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Contracapa


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Gary J. Oliver COMO

Acertar DEPOIS QUE VOCÊ JÁ

Editora Betânia BELO HORIZONTE 1 999 www.semeador.forumeiros.com Semeando a Palavra Créditos : Marco Teólogo

Do ORIGINAL

How to Get h Right After You've Gotten It Wrong

Copyright © 1995 by Gary J. Oliver Copyright © 1999 by Editora Betánía PUBLICADO ORIGINALMENTE POR

Victor Books Whcaton, Illinois, 60187 TRADUÇÃO :Myrian REVISÃO: Lilían CAPA: Marcelo

Talitha Lins

Barreto Veríssimo

Silva e Kleber Faria

FOTO DA CAPA Photodisc

COMPOSIÇÃO E IMPRESSÃO Editora

Betânia


4 Ficha catalográfica elaborada por Ligiana Clemente do Carmo. CRB 8/6219

Oliver, GaryJ. Como acertar depois que você já errou / Gary J. Oliver; tradução de Myrian Talitha Lins; revisão de Lilian Barreto Veríssimo. - Belo Horizonte: Betânia, 1999. 208 p.; 21cm.

Título original: How to get it right after you've gotten it wrong, c!995. ISBN 978-85-358-0003-6 CDD241.5 Lª -

EDIÇÃO,

1999

E proibida a reprodução total ou parcial deste livro, sejam quais forem os meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros, sem permissão por escrito dos editores. TODDS

DS

DIREITOS

RESERVADOS

PELA

Editora Betânia S/C Rua Padre Pedro Pinto, 2435, Venda Nova 31570-000 Belo Horizonte, MG Caixa Postal 5010, 31611-970 Venda Nova, MG PRINTED IN BRAZIL

Sumário Capítulo 1 Exergando Deus Em Meio As Falhas ......................................................................................... 6 Capitulo 2 Por Que Os Mais Espirituais Erram? ........................................................................................ 22 Capítulo 3 Uma Anatomia Do Erro ............................................................................................................ 34 Capítulo 4 Como Deus Vê Nossos Erros .................................................................................................... 50 Capítulo 5 Superando As Falhas 1 ª Parte .................................................................................................. 62 Capítulo 6 Superando As Falhas 2ª Parte ................................................................................................... 77 Capítulo 7 Lições Que Aprendemos Com As Falhas ................................................................................. 93 Capítulo 8 Superando O Medo De Errar .................................................................................................. 108 Capítulo 9 Superando Os Erros Sexuais E Morais ................................................................................... 125 Capítulo 10 O Caminho Que Conduz A Maturidade ................................................................................ 140 Capítulo 11 Como Ajudar Um Amigo Que Falhou .................................................................................. 151 NOTAS..................................................................................................................................................... 160


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Dedicatória Para Carne, minha esposa. Seu grande amor por Jesus, seu carinho por mim e pelos garotos, sua fiel amizade e sua firme determinação de manter um bom relacionamento comigo são apenas alguns dos atributos que me inspiram, a amá-la muito. Deus a tem usado, mais que a qualquer outra pessoa, para ensinar-me a acertar aquilo que fiz de errado, e eu já lhe disse que isso talvez demore um pouco. Você é e sempre será meu único amor. Para meus filhos Nathan, Matthew eAndrew. Vocês encheram minha vida de riso e alegria. Ensinaram-me a ter compaixão, carinho e paciência. Com vocês também aprendi a ouvir. Sua afeição por mim e seu amor por Jesus são riquezas de valor inestimável. É uma grande honra e um enorme privilégio ser o pai de vocês.

Agradecimentos Dentre os livros que escrevi, este foi o mais difícil. Contudo, durante o período em que trabalhei nele, recebi apoio, incentivo e sugestões de várias pessoas, que regularmente oraram por mim e a quem me submeti para prestação de contas. A todas, meu apreço e sincero agradecimento. São elas: Chip e Cheryl Carmichael, Douglas e Joyce Fiel, Monte Hasz, Bill e Lyndi McCartney, Randy e Holly Phillips, James e Belinda Ryle, Ed e Lanell Schilling, Dale e Liz Schlafer, Greg Smalley, Jim e Barbara Tallant, Dan e Lynn Trathen, Warren Wiersbe, Norman e Joyce Wright. Agradeço ainda a Mark O. Sweeney, que por muitos anos foi vice-presidente da editora Victor Books bem como seu editor. Não fosse por sua colaboração, talvez este livro nem tivesse sido escrito. Devo uma palavra de reconhecimento também a Larry K. Weeden, um homem notável como marido, pai e humorista e um talentoso revisor. Meus agradecimentos ainda ao dedicado pessoal que trabalha comigo em Southwest Counseling Associates (Psicólogos associados de Southwest). O amor que vocês devotam a Deus, seu interesse em crescer sempre e seu empenho em buscar aprimorar-se em tudo constituem uma fonte de inspiração para mim.


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Capítulo 1 Exergando Deus Em Meio As Falhas Don foi um dos melhores amigos que tive no seminário. Amava muito a Deus e era um marido e pai dedicado. Além disso, possuía um maravilhoso senso de humor. Fizemos amizade assim que nos conhecemos. Durante os três anos do curso, andávamos sempre juntos. Estudávamos, orávamos, ríamos, chorávamos, divertíamo-nos, acampávamos e pescávamos na companhia um do outro. Acho até que se eu não tivesse contado com a ajuda dele, teria levado bomba em Grego. Um dos melhores sermões que ouvimos na classe, no último ano, foi o dele. Falou sobre Romanos 8.1-4. Terminado o curso, ele, Karen, sua esposa, e os filhos se mudaram da Califórnia para Nova Jérsei, onde ele foi pastorear uma pequena igreja. E não demorou muito, a congregação começou a crescer. Nos primeiros anos, correspondíamo-nos com freqüência e telefonávamos um para o outro constantemente. Com o passar do tempo, porém, a comunicação entre nós foi rareando, até ficar limitada ao tradicional cartão de Natal e a ligações esporádicas. No ano passado, não recebi o costumeiro cartão de boas festas de Don. Como já fazia mais de ano que não nos falávamos, resolvi telefonar-lhe. Liguei para a secretaria da igreja e quase não acreditei no que me disseram. Don não era mais pastor ali, informou-me a secretária. Pelo seu tom de voz, percebi que havia algo errado. Então liguei para a residência dele. Karen atendeu ao telefone. Após os cumprimentos iniciais, disse-lhe que queria falar com Don. - Ué, você não ficou sabendo? indagou ela. - Sabendo de quê? Foi então que ela me contou que Don, havia oito meses, solicitara demissão do pastorado da igreja, entrara com um pedido de divórcio e se mudara para Indiana. Conforme relato dela, que o próprio Don confirmou mais tarde, quando lhe telefonei, ele começara a sentir-se entediado no ministério. Em seguida, envolvera-se emocionalmente com a esposa de um diácono. Havia principiado o relacionamento como uma amizade, mas acabara tendo um "caso" com a moça. Karen percebera que estava ocorrendo um distanciamento entre ela e o marido e sugerira que procurassem aconselhamento. Contudo Don replicara: "Quem conhece a Bíblia como eu conheço não deve precisar de aconselhamento!" Que situação triste! Que perda inútil! Um homem correto decidira abandonar a esposa, os filhos, os amigos, o ministério e abrir mão de seu bom nome e de sua fé! Além de cometer um erro, passara a viver em erro. Mimi era uma jovem senhora de 34 anos, com três filhos. Quando


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criança, entendera que o amor dos pais por ela não era incondicional; dependia do seu comportamento. "Quando eu era pequena", disse-me com voz trêmula e lágrimas nos olhos, "aprendi que era errado ter raiva. Sempre que me irritava, meus pais tratavam-me com frieza. Lembro-me bem de que, naquelas situações, me sentia muito só e julgava-me uma pessoa muito ruim." Não admira, portanto, que ela houvesse absorvido o seguinte conceito: "Se eu extravasar raiva, eles não vão gostar de mim." Afinal passara a ter medo até de sentir raiva. Em vez de aprender a utilizar a irritação para fortalecer e definir melhor sua identidade, criara o hábito de ignorá-la. Procurava agradar a todo mundo e tornara-se hábil em adivinhar os interesses dos outros para satisfazer-lhes a vontade. Ela me procurou buscando aconselhamento porque estava tendo grande dificuldade em controlar seu gênio. "Durante algum tempo, vai tudo bem", explicou. "Mas num dado momento, basta uma pequena provocação para eu perder a calma. No começo, a irritação ia aumentando aos poucos. Hoje em dia, porém, de repente, começo a gritar com as crianças e a agredir meu marido." Mini passara a vida toda reprimindo a raiva. Agora esse sentimento parecia um vulcão prestes a entrar em erupção, cuja pressão interna aumentava cada vez mais. Ela sentia vergonha disso e alimentava fortes sentimentos de culpa, Como nunca conseguira entender e controlar a raiva, esta principiava a dominá-la. Don e Mimi eram bem diferentes um do outro. O fracasso mortal dele fora causado por decisões insensatas e um pecado ostensivo. O erro dela se devia aos maus hábitos que adquirira e à falta de bons exemplos na infância. Ambos se sentiam desanimados, derrotados e meio perdidos. Todos nós conhecemos pessoas que erraram. E são muitas as palavras que descrevem esse fato. Todos nós cometemos muitos erros, embora não gostemos de reconhecê-los. E seja qual for a dimensão, a intensidade, o alcance e o "formato" do erro, ele sempre vem acompanhado da inquietante c incômoda sensação de que fracassamos, de que somos incapazes, imperfeitos. Nós abominamos nossos erros, quer eles ocorram em particular, como foi o caso de Mimi, ou sejam do conhecimento do público, como sucedeu a Don. Sempre detestamos errar, não importa quantas vezes o façamos, nem o número daqueles que tenham conhecimento de nossos atos. Nunca nos acostumamos às nossas falhas, e nosso desejo é que não se repitam. Além disso, o erro vem sempre acompanhado de uma sensação de vergonha, de desconforto e de esvaziamento interior. E isso se dá quer se


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trate de falta grave ou não; quer sejamos totalmente culpados ou vítimas inocentes; quer tenhamos conseguido evitá-la ou impedi-la por um bom tempo e depois tenhamos falhado redondamente; quer ela deixe uma leve mancha em nossa "ficha" ou destrua totalmente nossa reputação, desqualificando-nos para o ministério cristão. Podemos dar-lhe o nome que quisermos. Chamemos de falha, um desacerto, um mal passo, um tropeção, um revés, unia derrota, um descuido, um desastre, um lapso, um engano, um azar, uma mancada, um equívoco, uma perda, uma tragédia, uma decepção, etc. Os que nos cercam e aquela vozinha interior que não conseguimos calar chamam de erro. Se eu pedisse ao leitor que fizesse uma lista dos seus dez maiores temores, quais você citaria? Qual seria o primeiro item da lista? Fiz essa indagação a centenas de pessoas, e a maioria, muitas das quais eram crentes, colocou o medo de errar entre os cinco primeiros. Esse temor possui vários aspectos. Em primeiro lugar, há o receio de cometer erros. Logo em seguida a esse, vem o medo de que alguém saiba. Esse leva a outro (que para alguns chega a ser apavorante): o medo do que irá acontecer quando descobrirem o que fizemos. Talvez zombem de nós, nos menosprezem ou até cortem relações conosco. O que fazemos então? O que todos vêm fazendo desde o princípio dos tempos. A Bíblia revela em Gênesis que quando Adão e Eva pecaram logo se esconderam de Deus e um do outro. Tentaram encobrir seu erro. O ser humano, com sua natureza decaída, tem a tendência de ocultar suas falhas e erros ou então jogar a culpa em outros. E alguns são muito hábeis nas duas atitudes. Foi assim que o primeiro casal agiu, e é o que nós também fazemos. O "Charlie Brown" já expressou isso assim: "Pra mim não existe problema difícil. Posso fugir de qualquer um." E não são só os incrédulos que têm esse tipo de reação. Vamos pensar uni pouco. Se alguns alienígenas chegassem à terra e fossem visitar uma igreja evangélica qualquer, iriam achar que ninguém ali cometia erros. No culto de testemunhos, sempre ouvimos depoimentos maravilhosos daquilo que Deus está operando em nossa vida. Na reunião de oração, apresentamos inúmeros pedidos acerca dos problemas e dos erros de outros. Raramente alguém reconhece suas próprias falhas e pede a Deus que o ajude a tirar lições delas. Por favor, não me entenda mal. É claro que não há nada errado em querer acertar sempre, em desejar agir da melhor maneira possível. Deus quer isso. Ele tem prazer em abençoar seu povo. Quer levar-nos a ser mais que vencedores. A questão, porém, é que muitos crentes assimilaram a definição


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mundana de vencer. Deixaram de buscar o crescimento, para procurar a perfeição. E a idéia que temos de perfeição é uma total ausência de falhas ou erros. Nosso anseio de ser os melhores acaba se tornando o ponto central de nossa vida. Com isso, passamos a associar nosso senso de segurança, de identidade e de valor próprio a uma incansável busca da perfeição. Nessa situação, nunca nos damos por satisfeitos com nada. E desse modo corremos o sério perigo de falhar. Por que será que temos tanto medo de errar? Por que isso praticamente se tornou uma temida "letra escarlate"?1 Por que nos empenhamos tanto em negar nossas falhas e em ocultar nossas fraquezas? Como foi que aprendemos a temer o fracasso? Além de já havermos nascido com essa reação equivocada para com as falhas cometidas (atitude que herdamos de Adão e Eva), desde pequenos sempre achamos quem a reforce em nós. Antes mesmo de conseguirmos desenvolver a habilidade de fazer raciocínios abstratos, ficamos sabendo que agir certo é bom e que errar é ruim. Assimilamos também o conceito que nossos pais e outras pessoas têm desses termos. E nem temos consciência de que o estamos assimilando. Em algumas famílias, como no caso de Mimi, o amor é um "prêmio" por bom comportamento. A punição pelos erros cometidos é a sonegação de afeto e carinho. Nesses casos, a criança entende que será amada se for perfeita. Se cometer alguma falha, será rejeitada. Quem se sai bem nos estudos ou nos esportes recebe estímulos, prêmios e elogios. E muitas vezes tais recompensas são seguidas de um toque físico - um abraço ou um beijo. Nesses momentos, o pequeno percebe claramente que tem valor e é amado. Quando erra, porém, sofre castigos, humilhações e, por vezes, é até ignorado. E o toque físico, nesse caso, raramente é carinhoso, caloroso e confortador. Assim, ele não compreende que seu valor intrínseco independe de como age ou deixa de agir. Ao perceber com tal clareza que nossos erros nos são custosos, e que nossos pais e professores reagem negativamente a eles, procuramos criar estratégias para negá-los, escondê-los e distorcê-los. Ao mesmo tempo, tentamos ressaltar e ampliar nossas virtudes; e até inventar algumas. Quando terminamos os estudos e entramos na vida profissional, logo descobrimos que também nessa esfera, onde desejamos "vencer", é muito arriscado reconhecer erros e falhas. Aí a fachada de sucesso pessoal é ainda mais valorizada. As "apostas" são bem elevadas. O que está em jogo é nosso respeito próprio, nosso bom nome, nosso ganha-pão e até nosso anseio de sobrevivência. 1

Alusão ao romance A Letra Escarlate, ambientado no século XVII, onde a personagem principal, por ter cometido adultério, é condenada a andar com um A de cor vermelha pregado na roupa. (N. da T.)


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Por que um livro sobre falhas e erros? Há muitos anos venho desejando escrever este livro. Contudo ficava sempre com a impressão de que ninguém iria querer ler uma obra com a palavra errou no título. Por isso, resolvi dedicar-me a outros interesses. Entretanto Deus não deixou que a idéia saísse de minha mente. Constantemente me relembrava o quanto era necessário ensinar os crentes a encarar os erros pela perspectiva dele. Eles precisavam saber o que ele é capa/ de realizar em cada um de nós por meio das falhas que cometemos. E é disso que quero tratar nestas páginas: as maravilhas que o Senhor pode operar a partir dos erros humanos. Comecei a trabalhar com discipulado em 1967, numa pequena igreja em Anaheim, Califórnia. No contato com aqueles crentes novos, desejosos de crescer em Cristo, deparei-me com algumas perguntas que, ainda hoje, trinta anos depois, ocorrem a mim e a outros. Uma das partes do programa de discipulado constava de estudar as promessas de Deus para o crente. Sabendo que um dos melhores modos de entendê-las era decorá-las, memorizávamos uma promessa por semana. Todas as vezes que nos reuníamos, recitávamos a que havíamos decorado durante a semana e recordávamos as que já tínhamos estudado nas anteriores. Era um exercício espiritual muito estimulante e proveitoso. Contudo, ao analisar as promessas, aqueles novos convertidos faziam algumas indagações. Em João 10.10, por exemplo, Jesus afirma o seguinte: "... eu virn para que tenham vida e a tenham em abundância." Em Efésios 3.20, Paulo ensina que Deus quer "fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos". E em Filipenses 4.13, o apóstolo diz que, por meio de Cristo, que nos fortalece, podemos tudo. Esses textos constituem maravilhosas promessas de Deus, todas perfeitamente válidas. Contudo é aí que reside o problema. Se Jesus veio dar-nos vida abundante, se ele quer que essa vida seja infinitamente melhor do que tudo quanto pedimos e pensamos, e se podemos tudo por meio de Cristo que nos fortalece, então por que estamos sempre falhando? Por que cometemos repetidamente os mesmos erros? Por que os crentes vivem anos e anos seguindo a mesma rotina moral e comportamental? Por que somos dominados pelo medo de errar? Será que podemos aprender alguma lição com nossos erros? Como? Errar é prova de imaturidade ou parte do processo de amadurecimento? No meu ministério, que já dura mais de trinta anos, tenho conhecido muitos crentes que se esforçam para crescer, mas parecem emperrados. Querem ser vencedores, mas sentem-se eternos fracassados. Alguns continuam tentando. Outros se contentam em levar urna vidinha que parece


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segura e estável, mas que acaba sendo de mediocridade e estagnação. E, além de ter conhecido muitos crentes com essas características, eu próprio tenho sido assim. Nesses anos todos, tenho recebido em meu gabinete pessoas que se mostram desalentadas pelas lutas, dificuldades e decepções que a vida lhes traz. E muitas só procuraram o aconselhamento em último recurso. Depois de conversar com tanta gente, fiz uma descoberta que considero fenomenal. Trata-se de algo que eu já vinha observando havia anos, mas que me parecera tão simples que não lhe dei atenção. Na maioria dos casos, o que levava alguém a marcar uma consulta era um problema que lhe acontecera muito tempo antes. A questão era que, em vez de buscar identificar bem a situação, de entendê-la e de tentar aprender alguma lição com o erro, essas pessoas haviam procurado livrar-se dele o mais depressa possível e depois fazer de conta que nem havia ocorrido. A curto prazo, isso parecia dar certo. Pouca gente ficava sabendo do acontecido, e assim o bom nome delas não ficava comprometido. Seu orgulho pessoal permanecia intacto. Com isso, armando-se de um otimismo míope, seguiam em frente, ao encontro do próximo desafio que a vida apresentasse. Infelizmente, porém, prosseguiam despreparadas e mal ajustadas. Por quê? Porque não reconheceram o problema que as levara a cometer aquela primeira falha, nem o definiram claramente, nem o resolveram, nern o analisaram, nem tiraram lições dele. Era inevitável, então, que passadas algumas semanas, ou meses, ou anos, ele voltasse a ocorrer. Só que agora vinha ampliado e era um pouco mais doloroso. Por isso também seria mais difícil ignorá-lo. Entretanto, embora o sofrimento fosse maior, a reação delas ainda era a mesma de antes. Minimizavam a questão, negavam-na, racionalizavam-na, não lhe davam atenção e prosseguiam em frente. Afinal, porém, atingiam uma condição em que não conseguiam mais ignorar o problema e eram obrigadas a procurar aconselhamento. O dilema se tornara tão complexo e penoso que eram forçadas a fazer algo para resolvê-lo. Isso é o que acontece à grande maioria das pessoas. Só vão em busca de auxílio quando o sofrimento se torna mais sério que o medo. O fato é que nós não enxergamos o valor intrínseco do erro. Não entendemos que uma das melhores maneiras de evitar falhas futuras é encarar as que cometemos no presente e tentar tirar lições delas. Precisamos deixar que Deus nos fale em meio ao erro. Como você age, meu irmão? Como reage diante de suas falhas? O que tem aprendido com seus erros?


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Na verdade, neste livro não focalizamos as falhas humanas, mas o papel que elas têm em nosso processo de santificação. Tratamos do maravilhoso amor de Deus por nós, do anseio dele em que cresçamos e amadureçamos. Ressaltamos o fato de que ele nos concede tudo de que precisamos para sermos conformes à imagem do Senhor Jesus Cristo. O que é a falha? Em que você pensa ao ouvir a palavra falha? Como a conceitua? Ela vem de um termo latino que significa "falta, defeito". Podemos defini-la como o não alcance dos fins propostos; aquilo que é insuficiente ou deixa a desejar. Quando falhamos, demonstramos ser ineficientes, fracassados ou não-confiáveis. Pode-se dizer que sofremos uma derrota. Em muitos casos, cometer uma falha implica uma crise emocional que é seguida de muita angústia e confusão mental. "A falha não é meramente um insucesso, mas uma força com características próprias. Na maioria das vezes, ela é bastante penosa. Nesse aspecto, possui uma dolorosa semelhança com o sofrimento da morte e do nascimento. Na realidade, ela é ao mesmo tempo morrer e nascer, e temos de encará-la como tal." A falha pode ser algo que cometemos ou que nos sucede. Geralmente ela não implica só isso; vai um pouco além. Pode também ser uma interpretação que damos a algo que nos acontece. E essa visão da situação determina o modo como ela nos afetará. Como veremos num dos próximos capítulos, tal versão dos acontecimentos exerce um papel importante em nosso amadurecimento. Podemos dizer que nossa conduta num determinado evento foi falha ou então que nós próprios falhamos. Neste livro, estaremos tratando das duas idéias. O caminho que conduz à maturidade é acidentado e cheio de desvios. Quando começamos a achar que estamos indo bem, que está tudo sob controle, que nossa vida está no "piloto automático", de repente acontece algo. Parece que batemos em algum obstáculo e acabamos constatando que estamos em outra estrada. E nem sabemos como fomos parar nela. O mais incrível nisso tudo, porém, é que esse fato, que de início parecia um revés, pode ser exatamente o contrário. Uma situação que, sem a perspectiva divina, lembra um fracasso moral, colocada nas poderosas mãos do Senhor pode tornar-se um instrumento dele para o nosso crescimento espiritual. Se negarmos a existência dos erros, não poderemos obter sucesso na vida cristã. Qualquer circunstância que é dolorosa ou nos faz sentir indignos (como nossos erros, reveses, raiva, crueldade, nossa tendência para o egocentrismo ou a recordação de abusos e maus-tratos que sofremos) pode vir a fomentar outros erros ou então tornar-se a matéria-prima de um alicerce mais sólido para nossa vida. Se aprendermos a compreendê-la, a dar-lhe o devido valor e a levá-la à cruz, poderemos, por meio dela, fortalecer-nos e


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crescei em sabedoria. O poeta inglês John Keats expressou essa idéia muito bem quando afirmou: "Num certo sentido, uma falha é o caminho que nos conduz ao acerto, assim como a descoberta de que algo é falso nos leva a buscar o que é verdadeiro. E a cada nova experiência que vivemos, descobrimos alguma forma de erro, que daí para a frente procuraremos evitar a todo custo."3 Quando Deus começou a revelar-me que meu conceito de falha era equivocado, a primeira indagação que me veio à mente foi: "O que a Bíblia ensina sobre isso?" E nem precisei procurar muito. Logo percebi que há várias referências a esse assunto na Palavra de Deus. Em toda ela, de Gênesis a Apocalipse, encontramos o registro de diversos erros humanos. Descobri que todos nós temos muito em comum com Adão e Eva, com os filhos de Israel, com Davi, Tome e Pedro. Aliás, basta abrir em Hebreus 11 e ler a galeria dos "heróis da fé". Ali estão os nomes de Noé, Abraão, Sara, Isaque, Jacó, Moisés e Raabe. Todos eles erraram, mas no fim saíram vitoriosos por haverem aprendido alguma lição com o erro. Contudo, para que nós também triunfemos, precisamos conhecer cinco fatos relativos ao erro. Cinco fatos relacionados com o erro l. Não se pode evitar o erro. Infelizmente, não dá para nossa mãe escrever um bilhetinho aos professores da escola da vida, dizendo que hoje vamos faltar de aula. Se há algo infalível na existência humana é justamente o fato de que cometemos erros, sofremos reveses, falhamos e fracassamos. É certo que um cadáver nunca erra. Está sempre calmo, tranqüilo e quieto. Mas também não realiza nada. Contudo nós que temos vida consciente e tentamos realizar algo, por menor que seja, sempre temos a possibilidade de falhar. E nisso não importa nossa idade, nosso Q. I. nem nosso grau de espiritualidade. Vejamos o apóstolo Paulo, por exemplo. Quando ele escreveu a carta aos romanos, já havia feito três longas viagens missionárias. Levara a mensagem do evangelho às províncias ocidentais do Império Romano. Sofrerá perseguições, ganhara muitas almas, efetuara o discipulado de novos convertidos e fundara diversas igrejas. E ele não era simplesmente um homem que conhecia a Palavra de Deus. Inspirado pelo Espírito Santo, ele: escreveu a Palavra. Então achamo-nos diante de um gigante da fé, um homem santo, sábio e amadurecido. Contudo, em Romanos 7, vemos que ele ainda tinha lutas, bloqueios e cometia erros. Vejamos os versos 15 a 23.


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"Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço... Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros." (Vv. 15-19, 21-23.) Anos depois, vamos encontrar o mesmo Paulo, agora mais velho, mais sábio e até mais maduro, escrevendo o seguinte aos filipenses. "Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma cousa faço: esquecendo-me das causas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus." (Fp 3.12-14.) Encaremos a realidade. Enquanto tivermos vida e fôlego, estaremos sempre a braços com o fato de que temos uma natureza humana caída. Portanto, a única questão que deve nos preocupar é esta: será que vamos passar a vida toda cometendo os mesmos erros, falhando nos mesmos pontos? Ou vamos parar, olhar, ouvir e aprender com eles? Na verdade, não devemos dar muita importância ao erro. Todo mundo tem falhas, até as pessoas mais corretas. O que deve ter valor para nós é deixar Deus ensinar-nos a tirar lições de nossos fracassos. Isso é ser maduro. 2. Errando, lembramo-nos de que não somos Deus. Nossas falhas mostram que somos pessoas comuns, falíveis, pecadoras. Parece que estamos convencidos de que Deus não pode usar esses seus homens comuns e falhos. Achamos que se quisermos ser felizes, amados e valorizados temos de acertar sempre. Aliás, temos de ser perfeitos. Entretanto não é isso que diz a Palavra de Deus. Lemos em Tiago 5.17 que "Elias era homem semelhante a nós". Atos 4.13 revela que os grandes apóstolos Pedro e João eram pessoas comuns, "homens iletrados e incultos". Lendo o livro de Êxodo, ficamos sabendo que o extraordinário Moisés também era um homem comum. Cometeu muitos erros. Aliás, ele iniciou seu ministério com um. Vemos, no capítulo 3, que ele entrou em pânico, pelo temor de cometer erros, quando Deus o chamou para liderar o povo. Então se pôs a citar tudo quanto era falha, fraqueza e desculpa, para convencer a Deus de que não se achava à altura da tarefa. Depois, porém, começou a entender


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que o ponto central não era ele, mas o fato de que o Senhor o escolhera para aquela missão. E quando Moisés afinal se pôs a dar os primeiros passos em direção à maturidade, teve uma acolhida muito fria. Não foi aplaudido de pé nem nada. Pelo contrário, encontrou rejeição e menosprezo. Mas ele era novo. Ainda tinha muito a aprender. Devido à sua impulsividade, imaturidade e incapacidade de controlar a raiva, ele teve de passar quarenta anos no deserto. Antigamente, eu achava que essa fase de sua vida tinha sido um "desperdício". Na verdade, porém, o Deus todo-poderoso aproveitou esse período para aprimorá-lo e transformá-lo num líder capaz. Então, quando ele regressou ao Egito, após aqueles anos de obscuridade no deserto, era outro homem. Assim que Moisés aprendeu a tirar lições de seus erros, Deus pôde usá-lo de forma miraculosa. Contudo ele descobriu também o alto preço que pagamos quando não aprendemos isso. Desde jovem, ele tivera problemas devido à sua ira descontrolada. Fora exatamente por causa dela que precisara fugir do país. E embora mais tarde houvesse aprendido a refrear-se, jamais permitiu que Deus o ajudasse a dominá-la totalmente. Afinal, pelo fato de não haver absorvido as lições que poderia ter aprendido com suas repetidas falhas, acabou sendo impedido de entrar na Terra Prometida. Em Filipenses 3.10, Paulo expressa o desejo de conhecer a Cristo "e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos". Para mim é muito fácil orar no sentido de conhecer o poder da sua ressurreição. Contudo raramente peço para participar da comunhão de seus sofrimentos. É mediante a luta e a dor decorrentes de nossas falhas, sejam elas grandes ou pequenas, que nos conscientizamos do que nós somos e de quem ele é. Quem se sente falho, impotente, desanimado, frustrado, limitado, quem se vê como uma pessoa muito comum, saiba que é exatamente essa que Deus usa. A Bíblia revela claramente, em vários textos, que o Senhor deliberadamente busca os fracos e falhos, pois é por meio deles que ele recebe maior glória. Em l Coríntios l, Paulo afirma o seguinte: “Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as causas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as cousas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus, " (Vv. 26-29.) 3. Nossas falhas nos levam a buscar a Deus e a ver tudo pela perspectiva dele.


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Nossa falha pode ser o meio pelo qual Deus dá-nos um tapinha no ombro para chamar-nos a atenção. Parece até que ele está dizendo: "Olá! Você aí! Está lembrado de mim? Lembra-se de que morri e ressuscitei?" Assim que nos recordamos do quanto somos falhos, achamo-nos em posição de enxergar sua graça, sua bondade e seu poder. Examinemos a vida de Jonas, Moisés e Davi, antes e depois dos erros que cometeram. Eles mudaram. Tornaram-se diferentes não por haver errado, mas por ter sabido tirar lições de suas falhas. E com isso amadureceram. Em meio à escuridão que cerca uma derrota, temos a tendência de ficar olhando o erro, quando deveríamos cultivar um olhar de fé. Concentramo-nos naquilo que não conseguimos fazer cm vez de pensarmos mais no que Deus pode realizar. Sempre que erramos, Satanás procura levar nossa atenção para o riacho seco de nossa falha, a fim de impedir-nos de enxergar os rios de água viva que se acham sempre ao nosso dispor. É por isso que, muitas vezes, um fracasso traz consigo uma crise de incredulidade, que nos obriga a fazer a decisão consciente de tirar os olhos de nós e de nosso erro para fixá-los em Jesus. Deus gosta muito de edificar sobre os alicerces de nossas fraquezas, falhas e erros. Com os escombros de nossas corajosas (e às vezes inúteis) tentativas de acerto, ele constrói uma vida que lhe dá honra e glória. Nós não quereríamos tal material de construção. Contudo ele usa nossa vontade fraca, nossos recursos inadequados e nossos esforços desconexos, transformados pelo seu poder. A partir dos destroços de nosso egoísmo, nossa pecaminosidade e nossa insensatez, ele cria algo de muito belo. Bill e Gloria Gaither expressaram isso muito bem num hino. Algo de Muito Belo Se havia anseios nobres e elevados, Eram os meus. E as esperanças que eu abrigava no fundo do coração Eram as melhores possíveis, Mas meus sonhos viraram cinzas, meus castelos desmoronaram, Minha riqueza tornou-se em perda. Então envolvi tudo nos trapos de minha vida E depositei aos pés da cruz! Algo de belo, algo de bom, Toda a minha perplexidade ele entendeu. Eu só tinha a oferecer-lhe abatimento e lutas, Mas ele pegou minha vida e fez algo de belo.3 E assim que Deus opera. Ele toma algo que talvez consideremos comum e inútil e o transforma completamente. O salmista afirmou o seguinte: "Corno um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se


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compadece dos que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó." (SI 103.13,14.) É verdade. Não passamos de pó. Contudo a Bíblia afirma que somos um pó que ele ama e que ele criou para ser "um pouco menor do que Deus", coroado "de glória e de honra" (SI 8.5). Então ele pega o pó de uma alma temerosa, perfeccionista, empreendedora e que acha que "sabe tudo", e confere-lhe maturidade, conformando-a à imagem de Cristo. 4. O erro pode ser um sinalizador pelo qual Deus nos avisa que estamos acomodados a uma rotina e precisamos mudar algo. Gosto de obter sucesso sempre. Sinto-me bem quando tudo está correndo tranqüilamente. Agrada-me sentir-me confortável; e certamente a você também. É por isso que, quando tudo vai bem, quando o mar está calmo e as crises são contornáveis, queremos que continue assim. E não é errado desejar isso, pelo menos por algum tempo. O perigo começa quando ficamos por demais acomodados. Uma vida demasiadamente tranqüila pode cair na rotina. Quando fazemos da sensação de segurança e da comodidade um santuário que nos defende das intempéries da vida, aí a situação se complica. Alguém afirmou que um navio ancorado no porto acha-se perfeitamente em segurança, mas não é para isso que ele existe. Não foi para que ficássemos escondidos no porto que Cristo morreu na cruz em nosso lugar. Não foi para que buscássemos um lugar seguro que ele se sacrificou por nós. É verdade que uma existência sem muitos riscos parece mais tranqüila e cômoda. Contudo, se empregarmos nosso tempo e nossas energias procurando formas de escapar dos perigos de uma vida autêntica, perderemos a visão espiritual e teremos uma existência medíocre e estagnada. O poeta James Russell Lowell expressou essa idéia num poema. A vida é uma folha de papel em branco, Onde cada um de nós tem de escrever Suas palavras, sejam uma ou duas,., e depois cessar. Então escreva algo de grandioso, mesmo que tenha tempo apenas para uma Unha. Que ela seja sublime. Não é crime errar. O crime é mirar baixo!4 Uma atitude inadequada diante de uma falha é um "cola tudo" que nos mantém agarrados à rotina da imaturidade, da irresponsabilidade e da mediocridade. O maior erro que podemos cometer é ter medo de errar. O maior perigo que corremos não é o de cometer uma falha. Se estivermos caminhando em direção a determinada meta e fizermos um erro, poderemos analisá-lo e com isso voltar ao caminho certo. Se mantivermos uma atitude


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positiva para enxergar o que há de bom nas críticas ou em experiências adversas, poderemos aprender com elas e fortalecer-nos mais. Nossos erros sempre nos deixam mais alertas e constituem uma oportunidade para nos examinarmos a nós mesmos, isso é mais proveitoso do que permanecer seguros e tranqüilos naquilo que é de valor secundário. O erro nos obriga a refletir, a conversar com alguém. E pode levar-nos a abandonar as cercas da vida. Força-nos a arriscar-nos um pouco. Em seu livro A Preface to Christian Theology (Um prefácio à teologia cristã), John Mackay fala de dois tipos de indivíduos. O primeiro é semelhante a um grupo de pessoas postadas na sacada de uma velha mansão, a olhar quem passa na estrada. Esse pessoal da sacada ouve o que os passantes dizem e fazem comentários sobre a conversa deles. Comentam sobre a aparência deles, a forma como estão vestidos e como andam. Podem falar sobre as condições da estrada, o tempo que ela já tem de construída, a razão para que foi feita, onde ela se inicia e onde termina, bem como a vista que se tem de alguns dos seus pontos mais elevados. Contudo eles se acham em segurança. São apenas observadores. Não participam da viagem. Todas as observações que fazem sobre o assunto são teóricas; não práticas. O outro tipo de indivíduo é semelhante aos viajantes, os que de fato pegam a estrada. Esses fazem perguntas assim: "Até onde devemos ir?" "Para que lado temos de seguir?" "De que precisamos para chegar ao nosso destino?" Embora a jornada deles tenha alguns aspectos teóricos, o fato é que suas indagações são de natureza prática, imediata. Eles não se encontram "ancorados no porto". Tampouco limitam-se a conversar sobre a estrada. Estão caminhando nela. Enfrentam problemas que exigem ação e decisão. Os da sacada são os que se empenham em discussões profundas sobre as implicações filosóficas, teológicas e existenciais de cometermos erros. Já os viajantes são os que estão enfrentando o problema, tentando tirar dele lições proveitosas e seguindo em frente, ainda que penosamente. Pedem ajuda não apenas para superá-lo, mas para crescer por meio dele. Só não perde uma competição quem nunca participou dela. Só não falha aquele que não faz nenhuma tentativa. Certa vez o dramaturgo e humorista George Ade, já falecido, disse o seguinte: "Qualquer um pode vencer, a não ser que tenha de competir pela segunda vez."5 Este livro é para quem não quer ficar na sacada. É para homens e mulheres que decididamente desejam arriscar-se .1 ser praticantes da Palavra


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e não somente ouvintes. Deus quer ajudar-nos a sair do erro e passar à fé, a deixar a condição de desvalidos e aprender a ser esperançosos. Nosso objetivo neste livro é mostrar ao leitor como se consegue isso. 5. O erro é um aspecto básico do sucesso. Certo dia, o diretor de um banco comunicou a um dos seus vice-diretores que iria aposentar-se e que o escolhera para ser seu sucessor na chefia da empresa. O jovem ficou extasiado pela honra que lhe era conferida e, ao mesmo tempo, preocupado devido à responsabilidade inerente ao cargo. Assim que se refez do espanto, agradeceu: - Obrigado, senhor! Em seguida, num tom mais sério, disse: - Sempre o admirei muito pela sua habilidade à frente os negócios. Qual é o segredo do seu sucesso? O velho diretor pôs a mão no queixo, pensou um instante e em seguida replicou: - Saber tomar as decisões acertadas. - E como foi que o senhor aprendeu a tomar decisões acertadas? indagou o jovem. Com um brilho diferente no olhar, o diretor respondeu: - Tomando algumas erradas. É impossível separar o fracasso do sucesso; são as duas faces de uma mesma moeda. Ninguém aprende a tomar decisões acertadas sem antes fazer algumas erradas. Quem não assimila as lições dos erros cometidos nunca poderá obter sucesso. E para cometer erros, temos de nos expor e fazer tentativas. Pensemos no seguinte. Sempre estamos ouvindo falar nos 714 pontos que Babe Ruth2 marcou na sua carreira como jogador de beisebol. Contudo ninguém menciona que é dele também o recorde de tacadas erradas. Ouvimos muito também sobre o fato de Thomas Edison haver inventado a lâmpada incandescente, mas raramente alguém cita as centenas de fracassos que ele conheceu antes de conseguir essa vitória. Em agosto de 1978, o balão "Double Eagle II" pousou numa plantação de cevada na cidade de Miserey, França. Pela primeira vez tinha êxito a travessia do oceano Atlântico num balão. Contudo essa não era a primeira tentativa. Entre 1873 e 1978, foram feitas treze tentativas, que terminaram em fracasso. A própria tripulação do "Double Eagle" já havia feito uma em 1977, que também falhara. O balão acabara pousando na Islândia. Afinal, porém, o "Double Eagle II" conseguiu completar com sucesso um vôo de 2

Babe Ruth: famoso jogador de beisebol, dos Estados Unidos. (N. da T.)


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seis dias, partindo da Ilha Presque, no Maine, e chegando a Miserey, na França. Quais foram os fatores que determinaram a diferença entre a viagem fracassada e a vitoriosa? Um deles foi o acréscimo de mais um homem à tripulação. O segundo, e o mais importante, foi a experiência. Maxie Anderson, um dos que participaram da empreitada, explicou o seguinte: "Acho que é impossível alguém atravessar o Atlântico sem ter tido experiência. E essa é uma das razões por que ninguém conseguira antes. O que determina o sucesso de qualquer empreendimento é saber tirar proveito dos erros cometidos."'1 Mas, por favor, não me entenda mal. Não estou defendendo a idéia de que devamos fazer tentativas visando a fracassar; não. O que afirmo é que quando experimentamos reveses e cometemos falhas, que são inevitáveis, devemos procurar encará-los como ocasiões para crescermos. Sempre que cometo um erro, posso aprender alguma lição com ele. E outros também podem. Sempre que alguém tem uma falha, muitos podem obter algum proveito dela, além daquele que errou. Quando os pais, por exemplo, reconhecem seus erros diante dos filhos, estão dando a estes um ensinamento de valor inestimável. Estão lhes ensinando que são humanos e que erram. Então os pequenos aprendem que não faz mal errar, que isso é parte da existência e é necessário para se ganhar experiência. Alguns anos atrás, um jovem escritor foi entrevistar Thomas J. Watson, o lendário diretor da IBM. No meio da conversa, o industrial lhe deu um conselho bastante inusitado. "Essa não é bem minha área de atuação", falou Watson. "Mas quer que eu lhe dê uma fórmula para obter sucesso como escritor? É muito simples: dobre seu índice de erros. Você está cometendo um engano que é comum a muita gente: achar que a falha é inimiga do sucesso. Mas não é. A falha é um mestre para nós. É um mestre meio cruel, mas o melhor que existe." Em seguida, ele olhou para o moço e dirigiu-lhe uma pergunta crítica: "Você disse que tem em sua mesa um monte de manuscritos rejeitados? Isso é ótimo! Existe uma razão definida para cada um deles ter sido reprovado. Você já os examinou detidamente para descobrir qual é essa razão?" Esse homem que conversou com Watson era Arthur Gordon, que acabou se tornando um escritor e editor famoso nos Estados Unidos. Ele procurara o industrial desejando entrevistá-lo, mas recebeu algo de muito mais valioso: uma nova visão de um fracasso. "Em meu interior algo mudou. Manuscritos rejeitados? Projetos


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devolvidos? Não deveria me envergonhar de nenhum deles. Eles eram os degraus de uma escada e nada mais. Um homem sábio e paciente me deu uma idéia. Ela era muito simples, mas de grande valor. Quem aprende a tirar lições de suas falhas tem grande probabilidade de chegar aonde deseja."7 Nossos erros podem até deixar algumas cicatrizes - sentimentos feridos, relacionamentos estremecidos, um potencial desperdiçado, um casamento desfeito e um ministério destroçado. Contudo Deus pode usá-los também para aguçar nossa mente, aprofundar nosso espírito e fortalecer-nos a alma. Àqueles que aprendem a enxergar seus erros com os olhos de Deus saem da crise com um coração quebrantado, um caráter fortalecido e urna nova consciência da graça divina. Você está disposto a encarar esse desafio? A elaboração deste livro está sendo um tanto demorada. Escrevê-lo tem sido agradável, mas ao mesmo tempo penoso. O lado penoso é o fato de que tenho de reviver alguns dos momentos mais desagradáveis de minha vida. Foram ocasiões em que, por estupidez, egoísmo ou mesmo pecado, decepcionei a Deus, meus familiares, amigos e até a mim mesmo. Fiquei admirado ao perceber como a lama e a sujeira de erros passados ficam grudadas em nossos pés. Espantei-me ao descobrir como é fácil sentir de novo a forte dor dos pecados cometidos. Embora eles já tenham sido perdoados, o processo é muito doloroso. E tenho ficado ainda mais assombrado ao ver corno é fácil permanecermos agarrados a eles. O lado agradável é que tenho enxergado a mão de Deus em cada situação, em cada recordação e em todas as ilustrações. Tenho sentido o quanto ele é fiel às suas promessas. Tenho visto Romanos 8,28 aplicado na prática. É verdade! Ele pode fazer com que todas as coisas cooperem para o bem daqueles que amam a Deus e que são chamados segundo o seu propósito. Não é preciso que nossas falhas sejam uma perda inútil. Nem é necessário que sejam definitivas. Alguém já afirmou que o objetivo das dificuldades da vida é tornar-nos melhores, não amargurados. Podemos passar a vida resmungando ou crescendo. Você já se sentiu como que agarrado aos erros? Já se achou muito fraco? Você comete erros? Já se sentiu um verdadeiro fracasso? Quer crescer e amadurecer espiritualmente? Quer ter uma vida espiritual mais profunda? Quer que "cada dia com Cristo seja melhor que o anterior"? Então continue a ler. Neste livro, fornecemos-lhe um mapa para que atravesse esse "campo minado" que é o erro. Ele foi escrito para você. Para pensar 1. Que conceitos acerca das falhas pessoais você recebeu na infância?


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2. Que mensagens lhe eram comunicadas a seu respeito quando cometia algum erro? 3. Qual é sua primeira reação quando comete um erro? 4. Qual é sua primeira reação para com os outros quando eles erram? 5. Você tem passado a maior parte de sua vida na "sacada" ou na "estrada"? Capitulo 2 Por Que Os Mais Espirituais Erram? "Não consigo fazer isso!" "Nunca vou fazer nada certo!" "Já tentei uma vez e não consegui. Pra que tentar de novo?" "É difícil demais. Desisto!" Você já disse alguma dessas frases? Esses pensamentos lhe passaram pela mente? Pela minha, já. Não sei quantas vezes pensei em desistir de tudo. Recordo-me de uma ocasião, quando era recém-convertido, em que estava andando numa praia da Califórnia, sentindo-me muito frustrado e desanimado. Acabara de voltar de um acampamento evangélico. Ali, mais uma vez, reconsagrara minha vida a Cristo. Prometera a Deus, com toda a sinceridade, que observaria meu momento devocional todos os dias pela manhã e fugiria "das paixões da mocidade". Tinha certeza de que dessa vez resolvera isso de todo o coração e que iria mudar. Mas em menos de duas semanas, eu me dei conta de que deixara de fazer minha meditação diária várias vezes. Além disso, não fugira das "paixões da mocidade" com a rapidez com que deveria ter escapulido. Cedera à tentação e falhara diante de Deus. Mais uma vez, fracassara. Naquele instante, vieram-me à mente todas as lamentações próprias da auto-condenação, que eu conhecia tão bem. Xinguei a mim mesmo de fraco, indigno, estúpido, burro, fracassado e hipócrita. Sentia-me frustrado, via-me como um cristão muito falho e considerava-me mais imaturo e espiritualmente debilitado que nunca. Minha vontade era desistir daqueles ideais, e não entendia por que Deus também não o fazia. Eleja havia me dado muitas oportunidades de aprender e de vencer. Já perdoara meus erros diversas vezes. E apesar de tudo, a despeito do conhecimento e da experiência que eu tinha, falhara novamente. Depois que amadureci um pouco mais, percebi que muitos crentes ficam um bom tempo presos nas malhas do desânimo. Obviamente é aí mesmo que o diabo nos quer. É quando tiramos os olhos de Cristo e os fixamos em nossas falhas, ficamos tão atentos àquilo que deixamos de fazer que perdemos de vista o que ele fez. E o desânimo rapidamente se


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transforma em desespero. Com isso, pensamos: De que adianta tentar1? Nunca serei como Deus quer eu seja! Só começamos a sair desse "buraco" quando entendemos por que falhamos tanto e com tanta facilidade. Nos últimos anos, venho desenvolvendo uma pesquisa com várias pessoas, de diversas profissões, etnias, posições sócio-econômicas e denominações religiosas. Meu objetivo inicial era descobrir as dez principais razões pelas quais as pessoas erram. Pouco depois, tive de mudar para "as vinte principais razões" e, em seguida, para as "trinta principais razões". Afinal, acabei concluindo que o número de razões é igual ao de seres humanos. Entretanto descobri também que existem alguns erros ou condições básicas que nos predispõem para essas razões superficiais, ou nos tornam vulneráveis a elas. Passei horas analisando as inúmeras causas da falha humana que as pessoas haviam citado, todas aparentemente desconexas entre si. De repente, foi como se uma luz se acendesse. E não foi uma lampadazinha qualquer de 25 watts, não. Foi um holofote de mil. Comecei a perceber certos fatos comuns a todas as situações. Notei que a maioria das razões citadas podia ser associada a cinco fatores básicos. Com isso, compreendi também que se pudermos entender bem e eliminar esses fatores geradores, pela graça de Deus, poderemos evitar muitas falhas e sofrimentos desnecessários. Então, neste capítulo, quero citar esses cinco fatores e mostrar como podemos corrigi-los. 1. Um compromisso parcial com Deus Paulo encerra o capítulo 3 de sua carta aos efésios com uma oração. No verso 19, ele pede a Deus que ajude esses cristãos a "conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tornados de toda a plenitude de Deus". Na primeira vez em que li esse texto, achei-o muito confuso. Parecia meio contraditório. Aparentemente, o apóstolo pedia a Deus que nos ajudasse a conhecer um tipo de amor que excede nosso entendimento. Pensemos um pouco. Se ele se acha além de nossa capacidade de entendê-lo, como é que poderemos conhecê-lo? Entretanto, como sei que a Bíblia não se contradiz, convenci-me de que precisava estudar um pouco mais. Descobri então que Paulo estava se referindo a dois tipos de conhecimento. O primeiro é o que diz respeito a uma mera aquisição de informações e fatos. Chamo a isso "conhecimento intelectual". Os escribas e fariseus procuravam distinguir-se por meio deste. Tinham bom entendimento da lei e dos profetas. Aliás, foram eles que indicaram aos reis magos o local onde estes encontrariam o esperado Messias. Contudo esse saber era apenas intelectivo. Quando o Messias surgiu, além de não o


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identificarem, acabaram crucificando-o. O segundo tipo de conhecimento é o que entra na mente e depois chega ao coração, É o que se torna experiência e transforma nossa vida. Chamo a isso "conhecimento pessoal, do coração". Pensemos um pouco na vida de Pedro. O que ele sabia sobre Jesus não era de ouvir falar; ele o conhecia pessoalmente. Aquele íntimo relacionamento que ele gozava com o Senhor se desenvolvera através de vários anos de convivência com ele. E durante esse tempo de associação com Cristo, Pedro cometera inúmeras falhas e erros. Sempre achei muito interessante o modo como Jesus tratou o apóstolo no encontro que tiveram junto ao mar da Galiléia, após a ressurreição. Cristo não o repreendeu por haver dado uma de Zorro e cortado a orelha do servo do sumo sacerdote. Tampouco o censurou por havê-lo negado. Também não se pôs a dar uma aula sobre a maneira correta de pescar. O que fez ele? Fitou-o direto nos olhos e perguntou-lhe três vezes: "Tu me amas?" E hoje, Jesus faz a mesma indagação a cada um de nós. Depois de trinta anos de ministério cristão, compreendi que a resposta que lhe dermos a cada dia irá determinar a direção de nossos atos naquele dia. Qual a importância dessa pergunta? Certa vez um fariseu indagou a Jesus: "Mestre, qual é o grande mandamento na lei?" E Jesus nem pestanejou. "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento." (Mt 22.36,37.) No capítulo 2 de Apocalipse, está registrada a mensagem que João recebeu para a igreja de Éfeso. Lembremos que essa igreja era constituída de gente muito importante. Eles se orgulhavam de ser os mais ortodoxos da época. Eram conhecidos por suas boas obras, sua dedicação ao serviço e sua perseverança. Além disso, não suportavam os homens maus. Haviam posto à prova aqueles que se diziam apóstolos mas não eram. E tinham passado por adversidades, sem nunca esmorecer. Contudo, nos versos 4 e 5, encontramos o seguinte: "Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras..." Então, o que Jesus está lhes dizendo é o seguinte: "Olhe aqui, gente. Reconheço que vocês estão trabalhando muito. Estão realizando muita coisa. Mas já está na hora de voltar ao que é fundamental." Eles se orgulhavam de ser uma igreja que pensava e agia corretamente. Mas Deus disse: "Estou mais interessado é na condição do coração de vocês." Eu próprio já me dei conta de que algumas das falhas mais graves que


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cometi ocorreram em ocasiões em que estava me dedicando muito ao serviço cristão. É que, pouco a pouco, eu fora tirando os olhos de Deus e fixando-os naquela atividade; e constatando o quanto eu trabalhava bem. E já percebi também que não sou o único a ter essa tendência. Conversei com centenas de crentes, entre os quais muitos líderes influentes, que me disseram ter vivido experiência semelhante. Se você, leitor, procurar recordar algumas das falhas que cometeu recentemente, talvez descubra que uma das causas básicas foi a falta de persistência e fidelidade numa comunhão de amor com o Senhor Jesus Cristo. No Sermão do Monte, Jesus ensina o seguinte: "Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu... porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração." (Mt 6.19-21.) Estou convencido de que sempre que permitimos que algo se torne um tesouro para nós, ainda que seja o serviço cristão, estamos dando o primeiro passo para errar. 2. Falta de uma total confiança na Palavra de Deus No primeiro capítulo do livro de Josué, encontramos esse novo líder preparando o povo para entrar na Terra Prometida. Eles haviam passado quarenta anos viajando pelo deserto. Viviam sonhando com aquela região que manava leite e mel. Estavam ansiosos para entrar e achavam-se dispostos a isso. Contudo, antes que eles iniciassem a conquista do lugar, Deus falou a Josué acerca de uma arma secreta. Diz ele no versículo 7: "Tão-somente sé forte e mui corajoso para teres o cuidado de fazer segundo toda a lei que meu servo Moisés te ordenou; dela não te desvies, nem para a direita nem para a esquerda, para que sejas bem-sucedido por onde quer que andares." Prestou atenção nessa última parte? Está claro que Deus condiciona o triunfo do povo à obediência deles à Palavra divina. Se decidissem seguir as verdades que conheciam e não se desviassem delas, teriam sucesso. Eles estavam encerrando um "desvio" de quarenta anos, do qual ninguém tirara nenhum proveito. Talvez tivessem aprendido alguma lição. E para que entendessem bem a mensagem, Deus repetiu a instrução, no sentido de que meditassem na sua Palavra dia e noite. "Não cesses de falar deste livro da lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu caminho e serás bem-sucedido" (1.8). Sempre que leio essa passagem, tenho a impressão de que depois Deus se virou para Josué e disse: "Alguma pergunta?" Em Romanos 12.1,2, Paulo fala sobre a importância de diariamente


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apresentarmos todo o nosso ser e aquilo que temos "em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus". No versículo 2, ele ensina que o aspecto essencial do processo de nos conformarmos à imagem de Cristo é a renovação da nossa mente. O termo "renovar" significa "tornar novo; restaurar o viço, o vigor ou a perfeição; introduzir profundas mudanças". E por que essa renovação é importante? Diz a Bíblia que "como imagina em sua alma, assim ele é" (Pv 23.7). Aquilo que colocamos em nossa mente ou que deixamos nosso pensamento absorver exerce certa influência em nosso agir. Alguém afirmou o seguinte: "Toda palavra ou ato ímpio ou anticristão que dissemos ou praticamos começou com um pensamento ímpio ou anticristão. Se tivemos algum sentimento de ódio ou desprezo por alguém, foi porque antes abrigamos em relação a essa pessoa pensamentos de desprezo, que acabaram se transformando em ódio. Todos os pecados visíveis que cometemos e que tanto nos envergonharam perante os outros nasceram de um pensamento vergonhoso. Sempre que praticamos algum erro contra alguém, nós o executamos primeiro em pensamento. Aquilo em que pensamos seguidamente, mais cedo ou mais tarde se manifestará de forma clara, como uma expressão visível desse pensamento." Encontramos um princípio semelhante expresso em Jeremias 31.21: "Põe-te marcos, finca postes que te guiem, presta atenção na vereda, no caminho por onde passaste..." E Warren Wiersbe já observou que "pensar no mal nos leva a ter maus sentimentos, e pouco depois o coração e a mente se separam.., Precisamos entender que, embora não possamos ver, nem pesar, nem medir os pensamentos, eles possuem um poder tremendo".1 Havia já muitos anos que eu sabia da importância da Palavra de Deus. Tinha memorizado centenas de versículos. Possuía uma vasta biblioteca teológica. Dedicava muitas horas ao estudo da Bíblia. Contudo passava relativamente pouco tempo introduzindo-a em meu coração. Ficava horas e horas preparando o alimento espiritual para outros, mas, por insensatez, não separava muito tempo para minha própria nutrição. Deus teve muita paciência comigo. Deixou que eu cometesse alguns erros tolos. E falou ao meu coração por meio de vários reveses. Eu estivera pensando que me bastaria ler as Escrituras. Entretanto, certo dia, quando regressava para casa, ouvi no rádio uma palavra de Charles Swindoll. Disse ele: "Não pensemos que assimilar a mensagem bíblica seja igual à contaminação radioativa, pois não é. Não basta estar exposto a ela para a


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absorvermos." Foi como se eu tivesse levado um tapa no rosto, de um fato que eu já conhecia havia muitos anos. Durante muito tempo, planejei meus afazeres em função dos serviços que precisava realizar para Deus, em vez de iniciar o dia com ele, dando assim prioridade ao que realmente importa. Nos últimos anos, até passara a levantar-me cedo (para mim). É que não sou uma pessoa muito matinal. Mas Deus me falou por meio de um comentário de Dietrich Bonhoeffer e mudou minha maneira de ver esse assunto. Díz Bonhoeffer: "Imprimimos ordem e disciplina ao nosso dia quando lhe conferimos unidade. E é na oração matutina que vamos buscar essa unidade. Muitos dos erros que cometemos, como, por exemplo, as horas desperdiçadas de que tanto nos envergonhamos, as tentações a que cedemos, a fraqueza e o desânimo no trabalho, a desorganização e a indisciplina nos pensamentos e na conversa com outros, decorrem do fato de negligenciarmos a oração matutina," Se você percebe que caiu na rotina de cometer os mesmos erros várias e várias vezes, obviamente as soluções que tem tentado não estão dando certo. Nesse caso, o melhor a fazer é buscar outra alternativa. Será que você tem sido persistente na Palavra e passado um bom tempo ouvindo a voz de Deus por intermédio dela? 3. Uma compreensão imperfeita de nossa identidade em Cristo Em Romanos 12.3, Paulo faz a seguinte advertência: "Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um." Satanás não está muito preocupado em que pensemos de nós mesmo além ou aquém do que é certo. O que ele quer é que não nos vejamos como Deus nos vê. E faz tudo para impedir que compreendamos o que significa estar "em Cristo". Quando desviamos os olhos da cruz de Cristo e nos pomos a pensar de nós mesmos além do que convém, tornamo-nos narcisistas e egocêntricos. Corremos o risco de nos enxergarmos como heróis. É como disse alguém: "Eu me amo; acho que sou maravilhoso. Quando vou ao cinema, fico de mãos dadas comigo mesmo. Ou passo o braço em volta de minha cintura, Mas aí, quando fico atrevido, dou-me um tapa no rosto” Os personagens bíblicos raramente erravam por causa de suas fraquezas. Geralmente eram seus atributos positivos que os levavam a incorrer em faltas. Um ponto forte de que descuidamos pode transformar-se numa fraqueza grave, depois de algum tempo. Muitas vezes, os aspectos em que nos consideramos mais fortes são onde estamos mais despreparados, no


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caso «Ir lermos de enfrentar uma batalha. Gordon MacDonald fez uma afirmação muito acurada nesse sentido. Disse ele; "Quase todas as nossas derrotas se devem ao fato de não Conhecermos a nós mesmos, de não termos uma visão clara de nossas potencialidades (negativas e positivas), de nossas propensões e de nossos pontos fracos."3 Temos a tendência de ficar olhando só para os pontos fortes e, com isso, esquecemo-nos da "força" que nossas fraquezas têm. Sansão cometeu esse erro. Saul e Davi fizeram o mesmo e nós também o fazemos. E como é que isso ocorre? Pegamos um binóculo e, pelo lado que amplia tudo, focalizamos nossos pontos fortes e o sacrifício que fazemos de nós mesmos, de nosso tempo e de nossos recursos. Depois viramos a lente e olhamos os pontos fracos. Aí, nossa preguiça, nosso egoísmo, nossas falhas e nossos maus hábitos mentais ou físicos nos parecem distantes e diminutos. O outro erro é pensarmos sobre nós mesmos aquém do que convém. E há quem confunda esse tipo de mentalidade com humildade. Contudo existe uma enorme diferença entre as duas idéias. Cometemos essa falta quando nos preocupamos muito com aquilo que nós ternos feito de errado, em vez de nos concentrarmos naquilo que Cristo fez. Se ficarmos sempre pensando em nossos erros e falhas, obviamente não estaremos com a mente voltada para ele. E o quadro que enxergamos aí realmente não é muito agradável. Assim, com pouco tempo, sentimo-nos desanimados e predispostos a desistir de tudo. Sempre que quisermos avaliar nossa identidade, é essencial que o façamos pela perspectiva da cruz de Cristo. Seja confessamos nossos pecados a Jesus e o recebemos como nosso Senhor e Salvador, experimentamos o novo nascimento. Nesse caso, devido à obra realizada por Cristo, nós, que cremos nele, temos muitos pontos fortes. Fomos justificados e Deus nos perdoou totalmente (Rm 5.1). Não estamos mais debaixo de condenação (Rm 8.1-4). Fomos feitos justiça de Deus (2 Co 5.21). Somos co-participantes da natureza divina (2 Pé 1.4). Recebemos o Espírito de Deus (l Co 2.12). Fomos batizados no corpo de Cristo (l Co 12.13). Possuímos a mente de Cristo (l Co 2.16). Temos acesso direto a Deus por intermédio do Espírito (Ef 3.12). Contudo, embora tenhamos muitos pontos fortes, ainda continuamos com algumas fraquezas. É verdade que nos tornamos novas criaturas em Cristo, mas isso não significa que nossa carne desapareceu como num passe de mágica; não. Significa que somos uma nova pessoa, com novos recursos para lutar contra ela. Todavia temos de procurar preparar-nos para esse combate. Precisamos conhecer nosso inimigo e saber como ele age. Temos de inteirar-nos dos expedientes de que dispomos e de como podemos usá-los.


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Quando Satanás tentou Adão e Eva, atacou-os em três áreas: a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida. Ao tentar Jesus no deserto, ele dirigiu seus ataques às mesmas áreas. Sabe de uma coisa? Satanás é muito constante. Quando ele vem contra nós, visa também a essas áreas. O apóstolo João escreveu o seguinte: "Não ameis o mundo nem as cousas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente." (l Jo 2.15-17.) 4. Subestimar a tentação Tentar significa "pôr à prova". Lembremos sempre que a tentação é uma das principais armas que Satanás utiliza contra nós. Entretanto o que ele tenciona usar para nosso mal, Deus pode reverter em bem para nós. Ele permite que sejamos tentados por diversas razões. A tentação é o fogo que traz à superfície de nosso ser as ligas e impurezas que há em nossa vida (l Pe 1.6,7). Quando permitimos que Deus as remova, tornamo-nos "ouro purificado". A tentação pode ajudar-nos a identificar nossos pontos fracos, revelar-nos novas áreas em que podemos crescer, fortalecer nossa fé, conduzir-nos à cruz, aumentar nossa confiança em Deus e, pela sua graça, ajudar-nos a fortificar-nos na virtude. Lembremos que o fato de sermos tentados não significa que somos falhos. Isso é parte da existência normal do cristão. A tentação não é pecado. Aliás, de certo modo, devemos até ficar alegres ao dar-nos conta de que estamos sendo tentados. John Vianney afirmou: "Não ser tentado é que é o pior dos males, pois nesse caso temos razões para crer que o diabo já nos considera propriedade sua."4 Todos nós somos vulneráveis à tentação porque ainda conservamos algumas práticas habituais que adquirimos antes de ser salvos. Muitas delas tornaram-se reações automáticas a certas situações. E, em muitos casos, pelo fato de as repetirmos constantemente, aprofundaram-se tanto que nem temos consciência delas. Por isso constituem um alvo fácil para o adversário. Mesmo depois de conhecer Jesus, o apóstolo Pedro continuou a ter problemas na área do domínio próprio. Tiago e João se iravam com facilidade, e Paulo disse que não fazia o que queria, e o que não queria, isso fazia. Jesus advertiu os discípulos nos seguintes termos: "Vigiai1 e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca." (Mt 26.41.) E Pedro ensina que temos de cingir o nosso entendimento (l Pé 1.13). Quando cingimos ou preparamos nosso entendimento, estamos


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prevendo conflitos e também preparando-nos para eles. Desse modo, é menos provável que sejamos pegos de surpresa por um ataque traiçoeiro. Davi foi um grande rei e um guerreiro valoroso. Contudo houve um momento em que foi pego desprevenido, e isso teve reflexos sobre os anos finais de sua vida. Lemos em 2 Samuel que tudo começou sem maldade alguma. Ele se encontrava no terraço de seu palácio. Viu Bate-Seba tomando banho e notou que ela era uma mulher muito bonita. Até aí, não havia problema algum. O fato de Davi ter notado a beleza dela não era pecado. Infelizmente, porém, ele não ficou só nisso. E cometeu um tremendo erro: continuou a fitá-la. Começou a criar fantasias a respeito dela. Provavelmente imaginou-se tendo relações sexuais com a mulher. Obviamente ele sabia que, a cada segundo, ia se tornando mais e mais vulnerável à tentação. Com toda certeza, também, estava ouvindo aquela vozinha interior que lhe advertia de que aquilo era errado. Entretanto não deu ouvidos a ela. Não tomou a iniciativa de agir da maneira acertada. Pelo contrário; decidiu fazer concessões ao erro. Recusou-se a conduzir a mente para o rumo certo. Davi poderia ter tomado a decisão de não abrigar aquelas fantasias imorais. Poderia ter assumido o controle de sua mente, poderia ter submetido aqueles pensamentos a Deus, trocando-os por imagens mais saudáveis. Em Tiago 4.7, a Bíblia ordena que resistamos ao diabo, pois assim ele fugirá de nós. O rei Davi, além de não resistir, mandou mensageiros à mulher para saber de quem se tratava. E mesmo depois de inteirar-se de que Bate-Seba era casada, mandou que a trouxessem a ele. É assim que opera a tentação. A fase inicial raramente é pecado. Na maioria das vezes, é uma instigação para prolongarmos determinada situação. E isso acaba se tornando o primeiro elo de uma corrente de decisões aparentemente inofensivas que terminam em destruição. A Bíblia ensina - e eu já constatei por experiência própria - que quanto mais a prolongarmos, mais depressa cairemos. Se não procurarmos imediatamente reconhecer a pecaminosidade dos pensamentos e levá-los cativos a Cristo, se não os substituirmos por outros justos, iremos enfraquecer-nos tanto que daí a pouco não nos importaremos mais com o que fazemos ou deixamos de fazer. Quero dizer, não nos importaremos até o momento em que pecarmos e começarmos a provar as amargas conseqüências de nosso erro. E quem quiser saber o quanto elas podem ser amargas, leia 2 Samuel 12. David Swartz escreveu o seguinte: "A tentação é o strip-tease do pecado. Ao seduzir nosso coração, ela oferece uma satisfação e um prazer que jamais se concretizam nos níveis esperados. Ela promete uma coisa, mas dá outra. A tentação pode ser fascinante, mas o pecado sempre cobra algo pela atração superficial que


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proporciona."5 Recentemente vi um cartum da "Cathy" que ilustra muito bem o que pode acontecer conosco quando não controlamos imediatamente os pensamentos. Na historinha, "Cathy", como sempre, está em luta com o regime. 1.° quadrinho - "Vou dar uma volta de carro, mas não vou nem chegar perto do supermercado." 2.º quadrinho - "Vou passar perto do supermercado, mas não vou entrar." 3.° quadrinho - "Vou entrar no supermercado, mas não vou à gôndola onde estão os docinhos." 4.° quadrinho - "Vou olhar os docinhos, mas não vou pegar nenhum." 5.° quadrinho - "Vou pegar os docinhos, mas não vou comprá-los." 6.° quadrinho - "Vou comprar os docinhos, mas não vou abrir a embalagem." 7.° quadrinho - "Vou abrir a embalagem, mas não vou cheirá-los." 8.° quadrinho - "Vou cheirar, mas não vou provar." 9.° quadrinho - "Vou provar, mas não vou comer." 10.° quadrinho - "Vou comer, comer, comer, comer, comer!"6 Façamos um teste. Releia as legendas acima. Agora responda: em qual desses quadrinhos "Cathy" perdeu a batalha contra a gula? Muitos dirão que foi no número 10. Alguns talvez afirmem que foi no 9. Quem respondeu no número 2, acertou. No instante em que ela tomou a decisão aparentemente inofensiva de passar perto do supermercado, perdeu a luta. No cartum, a luta de "Cathy" é cômica. Contudo tenho conhecido muitas pessoas que têm uma reação semelhante diante da tentação. A cada racionalização que fazem, a cada justificativa que dão, vão se enfraquecendo mais e mais. Assim que nos permitimos abrigar pensamentos pecaminosos, em vez de levá-los cativos a Cristo, assim que principiamos a racionalizar e a justificar nossos desejos e atos, assim que decidimos fazer concessões ao erro, acabou-se. Perdemos a batalha. O preço que pagamos por não levarmos cativo, imediatamente, "todo pensamento à obediência de Cristo" (2 Co 10.5) é elevado demais para qualquer um de nós. Voltaremos a essa questão no capítulo sobre erros morais e éticos. Por agora, porém, lembremos um fato: se não fugirmos, não venceremos e acabaremos falhando vergonhosamente!


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5. Deixar de dar prioridade ao que é importante O lançamento do ônibus espacial Challenger foi diferente de todos os outros. Era a primeira vez que civis participavam de uma missão da NASA. Contudo, setenta e três segundos depois de iniciado o vôo, a nave explodiu bem diante dos olhos de todos. E Ficamos a assistir à cena, horrorizados, vendo os pedaços do ônibus cair ao mar em meio a nuvens de fumaça. A investigação das causas do desastre revelou uma tragédia ainda mais grave: a explosão poderia ter sido evitada. Ela fora provocada por falhas no material utilizado e por erros de cálculo. Alguns engenheiros haviam avisado aos superiores sobre os problemas que poderiam ocorrer. Disseram que algumas peças do foguete talvez não suportassem as pressões a que seriam submetidas durante o vôo. Contudo os responsáveis pela decisão final tinham certeza de que sabiam o que era melhor. E resolveram fazer o lançamento na data prevista. Estavam enganados. Concluiu-se, afinal, que a verdadeira causa da tragédia fora o orgulho humano. No foguete havia um pequeno anel de borracha para vedar as juntas, que impedia que o combustível vazasse durante o lançamento. Nos vôos anteriores, ele funcionara perfeitamente. Nesse dia, porém, a temperatura caiu abaixo de 0°C. Os engenheiros temiam que, sob essas condições, os anéis ressecassem e quebrassem, permitindo o vazamento. E foi exatamente o que aconteceu. Dizem os historiadores que o capitão do navio Titanic foi avisado seis vezes de que deveria rumar para o sul, pois havia icebergs na rota que seguia. Entretanto, aquele navio era o Titanic, um transatlântico seguro. Ele calculou que não deveria preocupar-se com uns simples icebergs. Houve momentos na minha vida em que, como o capitão desse navio, ignorei os avisos de que havia icebergs na rota. Os reveses que sofrerá e os erros que cometera anteriormente foram advertências de Deus para mim, às quais não dei atenção. Hoje, relembrando alguns acontecimentos, percebo que eram claras as indicações de que as circunstâncias vinham se deteriorando havia já algum tempo. Embora nos anos anteriores tivessem surgido muitos indícios de que algo estava errado, eu não "entendera o recado" que me viera por meio dos "pequenos erros" cometidos. Somos tentados a ver a pilha de correspondência em nossa mesa e a agenda cheia de compromissos como indicadores de nossa importância e popularidade. Na verdade, eles são sinais é de que temos medo de ser insignificantes e de que não sabemos estabelecer limites, dando prioridade ao que de fato importa. Essa necessidade de nos sentir importantes, bem como a tendência de nos preocupar mais com nosso desempenho do que com as questões mais profundas podem levar-nos a uma vida agitada, que depois se torna frenética. Com isso, adotamos valores obscuros e invertemos nossas


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prioridades, aumentando grandemente nossa vulnerabilidade ao erro que tanto procuramos evitar. Antes eu costumava trabalhar muito e me esforçar ao máximo para fazer o que fosse preciso para atender às expectativas de outros. Hoje sei que levantar cedo, ler e meditar na Palavra e procurar descansar no domingo são práticas que me comunicam uma nova perspectiva da vida. Quando espero no Senhor, ele renova minhas forças. A cada dia, ele me concede a energia de que necessito para realizar aquilo que ele deseja que eu realize. Em Isaías 40.31, Deus revela que "os que esperam no Senhor renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam". Houve momentos em minha vida em que tive a sensação de que estava voando com asas de periquito e não de águia. Isso se deu porque eu estava tentando prosseguir por conta própria. John Lord faz uma observação muito sábia. Diz ele: "Quando o erro ocorre, encontra presas fáceis naqueles que se acham tão comprometidos com o trabalho que acabam anulando todos os recursos individuais e sociais - pelos quais poderiam viver de forma mais equilibrada."7 Em seu livro Integrity: How l Lost 11 and Myjourney Back. . (Integridade, como a perdi e como a recuperei), Richard Dortch comenta como é fácil o cristão afastar-se da presença de Deus, mesmo quando atua na obra dele. Ele narra que, ao tornar-se mais e mais atarefado no serviço cristão, foi lenta e sutilmente perdendo a perspectiva de dar prioridade ao que era mais importante. Isso contribuiu para a queda do ministério PTL, de Jim Bakker. Dortch acabou perdendo sua integridade e reputação e maculou o nome de Cristo. Na verdade, todos os ministérios cristãos ficaram malvistos. "Não foi por falta de capacidade que falhei. Toda a minha vida sempre demonstrei ser muito capaz. O problema foi que não me empenhei muito em defender o que era melhor. E meu erro também não resultou de negligência ao trabalho. Nem eu nem ninguém no PTL éramos preguiçosos. Trabalhávamos muito. Nossa falha não decorreu de incapacidade, nem de ignorância, nem de indolência. Erramos porque estávamos por demais atarefados. Não vamos negar. Deixamos que questões de valor secundário nos absorvessem e acabamos negligenciando as que eram importantes. "O pecado que mais devemos temer não é o de cometer erros grosseiros, mas, sim, o de dar o primeiro lugar àquilo que é secundário. É aí que está a falta de integridade. Se dedicarmos a maior parte de nosso tempo a atividades triviais, estaremos privando-nos de fazer o que é mais importante. Devotamos muitas de nossas horas a práticas corretas que no entanto não são


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as melhores. No PTL, muitas vezes nos empenhávamos em tarefas grandiosas, cansativas e estressantes, mas sem valor. Talvez elas nem fossem erradas em si mesmas. Nosso erro foi havermos deixado que elas nos absorvessem, a ponto de não termos tempo para o que era mais elevado. É tão fácil nos envolvermos profundamente com tarefas que nos proporcionam satisfação! Estávamos realizando mil e uma atividades corretas e dignas. Entretanto, estando nós 'ocupados daqui e dali', perdemos algo da bênção divina. Já não tínhamos mais um forte interesse em simplesmente 'conhecer a Deus', como deveríamos ter. Esse deveria ser o principal objetivo de nossa existência. Nesta vida é muito fácil cometer falhas de todos os tipos. E quando nos descuidamos de nosso relacionamento com Deus, mesmo que esse descuido seja pequeno, essas falhas atingem também nossa área espiritual. Assim, todos nós, até os melhores crentes - o diretor de um ministério, como Robert Dortch, por exemplo - podemos cometer os tipos de erro mencionados neste capítulo. Tenho procurado aprender essas lições e aplicá-las em meu viver diário, no intuito de evitar faltas desnecessárias. Tem sido muito proveitoso para mim perceber que toda falha geralmente envolve uma série de*" fases bastante previsíveis. No próximo capítulo, estaremos analisando essas fases e o modo como devemos agir em cada uma delas. Para pensar 1. Procure lembrar uma "série de sucessos" ou de "reveses" que você tenha vivido recentemente. O que sentiu? Que lições aprendeu nesse período? Que hábitos e práticas disciplinadas contribuíram para esses sucessos? Que condutas e atitudes o predispuseram para errar? 2. Folheie rapidamente o capítulo 2 e releia os cinco fatores causadores de falhas. A seu ver, qual deles é o que Deus quer que você corrija no momento? Por quê? 3. Leia o Salmo 103. Que princípio há nessa passagem que você pode aplicar em sua vida no presente? Capítulo 3 Uma Anatomia Do Erro Nunca me esqueci da ocasião em que aprendi como é importante ter um bom mapa quando se viaja. Ocorreu vinte anos atrás. Eu e Marsha, minha irmã, estávamos viajando pelo interior da França, onde depois iríamos encontrar-nos com nossos pais, com quem passaríamos alguns dias de ferias. Estávamos tentando encontrar a rodovia Paris-Reims. Eu disse "tentando" porque já havíamos percebido que o mapa de que dispúnhamos não era muito preciso. Além disso, não sabíamos bem onde nos achávamos. Todavia estávamos nos divertindo bastante.


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A certa altura percebemos que estávamos perdidos; perdidos mesmo. Havíamos chegado a uma encruzilhada. Na placa de sinalização, viam-se duas setas, uma para cada lado, indicando que ambas as rodovias conduziam a Reims. Resolvemos seguir a da direita. Era um dia lindo. A paisagem era maravilhosa e íamos conversando animadamente. Em dado momento, notei que estávamos chegando a outra encruzilhada. Quando nos aproximamos mais, vi que na placa de sinalização havia duas setas, cada uma apontando para um dos lados e indicando que ambas as estradas conduziam a Reims. De repente eu e Marsha olhamos um para o outro e nos pusemos a rir. Passáramos mais de duas horas rodando em círculos e voltávamos ao mesmo lugar onde havíamos estado antes. Entendemos, então, que a rodovia da direita era a errada e decidimos tomar a da esquerda. Afinal chegamos ao nosso destino. Naquele dia aprendi uma lição que nunca mais esqueci. Sempre que quisermos ir de um lugar para outro, mas não soubermos o caminho, teremos de arranjar um bom mapa. Outro dado importante também é saber em que ponto do mapa nos encontramos. Se não o soubermos, teremos dificuldade em descobrir como chegar ao destino desejado. Quando estamos vivendo uma situação de falha, a última coisa em que pensamos é num mapa. Nossa tendência é pisar no acelerador e atravessar esse momento desagradável o mais depressa possível. Contudo, se não soubermos para onde nos dirigimos, não adiantará nada acelerar. Quanto mais rápido "rodarmos", mais perdidos ficaremos. Não era plano de Deus que nosso "destino" final fosse um erro. A intenção dele é que nossas falhas sejam apenas um ponto intermediário na estrada que nos conduz à maturidade; um fator que ele possa usar nesse objetivo. Neste capítulo, então, quero apresentar um "mapa", para que o leitor se oriente melhor nessa viagem através dos erros, uma jornada que todos nós, inevitavelmente, temos de fazer. Minha esperança é que, munido dele, ninguém precise extraviar-se por desvios nem ficar a rodar em círculos. Os erros humanos são de tipos os mais variados, mas todos têm uni aspecto em comum: uma sensação de perda que afeta diversas áreas de nossa vida. Não importa se se trata da perda de dinheiro, de esperança, de prestígio, de autoconfiança, de integridade, de emprego ou de um relacionamento. Sempre que ela ocorre, atinge todas as dimensões do ser. Mesmo quando nossa falha não se torna visível a outros, sempre damos algumas indicações sutis de que há algo errado conosco. Que indicações são essas? A primeira são alterações de natureza física. Nosso apetite aumenta. Parece que nos momentos difíceis vemos a comida como


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uma espécie de anestésico que alivia o sofrimento. Diminuímos os exercícios físicos ou até os interrompemos totalmente. Sentimos mais desejo de consumir bebida alcoólica. Ocorrem alterações também em nossa sexualidade. O erro pode provocar um aumento ou uma redução da atividade sexual. Outro aspecto afetado é nossa capacidade mental. Nosso processo de raciocínio se torna mais lento, menos focado. Temos dificuldade de nos concentrar, e a memória imediata fica prejudicada. Sentimo-nos mais confusos e não conseguimos pensar em mais nada a não ser no problema. Outro fato que percebemos é que as decisões que tomamos já não se mostram tão acertadas como antes. E temos a impressão de que o mundo inteiro se acha ciente de nosso erro. Contudo é na área das emoções que experimentamos maior nível de variação. Vivemos instantes de emoções fortes, intensas e agudas e, depois, passamos semanas e até meses sem sentir absolutamente nada. Os sentimentos que temos, nas ocasiões de profundos abalos emocionais - tais corno a morte de um ente querido, um divórcio ou o fracasso espiritual ou profissional - são muito semelhantes entre si. O que faz diferença aí é a maneira como agimos face a essas emoções e a presteza com que recorremos ao auxílio de Deus para passar por essa fase. E como um erro sempre implica algum tipo de perda, o processo de atravessar esse período se dá por etapas semelhantes às do processo de enfrentar um sofrimento profundo. Vejamos essas etapas. 1- Etapa: A crise Gosto muito de ir ao Colorado. É um lugar majestoso, com paisagens maravilhosas. Um dos passeios que minha família mais aprecia é o trajeto entre o Parque Estes e Loveland. No decorrer dos séculos, o rio Big Thompson foi abrindo caminho por um leito de granito, formando o cânion do mesmo nome. No percurso, existem inúmeros pontos onde se pode parar para apreciar o lindo panorama e ouvir o relaxante murmúrio da água que desce pela pedra. Há vários e vários anos, turistas do mundo inteiro têm se deleitado com a beleza do lugar, acampando, pescando ou simplesmente passeando de carro por ele. Contudo, em 1.° de agosto de 1976, a revigorante serenidade desse lugar virou um pesadelo. Naquela noite, começou a brotar água de uma fenda do cânion, enganosamente denominada Fenda Seca. Em questão de poucas horas, já haviam sido lançados no rio e seus tributários 29 crn de água pluvial. No seu ponto máximo, a inundação atingiu um volume de água quatro vezes maior que o das cheias anteriores. Centenas de turistas foram pegos de surpresa. Alguns estavam


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acampando, outros, fazendo caminhada, e ainda outros apenas contemplavam o cenário. Os que conseguiram subir para os pontos mais elevados do cânion a fim de fugir ao perigo viram, horrorizados, a torrente arrastar casas, trailers, carros, tanques de gás que explodiam e corpos humanos. Ao amanhecer, calculava-se que 144 pessoas haviam morrido e que o prejuízo chegava a oitenta milhões de dólares. Quando uma crise nos atinge, quer ela vá se formando gradualmente ou nos sobrevenha como uma inundação repentina, vem com uma força tremenda. Relembrando uma crise por que passou, Gordon MacDonald relata o seguinte: "Nunca mais me esqueci daqueles primeiros dias. A sensação de que minha vida terminara era tão forte que parecia quase impossível afastá-la. Tinha a impressão de que o gozo e a felicidade que eu experimentara durante mais de quarenta e cinco anos haviam acabado de repente. "Nosso mundo estava desmoronado. O sonho que eu estivera vivendo tornara-se um pesadelo feito de perdas, humilhação, raiva e o prenuncio de um futuro sombrio. Havia ainda a lembrança constante de que muitos dos que confiaram em mini agora se achavam decepcionados. Sabia que alguns estavam falando muito do que acontecera, tendo conhecimento dos fatos ou não. "Houve um momento em que senti como se a terra estivesse abrindo-se sob meus pés e que, se olhasse para baixo, o mundo iria engolir-me!"1 E MacDonald não é o único a falar de sua crise em tons tão dramáticos. Já ouvi outros dizerem o seguinte: "Minha impressão era de que estava em queda livre - e sem pára-quedas." "Era uma sensação muito estranha. Parecia que o mundo era meio irreal, que eu me achava desligado dele; a não ser, é claro, quando tudo desmoronava em cima de mim. Por vezes, sentia-me fora de tudo. Em outras, via-me bem no meio do problema. O certo é que nunca conseguia fugir dele." "Experimentei uma sensação de impotência que ia se intensificando cada vez mais." "Sou uma dessas pessoas que sempre sabem achar uma saída pra tudo. Mas quando dou de encontro com essa 'muralha de ferro' que é o erro, perco todas as alternativas e soluções construtivas." "Quando encarei de fato a realidade do meu erro, tive a sensação de que uma parte do meu ser saiu de mim e foi forçada a ver-me atolar-me na lama do meu desalento."


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"Orgulho-me de ser uma pessoa que sempre sabe tomar medidas preventivas. Contudo, quando me vi bem no meio daquele erro, fiquei tão desalentado e paralisado que não consegui nem reagir." A crise pode ser uma situação que todos logo consideram bastante grave. Mas pode ser também uma série de complicações tão pequenas que os outros acham que estamos "exagerando"; e não entendem por que deixamos algo tão insignificante nos afetar. Ela pode ser de origem interna ou externa. Pode ser grande ou pequena. Não importa. Assim que o fio agudo do erro corta a fachada do nosso tranqüilo "Está tudo bem", instala-se a crise. Certo senhor de meia-idade comentou: "Minha impressão era de que, de repente, tudo começara a desintegrar-se. Antes eu sempre conseguia alinhavar alguns recursos, buscar forças em mim mesmo e até 'criar' algum milagrezinho para manter a situação sob controle. Dessa vez, porém, minhas táticas habituais não estavam dando certo. Tudo passara a acontecer depressa demais, e daí a pouco me vi totalmente sem recursos. Pela primeira vez em minha vida, percebi que não havia nada que eu pudesse fazer." Eu costumava pensar que a intensidade de uma crise variava de acordo com a gravidade do erro cometido. Contudo isso nem sempre é fato. Uma pessoa pode ter cometido uma falha relativamente pequena, mas, se ela a considera grande, a intensidade da crise também o será. O segredo para se superar a crise, quer ela sobrevenha de forma gradual ou repentina, é lembrar que não é letal. E apenas o primeiro ato de um processo. Aliás, durante essa etapa, passamos por seis estágios que se assemelham aos de nina situação de abalo emocional. /. Choque Nossa primeira reação diante de uma perda súbita é de choque e incredulidade. Ficamos como que entorpecidos. Ao constatar que cometemos um erro grave, sentimo-nos meio confusos e desequilibrados. Parece-nos que tudo está de cabeça para baixo. Aqueles que já vivenciaram tal experiência, geralmente afirmam que ficaram espantados. Achavam-se desprevenidos e depois sentiram raiva de si mesmos. No estágio do choque, por vezes, começamos a questionar fatos em que sempre acreditamos. Em seu best-seller When Htid Things Happen to Good People (Quando males sobrevêm a pessoas boas), o rabi Harold Kushner fala da crise de fé que experimentou durante a doença e a morte prematura de seu filho. Diante daquela perda, algumas doutrinas que ele aprendera e ensinara de que Deus é bom e de que podemos confiar em que ele virá em socorro daqueles que ama - pareceram diluir-se por completo. "Como a maioria das pessoas, eu e minha esposa havíamos formado a


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imagem de que Deus é um Pai sábio e poderoso, que nos trata do mesmo modo que nossos pais terrenos, ou melhor ainda que eles. Se fôssemos obedientes e merecêssemos recompensas, ele no-las daria. Se saíssemos da linha, ele nos disciplinaria, não sem certa relutância, mas com firmeza. Ele nos protegeria de sofrimentos, de nos ferirmos a nós mesmos, e faria tudo para que recebêssemos nesta vida aquilo de que fôssemos merecedores. "Como a maioria das pessoas, eu também estava ciente de que no mundo havia tragédias que obscureciam o quadro. Eram jovens que morriam em acidentes de carro. Eram pessoas felizes e bondosas que iam definhando aos poucos devido a doenças debilitantes. Eram os deficientes mentais, filhos de parentes ou de vizinhos, dos quais só se falava em cochiches. Contudo nenhum desses fatos me levava a questionar nem a justiça divina nem sua eqüidade. Simplesmente achava que ele é que sabia o que é certo; e não eu. "Então chegou o dia em que o médico, no hospital, nos falou que Aaron tinha uma enfermidade chamada progéria3 e explicou-nos o que significava. Aquilo vinha de encontro a tudo que eu aprendera. Ficava constantemente repetindo para mim mesmo: '"Isso não está acontecendo comigo! Não é assim que a vida deve ser!' "Eu achava que tragédias desse tipo só sobrevinham a pessoas egoístas e desonestas, e que eu, como rabi, deveria tentar confortá-las, falando-lhes do amor e do perdão de Deus. Se tudo que eu cria a respeito do mundo era verdade, aquilo não podia acontecer comigo, com meu filho."2 2. Negação da realidade e busca de culpados À medida que vamos pouco a pouco nos recuperando do choque, passamos a adotar uma atitude de negação do fato. E começamos a dizer: "Isso não está acontecendo comigo!" "A situação não é tão ruim quanto parece!" "Vai acontecer algo, e tudo vai se resolver!" Nesse ponto, vemo-nos dominados pelo forte impulso de fugir do problema. Lançamos mão de qualquer recurso que nos ajude a tirar os olhos dele. Alguns se põem a trabalhar demais ou dão início a um novo projeto. Outros passam a comer excessivamente, ou a praticar mais exercícios físicos, ou até se dedicam a estudar a Bíblia, acumulando um conhecimento intelectual dela. Não é que tomamos a decisão consciente de fugir do problema. O que sucede é que uma parte de nosso ser se sente arrasada pelo sofrimento, pela sensação de abatimento e pela dura realidade da situação. Então nossa reação é procurar manter "a cabeça fora d’água" a todo custo, mesmo que isso 3

Progéria: uma enfermidade relativamente rara, caracterizada por nanismo e senilidade precoce. (N. da T.)


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implique esquecer por alguns instantes que estamos em "águas profundas". Algumas pessoas, durante o estágio de negação do problema, também começam a buscar culpados. Se conseguirem jogar a culpa em alguém, sentindo que não foram os causadores do erro, eleja não lhes parecerá tão grave assim. Se esse "culpado" tivesse agido como deveria, se tivesse procedido de forma diferente, se tivesse enxergado a situação um pouco mais cedo, "isso" nunca teria acontecido. O problema dessa atitude é que deixamos de identificar a parte da culpa que nos cabe e de assumir a responsabilidade por ela. Desse modo, não iremos aprender a lição que Deus quer ensinar-nos, o que é outro erro. Assim teremos dois erros em vez de um. 3. Isolamento Em seu livro When Smart People Fail (Quando as pessoas inteligentes erram), Carole Hyatt e Linda Gottlieb fazem o seguinte comentário. "O clube dos 'errados' é o mais democrático que existe. Ele aceita velhos e jovens, ricos e pobres, pretos e brancos, altos executivos e simples funcionários. O único ponto que seus 'sócios' têm em comum é não revelar que pertencem a ele. Imaginemos como seria uma convocação dos membros desse clube em nível nacional: milhões de pessoas, comprimidas em milhares de salas por todo o país, todas de olhos baixos."3 À medida que o sofrimento e as pressões vão se intensificando, aumenta também a tendência de buscarmos isolamento. Lembro-me de ocasiões em que errei e que me senti profundamente só. É verdade que tentei manter uma fachada positiva. Dizia aos amigos que tudo estava bem e que sabia que Deus usaria o problema em meu favor. Procurava dar a impressão de que a situação não era tão ruim quanto parecia. Interiormente, porém, estava para morrer. Minha vontade era fugir e me esconder. O ponto negativo do isolamento é que perdemos a oportunidade de aprender com os erros uns dos outros. Além disso, privamo-nos das palavras de incentivo e de ânimo que nossos amigos poderiam dizer-nos e que nos seriam proveitosas. Não aprendemos a enxergar a situação pela perspectiva deles. Pensemos um pouco. Geralmente só conversamos sobre nossos erros depois que tudo passou. Aliás, existem alguns que nunca falam de suas falhas com ninguém, 4. Medo e raiva O medo e a raiva são emoções necessárias, das quais podemos tirar proveito para crescer, desde que não nos deixemos dominar por elas. Quanto mais nos isolarmos, mais vulneráveis ao medo nos tornaremos. Todavia um medo salutar ajuda-nos a detectar uma ameaça existente, alertando-nos com relação a um perigo. É uma emoção que Deus criou. Entretanto, se nos


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concentrarmos nele, permitindo que nos domine, se o alimentarmos e passarmos a não ver mais nada a não ser o medo, não tiraremos dele o proveito certo para o qual Deus o criou. Um temor doentio pode imobilizar-nos. Se deixarmos que o medo nos controle totalmente, ele pode transformar-se em pânico, que por sua vez nos debilita bastante. A raiva é uma emoção secundária, geralmente decorrente de uma primária, como o medo, a mágoa e a frustração. Não é raro uma pessoa sentir as três e, em conseqüência, ficar com raiva. Na fase inicial do erro, sentimo-nos fraquejar, mas a raiva nos dá uma energia que nos fortalece. Quando perdemos a perspectiva dos fatos, esse sentimento pode levar-nos a focalizá-los de forma correta. Se tivermos medo de tomar alguma atitude, a raiva também pode conferir-nos autoconfiança para agir como devemos. 5. Vergonha Sempre que nossa conduta fica um pouco abaixo de nossa expectativa, sentimos vergonha. Contudo isso demonstra apenas que somos falhos, que somos seres caídos e finitos. Em si mesmo, tal sentimento não é ruim. Todos nós temos falhas. Todos possuímos pontos fracos e fortes. Paulo diz em Romanos 3.23 que "todos pecaram e carecem da glória de Deus". É identificando os pontos em que somos fracos que temos condições de melhorá-los, e Deus pode ajudar-nos a buscar alternativas proveitosas. A vergonha assume um sentido negativo quando a usamos como parâmetro para nossa auto-imagem. Se deixarmos que ela influencie nosso senso de identidade, ela será destrutiva. Se permitirmos que nosso erro passe a obscurecer o que Jesus fez por nós, o problema se complicará. A vergonha negativa provoca uma sensação de total desvalor e desesperança. Passamos a achar que nossa natureza básica é imperfeita e que, por isso, não merecemos o apreço de outros e nunca o mereceremos. É assim que somos e jamais mudaremos. Esse tipo de vergonha leva o indivíduo a se tornar excessivamente introspectivo. Quando nos esquecemos de que em Cristo somos amados e aceitos e fixamos os olhos só em nossas falhas, quase não enxergamos mais nada. Então nos silenciamos e nos isolamos mais e mais. Não fazemos nem dizemos nada, por medo de cometer alguma falha, de que alguém nos ache ridículos ou estúpidos e até de que nos notem. Ademais, esse sentimento destrói nossa confiança em outros, impedindo que tenhamos relacionamentos profundos com quem quer que seja. Vemo-nos como pessoas sern valor c, por isso, concluímos que se os outros souberem o quanto somos indignos irão rejeitar-nos. E para evitar tal humilhação, erguemos uma muralha ao nosso redor, de maneira que ninguém veja como somos de fato.


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Essa vergonha nos deixa imobilizados. Em vez de buscarmos a orientação de Deus para nós e seguirmos em frente, movidos por uma firme autoconfiança, assumimos uma postura defensiva. Ficamos o tempo todo de antenas ligadas, procurando sondar o ambiente, tentando descobrir o que esperam de nós e como devemos agir e reagir para evitar problemas e ser benquistos por todos. Com isso, não podemos cultivar as características peculiares que Deus quer que tenhamos e que ele determinou para nós (ver Salmo 139). Se ficarmos caídos nesse buraco que é a vergonha negativa, nossa vida será marcada por sentimentos tais como auto-condenação, auto-depreciação, ciúme, amargura, ressentimento, desesperança, desespero, frustração, autopunição, depressão, temores infundados, bem corno por condutas negativas, como a mentira, o roubo e a violência, e pela tendência para sofrer acidentes. Houve momentos na minha vida em que, após uma falha cometida, deixei-me dominar pela vergonha e pela auto-depreciação de tal maneira que não tinha vontade de fazer mais nada para Deus. Não queria mais exercer a liderança cristã. Não queria estar à frente da igreja. Meu desejo era que ninguém esperasse mais nada de mim. Nesse ponto do processo de restauração, é essencial que nos lembremos do poder das promessas de Deus e do nome de Jesus. Em diversas ocasiões, o Senhor tem usado os inspirados hinos de Bill e Gloria Gaither para fazer-me voltar os olhos para ele. Tocou-me Algemado por um peso, Oh! quão triste eu andei, Até sentir a mão de Cristo; Não sou mais como era, eu sei. Tocou-me, Jesus, tocou-me! De paz ele encheu meu coração. Quando o Senhor Jesus me tocou, Livrou-me da escuridão.4 Quando passamos por momentos de escuridão e pavor, o mesmo Deus que prometeu nunca deixar-nos nem abandonar-nos se faz presente conosco, desejoso de tocar-nos, sarar nossas feridas e restaurar-nos. 6. Depressão e desespero Após qualquer tipo de perda grave, a média das pessoas é tomada de profunda tristeza, que segue um determinado curso durante certo período de tempo. Contudo existem alguns pontos desse processo em que, se descuidarmos, poderemos facilmente ficar "atolados". Um deles é a vergonha; outro, a depressão. Abraão Lincoln, por exemplo, ficou profundamente deprimido após a morte de Ann Rutledge, a primeira jovem que amou. E seu estado se tornou tão grave que seus amigos tiraram de perto dele as facas e navalhas. Outro


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que periodicamente era atormentado por esse mal era Winston Churchill. Ele o chamava de "cão negro". O escritor russo Dostoyevski e o poeta americano Edgar Allan Põe também eram vítimas da depressão. Entretanto trata-se de uma emoção criada por Deus, que serve para indicar-nos que perdemos algo vital à nossa saúde ou ao nosso bem-estar e que precisamos tomar providências para recuperá-lo. A depressão afeta milhões de pessoas anualmente. Dados estatísticos dão conta de que, em cada sete indivíduos, um terá de buscar auxílio de profissionais para livrar-se dela, em alguma fase da vida. Calcula-se que, só nos Estados Unidos, a cada ano, a indústria tenha prejuízos entre quatro e seis bilhões de dólares em produtividade, devido aos efeitos da depressão naqueles que não identificam o problema ou que não buscam tratamento. Os médicos especialistas no assunto afirmam que a depressão é o mais grave problema de saúde pública do mundo. Aliás, ela está tão comum que muitos a vêem como o "resfriado" dos distúrbios mentais. Contudo, como observa o Dr. David Burns, existe uma sombria diferença entre as duas enfermidades: a depressão pode levar à morte. Apesar dos bilhões de comprimidos de tranqüilizantes e antidepressivos que foram receitados nas últimas décadas, os índices de suicídio continuam a subir.5 Infelizmente alguns crentes têm muita dificuldade em admitir que sofrem desse mal. Eles abrigam a errônea idéia de que a Bíblia ensina que o cristão não pode ficar deprimido. Portanto a depressão deve ser pecado. Então, em vez de reconhecer que estão com a doença e usar os recursos que Deus nos concede para a cura dela, preferem negá-la ou subestimá-la, afirmando que estão apenas tristonhos, desalentados ou ligeiramente acabrunhados. O Dr. Martyn Lloyd-Jones faz um comentário muito oportuno acerca da depressão. "É interessante observar a freqüência com que essa questão é citada nas Escrituras. Isso mostra que é uma condição bastante comum ao ser humano. Parece que ela vem afligindo o povo de Deus desde o princípio, pois há menções dela tanto no Velho como no Novo Testamento. Só isso já seria razão suficiente para atentarmos para esse mal. Contudo quero chamar atenção para ele agora também porque parece ser peculiar a muitos filhos de Deus. É o problema mais grave que eles enfrentam no momento... É triste saber que existem muitos crentes que passam grande parte da vida nessa condição."5 Quando Jesus estava na terra, experimentou e expressou urna ampla gama de emoções humanas, inclusive a depressão. Vejamos, por exemplo, a descrição do momento que ele viveu no jardim do Getsêmani, em Mateus 26.36-38.


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"Em seguida, foi Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou ali orar; e, levando consigo a Pedro e aos dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. Então, lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo." O Senhor sabia muito bem o que estava para acontecer-lhe. Desde o princípio dos tempos, tinha conhecimento de que sua vida na terra terminaria na cruz. Do ponto de vista humano, iria sofrer a pavorosa dor da crucificação. Do ponto de vista espiritual, seria separado do Pai. Esses fatos provocaram nele uma profunda depressão. É verdade que ele não deixou que ela o dominasse, mas ficou deprimido mesmo. Ele sentiu depressão e a expressou aos amigos e ao Pai. Uma das melhores maneiras de resolvermos o problema da depressão é reconhecer a presença dela, aceitá-la, senti-la e dar vazão a ela. E se vierem as lágrimas, deixemos que venham. Isso não significa que somos fracos nem bebês chorões. Significa que sornos seres humanos. Nesses momentos, é muito importante recorrermos aos amigos em busca de conforto e amparo. Quem comete um erro grave geralmente tem duas grandes surpresas: os amigos que o abandonam e os que permanecem. Precisamos buscar o auxílio dos que se mostram fiéis. 2a Etapa: A encruzilhada Acredito que foi Woody Allen quem afirmou o seguinte: "Nesta hora, mais que em qualquer outro momento da História, a humanidade se encontra numa encruzilhada. Um dos caminhos conduz ao desespero e a uma total desesperança. O outro conduz à extinção. Oremos pedindo sabedoria para escolhermos acertadamente o que devemos seguir." Anos atrás, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, havia duas atletas famosas disputando uma mesma prova. Uma era dos Estados Unidos e outra da Nova Zelândia. A primeira calçava tênis apropriados para a competição e a outra corria descalça. Os milhões de espectadores que assistiam à corrida ficaram atentos à disputa entre as duas. O público, por razões sentimentais, torcia pela americana. Dada a largada, nos primeiros mil metros as duas se mantiveram lado a lado, o que intensificou a emoção. Quem seria a primeira a dar a arrancada para a vitória? Quem ganharia a medalha de ouro? De repente aconteceu algo. E foi tão rápido que nem as câmeras puderam captar direito o ocorrido. Por algum motivo, não se sabe qual, a atleta americana tropeçou e caiu deitada na grama do campo. Contudo não se levantou. Os comentaristas esportivos indagavam se ela estaria machucada e não conseguia erguer-se. Uma das câmeras deu um dose na jovem, e todos viram estampadas em sua expressão a revolta e a agonia pela derrota sofrida.


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Horas e horas de treinamento e vários anos de muita disciplina e autonegação agora davam em nada. Aquilo me recordou uma outra corrida que vira alguns anos antes, no filme Carruagens de Fogo. Eric Liddel, um atleta de nível internacional, achava-se num bloco de corredores que daria a arrancada final. De repente, ele perdeu o equilíbrio e caiu no gramado. A câmera mostrou-o caído, mas erguendo a cabeça para olhar os outros atletas que se afastavam. Assistindo à cena, pensei: Será que ele vai levantar"? Será que vai continuar a corrida? Mas achava que não daria mais tempo. Na minha opinião, a competição se encerrara para Eric Liddel. Engano meu. Embora estivesse machucado, todo sujo de lama e de grama, ele voltou à raia e se pôs a correr. Seguia em direção ao bloco de atletas agora bem à sua frente. E não apenas continuou a corrida, mas venceu-a. A Bíblia ensina que a vida cristã é uma corrida. Paulo diz o seguinte, em l Coríntios 9.24: "Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis." E em Hebreus 12.1, temos a exortação para correr "com perseverança, a carreira que nos está proposta". O momento mais difícil da corrida da vida é aquele em que cometemos um erro e caímos de cara no gramado. E um sofrimento. Fomos derrotados. Constatamos que os outros passaram à nossa frente. Então somos tentados a continuar deitados ali e desistir de tudo. Talvez até pensemos: Pra que levantar? Não vai adiantar nada! Sempre que cometermos uma falha, estaremos numa encruzilhada. E uma das maiores dificuldades dessa etapa é justamente resolver como iremos agir em face do acontecido. Podemos ter três reações: opor resistência, fugir ou exercitar fé. Então temos de decidir qual delas escolheremos. Vamos analisar cada uma. Opor resistência Os que optam por essa reação são os que gostam de jogar a culpa em outrem. "Não foi minha culpa. Todos aqui são fracassados, um bando de estúpidos. A culpa é da minha mulher (do meu marido, dos meus filhos, do meu patrão, da criação que recebi)." Algumas das justificativas que as pessoas dão para não assumirem a culpa do erro são simplesmente incríveis. Mas isso não é novidade. Essa prática começou no jardim do Éden. E até hoje a maioria adota esse tipo de reação diante do erro. Um exemplo é o ex-presidente Richard Nixon. Por ocasião do trágico episódio de Watergate, ele fez a opção de resistir, em vez


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de admitir a culpa no caso. E isso acabou obscurecendo muito do que ele fez de bom. Fugir Esse tipo de reação é a daquele que fica todo envolvido no problema e põe-se a agredir a si mesmo. A sensação é de que fomos apanhados numa queda em espiral, ora sentindo vergonha, ora depressão. E ficamos repetindo frases assim: "Sou um fracassado mesmo!" "Sou um burro!" "É tudo culpa minha!" "Sou um incômodo pra todo mundo!" "Nunca vou conseguir melhorar!" "Eu mereço tudo que estou passando. Aliás, sou tão errado que talvez mereça até mais!" O que nós merecemos por sermos pecadores é uma coisa; o modo como Deus nos vê com base na obra realizada por Cristo na cruz é outra bem diferente. Mas Satanás gosta muito que fiquemos sempre de olhos voltados para a nossa natureza pecaminosa. Dorothy Sayers, com a percepção clara que a caracteriza, comenta o seguinte acerca dessa questão: "Todos nós, ao vermos as conseqüências desastrosas de uma conduta errada, temos vontade de sair correndo e nos enforcar. Alguns ainda fazem pior: querem enforcar outros. O Judas Iscariotes pelo menos parece que não jogou a culpa em ninguém; só em si mesmo. O apóstolo Pedro, que também teve uma traiçãozinha a lamentar, arrependeu-se e pôs-se a esperar para ver o que aconteceria. O que ocorreu foi que ele e os outros discípulos tiveram uma repentina revelação sobre a pessoa de Deus e, com ela, a solução de todos os enigmas."7 E como é que fugimos? Procrastinando ou então mergulhando no trabalho, no ministério, no relacionamento com familiares ou amigos, ou ainda num passatempo. Tentamos ignorar a crise, fingir que não ocorreu de fato. Todavia, se não procurarmos aprender as lições que acompanham o sofrimento, passaremos a vida toda tentando descobrir meios de permanecer apenas numa faixa estreita desse arco-íris que é nossa existência. Em vez de procurar crescer mediante a dor, buscamos um jeito de "dar a volta" para evitá-la. Com isso, deixamos de viver. Depois, quando estivermos mais maduros e tivermos uma visão melhor da realidade, talvez percebamos (tarde demais) que alguns dos contratempos que Deus permitiu sobrevir-nos e dos quais fugimos eram fatores de aprimoramento e aprofundamento de nosso ser. Pela ânsia de estar sempre


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em segurança, fizemos de nossa vida uma música de uma nota só. Quando alguém chega à encruzilhada do erro, pode fazer o mesmo que eu e Marsha fizemos em nossa viagem pelo interior da França. Pode optar pela estrada errada e acabar rodando em círculos. E é exatamente isso que acontece a quem decide opor resistência ou fugir. Entretanto existe uma terceira opção. Exercitar fé Diz-se por aí que nossos erros não são portas que se fediam, mas oportunidades que se abrem para nós. É fácil afirmar isso quando tudo vai bem. Entretanto, quando estamos bem no meio do tormento de uma falha, é pouco provável que exclamemos: "Uau! Obrigado, Senhor, por essa maravilhosa oportunidade que me concedes! Que sorte a minha, poder aprender uma lição tão valiosa nessa idade! Que bênção!" Nossas falhas são marcos decisivos em nosso relacionamento com Deus, com os outros e com nós mesmos. A palavra crise significa "decisão". A decisão que tomamos na etapa da encruzilhada revela o que pensamos acerca de Deus. Além disso, ela vai determinar se cresceremos ou não, como cresceremos e em que aspectos, ou se continuaremos a fazer tudo à nossa maneira, deixando de realizar o propósito de Deus para nós. A essa altura, precisamos relembrar a nós mesmos que, em última análise, a falha é apenas a avaliação que fazemos de um determinado evento. Ela define somente uma fase da vida. Não é fatal nem definitiva. Tampouco é uma condenação de nosso caráter. Também não é uma enfermidade moral contagiosa. Tudo aquilo que tentamos ignorar ou de que fugimos, aquilo que negamos ou denegrimos ou desprezamos, no fim, servirá para derrotar-nos. Contudo Deus pode produzir força, alegria e beleza a partir desses erros dolorosos que tanto nos abatem. Se encararmos nossas falhas com os olhos da fé, perceberemos que cada uma delas é uma oportunidade de ouro. O erro nos coloca numa encruzilhada. Ali, podemos ficar concentrados na falha ou nos voltar para a graça de Deus. Optando pela graça divina, podemos tirar lições desse erro. Se resolvermos exercitar fé, passaremos à fase do crescimento. Não o fazendo, estaremos predispondo-nos a sofrer outra crise. Se a falha nos deixa aprisionados, a fé nos liberta. A decisão que tomarmos revelará muito daquilo que somos e de como poderemos vir a ser. Quando Gordon MacDonald se viu diante da realidade de haver cometido um erro grave, procurou alguns líderes cristãos, homens de Deus, pedindo-lhes que o aconselhassem. E eles propuseram a ele e a sua esposa a seguinte questão: "Vocês vão ficar só pensando nessa experiência arrasado-ra ou vão


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permitir que Deus, no contexto desse sofrimento, lhes fale claramente acerca de alguns pontos que ele considera de suma importância? A decisão é com vocês." E MacDonald relata: "Teríamos de decidir... Iríamos lutar contra o sofrimento causado pelas conseqüências de meu pecado ou aproveitá-lo no processo de restauração? E não foi uma resolução dessas que se toma de uma vez por todas, não. Foi preciso repeti-la diversas vezes. No decorrer do tempo, vivenciamos várias situações que poderiam trazer de volta aquela dor e, a cada uma dessas oportunidades, tivemos de tomar a mesma decisão. Iríamos lutar contra o sofrimento ou usá-lo como contexto para que Deus falasse ao nosso coração? "Naquelas horas de escuridão, li muito as Escrituras. As histórias dos personagens bíblicos que eu conhecia tão bem agora ganhavam para mim uma nova perspectiva. Entretanto o que rne deixou mais admirado foi algo que observei com relação a eles. Quase todos haviam vivido uma experiência em que seu mundo parecera desmoronar-se... As exceções eram poucas. A maioria deles havia praticado erros graves, passado por muitos sofrimentos, encontrado oposição e opressão, cometido pecados sérios, enfrentado enfermidades e rejeição, experimentado conflitos familiares e conjugais e profundas crises espirituais. "Estudando o registro de tais experiências senti-me reconfortado. Percebi que outros haviam passado pela mesma dor que eu agora vivia. Outros tinham tido as mesmas emoções. Em algum momento da vida deles, haviam-se mostrado indignos da confiança alheia, como me acontecia agora. Outros tinham recebido a graça e a restauração divina como eu agora esperava receber. E, por último, essas pessoas, depois de tudo, haviam seguido em frente e vivido seus momentos de maior bênção no serviço de Deus."B Um momento decisivo nesse processo de mudança é aquele em que erguemos as mãos para o alto e dizemos para Deus: "Desisto, Senhor! Por mim mesmo não consigo realizar nada! Neste momento, entrego esse problema a ti. Farei aquilo que quiseres que eu faça." Meu amigo, se você vive uma experiência em que tem a impressão de que seu mundo se desmoronou, tome alento. Ainda há esperanças. É possível ajuntar de novo as peças do quebra-cabeça. Foi uma falha que, em parte, inspirou Bill e Gloria Gaither a compor o hino "Algo de muito belo", cuja letra transcrevemos no capítulo l. Quando nos encontramos numa encruzilhada, sentimo-nos confusos, abatidos e em luta. Como afirma o casal Gaither, vemo-nos cercados pelos escombros de sonhos desfeitos, castelos desmoronados e riquezas que se


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perderam. Cabe a nós decidir. Vamos ficar ali atolados ou cresceremos? Vamos continuar fazendo algo que não resolve nada ou entregaremos tudo a Deus, confiando que ele nos mostrará um rumo diferente? Infelizmente é muito fácil nos livrarmos dos erros menores por meio da racionalização. Talvez eles não sejam aquele remédio amargo com o qual Deus nos purificará dos velhos hábitos da carne. Mas essa é uma das razões por que resolvi escrever este livro. Se permitirmos que Deus nos ensine lições preciosas com base em nossos erros menores, estaremos poupando-nos de sofrimentos desnecessários no futuro. Se quisermos ser sábios e render tudo a ele, se resolvermos colocar os escombros de nossa vida aos pés da cruz, descobriremos novas possibilidades. 33 Etapa: Catalisação O catalisador é um elemento que estimula ou acelera uma reação, um desenvolvimento ou uma transformação. Ele desperta a mente ou o espírito ou os coloca em atividade. Alguns sinônimos de catalisador são: estimulante, incentivador, motivador, dinamizador, indutor, etc. Quando deixamos que Deus nos conduza à etapa da catalisação, logo percebemos que estamos nos libertando e marchando em frente. George Matheson escreveu o seguinte: "Existem cânticos que só aprendemos quando estamos no vale. E não é a arte nem. as técnicas vocais que nos ensinam a entoá-los de forma perfeita. A música deles vem do coração. Eles são produzidos na memória, nas experiências pessoais. Eles voam nas asas do passado... "O Pai está nos preparando para cantar aquilo que os anjos não podem, e a escola em que nos ensina é a do sofrimento. Tenho ouvido muitos dizerem que ele envia a dor para provar-nos. Mas talvez ele a mande para instruir-nos e preparar-nos para o coro invisível."9 A maioria das pessoas não pensa muito no valor das falhas humanas. Talvez isso ocorra porque nossa sociedade é muito voltada para o sucesso e para anseios elevados. Quando fiz pesquisas para a elaboração deste livro, descobri que a maior parte dos livros inspirativos se propõe a ensinar-nos a vencer, não a tirar lições dos erros, No entanto, João Bunyan, em Grace Abounding (Graça abundante), sua autobiografia espiritual, escreve o seguinte: "Experimentei as grandes alturas e profundezas da graça, do amor e da misericórdia divinos após uma tentação. Os grandes pecados trazem a nós a grandeza da graça. Quando alguém comete o erro mais terrível e pavoroso e experimenta a misericórdia de Deus, esta se lhe apresenta imensa e poderosa."1 Quando erramos, temos a oportunidade de descobrir fatos importantes sobre nós mesmos, que sem o erro ficariam ocultos e não poderiam ser


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resolvidos. Uma das vantagens de voltarmos aos princípios básicos da fé é que nos relembramos de que eles existem e de que sempre podemos retornar a eles. Creio ter sido André Crouch quem afirmou o seguinte: "Se eu nunca tivesse tido um problema, não teria ficado sabendo que Deus pode resolvê-los, nem o que a fé na Palavra é capaz de realizar." Para pensar 1. Escreva, em suas próprias palavras, unia sentença resumindo as reações que podemos ter: opor resistência, fugir e exercitar fé. Opor resistência Fugir Exercitar fé 2. Recorde um erro que cometeu recentemente. Quais foram os sinais de advertência (físicos, mentais, emocionais e espirituais) que recebeu? 3. O que você aprendeu neste capítulo e que poderá aplicar na prática, na próxima vez em que receber um desses sinais? Capítulo 4 Como Deus Vê Nossos Erros Quero pedir ao leitor que faça algo que talvez pareça meio estranho. Se alguém estiver lendo num local público, é possível que outros o olhem admirados, mas não faz mal. Não se incomode com a expressão de espanto que eles terão, embora alguns até possam fingir que não o estão observando. Pegue o livro com a mão direita e estique todo o braço à frente. O que vê? A resposta é óbvia. Vê o aposento onde se encontra e o livro em sua mão. Sua visão do ambiente é quase total. A área que ele o impede de enxergar é bem pequena. Em seguida, coloque o livro mais perto, a uns trinta centímetros do rosto. E agora, o que vê? Vê mais o livro do que o aposento, claro. Apesar de o tamanho dele não haver se alterado, atrapalhou um pouco sua visão, já que está mais próximo. Por último coloque-o bem junto aos olhos. O que está vendo? Só a página e um pouco de claridade nas beiradas. O tamanho do livro mudou? Claro que não. Entretanto agora ele está bloqueando totalmente sua visão. Você só enxerga o livro. Uma das mais belas paisagens do mundo é a cadeia de montanhas chamada Grand Tetons. Se chegássemos diante dela e colocássemos o livro perto dos olhos, o que veríamos? O mesmo que você enxergou um instante atrás: apenas o livro. Pedi ao leitor que fizesse essa brincadeira para falar de um importante princípio espiritual. Traía-se de algo que poderá ajudar-nos a superar nossos


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erros e a desfrutar de uma vida cristã mais abundante. Quando cometemos alguma falha (ou temos algum outro tipo de problema), por natureza ficamos concentrados nela. E quanto mais a ruminar-mos, mais a aproximaremos de nós. Quanto mais a olharmos, deixando portanto de enxergar o que está à nossa volta, maior ela nos parecerá. A atitude com que encaramos nossas falhas irá determinar, em grande parte, a extensão dos efeitos que elas terão em nós. Quando procuramos analisar as dificuldades com nossa própria sabedoria e força, temos a tendência de ficar a olhá-las longamente. Com isso, somos dominados pelo desânimo, pela depressão e pelo sentimento de derrota. Por outro lado, se decidirmos olhá-las pela perspectiva de Deus, tudo será diferente. É verdade que ainda ficaremos abatidos e desalentados, mas não arrasados. Não ficaremos presos à rotina de viver procurando soluções, de cometer os mesmos erros várias e várias vezes. Pelo contrário; aprenderemos o que é ser "mais que vencedores". Quando me sentei para começar a escrever este livro, dei-me conta de que nunca havia feito um estudo completo do que Deus pensa e diz sobre a questão das falhas humanas. Sabia o que eu, meus mestres e a sociedade em geral pensamos sobre elas. Mas e quanto a Deus? Afinal a opinião mais importante é a dele, não é? Temos de enxergar todos os nossos dias, todas as situações de nossa vida, todos os nossos triunfos e fracassos através dos olhos dele. Então fiz um estudo exaustivo de erros e acertos e dos termos correlatos. Examinei todos os textos bíblicos que os mencionavam e analisei a vida dos personagens do Velho e do Novo Testamentos. De Gênesis a Apocalipse, a Bíblia fala dos erros da humanidade e da fidelidade de Deus. A vida de Davi e o livro de Salmos foram verdadeiras minas de conhecimento. Davi parece ter vivido numa verdadeira "montanha-russa" espiritual. Ora se achava lá nas alturas do acerto, ora nas profundezas de um erro, para em seguida voltar às alturas. Estudando a perspectiva de Deus sobre nossos erros, descobri cinco princípios básicos: ele sabe que erramos, permite que erremos, está ao nosso lado quando isso acontece e nos perdoa quando pecamos, não se limita a ver o erro em si, enxerga o potencial de cada falha e pode usá-la para o nosso bem. Vamos analisar um por um desses princípios. 1. Deus sabe que erramos. J ã parou para pensar que nada do que fazemos pega Deus de surpresa? Mesmo quando cometemos um erro grave, ele não se espanta. É verdade que pode ficar decepcionado, mas surpreso, não. Eu próprio, às vezes, fico admirado quando me conscientizo de minhas fraquezas e pontos cegos, mas


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ele não. Davi teve um maravilhoso relacionamento com Deus. Conheceu o toque da mão divina em sua vida e gozou de uma comunhão incrível com o Senhor. De simples pastor de ovelhas, Deus o transformou num herói nacional, no dia em que matou o gigante Golias. Depois tornou-se um rei rico e poderoso. No entanto ele experimentou as sombrias profundezas do erro. Vejamos o que ele escreveu no Salino 103: "O Senhor é misericordioso K compassiva; longânimo e assaz benigno. Não repreende perpetuamente, nem conserva para sempre a sua ira. Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniqüidades. Pois quanto o céu se alteia acima da terra, assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem. Quanto dista o Oriente do Ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões. Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó. Quanto ao homem, os seus dias são como a relva; como a flor do campo, assim ele floresce; pois, soprando nela o vento, desaparece; e não conhecerá, daí em diante, o seu lugar. Mas a misericórdia do Senhor é de eternidade a eternidade, sobre os que o temem, e a sua justiça, sobre os filhos dos filhos; para com os que guardam a sua aliança e para com os que se lembram dos seus preceitos e os cumprem." (Vv. 8-18.) Vemos aí que Deus conhece a fragilidade e as fraquezas de seu povo, mas nos ama assim mesmo. Essa mesma idéia expressa em Hebreus 4.15: "Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as cousas, à nossa semelhança, mas sem pecado." Considero o livro de l João um dos mais inspirativos da Bíblia. No capítulo 2, versículo l, o apóstolo escreve o seguinte: "Filhinhos meus, estas cousas vos escrevo para que não pequeis..." Diz ele então que a vontade de Deus é que não pequemos. Temos de fazer o máximo para evitar errar. Se o texto terminasse aí, seria fortemente desanimador, mas não termina. Em seguida ele afirma: "... Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro." (Vv, 1,2). Em suma, por intermédio de João, Deus está nos dizendo isto. "Façam tudo para não pecar." Contudo, como ele conhece nossa natureza e os efeitos do pecado em nossa vida, diz mais: "Todavia, se vocês pecarem, lembrem a quem devem re- correr, a quem. devem buscar e o que devem fazer."


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Deus sabe que somos fracos. Compreende bem o efeito que o pecado tem em nós. Entende ainda que estamos numa batalha, que "nossa luta não é contra o sangue e a carne e sim contra os principados e potestades, contra os dominado rés deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais de mal, nas regiões celestes" (Ef 6.12). Sabe também que S;iu nas vive dia e noite procurando maneiras de nos enlaçar, nos passar rasteiras e nos apanhar em sua rede. Muitos crentes têm me dito que uma evidência de maturidade espiritual e de sucesso na vida cristã é a ausência de lutas. Na verdade, a luta é indicação de que algo está acontecendo em nossa vida. Ela constitui um aspecto importante do processo de crescimento para nos tornarmos semelhantes a Cristo. As falhas que cometemos podem deixar-nos com u sensação de que somos indignos, mas Deus mesmo num .1 nos leva a sentir-nos sem valor. 2. Ele permite que erremos. Além de saber que nós erramos, Deus permite que cometamos erros. Um dos versículos de que mais gosto é Judas 24: "Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória." Observemos a primeira parte do texto. Judas afirma que Deus pode impedir que tropecemos, escorreguemos e caíamos. Entretanto nem sempre ele exercita essa sua capacidade, mas deixa que caiamos. A medida que vou vivendo e desempenhando minha função de pai, melhor compreendo o papel de Deus corno meu Pai celeste e as maneiras como ele o exerce. Um dos melhores modos de aprendermos o quer que seja são as experiências. E as que costumam ser mais eficazes para nosso aprendizado são as dolorosas. Tenho três filhos, e todos gostam muito de natação. Contudo o processo de ensiná-los a nadar levou algum tempo. O primeiro passo foi infundir-lhes respeito pela água. Desde que Andrew, o mais novo, aprendeu a andar, mostrou que adorava a piscina. Ele demonstrava forte autoconfiança na piscina infantil e não entendia por que não o deixávamos entrar na grande, juntamente com os irmãos. Por mais que expuséssemos as razões, ele não as compreendia. Certo dia estávamos trocando de roupa no vestiário para ir nadar. Andrew ficou pronto logo e saiu antes de mim. Pensando que eu ficara para trás, achou que finalmente iria poder fazer aquilo que tanto queria. O que fez então? Todo mundo já sabe. Foi direto à piscina maior e saltou na água. Quando veio à tona para respirar, vi uma expressão de pânico em seu rosto. Procurando desesperadamente respirar, ele me viu e tentou me chamar. Com isso, bebeu muita água e afundou de novo.


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Imediatamente pulei na piscina, peguei-o e trouxe-o à tona. Não o repreendi, não berrei com ele nem procurei humilhá-lo. Assim que ele se acalmou, sentei-o na borda e indaguei: - Foi bom? - Não! replicou depressa e em tom firme. - Quer fazer de novo? Pela expressão de seu rosto, percebi que se sentia insultado por pergunta tão ridícula. Nem respondeu. Levantou-se, foi para a piscina infantil e, a partir desse dia, não mais pulou na grande. Tenho cometido muitos erros no decorrer de minha vida. Aliás, alguns dos princípios mais valiosos que exponho neste livro descobri no "laboratório" de minha experiência pessoal. Alguns de meus erros foram causados pelo egoísmo, outros, pela imaturidade, e ainda outros, pela insensatez. Contudo os mais dolorosos foram os que cometi por desobedecer ao Pai celeste. Não foi Deus quem ocasionou minhas falhas, mas ele permitiu que as cometesse. Entretanto nunca deixou que me sobreviessem provas que eu não pudesse suportar. Assim como saltei na piscina para pegar o Andrew, ele também tem vindo socorrer-me. Com isso, tenho me aproximado mais e mais dele. E inúmeras vezes ele tem me tirado de situações que são verdadeiras areias movediças e me colocado em terra firme e seca. E ele prometeu fazer o mesmo por todos os seus filhos, inclusive por você que me lê. 3. Ele está ao nosso lado quando erramos e nos perdoa quando pecamos. Nossas falhas trazem ao nosso consciente as noções mais profundas {e às vezes erradas) que temos a respeito de Deus. Esse é um dos meios que ele usa para beneficiar-nos por intermédio de nossas fraquezas e reveses. Um erro nos obriga a remover a roupagem dos sucessos e realizações passados. Então, vendo-nos nus e expostos diante dele, conseguimos enxergar melhor seu rosto e ouvir sua voz com maior clareza. Muitas vezes, é nesses momentos, em que o fogo purificador arde com mais intensidade, que temos o potencial de experimentar o crescimento que nos conduz à verdadeira maturidade espiritual. Quando tudo está indo bem, temos facilidade de proclamar que cremos num Deus amoroso, misericordioso, perdoador e cheio de graça. Contudo, quando cometemos uni erro e isso tios coloca nas trincheiras de uma batalha espiritual, descobrimos que o enxergamos como um feitor impiedoso, um pai cruel, que castiga sem dó. Na realidade, como vemos em Neemias 9,17 ele é um "Deus perdoador, clemente e misericordioso, tardio em irar-se e


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grande em bondade". Além de saber que vamos errar e de permitir que falhemos, ele permanece ao nosso lado quando isso acontece. Davi escreveu o seguinte: "O Senhor firma os passos do homem bom e no seu caminho se compraz; se cair, não ficará prostrado, porque o Senhor o segura pela mão. Fui moço e já, agora, sou velho, porém jamais vi o justo desamparado, nem a sua descendência a mendigar o pão." (SI 37.23-25.) Pensemos um pouco nestes textos: "Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito oprimido." (SI 34.18.) "Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus." (SI 51.17.) "O Senhor sustem os que vacilam e apruma todos os prostrados... Perto está o Senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade. Ele açode à vontade dos que o temem; atende-lhes o clamor e os salva." (SI 145.14,18,19.) O mesmo Deus que prometeu nunca deixar-nos nem abandonar-nos pode perdoar-nos; e está pronto a isso. No Salmo 103.3, Davi fala de um Deus que "perdoa todas as nossas iniqüidades". Em Isaías 30.18, lemos que "o Senhor espera, para ter misericórdia de vós, e se detém, para se compadecer de vós, porque o Senhor é Deus de justiça; bem-aventurados todos os que nele esperam". Concordo plenamente com Erwin Lutzer, que afirma que o maior erro que um crente pode cometer, quando está querendo viver para Cristo, não é pecar. Nosso grande equívoco é não entender os recursos que Deus nos oferece diante o pecado, da derrota e do erro.1 Parece que nossa visão daquilo que se operou na cruz é um tanto limitada, pois quando falhamos nos sentimos abalados. Ficamos muito atentos ao nosso erro. Tentamos logo praticar algum ato de justiça para "compensá-lo", esquecendo-nos de que a graça de Deus é maior que todos os nossos pecados. Deixemos algo bem claro. Desobedecer a Deus é um ato muito sério. Ele odeia o pecado. Foram nossos pecados que causaram a morte de seu Filho unigênito. Todavia ele pode usar nosso erro para nos levar à cruz. Ali recebemos o perdão, renovamos nossa perspectiva da situação e obtemos graça para prosseguir em frente; um pouco tristes, talvez, porém mais esclarecidos. Alguns dos grandes homens de Deus cometeram pecados sérios e desobedeceram ao Senhor. Entretanto ele não os atirou no lixo. Adão e Eva "estragaram" tudo. Moisés lambem teve seus erros; devido ao assassinato de um egípcio, passou quarenta anos no deserto. Abraão principiou muito bem, mas assim que foi ao Egito, também se atrapalhou todo. Davi se envolveu em


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adultério e assassinato, o que lhe custou sua integridade e a vida do filho. Elias permitiu que a depressão o dominasse de tal forma que pediu a Deus que lhe tirasse a vida. O erro de Jonas levou-o a aceitar o plano divino que lhe fora revelado com grande clareza. Todavia Deus deu a todos esses uma segunda oportunidade. Max Lucado faz um notável comentário acerca do perdão de Deus. Diz ele: "Enxergar aquilo foi como encontrar ura brinde num pacote de biscoitos ou uma perolazinha numa caixa de botões ou uma nota de dez dólares numa gaveta cheia de envelopes. "Era algo insignificante - apenas três palavras - e por isso facilmente passava despercebido. Eu já havia lido aquele texto centenas de vezes e nunca atentara no fato. Talvez não o tivesse notado por estar empolgado com a ressurreição de Cristo. Pode ser também que, como o relato de Marcos é o mais sucinto dos quatro, eu não tivesse prestado muita atenção a esse detalhe... "Agora, porém, nunca mais deixarei de observá-lo. Passei um marcador amarelo sobre as palavras e sublinhei-as com caneta vermelha. Talvez você tenha vontade de fazer o mesmo. Abra em Marcos 16. Os primeiros cinco versos falam das mulheres que foram ao túmulo e da surpresa que tiveram ao encontrar a pedra removida. Leia um pouco mais. pegue o lápis e veja só essa jóia' que há no versículo sete. 'Mas ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que ele vai adiante de vós para a Galiléia.' "Percebeu? Leia-o de novo. Dessa vez, vou colocar as palavras em itálico. '"Mas ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que ele vai adiante de vós para a Galiléia.' "Diga-me, isso não é mesmo um tesouro escondido? "Permita-me parafrasear a mensagem. '"Não fiquem aí paradas! Vão dizer aos discípulos', e aqui ele faz uma pausa, sorri e depois continua:''e principalmente a Pedro, que ele vai antes de vocês para a Galiléia.' "Que frase maravilhosa! Temos a impressão de que todos no céu viram quando Pedro 'caiu' e todos queriam ajudá-lo a levantar-se. '"Não deixem de dizer a Pedro que ele não foi esquecido. Digam-lhe que um erro não implica um fracasso total.' "Maravilha! Não é à toa que chamam essa mensagem de 'o evangelho da segunda oportunidade'.


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"No mundo, hoje, não encontramos muitas dessas segundas oportunidades. É só perguntar ao garoto que não passou no teste para treinar naquele time famoso, ou ao empregado que recebeu o bilhete azul, ou à senhora, mãe de três filhos, que foi dispensada e substituída por uma 'garota linda'. "Não. No mundo não temos muitas segundas chances. Atualmente o que se ouve é mais ou menos o seguinte: '"É agora ou nunca!' '"Aqui não toleramos incompetentes, não!' '"Pra subir, cada um tem de pisar no outro.' "Jesus tem uma solução muito simples para nosso masoquismo. Ele diria: "Pra subir tem de pisar no outro? Então não suba!" "Isso faz sentido, não faz? Não podemos deixar que um bando de fracassados nos mostrem o quanto também, somos falhos. "É claro que podemos ter uma segunda oportunidade. Veja o caso de Pedro. Num momento, ele estava se sentindo lá embaixo. Daí a pouco, se via nas alturas. Até os anjos queriam comunicar àquele pescador que não estava tudo acabado não! O correio divino trouxe o recado que chegou aos ouvidos dele em alto e bom som: "'Não se esqueçam de dizer a Pedro que ele vai poder jogar na linha de novo!' "Não é todo dia que temos uma segunda oportunidade. Pedro devia saber disso. E na primeira vez em que viu Jesus após ter recebido a mensagem, ficou tão empolgado que quase se esqueceu de vestir as calças para, então, atirar-se às águas frias do mar da Galiléia. E foi esse entusiasmo também que, segundo diz a tradição, levou aquele roceiro da Galiléia a pregar o evangelho da segunda oportunidade pelo mundo e chegar a Roma, onde o mataram. Se alguém não sabia o que poderia levar um homem a querer ser crucificado de cabeça para baixo, agora talvez já saiba. "Não é todo dia que encontramos alguém disposto a dar-nos uma segunda oportunidade, e muito menos quem queira dar-nos .uma segunda chance todos os dias. "Mas Pedro encontrou -Jesus."a 4. Ele sabe o valor potencial de nosso erro. Já foi bom termos recebido o perdão divino, mas Deus não fica só nisso. Ele tem prazer em "fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos" (Ef' 3.20). E aí está incluída a estratégia de utilizar nossas falhas de forma positiva para promover nosso crescimento espiritual.


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A maioria das pessoas gostaria de reprimir, negar e ignorar seus erros. Contudo não é assim que Deus age. Ele sabe que cada falha nossa traz consigo a possibilidade de crescimento. Se não fosse por elas, não precisaríamos muito do seu perdão, do seu socorro nem da comunhão com ele. É verdade que Deus não aprecia nossas faltas. Entretanto ele está ciente de que, nas mãos dele, elas podem tornar-se um grande mestre para nós. Em Confissões, Agostinho escreveu o seguinte. "O que será que se passa na alma humana, que ela tem mais prazer em achar e recuperar um valor que havia perdido, do que no próprio fato de possuí-lo? Existem outras realidades que dão testemunho disso, e inúmeras provas que o confirmam: 'É verdade!' Um general vitorioso valoriza seu triunfo. Entretanto, se ele não tivesse guerreado, jamais teria conquistado a vitória. E quanto maior o perigo enfrentado na batalha, maior a alegria de vencer, Uma tempestade em alto-mar atira um navio de um lado para o outro e os marinheiros sentem a ameaça de um naufrágio. Todos se empalidecem diante da morte iminente. Mas depois o mar e o céu se acalmam e eles sentem uma alegria enorme, assim como haviam sentido um medo enorme. Um amigo está enfermo. Seu pulso revela que o estado é grave. Todos os que desejam vê-lo curado acham-se mentalmente enfermos com ele. Afinal ele se restabelece, e embora ainda não consiga andar com o mesmo vigor de antes, todos experimentam uma alegria intensa que não haviam sentido anteriormente, quando ele estava forte e bem de saúde. "Em muitos aspectos da vida, uma grande alegria é precedida de um profundo sofrimento."3 Acho simplesmente maravilhoso saber que não preciso fingir, nem para Deus, nem para meus familiares, nem para meus amigos. Se a meta de Deus para o homem fosse a perfeição, ele a atingiria com mais facilidade sem nossa participação. Ele é a perfeição, e nós somos falhos. Entretanto o propósito de Deus para nós não é a perfeição instantânea. Estudando a Palavra, tenho percebido que a intenção dele ao permitir que participemos da vida é a mesma que tenho ao deixar que um de meus filhos me ajude em algum servicinho na casa. Não há dúvida de que eu poderia realizar o trabalho mais depressa e com mais eficiência do que meu filho. Contudo o objetivo básico do nosso contato ali não é efetuar o serviço "mais depressa" ou com "mais eficiência". É aprofundar nosso relacionamento, vivenciar os princípios cristãos e buscar uma conscientização do seu senso de valor. É interessante observar que, no mundo dos negócios, alguns já estão se dando conta de algo que Deus já sabia desde o início dos tempos. Já em 1978, foi publicado um livro sobre desenvolvimento organizacional que aborda a questão do valor das falhas. Num dos capítulos iniciais, os autores


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afirmam que os dirigentes de universidades, firmas de consultoria e organizações escondem suas falhas e exibem seus triunfos. Com isso, o público fica com uma visão falsa, distorcida e erroneamente positiva do desenvolvimento da organização. Ademais, agindo assim, esses indivíduos estão se privando dos benefícios de aprender com os próprios erros e com os de outros.4 E mais recentemente, num artigo intitulado "Para vencer, primeiro temos de perder", Vic Sussman diz o seguinte: "Você já se perguntou por que o sucesso parece estar sempre um passo à sua frente? Os gurus do mundo dos negócios sabem a resposta. O sucesso parece esquivar-se de nós porque - prepare-se! - ainda não falhamos bastante. "Existem dezenas de livros sobre vencer na vida que ensinam que o fracasso é o óleo de rícino do sucesso. Não é que precisemos nos atirar de frente em alguma catástrofe para assim recebermos um triunfo como recompensa; não. O princípio implícito aí é o de que aqueles que se dispõem a correr o risco de errar e tiram lições das perdas sofridas têm mais chance de ser bem-sucedidos naquilo que tentam fazer."5 Numa entrevista televisionada, Ross Perot disse o seguinte: "O sucesso constante acaba deixando o indivíduo acomodado."

arrogante e

Em seguida, ele ensina que em caso de cometermos um , falha devemos simplesmente deixá-la para trás, enxergando-a como o preço a ser pago para a conquista de novos desafios. "Quero gente que goste de lutar, que se disponha a encarar a possibilidade de uma derrota." Ele afirma ainda que as empresas medíocres normalmente evitam riscos, mesmo sabendo que uma jogada inteligente poderia ser-lhes proveitosa. "Não conheço ninguém", diz ele, "que tenha prejudicado sua empresa por haver cometido um erro de julgamento, A gente aprende muito mais com aquilo que não dá certo do que com o que sempre dá certo." 5. Ele não se limita a ver o erro em si. Como Deus conhece o valor potencial de nossas faliu-.. ele não se limita a enxergar apenas o erro. Nós já não lemos essa facilidade. Em muitos casos, nossa primeira reação é ficar olhando só para a falha e entrar em pânico: "Meu ministério acabou!" "Deus não poderá usar-me nunca mais!" "Isso vai prejudicar meus filhos para o resto da vida!" Passamos a ter uma miopia moral, enxergando somente o que está por perto. Não me entenda


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mal. É claro que precisa mos focar o momento presente. Temos de pensar e orar a respeito do problema para sabermos como iremos enfrentá-lo. Todavia, se não deixarmos que Deus nos ajude a encaixar essa pecinha de nossa vida no quadro geral dela, provável mente ela não fará muito sentido para nós. Assim, em vez, de crescermos, ficaremos apenas sobrevivendo. Vamos dar uma olhada em Hebreus 11, o capítulo que c conhecido como "galeria dos heróis da fé". Ele contém uma longa lista de homens e mulheres comuns que permitiram que Deus os usasse e, por isso mesmo, realizaram feitos notáveis. "... por meio da fé, subjugaram reinos, praticaram . justiça, obtiveram promessas, fecharam bocas de leões, extinguiram a violência do fogo, escaparam ao fio da espada. da fraqueza tiraram força, fizeram-se poderosos em guerra, puseram em fuga exércitos de estrangeiros." (Vv. 33,34.) Tudo isso parece maravilhoso, mas vejamos o que eles tiveram de enfrentar. "Foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos a fio de espada; andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltratados (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra." (Vv. 37,38.) O sucesso deles não aconteceu por acaso. Tampouco eram seres de uma casta superior, incapazes de cometer erros. Aliás, muitos que constam dessa "galeria" falharam tremendamente. Noé, por exemplo, se viu a braços com o alcoolismo e com a imoralidade. Abraão teve os problemas de mentir e de tentar superar as dificuldades por si mesmo. Sara duvidou de Deus e agiu de forma egoísta e cruel com Hagar. Jacó era mentiroso e lesou Esaú, seu irmão. Moisés já começou matando um homem e, ademais, nunca conseguiu controlar bem sua raiva. Raabe era prostituta. Sansão virou as costas para Deus e acabou perdendo seu ministério e a visão que o Senhor lhe dera. Davi cometeu adultério e assassinato. Samuel foi um homem de grande fé, mas um fracasso como pai. No entanto, Deus não desdenhou nenhum deles por causa do erro cometido. É que ele não se limitou a ver apenas as falhas dessas pessoas. Voltando ao versículo 34, lemos: "... da fraqueza (eles) tiraram força..." Eles se tornaram homens e mulheres "dos quais o mundo não era digno" (v. 38). Que maravilha! E vou exclamar de novo. Que maravilha! Deus pode usá-lo, amigo leitor, mesmo que você tenha sido um assassino, um adúltero, um alcoólatra, um mentiroso ou uma prostituta, É claro que as falhas não constituem um pré-requisito para o sucesso. Contudo, devido à grandiosidade do perdão e da aceitação divinos, podemos usá-las como trampolins para aprofundarmos nosso relacionamento com o Senhor. Deus, em sua graça, não apenas cobre nossos erros, mas ainda os


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transforma. Paulo ensina em Romanos 8.28 que "todas as cousas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus". Isso não significa que tudo que nos ocorre é bom. O que ele diz é que Deus pode fazer com que tudo concorra para o nosso bem, inclusive algumas das provações que ele menciona nos versículos 35 e 36. O mais surpreendente nisso é que o apóstolo não diz ''algumas coisas", nem ''muitas coisas", nem "a maioria das coisas". Ele afirma que Deus pode fazer com que todas as coisas cooperem para o nosso bem. Nos dois últimos versos desse capítulo, o apóstolo menciona dez fatores, dizendo que nenhum deles poderá separar-nos do amor de Deus. Contudo, se tivermos uma visão antibíblica de nossas falhas, talvez possamos "sentir-nos" separados do Senhor. Embora isso não seja verdade e nunca venha a sê-lo, o fato de nos "sentirmos" assim pode levar-nos ao desânimo e à depressão. Entretanto estamos falando do Deus de Hebreus 11, o mesmo que pode ajuntar alguns cacos quebrados e formar um vaso útil aos seus propósitos; Ele é um Deus que tem prazer em abençoar seu povo; que quer fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos e está decidido a tornar-nos mais que vencedores. Pondo nossas falhas nas mãos de Deus, poderemos aperfeiçoar-nos e aprender preciosas lições, em níveis que talvez, não alcançássemos mediante o sucesso. Os erros atingem o fundo de nosso ser e revelam um egoísmo e orgulho arraigados. Ademais, eles nos dão consciência de nossas limitações, tornando-nos mais humildes, e intensificam nossa sensibilidade em relação a outros. Eles nos ajudam a enxergar melhor nossa maravilhosa vocação de servos. Mostram o quanto é importante pensar "nas cousas lá do alto, não nas quanto são aqui da terra" (Cl 3.2) e fortalecem nossa certeza de que "aquele que começou boa obra em nós há de completá-la até o Dia de Cristo Jesus" (Fp 1.8). Para pensar 1. Relembre uma ocasião em que lhe aconteceu algo ruim, da qual Deus tirou um saldo positivo. O que aconteceu? Como você vê agora a capacidade que ele tem de extrair benefícios dos erros que você ainda irá cometer? 2. Você tem dificuldade em crer que Deus o ama e tem um plano definido para sua vida, mesmo sabendo que você irá cometer erros? Por quê? 3. Se pudesse perguntar algo a Deus com relação ao último erro que cometeu, o que perguntaria? 4. Qual dos fatos mencionados neste capítulo você acha que precisa ter em mente na próxima vez em que cometer uma falha?


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Capítulo 5 Superando As Falhas 1 ª Parte Mary era uma cliente com problemas semelhantes aos de muitos outros que haviam me procurado antes. Pelo tremor de sua voz, percebi que estava passando por uma crise séria. - Eu deveria ter vindo aqui vários meses atrás, explicou. Mas achei que meus problemas se solucionariam, e que logo me sentiria melhor. Contudo eles não se resolveram, e eu não estou nada bem, A primeira reação que ela costumava ter diante das dificuldades era ficar com raiva. E, durante algum tempo, era na energia gerada por esse sentimento que ela encontrava força para viver. Entretanto, quando a ira começava a passar e Mary conseguia ver a situação com mais clareza, sentia-se dominada por emoções que não entendia bem e não sabia como resolver. Ouvindo o que ela expunha, compreendi que sua crise não se devia a um fator apenas. Era conseqüência de uma soma de pequenos problemas que ela poderia ter resolvido um a um. Contudo, como não o fizera, teve de encará-los todos juntos, o que tornou a situação desesperadora. Mary divorciara-se alguns anos antes. O processo havia sido bastante tumultuado e, ao que parecia, seu ex-marido sentia prazer em dificultar sua vida tanto quanto possível. Ela se relacionava bem com os filhos. Ultimamente, porém, o mais velho, que estava na faculdade, se pusera a andar em más companhias e estava lhe dando muita dor de cabeça. A firma onde trabalhava fora englobada por outra empresa maior. Os novos proprietários não a haviam demitido, mas designaram-lhe uma função inferior e efetuaram cortes em seu salário. Recentemente ela terminara um relacionamento com um homem não-crente. O problema é que se envolvera com ele emocional e fisicamente. Agora estava com sentimentos de culpa devido ao pecado e triste pela perda do namorado. A certa altura da conversa, na primeira sessão de terapia, ela fez um desabafo; - Já falhei como esposa. Agora estou sendo um fracasso como mãe, corno profissional e como crente. Parece, continuou ela entre lágrimas, que quanto mais me esforço, mais as coisas pioram. Fixando os olhos no chão, disse lentamente e em voz baixa: - Não sei o que fazer. Não sei por onde começar. Acho até que nem me importo com mais nada. Após uns instantes de silêncio, olhei-a direto nos olhos, e falei:


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- Mary, eu creio que você se importa sim. Senão, não te ria vindo procurar-me nem estaria sentada aqui agora. Ela ergueu o rosto e deu um leve sorriso, demonstrando que havia escutado o que eu dissera. Então prossegui: - E o mais importante é que Deus também se importa com você. E não apenas isso, mas ele quer vir ao seu encontro, apesar dos erros. Quer ajudá-la a tirar lições deles e proporcionar-lhe uma comunhão mais profunda com ele. Em seguida, expliquei-lhe alguns dos princípios que mencionei nos capítulos anteriores deste livro. Mary ficou muito surpresa quando lhe mostrei, pela Bíblia, como Deus vê nossas falhas. Contudo ela estava vivendo uma crise. Não estava nem um pouco interessada em que eu lhe citasse versículos bíblicos. O que precisava era compreender como eles se aplicavam à situação que enfrentava no momento. Necessitava também de um plano específico para sair do impasse em que se encontrava e "tocar" a vida em frente. Então apresentei-lhe um processo bastante eficaz nesse sentido. Neste capítulo e no próximo estarei expondo esse mesmo processo. Você se recorda da última vez em que cometeu um erro grave ou teve um problema sério? Quando foi isso? Como se sentiu? Os sentimentos dolorosos foram mais intensos que antes? Demoraram mais a passar que das outras vezes? Qual foi sua primeira reação? Ela adiantou alguma coisa? Como foi que seus amigos agiram? Em alguns casos, a "dor" causada por uma falha que cometemos atinge-nos frontalmente. Em outros, porém, parece que ela se aproxima por trás, devagarinho, e quando nos preparamos para dar mais um passo, de repente, ela nos passa uma rasteira e caímos da cara no chão. Estamos vivendo uma crise e não sabemos corno agir. Devido aos tabus relacionados com o erro, a maioria das pessoas só começa a pensar nele quando já está no meio da crise. Infelizmente essa é a pior hora para tentar resolvê-lo. Nossas energias estão em baixa. Nossa perspectiva da situação acha-se distorcida e temos a tendência de adotar uma atitude negativista. Nossa reação natural diante do sofrimento é buscar alívio. Quando nos sentimos mal, queremos voltar a nos sentir bem o mais depressa possível. Nosso primeiro pensamento é encerrar aquela experiência rapidamente para recuperar logo a sensação de bem-estar e retornar ao estado "normal". Nesse caso, o "normal" é não estar consciente de nossas fraque-/as e defeitos. É voltar a ter a ilusão de que "eu estou bem; você está bem; tudo está bem". A curto prazo, podemos encarar os problemas da vida utilizando recursos que nos permitem passar por eles, mas não nos dão chance de


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crescer no processo. Aprendemos a reagir, mas não a ter a reação certa. Contudo, a cada vez que as dificuldades ocorrem, elas se intensificam, e as "águas" tornam-se mais profundas. A longo prazo, isso é a receita certa para um infortúnio maior. Esse esquema de "voltar a sentir bem logo" arma o •cenário para sofrermos um revés mais forte adiante. Infelizmente não enxergamos isso. E quando o pior acontece, vemo-nos a braços com um problema mais sério e ainda mais complexo. De repente, compreendemos que não temos nem a força nem os recursos necessários para resolver a situação. Força e caráter não são valores que encontramos por a£. São forjados na fornalha do fracasso e do erro. Nos últimos anos, descobri alguns princípios pelos quais podemos amadurecer nos momentos de luta. E eles não são mera teoria. Baseiam-se em ensinamentos claros da Palavra de Deus. Além disso, já se provaram válidos tanto em minha própria experiência como na de centenas de pessoas a quem tenho dado aconselhamento. Trata-se de doze passos bastante simples, mas não muito fáceis. Entretanto é uma solução que dá certo. Primeiro, vou citá-los um a um e, em seguida, farei urna análise detalhada de cada. 1. Reconhecer a presença de Deus conosco. 2. Assumir uma atitude de louvor. 3. Pedir a orientação de Deus. 4. Harmonizar nossa visão dos fatos com a dele. 5. Reconhecer a anatomia dos erros. 6. Admitir que cometemos um erro. 7. Assumir a responsabilidade pelo erro cometido. 8. Analisar o que aconteceu. 9. Avaliar o que podemos modificar na próxima vez. 10.Apropriar-nos do perdão de Deus. 11.Colocar o plano em ação. 12.Comunicar a outros o que Deus nos ensinou. Primeiro passo: Reconhecer a presença de Deus conosco. Por que será que algumas pessoas parecem ficar arrasadas quando cometem um erro, enquanto outras se mostram mais fortalecidas? Por que algumas se tornam como que murchas e apagadas pelo processo, enquanto outras adquirem caráter e firmeza? Por que algumas têm facilidade em. viver com transparência e sinceridade, enquanto outras morrem de medo de se expor e de confiar nos amigos e conhecidos?


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Não é por causa de nenhum traço de caráter que elas herdaram geneticamente. Também não é porque Deus as ama mais que a outras. Não é porque a vida delas foi mais tranqüila que a nossa. É porque essas que se saem bem nos momentos de dificuldade sabem a quem recorrer. Esse primeiro passo é muito simples. Não exige muito tempo. Entretanto ele pode determinar como a situação vai terminar. Mary se achava tão envolvida em seus problemas que não conseguia ver a provisão de Deus. Sentia-se tão desalentada com suas falhas, que não percebia como Deus estava honrando aquilo que ela havia feito de certo. Encontrava-se tão absorvida pelos aspectos temporais, que perdera de vista os eternos. Quando falhamos, a probabilidade de reconhecermos a presença de Deus conosco é pequena. Geralmente nem temos consciência dela. Costumamos concentrar-nos em nosso sofrimento, nas pessoas que possam ser afetadas por nossa conduta e naqueles que talvez venham a ter conhecimento de nosso erro, passando a depreciar-nos por causa dele. Essas noções tomam conta de nossa mente e, como um trem desgovernado, vão nos levando às raias do desespero. Em St. Louis, nos Estados Unidos, existe um complexo ferroviário pelo qual passa a maioria dos trens que cruzam a cidade. Nesse local, há uma estação que controla todo o tráfego. Isso é feito por meio de urna pequena chave, cujo principal elemento é urna pecinha de metal. Ela opera o deslocamento dos pesados trilhos que conduzem os trens para um rumo ou para outro. Se o guarda-chaves acionar essa alavanca para um lado, o trem tomará o destino de São Francisco. Se ele a virar para outro, o comboio se dirigirá para Nova Iorque, no outro extremo do país. Então, dependendo de um simples movimento de dedo, ele tomará o rumo do leste ou do oeste. Esse primeiro passo, reconhecer a presença de Deus, tem muita semelhança com a função dessa chave. Trata-se de uma decisão relativamente simples, pela qual vamos deliberar ern que iremos focalizar nossa atenção quando nos sentirmos esgotados e desanimados. Contudo ela poderá levar-nos a dois destinos radicalmente diversos. Portanto não devemos nem pensar em nos afastar de Deus quando as situações da vida nos lançarem em "corredeiras" que não conseguimos controlar. Se nossos anseios de ter sucesso ou de sobreviver emocionalmente derem em nada, se nossas esperanças se frustrarem e a vida nos parecer injusta, a solução não é fugir e esconder-nos. Afinal isso nunca adianta nada mesmo. Precisamos é nos voltar para o Senhor. Muitas vezes, os momentos em que menos sentimos a presença de Deus, em que temos a impressão de que ele se mudou sem deixar endereço, são aqueles em que ele deseja realizar uma grande obra em nós. No livro Cartas do Inferno, um clássico da literatura cristã, C. S. Lewis apresenta


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uma série de cartas escritas por "Murcegão", um diabo experiente, a "Cupim", seu sobrinho. "Cupim" recebera a incumbência, aparentemente simples, de tentar um ser humano e levá-lo ao inferno. Sua única tarefa era impedir que esse homem se tornasse cristão. Infelizmente (para o "Cupim"), ele cometeu um grave erro e o homem se converteu. Entretanto nem tudo estava perdido, explicou-lhe o tio. Ele ainda podia impedir que aquele ser humano aprendesse lições, crescesse espiritualmente e gozasse de uma vida cristã abundante e vitoriosa. Então o tio passou a dar-lhe conselhos inteligentes acerca dos meios que o diabo utiliza para desanimar e derrotar os crentes novos. No decurso dessa correspondência, Lewis expõe alguns dos métodos que Deus emprega para dar-nos instruções e ajudar-nos a crescer. Na oitava carta, ele analisa um princípio espiritual básico, descrevendo os altos e baixos emocionais e espirituais que todos vivenciamos. Nela, "Murcegão" fala do que ele denomina "ondulação". Diz que se trata de um dos melhores recursos de que Deus lança mão para promover o amadurecimento do crente. Revela ainda que as "depressões" (os baixos) constituem um aspecto normal da vida cristã. Pensemos nisso. Há ocasiões em que nos achamos cheios de gozo, energia e vigor emocional em nosso viver com Deus. Temos consciência nítida e clara de sua presença e de seu poder. Nessas horas, sentimo-nos com forças e muita fé. Chegamos a pedir ao Senhor que nos envie provas. Existem outros momentos, porém, em que nos vemos a braços com o desânimo, a depressão e o fracasso. Esses períodos de sequidão podem causar em nós uma sensação de letargia e escassez espiritual. E por mais que procuremos a Deus, não conseguimos encontrá-lo em parte alguma. Temos a impressão de que nossas orações não passam do teto. Parece que ele nos abandonou. Nos instantes em que estamos lá em baixo, vemo-nos bastante fracos e vulneráveis, E o Maligno encontra boas oportunidades para nos tentar. Contudo, como o "Murcegão" explicou ao "Cupim", é o próprio Deus quem permite que passemos por essas "depressões". Ele se afasta do nosso consciente para que, assim, possamos exercitar nossa capacidade de decidir confiar nele e obedecer-lhe, mesmo que não tenhamos a menor vontade de fazê-lo. A questão é que quando nos sentimos fortes e tudo vai bem, é muito fácil obedecer a Deus e pensar nas coisas que são do alto. Todavia', para conseguirmos manter essa atitude positiva quando ele nos parece distante, precisamos estar num outro nível de maturidade espiritual. E "Murcegão" explica ao sobrinho: "É durante os períodos de depressão (nos baixos), muito mais do que nos culminantes (nos altos), que o ser humano desenvolver-se-á para


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alcançar a estatura que Ele pretende."1 , Em conseqüência, as orações que fazemos nesses momentos são as que mais agradam ao Senhor. Se o crente, ao cometer um erro, tomar a decisão de aprender alguma, lição e procurar crescer, Deus ficará satisfeito até com seus "tropeços". E "Murcegão" diz mais: "Não se deixe iludir, Cupim. Nossa causa nunca correrá maior perigo do que quando um homem, não podendo, mas ainda assim pretendendo fazer a vontade de nosso Inimigo, perlustra o universo do qual se parecem ter apagado todos os traços de Sua presença e interroga por que é que foi desamparado, e ainda assim persiste em obedecer."2 Aqueles que já conhecem os segredos da fé que só descobrimos no contexto das falhas ê dos erros entendem muito bem o que o Rei Salomão quis dizer quando afirmou: "Filho meu, se aceitares as minhas palavras e esconderes contigo os meus mandamentos, para Fazeres atento à sabedoria o teu ouvido e para inclinares o teu coração ao entendimento, e, se clamares por inteligência e por entendimento alçares a voz, se buscares a sabedoria como a prata e como a tesouros escondidos a procurares, então, entenderás o temor do Senhor e acharás o conhecimento de Deus. Porque o Senhor dá a sabedoria, e da sua boca vêm a inteligência e o entendimento." (Pv 2.1-6.) Segundo passo: Assumir uma atitude de louvor. Já sei o que o leitor está pensando após haver lido o subtítulo acima. "Qual é, Oliver! Caia na real! Quando estou me sentindo por baixo, a última coisa que me passa pela cabeça é louvar ao Senhor!" Tudo bem! Outros já disseram isso. Aliás, quando eu estava começando a assimilar esse princípio, eu próprio falei o mesmo com Deus várias vezes. William Law, um pastor que viveu no século XVI, afirmou o seguinte: "Se alguém quiser ensinar-nos o caminho mais curto e certeiro para alcançarmos a perfeição e a felicidade plena, terá de dizer-nos que precisamos criar o hábito de louvar ,,a Deus e agradecer-lhe por tudo que nos sucede. Não há dúvida de que se louvarmos ao Senhor e lhe agradecermos por tudo que nos sobrevém, inclusive pelo que nos parece uma calamidade, transformaremos o sucedido era bênção." Quando olhamos para a vida por meio das lentes de nossas fraquezas e imperfeições, nossa visão se acha focalizada U(o erro. Quando, porém, decidimos enxergá-la pela perspectiva da Pessoa de Deus, da obra que Cristo realizou na cruz em nosso favor, das inúmeras promessas divinas e do que eleja operou em nossa vida, louvando-o por tudo, conseguimos abandonar essa visão centralizada nos erros e passar a ver tudo pelo prisma da fé. Essa mudança de perspectiva é de grande valor. Â Bíblia diz, em l Tessalonicenses, que temos de dar graças em tudo.


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Talvez não sejamos capazes de dar graças a Deus por tudo. Todavia podemos louvá-lo em toda e qualquer situação por causa do seu caráter, da sua fidelidade e das suas promessas. Sempre que tenho dificuldade com este segundo passo, recordo-me de um fato que Corrie tTen Boom narra em seu livro O Refúgio Secreto. Corrie relata um incidente em que aprendeu a ser grata a Deus por tudo. Ela e Betsie, sua irmã, tinham sido transferidas para Ravensbruck, o pior campo de prisioneiros da Alemanha. Quando chegaram ao alojamento, viram que estava superlotado e infestado de pulgas. Certo dia, elas leram esse texto de l Tessalonicenses, que ensina que temos de alegrar-nos sempre, orar sem cessar e dar graças em tudo. Então Betsie disse a Corrie que agradecesse a Deus por aquele novo alojamento, lembrando todos os detalhes. Ela o fez, mas recusou-se taxativamente a dar graças pelas pulgas. Contudo, como Betsie insistisse, Corrie acabou cedendo. Durante todo o período que passaram naquele lugar, houve um fato que as deixou intrigadas. Tinham muita liberdade para orar e estudar a Bíblia, sem sofrer interferência dos guardas. Só vários meses depois foi que ficaram sabendo que eles não entravam ali por causa das pulgas. Corrie começara dando graças em tudo. Entretanto, como o princípio de Romanos 8.28 é verdade mesmo, e Deus pode realmente fazer com que todas as coisas cooperem para o nosso bem, ela descobriu o poder do louvor. Jack Hayford afirma que quando louvamos a Deus "... tiramos uma situação ou todo um dia do nebuloso contexto de um potencial limitado e os transportamos para a esfera dos propósitos divinos expressos em suas promessas. O louvor ilumina nossa mente na atmosfera do trono de Deus, onde nos encontramos ajoelhados. Ele expande nossa alma, que assim se livra daquela estreiteza de propósitos que adotamos quando focalizamos apenas nossos interesses egocêntricos. "Pelo louvor, abrimos o coração para receber as verdades de Deus. Por ele, nossa alma reconhece sua pequenez e volta a ser semelhante à de uma criança. O louvor nos despe do orgulho e aniquila a tendência que a carne tem de assumir o comando. De joelhos, encontramos a realidade. Com as mãos erguidas, tocamos em Deus. Os lábios que se abrem, dando graças ao Altíssimo, depois revelam sabedoria e entendimento espiritual."3 Quase diariamente dedico parte da manhã à oração e a um estudo da Palavra, em que leio a Bíblia, ou um livro devocional, ou um comentário bíblico. Sempre principio o momento de oração com um período de louvor. Com isso, adquiro a perspectiva certa, passando a encarar o dia através dos olhos de Deus. Se estou vivenciando alguma dificuldade, o louvor me ajuda


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a atravessá-la melhor. Dando graças a Deus por sua Pessoa, seu poder, suas promessas e suas provisões para mim, sinto claramente que não estou sozinho. Tenho certeza de que ele não me abandonou. E mais que isso: sei que me fortalecerá por intermédio dessa adversidade. Certa vez ouvi uma história muito interessante. Houve um dia em que o sol não nasceu. Deram 6:00h, e nem sinal da claridade. Às 7:00h, ainda não se via nenhum raio de luz. Ao meio-dia, estava tudo escuro, como se fosse meia-noite. Os pássaros não cantavam, e o único som que se ouvia era o piado soturno de urna coruja. Após as longas e sombrias horas da tarde, veio a noite. Todavia ninguém dormiu. Alguns choravam. Outros torciam as mãos ern desespero. As igrejas ficaram lotadas de fiéis ajoelhados, alguns dos quais lá permaneceram o tempo inteiro. Ao final daquela longa noite de agonia, milhões de pessoas tensas viraram para o leste o rosto manchado de lágrimas. De repente, o céu começou a avermelhar-se e o sol surgiu. Todos soltaram brados de alegria. Milhões de lábios exclamaram: "Glória a Deus!" O sol despontara após um dia de trevas. Por vezes, a escuridão do fracasso impede que enxerguemos o quanto as bênçãos de Deus são constantes. O aspecto mais maravilhoso das misericórdias divinas é que elas se renovam a cada amanhecer e entardecer. Lembremos sempre de dar graças a Deus, mesmo em meio a densas trevas. Existe um hino que expressa de forma clara e simples o quanto esse passo é importante. Louve a Deus Se você está em lutas E seus sonhos vão por terra O inimigo quer roubar sua esperança rio Senhor E os temores deste mundo invadem o seu ser Não, não deixe sua fé em Deus desaparecer.Louve a Deus. O diabo é um mentiroso Ele quer nos convencer Ele diz que somos pobres Mas somos filhos de Deus. Então levante seu escudo A vitória já é ganha Sei que Cristo já ressuscitou Consumado está. Louve a Deus. Coro; Ele age em quem o louva Louve a Deus Ele habita no louvor, Louve a Deus Pois os laços que o prendiam Servem só para lembrá-lo Que eles caem sem poder Quando você louva a Deus!4 Assim que Mary, a mulher que mencionei no início deste capítulo,


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decidiu dar graças a Deus, descobriu, grandemente surpresa, que seu ânimo se elevou. É claro que seus problemas não desapareceram como por encanto. "Mas quando encerrei o momento de oração e louvor, sentia a presença e o poder de Deus e tinha uma nova visão dos fatos", explicou ela. "Experimentei urna clara sensação de esperança e uma expectativa positiva em relação ao modo como Deus iria continuar a obra que começara em mim." Terceiro passo: Pedir a orientação de Deus. Jeremias sabia o que era "ter um dia péssimo". Ele teve muitos. Sabia o que era o sofrimento, o desânimo, o fracasso e o sentimento de frustração. Aliás, ele ficou conhecido como "o profeta chorão". No capítulo 33 de seu livro, Deus lhe deu uma gloriosa promessa, que serve também para nós hoje. O Senhor lhe disse: "Invoca-me, e te responderei; anunciar-te-ei cousas grandes e ocultas, que não sabes. ... trarei... saúde e cura... ... revelarei abundância de paz c segurança. Restaurarei a sorte de Judá e de Israel e os edificarei... Purificá-los-ei de toda a sua iniqüidade... Perdoarei todas as suas iniqüidades." (Vv. 3,6-8.) Se não cultivarmos a capacidade de tirar lições das pequenas falhas, precisaremos passar por uma grande - uma que não poderemos negar, nem ignorar, nem ver como um mal que veio para bem. Ter coragem, na verdade, é tomar a deliberação de acolher de peito aberto a experiência, pedir a Deus que nos oriente e ficar atentos ao que ele diz, para que possamos aprender alguma lição. Quando eu era novo na fé, não buscava o Senhor após cometer um erro. Não procurava ouvir sua voz nem permanecia em sua presença para sentir sua orientação. Na verdade, achava que via sua face apenas em situações onde ela era óbvia: na leitura da Bíblia, no louvor, nas reuniões de oração ou nos cultos da igreja. Nunca imaginei que ele pudesse vir ao meu encontro nos momentos em que eu falhasse. Cria que para me tornar um bom crente, teria de trabalhar muito, aprender mais, ganhar mais e negar a mim mesmo. Sempre esperamos ver Deus nas grandes experiências místicas - em sonhos, visões ou "palavras de revelação". É fato que por vezes ele se manifesta a nós por meio dessas circunstâncias. Contudo, na maioria das vezes, ele nos fala pela voz tranqüila e suave do Espírito Santo. O profeta Elias viu Deus mandar fogo do céu por seu intermédio e consumir um altar que fora completamente encharcado. Viu ainda a destruição de quatrocentos e cinqüenta profetas de Baal. Depois disso, ele deveria fazer uma entrada triunfal na cidade, mas não foi o que aconteceu. Na verdade, aquelas realizações haviam sido sua sentença de morte. Em questão de poucas horas, ele passou das alturas da vitória para o vale da


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morte espiritual. Mudou totalmente sua perspectiva dos fatos e, em vez da visão da fé, assumiu a do medo. É que ouvira dizer que a ímpia rainha Jezabel estava à sua procura. Então fugiu. Em vez de olhar para o poder de Deus, que eleja conhecia, enxergou mais o que Jezabel poderia fazer-lhe. Essa mudança no seu ângulo de visão provocou uma séria distorção em sua percepção da realidade. Foi assim, então, que o poderoso profeta Elias acabou sentado debaixo de um zimbro, pedindo a morte. "Ninguém me ama. Todos me detestam. Pra mim, chega! Não agüento mais!" Saindo dali, foi passar a noite numa caverna. Vejamos o restante da história registrada em l Reis 19.9-13. 'Ali, entrou numa caverna, onde passou a noite; e eis que lhe veio a palavra do Senhor e lhe disse: Que fazes aqui, Elias ? Ele respondeu: Tenho sido zeloso pelo Senhor, Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derribaram os teus altares e mataram os teus profetas à espada; e eu fiquei só, e procuram tirar-me a vida. Disse-lhe Deus: Sai e põe-te neste monte perante o Senhor. Eis que passava o Senhor; e um grande e forte vento fendia os montes e despedaçava as penhas diante do Senhor, porém o Senhor não estava no vento; depois do vento, um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto; depois do terremoto, um fogo, mas o Senhor não estava no fogo; e, depois do fogo, um cicio tranqüilo e suave. Ouvindo-o Elias, envolveu o rosto no seu manto e, saindo, pôs-se à entrada da caverna. Eis que lhe veio uma voz e lhe disse: Que fazes aqui, Elias?" Elias não encontrou Deus na ventania, nem no terremoto, nem no fogo, mas na voz tranqüila e suave. No início de minha vida cristã, eu tinha bom conhecimento de Deus Pai e Deus Filho. Sabia quem eram e o que faziam. Contudo não conhecia direito a Pessoa do Espírito Santo nem qual era sua função. Achava que ele fosse uma espécie de "Gasparzinho" cósmico. Um dia, porém, li algo que Jesus disse aos seus discípulos. "Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as cousas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito." (Jo 14.26.) E mais adiante, Jesus falou o seguinte: "Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei. Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado... ele vos guiará a toda a verdade... Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar." (Jo 16.7,8; 13,14.) O apóstolo Paulo escreveu o seguinte: "Nem olhos viram, nem ouvidos


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ouviram, nem jamais penetrou no coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam." O aspecto mais maravilhoso disso, porém, é que Deus nos revelou tudo isso por intermédio do seu Espírito. E Paulo continua: "... porque o Espírito a todas as cousas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus... Assim, também as cousas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente." (l Co 2.9-12.) Agora que sou crente há vários anos, li muito a Palavra, estudei bastante o livro de Atos e tenho tido muita experiência em aconselhamento, passei a compreender que o Espírito tem um papel importantíssimo junto a nós nos momentos de dificuldades. Jeffrey Jernigan relata uma experiência pessoal que exemplifica muito bem o modo como o Espírito nos ajuda a tirar lições de nossos erros. Diz ele: "Alguns anos atrás, comecei a tomar aulas de pilotagem. Como a maioria dos pilotos iniciantes, era excessivamente autoconfiante, impulsivo e tinha muita certeza de tudo o que fazia. Achava que iria dominar bem as técnicas necessárias para voar e não precisaria do auxílio nem da intervenção de ninguém. "Tudo foi muito bem até que chegou o momento de fazer o vôo noturno. Voar no meio da escuridão dá um bocado de medo. No meu primeiro treino noturno, levantamos vôo (eu e o instrutor) quando estava escurecendo. Uma hora depois, a noite estava escura como breu. No decorrer do vôo, chegamos a uma região pouco povoada no interior. Não se avistava o chão, que mais parecia um vazio informe, profundo e negro. Estava perdido. Ninguém deixara as luzes acesas pra me orientar. "Afinal, depois de 'apanhar' um pouco dos instrumentos, consegui pôr o aparelho rumo ao aeroporto. Iríamos pousar num aeroporto de verdade e não na pista de treinamento que já conhecia tão bem. Quando ficou óbvio que eu estava perdido, o instrutor ofereceu-se várias vezes para me ajudar, mas recusei. "Senti-me muito vaidoso quando consegui entrar no esquema do tráfego aéreo e estabelecer contato com a torre de comando, sem cometer nenhum erro grave. Agora estava preparado para aterrissar. O instrutor indagou se eu queria que eles ligassem a iluminação especial. Trata-se de uma série de flashes que marcam a extremidade da pista e vão se acendendo em seqüência, indicando a direção do pouso e clareando a área aonde temos de descer. Mas eu me sentia muito autoconfiante e disse que não. "Parece até que houve uma transmissão de pensamento entre o instrutor e o controlador de vôo, pois, logo em seguida, este também indagou se eu queria que ligassem aquelas luzes. E outra vez, muito seguro, respondi que


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não. Mas eu deveria ter entendido que eles haviam notado algo que eu não percebera. Sem dizer nada, o controlador ligou as luzes. Como estávamos bem baixo, a cabine ficou toda iluminada pelos reflexos dos flashes. Então vi que as luzes não estavam à minha frente, mas embaixo do avião, e se acendiam da esquerda para a direita. Eu estava cortando a pista em sentido perpendicular e prestes a pousar no estacionamento de uma escola das proximidades "Reconhecendo meu erro e agora mais humilde, acertei a direção e me preparei para um novo pouso. Dessa vez, atendi perfeitamente às orientações do controlador e fui fazendo mudanças de sentido e de altitude. "Para mim, isso ilustra muito bem o papel que o Espírito Santo exerce em relação aos nossos erros. Para que eu pudesse pousar no aeroporto com toda segurança, eu e o controlador de vôo tínhamos de exercitar nossa vontade, cada um executando a tarefa que lhe fora designada. Se um de nós não o fizesse, acabaríamos provocando um desastre. Em Gaiatas 5.16-18, encontramos a seguinte ordenança: 'Andai no Espírito... (sede) guiados pelo Espírito'."5 Não cedamos à tentação de querer olhar muito lá na frente. Não tentemos informar a Deus daquilo de que precisamos. Devemos, antes, perguntar-lhe do que ele acha que necessitamos e o que ele quer dar-nos. Não lhe pecamos que remova as montanhas das dificuldades, mas descubramos como ele quer que cresçamos em meio a elas, no objetivo de que seus propósitos para nós venham a cumprir-se. Oremos assim: "Senhor, com relação a esta situação que estou vivendo, o que significa confiar e obedecer? O que desejas que eu aprenda e como queres que eu aja?" Assim que obedecermos à sua vontade, experimentaremos sua presença e seu poder. Nunca esqueçamos, porém, que, para recebermos a bênção, primeiro precisamos obedecer. Quem já deu esses três primeiros passos talvez esteja surpreso por ver como está se sentindo melhor. Todavia não pare aí. O processo de santificação não implica apenas sé sentir melhor, mas aprender, amadurecer, passar por mudanças. Não nos contentemos com uma solução tipo "band-aid", quando Deus quer nos dar muito mais. Quarto passo: Harmonizar nossa visão dos fatos com a de Deus. Na carta de Tiago, o irmão de Jesus escreveu o seguinte: "Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes." (1.2-4.)


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E em Romanos, Paulo revela: "... gloriamo-nos na esperança da glória de Deus. E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado." (5-2-5.) Como já salientamos, um dos propósitos de Deus ao permitir que cometamos erros é que cresçamos por intermédio deles. Outro é proporcionar-nos algum bem com eles. Obviamente é muito difícil compreender isso quando estamos lá em baixo. Contudo é fundamental que analisemos a situação com os olhos de Deus. Oswald Chambers afirma o seguinte: "Será que você está perturbado neste momento, com a atenção desviada pelas ondas bravias da providencial permissão de Deus e tendo, por assina dizer, revolvido até a última pedra de sua crença à procura de paz, alegria ou conforto, só encontrou aridez? Erga então os olhos e receba a imperturbabilidade do Senhor Jesus. A paz que se vê refletida em você é a prova de que está bem com Deus, porque está livre para voltar sua atenção para ele... Se temi permitido que qualquer coisa (até uma falha pessoal) oculte de você a face de Jesus Cristo, de duas uma: ou algo o está perturbando ou sua segurança é falsa. "Você está contemplando Jesus agora em meio a esta situação que está-lhe exigindo a atenção, e recebendo a paz dele? Se nos perturbamos é porque nossa atenção não está voltada para Cristo."5 Na maioria das vezes, analisamos os aspectos da vida apenas pela nossa perspectiva, em vez de deixar que ele nos ensine a enxergá-los com os olhos dele. Quando Deus chamou Moisés para servi-lo, este citou diversas razões para demonstrar que não seria um bom candidato ao cargo. Vejamos o que ele disse em Êxodo capítulos 3 e 4. 3.11 - Não sou lá grande coisa. 3.13 - Não tenho nada de importante para dizer. 4.1

- Não vou conseguir convencê-los.

4.10 ~ Não sou bom orador; sou lento pra falar. 4.13 - Qualquer outro irá fazer esse trabalho melhor do que eu, ou em outras palavras: "O Senhor não está vendo que sou um fracassado?" Examinando esses textos, veremos que Deus deu uma resposta precisa a cada um dos argumentos dele. O que o Senhor estava dizendo com isso era basicamente o seguinte: "Ótimo! Você é a pessoa que eu estava procurando! Acredito que vou


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poder usá-lo!" Quando Deus chamou Jeremias, a primeira reação do profeta foi: - Ah, Senhor, não sei falar direito. Sou uma criança! E Deus replicou: - Não se preocupe com isso. Irei com você. Vou protegê-lo e dizer-lhe tudo que tem de falar! Deus sabia muito bem que eles eram fracos e que cometeriam erros. E ele sabe também que nós somos fracos e cometeremos erros. Todavia, se alinharmos nossa visão dos fatos com a dele, compreenderemos o processo, pegaremos na mão dele e daremos o passo seguinte. Nasci em Montana, mas me criei na Califórnia. Quando era garoto, uma de minhas maiores alegrias era visitar os parentes que ainda residiam em Montana. Dois de meus tios tinham fazenda lá, e eu passava o dia rodando pelo lugar, olhando as galinhas, os porcos, os cavalos e o gado, escorregando nos montes de feno e brincando com os primos. Numa das vezes em que fiii, meu tio perguntou-me se eu queria assistir ao nascimento de um bezerro. "Claro!" respondi empolgado. Ele explicou que sempre tinha de haver alguém presente no momento em que a vaca iria dar cria, mesmo nos meses de inverno rigoroso. Por vezes a fêmea resistia ao trabalho de parto, e perdia-se o filhote. Quando o bezerro nasceu, estava todo molhado. Suas pernas eram muito finas e bem fracas. Ele teve de fazer várias tentativas para se colocar de pé. Afinal indaguei: - O senhor não vai ajudá-lo, tio? Meu tio me fitou e replicou sorrindo: Isso seria um grande erro, Gary. Esse esforço que ele é obrigado a fazer para se levantar e respirar por si é muito necessário para ele. Disse que se tentássemos ajudar o animalzinho a se pôr de pé, na realidade o estaríamos atrapalhando. Não consegui compreender direito. Então ele ensinou que a força que o bezerro faz para tentar levantar-se, para respirar e para procurar o leite da mãe produz nele a energia e a resistência de que precisa para sobreviver. Relembrando essa experiência, percebo que, assim como acontece ao bezerrinho, nós também precisamos do esforço do erro para cultivarmos a resistência e as habilidades necessárias para amadurecermos espiritualmente. Quando passamos a encarar os fatos pela perspectiva divina, quando os vemos dentro do contexto do que Deus é e do que ele pode fazer, percebemos que se tornam diferentes. Começamos a enxergar uma saída. Entendemos que o erro é simplesmente mais uma situação que o


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Senhor pode usar (e usará) de forma positiva para propiciar-nos crescimento. Quinto passo: Reconhecer a anatomia dos erros. Neste ponto, é importante pararmos um pouco e recordarmos a anatomia dos erros. For quê? Porque quando estamos a braços com o desânimo e a derrota, deixamos que as emoções penosas embacem nossa visão da realidade. Embora já tenhamos pedido a Deus que nos dê sua perspectiva dos fatos, isso não significa que o sofrimento vá desaparecer como por encanto. A sensação de atordoamento também pode não se dissipar imediatamente. Ainda teremos de dar mais alguns passos do processo. E é assim que ocorre o crescimento. Então, em vez de ficarmos atordoados com o que está ocorrendo, identificaremos o que é normal e o que não é. No capítulo 3, analisamos detalhadamente as etapas do erro: a crise, a encruzilhada e a catalisação. Geralmente é no meio da crise que as pessoas buscam a ajuda de outros. Lembremos que, nessa etapa, estamos como numa montanha-russa emocional. Nela experimentamos vários estados e sentimentos: negação da realidade, resistência, choque, medo, raiva, sentimento de culpa e de vergonha, desespero, confusão e desorientação. Mesmo quando passamos à etapa da encruzilhada e decidimos aceitar o socorro que Deus nos oferece, continuamos a ter emoções dolorosas. A maioria das pessoas talvez preferisse "pular" a etapa da crise. Infelizmente isso é impossível. Contudo, podemos reduzir bastante o tempo de permanência nela, tomando a deliberação de confiar em Deus, obedecer-lhe e procurar crescer. O fato é que se tentarmos "acelerar" o processo acabaremos ficando ainda mais "atolados". Até aqui, vimos os primeiros cinco passos que podemos dar para crescermos mediante nossos erros. Deixando que Deus nos ajude a "virar" essa página de nossa vida, fazemos um progresso tremendo. No próximo capítulo, continuaremos examinando esse processo que nos capacita a transformar nossos fracassos em vitórias. Para pensar 1. Explique em suas próprias palavras por que a pior hora para se começar a resolver o problema de um erro é quando estamos no meio de uma crise. 2. Recorde uma ocasião em que teve uma nítida consciência da presença de Deus em sua vida. Que diferença isso fez para você? Corno você poderá lembrar essa experiência na próxima vez que você cair? 3. Se quiser experimentar uma sensação agradável, separe algum tempo, uns quinze minutos, nas próximas vinte e quatro horas, só para louvar ao Senhor. Agradeça-lhe por


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seu amor, sua misericórdia, sua benignidade, sua fidelidade e seu perdão. Louve-o pela maneira como o tem protegido, guardado, dirigido e sustentado. Você ficará admirado ao ver como esses quinze minutos passam de pressa. 4. Lemos em Tiago 4.2 que não temos porque não pedimos. Em que aspecto de sua vida você precisa da orientação de Deus neste momento? Ore diariamente, nos próximos trinta dias, pedindo essa orientação. Peça a três amigos que orem com você nesse sentido. Capítulo 6 Superando As Falhas 2ª Parte Vamos lembrar que na primeira sessão de aconselhamento de Mary, ela disse: "Já falhei como esposa. Agora estou sendo um fracasso como mãe, como profissional e como crente. Parece que quanto mais me esforço, mais as coisas pioram. Não sei o que fazer. Não sei por onde começar. Acho até que nem me importo com mais nada." Ela se achava dominada pelo desespero e pelo sentimento de frustração. Contudo, quando concluímos o quinto passo, já se encontrava bem diferente. - O que está diferente, Mary? indaguei. O que mudou em sua vida? Imediatamente ela replicou: - Sinto-me mais cheia de energias e de esperança. E sei que não estou sozinha. - Então tudo está melhor? perguntei. Ela riu e, em seguida, ainda sorrindo, explicou: -Ainda há momentos em que fico desanimada, com muito sentimento de culpa, e sofro bastante. Mas isso não acontece mais com tanta freqüência quanto antes. E as sensações não se mostram tão intensas como quando o problema começou. Por fim, em tom firme e claro, disse: - Sei que ainda tenho de me esforçar muito e que, em parte, vai ser penoso. Mas sei também que, com a bênção de Deus, vou chegar lá! Isso não é conclusão de alguém que viu os próprios erros e resolveu fugir para um mundo ilusório, tipo "Pollyanna"; não. Tampouco é uma pessoa que está jogando a culpa de seus problemas na vida. É a convicção de quem pegou na mão de Deus, resolveu encarar as próprias falhas e caminhar em frente. É a palavra de uma mulher que confia no Senhor e tem a visão correta dos fatos que só ele pode dar. Quem já deu os passos um a cinco está com a base pronta. Agora é só prosseguir. Lembremo-nos, porém, de que nessas questões não existem atalhos. Se não dermos esses cinco passos fundamentais, não conseguiremos


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concluir o processo de crescimento. Sexto passo: Admitir que cometemos um erro. Quando Deus conseguir chamar nossa atenção e nos mostrar que cometemos um erro, precisamos estar atentos para evitar duas reações muito comuns. A primeira é negar o fato. Essa tem sido minha maior tentação. E meus filhos também têm. esse tipo de atitude. "Eu não fiz isso não, pai. É verdade!" A questão é que não queremos que os outros vejam nossos defeitos. Procuramos desesperadamente escondê-los, do mesmo modo que os adolescentes tentam disfarçar as imperfeições da pele. Quando eu estava com 16 anos, tive uma acne discreta. Hoje tenho consciência de que foi apenas um distúrbio leve e transitório. Contudo, quando a gente tem 16 anos e acabou de mudar para uma escola nova, vê as espinhas no rosto como um problema sério, de proporções gigantescas. Fiz de tudo para tentar secá-las ou disfarçá-las, mas nada adiantou. No primeiro capítulo, mencionamos o fato de que quando Adão e Eva pecaram sua primeira reação foi procurar esconder-se de Deus. Tentaram ainda ocultar sua nudez um do outro. A verdade é que sempre que temos o impulso de fugir de nossos erros estamos querendo nos esconder de nós mesmos. Entretanto, por mais ardilosos que sejamos, não conseguimos. E por mais que tentemos nos anestesiar e minorar o sofrimento, não obtemos sucesso. A racionalização e o auto-engano só duram algum tempo. Chega um momento em que a verdade tem de vir à tona. A segunda reação comum é culpar outrem. Meus filhos já sabem que não engulo muito aquela resposta: "Eu não fiz isso não pai", e então recorrem a outra opção. Apontam para um dos irmãos e dizem: "Foi ele!" E foi exatamente como Adão e Eva agiram. Tentaram transferir para outrem a culpa do erro que haviam cometido. Todavia não deu certo para eles, e não tem dado para mim nem para meus filhos. E não vai dar para você tampouco. Concluímos, então, que para tirarmos lições de nossos erros é importante que resistamos às tentações de escondê-los e de culpar outros. O que devemos fazer, em vez disso, é buscar em Deus a convicção de pecado e a coragem para reconhecê-lo. Muitos de nós fomos condicionados (devido às atitudes dos pais, dos professores e dos amigos) a ter medo e a ficar muito "sem graça" todas as vezes que erramos. E quando o erro é um deslize, sabemos que vamos sentir vergonha e talvez até receber algum tipo de castigo. Certa vez ouvi alguém dizer que uma falha "pode ser um peso para nós ou conferir-nos asas". Como o ato de errar é inerente ao ser humano, quase


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todos os dias nos vemos diante de uma escolha. Podemos permitir que nossas falhas nos derrubem e nos deprimam ou, então, que se tornem uma ocasião para aprendermos alguma lição e crescermos. Gordon MacDonald fala de um tipo de pessoa que ele chama de "portadores do passado". Diz ele que tais indivíduos cultivam "uma lembrança constante de algum evento ou eventos do passado que lhes provoca uni doloroso remorso. Vivem apavorados pelo temor de que o segredo venha à tona e destrua não só a vida deles, mas também a dos seus entes queridos e dos amigos chegados... Esses portadores gastam muita energia emocional e psíquica procurando impedir que seu passado interfira no presente... Eles se tornam 'craques' na arte de dissimular para sobreviver". Depois de certo tempo, o segredo "fica oculto até para eles. Então esses atos e atitudes destrutivos acham-se presentes no seu dia-a-dia e, afinal, se ligam à sua vida quase como se fossem parte dela".1 John Gardner afirma o seguinte: "A maioria das pessoas exclui de sua vida o autoconhecimento (que é o princípio da sabedoria), pois, à medida que envelhece, vai se tornando cada vez mais eficiente na prática do auto-engano. Quando chegam à meia-idade, muitos já estão peritos na habilidade de fugir de si mesmos. No entanto, é de grande valia para nós aprendermos a não mentir para nós mesmos."2 Ademais, precisamos ter o cuidado de não tentar "passar glacê" em nossos erros. Conta-se que determinada senhora se tornou muito rica e conquistou uma alta posição na sociedade. Certo dia ela resolveu contratar um escritor para elaborar um livro narrando a história de sua> família. No processo de pesquisar a árvore genealógica dessa mulher, o escritor descobriu que um dos avôs dela fora assassino e morrera eletrocutado na Prisão de Síng Sing. Ele comunicou à sua cliente que o episódio teria de ser incluído no livro. Ela lhe suplicou que arranjasse um meio de narrar o fato de forma disfarçada. Quando a obra ficou pronta, o incidente foi descrito assim: "Um dos avôs dela ocupou a cadeira de aplicação de eletricidade em uma das mais importantes instituições dos Estados Unidos. Ele era muito apegado a essa posição e praticamente morreu nela." Quando iniciei o curso de Psicologia, fiquei fascinado com os estudos que eram realizados com ratos para análise comportamental. Uma das experiências constava de colocar um rato dentro de um compartimento cujo assoalho era uma espécie de grelha de metal. Essa grelha era ligada a uma corrente elétrica, de modo que os animais recebiam choques nas patas. No interior da caixa, havia um pequeno pedal que, ao ser acionado, desligava a eletricidade. Assim que os psicólogos colocavam os ratos nessa jaula, eles corriam, saltavam, guinchavam e batiam com a pata na grelha. Com o passar do tempo, porém, tocavam no pedal e o choque parava. A média dos ratos


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aprendia isso após a décima tentativa. Então corriam ao interruptor e o apertavam. Mediante uma seqüência de ensaios e erros, os animais aprendiam a ter a reação correta. Como ocorria essa aprendizagem? Nas nove tentativas iniciais, eles cometiam diversos erros, cada um com uma conseqüência dolorosa. Desse modo, descobriam que correr, pular, guinchar e bater na grelha não adiantava nada. A certa altura, decidiam tentar um recurso diferente. Quando H a descrição dessa experiência, logo pensei: "Puxa! Como esses ratos são inteligentes! Eles aprendem a lição com apenas dez tentativas!" Na maioria das situações, eu faço bem mais de dez "tentativas" para aprender o que Deus está pacientemente querendo ensinar-me. E quando a falha que cometemos é um pecado, temos de dar mais um passo. Lemos em l João 1.9 que "se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça". Uma coisa é nos entristecermos por causa de um pecado cometido. Qualquer um pode sentir essa tristeza. Outra muito diferente é buscar a presença de Deus em oração e confessar-lhe o erro. Oswald Chambers afirmou: "A causa dos maiores problemas da vida é não aceitarmos o fato de que pecamos... É preciso entender que todos os homens possuem mesmo um impulso carnal, bem como a tendência para o erro e o egocentrismo. Se nos recusamos a admitir isso, ao viver um momento de trevas, em vez de reconhecermos o pecado e o sofrimento que ele causa, imediatamente fazemos concessões e dizemos que não adianta lutar contra o mal."3 Em sua segunda carta aos coríntios, Paulo afirma que estava muito alegre por ter percebido que eles tinham sido contristados e haviam chegado ao arrependimento. "Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte." (7.10.) O termo que o apóstolo emprega, aqui traduzido como arrependimento, significa que eles haviam mudado de idéia com relação ao problema; não que se sentiam melhor. Arrependimento é uma daquelas palavras antiquadas que não ouvimos com muita freqüência hoje em dia. É um daqueles termos que não consideramos mais "politicamente corretos". No entanto é o fator decisivo para nos tornarmos homens e mulheres santos. É verdade que se trata de uma atitude difícil para todos nós, principalmente na sociedade atual. Por quê? Em parte porque arrepender-se implica responsabilizar-se pelos erros cometidos. E como já mencionamos, as pessoas hoje não aceitam mais essa responsabilidade. Todos são vítimas. Ninguém peca mais; apenas tem problemas.


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O verdadeiro cristianismo, porém, não fica só na tristeza; ele passa ao arrependimento. E como escreveu Eugene Peterson: "O arrependimento não é uma emoção... é um reconhecimento. Arrepender-n os é reconhecer que erramos ao supor que poderíamos gerir nossa própria vida, ser nosso próprio deus. E enxergar que estávamos enganados ao pensar que tínhamos a capacidade, a instrução e a formação necessárias para vencer sozinhos, ou então que poderíamos adquiri-las. É compreender que ouvimos uma porção de mentiras com relação a nós mesmos, ao nosso próximo e ao mun-i do. E é entender também que, em Jesus Cristo, Deus nos revela a verdade. Arrepender é reconhecer que nunca faremos aquilo que Deus requer de nós nem conseguiremos o que queremos dele se continuarmos com as mesmas idéias, atitudes e atos."4 E Gordon MacDonald expressou algo na mesma linha de pensamento. Diz ele: "Arrependimento não é algo que se pratica uma só vez e pronto. Na realidade é uma constante na vida espiritual. Viver em permanente estado de arrependimento é reconhecer que o coração é propenso a descambar para caminhos errados e que temos de estar sempre a recolocá-lo sob o controle de Deus. É claro que isso não implica viver continuamente numa mórbida atitude de introspecção, depreciando-nos e procurando pecados em nós. Significa, isso sim, admitir que nosso ser interior é inclinado a rebelar-se contra nosso Criador e a desobedecer-lhe; e que será assim até o fim dos tempos»."5 Recentemente uma conhecida cantora evangélica confessou um relacionamento adulterino, que mantinha com um músico cristão, e pediu perdão em público. Obviamente isso significou o fim da carreira deles nessa área. Ela divulgou um comunicado em que, com toda sinceridade, reconhecia seu erro. Disse ela: "Lamento profundamente que o público tenha ficado magoado com minhas falhas e problemas pessoais. Estou muito triste pelo que fiz e pelo fato de tanta gente ter ficado contristada com meu erro." Ela reconheceu ainda o seguinte: "Devido aos erros que cometi, entendo que não me é mais possível continuar nessa atividade. Assumo plena responsabilidade pelas decisões que tomei e pelas conseqüências delas resultantes." E concluiu: "Espero que o que fiz não traga descrédito à mensagem acerca da qual cantei e em que cri, mas mostre o fato de que todos nós somos fracos e falhos, apesar de nossa tentativa de levar uma vida justa. Quando Jesus morreu, cumpriu a pena que não poderíamos cumprir, e é nisso que repousa minha esperança. Sou um exemplo vivo de que existe amor, graça e


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misericórdia incondicionais da parte de Deus para todos nós." Nossa disposição de encarar a verdade com relação a nossas falhas definirá as possibilidades de nos transformarmos e crescermos. Ela também determinará a medida em que Deus irá abençoar-nos. Sétimo passo: Assumir a responsabilidade pelo erro cometido. Reconhecer que cometemos um erro é muito diferente de assumir plenamente a culpa por ele, como fez aquela cantora. Pensemos nos seguintes exemplos. Pauline Zile tentou encobrir o assassinato de sua filha. Ela disse que, na verdade, a culpa foi de John Aile. Uma mulher chamada Clover Boykin confessou que matou o filho, inas afirmou que o culpado de tudo, na realidade, era o pai dela. Os irmãos Menendez mataram os pais, mas disseram que, na realidade, a culpa foi dos próprios pais. Um agente do FBI foi despedido por haver roubado certa quantia em dinheiro, que depois ele mesmo perdeu no jogo. Contudo o juiz que apreciou o caso concluiu que esse homem fora vítima do vício de jogar. E assim tiveram de reintegrá-lo em sua função. Certo homem que estava sendo julgado pelo assassinato da esposa alegou que atirara nela e a matara motivado por distúrbios do sono. Um libanês que atirou em dois judeus em Nova Iorque e os matou afirmou que fizera isso devido aos traumas emocionais causados pelos problemas que tivera na infância, em Beirute. Antigamente falava-se que os Estados Unidos era a terra dos homens livres e o berço dos corajosos. Hoje é a terra dos sem culpa, sem erro e sem responsabilidade. Estamos colhendo os resultados de uma ética relativista desenfreada. Não importa o que aconteça, todo mundo é vítima. A culpa sempre é de outrem. Esse tipo de mentalidade nos transforma em lamuriadores, em vez de vencedores. Demonstrando grande lucidez e muita sinceridade, Haddon Robinson escreveu o seguinte: "Os descendentes de Adão e Eva - principalmente os que estão aqui nos Estados Unidos - transformaram o vitimar4 numa refinada arte, num artigo de fé... Quem quiser enriquecer hoje é só investir nisso. É a indústria de maior desenvolvimento neste país. Hoje há milhões de pessoas que ganham muito dinheiro identificando vítimas, representando-as, entrevistando-as, 4

A idéia de que todo mundo, mesmo aqueles que cometem grandes crimes, é vítima de um erro de outrem. (N. da T.)


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tratando delas, fazendo seguro para elas, aconselhando-as, pregando para elas e, obviamente, sendo vítimas. "O grande problema de Adão e Eva foi que o Criador não era um apresentador de programa de entrevistas da televisão. Se eles tivessem cometido seu pecado hoje, Geraldo 5 ou Donahue os teriam apresentado como vítimas, e a serpente como um mero facilitador do erro. E assim que terminasse o programa, eles encontrariam um advogado a esperá-los nos bastidores, assegurando-lhes que poderiam mover uma ação contra Deus por danos morais, pois a ganhariam tranqüilamente."6 Infelizmente, essa idéia de que somos meras vítimas sociais nos leva a procurar um "bode expiatório" e não um Salvador. Se não tenho culpa pelo que fiz, se outro é o culpado, não preciso de um Salvador. O outro é que precisa. A sociedade atual modificou a letra daquele velho negro spiritual que dizia assim: "Não é minha mãe nem meu pai, mas sou eu, Senhor, Que preciso muito de oração..." Hoje o cantamos da seguinte maneira: "Não sou eu, mas minha mãe e meu pai, Senhor, Que precisam muito de oração..." Contudo os verdadeiros vencedores são aqueles que aprenderam a reconhecer os próprios erros, confessá-los e assumir plena responsabilidade por eles. Oitavo passo: Analisar o que aconteceu. Neste ponto, vamos passar da recuperação para a descoberta, da mera sobrevivência para a vitória. No oitavo passo, responderemos a uma série de perguntas. Geralmente o erro grave que praticamos e que nos deixa arrasados é uma falha que já cometemos anteriormente. É possível que antes ela tenha ocorrido com menos intensidade e em circunstâncias diferentes. Pode ser também que suas conseqüências não tenham sido tão graves quanto agora. Todavia temos de reconhecer que "já fizemos isso antes". O problema é que, infelizmente, não aprendemos as lições necessárias com as experiências anteriores. Então nosso Pai celestial, em seu imenso amor, está nos forçando a "repetir o ano", para que "obtenhamos média" nessa matéria e "sejamos aprovados". O primeiro grupo de perguntas tem a ver com as experiências passadas. Para fazer a análise do erro, então, vamos pegar um pedaço de papel e um lápis, colocar a Bíblia por perto e responder às perguntas seguintes. Isso já aconteceu antes? 5

Apresentado rés de programas de entrevistas na televisão, sendo que o primeiro já foi transmitido no Brasil algum tempo atrás. (N. da T.)


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Quando foi? Como reagi? O que foi que fiz para corrigir o problema, mas que não adiantou? O que poderia ter aprendido com a experiência, mas não aprendi? Nessa análise, algumas vezes descobriremos fatos impressionantes. Em outras, talvez percebamos apenas detalhes aparentemente insignificantes. Ambos são de grande valor. Podemos descobrir, por exemplo, uma série de pequenas práticas que nos levaram a tomar certas decisões que, por sua vez, nos enfraqueceram diante da tentação. Muitas vezes, as práticas que nos predispõem ao erro não são pecaminosas em si mesmas. Não é pecado, por exemplo, comer uma bolacha a mais, ou ficar com o controle remoto na mão e dar "um giro" pelos canais, ou assistir a um filme num canal da tevê por assinatura, ou ainda ficar acordado até tarde para ver um daqueles programas bons que são exibidos à noite. Contudo, seja temos problema de obesidade, se reconhecemos que perdemos muito tempo em frente do televisor, se sentimos que aquele filme está enfraquecendo nossa resistência à tentação e se dormir tarde nos leva a levantar tarde, sacrificando assim nosso momento devocional pela manhã, essas atividades aparentemente inócuas nos predispõem para pecar, O perigo fica evidente quando começamos a racionalizar e a dizer: "Ah, isso não é tão errado assim!" "Eu não Consegui resistir." "Poderia ter sido bem pior!" "Ah, mas eu não estou cometendo esse, esse e aquele erro!" Quando analisamos o problema de Mary, no início do capítulo 5, vimos que a crise que ela viveu não foi causada por um fator único, mas pela soma de pequenos problemas. Contudo o peso maior foi a convicção de pecado que sentiu pelo envolvimento com um amante. Ela reconheceu que seu ato era pecaminoso, arrependeu-se dele e o confessou. - O que faço agora? indagou. Respondi que o passo seguinte era relembrar o acontecido e analisá-lo. - Nosso objetivo no oitavo passo, expliquei, é "garimpar" o erro e procurar descobrir o "ouro" que se acha embutido nele. Enquanto estudávamos o que lhe acontecera, ela se deu conta de que havia racionalizado e feito concessões ao pecado, contrariando princípios que conhecia bem. Um deles foi o de Provérbios 4.23, que diz: "Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes


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da vida." E na Bíblia Viva, ele está bem explícito. "Acima de tudo, guarde os seus afetos, porque influem em tudo o mais na sua vida." - Eu conhecia bem esse texto de Provérbios 4.23, disse Mary. Aliás, até o ensinei para meus filhos. Mas por um mo mento me esqueci dele. - Esqueceu? perguntei. Ela riu e replicou: - Bom, na verdade não esqueci. Acho que decidi ignorá-lo. E foi o quanto bastou. Depois de "garimpar" os erros do passado, vamos voltar a atenção para o que cometemos no presente. Passamos, então, às perguntas seguintes: O que fiz de errado? O que foi que me predispôs para o erro? Que justificativas dei? O que foi que fiz que enfraqueceu minha resistência à tentação? O que minha consciência tentou dizer-me, e eu ignorei? O que foi que fiz que me deixou mais vulnerável ao pecado? No capítulo 2, mencionamos as causas mais comuns do erro. Quem tiver dificuldades para responder a essas perguntas, talvez deva reler esse capítulo. Nono passo: Avaliar o que podemos modificar na próxima vez. Se alguém entrasse numa sala e me visse ligando e desligando o interruptor umas duas vezes, não pensaria nada demais. Contudo, se daí a quinze minutos essa pessoa voltasse lá, e eu ainda estivesse fazendo o mesmo, provavelmente iria duvidar de minha sanidade mental. Por quê? Porque se a luz não acendeu nas primeiras tentativas, o que me levava a pensar que acenderia na centésima? Nada. Permanecer ali mexendo no interruptor seria uma atitude absurda. Assim também é loucura nossa continuar tomando decisões que nos conduzem ao erro e ao pecado. Uma definição de loucura que considero muito acertada é a seguinte: "Loucura é descobrir que determinada prática não dá certo e continuar com ela assim mesmo." Algumas pessoas passam a vida toda reféns da vã esperança de que se continuarem fazendo algo do mesmo modo, mais cedo ou mais tarde aquilo acabará dando certo. Até pode ser que dê, mas o normal é não dar. Todas as vezes que cometemos um erro, temos a oportunidade de aprender uma lição. No oitavo passo, analisamos o que aconteceu, o que deu certo e o que não deu. No nono, vamos responder às seguintes perguntas:


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"Que lição estou aprendendo com este erro? O que mais posso assimilar a partir dele? Já sei o que não dá certo. O que devo mudar nessa situação?" Aprender implica tentar implementar alguma mudança. E claro que ao procurarmos fazer algo de modo diferente poderemos ainda cometer falhas. Contudo sem errar não aprenderemos nada. É fato que há gente que erra e nunca aprende. Portanto a falta em si só não adianta. Precisamos dela e de algo mais. Temos de descobrir um modo de analisar a nós mesmos e aos nossos erros com o objetivo de procurar lições neles. Thomas Edison disse certa vez: "Resultados! Ora, já obtive muitos resultados. Sei de mais de mil experiências que não deram certo!" Aqueles que atingem o sucesso geralmente são pessoas que se arriscam. Certo dia ouvi um conferencista afirmar o seguinte: "Quem quiser dobrar seu índice de sucessos, terá de dobrar o de insucessos também." De todo modo, é praticamente impossível evitar erros. Portanto todas as vezes que, ao cometermos um erro, tomarmos a decisão de tirar dele alguma lição, estaremos fortalecendo nosso caráter e crescendo de alguma forma. Quando eu estava na escola primária, adorava entrar no "Joguinho das Vinte Perguntas". Ouvi dizer que alguns professores ainda o utilizam para estimular o raciocínio lógico nos alunos. Vamos recordar um pouco esse jogo. O objetivo era adivinhar um número previamente escolhido, entre um e mil, fazendo um máximo de vinte perguntas, cujas respostas seriam sempre "sim" ou "não". Nunca aconteceu, que eu me lembre, de alguém ter descoberto qual era o número logo após fazer a primeira pergunta. O segredo da brincadeira é ficar atento às tentativas falhas, para ir reduzindo cada vez mais as possibilidades e descobrir o número desejado ao chegar à vigésima pergunta. Uma criança que ainda não aprendeu o valor do erro pode ficar traumatizada nesse jogo. Digamos que ela pergunte: "O número fica entre quinhentos e mil?" Se a resposta for "Sim", ela gritará de alegria. Contudo se disserem "Não", ela talvez se sinta desanimada e solte uma exclamação de desagrado, embora a negativa também seja unia informação sobre a identidade do número. Certa professora relatou que os alunos mais ansiosos, às vezes, repetem uma pergunta já feita por outrem simplesmente para ter a satisfação de ouvir uni "Sim".7 Existe muita gente (tanto crianças como adultos) que se apega à idéia de


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que a única resposta desejável é "Sim". Isso é conseqüência negativa de uma formação errada. Essas pessoas adquiriram a noção de que só as respostas positivas são boas. Nunca aprenderam a tirar lições dos erros cometidos e talvez nem saibam que é possível aprender com eles. Então vamos aplicar o princípio de aprendizagem contido no "Jogo das Vinte Perguntas" à nossa vida. O que devemos fazer quando não soubermos como agir? A primeira atitude deve ser voltar ao oitavo passo e verificar se tiramos todas as lições que poderíamos obter dos erros anteriores. Para sabermos o que pode dar certo, vamos eliminar o que já vimos que não deu. Em seguida, será bom nos aconselharmos com amigos sábios. Perguntemos a eles seja viveram uma situação semelhante à que estamos passando. Como agiram diante do problema? O que deu certo e o que não deu? Que lições aprenderam com ele? A Bíblia ensina que com os muitos conselheiros há bom êxito (Pv 15.22). Se depois de darmos esses passos ainda não soubermos o que fazer, o melhor é não fazer nada, Evidentemente Deus quer que esperemos um pouco. Quando não estivermos certos do caminho a seguir, poderemos fazer aquilo de que temos certeza. Vamos buscar o Senhor em oração, ler a Bíblia, pautar nossa vida pelos princípios cristãos básicos. Vamos encher-nos do Espírito e deixar que o seu fruto se manifeste em nosso viva:. O meio de nos libertarmos do erro é entender o que precisamos fazer agora e definir como iremos agir da próxima vez em que a situação ocorrer. Todavia nem é preciso esperar que ela ocorra. Podemos "imaginar" que ela está acontecendo neste momento e assumir diante de um amigo a nova reação que vamos ter. Se treinarmos essa nova atitude de cabeça fria, será bem mais fácil reproduzi-la quando a tentação ocorrer de fato. Décimo passo: Apropriar-nos do perdão de Deus. Gosto muito de esquiar na neve. Não sou lá um grande esquiador, mas me divirto bastante deslizando montanha abaixo. Uma das muitas vantagens de se morar perto dos Montes Rochosos é que ali há muita neve e pontos excelentes para se praticar esse esporte. No ano passado, fui esquiar com meu amigo Jim Tallant. Eleja foi instrutor de esqui e participou da patrulha. Por isso fiquei na expectativa de receber dele algumas orientações que me ajudassem a melhorar meu desempenho. Depois de observar-me umas duas vezes, Jim comentou: - Gary, você até que tem um bom potencial. Seu grande problema é uma questão de perspectiva. Em seguida explicou que eu estava olhando demais para os esquis. - Mas se eu não olhar para eles, objetei, como vou saber se estou indo


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na direção certa? - O fato de ficar olhando para eles impediu que você caísse? indagou ele. Ambos sabíamos muito bem a resposta. - Então, continuou ele, na próxima descida, olhe a paisagem. Se ficar de olho nas montanhas, conseguirá melhorar o equilíbrio. Sabe o que aconteceu? Ele tinha razão. O modo como eu estivera esquiando não estava dando certo, mas eu vinha insistindo nele. Quando Jim sugeriu-me que o modificasse, concordei. E essa mudança de perspectiva corrigiu meu desempenho no esporte. Esse princípio se aplica também ao modo como devemos proceder diante dos erros. Quando falhamos, nossa tendência é ficar remoendo o erro e as decepções e, assim, permanecemos presos a eles. Contudo, tão logo alteramos nosso comportamento e passamos a agir como Deus quer, tudo se torna bem mais simples. Se se trata de um pecado, vamos arrepender-nos dele, confessá-lo e tirar do fato todas as lições que pudermos, no objetivo de evitar que se repita. Vamos tomar a decisão de receber o perdão de Deus, de nos apropriar dele. Por vezes, é relativamente fácil perdoar os erros de outros. Contudo, quando se trata dos nossos, somos impiedosos. Passei muitos anos a me recriminar por causa de atos pecaminosos e egoístas que praticara. Sabia que Deus havia me perdoado, mas eu mesmo não conseguia perdoar-me. Quem cometeu algum erro contra outrem deve tomar providências para explicar-se e pedir perdão. Se precisar fazer a reparação do erro, faça-o o mais rápido possível e com todo empenho, Quem foi alvo de um erro de outrem deve procurar essa pessoa ou pessoas e seguir as instruções que Jesus dá em Mateus 18. Se elas o acolherem bem, reconhecerem seu erro e lhe pedirem perdão, perdoe-lhes. Todavia, mesmo que não o peçam, é melhor para nós e para o reino de Deus que lhes perdoemos. Não tentemos nos fazer de mártires nem procuremos tirar proveito pessoal do caso. Décimo primeiro passo: Colocar o plano em ação No Salmo 5, vemos Davi implorando a Deus que lhe mostre o que deve fazer. Diz ele: "Dá ouvidos, Senhor... Escuta... a minha voz que clama..." (Vv. 1,2.) Nós já demos esse passo que, pelo menos para mim, é o mais fácil de todos. O mais difícil é o que vamos dar agora: fazer o que Deus nos diz. Minha maior dificuldade não é saber qual a providência a tomar; é tomá-la. A esta altura, já respondemos à pergunta "O que devo mudar?" Já oramos e meditamos sobre o problema. Talvez já tenhamos buscado a


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orientação de amigos sábios. Já ensaiamos a nova reação que iremos adotar. Agora, como diz aquele comercial de tênis, "Simplesmente faça!" Fiquemos na expectativa de aplicar o que aprendemos na primeira oportunidade que surgir. Satanás gosta de "brincar" em nossa mente e atormentar-nos com questões triviais. Tem prazer em atazanar consciências super escrupulosas, fazendo com que percam a paz. Adora levar-nos a um incessante auto-exame. Portanto o melhor momento para pôr em prática aquilo que Deus tem nos ensinado é agora. Não esperemos chegar a "hora certa". Quando passarmos por um dos inevitáveis "vales" desta vida e nos sentirmos sem fé e sem certeza alguma, quando nos faltar a autoconfiança e as energias necessárias para darmos o último passo, só há uma atitude a tomar. Temos de dar o passo pela fé. Temos de atravessar esse "vale", crendo que aquele que prometeu que nunca nos abandonaria cumprirá sua promessa. Uma passagem maravilhosa relacionada com essa questão é Hebreus 12.1-3: "Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus. Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em vossas almas." Nesse texto, encontramos algumas instruções que podemos observar. • Lembremo-nos do exemplo dos homens e mulheres fiéis que viveram antes de nós. • Rejeitemos todos os "pesos", tudo aquilo que possa embaraçar-nos ou retardar nossa corrida. • Corramos a carreira com empenho e perseverança. • Não nos espantemos se notarmos que estamos um pouco cansados. • Mantenhamos os olhos fixos em Jesus. Algumas pessoas crêem que pôr o plano em ação é a última etapa. Grande engano! Precisamos dar ainda um passo muito importante para completarmos o processo de crescimento. Décimo segundo passo: Comunicar a outros o que Deus nos ensinou.


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O último ato do processo de crescer por meio dos erros que cometemos é falar a outros das lições que aprendemos com o fato. O Dr. Harold Englund estava certo ao afirmar: "Quando 'boto um ovo', ponho meu autógrafo nele e o ergo bem alto para que todos o vejam." Ele compreendeu que a melhor maneira de assumir com seriedade aquilo que Deus nos ensinou e incentivar outros a confiar em sua fidelidade é divulgar nossas vitórias. Contudo, ao propagar o que nos sucedeu, temos de frisar o que Deus fez; não o que nós fizemos. Há uma grande diferença aí. Tenho ouvido muitos testemunhos em que 90% do que é dito são descrições dos "prazerosos" detalhes dos pecados passados do indivíduo, e apenas 10% são louvores a Cristo. Parece que tais pessoas se deleitam mais falando sobre "o salário do pecado" do que sobre "o dom gratuito de Deus". Sempre que Deus realizava um ato importante em favor de seu povo, no Velho Testamento, eles erguiam um marco para lhes servir de memorial. Quando os filhos de Israel atravessaram o Jordão para adentrar a Terra Prometida, por exemplo, Deus deu a seguinte instrução a Josué: "Tomai do povo doze homens, um de cada tribo, e ordenai-lhes, dizendo: Daqui do meio do Jordão, do lugar onde, parados, pousaram os sacerdotes os pés, tomai doze pedras; e levai-as convosco e depositai-as no alojamento em que haveis de passar esta noite." (Js 4.2,3-) Aquelas pedras constituíam um sinal concreto daquilo que Deus operara. E Josué lhes explicou: "... quando vossos filhos, no futuro, perguntarem, dizendo: Que vos significam estas pedras?, então, lhes direis que as águas do Jordão foram cortadas diante da arca da Aliança do Senhor; em passando ela, foram as águas do Jordão cortadas. Estas pedras serão, para sempre, por memorial aos filhos de Israel." (Js 4.6,7.) Às vezes, eles estabeleciam esses marcos para assinalar urna lição que haviam aprendido ou uma orientação recebida de Deus num momento de transição ou de decisão. Tais marcos - embora isso possa parecer estranho - podem ser tão valiosos para nós quanto o foram para os israelitas, três mil anos atrás. Podemos utilizar-nos deles para falar a outros das lições preciosas que Deus nos ensinou por intermédio dos erros que cometemos. Tenho vários desses marcos. E cada um deles acha-se associado a um versículo bíblico pelo qual Deus me falou ao coração. É possível que nem todo mundo associe versículos às falhas graves que comete, mas não tenho dúvida de que pelo menos algum princípio espiritual Deus sempre ensina ou traz à memória de todos nós. Então talvez seja interessante criarmos esses


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memoriais concretos, como fazia o povo do Senhor no passado. Dos meus marcos, o que mais atrai o interesse dos outros é um bastante inusitado. Estabeleci-o numa ocasião em que tudo estava indo de vento em popa para mim. Meu ministério de aconselhamento crescia. Eu estava escrevendo um livro e dando muitas entrevistas pelo rádio. Os convites para fazer preleções eram tantos que não tinha condições de aceitar todos. Sentia-me esgotado. Fazia um bom serviço para Deus, mas não o melhor. Minha motivação para o trabalho era correta, mas eu não estava parando para escutar a voz tranqüila e suave do Senhor. Quero dizer, eu a escutava, mas não lhe dava atenção. E a pressão foi só aumentando. Aí começaram a surgir alguns problemas. A qualidade de meu trabalho baixou um pouco, E quanto mais descontrolado me sentia, mais me esforçava para manter o controle de tudo. Meus amigos já não estavam mais apreciando minha companhia. Minha esposa e meus filhos também não. Nem eu estava me suportando! Afinal, numa semana em que tivera muitas dificuldades, comecei a perceber o quanto me achava exausto. Assim que abri a Bíblia, Deus me falou por meio de duas passagens. Uma foi o Salmo 46.10: "Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus..." A expressão aquietai-vos significa "parem de lutar". E a outra foi Filipenses 4.6,7: "Não andeis ansiosos de cousa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus." Ao ler esses textos, dei-me conta de que, mais uma vez, estava me deixando levar por minha tendência perfeccionista e compulsiva; e já corria o risco de sofrer um esgotamento. O pior, porém, era que, cora isso, eu ia me tornando cada vez mais vulnerável à tentação e ao pecado. Pedi a Deus um lembrete concreto dessa importante lição. Aguardei uns instantes em silêncio, mas nada me ocorreu. Alguns minutos depois, subi ao quarto de meu filho Matthew para aquela conversazinha habitual de todas as noites, seguida de uma oração, uma rápida massagem nas costas e um beijo. É um "ritual" que observo diariamente com meus filhos. Assim que entrei, ouvi o barulho do seu hamster, que girava incessantemente sua rodinha dentro da gaiola. Vireí-me para olhá-lo, e nesse momento uma voz interior me disse: "É isso aí, Gary! Eis o marco que você queria!" Lembro-me de que ri e pensei: Não; isso é bobagem! Entretanto aquilo era a figura perfeita. Então comprei para mim uma gaiolinha com uma rodinha, pus um hamster nela e a coloquei em um canto de meu gabinete. Sempre que alguém me pergunta o que significa aquilo, dou um sorriso. Por causa dele, tenho tido a chance de anunciar a milhares de pessoas o que


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Deus me ensinou. Além de passar a outros as lições contidas no Salmo 46.10 e em Filipenses 4.6,7, tenho uma nova "aula" sobre a provisão e a fidelidade de Deus. Relembro que ele é o Senhor dos meus sucessos e também das minhas falhas. Satanás quer que fiquemos sempre pensando em nossas falhas. Ele aproveita toda oportunidade que aparece para nos relembrar o passado, ao qual gostaria muito que vivêssemos presos. Deus, porém, deseja que lembremos aquilo que ele nos ensinou sobre si mesmo (e sobre o que somos por estarmos nele) por intermédio das falhas. O anseio de Satanás é que fiquemos olhando para aquilo que perdemos. Deus quer que recordemos o que aprendemos. O inimigo quer que sintamos o sofrimento associado àquela situação. Deus quer que enxerguemos a grandeza da sua fidelidade. Quando você recorda seus erros do passado, percebe que seguiam um padrão similar? Eu observo isso nos meus. Eles costumavam ocorrer quando eu assumia compromissos excessivos, dos quais não dava conta, e utilizava mal o tempo. Deus estava tentando ensinar-me a dar prioridade ao que era mais importante, a dizer "Não" quando Fosse necessário e a associar a ele meu senso de identidade. Ele mostrou-me que minha aceitação se baseia na obra realizada por Cristo na cruz; não em minha conduta, nem em minha produção profissional, nem em minha capacidade de agradar a outros. Sejam quais forem as lições que Deus nos ensinar, vamos lembrar sempre de comunicá-las a outros, tanto verbalmente como por meio desses marcos concretos. Com isso e mais os outros onze passos que analisamos nesses dois capítulos, não apenas "sobreviveremos" às falhas, mas também amadureceremos. Assim tiraremos um bom proveito delas. Para pensar 1. Relembre algumas das falhas que cometeu recentemente e responda às seguintes perguntas: Havia pontos comuns entre elas? Qual a importância desses pontos para você? Será que são um mero resultado da queda do homem? Por intermédio delas, Deus está querendo mostrar-lhe uma direção a tomar? São alguma prática que você deseja modificar? Como você estará, daqui a cinco anos, se continuar cometendo esses mesmos erros? 2. Escreva uma frase resumindo, com suas próprias palavras, cada um dos doze passos que acabamos de analisar. 3. Dissemos que nossos erros podem ser um peso para nós u


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conferir-nos asas. Descreva situações em que eles foram "asas" ou "uni peso" para você, e o que aprendeu com essas experiências. Capítulo 7 Lições Que Aprendemos Com As Falhas O mundo adora as pessoas bem-sucedidas. Considera-as importantes; os fracassados, não. Os vitoriosos têm muitos amigos; os fracassados, não. Os homens de sucesso são felizes; os fracassados, não. Os vitoriosos têm grande valor; os fracassados, não. É por essa razão que se escreve mais sobre o sucesso do que sobre o fracasso, Quando eu era garoto, detestava perder nas brincadeiras infantis. Depois que cresci e me casei, perdi algumas vezes de minha esposa no jogo de tênis; e achei horrível. E tenho vergonha de confessar, mas detesto perder para meus filhos também. Perder tem muito a ver com falhar, e não gosto da sensação de fracasso. Contudo, à medida que vou amadurecendo, mais concordo com Michael J. O'Neill, que afirmou o seguinte: "Perder, em sua forma mais pura, é um dos mais elevados ingredientes da vida do homem. É o elemento básico do crescimento. As grandes descobertas foram precedidas de grandes fracassos. E as batalhas que perdemos são tão importantes quanto as que ganhamos. Os erros cometidos durante séculos abriram o caminho para enormes avanços na civilização. A derrota é a matéria-prima de que são feitos os campeões."1 Vamos examinar a vida de um homem que muitos considerariam um fracassado. Trata-se de James Earl Jones, um ator de cinema que vimos recentemente no filme Campo dos Sonhos. Ele ganhou três prêmios "Emmy", dois "Tony", um "Globo de Ouro" e um "Grammy". O que pouca gente sabe é que, aos quatorze anos, James era um jovem desajeitado, acanhado e tão gago que evitava falar em sala de aula. Obviamente esse rapazinho, também muito inseguro, andava quase sempre sozinho. Ainda bem pequeno, fora arrancado de sua cidade natal em Mississipi, no sul dos Estados Unidos, e se mudara para um sítio nos arredores do povoado de Dublin, em Michigan. De certa maneira, foi uma mudança para melhor, no que dizia respeito à sua família. Contudo não deixou de ser difícil para James. Diz ele: "A viagem acabou me proporcionando mais oportunidades para estudar. A região era melhor, com mais liberdade e menos ódio racial. Mas eu estava partindo de uni lugar que amava." Ao que parece, foi a mudança que provocou sua gagueira. Havia ocasiões em que, devido a esse problema, somado ao seu acanhamento natural, ele se tornava praticamente mudo. Contudo encontrou amigos e gente compreensiva na escolinha que freqüentava em Dublin. A princípio,


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comunicava-se com os professores e colegas escrevendo bilhetes. Certo dia, o professor de inglês, Donald E. Crouch, pediu-lhe que lesse em voz alta um poema que o garoto havia escrito. Dá para imaginar o pavor que o pequeno James sentiu quando se encaminhou para a frente da classe e se pôs a ler? "Para surpresa geral, as palavras foram saindo fluentemente. A gagueira desaparecera. Ele descobrira algo que depois os fonoaudiólogos viriam a saber: a leitura pode ser a solução para os gagos." Isso constituiu uma grande libertação para Jones. Depois de conquistar essa tremenda vitória, ele resolveu que falar em público seria o desafio de sua vida. Passou horas e horas treinando e se exercitando e, afinal, ganhou o concurso de oratória da escola. Como falava muito bem e havia tirado notas excelentes, conseguiu uma bolsa para estudar na Universidade de Michigan. Quando chegou à universidade, a imagem que tinha de si era a de um rapaz "grande, feio e acanhado". Então entrou para um grupo de teatro da faculdade, com a intenção de desenvolver mais autoconfiança. Após a universidade, passou algum tempo no exército. Em 1955, mudou-se para Nova Iorque para fazer o curso de ator. Durante vários anos teve de lutar muito. Ao mesmo tempo ern que estudava, fazia pequenos papéis em teatros menores, fora do circuito da Broadway. Para se sustentar, trabalhava como zelador, juntamente com. o pai, fazendo faxina em prédios e em casas de espetáculo da Broadway. Com o passar do tempo, exercitando muita paciência e perseverança, James Earl Jones acabou se tornando o talentoso e premiado ator que todos conhecem hoje. Se pudéssemos conversar com ele, Jones diria que a força que teve de exercitar, em meio às falhas e frustrações que experimentou inicialmente, acabou tendo um papel decisivo em sua vida, fazendo com que se tornasse o que é hoje.2 Erwin Lutzer afirmou que "as falhas que cometemos são a porta dos fundos do sucesso". Contudo quem é como eu prefere entrar pela da frente. E algumas vezes dá para entrar. Todavia, em outras ocasiões, temos a impressão de que a porta da frente está trancada. Ou então, o que é pior, nossa sensação é de que há ali unia sentinela que não deixa ninguém passar. Quem sonha em ter algum sucesso precisa dar a volta por trás. A certa altura de nossa vida, cometemos um erro e nos vemos diante de algum tipo de fracasso. Aí, como já afirmei, temos de tomar uma decisão. Dependendo da resolução que tomarmos, ou seguiremos pela vida atrás de nosso fracasso ou então cresceremos e passaremos à frente dele. Sei bem o que é isso. Vivi muitos anos temeroso, andando atrás de minhas falhas. Não queria encarar o sofrimento e a vergonha envolvidos no processo nem "diminuir a marcha".


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O que acontece quando nos recusamos a tirar lições de nossas falhas? Acabamos repetindo os mesmos erros. E cometemos ainda outros. Nosso "ponto cego" amplia-se. Com isso, tendemos a praticar erros ainda piores. A outra atitude que podemos assumir é tentar crescer e passar à frente de nossas falhas. É "garimpar" o ouro que existe embutido em nossas experiências dolorosas. É tirar delas toda a riqueza nelas contida. Às vezes descobrimos que as grandes lições que aprendemos são princípios que já conhecíamos e dos quais nos havíamos esquecido. Analisando minhas perdas, aprendi a ter mais respeito pela força do pecado. Passei a valorizar ainda mais a graça de Deus, a ter mais sensibilidade para com as fraquezas humanas, tanto as minhas quanto as de outros, e adquiri mais eficiência em meu ministério. Descobri que uma tragédia pode tornar-nos mais vulneráveis e abertos à correção. Compreendi que, em meio a uma perda, Deus cria em nós a disposição de nos abrir e falar de nosso problema com outros. Afinal, a essa altura, não temos mais nada a perder. Obviamente as falhas não têm nenhum valor intrínseco. É tolice alguém cometer uma falha propositalmente. Contudo, sempre que as cometemos, Deus quer ensinar-nos alguma lição. E é disso que trataremos neste capítulo. Estudando as Escrituras e livros sobre o assunto, bem corno analisando as entrevistas que realizei com centenas de pessoas e minha própria experiência nessa questão, descobri dez lições básicas que todos podemos aprender com nossos erros. Vamos examiná-las urna a uma. 1. Na verdade, não existe o que chamamos de "pequeno"; tudo é grande. "Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito." (Lc 16.10.) Urna das principais lições que aprendemos com o erro é que, nessa questão, não há o que chamamos de falhas pequenas. A grande maioria das que cometi não foi de caráter catastrófico, mas pequeno e aparentemente insignificante. Na maior parte dos casos, não envolveu pecado, mas apenas preguiça, erros de julgamento e falta de firmeza. Entretanto essas "falhas pequenas" me tornaram vulnerável e serviram para me predispor a tomar certas decisões que me afastaram mais do caminho "estreito e apertado". O problema não foram as resoluções iniciais que tomei, mas o rumo a que me conduziram e o fato de haverem atrapalhado minha visão da realidade. Adotando uma série de mudanças pequenas e sutis, eventualmente acabaremos praticando atos que nos levarão ao erro. Satanás sabe que não será fácil afastar-nos totalmente do rumo certo de um momento para outro. Contudo ele faz com que nos desviemos


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ligeiramente do centro do caminho. Depois nos convence de que podemos tomar um atalho "inofensivo", que "não é assim tão errado". Sabe também que se conseguir que tiremos os olhos do Senhor - se nos fizer crer que podemos andar por nós mesmos - terá conquistado uma grande vitória. É aí que está a importância de cultivarmos o hábito de ser fiéis no pouco. Se o formos, não teremos de nos preocupar com o "muito". 2. Buscar a Jesus em primeiro lugar. "Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas cousas vos serão acrescentadas." (Mt 6.33.) Esse versículo é bem conhecido. Muitos de nós até já o decoramos. Trata-se de um princípio bastante simples, com um enunciado ainda mais claro na paráfrase que fizeram dele. "Sature sua vida da realidade de Deus, da iniciativa e da provisão divinas. E não tenha medo de sofrer perdas. Você verá que ele atenderá a todos os seus anseios humanos relativos ao dia-a-dia."3 Por vezes nos esquecemos de que existe apenas um rio da vida, somente uma corrente de águas vivas e só uma pessoa que pode conceder-nos satisfação duradoura - Jesus. Somente ele pode saciar a fome que há em nosso coração e a sede de nossa alma. Ter o verdadeiro sucesso implica buscar a Deus, amá-lo, vê-lo em tudo que nos diz respeito e santificar todos os aspectos de nossa vida, fazendo tudo em seu nome e para sua glória. A Bíblia ensina que a vitória real se baseia no amor a Deus, que se expressa em atos simples, pequenos e comuns. William Law escreveu o seguinte: "Nosso bendito Salvador e seus apóstolos nos deram ensinamentos que se aplicam ao viver diário. Eles ensinaram que temos de: "renunciar ao mundo e ser diferentes dele em nossas atitudes e maneira de viver; "renunciar às coisas boas do mundo, não temer seus males, rejeitar as alegrias que ele nos oferece e não dar valor à felicidade que há nele; "ser como bebês que acabaram de nascer para urna nova vida; "viver como peregrinos, em constante vigilância espiritual e em temor santo, sempre na expectativa de uma outra vida; "tomar nossa cruz diariamente, negar a nós mesmos, reconhecer que chorar é uma bem-aventurança e buscar a bem-aventurança de sermos pobres de espírito; "abandonar o orgulho e a vaidade das riquezas, não nos preocuparmos com o dia de amanhã, viver em profundo estado de humildade e nos alegrar com as provações que experimentamos neste mundo; "rejeitar a concupiscência da carne e dos olhos e a soberba da vida; "suportar os rnaus-tratos, perdoar aos nossos inimigos, abençoá-los e amar a todos do modo como Deus os ama; "consagrar a Deus todo o nosso coração e a nossa afeição e esforçar-nos por


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entrar pela porta estreita, para passarmos a ter uma vida de glória eterna."4 Todo crente - mesmo um recém-convertido - sabe que é um tremendo erro tentar implementar a caminhada cristã na base da força de vontade. Assim que provarmos as profundas mudanças que Deus quer operar em nossa vida, perceberemos que o plano que ele tem para nós é tão vasto que somente ele pode nos capacitar para realizá-lo. Para nos tornarmos crentes maduros, precisamos estar em constante comunhão com ele e esperar dele o suprimento de todas as nossas necessidades. Essa é uma das razões por que aqueles que conhecem as profundezas de suas falhas muitas vezes compreendem bem a "fórmula de sucesso" proposta por Deus. Por outro lado, quem parece estar sempre bem, sempre feliz, sempre na crista da onda, demora a valorizar o modo como Deus opera e aquilo que somente ele pode fazer. 3. A oração muda tudo. "Orai sem cessar." (l Ts 5.17.) Quando eu era noivo de Carrie, sempre achava que o tempo que passava em companhia dela era pouco. Conversávamos quase diariamente. E quando não estava ao seu lado, ficava pensando nela. Antes de um encontro, sempre ficava numa grande expectativa. E não era simplesmente porque queria riscar de minha agenda o lembrete "Encontrar com Carrie", não. Ficava nessa expectativa porque desejava estar em sua companhia, queria conversar com ela, ouvi-la, conhecê-la melhor. Eu passava aqueles momentos junto dela porque a amava. No texto "O Poema do Velho Marinheiro", Samuel Taylor Coleridge diz o seguinte: "Quem muito ama, muito suplica." Já descobri que a oração verdadeira, profunda e real não é motivada por dever, obrigação, vergonha, sentimento de culpa, nem ainda pelo desejo de "pagar dívidas espirituais" para se conquistar o favor de Deus. Ela brota de um coração cheio de amor por ele. Refiro-me a uni relacionamento de amor com Jesus, a uma comunhão íntima, permanente, constante e cada vez mais profunda. Deus deseja que a prioridade máxima de nossa vida seja aprender a amá-lo de todo o coração. Seu anseio não é que desejemos trabalhar para ele nem que realizemos grandes feitos em seu reino, mas simplesmente que o amemos. Uma das melhores maneiras de aprender a amá-lo é manter um momento diário de comunhão com ele. Alguns o chamam de "hora silenciosa". Durante muitos anos, minha motivação ao dedicar-me à hora silenciosa


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era tornar-me um crente mais espiritual. Sabia que os crentes espirituais a observavam e eu desejava ansiosamente ser assim. Desse modo, de certa forma, esse momento de comunhão era apenas mais um item na minha lista de compromissos. Hoje ainda tenho de me esforçar para ser fiel em meu encontro matinal com o Senhor. Contudo já não tenho a mesma luta de antes. Sabe por quê? Em parte, é porque meu intuito não é apenas ter uma hora silenciosa. Na verdade, eu me levanto para conversar com Deus. Existe uma vasta diferença entre as duas atitudes. Tenho um encontro marcado com o Senhor todas as manhãs e sei que ele está me esperando. Minha intenção não é fazer com que Deus me ame mais para que assim eu possa ter um relacionamento com ele. Não. Eu já tenho uma relação com o Senhor e quero aprofundá-la. Faço meu momento devocional porque ele ocasiona uma sensível diferença nos acontecimentos do dia. Um aspecto importante desse momento é a oração. É orando regularmente e com constância que avançamos no caminho da maturidade espiritual. Estou convencido de que, quando oramos, entramos no Santo dos Santos. Deus nos leva aos pés do seu trono. Ali temos unia audiência pessoal com o Criador do universo. E ele está nos aguardando, nos ouvindo, pronto a nos atender. O Senhor quer ver-nos crescendo. Ele está ansioso para que conheçamos seu amor em profundidade e intimidade. Tem prazer em abençoar-nos. E a chave que vai destrancar a porta de seu "depósito" de bênçãos é a oração. Richard Foster comentou o seguinte: "O coração de Deus hoje é urna ferida aberta cheia de amor. Ele sofre ao ver-nos distantes dele e ocupados em outros interesses. Ele se entristece por estarmos esquecidos dele e pelo fato de não nos aproximarmos dele. Chora pela nossa preocupação em ter sempre mais e mais. Anseia pela nossa presença. "E ele nos chama, a todos nós, a que nos cheguemos para junto dele, que é onde deveríamos estar, pois foi para isso que ele nos criou. Está de braços abertos, pronto para nos receber. Seu coração se abriu para que entremos nele. "Já estamos há muito tempo numa 'terra distante'. É um lugar cheio de barulho, pressa e agitação, onde todos querem subir e, para isso, empurram, pisam em outros. É uma terra caracterizada por frustração, medo e intimidação. No entanto Deus quer receber-nos em seu lar, onde há serenidade, paz e gozo; onde há amizade, comunhão e liberdade de se abrir; onde há intimidade, aceitação e aprovação. "Ninguém precisa ficar acanhado. Ele nos abre a porta da sala de visitas


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do seu coração, onde podemos tirar os sapatos, calçar um chinelo velho e falar abertamente do que quisermos. Ele nos deixa entrar na cozinha de sua amizade, onde podemos bater um papo e nos alegrar. Leva-nos também para a sala de jantar de sua força, onde podemos nos banquetear à vontade. Introduz-nos no seu gabinete de trabalho, a sua sabedoria, onde podemos crescer, nos desenvolver e perguntar o que nos vier à mente. Conduz-nos ainda à oficina da sua criatividade, onde podemos tornar-nos cooperadores dele, atuando junto com ele para determinar o desfecho de cada situação. Convida-nos a entrar no quarto do seu descanso, onde encontramos uma nova paz e podemos ficar nus, vulneráveis e livres. Aí também é o local onde temos maior intimidade tom ele, onde o conhecemos mais e ele nos conhece plenamente."5 4, Confiar e obedecer. "Confia no Senhor de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas." (Pv 3.5,6.) Muitas das falhas que cometemos se devem ao fato de não confiarmos plenamente em Deus. O nível da confiança que depositamos nele é que determina nossas ações. Ademais, a maneira como reagimos diante de um erro revela o que cremos com relação a Deus e até que ponto confiamos nele. Deus quer que confiemos totalmente nele, não em nossos recursos financeiros, nem em nossa inteligência, nem em nossa esperteza, nem em nosso carisma, nem em nossos títulos acadêmicos, nem nos anos de vida e experiência, nem no sucesso que já obtivemos. Temos de confiar nele. E nessa questão, nós sempre temos liberdade de tomar uma decisão, independente do que fizemos e de como estamos. Isso é parte de nosso direito como seres espirituais. Comprova que somos criados à imagem de Deus e possuímos os atributos da inteligência, emoção e vontade. A decisão é a seguinte: ou deixamos que os eventos da vida nos carreguem rio abaixo em sua correnteza, batendo numa pedra aqui e em outra ali, ou nos rendemos ao Senhor e paramos de tentar resolver tudo. Para ser sincero com o leitor, devo dizer que o termo rendição não é muito do meu agrado. Entretanto, creia-me, essa experiência de estar nas mãos de um Deus cheio de amor é uma das mais agradáveis da vida. É que fazer uma entrega pessoal a Deus não significa ser derrotado nem fracassado. Significa, isso sim, entregar-lhe nossa necessidade de nos proteger e a de estar sempre no controle de tudo. Significa que cremos nele e lhe obedecemos. E isso pode levar-nos a um novo começo. Ao cometer um erro, temos plena consciência de nossa ânsia de estar no controle de tudo. Aí então podemos nos libertar dela. Infelizmente para nós,


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os que somos mais lentos para aprender, às vezes precisamos cometer uma falha bem grave para termos a coragem de dizer: "Chega! Eu me entrego!" Contudo, acredite-me, estamos valorizando excessivamente a idéia de permanecer como estamos, de nos sentir seguros e de ficar andando em círculos. Não existe alegria maior do que a de nos deitarmos nos braços eternos de um Deus fiel, cheio de amor e de graça. Senhor, eu vim me arrastando por essa terra seca e árida, trazendo a ti meu cálice vazio, temeroso de pedir uma gotinha de algo revigorante. Ah, se eu soubesse, se ao menos eu te conhecesse melhor, teria vindo correndo com um balde. 5. Aceitar as críticas construtivas. "... quando o sábio é instruído, recebe o conhecimento." (Pv 21.11) Alguns anos atrás, alguém me disse que a imagem que eu passava era de um homem dominador e insensível. Minha reação imediata não foi das melhores. Contudo, com a ajuda de Deus, consegui dar atenção a essa pessoa, fiz-lhe algumas perguntas e ela me apresentou algumas provas. Mais tarde, comentei isso com minha esposa e com vários amigos. Todos afirmaram que, em parte, isso era verdade mesmo. Que decepção! Aliás, minha esposa me disse que, embora eu já tivesse melhorado muito, havia momentos em que dava uma impressão bem negativa. Conversando mais sobre a questão, descobri que tinha a tendência de ser dominador quando estava cansado ou com muitos problema para resolver. Foi muito proveitoso saber disso. Agora, quando percebo que estou cansado ou com problemas, fico atento a essa minha tendência e posso me disciplinar no relacionamento com outros. Como é sua primeira reação diante da palavra crítica'? Positiva ou negativa? A minha é negativa. Não gosto que me critiquem, pois isso implica expor minhas falhas. Fico com uma imagem ruim. Significa que há algo que preciso melhorar em mim. E quanto a você, leitor? Seja sincero! Você escuta com atenção as críticas que os outros lhe fazem? Faz mais perguntas a quem o critica para saber se entendeu tudo corretamente? Pergunta-lhe se tem outras observações? Agradece a essa pessoa por ter tido o trabalho de ajudá-lo a aprimorar-se? Provavelmente alguns dos que me lêem são iguais a mim. Sempre que alguém nos critica, temos a tendência de cair na defensiva. Procuramos "desligar" aquilo que não desejamos ouvir e passar a pensar mais nas falhas do outro. Na realidade, porém, aqueles que nos criticam são as "luzinhas


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vermelhas" que Deus coloca em nossa estrada rumo à maturidade, para impedir que caiamos em buracos ou entremos em becos sem saída. É possível que a motivação deles não seja das mais altruístas. Pode ser também que nem tudo que afirmam, seja verdade. Contudo, se percebo que 1% do que dizem é válido, fico atento e me disponho a aprender algo a partir dessa pequena parcela. Um dos grandes problemas daqueles que chegam ao sucesso é que desenvolvem a tendência de ignorar ou atenuar um pouco o que dizem a respeito deles. Nessa situação, é quase impossível ter uma amizade profunda com alguém, aquela relação semelhante ao "ferro que se afia com ferro". As informações pessoais de que tanto necessitamos para continuar a crescer tornam-se mais escassas. A luz que nos orienta para que nos mantenhamos no caminho estreito e apertado fica obscurecida. Passamos a andar em trevas cada vez mais densas. Um líder famoso geralmente só ouve comentários positivos. Por causa disso, corre o risco de cometer falhas desnecessárias. Gordon MacDonald conta que um de seus mentores lhe disse que se cultivasse o hábito de procurar um grão de verdade em todas as críticas que lhe eram dirigidas, poderia aprimorar-se cada vez mais. E MacDonald comenta: ''Antigamente eu não procurava. Meu principal impulso era me defender. Contudo, assim que aprendi a valorizar a crítica de outros, minha devoção espiritual aumentou. "Hoje fico admirado ao constatar que praticamente todas as informações valiosas que recebi a meu respeito vieram de pessoas que me criticavam, tanto das que se interessavam por mim como das que o faziam por animosidade. Sempre que procuramos esse grão de verdade, acabamos encontrando eficiência, fervor e crescimento espiritual."7 Gente madura e equilibrada sabe valorizar uma informação crítica dada com sinceridade. Procuremos incentivar um crítica construtiva e ter amigos chegados que se disponham a nos falar a verdade em amor. 6. Quando erramos, Deus pode perdoar-nos. "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça." (l Jo 1.9.) Uma das funções que mais aprecio numa calculadora eletrônica é a da tecla "on/c". Se eu errar na digitação de um dado ou me embaraçar no cálculo que estiver fazendo, basta apertar essa tecla. E, imediatamente, desaparece tudo que estava no visor, ficando apenas o "0". Aí posso recomeçar minhas contas. Não preciso mais tentar descobrir o que fizera de errado. Aliás, o erro que cometi nem fica registrado nela. Apaga-se totalmente. É isso que sucede aos nossos pecados assim que Deus os perdoa. É fato


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que ainda permanecem a tristeza e parte do sofrimento, bcrn como algumas das conseqüências. Todavia nossa culpa - a condenação penal que pesava sobre nós -acaba-se. Deus não se limita a passar uma caiação por cima; ele apaga tudo. O preço que pagamos por não crermos plenamente na Palavra de Deus é por demais elevado. Perdemos a alegria, o senso de autoconfiança, de vitória e de paz. Passamos a ter sentimentos de derrota, desânimo e depressão. O Dr. Karl Menninger, um famoso psiquiatra, afirmou que se conseguisse convencer seus pacientes das clínicas de doentes mentais que os pecados deles haviam sido perdoados, 75% deles poderiam receber alta no dia seguinte. Graças a Deus, esses erros que cometemos e com os quais Satanás tinha a intenção de nos derrotar, desanimar e desviar do rumo certo constituem uma oportunidade para louvarmos ao Senhor e lhe darmos graças, Eles se tornam lembretes do amor, da bondade e da fidelidade de Deus. Pode ser que no passado o Maligno tenha conseguido roubar nosso gozo com as recordações dolorosas. Contudo, como a Palavra de Deus é verdadeira, as mesmas recordações revelam a vitória que temos em Cristo e acabam aumentando nossa alegria. Nós, os crentes, não precisamos ficar a vida toda nos punindo pelos pecados que já confessamos. Podemos abraçar com firmeza a realidade do perdão divino. No Salmo 103.12, lemos o seguinte: "Quanto dista o Oriente do Ocidente, assim (Deus) afasta de nós as nossas transgressões," E os dois primeiros versículos de Romanos 8 revelam que "agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte". Conta-se que, muitos anos atrás, um homem estava caminhando com sua filha numa campina, na região da pradaria do Canadá. Em dado momento, eles avistaram à distância um incêndio que grassava no mato rasteiro e que daí a pouco chegaria onde se encontravam. O homem compreendeu que só havia uma medida a tornar. Tinham de colocar fogo na relva no ponto onde estavam e abrir uma área bem ampla ao seu redor. Assim, quando o incêndio chegasse até eles, não haveria o que queimar, e eles não correriam perigo. Quando as chamas se aproximaram, porém, a garota ficou apavorada, mas o pai tranqüilizou-a dizendo: "O fogo não vai nos atingir. Ele já passou aqui onde estamos." O mesmo se dá com aqueles que já receberam o perdão de Deus. Estamos seguros, pois nos encontramos num lugar onde o fogo já passou. Jesus pagou o preço em nosso lugar, e nossos pecados já foram perdoados. 7. Não faz mal ser fraco.


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"Se tenho de gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza." (2 Co 11.30.) Quem disse isso foi o apóstolo Paulo. Mas dá para imaginar alguém fazendo essa afirmação hoje em dia? De que tipo de situação as pessoas em geral se gabam atualmente? De suas realizações e de suas vitórias. O que é que procuramos esconder e negar? Nossas falhas e nossos defeitos. No entanto Paulo fala exatamente o contrário. Além de dizer que não tem importância ter fraquezas, ele afirma que se gloriará nelas. Das duas, uma. Ou Paulo não era lá muito certo da cabeça ou então tinha noção de algo que nós não temos. Ele descobrira o valor das lutas e falhas quando vistas pela perspectiva divina. Um aspecto disso é que elas nos obrigam a olhar para nossa carne e identificar os focos de egoísmo e orgulho existentes em nós, dos quais não estamos cientes. Cristo disse a Paulo: "A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza." Diante dessa palavra, o apóstolo concluiu: "De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então é que sou forte." (2 Co 12.9.10.) Paulo tinha tanta confiança na fidelidade e no amor de Deus, bem como em suas promessas e na obra que Cristo realizara na cruz, que se dispunha a correr o risco de errar. Sua fé em Cristo lhe dava liberdade para se gloriar em sua condição humana que estava sendo conformada à imagem de Jesus. Ele "não tinha medo das falhas porque não temia seu potencial para errar. Aceitava suas inevitáveis fraquezas porque entendia que a graça de Deus já cobrira todas elas. Aliás, elas eram o canal através do qual o poder de Cristo poderia manifestar-se em sua vida".8 E as nossas fraquezas também são o canal pelo qual o poder do Cristo ressuscitado poderá manifestar-se em nossa vida! 8. Não desistir nunca. "E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos." (Gl 6.9.) Dan Jansen não é a única pessoa que já levou tombos no gelo. De fato, o gelo é muito escorregadio mesmo. Uma das diversões prediletas de meus filhos, quando vamos patinar no gelo, é ver o pai deles cair. Entretanto quem é campeão mundial nesse esporte não pode cair, principalmente numa olimpíada. E Dan Jansen caiu duas vezes nos Jogos Olímpicos de 88 e uma em 92. Quando chegaram os jogos de 94, todos estavam certos de que ele ganharia a prova dos quinhentos metros. E no dia 14 de fevereiro, uma


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segunda-feira, Jansen entrou na disputa. A altura dos trezentos metros havia uma curva, e ele esticou o braço e tocou no gelo para se equilibrar. O atrito de sua mão no gelo provavelmente fez com que perdesse tempo, e ele chegou em oitavo lugar. Ele perdeu trinta e cinco centésimos de segundo. Essa foi a diferença entre a medalha de ouro e sua colocação: trinta e cinco centésimos de segundo! Alguns dias depois, Jansen compareceu para participar da prova dos mil metros. Quando ali chegou, sua cotação na bolsa de apostas era de O para 6 em todas as provas da Olimpíada. Ele se sentia meio deslocado. Sabia que seu tempo não estava bom. Ele lutava para participar da prova. Sete atletas já haviam feito, só nesse evento, tempos melhores que o que Jansen fizera em toda a sua carreira de desportista. E essa era sua última Olimpíada, sua última oportunidade de ganhar uma medalha. Era sua derradeira chance de "provar" seu valor. Além disso, aquele tipo de competição não era o de que mais gostava. As perspectivas não eram nada otimistas. Entretanto, para alegria de milhões de espectadores nos Estados Unidos, Dan Jansen venceu a prova dos mil metros, batendo o recorde mundial. Encerrava assim uma saga que já durava uma década, caracterizada por expectativas, fracassos e tentativas frustradas nos Jogos Olímpicos. O fato é que ele se recusara a desistir.9 É muito fácil desanimar. Ouvimos muitas "vozes" a nos dizer que não conseguiremos nada. Os outros são melhores que nós. Fatalmente iremos falhar. Não temos capacidade. Ô leitor já deve ter ouvido essas "vozes". Eu já. Aliás, depois de ter obtido cinco títulos acadêmicos, de ter um programa de rádio de alcance nacional, de ter escrito dez livros, de estar lecionando em um seminário importante, de ter um ótimo casamento e uma família muito boa, ainda ouço essas frases. Contudo uma das principais mensagens deste livro é que podemos perfeitamente acertar depois de havermos errado. Aliás, quem se dispõe a tirar lições das falhas que comete tem grandes probabilidades de acertar da próxima vez. Mike Singletary foi jogador do time de futebol americano Chicago Bears. Ele jogava na defesa e ficou famoso pelo fato de sempre conseguir agarrar o jogador adversário, mesmo quando o outro time bloqueava sua jogada. O que acontecia era que, quando ele sofria o bloqueio e caía, imediatamente se levantava. Anos atrás, ouvi Robert Schuller dizer o seguinte: "Conquistar o sucesso é apenas uma questão de nunca desistir. Fracassar é simplesmente desistir antes da hora." Esta frase - "Conquistar o sucesso é apenas uma questão de nunca desistir" - me fez parar e pensar. Analisei situações passadas de minha vida e


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disse para mim mesmo: Ah, se eu tivesse insistido! Ah, se eu tivesse feito mais uma tentativa! Talvez tivesse conseguido o que pretendia! É verdade que por vezes estabelecemos metas pessoais meio fora da realidade. Em outras, os eventos de nossa vida são tais que a melhor atitude realmente é desistir. Entretanto existem situações em que fracassamos simplesmente porque desistimos antes da hora. Já descobri que escrever um livro é um processo emocional por vezes doloroso. E este não está sendo exceção. Em várias ocasiões, separei um dia ou algumas horas para trabalhar nele e, depois de passar muito tempo à frente do computador, via que a telinha do monitor continuava em branco. Tinha vontade de desistir. Sentia-me desanimado, esgotado, incapaz de escrever uma única sentença. Tinha a sensação de que iria fracassar. Minha cabeça estava cheia de outras atividades "importantes" que precisava realizar. Resolvi ter uma conversa com Jesus. "Senhor", falei, "dessa vez o Senhor me colocou numa bela enrascada. Lembra que foi o Senhor quem teve a idéia de escrever este livro! Eu queria abordar um assunto mais fácil, mais atraente para o público. Pensei em falar talvez sobre relacionamentos humanos ou qualquer outro tema, menos sobre nossas falhas. Mas não. O Senhor não queria. Todas as vezes que eu e Carrie orávamos sobre uma nova publicação, o Senhor nos apresentava esse assunto. O Senhor até arranjou um editor com coragem de publicá-lo! Agora, aqui estou eu, mais uma vez, diante de uma telinha vazia. Ajude-me!" Eu me sentia desanimado e bastante frustrado. Foi então que Deus me deu uma brilhante idéia. "Gary", disse ele, "experimente aplicar na prática aquilo que você está escrevendo." Eu não havia pensado nisso. Cometera o erro universal de ficar olhando só para o problema, de modo que não enxergava a solução. Então, em oração, recoloquei o projeto de volta nas mãos de Deus e busquei o incentivo de minha esposa e de meus amigos. Assim, pude voltar para o computador, sentar e escrever. E todas as vezes em que trabalhava, o Senhor vinha ao meu encontro. As palavras fluíam. Ele foi fiel. 9. Deus pode tirar benefícios de tudo que nos acontece de ruim. "Sabemos que todas as cousas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito." (Rm 8.28.) Em 1928, Alexander Fleming cometeu uni grave descuido, o que não


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costumava fazer. Ele se formara no curso de medicina com as melhores notas. Depois, durante a Primeira Grande Guerra, servira com distinção no corpo médico do exército de seu país. Após o conflito, voltara ao trabalho, dedicando-se à pesquisa científica ao mesmo tempo em que dava aulas na Faculdade de Medicina. Estava tentando descobrir substâncias bactericidas que não fossem tóxicas para os tecidos animais. Era um cientista bastante respeitado, que já conquistara certa medida de sucesso em sua área. Nessa época, realizava uma pesquisa sobre gripe, trabalhando num laboratório antigo e muito empoeirado. Em dado momento, o vento lançou pela janela uma partícula de fungo, que caiu dentro de um recipiente onde havia uma cultura de estafilococo. Seu aparente descuido parecia ter estragado a cultura. Todavia a reação que Fleming teve diante daquele "erro" resultou numa descoberta que muitos consideram uma vitória do acaso e de uma observação atenta. Ele notou que no ponto onde o fungo estava não havia bactérias, embora a cultura estivesse cheia delas. Estudando melhor o experimento, observou que o mofo produzira uma substância que evitava o desenvolvimento dos estafilococos, mesmo quando diluída numa proporção de um para oitocentos. Batizou-a de "penicilina". Depois disso, a medicina nunca mais foi a mesma. Devido à sua descoberta, Fleming foi agraciado pelo rei da Inglaterra com um título de nobreza e, em 1945, tornou-se um dos ganhadores do Prêmio Nobel de medicina. Graças ao "erro" de Alexander Fleming, centenas de milhares de pacientes foram curados, alguns até de enfermidades fatais. Muitos de nós ficamos desesperados quando cometemos um erro; e fazemos de tudo para escondê-lo ou racionalizá-lo. Agindo assim, na verdade estamos opondo resistência a um dos mais eficazes recursos que Deus emprega para nos tornar semelhantes ao Senhor Jesus Cristo. "Deus permite que cometamos erros em nosso viver e no serviço cristão - e por vezes até mesmo os ocasiona - com a finalidade de levar-nos a largar totalmente nossos próprios recursos e nos voltarmos para a Fonte de vida que ele determinou para nós, Cristo Jesus, aquele que nunca falha."10 O que desejo analisar aqui não é a maneira como agiremos, mas como pensaremos. De certo modo, não é difícil sobreviver a uma falha. O importante é aprender com ela alguma lição que venha a transformar nossa vida. Na realidade, estamos sempre cometendo erros. Contudo, se no processo aprendermos a pensar neles com mais lucidez, se nos dispusermos a ouvir a voz de Deus e a enxergar a participação dele na situação, se lembrarmos que sempre somos livres para tomar decisões, teremos assimilado uma lição preciosa que nos será de grande valia pelo resto da


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vida. 10. A maturidade não acontece por acaso. "Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho..." (Rm 8.29.) Vivemos numa época em que tudo é instantâneo. Com a criação dos cartões de crédito, não precisamos esperar mais nada. Podemos possuir tudo que quisermos. Talvez tenhamos que trabalhar o resto da vida para pagar, mas é nosso. Basta debitar em nossa conta. Entretanto com a maturidade espiritual isso não ocorre. Não existe, na vida cristã, um amadurecimento rápido, produzido num microondas. Muitos de nós demoramos um bocado para entender que Deus não tem pressa. Ele não tem. nenhum interesse em acelerar nosso desenvolvimento espiritual. Normalmente, assim que nos convertemos, experimentamos um crescimento rápido. É que Deus sabe que temos necessidade de formar raízes fortes. Todavia isso pára depois de certo tempo. Ele sabe também que precisamos reduzir o ritmo para termos um desenvolvimento bem estruturado. A. H. Strong narra a história de um jovem que procurou o diretor da escola onde estudava e perguntou-lhe se não poderia fazer um curso mais rápido do que o que exigiam dele. "Claro!" replicou o diretor. "Isso depende daquilo que você quer vir a ser. Deus leva cem anos para fazer um carvalho, mas quando quer fazer uma abóbora, leva apenas seis meses." O Dr. Strong observou também, aliás, com muita sabedoria, que as árvores não crescem nurn ritmo sempre constante e uniforme. Nos meses de maio, junho e julho, elas passam por uma fase de crescimento rápido, que dura de um mês a um mês e meio. Nesse período, formam-se fibras entre a casca e o tronco propriamente dito. Por vezes, o desenvolvimento que experimentam nesse curto prazo é maior do que o que se verifica no resto do ano. Contudo é no restante dele que ocorre a solidificação da planta. E sem esse processo a madeira seria inútil.11 Da mesma forma, não existem atalhos para o amadurecimento na vida cristã. Deus sabe que o verdadeiro crescimento espiritual exige tempo. Nele experimentamos dor e prazer, fracassos e sucessos, sofrimento e felicidade, momentos de inatividade e outros de trabalho. Algo que muito poderá ajudar-nos nesse particular é assimilar a mensagem de Filipenses 1.6: "Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus." Richard Foster explica isso muito bem. Diz ele: "Se cairmos - e fatalmente cairemos - vamos nos erguer e tentar obedecer de novo. Nosso propósito é formar o hábito de obedecer, e para isso teremos muitos escorregões, quedas e largadas falsas. Não foi da noite para o


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dia que aprendemos a andar nem a tocar piano, foi? No entanto não nos condenamos toda vez que damos um tropeção ou tocamos uma nota errada. Assim também não devemos nos condenar indevidamente pelos problemas da vida espiritual. A princípio, teremos a impressão de que somos nós que estamos agindo, que estamos tomando a iniciativa. Com o passar do tempo, porém, perceberemos que é Deus quem está ateando em nosso coração a chama do anseio de chegar à pureza absoluta.15 Para pensar 1. Que reações você já teve diante de um erro, que o mantiveram atrás dele? 2. Que reações lhe permitiram crescer e passar à frente dele? 3. Você já teve de se esforçar muito para observar fielmente sua "hora silenciosa" de comunhão com o Senhor? Já conseguiu? O que o ajudou a conseguir isso? Que recursos já utilizou e que não adiantaram nada? Gostaria de aconselhá-lo a tentar, durante a próxima semana, utilizar mais os recursos que foram positivos nessa questão, e menos os que não foram. 4. O que Deus tem procurado mostrar a você, nos últimos meses, por meio das críticas que outros lhe fazem? Capítulo 8 Superando O Medo De Errar Quando eu estava com vinte e poucos anos, comecei a praticar alpinismo, escalando principalmente paredões de rocha. Embora seja uma atividade que exige muito do atleta, é bastante interessante e um excelente exercício físico. Proporciona oportunidade de apreciar a majestade e a beleza de Deus de um ponto de vista singular e por vezes, perigoso. Durante muitos anos, tive vontade de escalar a Torre do Diabo, um pico formado de rochas vulcânicas que fica no nordeste do estado de Wyoming. Afinal chegou o dia em que meu sonho iria tornar-se realidade. Eu e mais dois amigos passamos vários meses nos preparando para o projeto, providenciando o equipamento e estudando as rotas. Na véspera do dia marcado para a ascensão, fomos ao local, fizemos uma caminhada em torno da base do pico, conversamos com o guarda florestal de serviço e pegamos o último boletim meteorológico. No dia seguinte, quando nos levantamos, o tempo estava ótimo, e o céu, limpo. Sentimo-nos cheios de energia e de entusiasmo para iniciar nossa aventura. Assim, passo a passo, com movimentos bem precisos, principiamos cautelosamente a escalada daquela enorme muralha de pedra. Por volta do meio-dia, a temperatura estava muito agradável, em torno de 21° C. O céu se


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mostrava muito azul, e estávamos dentro do horário previsto. Um pouco mais tarde, notamos algumas nuvens passando no alto, mas eram pequenas, nada que pudesse preocupar-nos. Continuamos a subir. Quando já nos encontrávamos quase no alto, de repente, uma tempestade começou a se formar. As nuvens tinham se aproximado do lado oposto àquele em que nos achávamos, e não houve como percebê-las. O céu se escureceu. Em menos de uma hora, a temperatura caiu para cerca de 7° C. Daí a pouco começou a chover, e em seguida a chuva se transformou em granizo. Tentamos prosseguir com a escalada, mas descobrimos que ficara mais difícil nos firmar na rocha. A vegetação que havia em alguns pontos dela se tornara escorregadia corno gelo. Por fim nos convencemos de que tínhamos de parar. Estávamos exaustos, com frio e bem temerosos. Em poucos instantes, fomos dominados pelo medo. Começamos a sentir cãibra nos braços e nas mãos. A certa altura, um dos colegas falou que não estava conseguindo mexer os dedos e entrou em pânico. A rota que tínhamos para chegar ao pico era em sentido vertical c bastante perigosa. Para descer, teríamos de ir deslizando pelas cordas molhadas, firmando-nos na rocha também escorregadia. Reunimo-nos numa pequena saliência que havia já quase no topo e paramos ali, fixando os ganchos no paredão. O medo que sentíamos nos alertou para os perigos da empreitada. Deu-nos a energia e a presença de espírito necessárias para interromper a escalada, avaliar claramente a situação toda e conversar sobre a estratégia que adotaríamos. Ajudamos nosso amigo a superar o problema do pânico e em seguida repassamos os planos. Depois, lenta e cuidadosamente iniciamos a descida. Nossa impressão foi de que demoramos horas e horas para voltar, mas afinal chegamos em baixo sãos e salvos. Beijamos aquele chão maravilhoso em que pisávamos. Tínhamos alguns arranhões e nos sentíamos emocionalmente esgotados, mas estávamos todos, inteiros, em terra firme. Nosso medo, uma emoção criada por Deus, fora muito valioso. O que é o medo? O medo é uma sensação forte e desagradável, causada pela noção ou pela expectativa de algum perigo ou ameaça. Ele provoca um estado de alarme ou pavor que, se for forte demais, pode imobilizar-nos. Quando sentimos medo, enxergamos claramente nossas limitações e nossa vulnerabilidade. Um medo normal e salutar exerce em nossa vida um valioso papel de proteção. Ele nos leva a mauter-nos afastados de pessoas, coisas e locais perigosos. Tem um valor essencial em momentos de crise. Deus nos dotou com essa emoção para que ela nos dê energias. Ademais, serve como um


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indicador para nós, para que pensemos bem naquilo que estamos fazendo, não entremos em pânico e ajamos da maneira adequada. Quando compreendemos bem o medo e permitimos que opere da forma determinada por Deus, ele se torna muito valioso, como aconteceu em nossa escalada da Torre do Diabo. Contudo é possível lidarmos com o medo de forma equivocada também. Se permitimos que ele nos domine, começamos a pensar obsessivamente em tudo de mal que poderia nos acontecer. Com isso, desperdiçamos energia, lutando contra males imaginários, e perdemos a eficiência para atuar em situações concretas, no momento adequado. Acreditamos que tudo vai dar errado e ficamos tentando solucionar todos os nossos problemas, antes mesmo que eles ocorram. Esse medo irracional nos torna impacientes. Queremos resolver tudo com nossas próprias mãos. Ele nos leva a exagerar os problemas e a distorcer nossa visão dos fatos, de modo que não conseguimos mais raciocinar de forma clara nem lógica. Além disso, tende a paralisar-nos, impedindo que tornemos providências construtivas. Desse modo, desperdiçando as energias com o medo, ficamos sem poder solucionar o problema real que nos sobreveio. Por causa do medo, também nos tornamos mais críticos e nos sentimos ameaçados e ofendidos, muitas vezes por algo que nem ocorreu de fato. Se não procurarmos superá-lo logo em seus estágios iniciais, tenderemos a ter preocupação, depressão e raiva. Tudo irá de mal a pior. Quando o medo fica descontrolado, transforma-se numa fobia. O termo fobia vem do grego phóbos, que significa "fuga". Deriva do nome de uma divindade que provocava pânico e pavor em seus inimigos. A fobia é um constante e injustificado temor de alguém, de algum objeto ou de alguma situação. Quem sofre de uma fobia tem consciência de que seu medo é absurdo, mas por mais que se esforce não consegue superá-lo. Alguns desses temores são conhecidos por nomes especiais. Astrofobia é medo de raios; nicotofobia, de escuridão; aviafobia, de aviões; brontofobia, de trovões. Quem sente medo de cobras sofre de ofidiofobia. Existe um tipo de fobia, porém, que não é citado nos livros de psiquiatria. No entanto seus efeitos são mais devastadores do que de todos os outros tipos somados. Ele tem o poder de imobilizar-nos, de distorcer nossa perspectiva dos fatos, de roubar nossa alegria, de nos manter presos ao passado e de limitar nossa eficiência no serviço de Cristo. Refiro-me ao medo de falhar. Por que o medo de errar é um problema tão grave? Não sei quando foi que aprendi a ter medo de errar. Não creio que o


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tenha assimilado de meus pais, mas sei que eu devia ser bem pequeno. Entendi que era errado colar, roubar e mentir. Todos esses atos eram pecado, e eu sabia que era muito errado pecar. Contudo, em algum momento da infância, absorvi a noção de que cometer erros e ficar aquém das expectativas era um mal quase tão sério quanto pecar, algo a ser evitado a todo custo. Na verdade era algo que tínhamos de esconder ou então atribuir a outrem. Hoje percebo a mesma tendência em meus filhos e em quase todo mundo que conheço. Por que a maioria das pessoas tem medo de errar? Ou melhor, vamos indagar ao leitor: por que você tem medo de errar? Quais são suas recordações mais antigas dessa situação? Como reagiu a ela? Qual foi a reação dos que o cercavam? Eles o humilharam? Você foi castigado? Amigos e familiares lhe negaram amor e afeto por causa de erros cometidos? A reação dos outros trouxe-lhe ânimo ou deixou-o desalentado? Quando eu estava na escola primária, aprendi que só deveria levantar a mão para responder uma pergunta se tivesse absoluta certeza de que a resposta estava certa. Par quê? Porque se não estivesse, a professora poderia humilhar-me. Ficaria muito mal para mim. Os amigos iriam zombar de mim ou, o que era pior, talvez não quisessem nem brincar comigo. A humilhação e a rejeição são forças tão tremendas que nos levam a tomar determinadas atitudes. Um exemplo clássico do medo de falhar foi o que tiveram " os filhos de Israel, narrado em Números 13. Deus os havia libertado da escravidão no Egito. Abrira o mar Vermelho para eles. Dera-lhes os Dez Mandamentos. Enviara-lhes alimento e os protegera em sua caminhada pelo deserto. Agora eles se encontravam à entrada da Terra Prometida. Deus lhes ordenou que enviassem doze espias à região para fazer um levantamento dela. Nos versos 26 e 27, vemos que esses homens, em seu relatório, explicaram que a terra era exatamente como Deus dissera - manava leite e mel. Até aí tudo bem. Contudo, olhando o versículo seguinte, constatamos que ele contém uma adversativa: porém. Então, além de confirmar a descrição que Deus fizera da terra, eles fizeram uma observação pessoal. Dez dos espiões se mostravam bastante preocupados. Relataram que encontrariam cidades muradas e muito fortificadas, e que alguns dos habitantes da região eram altos e fortes. Apesar disso, Calebe, um dos enviados, manteve uma posição de fé. Disse ele: "Vamos tomar esta terra! Nós vamos conseguir!" Calebe estava ciente das promessas de Deus, conhecia o caráter do


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Senhor. Ele fixou o olhar em fatos reais, em vez de se deixar levar pela mentalidade negativa do "Mas, e se..." Infelizmente o restante do povo de Israel não atendeu ao que ele disse. Eles tiraram os olhos de Deus e os firmaram nas probabilidades negativas. Não se limitaram a só dar uma olhada nos problemas que poderiam ter; mantiveram os olhos presos neles. E em seguida interpretaram a situação de forma negativa. Primeiro fizeram uma confirmação e uma observação pessoal; agora davam uma interpretação negativa. Os espias de visão pessimista, fixada no fracasso, disseram ao povo: "Não poderemos subir contra aquele povo, porque é mais forte do que nós." (13.31.) Obviamente quando disseram "nós" estavam se esquecendo totalmente de Deus. E tratava-se do mesmo Deus que dissera em Êxodo 23.20-33 e 33.1,2 que lhes daria essa terra. Era o mesmo Deus que enviara as pragas sobre o Faraó, abrira o mar Vermelho, destruíra o poderoso exército egípcio e ainda os protegera e sustentara no deserto. Esses homens abandonaram a visão de fé e passaram a olhar só a possibilidade de falhar. Lendo o versículo 32, verificamos que não demorou muito para que eles passassem da interpretação negativa para o exagero. Disseram que a terra, além de ter cidades muradas e uma população forte, devorava "os seus moradores; e todo o povo que vimos nela são homens de grande estatura". O medo de falhar, a interpretação negativa e o exagero dos espias contagiou os filhos de Israel. A esperança e a confiança expressas por Josué e Calebe foram anuladas pelo medo e pela ansiedade dos outros espias. A essa altura, o povo já se achava paralisado de medo e havia tomado a decisão. Não iriam entrar. Quem sabe o que poderia acontecer-lhes naquela terra? As distorções apresentadas pelos espias provocaram desânimo nos outros, levando-os a criar distorções ainda mais acentuadas. No versículo 33, encontramos o seguinte: "... e éramos, aos nossos próprios olhos, como gafanhotos e assim também o éramos aos seus olhos." Eles estavam sendo vítimas do "complexo de gafanhoto", que é característico de quem tem uma perspectiva centrada no fracasso. É a visão que temos quando decidimos olhar para os problemas e as preocupações, enxergando apenas a nós mesmos, em vez de ver o poder de Deus e aquilo que somos nele. É a nossa visão, quando tentamos viver com nossos próprios recursos e travar as batalhas com nossa própria força. Quando perdemos a perspectiva correta, os problemas nos parecem maiores do que realmente são, e nós parecemos menores. Se a história terminasse aí, já seria ruim; mas não termina. Fica ainda pior. Passando para Números 14, verificamos que o povo começou a chorar e a lamuriar-se. O medo de fracassar intensificou sua preocupação, levando-os


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a urna profunda depressão. E isso pode acontecer também a nós. Quanto mais olharmos para o lado negativo, pensarmos em nosso problema e adotarmos a mentalidade pessimista do "Mas e se...", mais a situação irá piorar. Lemos, no versículo 3, que eles ficaram tão desatinados que tiveram vontade de voltar para o Egito. Esqueceram-se completamente de como haviam sido infelizes e desgraçados quando viviam escravizados naquele país. Mais adiante nesse capítulo, diz a Bíblia que, devido à sua falta de fé, eles foram obrigados a vaguear pelo deserto durante quarenta anos. Embora houvessem testemunhado o poder de Deus, a sua glória, a sua fidelidade e os seus prodígios, decidiram pôr o Senhor à prova (Nm 14.22). Como eles preferiram ter medo em vez de crer, só dois dos homens que saíram do Egito adultos, Josué e Calebe, entraram na Terra Prometida. Nos quarenta anos que se seguiram, os outros, cerca de seiscentos mil homens, morreram no deserto, isso dá mais ou menos uma morte a cada vinte minutos, nas 24 horas do dia, durante quarenta anos. Que situação deprimente! Suas preocupações equivocadas os levaram ao túmulo, quando poderiam ter gozado da graça e da benignidade de Deus em Canaã. Antes de prosseguirmos, vamos fazer um resumo das diferenças entre a visão pessimista, fixada no fracasso, e a visão de fé Visão Fixada no Fracasso          

olha só para o problema olha para o medo quer o maná enxerga os obstáculos acredita que vai acontecer o pior vê limitações ao poder de Deus deixa o passado determinar o presente pensa em termos de curto prazo perspectiva limitada pelo tempo quer voltar ao Egito o resultado é estagnação

Visão de Fé       

busca soluções supera o medo quer leite e mel enxerga as oportunidades crê que vai acontecer o melhor crê no poder de Deus e o obtém são as promessas de Deus que determinam o presente pensa em termos de


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 longo prazo perspectiva de  dimensões eternas quer entrar na terra  prometida o resultado é santificação E possível que você, leitor, também esteja diante de uma "Canaã" pessoal. Olha ao redor e vê as "muralhas" das dificuldades e os "gigantes" do desânimo. E se pensa no futuro, não sabe como irá sobreviver. Nessa situação, somos tentados a cair no mesmo erro dos filhos de Israel - dar ouvidos às colocações pessimistas, tirar os olhos de Deus e ficar obcecados pelo problema. Talvez nossa preocupação seja até legítima. Contudo é muito fácil deixar que ela nos escravize ao medo. Nesse caso, somos tentados a não nos arriscar, a não fazer nada. E o maior erro que podemos cometer não é tentar e fracassar; é não tentar. A decisão de não nos arriscarmos e de ficarmos parados só irá piorar tudo. Theodore Roosevelt adotava urna mentalidade interessante no que dizia respeito às críticas e ao risco de fracassar. Dizia ele: "O importante não é aquele que critica, mostrando que tal ou qual pessoa, apesar de forte, falhou, ou dizendo que quem realizou algo poderia tê-lo feito melhor. Na verdade, os méritos são daquele que está lutando na arena, cujo rosto está sujo de poeira, suor e sangue, que luta valentemente, que erra, que falha, tenta de novo e falha, pois não há esforço sem erro e falha. Os méritos são daquele que de fato procura realizar algo, que tem entusiasmo e dedicação, que se desgasta por uma causa nobre e que, na pior das hipóteses, se fracassa, pelo menos está se empenhando com vigor. É melhor ter coragem de realizar façanhas valorosas e de conquistar gloriosos triunfes, ainda que entremeados de fracassos, do que ficar nas fileiras dos pobres de espírito. Estes não experimentam nem grandes alegrias nem sofrimentos, pois não conhecem nem a vitória nem a derrota."1 Já aprendi por experiência própria que, nos momentos difíceis, o que conta não é o tamanho dos gigantes, mas a dimensão do nosso Deus. O que importa é aquilo que ele é, aquilo que já o vimos operar antes e aquilo que ele promete. Deus afirma que somos "mais que vencedores" e não "mais que sobreviventes". O preço que teremos de pagar, se nos deixarmos dominar pelo erro de falhar, é por demais elevado. Quanto mais alimentarmos nosso temor, pior ele se tornará. Com isso, estaremos limitando a Deus, apagando o Espírito Santo e nos condenando a urna vida de mediocridade. Como mencionei nos capítulos anteriores, podemos crescer e aprender algo tanto nas derrotas como nas vitórias. Nosso anseio de superar falhas e frustrações pode motivar-nos a desejar aprender. Se tivermos o cuidado de analisar a causa de nossas falhas, poderemos aprender com elas, corrigir os


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erros e agir de forma diferente no futuro. Além disso, perdendo de vez em quando, nos tornamos mais humanos e cultivamos senso de humildade. Cientes de nossas limitações, reconhecemos que dependemos de outros para obter aquilo que nos falta. Ademais, desenvolvemos maior sensibilidade e compaixão para com outros, de modo que aqueles que nos cercam se sentem mais seguros, vêem que os compreendemos melhor e que necessitamos deles. Lembremos o que Paulo ensina em 2 Coríntios 3.4,5- "E é por intermédio de Cristo que temos tal confiança em Deus; não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma cousa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus." E quando nos sentirmos desanimados e desalentados, devemos pensar nas seguintes palavras: "Eu, porém, olharei para o Senhor e esperarei no Deus da minha salvação; o meu Deus me ouvirá. Ó inimiga minha, não te alegres a meu respeito; ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei; se morar nas trevas, o Senhor será a minha luz." (Mq 7.7,8.) Você pode superar o medo de falhar, Quando Jim era pequeno, nunca via os pais falharem. E eles também não permitiam que ele cometesse erros. "Com isso", diz ele "passei quarenta e dois anos procurando não rne arriscar. Evitava sempre qualquer problema. Protegia-me de qualquer situação em que meus sentimentos de inferioridade e incompetência pudessem evidenciar-se." Ainda bem garotinho, ele se convenceu de que não existia amor incondicional e entendeu que todos os seus esforços nunca eram suficientes. Só recebia elogios, abraços, sorrisos, tapinhas amigos e incentivo quando obtinha sucesso ou realizava algo. "Quando estava na adolescência", explica, "pus minha vida no 'piloto automático' e dei um jeito de me esconder da realidade." Desenvolveu a faculdade de estudar as pessoas, de prever atitudes de rejeição, de temer qualquer tipo de conflito, de evitar críticas e de criar uma fachada falsa, procurando ser como os outros queriam que ele fosse. E Jim continua: "Meus pais não eram más pessoas. Amavam-me, amavam a Deus, me levavam à igreja e supriam minhas necessidades físicas. Contudo, em algum momento, aprendi que o amor deles por mim era condicionado. Se eu não agisse como esperavam, se não acertasse sempre ou se os envergonhasse na frente dos outros, me tratavam como se eu não existisse." Perguntei-lhe por que marcara uma consulta comigo, e ele respondeu imediatamente.


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"Tenho impressão de que a vida está passando e eu estou ficando pra trás. Não sou feliz e sei que Deus não está satisfeito comigo. Não me conheço direito, não tenho respeito por mim mesmo. Materialmente falando, cuido bem de minha esposa e de meus filhos, mas minha contribuição espiritual para eles é mínima." Aqui ele fez uma longa pausa, olhou-me direto nos olhos pela primeira vez naquele dia e concluiu: "Dr. Oliver, estou cansado de não ser nada. Estou desejoso de ser como Deus quer que eu seja." Corno é fácil imaginar, para que Jim atingisse essa meta teria de vencer o medo de falhar. Contudo posso afirmar, com satisfação, que ele já melhorou bastante e agora tem uma opinião bem diferente de si mesmo e de seu relacionamento com Deus. Para isso, mostrei-lhe alguns passos que teria de dar, os quais apresento em seguida. Os principais passos para superar o medo de falhar são os que damos antes que ele se instale. Ninguém, por mais inteligente que seja, estuda para uma prova importante meia hora antes de ela ter início. Ninguém começa a se preparar para uma maratona meia hora antes do tiro de largada. Uma verdadeira transformação exige tempo, e o melhor momento para se começar é agora. Primeiro passo: Olhar para Deus. Quem tem uma visão fixada no fracasso está olhando para o passado e deixando que os erros anteriores determinem sua vida. Está formando sua auto-imagem e avaliando a própria capacidade com base no passado. Além disso, está vendo Deus e o poder dele por essa mesma perspectiva, o que é ainda mais debilitante. Se em vez de adotar essa postura passarmos a olhar para Deus, cultivaremos a visão de fé. Vendo os erros do passado pelo ângulo divino, poderemos tirar lições deles, olhar para o presente e prever o futuro. Assim nos veremos como um filho de Deus que foi salvo pela graça e está se conformando à imagem de Cristo. Meu irmão, que eventos do seu passado Satanás está usando para distorcer sua perspectiva, desanimá-lo e derrotá-lo? Que acontecimentos e situações exerceram pressão sobre você no sentido de limitá-lo, roubar sua alegria e impedi-lo de tentar novamente, levando-o a proteger-se em vez de arriscar-se a dar um passo de fé? A que fatos você tem atribuído sua incapacidade de crescer? A seguir, menciono alguns exemplos de que tenho conhecimento. Inaptidões


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fracassos do passado orgulho experiências penosas fama vergonha culpa família problemática vergonha devido a um "segredo" pessoal ou da família sucesso demais equívocos popularidade riqueza falta de sorte Embora Jim amasse a Deus, levasse uma vida íntegra e participasse ativamente em sua igreja, estava obcecado por suas fraquezas e inaptidões. A verdade é que quando deixamos que o temor de fracassar nos domine dessa forma, estamos assumindo uma responsabilidade que Deus nunca nos atribuiu. Nossa identidade é determinada pelo Deus que nos criou e remiu; não pelo que fazemos nem pelo que os outros pensam de nós. Portanto, a primeira atitude a tomar para vencermos esse medo paralisante é fixar os olhos em Jesus Cristo, "o Autor e Consumador da fé" (Hb 12.2). Certo pregador expressou isso muito bem. Disse ele: "Cristo jamais muda. Ele é o mesmo ontem, hoje e para sempre. E as verdades que ele apresenta em seus ensinos também não se alteram. Podemos ter certeza disso. Aliás, podemos apostar nossa vida nisso.


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"O fato mais maravilhoso que pode acontecer a qualquer um de nós é ter a experiência mais importante de todas -conhecer pessoalmente a Jesus Cristo. É possível uma pessoa ouvir falar dele durante toda a vida e, ainda assim, não o conhecer. Alguém pode crer que ele existiu, pode respeitá-lo e considerá-lo uma grande figura da História e, mesmo assim, conhecê-lo apenas em nível intelectual. "Contudo quando afinal o encontramos e experimentamos a realidade dele, quando ele deixa de ser apenas uma personalidade histórica e uma figura num vitral de igreja, tornando-se nosso Salvador pessoal, podemos enfrentar todo tipo de sofrimento, escuridão e problema, sem sentir medo."2 Segundo passo: Recorrer à Bíblia. Quem é como Jim e já experimentou esse medo de falhar, ainda que durante pouco tempo, sabe que esse temor pode tornar-se uma obsessão. Inicialmente ele é apenas a consciência de que podemos falhar. Pouco depois, porém, se transforma numa preocupação séria. Um recurso importante para superarmos o medo de errar é pensar "nas cousas lá do alto, não nas que são aqui da terra" (Cl 3.2). Alguns dos versículos que considero muito valiosos nesse particular são os seguintes: "Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam." (SI 23.4.) "Deus ê o nosso refugio e fortaleza, socorro bem presente nas tributações. Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no .seio dos mares; ainda que as águas tumultuem e espumejem e na sua fúria os montes se estremeçam." (SI 46.1-3.) "Confia os teus cuidados ao Senhor, e ele te susterá; jamais permitirá que o justo seja abalado." {SI 55.22.) "Eis que Deus é a minha salvação; confiarei e não temerei..." (Is 12.2.) "Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a minha destra fiel." (Is 41.10.) "Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza... Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte." (2 Co 12.9,10.) Terceiro passo: Pedir a Deus que nos ensine a enxergar as falhas com os olhos dele. Como mencionamos no capítulo 4, Deus vê as talhas por um prisma diferente do humano. E quer mostrar-nos o valor de um erro que colocamos


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sob o controle do Espírito. Acho que alguém deve estar pensando: "O que será que o Oliver quer dizer com isso?" Vou explicar. Alguns anos atrás, ouvi falar de um professor da Universidade de Houston que elaborou um curso diferente sobre criatividade, ao qual os alunos deram o nome de "Fracasso 101". Nas aulas iniciais, ele deu aos estudantes tarefas específicas, com o objetivo de levá-los a superar o pavor de falhar. Algum tempo depois, eles passaram a ver as falhas como inovações e não como derrotas. Pouco a pouco, foram se dispondo a tentar iniciativas novas. Uma das tarefas era que, até o final do semestre, cada estudante criasse uma forma de ganhar dinheiro dentro da escola. A maioria deles só encontrou o trabalho ideal depois de fazer cinco tentativas. Contudo todos aprenderam a tirar lições da falha e a não enxergá-la como uma incompetência pessoal. Além disso, eles aprenderam que existem dois tipos de falhas. O primeiro, que denominaram "falha burra e lenta", era aquele em que se demorava muito a tirar benefícios dos erros. A pessoa cometia um erro, mas continuava insistindo nele, até que um dia abria os olhos e enxergava a verdade: "Isso não está dando certo!" O segundo tipo, que eles chamaram de "falha inteligente e rápida", é o que ocorre quando aprendemos a tirar lições dos erros. Você já deve ter entendido que quando falo em "falha que colocamos sob o controle do Espírito" refiro-me a essa, a inteligente e rápida. Devido à nossa posição em Cristo e às promessas que Deus nos dá em sua Palavra, não precisamos ter medo dos erros. Nas mãos de Deus, eles podem operar em nosso favor. Quando falei a Jim sobre a possibilidade de aproveitarmos o lado positivo das falhas, ele achou que eu estava ficando louco. Então pedi-lhe que pensasse em três benefícios que um erro pode nos trazer. Ele descobriu cinco. Menciono-os em seguida, acrescentando-lhes um comentário meu. 1. "De acordo com Romanos 8.28 e outras promessas da Bíblia, Deus pode usar minhas falhas para o meu bem." Jim começou a mudar quando passou a olhar seus sentimentos e pensamentos à luz dos ensinos das Escrituras. E ficou maravilhado com o que aprendeu. 2. "O erro pode ser uma oportunidade para eu aprender algo." E por isso que, em muitos cursos de mestrado em administração de empresas, pede-se aos alunos que façam análises de companhias que faliram. É muito agradável ter sucesso, mas com ele não aprendemos as lições que assimila mos no fracasso.


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3. "A falha me oferece novas opções." Uma área em que todos conhecem o valor de uma falha é a ciência. A maioria das descobertas importantes foi conseguida após centenas de tentativas frustradas. Tenho percebido que aqueles que aprenderam a ver as falhas como novos dados, como novas informações das quais podem tirar lições, e que pensam mais no processo de aprendizagem do que nas conseqüências do erro, têm facilidade para suportar as próprias falhas. 4. "As falhas constituem oportunidades para eu crescer." Quem chegou até aqui neste livro já sabe que para crescer mos precisamos experimentar certa medida de fracasso. Embora uni excesso de falhas possa deixar o indivíduo deprimido e arrasado, muito sucesso pode torná-lo convenci do e arrogante. Um aspecto essencial do processo de crescimento é a capacidade de introduzir mudanças e avançar na caminhada da vida. É aí que entra a habilidade de tirar lições de nossos erros e de superar os obstáculos e falhas. Se não tivéssemos falhas e frustrações, ficaríamos estagnados. "Nem sempre podemos evitar um erro, pois não temos controle sobre todos os elementos variáveis. Contudo pode mos deliberar sobre as conseqüências que uma falha terá sobre nós, se irá beneficiar-nos ou prejudicar-nos." Durante grande parte de sua existência, Jim vivera mais ou menos como uma bola de bilhar, sendo atirado de um lado para outro de acordo com as circunstâncias. Todavia, assim que começou a entender o valor dessa verdade, mudou muito. Em vez de limitar-se a reagir, passou a assumir a responsabilidade pela própria vida. Quarto passo: Manter o senso de humor. Certo dia, no início de uma sessão de aconselhamento, Jim disse que queria me contar algo. Como ele não era muito dado a contar casos, ouvi-o atentamente. Era um fato bastante engraçado, e ele riu muito ao narrá-lo. Rir é muito bom. É importante cultivar o senso de humor, principalmente para quem é perfeccionista. Quando sorrimos, enxergamos melhor o lado positivo das derrotas. Um deles é que ficamos na companhia de muita gente boa. Além disso, é preciso haver perdedores para que haja ganhadores. Portanto os ganhadores devem muito aos perdedores. Outra vantagem do erro é que podemos ser mais criativos e livres. Os ganhadores têm de jogar de acordo com as regras e utilizar estratégias avançadas e sofisticadas. Os perdedores, porém, têm liberdade para fazer o que bem quiserem. Já entrevistei inúmeros indivíduos que disseram que acham mais interessante, estimulante e agradável perder do que ganhar. Uma razão é que existem mais formas de perder do que de ganhar. Certo escritor resumiu o valor da derrota, olhando-a pelo lado cômico, da seguinte maneira:


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"A vitória é muito frágil e pode quebrar-se a qualquer momento. Uma sucessão de falhas, não. Podemos mantê-la por tempo indefinido sem perigo de perdê-la. E depois, quando um pequeno êxito finalmente rompe as nuvens com um brilho claro, conservamos para sempre o doce sabor daquela vitória conquistada em meio a uma série de fracassos tenazes e persistentes. Quinto passo: Reconhecer que temos medo. Qual deve ser nossa primeira reação quando nos damos conta de que estamos com medo? O que você tem feito? Supõe o pior, repassa mentalmente os erros, as falhas, e depois foge e se esconde? Alguma dessas atitudes tem produzido resultados positivos? Se não, então vamos tentar uma nova estratégia. Comecemos reconhecendo que estamos com medo. Obviamente é muito fácil falar, mas fazer já é outra história. Contudo só precisamos mesmo é dizer: "Estou com medo." A essa altura do processo, não temos de saber por que estamos com medo. Só o fato de o confessarmos nos comunica um enorme senso de libertação e vitória, por termos exercitado a força e a coragem necessárias para admiti-lo. Depois de reconhecer nosso problema, o passo seguinte é identificá-lo. Vamos perguntar: De que estou com medo1? Um recurso que Jim utilizou e achou muito proveitoso foi escrever sobre seus temores num diário. Ele analisava os seguintes aspectos: 1. Quando sinto medo, é sempre do mesmo jeito? 2. Quanto tempo ele dura? 3. Qual a intensidade dele? 4. De que é que tenho medo? Leia as perguntas seguintes e as responda: Meus temores são do tipo salutar ou do pernicioso f São absurdos ou razoáveis? Brotam de uma visão de fé ou de uma visão fixada no fracasso ? Existe alguma promessa da Palavra de Deus relacionada com meus temores ? Que reações tenho adotado e que não têm adiantado nada? Que outras estratégias posso aplicar? Neste passo, nossa atitude é mais ou menos como a de uma criança que tem medo de que haja um fantasma dentro do guarda-roupa. Quanto mais ficarmos pensando nele, procurando ouvir algum barulho que ele faça, imaginando se é muito grande e forte e se está irado, mais nosso medo aumentará. Todavia, se acendermos a luz e abrirmos a porta do armário, veremos que não há nenhum fantasma nele.


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Sexto passo: Encarar os temores. Agora chegamos à grande questão: podemos diminuir e até eliminar totalmente nossos temores? Podemos, e isso é o lado bom. O lado mais desagradável é que, para o conseguirmos, teremos de ir aos poucos encarando firmemente nosso medo. Contudo não há necessidade de pressa. Podemos fazê-lo com vagar. Tenho vivido momentos em que parece haver uma discrepância entre minha experiência e o ensino bíblico. A Bíblia diz, por exemplo, que "o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada urna de vossas necessidades" (Fp 4.19). Contudo muitas vezes achei que ele não estava suprindo as minhas. Ela diz também que "somos mais que vencedores" (Rm 8.37), mas há ocasiões em que me sinto tudo, menos vencedor. Há uma palavra que define bem esse tipo de situação -dissonância, O dicionário diz que "dissonância" é "um conjunto de sons desagradáveis e desarmônicos; discordância: ausência de harmonia e coerência; conflito". A dissonância em música ocorre quando dois tons não combinam bem, levando-nos a querer tapar os ouvidos. Ela se resolve quando as duas notas em conflito dão lugar a um acorde harmonioso. Havendo um contraste de idéias ou de pensamentos, ocorre o que os psicólogos chamam de dissonância cognitiva. E você, leitor, tem consciência de que existe uma enorme diferença entre o que a Bíblia diz sobre o viver cristão e sua vida pessoal? Jim passou muito tempo consciente de uma crescente dissonância entre a maneira como vivia e aquilo que "pregava". Todavia, à medida que foi aprendendo a aplicar as verdades da Palavra de Deus à sua experiência, foi percebendo, com surpresa, que a dissonância diminuiu. Todas as vezes que nos defrontarmos com uma "Canaã", estaremos diante de situações que nos parecerão gigantes imbatíveis. Não ajamos como os dez espias israelitas. Não façamos o que os filhos de Israel fizeram. Existe uma alternativa melhor. Ela deu certo para Jim e tem dado para centenas de pessoas. É a seguinte; vamos anotar num papel (ou em nosso diário) nossos dez piores temores. Iremos escrevê-los na ordem de intensidade, isto é, o pior será o número um, e o mais fraco, o número dez. Em seguida, começaremos a esforçar-nos para nos libertar do de número dez. Na lista do Jim, esse era o medo de ser criticado pelos colegas de trabalho. Conversando sobre as possíveis soluções para esse problema, ele sentiu que o melhor a fazer seria não ficar parado à espera das críticas. Ele próprio tomaria a iniciativa de pedir a eles que lhe dissessem como poderia aprimorar seu desempenho no serviço.


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Depois, ele identificou três colegas que pareciam menos agressivos e perguntou-lhes: "Quais dos meus atos e atitudes devo mudar para melhorar minha atuação no trabalho?" Na primeira vez, achou muito difícil fazer a pergunta, mas à medida que a foi repetindo, sentiu mais facilidade. E ele teve uma bela surpresa, pois embora muitos deles citassem pontos em que ele poderia mudar, também o elogiaram por suas boas qualidades. Se ele não houvesse se mostrado aberto a críticas, provavelmente jamais teria ouvido as palavras elogiosas. Embora meu cliente tenha experimentado progresso rapidamente, não podemos nos esquecer de que é preciso muita coragem para agir, sabendo que existe a possibilidade de um fracasso. Por algum tempo, é mais fácil não fazer nada - o que é o verdadeiro erro. Ficando corno estamos, pelo menos achamo-nos em terreno conhecido, que não apresenta ameaças. Parece-nos mais seguro. Infelizmente, porém, a segurança que experimentamos é falsa. É de curta duração e logo se transforma em estagnação. A idéia de falhar pode deixar-nos apavorados, mas viver constantemente com medo de errar é ainda mais trágico. Sétimo passo: "Garimpar" a experiência tirando dela todos os benefícios possíveis. Muitas pessoas talvez vejam a falha como uma mina escura e funda. E não têm o menor desejo de entrar nela, pois isso pode despertar outros temores. Contudo é nela que está o ouro. E quem quiser esse tesouro, por vezes, terá de descer lá, sujar-se e escavar o chão para obtê-lo. Os morros escuros de nossos fracassos também estão cheios de ouro. Há momentos em que até o avistamos à flor da terra. Em outros, porém, temos de cavar fundo para encontrá-lo. Entretanto, como errar implica sofrer, a maioria das pessoas só cata o ouro que se acha na superfície e raramente atinge o filão profundo da oportunidade e do discernimento. O problema é que assim que se acabarem as soluções fáceis, seremos obrigados a escavar um pouco mais. Aí teremos de procurar um novo ponto de crescimento. Se quisermos de fato ser como Deus quer que sejamos, não ficaremos muito tempo estagnados. Iremos crescer. E em meio às alegrias, ao senso de humildade e à gratidão que cercam o crescimento, veremos que as falhas operam em nós a renovação pessoal que nos ajuda a manter o verdadeiro sucesso. Quando eu era garoto e morava no sul da Califórnia, torcia para o Trojans, o time da universidade local. Certa ocasião, um dos seus jogadores, que aliás era considerado um dos melhores do país, foi transferido para o Bucaneers, de Tampa Bay, um. dos piores times da federação. Essa equipe


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estava tão fraca e perdeu tantos jogos que passara a ser a mais temida de todas. Os outros tinham medo de ser o primeiro a perder para aquele time ruim. Encerrado o campeonato em que o Bucaneers perdeu todos os jogos, o ex-atleta do Trojans, dando uma entrevista, afirmou o seguinte: "Essa situação tem sido muito difícil. Vencer é importante demais para mim. Nunca vou me acostumar à idéia de perder. Essas derrotas afetaram muito minha vida particular. Talvez eu não devesse dar toda essa importância ao futebol, mas dou. Quando somos campeões, a vida se torna bem mais agradável. Temos vontade de sair e nos divertir. Sentimo-nos mais felizes. Hoje, além de não querer mais sair de casa, não estou achando graça nem em corner. E também não estou conseguindo dormir."4 Um outro atleta famoso teve uma atitude diferente diante do fracasso. Era jogador de um time que estava no primeiro lugar de seu grupo, mas que, a certa altura, perdeu três jogos consecutivos. Afinal, no jogo seguinte, obtiveram uma vitória decisiva. Posteriormente, ao ser entrevistado, esse atleta disse: "A derrota é uma experiência que ajuda a gente a crescer. Devido ao sucesso do ano passado, caímos no erro de pensar que nunca mais perderíamos. Depois descobrimos que não era bem assim. Com isso, voltamos a pôr os pés no chão, ganhamos determinação e nos esforçamos mais."5 Depois de passar por muitos altos e baixos, o apóstolo Paulo aprendeu a ver o sofrimento e os fracassos como mensageiros de Deus. Essa tem sido minha experiência também. As lições mais proveitosas que aprendi e as maiores bênçãos que recebi foram decorrentes de erros e fracassos. Uma característica marcante das pessoas maduras é que, além de superar o medo de falhar, elas aprendem a tirar lições de seus erros. Você também pode aprender a superar o medo de errar. Eu superei, e o Jim também. Lembre-se, porém, de que o primeiro passo nesse sentido é olhar para Deus. Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as cousas e as considero como refugo, para conseguir Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé; para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos. Não que eu o tenha já recebido ou tenha já


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obtido a perfeição; mas prossiga para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma cousa faço: esquecendo-me das cousas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossiga para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus." (Fp 3.7-14.) Para pensar 1. Que temores você tem no momento? 2. Você tem medo de errar? Qual a intensidade dele? 3. Defina, com suas próprias palavras, a visão de fé e a visão fixada no fracasso. Em que aspecto de sua vida você poderia aplicar a mensagem de 2 Coríntios 3.4,5 durante a próxima semana? 4.

Capítulo 9 Superando Os Erros Sexuais E Morais Não me esqueço da primeira vez em que vi uma revista pornográfica. Estava com mais ou menos 14 anos, terminando o primeiro grau. Achava-me sentado na biblioteca, lendo um texto que um dos professores dera como tarefa de casa. Meu amigo Gari aproximou-se e se sentou ao meu lado. Olhou para um lado e para outro e, em voz baixa, perguntou se eu queria ver uma coisa. Fiquei curioso. Pelo modo como ele agia e pelo seu tom de voz, achei que talvez fosse algo que eu não deveria ver. É claro que com isso minha curiosidade ficou ainda mais aguçada. Hesitei por alguns segundos, mas em seguida respondi: "Claro!" De novo, ele olhou para um lado e para outro e depois mostrou-me uma pasta de cartolina. Dentro dela estava uma revista de mulheres nuas. Eu já ouvira falar sobre essas publicações, mas nunca vira nenhuma delas. Até aquele dia, as únicas imagens de nudez feminina que eu vira tinham sido as da Revista Geográfica Universal. Embora achasse aquelas fotos interessantes, as que via agora eram bem mais empolgantes. Carl disse que seu pai tinha um bom número delas em casa, e que ele poderia vender-me aquela por 50 centavos. Nem precisei parar para pensar. Entreguei-lhe as duas moedas de 25 e fiquei com a revista. Sabia perfeitamente que o que fazia era errado. Sabia que estava desagradando a Deus. Contudo consegui racionalizar. Aquilo não era assim tão mal. Eu não estava mentindo, nem colando, nem roubando nada. Isso, sim, é que era pecado. Não há nenhum versículo da Bíblia que diz: "Não lerás revistas pornográficas." Ela era apenas uma publicação inofensiva. Mas não era, não. Aquela experiência foi o ponto inicial de unia batalha


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que travei a vida toda contra a lascívia, a sensualidade e a impureza. Ela me acompanhou ao segundo grau, à faculdade, ao seminário e, por vezes, se faz presente até hoje. Na maioria das vezes tenho conquistado a vitória sobre a tentação. Contudo em algumas ocasiões não tenho. Isso ocorre quando permito que a lembrança de uma emoção fugaz e "inofensiva" me domine totalmente. E em todas elas, sem exceção, a promessa de prazer que trazem consigo acaba anulada pela vergonha, pela tristeza e pelo sentimento de culpa. Por favor, não me entenda mal. Não estou querendo dizer que aquela primeira vez em que vi uma revista pornográfica causou todos os meus pecados da juventude e todas as lutas que tenho enfrentado mesmo depois de casado; não. Todavia sei muito bem que quando o desejo normal que Deus nos deu, que foi distorcido e desvirtuado pelo pecado, recebe um estímulo anormal e imoral, fatalmente ocorrem problemas. É impressionante como um anseio sincero e profundo de viver em pureza e de só fazer o que é certo pode acabar num instante. E essa é uma luta que tanto os homens como as mulheres enfrentam. Sharon se converteu quando estava no segundo ano da faculdade. Imediatamente passou a participar de um ministério cristão na universidade e a freqüentar uma boa igreja evangélica. Além disso, a senhora que a ganhara para Jesus também a discipulou. No início do último ano, ela conheceu Warren, um dinâmico jovem crente que estudava numa faculdade cristã. "Warren parecia ter tudo que eu queria, inclusive um grande amor por Jesus e o desejo de servi-lo", explica ela. "Gostamos um do outro e nos casamos assim que nos formamos." Meses depois Sharon engravidou. Passados mais alguns anos, eles já estavam com três filhos. Quando ela me procurou desejando aconselhamento, tinha trinta e poucos anos. Sentia-se apavorada, pois se envolvera emocionalmente com o marido de uma de suas melhores amigas. Com voz trêmula pela aflição, disse: "Não sei como isso foi acontecer. Amo a Deus, a meu marido e meus filhos. Quero ter um casamento feliz, mas a situação não pode continuar como está", concluiu em tom enfático. Em seguida, narrou uma história muito comum. Seu marido ficara muito obcecado com a idéia de ganhar o sustento da família. Com isso, estava deixando de proporcionar à esposa (e a si mesmo também) algumas das bênçãos que Deus determinou para o relacionamento do casal. E à medida que ele se enfronhava mais no trabalho, e as crianças exigiam mais atenção da mãe, os dois foram se distanciando um do outro.


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Certo dia, urna amiga emprestou a Sharon um romance. "Fiquei encantada com o amor, a trama e a atmosfera romântica do livro", explicou ela. E quanto mais lia, mais insatisfação sentia com relação ao seu casamento. "Passei a ver só os defeitos do Warren", disse. "E quanto mais pensava nas minhas necessidades que não estavam sendo atendidas, rnais elas se intensificavam." E começou a criar fantasias sobre a possibilidade de alguém vir a satisfazê-las. A certa altura, eles começaram a fazer estudos bíblicos em companhia de um casal amigo, Tom e Arma. Alguns meses depois disso, Sharon teve consciência de uma atração mútua entre ela e Tom. Percebia nele uma ternura e uma sensibilidade que, fazia anos, não sentia em Warren. "Com pouco tempo", explicou ela, "comecei a imaginar-me como a protagonista das histórias que lia e via Tom como o homem perfeito, que iria satisfazer todas as minhas carências e realizar todos os meus sonhos." Quando afinal ela se deu conta do que acontecia, teve uma reação imediata. "Fiquei com medo e com muita vergonha." Felizmente, Sharon deu ouvidos ao Espírito Santo que lhe apontava seu pecado, atendeu aos conselhos sábios de uma irmã da igreja, uma mulher mais madura, e confessou ao marido o que estava se passando. Embora ele tenha ficado abalado, reconheceu que também tivera culpa no distanciamento que ocorria entre eles. E foi Warren quem sugeriu que procurassem urn conselheiro matrimonial para reedificar seu relacionamento. Ao final da primeira sessão de terapia, Sharon abanou a cabeça e fez um interessante comentário. Disse ela: "Sempre achei que eram só os homens que enfrentavam essa questão da pureza moral, que só eles desviavam o coração e os olhos e eram infiéis." Entretanto a própria experiência dela comprova que isso não é verdade. Tanto os homens como as mulheres estão sujeitos a essa tentação. Uma sociedade em declínio moral E a questão da pureza moral se torna ainda mais difícil porque vivemos numa era em que as pessoas não crêem em padrões morais absolutos. Muita gente, inclusive alguns terapeutas que, aliás, deveriam saber a verdade, diria a Sharon que não havia nada de mal em ela ter algumas fantasias associadas ao Tom. E mesmo que ela decidisse largar o marido e manter relações sexuais com o outro, muitos a teriam aplaudido. E esses também iriam


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incentivar-me a "curtir" a pornografia sempre que o desejasse. Como e quando teve início esse declínio? Embora não seja possível atribuir precisamente essa causa a uma pessoa ou evento, reconhecemos que um livro publicado em 1966 exerceu uma enorme influência nesse sentido. Trata-se de Situation Ethics (Ética circunstancial), de autoria do professor americano Joseph Fletcher. A tese básica desse autor é que nada em si mesmo é bom ou mal, certo ou errado; tudo depende das circunstâncias. Não existem princípios absolutos. Ás circunstâncias é que determinam se algo é bom ou mal, certo ou errado. Um ato (como o adultério, por exemplo) pode ser errado numa situação, mas certo em outra. Essa idéia, que em 1966 era apenas um tema de discussão filosófica, em nossos dias constitui os fundamentos amorais de nossa sociedade. Até trinta e cinco anos atrás, nosso povo adotava a ética judaico-cristã. Eram poucos os que não achavam que um casal deveria manter-se puro até o casamento, que todos os cidadãos responsáveis tinham o dever de trabalhar muito, que o homossexualismo era uma prática errada, que não era certo mentir, roubar, adulterar e lesar outros. A triste verdade, porém, é que nossa ética hoje não se baseia mais em Jerusalém, mas em Sodoma e Gomorra. Por outro lado, também, é muito fácil reclamar de como é difícil ter uma vida pura. A tentação de lamentar aquilo que não podemos mudar e ignorar o que podemos é bastante forte. É cômodo ressaltar o desmoronamento moral da sociedade; bem mais tranqüilo do que deixar o Espírito Santo apontar nossas próprias falhas. Conversar sobre os males da pornografia e do sexo compulsivo é muito mais seguro do que sobre o pecado da difamação. É mais fácil falar das letras horríveis das músicas populares que ouvimos hoje do que do pecado da glutonaria. Embora existam muitas situações por aí que não poderemos mudar, não há dúvida de que há muitas que podemos. Se insistirmos em pensar só nas circunstâncias que se acham fora de nosso controle, ficaremos desalentados e frustrados. Contudo, se olharmos para aquelas que se acham dentro da nossa esfera de influência, poderemos encher-nos de esperanças. Precisamos nos dispor a deixar que Deus nos mostre o que podemos fazer para solucionar o problema. Em Romanos 14, Paulo fala de como é fácil julgar as fraquezas de outros. No versículo 12, porém, ele chama atenção para o fato de que "cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus". Então o que podemos fazer no sentido de contribuir para uma solução? Quem leu até aqui já deu o primeiro passo: estar consciente do problema. Alguém afirmou que reconhecer o problema já é meio caminho andado. Contudo há outras medidas que podemos tomar. Vamos responder o seguinte: Em que áreas sou mais fraco? Em quais delas tenho a tendência de


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fazer concessões ao erro? Em que aspectos de minha vida revelo grandes incoerências? Já aprendi que a maneira mais fácil de identificar meus "pontos cegos" é procurar ver que atitudes e atos estou tentando minimizar ou justificar. Se verdadeiramente queremos ser pessoas cuja vida seja caracterizada pela pureza moral e a ética, devemos tomar passos para colocar essa resolução em prática. Aristóteles escreveu que virtude não envolve apenas saber o que é certo, mas, também, escolher fazer o que é certo. Precisamos fazer essa escolha constantemente e repetidamente, até que isso se torne um hábito. No restante deste capítulo, estaremos analisando seis princípios que nos ajudam a manter o propósito de viver em pureza moral. Para mim, eles têm tido uma importância fundamental. l. Tomar a decisão de viver em pureza. Eu vivi a tragédia e o trauma do escândalo de Watergate, que abalou o país, obrigou o presidente a renunciar ao seu cargo e mudou os rumos da política dos Estados Unidos. Não faz muito tempo, a BBC produziu um documentário de cinco horas sobre esse acontecimento. Num dos programas. eles reproduziram parte de uma entrevista que Richnrd Nixon concedeu ao jornalista David Frost. Nela Nixon afirma. "Falhei num campo em que eu era mestre: na política." Assistindo a essa entrevista, em meio ao pano de fundo de todo o evento de "Watergate", compreendi que Nixon estava enganado. Não fora no campo da política que ele errara, não. Não fora isso que causara sua queda, lauto ele como "todos os homens do presidente" haviam falhado no campo da moralidade e da ética. Parece que o "câncer" da corrupção começara com uma série de concessões aparentemente pequenas que eles fizeram ao erro. Acharam que um "bom" fim justificava o uso de meios errados. Não é fácil viver uma vida pura neste mundo impuro. Mesmo aquele que resolve agir como a "avestruz"6, evita assistir a todos os filmes, procura ouvir só rádios evangélicas e ler só livros e revistas cristãos, ainda assim vai ter lutas. Ninguém se torna santo evitando tudo e se afastando do mal. Mesmo que houvesse um ambiente totalmente livre de poluição moral, o homem não seria puro. Pelo que diz a Bíblia, em Marcos 7.15, o que nos contamina é o que vem de dentro. Para haver um novo começo é preciso dar um fim ao que havia antes. Muitos crentes querem virar uma nova página da vida, mas não enterram 6

Avestruz: uma ave de grande porte, que, quando se sente ameaçada, esconde a cabeça na terra para não ver o perigo. (N. da T.)


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para sempre os velhos hábitos mentais e emocionais nem as decisões que tomavam anteriormente. Meu irmão, você sente que está precisando abandonar algo? Tem algum hábito para o qual está dando justificativas? Pratica alguma atividade que, embora não seja pecado, está afastando-o de Cristo, ao invés de aproximá-lo dele? Lembro-me de que quando era criança, cantávamos um corinho intitulado "Tenha coragem de ser igual a Daniel". O coro dele dizia o seguinte: Seja igual a Daniel. Tenha coragem de se posicionar sozinho! Faça um firme propósito E tenha coragem de dizê-lo a todos!1 Deus hoje está procurando homens e mulheres que tenham a coragem de ser os Daniéis dos dias atuais. E o primeiro passo é tomar a decisão de permanecer puro, seja qual for o preço a pagar. 2. Aprender a derrotar a tentação assumindo uma posição ofensiva. Embora as tentações nos causem desprazer, elas podem ser muito úteis para nós. Deus permite que sejamos tentados para que nos mantenhamos humildes, fiquemos alerta e aprendamos algumas lições. Ele utiliza as tentações para nos mostrar que somos egoístas, orgulhosos, instáveis e que não confiamos nele. Uma das principais razões por que Deus deixa que nos sobrevenham tentações é que ele quer revelar-nos como somos e aonde quer que cheguemos. Por isso é importante prestar atenção a elas. A Bíblia ensina com clareza que a melhor forma de agir diante de uma tentação é fugir: "Foge, outrossim, das paixões da mocidade..." (2 Tm 2.22.) E um bom modo de começar. Contudo fugir não é a solução completa para o problema da tentação. Pensando na minha vida até aqui, vejo que havia uma situação que se repetia sempre, o que também ocorre a centenas de pessoas. Se eu me limitasse a fugir, se não resolvesse o problema da fraqueza interior e da falha que a tentação estava revelando, experimentava pouco crescimento espiritual. Por algum tempo, tudo ia bem. Contudo aquilo era como querer capinar um quintal cheio de mato cortando apenas os galhos e as folhas. Depois, o leão da lascívia começava a rugir de novo e, em pouco, a tentação retornava rapidamente e com grande força. Afinal, após muitos ensaios e erros (sou daqueles que demoram a aprender), descobri que conseguiria vencer melhor as tentações se as


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detectasse logo no início e atacasse as raízes. Se permitirmos que elas entrem em nossa mente, teremos mais dificuldade para derrotá-las. É melhor cercá-las ainda na entrada e dizer: "Não! Não quero!" , Em seu clássico devocional Imitação de Cristo, Thomas à Kempis diz o seguinte: "Não devemos buscar uma paz livre de tentações nem uma vida sem adversidades. Não é fugindo das tentações que encontraremos paz, mas sendo provados por elas. Encontraremos a paz depois que tivermos sido tentados e passarmos pela prova."2 Ao enfrentarmos tentações, a melhor defesa é um bom ataque. Comecemos encarando o problema com muita seriedade. Procuremos descobrir em que situações nos tornamos mais fracos e estabeleçamos um plano para combater a tentação. No meu caso, por exemplo, sei que Satanás gosta de atacar-me quando viajo e tenho de ir para um hotel. Bem ali à mão está um aparelho de televisão, com o controle remoto e as programações maléficas. Para enfrentar a tentação, sempre levo um retrato de minha família e o coloco sobre o televisor. Abro a Bíblia e a deixo em cima da cômoda, bem ao lado do aparelho. Ligo para casa todas as noites para conversar com minha esposa e os garotos e em seguida oro por eles. Algumas vezes levo comigo também um pequeno gravador e ponho fitas de hinos de louvor. Cada uma dessas providências constitui um poderoso lembrete de como Deus quer que eu aja. Cada um precisa descobrir quais os recursos que melhor lhe convirão. Alguns homens telefonam para a recepção do hotel e lhes solicitam que desconectem o canal que passa filmes eróticos. Conheço outros que gostam de deixar o controle remoto fora de alcance. Obviamente não é pecado dar um giro pelos canais. Contudo a maioria dos homens com que já trabalhei diz que começou com essa prática inocente e acabou tendo muito problema com a impureza e viciado em pornografia. Assim que ouvirmos os primeiros sons da voz suave e sedutora da tentação, temos de resistir a ela. Não procuremos analisá-la nem racionalizá-la. Se for preciso (e na maioria das vezes é), temos de sair correndo. A reação que tivermos nos primeiros sessenta segundos da tentação irá determinar o desfecho dela. É nesse minuto inicial que ganhamos ou perdemos essa batalha. Não tentemos justificar um erro pequeno e insignificante pensando nos sacrifícios que estamos fazendo, no trabalho que estamos realizando ou nas maravilhas que Deus está operando por nosso intermédio. Leiamos 2 Timóteo 2.22: "... Segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de


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coração puro, invocam o Senhor." Nossos Heróis Palmas para o rapaz que tem a coragem de fazer Aquilo que sabe que é certo. Quando se depara com a tentação Tem uma dura batalha pela frente. Quem luta contra si mesmo e contra seus colegas Enfrenta um adversário fortíssimo. Se vencer, a ele todos os louvores. Palmas para o rapaz que diz: "Não\" Muitas batalhas se travam diariamente, Das quais o mundo nem tem conhecimento. Muitos soldados corajosos há por aí, Capazes de pôr em fuga uma legião. Aquele que luta sozinho contra o pecado, Em minha opinião, é mais herói Do que quem conduz os soldados à guerra E derrota exércitos pela força das armas. Ao ser tentado, rapaz, fique firme E faça o que você sabe que é certo. Defenda a bandeira da verdadeira varonilidade E sairá vencedor. Que ao entrar no combate desta vida Seu grito de guerra seja: "Pela virtude!" E Deus, que sabe quem são os verdadeiros heróis, Dar-lhe-á forças para a luta. - Phoebe Cary 3. Definir com clareza o limite entre o que é certo e errado; e não ultrapassá-lo. Os cristãos, em sua maioria, querem ser espiritualmente fortes e vitoriosos. O anseio de todos nós é que, ao chegarmos ao fim da vida, ouçamos Deus dizer-nos: "Muito bem, servo bom e fiel." Desejamos ter um caráter íntegro. O problema é que todos nós temos fraquezas, pontos cegos e


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hábitos profundamente arraigados, que podem "sabotar" nossas boas intenções, levando-nos a ultrapassar esses limites e a cometer falhas morais e éticas. A solução para isso é rejeitar a prática de tentar ver até onde poderemos ir sem pecar. Temos de definir com clareza que atos e atitudes são saudáveis e quais os que não o são. Em outras palavras, assim que fixarmos o limite exato entre o que é certo e errado nas áreas em que somos mais tentados, devemos dar mais uns dez passos na direção do que é certo e colocar o limite aí. Feito isso., tenhamos o máximo cuidado para não cruzar essa linha limítrofe, Quando eu era recém-convertido, adotei como lema o texto de Filipenses 1.20: "Segundo a minha ardente expectativa e esperança de que em nada serei envergonhado; antes, com toda a ousadia, como sempre, também agora, será Cristo engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte." Infelizmente, porém, devo dizer que algumas vezes fiquei aquém dessa meta. E raramente isso se deu por eu haver tomado a decisão de pecar ou de fazer concessões ao erro. Na maior parte dos casos, o que aconteceu foi que fiquei muito tempo perto do limite. Todos nós precisamos pedir a Deus que nos ajude a definir com clareza esse limite, nas questões em que somos mais vulneráveis. Se se trata de um ponto que não está claramente especificado na Bíblia, temos de orar a respeito e buscar aconselhar-nos com vários amigos experientes. E aí, assim que Deus nos mostrar onde é o limite, vamos sempre dar uma margem maior. Se o Senhor nos disser que não devemos passar da linha dos 50m, não devemos nem chegar perto da de 49,9m. Não procuremos descobrir até onde podemos aproximar-nos do erro sem cair nele. Isso é estupidez. É como um praticante de caça submarina que quer ver qual o volume mínimo de ar que pode deixar em seu reservatório e ainda conseguir chegar à superfície. Só um insensato age dessa forma. 4. Guardar o coração. Em abril de 1994, Aldrich Ames, membro do serviço de contra-espionagem da CIA e pessoa da mais alta confiança dentro daquela casa, onde já estava havia 31 anos, confessou-se culpado da acusação de haver divulgado algumas das informações secretas dela. Ames foi sentenciado a prisão perpétua, sem chance de liberdade condicional. Ele afirmou reconhecer que "traiu uma confiança nele depositada". Contudo disse que não considerava tão graves assim os danos que causara, nos nove anos em que atuara como agente duplo. Os promotores, no entanto, informavam que ele causara a morte, a prisão ou o desaparecimento de pelo menos dez agentes duplos da Rússia e um da Europa Oriental. Diziam ainda que fora a ganância que o levara a


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praticar o que as autoridades consideravam o mais grave caso de vazamento de informação ocorrido na CIA, nos seus 47 anos de existência. Aldrich Ames tentou servir a dois senhores, e não deu certo. Jesus deixou bem claro que é impossível fazer isso. (Ver Mateus 6.24.) Onde estiver o nosso tesouro, aí estará também o nosso coração. (Ver Mateus 6.21.) A pureza moral e ética principia no coração. Somente um profundo anseio de ser puro pode salvar-nos da impureza. É por isso que o livro de Provérbios ensina: "Acima de tudo, guarde os seus afetos, porque influem em tudo o mais na sua vida." E em seguida adverte: "Rejeite o beijo indiferente da prostituta. Fique longe dela. Olhe diretamente para a frente; nem deve virar a cabeça para olhar. Tome cuidado. Fique firme no bom caminho, e estará seguro. Nada de desvio; retire seu pé do perigo." (Pv 4.23-27 - BV) Existem prostitutas em sua vida, meu amigo? Deixe-me terminar. Quando falamos de prostitutas, muitos pensam numa mulher que vende o corpo. Na verdade, estou me referindo aqui a qualquer pessoa, hábito ou atividade que prometa prazer a curto prazo e cobre um alto preço; que nos leve a trocar o que é mais importante pelo que é insignificante e aumente nossa vulnerabilidade ao pecado. Vamos enunciar a pergunta de outro modo. Existe em sua vida algum hábito, pensamento, atividade ou objeto que para você é mais importante do que Deus, e que o leva a pecar ou a fazer concessões ao erro? Se existir, ceder a isso é o mesmo que aceitar o beijo indiferente de uma prostituta. A Bíblia adverte que temos de ficar o mais longe possível de tais práticas. E como é que conseguimos ficar longe? É procurando identificar as armadilhas prováveis e mantendo-nos atentos a elas? Não! A única maneira de nos livrarmos desse erro é pensar nas coisas do alto e fixar os olhos em Jesus. Quando Cristo se encontrou com Pedro na praia após sua ressurreição, ele não o repreendeu por havê-lo negado. O que ele fez? Perguntou ao discípulo três vezes: "Tu me amas?" O único antídoto para a apatia espiritual que pode levar-nos a transigir com o erro é um amor cada vez maior pelo Senhor Jesus Cristo. 5. Proteger a mente. Em todos os momentos de nossa vida, estamos envolvidos numa guerra espiritual. E o campo de batalha onde se trava esse combate é nossa mente. O intelecto humano é um dos mais importantes aspectos do fato de havermos sido criados à imagem de Deus. Ele é a sede de nossa consciência e de nossa capacidade de reflexão. Possui as faculdades da percepção, da memória e da aprendizagem. É capaz de solucionar problemas, de tomar decisões e de definir o que é verdade e o que não o é.


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É por isso que Satanás procura enganar-nos, levando-nos a acreditar em suas mentiras (e começou a agir assim já no jardim do Éden). É por essa razão também que Paulo ensina que nossa luta não é contra "o sangue e a carne", mas contra os principados e potestades (Ef 6.12). O apóstolo Pedro também nos exorta a proteger nossa mente, preparando-a para a ação (l Pé 1.13), e a ficar vigilantes (5.8). À decisão aparentemente simples de escolher em que vamos pensar durante o dia pode definir o desfecho de nossa guerra espiritual. Se nos afastarmos do padrão estabelecido por Deus, por menor que seja esse desvio, arriscamo-nos a não chegar ao destino desejado. Aquilo que resolvemos ler ou olhar ou em que decidimos pensar irá determinar como terminaremos: se vencedores ou vencidos, se vitoriosos ou derrotados. Quando eu era criança, aprendi o seguinte poema: Planta um pensamento e colherás um ato; Planta um ato e colherás um hábito; Planta um hábito e colherás um caráter; Planta um caráter e colherás um destino.4 A primeira estratégia de Satanás para ganhar a batalha em nossa mente é procurar desviar-nos do rumo certo. (Ver Tiago 1.14,15.) O elemento que ele emprega nisso pode não ser pecado em si mesmo. Aliás, os desvios mais eficientes são os não-pecaminosos. Pode ser algo aparentemente insignificante. Entretanto aquilo que nos deixa alienados ou enfraquece uma decisão tomada coloca em risco nossa pureza. Meu irmão, o que serve para desviá-lo do curso? Em que áreas de sua vida você está sempre enfrentando lutas? A que tipo de pecado percebe que é mais vulnerável? Você dedica muito do seu tempo a alguma atividade? Qual? Qual é a "isca" mais eficiente que Satanás tem usado contra você nos últimos anos? É muito raro alguém cometer uma falha moral de um momento para outro. O erro quase sempre resulta de um lento declínio. Um caso extraconjugal, por exemplo, raramente ocorre por uma premeditação consciente. Se as pessoas fossem julgadas por terem algum envolvimento amoroso ilícito, poucas seriam condenadas por praticarem o adultério propriamente dito. Existem dois fatores básicos que predispõem um indivíduo para a infidelidade: vulnerabilidade emocional e oportunidade. O que acontece é que aqueles que se acham emocional-mente carentes vão pouco a pouco se envolvendo com alguém com quem se sentem bem, que lhes comunica um senso de bem-estar e que os "compreende". Esse afeiçoamento depois se transforma numa relação de dependência. Por (íin, eles percebem que se acham profundamente envolvidos <• que é muito


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difícil se desligarem. Quem decidir permanecer bem longe daquela linha limítrofe, guardando o coração e protegendo a mente, terá grandes probabilidades de tornar-se "mais que vencedor" (Rm 8.37). No livro de Provérbios, encontramos o seguinte ensinamento: "Quero que você aprenda este grande fato: uma vida fazendo o que é certo é a vida mais sábia que há. Se você viver esse tipo de vida não mancará nem tropeçará na sua corrida. Siga minhas instruções; não as esqueça, porque levarão você a uma vida verdadeira." (Pv 4.11-13 - BV.) 6. Controle os olhos. No início deste capítulo, mencionei que tive certo problema com a pornografia. Deus já me concedeu uma vitória expressiva nessa questão. Contudo por vezes a luta volta, quando estou na livraria de um aeroporto ou vou à locadora pegar uma fita para a família. Se avisto uni filme com título sugestivo ou vejo urna foto sedutora na capa de uma revista ou livro, minha mente tende a devanear, imaginando o que há ali, Eu mesmo me espanto quando isso acontece. E assim que me encontro nessa disposição, ponho-me a racionalizar, justificando coisas que, bem lá no fundo, sei que são erradas. Talvez elas não sejam pecado em si mesmas. Todavia, se servirem para enfraquecer minha decisão de me manter sexualmente puro, irão deixar-me vulnerável a tentações mais fortes, o que me conduzirá ao pecado. O bom nisso é que sempre que somos tentados, Deus manda um livramento (l Co 10.13). Depois de muitos anos (muitos mesmo) de prática, aprendi que não basta apenas guardar o coração e proteger a mente. Tenho de controlar os olhos. Assim que meu alarme interior soa, me forço a desviar os olhos e continuar caminhando em frente. Se não deixar os olhos se fixarem nessas imagens, será mais fácil desviar a mente delas. O que devemos evitar? Tudo que nosso coração disser que é errado. Os homens talvez tenham de evitar até imagens que pareçam inofensivas, como as propagandas de maios c de roupas íntimas femininas. Inúmeras mulheres têm me dito que o problema não afeta apenas aos homens, mas também a elas. A tentação, para elas, pode vir na forma que veio para Sharon: romances e novelas de televisão, que tendem a estimular a imaginação e alimentar fantasias viciosas e intensificar a insatisfação com o marido. Ademais, incentivam a mulher a procurar fora do casamento o "amor" de que, segundo eles, ela precisa e merece, Na história de José, em Gênesis 39, vemos que ele foi muito esperto. Sabia que quem brinca com fogo sai chamuscado. Ao ser tentado, fugiu. Saiu tão apressado que nem se preocupou em pegar sua túnica ou mandar um


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recado à mulher de Potifar para que a devolvesse. Jó também sabia da importância de controlar os olhos. Ele afirmou o seguinte: "Fiz aliança com meus olhos..." (Jó 31.1.) Davi, porém, já não agiu assim. Fez como outros homens que ficam a contemplar longamente uma mulher. Olhou-a um pouco mais do que deveria e entregou-se a fantasias insensatas. Não guardou os olhos e acabou cometendo adultério com Bate-Seba e assassinando o marido dela, Não é jogando gasolina no fogo que iremos apagá-lo. A "gasolina" da lascívia - na qual é muito fácil ficarmos viciados - é a racionalização e a justificação. E quando ela nos domina, Deus parece muito distante. E aí não importam as experiências que já tivemos, nem aquilo em que cremos, nern os princípios que conhecemos. Existe um corinho de escola dominical que meus filhos cantam cuja letra contém muita sabedoria. Diz assim: Cuidado, olhinho, com o que vê; Cuidado, ouvidinho, com o que ouve; Cuidado, boquinha, cora o que fala; O Salvador lá do céu está olhando pra você, Cuidado, olhinho, com o que vê. Conclusão Estamos vivendo em meio a uma grave crise moral. Sem dúvida alguma, isso é um problema sério. E sabemos também que ninguém poderá resolvê-lo sozinho. Claro que não! Contudo é certo que Deus pode usar a cada um de nós para contribuirmos para a solução dele. Lembremos as palavras de Jesus em Mateus 5.16: "Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus." E Cristo disse também: "Quem é fiel no pouco também é fiel no muito..." (Lc 16.10.) Quando eu era jovem não entendia a importância desse conceito. Hoje já sei que na caminhada em direção à santidade não existe nada que seja pequeno ou pouco. Aliás, a maneira como agirmos diante daquilo que é considerado pequeno ou pouco é que, com o tempo, irá determinar como agiremos diante do que é grande. Já mencionei o livro de C. S. Lewis, Cartas do Inferno. Numa das cartas do demônio experiente para seu pupilo, ele fala da eficácia de fatores de pequena importância no objetivo de derrotar os cristãos. Diz ele: "Lembre-se de que a única coisa que interessa mesmo é a distância que você leve sua vítima a separar-se do Inimigo. Não importa, absolutamente, se os pecados são desprezíveis, contanto que o efeito cumulativo resulte em abrir a vala que distancia ainda mais a vítima da Luz, arremessando-a para o Nada. O assassínio não valerá mais do que o jogo de azar, caso este último possibilite o êxito da artimanha. Com efeito, o caminho mais seguro que leva ao Inferno é o gradativo - o declive suave, atapetado de flores, destituído de


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curvas violentas, sem penhascos e sem sinais de direção."5 Por vezes somos tentados a dar abrigo a um pensamento ou atividade que sabemos ser contrário ao ensino claro das Escrituras ou que nosso espírito revela não ser o melhor para nós. Se o fizermos - mesmo que não se trate de algo pecaminoso - nossa visão espiritual ficará obscurecida, nossos ouvidos espirituais se tornarão surdos, e nossa alma, insensível à voz suave do Espírito Santo. Precisamos ter cuidado também com a tentação de justificar ou racionalizar. Muitos dos erros que cometi ocorreram quando decidi praticar algo que meu coração condenava, dizendo: "Não faça isso." É que segui a cabeça, que racionalizava, dizendo: "Isso não é pecado." Estejamos atentos a afirmações como as seguintes: "Ah, isso não é tão errado assim, não!" "Existem coisas piores que essa." "A Bíblia não diz nada a respeito disso." Não devemos perguntar o que há de errado com essa ou aquela prática; perguntemos o que há de certo com ela. Temos de raciocinar da seguinte maneira: "Esse ato que estou pensando em praticar vai contribuir para meu objetivo de ser como Deus quer que eu seja ou vai me afastar dele?" Se quisermos ter esperanças de salvar o casamento, as famílias, as cidades, a nação e esta civilização, precisamos voltar aos padrões estabelecidos por Deus para nós e abraçá-los de todo o coração. Não basta concordar mentalmente com a verdade nem apenas estar próximos dela. Temos de fazer o compromisso de ser homens e mulheres que não têrn medo de pagar o preço e tomar posição ao lado da verdade. Por vezes pensaremos que estamos sozinhos, mas na realidade achamo-nos cercados de outros crentes que desejam ter urna vida digna. Lembremos que "bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus" (Mt 5.8). Talvez alguém esteja dizendo : "Dr. Oliver, isso tudo está parecendo simples demais. Deus pode mesmo usar pequenas mudanças em mim para afetar minha família?" Ele usa, e embora os efeitos possam não ser imediatos, são duradouros. Nossa autenticidade cristã, a longo prazo, irá revelar a vacuídade da falsa moralidade do mundo. Isso eu lhe garanto. Por último, lembremos também que não é num vácuo que vivemos, pensamos e agimos. Nossa reação diante da tentação vai depender muito da maneira como nos ocupamos nas vinte e quatro horas anteriores. Essa é uma das razões por que procuro ser fiel aos meus encontros matinais com Deus,


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elevando a ele meus pensamentos e desejos e saturando minha mente da perspectiva dele. É por isso ainda que, à medida que o dia avança, mantenho estreita vigilância sobre minha mente, meus olhos e meu coração. E recomendo firmemente ao leitor que também confie sua vida ao Senhor e deixe que ele dirija seu caminhar. "Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas." (Pv 3.6.) Para pensar Há mais de vinte anos venho trabalhando com aconselhamento. Muitos dos meus clientes são pessoas que se envolveram com a imoralidade. E, ao falar de seu sofrimento, seu pesar, seu sentimento de culpa, sua humilhação e sua vergonha, quase todos disseram: "Se eu soubesse o que esse relacionamento iria custar a mim e aos meus entes queridos, jamais me teria envolvido com essa pessoa." A seguir, damos uma lista das conseqüências de um erro moral. Leia-a. Pense sobre ela. E na próxima vez que se vir tentado a praticar imoralidade, por menor que seja, pegue-a de novo e a releia. • Entristeço o Senhor que me salvou, enlameando seu santo nome. • Causo sofrimento a meu cônjuge, que é meu melhor e mais leal amigo. • Perco o respeito e a confiança de meu cônjuge. • Causo sofrimento a meus queridos filhos. • Maculo o exemplo que dou a meus filhos e minha credibilidade para com eles, anulando todos os esforços que faço agora e farei no futuro para ensiná-los a obedecer a Deus. ("Por que vou obedecer a uma pessoa que traiu meu pai [minha mãe] e a nós?") • Envergonho minha família. ("Por que meu pai [minha mãe] não é mais um líder na igreja?") • Destruo o relacionamento com meu cônjuge e meus filhos, caso continue em minha cegueira ou meu cônjuge não me perdoe. • Perco o respeito próprio. • Provoco um profundo e forte sentimento de culpa, difícil e ser superado. Embora Deus nos perdoe, por vezes, te mos dificuldade em nos perdoar a nós mesmos. • Crio lembranças e recordações que talvez prejudiquem minha intimidade com meu cônjuge no futuro. • Destruo anos de preparação para o ministério e a própria experiência


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ministerial invalidando-a por um longo tempo, talvez para sempre. • Comprometo o fiel exemplo e o trabalho dos outros crentes da comunidade. • Dou muita alegria a Satanás, o grande inimigo de Deus e de tudo que é reto. • Caso tenha cometido adultério, provoco castigo e muitas dificuldades à outra pessoa envolvida. • Talvez tenha de suportar as conseqüências de doenças, tais como gonorréia, sífilis, clamidíase, herpes e AIDS. Talvez contagie meu cônjuge e, no caso de contrair AIDS, posso até causar a sua morte. • Talvez cause uma gravidez, com implicações pessoais e financeiras, e uma recordação viva de meu pecado pelo resto da vida. • Faço o mesmo que fizeram as seguintes pessoas que destruíram o próprio ministério e com quem fiquei escandalizado: (cite os nomes). • Envergonho e ofendo os seguintes colegas de trabalho: (cite os nomes). • Envergonho e escandalizo os seguintes amigos, inclusive os que ganhei para Jesus e discipulei: (cite os nomes). • Sentirei vergonha e constrangimento pelo resto da vida. Capítulo 10 O Caminho Que Conduz A Maturidade Desde o início dos tempos, a humanidade tem presenciado a disputa entre vencer e perder. No capítulo 4 de Gênesis, encontramos o relato de que Caim, desejando que Deus o visse como um vencedor, teve inveja de seu irmão Abel e acabou matando-o. Séculos depois, quando Davi recebeu os louvores do povo devido à vitória sobre o gigante Golias, Saul também o invejou e procurou matá-lo. No tempo de Cristo, o grito de guerra dos exércitos do Império Romano era: "Ao vencedor, os despojos!" Pouco mudou em nossos dias. Vince Lombardi, um antigo treinador do time Packers, de Green Bay, hoje já falecido, costumava dizer: "Vencer não é tudo. É a única coisa que interessa!" Os Estados Unidos talvez sejam o país onde pessoas estão mais preocupadas em atingir o sucesso. Todo mundo tem um rótulo; ou é vencedor ou é perdedor. E essa obsessão pelo sucesso se acha presente em todas as camadas e categorias humanas. Todos a têm, não importa a idade, o


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sexo, a raça, a profissão, a religião, o grau de escolaridade ou o nível socioeconômico. O time de futebol americano de nossa cidade, o Broncos, teve a honra de disputar três vezes a final do campeonato nacional. E perdeu as três. Como será que a mídia o vê? Como vencedor ou perdedor? E o que dizer de times como o Vikings, de Minnesota, ou o Buffàlo Bills, que também perderam todas que disputaram? Esse pensamento "vencer é tudo" cobra do homem um alto preço. Quando achamos que só a vitória interessa e que falhar só não é pior do que morrer, tornamo-nos muito vulneráveis à tentação de usar de enganos, distorções, fraudes e de fazer concessões ao pecado para vencer. Se nosso único interesse é o resultado final, temos a tendência de racionalizar nossos atos desonestos, dizendo: "Ah, não é tão errado assim, não!" E há ainda aquela desculpa muito apreciada: "Todo mundo faz isso!" No momento em que triunfamos, todos nos chamam de vencedores. E a maioria das pessoas nem quer saber o que fizemos para vencer o jogo, ganhar dinheiro ou chegar em primeiro lugar. Vencemos e, com isso, somos os vitoriosos. Contudo uma das mais dolorosas realidades da vida é que muitas vezes aqueles que, a curto prazo, parecem vencedores, a longo prazo terminam derrotados. Nem sempre os que vencem são vitoriosos. Os que perdem nem sempre são perdedores. Quem perde pode ficar tão arrasado pela derrota que não enxerga mais nada pela perspectiva certa. Não consegue ver com objetividade nem a si mesmo nem à sua falha. Então, depois de pensar "Fracassei", passa a dizer: "Sou um fracassado, um derrotado. Nunca vou conseguir sucesso em nada. Sempre fui um derrotado e continuarei sendo." Há pessoas que se dispõem a pagar um preço altíssimo pelo que chamam de sucesso. Um exemplo clássico disso é o técnico Jimmy Johnson. Quando Jerry Jones assumiu a direção do time de futebol americano Cowboys, de Dallas, abalou o mundo esportivo ao despedir o conhecido treinador Tom Landry e contratar Jimmy Johnson. Este último não tinha nenhuma experiência no futebol profissional, mas tivera muito sucesso no campeonato universitário. E estava decidido a ser vitorioso também no meio profissional. Aliás, estava tão determinado que se divorciou de sua esposa, Linda Kay. O argumento era que em sua vida não havia espaço para ela e o Cowboys. Após uma primeira temporada decepcionante, ele levou sua equipe a


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conquistar o campeonato nacional por dois anos consecutivos. Tornara-se um vitorioso. Contudo sua esposa e filhos pagaram um alto preço por isso. Dando uma entrevista à revista Sport, Johnson afirmou o seguinte: "Acho que não cometi nenhum erro na criação de meus filhos. Em algumas situações, se pudesse voltar atrás, talvez agisse de maneira diferente. Mas não creio que tenha errado. A criação dos filhos tem dessas coisas." E mais adiante afirmou: "Eu tratava meus filhos quase como se eles fossem jogadores, com muito rigor. Isto é, quando estava em casa. Eu passava a maior parte do tempo fora."1 Brent, um dos filhos dele, iria confirmar isso. Ele narrou que certa vez chegou em casa muito tarde. O pai foi esperá-lo à porta e lhe perguntou onde tinha andado. Brent ficou enraivecido e respondeu: "A questão aqui é: onde o senhor tem andado?" E ele relata: "Fiquei chateado porque ele passava muito tempo fora de casa. Depois, quando chegava, começava a dar ordens. Achei que ele não tinha moral para vir dizer o que eu podia ou não fazer. Então, quando me indagou onde eu tinha andado, joguei a pergunta de volta pra ele."2 Parece que nossa obsessão pelo triunfo, bem como o estigma que se apega a quem fracassa têm afetado todos os aspectos da vida humana, inclusive o casamento, a família e o trabalho. Concordo plenamente com Charles Francis Adams, um estadista americano que viveu no século XIX e que afirmou o seguinte: "Ao que parece, todo mundo considera o fracasso um crime imperdoável, e o sucesso, uma virtude que redime todos os erros." E ainda dentro da mesma linha de pensamento, Jerry Croghan escreveu: "Em nossa sociedade hoje, a idéia de que alguém é um fracassado é mais terrível e maldita do que qualquer outra que se possa pensar. Algumas pessoas não se envergonham de confessar que são materialistas, gananciosas, alcoólatras, preguiçosas, pervertidas sexuais, etc., mas resistem firmemente à hipótese de que possam ter falhado em algum ponto."3 Depois de mais de quarenta e cinco anos de vida, nos quais tenho estudado a Palavra de Deus e trabalhado com pessoas que ele criou, aprendi que o medo de falhar pode destruir nossa capacidade de viver plenamente e de ser como o Senhor quer que sejamos. A melhor explicação para esse problema talvez seja a de Howard Hendricks. Diz ele:


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"A falha é um dos mais indesejáveis aspectos desta vida. Nós a negamos, fugimos dela e, se por acaso ela nos alcança, somos dominados por um medo permanente que nos imobiliza."4 E a verdade é que tentamos mesmo esconder nossos erros, como faz um adolescente com suas espinhas. Procuramos disfarçá-los e fingir que não os cometemos. Contudo, como acontece ao jovem, nossas tentativas de ocultá-los só servem para piorar a situação. É espantoso o que as pessoas fazem para dar a impressão de que são melhores do que na realidade são. Refiro-me a indivíduos inteligentes e espirituais, que tomam medidas ridículas para tentar enganar a si mesmos e aos outros. Recentemente tomei conhecimento de um fato que ilustra muito bem essa situação. Recebi um fax com um resumo das notícias e comentários do jornal New York Times. Nele havia a informação de que o corpo docente da Universidade de Stanford, em votação unânime, resolveu usar de mais rigor no sistema de notas para a avaliação dos alunos. Ali a maioria dos estudantes tirava só 9 e 10, quase como se tivessem direito a isso, e ninguém perdia média. Fiquei abismado ao saber que uma instituição com a reputação da Stanford pudesse chegar ao ponto de ter esse tipo de procedimento. No artigo dizia-se também que, a partir dali, os professores voltariam a reprovar os alunos e a dar-lhes notas 7, 6 e 5 quando o merecessem. Parecia que essas notas praticamente haviam desaparecido dos históricos escolares (maravilhosos, mas enganosos) de toda uma geração de estudantes dessa escola (e de muitas outras). O objetivo disso fora causar boa impressão em pais, empresários e nos deães de cursos superiores. "Infelizmente essa prática permissiva adotada pela Stanford é expressão de um sentimento em que se procura fugir do pavor do fracasso, em que se defende a idéia de que sentir-se bem é melhor do que sair-se bem e em que se pressupõe que é possível injetar auto-estima nos alunos, em vez de crer que é necessário que eles a cultivem mediante um trabalho sério." (Grifo do autor.)5 Essa prática da Stanford foi trágica por vários motivos. Primeiro, o engano vivenciado afetou a integridade e a credibilidade de uma das mais respeitadas universidades do país. Segundo, os alunos foram altamente injustiçados. Como operavam num sistema em que ninguém errava, foram privados da oportunidade de aprender com os próprios erros. E o pior de tudo é que avaliaram seu valor e sua capacidade em bases falsas. Carole Hyatt e Linda Gottlieb, em seu valioso livro When Smart People Fail (Quando gente inteligente fracassa), observam que a definição que nossa sociedade dá para sucesso tem quatro características principais. "1. Implica realizações de natureza visual, isto é, fazer algo...que


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contrasta com ser algo. 2- Tem de ser alcançado pelo próprio indivíduo. 3.As recompensas, normalmente, vêm sob a forma de dinheiro. Se a vida é um jogo, então marcar ponto é ganhar dinheiro. 4.A avaliação do sucesso é feita por outros."6 Infelizmente não é só o mundo que adota essa definição de sucesso. Muitos crentes estão aceitando uma conceituação de sucesso e fracasso que não é bíblica. Tenho ouvido alguns dizerem que nosso valor pessoal depende daquilo que realizamos e dos males de que nos abstemos; não da compreensão de como Deus nos vê, devido à nossa posição em Cristo, e de como ele quer que sejamos mediante a obra de santificação. Tais pessoas crêem que quem comete erros é carnal e espiritualmente imaturo. Por que temos tanta facilidade para aceitar esse culto do sucesso? Como foi que nos deixamos envolver por essa insensatez que é a "síndrome do pseudo-sucesso"? As razões são muitas mas podem ser resumidas numa pequena palavra: medo. Esse sentimento é um dos mais fortes motivadores da humanidade. O temor de fracassar é imobilizante e, muitas vezes, é constituído de inúmeros outros: de ser medíocre, de ser rejeitado, de sofrer a humilhação da derrota, de "não ser escolhido", de ser tachado de "fracassado" e de que os outros descubram como realmente somos. Algumas pessoas têm tanto medo de errar que passam quase a vida toda "nas arquibancadas", sem querer arriscar-se. Em vez de entrar no "jogo" e correr o risco de sofrer uma derrota, evitam atividades que Deus criou para elas e que até poderiam apreciar. Em vez de confiar no Senhor e enxergar a vida com os olhos da fé, ficam obcecadas pelo fracasso. E o fato é que quanto mais alimentarmos nossos temores, mais eles aumentarão e mais difícil será superá-los. Então qual é o problema? Alguns talvez digam que nosso erro é que divinizamos o sucesso. Fizemos dele um deus. Contudo não creio que isso seja a explicação. Afinal a Bíblia ensina claramente que Deus quer que triunfemos. Ele deseja que sejamos mais que vencedores. O problema é que divinizamos um conceito errado de sucesso - aquele em que o homem, e não Deus, é o avaliador. E sempre que nos avaliamos usando uma medida aferidora tortuosa, o resultado final é errado. Como Deus vê o sucesso. Como mencionamos no capítulo 4, Deus não define o sucesso como a ausência de falhas. Não é com base em nossas realizações que ele mede nosso valor, mas no cultivo de qualidades semelhantes às de Cristo. Ele enxerga o sucesso mais como a direção em que seguimos do que como o destino a que vamos chegar. Sabe que dar passos de fé e correr o risco de


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fracassar são partes importantes do nosso amadurecimento espiritual. Paulo deu aos cristãos romanos a seguinte orientação: "Que o mundo que nos rodeia não nos comprima nos seus próprios moldes, mas deixai Deus reformar a vossa mente, de maneira a poderdes experimentar na prática como é benéfico o plano de Deus no que vos diz respeito, como satisfaz todas as suas exigências e como encaminha para a meta da verdadeira maturidade." (Rm 12.2 - Cartas às Igrejas Novas.) A questão é que preferimos nos identificar com aqueles que são ricos e poderosos e não com os humildes e sofredores. Queremos ser contados entre os que estão em ascensão e em evidência; não com os desprezíveis e fracassados. A tentação de nos conformarmos com este mundo (e com sua receita para se obter sucesso) é muito forte e fascinante. A definição de sucesso que o mundo oferece tem sua base na criação. Em contrapartida, nossa referência básica deve ser o Criador. Se quisermos compreender a visão de Deus a esse respeito, precisaremos conhecê-lo melhor e entender seu plano para nossa vida. Em seu best-seller Knowing God (Conhecer a Deus), J. I. Packer coloca, no início do capítulo 3, o seguinte arrazoado: "Para que fomos criados? Para conhecer a Deus. Então qual deve ser nosso objetivo na vida? Conhecer a Deus. O que é a Vida eterna' que Cristo nos oferece? O conhecimento de Deus. 'E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.' (Jo 17.3.) "O que há de melhor nesta vida, que nos confere mais gozo, alegria e satisfação? Conhecer a Deus. 'Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte, na sua força, nem o rico, nas suas riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor...'(Jr 9.23,24.) "De tudo que Deus vê no homem, o que é que mais lhe agrada? O conhecimento de Deus. 'Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos.' (Os 6.6.)"8 A Palavra de Deus é muito clara nessa questão. O testemunho das centenas de milhares de fiéis que viveram antes de nós também mostra o mesmo. O ponto de partida para termos uma vida vitoriosa, feliz e abundante é buscar conhecer a Deus por meio de um relacionamento íntimo, pessoal e cada vez mais profundo com Jesus Cristo. Voltando a João 17.3, observemos que Jesus não afirma que a vida eterna é ter conhecimento a respeito de Deus. Neste mundo, existem muitas fontes de informação acerca dele. Nesses anos todos, tenho percebido que é possível uma pessoa possuir um vasto conhecimento do Senhor e, ainda as-


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sim, não o conhecer pessoalmente nem se tornar semelhante a ele. Tive professores que eram capazes de fazer uma maravilhosa exegese do texto grego de l Coríntios 13, mas que expressavam muito pouco do verdadeiro amor. Eu próprio ensinei outros a vencer a tentação, mas pouco depois caí numa das mais elementares armadilhas do diabo. O livro de Efésios é um dos mais gloriosos do Novo Testamento. Se você, amigo leitor, um dia se vir atravessando o vale do desânimo, pegue a Bíblia e leia todos os seis capítulos dessa carta. Isso fatalmente irá mudar sua perspectiva da situação e renovar seu espírito. Paulo encerra a primeira parte dela ao final do capítulo 3, fazendo uma comovente oração em favor dos cristãos efésios. No verso 19, ele pede a Deus que lhes possibilite "conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus". Que petição notável! Que experiência gloriosa! Mas não é só isso. No versículo seguinte, ele revela que Deus "é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos". Assim que compreendemos o que é "conhecer" o amor de Cristo "que excede todo entendimento", somos cheios de toda a plenitude de Deus e conhecemos aquele que é poderoso para fazer muito mais do que tudo quanto pedimos ou imaginamos. Não é maravilhoso? Anos atrás, ouvi uma história que ilustra muito bem a diferença entre o conhecimento intelectual, como o que tinham os fariseus do tempo de Jesus, e o conhecimento pessoal que Paulo prega. Uma família muito rica deu uma festa e convidou um dos mais famosos oradores do mundo. Por cortesia, convidaram também o pastor da igreja. Ao final da recepção, um dos presentes solicitou ao talentoso orador que declamasse algo. - O que gostariam que eu declamasse? indagou ele.Silêncio. Ninguém conseguia pensar em nada. Afinal, o pastor, um homem idoso, erguendo a voz já um tanto fraca, pediu: - Gostaria muito que o senhor recitasse o Salmo 23, que sempre foi o meu predileto. O orador aquiesceu, mas com a condição de que, depois que ele encerrasse, o pastor fosse à frente e também dissesse o texto. Ele concordou, embora com certa relutância. O convidado de honra, um homem alto, levantou-se, respirou fundo e principiou: - "O Senhor é o meu pastor; nada me faltará..." Quando acabou, todos os presentes o aplaudiram. Em seguida, o velho pastor se dirigiu lentamente para a frente e se postou perante o grupo. Como não era muito alto, alguns dos que se encontravam mais ao fundo não o estavam vendo bem. Ele ficou


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parado uns instantes e depois, com sua voz fraca recitou: - "O Senhor é o meu pastor, nada me faltará..." Quando terminou, ninguém bateu palmas, mas muitos estavam com lágrimas nos olhos. O famoso orador aproximou-se do pastor e pôs o braço no ombro dele. Virando-se para os presentes, falou: - O pastor declamou o salmo muito melhor do que eu. Fez uma breve pausa e a seguir concluiu: - Está claro que, embora eu saiba de cor o Salmo 23, ele conhece o Pastor. Essa é a diferença entre um conhecimento intelectual de Deus e um conhecimento pessoal. No primeiro, podemos memorizar o salmo, saber quem o escreveu e identificar a categoria a que pertence. O segundo é o que obtemos em comunhão diária com o Pastor, em ouvir e reconhecer a voz dele. Vemos na Bíblia que Deus sempre toma a iniciativa de revelar-se a seu povo por meio de uma experiência pessoal. É por isso que ela fala tanto sobre amar a Deus. Amar não é simplesmente ter um compromisso superficial e meramente intelectual. O plano do Senhor para nós é um relacionamento pessoal com ele; não uma ordem de serviço. Se nos limitarmos a ter apenas informações a respeito de Deus, nunca teremos sucesso nem nos sentiremos plenamente satisfeitos. Por outro lado, só obteremos um verdadeiro conhecimento de Deus pela experiência pessoal, isto é, andando e conversando com ele, permitindo que se revele a nós, principalmente nos momentos em que falhamos. Vemos em Atos 4.13 que quando as pessoas perceberam que havia algo de diferente em Pedro e João, lembraram-se também de que eles haviam estado com Jesus. Paulo diz em Romanos 8.29 que o anseio de Deus é que sejamos "conformes à imagem de seu Filho". E em 2 Coríntios 3.18, o apóstolo afirma que "somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem". Pelo conhecimento intelectual, podemos obter informações valiosas. Contudo só um conhecimento pessoal, de coração, opera transformações que, por sua vez, trazem crescimento. Em l Coríntios, Paulo expressa preocupação com aqueles cristãos pelo fato de eles não haverem crescido. Diz ele: "Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais e sim como a carnais, como a crianças em Cristo." (3.1.) E o autor da carta aos hebreus também revela o mesmo sentimento pelo fato de os leitores não haverem amadurecido espiritualmente. (Ver Hebreus 5.11-14.) No início do capítulo 6, exorta-os a amadurecer, a prosseguir "até a perfeição" (6. l - IBB). O que ele quer dizer, na verdade, é o seguinte:


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"Ei, amigos! Já é tempo de vocês passarem por algumas mudanças. Está na hora de crescerem." Assumindo a disposição de mudar, de aprender e de crescer, estamos dizendo a Deus que o amamos. Estamos afirmando que cremos e confiamos nele e que queremos ser como ele deseja que sejamos. Com essa atitude, pela fé, estamos segurando em sua mão e deixando que ele nos conduza aonde quiser, até mesmo a situações que tememos ou que não entendemos. Em l Pedro l, o apóstolo utiliza uma figura muito acurada para falar do crescimento espiritual. Ele compara nossa vida ao ouro que tem de ser purificado pelo fogo. Nesse processo, o metal derretido é aquecido várias vezes. A cada vez, o calor traz à superfície do líquido todas as impurezas e ligas nele contidas, para que o ourives possa removê-las. Esse refinamento leva tempo e dá muito trabalho, mas vale a pena, pois o produto que se obtém ao final é o ouro puro. Deus emprega muitos combustíveis para acender o fogo pelo qual opera o refinamento de nossa vida. Um dos melhores e também mais frustrantes são as nossas falhas. Com elas, o Senhor produz o calor que traz à tona nossas fraquezas e impurezas. À luz de nossos erros, enxergamos melhor nossos defeitos e, assim, temos oportunidade de crescer. Aliás, é por meio da decepção, da frustração e do desalento produzidos pelos nossos erros que aprendemos a enxergar tudo com os olhos de Cristo e passamos a ter a mente, o amor, a paciência e o perdão dele. Todas as vezes em que o ouro de nossa vida é aquecido, novas ligas e impurezas sobem à superfície. E a cada passo do processo, o metal vai se tornando diferente do que era antes. Chego até a afirmar que a definição divina de sucesso se resume na palavra crescimento. À medida que vamos crescendo e manifestando o fruto do Espírito, vamos obtendo sucesso. Vejamos os seguintes sinônimos da palavra "crescer". tornar-se

dar fruto

aumentar

progredir

vicejar

estender-se

melhorar

desenvolver-se

desabrochar

expandir

suplementar

brotar

ampliar

avançar

amadurecer

prosperar

florir

Lembro-me de que certa vez ouvi uma mensagem radiofônica de


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Warren Wiersbe, em que ele dizia o seguinte: "As mudanças podem nos trazer inúmeros benefícios, lodo mundo sabe que não existe vida sem crescimento. Se pararmos de crescer, estaremos parando de viver e passando meramente a existir. Por outro lado, não existe crescimento nem desafios sem a ocorrência de mudanças. A vida, na realidade, é constituída de uma série de alterações que criam desafios. E quem quiser vencer, tem de crescer." No início deste capítulo, fizemos menção do técnico Jimmy Johnson e de como ele agiu para obter sucesso. Em contraste com o exemplo dele, temos o de Tim Burke, também atleta profissional. Tim tem pelo beisebol a mesma paixão de Jimmy pelo futebol americano. Desde bem pequeno, o sonho de Tim era jogar num time da primeira divisão. E foi com muito esforço e sacrifício que finalmente um dia ele atingiu esse objetivo. Na época em que se tornou um conceituado arremessador do time Expôs de Montreal, ele e sua esposa resolveram começar a ter filhos. Pouco depois descobriram que não poderiam tê-los. Após muita oração e ponderação, decidiram adotar crianças. Afinal acabaram acolhendo cinco crianças de origem estrangeira. Um pouco mais adiante, Burke teve de tomar uma das mais difíceis decisões de sua vida. É que percebera que as viagens que era obrigado a fazer com o time estavam impedindo-o de ser um bom marido e pai. Então convenceu-se de que não poderia criar os filhos adequadamente e, ao mesmo tempo, jogar beisebol. Novamente orou, pensou muito e acabou tomando uma resolução que muitos consideraram inacreditável: parar de jogar profissionalmente. Ao término de seu último jogo, os repórteres o cercaram querendo saber por que ele estava abandonando a carreira. É Burke explicou: "O beisebol vai continuar muito bem sem mim. Não vai perder nada. Mas meus filhos só têm um pai, e minha esposa só tem um marido - eu. Eles precisam mais de mim do que o beisebol."9 Ele reconhecia que "... muita gente não vai entender o fato de eu largar toda essa fama e o dinheiro que obtenho jogando num time da primeira divisão... Ávida toda sonhei ser arremessador numa equipe dessa categoria. E durante oito temporadas realizei esse desejo. Agora tenho um outro sonho mais importante. Quero ser um marido e pai de primeira divisão"10. Resumindo tudo que se pode dizer sobre o assunto, concluímos que a definição bíblica de sucesso apresenta cinco características. 1. Requer um empenho máximo para nos conformarmos à imagem de


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Cristo. 2. E um processo que exige tempo, implica dar passos de fé e tirar lições de nossos erros, 3. Não podemos atingi-lo sozinhos. Precisamos do Espírito Santo conosco, bem como da Bíblia e da igreja. 4. As recompensas dele advindas são temporais e também eternas. Em alguns casos, envolvem dinheiro. Em outros, envolvem valores que o dinheiro não pode comprar e nem se apagam com o tempo. 5. É Deus quem diz se obtivemos sucesso ou não. É sua Palavra e o testemunho de fiéis amigos cristãos que dão validade a ele. Todos aos queremos ser vitoriosos. Contudo será nossa definição de sucesso e fracasso que determinará se seremos vencedores ou não. Todos os dias tomamos decisões. O Jimmy Johnson fez a dele e o Tim Burke também. Qual dos dois obteve sucesso e qual deles fracassou? Deus quer que nos conformemos à imagem de Jesus Cristo. Todavia crescer implica mudanças, fazer algo diferente. Isso nos obriga a deixar situações em que nos sentimos acomodados. Por outro lado, porém, quais as conseqüências de resolvermos não correr riscos, de decidirmos não crescer? Espero que o leitor concorde com Chuck Swindoll, que diz o seguinte: "É muito importante que nos enxerguemos à luz do que diz a Palavra de Deus; isso é vital... Depois então temos de nos dispor a introduzir as modificações que se fizerem necessárias. E quero adiantar algo: o inimigo número um dessa transformação será nossa natureza pecaminosa, que é teimosa e está muito satisfeita consigo mesma. Ela é como uma criança mimada, que fez tudo que quis durante muitos anos, e portanto não irá ceder sem antes fazer um pouco de 'pirraça'. A mudança é a maior ameaça que pode ocorrer-lhe, e é inevitável que haja uni confronto entre elas. Temos de permitir a transformação para que possamos derrotar os perigos do hábito. E repito: esse confronto direto não será fácil. "A morte da carne é lenta, difícil e penosa. Ela se debate e resiste até o fim. Enquanto não resolvermos firmemente 'revestir-nos' da roupagem do novo homem (ter um novo modo de vida - cristão), não estaremos nos 'despojando' das vestes do velho homem (nossa antiga forma de viver). O nome da costureira é 'Mudança', e ela é muito habilidosa na preparação dessa roupa para cada um individualmente. Contudo o processo é doloroso... e custoso."" Quando entendemos a receita de Deus para o sucesso e o papel importante que nossas falhas têm nesse processo, achamos mais fácil correr riscos que podem trazer-nos crescimento. É um trabalho para longo prazo, que por vezes será penoso. Contudo, sabendo que Deus estará conosco no


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decorrer dele, podemos rejeitar todas as outras alternativas. Para pensar 1. Corno você definia sucesso antes de começar a ler este livro? Como o define agora? 2. Quais são as três diferenças básicas entre o conceito de sucesso do mundo e o de Deus? 3. Depois de ler este capítulo, cite uma atitude específica que Deus talvez queira que você tome no objetivo de prosseguir "até a perfeição" (Hb 6.1), isto é, caminhar era direção ao amadurecimento espiritual. Capítulo 11 Como Ajudar Um Amigo Que Falhou Ao sentar-me para escrever este último capítulo, recordo-me do filme O Mágico de Oz, um dos meus prediletos. Lembro-me da cena em que "Dorothy" encontra-se com o grande mágico pela segunda vez. Ela acabara de derrotar a ímpia e maldosa feiticeira do Oriente. Conseguira superar grandes perigos com seus três amigos e conduzi-los ao poderoso, sábio e maravilhoso mágico. Todos estão cheios de esperanças com relação ao que o mago poderá fazer por eles. Ele é forte e sábio. É capaz de tudo. Eles estão confiantes nele, vendo-o como um herói, É aí então que o pequeno Totó puxa a cortina, e eles vêem como mágico é realmente: um homem baixote, muito gordo, uma figura masculina pouco marcante. E o que é pior: ele é um mentiroso. Dominada por um misto de raiva e desespero, "Dorothy" exclama: - Você é um homem horrível! Então, com expressão triste, mas demonstrando compreensão, ele replica: - Não, não sou um homem horrível; sou apenas um mágico horrível! Quando um amigo nosso enfrenta uma crise, muitos de nós nos sentimos como esse mágico. Não somos horríveis; apenas humanos e imperfeitos. Nem sempre sabemos o que fazer ou o que dizer. Não nos sentimos seguros e confiantes, como talvez aparentemos. Em alguns casos, até receamos dizer ou fazer algo errado. O que devo dizer? O que não devo dizer? pensamos. E foi o que pensei também algum tempo atrás, quando Ed, um irmão da igreja, me telefonou para narrar-me um problema. Após os cumprimentos iniciais, ele me contou que fora despedido de seu emprego, onde tinha sido admitido havia cinco meses. Por si só isso já era péssimo. O que complicava ainda mais a situação era que ele fora despedido do serviço anterior. Passara


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um ano amargando a condição de desempregado e, afinal, recebera a "resposta de suas orações" - esse novo emprego, do qual agora acabava de ser demitido. E tendo na voz um tom de sofrimento difícil de ser expresso em palavras, ele disse: - Gary, estou com vontade de desistir de tudo. Parecia que minha situação iria começar a melhorar, e agora me acon tece isso. Deu um longo suspiro e acrescentou: - Ainda não contei para Judy nem para as crianças. Não sei como vou dizer. Fez outra pausa e concluiu: - Nem sei se vou conseguir contar. Eu dera apoio moral ao Ed quando ele perdera o emprego anterior e durante os altos e baixos do período de desemprego. Participara também da alegria que ele experimentara quando finalmente arranjara um novo trabalho. Estivera ao seu lado quando ele vivenciara urna crise que eu considerara a pior de todas. Agora, porém, percebia em sua voz um novo indício de desânimo e desespero. Uma de minhas primeiras providências foi procurar verificar se seu estado de depressão o inclinava a pensar em suicídio. Disse que não, mas continuei um pouco preocupado. Ele parecia dominado por uma idéia fixa. - Sou um fracassado, um perdedor. Um homem que não consegue manter o emprego e sustentar a família, nem é homem direito, falou. Com o abalo da perda sofrida, o impacto dela em sua vida e a possibilidade de se sentir humilhado ao revelar o fato, ele se encontrava emocionalmente esmagado. Antes de entrar na sala do gerente, parecia estar nas nuvens. Quando saiu de lá, vinha atordoado, confuso, desanimado, deprimido e esgotado. O ímpeto das emoções que nos dominam durante uma crise provoca uma forte perda do senso de perspectiva. Ed estava com os olhos tão fixos em seu problema, que era incapaz de ouvir qualquer sugestão de solução. Ele se via como um fracassado; não apenas como alguém que sofrerá um revés. Existe uma enorme diferença entre as duas situações. Na primeira, temos uma definição de nossa pessoa. Na segunda, a descrição de um aspecto de nossa vida. Continuamos a conversar, e procurei ouvir atentamente o que Ed falava. Eu poderia dizer-lhe que apesar de tudo, ele ainda era uma pessoa valiosa. Por outro lado, poderia mostrar-lhe que ele o era, dedicando aquele


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tempo a escutá-lo com paciência, Como sucede a muita gente que sofre urn revés, ele iniciara o papo fazendo a pergunta clássica: "Por que isso aconteceu comigo?" Depois passara à interminável procura das possíveis causas. Por que é tão difícil ajudar um amigo que sofre um insucesso assim? As razões são várias. A principal é que não sabemos ao certo como agir. Outra é que essa situação nos leva a relembrar algum sofrimento passado. Além disso, desperta em nós o medo de também fracassarmos. Então o que devemos fazer numa ocasião dessas? O que vamos dizer? O que não dizer? De que é mesmo que esse amigo precisa? Será que temos condições de ajudá-lo? Essas questões são muito importantes, e quem ainda não as enfrentou, mais dia menos dia irá deparar-se com elas. Eu sabia que não valeria de nada para o Ed que eu agisse como os três amigos de Jó. Não lhe seria de proveito algum que o humilhássemos, envergonhássemos, pensássemos no pior, oferecêssemos soluções simplistas ou mandássemos que encarasse o acontecido. Não adiantaria nada dizer-lhe: "Cresça, rapaz! Enfrente isso como homem! Você não é o primeiro a ser despedido. Onde está sua fé? Confie em Deus!" A melhor atitude a tomar diante de um amigo com um problema grave é seguir as instruções que encontramos nos cruzamentos de ferrovias: "Pare! Olhe! Escute!" A primeira etapa é parar. É tomar a decisão de tirar algum tempo de nossa vida agitada para dedicar a um amigo. Quando Ed me ligou, eu estava no meio de um serviço que tinha de terminar logo. Contudo ouvi a voz tranqüila e suave do Espírito Santo dizendo-me que eu poderia perfeitamente dar uma hora de meu tempo àquele amigo. E quando pararmos, lembremos que, de início, a pessoa que está sofrendo precisa de consolo, apoio moral e uma nova perspectiva. Ela não consegue ver o quadro geral, devido ao problema que a aflige. Por causa do sofrimento que enfrenta em nível temporal, se acha cega para com a visão do que é eterno. A questão agora é como ela precisa ser auxiliada; não como ela merece ser tratada. A esse respeito, Gordon MacDonald faz a seguinte consideração: "Tanto na igreja como fora dela existem pessoas que estão com seu mundo particular desmoronado. E não são poucas. Elas querem desesperadamente encontrar um ouvido sábio e compreensivo. Desejam uma 'trégua' para poderem ter tempo de consertar o que está errado e renovar tudo. As que têm a atitude certa não estão querendo que os outros ignorem os pecados delas nem que lhes 'passem a mão na cabeça'. Não pedem que outros


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finjam que nada fizeram de errado. Querem somente o que a cruz de Cristo tem para oferecer-lhes: o recebimento da graça divina, a aplicação da cura espiritual e a restauração da capacidade de serem úteis."1 Sem a graça e o emprego de tempo, as feridas do coração e os sonhos desfeitos demorarão muito para se refazer. Ao ajudarmos alguém que falhou, lembremos a atitude que Jesus teve para com Pedro. Ele lhe deu aceitação, mas não aprovação. Compreendeu-o, sem o condenar. Tratou-o com sinceridade, mas não com condescendência. Como é que urna família bem estruturada e as pessoas sábias tratam seus entes queridos nos momentos em que estes falham? Já viu como agem os pais num jogo de futebol quando um filho está em campo? Imaginemos que esse filho seja um jogador de defesa. Ele fez um lançamento que caiu nos pés de um adversário. O que os pais iriam gritar? Será que diriam: "Tirem esse cara do time! Ele só dá mancada! É ruim demais!" Ou será que gritariam: "Não faz mal, filho! Continue atento. Você vai se sair bem! Recupere a bola!" A primeira atitude de uma boa família é estar presente. Ela fica junto. Mostra ao filho que está com ele, ao lado dele para o que der e vier. Quem já sofreu o impacto de um fracasso sério talvez saiba o quanto é valioso ter alguém ao seu lado, alguém que se faz presente. Em segundo lugar, uma boa família conhece o valor do incentivo. Sabe da importância de ser um "Barnabé". Imaginemos, por uns instantes, que fomos nós quem fizemos o lançamento que chegou ao adversário. Olhamos para as arquibancadas e nossos pais nem estão lá. O que sentiremos? Ou estão, mas abaixaram a cabeça. O que sentiremos agora? Ou ainda, estão, mas puserarn-se a gritar xingamentos. O que sentiremos nesse caso? Por último, imaginemos que ao olhar para a arquibancada nós os vemos ali. Ainda enxergamos aquela expressão de orgulho no rosto de nossa mãe. Notamos, pelo olhar de nosso pai, que ele está do nosso lado. Sentimos que eles estão murmurando palavras de incentivo, de esperança e de apoio. O que sentiremos agora? Não existe uma fórmula simples e certeira para se ajudar um amigo que falhou. Não há frases nem versos bíblicos que podemos citar e que, num passe de mágica, tragam alívio ao coração ou cicatrizem a ferida. Todavia existem algumas providências que podemos tomar para ajudar a enxugar-lhe as lágrimas, de modo que ele possa enxergar um pouco melhor. E para isso ninguém precisa ser pastor nem psicólogo. Qualquer um pode parar um pouco. Qualquer um pode tomar a decisão de se posicionar ao lado desse amigo e de deixar que Deus o use nessa situação.


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Depois de parar, a etapa seguinte é olhar. Primeiro, olhemos o que Deus tem feito em nossa própria vida. Recordemos o que ele nos ensinou nos últimos meses. Lembremos as passagens da Bíblia que nos trouxeram alento. Pode ser que Deus tenha trazido à nossa lembrança um hino que nos inspirou. Talvez eleja estivesse nos preparando para esse momento. Vamos olhar bem. É possível que estejamos de posse de alguns recursos dos quais não estamos cientes. Em seguida, vamos buscar a Deus em oração. Vamos pedir-lhe poder, paciência, sabedoria e a perspectiva certa. Lembremos o que diz o apóstolo Tiago: "Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes irnpropera; e ser-lhe-á concedida." Esse versículo é extraordinário, mas não paremos aí. Vejamos o seguinte. "Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; pois o que duvida é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento." (Tg 1.5,6.) A terceira etapa, que também é muito simples, é ouvir. Ao encontrarmos alguém com um problema e pensarmos: O que vou dizer? lembremos de uma resposta ótima: Nada. Primeiro vamos olhar, em seguida, escutar e, só depois, falar. Nesse mister de ajudar alguém, muitas vezes usamos essa fórmula na ordem invertida. Iniciamos falando, falando e falando, e só por último olhamos e escutamos. Eu próprio cometi esse erro durante muito tempo. Quando pensava em ajudar alguém que estava sofrendo, só me preocupava em falar. Além disso, quando o amigo que sofre estiver falando, vamos criar o hábito de escutar atentamente o que ele diz. Observe que eu disse criar o hábito de ouvir, pois não é fácil ser um bom ouvinte. Uma forma de demonstrarmos amor por um amigo é sorrir e acenar afirmativamente, sempre mantendo contato visual com ele e deixando que fale sem interrupções. Em alguns casos, ele pode ter muito para dizer, e nós não estarmos com tempo disponível. Na primeira vez em que conversei com Ed, parecia que uma barragem verbal se rebentara em seu interior e que ele iria falar a noite toda. Só que eu não poderia ficar a noite toda. Contudo pude comunicar-lhe meu interesse pelo problema e a disposição de dedicar algum tempo a ouvi-lo. Ademais, aconselhei-o a ligar para um amigo comum que passara pela mesma situação recentemente. Ao fim da conversa, marcamos outra hora para falarmos mais sobre o assunto. Depois que tivermos parado e dedicado um bom tempo a olhar e escutar, é hora de falar. Contudo não comecemos dando conselhos. Vamos iniciar fazendo algumas perguntas. Agindo assim, estaremos passando-lhe a seguinte mensagem: "Eu ouvi o que você disse. Estou do seu lado. Apesar do que aconteceu, você é uma pessoa de valor. Merece toda a minha atenção. Quero compreendê-lo melhor. Eu me preocupo com seu sofrimento. Você é


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muito importante para mim." Existem dois tipos de perguntas: as abertas e as fechadas. As fechadas são as que se respondem apenas com "sim" ou "não", como por exemplo "Você está desesperado?" As abertas são as que pedem uma resposta de duas ou mais palavras, como por exemplo: "O que posso fazer para ajudá-lo?" Em geral, nesses casos, é melhor fazermos perguntas abertas. Sempre que perguntarmos algo, lembremos de dar ao outro tempo para responder. Se ficarmos insistindo em que ele responda logo, estaremos pressionando-o e dando uma impressão que não temos a intenção de dar. Embora queiramos dizer-lhe: "Você é muito importante para mim", a mensagem que estamos lhe passando é a seguinte: "Eu me interesso pelo que você tem a dizer, mas só se puder dizer rapidamente. Tenho outras obrigações a cumprir." Outro fator interessante é permitir que a pessoa externe suas emoções. Muitas vezes, diante de um amigo em crise, queremos resolver o problema o mais depressa possível. Seja porque nos sentimos incomodados ou porque o outro se mostra desinquieto, tentamos acelerar o processo e acabamos suturando um corte que não passou por uma boa assepsia. É bom lembrar ainda que as emoções e as reações emocionais nem sempre são racionais. Contudo são perfeitamente válidas, embora muitas vezes não vejamos uma razão lógica naquilo que nosso amigo está sentindo ou pensando. Muitas pessoas, por desinformação ou por erro de criação, não sabem definir direito o que estão sentindo. Sentiam-se deprimidas, mas lhes disseram que estavam apenas desanimadas. Quando estavam tristes, diziam-lhes que procurassem reanimar-se. Quando estavam iradas, diziam-lhes que se acalmassem. Quando sofriam, diziam-lhes para ser fortes e sorrir. Entretanto o fato de termos sido criados à imagem de Deus implica, em parte, ter emoções. Os pássaros voam, os peixes nadam e o ser humano sente. Para resolvermos o problema da ampla gama de emoções que podem surgir durante uma crise, temos de aprender a identificá-las e a expressá-las. Nem sempre temos liberdade de escolher os sentimentos que experimentamos. Todavia, com o auxílio de Deus, podemos aprender a entendê-los e a externá-los. No estágio inicial do processo de cura, é mais importante que a pessoa saiba definir o que está sentindo do que explicar por que o está sentindo. Sabendo bem quais são suas emoções, ela pode se sentir menos insegura. Em outras conversas que tive com Ed, falei-lhe dos sofrimentos que eu próprio passara nos meus "vales", e como Deus os usara em minha vida. Expliquei-lhe como o Senhor me ajudara a descobrir as causas básicas de


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minhas falhas, Nosso objetivo, nesse ponto, é ser sinceros e nos abrir com a pessoa, a ponto de até revelar-lhe nossos pecados e as "burrices" que cometemos. Em Lucas 22.32, Jesus diz a Pedro o seguinte: "... tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos." Os outros podem aprender alguma lição com nossos fracassos. Deus determinou que vivamos numa condição de dependência uns dos outros. Se ocultarmos nossas falhas, guardando-as como segredos fechados, o corpo de Cristo certamente sofrerá algumas perdas. Embora não queiramos exibir as experiências negativas, ainda assim podemos nos relacionar com as pessoas de forma profunda, de modo que nos vejam como somos. Então, quando um amigo fracassar ou cometer uma falha, não nos limitemos a ficar parados, olhando para ele. Vamos nos colocar ao seu lado, identificar-nos com seu problema, abrir o coração para ele e nos preocupar mais com o que Deus pensa do que com o que os outros vão dizer. Numa das conversas com Ed, ele me olhou muito sério e disse: "Eu não tinha a menor idéia de que você também tinha problema de depressão." Fiquei um pouco espantado, pois já mencionara minhas lutas nas reuniões de nosso grupo. E ele disse mais: "Assim fica mais fácil eu aplicar os princípios bíblicos em minha vida." Dando-lhe a chance de ver o quanto minha vida era imperfeita, fui para ele um exemplo do que Deus desejava realizar na dele. Como mencionei no capítulo 3, quando alguém está passando por uma experiência negativa desse tipo, tem um conceito distorcido de maturidade e de sucesso. Acha que quem é maduro não tem problemas. Na verdade, amadurecer é um processo que implica ter problemas. Mostrei a Ed que todos estamos nesse processo. Em 2 Coríntios 3.18, Paulo afirma: "E todos nós... somos transformados..." Aí ele empregou o termo grego metamorphosis, que significa "tornar-se totalmente novo". Se nos dispusermos a aceitar os fatos relacionados com nossas falhas e fracassos, estaremos fortalecendo nossa capacidade de ser transformados. Se nos recusarmos a encará-los, porém, estaremos bloqueando a operação do Espírito Santo no sentido de renovar nossa vida. Martinho Lutero expressou isso muito bem. Disse ele: "Viver a vida cristã não significa ser santo, mas nos tornarmos santos. Não é estar bem, mas ir ficando bem. Não é ser, mas tornar-se. Não é inatividade, mas prática. No momento ainda não somos como deveríamos ser, mas estamos caminhando para sê-lo. Nossa missão ainda não está cum-


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prida, mas em andamento. Ainda não chegamos ao fim almejado, mas nos achamos no caminho que conduz para ele. Por enquanto, as coisas ainda não estão brilhantes e radiosas, mas estão se purificando."2 Pare! Olhe! Escute! São três atitudes simples que todos nós podemos assumir, inclusive você. Assim que seu amigo ou ente querido começar a equilibrar-se de novo, você poderá apresentar-lhe os doze passos que ele deve dar para "crescer" em meio ao fracasso. Talvez você possa ajudá-lo nas etapas iniciais, acompanhando-o em cada passo. (Querendo saber os detalhes do processo, volte aos capítulos 5 e 6.) Com muita luta, determinação, paciência e apoio de terceiros, Ed conseguiu superar sua crise. Levou um bom tempo, mas. alguns meses depois daquele primeiro telefonema, recebi um bilhete dele comentando o fato. Seu teor era tão animador e ele estava tão bem escrito que resolvi guardá-lo. E com sua permissão, transcrevo a seguir alguns parágrafos da nota. "Caro Gary, "Quando você me disse que Deus poderia vir em meu auxílio, mesmo em meio ao problema, pensei: 'Está claro que ele não tem a mínima idéia da gravidade do meu sofrimento e do medo que estou sentindo.' Pois descobri que estava enganado. "Não era você que não entendia meu sofrimento. Era eu que não compreendia plenamente o amor de Deus por mim nem o valor do corpo de Cristo. Tampouco sabia aplicar os princípios bíblicos específicos a uma situação que parecia irremediável. Não enxergava o processo que precisava vivenciar para amadurecer. "Quando você se dispôs a falar-me de algumas de suas falhas, da vergonha que sentiu por ter feito algo que sabia ser errado, da humilhação sofrida por haver decepcionado outros, comecei a ter outra visão de tudo. Percebi que não era o único a sofrer. Comecei a enxergar que existe uma enorme diferença entre fracassar e ser um fracassado. "Suas orações me trouxeram muito conforto. Os versos que citou, embora eu possa ter dado a impressão de que não os ouvia, comunicaram-me os primeiros raios de esperança. Depois disso, esses textos, Salmo 40.1-3, Mateus 6.33, Romanos 8.28,29a, l Coríntios 10.14 e o quarto capítulo de Filipenses, ganharam um novo significado para mim. Lembro-me de que pensei: 'Ah, não pode ser tão fácil assim!' E dessa vez eu tinha razão. Não foi fácil, mas foi simples. Precisei apenas ser fiel, ficar firme e não desistir. "Ainda tenho momentos de depressão, mas não com a mesma freqüência de antes. Nem são eles tão prolongados como os primeiros. A maior parte do tempo, estou assumindo a atitude positiva de procurar sempre


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enxergar a mão de Deus nesse processo, que pode ser difícil, mas já está dando frutos. "Quando eu era recém-convertido, decorei l Pedro 5.7: 'Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.' Hoje posso dizer que, além de saber esse texto de cor, também estou vendo-o aplicar-se à minha vida, ao meu coração e casamento." Não existe vida sem sofrimento. Contudo podemos passar por essa dificuldade inevitável com a coragem e a perspectiva certa que obtemos em um relacionamento pessoal com o Deus vivo. E quando decidimos deixar que ele nos use para ajudar um amigo que se acha curvado ao peso de uma falha, adquirimos renovadas forças e coragem. Em João 20, os discípulos de Jesus começaram a reunir-se a portas fechadas, com medo dos judeus. Depois, porém, quando entenderam que o Senhor de fato ressuscitara e estava vivo, sua visão de tudo mudou, e eles se tornaram destemidos. Passaram a agir com poder e convicção, dispondo-se até a encarar a morte por amor a ele. Paulo revela, em 2 Timóteo, que deixara Timóteo em Éfeso, à frente da igreja local. A tarefa dele ali era combater as heresias, organizar o culto na igreja, nomear e preparar os dirigentes, regulamentar o ministério de amparo às viúvas do lugar e ensinar a doutrina cristã. Timóteo ainda era jovem. Tinha provavelmente trinta e poucos anos. E o apóstolo lhe atribuíra muita responsabilidade e autoridade. O jovem era tímido por natureza, e de saúde delicada. Evidentemente sentia-se um pouco aturdido com tudo isso e abrigava algumas apreensões. Então Paulo relembrou-lhe seu chamado e sua herança espiritual e, por fim, disse: "Porque Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação." (2 Tm 1.7.) Você que me lê talvez conheça alguém - um parente, um amigo, um colega de trabalho - que está enfrentando uma situação de falha ou fracasso. É possível que essa pessoa esteja se agarrando a qualquer tábua de salvação, sem saber a quem recorrer, e desejando que apareça alguém para socorrê-la. Meu desejo sincero é que Deus use os princípios e ferramentas que apresentamos neste livro para que você, leitor, se convença de que o Senhor pode usá-lo nessa tarefa. Que Deus lhe dê coragem, que você se disponha a aproximar-se dessa pessoa que está sofrendo e decida parar, olhar e escutar. E depois lhe transmitir as poderosas palavras de vida. Por último, lembre-se de que um fracasso não é o fim, mas sim uma experiência em que temos a oportunidade de crescer. Pense sempre que o Deus que nos criou nos ama, e que nada jamais poderá separar-nos do amor dele.


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NOTAS Capítulo l l .John Lord e Jeffrey Wold. Song ofthe Phoenix (Canção da fênix). Stockbridge, Mass.: Berkshire House, 1992, p. 26. 2.Citado em Psychology ofLosing (A psicologia da derrota), p. 161. 3.Letra e música de William J. Gaither © 1963 de William J.Gaither. ASCAP. Direitos reservados. 4.Fonte desconhecida. 5.Citado em Taking Chances (Correndo riscos), de Robert T. Lewis, Boston: Houghton Mifílin Co. 1979, p. 4. 6.Citado em Revista Geográfica Universal, dezembro de 1978. 7.Arthur Gordon, "On the Far Side of Failure" (O outro lado do fracasso). Seleções do Reader 's Digest, setembro de 1961, pp. 22-24. Capítulo 2 1.Programa de rádio. 2.Dielrich Bonhoeffer. Psalms: The Prayer Book ofthe Bible (Sal mos, o livro de orações da Bíblia). Minneapolis, Augsburg, 1970, pp. 64,65. Usado com permissão de Augsburg\Fortress. 3.Gordon MacDonald. Rebuilding Your Broken World (Recons truindo seu mundo desmoronado). Nashville: Oliver-Nelson, 1988, p. 30. 4.Fonte desconhecida. 5.David Swartz. Dancing with Broken Bonés (Dançando com os sos quebrados). Colorado Springs, Colorado: NavPress, 1987, p. 59. 6."CATFíY", cartum de Cathy Guisewite. Usado com permis são de Universal Press Syndicate. 7.John Lord e Jeffrey Wold. Song ofthe Phoenix, p. 110. 8.Richard Dortch. Integríty: How l Lost li and Myjourney Back. Green Forest, Ark.: New Leaf, 1993. Capítulo 3 1.MacDonald. Rebuilding Your Broken World, pp. 164,165. 2.Harold Kushner. When Bad Things Happen to Good People. Nova Iorque; Avon, 1981, p. 3.


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3.Carole Hyatt e Linda Gottlieb. When Smart People Fail (Quando uma pessoa inteligente erra). Nova Iorque: Simon & Schustei; 1987, p. 19. 4.Letra de Gloria Gaither, música de William J. Gaither, © 1971 William J. Gaither. ASCAP. Direitos reservados. 5.David D. Burns. Feeling Good (Sentir bem). Nova Iorque: Morrow, 1980, p. 21. 6.D. Martyn LIoyd-Jones. Spiritual Depression: Its Causes and Cure (Depressão espiritual, suas causas e a cura). Grand Rapids, Mich.: Eerdsrnans, 1966, pp. 10,11. 7.Dorothy L. Sayers em Dorothy L. Sayers: Spiritual VVritings (Textos espirituais de Dorothy L. Sayers), citado em Christianity Today, março de 1994, p. 42. 8.MacDonald, obra citada, pp. 38,39. 9.Citado em MacDonald. Rebuilding Your Broken World, pp. 28,29. 10 Ib. Capítulo 4 1.Erwin Lutzer. Failure: The Back Door to Success (Fracasso, a porta dos fundos do sucesso). Chicago: Moody, 1975, p. 51. 2.Max Lucado. No Wonder They Call Him the Savior (Não é de se admirar que o chamem de Salvador). Portland, Ore.: Multnomah, 1986, pp. 93-95. 3.Citado em Paul Brand e Philip Yancey. Pain: The Gift Nobody Wants (Dor: o dom que ninguém quer). Nova Iorque: HarperCollins, 1993, p. 300. 4.Adaptado de Philip H. Mirvís e David N. Berg, editores. Failures in Organization Development and Change (Falhas no desenvolvimento e mudança organizacionais) Nova Iorque: Wiley, 1977, p. 3. Vic Sussman. "To Win, First You Must Lose" (Para vencer, primeiro você tem de perder). U.S. News and World Report, de 15 de janeiro de 1990, pp. 64,65. Capítulo 5 1.C, S. Lewis, Cartas do Inferno. Tradução de Roque Monteiro de Andrade. São Paulo: Edições Vida Nova, 1964. 2.Ib, 3.Jack Hayford. Men ofAction. 1994, p. 7.


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4.Letra e música de Brown Bannister e Mike Hudson, © 1978 de Bug and Bear Music e Home Sweet Home Music 5.Jeffrey T. Jernigan. "Failure: One of Life's Best Teacher (Fracasso, um dos melhores mestres da escola da vida). 6. Decision, setembro de 1993,pp. 27-29. © 1992 Bily Graham Evangelista: Association. Usado com permissão. Direitos reservados 7.Osvald Chambers. Tudo Para Ele. 26 de agosto, Belo Horizonte: Editora Betânia, 1988. Capítulo 6 1. MacDonald. Rebuilding Your Broken World, pp.67-71. 2. John Gardner. Self-Renewal (Auto-renovação) em MacDonald, p. 74. 3.Oswald Chambers. The Place of Help (O lugar do socorro), grifo meu, em Rebuilding Your Broken World. 4.Eugene H. Peterson. Á Long Obedience in the Same Direclion (Uma longa obediência na mesma direção). Downers Grove, 111.: InterVarsity, 1980, p. 25. 5.MacDonald, p. 157. 6.Haddon W. Robinson. "Call Us Irresponsible" (Chamem-nos de irresponsáveis). Christianity Today, de 4 de abril de 1994, p. 15. 7.Adaptado de John Holt. Why Children Fail (Por que as crianças fracassam). Nova Iorque: Pitman, 1964, p. 34. Capítulo 7 1.Michael J. O'Neül. "Let's Hear It for Losers!" (Vamos ouvir a defesa dos perdedores!) Newsweek, 2 de novembro de 1987. 2.Adaptado de Wallace Terry. "When His Sound Was Silenced" (Quando o som dele silenciou). Parade Magazine, 25 de dezembro de 1994, pp. 12,13. 3.Eugene Peterson. The Message (A mensagem). Colorado Springs, Colo: NavPress, 1993, p. 21. 4.Citado em Richard J. Foster e James Bryan Smith, editores. Devotional Classics (Clássicos devocionais). San Francisco: Harper San Francisco, 1993, pp. 192,193. 5.Richard J. Foster. Prayer: Finding the Heart 's True Home (Oracão, em busca do verdadeiro lar do coração). San Francisco: Harper San Francisco, 1992, pp. 1,2.


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6.Nancy Spiegelberg. Decision, novembro de 1974. 7.Gordon MacDonald. Restoring Your Spiritual Passion (Restau rando seu fervor espiritual). Nashville: Oliver-Nelson, 1986, p. 105. 8.Traci Mullins. "Defeating the Fear of Failure" (Derrotando o medo do fracasso). Discipleship Journal, n° 36, 1986, p. 7. 9.Adaptado dos seguintes artigos: David A. Kaplan. "The Best Happy Ending" (O melhor final feliz). Newsweek de 28 de fevereiro de 1994, pp. 44,45; Paul A. Witteman. "Finally!" (Finalmente!). Time 28 de fevereiro de 1994; Alexander Wolff. "Whooosh!" Sports lllustrated, de 28 de fevereiro de 1994, pp. 19-23. 10.Miles J. Stanford. The Green Letters (As letras verdes). Lincoln, Neb.: Back to the Bible, 1991, p. 27. 11.Citado em The Green Letters, pp. 15,16. 12.Foster. Prayer, p. 71. Capítulo 8 1.Fonte desconhecida. 2.Norman Vincent Peale. Dynamic Imaging (Criando imagens dinâmicas). Old Tappan, N.J.: Revell, uma divisão de Baker Book House, 1982, pp. 186,187. 3.David Radavich. "In Life What's Importam Is That You Lose" (Na vida o importante é que você perca). U.S. News and World Report, 24 de agosto de 1987, p. 5. 4.EarI Gustkey. "FormerTrojans Endure Anguish at Tampa Bay". Los Angeles Times, 4 de novembro de 1977. 5."Losing Made Us More Determined". Hertel, Orange Coast, Calif., Daily Pilot, citado em Taking Chances, p. 174. Capítulo 9 1.P. P. Bliss, em AlfredB. Smith. InspiringHymns. GrandRapids, Mich.: Zondervan\Singspiration, 1951, p. 456. 2.Citado em Devotional Classics, p. 185. 3.Citado em William J. Bennett. The Book ofVirtues (O livro das virtudes). Nova Iorque, Simon and Schuster, 1993, p. 461. 4.Citado por Samuel Smiles em Bartlett 's Familiar Quotations (Citações conhecidas) 13.a edição, p. 1005. 5.C. S. Lewis. Cartas do Inferno. Capítulo 10


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1.Steve Buckley. "The Happiest Man in America?" Sport, julho de 1993, pp. 26,28. 2.Ib., p. 28. 3.Jerry Croghan. "ThePsychology of Art". American Artist, agosto de 1988, pp. 18-21. 4.Citado era Erwin Lutzer. Failure, The Back Door to Success, p. 9. 5."The Value of Failing" (O valor da falha). TimesFax, 5 de ju nho de 1994, p. 8. 6.Hyatt e Gottlieb. When Smart People Fail, p. 8. 7.Adaptado de Cornelius Plantinga Jr. "Assurances of the Heart" (Certezas do coração). Christianity Today, 20 de junho de 1994. 8.J. I. Packer. Knowing God (Conhecer a Deus). Downers Grove, 111.: InterVarsity, 1973, p. 29. Usado com permissão de InterVarsity Press, P.O. Box 1400, Downers Grove, 111. 60515. 9.Tim e Christine Burke com Greg Lewis. Major League Dad (Pai da primeira divisão). Colorado Springs, Colo.: Focus on the Family, 1994, p. 5. 10./i., pp. 241,247. 11.Charles R. Swindoll. Come Before Winter.., and Share My Hope (Venha antes do inverno e partilhe de minhas esperanças). Portland, Ore.: Multnomah, 1985, pp. 331,332. Capítulo II 1.Gordon MacDonald. Rebuildmg YourBroken World, p. 222. 2.Citado em Ewald M. Plass, compilador. What Luther Says, Vol. l (O que Lutero diz). St Louis: Concórdia, 1959, p. 235.

COMO ACERTAR DEPOIS QUE VOCÊ JÁ ERROU - GARY J. OLIVER  
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