos, cf. 1 Co 14:35; Ef 5:22; Cl 3:18. Visto que mantinha estes conceitos durante toda a sua vida de maneira consistente, e visto que coincidiam com as idéias contemporâneas tanto no mundo judaico quanto no pagão, não há necessidade de tratar a pre­ sente passagem (conforme fazem alguns autores) como evidência em prol da maior liberdade para seu sexo que, sob a influência libertadora do ensino cristão, as mulheres na igreja primitiva estavam reclamando. Para tais reivindicações, ver sobre 1 Tm 2:11. Paulo tem uma razão especial para exigir um alto padrão neste as­ 218


TITO 2:6-8 pecto e noutros, da parte das mulheres jovens, viz. para que a palavra de Deus não seja difamada. 0 mundo de fora imediatamente culpará o pró­ prio evangelho por qualquer conduta da parte dos fiéis que seja chocan­ te às susçetibilidade contemporâneas. A linguagem, como a de 1 Tm 6:1, ecoa LXX Is 52:5. Para a preocupação do Apóstolo com a reputação externa da igreja, ver sobre 1 Tm 3:7. 6,7. O tom de Paulo toma-se mais severo quando chega aos mo­ ços. Exorta-os, pede a Tito, empregando o imperativo pela primeira vez, para que. . . sejam criteriosos (“exerçam controle-próprio”). Mais uma vez temos esta qualidade que é tão prezada nas Pastorais (ver sobre 1 Tm 2:9), pois o verbo aqui usado (Gr. sõphronizein) tem relacionamento com o adjetivo (Gr. sõphrõn) traduzido “sensato” nos w. 2 e 5. Não fica totalmente claro se a expressão em todas as coisas deva ser tomada com este infinitivo ou com a frase que se segue. Qualquer destas maneiras é gramaticamente possível, mas a primeira parece preferível (a) porque as palavras então indicam o largo escopo do “controle-próprio” exigido, e (b) porque a segunda pessoa no singular, ter, na cláusula seguinte, volta então a reaver sua verdadeira ênfase. Paulo sabe que a pregação por si mesma terá pouca utilidade; Tito terá mais probabilidade de conseguir fazer o efeito desejado se se mostrar padrão de boas obras (“boa conduta”). O acento aqui, conforme já foi sugerido, recai fortemente sobre te; Tito ainda é relativamente jovem, e, destarte, sua maneira de comportar-se deve ter influência sobre os jo­ vens. Para a insistência do Apóstolo de que o líder cristão deve pessoal­ mente dar o exemplo, ver sobre 1 Tm 4:12. 8. Esta menção de Tito como padrão de boas obras, leva Paulo a divagar do seu tema principal, viz. o conselho que seu discípulo deve dar ao seu rebanho, e a expor brevemente o exemplo que ele mesmo de­ ve dar. Destarte, No ensino deve mostrar integridade, reverência, lingua­ gem sadia e irrepreensível. Muitos interpretam ensino objetivamente, a respeito do conteúdo da mensagem de Tito; mas visto que este sentido já está abrangido por linguagem sadia, é preferível interpretá-lo ativa­ mente, como uma referência às suas atividades como mestre (para este uso do Gr. didaskalia, cf. Rm 12:7; 1 Tm 4:13; 2 Tm 3:16). Por inte­ gridade Paulo quer dizer pureza de motivo, a ausência de qualquer dese­ jo de lucros; ao passo a reverência dçnota um alto tom moral e uma ma­ neira séria: para a palavra, ver sobre 1 Tm 2:2. A substância da sua men­ sagem consiste em linguagem sadia e irrepreensível, onde sadia tem o sig­ nificado usual nas Pastorais de “conforme o evangelho apostólico.” O motivo por detrás destes preceitos é bom e prático, viz. para 219


TTTO 2 :9-10 que o adversário seja envergonhado não tendo inâgnidade nenhuma de dizer a nosso respeito. A descrição que Paulo dá do adversário (lit. “qual­ quer pessoa do lado oposto”) é deliberadamente vaga; pode incluir, e sem dúvida inclui mesmo, críticos pagãos do cristianismo, mas sua refe­ rência primária diz respeito a indivíduos indispostos dentro da própria comunidade que, conforme Tito pode ter a certeza, estão avidamente procurando a mínima oportunidade para pegá-lo numa falha. Sua me­ lhor defesa será a completa integridade da sua pregação, tanto na ma­ neira quanto no conteúdo. 9. Voltando ao seu tema, Paulo ressalta que os escravos, também, têm uma grande responsabilidade espiritual; que sejam, em tudo, obedi­ entes aos seus próprios senhores. Seu ensino assemelha-se àquele que foi dado em 1 Tm 6:1. Supõe-se que tenha em vista lares cristãos, e que não esteja preceituando a obediência cega a ordens de moralidade duvido­ sa. Os autores estão divididos acerca de se em tudo deve ser interpreta­ do com obedientes, como supra, ou com dando-lhes motivo de satis­ fação. Visto não haver nenhum “e” entre as duas frases em Grego, qual­ quer delas é gramaticamente possível, e ambas dão significado aceitáveis; a tradução dada talvez faça a palavra equilibrar-se melhor com em todas as coisas no v. 10. 10. Não somente os escravos devem ser obedientes aos seus senho­ res, como também devem “dar-lhes satisfação sem responder nem furtar” - dando-lhes motivo de satisfação; não sejam respondões, não furtem. Devem cumprir seus deveres com um desejo positivo de agradar, pen­ sando na sua posição de cristãos mais do que de escravos. O verbo tradu­ zido furtar (Gr. nesphizesthai) literalmente significa “separar,” ou “colocar de lado,” e assim fica sendo um eufemismo para o furto em pequena es­ cala ou o quieto aproveitamento dalgumas vantagens indevidas. Longe de descer àquele nível, o escravo cristão deve esforçar-se para exibir prava de toda a fidelidade. No fim, Paulo dá a razão profundamente cristã porque os escra­ vos devam manter este alto padrão de conduta. É uma razão que de­ monstra que compartilham, igualmente com seus senhores, da tarefa su­ prema de honrar a Deus nas suas vidas, à qual a igreja inteira é dedicada —a fim de ornarem, em todas as coisas, a doutrina de Deus, nosso Sal­ vador. Noutras palavras, seu comportamento obediente ajudará a fazer a mensagem cristã atraente e nobre, e assim a recomendará ao mundo ex­ terno. Para Deus, nosso Salvador (característica das Pastorais), ver nota sobre 1 Tm 1:1. 220


TITO 2:11-12 O MOTIVO PARA O VIVER CRISTÃO 2:11-15 O parágrafo anterior foi um desafio para os vários grupos nas igre­ jas de Creta aceitarem o padrão especificamente cristão de comportamen­ to. Seus preceitos talvez pareçam, à primeira vista, prosaicos, monótonos e convencionais, mas Paulo agora relembra Tito, com eloqüência, que têm sua base no próprio evangelho. Foi exatamente para elevar os ho­ mens a uma qualidade mais alta de vida que Deus interveio na história, mediante a encarnação. 11. A partícula inicial Porquanto indica que está para declarar o fundamento teológico do conselho que acabou de dar. É que a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens. Como normalmente em Paulo, graça representa o favor gratuito de Deus, a bondade espon­ tânea mediante a qual intervém para ajudar e livrar os homens. A graça de Deus é alguma coisa acerca da qual, à parte da revelação, os homens não poderiam ter formado qualquer noção; mas agora se manifestou. A metáfora subjazente é aquela do repentino irromper da luz, como na aurora. A referência (cf. 3:4; 2 Tm 1:10) não é simplesmente à Na­ tividade de Jesus Cristo, mas, sim, à Sua carreira terrestre inteira, inclu­ sive Sua morte e ressurreição. Nisto temos uma revelação maravilhosa do amor e favor divinos. E esta revelação foi feita “para a salvação de todos os homens.” Mais uma vez, como em 1 Tm 2:4 (ver a nota ali), temos o pensamento da universalidade da salvação, mas é possível que o Apóstolo também esteja subentendendo que a graça de Deus se estende a todas as classes da humanidade, inclusive os escravos mencionados supra. 12. A ênfase principal da frase recai na próxima frase, educandonos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos no presente século, sensata, justa e piedosamente. Paulo está ressaltando o que podemos chamar de aspecto, educativo ou disciplinar da atividade salvífica de Deus. Negativamente, os cristãos sob a orientação da graça (é quase personificada) fizeram um rompimento total com falsos concei­ tos de Deus (a impiedade), e também com as inclinações que são exclu­ sivamente deste mundo. O caráter deste rompimento é ressaltado no original pela palavra traduzida renegadas, que é um particípio no aoristo, que indica uma ação de uma vez por todas. Não é forçado demais ver aqui uma referência ao seu batismo, quando viraram as costas para sua vida pagã e aceitaram a Cristo. Mais positivamente, têm a oportunidade de aprender, sob a in­ 221


TITO 2:13 fluência da graça divina, a conduzir sua vida de um modo plenamente cristão. Os três advérbios que Paulo emprega definem, sucessivamente, o relacionamento do cristão consigo mesmo, com seu próximo, e com Deus. Como tão freqüentemente nas Pastorais, a linguagem e as figuras refletem aquelas do idealismo moral helenístico contemporâneo, o que é ressaltado especialmente no conceito da função educativa da graça, que alguns acham semelhante à noção grega da paideia e assim rejeitam como sendo não-paulino. É perigoso, no entanto, notar apenas as seme­ lhanças e não as diferenças. Ao passo que na ética grega a força motriz era a razão e a vontade do indivíduo, aqui é a livre graça de Deus. Além disto, não é verdade que para Paulo nas suas cartas reconhecidas, a gra­ ça consiste exclusivamente “em uma única dádiva dominante que é rece­ bida num momento no ato da fé” (E. F. Scott). Em numerosas passagens (e.g. Rm 6:14-24) indica sua crença de que a mão ajudadora de Deus está com o cristão depois da sua conversão, fazendo florescer as qualidades da nova vida em Cristo. 13. Paulo está falando da vida no presente século. Para a expres­ são cf. 1 Tm 6:17; também Rm 12:2; 1 Co 2:6; 2 Co 4:4. Entesoura a crença judaica-cristã de que a presente ordem está sob o domínio dos poderes malignos, que serão derrotados quando Deus estabelecer Seu reino. Logo, embora vivamos no mundo, nós, os cristãos, estamos aguar­ dando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus. A frase (é, talvez, um trecho de um hino ou fórmula litúrgica cristã) contém uma expressão calorosa da exprectativa escatológica da Igreja primitiva, que aguardava impacientemente a segunda vinda do Senhor à destra de Deus. Para o escritor esta expec­ tativa é ainda vívida e real, o que confirma a data antiga da carta. Como tão freqüentemente em Paulo (Rm 8:24; G1 5:5; Cl 1:5), a esperança representa o objeto que se espera. A despeito da partícula e, a frase que se segue fica virtualmente em aposição a ela, e define em que' consiste a esperança cristã (para a construção, cf., e.g., At 23:6). Esta é nada menos do que a manifestação, ou revelação sobrenatural (para o termo, ver sobre 1 Tm 6:14), de Cristo no último dia, quando, segundo a profecia em Mt 16:27; “o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seu anjos.” Naquela passagem, como nesta, glória denota a tremenda radiança em que Deus habita. É extremamente difícil decidir se a segunda metade deste versículo deve ser traduzida (a) “do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo” ou (b) “. . . nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo. ” Os seguintes são fatores a favor desta última tradução; (i) a ausência no Grego do artigo 222


m O 2 :14

definido antes de Salvador; (ii) o fato de que tem o apoio dos Pais gregos; (iii) a falta de paralelos noutras partes do N.T. à descrição de Deus como “grande” e a uma “manifestação” de Deus; (iv) a freqüente ocorrência nos textos pagãos de “Deus e Salvador” como fórmula aplicável a uma única personagem. Se o último fator for levado em consideração, as pa­ lavras podem ser uma afirmação da reivindicação que os cristãos fazem em prol de Cristo, de modo contrário ao culto imperial. Algumas destas considerações têm menos peso do que outras. Por exemplo, a ausência do artigo não pode ser contada como decisiva, pois “Salvador” tendia a ser usado sem o artigo (cf. 1 Tm 1:1), e, de qualquer maneira, o uso correto do artigo estava se desfazendo no Grego posterior. Os Pais, além disto, foram influenciados parcialmente por motivos teoló­ gicos ao escolherem (b)\ e em contraste com eles as versões antigas, que são de data mais recuada, apóiam (a). Se (a) foi aceito, não precisamos pensar que Paulo está falando de duas “manifestações” distintas, uma de Deus e uma de Cristo; a glória do nosso grande Deus descreve o esplen­ dor divino com o qual Cristo está investido na Sua vinda. As considera­ ções que, no conceito do presente autor, inclinam a balança a favor de (a) são: (i) que Paulo em nenhum outro lugar, ou nestas cartas ou nas demais escritas por ele, explicitamente descreve Cristo como Deus (Rm 9:5 talvez seja uma exceção); (ii) ao passo que regularmente fala de “Deus” e de “Cristo” lado a lado (e.g. 1 Tm 1:1; 5:21; 6:13; 2 Tm 1:1; 4:1; Tt 1:4; 3:4-6), são invariavelmente distinguidos como sendo duas Pessoas; (iii) a cristologia das Pastorais parece sugerir que o relacionamen­ to entre Cristo e Deus é um de dependência, e a ênfase que dão à unici­ dade de Deus (e.g. 1 Tm 6:16) também milita contra (b). Isto, porém, não é negar a divindade de Jesus, mas, sim, colocá-la no seu devido prisma. 14. Tendo saudado Cristo como nosso. . . Salvador, Paulo passa a definir Sua obra: o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniqüidade, e purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras. As primeiras palavras relembram G1 1:4; 1 Tm 2:6 (ver a nota ali). A interpretação da obra de Cristo em termos de res­ gate remonta a Sua própria declaração em Mc 10:45. A linguagem usada relembra LXX SI 129:8 (“É ele quer redime a Israel de todas as suas iniqüidades”). Assim como o Senhor prometera em Ez 37:23, a libertação do pe­ cado é seguida pela purificação, e assim Paulo passa para este aspecto da obra salvífica de Cristo. A idéia básica é a vétero-testamentária da puri­ ficação do povo por Moisés com o sangue da aliança (Êx 24:8), e a suges­ tão é que o sangue de Cristo purifica Seu povo do pecado (cf. 1 Jo 1:7). 223


TITO 2:15-3:1 0 resultado é que os cristãos tomam-se o próprio povo de Cristo, Sua possessão peculiar. As palavras que se traduzem um povo exclusivamen­ te seu (Gr. laos periousios) são empregadas em LXX Êx 19:5; 23:22; Dt 7:6; 14:2; 26:18, onde denotam o povo que Deus redimiu e que é, portanto, “peculiar” para Ele. Para o conceito da Igreja como o novo Israel, cf. G1 6:16; Fp 3:3; 1 Pe 2:9-10. Porque os cristãos foram as­ sim separados, é apropriado que sejam zelosos de boas obras. Para o in­ teresse no cristianismo prático nas Pastorais, ver sobre 1 Tm 2:10. 15. As palavras finais, Dize estas coisas (“São estas as coisas que deves ensinar”), relembram 2:1, usando o mesmo verbo no imperativo; o conselho prático que Tito há de dar deve ser colocado no seu arcabou­ ço doutrinário apropriado. Ele não somente deve declarar esta mensa­ gem, mas também de exortar as pessoas a aceitá-la e repreendê-las por qualquer lassidão em fazê-lo. Ele pode agir com toda a autoridade, pois sua mensagem é a autêntica mensagem apostólica, e sua comissão vem da parte de Deus. Ninguém deve desprezá-lo. Paulo dá quase exatamen­ te o mesmo conselho a Timóteo em 1 Tm 4:12, fazendo referência à ju­ ventude dele. Neste caso, conforme Calvino observa com perspicácia, a observação visa mais as igrejas cretenses do que o próprio Tito. Paulo deseja impressionar sobre elas a autoridade do seu representante. O DESAFIO SOCIAL AOS CRISTÃOS 3:1-11 Até este ponto, Paulo tem se ocupado com a ordem interna das igrejas de Creta, e com os deveres dos seus membros, uns para com os outros. Agora faz um breve comentário sobre seu relacionamento com o poder civil e seu meio ambiente pagão em geral. A lição que ensina é que devem ser modelos de boa cidadania precisamente porque a no­ va vida sobrenatural do Espírito outorgada pelo batismo acha expressão em semelhante atitude. 1. Tito deve Lembrar seu rebanho (o imperativo está no presen­ te, o que sugere que isto deveria ser uma prática regular) que se sujeitem aos que governam, às autoridades; sejam obedientes. Paulo está possivel­ mente dando uma olhadela no caráter infamemente turbulento dos cre­ tenses, do qual Políbio nos informa (Hist. vi. 46. 9), mas a máxima refle­ te com exatidão o ensino que dá noutros lugares (1 Tm 2:1-2, e esp. Rm 13:1-7) acerca do respeito que os cristãos devem ao poder civil. Acre­ ditava que sua autoridade vinha em última análise da parte de Deus, mas 224


TITO 3:2-3 também estava preocupado, como outros escritores no N.T., com o bom nome da igreja na sociedade. Os cretenses também estejam prontos para toda boa obra (“para qualquer tarefa honrosa”). Parece que a referência não diz respeito a obras de caridade especificamente cristãs, como em 2:14 e noutros luga­ res nas Pastorais, mas, sim, às atividades de qualquer tipo que acompa­ nham a boa cidadania. Os cristãos devem estar em primeiro lugar, den­ tro do possível, em demonstrar civismo no seu distrito. 2. Em harmonia com isto, devem fazer de alvo o seguir a estes preceitos: não difamem a ninguém; nem sejam altercadores, mas cor­ datos, dando provas de toda cortesia, para com todos os homens. Em­ bora o versículo relembre o conselho de Paulo aos Romanos (Rm 12: 18-21) no sentido de viverem pacificamente com todos os seus vizinhos, deixando para Deus a parte da vingança pelas injúrias, procura pintar um quadro mais positivo da atitude apropriada dos cristãos à sociedade pagã no meio da qual estão colocados. A chave desta atitude deve ser a cortesia ou “consideração cortês” (Gr. praütês, “meiguice”), qualidade esta que freqüentemente é atribuída no N.T. ao nosso Senhor (Mt 11: 29; 21:5; 2 Co 10:1). Ele mesmo a louvou nas Bem-Aventuranças (Mt 5:5), e Paulo a contava como um dos frutos do Espírito (G1 5:23). A insistência sobre todos os homens (para exatamente a mesma ênfase, cf. Rm 12:17; G16:10; Fp 4:5) é deliberada. Esta gentil cortesia que é um traço tão essencial do caráter cristão deve ser exibida ao mundo em geral, inclusive aos que são mais hostis ou aos quais se tem menos simpatia, e não apenas aos colegas cristãos da pessoa, ou aos amigos pessoais. 3. Os cretenses, Paulo agora sugere, têm um motivo poderoso para comportar-se de modo conciliatório e atencioso com seus vizinhos pagãos, visto que nós também (com humildade característica, inclui-se com eles: cf.l Co 15:9) outrora éramos, i.é, antes da nossa conversão, totalmente tão ruins quanto eles são agora. O Apóstolo freqüentemen­ te faz um contraste semelhante, em cores vivas, entre a posição presen­ te dos seus convertidos e sua posição passada (Rm 6:17-18; 1 Co 6: 9-11; Ef 2:2 ss.; Cl 3:7-8), e alguns argumentam ou que a presente passagem está modelada sobre as que existem nas cartas reconhecidas, ou que o tema se tomara convencional em contextos exortativos deste tipo. Deve ser notado, no entanto, como uma pequena indicação da autenticidade, que ele normalmente se dirige diretamente aos seus cor­ respondentes, ao passo que aqui se inclui a si mesmo no contraste. No seu estado não-regenerado, declara, os cretenses, e Tito e ele 225


TITO 3:4-5 mesmo, não menos, tinham sido néscios, no sentido de cegos à realida­ de de Deus e da Sua lei; desobedientes, i.é, desprezando a vontade de Deus, mas também provavelmente, tendo em vista v. 1 supra, impacien­ tes com a autoridade; desgarrados, palavra esta que sugere que tinham deixado o caminho certo e que eram simplórios nas mãos de guias fal­ sos; escravos de toda sorte de paixões e prazeres, noutras palavras, en­ tregues a coisas carnais e materiais; e, como conseqüência, vivendo em malícia e inveja, i.é, de uma maneira totalmente anti-social. Não admi­ ra que acabaram sendo odiosos a outras pessoas e odiando-nos uns aos outros. 4. Paulo pinta o quadro em cores escuras, com exagerada autoacusação, mas reflete com exatidão a sincera repugnância que ele, como cristão, sentia ao relembrar o tipo de vida em que ele, e outros cristãos convertidos, tais como Tito e os cretenses, tinham sido envolvidos ante­ riormente. Não foi nada do que eles mesmos tinham conseguido reali­ zar, mas, sim, somente a intervenção divina, quando, porém, se manifes­ tou a benignidade de Deus, nosso Salvador, que conseguiu desembaraçá-los daquela vida. Este versículo é um paralelo de 2:11 supra, e, como ali, se mani­ festou (o mesmo verbo, epephanè) significa o aparecimento terrestre, ou vida encarnada, de Jesus Cristo: ver notas sobre 2:11; 2 Tm 1:10. NEle, o amor compassivo de Deus, nosso Salvador (ver nota sobre 1 Tm 1:1) foi repentinamente tomado visível; resplandeceu como uma nova aurora. O substantivo traduzido benignidade (Gr. chrèstotês) é confina­ do a Paulo no N.T. Conforme é aplicado aos homens representa um dos frutos do Espírito (G1 5:22); empregado acerca de Deus, conota Sua bondade e solicitude compassiva (Rm 2:4; 11:22; Ef 2:7). É freqüen­ temente achado junto, nos escritos gregos e judaicos (inclusive a LXX), com amor para com os homens (“generosidade”) (Gr. philanthrõpiaj lit. “afeição pelos homens”), e parece que Paulo aqui ecoa um chavão corrente. Este último termo conota consideração ou respeito para com os homens, humanidade, ou benevolência. Embora a “generosidade” às vezes fosse atribuída a Deus, as inscrições demonstram que na era helenística era a mais prezada das virtudes básicas aclamadas em soberanos. Este fato toma provável que, aqui, como noutros lugares nestas cartas, o Apóstolo esteja deliberadamente modelando sua linguagem naquela dos cultos contemporâneos aos soberanos, a fim de asseverar de modo mais impressionante as reivindicações do cristianismo. 5. Foi então, Paulo passa a explicar, quando o propósito amo­ roso de Deus tinha sido revelado na encarnação, que ele nos salvou. O 226


n T 0 3:5

tempo aoristo do verbo indica um ato de uma vez por todas; e esta sal­ vação, acrescenta caracteristicamente, não foi por obras de justiça prati­ cadas por nós, mas segundo sua misericórdia. Para a insistência na qua­ lidade gratuita da graça, cf. 2 Tm 1:9; também Rm 3:24; etc. O contras­ te entre por nós e sua “própria” é enfático e intencional. A despeito do fato de que as igrejas cretenses incluíssem tantos convertidos do judaís­ mo, Paulo provavelmente não estava pensando tanto na observância es­ crupulosa da lei mosaica quanto na conduta moral reta em geral (para este sentido de justiça, cf. 1 Tm 6:11; 2 Tm 2:22; 3:16). Alguns de­ tectam aqui uma discrepância com o ensino das cartas reconhecidas, e argumenta que a justiça da qual Paulo fala aqui é a justiça da lei. Até mesmo em Romanos, no entanto, toma claro (cf. 9:11) que sua polêmi­ ca contra as obras se estende além da lei para boas ações de qualquer ti­ po mediante as quais os homens talvez suponham que adquirem mérito com Deus. Deus mediou esta salvação para nós mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo. A referência é claramente ao batismo, que também é descrito como sendo um lavar (Gr. loutron: lit. “banho”) em Ef 5:26 (cf. também 1 Co 6:11). Do ponto de vista gramatical, se­ ria igualmente possível entender “renovação” como sendo dependente da preposição mediante (Gr. dia: lit. “através de”) e paralelo ao lavar. Segundo esta exegese, Paulo estaria fazendo distinção entre dois proces­ sos, o lavar do batismo propriamente dito, e a subseqüente restauração efetuada pelo Espírito Santo. A tradução adotada, no entanto, que en­ tende renovador em estreita conexão com o lavar, conserva melhor o equilíbrio da frase; e o fato de que o pensamento paulino, e o pensa­ mento cristão primitivo, geralmente vinculam o Espírito estreitamente com o batismo, é decisivo em seu favor. Segundo esta interpretação, o efeito do batismo é primeiramente definido em termos de regeneração (Gr. paliggenesia), ou “regeneração.” Os estóicos usavam esta palavra para denotar as restaurações periódicas do mundo, e em Mt 19:28 (sua única outra ocorrência no N.T.) é usa­ da escatologicamente acerca do novo nascimento da criação na era mes­ siânica. Nas religiões de mistério denotava o renascimento místico ex­ perimentado pelos iniciados. Embora Paulo não o empregue noutros lugares, o conceito do batismo como sendo um novo nascimento era ensinado explicitamente por outros escritores do N.T. (cf. Jo 3:3-8; 1 Pe 1:3, 23), e ele mesmo fala dos cristãos morrendo e ressuscitando juntamente com Cristo no batismo (Rm 6:4) e sendo doravante filhos de Deus (Rm 8:14). 227


TITO 3:6-7 Desta maneira, o cristianismo primitivo interpretava o batismo à à luz das idéias escatológicas correntes acerca da restauração do mundo na era messiânica vindoura, que, segundo se acreditava, já raiara. Este pensamento é elaborado na descrição adicional que Paulo dá do batis­ mo como uma “renovação” (Gr. anakainisis: para a palavra e a idéia, cf. Rm 12:2). Com isto quer dizer a transformação completa, ou ele­ vação para uma nova ordem de existência, pela qual o cristão passa no batismo. Fica sendo, conforme 2 Co 5:17, “nova criatura” mediante sua união com Cristo, “livrado da lei do pecado e da morte.” (Rm 8:2). O ensino aqui, portanto, está em total harmonia com a teologia batis­ mal das cartas anteriores de Paulo, e a objeção de que representa “mais um passo em direção à religião sacramental”, o qual realmente não po­ deria ter dado é estranhamente mal-concebida. O acento da passagem recai totalmente na misericórdia e na graça de Deus, e se a fé não foi ex­ plicitamente mencionada é porque (como em 1 Co 6:11, onde não é mencionada tampouco) Paulo está ocupado com os resultados do batis­ mo mais do que com suas condições. 6. Esta nova criação é levada a efeito mediante. . . o Espírito Santo (o genitivo no original é causativo), que ele, i.é, Deus Pai, derra­ mou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo nosso Salvador. A fi­ gura do derramar, aplicada à outorga do Espírito, é empregada em At 2:17 (relembrando J1 2:28); 2:33. Para a crença de Paulo do que o Espírito era outorgado no batismo, cf. 1 Co 6:11; 12:13; 2 Co 1:22; Cl 4:6; Ef 1:13. A importância desta idéia na igreja primitiva é bem ilustrada pela história do batismo do nosso Senhor, que era considerado o protótipo do sacramento cristão, e em que a descida do Espírito figu­ rava com destaque. É naturalmente mediante Cristo (para nosso Sal­ vador, ver sobre 2 Tm 1:10), como resultado da sua reunião com Ele pela fé, que o Espírito é mediado aos cristãos (cf. At 2:33). Embora isto não seja declarado noutro lugar por Paulo, é implícito no seu ensino. O esquema triádico, com sua pressuposição subjacente da cooperação entre o Pai, o Filho, e o Espírito, também é de um tipo muito familiar nas suas demais cartas. 7. O propósito da outorga do Espírito agora é definido assim:' a fim de que, justificados por graça, nos tomemos seus herdeiros, segun­ do a esperança da vida eterna. A lição de Paulo é que, tendo sido justi­ ficados, e sua justificação tendo sido ratificada no batismo, os cristãos não somente entraram na nova vida do Espírito, como também podem antegozar com confiança o último dia, visto que seus pecados foram apagados pela morte de Cristo e que podem, portanto, antever um vere228


I TIMÓTEO 1:4 dito favorável. Como filhos adotivos, são herdeiros. . . da vida eterna (Rm 8:17; G1 4:7); mas visto que sua herança, ou mais corretamente, a plena posse dela, está no futuro, são descritos, a rigor como herdeiros segundo a esperança (Rm 8:24-25; Ef 1:13-14). Parafraseado assim, o pensamento da passagem parece ser tão total­ mente paulino quanto a linguagem; Muitos objetam que, ao passo que para Paulo a justificação é a única condição necessária para tomar-se herdeiros. . . da vida eterna, esta justificação é representada aqui como o resultado do derramamento do Espírito sobre nós no batismo. O argu­ mento baseia-se, no entanto, num falso conceito da teologia paulina e numa falsa antítese entre a justificação e o batismo. Para Paulo, confor­ me demonstra 1 Co 6:11, os dois eram aspectos inseparáveis de um só processo. O sacramento era a expressão externa e visível do ato de fé mediante o qual o cristão aceitava a Cristo, e que assim inaugurava a res­ tauração do relacionamento com Deus que a justificação conota. 8. Paulo termina sua declaração fervorosa com a fórmula tão fa­ miliar nas Pastorais (1 Tm 1:15; 3:1; 4:9; 2 Tm 2:11), Fiel é a palavra. Aqui, como em 1 Tm 4:9, embora desta vez sem qualquer dúvida, olha para trás e não para a frente. Este fato apóia o ponto de vista de que a totalidade ou parte de 3-7 é uma citação, provavelmente dalgum hino ou peça litúrgica vinculada ao batismo. A favor disto há (a) o ritmo e tom elevado da passagem, e (b) a posição desajeitada de salvou no origi­ nal e a falta de um sujeito expresso, sendo que estes fatos sugerem que alguma coisa tenha sido encaixada em bloco. Se este for o caso, o v. 3 deve ser excluído da citação por ser demasiadamente semelhante, no esti­ lo e no conteúdo, com aquilo que antecede. Assim também, provavelmen­ te, o v. 4 deve ser excluído, visto que tanto se manifestou e Deus, nosso Salvador estão na linguagem idiomática das Pastorais. Visto que tanto 5a e v. 7 têm um sabor fortemente paulino, a citação pode muito prova­ velmente ser limitada a 5b-6, a seção especificamente batismal. É talvez arriscado, no entanto, procurar identificar a “palavra fiel” com exatidão, pois Paulo claramente entreteceu seu próprio pensamento com qual­ quer matéria tradicional ou litúrgica que tomou emprestada. Assim ele volta para o tema com que esta seção da carta, viz., os deveres sociais dos cristãos. Quer que Tito, no tocante a estas coisas, faça afirmação confiadamente (“insista nestas coisas”), i.é, a verdade que acaba de ser exposta acerca da livre graça de Deus e do nosso novo nascimento no batismo mediante o Espírito, para que os que têm crido em Deus, i.é, os cristãos, sejam solícitos na prática de boas obras. Nou­ tras palavras, como resultado do seu ensino terão um incentivo especial 229


TITO 3:9-11 para pôr em prática os princípios esboçados em 1-2 supra. 0 verbo no infinitivo (Gr. proistasthai) tem o significado de “praticar uma profissão,” de modo que muitos preferem a tradução “tomem o cuidado de ocupar-se em profissão honrosas.” Tal tradução, no entanto, introduz um tema completamente novo e não rigorosamente relevante. A tradução presente, ao mesmo tempo em que conserva a metáfora subjacente, pare­ ce concordar algo melhor com o contexto (cf. 3:1) e também com a ên­ fase dada a atos de caridade nas Pastorais de modo geral. 9. O conselho que acabou de dar a Tito, no sentido de concen­ trar-se nas verdades maravilhosas do evangelho, faz Paulo lembrar-se, por contraste, dos sectários e dos seus ensinos, e assim parte para uma breve digressão tendo-os como alvo. Estas coisas são excelentes, obser­ va, referindo-se à mensagem que acabou de recomendar a Tito, e provei­ tosas aos homens. Para esta ênfase à utilidade, cf. 1 Tm 4:8; 2 Tm 3:16. Deve ocupar-se com elas e evitar discussões insensatas, genealogias, e con­ tendas, e debates sobre a lei, os quais, longe de ter valor algum a quem quer que seja, não têm utilidade e são fúteis. O primeiro adjetivo con­ trasta-se com proveitosas no v. 8; para a última, cf. 1 Tm 1:6 (‘loquaci­ dade frívola”) e Tt 1:10 (“palreadores frívolos”). Este versículo nos oferece mais uns poucos pormenores, por demais parcos, para suplementar o quadro vago ao ponto de ser tantalizante, da heresia esboçada em 1:10-16. Parece que era, em linhas gerais, semelhan­ te àquela que perturbava a igreja de Éfeso, e Paulo a caracteriza em termos semelhantes. Para discussões, ver sobre 1 Tm 1:4; cf. também 1 Tm 6:4; cf. também 1 Tm 6:4; 2 Tm 2:23. Para genealogias, ver sobre 1 Tm 1:4; são provavelmente as mesmas fábulas judaicas mencionadas em 1:14. Co­ mo em 1 Tm 6:4 e 2 Tm 2:23, a preocupação com estas coisas apenas resulta em contendas (alguns MSS registram o plural). O colorido judaico da heresia é ressaltado mais uma vez em debates sobre a lei: para estes, ver sobre 1 Tm 1:8-9. 10,11. O que talvez seja a razão principal para a ansiedade de Pau­ lo emerge no conselho seguinte: Evita o homem faccioso, depois de ad­ moestá-lo primeira e segunda vez. A palavra traduzida homem faccioso (Gr. hairetikos) ocorre somente aqui na Bíblia. O substantivo cognato hairesis (lit. “heresia”), no entanto, é usado em Atos como o significado neutro de “partido” ou “escola de pensamento” (em 5:17, dossaduceus; em 15:5, dos fariseus; em 24:5, dos cristãos), mas por Paulo com o sig­ nificado pejorativo de “panelinhas partidárias” em 1 Co 11:19 e G1 5:20. No século II (e.g. 2 Pe 2:1; Inácio, Eph. vi. 2; Trall. vi. 1) veio a conotar doutrina* teológica falsa, e hairetikos quem sustenta tal doutrina, i.é, “he230


TITO 3:12 rege” no sentido modemo. Não há, no entanto, nenhuma razão sólida pa­ ra dar a hairetikos este último sentido no presente contexto. O sentido de “separatista” ou “sectário” se encaixa admiravelmente na passagem, e está de pleno acordo com o uso de hairesis feito pelo Apóstolo. O que o perturba em Creta é a tendência de os flasos mestres formarem grupos dissidentes, dividindo, assim, o corpo de Cristo. Aconselha a Tito, portanto, a evitar qualquer pessoa que demons­ tra sinais de inclinações separatistas. Um estreito paralelo é fornecido por Rm 16:17, onde manda seus correspondentes evitarem contato com “aqueles que provocam divisões e escândalos, em desacordo com a dou­ trina que aprendestes.” Tito não deve ser precipitado, no entanto, e antes de adotar alguma ação deve dar ao membro dissidente uma ad­ moestação, primeira e segunda vez. Não fica claro se a admoestação pú­ blica ou particular está em mente, mas o princípio parece modelado no conselho de Cristo para tratar de irmãos errantes (Mt 18:15-17). Mas se estas advertências não produzem resposta satisfatória, Tito não preci­ sa ter hesitação em evitar tal pessoa, pois sabe que. . . está pervertida e vive pecando (lit. “peca auto-condenada”). O que Paulo está ensinando é que, visto que foi solenemente advertida pelas autoridades da igreja, deve saber que está cometendo um erro e seu bom juízo deve, portanto, condená-la. Nada pode ser feito com um homem que deliberadamente persiste em dividir a união da igreja. MENSAGEM PESSOAIS E DESPEDIDAS 3:12-15 Como outras Paulinas, a carta termina com algumas mensagens e saudações pessoais, neste caso muito mais breves do que as em 2 Timó­ teo. Os que apóiam a hipótese não-paulina às vezes estão dispostos a considerá-las, no todo ou em parte, como fragmentos de uma carta au­ têntica. Vale a pena, porém, indicar que a única frase de caráter mais ou menos geral (v. 14) retoma o tema das boas obras que sempre volta a ocorrer na carta. Aqueles que tratam a passagem inteira como sendo ficção têm de enfrentar dificuldades tais quais (a) a referência às pes­ soas, e também a um lugar, nunca mencionados em Atos nem nas cartas reconhecidas, e (b) o toque extraordinariamente fiel à vida no v. 12, sugerindo que Paulo ainda não resolveu qual dos seus dois associados vai enviar. 12. A frase, Quando te enviar Ártemas, ou Tíquico, apressa-te a 231


TITO 3:13 vir até Nicópolls ao meu encontro, provavelmente dá a entender que a pessoa enviada (parece que Paulo ainda não fez sua decisão quanto à pessoa a ser escolhida) assumirá as responsabilidades de Tito em Creta. Nada mais se sabe acerca de Ârtemas (seu nome pode ser uma forma abre­ viada de Artemidoro), embora a tradição muito posterior faça dele um dos Setenta e dois (Lc 10:1 ss.) e o primeiro bispo de Listra. Para Tíquico, o antigo amigo de Paulo, ver sobre 2 Tm 4:12. Claramente o con­ siderava dotado da capacidade e caráter para a liderança, pois, seja qual for a decisão agora, provavelmente o enviou mais tarde para Éfèso para ser o interino de Timóteo. Várias cidades no mundo antigo eram chamadas Nicópolis, nome este (lit. “Cidade da Vitória”) usualmente dado para comemorar uma façanha de armas. Aquela que está em mira aqui é provavelmente Ni­ cópolis no Épiro, na Grécia continental ao sul de Corfu, perto da mo­ derna Pereza. Facilmente alcançada pelo Adriático, no Golfo Ambraciano, fora fundada por Otaviano (mais tarde Augusto César) em 31 a.C. para assinalar seu triunfo sobre Antônio e Cleópatra em Áctio. Não há, em qualquer outro lugar, nenhum relato sobre a permanência de Paulo ali, mas está muito melhor situada do que qualquer das concorrentes para a honra, e.g. Nicópolis na Cilicia, para ser a residência de inverno de Paulo. Em 1 Tm 3:14, Paulo diz que está esperando que dentro em breve virá para Éfeso; sua resolução presente no sentido de passar o in­ verno (claramente não está ali ainda) em Nicópolis talvez indique uma mudança de planos. A notícia em 2 Tm 4:10 (ver a nota ali) de que Tito mudara para a Dalmácia (i.é, Iugoslávia) harmoniza-se muito bem com a presença de Paulo em Nicópolis quando aquele veio ter com o Apóstolo. 13. Nada se sabe, à parte da presente passagem, de Zenas, o intér­ prete da lei. Seu nome é grego (uma abreviatura de Zenodoro, lit. “dá­ diva de Zeus”), e, tendo em vista a tendência contrária à lei judaica reve­ lada na carta, a conjectura de que intérprete da lei (Gr. nomikos) suben­ tende que era um convertido do judaísmo parece altamente improvável. Era um jurista, e sua profissão é provavelmente mencionada para distingui-lo dalgum outro Zenais. Apoio é quase certamente o judeu alexandri­ no culto e eloqüente que recebeu instrução mais completa na fé da parte de Priscila e Áqüila em Éfeso (At 18:24), e mais tarde pregava em Corin­ to (1 Co 1:12; etc.). Parece que os dois saíram da parte de Paulo e que estão viajando via Creta para um destino desconhecido; quase certamen­ te são os portadores da carta. O pedido: Encaminha com diligência. . . a fim de que não lhes falte coisa alguma transmite uma impressão vívida 232


TITO 3:14-15 da hospitalidade generosa demonstrada na era apostólica pelas pequenas comunidades cristãs a irmãos viajando de uma igreja para outra. 14. Seu pedido a Tito, e sua certeza de que será atendido, incitam Paulo a uma renovada insistência na necessidade do cristianismo prático de modo geral. Agora, quanto aos nossos, exclama, referindo-se aos cris­ tãos em Creta que pensam como ele e Tito, que aprendam também a dis­ tinguir-se nas boas obras, a favor dos necessitados. A não ser que assim façam, estarão passando o perigo de se tomarem infrutíferos. A expressão distinguir-se, etc., reecoa conscientemente aquela que é usada no v. 8 su­ pra (ver a nota ali). Muitos preferem a tradução: “adotar ocupações hon­ rosas,” mas ela introduz um tema que não tem conexão com o contexto. Do começo até ao fim da carta, Paulo está claramente solícito para esti­ mular boas obras entre os cretenses (em harmonia com seu ensino nas Pastorais em geral, onde boas obras conotam, não obras mediante as quais os homens esperam que adquirirão mérito, mas, sim, obras de cari­ dade no pleno sentido cristão). O tema é naturalmente sugerido outra vez à sua mente pelo quadro da ajuda que Tito há de dar a Zenas e a Apoio. É aqui que provavelmente temos o indício do significado de quanto aos nossos (“também”). Paulo está dizendo, com efeito, “E não somente tu, como também o nosso povo em geral deve dar um exemplo no exercício da caridade.” Outros interpretam o advérbio no sentido de subentender que Paulo quer que os nossos, i.é, os cristãos, se demonstrem até mais caridosos do que seus vizinhos não cristãos, sendo que os judeus da dispersão em particular eram renomados por esta virtude. Mas não há indício disto no contexto. 15. Na saudação final, Todos os que se acham comigo te saúdam, Paulo caracteristicamente liga seus associados consigo mesmo, embora aqui (como, e.g., em 2 Co 13:12) não mencione nome algum. O pedido: saúda a quantos nos amam na fé, i.é, os que são verdadeiros amigos e verdadeiros cristãos, provavelmente transmite a insinuação de que não inclui os falsos mestres e os separatistas nas suas saudações afetuosas. É impossível determinar se as palavras traduzidas na fé (Gr. en pistei) significam “na fé cristã,” definindo a esfera em que seu amor mútuo é exercido (cf. “na fé em que compartilhamos” em 1:4), ou é simples­ mente equivalente (como a ausência do artigo definido no Grego talvez sugira) a “em fé,” i.é, lealmente. No cômputo geral, a primeira interpre­ tação parece mais provável. A oração final, A graça seja com todos vós, onde vós (Gr. humõrí) está no plural, inclui a comunidade inteira. Como em 1 Tm 6:21 e 2 Tm 4:22, o plural deixa perceber que esperava-se que a carta fosse lida em público. 233


C O M E N T Á R IO S B ÍB L IC O S D A S É R IE C U LT U R A B ÍB L IC A

Estes comentários são feitos de modo a dar ao leitor uma compreensão do real significado do texto bíblico. A Introdução de cada livro dá às questões de autoria e data, um tratamento conciso mas completo. Isso é de grande ajuda para o leitor em geral, pois mostra não só o propósito como as circunstâncias em que foi escrito o livro. Isso é, também, de inestimável valor para os professores e estudantes que desejam dar e requerem informações sobre pontos-chave, e aí se vêem combinados, com relação ao texto sagrado, o mais alto conhecimento e o mais profundo respeito. O s Comentários propriamente ditos tomam respectivamente os livros estabelecendo-lhes as seções e ressaltando seus temas principais. O texto é comentado versículo por versículo sendo focalizados os problemas de interpretação. Em notas adicionais, são discutidas em profundidade as dificuldades específicas. O objetivo principal é de alcançar o verdadeiro significado do texto da Bíblia, e tornar sua mensagem plenamente compreensível.

E D IÇ Õ E S V ID A N O V A E D IT O R A M U N D O C R IST Ã O


I E II TIMÓTEO E TITO - INTRODUÇÃO E COMENTÁRIO - J.N.D.KELLY