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Atos

introdução^ e comentário I. Howard Marshall


ATOS DOS APÓSTOLOS Introdução e Comentário por I. Howard Marshall, MA., B.D., PhD. Catedrático em Exegese do Novo Testamento, Universidade de Aberdeen, Escócia

SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA e ASSOCIAÇÃO RELIGIOSA EDITORA MUNDO CRISTÃO Rua Antonio Carlos Taconni, 75 e 79, Cidade Dutra SSo Paulo-SP, CEP 04810


Titulo do original em ingles: The Acts o f the Apostles, an Introduction and Commentary

Copyright © 1980, pela Inter-Varsity Press, Londres, Inglaterra

Tradução: Gordon Chown Revisão: Júlio Paulo Tavares Zabatiero Primeira Edição, 1982: 5.000 exemplares

Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos reservados pelas Editoras: ! SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA e ASSOCIAÇÃO RELIGIOSA EDITORA MUNDO CRISTÃO Rua Antonio Carlos Taconni, 75 e 79, Cidade Dutra, São Paulo-SP, CEP 04810


CONTEÚDO Prefácio do A utor.................................................................................... Prefácio da Edição em Português............................................................ Abreviaturas Principais ........................................................................... Bibliografia..............................................................................................

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INTRODUÇÃO I. O propósito de A to s............................................................................. 15 II. A teologia de A t o s ............................................................................. 21 III. A historicidade de Atos ................................................................... 32 IV. As origens de A tos............................................................................. 43 V..O valor permanente de A to s ............................................................... 51 Análise..................................................................................................... 51 COMENTÁRIO.......................................................................................

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PREFÁCIO DO AUTOR Nestes tempos, em que existem comentários quase incontáveis sobre o Novo Testamento, qualquer pessoa que ousa acrescentar mais um ao núme­ ro deles sente certa obrigação no sentido de justificar a produção de ainda outro volume. No presente caso, não basta alegar a necessidade de preencher a lacuna numa série, pois os Comentários Tyndale sobre o Novo Testamento já incluíam um volume sobre Atos, escrito pelo destacado estudioso clássico, o Professor E. M. Blaiklock. Certo número de fatores, no entanto, fizeram com que fosse desejável a substituição de dita obra. Em primeiro lugar, o Professor Blaiklock deliberadamente se restrin­ giu à tarefa limitada de escrever “um comentário histórico”, no sentido de concentrar seus esforços na ilustração e exposição do Livro de Atos dentro da sua situação histórica no período greco-romano. O avanço dos estudos desde o tempo em que foi publicado seu comentário enfatiza a importân­ cia teológica de Atos, e tomou-se desejável levar em conta este interesse. É de significância que o estudo excelente que F. Bovon fez da história das pesquisas recentes nas obras de Lucas tem o título de Luc le théologien. Mesmo assim, os problemas históricos não podem ser deixados de lado em troca de uma abordagem puramente teológica, fato este que nos leva ao segundo motivo para o empreendimento de um novo estudo. Pouco an­ tes de surgir a lume a obra do Professor Baiklock, apareceu outro comentá­ rio em Alemão, escrito pelo professor E. Haenchen; com muita erudição, e muita atenção aos pormenores, o autor fez com que Lucas parecesse mais um escritor de ficção histórica do que um historiador sério. É necessá­ rio levar a sério o argumento de Haenchen, e avaliá-lo. Se, portanto, a pre­ sente obra às vezes dá a impressão de ser demasiadamente polêmica e de tra­ tar demasiadamente das questões históricas, é porque os comentaristas (com a notável exceção de R.P. C. Hanson) até o presente momento pouca coisa têm feito para se entenderem com as condições da abordagem de -6 -


Haenchen. Talvez deva ser ressaltado que, embora este comentário critique a abordagem de Haenchen, que considero injustificável ceticismo quanto à historicidade de Atos, a obra dele é um exemplar de invulgar erudição que contribuiu grandemente para despertar novo interesse no estudo de Atos. De conformidade com o alvo declarado da série, o comentário é pri­ mariamente exegético, embora esperemos que seja suficiente o número de indícios dados quanto ao valor expositório do texto. Embora ò comentá­ rio vise atender a uma grande variedade de leitores, procurei também fazer com que fosse útil ao estudioso da teologia, e, com este fim em mira, pro­ curei fazer algumas referência à literatura sobre Atos que surgiu depois da publicação do comentário de Haenchen, e que não consta das suas biblio­ grafias. Gostaria de expressar meus calorosos agradecimenos ao Dr. Leon Morris, o editor geral dá série, bem como ao Dr. Colin J. Hemer, por seus comentários sobre o manuscrito, que muito úteis foram; também à Srta. T. Clark e à Sra. P. Henderson, pela sua ajuda com a datilografia. Este comentário foi escrito na Universidade de Aberdeen, onde Sir William Ramsay foi catedrático, e o Professor F. F. Bruce foi estudante. Ficará óbvio quão grandemente fui influenciado por estes destacados escritores sobre o Livro dos Atos, e me dá o máximo prazer expressar a minha gratidão a este último, por sua amizade e por seu encorajamento em muitas formas; faço-o ao dedicar-lhe este livro. I. HOWARD MARSHALL

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PREFÁCIO DA EDIÇÃO EM PORTUGUÊS Todo estudioso da Bíblia sente a falta de bons e profundos comen­ tários em português. A quase totalidade das obras que existem entre nós peca pela superficialidade, tentanto tratar o texto bíblico em poucas li­ nhas. A Série Cultura Bíblica vem remediar esta lamentável situação sem que peque do outro lado por usar de linguagem técnica e de demasiada atenção a detalhes. Os Comentários que fazem parte desta coleção Cultura Bíblica são ao mesmo tempo compreensíveis e singelos. De leitura agradável, seu con­ teúdo é de fácil assimilação. As referências a outros comentaristas e as notas de roda-pé são reduzidas ao mínimo. Mas nem por isso são super­ ficiais. Reunem o melhor da perícia evangélica (ortodoxa) atual. O texto é denso de observações esclarecedoras. Trata-se de obra cuja característica principal é a de ser mais exegé­ tica que homilética. Mesmo assim, as observações não são de teor acadê­ mico. E muito menos são debates infindáveis sobre minúcias do texto. São de grande utilidade na compreensão exata do texto e proporcionam assim o preparo do caminho para a pregação. Cada Comentário consta de duas partes: uma introdução que situa o livro bíblico no espaço e no tem­ po e um estudo profundo do texto a partir dos grandes temas do próprio livro. A primeira trata as questões críticas quanto ao livro e ao texto. Exa­ mina as questões de destinatários, data e lugar de composição, autoria, bem como ocasião e propósito. A segunda analisa o texto do livro seção por seção. Atenção especial é dada às palavras-chave e a partir delas pro­ cura compreender e interpretar o próprio texto. Há bastante “carne” para mastigar nestes comentários. Esta série sobre o N.T. deverá constar de 20 livros de perto de 200 páginas cada. Os editores, Edições Vida Nova e Mundo Cristão têm pro­ gramado a publicação de, pelo menos, dois livros por ano. Com preços moderados para cada exemplar, o leitor, ao completar a coleção terá um excelente e profundo comentário sobre todo o N.T. Pretendemos assim, ajudar os leitores de língua portuguesa a compreender o que o texto neotestamentário, de fato, diz e o que significa.Se conseguirmos alcançar es­ te propósito seremos gratos a Deus e ficaremos contentes porque este trabalho não terá sido em vão. Richard J. Sturz

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ABREVIATURAS PRINCIPAIS

AG

AHG BC Bib. BJ BJRL CBQ EQ ET GNB HTR JBL Jos. JSNT JTS LS

LXX TM NDB NEB

A Greek-English Lexicon o f the New Testament and Other Early Christian Literature, ed. W. F. Arndt e F. W. Gingrich (Cambridge, 1957). Apostolic History and the Gospel, ed. W. W. Gasque e R. P. Martin (Exeter, 1970). The Beginnings o f Christianity, ed. F. J. Foakes-Jackson e K. Lake (Londres, 1920-33). Bíblica. A Bíblia de Jerusalém, 1966. Bulletin o f the John Rylands University Library o f Manchester. The Catholic Biblical Quarterly. The Evangelical Quarterly. The Expository Times The Good News Bible, Antigo Testamento, 1976; Novo Testa­ mento, Quarta Edição, 1976. The Harvard Theological Review The Journal o f Biblical Literature Josefo (Ant. Antiguidades; Ap.: Contra Âpio; Bel.: Guerra). The Journal for the Study o f the New Testament. The Journal o f Theological Studies. A Greek-English Lexicon, compilado por H. G. Liddel e R. Scott, nova edição, revista por H. S. Jones e R. Mackenzie, 2 vols. (Oxford, 1940). A Septuaginta (versão grega pré-cristã do Antigo Testamento). Texto Massorético. O Novo Dicionário da Bíblia, editado por J. D. Douglas et. al., 1962. Edições Vida Nova. The New English Bible, Antigo Testamento, 1970; Novo Testa-9 -


mento, Segunda Edição, 1970. NDITNT O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testa­ mento, editado por Colin Brown, 1975-78. Sendo publicado em português ppr Edições Vida Nova. NIV The New International Version, Antigo Testamento, 1979; No­ vo Testamento, 1973. Nov. T. Novtim Testamentum. NTA New Testament A bstracts. NTS New Testament Studies. PLA Perspectives on Luke-Acts, editado por C. H. Talbert (Danville e Edinburgo, 1978). RSV American Revised Standard Version, Antigo Testamento, 1952; Novo Testamento, Segunda Edição, 1971. SB Kommentar zum neuen Testament aus Talmud und Midrasch por Herman Strack e Paul Billerbeck, 1956. SJT The Scottish Journal o f Theology SLA Studies in Luke-Acts, editado por L. E. Keck e J. L. Martyn (Nashville, 1966). TDNT Theological Dictionary o f the New Testament, tradução por Geoffrey W. Bromiley de Theologisches Wörterbuch zum neuen Testament, vols. 14, editados por G. Kittel, 5-10 editados por G. Friedrich (Grand Rapids, 1964-76). TNT The Translator’s New Testament, 1973. Tyn. B. Tyndale Bulletin. TZ Theologische Zeitschrift ZNW Zeitschrift für die Neutestamentliche Wissenschaft ZTK Zeitschrift für Theologie und Kirche.

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BIBLIOGRAFIA Os livros aqui alistados são aludidos no comentário simplesmente pelo sobrenome do autor, a não ser que haja dois ou mais livros do mesmo autor; neste caso, citam-se os títulos abreviados que aqui seguem. Barrett, C. K., The New Testament Background; Selected Documents. (Londres, 1956). (Barrett, Fundo Histórico). Luke the Historian in Recent Study (Londres, 1961). (Barrett, Lucas). Blaiklock, E. M., The Acts o f the Apostles (“Comentários Tyndale do No­ vo Testamento”, Londres, 1959). Bovon, F., Luc le theôlogien: Vingt-cinq ans de recherces - 1950-1957. Neuchâtel e Paris, 1978). Bruce, F. F., The Book o f the Acts ( “Novo Comentário Internacional”, Grand Rapids; “Novo Comentário de Londres”, Londres, 1954). (Bruce, Livro). The Acts o f The Apostles: The Greek Text with Introduction and Commentary (Londres, 1951). (Bruce, Atos). Burchard, C., Der Dreizehnte Zeuge (Gottingen, 1970). Conzelmann, H. Die Apostelgeschichte (Handbuch zum neuen Testament, Tübingen, 1963). (Conzelmann, Atos). The Theology o f St Luke (Londres, 1960). (Conzelmann, Teologia). Dibelius, M., Studies in the Acts o f the Apostles (Londres, 1956). Dunn, J. D. G., Jesus and the Spirit (Londres, 1975). (Dunn, Jesus). Baptism in the Holy Spirit (Londres, 1970). (Dunn, Batismo). Dupont, J., Etudes sur les Actes des Apôtres (Paris, 1967). (Dupont, Estu­ dos). The Sources o f the Acts: The Present Position (Londres, 1964). (Dupont, Origens). Edwards, D. M., Good News in Acts (Londres, 1974). - 11 -


Ellis, E. E., Prophecy and Hermeneutic in Early Christianity (Tübingen and Grand Rapids, 1978). Franklin, E., Christ the Lord (Londres, 1975). Gasque, W. W., A History o f the Criticism o f the Acts o f the Apostles (Tübingen e Grand Rapids, 1975). Haenchen, E., The Acts o f the Apostles (Oxford, 1971). Hanson, R. P. C., The Acts “Nova Biblia de Clarendon” , Oxford, 1967). Harvey, A. E., The New English Bible: Companion to the New Testament (Oxford e Cambridge, 1970). Hengel, M., Acts and the History o f Earliest Christianity (Londres, 1979). Jervell, J., Luke and the People o f God (Minneapolis, 1972). Knowling, R. J., The Acts o f the Apostles em W. R. Nicoll, The Expositor’s Greek Testament (Londres, 1912), Vol. II. Knox, W. L., The Acts o f the Apostles (Cambridge, 1948). Kremer, J., Les Actes des Apôtres: Tradition, rédaction, théologie (Gembloux e Leuven, 1979). Iindars, B.,New Testament Apologetic (Londres, 1961). Löning, K., Die Saulustradition in der Apostelgeschichte (Münster, 1973). Marshal, I. H., Luke: Historian and Theologian (Exeter, 1970, 19792). (Marshall, Lucas). — The Gospel o f Luke (New International Greek Testament Commenta­ ry) (Exeter, 1978). (Marshall, Comentário). Metzger, B. M., A Textual Commentary on the Greek New Testament (Lon­ dres, 1971). Neil, W., The Acts o f the Apostles (New Century Bible), Londres, 1973. O’Neill, J. C., The Theology o f Acts in its Historical Setting (Londres, 19702). Ramsay, W. M., St Paul the Traveller and the Roman Citizen (Londres, 1895). Scharlemann, M. H., Stephen: A Singular Saint (Roma, 1968). Schmithals, Vf., Paul and James (Londres, 1965). Schürer, E., The History o f the Jewish People in the Age o f Jesus Christ (revisada e editada por G. Vermes, F. Millar e M. Black, Edimburgo,1,1973; II, 1979). Sherwin-White, A. N., Roman Society and Roman Law in the New Testa­ ment (Oxford, 1963). Stahlin, G., Die Apostelgeschicht (Das Neue Testament Deutsch, Gottin­ gen, 1970). Stanton, G. N., Jesus o f Nazareth in New Testament Preaching (Cambridge, -12-


1974). Stolle, V., Der Zeuge als Angesklagter (Stuttgart, 1973). van Unnik, W. C., Sparsa Collecta, I (Leiden, 1973). Wilckens, U., Die Missionsreden der Apostelgeschichte (Neukirch-en-Vluyn, 19743). Wilcox, M., The Semitisms o f Acts (Oxford, 1965). Williams, C. S. C., A Commentary on the Acts o f the Apostles (Comentá­ rios “Black” do Novo Testamento, Londres, 1957). Wilson, S. G., The Gentiles and the Gentile Mission in Luke-Acts (Cam­ bridge, 1973).

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INTRODUÇÃO

I. O PROPÓSITO DE ATOS

Determinar o que um leitor aproveita de um livro, e como avalia a qualidade dele, depende consideravelmente das suas expectativas ao abordá-lo. Estas expectativas podem se basear parcialmente no propó­ sito que o autor expressou, e parcialmente nas pressuposições do leitor, ao começar o livro. É provável que o leitor mediano encare Atos dos Apóstolos como sendo o livro da história da igreja primitiva. Lêo a fim de descobrir o que aconteceu durante os primeiros anos da existência da igreja. Certamente, achará uma história à altura de semelhantes expectativas. Começa com a ascensão de Jesus, o evento que marcou o fim do ministério terrestre de Jesus (Lc 24:50-53) e que também prenunciou a continuação da obra de Jesus através da igreja. O Livro, depois de descrever como o dom do Es­ pírito equipou os discípulos de Jesus para a obra deles, continua, contando a história emocionante do início da igreja em Jerusalém, sua expansão nas áreas mais latas da Judéia e da Samaria, e, depois, seu movimento rá­ pido da Antioquia na Síria, através da Ásia Menor, da Macedônia e da Gré­ cia, até que, finalmente, a chegada de Paulo em Roma simboliza a presen­ ça do evangelho na cidade central do mundo antigo. Há grande riqueza de detalhes na narrativa. Cenas dramáticas e pitorescas alternam-se com repor­ tagem direta e simples. No centro das atividades há personalidades vigo­ rosas. O autor tem talento para retratar a variedade da vida no mundo an­ tigo, ao levar-nos de cidades do longínquo interior tais como Listra, para o centro intelectual de Atenas, e nos coloca em contato com personalidades inesquecíveis, judeus e gregos, nobres e escravos. O livro dele é “uma histó-15-


ATOS ria cheia de interesse, contada por um mestre da narrativa” .1 Quase sem perceber, acabamos avançando daquilo que Lucas nos con­ ta para o modo de ele contá-lo, e reconhecemos que esta porção de história é contada com poderes artísticos. É uma obra de literatura, fato este que teria ficado muito evidente ao leitor antigo desde o momento em que tomou nas mãos o Livro com sua dedicatória a “Teófilo”, segundo a maneira tí­ pica de uma antiga obra de literatura. A linguagem, e o estilo de Lucas se destacam no Novo Testamento e demonstram que, entre todos os escrito­ res deste, era o mais consciente de que estava escrevendo literatura para uma audiênda culta, e não meramente panfletos para o uso interno de uma igreja sem aspirações ou interesses literários. Embora Lucas escrevesse aquilo que tem a aparênda de narrativa his­ tórica, empregando deliberadamente a maior perída literária, surge inevi­ tavelmente a pergunta: qual foi o seu propósito em tudo isto? Por que es­ creveu a história da igreja primitiva? Não era, afinal das contas, a coisa mais óbvia para um escritor cristão fazer, fato este que é demonstado ao lembrarmos que Atos é o único exemplo no século I deste tipo específico de literatura. Outros escritores cristãos escreviam Cartas e Evangelhos: o que o levou a fazer assim? Sugeriu-se grande variedade de razões, e é pro­ vável que devemos procurar uma resposta composta à pergunta, ao invés de uma resposta simples. Devem ser ressaltadas duas importantes considerações preliminares. A primeira é que um dos aspectos literários mais marcantes dos escritos de Lucas é que foram compostos conforme o estilo literário do Antigo Testamento Grego, a Septuaginta (LXX). Visto que Lucas sabe escrever com estilo diferente (Lc 1:14), trata-se dalguma coisa deliberada. É pro­ vável que tivesse consciência de que estava escrevendo história sacra. Acre­ ditava que os eventos que registrava eram o cumprimento das profedas con­ tidas nas Escrituras, e que, portanto, eram eventos operados por Deus, do mesmo tipo que o Antigo Testamento já registrara. Possivelmente, Lucas não reivindicou a descrição de “Escrituras” para aquilo que ele mesmo es­ crevia, mas implidtamente declarava que a história da igreja primitiva fazia parte da continuada história da obra de Deus, e que a própria histó­ ria era de natureza semelhante ás Escrituras do Antigo Testamento.

E dw ards, p. 9. O livro de Edwards é uma introdução muito vivaz a Atos.

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INTRODUÇÃO A segunda consideração é que o Livro de Atos é a segunda parte de uma obra em dois volumes, cuja primeira parte é o Evangelho de Lucas.2 Um dos efeitos desvantajosos da atual ordem dos Livros no Novo Testa­ mento é que nos leva a pensar que Atos é uma obra separada em si mesma. Era, no entanto, praxe comum no mundo antigo a organização de uma obra em várias seções mais curtas (conhecidas como “livros”) por parte do autor, que escrevia uma breve introdução para cada uma delas. Josefo escreveu uma apologia em prol dos judeus, que se dividia em dois livros, sendo que o segundo começou assim: “No primeiro volume desta obra, meu mui estimado Epafrodito, demonstrei a antiguidade da nossa raça . . . Além disto, desmenti as declarações de Maneto, Queremom, e dalguns ou­ tros. Agora procederei a refutar os demais autores que nos atacaram” (Jos, Ap, 2:1). Este abstrato é interessante por ser um paralelo com os pormenores da introdução que o próprio Lucas fez à obra dele (At 1:1-2); o que queremos sublinhar aqui, porém, é que evidencia o fato de Atos e Lucas formarem as duas partes de uma única obra. Segue-se, portanto, que fazer perguntas acerca do propósito de Atos isoladamente da questão mais lata do propósito de Lucas-Atos é ter o ponto de partida errado, pra­ xe esta que geralmente conduz a uma chegada no destino errado. Conclui-se que devemos fazer perguntas acerca do propósito de Lucas-Atos como um todo. Se, apesar disto, concentramos a nossa atenção aqui sobre Atos, o modo certo de fazer a pergunta será indagar por que Lu­ cas, em contradistinçâo com os demais evangelistas, resolveu acrescentar um segundo volume ao Evangelho ao invés de restringir-se meramente a um Evangelho. Uma das possíveis respostas a esta pergunta é que Lucas procurava escrever a história dos começos do cristianismo no sentido geral. Quando Marcos deu ao seu Evangelho o título: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” , indicou que o ministério de Jesus, desde Seu ba­ tismo até a Sua ressurreição, era o início e a base do evangelho. Lucas, no entanto, reúne juntamente a história de Jesus e a história da igreja primitiva, e considerava que juntamente formam a narrativa da fundação da igreja. Explicava como começaram as boas novas, e como espalharam-se ao ponto de abranger o mundo mediterrâneo, desde Jerusalém até Roma. E, realmente, declara no começo de Atos que seu primeiro volume tratou

2Juntamente com a maioria dos estudiosos, tomo por certo a autoria idêntica do Evangelho de Lucas e de Atos.

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ATOS “tudo que Jesus começou, não só a fazer, mas a ensinar”3, e parece pro­ vável que, por implicação, o 2? volume trata de “tudo que Jesus con­ tinuou a fazer e ensinar” . Desta maneira, os dois volumes abrangem o co­ meço do evangelho, o estabelecimento da salvação no ministério de Je­ sus, e a proclamação da salvação pela igreja primitiva. Há vários modos de desenvolver esta compreensão básica. Em primeiro lugar, W. C. van Unnik argumentou, num artigo impor­ tante, que o Livro de Atos é a confirmação do Evangelho.4 Sugeriu que Lucas, no seu Evangelho, estava apresentando a atividade salvíflca de Je­ sus e mostrando a sua realidade. Depois, em Atos, Lucas mostra como a igreja proclamava e confirmava esta salvação. O que Atos efetivamente faz é demonstrar como a salvação que se manifestou em Jesus durante a Sua vida terrestre numa área limitada de terreno e durante um período curto, tomou-se uma realidade para quantidades sempre maiores de pes­ soas, e durante um considerável período de tempo. Como resultado disto, Lucas-Atos pode ser 'considerado uma obra evangelística que proclama aos seus leitores a salvação. De modo semelhante, J. C. O’Neill insistiu em que o propósito principal de Atos é evangelístico, e sugere especifica­ mente que os leitores em mira consistiam de romanos cultos.5 Trata-se de uma possibilidade interessante, mas não trata com justiça, segundo nos parece, a considerável quantidade de matéria em Lucas-Atos que se dirige a um auditório maior. Em segundo lugar, um fato principal em Atos é que demonstra co­ mo o evangelho tinha em mira os gentios, e não apenas os. judeus. Parte da demonstração se acha na declaração de Lucas de que o que ocorreu na igreja primitiva estava de conformidade com as profecias. O propósitó de Lucas foi demonstrar, não somente que a vinda de Jesus cumpriu as profecias, como também o surgimento da igreja e a extensão da salva­ ção aos gentios cumpriram as profecias do Antigo Testamento bem como as promessas de Jesus (ver Lc. 24:47; At 1:4-5, 20; 2:16-21; 3:24; 13:4041,47; 15:15-18; 28:25-28).6

3Marshall, Lucas, p. 87 n. 2. 4Van Unnik, págs. 340-373; originalmente como “The ‘Book of Acts’ the Confirmation of the Gospel”, Nov. T 4, 1960, págs. 26-59. 5O’Neill, pág. 176. 6Dupont, pág. 393-419; Bovon, Estudos, págs. 343-345.

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INTRODUÇÃO Em terceiro lugar, embora o interesse de Lucas se centralizasse indu­ bitavelmente na salvação,7 está aberto a dúvidas se devemos considerar seu auditório principal como sendo de não-cristãos. Nestas alturas, devemos levar a sério aquilo que o próprio Lucas nos informa acerca do seu pro­ pósito, no prólogo da sua obra.8 Dirige-se especificamente a “Teófilo” , que, segundo o modo mais plausível de entender Lc 1:14, já era cristão, e que pode ser considerado típico dos leitores de Lucas. O propósito explí­ cito de Lucas foi confirmar a fé daquele, fornecendo-lhe uma narrativa, na devida ordem, das coisas que aprendera no decurso da sua instrução cris­ tã. Um cético talvez procurou persuadir Teófilo que a fé que tinha, basea­ va-se em “mitos ardilosamente tramados” ; a resposta de Lucas foi presen­ tear-lhe um relato dos começos do cristianismo, baseado naquilo que fora transmitido por aqueles “que desde o princípio foram deles testemunhas oculares, e ministros da palavra” (Lc 1:2). Já que o Evangelho deu os fa­ tos acerca do ministério de Jesus, Atos demonstrou como a pregação de Jesus como o Cristo confirmou e corroborou os fatos registrados no Evan­ gelho; quando foram pregadas as boas novas, o Espírito tomou eficaz a pa­ lavra, e fez com que os ouvintes entrassem na experiência da salvação. Se­ gundo este modo de encarar a situação, o Livro de Atos foi escrito como narrativa dos começos cristãos, com a finalidade de fortalecer a fé e conce­ der a certeza de que é firme o alicerce desta fé. É óbvio que um livro escri­ to com este alvo em mira tem um propósito evangelístico, mas Lucas-Atos se estende para além da matéria puramente evangelística. Se adotarmos este conceito de Lucas-Atos, toma-se altamente impro­ vável que o propósito primário de Atos fosse providenciar algum tipo de apologética política em prol do cristianismo. Às vezes tem sido argumen­ tado que o alvo de Atos era demonstrar que os cristãos eram inocentes das acusações políticas feitas contra eles, e que, na realidade, os oficiais roma­ nos que examinaram tais casos concordaram em pronunciar que os cris­ tãos não transgrediram, de modo algum, contra as leis do Império Roma­ no. A sugestão até foi levantada de que Atos foi escrito para fornecer as evidências necessárias para a defesa de Paulo ao comparecer diante do Impe­ rador Nero. É claro que esta sugestão vai longe demais. Não negamos que Lucas tinha um motivo apologético ao compor Lucas-Atos, especialmente

7Marshall, Lucas, págs. 88-94; Bovon, págs. 255-284. 8É provável que o prólogo do Evangelho tenha a intenção de abranger a obra inteira; Marshall, Comentário, pág. 39.

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ATOS no caso de Atos. Trata-se, porém, de um alvo subordinado em comparação com o tema principal da apresentação do fundamento histórico da fé cristã. Além disto, toma-se improvável que o propósito principal de LucasAtos fosse refutar heresias cristãs ou promover alguma ênfase teológica es­ pecifica do autor. Por exemplo: foi levantado um argumento no sentido de o alvo de Lucas ter sido refutar um tipo gnóstico de heresia,9 mas já foi de­ monstrado de modo convincente que Lucas não se refere explicitamente a quaisquer heresias específicas de caráter gnóstico, e que nenhum indício existe de qualquer polêmica consciente.10 Outro alvo sugerido é a reabili­ tação de Paulo diante dos difamadores de Paulo dentro da igreja,11 mas es­ te propósito não pode passar de assunto subordinado. Uma finalidade mui­ to mais importante de Lucas é demonstrar como a igreja, constituída de judeus e gentios, forma uma continuidade com o judaísmo, o que pode ser considerado aspecto vital do tema principal de Lucas. Outro ponto de vista, de extrema importância, é que Lucas procurava entender-se com o problema que surgiu na igreja porque ainda não ocorrera a Segunda Vinda ou Parusia de Jesus, a despèito de a igreja esperá-la para o futuro bem pró­ ximo. Lucas, conforme se alep, escreveu para produzir um novo concei­ to teológico, no qual a vinda do Espírito e a missão da igreja preenchiam a lacuna causada pela demora da parusia.12 Não fica daro se os proponen­ tes deste ponto de vista consideram que se trata de um motivo consciente e deliberado da parte de Lucas para a composição da sua obra, ou da moti­ vação subjacente e inconsciente que o levou a dispor sua obra na forma que acabou assumindo. De qualquer maneira, parece improbabilíssimo que a demora na parusia se tenha constituído em motivo importante e conscien­ te para a obra de Lucas, e também é improvável que tenha sido um fator in­ consciente decisivo na estruturação da sua obra.13 O conceito que diz que o ponto de vista teológico de Lucas foi determinado, em grande medida, pela demora da parusia, leva a um modo distorcido de entender Atos.

9C. H. Talbert, L uke and the Gnostics (Nashville, 1966). 10Van Unnik, págs. 402-409; originalmente como “Die Apostelgeschichte und die Häresien”, ZNW, 58, 1967, págs. 240-246. n E. Trocé, Le “Livre des A c te s” et Vhistoire, (Paris, 1957); A. J. Mattill, Jr, “The Purpose of Acts: Schneckenburger Reconsidered” , AHG, págs. 108-122.

12Conzelmann,

Teologia.

13Marshall, Lucas, págs. 77-79, 84-88. - 2 0 -


INTRODUÇÃO

II. A TEOLOGIA DE ATOS

Embora enfatizemos que Lucas estava escrevendo uma narrativa his­ tórica acerca dos inícios do cristianismo, e embora rejeitemos o ponto de vista de que escreveu a fim de transmitir um conceito teológico específico, nem por isso devemos deixar de perguntar acerca da natureza do ponto de vista teológico que chega a expressar-se em Atos. Não há dúvida de que Lu­ cas percebe que a história tem importante significado teológico, e de que ressaltou este significado conforme a sua maneira de narrá-la. Trata-se, na­ turalmente, dalguma coisa bem diferente da declaração de que reinterpretou a história, e que a colocou num arcabouço teológico estranho.

I. A Continuação do propósito de Deus na história A história registrada em Atos é considerada uma continuação dos atos poderosos de Deus registrados no Antigo Testamento e do ministério de Jesus. A frase corrente no jargão teológico atual para expressar esta carac­ terística é “história da salvação” . Neste contexto, a frase se refere a certo modo de entender os vários eventos da vida de Jesus e da igreja primitiva como ações históricas nas quais se revela a atividade do próprio Deus. A fé cristã se orienta em direção do Deus que Se revelou no palco da história como Salvador. Este modo de entender a fé às vezes se compara com o con­ ceito “existencialista” , segundo o qual a fé é essencialmente independente dos fatos históricos.14 De fato, chegou a ser alegado que, originalmente,

14Ver O. Cullmann, Salvation in History (Londres, 1967), para uma compa­ ração das duas abordagens e uma defesa do modo “histórico da salvação” de enten­ der a totalidade do Novo Testámento.

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ATOS a mensagem cristã teve caráter basicamente “existencial” ; era uma procla­ mação da salvação divina com pouco ou nenhum apoio histórico, e que exigia a fé e a obediência da parte dos ouvintes. Lucas, conforme se alega, transformou esta “mensagem” em relato histórico acerca de Jesus, trans­ formando a história de Jesus em parte da continuação dos atos de Deus na hitória; aquilo que originalmente era “o fim da história” acabou sendo “o meio da história” .15 Trata-se, aqui, de uma falsa interpretação das evidên­ cias. Nunca existiu uma mensagem “existencial” que independesse da histó­ ria; pelo contrário, o tipo de apreciação oferecido por Lucas da história da salvação era o modo original de o cristianismo entender os fatos. Con­ trastar as abordagens “da história da salvação” e “existencialista” é produ­ zir uma antítese falsa. A verdade é, pelo contrário, que os fatos históricos, nos quais se via que Deus estava atuante, exigem uma resposta existendal de dedicação e obediência a este Deus. Fora destes fatos históricos não pode ha­ ver base alguma para a fé. Não se quer dizer com isto que a fé cristãé a fé em certos eventos, nem que a fé é possível somente na condição de comprovar-se que certos eventos ocorreram e que foram atos de Deus. Signi­ fica, isto sim, que se há negação da realidade dos eventos, logo, não há base para a fé: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados” (1 Co 15:17). Devem ser notadas várias facetas importantes desta consideração bá­ sica. Em primeiro lugar, òs eventos que se registram em Atos foram leva­ dos a efeito por meio da vontade e do propósito de Deus. A história da mor­ te e da ressurreição de Jesus é o exemplo mais óbvio de um evento que re­ monta até o “determinado desígnio e presdênda de Deus” (2:23), mas o mesmo se pode dizer dos eventos na vida da igreja; destarte, subentende-se, por exemplo, que a oposição que a igreja experimentou era da mesma na­ tureza da oposição a Jesus, divinamente profetizada (4:27-29). Segue-se, em segundo lugar, que a vida da igreja realiza-se, segundo es­ te conceito, como cumprimento das Escrituras. As profedas feitas no Anti­ go Testamento governavam o decurso da história da igreja - o derramamen­ to do Espírito e a proclamação da salvação (2:17-21), a missão aos gentios. (13:47) e a incorporação deles na igreja (15:16-18), e a recusa.dos judeus como um todo no sentido de responderem ao evangelho (28:25-27).

15Conzelmann, Teologia, págs. 9-17. O pensamento já está presente em R. Bultmann, Theology o f the N ew Testament, II, (Londres, 1955), págs. 116-118. - 2 2 -


INTRODUÇÃO Em terceiro lugar, a vida da igreja foi dirigida por Deus em etapas cruciais. Às vezes o Espírito dirigia a igreja naquilo que deveria fazer (e. g. 13:2; 15:28; 16:16). Noutras ocasiões, anjos falavam a missionários cristãos (5:19-20; 8:26; 27:23), ou vieram mensagens através dos profetas (11:28; 20:11-12), Nalgumas ocasiões, o próprio Senhor aparecia aos Seus servos (18:9; 23:11). Em quarto lugar, o poder de Deus revelava-se nos sinais e maravilhas operados em nome de Jesus (3:16; 14:3). Como resultado, pode-se dizer que o próprio Deus realizou a obra da missão cristã (15:4). 2. Á missão e a mensagem Atos é um livro a respeito da missão. Não seria injusto adotar 1:8 co­ mo resumo do seu conteúdo: “Sereis minhas testemunhas tanto em Jerusa­ lém, como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra”. O pro­ pósito da igreja cristã era testificar de Jesus. Num sentido especial, foi esta a tarefa dos Doze, que tinham estado com Jesus durante o Seu ministério na terra e que O viram ressuscitar dentre os mortos (1:21-22), e, portanto, eram especialmente equipados para darem testemunho a Israel. Mesmo as­ sim, a tarefa não era de modo algum confinada aos Doze, e muitos outros cristãos fizeram a sua parte na evangelização. A mensagem que se proclamava se expõe numa série de discursos pú­ blicos, espalhados por todas as partes do livro. Em termos gerais, o assunto era Jesus, ressuscitado dentre os mortos por Deus, depois de ter sido crucifi­ cado pelos judeus, que passou a ser declarado Messias dos judeus e Senhor, e, portanto, a fonte da salvação. Foi através dEle que foi oferecido aos ho­ mens o perdão dos pecados, e foi a partir dEle que veio à igreja o dom do Espírito. Não fica claro em Atos de que modo Jesus funciona como Salva­ dor, não se faz uma ligação muito estreita entre a Sua morte e a possibili­ dade da salvação (a não ser em 20:28), e obtém-se a impressão de que, realmente, foi por virtude de ter sido ressurreto dentre os mortos e exal­ tado pelo Pai que Jesus recebeu a autoridade para outorgar a salvação e levar a efeito os Seus atos poderosos na igreja. É, portanto, a ressurrei­ ção e a exaltação de Jesus que permanecem no centro da pregação em Atos.16

16 Lucas não desconsidera o significado expiatório da morte de Jesus, mas tam­ bém não faz um esforço fora do comum para ressaltá-la; Marshal, Lucas, págs. 169175.

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ATOS As bênçãos que se assodam com a salvação se resumem como segue: o perdão dos pecados e o dom do Espírito. Este último se manifestava em experiêndas de júbilo e de poder espiritual. Atos pouca coisa mendona acerca da experiênda paulina da união com Jesus, e alguém pode talvez ser tentado a pressupor que a religião de Lucas é menos mística. Seria mais correto dizer que Lucas descreve a mesma experiênda cristã básica que Paulo anunda, só que emprega terminologia diferente. O lugar concedi­ do em Atos à oração e às visões, bem como às experiêndas carismáticas tais quais o falar em línguas e profetizar, indica que há um elemento real e profundo de comunhão com Deus neste Livro. O enredo prindpal da história em Atos diz respeito à expansão desta mensagem. Começa com a existênda de um pequeno grupo dos seguidores do Jesus terrestre, reunido em Jerusalém, e descreve como, sob o impacto do Espírito Santo, tomaram-se testemunhas de Jesus e reuniram um núme­ ro sempre maior de convertidos. Os primeiros capítulos retratam o cresdmento e consolidação do grupo em Jerusalém. A partir do capítulo 6, to­ mamos consciênda dos horizontes que se alargam. Muitos sacerdotes se con­ vertem, e, ao mesmo tempo, o testemunho cristão atinge várias sinagogas que se assodavam com a Dispersão judaica em Jerusalém. Na medida em que a perseguição levou à fuga de Jerusalém de muitos cristãos, a mensagem co­ meçou a espalhar-se na área maior da Judéia, e depois deu um passo dedsivo para a frente com a conversão dalguns samaritanos e até de um viajante da Etiópia. Já no capítulo 9 (v. 31), o autor pode falar da “igreja . . . por toda a Judéia, Galiléia e Samaria”. Com a inclusão da Samaria,no entanto, foi feito o avanço mais importante em direção de pessoas que não eram completamente judias, e logo depois disto, vários eventos convenceram a igreja de que era vocadonada para levar as boas novas aos não-judeus. No princípio, havia contatos com gentios que já adoravam a Deus nas sinago­ gas, mas houve pouca demora antes de outros gentios também serem atraí­ dos pela mensagem. Uma vez que a igreja se estabelecera firmenente em Antioquia, a missão aos gentios veio a ser uma política bem-estabelecida, e lançava-se da base de Antioquia uma missão deliberada e organizada. Em­ bora Pedro fosse a figura prindpal nos dias inidais da igreja em Jerusalém, que a guiou desde o princípio até o ponto em que foi reconheddo que o evangelho era para os gentios, foi Paulo quem desempenhou o papel prin­ dpal em desenvolver a missão baseada em Antioquia; a segunda parte de Atos é essendalmente a história de como Paulo, em cooperação com ou­ tros evangelistas, passou a estabelecer igrejas na Ásia Menor e na Gréda, de maneira que, já no capítulo 20, o evangelho tinha sido proclamado de -24 -


INTRODUÇÃO modo eficaz em todas as partes do mundo do Mediterrâneo oriental, e Paulo consegue falar da sua obra ali como fato consumado. Mesmo assim, ainda estamos apenas no capítulo 20, e ainda falta quase a quarta parte do Livro. O que ali temos é um relato de como Paulo voltou das suas viagens, e chegou em Jerusalém, onde foi preso por crimes falsamente imputados a ele; a narrativa descreve seus vários comparecimentos diante de tribunais e governadores, no decurso dos quais se defendeu diante de judeus e roma­ nos, e protestou a sua inocência, que, em efeito, foi confirmada pelas au­ toridades romanas. Finalmente temos, com muitos pormenores, a narrati­ va da sua viagem para Roma. Em termos gerais, pode-se dizer que o pro­ pósito do relato é mostrar como o evangelho, na pessoa de Paulo, chegou a Roma, mas fica claro que a história em Atos, que começa como um his­ tória da expansão missionária, também tem outros alvos. Devemos per­ guntar se outros elementos teológicos acham lugar em Atos.

3 .0 progresso a despeito da oposição Atos se ocupa, igualmente, com a oposição que cerca a expansão do evangelho. “Através de muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus” (14:22). Lucas reconhece que, assim como o caminho que Jesus se­ guiu levou ao Seu assassinato judicial, assim também o caminho da Pala­ vra de Deus está cerceado por oposição. Começa com a zombaria dirigi­ da contra os apóstolos no dia do Pentecoste, e continua na forma dos es­ forços do Sinédrio para forçá-los a guardarem silêncio acerca de Jesus. Chega a um auge rápido na morte do primeiro mártir, Estêvão, e na on­ da de perseguição que seguiu após a sua morte. Um rei judeu procurou cair nas boas graças do povo, ao mandar matar Tiago, e foi somente um milagre que salvou Pedro da mesma sorte. Quando os missionários avan­ çaram para o mundo romano, a oposição os seguia de perto. Usualmente, partia dos judeus, que eram contrários à evangelização dos gentios; mesmo assim, em muitos casos os judeus conseguiram obter apoio dos simpatizan­ tes pagãos, na prática de atos de violência contra os missionários. Ocasio­ nalmente, estes distúrbios fizeram com que os missionários fossem levados diante dos magistrados. A atitude destes últimos era ambivalente. Às vezes, estavam bem dispostos a administrar justiça sumária contra pessoas que, se­ gundo parecia, eram os causadores de perturbações sociais. Noutras oca­ siões, porém, surgem, não bem como defensores dos missionários, mas pe­ lo menos como sustentáculos da lei, sem terem preconceitos ou serem in-25 -


ATOS teresseiros, que reconhecem que as atividades dos missionários não são, de modo algum, contrárias ás leis e aos costumes de Roma. O paradigma é o caso de Paulo, e é o interesse que Lucas tem neste tema que o levou a dedicar tão grande espaço à descrição do período do ca­ tiveiro daquele. Aqui, Lucas toma bem claro que Paulo não ofendeu as leis de Roma, e que, em certo sentido, somente uma tecnicalidade jurídi­ ca impediu que fosse solto pelo governador romano. Ao mesmo tempo, porém, a história sugere que os governadores romanos não estavam com­ pletamente livres de culpabilidade ao tratarem do caso. Enquanto os go­ vernadores estavam dispostos a sacrificar pessoas para conservar as boas graças dos judeus, e a buscarem subornos da parte dos réus, os cristãos teriam que esperar algo menos do que a justiça. Lucas, portanto, revela ter consciência das duras realidades da vida; por mais inocentes que os cristãos fossem, ainda podiam saber que seriam vítimas da injustiça. No que diz respeito aos judeus, as acusações deles contra Paulo eram que procurou profanar o templo, e, de modo geral, que promo­ via uma heresia judaica por onde quer que passava. A primeira destas acusações (que pouco mais era do que um pretexto para a sua prisão) é simplesmente negada; pela contrário, Paulo é apresentado como sendo um adorador judeu que cumpre as leis. A segunda acusação é refutada pelo argumento de que Paulo estava apenas adorando e servindo a Deus segundo a maneira que foi registrada no Antigo testamento, e que era, e continuava sendo, um fariseu quanto às suas convicções. Noutras palavras, o cristianis­ mo é o judaísmo verdadeiro. Esta lição básica se ensina extensivamente, mas fica claro que os judeus não se impressionavam com ela, embora alguns entre os fariseus tivessem alguma simpatia com o argumento. Aqui, também, Lucas nada mais pode fazer senão apresentar a dura realidade de que muitos judeus se recusaram a aceitar a declaração dos cristãos, no sentido de o cristianismo ser o cumprimento do judaísmo. Ao mesmo tempo, Lucas emprega o tema para indicar que, do ponto de vista romano, o cristianismo devia ser encarado como desenvolvimento legítimo do judaísmo, e que devia, portanto, receber a mesma posição privilegiada de religião tolerada dentro do Império; as discussões entre os judeus e os cristãos são teológicas quanto à sua natureza, e delas não toma conhecimento o direito romano. Diante desta oposição, vêm a lume dois fatos importantes. O primeiro é que os cristãos são chamados a ficarem firmes e a serem fiéis, a despeito das tribulações que devem suportar. Quando recebem a proibição de pre­ gar, sua resposta é uma recusa desafiadora. Certamente, há a necessidade de se retirarem das cidades onde a sua pregação é proibida, mas simples-

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INTRODUÇÃO mente continuam a evangelização onde acharem a oportunidade; o manda­ mento nos Evangelhos não exigia que continuassem a batalhar em situa­ ções onde não eram benvindos; pelo contrário, depois de fielmente terem dado testemunho, deviam avançar para outras localidades (Lc 9:5). No jul­ gamento de Paulo, emerge outro aspecto. Paulo emprega o tribunal da jus­ tiça como lugar onde dá testemunho público; sua preocupação não é defen­ der a sua própria pessoa, mas, sim, proclamar o evangelho (Lc 21:12-15). A oposição fica sendo uma ocasião para a evangelização, o que também foi o caso quando Pedro e Estêvão compareceram em julgamento. O outro fato é que, a despeito da oposição, a Palavra de Deus conti­ nua o seu progresso triunfante. A mão de Deus está com os missionários mesmo no meio da perseguição. Não os remove do perigo e do sofrimento, embora ocasionalmente recebam a proteção divina dos seus inimigos. Aqui também, ressalta-se o realismo de Lucas: Tiago morre, mas Pedro sobrevi­ ve para enfrentar outras batalhas. Paulo é trazido em segurança de Jeru­ salém para Roma, a despeito de todos os tipos de obstáculos e perigos. O propósito declarado de Deus será cumprido, seja qual for a oposição. Atos é a história do progresso triunfante da Palavra de Deus.

4. A inclusão dos gentios no povo de Deus. Atos reflete as tremendas tensões que existiam na igreja primitiva no que diz respeito à base da missão gentia. Embora os Evangelhos regis­ trem a comissão dada por Jesus, no sentido de Seus discípulos levarem o evangelho a todas as nações, a igreja era originalmente composta de ju­ deus, e entre os judeus levava a efeito a evangelização. Diferentemente do que geralmente se acredita, Lucas não menciona a presença de gentios no dia do Pentecoste, a não ser os prosélitos judeus (2:10). Dentro de poucos anos, porém, a igreja acabou pregando o evangelho aos samaritanos, aos tementes a Deus que não eram circuncidados, e, finalmente, aos gentios pagãos. Lucas considera que esta progressão foi a vontade de Deus, profetizada de antemão; os eventos se desdobraram sem qualquer plane­ jamento da parte da igreja. A igreja tinha que se entender com este fato. A essência do problema era se a ascensão da igreja produzira uma no­ va sociedade que era diferente do judaísmo. Visto que os primeiros cris­ tãos eram judeus, era natural que vivessem como judeus —circuncidassem os seus filhos e vivessem de acordo com a Lei de Moisés, embora, reconhe­ cidamente, pudesse haver variadas maneiras de interpretar a Lei, e o pró- 2 7 -


ATOS prio Jesus demonstrara bastante liberdade no que djizia respeito a certos as­ pectos dela. O mesmo modo de vida podia ser esperado dos prosélitos judeus que se converteram ao cristianismo. Assim, o cristianismo podia ser enca­ rado como sendo o cumprimento verdadeiro e apropriado do judaísmo; o Messias prometido viera, e trouxera renovação ao Seu povo. Dois fatores perturbavam esta suposição fácil. De um lado, fieou sen­ do sempre mais óbvio que os líderes judaicos e muitos entre o povo não estavam dispostos a aceitar Jesus como o Messias, e uma evolução fácil desde o judaísmo do século I até o cristianismo, simplesmente mediante a incorporação da mensagem cristã de Jesus como Messias foi excluída. Na realidade, o judaísmo dos contemporâneos da igreja primitiva desvia­ ra-se da verdade. Foi Estêvão quem deu expressão à crítica dos judeus do seu tempo, ao alegar que deixaram de seguir fielmente à Lei de Moisés, e que o culto que prestavam a Deus no templo desagradava a Ele. Não é de se estranhar que este ataque provocasse forte oposição da parte dos líde­ res dos judeus, e talvez possamos suspeitar que o ponto de vista de Estê­ vão não foi imediatamente compartilhado por todos os membros da igre­ ja. Mesmo assim, haveria forçosamente de ficar sempre mais óbvio que o judaísmo oficial se opunha à igreja, e considerava heréticas as suas opi­ niões. Havia, do outro lado, o problema da entrada dos gentios na igreja, que, além de intensificar a oposição contra a igreja da parte do judaísmo, também levantava urgentes perguntas dentro da igreja, quanto ao seu pró­ prio caráter e modo de vida. Já houve muito debate acerca do modo de Lucas encarar a natureza da igreja. Um dos pontos de vista 'é que a encara­ va como instituição essencialmente judaica, o povo de Deus, que consis­ tia em judeus, e do qual os judeus que se recusavam a arrepender-se ficavam cortados, e ao qual os gentios que se convertem podem juntar-se.17 O ou­ tro ponto de vista é que Lucas encarava o propósito de Deus como sendo o ajuntamento de um novo Israel, composto de judeus e gentios, e que descre­ ve a progressiva separação entre a igreja e o judaísmo.18 A verdade prova­ velmente se acha nalgum lugar entre os dois extremos; nosso ponto de vista é que Lucas ressalta as origens judaicas da igreja e as suas raízes nas profecias do Antigo Testamento, mas ao mesmo tempo demonstra que se

17Jervell, págs. 41-74. 180 ’Neill. Ver a discussão em Wilson; também Bovon, págs. 342-361. -

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INTRODUÇÃO trata de um povo de Deus, composto de judeus e gentios crentes, no qual os judeus podem achar o cumprimento do judaísmo, e não se requer dos gentios que se tomem judeus. Como, porém, seria possível tal coisa no nível prático? O problema era duplo. Em primeiro lugar, os cristãos judeus poderiam ter comunhão com os gentios sem se tomarem “impuros” através do contato com pessoas que não observavam as leis de Moisés? Em segundo lugar, os gentios podiam entrar num relacionamento verdadeiro com Deus e Seu povo meramente através da aceitação de Jesus .como Messias? Não se exigia da parte deles que observassem a lei judaica, inclusive a circuncisão? Lucas tinha total certeza de que os gentios não precisavam de ser circuncidados. Esta solu­ ção, no entanto, levou a lutas de consciência no íntimo dos cristãos judai­ cos, e por muitos anos continuou a existir um grupo de cristãos judaicos na Palestina, que cumpriam rigorosamente a Lei, isolados do restante da igreja. Lucas pinta um quadro de como o problema foi solucionado nos pri­ meiros dias da igreja. Quando Deus derramou o Seu Espírito sobre os gen­ tios, Pedro estava disposto a aceitá-los como membros do povo de Deus, e a comer juntamente com eles. A visão que recebeu da parte de Deus mos­ trou-lhe que já não devia haver uma distinção entre alimentos puros e im­ puros. Duvida-se, no entanto, se outros cristãos judaicos vieram rapidamen­ te a compartilhar do ponto de vista de Pedro (e até ele mesmo achou difícil mantê-lo de modo consistente). Quando a igreja de Jerusalém se encontrou com representantes da Antioquia para considerar o assunto, o ponto essen­ cial que foi aceito era que não havia necessidade de circuncidar os gentios. Ao mesmo tempo, porém, pedia-se a eles que evitassem ofensas aos seus co­ legas judeus, mediante a abstenção do alimento sacrificado aos ídolos, e da camé que não fora abatida do modo judaico, e mediante a observa­ ção dos padrões judaicos de comportamento sexual. Estas exigências têm al­ gum relacionamento com as regras que os tementes a Deus, que adoravam nas sinagogas, já tinham aceito. O único aspecto realmente difícil foi a re­ gra acerca da carne, e é possível que apenas se aplicava a refeições em co­ mum com os judeus. Deste modo, foi possível a judeus que eram rigorosa­ mente fiéis à Lei reconheceram a validez da missão aos gentios. Não se sabe até quando os regulamentos continuaram em vigor. É provável que fossem levados a sério em Jerusalém, especialmente sob a pressão sempre maior dos zelotes, a favor da identidade nacional e cultural judaica. O próprio Paulo vivia como judeu obediente à Lei, entre os judeus, embora protes­ tasse fortemente a sua própria Uberdade de consciência. É improvável, no -

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ATOS entanto, que os regulamentos tenham tido aplicação durável ou de largo alcance, e é provável que tenham caído em desuso. Quando se ecoam em Ap 2:14, 20, parece que a regra acerca da carne fora deixada de lado, sem alarido. Lado a lado com a aceitação dos gentios, Lucas registra a recusa sem­ pre maior da parte dos judeus, no tocante à aceitação do evangelho. A pra­ xe regular de Paulo era começar a sua missão na sinagoga local, e quase che­ gamos a ter a impressão que somente quando os judeus recusavam o evan­ gelho é que se voltava aos gentios (At 13:46). Talvez seja melhor dizer que a missão aos gentios se realizava somente depois de os judeus terem tido a oportunidade de ouvirem o evangelho antes.19 Paulo reconhecia que o evangelho era “primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1:16). Quando os judeus rejeitaram o evangelho, Deus os rejeitou, fato este que foi simbo­ lizado quando os missionários sacudiram contra eles o pó dos seus pés, e se voltaram aos gentios.20 A lição que se ensina em At 13:46 se repete com tremenda ênfase no auge do livro em 28:25-28. Há, porém, um fator cuja ausência é estranha em Atos: não há referência ao julgamento divino sobre Jerusalém, que figura com tanto destaque no Evangelho (Lc 13:34-35; 19:4144; 21-20-24; 23:28-31). Jerusalém, que figura no Evangelho como o lugar onde o Senhor foi rejeitado, fica sendo o lugar onde Ele ressuscita dentre os mortos, onde é derramado o Espírito, e onde a igreja começa a sua obra. Em Atos, é o judaísmo oficial, mais do que Jerusalém, que está sujeito à condenação por causa da sua recusa ao Evangelho.

5. A vida e a organização da igreja Lucas se preocupa em oferecer um retrato da vida e da adoração da igreja, sem dúvida como padrão para guiar e orientar a igreja dos seus dias. Baseados nos breves resumos nos primeiros capítulos de Atos (24247; 4:32-37), chegamos a ter um retrato de grupos pequenos que se reuniam para a instrução, a comunhão, a oração e o partir do pão. O ingresso na igre­ ja como membro era através do batismo com água.

19Jervell, págs. 60-61, faz o máximo que pode para diminuir o impacto de 13:46. Mesmo assim, pelo menos tem razão em insistir em que a missão aos gentios não foi motivada exclusivamente pela recusa dos judeus em aceitarem ao evangelho. 20Talvez seja subentendido o motivo indicado em Rm 11:13-14.

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INTRODUÇÃO Lucas ressalta especialmente a importância do Espírito na vida da igreja. O Espírito é a possessão que todo cristão tem em comum, a fonte da alegria e do poder, e os líderes cristãos são pessoas que estão especialmente cheias do Espírito a fim de cumprirem suas várias funções. 0 Espírito guia a igreja na sua escolha dos líderes e na sua atividade evangelizadora, e isto de tal forma que Atos âs vezes tem sido descrito como o livro dos “Atos do Espírito Santo” .21 Inicialmente, a liderança da igreja estava nas mãos dos apóstolos, jun­ tamente com os anciãos, e a igreja em Jerusalém ocupava um lugar impor­ tante entre as demais igrejas que foram surgindo subseqüentemente. Havia anciãos nas igrejas locais, e atribui-se significância especial aos profetas e mestres, dos quais alguns, segundo parece, eram residentes, ao passo que outros eram mais itinerantes. Lucas diz tão pouco acerca da maneira de se­ rem nomeadas tais pessoas, e das atividades delas, que não podemos tirar outra conclusão senão que não dava importância a estes aspectos. Mesmo assim ficamos sabendo como um apóstolo foi nomeado para substituir Judas, e como foram escolhidos sete homens para ajudarem os apóstolos. Fala-se em resumo como os missionários eram enviados pela igreja em Antioquia, e como Paulo nomeava anciãos nas igrejas que fundava. Estas evi­ dências bastam para demonstrar que, para Lucas, os fatores de significân­ cia eram as qualidades espirituais das pessoas escolhidas e a orientação do Espírito nas reuniões onde eram nomeadas. Além disto, aprendemos alguma coisa acerca da obra dos missioná­ rios. O princípio do trabalho em equipe foi estabelecido desde o início, e, na sua maior parte, os missionários viajavam em grupos de três ou mais; Pedro e Filipe (caps 8-10) eram exceções à regra. O modo de Lucas apre­ sentar os eventos sugere a muitos leitores que devemos pensar que Paulo e seus colegas faziam “viagens missionárias” , mas o estudo mais pormeno­ rizado da narrativa demonstra que, na realidade, Paulo passava períodos consideráveis de tempo nos importantes centros populacionais. Não fica claro se Lucas reconhecia plenamente os princípios que Paulo seguia no seu trabalho, mas certamente nos fornece evidências que as viagens de Paulo es­ tavam longe de ser giros nas estaçõezinhas onde se para só para apitar (na linguagem dos trens modernos). Lucas registra vários sermões como exemplo do modo em que era

21 J. H. E. Hull, The Holy Spirit in the A c ts o f the Apostles (Londres, 1968); F. F. Bruce, Interpretation 27, 1973, págs. 166-183.

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ATOS pregado o evangelho, e um exemplar de um discurso de Paulo diante dos lí­ deres cristãos, com referência às responsabilidades destes (20:17-35). A va­ riedade entre estes discursos missionários, bem como entre os discursos dos cristãos enfrentando julgamento às mãos de autoridades judaicas e ro­ manas pretende, sem dúvida, ilustrar os modos diferentes segundos os quais os evangelhos era apresentado a grupos diferentes de pessoas, judeus e gregos, cultos e incultos, e é difícil resistir a impressão de que os sermões são apresentados como modelos para os leitores de Lucas empregarem na sua própria obra de evangelização. É matéria deste tipo que levou à caracteriação de Atos como “edificante” . Embora este termo, conforme Haenchen (págs. 103-110) o emprega, pareça pelo menos um pouco derrogatório, é uma palavra apropriada e respeitável para descrever este livro, que visava demonstrar aos cristãos dos dias de Lucas o que significa pertencer à igreja, e como devem continuar a viver de conformidade com o padrão que foi estabelecido nos primeiros dias. A história de Lucas tem sua estrutura bem firmada nas carreiras de dois líderes cristãos, Pedro e Paulo. Há paralelos interessantes entre os dois homens, e, além disto, pode-se traçar alguma paralelismo entre as carreiras de Jesus e Paulo. Alguns estudiosos demonstraram grande engenhosidade no discernimento dos detalhes deste paralelismo, e talvez exa­ geraram a sua presença.22 Em termos gerais, no entanto, a alegação é persuasiva, e demonstra que Lucas via para a vida da igreja e dos missioná­ rios dela um padrão na vida do seu Mestre terrestre.

ffl. A HISTORICIDADE DE ATOS

Na seção anterior, vimos alguns dos interesses teológicos que se tor­ nam aparentes na composição de Atos. A presença deles levou um núme­ ro sempre maior de estudiosos a questionar o valor histórico de Atos.2 3 No século XIX a assim-chamada escola crítica de Tübingen considerava Atos como tentativa, em data menos antiga, no sentido de encobrir o con-

22M. D. Goulder, Type and History in A cts (Londres, 1964); W. Radi, Paulus und Jesus im lukanischen Doppelwerk (Bern e Frankfurt, 1975). 2 3Para uma história da crítica, com referência especial a esta questão, ver Gasque.

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INTRODUÇÃO flito entre Pedro e Paulo que (conforme se alegava) tinha dominado os primeiros anos da igreja; Atos apresentava um retrato de um meio-termo harmonioso, e tomou invisíveis as duras realidades do conflito.24 Perto do fim do século passado, as pesquisas de Sir William Ramsay em especial fizeram muita coisa para desacreditar esta interpretação de Atos e para reafirmar a alta qualidade histórica da obra de Lucas.25 Ramsay, sem dú­ vida, expressou esta realidade de modo muito mais forte do que muitos dos seus contemporâneos estariam dispostos a aceitar, e tinha capacidade de fazer declarações acerca da exatidão histórica de Lucas que iam além da­ quilo que as evidências disponíveis podiam demonstrar. Um ponto de vista essencialmente idêntico foi apresentado de modo mais moderado na obra de grande alcance entre a erudição bíblica anglo-americana sobre Atos, nos começos do século XX: The Beginnings o f Christianity. Os contribuin­ tes àquela obra pertenciam a várias escolas de pensamento, e é muito certo que não revelavam qualquer adulação cega para com Lucas; pelo contrário, aquilataram a sua obra de conformidade com os padrões da erudição libe­ ral e, de modo geral, reconheceram Atos como uma obra histórica de considerável valor. Este veredito foi endossado pelos comentários, escritos após a II Guerra Mundial, por F. F. Bruce e C. S. C. Williams. Entrementes, desenvolvia-se uma reação violenta. Na Alemanha, ex­ pressou-se uma atitude muito mais cética para com o valor histórico de Atos numa série de ensaios por M. Dibelius, que aplicou ao livro os métodos da crítica da forma. Depois, veio o desenvolvimento da crítica da redação, em que a função dos escritores neotestamentários como teólogos criativos, trabalhando livremente com as tradições que tinham disponíveis, passou a ser ressaltada. Embora o estudo mais importante de H. Conzelmann, feito sobre a teologia de Lucas, e publicado em 1954, concentrasse sua atenção no Evangelho, estabeleceu para muitos leitores que Lucas era primariamente um teólogo, e que fazia triste figura como historiador. Dois anos mais tar­ de, seguiu-se a primeira edição de um comentário gigante sobre Atos, escri­ to por E. Haenchen. Qualquer pessoa que tenha imaginado que R. Bultmann representou o cúmulo da crítica histórica no que diz respeito ao Novo Tes­ tamento estava para receber um rude choque. O método de Haenchen

24 H. Hams, The Tübingen School (Oxford, 1975). 25 W. M. Ramsay, S t Paul the Traveller and the Roman Citizen (Londres, 1895, 19205 "'); The Bearing o f Recent Discovery on the Trustworthiness o f the N ew Tes­ tam ent (Londres, 1914). - 3 3 -


ATOS era perguntar a cada momento: “O que Lucas procurava fazer?” , e desco­ briu que podia explicar a maior parte de Atos em termos da obra de Lu­ cas ao produzir uma narrativa edificante da igreja primitiva, que nada devia às suas origens documentárias e que se baseava nas mais minguadas tradi­ ções orais. O resultado parecia que a exatidão histórica de Lucas ficou reduzida a farrapos; alegava-se que a narrativa tinha pouca base nas tradi­ ções, que estava eivada de inconsistências e improbabilidades históricas, e que era basicamente o produto da mente fértil de um novelista histórico com pouca ou nenhuma preocupação com coisas enfadonhas tais quais os fatos. Essencialmente, a mesma linha de pensamento foi seguida num co­ mentário escrito por Conzelmann algo mais tarde, embora a brevidade do seu trato signifique que seu ceticismo histórico dá a impressão de ser mais; arbitrário e sem base do que o de Haenchen. No presente momento, parece que a abordagem de Haenchen e Conzelmann predomina no continente europeu [fora da Grã-Bretanha], sem contestações.26 1 .0 ceticismo histórico Quais fatores levaram a esta estimativa de Atos? Em primeiro lugar, há o ambiente geral de ceticismo histórico que se associa com a critica da forma e com a crítica da redação. Pressupõe-se comumente que os cír­ culos na igreja que conservavam e passavam adiante as tradições, e que depois as incorporaram por escrito, tinham motivações teológicas e, por esta razão, não tinham interesse naquilo que realmente aconteceu e/ou eram incapazes de averiguar quais eram os fatos históricos. Dizem-nos que a igreja primitiva não tinha interesse pela história. Esta conclusão geral, no entanto, não tem justificativa lógica - o por esta razão supra grifado não tem valor como prova - e, de qualquer modo, é inerentemente imprová­ vel. Tem sido comprovado inúmeras vezes que a motivação teológica não exclui o interesse histórico, mormente quando um escritor como Lucas

26Para um resumo recente desta abordagem ver E. Plümacher, “Apostelges­ chichte”, em Theologische Realezyklopadie III (Berlim, 1978), págs. 483-528. Uma abordagem muito menos cética é aquela que G. Stahlin adota no seu comentário que está dentro da tradição pietista erudita. Mais recentemente M. Hengel, A cts and the History o f Earliest Christianity (Londres, 1979), defende fortemente Lucas e afirma que “ele não é menos fidedig­ no do que outros historiadores da antiguidade” (pág. 60).

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INTRODUÇÃO deliberadamente declara que seu propósito teológico o levou a um relato histórico dos inícios do cristianimo.27 Talvez devamos acrescentar que as abordagens da crítica da forma e da crítica da redação são perfeitamente legítimas, e que não há necessidade alguma de serem caracterizadas pelo ceticismo histórico.2 8

2. A situação histórica em Atos Uma das principais contribuições que Ramsay fez ao estudo de Lu­ cas foi sua demonstração de que, em questões de pormenores do pano de fundo histórico, Lucas revela exatidão extraordinária. Foi, na realidade, precisamente esta observação que levou Ramsey a abandonar o conceito que a escola de Tübingen tinha de Atos como romance do século II. É necessário reexaminar as evidências, no entanto, e hoje temos condições me­ lhores para afirmar a confiabilidade essencial de Atos nesta área. A obra de maior alcance neste assunto é a de A. N. Sherwin-White, e, atualmente, C. J. Hemer está levando mais adiante a sua abordagem.29 Sherwin-White escreve com cautela e não alega mais do que aquilo que a evidência justi­ fica. Está bem disposto a conceder que Lucas pode cometer erros, mas o im­ pacto principal do seu livro è demonstrar que, na maioria das vezes, Lucas retrata com exatidão o cenário romano do séulo I d.C. A conclusão que se tira é que, se Lucas tem razão no que diz respeito aos detalhes da história provavelmente ele também está certo a respeito dos episódios principais. Os frutos desta abordagem podem ser percebidos no comentário breve, porém útil, de R. P. C. Hanson, que atribui a Lucas um nível de exatidão muito mais alto do que o costume atual na erudição alemã. Tem-se a impressão de que os estudiosos bíblicos de língua alemã ou não fazem caso de Sherwin-White, ou argumentam que, mesmo se um escritor é perfeitamente correto quanto aos detalhes da situação histórica, 27Ver

Marshall, Lucas, pags. 13-76; idem, I believe in the historical Jesus (Londres, 1977), para um debate mais completo sobre este fato. 28Ver o tratam ento dado a estas disciplinas por S, H. Travis e S. S. Smalley em I. H. Marshall (ed.), N ew Testament Interpretation (Exeter, 1977), págs. 153-164 e 181-195, respectivamente. 29C. J. Hemer, “Luke the Historian” , BJRL 60, 1977-78, págs. 28-51. Hemer é co-autor com W. W. Gasque de um comentário importante e crítico de Atos, a ser publicado.

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ATOS não se segue necessariamente que seu enredo principal é a exata verdade: um novelista, conforme se argumenta, pode tomar grandes cuidados para conservar autêntica a situação histórica que se retrata na sua obra. Esta su­ gestão está destituída da capacidade de convencer. Pressupõe que Lucas escrevia como um novelista moderno, que se esforça em prol da verissimilitude; este é um crasso anacronismo. Além disto, deixa desapercebido o fa­ to de a precisão de Lucas se estender a pormenores triviais do tipo que dificilmente um escritor submeteria a pesquisas especiais. A própria casua­ lidade desta precisão sugere que não é artificial. Além disto, precisaríamos de boas evidências que demonstram que Lucas estava escrevendo uma no­ vela histórica, antes de colocarmos de lado a sua própria declaração de que estava escrevendo história fidedigna, e rejeitarmos as evidências da sua exa­ tidão.30 3 .0 problema das fontes Um dos grandes problemas em Atos é a dificuldade de descobrir quaisquer fontes empregadas pelo autor. Mesmo supondo-se que o Livro foi escrito por um companheiro de Paulo, este autor não comparece no cenário antes do capítulo 16, e, portanto, certamente dependia de infor­ mações recebidas doutras pessoas, quanto aos acontecimentos registados nas seções anteriores. J. Dupont, escrevendo em 1964, comentou: “Não foi possível definir quaisquer das fontes empregadas pelo autor de Atos, de modo que contasse com a anuência generalizada entre os críticos”31 Nada aconteceu posteriormente que alterasse esta estimativa de qualquer modo significante. O conceito geralmente sustentado é que Lucas conseguiu com sucesso ocultar quaisquer origens documentárias que tenha emprega­ do sob seu estilo editorial uniformizado. Além disto, o fato de algumas das histórias poderem ser analisadas de conformidade com a crítica da forma, talvez subentende que o autor não estava dependendo de relatos di­ retos de testemunhas oculares, e a análise pela crítica da redação, aplicada a outras histórias, indica que podem ser explicadas pelo menos parcialmente em termos da sua própria composição. Se não podemos descobrir as ori-

30W. W. Gasque, “The Book o f Acts and History” , em R. A. Guelich (ed.), Unity and Diversity in N ew Testament Theology (Grand Rapids, 1978), págs. 54-72; cf. Hanson, págs. 2-21. 31Dupont, Origens, pág. 166.

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INTRODUÇÃO gens documentárias de uma obra alegadamente histórica, temos pouca ba­ se para confiarmos na fidedignidade das informações que ela contém, mes­ mo que o autor tenha boas intenções e seja cuidadoso. É necessário reconhecer a dificuldade do problema, mas ela não é insuperável. Em primeiro lugar, num ensaio importante sobre “The Problem of Traditions in Acts” , Jervell (pags. 19-39) argumentou que há evidênda independente no sentido de que as atividades dos apóstolos e o estabeledmento de congregações eram eventos que formavam parte da proclamação missionária da igreja, e, portanto, eram favoráveis as condi­ ções para a conservação das tradições acerca da história da igreja. Em se­ gundo lugar, acontece que, no Evangelho, podemos averiguar em grau con­ siderável o emprego que Lucas fez das suas origens documentárias. Se ad­ mitimos que fez uso de Marcos e também de documentos perdidos que usava em comum com Mateus,32 podemos ver como empregava estas origens. Os fatos emergem assim: embora empregasse certa medida de li­ berdade na redação, e não se limitasse a passar adiante letra por letra as suas origens documentárias, era notavelmente fiel a elas: “O que nos ocupa aqui” , disse F. C. Burkitt, “não é que Lucas alterou tanta coisa, mas, sim, que inventou tão pouco”.33 É razoável supor, até que tenha sido compro­ vado o contrário, que agiu de modo semelhante em Atos. Em terceiro lugar, a conclusão algo pessimista de Dupont não quer dizer que algumas teorias a respeito das fontes de Atos não possam ser mais plausíveis de que outras. Na segunda parte de Atos, foram escritas certas seções na forma da primeira pessoa do plural (18:10-17; 20:5-21; 18; 27:128:16). A explicação mais natural deste fenómeno é que estas seções se ba­ seiam em matéria composta por um partidpante nos eventos descritos, e que o autor de Atos não alterou o estilo para a terceira pessoa usual na nar­ rativa. Foram feitos muitos esforços no sentido de explicar doutra manei­ ra estas passagens. Já foi sugerido que o emprego de “nós” é um artifício literário que se empregava no contexto de uma viagem marítima, ou com a finalidade de alegar que o autor é muito viajado e, portanto, um escritor competente.34 Uma explicação deste tipo dá péssimo testemunho daho32

Paia uma defesa cautelosa destes dois argumentos, ver L. Morris, L uke (Tyndale N ew Testament Commentaries, Londres, 1974), págs. 47-59. 33BC, II, pág. 115. 34V. K. Robbins, “By Land and by Sea: The We-Passages and Ancient Sea Voyages”, em PLA, págs. 215-242; E. Pliimacher, “Wirklichkeiterfahrung und Ges­ chichtschreibung bei Lukas” , ZNW 6 8,1977, págs. 2-22.

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ATOS nestidade do autor, mas, de qualquer forma, os paralelos que foram adu­ zidos não comprovam o argumento. £ mais convincente a idéia de que o estilo na primeira pessoa indica o uso de matéria dalguma testemunha ocu­ lar, e é assim, decerto, que os leitores de Lucas devem ter entendido.35 Quanto aos primeiros capítulos de Atos, a hipótese mais provável continua sendo que Lucas obteve informações das várias igrejas, e, possi­ velmente, dalguns dos principais atuantes na história. É forte a possibili­ dade de que tenha obtido informações de lugares tais como Jerusalém, Cesaréia e Antioquia. Na realidade, é quase inconcebível que um escri­ tor que descrevia a igreja primitiva não tenha feito assim. Mesmo assim, é mister reconhecer que Lucas trabalhou as origens informativas de modo tão eficiente que é impossível fazer distinção estilística entre elas. O veredito de F. J. Foakes-Jackson (citado por Bruce, Atos, pág. 21) é especial­ mente verdadeiro no caso de Atos: “Devemos sempre lembar-nos de que a crítica das fontes no Novo Testamento é, em grande medida, matéria de conjeturas” . Nas passagens individuais, o crítico talvez pode detectar lugares onde o autor está fazendo uso de tradições, mas deve ser lembrado que um autor pode reescrever um documento original tão completamente nas suas próprias palavras, que é quase impossíver reaver a sua forma original. Em Atos, há o constante perigo de que a presença do estilo do próprio autor, que a tudo permeia, venha a levar os estudiosos a tirarem a conclu­ são de que não dependia de fontes; é necessário resistir a esta tentação. Dentro do escopo deste comentário, não é praticável a análise das fontes, e esta tarefa forçosamente fica por conta das obras de porte maior.

4. A motivação teológica de Lucas: os discursos em Atos Já mencionamos a questão da presença de teologia lucana em Atos. O veículo principal mediante o qual esta foi transmitida é, segundo se acredita, a matéria falada. A erudição bíblica britânica tem geralmente

35 "Barrett, Lucas, p. 22; R. Jewett, Dating Paul’s Life (Londres, 1979), págs. 12-17. Barrett não pensa que o autor das seções na primeira pessoa do plural foi Lu­ cas, e Jewett ressalta que, ainda se fossem de Lucas, esta não seria necessariamente um a garantia da lealdade aos fatos de todos os detalhes do relato. Hengel, págs. 66-67 declara que Lucas é provavelmente o autor das passagens na 1? pes. do pl. bem como de Atos.

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INTRODUÇÃO defendido o conceito de que os vários discursos colocados na boca de Pedro, de Paulo e de outros eram ou relatos verbatim daquilo que real­ mente foi dito, ou, no mínimo, composições que se baseavam na tradição e que expressam a estrutura e os pormenores da mais primitiva pregação cristã.36 Outra tendência da erudição, representada especialmente por M. Dibelius e U. Wilckens,37 alega que os discursos têm pouca, ou talvez nenhuma, base na tradição e que foram quase inteiramente composições do próprio Lucas que refletiam o próprio conceito teológico dele, em data avançada. A base deste veredito cético acha-se na análise dos próprios discursos. Argumenta-se que o conteúdo deles não corresponde aos frag­ mentos da pregação primitiva que podem se detectados noutras partes do Novo Testamento, que os discursos seguem uma estrutura em comum (com variações individuais para servirem às várias ocasiões diferentes), que a sua linguagem e estilo são lucanos, e que, no seu conjunto, oferecem um compêndio de teologia lucana, sendo que cada discurso faz sua própria contribuição ao efeito total. Estes argumentos têm menos força do que talvez apareça.38 Em primero lugar, é digno de nota que, na edição mais recente do seu livro, Wil­ ckens teve que qualificar de modo significante alguns dos seus argumentos anteriores e reconhecer que havia mais base tradicional nalguns dos discur­ sos do que ele antes admitira. Não se deve superestimar o alcance da sua mudança de opinião, mas certamente tem alguma significânda. Em segundo lugar, certo número de estudiosos chamou a atenção à presença de elementos primitivos nos discursos, espedalmente nos padrões judaicos do emprego do Antigo Testamento.39 O estilo dos discursos não é tão esmerado quanto se esperaria caso se tratasse de cuidadosas produ-

36C. H. Dodd, The Apostolic Preaching and its Developments (Londres, 1943); F. F. Bruce, The Speeches in the A cts o f the Apostles (Londres, 1943). 37Dibelius, págs. 138-191, et passim; Wilckens; E. Schweizer, “Concerning the Speeches in Acts”, SL A , págs. 208-216. A Obra mais importante na língua inglesa que representa esta aboradagem % a de H. J. Cadbury, “The Speeches in Acts” , BC, V, págs. 402-427. 38F. F. Bruce, ‘T he Speeches in Acts - Thirty Years A fter” , em R. Banks (ed.), Reconciliation and Hope (Exeter, 1974), págs. 53-68; W. W. Gasque, “The Speeches of Acts: Dibelius Reconsidered”, era R. N. Longenecker e M. C. Tenney (eds.), N ew Directions in N ew Testament S tudy (Grand Rapids, 1974), págs. 232-250. 39Wilcox, passim; Ellis, págs. 198-208.

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ATOS ções literárias; existem, na realidade, o tipo de redundância e incoerência menores que marcam a incorporação de tradições num arcabouço redadonal. Em terceiro lugar, embora se possa perceber uma estrutura comum nos discursos, demonstra considerável variação na aplicação individual, e há certa concordânda entre os discursos e as evidêndas, reconheddamente parcas, da pregação primitiva, que devem ser respigadas noutras partes do Novo Testamento. Pode-se perguntar, de modo justificável: Que tipo de coisas Pedro teria dito aos judeus, se não tivesse dito as coisas que Lucas atribui a ele? É muito difícil imaginar que ele tomasse diretrizes muito diferetes daquelas que alegadamente assumiu. Estes argumentos indicam que os discursos em Atos se baseiam em matéria tradidonal, embora sejam insufidentes para demonstrar que todos os discursos realmente foram proferidos nas ocasiões espedficadas —aspec­ to este que, de qualquer forma, fica além da prova histórica.40 Na reali­ dade, há vários detalhes que indicam que os discursos registrados nunca pre­ tendiam ser o texto verbatim. Em primeiro lugar, a leitura em voz alta de qualquer um dos discur­ sos levaria apenas poucos minutos. É totalmente improvável que os preletores fossem tão resumidos, conforme claramente demonstra 20:7. Na melhor das hipóteses, portanto, não podemos ter aqui nada mais do que re­ sumos do tipo de coisa que se dizia. Em segundo lugar, embora seja muito provável que os ensinos de Je­ sus fossem espedalmente lembrados pelos Seus discípulos, e, ainda mais, que especificamente aprendessem algumas das coisas que Ele os ensinava, é muito menos provável que os ouvintes se lembrassem daquilo que disseram os pregadores cristãos primitivos, ou que os que pregavam conservassem o texto integral, por escrito, dos seus sermãos. Paulo não pregou em Listra com um manuscrito adredemente preparado (14:15-17), nem passou a fazer o relato do seu sermão nas suas anotações, depois de pregar. O máximo que Lucas deve ter recebido deve ter sido um relato generalizado. Em terceiro lugar, nalguns lugares pode ser demonstrado que Lucas não teve a preocupação de registrar um relato daquilo que foLdito, palavra por palavra. A breve mensagem que o anjo entregou a Comélio aparece em formas levemente diferentes em 10:4-6 e 31-32. Fica claro, porém, em 10:22, 33, que o anjo disse a Pedro algumas coisas além do conteúdo dos

40O discurso de Paulo em Atenas, porém, está estreitamente integrado com sua ocasião específica.

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INTRODUÇÃO dois relatos aludidos supra. Segue-se que Lucas não pretendia citar mais do que o sentido geral da mensagem. 0 mesmo ocorre com as várias versões daquilo que foi dito a Paulo na ocasião da sua conversão, pela voz celestial e por Ananias. Em quarto lugar, há ocasiões em que é inerentemente impossível que Lucas pudesse ter sabido o que foi dito. Lucas dificilmente poderia ter sabido o que Festo e Agripa conversaram nos seus aposentos particulares (25:13-22; 26:30-32), nem poderiam os cristãos descobrir com exatidão aquilo que os membros do Sinédrio falaram em sessão fechada (4:15-17; 5 :34-40). No primeiro caso, Lucas podia expressar o tipo de coisa que os governantes provavelmente diziam em particular, tendo em vista o seu comportamento público, e, no segundo caso, é possível que algum simpa­ tizante dentro do Sinédrio tenha transmitido aos cristãos a essência daquilo que fora dito acerca deles, mas não há probabilidade alguma, em qualquer destes casos, que as conversações fossem reproduzidas palavra por palavra. O efeito destes comentários é mostrar que Lucas podia compor ob­ servações apropriadas para os seus locutores, e que é assim que fazia, e que não lhe tratamos com justiça se exigimos dele relatos verbatim de todo e qualquer discurso. Não se quer dizer com isto que os discursos são suas próprias invenções indisciplinadas; já mostramos que se baseiam em ma­ térias de tipos diferentes de fontes documentárias. Nos discursos, Lucas fez o melhor esforço no sentido de relatar o que disseram os pregadores na igre­ ja primitiva. Continua sendo mais razoável crer que a sua praxe era seme­ lhante àquela de Tucídides: “Em todos os casos, era difídl conservar os dis­ cursos, palavra por palavra, na memória, de modo que meu hábito tem sido atribuir àqueles que falavam aquilo que, segundo a minha opinião, exigiam as respectivas ocasiões, sempre, decerto, conservando-me tão perto quánto possível do sentido geral daquilo que realmente disseram” (História, 1.22.1).

S. O Retrato de Paulo, pintado por Lucas. Finalmente, devemos mencionar alguma coisa do retrato que Lucas pintou de Paulo, das suas atividades e da sua teologia. É este aspecto, tal­ vez mais do que qualquer outra coisa, que levou a estimativas céticas do va­ lor histórico de Atos. O libelo contra Lucas se resume no ensaio de P. Vielhauer, que argumentou que o modo de Lucas apresentar a atitude de Paulo para com a teologia natural, a Lei judaica, â cristologia e a esca-41 -


ATOS tologia, estava longe de ser consistente com o quadro que deduzimos das próprias Epístolas de Paulo.41 Este artigo teve uma influência extraor­ dinária, em persuadir os estudiosos que o caráter de Atos era não-histórico. Na realidade, porém, o libelo foi fortemente criticado, e, em nossa opi­ nião, destruído de modo convincente, numa breve discussão por E. E. Ellis.42 Algumas observações gerais por F. F. Bruce confirmam o argu­ mento.43 Não se quer dizer com isto que não haja pontos de tensão entre o retrato que Lucas nos dá de Paulo, e os escritos deste; mas sim que, na nossa opinião, não são tão substanciais ao ponto de nos levar a desconsi­ derarmos Atos como livro histórico.44 Outros aspectos poderiam ser trazidos à discussão sobre o valor his­ tórico de Atos, mas os argumentos já aduzidos são provavelmente os mais importantes. O efeito dos nossos comentários, reconhecidamente breves, é demonstrar que há uma defesa muito forte para considerar Atos como relato essencialmente fidedigno daquilo que narra. Devemos observar, no entanto, que argumentos de tipo que acabamos de usar não podem compro­ var a historicidade de cada pormenor de Atos. Nem sequer podemos espe­ rar da parte de Lucas mais do que ele mesmo disse que tinha para ofere­ cer. Não se poderia esperar que desse o tipo de relato que um jornalista,

4 l P. Vielhauer, “On the ‘Paulinism’ of Acts” , em SLA , págs. 33-50. Cf. Haen­ chen, págs. 112-116. 42E. E. Ellis, The G o sp elo fL u ke (Londres, 19742), págs. 45-47. 43F. F. Bruce, “Is the Paul o f Acts the Real Paul?”, BJRL 58, 1976, págs. 282-305. Cf. Hanson págs. 24-27. 44E. Plümacher (ver pág. 35 n. 1), pág. 519, alista os seguintes argumentos: (1)0 Paulo de Lucas orgulha-se da sua piedade farisaica e se vincula à Lei (16:3; 21:1826; 26:5), ao passo que o Paulo verdadeiro encara esta atitude como uma possibilida­ de entre muitas, que não pode limitar a sua liberdade em Cristo (1 Co 9:19-23; G1 2:5, 11). (2). Acima de tudo, o Paulo de Lucas é trazido diretamente para a igreja e para a mais íntim a união com os apóstolos de Jerusalém (9:10-19, 23-30), ao passo que o Paulo verdadeiro dá o máximo valor à sua distância dos apóstolos, e à sua indepen­ dência deles. (3). Ao passo que o Paulo histórico reivindica com veemência o título de “apóstolo” (G1 1:1), Atos lhe nega (com a estranha exceção de 14:4, 14). Nenhum destes argumentos realmente expressa uma contradição. Lucas ressalta a disposição de Paulo no sentido de viver como judeu entre os judeus, mas nada diz para sugerir que comprometia sua própria liberdade, nem aquela dos seus convertidos gentios. Nada há em At cap. 9 para sugerir que Paulo estava de qualquer modo subordinado aos apóstolos, ou que dependesse deles. E A t 14:4, 14 mostra que Lucas sabia que Paulo era apóstolo, embora tenha mais interesse na posição dos Doze.

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INTRODUÇÃO presente a cada incidente com gravador e filmador, talvez oferecesse —e até mesmo uma reportagem deste tipo pode ser unilateral e enganosa. Lu­ cas nos deu um relato da história da igreja primitiva, que trata somente de certos aspectos do seu desenvolvimento e deixa outros de lado,45 e que se baseia nas fontes documentárias que lhe eram disponíveis, e que foram redi­ gidas de modo simpático. Se abordarmos o relato conforme ele é, teremos mais apreciação por ele do que no caso de exigirmos do seu autor aquilo que não procurava oferecer. (N. Editora: Alguns trechos de discussão sobre a historicidade de determinados textos de Atos foram suprimidos nesta edição em português, visto não serem disponíveis os livros citados e cri­ ticados pelo autor).

IV. AS ORIGENS DE ATOS

1. Autoria No decurso da discussão supra, limitamo-nos a referir-nos ao autor de Atos com seu nome tradicional de “Lucas” . Este autor, no entanto, foi real­ mente a pessoa que é conhecida por este nome no Novo Testamento, o médico, amigo e colega de Paulo (Cl 4:14; Fm 24; 2 Tm 4:11)?46 Duas linhas de argumento favorecem esta identificação. Em primeiro lugar, há a evidência interna de Atos. Certas passagens estão escritas na 1? pessoa do plural, e a explicação mais plausível delas é que provêm da pena dalgum companheiro de Paulo, e que foram incorpora­ das em Atos sem mudança de estilo, porque o autor desta origem documen­ tária foi o próprio autor do Livro.4 7 Quando perguntamos quem era este

4 5As diferenças entre os retratos de Paulo pintados por Lucas e o quadro que obtemos a partir dos próprios escritos de Paulo devem-se basicamente aos diferentes interesses dos dois escritores. Lucas se preocupa principalmente com a missão evangelística de Paulo, e com seus relacionamentos com os cristãos judeus, ao passo que as Epístolas de Paulo refletem sua preocupação com os problemas dentro das igrejas novas e com a liberdade dos gentios diante das perversões judaísticas e sincretísticas do evangelho. 46Ver L. Morris, Lucas, págs. 14-22; Bruce, ^4/os, págs. 1-8, 47

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Ver supra, pag. 38.

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ATOS companheiro de Paulo, podemos eliminar várias pessoas que são menciona­ das por nome em Atos, tais quais: Timóteo e Aristarco; entre as várias pes­ soas que Paulo menciona como sendo seus companheiros em Roma (ou erti' Cesaréia, se for este o lugar de origem das cartas da prisão); Lucas se desta­ ca como nome óbvio.48 Em segundo lugar, há evidências externas, extraídas dos escritores da igreja primitiva. A evidência mais clara é aquela de Irineu (c. de 180 d.C.), que dta Lucas como sendo o autor do terceiro Evangelho e de Atos. A par­ tir desta altura, a tradição-é atestada com firmeza. Acha-se no Cânon Muratoriano49 e assim no assim-chamado Prólogo Anti-marcionita ao Evangelho segundo Lucas.s0 As evidências aduzidas doutros escritores demonstram que, desde o inído do século III d.C., é indisputada a tradição. É provável que haja sinais dela ainda antes, no século II d.C. Márciom, que era segui­ dor fanático de Paulo, e cujo Novo Testamento consistia somente nas Epís­ tolas de Paulo mais um Evangelho, escolheu o Evangelho segundo Lucas para ser o Evangelho exclusivo; provavelmente devemos entender que con­ siderava que foi um colega de Paulo que o escreveu, e que continha um ponto de vista paulino. Márdom não incluía Atos no seu “Cânon”, mas seu provável reconhedmento da autoria lucana do Evangelho pode ser empregado para fortalecer o argumento em prol da autoria lucana de Atos.51 Há também um texto variante de At 20:13 num MSS armênio, que, por sua vez, depende da versão siríaca antiga de Atos. O texto diz:“ Mas eu, Lucas, e os que comigo estavam subiram a bordo”. Não se alega que es­ te foi o texto original de Atos, mas certamente indica como um escriba

480 argumento antigo, de que a prova desta identificação se acha no uso da fra­ seologia médica em certos pontos de Lucas-Atos, já foi seriamente enfraquecido. A presença dalguns poucos termos médicos nada mais pode fazer senão providenciar um pouco de confirmação de um ponto de vista já sustentado por outros motivos. 49Comumente supõe-se que este rem onta até aos fins do século II. A. C. Sundberg Jr. “Canon Muratori: A Fourth-Century List” , H TR 66, 1973, págs. 1-41, argu­ mentou em prol de uma data posterior, mas não parece que seus conceitos mereceram o assentimento dos estudiosos. S0Disputa-se consideravelmente a data deste documento. Ver Haenchen, pág. 10, n. 1, e E. E. Ellis, The Gospel o f Luke, págs. 40-41, que o datam nos tempos de Ireneu ou mais tarde. S1É bem possível que Márciom tenha rejeitado Atos, assim como omitiu certas passagens das Cartas de Paulo, porque não gostou do cristianismo judaico cuja expres­ são ali achou.

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INTRODUÇÃO dos tempos primitivos interpretava as passagens que se acham na 1? pessoa do plural. Há algum motivo para acreditar que esta interpretação remonta aos tempos da compilação do assim-chamado texto ocidental de At 11:28, cuja data se fixa nos começos do século II.52 O texto ocidental de At 11:28 também introduz “nós” no texto; visto que a tradição sustentava que Lu­ cas era nativo da Antioquia, este texto variante talvez reflita a crença de que Lucas era o autor de Atos. Não seria atitude sábia, a de atribuir demasiada importância a esta evidência do texto ocidental. A pergunta importante é de se o veredito de; Ireneu e dos outros que participavam do seu ponto de vista era meramente uma dedução inteligente, tirada das passagens em Atos na 1? pessoa do plural, ou se depende, pelo menos parcialmente, dalguma tradição indepependente a respeito da autoria de Atos. Aqui, são válidos dois aspectos. O primeiro é que a tradição que delineamos é incontestada. Não existe evidên­ cia em prol de qualquer outra identificação do autor de Atos. O segundo é que, se a tradição fosse meramente uma dedução da evidência do Novo Testamento, é possível que tenha sido citado algum outro companheiro de Paulo. Na realidade, a tradição a favor da autoria lucana do Evangelho e de Atos é tão firme quanto aquela que apoia qualquer outro escritor dos demais Evangelhos. O argumento contrário depende basicamente da alegada incompatibilidade entre o retrato de Paulo pintado por Lucas, e o Paulo histórico; já vimos que não há força neste argumento.53 Nota sobre o texto ocidental. Os textos gregps atuais de Atos ba­ seiam-se essencialmente nos manuscritos egípcios, e nos códices Vaticano e Sinaítico. Há muitas diferenças (acréscimos, e omissões de palavras, mu­ danças de palavras, e assim por diante) na versão do texto que se acha em Codex Bezae e noutros manuscritos cuja proveniência é usualmente da área ocidental da cristandade primitiva; a origem deste texto remonta até o século II. Argumentos no sentido de ele representar o texto original de Atos, ou de ser uma segunda edição do texto, pelo autor original, dei­ xaram de produzir convicção. Pensa-se geralmente que representa uma re­ visão de Atos feita por escribas, embora ocasionalmente conserve as pala­ vras originais de Atos onde o texto egípcio se desvia. O assunto inteiro, no entanto, é muito mais complicado do que indica este breve resumo. Metz-

s 2Bruce, A tos, 5. 5 30 argumento contra a autoria lucana se apresenta enfaticamente em W. G. Kümmel, Introdução ao N ovo Testamento, (S. Paulo, 1982), págs. 189-239.

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ATOS ger (págs. 259-272) oferece uma boa introdução ao problema, e as diferen­ ças principais entre as duas tradições textuais se discutem ibid. págs. 272503.

2. Data da composição Uma decisão a respeito da data da composição de Atos depende de três fatores. Em primeiro lugar, há o relacionamento entre os escritos de Lucas e outros documentos. Se supomos que o Evangelho segundo Lucas demons­ tra dependência literária de Marcos, segue-se que a datade Lucas-Atos será posterior à de Marcos. É provável que a maioria dos estudiosos modernos da­ taria Marcos depois de 70 d.C., o ano em que os romanos conquistaram Je­ rusalém depois de um longo cerco, pela razão de que Marcos, segundo pa­ rece, reconhece neste evento o cumprimento da profecia feita em Marcos cap. 13. Lucas, conforme freqüentemente se argumenta, tomou a alusão aos eventos de 70 d.C. tanto mais clara em Lc 21:20-24 (cf. 19:4144; 23:28-31). Deve ser enfatizado que adotar este conceito não importa rjecessariamente em considerar as profecias atribuídas a Jesus como profecias fictícias depois do evento; é igualmente possível que profecias genuínas tenham sido lembradas, citadas e talvez conservadas no texto por causa do desejo do autor de demonstrar que aquilo que Jesus profetizou real­ mente já se cumpriu. Mesmo assim, já foi argumentado com boa razão que as profecias não mostram sinal de terem sido escritas ou redigidas depois do evento, e que o interesse da igreja primitiva em conservá-las se explica suficiente­ mente nisto: qualquer pessoas com algum entendimento político podia perceber em que direção os eventos avançavam na Palestina na década dos 60 do século I.54 O argumento em prol de atribuir quaisquer dos Evange­ lhos Sinóticos a uma data depois de 70 d.C. não é, portanto, conclusivo, e não há a mínima referência em Atos à queda de Jerusalém.55

S4B. Reicke, “Synoptic Prophecies on the Destruction o f Jerusalem” , em D. E., Aune (ed.), Studies in N ew Testament and Early Christian Literature (Leiden, 1972), págs. 121-134; J. A. T. Robinson, Redating the N ew Testament (Londres, 1976), caps. 2 e 4. s s Já foi sugerido (Williams, págs. 14-15) que Lucas escreveu Atos antes do Evangelho.

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INTRODUÇÃO Em segundo lugar, há a questão do relacionamento entre a composi­ ção de Atos e a morte de Paulo. Atos nâo registra a morte de Paulo, que foi uma execução jurídica pelos romanos durante o reinado de Nero (5468 d.C.). A história ali narrada termina com o retrato de Paulo ainda ativo em Roma durante dois anos depois da sua chegada ali. Lucas registra profe­ cias a respeito do compaiedmento de Paulo diante de César e da sua morte como mártir; nâo há, porém, nada para sugerir que o processo contra ele em Roma teria qualquer probabilidade de levar à sua condenação. Fica, portanto, incerto se Lucas interrompeu sua história porque já a acom­ panhara até ao momento de ela ser registrada, ou porque, por algum moti­ vo, achou que já a desenvolvera até ao ponto para onde quis chegai. Esta última possibilidade é mais provável, sendo que o propósito de Lucas era mostrar como o evangelho chegou a Roma, mais do que escrever a his­ tória da vida de Paulo, e deixa em aberto a pergunta acerca da data do mar­ tírio de Paulo: foi no fim do período de dois anos em At 28:30, ou em data posterior? Em terceiro lugar, há a questão do ponto de vista de Atos. Já vimos que o autor nâo apresenta uma mera crônica de eventos, mas, sim, medi­ tou profundamente acerca da significânda da história que registra. Apre­ senta uma interpretação da história da igreja primitiva. Argumenta-se que um escritor nâo pode fazer assim a nâo ser que fique a certa distânda dos eventos de tal modo que possa vê-los na sua perspectiva correta. Podemos, pois, declarar que Lucas escrevia numa época quando era possível ver em perspectiva o período que descrevia. Até que ponto, pois, era avançada esta época? Aqueles que sustentam que Lucas nos deu um retrato errôneo de Paulo naturalmente sugerirão uma data avançada para o livro. Já argumentamos contra a base deste modo de datar. A objeção pode ser fortaledda pela observação que Atos não manifesta os interesses e ponto de vista típicos do catolidsmo indpiente que se desenvolveu em fins do século I d.C. Há pouco interesse pela cristalizaçío da sã doutrina, pela doutrina da igreja, pelos sacramentos, e pelo desenvolvimento de um ministério hierárquico que seguia uma linha de su­ cessão a partir dos apóstolos. Além disto, nâo há referêndas claras em Atos à morte de Tiago (62 d.C.) e de Pedro (uma vítima de Nero). Ainda mais: não parece que Lucas tenha lido as Cartas de Paulo, fato este que se toma tanto mais estranho quanto mais avançada fica a data que atribuímos a Atos.56 Atribuir a Atos uma data no século II se toma manifestamente 5 íO fato de Lucas desconhecer as Cartas é estranho, seja qual for a data de

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ATOS impossível,s 7 sendo também improvável uma data dos anos 80 ou 90 do século I. Se, porém, é razoável sustentar que Lucas conseguiu fazer um retra­ to matizado da igreja primitiva em data comparativamente recente depois dos eventos que registra, toma-se possível uma data algo mais recuada. Já vimos que a evidência é ambígua. De um lado, Atos não revela conheci­ mento algum de quaisquer eventos depois do período de dois anos que Paulo passou em Roma, a não ser, talvez, a sua morte. Do outro lado, con­ templa a carreira passada dele com certo sentido de perspectiva. É, por­ tanto, muito recomendável o ponto de vista de F. F. Bruce,58, quanto à possibilidade de composição de Lucas-Atos ter ocorrido no decurso de um período extensivo de tempo, e da obra completada ter sido publicada “pouco antes de 70 d.C.” . Segundo este conceito, Lucas atualizou a sua his­ tória até um ponto significante, o fim do processo de levar o evangelho até Roma, simbolizado pela pregação feita por Paulo, ah, sem impedimentos, durante dois anos. Foi este o ponto culminante apropriado da história, e aqui Lucas teve prazer em terminar o seu relato. 3. Lugar de composição Se é incerta a data de Atos, o lugar da sua composição e a localiza­ ção dos leitores que Lucas teve em mente são ainda mais incertos. Já vimos que a tradição liga Lucas com Antioquia, e há alguma leve evidência no sentido de ligar o Evangelho com aquela igreja. Outra sugestão é Ro­ ma, pois ah termina a história em Atos. Ainda outra possibilidade é Éfeso, cidade por qual Atos demonstra considerável interesse; é aos líderes da igreja ali que Paulo dirige seu “adeus” pastoral.59 Devemos confessar, no Atos. C. K. Barrett, “Acts and the Pauline Corpus” , Exp. T 88, 1976-77, págs. 2-5, pensa que o autor de Atos pertencia a um grupo não-paulino, e que não as conhecia; de qualquer forma, o-pensamento nelas expresso não se encaixaria no retrato que ele 'dava da teolgia de Paulo. Se, porém, Lucas foi um companheiro de Paulo, sua falta de lemprego das Cartas talvez tenha conexão com sua falta de interesse pelos problemas {internos das igrejas de Paulo. 57Este ponto de vista, proposto por O’Neill, págs. 1-58, não recebeu apoio significante entrè os estudiosos. S8F. F. Bruce, “The Acts of the Apostles” , em D. Guthrie e t al., The N ew Bible Commentary Revised (Londres, 1970), págs. 968-9. S9Devo esta sugestão ao Rev. D. G. Deeks.

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INTRODUÇÃO entanto, que realmente Mo sabemos a resposta a esta pergunta.

4. Conclusão A identificação do autor, da data e do lugar da composição de Atos não nos oferece muita ajuda no entendimento do Livro a não ser que sai­ bamos de modo independente algo acerca de cada um destes fatores que depois possa ser útil para lançar luz sobre ele. Certamente, se Atos foi escrito em data recuada por Lucas, o companheiro de Paulo, é provável que tenha base melhor na história do que se foi composto por um autor desconhecido no começo do século II. Além disto, seria de ajuda saber se houve qualquer situação específica, histórica, na igreja, que levou à com­ posição do Livro. Não há, porém, qualquer evidência no sentido de que Lucas estava procurando enfrentar alguma crise específica na vida da Igre­ ja. Seus motivos eram menos nitidamente definidos. Felizmente a inteligibilidade e o valor do Livro independem, em gran­ de medida, do conhecimento da exata situação em que foi escrito. Embora os pormenores mais delicados da interpretação de Atos ainda possam pro­ vocar intensa discussão entre os estudiosos, os temas essenciais do Livro são basicamente claros e simples.

V. O VALOR PERMANENTE DE ATOS.

Os problemas específicos na igreja, com os quais Lucas se preocupa­ va, desapareceram nalguns casos. A igreja já não se preocupa com o proble­ ma dos judeus e dos gentios e com todas as questões subsidiárias que sur­ giam do problema básico. Mesmo assim, o livro conserva, de muitas manei­ ras, o seu valor para a igreja de hoje. Bastarão uns poucos exemplos. Em primeiro lugar, Lucas pessoalmente é visto como um escritor com preocupação pastoral. Escreve para ajudar e socorrer a igreja. Demonstra, de uma vez para sempre, que a história da igreja não é uma disciplina fria e acadêmica, mas, sim, pode ser o meio de encorajar o povo de Deus. Em segundo lugar, Lucas toma claro que, segundo o ponto de vista dele, a tarefa essencial da igreja é a missão. Diz notavelmente pouco acerca da vida interna da igreja, e concentra a maior parte da sua atenção a este -49-


ATOS aspecto da tarefa da igreja. Além disto, para Lucas, a missão importa em evangelização, a proclamação das boas novas de Jesus e o desafio ao arrepedimento e à fé. Em terceiro lugar, Lucas demonstra que, no propósito de Deus, não pode haver discriminação racial dentro da igreja. A igreja é conclamada a testificar a todos os povos, e a salvação é oferecida a todos, com as mes­ míssimas condições. Em quarto lugar, Lucas ressalta o papel do Espirito em guiar e capa­ citar a igreja para a sua missão. A missão não é mera realização humana. Os dons do Espírito foram dados para o propósito da missão, e não para a edificação particular da igreja ou dos seus membros individuais. Em quinto lugar, tudo isto se resume no conceito que Lucas tem da igreja levantada e dirigida por Deus, de tal modo que levasse a efeito o Seu propósito. Neste sentido, podemos dizer que Lucas acreditava numa theologia gloriae. Crê no triunfo final do evangelho. Ao mesmo tempo, porém, tem plena consciência que o triunfo do evangelho se realiza somente me­ diante o sofrimento e o martírio; neste sentido, acredita muito enfatica­ mente numa theologia crucis. Há vinte anos, visitei a cidade de Kassel, na Alemanha. A maior par­ te dela ainda era uma ruína devastada depois dos bombardeios qúe rece­ beu durante a Segunda Guerra Mundial. Entre os escombros de edifícios antigos, no entanto, ainda estava em pé o arcabouço arruinado de uma igreja. Sobreviveram apenas alguns fragmentos da construção, mas, numa das extremidades, um dos pináculos ainda apontava em direção ao céu, e uma inscrição, esculpida sobre uma entrada, numa grande pedra, ainda dizia: “A Palavra de Deus, porém, permanece para sempre” . Lucas teria gostado do simbolismo; é justamente isto que ele quer nos dizer.

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a n a l is e

I. O COMEÇO DA IGREJA (1 :l-2:47). a. b. c. d. e. f. g.

Prólogo (1:1-5). A ascensão de Jesus (1:6-l 1). A volta dos discípulos para Jerusalém (1:12-14). O décimo-segundo apóstolo (1:15-26). O derramamento do Espírito Santo (2:1-13). Pedro prega o evangelho (2:1442). Resumo da vida da igreja primitiva (24347).

II. A IGREJA E AS AUTORIDADES JUDAICAS (3:1-5:42). a. b. c. d. e. f. g. h.

A cura de um coxo (3:1-10). Pedro explica o incidente (3:11-26). A prisão de Pedro e João (4:1-22). Os discípulos oram, pedindo mais intrepidez (4:23-31). Outro resumo da vida da igreja primitiva (4:32-37). O pecado de Ananias e Safira (5:1-11). O crescimento contínuo da igreja (5:12-16). A segunda prisão dos apóstolos (5:1742).

III. A IGREJA COMEÇA A EXPANDIR-SE (6:1-9:31). a. A nomeação dos Sete (6:1-7). b. A controvérsia acerca de Estêvão (6:8-15). c. O discurso de Estêvão no tribunal (7:1-53). -51 -


ATOS d. e. f. g. h. i.

A morte de Estêvão (7:54-8:1a). A seqüela à morte de Estêvão (8:lb-3). O evangelho se espalha até à Samaria (8:4-25). A conversão de um etíope (8:2640). A conversão e a vocação de Paulo (9:1-19a). Paulo começa a pregar (9:19b-31).

IV. O COMEÇO DA MISSÃO AOS GENTIOS (9:32-12:25). a. b. c. d.

As obras poderosas de Pedro (9:3243). A conversão de Comélio (10:1-11:18). A igreja em Antioquia (11:19-30). A prisão e o escape de Pedro (12:1-25).

V. A MISSÃO À ÁSIA MENOR E SUAS CONSEQUÊNCIAS (13:1-15:35). a. b. c. d. e. f. g.

A vocação à missão (13:1-3). A evangelização em Chipre (13:4-l 2). A evangelização na sinagoga de Antioquia da Pisídia (13:13-52). O conflito em Icônio (14:1-7). A evangelização dos pagãos em listra (14:8-20). A viagem de volta à Antioquia (14:21 -28). O concílio em Jerusalém (15:1-35).

VI. A CAMPANHA MISSIONÁRIA DE PAULO NA MACEDONIA E NA ACAIA (15:36-18:17). a. b. c. d. e. f. g.

Paulo, Bamabé, Marcos e Silas (15:3642). A volta de Paulo a Derbe e Listra (16:1-5). A chamada à Macedonia (16:6-10). Filipos: a primeira igreja na Macedonia (16:1140). Tessalônica e Beréia (17:1-15). Atenas: o discurso no Areópago (17:16-34). Corinto (18:1-17). -52-


ANÁLISE VII. A CAMPANHA MISSIONÁRIA DE PAULO NA ÁSIA (18:28-2038). a. b. c. d. e. f. g. h.

Paulo parte de Corinto (18:18-21). Paulo viaja a Cesaréiae a Antioquia (18:22-23). A chegada de Apoio (18:24-28). Os doze discípulos em Éfeso (19:1-7). A obra de Paulo em Éfeso (19:8-22). A reação do paganismo em Éfeso (19:2341). A viagem de Paulo de Éfeso a Mileto (20:1-16). O discurso de despedida de Paulo em Mileto (20:17-38).

VIII. PAULO É CAPTURADO E ENCARCERADO (21:1-28:31). a. b. c. d. e. f. g. h. i. j.

A viagem de Paulo para Jerusalém (21:1-16). Paulo é capturado em Jerusalém (21:17-36). A defesa de Paulo diante da turba (21:37-22:29). Paulo comparece diante do Sinédrio (22:30-23:10). Paulo é transferido para Cesaréia (23:1-35). Paulo comparece diante de Félix (24:1-27). Paulo comparece diante de Festo (25:1-12). Paulo comparece diante de Festo e Agripa (25:13-26:32). A viagem para a Itália (27:1-28:16). Paulo e os judeus em Roma (28:17-31).

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COMENTÁRIO

I. O COMEÇO DA IGREJA (1 :l-2:47).

a. Prólogo (1:1-5) O autor do Evangelho segundo Lucas e de Atos dos Apóstolos pre­ tendia que fossem considerados como Parte I e Parte II de uma única obra. No mundo antigo, eram comuns as obras que consistiam em várias partes ou “livros” desta maneira, com uma introdução do autor a cada parte. No Evangelho, Lucas providenciou uma introdução inicial, com cuidado­ sa fraseologia (Lc 1:1-4); sua linguagem, seu estilo e seu conteúdo a dis­ tinguem claramente do corpo principal da narrativa, que começa com Lu­ cas 1:5. Em Atos, Lucas segue a praxe tradicional, ao refletir a linguagem do prefácio ao Evangelho, mas, neste caso, a introdução não se distingue nitidamente da narrativa que se segue, e esta de cone daquela. Além dis­ to, embora Lucas nos informa o que fizera no Evangelho, não declara ex­ plicitamente qual é o propósito de Atos. O efeito da introdução, portan­ to, é dar ao leitor um breve resumo do Evangelho antes de continuar a etapa seguinte da história. Lucas, ao escrever deste modo, enfatizou a uni­ dade entre a história do ministério de Jesus e a história do começo da igreja. O Evangelho narra aquilo que Jesus começou a fazer e ensinar; Atos relata aquilo que Ele continuou a fazer e ensinar mediante as ativi­ dades das Suas testemunhas. Visto que os w . 1-5 são, em grande medida, uma recapitulação do último capítulo do Evangelho, podemos considerar que a introdução é esta seção, antes de matéria nova ser acrescentada nos w . 6 e segs. Lucas prepara o cenário que se segue, ao ressaltar as ordens que Jesus deu aos discípulos, a realidade da Sua ressurreição demonstra-55 -


ATOS 1:1-2 da pelos Seus aparecimentos, e a promessa da vinda do Espírito. Estes aspectos fundamentais formam o alicerce para a obra contínua dos segui­ dores de Jesus. 1. Lucas dedica o seu Livro a Teófilo. O nome significa “querido a Deus”, mas, sem dúvida, é o nome de uma pessoa real e não apenas um nome simbólico. A omissão da expressão de cortesia, “excelentíssimo” que se emprega em Lc 1:3 é bem natural na segunda ocorrência do no­ me. É provável que Teófilo já era cristão, e que Lucas escreveu seu livro para ajudar a ele, e a outros como ele, a ter um relato fidedigno dos come­ ços do cristianismo. O primeiro livro, é, naturalmente, o Evangelho, que é resumido com sendo relato de todas as coisas que Jesus fez e ensinou. A fraseologia tem duas peculiaridades. Em primeiro lugar, Lucas incluiu uma partícula grega (não incluída em ARA;ARC tem “não só”) que é o equivalente à nossa frase “de um lado” , ao descrever sua composição do Evangelho; somos asssim levados a esperar uma declaração adicional que delineia o “do outro lado” .que passará a ser relatado em Atos, mas não se segue declaração alguma neste sentido. Lucas faz a mesma omissão noutros lugares, e é provável que devamos perceber no contexto o contraste aqui visado. Este fato nos leva à segunda peculiaridade, o emprego da expressão (no original) “Jesus começou não só a fazer, mas a ensinar” (ARC), a res­ peito do ministério terrestre de Jesus. Embora alguns estudiosos conside­ rem redundante a palavra “começou” (conforme amiúde pode ser nos es­ critos antigos), parece mais provável que aqui se emprega deliberadamente, de modo que Lucas associa aquilo que Jesus começou a fazer durante Seu ministério com (implicitamente) aquilo que continuou a fazer depois da Sua ascensão; o ministério de Jesus foi o começo do cristianismo. 2. A história do “começo” abrangia o tempo até que Jesus foi ele­ vado ao céu por Deus. O Evangelho termina com uma breve referência a este incidente (Lc 24:51), que foi precedido pelos ensinos importan­ tes que Jesus transmitiu aos Seus discípulos. Esta doutrina era tão impor­ tante, que dela temos três relatos. Lucas a registra no Evangelho (Lc cap. 24, especialmente w 4449); passa, então, a fazer dela um breve resumo nesta parte introdutória de Atos, e depois passa a relembrar certos aspectos dela, mais uma vez, na história da ascensão que é o primeiro incidente na narrativa principal em Atos (1:6-11). A repetição visa parcialmente a ên­ fase, e ao mesmo tempo, indica que o período desde o domingo da Páscoa até à Ascensão é tanto a conclusão do ministério terrestre de Jesus e o iní­ cio da obra da igreja. Este período tem duas características importantes. Forneceu provas de que Jesus ainda estava vivo (1:3), e foi a ocasião em que -56-


ATOS 1:2-3 Jesus deu aos Seus apóstolos as Suas ordens para a marcha (1:4-5; cf. 1:7-8). Dois fatos significantes se ressaltam de modo inddental antes de Lu­ cas desenvolver estas características. O primeiro é que os seguidores de Je­ sus são designados apóstolos. Para entendermos esta palavra, devemos exa­ minar seu uso anterior no Evangelho onde se refere aos doze discípulos escolhidos por Jesus e enviados para serem missionários e testemunhas (Lc 6:13; 9:10; 11:49; cf. 17:5; 22:14; 24:10). Mais tarde, ficará daro que se refere às pessoas que estavam com Jesus durante o Seu ministério e que fo­ ram especificamente escolhidas para serem testemunhas da Sua ressurrei­ ção (1:21-22). O conceito abrange os doze discípulos (sendo que Matias substituiu Judas, (1:15-26), mas a palavra também pode ser aplicada a Pau­ lo e Bamabé (14:4, 14; ver a nota ali). O outro fato é a referenda ao Espi­ rito Santo como origem da orientação que Jesus recebeu na escolha dos apóstolos.1 Uma das preocupações de Lucas é demonstrar que tanto Jesus quanto a igreja foram dirigidos pelo Espírito no cumprimento do propósi­ to de Deus para eles. 3. Lucas explica que as instruções dadas por Jesus foram entre­ gues durante o período entre a Sua morte e ascensão. Sua morte é descri­ ta como Sua “paixão” , literalmente “padedmento” , palavra esta que não é infreqüente no Novo Testamento e que ressalta o elemento de tortura à qual foi submetido o Jesus inocente na Sua morte (173; 26:23). Depois disto, Jesus demonstrou que estava vivo, aparecendo aos Seus discípulos em várias ocasiões. Ressaltam-se os fatos reais das evidêndas, conforme as temos nas narrativas em Lucas cap. 24, onde a indisposição original dos dis­ cípulos a crerem que Jesus ressusdtara foi vendda pelas provas claras que lhes foram apresentadas. Esta convicção, pois, não dependia dalguma experiênda isolada mas, sim, de provas repetidas. Embora em Lucas cap. 24, os aparedmentos do Jesus ressurreto são apresentados como se todos ocor­ ressem no domingo da Páscoa, aqui Lucas relata que ocorreram no decurso de um período que se estendia por quarenta dias. Talvez se trate de uma dfra arredondada, mas encaixa-se no fato de que havia cinqüenta dias entre a Páscoa e o Pentecoste. Durante este período de tempo, conforme se re­ gistra, o tema dos ensinos de Jesus era o reino de Deus, frase esta que, noutros lugares, resume o tema do Seu ministério terrestre (Lc 4:43), e significa a ação salvadora e soberana de Deus por meio dEle. A razão de ser 1 ARA liga por intermédio do Espírito Santo com depois de haver dado manda­ mentos, mas, provavelmente, essa frase deva acompanhar que escolhera-, a ordem in-' comum das palavras em Grego provavelmente vise a ênfase.

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ATOS 1:3-5 deste tema é que ele continuará sendo o tema das testemunhas da igreja, seguindo-se logicamente após a pregação de Jesus (8:12; 19:8; 20:25; 28:23, 31), embora haverá, inevitavelmente, novos elementos e uma nova ênfase, na medida em que o próprio Jesus fica sendo parte da mensagem (28:31). Segue-se que a igreja pode retomar a mensagem de Jesus, conforme ela vem registrada nos Evangelhos, e fazer dela parte da sua própria mensagem. 4. Uma instrução específica da parte de Jesus é registrada do tem­ po em que estava comendo com eles. A palavra aqui empregada (Gr. synalizomaí) é incomum, e, segundo parece, se refere a algum tipo especial de comunhão (Wilcox, págs. 106-109); ARA ressalta o significado prová­ vel, e demonstra que as instruções provavelmente eram dadas no decurso das refeições com Jesus que os discípulos fizeram depois da ressurreição (cf. Jo 21:9-14). Jesus ordenou aos apóstolos que permanecessem em Jerusalém até que recebessem a promessa do Pai. Aqui, promessa signi­ fica, concretamente, “as coisas prometidas pelo Pai” , que devem refe­ rir-se ao Espírito Santo (2:33, 38-39; G1 3:14; Ef 1:13); a promessa do Pai está contida nas Escrituras, Isaías 32:15 (cf. Lc 24:49) e Joel 2:28-32. Quando, porém, é que os discípulos ouviram esta promessa da parte do próprio Jesus? Uma possibilidade é que Lucas 24:49 está em mente; mas é muito mais provável que este versículo é uma recapitulação do dito no Evangelho, que se expressa em palavras ligeiramente diferentes. Devemos, portanto, pensar nestes ensinos acerca da vinda do Espírito conforme os achamos em Mateus 20:10-20 (cf. Lc 12:12) e João caps. 14-16. Os discípulos talvez sentissem a tentação de voltar à Galiléia (Jo cap. 21 in­ dica que isto realmente aconteceu), mas era Jerusalém o cenário determi­ nado por Deus para a outorga do Espírito; o lugar onde Jesus foi rejei­ tado haveria de ser o lugar onde começaria novo testemunho dEle. 5. A promessa de Jesus é reforçada pela lembrança do testemunho de João Batista; meramente alegara que batizava com água, ao passo que profetizou da vinda dAquele que batizaria com o Espirito Santo (Lc 3:16), e Jesus agora faz alusão a esta declaração (cf. a citação que Pedro fez destas palavras de Jesus em 11:16). “Batizar” literalmente significa “imergir” uma pessoa na água ou “inundá-la” com ela, usualmente como méio de purifi­ cação. Quando o termo se aplica ao Espírito, a referência parece dizer res­ peito ao derramamento do Espírito, vindo das alturas da parte de Deus, e associa-se com o perdão dos pecados (2:38). A metáfora de derramar li­ qüido, no entanto, é insuficiente, em última análise, para descrever à al­ tura do dom do Espírito, que chega ao póvo de Deus, trazendo poder, sa­ bedoria e alegria; como resultado, o termo “batismo” fica consideravel­ -

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ATOS 1:5-6 mente estendido no seu uso metafórico, e nenhum sinônimo isolado é suficiente para dar cobertura à sua gama de significados como termo téc­ nico cristão para o recebimento do Espírito.

b. A ascensão de Jesus (1:6-l 1). Embora demos a esta seção o título de “A ascensão” , duvida-se se o ato propriamente dito da ascensão é o aspecto central na história. Lucas se preocupa mais com aquilo que se disse do que com aquilo que aconte­ ceu. A pergunta vital foi aquela que os discípulos fizeram: agora que Je­ sus foi ressuscitado dentre os mortos, Deus estava para completar Seu pro­ pósito mediante o estabelecimento definitivo do Seu domínio? A resposta dada tinha dois aspectos. O primeiro é que o tempo deste evento permane­ ceu sendo segredo de Deus; o que era mais importante era a tarèfa imediata dos discípulos, que era a de agir como testemunhas de Jesus desde Jerusa­ lém até aos confins da terra. A difusão do domínio de Deus devia ser leva­ da a efeito através dos discípulos, no poder do Espírito Santo. Era este o mandamento final que Jesus deu antes de deixar os discípulos. O segundo era que a partida de Jesus era interpretada como sendo o padrão da Sua volta final â terra para inaugurar o estabelecimento final do domínio de Deus. Estes versículos, portanto, definem o propósito de Deus e o papel da igreja dentro dele. Postulam que o período de testemunho e missão deve anteceder a volta de Jesus. Assim, eram efetivamente uma advertên­ cia aos discípulos no sentido de estes não esperarem para dentro em bre­ ve o desfecho da história. Para os leitores de Lucas, cerca de quarenta anos mais tarde, estes versículos eram uma lembrança da tarefa que devia pros­ seguir: o evangelho ainda precisa ser levado até aos confins da terra. Ao mesmo tempo, as palavras contêm uma nota de promessa, pois a partida de Jesus seria compensada pela vinda do Espírito, da parte do próprio Jesus (2:33). Somente Lucas descreve a ascensão de Jesus como evento visível, embora o fato da ascensão seja solidamente atestado noutros lugares (1 Tm 3:16; 1 Pe 3:21-22), especialmente nas muitas passagens nas quais a ressurreição de Jesus é entendida, não simplesmente como a Sua volta dentre os mortos como também a Sua exaltação à destra de Deus (2:33-55). A historicidade da cena foi fortemente questionada pelos estudiosos que sus­ tentam que Lucas criou uma representação dramática da verdade teológica -

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ATOS 1:6-7 da glorificação de Jesus.2 Há, naturalmente, dificuldades se interpretarmos a história de modo demais literal, tirando dela o conceito de um céu ‘lá em cima” , nalgum lugar no espaço. A história é mais semelhante àquelas da criação do mundo ou da encarnação de Jesus ou da Sua ressurreição, nas quais os eventos que põem em justaposição a realidade transcendente de Deus e o mundo físico — os quais, portanto, não podem ser plenamente descritos em termos e categorias que pertencem a este último —se expres­ sam de modo simbólico e pitoresco. O simbolismo da “ascensão” expressa o modo conforme o qual a presença física de Jesus partiu deste mundo, para depois ser substituída pela Sua presença espiritual. Dizer assim obviamen­ te não é negar a realidade ou historicidade daquilo que aconteceu; é, sim, o reconhecimento de que aquilo que aconteceu fica além da descrição sim­ ples e literal. É desta maneira que melhor se entende a história da ascensão de Jesus. 6. Lucas retrata uma nova cena, onde os discípulos retomam a refe­ rência ao reino de Deus no v. 3. A pergunta deles é se Jesus pretende restau­ rar o reino a Israel. Trata-se, talvez, de uma reflexão da esperança judaica de que Deus estabelecesse o Seu domínio de tal maneira que o povo de Israel ficasse livre dos seus inimigos (especialmente dos romanos) e fosse estabelecido como nação que subjugaria os demais povos. Se for assim, os discípulos apareceriam aqui como representantes daqueles leitores de Lu­ cas que ainda não reconheceram que Jesus transformara a esperança judai­ ca do reino de Deus, purgando dela os seus elementos políticos nadonalísticos. Outra possibilidade é que os leitores talvez pensassem que “os tem­ pos dos gentios”, durante os quais Jerusalém ficaria desolada, deveriam lo­ go chegar ao fim, dando lugar à vinda do reino de Deus (Lc 21:24, 31); neste caso, haveria uma interpretação secundária da pergunta dos discípu­ los, em termos das expectativas dos leitores de Lucas. Ê menos provável que a pergunta realmente tem o sentido de indagar se a vinda do Espírito deve ser interpretada como sendo a restauração do reino. Pelo contrário, trata-se de uma pergunta acerca da proximidade do fim, que era bem natu­ ral no contexto dos aparecimentos do Jesus ressurreto: seria muito natu­ ral ficar pensando que estes talvez marcassem o inído da última etapa no plano de Deus. 7-8. Não se dá qualquer resposta direta, porém —pelo menos no que diz respeito ao tempo. Em linguagem que relembra Marcos 13:32, Jesus

2G. Lohflnk, Die Himmelfahrt Jesu (Munique, 1971).

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ATOS 1:7-10 declara com nitidez que a questão do tempo da atuação de Deus é do ex­ clusivo domínio dEle, e não cabe aos homens participar do Seu conheci­ mento deste assunto. Visto que se trata de segredo de Deus, não há lugar para a especulação humana —lição esta que deveria ficar sempre presente com aqueles que ainda procuram ansiosamente calcular o decurso provável dos eventos nos últimos dias. Os discípulos, ao invés de se entregarem aos pensamentos sonhadores ou à especulação apocalíptica, devem cumprir sua tarefa de serem testemunhas de Jesus. O escopo da sua tarefa é de âm­ bito mundial. Começa com Jerusalém, a Judéia e Samaria, e se estende até aos confins da terra. Embora alguns tenham pensado que esta expressão designa Roma, é muito mais provável que tenha um sentido mais lato;3 o fim de Atos não marca a completação da tarefa aqui proposta, trata-se apenas da conclusão da primeira fase. Mesmo assim, no sentido geral, o programa aqui delineado corresponde à estrutura de Atos de modo glo­ bal. Para esta tarefa, os discípulos recebem a promessa do poder do Espí­ rito (Lc 2449), promessa esta que primariamente se ,,cumpriu no Pentecoste, e secundariamente se cumpriu em muitas outras ocasiões. Estas pa­ lavras têm ênfase especial como palavras finais de Jesus antes da Sua par­ tida; formam estreito paralelo com as Suas últimas palavras registradas no Evangelho (Lc 24:46-49), pouco antes de deixar Seus discípulos, e talvez devam ser entendidas como versão alternativa das mesmas (comparável com a maneira de Lucas nos oferecer versões ligeiramente diferentes da conversação associada com a conversão de Paulo, nas três narrativas desta). 9. Imediatamente depois, Jesus foi elevado e uma nuvem o encobriu dos olhos dos discípulos. A função dos discípulos de testemunhas oculares da ascensão é sublinhada pela tríplice repetição deste pensamento neste versículo e no próximo. A nuvem é, ao mesmo tempo, o veículo que “re­ cebe” (ARC) Jesus e O transporta para longe, e o sinal da glória celeste de Deus (cf. Lc 934-35; Ap 11:12). É, portanto, uma nuvem sobrenatural e simbólica. 10-11. Aqui temos o retrato dos discípulos que olhavam atentamen­ te ao céu enquanto Jesus desaparece, detalhe este que sugere que anseiam pelo reaparecimento de Jesus ou por qualquer outro acontecimento que indi­ cará que aquilo que viram não é o ato final no drama. A sua oração silenciosa é respondida, mediante o aparecimento de dois varões vestidos de branco. A descrição é aquela dos anjos (Lc 24:4; At 10:30), que usam vestes bri-

3van Unnik, págs. 386-401.

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ATOS 1:10-14 Ihantes e reluzentes. A função deles é dar o comentário sobre aquilo que acontecera. Perguntam aos discípulos por que estão olhando para as altu­ ras; a pergunta é uma repreensão implícita dirigida a eles por demorarem ali, ansiando pela continuada presença de Jesus com eles. Os discípulos já rece­ beram a ordem quanto àquilo que devem fazer. Agora recebem a confir­ mação de que a ascensão de Jesus é uma garantia de que, assim como foi possível para Jesus subir ao céu, assim também será possível para Ele vol­ tar da mesma maneira, i.é, sobre uma nuvem na parusia (Lc 21:27; Mc 14:62 cf. Dn 7:13). Desta forma, a promessa da parusia forma o fundo his­ tórico da esperança, diante do qual os discípulos devem desempenhar seus papéis como testemunhas de Jesus. Em efeito, esta passagem corresponde à declaração de Jesus em Mc 13:10, de que o evangelho deve primeiramen­ te ser pregado a todas as nações antes do fim poder vir.

c. A volta dos discípulos para Jerusalém (1:12-14) A história da ascensão é completada com a narrativa de como os dis­ cípulos obedeceram a Jesus e voltaram a Jerusalém, para aguardar o Es­ pírito prometido em atitude de oração. 12. É somente no fim da história da ascensão que ficamos sabendo que ocorreu no monte chamado Olival. Na narrativa paralela em Lucas 24:50, diz-se que Jesus levou os discípulos para Betânia, que era uma al­ deia no encosto oriental da colina (cf. Lc 19:29). A jornada de um sábado era 1,2 km; a expressão é judaica, e não há qualquer intenção de sugerir que o evento ocorresse num sábado. O importante é que a ascensão (como os aparecimentos do Jesus ressureto em Lc cap. 24) ocorreu na vizinhança imediata de Jerusalém. 13. Os discípulos se estabeleceram num aposento do andar superior de uma casa em Jerusalém; assim, teriam sossego (cf. 9:37) e o lugar seria ideal para a oração (Dn 6:10). Não se pode declarar com qualquer grau de certeza se este aposento específico deve ser identificado com o “cená­ culo” onde foi celebrada a Última Ceia (Lc 22:12 —onde se emprega uma palavra grega diferente), e localizado na casa de Maria, mãe de João Marcos (12:12). A esta altura, Lucas dá uma lista dos onze discípulos, que corres­ ponde à sua lista anterior em Lucas 6:14-16, e demonstra que os discípu­ los íntimos do Jesus terrestre formavam o núcleo da igreja.’ 14. Posto que o Espírito Santo é a dádiva divina que capacita e guia a igreja, a atitude humana correspondente diante de Deus é a oraçãó. É na - 6 2 -


ATOS 1:14-15 medida em que a igreja ora que recebe o Espírito. Assim, logo de início, Lucas ressalta que os discípulos passaram o período de espera pelo Espí­ rito numa atitude de oração contínua e unida (cf. 2:4647; 4:24 e segs.). Incluíam entre seu número as mulheres que eram discípulas de Jesus (Lc 8:2-3; 23:49; 24:10), sendo que pelo menos algumas delas viram o túmulo vazio, e, em particular, Maria, mãe de Jesus, juntamente com os irmãos dEle (Mc 6:3; Jo 7:3-5). A família de Jesus, portanto, estava entre aqueles que passaram a fazer parte da igreja, e um deles, Tiago, haveria de receber nela uma posição de liderança.4

d. O décimo-segundo apóstolo (1:15-26) Lucas relata um incidente que, em efeito, preenche a lacuna do tem­ po entre a ascensão e o Pentecoste. É possível, portanto, que ele o tenha considerado de especial importância. A história diz respeito à escolha de um sucessor a Judas, para ficar sendo uma testemunha da ressurreição e tomar seu lugar entre os doze apóstolos; entremeada com esta história é a descrição de como Judas morreu e perdeu o seu lugar. Não pode haver dúvi­ da quanto à historicidade da escolha da Matias em preferência ao outro candidato. O relato da morte de Judas, no entanto, levanta problemas (pois, nalguns aspectos, difere do registro em Mt 27:3-10), e assim também o discurso de Pedro.s Segundo Haenchen (págs. 1634), o propósito de Lu­ cas foi demonstarr que, nos apóstolos, a igreja possuía garantidores fidedig­ nos quanto à veracidade da sua mensagem. É provável, no entanto, que aqui haja algo mais importante do que isso.6 No Evangelho, os Doze tinham uma função especial como apóstolos aos judeus, e tinham a certeza de pas­ sarem, no futuro, a sentar-se em tronos para julgar as doze tribos de Israel

4Para o relacionamento entre os irmãos de Iesus e Maria, ver R. V. G. Tasker, James (TyndaleNew Testament Commentaries, Londres, 1957), págs. 22-24. 5Para a morte de Judas ver, especialmente, A. Gordon, “The Fate o f Judas according to Acts 1:18” ; EQ 44, 1971, págs. 97-100; J. A. Motyer, em N ID NTT, I, págs. 93-4. Quanto a este último, ver M. Wilcox, “The Judas-Tradition in Acts i. 15-26” , N T S 19, 1972-1973, págs. 438-452, que argumenta que Lucas empregou um a tradição como base do discurso (que se acha nos w . 1 7 ,1 8 ,19b). 6K. H. Rengstorf, “The Election o f Matthias, Acts 1, 15ff” , em W. Klassen e G. F. Snyder (eds.), Current Issues in N ew Testament Interpretation (Nova Iorque, 1962), págs. 178-192.

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ATOS 1:15-18 (Lc 9:1-6; 22:28:30); o preenchimento daquela cifra provavelmente visa­ va indicar que a tarefa de testificar de Jesus como Messias, diante dos ju­ deus, era para ser continuada depois da ressurreição. Não é tão provável que devemos ,ver aqui instruções de como se deve organizar a liderança da igreja. 15. A iniciativa nesta história é atribuída a Pedro, que fora, nos Evan­ gelhos, a personalidade mais destacada e forte entre os demais discípulos, e que agora naturalmente assumiu a liderança com sua proposta. A história é interrompida por um parêntese que indica que o número de “irmãos” presentes era cerca de 120. Aqui temos, pela primeira vez, o emprego de “ir­ mãos” para designar os cristãos; Hanson (pág. 46) pensa que esta era a maneira mais antiga entre os cristãos para designar os membros da igreja. A razão do parêntese acerca do número de discípulos é que, conforme a lei judaica, era necessário um mínimo de 120 homens judeus para estabelecer uma comunidade com seu próprio concílio; em termos judaicos, os discípulos perfaziam um corpo de tamanho suficiente para formar uma nova comu­ nidade. 16-17. O discurso de Pedro começa com a declaração de que era ne­ cessário que a Escritura se cumprisse no caso de Judas, aquele que traiu a Jesus. A referência a Davi como o escritor através de quem o Espírito Santo fez a Sua profecia dirige a nossa atenção às duas citações em v. 20, que são tiradas dos Salmos e, em espedal, à primeira delas, que trata do destino de Judas. O espaço entre esta introdução e a citação propriamen­ te dita se deve à maneira pela qual os w 18-19 foram encaixados como parêntese que não fazia parte do discurso de Pedro (cf. os parênteses em ARA). A razão de ser necessário que a Escritura fosse cumprida é que Ju­ das pertenda ao número dos Doze, e tinha a sua parte destinada na tare­ fa do ministério ou serviço instituída por Jesus. Outra pessoa predsaria encarregar-se destes deveres. Ê possível que haja, por detrás da redação, o texto do Targum palestiniano de Gênesis 44:18 que se refere a “Ben­ jamim, que foi contado entre nós no meio das tribos, e receberá conosco a porção e a parte conosco na divisão da terra” ; caso seja esta uma iden­ tificação correta, confirma que Lucas depende aqui de uma tradição palestiniana. As palavras escolhidas sublinham a enormidade do pecado de Judas como traidor de Jesus. 18-19. Estes dois versículos formam uma digressão, que descreve para o leitor como Judas morreu. A redação do v. 19, com sua referênda na terceira pessoa aos habitantes de Jerusalém e à língua deles, indica que este trecho não faz parte do discurso original de Pedro. A narrativa -64-


ATOS 1:18-20 diz que Judas adquiriu um campo ou terreno com o dinheiro que recebeu por ter traído Jesus. Precipitou-se e se rompeu pelo meio, de modo que todas as suas entranhas se derramaram (como Amasa, 2 Sm 20:10). O resultado foi que o povo de Jerusalém cognominou o lugar de Acéldama (Aramaico h?qêldema), que significa Campo de Sangue, i.é, “o campo sangüinário” . Esta história levanta problemas: a. Deixa sem devida expli­ cação o modo da morte de Judas; b. Difere da história em Mateus, e isto em aspectos importantes. Mateus nos conta que Judas se suicidou, enforcandose, e que, quando Judas devolveu ao templo o preço do sangue, os sacerdo­ tes compraram o “campo do oleiro” para servir de cemitério, e que veio a ser conhecido por “Campo de Sangue” . É bem possível que Mateus ou Lu­ cas simplesmente relatam aquilo que comumente se dizia em Jerusalém, e que nem há necessidade de harmonizarmos as duas histórias. Se formos mesmo procurar fazer esta harmonização, surgirão as seguintes possibilida­ des: (1). Judas se enforcou (Mt), mas a corda quebrou e o seu corpo rompeu-se na queda (possivelmente depois de já morto e no início da decompo­ sição); (2). Aquilo que os sacerdotes compraram com o dinheiro dele (Mt) pode ser considerado compra dele através deles (At); (3). O campo que os sacerdotes compraram (Mt) foi aquele onde Judas morreu (At). 20. Seguem-se duas citações das Escrituras. A primeira é do Salmo 69:25, e representa uma ameaça contra os inimigos de uma pessoa piedosa que Jesus e a igreja primitiva consideravam como sendo uma tipificação do Messias; logo, seria natural achar neste Salmo uma profeda ou tipo do traidor de Jesus. A aplicação se faz por meio de alterar o texto original, “morada deles” , para “morada dele” (sua morada, ARA, em ambos os ca­ sos). A morada é o campo que Judas comprou e sobre o qual pairará uma maldição: ninguém hàbitará ali (conforme indica Mateus, ao dizer que veio a ser um cemitério). C. H. Dodd7 sugere que o efeito da dtação era demons­ trar que a Escritura previa a criação de uma vaga no apostolado, causada pela apostasia e não pela morte (não havia, portanto, necessidade de eleger um sucessor para Tiago, At 12:2); além disto, outro trecho bíblico dava fundamento para o preenchimento da vaga. O segundo texto se acha em SI 109:8,® onde o Salmista pronunda uma lista de maldições contra seu inimigo e deseja que outra pessoa assuma a ocupação deste. Aqui se acha

7C. H. Dodd, Segundo as Escrituras (São Paulo, 1975), pág. 58n.

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‘T om e outro o seu encargo” ; a interpretação “que outro apanhe os seus bens” é possível, mas menos provável.

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ATOS 1:21-25 a justificativa para entregar a outra pessoa o cargo de Judas.9 21-22. A razão principal, no entanto, da procura de um sucessor a Judas, achava-se, não na profecia do Antigo Testamento, que deu confimação para a ação mas não a sua inspiração original, mas, sim, surgiu da natureza da tarefa que exigia que fosse completado o número integral das testemunhas. Conforme Paulo, a qualificação de um apóstolo, tal como ele mesmo, era que tenha visto o Jesus ressurreto e recebido uma comis­ são para ser Sua testemunha (1 Co 9:1-2; 15:8-10; G1 1:16-17). Aqui, tam­ bém, há necessidade de uma testemunha da sua ressurreição, mas a escolha deve ser feita dentre aquelas pessoas que tinham sido associadas com os demais apóstolos no decurso da totalidade do ministério de Jesus, desde o seu- início no batismo de João, e continuando até à ascensão de Jesus. Esta qualificação “adicional” parece estranha a muitos leitores, mas é to­ talmente natural na procura de um sucessor para iam dos Doze que tinham sido discípulos de Jesus e cuja tarefa (conforme podemos razoavelmente sugerir) vinculava-se com o testemunho aos judeus. É questão bem diferen­ te indagar se o conceito do apostolado em Atos é limitado aos Doze (ver 14:4,14 e notas). 23-25. As pessoas presentes propuseram dois possíveis candidatos para o cargo. José Barsabás se distingue doutras pessoas com o nome dé Jo­ sé, por meio do seu patronímico, “Filho do Sábado” (cf. 15:22); além dis­ to, tinha um nome latino, Justus (cf. Cl 4:11), seguindo uma praxe adota­ da por muitos judeus. Nada mais se sabe acerca dele, embora tenha surgido uma lenda no sentido de ele ter bebido veneno sem nada lhe acontecer. Matias é uma forma abreviada de Mattithiah, outro nome comum. A ver­ dadeira escolha, porém, foi deixada para o Senhor, sendo que o apostolado não era um cargo humanamente ordenado. A assembléia, portanto, orou no sentido de Deus exercer Sua escolha em virtude do Seu conhecimento dos corações humanos (cf. 15:8 e especialmente 1 Sm 16:7). Não fica daro se é Deus Pai ou Jesus que é invocado nesta oração, mas, considerando que em 1:2 o mesmo verbo se aplica a Jesus na Sua escolha dos apóstolos, é mais provável que é a Ele que aqui se dirige a oração. A tarefa do aposto­ lado é descrita como ministério; a palavra gr. diakonia significa “serviço”

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Podemos notai, de passagem, que em ambos os casos a interpretação e passí­ vel de ser feita na base do texto hebraico, e que é falso alegar que as citações somente poderiam ter sido feitas na base do texto grego; mesmo assim, é fato que o texto gre­ go emprega o termo episkopè “supervisão” que tem conexão com episkopos, empre­ gado como termo posterior para os líderes cristãos. - 6 6 -


ATOS 1:25-2:1 (originalmente, o serviço a uma mesa de refeições), e se emprega para a obra cristã de todos os tipos, cujo padrão deriva dAquele que veio para servir e não para ser servido (Mc 10:45). O lugar para onde foi Judas repre­ senta um eufemismo corrente para o destino final da pessoa, seja no céu, seja no inferno. 26. O lançamento de sortes foi o método que se empregou para dei­ xar a escolha nas mãos do Senhor (Pv 16:33). A seita de Cunrã também se­ guia esta praxe (1QS 5:3), mas duvida-se que a igreja a copiou de Cunrâ. De modo semelhante, é desnecessário considerar o número dos doze após­ tolos como continuação da idéia dos doze leigos que (juntamente com três sacerdotes), compunham o concílio da seita de Cunrâ (1QS 8:1; não fica claro se a totalidade dos membros somava quinze ou doze). Alguns comen­ taristas argumentam que o apelo às sortes tipifica a situação da igreja antes do Pentecoste, quando ainda não tinha a orientação do Espírito, e outros foram além e alegaram que a igreja agiu erroneamente na escolha de Matias: deveria ter esperado o “décimo-segundo homem” da escolha do próprio Deus, a saber: Paulo, ao invés de submeter a Deus a escolha entre dois ou­ tros sobre os quais nada mais se ouve. Quanto a isto, porém, nada mais fi­ camos sabendo acerca de qualquer dos outros membros dos Doze (a não ser Pedro, Tiago e João) em Atos, e Paulo não possuía as qualificações es­ senciais para ser um dos Doze. O máximo que se pode dizer é que, durante o período antes do Pentecoste, a igreja precisava procurar algum outro meio de orientação divina que não fosse a ajuda do Espírito, mas o método que adotou (a oração e o lançamento de sortes) foi inteiramente apropriado. Na realidade, a igreja estava pedindo ao Senhor que fizesse a Sua escolha do homem certo, e a este foi “contado” (ARC) como apóstolo; não se pode dizer que a igreja o “elegeu” .

e. O derramamento do Espírito Santo (2:1-13). Depois de terminarem os dias de espera, o Espírito Santo veio sobre o grupo reunido dos discípulos de modo inédito, acompanhado de sinais sobrenaturais e fazendo com que irrompessem em louvores a Deus em lín­ guas diferentes das suas próprias. Na medida em que os discípulos saíam para as ruas, a sua atividade estranha atraía a atenção das pessoas que fi­ caram atônitas com aquilo que ouviram. Muitas ficaram assombradas, mas algumas estavam dispostas a buscar uma explicação radonalística e algo de­ sonrosa daquilo que aconteda. -

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ATOS 2:1-2 Somente Lucas se refere à história de como o Espírito veio sobre a igreja pela primeira vez, mas está firmemente assegurada a historicidade essencial do incidente.10 Sua colocação em Atos corresponde à posição do nascimento de Jesus no Evangelho, e o seu significado é que a igreja agora está equipada com a tarefa do testemunho e da missão, e imediata­ mente passa a empreendê-la. A história contém o cumprimento da profe­ cia em 1:4-5 e, assim, descreve como os discípulos foram batizados com o Espírito Santo; mais corretamente, é a primeira ocorrência desta experiên­ cia. Ao mesmo tempo, o evento cumpre as profecias de Isaías 32:15 e J1 2:28-32, indicando, assim, que chegaram os últimos dias. Alguns estudio­ sos detectaram na história um contraste deliberado com a história de Ba­ bel (Gn cap. 11) e o equivalente cristão à outorga da Lei no Sinai. A pri­ meira destas possibilidades não tem base no texto, ao passo que a evidên­ cia em prol da última é mais sólida, mas não convence totalmente. 1. Pentecoste é o nome dado no Novo Testamento à Festa das Se­ manas, quando a ceifa do trigo era celebrada por uma festa de um dia, durante a qual se oferecia sacrifícios especiais (Êx 23:16; Lv 23:15:21; Dt 16:9-12). Assim como outras festas se associavam com eventos na his­ tória de Israel (e.g. a Páscoa com o êxodo do Egito), assim também no judaísmo a festa se associava com a renovação da aliança feita com Noé e depois com Moisés (Jubileus 6); no judaísmo do século II, o Pentecoste foi considerado como sendo o dia em .que a Lei foi outorgada no Sinai. É interessante que havia uma tradição rabínica que dizia que a Lei foi promulgada por Deus nas línguas das setenta nações do mundo, mas não podemos ter a certeza de que esta tradição fosse corrente no século I. Os discípulos ainda estavam em Jerusalém; alguns estudiosos pensam que es­ tavam no templo, tendo em vista a palavra “casa” no v. 2, mas “casa” , empregada assim em isolamento, não pode significar o templo. Sem dú­ vida, há referência à companhia de 120 pessoas, e não apenas os doze apóstolos, reconstituídos. 2-3. Visto que, noutros lugares, o Espírito é assemelhado ao vento, e que a palavra aqui empregada (Grego pneuma), pode ter ambos os sen­ tidos, não é de se estranhar que o primeiro dos dois símbolos que acom­ panhavam a Sua chegada era um som como de um vento; Lucas o descreveu

10Ver J. Kremer, Pfingstbericht und Pfingstgeschenen (Stutgart, 1973); Dunn, Jesus, págs. 135-156; I. H. Marshall, “The Significance o f Pentecost” , S J T 30, 1977, págs. 347-369. - 6 8 -


ATOS 2:2-4 como sendo quase palpável quando disse que encheu toda a casa. A lingua­ gem, conforme devemos notar, é aquela da analogia —um som como o do vento — e indica que tratamos com uma ocorrência sobrenatural. O sim­ bolismo relembra as teofanias do Antigo Testamento (2 Sm 22:16; Jó 37: 10; Ez 13:13): o vento é um sinal da presença de Deus como Espírito. O segundo símbolo foi o fogo. Uma chama se dividiu em várias línguas, de mo­ do que cada uma delas pousou sobre uma das pessoas presentes. Outra vez, a descrição é analógica — como de fogo. E, mais uma vez, relembra­ mos as teofanias do Antigo Testamento, especialmente aquela no Sinai (Êx 19:18), mas a situação histórica é provavelmente a associação que João Batista fez entre o Espírito e o fogo como meio de purificação e julgamen­ to (Lc 3:16). 4. Com estes sinais externos, veio o Espírito Santo como realidade interna e invisível que demonstrou a Sua presença mediante os efeitos so­ bre os discípulos. Lucas emprega a expressão ficaram cheios para descre­ ver a experiência. Esta palavra se emprega quando as pessoas recebem o revestimento inicial do Espírito para capacitá-las para o serviço de Deus (9:17; Lc 1:15), e também quando ficam inspiradas para fazerem declara­ ções importantes (4:8, 31; 13 .9); palavras afins se empregam para descre­ ver o processo contínuo de ser cheio com o Espírito (13:52, Ef 5:18) ou o estado correspondente de estar cheio (6:3; 5; 7:55; 11:24; Lc 4:1). Estas referências idicam que se uma pessoa já está cheia do Espírito, pode receber um novo revestimento para uma tarefa específica, ou um enchimen­ to contínuo. É importante observar, também, que aquilo que aqui se cha­ ma “ficar cheio”, também é chamado “batismo” (1:5 e 11:16), um “derra­ mamento” (2:17-18; 10:45), e um “recebimento” (10:47). O ato básico de receber o Espírito pode ser descrito como ser “batizado” ou “cheio”, mas o verbo “batizar” não se emprega para experiências subseqüentes.11 Boa parte da confusão teológica seria evitada se tomássemos o cuidado de empregar estes termos conforme a maneira bíblica. Devemos notar, outrossim, que aquilo que mais tarde aconteceu a Comélio e à sua família foi o mesmo que aconteceu no Pentecoste (11:15); na ocasião da conversão, o crente experimenta o seu próprio “Pentecoste” . É provável que Lucas te­ nha empregado o termo “cheios” neste contexto, porque o Espírito inspi­ rou aqueles que O receberam &falar em outras línguas. Vv 6,8 e 11 demons­ tram que se trata de línguas humanas. Surgem, assim, duas dificuldades. 11A frase com substantivo, “batismo no Espírito Santo” não ocorre no Novo Testamento. -

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ATOS 2:4-6 Em primeiro lugar, a maioria dos comentaristas pensa que o dom de lín­ guas descrito em 1 Coríntios caps. 12 e 14 fosse a capacidade de falar em línguas não-humanas (as “línguas dos anjos” , 1 Co 13:1). Supondo-se que é improvável que tenha havido dois tipos diferentes de fenômenos, alegase freqüentemente que Lucas ou entendeu erroneamente ou deliberada­ mente reinterpretou uma tradição anterior que descrevia o tipo de lín­ guas aludidas por Paulo. Em segundo lugar, sustenta-se que esta conclu­ são é confirmada pelas análises lingüísticas modernas das línguas faladas nos movimentos pentecostais atuais, como sendo línguas não-humanas. É difícil, no entanto, deixar de lado a evidência de pessoas da atualidade que declaram que ouviram suas próprias línguas faladas por aqueles que têm o dom de línguas. Além disto, não é totalmente impossível que Paulo se re­ ferisse a línguas humanas,12 ou que houvesse emprego de línguas huma­ nas e celestiais ao mesmo tempo (1 Co 13:1 — “as línguas dos homens e dos anjos”). Dunn (Jesus, págs. 151-2) sugere que o que aconteceu foi que os ouvintes pensavam escutar e reconhecer, nas suas próprias línguas, pa­ lavras e frases de louvor a Deus. 5. Devemos supor que, em dado momento, os discípulos deixaram o cenáculo e entraram em contato com as multidões reunidas em Jerusa­ lém para a festa; habitando não precisa necessariamente subentender a resi­ dência permanente, embora, na realidade, muitos judeus voltaram da Disper­ são para Jerusalém, para ali findar os seus dias. A presença e participação deles naquilo que aconteceu constituiu-se em indício da significânda do evento para o mundo inteiro. Sem embargo, todos eram judeus ou proséli­ tos, e não eram pagãos; mesmo assim, serviam de símbolo da necessidade que a humanidade tem de receber o evangelho, e da conseqüente responsa­ bilidade da igreja para cumprir a sua missão. 6-8. A voz dos discípulos que clamavam alto lançou perplexidade so­ bre a multidão, porque não podia compreender como galileus conseguiram falar as várias línguas dela. A objeção já foi levantada que a maioria daque­ les que estavam na multidão deviam falar Aramaico ou Grego, as duas lín­ guas que os discípulos também decerto falavam, e que o milagre das lín­ guas era, portanto, desnecessário. Esta dificuldade, porém, certamente era óbvia para Lucas também. O que era importante é que se falavam as várias línguas maternas, vernaculares, destes povos. Talvez estranhemos como as multidões sabiam que os discípulos eram galileus. Um simples

12R. H. Gundry, “ ‘Ecstatic Utterance’ (NEB)?”, JTS 17,1966, págs. 299-307.

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ATOS 2:7-13 relance nas palavras atribuídas às multidões nos w 7-11 indicará que não passam de resumo das várias coisas que estavam sendo ditas, combinadas, por razões literárias, numa só declaração coral, e, portanto, não precisa­ mos supor que mais do que uns poucos da multidão sabiam reconhecer que os discípulos eram galileus. 9-11. Lucas, ainda continuando sua versão global daquilo que os vários membros da multidão devem ter dito, passa a nos dar uma lista das nacionalidades representadas. Começa com três países ao leste do Im­ pério Romano, na área conhecida como Pérsia ou Irã, e depois (com uma mudança de construção), continua para o oeste, para a Mesopotâmia, o Iraque moderno, e a Judéia. Seguem-se, então, várias províncias e áreas na Ásia Menor (a moderna Turquia), e, depois, o Egito e área imediata­ mente para o oeste, seguida por Roma. Depois, há uma declaração geral que se aplica a todos os povos em epígrafe: havia uma população judai­ ca considerável em cada uma destas áreas, e a presença dos judeus fre­ qüentemente levava à conversão dos gentios para se tomarem prosélitos. Finalmente, e de modo algo surpreendente, a lista inclui pessoas da Creta e da Arábia. É uma lista surpreendente, e ninguém tem conseguido dar uma explicação satisfatória de por que inclui aquela seleção específica de paí­ ses, nem porque aparecem nesta ordem estranha.13 Certamente não foi inventada pelo próprio Lucas. Basta, então, observar que a lista claramen­ te visa ser uma indicação de que estavam presentes pessoas de todas as par­ tes do mundo conhecido, e talvez que haveriam de voltar aos seus próprios países como testemunhas daquilo que acontecia. Todas elas, como ado­ radores de Javé, podiam perceber que os cristãos estavam celebrando as obras poderosas de Deus. 12-13. A reação primária era de incompreensão. As multidões natural­ mente estavam sem saber o que estava acontecendo, e esta situação criou a oportunidade para Pedro dirigir-se a elas, explicando do que se tratava. Mais especificamente, recebeu uma razão para começar seu discurso, no fato de algumas pessoas estarem dispostas a explicar o falar em línguas como resultado de bebidas fortes; esta seria a explicação que alguém naturalmen­ te daria se ouvisse pessoas fazendo sons inintelegíveis, que seria a impres­

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Ver B. M. Metzger, “Ancient Astrological Geography and Acts 2:9-11” em AH G , págs. 123-133; E. Giiting, “Der geographische Horizont der sogennanten Völker­ liste des Lukas (Acta 2:9-11)” , AHG, págs. 99-101. Para o argumento contra a auten­ ticidade do discurso, ver R. F. Zehnle, Peter’s Pentecost Discourse (Nashville, 1971).

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ATOS 2:13-15 são que algum ouvinte receberia, se não reconhecesse a língua específica que estava sendo empregada. f. Pedro prega o evangelho (2:14-42). A presença da multidão que acorrera deu a Pedro a sua oportunida­ de para explicar o significado daquilo que ocorria. Seu discurso ou sermão começa com uma alusão ao derramamento do Espírito como cumprimento da profecia, e termina com outra referência ao mesmo evento (2:33). Entre estas referências, porém, Pedro explora mais profundamente o significado do evento. Faz remontar até Jesus este dom do Espírito. Os judeus tinham rejeitado este Homem de Deus, mas foi ressuscitado dentre os mortos, pelo próprio Deus, conforme podiam testificar os apóstolos. A ressurrei­ ção dEle, no entanto, devia também ser vista à luz da profecia. Pedro dis­ se que um Salmo de Davi que falava da libertação da morte devia ser enten­ dido na sua aplicação ao Messias, sendo que claramente não podia ser apli­ cado ao próprio Davi. Visto que Deus ressuscitara Jesus da morte, segue-se que era Este o Messias, e foi como conseqüência disto que derramou o Espí­ rito (Lc 24:49; Jo 20:22). Assim, a ressurreição de Jesus, bem como o der­ ramamento do Espírito testificavam que Jesus era o Senhor e o Messias. Quando os ouvintes quiseram saber o que isto subentendia, Pedro insistiu com eles que deviam ser batizados em nome de Jesus, para o perdão dos pecados e participação do dom do Espírito que Jhes era livremente pro­ metido. Muitos responderam ao seu apelo, e começaram a compartilhar de um novo modo de vida.14 14. O retrato de Pedro mostra-o em pé para falar ao ar livre, com o assentimento dos demais apóstolos, dos quais ele fica como porta-voz. O verbo que aqui se traduz disse pode empregar-se para declarações ins­ piradas. O sermão de Pedro é considerado obra de um homem cheio do Espírito. Para começar, pede a atenção dos seus ouvintes, sejam judeus residentes em Jerusalém, sejam visitantes. 15. Como noutras ocasiões (3:12; 14:15), a primeira tarefa do pre­ gador é corrigir um falso conceito do seu auditório; neste caso, demons­ tra que é absurdo pensar na probabilidade de homens estarem bêbados antes das nove da manhã. A razão de ser deste argumento é que os judeus normalmente não comiam tão cedo no dia, e muito menos bebiam vinho. I. H. Marshall, “The Ressurrection in the Acts of the Apostles” , em AHG, págs. 99-101. Para o argumento contra a autenticidade do discurso, ver R. F. Zehnle, Peter’s Pentecost Discourse (Nashville, 1971).

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ATOS 2:16-21 16-21. A explicação correta achava-se num nível diferente de entendi­ mento. Aquilo que acontecia devia ser encarado como cumprimento de uma profecia de Joel, e aqui Pedro passou a citar a relevante passagem, Joel 2:28-32. Mais uma frase da mesma passagem se acha no v. 39, e a mesma passagem é citada também em Rm 10:13 e Ap. 6:12.*5 A citação segue a LXX, mas com certo número de pequenas alterações para adaptar a profe­ cia ao seu contexto.16 Uma das mais importantes entre estas alterações é o modo de “E acontecerá depois destes dias” , em Joel, ser alterado para “E acontecerá nos últimos dias”. Pedro considera que a profecia de Joel se aplica aos últimos dias, e declara que seus ouvintes agora estão vivendo nos últimos dias. Já começou o ato final da salvação divina. O primeiro tema da profecia, e o principal, é que Deus está para der­ ramar o Seu Espírito sobre todos os povos, i.é, sobre todos os tipos de pessoas,17 e não apenas sobre os profetas, reis e sacerdotes, como tinha sido o caso nos tempos do Antigo Testamento. A evidência será vista na forma de profecias e visões. Visto que as línguas podiam ser descritas, de modo lato, como tipo de profecia, esta passagem oferecia o equivalen­ te mais aproximado às línguas na fraseologia veterotestamentária: é ver­ dade que Paulo distingue as línguas das profecias (1 Co 12:10), mas ele não estava sujeito à limitação de procurar uma frase veterotestamentária para se expressar. Um segundo elemento da profecia é a ocorrência de sinais cósmicos do tipo que se associa com os quadros apocalípticos do fim do mundo; a mesma linguagem se emprega em Apocalipse 6:12. Aqui, po­ demos notar que Pedro alterou a expressão de Joel: “prodígios no céu e na terra” , para prodígios em cima no céu e sinais em baixo na terra. Os sinais são provavelmente o dom de línguas e os vários milagres de cura que logo passariam a ser narrados. O que se diz, porém dos prodígios? Se não aceitarmos que a referência diz respeito aos sinais cósmicos que acompanharam a crucificação (Lc 23:4445), então teremos que entender

1 sEstas citações demonstram que a profecia era empregada na igreja primitiva, e não alguma que o próprio Lucas introduziu no discurso, pela primeira vez. 16Era natural para os escritores neo-testamentários adotarem a forma do texto do Antigo Testamento que fosse mais apropriada para os seus propósitos, ou adapta­ rem a redação conforme a necessidade. O significado era mais im portante do que a reprodução das palavras literais; ver E. E. Ellis, “Citações (no Novo Testamento)” , NDB, pág. 296. 17É possível que Lucas tenha visto uma referência a gentios bem como a ju ­ deus.

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ATOS 2:21-22 que Pedro antevê os sinais que anunciarão o fim do mundo; estes ainda são futuros, e pertencem ao “fim” dos últimos dias, e não ao “começo” deles, que estava se realizando. O terceiro elemento na profecia de Joel é o evento do qual estes sinais são a prefiguração: o dia do Senhor, i.é, o dia do julgamento. Para Joel, é claro, o Senhor era o próprio Javé. Para Pedro e Lucas, surge a pergunta: Senhor, aqui, não significa implicitamen­ te Jesus? Isto porque no v. 36 Jesus será declarado Senhor. De qualquer maneira, a profecia termina, em quarto lugar, com uma promessa no sen­ tido de que aquele que invocar o nome deste Senhor, i. é, apelar a Ele, pedin­ do socorro, será salvo; para os cristãos, certamente se tratava de procurar em Jesus a salvação (Rm 10:13-14; 1 Co 1:2). Reconhece-se que, se Pe­ dro citou o texto em Hebraico, haveria clara referência a Javé, e, portan­ to, a aplicação a Jesus ficaria dara somente àqueles que ouviam ou liam o texto em Grego. É difído saber de que maneira Joel encarava o cumprimento do seu oráculo, que foi pronundado no contexto de uma praga de gafanho­ tos em Israel, a qual o profeta via como julgamento de advertênda. Quando o povo correspondeu, arrependendo-se, o Senhor o atendeu, e transformou a sua sorte, e prometeu-lhe ceifas abundantes. Depois, segue-se esta pro­ fecia daquilo que aconteceria “depois”, na medida em que o profeta olha para os eventos futuros ainda mais distantes, e descortina a vindicação final de Israel e a derrota dos seus inimigos. Destarte, a perspectiva pare­ ce ser distante, assodada com o dia do Senhor, e, portanto, não se faz injustiça para com o verdadeiro sentido da passagem quando Pedro enxer­ ga nos eventos do Pentecoste o começo do cumprimento dela. 22. Mais uma vez, Pedro pede a atenção dos seus ouvintes; o que tem para dizer se dirige ao povo de Israel, que alega ser o povo de Deus. Um pouco repentinamente, volta a dirigir a atenção deles a Jesus, o Ho­ mem de Nazaré, que Deus destacou diante deles através dos vários mila­ gres e sinais que Deus operara publicamente através dEle. Pedro toma por certa a realidade destes sinais, e diz que os seus ouvintes já têm clara consdênda deles, e declara que foram operados por Deus. Está disposto a argumentar a partir dos milagres para chegar à mão de Deus. Jesus, por­ tanto, já durante a Sua vida terrestre, foi destacado como pessoa incomum, embora Pedro ainda não passe a dizer qual era o papel ou posição específica dEle. Num mundo que aceitava a possibilidade e a realidade do milagroso, o argumento de Pedro teria peso considerável. A polêmi­ ca judaica posterior contra Jesus não negou que Ele tenha operado mila­ gres, mas alegava que Ele era um feiticeiro, e já durante a vida dEle, Seus -

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ATOS 2:22-24 oponentes atribuíam a Belzebu os exorcismos que Ele operava (Lc 11:15). Era necessário alguma coisa mais para convencer os judeus de que Deus es­ tava operando na vida de Jesus. 23. Os judeus, pois, ao invés de reconhecerem Jesus como homem de Deus, tomaram as medidas para crudficá-Lo e matá-Lo. Os iníquos usual­ mente são considerados como sendo os romanos que, na realidade, execu­ taram a Jesus. Nada se diz para minimizar o fato da culpa dos judeus na crucificação de Jesus (cf. v. 36). Mesmo assim, e ao mesmo tempo, a cru­ cificação foi feita de acordo com o plano e propósito de Deus (cf. 4:28). Aqui temos o paradoxo da predestinação divina e da livre vontade hupiana na sua forma mais forte. Mesmo ao executarem a Jesus, os judeus nada mais faziam do que cumprir aquilo.que Deus já determinara e que, na realidade, já profetizara nos escritos proféticos. 24. Agora surge o contraste decisivo. Deus ressuscitou este Jesus den­ tre os mortos. É este o fato principal, que os primeiros pregadores ressalta­ vam repetidas vezes; não tinham necessidade alguma de comprovar o acon­ tecido — simplesmente o proclamavam e dele testificavam. O plano divino levou Jesus, através do sofrimento, à exaltação como Salvador e Senhor. Pedro continua, argumentando que não podia ser de outra maneira. Deus ressuscitou a Jesus, porquanto não era possível fosse Ele retido pela morte. A expressão grega é um pouco incomum nesta passagem. A palavra “dores” (ARC “ânsias” , ARA “grilhões”) se refere às dores de parto. O verbo rom­ per (“soltar”, ARC), não parece acompanhar bem este objeto. A sugestão tem sido feita de que a dificuldade se deve à adoção de uma frase da LXX (cf. Jó 39:2) na qual a palavra hebraica sem vocalização hbl foi entendida como hèbel, “dores” ao invés de (corretamente) como hebel, “corda” , “grilhões” . Lindars (págs. 3940) sugeriu que Salmo 18:4 foi entendido em termos de Salmo 16:6, de modo que Pedro pudesse falar da soltura das cordas da morte; depois, Lucas entendeu erroneamente esta frase. Esta interpretação, no entanto, não explica como Lucas teria empregado o objeto errado com o verbo. É preferível adotar o conceito mais antigo de F. Field, de que o verbo aqui usado pode significar “acabar com” . Então, temos “uma metáfora mista extraordinária, na qual a morte é retratada como se estivesse em dores de parto, incapaz de reter seu filho, o Mes­ sias” .18 Se perguntarmos por que a morte não podia reter a Jesus, a respos­ ta de Pedro seria que Jesus era o Messias (ver as evidências no v. 22), e que o Messias não era passível de ficar preso na morte. 18AG,s.v. lyô

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ATOS 2:25-30 25-28. Esta última verdade é defendida por uma citação do Salmo 16:8-11, que é considerado como declaração feita por Davi a respeito do Messias. O Salmo é uma oração por um homem piedoso, na qual professa sua fé em Deus e declara a sua confiança de que, por causa de Deus ser, por assim dizer, o seu apoio à mão direita, pode ficar jubiloso e cheio de certeza de que não será abandonado ao Sheol ou à corrupção, mas, sim, regozijar-se-á na presença de Deus. Os comentaristas diferem entre si na in­ terpretação (de um lado) de que o Salmista aqui declara a sua confiança de que será liberto dalgum desastre ou morte prematura, para chegar a desfrutar de uma velhice madura com a bênção de Deus, ou (do outro lado) de que afirma a sua crença de que, depois da morte, não descerá ao Sheol, mas, sim, será levado à presença de Deus. Sem dúvida alguma, é a segunda interpretação que aqui se adota, e parece provável que teu Santo se refira ao Messias (cf. 13:35, onde se cita o mesmo Salmo). 29. A autoria davídica do Salmo era fato de comum acordo entre Pedro e seus ouvintes judaicos. Pedro argumenta, no entanto, que não se pode entender que o Salmo se refere ao próprio Davi. Visto que morreu e foi sepultado, e visto que, para os judeus, ser enterrado era a mesma coisa que sofrer a corrupção e descer ao Sheol, seguia-se que ele mesmo foi abandonado ao Hades (a palavra grega que representa a hebraica Sheol), e passou pela corrupção física. Pedro tinha o direito de aplicar com con­ fiança a sua lição; afinal das contas, a prova do sepultamento de Davi es­ tava visível para todos verem.19 30. Se Davi não estava falando acerca de si mesmo, seguia-se que es­ tava falando profeticamente. Dois fatores levam a esta sugestão. Em pri­ meiro lugar, o próprio Davi estava dotado com poderes proféticos.20 A mesma suposição se faz em 1:16 e Marcos 12:36, e fica implícito, no mo­ do judaico de interpretar alguns dos Salmos, que tinham referência futu­ ra. Em segundo lugar, Davi sabia que Deus prometera fielmente que uni dos seus descendentes se assentaria no seu trono. Aqui, Pedro tem em men­ te Salmo 132:11-12, com o juramento divino “Um rebento da tua carne fa­

19Josefo também atesta um monumento conhecido como o túmulo de Davi. Infelizmente, não temos certeza se a construção medieval que agora traz este nome, per­ to de Siloé ao sul da cidade, fica na localidade antiga. Ver J. Wilkinson, Jerusalem as Jesus Knew I t (Londres, 1978), págs. 166-170. 20J. A. Fitzmyer, “David ‘Being therefore a prophet . . .’ ”, CBQ 34, 1972, págs. 332-339, nota que a atividade de Davi é descrita como sendo profética em 11 QPsa 27:11. -

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ATOS 2:30-32 rei subir para o teu trono” (cf. 2 Sm 7:12-16-, SI 89:34, 35-37). Sem dúvi­ da, estas referências indicam que Davi seria o pai de uma linhagem de reis; o trono permaneceria na família dele e não seria tomado por usurpadores dalguma outra família. Mesmo assim, Pedro considera que um determinado descendente específico está em mente. 31. Desta forma, Pedro declara que Davi, no Salmo 16, estava pro­ nunciando uma profecia a respeito do Messias, que viria a ser seu descenden­ te. O Messias, ao invés de ser abandonado ao Hades, seria ressuscitado den­ tre os mortos. O fraseado do Salmo 16:10 é levemente alterado para se en­ caixar no seu novo contexto; a palavra corpo (lit. “carne”), que foi adotada do Salmo 16:9, se refere à Pessoa de Jesus na sua totalidade, e não sugere que haja em mente um dualismo entre corpo e alma. 32. Agora tira-se a conclusão do argumento imediato. Aquilo que fo­ ra profetizado se cumpriu neste Jesus. O Antigo Testamento profetizou que o Messias ressuscitaria dentre os mortos. Jesus já ressuscitara dentre os mortos (v. 24), e seguia-se, portanto, que Ele era o Messias profetizado; supõe-se sem medo de errar, portanto, que não se esperava que outra pes­ soa ressuscitaria dentre os mortos antes da ressurreição geral. O argumento de Pedro obviamente não quis dizer que Jesus tomouSe Messias mediante a Sua ressurreição, mas, que, já que o Messias era destinado a ressuscitar, e visto que Jesus ressuscitou, segue-se que Jesus já era o Messias durante Sua vida terrestre. Há duas dificuldades no argumento. Em primeiro lugar, a interpreta­ ção do Salmo 16, à primeira vista, é que Davi expressava sua própria espe­ rança de ser salvo do Sheol a fim de desfrutar da comunhão com Deus, especialmente visto que a mesma esperança se expressa noutro lugar nos Salmos (SI 73). Em segundo lugar, não é óbvio que o SI 132 se refere a um único descendente específico de Davi como sendo o Messias. É prová­ vel, porém, que os ouvintes de Pedro compartilhassem da crença de que as passagens acerca dos descendentes de Davi incluíssem uma referência ao Messias em especial; um texto em Cunrã (4Q Florilégio) claramente inter­ preta 2 Samuel 7:10-16 como referência ao Messias, e o Salmo 132 seria interpretado, sem dúvida alguma, da mesma maneira. Quanto ao empre­ go do Salmo 16, parece que Pedro estava dando uma nova interpretação do Salmo, ao alegar que não poderia ser verdadeiro o sentido mais amplo para o caso de Davi, e que, portanto, deve ser entendido que Davi estava profetizando a ressurreição do Messias e falando em nome dEle. A lição que Pedro estava ensinando, portanto, é que Davi conscientemente profe­ tizou a ressurreição do Messias, e não que havia nas palavras de Davi um -

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ATOS 2:32-33 sentido mais profundo do que ele mesmo sabia. Podemos comparar a com­ preensão que foi creditada, de modo semelhante, a Abraão e Isaías (Jo 8:56; 12:41; cf. também talvez Moisés, Hb 11:26). Para os cristãos, pareda óbvio que os grandes homens de Deus do passado tinham conhedmento profético do Messias. Deve ser lembrado, no entanto, que o pró­ prio Pedro nos lembra da natureza limitada deste conhedmento proféti­ co (1 Pe 1:10-12): “não se tratava de um conhedmento distinto dos even­ tos previstos . . .; aquilo que o Espírito Santo significou de antemão ficou sendo apenas pardalmente claro aos profetas, no que diz respeito à data do cumprimento bem como ao desenvolvimento histórico” (Knowling, págs. 87 e segs.). 33. Pedro, depois de ter estabeleddo que Jesus, como Messias, deve ressusdtar dentre os mortos, pode passar a oferecer a explicação do derra­ mamento do Espírito. A ressurreição deve ser entendida como sendo a glo­ rificação de Jesus. Não se trata meramente de uma revificação, mas, sim, de uma ascensão para estar com Deus. Pedro considerava óbvio este fato, mas é provável que um dos fatores no modo de a igreja primitiva entender este fato foi o emprego do Salmo 110:1 (ver sobre v. 34 abaixo). Jesus agora passou a ficar à direita de Deus (contrastar v. 25). £ possível que ha­ ja, conforme sugeriu Lindars, uma alusão oculta à mesma frase no Salmo 16:11, que se refere aos prazeres reservados para o futuro, à destra de Deus. Esta posição é de autoridade, e, portanto, Pedro declara que é em virtude da Sua glorificação que Jesus reçebeu do Pai o dom do Espírito que fora prometido, e que o derramou sobre Seu povo. Aqui, também, pode haver uma alusão ao Antigo Testamento, desta vez ao Salmo 68:18.21 No TM, o texto é: “Subiste ao alto monte, levando cativos no teu séquito, e rece­ bendo dádivas entre os homens” , outra versão, porém, dtada em Efésios 4:8, diz: “Quando ele subiu às alturas, levou uma hoste de cativos, e con­ cedeu dons aos homens” . A versão de Pedro e a dtação feita por Paulo indicam a existênda de uma interpretação cristã primitiva do Salmo, cujo texto facilmente poderia ser entendido no sentido de “recebeste dons para os homens” . O mesmo modo de entender se reflete no Targum, somen­ te com a diferença de a alusão aos dons ser aplicada às palavras da Lei. Se esta interpretação do Salmo remonta ao século I, é possível que este versí­

21J. Dupont, “Ascension du Christ et don de l’Ésprit d ’après Actes 2:35” , em B. Lindars e S. S. Smally (eds)., Christ and Spirit (Cambridge, 1973), págs. 219-228. Ver, porém, Wilckens, págs. 233. -

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ATOS 2:33-36 culo contenha um contraste implícito entre a dádiva da Lei, dada aos ho­ mens (a qual, conforme notamos supra, associava-se ao judaísmo no século II com o Pentecoste) e o dom do Espírito, mas deve ser enfatizado que este ponto de vista é um pouco especulativo, e duvida-se que o próprio Lucas te­ nha detectado esta alusão. Pedro, porém, chegou à sua dedução de que o Espírito foi o dom do Jesus glorificado, seja qual fosse seu raciocínio, e o fato importante é que o derramamento do Espírito oferece testemunho adicional de que Jesus é o Messias. Ao passo que a ressurreição limitavase a uma questão do testemunho dos discípulos que agiam como teste­ munhas (v. 32), os efeitos do derramamento do Espírito foram manifes­ tos a todos os ouvintes de Pedro. 34-35. O argumento ainda não fora completado. No v. 33, Pedro ar­ gumentou a partir da glorificação de Jesus para o fato de ser Ele o Doador do Espírito, mas seu alvo final era demonstrar que Jesus era, não somente o Messias, como também o Senhor —com tudo aquilo que esta verdade signi­ ficava para seus ouvintes. Agora, portanto, introduz a dtação-chave do Antio Testamento, que expressa o senhorio de Jesus. Para tanto, indica um ver­ sículo que alguém talvez pudesse entender como alusão a uma ascensão de Davi para o céu: Salmo 110:1. Não fica claro se já houve alguém que realmente acreditasse que Davi assim fizera, embora o Salmo pudesse ser entendido neste sentido, no caso de se considerar que era endereçado a Davi. A maioria dos estudiosos modernos realmente consideraria o Salmo como palavras de um profeta dirigidas a um rei israelita, que expressavam em linguagem metafórica a honra e a autoridade que Deus lhe dera. Quanto aos judeus, a Jesus e à igreja primitiva, entenderam que foi o próprio Davi quem falava, e, exatamente como nos w. 29-31, considerava-se que ele fa­ lava do Messias. É o Messias, pois, a quem Deus chama de Senhor de Davi, e convida a sentar-Se à Sua direita. Em Português, a primeira palavra que se traduz “SENHOR” é YHWH, o nome de Deus, e a segunda, que se traduz “Senhor” , é ’adôn, que pode ser empregada para senhores e mestres huma­ nos. Em ambos os casos, o texto grego tem kyrios, e este fato facilitou a transferência para Jesus dos demais textos do Antigo Testamento que se referiam a Javé. Aqui, porém, é simplesmente o atributo de senhorio que é dado a Jesus; não se faz equivalência entre Ele e Javé. 36. A partir de todas estas evidências segue-se que Deus fez Jesus Senhor (w. 34-35) e Cristo ou Messias (w. 25-32). Nada sugere que este ato de instalação ocorreu na ocasião da ressurreição, ou depois dela. Já vimos que foi por causa de ser Ele o Messias (cf. 2:22; 10:38 e sgs.) que Jesus foi ressuscitado dentre os mortos, e foi Alguém que já tinha -79 -


ATOS 2:36-38 o título de Senhor que foi conclamado a assentar-Se à destra de Deus. Quão terrível, pois, era o ato dos judeus em crucificarem a Jesus! Bem que deviam tremer diante do pensamento de que, mediante este ato, se classi­ ficaram entre os “inimigos” que seriam vencidos e derrotados pelo Messias (v. 35). 37. Os ouvintes de Pedro tomaram estas palavras como referência pessoal a eles. Muitos deles, talvez, tinham tacitamente concordado com o ato dos seus líderes ao matarem a Jesus. A revelação que Pedro lhes fizera da posição e da dignidade de Jesus chegou a eles como choque drástico, e compungiu-se-lhes o coração com aquilo que se lhes dissera. Pensa-se que a frase aqui empregada fosse tirada do Salmo 109:16, Salmo este já citado em 1:20b, mas, neste caso, não passaria de um emprego da linguagem do Antigo Testamento sem significado mais profundo. O pensamento se refere ao coração quebrantado de quem está sob a convicção do seu pecado. Era natural perguntar qual resposta devia ser dada por aquelès que assim se sentiam convictos (embora seja possível que a pergunta represente a drama­ tização que Lucas fez da situação). 38. A resposta de Pedro resume aquilo que viria a ser o convite nor­ mal que os pregadores dirigiam aos seus ouvintes. Continha duas exigên­ cias, que são, efetivamente, uma só. A primeira era uma chamada para arrepender-se (cf. 3:19; 8:22; 17:30; 20:21; 26:20). Ecoava-se, assim a pre­ gação de João Batista, com seu batismo de arrependimento para o perdão dos pecados (Lc 3:3) e a do próprio Jesus (Mc 1:15; Lc 13:3; 5; 24:47). A palavra indica uma mudança de direção na vida da pessoa mais do que ape­ nas uma alteração mental de atitude, ou um sentimento de remorso; signi­ fica o repúdio do modo de vida pecaminoso e ímpio. Em certo sentido, trata-se dalguma coisa da qual o homem é incapaz em si mesmo e, por­ tanto, embora seja possível ordenar aos homens que se arrependam também podemos dizer que o arrependimento é uma dádiva de Deus (5:31; 11:18; 2 Tm 2:25). Devemos notar, outrossim, que é uma parte essencial da conversão e da resposta ao evangelho; Calvino insistia que “o arrepen­ dimento não somente sempre segue a fé, como também é produzido por ela” (Instituías III.iii.1), mas seria mais correto dizer que o arrependimen­ to e a fé são os dois lados da mesma moeda. É por isso que aqui o arrepen­ dimento se vincula ao ato de ser batizado. Visto que, noutros lugares, há estreita ligação entre o arrependimento e a fé (20:21; Mc 1:15), é certo que o batismo é uma expressão de fé, além de qualquer outra coisa que pos­ sa ser. Para João Batista, o batismo era uma expressão do arrependimento. Os cristãos primitivos adotaram o mesmo rito, mas estenderam o seu signi­ -

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ATOS 2:38-39 ficado. 0 batismo era realizado em nome de Jesus, frase esta que talvez re­ presente uma expressão comercial, “à conta de Jesus” , ou uma expressão idiomática judaica, “com referência a Jesus” . Por mais precisamente que a frase seja entendida, de uma maneira ou de outra,22 transmite o pensa­ mento de que a pessoa que está sendo batizada entra num relacionamen­ to de lealdade para com Jesus, fato este que está em harmonia com a evi­ dência que indica que, no batismo, costumariamente se fazia confissão de Jesus como Senhor (Rm 105, 1 Co 12:3). Destarte, o batismo cristão era uma expressão de fé e de dedicação a Jesus como Senhor. Assim como o batismo de João transmitia a dádiva divina do perdão, simbolizada no ato da lavagem, assim também o batismo cristão era considerado um sinal do perdão (531; 10:43; 13:38; 26:18; cf. 3:19). O batismo cristão, porém, transmitia uma bênção adicional. João dissera que batizava (somente) com água, ao passo que o Messias batizaria com o Espírito Santo, e que esta dá­ diva acompanhava o batismo na água, realizado na igreja em nome de Jesus. As duas dádivas se vinculam estreitamente, pois é o Espírito que leva a efeito a purificação no íntimo, da qual o batismo é o símbolo externo. 39. Pedro afirmou com insistência que seus ouvintes descobririam que era real esta promessa do perdão e do dom do Espírito, porque fora Deus que a pronunciara, a eles e aos seus descendentes (cf. 13:33). Esta frase às vezes tem sido interpretada como justificativa para o batismo das crianças, mas trata-se de uma sobrecarga sobre o texto. Colocando-a no seu contexto, notamos que a profecia no v. 17 contempla filhos que têm idade suficiente para profetizar, e que o v. 38 fala do recebimento do perdão e do Espírito; em nenhum destes casos fica óbvio que se trata de crianças pequenas. A lição da frase, pelo contrário, é expressar a misericórdia ili­ mitada de Deus, que abrange os ouvintes e as gerações subseqüentes dos seus descendentes e, além disto, todos os que ainda estão longe (Is 57:19; Ef. 2:13, 17), frase esta que certamente inclui todos os judeus espalhados em todo o mundo e (aos olhos de Lucas, mesmo se Pedro não chegara a este entendimento) os gentios também; uma referência aos gentios é alta­ mente provável, tendo em vista a maneira rabínica de entender a frase em Isaías 57:19, da qual Paulo participa (Ef 2:13, 17). Em todos estes casos,

22Para maiores detalhes, ver H. Bietenhard, TDNT, V, págs. 274-176; L. Hart­ man, “Into the Name of Jesus’ ”, N T S 20 1973-74, págs. 432-440; J. A. Ziesler, “The Name o f Jesus in the Acts of The Apostles” , JSN T 4 ,1 9 7 9 , págs. 28-41.

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ATOS 2:39-42 porém, a promessa é mediada pela chamada divina —e com estas palavras, Pedro completa a citação de Joel 2:32 com a qual começara o seu discur­ so. Ressalta-se a primazia da chamada divina e da graciosidade do Seu convi­ te à toda humanidade. 40. Lucas indica que, neste comentário, apenas deu um resumo da­ quilo que Pedro disse. Nos seus argumentos, disse muito mais do que aquilo que aqui se registra, e acrescentou às suas palavras um senso de urgência, ape­ lando aos seus ouvintes no sentido de que escapassem ao triste fim que dou­ tra forma viria sobre a geração perversa à qual pertenciam. “Geração per­ versa” é uma frase veterotestamentária para o povo de Israel que se rebelou contra Deus no deserto (Dt 32:5) e aplica-se no Novo Testamento àqueles que rejeitam a Jesus (Fp 2:15; cf. Lc9:41; ll:29;H b 3:10). 41. O resultado da primeira mensagem evangelizante da igreja foi im­ pressionante. Muitos dos ouvintes de Pedro acceitaram aquilo que disse e indicaram sua aceitação, ao serem batizados, sendo que o resultado aqui declarado foi 3.000 pessoas acrescentadas (sc. à igreja). Embora a cifra pareça muito alta, e freqüentemente tenha sido considerada fruto da ima­ ginação de Lucas, realmente nada há nela de incrível. Teria sido perfeita­ mente possível para uma multidão daquele tamanho, ou ainda maior, es­ cutar a Pedro ao ar livre (já que João Wesley e George Whitefield eram ouvi­ dos nestas condições, Pedro não seria exceção), e se os demais discípulos participavam do trabalho de batizar, haveria bastante tempo para cumprir a tarefa. Outra objeção levantada é que os romanos não teriam tolerado o concurso de uma multidão tão grande, mas não há razão para supor que teriam reprimido uma assembléia pacífica. Embora fosse pequena a popu­ lação de Jerusalém,23 ela era imensamente multiplicada nos tempos das festas peregrinas. 42. Finalmente, Lucas registra como viviam os novos convertidos. Alistam-se quatro atividades das quais participavam. Geralmente, são con­ sideradas como quatro coisas separadas, mas também é possível argumen­ tar que são, na realidade, os quatro elementos que caracterizavam uma reunião cristã na igreja primitiva e, de modo geral, é este o pon­ to de vista preferível.24 Em primeiro lugar, havia a doutrina dada pelos apóstolos, que eram qualificados para esta tarefa por causa do seu conví­

23J. Jeremias, Jerusalem in the Time o f Jesus (Londres, 1969), pág. 83 n. 24, estima a população em 55.000-95.000. 24Marshal, Luke, págs. 204-206.

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ATOS 2:42-43 vio com Jesus. É possível que tenham sido considerados, num sentido especial, os guardiães das tiadições acerca de Jesus, na medida em que a igreja crescia e se desenvolvia.2 5 Em segundo lugar, havia comunhão-, a palavra significa “co-participação”, e, embora pudesse referir-se à dis­ tribuição dos bens conforme a descrição nos w . 4445, é mais provável que aqui se refira a uma refeição em comum ou a uma experiência reli­ giosa da qual todos participavam. Em terceiro lugar, havia o partir do pão. Este é o termo que Lucas emprega para aquilo que Paulo chama de “Ceia do Senhor” . Refere-se ao ato que dava início a uma refeição judai­ ca, e que passara a ter um significado especial para os cristãos, tendo em vista a ação de Jesus na Última Ceia, e também quando alimentou as mul­ tidões (Lc 9:16; 22:19; 24:30; At 20:7, 11). Alguns alegam que o que há em mira aqui não passa de mera refeição de convívio, talvez uma conti­ nuação das refeições feitas com o Senhor ressurreto, sem qualquer rela­ ção específica à Última Ceia ou à forma paulina da Ceia do Senhor, que celebrava a Sua morte; é muito mais provável, no entanto, que Lucas aqui está empregando um nome antigo palestiniano para a Ceia do Senhor no sentido rigoroso. Finalmente, mendonam-se as orações. Caso não se trate de uma referênda a parte de uma reunião cristã, então trata-se da maneira dos cristãos observarem as horas de oração marcadas pelos judeus (3:1). Estes são os quatro elementos essendais na prática religiosa da igreja cristã.

g. Resumo da vida da igreja primitiva (2:43-47). Uma das características de Lucas é separar os vários inddentes da pri­ meira parte de Atos por meio de pequenos parágrafos ou versículos que dão resumos da situação da igreja nas várias etapas dò seu progresso. Es­ ta é a primeira seção deste tipo, e preenche a lacuna entre a história do Pentecoste e a próxima série de inddentes nos quais se retrata os reladonamentos entre a igreja e as autoridades judaicas. Outras se seguem em 4:32-37 e 5:12-16, e têm o contexto geral bem semelhante àquele que aqui se retrata. Alguns estudiosos acharam um paralelismo entre os quatro itens no v. 42 e o conteúdo do presente resumo (apóstolos; todas as coisas em comum; o partir do pão; o louvor a Deus), mas o paralelismo não é espedalmente exato.

25H. Riesenfeld, The Gospel Tradition and its Beginnings (Londres, 1957).

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ATOS 2:43-46 43. Um dos efeitos do crescimento da igreja, ainda na sua infância, era o sentimento de reverência ou temor da parte do povo. Lucas quer dizer que a população não-cristã sentia uma certa apreensão diante de um grupo em cujo meio aconteciam eventos sobrenaturais (cf. 5:5, 11; 19:17). Prodígios e sinais —as palavras são aquelas que foram empregadas para des­ crever as obras 'poderosas de Jesus (2:22) —estavam sendo operados pelos apóstolos, e Lucas passaria em breve a relatar exemplos específicos. 44-45. Um aspecto distintivo foi o modo.de os crentes viverem jun­ tos, na prática de algum tipo de comunhão de bens.26 O significado disto fica mais claro no v. 45, onde se esclarece que as pessoas vendiam suas pro­ priedades para aplicar o preço na assistência dos necessitados. A primeira impressão que obtemos, portanto, é aquela de uma sociedade cujos mem­ bros viviam juntos e tinham tudo em comum (4:33). Não seria surpreen­ dente, sendo que sabemos que pelo menos um outro grupo contemporâ­ neo judaico, a seita de Cunrã, adotou este modo de vida (1QS 6); Filo e Josefo, nas suas descrições dos essênios (com os quais usualmente se identi­ ficam os cunranitas), dizem a mesma coisa. É bem provável que, no primei­ ro impacto do entusiasmo religioso, a igreja primitiva tenha vivido desta maneira; os ditos de Jesus acerca da abnegação podem ter sugerido este mo­ do de vida. Depara-se, porém, na narrativa em 4:32-5:11, que vender os bens pessoais era assunto voluntário, e a atenção especial dada a Bamabé por ter vendido um campo talvez sugira que houvesse algo de incomum no seu ato. Não devemos, portanto, tirar a conclusão de que tomar-se cristão necessariamente acarretasse uma vida numa comunidade cristã es­ treitamente fechada em si. 0 que realmente aconteceu foi, talvez, que ca­ da pessoa deixava seus bens à disposição dos outros quando surgia a neces­ sidade. Evitamos o emprego do termo “comunismo” na descrição da praxe, visto que o comunismo moderno é uma descrição de um sistema político e econômico de um caráter tão diferente que é anacronístico e enganoso empregar-se o termo no presente contexto.2 7 46. A devoção religiosa dos cristãos primitivos era assunto de todos os dias. Reuniam-se em espírito de unanimidade no templo. Esta expres­ são talvez signifique que empregavam o átrio do templo como lugar de reunião (cf. 5:12), mas também subentende-se que participavam do culto

26D. L. Mealand, “Community o f Goods and Utopian Allusions in Acts IIIV ”, JTS 28,1977, págs. 96-99. 2 7Vet Marshall, Luke, págs. 206-209.

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ATOS 2:46-47 diário do templo (3:1). Este culto diário consistia da oferta de um holo­ causto e incenso, de manhã e de tarde; e era realizado pelos sacerdotes, mas sempre havia uma congregação de pessoas que ficavam onde podiam ver os sacerdotes que cumpriam os seus deveres e que entravam no san­ tuário; participavam das orações, e recebiam uma bênção do sacerdote. Visto que os cristãos primitivos acreditavam que tinham um relaciona­ mento verdadeiro com Deus através do Messias, era natural que participas­ sem do culto a Deus conforme o modo comumente aceito. É provável que ainda não lhes tivessem ocorrido as questões teológicas acerca da subs­ tituição dos sacrifícios do templo pelo sacrifício espiritual de Jesus. Além disto, as autoridades religiosas não excluíram os cristãos do templo. Ao mesmo tempo, porém, os cristãos se reuniam para seus próprios ajunta­ mentos religiosos. Reuniam-se de casa em casa, nos lares uns dos outros, e juntamente partiam o pão num espírito de gozo intenso e sincero.28 A idéia é que faziam refeições em comum, as quais também incluíam o partir do pão; podemos comparar a descrição que Paulo deu da refeição em conjunto na igreja em Corinto, que incluía a celebração da Ceia do Senhor (1 Co 11:17-34). A grande alegria que caracteriza estes encontros era, sem dúvida, inspirada pelo Espírito (13:52) e talvez se associasse com a convicção de que o Senhor Jesus estava presente com eles (cf. 24:35). 47. A estrutura da frase talvez indique que os discípulos comessem juntos no templo bem como nos seus lares. Ao fazerem assim, louvavam a Deus; esta é uma das poucas referências em Atos à adoração que os cris­ tãos prestavam a Deus no sentido de renderem graças a Ele. A raridade de tais frases nos faz lembrar que, conforme o testemunho do Novo Tes­ tamento, os encontros dos cristãos eram para a instrução, a comunhão e a oração; noutras palavras, para o benefício dos participantes; menciona-se menos a adoração a Deus, embora este elemento naturalmente não faltas­ se. Um comentário final nota que a atividade evangelizadora da igreja conti­ nuava diariamente. Na medida em que os cristãos eram vistos e ouvidos pe­ lo restante do povo em Jerusalém, suas atmdades formavam uma oportu­ nidade paia o testemunho. Mais uma vez, Lucas se refere ao processo de tomar-se cristão como o ser salvo, i. é, salvo de pertencer ao povo pecami­ noso em derredor que está sob o julgamento divino por ter rejeitado ao Messias (2:40, cf. 2:21).

f A palavra traduzida “singeleza” sugere a generosidade, franqueza e espí­ rito aberto que caracterizava a comunhão cristã primitiva. NIV tem “sincero”. 28

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ATOS 3:1

n.A IGREJA E AS AUTORIDADES JUDAICAS (3:1-5:42)

a. A cura de um coxo (3:1-10). O tema principal de Atos caps. 3-5 é como o testemunho dos primei­ ros cristãos os colocou em conflito com os líderes judaicos, que tentaram em vão pôr fim à sua pregação. Dois de tais incidentes aqui se registram (3:14:31; 5:1242), sendo que estão separados por. uma narrativa de um dos problemas internos da comunidade cristã (4:32-5:11). Em cada oca­ sião, o poder dos apóstolos para operar milagres levou a uma tentativa da parte dos judeus para interromper estas atividades. Há suficiente seme­ lhança entre as duas histórias (juntamente com outra matéria nos capí­ tulos 1 e 2) para levar alguns estudiosos a suspeitarem que temos aqui duas narrativas separadas, porém paralelas, dos mesmos eventos básicos; mesmo assim, as diferenças são suficientes para excederem o peso das se­ melhanças. O primeiro incidente se divide em três partes. A história de um milagre é seguida por um discurso explicativo de Pedro (comparar o padrão semelhante que se acha várias vezes.no Evangelho segundo João, e.g., Jo 6:1-24/25-59), e depois pela história da prisão dos apóstolos. A história da cura, em si, é semelhante àquelas que se relatam nos Evangelhos, mas relata-se com uma boa quantidade de detalhes. Pedro con­ seguiu fazer o tipo de coisa que Jesus fazia, por meio de agir em nome de Jesus: expressa-se assim a continuidade entre o ministério de Jesus e o tes­ temunho da igreja. Pode-se notar, outrossim, como este incidente, e outros na carreira de Pedro, têm seus equivalentes na carreira de Paulo (14:8-10). 0 ponto principal desta história, porém, é que o nome de Jesus continua com poder para operar os mesmos graciosos milagres de cura que, nos Evangelhos, eram sinais da chegada do reino ou domínio de Deus.

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ATOS 3:1-2 1. A história fornece um exemplo das maravilhas e sinais mencio­ nados em 2:43, e ocorre no contexto das visitas ao templo mencionadas em 2:46. A hora nona, 15 horas, era o momento do sacrifício da tarde, que era acompanhado por orações pela congregação (2:46, nota). A menção de João lado a lado com Pedro tem causado estranheza a alguns comentaris­ tas, visto que ele não desempenha papel significante na história, o que levou à suspeita de que seu nome é um acréscimo à história (cf. v. 4, onde ocorre quase como explicação posterior), talvez para fornecer duas testemunhas pa­ ra defenderem a causa cristã diante do Sinédrio, mais tarde na história. Po­ de ser igualmente possível, porém, que a presença de João fosse fato histó­ rico, tendo em vista o hábito cristão antigo de trabalharem em pares, e con­ siderando a associação que já havia entre João (filho de Zebedeu, Lc 5:10) e Pedro (1:13); visto não ter sido dada qualquer razão convincente para o acréscimo do nome, provavelmente provém da própria tradição. 2. A ocasião para o milagre da cura surgiu com a presença de um ho­ mem que estava sendo carregado naquela hora pelos seus amigos, a fim de ser deixado deitado à entrada do templo, para esmolar. Visto que dar esmola era um ato especialmente meritório na religião judaica, seria apro­ priado colocar um mendigo num lugar por onde as pessoas piedosas passa­ riam no seu caminho para o culto. O fato de o homem ser coxo de nascença sublinha a maravilha do milagre que estava para ser operado. Há alguma in­ certeza a respeito da Porta Formosa do templo. Há três possibilidades: (1) A Porta “Susã” que ficava no lado oriental do muro que cercava a to­ talidade do templo; dava acesso de fora do templo para o Átrio dos Gentios. (2) Dentro do Átrio dos Gentios havia o Átrio das Mulheres, ao qual havia acesso no lado oriental; somente homens e mulheres israelitas tinham o direito de entrar dentro deste átrio. Josefo nos fala da Porta de “Nicanor” (também conhecido como a Porta Coríntia, e feita de bronze) que aqui se situava, e a maioria dos estudiosos consideram que é ela a Porta Formosa. (3) Saindo do Átrio das Mulheres, encontrava-se outra porta que levava ao Átrio de Israel, no qual eram admitidos somente homens judeus. As fontes rabínicas a chamam de Porta de Nicanor, mas existe evidência que demons­ tra que o retrato que davam do templo é confuso. A maioria dos estudiosos adota a teoria (2).29 A tradição cristã a partir do século V favorece a teoria (1) mas já foi indicado que a porta oriental deve ter sido um péssimo lugar para a coleta de esmolas; uma quantidade bem maior de pessoas entraria

29J. Jeremias, TDNT, III, pág. 173 n. 5; G. Schrenk, TDNT, III, pág. 236.

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ATOS 3:8-9 no templo pelo lado ocidental, diretamente da cidade. 3-5. O mendigo começou a clamar por esmolas da parte das pessoas que entravam no templo, e estas incluíam Pedro e João. Responderam, dando a entender que teriam alguma coisa para lhe oferecer, e o homem passou a dirigir a eles a sua atenção. A descrição talvez pareça algo pedântica à primeira vista, mas Stahlin, pág. 59, comenta com razão que a narra­ tiva demonstra como os sentimentos usuais do mendigo, da incerteza que se expressa numa combinação de imploração insistente e da indiferença que resulta de freqüentes decepções, cedem lugar a uma expectativa ge­ nuína de receber alguma coisa. O que poderia ter sido uma ocasião da caridade mecânica transforma-se em encontro pessoal, na medida em que o coxo e os apóstolos se entreolham atentamente. 6. A resposta de Pedro, com sua deliberada ordem das palavras “Prata e ouro não tenho eu” (lit.), decepcionaria, de início, a esperança que fora despertada, mas logo se seguiu a oferta dalguma coisa melhor. O que Pedro podia oferecer era a cura, e esta ele deu, ao ordenar ao homem que andasse. “Em nome de Jesus” (2:38, nota) significa aqui: “pela autori­ dade de Jesus” . Fórmulas semelhantes se empregavam na magia antiga, mas este fato não transforma a frase de Pedro em fórmula mágica. Aqui, pensase no poder contínuo de Jesus que fora outorgado aos apóstolos; o próprio Jesus não tinha necessidade de apelar a uma autoridade mais alta, tal como o nome de Deus (ver mais 3:16; 4:10). Devemos notar que Pedro poderia ter acesso a prata e ouro (2:45); o importante era que, neste caso, podia oferecer uma coisa melhor que ia à raiz do problema do homem. A histó­ ria não é, de modo algum, uma proibição contra a contribuição de ajuda material aos pobres e necessitados, nem deve ser usada para sugerir que a igreja deve oferecer a salvação espiritual - é, afinal das contas, a cura fí­ sica mais do que a salvação espiritual que é dada aqui! Mesmo assim, há aqui uma boa lição acerca das prioridades da igreja. 7-8.0 convite de Pedro foi acompanhado por sua mão que se esten­ dia para levantar o mendigo à posição ereta, e o milagre ocorreu na medi­ da em que as juntas do homem foram curadas e se tomaram ativas. Con­ seguiu não somente ficar de pé, mas também andar e pular de alegria, e a sua primeira ação, depois de ser curado, foi acompanhar os apóstolos para dentro do templo, louvando a Deus em gratidão por aquilo que lhe aconte­ cera. Assim como acontecia durante a vida terrestre de Jesus, assim também agora estava sendo cumprida a Escritura: “Então . . . os coxos saltarão como cervos” (Is 35:6). 9-10. A vista daquele que antes fora coxo, saltando e louvando a -88-


ATOS 3:10-11 Deus, era prova suficiente, diante da multidão, de que verdadeiramente tinha sido curado. Era pessoa tão bem conhecida depois de tantos anos de mendicância, que não poderia haver dúvida acerca da sua identidade e, portanto, acerca da realidade da cura. Embora a descrição da admiração e assombro seja um aspecto estereotipado no fim da história de um mila­ gre (e.g. Lc 4:36; 5 3 , 26; 7:16), é precisamente esta a reação que se espe­ raria. Mesmo assim, semelhante reação não é necessariamente a mesma coi­ sa que a fé nAquele que operou o milagre; uma pessoa pode impressionarse com o espetacular sem corresponder àquilo que significa: o poder e a graça de Deus.

b. Pedro explica o incidente (3:11-26). O padrão dos incidentes no dia de Pentecoste repete-se quando o evento incomum é seguido por um discurso de Pedro ao povo atônito, que começa com uma explicação do acontecido. Neste caso, Pedro, logo de início, soluciona um possível mal-entendido da situação, e depois passa a explicar que o poder de Jesus, ressurreto dentre os mortos, curou o ho­ mem. Lança mão da oportunidade para inculcar a lição de que foi o mesmo Jesus que os judeus mataram, que depois foi glorificado por Deus e agora continuava a Sua atuação. O discurso poderia ter terminado neste ponto, tendo cumprido o seu propósito imediato, mas Pedro era um evangelista por demais zeloso para deixar passar uma oportunidade valiosa. Depois de começar a convencer os seus ouvintes de que eles mesmos tinha parte em levar Jesus à morte, passou a argumentar que agiram com ignorância. Na realidade, Deus estava levando a efeito o Seu plano para o Messias, e, assim, agora era possível aos judeus o arrependimento e a esperança das bênçãos futuras associadas com a volta de Jesus. Este apelo foi reforçado por uma citação das profeda: Jesus era o Profeta cuja vinda Moisés pre­ disse. A desobediência a Ele levaria ao julgamento. Ao mesmo tempo, porém, aqueles que ouviam a Pedro eram os herdeiros da aliança com Deus e tinham, por assim dizer, o primeiro direito às bênçãos trazidas por Jesus. Devem, portanto, renunciar a sua maldade e aceitar Jesus co­ mo o Messias. Embora nada se diga explicitamente, há a provável impli­ cação de que, se os judeus não prestarem ouvidos, as bênçãos do evange­ lho seriam oferecidos a outras pessoas. O interesse especial deste sermão se acha na maneira de ele oferecer mais ensinamentos acerca da Pessoa de Jesus, pois o descreve como Servo -89-


ATOS 3:11-13 de Deus, o Santo e Justo, o Autor da vida e o Profeta como Moisés. Indi­ ca-se, assim, que estava ocorrendo bastante meditação acerca de Jesus, pensamentos estes que se baseavam no estudo do Antigo Testamento. Em­ bora alguns estudiosos atribuíssem ao próprio Lucas esta maturidade no pensamento, há bons motivos para acreditar que pertence à igreja primitia, pois durante os primeiros anos da existência dela houve um desenvol­ vimento incomparável de pensamento teológico. O outro elemento teoló­ gico principal no discurso, que é a associação entre as bênçãos e a parusia, está sem paralelo, o que é sinal adicional de que aqui temos a tradição primitiva. 11.0 homem curado ficou bem perto dos seus benfeitores, e o po­ vo se aproximou deles em grandes números quando chegaram à colunata de Salomão que acompanhava o lado oriental do Átrio dos Gentios. Se foi à Porta de Susã que o homem foi curado, então este pórtico seria imediata­ mente adjacente. Se foi à entrada do Átrio das mulheres que ocorreu a cura, então devemos supor que, até esta altura, Pedro e os seus companheiros já estavam de saída. Esta hipótese é perfeitamente natural, pois o Átrio das Mulheres seria um lugar menos apropriado para uma reunião pública, e Lucas não via necessidade alguma de detalhar todos os movimentos dos protagonistas. 12. Pedro lançou mão da oportunidade para explicar o significado do acontecido. Se o discurso que se segue representa aquilo que Lucas con­ siderava provável nas circunstâncias, e não um resumo das suas observa­ ções, certamente capta o espírito da ocasião. Pedro toma como ponto de partida a maneira do povo naturalmente estar fitando a João e a ele, maravilhado, como detentores do poder extraordinário que curara o homem. 0 povo ou considerava que tinham poderes próprios dos mais no­ táveis, ou que eram tão devotos que Deus respondia às orações deles com si­ nais milagrosos. Seja qual for o pensamento do povo, Pedro quis desviar a sua atenção, dos apóstolos, para a origem do milagre. 13. A explicação imediata só é dada no v. 16; antes, Pedro precisava colocar o cenário. Em última análise, aquilo que aconteceu devia-se à ação de Deus, o mesmíssimo Deus que Se revelara aos patriarcas e que Se cons­ tituíra em Deus do povo de Israel; a razão por ressaltar este fato se tomará aparente nos w. 25-26. Este Deus glorificou a Seu Servo, frase esta que se acha em Isaías 52:13, o primeiro versículo da última passagem, e a mais importante entre elas, que trata do Servo de Javé. Noutras palavras, a pro­ fecia estava sendo cumprida, pois Pedro declarou que o que aconteceu a Jesus foi a glorificação divina do Servo de Deus. A identificação de Jesus -90-


ATOS 3:13-16 como o Servo se acha em 3:26; 4:27, 30. São estes os únicos lugares no Novo Testamento onde o nome é aplicado a Ele, mas as profecias acer­ ca do sofrimento do Servo são citadas ou aludidas em Mc 10:45; 14:24; Lc 22:37; Jo 12:38; At 8:32-33; 1 Pe 2:22-24; e noutros trechos. Esta com­ binação de referências sugere um modo primitivo de entender Jesus que es­ tá notavelmente ausente das Epístolas e dos escritos posteriores. Talvez pareça estranha a declaração de que Jesus fora glorificado co­ mo Servo de Deus. Morrera, afinal, na cruz da execução. Pedro, porém, insistiu que isso aconteceu por causa da atuação dos próprios judeus que O negaram quando estava sendo processado diante de Pilatos, embora este 0 considerasse inocente de qualquer crime capital e quisesse soltá-Lo (cf. 13:28). 14-15. Pedro reforça seu libelo contra os judeus. Já tratou da enor­ midade do crime dos judeus ao condenaram à morte um homem inocente. Agora passa a ressaltar que Aquele que os judeus negaram era Santo e Justo. Não fica claro se os judeus pudessem ter considerado que estes atributos pertenciam a uma pessoa ou oficial específico. A frase inteira, “o santo de Deus” emprega-se para Eliseu (2 Rs 4 5 ) e Arão (SI 106:16), e se emprega com referência a Jesus, de modo inigualado, como confissão por parte dos demônios (Mc 1:24) e dos homens (Jo 6:39); ocorre de novo, como designação de Jesus, em 1 Jo 2:20 e Apocalipse 3:7, o que sugere que os cristãos a considerassem um título para o Messias. Aqui, porém, a razão de ser da expressão talvez seja simplesmente sublinhar que Jesus pertencia a Deus de modo especial (cf. Lc 1:35; At 4:25,27). De modo semelhante, o emprego da palavra Justo ressalta a retidão moral de Jesus (7:52; 22:14; 1 Jo 2:1); é bem possível que haja ligação com a descrição do Servo de Deus em Isaías 53:11. Por contraste, o povo queria soltar um homicida, Barrabás, por ordem de Pilatos (Lc 23:25). Então, mais uma vez, o contraste é feito com Jesus que é chamado o Autor da vida. A palavra archegos ocor­ re de novo em 531 (cf. Hb 12:2) onde tem mais o significado de ‘líder” , mas aqui (cf. Hb 2:10), parece significar “fonte” ou “originador” . O pen­ samento da salvação como vida (as duas palavras representam a mesma pa­ lavra aramaica) se acha aqui e em 5:20; 11:18; 13:46, 48; aqui é provável que haja uma antítese deliberada com matastes. Deus, porém, O ressusci­ tou dentre os mortos - foi esta a Sua “glorificação” (v. 13) - conforme podiam testificar os apóstolos. 16. Dentro deste pano de fundo, a cura do coxo agora podia ser entendida. A construção grega é obscura e a frase é repeticiosa. Duas li­ ções básicas se ressaltam, no entanto. Em primeiro lugar, o milagre que te-91 -


ATOS 3:16-18 ve como resultado a perfeita cura física de um homem bem conhecido, diante dos próprios olhos da multidão, dependia do poder que se associava com o nome deste Jesus. Em segundo lugar, este poder se tomou eficaz mediante a fé no nome de Jesus. Semelhante fé se tomava possível por meio de Jesus: a proclamação do Seu poder tomou possível ao povo crer. É verdade que não se conta na história que o homem revelou fé, mas a ma­ neira de ele louvar a Deus depois da sua cura provavelmente subentenda tal fé; alternativamente, a fé pode ser aquela de Pedro. De qualquer manei­ ra, qualquer sugestão de que havia alguma coisa mágica no milagre é deli­ beradamente excluída.30 17. Agora passa-se a tratar da razão imediata do discurso. Depois de Pedro já ter falado da culpa dos judeus nesta seção, não podia deixar o assunto parar ali, e agora passa para a parte especificamente evangelística do discurso. Para começar, reconheceu que aquilo que os judeus e seus lí­ deres fizeram a Jesus brotara da ignorância (13:27; cf. 1 Co 2:8) e, portan­ to (segundo se subentende), podia ser perdoado (Lc 23:34; 1 Tm 1:13). O pensamento não pronunciado audivelmente é que, se os judeus agora dei­ xam de reconhecer o seu pecado, cometido na ignorância, e se não se ar­ rependerem dele, este pecado ficará sendo deliberado e muito mais culpá­ vel (a Lei mosaica não fazia nenhuma disposição explícita para a expiação de tais pecados). 18. Apesar disto, aquilo que os judeus fizeram na ignorância tinha, na realidade, promovido o plano de Deus, previsto pelos profetas, no senti­ do de o Messias haver de padecer (2:23; 17:3; 26:22-23). Lucas tem pre­ dileção pela frase todos os profetas (3:24; 10:43); embora talvez pergun­ temos como se pode achar referências ao sofrimento do Messias em literalmento todos os profetas. Sem dúvida, a frase melhor se entende como hipérbole. Visto que o Antigo Testamento não fala, em lugar algum, de um Messias sofredor (até mesmo o termo “Messias” nem sequer ocorre como título do Antigo Testamento) devemos pensar, principalmente, nos ensinamentos acerca do sofrimento do Servo de Deus (Is. cap. 53), e tam­ bém das demais passagens nos profetas e nos Salmos que têm sido enten­ didas como tipológicas ou proféticas dos sofrimentos do Messias (Jr 11:19; Dn 9:26; Zc 13:7; SI 22, 69); assim, teríamos matéria de três dos quatro

30Este fato precisa ser ressaltado de modo contrário ao conceito de J. M. Hull, Heííenistic Magic and the Synoptic Tradition (Londres, 1974), que alega que, pa­ ra Lucas, a igreja possui um poder que se distingue dos daqueles dos milagreiros pagãos somente por ser mais forte. -

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ATOS 3:19-21 livros dos “profetas posteriores” (Isaías, Jeremias, e o livro dos Doze Profetas; omitindo Ezequiel), bem como dos Salmos. 19. A ação de Deus agora criou as condições mediante as quais os judeus podem arrepender-se e serem perdoados pelos seus pecados. O signifiáado de Arrependei-vos (2:38) é esclarecido pelo acréscimo de conver­ tei-vos ou, melhor, “voltai-vos (sc. a Deus)”, como nalguma»! versões mo­ dernas. Este verbo significa o ato de voltar-se do modo de vida antigo, especialmente da adoração dos ídolos, para um novo modo de vida, basea­ do na fé e na obediência a Deus (9:35; 11:21, 14:15; 15:19; 26:18, 20; 28:27; cf. Is 6:10; J1 2:12-14). O resultado imediato será “o cancelamento dos pecados” ; a lista de acusações contra eles será obliterada (cf. Cl 2:14), que é outro modo de dizer que são perdoados os seus pecados (2:38). Seguir-se-ão dois resultados adicionais. O primeiro (v. 19b em ARC, v. 20a em ARA), é que virão da parte do Senhor tempos de refrigério. Es­ ta é uma frase sem paralelo, que os comentários geralmente entendem como sendo uma referência à era final da salvação. Se for esta a interpretação cer­ ta, o plural tempos talvez indique a duração do respectivo período (cf. tal­ vez os “tempos dos gentios” , Lc 21:24). Talvez haja uma conexão com os “tempos” em 1:7, que se associam com a restauração do domínio de Deus para Israel. 20-21. O segundo resultado será a vinda de Jesus do céu. Ele é des­ crito como “o Cristo, que já vos foi designado” , i. é, para os judeus; alguns estudiosos entenderam que o significado é que Jesus foi predestinado a tomar-Se o Messias na parusia, subentendendo que se trata de um trecho de cristologia primitiva que pensava que Jesus não ficaria sendo o Messias até à parusia futura. É falha, porém, esta maneira de entender o texto. Declara, pelo contrário, que o Jesus que voltará na parusia é Aquele que já fora determinado para ser o Messias para os judeus. Quer dizer, portanto, que a vinda da “era messiânica” ou reino futuro de Deus, pela qual ansia­ vam os judeus, dependia da sua aceitação de Jesus como o Messias. Mesmo assim, a parusia não ocorreria imediatamente. De qualquer maneira, não podia acontecer antes dos tempos do cumprimento de tudo quanto Deus falara mediante os profetas, desde o início. A palavra restauração vem do verbo “restaurar” em 1:6; devemos entender, portanto, que a frase significa a perfeita realização da parte de Deus das coisas que prometera através dos profetas, sendo que a prindpal entre elas era o estabelecimento do Seu domínio ou reino. Os “tempos” , portanto, se referem, não ao período antes da parusia, durante o qual os vários eventos profeticamente previstos para precedê-lo devem acontecer, mas, sim, ao período do cumprimento das -93 -


ATOS 3:21-24 profecias que dizem respeito à própria parusia. É problemático definir se este período deve ser chamada uma “demora” ;isto subentenderia que a igre­ ja primitiva originalmente esperava para imediatamente a parusia, e que somente depois de nada ter acontecido no decurso de vários anos é que começou a reformular as suas esperanças (e os textos que as expressavam) para levar em conta um período de espera muito mais longo do que tinha sido previsto logo de início. É bem provável, porém, que houvesse algumas pessoas que esperavam a rápida consumação da parusia, e a igreja teve que lembrar-lhes que, segundo Jesus ensinara, a parusia não ocorreria imedia­ tamente. Houve uma sugestão no sentido de esta passagem também dar a impressão de Jesus ficar inativo no céu entre a ascensão e a Sua volta; é muito improvável, tendo em vista outras evidências em Atos que demons­ tram que Jèsus estava, na realidade, muito ativo ao derramar o Espírito e ao operar sinais e maravilhas através dos apóstolos. 22-23. O discurso passa a abordar um novo ângulo, e Pedro ressalta outra lição. Emprega uma dtação que se baseia em matéria tirada de Dt 18:15-19 e Levítico 23:29. Nesta passagem, Moisés advertia o povo de Israel contra o emprego das praxes mágicas para descobrir a vontade do Senhor. Deus haveria de susdtar entre eles um profeta com a mesma capa­ cidade que Moisés para conhecer e declarar a vontade de Deus, e o povo deveria obedecer àquilo que o profeta dizia; se qualquer pessoa se recusas­ se a obedecer, Deus exigiria dela uma prestação de contas, e a extermina­ ria do meio do povo. O sentido original da passagem pode ter sido que Deus levantaria profetas em diferentes ocasiões conforme a necessidade. A formulação da passagem no singular levou os judeus, segundo parece, a esperar um sô profeta, embora seja parca a evidênda (cf. Jo 1:21, 25; 740); ao mesmo tempo, havia uma expectativa no sentido de o Messias vir a ser um segundo Moisés.31 A seita de Cunrã, em espedal, antedpa a vinda de um profeta no tempo do fim (1QS 9:10-11), e um dos documen-tos deles dta este texto (4QTest 5-7). É certo que nos círculos samaritanos a passagem era interpretada cóm referênda a um só sucessor de Moi­ sés.32 Pedro implidtamente supõe que Jesus é o respectivo profeta (cf. 131). Moisés, portanto, é um profeta da vinda de Jesus, e dá seu apoio à advertênda contra a desobediênda a Jesus. 24. Mesmo assim, idêntica coisa pode ser dita de todos os profetas.

31J. Jeremias, TDNT, IV, pags. 848-873. 32BC, I, págs. 404-4-8.

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ATOS 3:24-25 Eles, também, anteviam os dias que agora se revelaram ser os dias do cum­ primento. Destarte, a totalidade do Antigo Testamento podia ser vista como testemunha a Jesus e ao estabelecimento da igreja. Todos os profetas, pois, ocupavam-se com eventos escatológicos e não meramente com aqui­ lo que acontecia nos seus próprios tempos. Era assim que normalmente se interpretava os profetas nos tempos do Novo Testamento; podemos citar, como comparação, a maneira de a seita em CunrS ver os pormenores das suas próprias experiências previstos nas Escrituras, embora fosse ás cus­ tas de uma exegese que nem sempre convence. Será, porém, que havia me­ lhor base para a exegese cristã? A erudição moderna tem enfatizado que os profetas se ocupavam primariamente com eventos no seu próprio tempo e no futuro iminente. Em que sentido seria possível que Samuel, em especial, de quem registra-se tão poucas declarações (1 Sm 3:194:1), fosse considera­ do profeta de Jesus? De modo geral, é necessário responder que, em muitas profecias, há um elemento de esperança futura que Mo foi cumprida na oca­ sião, ou que foi só parcialmente cumprida, e que a esperança profética da intervenção final de Deus e o estabelecimento do Seu domínio certamente não foi cumprida; aguarda uma realização que ainda está no futuro. Reco­ nhece-se que é difícil a referência a Samuel; o máximo que se pode dizer é que talvez os cristãos considerassem suas profecias do reino de Davi sendo cumpridas no domínio do Filho de Davi (Bruce, Livro, p. 93). 25. Estas promessas proféticas foram feitas para os judeus. Foram eles os filhos dos profetas e, portanto, podiam esperar que veriam o cum­ primento das promessas feitas ao povo de Israel e que receberiam delas o benefício. Este assunto recebia o reforço da lembrança de que os judeus também eram os herdeiros da aliança ainda mais antiga que Deus fizera com Abraão. Nesta aliança, Deus prometera bênçãos, aos descendentes deste, mas também afirmara que, através da sua descendência seriam aben­ çoadas todas as famílias da terra (Gn 12:3; 18:18; 22:18; 26:4; G1 3:8). Esta é uma citação interessante. A versão original (a LXX) tem “nações” , palavra esta que pode ser interpretada para significar os gentios; a citação feita por Pedro emprega uma palavra de significado semelhante, mas que deixa em aberto a possibilidade de haver referência aos gentios (Hanson, p. 76). Mesmo assim, tendo em vista o versículo seguinte (“primeiramen­ te a vós outros”), é provável que a palavra “famílias” (ARC) deliberada­ mente se refira tanto aos judeus quanto aos gentios, embora a referência aos gentios, nesta etapa, não passe de uma leve sugestão (contrastar 13:46). Mais uma vez, a declaração original se refere à “semente” (descendência) de Abraão. A tradução “posteridade” (RSV) deixa incerto se “semente” -95 -


ATOS 3:26-41 deve ser interpretada como substantivo coletivo, com referência aos des­ cendentes de Abraão, ou no singular. Em Gálatas 3:16, Paulo toma claro que o “descendente” deve ser interpretado como substantivo no singular, com referência a Jesus: Ele é o descendente de Abraão, e através dEle vi­ rão bênçãos a todas as nações. Pedro tinha em mente a mesma idéia nesta altura. 26. Esta idéia se ressalta claramente quando Pedro passa a declarar que Deus ressuscitou Seu Servo para abençoar os ouvintes, por meio de apartá-los do seu pecado. A bênção outorgada na aliança c o i j i Abraão por meio de Jesus consiste, porém, em capacitar os homens a deixar o caminho do pecado e, assim, ter a condição de receber os demais dons espirituais associados com o Messias. Ressuscitar provavelmente se emprega na mesma maneira como no v. 22, de trazer alguém para o palco da história; pode ha­ ver, também, o sentido de ressuscitar dentre os mortos (cf. 13:33-34). Á palavra primeiramente não deve ser olvidada; aqui temos a primeira decla­ ração explícita em Atos de que, historicamente, o evangelho chegou pri­ meiramente aos judeus. A promessa no versículo anterior, porém, sugere que o pensamento “e também para os gentios” está implícito, e é bem possível que haja a advertência de que, se os judeus deixarem de corresponderia missão cristã se voltará aos gentios.

c. A prisão de Pedro e de João (4:1-22). A cura do coxo e o sermão de Pedro fizeram considerável impressão sobre o povo comum, mas despertaram a oposição dos líderes judaicos que prenderam os dois apóstolos, e depois os levaram diante de uma sessão do Sinédrio a fim de interrogá-los acerca das suas atividades. Foi esta a pri­ meira vez em que se tomou conhecimento oficial da igreja. O breve dis-, curso de Pedro repetiu os fatos essenciais a respeito da ressurreição de Je­ sus, com a ênfase adicional de que somente Ele podia salvar as pessoas. As autoridades reconheceram que os apóstolos estavam agindo como agira Jesus, mas, por causa do apoio popular a eles, não podiam adotar medidas drásticas contra eles. Limitaram-se, portanto, a fazer uma advertência aos apóstolos, no sentido de cessarem os seus ensinos, ação esta que levou a uma corajosa negação da parte de Pedro, quanto à autoridade do Siné­ drio para dar semelhante ordem. A igreja não pode obedecer a ordens no sentido de renunciar a sua atividade mais característica, o testemunho do Senhor ressurreto, embora deva pagar o preço da sua recusa do silêncio. -

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ATOS 4:1-4 1. A pregação chegou ao fim com a chegada das autoridades judai­ cas para prender os apóstolos. Não fica claro se devemos considerar que o sermão foi interrompido antes da conclusão pretendida para ele; de qual­ quer modo, Lucas, como hábil escritor, incluiu tudo quanto desejou trans­ mitir aos seus leitores, e o apelo, que talvez esperássemos para o fim do sermão, realmente aparece no v. 19. Embora João seja o parceiro silencio­ so de Pedro, é contado juntamente com este como aquele que fala ao po­ vo. A ação policial é tomada por um grupo de pessoas responsáveis pela ordem pública dentro da área do templo. Inclui alguns dos sacerdotes que estavam de plantão na ocasião. O capitão do templo os encabeça; é ele o oficial encarregado da polícia do templo, e usualmente é identifica­ do como sendo o sPgan , o sacerdote de hierarquia imediatamente abaixo do sumo sacerdote. Os saduceus não eram um agrupamento jurídico. O nome se aplicava a um agrupamento político que recebia a maior parte do seu apoio dentre os sacerdotes e os pregadores leigos da comunidade (os “anciãos”). É provável, portanto, que devamos pensar em termos de lei­ gos que se solidarizaram com os sacerdotes na sua oposição à igreja. Lucas empregou o termo “saduceus” para indicar seu ponto de vista religioso e político. É interessante que, embora os fariseus formassem o grupo que mais se opôs a Jesus durante o Seu ministério, em Atos quase ficam amigáveis com a igreja, ao passo que os saduceus (que não figuram nos Evangelhos até os últimos dias de Jesus), agora ficaram sendo os líderes da oposição. 2-4. A hostilidade deles é atribuída à sua antipatia contra a mensa­ gem da ressurreição. Os saduceus tinham objeção contra a idéia da ressur­ reição (Lc 20:2740), conforme a confirmação que se acha em fontes ju­ daicas. Opunham-se de modo especial aos cristãos porque estes alegavam ter evidência concreta da ressurreição, no caso de Jesus. Que todos estes ensinos tenham sido administrados no templo fez com que o crime pare­ cesse muito pior aos olhos deles. Logo, mandaram prender os apóstolos, conforme era seu direito legal no caso daquilo que poderia ser considera­ do uma violação da paz no recinto do templo. Visto que era tarde no dia para fazer qualquer coisa a mais, fizeram com que os apóstolos pernoitas­ sem na prisão, sem dúvida com a esperança que assim levariam a situação mais a sério e aceitassem a advertência. Mesmo assim, conforme Lucas en­ fatiza, o ataque contra os apóstolos não impedia de modo algum a eficácia da evangelização. Muitos daqueles que ouviram a Pedro aceitaram a mensa­ gem, de modo que o total dos cristãos chegou a cerca de 5.000. Os críticos objetam que esta cifra pressupõe um auditório de milhares para o discurso -97-


ATOS 4:4-7 de Pedro, e também que o total está fora de proporção com a população total de Jerusalém. A igreja, porém, já estava crescendo diariamente (2:47), e nío é necessário atribuir o aumento desde 2:41 simplesmente a esta úni­ ca reunião pública. As estimativas da população de Jerusalém variam entre 25.000 e dez vezes mais, e Hanson (págs. 76-77), ao optar para a cifra mais alta, diz que a estimativa que Lucas fez do tamanho da igreja pode ser apro­ ximadamente exiata, embora pareça mais provável uma cifra mais baixa para a população de Jerusalém (2:41 nota). A cifra que Lucas citou para o tama­ nho da igreja pode incluir cristãos dos distritos rurais e não somente da ca­ pital. 5. No dia seguinte, houve uma reunião das autoridades. Os três gru­ pos mencionados são provavelmente os três componentes do Sinédrio. Os anciãos eram os líderes leigos da comunidade, sem dúvida os chefes das principais famílias aristocráticas, sendo que a maioria delas adotava o pon­ to de vista dos saduceus. Os escribas eram tirados da classe dos doutores na Lei, e a maioria deles pertencia ao partido farisaico. O outro grupo mencionado, as autoridades, deve ser identificado com o elemento sacerdo­ tal no Sinédrio; às vezes com o nome de principais sacerdotes, eram estes os detentores das várias posições oficiais na administração do templo.33 6. Lucas menciona certos sacerdotes importantes que estavam pre­ sentes. Anás tinha sido sumo sacerdote em 6-14 d.C., mas os romanos o depuseram e foi sucedido por vários membros da sua familia, inclusive pelo seu genro Caifás (18-36 a.C.). Apesar da sua deposição, Anás continuou a exercer, sem dúvida alguma, grande influência, e retinha o seu título (Lc 3:2). João não é conhecido fora deste trecho, a não ser que este nome seja variante de Jônatas (o texto de D), outro filho de Anás, que era sumo sacerdote em 37 d.C. Alexandre é desconhecido. Os outros membros da li­ nhagem do sumo sacerdote devem ser aqueles que detinham as várias posi­ ções oficiais na administração do templo. V. 6, portanto, dá detalhes mais precisos dos membros do primeiro grupo mencionado no v. 5. Podemos notar, de passagem, como os negócios do templo estavam firmemente nas mãos dalgumas poucas famílias poderosas. 7. Quando os apóstolos foram trazidos diante da sessão, foram interrogados acerca do poder e da autoridade de quem tinham agido. Su­ põe-se que a pergunta se relaciona primariamente com o milagre da cu­ ra, conforme entendeu Pedro (v. 9), e que era, na realidade, um convite

33 TDNT, III, págs. 270-271.

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ATOS 4:7-12 aos apóstolos no sentido de explicarem a autoridade que os capacitou a operar semelhante milagre. O emprego do termo nome talvez seja lingua­ gem cristã, mais do que judaica, e talvez seja a paráfrase lucana de com que poder, à luz do emprego que Pedro fizera do termo “nome” . Já foi objetado que o tema do inquérito (o milagre) mudou-se da razão para a prisão (a pregação da ressurreição); mas os dois temas são mutuamente de­ pendentes, e o tribunal começa no começo. 8-10. A promessa de Jesus em Lc 12:11-12; 21:14-15, cumpre-se na medida em que Pedro recebe uma inspiração especial da parte do Es­ pírito Santo, que o capacitou a dar uma resposta eficaz no tribunal.34 O discurso de Pedro, Autoridades do povo e anciãos, abrange os dois grupos principais no tribunal. Começa suas breves observações ao chamar atenção ao fato de o assunto do inquérito ser um ato de bondade feito a uma pessoa necessitada, que recebeu a cura. Curado reflete a mesma palavra grega que aquela que foi empregada no v. 12, com o significado mais lato de “salvar” ; o discurso faz bom uso da gama de sentidos desta palavra. Pedro, compa­ recendo diante do supremo tribunal, declara solenemente àqueles que es­ tavam presentes, como representantes da nação inteira de Israel, que a cura deve ser atribuída ao poder do nome de Jesus Cristo, o Nazareno (nota-se o emprego solene do nome inteiro; cf. 3:6), e reitera que a Pessoa por eles crucificada foi Aquele que Deus ressuscitou dentre os mortos. 11. Esta última lição é reforçada ao receber expressão metafórica na linguagem de Salmo 118:22, com uma aplicação bem deliberada: os construtores no Salmo se identificam com os ouvintes de Pedro. O texto que se emprega figurava nos ensinos de Jesus (Lc 20:17) e também no en­ sino apostólico (1 Pe 2:7), onde se ligava com outros ditos acerca de “pe­ dra”. O dito tem um som proverbial, de modo que talvez signifique sim­ plesmente: “O antigo provérbio acerca da pedra que os construtores consi­ deravam inútil, mas que revelou ser a correta para usar por pedra angular, pode ser aplicado a esta situação” . Este versículo do Salmo, porém, no seu contexto original, talvez se refira à posição de Israel aos olhos das na­ ções ou do rei, como líder da nação. Jesus e a igreja primitiva o aplicavam ao ato de Deus em ressuscitar o Messias dentre os mortos. 12. Foi Jesus, portanto, quem salvou o coxo. Pedro declara que so­

34A objeção de que esta nova plenitude representa um conceito teológico dife­ rente daquele que atribui aos cristãos a presença permanente do Espírito (Haenchen, págs. 187,216) entende erroneamente a teologia do Espírito; ver 2:4, nota. -

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ATOS 4:12-14 mente Jesus pode oferecer a salvação no sentido mais pleno, o nome dEle é o único que recebeu poder da parte de Deus para dar a salvação aos ho­ mens. Logo, há um apelo implícito aos ouvintes, no sentido de cessarem a sua rejeição de Jesus. O pensamento não é incomum no Novo Testamen­ to (Jo 14:6, Hb 2 3 ; cf. 1 Tm 2:5). Surgiu a partir da convicção de que Deus exaltara Jesus até a Sua destra, posição esta que obviamente não po­ deria ser compartilhada com outra pessoa; seguia-se que, se Deus declara­ rá que Jesus era o Salvador, não poderia haver outra pessoa ao lado dEle. 13-14. O que impressionou o tribunal nas observações foi a sua in­ trepidez em pronunciá-las. O comportamento integral de Pedro e João foi de confiança e coragem sem rodeios que os capacitou a falar diante de um auditório que, decerto, era de inspirar medo. Foi esta qualidade que os discípulos posteriormente pediram em oração (4:29, 31) e que caracteri­ zou a sua maneira de falar em público (9:27-28; 1346; 143; 18:26; 19:8; 26:26; cf. Ef. 6:20; 1 Ts 2:2). O tribunal achou isto tanto mais surpreen­ dente porque os apóstolos não tinham recebido qualquer teinamento es­ pecífico na teologia ou na retórica. Iletrado podia significar “analfabeto” , e a palavra que se traduz incultos (Gr. idiõtès) se refere a leigos que não ti­ nham interesse algum nos assuntos públicos. C. H. Dodd, no entantç, de­ clarou que as duas palavras gregas traduzem uma frase hebraica que se re­ fere a pessoas que ignoravam a Torá ou a lei judaica,35 e este é, sem dúvi­ da, o significado aqui. Á implicação é que a eloqüência dos apóstolos foi inspirada pelo Espírito. Visto que os apóstolos tinham estado com Jesus e agora falavam acerca dEle, o tribunal se apegou a este fato (é este o sig­ nificado de reconheceram, segundo Bruce, Livro, pág. 102) e, segundo se supõe, lembrou-se de que Ele Se comportara da mesma maneira (cf. Jo 7íl 5). O versículo não significa que a eloqüência dos apóstolos levou o tri­ bunal a perceber (pela primeira vez) que tinham conexão com,Jesus. Tal­ vez os líderes judaicos se lembrassem quão difícil fora ganhar um argu­ mento com Jesus. Estavam tendo a mesma dificuldade agora, e o pior pa­ ra eles é que o homem curado estava ali presente para todos verem. Não fica claro por que ele estava presente. Será que fora preso também? Ou se­ rá que a sessão do tribunal foi feita em público? Lucas não considerou importante contar estes detalhes. O importante é que o tribunal ficou sem saber qual resposta dar diante da situação; os leitores de Lucas talvez se lembrassem da promessa em Lucas 21:15 e percebessem seu cumprimen­

3S The Interpretation o f the Fourth Gospel (Cambridge, 1954), pág. 82n. -

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ATOS 4:15-20 to neste momento. 15-17. O tribunal, portanto, passou a ficar em sessão fechada para as autoridades resolverem o que fazer. O Sinédrio aqui significa, em efeito, a “sala do concílio” . Não se pode saber agora se Lucas recebera informações acerca daquilo que aconteceu portas adentro, ou deduziu o acontecido à luz das decisões posteriores anunciadas em público. A perplexidade dos membros do concílio diante de um inegável milagre de cura já foi descrita, e as observações atribuídas aos membros do concilio meramente refletem seus sentimentos óbvios. Da mesma forma, a decisão do concílio reflete o que disseram quando chamaram os apóstolos de volta para comparecer diante deles. O temor dos membros do concílio era a expansão do cristia­ nismo, que talvez tivesse sérias repercussões para a vida da comunidade (cf. a atitude expressa em Jo 11:47-53), bem além do fato de que a reabi­ litação de Jesus entre o povo de modo geral lançaria as mais fortes objeções contra as ações que estes líderes judeus fizeram contra Ele, culmi­ nando na Sua execução. 18. Por enquanto, limitaram-se a fazer uma forte advertência no sen­ tido de os apóstolos cessarem a sua pregação. Provavelmente, pouco mais havia que realmente pudessem fazer. Embora fosse possível dar uma im­ pressão de legalidade em condenar a Jesus como pretendente a Messias, é difícil ver qual lei os apóstolos poderiam ter sido acusados de quebrar, e a extensão do apoio popular a estes provavelmente impedia as autoridades de conseguirem a aplicação de sanções mais drásticas nestas alturas. O má­ ximo que poderaim fazer foi proibir a pregação do evangelho por sua pró­ pria autoridade; em etapa posterior, os apóstolos poderiam ser efetivamen­ te acusados de desrespeito ao tribunal. 19-20. Os apóstolos sabiam que não poderiam obedecer a tal mandameto, e assim avisaram o tribunal. Foi um ato de desafio aberto. Tinha um précedente ilustre na história do filósofo grego Sócrates, que disse ao tri­ bunal que o condenou à morte por seus ensinos: “Obedecerei a Deus ao invés de a vós”. A declaração pode ser vista como afirmação da liberdade da consciência do indivíduo diante do estado; e assim é, em certo sentido: o indivíduo reivindica a liberdade para obedecer aquilo que crê ser o manda­ mento de Deus. O aspecto principal, porém, é que a obediência superior, de­ vida a Deus, está em jogo, e esta obediência está em posição mais alta do que os mandamentos de qualquer sistema religioso ou político (para os ju­ deus, tratava-se de um sistema único e exclusivo). Aqui está o limite que está implícito em Romanos 13:1-7. O problema era, naturalmente, que o tribunal judaico gostaria de pensar que estava falando com a voz de Deus, -101 -


ATOS 4:20-23 mas Pedro o lembrou que não passava de uma instituição humana, e de que não pode haver dúvida quanto à necessidade de se obedecer a Deus ao invés de aos homens, sempre quando houver discordância entre as duas ordens. Os apóstolos tinham sido convocados a serem testemunhas de Jesus Cristo; eram obrigados por seu dever a continuarem o seu testemunho. 21-22. As autoridades, confrontadas por este desafio ao mandamen­ to deles, nada mais podiam fazer do que repetir suas ameaças daquilo que aconteceria se os apóstolos tivessem que ser trazidos outra vez diante do tribunal. Depois, soltaram-nos. Lucas explica que a ação das autoridades se devia ao medo do povo que, pelo menos naqueles momentos, estava sob o impacto de um milagre operado num homem que estivera coxo durante quarenta anos, e cuja cura, portanto, era tanto mais extraordinária.

d. Os discípulos oram, pedindo mais intrepidez (4:23-31).

Os apóstolos, uma vez soltos, naturalmente voltaram para os seus amigos, e a sua primeira ação foi louvar a Deus. A oração deles O reconhe­ ceu como Deus soberano; fora, portanto, com a Sua presciência e a Sua permissão que os líderes judaicos os atacaram. Ao invés de achar que os ataques foram dirigidos contra eles pessoalmente, porém, referiram-se a uma passagem da Escritura que falava dos ataques feitos contra o Senhor (Javé) pelas autoridades, e contra o Messias, e perceberam o-cumprimento dela na conspiração ímpia feita por Herodes e Pilatos, pelos judeus e os ro­ manos, contra Jesus. Destarte, consideravam aquilo que agora acontecia como mera continuação deste ataque, e sua oração foi no sentido de que, a despeito disto, pudessem continuar a testificar com coragem, com o apoio dos milagres que testificavam que Jesus ainda estava vivo e ativo. A oração deles foi ouvida e respondida de modo impressionante, e foram capacita­ dos a fazer precisamente aquilo que pediram a Deus: continuaram a falar com intrepidez. Embora a oração fosse atribuída á igreja como um todo, é difícil acreditar que o grupo inteiro pudesse falar em conjunto desta maneira sem qualquer forma de oração escrita disponível para todos eles lerem si­ multaneamente, ou sem alguma forma comum de palavras ter sido decora­ da previamente; o conceito de que o Espírito inspirou cada membro a dizer exatamente a mesma coisa reflete uma idéia mecânica da operação do Es­ - 102 -


ATOS 4:23-25 pírito Santo. É, portanto, mais provável que uma só pessoa falasse em no­ me da companhia inteira.3 6 A oração propriamente dita reflete o uso do Antigo Testamento, não meramente do Salmo 2, que é explicitamente citado, mas também a oração de Ezequias em Isaías 37:16-20 que deu o padrão geral e suge­ riu parte da fraseologia. A oração indica que a igreja primitiva se voltava para Deus em tem­ pos de perseguição, e achava consolação no fato de que Ele sabia de ante­ mão o que aconteceria, e pedia forças para continuar seu testemunho. Tal­ vez fosse esta a idéia de Lucas acerca de como a igreja deveria ter agido — e uma lição prática para a igreja dos seus próprios dias na medida em que enfrentava a perseguição — como, porém, pode saber qualquer crítico que não era assim que a igreja primitiva realmente se comportava, e como, portanto, ousa sugerir que se trata da “liberdade do autor como escritor”? 23. Os apóstolos, depois de soltos, voltaram para seu círculo estreito de irmãos e apoiadores —obviamente um grupo menor do que a totalida­ de da comunidade cristã inteira conforme 4:4. A referência aos principais sacerdotes e os anciãos sugere que, do ponto de vista de Lucas, os escribas, que representavam o ponto de vista farisaico, estavam menos estreitamente envolvidos no assunto. 24. A reação imediata do grupo foi reunir-se em oração. Lucas res­ salta a união de espírito que estava evidente (1:14; 2:46; 5:12; 15:25; Rm 15:6); o efeito da perseguição foi unir os membros da igreja de tal mo­ do que houvesse um desejo em comum para orar. Seja qual tenha sido o modo de a oração ser dirigida, as palavras que se seguem expressam os sen­ timentos das pessoas reunidas. A oração começou, dirigindo-se a Deus de modo que refletia Seu controle soberano sobre tudo quanto acontecia. O título Soberano Senhor (Gr. despotès) é comparativamente infreqüente no Novo Testamento (e também na LXX), talvez porque a palavra suge­ risse um tipo despótico e arbitrário de senhorio. Aqui, porém, se emprega apropriadamente para expressar o controle poderoso exercido por Deus (cf. Lc 2:29; 2 Pe 2:1; Jd 4; Ap 6:10). Este controle se vê na Sua criação do universo, descrita aqui em típica linguagem vétero-testamentária (SI 146: 6; Is 37:16). 25-26. Foi este Senhor soberano que profetizara nos Salmos os es­

36É possível que as congregações cristãs primitivas repetissem as orações, frase por frase, seguindo um “precentor”.

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ATOS 4:25-27 forços infrutíferos dos reis do mundo para se rebelarem contra Ele e o Messias. O pensamento implícito é, bem claramente, que é fútil para os homens urdir tramas contra o Deus que não somente criou o universo inteiro como também previu estas coisas vãs. A citação tem como prefá­ cio uma fórmula introdutória, cuja dificuldade se reflete na variedade de textos nos manuscritos. O sentido fica bastante claro: o texto diz que Deus falou por meio do Espirito Santo (o inspirador dos profetas) e por boca do Seu servo Davi (como instrumento humano). É aquilo que se diz em linguagem mais simples em 1:16. Não fica, porém, muito claro como sur­ giu a forma pouco dara do texto grego; pareceria que Lucas não tinha fei­ to uma revisão completa da sua obra, ou que o texto sofreu alterações nu­ ma etapa recuada. É interessante que Davi é descrito como servo de Deus (cf. Jesus, v. 27), seguindo o uso lingüístico do Antigo Testamento (2 Tm 3:18; 1 Rs 11:34; SI 89:3, 20).37 A citação propriamente dita é tirada de Salmo 2:1-2; v. 7 do mesmo Salmo é citado noutra parte do Novo Testa­ mento (13:33; Hb 1:5; 5:5; cf. os ecos do v. 9 em Ap 2:27; 12:5; 19:15). O emprego do termo Ungido (i.é Messias) tomou inescapável a aplicação a Jesus. No seu contexto original, o Salmo é geralmente considerado como tendo sido endereçado ao rei, ou na Sua coroação ou nalgum período.sub­ seqüente de crise quando era de valia relembrar a coroação, ocasião em que as promessas que Deus lhe fez são recitadas como encorajamento diante dos inimigos estrangeiros que ameaçam derrubá-lo; o Deus que chama o so­ berano de “meu filho” certamente denotará estes pequenos príncipes jactandosos. A reaplicação destas palavras ao Messias era natural, e se refle­ te nas palavras dirigidas do céu, a Jesus no Seu batismo (Lc 3:22). No presente contexto, são as palavras de abertura do Salmo que falam das tra­ mas infrutíferas dos povos e dos seus soberanos contra o Messias, que eram relevantes à situação imediata. 27-28. A dtação é interrompida,38 e a oração procede a comentar sobre ela. O Salmo expressa verdadeiramente aquilo que acontecera, pois mesmo ah em Jerusalém tinha havido uma coalização contra o Ungido de Dexis (10:36-38 nota), Seu santo Servo Jesus. A descrição enfatiza como Jesus pertenda a Deus (Santo, 3:14), e que foi por Ele nomeado 37

O emprego de pais aqui, ao invés de doulos, que consta na Septuaginta, talvez seja um paralelismo com v. 27, mas também pode representar um uso judaico independente; cf. Lc 1:69; Didaquê 9:2. 38

Gramaticamente ainda faz parte da invocação a Deus com a qual começa

a oração.

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ATOS 4:28-31 para ser o Messias. O termo pais, “servo”, tendo em vista o modo de o emprego do Salmo evocar o pensamento da filiação divina, pode ter aqui seu significado alternativo de “filho” , mas deve ser conservada a interpre­ tação usual (como em 3:13; 4:25). Os ‘reis . . . e as autoridades’ no Salmo são equacionados com Herodes e Pilatos', não importa que apenas um exem­ plo de cada se dta. Quanto aos “gentios e povos” (dois termos que se empregam em paralelismo sinônimo no Salmo), estes são equacionados com os gentios (i.é, os romanos) e povos de Israell39 A inclusão de Israel entre os inimigos do Messias marca o inído do modo cristão de entender que, na medida em que o povo de Israel rejeita o Messias, cessa de ser o po­ vo de Deus e pode ser dassificado com os gentios descrentes. Mesmo assim, tudo quanto era tramado e feito contra Jesus nada mais era do que aquilo que Deus predeterminou (2:23; 3:18). A referenda à mão de Deus que pre­ destinou o que ocorreu é expressão idiomática; pensa-se na mão poderosa de Deus que levou a efeito aquilo que a Sua vontade ordenou, o que inclui não somente a trama dos Seus inimigos, que Ele permitiu, como também a frustração e derrota deles. 29-30. Tendo em vista tudo isto, a igreja poderia agora trazer diante do Senhor a sua própria situação, confiante de que esta, também, estava sob o controle dEle. Orou assim ao Senhor: Olha para as suas ameaças (w. 17, 21), as dos seus oponentes, i.é, no sentido de tomar nota delas e agir à altura (cf. Is 37:17). “Suas ameaças” se referem de modo geral aos opo­ nentes de Jesus no v. 27, os quais, segundo se pensa, ainda estão ativos contra a igreja; é uma generalização natural de linguagem. A oração, no en­ tanto, não visa primariamente que os oponentes sejam aniquilados. Pelo contrário, supondo que tal coisa inevitavelmente acontecerá, a igreja pede forças para continuar o testemunho durante o período em que aqueles poderão ainda exercer a sua oposição. Os servos do Senhor predsam de co­ ragem (v. 13) para enfrentarem as ameaças contra eles, e para continuarem a prodamar a Palavra. Ao mesmo tempo, têm consdênda de quanto a eficáda da sua pregação foi ajudada pelas curas e outros sinais milagrosos ope­ rados pelo Senhor mediante o nome de Jesus, e oravam, pedindo a continua­ ção dos mesmos. 31. Foi notável o efeito da oração. O aposento em que estavam reuni­ dos os discípulos tremeu como se houvesse um terremoto. Este era um dos sinais que indicavam uma teofania no Antigo Testamento (Êx 19:18; Is 39

O emprego incomum do plural povos, em contraste com a palavra normal, “povo”, para Israel, deve-se à assimilação da redação do Salmo.

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ATOS 4:31-32 6:4), e teria sido considerado um indício da resposta divina à oração.40 0 sentido, portanto, é que Deus mostrou que estava presente e responderia a oração. Mais uma vez, o Espirito Santo veio sobre os discípulos, e estes receberam a confiança que pediram, para falarem a Palavra de Deus. Alguns comentaristas sugeriram que, por detrás desta breve descrição há uma tra­ dição variante dos fenômenos sobrenaturais no Pentecoste; foi até suge­ rido que, originalmente, a tradição descreveu um irrompimento do falar noutras línguas. São improváveis as duas sugestões. A história significa, sem dúvida, que os discípulos receberam um novo derramamento do Espírito, para capacitá-los a testemunhar de Jesus em ocasiões subseqüentes (2:4 nota).

e. Outro resumo da vida da igreja primitiva (432-37). A seqüela à história anterior começa em 5:12. O espaço de tempo entre os dois incidentes que diziam respeito à prisão dos apóstolos por te­ rem pregado preenche-se eficientemente com a narrativa de outro evento dos dias primitivos da igreja. Recebemos mais um resumo da vida interior da igreja e tira-se um contraste entre as atitudes de José Bamabé e de Ananias com sua esposa Safira, quanto à praxe de compartilhar dos bens em prol dos pobres. O maior espaço ocupado pela história de Ananias e Safira não deve levar à conclusão de que é este o incidente importante, sendo a seção anterior uma mera introdução para fixar-lhe o ambiente; pelo contrário, é mais provável que 4:32-35 descreve o padrão normal da vida cristã, que passa então a ser seguido por duas ilustrações, uma positi­ va e uma negativa, daquilo que aconteceu na prática. A passagens mostra considerável paralelismo com o resumo anterior em 2.4347. Representa a atitude em comum dos discípulos, bem como a sua generosidade na sua vida em conjunto. Esta comunhão estreita acom­ panhava a pregação dos apóstolos. Haenchen (pág. 232) sugere que Lucas estava querendo enfatizar que o dom do Espírito (v. 31) levava não so­ mente à pregação inspirada como também à comunhão e à generosidade cristãs. 32. Dois fatos caracterizavam a vida da comunidade cristã. A esco­ lha da palavra multidão reflete o crescimento no tamanho do grupo cris­

40Quanto a este tem a no pensamento pagão, ver Virgílio, Eneida 3:88-91.

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A TO S4:32-34 tão. A despeito do seu tamanho, tinha uma mentalidade e um propósito em comum; noutras palavras, era unida na sua devoção ao Senhor (para a expressão que se empregou, ver 1 Cr 12:38). 0 outro fato foi que nin­ guém considerava que seus bens estavam sujeitos ao seu próprio contro­ le, mas, sim, dispunha-se a deixá-los para o emprego da comunidade co­ mo um todo. Este modo de expressar a situação ressalta o fato que as coi­ sas que cada um possuía claramente ficavam sendo sua propriedade até que ficasse necessário vendê-las para o bem comum. As duas característi­ cas assim descritas correspondem, de modo lato, aos dois grandes manda­ mentos do amor (ou devoção) a Deus e do amor ao próximo. Foi notado, outrossim, que a fraseologia que se emprega para descrevê-las relembra a do filósofo grego Aristóteles para expressar os ideais para a vida humana na comunidade. Os ideais cristãos não são menos cristãos por também serem reconhecidos pelos moralistas seculares. 33. Entrementes, os apóstolos, como aqueles que foram especial­ mente chamados para serem testemunhas da ressurreição de Jesus, conti­ nuavam a testificar com grande poder a despeito da proibição dos judeus contra a sua pregação. O essencial é que falavam de tal modo, sob a orien­ tação do Espírito, que suas palavras foram eficazes em levar outras pessoas a crerem em Jesus. (A pregação cheia do Espírito também pode levar ao endurecimento da oposição contra quem fala, como em 6:10-11; 7:55-58. O importante é que semelhantes declarações não podem ser desconsidera­ das pelos ouvintes, mas, sim, os forçam a uma decisão, ou a favor do evan­ gelho, ou contra ele). Em todos eles havia abundante graça talvez signifi­ que que a graça de Deus operava poderosamente através deles (6:8; Lc 2:40); alternativamente, a palavra grega charis talvez tenha seu outro sig­ nificado de “favor”, e a lição da frase seria que o povo recebeu favoravel­ mente a pregação (2:47; Lc 2:25). O primeiro ponto de vista é preferível, por causa do paralelismo da construção com Lucas 2:40. Se todos eles se refere somente aos apóstolos, o argumento que diz que este versículo está deslocado e que originalmente seguia v. 31 obtém algum apoio. Se, porém, há referência à igreja inteira, então obtemos um e\o com v. 34. A atividade da graça de Deus não era vista meramente na pregação, mas também no modo segundo o qual os membros da igreja eram libertos dai falta material. 34-35. A promessa feita no Antigo Testamento ao povo de Deus, no sentido de que não haveria pobre entre eles (Dt 15:4) foi cumprida na igreja pela generosidade dos membros mais prósperos. Aqueles que ti­ nham propriedades ou casas as vendiam, e traziam os valores correspon­ -107-


ATOS 4:35-37 dentes aos apóstolos, que então os distribuíam aos necessitados.41 A refe­ rência aos pés dos apóstolos (4:37; 5:2) sugere algum tipo de transferên­ cia jurídica expressa em linguagem formal; é desnecessário acompanhar a sugestão de Síàhlin (p. 79) de que os apóstolos se sentavam em cadeiras altas, os protótipos dos tronos eclesiásticos posteriores! Agora, incidentalmente, percebemos por que a pregação dos apóstolos se mencionou em v. 33. Tinham, também, o fardo adicional de administrar os fundos cole­ tivos da igreja; e, embora esta tarefa talvez não fosse pesada logo de iní­ cio, dentro em breve foram necessários planos novos (6:1-6). 36. 0 exemplo da generosidade de Bamabé é destacado para menção especial, possivelmente por ser de vulto excepcional, e certamente porque Bamabé aparecerá mais tarde na história como líder cristão que era cons­ pícuo pela sua purà bondade (11:24). Seu nome, se supõe, refletia o seu ca­ ráter. Não fica clara a conexão entre “Bamabé” e “filho de exortação” , e há várias explicações do nome.42 Um “Filho de encorajamento” era uma pessoa que encorajava os outros, e Bamabé certamente fazia assim (9:27; 11:23; 15:37). Era levita de nascimento, membro da tribo judaica da qual se tirava alguns dos funcionários menos importantes do templo (Lc 10:32; Jo 1:19), mas a sua família decerto migrara para Chipre, onde havia uma população judaica de certo vulto (cf. 11:19; 13:4-5). 37. A lei antiga que proibia aos levitas a propriedade de terras (Nm 18:20; Dt 105) parece ter caído em desuso (Jr 32:7 e segs.). Não fica claro se o campo que pertencia a Bamabé ficava em Chipre ou na Pales­ tina; presume-se que era neste último lugar, pois v. 35 indica apenas que Bamabé nascera em Chipre. f. O pecado de Ananias e Safira (5:1-11).4 3 O segundo exemplo tirado da área da vida comunitária da igreja é negativo quanto ao seu caráter. É a história de como dois membros da comunidade procuraram obter crédito por um sacrifício pessoal maior 41 Lucas

sabe que nem todos os membros da igreja venderam as suas proprie­

dades (12:12). 42Ver S. Brock, “Barnabas: huios paraklêseõs”, JTS 25, 1974, pág. 93-98. 43

Ver J. D. M. Derrett, “Ananias, Sapphira, and the Right o f Property” , Down­ side Review 89, 1971, págs. 225-232, para vários entendimentos que estão incorpora­ dos naquilo que se segue.

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ATOS 5:1-5 do que aquele que fizeram, por meio de oferecer aos apóstolos apenas parte do preço de uma venda, fazendo esta parte passar pela totalidade. Quando Ananias viu que fora desmascarada a sua trama, e sendo acusado de mentir ao Espírito, caiu morto; e quando a esposa dele demonstrou a mesma intenção de enganar, ouviu o que era, em efeito,, a sentença de morte pronunciada contra ela, e morreu também.44 1-2. A palavra inicial, Entretanto, contrasta Ananias e Safira com Barnabé. Venderam uma propriedadè, mas retiveram parte do preço que receberam por ela,45 antes de trazer o respectivo dinheiro aos apóstolos para o fundo que a igreja mantinha para o bem-estar; colocar o dinheiro aos pés dos apóstolos significa que foi dado em custódia, e não como pre­ sente pessoal a estes. O verbo reteve é idêntico àquele que se empre­ gou para descrever a ação de Acã em reter parte dos despojos de Jericó, que deveriam ou ser entregues à casa do Senhor ou destruídos (Js 7:1). Há ainda outras semelhanças entre as histórias dos pecados destes dois homens e os seus castigos subseqflentes, mas são insuficientes para de­ monstrai que uma das histórias foi padronizada na outra; no máximo, demonstram que Lucas tinha consciência de uma semelhança tipológica entre elas. 3-4. Supõe-se que Pedro tinha o poder do discernimento espiritual, e de saber quando alguém mentia a ele. O poder que Deus tem para pers­ crutar os corações dos homens (Hb 4:13) também é dado ao apóstolo. A ação de Ananias é atribuída à inspiração de Satanás que é a contraparte maligna do Espírito. A expressão encheu o teu coração talvez represen­ te uma expressão idiomática que significa ‘levou-te a ousar” (Et 7:5; Ec 8:11; Metzger, págs. 327-8). As palavras de Pedro deixam claro que Ana­ nias tinha completa liberdade para conservar ou vender sua propriedade conforme bem entendesse. Seu pecado se achava na sua mentira ao Espi­ rito Santo e consistia, assim, não em dar uma mera parte do preço ao fun­ do comum, mas, sim, em alegar que o dinheiro representava a totalidade, e não apenas parte do preço da propriedade. Nem sequer se tratava apenas de procurar enganar os líderes humanos da igreja. Os líderes eram homens inspirados pelo Espírito e, portanto, eram os representantes de Deus. 5. A conseqüência imediata à declaração de Pedro foi que Ana-

44R. E. Browns, The Birth o f the Messiah (Londres, 1978), pág. 307. 45

Possivelmente se esteja considerando a ketubah da esposa, ou seja, a sua parti­ cipação nas propriedades do esposo (Derrett).

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ATOS 5:5-8 nias caiu morto. A morte devia ser considerada, sem dúvida alguma, um julgamento divino sobre seu pecado, embora nenhuma sentença de mor­ te se contenha nas palavras de Pedro. Do ponto de vista médico, tratava-se provavelmente de síncope cardíaca devida ao choque; “Ofender o Espíri­ to desta comunidade era, para os supersticiosos, uma coisa medonha e aterrorizadora” (Dunn, pág. 166). O efeito sobre os observadores deve ter sido bem devastador; grande temor talvez tenha ficado expressão por demais convencional aos nossos ouvidos para transmitir o senso de terror que deve ter havido. Harvey (pág. 417) nota que outras comunidades castigavam faltas semelhantes de modo igualmente drástico. A comuni­ dade de Cunrã expulsava do seu meio tais culpados, e se estes levassem a sério as regras acerca de nada comer senão a comida da comunidade, arricariam a morte pela fome. Outro grupo na Espanha castigava com a morte aqueles que secretamente retinham parte das suas propriedades par­ ticulares. Derrett argumenta que a morte do pecador teria sido encarada como expiação pelo seu pecado, em conformidade com o pensamento judaico sobre esta questão, mas há dúvida quanto a isto. 6. A morte foi seguida por um enterro sumário. O corpo foi envol­ to num pano e levado para um sepulcro, possivelmente fora da cidade. Não há motivo para supor que os moços se constituíssem em grupo espe­ cífico de oficiais da igreja, encarregado com os deveres menos sagrados, e muito menos em grupo de “noviços” segundo a analogia da situação em Cunrã. 7. Quase três horas depois pode ser calculado a partir da morte ou do enterro. Safira é retratada como quem nada sabia do acontecido. Os críticos insistem que é totalmente impossível, e que o detalhe foi in­ ventado impensadamente para criar a situação certa para a conversação que se seguiu. Os costumes normais a respeito do enterro e do pranto, porém, talvez não se aplicaram no caso de um pecador ter morrido por aquilo que. parecia ser a mão de Deus. 8. As palavras de Pedro sublinham a seriedade da situação. Ao invés de informar a viúva da perda dela, vai direto à questão do seu pecado. Ten­ do em vista o honor com o qual uma! comunidade antiga encararia seme­ lhante pecado, não precisamos achar surpreendente tal fato, ainda que adotaríamos uma atitude diferente em nosso ambiente cultural diferente. Safira recebe a oportunidade de contar a verdade e, portanto, mostrar al­ gum sinal de arrependimento da sua atitude anterior. Quando Pedro lhe perguntou se a soma doada à igreja representava o preço real obtido pela propriedade, persistiu em alegar que era. A alegação de Haenchen (págs. -

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ATOS 5:8-11 238-9) de que o versículo não visa indicar uma oportunidade para o ar­ rependimento mas, sim, meramente deixava-a envolver-se mais plenamente na culpa do seu marido, não tem base sólida senão o desejo dele de sempre atribuir a Lucas os piores motivos.46 Na realidade, a cifra mencionada por Pedro no v. 8 talvez fosse o montante real da venda e, neste caso, a respos­ ta de Safira seria uma confissão. 9-11. A ação do casal culpado é representada como sendo um mútuo acordo para tentar o Espírito, i.é, testar a Deus (assim como fizeram os is­ raelitas no deserto, Êx 17:2; Dt 6:16) para ver quanta coisa conseguem fa­ zer impunemente. Pedro pergunta retoricamente o que os levou a fazer as­ sim. Depois vem o aviso devastador de que aqueles que enterraram o mari­ do dela estão prontos a enterrar a ela, também. Trata-se de nada menos do que uma sentença de morte, que é seguida imediatamente pelo colapso de Safira no próprio local. Mais uma vez, é necessário lembrar-nos de que atestam-se ocorrências semelhantes a estas nas sociedades primitivas, onde uma maldição deste tipo pode ter um efeito cataclísmico ao causar a morte pelo choque. O duplo castigo afetou profundamente os cristãos bem como todos os demais que dele ficaram sabendo. £ neste contexto pouco auspicioso que Lucas emprega a palavra igreja (Gr. ekklèsia) pela primeira vez, para designar a comunidade cristã. A palavra significa uma “assembléia” e, portanto, as pessoas que a com­ põem. O ponto de vista de que significa “as pessoas chamadas para fora” deve ser abandonado de vez, pois depende de uma falsa derivação do sig­ nificado a partir da etimologia. Pelo contrário há, por detrás do termo, o emprego judaico de ekklèsia e synagõgè para traduzir palavras do Antigo Testamento que se referem à “assembléia” ou “congregação” do povo de Deus. O termo synagõgè veio a ser empregado especialmente dos lugares do culto judaico, e as suas associações com a lei judaica fizeram com que fosse um termo impróprio para os cristãos usarem. Adotaram a outra pa­ lavra e a empregaram para descrever a si mesmos como povo de Deus ou de Cristo. O emprego lingüístico de Lucas é o de um redator, e não dá a entender que foi esta a ocasião histórica em que o termo veio a ser usado; julgava, porém, que a esta altura os discípulos tinham uma entidade corpo­

460 retrato feito por Haenchen, com o apóstolo ainda assentado na sua cadei­ ra, ininterruptamente durante três horas, com o dinheiro deixado aos seus pés, é pura fantasia.

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ATOS 5:12-13 ral, e que declaravam-se o verdadeiro povo de Deus.47

g. O crescimento contínuo da igreja (5:12-16). Lucas, antes de chegar à narrativa do segundo ataque contra a igreja pelas autoridades judaicas, nana em termos gerais como as atividades da igreja estavam aumentando a tal ponto que as autoridades sentiam que deviam, mais uma vez, empreender ações contra ela. O quadro geral é de um poderoso ministério de cura que fez uma impressffo poderosa sobre o povo e ajudou a espalhar o evangelho para fora de Jerusalém. Ao mesmo tempo, havia uma combinação paradoxal de temor da parte do povo, na medida em que se espalhava a história da morte de Ananias e Safira, junta­ mente com o desejo para afiliar-se à igreja. Não é improvável a combina­ ção destas duas atitudes — as pessoas supersticiosas achariam que o evan­ gelho era confirmado pelos poderes milagrosos dos apóstolos, mesmo quan­ do estes poderes eram vistos em ações punitivas. Mesmo assim, o modo de as declarações serem juntadas (w. 13a e 14 não se encaixam muito bem, e v. 15 se acrescenta de modo frouxo) sugere que Lucas fez uso de certo número de tradições separadas ao redigir esta declaração geral. 12. A seção liga-se diretamente com a oração em 4:30, no sentido de Deus ajudar no testemunho da igreja, mediante a operação de sinais e prodígios. As mortes de Ananias e Safira podiam ser encaradas como exemplos destes, mas Lucas agora está pensando no ministério de cura exercido não somente por Pedro (3:1-10) como também pelos demais apóstolos; infelizmente, não possuímos detalhes das atividades destes úl­ timos. A narrativa das curas continua nos w . 15-16, e este fato levantou a sugestão de que a ordem dos versículos foi alterada em data antiga (Sfáhlin, pág. 186). V. 12b, portanto, procede a um tema novo. Descreve comotodos —presumivelmente os cristãos em geral, e não apenas os apóstolos — se reuniram no Pórtico de Salomão (3:11). 13. Dos restantes é uma expressão enigmática, e já foi sugerida que o texto originalmente se referisse às autoridades judaicas, em contras­ te com o povo mencionado na segunda parte do versículo. Em Lucas 8:10,

47Vei mais em I. H. Marshall, “New Wine in-Old Wineskins: V. Ekklésia", E T 84, 1972-73, pags. 359-364; L. Coenen, NIDNTT, I, pág, 291-307; (em português, vol. II, art. Igreja).

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ATOS 5:13-16 no entanto, a palavra se emprega daqueles que não são discípulos, e pare­ ce que veio a ser quase um termo técnico para os não-crentes (1 Ts 4:13; 5:6); seria este o sentido aqui. Outro problema é levantado pela palavra traduzida ajuntar-se (kollaomaí), especialmente tendo em vista a declaração no v. 14. C. Burchard demonstrou que significa “aproximar-se” 48 e, por­ tanto, a cláusula simplesmente significa que os judeus descrentes se man­ tinham à distânda dos cristãos e os deixavam em paz. Talvez tivessem medo de que uma lealdade apenas parcial os levaria ao julgamento. Se, porém, era o medo que os afastava, mesmo assim, não poderiam deixar de louvar os cristãos à medida em que ficavam impressionados por aquilo que faziam. 14-15. A despeito da reverência que impedia que o povo se introme­ tesse com o grupo cristão enquanto se reunia, havia, mesmo assim, um grupo sempre maior de convertidos que criam e eram acrescentados ao Se­ nhor (11:24). Como resultado da reputação dos cristãos, mais e mais pessoas procuravam a cura física da parte dos apóstolos, e especialmente de Pedro. Os doentes eram levados até pelas ruas onde Pedro haveria de passar (cf. a descrição semelhante em Mc 6:56). As pessoas esperavam que se ao menos a sua sombra caísse sobre elas, seriam curadas. A idéia de que as sombras tinham poderes mágicos, tanto benéficos quanto malévolos, era corrente no mundo antigo, o que explica a motivação do povo.49 Crenças semelhan­ tes acerca dos poderes de Paulo são atestadas em 19:12. Lucas relata este detalhe como prova especial da reputação de Pedro entre o povo; conside­ rava-se que tinha poderes excepcionais de cura. É outra questão, porém, quanto a Pedro ou Lucas terem compartilhado da superstição que o povo indubitavelmente demonstrava; ver 19:12 nota. 16. Um aspecto novo é a divulgação da reputação da igreja às cida­ des vizinhas a Jerusalém. A implicação é que, nesta etapa, Pedro e os de­ mais apóstolos se confinavam a Jerusalém, de tal modo que era necessá­ rio que os doentes fossem levados a eles. Mais tarde, passariam a ser iti­ nerantes como missionários. h. A segunda prisão dos apóstolos (5:17-42). O ponto culminante desta seção da história é a prisão e o julgamen48C.

Burchaid, “Fussnoten zum neutestamentlichen Griechisch I ”, ZNW 61, 1970, pags. 159-160. 4Q P. W. van der Horst, “Peter’s Shadow: the Religio-Historical Background o f Acts 5:15” , N TS 23,1976-77, pägs 204-212.

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ATOS 5:17-19 to dos apóstolos, pela segunda vez (no caso de Pedro e Joio). Este inci­ dente se distingue do anterior pelo fato de terem sido libertados à noi­ te, indo logo de manhã cedo continuar sua pregação rio templo. Lucas obviamente tinha prazer no humor da situação enquanto o concílio fica­ va reunido em sessão, aguardando que os prisioneiros fossem trazidos; não havia a mínima idéia de que estes já estavam de volta ao templo. Aos apóstolos foi relembrado que já uma vez foram proibidos de pregar, e que sua reação fora uma recusa total de obedecer. O tribunal teria o direito de proceder ao castigo dos apóstolos —quanto ao mandar a sua execução, duvida-se da sua autoridade —mas foi refreado pela intervenção de Gamaliel, que aconselhou uma abordagem moderada, pois indicou que seria estultíde atacar um movimento que possivelmente tivesse o apoio divino (parece que o aluno dele, Saulo, não compartilhava do seu ponto de vista, 8:1-3; 9:1): será que Gamaliel pensava que poderia haver alguma verdade na história da ressurreição de Jesus como vindicação divina do Servo de Deus? O conselho dele prevaleceu, mas o concílio não estava disposto a deixar passar em branco o modo da autoridade dele ter sido desrespeita­ da, e mandou açoitar‘os apóstolos. Estes, por sua parte, estavam bem dis­ postos a continuarem a testemunhar a despeito do risco do castigo. Na realidade, estavam em segurança por enquanto, pois nada mais havia para o tribunal fazer, enquanto seguia a política de Gamaliel. 17-18. Mais uma vez, a inidativa contra os apóstolos foi tomada pelo sumo sacerdote e o grupo dos saduceus dentro do Sinédrio (4:1); o grupo dos fariseus, representando por Gamaliel, não aparece até mais tarde na narrativa. Diz-se que o motivo dos saduceus foi a inveja, i.é, a ir­ ritação diante do sucesso da igreja (13:45; há alguma possibilidade, no en­ tanto, que aqui a palavra zèlos signifique “zelo religioso” dirigido contra os oponentes da religião tradidonal judaica, cf. Fp 3:6). Prenderam os apóstolos e os recolheram à prisão. 19. Durante a noite, os apóstolos escaparam da prisão. A soltura deles é atribuída a um anjo do Senhor. Trata-se de uma figura do Antigo Testamento (7:30, 38) que também aparece no Novo Testamento para trazer mensagens importantes (Lc 1:11; 2:9) ou para operar atos mila­ grosos (8:26; 12:7, 23). Lucas certamente encara o inddente como sen­ do milagroso, ou, pelo menos, é assim que o apresenta. Histórias de portas que se abrem milagrosamente e de grilhões* das prisões que se soltam são bastante comuns no mundo da antiguidade,50 mas isto nada comprova a S0J. Jeremias, TDNT, III, págs. 175-6.

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ATOS 5:20-27 respeito da historicidade deste incidente específico. 20. O anjo age como porta-voz de Deus ao ordenar aos apóstolos que vão falar no templo todas as palavras desta Vida. O templo era o lugar apro­ priado para tal proclamação, não somente por ser um lugar bem-freqüentado, como também, adma de tudo, por ser o lugar onde Deus escolheu tornar-Se conheddo ao povo de Israel. A frase todas as palavras desta Vida é semelhante à “palavra desta salvação” (13:26; em Siríaco, “vida” e “salva­ ção” se expressam com a mesma palavra). É estranho o emprego de esta (cf. 22:4), mas talvez seja simplesmente um truque de estilo de Lucas. 21. Embora ainda fosse cedo, os apóstolos acharam no templo uma audiênda; não é de se surpreender, de modo algum, sendo que a atividade diária começava bem cedo. Não deu, porém, tempo para as notídas chega­ rem aos membros do Sinédrio. O Sinédrio e todo o senado dos filhos de Israel é expressão dupla para um só grupo de pessoas. Não se sabe com cer­ teza onde se situava a câmara do concílio, mas provavelmente não ficava dentro do recinto do templo. 22-23. Os guardas do concílio foram mandados em missão infrutí­ fera para o cárcere, pois acharam tudó em segurança, mas sem os presos den­ tro dele. Deve-se concluir que, assim como fica subentendido na história em 12:18-19, os guardas estavam inconsdentes durante o escape dos prisionei­ ros, e que as portas foram trancadas de novo após a partida deles; como conseqüênda, não havia motivo para suspeitar que os prisioneiros tivessem escapado, a não ser a esta altura. 24-26. Como resultado da notída, os membros do concilio ficaram perplexos quanto aos acontedmentos. Alguns deles, tais quais Gamaliel, decerto contaram com a operação de influêndas sobrenaturais. Foi somen­ te a esta altura que veio do templo a notída de que os apóstolos estavam em liberdade e que continuavam a sua pregação. Foi feita uma segunda tenta­ tiva de apreender os apóstolos, desta vez com sucesso. Lucas nota que a detenção foi feita padficamente, indicação esta de como as autoridades re­ conheceram que os apóstolos tinham o apoio do povo, e que este último talvez reagisse violentamente ao emprego da força. Podemos observar que nem aqúi, nem em qualquer outro lugar, os cristãos respondem com violênda ao serem presos; já fora apreendida a lição de Lucas 22:50-51.. 27-28. O sumo sacerdote deu inído ao processo ao relembrar aos apóstolos que já tinham sido proibidos de pregar (4:18); embora a advertênda tivesse sido endereçada a Pedro e João, obviamente se dirigia contra a.igreja na sua totalidade. Longe de serem obedientes, os apóstolos tinham enchido Jerusalém com os ensinos deles. Além disto, foram acusados de -115-


ATOS 5:28-31 procurar jogar a culpa pela morte deste homem — o sumo sacerdote evita a menção do nome de Jesus — sobre as autoridades judaicas. Os cristãos, ao acusarem os líderes judaicos de assassinarem o Messias, a quem Deus pas­ sou a ressuscitar dentre os mortos, estavam efetivamente conclamando contra eles a retribuição divina. Os líderes judaicos consideravam a morte de Jesus como sendo o resultado do julgamento legítimo de um malfeitor; os cristãos estavam alegando que se tratava de um ato de assassinato, e que os líderes judaicos, portanto, eram homens culpados. 29. A resposta de Pedro à acusação é uma reafirmação mais clara e direta daquilo que dissera em 4:19. Uma ordem de Deus, tal como aque­ la que foi dada em 5:20, tem a precedência sobre os mandamentos huma­ nos. O custo de ser um cristão é estar disposto a obedecer a Deus antes do que aos homens - e suportar as conseqüências. 30. Pedro, tendo respondido à primeira parte da acusação no v. 28, continuou, reafirmando a declaração atribuída aos apóstolos na segunda parte daquele versículo, a saber: a culpa dos líderes judaicos. Voltou a lembrar-lhes de que Deus ressuscitara entre os mortos a pessoa que mata­ ram na cruz. Não fica claro se Deus . . . ressuscitou a Jesus se refere ao fato de Ele ter trazido Jesus ao palco da história (Bruce, Livro, pág. 121) ou ao Seu ato em ressuscitá-Lo; cf. 3:26; 13:33-34. Parece mais provável a segunda hipótese. O que Pedro ressalta é que foi o Deus ancestral dos judeus que as­ sim fizera. Quando os líderes judaicos mataram a Jesus, agiram contra o Deus a Quem alegadamente adoravam. Nem sequer poderiam transferir a responsabilidade, se fosse esta a sua inclinação, por meio cje atribuir aos romanos a morte de Jesus, pois foram eles mesmos os responsáveis por sub­ meterem Jesus àquilo que pode ser considerado uma forma judaica de exe­ cução, descrita no Antigo Testamento como “pendurar num madeiro” (Dt 21:22-23; cf. Atos 10:39; 13:29; G1 3:13); pode-se perguntar se há aqui um indício da idéia, desenvolvida por Paulo, de que uma pessoa que assim morria era considerada sujeita à maldição de Deus (Dt 21:23). 31. Este Crucificado, no entanto, foi Aquele que Deus exaltou para ficar à Sua destra (234; SI 110:1) e para ser um líder e Salvador (3:15) através de Quem o povo de Israel tivesse a oportunidade para o arrependi­ mento e para receber o perdão dos seus pecados. Aqui está a oferta da sal­ vação ao próprio povo que crucificou a Jesus; os apóstolos aproveitam a oportunidade dada pelo tribunal para pregar o evangelho aos acusadores e juizes. A descrição de Jesus se assemelha à de Moisés em 7:35, a implicação é que o primeiro agora substitui o último como mediador da salvação pa­ ra Israel. Esta é a primeira ocorrência fora dos Evangelhos da descrição de -116-


ATOS 5:32-34 Jesus como Salvador, embora já tivesse sido empregada (2:21; 4 5 , 12). É um título que tende a restringir-se aos Livros posteriores do Novo Tes­ tamento (Paulo o emprega pela primeira vez em Fp 3:20), e, portanto, foi sugerido que Lucas aqui emprega um vocábulo de data avançada; tendo em vista, porém, o emprego generalizado do termo “salvar” e “salvação” na igreja primitiva, é uma suposição precária, e talvez seja meramente o caso que os escritores neotestamentários não tivessem ocasião para empre­ gar o título antes.s 1 A declaração de que Deus concede o arrependimento é de significância; o pensamento é que Deus, ao nomeai Jesus como Sal­ vador, dá aos pecadores uma oportunidade para o arrependimento que, doutra forma, não teriam. 32. A breve mensagem do evangelho é confirmada pelo testemu­ nho dos apóstolos que podiam declarar que viram o Jesus ressürreto. Jun­ tamente com eles, o Espírito também é mencionado como testemunha (1 Jo 5:7), o pensamento parece ser que o dom do Espírito, dado à igre­ ja, testifica adicionalmente à glorificação de Jesus, posto que o Espírito é considerado a dádiva do Messias glorificado. Pedro acrescenta delibera­ damente que são aqueles que obedecem a Deus (v. 29!) que recebem o Espírito. 33. As palavras de Pedro nada fizeram para recomendar seu ponto de vista aos seus ouvintes — pelo menos, quanto ao elemento saduceu no Sinédrio. Enfureceram-se (7:54) e sua vontade era mandar executar os apóstolos. Não fica claro se tiveram qualquer fundamento legal para as­ sim fazer. 34. Nesta altura, porém, houve uma intervenção algo surpreendente. Nos Evangelhos, os fariseus aparecem, de modo bastante consistente, como opositores de Jesus (e.g. Lc 5:21, 30; 7:30; 11:53; 15:2; 16:14), e é certo que Jesus criticou fortemente o comportamento religioso deles, que consi­ derava hipócrita (e.g. Lc 11:39-52; 12:1; 16:15; 18:9-14). Os fariseus, re­ presentados pelos escribas, também formavam parte do Sinédrio que con­ denou Jesus à morte (Lc 22:2; cf. Mat 27:62). Mesmo assim, há sinais de uma atitude mais favorável a Jesus da parte dalguns dos fariseus em Lu­ cas (Lc 7:36; 1137; 14:1). Não se mencionam diretamente em nenhum dos Evangelhos em conexão com a condenação de Jesus, e em Atos achamos al­ guns fariseus que se tomaram cristãos (15:5; 23:6); Paulo alega que, quanto

s l Ver mais em E. M. B. Green, The Meaning o f Salvation (Londres, 1965), págs. 136-151.

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ATOS 5:34-36 à fé, os fariseus ficam mais perto dos cristãos do que dos saduceus (23:6-9), e alguns dos escribas tomam a parte dele sendo os saduceus representados como os verdadeiros oponentes dos cristãos (235). Talvez não seja, portan­ to, tão estranho assim que um líder dos fariseus se levantasse para advertir contra a adoção de medidas extremas contra os cristãos. Gamaliel I (que, na tradição judaica, se confunde com seu neto, Gamaliel II) era um ensinador farisaico de destaque, que pertencia à “escola” mais moderada fundada por Hillel, e que era renomado pela sua piedade. Sua proposta era que o tribu­ nal passasse para sessão secreta. 35. Assim como em 4:15-17, surge o problema de se Lucas tinha aces­ so a relatórios daquilo que o Sinédrio dizia por detrás de portas fechadas; não podemos esperar aqui um relato verbatim do processo, embora seja no­ tável quão facilmente informações secretas passam ao domínio público. Essencialmente, porém, Gamaliel estava pleiteando reserva e cautela na decisão acerca daquilo que se devia fazer no caso dos apóstolos. Alegou, ci­ tando dois exemplos, que os movimentos de origem humana ficariam em nada sem qualquer interferência da parte das autoridades judaicas; do ou­ tro lado, se o movimento foi inspirado por Deus, seria perigoso empreender ação contra ele. Mais precisamente, argumentou que, uma vez mortçs os líderes de movimentos em massa, os seguidores deles logo perdiam entu­ siasmo pela causa deles; agora que Jesus estava morto, não era necessário empreender ações contra Seus discípulos. 36. A escolha que Gamaliel fez dos exemplos históricos causa algu­ mas dificuldades. Em primeiro lugar, refere-se a um homem chamado Teudas que alegava ser alguma coisa (i.é, um profeta ou pretendente mes­ siânico) e agregou ao redor de si 400 seguidores. Quando foi morto (pelos romanos), seus seguidores foram dispersos e a questão deu em nada. Josefo, pois (Ant. 20:97-98) narra: “Durante o período em que Fado era Pro­ curador da Judéia /44-46 d.Ç./, certo impostor chamado Teudas persuadiu a maioria das massas a levarem consigo os seus pertences, e a seguirem-no até o rio Jordão. Dedarou que era profeta, e que, mediante o seu manda­ mento, o rio se separaria e lhes daria uma passagem fádl. Com estas conver­ sas, enganou a muitos. Fado, porém, não permitiu que ceifassem os frutos da sua estultíde, e enviou contra eles um esquadrão da cavalaria. Este caiu sobre eles de modo inesperado, matou muitos deles e fez muitos prisionei­ ros. O próprio Teudas foi preso, e imediatamente o decapitaram e trouxe­ ram a sua cabeça a Jerusalém” . É óbvio que este pode ser um relato mais completo do mesmo inddente. Há dois problemas: (1) Posto que Gamaliel estava falando muito antes de 44 d.C. (o ano em que morreu Herodes -118-


ATOS 5:36-39 Agripa I, 12:20-23), uma referência ao Teudas mencionado em Josefo seria anacronística nos lábios dele. (2) Gamaliel passa a descrever o levan­ te de Judas depois desse-, mas o levante de Judas ocorreu em 6 d.C., antes do incidente de Teudas em Josefo. Assim, segundo se argumenta, Lucas faz Gamaliel cometer um anacronismo e colocar as duas histórias em or­ dem invertida. Argumenta-se que Lucas foi levado a este erro ao enten­ der mal a Josefo, cuja narrativa passa, depois da história de Teudas, a men­ cionar os filhos de Judas e depois a explicar, entre parênteses, quem era es­ te Judas e como encabeçou uma revolta contra Roma. Esta suposição é altamente improvável, no entanto, posto que as obras de Josefo somente foram publicadas em c. de 93 d.C., e sendo que Lucas não poderia ter obtido dele os detalhes da história (os 400 homens). Há, portanto, muita coisa em favor das seguintes sugestões: ou que Josefo confundiu suas datas ou (mais provavelmente) que Gamaliel se refere a outro Teudas, desconhe­ cido fora desta referência. Visto que houve inúmeros levantes quando morreu Herodes Magno, e visto que “Josefo descreve quatro homens com o nome de Simâo no decurso de quarenta anos, e três com o de Judas den­ tro de dez anos, todos os quais foram instigadores de rebeliões” (citado por Knowling, pág. 158), esta sugestão não deve ser rejeitada sem mais consi­ deração. 37. Judas, o galileu foi um rebelde contra as novas instituições dos impostos que entraram em vigor quando Arquelau foi deposto em 6 d.C., e os romanos tomaram o governo direto da Judéia (Jos. Ant. 18:4, 23; 20:102). É somente em Atos que se registra que ele foi executado, o que é inteiramente provável. Quanto ao relacionamento entre o censo para propósitos do imposto, aqui mencionado, e aquele que se menciona em Lucas 2:1-2, ver os comentários sobre Lucas. 38. Gamaliel tira a moral dos seus dois exemplos. O Sinédrio não de­ via agir contra os cristãos. Haenchen (pág. 257) lança dúvidas sobre o va­ lor comprobatório dos exemplos: foi necessário aos romanos eliminarem aos seguidores de Teudas e Judas! O raciocínio de Gamaliel, porém, tal­ vez fosse que o Sinédrio devesse deixar aos romanos tais medidas. Se, afi­ nal, o movimento cristão for de origem humana, ficará em nada. Este con­ selho significará os planos dos apóstolos no sentido de desobedecerem ao Sinédrio, ao passo que esta obra deve significar a totalidade da atuação cristã na pregação e na cura. 39. Se, do outro lado, o movimento cristão tem em Deus a sua ori­ gem, vencerá a oposição humana. Pior ainda: é possível que o Sinédrio se ache na posição de quem está lutando contra Deus. Já foi notado que as -119-


ATOS 5:39-42 construções gregas nas duas cláusulas paralelas nos w. 38b e 39a são um pouco diferentes, o que levanta a pergunta: há alguma diferença sutil quanto ao sentido das duas frases condicionais? Segundo Bruce, a primeira cláusu­ la “se” tem o efeito de “se acabar sendo” , mas a segunda dáusula “se” expressa aquilo que Lucas considera mais provável e, portanto, coloca de modo mais direto; mesmo assim, “não podemos argumentar que Gama­ liel considerava mais provável a segunda alternativa; a interação entre as construções pertence ao grego de Lucas, e não ao aramaico de Gamaliel”, {Atos, pág. 149). 40. Os argumentos de Gamaliel tiveram o efeito de refrear os sadu­ ceus entre os membros do Sinédrio. Quandos os apóstolos foram reconvocados diante do tribunal, voltaram a ser admoestados a não falarem em nome de Jesus, e a admoestação foi enfatizada com açoites. Este era o cas­ tigo judaico de “quarenta açoites menos um” , que o Sinédrio ou os ofidais de uma sinagoga podiam aplicar no caso de transgressões contra a lei judai­ ca (22:19; 2 Co 11:24; Mc 135). Não se tratava de uma opção suave; têm havido mortes causadas por este castigo, embora fossem excepdonais. Pre­ tendia ser uma lição séria para os transgressores. 41-42. Não somente o castigo fracassou, quanto ao causar desâni­ mo aos cristãos (v. 42), como também os encheu de júbilo. Sofreram igno­ mínia e dores físicas e, portanto, num sentido mais palpável, não deveriam estar se sentindo felizes. Ao mesmo tempo, porém, sua reação foi de rego­ zijo, porque Deus os considerara dignos de aceitarem a sua porção de so­ frimento por amor ao evangelho, ou, conforme a expressão aqui, por amor ao Nome (21:13; 3 Jo 7), i.é, de Jesus. Aqui temos um exemplo concreto do “alegrar-se nos sofrimentos” que deve ser a marca que destaca o cris­ tão sob perseguição (1 Pe 4:13; cf Mt 5:11-12; Rm 5:3-4; 2 Co 6:10; 1 Pe 1:6-7). Finalmente, conforme se poderia esperar, a experiência deles nada fez para diminuir o ardor do testemunho dos Apóstolos sobre Je­ sus como Messias. É provável que o Sinédrio pouca coisa podia fazer para impedi-los de evangelizarem nos seus lares. Mesmo assim, também conti­ nuaram as suas atividades no templo, sem serem molestados por algum tempo, segundo parece.

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ATOS 6:1

III. A IGREJA COMEÇA A SE EXPANDIR (6:1-9:31)

a. A nomeação dos Sete (6:1-7). Os cinco primeiros capítulos de Atos testemunharam a implantação da igreja em Jerusalém, e os começos da oposição a ela por causa da sua pregação de Jesus. Na seção principal seguinte de Atos, vemos como a obra missionária da igreja começou a expandir-se de várias maneiras. Em pri­ meiro lugar, temos a história do aumento da igreja em Jerusalém, e sua difu­ são entre os judeus de língua grega; foi isto que leVou ao martírio de Estê­ vão (6:1-8:3).52 Em segundo lugar, temos a extensão da igreja para a Sama­ ria (8:4-25). Em terceiro lugar, há a conversão de um etíope (8:2640). Em quarto lugar, há a conversão de Saulo, que haveria de ser o missioná­ rio mais importante aos gentios (9:1-30). A perseguição judaica dos gen­ tios chegou ao cúmulo na morte de Estêvão, mas, ao mesmo tempo, este inddente leva à expansão geográfica da igreja e, portanto, ao inído do tes­ temunho fora dos rigorosos limites do judaísmo; prepara-se o terreno pa­ ra a questão crítica do lugar dos não-judeus dentro da igreja. A narrativa começa com uma crítica dos arranjos para o cuidado dos pobres na igreja, feita pelos cristãos de língua grega e, como resultado, os Doze, que até então tinham cuidado do assunto (4:35), reconheceram que era grande demais o seu fardo de trabalho, e que estavam sendo des­ viados do seu dever primário. Sete homens, portanto, foram nomeados para encarregar-se da obra, e foram instalados mediante a imposição das mãos. É digno de nota que procurava-se qualificações espirituais nos homens nomeados para tais tarefas dentro da igreja. Parece provável que os homens nomeados fossem da parte da igreja de língua grega que levantara a queixa. Dois deles, Estêvão e Filipe, pas­ saram a se distinguir pelo mesmo tipo de atividade evangelística dos Doze. Descobriremos, também, que aquilo que Estêvão dizia estava aberto à in-

52M. Hengel, “Zwischen Jesus und Paulus” , Z T K 72, 1975, págs. 151-206.

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ATOS 6:1 terpretação de que criticava o templo e a lei. Estes fatos sugeriram a muitos estudiosos que a queixa acerca da ajuda aos pobres não passava de sintoma de um problema mais profundo, a saber: os cristãos de língua aramaica e os de língua grega estavam se dividindo em dois grupos separados, sendo este último mais radical com sua atitude para com o judaísmo, e que o que real­ mente temos neste incidente é a nomeação de um grupo de líderes para os cristãos de fala grega. Alguma sugestão deste tipo é inerentemente provável, embora não exista a necessidade de ir tão longe como alguns estudiosos que contam com a existência na igreja primitiva de dois grupos virtualmente separados, cada qual com seu ponto de vista teológico distintivo. Parece, pelo contrário, que os dois grupos estavam em mútuo contato, mesmo que tivessem seus cul­ tos separados nos seus próprios idiomas, e que os Doze tinham autoridade geral sobre toda a igreja, ao passo que os Sete eram líderes da seção de língua grega. Embora Lucas os retrate,formalmente como sendo encarrega­ dos da assistência aos pobres, não disfarça o fato de serem líderes espiri­ tuais e evangelistas. 1. Lucas indica como o problema da igreja chegou a uma crise parcialmente como resultado do seu número sempre maior de crentes. Os termos hebreus e helenistas (9:29; 11:20) obviamente devem ser definifidos como contrastes. Depois de muitos debates, chegou-se a um con­ senso de que os hebreus eram judeus que conheciam um pouco o grego, além de falarem uma língua semítica. Podemos supor com segurança que quase todos os judeus sabiam pelo menos um pouco de grego, por ser esta a língua franca do mundo do Mediterrâneo oriental. A língua semítica que falavam era mais provavelmente o aramaico do que o hebraico pro­ priamente dito. Os helenistas, por contraste, eram judeus que falavam gre­ go, e que conheciam pouco aramaico, ou até -mesmo nenhum. Estes grupos decerto tenderiam a adorar como judeus, na sua própria língua, e estapraxe continuaria quando se tomassem cristãos. O primeiro destes grupos seria principalmente de origem palestina, ao passo que o último seria prin­ cipalmente composto de judeus da Dispersão que vieram habitar em Jeru­ salém. Este último grupo estava mais aberto a influências sincretísticas do que o primeiro; deve-se ressaltar, no entanto, que tinham forte senso de serem judeus; os judeus helenísticos vinculavam-se estreitamente com o templo.53 A queixa que partiu dos helenistas dizia respeito à falta de aten­ S3Ver I. H. Marshall, “Palestinian and Hellenistic Christianity”, N T S 19,197273, págs. 271-287. -

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ATOS 6:1-6 ção às viúvas entre eles, nos cuidados que a igreja tinha para com os po­ bres; tem sido notado que muitas viúvas vinham da Dispersão para termi­ nar seus dias em Jerusalém. Não poderiam trabalhar para se sustentar, e se esgotaram o seu capital, ou o doaram, poderiam estar grandemente necessitadas. 2-4. É somente aqui que Lucas se refere aos apóstolos como sendo os doze (mas ver 1:26; 2:14), provavelmente por causa do contraste que lo­ go surgiria com “os Sete” . Responderam à crítica que, em última análise, era dirigida contra eles, ao reconhecerem que a tarefa combinada do ensino e da assistência aos pobres era grande demais para eles. Na realidade, não conseguiam cumprir devidamente nenhuma parte dela. Os seus cuidados para com os pobres chegaram a ser criticados, e eles mesmo sentiam a con­ vicção que não estavam dedicando a devida atenção às suas orações e ao seu ministério da palavra. Não se sugere necessariamente que servir às mesas está num nível mais baixo do que as orações e o ensino; a ênfase dirige-se ao fato de que tarefa à qual os Doze foram especificamente chamados1 era de testemunho e evangelização. A solução ao problema era nomear um novo grupo de líderes para servir às mesas. Embora o verbo “servir” pro­ venha da mesma raiz do subs. que em Português se traduz por “diácono” , é digno de nota que Lucas não se refira aos Sete como sendo diáconos; a tarefa deles não tinha nome formal. A escolha de sete homens estava «m consonância com a praxe judaica de nomear juntas de sete homens para deveres específicos. Os homens escolhidos deviam distinguir-se por possuí­ rem sabedoria (6:10; 7:10, 22) e o Espirito, i.é, a sabedoria inspirada pelo Espírito; podemos reconhecer um paralelo com a nomeação de Josué (Nm 27:16-20). 5-6. A proposta feita pelos Doze foi submetida a uma assembléia da igreja, e foi aprovada. A escolha dos sete candidatos foi feita pelos membros da igreja, e não pelos próprios apóstolos. Todos os sete nomes são gregos, o que sugere que eles não eram judeus palestinianos; é verda­ de que havia judeus palestinianos com nomes gregos (André, Filipe), mas, a não ser no caso de Filipe, estes nomes eram improváveis para palesti­ nianos. Estêvão e Filipe ficam em primeiro lugar na lista em razão da sua importância subseqüente na história, e a descrição mais completa de Estê­ vão como homem de fé nos prepara para o papel importante que haveria de desempenhar. O último nome na lista é o de um prosélito, que teria a condição de judeu; de pleno direito. O Filipe nesta lista é pessoa dife­ rente de Filipe, o apóstolo (ver 8:5; 21:18-19). Depois de os homens te­ rem sido escolhidos, foram colocados diante dos Doze que os investiram -

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ATOS 6:6-8 no seu cargo ao orar por eles, impondo-lhes as mãos.54 A narrativa inteira relembra aquela da escolha de Matias (1:15-26), mas o paralelo mais exa­ to é a narrativa da nomeação de Josué como sucessor de Moisés em Nú­ meros 27:15-23, mediante a imposição das mãos. O rito indicava um reves­ timento de autoridade, e a oração feita na ocasião era para o poder do Espí­ rito encher os que recebiam esta consagração (cf. Dt 349). Um rito seme­ lhante se empregava na nomeação dos rabinos, mas não há certeza se este remontava até ao século I d.C. Ver mais em 8 :17; 9 :17; 13:3; 19:6. 7. Lucas descreve o efeito das novas nomeações em termos de um aumento do testemunho cristão. Empregando uma frase predileta (12:24; 19:20), diz que crescia a palavra de Deus;55 aumentou-se a sua proclama­ ção e esta era eficaz para ganhar convertidos. Como resultado, continuou a aumentar o número dos discípulos e, em especial, havia conversões entre os sacerdotes. Tem-se a impressão, portanto, que expandia-se a obra dos apóstolos entre os “hebreus” ; depois, ficamos sabendo da obra entre os “helenistas” nos w 8 e segs. Supõe-se que os sacerdotes se ligavam ao tem­ plo em Jerusalém; deles, havia grande número (estimado em 18.000 sacer­ dotes e levitas cumpriam os seus deveres por uma quinzena por ano, con­ forme uma lista de turnos; Lc 1:8). A teoria de que se trata de sacerdotes que pertenciam à comunidade de Cunrã e que não se davam bem com o templo é improvável. Obedeciam à fé significa obedecer à chamada à fé contida no evangelho (cf. 2 Ts 1:8).

b. A controvérsia acerca de Estêvão (6:8-15). Os cristãos de língua grega começaram agora a atingir seus compa­ triotas judeus com o evangelho. Estêvão levou a efeito um ministério apos­ tólico de pregação e cura. Enfrentou oposição da parte de membros das s i ­ nagogas de língua grega, que finalmente apelaram ao método de inventar acusações contra ele, no sentido de ele atacar “Moisés e Deus ou, mais especificamente, de que dizia que Jesus mudaria as leis e os costumes que Moisés dera, e que também destruiria o templo. Estas acusações não so­ mente enfureceram os judeus de língua grega, de modo geral, mas também S4L. Morris, Ministers o f God (Londres, 1964), págs. 59-60, 88, pensa que foi a congregação que impôs as mãos sobre os Sete. Não há, de qualquer maneira, qual­ quer conceito da “ sucessão apostólica”. 55 J. Kodell, “ T h e Word o f God grew’ ” , Bib. 5 5 ,1 9 7 4 , págs. 505-519.

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ATOS 6:8-9 os líderes judeus de língua hebraica, que faziam parte do concílio que ouvia as acusações contra Estêvão. É importante notar que Lucas descreve estas acusações como sendo falsas (v. 13). O discurso subseqüente de Estêvão no capítulo 7 mostrará por que Lucas pensava serem elas falsas. Mesmo assim, é provável que Es­ têvão tenha dito alguma coisa que pudesse ter sido tordda por seus opo­ nentes neste sentido. Certamente, havia alguma base nalgumas das coisas que Jesus dissera, para a existênda do ensino cristão deste tipo (a crítica que Jesus fez do modo de os escribas interpretarem a lei, e as Suas profe­ cias da destruição do templo). Parece provável que Estêvão tenha ido mais longe do que os Doze em enfatizar este ensino. Se atacou a elaboração da lei, feita pelos escribas, isto contaria como um ataque contra Moisés, e se atacou os judeus por vincularem ao templo a presença de Deus, isto basta­ ria para levar à oposição que encontrou. É digno de nota que foi a mesma preocupação zelosa para com o templo, da parte dos judeus da Dispersão, que formou a ocasião para a prisão posterior de Paulo (21:28). Alguns críticos notaram que Lucas omitiu o inddente das falsas testemunhas no julgamento de Jesus (Mc 14:57-58), e argumentaram que induiu o tema aqui, para contrabalançar. O aspecto repetidoso do relato de Lucas (cf. w 11, 13 e 14), porém, sugere fortemente que ele aqui esteja seguindo alguma fonte por escrito, embora talvez tenha enfatizado a correspondênda entre os ataques contra Jesus e os contra Estêvão. 8. A descrição de Estêvão: cheio de graça e poder, provavelmente visa tirar o paralelo entre ele e os apóstolos (4:33). Os dons que ele possui advêm de ser ele cheio do Espírito Santo —fator este, conforme devemos notar, que estava presente antes de ser ele nomeado como um dos Sete. Não fica daro em que sentido se entende graça aqui, mas, como em 4:33, provavelmente indique o poder gradoso de Deus. 9. A atividade de Estêvão susdtou oposição dos membros das si­ nagogas, seja dentro dos prédios das sinagogas onde Estêvão se punha em pé para falar em nome de Jesus, ou do lado de fora deles. Os Libertos eram prisioneiros romanos (ou os descendentes de tais prisioneiros) que mais tarde receberam a liberdade. Sabemos que o general romano Pompeu to­ mou prisioneiros grandes números de judeus, que mais tarde foram liber­ tados em Roma, e é possível que aqui haja menção a estes. Não é certo o reladonamento entre os outros nomes dos grupos locais e o dos Libertos. Vários estudiosos têm postulado qualquer número de Sinagogas, desde uma (para todos os vários grupos) até dnco (uma sinagoga para cada grupo). Ao passo que Bruce (Livro, pág. 133), pensa em termos de uma sinagoga -125 -


ATOS 6:9-14 dos libertos dentre os quatro grupos mencionados, a construção grega fa­ vorece duas sinagogas, uma para os primeiros três grupos (Libertos, Cire­ neus, Alexandrinos), e uma para os dois outros (os da Cilicia e da Ásia). Era natural que os grupos nacionais formassem suas próprias sinagogas para a adoração em Jerusalém,56 e seriam freqüentadas tanto pelos imi­ grantes que habitavam em Jerusalém como por visitantes casuais. 10-11. Jesus prometera a ajuda do Espírito (Lc 12:12) e a sabedoria (Lc 21:15) aos Seus discípulos quando fossem chamados para se defende­ rem. A igreja primitiva provou a veracidade desta promessa. Seus membros sempre conseguiam oferecer provas em prol da sua fé, que dificilmente seriam derrubadas pelos argumentos. Quando os opositores de Estêvão nâo conseguiram vencê-lo no debate, induziram algumas pessoas a fazer acusações públicas contra ele, testificando que o ouviram blasfemar contra Moisés e contra Deus. Embora no uso lingüístico posterior a blasfêmia di­ zia respeito ao uso do nome inefável de Deus, o uso neotestamentário de­ monstra que, nestes tempos, o termo se empregava para qualquer violação contra o poder e a majestade de Deus. Para uma definição mais exata das acusações, devemos examinar os w . 13-14. 12-14. O clamor levantado pelos judeus de língua grega sublevou ao povo de modo geral, juntamente com os membros do Sinédrio, levando-os a prender Estêvão e fazer um inquérito sobre o assunto. É estranho que os sacerdotes não são mencionados aqui, juntamente com os demais membros do Sinédrio. Os judeus de língua grega levantaram testemunhas para deporem contra Estêvão diante do concílio. Alegaram (falsamente, segun­ do Lucas) que Estêvão estava continuamente atacando o templo e a lei. Mais precisamente, estava declarando que Jesus destruiria o templo e altera­ ria os costumes transmitidos por Moisés. Os costumes, sem dúvida, s2o as tradições orais que contêm a interpretação da lei segundo os escribas; considerava-se que estas tanto quanto a lei escrita tinham sua origem emMoisés. Um ataque contra a lei oral, portanto, era o equivalente a um ata­ que contra a lei na sua totalidade. NSo temos outras informações para de­ monstrar se Estêvão estava continuando o ensino de Jesus nesta área. Quanto ao ataque contra o templo, sabemos que Jesus profetizou a sua des­ truição (Lc 21:5-6) e que esta acusação figurava no Seu julgamento, na forma de Ele ter declarado que destruiria o templo e o substituiria por ou-

5 6Eram necessários apenas dez homens paia formarem o núcleo de uma sina­ goga.

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ATOS 6:14-15 tro (Mc 14:58; 15:29; cf Jo 2:19). A versão que João dá desta declaração mostra que foi interpretada como referência à substituição do culto mate­ rial no templo pela adoração da comunidade dos discípulos. “Por detrás dos textos, temos à nossa disposição um núcleo histórico no qual Jesus, ao criticar o templo e ao ensinar a sua substituição, referiu-Se à Sua pró­ pria Pessoa. Representava, Ele mesmo, a nova dimensão da comunhão com Deus que haveria de ultrapassar o culto antigo. No seu aspecto negativo, tratava-se de uma aguda crítica contra o templo propriamente dito e o seu culto; no seu aspecto positivo, significava uma nova comunhão com Deus, centralizada nEle mesmo, que tomava o lugar do templo” .5 7 Se Estêvão compreendia esta linha de pensamento,58 é fácil perceber como poderia ter sido entendida pelos oponentes num sentido negativo e superficial, dando-lhes uma base óbvia para a acusação deles de que Estêvão atacara o templo. Se é esta a situação, então o ponto de vista de Haenchen (pág. 274) de que Lucas transferiu a falsa acusação contra Jesus quando Ele foi julgado, para este contexto, cai por terra como explicação desnecessária dos fatos. O pensamento de que a igreja era a substituição divinamente estabelecida para o templo provavelmente deve ser visto em 15:16-18. 15. Quando os membros do concílio olharam para o acusado, pron­ tos para ouvirem aquilo que diria em defesa própria, pareceu-lhes que seu rosto era como se fosse rosto de anjo. Esta expressão é incomum, e tem um paralelo na versão apócrifa de Ester (15:13), onde Ester fala da aparência gloriosa do rosto do rei, como que de um anjo, e na famosa descrição de Paulo, feita no século II d.C., como quem às vezes tinha o rosto de anjo. Trata-se da descrição de uma pessoa que fica perto de Deus, e reflete algo da Sua glória, como resultado de estar na Sua presença (Êx 34:29 e segs.). É uma vindicação divina de Estêvão, e uma indicação da sua inspiração para fazer a sua defesa.

c. O discurso de Estêvão no tribunal (7:1-53). Se o cumprimento for uma base de comparação o discurso de Estê-

s7 B. Gartner, The Temple and the Comm unity in Qumran and the N ew Tes­ tament (Cambridge, 1965), págs. 120-121. 58A. Cole, The N ew Temple (Londres, 1950); mas ver R. J. MacKelvey, The N ew Temple (Londres, 1969).

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ATOS 7:1 vão é uma das seções mais importantes de Atos.5 9 Mesmo assim, ainda há muita disputa acerca do propósito deste discurso. Quanto à forma, é um re­ cital prolongado da história veterotestamentária, e debate em detalhe as­ pectos que não parecem ter grande significânda, e culmina num ataque amargo contra, os ouvintes. 0 que é que o preletor procura fazer? O discurso realmente é uma defesa contra as acusações levantadas contra ele (6:11, 13-14)? Seu pensamento é sem igual em Atos, ou é uma contribuição cui­ dadosamente feita à mensagem total de Atos? E qual é a sua estrutura? Sugeriríamos (seguindo Bruce, Atos, pág. 161) que dois temas percor­ rem o discurso: (1) Deus, no decurso da história do Seu povo, levantou ho­ mens para serem libertadores deste, mas os judeus repetidas vezes os rejei­ taram e desobedeceram à lei dada por Deus. Depois de tratar do estabele­ cimento da nação mediante a chamada divina de Abraão e as Suas promes­ sas a ele (7:2-8), o discurso trata de José, que foi rejeitado pelos seus irmãos, mas preservado por Deus (79-16), e depois, mais pormenorizadamente, de Moisés, que veio libertar seu povo mas foi rejeitado por este (7:25,3943). (2) Os judeus tinham o tabernáculo no deserto e, mais tarde, o templo edi­ ficado por Salomão, mas desviaram-se para a idolatria (7:3943), e come­ teram o erro de pensar que Deus realmente habitava no templo (7:44-50). Estes dois temas se misturam no discurso. Podemos perceber que estes dois temas correspondem às acusações feitas contra Estêvão. (1) Longe de falar contra a lei ou de dizer que Jesus a alteraria, Estêvão argumentou que, no passado, foram os próprios judeus que rejeitaram a Moisés e ao Deus a Quem ele adorava. Praticavam o culto idólatra, resistiam aos profetas e os matavam, e deixavam de guardar a lei. (2) Estêvão argumentou que os judeus tinham tido, sucessivamente, o ta­ bernáculo (que era levado de lugar em lugar) e o templo, como lugares onde deviam adorar a Deus, mas o próprio Deus declarara que não Se vinculava a estes lugares. Se, portanto, Estêvão tivesse falado de um novo ‘lugar” para se adorar a Deus, seria de acordo com os ensinos do Antigo Testamento. Segue-se, pois, que o discurso cumpre pelo menos três propósitos:

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A literatura e imensa. Vei M. Simon, S t Stephen and the Hellenists in the Primitive Church (Londres, 1958); J. Bihler, Die Stephanusgeschicte im Zusammenhang der Apostelgeschichte (Munique, 1963); Scharlemann; Wilkens, págs. 208-224; J. Kilgallen, The Stephen Speech (Roma, 1976); H. J. B. Combrink, Structural Analysis o f A cts 6:8-8:3 (Cidade do Cabo, 1979); G. Schneider, “Stephanus, die Helenisten und Samaria” , em Kremet, págs. 215-240.

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ATOS 7:1 (1) É uma defesa contra as acusações feitas contra Estêvão. Nega impli­ citamente que falou contra a lei de Moisés, e se faz defensor da lei. Justifica a sua atitude de crítica do templo e do culto nele prestado. (2) É um ataque contra os judeus por deixarem de obedecer à revelação dada a eles no Anti­ go Testamento, e por rejeitarem ao Messias e ao novo modo de adoração que Ele trouxe. (3) Como conseqüência, o discurso desempenha seu papel na história total de Atos, ao mostrar que os judeus, aos quais o evangelho foi pregado em primeiro lugar, o rejeitaram, preparando, desta forma, o caminho para a igreja afastar-se de Jerusalém e do templo, a fim de evan­ gelizar em lugares mais distantes e, finalmente, entre os gentios. Não se nega que Lucas tenha dado forma escrita ao discurso, para encaixá-lo no plano total de Atos. Embora o discurso seja marcantemente diferente, quanto ao conteúdo, dos demais discursos diante de auditórios judaicos que já lemos, mesmo assim, quanto ao estilo, tem afinidades com a seção histórica do discurso dado por Paulo em Antioquia da Pisídia (13:16-23), que trata com mais pormenores do período da momarquia antiga; quanto ao conteúdo, tem vinculações com o discurso de Paulo em Atenas, que condenou a crença de que os deuses habitavam em templos (17:24-25). Noutros aspectos, também, o discurso encaixa no conceito geral que Lucas dá da história da salvação. Contudo, isto não significa que o discurso é a composição do próprio Lucas, sem base histórica. Muitos críticos reconheceram que, neste discurso, pode-se detectar fontes por detrás da redação de Lucas.60 Certos aspectos (ver especial­ mente 7:4, 14-16, 37), foram, conforme se pensa, devidos ao emprego da versão samaritana no Pentateuco, e tinham afinidade com o ponto de vista dos samaritanos,61 a limitação destes aspectos a este discurso seria evidência que apontaria em direção ao emprego por Lucas de matérias tradicionais. O argumento em prol do emprego do Pentateuco samaritano, no entanto, já foi criticado de modo convincente,62 e as conexões sama-

60Wilckens, pág. 208 (mas ele baseia seu argumento parcialmente sobre a ale­ gada incompatibilidade entre o discurso e a sua posição em Atos). J. Bihler, op. cit., e outros consideram o discurso como composição puramente lucana. 61Scharlemann, especialmente págs. 36-51, emprega a evidência como parte do seu argumento em prol da autenticidade substancial do discurso. 62

R. Pummer, “The Samaritan Pentateuch and the New Testament” , N T S 22, 1975-76, págs. 441-443; K. Haacker, NID NTT, III, págs. 464-466. (em portu­ guês, vol IV, art. Samaritano). -

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ATOS 7:1-3 ritanas, na melhor das hipóteses, síío fracas. Foram achadas, outrossim, co­ nexões com o judaísmo helenístico, que não seria surpreendente no pen­ samento de Estêvão. Podem ter significância algumas semelhanças entre a exegese que Estêvão fez do Antigo Testamento e aquela praticada por ju­ deus helenísticos tais como Filo, mas o judaísmo helenístico de modo ge­ ral sustentava fortemente o templo e a lei. Tentativas no sentido de fazer relacionamento entre o ponto de vista deste discurso e o de outros cristãos primitivos ou de grupos primitivos cristãos (tais como o escritor aos hebreus)6 3 não levaram a resultados cer­ teiros. Parece duvidoso, de modo especial, que possamos atribuir a Estê­ vão uma visão da missão mundial da igreja, com base neste discurso. O que é novidade é a atitude crítica para com o templo, que, segundo parece, não fora expressada antes, e nunca foi compartilhada pela seção da igreja que falava aramaico.64 O modo de argumentação de Estêvão, com seu longo recitativo his­ tórico, talvez nos pareça estranho. Mesmo assim, tem precedentes nos redtativos semelhantes da história no Antigo Testamento (e.g. SI 78, 105, 106). Estêvão, ao escolher este estilo de apresentação, podia demonstrar que a conduta atual dos judeus era a mesma de seus ancestrais, e que, ao mesmo tempo, Deus continuava a operar conforme fizera no passado. Dessarte, podemos esperar achar aqui o emprego deliberado da lingua­ gem tipológica, o que acontece a uma parte da linguagem que se empre­ ga acerca de Moisés, a qual sugere um paralelo entre ele e Jesus. Embora, portanto, Jesus seja mencionado uma só vez no discurso (7:52), e alguns críticos tenham argumentado que nem Estêvão nem o seu discurso eram cristãos (mas, sim, judaicos helenísticos),6s um ponto de vista cristão permeia todo o discurso. 1-3. Estêvão respondeu ao convite do sumo sacerdote como pre­ sidente da reunião do Sinédrio com uma saudação cortês aos seus com­ patriotas judeus. Não perde tempo nos preliminares, que, segundo pare­ ce, não eram exigidos no Sinédrio embora fossem normais nos fóruns helenísticos, e entra diretamente na sua matéria com uma descrição de como Deus chamara Abraão para ser pai da nação. Descreve Deus como sendo o Deus da glória (SI 29:3), talvez para ressaltar desde o início a 63W. Manson, The Epistle to the Hebrews, Londres, 1954. Ver as críticas de Scharlemann, págs. 165-175. 64Contraste a atitude positiva de Tiago e Paulo, 21:23-26; 2 5 :8. 6S0 ’Neill, págs. 89-94.

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ATOS 7:3-5 transcendência do Deus que não habita num templo feito com mios. Tal­ vez tenha importância que dá o detalhe de Deus aparecer a Abraão na Mesopotâmia: a revelação que Deus faz de Si mesmo não se confina à terra dos judeus, e muito menos ao templo. A Mesopotâmia era nome aplicado à “terra entre os rios” , a área ao norte entre o Tigre e o Eufrates, no Ira­ que moderno, mas no uso helenístico se aplicava à área maior que induía a Babilônia no sul. Logo, podia referir-se ao território onde se situava Ur. Harã situava-se ao noroeste da Mesopotâmia, e ficava no caminho da Pa­ lestina através do “crescente fértil” . O mandamento divino dado a Abrãao, e aqui reproduzido, é dado em Gênesis 12:1, onde, na realidade, é falado em Harã. Visto, porém, que fica claro em Gênesis 15:7 e Neemias 9:7 que Deus chamou a Abraão para sair de Ur, pode-se supor razoavelmen­ te que uma chamada divina veio a ele ali antes de ele viver em Harã; e, na realidade, Filo tirou a mesma conclusão. Seria natural supor que a subs­ tância da mensagem divina dada em Ur fosse a mesma daquela que foi dada em Harã e que, portanto, não há necessidade de dizer que Lucas errou nes­ te particular. É deliberado o desvio do relato em relação a Gênesis 11:3112:5. 4-5. Assim, Abraão partiu da sua terra natal, em obediênda à chama­ da divina. De inído, ele e a sua família estabeleceram-se em Harã. Nesta ocasião, segundo se supõe, ainda estava sob o controle do seu pai Terá, que nunca saiu de Harã. Conforme Gênesis 11:26, 32, Terá tinha setenta anos quando nasceu Abraão, e morreu com a idade de 205 anos em Harã; em Gênesis 12:4, Abraão tinha setenta e dnco anos de idade quando dei­ xou Harã, sessenta anos antes da morte deste, e não depois, conforme asse­ verava Estêvão. Visto que Filo concorda com Estêvão em dizer que Abraão deixou Harã depois da morte do seu pai, Terá, e visto que a versão samaritana de Gênesis diz que Terá tinha 145 anos quando morreu, fica claro que Estêvão aqui seguia uma tradição variante do texto de Gênesis. Já que o próprio Lucas usualmente segue a LXX, e não conhecemos qualquer versão grega de Gênesis com esta diferença textual, talvez tenhamos aqui evidênda no sentido de que Lucas estava seguindo fontes documentárias, ao invés de compor livremente o discurso. O destino de Abraão era esta terra em que vós agora habitais. O pen­ samento implídto é que a promessa divina, feita a ele, já foi cumprida, sendo que os descendentes dele agora vivem na terra prometida. Para Abraão, no entanto, ainda era a terra prometida. Ele próprio não recebeu possessão alguma nela —nem sequer o espaço de um pé, diz Estêvão, empre­ gando uma frase bíblica de Deuteronômio 25. Até mesmo a promessa que -131 -


ATOS 7:5-8 Abraão recebeu deve ter parecido vã, pois não tinha filho (cf. Rm 4:16-22, que descreve a força da fé que Abraão tinha na promessa de Deus a despei­ to de seu cumprimento parecer impossível). É verdade que Abraão fez a compra de uma sepultura (Gn 23), mas Estêvão tem razão em deixar de lado este fato; um cemitério está longe de ser um lugar para viver ou um símbolo de uma habitação futura. É verdade, outrossim, que teve outros filhos antes e depois de Isaque, mas nenhum destes foi considerado o her­ deiro prometido. Somente alguma intervenção divina poderia levar a efeito o cumprimento da promessa. 6-7. Segue-se uma promessa adicional. É introduzida de modo negati­ vo, como profecia de que quando Abraão finalmente chegasse a ter descen­ dentes, seriam peregrinos e escravizados num país estrangeiro durante 400 anos; é somente depois disto que Deus julgaria os seus feitores e traria o Seu povo para servi-Lo em Canaã. Assim, o cumprimento da promessa que Deus deu a Abraão demonstra-se pelo fato de Estêvão e seus contemporâneos estarem em Jerusalém, onde podiam adorar a Deus. Ao mesmo tempo, talvez haja aqui a repetição do pensamento de que Deus estava com Seu povo durante seu exílio da Palestina. A profecia é citada de Gênesis 15:1314, e a referência diz respeito à permanência no Egito. Quatrocentos anos é uma cifra arredondada (contrastar Êx 12:40); surgem problemas quando comparamos a declaração cronológica em Gálatas 3:17, mas estes são a preocupação de um comentarista sobre Gálatas, pois Estêvão meramente segue o que se diz em Gênesis 15:13. A primeira parte do v. 7 dta Gênesis, mas a segunda parte contém palavras tiradas do Êxodo 3:12. Este versículo prometeu a Moisés que, depois de o povo ter deixado o Egito, adoraria a Deus “neste monte” , a saber, o Horebe (Sinai), ao passo que Estêvão disse neste lugar, com referência a Canaã. Assim, Estêvão dá aos seus ou­ vintes uma paráfrase daquilo que Deus disse a Abraão, empregando lingua­ gem bíblica baseada em Êxodo 3:12. Vai além daquilo que Gênesis literal­ mente diz, para tirar esta lição que ali não está explícita mas que razoavel­ mente pode ser considerada implícita. 8. Como sinal da promessa, Deus deu a Abraão o rito da circunci­ são. Fez com este uma aliança, e o sinal da validez desta aliança era o rito da circuncisão (Gn 17:10). A aliança foi a promessa de Deus no sentido de que seria o Deus de Abraão e dos seus descendentes, fazendo deles obje­ tos do Seu cuidado especial; do lado humano, a submissão ao rito da cir­ cuncisão era o sinal de decidação a Deus. Não há sinal algum da oposição de Estêvão à circuncisão propriamente dita; o rito ficou sendo um assun­ to de contenda somente quando gentios incircuncidados vieram a ser mem­ bros da igreja. Lake e Cadbury parafrasearam o assim no começo da segun­ -132-


ATOS 7:8-13 da parte do versículo como: “Destarte, embora ainda não houvesse lugar santo, foram cumpridas as condições essenciais da religião de Israel” (BC, IV, p. 72); talvez se trate de um exagero, mas fica implícito na narrativa que Abraão recebeu a promessa de Deus enquanto ainda não possuía terri­ tório algum em Canaã. Foi como resultado daquela promessa, e em obe­ diênda ao mandamento com ela assodada, que ficou sendo pai de Isaque e o circuncidou (Gn 21:4), e assim começou a linhagem que levou ao nasdmento dos patriarcas, os doze filhos de Jacó. 9-10. Assim, Estêvão chega à história de José, que forma a segunda seção prindpal do seu discurso (w. 9-16). É registrada segundo os simples fatos, e não fica sendo claro qual a lição teológica dos pormenores. É pro­ vável que Estêvão aqui demonstra como foi cumprida a profecia no v. 6, e, ao mesmo tempo, indica como o povo, representado pelos irmãos de José, começou o processo de oposição aos líderes nomeados por Deus, mas Deus vindicou aquele que destinara para governar. Assim, a história começa com a inveja, ou dúmes, dos irmãos de José quando, este teve sonhos que revelaram sua futura posição superior (Gn 37:11), e conti­ nua, dizendo que o venderam como escravo (Gn 37:38; 45:4). Deus, po­ rém, estava com ele nas suas aflições e o libertou delas (Gn 39:2, 21).66 Deu a José graça perante Faraó como resultado da sabedoria que revelou ao interpretar os sonhos de rei e nos seus planos para enfrentar a fome vindoura (Gn 41:38-39, 41; SI 105:16-22). Podemos notar como a sabedo­ ria se assodava espedalmente com o Egito (7:22); o próprio Lucas a assoda com Estêvão (6:3,10), e também com Jesus (Lc 2:40,51). 11-13. A parte seguinte da história se ocupa em mostrar como a família de Jacó desceu ao Egito. Estêvão nana, de forma resumida, a his­ tória que os seus ouvintes certamente conhedam bem, dizendo que a fo ­ me que sobreveio ao Egito também provocou aflições em escala mundial (Gn 41:57), e afetou a Canaã em especial (Gn 42:5). Talvez seja enca­ rada como uma forma de retribuição divina sobre os irmãos de José; de qualquer forma, ficou sendo o meio de enviá-los para o Egito, para com­ prar trigo dos armazéns que ali existiam, conforme Jacó ficou sabendo (Gn 42:1-5). Na segunda vez José se fez reconhecer por seus irmãos (Gn

66Não fica claro se há aqui uma alusão tipológica ao modo de Deus livrar Jesus das Suas aflições, e ao modo de Ele estar com os cristãos nas aflições deles (At 14:22; 20:23).

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ATOS 7:14-16 45:3).67 14-16. Como resultado do Faraó ter conhecido a família de José, este foi convidado a estabelecer-se no Egito, e assim, o grupo inteiro, in­ clusive Jacó, desceu ao Egito. A cifra de setenta e cinco pessoas se baseia na LXX de Génesis 46:27 e Êxodo 1:5, ao passo que o texto hebraico tem 70. O total maior é obtido ao omitir Jacó e José e incluir os outros sete filhos de José. Nos dois casos, a cifra é o total dos descendentes de Ja­ có que desceram ao Egito ou ali nasceram. E ali, todos eles morreram. Mes­ mo assim, embora ainda não fosse cumprida a promessa da volta à terra do Canaã, seu sepultamento ali pode ser visto como expressão da fé no sen­ tido de que, no devido tempo, Deus cumpriria a Sua promessa. É complicado o relacionamento entre a história do enterro e as tra­ dições do Antigo Testamento. Segundo Atos, todos foram enterrados em Siquém, no sepulcro que Abraão ali comprara a dinheiro aos filhos de Emor. (1) Segundo Génesis 49:29-32; 50:13, Jacó foi sepultado na caver­ na de Macpelá perto de Hebrom, que Abraão comprara de Efrom o heteu (Gn cap. 23). (2) José foi sepultado em Siquém (Js 24:32), num terreno que Jacó comprara dos filhos de Hamor (Gn 33:18-20). (3) Josefo declara que os demais filhos de Jacó (e, por implicação, o próprio Jacó) foram sepulta­ dos em Hebrom (Jos., Ant. 2:199), e esta tradição também se acha em Ju­ bileus e nos Testamentos dos Doze Patriarcas. (4) Havia uma tradição local em Siquém que os doze filhos de Jacó ali foram enterrados. Parece, por­ tanto, que Estêvão difere da narrativa do Antigo Testamento ao localizar em Siquém, e não em Hebrom, o túmulo que 'Abraão comprou, e ao acres­ centar o detalhe acerca dos irmãos de José, que também foram sepultados ali. Bruce {Livro, pág. 149 n. 39), sugere que assim como Estêvão uniu no v. 2 as duas chamadas de Abraão, em Ur e em Harã, e as duas mensagens divinas no v. 7, aqui também uniu em forma breve as duas narrativas de compras de terra em Canaã. Parece provável que Estêvão tenha seguido uma tradição segundo a qual não somente José (sendo este, talvez, o referido na expressão ali morreu ele, e não Jacó, em 15b), mas também os irmãos des­ te foram enterrados em Siquém, e que atribuiu a Abraão a compra da sepul­ tura ao incluir uma alusão à história em Gênesis cap. 23. O interesse por Si­ quém e a ênfase dada àquela cidade é surpreendente num discurso dirigido

67A sugestão de que talvez haja referência tipológica à segunda vinda de Jesus como ocasião em que os judeus que deixaram de reconhecê-lo como Messias na Sua primeira vinda passarão a fazê-lo parece muito improvável.

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ATOS 7:17-23 a judeus em Jerusalém, mas certamente não podiam contestar o fato de que José foi sepultado no território samaritano odiado. Nada há de sacrossanto na Judéia como lugar de sepultamento; haverá aqui, talvez, também uma preparação sutil dos leitores de Lucas para a história da evangelização da Samaria (8:5-25)? 17-19. Estêvão agora chega à terceira parte, a mais longa, do seu dis­ curso, que diz respeito principalmente a Moisés.68 Enquanto se aproxima­ va o tempo do cumprimento da promessa feita por Deus (v. 7), os descen­ dentes de Abraão cresciam em número (Êx 1:7). O clímax chegou com o surgimento de um novo rei egípcio que não conhecia a José (Êx 1:8). O sig­ nificado é que ou ignorava José e seus bons atos em prol do Egito ou (tal­ vez mais provavelmente) preferiu esquecer-se dele tendo em vista a ameaça que enxergava no poderio crescente dos israelitas. Dominou-os, portanto, ao cruelmente forçá-los a enjeitar seus filhos (Êx 1:10-11,22). 20-22. Moisés agora chega ao cenário, e sua vida se descreve em três partes, que correspondem a cada um dos três períodos de quarenta anos dos quais compôs-se a sua vida (ver v. 23). O primeiro período é aquele da sua vida inicial no Egito. A descrição se dá em termos de um padrão tríplice formal, e trata do seu nascimento, da sua criação e da sua educa­ ção posterior (ver 2:23 e nota). Quando nasceu, era de boa aparência (Êx 2:2; Hb 11:23). O. acréscimo diante de Deus talvez signifique que achara favor com Deus (cf. 23:1) ou talvez reflita uma expressão idiomática he­ braica, que significa que era uma criança em excelentes condições (cf. Jn 3:3). Depois de resistir durante três meses o decreto que exigia o enjeitamento das criancinhas, os pais finalmente abandonaram a Moisés, mas a filha de Faraó o achou, e o criou (Êx 2:1-10). Embora este aspecto não fosse expressamente relatado no Antigo Testamento, Estêvão segue a tradição, atestada em Filo, de que Moisés naturalmente receberia uma edu­ cação totalmente egípcia.. A declaração de que era poderoso em palavras e obras (cf. Lc 24:19, dito de Jesus), talvez pareça conflitante com Êxodo 4:10, mas não devemos atribuir muita exatidão literal às observações de auto-depreciação feitas por Moisés, que pouco mais eram do que um pretex­ to para evitar uma tarefa que não quis enfrentar. 23-25. Chegou uma crise na vida de Moisés quando completou qua­ renta anos. A idade de Moisés nesta altura não se dta no Antigo Testa­ mento, mas a dedaração de Estêvão concorda com a opinião dalguns rabi­

68Não fica certo onde termina a seção. Ver 7:41-43, nota.

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ATOS 7:23-30 nos judaicos; a cifra, portanto, provavelmente pretende ser apenas número redondo. “Quarenta” era a idade em que a pessoa “ficava adulta” (Êx 2:11). De modo semelhante, o Antigo Testamento nada diz acerca da decisão de Moisés de ir visitar seus compatriotas, embora seja esta uma inferência natural da história (Êx 2:11). A escolha das palavras talvez vise entender que Deus implantou a idéia na mente de Moisés, e que o pensamento era de preocupação positiva para com os israelitas.69 Esta preocupação se expres­ sou quando atacou e matou um egípcio que estava oprimindo um dos israe­ litas. Segundo a história no Antigo Testamento, Moisés escondeu o cadáver na areia e não quis que pessoa alguma soubesse o que fizera. Estêvão decerto interpretou este fato em termos de Moisés não querer que alguém hostil soubesse do caso e o relatasse às autoridades (cf. Êx 2:14). A esperança de Moisés, pois, conforme a interpretação de Estêvão, era que os israelitas reconhecessem que tinham um amigo e aliado em posição de influência, através de quem Deus lhes queria trazer a libertação, salvá-los da sua triste situação como escravos. Lucas, sem dúvida, esperaria que seus leitores cristãos vissem aqui um paralelo entre Moisés e Jesus como salvadores do povo de Deus, independentemente de se os ouvintes de Estêvão perceberiam a lição: o comportamento dos judeus, ao recusarem-se a reconhecer a Jesus como Salvador harmonizava-se com sua rejeição anterior de Moisés (7:52). 26-29. O incidente foi imediatamente seguido por outro, que confir­ mou a interpretação que Estêvão tinha dado àquele. Quando Moisés desco­ briu uns (i.é, israelitas), brigando entre si, procurou recondliá-los, apelan­ do a eles a fim de que se comportassem como irmãos. Aqui Estêvão gene­ raliza a narrativa do Antigo Testamento que diz que Moisés tomou a defe­ sa de um homem sofrendo opressão, e repreendeu seu opressor (Êx 2:13). O modo de Estêvão expressar o fato ressalta a atividade de Moisés como recontiliador. Seus esforços, no entanto, foram em vão, o malfeitor veemen­ temente o atacou por querer constituir-se autoridade e juiz (Êx 2:14), deixando, portanto, de reconhecer que era Deus que assim o nomeara. Seu conhecimento hostil de que Moisés matara o egípcio se constituiu em ameaça implícita àquele, e. assim Moisés julgou necessário fugir do país (e da ira de Faraó, Êx 2:15), e tomou-se peregrino na terra de Midiã. Estabeleceu-se ali por suficiente tempo para criar uma família (Êx 2:2122; 1834). 30-34. Deduz-se de Êxodo 7:7 que passaram-se quarenta anos depois

69Para visitar neste sentido, ver Lc 1:68; 7:16.

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ATOS 7:30-36 de Moisés matar o Egípcio.10 Agora chegou o ponto decisivo na vida de Moisés quando foi confrontado pela visão de um anjo no monte Sinai numa sarça que ardia. A vista atraiu a sua atenção; parece que ele achou extraordinário o fato de que a sarça continuava a arder sem a chama diminuir-se, e que a alusão ao anjo era um modo metafórico de falar da presen­ ça de Deus na sarça (Êx 3 :2-3). Quando se aproximou da sarça, ouviu a voz de Deus que Se dirigia a ele. Estêvão inverte a ordem da declaração em Êxo­ do 3:5-6, de modo que a ênfase inicial recai sobre o fato de ser o Deus dos ancestrais de Moisés que Se revela a ele; vem à mente, portanto, o pensa­ mento da promessa de Deus aos patriarcas. A história continua da maneira típica de uma teofania; descreve a reação humana de receio e temor, e a renovação de confiança que Deus lhe dá em seguida. Certamente, não se re­ move totalmente o elemento do medo, pois Estêvão retém a ordem dada a Moisés no sentido de tratar o lugar como terra santa; aqui, talvez, temos outra lembrança incidental para os ouvintes de Estêvão de que a revelação que Deus faz de Si mesmo não se confina necessariamente ao solo judaico o lugar mais importante da revelação no Antigo Testamento, o Monte Sinai, não estava na terra prometida. Mesmo assim, o elemento principal na revelação é a promessa divina da libertação do Seu povo do seu sofrimeto e escravidão no Egito, por meio de Moisés (Êx 3:7-10). 35-36. Abandona-se neste ponto o estilo narrativo, e, ao invés disto, temos uma série de declarações acerca de Moisés, que se expressam de modo algo retórico tio texto grego. Cada declaração começa com o demonstrati­ vo Este (homem) que se repete quatro vezes; os w . 38b e 39 começam com pronomes relativos. Ficamos lembrados do modo semelhante de Pe­ dro falar acerca de “este Jesus” anteriormente em Atos (e.g. 2:23,32, 36). É óbvia a razão de ser deste estilo na primeira declaração. Foi este mesmo Moisés a quem os israelitas rejeitaram no Egito a quem Deus nomeou lí­ der e redentor. Depois, as declarações que se seguem nos w . 36, 37 e 38 ressaltam ainda mais as coisas de importância que Moisés disse e fez, antes de Estêvão ressaltar de novo o fato de ter sido a este Moisés a quem os israelitas se recusaram a obedecer (w. 3941). Assim, a passagem ressalta não simplesmente a rejeição de Moisés pelos israelitas, como também que se tratava da rejeição do líder dado por Deus. Mais uma vez, fica implíci-

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O verbo decorridos, que tambem se emprega no texto grego v. 23, signifi­ ca, literalmente, “cumpriu-se”, e talvez contenha o pensamento da ação de Deus em intervalos apropriados de tempo.

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ATOS 7:36-38 to o paralelo tipológico com a rejeição, da parte dos judeus, de Jesus, dAquele a Quem Deus ressuscitara dentre os mortos, fato este que fica especilmente óbvio na declaração inicial. Quando Estêvão responde à rejeição israelita de Moisés como autoridade e juiz, insiste que Deus o enviou como chefe e libertador. Chefe (ou “Soberano”) é termo que podia ser aplicado a Jesus (Ap 1:5), e um termo muito semelhante se emprega dEle em 5:31. Quanto a libertador, trata-se da tradução de uma palavra grega (lytrõtes) que deriva de um verbo que significa “redimir”. Por surpreendente que pareça, é Moisés, e não Jesus, que recebe o título de “Redentor” propria­ mente dito no Novo Testamento. Visto, porém, que noutros trechos a ta­ refa de remir Israel se atribui a Jesus (Lc 2:38; 24:21; cf. 1:68), os leito­ res cristãos perceberiam aqui a alusão tipológica. Aquela que era a tarefa de Deus (SI 19:14; 78:35) aqui é delegada ao Seu agente pela voz angeli­ cal na sarça ardente. Foi, portanto, Moisés que realmente trouxe o povo para fora do Egito, com o acompanhamento de sinais milagrosos opera­ dos por Deus. A fraseologia é tirada do Antigo Testamento, mas, outra vez, o leitor cristão se lembraria que a mesma linguagem foi aplicada a Jesus e aos apóstolos (2:22,43; cf. 6:8 do próprio Estêvão). 37. Agora fica ainda mais clara a lição tipológica. Estêvão relem­ bra aos seus ouvintes que foi este homem, Moisés, que foi responsável pela profecia a respeito de um profeta semelhante a ele (Dt 18:15) cujo cumprimento os cristãos primitivos já começaram a perceber na vinda de Jesus (3:22). Este uso lingüístico cristão primitivo provavelmente basta pa­ ra explicar por que o texto é citado aqui, mas pode-se notar que o versí­ culo era importante na teologia samaritana, e sua presença aqui talvez dê mais peso ao argumento cumulativo de que Estêvão fora influenciado por pensamentos samaritanos. 38. Para os ouvintes judeus, no entanto, o clímax na descrição de Moisés atinge-se na narrativa da reunião do povo de Israel no deserto no Monte Sinai. Mais uma vez, não falta a tipologia. A palavra que aqui se tra­ duz congregação é ekklèsia, que os cristãos adotaram como descrição para a sua própria comunidade; é possível que os cristãos vissem aqui um certo paralelismo entre a presença de Moisés com os israelitas na sua pere­ grinação através do deserto, e a presença de Jesus com o novo povo de Deus na sua peregrinação através do mundo.71 É improvável, porém, que isto

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O tema, e especialmente o contraste entre as seções, é desenvolvido pelo escritor aos Hebreus, Hb 12:18-24.

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ATOS 7:38-43 faça parte da mensagem primária desta passagem, para os ouvintes judaicos de Estêvão. O que se transmite aqui é que, nesta assembléia do povo, Moi­ sés recebeu a lei, as palavras vivas de Deus (Rm 3:2). Foi esta a marca do grande privilégio de Israel. A outorga da lei foi o sinal da aliança que Deus fizera com Seu povo, e seria através da obediência á lei que Israel continua­ ria sendo o povo da aliança de Deus. Estêvão implicitamente compartilha­ va desta crença. 3940. Agora, porém, chega-se a um ponto crucial. Estêvão, ainda continuando a frase grega que começou no v. 38, comenta como aqueles que originalmente receberam a lei deixaram de cumpri-la. Rejeitaram Moisés como legislador, e, nos seus corações, voltaram para o Egito (cf. Nm 14:3-4). Pior ainda, mandaram que Arão fizesse deuses para irem adiante deles, e fizeram pouco caso de Moisés durante a sua ausência para receber a lei da parte de Deus (Êx 32:1). Desde o momento em que a lei foi solenemente dada na assembléia do povo de Deus, este povo se rebe­ lou contra o legislador e voltou-se para a idolatria. Apesar de todas as suas declarações de lealdade à lei e ao templo, e suas acusações contra Estê­ vão (6:11, 13-14), os ouvintes deste pertenciam a uma nação que desde o início rejeitara a lei e a adoração verdadeira a Deus. 41-43. Com este pensamento, o discurso toma uma nova direção, e, até v. 50, ocupa-se com os temas germinados da idolatria e do culto ao templo em Israel. O tema se desenvolve através de um resumo histórico que abrange o período de tempo que se estende desde as peregrinações no de­ serto até o tempo de Salomão.72 Em primeiro lugar, Estêvão delineia em maiores detalhes a idolatria da qual já falara brevemente no v. 40. Uma palavra grega que aqui aparece pela primeira vez expressa com desprezo aquilo que os israelitas fizeram: fizeram-um-bezerro (Êx 32:4). Este em­ prego de uma imagem de bezerro, ou, melhor, de touro,73 no culto era uma tentação persistente para Israel (1 Rs 12:28), e a condenação feita por Estêvão estava em harmonia com as denúncias já feitas pelos escritores

72Esta divisão do discurso nos w . 40/41 é preferível ao modo usual de fazer a separação nos w . 44/45 (a despeito da continuidade da frase grega nesta altura), de tal modo que o tema de Estêvão fica sendo “o tempo de Moisés” até v. 44, e “de Josué até Salomão” nos w . 45-50. Vv. 41-44 formam uma ponte de ligação entre as duas seções. 73R. A. Cole, Êxodo (Comentários Série Cultura Bíblica, São Paulo, 1981), págs. 206-8. -

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ATOS 7:43 veterotestamentários (2 Rs 10:29; Os 8:4-6). Foi um ato que envolvia o sacrifício a um ídolo ao invés de ao Deus verdadeiro, e também trazia condenação porque dava a entender que deuses podiam ser feitos por po­ deres humanos; mais uma vez, Estêvão estava ecoando um poderoso tema veterotestamentário (SI 115:4; 135:15; Is 445-20). Deus reagiu a esta auto-suficiência humana ao deixar os israelitas provarem a totalidade dos frutos amargos da idolatria. Deus se afastou (sc. deles),74 assim como se desviaram dEle (v. 39), e os entregou á adoração das hostes celestiais. O paralelo mais estreito desta declaração acha-se em Romanos 1:24, 26, 28, embora, ali, o pensamento diga respeito à entrega por Deus dos pagãos às conseqüências da idolatria destes. A milicia celestial se refere ao sol, à lua e às estrelas (Dt 4:19) que eram considerados como divindades ou como habitações de seres espirituais. A despeito das advertências que os israelitas receberam contra semelhante adoração, realmente se voltaram a ela (2 Cr 3 3 3 ,5 ;Jr. 8:2). Tudo isto aconteceu, conforme diz Estêvão, de acordo com a pro­ fecia no livro dos profetas, i.é, o rolo dos judeus que continha os doze escritos dos assim-chamados profetas menores. Cita Amós 5:25-27 con­ forme a LXX.75 No Livro de Amós, entendem alguns que a pergunta “Porventura me oferecestes sacrifícios?” esperava uma resposta negativa, dando a supor que Amós pensasse que não eram oferecidos sacrifícios durante o período no deserto; mas isto é muito improvável; a probabili­ dade maior é que Amós sugeria que o povo não oferecia meros sacrifícios como também obediência de coração a Deus. Parece que Estêvão, no entanto, sugere que os sacrifícios que os israelitas ofereciam no deserto não eram para Javé, mas, sim, para outros deuses. Assim, a citação oferece confir­ mação do v. 41 mais do que 42a. A segunda parte da citação (v. 43) des­ creve como os israelitas passaram a levantar o tabernáculo no qual se ado­ rava Moloque, bem como a estrela ou emblema de Renfã\ estes deuses eram representados pelas imagens que os israelitas faziam para adorá-las. Moloque era o deus que exigia o sacrifício de crianças, e Renfã parece

74Assim dizem as autoridades, na sua maioria; mas AG sugere a alternativa: “voltou-os para os corpos celestiais”. 75A única mudança de importância é que Babilônia substitui “Damasco"; as­ sim, alarga-se o escopo da profecia de Amós sobre o exílio do reino do norte, Israel, para a Assíria (ao leste de Damasco) para incluir o exílio do reino do sul, Judá, para a Babilônia.

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ATOS 7:43-48 ser o nome de um deus egípcio que se associava com Saturno. A LXX difere aqui marcantemente do texto hebraico de Amós que se refere a “Sicute, vosso rei, Quium, vossa imagem, e o vosso deus estrela” , sendo estes provavelmente os nomes de divindades assírias. Não precisamos preocuparnos aqui com o relacionamento entre a LXX e o texto hebraico de Amós (a LXX parafraseia um texto hebraico difícil). A única coisa que precisa ser dita aqui é que o texto hebraico teria ressaltado a lição de Estêvão de modo tão eficaz quanto a LXX; seja qual for a versão que Estêvão te­ nha citado, Lucas aqui seguiu sua praxe normal e citou a LXX. A idola­ tria foi devidamente retribuída num exílio para uma terra de deuses falsos. 4445. A citação de Amós levou Estêvão a avançar no tempo, des­ de Moisés até um período posterior de idolatira. Agora volta aos tempos de Moisés. Embora os israelitas mais tarde tivessem de levantar o taber­ náculo de Moloque, foi o tabernáculo do testemunho que estava com eles no deserto, feito segundo o modelo que fora dado a Moisés (Êx 25:40). Trata-se de um lugar portátil de adoração que os israelitas levavam consigo através do deserto. Foi adotado pela geração seguinte dos israelitas, os pais que entraram em Canaã sob o comando de Josué e tomaram posse da ter­ ra que estivera nas mãos das nações âs quais Deus os capacitou a expulsar. 46. Assim continuavam sendo as coisas até os tempos de Davi. Este desfrutava da graça de Deus, pois veio a ser o soberano de uma nação uni­ da, e possuía com segurança a sua terra. Davi, portanto, suplicou a Deus o direito de “achar” (prover, ARA) moradia para o Deus de Jacó. A lingua­ gem incomum baseia-se no Salmo 132:4-5, onde Davi diz que não descansa­ ria até que “eu encontre lugar para o SENHOR, morada para o Poderoso de Jacó” (para a versão em prosa desta história ver 2 Sm cap. 7). Há um problema textual: para o Deus de Jacó não é tão bem atestado quanto “pa­ ra a casa de Jacó” , e talvez devamos adotar este último texto; neste caso, a palavra traduzida “casa” provavelmente signifique “um lugar para adora­ ção” . Não fica totalmente daro se significa um tabernáculo, conforme aquele que Davi providenciou para a arca da aliança (2 Sm 6:17) ou uma construção mais permanente. A resposta de Natã à pergunta de Davi acer­ ca da construção de um templo foi uma forte afirmação no sentido de Deus nunca ter pedido uma casa para Sua moradia; mesmo assim, o filho de Davi Lhe construiria uma casa (2 Sm 7 :5-l 6). 48-50. Há, portanto, certo elemento de ambiguidade acerca de co­ mo devamos avaliar a declaração de que fo i Salomão quem lhe edificou casa Estêvão sabe que Davi desfrutava da graça de Deus e que (embora não mendone este fato) o templo foi edificado com a aprovação de Deus -1 4 1 -


ATOS 7:49-53 (1 Rs cap. 8). Parece, na realidade, haver um contraste entre o tabernácu­ lo, aprovado por Deus, e a casa permanente edificada por Salomão. Esta última foi feita por mãos humanas76 (como também era, reconhecida­ mente, o tabernáculo), possivelmente conforme projetos humanos e não se­ gundo uma planta divina, e ficou sendo fádl supor que o Deus transcen­ dental realmente vivesse dentro dos limites de um templo, como qualquer ídolo. Certamente, os israelitas deveriam ter sabido melhor, pois a lição foi claramente ressaltada pelo próprio Salomão (1 Rs 8:27) bem como pelo profeta citado por Estêvão (Is 66:1-2): o Criador de todas as coisas não pode ser limitado a um templo feito por mãos humanas. Haveria aqui a implicação não falada, de que Deus realmente habita num templo não fei­ to por mãos humanas, conforme Is 66:2b realmente declara? Mesmo as­ sim, se foi este o pensamento de Estêvão, é surpreendente que não com­ pletasse a citação. É torturante não possuirmos as informações mais com­ pletas que demonstrariam claramente se Estêvão estava pensando no “no­ vo templo” que é a igreja cristã. Pára no ponto negativo: a adoração do templo impõe sobre a natureza de Deus uma falsa limitação. 51-53. Estêvão é, acima de tudo, um orador, e agora o estilo do dis­ curso muda mais uma vez quando passa a atacar diretamente os seus ou­ vintes por compartilharem das atitudes reveladas por Israel no decurso dos séculos. Emprega linguagem veterotestamentária para caracterizá-los como povo obstinado (Êx 33:3) que não demonstra pertencer realmente à aliança de Deus. A circuncisão era entendida metaforicamente como o cortar fora do orgulho e pecaminosidade do coração (Lv 26:41; Dt 10:16; Jr 4:4), e Jeremias descreveu as pessoas que eram surdas diante da chamada de Deus como sendo incircuncisos de ouvidos (Jr 6:10). Esta obstinação era vista especialmente no resistir ao Espírito Santo (Is 63:10), que, segun­ do se reconhecia, falava através dos profetas e agora, através dos apóstolos e testemunhas na igreja primitiva, cheios do Espírito. Havia uma tradição bem estabelecida no judaísmo de que o povo judeu fora responsável pela morte dos profetas (1 Rs 19:10; 14; Ne 9:26; Jr 26:20-24; Lc 6:23; 11: 49; 13:34; 1 Ts 2:15; Hb 11:36-38); Estêvão retoma esta acusação, e a repete. Toma-a mais específica, no entanto. Os profetas referidos foram aqueles que profetizaram anteriormente a vinda do Justo; aqui, Justo de-

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Esta e uma palavra derrogatoria que se emprega para a adoração aos ídolos (e.g. Is 31:7; Sabedoria 14:8). Aplicá-la ao templo (cf. Mc 14:58; H b'9:24) facilmen­ te enfureceria os judeus.

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ATOS 7:53-54 ve ter o significado de “inocente” (ver 3:14), mas a frase visa, sem dúvida alguma, uma referência a Jesus como Messias; há alguma evidência no sen­ tido de que o subs. vinda se referia especialmente ao advento do Messias. Se os judeus da antiguidade mostraram sua oposição a Deus ao matar os profetas, os dos tempos do próprio Estêvão chegaram ao limite de entre­ gar Jesus, o Messias, aos romanos, constituindo-se, destarte, em assassinos dEle. Nem sequer este ato, no entanto, forma o clímax da acusação de Estêvão. Volta finalmente ao fato de que seus ouvintes receberam a lei de Deus dada do modo mais impressionante possível, por anjos como Seus intermediários. Embora a presença de anjos no Monte Sinai não fosse mendonada no Antigo Testamento (a não ser na LXX de Dt 33:2), mesmo assim, era uma parte firme da tradição judaica7 7 e foi aceita pelos cristãos primitivos (G1 3:19; Hb 2:2). Foi esta lei divina que os mesmos judeus não guardaram; há referência específica à transgressão deles contra o manda­ mento que proíbe o assassinato? Longe de falar contra Moisés, é Estêvão que acusa seus ouvintes de deixar de obedecer a lei que Deus deu a Israel através deste mesmo Moisés.

d. A morte de Estêvão (7 :54-8:la) O discurso de Estêvão, de modo não surpreendente, despertou pai­ xões hostis da parte dos seus ouvintes. Sua declaração no sentido de ter ti­ do uma visão de Jesus em pé à destra de Deus exasperou os sentimentos deles. Houve um irrompimento de violência, e ele foi levado para fora da cidade e morto por apedrejamento, a forma tradicional judaica da pena capital. As últimas palavras de Estêvão foram de perdão para seus execu­ tores, e a colocação anexa de um referência a Saulo sugere que devamos inferir que estas palavras tiveram algum efeito sobre ele. O leitor está sendo preparado para aquilo que vem no cap. 9. O problema principal nesta seção é a natureza da morte de Estêvão. Fora julgado pelo Sinédrio, mas aquele concilio não tinha a autoridade de mandar executar pessoa alguma (Jo 18:31). Mesmo assim, foi executa­ do pelo apedrejamento, e não pela forma romana de execução. As possi­

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Jos. A n t., 15:136 (mas disputa-se a interpretação); Jubileus 1:29; Testamen­ to de Daniel 6 :2.

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ATOS 7:54-56 bilidades são: aquilo que aconteceu foi um ato espontâneo de violência da turba, ou Estêvão foi legalmente executado pelo Sinédrio; quer porque os romanos tenham dado permissão especial, quer porque não havia governa­ dor romano na ocasião e aproveitou-se o interregno. Não se pode totalmen­ te rejeitar a possibilidade de uma execução legal, no entanto, mormente tendo em mente que também devemos explicar como Saulo podia levar a efeito missões de perseguição imediatamente depois; a teoria de um inter­ regno é improvável, pois seria difícil colocar a morte de Estêvão (e, por­ tanto, a conversão de Saulo) em data tão avançada quanto 36-37 d.C.78 54. As reações dos ouvintes, diante das acusações de Estêvão, são descritas da mesma maneira que em 5:33. Rilhar os dentes era sinal de fú­ ria (SI 35:16; Lc 13:28). Suas consciências foram feridas, mas ficaram longes de se arrependerem e de reconhecerem a veracidade daquilo que foi dito. 55-56. Embora Estêvão já fosse um homem cheio do Espírito Santo (6:5), passou então a receber uma plenitude especial do Espírito que o ca­ pacitou a desfrutar de uma visão celestial. Fitando os olhos para cima, pa­ ra o céu (concebido em termos espaciais, acima da atmosfera terrestre), conseguiu ver a glória que oculta Deus da vista humana, e a figura de Jesus em pé à destra de Deus. Exclamou que podia ver os céus abertos, e o Filho do homem. O quadro relembra o batismo de Jesus, quando, então, os céus abertos também foram sinal da revelação da parte de Deus. A descri­ ção de Jesus como Filho do homem é incomum fora dos Evangelhos; es­ te título se acha quase exclusivamente nos lábios do próprio Jesus, e pou­ co se usava na igreja como título conflssional. A lição deve ser que Estê­ vão vê Jesus no Seu papel como Filho do homem; vê-0 como Aquele que sofreu e que foi vindicado por Deus (Lc 9:22), i.é, como padrão a ser se­ guido pelos mártires cristãos, mas também como Aquele que vindicará na presença de Deus aqueles que não têm vergonha de Jesus, e que reconhe­ cem diante dos homens a sua lealdade a Ele (Lc 12:8). É provavelmente esta a explicação porque o Filho do homem foi visto em pé, e não assen­ tado, à destra de Deus (2:34). Está em pé como advogado para pleitear a causa de Estêvão diante de Deus e para lhe dar as boas-vindas à presen­

78S. Dockx, “Date de la moit d’Étienne le Protom artyr” , Bib. 55, 1974, págs. 65-73, adota esta data, mas ao custo de colocar a conversão de Paulo em data ante­ rior e de negar que este estivesse presente no apedrejamento.

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ATOS 7:56-59 ça de Deus.79 Sugeriu-se que o que Estêvão recebeu foi um tipo de visão proléptica da parusia ou segundo advento de Jesus; o cristão individual des­ cobre que Cristo vem a ele no momento de sua morte.80 De qualquer maneira, o que tem importância aqui é que Estêvão, ao morrer, recebeu as boas-vindas à presença de Jesus; a implicação é que, assim como Jesus foi ressurreto dentre os mortos, assim também serão os Seus seguidores. 57-58. Para os ouvidos judaicos, falar assim er^J^sfêmia. Os mem­ bros do concílio gritavam para abafar a blasfêmia e puseram os dedos nos ouvidos para não escutarem mais. Depois, conforme parece, foi-se toda semelhança de ordem. Nada ouvimos acerca de uma condenação e senten­ ça formais, que sugere que não se estava mais seguindo os procedimentos legais. Agarraram Estêvão, e o arrastaram para fora da cidade, e ali o ape­ drejaram até ele morrer. Mais tarde, a Mishná definiu procedimentos for­ mais para o apedrejamento, mas parece improvável que tenham sido segui­ dos no século I, especialmente em ocasiões tais como esta.81 Mesmo assim, pode-se dizer que uma das formalidades foi observa­ da. O Antigo Testamento definiu o papel a ser desempenhado pelas teste­ munhas ao ato de blasfêmia, durante a execução (Lv 24:14; cf. Dt 17:7). Aqui, as testemunhas se mencionam, não por causa delas mesmas, mas porque deixaram suas vestes aos pés de um homem chamado Saulo, que agora aparece na história pela primeira vez. A Mishná exigia que a vítima fosse despojada das suas roupas; aqui, porém, são os algozes que tiram as roupas externas para realizar mais facilmente a sua função tétrica. Não é necessário que haja ceticismo a respeito da menção de Saulo aqui; é pro­ vável que freqüentasse a sinagoga dos da Cilicia (cf. 6:9), pertencendo, portanto, ao círculo dos oponentes de Estêvão. Não participou do ape­ drejamento propriamente dito, embora aprovasse aquilo que foi feito. 59-8:1a. As últimas palavras de Estêvão foram uma oração em prol de si mesmo e dos seus algozes. Como Jesus, entregou o seu espírito; mas,

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R. Pesch, “Die Vision des Stephanus. Apg. 7,55f im Rahmen der Apostel­ geschichte” , Bibel und Leben 6, 1965, págs. 92-107, 170-183 (conforme o relato em N TA 10, 1965-66, No. 578), argumentou que o Filho do homem fica em pé para condenar os oponentes de Estêvão, e, assim, marcar o ponto em que a proclamação das boas novas passa dos judeus para os gentios. 80C. K. Barrett, “Stephen and the Son o f man” , em W. Eltester e F. H. Kettler, ed., Apophoreta (Berlim, 1964), págs. 32-38. 81 Assim J. Blinzler, em E. Bammel (ed.), The Trial o f Jesus, Londres, 1970, cap. 13.

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ATOS 8:1 ao passo que Jesus, ao morrer, entregou-Se a Deus com as palavras de Sal­ mo 31:5, Estêvão se entregou ao Jesus a quem vira na visão. É um exem­ plo marcante de uma fórmula de palavras aplicáveis originalmente ao Pai, sendo enereçadas ao Filho, e demonstra como os cristíos primitivos colo­ cavam Jesus no mesmo nível que o Pai. Depois, Estêvão orou, pedindo perdão por seus algozes, ecoando, mais uma vez, as palavras de Jesus (Lc 2334), suas palavras se contrastam, de modo marcante, com a sua atitude de denúncia no discurso, e ilustram como o cristão, embora denunciasse o pecado e a desobediência a Deus a fim de levar ao arrependimento os seus ouvintes, deve ter por eles preocupação pastoral, e orar no sentido de serem eles perdoados. Dizendo assim, adormeceu (cf. 1 Ts 4:14-15), o primeiro cristão a morrer por amor a Jesus. Ainda assim, pelo menos um homem ficou sem comover-se, e não ficou triste ao vê-lo morrer. Não fica claro neste ponto se Saulo era membro do Sinédrio, mas 26:10 é melhor interpretado neste sentido. Não seria ta­ refa fácil converter semelhante homem; Lucas está dando uma indicação prévia do caráter extraordinário da transformação subseqüente de Saulo. e. A seqüela à morte de Estêvão (8:lb-3). Este breve parágrafo termina a história de Estêvão ao mencionar o seu enterro, mas, sobretudo, prepara o caminho para o desenvolvimento da narrativa ao indicar como a morte de Estêvão levou à dispersão dos cristãos e à conseqüente divulgação do evangelho (8:4-40;‘ 11:19-30); e, também, ao sublinhar o nome de Saulo, o perseguidor da igreja, prepara os leitores para a maravilha de sua reviravolta (9:1-31). As várias lições vincu­ lam-se de modo não muito estreito: os eventos no v. 2 provavelmente ante­ cederam os do v. 1, e o v. 3 é realmente uma expansão do v. 1, talvez deli­ beradamente retido para fazer forte contraste com o v. 2. lb. O ataque bem-sucedido contra Estêvão ficou sendo o sinal para um ataque em escala maior contra a igreja em Jerusalém, sem dúvida insti­ gado pelo mesmo grupo que atacara àquele. Esta é a primeira ocorrência da palavra perseguição em Atos (excetuando-se o emprego d a verbo em 7:52). Conforme seu emprego aqui, significa oprimir alguém a fim de per­ suadi-lo ou forçá-lo a rejeitar a sua religião, ou simplesmente atacar alguém por motivos religiosos. Os cristãos mantiveram a sua fé e preservaram a sua vida ao fugirem para lugares onde os perseguidores não se dariam o traba­ lho de alcançar. Bastou-lhes fugir para a zona campestre da Judéia e da Somaria a fim de escaparem às opressões. É de significância que alguns -146-


ATOS 8:1-3 cristãos se dispuseram a permanecer na Samaria e que ali não passaram por perseguições. Pode-se supôr que a oposição em Jerusalém adviesse principal­ mente dos opositores de Estêvão e que se dirigisse principalmente contra os associados dele dentro da igreja. Supõe-se que os apóstolos fossem deixados em paz; o fato de poderem continuar em Jerusalém (sem dúvida em companhia dalguns outros cristãos) confirma a idéia que fora mormen­ te o grupo de Estêvão que estava sendo perseguido. 2. A despeito do perigo que havia nisto (e é esta a razão de colocar o v. 2 depois do v. 1), havia homens piedosos na igreja que estavam dispos­ tos a dar a Estêvão um sepultamento apropriado. Era normal sepultar criminosos executados,82 mas a codificação posterior da lei feita pelos judeus proibiu o pranto público por eles; se esta proibição estava em vigor durante o século I, os pranteadores estavam, na realidade, fazendo um protes­ to público contra a execução de Estêvão, e assim se exporiam a riscos consi­ deráveis. A palavra piedoso se emprega noutros lugares para judeus piedo­ sos (2:5 ; Lc 2:25), mas mais tarde se emprega para descrever Ananias, reco­ nhecidamente como “piedoso conforme a lei” (22:12), embora fosse um cristão. Pode-se supor que aqui há alusão a cristãos. 3. Tipo diferente de zelo religioso foi aquele demonstrado por Sau­ lo que assumiu um papel de liderança na perseguição da igreja. Ia de casa em casa entre os cristãos e os arrastou para o cárcere, nem sequer poupan­ do as mulheres. A atividade de Saulo é plenamente confirmada em termos gerais pelo seu próprio testemunho insuspeito ( l ’Co 155; G1 1:13, 22-23, Fp 3:6; 1 Tm 1:13).83 Sem dúvida, as autoridades romanas eram coniven­ tes com o que acontecia; de qualquer forma, não é necessário que o ata­ que tenha durado muito tempo (períodos longos de perseguição tendem a ser raros), e é possível que muitos cristãos tivessem voltado quietamente a Jerusalém uma vez arrefecido o primeiro calor dos ataques. f. O evangelho avança até Samaria (8:4-25). A dispersão dos cristãos levou ao mais significativo avanço na missão 82

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As descobertas arqueológicas em Giv’at ha-Mivtar demonstraram este fato; ver NIDNTT, I, pág. 393; (em port., vol. I, art. Cruz, CL). 83À luz destas claras referências nos seus próprios escritos a atividade que so­ mente podem ter sido realizadas em Jerusalém e nos seus arrebaldes, a declaração de Paulo em G1 1 :22 de que “não era conhecido de vista das igrejas da Judéia, que esta­ vam em Cristo” cerca de tres anos após a sua conversão, não pode significar que estas últimas nunca o viram.

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ATOS 8:4 da igreja. Pode-se dizer que ficou sendo necessária a perseguição para leválos a cumprir o mandamento implícito em 1:8. Na medida em que os cris­ tãos avançavam para novas áreas, descobriram que havia uma resposta ime­ diata ao evangelho, conforme exemplifica a resposta dada pelo povo da Samaria. A pregação de Filipe foi acompanhada pelos mesmos tipos de sinais que já tinham sido vistos no ministério de Jesus e dos apóstolos, e ha­ via uma reposta poderosa à chamada ao batismo. Esta resposta era tanto mais notável porque as pessoas às quais Filipe pregava já tinham estado sob o fascínio de um charlatão religioso de nome Simão. A missão bemsucedida levou a uma visita por Pedro e João que descobriram que os con­ vertidos não tinham recebido o Espirito e que impuseram sobre eles as mãos a fim de que O recebessem. Até mesmo Simão quis obter alguma coisa — não meramente o dom do Espírito, mas, sim, o dom de outorgar aos outros o dom do Espírito; foi, porém, necessário adverti-lo fortemente contra a atitude pecaminosa e sem arrependimento que revelou no modo de fazer este pedido. A história é significativa de dois modos. Em primeiro lugar, registra o recebimento do evangelho pelos samaritanos, um povo ao qual os judeus odiavam intensamente e consideravam como sendo herético; o sentimen­ to de hostilidade, porém, era mútuo. Embora possamos ser tentados a ver na missão à Samaria a primeira tentativa da igreja rio sentido de evangeli­ zar aos gentios, esta seria uma interpretação errônea. Para os judeus, os sa­ maritanos não eram gentios, mas, sim, cismáticos,- parte das “ovelhas per­ didas da casa de Israel” (Jervell, págs. 113-132). Para Lucas," eram pessoas que observavam a lei e que demonstravam mais piedade do que muitos judeus (Lc 10:33-37; 17:11-19), embora também pudessem mostrar hostili­ dade aos discípulos de Jesus (Lc 9:52-56). Por detrás da narrativa, portanto, podemos muito bem perceber que a hostilidade entre os judeus e os samari­ tanos foi vencida pela fé que os dois grupos tinham em Jesus Cristo, e é neste sentido que se pode encarar esta história como um passo na direção da solução do problema maior de reunir os judeus e os gentios. Se for corre­ ta esta idéia, talvez ofereça a chave ao problema inegável apresentado pe­ lo fato de que os crentes samaritanos não receberam o Espírito até que os apóstolos impusessem sobre eles as mãos. Destarte, foram levados à comu­ nhão com a igreja inteira, e não meramente com a seção helenística dela. Esta explicação é preferível ao ponto de vista de que os samaritanos não corresponderam plenamente à pregação do evangelho. Outros pontos de vista, como, por exemplo, aquele que declara que o Espírito não poderia ser recebido senão pela imposição das mãos apostólicas, são contrários - 148-


ATOS 8:4-5 à tendência geral do quadro que Lucas nos dá em Átos (cf. 9:17). Em segundo lugar, a história dá destaque a Simão, o mago, que mais tarde ficou sendo de má fama como herege gnóstico. Há grande incerteza quanto a Simão realmente ter sido um gnóstico que sustentava pelo menos alguns dos conceitos heréticos atribuídos a ele por escritores posteriores, ou se foi meramente um mágico e charlatão a cujo nome crenças gnósticas vieram a ser posteriormente atribuídas.84 Certamente, é curioso que alguns dos estudiosos mais radicais do Novo Testamento (tais quais Haenchen, págs. 303, 307), que teriam muita cautela em atribuir ao próprio Jesus qual­ quer parte da cristologia da igreja, estejam tão dispostos a acreditar que crenças gnósticas do século II já eram sustentadas por Simão na primeira metade do século I. Parece mais provável que certas reivindicações do Si­ mão histórico tenham cpaacitado seus seguidores posteriores a considerálo um gnóstico, embora ele mesmo não tenha chegado àquela etapa. 4. A história começa a mostrar como a perseguição da igreja em Jerusalém acabou surtindo um efeito favorável. Aqueles que foram expul­ sos dos seus lares ou que acharam melhor deixá-los pregavam a Palavra co­ mo boas novas enquanto iam de lugar em lugar. E interessante que este movimento específico não é atribuído a qualquer orientação predsa da par­ te do Espírito, tal qual ocorria noutras etapas crudais na expansão da igre­ ja. Pelo contrário, parece que era considerado coisa natural para os cris­ tãos viajantes espalharem o evangelho; talvez surgissem naturalmente opor­ tunidades para assim fazer, à medida em que as pessoas entre as quais vieram viver perguntavam a eles por que tinham deixado seus lares. 5. Uma das pessoas que foram para a Samaria (8 :1)8 5 foi Filipe que é claramente aquele membro dos Sete mendonado em 6:5. A sua pre­ gação acerca do Messias certamente teria despertado o interesse, no mí­ nimo, dos ouvintes, visto que a expectativa da vinda de um libertador futuro (conheddo como o ta’eb ou “restaurador”) fazia parte firme da 84Ver W. A. Meeks, “Simon Magus in Recent Reserarch” , Religious Studies Review 3, 1977, págs. 137-142, para um levantamento das volumosas pesquisas exis­ tentes. 8SRSV tem “uma cidade de Samaria” . Os MSS têm “à cidade de Samaria” (ARA), que GNB parafraseia como sendo “a cidade principal da Samaria”. Se o úl­ timo texto é o certo, a fraseologia é um pouco estranha, e a tradução de GNB não é totalmente satisfatória como tentativa para tratar do problema. As cidades possivel­ mente em mira são Sebaste (o novo nome que Herodes Magno deu à Samaria do An­ tigo Testamento), Siquém, ou possivelmente Gita, onde Simão nasceu. Seja qual for a identificação, não influencia a história propriamente dita.

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ATOS 8:5-11 teologia samaritana (Jo 4:25); esta expectativa se baseava em Deuteronômio 18:15 e segs., e a pessoa esperada tinha mais o caráter de um ensi­ nador e legislador do que de um soberano. 6-8. Havia um movimento em massa entre o povo na medida em que escutava atentamente à mensagem de Filipe. Sua atenção foi despertada por aquilo que ouviram e viram. Filipe tinha a mesma capacidade dos apóstolos para operar sinais que serviam como confirmação da sua mensagem. Como Pedro (5:16), podia expulsar espíritos maus, e o povo podia escutar os gri­ tos que saíam das vítimas possessas quando os poderes demoníacos as dei­ xavam (cf. Lc 4:33; Mc 1:26).86 Além disto, o povo podia ver por si mesmo como as pessoas que tinham sido paralíticas e coxas agora conseguiam an­ dar; mais uma vez, a atividade de Filipe tem correspondência com a de Pedro (3:1-10) e de Jesus. Estes milagres de cura trouxeram júbilo ao povo. Por enquanto, porém, nada se diz acerca de o povo passar a realmente crer no evangelho,t e, embora houvesse alusâío a uma situação em que Jesus não podia curar onde não havia fé (Mc 6:5-6), sabemos que podia existir a cu­ ra sem a resposta apropriada da fé e da gratidão a Deus (Lc 17:17-19). 9-11. Antes, porém, de registrar a conversão do povo, Lucas volta a atenção dos leitores àquilo que estava acontecendo antes da chegada de Filipe. Havia na cidade um homem chamado Simão, que alegava ser pessoa de grande importância, e obteve crédito mediante os seus poderes milagro­ sos. O povo foi enganado por ele ao ponto de dizer que era o poder de Deus, chamado o Grande Poder. Os fatos acerca de Simão dificilmente se desentranham das lendas posteriores. Temos informações fidedignas da par­ te de Justino Mártir, ele mesmo nativo da Samaria, de que Simão ali vivia e de que mais tarde mudou para Roma, onde continuou seus atos enga­ nosos. Mais tarde, Irineu registra que viajou juntamente com uma certa Helena, ex-escrava, a qual dizia ser uma encarnação do “Pensamento” (um poder gnóstico). Hipólito, outro escritor que tratava das heresias,, conta uma história acerca de como Simão foi derrotado numa disputa com Pedro. Finalmente Simão disse “que se fosse enterrado vivo, ressus­ citaria no terceiro dia. Mandando cavar uma sepultura, ordenou que seus discípulos empilhassem terra sobre ele. Fizeram como mandara, mas ele per­ manece ali até hoje. Isto porque não era o Cristo” . É difícil aquilatar a quan­ tidade de veracidade nestas histórias, e noutras tantas. Certamente, Lucas 86

A primeira parte de v. 7 se expressa de modo mal ajeitado no texto grego, como se Lucas tivesse deixado de dar ao texto uma revisão final; o significado, no entanto, fica claro.

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ATOS 8:11-13 é o escritor mais antigo que nos dá informações acerca dele, e devemos levar a sério a alegação que colocou nos lábios de Simão, e que foi confirmada pelo povo. É difícil ter exata certeza quanto a quem Simão alegava ser, mas tratava-se, no mínimo, dalgum poder celestial. É improvável que alegasse ser o Messias. Haenchen (pág. 303), pensa que alegava ser “o Grande Poder, ou seja: Deus”. K. Haacker (NDITNTart. “Samaritano”) argumenta de mo­ do convincente que “o grande poder” designa a divindade, e “de Deus” é o acréscimo explanatório de Lucas. É possível, também, pensar no grande poder de Deus como sendo um ente gnóstico, uma emanação do Deus su­ premo. Parece mais provável, no entanto, que Simão alegasse ser divino, e que os gnósticos posteriores interpretassem esta alegação do modo deles. De qualquer maneira, Lucas o apresenta como sendo nada mais do que um mágico que enganava o povo com seus truques, e é o seu papel de má­ gico que é desacreditado na história. 12. O efeito da pregação de Filipe foi que o povo prestava atenção a ele (v. 6), e não a Simão (v. 11). Deram crédito a Filipe na medida em que os evangelizava a respeito do reino de Deus e do nome de Jesus Cris­ to. Trata-se de uma combinação interessante de temas, o que mostra como a igreja primitiva via a mensagem de Cristo continuada na sua própria mensagem, mas, ao mesmo tempo, falava mais e mais acerca do meio atra­ vés do qual o poder real de Deus estava sendo manifestado na época dela, a saber: através do poderoso nome de Jesus. Alguns deram importância ao fato de que Lucas diz que o povo deu crédito a Filipe mais do que acreditar no evangelho ou em Jesus. A construção que se emprega é pisteuõ com o dativo, que, segundo Dunn (Batismo, pág. 65), indica assen­ timento intelectual mais do que a dedicação do coração. Mesmo assim, a construção se emprega em 16:34 e 18:8 para a fé genuína em Deus. A pergunta, realmente, é se a crença em Filipe enquanto ele pregava o evan­ gelho deve ser entendida como fé inadequada. O povo passou a ser batizado, e esperar-se-ia que Filipe, ao fazer assim, estivesse satisfeito quanto à since­ ridade dos batizandos; nada há na história para sugerir que ele fosse inade­ quado como evangelista. De modo geral, não há qualquer evidência clara no sentido de o povo ter sido meramente superficial quanto à sua crença. 13. O que se diz de Simão, porém? Ele também abraçou a fé e foi batizado. Depois disto, acompanhava a Filipe (cf. o coxo em 3:11), mas seu apego a este não estava livre de superstição e assombro: os sinais mila­ grosos que Filipe conseguiu operar deixavam-no assombrado e (conforme podemos supor, baseados nos w. 18-19), com anseio de possuir a mesma capacidade. Simão, pois, foi um crente genuíno? Sua crença certamente -151 -


ATOS 8:14-17 deixou muito a desejar; mas é necessário ler o restante da história antes de aquilatarmos de modo justo a sua profissão. 14. Não se nos diz diretamente qual motivo levou os apóstolos, que estavam em Jerusalém, a enviarem dois de seu grupo ao ouvirem que a Palavra fora recebida ali de modo favorável. A difusão do evangelho aos sa­ maritanos, porém, deve ter sido um passo tão extraordinário que os após­ tolos forçosamente tinham que ir ver o que acontecia, a fim de entrarem em entendimento com este novo evento na vida da igreja. Mais tarde, a evangelização bem-sucedida dos gentios em Antioquia levaria ao envio de Bamabé a partir de Jerusalém para ver o que estava acontecendo (11 '22), e quando Pedro ajudou na conversão de Comélio, o assunto foi debatido numa reunião da igreja. Parece que os novos avanços eram examinados com grande cuidado na igreja em Jerusalém, e certamente temos a im­ pressão de um grupo conservador que nunca fez novas aventuras por con­ ta própria. 15-17. Quando os delegados apostólicos chegaram, Pedro e João,87 oraram pelos convertidos para que recebessem o Espirito Santo, e lhes impunham as mãos com esta finalidade; isto porque, conforme explica Lucas, o Espírito não havia ainda descido sobre nenhum deles (para esta expressão, ver 1044; 11:15). Tudo quanto acontecera era que haviam sido batizados em o nome do Senhor Jesus.68 Esta é, talvez, a declara­ ção mais extraordinária em Atos. Noutros trechos, fica claro que o batismo em nome de Jesus leva ao recebimento do Espírito (238); a situação é di­ ferente em 19:1-7, onde os doze homens em Éfeso não tinham sido batiza­ dos em nome de Jesus. A imposição das mãos não se menciona em cone­ xão com o recebimento do Espírito noutro trecho senão em 19:6, também em circunstâncias algo excepcionais. Do outro lado, o Espírito pode cair sobre as pessoas antes do batismo com a água (10:4448). Fica claro que o recebimento do Espírito não está fixado ao momento do batismo com água. Por que, portanto, o Espírito não fora dado nesta ocasião? É totalmente improvável que um segundo recebimento do Espírito fosse transmitido mediante a imposição das mãos, talvez acompanhado por dons carismá­ ticos incomuns; o v. 16 exclui completamente esta possibilidade. Nem há probabilidade de que o Espírito pudesse ser transmitido somente mediante 87

Neil, pág. 122, contrasta a atitude de João em Lc 9:54.

oo

Bovon, págs. 251-2, alega que o batismo e a imposição das mãos normal­ mente formava um só ato; mas, se fo i assim, por que Filipe omitiu metade da ceri­ mônia?

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ATOS 8:17-19 a imposição das mios apostólicas, pois há outros trechos em que o Espí­ rito é dado sem mencionar-se a imposição das mãos (2:38) e sem a presença de qualquer dos doze apóstolos (9:17). Além disto, pode-se supor que o oficial etíope recebeu o Espírito sem mais cerimônia, quando Filipe o bati­ zou. Sobram apenas dois tipos de explicação. A primeira é que Deus reteve o Espírito até a vinda de Pedro e João a fim de que fosse visto que os samaritanos estavam plenamente incorporados na comunidade dos cristãos de Jerusalém que receberam o Espírito no dia do Pentecoste.89 Este pon­ to de vista é confirmado quando Pedro, na ocasião em que Comélio rece­ beu o Espírito, testifica explicitamente que o Espírito Santo veio sobre aquele e sua família exatamente como veio sobre os primeiros cristãos; era a mesma experiência (11:15-17). O segundo ponto de vista é que a res­ posta e a dedicação dos samaritanos eram defeituosas, conforme demons­ tra o fato de que ainda não haviam recebido o Espírito (Dunn, Batismo, págs. 55-68). Dunn sugere que, entre outras coisas, os samaritanos precisa­ vam da certeza de que realmente foram aceitos na comunidade cristã antes de poderem chegar à fé integral. Entretanto, devemos ressaltar que Lucas não fala assim em lugar algum. Além disto, não se nos diz nada acerca de qualquer defeito na fé dos samaritanos que precisasse ser remediado antes que pudessem receber o Espírito; Pedro e João não pregaram a eles, mas, sim, oraram para que o Espírito lhes fosse dado. De modo geral, portanto, é preferível o primeiro ponto de vista.90 Deve ser notado que a história pressu­ põe que é possível saber se uma pessoa recebeu o Espírito ou não. Seria este o caso se fossem incluídos os dons carismáticos, e é possível que outras indicações menos espetaculares, tais quais o gozo espiritual, tivessem sido consideradas como evidências adequadas da presença do Espírito (13:52; 16:34; 1 Ts 1:6). 18-19. Simão percebeu que os apóstolos tinham a capacidade de der­ ramar o Espírito sobre outras pessoas. O que quis não foi apenas ter ele mesmo o dom do Espírito, mas, sim, que tivesse o poder para outorgá-lo a outras pessoas. Não se declara com clareza se os apóstolos impuseram as mãos sobre Simão e lhe outorgaram o Espírito, embora pudesse ser subentendido na declaração geral no v. 17. A passagem não se ocupa em especulações acerca de se Simão estava (na linguagem teológica posterior) 89G. W. H. Lampe, The Seal o f the Spirit (Londres, 1967), págs. 70-72. 90Ver mais em M. Green, I Believe in the H oly Spirit (Londres, 1975), págs. 136-139 para o conceito de que a antiga separação entre os judeus e os samaritanos esteja à base deste incidente.

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ATOS 8:19-23 “regenerado”. 0 que se ressalta é seu desejo pecaminoso de possuir poder espiritual por razões erradas e de obter aquele poder pelo método errado. A possessão de qualquer tipo de autoridade espiritual é uma responsabili­ dade solene mais do que um privilégio, e aquele que a possui deve ter cons­ ciência constante da tentação para dominar sobre aqueles por cujo bem-estar espiritual é responsável; deve também precaver-se contra o perigo de empre­ gar sua posição para seus próprios interesses, seja como modo de fazer di­ nheiro ou de inchar seu próprio ego (1 Pe 5:2-3). Simão encarava dentro dos conceitos de magia o poder de outorgar o Espírito, e estava disposto a pagar pelo privilégio, revelando assim ainda mais malentendidos a respeito de ob­ ter posições na igreja mediante um pagamento ou a oferta de um suborno; este pecado recebeu o nome de “simonia” como resultado deste incidente. 20-23. A resposta de Pedro não poderia empregar fraseologia mais forte. J. B. Phillips traduziu a primeira frase com arrojo: “para o inferno com o seu dinheiro!” , que talvez soe como linguagem profana, mas é pre­ cisamente o que diz o texto grego. É o pronunciamento de uma maldição contra Simão, consignando-o à destruição com o seu dinheiro. É, portanto, o equivalente à excomunhão da igreja ou, talvez com mais exatidão, tratase de uma advertência solene dirigida a Simão quanto àquilo que lhe acon­ teceria se não mudasse a sua atitude. A própria idéia de obter uma dádiva divina através dalgum tipo de pagamento revela uma compreensão totalmen­ te falsa da natureza de Deus e das Suas dádivas. Até certo ponto, é possível, compreender Simão; tendo saído diretamente do paganismo, facilmente poderia entender erroneamente a nova religião que o atraíra. Mesmo assim, era grave o erro, e tinha que ser destruído no nascedouro. Simão, ao pen­ sar assim, mostrou que suas atitudes estavam fora de harmonia com aque­ las de Deus (cf. SI 78:37), e, portanto, enquanto assim persistia a situaçao, não tinha parte nem sorte nas bênçãos do evangelho (cf. Dt 12:12, 14:27 para a linguagem empregada). Devia, portanto, arrepender-se da sua atitu­ de maligna e orar que seu mau intento fosse perdoado (cf. SI 78:38). Os comentaristas têm argumentado se talvez subentende a probabilidade ou improbabilidade de Deus perdoar a Simão. É provável que a lição seja, simplesmente, que Simão não podia barganhar com a misericórdia de Deus, tendo-a como garantida. Como comentário final, Pedro acrescenta que é séria a posição de Simão. Está em fel de amargura. Este é um modo hebrai­ co de dizer “em fel amargo”, e reflete Deuteronômio 29:18, que fala do perigo de brotar “raiz que produza erva venenosa e amarga” ; aqui, segundo parece, a frase é metáfora de uma pessoa cuja idolatria e impiedade levas­ sem a resultados amargos para si mesmo e para as pessoas ás quais engana - 154-


ATOS 8:24-25 (cf. Lm 3:15, 19). Pedro, pois, está dizendo que Simão está provocando amargo juízo para si mesmo, como sói acontecer com uma pessoa firme­ mente presa pelo pecado (para a frase, cf. Is 58:6). 24. A resposta de Simão foi pedir que os apóstolos orassem por ele a fim de que nenhum dos juízos ameaçados lhe sobreviesse. Alguns MSS têm uma variação do texto que acrescenta o comentário interessante que Simão chorava continuamente ao fazer seu pedido. Não há qualquer indí­ cio que fosse sincera a sua petição, por muito ou pouco que tenha enten­ dido de tudo que fora dito. As lendas posteriores retrataram Simão como opositor persistente do cristianismo e como arqui-herege; não há nada disto aqui, o que provavelmente sugere que a narrativa em Lucas é mais antiga do que o quadro posterior de Simão. Diferentemente de Ananias, Simão recebeu da parte de Pedro uma oportunidade de arrependimento; é difídl ter certeza qual a diferença que Lucas talvez tenha visto entre os dois homens, a não ser que pensasse que Ananias teve mais oportunidade do que Simão para reconhecer a pecaminosidade da sua ação, tendo, portan­ to, pecado deliberadamente (cf. Lc 12:4748). Seja qual for o caso, a histó­ ria indica que existe a possibilidade do perdão mesmo para um pecado sé­ rio cometido por uma pessoa batizada. 25. A história termina, anotando como os próprios apóstolos prega­ vam ao povo e evangelizavam muitas aldeias samaritanas no seu caminho de volta para Jerusalém. O sujeito do versículo se expressa vagamente, mas sem dúvida inclui Filipe, preparando, assim, o caminho para a história que se segue a respeito dele. O comentário é muito geral também, mas visa mostrar que a missão aos samaritanos, começada por Filipe, foi continua­ da pelos líderes da igreja em Jerusalém. Foi assim firmemente endossado o recebimento dos samaritanos na igreja e, em 9:31, o narrador conside­ ra coisa certa a presença de samaritanos na igreja única. g. A conversão de um etíope (8:26-40) Filipe figura também numa segunda história que outra vez diz res­ peito à expansão missionária da igreja. Ao passo que a história anterior di­ zia respeito à Samaria e a um movimento em massa, aqui se trata de um úni­ co convertido que vem do extremo sul. Na história anterior, não houve orientação divina especial que levasse à aventura evangelística, mas aqui, a cada passo, vê-se que o Espírito dirige tudo quanto acontece. A história diz respeito à conversão de um gentio; não é certo se era prosélito ou não. Visto, porém, que o homem voltou para a sua própria pátria distante, pare-155-


ATOS 8:26 ce daro que o episódio nSo levantou problemas imediatos para uma igre­ ja que ainda nío esclarecera sua atitude para com gentios convertidos. As questões levantadas somente chegaram ao clímax quando uma série pos­ terior de eventos forçou a igreja a reconhecer o que acontecia, e entrar em entendimento com eles. A história é incluída aqui tanto por causa de dizer respeito a Filipe, quanto por causa de formar parte do progresso paulatino da igreja em direção aos gentios. Historicamente, mostra que os helenistas, mais do que Pedro, assumiram a liderança em levar aos gentios o evange­ lho. A conversão propriamente dita é interessante aqui, pois o etíope foi levado à fé mediante o reconhecimento de que em Jesus foram cumpri­ das as Escrituras proféticas. Filipe conseguiu atuar sem qualquer necessida­ de de seus esforços serem suplementados pelos apóstolos. Tomando pòr certo que a narrativa é histórica, decerto depende das reminiscências do próprio Filipe. É óbvio, no entanto, que Lucas colocou ò relato na linguagem dele, ao ressaltar os elementos que considerou ter significância especial - o modo de Deus responder àqueles que O temem em todas as nações (10:34-35), o cumprimento da profeda do Servo de Deus na Pessoa de Jesus (3:13), e o papel desempenhado pelo Espírito na obra da evangelização. O modo de ser narrada a história tem certas semelhanças, quanto à estrutura, com outra história na qual um Estranho acompanhou dois viajantes e abriu perante eles as Escrituras, participou de um ato sa­ cramental, e depois desapareceu de vista (Lc 24:13-35). 26. A história começa a desenrolar-se quando um anjo deu ordem a Filipe, levando-o para longe do cenário da evangelização bem sucedida e conduzindo-o para um lugar que decerto parecia totalmente inapropriado para mais trabalhos cristãos. O emprego do anjo do Senhor como men­ sageiro relembra seu papel no Antigo Testamento (2 Rs 1:3, 15). Não fica claro por que o Espírito tomou o lugar do anjo como mensageiro divino no v. 29 (cf. 5:19; 10:3; 12:7-23; 27:23); no pensamento judaico, parece, ter havido nítida associação entre ambos (235). O que importa é que, des­ ta maneira, a viagem de Filipe e a ação subseqüente foram vistas como tendo sido instigadas por Deus, e, portanto, como parte da intençíío dEle. A igreja nào descobriu “por acidente” a idéia de evangelizar os gentios; tudo foi feito de acordo com o propósito deliberado de Deus. Filipe recebeu a ordem de ir para a banda do sul. A frase grega, no entanto, pode também ser traduzida “ao meio-dia” .91 Embora nenhuma das traduções

9 1Este é o significado literal; visto que o sol fica diretamente ao sul ao meiodia, a frase veio a ter um significado geográfico.

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ATOS 8:26-29 recentes adote esta tradução no seu texto, é possível que seja correta, pois toma o mandamento divino, dirigido a Filipe, tanto mais in comum e sur­ preendente; ao meio-dia, por causa do calor92, o caminho estaria deserto. O caminho aqui referido ia para o sul, de Jerusalém para Hebrom, e depois para o oeste, paxa o litoral em Gaza. Este se acha deserto é o comentário de Lucas que sublinha quão estranho era o mandamento. 27-28. Filipe, então, fez conforme a ordem recebida; obedeceu imediatamente e - por estranho que pareça,93 encontrou-se com outro viajante. O homem provinha do país hoje conhecido como ,o Sudão (e não a Etiópia moderna) onde era eunuco empregado no serviço da rainha-mãe, que tinha o título hereditário de Candace, e que, na realidade, exercia o poderio sobre a nação. O termo eunuco normalmente indica alguém que foi castrado; pela lei judaica, tais pessoas eram proibidas de entrarem no templo (Dt 23:1), embora Isaías 56:3-8 oferecesse para eles uma situação melhor no futuro. Se o homem fosse eunuco neste sentido, não poderia ser um prosélito. Este termo, no entanto, também podia ser empregado pa­ ra referir-se simplesmente a um oficial da corte. É possível que este seja o sentido aqui, mas os termos colecionados na frase dão a entender que a palavra deva ter algum significado independente juntamente com superin­ tendente, e o emprego que Lucas fez da linguagem veterotestamentária su­ gere que ele bem pode ter desejado que seus leitores vissem aqui o cumpri­ mento de Isaías 56:3-8. Da mesma forma, talvez tenha visto também um cumprimento do Salmo 68:31. Ressalta-se a alta posição do oficial como tesoureiro real: não era este um convertido insignificante! Viera a Jerusa­ lém a fim de adorar ali; era, portanto, pelo menos um “temente a Deus” (ver 10:2, nota). Mesmo que não pudesse ser um prosélito de pleno direi­ to, servia a Deus conforme suas melhores possibilidades. Provavelmente tinha estado em Jerusalém na ocasião dalguma das festas peregrinas, e agora estava de volta para casa, andando, conforme a sua posição social, num carro; aproveitava o tempo ao ler de um rolo que continha parte das Escri­ turas judaicas. 29-31. Pela segunda vez nesta história, Filipe recebe uma ordem divi­ na. Podemos supor que em circunstâncias normais uma pessoa comum não abordaria um viajante de posição sodal superior e, portanto, Filipe predsava de certeza interior quanto àquilo que deveria fazer. O carro deve ter si­

92n

,

Para este e outros detalhes da historia, ver van Unnik, págs. 328-339.

o3

A estrutura da narrativa visa sublinhar este fato.

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ATOS 829-34 do, na realidade, uma carroça de bois, e não teria viajado muito mais rapida­ mente do que o compasso do andar, de tal maneira que Filipe não teria di­ ficuldades em correr ao lado dela e chamar o ocupante. Ao aproximar-se do carro, Filipe ouviu a voz de quem lia - seja a de um escravo que lia em alta voz ao seu senhor, ou a do próprio eunuco.94 Reconheceu aquilo que estava sendo lido, e passou a perguntar ao eunuco se entendia aquilo que lia. Como resposta, o eunuco confessou ter necessidade de um intérprete, e convidou Filipe a empreender a tarefa. Decerto supôs ser este um judeu (pelas roupas ou pelo sotaque) e, assim, provavelmente capaz de ajudálo. O princípio geral que enunda, porém, é de significânda. O Antigo Tes­ tamento não pode ser plenamente compreendido sem interpretação. Era necessária uma chave para destrancar as portas dos seus ditos misteriosos. Jesus fornecera aos Seus discípulos uma chave assim (Lc 24:25-27, 4447). Agora, Filipe estava sendo conclamado a ajudar o eunuco da mesma ma­ neira. 32-33. A passagem que o eunuco estava lendo ofereceu uma opor­ tunidade de ouro ao evangelista. Na realidade, podemos perceber nesta narrativa a mão de Deus agindo a cada momento, no modo de Filipe ter si­ do guiado para o lugar certo, a fim de encontrar-se com um homem a quem Deus também estava preparando para este encontro. Não foi, portanto, por addente que, no exato momento em que Filipe escutou-o, estava lendo de uma passagem que era idealmente apropriada como ponto de partida para a mensagem crista. Isaías 53:7-8 pertence a uma passagem profética que diz respeito a um Servo de Deus que padeceu humilhação de todos os tipos, e carregou sobre Si o pecado dos outros; desta forma, faz expiação pelos pecados destes e, finalmente, é glorificado por Deus. Há muito debate quan­ to á maneira de.os leitores do século I terem entendido o texto, e é bem possível que a incerteza do eunuco fosse típica. Os versículos específicos dtados são obscuros quanto ao seu significado. Descrevem como o Servoguarda silêndo assim como um cordeiro nâo faz som algum ao ser con­ frontado pela faca do açougueiro ou do tosquiador. Não protestou, embora fosse humilhado, despojado da justiça e, finalmente, trucidado. 34. Parece estranho que o eunuco não pergunte qual o significado dos vérsículos; começa perguntando se o profeta descreve a sua própria experiência ou a doutra pessoa. Visto que Jeremias podia descrever seus sofrimentos de modo marcantemente semelhante a este (Jr 11:18-20),

94

Nos tempos antigos, as pessoas geralmente liam em voz alta, e não silencio­ samente como fazemos hoje. -

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ATOS 8:35 não é surpreendente que alguns estudiosos tenham postulado que neste caso, também, o profeta se referia à sua própria experiência. E, desde que Deus, noutras partes deste contexto geral, chamou o povo de Israel de ser­ vo dEle (Is 44:1-2), outra vez não é de se surpreender que alguns tenham identificado o Servo como sendo Israel, ou parte desta nação, ou o verda­ deiro Israel conforme a intenção de Deus. Estes dois pontos de vista ocor­ riam no judaísmo. O que não fica claro é se o Servo era identificado com o “Filho de Davi” que se esperava, e que estabeleceria o reino final de Deus em Israel. Segundo nosso ponto de vista, há alguma probabilidade de que este passo foi dado por alguns judeus,9 s e que, acima de tudo, Jesus via a Si mesmo como Aquele que cumpriu o papel do Servo.9 6 A frase “abrir a sua boca” (ARC) é usada quando segue uma decla­ ração importante. Aqui, pois, está o clímax da conversação, na medida em que Filipe toma da passagem o seu ponto de partida e declara as boas novas de Jesus Cristo. É claro que seu primeiro passo era demonstrar que Jesus era a pessoa que cumpriu a profecia. Uma descrição do caráter geral de Jesus e do modo do Seu sofrimento sem justa causa, e como foi con­ denado à morte, comprovaria este argumento. Sem dúvida, Filipe disse muito mais. Decerto, mostrou como a história de Jesus era boas novas. Não sabemos se fez diante do etíope uma exposição do restante de Isaías cap. 53. Já foi observado que, no que diz respeito ao próprio Lucas, ele regis­ tra poucas referências â obra de Jesus em carregar sobre Si os pecados humanos, e em fazer expiação, e alguns tiraram a conclusão de que pouca importância dava a este aspecto na sua própria teologia. Aqui, também, conforme alguns têm salientado, é curioso que os versículos de Isaías cap. 53 que são citados por extenso falam do sofrimento injusto de Jesus, mas não do fato de Ele levar sobre Si os pecados dos outros nem do seu padecimento em prol deles: é relevante este silêncio? Naturalmente, pos­ tular a pergunta deste modo é supor que a escolha que Lucas fez da cita­ ção foi dele mesmo, ao invés de ser determinada pelos fatos da história conforme Filipe ou alguma fonte documentária os transmitiu a ele, e é du­ vidosa semelhante suposição. Visto que, noutros trechos, Lucas se refere ao sofrimento de Jesus em prol dos outros (20:28; Lc 22:19-20), parece duvi­ doso nosso direito de tirar qualquer conclusão com base no silêncio desta

9 5Ver J. Jeremias, TDNT, V, págs. 654-717. 96R. T. France, “The Servant o f the Lord in the Teaching o f Jesus” , Tyn. B 19, 1968, págs. 26-52.

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ATOS 8:36-39 passagem sobre este fato.97 36. Que Filipe disse muito mais ao eunuco do que se sugere breve­ mente no v. 35 toma-se claro pelo fato que, quando os viajantes chegam a uma corrente o eunuco pediu o batismo. É óbvio, portanto, que Filipe de­ ve ter falado segundo o modelo do sermão de Pedro em Atos cap. 2, espe­ cialmente v. 38, a respeito da resposta adequada à mensagem cristã. Da mesma forma, podemos supor que o eunuco deve ter dado a Filipe alguma evidência da sua fé em Jesus. Não havia, portanto, razão alguma para ele não ser batizado. Mesmo assim, a falta de qualquer menção clara destas coisas levou algum escriba primitivo a preencher o v. 37 conforme aparece entre colchetes na ARA: “Filipe respondeu: É lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus!” O conteúdo do acréscimo é teologicamente correto, mas o estilo não é o de Lucas e a evidência em prol do trecho nos MSS mais antigos é fraca. 38. Filipe, satisfeito de que o eunuco estava pronto para o batismo, concordou com seu pedido. O eunuco mandou parar o carro, e os dois homens desceram à corrente, onde Filipe o batizou. Não há evidência suficiente para indicar se o batismo foi pela imersão do eunuco ou median­ te o derramar (afusão) de água sobre ele enquanto ficava de pé nas águas rasas; se o Novo Testamento deixa obscuro o modo preciso do batismo, talvez não devamos insistir nalgum tipo específico de praxe.* 39. Conforme consta, o texto descreve como o Espirito arrebatou a Filipe quando os dois homens saíram da água. É um término muito abrupto para a história, e fica consideravelmente aliviado pela forma mais longa do texto, que diz: “Quando saíram da água, o Espírito Santo caiu sobre o eunuco, mas o anjo do Senhor arrebatou a Filipe . . .” Visto que na frase grega original a palavra “Santo” vem na ordem conforme a temos supra, é fácil ver que a totalidade da frase poderia ter acidentalmente caí­ do do texto. Neste caso, a forma mais longa do texto pode ter sido a fra­ seologia original e, assim, a história relata explicitamente como o dom do Espírito seguiu após o batismo do eunuco. Embora seja fraca a evidência nos MSS em prol do texto mais longo, é possível que fosse o original. A frase “Espírito do Senhor”, no entanto, ocorre em 55 e Lc 4:18, e o qua­ dro do Espírito (e não um anjo) que transporta uma pessoa aparece em 1 Reis 18:12; 2 Reis 2:16; Ezequiel 3:14; et al. De qualquer maneira, o fato de que o eunuco foi seguindo seu caminho para casa cheio de júbilo nos pemite tirar a inferência de que recebeu o Espírito Santo. 97Ver Marshal, Luke, págs. 169-175. * V. o artigo sobre Batismo no NDITNT, vol. 1.

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ATOS 8:40-9:1 40. Neste ínterim, Filipe chegou em Azoto, a próxima cidàde impor­ tante ao norte de Gaza na estrada do litoral. Deste ponto em diante, havia povoações, e Filipe pregava nelas à medida em que caminhava para o norte, para Cesaréia. Parece que Filipe morava ali; de qualquer modo, na vez se­ guinte que aparece em Atos, em data muito posterior, é em Cesaréia que está estabelecido. h. A conversão e a chamada de Paulo (9:1-19a). Filipe desaparece abruptamente da história e, de modo igualmente abrupto, reaparece o jovem chamado Saulo, em feroz perseguição aos cris­ tãos. No caminho de Damasco, viu uma luz ofuscante, e ouviu a voz de Jesus que o ordenou a cessar de perseguí-Lo e a dispor-se a fazer coisa nova. Entrementes, um discípulo em Damasco estava sendo preparado para ir encontrar-se com ele e transmitir a ele a cura da sua cegueira e o batis­ mo como cristão. A Ananias foi revelado que Saulo seria uma testemunha de Jesus diante de gentios e judeus, e que sofreria por amor a Jesus. A substância da história é narrada duas vezes mais, no discurso de Paulo98 diante da multidão em Jerusalém em 223-16, e no seu testemu­ nho diante de Agripa e Festo em 26:4-18." Estas duas narrativas são fei­ tas na primeira pessoa, e mostram certa quantidade de variação, por aqui­ lo que omitem e acrescentam em comparação com a presente versão da história. Embora críticos do passado tenham debatido se Lucas tinha até três versões separadas da história, a tendência atual (associada com a supo­ sição de que Lucas não dava transcrições literais dos vários discursos de Paulo) é alegar que Lucas possuía uma só versão da história, e que a apre­ sentou de três modos diferentes. Se for correto este ponto de vista, seguir-se-á que não temos o problema de harmonizar duas ou mais versões da história, que talvez tenham diferenças significantes entre si; pelo contrário, as diferenças são meramente literárias - o próprio Lucas não via nelas problema algum. O fato de Paulo ter sido convertido e ter recebido a chamada para ser um missionário está fora de dúvida. Ele mesmo se refere ao fato em 1

98

Naquilo que se segue, geralmente usaremos o nome melhor conhecido de Saulo: Paulo, embora o próprio Lucas não comece a empregá-lo até 13:9. 99Sobre a conversão de Paulo, e o quadro que Lucas dá dele de modo geral, ver Burchard; Loning; Stolle; G. Lohfink, The Conversion o f Paul (Chicago, 1976).

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ATOS 9:1-2 Coríntios 15:8-9; Gálatas 1:12-17; Filipenses 33-7; e 1 Timóteo 1:12-16. Estas passagens descrevem como Paulo tinha sido um perseguidor da igreja que, tendo uma visão de Jesus, veio a ser chamado para o apostolado (cf. 1 Co 9:1) e convocado para pregar aos gentios. A partir de Gálatas 1:16-17, pode-se deduzir que, imediatamente depois da sua chamada, foi para Damas­ co e, depois de uma visita à Arábia, voltou para Damasco. A narrativa em Atos dá mais detalhes deste evento, e deve ficar claro que as versões dele, riaHas por Lucas e Paulo, estão de acordo essencial quanto aos aspectos bá­ sicos. Os problemas que surgem dizem respeito ao modo de a história ser contada em Atos. Qualquer narrativa daquilo que aconteceu deve ter vindo, em última análise, de Paulo e Ananias. A história em Atos pode ser com­ preendida como narrativa baseada nas palavras de Paulo, embora ele mesmo não cite tantos detalhes nas suas Epístolas? Não vemos qualquer dificul­ dade real em responder afirmativamente a esta pergunta. A história, no en­ tanto, mostra certo número de aspectos em comum com as lendas judaicas: (1) de Heliodoro, cuja tentativa de furtar dinheiro da tesouraria do templo foi impedida pela visão de um cavaleiro celestial que o fez cair por terra (2 Macabeus cap. 3), bem como (2) da conversão de Asenate, a esposa egíp­ cia de José (no romance José e Asenate). É provável que o máximo que se pode deduzir destas semelhanças é que o modo de a história ser contada te­ nha sido influenciado pelas formas das lendas judaicas, mas a historicidade básica da narrativa permanece inalterada. Deve-se observar, no entanto, que as diferenças entre as três narrativas em Atos, especialmente no modo em que Jesus dá a Paulo a comissão divina, na estrada no cap. 26, mas so­ mente numa etapa posterior, por Ananias em Damasco, nos caps. 9 e 22, demonstram que, em cada ocasião, Lucas não procura nos dar uma narra­ tiva dos detalhes precisos daquilo que aconteceu mas, sim, a natureza e significância gerais do evento. 1-2. A história começa lembrando-nos a atividade perseguidora movi­ da por Paulo que foi descrita em 8:3. A implicação é que não estava satis­ feito com os resultados da campanha em Jerusalém, ainda estava ansioso por fazer mais. Andava dizendo o que faria aos cristãos se não cessassem as suas atividades: a saber, que os mandaria assassinar. É problemático se tinha a autoridade para executá-los legalmente (ver 22:4; 26:10), e talvez a referência diga respeito àquilo que gostaria de fazer aos cristãos. Visto que muitos deles tinham fugido de Jerusalém, resolveu persegui-los e trazê-los de volta como prisioneiros para Jerusalém. Para tanto, procurou autori­ dade da parte do sumo sacerdote (seria Caifás, 18-37 d.C., neste caso) para ir às comunidades judaicas em Damasco. Damasco era uma cidade impor-162-


ATOS 9:2-4 tante, cerca de 242 km de Jerusalém, com uma população judaica de con­ sideráveis proporções. Estava dentro da jurisdição da província romana da Síria, e formava parte de Decápolis, uma liga de cidades auto-govemadas. Em 2 Coríntios 11:32, Paulo fala de um etnarca de Aretas, rei dos ára­ bes nabateus, que guardava a cidade para impedir que Paulo dela escapasse. Não fica claro se este oficial era preposto do rei, residindo em Damasco para cuidar dos interesses dos árabes ali, ou se Damasco naqueles tempos estava sob o controle da Nabatéia.'100 De qualquer maneira, as comunidades judaicas devem ter tido certos direitos de manter a lei e a ordem entre si mesmas. O problema que surge é se o sumo sacerdote tinha autoridade para intervir nos assuntos delas. Haenchen (pág. 320 n. 2) argumenta com razão que estudiosos anterio­ res tinham tirado deduções indevidas de passagens tais como 1 Macabeus 15:15-21, que trata de uma situação diferente e muito anterior; quando, porém, argumenta que Lucas fazia parte do número daqueles que inter­ pretavam erroneamente a 1 Macabeus, não precisamos concordar com ele. Provavelmente Hanson, pág. 112, esteja mais perto da verdade quando su­ gere que Paulo tinha “autorização do Sinédrio para ferir e até mesmo seqüestrar os cristãos de destaque, se conseguisse fazê-lo impunemente”. A descrição dos cristãos como sendo “os que eram do Caminho” é uma peculiaridade de Atos. Pressupõe o emprego do termo “o Caminho” para significar, na realidade, o “Cristianismo” (199, 23; 224; 24:14, 22). Por detrás deste termo, há, outrossim, a idéia do “caminho do Senhor/de Deus” (18:25-26), como o “caminho da salvação” (16:17). Deus indicou o caminho ou modo de vida que os homens devem seguir se desejam ser salvos (cf. Mc 12:14); a declaração dos cristãos de que o caminho deles era aquele indicado por Deus levou ao uso absoluto do termo, como aqui. É interessante que a palavra se empregava de modo muito semelhante na seita de Cunrã (1QS 9:17-18; 10:21; 11:13), bem como por outros gru­ pos religiosos.101 3-4. Paulo estava bem adiantado no caminho para Damasco quando foi parado de repente. Cerca do meio-dia (22:6), sem qualquer aviso prévio,

100Alguns estudiosos pensaram que o Imperador Gaio (37-41 d.C.) talvez te­ nha dado a cidade a Aretas, mas, se for assim, provavelmente teria sido depois de Pau­ lo ter deixado a cidade (ver 11:29, nota); outra possibilidade é que Aretas tenha toma­ do a cidade na confusão que se seguiu depois de ele d enotar Herodes Antipas em 32 d.C. 101G. E bel,N ID NTT, III, págs. 935-943. (em port., vol. I, art. Andar).

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ATOS 9:4-6 viu-se cercado por uma luz que brilhava intensamente, e ouviu uma voz que lhe falava. Estes são dois aspectos que se pode esperar numa revelação di­ vina. A luz brilhante deve ser entendida como expressão da glória divina, e, visto que se sustenta geralmente que nenhum homem pode ver a Deus, não é surpreendente que o efeito da luz fosse a cegueira. De modo semelhante, quando Pedro estava na prisão, seu visitante angelical veio acompanhado por uma luz brilhante (12:7; cf. Mt 17:5). A voz também é característica da re­ velação divina (e.g. Êx 3:1-6; Is 6:8; Lc 3:22; 935), mas aqui é especifica­ mente a voz de Jesus. Pode-se dizer, portanto, que Paulo teve um encontro com o Jesus ressurreto, no qual ouviu Sua voz. Noutros trechos, Paulo diz que Deus lhe revelou Seu Filho (G1 1:16), mas também vai além, e fala em ver a Jesus (1 Co 9:1; cf. 15:8). Tendo em vista 9:27; 22:14-15 e 26:16, não pode haver dúvida alguma de que a presente passagem deva ser inter­ pretada deste modo. Lucas, no entanto, não nos informa em que forma Jesus foi visto por Paulo, e pode ser relevante o fato que Paulo precisou perguntar pela identidade de quem falava. A narrativa diz respeito a uma revelação de Jesus vindo do céu, mais do que uma aparência de Jesus antes da Sua ascensão, e, portanto, não devemos imaginar que Jesus surgisse numa forma que (por exemplo) pudesse ser confundida com a de um viajan­ te comum (Lc 24:15). Toda a ênfase na presente narrativa recai sobre aqui­ lo que foi falado a Paulo. "Porque me persegues?” é uma pergunta que diz respeito ao propósito imediato de Paulo e indica que, embora este pensas­ se que estava meramente atacando um grupo de homens por seu modo herético de adorar a Deus, estava na realidade atacando um grupo que tinha um porta-voz e representante celestial; atacar aos cristãos era atacar esta figura celestial 5-6. A reação de Paulo foi de surpresa: “Quem és tu, Senhor?” não indica, necessariamente, o reconhecimento da identidade de quem fala; “Senhor” seria o trato de reverenda que normalmente seria usado pára responder a qualquer ser celeste (10:4). A resposta que Paulo recebeu mostrou que era Jesus quem falava, e a quem perseguia. Logo, o efeito da visão foi indicar a Saulo, que ao perseguir os cristãos, estava perseguindo a Jesus (Lc 10:16), mas, acima de tudo, ao perseguir a Jesus, estava perse­ guindo Aquele que tinha posição divina, vindicado e sustentado por Deus. O zelo de Paulo em prol da causa de Deus tomou-se em ataque contra Deus, que ressusdtara Jesus dentre os mortos. Semelhante modo de vida não poderia continuar; devia levantar-se e ir à ddade, onde receberia novas ins­ truções acerca da sua tarefa futura. £ um mandamento soberano, e su­ põe-se que Paulo obedeceria se realmente se preocupasse em servir a Deus. - 164-


ATOS 9:6-14 A conversação é relatada em termos algo diferentes nas narrativas parale­ las, mas não há discrepância básica no contexto geral daquilo que é dito em cada cena no seu todo; o que Ananias disse a Paulo, mais tarde, nesta narrativa, é o equivalente daquilo que lhe foi dito na estrada de Damasco em 26:16-27. 7. A revelação foi dada somente a Paulo, e seus companheiros não participaram dela; mesmo assim, eram testemunhas de que aconte­ cera algo de incomum (Conzelman, pág. 58). Pararam emudecidos, quando ouviram o som de uma voz, mas não viram a ninguém. Conforme 26:14, viram a luz e caíram por terra, e, segundo 229, viram a luz, mas não ou­ viram a voz. Bruce, (Livro, pág. 197) sugere que nesta passagem, a voz significa a voz de Paulo, e que seus companheiros ficaram surpressos ao ouvi-lo conversar com um interlocutor invisível; mas isto não parece mui­ to provável pois o comentário Segue imediatamente após a declaração de Jesus, e se assemelha, na linguagem, a 22 S . Ver mais sobre 22.9. 8-9. Para Paulo, fechar os olhos ao ser ferido pela luz brilhante, seria uma ação reflexa instintiva. Ao abri-los depois, ainda continuou sem ver; isto, por si só, não seria desnaturai, mas o modo de a cura mais tarde ser dada sugere que era provavelmente sobrenatural. Na sua fraqueza, Paulo preci­ sou ser guiado pelos seus companheiros, e assim chegou a Damasco. Ali, je­ juou durante três dias, sem dúvida ainda vencido pelo choque, e provavel­ mente como penitência à medida em que percebia ainda mais a enormida­ de das suas ações. 10-12. Entrementes, o Senhor estava fazendo os preparativos para a etapa seguinte na vocação de Paulo. Um cristão chamado Ananias (cf. 22: 12 para seu bom caráter) teve um sonho no qual ouviu o Senhor que Se di­ rigia a ele; a cena relembra a de 1 Samuel cap. 3, onde Samuel ouviu ao Se­ nhor que a ele chamava; no presente contexto, porém, o Senhor deve sig­ nificar Jesus. Ananias devia ir para uma casa na “Rua Direita” , onde acharia um homem chamado Saulo, de Tarso. A visita seria esperada, pois o próprio Saulo estava orando, e também recebeu uma visão em sonho de um homem chamado Ananias que vinha para impor-lhe as mãos e curá-lo. O plano, por­ tanto, foi confirmado por um sonho duplo (cf. a história de Comélio e Pedro, 10:1-23). 13-14. O nome de Saulo, no entanto, não era desconhecido a Ana­ nias, que protestou que tudo quanto sabia acerca deste homem era que se tratava de um inimigo da igreja. De muitas fontes chegaram notícias dos da­ nos que já fizera em Jerusalém, e rapidamente tinha ficado conhecido por que viajara para Damasco. O efeito do comentário é lançar em alto relevo a maravilha da conversão de Saulo, ressaltar a maravilha da sua conversão -165-


ATOS 9:14-19a e indicar o contraste entre seu modo de vida anterior e a nova vocação na qual estava para entrar. Podemos notar, inddentalmente, duas novas descrições dos crentes aqui empregadas. Os santos (9:32, 41; 26:10; cf. 20:32; 26:18) é um termo comum nos escritos de Paulo e descreve os cristãos como pessoas que foram separadas para o serviço de Deus e que devem ter um caráter à altura. Os que invocam o teu nome ecoa 2:2 (Joel 2:32) e ocorre outra vez em 22:16, numa ordem dirigida ao próprio Paulo no sentido de ser ele mesmo batizado (ver mais 1 Co 1:2). 15-16. O comentário talvez fosse entendido como expressão de desobediênda a Deus; Ananias devia ter reconheddo que o Senhor sabia mais do que ele! Mas suas palavras eram perfeitamente naturais, e, neste con­ texto, servem para introduzir uma declaração adidonal pelo Senhor a res­ peito da sua escolha de Paulo para ser Seu servo. Em 22:14-16, que é, em efeito, uma declaração paralela à presente dedaração, aparece na forma de uma instrução divina que Ananias entregou a Paulo a respeito do seu papel futuro. O Senhor já resolvera chamar Paulo ao Seu serviço; escolheu-o co­ mo Seu instrumento102 para a tarefa de levar o Seu nome perante os gen­ tios e reis, e perante o povo de Israel. O pensamento da escolha divina cor­ responde aqui àquele que se expressa em 22:14 e 26:16, bem como com a convicção do próprio Paulo em Gálatas 1:15. Levar o meu nome é uma expressão incomum que significa dar testemunho de Jesus (cf. 9:27). Os gentios, os reis e o povo de Israel representam os três grupos prindpais diante dos quais Paulo, na realidade, dará testemunho mais tarde na his­ tória, e a ordem incomum das palavras visa ressaltar a vocação de Paulo para ir aos gentios. “Levar o nome” desta forma não será coisa fácil; acarretará o sofrer por causa de Cristo —contraste marcante com o causar sofrimento aos cristãos (9:13). O Livro de Atos não esconde o fato de que o fiel teste­ munho a Jesus é uma tarefa custosa em termos do sofrimento que pode acarretar para quem leva as boas novas. 17-19a. Assim, Ananias foi obedecer à ordem recebida. Deixou de lado as suas dúvidas, calorosamente chamou Paulo de irmão; e impôs sobre ele as mãos. Este ato certamente deve ser entendido como símbolo da cura (Lc 4:40) ao transmitir a bênção divina. Não fica daro se no presente contexto também é considerado como sendo a transmissão do Espírito Santo a Paulo e, realmente parece improvável, pois aqui precede o batis­ mo, com o qual normalmente se assodaria o recebimento do Espírito. Ao mesmo tempo, Ananias indicou sua comissão da parte do mesmo Se­ 102A forma de expressão é hebraica; cf. “vasos de ira”, Rm 9:22.

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ATOS 9:19b nhor que já aparecera a Paulo, para trazer-lhe a cura e o dom do Espírito. A volta da vista de Paulo foi indicada pela queda de um tipo de película dos seus olhos (assim como na história de Tobias —Tobias 3:17; 11:13). Foi batizado por Ananias —não era necessário um apóstolo para cumprir a tarefa —e terminou seu jejum. i. Paulo começa a pregar (9:19b-31). Lucas ressalta que Paulo, logo ao ser convertido e chamado a ser tes­ temunha de Jesus Cristo, começou a realizar a sua comissão, associando-se com os cristãos existentes em Damasco e pregando aos judeus descrentes. Dentro em breve, porém, a sua obra suscitou oposição, e precisou fugir precipitadamente da cidade. Chegando em Jerusalém, não recebeu as boasvindas entre os cristãos, até que Barnabé lhe desse apoio, e o apresentas­ se aos apóstolos. Paulo então tomou parte no testemunho aos helenistas, até que ficou sendo perigoso para ele, e quase ficou sendo vítima da mes­ ma perseguição que ele mesmo anteriormente praticara. Mais uma vez, te­ ve que fugir, desta vez para Tarso. Um dos itens nesta narrativa recebe confirmação histórica casual da própria evidência de Paulo: a fuga de Damasco (2 Co 11:32-33), o que deve servir de advertência contra o questionar o valor do restante da his­ tória. Mesmo assim, recebemos uma impressão diferente dos acontecimen­ tos ao lermos Gálatas 1:16-24, segundo o qual (1) Paulo não consultou homens depois da sua conversão, nem foi para os apóstolos em Jerusalém, mas, sim (2) partiu para a Arábia, e depois voltou para Damasco; depois (3) três anos mais tarde foi para Jerusalém, para uma visita de quinze dias, durante a qual viu somente Pedro e Tiago, e, nestes tempos, as igrejas da Judéia não o conheciam de vista; a seguir (4) foi para a Síria e a Cili­ cia. Esta narrativa é acompanhada por uma asseveração da sua veracidade, que sugere que algumas pessoas a contradiziam. Não há grande dificuldade em incluir uma visita à Arábia no padrão dos eventos em Atos. É mais difí­ cil reconciliar que os cristãos da Judéia tinham suspeitas de Paulo três anos depois da sua conversão, que viu “os apóstolos” , e que pregou abertamente em Jerusalém, com as declarações em Gálatas. Haenchen (pág. 334) pensa que Lucas nada sabia acerca da visita à Arábia e que supôs que a visita de Paulo a Jerusalém ocorreu muito pouco tempo depois da sua conver­ são. O assunto, porém, é debatido, por J. B. Iightfoot103 que explica algumas das diferenças em termos dos objetivos diferentes das duas narra103Saint Paul’s Epistle to the Galatians (Londres, 1896), págs. 91-92.

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ATOS 9:19b-23 tivas (para os pormenores, ver abaixo). Mesmo assim, é difícil evitar a im­ pressão dalguma tensão entre as narrativas. 19b-22. O breve período que Paulo passou com os cristãos em Da­ masco sem dúvida deve ser colocado antes da visita à Arábia descrita em Gálatas 1:6-7. É verdade que Paulo disse que não consultou com qualquer homem, mas, sim, partiu imediatamente para a Arábia, mas não devemos interpretar a passagem com literalidade crassa; o que está querendo dizer é que não recebeu instruções detalhadas de qualquer líder cristão, seja em Damasco, seja em Jerusalém. Conforme declara Atos, começou imediata­ mente a agir como missionário e não como perseguidor. Quando visitava as sinagogas em Damasco, não era para caçar os cristãos, mas, sim, pregar a Jesus. É significante que sua pregação foi resumida como sendo ensino acerca de ser Jesus o Filho de Deus. Noutros lugares em Atos, Jesus não é descrito como sendo Filho de Deus, a não ser em 13:33, num sermão de Paulo. Este título, no entanto, é empregado por Paulo como termo chave da sua teologia, e é digno de nota que se ressalta na narrativa da sua cha­ mada em Gálatas 1:16 e se associa com sua chamada para ser apóstolo em Romanos 1:14. Pode-se concluir que o efeito da visão que Paulo teve de Jesus foi o de convencê-lo que Jesus era o Filho de Deus, e que Lucas tem razão em dedarar que foi este título que figurava nas primeiras pregações de Paulo. Paulo não era necessariamente a primeira pessoa a aplicar este título a Jesus. Expressava a posição de Jesus como Messias (2 Sm 7:14) que foi chamado por Deus para sentar-Se à Sua destra (SI 2:7). O efeito desta pregação sobre os ouvintes deve ter sido eletrificante quando se lembravam da razão por que Paulo originalmente viera a Damas­ co. As palavras colocadas nos lábios dos judeus para expressar a sua atitu­ de são, sem dúvida, a escolha de Lucas, e é interessante que emprega a mes­ ma palavra exterminar para descrever a atividade de Paulo que o próprio Paulo emprega em Gálatas 1:13, 23 (não se emprega noutras partes do No­ vo Testamento). A frase invocar o nome é linguagem cristã (9:14) que os judeus, conforme este relato, retomam. A oposição deles, no entanto, me­ ramente serviu para encorajar o zelo do novo convertido, e se viram inca­ pazes de refutarem seus argumentos no sentido de Jesus ser o Messias. 23-25. Os muitos dias da narrativa de Lucas corresponderão ao perío­ do mendonado em Gálatas 1:18, que decorreu antes de Paulo ir para Jeru­ salém; a expressão “depois de três anos” , que ali se acha, é provavelmen­ te um exemplo de cálculo inclusivo, e não predsa se referir a mais do que dois anos. É aqui que devemos colocar a visita de Paulo à Arábia, depois —168 —


ATOS 9:24-27 da qual voltou para Damasco. Conforme Atos, os judeus eram os respon­ sáveis por um plano para tirar-lhe a vida, e guardavam as portas para evitar a fuga dele, mas estes planos assassinos foram logrados quando Paulo esca­ pou num cesto, através da janela de uma casa edificada sobre a muralha da cidade. Na narrativa do próprio Paulo, a vigia foi montada pelo etnarca do rei Aretas do reino árabe nabateo. A narrativa em 2 Coríntios 11:32-33 faz bom sentido, pois, se Paulo acabara de voltar da Arábia, é provável que a sua pregação tenha levantado perturbações éntre as comunidades ju­ daicas ali. É igualmente provável que os judeus em Damasco tomassem par­ tido com o etnarca e até que obtiveram seu apoio na hostilidade deles con­ tra Paulo.104 26. Paulo escapou em segurança, embora ele mesmo considerasse uma vergonha ter sido compelido a fugir desta maneira (2 Co 1130), e caminhou para Jerusalém onde procurou juntar-se com os cristãos. Mas, segundo Lucas, tinham medo dele por temerem ser ele um infiltrado da parte dos perseguidores. Os comentaristas têm estranhado esta situação, sendo que, por certo, já passara tempo sufidente para as notícias da con­ versão dramática de Paulo e suas atividades subseqüentes de pregação terem chegado a Jerusalém. Será que pensaram que aquilo que parecia ser a conver­ são de Paulo não passasse de um complô complicado e de longa duração? 27. Seja qual tenha sido o caso, está totalmente em conformidade com o caráter que ficamos sabendo de Barnabé, a partir de Atos, que foi ele que se dispôs a dar as boas-vindas a uma pessoa a quem o restante da igreja tinha sido lento em perdoar por seus ataques anteriores contra eles, e a quem ainda encaravam com incerteza e temor. Foi Barnabé quem levou Paulo aos apóstolos e relatou uma história que estava disposto a crer e a qual, se verdadeira, plenamente reabilitaria Paulo nas mentes dos líde­ res cristãos. Em especial, contou como Paulo falara ousadamente em prol de Jesus, a ponto de colocar em risco a sua própria segurança.1os Do pon­ to de vista de Lucas, talvez fosse importante que Paulo se associasse desta maneira com os líderes da igreja em Jerusalém; mas o próprio Paulo fez

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Os amigos de Paulo são descritos em ARA como os seus discípulos; a frase é tão estranha que alguns comentaristas sugerem que um “a ele” como objeto do ver­ bo “tomaram” (doutra forma não expressa) foi erroneamente transformado em “seus” nos MSS mais antigos (Metzger, pág. 366). 10SÉ possível que devamos traduzir a frase de modo diferente, de tal modo que fosse Paulo quem deu seu testemunho diante dos apóstolos (Burchard, págs. 147-8).

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ATOS 9:27-30 questão de asseverar sua independência deles quando escreveu para os cris­ tãos gálatas acerca da sua vida cristã pregressa; insistiu em que não colheu dos homens o seu cristianismo, e ressaltou que a sua visita a Jerusalém foi breve, de apenas quinze dias, e que, dos apóstolos, viu apenas Pedro e Tia­ go (G11:18-20). 28-29. Durante sua breve permanência, Paulo esteve em estreito con­ tato com os apóstolos (quanto à frase, cf. 1:21) e continuou a falar aber­ tamente em nome de Jesus; isto porque Lucas classificava Paulo como tes­ temunha juntamente com os apóstolos, pois ele também fora chamado pelo Senhor ressurreto para servir a Ele. Mas, seja o que for que os após­ tolos estavam fazendo, Paulo se sentiu chamado para seguir nas pegadas de Estêvão e testificar aos helenistas. Como Estêvão, caiu no desagrado deles, e precisou escapar para a sua própria segurança. Este relato da ativi­ dade homilética de Paulo tem dado a impressão de ser difícil para encaixar com o próprio testamento de Paulo em Gálatas 1:22: “E não era conhecido de vista das igrejas da Judéia, que estavam em Cristo” .106 Não fica total­ mente claro se “as igrejas da Judéia” visa incluir os cristãos em Jerusalém, ou se se refere às áreas do interior. Uma resposta depende de se Gálatas 1: 8-9 subentende que Paulo meramente viu Pedro e Tiago e não freqüenta­ va as reuniões da igreja; se tivesse visitado a igreja, decerto deve ter conheci­ do alguns dos outros apóstolos, a não ser que estivessem ausentes de Jeru­ salém. Parece provável, no entanto, que em Gálatas Paülo está tratando dal­ gum tipo de acusação no sentido de ter sido participante de uma missão na Judéia na qual de bom grado insistia na circuncisão (G1 5:11). J. B. Lightfoot alega: ‘Tara a maioria dos cristãos em Jerusalém talvez fosse, e para as igrejas da Judéia de modo geral, deve ter sido pessoalmente desco­ nhecido. Mas, embora as duas narrativas não se contradigam, a impressão deixada pela narrativa de São Lucas precisava ser complementada pela declaração mais precisa de São Paulo.” 107 Visto que, segundo Atos,-as atividades de Paulo se realizavam entre os helenistas, i.é, os judeus da Dis­ persão residentes em Jerusalém, fica claro que não fez trabalhos missioná­ rios nas áreas do interior da Judéia (ver 26:19-20, nota.). 30. Como resultado da ameaça contra a sua vida, Paulo, foi levado pe­ los seus amigos, em primeiro lugar, para o porto marítimo da Cesaréia, e depois enviado para sua cidade natal de Tarso. Esta observação se encaixa 106Ver 8:3, nota. Paulo decerto quer dizer que era desconhecido a eles como cristão. 107J. B. Lightfoot, op. cit., pág. 92.

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ATOS 9:31-32 com seu comentário que foi para as regiões da Síria e da Cilicia.108 Tar­ so era a capital da Cilicia, e tinha grande fama como centro de erudição. Quanto aos vínculos que Paulo tinha com ela, ver 22:3 e 21:39. 31. Paulo agora sai do palco até seu reaparecimento em 11:25-26. Já aqui, porém, foi conseguido um avanço importante na narrativa de Lu­ cas. Todos os preparativos já foram feitos para um passo decisivo na mis­ são da igreja que a levou aos gentios. Assim, Lucas faz uma pausa para dar um resumo geral da situação. A despeito da oposição levantada contra Pau­ lo, a perseguição ativa da igreja cessou com a sua saída do cenário, e, por enquanto, a igreja desfrutou de um período de paz. Por estes tempos, se espalhara pela totalidade da área que chamamos de Palestina. Não se faz menção específica de evangelização na Galiléia; Lucas sem dúvida entendia que os discípulos de Jesus durante a Sua vida terrestre ficaram sendo mem­ bros da igreja e evangelizaram a sua própria vizinhança. A igreja podia pen­ sar de si mesma como sendo um único organismo, ou como grupo de cen­ tros locais em comunhão uns com os outros (cf. G11:22; 1 Ts 2:14). Estava sendo fortaledda à medida em que vivia no temor do Senhor e com as forças outorgadas pelo Espirito Santo, e assim continuava a crescer em número. IV. O COMEÇO DA MISSÃO AOS GENTIOS (932-12:25)

a. As obras poderosas de Pedro (932-43). Começou uma nova fase na obra e na expansão da igreja quando se viu forçada a tomar uma dedsão quanto à sua atitude para com aqueles que não eram judeus. A questão já surgira, em princípio, com a conversão do eunuco etíope, mas este inddente não teve efeitos permanentes sobre a política da igreja; uma vez, no entanto, que se fazia convertidos que pas­ sariam a fazer parte permanente da vida da igreja, não poderia ser adiada a

108O fato de serem nomeadas as dúas regiões naquela ordem em G1 1:21 (cf. At 15:23) não significa necessariamente que Paulo tenha trabalhado na Síria antes de ir para a Cilicia; na realidade, sua obra em Antioquia, capital da Síria, foi depois do tempo que passou em Tarso. Nestes tempos, a Síria e a Cilicia formavam uma só província, e era natural nomear em primeiro lugar o parceiro mais importante, sem subentender que Paulo necessariamente visitasse as duas áreas na mesma ordem; ver E. M. B. Green, “Syria and Cilicia: A N ote”, E T 71, 1959-60, págs. 52-53.

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ATOS 9:32-35 questão da sua aceitabilidade. Lucas relata dois incidentes de importância nesta conexão. Em primeiro lugar, narra como o problema surgiu para os cristãos de Jerusalém como resultado da conversão de Comélio e sua famí­ lia e, em segundo lugar, descreve como a igreja em Antioquia avançou com naturalidade para a formação de um grupo cristão judaico e gentio. Tomouse, assim, a decisão fundamental no sentido de evangelizar os gentios, em­ bora o problema de se eles deveriam ser obrigados a viver como judeus continuou a deixar a igreja perplexa por algum tempo. No meio desta histó­ ria, temos duas narrativas acerca de Pedro. A primeira delas (9:3243) é narrada porque provavelmente fazia parte da história da conversão de Cornélio e explicava como Pedro chegou a estar em Jope; ao mesmo tempo, ilustra os poderes carismáticos dos apóstolos, mostrando como Pedro agiu como agente de Jesus em fazer obras poderosas semelhantes àquelas que foram realizadas nos Evangelhos. A segunda narrativa (cap. 12), descreve a prisão de Pedro e sua milagrosa soltura, após a qual virtualmente desapa­ rece da história em Atos (a não ser seu aparecimento no capítulo 15). As duas histórias curtas que compõem a primeira narrativa acerca de Pedro podem ser classificadas como histórias de milagres, contadas confor­ me o estilo de narrativas semelhantes nos Evangelhos. A primeira se conta de forma breve, ao passo que a segunda se narra em considerável detalhe. São óbvios os paralelos com a cura de um paralítico, feita por Jesus (Lc 5:17-26) e Sua ressusdtação da filha de Jairo (Lc 8:41-56), mas é significante que Paulo também realiza obras poderosas semelhantes (14:8-12; 20:7-12). Em ambos os casos, o efeito dos atos de Pedro é levar à fé as pessoas da localidade. Lucas não teria concordado em uma sugestão moder­ na de que a fé que se Ijpseia em milagres não é fé verdadeira; onde o poder de Deus na cura (e no julgamento) se revela em atos e não apenas em pala­ vras, então é correto que o povo faça sua resposta, e a obra poderosa pode ser fator de persuasão lado a lado com a palavra. 32-35. Mostra-se Pedro viajando entre as igrejas fora de Jerusalém a fim de lhes dar ensinamentos apostólicos (2:42); sua atividade, no entan­ to, não se confinava a ensinar os cristãos, mas também incluía a evangeliza­ ção. Suas viagens provavelmente incluíam as áreas mendonadas em 9:31, e, nesta ocasião, levaram-no até ao litoral oeste da Palestina. É possível que estivesse dando seqüénda à evangelização feita por Filipe naquela área (8:40). Lida (Lode, no Antigo Testamento) ficava na estrada entre Jerusa­ lém e o litoral, a uma distânda de cerca de 40 km. Enéias era, presumivel­ mente, um cristão; o fato de ter ele um nome grego (bem conheddo do poema épico de Virgílio acerca dos sobreviventes da guerra troiana) não -172-


ATOS 9:35-39 é inconsistente com sua identidade judaica, e nada na narrativa sugere o contrário. Tinha ficado confinado à cama havia oito anos (ou, possivel­ mente, desde seus oito anos de idade). Pedro conseguiu curá-lo ao anunciar que Jesus Cristo te curai e ao conclamar Enéias a levantar-se da cama. A ordem arruma o teu leito usualmente é entendida no sentido de Enéias dever enrolar sua cama; mas, ao passo que em português se pensa em arru­ mar a cama depois de ter dormido, a frase grega significa, mais natural­ mente, preparar a cama a fim de deitar nela. A referência, porém, talvez diga respeito à preparação de um sofá a fim de sentar-se à mesa para tomar uma refeição. Assim teríamos um paralelo com Lucas 8:55. De qualquer maneira, a ação indicaria a realidade da cura. Semelhante cura pode ser explicada, por aqueles que desejam assim fazer, como sendo psicológica, pois a paralisia psicossomática não é desconhecida. O fato importante, porém, é que a cura foi levada a efeito pelo nome de Jesus, fato este que levou a muitas conversões entre o povo da localidade, ao verem o homem curado. A expressão de Lucas todos os habitantes é seu modo de indicar grande número deles; o povo local talvez tenha incluído não-judeus nesta região semi-gentílica, mas não se dirige atenção especial a este fato. Sarona era o nome da planície litorânea que se estendia ao norte, de Lida em direção ao Carmelo. 36-38. Jope (moderna Jafa) ficava no litoral, a 19 km de Lida. Aqui, também, havia um grupo de cristãos, inclusive uma mulher chamada Tabita em Aramaico; Lucas nos informa que este nome tinha o mesmo significado que Dorcas em Grego; os dois nomes podem ser traduzidos por “gazela” . Diz-se que ela se ocupava com boas obras e ações caridosas, eram estas vir­ tudes altamente estimadas, que continuavam a ser praticadas pelos cristãos. Quando Pedro estava na vizinhança, ela adoeceu e morreu. As amigas dela (o grego tem uma terceira pessoa plural vaga) seguiram a praxe usual de lavá-la, mas ao inves de ungi-la e enterrá-la, deixaram-na no cenáculo, onde seria deixada a sós. Estas ações sugeriram que tinham alguma esperança de que Tabita fosse ressuscitada dentre os mortos, e os leitores de Lucas talvez se lembrassem de episódios semelhantes no Antigo Testamento nos quais cadáveres eram colocados em cenáculos (1 Rs 17:19; 2 Rs 4:10, 21). O incidente talvez testifique a uma crença nalgumas partes da igreja primi­ tiva de que os cristãos não morreriam antes da vinda do Senhor, mas, sim, seriam ressurretos. De qualquer forma, os cristãos em Jope sentiram suficien­ te fé na possibilidade da ressurreição para enviarem a Pedro o pedido no sentido de que viesse logo. 39-42. Tão logo Pedro chegou, foi levado ao lugar onde fora deita­ -173 -


ATOS 9:40-43 da Tabita. Agora, a casa já estava cheia de pranteadores, inclusive espe­ cialmente um grupo de viúvas que mostraram a Pedro as roupas que Ta­ bita fizera; a frase grega pode indicar que se tratava das roupas que usa­ vam no momento. O cuidado das viúvas e outras pessoas necessitadas era um dever religioso na comunidade, e uma comunidade cristã naturalmente seguiria a praxe judaica em cuidar dos pobres no seu meio. Talvez a demons­ tração visasse encorajar Pedro a operar um milagre. Agora, este procedeu a seguir o exemplo de Jesus em circunstâncias semelhantes. Mandou todos saírem do aposento (Mc 5:40; detalhe este que é omitido na versão que Lucas deu da história, Lc 8:54), depois orou (2 Rs 4:33). Depois chamou à morta: Tabita, levanta-te. Em Aramaico, a frase seria Tabitha cumi, que difere numa só letra do mandamento que Jesus deu à filha de Jairo, Talitha cumi (Mc 5:41). Esta coincidência já levou à especulação de que uma das histórias foi composta a partir da outra, mas não há evidência positiva que favoreça este ponto de vista. A morta respondeu à chamada de Pedro ao abrir os olhos e sentar-se. Somente então é que Pedro lhe deu a mão para ajudá-la a ficar de pé. O milagre foi operado exclusivamente pela oração e pela palavra de ordem. Finalmente, Pedro conclamou os cristãos e as viú­ vas; a frase pode significar “os cristãos, inclusive as viúvas” , embora não se­ ja necessário supor que Tabita tinha apenas ajudado as viúvas cristãs. Assim como no caso da cura de Enéias, a notícia do milagre se espalhou por gran­ de distância, e levou a muitas conversões.. 43. Era natural que Pedro ficasse na vizinhança para dar seguimento a este movimento em massa (decerto, fez a mesma coisa em Lida). O que é interessante é que se hospeda com um curtidor. O detalhe é incluído porque dá o “endereço” de Pedro de antemão para as direções na história seguinte (10:6). Os comentaristas notaram que a ocupação de um curtidor era con­ siderada impura, e que uma pessoa com escrúpulos farisaicos evitaria qual­ quer contato com semelhante homem. Podemos duvidar se Pedro já se preo­ cupava com tais escrúpulos e, portanto, se Lucas pretende registrar um passo para a frente na sua libertação deles.

b. A conversão de Comélio (10:1-11:18). Enquanto Pedro estava em Jope, os eventos estavam sendo encaminha­ dos para um nova etapa na sua carreira missionária, enquanto Deus fazia os preparativos para a entrada dos gentios na igreja. Dois sonhos levaram ao encontro decisivo. Em primeiro lugar, um centurião romano que era temen­ te a Deus recebeu uma intimação divina no sentido de convocar Pedro pa­ -174-


ATOS 10:1 ra visitá-lo e, em segundo lugar, Pedro foi preparado para aceitar este con­ vite mediante um sonho em que lhe foi mostrado que já não devia distin­ guir dentre alimentos ritualmente puros e impuros e, portanto (subentende-se) podia se sentir livre para comer com os gentios. Assim, Pedro viajou à Cesaréia onde se encontrou com Cornélio e sua família e amigos e, quando recebeu o convite para lhes dirigir a palavra, pregou-lhes o evangelho. En­ quanto aihda falava, caiu o Espírito sobre o grupo reunido, de uma maneira que fez Pedro lembrar-se do Pentecoste, e reconheceu que, se Deus aceitava os gentios desta maneira, então Pedro devia ser disposto a aceitá-los na igre­ ja mediante o batismo. Quando chegou a Jerusalém, viu-se argüido pela sua ação em comer juntamente com gentios (não, curiosamente, por batizá-los), e teve que defender sua atuação, narrando a história da inconfundível orien­ tação de Deus que culminou com o batismo que administrou aos gentios sobre os quais caíra o Espírito. Assim, não somente silenciou os críticos, mas também levou-os ao reconhecimento de que a salvação estava dispo­ nível para os gentios. Só o grande cumprimento desta história, e o fato dela ser contada, em efeito, duas vezes (ver também o resumo em 15:7-9) indicam a máxi­ ma importância que Lucas atribui a ela no contexto de Atos como um to­ do. Trata da questão decisiva da história da igreja primitiva, a saber: o re­ conhecimento de que o evangelho é para os gentios bem como para os ju­ deus, e torna claro que não se tratava de uma decisão meramente humana, mas, sim, foi resultado da clara orientação de Deus. O obstáculo à missão aos gentios era que faria os judeus, observadores da lei, entrar em contato com pessoas consideradas impuras, e com os alimentos delas, também con­ siderados impuros. É este obstáculo que foi vencido na visão de Pedro; não se dá base teológica para a rescisão deste aspecto da lei, no entanto, nesta etapa. Mais tarde, surge a pergunta de se os convertidos gentios devem ser circuncidados e obrigados a conformar-se com a lei de Moisés noutros aspectos, que veio a ser causa de amargas contendas; mas, conforme reconhece Lucas, esta questão não surgiu até que fosse iniciada a praxe de aceitar gentios na igreja. 1. A primeira das quatro cenas nas quais se pode dividir a história (10:1-8, 9-23a, 23b-48; 11:1-8) ocorre em Cesaréia (8:40; 9:30), uma “ci­ dade nova” edificada por Herodes Magno que veio a ser o centro governa­ mental para a administração romana da Judéia. Ali residia um centurião chamado Comélio. O nome era comum, tendo sido dado a milhares de es­ cravos cuja liberdade lhes foi outorgada por P. Cornelius Sulla em 82 a.C. Sherwin-White (págs. 160-1) nota que o emprego desta parte de um nome -175 -


ATOS 10:1-3 romano com três partes está de acordo com a praxe no exército deste perío­ do. O centurião era o equivalente de um sargento nas categorias militares modernas. A coorte italiana à qual pertencia era um corpo de tropas origi­ nalmente recrutadas na Itália. Visto que não havia legiões romanas na Ju­ déia, mas, sim, apenas as assim-chamadas forças auxiliares, a coorte deve ter pertencido a estas, fazendo os serviços de guarnição. Há evidência nas inscrições de que houve uma coorte italiana na Síria até 69 d.C. Haenchen (pág. 346 n. 2) argumenta que Lucas aplicou à história as condições de um período posterior, visto que em 4144 d.C., enquanto Herodes Agripa I reinava como rei cliente, não haveria unidades romanas na Judéia. Esta objeção, no entanto, deixa de lado as possibilidade de o incidente descrito ter ocorrido antes de 41 d.C., quando certamente havia tropas romanas ali, e de Comélio já estar aposentado do serviço militar até a data do inci­ dente. 2. Para Lucas, mais importante do que a posição militar de Cornélio era o fato dele e toda a sua casa serem adoradores de Deus. A reverên­ cia do Cornélio estava longe de ser nominal, conforme demonstram as es­ molas que dava aos pobres e suas orações freqüentes. Mesmo assim, Cor­ nélio não se submetera à circuncisão, conforme fica claro em 11:3. Não era prosélito, i.é, um gentio que tinha plenamente aceito a religião judaica, passando pela circuncisão, mas, sim, meramente um “temente a Deus” (cf. 13:16, 26, 43; 16:14; 17:4, 17; 18:7),110 os judeus na Palestina .consi­ deravam que tais pessoas ainda eram pagãs, mas parece ter havido uma ati­ tude mais liberal na Dispersão. É possível, portanto, que Cornélio tivesse chegado a ser um temente a Deus antes de chegar na Palestina. A igreja pri­ mitiva em Jerusalém compartilhava com a atitude dos demais judeus para com tais tementes a Deus, mas as atitudes cristãs se mudaram, e fica cla­ ro que o próprio Lucas reconheceu o valor deste passo no caminho do pa­ ganismo para a conversão cristã. Notem-se as semelhanças entre Cornélio e o centurião sem nome em Lucas 7:1-10, especialmente v. 5. 3-6.0 episódio começa com Uma visão angelical que veio a Corné­ lio na hora nona do dia (15 horas). Visto que era esta a hora das orações

110O termo veio a empregar-se para os gentios que adoravam a Javé e fre­ qüentavam a sinagoga, mas não se submetiam à circuncisão. As frases gregas que Lucas emprega (“tementes a Deus”, “adoradores a Deus”) não têm um sentido técni­ co, no entanto, e podem ser empregadas para quaisquer adoradores piedosos de Deus, circuncidados (assim provavelmente em 13:43) ou não (como aqui); ver K. Lake, BC, V., págs. 84-88.

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ATOS 10:5-9 no templo em Jerusalém, pode-se supor que Cornélio estava orando, e tam­ bém pode haver o pensamento de uma visão em plena luz do dia não ser uma fantasia da sua imaginação. O anjo chamou-o pelo nome (cf. Lc 1:13, 30; At 9:4), e Cornélio demonstrou o temor que é o reflexo natural de se­ res humanos diante do sobrenatural, e que é um fator constante de histó­ rias tais como esta. Não havia, no entanto, motivo para ele ficar alarmado. O anjo veio assegurá-lo que Deus tomara nota das suas orações e dos seus atos de caridade. A linguagem é aquela dos sacrifícios em que a fumaça sobe para Deus, e Bruce (Livro, pág. 216) pensa que as orações de Cor­ nélio tivessem eficácia sacrificial diante de Deus. A linguagem já se torna­ ra tradicional (SI 141:2; Tobite 12:12; Fp 4:18; Hb 13:15) neste sentido, e é esta tradição que é refletida aqui mais do que uma alusão direta a Levítico 2:2 (alusão esta que Bruce sugere). A implicação é que Deus respon­ derá à oração pronunciada por Cornélio. Nesta etapa, no entanto, ainda não se revela a natureza da resposta. Pelo contrário, Cornélio deve enviar alguém a Jope, para buscar um homem chamado Simão —que aqui recebe seu nome judaico. Seguir estas instruções seria um ato de fé e obediência. 7-8. Cornélio obedeceu à ordem, e mandou um grupo de três men­ sageiros, dois empregados e um ordenança militar que compartilhava da sua fé e que poderia explicar com simpatia a situação diante de Pedro. Visto que a distância era de 48 km, é provável qüe viajassem montados, e Stahlin (pág. 151) sugere que também levaram um animal para Pedro. 9-16. A cena agora muda para Jope, onde Pedro estava hospedado, e ficamos sabendo o que este fazia enquanto os mensageiros estavam a ca­ minho. Subira ao eirado da casa para ficar a sós, e ali estava orando ao meio-dia; os judeus levavam a sério o padrão de orarem três vezes ao dia (SI 55:17; Dn 6:10), e talvez usassem este horário como um dos tempos fixos. Parece que os pensamentos de Pedro se desviassem da oração por causa da fome. Não era, na realidade, um horário usual para um refeição judaica; nos dias da semana, os judeus comiam uma refeição leve no meio da manhã, e uma refeição mais substancial no fim da tarde. Enquanto estava sendo preparado algo para Pedro comer, sobreveio-lhe um êxtase (11:5; 22:17), e teve uma visão. É possível que três fatores tenham gover­ nado a visão. O fato de Pedro estar orando indica que estava em condi­ ções para receber uma mensagem divina; Lucas freqüentemente enfatiza que Deus fala para as pessoas enquanto estão orando (e.g. 13:2; Lc 3:2122; 9:29). A fome de Pedro também pode ter ajudado a dar forma à na­ tureza da sua visão, e tem sido sugerido que, se havia um toldo sobre o ei­ rado da casa para abrigar as pessoas do sol, este fato pode ter ajudado a criar ria mente de Pedro a imagem de um grande lençol que estava sendo -177-


ATOS 10:9ss baixado do céu pelas quatro pontas. O lençol continha criaturas vivas dos três tipos reconhecidos no Anti­ go Testamento (Gn 6:20, cf. Rm 1:23). Depois, Pedro ouviu uma voz que lhe mandou matar os animais e preparar uma refeição, sendo que se trata de um sonho, não precisamos perguntar em detalhes de que maneira se de­ via cumprir a ordem. O que importava era o princípio expressado. O len­ çol continha animais que seriam imundos e, portanto, impróprios para comer segundo os termos da lei judaica que se achava em Levítico cap. 11; não se declara se havia animais limpos, i.é, que ruminavam e tinham as unhas fendidas, mas, por implicação, não havia nenhum. Pedro, portanto, protestou contra a ordem, dizendo que nunca fora seu hábito comer coisa comum ou imunda. Dirigiu-se a quem falava, chamando-o de “Senhor” , mas não podemos deduzir disto quem é que Pedro supunha que era. A voz respondeu, declarando que as pessoas já não podiam contar como comum aquilo que Deus purificara, e isto aconteceu duas vezes antes de haver silêncio, e o lençol desapareceu da vista. O efeito da visão, portanto, era anunciar a Pedro que a distinção que se fazia no Antigo Testamento entre alimentos que eram “puros” e, portanto, apropriados para o consumo hu­ mano, e os que eram “impuros”, já fora cancelada, de tal modo que, dora­ vante, os cristãos'judaicos poderiam comer qualquer tipo de comida sem medo de profanação. Quando é, pois, que Deus cancelou a distinção? Parece claro que foi no momento de ser feita esta declaração. Os cristãos posteriorés, no entanto, reconheceram que o cancelamento desta lei fazia .parte da nova ordem trazida por Jesus, e que algumas das coisas que Jesus disse suben­ tenderam a abolição da distinção judaica entre as coisas limpas e imundas; foi esta a implicação daquilo que Jesus ensinou quando disse que era des­ necessário lavar as mãos por razões rituais (em contradistinção das razões higiênicas) antes de uma refeição, e Marcos comentou: “E assim conside­ rou ele puros todos os alimentos” (Mc 7:19). De modo semelhante, Paulo disse: “Eu sei, e disso estou persuadido no Senhor Jesus, que nenhuma cou­ sa é de si mesma impura” (Rm 14:14), e podemos supor que este princí­ pio era aceito em Corinto pelos cristãos judeus que provavelmente recebiam de Pedro a sua inspiração; o que Paulo procurava ensinar era não somente que a comida usual e quotidiana era “pura” , mas até mesmo o alimento que fora oferecido a ídolos e passou a ser vendido no mercado era “puro”, pois os ídolos não tinham existência real. Não precisa haver dúvida alguma, portanto, que nalgum momento nos primórdios, Pedro e outros cristãos chegaram a perceber que podiam comer qualquer tipo de alimento e deixar de lado a regra veterotestamentária sobre o assunto, que já não era válida. -178-


ATOS 10:17-23a Nem todos os comentaristas conseguiram perceber a relevância do sonho quanto à situação imediata de Pedro, e alguns têm sido tentados a encarar alegoricamente o sonho, como declaração de que todos os homens eram puros, de tal modo que Pedro não precisava ter medo de ir para um lar gentio. Esta interpretação alegórica é forçada e artificial, embora possa achar alguma base em 11:12 e 15:9; e, portanto, alguns argumentaram que o sonho é um acréscimo secundário à história. É mais provável, por­ tanto, que a lição aqui inculcada é que o mandamento do Senhor liberta Pedro de quaisquer escrúpulos quanto a ir para um lar gentio e comer qualquer coisa que viesse a ser colocada diante dele. Seria um passo curto entre o reconhecimento que era pura a comida dos gentios e o reconheci­ mento que os próprios gentios eram “puros” também.111 17-20. Enquanto Pedro retornava ao estado consciente, perguntan­ do a si mesmo qual era o significado do seu sonho inesperado, os mensagei­ ros de Cornélio chegaram à porta daquilo que provavelmente era um lar bem humilde, e perguntaram se Pedro estava ali. A chegada dos homens a estas alturas claramente deve ser entendida como sendo providencial. Enquanto ainda estavam à porta, veio a Pedro orientação interior da parte do Espírito-, esta era uma forma de comunicação divina diferente da visão, e provavelmente subentende o desenvolvimento de uma convicção inter­ na. Pedro foi avisado que havia três homens à porta;112 foi recomendado pe­ lo Espírito a ir com eles, pois foram mandados por Deus (o Espírito fala em nome de Deus como “Eu”).113 Aqui estava a situação para a qual o sonho visara preparar Pedro. 21-23a. Assim Pedro desceu e recebeu os mensageiros, tornando-se conhecido a eles. Repetiram sua mensagem de uma forma que procurava fazer uma impressão favorável sobre Pedro, descrevendo seu amo como homem que temia a Deus que mandara buscar a Pedro em resposta a um mandamento angelical, e que queria escutar o que Pedro diria; esta últi­ ma parte é “informação nova” para o leitor, pois Lucas a reservara para

111 Uma “separação de impureza é sempre uma separação simultânea de pes­ soas impuras” (Schürer, II, pág. 396). 112Alguns MSS têm “dois homens” i.é, consideram o soldado um guarda mais do que um mensageiro, mas talvez pareça que 10:7 lhe dá um papel mais im­ portante.

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A frase traduzida nada duvidando talvez signifique: “sem fazer distinção”. Ver 11:12, onde se emprega uma forma diferente do mesmo verbo; não fica claro se as formas podiam ser empregadas como sinônimas no grego do Novo Testamento.

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ATOS 10:23b-29 este momento para acrescentar algo ao efeito literário e dramático da his­ tória, e podemos supor que estava contida na mensagem angelical original dirigida a Pedro. Visto já ser tarde demais para começar a viagem de volta a Cesaréia, Pedro recebeu os mensageiros como seus hóspedes, e ali pernoi­ taram; esta ação provavelmente não foi além daquilo que um judeu, zeloso pela lei, faria.114 Pedro pode agir como hospedeiro, embora ele mesmo fos­ se hóspede em casa alheia; Simão o curtidor decerto era cristão, e teria tra­ tado Pedro com certo respeito, como apóstolo. 23b-29. A terceira cena na história começa com a partida de Pedro e certo número de cristãos de Jope, no dia seguinte, para Cesaréia; em 11:12 ficamos sabendo que Pedro tinha seis companheiros, e, mais tarde na história, funcionam como testemunhas daquilo que acontecera, (10:4546), embora talvez tenham ido originalmente por curiosidade, apenas. O grupo levou a totalidade de um dia, e parte do dia seguinte, para chegar a Cesaréia, e, na sua chegada, descobriu que Cornélio já estava esperando por ele, com parentes e amigos reunidos. Podemos supor que Cornélio sabia pelo menos alguma coisa daquilo que Simão Pedro era, e também acer­ ca do novo movimento religioso que se espalhava pelo país afora e, dessa for­ ma conclamou seus familiares e outros para ouvirem o que Pedro diria. Corné­ lio deve ter sabido mais ou menos quando deveria esperar a chegada das visitas. Seu primeiro ato ao encontrar-se com Pedro foi ajoelhar-se diante dele como sinal de reverência, mas, como sempre no Novo Testamento, Pedro recusou-se a receber semelhante homenagem que somente a Deus deve ser prestada (14:14-15; Ap 19:10; 22:9). Os dois homeijs então entra­ ram na casa, falando como iguais, e Pedro viu que o grupo estava reunido para escutá-lo. As primeiras palavras de Pedro eram uma declaração públi­ ca da sua nova disposição no sentido de encontrar-se com gentios, e um pe­ dido de um esclarecimento quanto ao motivo do convite enviado a ele. Emerge, a partir daquilo que Pedro diz, que interpretava sua visão, que tra­ tava de considerar certas comidas como “comuns ou imundas” , como também um meio de ensiná-lo a não considerar qualquer homem, tampou­ co, como comum ou imundo. Chegou a reconhecer que os escrúpulos judaicos já foram cancelados por Deus. Sugere-se, portanto, que Pedro estava fazendo uma nova aplicação da visão.

114Era uma coisa dar hospitalidade a um judeu gentio, e outra coisa diferente para um judeu aceitar hospitalidade de gentios (Harvey, págs. 437).

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ATOS 10:30-35 30-33. A resposta de Cornélio é essencialmente uma recapitulação de fatos já conhecidos ao leitor.115 O “anjo” do v. 3 agora é descrito como um varão de vestes resplandecentes (cf. 1:10), visando a variedade na narrativa. Há certas diferenças insignificantes quanto à redação entre as duas narrativas daquilo que o anjo disse, o que indica, mais uma vez, que os escritores do Novo Testamento não se preocupavam em relatar pa­ lavra por palavra as conversações e os discursos. Finalmente, Cornélio agra­ deceu a Pedro pela sua vinda, e convidou-o a falar, comentando que este encontro se realizava na presença de Deus. Esta observação incidental in­ dica que quando as pessoas se reúnem para ouvir o evangelho (e a fortiori quando uma congregação cristã se reúne), fazem assim diante de Deus. Pa­ rece ser este o único emprego desta frase neste sentido em todo o Novo Testamento, embora seja comum o pensamento de as ações dos homens serem visíveis diante de Deus. Quanto, porém» ao mesmo pensamento ex­ presso noutras formas, podemos fazer referência a Mateus 18:20; 1 Coríntios5:4. 34-35. Pedro não poderia ter um auditório mais preparado e dispos­ to do que este, e foi veloz para valer-se da situação como ponto de parti­ da para seu discurso. A importância daquilo que diz é talvez sublinhada pela fraseologia solene que Lucas empregou para introduzir o discurso (“E, abrindo Pedro a boca”, ARC, 8:35; Mt 5:2), mas mais provavelmen­ te trata-se de um caso de fraseologia antiga e estereotipada. Pedro ex­ pressa seu reconhecimento de que Deus aceitará qualquer pessoa de qual­ quer raça que O reverencia e que vive com retidão. Deus não faz acepção de pessoas. A expressão que aqui se emprega se acha pela primeira vez no Novo Testamento, e traduz a frase hebraica “erguer o rosto (de alguém)”, que significava “mostrar favor” e, daí, “mostrar favoritismo”.116 Deus não tem favoritos, o que significa, de um lado, que os malfeitores não po-

11SV. 30 parece confuso no Grego. Literalmente, diz: “Desde o quarto dia até esta hoia, estava orando na hora nona na minha casa, e o homem ficou diante de mim” . “Desde o quarto dia” pode significar “há quatro dias” (i.é, “faz três dias” pelo cálcu­ lo inclusivo); a verdadeira dificuldade se acha na expressão “até esta hora”, que não faz bom sentido com aquilo que se segue. Talvez seja possível traduzir por volta desta hora (ARA), i.é, agora era a mesma hora do dia em que Cornélio tivera a sua visão, mas não temos evidência para apoiar esta conjectura, e parece mais provável que haja um erro primitivo no texto. Talvez fosse devido a algum escriba que supunha que Corné­ lio passara quatro dias inteiros em oração; outros escribas entenderam a passagem as­ sim, e um deles acrescentou, por boa medida, que Cornélio também estava jejuando. 116E. Tiedtke, NID NTT, I, pág. 587; (em port., vol. IV, art. Rosto).

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ATOS 10:35-38 dem esperar que Ele lhes mostrará parcialidade no Juízo (Rm 2:11; Ef 6:9; Cl 3:25; 1 Pe 1:17; Dt 10:17), e, do outro lado, que ninguém precisa temer que, por parcialidade, Deus não o receberá. Os cristãos devem de­ monstrar o mesmo espírito (Tg 2:1, 9). Pedro não levanta a questão de co­ mo esta atitude de Deus se condiz com o ensino do Antigo Testamento que ressalta o lugar privilegiado de Israel como resultado da Sua eleição dele. Fica claro, no entanto, que a eleição de Israel se baseava exclusiva­ mente na escolha divina e não em quaisquer méritos do povo; logo, não há inconsistência em alegar que Deus aceita pessoas de todas as nações na mesma base. Se a pessoa o teme e faz o que é justo (cf. Mq 6:8), então é aceitável diante dEle. É a mesma coisa que Paulo ensina em Romanos cap. 2, e há alguns vestígios da mesma atitude no judaísmo.117 Não se quer di­ zer com isso que a salvação é possível à parte da expiação operada por Jesus Cristo, mas, sim, que com base na Sua morte e ressurreição o evan­ gelho é oferecido a todas as pessoas que se dispõem a aceitá-lo e as quais reconhecem que dele têm necessidade. Se uma pessoa tal qual Cornélio tivesse dito: “Meus atos meritórios são suficientes para obter para mim o favor de Deus, e não preciso do evangelho” (que é essencialmente o que disse o fariseu em Lc 18:11), então teria ficado claro que não foi aceito por Deus; uma vida virtuosa é somente aceitável aos olhos de Deus quan­ do leva ao reconhecimento da sua própria insuficiência e à aceitação do evangelho (ou quando teria assim feito, se tivesse havido a oportunidade de ouvir o evangelho). Cornélio, porém, quis ouvir o evangelho. 36-38. Tendo estabelecido que seu auditório queria ouvir o evan­ gelho, Pedro procedeu a proclamá-lo. O discurso que se segue é sem igual entre os sermões em Atos, por dar alguma atenção à vida terrestre de Jesus ao invés de retomar a história no ponto em que Ele foi rejeitado pelos lí­ deres judaicos e crucificado. Uma razão para isto pode ser o gosto que Lucas tem pela variedade literária; noutras palavras, “guardou” este tema. para este discurso, e a sua ausência dos discursos anteriores certamente não significa que nada foi dito acerca desta vida terrestre naquelas ocasiês. Além disto, talvez fosse apropriado incluir este aspecto num discur­ so dirigido a um não-judeu que, segundo seria de se supor, saberia menos acerca de quem era Jesus do que os auditórios anteriores de Pedro em Jerusalém. O que parece ser objeção a este ponto de vista é que Pedro co­ meça suas observações com as palavras “Vós conheceis a palavra . . .”,

117K. G. Kuhn, TDNT, VI, pág. 741.

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ATOS 10:38 como se Cornélio já estivesse familiarizado com a história e realmente não tinha necessidade de ouvi-la de novo. Wilckens (págs. 65-67), portanto, sugeriu que Lucas encarava Cornélio e seus associados como já sendo conver­ tidos antes de Pedro lhes falar, de modo que Pedro meramente confirma o conhecimento e a crença que já tinham. Stanton (págs. 19-26) revelou os pontos fracos nesta teoria, argumentando, com razão, que Pedro estava suplementando o escasso conhecimento de Cornélio, exatamente do mes­ mo modo como faz em 2:22 (onde ocorre a mesma frase “vós sabeis”). O conteúdo do discurso é distintivo, e há boas razões para acreditar que se baseia na tradição (Stanton, págs. 67-85). Tal fato fica claro na cons­ trução desajeitada da frase nos w. 36-38 (já endireitada nas versões).118 A redação do v. 36 incorpora alusões a dois textos vétero-testamentários, Salmo 107:20 “Enviou-lhes a sua palavra e os sarou” , e Isaías 52:7: “Os pés do que anuncia boas novas, que faz ouvir a paz". A mensagem, por­ tanto, começa com a asseveração de que Deus, através de Jesus, cum­ priu Sua promessa no Antigo Testamento no sentido de trazer paz ao

118Literalmente diz como segue: “(36) A palavra (acusativo) [que - omitido nalguns MSS] enviou aos filhos de Israel, pregando as boas novas da paz, por meio de Jesus Cristo - Este é o Senhor de todos - (37) conheceis, o evento (ou palavra) que aconteceu por toda a Judéia, tendo começado (nominativo masculino) desde a GaliIéia, depois do batismo que João proclamou, (38) Jesus (acusativo) de Nazaré, como Deus ungiu-0 com o Espírito Santo e poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com Ele” . (1) ARA reteve “que” em v. 36, e considera “a palavra” como sendo objeto de “vós conheceis” em v. 37; depois entende que “a palavra” em v. 37'(uma palavra grega diferente) está em oposição a “a palavra” em v. 36, e parafraseia “aconteceu” por “se divulgou”, e considera que “Jesus” em v. 38 realmente pertence à cláusula “como Deus ungiu-O”. (2) Como alternativa, podemos omitir do texto o “que” em v. 36, obtendo, assim, duas frases separadas, v. 36 (“Enviou a palavra . . .”), e w . 37-8 (“Conheceis o evento que ocorreu . . . (a saber), como Deus ungiu a Jesus . . .”). Esta interpretação é talvez melhor, mas nenhuma das duas abordagens está livre de dificuldades. (3) H. Riesenfeld trouxe à tona uma sugestão feita por J. A. Bengel de que “a palavra” em v. 36 está em oposição à cláusula anterior. Traduz: “Verdadeiramen­ te reconheço que Deus não demonstra parcialidade, mas em toda nação qualquer pes­ soa que O teme e faz aquilo que Lhe é aceitável; (é esta) a palavra que enviou aos fi­ lhos de Israel, proclamando boas novas da paz, por meio de Jesus Cristo - Ele é o Senhor de todos. Sabeis o que aconteceu por toda a Judéia . . .” Segundo este con­ ceito, a boa nova é que Deus não demonstra parcialidade. Esta tradução exprimebem o sentido da passagem. (H. Riesenfeld, “The Text o f Acts x.36” , em E. Best e R. McL. Wilson (eds.), Text and Interpretation (Cambridge, 1979), págs. 191-194; semelhantemente, Jervel, pág. 73).

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ATOS 10:38 Seu povo, os filhos de Israel; paz se emprega aqui no seu pleno sentido como sinônimo para “salvação” (Lc 1:79; 2:14; Rm 5:1; Ef 2:17; 6:15), e denota não meramente a ausência de contendas e inimizades entre o ho­ mem e Deus, mas também as bênçãos positivas que se desenvolvem num estado de reconciliação.119 Esta mensagem, no entanto, não se confina­ va aos judeus. Embora fosse enviada aos filhos de Israel, visava a humani­ dade inteira, pois, conforme Pedro acrescenta num parêntese enfático, Jesus, o autor da paz, é o Senhor de todos os homens. Esta última frase é achada em autores pagãos e não apenas judaicos, sendo, portanto, apro­ priada para ensinar a lição em epígrafe. Depois, Pedro ressalta como esta mensagem da paz veio com a vida de Jesus. Os ouvintes dele tinha pelo menos uma vaga consciência daquilo que tinha acontecido por toda a Judéia. Isto é característico do Evange­ lho de Lucas, que ressalta que o ministério de Jesus se estendeu por toda a Judéia, incluindo a Galiléia bem como a área no sul, ao redor de Jeru­ salém, que pode também ser chamada “Judéia” num sentido mais restri­ to (Lc 4:44; 7:17; 23:5). É também característico que se diga que o minis­ tério começou na Galiléia (Lc 23:5) e que se associou com o ministério de batismo, realizado por João (1:22; 13:24); podemos comparar como o Evangelho mais antigo, o de Marcos, começa neste ponto. Depois, rècebemos um breve esboço do que aconteceu. Deus ungiu a Jesus com o Espí­ rito; aqui se emprega a redação de Isaías 61:1 para interpretar o que acon­ teceu a Jesus no rio Jordão, assim como no sermão do próprio Jesus em Lu­ cas 4:18 (cf. At 4:27). O dom do Espírito transmite poder, e com este po­ der Jesus conseguiu socorrer e curar (SI 107:20) pessoas que estavam sob o controle do diabo. A idéia aqui é que os milagres da cura libertavam as pes­ soas do poder do mal que era responsável pelos seus sofrimentos (Lc 13:16). O verbo fazendo o bem é interessante; o subs. correspondente, “benfeitor” era empregado pelos soberanos daqueles tempos como descrição de si mes-_ mos (Lc 22:25), de tal modo que Jesus está sendo implicitamente compa­ rado com eles neste trecho, e revelado como o verdadeiro ajudador do povo. O tema do antagonismo e oposição contra o diabo também é significante; é tirado do conceito do reino de Deus que Jesus veio estabelecer em contras­ te com as forças do mal que a ele se opõem (Lc 11:17-20). Nesta altura, não se menciona a pregação de Jesus; já fora referida no v. 36, e é digno de nota que tanto a pregação quanto as obras poderosas são encaradas como sendo a obra de Deus agindo por meio de Jesus como Seu representante.

119H. Beck e C. Brown, NID NTT, II, págs. 776-783; em port., vol. III, art. Paz).

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ATOS 10:39-43 39-41. Pedro regularmente se refere nos seus sermões aos apóstolos como testemunhas da ressurreição. Visto, porém, que os apóstolos eram pessoas que tinham estado com Jesus desde o início do Seu ministério (1:21-22), também podiam ser contados como testemunhas para o minis­ tério na sua totalidade, tanto na Judéia de forma geral como também em Jerusalém. Ao passo que, nos sermões anteriores, Pedro se dirigira direta­ mente aos judeus e os acusara da morte de Jesus, tal coisa não era possível num sermão dirigido a não-judeus. A morte de Jesus às mãos dos judeus é, na realidade, mencionada quase de passagem, embora sua importância seja sublinhada pelo fato de ser considerada profetizada no Antigo Testa­ mento; a frase pendurando-o no madeiro é, sem dúvida, um eco de Deuteronômio 21:22-23 (também citado em 5:30), passagem esta cujo cumpri­ mento Paulo via no caso de Jesus (G1 3:13).120 Foi a este Jesus, crucifica­ do pelos judeus, que Deus ressuscitou dentre os mortos no terceiro dia.121 Depois, Deus permitiu que fosse visto por um grupo seleto de testemunhas anteriormente escolhidas por Ele para este propósito. As aparições pós-ressurreição não foram reveladas ao povo em geral. Parece que a razão era que aqueles que viram a Jesus foram constituídos como testemunhas diante das muitas pessoas que não conseguiram vê-Lo, e esta obrigação não era im­ posta sobre os que eram indignos, mas, sim, somente sobre aqueles que, mediante longa associação com Jesus, e pela participação da Sua obra mis­ sionária, tinham sido preparados. A realidade da experiência destas pessoas é ressaltada pela observação de que comeram e beberam com Ele (1:4; Lc 24:30,43). 4243. Depois da ressurreição, Jesus mandou pregar ao povo (i.é, aos judeus) como dever dos apóstolos, testificando, como parte da sua mensa­ gem, que Jesus fora nomeado por Deus para agir como Juiz de todos os ho­ mens, tanto de vivos quanto de mortos. Esta função de Jesus também é testificada em 2 Timóteo 4:1 e 1 Pedro 4:5, mas não é especificamente mencionada em quaisquer dos resumos daquilo que Jesus mandou que Seus discípulos pregassem; talvez seja, portanto, uma dedução dos Seus ensinos anteriores que o Filho do homem sentar-se-ia à destra de Deus e participa­ ria da Sua tarefa de julgar (cf. Jo 5:22, 27). Finalmente, Pedro declara que, de conformidade com a profecia, todo aquele que crê em Jesus pode rece­

120Ver M. Wilcox, “ ‘Upon the Tree’ - Deut. 21:22-23 in the New Testament” , JBL 96, págs. 86-99. 121 Este trecho e 1 Co 15:3 são as únicas referências fora dos Evangelhos à ocor­ rência da ressurreição ao terceiro dia.

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ATOS 10:43-48 ber remissão dos pecados (cf. Lc 24:4647). Não podemos ter a certeza quais as profecias Pedro tinha em mente, mas entre os textos possíveis es­ tão Isaías 33:24; 53:4-6,11; Jeremias 31:34; Daniel 9:24. 44. A referência de Pedro <no v. 43 a todo quanto nEle crê não precisa referir-se a mais do que “Todo quanto em Israel nEle crê”, mas, tendo em vista os w. 34-35, o significado deve provavelmente ser mais lato. De qualquer forma, antes de ele ter oportunidade para dizer qualquer coisa a mais, o Espírito Santo sobreveio àqueles que ouviram a mensagem. Visto que, noutros trechos, o dom do Espírito veio a pessoas que se arrependem e crêem (cf. 11:17-18), a implicação é dupla: em primeiro lugar, que òs gen­ tios presentes corresponderam à mensagem mediante a fé; e, em segundo lugar, que Deus os aceitou e selou a sua fé com o dom do Espírito. Uma vez que os gentios receberam uma oportunidade para ouvir a mensagem, corresponderam, e Deus os recebeu. Este versículo marca o fim do particularismo religioso. 45-46a. Agora, os companheiros de Pedro desempenham seu papel na história. Não se sabe se Pedro ficou surpreso com aquilo que aconte­ ceu, mas certamente os companheiros ficaram. Uma coisa foi pregar aos gentios; outra bem diferente foi ver o sermão interrompido por sinais claros da sua conversão e do seu recebimento do dom de Deus. Não poderia ha­ ver erro a respeito daquilo que acontecera. Assim como os primeiros crentes judeus receberam o Espírito e louvaram a Deus em outras línguas no dia do Pentecoste, assim também agora estes gentios receberam dádiva idêntica da parte de Deus. Não se pode dizer com certeza se o dom de línguas era o acompanhamento inevitável da vinda do Espírito; o fato de que se men­ ciona tão infreqüentemente e de que Paulo pensa nele como dom especial não outorgado a todos os membros da igreja indicam que não era um sinal invariável da conversão. O recebimento da dádiva nesta ocasião ressaltava a conversão dos gentios de modo contrário a qualquer dúvida. (É verdade que há a possibilidade de simular o dom de línguas; mas não é tão fácil falsificar o genuíno louvor a Deus. O contexto inteiro contraria qualquer possibilidade de engano). Os gentios, libertados da sua inferioridade reli­ giosa, não sentiriam um calor estranho no seu coração, a ponto de expres­ sarem as suas emoções de modo fora do comum? 46b-48. Se Deus já dera as boas-vindas aos gentios, só faltava a igre­ ja fazer o mesmo. O batismo viera a ser o sinal externo de recebimento entre o povo de Deus. Era o sinal da purificação do pecado, e, assim, do perdão (2:38), mas, ao mesmo tempo, era visto como acompanhamento externo e sinal de ser interiormente batizado no Espírito Santo; este úl-186-


ATOS 10:48-11:3 timo não substituía o batismo na água. Visto que os gentios já tinham si­ do batizados no Espírito Santo, seguia-se que eram elegíveis para serem batizados na água. Assim, Pedro postulou sua pergunta aos cristãos judeus que o acompanharam, como representantes da igreja. É possível que o emprego do verbo recusar (também empregado em 8:36 com referência ao eunuco etíope) reflita uma frase estereotipada empregada no batismo. Não se levantou objeção alguma, e, assim, Pedro mandou que os convertidos fossem batizados. Embora Bruce (Atos, pág. 228) pense que há referência a uma ordem aos convertidos (“Sejais batizados” ; cf. 2:38; 22:16), é talvez mais provável que a ordem fosse dirigida aos demais cristãos presentes no sentido de realizarem o rito. Podemos comparar como Paulo, também, usualmente não realizava batismos pessoalmente, embora fosse o fundador-evangelista da igreja em Corinto (1 Co 1:14-17); não era necessário que o batismo fosse levado a efeito por um apóstolo. Além disto, pode-se notar que a narrativa não dá a entender que Cornélio ou seus amigos fos­ sem circuncidados; na realidade, positivamente exclui tal coisa (cf. 11:3). Finalmente, a nova comunhão na igreja entre os judeus e os gentios foi fir­ mada através da permanência de Pedro com Cornélio durante alguns dias. Ao mesmo tempo, esse intervalo permitiu que notícias do ocorrido chegas­ sem a Jerusalém antes de o próprio Pedro voltar para lá. 11:1. A história da conversão de Cornélio seria incompleta do pon­ to de vista de Lucas sem o acréscimo da quarta cena, na qual se descre­ vem os efeitos do incidente sobre a igreja. Lucas se ocupa com os apósto­ los como líderes da igreja, e com os irmãos como seus membros comuns (1:15), e fala da igreja na Judéia (8:1; 9:31), que consistia do grupo em Jerusalém juntamente com os cristãos espalhados nas circunvizinhanças. A reação destes cristãos judaicos à resposta que os gentios deram ao evan­ gelho seria da máxima importância para o futuro. 2-3. Foi, portanto, o “partido da circuncisão” que questionou Pedro acerca daquilo que acontecera, tão logo voltou a Jerusalém. Literalmente, a frase grega é os qüe eram da circuncisão, i.é, “os judeus de nascença” (NEB). Não há sugestão de que havia um “partido” distinto na igreja nesta etapa, especialmente antes de a questão da circuncisão ter surgido ao ponto de levar as pessoas a tomar partido quanto a ela. Mesmo assim, séculos de praxe judaica os levaram a criticar aquilo que, segundo os rela­ tos, Pedro fizera, especialmente no tocante ao seu comer junto com os gentios. Embora os gentios houvessem sido convertidos, ainda existia o problema. Se os cristãos judaicos se sentiam obrigados pelas leis judai­ cas acerca do alimento, não poderia haver contato com cristãos gentios (nem contato com gentios não-cristãos) a não ser que os gentios fossem -187-


ATOS 11:3-4 circuncidados e passassem eles mesmos a observar as leis judaicas acerca dos alimentos. Que este problema não era fruto da imaginação de Lucas vê-se pelo modo de o problema ainda estar vivo na ocasião do incidente relatado em Gálatas 2:11-14 (quando até mesmo Pedro voltou-se contra a sua praxe anterior). Por detrás do forte sentimento dos cristãos judai­ cos talvez tenha havido o medo de que, se cessassem de seguir a praxe do judaísmo, seriam atacados pelos seus compatriotas judeus, assim como aconteceu com Estêvão e seus companheiros. A situação, portanto, é per­ feitamente plausível, e não há razão para compartilhar do ceticismo de Dibelius (págs. 109-121) que contesta que o problema de comeT junta­ mente com os gentios desempenhasse qualquer papel na história original. 4-17. A reação de Pedro diante da pergunta foi contar a história inteira por ordem (para esta frase final, cf. Lc 1:3), crendo que, depois de ela ser devidamente ouvida (ao invés dos relatórios fragmentários e possi­ velmente confusos que já haviam sido recebidos) forçosamente os inter­ locutores perceberiam que Deus levara Pedro a esta ação. Assim, a narrati­ va é repetida, com poucas diferenças significantes da narrativa anterior, a não ser que é abreviada, e contada na primeira pessoa do ponto de vista de Pedro. O relato naturalmente começa com a experiência do próprio Pedro, mais do que com aquela de Cornélio, e descreve como entrou em êxtase enquanto orava, e viu a visão do lençol que foi sendo baixado do céu, cheio de vários seres viventes (o relato aqui inclui “feras”, i.é, animais selvagens, juntamente com os demais mencionados anteriormente). A narrativa da con­ versação entre a voz celestial e Pedro é repetida sem variação significante. Imediatamente após o sonho, três homens chegaram para convidar Pedro a ir para Cesaréia, e Pedro ouviu uma mensagem do Espírito que o mandou acompanhá-los sem hesitar, ou “sem fazer distinção (ver 10:17-20, nota), i.é, sem tratá-los diferentemente dos judeus. Juntamente com seus seis amigos, portanto, foi para a casa daquele homem; o homem, naturalmente, é Cornélio, e seu nome não é mencionado, pois tanto os ouvintes de Pedro (que já sabiam algo acerca da história) quanto os leitores de Lucas saberiam a quem se referia. Devemos, portanto, discordar da declaração de Haenchen (pág. 355) de que a narrativa não faria sentido aos ouvintes de Pèdro. Da mesma forma, não há motivos para ver quaisquer “auto-contradições de vul­ to” entre os dois relatos. Haenchen ve semelhante contradição no fato de que, no v. 11, os seis cristãos judaicos de Jope já estão na casa de Simão, o curtidor na chegada dos mensageiros de Cornélio; o detalhe é, de qualquer forma, absurdamente trivial, mas nada no capítulo 10 comprova que os homens não estavam na casa naquela ocasião. No v. 13 Cornélio relata -188-


ATOS ll:4ss brevemente como vira o anjo, modo de narração que, mais uma vez, visa os leitores de Lucas, e não precisa significar que Pedro falou de modo ininteligível aos seus ouvintes. É somente aqui, porém, que ficamos sa­ bendo que a mensagem angelical prometeu a Cornélio que ouviria uma mensagem que explica como ele poderia ser salvo, juntamente com os da sua casa (v. 14). Este pormenor explica as declarações de Cornélio em 10:22, 33. O anjo emprega a linguagem dos pregadores cristãos primiti­ vos quando fala em ser salvo, mas esta fraseologia já era conhecida no An­ tigo Testamento, e não causaria dificuldade alguma a judeus ou proséli­ tos. Outra dificuldade tem sido vista na declaração de Pedro de que o Espí­ rito Santo caiu sobre os ouvintes quando comecei a falar, ao passo que no capítulo 10 já tinha pregado por algum tempo antes de qualquer coisa acon­ tecer. Esta dificuldade, também, é só na aparência. A razão de ser da decla­ ração de Pedro é que não tinha terminado o que queria dizer, e a força do verbo “começar” não pode ser levada muito longe no grego hebraizado. O comentário de Pedro ressalta que a experiência dos convertidos gentios fora a mesma que a daqueles que receberam originalmente o Espí­ rito no princípio, i.é, no dia de Pentecoste. É significativo que ele compa­ ra a experiência dos gentios com aquela do grupo no cenáculo, e não com aquela dos primeiros convertidos do judaísmo: nada há que possa sugerir uma posição de “cidadão de segunda classe” para os gentios. Além disto, Pedro vê na experiência dos gentios um cumprimento do dito de Jesus em 1:5, quando relembrou Seus discípulos de que, embora João batizara com água, eles seriam batizados com o Espirito Santo. Duas coisas se de­ duziram desta lembrança. A primeira foi que quando os gentios receberam o Espírito, foram batizados no Espírito (quanto ao significado deste termo, ver 1:5, nota), sendo que a experiência é idêntica àquela do Pentecoste, que foi o primeiro cumprimento da profecia de Jesus. Em segundo lugar, se os gentios já foram batizados no Espírito, então, muito mais, eram elegíveis para serem batizados com água. Esta dedução talvez não pareça imediata­ mente óbvia, sendo que a declaração no v. 16 (cf. 1:5) parece fazer um con­ traste entre o batismo com água e o batismo no Espírito; mas é provável que a expressão queira dizer: “João batizava (meramente) com água, mas vós sereis batizados (não somente com água mas também) com o Espírito Santo”.122 A igreja, que batizava com água, era, portanto, compelida a batizar os gentios que creram; doutra forma, serviria como empecilho para a vontade de Deus ser cumprida. Emerge, incidentalmente, desta declaração 122

Marshall, Commentary, págs. 145-6 (seguindo J. Jeremias). -

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ATOS 11:19 que Pedro tomã por certo que o Espírito é dado àqueles que crêem no Se­ nhor Jesus Cristo; o batismo com água é dado como resposta à confissão da fé e, embora o derramamento do Espírito fosse a evidência de que es­ tava presente a fé, é provável que o batismo dos gentios incluísse a sua confissão de fé. 18. O argumento de Pedro comprovou-se convincente. Não somente foi silenciada a crítica que se iniciara, como também os ouvintes expressavam louvor a Deus por que concedera aos gentios, e não somente aos judeus, a oportunidade de se arrependerem dos seus pecados e, assim, de obterem a vida eterna (5:20; 13:46, 48). Esta oportunidade foi fornecida na prega­ ção do evangelho. O argumento de Pedro implicitamente asseverava que os gentios eram membros de pleno direito da igreja e, portanto, que a circuncisão e a guarda da lei eram desnecessárias para a salvação. Incluía, outrossim, a implicação mais lata de que a distinção judaica entre comidas e pessoas pu­ ras e impuras era obsoleta. Esta idéia, porém, seria como um abalo do mun­ do para os judeus, e não seria aceita sem muita perscrutação do coração e controvérsia. Lucas não aborda imediataente este tema, e não sabemos até que ponto foram imediatamente percebidas as plenas implicações da ação de Pedro. Conforme demonstrará a seção seguinte de Atos, a inicia­ tiva na missão aos gentios passou para a Antioquia, e não fica claro até que ponto a igreja em Jerusalém estava disposta a seguir nos passos de Pedro. Não devemos entender v. 18 no sentido de subentender que a igreja em Jerusalém imediatamente entrou zelosamente numa missão aos gentios; na realidade, parece nunca ter feito assim e, como resultado, perdeu sua importância no decorrer do tempo.

c. A igreja em Antioquia (11:19-30) Enquanto estes desenvolvimentos aconteciam na área da missão da igreja judaica, os cristãos judaicos helenísticos que tinham sido forçados a deixar Jerusalém na ocasião da morte de Estêvão, se espalharam até ao nor­ te, chegando à grande metrópole da Antioquia. Espalhavam o evangelho por onde iam, mas foi somente em Antioquia que começaram a falar a nãojudeus e a ganhar muitos convertidos. A igreja começou a crescer rapida­ mente. As notícias levaram a igreja em Jerusalém a enviar um representante para ver o que estava acontecendo. Barnabé, o visitante assim nomeado, não tinha dúvida alguma acerca do valor da obra que estava sendo realiza-190-


ATOS 11:19 da, e tomou parte ativa nela, indo para Tarso buscar Paulo, a fim deste também participar. A evangelização da igreja fez um impacto tão grande que o povo do local cognominou seus membros de “gente de Cristo” . Os mem­ bros da igreja tinham consciência dos seus vínculos com Jerusalém, e quando ouviram uma profecia acerca de uma fome que estava para vir, enviaram uma dádiva em dinheiro para ajudar a igreja. Não pode haver dúvida alguma de que a formação da igreja em Antio­ quia foi um evento de grande importância na expansão da igreja e da sua missão aos gentios. Pode-se supor com confiança que não se exigia da parte ' dos convertidos gentios que fossem circuncidados ou que guardassem a lei, e provavelmente formavam um grupo de tamanho considerável dentro da igreja, embora não exista evidência sólida de que formassem a maioria. , A questão da lei judaica surgiu apenas quando visitantes de Jerusalém pro­ curaram aplicá-la obrigatoriamente (G1 2:1 í-14). 19. A introdução de Lucas à seção leva o leitor de volta para 8:24, que descreveu como a morte de Estêvão deu vazão a uma onda de oposi­ ção à igreja e à dispersão de muitos cristãos. Com tòda a probabilidade, eram judeus que tinham conexão com a Dispersão, e era natural para eles mudarem-se para áreas fora da Judéia, inclusive os três lugares menciona­ dos. A Fenícia (o moderno Líbano), era a área que se estendia ao lon­ go do litoral numa faixa estreita desde o Monte Carmelo por uma dis­ tância de aproximadamente 242 km, sendo que suas cidades principais eram Ptolemaida, Tiro, Sarepta e Sidom, e, mais tarde, ficamos sabendo de gru­ pos cristãos em três destes lugares (21:3, 7; 27:3); sem dúvida for­ mados nesta ocasião. Chipre, já mencionada como domicílio de Barnabé (4:36), já possuía um elemento judaico na sua população pelo menos desde o século II a.C. (1 Mac. 15:23); foi o primeiro lugar a ser evangelizado por Barnabé e Paulo quando, mais tarde, saíram juntos como missionários (13:4-12). Entende-se, assim, que havia cristãos em Chipre antes da chegada de Barnabé e Paulo, fato este que não está em tensão com o relato de Lucas em 13:4-12, ainda que não o mencione ali (apesar de Conzelmann, pág. 67). Antioquia, a capital da província romana da Síria, crescera rapidamente para tornar-se a terceira maior cidade do Império (depois de Roma e Alexandria), com uma população estimada em 500.000. Foi fundada por Seleuco I e recebeu o nome de Antioquia em homenagem ao seu pài Antíoco (a mesma homenagem foi ligada aos nomes de cerca de 16 cidades, cf. 13:14). Havia ali uma grande população judaica.12 3 12 3

O local foi escavado em anos recentes; ver G. Downey, A ncient A ntioch (Princeton, 1963).

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ATOS 11:20-24 20-21. Os judeus exilados para seu novo lar pregavam, de início, apenas para seus concidadãos judeus. A mudança decisiva foi instigada por alguns judeus de Chipre e de Cirene que pregavam as boas novas de Jesus também aos gregos em Antioquia.124 Não pode haver dúvida de que se iniciou um período bem-sucedido de evangelização entre os gentios, e de que a observância da lei judaica não era requerida dos convertidos. O que não sabemos é como a igreja foi levada a dar este passo. Fora necessária a intervenção divina para persuadir Pedro a empreender atuação semelhante, mas aqui, parece que ocorreu quase casualmente sem surgirem questões de princípios, nem no começo, nem mais tarde. É provável que se possa explicar bem simplesmente o assun­ to, ao notar que a probabilidade de haver gentios associados com as sinago­ gas era muito maior na Dispersão, de tal modo que igreja entraria na questão do lugar deles no evangelismo muito mais freqüentemente e diretamente do que na Judéia propriamente dita. Se alguns dos próprios evangelistas tinham sido prosélitos, este passo ficaria tanto mais natural. Devemos su­ por que o novo grupo cristão rapidamente perdeu contato com as sinago­ gas, de modo que não era compelido a observar a lei judaica, como acon­ tecia no ambiente predominantemente judaico de Jerusalém. Não sabe­ mos se a conversão de Cornélio ocorrera antes e já ficara conhecida em Antioquia, de modo que pudesse ter servido de precedente. 22-24. Nada há de surpreendente no fato de que a notícia daquilo que acontecia em Antioquia tivesse chegado à igreja que estava em Jerusalém, visto que, sem dúvida, havia bastante intercâmbio entre as duas cidades. Em ocasiões anteriores (8:14; cf. 9:32) os líderes da igreja em Jerusalém tinham enviado representantes para acompanhar a obra missionária fora da cidade, e esta ocasião específica claramente exigia que demonstrassem interesse. Não é necessário supor que a atuação deles fosse motiyada pela suspeita, e muito menos, pela hostilidade. No máximo, talvez tenha sido necessário aplacar um grupo de cristãos judaicos da extrema direita em Je­ rusalém, que haveriam de causar dificuldades numa etapa posterior e que talvez já estavam se opondo à admissão dos gentios à igreja sem a circun­ cisão ser exigida da parte deles; nada sugere que este grupo predominava 124

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Lucas decerto se refere aos gentios, mas o texto está incerto. Ao inves de “gregos”, a maioria dos MSS (inclusive o Códice do Vaticano) tem “helenistas”, a pa­ lavra que se emprega em 6:1 e 9:29 para designar os judeus de língua grega. Os argu­ mentos textuais em prol da segunda leitura são muito fortes; caso seja adotada, referese, sem dúvida, à população mista da Antioquia, de língua grega (Metzger, págs. 386-389). -

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ATOS 11:24-26 na igreja, mas os líderes fizeram o que puderam para conciliá-los (ver Hanson, pág. 130). A simpatia básica da igreja em Jerusalém com as notícias do que acontecia em Antioquia pode ser deduzida da escolha de Bamabé como delegado dela. Embora, pertencesse a uma família da Dispersão, era encarado com total confiança em Jerusalém, e agia como fiel da balança entre os elementos hebraicos e helenísticos dentro da igreja. Seu caráter era bem adaptado para esta função, pois era marcante a qualidade cristã da sua vida; é o único homem a quem Lucas descreve como sendo bom em Atos, e, quanto aos dons espirituais, estava em pé de igualdade com Estêvão. Não podia deixar de ver a mão de Deus no crescimento da igreja em Antioquia, e regozijava-se diante desta evidência da graça divina. Longe de exortar os novos convertidos a se curvarem diante de exigências legalísticas, instruiuos a ficarem firmes na sua fé; aqui vemos porque Barnabé merecia o cogno­ me de “filho de exortação” (4:36). Que Barnabé tinha a visão espiritual para reconhecer que o plano de Deus estava sendo cumprido em Antio­ quia foi de importância decisiva para o crescimento da igreja. 25-26. Barnabé reconheceu as ricas potencialidades da situação para mais avanços, e percebeu a necessidade de ajuda adicional na evangeli­ zação e no ensino. Foi procurar, portanto, seu antigo amigo Paulo, que es­ tava trabalhando em Tarso, e persuadiu-o a participar da obra em Antio­ quia. Será que Paulo sentia que já se cumprira tudo quanto necessitava fazer em Tarso? Realmente não sabemos, e não ficamos sabendo de conta­ tos posteriores que tenha tido com aquela cidade, mas decerto Paulo já passara ali um período considerável de tempo, e, nas suas campanhas missio­ nárias posteriores, sua praxe era ficar suficiente tempo em qualquer de­ terminado lugar para estabelecer a igreja, e depois avançar para outra locali­ dade. A obra que Barnabé e Paulo realizaram em Antioquia é descrita co­ mo ensinar a igreja, mas esta palavra pode referir-se tanto à evangelização quanto à edificação espiritual dos convertidos existentes. Um dos resultados importantes de todas estas atividades é que, pela primeira vez, os discípulos vieram a ser conhecidos como cristãos.125 Lucas especialmente menciona este fato porque “cristão” 'viera a ser um termo familiar em certas áreas na ocasião em que escreveu. Já nos inícios do século II, o nome é atestado em Roma, na Ásia Menor, e em Antioquia. A terminação da palavra (Çhristianos) indica que é uma palavra latina, tal qual “herodiano”, e que se refere aos seguidores de Jesus Cristo. “Cristo” , 12SW. Grundmann, TDNT, IX, págs. 536-7.

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ATOS 11:26-28 portanto, seria entendido como nome próprio, embora seu emprego origi­ nal fosse como título, “o Messias” , para Jesus. O verbo foram chamados subentende com toda a probabilidade que “cristão” era um cognome da­ do pelo populacho de Antioquia e, assim, é bem provável que este enten­ desse que “Cristo” fosse um nome próprio, ainda que, nestas alturas os próprios cristãos ainda o empregassem como título; não passou muito tempo, no entanto, para o título tornar-se, mais e mais, um nome para Jesus. É provável que o nome contivesse um elemento de ridicularização (cf. At 26:28; 1 Pe 4:16, os únicos outros empregos do nome no Novo Testamento). Os cristãos preferiam empregar para si outros nomes, tais como “discípulos”, “santos” e “irmãos”. 27-28. Um dos aspectos importantes da igreja- primitiva foi a ati­ vidade dos profetas, pregadores carismáticos que às vezes estavam liga­ dos a uma igreja local ou ocupados num ministério itinerante (13:1 no­ ta).12 6 Suas funções eram várias, e incluíam a exortação bem como a pre­ visão do futuro; é bem possível que tenham dado exposições do Antigo Testamento, empregando sua compreensão espiritual para mostrar como suas profecias estavam sendo cumpridas nos eventos em conexão com a as­ censão da igreja. A atividade deles tinha conexão com o novo sentido de inspiração associado com o dom do Espírito à igreja. Nada há de surpreen­ dente na chegada, de tais homens, provenientes de Jerusalém, em Antio­ quia (embora Haenchen, pág. 376, fique muito perplexo com eles). Nada mais ficamos sabendo, no entanto, acerca do propósito ou dos resultados da visita deles senão que um deles, de nome Ágabo (quç. reaparece em 21:10), previu uma fome que se estenderia por todo o mundo, i.é, o Im­ pério Romano. Fomes faziam parte daquilo que os cristãos esperavam para os tempos do fim (Lc 21:11), e esta profecia talvez tenha sido uma ad­ vertência de que o fim deveria estar próximo, embora nada se fala neste sentido no texto. É certo que não houve qualquer fome que abrangesse o Império inteiro durante o reinado de Cláudio (nem em qualquer outro tempo); havia, no entanto, “fomes freqüentes” , conforme o historiador Suetônio, e este era um cumprimento adequado da profecia. Certamen­ te houve uma fome na Judéia em c. de 46 d.C., e Josefo conta como He­ lena da Adiabene mandou trigo para aliviar a fome dos pobres em Jerusa­ lém. J. Jeremias notou que os judeus seguiam a lei do sétimo ano sem plantio durante este período, e argumentou que, se a quebra da produ126E.

E. Ellis, “The role o f the Christian prophet in Acts”, A H G , págs. 55-67 (Ellis págs. 129-144); D. Hill, N ew Testament Prophecy (Londres, 1979), págs. 94-109.

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ATOS 11:28-30 ção coincidiu com os efeitos de um ano sem plantio, a fome seria tanto maior; sugeriu, portanto, que a fome fosse associada com o ano sabático que foi celebrado em 4748 d.C.127 A profecia, naturalmente, pode ter si­ do pronunciada uns poucos anos antes. 29-30. A profecia encorajou os cristãos em Antioquia a enviar uma coleta em dinheiro para capacitar seus irmãos na Judéia a comprarem esto­ ques de gêneros alimentícios para enfrentar a crise vindoura. Trata-se de um ato de fraternidade cristã, da qual os membros da igreja participaram de acordo com as suas possibilidades. O dinheiro era enviado aos presbí­ teros da igreja. Esta é a primeira vez que presbíteros se mencionam na igre­ ja de Jerusalém, e causou certa surpresa o fato deles, e não os apóstolos, estarem encarregados do socorro aos pobres. Na realidade, porém, os após­ tolos já tinham delegado a outros este dever (6:1-6), e é possível que os “Sete” que foram nomeados para cuidarem desta tarefa agora vieram a ser conhecidos como “presbíteros” por analogia com o nome dado a certos lí­ deres nas sinagogas judaicas. Funcionavam lado a lado com os apóstolos (15:4, 6, 22-23; 16:4; 21:18). A coleta foi trazida por Barnabé e Paulo. A objeção tem sido levantada que é improvável que tivessem estado em Jerusalém durante a perseguição da igreja descrita na seção que imedia­ tamente se segue: como poderiam ter passado sem serem molestados? Não se nos informa, porém, que estavam em Jerusalém exatamente naquela altura, a cronologia está em aberto.128 Mais importante é o relaciona­ mento entre a presente narrativa e aquela em Gálatas caps. 1-2 onde Pau­ lo faz um resumo das suas primeiras conexões com a igreja em Jerusalém. À parte da sua visita a Jerusalém após sua saída pouco cerimoniosa de Da­ masco, menciona uma outra visita para lá," na qual foi acompanhado por Barnabé e Tito, e durante a qual debateu o problema de pregar o evan­ gelho aos gentios; pediram a ele que “se lembrasse dos pobres” , e diz que foi exatamente isto mesmo que estava ansioso para fazer (G1 2:1-10). Esta visita deve ser considerada a mesma de Atos cap. 11? Podem ser levanta­ das as seguintes objeções: (1) Atos cap. 15 relata a história de uma visita subseqüente a Jerusalém na qual a questão dos gentios foi o objeto explí­ cito da discussão. Embora haja diferenças quanto aos^pormenores entre Atos cap. 15 e Gálatas cap. 2, pode-se argumentar que pertencem ao mesmo incidente, e que é improvável que o mesmo terreno foi repisado duas vezes. 12 7

J. Jeremias, “Sabbetjahr und neutestamentliche Chronologie” , ZNW 27, 1928, págs. 98-103. 128Knox, pág. 36.

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ATOS 11:30-12:1 Nada há de improvável, no entanto, no fato de ser necessário discutir um assunto antes de finalmente se chegar a um acordo final, conforme con­ cordará qualquer pessoa que já trabalhou numa comissão. (2) Gálatas cap. 2 trata da controvérsia teológica, ao passo que Atos cap. 11 diz res­ peito a uma oferta em dinheiro. Mas podemos compreender que Lucas conservou a parte da controvérsia para o cap. 15. Além disto, Gálatas 2:10 pode significar que Paulo já estava ansioso por ajudar os pobres e que, na realidade, já o estava fazendo.129 Se for assim, não há qualquer confli­ to real entre as passagens. Consideramos, portanto, que a probabilidade pende em favor de a visita aqui registrada ser a mesma que se refere em Gálatas 2:1-10.130

d. A prisão e a fuga de Pedro (12:1-25). Embora Lucas nada nos diga acerca daquilo que aconteceu quando Barnabé e Paulo visitaram Jerusalém, preenche o espaço entre a sua partida de Antioquia (11:30) e a sua volta para lá (12:25) com o relato de como Herodes Agripa I procurou cair nas boas graças dos judeus por meio de exe­ cutar Tiago e de procurar executar a Pedro. A narrativa de Lucas mostra como o plano de Herodes foi inutilizado pela intervenção direta de Deus. Deus agiu, porém, como resposta às orações da igreja; contudo, quando 129A despeito da negação de Haenchen (377-8) é esta a provável interpreta­ ção do versículo; ver D. R. Hall, “St Paul and Famine Relief: A Study in Galatians 2:10”, E T 82, 1970-71, págs 309-311. 130F. F. Bruce, “Galatian Problems. 1. Autobiographical Data”, BJRL 51, 1968-69, págs. 292-309. Ver mais em 15:1-35, nota. Dificuldades cronológicas têm sido levantadas por R. Jew ett, Dating PauVs Life (Londres, 1979). Argumenta que a visita a Jerusalém mencionada em G1 cap. 2 não poderia ter sido feita tão cedo como requer a nossa teoria, e coloca esta visita (que considera a mesma visita que Lucas registra, fora da ordem cronológica, em Atos cap. 15) depois do ministério de Paulo em Corinto. Este ponto de vista supõe que os três anos e os catorze anos em G1 1:18; 2:1 leva a um tòtal de dezessete anos, e que os escape de Paulo de Damasco (At 9:2325) não pode ter acontecido antes de 37 d.C. Estas duas suposições são questioná­ veis. Talvez Paulo empregue o cálculo inclusivo em Gálatas, e seu escape de Damas­ co poderia ter ocorrido antes de 37 d.C. se seguirmos o argumento de Bruce, Acts, pág. 205, que diz que havia um representante do rei Aretas em Damasco (2 Co 11:3233) antes de 37 d.C. A alegação de Jew ett de que é fictícia a visita registrada em At cap. 11 e que a visita registrada em At. cap. 15 é igual àquela registrada em At 18:22 atribui a Lucas inexatidão incrível. Sobre a cronologia de Jew ett, ver também 15:3641, nota.

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ATOS 12:1 Pedro foi solto da cela dos condenados, a igreja dificilmente pôde acredi­ tar que suas orações pudessem ter sido tão eficazes. A história, que subli­ nha o relacionamento entre a oração e a atuação de Deus, também revela que Deus age para trazer retribuição sobre aqueles que se opõem à Sua obra e se exaltam a si mesmos; aqueles que se levantam contra Deus pere­ cem, em última análise. Tal é o esboço da história. É mais difícil enxergar o seu lugar na his­ tória da igreja conforme Lucas seletivamente a registra. Qual é a função deste capítulo na narrativa total, e qual a luz que lança sobre o quadro que Lucas nos dá da igreja? Surge certo número de possibilidades diferentes. À primeira vista, a história é desnecessária para o tema que se desenvolve, da expansão da igreja; se tivesse sido omitida, não teríamos notado a falta. É possível, portanto, que a história tenha sido contada simplesmente por­ que formava parte das tradições acerca de Pedro que Lucas herdara (cf. 9:3243). Pode, porém, servir historicamente para contar como Pedro foi forçado a deixar Jerusalém e passar a liderança para Tiago (embora devamos notar que Pedro ainda está ativo na igreja de Jerusalém em G1 2:9 e At cap. 15). Outra função da história talvez seja indicar como a carreira de Pe­ dro seguia linhas semelhantes àquelas de Jesus e de Paulo: o tema da prisão e da morte (real ou ameaçada) é comum nestas três vidas. É menos pro­ vável que devamos ver aqui um paralelismo tipológico deliberado com a história de Jonas, embora a evidência em prol desta interpretação tenha sido seriamente apresentada por Williams (págs. 152-3). Do ponto de vista de Lucas, parece que a ênfase recai sobre o pro­ gresso triunfante do evangelho (12:24) que não é impedido pela morte de um dos apóstolos nem pela prisão doutro deles. Enquanto a igreja orar, a causa de Deus avançará, e Seus inimigos ficarão em nada, ainda que este fato não isente a igreja do sofrimento e do martírio; a crença de Lucas na vitória da igreja é totalmente realística e reconhece que, embora a palavra de Deus não esteja manietada, é bem possível que seus servos tenham que sofrer e ser aprisionados (2 Tm 2:9). Não há dúvida algüma acerca da historicidade básica do relato. São perfeitamente prováveis os fatos de Pedro ter sido encarcerado e de ter es­ capado, embora os racionalistas talvez queiram insistir que um escape originalmente “natural” tenha sido enfeitado até ficar sendo um milagre. Ver sobre 5:19. 1. A cronologia dos eventos neste capítulo é determinada de modo absoluto pela morte de Herodes que ocorreu no começo de 44 d.C.; a data deles relativamente à visita de Barnabé e Paulo a Jerusalém é disputada, pois é incerto se a contribuição para a fome foi trazida tão pouco -

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ATOS 12:1-4 tempo antes da fome propriamente dita; ver 11:19-30 nota. Herodes neste contexto é Herodes Agripa I, um neto de Herodes Magno, que, depois de uma juventude algo tempestuosa, recebia áreas sempre maiores para re­ ger, da parte dos Imperadores Gaio e Cláudio; já em 41 d.C. sucedera a um reino de semelhante extensão àquele do seu avô.131 Fez o melhor que pôde para obter o favor dos judeus, e cultivava especialmente a amizade dos fariseus. 2. Está inteiramente de acordo com aquilo que sabemos acerca de Herodes doutras fontes, que ele tivesse atacado alguns dos membros principais da igreja. Tiago, o filho de Zebedeu, foi executado, é possível que Herodes estivesse conivente com o Sinédrio que estava tomando me­ didas severas contra a igreja, mas não podemos ter certeza quanto a isto. Assim cumpriu-se a profecia de Marcos 10:39, pelo menos no que dizia respeito a Tiago. O conceito de Wellhausen e outros de que o irmão dele foi executado ao mesmo tempo (e, portanto, não poderia ter escrito o Quarto Evangelho) é uma suposição sem base; conforme comentou seca­ mente C. K. Barrett: “não podemos martirizar o apóstolo para nossa pró­ pria conveniência em tratar dos problemas da crítica”.132 Lucas não faz especulações sobre a razão por que Tiago pereceu ao passo que Pedro foi libertado; seria altamente perverso deduzir do v. 5 que orações foram pro­ feridas em prol de Pedro mas não de Tiago. 3-4. A execução de Tiago teve bom efeito para os propósitos de He­ rodes e, portanto, prosseguiu na mesma direção ao prender Pedro. Visto ser o tempo dos pães asmos, que se seguia imediatamente após a Páscoa, de forma que as duas festas eram consideradas virtualmente uma, não foi tomada nenhuma ação imediata. Podemos comparar o problema semelhante que surgiu quando os líderes judaicos estavam contemplando a prisão de Jesus (Mc 14:1-2). Foram tomadas as máximas precauções contra qual­ quer tentativa de soltar o prisioneiro; os detalhes servem para enfatizar o. milagre do escape quando ocorreu. Quatro grupos, cada um de quatro sol­ dados, foram colocados para guardar o prisioneiro; este comentário se en­ caixa com a praxe romana, atestada noutras fontes, de mudar a guarda em cada uma das quatro vigias nas quáis se dividia a noite. O restante da história torna claro que a prisão foi efetuada em Jerusalém, onde Hero131

Tinha sido dividido, durante o período interino, em três partes básicas: a Judéia, governada por oficiais romanos; a Galiléia e a Peréia, governadas por Hero­ des Antipas; e as áreas ao nordeste da Galiléia, governadas por Herodes Filipe. 132C. K. Barrett, The Gospel according to S t John (Londres, 1955), pág. 87.

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ATOS 12:5-10 des sem dúvida estava residindo durante o período da festa (cf, Lc 23:7). 5. A lição essencial da história é apresentada neste versículo bem equilibrado: Pedro estava guardado no cárcere; mas havia oração inces­ sante . . . a favor dele. A oração intercedia pela soltura dele, claramente. Não há o mínimo indício no texto do conceito de que a igreja primitiva, acreditando que seu Senhor voltaria na ocasião da Páscoa, estava orando para Ele vir nesta Páscoa específica, para libertar Pedro.133 A oração que se proferia era fervorosa, como aquela que Jesus orava em Getsêmane (Lc 22:14), e expressava a preocupação da igreja para com Pedro, mais do que uma idéia de que, para Deus responder à oração, precisa ser pres­ sionado e persuadido por proezas espetaculares de devoção. Ao mesmo tempo, se a igreja sabia como orara o seu Senhor pessoalmente, teria que orar: “Contudo, não se faça a nossa vontade, e, sim, a Tua” (cf. Lc 22:42). 6-11. Conforme tornam claro os tempos do imperfeito no v. 5, a prisão de Pedro e a oração da igreja duraram vários dias. A história agora avança para a noite que antecedia o dia em que Herodes pretendia trazer Pedro da prisão para levá-lo diante do povo (v. 4), para o julgamento e a execução sumária. Lucas descreve em mais detalhes o modo da detenção. Pedro estava manietado a um soldado de cada lado na cela, e a porta era guardada por duas sentinelas. Durante a noite —o tempo mais comum para tais eventos —um anjo do Senhor entrou na prisão e o lugar brilhou com luz sobrenatural. Pedro estava dormindo, sem se perturbar com pensamentos acerca daquilo que aguardava para o dia seguinte, e teve que ser desperta­ do com um toque no lado. Ao levantar-se, os grilhões que o seguravam aos dois soldados caíram das suas mãos. Meio adormecido, ouviu o anjo orde­ nando-o a vestir suas roupas comuns, pronto a sair da prisão. Saiu andando pela porta aberta da prisão, seguindo o anjo, e não é de se estranhar que pen­ sasse que se tratasse de um sonho. Três portões foram transpostos para Pedro galgar a liberdade. A história não torna claro se os dois primeiros estavam abertos ou fechados, mas a implicação é que estavam abertos enquanto os guardas dormiam. O terceiro portão era o mais pesado e ma­ ciço, e este se abriu por si só, deixando passar Pedro e o anjo, que foram andando pela rua externa. Uma vez deixada a proximidade imediata da prisão, o anjo desapareceu, e Pedro reconheceu que estava real e verdadei­ ramente livre, graças à intervenção divina. É claro que o narrador considera a história milagrosa a cada passo.

133A. Strobel, “Passa-Symbolic und Passa-Wunder in Apg. 12:3 e segs.”, N T S 4, 1957-58, págs. 200-205.

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ATOS 12:10-17 Pode-se argumentar que se trata de uma lenda, mormente porque, para vários temas na história, há paralelos noutras histórias antigas, algumas das quais seriam comumente conhecidas no século I d.C. (5:19, nota), e podese alegar que, num mundo de tais superstições, não seria mais do que natural que os cristãos acreditassem que o Deus deles pudesse fazer coisas do mesmo tipo que outras divindades. Segundo este conceito, uma história de liber­ tação da prisão mediante a agência humana pode ter adquirido aspectos lendários no decurso da repetição. É impossível comprovar o argumento pró ou contra. A pessoa que acredita na realidade do sobrenatural não achará difícil aceitar a história tal qual ela se registra, juntamente com outras histó­ rias semelhantes na Bíblia e na história cristã. Neste caso específico, não existe elemento algum na história que iniba semelhante conceito milagroso. 12-17. Uma vez que Pedro reconheceu que estava livre, e, sem dúvida, também, que estaria correndo perigo se permanecesse onde estava, tomou providências imediatas para se afastar da situação ameaçadora. Em primeiro lugar, era necessário informar seus companheiros cristãos daquilo que acon­ tecera. Sabia que acharia âmigos na casa de Maria, mãe de João, cognomi­ nado Marcos, e para lá foi ele. A senhora da casa é identificada pela refe­ rência ao filho, que figura na narrativa quase imediatamente depois (v. 25), e talvez ele tenha fornecido a Lucas informações sobre este episódio na his­ tória da igreja primitiva, e sobre outros acontecimentos semelhantes. Conjec­ turou-se que foi esta a casa onde os discípulos se reunirám no dia de Pente­ coste (1:13 nota), mas não há evidência positiva a favor desta suposição. Embora já fosse tarde da noite, muitas pessoas estavam reunidas e dedi­ cavam seu tempo à oração; aqui temos uma das referência incidentais que demonstram que os cristãos primitivos oravam de noite. Suas orações foram interrompidas por alguém que batia à porta, e uma empregada foi ver quem estava lá; a idéia que se dá da casa é que tinha um corredor de entrada que separava a sala principal da rua. Seria normal informar-se quem estava à porta antes de abri-la, para evitar que entrasse um assaltante. Quando a empregada ouviu a voz de Pedro em resposta â sua pergunta, ficou tão sur­ presa e comovida de alegria que correu de volta para o interior da casa para contar suas novas emocionantes, sem abrir a porta. As pessoas dentro da casa não quiseram acreditar na história que ela contou. Em primeiro lugar, disse­ ram que ela estava fora de si. Quando não conseguiram abalá-la naquilo que contava, pensavam que devia ser o anjo de Pedro. Esta referência curiosa deve ser a algum tipo de equivalente “celestial” de uma pessoa, tendo a mesma aparência física. Os judeus acreditavam que as pessoas tinham anjos da guarda (ver Mt 18:10 para um eco desta crença), e há alguma -

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ATOS 12:17 evidência (reconhecidamente muito depois do Novo Testamento e não to­ talmente fácil para interpretar) que os anjos da guarda tinham, conforme se supunha, a semelhança das pessoas que protegiam.134 A suposição da­ queles que estavam na casa era falsa, neste caso, pois realmente era o pró­ prio Pedro; Lucas nada diz para indicar que a suposição se baseava numa doutrina angelológica correta, e é mais provável que se trate de uma su­ perstição judaica que cita sem necessariamente corroborar. Quando Pe­ dro finalmente foi admitido à sala, não perdeu tempo para acalmar a emo­ ção dos seus amigos. Satisfez a curiosidade natural deles, explicando como foi libertado, e depois pediu que transmitissem a notícia aos demais lí­ deres cristãos, para depois sair de noite para um esconderijo secreto. O Tiago aqui mencionado é o irmão de Jesus (Mc 6:3) que mais tarde figurava como líder da igreja em Jerusalém (15:13; 21:18); Paulo o considerava, juntamente com Pedro e João, como um dos três “pila­ res” da igreja (G1 2:9). Fora testemunha do aparecimento do Jesus ressurreto (1 Co 15:7), e, portanto, Paulo o reconheceu como apóstolo (G1 1:19). Parece provável que, desde uma etapa inicial, fosse um dos líderes da igreja, e que, numa determinada altura, tomou o lugar de Pedro como líder reconhecido. Esta passagem não precisa dar a entender que Tiago fosse, nesta altura, outra coisa senão vice-líder de Pedro. Não sabemos como Tiago veio a ocupar esta posição ao invés dalgum dos doze apóstolos. Uma possibilidade é que ele mesmo fosse um dos Doze, e que deve ser identifica­ do com Tiago, o filho de Alfeu (neste caso, seria primo de Jesus, e não realmente irmão). É mais provável que seu estreito parentesco com Jesus e sua liderança natural se combinaram para estabelecer a sua posição na igre­ ja. Quanto aos apóstolos, é possível que tenham procurado esconderijos tendo em vista o que acontecera a Tiago, filho de Zebedeu, e a Pedro; o próprio Tiago também deveria estar, provavelmente, nalgum lugar de se­ gurança. Os irmãos talvez simplesmente signifique os demais membros da igreja, mas há alguma possibilidade de aqui haver o sentido técnico dos líderes da igreja.135 Quanto a Pedro, o texto talvez dê a entender meramen­ te que foi refugiar-se alhures até que fosse seguro voltar para Jerusalém (i.é, depois da morte de Herodes); está presente na igreja ali outra vez em Gálatas 2:1-10 e em Atos cap. 15, mas, doutra forma, não desempenha qualquer papel a mais em Atos. Em certa altura, foi para Antioquia (G1 2:11-14), e esta visita talvez fosse feita nesta ocasião. Sugestões no sentido 134SB, II, pág. 707. 13sE.E. Ellis, “Paul and his Co-workers”, N T S 17, 1970-71, págs. 437452.

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ATOS 12:18-23 de que ele foi para Roma nesta ocasião136 ou que a história é uma repre­ sentação pictorial da morte de Pedro e da sua partida para o céu são pura­ mente imaginativas. 18-19. A descoberta do escape de Pedro não foi feita a não ser pela manhã, quando Pedro já estava fora de perigo. Quando a notícia foi relata­ da a Herodes, e quando este não conseguiu obter explicação satisfatória dos guardas, agiu conforme o costume típico da antiguidade, considerandoos responsáveis pela fuga do prisioneiro e os executou. Quando terminou sua visita a Jerusalém, partiu da Judéia (aqui empregada no sentido estrei­ to da área ao redor de Jerusalém) e foi para Cesaréia, a capital oficial da província. O pormenor é incluído para mudar o cenário para o episódio que se segue imediatamente após. 20-23. O historiador judeu Josefo registra como Herodes celebrou jo­ gos em Cesaréia em homenagem ao Imperador, com a presença dos princi­ pais homens do reino. Quando Herodes entrou no teatro, vestido em roupas de prata brilhante, seus aduladores se dirigiam a ele como a um deus: “Que sejas propício conosco, e se até agora te tememos como homem, doravan­ te concordamos que és mais do que mortal na tua existência”. O rei acei­ tou esta bajulação. Depois, olhando para cima, viu uma coruja empoleirada numa corda, e a interpretou como símbolo de infortúnio. Ao mesmo tempo, foi tomando por violentas dores internas, e foi carregado para o palácio, onde morreu depois de cinco dias de doença (Jos. Ant. 19:343350). É claramente a mesma história que Lucas aqui nos conta. Um aspec­ to novo, porém, é a informação acerca da rixa entre Herodes e as cidades do litoral, Tiro e Sidom, que eram cidades livres com governo próprio, mas que dependiam economicamente da Judéia. Nada sabemos acerca da razão pela desavença, e meramente se nos informa que o povo procurou aplacar Herodes através da mediação do chanceler do rei. Como resultado, conseguiram uma audiência com o rei, o que deve ter ocorrido na ocasião da festa em homenagem ao imperador. A história, embora não seja atesta­ da por Josefo, é sem dúvida fidedigna, pois não se pode conceber de qual­ quer motivo que Lucas tivesse tido para inventar semelhantes detalhes que nada contribuem para o propósito principal da sua narrativa. O dia designado seria aquele para a audiência com o rei, que caiu na ocasião da festa. Não é certo se o festival ocorreu em março (44 d.C. — i.é, antes da Páscoa daquele ano, e, neste caso, o escapè de Pedro ocorreu

136J. Wenham, “Did Peter go to Rome in AD 42?” Tyn. B. 23, 1972, págs. 94-102. -

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ATOS 12:23-25 quase um ano antes, na Páscoa de 43), no aniversário da fundação da cida­ de, ou em agosto de 44 d.C., na ocasião do aniversário do Imperador. Quan­ do a assembléia pública foi realizada, na qual compareceram os embaixado­ res das duas cidades, Herodes fez um discurso, e depois o povo exclamou que era um deus, e não um homem. Imediatamente depois, conforme con­ cordam as duas origens documentárias, foi ferido por uma doença. Lucas atribui a repentina crise a um anjo do Senhor, aqui a frase se aplica à origem divina de uma doença natural, e mostra que Lucas não estava pensando em termos de uma figura humana ou celestial (contrastar w 7-11). A lição é que o próprio Deus age contra aqueles que usurpam a Sua posição e rei­ vindicam para si mesmos as honrarias divinas. Não é certa a causa da morte de Herodes. Comido por vermes pode ser entendido bem literalmente (cf. 2 Mac 9:9), embora pareça que a frase é de uso tradicional para descrever a morte de tiranos. A apendicite que levava à peritonite se encaixaria na sin­ tomatologia descrita por Josefo, e, com a falta de higiene médica no mundo antigo, os nematelmintos talvez tenham aumentado os sofrimentos do rei. Neill (pág. 152) sugere um cisto produzido por uma solitária. 24. A certos intervalos, Lucas faz um comentário breve sobre o pro­ gresso da igreja (6:7; 9:31), e agora volta a fazê-lo, para demonstrar que, a despeito dos ataques externos à igreja, a palavra do Senhor continuava a propagar-se (quanto à linguagem, ver 6:7). Este fato era mais importan­ te do que a retribuição que o perseguidor da igreja sofreu por seus atos. A obra de Deus prosseguia a despeito da morte de Tiago e a ausência de Pedro. 25. O versículo final do capítulo talvez deva ser considerado como sendo o começo da seção seguinte, mas também pode ser visto como pon­ to culminante desta história dos eventos em Jerusalém, e como mudança de cenário para a próxima parte da história. Menciona brevemente como Barnabé e Saulo cumpriram a missão que os trouxe para Jerusalém (11: 29), e voltaram para Antioquia. A unica conexão com a história interve­ niente é a menção de João Marcos, que os acompanhou de volta para An­ tioquia; era, conforme ficamos sabendo incidentalmente em Colossenses 4:10, primo de Barnabé, e este parentesco explica por que foi para An­ tioquia e ficou sendo o companheiro de Barnabé e Paulo na obra missio­ nária deles.137 131

t f

Um aspecto enigmático do versículo e que, embora a maioria dos MSS di­ ga que Bamabé e Paulo voltaram de Jerusalém (ARA), os MSS mais antigos e melhores (inclusive os códices vaticano e sinaítico) registram a frase para Jerusalém. Esta frase é tão estranha no seu contexto, que têm fortes reivindicações para ser o texto melhor

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ATOS 13:1 V. A MISSÃO À ÁSIA MENOR E SUAS CONSEQÜÊNCIAS (13:1-1555)

a. A vocação à missão (13:1-3) Atos caps. 13-14 contém o relato do primeiro período de atividade missionária de Paulo, levado a efeito juntamente com Barnabé. De toda a obra missionária de Paulo, este período tem mais direito de ser chamado uma “viagem missionária” , conforme é o costume em mapas bíblicos. Os períodos posteriores foram muito mais dedicados às extensas atividades nas cidades-chaves importantes do mundo antigo, e recebemos um quadro falso da estratégia de Paulo se imaginamos que ele corria rapidamente em viagens missionárias de um lugar para outro, deixando por detrás dele pe­ quenos grupos de convertidos semi-instruídos; era sua política geral per­ manecer numa só localidade até que tivesse estabelecido os alicerces firmes de uma comunidade cristã, ou até que fosse forçado a ir embora por cir­ cunstâncias além do seu controle. A mesma estratégia básica foi, na reali­ dade, seguida nesta campanha missionária em Ásia Menor (cf. 13:50; 14:3, 5-7, 20). A importância da presente narrativa é que descreve o primeiro ato planejado de “missão estrangeira” levado a efeito por representantes de uma igreja específica, e não por indivíduos isolados, e iniciado por uma decisão deliberada da igreja, inspirada pelo Espírito, mais do que casualmente como resultado da perseguição.138 Lucas, portanto, descreve com pormenores solenes como os missionários foram nomeados numa reunião da igreja sob a orientação do Espírito Santo. Está bem consciente que sua descrição diz respeito a um evento crucial na história da igreja. 1. A narrativa começa com uma descrição de como a igreja em Antioquia era servida por um grupo de profetas e mestres. Alistam-se cin­ co nomes. Em primeiro lugar vem Barnabé que, como líder cristão de Je­ rusalém talvez seja considerado o mais importante do grupo, ou talvez o

atestado, mas decerto produz um sentido impossível se entendermos que Barnabé e Paulo voltaram para Jerusalém. Ou há um erro primitivo no texto (emendado correta­ mente nos MSS posteriores), ou devemos traduzir: “Barnabé e Saulo voltaram, tendo cumprido a sua missão em Jerusalém” (com Gr. eis equivalente a en, e um a ordem das palavras fora do comum). Ver Metger, págs. 398-400. 138E. Best, “Acts 13:1-3”, / r S 11, 1960, págs. 344-348.

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ATOS 13:1-2 cristão de mais tempo na fé (quanto aos primeiros convertidos poderem tonar-se líderes da igreja, ver 1 Co 16:15-16). Em segundo lugar, há Simeão, homem este com um nome judaico e, portanto, um judeu, com toda a pro­ babilidade; seu outro nome, Niger, é latino, e significa “de compleição escura” ; tendo em vista ser ele mencionado precisamente antes de um cireniano, tem-se pensado ser ele também um cireniano e, portanto, identi­ ficável com o Simão que carregou a cruz de Cristo (Lc 23:36), mas, se for este o caso, é surpreendente que Lucas tenha dado ortografia diferente a cada um dos dois nomes. Em terceiro lugar, há Lúcio de Grene, que, segun­ do se presume, era um dos membros fundadores da igreja (11:20). Já foi feita a conjectura no sentido de que Lúcio deva ser identificado com o próprio Lucas, identificação esta que foi feita por pelo menos um dos escribas primitivos, mas é improvável.139 Em quarto lugar, temos Manaém, um nome judaico que significa “consolador”, um associado de He­ rodes Antipas; o termo colaço, ou “membro da corte” talvez se refira a um menino da mesma idade, criado como companheiro de um prínci­ pe ou, de modo mais geral, a um cortesão ou amigo de um soberano; se­ ja qual for o significado preciso, é possível que Manaém fosse a fonte informativa de Lucas, para a matéria a respeito de Herodes Antipas que não se acha nos demais Evangelhos. Finalmente, há Paulo, que aqui recebe seu nome judaico de Saulo, conforme tem sido a praxe usual de Lucas até este ponto (ver v. 9 nota). Lucas não nos conta quais destes homens eram profetas e quais eram mestres. A probabilidade é que não era muito nítida a linha divisória, sendo que os dois grupos se dedicavam à exposi­ ção do significado das Escrituras proféticas e à exortação; os profetas, porém, também tinham o dom de pronunciamentos carismáticos. Podemos contrastar a atividade magisterial de Bamabé e Paulo (11:36) com as men­ sagens inspiradas de profetas tais como Ágabo (11:27-28). 2. Não fica claro se o sujeito da frase, eles, diz respeito aos profe­ tas e mestres, ou se inclui os membros da igreja, de modo geral. Visto que a lista de nomes no v. 1 visa primariamente demonstrar quem estava dis­ ponível para o serviço missionário, e visto que as mudanças de sujeito não são incomuns em Grego, é preferível supor que Lucas está pensando numa atividade que inclui os membros da igreja na sua totalidade. Esta interpre­ tação se harmoniza com o fato de que, noutros trechos,decisões semelhan­ tes são feitas pela igreja na sua totalidade (1:15; 6:2, 5; cf. 14:27; 15:22). 1 39

Embora ‘Lucas” seja uma forma grega do nome latino “Lucio” , o nome era muito comum.

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ATOS 13:2-3 Segundo este ponto de vista, os membros da igreja estavam reunidos para servir ao Senhor e jejuar. Servir ao Senhor é um ato de adoração, e a palavra grega originalmente se empregava para o serviço público que as pessoas realizavam às suas próprias custas, e depois, no Antigo Testamento Grego, aplicava-se ao serviço ritual dos sacerdotes e levitas no templo (cf. Lc 1:23). O pensamento aqui é que a igreja serve a Deus quando se reúne, e, sendo que noutros trechos o jejum se associa com a oração, é provável que a oração seja considerada a atividade religiosa da igreja. O jejum, ou abs­ tinência voluntária do alimento, também se associa com a oração em 14:23, quando foram nomeados os líderes da igreja local, mas fora disto, não é atestado como praxe da igreja primitiva (ver, porém, 2 Co 6:5; 11:27 para a experiência pessoal de Paulo). Aqui, demarca a importância da ocasião, quando a igreja sentiu a necessidade de deixar de lado até mesmo as exigên­ cias da fome a fim de concentrar-se no culto a Deus e no recebimento da orientação da parte dEle. Para uma igreja que esperava no Senhor, veio a Sua palavra. O Espi­ rito é nomeado como sendo o autor, pois é Ele quem nomeia os líderes da igreja (20:28) e guia a igreja em pontos cruciais. O Espírito, no entanto, fala por intermédio de homens (4:25), e deve-se supor que um dos pro­ fetas na igreja recebeu a mensagem que conclamou a igreja a separar dois dos seus líderes para uma tarefa à qual Deus os chamava. Muitas vezes tem sido notado como a igreja tinha que se dispor a abrir mão dos serviços de dois dos seus mestres mais destacados, por amor à obra de Deus noutros locais. A natureza da tarefa140 não é mencionada neste ponto, possivelmente por causa do efeito literário, mas fica claro que a obra missionária deve ter sido indicada; não se declara se os missionários receberam nesta ocasião, ou mais tarde (13:4) instruções quanto ao roteiro. A lição principal que Lu­ cas inculca é que a missão é inaugurada pelo próprio Deus. 3. A despedida dos missionários foi precedida por mais uma sessão de oração e jejum, tratando-se desta vez, sem dúvida, de um período de intercessão em prol da sua obra futura. Depois, os missionários foram comis­ sionados pela igreja pela imposição das mãos (6:6), um ato de bênção me­ diante o qual a igreja se associava com eles e os recomendava à graça de Deus (14:26), e não uma ordenação para um serviço vitalício, e muito me­ nos uma nomeação ao apostolado.

140Para este emprego de obra para indicar a evangelização e a missão cf. 14:26; 15:38.

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ATOS 13:4-5 b. A evangelização em Chipre (13:4-12). Já tinha havido algum trabalho de evangelização em Chipre anterior­ mente (11:19) e alguns membros da igreja em Antioquia tinham laços fa­ miliares com a ilha, inclusive o próprio Barnabé (4:36). Do ponto de vista humano, no entanto, era natural que a missão começasse ali, mas foi pelo Espírito que os missionários se sentiram guidados para irem para lá. Seguiuse um padrão de estabelecer contatos com as sinagogas, mas o interesse principal da história centraliza-se na audiência que Paulo teve com o go­ vernador romano e sua confrontação com um mágico que se opôs à pre­ gação do evangelho. A história mostra como a classe governante romana ti­ nha interesse simpático pelo evangelho, e como o poder do evangelho era superior àquele da magia pagã. Ao mesmo tempo, Lucas demonstra como Paulo veio a assumir a posição de liderança na missão; sejam quais tenham sido as qualidades excelentes de Barnabé noutros aspectos (espe­ cialmente como ensinador cristão), tinha que reconhecer que Paulo pos­ suía, em medida fora do comum, os dons de um evangelista. 4-5. Lucas ressalta, mais uma vez, que foi o Espírito Santo quem di­ rigiu a partida dos missionários, e os colocou em uma situação de confli­ to com a força do mal (v. 9). Podemos ver um paralelo com a unção de Jesus com o Espírito ao começar Seu ministério, seguida por um confli­ to com Satanás (Lc 3:22; 4:1-2, 14)? Visto que Antioquia ficava cerca de 26 km longe do mar, Barnabé e Paulo começaram a viagem marítima do porto mais próximo, Selêucia. Foi uma viagem de cerca de 96 km para Chipre, uma ilha grande, de 223 km de comprimento e 96 km de largura. Tinha importância econômica por causa das suas minas de cobre, e fora anexada pelos romanos; já a esta altura tinha se tornada em província senatorial. Antes, tinha sido colonizada por gregos, e Salamina, no lito­ ral oriental, era uma cidade grega. Havia também uma população judai­ ca substancial, conforme indica o comentário no sentido de haver mais de uma sinagoga. Barbabé e Paulo começaram sua obra missionária mediante pregações nas sinagogas', este padrão haveria de ser seguido freqüentemen­ te (13:14, 46; 14:1; 16:13 (ver nota); 17:1, 10; 18:4, 19; 19:8; 28:17). Não somente seguia o princípio de “primeiro ao judeu” , mas também fazia sentido prático ao estabelecer um ponto de contato j)ara o evangelho.141 141

Este conceito foi repudiado como sendo totalm ente anti-histórico por Schmithals, págs. 46-62, mas seu ponto de vista (baseado numa interpretação dúbia de G1 2:7-10) contradiz diretamente a declaração perfeitamente clara de Paulo em 1 Co 9:20-21.

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ATOS 13:5-7 Não se nos informa se a pregação foi eficaz neste caso. Ao invés disto, temos a informação de que João os ajudava. Trata-se de João Mar­ cos (12:12; 13:13; 15:37-39). A referência parece estranha neste ponto. É claro que Lucas a incluiu para explicar as referências posteriores à sua separação do grupo, mas o problema é por que não o fez no começo da história. Há, talvez, uma sugestão de que não foi enviado pelo Espírito, e de que foi por isso que não completou a sua missão? Ou será que Lucas evita dizer diretamente que Marcos fora enviado pelo Espírito, a fim de evitar a sugestão de que, mais tarde, resistiu a orientação do Espírito? João Marcos, porém, era mero auxiliar, e não fazia parte do grupo de pro­ fetas e mestres alistados em 13:1-3, e, portanto, não era necessário men­ cioná-lo ali. Além disto, era praxe de Paulo levar consigo jovens para serem seus assistentes na obra, e não há boa razão para duvidar que esta nomeação tivesse sido feita com boa fé. Visto que Barnabé pertencia a Chipre, e mais tarde levou João Marcos com ele de volta para lá, é possí­ vel que o próprio jovem tiyesse vínculos familiares com a ilha, e que por isso é que foi escolhido para acompanhar os demais missionários. Talvez seja este vínculo familiar com Chipre que levou à menção do seu nome neste ponto específico da história. É incerto o papel de João Marcos como auxiliar. Os comentaristas diferem entre si quanto ao seu papel de aju­ dar os missionários no nível prático (cf. o emprego do verbo equivalen­ te em 20:34; 24:23) ou na obra do evangelho, mas talvez tivesse as duas funções; é improvável que Lucas aqui queira designá-lo como “servo da palavra” (Lc 1:2). 6-12. A partir de Salamina, os missionários avançaram para o oci­ dente, em direção a Pafos, a sede do governo. Aqui, o interesse se centra­ liza no encontro entre Paulo e um judeu que ganhava a vida com a prá­ tica da magia, alegando ser um profeta. Provavelmente era o mesmo ti­ po de pessoa que Ceva, que alegou ser um sacerdote principal dos judeus em Éfeso (19:14). Embora fosse proibida aos judeus a prática da magia, fica claro que esta lei não era universalmente observada. Lucas teria con­ siderado este malfeitor como praticante daquilo que chamamos de magia negra, e não como prestidigitador. Seu nome, Barjesus, significa “filho de Josué” . Mais tarde, é chamado Elimas, que, segundo Lucas, significa “mágico”.142 O emprego de dois nomes tem sido considerado uma in-

142Elimas tem sido explicado como nome semítico, semelhante ao árabe \ alim, “sábio” , ou talvez deriva de um a forma aramaica hãlõmà; ver L. Yaure, “Elymas - Nehelamite - Pethor” , JBL 7 9 ,1 9 6 0 , págs. 297-314.

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ATOS 13:8-12 diação de que foram empregadas aqui duas fontes documentárias, mas não há outros sinais disto na história, e muitos judeus tinham mais de um nome; Lucas viu relevância nos dois nomes. O mágico formava parte do séquito do governador romano da ilha, que aqui é corretamente chamado procônsul. Identificações anteriores de Sérgio Paulo, tais como a que faz dele a mesma pessoa que L. Sergius Paulus, que era um curador do Rio Tibre, têm base fraca; mas é possível que ele seja o Q. Sergius (Paulus) mencionado numa inscrição de Chipre, recentemente descoberta.14 3 É descrito como sendo homem inteligente, sendo que a implicação é que não foi enganado pelo mágico mas, sim, es­ tava de coração aberto para ouvir o evangelho. Sendo assim, chamou os missionários para lhe fazer um visita; pode-se supor que já recebera alguma notícia das atividades deles. O mágico, temeroso de perder a sua posição, fez tudo quanto podia para opor-se àquilo que diziam. Sua oposição aber­ ta ao evangelho levou Paulo a adotar uma atuação forte contra ele. Cha­ mou-o, não de “filho de Jesus” , mas de filho do diabo, homem cheio de engano e malícia, que impedia os caminhos de Deus (para a fraseologia, ver Jr 5:27; Gn 32:11; Pv 10:9; Os 14:10), e pronunciou o julgamento divi­ no sobre ele, na forma de uma crise de cegueira. A natureza do julgamento sugere uma analogia com aquilo que acontecera ao próprio Paulo anterior­ mente, e a frase por algum tempo indica que seria meramente temporário; logo, o julgamento provavelmente visava ser uma advertência e agir como estímulo à conversão, embora não saibamos se este resultado foi alcançado no caso deste mágico. Este foi atacado por uma nebulosidade nos olhos, e sua conseqüente cegueira foi evidenciada por sua necessidade de alguém que o guiasse pela mão. O poder superior associado com a doutrina dos missionários cristãos deixou atônito o procônsul a tal ponto que estava disposto a acreditar na mensagem deles. A fraseologia sugere a conversão; é estranho, porém, que não se nos informa mais do que isto na história, e talvez isto sugira que a conversão não foi permanente. Lucas conta a his­ tória mais para mostrar como Paulo venceu o poder da magia do que para indicar como se converteu um governador romano. No decurso da história, ocorrem dois aspectos incidentais. Em pri­ meiro lugar, Paulo ocupa o papel de liderança, fato este que se percebe quando o Barnabé e Saulo do v. 7 foi substituído por “Paulo e seus com­ panheiros” no primeiro versículo da seção seguinte (v. 13). Em segundo 143

B, van Elderen, “Some Archaelogical Observations on Pauls’s First Missio­ nary Journey”, AHG, págs. 151-161.

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ATOS 13:12-13 lugar, Lucas, depois de o ter chamado de Saulo até esta altura, refere-se a ele, pela primeira vez, como Saulo, também chamado Paulo (v. 9), e a partir de então, consistentemente o chama de Paulo. Como cidadão roma­ no, Paulo deve ter tido três nomes, o terceiro do qual (seu cognomen) deve ter sido o latino “Paullus” ; não sabemos quais eram os dois primei­ ros. Um cidadão romano podia ter um quarto nome (seu signum ou supernomeri) dado na ocasião do nascimento, e empregado como nome familiar; no caso de Paulo, este pode ter sido seu nome judaico, “Saulo”, que em­ pregaria quando estava entre judeus. A mudança do nome aqui, para a for­ ma que Paulo emprega nas suas Epístolas corresponde com sua entrada no ambiente principalmente gentio. Lucas observa a coincidência que o gover­ nador do Chipre também tinha o nome “Paulo”, mas dificilmente poderia ter tido qualquer conexão entre este fato e o próprio nome que Paulo rece­ bera quando nasceu.

c. A evangelização na sinagoga de Antioquia da Pisídia (13:13-52). Lucas não nos informa porque os missionários partiram de Chipre de­ pois de uma permanência que decerto não fora muito longa; não há qual­ quer referência específica à orientação espiritual em qualquer ponto desta viagem missionária. Talvez pareça surpreendente que Paulo e seus com­ panheiros passassem então a percorrer umas cidades um pouco contra-mão no centro da Ásia Menor. Na realidade, montam uma linha de comunicação importante. O primeiro centro das atividades foi Antioquia da Pisídia, a cidade principal da área, onde Paulo seguiu sua praxe de procurar um pon­ to de contato para o evangelho na sinagoga. As boas-vindas amistosas lhe deram a oportunidade para falar no sábado. O discurso que Lucas registra é de comprimento considerável, e po­ de ser resumido como um tipo de panorama histórico que visa arraigar a vinda de Jesus na sucessão real de Judá e para demonstrar que a carrei­ ra de Jesus cumpria a profecia: culmina num apelo aos ouvintes no sentido de não repetirem o erro do povo de Jerusalém que rejeitaram- a Jesus. O padrão geral é semelhante àquele dos demais discursos na primeira parte de Atos, estando presentes os mesmos elementos básicos. Até certo ponto, o discurso é complementário ao de Estêvão; o discurso anterior passa em revista a história de Israel desde os patriarcas até Salomão, enfatizando es­ pecialmente a primeira parte, ao passo que este discurso se concentra no período da monarquia e culmina na apresentação de Jesus, o que falta -

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ATOS 13:12-13 no discurso de Estêvão. Esta cuidadosa evitação da repetição entre os dois discursos no seu largo escopo de história veterotestamentária talvez se deva à perícia literária de Lucas, mas também é ditada pelos propósitos inteiramente diferentes dos discursos, apresentados por dois preletores diferentes, sendo que o primeiro trata de Moisés e de Jesus do modo de uma advertência, e o segundo trata de Davi e de Jesus em termos da pro­ messa. O discurso se baseia no Antigo Testamento, e demonstra seme­ lhanças com os métodos judaicos de interpretação. Pode muito bem ser um midraxe sobre 2 Saftiuel 7:6-16, i.é, uma exposição sobre a passagem a fim de ressaltar a sua continuada significância ao aplicá-la a um evento con­ temporâneo, a ressurreição de Jesus, e por meio de interpretá-la à luz de outras escrituras.144 O discurso de Paulo foi efica/ em convencer tanto judeus quanto prosélitos na sinagoga, de tal maneira que grandes multidões se reuniram na semana seguinte para ouvir mais. Outros judeus, no entanto, tinham inveja do sucesso de Paulo, e se opunham à mensagem. A rejeição por parte deles levou Paulo a pronunciar abertamente o princípio de que passaria a dirigir-se aos gentios, o que fez, corii resultados importaíntes. A oposi­ ção adicional forçou-o a deixar uma igreja incipiente antes de ter tempo para consolidar a sua obra. A história é relatada pormenorizadamente para dar um exemplo tí­ pico e significante das experiências de Paulo. Não há necessidade, no en­ tanto, para alegar que é uma cena ideal, que nunca aconteceu concretamente, e de acusar de ingênuos os estudiosos que levam a sério a narrativa. Embora talvez o conteúdo do sermão não tenha sido repetido palavra por palavra, mesmo assim, no seu relatório diante da igreja em Antioquia da Síria (14:27), Paulo e seus companheiros se referiram a estas experiências. 13-15. Lucas narra rapidamente a viagem dos missionários de Pafos para o litoral da Ásia Menor, e a subseqüente viagem do litoral para o in­ terior (cerca de 160 km). Panfília era um distrito litorâneo que fora uma província romana separada desde 25 a.C. até 43 d.C., e que depois fora uni­

144M. Dumais, Le langage de l ’évangélisation. L ’a nnonce missionaire en milieu ju if (Acts 13, 16-41). (Tournai/Montréal, 1976). J. W. Bowker, “Speeches in Acts: A Study in Proem and Yelammedenu Form ” , N T S 14,1967-68, 96-111, faz a sugestão mais complexa de que Paulo está seguindo o padrão típico de um sermão da sinago­ ga baseado numa leitura da lei (Dt 4:25-26 é sugerido), e um texto introdutório (1 Sm 13:14): o texto formava o vínculo entre as duas leituras, e o sermão visava elucidar o texto. Neste caso, o sermão começou de modo incomum, com uma introdução (w . 16-21) antes do texto. Cf. Wilckens, págs. 232-3.

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ATOS 13:13-16 da com Lícia. É provável que os missionários desembarcassem em Atália (cf. 14:25) e que caminhassem cerca de 19 km para o interior, até chegar em Perge, uma cidade grega com um templo importante dedicado a Ártemis, e um grande teatro e estádio. Nada se diz acerca de qualquer ativi­ dade missionária aqui. Lucas meramente registra que João Marcos deixou o grupo nesta altura. Será que tinha ressentimento porque Paulo agora era o líder, ao passo que seu primo Barnabé passou para o segundo plano? Ou será que não quis ir além de Chipre? Ou será que ficou sem coragem? Ou houve outra razão? Realmente não se nos informa, mas fica claro em 15:38 que Paulo levou muito a sério a sua deserção, ao passo que Barna­ bé estava disposto a dar-lhe consideração especial. Os demais missionários avançaram para a Antioquia. Seleuco I fun­ dou várias cidades e chamou-as todas de Antioquia em homenagem ao seu pai Antíoco (cf. 11:19 nota). Esta cidade específica tinha recebido a posição de colônia romana, e era a cidade principal da área conhecida como Phrygia Galatica. Não ficava realmente no distrito da Pisídia mas, visto que havia ainda outra Antioquia na Frigia, no rio Meandro, aquela era conhecida como “Antioquia na direção da Pisídia”. Aqui, os missionários foram para a sinagoga, e se assentaram ali. Lucas pinta o cenário ao fornecer aquilo que é, juntamente com Lucas 4:16-21, a mais antiga descrição existente dos'as­ pectos essenciais num culto de sinagoga. Depois das orações de abertura (não mencionadas aqui), o ato central era uma leitura da lei, i.é, os cinco primeiros Livros do Antigo Testamento; esta era seguida pela leitura dos profetas, e, depois, havendo presente uma pessoa competente, um sermão em conexão com as leituras. Usualmente havia um “chefe" encarregado com a distribuição do culto, mas aqui havia pelo menos dois (possibilida­ de esta que parece ser atestada numa inscrição judaica).145 Convidaram Paulo para falar, talvez porque já houvessem tido algum contato com ele antes do culto. 16-20. Paulo aceitou o convite. Seguiu o que provavelmente era a praxe nas sinagogas helenísticas, ficando em pé para ensinar,146 e enfati­ zava com gestos a sua mensagem. Suas palavras de abertura indicam que o auditório consistia de judeus e gentios que temiam a Deus (10:2). Entrou diretamente num panorama da história dos judeus, cujo propósito era demonstrar que Israel fora escolhido por Deus, e que Este lhe deu uma ter145W. Schräge, TDNT, VII, págs. 844-847, especialmente págs. 846-7, citando CorpusInscriptionumIudaicarum, II, pág. 803. 146Filo, Spec. Leg. 2:62.

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ATOS 13:17-22 ra e líderes; esta sucessão de líderes tinha chegado a um ponto culminante quando Jesus foi enviado como Salvador. A narrativa começa com a esco­ lha divina dos patriarcas e passa rapidamente para a multiplicação dos seus descendentes para formar uma nação poderosa durante a sua permanência no Egito. O verbo exaltou se refere ao aumento em números e forças do povo (Êx 1:7-9). Depois, Paulo se refere rapidamente à maneira de Deus exercer o Seu poder para trazer o povo para fora do Egito (para a fraseo­ logia, ver Êx 6:1, 6; SI 136:11-12), e, depois, trouxe-o pelo deserto. O ver­ bo grego suportou-lhes difere, por uma só letra, do texto variante “cui­ dou de”, e os dois são traduções possíveis do verbo hebraico subjacente (Dt 1:31). Embora o primeiro é melhor atestado aqui, o último dá um sen­ tido melhor; e foi sugerido que o primeiro texto representa uma maneira helenística de ortografar o último.147 Em seguida, Deus preparou o caminho para o povo entrar em Canaã, ao expulsar sete nações que então ocupavam a terra (Dt 7:1). O período de quatrocentos e cinqüenta anos é de difícil interpretação.148 Parece melhor entendê-lo conio referência à permanência no Egito (400 anos), às peregrinações no deserto (40 anos, v. 18), e à ocupação da terra (10 anos). As necessidades do povo foram supridas pelo provimento de juizes, o último dos quais foi Samuel. 21-22. Quando pediram um rei (1 Sm 8:6), Deus atendeu à sua petição, e lhes deu Saul. Os quarenta anos atribuídos ao seu reinado pro­ vavelmente são tirados da tradição judaica (cf. Josefo, Ant. 6:378); o tex­ to de 1 Samuel 13:1, que é defeituoso, dá a cifra impossível de dois anos. Saul, porém, foi tirado do seu reino, por ser indigno da tarçfa, e foi subs­ tituído por Davi. Este tinha credenciais divinas para a sua tarefa, que Pau­ lo passa então a citar. A citação é composta. Achei a Davi é tirado de Sal­ mo 89:21, enquanto homem segundo o meu coração advém de 1 Samuel 13:14. Que fará toda a minha vontade tem redação semelhante a Isaías 44:28 (onde a frase se aplica a Ciro), mas já foi observado que as palavras podem ser uma tradução de um targum de Salmo 89 que prafraseia um homem segundo o meu coração por “um homem que realiza a minha von­ tade” (Wilcox, págs. 21-24). Se for correta esta observação, demonstrará que esta parte do discurso pode ter tido uma origem aramaica. A lição

147Ver também R. P. Gordon, “Targumic Paralels to Acts XIII 18 and Didache XIV l" \N o v . T 16,1974, págs. 285-9. 148Uma forma muito divulgada do texto mudou a expressão para o v. 20, de modo que se refere especificamente ao período dos juizes, mas assim seria formado um conflito com 1 Rs 6:1.

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ATOS 13:23-29 desta citação foi estabelecer a condição de Davi como rei ideal de Israel. 23-25. Era, portanto, a partir dos descendentes de Davi que se po­ deria esperar que Deus cumprisse Suas promessas ao povo. As respectivas promessas são aquelas que foram feitas a Davi no sentido de que teria uma descendência que remaria depois dele para sempre (2 Sm 7:12-16; cf. 22:51; SI 89:29, 36-37; 132:11-12, 17). Esta descendência aqui se identifica como sendo Jesus, e a Sua função é descrita como sendo a de Salvador. Aqui, a linguagem de Paulo ecoa aquela de Pedro (5:31). O ter­ mo era um daqueles que se aplicavam aos juizes (Jz 3:9, 15) no Antigo Testamento, mas mais especialmente a Deus (e.g. SI 27:1 LXX), e tal­ vez seja de significância que o substantivo relacionado com ele, “salva­ ção” , se empregue em Salmo 89:26. Aparece, a esta altura, uma referência à obra de João Batista, que parece ser alusão fora do assunto principal. Paulo declara que o apareci­ mento de Jesus foi precedido por aquele de João, que proclamou batis­ mo de arrependimento, e que negou ser ele mesmo a pessoa que os judeus pocuravam; pelo contrário, era humilde servo dAquele que estava para vir (Lc 3:15-16; Jo 1:20, 26-27). A referência pode ser explicada pelo fato de o ministério de João ser o início da nova era (10:37); João é ci­ tado como testemunha de Jesus, mas parece que o propósito principal seja confirmar que o próprio João não era Aquele que se aguardava. Estava completando a sua tarefa quando apareceu Jesus, e se contentou em assu­ mir um papel inferior diante dEle. É possível que tenha havido pessoas que honrassem demasiadamente a João, e que fosse necessário lembrar-lhes de que João repudiara quaisquer honrarias (cf. Jo 1:8; 3:28-30). 26-29. O discurso agora parte para um novo começo, marcado por uma repetição da abertura dirigida aos ouvintes, com leves alterações de fraseado. A razão de ser disto é que a mensagem acerca do Salvador (cf. v. 23) é dirigida a eles e exige a sua atenção. Paulo considera que seus. ouvintes estão numa categoria diferente daquela dos que já ouviram de Jesus e O rejeitaram, e o restante do discurso é,na realidade, um apelo para eles não lançarem fora a oportunidade da salvação ao seguirem o exemplo do povo em Jerusalém, e as suas autoridades, que rejeitaram a Jesus e O condenaram à morte. Fizeram assim porque deixaram de reco­ nhecer quem era Jesus e de apreciar o significado do testemunho profético do Antigo Testamento que escutavam com regularidade na medida em que era lido diante deles nas sinagogas; na realidade, eles mesmos, sem o per­ ceber, já cumpriram aquelas mesmíssimas profecias ao rejeitarem a Jesus (e.g. SI 118:22; Is 53:3). É certo que não tinham verdadeira causa para condenar Jesus à morte, como fizeram, mas, mesmo assim, O entregaram -214-


ATOS 13:29-33 para o governador romano, para ser executado. O papel desempenhado pelos romanos em condenar e executar a Jesus é quase deixado em silên­ cio aqui, na medida em que Paulo ressalta como os judeus contribuíram para o cumprimento de tudo quanto tinha sido profetizado a. respeito da morte de Jesus, e depois retiraram o Seu corpo e o enterraram. 30-37. Em contraste com a ação hostil dos homens (que, mesmo assim, fazia parte do plano divino) coloca-se agora a ação do próprio Deus em ressuscitar a Jesus dentre os mortos (cf. 2:24; 3:15; 4:10; 5:30; 10:40), e esta é imediatamente seguida pelas repetidas aparições de Jesus aos Seus seguidores. Ressalta-se que estes seguidores foram as pessoas que tinham estado com Jesus no decurso do Seu ministério inteiro; com ele subiram da Galiléia para Jerusalém antes da crucificação, e, portanto estavam qua­ lificados para serem as Suas testemunhas perante o povo (10:39,41). Paulo não menciona aqui a sua própria experiência do Cristo ressurreto; a razão disto talvez seja que pensasse primariamente no testemunho dos apóstolos aos judeus na Palestina (o povo, v. 31), ao passo que ele mesmo fosse teste­ munha aos gentios. O papel dele, realmente, é o de evangelista, que leva as boas novas aos judeus da Dispersão e aos que temem a Deus, de que as promessas são aquelas referidas no v. 23, e Paulo agora passa a citá-las, repetindo três textos que foram cumpridos em Jesus. Quando Paulo se refe­ re a nós, seus filhos,**9 presume-se que esteja pensando primariamente nos judeus no seu auditório, mas, tendo em vista a ênfase dada aos te­ mentes a Deus como parte do auditório, nos w 16 e 26, é difícil evitar a impressão de que sejam considerados como sendo descendentes espirituais dos pais (cf. Rm 4:11 -12). O primeiro dos três textos citados é de Salmo 2:7, Salmo este que descreve a oposição das nações com seus soberanos contra o ungido do Senhor, i.é, o Soberano do Seu povo. O Soberano diz o que Deus decre­ tou, dizendo-lhe: “Tu és meu Filho, eu hoje te gerei”. No seu contexto imediato, há referência ao modo de Deus legitimar o rei como Seu filho, na mesma maneira que o pai aceitaria o filho da sua esposa como sendo real­ mente o seu filho, e, assim, prometeria a este amoroso cuidado e prote­ ção; a idéia de “gerar” é puramente metafórica. O Salmo foi reconhecido como tendo aplicação supremamente ao Messias (Salmos de Salomão 17:26), e os cristãos primitivos o aplicavam a Jesus (4:25-26; Lc 3:22; Hb 1:5; 5:5). O pronunciamento divino na ocasião do batismo de Jesus 149

O texto, esta confuso, e os melhores MSS têm “a nossos filhos” , e talvez haja um erro primitivo na redação.

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ATOS 13:33-34 provavelmente reflita estas palavras. Mas foi a ressurreição de Jesus dentre os mortos que foi considerada como a outorga a Ele de vida nova mediante o poder de Deus, e, portanto, era possível ver que o “gerar” no Salmo teve o cumprimento espiritual na ressurreição. Freqüentemente se argu­ menta que foi o emprego de versículos tais como este que capacitaram a igreja a considerar què Jesus foi adotado por Deus como Seu Filho na ocasião da ressurreição (e que foi somente numa etapa posterior que a igre­ ja veio a crer que Jesus já era Filho de Deus durante a Sua vida terrestre). É altamente improvável, no entanto, que a igreja primitiva encarasse a ressurreição como um começo e que depois empregasse esta idéia para ar­ gumentar que Jesus veio a ser Filho de Deus na ressurreição. Pelo contrá­ rio, foi porque foi conhecido como Filho de Deus que o Salmo 2 pôde ser aplicado a Ele, passando depois a ser encarado como prenúncio da ressurreição. O pensamento fica próximo daquele de 2 Samuel 7:14-16, e pode talvez subentender o reino universal e eterno dAquele a quem Deus assim honra como sendo Seu Filho.150 Há um vínculo estreito entre a segunda e a terceira citação. Paulo se ocupa no v. 34 com o fato de que, quando Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos, entrou numa nova existência que não levaria de volta à morte e à conseqüente corrupção do Seu corpo. A palavra corrupção é tirada de Salmo 16:10, que já foi citado com intenção semelhante em Atos 2:25-28, no sermão de Pedro no Pentecoste, e agora volta a ser cita­ do como a terceira das citações de Paulo (v. 35): os w. 36-37 passam, de­ pois, a demonstrar que claramente não se pode aplicar o Salmo 16 ao próprio Davi; este serviu à vontade de Deus na sua própria geração,1Si e morreu do modo comum que leva à corrupção, ao passo que o corpo de Jesus não sofreu corrupção após a Sua morte.1s 2 Mas passamos por cima de v. 34b, que contém a segunda citação tirada de Isaías 55:3. Ali, o profeta promete ao povo de Deus, necessita-, do: “convosco farei uma aliança perpétua, que consiste nas fiéis miseri­ córdias prometidas a Davi” , i.é, a manifestações certeiras da graça de Deus

l s 0 Supomos que o verbo “levantar” (ressuscitar, ARA) em v. 33 se refere à ressurreição. Alguns comentaristas pensam que a referência diz respeito ao ato de Deus em trazer Jesus para o palco da histórica durante Seu ministério terTestre. l s l Ou talvez “com base em sua própria geração (natural)”, em contraste com o Messias que foi gerado por Deus; K. H. Rengstorf, TDNT, VIII, pág. 540 n. 87. 1S2É também possível traduzir: “Davi serviu à sua própria geração, e depois morreu conforme a vontade de D eus. .

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ATOS 13:34-40 (prometida a) Davi. A citação de Paulo difere da LXX, ao usar o verbo “dar” (ARC) ao invés de “fazer” , e ao omitir a referência à aliança. O em­ prego do verbo “dar” talvez tenha relacionamento com o emprego do mesmo verbo no v. 35 (ARA permitirás, literalmente “darás”), e outra semelhança entre os dois textos, não imediatamente óbvia na tradução, é que as coisas “santas” e o “Santo” traduzem a mesma palavra grega.1s 3 É possível que a combinação destes dois textos se deva a este vínculo verbal. Qual, pois, é a razão de ser da citação? (1) Pode se considerar que v. 34 transmite ao povo de Deus (vosso, plural) o cumprimento das promessas que Deus fez a Davi para o futuro. Estas promessas seriam da salvação através do Messias, Jesus, que ressuscitou dentre os mortos, e não o próprio Davi, que sofreu corrupção. (4) V. 34 se refere às promessas divinas, especialmente da pre­ servação da morte, dadas (não ao próprio Davi, mas) ao Descendente prome­ tido de Davi, Jesus. Este ponto de vista, porém, exigiria “teu”, singular, em v. 34. (5) A promessa feita a Davi em Salmo 16 foi transferida a vós (Is 53:3) e, portanto, não se pode referir a este, mas, sim, ao Messias. Destas possibilidades, parece que as possibilidades (2) e (5) oferecem menos dificuldade.154 3841. Á conclusão do argumento é que Jesus, a quem Deus ressusci­ tou dentre os mortos, é Aquele que possibilita a remissão de pecados e, portanto, é oferecida aos ouvintes. A remissão era um termo importante nos sermões de Pedro, para as bênçãos oferecidas através de Jesus (2:38; 10:43). É menos comum nos escntos de Paulo do que poderia ser esperado (Rm 4:7; Ef 1:7; Cl 1:14). Isto é porque Paulo preferia a idéia da justifica­ ção, da sentença legal do perdão que expressa essencialmente o mesmo pensamento, e emprega esta idéia especialmente para declarar que não se pode declarar que pessoa, alguma tem o relacionamento certo com Deus com base nas suas tentativas para guardar a lei de Deus, conforme ela foi dada a Moisés (G1 2:16; Rm 3:20-22). É somente de Deus. É precisamen­ te esta idéia que aqui se expressa com o verbo justificado. A passagem não deve ser enfraquecida para significar que Cristo justifica meramente no que diz respeito àquelas coisas para as quais a lei não oferecia recurso al­

1S30 adjetivo grego hostos se emprega em Is 53:3 para traduzir a forma plural do hebraico fyesed (“misericórdia”, “amor inabalável”) em em SI 16:10 para traduzir a forma singular do hebraico hâítd ( “o Piedoso”, o “Santo”).

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Quanto a esta passagem extremamente difícil, ver especialmente Dupont, págs. 337-359 (conceito 1, supra); E. Lovestam, Sott and Savtour. A S tudy o f A cts 13:32-37(Lund/Copenhagen, 1961) (conceito 2); AG pág. 589 (conceito 5).

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ATOS 13:40-44 gum; o que aqui se diz é que a justificação não é possível de modo algum mediante a lei. Acima de tudo, não se deve passar desapercebido o signifi­ cado de todo o que crê (10:43; Rm 1:16; 3:22; 4:11; 10:4,11): esta oferta é implicitamente para os gentios bem como para os judeus. Visto ser o cami­ nho universal da salvação, dado por Deus, Paulo adverte seus ouvintes do perigo de desprezar a oferta de Deus, e de assim cumprir a profecia de Habacuque 1:5 que fala do perigo de deixar de reconhecer o que está aconte­ cendo como verdadeiro ato de Deus. No seu contexto original, a profecia se referia à falta de reconhecer a invasão caldéia como julgamento divino; Paulo aplica-a ao perigo de deixar de reconhecer Jesus como sendo o Salva­ dor enviado por Deus. 4243. Ao término do sermão, Paulo e Barnabé começaram a deixar a sinagoga, mas não antes de um pedido ter sido passado a eles no sentido de falarem mais acerca do assunto no sábado seguinte. Muitos membros da congregação, no entanto, não estavam dispostos a esperar uma semana in­ teira antes de ouvir mais. Uma vez encerrada a reunião na sinagoga,15 5 muitos dos judeus e prosélitos que tinham estado presentes seguiram a Pau­ lo e Barnabé, e estes os encorajavam a perseverar na graça de Deus. Esta fraseologia (cf. 11:23) sugere que estas pessoas já confiavam na graça de Deus, conforme a tinham conhecido através do Antigo Testamento, e agora estavam sendo exortados a continuar naquela atitude básica, mediante a crença em Jesus como Aquele mediante o qual as promessas de Deus es­ tavam sendo cumpridas. O termo prosélitos piedosos (literalmente “pro­ sélitos adoradores”) causa dificuldade a comentaristas que pensam que Lucas empregou dois termos, um que se emprega para os prosélitos e o outro para os “tementes a Deus”. A dificuldade desaparece se reconhece­ mos que “adoradores” não se emprega como termo técnico, mas, sim, co­ mo descrição dos prosélitos. Nesta etapa, somente judeus e aqueles que tinham pleno reconhecimento como prosélitos foram convertidos; o clímax da história,' a conversão dos gentios, segue-se uma semana após.1s 6 A reda­ ção de Lucas talvez fosse motivada pelo seu desejo de ressaltar que são aque­ les que realmente temem a Deus (10:2, 35), que estão dispostos a aceitar o evangelho. 4447. No sábado seguinte, a sinagoga transbordou com pessoas da população gentia da cidade que queria ouvir a mensagem cristã, descrita 1SSÉ desnecessário entender que esta frase se refere ao fechamento delibera­ do da reunião pelas autoridades da sinagoga, a fim de evitar um tumulto. 1S610:2, nota; cf. Bruce, Livro, pág. 280; Harvey, pág. 469.

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ATOS 13:44-47 aqui como sendo a palavra de Deus (4:31; 13:5, 7, et al.). Lucas escreve com exagero perdoável, e não precisamos ficar com dor de cabeça, como alguns literalistas céticos, que ficam querendo saber como as multidões, poderiam acomodar-se na sinagoga. O efeito das multidões, porém, foi le­ var os judeus a ter inveja dos missionários; decerto, os esforços missioná­ rios dos judeus tinham tido muito menos sucesso. Ao mesmo tempo, pro­ vavelmente discordavam com a mensagem que estava sendo pregada, e, destarte, argumentavam contra os missionários, e os difamavam (ARA blasfemando) } 5 7 Sem dúvida, foi apenas uma seção dos judeus que adotou esta ati­ tude, conforme demonstra v. 43. Mesmo assim, ficou claro que o judaís­ mo oficial, representado pela sinagoga, estava rejeitando o evangelho. Pau­ lo e Barnabé acharam necessário falar aberta e ousadamente, para decla­ rar a sua intenção de levar aos gentios o evangelho. Já cumpriram seu de­ ver de irem “primeiramente aos judeus” ; o fundamento deste dever nun­ ca é totalmente esclarecido no Novo Testamento, mas supõe-se que se fundamenta na natureza de Israel, o povo do Deus da aliança, ao qual continuou a oferecer as promessas da salvação. Agora, depois de os judeus, como um grupo, dizerem “Não” ao evangelho, sendo desqualificados para receber a vida eterna, os missionários ficaram desobrigados quanto a eles, e podiam dedicar aos gentios a totalidade da sua atenção. Esta ação, no en­ tanto, não deve ser considerada um tipo de revide à rejeição do evangelho da parte dos judeus. Desde o início, os missionários perceberam que a sua tarefa incluía os gentios, pois o Antigo Testamento claramente declarara que a tarefa do Servo de Deus era ser uma luz para as nações e ser um meio de salvação em toda parte do mundo. Esta citação de Isaías 49:6 faz parte de uma das passagens que descrevem a obra do Servo de Deus que, em Isaías 44:1, claramente se identifica como sendo Israel. Em Isaías 49:5-6, porém, o Servo tem uma missão para Israel, e, portanto, deve ser identificado como sendo uma pessoa ou grupo de pessoas dentro de Israel. Os cristãos primitivos viam em Jesus o cumprimento da profecia (cf. a ci­ tação de Is 42:14 em Mt 12:17-21, e de Is 53:7-8 em At 8:32-35); a pas­ sagem aqui citada, porém, assevera que a missão do Servo também é a ta­ refa dos seguidores de Jesus. Assim, a tarefa que Israel não cumpriu, passou para Jesus, e, depois, para Seu povo como o novo Israel; é a tarefa de trazer a todos os povos da terra a luz da revelação e da salvação (cf. a alusão

1S7A palavra blasfemar também pode referir-se ao “falar contra” Jesus, que, para um cristão como Lucas, seria uma blasfêmia.

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ATOS 13:48-52 clara a Is 49:6 em Lc 2(29-32). 48-52. A resposta dos gentios que ouviram a mensagem foi imediata e de todo o coração. Regozijavam-se com as boas novas e louvavam a pala­ vra do Senhor. Esta frase tem paralelo em 2 Tessalonicenses 3:1 e signifi­ ca que glória é dada ao Senhor quando as pessoas aceitam a Sua palavra e crêem nela. Aqueles que creram são descritos como os que haviam sido des­ tinados para a vida eterna. A frase significa que nem todos na cidade cre­ ram no evangelho. Pode ser entendida no sentido de que Deus predestina­ ra alguns dentre eles para crerem (cf. 16:14; 18:10). Pode referir-se, outrossim, àqueles que já confiavam em Deus de conformidade com a revelação da Sua graça no Antigo Testamento, e já foram arrolados entre Seu povo ou talvez signifique que os gentios acreditaram em virtude do fato de o plano divino da salvação também incluir a eles. Seja qual for a nuança exa­ ta das' palavras, não há sugestão alguma de que receberam a vida eterna independentemente do seu próprio ato de fé consciente. Como resultado da conversão deles, a mensagem do evangelho foi espalhada por toda a re­ gião: os convertidos devem ser evangelistas. O resultado disto, no entanto, foi exasperar os sentimentos dos judeus contra os missionários. Havia cer­ to número de mulheres da classe superior que adoravam na sinagoga, con­ forme não era raro noutras cidades naqueles tempos, e é óbvio que os ju­ deus lançaram mão da influência que elas tinham sobre os maridos para instigar algum tipo de ação contra os missionários, como resultado da qual foram submetidos a pressões para deixarem a cidade. Não o fizeram, no entanto, antes de demonstrarem que sabiam que os judeus estavam por de­ trás da ação e de fazerem um gesto simbólico como testemunho diante deles. Era costume entre os judeus sacudir o pó da cidade pagã de seus pés quando voltavam à sua própria cidade, como símbolo da sua purifi­ cação da impureza dos pecadores que não adoravam a Deus. Quando judeus faziam assim contra outros judeus, era a mesma coisa que considerar estes últimos como gentios pagãos. Os cristãos demonstravam de modo espe­ cialmente vigoroso que os judeus que rejeitavam o evangelho e expulsa­ vam os missionários já não faziam parte, na realidade, de Israel, e não eram melhores do que descrentes (cf. Lc 9:5; 10:11; At 18:6; 22:22-23). Des­ tarte, os missionários avançaram para a cidade seguinte, mas, á despeito deste revés (conforme parecia) o grupo de novos discípulos experimentava a alegria que vem da presença do Espirito Santo entre os crentes (G1 5:22; 1 Ts 1:6). Talvez pareça estranho que, depos daquilo que parece ser uma rejei­ ção final dos judeus, neste capítulo, Paulo tenha continuado a entrar nas si­ nagogas durante as suas campanhas missionárias subseqüentes (14:1; 16:13; -2 2 0 -


ATOS 13:52-14:3 17:1, 10, 17; 18:4, 19; 28:17). Sem dúvida, parte da razão foi, conforme já se mencionou, que as sinagogas eram apropriadas como base de opera­ ção entre os prosélitos e os tementes a Deus. Ao mesmo tempo, Paulo ti­ nha consciência da ordem dada por Deus “primeiro o judeu” (Rm 1:16-17; 2:9-10) e havia um fardo de preocupação no seu coração em prol do seu próprio povo (Rm 9:1-3; 10:1). Parece que os w. 4647 se aplicam prima­ riamente à situação em Antioquia, e não proíbem missões subseqüentes a judeus noutras localidades; ao mesmo tempo, porém, Lucas emprega o in­ cidente para retratar o princípio geral que caracterizava, cada vez mais, a obra da igreja. d. O conflito em Icônio (14:1-7). Lucas relata de modo bastante breve a visita de Paulo e Barnabé à cidade seguinte, Icônio. Seguiu o padrão da visita à Antioquia, com a evangelização que começou na sinagoga e que levou à oposição dalguns dos judeus. No início, a oposição meramente estimulou os missionários a continuarem a sua obra, presumivelmente fora da sinagoga, mas, mais tarde, quando os judeus descrentes e alguns dos gentios conseguiram obter o apoio das autoridades e planejaram o linchamento dos missionários, estes consideraram mais prudente fugir para as cidades seguintes onde, sem perder ânimo, continuaram a evangelização 1-3. Icônio, hoje Konya, ficava na estrada romana cerca de 145 km ao leste de Antioquia, na mesma área da província da Galácia (o antigo distrito da Frigia). Chegando ali, os missionários, mais uma vez, começa­ ram a sua obra na sinagoga judaica, onde a sua pregação levou à conver­ são de grande número de judeus e de gregos. Logo surgiram desavenças, causadas pelos judeus que rejeitaram o evangelho e passaram a procurar aliados entre os gentios, caluniando os missionários diantes deles. Seus esfor­ ços persuasivos não tinham sucesso imediato, e só mais tarde na história é que ficamos sabendo de medidas ativas que foram planejadas contra os missionários. Entrementes, Paulo e Barnabé resolveram que, tendo em vista a hos­ tilidade, deviam passar algum tempo na cidade, e continuavam a testemu­ nhar ousadamente, em total dependência do poder de Deus, que os capa­ citou a operar sinais e prodígios milagrosos, assim como os discípulos fi­ zeram em Jerusalém (5:12). A frase a palavra da sua graça como descrição da mensagem do evangelho ocorre outra vez no discurso de Paulo em Mileto (20:23, ver também Lc 4:22), e o emprego que Lucas dela faz neste -2 2 1 -


ATOS 14:3-7 trecho talvez seja reflexão deliberada do destaque dado à graça na mensagem de Paulo (cf. 13:43; 20:24). A totalidade do v. 3 relembra Hebreus 2:3-4, onde a atividade de Deus em confirmar a mensagem por sinais milagrosos também se descreve. Mesmo assim, nem todos foram persuadidos pela men­ sagem. 4-7. A população da cidade, de modo geral, tomou conhecimento da presença dos missionários e da diferença de opinião quanto a estes, entre os judeus. Houve divisão entre eles, mas alguns deles tomaram o partido dos missionários, que aqui são chamados apóstolos (ver também em v. 14). Esta é a única passagem em que Lucas se refere a Paulo como sendo após­ tolo, fato este que é algo surpreendente, tendo em vista a ênfase que o próprio Paulo dá à sua posição de apóstolo. Tem sido argumentado que Lucas restringe o apostolado aos Doze como sendo pessoas que estavam com Jesus durante o Seu ministério terrestre e que depois foram testemunhas da Sua ressurreição (1:21-25; 10:3942). As referências aqui e no v. 14 passam, então, a ser consideradas exceções ao ponto de vista consistente de Lucas sobre a matéria, talvez devido ao seu emprego impensado dalguma fonte antiga. Para Lucas, nem Paulo nem Barnabé eram apóstolos.158 Nes­ te caso, a autoria lucana de Atos se torna muito duvidosa. É possível que Lucas aqui emprega a palavra com significado muito geral, para indicar “os missionários enviados pela igreja em Antioquia” (cf. 2 Co 8:23; Fp 2:25; lit. “apóstolos” , ARA “mensageiros”). É mais provável, no entanto, que a explicação se ache no fato de que Lucas pensava em apóstolos como sendo primariamente os Doze nomeados por Jesus durante a Sua vida ter­ restre (Lc 6:13; 9:1-2; 22:28-30) com uma missão específica aos judeus. Lucas, porém, estava bem consciente do apostolado de Paulo, conforme se vê nesta passagem e no emprego do verbo cognato “enviar” (grego apostellô) em 22:21 e 26:16-17. Assim, reconhece que havia um grupo de após­ tolos, comissionados por Jesus, maior do que os Doze, e não nega que Paulo e Barnabé pertencem a este grupo.159 Somente após uma tentativa de agressão que Paulo e Barnabé resolve­ ram partir. A ameaça surgiu de um agrupamento de gentios e judeus . . . com suas autoridades; não fica claro se há referência a autoridades judaicas ou autoridades gentias, ou aos dois tipos, mas são plausíveis a primeira e a terceira possibilidades. A situação em 13:50, portanto, repetiu-se, e foi quan­ 1581 Co

9:6 sugere fortemente que Paulo considerasse Barnabé como apóstolo.

1S9Ver especialmente Wilson, págs. 113-120; também D. Müller e C. Brown, N ID N T T l, art. Apóstolo; Bovon, págs. 379-386. -

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ATOS 14:8-10 do as autoridades da cidade se tomaram coniventes com a perseguição que os missionários sentiram que já não podiam ficar mais. Partiram da área da Frigia para Licaônia, e caminharam para Listra, numa distância de 29 km, e depois para Derbe, cerca de 89 km além. E ainda anunciavam o evan­ gelho, a despeito do revés que sofreram. e. A evangelização dos pagãos em Listra (14:8-20). Em todas as ocasiões anteriores (e na maioria das subseqüentes) a atividade dos missionários começou na sinagoga, entre judeus ou gentios que já tinham algum conhecimento de Deus. A relevância da narrativa do que aconteceu em Listra é que aqui, pela primeira vez em Atos, os mis­ sionários cristãos chegaram a uma cidade onde, segundo parece, não havia sinagoga, ou pelo menos, ela não é mencionada. É verdade que 16:3 se refere a judeus naquela região, e podemos perguntar se os judeus prove­ nientes de Antioquia e Icônio teriam tido sucesso em aguçar os ânimos contra os missionários em Listra se não houvesse uma população judaica local, mas, mesmo se houvesse, não desempenham qualquer papel na his­ tória. O incidente prepara o leitor, portanto, para os eventos no cap. 15 (cf. 15:3), e a ênfase fica na resposta ao evangelho dada por pagãos pro­ priamente dito. De um lado, temòs a narrativa de um milagre de cura operado num homem que ouviu o evangelho e tinha fé. Temos, do outro la­ do, a resposta supersticiosa dos nativos diante do milagre, sendo que consi­ deravam os missionários como deuses èm forma humana, e queriam lhes prestar as devidas honrarias. Este mal-entendido deu ocasião para um dis­ curso dos missionários, relatado em forma resumida (supõe-se que foi Pau­ lo quem falou —v. 12), no qual instruíram o povo na crença no Deus úni­ co e verdadeiro. É somente no fim da história que aparecem os judeus, para levar a efeito seu plano anterior de apedrejar os missionários (14:5), e deixando Paulo por morto. Não se menciona que foi milagrosa a sua rápi­ da recuperação. 8-10. Listra ficava 29 km ao sudoeste de Icônio; era uma aldeia insignificante que fora transformada em colônia romana em 6 a.C., como parte de um plano para defesa contra tribos guerreiras locais. Lucas já rela­ tara que os missionários haviam pregado o evangelho nessa área (v. 7). O efeito da pregação agora se viu na maneira de um coxo, presumivelmente um mendigo, cuja paralisia foi durante a sua vida inteira, responder à men­ sagem, crendo que podia ser curado; sugere-se, assim, que a mensagem in­ cluía alguma referência ao ministério de cura, exercido por Jesus. Pode-se -223 -


ATOS 14:11-14 supor que o homem, bem como a maioria dos demais habitantes, entendia a língua grega que Paulo falava. Quando Paulo o notou e reconheceu a sua fé, respondeu com uma ordem que era, ao mesmo tempo, uma capacita­ ção divina para ele ficar de pé num pulo, e começar a andar (cf. 3:8). 11-14. O resultado normal de um milagre é que produz uma respos­ ta dos circunstantes (cf. 3:9-10), que muitas vezes se relata de modo bem breve. Aqui, porém, é tratada com mais pormenores, e fica sendo o segun­ do maior episódio da história. As multidões, que consistiam dos habitan­ tes locais, acreditavam que Paulo e Barnabé deviam ser deuses que vieram visitá-los, e revolveram que deviam ser honrados. O fato que os missionários não sabiam o que estava sendo preparado para eles é explicado pelo co­ mentário de que o povo falava na sua própria língua nativa, que os mis­ sionários não entendiam. É tão natural como índios comentando em gua­ rani um discurso proferido em português por um oficial da FUNAI. Os missionários foram identificados com dois dos deuses tradicionais gregos. Paulo foi considerado igual a Mercúrio, por ser o principal portador da pala­ vra, pois Mercúrio era o mensageiro dos deuses, ao passo que o papel de Júpiter, a principal divindade dos gregos, foi reservado para Barnabé. Haen­ chen (pág. 432) argumentou que Mercúrio era o mensageiro dos deuses, mas não seu porta-voz, mas a frase que Lucas aqui empregou, o principal portador da palavra, tem paralelo quase perfeito num registro pagão, e não parece improvável que, quando os dois apareciam-juntos, esperar-se-ia que Mercúrio fosse o porta-voz. Uma lenda no sentido de Júpiter e Mercúrio terem visitado esta região está preservada num poema em Latim, escrito por Ovídio; foi um casal de velhos, Filemon e Bauquis, que lhes deu hos­ pitalidade, sem ter consciência da identidade dos hóspedes. Não é sur­ preendente, portanto, que foram achadas perto de Listra evidências ar­ queológicas do culto aos dois deuses juntamente, com data de c. de 250 d.C.; a negação da existência anterior do culto, levantada por Haenchen, está desprovida de qualquer evidências positivas, sendo completamente contrária à probabilidade. Embora ainda não tenha sido descoberto o templo de Júpiter em Listra, um templo semelhante, em frente da cidade (i.é, fora da cidade), existia em Claudiópolis, não longe de Listra (Bruce, Atos, págs.. 281-2). Tendo em vista todas estas evidências, parece muito improvável que os deuses com os quais foram identificados os missioná­ rios fossem realmente deuses licaônicos locais, que Lucas descreveu em termos dos deuses gregos cujos nomes seriam conhecidos aos seus leitores. É, porém, possível que os licaônicos tenham sincretizado seus próprios deuses com os deuses gregos, em certa altura da história. Se o povo local tivesse faltado com as honrarias aos deuses, como -224-


ATOS 14:14-18 deuses, na visita anterior, estaria ansioso para evitar a repetição do erro. O sacerdote do templo local preparou tudo para oferecer sacrifícios aos visitantes como marca de honra. Recebemos um vislumbre interessante do ritual da religião da Anatólia, com touros que eram levados, enfeita­ dos com grinaldas de 12, para fora da cidade, prontos a serem mortos e oferecidos como sacrifício. Quando os apóstolos deram conta daquilo que estava para aconteçer, agiram rapidamente, rasgando as suas vestes, e tomando seu lugar entre a multidão. Há um paralelo literário em Judite 14:16-17, onde a mesma fraseologia descreve a aflição de Bagoas diante do assassinato de Holofernes por Judite. Aqui, porém é diferente a razão do ato: rasgar as vestes é expressão de repugnância diante da tentativa blásfema de considerar divinos os homens, e a corrida rápida dos apóstolos para entrarem no meio da multidão foi a tentativa deles de evitar serem reverenciados como deuses e, assim, de pecarem contra o Deus verda­ deiro. Tem sido objetado que o sacerdote local dificilmente faria o engano de pensar que dois judeus ambulantes fossem deuses, mas Hanson (pág. 148) produziu casos paralelos que demonstraram que o tema é interamente crível. O emprego do termo apóstolos (14:4 nota) talvez vise ressaltar o papel de Barnabé e de Paulo como meros mensageiros de Deus. 15-18. A situação exigia alguma explicação, e Paulo não perdeu a oportunidade de instruir o povo acerca da verdadeira natureza de Deus. O resumo brevíssimo do discurso que se segue difere consideravelmente dos sermões anteriores em Atos, pregados a judeus (ou tementes a Deus) que já acreditavam em Javé, mas que precisavam saber acerca da vinda de Jesus como o Messias. Com um auditório pagão, era necessário come­ çar numa etapa anterior, e proclamar o único Deus verdadeiro. O discur­ so, portanto, tem relacionamento mais estreito com a palestra que Pau­ lo proferiu diante dos filósofos de Atenas (17:22-31) que trata do mesmo tema num nível mais sofisticado, como convinha a um auditório que pos­ suía educação e cultura. O relato de Lucas da pregação em Listra confinase a este aspecto da mensagem; seus leitores podiam fazer uso dos ser­ mões anteriores para preencher aquilo que Paulo decerto teria dito a mais. O discurso começa, muito naturalmente, onde o povo está, e pede que considere o que está fazendo. Deviam ter reconhecido que os visitan­ tes aos quais estavam honrando eram homens comuns, sujeitos aos mes­ mos sentimentos (ou natureza) que eles mesmos (cf. Tg 5:17). Mais do que isto: a mensagem que os visitantes trouxeram foi de boas novas (o evangelho), revelando a eles a existência do Deus vivo, o Criador do uni­ verso (cf. 4:24; 17:24, citando Êx 20:11), exortando-os a deixar seus ídô-225 -


ATOS 14:18-20 los fúteis para adorar a este Deus. Estas coisas vãs é um modo de descrever os ídolos que já se acha no Antigo Testamento (Jr 2:5), e o verbo converter-se se emprega para a conversão em 3:19 e noutras passagens. Em es­ pecial a linguagem aqui é marcantemente semelhante a 1 Tessalonicenses 1:9, que descreve como os cristãos tessalonicenses “deixando os ídolos, se converteram a Deus, para servirem ao Deus vivo e verdadeiro”, e de­ monstra que aqui temos fraseologia típica que se emprega para descrever a conversão dos gentios. O que falta no discurso aqui reportado é algo que corresponda à descrição que Paulo faz em 1 Tessalonicenses 1:10, “e para aguardardes dos céus o seu Filho, a quem ele ressuscitou dentre os mortos, Jesus que nos livra da ira vindoura”, ou à declaração de Paulo de que sua mensagem foi simplesmente “Cristo crucificado” (1 Co 1:23; 2:2). Esta omissão não significa que Paulo nada disse a respeito do assun­ to, mas, sim, que o propósito de Lucas aqui é suplementar suas narrativas anteriores da pregação apostólica, ao mostrar o que mais era dito quando se dirigia a gentios. Na realidade, o restante do discurso indica que deve ter seguido uma continuação em termos do evangelho distintivamente cristão. A descrição daquilo que Deus fizera em gerações passadas exige uma descrição contrastante daquilo que está fazendo agora para Se revelar de modo novo. Em tempos passados, deixara os gentios viver segundo a sua própria maneira, sendo que a implicação é que não considerava a ig­ norância deles acerca dEle como culpável. Mesmo assim, deveria ter sido possível para os homens reconhecer que Ele existia, pois dera testemunho de Si mesmo no mundo da natureza, providenciando o bem para os ho­ mens. O envio da chuva e o ciclo das estações que fazem amadurecer as ceifas, significava que os homens podiam alimentar-se e assim, ter o cora­ ção cheio de alegria. O universo da natureza, portanto, deve ter levado os homens a reconhecerem a existência, o poder e a bondade do Çriador. Esta revelação “natural” de Deus, no entanto, pertencia ao passado; con­ forme Paulo indicou em 17:30-31, agora foi suplementada por um novo tes­ temunho por Deus, as boas novas das quais Paulo aqui fala no v. 15, mas que não são registradas por extenso nesta altura. O que Paulo disse foi suficien­ te para refrear as multidões da sua intenção original de oferecer sacrifícios aos missionários, mas só por pouco; a superstição delas estava firmemente entrincheirada, e o milagre os impressionara fortemente. 19-20. O incidente passa por uma reviravolta surpreendente. Os ju­ deus que forçaram Paulo a deixar Antioquia e Icônio agora apareceram em Listra, e talvez se juntassem com os judeus locais (que não se mencionam na história) para uma agressão, levada a efeito pelos próprios judeus, segun-

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ATOS 14:20-21 do parece, e apedrejaram a Paulo, jogando o que parecia ser seu cadáver fora da cidade. É marcante a mudança da atitude para com Paulo (cf. Lc 4:22-28), mas não é incrível, de modo nenhum. Se as multidões não acei­ taram o evangelho, conforme dá a entender v. 18, facilmente poderiam ter sido persuadidas que realmente eram impostores, e deixariam que os patrícios destes os tratassem conforme achassem por bem. De qualquer modo, a historicidade do incidente está fora de dúvida; não precisamos duvidar de que foi este o evento ao qual o próprio Paulo se referiu em 2 Coríntios 11:24-25, e mais referências a ele provavelmente se achem em Gálatas 6:17 e 2 Timóteo 3:11. A história não sugere que Paulo chegou a morrer e que depois foi ressuscitado, embora alguns tenham sido atraí­ dos a esta inferência; o modo de Lucas expressar-se, porém, dando-o por morto, com a falta dele de dar qualquer indicação ao contrário, indicam que neste caso não há questão de uma ressurreição milagrosa. Nada há de surpreendente na volta de Paulo à cidade; já fora castigado, e não serw molestado outra vez, na condição de não se demorar para partir, confor­ me fez, indo para Derbe. A localidade de Derbe, anteriormente identifica­ da como Gudelisim, cerca de 97 km ao sul de Konya (Icônio), agora foi identificada com Kerti Huyuk, cerca de 97 km ao sudeste de Konya; a evidência das inscrições achadas no local identifica-o.160 f. A viagem de volta à Antioquia (14:21-28). Derbe marcou a extremidade leste da viagem missionária, pois fica­ va na fronteira leste da Galácia. Depois da evangelização ali, os missioná­ rios voltaram nos seus passos, apesar da atmosfera hostil deixada para trás, para fortalecer e encorajar os grupos de crentes que estabeleceram. Em especial, garantiram o estabelecimento dalgum tipo de liderança a fim de consolidar os grupos para o futuro. Depois, voltaram diretamente à Antioquia, onde deram um relatório da sua obra diante da igreja, ressaltan­ do o modo pelo qual Deus os tinha guiado para uma obra bem sucedida entre os gentios. Não há quaisquer dificuldades históricas reais nesta seção. Sua im­ portância se acha no ensinamento acerca do modo segundo o qual a igreja

B. van Elderen, “Some Archaeological Observations on Paul’s First Missio­ nary Journey”, em AH G , págs. 151-161; a descoberta original foi relatada por M. Ballance, ‘T he Site o f Deber: A New Inscription” , Anatolian Studies 7, 1957, págs 147-151.

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ATOS 14:21-23 deve viver num ambiente hostil, equipando-se de acordo com a situação. A outra lição vital é que a viagem missionária inteira é considerada como tendo sido dirigida por Deus, que abriu o caminho para os gentios. Embora talvez não fosse tão aparente durante a viagem, agora os missionários po­ diam perceber em retrospecto a mão de Deus que operava. Assim foi prepa­ rado o palco para o debate decisivo acerca do lugar dos gentios converti­ dos na igreja (cap. 15). 21-23. A viagem missionária chegou ao seu ponto culminante com a evangelização bem sucedida em Derbe; não se menciona qualquer oposição dos judeus (cf. o silêncio de 2 Tm 3:11). Assim, a missão avançou para a sua segunda fase. A praxe regular de Paulo era visitar de novo as igrejas que fundara, ou, pelo menos, manter contato com elas por meio dos seus colegas ou da correspondência. No presente caso, ele e Barnabé revisitaram cada uma das igrejas, a despeito de saberem que estavam voltando às cidades que lhes eram hostis; seria possível, segundo se presume, viajar por terra ainda mais para o leste, ao invés de voltar pelo caminho por onde chegaram. Não se relatam mais incidentes, no entanto. Pelo contrá­ rio, os missionários tinham a oportunidade de encorajar os crentes novos a continuarem na sua crença e a não apostatarem para o judaísmo ou o pa­ ganismo, e de advertir-lhes de modo realístico, baseado na experiência, que o caminho para o reino de Deus não é fácil. O reino de Deus (1:3, 6; 8:12) aqui é concebido como sendo o domínio futuro a ser estabelecido por Deus, no qual os homens entram, ou pela morte, ou por viver até a parusia de Jesus (2 Tm 4:18). Aqueles que se enveredam por este caminho po­ dem esperar a perseguição (1 Ts 3:2-4; 2 Ts 1:5; 2 Tm 3:11-13), mas ficam sob a proteção do Senhor a cujos cuidados foram dedicados pelos missioná­ rios (cf. 20:32; 1 Pe 4:19). Os missionários nomearam líderes em cada igreja, que aqui se chamam presbíteros. Esta é a primeira referência a presbíteros fora da igreja de Je-. rusalém; noutros lugares, lemos acerca deles na igreja de Éfeso (20:17), na ordem da igreja descrita nas Epístolas pastorais (1 Tm 5:17; Tt 1:5), e em Tiago (Tg 5:14) e 1 Pedro (1 Pe 5:1, 5). Visto que não se mencionam os presbíteros nas cartas de Paulo antes das Epístolas Pastorais, freqüente­ mente se argumenta que a referência aqui é um anacronismo, e que Paulo, na realidade, não se preocupava seriamente com a liderança eclesiástica. O máximo, no entanto, que podemos deduzir destes,fatos é que Lucas em­ pregou um termo, corrente nos seus próprios tempos, para referir-se a lí­ deres que, possivelmente, eram designados por outros nomes no período anterior. Referências tais quais 1 Coríntios 16:15-16, Filipenses 1:1 e 1 Tessalonicenses 5:12-13 demonstram que Paulo certamente se preocupava -228-


ATOS 14:24-28 com a liderança da igreja local, e é totalmente desnecessário lançar dúvidas sobre a narrativa de Lucas aqui. O modo de nomeação, depois de orar com jejuns, baseou-se naquele que se praticava em Antioquia (13:1-3). 24-28. A viagem de volta levou os missinários através da Pisídia, área selvagem onde provavelmente havia pouca oportunidade para a evangeliza­ ção, para Perge (13:13-14) onde pela primeira vez ouvimos falar da evange­ lização. Atália era o porto adjacente, e a partir dali os missionários tomaram um navio direto para a Síria, e assim voltaram paia Antioquia da Síria. Ali, fizeram um relatório da sua obra diante de uma reunião da igreja inteira; era natural e justo que a igreja que os enviara como missionários lhes desse as boas-vindas de volta e recebesse um relatório das suas atividades; fica claro que a nota tônica da reunião foi o louvor a Deus, pois os relatórios deixaram claro que Ele abrira a oportunidade para os gentios responderem ao evangelho. Sem dúvida, já fazia tempo que a igreja estava evangelizando os gentios na própria cidade de Antioquia, mas esta experiência confirmou a chamada de Deus a uma obra missionária de maior alcance. Quando le­ mos, no fim, que os missionários passaram algum tempo com os discípulos, a inferência seria, decerto, que esta permanência seria meramente temporá­ ria; antes de muito tempo, Deus os chamaria para novos trabalhos. Em pri­ meiro lugar, porém, era necessário solucionar uma importante questão de princípios doutrinários. g. A assembléia em Jerusalém (15:l-35). A narrativa de Lucas acerca do debate a respeito do relacionamento entre os gentios e a lei de Moisés forma a parte central de Atos, tanto estru­ tural quanto teologicamente. Uma vez que a missão cristã começara a evan­ gelizar os gentios que não tinham sido circuncidados antes, começou a sur­ gir o problema das condições da sua filiação à igreja. Parece que a norma da igreja da Antioquia, juntamente com os seus missionários, era que não se exigia de tais gentios que observassem a lei judaica; embora este aspecto não seja explicado diretamente nos caps. 11-14, fica claro em 15:1-2 (cf. G1 2:11-14). Esta norma, porém, era inaceitável para alguns cristãos judeus, por duas razões. Em primeiro lugar, acharam difícil acreditar que os gentios pudes­ sem ser salvos e tomar-se membros de povo de Deus sem aceitar as obriga­ ções da lei judaica. Pode-se simpatizar com o ponto de vista deles; afinal das contas, qual evidência havia de que a lei, que representava a vontade -229-


ATOSCap. 15 de Deus para Seu povo da aliança, fora revogada? Foi este o argumento que foi levantado com insistência por alguns visitantes judeus à Antioquia, e levou a um debate forte no local, e a uma decisão pela igreja no sentido de enviar representantes a Jerusalém para discutirem o assunto ali. Em Je­ rusalém, o argumento foi reiterado por um grupo de cristãos judeus que ainda retinham suas atitudes dos tempos antes da sua conversão, quando eram fariseus. Em segundo lugar, havia a questão de como os cristãos judeus, que continuavam a viver segundo a lei judaica, poderiam ter comunhão à mesa com os gentios que não observavam a lei e, portanto, eram ritualmente impuros; não somente isto, mas também qualquer alimento que estes ofe­ recessem aos seus amigos judeus também seria impuro. Este problema fica­ ria especialmente grave quando a igreja se reunisse para “partir o pão”. Esta questão não se menciona explicitamente no começo do capítulo, mas fica claro em Gálatas 2:11-14 que foi uma questão bem presente, e a decisão tomada em Jerusalém (15:20) visava solucioná-la. O relato de Lucas mostra que os problemas foram levantados somente por um grupo na Igreja, e não eram sentidos por todos. Os representantes de Antioquia descobriram que as notícias da conversão dos gentios foram benvindas, não somente nas igrejas que visitaram no caminho para Jerusalém como na própria Jerusalém. Quando chegou a hora do debate, os dois prin­ cipais líderes da igreja colocaram-se ao lado dos homens de Antioquia. Pedro referiu-se à sua própria experiência, mediante a qual Deus demonstra­ ra Sua disposição para aceitar na Igreja gentios incircuncisos com base em sua fé somente, declarando-os “limpos” de coração. Seu discurso foi con­ firmado por Barnabé .e Paulo que também relataram que Deus manifesta­ mente mostrara Sua aprovação da missão aos gentios mediante sinais mila­ grosos. Depois, Tiago, que, segundo se esperava, tàlvez tomasse atitudes mais conservadoras, levantou-se para indicar que a entrada dos gentios na igreja estava de acórdo com o plano de Deus revelado em profecia, e que não havia razão para eles obedecerem à lei. Mesmo assim, era necessário algum tipo de meio-termo para não ofender as consciências dos cristãos que viviam como judeus ortodoxos, e propôs que se pedisse aos gentios que se absti­ vessem do alimento dedicado aos ídolos, da falta de castidade, e da carne que continha sangue. A assembléia concordou com esta proposta, e formu­ lou uma carta para enviar à Antioquia, tornando claro que estas exigências mínimas deviam ser impostas sobre os gentios. Assim foi feito, e a igreja de Antioquia aceitou a decisão. O episódio, conforme Lucas o encara, foi um triunfo para a política da igreja em Antioquia, que não requeria a cir-

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ATOSCap. 15 cuncisão dos gentios. É provável que nenhuma seção de Atos tenha levantado tanta contro­ vérsia como esta, nem levado a tantas reconstruções históricas diferentes da verdadeira situação. (1) O conceito tradicional da passagem é que ela contém a narrativa de Lucas da reunião descrita por Paulo em Gálatas 2:1-10. As mesmas pes­ soas estavam presentes, o mesmo tópico foi debatido, e aceitou-se essen­ cialmente o mesmo princípio (de que os gentios não precisavam ser cir­ cuncidados). Há, porém, diferenças importantes entre as narrativas, e alguns problemas sem resolução, se consideramos que os incidentes são idênticos. a. Gálatas 2:2 indica que a reunião em Jerusalém era particular, ao passo que Atos 15:22 sugere uma reunião pública. Gálatas cap. 2 ressalta o papel desempenhado pelo próprio Paulo na discussão, ao passo que em Atos, não faz qualquer intervenção importante; esta diferença, no entantp, facilmente pode dever-se às perspectivas variadas dos dois relatos, b. Mais importante, Gálatas cap. 2 nada diz acerca das condições propriamente ditas impostas sobre os gentios, e pode até ser considerado como excludente da possibili­ dade de tal acontecimento. Na realidade, tem sido até argumentado que Paulo deve ter considerado a decisão em Atos cap. 15 como meio-termo totalmente inaceitável e que, de fato, nada sabia acerca dela.161 Além dis­ to, pode ser argumentado que a controvérsia em Gálatas 2:11-14, quando certos homens da parte de Tiago juntamente com Pedro e Barnabé se recu­ saram a comer com os gentios, é incompreensível depois dos eventos em Atos cap. 15. d. Paulo sublinha que sua visita a Jerusalém em Gálatas 2:1-10 foi apenas a sua segunda visita após a sua conversão, ao passo que Atos cap. 15 é uma descrição da sua terceira visita (a primeira se registra em Atos 9:26-29, que corresponde a G1 1:18-20; a segunda se registra em Atos 11:30; 12:25). e. É estranho que a carta de Jerusalém se dirige apenas à Antioquia, à Síria e à Cilicia (15:23), e que Paulo não a menciona em Gá­ latas. f. Finalmente, diz-se que a narrativa em Atos cap. 15 contém im­ probabilidades históricas, e.g. no discurso de Tiago, cujo impacto depende de um argumento tirado da LXX e não do Antigo Testamento hebraico. O efeito destas ressalvas tem sido levar estudiosos modernos a sugerir vá­

161Não precisamos levar em conta a evidência de At 21:25, que contém infor­ mações para o leitor mais do que para Paulo. É de mais significância que Paulo não faz referência à decisão ao debater esta mesmíssima questão em 1 Co çaps 8-10 e Rom cap. 14.

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ATOS Cap. 15 rias soluções alternativas.162 (2) O ponto de vista mais simples é equiparar a visita em Gálatas 2:1-10 com aquele em Atos 11:30 (ver a nota ali para a nossa adoção deste ponto de vista). Soluciona-se, assim, o problema decisivo do número de vi­ sitas que Paulo fez a Jerusalém (d, supra); a visita a Jerusalém em Atos cap. 15 não se menciona em Gálatas, mais provavelmente porque a Epístola foi escrita antes deste evento. Esclarece, outrossim, as diferenças entre Gá­ latas cap. 2 e Atos cap. 15 (a. e b.); descrevem eventos diferentes. Além dis­ to, explica como o incidente em Gálatas 2:11-14 pôde acontecer (c); fica evidente que a decisão tomada em Gálatas 2:1-10 não foi definitiva ou ge­ ralmente aceita, e era possível alguma vacilação. Permanecem os problemas da atitude de Paulp para com o “meio-termo” em Atos cap. 15 (b), da destinação da carta de Jerusalém (e), e dos problemas históricos no próprio texto de Atos cap. 15 (f). (Ver abaixo). (3) Aqueles que sentem o impacto destas dificuldades adotam algum tipo de solução que considera Atos cap. 15 como trecho com falhas histó­ ricas ou cronologicamente fora do lugar. Falando de modo geral, sustentase que Atos cap. 15 pretende descrever o mesmo evento aludido em Gála­ tas 2:1-10. Lucas, porém, recompôs a história do que aconteceu de acor­ do com suas próprias idéias, parcialmente por falta de informações fidedig­ nas, e parcialmente a fim de apresentar o seu próprio ponto de vista. Os discursos de Pedro e Tiago, bem como os demais discursos em Atos, seriam invenção dele, e a decisão da reunião é uma intrusão na história, pois Paulo nunca a teria aceito. O problema cronológico é solucionar por meio de ar­ gumentos que o relato em Atos cap. 15 é uma segunda versão daquele em Atos 11:30; 12:25, pois Lucas teria deixado de reconhecer que as duas narrativas que recebeu eram tradições variantes do mesmo evento, ou que a narrativa anterior é fictícia. Sustenta-se que as condições impostas sobre os gentios pertencem a uma ocasião posterior àquela que se descreve de modo mais fidedigno em Gálatas 2:1-10. (4) Uma variação importante deste ponto de vista, apresentada num artigo impressionante, de autoria de D. R. Catchpole, sustenta que tanto Atos 15:1-9 quanto Gálatas 2:1-10 descrevem a visita de Atos 11:30, na qual

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literatura é enorme. Ver K. Lake, BC, V, pags. 195-212; Knox, pags. 40-53; Dibelius, págs. 93-101; Haenchen, págs. 455-472; Hanson, págs. 153-159; F. F. Bruce, “Galatian Problems. 1. Autobiographical Data” , BJRL 51, 1968-69, págs. 292-309; Wilson, págs. 178-195; D. R. Catchpole, “Paul, James and the Apos­ tolic Decree”,N T S 23, 1976-77, págs. 4 2 8444.

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ATOS Cap. 15 se chegou a um acordo quanto ao princípio da missão aos gentios antes da campanha missionária em Atos caps. 13-14. Neste caso, porém, a igreja de Jerusalém tomou a decisão registrada em Atos 15:20-29 sem a presença de Paulo, e a história em Gálatas 2:11-14 representa a tentativa de implemen­ tar em Antioquia a decisão, sendo que o resultado foi que Paulo rompeu seu relacionamento missionário com Barnabé (15:37-39). Fica claro que o argumento principal para a adoção de qualquer uma destas últimas duas teorias, ao invés do ponto de vista (2), diz respeito à atitude de Paulo (b). Será que ele aceitaria as condições registradas em Atos 15:20? E, se as aceitava, porque não apelou a elas para solucionar o debate refletido em 1 Coríntios caps. 8-10? Um ponto fixo, que os defensores dos conceitos (3) e (4) não levaram em conta, é que o próprio Paulo estava dis­ posto a viver como alguém “debaixo da lei” quando se associava com ju­ deus ortodoxos (1 Co 9:19-20). Teria, porém, tomado o passo adicional de aceitar as mesmas condições para seus convertidos gentios? Certamente, opunha-se à falta de castidade (1 Co 6:9), e recomendou os coríntios a não comerem carne, que era sabidamente oferecida a ídolos, na presença de cristãos judeus (1 Co 10:25-28). É bem possível que Romanos 14:13-21 diga respeito à questão da carne que era inaceitável aos cristãos judeus porque continha sangue. Resumindo, parece que Paulo poderia ter aceito Atos 15:20, embora ele próprio preferisse argumentar a partir de princí­ pios básicos, sem tomar, simplesmente, a regra como diretriz eclesiástica. Um fato importante é que regras semelhantes àquelas em Atos 15:20, especialmente na ordem dada no v. 29, também se acham em Levítico caps. 17-18, onde se aplicam tanto aos judeus quanto aos estrangeiros residentes. Havia, portanto, a autoridade do Antigo Testamento para aplicar tais re­ gras aos gentios, e parece que os prosélitos gentios e os tementes a Deus as aceitavam. Assim, a pergunta fica sendo: teria Paulo permitido que os cris­ tãos judeus impusessem aquelas regras judaicas sobre os gentios cristãos? Paulo não acreditava que Cristo trouxe o fim da lei? e não teria rejeitado quaisquer exigências que limitassem a liberdade dos seus convertidos e que perpetuassem a distinção entre judeus e gentios? Não devemos, porém, ol­ vidar-nos de que Paulo acreditava que os seus eninos estabeleciam e sus­ tentavam a lei (Rm 3:31), embora a lei não fosse meio de salvação, e, além disto, acreditava que os cristãos “fortes” deviam dispor-se a limitar a sua li­ berdade por amor aos seus companheiros crentes. Além disto, a distinção entre judeus e gentios continuava a existir, assim como a diferença entre homem e mulher, ainda que ela fosse sem importância “em Cristo”. Uma vez solucionada a questão básica, a saber: não se exigia que os convertidos -233 -


ATOS Cap. 15 gentios se circuncidassem e, portanto, guardassem a totalidade da lei como meio de salvação (G1 5:3), parece totalmente provável que Paulo pudesse concordar com certas medidas por amor à paz com os cristãos judeus, que não acarretassem qualquer sacrifício de princípios. Se a questão da atitude de Paulo para com as condições em Atos 15:20 pode ser esclarecida com sucesso desta maneira, fica livre o caminho para considerar as demais objeções ao ponto de vista (2). É estranho que uma carta da' assembléia fosse dirigida apenas à Antioquia, à Síria e à Cili­ cia, embora se diga também que Paulo a levou à Galácia (16:4 e nota). Este fato tem sido usado como argumento para datar os eventos em Atos cap. 15 antes de Atos caps. 13-14. Se, porém, esta carta foi escrita antes de Gála­ tas, é de se estranhar que Paulo não a empregasse como evidência conclu­ siva no sentido de a igreja de Jerusalém não exigir dos convertidos a cir­ cuncisão. É mais provável, portanto, que a carta tenha sido enviada depois de Atos caps. 13-14 e da composição de Gálatas, e que foi dirigida às áreas que tinham sido especialmente perturbadas por visitantes de Jerusalém (15:1). Em segundo lugar, há o problema das alegadas dificuldades no relato da reunião dado por Lucas, especialmente no discurso atribuído a Tiago. Estas serão consideradas abaixo, na exposição. Conclui-se que o argumento em prol do ponto de vista (2), de que Atos cap. 15 descreve uma reunião diferente daquela em Gálatas 2:1-10, não somente pode ser defendido, como também tira o melhor sentido das evidências, ainda que não esteja completamente livre de dificuldades. Lucas reconhece, corretamente, a importância fundamental da decisão toma­ da na reunião. Em princípio, foi rejeitada, de modo inequívoco, a necessi­ dade dos cristãos gentios aceitarem a lei judaica, e foi reconhecido que a fé em Jesus era a única condição para o recebimento da salvação e a afiliação ao povo de Deus. Lucas diz isto tão claramente quanto Paulo. O princí­ pio era de significância básica para o futuro da igreja primitiva, e perma­ nece básico para todos os tempos; nenhuma exigência nacional, racial ou social pode ficar sendo condição prévia para a salvação e a afiliação à igreja, lado a lado com a única e exclusiva exigência da fé em Jesus Cris­ to, através de quem a graça de Deus é trazida aos pecadores (15:11). 1. A coexistência pacífica entre os cristãos judeus e gentios que, segundo parece, caracterizava a igreja em Antioquia, foi interrompida pela chegada dalguns cristãos da Judéia que argumentaram que a circun­ cisão era necessária para a salvação. Não estavam negando a possibilidade de os gentios serem salvos, mas insistiam em que fossem circuncidados. -234-


ATOS 15:1-5 Parece atraente vincular esta visita com aquela de “alguns da parte de Tia­ go” à Antioquia, descrita por Paulo em Gálatas 2:12. É verdade que a ques­ tão em Gálatas cap. 2 é ostensivamente a da possibilidade da comunhão à mesa com gentios incircuncisos, mas o argumento subseqüente de Paulo naquele capítulo demonstra que considera que a questão em pauta é a da salvação mediante a obediência à lei. Além disto, não há menção em Atos da visita de Pedro à Antioquia aludida em Gálatas 2:11. Outro problema é que Gálatas cap. 2 diz que os visitantes à Antioquia vieram da parte de Tiago, e parece que Paulo os considerava como representantes do ponto de vista de Tiago. De outro lado, dá-se a entender em Atos cap. 15 que os visitantes foram além da sua autorização (15:24), pois Tiago põe-se do lado de Paulo. Sugere-se, assim, que Tiago talvez tivesse passado por uma mudança de atitude na reunião em Jerusalém, e também que os visi­ tantes à Antioquia, que tinham o mesmo ponto de vista que os cristãos fariseus em 15:5, alegaram o apoio de Tiago para um ponto de vista dis­ tintamente mais rigorista do que ele mesmo teria adotado. 2-3. Paulo e Bamabé se opuseram à nova exigência, pois a obra mis­ sionária deles foi mais especialmente afetada por ela. Se Bamabé havia va­ cilado neste assunto em Gálatas 2:13, agora voltou a apoiar o lado de Pau­ lo. A matéria era por demais importante para ser resolvida localmente, mormente porque alegava-se que a igreja em Jerusalém exigia a circunci­ são. Resolveu-se, portanto, enviar uma delegação a Jerusalém para encon­ trar-se com os apóstolos e presbíteros que agora eram considerados as per­ sonagens de liderança na igreja. Os viajantes aproveitaram-se da oportuni­ dade para informar os vários grupos cristãos que encontravam no caminho para Jerusalém acerca do progresso do evangelho entre os gentios. O co­ mentário de Lucas, de que estas notícias causaram grande alegria dá a en­ tender que as respectivas igrejas provavelmente tinham a mesma atitude, para com a circuncisão, que Paulo adotava. Estas congregações consistiam, por certo, em cristãos judeus (11:19), e indica-se que eram de mentalidade mais liberal do que alguns dos cristãos em Jerusalém. 4-5. A chegada dos visitantes em Jerusalém foi marcada por uma reu­ nião da igreja na qual, mais uma vez, contou-se a história da conversão dos gentios. Ressaltava-se tudo o que Deus fizera: a conversão dos gentios é atribuída à intervenção dEle, e a inferência é que aquilo que foi feito com Sua bênção foi feito de conformidade com a Sua vontade. Este argumento, no entanto, não foi aceito por certos cristãos que tinham sido fariseus nos dias antes da sua conversão, e declararam que os convertidos dentre os gentios deviam ser circuncidados e observar o resto da lei judaica. Nada há -235 -


ATOS 15:5-11 de surpreendente na conversão daqueles que tinham sido fariseus —o pró­ prio Paulo tinha sido um deles - nem na continuação de certas atitudes antigas. É provável que subestimemos quão colossal era o passo para lega­ listas roxos entre os judeus adotarem um novo modo de pensar. Além dis­ to, é possível que as pressões nacionalistas estivessem aumentando na Judéia, e que os cristãos tinham que andar com cuidado para evitar a acusa­ ção de serem desleais à sua tradição judaica. 6. A reunião dos apóstolos e presbíteros parece ser diferente daque­ la que se descreve nos w . 4-5, embora, nos dois casos, estivesse presente a igreja inteira (v. 12).163 É, porém, possível que w. 4-5 sejam um resumo inicial, que visavam tomar claro as questões envolvidas no debate. 7-11. O processo começou com um debate franqueado a todos, que Lucas não registrou, embora teria sido interessante termos uma de­ claração do ponto de vista dos legalistas e dos seus argumentos para apoiálo. No fim, porém, eram as opiniões de Pedro e Tiago que mais importavam. Os comentários de Pedro ressaltam uma só lição basicamente singela. Ape­ lou à experiência. Referindo-se ao incidente da conversão de Cornélio al­ guns anos antes (Atos caps 10-11), declarou que Deus o escolhera para fa­ zer conhecido aos gentios o evangelho, a fim de que cressem. Além disto, Deus mostrara Sua aceitação dos gentios, concedendo o Espírito Santo a eles, assim como fizera com os crentes judeus. Pedro se referia a Deus como sendo Aquele que conhece os corações de todos os homens, e ti­ rou a conclusão de que, ao derramar assim o Espírito sobre os gentios, Deus estava purificando do pecado os seus corações assim como já puri­ ficara os corações dos crentes judeus. Seguia-se, portanto, que o que im­ portava á vista de Deus era a purificação do coração, e que as observâncias legais externas, tais quais a circuncisão, eram matéria de indiferen­ ça. Além disto, procurar impor a lei sobre os gentios era tentar a Deus, no sentido de questionar o Seu julgamento para ver se Ele estava levan­ do-o a sério, e se os homens podiam tomar impunemente atitudes dife­ rentes. O que os legalistas estavam procurando fazer era colocar sobre os gentios o jugo da lei, jugo este que os próprios judeus nunca conse­ guiram carregar com sucesso. A lição aqui não é que a lei é um fardo opressivo, mas, sim, que os judeus eram incapazes de obter a salvação através dela; daí a sua irre163A frase dá a entender que fosse um a reunião aberta, não dando a enten­ der que cada membro da igreja estava presente, conforme Haenchen (pág. 444 n 2) falsamente pressupõe.

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ATOS 15:11-13 levância no que dizia respeito à salvação.164 Pelo contrário, segundo dis­ se Pedro, os judeus precisam crer a fim de serem salvos mediante a graça de Deus (cf. GNB, “cremos e somos salvos pela graça do Senhor Jesus”), exatamente como os gentios; Pedro fala do tipo de fé em Deus que leva à salvação (v. 11, cf. v. 7). Se tanto os judeus quanto os gentios são salvos desta maneira, é claro que a obediência à lei não se exige dos gentios. Po­ demos acrescentar que nem sequer dos judeus se exige a obediência à lei como meio da salvação (G1 5:6). Para alguns estudiosos esta dedução tem parecido por demais radical para ser crível nos lábios de um judeus cris­ tão tal como Pedro: por que, pois, pergunta-se, os próprios cristãos judeus não abriram mão da circuncisão? Conforme Lucas, muitos cristãos judeus continuavam a guardar a lei. Os cristãos judeus não viam necessidade al­ guma de remover as evidências físicas da circuncisão (contrastar 1 Mac. 1:15), e continuavam a guardar a lei de Moisés, embora as evidências dos Evangelhos sugerem que abandonavam, cada vez mais, os detalhes da obser­ vância legalística farisaica, e chegaram a reconhecer, também, que em certos aspectos a lei mosaica fora superada pela nova revelação da vontade de Deus em Jesus. Nem todos os cristãos judeus, porém, chegaram a este re­ conhecimento, e para muitos, a força do hábito e do costume num ambien­ te severamente palestiniano judaico permaneceu muito forte. O que Pedro disputava, portanto, era a necessidade de obedecer à lei a fim de ser salvo; se os judeus a guardavam por outros motivos era outro assunto. 12. As observações de Pedro silenciaram a oposição; sem dúvida eram mais detalhadas do que se registra no breve relato dado aqui. O au­ ditório estava pronto para escutar um relatório de Paulo e de Barnabé, no qual descreveram como sua obra entre os gentios tinha sido acompanha­ da por sinais milagrosos da parte de Deus. A alusão diz respeito a inciden­ tes do tipo referido em 14:3 (cf. Hb 2:4), que colocavam a obra missio­ nária da igreja em Antioquia no mesmo nível com a conversão de Cornélio, e que demonstravam que a bênção de Deus pairava sobre ela. O poder comprobatório dos milagres era considerado fato indiscutível, embora a Igreja primitiva soubesse que tinha a responsabilidade de testar os sinais milagrosos a fim de averiguar se não eram falsificações inspiradas por Sa­ tanás (cf. 2 Co 11:14; 1 Jo 4:1; e especialmente 2 Ts 2:9-10). 13-15. A voz decisiva na reunião, no entanto, não foi nem a de Pe­ dro nem a dos delegados da Antioquia, mas, sim, a de Tiago, parcialmen-

164J. Nolland, “A Fresh Look at Acts 15:10” , -/VIS (no prelo).

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ATOS 15:14-16 te por causa da posição que mais e mais vinha a ocupar como líder princi­ pal da igreja (12:17), e parcialmente porque era considerado o campeio do ponto de vista judaico conservador. Na literatura posterior, era con­ siderado típico do cristão judeu que era fiel à lei, e deve ter havido algo na sua atitude anterior que levasse à observação de Paulo em Gálatas 2:12. Seus comentários aqui registrados, portanto, talvez representassem alguma mudança de ponto de vista da parte dele. Tiago baseou seu argumento no seu comentário de que o que Pedro dissera era um cumprimento das profecias. Refere-se a Pedro com seu nome judaico Simão (cf. 2 Pe 1:1) — um detalhe apropriado para a situação local —e descreve o incidente com Comélio como “visitação” da parte de Deus. Este termo se emprega para uma intervenção divina, seja na salvação ou no julgamento (para a pri­ meira, ver Lc 1:68, 78; 7:16).165 O propósito de Deus era constituir den­ tre eles um povo para o seu nome. O paradoxo inerente entre “gentios” (ou “nações”) e “povo” é notável, pois este último termo freqüentemen­ te era aplicado aos judeus como povo de Deus em contraste com os gen­ tios. Agora está sendo argumentado que o povo de Deus inclui os gentios. Embora, no Antigo Testamento, Israel, e não os gentios, fosse o povo de Deus (Êx 19:5; 23:22; Dt 7:6; 14:2; 26:18-19), agora estão incluídos os gen­ tios.166 Além disto, o que ocorrera estava de acordo com as profecias.167 Tiago cita um só texto, mas é possível que estivesse pensando em mais de uma passagem (e.g. Zc 2:11)168 ao referir-se aos profetas. De qualquer maneira, a referência é tirada do “livro dos doze profetas” , i.é, o rolo dos Profetas Menores (como em 7:42), de onde vem a citação de Amós 9:11-12. 16-18. Esta profecia diz que Deus reedificará o tabernáculo caído de Davi, de tal modo que os demais homens (que não são judeus) pudes­ sem buscar o Senhor, a saber, os gentios sobre os quais tem sido invocado

16SPaxa episkeptomai ver L. Coenen,N ID NTT, I, art. Bispo. 166Dupont, págs. 361-365, discute a frase “um povo dentre as nações” . Ob­ serva (1) que na LXX Êx 19:5 se refere a Deus que tom a um povo (Israel) distinto das demais nações, enquanto aqui tom a um povo dentre as nações; (2) que a distinção entre “povo” e “nações” se acha na LXX, mas não no TM. Aqui, segundo o argumento dele, o discurso depende da LXX e não do texto hebraico. Esta conclusão não se se­ gue necessariamente, visto o TM fazer um a distinção entre “um povo para Sua pró­ pria possessão” e “povos” , que talvez estivesse presente na mente de Tiago. Dupont, págs. 393-419, segue este tema na totalidade de Atos. 168N. A. Dahl, “A People for his Name’ (Acts XV.14)”, N T S 4, 1957-58, págs. 319-327.

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ATOS 15:16-19 o nome de Deus. É provável que a reedificação do tabernáculo deva ser entendida como referência ao levantamento da igreja como novo lugar do culto divino, que tomou o lugar do templo (cf. 6:13-14 nota). A igreja, então, é o meio mediante o qual os gentios podem chegar a conhecer o Se­ nhor; a referência ao nome de Deus talvez diga respeito ao emprego dele em conexão com o batismo (Tg 2:7; noutros trechos o verbo se emprega, co­ mo em Atos 2:21, dos convertidos que invocam o nome de Deus). A citação, no entanto, apresenta certas dificuldades. A redação foi influenciada por frases de Jeremias 12:15 (voltarei — mas uma só palavra não basta para mostrar que Jr cap. 12 está sendo conscientemente citado), e de Isaías 45:21 (coisas conhecidas desde séculos). Além disto, segue a LXX mais do que o texto hebraico massorético, do qual difere consideravelmente em cer­ tos lugares; Amós 9:12 tem: “para que possuam o restante de Edom e todas as nações que são chamadas pelo meu nome”. O texto hebraico, portanto, se refere à restauração do povo de Davi e à sua conquista de Edom e doutras nações pagãs. Criam-se, assim, dois problemas: (1), o texto não é entendido conforme o seu significado original, e (2) Tiago, um judeu palestiniano falando em Jerusalém, cita, conforme aqui se diz, um texto que comprova seu argumento somente na versão grega. Não se trata de uma in­ dicação que a citação provém de Lucas, e não de Tiago, e que é um trecho de exegese algo artificial? Podem ser feitas as seguintes observações: (1) Partes do mesmo texto se citam nos Rolos do Mar Morto (CD 7:16; 4QFlor. 12-13) e se aplicam à situação de então da seita de Cunrã. (2) A versão da LXX baseia-se num texto hebraico hipotético que difere apenas levemente do TM, quanto à sua redação; logo, as diferenças podem dever-se a uma re­ visão do texto hebraico para torná-lo relevante para uma nova situação. (3) Não devemos excluir a possibilidade de que Tiago sabia grego e fazia uso dele (Neil, p. 173), ou de que estava empregando o texto hebraico pressuposto pela LXX. (4) Já foi dito que o próprio TM apoiaria o argu­ mento de Tiago, se fosse entendido no sentido de a igreja obter possessão de todas as nações (cf. Bruce, Livro, pág. 310). Estes fatos demonstram que não é impossível o emprego da citação por Tiago, e que o processo de reinterpretar o texto de Amós era muito mais antigo do que a Igreja primitiva. Do outro lado, não há nenhuma dificuldade real em supor que o próprio Lucas tenha acrescentado a citação para ressaltar mais claramente como o progresso da igreja está de acordo com as profecias do Antigo Testamento. 19-20. A partir deste argumento, Tiago tirou a conclusão de que a igreja não deveria continuar a colocar um fardo sobre os gentios que se voltavam a Deus. Como é, pois, que a conclusão se tira do argumento? -239-


ATOS 15:19-22 A lição parece ser que Deus está fazendo algo novo em levantar a igre­ ja; é um evento dos últimos dias, e, portanto, já não se aplicam as regras antigas da religião judaica: Deus está fazendo das nações um povo Seu, e nada há no texto para sugerir que devem tomar-se judeus a fim de tor­ nar-se o povo de Deus. Logo, não há condições de “entrada” a serem impos­ tas sobre eles. Mesmo assim, Tiago tem uma recomendação para fazer: os gen­ tios devem abster-se de certas coisas que eram repugnantes ao judeus. Quatro coisas se mencionam no texto. Em primeiro lugar, há as conta­ minações dos ídolos. Refere-se à carne oferecida em sacrifício aos ídolos, e depois comida numa festa do templo ou vendida num açougue. Em se­ gundo lugar, haviam as relações sexuais ilícitas entendidas como prosti­ tuição ou como quebra da lei judaica do casamento (que proibia o casa­ mento entre parentes próximos, Lv 18:6-18). O terceiro elemento foi a carne de animais sufocados, um método de abate mediante o qual o sangue permanecia na came, e o quarto item era o próprio sangue. Estes regulamentos alimentícios se assemelham àqueles em Levítico 17:8-13. Quanto aos problemas levantados por estas regras, ver a introdução a esta seção.169 21. A declaração final de Tiago é de difícil entendimento. Talvez o significado seja que, já que há judeus noutros lugares que regularmente ouvem a lei de Moisés lida nas sinagogas, os cristãos gentios devem respeitar seus escrúpulos, para evitar que a igreja tenha má fama entre eles. Alterna­ tivamente, o argumento talvez signifique que se os gentios cristãos querem descobrir qualquer coisa a mais acerca da lei judaica, têm bastante oportu­ nidade nas sinagogas locais, e não há necessidade da igreja em Jerusalém fazer qualquer coisa em prol deste assunto. 22-29. A proposta de Tiago recebeu a concordância da assembléia inteira. Vale a pena ressaltar o sentido disto: signifiça que os judeus extre­ mistas perderam o argumento e concordaram em seguir uma política mais liberal. Parece que aceitaram a sua derrota sem amargura ou ressentimen­ to. Resolveu-se nomear delegados para acompanhar Paulo e Barnabé a Antioquia a fim de relatar as decisões da reunião. Judas, chamado Bar-

169Escribas posteriores alteraram a redação da lista de coisas proibidas; a omissão de “animais sufocados” deixa três palavras que podem ser entendidas no sen­ tido moral - a idolatria, a incontinência e o assassinato (“sangue”). Esta alteração provavelmente foi feita por escribas que já não entendiam a situação do século I; com a passagem do tem po, desapareceu a necessidade das regras acerca dos alimen­ tos aceitáveis às consciências dos cristãos judaicos.

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ATOS 15:23-29 sabás, não se conhece fora deste trecho (a não ser que fosse parente de Jo­ sé Barsabás, 1:23), mas Silas (conhecido, noutros trechos, por seu nome latino, Silvano) ficou sendo uma figura de destaque na igreja (15:40; 1 Ts 1:1; 2 Co 1:19; 1 Pe 5:12). Presumivelmente eram presbíteros da igreja de Jerusalém. Sua tarefa seria entregar e expor oralmente a mensagem escrita que levaram para Antioquia. A carta que Lucas reproduz se encaixa no padrão normal das cartas do século I, que nos é familiar nas cartas de Paulo. Ao passo que Paulo emprega uma forma cristianizada de saudações de abertura e encerramen­ to, aqui se retém a forma secular usual. A carta foi enviada em nome dos apóstolos e presbíteros da igreja em Jerusalém. Escrevem com autoridade aos seus irmãos cristãos; a esta altura, a igreja em Jerusalém ainda sentia que possuía autoridade para mandar as demais igrejas fazer conforme suas instruções, sem dúvida por ser liderada por apóstolos. Os endereçados foram os cristãos em Antioquia, na Síria e na Cilicia. Antioquia era a capital da província romana da Síria (9:30 nota). Não se mencionam as áreas evange­ lizadas por Paulo e Barnabé (mas ver 16:4). O corpo principal da carta deixou claro que quaisquer pessoas que tivessem ido de Jerusalém para Antioquia, defendendo a circuncisão dos convertidos gentios, não eram de modo algum representantes oficiais da igreja. A igreja, portanto, resolvera dar o passo de enviar delegados que serviriam de representantes oficiais para pôr em dia o assunto. Antes de ci­ tar os nomes destes, porém, a carta os associa com os delegados de Antio­ quia, Barnabé e Paulo, e fala destes últimos nos termos mais elevados, como aqueles que “se dedicaram” (NEB) ao serviço de Jesus; a tradução de ARA que têm exposto a vida é talvez forte demais. A linguagem visa ressaltar o estreito sentimento fraternal que existia entre as igrejas. Mesmo assim, a carta continua com uma nota de firme autoridade. A decisão atingida pela igreja é considerada inspirada pelo Espírito, que, a cada passo em Atos, é o guia da igreja nas suas decisões e atos. Esta decisão, inspirada pelo Espí­ rito, é colocada em termos do mínimo de exigências a serem impostas sobre a igreja. Quer dizer que se ressalta que nada mais está sendo reque­ rido senão os regulamentos que se seguem; não se exige nenhuma submis­ são generalizada à lei judaica, e muito menos ao rito da circuncisão. Além disto, recònhece-se que o que se pede é um encargo, ainda que seja essen­ cial por amor à harmonia entre os judeus e os gentios. As exigências são aquelas que o leitor já sabe pelo v. 20, com uma leve mudança quanto à ordem.170 A mensagem termina com o que é essencialmente um pedido 170

As mesmas variações textuais também ocorrem aqui.

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ATOS 15:29-35 cortês para que seja aceita a proposta: fareis bem pode ser entendido como “prosperareis”. A saudação final é normal para uma carta em Grego. A car­ ta inteira é cuidadosamente construída, de tal maneira que alguns críticos alegam que é uma composição literária pelo próprio Lucas; julgada por este padrão, a carta inegavelmente genuína de Paulo a Filemon, que também é uma obra prima de construção cuidadosa, já não poderia ser considerada uma carta genuína. 30-35. Depois de os delegados terem recebido as suas instruções da igreja, desceram logo para Antioquia onde se realizou uma reunião dos membros da igreja, e a carta foi entregue e a leram em voz alta diante da assembléia. Seu conteúdo foi considerado um conforto ou exortação, o ti­ po de mensagem cristã que visava fortalecer e encorajar uma congregação. Foi saudada com alegria, pois seu conteúdo revelou que a questão decisi­ va fora aceita: não se devia exigir que os gentios fossem circuncidados e obrigados a observar a lei de Moisés. Quanto as exigências impostas pela carta, foram aceitas, segundo parece, sem hesitação. Sem dúvida, Judas e Silas expuseram a situação mais detalhadamente, mas parece que seu mi­ nistério era de um escopo ainda maior. Foram reconhecidos como ho­ mens com dons proféticos, e os empregavam na pregação e no ensinamen­ to na igreja (cf. 1 Co 14:3); o ministério deles foi semelhante ao dé Bar­ nabé quando visitou a igreja pela primeira vez (11:23). Depois de decorrer um período apropriado, puderam voltar de Antioquia para Jerusalém, le­ vando consigo a bênção da igreja: “Ide em paz” , Um grupo ponderável de MSS omite v. 34. Representa uma tenta­ tiva por um escriba no sentido de vencer o que parece ser uma contradi­ ção entre a partida de Silas para Jerusalém em v. 33 e a sua presença em Antioquia cf. v. 40, o versículo, no entanto, contradiz tão abertamente o v. 33 que já registrou a partida de Silas, . que sem dúvida não é genuí­ no. Entrementes, continuou-se a obra da igreja em Antioquia. Páulo e Bar­ nabé ensinavam a igreja e evangelizavam juntos pela última vez que consta nos registros. Havia, porém, um grupo composto doutros cristãos que se dedicavam à mesma obra, de tal modo que o caminho ficou aberto para os dois antigos missionários recomeçarem suas viagens, sabendo que estavam deixando a igreja em boas mãos.


ATOS 15:36 VI. A CAMPANHA MISSIONÁRIA DE PAULO NA MACEDÔNIA E NA ACAIA (15:36-18:17)

a. Paulo, Bamabé, Marcos e Silas (15:36-41).

Depois da solução satisfatória da questão dos gentios, Paulo sugeriu a Barnabé a idéia de uma nova visita aos lugares que evangelizaram antes. Nesta altura, não se levanta a possibilidade da evangelização em novos territórios, embora o restante da história (16:6) sugira que a idéia prova­ velmente estava presente desde o início. Surgiu, porém, uma diferença de opinião entre os dois homens quanto ao aceitar a companhia de Marcos uma segunda vez. Paulo era contrário à proposta, pois, segundo o ponto de vista dele, Marcos se desviara da campanha anterior, e, segundo se su­ põe, sentia que o mesmo fato poderia se repetir. Barnabé estava disposto a aceitar o risco uma segunda vez. O assunto veio a ser questão de princí­ pios, de modo que os dois colegas resolveram separar-se, sendo que cada um cuidaria da sua parte dos territórios anteriormente visitados, e Paulo par­ tiu com Silas. O motivo pela contenda entre Paulo e Bamabé tem parecido tão tri­ vial que alguns suspeitaram de uma causa profunda. Os comentaristas que consideram Gálatas 2:1-10 como sendo uma descrição dos eventos em Atos cap. 15 se dispõem a colocar nesta altura a vacilação de Barnabé quanto à questão de comer juntamente com os gentios (G1 2:11-14), ven­ do nisto a verdadeira razão para a separação entre ele e Paulo. Se coloca­ mos em data anterior este evento, é possível que a lembrança dele ainda se perpetuava, e que Paulo não sentia certeza quanto à atitude de Barnabé na situação delicada nas igrejas da Galácia.171 O resultado da separação é que saíram duas expedições missionárias, e não somente uma. Nada mais ouvimos acerca das atividades de Bamabé. De agora em diante, as luzes da ribalta se focalizam exclusivamente sobre Paulo. Além disto, o que começou como visita de confirmação às áreas já evangelizadas ficou sendo, sob a orientação do Espírito Santo, uma campanha em grande escala que levou Paulo e Silas, por algum tempo, para fora da Ásia Menor e através do Mar Egeu para a Macedônia e a Gré-

171 Ver R. Bauckham, “Barrabas in Galatians” , JSN T 2, 1979, págs. 61-70.

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ATOS 15:36-39 cia, onde estabeleceram igrejas em Filipos, Tessalônica e Corinto.172 36. É provável que o período que Paulo e Barnabé passaram em Antioquia foi durante os meses do inverno, e que a vinda da primavera, que trazia consigo a abertura das rotas de viagem por terra e mar, desper­ tou Paulo para novas atividades. Não se menciona nesta altura a orienta­ ção do Espírito acerca do futuro. Pode-se argumentar que Lucas não quis vincular o Espírito com uma desavença que se desenvolveu acerca dos planos futuros dos missionários, mas (conforme notamos nos capítulos 13-14) Lucas claramente crê na operação do Espírito mesmo quando Ele não é especificamente mencionado. A proposta de Paulo visava uma nova visita às áreas já evangelizadas e, à luz da carta aos Gálatas, pode­ mos compreender uma das razões que o levaram a sugerir esta ação. 37-39. O desejo de Barnabé de levar junto com eles Marcos era motivado, decerto, pelo desejo de dar ao jovem uma segunda oportuni­ dade para comprovar seu valor. Tal fato pode ter sua origem no paren­ tesco entre eles, não mencionado por Lucas (Cl 4:10), mas sobretudo no caráter simpático de Barnabé, do qual Lucas já deu provas para seus lei­ tores (9:27). Paulo, porém, se preocupava mais com a missão, e não se dis­ pôs a levar um companheiro duvidoso. É um exemplo clássico do proble­ ma perpétuo de se os interesses do indivíduo ou da obra global devem ser colocados em primeiro plano, e não há nenhuma regra fixa para tratar dele. Neste caso específico, foi atingida uma solução satisfatória, sendo que Paulo pôde escolher seu próprio companheiro para a sua parte da obra, ao passo que Barnabé pôde tomar Marcos sob a sua própria proteção, ajudando-o a desenvolver-se como missionário. Que o passo dado por Barnabé foi justificado se demonstra na maneira de Paulo mais tarde reconhecer o'valor de Marcos e considerá-lo como colega (Cl 4:10; e especialmente

172Na sua discussão da cronologia de Paulo (Dating Paul’s Life\ ver 11:29-30, nota). R. Jew ett argumenta que o tem po disponível entre a visita de Paulo a Jerusa­ lém registrada em Atos cap. 15 e o seu comparecimento diante de Gálio em Corinto (18:12-16) é curto demais para encaixar nele as viagens missionárias tão cheias de ati­ vidades registradas em Atos caps. 16-18; tira a conclusão de que a visita registrada em Atos cap. 15 realmente ocorreu depois da visita a Corinto, e permite um período de cinco anos entre a sua partida de Antioquia e seu comparecimento diante de Gálio. Embora Jew ett tenha demonstrado que alguns comentaristas anteriores não tenham contado tempo suficiente para as viagens de Paulo, o período sugerido por ele é exces­ sivamente longo; leva em conta um ministério de Paulo na Galácia do norte, que é tão improvável como desnecessário, e atribui a ele um período mais longo na Macedônia de que necessitava.

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ATOS 15:40-16:1 2 Tm 4:11; cf 1 Pe 5:12). Infelizmente, porém, houve por enquanto uma desavença entre Paulo e Barnabé por causa deste assunto, que Lucas não procura ocultar, embora talvez não tenha dado aos seus leitores a totali­ dade das razões que levaram à separação. 4041. Visto que Silas tinha previamente deixado Antioquia, deve­ mos supor ou que voltara no ínterim, ou que Paulo mandou buscá-lo em Jerusalém. Era cidadão romano (16:21) como Paulo, e tinha conexões com a igreja em Jerusalém; estes dois fatos eram qualificações úteis para seu novo papel como missionário. Fora disto, nada sabemos acerca dele além do fato da sua estreita e frutífera associação com Paulo (15:22-29 nota). Os dois homens foram enviados com a aprovação e a bênção da igreja (cf 14:26), e caminharam por terra, para o norte, através da Síria e até a Cilicia. b. A volta de Paulo a Derbe e Listra (16:1-5). Da Síria e Cilicia Paulo foi caminhando através do desfiladeiro montar nhoso conhecido como Pórticos da Cilicia até chegar à área da sua primeira campanha missionária na Galácia do Sul. Lucas tem dois fatos para registrar acerca desta visita: o alistamento de Timóteo como missionário e a comuni­ cação às igrejas da decisão do concílio de Jerusalém. 1-3. Derbe e Listra são mencionadas na ordem inversa em compara­ ção com 14:6, pois, desta vez, Paulo as abordou do leste. Visto que Listra é o último dos dois lugares a ser mencionado, supõe-se que Timóteo vivia ali, e não em Derbe. Paulo o chama “meu filho amado e fiel no Senhor” (1 Co 4:17), descrição esta que sugere que fosse um dos seus próprios con­ vertidos. Parece que veio a ser cristão durante a visita feita à cidade na ocasião anterior. Era filho de uma judia que se tomara cristã também; ti­ nha pai grego, e o modo de ele ser descrito sugere que não era cristão e que já morrera (16:3b; o tempo do verbo grego favorece este ponto de vis­ ta). Em 2 Timóteo 1:5, ficamos sabendo que sua mãe se chamava Eunice, e que também tinha uma avó cristã chamada Loide; parece que a família inteira se convertera. Não é justificável rejeitar a evidência de 2 Timóteo nesta altura como lenda cristã (Haenchen, p. 478 n.3). A atenção de Paulo foi atraída para o jovem por causa do bom testemunho que dele davam os vizinhos cristãos, tanto em Listra como em Icônio, numa distância de cerca de 31 km. Uma boa reputação deste tipo era qualificação pessoal indispensável para a liderança cristã (1:21; 6:3; em Tm 3:7, uma boa repu­ tação entre as pessoas de modo geral é uma exigência para alguém ser um -245-


ATOS 16:1-4 líder da igreja). Paulo quis ter Timóteo como companheiro e assistente na sua obra missionária; sua posição seria, segundo se supõe, a mesma da­ quela de João Marcos na campanha anterior, embora não haja sugestão al­ guma que fosse sucessor de Marcos. Havia, no entanto, uma só dificuldade. Como filho de um casamento misto, Timóteo tinha uma situação anômala. Os judeus não deviam casar com gentios, mas se acontecesse, os filhos eram considerados judeus, e deviam ser circuncidados, o que não foi feito no caso de Timóteo. Sua mãe não levara a sério suas responsabilidades judaicas, ou talvez o marido dela não permitira a circuncisão da criança. Não se menciona nenhuma sinagoga em Listra, e é bem possível que a mãe de Timóteo cessara de ser judia praticante. A missão de Paulo, porém, forçosamente o colocaria em contato com judeus, e era bem conhecido entre os judeus daquela área que Timóteo não tinha sido circuncidado. Paulo, portanto, deu o passo de circuncidá-lo. A ação de Paulo tem causado considerável controvérsia. Segundo certa escola de pensamento, agia sem princípios, pois considerava a cir­ cuncisão como matéria de indiferença (G1 5:6) e positivamente proibia os gentios a se submeterem a um rito que poderia ser considerado um meio de salvação pelas obras (G1 5:3) (Haenchen, págs. 480482). Aqui, porém, as circunstâncias eram diferentes. Timóteo era classificado còmo judeu, mas, por causa do casamento misto da sua mãe, talvez tenha sido con­ siderado ilegítimo;173 de qualquer maneira, era totalmente necessário que tivesse boa reputação aos olhos dos judeus entre os quais estaria trabalhan­ do. Não se tratava de matéria de princípio. Se Gálatas foi escrito depois des­ te incidente, é possível que Gálatas 5:11 representasse um ataque contra Paulo, baseado num modo falso de entender este incidente; é duvidosa, no entanto, esta data de Gálatas. Outros estudiosos entendem que o inci­ dente inteiro é fictício, talvez derivado do modo errôneo de Lucas enten­ der o ataque contra Paulo em Gálatas 5:11. Para Haenchen (p. 481), é impossível que o Paulo que escreveu 1 Coríntios 7:17-20 tenha agido as­ sim: por que não prosseguiu adiante, obrigando Timóteo a observar a tota­ lidade da lei de Moisés (G1 5:3)? Haenchen, porém, fez confusão entre a circuncisão como meio da salvação e a circuncisão como ato legal para re­ mover de Timóteo o seu estigma, e suas objeções não têm força. 4. À medida em que a viagem prosseguia, Paulo e seus companhei­ ros comunicavam às igrejas as decisões que foram tomadas pelos apóstolos 173A opinião dos judeus era dividida ná questão de serem legítimos ou ilegítims os filhos de casamentos mistos: SB IV:1, págs. 379, 383.

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ATOS 16:4-6 e presbíteros em Jerusalém. A autoridade do concílio apostólico foi consi­ derada obrigatória sobre as igrejas fora de Jerusalém. É verdade que as de­ cisões foram endereçadas somente à Antioquia, à Síria e à Cilicia (15:33), e é, portanto, estranho que foram também promulgadas na Galácia do Sul. Mais tarde, ficaram conhecidas também na província da Ásia (Ap 2:14, 20) e mais tarde na Gália, mas o próprio Paulo não fêz menção a elas ao enfrentar o problema na carne sacrificada aos ídolos, em Corinto. Visto que as decisões explicitamente aliviam os cristãos gentios de darem o passo da circuncisão, a menção delas aqui sublinha o fato de que. Timó­ teo estava sendo tratado como judeu, e de que a sua experiência não era nenhum precedente quanto àquilo que os gentios deviam fazer. Ao mes­ mo tempo, a promulgação das decisões agiria como meio adicional de aba­ far qualquer possível conflito entre judeus e gentios dentro da igreja. Nada há, portanto, de impróprio no emprego que Paulo fez das decisões nesta altura. Embora fossem endereçadas especificamente à Antioquia e à sua vizinhança imediata, foi apropriado promulgá-las nas áreas maiores evange­ lizadas a partir de Antioquia. O silêncio de Paulo acerca delas em Corinto e noutros lugares, embora pudesse insistir em agir de acordo com a praxe geral das igrejas (1 Co 11:16; 14:33-34), sugere que preferia argumentar um caso a partir dos princípios básicos e não mediante o apelo, em primei­ ra instância, a uma autoridade. 5. O efeito da visita dos missionários foi estabelecer as igrejas e tomá-las mais eficazes na evangelização. A estratégia missionária de Paulo, de seguir com uma visita adicional a campanha missionária (15:36) foi plenamente justificada. A descrição é semelhante àquela em 6:7 e 9:31, onde se notou a confirmação das igrejas em Jerusalém e na Judéia. c. A chamada à Macedônia (16:6-10). Lucas não explica quais planos tinha Paulo para a continuação da sua campanha missionária, nem sequer se ele tinha algum. Talvez fosse sua intenção ir caminhando para Éfeso, no litoral ocidental da Ásia. Esta seção, porém, toma sobejamente claro que o progresso de Paulo foi diri­ gido por Deus numa variedade de maneiras, de tal maneira que os mis­ sionários foram levados a novas áreas de trabalho. A narrativa inteira se rela­ ta com velocidade estonteante, para dar alguma impressão do impacto irresistível dos eventos que levaram Paulo à Macedônia. 6. A viagem para o oeste, a partir de Icônio, descreve-se de modo al­ go estranhável como percorrendo a região frígio-gálata (cf. 18:23). -247 -


ATOS 16:6 (1) A construção grega sugere que a frase se refere a uma só área, conforme aqui temos.174 A área chamada Frigia ficava parcialmente na província romana da Ásiâ e parcialmente na província da Galácia.175 A primeira destas áreas era chamada “Phrygia Asiana”, e Ramsay alegou que a última área podia ser chamada “Phrygia Galatica”.176 Era a área ao oeste de Icônio através da qual Paulo passaria no seu caminho da Mísia. Segundo este ponto de vista, não há registro de que Paulo tenha entrado na área étnica da Galácia que era habitada por um povo céltico. (2) K. Lake (BC, V, págs 231-237) e Haenchen (pág. 483) sustentam (com pequenas variações) que Lucas se refere a duas áreas, a Frigia e a Ga­ lácia. Segundo este ponto de vista, Paulo passou pela área onde vivia o povo céltico, evangelizou-o, e depois lhe enviou a Carta aos Gálatas. Este ponto de vista naufraga na geografia da área, conforme demonstrou Bruce.177 É mais provável que Paulo não tenha evangelizado a área da Galácia, e que, portanto, sua Carta aos Gálatas não foi enviada ao povo céltico no norte 'da província da Galácia mas, sim, aos habitantes de Icônio e das de­ mais cidades no sul da província. A descrição de Lucas não deixa claro se esta viagem de Paulo foi dalgum modo evangelístico. De qualquer maneira, os missionários foram dirigidos para longe do seu alvo original, que era a Ásia, e viram-se compelidos a caminhar para o norte. A linguagem é apro­ priada para uma viagem pela fronteira oriental da Ásia, em direção da Mísia no canto noroeste da Ásia Menor. Não sabemos como o Espírito Santo impediu os viajantes de seguir seus planos originais. Supõe-se qüe há

174A objeção de que “frígio” não pode ser usado como adjetivo numa frase deste tipo, não tem base, conforme demonstrou C. J. Hemer, “The adjective ‘Phry­ gia’ ” , JTS 27, 1976, págs. 122-126; idem, “Phrygia: A Further N ote” , JTS 28, 1977, págs. 99-101. 175A Ásia Menor era dividida em certo número de regiões étnicas, Frígiá, Galácia etc., e o sistema romano de províncias foi sobreimposto sobre este grupo mais antigo de divisões. Desta forma, a área da Frigia foi dividida entre as províncias da Ãsia e a Galácia. A área da Galácia, que fora povoada por uma raça céltica, ficou sendo ò núcleo da província maior da Galácia, que incluía partes da Pisídia, da Licaônia, e doutras regiões. I760 argumento de Ramsay se espalha por várias obras; ver especialmente W. M. Ramsay, The Church in the Roman Empire (Londres, 1893); A Historical Commentary on S t Paul’s Epistle to the Galatians (Londres, 1899). 177F . F. Bruce, “Galatians Problems: 2. North or South Galatians?”, BJRL, 52, 1969-70, págs. 243-266, especialmente págs. 257-258. Ver mais em C. J. Hemer, “Acts and Galatians Reconsidered” , Themelios 2:3, maio de 1977, págs. 81-88.

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ATOS 16:7-10 referência a alguma compulsão interior, ou talvez a uma mensagem profé­ tica da parte de alguém pertencente ao grupo de viajantes. 7. Mísia era a parte noroeste da província romana da Ásia. Esta se estendia pela totalidade do litoral ocidental da Ásia Menor. Ao norte e ao leste da Mísia ficava a Bitínia, uma província romana separada que se Jigava com o Ponto, mais ao leste. Mais uma vez, o Espírito interveio e os impediu de se voltarem naquela direção. O Espírito aqui é chamado, de mo­ do sem paralelo, o Espirito de Jesus, frase esta que ressalta como o próprio Jesus, através do Espírito, estava guiando o progresso do evangelho; mais uma vez, fica inclaro o modo da orientação. 8. Passando pela Mísia, os viajantes chegaram à colônia romana de Trôade, no litoral, marítimo, o porto para a Macedônia. Alexandria Trôade ( o seu nome por extenso) era um centro importante, onde mais tarde foi fundada uma igreja cristã(2 Co 2:12).178 9. A partir de Trôade, Paulo poderia ter velejado em várias direções, mas a questão foi resolvida por uma visão na qual viu um macedônio que lhe apelava para vir ao seu país e ajudá-los. Nos tempos antigos, os sonhos eram um meio de comunicação divina (ver 9:10,12; 10:3,17; 18:9; 22:17), e Paulo e seus companheiros imediatamente interpretaram este sonho como sendo uma chamada divina para levarem o evangelho à Macedônia. Foi este o tipo de ajuda que sabiam que podiam levar àquele povo. Paulo deve ter deduzido que o homem era macedônio por causa daquilo que disse. Não sabemos por que esta forma de orientação divina foi adotada a esta altura. Explicações psicológicas, tais quais as que dizem que o sonho foi ocasiona­ do por uma visita de macedônios (possivelmente com a inclusão de Lucas) a Paulo em Trôade são especulativas. 10. O sonho foi seguido por uma tentativa imediata de atravessar pa­ ra a Macedônia. Agora, porém, a narrativa repentinamente se expressa em termos daquilo que nós resolvemos fazer, e este modo de descrição continua na primeira pessoa do plural até 16:17, depois de que é retomada em 20:5. A explicação mais óbvia deste fenômeno é que aqui, o próprio narrador registra a sua própria participação na história. Alternativamente, o narra­ dor começa a fazer uso das reminiscências de outra pessoa, escritas na pri­ meira pessoa, mas deixa de alterar o estilo gramático; esta explicação, no entanto, é muito improvável no caso de um escritor conscientemente cui­ dadoso tal como o autor de Atos. Haenchen (págs. 489491) argumenta que o leitor naturalmente suporia que alguma das pessoas que acabam de 1 78

Ver C. J. Hemer, “Alexandria Troas”, Tyn. B. 26, 1975, págs.79-112.

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ATOS 16:10-11 ser mencionadas (Silas, Timóteo) começa aqui a contar a história. É alta­ mente improvável; nenhum leitor chegaria naturalmente a tal suposição, mas, sim, entenderia que o autor do livro estava se incluindo na história. O ponto de vista de que o emprego de “nós” é um meio literário de tra­ zer vida à história é igualmente improvável. Devemos, pois, perguntar qual dos companheiros de Paulo poderia ter estado presente nesta ocasião e ter narrado a história; quanto às razões para crer que se tratava de Lucas, ver a Introdução. d. Filipos: a primeira igreja na Macedônia (16:11-40). A chegada dos missionários em Filipos levou à evangelização bem su­ cedida entre as mulheres associadas com a fé judaica. Levou, também, à perseguição nesta cidade como resultado de um exorcismo operado por Paulo. A detenção e a prisão, no entanto, não puderam impedir o progres­ so do evangelho, mas, sim, ajudou-o: quando os missionários foram soltos dos seus grilhões mediante um terremoto, demonstrou-se que Deus os estava protegendo, o que levou à conversão do próprio carcereiro. Ao mes­ mo tempo, o incidente demonstrou que as autoridades romanas não esta­ vam dispostas a processar os missionários. Embora estes fossem forçados a deixar a cidade provavelmente antes do que pretendiam, conseguiram dei­ xar ali um grupo pequeno de cristãos, que Paulo mais tarde conseguiu re­ visitar sem qualquer molestação (20:1-2, 6). A história da visita de Paulo a Filipos se conta vividamente, e ilustra as provações de um missionário cristão» num ambiente romano onde o evan­ gelho afetava os interesses monetários de pessoas da localidade. Como re­ sultado da visita, formou-se uma igreja cristã com a qual Paulo mantinha relacionamentos especialmente cordiais, refletidos no tom da carta que posteriormente escreveu para os cristãos de Filipos. Este escrito, e outros,' confirmam a historicidade essencial da narrativa. Assim, a própria Epístola aos Filipenses dá testemunho da continuada hostilidade que a igreja enfren­ tava no seu ambiente pagão, e Paulo podia dizer aos seus leitores: “pois tendes o mesmo combate que vistes em mim e ainda agora ouvis que é meu” (Fp 1:30; cf. 1:27-29; 2:17). É talvez surpreendente que nada lemos na Epístola acerca de Lídia ou do carcereiro; mas, na realidade, não se men­ cionam nomes dos cristãos filipenses a não ser os de duas senhoras que ti­ nham desavenças entre si (Fp 4:2) e Clemente. Mas o quadro geral de uma igreja em que havia mulheres como cooperadoras de Paulo concorda bem com a apresentação em Atos. Em 1 Tessalonicenses também temos evidên-250 -


ATOS 16:10-13 cias em primeira mão, de grande importância, que sustentam o sofrimento e tratamento vergonhoso que Paulo recebeu em Filipos (2:2) antes de ele continuar seu caminho, conforme relata Atos, para Tessalônica. Conforme demonstra 2 Coríntios 11:25, açoitadas ilegais aplicadas por magistrados locais não era incomuns para Paulo. 11. Paulo e seus companheiros conseguiram fazer uma rápida viagem marítima de Trôade, passando pela ilha da Samotrácia (onde provavelmen­ te pernoitaram), a Neápolis em dois dias; a distância de 200 km poderia facilmente ser vencido dentro deste tempo, com ventos favoráveis, embora a viagem de volta em 20:6 levasse cinco dias. Neápolis, modernamente Kavalla, era o porto de Filipos, que ficava numa distância de 16 km. 12. Filipos era uma cidade antiga que recebeu o novo nome da parte de Filipe da Macedônia, c. de 360 a.C. Foi o local da derrota dos assassi­ nos de Júlio César, Bruto e Cássio, por Antônio e Otaviano (mais tarde o Imperador Augusto) em 42 a.C. A cidade então veio a ser uma colônia ro­ mana, i.é, uma povoação para soldados romanos veteranos, que possuía os direitos de autonomia de governo sob as leis romanas, e da isenção dos im­ postos. Outros veteranos foram estabelecidos ali depois da derrota de An­ tônio e Cleópatra em Áctio em 31 a.C. Filipos, cidade da Macedônia, pri­ meira do distrito: a Macedônia era incomum como província romana, por ser subdividida em quatro sub-províncias, sendo que Filipos pertencia à primeira, cuja capital, no entanto, era Anfípolis. O texto grego é difícil, mas a tradução “cidade do primeiro distrito da Macedônia” provavelmente represente o sentido originalmente pretendido. A descrição de Lucas reve­ la conhecimento do local (Sherwin-White, pág. 93), e visa preparar o cami­ nho para o relato do primeiro encontro de Paulo com uma situação roma­ na e a administração romana local.179 13. A praxe missionária de Paulo usualmente o levava à sinagoga em primeiro lugar para proclamar aos judeus e aos prosélitos, que ali se reuniam, a vinda do Messias (13:4-5 nota). Não começou a sua obra missionária, no entanto, a não ser no sábado, quando foi ao lugar onde os judeus se reu­ niam. Nosso texto, onde nos pareceu haver um lugar de oração, dá a enten­ der que Paulo e seus companheiros não sabiam com certeza onde se reuniam os judeus , e que não estavam hospedados com judeus. Tal fato não seria

179Ver mais em R. P. Martin, Phitippians (New Century Bible), Londres, 1976), págs. 2-9. W. Eiliger, Paulus in Griechenland (Stuttgart, 1978), resumo as informações arqueológicas disponíveis acerca de Filipos, Tessalônica,'Atenas e Co­ rinto.

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ATOS 16:13-15 surpreendente se o culto judaico estava sendo praticado por um mero grupinho de mulheres, das quais pelo menos uma era prosélita; os missionários dependeriam das informações vagas que podiam colher dos habitantes locais. Mais uma vez, o texto não é muito claro, e é possível que original­ mente dissesse: “onde costumariamente se fazia oração” , e neste caso nada se diz acerca de qualquer dificuldade em achar o local. Uma sinagoga somente poderia ser estabelecida onde havia pelo menos dez homens. Visto não haver aqui qualquer menção de homens, é provável que lugar de oração signifique simplesmente um lugar onde as mulheres costumavam reunir-se para orar (talvez numa casa); a frase, no entanto, pode ser empregada com o significado de “sinagoga”. Provavelmente ficava fora da cidade, porque as autoridades não permitiriam que os judeus se encontrassem dentro dela. A proximidade do local a um rio (o Gangites, ou o Crênides, uma corrente dentro de uma viagem de um sábado de distância da cidade) talvez fosse para ter água para a purificação ritual dos judeus. 14. Entre as mulheres que ali se reuniam para a oração, havia uma que provinha de Tiatira (Ap 2:18-29), uma cidade da região da Ásia Menor chamada Lídia; a mulher recebeu o nome do seu lugar de origem, e ocupava-se com a venda dos artigos de púrpura dos quais Lídia era produtora afamada. Havia uma comunidade judaica em Tiatira, e ali, ou noutro lugar, Lídia aderira à religião judaica. Agora, correspondeu à mensagem de Paulo que, sem dúvida, dizia respeito à vinda do Messias na pessoa de Jesus (cf. 17:3). A conversão dela atribui-se ao fato de que o Senhor lhe abriu o cora­ ção (para a frase, cf. Lc 24:45; 2 Mac. 1:4) e assim colocou Seu selo na obe­ diência dos missionários que atravessaram o mar para a Macedônia median­ te a ordem proveniente dEle. Lucas ressalta que a conversão se deve à ação de Deus em abrir os co­ rações, i.é, as mentes, dos homens e mulheres para receberem a Sua Palavra. Este- conceito é exatamente o mesmo que achamos em Paulo, que diz que as pessoas não crêem porque as suas mentes estão escurecidas pelo deus des­ te mundo (2 Co 4:4), mas que são convertidas quando vem a elas o evange­ lho, “não tão-somente em palavra, mas sobretudo em poder, no Espírito Santo e em plena convicção” (1 Ts 1:6). Certamente, este modo de encarar as coisas não diminui a responsabilidade do missionário de persuadir as pes­ soas e implorar-lhes que recebam a Palavra (2 Co 5:20; 6:1), nem remove, de qualquer forma, a responsabilidade do ouvinte quanto ao arrepender-se e crer no evangelho. 15. Não fica claro se o batismo da Lídia se seguiu imediatamente após a sua conversação inicial com Paulo. Certamente, porém, não pode ter havido um intervalo grande, de tal modo que o batismo realmente -252-


ATOS 16:15-17 ficou sendo a expressão externa da salvação que recebera e a fé que demons­ trara. O ato do batismo também abrangeu toda a casa dela. Os defensores do batismo infantil apressam-se em apegar-se a este versículo e a outros semelhantes (11:14; 16:33; 18:8; 1 Co 1:16) e argumentam que a possibili­ dade (e, nalguns casos, a probabilidade) de que as casas incluíam crianças pequenas é considerável. Os opositores deles indicam que crianças, e, em especial, crianças pequenas, nunca se mencionam expressamente. No presen­ te caso, o fato de Lídia estar ocupada em negócios sugere fortemente que era solteira, ou viúva, e que os membros do seu lar teriam incluído quais­ quer servos ou dependentes que moravam na mesma casa.180 A conversão de Lídia foi imediatamente seguida por sua oferta de hos­ pitalidade a Paulo e ao seu grupo; foi rápida, portanto, não somente em se­ guir a praxe cristã primitiva de ser hopitaleira (Rm 12:13; 1 Tm 3:2; Hb 13:2; 1 Pe 4:9; 3 Jo 5-8), mas também em compartilhar bens materiais com aqueles que ensinam a Palavra de Deus (G1 6:6; cf. 1 Co 9:14). 16. A segunda parte da história nos leva para fora do mundo do judaísmo para o contato com a superstição popular do mundo helenístico. Numa das visitas para o lugar de oração, ele e seus companheiros foram encontrados por uma jovem escrava, que tinha o dom da vidência, e dava lucro aos senhores com suas adivinhações. Lucas atribui esta capacidade a um espirito adivinhador, literalmente, “um espírito, um pitâo”. Esta úl­ tima palavra originalmente significavá uma serpente, e, em especial, a ser­ pente que guardava o oráculo célebre em Delfos e Nque, segundo a lenda, foi morta por Apoio. A palavra também se emprega no sentido de ventríloco. Os ventrílocos agiam como adivinhadores, e, sem dúvida, o caráter incomum dos sons que produziam tinha efeito numinoso; pensava-se, pro­ vavelmente, que um demônio neles habitava. No presente caso, supõe-se que a jovem falava como ventríloco e que tinha o dom da clarividência e, por­ tanto, Lucas disse que tinha um espírito (i.é, um espírito maligno), a saber, um que era capaz da ventriloquia. 17. A jovem saiu ao encontro de Paulo e seus companheiros na rua, e gritava, seguindo após eles, que eram servos do Deus Altíssimo, e que pro­ clamavam o caminho da salvação. Semelhantes descrições do Deus supre­ mo se acham alhures nos lábios de pagãos (Lc 8:28), mas também se em­ 180

Aqueles que se interessam podem comparar declarações representativas dos dois pontos de vista em Jeremias, Infant Baptism in the First Four Centuries (Londres, 1960), págs. 19-24, e G. R. Beasley-Murray, Baptism in the N ew Testament (Exeter, 1972), págs. 312-320. Veja, também, NDITNT, art. Batismo.

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ATOS 16:17-19 pregavam entre os judeus de língua grega; é provável que os pagãos copias­ sem o uso lingüístico dos judeus quando se referiam ao Deus deles. Salva­ ção era um termo comum para o conteúdo da mensagem cristã (4:12; 13:26, 47). É possível, portanto, que o grito da jovem dependesse meramente da­ quilo que era do conhecimento geral acerca das atividades dos missionáris em Filipos. Mesmo assim, a história se conta de modo semelhante às histórias de exorcismo nos Evangelhos, nas quais os endemoninhados pro­ clamam seu conhecimento da identidade de Jesus (Lc 4:34, 41; 8:28) como meio de procurar demonstrar a autoridade que desejariam ter sobre Ele. Parece provável que Lucas atribuísse o conhecimento da jovem à clarividência dos endemoninhados. Noutras partes do Novo Testamen­ to, é igualmente difícil reconhecer as fronteiras claras entre a possessão demoníaca, a doença mental e a obra de charlatães. 18. O efeito da proclamação da jovem, que foi repetida no decurso de muitos dias, cada vez que se encontrava com Paulo, foi dar aos missio­ nários uma publicidade inesperada. Paulo não fez tentativa alguma para tratar do caso na primeira ocasião, por razões que não ficam claras. Tal­ vez, de início, os gritos da jovem não parecessem perigosos; na realidade, não havia sugestão alguma de que ela era hostil aos missionários. Mas logo fica sendo claro a Paulo de que ela estava no poder de um espirito maligno, e passou a exorcitar o espírito por meio do nome de Jesus. A história não nos conta se a jovem se converteu; o interesse de Lucas aqui se focalizava no efeito que o incidente teve sobre Paulo e seus companheiros. Conse­ qüentemente, não podemos tirar deste incidente conclusões acerca do problema do exorcismo na igreja dos nossos dias. O que ficou claro é que o exorcismo privou a jovem da sua capacidade de adivinhar ou da sua dis­ posição para assim fazer. 19. Não se diz se os senhores da jovem estavam com ela durante o exorcismo, mas o certo é que logo descobriram que não somente o espí­ rito deixara a jovem, como também a fonte de lucro deles (Lucas delibera­ damente emprega o mesmo verbo, para efeito humorístico, nos w . 18 e 19), e sabiam quem era o responsável por isto. Assim como aconteceu no caso posterior, em Éfeso (19:23-27), o efeito do evangelho era arruinar os negócios daqueles que tiravam lucro ou vantagem das superstições e dos vícios humanos. Assim, os donos da escrava, sem dúvida com a ajuda de amigos ou circunstantes, prontamente agiram na sua própria causa ao lan­ çarem mão de Paulo e Silas, arrastando-os para a praça central da cidade onde podiam apresentar acusações contra eles diante dos magistrados. Os demais membros do grupo (Timóteo e Lucas), não foram envolvidos na cena (o emprego de “nós” cessa no v. 17), ou porque eram de menos -254-


ATOS 16:19-22 importância que os missionários principais, ou apenas porque estavam nou­ tro lugar na ocasião. (Ou será que foram presos apenas os membros do gru­ po que eram judeus de pleno direito, conforme sugere Bruce, Livro, pág. 335?). A praça do mercado era o centro dos negócios da cidade; já foi es­ cavada pelos arqueólogos. 20-21. Os pretores se mencionam com o título geral de “autorida­ des” no v. 19, mas aqui recebem seu nome mais específico. O seu título especial era duoviri, conforme atestam as inscrições. A palavra grega que aqui se emprega, stratègoi, talvez seja a equivalência mais próxima que existe em Grego (Sherwin-White, págs. 92-93), mas também podia traduzir o título mais grandeloqiiente de praetores; comentaristas mais antigos su­ gerem que os magistrados tenham arrogado sobre si este título (assim co­ mo faziam em Cápua no século I. a.C.; Bruce, Livro, pág. 335), mas é im­ provável que este uso arcaico ainda estivesse corrente. É de significância que, quando os acusadores fazem a sua queixa, as considerações econô­ micas se colocam em segundo plano, e procuram-se outros pretextos. A queixa, na realidade, se divide em duas partes. A primeira é que Paulo e Silas estavam perturbando a ordem pública, o que era apoiado pelo co­ mentário de que eram judeus, a fim de tirar vantagem do sentimento antijudaico que não era incomum naquela época (ver 18:2, 12-17). A segunda parte da acusação era que Paulo e Silas estava propagando costumes antiromanos. Assim, o exorcismo foi colocado no contexto mais lato da ativi­ dade missionária. Vemos aqui a auto-consciência romana que se achava numa colônia. Os romanos eram oficialmente proibidos de praticar reli­ giões estrangeiras, embora pudessem, na prática, fazer assim na condição de não haver nada que ofendesse contra os costumes romanos. O princí­ pio era claramente flexível, e podia ser invocado conforme a necessidade. Durante o século I d.C. em diante, empregava-se quando os cultos estran­ geiros levavam a práticas criminosas; aqui, a queixa tem o som arcaico de que o respectivo culto era “não-romano”. Às vezes tem sido argumentado que os judeus eram banidos por proselitização, mas não parece que foi assim a situação (Sherwin-White, págs. 78-83). 22. A multidão que se reunira para testemunhar o processo tomou partido com os donos da jovem escrava; sem dúvida, foi influenciada pela linguagem emotiva das acusações. O passo seguinte, depois de particulares terem levantado queixa, era os magistrados prenderem os acusados e mantêlos em prisão preventiva até que o processo pudesse ser levado diânte do procônsul. Nesta ocasião, a detenção foi acompanhada pelos açoites dados aos prisioneiros. Primeiramente, foram despidos (mais uma vez, seguindo a praxe romana normal) e depois foram açoitados com varas pelos lictores -255 -


ATOS 16:22-26 que acompanhavam os magistrados (os oficiais de justiça, 16:35; carrega­ vam feixes de varas —fasces em Latim —como sinal da autoridade dos ma­ gistrados). Este foi, sem dúvida, um dos três casos de açoites aos quais Paulo se referiu no seu catálogo de sofrimentos apostólicos em 2 Coríntios 11:25. Esta fustigação não podia ser aplicada a cidadãos romanos, mas, por enquan­ to, os magistrados ignoravam a posição de Paulo. A aplicação dos açoites demonstra que os magistrados meramente tinham como certa a culpa dos missionários, e aproveitaram-se do sentimento anti-judaico da multidão para aplicar a justiça sumária; é possível que a sua intenção desde o princípio fosse meramente prender os prisioneiros por uma noite e depois expulsálos da cidade. 23-24. O espancamento foi severo, e foi seguido pelo aprisionamento. A ordem dada ao carcereiro que os guardasse com toda a segurança tem seu propósito dramático em preparar o leitor para a libertação milagrosa dos missionários: não importa quão seguramente os homens os tenham manieta­ do, Deus pode libertá-los. Num nível histórico, é possível que os magistra­ dos tenham temido que prisioneiros deste tipo, que já revelaram poderes sobrenaturais tão extraordinários, precisavam de ser guardados com espe­ cial cuidado. O carcereiro, portanto, os colocou na parte interior e mais segura da prisão, tomando a precaução adicional de firmar os seus pés no tronco de madeira. 25. Não havia sono para os missionários naquela noite, por causa da dor, e da sua posição desconfortável. No meio do seu sofrimento, no entan­ to, revelaram a sua confiança em Deus, bem como a sua alegria nEle, en­ quanto oravam e cantavam louvores a Deus. Aqui temos um retrato concre­ to de “gloriar-se no meio da tribulação” (Rm 5:3; Tg 1:2; 1 Pe 5:6) que é um ideal cristão. As orações proferidas podem ter sido simplesmente de lou­ vor a Deus; não há qualquer sugestão do que os prisioneiros oravam em prol da sua própria soltura, embora o fato de os demais prisioneiros estarem. ouvindo talvez vise transmitir a lição de que estes então considerariam a libertação milagrosa que se seguiu como resposta das orações que os missio­ nários dirigiram ao Deus deles. 26. Como resposta à alegre confissão pelos missionários, veio de re­ pente um terremoto181 que sacudiu o prédio do cárcere, fazendo com que as portas se abrissem, e soltando as cadeias que seguravam os prisioneiros. A fuga logo tornou-se possível, embora presumivelmente as cadeias soltas das paredes ainda estariam nos braços ou nas pernas dos prisioneiros. O fato 181

Os terremotos eram bastante comuns na área (BC, TV, pág. 197).

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ATOS 16:27-30 central desta história, porém, é que os prisioneiros não fizeram tentativa al­ guma para escapar. O milagre servia para um propósito diferente. 27. A atenção muda-se dos prisioneiros para o carcereiro, a quem o terremoto despertou do sono; vendo as portas abertas, tirou a conclusão de que os presos tivessem fugido, e estava para suicidar-se. As tentativas de providenciar uma explicação racional do seu comportamento talvez sejam vãs. Por que não olhou mais de perto, antes de mais nada, para ver o que acontecera? Embora enfrentasse o risco da pena capital se os pri­ sioneiros escapassem devido à sua negligência, por que teria temido o cas­ tigo quando a fuga deles se devia a uma calamidade natural? Este homem, porém, sabia dos poderes sobrenaturais de Paulo e Silas, e ficara fora de si diante do sobrenatural; não sabia o que fazia (cf. Mc 9:6 e o total terror das mulheres ao lado do túmulo de Jesus, Mc 16:8). 28. A voz de Paulo, bradando dentro da prisão, dizendo que todos os prisioneiros estavam em segurança, interrompeu a ação do carcereiro. Os comentaristas têm perguntado como Paulo sabia que ninguém escapara e que o carcereiro estava para se matar quando, conforme mostra v. 29, o próprio carcereiro precisou de uma luz para ver o que estava acontecendo. Trata-se de um exemplo da introspecção sobrenatural, ou o autor simplesmen­ te não teria pensado nos problemas da narrativa? É tão difícil, porém, enten­ der que Paulo podia escutar o que estava acontecendo em derredor, ou que havia luz suficiente no local para permitir uma visão um pouco inclara da­ quilo que se passava? Trata-se aqui, como tão freqüentemente ocorre, de uma história condensada, na qual a narrativa se limita aos fatos que têm significância para o propósito do autor, e não se preocupa em fornecer os detalhes que atraem o interesse de um historiador que deseja reconstruir a cena em cada pormenor. 29-30. O carcereiro chamou seus assistentes, pedindo tochas, e precipitou-se dentro do cárcere, onde se dirigiu diretamente a Paulo e Silas, aos quais considerou como sendo os responsáveis pelo evento inteiro, tão assustador. A pergunta dele, dirigida a eles, é surpreendente no seu contexto imediato, e somente pode ser entendida à luz da reputação que Paulo e Silas ganharam em Filipos por sua proclamação do “caminho da salvação” (v. 17). A confirmação sobrenatural dos mensageiros, e, por­ tanto, da sua mensagem, levou o carcereiro a dar-lhes a reverência devida a agentes divinos (v. 29) e a procurar a salvação que diziam oferecer. A per­ gunta dificilmente pode se referir a ser salvo do castigo aplicado por seus superiores por causa daquilo que acontecera na prisão, visto estarem em se­ gurança todos os prisioneiros; não temos aqui um caso de reinterpretação num nível espiritual (compare-se o modo de “água” ser entendida no ní-257-


ATOS 16:31-34 vel literal e espiritual em Jo 4:10-15, ou como “salvar” pode ser empregado nos Evangelhos para a cura física e espiritual, Lc 7:50; 8:48). Pelo contrá­ rio, o carcereiro é forçado pela confirmação sobrenatural da mensagem a re­ conhecer que deve vir a entender-se com o Deus proclamado por Paulo e Silas. 31. A resposta dos missionários é a declaração clássica de como al­ guém pode ser “salvo” , a saber: crendo no Senhor Jesus. Reflete a decla­ ração confissional cristã primitiva: “Jesus é Senhor” (Rm 10:9; 1 Co 12:3; Fp 2:11), mas ressalta especialmente a necessidade da confiança em Jesus e a entrega a Ele como Senhor (cf. 9:42; 11:17). Jesus é Salvador daqueles dos quais Ele é Senhor. Ao mesmo tempo, fica claro que o caminho da sal­ vação que se associa com “o Deus Altíssimo” (16:17) é mediante a crença em Jesus Cristo. Não somente isto, mas também a dádiva oferecida ao car­ cereiro também se oferece à totalidade da sua casa. O Novo Testamento leva a sério a união da família, e quando a salvação se oferece ao chefe de um lar, toma-se logicamente disponível ao restante do grupo familiar (inclusive de­ pendentes e servos) também (cf. 16:15). A oferta, porém, segue as mesmas condições: devem ouvir a Palavrá também (16:32), crer e ser batizados; a fé do próprio carcereiro não dá cobertura a todos eles. 32. Tudo isto, no entanto, exigia explicações mais completas do que se poderia oferecer numa fórmula resumida, então, imediatamente, o carce­ reiro e a sua família receberam instrução cristã. A urgência do evangelho tomou a primazia sobre as considerações do conforto dos prisioneiros. Po­ demos notar de passagem que não basta apenas mostrar às pessoas textosprovas do evangelho; normalmente, há necessidade de instrução cuidadosa adaptada à sua situação específica, e de cuidados pessoais e pastorais para a evangelização ter sucesso e efeitos duradouros (1 Ts 2:7-8). 33-34. O efeito da mudança do coração do carcereiro foi visto, em primeiro lugar, no seu cuidado com os misteres físicos dos missionários; fez tudo quanto podia para aliviar os efeitos dos açoites que receberam no dia anterior (cf. Mt 25:36; Hb 10:34). Depois disto, tanto ele quanto a sua fa­ mília foram batizados sem demora na própria prisão. Nota-se que, embora Paulo e Silas colocaram a pregação do evangelho antes da sua comodidade pessoal, o carcereiro cuidou deles antes de ser batizado. O cuidado que o carcereiro teve com seus prisioneiros foi ressaltado ainda mais quando os le­ vou para a sua casa onde supriu suas necessidades com uma refeição que era, ao mesmo tempo, uma expressão de comunhão cristã e da sua alegria por ' causa da sua conversão e a dos seus familiares. A refeição talvez tenha incluído a celebração da Ceia do Senhor, mas Lucas não nos informa especi­ ficamente quanto a isto. Depois disto, segundo se supõe, os missionários -258-


ATOS 16:35-39 deviam voltar ao seu lugar na prisão. Os òutros prisioneiros, do mesmo modo, devem ter sido colocados em cadeias novamente; mas Lucas silen­ cia acerca destes pormenores (embora algum escriba antigo tenha acres­ centado um comentário neste sentido no texto ocidental de v. 90). 35. Quando chegou o dia, os pretores enviaram oficiais de justiça, os lictores, para a prisão, para autorizar a soltura dos prisioneiros. Sem dúvi­ da, consideraram os açoites mais uma noite na prisão como exercício suficiente da sua autoridade no caso dos perturbadores da ordem; se os ti­ vessem enviado a um tribunal superior por uma transgressão tão trivial, tomar-se-iam ridículos. 36. A notícia da ordem da soltura foi dada ao carcereiro que, por sua vez, a comunicou aos prisioneiros dentro da prisão. Foi o próprio car­ cereiro que convidou os missionários a sair em paz retomando a forma judaica de saudação que ficou sendo parte do uso cristão (Lc 8:48). 37. Para Paulo e Silas, partir desta maneira, porém, poderia ter for­ mado um precedente perigoso para o tratamento futuro de missionários, e também poderia ter deixado os cristãos em Filipos expostos a tratamento arbitrário dos magistrados. Os magistrados tinham cometido um erro. Não somente açoitaram os missionários e lançaram-nos no cárcere sem averiguar devidamente as acusações contra eles, como também não levaram em consi­ deração que pudessem ser cidadãos romanos. Havia expressa isenção para os cidadãos romanos de serem açoitados, embora pouca coisa poderia impedir um magistrado local de ir além da sua autoridade, quando estava longe de supervisão. Parece que, no dia anterior, nenhuma oportunidade fora da­ da a Paulo para protestar a sua cidadania romana. Num caso famoso, mais antigo, um cidadão romano foi açoitado por ordem de Verres, o mal-afamado governador da Sicília, ainda enquanto clamava “Civis Romanus sum”. Semelhante injustiça não poderia ser deixada assim. Paulo exigiu um pedido público de desculpas: os magistrados que ordenaram o aprisionamento deveriam cancelá-lo. 3840. As notícias trazidas pelos lictores deixaram os magistrados nu­ ma situação embaraçosa, pois estariam sujeitos a castigo se um relato do acontecido chegasse a uma autoridade superior. Assim, ürararam o melhor partido de uma péssima situação, vindo pessoalmente para conciliar os missionários (lhes pediram desculpas talvez seja uma tradução forte demais). Mesmo assim, ainda rogaram que se retirassem da cidade, talvez porque te­ messem mais distúrbios; afinal das contas, tinham para temer não somente a reação dos missionários, diante do seu castigo ilegal, como também a conti­ nuada atitude de pessoas locais, tais quais os donos da jovem escrava, que talvez criassem novas perturbações da ordem por causa daqueles. Não fica -

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ATOS 16:40-17:1 claro se os magistrados tinham o direito legal de expulsar os missionários, mas certamente tinham a capacidade de assim fazer. (Sherwin-White, págs. 77-8). A história se completa com a soltura dos missionários, sua visita final a Lídia e aos demais mebros da nova igreja, e a sua partida. Supõe-se que Lucas tenha continuado ali (ver 20:5-6).

e. Tessalôriica e Beréia (17:1-15). De Filipos, Paulo foi diretamente à capital da Macedônia, Tessalônica, onde teve uma missão bem sucedida na sinagoga judaica, ganhando con­ vertidos entre os judeus e os aderentes gentios. Qando surgiram problemas, desta vez, vieram da inveja dos judeus, no que dizia respeito ao sucesso de Paulo entre os gentios. Não conseguindo colocar suas mãos em Paulo, levaram seus amigos diante das autoridades da cidade e os acusaram de trai­ ção. Os magistrados trataram do assunto ao tomar fian��a deles no sentido de manterem a paz, e os cristãos, em vista disto, enviaram Paulo e Silas para a cidade vizinha de Beréia. Aqui, em nada desanimados, voltaram a fazer campanhas nas sinagogas com resultados encorajadores do mesmo tipo, até que uma delegação de judeus de Tessalônica veio incitar as multidões contra os cristãos. Mais uma vez, foi julgada conveniente a partida de Pau­ lo, e ele viajou para Atenas. A narrativa não apresenta problema histórico insuperável algum, embora precisemos acrescentar a evidência de 1 Tessalonicenses para ter­ mos um quadro completo dos eventos. Haenchen (pág. 513) alega que 1 Tessalonicenses não sugere que os judeus causaram problemas para Pauló em Tessalônica; estes surgiram, conforme ele sustenta, de um movimen­ to anti-cristão. dentre os gentios: “porque também padecestes da parte dos vossos patrícios, as mesmas coisas que eles por sua vez sofreram dos judeus” (1 Ts 2:14 —eles se refere aos crentes da Judéia). Contra este pon­ to de vista, deve ser insistido que 1 Tessalonicenses 2:15-16 se refere às experiências de Paulo às mãos dos judeus, sem dúvida com referência àqui­ lo que, segundo seus leitores sabiam, lhe ocorreu em Tessalônica; v. 14, então, seria uma referência aos oponentes gentios e judeus à igreja, que existiam na cidade. 1. A grande estrada romana, a Via Egnatia, começava em Neápolis, e passava por Filipos, Anfipolis (16:12, nota), Apolônia e Tessalônica, e depois passava para o oeste, atravessando a Macedônia até a praia do Mar Adriático em Dirraquio, de onde os viajantes podiam atravessar o mar para a Itália. As campanhas missionárias de Paulo foram muito facilitadas -260-


ATOS 17:1-3 onde havia boas estradas, as “rodovias expressas” do mundo antigo, para ajudar seu progresso. Os missionários viajaram 53 km para Anfípolis, 43 km para Apolônia e então, 56 km para Tessalônica; se cada uma destas distân­ cias representa a viagem de um só dia, os viajantes devem ter montado ca­ valos (ver 21:15), mas pode ser que Lucas meramente esteja mencionando as cidades principais por onde passaram. Se houve trabalho missionário nestas cidades, Lucas não o menciona; é possível que não possuíssem sina­ gogas (não há sinal delas), ou, possivelmente, a preocupação de Paulo era chegar à cidade principal da província para trabalhar ali. Tessalônica, como Filipos, era uma cidade antiga que recebera nova vida na era helenística. Os romanos fizeram dela uma cidade livre em 42 a.C., e ela tinha os direi­ tos apropriados de governo-próprio nos padrões gregos mais que romanos (Sherwin-White, págs. 95-98). Tinha uma população judaica, provavelmente mais do que suficiente para estabelecer uma sinagoga. As evidências arqueo­ lógicas recentes indicam que, mais tarde, havia uma sinagoga samaritana na cidade. 2. A visita costumeira de Paulo à sinagoga de uma cidade estranha (13:4-12, nota), não era meramente para participar da adoração, mas, sim, para evangelizar aqueles que vinham aos cultos, (cf. Lc 4:16). Continuou esta atividade em Tessalônica durante três sábados. A totalidade da sua per­ manência na cidade, porém, pode ter sido mais prolongada, pois sabemos que recebeu pelo menos uma oferta de Filipos (Fp 4:16)182 e que teve de trabalhar para se sustentar (1 Ts 2:9). 3. Lucas não tem qualquer história vívida dalguma conversão a contar, tirada da visita de Paulo em Tessalônica, e já indicou extensamente o tipo de discurso que Paulo proferiria no ambiente de uma sinagoga (13:16 e segs.). Restringe-se aqui, portanto, a um resumo geral da evangelização feita por Paulo. Baseava-se nas Escrituras, a autoridade em comum aceita pelos judeus e pelos cristãos, e levava-se a efeito mediante argumentos. Abria o significado das Escrituras (Lc 24:32), e trazia as declarações delas como evidências em prol do seu argumento. Provavelmente deixava os judeus atônitos ao declarar que era necessário que o Messias padecesse (i.é, morresse, 1:3, nota) e depois ressurgisse dentre os mortos, e, então Paulo argumentava que, visto que Jesus cumpriu estas condições, era Ele o Messias. A necessidade achava-se na vontade de Deus, aceita por Jesus

l8 2 Para a tradução correta deste versículo (traduzido erroneamente na maioria das versões recentes, excetuando-se JB) ver R. P. Martin Philippians (Tyndale N ew Tes­ tam ent Commentaries, Londres, 1959), págs. 18Ó-1.

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ATOS 17:3-5 (Lc 9:22) e revelada nas Escrituras (Lc 24:26-27). Visto que Paulo faz essencialmente as mesmas declarações acerca do Messias em 1 Coríntios 15:3-5, passagem esta que se baseia na tradição cristã primitiva, fica claro que não estava publicando uma linha de pensamento inventada por ele, mas simplesmente repetia aquilo que era ensinamento cristão comumente aceito. Podemos ter razoável certeza de que as Escrituras empregadas in­ cluiriam Salmos 2, 16, 110; Isaías cap. 53; e possivelmente Dt 21:23 (ver 26:23, nota). 4. A pregação de Paulo foi eficaz. Seus convertidos incluíam alguns dos judeus juntamente com um número considerável dos aderentes gentios da sinagoga, bem como mulheres. Estas são descritas como distintas mulhe­ res, o que talvez queira dizer que pertenciam à classe superior da cidade, alternativamente, podem ser as “esposas dos homens principais”, sentido este que fica explícito nalguns MSS antigos. De qualquer destes modos, o fato não seria surpreendente, pois sabemos que mulheres judaicas se achavam na alta sociedade, e até a amante e esposa de Nero, Popéia, era reputada por suas simpatias judaicas (Jos.,^4ní.. 20:195). Quando Haenchen (pág. 507) comenta que é estranho que estas mulheres influenciais não puderam evitar a perseguição dos cristãos aqui ou na Beréia, parece que se esquece de que a perseguição foi causada pelos judeus (com os quais, se­ gundo se supõe, as mulheres tinham pouca influência) e não pelas autori­ dades da cidade. Lucas nos informa que os convertidos ficaram unidos a Paulo e Silas, i.é, provavelmente que formavam um grupo separado que se reunia fora da sinagoga, na casa de Jasom, segundo parece (17:5). 5. O sucesso de Paulo em atrair os gentios despertou a inveja dos judeus. Os gentios seriam convertidos em potencial para o judaísmo, mas Paulo revelara-se mais eficaz do que a sinagoga em persuadi-los a dar o passo da dedicação completa. Muitos gentios que foram atraídos pelos aspectos mais espirituais do judaísmo não queriam chegar a circuncisão, e se conten­ taram em constar como tementes a Deus. Assim, os judeus resolveram tomar medidas. Parece que havia dois cursos de ação disponíveis para eles. Visto ser Tessalônica uma cidade livre, tinha uma assembléia popular (descrita neste versículo como o povo, Gr. dêmos) diante da qual podiam ser levadas acusações. Os judeus procuraram levar Paulo e Silas diante desta assembléia. Fizeram-no com a ajuda que obtiveram de um grupo de desocupados que se dispunham a fazer um alvoroço; desta maneira, os judeus podiam obter, incidentalmente, algumas evidências em prol de uma acusação de que os mis­ sionários eram perturbadores da paz, preparando, assim, um processo mais persuasivo diante da assembléia. A turba da malandragem se reuniu ao re­ dor da casa de Jasom, onde esperavam achar a Paulo. Jasom era, decerto, -262 -


ATOS 17.-6-7 o hospedeiro de Paulo; Haenchen (pág. 512) faz a sugestão atraente de que, no começo, ofereceu aos missionários trabalho e abrigo, e depois foi conver­ tido através dos seus contatos com eles. Não sabemos se era judeu ou gentio; se for o primeiro, seu nome judaico pode ter sido Josué, com o nome Jasom para o emprego num ambiente grego, tendo um som algo semelhante (cf. Jos.,^4ní. 12:239). 6. O plano dos judeus falhou, porém, pois os missionários não esta­ vam em casa. Na sua frustração, a turba lançou mão das pessoas que conse­ guiram achar na casa, o próprio Jasom e alguns dos cristãos (descritos, aqui, do ponto de vista do autor, como “irmãos”). Ao invés de levá-los diante da assembléia, porém, agora escolheram o outro curso de ação, e os ar­ rastaram diante dos magistrados. Estes homens tinham o título de “politarcos” , uma designação incomum empregada para oficiais não-romanos das cidades da Macedônia; a exatidão da terminologia aqui empregada foi confirmada pelas inscrições. Não fica clara a razão para a mudança de ação, mas possivelmente lhes parecia mais apropriado acusar cidadãos tessalonicenses diante dos magistrados, ou talvez temessem que a assembléia da ci­ dade se simpatizaria mais com os próprios concidadãos. A acusação que le­ vantaram foi que as pessoas que tinham causado distúrbios pelo mundo inteiro agora chegaram na sua cidade. A linguagem é, naturalmente, muito exagerada, mas sugere, pelo menos, que notícias dos distúrbios em Filipos já chegaram até a Tessalônica, e possivelmente, também, alguma coisa já era sabida acerca das viagens anteriores dos missionários, a partir da Pales­ tina e atravessando a Ásia Menor. Têm transtornado o mundo não é bem o sentido, muito embora queiramos pensar que este deve ser o efeito do evan­ gelho; “têm causado problemas em todo lugar” (GNB) é o sentido exato. 7. Agora chegamos ao âmago da acusação. Jasom está dando gua­ rida aos missionários e simpatizando com eles; está implicado na acusação geral de que procedem contra os decretos de César ao proclamarem outro rei, i. é, imperador, a saber: Jesus. Esta foi uma descrição apropriada do conteúdo positivo do evangelho, com sua proclamação de que Jesus é Se­ nhor (cf. 16:31); indica como o enfoque mudou-se muito naturalmente da proclamação do “reino” no ministério de Jesus para a proclamação de “rei” na evangelização da igreja primitiva. A proclamação cristã pode­ ria facilmente ser entendida como ataque contra o imperador (a despeito de 1 Pe 2:17), especialmente quando as reivindicações de Cristo foram enca­ radas como sendo incompatíveis com as do imperador. O que não fica tão clara é a referência aos decretos de César neste contexto. Sherwin-White (págs. 51, 96, 103) observa que os decretos de Cláudio diziam respeito aos -263 -


ATOS 17:7-11 judeus que eram “fomentadores daquilo que é uma praga geral que infeccio­ na a totalidade do mundo” .18 3 Esta não é bem a mesma coisa que denun­ ciar traição contra o imperador, e, portanto, tira a conclusão de que o rela­ to de Lucas é confuso. É possível, no entanto, que a resposta tenha sido des­ coberta por E. A. Judge, que argumenta que a pregação de Paulo pode ter sido interpretada como profecia de uma mudança de imperador. Havia de­ cretos imperiais contra tais predições. Os juramentos de lealdade a César po­ diam ser considerados como exigências dos seus decretos, e estes seriam im­ postos pelos magistrados locais.184 8-9. Segundo este ponto de vista, a multidão local, bem como os magistrados, poderiam muito bem ficar agitados pela acusação, embora estes últimos, como oficiais de uma cidade livre, talvez não se dispusessem a levar muito a sério o caso: que os próprios romanos tratassem de tais as­ suntos! Assim, os magistrados se restringiram a receber fiança de Jasom, i.é, um compromisso de que não hospedaria mais a Paulo, responsabilizando-se pela sua partida da cidade sem voltar mais. A frase é um latinismo, e o processo adotado é atestado em documentos contemporâneos. 10. Temendo, segundo se supõe, mais violências da turba, os cristãos mandaram Paulo e Silas embora, secretamente durante a noite-, não se men­ ciona Timóteo que reaparece na história em 17:14. Os missionários foram para Beréia (moderna Verria), cerca de 72 km ao oeste-sudoeste de Tessalô­ nica.185 É possível que Paulo não foi mais longe porque esperava que pudesse voltar dentro em breve para Tessalônica; como registrou mais tarde, porém, “Satanás nos barrou o caminho” (1 Ts 2:18). O tempo, no entanto, não foi gasto em descanso ou espera desocupada. Além disto, Paulo não fi­ cou desanimado com suas experiências recentes. Dirigiu-se diretamente à sinagoga para começar a evangelização. 11-12. O relato da recepção de Paulo em Beréia é a descrição clássi­ ca de uma resposta mais bem-disposta e de mente aberta (mais nobre) da parte dos judeus, para com o evangelho. Estavam zelosos para ouvir aquilo que Paulo tinha a dizer, e, desta forma, se encontravam com ele todos os dias (e não meramente aos sábados). Além disto, nem aceitavam sem pen18 3

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Carta de Claudio ao povo de Alexandria (Barrett, Background, N. 45).

184

E. A. Judge, “The Decrees of Caesar at Thessalonica” , R eform ed Theologi­ cal Review 30,1971, págs. 1-7.

185 Os

comentaristas ficam curiosamente confusos quanto à sua localização, sendo que alguns mencionam uma distância de 56 km, ou até declaram que estava di­ retamente ao sul de Tessalônica e se situava na Via Egnácia. -

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ATOS 17:13-16 sarnento e exame crítico aquilo que dizia, mas, sim, eles mesmos examina­ vam as Escrituras para averiguarem se era sólido o argumento que Paulo delas derivava (como em 17:2-3). Não se tratava aqui de uma resposta me­ ramente emocional ao evangelho, mas, sim, de uma que se baseava na convição intelectual. O resultado foi que um número considerável creu, tanto judeus como gregos, inclusive mulheres de alta posição; a ordem das palavras sugere que as mulheres se destacavam de modo especial no novo grupo cris­ tão. 13. Até mesmo entre os judeus que permaneceram sem se deixar per­ suadir, não parece ter havido qualquer hostilidade contra os missionários. Os problemas começaram somente depois de os judeus de Tessalônica des­ cobrirem que Paulo estava ali, e criarem caso por meio de excitar e pertur­ bar o povo da mesma maneira que já fizeram antes. Sherwin-White (págs. 97-98) observa que o processo jurídico contra os missionários em Tessalô­ nica não teria validade noutros lugares, e não havia policiamento generali­ zado na província para seguir malfeitores de uma cidade para outra. Como conseqüência, o único recurso que restava parà os judeus era repetir os seus esforços anteriores. 14-15. Os cristãos resolveram que seria melhor para Paulo, que ob­ viamente era o alvo do ataque, partir, e o levaram para o litoral, de onde, juntamente com alguns companheiros de Beréia, tomou um navio para h ie ­ nas. 18 6 Silas e Timóteo tinham ficado para trás, mas Paulo lhes enviou ins­ truções para irem até ele. Embora Atos não mencione expressamente o fa­ to, cumpriram suas instruções e juntaram-se a ele em Atenas, de onde os enviou de volta à Macedônia (provavelmente a Filipos e Tessalônica respec­ tivamente), e depois ficaram com ele outra vez quando ele chegou em Co­ rinto (18:5; 1 Ts 3:1-6). f. Atenas: o discurso no Areópago (17:16-34). O discurso de Paulo em Atenas tem sido considerado, às vezes, o ponto alto na sua carreira missionária aos olhos de Lucas. É mais provável que devamos ver nesta cena simplesmente a representação feita por Lucas do encontro de Paulo com o paganismo culto. Oferece-nos o tipo de abor­ dagem que Paulo adotava com o pagão educado, mas ao mesmo tempo te186É este o significado do texto grego, conforme é traduzido em ARA. Alguns MSS têm: “como se fosse para os lados do m ai” em v. 14, o que sugere que os amigos de Paulo ocultassem a sua intenção de deixá-lo partir por terra.

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ATOS 17:16 ve que reconhecer que o evangelho era “loucura para os gregos” (cf. 1 Co 1:22-24) ou pelo menos para a maioria deles. O quadro da cidade pintado por Lucas impressiona muitos estudiosos diferentemente ou como sendo notavelmente fiel à situação real, ou como brilhante produto literário. Havia, de fato, uma mistura de idolatria supersti­ ciosa e de filosofia esclarecida em Atenas. Muitas vezes se tem pensado que o discurso de Paulo, feito diante dos filósofos, era um pouco irrelevante para com as preocupações deles, pois era mais dirigido contra a idolatria popular. Na realidade, porém, teria sido muito relevante para os epicureanos, que achavam que era desnecessário buscar a Deus e não tinham medo do Seu julgamento, e para os estóicos, cujo conceito de Deus era panteístico. Paulo, na realidade, faz uso do discernimento dos filósofos no seu ata­ que contra as crenças do populacho ateniense, os epicureanos atacavam a crença supersticiosa e irracional nos deuses, expressada na idolatria, ao pas­ so que os estóicos ressaltavam a unidade da humanidade e o seu relaciona­ mento com Deus, juntamente com o conseqüente dever moral do homem. O que Paulo fez foi tomar o lado dos filósofos, para então demonstrar que não foram suficientemente longe.18 7 O discurso pode ser dividido de várias maneiras. Depois de uma intro­ dução que visava atrair a atenção do auditório e declarar o tema (w. 22-23), a porção principal se divide em três partes: (1) Deus é senhor do mundo; não precisa de templo nem de ritual cúltico humano (w. 24-25); (2) o homem é a criação de Deus; precisa de Deus (w. 26-27); (3) há relacionamento entre Deus e o homem; a idolatria, portanto, é estultície (w. 28-29). Segue-se uma conclusão, que conclama os homens a abandonarem suas idéias ignoran­ tes de Deus e a se arrependerem (w. 30-31; Dibelius, pág. 27).188 16. Embora Atenas anteriormente tivesse sido o centro intelectual do mundo antigo, agora estava num período de declínio. Era uma cidade livre, e tinha uma universidade, mas tendia a viver segundo a sua reputação. Quando Paulo chegou ali, não ficou tão impressionado pela cultura quanto ficou irritado com as evidências da idolatria. “Viu-se confrontado por uma verdadeira floresta de imagens”, com vastos números de imagens de Hermes 18 7

C. K. Barrett, “Paul’s Speech on the Areopagus”, em M. E. Glaswell e E. W. Faholé-Luke, N ew Testament Christianity fo r Africa and the World (Londres, 1974), págs. 69-77.

188Ver

especialmente Dibelius, 26-83; N. B. Stonehouse, Paul before the Areopagus (Londres, 1957), págs. 1-40; B. Gartner, The Areopagus Speech and Natural Revelation (Uppsala/Lund, 1955); W. Nauck, “Die Tradition und Komposition der Areopagrede” , Z T K 53, 1956, págs. 11-52; Wilson, págs. 196-218; F. F. Bruce, Paul: Apostle o f the Free Spirit, (Exeter, 1977), págs. 236-247.

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ATOS 17:17-18 em toda parte da cidade, e especialmente na entrada da agora (ARC praça), através da qual provavelmente andou.189 17. Paulo dirigiu a sua atenção, em primeiro lugar, conforme era seu costume, aos judeus e “tementes a Deus” (10:2, nota) com os quais se en­ contrava na sinagoga. Além disto, falava com qualquer pessoa que achava na praça do mercado. Não é incomum para Lucas retratar Paulo indo dire­ tamente aos pagãos (cf. 14:8), e não há razão para seguir a Conzelmann (pág. 96) em supor que o versículo representa um padrão lucano fictício (“primeiro ao judeu”) ao invés de ser proveniente de um relato histórico. A descrição relembra a atividade de Sócrates, que argumentava com qual­ quer pessoa que se dispunha a ouvi-lo, embora, para Lucas, “argumentar” significa “pregar” e não tanto “debater” (20:7, 9). 18. Os ouvintes de Paulo incluíam aderentes das filosofias epicureanas e estóicas. Os primeiros, que tomavam seu nome do seu fundador Epicuro (341-270 a.C.), tendiam a um ponto de vista materialístico. Para eles, ou os deuses não existiam, ou eram tão removidos do mundo que não exerciam influência alguma nos seus negócios. Ensinavam uma teoria atô­ mica rudimentar, e, na sua ética, ressaltavam a importância do prazer e da tranqüilidade. Muitas vezes têm sido falsamente representados como sendo sensualistas nos seus conceitos, mas, na realidade, tinham um conceito no­ bre do “prazer” e desprezavam o sensualismo. Os estóicos, fundados por Zenão (340-265 a.C.), adotaram o nome das stoa ou colunatas onde ele ensinava. Ressaltavam a importância da Razão como o princípio inerente da estruturação do universo, e mediante o qual os homens devem viver. Tinham um conceito panteístico de Deus como al­ ma do mundo, e a sua ética ressaltava a auto-suficiência individual e a obe­ diência aos ditames do dever. A impressão inicial que tiveram de Paulo não era favorável. Desfizeram dele, com desprezo, como sendo um tagarela, a palavra se refere a um pás­ saro que recolhe restos de comida dos esgotos, e, daí, veio a descrever deso­ cupados sem valor (o tipo de pessoa que hoje em dia colheria das calçadas pontas de cigarros para fumar), e também para aludir-se a pessoas que adqui­ riram meros fragmentos de conhecimento. Parece haver um eco deliberado da tradição acerca de Sócrates quando se diz que Paulo proclamava estra­ nhos deuses. As respectivas divindades eram Jesus e a Ressurreição, sendo possível que esta última fosse entendida como nome de uma deusa, embora uma rejeição com© desprezo da idéia da ressurreição, conforme Paulo a en1 ft O

R. E. Wycherley, “St Paul at Athens” , JTS 19, 1968, págs. 619-621.

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ATOS 17:19-21 sinava, seja uma interpretação igualmente provável. 19. Paulo foi levado para o Areópago a fim de descobrir-se exatamen­ te o que ensinava. Na Atenas antiga, havia um concilio que se reunia no Areópago,190 uma colina que dava vista para a agora, que antes tinha funções jurídicas importantes. No século I, ainda mantinha a sua importân­ cia como supremo tribunal de Atenas.191 O lugar das reuniões ou era na colina ou na Stoa Basileios, cuja localidade ficava a noroeste da agora.19 2 Os comentaristas não têm certeza se Lucas quis descrever: (1) uma reunião do tribunal para “testar” os ensinos de Paulo, seja formal ou informalmen­ te — e, se for assim, se o tribunal se reunia na colina ou na Stoa Basi­ leios;193 ou (2) uma reunião não oficial de atenienses em geral, na colina do Areópago.194 A favor do conceito (2) há os fatos de que o discurso de Paulo não parece ser uma defesa diante de um tribunal, e que não há indício de um processo jurídico. É falso o argumento que diz que a colina não tinha tamanho suficiente para ali ficar um grupo grande de pessoas. A referência a Dionísio, o areopagita (v. 34), no entanto, sugere que Lucas quis descrever uma reunião do tribunal, sem dúvida na forma de uma ses­ são pública e não necessariamente tomando a forma de um processo jurí­ dico. 20-21. A ocasião deu a Paulo uma oportunidade para declarar as suas convicções. Seu auditório reconhecia que estava ensinando coisas novas que nunca ouviram antes, e queriam saber o significado de tudo isto. Num raro aparte, Lucas conta que os próprios atenienses bem como os visitantes à cidade eram movidos por mera curiosidade para ouvir novidades, e que nada de melhor tinham para fazer senão a excitação intelectual. Lucas dá a entender que não se preocupavam muito com a veracidade daquilo que ou­ viram; seu tom é distintamente sarcástico.

190Gr. Areios Pagos, literalmente a “Colina de Ares”. Visto ser Ares, o deus de guerra dos gregos, considerado equivalente do deus romano Marte, também se acha o nome alternativo de “Colina de Marte”. 191T. D. Barnes, “An Apostle on Trial” , JTS 20, 1969, págs. 407-419. 192C. J. Hemer, “Paul at Athens: A Topographical N ote” , N T S 20, 1973-74, págs. 341-350. 1930 primeiro ponto de vista é defendido por Barnes, o último por Hemer. 194Dibelius, págs. 67-69; Haenchen, págs. 518-9; W. G. Morrice, “Where did Paul speak in Athens?”, E T 83,1971-72, págs. 377-8.

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ATOS 17:22-23 22. Paulo começa, elogiando os atenienses por serem acentuadamente religiosos. Esta palavra podia ser usada no sentido positivo ou de modo derrogatório. É mais provável que Paulo a usasse no bom sentido, para ter um meio de começar seu discurso de modo que atraísse a atenção do audi­ tório.195 Mesmo assim, Lucas emprega o subs. correspondente em sentido levemente derrogatório em 25:19, e é provável que tenha desejado que seus leitores percebessem a ironia da situação (cf. v. 16). Apesar de toda a sua religiosidade, os atenienses eram, na realidade, completamente supersticio­ sos, e faltava-lhes o conhecimento do Deus verdadeiro. 23. Como prova da sua declaração, Paulo relata como estava obser­ vando os vários objetos de culto na cidade; mais uma vez, a expressão podia ser entendida de modo positivo pelos ouvintes, mas, para os leitores judai­ cos, pelo menos, teria um matiz derrogatório ( “ídolos” ; Sabedoria 14:20; 15:17). Um destes ocupara especialmente a atenção de Paulo: um altar ao lado do caminho, com uma inscrição: ao deus desconhecido.. Com boa dis­ posição, lançou mão desta descrição como meio de introduzir sua própria proclamação do Deus desconhecido. Não havia, na realidade, qualquer conexão real entre um “deus desconhecido” e o Deus verdadeiro; Paulo di­ ficilmente quis dizer que seus ouvintes eram adoradores inconscientes do Deus verdadeiro que, em última análise, era responsável pelos fenômenos que atribuíam a um Deus desconhecido. Qual era esta inscrição, no entanto? O viajante grego, Pausânia (cf. 150 d.C.) nos informa que havia, perto de Atenas, “altares de deuses com nomes e também de deuses desconhecidos” , e outros escritores falam de altares a deuses sem nome ou desconhecidos. Mais tarde, porém, Tertuliano e Jerônimo testificam de altares “a deuses desconhecidos” , e este último assevera que Paulo deliberadamente alterou a expressão para vir a encontro com seu propósito. Alguns destes casos tal­ vez tenham sido quando altares eram colocados sobre sepulturas que foram perturbadas, a fim de aplacar quaisquer deuses ou semi-deuses que pudes­ sem vingar-se da profanação. Com base nestas evidências, alguns estudiosos categoricamente negam que pudesse ter havido um altar “ao deus desconhe­ cido”. Semelhante negação tira conclusões em demasia. Bruce {Livro, pág. 356), comenta com razão que “se houvesse dois ou mais altares, com a ins­ crição “AO DEUS DESCONHECIDO”, estes poderiam muito bem ser refe­ ridos como sendo “altares a deuses desconhecidos”. Esta possibilidade cer­ tamente existe, embora escritores posteriores não pudessem achar precisa­ mente o altar ao qual Paulo se referira; de qualquer fornia, poderia ter desa­ 195

K. Grayston, Theology as Exploration (Londres, 1966), págs. 3-6.

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ATOS 17:24-26 parecido no século seguinte. 24. A proclamação de Paulo diz respeito ao Deus que fez o universo e tudo quanto ele contém, e que é, portanto, Senhor do céu e da terra. Sua linguagem1baseia-se na descrição de Deus dada no Antigo Testamento (e.g. Is 42:5; Êx 20:11), mas aquilo que disse também seria aceito pelo filósofo grego, Platão. O Antigo Testamento não emprega a palavra mundo gr. kosmos), visto não haver qualquer termo corespondente em hebraico; pelo contrário, fala “do céu e da terra” ou “de tudo” (Jr 10:16). A palavra, no entanto, se empregava no judaísmo de fala grega (Sabedoria 9:9; 11:17; 2 Mac. 7:23), e não é surpreendente achá-la aqui (cf. Rm 1:20); Paulo emprega a linguagem que, segando esperaríamos, um judeu empregaria ao falar grego diante de pagãos. O Deus que é Criador e Senhor claramente não habita num templo feito por mãos humanas (cf. 7:48; Mc 14:58; a fra­ se se empregava de ídolos feitos pelos homens em contraste com o Deus vi­ vo, Lv 26:1; Is 46:6). Há, talvez, um eco da oração de Salomão na dedicação do templo, quando reconheceu que era inadequado como casa de Deus (1 Rs 8:27). Mais uma vez, trata-se de um sentimento que seria aceito pela filosofia estóica. 25. Semelhante Deus não precisa de homens para suprir-lhe alguma coisa; pelo contrário, é Ele que é a fonte e origem da vida. A estultícia'de cuidar dos deuses já fora indicada no Antigo Testamento (Is 46:1; Jr 10:5) e.pelos judeus na sua polêmica contra a idolatria pagã (Carta de Jeremias < 25), mas, mais uma vez, este discernimento foi compartilhado por pagãos educados, e podem-se citar numerosos exemplos deste sentimento (Dibelius, págs. 4244). A descrição de Deus como origem da respiração é tirada de Isaías 42:5 (cf. Gn 2:7), mas Paulo tirou da terminologia corrente o trí­ plice conceito de vida, respiração e tudo mais. Visto que a palavra para “vi­ da” (zôe) popularmente se associava com “Zeus”, o nome do deus supre­ mo dos gregos, é possível que Paulo dissesse, indiretamente, “Não é Zeus, mas, sim, Javé que é fonte da vida”. Dibelius (págs. 42-46) e Haenchen (pág. 522), argumentaram com insistência que aqui o pensamento é total­ mente helenístico e não se baseia no Antigo Testamento. O pensamento, no entanto, certamente estava presente no judaísmo de língua grega (2 Mac. 14:35; 3 Mac. 2:9), e tem suas raízes em Salmo 50:7-15; se a linguagem e o pensamento representam um desenvolvimento do Antigo Testamento e o emprego da terminologia grega, é difícil perceber como este fato toma a declaração estranha ao espírito do Antigo Testamento. 26. Paulo, de descrever a Deus, volta-se para o modo de Ele ter cria­ do a humanidade. Fez se refere ao ato da criação, como no v. 24. De um só, portanto, significará “de Adão”, como ancestral da humanidade. Deba-270-


ATOS 17:26-28 te-se quanto à tradução certa: “cada nação dos homens” ou toda a raça humana. Dibelius (págs. 27-37) argumenta que a primeira destas traduções daria um conceito bíblico da história das nações individuais tendo sua ori­ gem em Adão, enquanto a última (que ele adota) dá um conceito helenístico da “humanidade . . . vista cosmopolitivamente como soma total dos ha­ bitantes da terra” . Stahlin (pág. 234), no entanto, observa que esta última idéia é bíblica, e que o Novo Testamento se ocupa mais com a sorte dos homens de modo global do que com as nações individuais. O debate con­ tinua na tradução da frase seguinte. Os tempos previamente estabelecidos para a humanidade significam os períodos alocados por Deus para as na­ ções individuais prosperarem (Dt 32:8; Dn 2:3645; Lc 21:24) ou as esta­ ções do ano (como em 14:17). E os limites da sua habitação se referem às fronteiras nacionais (cf. Dt. 32:8); ou aos limites naturias que Deus esta­ beleceu entre a terra e o mar ameaçador (SI 104:5-9; Jó 38:8-11)? Se forem aceitas estas últimas possibilidades, o versículo poderia ser uma exposição de Salmo 74:17 (cf. 1QM 10:12 e segs, onde se mencionam juntamente as fronteiras naturais e nacionais. Mesmo assim, talvez devam ser preferidas as primeiras possibilidades destes pares (Wilson, págs. 201-205). De qualquer forma, a moral do versículo é a bondade de Deus em providenciar as necessi­ dades da humanidade. 27. O propósito de Deus em tudo isto é que os homens busquem a Ele na esperança de entrar em contato com Ele e achá-Lo. A linguagem pode ser entendida helenisticamente a respeito da busca filosófica daquilo que é verdadeiro ou divino, sem qualquer esperança certeira de sucesso. É melhor, porém, entendê-la no sentido vetero-testamentário do anseio grato e reverente do homem inteiro pelo Deus cuja bondade já experimentou (pa­ ra o vocabulário de buscar e achar a Deus, ver Is 55:6; 65:1; SI 14:2; Pv. 8:17; Jr. 29:13; Am 9:12 LXX). O elemento incomum é tateando, que su­ gere os homens que estão nas trevas, tateando para acharem a Deus. Este tatear ocorre a despeito da proximidade de Deus com os homens, que Paulo passa a mencionar, e talvez indique o fracasso pecaminoso do homem quan­ to ao achar a Deus, segundo se indica em Romanos 1:20-21. Mesmo assim, a afirmação principal é que a busca não deve ser difícil pois Deus não está longe de cada um de nós. Este pensamento estava corrente na filosofia estóica, mas ali era entendido de modo impessoal e intelectual. Paulo está pensando no Deus vivo do Antigo Testamento (SI 145 :18) que está perto dos Seus adoradores a despeito da Sua transcendência e grandeza (Jr 23:2324). 28. Paulo confirma o seu argumento com duas declarações que têm origem pagã, mas que podiam ser empregadas para apoiar uma doutrina -271 -


ATOS 17:28-29 judaico-cristã de Deus. A primeira destas é destacada como citação em RSV, mas há problemas quanto à identificação da sua fonte. Um escritor siríaco chamado Isho’dad (século IX) cita uma passagem em que Minos de Creta dirigiu-se ao seu pai Zeus, e atacou a crença cretense de que Zeus estava en­ terrado na ilha: “Fizeram um túmulo para ti, ó santo e altíssimo — os cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos! Tu, po­ rém, não morreste; estás ressuscitado e vivo para sempre, pois em ti vive­ mos, e nos movemos, e existimos” . A segunda linha desta citação aparece em Tito 1:12, e um escritor cristão (Clemente da Alexandria) a atribui a Epimênides da Creta. Esta, pois, parece ser a fonte usada por Paulo. Infe­ lizmente, há um fator complicante: a redação de Paulo não está na métri­ ca poética, nem no dialeto grego que seria esperado;.é possível, portanto, que Paulo meramente dá o sentido geral da citação.196 Não se diz expres­ samente que as palavras são uma citação, embora a frase como alguns dos vossos poetas têm dito talvez se refira para trás e não somente para frente. A forma plural, poetas, porém, talvez fosse escolhida porque as palavras que seguem se acham em mais de um poeta. Na forma citada por Paulo, provêm de Ara to, mas também ocorrem numa forma levemente diferen­ te em Cleantes, Hino a Zeus. Paulo, portanto, retoma poesias gregas pagãs que expressam a filosofia estóica, e as aplica a Deus. Um processo de “demitologização” já estava em andamento, sendo que, para os estóicos, “Zeus” significava, não o deus supremo no politeísmo grego, mas, sim, o Logos (Razão; cf. v. 8, nota). Paulo estava disposto a retomar os vislumbres da ver­ dade na filosofia pagã acerca da natureza de Deus. Ao passo, porém, que os gregos pensavam na natureza divina do homem, Paulo teria pensado em termos de o homem ser a imagem de Deus. É Deus a fonte da vida do ho­ mem. 29. Com base no fato de que o homem é geração de Deus, Paulo ago­ ra tira a conclusão de que é proibida a idolatira. Pequenas imagens de ou­ ro e prata (19:24, 26) e os enormes ídolos dos templos, feitos de mármore, estão igualmente errados. Se, pois, os homens são cpmo Deus, segue-se que uma imagem inanimada não pode retratar o Deus vivo; se os homens possuem o espírito de Deus, devem reconhecer, decerto, que Deus é espí­ rito e não passível da representação material. Aqui, Paulo estava em harmo­ nia com o pensamento vetero-testamentário e judaico (Gn 20:4; Dt 5:8; Is 44:9-20; Sabedoria 13:5, 15), e em oposição contra o pensamento gre­ 196

Podemos talvez compaiar como Calimaco imitou as mesmas linhas no seu Hino a Zeus.

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ATOS 17:29-31 go. Embora Haenchen (pág. 525) alegue que as palavras de Paulo meramen­ te atacavam a religião popular grega e não a filosofia sofisticada, o fato per­ manece de que ainda havia bastante apego às praxes politeístas e idólatras lado a lado a um ponto de vista mais filosófico. 30. Até à vinda da revelação da verdadeira natureza de Deus, através do cristianismo, os homens viviam em ignorância dEle. Agora, porém, a proclamação da mensagem cristã traz ao fim este tempo, no que diz respei­ to àqueles que ouvem o evangelho; já não têm desculpa pela sua ignorância. Deus antes estava disposto a não levar em conta a sua ignorância, mas ago­ ra já não faz assim, e conclama aos homens que todos em toda parte se ar­ rependam. Alguns comentaristas têm alegado que este não é o pensamento de Paulo, que se alude só de passagem ao fato de Deus não levar em conta o pecado humano, e fala da justificação pela fé mais do que o arrependimento diante do julgamento vindouro. Este veredito é falso, no entanto. O resumo do evangelho que Paulo pregava aos gentios, em 1 Tessalonicenses 1:9-10 mostra precisamente a mesma ênfase sobre o arrependimento que ocorre aqui, e é possível que Paulo empregasse a linguagem da justificação mais es­ pecialmente em relacionamento com os judeus e prosélitos que confiavam na lei como sendo o meio da salvação. Além disto, devemos provavelmente tirar uma distinção entre aquilo que Paulo diz em discussão teológica em Romanos 1:18 e segs. acerca do modo de Deus entregar a humanidade ao seu pecado com as suas conseqüências, e a maneira de Paulo ressaltar a mise­ ricórdia de Deus que leva em conta a ignorância quando estava, na prática, pregando o evangelho aos pagãos (cf. Rom 3:25-26). 31. A urgência do apelo que Paulo fez em prol do arrependimento é sublinhada por sua alegação de que Deus estabeleceu um dia para o julga­ mento do mundo.19 7 Paulo, empregando a linguagem do Antigo Testamen­ to, ressalta que será um julgamento reto (SI 9:9). Será levado a efeito pelo agente de Deus, um varão que destinou: Esta é uma forma incomum de de­ claração, pois noutros lugares ressaltam-se a majestade e a exaltação do juiz, mas a forma de expressão foi escolhida para introduzir a declaração seguin­ te, que dá confirmação decisiva do fato do julgamento: a nomeação do juiz já foi realizada, e se vê nisto: que Deus O ressuscitou dentre mos mortos. Com estas palavras, Paulo volta aos temas da sua pregação anterior em Atenas: “Jesus” e a “ressurreição”. Trata a ressurreição como fato histórico, e a em­ prega como prova da nomeação divina de Jesus como juiz. Por detrás da

197Talvez haja um eco do ensino de Jesus acerca do Filho do Homem (Neil, pág. 192).

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ATOS 17:31-34 declaração há o pensamento da nova posição dada a Jesus mediante a ressur­ reição (cf. Rm 1:4), que foi interpretada pela igreja primitiva como sendo a exaltação ao senhorio e, como conseqüência, à autoridade judicial. Es­ tes pensamentos não se desenvolvem, no entanto; já os conhecemos a par­ tir dos exemplos anteriores da pregação da mensagem cristã em Atos, e Lucas aqui concentrou a sua atenção naquilo que era distintivo no discurso de Paulo aos filósofos em Atenas. 32. A volta de Paulo ao seu porito de partida provocou a zombaria dalguns dos seus ouvintes. Embora os gregos acreditassem na imortalidade da alma, a idéia de uma ressurreição pessoal era estranha ao pensamento deles, pois o corpo era considerado, cada vez mais, como coisa terrestre e má, em comparação com a alma, que era a sede do divino no homem.198 Não somente era a cruz “estultícia para os gentios”, como também era a a ressurreição. Outros entre os ouvintes de Paulo disseram que o ouviriam noutra ocasião; freqüentemente, esta expressão é interpretada como for­ ma mais cortês de encerrar o assunto, mas o contraste que se expressa com o primeiro grupo talvez sugira que aqui havia uma atitude mais positiva, e que estas pessoas ansiavam por serem verdadeiras as coisas que Paulo dizia. 33-34. Este veredito é confirmado pelo fato de Paulo, depois de deixar a reunião, ganhar alguns convertidos. Um, especial, era membro do Areópago, chamado Dionisio. Indica-se, assim, que o auditório de Paulo continha membros do tribunal do Areópago, independentemente de se identificamos a reunião como sessão do tribunal. Nada se -sabe de certo acerca de Dionisio, embora a tradição posterior tenha feito dele o primeiro bispo de Atenas (uma inferência razoável, pois os primeiros convertidos freqüentemente ficaram sendo líderes da igreja, 1 Co 16:15-16). Ainda mais tarde, atribuiu-se a ele a autoria dalguns escritos neo-platônicos do sé­ culo V. Juntamente com os homens que ah se converteram, também havia, uma mulher chamada Dâmaris, acerca de quem, outra vez, nada sabemos. Duvida-se que uma igreja se formou nesta etapa; Paulo descreve alguns dos convertidos coríntios como sendo “primícias da Acaia” (1 Co 16:15).

198

Talvez seja significante que o poeta grego Ésquilo tinha representado o deus Apoio negando a ressurreição na ocasião do Fórum do Areópago (Eumênides, 647-8; Bruce, Livro, págs. 363-4).

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ATOS 18:1-2 g. Corinto (18:1-17). Corinto e Éfeso foram as duas cidades mais importantes que Paulo visitou no decurso da sua obra missionária, e ficou em cada uma delas por um período considerável a fim de estabelecer igrejas que então passariam a evangelizar as áreas em derredor. Sua atividade voltou a ser ameaçada pelos judeus os quais, como em Filipos e Tessalônica, buscaram o apoio das autoridades para impedir a obra dos missionários. O apelo não teve sucesso, e Paulo pôde continuar sua obra sem impedimento. Baseados nas cartas de Paulo à igreja, no entanto, descobrimos que ele tinha proble­ mas de tipo diferente na igreja, as dissenções internas e o crescimento de idéias desequilibradas mais perigosas ao crescimento da vida espiritual do que a perseguição vinda de fora. Lucas não menciona estas dificulda­ des (que provavelmente irromperam depois da saída de Paulo); preocupase muito mais em descrever a fundação das igrejas (mas ver 20:29-30). 1. Corinto era, na ocasião, a capital da província romana da Acaia. A famosa cidade dos tempos clássicos fora destruída pelos romanos em 146 a.C., mas uma nova cidade fora criada por Júlio César. Estava estra­ tegicamente situada entre o istmo estreito entre a parte continental da Grécia e a península peloponesiana, e era um centro de comunicações entre o norte o sul ao longo do istmo, e também entre o leste e o oeste entre os dois portos de Cencréia (18:18; Rm 16:1) e Lequeo. Como cen­ tro comercial, atraíra uma minoria judaica, e foram achados remanescen­ tes da inscrição acima da porta de uma sinagoga pertencente a este perío­ do.199 A cidade tinha uma péssima reputação por imoralidade, o que se reflete amplamente em 1 Coríntios. A importância da cidade fez dela o alvo óbvio de Paulo depois da sua partida de Atenas. 2. Sejam quais tenham sido os motivos que levaram Paulo a Co­ rinto, e sejam quais os sentimentos de desânimo que possivelmente tenha sentido ao deixar Atenas,200 sua chegada em Corinto foi acompanhada por encorajamento. Em primeiro lugar, ficou conhecendo um casal, Âqüila e Priscila. Eram judeus da Dispersão, e o marido tinha um nome romano (“Águia”), bem como a sua esposa, pois Priscila é uma forma diminutiva de “Prisca” (Rm 16:3; 1 Co 16:19; 2 Tm 4:19). Prisca freqüentemente é no­ meada antes do marido, que sugere que ela era a figura mais importante

199Barrett, Background, N. 48. 2001 Co 2:3 não deve ser interpretado como reflexão sobre a experiência de Paulo em Atenas.

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ATOS 18:2-4 do ponto de vista cristão. Embora Áqiiila fosse originário de Ponto, fora residente em Roma, mas foi forçado a sair por um edito do Imperador Cláu­ dio. Este decreto se associava com os tumultos entre os judeus impulsore Chresto, “à instigação de Cresto” (conforme Suetônio), frase esta que pro­ vavelmente se refere a distúrbios na comunidade judaica como resultado da pregação de Christus'201 A data do decreto é provavelmente 49-50 d.C., embora haja alguma incerteza quanto a isto. De qualquer forma, dificil­ mente poderia ter sido levado a efeito de modo eficaz contra a totalidade da população judiaca em Roma, e aqueles que foram expulsos foram paula­ tinamente voltando para a cidade, mais tarde. Supondo que Romanos cap. 16 se endereça a Roma,202 então, antes da data da sua composição, Priscila e Áqüila já estavam de volta em Roma depois de visitarem Corinto bem como Éfeso (18:18-19). 3-4. As indicações são que o casal já era cristão antes de se encontrar com Paulo; senão, Lucas decerto teria narrado a conversão dos dois. O cristinismo deye ter chegado ,em Roma em data bem recuada como resultado dos movimentos dos viajantes que entravam na capital e dela saíam (cf. 2:10). Havia um vínculo adicional com o casal, sendo que Paulo e eles eram da mesma profissão. Visto que se esperava dos rabinos que cum­ prissem suas funções religiosas e jurídicas sem receberem pagamento, era necessário para eles terem outra fonte de renda. A ocupação de Paulo era fazer tendas,203 As tendas se fabricavam de tecido de pelos de bodes, chamado cilicium, na província nativa de Paulo, ou de couro; daí a palavra “fabricante de tendas” podia se referir de modo mais geral a um trabalhador em couro, e parece ser este o significado aqui. Destarte, Paulo pôde residir com Áqüila e Priscila, sustentar-se e participar do trabalho deles, e desfru­ tar da comunhão cristã com eles. Começou, agora, um período de evange­ lização na qual, sem dúvida, Áqüila e Priscila ajudavam a Paulo. Como de costume, Paulo fazia uso dos cultos de sábado na sinagoga para persuadir (17:2) em prol da causa de Cristo, e sua evangelização foi bem sucedida, tanto entre os judeus, quanto entre os gentios que freqüentavam a sinago­ ga-

201 As palavras Chrestus e Christus eram pronunciadas da mesma maneira, e Tácito se referia aos cristãos com o nome Chrestiani. 202Não para Éfeso, conforme alguns estudiosos têm argumentado. 203A negação de Haenchen (págs. 534, 625) quanto a Paulo ser um rabino ou seguidor da prática rabínica não tem fundamento; ver sobre 22:3.

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ATOS 18:5-7 5. 0 segundo encorajamento que Paulo recebeu foi a chegada dos seus cooperadores Silas (aqui mencionado nominalmente pela última vez em Atos) e Timóteo, provenientes da Macedônia ( ver 17:14-15, nota). Co­ mo resultado da sua vinda, Paulo entregou-se inteiramente à tarefa da pre­ gação” (NEB). Conforme 2 Co 11:9, Paulo não impôs qualquer fardo sobre a igreja de Corinto, no sentido de reivindicar sustento financeiro da parte dela, porque as suas necessidades eram supridas pelos cristãos da Macedô­ nia (cf. Fp 4:15). Parece provável, portanto, que Silas e Timóteo trouxe­ ram ofertas em dinheiro que livraram Paulo da necessidade de trabalhar para se sustentar em Corinto; podia, portanto, levar a efeito trabalhos missionários durante a semana inteira, e não meramente no sábado. Des­ tarte, a tarefa de persuadir os judeus de que o Messias profetizado no An­ tigo Testamento era Jesus (cf. 17:3) foi levada a efeito com muito mais energia. 6. O aumento da atividade missionária revelou-se frutífero e levou a oposição (possivelmente devido à inveja; cf. 17:5) da parte dos judeus, que fizeram declarações que, do ponto de vista dos cristãos, eram blásfemas. A reação de Paulo foi deixar a sinagoga, mas não antes de procurar, da melhor forma possível, convencer os judeus quão séria era a situação deles ao rejeitarem o evangelho. Como aconteceu numa ocasião anterior (13:5), sacudiu o pó das vestes (Ne 5:13) como sinal do rompimento de todo o relacionamento com eles. Este tipo de ação era levado a efeito por judeus contra gentios, e sua importância aqui era indicar que, aos olhos dos missionários, os que rejeitavam o evangelho não eram melhores do que gentios, cortados do verdadeiro povo de Deus. Se os judeus se achassem, no último dia, rejeitados por Deus, a culpa disto pairaria exclusivamente sobre eles mesmos; Paulo lhes pregara fielmente, e não era culpado por aquilo que fizeram com a mensagem. A partir deste momento, estava jus­ tificado em não mais se preocupar com eles e em voltar-se para os gentios, tanto os prosélitos como os demais (13:46; 28:28). 7. Visto já não ser possível a obra na sinagoga, Paulo procurou situar sua missão noutro centro, e achou um na casa de um gentio que fora aderente da sinagoga (cf. 10:2) e que, sem dúvida, fora convertido pelo ministério de Paulo. Tício Justo é um nome romano, como aqueles de vários outros convertidos de Paulo em Corinto (Rm 16:21-23; 1 Co 16:17).204 Ramsay produziu para ele um nome romano completo, com 204Alguns MSS dão o nome “Tito Justo” , mas é improvável que este seja o tex­ to original, ou que ele deva identificar-se com o companheiro de Paulo, Tito, que dou­ tra maneira não se menciona em Atos.

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ATOS 18:7-9 três partes, ao dar-lhe o praenomen de Gaio, e identificando-o com o cristão coríntio com este nome em Romanos 16:23 e 1 Coríntios 1:14 que era “hospedeiro” de Paulo e da igreja; esta é uma conjectura muito razoável, embora não possa ser provada. A casa de Tício era contígua à sinagoga, que dificilmente teria promovido bons relacionamentos, mas era um local eficiente para influenciar os freqüentadores da sinagoga. 8. A mudança para a propriedade vizinha foi altamente bem su­ cedida. Muitos coríntios agora ouviram a mensagem, criam e eram batiza­ dos e, em especial, Lucas menciona Crispo, que era o (ou, possivelmente, “um dos”) principal da sinagoga (cf. 13:15). Paulo o menciona jun­ tamente com Gaio como sendo os que foram por ele batizados (1 Co 1:14). Deve ter sido uma amarga decepção para os judeus verem seu líder passar para o lado de Paulo, e pode ser que coisas piores estivessem reservadas para eles (ver sobre v. 17). Haenchen (pág. 540) acha mais provável que Crispo tenha sido convertido antes de Paulo romper com a sinagoga, e pensa que a mudança de Paulo para a casa de Tício Justo ocorreu mais cedo. Segundo este ponto de vista, Paulo procurou um outro estabelecimento que poderia usar quando a sinagoga já não era disponível, e foi seu sucesso nesta nova localização que despertou a oposição dos judeus. Esta é uma possível re­ construção, se o v. 7 não for considerado como em seqüência cronológica, mas a ordem de Lucas é igualmente plausível e possível. 9. Lucas não menciona qualquer motivação para a visão celestial que Paulo recebeu a esta altura, para fortalecê-lo para a sua continuada ati­ vidade em Corinto. O leitor, porém, baseado no seu conhecimento daquilo que aconteceu noutras ocasiões piévias conforme o relato em Atos, pode facilmente tirar a conclusão de que Paulo aguardaria algumas represálias dos judeus, tendo em vista o seu sucesso em atrair para si o líder deles bem co­ mo muitos dos seus aderentes. Talvez devamos lembrar-nos de que o pró­ prio Paulo comenta que, na sua chegada em Corinto, estava em “temor egrande tremor” (1 Co 2:3), precisando de encorajamento espiritual. Haen­ chen (pág. 540) chega a sugerir que, normalmente, Paulo somente ficava por pouco tempo em qualquer cidade, e teria partido dentro em breve se não tivesse recebido encorajamento divino para ficar mais tempo; visto, po­ rém, que Paulo não precisou de encorajamento deste tipo para permanecer em Éfeso em circunstâncias semelhantes (19:8-10), é falsa esta hipótese. Na realidade, Paulo usualmente passava suficiente tempo para estabelecer uma igreja cristã, a não ser que a perseguição o forçasse a ir mais adiante. A visão de Paulo veio da parte do Senhor, i.é, de Jesus. É significante que a mensagem utiliza a linguagem que o próprio Deus empregava no Antigo Testamento ao dirigir-Se a Seus servos (Stahlin, pág. 245, compara -

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ATOS 18:9-12 7:9; Êx 3:12; Dt 31:16; Js 1:5,9; Is 41:10;43:5; Jr 1:8). O Novo Testamen­ to atribui a Jesus uma função e uma posição iguais às do próprio Deus Pai. A fórmula Não temas se emprega regularmente nas teofanias vetero-testamentárias para acalmar os temores de quem recebe a visão, ao ver que Deus Se dirige a ele. Aqui, porém, as palavras dizem mais respeito aos temores de Paulo quanto à sua própria posição diante dos seus oponentes em Corin­ to. Paulo, ao invés de temer aquilo que poderiam fazer-lhe, deve pregar a Palavra sem medo. Os tempos empregados em grego talvez sugeriam que Paulo deve continuar pregando conforme estava fazendo até então. 10. A ordem vem reforçada pela promessa de que o Senhor estará com Paulo (Is 43:5). Este tipo de promessa era uma forma de assegurar os que Deus chamara para servir-Lhe de que teriam forças para cumprir o Seu mandamento (Jz 6:12; Rt 2:14; Lc 1:28). Como resultado da proteção divina de Paulo, ninguém poderia colocar nele as mãos para fazer-lhe mal. Além disto, Deus tinha muito povo na cidade. A conexão do pensamento parece ser que, visto ter Deus muitas pessoas em Corinto para serem ganhas para o evangelho, Paulo não será impedido de continuar sua obra missioná­ ria por atos hostis, até ter sido completado o propósito de Deus. A expres­ são, no entanto, é incomum, pois emprega o termo povo para os que ainda não estão convertidos. A declaração indica a presciência divina do sucesso do evangelho em Corinto (cf. 13:48).20s Fortalecido por esta mensagem, Paulo podia aguardar seu duplo cumprimento: a sua própria proteção contra a perseguição (18:12-17) e a evangelização bem-sucedida. Lucas, no entanto, não precisa explicar em detalhes como foi cumprida a promessa, pelo menos no que diz respeito à segunda metade: o fato de tratar-se-da promessa do Senhor é evidência suficiente de que foi cumprida. 11. Assim, permite-se que o leitor deduza, da permanência prolonga­ da de Paulo na atividade de pregar a Palavra de Deus, que muitas pessoas afiliaram-se à igreja. A data exata deSte período de dezoito meses depende das informações dadas no versículo seguinte. 12. O cumprimento da profecia celestial ocorreu quando Gálio fi­ cou sendo procônsul da província romana da A caia. A narrativa de Lucas sugere que os judeus lançaram mão da oportunidade oferecida pela chegada de um novo governador para fazer seu ataque contra Paulo. Marco Anéias Novato era irmão do famoso filósofo estóico Sêneca e filho de um orador espanhol, e, ao chegar em Roma, foi adotado na família de Lúcio Júnio 20SÉ improvável que o versículo signifique que os oponentes do evangelho seriam impedidos de fazerem mal a Paulo, pelo grande número de cristãos na cidade.

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ATOS 18:12-14 Gálio, e tomou o nome do seu pai adotivo. Visto ser a Acaia uma provín­ cia de segunda categoria, era governada por alguém que ainda não atingira a posição de cônsul (a suprema magistratura romana).206 Gálio, portanto, veio para a Acaia depois de ser pretor e antes de ser cônsul. Tinha um cará­ ter agradável, mas padecia de má saúde. Morreu como resultado das suspei­ tas de Nero contra a sua família. A data do seu proconsulado pode ser fixa­ da com certa exatidão tendo por base uma inscrição achada em Delfos, e provavelmente começou em julho de 51 d.C.207 Os judeus levaram Paulo diante do governador quando este estava assentado no seu tribunal', este era uma plataforma de pedra na agora da cidade, cuja localidade ainda pode ser vista. Não fica claro se Paulo foi arrastado à força diante do governador, ou se compareceu de livre e espon­ tânea vontade para responder à acusação que seria levantada contra ele. 13. A acusação dos judeus foi que Paulo persuadia os homens a ado­ rar a Deus, por modo contrário à lei. Se esta expressão se entende como sendo persuadir os judeus a agirem de modo contrário à lei judaica, duvidase que seria possível esperar que o governador fizesse cumprir as leis internas daqueles. Neste caso, a força da acusação pode ter sido que os cristãos não tinham direito de pedir a proteção oferecida aos aderentes do judaísmo como religio licita, i.é, uma religião oficialmente tolerada pelo estado. A sugestão de Bruce (Livro, pág. 374) que queriam o banimento do cristia­ nismo como religio illicita talvez vá longe demais, pois duvida-se da existên­ cia desta categoria específica. É também possível, no entanto, que a acu­ sação tenha sido no sentido de Paulo persuadir os homens em geral a ado­ rarem de modo contrário à lei romana; esta teria sido uma acusação me­ lhor para os judeus levantarem. Sherwin-White (págs. 99-107) oferece a sugestão adicipnal de que talvez os judeus apelassem a um decreto de Cláu­ dio que lhes permitia gozar quietamente dos seus próprios costumes, e alegassem que Paulo estava interferindo com a sua pàz, no sentido de vive­ rem segundo o modo próprio deles. 14. Paulo estava pronto a oferecer a sua própria defesa, mas o go­ vernador lhe cortou a palavra, pelo motivo de não haver processo a ser res­ Entre 15 e 44 d.C., a Acaia tinha sido governada pelo Legado da Moésia, e, depois de 67 d.C., Nero deu a ela e a algumas outras áreas certa medidade de auto­ nomia política. 20 7

Barrett, Background, No. 46. Discussões mais recentes da inscrição não al­ teram substancialmente a data, que é provavelmente correta dentro de um ano para mais ou menos. Ver o artigo de C. J. Hemer, em D. A. Hagner e M. J. Harris (eds.), •Pauline Studies (Exeter, 1980).

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ATOS 18:14-17 pondido. Com efeito, Gálio estava sendo convidado a dar um veredito num processo que não se enquadrava no sistema normal de crimes e castigos; nesta área, o governador tinha considerável liberdade de acordo com o costume local e com sua própia sabedoria. A resposta de Gálio foi que a alegada conduta de Paulo não se classificava entre os crimes contra o estado; estes últimos deviam ser tratados com seriedade pelo governador, cujo dever era investigar acusações neste sentido. 15. Este assunto, pelo contrário, parecia dizer respeito às alterca­ ções internas na comunidade judaica quanto às exigências da própria lei. Era, na realidade, questão de meras palavras e terminologia religiosa - até onde Gálio podia perceber. Os próprios judeus deviam tratar do caso, dentro dos limites dos poderes que possuíam para tanto. O governador não preten­ dia imiscuir-se em assuntos que não lhe diziam respeito. Seja qual fosse a intenção dos judeus, Gálio entendia que a lei mencionada na acusação deles era a própria lei judaica deles e argumentou, com razão, que nada tinha a fazer, como magistrado romano, em tais casos. 16. O ato final de Gálio foi expulsar os judeus do tribunal, como indicação que não queria ouvir mais queixas da parte deles. Não fica claro se o governador exerceu certo grau de força através dos seus atendentes, ou se a linguagem é puramente metafórica; caso os judeus tivessem sido len­ tos para se dispersar, a primeira hipótese seria bem possível. 17. Um incidente final reforçou a impressão dada quanto à atitude de Gálio, e assim sublinhava o fato de que os cristãos não precisavam temer que os governadores romanos provinciais interferissem em questões judai­ cas. Segundo uma variação textual antiga (que entendia que as pessoas que espancavam Sóstenes faziam parte da população grega), a multidão de coríntios que estava presente para testemunhar a vergonhosa derrota dos judeus diante do governador, perceberam que poderiam aproveitar a indis­ posição deste último quanto à interferência no caso, e passaram a dar va­ zão aos seus sentimentos anti-judaicos ao espancarem Sóstenes, o principal da sinagoga. É, porém, possível uma outra explicação. Sóstenes pode ter si­ do um simpatizante cristão; é certamente notável que um Sóstenes aparece em 1 Coríntios 1:1 como co-autor da Carta de Paulo aos Coríntios, e não se pode excluir a possibilidade de que o sucessor de Crispo, como princi­ pal da sinagoga, também se converteu ao cristianismo» É possível, portan­ to, que foram os judeus que lançaram mão de Sóstenes e lhe administra­ ram trinta e nove açoites (o castigo regular da sinagoga, 2 Co 11:24), visto que Gálio se recusava a interferir na aplicação da justiça judaica. Seja qual for a interpretação, Gálio se recusava a interferir em assuntos que diziam respeito aos judeus. No primeiro caso, foi conivente com injustiça contra os -281 -


ATOS 18:17-18 judeus, e, no segundo caso, nada fez para proteger os cristãos contra a jus­ tiça da sinagoga.

VII. A CAMPANHA MISSIONÁRIA DE PAULO NA ÁSIA (18:18-20:38) a, Paulo parte de Corinto (18:18-21). No decurso dos poucos versículos seguintes, Lucas condensa consi­ derável quantidade de viagens de Paulo, que o levaram de Corinto para Éfeso, e de lá para Jerusalém e Antioquia, e depois para Éfeso de novo, onde entrou na seguinte fase principal da sua obra missionária. É difícil perceber porque Lucas contou a história desta maneira, se ela realmente não aconteceu assim mas, de qualquer forma, seu relato levanta alguns proble­ mas difíceis a respeito dos movimentos e motivos de Paulo. 18. O que encorajou Paulo a permanecer mais tempo em Corinto deve ter sido a atitude de Gálio em relação aos judeus, não os apoiando contra os cristãos. De qualquer maneira, não queria dar a impressão de estar fugindo da cidade, ainda que sentisse que a sua obra já estava completa, ou que agora devia voltar-se a outras tarefas. Seu alvo imediato era voltar à Síria, a província da qual Antioquia era a capital e da qual a Judéia formava uma parte. Podemos supor que Paulo tinha motivos pessoais para querer uma ~ “licença”. Foi acompanhado por Priscila e Áqíiila, cujo destino era Éfeso, e talvez seja esta a explicação de por que foi primeiramente a Éfeso ao in­ vés de se dirigir diretamente à Síria; na realidade, porém, nada havia de estranho neste roteiro. De modo algo informal, Lucas acrescenta a informação de que, quan­ do chegaram em Cencréia, o porto para velejar para o leste a partir de Co­ rinto, Paulo raspou a cabeça, como parte de um voto. Os judeus faziam vo­ tos a Deus, ou em gratidão por bênçãos passadas (tais como a proteção di­ vina que Paulo recebeu em Corinto) ou como parte de uma petição por bênçãos futuras (tais quais a salvaguarda na viagem iminente de Paulo); o presente contexto se inclina para a primeira interpretação. Um voto nazireu temporário incluía a abstinência do álcool e também de cortar os cabe­ los. Sua conclusão foi marcada por raspar completamente os cabelos e ofe­ recer um sacrifício no templo em Jerusalém (Nm 6:1-21; At 23:21-26). Se foi este o tipo de voto feito por Paulo, subentende que pretendia visitar Je­ -282-


ATOS 18:18-20 rusalém. Alguns estudiosos acham estranho que tenha sido em Cencréia que Paulo raspou a sua cabeça. Não existe evidência de que se pudesse fazer assim no começo de um voto. O ponto de vista alternativo seria que a ação de Paulo ali marcou o fim de um voto anteriormente feito. Este conceito usualmente se rejeita pelo motivo de não se poder completar votos fora de Jerusalém. Na realidade, porém, embora o sacrifício tivesse que ser ofereci­ do ali, era possível raspar a cabeça noutros lugares (M. Nazir 3:6; 5:4). Al­ guns estudiosos consideram improvável que o Paulo histórico tivesse obser­ vado praxes judaicas deste tipo, e sugerem que a totalidade do relato é fic­ ção escrita por Lucas com a intenção de demonstrar que Paulo era um leal cristão judaico. Além disto, é possível que alguns comentaristas sintam certo embaraço diante da sugestão que os cristãos devessem fazer a Deus votos deste tipo, pois subentendem um relacionamento de quid pro quo, de uma troca com Deus. Paulo, porém, meramente expressava sua gratidão a Deus da maneira tradicional nos dias dele; estava disposto a ser “como judeu” para os judeus <1 Co 9:20; cf. At 16:3; 21:23-24); sua ação é his­ toricamente possível e teologicamente aceitável. 19. Éfeso era a cidade principal da província romana da Ásia, situada na foz do rio Caister numa importante rota comercial para o interior. Era uma cidade livre com sua própria assembléia (19:39), e tinha um templo famoso da deusa Ártemis (Diana). O porto agora está bloqueado por detri­ tos trazidos pelo rio, e o local foi abandonado, mas foram descobertas ruí­ nas impressionantes, inclusive o teatro. A cidade era um ponto de encontro entre vários tipos de influências culturais, e tinha' uma grande população judaica que desfrutava de privilégios especiais. Quando Paulo chegou ali com seus companheiros, deixou Priscila e Áqüila, para continuar a sua viagem. É isto, pelo menos, que Lucas sem dú­ vida quis dizer, mas a forma em que o texto se encontra dá a entender que Paulo os deixou em Éfeso enquanto ele pessoalmente foi à sinagoga. Parece que a frase que começou no v. 19 continua em 21b, e que as palavras in­ tervenientes foram incluídas de modo algo mal-ajeitado. Haenchen (pág. 547) adota o ponto de vista de que Lucas fez a inclusão a fim de dar a Paulo o crédito por ser o primeiro pregador cristão em Éfeso, ao passo que, na rea­ lidade, havia ali um grupo de cristãos judeus antes de Paulo começar a sua obra. Na realidade, porém, não pode haver dúvida que Paulo realmente visi­ tou Éfeso nesta ocasião, e é altamente improvável que não tivesse aprovei­ tado a oportunidade para a evangelização. 20. A visita, no entanto, foi apenas breve, e Paulo recusou-se a pro­ longá-la, a despeito da recepção favorável dada à sua mensagem. Conforme o texto ocidental, queria chegar em Jerusalém em tempo para a “festa” ; 283-


ATOS 18:20-23 embora o escriba talvez tenha tirado o tema de 20:16, é possível que tenha acertado a verdade. Se a festa era a páscoa, Paulo deve ter se apressado, pois era curto o período entre o recomeço da navegação após o inverno e o fes­ tival (Bruce, Livro, pág. 378). 21. Paulo despediu-se com uma promessa no sentido de que voltaria, se fosse esta a vontade de Deus. As palavras refletem uma fórmula pagã retomada pelos cristãos (21:14; Tg 4:15), possivelmente como resultado da expressão semelhante que se acha na versão que Mateus registra da Ora­ ção Dominical (Mt 6:10). b. Paulo viaja a Cesaréia e a Antioquia (18:22-23). 22. Embora o destino de Paulo fosse definido como Síria no v.18, na realidade a viagem para casa o levou primeiramente a Cesaréia. Parece que a direção dos ventos prevalecentes fez com que fosse mais fácil para os navios chegarem a Cesaréia do que a Selêucia, o porto da Antioquia (13:4), que ficava cerca de 400 km ao norte. A narrativa de Lucas não deixa claro se Paulo foi deliberamente a Cesaréia, ou meramente como resultado do tem­ po. Quando continua, dizendo que Paulo subiu e saudou a igreja, entendé-se que há referência a uma ida para Jerusalém (ARA) para visitar a igreja ali. Este fato se encaixaria com a sugestão de que o voto de Paulo poderia ser terminado somente ao oferecer um sacrifício em Jerusalém. Sendo correta esta suposição, significa que cada uma das campanhas missionárias de Paulo terminava com uma visita a Jerusalém, de tal modo que a obra de Paulo começava em Jerusalém e ali terminava em cada ocasião. Supõe-se que Pau­ lo prestava contas da sua obra, diante da igreja ali. Mesmo assim, a hipótese não é completamente sólida, e é possível que Lucas apenas queria dizer que Paulo saudou a igreja em Cesaréia; a questão depende de se Lucas poderia ter empregado o verbo “descer” para referir-se a uma viagem do porto ma­ rítimo de Cesaréia para a cidade interiorana de Antioquia, ao invés de uma viagem de Jerusalém para Antioquia. No cômputo geral, é preferível o pri­ meiro ponto de vista. 23. Paulo passou algum tempo em Antioquia antes de começar a sua campanha seguinte. Seu alvo era Éfeso, e foi para lá pela rota terrestre, aproveitando a oportunidade de visitar, um após outro, os vários grupos de cristãos formados nas viagens missionárias anteriores, para lhes dar enco­ rajamento espiritual. A região da Galácia e Frigia é provavelmente a área da Galácia do sul evangelizada em Atos caps. 13 e 14. Muitos estudiosos acham que a referência aqui e em 16:6 (onde ocorre uma redação levamente dife-284-


ATOS 18:23-25 rente) diz respeito à Galácia étnica, mas é menos provável. A descrição deve abranger, no mínimo, as igrejas fundadas em Atos caps. 13-14.

c. A chegada de Apoio (18:24-28). Antes de Lucas retomar a história da volta de Paulo a Éfeso, e da sua obra ali, inclui um relato da chegada de Apoio naquele cenário. O lei­ tor, desta forma, fica em dia quanto àquilo que estava acontecendo em Éfeso durante a ausência de Paulo. Apoio viria a ser uma figura importante na igreja em Corinto, e, na realidade, ficou sendo ponto focal dalguma rivalidade contra Paulo. A presente passagem indica que, embora ele pessoal­ mente não tivesse sido instruído por Paulo, mesmo assim recebeu a sua educação cristão da parte dos colegas de Paulo, de tal modo que pode-se supor que compartilhava dos conceitos teológicos deste, conforme o próprio Paulo dá a entender (1 Co 3:5-9). 24. Apoio é uma forma abreviada de Apolônio. Era natural de Ale­ xandria, e o restante da descrição das suas capacidades se encaixa bem neste detalhe. Alexandria era um centro de educação e filosofia, e foi lá que Filo, o filósofo judaico, exerceu suas atividades. É bem possível que Apoio devesse sua eloqüência e capacidade para debater à sua criação em Alexan­ dria. Como judeu culto, era poderoso nas Escrituras, e conseguiu fazer bom uso cristão dos seus conhecimentos. 25. Não sabemos onde Apoio veio a ser cristão. Embora haja bastan­ te razão para se supor que a fé teria chegado a Alexandria em data recuada, nada sabemos acerca dos seus inícios ali, e o primeiro cristianismo do qual temos notícias ali era caracterizado por tendências gnósticas. Não seria sur­ preendente se Apoio tivesse obtido ali um modo confuso de entender o cristianismo. Certamente, é estranha a descrição da sua posição cristã. Re­ cebera a instrução cristã no caminho do Senhor, e tinha a capacidade de ensinar com precisão a respeito de Jesus. Era entusiástico de espírito (Rm 12:11), mas somente entendia do batismo de João. Esta descrição levanta perguntas difíceis: Lucas quer dizer que Apoio possuía o Espírito sem ter recebido o batismo cristão na água? E, se Apoio não recebera o batismo cristão, por que não foi batizado como os doze homens em Éfeso (19:5)? E. Kàsemann.208 enfrenta o problema, e argumenta que, diante dos hereges

208E. Kasemann, Essays on N ew Testament Themes (Londres, 1964), págs. 136-148.

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ATOS 18:25-27 dos seus dias, Lucas não poderia aceitar a existência de missionários inde­ pendentes tais como Apoio, que trabalhavam independentemente da igre­ ja como corpo unido. Ele mostrou, portanto, que Apoio precisou de ser de­ vidamente instruído por Priscila e Áqüila a fim de ser um missionário eficaz. Não ousou relatar o rebatismo dalguém que, segundo se sabia, tinha o Espírito e possuía dons para o serviço missionário, mas inventou o detalhe de que Apoio meramente recebera o batismo de João e, ao ligar a história com a dos doze homens em Éfeso, procurou pelo menos fazer Apoio “cul­ pado por associação”. Conforme a expressão de Haenchen (pág. 551), Lu­ cas não ousou dizer mais do que Apoio não “entendia” o batismo cristão. Este conceito da passagem tem que enfrentar fortes objeções. Em pri­ meiro lugar, tendo em vista o caráter herético de boa parte do cristianismo em Alexandria, não seria surpreendente se Apoio tivesse recebido um con­ ceito defeituoso da fé. Em segundo lugar, a existência dos doze homens de Éfeso mostra que era possível para pessoas se considerarem discípulos embo­ ra tivessem meramente recebido o batismo de João (a não ser que neguemos, juntamente com Kàsemann, que se considerassem cristãos). Em terceiro lugar, Lucas sabia que era possível, em casos excepcionais, pessoas recebe­ rem o Espírito à parte do batismo cristão em água (10:4448); Apoio era diferente dos doze homens porque estes claramente não tinham recebido o Espírito, ao passo que ele provavelmente O recebera. Em quarto lugar, é possível que tenha havido grupos de antigos discípulos de João que ayançaram para a fé nAquele que havia de vir, sem,- porém, terem sido batizados em nome de Jesus. Será que Lucas teve medo de registrar o fato histórico de que um pregador tão poderoso quanto Apoio precisou ser batizado em nome de Jesus? Isto nos levaria a ter um conceito da passagem exatamente oposto ao de Kàsemann, mas, no cômputo global, é mais provável, pois visto que Apoio já recebera o Espírito, não precisava de um novo batismo em água. 26. Quando Apoio veio e começou a levar a efeito uma missão cris­ tã na sinagoga, Priscila e Áqüila reconheceram as falhas no seu entendimen­ to da fé, e tomaram-no consigo em particular, a fim de lhe transmitir um en­ tendimento ainda mais exato da fé. Podemos supor que foi instruído nas doutrinas distintivamente paulinas. 27. Os ensinos que recebeu foram eficazes, e os cristãos em Éfeso chegaram a ter plena confiança em Apoio, ao ponto de se prontificarem a escrever uma carta de apresentação dele aos cristãos na Acaia, quando resol­ veu ir para lá. Os irmãos seriam os cristãos em Éfeso, convertidos como re­ sultado do ministério breve de Paulo e da obra de Priscila e Áqüila; talvez incluíssem no seu número alguns convertidos cristãos que chegaram a Éfe-286 -


ATOS 18:27-19:1 so doutros lugares. O texto pode querer dizer que animaram Apoio a ir para a Acaia e também pode querer dizer que animaram os irmãos em Corinto a darem as boas-vindas a Apoio. Quanto a semelhantes cartas de apresentação, ver Romanos 16:1; 2 Coríntios 3:1. Na sua chegada, Apoio logo comprovou seu valor na edificação da igreja, conforme o próprio Paulo mais tarde testi­ ficaria (1 Co 3:6). Auxiliou muito aqueles que mediante a graça haviam crido, ou, talvez: mediante o (seu dom) da graça, ajudou os crentes: o texto aceita as duas traduções, mas a última é preferível. 28. O dom especial de Apoio era debater com os judeus, visto que, baseado no seu conhecimento das Escrituras, conseguia demonstrar que Je­ sus era o Messias (cf. 18:5). Era, portanto, um evangelista eficaz além de ser um pastor para a igreja. d. Os doze discípulos em Éfeso (19:1-7). Em estreita conexão com a história de Apoio (cf. 19:1) Lucas relata como Paulo também achou umas pessoas em Éfeso que alegavam ser cris­ tãs sem, porém, possuírem qualquer experiência do Espírito. Instruiu-os, batizou-os, e lhes impôs as mãos, e, como resultado, demonstraram sinais claros de haverem recebido o Espírito. Esta história tem freqüentemente sido usada como base para doutrinas acerca do recebimento dos dons do Espírito Santo em ocasião subseqüente à da conversão; mas não tem conexão real com estes. Pelo contrário, Paulo estava cuidando de uma si­ tuação incomum que exigia tratamento especial. 1. V. 1 faz a vinculação cronológica com a história anterior, acerca de Apólo e indica, incidentalmente, que o próprio Paulo não se envolveu na instrução cristã do seu colega. Paulo foi caminhando para Éfeso pelo iti­ nerário terrestre que o trouxe aos territórios mencionados em 18:23. Ao chegár ali, achou um grupo de discípulos. Estes homens dificilmente seriam cristãos porque não haviam recebido o dom do Espírito; pode-se dizer com segurança que o Novo Testamento não reconhece a possibilidade de alguém ser cristão sem possuir o Espírito; (Jo 3:5; At 11:17; Rm 8:9; 1 Co 12:3; G1 3:2; 1 Ts 1:5-6; Tt 3:5; Hb 6:4; 1 Pe 1:2; 1 Jo 3:24; 4:13). Como conse­ qüência, tem sido sugerido que fossem discípulos de João Batista, e isto con­ corda com o fato de terem recebido apenas o batismo de João. É, porém, improvável que a palavra “discípulos”, empregada sem qualificação, possa ser entendida no sentido de “discípulos de João Batista”. A despeito disto, E. Kasemann (ver 18:25, nota) supõe que fossem discípulos de João. Segun­ do o pensamento dele, Lucas estava indisposto a reconhecer que tais grupos existiam lado a lado com a igreja, e que procurou, não de modo totalmente -2 8 7 -


ATOS 19:1-3 bem sucedido apresentá-los como cristãos um pouco estranhos. Doutra for­ ma, alega Kàsemann, pareceria que Joio se apresentara como líder, ou até mesmo como o Messias, diante dos seus seguidores, ao invés de humildemen­ te testificar de Jesus conforme o retrato que dele dão os Evangelhos. Este modo de entender a passagem está errado; não era necessariamente João Ba­ tista o culpado por quaisquer conceitos estranhos sustentados pelos seus se­ guidores. A explicação correta da passagem20 9 é que Lucas contou a história do ponto de vista do participante principal: Paulo se encontrou com uns ho­ mens que lhe pareciam ser discípulos, mas, por ter dúvidas acerca da posição deles como cristãos, passou a examinar com mais cuidado as suas alegações. Lucas não está dizendo que estes homens eram discípulos, mas, sim, que assim pareciam para Paulo. 2. Tendo em vista a sua incerteza, Paulo lhes fez uma pergunta para testá-los. A tradução Recebestes, porventura, o Espirito Santo quando crestes? supõe que o particípio “tendo crido” (Gr pisteusantes) se refere a uma ação num tempo coincidente com o verbo principal recebestes. Esta é uma construção grega aceita (11:17; Ef 1:13). Alguns estudiosos traduzi­ riam: “Recebestes o Espírito Santo depois de terdes crido?” com a implica­ ção de que o recebimento do Espírito Santo é subseqüente â crença em Je­ sus. Embora esta seja uma maneira possível de entender a sintaxe, é indubi­ tavelmente um modo errado de entender a frase aqui no seu contexto; ressalta indevidamente a palavra “depois” e vai contra a associação constan­ te que há no Novo Testamento entre o Espírito e a conversão. Ninguém pode tomar-se verdadeiro crente em Jesus sem receber o Espírito (v. 1, nota).210 O grupo respondeu, negando sequer ter ouvido que existe o Espírito. Esta resposta, tem sido entendida no sentido de eles nada saberem acerca do Espírito e, portanto, de João Batista nunca ter mencionado o Espírito (contrariamente àquilo que se narra nos Evangelhos, Mt 3:11; Jo 1:33). Não devemos, outrossim, vincular 6 ensino de João por demais es­ treitamente com os relatos confusos do mesmo que talvez corressem a Ásia Menor vinte anos mais tarde; o comentário do grupo meramente signifi­ ca que não sabiam que o Espírito já tinha sido outorgado (cf. Jo 7:39). 3. Visto que os homens negaram o conhecimento do Espírito, a etapa seguinte do exame de Paulo foi quanto à natureza do batismo deles: Em que, pois, fostes batizados? Qual tipo de batismo receberam? A respos209

K. Haacker, “Einige Falle von ‘Erlebter Rede’ im Neuen Testam ent” , Nov. T 1 2 , 1970, págs. 70-77.

210Para uma discussão mais completa, ver Dunn, Baptism, págs. -2 8 8 -

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ATOS 19:3-6 ta sugere que podia haver contraste entre vários tipos de batismo (como em Hb 6:2), e pode ser que Lucas tenha dadò uma forma curta da resposta: “Fomos batizados segundo a maneira ordenada por João” . Esta confissão demonstra que os homens eram seguidores de João Batista, mas que sabiam alguma coisa acerca de Jesus. De alguma maneira, o conhecimento de Jesus, separadamente da mensagem cristã acerca da Sua ressurreição e do derra­ mamento do Espírito Santo parece ter chegado a Éfeso e provavelmente a outros lugares. 4. Paulo, portanto, relembrou o grupo daquilo que o próprio João Batista dissera. Seu p ró p rio batismo se associava com o arrependimento: oferecia a oportunidade divina do arrependimento (cf. 5:31; 11:18) e, ao mesmo tempo, tinha que ser acompanhado com os frutos concretos do ar­ rependimento na forma de um coração mudado e uma correspondente mu­ dança do modo de vida. O próprio João, no entanto, falara ao povo acerca da vinda de um “mais forte” , com a implicação de que devesse acreditar nEle (cf. Jo 1:26 e segs., 3:25 e segs.), e prometera que o Vindouro batiza­ ria no Espírito Santo. Agora Paulo esclarece seus ouvintes que. Aquele que havia de vir foi Jesus. Se, porém, já eram discípulos, então sua tarefa não era tanto persuadi-los de que Jesus era Aquele que havia de vir (fato do qual João tinha consciência, Lc 7:19) mas, sim, dar a notícia de que Ele já tinha derramado o Espírito. 5. A resposta deles, diante da mensagem, foi serem batizados em o nome do Senhor Jesus. Esta é a única ocasião registrada no Novo Testa­ mento em que pessoas receberam um segundo batismo, e ocorreu porque o batismo anterior não era batismo cristão em nome de Jesus. Seria erróneo concluir deste incidente que as pessoas que hoje não receberam o Espíri­ to na ocasião do seu batismo devem ser batizados de novo a fim de recebe­ rem o Espírito; a feição característica e essencial do batismo cristão é que é feito em nome de Jesus, e não importa o relacionamento cronológico do dom do Espírito com o rito propriamente dito, conforme demonstra a or­ dem variada em Atos (antes do batismo: 1047; na ocasião do batismo: 2:38; 8:38-39; depois do batismo: 8:15-16). 6. Como parte do rito, Paulo também impôs sobre eles as mãos, e nisto veio sobre eles o Espirito Santo, sendo que a sua presença foi revela­ da mediante o dom de línguas e o dom de profecia. A imposição das mãos também se associa com o dom do Espírito em 8:17-18;, mas noutros tre­ chos não se menciona nesta conexão (1 Tm 4:14 e 2 Tm 1:6-7 se referem à ordenação para o serviço cristão). Alguns estudiosos tiraram a conclusão de que Lucas a considerava parte integrante do rito do batismo ainda nos ca-2 8 9 -


ATOS 19:6-9 sos onde níío se menciona (Bovon, págs. 251-2); mas Hanson (págs. 190191) comenta que nenhuma associação entre a imposição das mãos e o dom do Espírito na ocasião do batismo pode ser comprovada antes de 200 d.C., e mesmo então, apenas esporadicamente. Parece mais provável que a impo­ sição das mãos devesse ser entendida como ato especial de comunhão, para incorporar as respectivas pessoas na comunhão da igreja. Este ato foi neces­ sário no caso dos convertidos samaritanos em cap. 8, para deixar bem claro que foram plenamente aceitos na igreja judaica centralizada em Jerusalém; e era necessário tornar claro a estes membros de um grupo semi-cristão que agora passavam a integrar a Igreja universal. O fato de a história demons­ trar que Paulo tinha a mesma autoridade que Pedrò e João para transmi­ tir o dom do Espírito não passa, provavelmente, de tema secundário. O efeito do batismo foi produzir manifestações “carismáticas” do Espírito (2:4, 17-18; 10:46). Fica claro a partir doutros relatos de conversões em Atos que semelhantes manifestações ocorriam de modo esporádico, e que não eram a regra geral (8:17, nota; 8:39; 13:52; 16:34); no presente caso, alguns dons incomuns eram talvez necessários para convencer este grupo de “semi-cristãos” de que agora eram plenamente membros da igreja de Cris­ to. 7. O número de membros deste grupo se menciona como anotação final; é improvável que tenha qualquer significado simbólico. e. A obra de Paulo em Éfeso (19:8-22). O relato da tarefa final de Paulo, de grande envergadura, na evange­ lização, é mais detalhado e vívido do que de costume. O padrão geral da atividade de Paulo em Éfeso foi o mesmo que em Corinto, mas a história se conta com mais pormenores, e culmina com o relato do tumulto dirigi­ do contra Paulo (19:2441). 8. Paulo começou, voltando à sinagoga onde ensinara previamente (18:19-21) e continuou ali a sua obra. Lucas amontoa os verbos que expres­ sam o caráter dinâmico e convincente da abordagem de Paulo, e dá a impres­ são de que a sua pregação foi eficaz em converter seu auditório. Seu tema é descrito como sendo o reino de Deus (cf. 8:12; 20:25). É improvável que isto signifique que Paulo estava pregando uma mensagem diferente daquela referida em 17:31; 18:5 e noutras passagens que diziam respeito a Jesus co­ mo Messias. A mensagem se referia a Jesus e o reino (28:31), e Lucas emprega os termos diferentes simplesmente para variação literária. 9. A associação entre Paulo e a sinagoga durou três meses, mais -2 9 0 -


ATOS 19:9-10 tempo do que usualmente. Chegou ao fim por causa da oposição dalguns dos judeus que se mostraram empedernidos contra a mensagem,211 recusa­ ram-se a crer nela, e falaram contra ela (cf. 13:45; 18:6). A força da opo­ sição era tal que Paulo sentiu que já não podia empregar a sinagoga como base para a evangelização e, assim, mudou-se para um terreno neutro, conforme fizera em Corinto. A escola de Tirano era provavelmente uma sala de preleções ou um edifício escolar, e Tirano era o dono ou o profes­ sor. O texto ocidental acrescenta o pormenor de que Paulo estava ativo desde a hora quinta até à décima, i.é, de 11,00 a 16,00 horas. Hanson (pág. 191) argumenta que esta informação trivial improvavelmente seria uma reminiscência autêntica preservada pelo redator ocidental; mais pro­ vavelmente, faz parte de uma tentativa de retratar Paulo como “filósofo” cristão, dando preleções diante de uma classe em horários fixos. Este perío­ do do dia, no entanto, era depois do término do trabalho matutino e, a despeito do fato de muitas pessoas aproveitarem o período para uma “siesta” , é historicamente provável que Paulo pudesse usar a escola quando o próprio Tirano não a estava empregando, e quando seu auditório estaria livre para freqüentá-la. Haenchen (págs. 560-561), vê problemas. Duvida que Paulo pudesse ter trabalhado mais cedo durante o dia para se sustentar, para então conseguir dar preleções; duvida que o salário de Paulo bastasse para pagar o aluguel a Tirano, e não entende as razões que levaram à mu­ dança: por que o rompimento com a sinagoga ocorreu precisamente neste momento, e os cristãos não estariam fazendo reuniões separadas antes dis­ to para celebrarem a Ceia do Senhor? Estas perguntas surgem porque Haen­ chen insiste no significado literal do texto (diariamente) até um grau desne­ cessário, e deixa de levar em conta que Tirano pode ter sido um cristão ou um simpatizante que pouco ou nada cobrava para o uso do seu recinto (mormente num horário durante o qual não fazia uso dele). Certamente, seria interessante saber com mais pormenores o que levou â saída de Paulo na sinagoga, e Haenchen nos coloca na pista certa quando sugere que os cris­ tãos já estavam tendo reuniões como grupos nas casas antes de surgir o rom­ pimento com a sinagoga; o que estava em debate era o uso da sinagoga para a evangelização. 10. O ministério de Paulo em Éfeso durou dois anos na sua nova base de operações (cf. 18:11 para um período comparável em Corinto). Lucas se restringe a registrar que (falando em termos gerais) todas as pessoas naquela província ouviram o evangelho. Outra vez, gostaríamos de saber mais do que

21 1Sobre “o Caminho” ver 9:1-2, nota.

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ATOS 19:10-13 aquilo que Lucas nos conta, mas, a partir doutras informações, percebemos que o próprio Paulo provavelmente viajava para mais longe (e.g. para Corin­ to) e que seus colegas ajudaram a espalhar o evangelho para cidades que ele pessoalmente nunca visitou (e.g. Colossos) 11-12. A pregação de Paulo foi acompanhada por curas e exorcismos dos mais notáveis. Assemelhavam-se às atividades de Pedro (5:15-16), e o próprio Paulo se refere aos sinais, maravilhas e obras poderosas que acom­ panharam o seu ministério (2 Co 12:12; Rm 15:19; cf. G1 3:5; ver também Hb 2:4). O caráter incomum dos poderes de Paulo se via nisto: até mesmo artigos de indumentária que ele tocara foram levados aos doentes, e exerciam sobre eles uma influência benéfica de cura. Naturalmente, os racionalistas tiveram grandes dificuldades com estes relatórios (cf. 5:15). Mesmo assim, é impossível negar a convicção do próprio Paulo de que sinais milagrosos acompanhavam o seu ministério, embora ele pessoalmente não os encaras­ se como as credenciais mias importantes do seu ministério, e fosse possí­ vel aos seus oponentes minimizar a significância deles. Não precisamos duvi­ dar, portanto, que Paulo, como Jesus, revelava poderes milagrosos. Estabele­ cido este fato, no entanto, é inegavelmente difícil distinguir o que aqui se descreve no v. 12 das crenças primitivas e grosseiras em mana, i.é, um po­ der quase físico que emanava de quem curava e afetava as suas roupas de tal maneira que pudessem ser usadas como veículos do poder sobre­ natural. É surpreendènte que Lucas, que tanto critica a magia pagã, pode concordar que crenças mágicas semelhantes, numa forma cristianizada, fos­ sem eficazes no ministério apostólico. Talvez pudéssemos sugerir que Deus é capaz da condescendência ao nível dos homens que ainda pensam de mo­ dos tão imatúros, assim como fez com a mulher com a hemorragia que pre­ cisou, no entanto, ser levada a um encontro pessoal com Jesus (Lc 8:4348). 13. Uma pequena anedota vigorosa age como comparação com o re­ latório dos poderes de Paulo, e providencia alguma indicação do tipo de am­ biente em que trabalhava. Havia pessoas que andavam ganhando a vida com vários tipos de poderes pseudo-científicos ou clarividentes, inclusive a práti­ ca do exorcismo. Estavam dispostas a conclamar os nomes de todo ou qual­ quer deus ou divindade nas suas invocações —e freqüentemente recitavam longas listas de nomes para terem a certeza de incluir o deus certo em qual­ quer caso específico. Até mesmo os pagãos empregavam os vários nomes judaicos de Deus. Estes exorcistas judaicos (cf. Lc 11:19) agora passaram a empregar o nome de Jesus numa tentativa de rivalizar-se com os poderes de Paulo. Uma fórmula mágica conservada nos papiros mágicos diz: “Con­ juro-te pelo Deus dos hebreus, Jesus”. -

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ATOS 19:14-17 14. 0 grupo de judeus que experimentava esta forma de invocação era conhecido como os sete filhos de Ceva, um sumo sacerdote judaico.212 Nenhuma pessoa com este nome já foi o Sumo Sacerdote propriamente dito. Ou Ceva era meramente um membro de uma família sumo-sacerdotal, ou tomou sobre si este título para seus fins profissionais, com o fito de im­ pressionar e iludir o público, pois um sumo sacerdote (ou seus filhos) te­ ria contato muito estreito com o sobrenatural: podemos comparar a ma­ neira de curandeiros modernos usarem títulos tais como “Doutor” ou “Professor”. A alegação de Haenchen (pág. 565) de que Lucas realmente sustentava a crença errônea de que Ceva era um sumo sacerdote depende do ponto de vista daquele, de que Lucas consideraria digno de registro apenas um triunfo sobre um sumo sacerdote (e não sobre algum exorcis­ ta insignificante); mas a lição da narrativa não é a posição dos exorcistas, e, sim, a tentativa de lançar mão indevidamente do nome de Jesus. 15-17. Falhou a tentativa de fazer a invocação; o espírito maligno que estava no homem confessou conhecer a Jesus e saber quem era Paulo que empregava o Seu nome, mas desafiou o direito destes exorcistas fazerem uso do nome. Não somente assim, mas também o homem, sob a influência maligna, ficou violento e os atacou, de modo que se deram por felizes ao conseguirem fugir com a perda total das suas roupas. Esta história pressu­ põe o mesmo tipo de conhecimento sobrenatural da parte dos endemoni­ nhados que achamos nos Evangelhos (Lc 4:34, 41; 8:28), e, assim, nos leva para uma área de experiência que é estranha a muitos leitores modernos. A história, e, presumivelmente, muitas outras semelhantes, se tomou conhe­ cida entre os judeus e os gregos na área, e o efeito era provocar temor e, aç mesmo tempo, levar ao louvor do nome de Jesus. Numa situação em que o povo estava nos laços da superstição, talvez a única maneira do cristianis­ mo propagar-se seria mediante a demonstração de que o poder de Jesus era superior àquele dos demônios, mesmo se aqueles que vieram a crer fossem tentados a pensar do Seu poder e da Sua pessoa de modos que ainda estavam condicionados pelas suas categorias primitivas de pensamento. Levou tempo para a igreja depurar seu conceito de Deus dos modos pagãos de pensar, e a tendência de deixarmos nossas idéias de Deus serem influen­ ciadas pelas tendências contemporâneas, e às vezes enganadoras, do pen-

212B. A. Mastin, “Scaeva the Chief Priest”, JTS 27, 1976, págs. 4 0 5 4 1 2 , argumenta que Ceva talvez fosse um membro da família sumo sacerdotal; seus filhos devem ter sido sacerdotes, e, portanto, capazes de fazer exorcismos. O ceticismo de Haenchen, portanto, é injustificado.

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ATOS 19:18-21 sarnento filosófico e científico é tentação que ainda pesa sobre a igreja. 18-20. Mesmo assim, o processo da purificação do pensamento cris­ tão, removendo-se a influência pagã, foi ajudado por aquilo que aconteceu. Os cristãos não são plenamente convertidos ou aperfeiçoados num instante, e modos pagãos de pensar podem persistir lado a lado com a experiência cristã genuína; a história da igreja em Corinto demonstra que os cristãos le­ varam certo tempo para se persuadirem que a imoralidade sexual e a adoração dos ídolos eram totalmente incompatíveis com a religião cristã (1 Co 6:9-11). Mais cedo ou mais tarde, chega o momento de os crentes reconhecerem a necessidade de confessar a pecaminosidade das suas práticas; se for possível ir além, e remover a causa da tentação, como neste caso, tanto melhor. A demonstração da futilidade das tentativas pagãs de do­ minarem os espíritos maus levou muitos dos convertidos efésios de Paulo a reconhecerem que a magia pagã, com a qual ainda tinha contatos, era tão inútil quanto pecaminosa. Como conseqüência, trouxeram os vários ma­ nuais de magia e as compilações de invocações e fórmulas que ainda tinham, e fizeram com eles um rompimento final ao queimá-los publicamente. O especial fascínio que os efésios tinham para com estas coisas vãs se demons­ tra no fato de livros de magia em geral serem conhecidos como “cartas efésias”. O valor deste “lixo” era considerável: correspondia a 50.000 vezes o salário de um dia de um operário —mas não se trata necessariamente de um exagero das condições da cidade, nem em comparação com aquilo que pessoas comuns gastam hoje em dia em balangandãs e frivolidades. Nes­ ta nota alta, Lucas termina a narrativa do ministério bem-sucedido de Paulo em Éfeso, embora ainda não terminasse á história de todos os acontecimen­ tos ali. 21. Paulo, sob a orientação do Espírito Santo, chegou á conclusão de que a sua obra de fundar a igreja em Éfeso chegara a uma etapa em que poderia deixá-la a fim de levar a efeito outros planos.213 Resolveu visitar de novo Macedônia e Acaia, antes de voltar a Jerusalém. Lucas deixa o leitor imaginar que o itinerário bem mais longo, passando pelos antigos campos missionários de Paulo, visava o propósito de encorajar as igrejas novas, co­ mo em 14:22-23; 15:36, 41; 18:23. Nem menciona aqui que um dos propó­ sitos de Paulo '.ra coletar as ofertas que estavam sendo levantadas para Je­ rusalém e levá-las para lá Hanson (págs. 194-5) observa corretamente que

213A frase “no seu espírito” também pode significar “no Espírito” ; cf. 18:25; 20:22 para uma ambiguidade semelhante; Bruce, A to s, pág. 361, prefere, com razão, a segunda tradução. -

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ATOS 19:21-22 Lucas, escrevendo de uma perspectiva posterior, reconheceu que a prisão de Paulo e a sua seqüela tinham mais significado do que a entrega da coleta em Jerusalém, embora esta última parecesse mais importante ao próprio Paulo na ocasião (ver Rm 15:25-33; 1 Co 16:14; 2 Co caps. 8-9. O conhe­ cimento que Lucas tinha acerca da coleta se ve momentaneamente em At 24:17). Olhando para além de Jerusalém, Paulo também expressou o seu propósito de visitar Roma, não no sentido de um turista que diz: “Devo ver a Veneza”, mas, sim, no mesmo sentido de Jesus que tinha consciência de que o decurso da1sua vida era ditado por um “deve” que tinha a sua origem no propósito de Deus (Lc 4:43; 9:22). Sem dúvida, os céticos gosta­ riam de dizer que esta introspecção representa a reconstrução imaginária de Lucas, baseada naquilo que Paulo chegou a fazer mais tarde, se não fosse Romanos 15:22-25, que oferece evidências em primeira mão de que este era precisamente o propósito de Paulo nesta precisa ocasião. 22. Paulo fez os preparativos para a sua viagem ao enviar dois dos seus companheiros adiante dele para Macedônia. Lucas dá a impressão de que Paulo não foi forçado a deixar Éfeso pelas maquinações de Demétrio e seus amigos (20:3341): os preparativos para a sua partida já tinha sido feitos. Conforme 1 Coríntios, Timóteo já visitara Corinto e provavelmente voltara a Éfeso (1 Co 4:17; 16:10, 17 esta visita não pode ser considerada como equivalente daquela que se encara aqui, pois não sobraria, assim, tempo suficiente entre a composição de 1 e 2 Coríntios). Alguns estudiosos su­ geriram que a viagem aqui é a mesma que aquela em Filipenses 2:19, que deveria ser seguida pela visita do próprio Paulo à mesma área (Fp 2:24; este conceito depende da suposição de que a Epístola aos Filipenses fosse escrita a partir de Éfeso, por volta desta data). Já foram feitas tentati­ vas, outrossim, de vincular 1 Timóteo com este período (1 Tm 1:3).214 Quanto a Erasto, sabemos acerca de uma pessoa com este nome que era “tesoureiro da cidade” de Corinto (Rm 16:23; cf. 2 Tm 4:20), mas duvidase que uma pessoa que detinha um cargo deste tipo tivesse liberdade para viajar na obra missionária e, de qualquer forma, o nome era comum. Haen­ chen (págs. 469-70) chama a atenção à ausência de Tito deste versículo (e, realmente, de Atos de modo geral), e sustenta que uma referência a ele, e não a Timóteo, teria sido apropriada aqui (cf. 2 Co 2:13); conclui, sem quaisquer evidências reais, que o relatório de Lucas está confuso, mas o máximo que podemos dizer é que está incompleto.

214J. A. T. Robinson, Redating the N ew Testament, págs. 82-84, associa 1 Timóteo com a partida de Paulo de Éfeso em At 20:1.

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ATOS 19:23-25 f. A reação do paganismo em Éfeso (19:2341). A oposição a Paulo que surgiu em Éfeso foi como a em Filipos, no sentido de ter origens pagãs. À acusação de que Paulo interferia óom os in­ teresses financeiro daqueles que ganhavam dinheiro com a idolatria, foi acrescentada a acusação de que estava atacando a religião pagã propria­ mente dita. O incidente, conforme Lucas relata, expressa o efeito largamente difundido da missão cristã, e também ressalta a arbitrariedade e confusão da oposição que não tinha um plano de ação claramente combi­ nado. Também tornou claro que aqueles que detinham posições de autori­ dade não estavam dispostos a agirem contra os missionários senão median­ te os processos legais apropriados. A história é, em efeito, uma declaração de que os cristãos não se constituem em perigo para o estado, e uma petição para que sejam tratados com tolerância numa sociedade pluralista; somente quando acusações criminais devidamente definidas fossem proferidas contra eles é que deveriam ser convocados diante dos tribunais. 23. O incidente ocorreu perto do fim da permanência de Paulo em Éfeso, quando já estava fazendo planos para partir de lá (20:1). Uma suges­ tão é que ocorreu na primavera, cerca da ocasião da festa anual de Diana, mas não há provas para isto. Quanto ao Caminho, ver 9:1-2, nota; 19:9. 24. O cabeça do motim foi um certo Demétrio que tinha uma fábri­ ca que produzia modelos em prata do famoso santuário de Diana. Diana é a forma latinizada do nome grego de uma deusa, Ártemis, que fora iden­ tificada pelo sincretismo helenístico com uma deusa asiática. Embora Diana fosse uma deusa virgem, padroeira da caça, a deusa asiática era uma deu­ sa de fertilidade, Era representada como figura feminina com muitos seios (segundo a interpretação usual das imagens), e uma imagem dela foi coloca­ da no grande templo em Éfeso, que constava como uma das sete mara­ vilhas do mundo. A festa de Diana era celebrada com orgias desenfrea­ das e bebedeiras. Sobreviveram até ao presente vários modelos do templo, feitos em terracota, mas, até agora, nenhum em prata (que, de qualquer maneira, teria menos probabilidade de sobreviver) tem sido achado. Surgiu a sugestão de que Lucas converteu um Demétrio que, segundo se sabe, foi um guardião oficial do templo neste período, em fabricante de modelos do santuário, mas esta especulação não tem base; o nome era extremamente comum. 25. Demétrio reuniu os membros da confederação dos empregado­ res (segundo o nome que hoje daríamos), para organizar uma demosntração de protesto. Parece ser um homem com um conceito claro daquilo que ape­ laria para seus companheiros de negócios e, portanto, colocou diante deles -2 9 6 -


ATOS 19:25-29 como primeira consideração o fato de que sua profissão, que sem dúvida era tão lucrativa como a produção modema de lembranças para turistas, corria o risco de entrar em declínio. 26. Em todas as partes de Éfeso e das suas vizinhanças, muitos ado­ radores de Diana voltavam-se para o cristianismo, e já não acreditavam em ídolos feitos por mãos humanas. Os missionários cristãos antigos retomaram de boa mente os argumentos existentes, baseados no Antigo Testamento, que eram empregados pelos apologistas judaicos no combate à idolatria (Is 44:9-20; 46:1-7; At 17:29). 27. Como resultado, havia perigo de os negócios dos artífices de pra­ ta ficarem com má fama (i.é, pela sua promoção da idolatria). Já com estas palavras, Demétrio está deslisando do tema explícito do lucro com o qual começou, para o tipo de argumento que serviria para apoiá-lo e, de fato, para substituí-lo em apelos para um público maior. O povo comum tal­ vez não se preocuparia demais se os negócios de Demétrio falissem, mas tal­ vez levassem a sério a possibilidade de o templo de Diana perder a sua po­ sição na estima popular e, ainda mais, que a deusa, associada com Éfeso, mas que atraía adoradores de todas as partes do mundo, pudesse ser destronizada da sua posição. 28. Demétrio se revelou propagandista eficaz da sua causa. Seus cole­ gas de profissão expressaram aprovação pelo seu discurso com o grito que era o clamor feito no culto à deusa: Grande é Diana dos efésiosl 29. Não se nos informa onde foi feita a reunião de protesto, mas parece claro que culminou com uma marcha de protesto ao longo das ruas.215 Agregou-se rapidamente uma multidão favorável ao clamor dos ourives, e resolveu-se fazer um protesto em grande escala. O lugar apropria­ do para uma reunião pública de qualquer tamanho em muitas cidades gre­ gas era o teatro ao ar livre; aquele de Éfeso já foi escavado, e estima-se que tinha a capacidade para 25.000 pessoas. A reunião que se seguiu foi uma as­ sembléia oficial do corpo dos cidadãos, e seu propósito teria sido persuadir os oficiais da cidade a empreender ação contra os missionários. Os instiga­ dores da reunião conseguiram pôr as mãos em dois deles, Gaio e Aristarco. Este último era proveniente de Tessalônica (20:4; 27:2; cf. Cl 4:10; Fm 24). Menciona-se um Gaio em 20:4, mas, conforme consta o texto, ele era na­ tural de Derbe na Galácia (ver a nota sobre 20:4, porém); de qualquer forma, era um nome muito comum. Parece que os oponentes não tinham

21sEste fato fica explícito n o texto ocidental, que freqüentemente preenche - nem sempre corretamente — pormenores que ficam obscuros no texto alexandrino.

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ATOS 19:29-35 interesse nos líderes da igreja local de Éfeso; supõe-se que queriam prender Paulo, ou pelo menos seus associados imediatos, que trouxeram para a área esta religião nova. 30-31. Paulo evadiu-se às garras deles, no entanto. Estava disposto a comparecer diante da assembléia dos cidadãos; seus amigos, porém, res­ tringiram-no, temendo pela sua segurança. Suas persuasões foram apoiadas por alguns dos asiarcas que simpatizavam com Paulo. Este termo podia referir-se aos “presidentes anuais, e talvez aos ex-presidentes, do concilio provincial da Ásia, ou talvez abrange também os administradores dos vários templos do culto imperial, que também estavam sob os cuidados de sumos sacerdotes nomeados pelo concílio provincial, ou talvez meramente indicas­ se os deputados da cidade naquele concílio” (Sherwin-White, pág. 90). As­ sim, eram membros de um agrupamento religioso e político das cidades da Ásia, e seriam membros da aristocracia. É digno de nota que Paulo tinha amigos neste círculo, e que se preocupavam com a sua segurança no meio da turba/. 32. A reunião propriamente dita no teatro foi algo desorganizada, e nada demonstrava do procedimento ordeiro de uma cidade democrática grega. Lucas se torna irônico ao mencionar que muitos nem sequer sabiam o motivo de estarem ali; as turbas freqüentemente demonstram a mesmà de­ sordem e confusão. 33. Havia representantes da comunidade judaica presentes, e prova­ velmente quisessem deixar claro que nenhuma conexão tinham com os cris­ tãos. Numa tentativa de se defenderem contra qualquer possibilidade de serem sujeitos às mesmas suspeitas, enviaram um representante chamado Alexandre para falar em prol deles, e ele fez o possível para atrair a atenção da turba barulhenta, ao gesticular, pedindo silencio. As palavras Então tiraram Alexandre dentre a multidão causam dificuldades, pois esta tradu­ ção sugere que membros não-judaicos da multidão puseram Alexandre na frente, embora fosse nomeado porta-voz da parte dos judeus. Haenchen (pág. 574) entende que o verbo significa “instruir”, e que a multidão co­ locou Alexandre a par da situação antes que ele tentasse falar. Bruce (Atos, pág. 366) pensa que a multidão “conjecturou” ser Alexandre a causa dos distúrbios. 34. A multidão, no entanto, já nesta altura estava em extrema agi­ tação, indisposta a ouvir a um judeu, e durante quase duas horas o silen­ ciavam com o grito ritual deles. Se tal coisa parece incrível, devemos ter em mente como turbas zangadas no dia de hoje podem gritar insultos quan­ do alguém quer entrar em argumento racional com elas. 35. Assim, foi apenas com grande dificuldade que o escrivão da cida­ -2 9 8 -


ATOS 19:35-37 de conseguiu silenciar o povo (aqui, e em v. 33, em contraste com v. 30, Lucas emprega a palavra uma turba, ochbs).216 Em Éfeso, e nalgumas outras cidades da Ásia Menor, o “escrivão do povo” era o magistrado principal da cidade, ao passo que noutras cidades gregas era apenas um assis­ tente da administração (Sherwin-White, pág. 86). Era, portanto, a pessoa apropriada para assumir controle da assembléia e receber os apelos dos artífices de prata. Seu discurso visava acalmar a multidão e defender uma abordagem mais cautelosa. Segundo disse, não havia nenhum motivo para o povo emocionar-se acerca de um possível declínio na reputação e fama da sua deusa, e da glória refletida que a cidade recebia por ser guardiã do culto a ela. O termo guardiã do templo se empregava de cidades que ti­ nham templos do culto a César (inclusive a própria Éfeso). Quando o termo se aplica a Éfeso como guardiã do templo de Diana no século III, o uso lingüístico é uma extensão do uso imperial; o modo de o termo ser apli­ cado com referência a Diana aqui em Atos se desenvolveu da aplicação ante­ rior, aos indivíduos propriamente ditos que guardavam o templo, e histori­ camente é perfeitamente crível, embora não tenha sido achado nenhum pa­ ralelo preciso nas inscrições. (Sherwin-White, págs. 88-89). Juntamente com este título de dignificação, Éfeso também podia alegar a aprovação divina do culto, na forma de uma pedra que caíra do céu. Esta deve ter si­ do um meteorito, semelhante a outros exemplares atestados para outros templos antigos, e considerado como uma imagem enviada pelos deuses. A sugestão (mencionada em BC, IV, pág. 450) de que o escrivão o considerava “não feito com mãos” e, portanto, fora da condenação que Paulo fazia dos ídolos, é extrair sentido demasiado do texto. 36. Para o escrivão, a reputação da cidade, de longa data, e a apro­ vação divina do culto a Diana eram fatos que não poderiam ser negados, e certamente não pela ascensão dos grupos cristãos na área. Não havia, por­ tanto, necessidade de tratar do caso dos missionários de modo sumário, diante da assembléia. Ao dizer assim, o escrivão não surgiu como defensor do cristianismo (muito pelo contrário, na realidade!) mas, sim, como defensor da lei e da ordem, ansioso por evitar que a cidade obtivesse uma reputação por desordens e ações ilegais. 37. Fortaleceu o seu argumento ao insistir que não fora proferida justa causa para o processo contra os missionários. Não havia acusação de­ vidamente formulada para eles responderem. Não tinham sido acusados

216Esta expressão traduz démos melhor do que povo, embora esta segunda palavra descreva eficazmente o caráter real do agrupamento (cf. 17:5).

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ATOS 19:37-41 de comportamento sacrílego quanto ao templo, nem falaram contra a deu­ sa de modo que se constituísse em blasfêmia aos ouvidos dos adoradores dela. Noutras palavras, não havia em pauta nenhum assunto do interesse público. 38. Se, porém, houvesse uma questão particular entre os artífices e os missionários, então existiam processos regulares para tratarem de tal assunto. Causas particulares deviam ser julgadas nas audiências diante dos magistrados. Estas audiências eram presididas pelo governador da provín­ cia, um procônsul romano, que viajava em circuito pelas cidades princi­ pais, com este propósito. A forma plural, procônsules, é algo incomum, pois somente havia um oficial que detinha este cargo por vez, geralmente por um ano. Pode ser um plural de generalização: “há pessoas que se chamam procônsules”. G. S. Duncan propôs que o plural se referia aos dois representants do imperador; Hélio e Céder, que talvez tenham governado a provín­ cia durante o interregno que se seguiu após o assassinato do procônsul Silano por odem do imperador, em outubro de 54.217 39. O escrivão da cidade deixou em aberto a possibilidade de que houvesse alguma outra coisa em pauta, que dissesse respeito à cidade como um todo. Neste caso, o procedimento apropriado seria aguardar uma assembléia regular na data própria, que decerto seria dentro de pouco mais de uma semana. 40-41. As palavras finais do escrivão expressaram seu temor de que uma reunião extraordinária da assembléia que quase se transformara em motim pudesse ter repercussões graves. Sherwin-White (págs 83-85) cita evidências interessantes deste período que mostra que os romanos estavam interessados em se ver livres destas assembléias democráticas; o escrivão da cidade de Prusa se dirigiu à assembléia em termos notavalmente semelhan­ tes, advertindo seus ouvintes quanto às conseqüências drásticas de relatórios acerca de reuniões desordenadas que chegassem aos ouvidos do procônsul. O apelo do escrivão foi bem-sucedido, e a assembléia foi dissolvida. Dentro das informações que temos, nenhum processo adicional foi instaurado, em público ou em particular, contra Paulo e seus colegas, da parte dos ar­ tífices. g. A viagem de Paulo de Éfeso a Mileto (20:1-16). Os planos de Paulo incluíam uma segunda visita a Macedônia e a 217G. S. Duncan, St. Paul's Efesian Ministry (Londres, 1929), págs. 102-107.

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ATOS 20:1-2 Acaia antes da sua viagem a Jerusalém (19:21). Seu plano original teria sido ir diretamente de Corinto à Palestina, passando ao largo do litoral ocidental da Ásia, mas, tendo em vista seus temores de um complô judaico contra ele, resolveu evitar seus inimigos ao voltar pelo caminho da sua chegada, pas­ sando pela Macedônia e depois descendo o litoral da Ásia via Trôade. Aqui, ocorreu um incidente notável, quando Êutico foi ressuscitado dentre os mortos e, depois disto, Paulo caminhou com toda a pressa para Jerusalém a fim de chegar ali antes do Pentecoste. Deliberadamente evitou uma visita a Éfeso. Quanto a esta viagem, temos comentários valiosos escritos pelo pró­ prio Paulo em 2 Coríntios, que antevê a visita que fez a Corinto, e em Ro­ manos, que foi escrita durante a permanência de Paulo em Corinto, e lan­ ça luz sobre seus planos imediatos para a viagem. Destas cartas ficamos sa­ bendo da importância que Paulo atribuía à coleta de dinheiro que estava levando das igrejas gentias superintendidas por ele, para ajudar a igreja em Jerusalém a cuidar dos seus membros mais pobres. 1. Paulo deixou Éfeso depois de cessar o tumulto. O fato de ele não mais voltar para lá leva as pessoas a pensaram que, embora não fora profe­ rida contra ele qualquer acusação formal afinal das contas, considerava mais sábio evitar mais distúrbios. Antes da sua partida, conclamou os membros da igreja e lhes deu uma mensagem de despedida; seu conteúdo provavel­ mente era semelhante à exortação registrada em 20:18-35, a qual, natural­ mente, não tinha expectativa de fazer quando deixou Éfeso. Viajou, então, para a Macedônia. Supondo-se que é esta a viagem referida em 2 Coríntios 2:12-13, Paulo foi para o norte, para Trôade (cf. 16:8). Aqui, pôde partici­ par de evangelização frutífera. Foi durante este período que chegou ao cú­ mulo a disputa na igreja de Corinto. Paulo mandara Tito para lá com uma carta (agora perdida) a fim de levar a efeito uma reconciliação e preparar o caminho para a sua própria visita iminente, visita que estava indisposto a fazer se é que haveria de ser confrontado por uma igreja ainda em desa­ vença com ele. Parece que Paulo esperava encontrar Tito ali, mas, quando Tito faltou ao encontro, ficou tão preocupado com a situação que atraves­ sou para a Maced��nia, esperando encontrar-se mais brevemente com ele. 2. Na sua chegada em Macedônia, as preocupações intensas de Pau­ lo foram acalmadas pela chegada de Tito com boas notícias acerca da igre­ ja; cheio de gratidão, Paulo escreveu uma carta adicional à igreja (2 Corín­ tios) e a enviou pela mão de Tito e de dois outros colegas, não mencionados pelos nomes, que deveriam supervisionar a coleta (2 Co 8:16-24). Lucas, no entanto, nada nos conta de tudo isto (19:21, nota), e se restringe a dar um relatório do ministério de Paulo na Macedônia, onde revisitou as igrejas. Lucas nem sequer se refere especificamente à obra de Paulo no oeste da -3 0 1 -


ATOS 20:2-4 Grécia; conforme Rm 15:19, Paulo alegou que pregara os evangelho até Ilírico, e este período é o mais provável para esta missão. De lá, Paulo foi para a Grécia (o nome popular da província romana da Acaia), sem dúvida para a sua cidade principal, Corinto. 3. A permanência de Paulo em Corinto durante três meses foi pro­ vavelmente durante os meses do inverno, quando seria difícil viajar. Entre outras atividades durante a sua permanência forçada, escreveu a Epístola aos Romanos. Seu plano de partir para a Síria na primavera foi frustrado quando ficou sabendo da existência contra ele de uma conspiração por parte dos judeus. Durante esta estação, provavelmente haveria grandes números de judeus indo para Jerusalém para a Páscoa ou o Pentecoste, sendo esta última a ocasião predileta para os romeiros visitarem a cidade; não teria sido difícil demais aproveitar a oportunidade para atacar Paulo no navio. Supõe-se que os judeus de Corinto, que foram denotados na sua tentativa anterior de atacar Paulo (18:12-17) tomaram parte da conspi­ ração, mas Lucas não nos informou mais sobre ela, nem como Paulo veio a ser informado sobre ela. A fim de evitar seus inimigos, Paulo partiu na di­ reção oposta, para o norte. 4. A esta altura, Lucas nos dá uma lista das pessoas que foram com­ panheiros de viagem de Paulo. Nenhum motivo para a inclusão dos nonies deles parece aparente. O comentário cínico de Haenchen (pág. 583) que o leitor consideraria a comitiva apropriada para um missionário tão bem-su­ cedido como Paulo nos dá uma relance da sua própria mentalidade, e não da de Lucas. É mais provável que os encarasse como testemunhas em primeira mão do sucesso da missão de Paulo, que apoiariam seu relatório diante da igreja de Jerusalém, onde muitos cristãos ainda tinham suspeitas daquilo que fazia (21:20-21). Na realidade, estas eram provavelmente as pessoas no­ meadas pelas igrejas para levarem a Jerusalém a sua parte da coleta. Assim, temos um representante da igreja em Beréia, Sópatro (uma forma curta de Sosípater; Rm 16:21, escrito de Corinto, menciona um parente de Paulo com este nome). O modo de ele ser mencionado sugere que os leitores de Lucas o- conheceriam. Depois, temos dois tessalonicenses, Aristarco (já mencionado em 19:29; acompanhou Paulo na primeira etapa da sua via­ gem de Jerusalém a Roma, 27:2) e Secundo. Gaio provinha de Derbe, na Galácia; um texto variante no texto ocidental, no entanto, faz dele um na­ tural de Dobero, uma cidade da Macedônia perto de Filipos, e, neste caso, poderia ser identificado com o Gaio mencionado em 19:29, e também considerado um representante da igreja de Filipos (assim Bruce, Atos, pág. 370). Este conceito é contestado (provavelmente com razão) por Haenchen (págs. 52-53) que nota que está vinculado com Timóteo, um -3 0 2 -


ATOS 20:4-6 gálata, na lista, e que o texto ocidental talvez se devesse a um escriba que queria fazer com que este Gaio fosse o mesmo que aquele em 19:29. Havia, outrossim, duas pessoas da Ásia (i.é, provavelmente Éfeso); Tiquico, mais tarde, se associou com as cartas de Paulo à Ásia Menor (Ef 6:21-22; Cl 4:7-8; cf 2 Tm 4:12; Tt 3:12), e Trôfimo que estava presente nos distúr­ bios que levaram à prisão de Paulo em Jerusalém (21:29; cf. 2 Tm 4:20). Se estes homens foram envolvidos na coleta, surgem algumas poucas difi­ culdades. A ' menção de Timóteo, que não provinha de uma igreja local, pode ser explicada por sua participação nos preparativos para a coleta (19:22); se Gaio era proveniente de Derbe, talvez participasse da mesma maneira como Timóteo. É também possível que trouxessem ofertas da Galácia, embora seria uma caminhada um pouco contra-mão. É estranho não haver menção de Filipos, a não ser que Gaio realmente pertencesse àquela igreja. É verdade que nos w. 5-6, alguém (i.é, Lucas) de Filipos se juntou a Paulo, mas, visto Paulo não ter planejado voltar passando por Filipos, teríamos esperado que o representante de Filipos já estivesse pre­ sente. Além disto, é talvez estranho que, quando Paulo chega mesmo a Filipos, é imediatamente acompanhado por alguém que está livre para ir a Jerusalém com ele. É possível que tenha havido um plano para um encon­ tro com o representante de Filipos nalgum ponto da caminhada, que foi al­ terado quando Paulo mudou seu itinerário. É mais, simples, porém, supor que o representante filipense já viera a Corinto, mas não menciona seu pró­ prio nome no v. 4.218 Não se menciona um representante de Corinto pro­ priamente dito, a despeito da sugestão anterior em 1 Co 16:3-4, e só nos res­ ta supor que o próprio Paulo empreendeu esta tarefa. Finalmente, não se menciona Tito; provavelmente, estava ocupado na obra missionária alhures. 5-6. Os companheiros de Paulo viajaram adiante dele, por razões des­ conhecidas, e atravessaram para Trôade, onde aguardavam o restante do gru­ po. Agora a narrativa volta a adotar o estilo de “nós”, que indica que o autor voltou a ser um membro do grupo. É claro que não deve ser identi­ ficado com qualquer das pessoas mencionadas no v. 4. A passagem prévia com “nós” terminara em Filipos, onde agora recomeça, mas é possível que o autor já tenha vindo encontrar Paulo antes de este chegar a Filipos. Por “nós”, o autor quer dizer “Paulo e eu” - e possivelmente outras pessoas cujos nomes não são mencionados; devemos, no entanto, notar a sugestão

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Este conceito, alias, se harmonizaria com a hipótese de que o representan­ te de Filipos, a saber, Lucas, era “ o irmão que é famoso em todas as igrejas pela sua pregação do evangelho” a quem Paulo enviara a Corinto, 2 Co 8:18.

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ATOS 20:6-8 (Haenchen, pág. 582) de que “estes” em v. 5 talvez se referissem somente a Tíquico e Trófimo, de tal modo que “nós” incluiria o restante dos nomes mencionados em v 4. Os da Ásia iriam em frente para fazer os preparativos para o restante do grupo. Paulo e os demais esperavam para depois dos dias dos pães asmos antes de navegarem. É provável que celebrasse a^Páscoa cristã com a igreja em Filipos (1 Co 5:7-8), e não que se tratasse de uma anotação cronológica judaica (cf. 20:16 e contrastar 27:9). A viagem de Neápolis, o porto de Filipos (16:11), para Trôade levou mais tempo do que a viagem em direção inversa, sem dúvida por causa de condições adversas do vento. 7-8. Os discípulos, em Trôade, se reuniram no primeiro dia da semana (Lc 24:1) a fim de partir o pão e de ter uma última oportunidade de ouvi­ rem a Paulo. O partir do pio é o termo que se emprega especialmente em Atos para a celebração da Ceia do Senhor (2:42; cf. 1 Co 10:16), e esta passagem é de especial interesse por oferecer a primeira alusão ao costume cristão de se reunirem no primeiro dia da semana para este propósito.219 Não fica totalmente claro qual modo de contar o tempo Lucas aqui empre­ ga. Conforme o método judaico de calcular o novo dia a partir do pôr do sol, Paulo teria encontrado os crentes na ocasião que era sábado à noite por nosso modo de calcular, e teria recomeçado a sua viagem na manhã do domingo.220 Conforme o método romano de calcular o novo dia a par­ tir da aurora, os cristãos teriam se encontrado no entardecer ou do domin­ go (o primeiro dia da semana judaica), ou no sábado (o primeiro dia da semana romana). Visto que Lucas, noutros trechos, calcula as horas do dia a partir da aurora (3:1) parece que segue o método romano de calcular o tempo, e o calendário judaico (cf. Lc 24:1). Bruce (Livro, pág. 406, n. 25), argumenta que considera a manhã seguinte, quando Paulo pretendia partir, como sendo o dia imediato, e que “o romper da alva” em v. 1,1 significa o começo do novo dia; logo, a reunião se realizou no entardecer do domin­ go e Paulo partiu na segunda-feira pela manhã.221 219

Uma assembleia cristã no primeiro dia da semana está subentendida em 1 Co 16:2, e o “Dia do Senhor” que se menciona em Ap 1:10 é geralmente entendido como sendo o domingo. 220

Pára este conceito ver M. D. Goulder, Midrash and Lection in Matthew (Londres, 1974), pág. 177 n. 38. 2 21

A passagem não apoia a praxe dos Adventistas do Sétimo Dia que consi­ deram o pôr do sol na sexta-feira até ao pôr do sol no sábado como sendo o dia apro­ priado para o culto cristão; mesmo que a reunião fosse no anoitecer do sábado, não fazia parte do sábado judaico.

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ATOS 20:8-12 O discurso de Paulo diante da igreja durou até a meia-noite. Por pa­ drões ocidentais, parece muito tempo (cf. também 28:23), mas nalguns paí­ ses, especialmente no Terceiro Mundo, são bastante comuns os cultos que duram várias horas com sermões prolongados. Além deste fato, que pode­ ria ter dado canseira a alguns membros da congregação, o cenáculo (1:13; 9:37) onde os discípulos estavam reunidos, foi iluminado por lâmpadas a óleo. A explicação mais simples do motivo para mencioná-las é que emi­ tiam um odor que ajudaram a fazer Êutico dormir . Haenchen (pág. 585, n. 2), comenta que se Êutico, assentado perto da janela, adormeceu, quanto mais as outras pessoas, no cenáculo, longe da ventilação, devem ter ficado sonolentas; parece que se esquece de que algumas pessoas adormecem mais rapidamente do que outras. Decerto, aqui temos informações de uma teste­ munha ocular. 9-10. Sentimos simpatia por Êutico, um rapaz entre 8 e 14 anos (a idade tradicionalmente atribuída a um rapaz, v. 12), que não se sentia à altura do comprimento do sermão de Paulo nem do calor, vencido pela canseira, caiu pela janela aberta no terceiro andar para a terra; a casa deve ter sido de apartamentos, bastante comuns nas moradias mais humildes das cidades romanas. O rapaz foi recolhido, morto. Não pode haver dúvi­ da alguma que Lucas aqui quis retratar a capacidade de Paulo de ressuscitar os mortos (como Pedro, 9:3643); o comentário de Paulo de que a sua vida nele estava se refere à condição do rap.az depois de Paulo ter minis­ trado a ele. Lucas não teria dedicado espaço ao levantamento dalguém que apenas parecia ter morrido. Naturalmente, ainda fica possível para pessoas com certa mentalidade argumentarem que Lucas interpretou erroneamente o que realmente aconteceu. 11. Depois da interrupção da reunião, Paulo partiu o pão e comeu. A descrição não deixa claro se meramente comeu do pão da Ceia do Senhor ou participou de uma refeição, mas o verbo comeu certamente pode signifi­ car esta última (10:10). Haenchen (p. 586) acha estranho que os cristãos estivessem dispostos a esperarem até à meia-noite para participarem de uma refeição, e adota a primeira interpretação; não leva adequadamente em con­ ta, no entanto, o que cristãos entusiastas sejam dispostos a fazer, e o fato de que uma refeição acompanhava a Ceia do Senhor neste período é bem ates­ tado; 1 Coríntios 11:17 e segs. chega a dar a entender que os cristãos podem muito bem sentir fome até à hora da refeição da igreja (w. 21, 34) e também de que alguns provavelmente participavam de uma refeição antes do horário da reunião da igreja. Depois disto, Paulo pregou ainda mais. 12. Foi somente como lembrança do último momento que Lucas relata que o rapaz realmente fora restaurado à vida, e que as pessoas na lo-305 -


ATOS 20:12-16 calidade se sentiam grandemente confortados.222 A implicação pode ser que o rapaz tinha permanecido inconsciente até aquele momento; v. 10 não dá a entender, necessariamente, que retomou consciência imediata­ mente. O detalhe, no entanto, tem dado vazão a suspeitas de que o que real­ mente aconteceu foi que, a despeito da sua queda pesada, que produziu a inconsciência prolongada, o rapaz não sofreu o acidente fatal que era de se esperar. O elemento milagroso, portanto, seria que Deus o preservou daquilo que normalmente seria esperado, exercendo a Sua providência durante a situação em que Paulo estava pregando; seria um milagre de preservação divina mais do que uma ressurreição. Dizer assim não é racio­ nalizar a história; é uma tentativa de tratar com justiça o modo de a his­ tória ser contada. Mais provavelmente, porém, o que parece ser a dificul­ dade é o posicionamento do v. 11 no meio da incidente. 13. A viagem continuou, mas embora Lucas e seus companheiros tivessem navegado para Assôs, numa distância de cerca de 32 km, Paulo es­ colheu uma caminhada por terra. A viagem marítima levava mais tempo do que a distância direta por terra, e podia ser tempestuosa. Não se cita razão alguma para Paulo caminhar sozinho, e o detalhe deve ser históri­ co; é altamente improvável que Lucas quisesse demonstrar a tremenda resistência física de Paulo, como quem fosse capaz de uma longa cami­ nhada depois de uma noite sem sono.223 14-15. Os viajantes se reuniram em Assôs. Paulo subiu a bordo do navio, que velejou mais de 71 km para o sul, para Mitilene, a cidade prin­ cipal da ilha de Lesbos. No dia seguinte passaram defronte dç Quios, que fi­ ca no término de uma longa península que se estende para o mar adentro, entre Esmirna no norte e Éfeso ao sul. Conservando-se em mar alto, passa­ ram ao largo de Éfeso, e chegaram a Samos, uma ilha perto do litoral, ao sul de Éfeso. Fica perto de um promontório chamado Trogília, e o texto ocidental acrescenta o detalhe, “depois de permanecer em Trogília” que, autêntico ou não, provavelmente descreve aquilo que os viajantes realmen­ te fizeram. Depois, no dia seguinte, chegaram a Mileto, que ficava 48 km ao sul de Éfeso. 16. Lucas explica que a decisão de Paulo, no sentido de não aportar em Efeso devia-se ao seu desejo de chegar em Jerusalém em tentpo para o Pentecoste. Não havia muito tempo entre a festa dos pães asmos, celebra­ 222 Lucas.

Grandemente, lit. “não pouco” , uma expressão idiomática predileta de

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Para uma variação textual interessante deste versículo na versão siríaca antiga, ver supra, pág. 45.

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ATOS 20:16-17 da em Trôade, e o Pentecoste, para a viagem ser feita, embora fosse perfei­ tamente possível fazê-la dentro do prazo. Parece que Paulo receava que, se parasse em Éfeso, seria difícil sair de lá às pressas; escolhera, portanto, um navio que seguia uma rota mais rápida. Há alguma força na sugestão de que Paulo talvez receasse mais distúrbios se aparecesse de novo em Éfeso (20:1, nota). Talvez parecesse estranho que, se Paulo estava com pressa, mesmo assim mandou chamar os presbíteros de Éfeso a fim de se encon­ trarem com ele em Mileto. Mas a explicação deve ser que o navio havia de passar um ou dois dias em Mileto, o tempo suficiente para um recado chegar a Éfeso e para os presbíteros virem, e Paulo também evitou a ne­ cessidade de passar alguns dias num navio que estava descarregando e car­ regando em Éfeso.

h. O discurso de despedida de Paulo em Mileto (20:17-38). A consciência que Paulo tinha, de que não voltaria à Ásia, levou-o a aproveitar a última oportunidade 'de falar aos líderes da igreja, antes de partir para Jerusalém com a probabilidade de detenção de prisão ali. No que diz respeito a Atos, este discurso é a despedida de Paulo das igrejas, embora ainda seja ouvida a voz dele freqüentemente no restante do Livro, nas suas defesas diante dos judeus e dos romanos. A preleção, portanto, contém os elementos que seriam de se esperar no tipo de discurso de des­ pedida familiar naqueles tempos.224 Há pouca concordância entre os es­ tudiosos quanto à análise da preleção, mas, em termos gerais, divide-se em duas partes. Na primeira seção, w . 18-27, Paulo faz um retrospecto da sua própria obra como missionário. Descreve como cumpriu fielmente a sua obra, depois passa a falar das incertezas do futuro, da sua disposição até de morrer em prol da causa de Cristo, e da sua própria convicção de que seus amigos não voltariam a vê-lo. Ressalta aquilo que lhes ensinara de modo completo, e que a responsabilidade por aquilo que ouviram agora está nas próprias mãos deles. Estes pensamentos nos levam à segunda seção, w . 28-35, na qual Paulo instrui os líderes da igreja para o futuro, quando ele mesmo já não estaria com eles. Devem seguir seu exemplo de fidelidade, e estar dispostos a se dar tão livremente ao serviço da igreja como ele mesmo 224

H. J. Michel, Die Abschiedsrede des Paulus an die Kirche. Apg. 20, 27-38 (Munique, 1973), C. K. Barrett, “Paul’s Address to the Ephesian Elders” , em J. Jervell e W. Meeks, G od’s Christ and his People (Oslo, 1977), págs. 107-121; J. Lam­ brecht, “Paul’s Farewell Address a t Miletus”, em Kremer, págs. 307-337.

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ATOS 20:17-20 fizera. Ficam com a bênção de Deus, e com a obrigação de obedecer a ordem de Jesus no sentido de socorrerem aos pobres e fracos. 17-18. A preocupação de Paulo era com os líderes da igreja, aqui cha­ mados presbíteros como em 14:23. No discurso propriamente dito, descre­ ve a função deles como sendo de “guardiães”, i.é, “bispos” (v. 28) e é pos­ sível que fosse o termo que ele mesmo empregava (Fp 1:1). A preleção começa com um histórico do passado, no qual Paulo conclamou seus ou­ vintes a confirmar da sua própria memória (Grego epistamai) como ele vive­ ra no meio deles enquanto estava na Ásia. Podemos comparar a mesma téc­ nica em 1 Tessalonicenses 2:1-2, 5, 10-11; Filipenses 4:15, mas a palavra propriamente dita, aqui usada, é lucana (10:28; 15:7; 22:19). 19. Paulo descreve sua obra como servindo ao Senhor, assim como freqüentemente se chamava servo do Senhor (Rm 1:1; cf. 12:11; Fp 2:22). Além disto, é o serviço prestado à igreja (v. 35), e este conceito de serviço tem prioridade sobre qualquer pensamento acerca da posição que talvez fosse atribuída ao servo. Como conseqüência, a primeira característica do seu ministério que é selecionada para ser mencionada é a humildade, a re­ cusa de reivindicar coisa alguma para si mesmo (2 Co 10:1; 11:7; 1 Ts 2:6). A segunda diz respeito às lágrimas que expressavam sua preocupação pessoal para com seus convertidos (Rm 9:2; 2 Co 2:4; Fp 3:18), e a terceira dá a entender a paciência e fortaleza com que continuava sua obra a despeito das tentações no sentido de tudo abandonar, por causa da perseguição dos judeus (2 Co 11:24, 26; 1 Ts 2:14-16). Aqui, como acontecerá no decurso de toda a preleção, há paralelos diretos e estreitos nos escritos do próprio Paulo que demonstram que era assim que encarava o seu ministério e ad­ moestava os seus convertidos. Dizer, juntamente com certo estudioso, que “não se pode demonstrar em lugar algum uma dependência direta de Pau­ lo” engana totalmente: a impressão global que se obtém deste discurso é que, aqui, estamos em contato com o próprio Paulo. 20. O ministério pastoral de Paulo se realizava publicamente em reu­ niões (tais quais aquelas que se realizavam na escola de Tirano) e também de casa em casa (2:46; cf. Rm 16:5; Cl 4:15; Fm 2). Paulo dá considerável ênfase ao fato de que, no decurso de tudo, não deixara de ensinar qualquer coisa que fosse proveitosa para seus ouvintes (cf. v. 27), embora nem sempre fosse bem aceita (G1 4:16, cf. 2 Co 4:2). Paulo enfatiza tão fortemente este aspecto que tem surgido a suspeita de que respondesse a alguma acusação, ou de que Lucas está deixando Paulo defender-se contra acusações poste­ riores. Semelhantes defesas-próprias eram típicas de discursos de despedida (1 Sm 12:2-5; o tema é freqüente nos Testamentos dos Doze Patriarcas). Lucas não registrou quaisquer críticas contra Paulo em Éfeso, mas sabemos -3 0 8 -


ATOS 20:20-24 que Paulo foi criticado em Corinto por defensores de “outro evangelho” (2 Co 11:4), e talvez seja este o tipo de acusação que Paulo aqui tem em mente. 21. 0 resumo que Paulo aqui dá daquilo que realmente pregava é notavelmente simples. Os comentaristas têm sido dispostos a ver aqui um quiasmo nas suas palavras: i.é, que proclamava aos judeus a necessidade da fé, e aos gregos, a necessidade do arrependimento, respectivamente. Em linhas gerais, esta é a verdade, pois o arrependimento e o voltar-se para Deus faziam parte especialmente da mensagem aos gentios (1 Ts 1:9; cf. G1 4:8-9; Hb 6:1), ao passo que os judeus eram conclamados a voltar-se das obras da lei para a fé. Mesmo assim, a fé era necessária para todos os conver­ tidos (Rm 10:9-13 ressalta que os judeus e os gentios são iguais neste as­ sunto; cf. Rm 1:16), e o arrependimento também era necessário no caso dos judeus. A teoria do quiasmo, portanto, é incerta. O termo arrependi­ mento não é especialmente usado por Paulo; aqui temos um termo que faz mais parte do vocabulário de Lucas, mas serve como equivalente do uso que Paulo faz de “conversão” (1 Ts 1:9). 22-23. Do passado, Paulo volta-se para os eventos do futuro iminen­ te que deram vazão à sua preleção. Estava a caminho para Jerusalém, e a viagem se caracteriza de duas maneiras. É uma viagem necessária, pois Pau­ lo vai constrangido pelo Espírito (16:6-7; 19:21). Sabe que Deus o está guiando para ir e, portanto, que deve obedecer. Além disto, porém, é uma viagem de incerteza: o Espírito não lhe revelou o propósito exato da viagem, nem aquilo que lhe aconteceria. Algo desta incerteza se reflete no apelo pelas orações que fez em Romanos 15:30-32, no sentido de ser ele livrado do perigo em Jerusalém e de suas ofertas para a igreja serem aceitas com gratidão. A única coisa que Paulo sabia mesmo é que, em todas as ci­ dades que visitava, o Espírito profetizava para ele cadeias e tribulações. Não fica claro se isto significava que o Espírito profetizava a perseguição em Jerusalém (21:4, 11), ou em todas as cidades que Paulo visitava; é mais provável o primeiro destes sentidos. O ministério do Espírito seria atra­ vés de profetas, ou talvez mediante revelações pessoais a Paulo. 24. Se é correta a nossa interpretação do versículo anterior, então Paulo sabia que sofreria em Jerusalém. O que não sabia (v. 22), era se seus sofrimentos levariam-no à morte, mas ressalta que estava pronto para aque­ la possibilidade. Não considerava a sua própria vida uma possessão precio­ sa a ser conservada a qualquer custo. Esta atitude corresponde àquela que se expressa nas suas cartas (2 Co 4:7-5:10; 6:4-10; 12:9-10; Fp 1:19-26; 2:17; 3:8; Cl 1:24). O que importava era completar a sua carreira (2 Tm 4:7), mediante a realização fiel do serviço do qual o Senhor o encarregou -3 0 9 -


ATOS 20:24-27 na ocasião da sua conversão, a saber: pregar o evangelho da graça de Deus (G1 1:15-16; cf. 2 Co 6:1). Paulo encarava a sua tarefa como sendo a prega­ ção fiel do evangelho; sentia-se vocacionado para assim fazer numa área de considerável extensão, e assim, esperava ir para o ocidente, até Roma (e também à Espanha, Rm 15:24, 28) para pregar ali; é provável que conside­ rasse a evangelização do mundo como preliminar essencial para a vinda de Cristo (Rm 11:25-26; cf. Mc 13:10). Mesmo assim, tinha consciência de que a completação da tarefa não dependia exclusivamente dele; o importante era que fosse fiel no cumprimento da sua parte da tarefa, e cabia a Deus de­ terminar quão grande seria aquela parte. 25. Paulo sabia que seu presente auditório não voltaria a vê-lo. Fo­ ra completada a sua tarefa de pregar o reino entre eles. Vários comenta­ ristas deduziram destas palavras (tomadas em conjunção com v. 38) que Lucas escrevia com pleno conhecimento da morte de Paulo, como resulta­ do da qual nunca teria a oportunidade de voltar àquela área. Embora Lucas não registrasse a morte de Paulo no fim de Atos, e preferisse deixar os lei­ tores com um quadro de Paulo proclamando o evangelho em Roma sem impedimento, já dera indícios suficientemente claros de que Paulo morre­ ria em Roma. Do outro lado, pode ser argumentado que Paulo acreditava já não ter mais razão para trabalhar naquela área (Rm 15:23), e que seus plano futuros o levariam para outros lugares, de tal modo que era extrema­ mente improvável que voltasse à área do Egeu. Se não foram realizadas as esperanças de Paulo quanto a estas outras áreas, e se, talvez, voltou a visi­ tar a esta área (conforme talvez indiquem as Epístolas Pastorais), então mostra-se, apenas, que os temores de Paulo não foram realizados, pelo me­ nos neste ponto. O argumento que diz que Lucas via este discurso como preleção de despedida a todas as suas igrejas missionárias é forte, mas as evi­ dências não são compulsórias neste sentido. 26-27. A obra de Paulo em Éfeso, portanto, está completa. Ressalta que fez a sua parte fielmente, de modo que, se alguém se apostatar, a cul­ pa não é dele. Confiantemente alega que o sangue de pessoa alguma pode ser posto sobre ele, (para a metáfora, ver Ez 18:13; 33:1-6). A linguagem da culpa por causar a morte de outrém aqui se aplica à responsabilidade espi­ ritual do pastor pela fiel apresentação da mensagem que traz a vida. Assim como o atalaia que fielmente adverte as pessoas da vinda de um inimigo não é culpado se deliberadamente descuidam da advertência, assim também era Paulo como pregador do evangelho. A certeza de Paulo derivava da sua confiança de que tinha fielmente pregado o evangelho em todos os seus as­ pectos; ensinara a totalidade do plano de Deus para a salvação (cf. Ef 1:11; mas o pensamento do plao divino é distintivamente lucano). -3 1 0 -


ATOS 20:28 28. Agora Paulo chega à segunda parte do seu discurso. A primeira parte implicitamente continha exortações aos seus ouvintes no sentido de seu exemplo pessoal visar ser um padrão para eles, mas agora volta-se à exortação direta. Seguindo a maneira dos discursos de despedida, diz-lhes como devem agir quando ele já não mais estiver com eles. Devem prestar atenção à sua própria condição espiritual (cf. 1 Tm 4:16) bem como aque­ la da igreja; é somente na medida em que os próprios líderes permanecem fiéis a Deus que podem esperar que a igreja faça da mesma forma. A igreja é descrita como rebanho, uma metáfora familiar vétero-testamentária para o povo de Deus (SI 100:3; Is 40:11; Jr 13:17; Ez cap. 34) que foi retomada por Jesus (Lc 12:32; 15:3-7; 19:10; Jo 10:1-30). Este quadro se aplica à igreja e aos seus líderes em João 21:15-17 e 1 Pe 5:2; Paulo o emprega sem ênfase especial em 1 Coríntios 9:7; mas não é uma das suas ilustrações para a igreja. A partir deste uso lingüístico, desenvolveuse a idéia dos líderes da igreja como sendo “pastores” (Ef. 4:11), mas o termo que Paulo aqui usa é bispos (lit. “guardiães”). É este o significa­ do da palavra grega episkopos, que se empregava para os líderes em pelo menos algumas das igrejas de Paulo (Fp 1:1; 1 Tm 3:1-7; Tt 1:7). Trans­ mite a idéia da supervisão espiritual e dos cuidados pastorais. Tais pes­ soas deviam a sua nomeação à escolha que Deus delas fez mediante o Es­ pírito. As pessoas que aqui se descrevem como sendo “bispos” são as mes­ mas que são chamadas “presbíteros” no v. 17, e em 14:23 lemos como Pau­ lo os nomeava nalgumas das suas igrejas com oração e jejum, i.é, em depen­ dência da orientação do Espírito. Sua tarefa era pastorear a igreja, i.é, agir como pastores; refere-se de todos os cuidados que devem ser exercidos com relação ao rebanho. A igreja aqui é chamada a igreja de Deus;225 esta frase se acha exclusivamente nas Espístolas de Paulo (e.g. 1 Co 1:2). A igre­ ja pertence a Deus porque Ele mesmo a comprou. O pensamento diz respei­ to ao ato de redenção mediante o qual a igreja ficou sendo propriedade es­ pecial de Deus, e se baseia no retrato da redenção de Israel por parte de Deus em Isaías 43:21 (cf. SI 74:2, que, de modo significante, segue um ver­ sículo em que Israel é assemelhado a um rebanho). O custo da redenção foi literalmente Seu próprio sangue. É, porém, improvável que um cristão antigo tivesse falado em Deus derramar o Seu próprio sangue, e, portanto, devemos ou supor que Jesus é o sujeito da cláusula (que é possível, porém improvável), ou que a frase significa “o sangue do Seu Próprio” , que é gra-

22sO texto variante do Senhor representa a tentativa feita por um escriba paxa evitar a implicação de que Deus é o sujeito da cláusula relativa que se segue.

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ATOS 20:28-32 maticamente possível e se enquadra com a frase Seu próprio Filho (Rm 8:31). Embora seja esta uma das poucas frases nos escritos de Lucas que se referem claramente ao significado doutrinário da cruz, não devemos subestimar a sua importância como declaração que representava sua pró­ pria crença além daquela de Paulo. 29. A preocupação de Paulo para com a igreja surgiu do seu receio de que (continuando a metáfora pastoral), lobos vorazes penetrariam e causariam destruição. Pensa-se em ensinadores heréticos que entrariam para desviar as pessoas, mormente quando Paulo já não estivesse ali para agir entra eles. Foi certamente isso o que aconteceu em Corinto; 2 Coríntios caps. 10-13 dão testemunho de como pessoas chegaram em Corinto, pro­ vavelmente depois da saída de Paulo, e pregaram “outro evangelho”. Acon­ teceu, também, depois da morte de Paulo, de modo que, se Atos foi com­ posto depois deste evento, as palavra de Paulo teriam um significado mais lato. 30. Juntamente com tais pessoas de fora, Paulo também menciona a possibilidade de pessoas de dentro da igreja que adotariam ensinos perver­ tidos para seduzir a congregação (cf. Rm 16:17-18; Cl 2:8). Foram feitas tentativas no sentido de identificar melhor o caráter desses heréticos, mas não se pode tirar conclusões firmes. Às vezes pensa-se que Lucas tinha em mente gnósticos ou cristãos gnosticisantes, mas, visto que Atos não contém referências claramente identificáveis aos ensinos gnósticos, aqui ou em qual­ quer outro trecho, devemos restringir-nos a uma referência lata a qualquer tipo de heresia que porventura surgisse dentro da igreja. Em anos posterio­ res, a igreja de Éfeso certamente foi confrontada com forças heréticas in­ fluentes (1 Tm 1:3; 2 Tm 1:15; Ap 2:1-7): a advertência de Paulo foi dada no tempo devido. 31. Tendo em vista tal perigo, os líderes da igreja deviam estar cons­ tantemente vigilantes, como pastores que ficam acordados à noite para ze­ lar contra os lobos que rondavam; a injunção comum para todos os cris­ tãos vigiarem (1 Co 16:13; 1 Ts 5:5) aqui se aplica especificamente aos lí­ deres (cf. Hb 13:17), e é reforçada pelo exemplo de Paulo. Por três anos (o cômputo arredondado da sua permanência em Éfeso, 19:10), sincera­ mente advertira todos os membros da congregação, dê noite e de dia (cf. 1 Ts 2:11; 1 Co 4:14; Cl 1:28). Noite e dia é uma hipérbole; cf. 1 Tessalonicenses 2:9 onde Paulo trabalhava com as mãos “noite e dia” para ganhar seu sustento. 32. O passo final de Paulo foi encomendar os líderes ao cuidado de Deus. Esta ação não deve ser considerada algum tipo de rito de ordenação no seu cargo como supervisores do rebanho, visto que já detinham aquela -312 -


ATOS 20:32-35 posição (v. 17). É que Paulo entrega a Deus a responsabilidade que tinha sobre a igreja, como ato de despedida da mesma forma que 14:23. Os lí­ deres estão colocados nas mãos de Deus e submetidos à palavra da sua gra­ ça, i.é, o evangelho da graça (v. 24). Graça é uma palavra particularmente paulina, para expressar o favor de Deus, livre e imerecido, em virtude da qual Ele salva pecadores; Lucas a emprega freqüentemente, especialmen­ te para referir-se à mensagem do evangelho (Lc 4:22; At 14:3), de mo­ do que o seu vocabulário e o de Paulo coincidem aqui, embora a precisa expressão seja de Lucas. É a Palavra que edifica os cristãos, i.é, os torna maduros (cf. 1 Co 3:9-15; Ef 4:12), e lhes dá herança entre todo o Seu povo santo (cf. Rm 8:17). Esta frase obscura (que talvez se baseie em Dt 33:34) parece referir-se à dádiva, outorgada por Deus, de uma participação nas bênçãos do Seu reino soberano que os ouvintes de Paulo desfrutarão juntamente com o povo de Deus na sua totalidade. É significante que es­ tas bênçãos advêm através da dedicação à Palavra: Paulo e Lucas nada sa­ bem da idéia de líderes eclesiásticos que se colocam acima da Palavra a eles entregue (2 Tm 1:14), controlando-a; pelo contrário, ficam submis­ sos a ela. 33-34. Paulo ainda não terminou totalmente. Segue-se um último apelo, enquanto pleiteia com seus ouvintes no sentido de seguirem o exem­ plo dele de dar-se com abnegação. Podia dizer com veracidade que estava livre da cobiça, pois não buscava paga por suas labutas pastorais (1 Co 9:15-18). Prata, ouro e roupas luxuosas eram as formas aceitas de sím­ bolos de riqueza e posição no mundo antigo. Não tendo riquezas pró­ prias, Paulo se limitara a trabalhar com suas próprias mãos para ganhar o seu sustento, embora, como apóstolo, poderia ter feito valer seu direito de sustento da parte das igrejas (1 Ts 2:6). Na realidade, embora sentisse gratidão pelas ofertas das igrejas (Fp 4:10-20) parece ter-se sentido enver­ gonhado por elas. Mesmo assim, semelhantes dádivas da parte de igrejas existentes o capacitavam a não ser um peso para as igrejas em que traba­ lhava (2 Co 11:7-10). 35. Desta maneira, Paulo procurava ser um exemplo da assistência aos necessitados (1 Ts 5:14) e do viver de acordo com o dito de Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber. Este dito pode ser entendido erroneamente, no sentido de os “fracos” ou necessitados que dependem da ajuda e de ofertas dos outros serem considerados menos bem-aventura­ dos do que aqueles que contribuem para eles; mas claramente não é este o sentido, a lição é que é melhor, para uma pessoa que pode, dar aos outros ao invés de procurar mais riquezas para si mesma. Certo número de ditados gregos semelhantes indicam que é este o sentido. A própria existencia -313 -


ATOS 20:35-38 destes paralelos, e a ausência de paralelos judaicos tem dado força à suges­ tão de que a expressão não é realmente um dito de Jesus, mas, sim, um pro­ vérbio grego cristianizado. Mas, conforme Hanson (pág. 206) corretamen­ te afirma, não há motivo porque Jesus não tivesse citado ou adaptado um provérbio grego, tendo em vista as fortes influências gregas na Palestina. Na realidade, o dito se expressa na forma judaica (com o emprego de bemaventurado), e possivelmente é ecoado em Didaquê 1:5, “Bem-aventurado o que dá . . . ai daquele que recebe” ; é possível que a formulação pessoal aqui seja mais original. Paulo cita as palavras de Jesus somente em raras ocasiões; quando o faz, é para reforçar alguma instrução ética, como aqui (1 Co 7:10; 9:14; 1 Tm 5:18). 36-38. O dito de Jesus encerra o dis.curso. Segue-se, apropriadamente, uma oração da parte de Paulo e de todos os presentes. A posição usual pa­ ra as orações era em pé, mas em ocasiões solenes, ajoelhava-se (ver 7:60). Haenchen diz saber ser esta a prática nos tempos de Lucas (mais do que de Paulo?) - mas omite informar-nos como sabe. Segue-se uma despedida com lágrimas, descrita em linguagem familiar no Antigo Testamento (Gn 33:4; 45:14; 46:29) e nos escritos judaicos. A demonstração de emoção, com lágrimas e beijos, seria bastante natural na cultura daquele tempo. O bei­ jo aqui é sinal de afeição mais do que o “ósculo santo” mais formal do culto cristão. A última impressão deixada na cena é a convicção que Paulo não poderia vê-los de novo. Há um senso definitivo na viagem que empreen­ dia para Jerusalém. Podemos facilmente ver um paralelo entre Jesus, que to­ mou o firme propósito de ir para Jerusalém enfrentar a morte certa, e Paulo, consciente de que iria para a prisão e sem esperança de ver de novo os seus amigos. Ver mais sobre v. 25.

VIII. PAULO É CAPTURADO E ENCARCERADO (21:1-2831)

a. A viagem de Paulo para Jerusalém (21:1-16). O discurso em Mileto marca o fim da obra missionária de Paulo, con­ forme o relato em Atos. De lá, viajou para Jerusalém onde seria apreendido e encarcerado, sujeitado a vários processos, e finalmente despachado a Ro­ ma para comparecer diante do Imperador. Vê-se um certo paralelismo en­ tre as carreiras de Jesus e Paulo. Jesus, também, viajou para Jerusalém e, -3 1 4 -


ATOS 21.1-4 durante a viagem, profetizava acerca dos sofrimentos que O aguardavam; foi preso e processado, e foi levado diante dos judeus e dos romanos; e pa­ deceu a morte, e ressuscitou. Sem dúvida, Paulo não experimenta a morte e a ressurreição em Atos, mas alguns viram na sua viagem final, com seu li­ vramento da possível morte por naufrágio e afogamento, um padrão seme­ lhante às experiências de Jesus (cf. 2 Co 1:8-l 0). A viagem para Jerusalém é narrada com bastante detalhe, com relatos das várias paradas pelo caminho, e decerto depende dalguma agenda feita por algum dos companheiros de Paulo: o estilo com “nós” indica que se trata de Lucas. Os aspectos significantes são as boas-vindas dadas a Paulo ao longo do caminho, e, sobretudo, as advertências proféticas que reforçam suas próprias previsões do sofrimento; a despeito de todas elas, Paulo in­ siste em cumprir o plano divino para si mesmo. 1. Paulo e seus companheiros tinham que apartar-se dos seus ami­ gos em Mileto. Velejaram mais ou menos para o sul, até à ilha de Cós, e, um dia mais tarde, chegaram em Rodes, o porto da ilha com o mesmo nome. Já a esta altura tinham passado pela ponta sudoeste da Ásia Menor, e passaram a velejar para o leste, ao longo do litoral sul, para Pátara. O texto ocidental acrescenta as palavras “e Mirra”, que levaria os viajantes para um lugar mais 80 km para o leste, sendo este o porto mais importan­ te para navegar para a Síria.226 2-3. Neste lugar (Pátara ou Mirra), Paulo transferiu-se para outro na­ vio. Aquele em que viajara ou fez ponto final aqui, ou iria ao longo do li­ toral, parando de porto em porto, e Paulo ainda estava com pressa com o tempo limitado disponível (20:16), escolhendo, assim, um navio que na­ vegaria diretamente através do mar alto, uma viagem de cerca de 644 km. Lucas fala de modo indiferente de Fenícia, Síria ou Tiro como sendo o ponto de chegada: Tiro era a cidade principal da Fenícia, que, por sua vez, era um região da Síria. O navio avistou terra (Lucas emprega o termo náu­ tico apropriado) somente quando passou pelo sul de Chipre, e foi direta­ mente a Tiro onde devia descarregar sua carga. 4. Depois da pressa anterior de Paulo, é surpreendente que passasse sem objeção sete dias em Tiro. A explicação mais provável é que adiantara seu Cronograma na viagem e agora tinha algum tempo dç sobra. É também 226Haenchen (pág. 53) pensa que o acréscimo fosse uma adição errônea fei­ ta por um escriba (baseada em 2 7 :5), visto a distância de Pátara até Mirra ser grande demais para um dia de viagem marítima; mas a distância não é maior do que entre Cós e Rodes, ou entre Rodes e Pátara, e é difícil perceber a força da sua objeção; é bem possível que o texto ocidental conserve a informação correta.

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ATOS 21:4-8 possível que tivesse que esperar alguns dias enquanto o navio se preparava para navegar mais uma etapa (conforme Bruce, Atos, pág. 385, supondo-se que o navio no v. 6 é o mesmo que antes), ou enquanto procurava outra embarcação para levá-lo a Cesaréia. Paulo empregou o tempo de espera na procura dos cristãos locais, provavelmente os refugiados e convertidos do movimento descrito em 11:19. Alguns destes cristãos tinham o dom da profecia, e, pelo Espírito, advertiram Paulo contra a sua ida a Jerusalém. Sendo, porém, que Paulo se sentia sob constrangimento divino para ir para Jerusalém, esta advertência profética parece contraditória à orientação que Paulo já recebera. A solução mais simples é que os cristãos em Tiro foram levados pelo Espírito a prever sofrimento para Paulo em Jerusalém e, portanto, por impulso próprio, insistiam em que não fosse. Mesmo as­ sim, a solução não é totalmente feliz, visto que, se o Espírito profetiza­ ra que Paulo sofreria em Jerusalém, nada impediria este acontecimento. Mesmo assim, a possibilidade de desobedecer à vontade de Deus é real (le­ vantada por Paulo em 26:19). Os discípulos em Tiro talvez não enten­ dessem bem os pormenores da predestinação, e talvez pensassem que fos­ se possível dizer a Paulo: “Se é isto que vai lhe acontecer, não faça a via­ gem para lá”. 5-6. Paulo, no entanto, não agiu à altura da advertência. Quando o navio estava pronto para partir, ele e os companheiros continuaram a via­ gem, mas não sem uma cena emocionante de despedida, que relembra aque­ la em Mileto. A solenidade da cena indica que nunca mais esperavam ver a Paulo. A menção das mulheres e filhos, sem motivo especial, indica a ve­ racidade histórica; em tão pouco tempo, Paulo e seus companheiros chega­ ram a ser altamente estimados pelas famílias que os hospedavam. 7. A tradução concluindo a viagem sugere que o grupo deixou o na­ vio em Ptolemaida. Visto este porto não ficar mais de 64 km de Tiro (um só dia de viagem marítima), seria incompreensível por que Paulo esperou uma semana inteira por um navio que meramente fizesse a viagem de um dia, quando poderia ter feito a mesma viagem mais rapidamente por terra. O verbo grego, no entanto, pode significar: “quando continuamos a via­ gem”, que permite que a viagem tenha sido continuada por navio de Pto­ lemaida a Cesaréia. Ptolemaida, moderna Akko (Acre), tinha uma igreja cristã que presumivelmente, também remontava ao período descrito em 11:19, e aqui, também, os viajantes desfrutaram de comunhão e pernoi­ taram. 8. No dia seguinte, chegaram a Cesaréia, mais 64 km para o sul. Aqui passaram alguns dias, com Filipe que, nas últimas notícias dadas acerca dele, em 8:40, tinha ido para esta cidade. É descrito como sendo o evange­ -3 1 6 -


ATOS 21:8-11 lista, termo este que talvez visava distinguí-lo do apóstolo. A tradição pos­ terior, no entanto, conseguiu confundir os dois homens. O título de “evan­ gelista” era descrição apta para ele, pois embora fosse um dos Sete nomea­ dos para tratar da assistência aos pobres na igreja, era evangelista eficaz, e provavelmente fundara a igreja em Cesaréia. 9. Lucas acrescenta que Filipe tinha quatro filhas donzelas que pro­ fetizavam. Não fica claro se Lucas quis que o leitor visse uma conexão entre a virgindade e os poderes proféticos, embora mulheres solteiras ou viúvas às vezes tinham uma posição especial na igreja (1 Tm 5:2-16). O que é sur­ preendente é que, a despeito dos seus poderes proféticos, as filhas não pro­ fetizaram acerca daquilo que aconteceria a Paulo. Haenchen (pág. 601) considera com razão que este aspecto foi tirado das fontes documentárias de Lucas.227 10-11. Houve, mesmo assim, mais uma profecia acerca de Paulo. Foi proferida pelo profeta Âgabo que veio da Judéia, e que aqui é apresentado como se fosse um caráter novo, embora já figurasse na história (11:28); sugere-se que Lucas èstá registrando- matéria da narrativa com “nós” na qual ainda não tinha sido mencionado. A profecia de Ágabo, que foi uma combinação de um ato e uma interpretação falada, relembra o simbolismo encenado dalguns dos profetas do Antigo Testamento. Paulo estava usando um cinto que consistia em um pano comprido envolto ao redor da sua cin­ tura (cf. Mt 10:9). Ágabo o tomou e o envolveu ao redor das suas próprias mãos e pés —ação que o estudioso cético francês Loisy chegou a acreditar ser impossível. Depois pronunciou a sua profecia solene. Isto diz o Espí­ rito Santo corresponde a “Assim diz o SENHOR” nos lábios dos profetas do Antigo Testamento. Os judeus atariam Paulo e o entregariam aos roma­ nos. A ação relembra o destino profetizado por Jesus para Pedro em Jo 21:18, ao passo que as palavras faladas nos lembram a predição de Jesus de que seria entregue às mãos dos gentios (Mc 9:31; 10:33). A profecia não foi cumprida segundo as exatas palavras: embora os judeus agarrassem Paulo, não o entregaram aos romanos, mas, sim, os romanos o tiraram das mãos deles, e o mantiveram em custódia. A forma das palavras de Ágabo visa­ va, sem dúvida, ressaltar mais claramente o paralelismo entre o que aconte­ ceu a Jesus e a Paulo. De qualquer maneira, os judeus podiam ser conside­ rados os responsáveis pelo fato de Paulo cair nas mãos dos romanos e per-

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Alguns comentaristas têm pensado que o versículo signifique que as filhas profetizaram mesmo acerca de Paulo, mas o verbo grego que se emprega é uma descri­ ção do caráter delas, e não um relato acerca de uma ação específica.

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ATOS 21:11-16 manecer em custódia (cf. 28:17), embora estes últimos não tivessem razão alguma deles mesmos para acusá-lo de qualquer crime. 12-13. O efeito dramático da profecia repentina e vívida foi podero­ so. Tanto os companheiros de Paulo (pela primeira vez na narrativa) como o povo local rogaram a ele que não subisse a Jerusalém tendo em vista a sor­ te que certamente o aguardava. Outra vez, como no v. 4, o sentimento é natural, ainda que não seja totalmente lógico. Mesmo assim, o incidente revela como Paulo estava totalmente disposto a cumprir a vontade de Deus. É difícil para um homem fazer um sacrifício que será muito desagradável para si; é ainda mais difícil quando pessoas às quais ama vão ser magoadas por sua ação e imploram que ele aja diferentemente. A aflição que os ami­ gos de Paulo demonstravam quebrantava-lhe o coração, enquanto procura­ vam dissuadí-lo. Quanto' a si mesmo, porém, Paulo estava bem disposto a enfrentar não somente aquilo que foi profetizado como também uma pos­ sível morte em Jerusalém. Não é que havia virtude em tais sofrimentos por eles mesmo, mas somente se eram enfrentados em prol do nome de Jesus, i.é, como parte necessária do serviço cristão. 14. Os amigos de Paulo, confrontados pela determinação dele, nada mais podiam fazer senão abrir mão das persuasões deles, e conformar-se com a vontade de Deus para ele. As palavras deles se assemelham com as que Jesus pronunciou em Getsêmane (Lc 22:42), e expressam a prontidão para tudo quanto venha a ser o plano de Deus, ainda que ocultem a espe­ rança de que a vontade de Deus acabará sendo diferente daquilo que temem; e, pelo menos num aspecto, esta esperança revelou-se justificada, pois Pau­ lo não morreu em Jerusalém (reconhecidamente, este temor de que assim acontecesse não se baseava em qualquer palavra clara de profecia, mas tratava-se da apreensão deles). 15-16. Assim, chegaram à etapa final da viagem. A frase tendo feito os preparativos pode significar, e aqui provavelmente significa mesmo, que selavam cavalos para uma viagem, que era de 104 km, e que de qualquer forma seria mais fácil a cavalo do que a pé. Alguns cristãos de Cesaréia se ajuntaram ao grupo, ação esta que era tanto mais provável se estavam para celebrar a festa do Pentecoste do modo cristão em Jerusalém. Agiram como guias em levar o grupo para a casa de Mnasom, um homem que era cristão desde havia muito. Conforme o texto, a implicação é que a casa de Mnason ficava em Jerusalém. Isto é provavelmente correto, embora de­ vamos notar’que o texto ocidental localize Mnason numa aldeia no caminho para Jerusalém, onde Paulo passou uma noite no decurso do seu trajeto. É totalmente provável que a viagem tivesse levado dois dias, mas duvidase que Lucas tivesse mencionado o hospedeiro de Paulo num ponto da -3 1 8 -


ATOS 21:16-18 caminhada para Jerusalém sem mencionar quem era seu hospedeiro em Je­ rusalém propriamente dita. Como cipriota (cf. 4:36; 11:19-20; 35:5), Mnason provavelmente pertencia ao grupo de cristãos judeus de mentalidade mais helenística da Dispersão, com os quais Paulo já mantivera contatos anteriores; tais pessoas seriam hospedeiros mais prováveis para ele em Je­ rusalém do que alguns dos cristãos judeus de mentalidade mais tradicio­ nal.

b. Paulo é capturado em Jerusalém (21:17-36). Paulo recebeu as boas-vindas bastante calorosas dos cristãos em Jerusalém, embora Lucas nada diga acerca do modo de ser recebida a cole­ ta que Paulo trouxera: o próprio Paulo estava preocupado que sua oferta não fosse aceitável (Rm 15:31) e é possível que os elementos mais da ala direita na igreja tivessem uma atitude bastante fria para com ela. A fím de desarmar as suspeitas deles de que Paulo era um opositor do cristianismo judaico tradicional,foi sugerido que ele participasse de um voto judaico que incluía a apresentação de uma oferta no templo. Não havia qualquer transi­ gência para Paulo ao fazer assim, especialmente porque a respectiva oferta não lhe parecia irreconciliável com a oferta que Jesus fez de Si mesmo como sacrifício pelo pecado. Mesmo assim, parece que a ação terminou em desgra­ ça, e este fato levanta a pergunta de se Lucas possivelmente considerava que semelhante ação, por amor à paz, era a coisa errada para Paulo fazer, ainda que levasse para o cumprimento da vontade de Deus para ele. Paulo foi atacado por uma turba, e livrado pela força da paz romana local, que o levou para a segurança da caserna para ser interrogado. 17. A chegada de Paulo em Jerusalém foi seguida pelas boas-vindas da igreja. Planeja-se um encontro informal entre os membros da igreja e seus líderes e Paulo. Haenchen (pág. 607) pensa que a referência diz respeito aos cristãos judaicos helenísticos, i.é, Mnason e seus associados, visto que v. 22 indica que os cristãos de Jerusalém ainda ignoravam a chegada de Paulo, o que é bem possível. 18. No dia seguinte havia uma reunião na qual Tiago e todos os pres­ bíteros estavam presentes, que, até esta altura, já assumiram plenamente a liderança da igreja em Jerusalém; Paulo estava acompanhado pelos repre­ sentantes da igrejas que subiram a Jerusalém juntamente com ele. Podemos supor que a presença destes últimos dissesse respeito à apresentação da cole­ ta à igreja de Jerusalém, embora Lucas deixasse este tema da visita de Pau­ lo aparecer somente mais tarde num comentário incidental (24:17), endere­ -3 1 9 -


ATOS 21:28-20 çado a Félix. Do ponto de vista de Lucas, os visitantes estavam presentes para confirmarem o relato de Paulo da sua campanha missionária bem-sucedida. 19. Como nas ocasiões anteriores (14:27; 15:34,12; e possivelmente 18:22) Paulo deu um relatório à igreja acerca da sua obra missionária, rela­ tou com pormenores como a bênção de Deus acompanhara a sua obra entre os gentios. A história em Atos já demonstrou que, embora Paulo começas­ se a sua obra nas sinagogas, e tivesse alguns convertidos judaicos, a maioria dos seus convertidos era tirada dentre os prosélitos e doutros gentios que freqüentavam as sinagogas, juntamente com outros gentios sem conexões com os judeus. O sucesso da missão é deliberadamente atribuído a Deus: ainda que talvez houvesse alguma sobra de dúvida nas mentes dos judeus acerca da missão aos gentios, ela foi guiada e planejada por Deus.. 20. Os ouvintes de Paulo, portanto, não podiam fazer outra coisa senão glorificar e louvar a Deus por aquilo que ouviram (15:3). Mesmo assim, tinham consciência da existência de pessoas que ainda tinham in­ tensas suspeitas de Paulo, embora aqueles não compartilhassem do ponto de vista destas. Havia, segundo diziam, milhares de judeus que eram crentes mas, ao mesmo tempo, zelosos da lei. Estes devem ser os mesmos fariseus convertidos, mencionados em 15:5. Podiam ser descritos como “zelotes” no sentido de terem entusiasmo para com a lei como dádiva de Deus a Israel; mais tarde, o termo “zelote” veio a adquirir um sentido mau, quando veio a ser aplicado àqueles que, no seu zelo pela lei e pelo modo de vida tra­ dicional judaico num país livre de domínio estrangeiro, voltavam-se à vio­ lência para obter as suas finalidades. O próprio Paulo tinha sido igualmente, ou mais, “extremamente zeloso das tradições dos meus pais” (G1 1:14), mas depois tivera um encontro com Jesus Cristo e abandonara a lei como meio de obter um relacionamento de retidão diante de Deus (Fp 3:8-9). Outros judeus acharam menos fácil abandonar o seu estilo anterior de vida, e continuaram a seguir à risca as expressões culturais do judaísmo. A referência a milhares de crentes tem parecido exagerada, senão totalmente improvável, na opinião de vários estudiosos, sendo que a popu­ lação de« Jerusalém não era grande; ver, porém, 2:41, 47; 4:4; 6:7; 9:31. Certo número de comentaristas procurou evitar a dificuldade ao consi­ derar as palavras entre os que creram como glosa do texto: segundo este ponto de vista, Tiago e seus colegas foram motivados pelo medo dos judeus não-cristãos na cidade — fator este que de qualquer modo deve ter estado presente nas mentes deles. Não é necessária a emenda, no entanto, pois a existência de um grupo judaico tradicionalista na igreja está firmemente atestada, embora os “milhares” talvez seja cifra retórica de Tiago. -3 2 0 -


ATOS 21:21-24 21. Estes “zelosos da lei” estavam dispostos a acreditar nos boatos que ouviram acerca de Paulo. Foi acusado de aconselhar os judeus que viviam em comunidades gentias a abandonarem a circuncisão. Visto que dificilmente poderiam remover os sinais da circuncisão (embora alguns ju­ deus literalmente fizessem assim, 1 Mac. 1:15), deixariam de circuncidar os seus filhos. Dizia-se, também, que abandonavam os costumes prescritos na lei. Sem dúvida, seria verdade que os cristãos judeus na Dispersão estavam começando a fazer precisamente estas coisas; um judeu que levasse a sério os comentários de Paulo, dirigidos a cristãos gentios em Gálatas 4:9; 5:6e Romanos 2:25-30 poderia facilmente tirar a conclusão de que já não preci­ sava guardar a lei. Paulo, além disto, negou que pudesse ser descrito como pregador da circuncisão —aos gentios (G1 5:11). Tendo em vista es­ tas evidências, é fácil perceber como os boatos pudessem ter surgido. Mesmo assim, eram falsas as conclusões tiradas. Ainda que Paulo pregasse que Cristo era o fim da lei (Rm 10:4), não há evidência no sentido de que ativa­ mente persuadisse os cristãos judeus a deixar de lado a circuncisão dos seus fihos ou a abandonar os costumes judaicos. A evidência de Romanos caps. 14-15 e de 1 Coríntios caps. 8-10 mostra que Paulo estava levando em conta a existência dos judeus (os irmãos “fracos”) que tinham diferenças com os gentios quanto àquilo que podiam comer, e Paulo defendia o direito de cada grupo aos seus próprios pontos de vista, e a necessidade de cada um demons­ trar tolerância para com o outro. Em Corinto, parece que Paulo defendeu os hábitos judaicos a respeito das mulheres que deviam ter a cabeça cober­ ta no culto (1 Co 11:2-16). Já vimos que Paulo mandou circuncidar Timó­ teo (Atos 16:3), e, conforme Atos 18:18, ele mesmo fez um voto judaico nazireu. A acusação, portanto, não tinha substância. 22. Permanecia, porém, a questão do que fazer com os boatos fal­ sos. Os demais cristãos, que acreditavam nestas histórias, logo ficariam sabendo que Paulo estava em Jerusalém. Conforme o texto ocidental, cer­ tamente haveria uma reunião da igreja inteira, uma vez que os membros soubessem que Paulo chegara; era necessário preparar-se para o que seria ' dito nesta reunião. 23-24. Os líderes da igreja, portanto, sugeriram alguma coisa de prá­ tica que Paulo poderia fazer para tornar claro que eram falsas as acusações contra ele. Havia na igreja quatro homens que voluntariamente aceitaram voto ; já que este voto incluía raspar a cabeça, indica-se que se tratava de um voto nazireu (ver sobre 18:18). 0 término do voto seria acompanhado pela oferta de um sacrifício no templo, e foi proposto que Paulo fizesse a des­ pesa do sacrifício, em prol deles. Este era um ato bem aceito de piedade -321

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ATOS 21:24 judaica; Josefo narra que Herodes Agripa I mandou muitos nazireus ras­ parem a cabeça, sendo que a implicação era (conforme Bruce, Atos, pág. 393 n.) que ele pagou as despesas. O problema é que Paulo é instruído a se purificar com eles. As circunstâncias estão longe de serem claras.228 A ação de Paulo deixaria claro que ele vivia em observância da lei, mas muitos estudiosos duvidaram se o Paulo histórico teria concordado com esta proposta. A. Hausrath colocou a objeção de modo mais vívido ao dizer que seria mais crível que Calvino, ao morrer, tivesse mandado dar um vestido de ouro, às suas expensas, à mãe de Deus do que Paulo tivesse entrado nesta ação. Lucas, segundo se alega, inventou o incidente para demonstrar que Paulo era um judeu fiel à lei. Até mesmo Stahlin (pág. 277) argumentou 228Foram

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propostas três soluções principais: (1) Bruce (Livro, pags. 430-1), reconhece que Paulo não pode ter entrado num voto nazireu a esta altura, pois este duraria trinta dias, no mínimo, ao passo que o voto destes homens se completaria dentro de sete dias. Sugere que os homens haviam contraído alguma impureza ritual durante o seu voto; neste caso, teriam que esperar sete dias e depois raspar a cabeça antes de fazerem um sacrifício no oitavo dia (Nm 6:9-10). Parece que Bruce pressu­ põe que Paulo poderia participar do rito embora não tivesse tido parte na impureza. Este conceito não explica a visita preliminar ao templo para a purificação, em v. 26. (2) Haenchen (págs. 611-2) alega que uma pessoa que vinha para Jerusalém de terri­ tório gentio seria “im puro”, e impossibilitado a entrar no templo. Visto ser necessá­ rio para Paulo freqüentar o templo para participar da cerimônia naziréia, precisaria, primeiramente, ser purificado por um rito que consistia em aspersões com água no ter­ ceiro e no sétimo dia. A fonte usada por Lucas relatava como Paulo combinou para o fim do seu período de sete dias de purificação coincidir com o término do voto nazi­ reu, e, v. 26, portanto, relata como Paulo foi para o templo para dar aviso prévio da sua intenção. Lucas, porém, ao abreviar o relato, deu a impressão de que o próprio Paulo participasse do voto nazireu durante sete dias (cf. como Lc 2:22-24 coloca num só relato a purificação de Maria e a dedicação do seu filho). (3) Stolle (págs. 76-78) nega que, como peregrino comum, Paulo precisaria de purificação para entrar no templo, mas concorda que precisaria de purificar-se para participar num voto na­ zireu. Alega que Paulo já tinha feito um voto nazireu antes (18:18), e agora se pro­ pôs a oferecer o sacrifício final com quatro outros Nazireus de além-mar. Todos eles precisariam de sete dias para purificação, e depois, mais trinta dias (que, na realidade, não foram completados) para terminar o voto. Neste caso, v. 26 se refere ao terceiro dia da purificação, e v. 27 ao sétimo dia. As dificuldades deste ponto de vista são que exige a pressuposição de que os quatro homens tinham vindo de além-mar, e que Paulo ainda não terminara um voto feito alguns anos antes, numa visita anterior à Pa­ lestina. Nenhuma destas três soluções está livre de dificuldades, mas a segunda apre­ senta o menor número delas, na condição de se entender o v. 26 no sentido de Paulo ter feito sua própria purificação individual, estando os quatro homens meramente pre­ sentes na ocasião (cf. Stahlin, pág. 279), e também que era necessário que Paulo estivesse purificado a fim de acompanhar o término do voto dos homens (pace Stolle).

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ATOS 21:24-28 que Paulo nunca teria aceito v. 24b, embora reconheça corretamente que o princípio de Paulo em 1 Coríntios 9:20 teria permitido que ele assim agis­ se. Parece que a verdade é que Paulo estava disposto a viver como quem estivesse “sob a lei” para os que estavam sob a lei, embora assim fizesse primariamente para ganhar os judeus não convertidos ao invés de pacificar ju­ deus cristãos. A descrição aqui não é uma invenção de Lucas, especial­ mente se Haenchen (págs. 611-2) tem razão em argumentar que provém de fontes documentárias anteriores.2^ 9 Parece que Paulo se dispunha fazer um gesto de conciliação, embora seu próprio testemunho permanecesse sen­ do que já não vivia sob a lei de Moisés, mas, sim, sob a lei de Cristo (1 Co 9:21). Bruce (Livro, pág. 432) observa: “Um espírito verdadeiramente emancipado, tal qual aquele de Paulo, não é escravizado à sua própria emancipação.” 25. O fato de Paulo receber o pedido no sentido de agir desta manei­ ra não dava a entender, de modo algum, que exigências semelhantes seriam feitas aos gentios. A liberdade fundamental da lei, desfrutada pelos gentios, já fora estabelecida na reunião descrita no capítulo 15, cuja decisão agora é reafirmada. Parece estranho que o decreto de Jerusalém fosse repetido verbatim (cf. 15:20, 29) a Paulo que tinha clara consciência do seu conteú­ do. Esta parte do discurso de Tiago, portanto, deve ser considerada prima­ riamente como endereçada aos companheiros de Paulo (supondo-se que ainda estivessem presentes), ou pode ser um dispositivo literário para lembrar o leitor da situação. Ainda outra possibilidade é que esta era a primeira menção do decreto na origem documentária com “nós”, e que Lucas dei­ xara de alterar a redação da menção anterior do decreto no capítulo 15 (comparar como Ágabo é apresentado em 21:10, como se não tivesse sido mencionado previamente em 11:28). 26. Paulo aceitou o pedido, No dia seguinte, foi ao templo para come­ çar seu próprio período de purificação da impureza ritual, e para notificar que o voto nazireu dos quatro homens seria concluído, juntamente com a sua própria purificação, no sétimo dia. 27-28. A tradução Quando já estavam por findar os sete dias dá a impressão errônea de que os problemas de Paulo começaram perto do fim da semana de purificação. O texto grego, no entanto, significa que o alvo­ 229Para

Haenchen, no entanto, a fonte e o relato com “nos” , que não foi com­ posto pelo autor de Atos. Aqueles, portanto, que sustentam que Lucas foi o autor do documento com “nós” , não podem, portanto, empregar o argumento nesta forma es­ pecífica, mas podem argumentar que Lucas, como testemunha ocular, tinha registra­ do corretamente os fatos.

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ATOS 21:28-29 roço começou quando Paulo foi para o templo no fim do período de sete dias a fim de completar a sua purificação. Se entendemos que a referência cronológica em 24:11 se refere a. um total de doze dias desde a chegada de Paulo em Jerusalém até o seu discurso em Cesaréia, não teria havido tempo para um período de sete dias de purificação, de modo que Bruce (Atos, págs. 394, 424; contrariamente ao seu conceito em Livro, pág. 433) sustenta que devemos traduzir “quando os sete dias iam ser cumpridos”, e colocar o incidente no começo da semana. O problema desaparece se seguimos Haenchen (pág. 654 n. 2) ao considerar os doze dias como sendo o período passado em Jerusalém. Os problemas de Paulo foram causados, não pelos cristãos judeus orto­ doxos aos quais procurava conciliar, mas, sim, pelos judeus da Ásia (i. é, Éfeso) que provavelmente vieram a Jerusalém como peregrinos no Pentecoste. Atiçaram uma turba que procurou linchar a Paulo. Esta turba ra­ pidamente correspondeu à idéia de que Paulo, como Estêvão antes dele, estava atacando os símbolos fundamentais da solidariedade nacional judai­ ca, o povo, a lei e o templo (cf. 6:13). Em especial, argumentaram que Paulo trouxera gentios para o templo, profanando-o, portanto. É irôni­ co que esta fosse a acusação num período em que ele mesmo estava passan­ do pela purificação a fim de não profanar o templo! Aqui temos “tragédia” , no sentido apropriado e literário do termo. O templo em Jerusalém era dividido em vários átrios retangulares concêntricos (3:2, nota). Os gentios tinham licença para penetrar no átrio externo, o “átrio dos gentios” , mas eram impedidos de proceder mais além, para o “átrio das mulheres”, e muito menos para o “átrio de Israel” , por uma barreira baixa que ostentava avisos em Grego e Latim com os dize­ res: “Nenhum estrangeiro pode atravessar a barricada que cerca o templo e seu recinto. Qualquer pessoa presa ao assim fazer será a culpada pela sua morte que se seguirá” . O fato de que os romanos estavam dispostos a rati­ ficar sentenças de morte, até sobre romanos, conforme parece, pela quebra deste regulamento do templo, indica quão significante era, e quanta emo­ ção se vinculava às idéias judaicas da pureza do templo. Não é de se estra­ nhar que a acusação feita contra Paulo levasse a semelhante explosão de sentimento. 29. A base da acusação era bastante fraca. Os judeus de Éfeso reco­ nheceram Trófimo (20:4) como sendo um dos seus conciddadãos, e inven­ taram a acusação de que Paulo o levara consigo na sua visita ao templo. Al­ guns comentaristas pensam que talvez tenha havido alguma substância na acusação. Bruce (Livro, pág. 436 n.) comenta que Paulo não teria sido tão tolo ao ofender as susceptibilidades judaicas desta maneira, e Haenchen -3 2 4 -


ATOS 21:29-34 (pág. 616) acrescenta que uma explicação perfeitamente adequada da ação dos judeus se achava na sua disposição de acreditar toda e qualquer coisa acerca da falta de respeito de Paulo para com a lei. A possibilidade de Trófimo ter passeado da sua livre e espontânea vontade na área proibida é igual à possibilidade de alguém entrar nos aposentos particulares do Cremlin para fazer turismo. 30. O alvoroço rapidamente se espalhou. Haenchen (pág. 616), to­ mando com crasso literalismo a expressão de Lucas, toda a cidade, nega que um distúrbio tão grande pudesse ter surgido tão rapidamente. Lake e Cadbury (BC IV, pag. 275), no entanto, comparam a rapidez com a qual a notícia de um incêndio ou de uma briga de cães (!) pode espalhar-se hoje. A turba ajudou a agarrar Paulo e arrastaram-no para fora do templo. As autoridades do templo imediatamente fecharam as portas para evitar mais distúrbios lá dentro; Jeremias sugeriu, provavelmente com razão, que estas eram as portas que separavam os átrios internos do átrio dos gentios, e não os portões externos da totalidade do complexo do templo.2 30 31-32. Não levaria muto tempo para a notícia do distúrbio chegar à guarnição romana na cidade. Era localizada na Fortaleza de António ao no­ roeste do templo; era suficientemente alta para vigilância constante ser mantida sobre os distúrbios em baixo, e dois lances de escadas a ligavam com o átrio dos gentios. A guarnição em Jerusalém era uma coorte, que tinha nominalmente 760 soldados da infantaria e 240 da cavalaria, comanda­ da por um tribunus militum (um oficial com patente semelhante a um ma­ jor ou coronel). Este último agiu com prontidão diante do distúrbio inci­ piente. Levando uma força considerável de soldados com seus centuriões, desceu correndo para o cenário. O aparecimento dos romanos foi suficiente para a multidão recuar e deixar de espancar a Paulo. 33-34. Paulo, como causador do distúrbio, foi preso. Não se registra se alguma coisa aconteceu àqueles que o atacavam. Se o tribuno suspeitasse que Paulo tinha quebrado os regulamentos judaicos, não se preocuparia de­ mais quanto aos judeus tomarem a lei nas suas próprias mãos; corretamen­ te, no entanto, a ação contra Paulo deveria ter sido empreendida pela po­ lícia do templo. O próprio Paulo foi manietado entre doi$ soldados —cum­ prindo-se assim a profecia de Ágabo, mas não até à última letra (21:11), pois seus pés não foram presos. O tribuno depois procurou descobrir acer­ ca de Paulo quem era e que havia feito. Haenchen (pág. 617) pensa que o tri­ buno (o comandante) perguntou à multidão e não a Paulo. V. 37 talvez

230J. Jeremias, Jerusalem

in the Time o f Jesus, pág. 210.

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ATOS 21:34-36 indique que não pensasse que Paulo entendesse a sua língua. É uma possi­ bilidade, mas é também possível que, quando começou a interrogar a Paulo, alguns membros da multidão interrompessem, procurando contar primeiramente a versão deles. Irrompeu-se uma cena de confusão (cf. 19: 32), de modo que o tribuno resolveu que seria mais sensato remover Paulo para segurança da fortaleza, onde se pudesse levar a efeito um exame máis pacífico do prisioneiro e dos seus acusadores. 35-36. A multidão, no entanto, voltou a fazer alvoroço, fazendo com que fosse impossível para Paulo andar em segurança para subir as escadas, em direção ao quartel. Teve, portanto, que ser carregado. Haenchen (pág. 618) objeta que carregar Paulo seria tomá-lo mais vulnerável ao ataque, e sugere que a razão verdadeira, ocultada por Lucas, foi que ficou fraco demais para andar depois da surra (embora não fosse fraco demais para discursar diante da multidão, momentos depois). Haenchen até questiona a historicidade das algemas, supondo que o prisioneiro estava qüase incons­ ciente; sugere que Lucas as introduziu para indicar que, daquele momen­ to em diante, Paulo já não era um homem livre. Tudo isto não passa de su­ posição sem base. Assim como as multidões gritaram “Fora com Este!” quando Jesus foi julgado diante de Pilatos (Lc 23:18; Jo 19:15), assim também a multidão clamava pela morte de Paulo (cf. 22:22). c. A defesa de Paulo diante da turba (21:37-22:29). O plano do tribuno, no sentido de levar Paulo para dentro do quartel para o interrogatório, foi interrompido pelo pedido de Paulo, que quis fa­ lar à multidão. No seu discurso, enfatizou que tinha sido criado como judeu ortodoxo cujo zelo para com a religião dos seus ancestrais fora demonstra­ do na sua perseguição dos cristãos. No seu caminho para Damasco, para levar à efeito esta tarefa, fora confrontado por uma visão celeste de uma luz brilhante, e ouvira a voz de Jesus; veio o reconhecimento de que era a um ser celestial que estava perseguindo, e de que, pelo contrário, devia ser­ vir a este Senhor. Ao chegar a Damasco, foi visitado por um judeu devoto que confirmou que era Deus quem lhe revelara Seu Messias e que agora o conclamava a ser uma testemunha ao invés de ser perseguidor. Foi dada a confirmação final quando voltou a Jerusalém e foi para o próprio templo que estava sendo acusado de profanar e, ali, noutra visão, Jesus o avisou que devia escapar para a sua própria segurança e ir aos gentios. A turba interrompeu, pois o discurso agora era mais do que poderia tolerar, e mos­ trou sinais de novos distúrbios. Assim, o tribuno resolveu interrogar Paulo -3 2 6

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ATOS 21:37-38 com torturas para chegar à verdade; depois, quando Paulo disse ter direi­ to à cidadania romana, que o protegia contra semelhante tratamento, re­ solveu que o assunto devia ser tratado em primeira instância, pelas auto­ ridades judaicas. Com esta seção começa a narrativa longa da prisão e dos julgamentos de Paulo, tanto em Jerusalém como em Cesaréia, e da sua viagem para Ro­ ma a fim de enfrentar o tribunal supremo. A narrativa é contada tão por ex­ tenso, chegando a ocupar a quarta parte do Livro, que é manifestamente de grande importância aos olhos do autor. Descreve várias ocasiões em que Paulo compareceu diante de tribunais, e relata nada menos que três longos discursos por Paulo, em dois dos quais narra a história da sua própria conver­ são, repetida de Atos cap. 9. Lucas se preocupa em apresentar Paulo não so­ mente como missionário e fundador de igrejas, mas também como uma testemunha, julgada por causa do evangelho. Paulo enfrenta as acusações dos judeus, e é processado diante dos romanos, e, nesta situação, age como testemunha de Jesus Cristo. Sua defesa final foi que, como judeu piedoso, fora chamado por Cristo para servir a Ele, e nenhuma outra escolha lhe restava; e argumenta que o judaísmo, devidamente entendido, deve culmi­ nar com a fé em Jesus. Seus discursos desenvolvem este argumento com variação e desenvolvimento cuidadosos. 37. Enquanto Paulo estava sendo levado à força para o quartel, re­ solveu procurar a oportunidade de se defender, e clamou ao tribuno, pedin­ do licença para falar com ele. Este expressou surpresa a saber que Paulo falava grego , embora fosse esta a língua franca do mundo antigo. Supora que Paulo fosse uma pessoa grosseira sem educação, e, presumivelmente, um judeu. 38. O tribuno também pensava que Paulo pudesse ser o bandoleiro egípcio que recentemente sublevava uma revolta no deserto. Segundo Josefo (Bei. 2:261-263) tinha havido um falso profeta egípcio que levara 30.000 homens para o Monte das Oliveiras a fim de tomarem Jerusalém; prometeu que veriam os muros de Jerusalém cair por si sós. O governador, Félix, matou ou prendeu seus seguidores, ao passo que o próprio profeta conseguiu escapar. Claramente o tribuno pensava que reapareceu esta mesma pessoa; a discrepância entre a cifra de seguidores citada em Atos e em Josefo se deve à tendência bem-conhecida deste último a exagerar ,e a estimativa do tribuno deve ter ficado mais perto do número real. O profeta realmente pertencia à classe das pessoas que tinham esperanças “messiânicas” (cuida­ dosamente diluídas por Josefo) e esperava que Deus operasse milagres para eles no deserto; para exemplos concretos destas pessoas, ver 5:36-37. Os Evangelhos contêm advertências contra os enganos de tais impostores (Mt -3 2 7 -


ATOS 21:38-40 24:26). O tribuno chama os seguidores do profeta de “assassinos” (sicários, assim chamados porque usavam uma adaga curta, Latim sica); este termo foi aplicado aos extremistas anti-romanos que emergiam durante os tempos de Félix, e que finalmente foram os responsáveis pela revolta contra Roma em 66-70 d.C. Haenchen (pág. 621-2) sustenta que o tribuno erroneamente confundiu os seguidores deste profeta com este último grupo, embora Josefo fizesse cuidadosa distinção entre eles. Podemos perguntar se as divisões eram tão nítidas assim. (Na ocasião em que este livro está sendo escrito, poucos repórteres podem distinguir precisamente entre os vários grupos militares irlandeses segundo seus nomes exatos). Haenchen também quer saber por que o tribuno abriu mão desta identificação de Paulo uma vez que percebeu que este falava grego, visto ser grego a língua do Egito; mas este problema surge da tradução, que provavelmente devesse ser: “Sa­ bes o grego? Decerto, portanto, és o egípcio .. ,?”231 39. A resposta de Paulo indica, incidentalmente, que não há cone­ xão entre os revolucionários cristãos e judeus, mas duvida-se que o motivo de Lucas em incluir a conversação fosse meramente indicar isto. Paulo es­ tava interessado em estabelecer seu passado judaico respeitável e seu estado civil; não era o tipo de pessoa que causaria um motim no templo. Era judeu e cidadão de Tarso. Esta não é uma referência à sua cidadania romana, que só emergiu mais tarde (22:25); refere-se à sua situação numa cidade de go­ verno independente, à qual tinha orgulho em pertencer. Desde os tempos do imperador Cláudio, era possível para um homem ter a cidadania romana bem como a cidadania local (Conzelmann, págs. 124-5). 40. O pedido de Paulo no sentido de dirigir-se à multidão lhe foi de­ ferido, uma vez apresentadas as suas credenciais. Do alto da escada, podia olhar para a multidão em baixo, fazer um sinal pedindo silêncio e, depois, diplomaticamente, dirigir-se a ela no próprio vernáculo dela. ,A língua hebraica pode significar “aramaico” (22:6; 26:14). O episódio inteiro levanta dificuldades históricas. Haenchen alega que Paulo não estava em condições físicas para falar, que é improvável que o tribuno lhe desse licença para falar sem alguma razão muito séria, e que é ainda mais improvável que a multidão se dispusesse a escutar, A estes ar­ gumentos devem ser acrescentados os comentários já feitos acerca das difi­ culdades em considerar o discurso que se seguiu como sendo uma repre­ sentação, palavra por palavra, daquilo que Paulo talvez dissesse. Estas di­

231J. H. Moulton e N. Turner, A Grammar o f N ew Testament Greek, III (Edimburgo, 1963), pág. 283. A segunda pergunta espera uma resposta afirmativa.

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ATOS 22:1-3 ficuldades estio provavelmente exageradas. Têm sua origem parcialmente na brevidade da narrativa de Lucas. £ muito possível que tenhamos aqui uma apresentação dramática da cena ao invés de uma descrição fotográfica detalhada ou uma transcrição de uma gravação em fita. O que tem significância é o ensino atribuído a Paulo, mediante o qual o vemos como teste­ munha de Jesus Cristo. 22:1. Paulo começou por dirigir-se à multidão com as mesmas pa­ lavras empregadas por Estêvão. Pode-se supor com segurança que a presen­ ça dalguns sacerdotes ou outros membros do Sinédrio é contemplada; daí o emprego do termo pais, embora Paulo, ao dirigir-se ao Sinédrio, sim­ plesmente dissesse “irmãos” (23:1). Talvez, no entanto, “pais” seja sim­ plesmente um termo de respeito para as pessoas de maior idade que estavam presentes. A nota tônica é o termo defesa (Grego apobgia) que reaparece nesta seção de Atos (24:10; 25:8; 26:1-2, 24; cf. 19:33). Esta palavra não significa meramente dar respostas arrazoadas a acusações feitas diante de um tribunal; à luz das palavras de Jesus em Lucas 12:11-12; 21:12-15 também inclui o conceito de dar testemunho a Ele. Este fato explica por que não te­ mos uma resposta, ponto por ponto, às acusações feitas contra Paulo: em­ prega a oportunidade primariamente para testificar do Senhor, demonstran­ do como sua conduta se justifica mediante um apelo aos mandamentos do Senhor. Destarte, os discursos de Paulo ficam sendo um meio de pregar o evangelho e de confrontar o auditóriô com as reivindicações que o Senhor tem sobre a sua fé e obediência. 2. Lucas nota como o auditório tornou-se mais atento quando Pau­ lo começou a falar. Muitos judeus da Dispersão não sabiam falar as línguas hebraica ou aramaica: até mesmo o maior estudioso judaico do século I, Filo da Alexandria, não sabia ler os Livros de Moisés (sobre os quais escre­ veu comentários extensos) em Hebraico. Quando Paulo dirigiu-se ao povo na própria língua deste, foi um modo eficaz de atrair a sua atenção —e tal­ vez até algum grau de simpatia. Este pormenor sublinha a declaração de Pau­ lo de que era um judeu em todos os sentidos (Fp 3:5). 3. Paulo, em primeiro lugar, afirma a sua posição como judeu leal. Seu currículo segue um padrão tríplice que inclui o seu nascimento, sua criação na infância (especialmente pela mãe) e a sua educação (pelo seu pai e seus professores).232 Este padrão é importante para entender o que Paulo está dizendo. Nasceu em Tarso, mas foi criado nesta cidade, i.é, 232

Ver o padrão semelhante em 7 :20-22; W. C. van Unnik, Tarsus or Jerusalem, the city o f PauVs youth (Londres, 1962), reimpresso em van Unnik, págs. 259, cf. págs. 321-327.

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ATOS 22:3-6 Jerusalém. Paulo, portanto, foi trazido para Jerusalém em tenra idade, e não passara, como antes se supunha, sua meninice e adolescência em Tarso. Mesmo assim, a despeito de deixar Tarso logo na infância, deve ter mantido os contatos familiares com esta cidade, e foi para Tarso que se dirigiu como missionário na primeira longa etapa da sua carreira cristã (9:30; 11:25; G1 1:21-2:1); orgulhava-se de ser cidadão de Tarso. A terceira parte da sua cria­ ção foi a sua educação, aos pés de Gamaüel (5:34); um mestre fariseu da tradição mais “liberal” de Hilel, foi o educador de Paulo. A frase segundo a exatidão da lei de nossos antepassados usualmente é entendida no sentido de qualificar a educação de Paulo como rabino, mas há razão para inter­ pretá-la com a frase seguinte, sendo zeloso por Deus; o zelo religioso se ex­ pressava em observância meticulosa da lei (21:20; Rm 10:2; G1 1:14; Fp 3:6). Tem sido negado que Paulo fosse aluno de Gamaliel, mas por razões totalmente inadequadas: J. Jeremias demonstrou que Paulo não somente manuseia as Escrituras conforme a maneira rabínica, mas mais precisamen­ te segundo a maneira da escola de Hilel.2 33 4. A declaração de Paulo o colocou lado a lado com seu auditório como defensor zeloso da lei. Agora descreve como foi além dos seus ou­ vintes, quanto ao zelo religioso. Tinha sido um perseguidor da igreja cris­ tã (aqui chamada o Caminho, cf. 9:2), até mesmo a morte (9:1). Aqui, Paulo tem em mente a morte de Estêvão em especial; em 26:10, refere-se de modo mais geral a várias execuções (ver a nota ali). Outros cristãos foram encarcerados, e presumivelmente soltos mais tarde. Este quadro geral é confirmado em 1 Coríntios 15:9; Gálatas 1:13; Filipenses 3:6; 2 Timóteo 1:13. 5. As declarações de Paulo poderiam ser confirmadas pela hierar­ quia judaica que lhe dera autoridade para a sua tarefa, especialmente para extraditar cristãos de Damasco (9:1-2). Visto o sumo sacerdócio estar nas mãos de um homem diferente (Ananias, 23:2) do que na ocasião em que Paulo foi para Damasco (Caifás), o apelo de Paulo se dirigia à memória coletiva do Sinédrio atual quanto àquilo que fizeram seus antecessores no cargo. É possível que Caifás ainda estivesse vivo, embora deposto do seu cargo. 6. Paulo agora descreve nas suas próprias palavras aquilo que acon­ teceu no caminho para Damasco. Seu relato acrescenta à descrição ante­ rior (9:3) que sua viagem prosseguia ao meio-dia (26:13). Sua experiência de luz, portanto, não era uma ilusão noturna; a luz era suficientemente 233J. Jeremias, “Paulus ais Hillelit”, em E. E. EUis e M. Wilcox, Neotestamentica et Semítica (Edimburgo, 1969), págs. 88-94.

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ATOS 22:7-11 forte para sobrepujar o sol do meio dia. Talvez haja aqui um eco de Deuteron.ômio 28:28-29. 7-8. Paulo caiu por terra, e ouviu uma voz celestial que lhe falava. As palavras da conversação são relatadas exatamente como em 9:4-5, com o único acréscimo que Jesus Se define como sendo o Nazareno. Talvez o acréscimo visasse tornar claro aos ouvintes judaicos qual era a exata iden­ tidade de quem falava (Lc 24:19). É Jesus, agora vivo, que é o verdadeiro objeto da perseguição levada a efeito por Paulo. Se, porém, Jesus está falan­ do do céu, segue-se que Deus O ressuscitou e, em última análise, Paulo es­ tava atacando o próprio Deus. 9. De modo que parece inconseqüente, Paulo interrompe a sua des­ crição da conversação para indicar que os seus companheiros não podiam escutar o que estava sendo dito, embora vissem a luz. Tinham consciência de estar acontecendo algo incomum, mas somente Paulo experimentou o evento como sendo uma revelação divina.Viram a luz, mas não a percebe­ ram como sendo uma revelação de Jesus na glória. Ouviram a voz, mas so­ mente como um barulho, e não conseguiram distinguir as palavras.234 10. Neste relato, um aspecto peculiar é a pergunta de Paulo nesta altura: Que farei, Senhor?235 A pergunta expressa quão estupefato Paulo ficou ao reconhecer o significado daquilo que tinha feito, e reconhece que agora deve mudar o seu modo de vida. Não fica claro se Senhor co­ meça a ter um significado maior para Paulo do que no v. 8. Mas este é cer­ tamente o caso quando Paulo agora passa a repetir o que o Senhor o man­ dou fazer. O auditório não teria reconhecido Jesus como “O Senhor” , mas Paulo adotou seu modo normal cristão de falar, e a escolha da pala­ vra indica a nova estimativa de Jesus que formou como resultado da expe­ riência. A resposta do Senhor é essencialmente a mesma que em 9:6, e me­ ramente" trata da etapa seguinte na instrução de Paulo acerca da sua destinação final (contrastar 26:16). 11. Incapaz de ver coisa alguma como resultado dos efeitos da luz ofuscante, Paulo teve quer ser guiado pela mão até Damasco. Embora os companheiros tivessem visto a luz e caído por terra (26:13-14), parece que recobraram a vista imediatamente (9:7); foram ofuscados temporariamente 234É possível que esta distinção seja refletida no emprego do verbo “ouvir” com o acusativo do som ouvido, neste trecho, mas em 9:7 com o genitivo da origem do som; mas o fato de que as duas construções se empreguem a respeito daquilo que o próprio Paulo ouviu (acusativo em 9:4; 26:14; genitivo em 22:7) sugere que talvez não haja significância na diferença gramatical.

235O texto

ocidental de 9:6 tem uma frase semelhante.

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ATOS 22:12-16 pela luz, mas não viram a visão. 12. Na segunda parte da descrição da sua vocação, Paulo relata o papel de Ananias (9:10-19). Paulo, nesta ocasião, ressalta diante do au­ ditório que Ananias era um homem piedoso em termos da obediência à lei (cf. Lc 1:6) e que a sua piedade era reconhecida pela comunidade judai­ ca em Damasco; o fato de Ananias já ser um discípulo cristão (9:10) foi omitido sem comentário. 13. O relato da participação de Ananias na história está considera­ velmente abreviado, pois o relato agora está sendo narrado do ponto de vista de Paulo. Não ouvimos, portanto, nada da visão que Ananias tivera do Senhor, e meramente informa-se que Paulo recebeu dele uma visita. O relato dos acontecimentos se divide em duas partes, de modo que ficamos sabendo, em primeiro lugar, como Ananias restaurou a vista de Paulo (At 9:17b, 18), e, depois, separado para ênfase, como Ananias trouxe a Paulo a comissão da parte do Senhor, e conclamou-o a significar a sua obediência ao ser batizado; em Atos 9:15-16, registra-se aquilo que o Senhor disse a Ananias, ao invés daquilo que Ananias disse a Paulo acerca da sua comis­ são. 14. A volta da vista de Paulo operou como confirmação divina do fato de que aquilo que Ananias tinha para dizer-lhe realmente era uma men­ sagem da parte do Senhor. A forma das palavras ressalta que foi o Deus de nossos pais que estava chamando a Paulo, ressaltando assim, diante do auditório, a continuidade entre a revelação do Antigo Testamento e a nova revelação de Deus mediante Jesus. Este Deus predestinara Paulo a ser Seu servo; a escolha e vocação de Paulo foram antes da resposta deste (3:20; 26:16). Logo, Deus revelou o Justo a Paulo. Este termo (3:14; 7:52) se refe­ re a Jesus como Messias. 15. O propósito da revelação foi que Paulo se tomasse testemunha, descrevendo e proclamando aquilo que tinha visto e ouvido. Diante de to­ dos os homens significa tanto judeus quanto gentios (9:15; 22:21; 26:17; G1 1:16). Assim, percebe-se que Paulo está enfrentando julgamento, não meramente acusado de profanar o templo e de atacar o judaísmo (21:29) mas, sobretudo, como testemunha de Jesus. 16. A pergunta de Ananias, um pouco tingida de repreensão, por que te demoras? parece um pouco estranha. É possível que a frase grega signifique: “O que vai fazer?” Paulo deve levantar-se, i.é, agir imediata­ mente, e submeter-se ao batismo. Assim como em 2:38 (cf. 2:21) o batis­ mo é a expressão da fé em Jesus mediante um apelo ao nome dEle, e sim­ boliza o perdão dos pecados — neste caso, o pecado da perseguição está especialmente em mente. Paulo omite a menção do recebimento do Espí­ -332 -


ATOS 22:17-33 rito (9:17) que não era necessária neste contexto. 17-18. Agora segue-se a terceira parte da história da experiência de Paulo, peculiar a esta versão específica. Na sua volta a Jerusalém (9:26-30) Paulo foi para o templo para orar. Notamos, mais uma vez, esta ênfase so­ bre o templo como sendo o lugar onde os cristãos deviam orar, e onde Je­ sus Cristo lhes falava. Foi com razão que E. Lohmeyer caracterizou Jesus como O Senhor do Templo (Edimburgo, 1961). Durante a sua oração, Paulo teve uma experiência visionária (10:10; cf. Ap. 1:10) em que Jesus mais uma vez lhe apareceu e ordenou que deixasse Jerusalém, para a sua própria segurança, sendo que o povo não aceitaria seu testemunho de Jesus. Para a situação histórica da ordem, ver 9:29-30. Talvez, porém, haja também o pensamento de que a história se repete. 19-20. Paulo, no entanto, argumentou que era precisamente ele a quem os judeus deviam escutar. Decerto, escutariam o testemunho daque­ le que prendia os cristãos e os açoitava nas sinagogas. Não somente isto, como também o assassinato de Estêvão com a participação de Paulo era do conhecimento geral. Aqui, a palavra testemunha começa a ser empregada do modo que levou-a a tomar o sentido de “mártir” .2 36 21. A ordem do Senhor, porém, ficou firme a despeito da objeção. A saída de Paulo não seria apenas o modo de ele ser levado à segurança, mas, sim, levaria a efeito o propósito de Deus, anteriormente anunciado de enviá-lo a “todos os homens” , e especialmente aos gentios. Atos 9:30 relata o lado humano dos eventos que levaram à partida de Paulo. 22. O discurso de Paulo é interrompido nesta altura pelas multidões que não querem ouvir mais. Na realidade, ainda não chegara ao ponto de dizer qualquer coisa acerca do problema imediato, a acusação de pro­ fanar o templo, que, em última análise, foi meramente um pretexto para levantar questões mais fundamentais (cf. 21:28a). 0 efeito do discurso de Paulo é que, até certo ponto, um novo tema surgiu para despertar a ira dos judeus, a saber: a menção dos gentios. Logo, a multidão renovou a sua exigência de que Paulo fosse executado; não era certo deixar viver tal pes­ soa. 23. O povo enfatizou a sua exigência, atirando poeira para os ares e abanando as suas vestes. A base exata destas ações não está clara. Bruce {Livro, pág. 445) pensa que se trata de excitação. Noutros lugares em Atos lemos acerca do sacudir da poeira dos pés (13:51) como gesto empregado

236Ver A. A. Trites, The New Testament Concept o f Witness (Cambridge, 1977), págs. 66-67.

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ATOS 22:23-26 por judeus contra gentios, e por cristãos contra judeus que, ao rejeitarem a Cristo, se cortaram do verdadeiro Israel. Quando Paulo sacudiu as suas ves­ tes em 18:6, para remover delas a poeira, o impacto deve ter sido o mesmo. Dentro do fundo histórico destas duas passagens, o pensamento pode ser que as pessoas agitavam as suas vestes no ar para livrá-las da poeira como sinal de que consideravam Paulo um blasfemador e não mais um verdadeiro judeu. Ainda outra possibilidade é que esta ação foi um substituto suave para o apedrejamento ao qual o povo teria submetido Paulo, se os solda­ dos não estivessem presentes. 24. Seja qual tenha sido a verdadeira situação, o tribuno resolveu que somente um interrogatório do prisioneiro no quartel ia extrair a ver­ dade. É provável que seu conhecimento de aramaico não fosse suficiente para ele conseguir entender tudo quanto Paulo dissera; ainda se tivesse en­ tendido as palavras, não compreenderia muita coisa da situação. Assim, deu ordens para Paulo ser interrogado sob tortura. A praxe romana era exa­ minar escravos e outras pessoas por meio de açoitá-los com um flagelo feito de tiras de couro às quais se fixavam pedaços toscos de osso e metal; pode-se imaginar os efeitos pavorosos sobre as costas da vítima. Esta era uma ex­ periência muito pior do que ser açoitado pelos judeus, ou o castigo romano de ser fustigado com as varas dos lictores (16:22; 2 Co 11:24-25). 25. Quando Paulo percebeu a intenção dos soldados, revelou o seu trunfo. Era ilegal submeter um cidadão romano a este tipo de exame (cf. 16:37). A Lex Valeria e a Lex Porcia eram leis antigas que proibiam a fustigação, e até mesmo a algemação, de cidadãos romanos, e este direito foi confirmado pela Lex Julia que dava aos cidadãos nas províncias o direito de apelar a Roma. Havia circunstâncias em que um magistrado podia agir contra um cidadão romano, mas somente depois de um processo jurídico regular. Fica bem claro que a lei favorecia Paulo neste caso específico (Shervin-White, págs. 57-59, 71-76). Não sabemos como um romano comprovava a sua cidadania; pelo menos uma alegação formal da cidadania bastou para a interrupção dos procedimentos. 26-28. O centurião reponsável pela aplicação da flagelação avisou seu oficial superior, que veio pessoalmente perguntar a Paulo. A declaração de Paulo de que era cidadão obteve uma resposta sarcástica do comandante. Custara-lhe muito dinheiro para tomar-se cidadão. A razão da sua declaração não é que duvidava da alegação de Paulo, mas, sim, que estava dando a entender que qualquer pessoa podia ficar cidadão romano naqueles tem­ pos! O privilégio estava perdendo seu valor. 0 custo referido não era a taxa que se pagava pelo direito (na realidade, não havia nenhuma) mas, sim, o de subornar os vários oficiais (Sherwin-White, págs. 154-5). Paulo, porém, -3 3 4 -


AVOS 22:27-29 podia ir além daquele comentário ao declarar que não precisara comprar a cidadania, pois a tinha por direito de nascimento. A especulação de como a família de Paulo obteve a cidadania é ociosa, pois, até agora, nenhuma luz tem sido lançada sobre o problema.2 37 29. Os soldados que estavam para inquirir sob açoites a Paulo, cessa­ ram imediatemente a sua tentativa (decerto, mediante ordens do coman­ dante), enquanto o comandante ficou com certo receio de que notícias desta contravenção chegassem a um oficial superior. Lucas toma a oportu­ nidade para sublinhar que os cristãos que eram cidadãos romanos podiam reclamar seus respectivos direitos. Haenchen criticou a história, do incidente, estranhando que o coman­ dante, que parecia tolerante para com Paulo em 21:37-40, se propusesse a torturá-lo; também acha estranho que Paulo não afirmasse a sua cidada­ nia romana antes, ao invés de meramente mencionar a sua cidadania de Tar­ so. Destarte, Haenchen considera fictícia a história. Lucas, depois de ter encaixado um discurso fictício, conseguiu reservar a reivindicação de Paulo quanto à sua cidadania romana para esta narrativa vívida e tensa, e, ao fazer assim, indicar a total incerteza das autoridades romanas quanto àquilo que Paulo fizera que pudesse ser considerado ilegal (23:28-29; 25:20, 27). Mesmo se o discurso fosse uma inclusão dramática de Lucas, ainda permanece crível a substância da cena. Há tão pouca razão de ser, por exem­ plo, na conversaç