Issuu on Google+

II Pedro e comentรกrio Michael Green

CULTURA BรBLICA


Segunda EpĂ­stola de Pedro e Judas


Segunda Epístola de Pedro e Judas Introdução e Comentário por Michael Green, M. A., B. D. Diretor, St. John’s College, Bramcote, Nottingham

SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA e ASSOCIAÇÃO RELIGIOSA EDITORA MUNDO CRISTÃO Rua Antonio Carlos Tacconi, 75 e 79 — Cidade Dutra São Paulo, SP, CEP 04810


Titulo do original em inglês: THE SECOND EPISTLE GENERAL OF PETER AN D THE GENERAL EPISTLE OF JUDE An Introduction and Commentary Copyright® 1968, pela INTER-VARSITY PRESS Londres, Inglaterra. Série: “TYNDALE COMMENTARY”

Tradução: Gordon Chown Primeira edição: 1983 — 5.000 exemplares

Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos reservados pelas Editoras: SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA e ASSOCIAÇÃO RELIGIOSA EDITORA MUNDO CRISTÃO São Paulo, SP, Brasil


Prefácio Geral Todos os que se interessam, tanto pelo ensino como pelo estudo do Novo Testamento, não podem deixar de preocupar-se com a falta que há atualmente de comentários que não sejam, nem demasiada­ mente técnicos, nem muito superficiais. O organizador desta série e . os editores têm esperança de que ele venha a suprir, ao menos em par­ te, tal carência. O propósito dos editores é colocar a um preço acessí­ vel nas mãos dos leitores do Novo Testamento, tanto daqueles que o fazem com fins de estudo como dos que o fazem por devoção, comen­ tários da autoria de vários eruditos que, conquanto livres para faze­ rem suas contribuições individuais, estáo, ao mesmo tempo, presos ao mesmo objetivo comum, qual seja o de produzir uma teologia ver­ dadeiramente bíblica. Estes comentários são, basicamente, exegéticos, e somente em segundo plano, são homiléticos. Espera-se, assim, que tanto o pes­ quisador como o pregador os acharão informativos e sugestivos. Os problemas difíceis são analisados em maior profundidade nas seções introdutórias, ou ainda, a critério do autor, em notas adicionais. Os comentários (em inglês) estão baseados no texto da Versão Autorizada (Authorized Version), e, na tradução em português, na Edição Revista e Atualizada no Brasil da Bíblia de Almeida. Deve-se ter em mente, não obstante, que nenhuma tradução da Bíblia é consi­ derada infalível, e nenhum manuscrito ou grupo de manuscritos ori­ ginais, em grego, é considerado totalmente certo! As palavras em grego estão, aqui, transliteradas com o duplo objetivo: de ajudar os que não estão familiarizados com a língua grega, e de evitar que aque­ les que a conhecem tenham dificuldade em reconhecer a palavra que está sendo analisada. Hoje em dia há inúmeros indícios de um renovado interesse no que a Bíblia tem a dizer, e um desejo geral de entendê-la da maneira mais clara e completa possível. Todos que, por vários modos, contri­ buímos para produzir esta série de comentários, esperamos que, com a ajuda da graça divina, sejam plenamente alcançadas essas finalida­ des. R. V. G. TASKER


Prefácio da Edição em Português Todo estudioso da Bíblia sente a falta de bons e profundos co­ mentários em português. A quase totalidade das obras que existem entre nós peca pela superficialidade, tentando tratar o texto bíblico em poucas linhas. A Série Cultura Bíblica vem remediar esta lamen­ tável situação sem que peque do outro lado por usar de linguagem técnica e de demasiada atenção a detalhes. Os Comentários que fazem parte desta coleção Cultura Bíblica são ao mesmo tempo compreensíveis e singelos. De leitura agradável, seu conteúdo é de fácil assimilação. As referências a outros comenta­ ristas e as notas de rodapé são reduzidas ao mínimo. Mas nem por isso são superficiais. Reúnem o melhor da perícia evangélica (ortodoxa) atual. O texto é denso de observações esclarecedoras. Trata-se de obra cuja característica principal é a de ser mais exe­ gética que homilética. Mesmo assim, as observações não são de teor acadêmico. E muito menos são debates infindáveis sobre minúcias do texto. São de grande utilidade na compreensão exata do texto e pro­ porcionam assim o preparo do caminho para a pregação. Cada Co­ mentário consta de duas partes: uma introdução que situa o livro bí­ blico no espaço e no tempo e um estudo profundo do texto a partir dos grandes temas do próprio livrò. A primeira trata as questões críticas quanto ao livro e ao texto. Examina as questões de destinatários, data e lugar de composição, autoria, bem como ocasião e propósito. A se­ gunda analisa o texto do livro seção por seção. Atenção especial ê dada às palavras-chave e a partir delas procura compreender e inter­ pretar o próprio texto. Há bastante “ carne” para mastigar nestes co­ mentários. Esta série sobre o N.T. deverá constar de 20 livros de perto de 200 páginas cada. Os editores, Edições Vida Nova e Mundo Cristão têm programado a publicação de, pelo menos, doi? livros por ano. Com preços moderados para cada exemplar, o leitor ao completar a coleção terá um excelente e profundo comentário sobre todo o N.T. Pretendemos assim, ajudar os leitores de língua portuguesa a com­ preender o que o texto neotestamentário, de fato, diz e o que signifi­ ca. Se conseguirmos alcançar este propósito seremos gratos a Deus e ficaremos contentes porque este trabalho não terá sido em vão* Richard J. Sturz


Prefácio do Autor 2 Pedro e Judas são um canto muito obscuro do Novo Testamen­ to. Quase nunca se prega sobre eles; comentários e artigos em revis­ tas eruditas raramente tratam deles. Não há falta de vozes, tais como as dos Professores Kãsemann e Aland, que insistem em que sejam excluídos do Cânon. Bem se pode perguntar: têm qualquer relevância para hoje? O Comentário que se segue é escrito com a convicção de que es­ tas duas Epístolas levam consigo uma mensagem muito importante para nossos tempos. Vivemos em tempos em que o conteúdo da fé cristã é questionado em grande escala, em que teologias novas e es­ peculativas são largamente disseminadas, e em que uma nova morali­ dade está sendo defendida, mas que é capaz de ser mal interpretada como sendo “a velha imoralidade em escala maior” . O cristianismo nos está sendo apresentado em termos do amor, ao passo que o con­ teúdo da fé e da esperança para o futuro está sendo calado de modo estranho, em deferência ao clima intelectual contemporâneo. Há, além disto, um intelectualismo em boa parte do nosso cristianismo que talvez não esteja muito longe daquele que é atacado nestas cartas — o conhecimento que tem pouco relacionamento com a vida santa, a espiritualidade crescente e o amor que se aprofunda. Dificilmente poderíamos sustentar que 2 Pedro e Judas, visto que foram escritas para enfrentar problemas muito semelhantes aos nossos, nada têm para nos ensinar. Enquanto o pecado precisar de ser desmascarado, enquanto o homem precisar de ser relembrado de que o mau proce­ dimento persistente termina em ruína, de que a concupiscência derrota-se a si mesma, de que o intelectualismo despojado do amor é uma coisa infrutífera, e de que a teologia cristã não tem o direito de exceder a “fé uma vez confiada aos santos” , estas Epístolas conti­ nuarão sendo desconfortável e ardentemente relevantes. Este Comentário teve sua origem no meu Monógrafo Tyndale, 2 Peter Reconsidered, do qual a matéria introdutória do Comentário deve ser suplementado, visto que a falta de espaço me impediu de tra­ tar tão detalhadamente dos problemas textuais quanto teria gostado.


Desejo expressar minha gratidão ao Professor C. F. D. Moule que, pela primeira vez, despertou meu interesse por esta parte do Novo Testamento, ao convidar-me a apresentar um estudo sobre 2 Pedro ao seu Seminário sobre o Novo Testamento, em Cambridge’, ao Profes­ sor R. V. G. Tasker, o Editor Geral da série, e ao Dr. I. H. Marshall, da Universidade de Aberdeen, sendo que ambos leram o manuscrito no seu primeiro rascunho, e fizeram muitas sugestões úteis. E. M. B. GREEN


índice Prefácio Geral .................................................................................. Prefácio da Edição em Portüguês ................................................ Prefácio do Autor ............................................................................ Abreviaturas Principais .................................................................. Introdução ........................................................................................ A Autoria de 2 Pedro ................................................................ A Ocasião e a Data de 2 Pedro .............................................. Os Falsos Ensinos Referidos em 2 Pedro e Judas .............. A Unidade de 2 Pedro .............................................................. A Autoria de Judas .................................................................. A Ocasião e a Data de Judas .................................................. O Uso Feito por Judas dos Livros A p ócrifos...................... Judas e 2 Pedro: Qual deles tem a prioridade? ................ Comentário de -2 Pedro .................................................................. Comentário de Judas .......................... ...........................................

5 6 7 10 12 12 33 36 39 40 45 47 48 56 148


Abreviaturas Principais Alford AV ARC Barclay Barnett

Bengel Bigg BJRL Boobyer

Caffin Calvino

Chaîne Cranfield T. I. Huther James JTS

The Greek Testament por H. Alford, 1880. Versão Autorizada em inglês (King James), 1611. Almeida Revista e Corrigida. The Letters o f Peter e The Letters o f John and Jude por William Barclay (Daily Study Bible), 1958. The Second Epistle o f Peter and the Epistle o f Jude por A. E. Barnett e E. G. Homrighausen (Interpreter’s Bi­ ble), 1957. Gnomon Novi Testamenti por J. A. Bengel, 1773. The Epistles o f St. Peter and St. Jude por C. Bigg (In­ ternational Critical Commentaries), 1901. Bulletin o f the John Rylands Library, Manchester. Contribuições por G. H. Boobyer em Peake’s Com­ mentary (edição revisada), 1963 e em New Testament Essays, 1959. The Pulpit Commentary por B. C. Caffin, 1908. The Epistles o f Peter por João Calvino, editado por D. W. e T. F. Torrance (Calvin’s Commentaries), 1963 e The Epistle o f Jude por João Calvino, editado por John Owen, 1855. Les Épitres Catholiques por J. Chaine (Études Bibliques), 1939. / and 2 Peter and Jude por C. E. B. Cranfield (Torch Bible Commentaries), 1960. Tradução em inglês. Petrus und Judas Briefe por J. F. Huther (Meyer’s Kommentar), 1877. 2 Peter and Jude por M. R. James (Cambridge Greek Testament), 1912. Journal o f Theological Studies.

10


Käsex=mann “An Apologia for Primitive Christian Eschatology ’’ em Essays on New Testament Themes por E. Käsemann, T. I., 1964. Lumby The Epistles o f St. Peter por J. R. Lumby (Expositor’s Bible), 1893. LXX A Septuaginta (a versão grega pré-cristã do Antigo Tes­ tamento). Mayor The Second Epistle o f St. Peter and the Epistle o f St. Jude por J. B. Mayor, 1907. Moffatt The General Epistles, James, Peter and Jude por J. Moffatt (Moffatt New Testament Commentary), 1947. NEB New English Bible: New Testament, 1961. NTS New Testament Studies. Plummer St. James and St. Jude por A. Plummer (Expositor’s Bible), 1891. Plumtre The General Epistles o f St. Peter and St. Jude por E. H. Plumptre (Cambridge Bible for Schools), 1903. Reicke The Epistles o f James, Peter and Jude por Bo Reicke (Anchor Bible), 1964. Robson Studies in the Second Epistle o f Peter por E. I. Robson, 1915. RSV American Revised Standard Version, 1946-52. RV English Revised Version, 1881. Schelkle Die Petrusbriefe und der Judas brief por K. H. Schelkle (Herder Kommentar), 1961. Spitta Der Zweite Brief des Petrus und der Brief des Judas, por F. Spitta, 1885. Strachan Expositor’s Greek Testament por R. H. Strachan, 1900. von Soden Briefe des Petrus por H. von Soden (Holtzmann’s Handkommentar zum Neuen Testament), 1892. Wand The General Epistles o f St. Peter and St. Jude por J. W. C. Wand (Westminster Commentaries), 1934. Zahn Introduction to the New Testament por T. Zahn, T. I., 1909. ZNTW Zeitschrift für die neutestamentliche Wissenschaft. Lastimo que os comentários recentes por E. M. Sidebottom (Nelson) e C. Spicq (Gabalda, Paris) foram publicados tarde demais para serem levados em consideração na composição deste Comentário.

11


Introdução I. A AUTORIA DE 2 PEDRO

Esta Epístola tem passado pelos séculos em meio a tempestades. Sua entrada* no Cânon foi extremamente precária. Na Reforma, foi considerada por Lutero como Escritura de segunda classe, foi rejei­ tada por Erasmo e olhada com hesitação por Calvino. As perguntas críticas que leVanta são muito desconcertantes. Já as considerei com bastante detalhe no meu monógrafo2 PeterReconsidered. 1Por causa da falta de espaço, não me proponho a aduzir de novo todas as evi­ dências tiradas de origens documentárias patrísticas e outras em prol da autoria petrina, que já foram demonstradas na obra anterior. Não procurarei fazer aqui nada mais do que considerar o argumento num esboço geral. a. A evidência da Igreja Antiga A evidência externa é inconclusivá. Nenhum livro no Cânon é tão mal atestado entre os Pais, mas nenhum livro excluído tem qualquer peso de apoio comparado com 2 Pedro. Não é citado pelo nome de Orígenes, no começo do século III, que seis vezes o cita como Escritura. Mesmo assim, era usado no Egito muito antes disto.2 Não somente era contido nas versões saídica e boárica do Novo Testamento, tendo 1. Tyndale Press, 1961. 2. A descoberta recente do Papiro 72, do século III, que inclui as duas Epístolas de Pedro e Judas, lança luz sobre o uso desta carta no Egito em tempos primitivos. A língua materna cóptica dos escribas envolvidos, juntamente com os tipos varian­ tes de textos incorporados neste MS (Alexandrino para 1 Pedro e um texto avulso para Judas) indicam uma história considerável para o uso destas cartas no Egito antes do papiro do século III em que estão incorporadas.

12


INTRODUÇÃO as datas de (?) o fim do século II e IV respectivamente, como também somos informados1 que Clemente de Alexandria o tinha na sua Bíblia e que escreveu um comentário sobre ele. Somos levados, assim, pelo menos até os meados do século II. O Apocalipse de Pedro, escrito cerca daquele tempo, faz algum uso de 2 Pedro,4 que faz a data desta Epístola recuar ainda mais. Além disto, há sinais possíveis ou prováveis de 2 Pedro em 1 Clemente (95 d.C.), 2 Clemente (150 d.C), Aristides (130 d.C.), Valentino (130 d.C.) e Hipólito (180 d.C.). Por quê, então, estava sujeita a supeita no mundo antigo? Eusébio e Jerônimo citam as razões.5 Eusébio, que coloca a Epístola na sua categoria de livros “contestados” , juntamente com Tiago, Judas, 2 e 3 João, explica que não tinha uma longa tradição de autenticidade, não sendo citada (sc. pelo nome) por qualquer dos “ antigos presbíteros”. Reconhece, noentanto, que se aprovou amuitos que a estudaram com entusiasmo lado a lado com as demais Escri­ turas. Jerônimo registra a dúvida, e explica que se baseia na diver­ gência de estilo em comparação com 1 Pedro, e sugere a hipótese de um amanuense diferente, ponto de vista que subseqüentemente tem sido sustentado (nem sempre de modo justo) por aqueles que susten­ tam a autenticidade da Epístola. Duas razões adicionais para a hesita­ ção na Igreja Antiga eram provavelmente o ponto até o qual o nome de Pedro era usado para merecer autenticidade para a literatura não ortodoxa, e também o fato de que esta Epístola era apenas conhecida em áreas limitadas durante os dois primeiros séculos.6

3. Por Eusébio (H. E. vi. 14. 1) e Fótio (Cod. 109), Sinais de 2 Pedro existem nas obras de Clemente que chegaram até nós. Ver Mayor, pág. cxix; Bigg, pág. 202. 4. Quando o Apocalipse foi descoberto em 1887, Harnack alegou que era uma das origens documentárias de 2 Pedro. Já há muitos anos que este ponto de vista não tem sido sustentado por qualquer crítico responsável, desde os artigos de A. E. Simms (Expositor, 1898, págs. 460-47!)eF. Spitta(ZNTW, 1911, pág. 237ss.)que demonstraram de modo convincente a prioridade de 2 Pedro. Ver E. Hennecke, New Testament Apocrypha (T. I. 1965), vol. II, pág. 664. 5. Eusébio,H.E. iii. 3. 1, 4 e iii. 25, 3, 4; Jerônimo, Script. Eccl. \\E p. adHedib. cxx, ad Paul. liii. 6. Sua atestação restrita, e o estado ruim do texto levaram Vansittart a supor que, por algum tempo, existia numa única via (Journal ofPhilology ,111, págs. 357 ss.). Se esta for a verdade, explicará sua fraca atestação entre os “presbíteros anti­ gos.”

13


2 PEDRO E JU D A S Era na Síria onde existiam as maiores dúvidas acerca de 2 Pedro. Não era incluída na Peshitta (411 d.C.), que, dentre as Epístolas Ge­ rais, continha apenas 1 Pedro, Tiago e 1 João. Foi somente na recen­ são filoxeniana (508 d.C.) que o restante das Epístolas Gerais, inclu­ sive 2 Pedro, achou um lugar seguro. Deve ser lembrado que o Cânon sírio antigo era muito mais restrito do que o da igreja ocidental; oDiatessaron era empregado ao invés dos quatro Evangelhos, e original­ mente, segundo parece, nem as Epístolas Gerais nem o Apocalipse eram considerados Escritura. Havia uma razão específica por que 2 Pedro e Judas teriam sido tratadas com reserva na Síria, onde as ex­ travagâncias da angelologia judaica tinham tanta má fama: Judas cita explicitamente, e 2 Pedro implicitamente, a Assunção de Moisés e o Livro de Enoque, dois livros apócrifos que estavam mergulhados em especulações acerca de anjos. Mesmo assim, 2Pedro e Judas ganha­ ram sua entrada pelos seus méritos até mesmo na Síria, e não somente foram incluídos na recensão filoxeniana da Bíblia, como também há evidência de que homens tais como Efraem Siro no século IV (ver so­ bre 2 Pe 2:18, nota 1) e Teôfilo de Antioquia7 (morreu em 183 d.C.) as usavam livremente como Escritura. Até o século IV, portanto, 2 Pedro era aceita em quase todas as partes do mundo. Sua ausência do Cânon Muratoriano (c. de 180 d.C.) não é mais notável do que a de 1 Pedro, que era universalmente aceita. Talvez o texto mutilado daquele Cânon seja a razão para as omissões. 2 Pedro foi reconhecida pelos Concílios de Hipona e Cartago no século IV, e isto é tanto mais relevante porque estes Con­ cílios rejeitaram a Epístola de Barnabé e 1 Clemente (que já havia muito estavam sendo lidas lado a lado com a Escritura nas igrejas), porque não eram de origem apostólica. Depois disto, sua posição não foi mais desafiada até a Reforma. Tal, falando de modo geral,8 é a atestação externa. Não temos qualquer evidência positiva de que já foi rejeitada como espúria em qualquer lugar na Igreja;9 embora fosse desconhecida em muitos lu­ 7. A d Autol. ii. 13 cita 2 Pe 1:19 como sendo a Palavra de Deus. 8. Outras atestações antigas podem ser aduzidas. Irineu (A.//, iii. 1. 1, v.23.2), Justino (Dial. Ixxxi), Barnabé (Ep. xv. 4), Policarpo (Phil, iii), Hermes (Vis. iii. 8), todos se aludem a 2 Pedro. 9. Este fato permanece sendo válido embora Dionísio de Alexandria (m. 395 d.C.) a considerasse espúria (embora não apenas atestasse seu uso generalizado, como também escrevesse um Comentário sobre ela!). Seu lugar no Cânon Alexandrino

14


INTRODUÇÃO gares, o reconhecimento de que desfrutava era considerável e primi­ tiva. É significante que um crítico tão cuidadoso como Mayor (que pessoalmente rejeita a autoria petrina por motivos de dependência de Judas e a incompatibilidade com 1 Pedro) concluísse seu exame das evidências externas com o reconhecimento de que, se não tivéssemos outras informações, estaríamos dispostos, como os antigos, a aceitála. b. O contraste com 1 Pedro É concebível que estas duas Epístolas, 1 Pèdro, e 2 Pedro, ténham sido escritas pela mesma mão? A linguagem é diferente (e isto de modo marcante no original), e o pensamento também é muito diferen­ te. Examinemos estes aspectos, cada um por sua vez. 1. A linguagem. Há uma diferença muito grande de estilo entre estas duas cartas. O grego de 1 Pedro é polido, culto, dignificado; é dos melhores do Novo Testamento. O grego de 2 Pedro é grandioso; é um pouco semelhante à arte barroca, quase rude no seu caráter pre­ tensioso e em sua expansibilidade. Palavras pedânticas (tais como rhoizêdon) e frases desajeitadas (tais como hyperonka mafaiotêtos phthengomenoi) abundam. A rica variedade de partículas de cone­ xão, um aspecto destacado em 1 Pedro, quase desapareceu. Muitas das palavras prediletas de 1 Pedro (tais como hagiazeiri elpis, klêronomia) também faltam, ao passo que outras (tais como epakoloutheõ, martus) são substituídas por sinônimos em 2 Pedro. Quando desco­ brimos que certo número de palavras‘em 2 Pedro não ocorrem em ne­ nhum outro lugar senão em Homero, e que o autor tem uma tendência curiosa de entrar num ritmo iâmbico (p.e. 2: 1, 3, 4), e de usar a lin­ guagem com os perfumes dos cultos pagãos de mistério (tais como sõter, epigriõsis, theia phusis, aretê, sem procurar além dos primeiros versículos), então não é difícil simpatizar com a relutância de Jerônimo em atribuir as duas Epístolas ao mesmo autor. Naturalmente, parte da força destas objeções pode ser enfren­ tada ao supor-se, juntamente com Jerônimo, que Pedro empregou um secretário diferente, e que lhe permitiu bastante liberdade na forma era tão seguro que podia aparecer na Carta Festiva de Atanásio, escrita em 367 d.C., que contém o Cânon do Novo Testamento exatamente conforme o temos hoje, e que marca o encerramento da controvérsia acerca do Cânon na cristan­ dade católica.

15


2 PEDRO E JUDAS da composição. Esta parece ter sido o caso de 1 Pedro, onde o estilo polido muito bem pode ter sido devido a Sflvano.10 Somos especifica­ mente informados 11 que não somente Marcos como também certo Gláucio12 estavam entre os demais assistentes secretariais de Pedro, de modo que nada há de impróprio em argumentar que boa parte da diferença estilística pode muito bem ser devida a uma mudança de es­ criba. Este ponto de vista é reforçado por várias semelhanças estilís­ ticas que, do modo delas, são tão notáveis como as diferenças. Nas duas, há fortes hebraísmos e o hábito marcante de repetição verbal11 e estes são aspectos que provavelmente sobreviveriam o emprego de secretários diferentes. Palavras peculiares e marcantes são um aspecto destacado das duas cartas.14 Não surpreende, portanto, quando descobrimos que até mesmo um opositor da autoria petrina, tal qual Mayor, confessa que “não existe aquele abismo entre 1 e 2 Pedro que alguns tentam alegar. ” 15O julgamento de B. Weiss que ‘‘a Segunda Epístola de Pedro não tem conexão tão estreita com qual­ quer escrito do Novo Testamento quanto com sua Primeira” 16é justi­ ficado por uma análise puramente lingüística. Podemos, no entanto, ir além. Num artigo fascinante em Expositor17A. E. Simms demonstrou que 1 e 2 Pedro estão tão próximas entre si, na base da contagem das palavras empregadas, quanto 1 Timóteo e Ti to, onde ninguém se dis­ põe a duvidar da unidade da autoria. Mesmo assim, a conclusão de uma autoria em comum para as petrinas é mais comumente resistida em bases lingüísticas!18 10. Ver 1 Pe 5:12, onde dia significa nada menos do que a autoria em corçjunto, se­ gundo E. G. Selwyn, The First Epistle o f St. Peter, 1946, págs. 9 ss. 11. Por Papias em Eusébio, H.E. iii. 39; Irineu, A.H. iii, 1, Tertuliano, Adv. Marc. IV. 5. 12. Clemente de Alexandria, Strom, vii. 17. 13. Ver Bigg, págs. 224-232; Mayor, págs. lxviii-cv. 14. Das palavras que aparecem em nenhum outro autor grego senão nos escritores eclesiásticos posteriores, há nove em 1Pedro e cinco em 2 Pedro. 27palavrasem 1 Pedro e 24 palavras em 2 Pedro não se acham em nenhum autor clássico. 1 Pedro tem 33 palavras raras em comum com a LXX e 2 Pedro tem 24 delas. Das 543 pala­ vras em 1 Pedxo, 63 são hapax legomerta no Novo Testamento;das 399 palavras em 2 Pedto, há 57 hapax legomena. 15. Mayor, pág. civ. 16. Introduction to the New Testament, 1887, ii, pág. 165. 17. Expositor, 1899, págs. 460 ss. 18. Recentemente, A. Q. Morton tem argumentado,- na base da análise cumulativa da soma no computador, que 1 e 2 Pedro não podem ser distingüidas entre si do

16


INTRODUÇÃO Mais uma consideração pode ser feita no assunto do estilo. Os comentaristas de 2 Pedro tendem a fustigar o autor por causa da sua “ retórica artificial” e da sua tentativa de escrever “ num estilo que está além da sua capacidade literária”.19 Poucas críticas poderiam estar tão fora de propósito, conforme deixaram claro algumas pesquisas alemãs pouco conhecidas. Longe de ser uma miscelânea incorrigível de grego ruim, tanto o estilo quanto a dicção de 2 Pedro pertencem a um padrão bem deliberado. Agora fica claro que havia um estilo asiático distintivo de escrever, com um tipo de dicção com floreios e verbosidades que se aproximam do bizar­ ro, longe dos cânones da simplicidade clássica. Dois exemplares deste estilo acham-se no Descreto de Estratonicéia em Caria, Ásia Menor,20 e na grandiosa inscrição21 de A ntíoco I de Comagene na Ásia Menor central. Bo Reicke, que teve percepção agu­ da da relevância desta inscrição para a questão inteira da lingua­ gem de 2 Pedro, cita a seguinte seleção: “Era como sendo de to­ das as coisas boas não somente uma aquisição mais fidedigna, como também — para os seres humanos — uma delícia prazenteiríssima que eu considerava como sendo piedade; e esta mes­ ma convicção considerava ser a razão para uma autoridade mui­ tíssimo bem sucedida bem como por um emprego muitíssimo bem-aventurado da mesma; além do mais, durante a minha vida inteira eu parecia a todos na minha monarquia como sendo aque­ le que considerava a santidade como sendo tanto uma salvaguar­ da fidedigníssima quanto uma satisfação inimitável.” Julgada por este tipo de padrão literário, o estilo de 2 Pedro já não parece tão surpreendente. Narealidade, adapta-se muito bem aos vá­ rios pensamentos emotivos que subjazem esta Epístola animadora. Além disto, parece que esta carta, caso for genuína, foi escrita por Pedro para ser um tipo de derradeiro testamento; o grande homem diz adeus aos seus associados, e lembra-lhes umas verdades importantes ponto de vista da lingüística (The Authorship and Integrity o f the New Testament, S.P.C.K. Coletânea Teológica N.° 4, 1965, capítulo 3). Desde então, ele me in­ forma, demonstrou que 2 Pedro é distingüível de qualquer livro no Novo Testa­ mento que é mais longo do que ela, com a única exceção de 1 Pedro. 19. E.G. Chase, Hastings' Dictionary o f the Bible, vol. 3, pág. 809, s.v. 2 Peter. 20. Texto em Corpus Inscriptionarum Graecarum, ii, 2715; comentário em A. Deissmann, Bible Studies, 1901, págs. 360 ss. Data do século 1 d.C. 21. E. Norden, Die antike Kunstprosa, 1909, págs. 126-152 e j. Waldis, Spreche und Stil der grossen Inschrift vom Nemrud-Dagh, 1920, págs. 57-59. Data do século 1 a.C.

17


2 PEDRO E JU D A S (1:12-15;3:1,2), dá-lhes advertências salutares (l:9-10;2:l-22; 3:17) e dirige-lhes exortações sinceras (1:5 ss., 19-21; 3:11,14). A partir da ocasião em que este padrão emergiu em Deuteronômio, quando Moi­ sés deu suas últimas instruções, advertências e encorajamentos a Is­ rael, este veio a ser um gênero literário. Achamo-lo nos Testamentos dos Doze Patriarcas, e no próprio Novo Testamento 2 Timóteo tem este caráter. Quando, além de tudo isto, é lembrado que parte das dificuldades na dicção desta Epístola surge do pensamento aramaico22 que a subjaz, e da possibilidade de que dependesse de matéria tradicional, oral ou escrita, para ser usada contra os hereges (ver seção VIII, abaixo), a linguagem de 2 Pedro já não precisa ser uma pedra de tropeço para a aceitação da autenticidade da carta, se ela se recomendar por outras razões. 2 .0 pensamento. Outra objeção à autenticidade da Epístola tem sido levantada nos tempos modernos, mas não, curiosamente, nos tempos antigos. E que o pensamento dé 2 Pedro é demasiadamente diferente daquele de 1 Pedro para as duas cartas terem surgido da mesma mente. Naturalmente, a matéria tratada é bem diferente entre 1 e 2 Pedro, pois estas Epístolas foram escritas para duas situações inteiramente diferentes. 1 Pedro encara a situação de crentes enfren­ tando a perseguição, e 2 Pedro, de crentes enfrentando falsos ensinos com um sabor gnóstico. A nota tônica de 1 Pedro é, destarte, a espe­ rança; a de 2 Pedro, o conhecimento verdadeiro. 1 Pedro dirige os pensamentos dos endereçados aos grandes eventos na vida de Cristo, para imitação e consolo; 2 Pedro demora-se na grande esperança da volta de Cristo, para advertir os falsos mestres e para desafiar os vaci­ lantes. A diferença de tom pode, talvez, ser refletida no uso de pala­ vras diferentes para a volta de Cristo, que é um tema destacado nas duas Epístolas. Em 1 Pedro, emprega-se apokalupsis, a remoção do véu que oculta da vista dos fiéis o Senhor que está com eles o tempo todo. Em 2 Pedro, emprega-separousia, o aparecimento repentino do rei ausente, entre seus servos desobedientes. A primeira palavra res­ pira consolo para os aflitos; a outra, advertência para os zombadores. 22. Chaine alista uma página inteira sobre os semiticismos de 2 Pedro (Chaine, pág. 18). De fato, são tão marcantes que G. Wohlenberg sugeriu que a carta talvez fosse originalmente escrita em aramaico e posteriormente traduzida para o grego! (Der erste und der zweite Petrusbriefe und der Judasbrief, 1923, pag. xxxvi).

18


INTRODUÇÃO 1 Pedro diz muita coisa acerca da cruz (inclusive como princípio a ser seguido pelos seus endereçados, que estavam sofrendo); 2 Pedro tem muito menos, porque seus leitores não precisam do suave encoraja­ mento para seguir Jesus obedientemente, até mesmo, se necessário, ao ponto do martírio; precisam da advertência de que Cristo virá jul­ gar aqueles que negam o Senhor que os comprou (2:1). Destarte, na Segunda Epístola, os julgamentos passados de Deus nos dias do An­ tigo Testamento e Seu futuro julgamento na parusia apóiam o forte desafio moral da carta, onde o tema de 1 Pedro, de imitatio Christi, teria sido fora de lugar e ineficaz. A mente do escritor está cheia dos perigos do ensino falso.23 O pleno conhecimento de Jesus Cristo é â melhor salvaguarda contra estes perigos, e é isto, portanto, que é res­ saltado, em contraste com a esperança que permeia 1 Pedro. As duas cartas são determinadas, quanto ao conteúdo, pelas necessidades pastorais que as evocaram, e nisto jaz a diferença na ênfase doutriná­ ria entre elas.24 Outro assunto em que 2 Pedro é contrastado desfavoravelmente com 1 Pedro é o das referências à vida de Jesus e do próprio Pedro, tão destacadas na Primeira Epístola. Tal contraste é muito surpreenden­ te, levando em conta as seguintes alusões: A referência à transfiguração (1:16). A profecia da morte do próprio Pedro (1:14; cf. Jo 21:21-23). A negação do Senhor (2:1). A invasão dos falsos profetas (2:1 ss.; cf. Mc 13:22). O último estado é pior do que o primeiro (2:20; cf. Mt 12:45). O dia do Senhor é como um ladrão de noite (3:10; cf. Mt 24:43). A predição da parusia (ver abaixo). A referência à firm eza (3:17; 1:12; cf. 1 Pe 5:10, que parece re­ montar até o incidente pungente que culminou em Lucas 22:32) e ao engodar (deleazõ, 2:14, 18, significa “ pescar com isca” e pode ser uma alusão à profissão dele). Igualmente fora de propósito é o argumento de que, porque 1 Pe­ dro falava da ressurreição de Jesus (1:3; 5:1), 2 Pedro não pode ser genuína porque negligencia este aspecto e ressalta, ao invés disto, a transfiguração. A verdade do caso é que a ressurreição estava sendo “desmitologizada” já em 50 d.C. (ver 1 Co 15), não somente na Eu­ 23. Daí a ênfase sobre aretê, “ virtude,” eeusebeia, “ piedade.” 24. Para um exame mais detalhado das afinidades doutrinárias entre as duas Epísto­ las, ver meu 2 Peter Reconsidered, págs. 14-23.

19


2 PEDRO E J U D A S ropa como também na Ásia (2 Tm 2:17, 18). A transfiguração, que ocorreu dentro da vida encarnada de Jesus, não podia ser alvo de con­ tradição pelos zombadores. Pedro insiste na transfiguração para apoiar sua reivindicação a um conhecimento pessoal do Senhor Je­ sus, a quem os falsos mestres alegam falsamente que conhecem. Além disto, a transfiguração teria sido especialmente significante para os leitores judaicos que seriam lembrados pela expressão “no monte santo” (1:18) da revelação no Sinai, e isto se encaixa muito melhor no contexto (ressaltando a solidariedade entre o Antigo Tes­ tamento e o Novo) do que a ressurreição poderia possivelmente ter feito. Finalmente, o ensino escatológico é apresentado como motivo para separar a autoria das duas Epístolas. Ambas falam muito nela. Ambas ensinam que significarájuízo para os ímpios (1 P e 4 :5 ,17; 2Pe 3:7), e alegria para os fiéis (1 Pe4:13; 2Pe 3:13-14). Em ambas, aparusia é feita a sanção em prol do viver santo (1 Pe 4:7; 2 Pe 3:11, 14), mas ao passo que é indicado em 1 Pedro que a vinda pode ser em breve (1 Pe 1:4-8; 4:7), é protelada em 2 Pedro (3:4). Mas é natural, decerto, que assim seja. Ao encorajar os perseguidos, é obviamente questão de bom senso lembrar-lhes que seu Vindicador está perto; ao tratar daqueles que são céticos na questão da parusia, é correto lembrar-lhes que, embora esteja demorando, certamente virá. E sur­ preendente que uma solução tão simples tivesse escapado àquele crí­ tico J. Chaine, que doutra maneira é tão sagaz, e que quase somente por causa desta questão abandona o conceito da autoria petrina desta Epístola. Mas, pode-se objetar, nada há arespeito da destruição do mundo pelo fogo em 1 Pedro. E verdade. Mas, afinal, não se pode achar nada acerca da história de 1 Pedro a respeito de Jesus pregando aos espíri­ tos na prisão, nem em 2 Pedro, nem em qualquer outra parte do Novo Testamento. Aquela não é razão suficiente para rejeitar a Primeira Epístola. Neste caso, pode ser demonstrado tanto que a doutrina da destruição do mundo em 2 Pedro 3:10-13 está em harmonia com o res­ tante da Escritura,25 quanto a esta passagem está arraigada no dis­

25. Isto contrasta-se notavelmente com a obsessão macabra e, nalguns trechos, obs­ cena demonstrada ao Apocalipse de Pedro (c. de 130 d.C.) com as torturas dos condenados à condenação e a natureza das suas transgressões. Já neste tempo o conteúdo do julgamento é ressaltado ao ponto de excluir a ênfase neotestamentá-

20


INTRODUÇÃO curso escatológico de Jesus. Logo, à parte da metáfora do ladrão, a dissolução dos céus (3:12; cf. Mc 13:31 e paralelos), a queda das es­ trelas (subentendida em 3:10-11; cf. Mc 13:24, 25), a permanência da promessa divina (3:9; cf. Mc 13:31), o predomínio da descrença (3:4; cf. Mt 24:11, 12), e a necessidade da evangelização (3:12; cf. Mt 24:14) e da vigilância (3:12;13; cf. Mc 13:9, 33, 35; ver também Mt 24:45-51) são aspectos em comum. E, embora seja expressada na lin­ guagem apocalíptica de Isaías 65:17; 66:22 (cf. Enoque 91:16; Ap 21:1), a promessa de Jesus acerca da regeneração cósmica (Mt 19:28) parece subjazer 3:13. Pareceria, tendo em vista tudo isto, que os anciãos não tinham falta de razão quando deixaram de discernir qualquer diferença fatal do pensamento e do ensino entre a Primeira Epístola de Pedro e a Se­ gunda. c. O relacionamento com Judas Há um terceiro fator relevante à autoria da nossa Epístola. Que 2 Pe­ dro depende de Judas, ou Judas depende de 2 Pedro, ou ambas de­ pendem dalgum documento perdido; este tanto é certo. Dos vinte e cinco versículos em Judas, pois, nada menos do que quinze apare­ cem, total ou parcialmente, em 2 Pedro. Além disto, muitas das idéias, palavras e frases idênticas ocorrem em paralelo nos dois escri­ tos, e não nos deixam dúvidas de que há algum tipo de relacionamento entre eles. A direção desta dependência será discutida na seção VIII abaixo. O único problema que nos interessa aqui é se a autoria apostó­ lica de 2 Pedro deve ser excluída se Judas foi escrita primeiro. A resposta deve ser negativa. E sustentado de modo generali­ zado que a catequese batismal, até mesmo talvez uma homília batis­ mal, subjaz boa parte de 1 Pedro. Fica igualmente claro que algumas regras cristãs primitivas para a vida no lar estão incorporadas naquela carta. Carrington suporia que haja outra matéria catequética tradi­ cional por detrás de 2 Pedro, e Selwyn postula, além disso, um pan­

ria (tão forte em 2 Pedro) no sentido de que o que importa é a volta pessoal de Jesus e o relacionamento do homem com Ele. Ao passo que 2 Pedro depende do discurso escatológico de Jesus, o Apocalipse depende da descrição do Hades fei­ ta por Virgílio e da especulação dos cultos de mistério órficos-pitagorianos.

21


2 PEDRO E JU D A S fleto composto para encorajar os fiéis que enfrentavam a persegui­ ção. 26 Se Pedro, portanto, adotou e usou na sua Primeira Epístola uma boa quantidade de matéria composta por outros, por que não po­ deria ter feito o mesmo na sua Segunda Epístola? E, conforme vere­ mos na seção VIII, muito possível que tanto Judas quanto 2 Pedro dependem de um panfleto contra falsos mestres, o que, pelas próprias circunstâncias, ter-se-ia revelado uma necessidade para a igreja na sua infância, dentro de pouco tempo. Mas se Pedro fez uso deste tipo de “folheto” ou diretamente de Judas, não faz diferença para o argu­ mento. Se Paulo não tinha objeção a adaptar para seus próprios pro­ pósitos os escritos dos poetas pagãos, listas de virtudes estóicas, fragmentos de hinos, ou os dúbios brados de guerra dos seus oponen­ tes,27há qualquer motivo para supor que Pedro não teria estado dis­ posto a tirar matéria da obra de um irmão de seu Mestre, caso fosse comprovado que a Epístola de Judas foi escrita primeiro? E mera in­ genuidade dizer, juntamente com Kümmel: “A autoria petrina é ex­ cluída pelo relacionamento literário com Judas.” 28 Pedro poderia muito bem ter retomado e usado um sermão ou tratado tradicional elaborado pela Igreja Primitiva a fim de enfrentar as devastações dos falsos ensinos, ou, alternativamente, a carta breve e fogosa de “Ju­ das, irmão de Tiago” , se a considerasse apropriada para seu propó­ sito. Os antigos não tinham leis de direitos autorais. Em resumo, a questão do relacionamento entre 2 Pedro e Judas nada tem que ver com a autenticidade de 2 Pedro. d. Três indicações de uma data subapostólica 1. O estilo helenístico de 2 Pedro. Kümmel apresenta as se­ guintes considerações neste assunto, as quais, pensa ele, indicam uma data avançada.29 Primeiramente, a atribuição de “virtude” a

26. Ver P. Carrington, The Primitive Christian Catechism, 1940, e Ensaio 2 em E. G. Selwyn, The First Epistle o f St. Peter, 19h6, H. Preiskerem Windisch, Die Katho­ lischen Briefe, 1951, págs. 156ss., e M. E. Boismard no seu monógrafo, Quatre Hymnes Baptismales dans la Première Epître de Pierre, 1961. 27. Ver, p.e. 1 Co 15:33, 8:1, 6:12a e 13a. Fp 2:6-11; 1 Tm 3:16; 1 Co 15:3-5 são mais exemplos do seu emprego de matéria tradicional. 28. Introduction to the New Testament (T.I. 1966), pág. 303. 29. Ibid.

22


INTRODUÇÃO Deus (1:3). Mas a mesma coisa é feita em 1 Pedro 2:9, o único outro lugar no Novo Testamento que isto ocorre. Além disso, tanto ‘‘virtu­ de” quanto “ glória” são qualidades de Deus em Isaías 42:8, 12 (LXX). O que Pedro está fazendo aqui é tomar esta frase que é predi­ cado de Javé no Antigo Testamento e aplicá-la também a Jesus; é por isso que Deus e Jesus estão vinculados por um único artigo definido em 1:1. Em segundo lugar, Kümmel queixa-se da ênfase dada ao conhe­ cimento (1:2,3, 6, 8, etc.). Mas isto não é mais helenístico do que o procedimento semelhante adotado por Paulo em Colossenses. Pedro simplesmente toma a linguagem da oposição, a desinfeta, e a usa de volta contra eles, carregada de significado cristão. Uma terceira marca de data avançada é a frase “ co-participantes da natureza divina” (1:4). Certamente parece surpreendente, mas a forma da expressão já tem um paralelo no Decreto de Estratonicéia em honra a Zeus e Hecate.30 Além disto, contemporâneos tais como Filo, Estobeu e Josefo empregam linguagem semelhante,31o que de­ monstra que este tipo de linguagem era moeda corrente no século I d.C., e como tal, Pedro a podia ter usado para seu propósito tão facil­ mente como o pregador moderno fala na teoria dos quanto sem neces­ sariamente, de modo algum, entender todas as suas implicações. Mas a idéia de ser co-participante da natureza divina é demasiadamente avançada para Pedro? Não é intrinsecamente diferente de nascer de cima (Jo 3:3; Tg í: 18; 1 Pe 1:23), de ser o templo do Espírito Santo (1 Co 6:19), de estar em Cristo (Rm 8:1) ou de ser a habitação da Trin­ dade (Jo 14:17-23). Na totalidade deste parágrafo introdutório da sua Epístola, o escritor está colocando sua doutrina cristã em roupagens gregas visando os propósitos da comunicação, sem comprometerse, de modo algum, com as associações pagãs dos termos. Na reali­ dade, em 1:3,4 faz um ataque frontal contra as pressuposições estói­ cas e platónicas, que ensinavam, respectivamente, que pelaphusis (natureza) ou pelo nomos (lei) o homem ficava sendo participante do divino. Não, diz nosso autor; é pela graça, pelas promessas do evan­ gelho, que isto é realizado (1:3,4). Além disto, o aoristo apophugontes nos lembra que não estamos nos movimentando no âmbito do pla­ tonismo, mas, sim, do cristianismo. Somos feitos co-participantes da 30. Ver A. Deissmann, Bible Studies, págs. 360 ss. 31. Para os pormenores, ver meu 2 Peter Reconsidered, pág. 23. 32. Que isto é bem deliberado fica claro na prokopê estóica que adapta em 1:5-7.

23


2 PEDRO E JUDAS natureza divina, não ao escapar do mundo natural do tempo e do sen­ tido, mas, sim, depois de livrar-nos do “ mundo” no sentido da huma­ nidade em rebelião contra Deus. Se Kásemann tivesse prestado aten­ ção a este pormenor, teria evitado uma exegese muito descuidada deste versículo.31 2. O ensino de 2 Pedro sobre a parusia. Entre outras coisas, diz-se que os apóstolos são aludidos como pertencentes a uma gera­ ção passada (3:2). M asíâo mesmo? O texto especificamente nega tal coisa! Que um apóstolo podia escrever nestes termos acerca dos seus co-apóstolos fica claro em Efésios 2:20, onde apóstolos e profetas são vinculados entre si outra vez como sendo o alicerce da igreja cristã. Kásemann vê aqui o “catolicismo primitivo” de uma geração poste­ rior, quando os apóstolos ficaram sendo os órgãos da existência da igreja, e a posáessão das autoridades eclesiásticas.14 Mas é muito na­ tural, e muito primitivo, para Pedro, bem como Paulo, ressaltar que os apóstolos são dados à Igreja por amor à Igreja (cf. 1 Co 3:21 ss.), e, neste sentido, como “vossos apóstolos” . Ver mais a nota sobre 3:2. Depois, pensa-se, além disto, que a referência à morte “ dos pais” (3:4) subentende que a primeira geração de cristãos já falecera há muito tempo. Tal idéia é muito questionável. Normalmente, no uso neotestamentário, “os pais” significa os pais no Antigo Testa­ mento (Hb 1:1; Rm 9:5), e fica claro pelo contexto (Gênesis e o dilú­ vio) que é isto que é referido aqui. Os oponentes estão alegando que, longe de haver uma parusia repentina, nada mudou desde o princípio da criação. Se estavam dizendo meramente que nada acontecera desde a fundação da igreja, a resposta de Pedro, a saber: que certa vez houve uma interrupção (o dilúvio), teria sido irrelevante.

33. “ Seria difícil achar no Novo Testamento uma frase que... mais claramente marca o relapso do cristianismo para o dualismo helenístico” (Essays on New Testa­ ment Themes, págs. 179-180). Kásemann supõe que o alvo de 2 Pedro é aquele dos pagãos, ou seja: escapar do mundo físico (e corruptível) para ganhar uma natu­ reza espiritual (e divina). “A apoteose é seu verdadeiro destino” (ibid.). Deixa de reconhecer que esta participação na natureza divina não é o alvo, mas, sim, o ponto de partida da experiência cristã; e o mundo do qual o crente escapa não é o universo físico, mas, sim, o mundo no sentido joanino do homem em desarmonia com seu Criador (cf. 1 Jo 5:19). 34. Käsemann, págs. 174-5. Ver, no entanto, a refutação poderosa da sua posição em A. L. Moore, The Parousia in the New Testament, 1966, págs. 151-156.

24


INTRODUÇÃO Além disto, a esperança da segunda vinda foi abandonada (3:4). Decerto, isto subentende uma data avançada? Devemos lembrar-nos que, para os falsos mestres, não era uma esperança, mas, sim, uma ameaça; e estavam rindo porque não tinha sido cumprida. Se a espe­ rança não estivesse destacada na igreja em que trabalhavam, não te­ riam falado dela com desprezo. É surpreendente ver esta objeção le­ vantada contra a autenticidade da Epístola pelos próprios estudiosos que constantemente nos lembram que choque foi para os cristãos em meados do século I o atraso na parusia ficou sendo, como estimulou a composição dos Evangelhos e como influenciou a teologia de Lucas e de João. Longe de ser necessário esperar 1 Clemente em 95 d.C.15 para o primeiro aparecimento de surpresa diante do atraso, as cartas neotestamentárias mais antigas que possuímos, 1 e 2 Tessalonicenses, foram escritas primariamente para responder a esta pergunta.16 Inevitavelmente ficaria sendo um problema tão logo que os líderes cristãos começassem a morrer, e, portanto, seria uma coisa muito na­ tural achar este problema na década de 60, quando Pedro deve ter es­ crito, se for ele o autor. Pelo contrário, seria uma coisa muito surpre­ endente a ser achada no século II, quando havia, tanto entre os Apo­ logistas quanto entre os Pais, uma decaída na esperança de uma volta pessoal de Cristo, e uma ênfase cada vez maior dada à escatologia em termos de meros galardões e castigos. Assim chegamos a outra consideração que às vezes é feita. Nossa Epístola não compartilha desta escatologia do século n? Schelkle, por exemplo, pergunta se ela não concentra sua atenção no julgamento e nos galardões ao ponto de excluir a esperança caracte­ rística neotestamentária de uma volta pessoal. ” Muito pelò contrá­ rio. Entre outras coisas, a tensão escatológica primitiva entre o ‘‘ago­ ra” e o “ então” , entre aquilo que temos, e aquilo que ainda aguarda­ mos, está fortemente presente.18 E outra coisa: a esperança da paru-

35. 1 Ciem. xxiii. 3-4. 36. Ver 1 Ts 4:11-18; 5:1-4 (citando, aliás, a analogia do ladrão que também é citada em 2 Pe 3:10), 2 Ts 1, 2'; e 1 Co 15:6, 50-58. 37. Kasemann perguntaretoricamente, e de modo obstinado: “O que podemos dizer acerca de uma escatologia que, como aquela da nossa epístola, ocupa-se somente com a esperança da entrada triunfante dos crentes no reino eterno e com a des­ truição dos ímpios?” (Kásemahn, pág. 195). Ficamos duvidando se ele pode ter lido a parte posterior de 2 Pe 3! 38. De.starte, os cristãos já são participantes da natureza divina, mas ainda devem

25


2 PEDRO E JU D A S sia é aduzida, como em Paulo e João, por razões práticas e não espe­ culativas. As três inferências éticas regularmente tiradas pelos escri­ tores neotestamentários da sua expectativa confiante da volta de Cristo, a saber: a vigilância, a santidade, e o serviço cristão, estão to­ das presentes aqui.19 Em todos estes aspectos, a igreja do século II perdeu contato com a mensagem apostólica.40 Mas 2 Pedro não ensina a doutrina estóica da destruição do mundo pelo fogo? Na realidade, não.41O que os estóicos ensinavam não era uma conflagração de uma vez para sempre, mas, sim, uma conflagração periódica. A idéia de uma perdição no fogo acha-se no Timeu 22D de Platão, em origens documentárias persas, na literatura de Cunrã,42 nas obras judaicas intertestamentais e apócrifas, e não menos no Antigo Testamento.44 Num artigo importante P.E. Testa demonstrou quão distintivo é o ensino cristão que se acha em 2 Pedro. Depois de examinar os pontos de vista persas e estóicos, deixa claro que o ensino petrino pertence sem dúvida alguma à tradição judaico-cristã.46 Diferentemente dos persas, Pedro ressalta o propósito moral da conflagração: castigar e purificar; diferentemente dos estói­

39. 40.

41. 42. 43. •44. 45. 46.

entrar no reino eterno (1:4,11). Já eleitos, devem confirmar sua eleição (1:10). Jus­ tamente porque escaparam da corrupção do mundo, devem, por aquela mesma ra­ zão, aumentar sua fé. (1:4, 5) 3:10, 11, 12, 14; cf. 1 Jo 2:28; 3:3; 1 Ts 5:2, 6, 8. Ver também a esperança de Pedro de “ apressar” o dia do Senhor em Atos 3:19-21; cf. 2 Pe 3:12. Dr. A. L. Moore (The Parousia in the New Testament, pág. 152) indica sete as­ pectos em que o ensino da parusia em 2 Pe 3 está precisamente de acordo com o de 2 Ts 2:2-13 e Mc 13:5-37. “ A comparação com a matéria mais antiga” , escreve ele, “ demonstra que a cristologiaé paralela, a ética com orientação semelhante, e o lugar e a categoria da escatologia os mesmos.” Orígenes tinha de responder a esta acusação, e o faz de maneira muito eficaz (Contra Celsum iv. 11.79). Ver sobre 3:7. Há um paralelo notável em 1 QH iii. 29-35. Também 1 QS ii. 8, 1 QM xiv. 17. Ver57. Sal. xx. 6,Apoc. Abraão xxxi,Enoque xvii. 1, lEsdras v. 8. Orác. Sib. iv 172 ss. iii. 54, 542, Baruque xxvii. 10, lxx. 8. Ver, p.e., Is 66:15-16; Jr 4 :4 ; Éz 21:31; Am 5:6; Sf 1:18 (P. E. Testa presta atenção especial a Is 24:27; 34-35; 65-66). “ La distruzione dei mondo per il fuoco nell 2 Ep. di Pietro iii. 7, 10, 13” em Rivista Biblica, 1962, págs. 252-281. Anteriormente, J. Chaine chegara a uma con­ clusão bem semelhante no seu artigo na Revue Biblique para 1937. Independentemente, D. S. Russel concorda (Methodand Message o f the Jewish Apocalyptic, 1964, pág. 281).

26


INTRODUÇÃO cos, ressalta seu caráter único e sem igual — não será repetida, e terá como resultado novos céus e nova terra, não, conforme acreditavam os estóicos, a mesma velha terra e céu, em prontidão para o próximo incêndio ou dilúvio. Diferentemente do Antigo Testamento, Pedro apresenta um quadro apocalíptico unificado de um único evento futu­ ro. Testa faz a sugestão engenhosa de que o impulso para esta lingua­ gem figurada pode ter surgido do simbolismo batismal, onde estão li­ gados o dilúvio e a conflagração final (cf. Mt 3:11). Seja como for, a doutrina ensinada em 2 Pedro veio a ter ampla aceitação nos círculos cristãos no século II,47 e é muito possível que Bigg tenha razão em fazer esta convição remontar, em última análise, a esta Epístola. Se não fosse a autoridade de um documento apostólico, é difícil pensar que a doutrina da qual quase não há o mínimo indício no restante do Novo Testamento teria conquistado uma aceitação tão generalizada num período tão breve. Sobre outras dificuldades a respeito do ensino da parusia, ver o Comentário; em especial, sobre 1:19 e 3:8.49 3. O ensino sobre Paulo em 2 Pedro (3:15-16). Este ensino é freqüentemente considerado uma prova decisiva contra a autoria petrina. Não teria chamado Paulo, conforme muitos estudiosos acredi­ tam , de seu ‘‘amado irmão ” . Não teria feito alusão ao abuso herético das cartas de Paulo, cuja publicação como uma coletânea deve ter sido muito tempo depois da morte de Pedro. E não as teria colocado em pé de igualdade com a Escritura. Todas as três considerações são questionáveis. Pedro certa­ mente poderia ter chamado Paulo de seu amado irmão. Defendeu a causa deste no Concílio de Jerusalém (At 15:7 ss.), e deu-lhe a destra da comunhão (G12:9). É um grande erro olhar Pedro e Paulo através dos óculos de Tübingen, e supor que eram sempre rivais, simples­ mente por causa do desacordo numa única ocasião em Antioquia (G1 2:11 ss.).511 47. Clemente, Strom. v. 14. 121; Justino, Apol. i. 20;Orác.Sib. iv. 172 ss., as profe­ cias de Histaspes (Clement, Strom. vi. 5. 43), Orígenes, Contra Celsum.iv. 11; 2 Ciem. xvi. etc. 48. Bigg, págs. 214-5. 49. Ver também meu 2 Peter Reconsidered, onde são tratadas mais pormenorizada­ mente. 50. Ver J. Munck, Paul and the Salvation o f Mankind, 1959, cap. 3.

27


2 PEDRO E JU D A S Não sabemos quando as cartas de Paulo foram publicadas como coletânea— certamente não durante a vida dele. Mas Pedro nada diz acerca de uma coletânea, nem acerca da publicação, quanto a isto.51 Simplesmente se refere a uma característica recorrente em todas as cartas de Paulo que tanto Pedro como seus endereçados tinham lido. N ão precisamos supor que tivessem lido todas as cartas paulinas. De fato, se nossa Epístola tivesse sido escrita por um falsificador, que tinha a totalidade da coletânea paulina diante dele, é muito surpreen­ dente que não tivesse sido influenciado em nada por ela. Depois de cerca de 90 d.C., a literatura subapostólica está cheia de alusões a Paulo. Seria realmente estranho se um falsificador, escrevendo para mostrar a unanimidade entre os dois grandes apóstolos, tivesse intei­ ramente negligenciado a coletânea paulina à qual chama a atenção de modo específico. Naturalmente, a maior dificuldade acha-se em supor que Pedro pudesse ter classificado as cartas de Paulo com “ as demais Escritu­ ras” , seja qual for o exato sentido que se der a “ demais” (i. e., se as cartas de Paulo estão incluídas nas demais, ou distinguidas delas). Mas existe tal dificuldade?52 Os apóstolos não tinham dificuldade al­ guma de que suas palavras escritas eram tão autorizadas quanto seus pronunciamentos falados.53 E não ficaram menos claros quanto ao fato de o Espírito Santo de Deus, que inspirara os profetas, estar ope­ rando através deles. É exatamente esta a lição de 1 Pedro 1:11,11,12, como também de 2 Pedro 1:18-21. É por isso que faziam questão de suas cartas serem lidas na igreja (i. e., lado a lado com o Antigo Tes­ tamento; cf. C l 4:16). O apóstolo declarava ter a própria mente de Cristo, que ensinava com palavras inspiradas pelo Espírito, que pro­ clamava a palavra de Deus, que agia como porta-voz de Deus (1 Co 2:16; 2:13; 1 Ts 2:13; l P e 4 : 11). O apóstolo é o representante plenipo-

51. Não há nenhuma dificuldade real em supor que Pedro tenha lido muitas das cartas de Paulo. Estavam, conforme Atos e as cartas do próprio Paulo, em estreito con­ tato entre si, e tinham Marcos e Silvanus em comum como secretários e colegas. Além disso, tanto Pedro quanto Paulo operavam na Ásia Menor; teria sido difícil para eles não saberem os ensinos e os movimentos um do outro. 52. O erudito Lagrange não vê dificuldade nisto, e chama a atenção a alguns dos ver­ sículos citados aqui. Ver sua Histoire ancienne du Canon du Nouveau Testa­ ment, 1933, págs. 9-10. 53. 2 Co 10*11; 1 Co 5:3; 2 Ts 2:15; 3:14.

28


INTRODUÇÃO tenciário de Jesus Cristo.54 É por isso que pode fazer mandamentos (3:2; 1 Co 7:17), excomungar (1 Co 5:3; 14:38), e fazer a aderência ao seu ensino a norma da ortodoxia e a condição da comunhão (2 Ts 3:14; 1 Tm 6:3,5; 2 Jo 10). Quando se tem em mente estes fatos, é tão estranhável que um apóstolo mencionasse os escritos doutro após­ tolo juntamente com as demais Escrituras? Por que devemos negar a aplicabilidade igual do termo “escritura” aos escritores proféticos e apostólicos, quando a autoria ulterior do Espírito de Deus é reivindi­ cada para ambos os grupos (1 Pe 1:11, 12; 4:11; 2 Pe 1:18-21)? Pedro certamente não estava disposto a negar o fato. Nada há na doutrina da Escritura que se acha na Segunda Epístola que não poderia ter sido escrito pelo autor dá Primeira. e. Conclusão Seria ocioso negar que há uma causa convincente contra a autoria apostólica de 2 Pedro. Seu estilo, sua dicção, sua fraca atestação, seu relacionamento com Judas, bem como as idiossincrasias do seu con. teúdo, tomam as pessoas dispostas a atribuí-la ao século II. F. J. A. Hort, quando alguém lhe perguntou qual era seu conceito de 2 Pedro, respondeu que, questionado, responderia que o equilíbrio do argu­ mento estava contra a Epístola — e que no momento em que tivesse respondido assim, começaria a pensar que talvez estivesse engana­ do! 5 O valor sólido de 2 Pedro, tão manifestamente superior a qual­ quer coisa que o século II tinha para oferecer, o Contraste marcante que apresenta com os escritos que são indubitavelmente pseudepígrafos petrinos, a ausência de qualquer motivo crível para sua origem como pseudepígrafo ,56 todas estas coisas fazem a pessoa parar. Além 54. Sua autoridade é, portanto, a do seu Senhor. Daí o caráter definitivo de Ap 22:t8-19, e o anátema de G11:6-12. Esta posição sem igual dos apóstolos foi pre­ vista por Jesus (Jo 14:26; 15:26; Mt 10:40; 28:18,19; Jo 20:21) e reconhecida pela igreja subapostólicaíp.é., Inácio, Rom. iv,PhiIad. v,Policarpo,£p. vi). Esta po­ sição sem igual dos apóstolos agora está sendo reconhecida de modo cada vez mais generalizado. Ver K. H. Rengstorf, s.v. “ Apostolos” no Wörterbuch de Kittel; O. Cullmann, “The Tradition” em The Early Church, 1956; N. Geldenhuys, Supreme Authority, 1953, e B. Gerhardsson, Memory and Manuscript, 1961. 55. W. Sanday, Inspiration, 1894, pág. 347. 56. O Apocalipse de Pedro professa que acrescenta ao nosso conhecimento acerca da vida do porvir. O Evangelho segundo Pedro foi escrito visando os interesses de uma cristologia docética. A Carta de Pedro é ebionita, as Viagens de Pedro (Periodoi Petrou) mero romance. Os Kerygmata Petrou foi um escrito que visava

29


2 PEDRO E JU D A S disso, o documento não se encaixa naquilo que sabemos acerca do século II. Não há indício algum dos problemas do século II, tais como a liderança na igreja, o gnosticismo desenvolvido, o montanismo, ou o quiliasmo. É, sem dúvida, possível que 2 Pedro fosse produzida por um discípulo do apóstolo, conforme sugerem Reicke, Chaine e Schelkle. Era costume em círculos judaicos e pagãos publicar uma obra pseudonímica e atribuí-la a um grande homem em honra de quem, ou em cujo estilo, foi composta. Destarte, na sua Vida de Pitágoras, Iâmblico, um escritor neoplatonistado século III d.C ., congra­ tula a escola de Pitágoras porque prefixam seu nome aos seus escri­ tos, no desejo de honrá-lo como sendo a fonte de tudo quanto é ver­ dadeiro e original no pensamento deles. Boa quantidade de pseudepigrafia judaica surgiu do mesmo motivo, talvez tirando de Deuteronômio a sua deixa. Esta matéria inclui escritos tais como os Salmos de Salomão, a Sabedoria de Salomão e grande número doutros, or­ todoxos e heterodoxos. Tem sido sugerido que nada há de imoral na pseudepigrafia deste tipo; não devemos pensar nela como sendo uma falsificação, mas, sim, como poesia criativa, dizendo na situação con­ temporânea aquilo que o grande homem teria dito se tivesse sobrevi­ vido. Não demorou muito, e este tipo de escrito invadiu a igreja cris­ tã. Sobreviveram até nós numerosos exemplares do século II d.C. Por que não do século I? O único argumento a priori contra uma hipótese que aparenta ser razoável é o argumento moral. Como é que escritores que conclamam aos padrões morais mais elevados nas suas cartas poderiam abaixarse a um logro deste tipo? Neste caso, o autor não somente declara que é Pedro, como também constantemente o subentende (1:1,14,16-18; 3:15). E possível que ninguém fosse enganado por aquelas alegações, ou, se o fosse, não teria .visto mal nenhum naquilo que era a prática aceita naqueles dias. Pode ser assim, mas aqueles que sustentam este. ponto de vista dificilmente conseguiram demonstrá-lo. Parece, pelo contrário, que a pseudepigrafia não era considerada de modo tão reivindicar precedente apostólico para tendências heréticas, e os Atos de Pedro é um tipo de novela para o entretenimento dos fiéis que não deviam ir aos teatros e outros divertimentos pagãos. 2 Pedro tem pouca coisa em comum com estas in­ dubitáveis falsificações. Não tem nem interesse herético particular. Conta-nos quase nada que não sabíamos antes acerca de Pedro. Não contém nenhuma tradi­ ção secreta que reivindique Pedro com sua fonte. Como pseudepígrafo, não tem nenhuma razão de ser satisfatória.

30


INTRODUÇÃO brando nos círculos cristãos. Destarte, Paulo lutou contra a prática na correspondência com os tessalonicenses (2 Ts 2:2; 3:17). Por nenhum esforço da imaginação é que ele desculpava aquilo que P. N. Harrison declara que foram “os padrões muito diferentes da propriedade lite­ rária que prevaleciam naqueles dias” .5' Depois, no século II, o autor dos A í o í de Paulo e Tecla foi destituído do ofício de presbítero por causa desta mesma prática. Protestava que atribuíra a obra a Paulo apenas para aumentar a honra deste último; mas tudo em vão.58 Ex­ plicava que tinha agido na boa fé, e com os mais elevados motivos “por amor a Paulo ” , mas isto não fez a mínima diferença. Foi deposto do seu ofício de presbítero e degradado.59 Temos aqui uma vista va­ liosa da atitude para com a pseudepigrafia adotada na liderança da igreja no século II. Precisamente a mesma conclusão emerge da histó­ ria de Serápiom e o Evangelho segundo Pedro. Serápiom, bispo de Antioquia cerca de 180 d.C ., ficou sabendo que uma pequena cidade na sua diocese tinha predileção pelo Evangelho segundo Pedro. De­ pois de investigar o caso, proibiu o uso deste.60 Diz: “ Da nossa parte, irmãos, recebemos tanto Pedro como os demais apóstolos assim como recebemos a Cristo, mas os escritos que falsamente levam seu nome, nós os rejeitamos, sabendo que não foram legados a nós. ” Não era tanto sua cristologia levemente docética que determinou a atitude do bispo, quanto o fato de que era falsamente atribuído a Pedro, e que não fazia parte da tradição transmitida das gerações anteriores da igreja. Foi numa igreja que exercia este tipo de discriminação que, se­ gundo pedem que acreditemos, 2 Pedro foi sub-repticiosamente en­ caixada. Eu acho muito difícil acreditar assim. Não é como se fôsse­ mos ricamente supridos com exemplos de pseudepígrafos ortodoxos que fossem aceitos de bom grado pela igreja do século II e por gera­ ções posteriores. Depois de um exame cuidadoso de todo o problema, Guthrie sente-se obrigado a dizer: “Não há evidência na literatura 57. The Problem o f the Pastoral Epistles, 1921, pág. 12. 58. Tertuliano, de Baptismo xvii. 59. É verdade que Tertuliano está ansioso para atacar qualquer pessoa que usa o exemplo de Tecla para manter o direito de uma mulher batizar, mas esta não é a razão que cita para a degradação do autor. Não foi porque representou uma mu­ lher batizando, mas, sim, porque falsamente se apresentou como sendo Paulo que foi removido do seu cargo. 60. Em Eusébio, H. E. vi. 12.

31


2 PEDRO E JUDAS cristã em prol da idéia de um dispositivo literário convencional me­ diante o qual um autor, como questão de costume literário, e com a plena aprovação do seu circulo de leitores, publica suas próprias pro­ duções em nome doutra pessoa. Sempre havia segundas inten~ i 96 1 çoes. Se, porém,-puder ser conclusivamente comprovado que 2 Pedro é aquela coisa que doutra forma não tem paralelo: um pseudepígrafo epistolar perfeitamente ortodoxo, eu, da minha parte, acredito que devamos aceitar o fato de que Deus realmente empregou o gênero li­ terário da pseudepigrafia para a comunicação da Sua revelação. Aceitá-la-ia assim como aceito a história e o provérbio, o mito e a poe­ sia, a apocalíptica e a literatura sapiencial, e todos os demais tipos de forma literária que perfazem o conteúdo da Escritura Sagrada. Não é, portanto, na base de qualquer obscurantismo ou do partidarismo que estou defendendo a autoria petrina desta Epístola. Se separo-me dos caminhos da maioria dos críticos desta Epístola, e, juntamente com Zahn, Falconer, Bigg, Wohlenberg e outros, estou disposto a manter sua autoria petrina, é porque permaneço sem ser convencido pelos argumentos levantados contra ela, porque ainda não vi um pseudepí­ grafo convincente dos dias do cristianismo primitivo,63 e porque há poucos argumentos aduzidos contra a autenticidade de 2 Pedro que não militam igualmente contra o ponto de vista de que foi o produto de um pseudepígrafo.61 Numa nota mais positiva, estou impressionado pelas semelhanças entre 2 Pedro e 1 Pedro, tanto na dicção quanto na doutrina, e também até certo ponto, com os discursos de Pedro regis-

61. Vox Evangélica, 1962, pág. 56. 62. O comentário de Bigg sobre este aspecto vale a pena reproduzir. "Os escritores pseudônimos da igreja primitiva, pela natureza das coisas, nunca eram nem inte­ ligentes nem críticos. Não procuravam qualificar-se para sua tarefa mediante um estudo exato do passado; realmente, não teria sido possível para eles assim fazer. Dificilmente há um exemplar de um bom documento pseudo-antigo senão as Car­ tas Platônicas, a obra de um estudioso ocioso, que tinha estudado eficientemente seu original, e podia reproduzir com perfeição seu estilo e circunstâncias. Mas aquilo que era difícil para um professor ateniense com uma biblioteca à sua dispo­ sição, estava totalmente além das capacidades de um cristão inculto. Tal homem nem sequer compreende as regras mais simples da arte do falsificador. Podemos aplicar a ele as palavras de Pérsio: digitum exsere, peccas” (Bigg, pág. 233). 63. E. I. Robson, no início do seu livro Studies in the Secand Epistle o f Peter, 1915, diz com razáo: “Os argumentos de Chase contra a autoria petrina são igualmente argumentos contra a “ falsificação” ou até mesmo a imitação capaz” (pág. 1).

32


INTRODUÇÃO trados em Atos,64 embora o valor deste argumento dependa, natural­ mente, tanto da autoria por Pedro da Primeira Epístola, quanto da fidedignidade substancial de Atos. Estou impressionado pela ausência de qualquer sugestão de quiliasmo em 3:865 ao citar o próprio versí­ culo usado por Barnabé, Justino, 2 Clemente, Metódio e Irineu para apoiá-lo. Acho isto quase incrível se 2 Pedro realmente adveio de um escritor do século II. Estou igualmente impressionado com o con­ traste entre o ensino de 2 Pedro acerca da parusia e o do Apocalipse de Pedro,66 do século II, Estou impressionado pela ausência de interesse na organização da igreja (uma das preocupações principais de obras do século II tais como a Didaquê e a Ascensão de Isaías), pela natureza não desenvolvida da heresia contra a qual a Epístola é dirigida, e pelo fato de que a demora da parusia ainda é um escândalo ardente. Por estas razões, o Comentário que se segue suporá, provi­ soriamente, que o autor é Simáo Pedro. II. A OCASIÃO E A DATA DE 2 PEDRO Estamos quase completamente no escuro quanto ao lugar de origem desta carta. Se é uma carta genuína de Pedro, foi provavelmente

64. Destaforma, “ obtiveram” (l:l)apareceem A tos l:17e, fora disto, somente duas vezes no Novo Testamento. "Piedade” , uma palavra comum em 2 Pedro, apa­ rece em Atos 3:12, e fora disto, somente nas Epístolas Pastorais. “ Iniqüidade” (2:8) ocorre em Atos 2:23 e raramente noutros lugares, ao passo que as passagens que falam do “salário da injustiça’ são 2 Pe 2:13 e At 2:20. A palavra rara tradu­ zida “ reservar sob castigo” aparece em 2:9 e Atos 4:21, e, é claro, “ o dia do Se­ nhor” ocorre em 3:10 e Atos 2:20. Estes paralelos são meramente verbais, e tal­ vez não tenham relevância; podem, de outrolado, ser ecos do vocabulário de um só homejn65. Este versículo, SI 90:4, veio a ser no século II o principal texto de prova do quilismo, a doutrina de que Cristo reinaria mil anos sobre a terra na parusia. Esta crença veio a ser quase um artigo da ortodoxia cristã desde o tempo em que o Apocalipse foi escrito até Irineu. Teria sido quase impossível para qualquer escri­ tor do século II usar este versículo, conforme 2 Pedro o usa, sem comentá-lo de modo algum, ou a favor da esperança quiliasta, ou contra ela. Isto, por si só, su­ gere a antigüidade da nossa Epístola. 66. Este último revela, de qualquer maneira, uma dependência literária de nossa Epístola, que dificilmejite faria se 2 Pedro, como ele mesmo, fosse uma produção do século II. Para o Apocalipse aludir-se a ela a fim de sugerir verissimilitude, 2 Pedro deve ter desfrutado real prestígio como produção autêntica do apóstolo. Ver supra, pág. 20, n. 25.

33


2 PEDRO E JUDAS escrita de Roma pouco antes do seu martírio (1:15). Este permanece sendo o lugar mais provável mesmo se Pedro não fosse o autor. Barnett67 indica a repugnância da heresia, o quadro irenista dos relacio­ namentos entre Pedro e Paulo, a referência à morte iminente de Pe­ dro, e a alusão indireta ao Evangelho segundo Marcos (1:15) como sendo indicações de uma origem romana, e indica que 1 Pedro e Ju­ das, com as quais nossa Epístola tem fortes afinidades, também eram publicações romanas, com toda a probabilidade. A certeza, no entan­ to, é impossível. À destinação da carta é igualmente enigmática. O ponto crucial nisto é 3 : 1 . Se, conforme a maioria dos comentaristas entende, tratase de uma referência de volta a 1 Pedro, então, os endereçados da se­ gunda carta obviamente devem ser as mesmas pessoas para as quais 1 Pedro foi enviada, ou seja: os cristãos nas províncias da Ásia mencio­ nadas em 1 Pedro 1:1. Se, porém, 3:1 se refere a outra carta (perdida) e não 1 Pedro de modo algum, então fica sendo mais difícil ter certeza dos endereçados. Mesmo assim, as probabilidades ainda favorecem a Ásia Menor; a carta foi recebida aqui em data recuada (como também o foi no Egito, outra destinação possível), e Ásia Menor foi uma das sementeiras principais do gnosticismo do qual 2 Pedro cita um exem­ plo antigo. Muita tinta jáfoi gasta em debater a questão de se os endereçados eram judeus ou gentios. Em prol daqueles68 pode ser argumentado o contraste subentendido entre “vossos apóstolos” (3:2) e os demais, e as afinidades entre parte da linguagem de 2 Pedro e os escritos de Cunrã.69 Mas é muito mais provável uma comunidade gentia, ou pelo menos mista. Não somente é Paulo o apóstolo aos gentios, uma auto­ ridade reconhecida, como também o autor é cauteloso no uso de pseudepígrafos judaicos, que Judas aduz com perfeito contentamen­ to, e certas frases tais como “fé igualmente preciosa conosco ” (1:1) e

67. Bamett, pág. 164. 68. Assim Zahn, Spitta, Falconer (Expositor, VI, 6, 1902) pensa que foi escrita para samaritanos. 69. W. F. Albright fica impressionado pelas reminiscências em 2 Pedro da literatura de Cunrã, “ inclusive o caminho verdadeiro, a luz nas trevas, a destruição final pelo fogo, etc.” (From Stone Age to Christianity, 1957, págs. 22-23). Assim tam­ bém R. H. Harrison. Archaelogy o f the New Testament. 1964, pág. 81.

34


INTRODUÇÃO “livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo” (1:4) su­ gerem que os leitores eram gentios. E difícil imaginar que a Epístola não teria contido nenhuma citação específica do Antigo Testamento (embora haja grande número de alusões) se os endereçados fossem primariamente judeus. É provável que uma comunidade mista esteja mais perto da verdade; são pessoas às quais o autor já escrevera e mi­ nistrara pessoalmente (1:16; 3:1) e que tinham recebido pelo menos uma carta de Paulo (3:16). É impossível ser mais exato do que isto ; daí a variedade de conjecturas pelos comentaristas acerca de onde vi­ viam. A data, além disto, é largamente contestada. Se 2 Pedro fez uso de Judas, ou não, se a carta de Judas é anterior a 1 Pedro ou subse­ qüente a ela, há certos indicadores que ajudam na determinação da data da Epístola. Não pode ter sido escrita até que a maioria das paulinas, ou talvez todas elas, tivessem sido escritas (3:16); logo, não pode ser antes dos meados da década de 60. Se Pedro a escreveu, uma data entre 61 d.C. e sua morte (?64,‘66 ou 68) seria indicada. Se não, qual seria a última data razoável? Em data suficientemente recuada para ter sido usada pelo Apocalipse de Pedro cuja data, conforme as autoridades mais recentes, é c. de 135 d.C.70 Deve ter sido escrita antes daquela data, de qualquer maneira, para se ter imposto em Cle­ mente de Alexandria como sendo digna de um comentário. Uma data de cerca de 80 d.C. recomenda-se a vários estudiosos, tais como Reicke, Albright e Chaine, por uma variedade de razões.71 Os pontos de vista de muitos críticos de que provém de uma data muito poste­ rior ' a esta são dominados por vários falsos conceitos (de que 3:16 subentende uma coletânea fixa de Epístolas Paulinas já reconhecidas como canônicas, de que 3:4 subentende a morte, há muito tempo, da primeira geração cristã, e de que 1:14,17 subentende a familiaridàde com o cânon com quatro Evangelhos) e pelo desejo de “encurtar o espaço” entre a publicação de 2 Pedro e sua atestação relativamente 70. Assim E. Hennecke, New Testament Apocrypha, vol. II, pág. 664. 71. Chaine favorece esta data porque acredita que foi escrita por um discípulo íntimo de Pedro, Albright a favorece por causa das semelhanças com Cunrã, e Reicke, porque pensa que dificilmente poderia ter havido uma atitude tão favorável aos magistrados imperiais num documento cristão escrito depois da perseguição por Domiciano. 72. Destarte, Windisch sugere 120, Mayor, 125, von Sonden, 150, Jiilicher, 125-175, Hamack, 150-175.

35


2 PEDRO E JU D A S generalizada no século III.73 Tal ponto de vista não sobrevive a evi­ dência externa de que 2 Pedro era anterior ao Apocalipse de Pedro e Clemente de Alexandria. Além disto, deixa de levar em conta certo número doutros aspectos que fazem com que uma data no século II seja realmente difícil visualizar. Mas é talvez a natureza sub­ desenvolvida da heresia atacada que é a evidência mais forte em prol de uma origem de 2 Pedro no século I, e agora voltamos nossa atenção a este assunto.

III. OS FALSOS ENSINOS REFERIDOS EM 2 PEDRO E JUDAS Será conveniente tratar o falso ensino atacado por 2 Pedro e Judas de uma só vez, porque, a despeito das diferenças entre os ensinos, fica claro que têm muita coisa em comum, é quase certamente são mani­ festações do mesmo problema. Há concordância geral entre os comentaristas de que a heresia em mira é, em ambos os casos, uma forma primitiva de gnósticismo. As vidas e os ensinos destes homens negavam o Senhorio de Jesus (2 Pe 2:1; Judas 4). Conspurcavam a Agape (festade amor cristão), eram pessoalmente imorais, e infectavam aos outros com seus modos las­ civos, através de reduzir ao mínimo o lugar da lei na vida cristã, e de enfatizar a liberdade (2 Pe 2:10,12 ss. 18 ss.; Judas 4,12). Nos seus ensi­ nos, que eram muito volúveis, eram plausíveis e astutos, gostando da retórica, visando lucros, e obsequiosos com aqueles da parte çjos quais esperavam ganhar alguma vantagem (2 Pe 2:3, 12, 14, 15T18; Judas 16). Os dois escritores os representam como sendo arrogantes e cínicos, não somente para com o Senhor, mas, para com os líderes eclesiásticos e os poderes angelicais também (2 Pe 2:1,10,11; Judas 8). Parece que se apresentaram como os visionários ou profetas, para, apoiar suas reivindicações (2 Pe 2:1; Judas 8). Têm vontade própria e estabelecem divisões, confiantes da sua própria superioridade (2 Pe 2:2,10,18; Judas 19). Os ensinadores de erros, contra os quais 2 Pe­ dro escreve, zombam da parusia (capítulo 3), mas não há sinal disto

73. Neste assunto, B. B. Warfield tem algumas coisas pertinentes a dizer no seu Syl­ labus on the Special Introduction to the Catholic Epistles, págs. 116 ss. Lembranos que Heródoto é citado uma só vez no século após sua composição, e Tucídides não foi citado uma só vez até o segundo século depois de ter sido escrito.

36


INTRODUÇÃO em Judas, embora seus antagonistas, também, sejam zombadores de modo geral (18). Os oponentes de Pedro torcem os profetas do Antigo Testamento e os escritos paulinos para suas próprias finalidades (1:18-2:1; 3:15,16),74 ao passo que os antagonistas de Judas torcem a doutrina (paulina) da livre graça em desculpa para a lascívia (4). Há outras indicações em Judas que os endereçados tinham um modo ba­ sicamente paulino de entender o evangelho. A mesma distinção entre cristãos carnais e espirituais que Paulo faz em 1 Coríntios 2 aparece em Judas 19. Os falsos mestres descreviam-se como sendo pneumatikoi, os “espirituais” , embora, na realidade, não possuíssem o Espí­ rito de modo algum! Embora 2 Pedro não empregue exatamente a mesma linguagem, uma impressão bem semelhante é dada pelo uso que o autor faz repetidas vezes das raízes gnõsis e epignõsis. Está re­ pudiando as alegações que os hereges fazem quanto a possuírem um conhecimento súperior, ao mostrar-lhes de que consiste o verdadeiro conhecimento cristão. Judas escreve com pressa para retificar a si­ tuação em que semelhante tipo de heresia surgiu; Pedro escreve, pelo menos parcialmente, a fim de ter um efeito preventivo, pois muitos dos seus verbos estão no futuro (embora isto possa ser um artificio retórico para demonstrar que o que aconteceu está de acordo com a profecia; ver 2 Pe 2:1 ss.; cf. Judas 4). A outra diferença no trata­ mento dos falsos mestres é que Pedro evita o emprego de matéria apócrifa para ressaltar suas lições, ao passo que Judas não tem tais escrúpulos. Aqui, numa forma ainda não desenvolvida, estão todas as carac­ terísticas que passaram a constituir-se no gnosticismo posterior — a ênfase sobre o conhecimento, que os eiriancipava das exigências da moralidade; a arrogância para com os líderes eclesiásticos “nãoiluminados” ; o interesse pela angelologia; a dissensão; a lascívia. Os gnósticos posteriores perverteram a graça de Deus em licenciosida­ de, confiantes de que o “pneumático” verdadeiro não podia ser afe­ tado por aquilo que a carne faz. Pensavam que não tinham dever al­ gum diante das autoridades civis ou eclesiásticas — não tinham sido libertados do velho eão e dos poderes dele? Além disto; eram antago­ nistas da escatologia pois, conforme observou Kasemann,75 o gnóstico já tinha a plenitude da natureza divina. A salvação está presente 74. Este modo desonesto de manusear a Escritura era uma falta característica dos gnósticos posteriores, e é atacada por Irineu (A- H. 1:3, 6, 8. 1, 9. 1). 75. Kàsemann, pág. 171.

37


2 PEDRO E JU D A S para o gnóstico, e transcende o tempo; para a mentalidade hebraica, naturalmente, que levava a sério o tempo, a salvação nunca poderia ser completa até o último dia. É por isso que o gnóstico nada queria saber da apocalíptica e do elemento futuro na salvação. Foi a esta al­ tura, sem dúvida, que pensavam ter um aliado em Paulo, pois ele, também, ressalta o tempo presente na salvação— mas sem negligen­ ciar o futuro. Não precisamos, porém, esperar o século II para achar estas ca­ racterísticas. Realmente, conforme Kümmel indica com razão, a he­ resia retratada aqui “não se encaixa em qualquer sistema gnóstico específico do século II.”76 Paralelos imediatos brotam facilmente à mente dentro do século I. Em Corinto, já na década de 50, um movi­ mento conseguira fincar pé, e defendia um programa sexual “ esclare­ cido” baseado nas promessas da lib,erdade (1 Co 6:12, 13). O Senhor que comprara Seus servos era, na prática, negado (6:18-20). Enfati­ zando os efeitos emancipantes do conhecimento, estas pessoas justi­ ficavam a participação em cultos pagãos (1 Co 8; cf. 2 Pe 2:10), abu­ savam das festas de amor cristão (1 Co 11:21), promoviam tendências separatistas (1 Co 3; 11:18-19), e, mais significante de tudo, encoraja­ vam a descrença no elemento futuro do reino de Deus, da parusia e da ressurreição (1 Co 15); e isto, naturalmente, levava à licenciosidade (15:32). Um tipo semelhante de heresia acha-se nas igrejas asiáticas, defendida pelos nicolaítas (Ap 2 e 3). Embora muita coisa a respeito destes sectários seja obscura, pelo menos fica claro que a imoralidade sexual, a participação das festas idólatras, a ênfase dada à gnõsis, e o separatismo faziam parte das suas características principais, junta­ mente com a cooperação política com Roma (em prol da qual Bo Reicke77 argumenta fortemente, embora às vezes de modo um pouco estranho, no caso de 2 Pedro e Judas). A ocorrência do nome Balaão em Apocalipse 2:14; 2 Pedro 2:15 e Judas 11 talvez sugira al­ guma conexão com os nicolaítas. Em resumo: não há nenhum mo­

76. Introduction to the New Testament, pág. 300. 77. Bo Reicke supõe que 2 Pedro, Judas e Tiago, juntamente com 1 Clemente, per­ tencem todas ao tipo de fundo histórico sugerido por Suetônio, Domiciano X, onde lemos acerca de várias tentativas feitas entre a aristocracia para depor este imperador tão impopular e cruel. Reicke tortura as evidências destas Epístolas para forçá-las para dentro deste molde político; embora seja engenhoso, dificil­ mente convence.

38


INTRODUÇÃO vimento antinomiano que nos é conhecido a partir do século II18 que coincide mais exatamente com o de 2 Pedro e Judas do que os nicolaítas do Apocalipse e os libertinos protognósticos de Corinto. Tendên­ cias semelhantes eram achadas em Colossos na década de 60 (com pensamento especulativo, imoralidade, e preocupação com anjos) e nas igrejas joaninas na década de 80 ou 90 (insubordinação, separa­ tismo, imoralidade, ênfase dada ao conhecimento, e falta de amor). A heresia que encontramos em 2 Pedro e Judas é inteiramente crível dentro do século I, até mesmo nos meados do século I. IV. A UNIDADE DE 2 PEDRO De tempos em tempos, sugestões têm sido feitas no sentido de que 2 Pedro é composto de duas origens documentárias, ou mais. Recen­ temente, por exemplo, M. McNamara79 sugeriu que o capítulo 1 cir­ culava independentemente, sendo esta a carta referida em 3:1. Des­ tarte, o capítulo 3 é uma das “lembranças” prometidas na carta breve que constitui nosso capítulo 1. Pensa que o capítulo 2 tambérp circu­ lava como panfleto independente contra falsos mestres. Esta é uma hipótese bastante atraente, e forma uma conexão excelente entre os caps. 1 e 3, ao passo que reconhece a individualidade do capítulo 2 como um documento no seu próprio direito, com fortes afinidades com Judas. O empecilho é a continuidade do estilo, desde o começo até o fim da Epístola, que torna certo que a obra inteira procede do mesmo homem. McNamara reconhece a força desta objeção, e con­ sidera que todas as suas três cartas vieram da mesma mão. Isto é pos­ sível, mas longe de ser necessário, e não tem nenhum átomo de apoio externo. 78. Se 2 Pedro e Judas fossem de uma data avançada, poderíamos esperar uma refe­ rência às crenças distintivas dos falsos mestres; na realidade, não achamos nada disto, nem sequer a sugestão de “genealogias” e “eões” e do Demiurgo, que eram o cabedal das várias seitas gnósticas. Tampouco há qualquer indício das várias escolas nas quais o gnosticismo veio a definir-se no século II; o carpocratianismo, o severianismo, o valentianismo, e assim por diante. Na realidade, a natureza primitiva da heresia aqui aludida se ressalta em relevo ainda mais nítido depois da descoberta da obra de Valentino, o Evangelho da Verdade, o Evangelho segundo Tomé e o Evangelho segundo Filipe que revelam o gnosticismo genuíno e desen­ volvido. 79. Scripture, XII, 1960, págs. 13-19

39


2 PEDRO E JUDAS E. I. Robson8" inventou uma teoria mais complicada para expli­ car a aparente genuinidade e a aparente espuriedade de várias partes diferentes da Epístola. Não podia nem considerá-la inteiramente petrina, nem, porém, aceitár ò ponto de vista de que era um pseudepígrafo. Sustentava, portanto, que há quatro partes genuinamente petrinas da Carta (1:5-11, Ensino; 1:12-18, Autobiografia; 1:20-2:19, Profecia; 3:3-13, Apocalíptica), e que a obra inteira foi depois com­ posta por um redator. Um ponto de vista semelhante foi expressado por M. E. Boismard na sua crítica literária81do meu livro 2 Peter Reconsidered. Re­ conheceu a força de argumento em prol da autoria petrina, mas indi­ cou uma hipótese que eu não havia considerado, a saber: que um re­ dator combinou uma Epístola autêntica de Pedro (caps. 1 e 3) com a Epístola de Judas. Destarte, explicou ele, as afinidades e as diferen­ ças entre 1 e 2 Pedro poderiam ser explicadas. A unidade do estilo, no entanto, é contrária a isto. Além disto, 2 Pedro não usa Judas somente no cap. 2. Em terceiro lugar, pode-se perguntar se o estilo ‘ ‘asiático” em que 2 Pedro foi escrito82 continuou até o século II. E, finalmente , as dificuldades dos caps. 1 e 3 ainda permanecem, e segundo este ponto de vista são petrinos. Por que não esquecer-se do redator im­ provável para quem não há evidência, e atribuir a obra inteira a Pe­ dro, se alguém está disposto a ir ao ponto de reconhecer elementos petrinos na Epístola? V. A AUTORIA DE JUDAS A atestação externa a esta carta pequena é antiga e boa. Tem um lugar no Cânon Muratoriano; Tertuliano a reconheceu como um docu­ mento cristão autorizado,81 e da mesma forma Clemente de Alexan­ dria,84 que escreveu um comentário sobre ele.85 Orígenes dá a enten­ der que havia dúvidas nos seus dias (“ se alguém acrescentar a Epís­ tola de Judas” , Comentário de Mateus 17:30), mas claramente não

80. 81. 82. 83. 84. 85.

Studies in the Second Epistle o f Peter. Revue Biblique, lxi, 2, 1963, pág. 304. Cf. pág. 18. De cult. fem . 1.3. Paed. iii.8. 44; Strom, iii. 2. 11. Resumido nas Adumbrações.

40


INTRODUÇÃO participava delas,86 porque cita Judas como sendo autorizado, e isto com entusiasmo: “ E Judas escreveu uma Epístola, extremamente pequena, porém cheia de palavras poderosas e graça celestial” (ibid. x. 17). Além disto, Atenágoras, Policarpo e Barnabé87 parecem ter citado a Epístola no início do século II, de modo que dificilmente po­ deria ter sido composta depois do fim do século I. Eusébio a classi­ fica entre os livros disputados, e não foi admitida no Cânon sírio anti­ go, à Peshitta. A razão não é difícil de ser descoberta. Judas citava escritos apócrifos, e embora nalguns círculos no ocidente isto tendia a dar mais estatura às respectivas obras apócrifas,88 no oriente esta li­ gação com matéria apócrifa foi suficiente para causar a rejeição de Judas.89 Jerônimo declara este fato. Explica a causa das dúvidas a respeito de Judas como sendo “porque apelou ao Livro de Enoque, apócrifo, como autoridade, a Epístola é rejeitada por alguns.9" Ainda no fim do séculò IV, Dídimo de Alexandria tinha de defender Judas contra aqueles que a atacavam porque usava matéria apócrifa.91Fica claro que esta era a única razão para a hesitação sentida nalguns luga­ res a respeito de Judas. Já em 200 d.C. era aceita nas áreas principais da Igreja Antiga, em Alexandria (Clemente e Orígenes), em Roma (o Cânon Muratoriano), e na África (Tertuliano). Somente na Síria é que havia objeções, e mesmo ali não poderiam ser uníssonas, pois Judas foi aceita nas recensões filoxeniana e harcleana do Novo Testamento. Clemente de Alexandria diz nas Adumbrações que esta carta foi escrita por Judas, irmão de Tiago, irmão do Senhor. Epifânio diz a mesma coisa, mas o chama de apóstolo também, como fazem muitos dos Pais (Orígenes, Atanásio, Jerônimo, Agostinho). Que os irmãos do Senhor eram frouxamente conhecidos a outras pessoas como sendo apóstolos aparece conforme Gálatas 1:19. Judas, no entanto, não era apóstolo. Apresentá-se como “ servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago. ’’ Não pode haver dúvida a quem se refere. Kümmel resume bem a questão quando escreve: “ Como ‘irmão de Tiago’ é caracteri­ zado de modo suficientemente claro. Havia um só Tiago eminente e 86. Kümmel diz, de modo surpreendente: “Orígenes não a considerava parte do câ­ non ’’ (Jntroduction to the New Testament, pág. 301). Deve ter deixado de notar a Comm. in Rom. 3:6, de Orígenes, onde chama Judas de scriptura divina. 87. Ver Bigg, págs. 307-8 para os pormenores. 88. Assim Tertuliano, De cult.fem . 1:3. 89. Ver a Introdução, seçãq VII. 90. De vir. ill. iv. 91. Para o texto, ver Migne, Patrologia Graeca xxxix. 1811 ss.'

41


2 PEDRO E JU D A S bem conhecido, irmão do Senhor (Tg 1:1; G11:19; 2:9; ICo 15:7). Ju­ das, pois, é um dos irmãos de Jesus, o terceiro a ser mencionado em Marcos 6:3, e o quarto em Mateus 13:55. Fora disto, nada sabemos acerca deste Judas.”92 O autor dificilmente poderia ser Judas, o filho (ou irmão) de Tiago (Lc 6:16), um dos Doze, porque o autor desta carta expressamente se disassocia dos apóstolos (17). Nem é prová­ vel a sugestão de Streeter,91 de que foi escrita pela mão do terceiro bispo de Jerusalém que, segundo as Constituições Apostólicas (mas não segundo Eusébio)94 era Judas. Mas mesmo se este fosse o caso, este tinha um irmão chamado Tiago, e, além disto, um irmão de tal distinção que bastava mencionar seu nome para ele ser identificado? Decerto, é argumento forçado. A carta declara ter sido escrita por Ju­ das, irmão de Tiago e, portanto, do Senhor. Esta declaração pode ser substanciada? Muitos estudiosos a aceitam, notando o colorido profundamente judaico da carta, especialmente o gosto pelos apocalipses judaicos e a estrutura aramaica das frases, com seus tríplices arranjos, juntámente com o bom grego que se poderia esperar de um nativo da Galiléia bilíngüe. Mayor fez um estudo interessante das afinidades de pensamento e expressão entre as Epístolas de Judas e Tiago, e este, dentro das suas limitações, apóia a atribuição.95 Mas por quê, se Judas é o irmão do Senhor, ele não o diz direta­ mente? A resposta, tão antiga quanto Clemente de Alexandria, é sua humildade. A igreja chamava Tiago e Judas de irmãos do Senhor (1, Co 9:5), mas eles preferiam pensar em si mesmos como sendo Seus ser­ vos, lembrando-se, sem dúvida, que nos tempos do seu próprio con-, vívio com Ele como irmãos, não acreditavam nEle (Jo 7:5). As duas cartas, no entanto, combinam autoridade inquestionável com humil­ dade pessoal, que é exatamente o que se esperaria de um membro convertido do círculo familiar de Jesus.96 Mas Judas poderia ter vivido tempo suficiente para escrever esta carta? Manifestamente vem do fim da era apostólica. A fé apostólica é 92. 93. 94. 95. 96.

Kümmel, Introduction to the New Testament, pág. 30Ó. The Primitive Church, 1929, págs. 178-180. Que o chama de Justo, juntamente com várias listas posteriores. Mayor, págs. cxrviii ss. Para uma discussão dos relacionamento entre Judas e Tiago, de um lado, e Jesus, de outro lado, ver o comentário de R. V. G. Tasker sobre James (Tiago) nesta série, pags. 22-25, e a incursão de J. B. Lightfoot: “ Os Irmãos do Senhor” na sua Epistle to the Galatians, 1869, págs. 247-282.

42


INTRODUÇÃO cristalizada (3), as palavras apostólicas são relembradas (17), e as ad­ vertências apostólicas foram cumpridas (18). Esta dificilmente pode­ ria ter sido a situação muito tempo antes de cerca de 70 d.C., embora não haja necessidade de supor, juntamente com Lutero, que o escri­ tor “fala dos Apóstolos como sendo ele mesmo um discípulo muito tempo depois”. Judas poderia ter sobrevivido até o último quartel do século I? Se Judas fosse um irmão mais jovem de Jesus (conforme sugere sua posição nas listas nos Evangelhos) não haveria dificuldade com esta data, se não fosse uma história registrada, por Hegesipo.98 Conta-nos que os netos de “Judas, o irmão do Senhor segundo a car­ ne”, foram trazidos perante o Imperador Domiciano (81-96 d.C.) como revolucionários em potencial (por pertencerem, naturalmente, à linhagem de Davi), mas que foram soltos quando suas mãos calejadas testificaram que eram sitiantes sem aspirações políticas, e quando foi entendido que seu réino era celeste! Hegesipo nos informa que tornaram-se bispos na igreja, e que sobreviveram até os tempos de Trajano (98-117 d.C.). Decerto, é argumentado, se Judas teve netos que eram homens maduros nos tempos de Domiciano, ele mesmo deve ter morrido muito tempo antes, cedo demais para ter escrito esta Epístola. J. B. Mayor acaba rapidamente com este ponto de vista:99 “Judas, como já vimos, era aparentemente o mais jovem dos irmãos do Senhor, e provavelmente nasceu não depois de 10 d.C., se acei­ tarmos a data de 6 a.C. para a Natividade. Levando em conta a idade jovem em que as pessoas se casavam na Judéia, de modo geral, po­ demos supor que tivesse filhos antes de 35 d.C., e netos até 60 d.C. Estes podem ter sido trazidos diante de Domiciano em qualquer ano do reino deste. O próprio Judas, portanto, deve ter tido, desta forma, 71 anos no primeiro ano de Domiciano. Se sua carta fosse escrita em 80 d.C., ele deve ter tido 70 anos de idade, e seus netos, cerca de 20 anos.” As outras objeções contra a autoria desta Epístola por Judas são frívolas. A qualidade razoavelmente boa do seu grego deve surpreen­ der apenas aqueles que não têm consciência da extensão da heleniza-

97. Preface to Jude. 98. Eusébiò, H.E. iii. 20. 1 ss. 99. Mayor, pág. cxlviii.

43


2 PEDRO E JU D A S ção na Palestina no século I, mormente na Galiléia.100O fato de que a citação de Enoque no v. 15 corresponde com razoável exatidão à ver­ são grega daquela obra não precisa militar contra a autoria por Judas; afinal das contas, ele ouviria a Septuaginta lida todos os sábados na sinagoga. De qualquer forma, não é improvável que a substância de Judas e de 2 Pedro 2 advém de uma origem documentária comum, um tratado catequético contra o falso ensino;.neste caso, é bem possível que fosse o catequista desconhecido, e não Judas, que fez esta citação do texto grego de Enoque. Já examinamos o ponto de vista de que a natureza do falso ensino denunciado em Judas indica uma data avan­ çada. Há, pois, muita coisa para apoiar o ponto de vista tradicional de que Judas escreveu esta carta. Se rejeitarmos este fato, seremos re­ duzidos à conjectura de que certo Judas desconhecido cujo irmão era um Tiago importante (porém descophecido!), escreveu a carta, ou te­ remos de apelar à pseudepigrafia. E a falta de especificar exatamente quem era este Judas é muito improvável em qualquer destas suposi­ ções. N ocaso da pseudepigrafia, é muito difícil perceber por que uma pessoa tão obscura quanto Judas devesse ter sido escolhida para a atribuição. Era normal escolher alguma pessoa bem conhecida para atribuir a ela a “ paternidade” dos escritos pseudepigráfícos. Um pseudepígrafo ligado ao nome dalguma pessoa acerca de quem nada mais é conhecido é quase inconcebível. A conclusão de Barclay é justa. Escreve: “ Quando lemos Judas, ela é obviamente judaica; suas referências sào tais que so­ mente um judeu poderia entendê-las, e suas alusões são tais que so­ mente um judeu poderia captá-las. É simples e sólida; e vívida e pictó­ rica. E claramente a obra de um pensador singelo e não a de um teólo­ go. Adapta-se à pessoa de Judas, irmão do Senhor. Está ligada ao seu nome, e não poderia haver nenhuma razão para assim ligá-la a não ser que ele realmente a escrevesse.” 101

100. Ver E. R. Goodenough, Jewish Symbols in the Graeco Roman Period, 1953, e N . Turner, ‘‘The Language of Jesus and his Disciples ’’ em Grammatical Insights into the New Testament, 1965, que argumenta que Jesus e Sua família habitual­ mente falavam um tipo de grego da Septuaginta. 101. Barclay, págs. 202-3.

44


INTRODUÇÃO VI. A OCASIÃO E A DATA DE JUDAS Judas escreve sua Epístola com pressa para lidar com um surto de falso ensino acerca do qual acabara de ouvir falar (3, 4). Para a natu­ reza desta heresia, ver seção III supra. Exatamente quando a heresia provocou Judas a escrever este panfleto excitante, não o sabemos. Não há evidências externas para ajudar-nos. Somos reduzidos a ba­ sear inferências no conteúdo da própria Epístola. E visto que estas inferências produziram datas que variam entre 60 d.C. e 140 d.C., percebe-se que é uma tarefa precária. Claramente não tem uma data muito recuada no período neotestamentário. A fé já teve tempo de cristalizar-se e de ser corrompida. As advertências dos apóstolos já tiveram tempo para serem circula­ das e comprovadas verídicas (3, 4, 17, 18). Uma vista superficial da Epístola a pronunciaria de data posterior, alegando que o conceito or­ todoxo e bitolado da “fé ” , bem como a referência aos apóstolos como pertencentes a uma era passada, juntamente com as referências ao gnosticismo, marcam a Epístola com os sinais do século II. Ao ser examinado, no entanto, semelhante ponto de vista toma-se difícil de sustentar. Entre outras coisas, os estudiosos hoje em dia têm cons­ ciência do crescimento do gnosticismo incipiente dentro do século I, e é muito inseguro utilizá-lo como critério de datação, mormente quando a heresia em epígrafe pode ser demonstrada tão incipiente quanto já vimos que era. 02 Além disto, o escritor não se refere aos apóstolos como pertencentes a uma era passada; simplesmente de­ clara que não era ele mesmo um apóstolo, e Conclama seus leitores a se lembrarem das predições dos apóstolos no sentido de que. surgi­ riam falsos mestres, pois isto realmente ocorreu (daí sua carta). O fato de que Judas refere-se àquilo que os apóstolos disseram ao invés da­ quilo que escreveram sugere que ainda estamos nos movimentando dentro do período oral, quando o ensino apostólico era geralmente transmitido pela palavra falada. Nem sequer a referência à “fé que uma vez por todas foi entregue aos santos ’’ necessariamente subentende uma data avançada. “A fé” é empregada desta maneira objetiva já em Gálatas 1:23 e Filipenses 1:27. A qualidade incomparável do depósito da fé cristã é fortemente defendida nas Epístolas Pastorais (que muitos estudiosos consideram 102. Ver J. Munck, “ The New Testament and Gnosticism” em Current Issues in New Testament Interpretation, ed. Klassen e Snyder, 1962, págs. 224-238.

45


2 PEDRO E JU D A S paulinas, ou pelo menos escritas sob a égide de Paulo). De qualquer maneira, as Epístolas Paulinas reconhecidas como tais deixam claro que a idéia da ortodoxia cristã estava muito bem estabelecida já na década de 50 do século I (ver, p.e., Rm 6:17, G11:8 ss; 1 Ts 2:13; 2 Ts 2:15; 3:6, 14). Há, pois, pouca coisa como fundamento nesta questão da data. Se Judas fez uso de 2 Pedro, este fato fixa uma data recuada para este escrito, e torna provável uma data pouco depois para Judas. Se, con­ forme a maioria dos estudiosos pensa, 2 Pedro empregou Judas, isto também contribui para uma data de Judas bem dentro do século I a fim de adaptar-se à atestação externa de 2 Pedro. Se as duas Epístolas fizeram uso independente de uma origem documentária em comum, isto também argumenta em favor de uma data recuada ao invés de avançada, quando, então, tais “folhetos” apostólicos talvez tenham perecido. Se, conforme Bigg improvavelmente pensava, Judas foi um meio-irmão de Jesus, mais velho do que Ele, é improvável que tenha vivido além de cerca de 65 d.C., e, como conseqüência, uma data pouco antes daquela seria necessária se ele a escreveu. Mas se, con­ forme é muito mais provável, Judas era um meio-irmão mais jovem de Jesus (na realidade, o filho mais jovem de José e Maria), então ele po­ deria muito bem ter vivido até a década de 80, e ter escrito sua carta em qualquer tempo nos dez ou quinze anos anteriores. Não temos, infelizmente, qualquer maneira de saber a quem Ju­ das estava escrevendo. A carta dele não era uma epístola geral, mas, sim, foi escrita a pessoas que conhecia numa situação específica (3-5, 17, 18, 20). Ele é claramente um judeu pessoalmente, mas isto não quer dizer que seus leitores o sejam. Mesmo assim, as probabilida­ des, por tênues que sejam, apontam naquela direção. Pressupõe seu conhecimento da literatura judaica intertestamental e da literatura apócrifa. Fala da “nossa comum salvação” , que serviria tanto para leitores judaicos quanto para gentios. Se Judas, irmão de Tiago, fosse realmente o autor, é provável que, comó seu irmão, teria se tornado especialmente responsável pela missão cristã judaica. Do outro lado, a linguagem de Judas sugere a familiaridade com o ensino paulino, e bem pode ser que Wand, Harrison e Guthrie tenham razão em ver Antioquia como um destino provável. Fica dentro da área palestiniana, dentro da qual Tiago, e, portanto, possivelmente Judas, se confinava; consiste em cristãos judaicos e gentios; além disto, vários dos apósto­ los ministravam ali, o que daria um sentido real ao v. 17. A certeza, 46


INTRODUÇÃO naturalmente, é impossível; há evidências inadequadas para se ba­ sear nelas um julgamento bem considerado.

VII. O USO FEITO POR JUDAS DOS LIVROS APÓCRIFOS Não pode haver dúvida de que Judas conhecia e fez uso de pelo me­ nos dois escritos apócrifos, &Assunção de Moisés e o Livro de Eno­ que, e provavelmente doutros também, tais como o Testamento de Naftali no v. 6, e o Testamento de Aser no v. 8. Judas cita Enoque livremente. É um livro apócrifo longo, prova­ velmente composto em períodos diferentes, desde o século I a.C. até osécu loId.C . Judas citã£no<?{/e l:9n ov. 15, quase palavra por pala­ vra. N o v. 14 chama Enoque “o sétimo depois de Adão,” descrição esta que ocorre em Enoque 40:8, e há muita coisa em Enoque que é usada na descrição que Judas fez dos anjos caídos nos vv. 6 e 13 (ver Comentário). A dependência de Judas da Assunção de Moisés (v. 9) não é me­ nos certa. De fato, é abertamente asseverada por Orígenes,101 Cle­ mente104 e Dídimo,105 que conheciam o livro, que agora existe so­ mente em fragmentos: provavelmente foi escrito bem no começo do século 1 d.C. Tanto a.Assunção quanto Enoque eram altamente esti­ mados na Igreja Primitiva, mas não temos meios de saber se Judas considerava canônicos estes livros. Cita-os como sendo relevantes para a situação para a qual escreve, e bem conhecidos tanto a ele quanto a seus leitores. E surpreendente que os escritores neotestamentários aludem tão raramente à vasta massa de matéria extracanônica que estava circulandó no século I. Paulo faz alusáo ao midraxe rabíniço sobre a Rocha em 1 Coríntios 10:4; o autor de Hebreus freqüentemente ecoa as obras de Filo; em 2 Timóteo 3:8 somos in­ formados que Janes e Jambres eram os mágicos que desafiaram Moi­ sés diante de Faraó (um trecho de haggadah baseado em Êx 7:11 e achado em vários escritos extracanônicos). De modo semelhante, a instrumentalidade dos anjos em dar a lei (G13:19; Hb 2:2), e as decla­ rações em At 7:22; Tg 5:17 e Hb 11:37, todas se referem a matéria apócrifa. 103.D eprinc. iii. 2. 1. 104. Adumbr. in Ep. Judae 105. In Ep. Judae Enarratio.

47


2 PEDRO E JUDAS Isto não nos deve assustar. “Não temos o direito de supor que a inspiração ergue um escritor para a posição intelectual de um histo­ riador crítico” , escreveu Plummer.106 “ São Judas provavelmente acreditava na história acerca da disputa entre Miguel e Satanás. Mas mesmo se soubesse que era um mito, poderia facilmente usá-la como um argumento ilustrativo, visto que era tão familiar aos seus leito­ res. ” Paulo não tem objeções contra o uso de um poeta pagão desta maneira (At 17:28; 1 Co 15:32, 33; Tt 1:12). Chaine faz a observação de que crer na revelação não implica em uma mente tábua rasa para tudo o mais. Um homem inspirado pode muito bem usaf as idéias contemporâneas que não eram contrárias à revelação.107 Uma coisa curiosa aconteceu a respeito do uso feito por Judas desta matéria apócrifa. De início, alguns destes escritos foram aceitos porque levavam o carimbo da aprovação de Judas. Destarte, Cle­ mente de Alexandria escreve: “com estas palavras ele corrobora o profeta” (i.e., Enoque),108 e, outra vez: “aqui confirma a. Assunção de M oisés” , e tanto Tertuliano109 quanto Bamabé"0 consideravam estes livros como sendo Escritura. Mais tarde, porém, mudou-se o clima, e ficou sendo aparente quanto perigo havia no uso irrestrito da matéria apócrifa. Os Apócrifos e suas “fábulas blasfemas” foram atacados por Agostinho1" e Crisóstomo.112 Não somente era insufi­ ciente a autoridade de Judas para salvar os escritos apócrifos, como também o próprio Judas foi sujeitado a suspeita, e descobrimos, con­ forme vimos na seção V supra, que Dídimo de Alexandria tinha de pedir que a citação por Judas de livros apócrifos não fosse contada contra ele.

VIII. JUDAS E 2 PEDRO: QUAL DELES TEM A PRIORIDADE? Os vv. 4-16 de Judas têm paralelos extensivos, tanto na linguagem quanto no conteúdo, com o capítulo 2 de 2 Pedro. As afinidades estão tão próximas, conforme qualquer pessoa pode ver ao 1er as passagens 106. 107. 108. 109. 110. 111. 112.

Plummer, pág. 424. Chaine, pág. 279. Adumbr. in Ep. Judae. Idol, xx, Apol. xxii. Ep. iv. 3; xvi. 5. Cidade de Deus xv. 23.4. Horn, in Gen. vi. 1.

48


INTRODUÇÃO em grego, ou até mesmo numa tradução em português, que deve ha­ ver algum relacionamento literário entre os dois escritos. 2 Pedro fez uso de Judas, ou vice-versa, ou ambos usaram origens literárias em comum? Este problema é um dos mais enigmáticos nos estudos neotestamentários. Os comentaristas mais antigos reconheciam este fato. Por exemplo, achamos um homem como Plummer"3 confessando sua própria incerteza da direção que o relacionamento seguia, e um ho­ mem como Dõllinger mudando de opinião.1MEscritores mais recen­ tes, tais como Wand, Kümmel e Moffatt, tenderam a ser mais con­ fiantes de que sabiam a resposta, mas talvez menos minuciosos ao examinarem as evidências. Quais são os fatos principais nesta discussão? 1. Há somente três versículos no começo de Judas e sete versí­ culos no fim, que não têm paralelos extensos em 2 Pedro (Judas 1-3, 19-25), embora a concordância verbal seja rara. 2. Judas inegavelmente dispôs sua obra em grupos de três que são desfeitos em 2 Pedro; se esta é uma marca de originalidade ou de­ pendência pode ser argumentado nas duas direções. 3. Judas, diferentemente de 2 Pedro, explicitamente cita os Apócrifos. Este fato, também, pode ser interpretado em duas dire­ ções. 4. A linguagem de Pedro acerca dos falsos mestres freqüente­ mente, porém não sempre, é colocada no tempo futuro, diferente­ mente de Judas, que fala dos heréticos como já estando presentes (ver abaixo). 5. Lingüisticamente, o grego de Judas é menos difícil e forçado do que o de 2 Pedro. Mais uma vez, conclusões opostas podem ser tiradas deste fato. 6. Os zombadores em Judas não zombam, segundo parece, da demora na parusia, que é o que fazem em 2 Pedro. Este fato também é inconclusivo como evidência quanto à data. Tais são os fatos. Agora vamos para as probabilidades. Aqueles que favorecem a prioridade de Pedro ressaltam a unidade de estilo em 2 Pedro que torna improvável que ele tenha copiado em larga escala doutro autor; o tempo futuro nas predições acerca dos falsos mestres 113. Plummer, pág. 394. 114. Ver a nota fascinante de Plummer, pág. 400.

49


2 PEDRO E JUDAS em 2 Pedro, comparado com o tempo presente em Judas;"5 a impro­ babilidade de que o apóstolo de maior destaque tomasse matéria em­ prestada de um homem obscuro como Judas; a possibilidade de que Judas 17, 18 se refira à profecia em 2 Pedro 3:2, 3; e a citação e su­ posto entendimento errôneo dalgumas passagens em 2 Pedro da parte de Judas.'16Além disto, o fato de que Judas cita os Apócrifos é consi­ derado fator que torna provável que ele teria feito seleções de 2 Pe­ dro, e o fato de que, conforme ele nos conta, escreveu apressada­ mente numa emergência torna provável que tivesse feito uso de maté­ ria apropriada que já tinha disponível, i.e., segundo este ponto de vis­ ta, 2 Pedro. Estes argumentos não são todos de igual valor. A unidade do es­ tilo em 2 Pedro podia sèr mantida mesmo se ele tirasse matéria de Ju­ das, pois a dependência não é de modo algum mecânica ou grosseira; seja a matéria que foi tirada (e seja por qual autor), é feita apropriada ao estilo de quem a tirou. O tempo futuro na linguagem de Pedro acerca dos falsos mestres não é mantido de modo consistente (o pre­ sente é achado em 2:10,12 ss., 20). Não há razão por que um apóstolo não usasse matéria redigida por um irmão do Senhor; realmente, a julgar da dependência de 1 Pedro de matéria tradicional e litúrgica, Pedro estava muito disposto a tomar emprestado doutros escritores. Embora Judas 17,18 pudesse referir-se a 2 Pedro 3:2-3, não é neces­ sariamente assim, e o fato de que “os apóstolos” e não o apóstolo específico, Pedro, são citados como autoridades para esta profecia, milita contra a suposta alusão. Aqueles que favorecem a prioridade de Judas ressaltam o estilo viçoso e vital da carta, em comparação com o estilo mais refreado de 2 Pedro, e a probabilidade de que a carta mais longa, 2 Pedro, tirou ma­ 115. 2:1-3; 3:3, 17; cf. Judas 4, 8, 10, etc. 116. Entre os exemplos mais impressionantes estão os seguintes: (i) Nas passagens paralelas, 2 Pe 2:4, Jd 6, as palavras de Judas desmois aidiois são mais provavel­ mente uma paráfrase da variante mais antiga, seirais (correntes) paraseirois (po­ ços) em Pedro, (ii) A omissão por Judas da expressão de Pedro, “diante do Se­ nhor ” (2 P e 2 :ll,J d 9 )e a inserção de ‘‘acusando o diabo de blasfêmia” , tirada da Assunção de Moisés, obscurece a boa lição de Pedro de que os falsos mestres difamam os líderes eclesiásticos (ou anjos) na presença do Senhor, e substitui a acusação de que trazem acusações de blasfêmia, que é muito menos apropriado, (iii) A menção que Judas faz dos mestres errados caindo ‘‘nesta condenação” (4), quando não tinha mencionado qualquer condenação antes, é melhor explicada assim: está escrevendo imediatamente após a leitura de 2 Pedro, tendo em mente 2 Pe 2:3, “ e a sua destruição não dorme.”

50


INTRODUÇÃO téria da mais curta, ao invés de vice-versa; pois então só haveria dez versículos propriamente de Judas — dificilmente uma razão ade­ quada para sua publicação e preservação. A primeira consideração é debatível; julgamentos sobre o estilo, quanto a ser viçoso e austero, tendem a ser muito subjetivos. Mas a segunda consideração milita fortemente em favor da prioridade de Judas. Os defensores deste ponto de vista entendem que Judas citou os livros apócrifos de modo espontâneo, ao passo que o pseudepígrafo cauteloso, 2 Pedro, achava mais sábio deixá-los fora, e, ao mesmo tempo, fazia alterações piedosas tais como a omissão da queda dos anjos, ao passo que incluía a preservação de Noé e Ló. A declaração generalizada e diluída em 2 Pedro 2:11 torna-se inteligível, segundo se argumenta, somente depois de termos lido o exemplo concreto citado em Judas 9, e 2 Pedro 2:17 é visto como uma alusão confusa ao versí­ culo 12 de Judas, claro e poderoso. Mayor117 ressalta a divergência de ênfase e expressão doutrinária como uma marca da prioridade de Judas, mas é precário argumentar da diferença para a prioridade. Muitos escritores também apóiam a prioridade de Judas ao indicarem aspectos alegadamente posteriores em 2 Pedro. Em cada caso, porém, os argumentos têm valor muito variável. A citação que Judas faz de livros apócrifos pode ser meramente o aguçar das alusões de Pedro com matéria que Judas sabe que será relevante para seus leitores. 2 Pe­ dro 2:17 não é de modo algum uma versão confusa de Judas 12, mas, sim, uma metáfora totalmente coerente, embora diferente (ver o Co­ mentário). E os aspectos alegadamente posteriores em 2 Pedro são passíveis, conforme já vimos (seção IV supra) de uma explicação bem diferente. CreioqueE. I.Robson tinha razão quando escreveu: “Opróprio fato de que os argumentos, em qualquer das direções, parecem àque­ les que os sustentam ter igual validez, parece mostrar que, seguindo as linhas tradicionais, nunca chegaremos a uma conclusão. ” 118 Con­ siderava que por detrás de 2 Pedro e Judas havia um documento ou documentos que denunciava os falsos ensinos. Bo Reicke está incli­ nado ao mesmo ponto de vista. Está impressionado não somente pe­ las semelhanças entre as duas Epístolas como também pelas suas di­ ferenças na linguagem, nas idéias, e na ordem. “Judas pareceria ser principalmente de origem secundária, visto que resume em estilo ele117. Mayor, págs. xvi ss. 118. Robson, pág. 52.

51


2 PEDRO E JU D A S gante considerações que Pedro expande com mais esforço e mais pormenores. Semelhante estilo suave é freqüentemente caracterís­ tica dos redatores que condensam e revisam aquilo que foi laboriosa­ mente composto por outros. Se esta for a explicação apropriada aqui, então Judas foi um arranjo de matéria já existente.” 19 Conclui que tanto Judas quanto 2 Pedro dependiam de uma tradição em comum, que pode ter sido oral, ‘‘um sermão-padrão formulado para resistir os sedutores da igreja” . M. E. Boismard, que estava estudando este problema durante alguns anos, chegou à mesma conclusão,131que re­ cebe a classificação de alta probabilidade na Introdução ao Novo Tes­ tamento recente por Harrison121 e Guthrie.122Numa nota de rodapé, este último elaborou umas estatísticas fascinantes que devem levar a hesitar aqueles que pressupõem sem mais argumento a dependência de um destes escritos do outro. “Das passagens paralelas que consis­ tem em2Pedro 1:2,.12;2:l-4,6, 10-12,15-18; 3:2,3 e Judas 2,4-13,17, 18, as primeiras contêm 297 palavras, e as últimas, 256 palavras, mas compartilham apenas de 78 em comum. Isto significa que, se foi 2 Pe­ dro que tomou emprestado, alterou 70 por cento da linguagem de Ju­ das, e acrescentou mais matéria pQr conta própria. Do outro lado, se Judas tomou emprestado de 2 Pedro, a porcentagem de alteração é um pouco mais alta, combinada com uma redução na quantidade. Cla­ ramente não pode haver questão de cópia direta, nem de adaptação editorial. É significante, além disto, que de doze seções paralelas, o texto de Judas é verbalmente mais longo do que o de 2 Pedro em cinco ocasiões, o que demonstra que nenhum dos autores pode ser conside­ rado mais conciso do que o outro.” Se os dois autores fizeram uso independente dalguma forma pa­ dronizada de catequese que denunciava o falso ensino de um tipo antinomiano, as semelhanças e as diferenças entre as duas apresenta­ ções serão de mais fácil compreensão, visto que nenhum dos dois es­ creve com dependência servil do seu esboço.121 Pareceria, na base dos paralelos diante de nós, que semelhante origem documentária 119. Reicke, pág. 190. 120. Numa carta endereçada a mim escreve: “J ’étais arrivé à la conclusion que les deus épîtres utilisaient un document comun, de ton eschatologique.” 121. E. F. Harrison, Introduction to the New Testament, 1966, págs. 396-7. 122. D. Guthrie,New Testament Introduction, vol. III (Hebreus ao Apocalipse), 1962, págs. 246-7. 123. Narealidade, somente uma cláusula (em Judas 13,2 Pe 2:17) é quase idêntica nas duas cartas.

52


INTRODUÇÃO começou com a indicação dos falsos mestres, sua penetração sutil, sua negação do Senhor, e a destruição que os aguarda conforme havia sido predito muito tempo antes nos escritos sagrados. Este aconteci­ mento foi descrito com pormenores, e seguiam-se, depois, mais des­ crições dos falsos mestres, com linguagem tirada do Antigo Testa­ mento, do mundo da natureza, e das palavras de Jesus, sendo que o item inteiro concluiu-se, ou com a destruição dos ensinadores do er­ ro, oú com uns ensinos aos leitores “amados” sobre a vivência cristã positiva. É altamente provável que um documento destes realmente exis­ tisse na Igreja Primitiva.124 Teria mostrado, dentro em breve, quão necessário era. Está sendo reconhecido de modo cada vez mais gene­ ralizado que vários folhetos deste tipo circulavam no período primiti­ vo. Já há muito tempo, suspeitava-se da existência de um documento contendo ditos de Jesus (geralmente é referido com a letra “Q”), bem como a circulação independente de Marcos 13 como base para o en­ sino escatológico na Igreja Primitiva. Se é para seguirmos as suges­ tões de Carrington125 e Selwyn,126havia folhetos catequéticos (pré- e pós-batismais) e um folheto sobrex> modo de enfrentar a perseguição. Rendei Harris,127 apoiado até certo ponto por Dodd,1*8 conjecturou a existência de uma lista de testimonia (textos de prova) e a teoria de W. L. Knox acerca das origens dos Evangelhos requer vários de tais folhetos.129Não é de modo algum improvável que houvesse outro que censurava os falsos ensinos. Esta, segundo me parece, é a explicação mais simples do fenômeno literário desorientador que liga 2 Pedro a Judas. Se for objetado que é erudição de qualidade inferior postular a existência de origens documentárias perdidas quando há a possibili­ 124. T anto 1 Clement (xxiii) quanto2 Clemente (xi) citam como “ escritura’’e “ a palavra profética” , respectivamente, exatamente um documento tal como este (ver o Co­ mentário sobre 2 Pe 3:4). Nas duas, há uma reiteração da verocidade da parusia, a despeito da sua demora. Nas duas, há a ênfase dada à justiça e à singeleza de co­ ração que achamos em 2 Pedro e Judas. As duas se referem à zombaria dirigida contra o ensino da parusia que se acha em 2 Pe 3:4 e à analogia da árvore frutífera que se acha em Judas 12. 125. The Primitive Christian Catechism, 1940. 126. The First Epistle o f St. Peter, 1946, Essay 2. 127. Testimonies, 1916. 128. According to the Scriptures, 1952, págs. 28 ss.; sua posição foi desafiada em M. D. Hooker, Jesus andthe Servant, 1959, págs. 21 ss., a favor da posição de Har­ ris. Ver também E.E. EÍlis, Paul's Use o f the Old Testament, 1957, págs. 98-107. 129. Sources o f the Synoptic Gospels, II, 1957.

53


2 PEDRO E JUDAS dade de explicações alternativas, deve ser lembrado que a dependên­ cia de uma origem documentária comum é geralmente admitida na crítica dos Sinóticos, a respeito da matéria na forma de ditos de Jesus que Lucas e Mateus têm em comum. Ou Mateus fez uso de Lucas, ou Lucas fez uso de Mateus, ou os dois tiraram matéria de uma fonte co­ mum. Se “Q ” não é considerado uma hipótese ociosa no problema sinótico, por que uma origem documentária comum, já perdida, deva ser excluída neste caso? A outra consideração que tem impedido a maioria dos estudiosos de adotar a hipótese de uma origem documentária perdida é a seguin­ te. Deixa muito pouco para Judas ter dito por conta própria. Mera­ mente os três primeiros versículos, e 19-25. Mas esta é uma dificul­ dade insuperável? Afinal das contas, expressamente nos informa que estava planejando escrever sobre outro assunto, quando vieram a ele notícias acerca do surto desta heresia, de modo. que rapidamente pe­ gou sua pena para tratar do caso. Há qualquer motivo por quê, nestas circunstâncias prementes, ele não pudesse ter rapidamente rabiscado os temas principais da resposta apostólica aos falsos ensinos, acres­ centando, na sua pressa, pouca coisa da sua própria parte senão uns conselhos aos fiéis quanto a continuarem assim? O restante poderia esperar, como a carta que se propusera a escrever e tivera que deixar de lado pela força das circunstâncias, até um tempo mais convenien­ te.

54


2 Pedro: Análise CAPÍTULO UM a. b. c. d. e. f. g.

Introdução e saudação (1:1, 2). Os privilégios do cristão (1:3, 4). A escada da fé (1:5-7). Cristãos estéreis e frutíferos (1:8, 9). Um alvo digno (1:10, 11). A verdade aceita repetição (1:12-15). A verdade é atestada pòr testemunhas oculares apostólicas (1:16-18). h. A verdade é atestada por escrituras proféticas (1:19-21).

CAPÍTULO DOIS a. b. c. d. e.

Acautelai-vos dos falsos mestres (2:1-3). Três exemplos de julgamento e livramento (2:4-10a). A insolência dos falsos mestres (2:10b, 11). Sua arrogância, concupiscência e gula (2:12-16). A nulidade dos falsos mestres (2:17-22).

CAPÍTULO TRÊS a. b. c. d. e. f. g. h. i.

Reiterado o propósito da carta (3:1, 2). O escárnio dos que zombam da segunda vinda (3:3, 4). Pedro argumenta na base da história (3:5-7). Pedro argumenta na base da Escritura (3:8). Pedro argumenta na base do caráter de Deus (3:9). Pedro argumenta na base da promessa de Cristo .(3:10). As implicações éticas da segunda vinda (3:11-14). Pedro cita Paulo como apoio (3:15,16). Conclusão (3:17, 18).

55


2 PEDRO: COMENTÁRIO

Capítulo Um a. Introdução e saudação (1:1, 2). 1. Simão Pedro. No início de uma carta que terá de incluir boa par­ cela de repreensão, o autor primeiramente se identifica, e depois apresenta suas credenciais. A combinação dos dois nomes parece ser um traço primitivo; e achada em Mateus 16:16, Lucas 5:8, e freqüentemente em João (p.e, 21:15-17, onde Jesus três vezes Se dirige ao Seu discípulo arrepen­ dido pelo seu patrônimo, porque o nome Pedro, “homem de rocha,” era tão inapropriado naquela juntura, ao falar àquele que negara seu Mestre). Alguns têm visto nesta combinação dos dois nomes uma ten­ tativa para apelar tanto a leitores judeus quanto gentios, mas é difícil ver qualquer sinal de grupos diferentes de endereçados na carta pro­ priamente dita. Outros pensam, com mais probabilidade, que o nome duplo, se tem qualquer relevância especial, visa desviar a atenção do leitor, do pescador judeu para o apóstolo cristão, da vida antiga para a nova, de Simão, o nome que lhe foi dado ao entrar na Antiga Aliança, para Pedro, seu nome distintivamente cristão. A forma “Symeon ’’, atestada pela Sinaítica e Alexandrina, deve ser preferida à ortografia normal, Simon, atestada pela Vaticana e pelo Papiro 72. E a forma hebraica antiga, que é achada alhures so­ mente no Decreto Apostólico (Atos 15:14) redigido por Tiago, o líder da igreja em Jerusalém. Este hebraísmo impressiona alguns críticos como sendo uma marca de autenticidade (Bigg, Mayor, Zahn, Janes). Bamett, no entanto, pensa que trai a “pseudonimidade da carta. O autor claramente deseja ser identificado com o autor de 1 Pedro.” Deixa de explicar por que o falsificador desajeitosamente escolheu uma forma de introdução diferente daquela de 1 Pedro, e por que este arcaísmo alegadamente deliberado de “ Symeon” nunca volta a ocor­ rer na literatura pseudopetrina do século II. 56


2 PEDRO 1:1 As credenciais do escritor são duplas. Ele é tanto servo (p. e., “escravo”) quanto apóstolo de Jesus Cristo. A humildade pessoal, que é notada tanto em 1 Pedro, é combinada com um senso da autori­ dade da sua posição apostólica, e com muita razão (ver Mt 10:40; Jo 20:21-23). “ Apóstolo” ressalta sua solidariedade com Cristo, “ ser­ vo ’’, com seus leitores. Este último termo prepara o caminho para sua declaração de que obtiveram fé igualmente preciosa conosco. Não há distinção entre os crentes. Todos igualmente são pecadores que de­ vem sua presença na cidade celestial (isotimos, igualmente preciosa, é yma palavra política, que significa “de igual posição social”) à amnestia do Rei. A fé aqui mencionada parece ser, apesar de Boobyer, não a fé como um corpo de doutrina, que dificilmente faria sentido no contexto, mas, sim, a fé ou confiança que traz a salvação ao homem quando agarra a mão que Deus estende a ele. A fé é a capacidade, dada por Deus, de confiar nEle, disponível igualmente aos judeus e aos gentios, aos apóstolos e aos cristãos no século XX. Esta igual­ dade de oportunidade e de posição é devida inteiramente àjustiça do nosso Deus que Se recusa a fazer distinções entre os vários recebedo­ res da Sua misericórdia e amor. O uso que Pedro faz de justiça (<dikaiosunê) nada tem das implicações forenses que achamos em Paulo. Assim como em 1 Pedro (2:24; 3:12, 14, 18; 4:18), assim também nesta Epístola (2:5,7, 8,21; 3:13) a palavra tem as associações éticas que vemos atribuídas a ela no Antigo Testamento; aqui significa a eqüidade, a justiça de Deus. A frase nosso Deus e Salvador Jesus Cristo levanta a questão de se Pedro está fazendo distinção entre Deus e Cristo, ou se realmente está chamando Jesus de Deus. Do ponto de vista gramatical, os dois substantivos são ligados no grego por um único artigo, que sugere for­ temente que há alusão a uma única Pessoa. Conforme indica Bigg, “dificilmente está lícito para alguém, depois de ter traduzido 1 Pedro 1:3, ho theos kaipatêr por “o Deus e Pai” , recusar-se a traduzir aqui ho theos kai sõtêr por “o Deus e Salvador.” Além disto, nas outras quatro vezes onde Pedro emprega a palavra Salvador (1:11; 2:20; 3:2, 18), sempre se refere a Jesus. Provavelmente, portanto, o autor está chamando Jesus de Deus neste trecho. E objetado que em nenhum lugar das Epístolas Jesus é chamado Deus de modo sem ambigüidade. Isto talvez signifique nada mais do que que os escritores do Novo Testamento eram cuidadosos para guardar-se contra o diteísmo pois, bem à parte dalguns exemplos prováveis da atribuição de “Deus” a 57


2 PEDRO 1:1-2 Jesus (Rm 9:5; Tt 2:13; Hb 1:8; Jo 20:28), os cristãos primitivos esta­ vam totalmente convictos de que Jesus era a encarnação de Deus. Declarar, juntamente com Paulo, que “ nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2:9) é ainda mais enfático do que simplesmente chamar Jesus de Deus. A palavra Salvador' é empregada aqui porque Pedro está edifi­ cando seu argumento a favor do desenvolvimento cristão e seu ataque contra a licenciosidade cristã sobre o fato de que seus leitores acha­ ram a salvação. É a convicção da Bíblia inteira que todo crente per­ tence a um Deus que salva. “Salvador” é um dos grandes nomes de Deus no Antigo Testamento. Pedro, de fato, está corajosamente to­ mando o nome veterotestamentário para Javé e aplicando-o a Jesus, assim como fez no seu sermão no dia de Pentecoste (Atos 2:21). 2. A oração de Pedro em prol dos seus leitores é idêntica àquela em 1 Pedro 1:2. Graça e paz eram a oração constante de Paulo pelos seus amigos cristãos (Rm 1:7; ICo l:3;2C o 1:2, etc.), baseada, sem dúvida, na saudação característica grega e hebraica respectiva­ mente. Para Pedro, esta não é nenhuma fórmula vazia, no entanto, pois faz tanto a experiência da paz de Deus e o recebimento da Sua graça (ou socorro) depender do profundo conhecimento de Deus e de Jesus. Ao fazer assim, está em harmonia com João e com Paulo. João 17:3 declara enfaticamente que a vida eterna consiste em conhecer a Deus e a Jesus Cristo a quem Ele enviou; ao passo que Paulo, que durante muitos anos tinha desfrutado deste conhecimento de Deus em Cristo, ainda nutria o anseio de conhecer melhor seu Mestre (Fp 3:8,10). Os dons de Cristo, pois, tais como agraça e apaz, não podem ser desfrutados independentemente dEle mesmo. Sem dúvida, o acréscimo de conhecimento aqui (não é usado na saudação em 1 Pedro) tem um impacto polêmico. Ocorre em três ou­ tras ocasiões em 2 Pedro (1:3, 8; 2:20). Noutros lugares, à parte de uma única referência em Hebreus (10:26), aparece somente nas Epís­ tolas posteriores de Paulo, onde ocorre quinze vezes. Pedro estava escrevendo a pessoas que alegavam ter um conhecimento verdadeiro de Deus e de Cristo, mas que continuavam no comportamento imoral. Conhecimento pode ter sido um chavão deles, que Pedro retoma e enche com conteúdo cristão autêntico. O verdadeiro conhecimento de Deus e de Cristo produz graça e paz na vida; além disto, produz a santidade (v. 3). A totalidade do Novo Testamento é uníssona em de1. Ver meu The Meaning o f Salvation, 1965, págs. 195-6.

58


2 PEDRO 1:2-3 nunciar uma profissão de fé que não faz diferença alguma ao compor­ tamento. O significado exato do substantivo composto, epignõsis (em comparação com o simples gnõsis), é disputado. Destarte, J. Armitagè Robinson, no seu comentário de Efésios,2 pensava que a dife­ rença entre eles era aquela entre o conhecimento abstrato (gnõsis) e particular (epignõsis). J. B. Lightfoot, no entanto, definiu epignõsis como sendo um “conhecimento maior e mais eficiente do que gnõ­ sis. 3Em 2 Pedro, de qualquer maneira, o modo de Lightfoot entender é ipais apropriado do que o de Robinson; em cada uma das ocorrên­ cias, pois, é acerca da epignõsis de Jesus Cristo que Pedro está falan­ do. Um conhecimento mais profundo da Pessoa de Jesus é a salva­ guarda mais segura contra a doutrina falsa. De Deus, e de Jesus nosso Senhor. Muitos MSS dizem simples­ mente “no conhecimento do nosso Senhor” , provavelmente de modo correto. O texto mais breve é geralmente preferível; adapta-se ao singular se« no v. 3; e noutras partes desta Epístola é Jesus indivi­ dualmente que é o objeto do conhecimento (epignõsis).

b. Os privilégios do cristão (1:3, 4). A pontuação destes versículos é um enigma. Ou podemos colocar uma vírgula depois do v. 2, e neste caso os vv. 3 e 4 explicam a sauda­ ção. A graça e paz são multiplicadas em conhecer a Ele porque.Deus nos deu tudo quanto precisamos. Ou podemos colocar um ponto fmal depois do v. 2. Neste caso, não há verbo principal na frase. A não ser, portanto, quepara que (4) represente um emprego antigo do impera­ tivo “ fazei com que vos torneis” , devemos considerar a frase como um anacoluto; Pedro começou sua frase mas nunca a terminou grama­ ticalmente. 3. O apóstolo está fazendo da chamada divina deles a base do seu apelo para uma vida santa. Cristo tomou a iniciativa em chamálos a Ele mesmo (cf. Ef. 2:8). Não é inteiramente certo se é Jesus ou o Pai que faz a chamada e que oferece o poder divino, conforme este texto. Háuma ambigüidade semelhante em 1 João 2:28-29. Mas Jesus 2. St. Paul’s Epistle to the Ephesians, 1903, págs. 248 ss. 3. St. Paul’s Epistle to the Colossians and Philemon, 1879, comentário sobre 1:9.

59


2 PEDRO 1:3-4 é a última Pessoa mencionada antes, e a glória e a virtude são mais apropriadas a Ele do que ao Pai. Em qualquer caso, a lição é que Aquele que chama, capacita. Não nos dá tudo quanto talvez queira­ mos, mas, sim, tudo quanto precisamos para a vida e apiedade (cf. 1 Ts 4:7-8). Estes dons estão entesourados no próprio Jesus Cristo, e em ficar conhecendo a Ele, desfrutamos do poder para viver uma vida santa. Mas o que é que atrai um homem a Jesus? Sua “própria (idiã) glória e virtude” . Jesus Cristo chama os homens pela Sua excelência moral (areie4) e pelo impacto total da Sua Pessoa fí/ojca5). Talvez Pe­ dro esteja relembrando a vida de Jesus que fez tanta impressão sobre ele que, certa vez, exclamou: “Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador” (Lc 5:8), e que um dos temas principais na sua Primeira Epístola era a imitação de Cristo. Sem dúvida está pensando, tam­ bém, da glória de Jesus que o abalou na transfiguração, à qual se re­ fere no v. 17. Mas não foi somente a transfigurâção que revelou o im­ pacto da Pessoa de Jesus. Foi a totalidade da Sua vida. É por isso que João podia dizer: “E vimos a sua glória, glória como do unigénito dó Pai” (Jo 1:14). Não é sem relevância que estas duas palavras, arete e doxa, pertencem a Deus no Antigo Testamento Os 42:8, 12, LXX); Pedro as reivindica para Jesus, através de quem a virtude e a glória divinas têm sido supremamente manifestadas. Mais uma vez, o texto é incerto. Alguns MSS dizem ‘ ‘através da glória e da virtude” (dia, “ através de” , seria facilmente confundido como idiã, “para sua própria’’). Estão errados, pois idios é uma pala­ vra característica de 2 Pedro; é empregada sete vezes na Epístola. Os dativos são instrumentais, “ por” e não para. 4. A Pessoa de Cristo atrai os homens; Seu poder os capacita a corresponder. E preciosas promessas são dadas. Falando a rigor, conforme este versículo, são dadas através da glória e virtude de 4. AretS é uma palavra rara no Novo Testamento. Aparece três vezes aqui (vv. 3 e 5), em Fp 4:8 e 1 Pe 2:9. “ Virtude” é uma qualidade pagã; o cristianismo chama o homem à santidade. É por isso que aretê é negligenciada em grande medida no' Novo Testajnento. Aqui, porém, a linguagem é polêmica, a alusão ao Antigo Tes­ tamento é provável, e o significado é hebraico, não grego— a virtude em ação, atos concretos de excelência. Há um pensamento bem semelhante em 1 Pe 2:9. Os cris­ tãos devem demonstrar as aretas do seu Redentor. Nos dois casos, a respectiva excelência é manifestada em ações salvíficas; não é uma qualidade meramente es­ tática. 5. doxa é uma palavra predileta de Pedro, e ocorre dez vezes em 1 Pedro e cinco em 2 Pedro.

60


2 PEDRO 1:4 Cristo (pelas quais se refere a ambas). O significado parece ser que a nós foi dada a promessa de compartilharmos de algo da Sua excelên­ cia moral nesta vida, e da Sua glória na vida futura. Isto porque, to­ madas em conjunto, a agência tríplice das promessas, do poder e da Pessoa do Senhor regeneram o homem e o tomam co-participante da própria natureza de Deus, de modo que a semelhança de família co­ meça a ser vista nele. Deve, porém, haver a resposta apropriada a tudo isto. Já vimos o lugar da fé (1:1). Agora fala do seu correlativo, a fuga do mundo. Por mundo Pedro quer dizer a sociedade alienada de Deus pela rebelião (2:20; cf. 1 Jo 2:15-17; 5:19). Ficamos sendo co-participantes da natu­ reza divina somente depois de livrar-nos ou virar as costas contra (note a qualidade decisiva do particípio do aoristo) aquela atitude (cf. Tg 1:21). Sobre os problemas associados com esta frase e com coparticipantes da natureza divina ver a Introdução, págs. 23s. O mundo antigo era dominado pelo conceito dephthora, corrupção. Á transitoriedade da vida, a falta da razão de ser em tudo isto, oprimia muitos dos melhores pensadores na antigüidade (assim como faz ho­ je). Pedro lhes diz que há uma via de escape — através de Jesus Cris­ to. Que contrastes estes versículos contêm! Corrupção e vida e pie­ dade; paixões e o conhecimento completo daquele que nos chamou. Como Paulo, Pedro começa com o indicativo teológico. Estão na fa­ mília de Deus; deixaram o mundo; possuem promessas preciosas; conhecem a Cristo. Esta é a base do seu imperativo, que se ressalta tão fortemente nos versículos que se sucedem. Devem tomar-se na prática aquilo que já são à vista de Deus. Estes dois versículos abundam em palavras raras e arrojadas. Pedro, com grande sutileza, está usando linguagem incomum no Novo Testamento mas cheia de sentido no mundo pagão, conforme sabemos pela inscrição cariana.6 Os falsos mestres enfatizavam o co­ nhecimento; Pedro, portanto, ressalta que o objeto do conhecimento na vida cristã é o Senhor que chama os homens. Pensavam que o co­ nhecimento dispensava a necessidade da moralidade, de modo que Pedro enfatiza duas palavras cômuns nos círculos pagãqs para o es­ forço ético: eusebeia (piedade) e aretê (virtude). Parece que pensa­ vam que a santidade da vida era impossível (ver 2:19, 20), de modo que Pedro lhes fala do divino poder, uma perífrase hebraica para 6. Ver Introdução, pág. 23.

61


2 PEDRO 1:4-5 Deus. Escolásticos pagãos rivais asseveravam que as pessoas esca­ pavam aos laços da corrupção (phthora) ao tornarem-se coparticipantes da natureza divina ou pelo nomos (“a guarda da lei”) ou pelaphusis (“ natureza”). Pedro retoma a linguagem deles, e res­ ponde que é pela pura graça. Os falsos mestres, de modo gnóstico, sugeriram que seus aderentes se tomavam mais semelhantes a Deus à medida que escapavam aos embaraços do mundo material? Longe disto, diz Pedro. A participação da natureza divina é o ponto inicial, e não o alvo, do viver cristão. Escreve para aqueles que já se livraram da lealdade sedutora à sociedade em desarmonia com Deus. Pedro decerto está andando perto da beira do abismo ao empre­ gar linguagem pagã desta maneira polêmica; não é surpreendente que sua carta tenha sido tratada com muita reserva em numerosos círcu­ los como resultado.. A frase mais ousada de todas é, naturalmente, co-participantes da natureza divina, que tem um som deliberada­ mente helenístico, por esta razão polêmica.7 Em substância, porém, esta dizendo quase a mesma coisa que João 1:12. Pedro não quer dizer que o homem é absorvido na divindade; tal coisa dissolve­ ria a identidade pessoal e, ao mesmo tempo, tornaria impossível qualquer encontro pessoal entre o indivíduo e Deus. Mas, como em 1 Pedro, fala de uma união real com Cristo. Se somos participantes dos sofrimentos de Cristo (1 Pe 4:13), e participantes da glória que há de ser revelada (1 Pe 5:1), é porque somos participantes de Cristo. O que Pedro está dizendo aqui, embora use esta forma incomum de lingua­ gem, é exatamente o mesmo, quanto ao conteúdo, que aquilo que Paulo declara em Romanos 8:9; Gálatas 2:20 e que João declara em 1 João 5:1; e que ele mesmo declara em 1 Pedro 1:23. Representa a graça assombrosa do indicativo de Deus; e forma a sanção suprema para o imperativo de Deus nos versículos que se seguem. Paulo, tam­ bém, tomava a linguagem dos oponentes que enfrentava e a enchia de significado sadio (assim Cl, 1 Co). E um risco que deve ser tomado pelo homem que pretende alcançar seu auditório em linguagem que realmente lhe faz sentido. c. A escada da fé (1:5-7). 5. Por isso mesmo. Por causa do nosso novo nascimento e das pre­ ciosas promessas e do divino poder que nos são oferecidos em 7. Doutra forma, Kâsemann, pág. 182; Wand, págs. 150 ss.

62


2 PEDRO 1:5 Cristo, não podemos acomodar-nos e ficar satisfeitos com a “fé ” (cf. Tg 2:20). A graça de Deus exige, como também capacita, ^diligência ou o “esforço” no homem. Devemos trazer para dentro deste rela­ cionamento lado a lado com aquilo que Deus fez (tal é a força das pre­ posições em pareisenenkantes) cada grama de resolução que pode­ mos reunir. Para ilustrar a maneira segundo a qual a vida cristã deve ser concretizada no comportamento, Pedro, assim como Paulo antes dele,8 e muitos depois dele,9 selecionou uma lista de virtudes que de­ vem ser achadas numa vida cristã sadia. A praxe de fazer listas de virtudes já estava bem estabelecida entre os estóicos, que as chama­ vam de prokopê, “avanço moral.” Bo Reicke, comentando esta adaptação da matéria estóica, diz com razão: “não queria helenizar a igreja, mas apenas empregava tais expressõés porque seriam familia­ res aos seus leitores.” A grande diferença entre a ética estóica e a cristã é que esta última não é o produto do esforço humano sem ajuda, mas, sim, o fruto de sermos co-participantes da natureza divina. Mesmo assim, o esforço humano é indispensável, ainda que seja ina­ dequado. Há verdade suficiente para doer, na citação que Moffatt fez da descrição por um cínico da experiência cristã como sendo ‘‘um es­ pasmo inicial seguido por uma inércia crônica” . Se é para este perigo ser evitado, o cristão sempre deve estar acrescentando à sua fé. A palavra epichorégein, ‘‘a c r e s c e n t a r associar), éfascinante. É uma metáfora vívida tirada dos festivais atenienses de drama, em que um indivíduo rico, chamado o chorêgos, visto que pagava as des­ pesas do coro, juntava-se ao Estado e ao poeta em fazer realizar as peças de teatro. Este podia ser uma atividade dispendiosa, mas, mesmo assim, os chorêgoi competiam entre si na questão dos equi­ pamentos e do treinamento dos coros. Logo, a palavra veio a signifi­ car a cooperação generosa e dispendiosa. O cristão deve ocupar-se neste tipo de cooperação com Deus para produzir uma vida cristã que é para a honra dEle. Pedro começa sua lista com afé. Esta aceitação inicial do amor de Deus, esta resposta à Sua graciosa disposição para nos receber, é a pedra fundamental sobre a qual estão edificadas as virtudes que se seguem. Compare a posição primária que Paulo também dá à fé em

8. G1 5:22, 23; 1 Tm 6:11; Rm 5:3-4. 9. Bamabé, Ep. 2:2, 3; Hermas, Vis. iii.8. 1-7; Ciem. Rom., Ep. lxii.

63


2 PEDRO 1:5 Romanos 5:1-5.10 A virtude, a primeira qualidade que Pedro menciona brotando da fé cristã verdadeira, é uma palavra rara no. grego bíblico, mas muito comum na literatura não-cristã. Significa “excelência” , e era usada para denotar o devido cumprimento de qualquer coisa. A excelência de uma faca é cortar, a de um cavalo é correr. Mas qual é a excelência de um homem? Esta era uma pergunta muito discutida na antigüida­ de, e de forma inconclusiva. Pedro dá um claro indício da resposta. Já usou esta palavra, pois, no v. 3, ao falar do impacto do caráter de Cristo sobre um homem que o leva a dedicar-se. Aqui, declara que a mesma qualidade da vida deve ser concretizada no caráter do crente. O cristão deve desenvolver a salvação que Deus opera nele.1' Numa palavra, sua vida deve refletir alguma coisa do caráter atraente de Cristo. Ele, pois, era o Homem por Excelência, o verdadeiro Ho­ mem. A verdadeira excelência humana, pois, é a varonilidade que é a semelhança a Cristo. Aquela semelhança não pode ser adquirida se­ não através de encontros pessoais e contínuos com Ele mediante afé. Foi ali que os falsos mestres se desencaminharam. Falavam bastante acerca da fé, mas não exibiam nas suas vidas nada daquela bondade prática que é indispensável ao discipulado cristão genuíno. O cristianismo, no entanto, não é meramente uma questão de fé pessoal e de bondade prática; o elemento intelectual em nossas per­ sonalidades tem um lugar importante. O conhecimento, portanto, é mencionado em seguida. (Ver também sobre v. 2). Não é certo se gnõsis, a palavra empregada aqui, tem diferença relevante quanto ao significado, èm comparação com epignõsis, que é empregada ali. Se houver uma diferença, o matiz de gnõsis seria “ sagacidade” , “ sabe­ doria prática”. Este é seu significado costumeiro na linguagem ética grega. Bengel captou seu significado quando a descreveu como sendó a sabedoria ‘‘que distingue o bem do mal, e que mostra o caminho por onde se foge do mal” (cf. Hb 5:14). Este conhecimento é obtido no exercício prático da bondade (a virtude da qual acabara de falar), a 10. O mesmo se aplica à literatura sub apostólica também. Bamabé coloca a fé em primeiro lugar, com reverência e perseverança, longanimidade e domínio próprio como seus aliados; ao passo que Hermas não somente coloca a fé em primeiro lu­ gar, como também especificamente diz “através dela os eleitos de Deus são sal­ vos” . A fé é representada aqui como uma mulher que tem várias filhas (i. e ., outras virtudes), e a culminação de todas elas, como aqui, é o amor. 11. Fp 2:12.

64


2 PEDRO 1:5-6 qual, por sua vez, leva a um conhecimento mais profundo de Cristo (v. 8; cf. Jo 7:17). O conhecimento, naturalmente, era uma das pala­ vras prediletas dos falsos mestres, mas Pedro não tinha medo de empregá-la por causa disto. Tinha confiança de que o Deus que Se revelara em Jesus era o Deus da verdade. O conhecimento, portanto, nunca poderia danificar o cristão. Pedro nada queria ter que ver com aquela assim-chamada fé que se recua diante da investigação por medo que o conhecimento resultante revelasse ser destrutivo. A con­ fiança nada tem que ver com o obscurantismo. A cura para o falso conhecimento não é menos conhecimento, mas, sim, mais conheci­ mento. 6. Em terceiro lugar na lista vem o domínio próprio (enkrateia). Este domínio próprio deve ser exercido não somente em questões de comida e bebida, mas também em todos os aspectos da vida. A pala­ vra não é comum no Novo Testamento, embora apareça na lista paulina de virtudes (em G1 5:23) mas, como a virtude supra, era grande­ mente prezada na filosofia moral grega. Significava controlar as pai­ xões ao invés de ser controlado por elas. Aristóteles12percebeu quão pouco profundo era o ditado de Sócrates de que ninguém deliberada­ mente rejeita o melhor curso a seguir, uma vez que o v ê .13Sabia muito bem que os homens pecam com boa vontade e deliberadamente, e tem muita coisa para dizer acerca da akrasia, ser dominado pelas próprias concupiscências. Mas não tinha resposta ao problema da maldade humana. Aquela resposta acha-se no modo cristão de viver. O domínio próprio cristão, pois, é a submissão ao controle do Cristo que habita no crente; e por este modo a virtude madura (que Aristóte­ les chamava, de modo anelante, “a virtude divina que está além do homem” '“) realmente fica sendo uma possibilidade para os homens. Mais uma vez, Pedro emprega uma palavra que deve ter cortado os falsos mestres como um chicote. Alegavam que o conhecimento os libertava da necessidade do controle próprio (2:10 ss.; 3:3). Pedro en­ fatizou que o verdadeiro conhecimento leva para o domínio próprio. Qualquer sistema que divorcia a religião da ética é fundamentalmente heresia. 12. Nic. Eth. vii. 3. 13. Platão, Protag. 352 C. 14. Nic. Eth. vii. 3.

65


2 PEDRO 1:6 Do hábito do domínio próprio brota a perseverança, a disposição mental que não é abalada pela dificuldade e pela aflição, e que pode resistir estas duas agências satânicas da oposição do mundo da parte de fora, e da sedução da carne da parte de dentro. O cristão maduro não desiste. Seu cristianismo é como o brilho firme de uma estrela e não o brilho forte efêmero (e rápido eclipse) de um meteoro. Há pou­ cos testes da fé que são mais fidedignos do que este; a fé verdadeira persevera (cf. Rm 5:1-3; Mc 13:13). Esta paciência não é nenhuma qualidade estóica de aceitar tudo quanto vem, como se fosse da parte dos ditames da cega Fatalidade. Provém da fé nas promessas de Deus, do conhecimento de Cristo, da experiência do Seu poder divino (vv. 3,4). E assim, produz nocristão uma consciência aprofundada da mão sábia e amorosa do Pái, que controla tudo quanto acontece. Como o próprio Jesus, que em troca da alegria que lhe estaya proposta, suportou a cruz (Hb 12:2), esta­ mos capacitados a ver nossos aparentes infortúnios à luz calma da eternidade. Mayor indica uma passagem interessante em Aristóteles, onde o domínio próprio e a perseverança são contrastados. ‘‘O domí­ nio próprio” , diz Aristóteles, “ tem que ver com prazeres... e a perse­ verança com os pesares; pois o homem que pode suportar e agüentar adversidades, este é o verdadeiro exemplo da perseverança.” 15 A esta perseverança de caráter, a piedade, ou melhor, a “reve­ rência” , deve ser acrescentada. A palavra eusebeia é rara no Novo Testamento, provavelmente porque era a palavra primária para a ‘‘re­ ligião” no uso pagão popular. O “homem religioso” da antigüidade, tanto no uso grego quanto no latino (onde a palavra equivalente era pietas), era cuidadoso e correto em cumprir seus deveres diante dos deuses e dos homens. Talvez Pedro aqui a empregue em contraste de­ liberado com os falsos mestres, que estavam longe de serem corretos no seu comportamento tanto diante de Deus quanto diante do seu próximo. Pedro toma cuidado para ressaltar que o verdadeiro conhe­ cimento de Deus (que erroneamente se ufanavam de possuir) manifesta-se em reverência para com Ele e respeito para com os ho­ mens. Não há nenhum indício de religiosidade aqui. Eusebeia é uma consciência muito prática de Deus em todos os aspectos da vida. (Ver

15. Magn. Moral, ii. 6. 34.

66


2 PEDRO 1:6-7 também sobre v. 3 l6). 7. A piedade, porém, não pode existir sem a fraternidade. “Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso” (1 Jo 4:20). O amor pelos irmãos cristãos é uma marca que distingue o ver­ dadeiro discipulado, e que representa outra área em que os falsos mestres eram tão aflitivamente deficientes. Aqueles que ficaram sendo co-participantes da natureza divina, ou, segundo seu modo de escrever em 1 Pedro, aqueles que nasceram de novo (1:23), devem demonstrar a realeza do seu comportamento para com outros filhos do Rei, sejam quais forem suas diferenças de cultura, classe e afilia­ ção eclesiástica. Mas é necessário trabalhar este dom. O amor para com os irmãos acarreta levar os fardos uns dos outros, e assim cum­ prir a lei de Cristo; significa guardar aquela unidade dada pelo Espí­ rito da destruição pela tagarelice, pelo preconceito, pela estreiteza, e pela recusa de aceitar um irmão cristão por aquilo que é em Cristo. A própria importância destaphiladelphia e a dificuldade de atingi-la é a razão por que ela é consideravelmente ressaltada nas páginas do Novo Testamento (1 Pe 1:22; 1 Jo 5:1; Hb 13:1; 1 Ts 4:9; Rm 12:10). A coroa do “avanço” cristão (voltando à metáfora militar da prokopê estóica que parece ser o modelo para esta lista de qualidades) é o amor. “ O maior destes é o amor” (1 Co 13:13). A palavra agapê é uma que, para todos os fins práticos, os cristãos cunharam para deno­ tar a atitude que Deus demonstrou ter para conosco, e que requer da nossa parte para com Ele. Na amizade (philia) os parceiros buscam mútuo conforto; no amor sexual (erõs), a mútua satisfação. Nestes dois casos, estes sentimentos foram despertados por causa daquilo que a pessoa amada é. N o caso de agapê, a situação é inversa. A a g a p ê de Deus é evocada, não por aquilo que somos, mas, sim, por aquilo que Ele é. Tem sua origem no agente, não no objeto. Não é que 16. Barclay cita apropriadamente a descrição de Xenofonte (altamente imaginativa) de Sócrates nesta altura, para ilustrar o conceito mais nobre da eusebeia a ser achado no mundo pagão. “ Ele era tão piedoso e devotadamente religioso que não daria um só passo fora da vontade do céu; era tão justo e reto que nunca sequer causou o mínimo dano a qualquer alma vivente; com tanto domínio próprio, tão temperado, que nunca em ocasião alguma escolheu o mais doce ao invés do melhor; tão sensato, tão sábio, e tão prudente que, ao distinguir o melhor do pior, nunca errou ’’ (Memorabilia i. 5. 8-11). É um tipo de caráter algo assim que Pedro quer delinear com a palavra compreensiva, eusebeia.

67


2 PEDRO 1:7-8 nós somos amáveis, mas, sim, que Ele é amor. Esta agapê pode ser definida como sendo um desejo deliberado pelo sumo bem da pessoa amada, que se demonstra em ações sacrificiais pélo bem daquela pes­ soa. É isto que Deus fez por nós (Jo 3:16). É isto que Ele quer que nós façamos (1 Jo 3:16). E isto que Ele está disposto a realizar em nós (Rm 5:5). Destarte, o Espírito do Deus que é amor nos é livremente dado, a fim de reproduzir em nós aquela mesma qualidade. Os homens, pois, nunca acreditarão que Deus é amor a não ser que o vejam nas vidas dos Seus seguidores professos. Tal é o fruto da árvore da fé. Ser participante da natureza divina, longe de outorgar uma dispensa das reivindicações da ética, tanto as confirma quanto torna possível sua realização. “Cada passo”, disse Bengel, “ dá origem ao seguinte, e o facilita. Cada qualidade subse­ qüente equilibra e traz à perfeição a qualidade anterior.” d. Cristãos estéreis e frutíferos (1:8, 9). 8. O conhecimento verdadeiro de Cristo, em contraste com o falso, não produz estas qualidades morais e espirituais no crente. Já são im­ plícitas dentro da nova natureza que lhe foi transmitida (cf. E f 1:4). Se estas coisas Ijál existem (huparchonta) em vós, deveis permitir que se manifestem e aumentem (pleonazonta). Não há desculpa para permanecer acomodado com as realizações atuais. A falta de cresci­ mento espiritual é um sinal da morte espiritual. Nem sequer há qual­ quer vazão para a indolência e para o relaxamento do esforço (argous, inativos) ; senão, o cristão fica sendo como o trigo sufocado pe­ las ervas más (os cuidados, as riquezas e os prazeres da vida) que não produzem fruto algum (akorpous, infrutuosos) . 17 O conhecimento (epignõsis) de Jesus Cristo é uma frase significante, e talvez é dirigida contra os falsos mestres que se jactam do seu conhecimento já completo. Pedro lembra seus leitores que o pleno co­ nhecimento de Cristo pertence ao futuro, quando, então, O veremos face a face. Ensina a mesma lição, embora não num contexto argumentativo como este, em 1 Pedro 1:8. Entrementes, vê o conhecimento de Cristo abrangendo a gama total da experiência cristã. Começa com o 17. Cf. Mt 13:22. A fraseou*argos oude akarpos “ nem vadio nem infrutífero” , é ci­ tada na Carta das Igrejas Gálicas (177 d. C.) conforme é registrado em Eusébio, H. E. v. 1. 45.

68


2 PEDRO 1:8-9 conhecimento dAquele que nos chama (1:3); continua no conheci­ mento de Deus e de Jesus (1:2); e terminará no pleno conhecimento dAquele que tornou possível (e real) a escada de virtudes nas vidas dos redimidos. Paulo, também, viu que o conhecimento, não acerca de Jesus Cristo, mas dEle pessoalmente, era tanto a raiz quanto o alvo da experiência cristã (Fp 3:10). 9. O homem, porém, que não manifesta estas qualidades é cego. Tuphlos é freqüentemente empregado em grego neste sentido metafó­ rico, e o Novo Testamento oferece numerosos exemplos. A seme­ lhante homem falta entendimento (cf. Jo 9:39-41). Deixa de perceber que uma guerra está sendo travada, a guerra contra o mal (Ap 3:14 ss.). Permanece, em grande medida, ainda sob o controle efetivo do ‘‘deus deste mundo ’’cujo estratagema de escol é cegar a mente (2 Co 4:4). Mas por que Pedro acrescenta vendo só o que está perto? A pa­ lavra que emprega comumente significa “ míope.” Se um homem é cego, como pode ser míope? Se Pedro teve em mente este significa­ do, talvez queira dizer que tal está cego às coisas celestiais, e total­ mente ocupado nas terrestres; não pode ver o que está longe, mas sim, somente o que está perto. Isto dá um sentido excelente, tendo em vista a imoralidade e o mundanismo dos falsos mestres. Provavelmen­ te, porém, Pedro estava pensando no outro significado muõpazein, a saber: “piscar” , “fechar os olhos” . Se for assim, o particípio é cau­ sal. Destarte, o significado é que tal homem está cego porque pisca ou deliberadamente fecha seus olhos diante da luz. A cegueira espiritual desce sobre os olhos que deliberadamente se desviam das graças de caráter ao qual o cristão é chamado quando chega a conhecer a Cris­ to. A frase inteira é um tetrâtnetro trocaico; é possível que Pedro a tenha tirado dalguma poesia ou cantiga corrente naquele tempo, con­ forme Paulo às vezes fazia (Tt 1:12). Talvez seja esta a explicação da forma de expressão um pouco curiosa. A frase seguinte, traduzida esquecido, apóia esta interpretação áemuõpazõn. Lêthên labõn somente pode significar que o homem de­ liberadamente se esqueceu, colocou fora da sua mente, o fato de que forapurificado dos seus pecados de outrora. Pedro talvez tivesse em mente aqui a confissão pública e os votos assumidos pelos converti­ dos na ocasião do seu batismo (cf. At 2:38; 22:16). Seus pecados de outrora seriam, então, aqueles que foram cometidos antes de se tor­ 69


2 PEDRO 1:9-10 narem cristãos, cuja purificação seria um corolário essencial de se­ rem feitos co-participantes da natureza divina. O homem que não faz esforço algum (v. 5) para crescer na graça está desfazendo seu con­ trato batismal. Este podia ser o início da apostasia. e. Um alvo digno (1:10, 11). 10. Por isso... cada vez maior talvez se refira àquilo que imediata­ mente antecede. O significado seria, então: “visto que existe o perigo de sobrevir a cegueira espiritual, ficai ainda mais de sobreaviso” (Mayor). Mais provavelmente, porém, refere-se à totalidade do pará­ grafo antecedente (vv. 3-9). Por causa dos dons maravilhosos de Deus, porque o uso daqueles dons leva a um conhecimento maior de Cristo, logo, devem esforçar-se ainda mais. Pedro repete a exortação ao zelo que pronunciara no v. 5, e o imperativo do aoristo, spoudasate, ressalta a urgência do seu rogo de que devem resolver que viverão para Deus. Reforça seu apelo ao chamá-los de irmãos, como fáz tão freqüentemente nos seus discursos em A tos.18 Procurai... confirmar a vossa vocação e eleição é um apelo que vai ao coração do paradoxo da eleição e do livre arbítrio. O Novo Tes­ tamento caracteristicamente dá lugar para ambos, sem tentar resol­ ver a aparente antinomia. Assim é aqui também; a eleição advém de Deus somente— mas o comportamento do homem é a prova ou a refu­ tação dela. Embora as “boas obras” (colocadas no texto dalguns MSS, de modo infundado) sejam possíveis apenas mediante a apro­ priação da ajuda graciosa de Deus, são totalmente necessárias, e nossa responsabilidade justa e sólida. Daí o uso da voz média, poieisthai, “tornai seguras para vós mesmos” . A vocação cristã e a vida cristã se acompanham mutuamente. Parece que os falsos mes­ tres se jactavam da sua divina vocação e eleição, ao passo que fizeram uma ‘‘desculpa para todo tipo de licença, como se tivessem permis­ são para pecar impunemente porque são predestinados à justiça” (Calvino). Falando cronologicamente, naturalmente, a eleição antecede a vo­ cação (cf. Rm 8:30). N,ada há de arbitrário ou injusto nela. Cristo é o Eleito. A eleição é em Cristo. Fora dEle há a ruína. Deus chama os homens a entregar-se a Jesus Cristo, e, uma vez que assim fizeram, 18. Cf. 1 Pe 2:11 e 2 Pe 3:1, 8, 14, 17 onde, num ponto crítico no seu desafio, chama seus leitores de “ amados.”

70


2 PEDRO 1:10-11 aquela chamada deve ser implementada pelo viver santo. Se é possí­ vel para uma pessoa assim chamada cair na apostasia, ou não, não é considerado por Pedro aqui (ver, no entanto, sobre 2:1, 19-22). De qualquer maneira é bem verídico, conforme a expressão de Strachan, que “nem todos os que ouvem a voz divina(klêsis) progridem na con­ duta cristã, que é o sinal da eleição (eklogê). ” Se você confirmar sua vocação com uma vida de acordo com ela, conclui Pedro, dois resultados se seguirão. Em primeiro lugar, não tropeçareis em tempo algum. Naturalmente, todos nós tropeçamos de muitas maneiras (Tg 3:2). Mas o que Pedro quer dizer é que o cris­ tão será poupado de uma derrota desastrosa (cf. Rm 11:11). A metá­ fora é tirada do andar seguro do cavalo. Uma vida de progresso sólido deve caracterizar o cristão. Sua vida radiante deve ser a prova silen­ ciosa da eleição divina. 11. Além disto, chegareis ao seu destino celestial, a entrada no reino eterno. O segundo resultado da obediência amorosa é colocado diante de nós como sendo o alvo de uma longa viagem. As palavras são amontoadas para emocionar o coração do peregrino cansado, diante do esplendor daquele destino. EpichorégêthSsetai é a mesma palavra que empregou no v. 5 (q.v.). Se generosamente nos esfor­ çarmos na obediência a Deus e Lhe dermos o que temos, Ele genero­ samente Se esforçará por nós, por assim dizer, e amplamente nos equipará para a vida no reino celeste. Amplamente é acrescentada para sublinhar esta lição. E a metáfora da entrada no reino pode muito bem remontar a uma das honrarias prestadas a um vencedor nos jogos olímpicos. Sua cidade natal, na sua alegria e orgulho com o sucesso dele, lhe dava as boas-vindas de volta, não através do portão usual, mas, sim, através de uma parte da muralha especialmente demolida para lhe dar ehtrada. Reino eterno (aiõnion , basileian) é uma frase que, por estranho que pareça, não volta a ocorrer no Novo Testa­ mento nem nos Pais Apostólicos,w a despeito da freqüência das pala­ vras “reino” e “eterno.” Um paralelo próximo é oferecido pelo “eterno domínio” (aiõnios archê) da inscrição estratoniceiana® e a frase aqui pode muito bem ser uma rejeição implícita das reivindica­ 19. Com a única exceção da Apologia de Aristides (129 d.C.) que cita este versículo, e jissim torna-se uma testemunha muito antiga à antigüidade desta Epístola. 20. Ver a Introdução, págs. 17, 23.

71


2 PEDRO 1:11 ções ao “domínio eterno” feitas pela Roma imperial.21 Pedro tem três coisas para dizer acerca deste reino. Primeira­ mente, é eterno. Ou seja: pertence àquilo que o pensamento judaico chamara de ‘‘Era do Porvir. ’’ Especialmente durante tempos de difi­ culdade e perseguição durante os últimos poucos séculos a.C., os homens de fé tinham ficado cada vez mais desiludidos com “esta era ” , e ansiavam pelo tempo em que Deus irromperia e vindicaria a Si mesmo e ao Seu povo na era do porvir. A convicção do Novo Testa­ mento é consistentemente esta; que na Pessoa de Jesus Cristo a ‘‘Era doPorvir” invadiu “ esta Era.” As últimas coisas foram inauguradas, embora, naturalmente, aguardem a completação. E acerca desta con­ sumaç��o no reino eterno22 que Pedro fala. Em segundo lugar, é digno de nota que nossa entrada neste reino é ainda vista como sendo futura. Como Abraão, o viajante cristão é chamado, com fé e obediência, a não contentar-se com nada que é efêmero, mas, sim, avançar com firmeza para aquela cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador (Hb 11:10). Ao dizer que somos co-participantes da natureza divina (4), e que, mesmo assim, ainda havemos de entrar no reino eterno, Pedro retém, da sua própria maneira característica, a tensão neotestamentária en­ tre aquilo que temos e aquilo que ainda nos falta, entre a escatologia realizada e a escatologia futura. Em terceiro lugar, este reino é caracterizado por pertencer á nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.23 Esta é a definição qualitativa do reino. E Seu reino (Mt 16:28; Jo 18:36; SI 2;6). Entra-se no reino mediante o relacionamento com E le.24A descrição mais nobre do céu é feita em categorias pessoais como esta. Consistirá em relacionamen­ 21. urbs aeterna, etc. 22. aiõnios é aplicado muito largamente no Novo Testamento. Lemos acerca do fogo eterno (Mt 18:8), da vida eterna e do castigo eterno (Mt 25:46), da glória eterna (2 Co 4:17), do lar eterno (2 Co 5:1), da destruição eterna (2 Ts 1:9), do consolo eterno (2 Ts 2:16), do poder e glória eternos (1 Tm 6:16), da salvação eterna (Hb 5:9), do julgamento eterno (Hb 6:2), da redenção eterna (Hb 9:12), do Santo Espírito eterno (Hb 9:14), da herança eterna (Hb 9:15), da aliança eterna (Hb 13:20), da glória eterna (1 Pe 5:10), e do evangelho eterno (Ap 14:6). 23. “ A correspondência exata das palavras aqui, ‘nosso Senhor e Salvador Jesus Cris­ to ’ com aquelas no v. 1, ‘Deus e nosso Salvador Jesus Cristo’ é um argumento forte a favor da tradução ‘‘nosso Deus e Salvador Jesus Cristo’ naquele versículo” (Caffin). 24. Cf. Mc 10:21: “ Vem, e segue-me” e 10:24: “entrar no reino” e 10:26: “ ser salvo” ou 10:17: “ herdar á vida eterna.”

72


2 PEDRO 1:11-12 tos totalmente harmoniosos entre o Salvadór e os salvos. Parece pro­ vável que, mais uma vez, Pedro tem em mente os zombadores (cf. 3:3) quando inculca estas três lições acerca do reino celestial. Assim é que o apóstolo termina seu primeiro parágrafo, um apelo emocionante aos seus seguidores vacilantes no sentido de não deixa­ rem que a apreciação intelectual do cristianismo se torne um substi­ tuto para a aplicação moral. Sua ênfase “ ativista” no céu para os obèdientes, nos vv. 10, 11, é uma contradição do seu ensino “recep­ cionista” acerca da natureza divina no v. 4? Não. O céu não é um prêmio pelo mérito mas, sim, por congruidade. Está de acordo .com a natureza de um Deus bom e generoso para com aqueles que confiam nEle e Lhe obedecem. Esta passagem concorda com várias25 nos Evangelhos e nas Epístolas ao sugerir que, embora o céu seja inteira­ mente um dom da graça, admite degraus de felicidade, e que estes de­ pendem de quão fielmente tenhamos edificado uma estrutura de cará­ ter e serviço sobre o fundamento de Cristo.26Bengel assemelha o cris­ tão sem santidade, no julgamento, a um marinheiro que, por pouco, consegue chegar à praia depois de um naufrágio, ou a um homem que dificilmente escapa com vida de uma casa em chamas, enquanto to­ das as suas posses são perdidas. Por contraste, o cristão que deixou o seu Senhor influenciar sua conduta terá uma entrada abundante na cidade celestial, e receberá as boas vindas como um atleta triunfante, vitorioso nos Jogos. Este parágrafo inteiro de exortação, portanto, está colocado entre dois pólos: aquilo que já somos em Cristo e aquilo que haveremos de ser. O leitor verdadeiramente cristão, diferente­ mente dos zombadores, relembrará os privilégios concedidos a ele, de participar da natureza divina, e procurará viver de modo digno de­ la. Além disto, olhará para o dia futuro de avaliação, e se esforçará para viver à luz dele. f. A verdade aceita repetição (1:12-15). 12. É a importância desta questão, não menos do que o destino eterno deles, que leva Pedro a escrever assim aos seus leitores. Já sabiam de tudo isto, naturalmente; o s temas gêmeos da fé e das obras, da graça e do esforço, não eram novos a eles nem a qualquer um dos cristãos primitivos. Mas era necessário trazê-los lembrados acerca destas 25. P.e. Lc 15:11-32; 12:47-48. 26. 1 Co 3:10-15.

73


2 PEDRO 1:12 coisas, especialmente nesta presente situação em que a graça de Deus estava sendo usada como pretexto para a licenciosidade (2:19; cf. Rm 6:1) e o conhecimento de Deus como um substituto para a obediência (cf. 1 Jo 2:4). Tal é o esquecimento (às vezes deliberado) do coração humano que uma das funções principais de um ministro cristão deve ser conservar os fatos básicos da verdade e conduta cristãs sempre diante das mentes da sua congregação. Lembranças têm este valor adicional. Visam despertar os que as recebem para agirem por conta1 própria. Destarte, a resolução de Pedro no sentido de lembrá-los é equilibrada por sua esperança de que eles também farão menção deles a outros (15). Neste versículo, Pedro fala da sua intenção de continuar nesta obra de lembrança, quer leiamos ouk am elêsô, ‘‘não descuidarei ” ou, melleso, “pretendo” , queémais provável. ARC:sempre estarei pron­ to. A primeira vista, é um pouco surpreendente que Pedro se diri­ gisse aos seus leitores como estando certos da verdade já presente convosco ou “na verdade que já tendes” . Na base daquilo que ele já disse, e daquilo que ainda vai dizer acerca deles, fica muito evidente que suas vidas deixaram muita coisa a desejar — e mesmo assim, eram cristãos estabelecidos. Esta, decerto, é uma advertência solene de que é demasiadamente fácil para os que têm sido cristãos por al­ gum tempo decaírem em pecado sério ou erro de doutrina. Não há salvaguarda contra isto senão viver em contato direto com o Senhor e Salvador. É interessante que Pedro, como Judas, pode ver a tradição cristã dada através dos apóstolos (1:16-17) como sendo uma unidade e como sendo a verdade (cf. Judas 4), em contraste com as tendências divisivas, os mitos não históricos, e o comportamento indigno dos fal­ sos mestres. E pode haver algo de pungente no seu emprego da pala­ vra confirmados para descrever seus leitores hesitantes e vacilantes. Esta, pois, foi a palavra que Jesus empregou a respeito dele em certa oCasião inesquecível quando, embora fosse tão instável, sentia a cer­ teza de que ele estava estabelecido na verdade e não poderia apostatar de modo algum (ver Lc 22:32). Parece ter chegado a ser uma palavra predileta deste homem turbulento que agora realmente estava confir­ mado. Emprega-a na sua oração final no fim de 1 Pedro (5:10), e uma palavra semelhante ocorre num contexto significante em 2 Pedro 3:17. 3:17. 74


2 PEDRO 1:13-14 13. Pedro27dificilmente pode enfatizar demasiadamente a impor­ tância das lembranças. Aqui, acabara de lembrar aos seus leitores a chamada de Deus, a necessidade para o crescimento na graça, e o lar celestial que os aguarda. Em 1 Pedro 2:11, lembra-lhes acerca da sua milícia cristã, tema este que volta a mencionar em 2 Pedro 3:1 ss. Pa­ rece que nunca poderia esquecer-se da comissão do seu Senhor: “ Quando te converteres, fortalece os teus irmãos.” Está resoluto no sentido de continuar com esta comissão até o fim dos seus dias. Está bem consciente de que este fim talvez não esteja muito dis­ tante. Se esta carta foi escrita no início da década de 60 do século I, quando, sob o governo de Nero, os cristãos estavam ficando cada vez mais impopulares em Roma, não seria necessário para um líder cris­ tão eminente usar visão profética para prever uma morte repentina e violenta. Enquanto estou neste tabernáculo. Cpmo todos os cristãos primitivos, Pedro estava muito consciente da transitoriedade da vida. Os homens de fé, no Israel de Deus, sempre tinham sido moradores em tendas (Hb 11:9).28Como Paulo (2 Co 5:1), Pedro emprega a metá­ fora de levantar acampamento para a morte. Tem sido freqüente­ mente pensado que este tipo de linguagem revela a infecção pelo dua­ lismo grego, com seu corpo perecível e sua alma imortal. Mas é muito mais provável que os dois escritores foram influenciados pelo tema da peregrinação, que é tão destacado no Antigo Testamento, ao qual as palavras de Epicteto bem poderiam ser aplicadas: “ Embora ele te •deixe desfrutar deles (i.e., dos teus bens), emprega-os como sendo aquilo que não te pertence, como um viajante faz uso de uma hospe­ daria.” 9 14. Pedro escreve-lhes esta lembrança, consciente não somente da transitoriedade da vida, como também da ocasião registrada em João 21:18, 19 onde Jesus profetizou um término drástico à vida de Pedro mediante a crucificação. Esta alusão toma muito provável que devamos traduzir tachinê por “ repentinamente” ao invés de por prestes (veratradução “repentina” em 2:l). Mesmo assim, há alguma possibilidade desta última tradução, e seria igualmente apropriada 27. Como Paulo (Fp 3:1; 2 Tm 2:14; Tt 3:1). 28. Na realidade, conforme o discurso de Estêvão, a podridão começou quando “ Sa­ lomão lhe edificou a casa” (AT 7:47). 29. Citado por Selwyn, The First Epistle o f St. Peter, 1946, pág. 169.

75


2 PEDRO 1:14-15 para a profecia de que ele sofreria uma morte violenta na sua velhice. Visto que devia estar com mais de sessentaanos quando escreveu estas palavras, estaria prevendo o cumprimento para breve. É interessante que as raízes tanto de skêriõma (tabernáculo, “ tenda”) e exodos {partida, v. 15) ocorressem no relato lucano da transfiguração, ao qual Pedro passa a referir-se. Se 2 Pedro é um pseudepígrafo, seu autor deve ter sido extremamente sofisticado para produzir um toque tão delicado. Temos muita coisa que aprender (em nossa geração, quando a morte substituiu o sexo como o assunto proibido) da atitude de Pedro diante da morte. Já havia anos, estava convivendo com a morte; sabia que seu destino seria morrer de maneira horrível e dolorosa. Mesmo assim, pode falar dela desta maneira maravilhosa, aparentemente sem medo nem lástima. Significa a entrada no reino eterno. Signifi­ ca a partida deste mundo (15) para algum outro lugar que Deus nos preparou. Significa deixar de lado a tenda onde habitávamos. “Não há razão para levarmos tão a sério a remoção dela. Há um contraste subentendido entre a tenda que se desfaz, e a moradia eterna, o que Paulo explica em 2 Co 5:1” (Calvino). 15. É tendo em vista as palavras de Jesus que Pedro está tão an­ sioso para realizar sua obra de estabelecer os cristãos por meio de lembranças contínuas. E, destarte, diz: esforçar-me-ei (o futuro, spoudasõ, é melhor atestado do que o presente, spoudazõ) para ga­ rantir que, depois da sua morte, terão, a cada momento em que dese­ jarem referir-se a ela, uma lembrança escrita permanente dos seus en­ sinos. A que ele está se referindo? Claramente não a esta Epístola. Suas palavras, porém, são admiravelmente apropriadas ao Evange­ lho segundo Marcos. Esta é uma obra que desde os tempos mais anti­ gos era estreitamente associada com Pedro. Papias, no início do sé­ culo II, escreveu: “Isto também o presbítero dizia: que Marcos, tendo sido o tradutor de Pedro, escreveu com exatidão, mas não em ordem cronológica, tudo quanto se lembrava do que o Senhor disse ou fez... Pois estava preocupado com uma só coisa: que não omitis­ se qualquer das coisas que ouvira, nem falsificasse qualquer uma de­ las.30 Esta, pois, era boa tradição no começo do século II: era tradi­ cional antes de Papias, que ele próprio nasceu cerca de 70 d.C. E está 30. Registrado em Eusébio, H. E. üi.39. 15; v. 8. 3.

76


2 PEDRO 1:15-16 apoiada por todos os escritores do século II que se referem a Marcos, notavelmente Clemente11e Irineu .32 Este último é especialmente in­ teressante. Diz: “Depois da morte (exodon) deles (i.e., de Pedro e de Paulo), Marcos, o discípulo e intérprete de Pedro, por sua vez nos transmitiu por escrito a substância da pregação de Pedro. ”33 E significante que Irineu emprega a mesma palavra para a morte que Pedro emprega aqui. Exodos é uma palavra excepcionalmente rara para a morte, usada sozinha (embora seja bastante comum em conjunção com biou). Foi usada assim por Lucas com referência à morte de Cristo prenunciada na transfiguração (Lc 9:31). É usada aqui no mesmo contexto. E é usada nesta passagem de Irineu. É difícil esca­ par à conclusão de que Irineu conhecia esta passagem em 2 Pedro, e que entendia que a promessa implícita se referisse ao Evangelho se­ gundo Marcos. Mesmo assim, a referência neste versículo é suficien­ temente vaga para ter excitado a curiosidade e encorajado a inventi­ vidade de escritores posteriores. Bigg conjectura com grande proba­ bilidade que “a composição da literatura pseudonímica posterior foi sugerida por estas palavras. Se for assim, o fato contribui para com­ provar que 2 Pedro era bem conhecida e considerada autêntica nos tempos muito antigos. Parece dificilmente provável que tais liberda­ des extensivas teriam sido tomadas com o nome de Pedro a não ser que houvesse uma frase, num escrito geralmente reconhecido como sendo dele, que desse plausibilidade à falsificação” g. A verdade é atestada por testemunhas oculares apostólicas (1:16-18). 16. Aqui Pedro claramente está se defendendo contra alguma acusação dos falsos mestres. Mas qual? Tudo depende da palavra muthois. Pode significar fábulas, e esta palavra, acompanhada pelo mesmo verbo “ seguir” ocorre em Josefo neste sentido.34 Pode tam­ bém significar ‘‘alegorias ” (Bigg pensa que os falsos mestres conside­ ravam os milagres nos Evangelhos neste sentido, e não como fatos sóbrios), ou “ profecias fictícias” (Mayor), ou “fábulas” como nas Epístolas Pastorais (Tt 1:14; 2 Tm 4:4). Quando a frase inteira, inclu31. 32. 33. 34.

Registrado em Eusébio, H. E. vi. 14. 5-7. A. H. iii. 10. 6. A. H. iii. 1. 1; cf. Eusébio, H. E. v. 8. Josefo, Antiq., proem. 3.

77


2 PEDRO 1:16 sivesesophismenois (engenhosamente inventadas), é levada em con­ sideração, o significado defábulas parece ser o mais provável. Pedro está argumentando que quando fala (conforme tinha feito nos versícu­ los anteriores) do poder presente do Senhtor ressuscitado para equi­ par o cristão para a vida santa, e do futuro glorioso que aguarda o cris­ tão fiel, não é culpado nem de exagero nem de especulação. São, res­ pectivamente, as manifestações presente e futura do Jesus histórico, a cuja realidade pode dar testemunho pessoal. É impossívçl decidir desta referência o caráter exato dos falsos mestres. Não eram gnósticos num sentido desenvolvido, nem algo semelhante, porém, senão, nunca teriam atacado as “fábulas;” eles mesmos tinham-nas em demasia! Parece que, como Himeneu e Fileto,35 explicavam o elemento futuro da salvação, ao ponto de desfazêlo, em termos do passado.36 Destarte, poderiam muito bem ter dito que a ressurreição já passou, quando o crente morreu e ressuscitou com Cristo no seu batismo (Cl 2; 12; Rm 6:3-5), e que a vinda futura de Cristo foi realizada na vinda do Espírito. Esta parece ser o modo mais natural de entender as palavras, está bem de conformidade com aquilo que se diz dos falsos mestres no capítulo 3, e explica o uso que Pedro fez do incidente da transfiguração para refutá-los. Os homens que invalidam por meio de explicações a ressurreição e que zomba­ vam da parusia podiam ser refutados da melhor maneira mediante re­ ferência à vida encarnada de Jesus. Os Evangelhos Sinóticos, todos eles, vêem a transfiguração como sendo um antegozo, não tanto da ressurreição quanto da paru­ sia de Jesus.38 Em todos os três Evangelhos segue imediatamente após a promessa de Jesus de que alguns dos Seus ouvintes não prova­ riam da morte até que o reino viesse com poder. Seja qual for o signi­ ficado desta promessa misteriosa, fica claro que havia uma forte liga­ ção nas mentes dos Evangelistas entre a transfiguração e a parusia. Nos dias subapostóliCos a transfiguração parece ter atraído bem pouco comentário. De qualquer maneira, as referências a ela são ra­ ras.39 Uma delas, no entanto, está no Apocalipse de Pedro, uma obra 35. 36. 37. 38. 39.

2 Tm 2:17, .18, Ver mais na Introdução, págs. 36 ss. Ver mais na Introdução, pág. 18. Ver G. H. Boobyer, St. Mark and the Transfiguration Story, 1940. Ver A. M. Ramsey, The Glory o f God and the Transfiguration o f Christ, 1949, cap.

.13. 78


2 PEDRO 1:16 dos meados do século II que revela conhecimento da nossa Epístola.40 Ali, os corpos transfigurados que aparecem aos discípulos que oram são apresentados como sendo o antegozo dos “ vossos irmãos justos cujas formas desejastes ver ” .4' Fica claro que o autor desconhecido do Apocalipse entendia 2 Pedro nesse sentido, e, narealidade, cita-a, con­ forme veremos sobre v. 18 O poder e a vinda podem ser entendidos como acima, mas há vá­ rias outras possibilidades. A frase pode ser uma hendíadis, “ a pode­ rosa vinda” , como em Mateus 24:30 (“vindo com poder e muita glo­ ria”). E possível que seja uma referência à declaração que Jesus fez acerca do Seu poder em Mateus 28:18 e à Sua demonstração dele nos milagres: Pedro já fora uma testemunha ocular de ambas. Pode referir-se ao poder e àglória dados a Jesus na Sua ascensão, da qual se poderia pensar que a transfiguração era um antegozo. É perverso, juntamente com Chase, entender que parousia significa a primeira vinda de Cristo. Refere-se, como em 3:4,12 e normalmente no Novo Testamento, à Sua vinda futura, ao Seu advento em realeza. Os papi­ ros mostram que a palavra era freqüentemente usada para a visita ofi­ cial de um rei, com toda.a pompa. Pedro enfatiza a natureza do ensino apostólico que seus leitores tinham recebido em primeira mão. “N ós” — o “nós” apostólico — fomos testemunhas oculares, diz ele. A palavra empregada para isto, epoptês, é incomum42 e interessante. Era comumente usada para de­ notar uma pessoa iniciada nas Religiões de Mistério. A razão de Pe­ dro para empregar esta palavra aqui é obviamente polêmica. Está su­ gerindo que os falsos mestres estavam fora do círculo dos iniciados, ao qual pertencem o autor e seus leitores. Ao fazer assim, Pedro in­ verte de modo eficaz as jactâncias exclusivas dos falsos mestres quanto a terem superioridade sobre os cristãos comuns na base de te­ rem sido iniciados nagnõsis mais sublime àqual seus irmãos mais hu­ mildes nunca poderiam aspirar. Megaleiotês, m ajestade, é uma palavra muito rara do Novo Tes­ tamento: nas suas duas demais ocorrências significa a majestade do

40. Ver a Introdução, pág. 13. 41. Ver Hennecke, New Testament Apocrypha, vol. II, págs. 680-1. 42. Ocorre somente aqui no Novo Testamento. Mas o verbo correspondente, epopteuõ, é encontradiço somente em 1 Pé 2:12; 3:2. Estaé mais uma indicação indireta da autoria em comum?

79


2 PEDRO 1:16-17 Divino.43 Aqui, pois, expressa a majestade divina que foi revelada na transfiguração de Jesus. 17. A construção grega desfaz-se no fim do v. 17 e o assunto mu­ da. Este fato complica a compreensão de 19a. Do poder e davinda de Jesus na transfiguração, Pedro volta-se para a honra e glória revela­ das ali: “ honra, na voz que Lhe falou; glória, na luz que resplandeceu dEle ’’ (Alford). É possível que haja uma alusão a Daniel 7:14, um dos textos ’veterotestamentários mais importantes para se entender Je­ sus como o Filho do homem glorioso, e um que teve enorme influên­ cia na Igreja Primitiva. Pela Glória Excelsa: esta frase rara, uma tí­ pica perífrase hebraica para Deus, comparável Com ‘‘divino poder ’’ e “ natureza divina” em 1:3,4, é achada em Clemente de Roma,44 que talvez a tirasse da nossa Epístola, embora megaloprepès seja uma pa­ lavra pela qual tem predileção. A “nuvem brilhante” que veio sobre Jesus na transfiguração é outra maneira de expressar a mesma reali­ dade — nada menos do que o próprio Deus (cf. Êx 16:10; Nm 14:10; Ez 1:4). É instrutivo comparar o relato de Pedro da voz com o registro sinótico dela nos Evangelhos, sendo que o dele pode muito possivel­ mente ser anterior àquele dos Evangelhos, se Pedro realmente é o au­ tor desta Epístola. E se ele não o é, é difícil entender por que um autor posterior não citou diretamente de um dos Evangelhos ao invés de encaixar os toques independentes que achamos aqui. Se um falsifica­ dor estava trabalhando com os Sinóticos diante dele, por que não nos conta alguma coisa .acerca do comportamento dos discípulos no mon­ te? Por que não menciona Moises e Elias? Mais surpreendente de tu­ do, por que omite as palavras significantes “ a ele ouvi” , existentes em todos os três relatos, que teriam sido tão apropriadas a este con­ texto? A voz do céu, também, ocorre numa forma diferente de qual­ quer dos Sinóticos (embora a ordem das palavras aqui seja incerta).45 Pedro registra a construção sem igual, eis hon eudokêsa, 46 em quem 43. Lc 9:43; At 19:27. 44. 9:2. 45. Destarte, B e P 72 têm o texto: “Meu filho, meu amado é este” , P: “ Este é meu filho, o amado, é este,” e a maioria dos MSS: “ Este é meu filho, o amado” (sob a influência da versão de Mateus). 46. O paralelo mais próximo é Mt 12:18, onde o melhor texto diz simplesmente: hon eudokêsen hêpsuchê mou. Somente Mateus entre os Sinóticos diz: “ em quem me comprazo” na transfiguração, mas o texto é . en hõ eudokêsa.

80


2 PEDRO 1:17-18 pie comprazo, que é, naturalmente, uma tradução aproximada de Isaías 42. Sugere o beneplácito do Pai pousando sobre Jesus e perma­ necendo sobre Ele. Além disto, o texto “ este é meu Filho, meu Ama­ do” (NEB) é notável e independente. Ora, “meu Amado” era um tí­ tulo messiânico muito antigo, não apenas um epíteto para descrever “Filho. ” J. Armitage Robinson demonstrou este fato numa nota im­ portante,47 no decurso da qual argumentou que o texto certo em Mar­ cos 9:7 não deveria ser “o amado” conforme a maioria dos MSS, mas, sim, “meu Amado” conforme o Siríaco Antigo. Considera que este é um toque bem primitivo. Se for assim, é igualmente primitivo em 2 Pedro, onde o “meu” realmente está no melhor texto grego, e não depende de uma tradução siríaca posterior. 18. Dois aspectos que têm relevância para a questão da autoria acham-se neste versículo. Em primeiro lugar, o escritor ressalta que estava com Jesus quando veio a voz do céu. Sustenta-se dê modo ge­ ral que esta alegação denota a obra do imitador. O autor esforça-se demasiadamente para identificar-se com Pedro. Algumas das dificul­ dades neste ponto de vista são mencionadas no comentário sobre o v. 17, e na Introdução.48Além disto, embora algumas formas de pseudepigrafia fossem comuns no mundo antigo, onde não existiam direitos autorais, Dr. Guthrie argumentou de modo convincente que escrever 49 cartas em nome doutra pessoa nao era praxe aceita, e certamente não em nome de uma pessoa recém-falecida. Além disto, a suposição de que toda frase que se alude a algum incidente na vida de Pedro re­ vela a operação dalgum imitador é um método muito injusto de criti­ car, e merece o comentário irônico de Bigg: “ Se um escritor declara sua identidade somente no endereçamento de uma epístola, como em 1 Pedro, o endereçamento é tratado como um acréscimo forjado. Se dáum indício inconfundível quanto à sua identidade, como no caso do Evangelho segundo João, suas palavras são consideradas tão suspei­ tas, até mesmo indecentes, que ele deve serum forjador. Se, porém, fizer as duas coisas, como no caso de 2 Pedro, a causa contra ele é considerada como sendo irrefutável.”50 47. St. Paul’s Epistle to the Ephesians, 1903, págs. 229-233, “The Beloved as a Mes­ sianic Title.” 48. Ver págs. 29 ss. 49. New Testament Introduction, vol. II (The Pauline Epistles), 1961, Apêndice Ç, “ Epistolary Pseudepigraphy.” 50. Bigg, pág. 232.

81


2 PEDRO 1:18-19 Em segundo lugar, no monte santo é considerado como uma pres­ suposição da época em que a transfiguração tinha sido “ retomada e santificada na consciência religiosa da igreja’’ (Strachan). Mas pensar assim é importar para o texto um modo totalmente não-bíblico de en­ tender “ santo. ” Na Bíblia significa “pertencente a D eus,” e o monte é santo exatamente como os profetas (1:21) e apóstolos (3:2) são san­ tos, porque foram visitados por Deus. Como Pedro poderia deixar de considerar santo aquele monte, visto que foi ali que a glória divina de Jesus foi releváda a ele? Foi por esta razão que o monte onde Moisés se encontrou com Deus foi chamado santo (Êx 3:5), e o epíteto foi aplicado às demais localidades do Antigo Testamento onde Deus Se revelou, supremamente ao monte Sião.51Interessantemente, o monte nunca foi ‘‘retomado na consciência religiosa da igreja’’! Em tempos posteriores, nem sequer havia unanimidade quanto à identidade da montanha: Tabor ou Hermon. O Apocalipse de Pedro cita esta fra­ se,52 quando Jesus é representado dizendo: “ Subamos para o monte santo.” Esta passagem inteira tem muito interesse por demonstrar o im­ pacto feito pela transfiguração sobre aqueles que estavam presentes. Pedro emprega o incidente aqui para enfatizar seu conhecimento (e para refutar assim a conversa dos falsos mestres acerca de ‘‘mitos ’’), para ressaltar a solidariedade entre a mensagem veterotestamentária e a mensagem apostólica (contra os falsos mestres que estavam tor­ cendo as duas), e para tirar da vida encarnada de Jesus uma promessa positiva da futura vinda em glória, contra a qual os falsos mestres zombavam. h. A verdade é atestada por escrituras proféticas (1:19-21).53 19. Pedro, passando do testemunho ocular pessoal, volta-se agora 51. Js 5:15; Êx 15:13; SI 2:6; 3:4; Is 52:1, etc. 52. Ver Hennecke, New Testament Apocrypha, vol. II, pág. 680. 53. Teófilo de Antioquia, que escreveu cerca de 170 d.C., alude-se três vezes a estes versículos, 19-21. Em ad Autol. ii. 13 fala da “ sua palavra brilhando como uma candeia numa casa pequena. ” Em ii. 9 escreve: “ os homens de Deus, portadores do Espírito, tornaram-se profetas, e foram ensinados por Deus porque o próprio Espírito de Deus foi assoprado para dentro deles. ’’ Finalmente, em ii. 33 escreve: “ somos ensinados pelo Espírito Santo qu,e falou através dos santos profetas.” Não somente estas alusões demonstram como Teófilo se aprofundou em 2Pedro, e apóiam, portanto, a antigüidade da Epístola; demonstram, também, quão sabia­ mente Teófilo entendera o significado desta passagem difícil.

82


2 PEDRO 1:19 para o Antigo Testamento para achar apoio para seus ensinos nos vv. 3 -1 1 .0 versículo pode ser entendido de duas maneiras bem diferen­ tes. A palavra mais crucial é bebaioteron, mais confirmada. Significa que as Escrituras confirmam o testemunho apostólico? Ou significa que o testemunho apostólico cumpre, e, portanto, autentica, a Escri­ tura? A maioria dos comentaristas seguem a segunda alternativa, e en­ tendem que a voz ouvida na transfiguração torna ainda mais certas as profecias do Antigo Testamento acerca da vinda do Senhor. Logo, “ a transfiguração dá testemunho da validade permanente do Antigo Tes­ tamento. .. E uma distorção da verdade dizer (como Marciom e mui­ tos modernos) que a transfiguração demonstra que o Antigo Testa­ mento foi substituído pelo Evangelho, pois ‘o cumprimento do Antigo Testamento’ significa, não sua abolição, mas, sim, sua vindicação como testemunha perpétua à supremacia de Cristo. ’,54 Este ponto de vista, embora seja excelente como doutrina, fica exposto a duas críti­ cas. E extremamente difícil espremer este sentido de “temos a pala­ vra profética tomada mais segura’’ das palavras echomen bebaiote­ ron, lit. ‘‘temos mais segura. ’’Se Pedro quisesse dizer aquilo, por que não usou a construção normal e não escreveu: echomen bebaiõthenta? E é até mais difícil espremer tal sentimento de um judeu do século I, e muito menos de um apóstolo cristão. Os judeus sempre preferiam a profecia à voz do céu. Realmente, consideravam esta última, a bath qõl, “filha da v o z”, como substituta inferior da revelação, desde a cessação dos dias da profecia.55 E quanto aos apóstolos, é difícil exa­ gerar sua estima para com o Antigo Testamento. Um dos seus argu­ mentos mais poderosos em prol da veracidade do cristianismo era o argumento baseado na profecia (ver os discursos em Atos, Rm 15, 1 Pe 2, ou a totalidade de Hebreus ou do Apocalipse). Na palavra de Deus escrita, procuravam a certeza absoluta, como seu Mestre, para quem “ está escrito” bastava para decidir um argumento. O que Pe­ dro quis dizer parece ser o que é registrado na primeira alternativa acima. Está dizendo: “ Se não acreditais em mim, ide às Escrituras. ” “A questão” , diz Caívino, “ não é se os profetas são mais fidedignos do que o evangelho. ” É simplesmente que “visto que os judeus não tinham dúvida de que tudo quanto os profetas ensinavam viera da 54. A. M. Ramsey, The Glory o f God and the Transfiguration o f Christ, pâg. 126. 55. Ver C. K. Barrett, The Holy Spirit and the Gospel Tradition, 1947, pâgs. 39-40.

83


2 PEDRO 1:19 parte de Deus, não é de se estranhar que Pedro diz que sua palavra é mais segura” . A metáfora da Escritura como sendo uma candeia ou tocha, ilu­ minando uma sala escura, é bem-conhecida e apropriada (cf. SI 119:105; 4 Esdras 12:42), embora auchmeros, tenebroso, não ocorra outra vez no grego bíblico. O pensamento é que a luz revela a sujeira, e torna possível sua remoção. Devemos andar pela luz da Escritura até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vossos corações. O que significa isto? Há várias possibilidades. E possível que Pedro conste como um precursor da escola ale­ xandrina como um defensor da gnõsis verdadeiramente cristã. Des­ tarte, os cristãos recém-convertidos ainda andam numa luz tenebro­ sa, e devem progredir no estudo das Escrituras até que cheguem à luz do dia, onde o conhecimento maduro de Cristo (ou a iluminação do Espírito Santo que neles habita) transmitiu para eles a verdade cristã na sua plenitude. Plumptre, que adota um ponto de vista semelhante a este, indica que, entendido assim, oferece um paralelo estreito com à “ maravilhosa luz” de 1 Pedro 2:9 e “o sol nascente das alturas” de Lucas 1:78. Mesmo assim, tanto o raiar do dia quanto o nascer da estrela da manhã referem-se mais naturalmente à parusia. Sobre o raiar do dia da segunda vinda, ver Romanos 13:12. Sobre a phõsphoros, “ a es­ trela da manhã” , é interessante notar que é aplicada na literatura grega não somente à estrela da manhã (i. e., Vênus) como também a pessoas reais e divinas. Temos parte de um hino órfico do século I d . C. que roga aophõsphoros aaplicar a sua luz56. Nos escritos cristãos, o Messias é visto no simbolismo daestrela emNümeros 24:17 (como na Antologia Messiânica achada em Cunrã), e o Sol da justiça que nasce conforme Malaquias 4:2. N oBenedictus, Cristo é ‘‘o sol nascente das alturas ” ou “ o sol da manhã vindo do céu ’’ (Le 1:78); o hino primitivo entesourado em Efésios 5:14diz que “Cristo te iluminará” , e em Apo­ calipse 2:28; 22; 16 Ele é chamado a “ estrela da manhã”. Tudo isto sugere uma terceira interpretação: “Atendei às escritu­ ras proféticas até que raie a plena luz da aurora da parusia. ’’ Isto faria bom sentido, e se encaixaria bem com a ênfase dada à segunda vinda no capítulo 3. A objeção contra esta interpretação é que a parusia não surge em vossos corações. Isto significa, conforme pensa Kàsemann, 56. Moulton and Milligan, Vocabulary o f the New Testament, 1949, pág. 680, s.v. phõsphoros.

84


2 PEDRO 1:19-21 que a máscara petrina do autor se deslisa, e revela que, apesar de toda a sua conversa ortodoxa acerca da parusia no capítulo 3, pertence a uma geração que espiritualizou até ao ponto da pura subjetividade aquela’culminação da história do mundo? Não necessariamente. Há uma possibilidade de que a frase “ em vossos corações ’’ pudesse per­ tencer ao começo da cláusula seguinte (não houve, afinal das contas, praticamente nenhuma pontuação nos MSS antigos). Se puséssemos dois pontos depois de “.nasça” ao invés de depois de “ corações” , o significado seria (v. 20): “ sabendo, primeiramente isto em vossos co­ rações...” Alternativamente, o raiar da estrela damanhã nos corações cris­ tãos diante do nascer do dia pode referir-se ao ardor da antecipação nos corações cristãos quando “os sinais cto Dia que se aproxima fi­ cam manifestos aos cristãos. O cumprimento da sua esperança está às portas: o Senhor está perto” (von Soden). Provavelmente, no entan­ to, não devemos pensar tanto na antecipação quanto na. transforma­ ção. Nossa transformação interior, continuamente aprofundada pelo Espírito enquanto estudamos as Escrituras (2 Co 3:18), será comple­ tada no grande dia em que O veremos como Ele é, e seremos tornados semelhantes a Ele (1 Jo 3:2). Sejam quais forem os pormenores exatos, a ênfase principal é manifesta: durante todas as nossas vidas estamos peregrinando neste mundo de trevas. Deus graciosamente nos forneceu uma lâmpada, as Escrituras. Se prestarmos atenção a elas para a repreensão, a adver­ tência, a orientação e o encorajamento, andaremos em segurança, Se as negligenciarmos, seremos engolfados pelas trevas. O decurso in­ teiro da nossa vida deve ser governado pela Palavra de Deus. 20, 21. Sabendo, primeiramente, isto significa “reconhecei que esta verdade é da máxima importância. ” Mas qual verdade? Literal­ mente, que “ nenhuma profecia da Escritura surge do desamarrar (epiluseõs) particular; pois não foi pela vontade do homem que a pro­ fecia jáfoi transmitida, mas, sim, os homens falaram da parte de Deus à medida que foram levados pelo Espírito Santo.” Esta passagem tem sido interpretada de várias maneiras. O pro­ blema principal diz respeito ao significado de epiluseõs, substantivo este que não ocorre outra vez no Novo Testamento, embora o verbo apareça em Marcos 4:34 e Atos 19:39: nos dois casos significa desem­ baraçar um problema. As duas maneiras principais de interpretá-lo 85


2 PEDRO 1:20-21 são, primeiramente, que nenhuma profecia surge da própria interpre­ tação do profeta — i.e., é dada por Deus; e, em segundo lugar, ne­ nhuma profecia deve ser entendida por interpretação particular —- i. e., mas só como a Igreja a interpreta. No primeiro caso, é o entendi­ mento do profeta da sua própria profecia que está em jogo, no segun­ do, é nossa interpretação das palavras do profeta. O segundo ponto de vista prevalece hoje entre a maioria dos co­ mentaristas. A favor dele há o fato de que os falsos mestres certa­ mente interpretavam falsamente as Escrituras (2:1; 3:16). Se este fosse o significado, seria importante. A Escritura nem é dada pelo homem (21) nem por ele interpretada (20); o Espírito realiza as duas tarefas. Além disto, se este fosse o significado, ofereceria uma boa introdução para o capítulo 2, e é lá onde a NEB cploca o trecho (mas ao fazer assim começa seu novo parágrafo no meio de uma frase gre­ ga!). Pedro estaria declarando, então, que somente a igreja cheia do Espírito poderia interpretar corretamente as Escrituras inspiradas pelo Espírito.57 Os falsos mestres lêem a Bíblia erroneamente; não têm o indício ao seu entendimento correto, o que os ortodoxos pos­ suem pela luz do Espírito Santo que neles habita. Mesmo assim, há dificuldades neste ponto de vista. Gramatical­ mente, esta cláusula acompanha o que antecede, e não aquilo que se­ gue. O mesmo ocorre com o sentido. No parágrafo anterior, Pedro não está falando acerca da interpretação mas, sim, acerca da autenti­ cação. Seu tema é a origem e a fidedignidade do ensino cristão acerca da graça, da santidade e do céu. O mesmo Deus a quem os apóstolos ouviram falar na transfiguração falou também através dos profetas. Destarte, o argumento nos vv. 20, 21 é uma condição consistente e realmente necessária do parágrafo anterior, i. e., podemos confiar na Escritura porque por detrás dos seus autores está Deus. Os profetas não inventaram o que escreveram. Não o deslindaram arbitrariamen­ te. “Não tagarelaram suas invenções, feitas por conta própria, ou de 57. Como uma curiosidade de exegese, o ponto de vista de Kàsemann pode ser men­ cionado. Vê os v v. 19-21 como sendo um reforço cuidadoso da posição ministerial católica contra a gnõsis dos Entusiastas. A profecia cristã primitiva já desapareceu — era perigosa demais para ser permitida pela hierarquia, representada por 2 Pe­ dro. Destarte, “ a profecia agora é confinada ao Antigo Testamento” . Mas mesmo isto não ajuda. A exegese dos entusiastas toma o lugar da profecia! A igreja, por­ tanto, tem de exercer conjrole sobre a interpretação da Escritura. A comunidade deve obedecer àquilo que o ministério do ensino lhe diz (Kàsemann, pág. 190). De tudo isto, é desnecessário dizer, não há nenhuma insinuação na própria passagem.

86


2 PEDRO 1:20-21 acordo com seu próprio julgamento” (Calvino).58 No Antigo Testa­ mento, esta era a característica dos falsos profetas, que “falam as vi­ sões do seu coração, não o que vem da boca do SENHOR” (Jr 23:16; cf. Ez 13:3). A profecia verdadeira, no entanto, vinha da parte de Deus e, embora fossem homens, os profetas eram movidos ou “leva­ dos adiante” pelo Espírito Santo.59 Pedro, pois, está falando acerca da origem divina da Escritura, não acerca da sua interpretação apropriada. Se a interpretação fosse seu assunto neste versículo, então v. 21.seria totalmente irrelevante para seu argumento. Além disto, um sentido muito forçado teria de ser dado a ginetai, viz. “fica sob o escopo de” (Mayor). E Mayor era um estudioso bom e honesto demais para não se sentir perturbado por causa disto. E interessante que nesta referência bíblica à inspiração dos seus autores, que é talvez a mais completa e explícita, nenhum interesse é revelado na psicologia da inspiração. O autor não se preocupa com os sentimentos deles, nem o quanto entendiam, mas, sim, simplesmente com o fato de que eram os portadores da mensagem de Deus. Os pa­ péis relativos desempenhados pelos autores humanos e divino não são mencionados, mas, sim, apenas o fato da sua cooperação. Em­ prega uma metáfora marítima fascinante no v. 21 (cf. Atos 27:15, 17, onde a mesma palavra, pheromenê, é empregada para um navio le­ vado pelo vento). Os profetas içaram suas velas, por assim dizer (eram obedientes e receptivos), e o Espírito Santo as enfunou e levou seu barco na direção por Ele desejada. Os homens falavam: Deus fa­ lava. Qualquer doutrina correta da Escritura não negligenciará qual­ quer parte desta verdade. Certamente, os que estão convictos que Deus é, em última análise, o autor da Escritura, não pouparão esfor­ ços para descobrir o fundo histórico, a situação vivencial, as limita­ ções, a educação, etc. do agente humano que cooperou com Deus na sua produção. A revelação, pois, não era questão de recepção passi­ va: significava a cooperação ativa. O fato da inspiração divina não 58. von Soden talvez tenha razão em suspeitar uma referência aqui aos falsos mestres. Os profetas verdadeiros, diferentemente dos falsos mestres, não confiam nas suas próprias idéias. A voz de Deus era trazida a eles, assim como para os apóstolos na transfiguração (1:17, 21). 59. epilusis, pois, quase chega a significar “ inspiração” , conforme J. P. Jacobszoon de Leyden a traduziu já em 1599. Nenhuma Escritura profética vem da êxtase auto-inspirada, mas, sim, da parte de Deus. Assim J. Loow em Nederlands Theologische Tydschrift, 3, 1965, págs. 202-212.

87


2 PEDRO 1:20-21 importava numa substituição dos funcionamentos mentais normais do autor humano. O Espírito Santo não usava instrumentos;60 usava homens. O modo de Deus sempre é o da verdade através da persona­ lidade, conforme foi perfeitamente demonstrado na encarnação. Além disto, não fez uso de quaisquer homens, mas, sim, de homens santos, os que estavam dedicados ao Seu serviço e plenamente com­ prometidos. E até mesmo com tais homens, não fez violência contra suas personalidades, mas, sim, cooperava com eles enquanto Se re­ velava através deles. “Diz que eram movidos, não porque estavam fora de seu juízo (conforme os pagãos imaginam enthousiasmos nos seus profetas), mas, sim, porque nada ousavam fazer por conta pró­ pria, mas somente em obediência à orientação do Espírito, que domi­ nava sobre os lábios deles como no Seu próprio templo” (Calvino).

60. Não há nada aqui remotamente análogo à reivindicação montanista de que estes eram como uma lira tocada pelo plectro do Espírito Santo. O montanismo surgiu em meados do século II. Se esta Epístola tivesse sido escrita depois disto, o autor teria dito muito mais do que o v. 21 se fosse um montanista. Se não o fosse, teria tomado muito cuidado para distinguir a sua posição daquela dos montanistas. O conceito pessoal da inspiração aqui está em contraste notável com os conceitos mecânicos que dentro em breve começaram a prevalecer. As palavras de Pedro estão em contraste igualmente forte com o modo de enten­ der a inspiração mecanicamente, que'se acha em Filo, seu contemporâneo judeu. Filo a vê como uma possessão divina compulsiva que transformava o homem num theophoros, um “ portador de Deus” {Mut. Nom. i, pág. 609, de Somn, pág. 689). Pedro a vê como sendo uma cooperação pessoal e ética entre Deus e homens san­ tos. Não há qualquer sugestão de que os autores sacro§ estão fora de si como a analogia com os frenesis báquicos citados por Filo; são levados ao longo do cami­ nho da vontade de Deus, com o consentimento alegre e bem disposto deles mes­ mos.

88


Capítulo Dois a. Acautelai-vos dos falsos mestres (2:1-3). 1. Sobre os paralelos extensivos entre boa parte deste capítulo e a Epístola de Judas, ver a Introdução. O pensamento de Pedro ainda demora-se nas profecias do Antigo Testamento. Em Israel«# meio do povo surgiram falsos profetas além dos verdadeiros; e agora a histó­ ria estava se repetindo. Seus leitores tinham falsos mestres no seu meio. Ao descrevê-los neste capítulo, oscila entre o tempo presente e o futuro, conforme faz Paulo num contexto semelhante em 1Timóteo 4:1 ss. Sem dúvida, isto é porque vê que cumprem as profecias tanto do Antigo Testamento quanto de Jesus (Dt 13:2-6; Mt 24:24, etc.). Sempre tem havido falsos mestres entre o povo de Deus, e sempre os haverá.! Que esta é a interpretação correta da mudança de tempo verbal, e não, conforme alguns sustentam, a falta dalgum escritor do século II de ser consistente nos seus arcaísmos (i. e., continuamente deslisa para o tempo presente) é sugerido por uma passagem em Justino Már­ tir (m. 165 d.C.) que cita esta passagem. Diz ao judeu Trifão: “E as­ sim como havia falsos profetas contemporâneos com vossos profetas santos, assim também há muitos falsos mestres entre nós, contra os quais nosso Senhor nos advertiu a precaver-nos. Muitos deles ensina­ ram doutrinas ímpias, blasfemas e profanas, falsifícando-as em nome dEle; ensinaram, também, e continuam ensinando, aquelas coisas que procedem do espírito imundo do diabo.” 1 Falsos profetas podem significar que falsamente alegavam ser profetas, ou que profetizavam coisas falsas; provavelmente os dois. 1. Dial. lxxxii. Outra vez, “ no intervalo antes da Sua segunda vinda, haveria, con­ forme Ele os advertiu, heresias e falsos profetas surgindo ém Seu nome ’’ (Piai. li).

89


2 PEDRO 2:1 Os homens eram tão indignos de confiança quanto a mensagem. Mayor fez uma coletânea interessante das características dos falsos profetas que estavam marcantemfente presentes na situação à qual Pedro se dirige. Seu ensino era bajulação; suas ambições eram finan­ ceiras; suas vidas eram dissolutas; sua consciência era amortecida, e seu alvo era o logro (ver Is 28:7; Jr 23:14; Ez 13:3; Zc 13:4). Povo tra­ duz laos, palavra esta que é empregada para o povo de Deus na LXX bem como no Novo Testamento. Conforme os discursos atribuídos a ele em Atos, e conforme o ensino em 1 Pedro também, Pedro declara que os cristãos foram incorporados: no verdadeiro Israel de Deus; não há nenhuma dicotomia entre o Antigo Testamento e o Novo. Estes falsos mestres (note-se a rápida mudança de pseudoprophêtai parapseudodidaskaloi, o que sugere que talvez os falsos mes­ tres não fizeram, afinal das contas, muitas pretensões quanto a serem profetas) são o tipo de homens (hoitines) que sempre serão achados introduzindo dissimuladamente ou sub-repticiamente pontos de vista heréticos. O verbo introduzir (pareisagein) tem duas implica­ ções: significa “ trazer para dentro lado a lado com ” (sc. o ensino ver­ dadeiro) e também “ introduzir secretamente” (cf. G1 2:4). Heresias destruidoras (lit. “ de destruição” — outro hebraísmo) significa opiniões que destroem a verdadeira fé. A palavra hairesis (lit. “escolha”) era aplicada a um partido ou seita (cf. At 5:17; 15:5) ou aos pontos de vista sustentados por semelhante seita. Nos escritos paulinos, a tendência a divisões (G15:20; 1 Co 11:18-19) e a indepen­ dência arrogante (Tt 3:10) são as ênfases heréticas relevantes, mas já nos tempos de Inácio (c. de 110 d.C.) a palavra é usada em nosso sen­ tido de “falsa doutrina.” 2 O efeito do seu ensino foi que foram até ao ponto (kai) de renega­ rem o Soberano Senhor que os resgatou. Esta frase fascinante nos mostra algo daquilo que a cruz significava para nosso autor, porque resgatou enfatiza tanto a seriedade da triste situaçãodo homem quanto o alto custo do livramento efetuado por Cristo (cf. Mc 10:45; 1 Tm 2:6; Ap 5:9). A palavraagorazõ é empregada para a redenção de Israel para foràdo Egito (cf. 2 Sm 7:23). Na cruz, como no Êxodo, vemos a inter­ venção pessoal de Deus em prol do Seu povo, não somente para livrá-lo de um triste destino de escravidão e morte, mas também para redimi-lo “ para ser seu povo” , conforme Samuel 7:23 continua. Deus redime o homem afim de que o modo de vida transformado deste seja um crédito 2. “ Abstende-vos das ervas daninhas perniciosas da heresia” (Trallianos vi).

90


2 PEDRO 2:1-2 ao seu Salvador; a fim de que, conforme a expressão em 1 Pedro 4:2, “já não viva de acordo com as paixões dos homens, mas segundo a vontade de Deus” .1 Ora, estes falsos mestres entendiam, sem dúvida, a libertação oferecida pela cruz de Cristo; a liberdade era um dos seus brados de guerra(2:19). Mas não reconheciam o viver santo imposto pelo Cruci­ ficado. Mediante suas vidas negavam o Senhor que os comprou. O cristianismo é, realmente, uma religião de liberdade; mas também exige amoroso serviço totalmente dedicado a Jesus, o Redentor. Pau­ lo, Judas, Tiago e outras personalidades de destaque no Novo Testa­ mento deleitavam-se em chamar-se Seus douloi, “escravos” ..Os fal­ sos mestres não eram assim. E interessante que um movimento liber­ tino semelhante em Corinto elicitou uma resposta semelhante, em pa­ lavras semelhantes, de Paulo (1 Co 6:19, 20; 7:23). N osso autor está em harmonia com o restante do Novo Testa­ mento (ver Rm 6 e Hb 10) ao asseverar claramente que o homem não pode correr com a caça e também com os caçadores. O homem que procura servir a Deus e também ao seu próprip-eu está na estrada larga para a repentina destruição, pois ou a morte ou a parusia o cor­ tará no meio da sua carreira. (Para um uso semelhante de tachinê, “repentino” , “dentro em muito breve” , para a morte do próprio Pe­ dro, ver 1:14). 2. A negação do Senhor que os resgatou é primariamente ética, e não intelectual. Tem dois efeitos. Primeiramente, espalha-se para infeccionar outras pessoas, razão por que Pedro, neste capítulo, é tão veemente nas suas condenações. Em segundo lugar, traz descrédito à causa cristã. O tema de o nome de Deus ser blasfemado por causa da vida insatisfatória do Seu povo é um lugar-comum na Bíblia (ver Rm 2:24', e Is 52:5, que influenciou tanto a idéia geral quanto a forma es­ pecífica de expressão aqui;4 o tempo futuro é devido a esta alusão).

3. É interessante que Clemente de Alexandria juntasse estas duas passagens petrinas (e 1 Pe 1:19) na sua declaração: “ O Senhor (a quem também chama “Mestre” , despotês, como aqui) redimè (agorazei) a nós com sangue precioso ’’(Eccl. Proph. xx). 4. Sobre o uso generalizado deste tema no século II ,ver B. Lindars, New Testament Apologetic, 1961, págs. 22-23.

91


2 PEDRO 2:2-3 Pedro, não sem justo motivo, já se mostrara muito sensível neste as­ sunto em 1 Pedro 3:16; 4:14-15. Os relatos confusos dos excessos cris­ tãos que se acham em escritores pagãos tais como Tácito, Suetônio e Celso mostram quão necessário era para os cristãos viverem vidas in­ culpáveis (ver Tg 2:7; At 19:9; Tt 2:5; Rm 2:24). Aselgeia (práticas libertinas) é uma palavra forte para a imorali­ dade temerária e endurecida, a própria antítese do caminho da ver­ dade (ou “o caminho verdadeiro” , NEB, se o genitivo tês alêtheias for um hebraísmo). Existe um só caminho da verdade, o próprio Je­ sus Cristo (Jo 14:6); é por isso que a negação dEle é a mesma coisa que 0 afastamento da verdade. NEle, pois, os aspectos éticos e cognitivos daverdade (enfatizados, respectivamente, pelo pensamento hebraico e grego) estão coerentes. A frase o caminho da verdade advém de Salmo 119:30, e ocorre na literatura do início do século II, não so­ mente na Apologia de Aristides5, como também no Apocalipse de Pe­ dro.6 As duas citações parecem ser alusões a esta passagem, pois a frase não se acha em qualquer outra parte do Novo Testamento. Sãò alusões casuais como estas que fortalecem a causa em prol de uma data recuada para esta Epístola, visto que a data da Apologia bem como do Apocalipse é de c. de 130 d.C. O comentário de Calvino sobre este versículo é muito apto: “Nada há que perturbe as mentes piedosas tanto quanto a aposta­ sia... Para evitar que ela destrua nossa fé, Pedro interpõe a predição tempestiva de que esta mesma coisa acontecerá.” 3. Se v. 2 fala da imoralidade dos falsos mestres, v. 3 diz respeito à sua ganância e à sua condenação. E instrutivo contrastá-la com 1 Tessalonicenses 2:5, onde Paulo nega que é um mestre deste tipo, como os sofistas do mundo greco-romano, cuja preocupação principal não era a verdade, mas, sim, o sucesso no argumento. Este fato ex­ plica a referência às palavras fictícias, ou argumentos falsos, que ti­ nham o propósito, não de ajudar os ouvintes, mas, sim, de espoliá-los (daí a menção da avareza). O verbo emporeuomai, fazer comércio de, tem um fundo comercial, “explorar” (RSV), “fazer dinheiro com ” . Como os falsos mestres em 1 Timóteo 6:5, estes homens pensavam 5. “ O caminho da verdade que leva as pessoas que ao longo dele viajam para o reino celestial” (xvi). Assim também 1 Ciem. xxxv, Hermas, Vis. iii. 7. 1. 6. “ Os que blasfemam o caminho da verdade” (vii).

92


2 PEDRO 2:3-4 que o cristianismo pudesse ser fonte de ganho comercial para si mesmos. Os termos em que Pedro retrata a perdição dos hereges, neste versículo e no seguinte, parecem afetados e estereotipados a Kàsemann. “ O inimigo” , ele alega, “é posto fora de combate de modo muito primitivo; primeiramente, por meio de acusá-lo de depravação moral, depois, por meio de fazer chover sobre ele provérbios bem es­ colhidos (como no v. 22.), e, em terceiro lugar, por meio de pintar o castigo dos heréticos em termos lúgubres.” Sem dúvida, condena­ ções rigorosas tais como aquela que Pedro pronunciou parecem anti­ quadas e inapropriadas aos leitores no século XX, porque, em grande medida, perdemos qualquer sentido do perigo diabólico do falso ensi­ no, e ficamos tão embotados quanto à distinção entre a verdade e a falsidade como ficamos quanto à distinção entre o certo e o errado no comportamento. Mas é impossível estar sensível, como estava Pe­ dro, à importância ética e intelectual do “caminho da verdade” (i,e., o próprio Jesus) sem ficar enfurecido quando aquele caminho é des­ considerado, mormente pela igreja. Pedro reitera que o juízo, pro­ nunciado há muito tempo no Antigo Testamento, está iminente (lit. “desde a antigüidade não tem sido ocioso” , RSV). Para o pensamen­ to, ver sobre Judas 4 (cf. 1 Pe 4: 17). Termina, dizendo que sua des­ truição (é a terceira vez em três versículos que apõleia foi usada) não está “começando a dormitar. ” N pB interpreta bem:.“ a perdição os aguarda com olhos insones. ” A única outra ocorrência no Novo Tes­ tamento desta palavra vívida é aplicada às virgens sonolentas em Ma­ teus 25:5.

b. Três exemplos de julgam ento e livramento (2:4-10a). Pedro agora passa a dar exemplos do julgamento imparcial de Deus, e da certeza de que virá, ainda que demore (cf. 3:8-10). Fala primeira­ mente dos anjos caídos (v. 4), e depois, do dilúvio (v. 5), e depois, das cidades da planície (vv. 6 ss.). Fica empolgado com suas ilustrações, e o formato da sua frase sofre. Esperaríamos: “ Se Deus não poupou A, B , e C no passado, não poupará os falsos mestres agora. ” Mas está mais ansioso para encorajar do que pará condenar (embora fará bas­ tante disto antes de acabar com o assunto!), para concentrar-se na mi­ sericórdia de Deus ao invés de na Sua ira; destarte, completa a frase 93


2 PEDRO 2:4 no v. 9 ao colocar a salvação dos justos em primeiro plano na sua tela, e ao relegar para o segundo plano a condenação paralela dos ímpios. Os exemplos de Pedro diferem levemente daqueles no relato pa­ ralelo em Judas 5-7. Pedro se concentra no orgulho e na rebeldia dos anjos, na apatia e na desobediência dos homens dos dias de Noé, e na total sensualidade dos homens de Sodoma, presumivelmente porque estas características eram todas típicas dos falsos mestres aos quais se opunha. 4. Começa com os anjos caídos de Gênesis 6, mas não especifica o pecado deles. Em Gênesis 6:1-4, Judas 6, e Apocalipse 12:7, fica claro que a rebeldia era a causa principal da sua queda, embora a con­ cupiscência também seja mencionada. Pedro talvez tenha sido in­ fluenciado pelo acréscimo ao relato de Gênesis, feito no Livro de Enoque, assim como faz o Evangelho segundo Pedro, do século II. Mas se Pedro faz qualquer alusão a este livro apócrifo, fá-lo com a máxima discrição (assim como faz em 1 Pe 3:19; 4:6, onde também pode ter tido familiaridade com matéria apócrifa, mas é impossível comprová-lo)7 Os pormenores do quadro de Pedro não estão bem claros. Para abismos de trevas ARC tem “cadeias de escuridão” . Muitos dos me­ lhores MSS têmseirois ousirois, que significa “ poços subterrâneos” (de onde nossa palavra “ silo”) que faz bom sentido. Outros têm a pa­ lavra rara seirais, que significa “ cadeias” , e que ficaria mais perto das “algemas eternas” de Judas e da linguagem figurada deEnoque X. 4, liv 4 ,5 tBaruque lvi 12-13 que diz: “ E alguns deles desceram e conviveram com mulheres. E aqueles que assim fizeram foram ator­ mentados em cadeias.” O Apocalipse de Pedro também os repre­ senta em cadeias. Mesmo assim, a probabilidade textual bem como a intrínseca favorecem seirois. Precipitando-os no inferno é uma única palavra em grego, que ocorre somente aqui, na Bíblia, e que significa “ consignar ao Tárta­ ro ” . O Tártaro, na mitologia grega, era o lugar de castigo para os espí­ ritos dos falecidos muito ímpios, especialmente para os deuses rebel­ des como Tãntalo. Assim como Paulo podia citar um versículo apro­ priado do poeta pagão Arato (At 17:28), assim também Pedro podia 7. É provável que Pedro esteja aludindo a passagens em Enoque sobre o castigo dos anjos, tais como x:4-6; xviii.ll-xxi.10.

94


2 PEDRO 2:4-5 fazer uso desta linguagem figurada homérica. É curioso que Josefo faz a mesma coisa, e fala dos deuses pagãos castigados no Tártaro.8 Os anjos maus estão no lugar de tormento agora, embora devam aguar­ dar o juízo final. A escatologia de Pedro é característica da totalidade do Novo Testamento, que vê o juízo divino futuro como sendo a fina­ lização das escolhas que os homens estão fazendo durante a vida in­ teira. Há um paralelo próximo em Apocalipse 20:10, onde o diabo, embora esteja preso agora, está destinado para o julgamento final de­ pois. 5. O segundo exemplo de Pedro, o dilúvio, parece ter sido um favorito dele: vemos que ocorre de novo não somente no capítulo 3 como também em 1 Pedro 3:20. Aqui, no pano de fundo do julgamento de um mundo rebelde e perverso (asebõn, ímpios, sugere que não ti­ nham qualquer tempo para Deus), achamos retratada a salvação da parte de Deus. Pedro insiste que era disponível para todos, mas era eficaz somente para uns poucos. O pequeno número dos salvos e a certeza do julgamento tinham relevância imediata para seus primeiros leitores. Devemos provavelmente entender que o grego significa que Deus conservou Noé em segurança porque era um pregador (lit. “arauto”) da justiça (note o sentido veterotestamentário desta pala­ vra, como em 1:1 e em 1 Pedro, em contraste marcante com o uso forense paulino). E mais sete pessoas: foi poupado com sete outros, i.e., sua esposa, seus três filhos e as respectivas esposas. Cf. 1 Pe 3:20. O Antigo Testamento não diz que Noé era um pregador da justi­ ça; nem mesmo o Livro de Enoque. Mas se realmente era um homem “justo e íntegro” que “ andava com Deus” (Gn 6:9) então forçosa­ mente deve ter sido um arauto da justiça. Sua própria vida deve ter sido tão diferente dos homens ímpios ao seu redor, que diria tudo; e como poderia qualquer homem bom ficar quieto quando via outros indo para a ruína? Qualquer homem de Deus está, no mínimo, tão preocupado com a salvação dos outros como está zeloso por conser­ var seu próprio relacionamento com Deus. E, certamente, os escritos não-canônicos do século I estão sendo claros nisto: que Noé era aquele tipo de homem; é chamado pregador da justiça, ou oequivalente, em 1 Clemente vii. 6; ix. 4; Oráculos Sibilinos i. 128; e Josefo, An­ tigüidades i.3.1. 8. .c. Apion. ii.33.

95


2 PEDRO 2:5-8 A lição da totalidade da ilustração de Noé é bem ressaltada por Barnett. Os leitores de Pedro, diz ele, devem “escolher entre a orto­ doxia apostólica e a heresia contemporânea. As conseqüências da sua escolha seguir-se-ão tão seguramente quanto aquelas que estão ilus­ tradas no destino de Noé e no do mundo antigo”. 6. O terceiro exemplo de julgamento divino segue na seqüência cronológica, diferentemente daquele de Judas; e Pedro, também dife­ rentemente de Judas, meramente faz alusão ao caso sem elaboração. Há um aspecto artisticamente apropriado na maneira em que a des­ truição pelo fogo segue imediatamente após a destruição pela água, e isto prepara o caminho para um efeito semelhante em 3:7. As palavras neste versículo são muito notáveis. A palavra tephrõsas, reduzindo a cinzas ou ‘‘cobrindo de cinzas ’’, ocorre só aqui, na Bíblia, mas é empregada por Dio Cássio (lxvi) no seu relato da erup­ ção do Vesúvio em 79 d.C., quando, então, Pompéia e Herculano fo­ ram enterrados em lava. Além disto, a frase katastrophê kaíakrinen, condenou-as à ruína completa ou “à extinção” (RSV), é achada so­ mente no relato da LXX da destruição de Sodoma (Gn 19:29). Esta destruição total foi permitida por Deus a fim de inculcar às gerações que se sucederiam a lição de que a injustiça terminará na ruína. O en­ sino falso e o comportamento falso sempre acabam produzindo o so­ frimento e o desastre, seja nos dias de Ló, seja nos de Pedro, seja nos nossos próprios. Esta é a lição que Judas ensina quando diz que o cas­ tigo destas cidades tem uma qualidade eterna (Judas 7). Há paralelos curiosos entre nosso cenário contemporâneo e Sodoma, pois aquela cidade era tão afamada por sua afluência e sua efeminação quanto por sua imoralidade — e, naturalmente, como quaisquer homens que atingiram a maioridade, pensavam que se tornaram grandes demais para a idéia de Deus. Foi tarde demais que descobriram seu erro. 7,8. O modo de Deus, no entanto, é sempre receber o homem justo e temente a Ele, que confia nEle e odeia a iniqüidade. Livrou Ló, cujo livramento era um exemplo clássico da salvação que Deus oferece. O relato de Gênesis nem sequer alega, como alega este versículo, que Ló era um justo, afligido pelo procedimento libertino daqueles insubordinados. Aparece simplesmente como um homem do mundo (Gn 13:10-14; 19:16) que se desviara para longe do Deus dos seus pais. Embora fosse hospitaleiro (19:1-2), era fraco (19:6), 96


2 PEDRO 2:7-9 moralmente depravado (19:8) e bêbado (19:33, 35). Seu coração es­ tava tão profundamente encravado em Sodoma, que tinha de ser lite­ ralmente arrastado para fora dela (19:16). Repetidas vezes é enfati­ zado que seu livramento foi inteiramente devido ao favor de Deus, imerecido, que Ele dá aos homens por causa daquilo que Ele é, e não por causa daquilo que eles são (p. e. 19:16, 19). Por quê, entao, é chamado justo aqui? A resposta pode achar-se parcialmente na tradição extra canônica; destarte, é chamado “ o jus­ to ’’ em Sabedoria x. 6, xix. 17. Pode ser parcialmente uma questão de comparação com os homens de Sodoma, e neste caso, à expressão da N E B, ‘‘um homem bom ’’ (gente decente) talvez esteja perto do signi­ ficado aqui. Mas também, é claro, pelo menos aceitou a intervenção divina em prol dele, como também fizeram Isabel e Zacarias, que também são chamados justos (Lc 1:5, 6). Se tivermos razão em ler o artigo idefinido, ho dikaios, quando o epíteto é aplicado a ele outra vez no v. 8, o significado seria que atormentava a sua alma justa com aquilo que via e ouvia. Se, porém, o artigo fosse removido, conforme um dos melhores MSS, o significado seria: “justo naquilo que olha e escutava” (assim a Vulgata, aspectu et auditujustus). De qualquer forma, Pedro continua, o comportamento licencioso da sociedade iníqua em que vivia atormentava-o. NEB capta o significado com sua. tradução “ torturava.” E o costume para os cristãos hoje, vivendo numa sociedade secularizada, já não ficarem chocados com as coisas pecaminosas que vêem e ouvem. Por exemplo, acompanharão sem protesto um programa da televisão que apresenta matéria que, há uma geração, não teriam sonhado em assistir no teatro ou no cinema. Quando, porém, a consciência do homem fica demasiadamente em­ botada diante do pecado, e apático acerca de padrões morais, já não está disposto a procurar livramento da parte do Senhor. 9. Este versículo termina a frase começada no v. 4. “ Se.. .éporque o Senhor sabe livrar da provação os piedosos". Alguns MSS têm o plural, “provações”, e isto significaria tentações em geral, especial­ mente o orgulho, a sensualidade e a desobediência referidos nos ver­ sículos anteriores. Mas o singular, “provação” , é melhor atestado, e terá, então, um significado algo semelhante a “ não nos deixes cair na tentação” do Pai Nosso, o teste final da apostasia de Deus. Foi desta provação que Noé e Ló emergiram vitoriosos; ficavam sozinhos entre zombadores e descrentes. O Novo Testamento vê a segunda vinda 97


2 PEDRO 2:9 como o teste final, o grande peirasmos. Os fiéis serão livrados da­ quela hora da provação que virá sobre toda a terra (Ap 3: 10), quando o Senhor na Sua volta experimentará (peirazein) a qualidade do ser­ viço de cada cristão (1 Co 3: 13). Neste ínterim, ilenhuma tentação de dentro nem teste de fora é grande demais para ser suportada, porque Deus não somente a regula, como também dá ao Seu povo forças para enfrentá-la (1 Co 10: 13). Note que Deus livra o homem “de dentro de” (ek) e não “longe de” (apo) provações. O cristianismo não é ne­ nhuma apólice de seguro contra as provações da vida. Deus permite que aconteçam ao cristão: encontra-Se conosco no meio delas, e nos livra delas. Além disso, os exemplos de Noé e Ló são instrutivos por demonstrarem como Deus livra os tementes a Deus (eusebeis em con­ traste com os asebeis, os ímpios) das provações. Nenhum deles tinha um livramento imediato. Noé tinha de ajudar-se a si mesmo por meio de construir uma arca em obediência às instruções de Deus — a des­ peito da hilaridade dos seus vizinhos: Ló tinha de suportar longos anos de auto-recriminação por causa da sua decisão estulta de ir habi­ tar em Sodoma. Mesmo assim, Deus, no momento escolhido por Ele, livroú a ambos. Deus pode deixar-nos enfrentar longos anos de es­ pera antes de intervir; pode usar-nos para ajudar-nos a nós mesmos a sairmos da dificuldade. Mas muito bem sabe livrar os piedosos; po­ demos confiar nEle. Os fiéis para os quais Pedro escreveu podem muito bem ter per­ guntado: “ Por que Deus permite que sejamos infestados com here­ sias tão peçonhentas em nosso meio?” e, também: “ Quando Deus vindicará Seu nome ao julgar os ímpios?” Pedro deu sua resposta à primeira destas perguntas, e agora tráta da segunda, de forma breve; responderá mais pormenorizadamente depois. Aqui, limita-se a asse­ verar que o Deus que sabe livrar, embora pareça que Ele Se demore, sabe igualmente castigar. Este fato fica claro nas ilustrações tiradas de Sodoma e do dilúvio, que acaba de empregar. Mas a mente de Pe­ dro volta em primeiro lugar para os anjos caídos, conforme indica a frase reservar, sob castigo, os injustos para o dia de ju ízo ; é quase idêntica à linguagem usada para o destino dos anjos no v. 4. Se formos interpretar o grego com exatidão, parecerá subentender que os ho­ mens estão sendo castigados agora, e que estão sendo reservados para o juízo final mais tarde. Como pode ser? Bigg talvez tenha razão em entender que indica o tormento presente dos pecadores falecidos, mas Calvino provavelmente julga corretamente o sentido da passa­ 98


2 PEDRO 2:9-10 gem quando entende que kolaphizoumenous, “ para serem castiga­ dos” , como sendo proléptico (estão sendo guardados agora para um julgamento que é futuro). 10a. Pedro conclui este tópico por enquanto ao assegurar a se­ us leitores que os falsos mestres ainda estão na mão de Deus. Não esca­ param ao controle dEle, a despeito da sua imoralidade evidente. A fraseopisõ sarkos... poreuomenous, aqueles que, seguindo a carne, sugere a sodomia, e en epithumiã miasmou pode ser entendido ou como um hebraísmo em imundas paixões, ou como um genitivo obje­ tivo, “ no seu anseio por aquilo que é sórdido” . Há três maneiras de explicar o governo ou “ senhorio” que, segundo está escrito, menos­ prezam. Pode significar alguma hierarquia angelical (como em Ef 1:21; C l 1:16, e a passagem paralela em Judas 7, 8; em todas estas passagens, kuriotês, “ senhorio” , é empregado como o é aqui). Alter­ nativamente, é possível que Pedro esteja voltando ao tema do v. 1, e que indique que os falsos mestres desprezam o senhorio de Cristo (como emDidaquê iv. I9). É possível, também, que Pedro, com a pala­ vra kuriotês, queira dizer a liderança da igreja, ou seja, a “autoridade” (RS V) de Pedro e do presbitério oficialmente constituído na sua locali­ dade. Um exemplo semelhante deste tipo seria a situação em 1 Cle­ mente e em 3 João. A primeira destas explicações seria talvez mais provável se 2 Pedro fosse subseqüente a Judas e dependente dela, ao passo que qualquer das outras duas seria mais provável se 2 Pedro tivesse sido escrita primeiro. De qualquer maneira, há bem pouca evi­ dência de que estes libertinos estavam interessados nas várias hierar­ quias do s anjos;pelo contrário, parece que eram muito materialistas na sua cosmovisão. c. A insolência dos falsos mestres (2:10b, 11). 10b. A esta altura, Pedro faz uma pausa para dar uma descrição adi­ cional dos falsos mestres. São atrevidos earrogantes. A primeira des­ tas palavras, tolm êtês,, dá a impressão da ousadia impensada que de­ safia a Deus e aos homens. A última delas, authades, é empregada para uma pessoa obstinada que está firme no propósito de agradar a si mesma, custe o que custar. A frase seguinte pode significar que 9. Clemente de Alexandria nasAdumbrações, 1008, interpreta assim a passagem pa­ ralela em Judas 8. Seus comentários sobre 2 Pedro infelizmente não sobreviveram.

99


2 PEDRO 2:10b “blasfemam os anjos” , ou que “falam desrespeitosamente dos líde­ res eclesiásticos. ” Tudo depende do significado que atribuímos a doxai. Suponhamos que Pedro está pensando em ‘‘blasfemar os anjos. ” Neste caso, a frase, mais uma vez, poderia ser entendida de duas ma­ neiras. Ou “fazem pouco ’’ dos poderes invisíveis, na atitude materia­ lista da qual se queixa v. 12, quando os assemelha a brutos irracio­ nais; ou, alternativamente, “falam com desrespeito” acerca dos se­ res angelicais. Este é o significado em Judas, e talvez aqui também. Pode muito bem ser que os falsos mestres justificassem seus modos licenciosos ao citarem o exemplo dos “filhos de Deus” que convive­ ram com as filhas dos homens (Gn 6:1 ss.). Há considerável argu­ mento rabínico quanto ao ser estes “filhos de Deus” homens ou an­ jos. Se os falsos mestres tomavam este segundo ponto de vista, e cita­ vam os anjos como justificativa da sua imoralidade (e Cirilo de Ale­ xandria atacava com palavras as pessoas que, nos seus dias, faziam exatamente aquilo com a história de Gênesis), realmente estariam blasfemando (lit. “falando dano contra”) os anjos, e levando-os a uma má reputação.1(1A favor desta interpretação, pode ser argumen­ tado que Paulo emprega tanto doxa quanto kuriotês a respeito dos po­ deres angelicais, e o presente contexto faz semelhante interpretação bem viável. Mesmo assim, à luz do v. 12, com sua insistência no crasso materialismo dos hereges, Bigg provavelmente tem razão em preferir a segunda interpretação da frase, e referi-la aos líderes ecle­ siásticos, contra os quais aos falsos mestres eram insubordinados. ‘‘As autoridades da igreja naturalmente repreenderiam os falsos mes­ tres, e estes naturalmente responderiam em linguagem imoderada” (Bigg). Esta, pois, é a natureza dos falsos mestres conforme o que tem sido demonstrado até agora. São dominados pela concupiscência; suas paixões recebem livre vazão, e o resultado é que se comportam como animais, ao passo que os lados mental e espiritual da sua huma­ nidade sofrem atrofia. São cabeçudos, rebeldes contra a vontade de Deus, e não levam em conta as conseqüências. Desprezam outras pessoas, sejam elas humanas ou divinas. São atrevidos; o homem sensual é sempre assim, dominado pela vontade própria, pois em úl­ tima análise o próprio-eu é tudo quanto lhe importa. O inferno dele é 10. Platão atacou os sábios homéricos por esta mesma razão, que nos seus contos de amores entre os deuses e os seres humanos, estavam caluniando o Divino.

100


2 PEDRO 2:10b-ll isto: que seu mundo vai-se encolhendo, até que a única coisa que lhe sobra é o próprio-eu que ele mesmo corrompeu. Quem pode dizer que 2 Pedro é irrelevante à nossa geração? 11. Em contraste com estes cabeçudos, os anjos, embora maio­ res em força e poder, não levam contra ele uma condenação ofensiva na presença do Senhor. O argumento éafortiori. Os falsos mestres não hesitam em trazer acusações vituperativas contra seus superio­ res; ao passo que os anjos nem sempre ousam impugnar seus inferio­ res em tais termos na presença do Senhor. Entendo que este seja o significado geral do versículo, mas a pas­ sagem é extremamente difícil, não somente porque é incerta a situa­ ção histórica, como também porque o grego é ambíguo. Por exemplo, a quem os anjos são superiores? Pedro se refere ksdoxai do versículo anterior, sendo que neste caso ou seriam líderes eclesiásticos ou an­ jos (inferiores)? Ou quer dizer simplesmente que os anjos são vasta­ mente superiores aos falsos mestres blasfemos? Este problema é complicado pela ambigüidade de “eles/elas” (autõn). Quer dizer que os anjos se recusam a acusar as doxai, sejam quem for, ou os hereges? Uma complicação adicional é se a frase na presença do Senhor deve ser omitida, juntamente com Judas 9 e vá­ rios MSS aqui. Não. Por razões intrínsecas, o texto diferente deve ser preferido, e tem melhor atestação do que a omissão. No contexto, também, encaixa-se bem. Diferentemente dos falsos mestres que descuidam do senhorio de Cristo e que tomam liberdades com suas ofensas, os anjos reverenciam seu Senhor de tal maneira, enquanto vivem a totalidade da sua vida na Sua presença, que nenhuma lingua­ gem ofensiva tem licença de passar por seus lábios, ainda que fosse ricamente merecida. Até aqui as complexidades da sintaxe desta passagem. Quanto ao seu significado, os comentaristas diferem entre si de acordo com o pano de fundo que postulam. Alguns consideram as palavras de Pedro uma edição generalizada de Judas 9, e, portanto, vêem como pano de fundo o conflito entre Miguel e o diabo que é referido ali. O diabo rei­ vindicou o corpo de Moisés, quando Miguel estava para enterrá-lo, pela razão de Moisés ter assassinado o egípcio. O arcanjo, ao invés de fazer uma acusação picante contra Satanás, deixou a questão nas mãos de Deus, simplesmente dizendo: “O Senhor te repreenda.” Não há, no entanto, qualquer referência explícita a esta história aqui, 101


2 PEDRO 2:ll-13a e pode ser infundado pressupô-la. Outros, portanto, voltam-se para Enoque à procura de iluminação. Aqui, os arcanjos levam queixas contra os anjos maus diante do Senhor, mas não tomam sobre si a condenação deles. Deixam a questão com D eus.'' Ou esta história, ou a anterior, formaria um contraste apropriado com as línguas indisci­ plinadas e irreverentes dos falsos mestres, e é bem possível que al­ gum acréscimo apócrifo a Zacarias 3:1, 2 subjaz aquilo que Pedro diz aqui. O pano de fundo seria obviamente aparente aos leitores, embora seja obscuro para nós, e talvez seja por esta razão que Pedro não é mais específico, embora seja igualmente possível que não de­ seje citar os Apócrifos. Mais uma possibilidade vale a pena mencio­ nar. É concebível que os hereges fossem libertinos com um rancor específico contra os anjos, Isto porque, de acordo com a tradição ju­ daica, os anjos eram instrumentais em entregar a Lei a Moisés (ver G1 3:19; Hb 2:2). Ora, a Lei continha o sétimo mandamento! Poderia ser que estes mestres do erro consideravam que a licenciosidade tinha va­ lor religioso positivo (cf. a prostituição sacra em muitos sistemas reli­ giosos)? Éporisso que insultavam os anjos? É impossível ter certeza. De qualquer maneira, Pedro está asseverando que estes homens es­ tavam mais livres com sua linguagem do que os próprios anjos, e que não seria coisa má se os cristãos se lembrassem que qualquer conde­ nação doutras pessoas é necessariamente pronunciada “na presença do Senhor.” A consciência da presença dEle amansa a língua. d. Sua arrogância, concupiscência e gula (2:12-16). 1 2 ,13a. Pedro agora lança-se a um ataque direto contra os falsos mes­ tres; arde com indignação moral. Estes homens, longe de possuírem controle próprio angelical, vivem como brutos irracionais conforme os ditames das suas paixões, ou, conforme a tradução da RSV: “como animais irracionais, criaturas dos instintos”, em contraste com o ser racional, o homem. Estas pessoas, no entanto, negligen­ ciaram sua racionalidade e seguiram suas paixões. Muito bem: seu fim será como o dos animais, também. Serão por presa e destruição. Que condenação pitoresca do efeito que o viver como um animal tem sobre o homem! Primeiramente, é preso por suas paixões, e depois, é 11. Em Enoque lxviii Miguel e Rafael, os arcanjos, ficam abismados diante da majes­ tade de Deus e da impiedade dos anjos pecaminosos. Se este trecho estivesse na mente de Pedro, providenciaria um contraste sadio com a atitude dos falsos mes­ tres.

102


2 PEDRO 2:12-13a destruído por elas. Conforme indica Barclay, a sensualidade é autodestrutiva. ‘‘O alvo do homem que se entrega a tais coisas carnais é o prazer; e sua tragédia é que no fim, perde até mesmo o prazer. ’’ Além disto, ele continua: “ por algum tempo pode desfrutar daquilo que chama de prazer, mas no fim, arruina sua saúde, faz naufrágio do seu bem-estar, destrói sua mente e caráter, e começa sua experiência do inferno enquanto ainda está na terra.” O erro deles é confundir a excitação do instinto animal com a presença do Espírito Santo — pois é muito provável que estes defen­ sores da liberdade cristã fossem vocíferos nas suas reivindicações da plenitude do Espírito Santo. Kàsemann notou de modo muito, sagaz (embora a conclusão que tira seja estranha) que tanto os hereges quanto Pedro fazem essencialmente a mesma alegação contra o ou­ tro. Os hereges alegavam ter ‘‘conhecimento ” , ter o Espírito que lhes dava liberdade (tanto da disciplina eclesiástica quanto da restrição moral) que prezavam; consideravam que os ortodoxos estavam desti­ tuídos do Espírito. Pelo contrário, segundo parece que Pedro está dizendo, o Espírito manifesta Sua presença, não por excitações extá­ ticas e ação insubordinada, mas sim, através de renovação moral. Sois vós, os hereges, que sois destituídos do Espírito; comportai-vos como brutos irracionais no nível dos vossos instintos, e acabareis como eles, no matadouro!Pedro, como os demais escritores do Novo Testamento, enfatiza que o cristianismo é inescapavelmente ético. Não se pode ter relacionamento com um Deus bom sem tornar-se um homem melhor. A frase seguinte: falando mal daquilo em que são ignorantes, é obscura no grego. “ Xingando desenfreadamente a respeito de questõeç acerca das quais são ignorantes” (Funk-Debrunner, pág. 84), ou: “derramam injúrias sobre coisas que não entendem” (NEB), são viáveis. Possivelmente enhois, daquilo, queira dizer “porque” , con­ forme às vezes ocorre no grego posterior; destarte, “blasfemam por­ que não entendem” . Pedro se refere à blasfêmia deles contra os an­ jos, se anjos são as personagens referidas pe\a doxai supra? Se for as­ sim, a citação que Mayor faz do Testamento de Aser vii. 1 é apropria­ da: ‘‘Não vos torneis como Sodoma, que deixou de reconhecer os an­ jos do Senhor e foi destruída para sempre. ’’ Mais provavelmente, po­ rém, Pedro se refere à sua imortalidade. Derramam impropérios so­ bre o caminho do auto controle cristão, que, de qualquer maneira, não entendem. 103


2 PEDRO 2:I2-13b Qual será a sorte destes homens? Serão totalmente destruídos e perderão o salário das suas más ações. Tal é a convicção sinistra e sardónica de Pedro. Teoricamente,phthorã autõn kaiphtharêsontai, na sua destruição também hão de ser destruídos, poderia significar: “ até mesmo serão corrompidos por sua vida corrupta” ; será o fim deles. Mas a comparação com aphthora dos animais (v. 12) toma claro que a referência diz respeito à destruição, e não à corrupção. Q grego tem aspectos interessantes aqui. A primeira frase é outro hebraísmo: “ serão, na sua destruição, certamente (kai) ser destruídos” , e Bigg vê aqui três indicações da prioridade de Pedro sobre Judas (cf. Judas 10). O hebraísmo é característico dele, bem como a repetição da pa­ lavra (phthorã phtharêsontai), ao passo que também fica claro que phtora é uma das palavras prediletas de Pedro, pois quatro das oito ocorrências da palavra no Novo Testamento aparecem nesta Epísto­ la. A segunda frase, “ sendo defraudados do salário da fraude” (adikoumenoi misthon adikias; RSV, “ sofrendo injustiça pela injustiça deles”), era antigamente considerada mais um exemplar do “amor a expressões rebuscadas e artificiais” da parte de Pedro (Mayor) por aqueles que não se refugiaram, como Bigg, no texto inferior komioumenoi, que é seguido por ARC: “Recebendo o galardão da injustiça” e que deve ser uma explicação posterior. Mas o uso que Pedro faz de adikoumenoi12 foi vindicado por Pap. Elefant. 24 e 27, onde lemos: “ Quando isto for feito (no contexto: “ quando üm recibo fór dado”) não seremos defraudados (êdikêmenoi esom etha).” Assim parece que Pedro está empregando uma metáfora comercial alta­ mente evocativa para ressaltar que a imoralidade não vale a pena. No fim, defraudará você ao invés de pagá-lo. 13b. Aqui ARA é clara em representar o impacto principal da de­ núncia poderosa feita por Pedro: Considerando como prazer a sua lu­ xúria carnal em pleno dia, quais nódoas e deformidades, eles se rega­ lam nas suas próprias mistificações, enquanto banqueteiam junto convosco. Mais uma vez, porém, os pormenores são incertos. Além dos problemas a respeito de apatais (mistificações; ver abaixo), hSdonê pode significar prazer bom ou mal, truphê, delícia ou luxúria, ao passo que en hêmera (em pleno dia) também pode ser interpretado de 12. Ver também P. W. Skehan, Bíblica, 41 (1, 1960, págs. 69-71) que argumenta de modo válido em prol de adikoumenoi aqui e apatais no versículo seguinte.

104


2 PEDRO 2:13b várias maneiras. Paraspiloi (nódoas) Judas, na sua versão, tem spilades (rochas submersas, Judas 12). A devassidão à luz do dia era censurada até mesmo na sociedade romana degenerada (cf. 1 Ts 5:7), e este fato esclarece as palavras de Pedro em Atos 2:15, que indignadamente refutavam a acusação de ebriedade em plena manhã. Nódoas e deformidades, Pedro os cha­ ma; não somente nódoas no convívio cristão, como também exata­ mente o oposto do caráter de Cristo, a quem ele descreve em 1 Pedro l:19como sendo “ sem defeito e sem mácula”. A igreja deve ser como seu Mestre, “ sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante” (Ef 5:27), mas tais homens compartilham de nada deste caráter. Pedro já nos mostrou nos versículos anteriores como os hereges negam o Se­ nhor que os comprou, pela insubordinação da linguagem deles e pela arrogância da sua atitude. Agora, demonstram aquela negação na falta de caridade do seu comportamento. Estas pândegas à luz do dia são realizadas enquanto banque­ teiam junto convosco. No caso de ser aceito certo texto bem atesta­ do, agapais ao invés de apatais, aconteciam nas Ágapes ou “festas de amor cristão” que acompanhavam a Santa Ceia (ver 1 Co 11:2022). Este é certamente o texto certo na passagem paralela em Judas 12, e faria bom sentido aqui. Sabemos através de 1 Coríntios que a imoralidade e a gula tinham irrompido nas festas de amor cristão na década de 50 em Corinto, e que os perigos deste tipo de abuso mais tarde levaram à descontinuidade das Ágapes. Pode-se sustentar que as palavras em derredor apóiam este texto de agapais; destarte, Cle­ mente de Alexandria” emprega euõchia da Ágape (cf. suneuõchoumenoi, enquanto banqueteiam junto, aqui), e Hipólito14 nos diz que as Ágapes eram realizadas à luz do dia a fim de evitar boatos calunio­ sos. A acusação contra os hereges seria que eram uma vergonha para as Ágapes sóbrias à luz do dia, mediante seu comportamento licen­ cioso. Ainda que o texto apatais (mistificações) fosse preferido aqui, conforme bem pode ser correto, o significado bem poderia ser4‘festas de amor fingidas” , e a alusão ainda diria respeito às Ágapes, embora Pedro estaria empregando uma paronomásia mordaz. Agnoiais (‘‘nas suas ignorâncias”), atestado por alguns poucos MSS, é manifesta­ mente uma glosa, mas há alguma possibilidade de apatais ter o signi­ 13. Paed. ii. 1. 6. 14. Apost. Trad. xxvi.

105


2 PEDRO 2:l3b-14 ficado diluído de “ prazeres” (Deissmann), que dá um significado to­ lerável, mas não muito pungente. Seja qual for o texto certo, a gravidade da sua devassidão é a questão principal em pauta, è Pedro faz a seguinte observação sagaz. A concupiscência está sujeita à lei dos lucros sempre menores. Den­ tro em breve, a mera embriaguez deixa de satisfazer; tem de ser em­ briaguez à luz do dia. A fornicação, semelhantemente, não basta; tem de ser o estupro à mesa da refeição. Sem dúvida, os hereges criavam explicações, dizendo que era a prostituição sacra, realizando na re­ feição cultual a união entre Cristo e Sua igreja — mas a concupiscên­ cia, a concupiscência crua, era a força motriz deles. E a concupiscên­ cia freqüentemente deleita-se em vestir-se de roupas religiosas. 14. Seus olhos estão cheios, diz Pedro, numa frase notável, não de adultério, mas, sim, da “mulher adúltera” (cf. NEB). Cobiçam toda moça que vêem na frente; consideram toda pessoa do sexo femi­ nino como uma adúltera em potencial. Pedro faz outra observação psicológica sábia. Os pensamentos lascivos, se forem conservados em mente e colocados em prática, passam a dominar. Fica impossível para eles olhar para qualqúer mulher sem pensar sobre sua provável realização sexual, e sobre a possibilidade de persuadi-la a satisfazer suas concupiscências. Não somente a concupiscência age como uma irritante; nunca satisfaz. Sempre deixa o homem inquieto, ansiando por mais (que, por sua vez, deixa de satisfazer). Estes libertinos tinham olhos insa­ ciáveis no pecado (akatapaustous hamartias). Pode ser que esta frase deva ser traduzida, como na NEB, “ nunca se descansam do peca­ do” , e neste caso, Pédro estaria aludindo, não à natureza insatisfató­ ria da concupiscência, mas, sim, à escravidão que ela traz consigo. Háuma só saída; o caminho da morte para o pecado, e da ressurreição para a novidade de vida; a única alternativa à negação de Cristo é ser identificado com Ele na Sua morte e ressurreição. É a este caminho da vida vitoriosa que Pedro faz alusão em 1 Pedro 4:1-3: “ aquele que sofreu na carne (i. e., morreu para com o pecado)deixou o pecado.” O verbo que emprega para “deixou” em 1 Pedro é um cognato da palavra rara akatapaustous aqui. Pedro volta-se para outra característica dos libertinos. Engodam ou “ seduzem para a ruína” (NEB) almas inconstantes. A metáfora vem da pesca, e volta a ocorrer no v. 18 ;deleazõ significa “caçar com 106


2 PEDRO 2:14-15 isca” . Seu uso seria especialmente apropriado se Pedro for na reali­ dade o autor da Epístola, mas a palavra também é achada em Tiago 1:14 (e ninguém sugeriu que ele tenha sido um pescador nalgum tem­ po!). Xenofonte fala de homens que são “fisgados” pela sua glutona­ ria15 e Demóstenes conhece homens que são “fisgados” pela ociosi­ dade e por “ ter vida boa” (rh a stO M ) . 16 Almas inconstantes (astêriktoi) descreve os endereçados de Pe­ dro. Eram facilmente derrubados porque não tinham firmado seus pés suficientemente em Cristo. Foi por isso que os falsos mestres re­ presentavam um perigo tão grande para eles. Aqui, mais uma vez, a .palavra comparativamente rara astêriktoi (cf. 1:12; 3:16) vem de modo muito apropriado da parte de Pedro, cujo próprio passado tinha sido tão instável, e a quem Jesus dissera: “Tu, pois, quando te con­ verteres, fortalece (stêrixon) teus irmãos” (Lc 22:32). A acusação seguinte feita por Pedro é calmamente deliberada. Eles tinham se exercitado ou ‘‘treinado ’’ (emprega a palavra de onde deriva nosso “ginásio”) na avareza. Pleonexia (“práticas cobiço­ sas”) é uma palavra difícil de ser plenamente traduzida. Significa o desejo irrefreado por mais e mais coisas; coisas às quais a pessoa não tem direito, coisas das quais não tem necessidade. E freqüentemente empregada a respeito do dinheiro, freqüentemente das relações ilíci­ tas ou desnaturadas. Estes homens tinham se treinado no desejo pelas coisas proibidas. Não é de se estranhar que Pedro termina com ainda mais um hebraísmo expressivo, fdhos malditos, lit. “filhos de uma maldição” . Quer dizer: “A maldição de Deus paira sobre eles!” (NEB). Nada há de vindicativo nisto; é meramente descritivo. Estes homens ficam debaixo da maldição, como todos aqueles que deixam de confiar em Cristo que carregou a maldição devida ao homem (G1 3:10, 13). É paralelo a “filhos da ira” em Efésios 2:13. Para o he­ braísmo, cf. 1 Pedro 1:14, “ filhos da desobediência” — ainda outra ligação sutil entre as duas cartas. 15. Pedro explica como os mestres do erro chegaram a ficar sob a maldição de Deus. Deliberadamente abandonaram o reto caminho, e se desviaram (NEB “ perderam o caminho”). O caminho reto ou di­ reto (cf. ‘‘o caminho da verdade ” , 2:2) é uma metáfora comum no An­ tigo Testamento para representar a obediência a Deus (cf. 1 Sm 12:33; 15. Memorabilia ii. 1. 4. 16. Demóstenes, 241. 2.

107


2 PEDRO 2:15 Ed 8:21), e um paralelo iluminador é achado em Atos 13:10, onde Elimas perverte “os retos caminhos do Senhor” (que por sua vez é uma citação de Oséias 14:10). O resultado de semelhante desobediên­ cia é que os homens se perdem. Há uma ironia trágica no “estado perdido” ser a penalidade da auto-asseveração.17 De que modo, porém, estão perdidos? Por que se diz que se as­ semelham aBalaão? A cobiça é a óbvia questão em pauta. Amou o prêmio da injustiça. Um desenvolvimento sutil desta questão por Bo Reicke enfatiza que Balaão agiu como agente contratado do rei pa­ gão, Balaque. Sugere que “ os sedutores dos cristãos agem como agentes alugados de empregadores estrangeiros” , para encaixar-se na sua teoria de que as pessoas denunciadas nesta Epístola não são tanto libertinas quanto agitadoras pela liberdade política nos dias de Domiciano (81-96 d.C.). Infelizmente, os agitadores políticos não du­ ravam muito tempo nos dias de Domiciano! Calvino pensa que, a es­ sência da comparação aqui é que os hereges ‘‘pelos seus ensinos espa­ lhavam o veneno mortífero da impiedade” , assim como “Balaão em­ pregava sua língua venal para amaldiçoar o povo de Deus” . Ora, é bem certo que a lição principal do relato acerca de Balaão emNúmeros 22-24 diz respeito à sua cobiça; Números 31:16, porém, atribui à influência dele a imoralidade dos israelitas em Baal-Peor (Nm 25). Estes dois fatores decerto se combinavam para fazer dele um protótipo muito útil do falso mestre imoral que visa à ganância. Semelhante tipo aparece em Judas 11, onde é implícita a referência a Baal-Peor (cf. 1 Co 10:8), como também em Apocalipse 2:15, onde a mesma acusação ocorre mais uma vez. Os nicolaítas, como Balaão, parecem ter ensinado que a aliança entre Javé e Seu povo era tão forte que nada poderia estragá-la, certamente nenhum pecadilho insignifi­ cante tal como a fornicação ou a idolatria! Tudo isto era proposto em nome do meio-termo, tanto político quanto social. Como conseqüên­ cia, o uso de Balaão era um golpe de mestre contra o argumento em prol do meio-termo, por mais lucrativo que fosse,.por mais sedutor que sua aparência fosse. Mais uma vez encontramo-nos com esta in­ sistência cristã na ligação inerradicável entre a crença certa no Deus verdadeiro e o comportamento certo. Foi este o elo que a tradição de Balaão procurava romper. Alguns MSS chamam Balaão ‘‘filho de Bosor ” e nãofilho de Beor, neste versículo. Se Bosor for certo, pode ser uma alusão sinistra 17. Ver também sobre Judas 11.

108


2 PEDRO 2:15-17 aos pecados deles, por paronomásia com basar (“carne”). Foi tam­ bém sugerido que este nome representa a falsa pronúncia galiléia da letra gutural no nome hebraico, e , como tal, é talvez uma indicação da autoria petrina; seu sotaque galileu, pois, era facilmente notado (Mt 26:73). 16. Pedro faz muita referência ao incidente de Balaão a fim de encorajar os ortodoxos simples entre seus leitores, que facilmente es­ tariam assoberbados pelos argumentos especiosos dos seus mestres sedutores. “Um asno mudo possuía uma visão profética mais sadia do que um oficial religioso cujo senso moral fora pervertido pela ga­ nância da prática do mal” (Barnett). Elengxis (“repreensão,” “confutação”) não é usada em ne­ nhuma outra parte do Novo Testamento, nem se acha paranomia, “desobediência.” Phthenxamenon (falando) é uma palavra usada para pronunciamentos importantes e portentosos; a fala oracular do asno (justificavelmente) desobediente é contrastada com a loucura do profeta (culposamente) desobediente. Os leitores modernos inevita­ velmente questionam um asno que fala. Esta simplesmente não era uma questão de debate no século I ; ninguém teria sido perturbado por ela. O AntigoTestamento não era um problema paraalgrejaPrimitiva. Não era seu ponto de debate de dados. De qualquer maneira, Pedro e seus leitores, se seguiram o precedente rabínico, teriam considerado o significado literal como sendo de importância mínima. Era o signifi­ cado da mensagem do asno, mais do que a mecânica por detrás da sua fala, que importava. e. A nulidade dos falsos mestres (2:17-22). 17. Depois da sua digressão sobre Balaão, Pedro volta ao ataque. Os sedutores estão descritos em duas metáforas brilhantes. São como fonte sem água. E uma descrição da natureza insatis­ fatória da falsa doutrina. A pessoa chega a ela como a uma nova fonte emocionante — e descobre que não tem água para oferecer.18 É so­ mente em contato com Cristo, a água da vida (Jo 4:13, 14), que o ho­ mem achará satisfação permanente, e qüe, na verdade, derramará do íntimo do seu ser água que satisfará os sedentos em derredor (Jo 18. Pode haver uma alusão a Pv 10:11; 13:14; 14:27; Jr 2:13 aqui.

109


2 PEDRO 2: 17-18 7:38). A heterodoxia é uma grande novidade na sala de aulas; é ex­ tremamente insatisfatória na paróquia. Há também névoas impelidas por temporal. É uma descrição da instabilidade dos falsos mestres e da natureza efêmera dos seus ensi­ nos. Basta visitar uma livraria de teologia que vende livros usados, com suas pilhas de lixo que não pode ser vendido, para perceber a força desta expressão. Bigg, no entanto, entende-a de modo bem dife­ rente. Pensa que as névoas representam o modo de os mestres do erro obscurecerem a verdade, e traduz elaunomai, não como “levadas embora” mas, sim, por “levadas adiante” . Destarte, são “ impelidos pelas ferozes lufadas da ignorância e da obstinação, como por um demônio” . Uma terceira maneira de interpretar a expressão é seguir ARC e ver os falsos mestres comparados, não a névoas, mas, sim, a “nuvens levadas pela força do vento”; oferecem promessas de chu­ vas que refrescam mas, ao invés disto, são arrancadas para longe sem derramar uma gota sequer. E exatamente porque têm, por assim di­ zer, a “forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder” (2 Tm 3:5), não terão lugar no reino da luz. Pedro emprega o mesmo verbo, têrein (“guardar” , “conservar”), em 1 Pedro 1:4, quando fala da he­ rança celestial reservada para os seguidores fiéis de Jesus. Quanto às trevas reservadas para os hereges, Calvino escreve: “ Ao invés das trevas momentâneas que agora espalham, há preparadas para eles trevas mais grossas, e eternas. ” Certamente compreendeu a ligação entre o crime dos mestres do erro e seu castigo, o que não foi perce­ bida pela maioria dos comentaristas que se queixam que as trevas são uma condenação muito inapropriada para névoas ou fontes! A fraseologia neste versículo é poética e grandiosa. E interessante ver quantas palavras homéricas e trágicas, tais como zophos (trevas), phthengein (proferir), homichlai (névoas), passararn para o uso co­ mum no grego koirié e, aliás, reapareceram no grego moderno. A rari­ dade de homichlai no Novo Testamento é o texto nephelai na passa­ gem paralela, Judas 12, induziram a inserção de nephelai para homi­ chlai aqui nalguns MSS — erroneamente. 18. Empregavam palavras grandes, ponderosas (huperonka, jactanciosas, significa “desnaturadamente inchadas”) nos seus dis­ cursos (esta é a nuança de phthengomenoi, lit. proferindo); são, po­ rém, palavras que não somam nada de relevância (mataiotêtos, de vaidade, é um genitivo descritivo). A verbosidade pomposa era sua arma para pegar os desprevenidos na armadilha, e a licenciosidade 110


2 PEDRO 2:18 era a isca no seu anzol. Para deleazõ, ver sobre v. 14. Libertinagens traduz aselgeiais, palavra esta que é extremamente difícil pela sinta­ xe. Está em aposição às paixões carnais? Ou é um dativo instrumen­ tal, “por libertinagens desavergonhadas” ? Ou devemos acompanhar alguns MSS com o texto aselgeiãs, e ter um problema de sintaxe igualmente difícil em nossas mãos, que necessitaria entender queja/-kos depende de aselgeias, com uma tradução resultante tal como “nas paixões da libertinagem carnal” ? Sem dúvida, estes mestres sustentavam que a salvação da alma imortal era tudo quanto importava. Uma vez que esta foi garantida através do conhecimento (gnõsis) que eles mesmos podiam transmitir aos discípulos, então pouco importava o que o homem fizesse com seu corpo. Talvez tenham sugerido que os profundamente espirituais devessem expressar sexualmente a sua religião, conforme faziam al­ guns hereges do século II. Paulo tinha de enfrentar falsos ensinos se­ melhantes acerca da natureza do corpo em 1 Coríntios 6, e enfrentava-os mediante a asseveração de que o corpo realmente é de grande importância; é o templo onde o Espírito de Deus Se apraz em habitar; este corpo ressuscitará; e é a posse comprada por Cristo, a quem pertence. O homem é uma unidade. Aquilo que faz com seu corpo afeta a totalidade da personalidade..Esta consideração sempre deve fixar limites ao exercício da liberdade do cristão. Ver sobre v. 19. Mas a quem estavam corrompendo? “ Aqueles que acabam de sacudir de si os grilhões dos associados pagãos” é a interpretação mais provável, mas problemas textuais complicam a questão. De­ vemos 1er apophugontas, “os que fugiram” , ou apopheugontas, “ os que estão escapando” ou talvez “ estão prestes a fugir” ? Provavel­ mente esta última tradução: o particípio do aoristo pode ter entrado sob o efeito do v. 20. Se aceitarmos o segundo texto, aqui, um particí­ pio do presente, indica um grau menor de realização cristã. ' Outro 19. Democracie Hemmerdinger-Iliadon, escrevendo na Revue'Biblique, 1957, pág. 399, acredita que descobriu o texto original desta passagem num palimpsesto de Efraém Siro, tous tous logous apopheugontas tous eutheis kai tous en planë anastrephomenous, “ aqueles que fogem das palavras retas e aqueles que vivem no er­ ro” . O siríaco Harkleano tem algo bem semelhante: “ os que com poucas palavras fogem daqueles que vivem no erro. ” Se este for realmente o texto certo, é fasci­ nante que tenha sido preservado na Igreja Síria, onde durante tanto tempo 2 Pedro não foi reconhecido como sendo canônico, e acima de tudo em Efraém Siro, pois anteriormente pensava-se que ele não tinha consciência da existência de 2 Pedro !

111


2 PEDRO 2:18-19 problema é este: Devemos ler ontõs “real e verdadeiramente’’ ou oligõs, que pode significar ou “por pouco tempo” (i. e., muito recente­ mente), ou “em pequena medida” ? Os dois textos são quase indistingüíveis nos MSS unciais. Oligõs acompanha melhor o particípio do presente: aqueles que estavam prestes a fugir; ontõs seria melhor, no caso de aceitarmos o particípio do aoristo, fugidos de tudo. De qual­ quer maneira, fica claro que o pecado grosseiro dos falsos mestres era corromper cristãos relativamente novos, as almas inconstantes do v. 14. Conforme nota Bigg, “Há grande paixão nestas palavras. O so­ fisma grandioso é o anzol, a concupiscência imunda é a isca, com os quais estes homens .pescam aqueles que o Senhor libertara ou que es­ tava libertando. ’’ Aqueles no fim do versículo, os que andam no erro devem ser pagãos, não, conforme é freqüentemente sugerido, os fal­ sos mestres. São estes últimos que estão praticando a corrupção; não são a sociedade que os ortodoxos acabaram de deixar. Os valentinianos, segundo Irineu, eram peritos em apresentar aos novos crentes conversa altissonante que servia de máscara para a mais vil obscenidade. Nem sequer a tendência de vestir e enfeitar o vício como a virtude diminuiu durante as gerações posteriores. Em nossos próprios dias, um bispo pode publicamente descrever o amasio (adúltero) em O Amante de Lady Chatterley “como sendo, num sentido real, um ato de santa comunhão,” 21’ e um professor universi­ tário de teologia pode defender a fornicação (em certas circunstân­ cias) como sendo uma forma de caridade. “Esta carta pode, portanto, ser de considerável vantagem aos nossos tempos” (Calvino). 19. A introspecção psicológica deste versículo é profunda. Os falsos mestres prom etem ... liberdade, —-justamente aquilo que não têm! Na sua busca de auto-expressão, caíram na escravidão ao próprio-eu. Aos homens que começaram a desfrutar do paradoxo da liberdade daphthora, da corrupção dos dias pré-cristãos, mediante a servidão voluntária a Cristo como Senhor (cf. 2:1), os hereges prome­ teram um novo paradoxo: a liberdade das regras do amor impostas pelo seu novo Mestre — para então' lançá-los de volta na escravidão em que eles mesmos viviam. Nenhum homem pode servir a dois mes­ 20. Noto que Clemente de Alexandria ataca especialmente os hereges que chamam sua fornicação de “ comunhão mística” : “sunt autem, qui etiam pallicam venerem pronuntiant mysticam communionem; et sic ipsum nomen contumelia afficiunt” (Strom. iii. 4). Realmente, outros tempos, outros costumes!

112


2 PEDRO 2:19-20 tres; mas todos os homens devem servir a um só. Estes hereges náo foram os últimos que colocaram a liberdade contra a lei. Mesmo as­ sim, a liberdade da qual se jactavam tornou-se em licenciosidade, e gerou uma nova escravidão. Do outro lado, a alegre servidão à lei de Cristo, que era tão depreciada pelos falsos mestres, leva, na realida­ de, a uma emancipação mais completa do que os mestres do erro po­ deriam ter imaginado em qualquer tempo. Pedro já demonstrara em 1:3, 4 que a verdadeira liberdade, o verdadeiro escape das garras im­ placáveis d&phthora, vem mediante o conhecimento de Jesus Cristo. Aqui, pois, mostra que o preceito e o amor, a caridade e a castidade, a lei e ó evangelho não combatem entre si, mas, sim, são correlativos. Sempre é o caminho da licenciosidade defender a causa do evangelho sobre a lei, e o da ortodoxia morta defender a causa do preceito sobre o amor. O viver cristão sadio vem quando os mandamentos de Deus são vistos como as guias de pedra ao longo da Sua estrada de amor, a cerca viva que protege Seu jardim da graça. Note a sutileza dos particípios presentes neste versículo. Conti­ nuam tagarelando acerca da liberdade quando, o tempo todo, eles mesmos têm estado (e ainda estão) na prisão da concupiscência. Ro­ manos 6:6 e João 8:34 são paralelos óbvios. Jesus disse aos judeus, que se orgulhavam da sua liberdade, que realmente eram escravos do seu próprio-eu pecaminoso. Barclay cita o apotegma de Sêneca: “ ser escravizado por si mesmo é a mais pesada de todas as servitudes.” 20. Às vezes é sustentado que Pedro se refere neste versículo a crentes jovens e instáveis; neste caso, os que são descritos nos vv. 18 e 20 como tendo escapado das contaminações do mundo seriam as mesmas pessoas. Mas é melhor supor que os falsos mestres conti­ nuam a ser os sujeitos em consideração, visto que o portanto liga este versículo ao anterior, onde os falsos mestres foram chamados escra­ vos da corrupção. O sujeito do parágrafo inteiro é, portanto, o mes­ mo, e, além disto, os vencidos nos vv. 19 e 20 também são os mes­ mos. Pode haver pouca dúvida de que os falsos mestres originalmente tinham sido cristãos ortodoxos. Miasmata, contaminações, ocorre somente aqui no Novo Testamento, mas é achada na LXX e na tragé­ dia grega; ocorre também no Apocalipse de Pedro, 9, “a contamina­ ção do adultério”. O mundo é a sociedade alienada de Deus (cf. seu uso freqüente neste sentido em 1 João). Sua via de escape era chegar a conhecer o (alguns MSS dizem “nosso”) Senhor. Versobre 1:3. Ago113


2 PEDRO 2:20-21 ra, porém, se deixam enredar de novo (outra metáfora da pesca, como deleazõnosvv. 14,18) por aquelas mesmas contaminações, e venci­ dos por elas. Ao invés de confiarem no aprofundamento do conheci­ mento de... Cristo para a libertação, estas pessoas continuavam a fa­ lar acerca do conhecimento, mas agora era meramente conhecimento intelectual, sustentado com toda a arrogância e exclusividade de uma seita. Continuavam a falar acerca da liberdade, mas, apesar de todas as suas frases altissonantes, nada sabiam acerca dela na prática. Como os homens em Hebreus 10:26, tinham apostatado.21 Pedro está convicto de que o último estado de tais homens está pior do que o primeiro. Um servo que desobedece deliberadamente ao seu senhor é muito mais culpável do que aquele que desobedece por ignorância. Parece haver uma alusão aqui às palavras de Jesus em Lucas 12:47-48. Mas há uma alusão não menos clara ao estado do homem que se viu livre de um espírito imundo pará então ser inyadido por sete outros (Mt 12:45; Lc 11:26). Realmente, é quase uma cita­ ção direta. A única diferença é iluminadora. Jesus diz: “O último es­ tado daquele homem se torna pior do que o primeiro” , e profetiza: “ Assim também acontecerá a esta geração perversa.” Pedro diz, com efeito, que a profecia de Jesus se revelou verdadeira: o último estado dos falsos mestres revelou-se pior do que o primeiro. Esta se­ ria uma adaptação muito natural das palavras de Jesus se Pedro real­ mente for o autor desta Epístola; num falsificador, este seria um to­ que muito sofisticado. 21. Pedro prossegue no tema de que a ignorância do caminho da justiça é preferível à apostasia dele. “O Caminho ’’ era, naturalmente, o nome primitivo do cristianismo, e Pedro deleita-se em usá-lo e adaptá-lo (cf. “ o caminho da verdade” , 2:2; “ o reto caminho” , 2:15). ‘‘O caminho dajustiça” ” aqui pode também ser um eco das palavras de Jesus em Mateus 21:32, onde a mesma frase é achada; e é retomada duas vezes no Apocalipse de Pedro. Ao fazerem do “conhecimento” seu lema (a raiz aparece três vezes nestes dois versículos) os hereges pecavam contra o conhecimento. Chamar as trevas de luz, chamar a escravidão de liberdade, é pecado imperdoável, e isto não porque Deus está indisposto a perdoar, mas, sim, porque o homem que per­ siste em semelhante delusão de si mesmo recusa-se a aceitar o perdão 21. Sobre a possibilidade da apostasia, ver meu livro The Meaning o f Salvation, 1965, capítulo xi. 22. Isto mais uma vez nos leva de volta a Provérbios (8:20; 12:28, etc.).

114


2 PEDRO 2:21 que Deus pacientemente oferece aos rebeldes. Há alguma confusão no texto, que dá testemunho a três palavras diferentes para “volver para trás” e duas (ek e apo) para “do” . Al­ guns MSS também acrescentam “de volta para trás” depois de “ vol­ ver” . Tudo isto faz pouca diferença ao sentido, embora ek (“ fora de”) subentenda, que apo (“ para longe de”) não subentende, que certa vez estavam dentro do âmbito do santo mandamento que lhes fora dado (i. e., eram cristãos). Este, porém, é pouco consolo para aqueles que dogmaticamente negariam a possibilidade de um cristão apostatar. Ainda é necessário enfrentar o fato de que se diz que estes homens conheciam (e o conhecimento significa uma comunhão pes­ soal no uso de Pedro, ver 1:2; 2:20; 3:18) o caminho da justiça e que tinham escapado, em certa ocasião no passado, das corrupções do mundo. Os paralelos com Hebreus 3:12-18; 6:6; 10:26, 38-39; 1 Coríntios 10:1-12; Judas 4-6, são claros e inconfundíveis. A apostasia pa­ rece ser uma possibilidade real e horrível. E, penso eu, uma inferência razoável do texto que a primeira etapa na sua apostasia era a rejeição da categoria da lei. Cristãos tão iluminados quanto eles, cheios de um conhecimento que os emanci­ pava das reivindicações da moralidade, não tinham necessidade do santo mandamento. Eram estes os precursores daqueles que, em tempos posteriores, colocavam o amor em contraste com a lei? A lei, porém, é a dádiva do amor de Deus. O santo mandamento é dado ao homem, para seu próprio bem, por Deus, conforme o livro de Deuteronômio continuamente ressalta: “te ordenõ hoje para teu bem.” A rejeição da lei de Deus é o primeiro passo para a rejeição do próprio Deus, pois Deus é um ser moral; Ele é santo, e santo deve ser o ho­ mem que tem comunhão com Ele (ver 1 Pé 1:15). A linguagem exata é relevante aqui. Com entolê no singular (incomum, porém com paralelos em 3:2; 1 Tm 6:14; 1 Jo 3:23) Pedro mostra que é um lugar para a lei, e não os preceitos pormenorizados da lei, em prol do que está lutando. Sua idéia de lei parece ser a da lei moral que Jesus suhlinhou no Seu Sermão da Montanha. Por dado, Pedro quer dizer a tradição oral do ensino cristão primitivo, derivada da antiga halakah judaica, que tem sido o assunto de muito estudo cuidadoso em anos recentes.21 Há algum paralelo com esta frase em 23. Ver Ensaios I e II em E. G. Selwyn, The First Epistle o f St. Peter (1946), Carrington, Primitive Christian Catechism (1940) e o ensaio de O. Cullmann “The Tradition” no seu livro, The Earty Church (1956).

115


2 PEDRO 2:21-22 Judas 3, onde fala da “fé que uma vez por todas foi entregue aos san­ tos” , embora Pedro veja o cristianismo mais em termos do santo mandamento, ao passo que Judas o veja mais em termos de “a fé ” . 22. Pedro termina este capítulo de denúncia comovente e forte invectiva com dois provérbios que descrevem aptamente a situação dos falsos mestres. Seu castigo é que serão entregues à sorte que es­ colheram. A qualidade horrível e irrevogável do inferno acha-se jus­ tamente aqui: Deus confirma a escolha deliberada do homem. No fim, todos nós vamos “para nosso próprio lugar” . O cachorro que se viu livre da corrupção dentro dele por meio de vomitar não pode deixar o assunto em paz; volta a cheirar o vômito. A porca que se viu livre da corrupção fora dela por meio de um esfregamento com uma escova não pode resistir rolar no monturo de estrume. “O evangelho é um remédio que nos purga como um emético sadio, mas há muitos cachorros que engolem de novo aquilo que vomitaram, para sua própria ruína. De modo semelhante, o evangelho éumabaciaque nos limpadanossa sujeira e manchas, mas há muitos porcos que, imediatamente após terem sido lavados, voltam arolar-se na lama. Destarte, os piedosos são advertidos a acautelar-se dos dois perigos se não quiserem ser incluídos nas fileiras dos cachorros è dos porcos” (Calvino). Pedro chama estas expressões de proverbiais, e podemos restringir-nos á deixar o assunto ali. Provavelmente as tirou dalgüma coletânea popular. A primeira parece ser bíblica (Pv 26:11), a segun­ da, não. Mesmo assim, encaixa-se no versículo com muita proprieda­ de, e reaparece na história síria deAhikar, que certamente existia até ao século II, e, portanto, bem pode ter sido conhecida por nosso au­ tor. Aliás, nahistóriadeAW&ar, segue um provérbio acerca de um cachor­ ro. “Meu filho, tu tens sido para mim como um porco que tinha ido aos banhos, e que, quando viu umafossalamacenta, desceu e lavou-se nela, e clamou para seus companheiros: ‘Vinde banhar-vos’. ”24Borboros, la­ maçal , uma palavra poética rara que se acha, fora daqui, somente na LXX de Jeremias 45:6, onde descreve a sujeira da prisão de Jeremias. Mas é empregada no Apocalypse de Pedro viii para a imundícia do inferno, e também é achada nos Atos de Tomé lv. Exerama, vômito, também é um 24. Ahikar viii. 18 A recensão árabe fica um pouco mais perto de 2 Pedro: diz: “ foi para os banhos quentes com pessoas de qualidade, e quando saiu do banho quente viu um buraco imundo e desceu para chafurdar-se nele” (viii. 15).

116


2 PEDRO 2:22 hapax legomenon do Novo Testamento (a palavra em Provérbios é emeton), como também é kulismos, revolver-se, (não kulisma, como na maio­ ria dos MSS inferiores). De modo significante, cachorros e porcos são unidos por Jesus, em Mateus 7:6, como retratos da humanidade fora de contato com Deus. Ambos eram animais impuros para os judeus. Por que Pedro gastou tanta pólvora e munição contra os falsos mestres, neste capítulo? Porque é primariamente um pastor. Está ocupado em alimentar as ovelhas do seu Mestre (cf. Jo 21:15-17; 1 Pe 5:1 ss), e fica furioso ao descobrir que estão sendo envenenadas pela concupiscência disfarçada em religião. É somente ao prestar uma atenção muito corrida ao conteúdo desta passagem que Kásemann pode dizer: “O ataque contra os hereges adotou um caráter rígido e estereotipado, porque o escritor já não está levando adiante a campa­ nha na base da sua própria experiência.” É de pouco crédito para nossa geração que semelhante paixão pela verdade e pela santidade soe uma nota estranha em nossas mentes. A linguagem clara de Pedro neste capítulo tem um propósito muito prático, assim como tinham as advertências de Jesus: “ O que, porém, vos digo, digo a todos: Vi­ giai!” Estaríamos enganados se pressupuséssemos: “ Isto nunca po­ deria acontecer a nós. ” Mas a Escritura e a experiência nos assegu­ ram que poderia. “Aquele, pois, que pensa estar em pé, veja que não caia” (1 Co 10:12). A cobiça, os argumentos sofisticados, o orgulho no conhecer, a glutonaria, à bebedice, a concupiscência, a arrogância contra a autoridade de todos os tipos, e, acima de tudo, o perigo de negar o senhorio do Redentor— não são estas as tentações supremas do homem do século XX, louco pelo dinheiro, pelo sexo, materialista, antiautoritário?

117


Capítulo Três a. Reiterado o propósito da carta (3:1, 2). 1. Neste capítulo Pedro volta de fustigar os hereges para encorajar os fiéis. Chama-os de amados enquanto os conclama às lembranças. Ju­ das também altera sua alavanca do ataque para o encorajamento ao chamar seus leitores de “ amados” (17). O título ocorre três vezes neste último capítulo de 2 Pedro, em contextos significantes: “Ama­ dos... recordai-vos” (2); “Amados, vivei irrepreensíveis” (14); “ Amados, acautelai-vos” (17). A veemência do seu ataque no último capítulo, e a repetição das suas lembranças aqui, igualmente brotam de um coração pastoral de amor para com seu rebanho. Sobre o tema de lembrar, ver sobre 1:12, 13. Moffatt cita Dr. Johnson de modo apropriado: “Não é levado su­ ficientemente em consideração que os homens requerem mais fre­ qüentemente ser lembrados do que informados. ” Mente esclarecida traduzeilikrinêdianoian, frase esta que Platão emprega com o signifi­ cado de “razão pura”, não contaminada pela influência sedutora dos sentidos. Pedro adotou o que viera a ser um chavão, e encorajou seus leitores ao dizer-lhes que acreditava que suas mentes não estavam contaminadas pela concupiscência e heresia em derredor deles? Cer­ tamente^ afeição que derrama sobre eles, o elogio que lhes faz, e a confiança que neles expressa são marcas do pastor cristão sábio e perspicaz trabalhando no meio do seu rebanho. A segunda epístola sugere mais naturalmente uma alusão a 1 Pe­ dro. Certamente isto estaria na mente do autor se 2 Pedro fosse pseu­ dônimo; seria a marca mais clara do falsificador procurando fazer do apóstolo o pai da sua obra. Dificilmente, porém, pode ser dito que 1 Pedro é primariamente uma carta de lembrança, e muito menos uma dissuasão contra a heresia, conforme estes dois versículos parecem 118


2 PEDRO 3:1-2 dar a entender. Além disto, embora o autor de 1 Pedro claramente não tinha qualquer conexão estreita e pessoal com o círculo muito espa­ lhado dos seus leitores em cinco províncias diferentes do Império, nosso presente escritor conhece bem seus leitores. E provavelmente melhor, portanto, supor juntamente com Zahn e Spitta, que se esta carta realmente for petrina, refere-se, não a 1 Pedro, mas, sim, a uma carta anterior dele aos mesmos leitores. Esta, também, deve ter so­ frido o destino da maioria da correspondência apostólica, e ter sido perdida à posteridade.1 2. A procissão contínua de genitivos que marca este versículo em grego é extremamente áspera. AV sai da dificuldade seguindo um texto inferior: “por nós, os apóstolos.” RV, RSV e NEB entendem que a frase significa “dadas pelo Senhor através dos vossos apósto­ los’’, mas isto é ainda mais difícil de derivar do grego. Mayor entende que é um genitivo possessivo duplo: o mandamento é dos apóstolos, e eles são de Cristo. Bigg talvez tenha razão em entender que a frase final é um pensamento posterior, “os mandamentos dos apóstolos, ou melhor, devo dizer, do Senhor” . De qualquer maneira, o signifi­ cado é bastante claro, e ressalta a conexão entre os profetas que pre­ nunciaram a verdade cristã, Cristo que a exemplificou, e os apóstolos que deram dela uma interpretação autorizada.2 A auto-revelação de Deus devia ser vista na Palavra de Deus escrita nas escrituras proféti­ cas, e a mensagem falada através da proclamação apostólica (ver Ef 2:20; 3:5). A fonte da sua autoridade era o Espírito que inspirava am­ bas ( E f 3:5; 2P e 1:16-21; 1 Pe 1:10-12). Pedro já declarara em 1:16 que, sob a influência deste mesmo Espírito de Deus, tanto os apósto­ los quanto os profetas dão testemunho do “poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” . Fica claro que os hereges questionavam estes dois atributos. No capítulo2 são corrigidos por negarem a autoridade do Senhor que os comprou, e por desprezarem o Seu poder. No capí­ tulo 3 serão repreendidos por duvidarem da realidade da Sua parusia. 1. Cf 1Co 5:9, onde Paulo se refere a uma carta sua que quase certamente não sobre­ viveu. Ver a Introdução, pág. 34. 2. Um exemplo especialmente iluminador da atitude subapostólica ao lugar dos após­ tolos e profetas na unidade da revelação bíblica é Policarpo, Ep. VI: “ Sirvamos a Jesus com toda a reverência e temor, pois Ele mesmo deu ordens, bem como os apóstolos que nos pregaram o evangelho, e os profetas que proclamaram de ante­ mão a vinda do Senhor.”

119


2 PEDRO 3:2 Quanto ao conteúdo do mandamento, há três pontos de vista possíveis. É possível que Pedro esteja dizendo que devam lembrar-se da revelação de Deus em geral, através dos apóstolos e profetas. Al­ ternativamente, pode ser uma referência específica à parusia, certa porque está fundamentada tanto no ensino dos profetas do Antigo Testamento quanto naquele dos apóstolos do Novo Testamento: as­ sim acha a maioria dos comentaristas, e o conteúdo deste capítulo pode apoiar este ponto de vista. Ou pode ser simplesmente uma refe­ rência às próprias advertências de Pedro. Assim seria conservada a conexão natural com v. 3. Tanto os profetas quanto os apóstolos fa­ zem advertências explícitas acerca dos perigos dos falsos mestres. É acerca destes que Pedro está lembrando seus leitores. Este é certa­ mente o significado da passagem paralela em Judas 17, onde a parusia não está em questão — mas somente os falsos ensinos. Note que Pedro mais uma vez emprega o título integral, Senhor e Salvador, provavelmente porque está para enfatizar o elemento fu­ turo na salvação, que os zombadores ridicularizam. Jesus não so­ mente nos salva do passado (1:1-4), e é nosso Salvador no presente (2:20), mas também nos salva para o futuro. Negar a segunda vinda de Jesus é negar Jesus como Salvador. O emprego de santos com profetas é geralmente tomado como marca de inautenticidade. Na época em que este foijador escreveu, diz-se, os profetas se tornaram estilizados como santos. Apesar disto, “ santos profetas” é achado noBenedictus, que é universalmente re­ conhecido como sendo um hino cristão muito primitivo (Lc 1:70), e, conforme acreditam alguns estudiosos, talvez tenha sido adaptado de um cântico dos tempos dos Macabeus. De qualquer maneira, a frase tem antecedentes reputáveis, e não precisa causar surpresa aqui. Os profetas eram tradicionalmente homens santos ém Israel; foram, num sentido especial, separados para Deus, e estavam em comunhão com Ele. Destarte, “ santos apóstolos e profetas” em Efésios 2:20 não é ne­ nhum anacronismo, e os profetas em 2 Pedro 1:19, 21 também são apropriadamente chamados “ santos” . Se a totalidade do povo de Deus pode ser chamada/lo; hagioi (‘‘os santos ”) tanto no Antigo Tes­ tamento quanto no Novo, é difícil perceber por que este epíteto deva ser negado aos profetas e apóstolos. Vossos apóstolos não significa “vossos missionários” , as pes­ soas que vos evangelizaram. Quando os escritores do Novo Testa­ mento querem dizer meramente ‘‘emissário eclesiástico ’’ por apósto­

120


2 PEDRO 3:2-3 los, declaram esta intenção, ou o contexto o toma claro (Fp 2:25). Pe­ dro aqui se refere aos apóstolos de Jesus Cristo. São eles, e eles so­ mente, que são colocados no mesmo nível que os profetas do Antigo Testamento. Não há nenhuma necessidade de considerar a frase “vossos apóstolos” como prova da existência de um falsificador. Longe disto! Este conceito da função do apostolado está rigorosa­ mente em conformidade com o conceito primitivo do ministério, como sendo homens chamados primariamente para servir, e não para dominar (cf. 1 Co 3:21-23).3 Este conceito desapareceu rapidamente (já quase se fora até os tempos de Inácio, nos primeiros anos do sé­ culo II), e este fato, por si só, torna improvável uma data avançada para esta Epístola. A frase é especialmente apropriada aqui. ‘“ Vos­ sos apóstolos’ são os homens em que deveis confiar; não escuteis os falsos mestres com os quais não tendes nem parte nem sorte” (Bigg). Ao invés de fábulas engenhosamente inventadas, os apóstolos trans­ mitem a verdade de Deus (1:16).

b. O escárnio dos que zombam da segunda vinda (3:3, 4). 3. Tendo em conta, antes de tudo. Pedro já usou esta frase em cone­ xão com a profecia (1:20); agora a repete no contexto de uma adver­ tência apostólica. Era importante para eles saberem que as atividades dos escarnecedores não eram inesperadas pelos apóstolos. Atos 20:29-31 dá um exemplo semelhante da advertência apostólica; 1 Ti­ móteo 4:1 ss. dá outro. A gramática parece frouxa aqui, mas prova­ velmente o particípio nominativo (tendo em conta) concorde com os amados do v. 1. Alternativamente, o particípio pode representar um imperativo (assim NEB: “ notai isto primeiro”). Os escarnecedores já estavam presentes, naturalmente, mas os apóstolos tinham dado aviso prévio da chegada deles (daí o emprego do tempo futuro)nos últimos dias. Esta é uma descrição fascinante da era cristã, e conserva a tensão entre aquilo que já é realizado em Cristo e aquilo que jaz no futuro. A vinda dEle ao mundo era o evento decisivo na história humana. Era “a plenitude do tempo” (G1 4:4), “ os últimos dias” (Hb 1:2). Com o advento de Jesus, o último capí­ tulo da história humana começara, embora ainda não tivesse sido completado. Entre os dois adventos, estende-se o último tempo, o 3. Ver capítulo 2 do meu livro Called to Serve, 1964.

121


2 PEDRO 3:3-4 tempo da graça, o tempo da oposição também. Para a predição dos falsos mestres nos últimos dias, ver Mateus 24:3-5,11,23-26; ^Timó­ teo 3:1 ss.; Tiago 5:3; Judas 18. Tais falsos ensinos e apostasia eram vistos como parte das dores de parto necessárias antes de nascer a era messiânica em toda a sua plenitude. Os falsos mestres são descritos por um hebraísmo pleonástico, escarnecedores com os seus escárnios (Judas 18 omite com os seus escárnios). Estes homens zombam da parusia e, ao mesmo tempo, andam segundo as próprias paixões. O cinismo e a satisfação dos próprios desejos regularmente se acompanham. A ênfase renovada dada à concupiscência daqueles que está resistindo torna quase certo que Pedro tem em vista os mesmos homens aqui como no capítulo 2; não são dois grupos diferentes de oponentes. Estes homens não es­ carnecem simplesmente porque a segunda vinda está demorando; riem-se da própria idéia dela. Se tivermos razão em ver algo de um sabor protognóstico nesta heresia, esta característica específica se encaixaria muito bem com aquilo que já vimos no capítulo 2. A arro­ gância intelectual, o esnobismo social, o desprezo para o que é físico, e a sensualidade que tão freqüentemente acompanha tal atitude — tudo isto os tornaria tão opostos à noção do julgamento, inerente na parusia, como seus equivalentes em Corinto eram contrários à idéia da ressurreição do corpo. O hedonismo antropocêntrico sempre zomba da idéia de padrões ulteriores, e uma divisão final entre os sal­ vos e os perdidos. Para homens que vivem no mundo do relativo, a declaração de que o relativo será levado ao fim pelo absoluto é nada menos do que ridícula. Para os homens que nutrem uma crença na auto determinação e perfectibilidade humanas, pois, a própria idéia de que somos dependentes e teremos que prestar contas é uma pílula amarga para engolir. Não é por nada que escarneciam! Para um exemplo veterotestamentário de uma situação e mensagem seme­ lhantes, ver Isaías 28:14-22. 4. E scamecem da volta de Cristo porque anos se passaram e não aconteceu — todas as coisas permanecem como desde o princípio. Destarte, sustentam que a promessa de Deus não é fidedigna, e que o universo de Deus é um sistema estável e imutável onde eventos como a parusia simplesmente não acontecem. Pedro responde às suas objeções na ordem inversa. Esta atitude para com a segunda vinda não nos ajuda a datar a carta com precisão, mas, dentro das suas limita122


2 PEDRO 3:4 ções, apóia uma data recuada e não uma data avançada. Já em mea­ dos do século II, data à qual muitas pessoas desejam atribuir a Epís­ tola, esta queixa decerto já estava bastante velha demais! Sabemos por meio de 1 Tessalonicenses 4 e 1 Coríntios 15, que a questão era aguda na década de 50 do século I. Mayor indica que há sinais de im­ paciência com a demora nos documentos neotestamentários de cerca deste período, e cita Tiago 5:7-8; Hebreus 10:36-37; Lucas 12:45. A dúvida deve ter surgido na medida em que a primeira geração come­ çava a morrer, tendo em vista as palavras de Jesus em passagens tais como Mateus 10:23; 16:28; 24:34. Que queixas tais como esta eram bastante comuns fica claro numa citação daquilo que 1 Clemente xxiii chama de “Escritura” (graphê) e2Clemente 11 “ a palavra profética” A citação é da seguinte forma: “Miseráveis são aqueles de mente du­ pla que duvidam na sua alma e dizem: ‘Estas coisas ouvimos nos dias dos nossos antepassados (paterõn) também; e eis que ficamos velhos e nenhuma delas nos aconteceu’” (ou, conforme termina a versão de 2 Clemente, “e nós, embora as esperássemos dia após dia, não vimos nenhuma delas” .) Evidentemente, ambos citam algum tipo de profe­ cia ou apocalipse cristão que não sobreviveu, mas que foi criado para lidar com este problema premente da demora da parusia. M . R. James cita um comentário rabínico sobre Salmo 89:50: “ Zombaram da vinda do M essias” e “Ele atrasa tanto que eles dizem: ‘Ele nunca virá’. ” Este fato nos mostra que o tópico estava vivo nos círculos judaicos bem como nos cristãos. Os escarnecedores apoiavam seu ceticismo quanto à idéia de que Deus irromperia de modo decisivo no meio da história na ocasião da volta de Cristo, ao enfatizarem a imutabilidade do mundo. Se vives­ sem hoje, teriam falado acerca da cadeia de causa e efeito num uni­ verso fechado governado por leis naturais, onde os milagres, quase por definição, não podem ocorrer. “As leis da natureza” , quase po­ demos ouvi-los dizer, “comprovam a falsidade da sua doutrina tipo deus ex machina da intervenção divina para levar ao fim o decurso da história. ” O erro deles foi esquecer-se de que as leis da natureza são as leis de Deus; a sua previsibilidade surge da fidelidade dEle. Muitos entendem que os pais significa “ a primeira geração cris­ tã” ; e entre eles, alguns o vêem como um anacronismo grosseiro, o deslisar da máscara do falsificador. Outros indicam, porém, e com ra­ zão, que a morte de “pais” tais como Estêvão, Tiago, o filho de Zebedeu, Tiágo o Justo, e outros líderes cristãos (cf. Hb 13:7) daria uma 123


2 PEDRO 3:4-5 base excelente para semelhante zombaria já em meados da década de 60. Este significado de “pais” é possível aqui, e provavelmente o sig­ nificado correto nas passagens de 1 e 2 Clemente citadas supra. No entanto, visto que toda outra referência aos “ pais” no Novo Testa­ mento (cf. Atos 3:13; Rm 9:5; Hb 1:1, etc.) significa “os pais no An­ tigo Testamento” , entendo que este é o significado provável aqui. Não se diz, pois, que as coisas continuam como desde a vinda de Cris­ to, mas, sim, desde o princípio da criação. Os escarnecedores esta­ vam torcendo as Escrituras do Antigo Testamento; é, apropriada­ mente, Com o Antigo Testamento que Pedro os derrota. Note a bela palavra para a morte, tão característica da perspec­ tiva da pós-ressurreição, e tão.notável num mundo que, como um to­ do, estava enfeitiçado com o temor da morte. Os pais dormiram. É assim que Jesus falara da morte— a animação suspensa que é o sono. (Mc 5:39; Jo 11:11). Assim também, quando Estêvão morreu, diz-se que adormeceu (Atos 7:60). Quando uns tessalonicenses morreram, Paulo os descreveu como “ dormindo em Jesus”, ou estando “com Jesus” (1 Ts 4:13, 14). Esta confiança diante da face da morte surgiu somente da vitória que Jesus ganhou sobre o último Inimigo. Até mesmo a palavra cemitério (por ser derivada desta palavra grega “ dormir” ) deve lembrar-nos de que as presas da morte foram tiradas, mediante o triunfo do Cristo ressurreto. c. Pedro argumenta na base da história (3:5-7). 5. Pedro trata do último argumento deles em primeiro lugar. À pre­ missa deles (de que este é um mundo estável, imutável) é falsa; daí a conclusão deles (que permanecerá assim, e que não haverá parusia) ser falsa também. Deliberadamente deixaram desapercebido o dilú­ vio, quando Deus realmente interveio em julgamento. A lição ensi­ nada pelo dilúvio é que este é um universo moral, e que o pecado não continuará para sempre impune; e o próprio Jesus citou o dilúvio para ensinar esta moral (Mt 24:37-39). Estes homens, no entanto, acharam por bem negligenciá-lo. Estavam resolutos de que perderiam de vista o fato de que existiam céus há muito tempo, e que foi criada uma terra pelofia i divino a partir das águas, e que era sustentada pela água. Tal parece ser o significado; mas é um versículo difícil. Pedro se refere, naturalmente, ao caos de água (Gn 1:2-6) do qual foi formado o mundo mediante a palavra repetida de Deus, “ Haja... ” Foi do meio 124


2 PEDRO 3:5-6 das águas que a terra emergiu; era por meio da água (chuva, etc.) que a vida na terra era sustentada; e mesmo assim, esta mesma água a en­ golfou, quando a palavra do juízo de Deus foi pronunciada no dilúvio. Muitos comentaristas entendem que pela palavra de Deus se refere tanto ao fiat divino, o debar Yahweh, que estava ativo na criação, quanto ao Verbo Eterno por quem a criação foi realizada (Jo 1:3; Hb 1:2). A mesma ambigüidade pode-se achar em Hebreus 11:3. Duvido se este sentido duplo foi pretendido no contexto, e embora ele fosse, sem dúvida, um lugar-comum na literatura sapiencial judaica (Pv 8:23-31). A ênfase dada neste versículo aofiat de Deus na criação é impor­ tante para Pedro em argumentar contra os falsos mestres que aparen­ temente sustentavam a auto-suficiência e imutabilidade da ordem na­ tural. Pelo contrário, insiste ele, o decurso da história é governado pelo Deus que é tanto Criador quanto Juiz do Seu mundo. “As pala­ vras são um protesto contra o antigo conceito epicurista de um con­ curso de átomos, e seu equivalente moderno, a teoria de uma evolu­ ção perpétua (i. e., ininterrupta)” (Plumptre). 6. Pelas Quais representa, as ambigüidades do grego di’hòn. O plural poderia significar água e água (mencionada duas vezes no ver­ sículo anterior); ou a água e a palavra de Deus; ou as duas regiões em que às vezes se pensava que as águas eram armazenadas (cf. Gn 7:11) ou os céus (foi por meio destes que o velho mundo foi inundado; assim M. R. James). A saída de J. B. Mayor é ler com um único MS d i’hon, “ por causa da qual;” “ qual” então se referiria ao seu antecedente, a palavra de Deus. A segunda alternativa supra é preferível. Ressalta, em contraste com aqueles que sustentam a independência da nature­ za, a verdade de que “a natureza não é suficiente para sustentar e manter o mundo, mas, pelo contrário, contém a matéria para sua pró­ pria ruína, quando for da vontade de Deus” (Calvino). Mediante o decreto de Deus, o próprio elemento de onde esta terra recebeu sua origem, mediante o qual era sustentado, foi usado para destruí-la. Os comentaristas tiveram muitas dificuldades com a declaração de que veio a perecer o mundo daquele tempo. Desejaram saber se isto incluía os céus também, e se há qualquer referência aqui ao co­ lapso dos céus em Enoque lxxxiii. 3. Mas kosmos significa primaria­ mente “ordem” em contraste com o caos primordial, e Pedro talvez queira dizer nada mais do que isto: que a ordem e a continuidade da 125


2 PEDRO 3:6-7 natureza foram desfeitas pelo dilúvio. Talvez kosmos simplesmente queira dizer “ o mundo dos homens” , conforme significa num con­ texto idêntico em 2:5. Pedro então queria dizer que a vida humana pereceu. Nada há aqui para sugerir que o mundo inteiro foi destruído pelo dilúvio, e muito menos os céus também. No século I d.C. falava-se muito do dilúvio como sendo uma ad­ vertência aos ímpios, e como sinal do irrompimento da nova era.4 Vá­ rias vezes Jesus o usa assim, e, é claro, é ressaltado em 1Pedro 3:9 — ainda outro elo entre as duas Epístolas. 7. Mais uma vez, há duas maneiras diferentes de entender este versículo. Podemos entender o de como sendo adversativo, e traduzi-lo por “ porém. ’’ O céu e a terra presentes seriam, então, con­ trastados com os anteriores. E um pouco concebível que nosso autor acreditasse que o universo inteiro tivesse sido renovado desde o di­ lúvio, especialmente se esta Epístola for uma obra pseudepigráfica in­ fluenciada pela crença estóica na destruição e nascimento periódicos do mundo. Mas é preferível entender que de é uma partícula conecti­ va, e traduzi-la por Ora. Neste caso, o contraste não será com algum céu e terra antediluvianos, mas, sim, com o novo céu e a nova terra que Pedro aguarda (3:12, 13) depois da parusia. • Pedro ensina que o mundo inteiro será destruído pelo fogo? Não há nenhuma razão a priori por que não. Alguns judeus, pelo menos, acreditavam num cataclisma duplo do mundó, pela água e pelo fogo, e atribuíam esta idéia a Adão !5 A idéia tinha antepassados respeitáveis no mundo greco-romano, embora o conceito estóico, que é usual­ mente citado,6 não seja rigorosamente um paralelo, pois antecipa a destruição e renovação alternadas do mundo através dos tataclismas do fogo e da água, e não, conforme faz Pedro, a consumação de todas as coisas. Além disto, o programa estóico era panteísta, e o de Pedro, monoteísta; os estóicos esperavam que um mundo novo emergisse da conflagração, mas um mundo da mesma qualidade que o anterior, ao passo que a esperança cristã aguardava um mundo transformado, o complemento necessário da sua crença na ressurreição do corpo e a redenção da ordem criada. Parece, pois, que 2 Pedro deve pouco ou nada ao estoicismo 4. Ver Filo, Vit. Mos. ii. 12; Orác. Sib. vii. 11; ; Ciem. ix. 4. 5. Josefo, Antig. i. 2. 3. 6. Sêneca, Nat. Quaest. iii. 29; Diog. Laert. vii. 134; Plutarco, Moral. 1077D

126


2 PEDRO 3:7 aqui, conforme Orígenes percebeu na sua obra Contra Celsum iv. 11 ss. O conceito do julgamento pelo fogo é achado na totalidade do An­ tigo Testamento. O próprio Deus é referido como sendo um fogo con­ sumidor (Dt 4:24; cf. Ml 4:1), que no último dia consumirá aquilo que é mau e refinará aquilo que é bom. A idéia toda pertence à linguagem figurada apocalíptica, e aquela é uma esfera em que o literalismo é sempre perigoso: Orígenes, por exemplo, fez questão de negar que o fogo literal estivesse em mira. O julgamento mediante o fogo é um dos grandiosos quadros veterotestamentários do Dia de Javé;7 o mesmo se pode dizer da literatura intertestamental e do Novo Testamento.9 Significa a purificação e a destruição do mal quando Deus vem julgar Seu mundo. E assim aqui, embora não possamos excluir a possibilidade de que Pedro esteja contemplando a destruição pelo fogo do universo inteiro (longe de ser incrível para uma geração que vive depois de Hiroshima), tudo quanto realmente diz é que os céus e a terra estão reservados para o fogo, aguardando o julgamento dos homens ímpios. Se, porém, Pedro pretende falar da transformação fogosa do uni­ verso inteiro, ou do julgamento iminente dos homens pecaminosos, a teologia é distintivamente cristã, e não deve ser confundida com o es­ toicismo, com o qual poderia ser superficialmente assemelhada. Justino ressaltou o contraste: “Ao passo que eles pensam que o próprio Deus será desfeito em fogo... nós entendemos que Deus, o Criador de todas as coisas, é superior às coisas que hão de ser mudadas. Pela mesma palavra (como o texto tõ autõ, não tõ autou, “sua palavra ”)..0 Antigo Testamento, que falava de um dilúvio no passa­ do, fala também de uma crise fogosa no futuro. Mas disto, também, “deliberadamente esquecem” (v. 5). O paralelo entre o dilúvio e o fogo é enfatizado pelo uso da mesma raiz em cada caso para “pere­ cer” (6) e destruição. Plumptre cita de modo apropriado Melito de Sardes, que escreveu perto do fim do século II d.C., “ Houve um di­ lúvio de água... Haverá um dilúvio de fogo, e a terra será totalmente queimada juntamente com suas montanhas... e os justos serão livra­ dos da sua fúria assim como seus pares na Arca foram salvos das águas do Dilúvio.” E interessante achar na literatura de Cunrã um 7. 8. 9. 10.

SI 1:3; ls 13:9-13; 29:6; 30:30; 64:1, 2; 66:15, 16; Dn 7:9-11; Na 1:5, 6. P.e. 1 QH iii. 19-36; Orác. Sjb. iii.71 -87; Enoque x 3. P. e. Mt 3; 11; 1 Co 3; 13; 2 Ts 1:8; Hb 12:29; 1 Pe 1:7 e Apocalipse passim. Apol. i. 20.

127


2 PEDRO 3:7-8 ponto de vista bem semelhante.1' d. Pedro argumenta na base da Escritura (3:8). Pedro agora volta sua atenção aos fiéis. Embora os hereges possam ser deliberadamente ignorantes, pelo menos seus amados leitores não devem deixar de perceber a verdade importante que o tempo não é para Deus o mesmo que é para o homem. Ao fornecer a eles munições para enfrentar a zombaria dos escarnecedores por causa da demora da parusia, o escritor enfatiza primeiramente a relatividade do tempò, e, em segundo lugar, a amorosa longanimidade de Deus. Em mil anos como um dia cita Salmo 90:4: “Pois mil anos, aos teus olhos, são como o dia de ontem que se foi, e como a vigília da noite.” Aquilo que o homem considera como um período longo de tempo é como um mero dia no modo de Deus calcular o tempo. Pedro tem sido acusado de “vender o passe” (trair) e escapar da doutrina difícil da parusia por meio de manter a relatividade do tempo. Decer­ to, isto é entender erroneamente aquilo que ele está fazendo. Pelo contrário, está insistindo com eles para que, ‘‘quando surge conversa acerca da vinda de Cristo, devem erguer seus olhos para cima, pois ao assim fazer, não estarão sujeitando o tempo destinado por Deus às próprias vontades ridículas deles” (Calvino). Deus vê o tempo com uma perspectiva que nos falta; até mesmo uma demora de mil anos muito bem pode parecer um só dia contra o pano de fundo da eterni­ dade. Além disto, Deus vê o tempo com uma intensidade que nos fal­ ta; um dia com o Senhor é como mil anos. “Em razão disto, os ho­ mens sempre devem estar alertas, pois o fim pode vir em qualquer tempo” (Reicke). O tempo é a dádiva de Deus, e Ele nos mandou vi­ giar, orar e trabalhar. É interessante que, ao passo que o salmista enfatiza somente a insignificância do tempo em comparação com os caminhos de Deus, Pedro também ressalta a significância do tempo, e seu valor para o Deus que, mediante a encarnação, imergiu-Se para sempre na história humana. E ao passo que o Salmo 90 contrasta a eternidade de Deus com a brevidade da vida humana, 2 Pedro contrasta a eternidade de Deus com a impaciência das especulações humanas. Deus é patiens quia aeternus (Agostinho). A demora do Dia de Javé era um problema que os profetas tive­ ram de enfrentar (Hc 2:3) e um que preocupava os homens de Cunrã 11. 1 QH íii. 28 ss.

128


2 PEDRO 3:8 também (1 Qp Hc 7:6-14), sendo que ambos os grupos asseveravam que, a despeito daidemora, o Dia viria. Pedro também ressalta este fato, depois de asseverar que a demora somente parece longa por causa da nossa perspectiva do tempo, e porque fornece mais oportu­ nidade para os homens se arrependerem e serem salvos. “A fé”, escrete Bamett, “orienta o homem para a eternidade ao passo que os escarnecedores permanecem sendo filhos do tempo.” Deus sabe o fim desde o princípio; tudo está presente com Ele, inclu­ sive “o fim próximo de todas as coisas” (1 Pe 4:7). Talvez haja uma alusão adicional às palavras de Jesus registradas em João 21:18-23 (ver sobre 1:14). Pedro tinha sido advertido de que não viveria para ver a parusia; destarte, não revela qualquer interesse em quaisquer sinais que a precederiam. Ficamos em dúvida se um falsificador teria sido tão reticente. Este versículo, naturalmente, tinha muita influência sobre o quiliasmo do século II, o conceito de que haveria um governo1pelos san­ tos, que duraria mil anos, numa Jerusalém terrestre, quando o Dia do Senhor raiasse na parusia. Parece ser citado juntamente com Apoca­ lipse 20:4, 5 no Diálogo de lxxxi de Justino, onde Justino, um quiliasta entusiasta, alega: “Percebemos que a expressão ‘O dia do Se­ nhor é como mil anos’ tem conexão com este assunto ”, e certamente éaludido em Barnabé (Ep. xv 4) e Irineu {A.H. v. 2 3 .2e v. 28. 3). Se esta Epístola tivesse sido escrita no século II, quando esta doutrina era tão divulgada que quase veio a ser uma pedra de toque daortodoxia cristã, é provável que o autor pudesse ter-se refreado a fazer qualquer alusão a ela ao citar o próprio versículo que deu origem a ela? Os após­ tolos respeitavam a ordem de Jesus no sentido de não especular acerca do tempo do fim, mas aquela reserva não persistia até o século II. Este versículo foi entendido por Barnabé e Irineu para apoiar a crença de que o mundo duraria por tantos milhares de anos quanto havia dias na criação, visto que um dia era igual a mil anos!Os livros intertestamentais Jubileus (iv. 30) e 2Enoque (xxxiii) seguem uma linha semelhan­ te. 1‘ Mais uma vez, ficamos impressionados pela reserva do nosso áu12. D. S. RussellíMeí/íorfand Message ofJewish Apocalyptic, 1964, pág. 212) indica quão difícil era para os escritores deste período expressar uma idéia supratemporal tal qual a eternidade. Oscilavam entre declarações tais comoJubileus IV. 30, “ Mil anos são como um dia no testemunho dos céus” e oApocalipse de Abraão xxviii, “Uma hora da Era, a mesma é cem anos” , e Enoque xci, 17, onde a eternidade é descrita como “ muitas semanas sem número para sempre” . A eternidade, em qualquer destes casos, não é diferente do tempo. E a totalidade do tempo.

129


2 PEDRO 3:8-10 tor. Ele é guiado pelo Antigo Testamento e seus corolários, e nada tem que ver com mapas cronológicos especulativos. e. Pedro argumenta na base do caráter de Deus (3:9). A terceira refutação que Pedro faz dos escarnecedores é tirada da natureza de Deus. Não é retarde mas, sim, a longanimidade que adia a consumação de toda a história, e que conserva aberta a porta para os pecadores arrependidos, até mesmo os escarnecedores arre­ pendidos. Não é a incapacidade mas, sim, a misericórdia que é a razão para a demora de Deus. 1 Pedro 3:20 fala da longanimidade de Deus com relação ao dilúvio; aqui, é com relação ao julgamento ��� ainda outra leve indicação em prol da autoria em comum. Deus não deseja que qualquer homem pereça; Ele quer que todos os homens sejam sal­ vos (1 Tm2:4). Está pronto para demonstrar misericórdia a todos (Rm 11:32). Não tem prazer na morte dós ímpios— pelo contrário, espera para os ímpios voltarem dos seus caminhos, e viverem (Ez 18:23). Ao passo que alguns, tais como Barclay, vêem um indício de universalismo aqui (como pode, levando em conta v. 7?) e outros, tais como Calvino, pressupõem um “ decreto secreto de Deus mediante o qual os maus são condenados para sua própria ruína” , o significado claro é que, embora Deus queira que todos os homens sejam salvos, e embora tenha feito provimentos para todos serem aceitos, alguns exercerão seu livre arbítrio, dado por Deus, para excluir a Deus. E Ele não pode impedir tal coisa a não ser que removesse a própria li­ berdade de escolha que nos distingue como homens. Alguns real­ mente perecerão (7), mas isto não é porque Deus assim deseja. O corolário lógico deste versículo é que os cristãos devem usar o tempo antes do advento para pregar o evangelho. A palavra do evangelismo sempre pertence à palavra do fím (Mc 13:10). O Evangelho, pois, diz respeito a uma Pessoa cuja primeira vinda introduziu os úl­ timos dias, e cujo retorno os selará. Sua proclamação baseia-se no mandamento desta Pessoa, e recebe o poder do Seu Espírito. A pre­ gação do evangelho é escatológica de fio a pavio. f. Pedro argumenta na base da promessa de Cristo (3:10). Pedro, que nunca reluta em lembrar seus leitores daquilo que já sa­

130


2 PEDRO 3:10 biam, segue aqui o seu próprio preceito, e mais uma vez volta para um dito de Jesus que causou uma forte impressão na Igreja Primitiva. Vi­ rá, entretanto, como ladrão, o dia do Senhor (ver Mt 24:43, 44; Lc 12:39, 40). A parusia será tão repentina, tão inesperada, tão desas­ trosa para os despreparados, como um arrombamento noturno. Paulo fala nos mesmos termos acerca do aspecto repentino e decisivo do advento (1 Ts 5:2), e o dito era bem conhecido nas igrejas da Ásia (Ap 3:3; 16:15). Na primeira passagem, a analogia é especialmente apta, pois duas vezes na sua história Sardes tinha sido vencida por sua falta de vigilância, e o inimigo tinha escalado os lados precipitosos da Acrópole e irrompido como ladrão. Neste caso, como em todo o resto da tradição cristã, um dito de Cristo era tido em grande estima porque tratava de um problema vivo, a data da Sua volta. Era útil para os líde­ res primitivos para refrear os excessos apocalípticos dos entusiastas que sempre estavam fixando datas para o fim. Jesus tinha dito que Ele não sabia a data (Mc 13:32), e mandara Seus seguidores a refrearse de especular acerca dela (Atos 1:7), pois, a vinda do Filho do Homem seria como um ladrão de noite. Vv. 8,9 são o remédio para a apatia acerca da volta de Cristo; v. 10 é o remédio para o fanatismo excessivo. Devemos deixar nas mãos de Deus a hora exata, mas tam­ bém devemos vigiar. A despeito da demora, o Dia do Senhor virá m esm o. E Pedro passa a descrevê-lo em linguagem apocalíptica colhida do Antigo Tes­ tamento, das palavras de Jesus, e de matéria não-bíblica. Jesus tinha falado em “ sinais no sol, na lua e nas estrelas, sobre a terra, angústia entre as nações em perplexidade” (Lc 21:25), “o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento e os pode­ res dos céus serão abalados... Passará o céu e a terra, porém as mi­ nhas palavras não passarão” (Mt 24:29, 35). Pedro relembra e adapta a linguagem de Jesus acerca da destruição cósmica na parusia; relem­ bra, também, a permanência que Jesus atribuía às Suas próprias pala­ vras ao aludir-se à fidedignidade da promessa do Senhor (9,10). E à luz destas palavras, Pedro voltou-se para seu Antigo Testamento para receber mais iluminação. Passagens tais como Isaías 13:10-13; 24:19; 34:4; 64:1-4; 66:16; Miquéias 1:4 devem ter surgido à mente, bem como Isaías 34:4: “Todo o exército dos céus se dissolverá, e os céus se enrolarão como um pergaminho” (versículo este que reaparece no Apocalipse de Pedro V). A vinda de Jesus para o mundo, no entanto, rachou no meio o conceito unitário que os profetas tinham do Dia de 131


2 PEDRO 3:10 Javé. Desde então, parte foi cumprido, e parte ainda jazia no futuro. Em especial, o fogo, o julgamento, e assim por diante pertenciam à Sua segunda vinda. A linguagem de Pedro não é inteiramente clara nos detalhes, o que pouco surpreende. Está usando a linguagem da apocalíptica nã tentativa de descrever o indescritível. Seu propósito principal é le­ vantar os olhos dos seus leitores ao clímax da história. Faz três consi­ derações. Primeiramente, os céus (i. e ., o céu, concebido em termos de um invólucro acima do mundo) passarão com estrepitoso estrondo ou “desaparecerão num bramir de chamas” ^ Este é provavelmente o significado aqui de rhoizêdon, um hapax legomenon do Novo Testa­ mento. É uma palavra pitoresca, onomatopaica, que pode ser usada para o zunido de uma flecha atravessando o ar, ou o ribombar do tro­ vão, bem como o crepitar das chamas, o sibilar do chicote quando desce, o bramir de grandes águas, ou o silvo de uma serpente. ‘‘Esco­ lheu a palavra” , escreve Lumby, ‘‘como se por ela quisesse unir mui­ tos horrores em um só. ” Que o fogo ocupa o lugar principal na mente de Pedro neste caso fica claro no v. 7; para a idéia, compare Apoca­ lipse 20:11; para a linguagem, cf. Marcos 13:31; para a predileção de Pedro para “fogo” , cf. 1 Pedro 1:7; 4:12. Em segundo lugar, os elementos (stoicheia) físicos se desfa­ rão (luthêsetai). As stoicheia podem significar os elementos físicos da terra, do ar, do fogo e da água, dos quais todas as coisas eram compostas, segundo se pensava. Podem também significar os corpos celestes, o sol, a lua e as estrelas (assim Justino, Apol. ii. 5 e a maioria dos Pais gregos). Para um paralelo parcial, cf. Marcos 13:24-26. O conceito de Spitta, de que Pedro quer dizer os espíritos responsáveis pelos poderes da natureza, embora esta realmente fosse uma crença judaica e provavelmente paulina (Enoque 1.x. 12, Jubileus ii. 2;G1 4:3, 9; Cl 2:8, 20), não se encaixa na presente passagem. Em terceiro lugar, Pedro antecipa o desaparecimento (aphanisthêsontai), o abrasamento (katakaPsetai), ou talvez o desvendamento, o desnudar (heurethêsetai)13da terra e de todas as suas obras. Es­ tas obras podem ser ou suas construções nobres ou as ações dos ho13. Este texto é defendido por F. W. DankeremZNTW, 1962,págs. 82-86. Por compa­ ração com outra ocorrência da palavra em Salmos de Salomão xvii. 10, conclui que o significado é “ um inquérito judicial que culmina num pronunciamento penal” .

132


2 PEDRO 3:10-11 mens. I40 textonão está numa ordem clara. “Correm juntas” , “ serão removidas” , “ não serão achadas” , “ serãojulgadas” , todos têm seus proponentes. Bo Reick comenta: “ O sistema solar e as grandes galáxias, até mesmo os relacionamentos do espaço e do tempo serão abolidos... Todos os elementos que compõem o mundo físico serão dissolvidos e se derreterão até ficar em nada. É um quadro que em grau surpreen­ dente corresponde àquilo que realmente pode acontecer de acordo com ás teorias modernas do universo físico. ” De qualquer maneira, a lição principal de tudo isto não é a linguagem figurada apocalíptica que pode ser literalmente cumprida, ou não, mas, sim, são as implica­ ções da parusia, para as quais Pedro agora volta sua atenção. g. As implicações éticas da segunda vinda (3:11-14). 11. Como sempre no Novo Testamento, o imperativo moral segue o indicativo escatológico. A expectativa da volta do Senhor sempre inspira os cristãos a uma vida santa (cf. 1 Jo 2:28). A descrença na volta do Senhor por demais freqüentemente produz o indiferentismo no comportamento, assim como acontecera com estes mestres do er­ ro. Há uma ligação indissolúvel entre a conduta e a convicção. Bar­ clay cita três exemplos esplêndidos tirados de túmulos pagãos, da­ quilo que acontece quando os homens rejeitam o conceito teleológico da história, â crença de que a criação tem um alvo, um clímax, que é um dos temas principais da doutrina do advento. Esta rejeição leva ao hedonismo : “Eu era nada; eu sou nada; logo, tu que ainda vives, Co­ me, bebe, e fica alegre.” Leva à apatia: “Certa vez, eu não tinha exis­ tência alguma; agora não tenho nenhuma. Não tenho consciência dis­ to. Não me importa.” Leva, finalmente, ao desespero: “ ‘Caridas, o que há embaixo?’ ‘Trevas profundas.’ ‘Mas o que se diz dos cami­ nhos para cima?’ ‘Todos são uma mentira’... ‘Então estamos perdi­ dos.” ’ Barclay conclui, com razão, que sem a verdade, incorporada na segunda vinda, de que a vida está se encaminhando para algum lu­ gar, não sobra nada em prol do qual vale a pena viver. No meio de uma existência precária num mundo precário, é.importante ter em mente, conforme este versículo nos relembra, que as 14. Assim H.Lenhard a entende (ZATTW, 1961, págs. 128-9). Tanto a terra (a humani­ dade) quanto as ações nela realizadas ficarão manifestas diante do tribunal de .Deus. O mundo inteiro passará, e somente o homem sobrará para prestar contas de si mesmo áo seu Criador.

133


2 PEDRO 3:11-12 pessoas são mais importantes do que as coisas. Tendemos tão facil­ mente a esquecer-nos disto. Deslisamos para o hábito de pensar que o mundo é mais duradouro do que seus habitantes. Pedro nega isto. As pessoas são mais importantes e mais duradouras do que as coisas. Num universo instável e perecível, o único fator estável e imperecível é a personalidade humana. É com ela que Deus Se ocupa primaria­ mente. O caráter do homem é a única coisa que pode levar fora desta vidajuntamente com ele. Logo, quer escolhamos pensar nadissolução emtermospessoaisou cósmicos, a qualidade da vida que levamos àluz desta dissolução vindoura é de suprema importância. Pedro, como sá­ bio pastor que é, conclama seus leitores a refletir, e a aplicar-se às verdades que acaba de enunciar. A santidade da vida, a adoração a Deus e o serviço aos homens são as três conclusões práticas que ele tira deste estudo do advento. Estas qualidades devem estar permanente­ mente presentes (huparchein) em nossas vidas, em contraste com a imprevisibilidade das nossas circunstâncias num mundo em que todas as coisas podem ser dissolvidas. 12. Espera-se dos cristãos que aguardem a vinda do Senhor; o próprio Jesus não os mandara vigiar? Isto, porém, não significa inati­ vidade piedosa. Importa em ação. Isto porque, por mais maravilhoso que pareça, podemos realmente apressá-la (não “ apressar-nos para ela” como em ARC). Noutras palavras, o cronograma do advento depende, até certo ponto, do estado da igreja e da sociedade. Que. conceito maravilhosamente positivo da relevância do nosso tempo na terra! Não é nenhuma espera infrutífera até que Finis seja escrito. Visa ser um tempo de cooperação ativa com Deus na redenção da so­ ciedade. Nossa era entre os adventos é a era da graça, a era do Espíri­ to, a era do evangelismo. Embora, porém, o evangelismo parecesse ser o modo principal de apressarmos, segundo se diz, a vinda do Senhor (cf. Mc 13:10), não podemos confinar nossos preparativos para o evangelismo. Não po­ demos excluir: “ Venha o teu reino” (cf. Ap. 8:4); nem o comporta­ mento cristão (v. 11, e ver 1 Pe 2:12); nem o arrependimento e a obe­ diência (At 3:19-21). Todas estas coisas contribuem para o alvo final. Os rabinos tinham dois ditados apropriados: “ São os pecados do povo que impedem a vinda do Messias. Se os judeus se arrependes­ sem genuinamente por um só dia, o Messias viria” , e “ Se Israel guar­ dasse perfeitamente a Torá por um dia, o Messias viria.” E o desâ­ nimo dos cristãos, sua desobediência e falta de amor que atrasam a 134


2 PEDRO 3:12-13 vinda do dia de Deus. Esta expressão notável que representa a Usual, “ o dia do Senhor” (atestada aqui nalguns MSS) tem o sabor do “Dia de Javé” no Antigo Testamento, assim como tem a única outra ocor­ rência dela no Novo Testamento, Apocalipse 16:14. A volta do Se­ nhor Jesus é o dia de Deus. O julgamento mais uma vez é visto em termos de fogo, fogo que destrói as escórias (v. 10) e purifica o ouro (cf. 1 Pe 1:7). Havia bas­ tante precedente veterotestamentário para isto (ver, p.e., MI 3:33: 4:1). O cristão que está vivendo em contato com Cristo pode enfren­ tar o conceito da dissolução de todas as coisas sem aflição — até mesmo com alegria. E assim que o fogo que enche de terror o coração dos escarnecedores pode ser aduzido aqui como um incentivo para os fiéis (cf. Dn 3). Paulo faz exatamente o mesmo uso dele em 1 Coríntios 3:10 ss. Por causa do qual: a destruição acontece porque o “ dia” de Deus chegou. Mais uma vez, o presente profético, têketai, parece ser usado para o futuro, embora mais uma vez o texto seja complexo. A palavra ocorre na LXX de Miquéias 1:4 e Isaías 34:4, sendo que estas duas passagens influenciaram a totalidade do modo de Pedro tratar o fogo futuro. 13. Mais uma vez, Pedro volta para o Antigo Testamento para sua descrição da esperança cristã. Ele é leal ao seu próprio ensino de que a “ palavra da profecia” é mais segura do que qualquer outra coisa (1:19) e antevê o cumprimento das profecias antigas de Deus. O pecado, que maculou o mundo de Deus, não terá licença de ter a úl­ tima palavra. Num mundo renovado as devastações da queda serão consertadas pela glória da restauração. O Paraíso Perdido se tomará o Paraíso Restaurado, e a vontade de Deus finalmente será feita igualmente na terra como no céu. Pedro não sabia melhor do que os profetas do Antigo Testamento de qual maneira isto seria realizado. E nem nós sabemos mais sobre o assunto hoje. Não temos qualquer maneira de conceber como será um corpo da ressurreição ou um universo restaurado. Aqueles que pensam que podem mapear um programa detalhado daquilo que acontecerá na segunda vinda devem lembrar-se que, a despeito das profecias da Escritura, ninguém acertou os pormenores da primeira vinda! A linguagem desta passagem é figurada. É uma tentativa de transmitir na linguagem deste mundo algo da maravilha do mundo do porvir. Mas não se ocupa tanto em descrever o indescritível, quanto 135


2 PEDRO 3:13-14 em agir como um Sursum Corda, para evitar que fiquemos presos à terra, para assegurar-nos que Deus tem um propósito e um futuro, não somente para nossa alma como também para nosso corpo, não somente para indivíduos redimidos, como também pará uma socie­ dade redimida. Há uma coisa chamada solidariedade humana, tanto na criação, na condição caída, quanto na restauração.15É por isso que o Novo Testamento não representa a ressurreição do corpo como sendo um acontecimento antes do último dia (embora deixe bem claro que os mortos cristãos estão com o Senhor e que realmente estão em melhores condições do que os vivos). A plenitude da bemaventurança será possível para alguns somente quando for possível para todos. Destarte, Isaías (p.e.60:19, 20), o Apocalipse (21:27), e Pedro neste versículo, todos ressaltam que os novos céus e a nova terra serão o lar permanente (note, katoikei, não paroikei) da justiça. Todo o mal terá sido destruído. As nações dos salvos nenhum desejo terão senão fazer a vontade do seu Pai celestial. Jesus ensinava a mesma coisa acerca dos efeitos da Sua volta. Os maus seriam destruídos, e os justos resplandeceriam como o sol, no reinodo seu Pai (Mt 13:41-43). Mais uma vez, no querigma apostólico, vemos o mesmo padrão; a destruição dos maus, a bem-aventurança dos salvos, e a restauração de todas as coisas na ocasião da volta de Jesus Cristo (At 3:19-23). São as conseqüências morais profundas da parusia que especialmente interessam a Pedro. E porque o destino fi­ nal dos homens será determinado pela segunda vinda, que conclama seus leitores a apressarem o dia de Deus mediante seu serviço. 14. Porque é somente a justiça que sobreviverá nos novos céus e na nova terra, é imperativo que os cristãos vivam com justiça. A olhada da esperança deve produzir a vida da santidade. Tal é sempre a exigência do monoteísmo bíblico e ético. Era o elo entre a crença e o comportamento, que os falsos mestres tinham rompidò. Suas espe­ ranças estavam presas à terra; suas vidas eram imorais. Pedro nunca cansou-se de ressaltar as conseqüências para este mundo da “olha­ da” para o outro mundo. Três vezes em três versículos emprega esta palavra (prosdokaõ), assim como seu Mestre antes dele tinha repeti­ das vezes conclamado Seus seguidores a “ vigiar” (aqui, esperar.) 15. Destarte, palingenesia, “ novo nascimento,” é usada tanto para a regeneração pessoal e para a renovação cósmica (Mt 19:28; Tt 3:5).

136


2 PEDRO 3:14 Para amados, ver sobre 3:1, e comparar o apelo final de Judas aos fiéis (Judas 20). O que há de mais importante na parusia é que o próprio Jesus vol­ tará. É o Homem Cristo Jesus que nos confrontará. Ele é o padrão da vida humana mediante o quai seremos julgados; Ele também é o Compassivo que entende nossas fragilidades. O relacionamento com Jesus Cristo é tanto a parte inicial quanto a parte fínal na peregrinação cristã do homem. “ Em que estado Ele me achará?” é uma pergunta muito perscrutadora para o cristão fazer a si mesmo, quer tenha em vista em primeiro plano a morte (cf. 1:14) quer a parusia. E assim como a confrontação com Cristo será o teste do cristão, assim também a conformidade com Cristo será o padrão do cristão. Devemos empenhar-nos, esforçar-nos, com diligência e zelo (ppoudasate é a mesma palavra que a em 1:5), para refletir o caráter do pró­ prio Cristo. Os falsos mestres eram “nódoas e deformidades” (spiloi kai mõmoi, 2:13); o Senhor Jesus era “ sem defeito e sem mácula” (aspilos kai amomos, 1 Pe 1:19). Os cristãos verdadeiros devem, conformar-se com o padrão imaculável e irrepreensível do Filho de Deus, e a esperança da parusia é uma espora poderosa para nos man­ ter permanecendo nEle, “para que, quando ele se manifestar, tenha­ mos confiança e dele não nos afastemos envergonhados na sua vin­ da” (1 Jo 2:28). Durante todos os séculos, normalmente tem sido o caso que os homens que colocaram sua esperança na volta de Cristo têm vivido vidas santas e atraentes (1 Jo 3:3, assim também Judas 24). Há, além disto, mais uma qualidade que a expectativa da volta de Cristo deve trazer, um profundo senso de paz■A parusia será o dia da vindicação. E por meio de permitir que sua mente se fixe na volta de Cristo que o cristão reconquistará um senso de equilíbrio e de propor­ ção, por mais difíceis que sejam suas circunstâncias presentes atuais, e a paz que ultrapassa todo o entendimento se arraigará profunda­ mente no seu coração. Lembro-me que uma mulher bantu estava me dizendo na África do Sul que ela poderia enfrentar toda a humilhação à qual a cor dela diariamente a tornava passível, sem rancor nem amargura, porque sabia que Jesus voltaria um dia, e então tais injusti­ ças seriam corrigidas. Semelhante atitude, naturalmente, pode levar a um quietismo longe de ser cristão; a religião pode tornar-se o ópio que entorpece as pessoas até que aquiesçam na injustiça. Mas a espe­ rança da parusia pode ser uma espora para levar os homens à ação cristã aqui e agora, e também pode dar uma perspectiva correta para 137


2 PEDRO 3:14-15 aqueles enigmas que, nesta vida, nunca são resolvidos. h. Pedro cita Pauld como apoio (3:15, 16) 15. Os falsos mestres reaparecem na mira de Pedro por um momento. Na sua impaciência, atribuíram a demora na volta de Cristo ao des­ cuido dEle, e asseveram que esta vinda trará decepções. Pedro reitera que é devida a longanimidade e que conduz à salvação. A diferença nas atitudes é determinada pela única palavra nosso Senhor. Os falsos mestres tinham negado o Senhor que os comprara. Naturalmente, portanto, estavam ansiosos por lançarem descrédito sobre Sua volta. Os cristãos genuínos procuravam crescer no conhecimento do seu Senhor. Naturalmente, portanto, zelosamente antecipavam a Sua volta. Sobre salvação (e Salvador) aqui, ver meu livro, The Meaning o f Salvation, págs. 194-197.0 ponto essencial deste versículo, como no versículo 9, é que a paciência do Senhor (i.e., do Senhor Jesus), reve­ lada no adiamento misericordioso da parusia, visa levar os homens através do arrependimento e da fé para a salvação. Quando a parusia raiar, o dia da oportunidade será encerrado. A referência a «osso amado irmão Paulo é fascinante. É enten­ dida como a prova conclusiva de que esta carta é não-petrina por aqueles que olham o Novo Testamento através de óculos tipo Tübigen, e que vêem em toda parte sinais de uma separação radical entre o cristianismo judaico chefiado por Pedro, e o cristianismo gentio che­ fiado por Paulo. Conforme este ponto de vista, este versículo, bem como a totalidade dos Atos dos Apóstolos, deve ser entendido como uma tentativa, feita em meados do século II, para passar papel de pa­ rede por cima das fissuras, e atribuir o catolicismo ao século I. Este ponto de vista, no entanto, dificilmente pode ficar em pé hoje.16Atos dos Apóstolos cuidadosamente indica paralelos entre Pedro e Paulo, e representa Pedro apoiando a negação de Paulo quanto à necessi­ dade de os gentios serem circuncidados (At 15:7-11). O mesmo qua­ dro da amizade entre eles emerge de Gálatas 2:8-10. A única discórdia que sabemos ter existido entre eles parece ter sido de curta duração, quando Paulo publicamente repreendeu Pedro por não ser consis­ tente com seus próprios princípios acerca da comunhão à mesa com 16. Para um repúdio recente dele, ver J. MuncV, Paul and the Salvation o f Mankind, 1959.

138


2 PEDRO 3:15 os gentios (G12:14). É uma pressuposição infundada, e que contraria a totalidade da ênfase cristã sobre o amor fraternal e o perdão, supor que a cisão era permanente, e que Pedro, portanto, nunca poderia ter falado em termos tão calorosos acerca de Paulo conforme é levado a fazer aqui. Realmente, acho difícil imaginar um falsificador conse­ guindo soar exatamente esta nota. No segundo século, a tendência era ou pensar ém Paulo como sendo o vilão supremo, ou como sendo 0 apóstolo por excelência, e não como um amado irmão. Esta última maneira, no entanto, é exatamente como os líderes cristãos do século 1 falavam uns dos outros (Ef6:21;C14:7;9;Fm 16; 1 Co 4:17, etc.), e até mesmo Mayor conclui que seria uma frase muito natural para S. Pedro empregar a respeito de S. Paulo. Mas a que exatamente Pedro se alude? E ao fato de que Paulo ensina, conforme faz, que Deus adia a parusia por motivos de miseri­ córdia, a fim de que mais pessoais cheguem ao arrependimento? Essa é a lição de Romanos 2:4 (cf. Rm 3:25; 9:22; 11:22). Os comentaristas mais antigos ou supuseram com isto que nossa carta era endereçada a Roma (que não se encaixaria em 3:1, se for uma referência a 1 Pedro), ou, entendendo que era endereçada à Ásia Menor, como 1 Pedro (cf. 3:1), achavam difícil descobrir este ensino em qualquer das cartas de Paulo às igrejas da Ásia que vieram até nós. Apesar disto, agora é re­ conhecido como altamente provável que Romanos era uma carta cir­ cular, 17sendo que pelo menos uma edição dela foi para Éfeso, de ma­ neira que, mesmo se 3:1 nos obrigasse a considerar que 2 Pedro foi endereçada aos asiáticos que receberam 1 Pedro, não haveria dificul­ dade na suposição de que estivessem familiarizados com o ensino de Romanos. Do outro lado, Pedro talvez esteja fazendo alusão simplesmente ao ensino constante de Paulo em todas as suas cartas acerca da neces­ sidade do viver santo, paciente, inabalável, e pacífica (especialmente àluz da parusia). Estes são, é claro, os mesmíssimos assuntos que o próprio Pedro acabara de discutir. Esta parece ser a solução mais simples. A localidade exata dos endereçados de Pedro passa, então, a não ser relevante. Tinham recebido uma ou mais cartas de Paulo, com

17. VerT. W. Manson, “ St. Paul’s Epistle to theRomans — andOih&rs",BJRL, nov. de 1948.

139


2 PEDRO 3:15-16 as quais Pedro também tinha familiaridade, e às quais aqui se alude.18 Não há dificuldade em supor que ele tivesse conhecimento exato da correspondência, mormente se, conforme sugere 1 Clemente v, co­ operavam juntos em Roma no fim das suas vidas. Note como Pedro admira a sabedoria de Paulo — e não sem ra­ zão! Mesmo assim, esta era um dom de Deus, conforme Paulo era o primeiro a reconhecer (1 Co 3:10; 2:6, 16). Policarpo escreve no mesmo estilo (c. de 115 d.C.): “Nem eu nem qualquer pessoa como eu pode atingir a (lit. “ acompanhar” ) a sabedoria do bendito, e glo­ rioso Paulo, que também, quando estava ausente de vós, vos escre­ veu cartas.” 19 É interessante ver a diferença aqui entre as referências a Paulo no século I e no século II. Para Pedro é um “ amado irmão” : parà Policarpo, embora sendo este um dos mais destacados dos bis­ pos subapostólicos, e pessoa que sofreu pela sua fé, Paulo já viera a ser “o bendito e glorioso Paulo” . Se 2 Pedro é um pseudepígrafo, é muito bem feito! 16. É consolador pensar que Pedro, também, achava as cartas de Paulo difíceis de entender, i.e.,“obscuras” , ou “ ambíguas”. Dusnoêtos é uma palavra rara, com uma matriz de ambigüidade. Era apli­ cada na antigüidade aos oráculos, cujos pronunciamentos eram noto­ riamente passíveis de mais de uma interpretação. Existem, diz Pedro, tais ambiguidades nas cartas de Paulo, que podem ser deturpadas ou “ torcidas” (uma palavra encantadora, strebloõ, que significa literal­ mente “entesar com molinete”) pelos ignorantes e instáveis (i.e., aqueles que sofrem perigo de serem desviados pelos falsos mestres, 2:14)para a própria destruição deles. Pedro está fazendo alusão à doutrina de Paulo acerca da justificação pela fé que, segundo sabe­ mos, era torcida pelos inescrupulosos para significar que um homem, uma vez justificado, poderia fazer o que queria, impunemente. Real­ mente, quanto mais pecava, melhor, porque isto dava maior oportu­ nidade para a graça de Deus ser demonstrada (Rm 3:5-8; 6:1). A insis­ tência de Paulo no sentido de o cristão estar livre de regras legalistas (Rm 8:1,2; 7:4; G13:10) foi torcida no sentido de dizer que ele descul18. Não deve surpreender-nos que Pedro tivesse lido um bom número das cartas de Paulo. Seria mais surpreendente se não as tivesse lido. “ Podemos tomar por certo que os mestres cristãos primitivos naturalmente comunicassem seus escritos uns aos outros, e que estes seriam lidos por conterem o ensino do Espírito para a igreja em geral” (Mayor). 19. Filipenses iii.

140


2 PEDRO 3:16 pava a licenciosidade. Podemos quase ouvir seus próprios brados de guerra da libertação serem citados contra ele em 1 Coríntios 6:12: "Todas as coisas me são lícitas” e em Gálatas 5:13: “ Porque vós, ir­ mãos, fostes chamados à liberdade.” Barclay nos faz relembrar, de modo muito apropriado, o retrato famoso que G. K. Chesterton delineou. “A ortodoxia”, disse ele, “era como andar ao longo de uma cumeeira estreita, quase como o fio de uma faca. Um passo para qualquer dos lados era um passo para o desastre. Jesus é Deus e homem;Deus é amor e santidade; o cristia­ nismo é graça e moralidade; o cristão vive neste mundo e no mundo da eternidade. É só ressaltar demasiadamente qualquer lado destas grandes verdades, e imediatamente a heresia destrutiva emerge. ” Tal era o caso aqui. Os falsos mestres já não submetiam suas ações ao es­ crutínio da Escritura; faziam da Escritura a justificativa por aquilo qile queriam fazer.31 Pedro atribui uma posição muito alta aos escritos de Paulo. São colocados lado a lado comas demais Escrituras. Esta frase, tas loipas graphas, pode ser entendida de duas maneiras principais. (i) Pode distinguir as cartas de Paulo da Escritura. Ver a nota de Bigg in loc. Destarte, em 1 Tessalonicenses 4:13 hoi loipoi significa “outros que não são cristãos”, e não “outros cristãos” . Isto faz bom sentido. Os falsos mestres torcem a Paulç: também torcem as demais Escrituras, i.e., o Antigo Testamento. E certamente subentendido, conforme já sabemos de qualquer forma, que as cartas de Paulo eram tidas em tão grande estima que eram lidas na igreja. Ná sinagoga ju­ daica, sobre a qual a igreja era baseada, havia normalmente duas lei­ turas, uma do Pentateuco e uma dos Profetas.21Ocasionalmente, car­ tas de líderes importantes do judaísmo eram também lidas na sinago­ ga. " Na igreja cristã, igualmente, deve ter havido duas ou talvez três leituras, do Antigo Testamento (? Lei e Profetas) e dos escritos apos­ tólicos. Ver Colossenses 4:16. Estes escritos cristãos eram conserva­ dos no cofre da igreja, e há amplas evidências de que estes escritos 20. Clemente de Alexandria alude a este versículo: “ outros, entregando-se aos prazeres, torcem a Escritura de acordo com suas concupiscências”. (Strom. vii. 16). 21. Ver C. W. Dugmore, Thelnfluence ofthe Synagogue upon theDivine Office, 1964, págs. 1-25, e A. Guilding, The Fourth Gospel and Jewish Worship, 1960, págs. 6-24. 22. Eissfeldt, na base de Baruque i. 14 e do Apocalipse de Baruque, diz “ Deve, portan­ to, ter sido normal... ler em voz alta nas sinagogas cartas escritas de líderes notá­ veis da comunidade” (Old Testament Introduction, T. I. 1965, pág. 24).

141


2 PEDRO 3:16 apostólicos eram tidos no mais alto respeito, embora raramente fos­ sem chamados Escritura durante o primeiro meio século da sua exis­ tência. (ii) Alternativamente, pode incluir as cartas de Paulo na Escritu­ ra. Se este for o caso, não precisa exigir uma data avançada para a Epístola. Às vezesgraphê, “ Escritura”, erâ usada num sentido am­ plo (p.e., Tg 4:5, 1 Ciem. xxiii. 3) para referir-se a matéria que não aparece no Cânon do Antigo Testamento, mas que era consagrada pelo longo uso. De qualquer maneira, não pode haver dúvida alguma de que, muito antes de 60 d.C ., escritos cristãos estavam sendo lidos na igreja lado a lado com o Antigo Testamento, e, como conseqüên­ cia,,. estavam bem a caminho para serem considerados de valor equi­ valente àquele.23 1 Timóteo, 1 Clemente e Barnabé,s e n d o que todos provavelmente se derivavam do século I, citam uma combinação de textos do Antigo Testamento e do Novo Testamento como “ Escritu­ ra” . A razão de ser disto era a seguinte. Os apóstolos tinham cons­ ciência de que falavam a palavra do Senhor (1 Ts 2:13) tão certamente como a falava qualquer um dos profetas. Não há, portanto, nada de anormal em se colocarem mutuamente lado â lado com os profetas do Antigo Testamento.25O mesmo Espírito Santo que inspirou os profe­ tas estava ativo neles mesmos. Este é bem suficiente para explicar como Pedro poderia ter colocado Paulo lado a lado dos escritores do Antigo Testamento neste versículo. Bigg observa que, longe de terem um complexo de inferioridade diante de Moisés e dos profetas, os apóstolos acreditavam que tinham uma posição ainda mais alta nos propósitos de Deus. “ S. Paulo coloca os apóstolos antes dos profetas (Ef 4:11)... E segue-se de 1Pe 1:12 que o evangelista cristão era supe­ rior aos antigos profetas, assim como o próprio Cristo era maior do que M oisés.” 23. Boobyer parece aceitar isto. “ Fazer assim (sc. chamar os escritos de Paulo de graphai) nâo coloca as cartas paulinas plenamente em pé de igualdade com o An­ tigo Testamento quanto à autoridade como Escritura. ‘‘Escrituras ’’podem ter sig­ nificado tanto o Antigo Testamento quanto outros escritos venerados e usados no ensino e na adoração da igreja, e, assim, pelo menos estando encaminhados para o reconhecimento igual com o Antigo Testamento como Escritura canônica.” 24. 1Tm 5:8, citando Dt 25:4 e Lc 10:7; ver \Clem. capítulos xxiii, xxx, xxxiv, xxxvj; Barnabé xiii. 7. 25. Sobre os problemas ligados com este versículo, ver mais na Introdução, págs. 27 ss.

142


2 PEDRO 3:17 i. Conclusão (3:17, 18). 17. Mais uma vez, Pedro os chama de amados. Foi por causa do seu amor que falou tão claramente; aquele mesmo amor agora o leva à exortação final. Retoma o tema do v. 14, de onde se desviara a sua atenção para outro assunto. Eles sabem de antemão que é de se esperar a vinda dos falsos mestres. E ser prevenido de antemão é estar preparado. Falar com clareza acerca dos desvios da fé cristã é uma incumbência do pastor cristão que deseja guiar seu rebanho ao longo da senda da ver­ dade. É por isso que Pedro repetidas vezes os advertiu acerca do ca­ minho errado e do caminho certo, e seus respectivos destinos. A res­ ponsabilidade agora fica com eles, no sentido de guardar-se contra os argumentos especiosos dos maus (athesmõn, i. e., homens que vivem sem lei). A forma composta notável, sunapachthentes, arrastados por (usada em conexão com a deserção de Barnabé em G12:13) sugere que, se é para conviverem por demais estreitamente com tais pesso­ as, serão desviados de Cristo. Pèdro, entre todos os homêns, tinha boa razão para reconhecer tal perigo, porque sucumbira a ele e negara seu Mestre (Mc 14:54, 66-72). Não há desculpa para a complacência nos cristãos: o erro tem muitas facetas atraentes pelas quais até mesmo os mais experimentados podem ser enganados. O próprio Je­ sus dera advertências semelhantes, e não menos em conexão com a segunda vinda: “Estai de sobreaviso, vigiai e orai” , “Vede que nin­ guém vos engane” , “Estai vós de sobreaviso” (Mc 13:5, 9, 33). Se­ não, é possível, mesmo depois de terem ficado firmes por certo tem­ po, que chegassem a um fim desastroso (ekpiptein, o verbo aqui usado para descair, é empregado para a apostasia em G15:4, “decair da graça” , e para o naufrágio em At 27:26, 29). Mais uma vez, neste versículo, Pedro ressalta o relacionamento entre o conhecimento e o comportamento. Não procura evitar o “co­ nhecimento” pelo motivo de os falsos mestres fazerem tanto jogo com ele. O fato é que a fé sem o conhecimento degenera no pietismo; a religião puramente emocional leva bem freqüentemente à imorali­ dade, que milita contra a estabilidade como quase nenhuma outra coisa faz. A palavra paxafirmeza, stêrigmos, ocorre somente aqui no Novo Testamento,26 mas vem da mesma raiz que o verbo que Jesus 26. Noutros lugares é usada para a posição fixa das estrelas e a firmeza de um raio de luz.

143


2 PEDRO 3:17-18 usara em Lucas 22:32: “Tu, pois, quando te converteres, fortalece stêrixon) teus irmãos.” Este é um mandamento que, no decurso desta Epístola, Pedro tem procurado obedecer. Não é surpreendente que ele, que tinha sido tão volátil, e que fora transformado pela graça de Deus num homem de rocha, fosse tão preocupado com a estabili­ dade.27 18. A firmeza do próprio Pedro é demonstrada pelo fato de que termina sua carta, conforme a começara, tratando do assunto do crescimento (cf. 1:5). Já foi dito que a vida cristã é como andar de bicicleta. A não ser que a pessoa continue avançando, cai da bicicle­ ta,! Nenhum cristão verdadeiro pensa, conforme parece que os falsos mestres pensavam, que já “chegou lá”. Pedro e Paulo (Fp 3:13-14) conclamam os òutros a avançar firmemente, conforme eles mesmos fazem. A vida cristã é uma vida de desenvolvimento, pois consiste em ficar conhecendo, numa profundidade cada vez maior, um Senhor e Salvador inesgotável. Há duas maneiras de entender esta injunção de despedida. Primei­ ramente, podemos traduzir: “Crescei na graça e no conhecimento d e ....” Aqui, tanto graça quanto conhecimento são considerados como qualidades que Cristo outorga. Neste caso, gnõsis se referirá ao entendimento espiritual, como em 1:5-6, e o significado será que de­ vem crescer no conhecimento acerca de Cristo, pois este é o baluarte contra ficar iludido como os instáveis do v. 16. Alternativamente, po­ demos traduzir: “Crescei em graça e em conhecimento d e ...” Neste caso, gnõsis seria usada no sentido de epignõsis (1:2, 3, 8; 2:20), o conhecimento pessoal de Jesus Cristo. E através do encontro pessoaJ com Jesus como Salvador e Senhor que a vida cristã começa. E atra­ vés do contato constante com Ele nestas duas capacidades que o ca­ ráter cristão se desenvolve. Esta última maneira de entender a cláu­ sula seria mais fácil pelo grego mas confunde gnõsis com epignõsis, palavras estas que, até este ponto, têm sido conservadas distintas em 2 Pedro. Esta ênfase sobre o conhecimento, seja qual destas duas tradu­ ções for preferida, é importante. Fornece um alvo para o desenvolvi­ mento cristão, para o dia em que “conheceremos como também so­ mos conhecidos” (1 Co 13:12), e, ao mesmo tempo, uma advertência contra “as contradições do saber, como falsamente lhe chamam”'(l 27. Pedro emprega o verbo outra vez em 1:12 (q. v.) e 1 Pe 5:10.

144


2 PEDRO 3:18 Tm 6:20) que os hereges professavam. O conhecimento de Cristo e o conhecimento acerca de Cristo são, se são mantidos paralelos um com o outro, tanto a salvaguarda contra a heresia e a apostasia, quanto também o meio do crescimento na graça. Quanto mais, pois, conhecermos a Cristo, tanto mais invocaremos a Sua graça. E quanto mais soubermos acerca de Cristo, tanto mais variada será a graça que invocamos.28 A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno. 29Que excla­ mação final eficaz! Revela a mola mestra do cristianismo de Pedro. Cjristo o Salvador; Cristo o Senhor; a Cristo pertence a glória para sempre. Nesta frase incidental temos a cristologia a mais alta possí­ vel. A glória, pois, pertence a Deus (Rm 11:36; Jd 25). Pedro, porém, já aprendera que ‘‘todos devem honrar o Filho, do modo pôr que hon­ ram o Pai” (Jo5:23). Os falsos mestres diminuíam da glória de Cristo agora, mediante uma vida maligna, e da Sua glória então, ao negarem a parusia. Pedro está resoluto no sentido de inverter as duas tendên­ cias. E bem possível que tenha conseguido. Foi, pois, nas igrejas asiá­ ticas da Bitínia, para as quais 1 Pedro (1:1) e talvez 2 Pedro foram es­ critas (se é que devamos inferir de 3:1 que foi enviada para a mesma destinação), que o governador romano, Plínio, cerca de 112 d.C. no­ tou que os cristãos ‘‘cantam um hino a Cristo como Deus ’’ (Ep. x. 96). Sobre o significado de “ glória” ver sobre Judas 25. A frase o dia eterno (lit. “ o dia da era”) é notável. Pedro já falara daquele dia em 3:7,10,12;. era o dia do julgamento, o dia do Senhor, o dia de Deus, i. e ., a segunda vinda. Aquele “ dia” introduziria a eternidade. Bigg ob­ serva que esta forma incomum da doxologia (de fato, é sem paralelo na literatura sobrevivente do século II, embora algo semelhante apa­ reça em Ecli. 18:9, 10) “não pode ter sido escrita depois de as expres­ sões litúrgicas se terem tornado estereotipadas até qualquer ponto. ” Este último acontecimento foi em data relativamente recuada: já no fim do século I, eis tous aiõnas, um acréscimo primitivo ao Pai N os­ so, era quase invariável. E apropriado que a glória de Cristo encerrasse esta Epístola, que tanta coisa tem para dizer acerca da ignomínia do homem. Pedro de­ monstra aquela atitude de dependência amorosa e reverente do Se28. Ver 1 Pe 4:10 para a “multiforme graça de Deus” . 29. Sobre a questão de se esta atribuição de glória é uma oração ou, pelo contrário, uma declaração, ver sobre Judas 25.

145


2 PEDRO 3:18 nhor, atitude esta que, no decurso da EpĂ­stola, procurara inculcar nos seus leitores como um dos grandes meios de progresso na vida cristĂŁ.

146


Judas: Análise a. b. c. d. e. f. g. h. i.

O autor e seus leitores (1, 2). A carta que Judas não escreveu, e a carta que escreveu (3, 4). Três lembranças de advertência (5-7). Aplicadas as analogias do julgamento (8,9). Diatribe contra os falsos mestres (10-13). A profecia de Enoque aplica-se a eles (14-16). As palavras dos apóstolos se aplicam a eles (17-19). Exortações aos fiéis (20-23). Doxologia (24, 25).

147


JU D A S : C O M EN TÁ R IO a. O autor e seus leitores (1, 2). 1. Podemos aprender muita coisa acerca de um homem ao escutar o que tem a dizer acerca de si mesmo. Judas faz duas alegações relevan­ tes. Em primeiro lugar, é servo de Jesus Cristo. O próprio reconheci­ mento de Jesus como Cristo ou Messias significava que o cristão se via como o servo devoto (lit. “escravo”) de Jesus. Até mesmo após­ tolos, tais como Paulo (Rm 1:1; Fp 1:1) e Pedro (2 Pe 1:1) gloriavamse nisto, e tanto Judas quanto Tiago (1:1), que eram, segundo parece, irmãos de Jesus, fazem questão de se chamarem Seus escravos! Que mudança desde os dias antes da ressurreição, quando Seus irmãos não acreditavam nEle, antes, pensavam que estava fora de Si (Jo 7:5; Mc 3:21, 31). Agora que se tornara crente, o alvo de Judas na sua vida era estar totalmente à disposição do Messias Jesus.1Um dos parado­ xos do cristianismo é que em semelhante devoção alegre o homem acha a liberdade perfeita. Em segundo lugar, Judas se chama irmão de Tiago. O nome Tia­ go, sem outro acréscimo, significava uma só pessoa exclusivamente na igreja apostólica — Tiago, o irmão do Senhor, o líder da igreja em Jerusalém.2Embora outros chamassem Judas de “ irmão do Senhor” (1 Co 9:5), ele preferia intitular-se irmão de Tiago e servo de Jesus Cristo. É uma marca adicional da sua modéstia que estava disposto a desempenhar um papel de segunda ordem comparado com Tiago, seu irmão maiscélebre. Barclay cita o paralelo de André, satisfeito em ser 1. Contraste este cumprimento do mandamento de Jesus aos Seus seguidores (Lc 22:26 ss.) com a relutância das igrejas cristãs em geral em fazerem da extensão do serviço de um homem o critério da sua grandeza. O verdadeiro barômetro da esta­ tura espiritual é a qualidade e a profundidade da devoção de um homem a Jesus e ao seu próximo. 2. Ver a Introdução, pág. 41.,

148


JUDAS 1 conhecido como o irmão de Simão Pedro. “Tanto Judas quanto An­ dré poderiam facilmente ter sentido ciúmes e ressentimento dos seus irmãos muito mais destacados. Os dois tinham, decerto, o dom de aceitar com bom grado um lugar secundário.” Judas não nos conta onde seus leitores moravam, mas dá três descrições notáveis daquilo que significa ser um cristão. Esta é a pri­ meira de várias de tais tríades nesta curta Epístola. Primeiramente, são amados em Deus Pai. O texto é incerto. Muitos MSS posteriores dizem hégiasmenois, “ santificados” , que é mais fácil, um pouco paralelo a 1 Coríntios 1:2, mas claramente se­ cundário, e uma corruptèla razoavelmente fácil de êgapêmenois, “ amados” . Embora Paulo freqüentemente fale do crente como es­ tando “em Cristo” ou “ no Senhor” , não há lugar algum no Novo Testamento onde se diz que os cristãos são “ amados em Deus Pai” A NEB oferece a dúbia paráfrase de “que vivem no amor de Deus Pai” ; Westcott e Hort sugerem que o “em” se deslocou, e que deve ser colocado antes de Jesus Cristo. Poderíamos traduzir, portanto; “ amados por Deus Pai e guardados em Jesus Cristo. ” Talvez Judas originalmente tivesse deixado um espaço depois de “ em” para o nome do lugar apropriado ser encaixado, quando o mensageiro trou­ xesse sua carta curta para as -várias cidades e aldeias onde a heresia incipiente começara a espalhar-se.1 Poderíamos traduzir, então, “para os em —------ , amados em Deus Pai, etc.” . É dificilmente pos­ sível interpretar, com Mayor, “ amados (por nós) no Pai”, porque to­ dos os três particípios, “ amados” , “guardados” , “ chamados” , cla­ ramente têm o mesmo Agente divino como seu sujeito. Sem dúvida Judas quer combinar as duas idéias de que seus leitores são amados por Deus, e que também são incorporados no Amado,4 e assim, em Deus.5 Em segundo lugar, são guardados em Jesus Cristo. Judas se re­ fere à preservação contínua com que Jesus guarda os que confiam nEle (cf. 1 Jo 5:18; 1 Pe 1:5; 2Tm 1:12). Conserva aquilo que entrega­ mos a Ele. E interessante comparar esta ênfase sobre o poder de Cristo para guardar com seu correlativo no v. 21, “ guardai-vos no amor de Deus” . A parte de Deus é guardar o homem; mas a parte do 3. Algo semelhante parece ter acontecido com o “ em Efeso” de Ef 1:1. 4. Cf. Ef 1:5 e a nota de Armitage Robinson no seu St. Paul’s Epistle to the Ephe­ sians, 1903, págs. 229-233. 5. Cf. “ Eu estou no Pai, e o Pai está em mim” (Jo 14:10).

149


JUDAS 1-2 homem é guardar-se no amor de Deus. Estes são os dois lados da per­ severança cristã (cf. Fp 2:12, 13). A frase poderia igualmente ser en­ tendida “guardados para Jesus Cristo” , e então ou significaria guar­ dados em segurança para Ele na segunda vinda (cf. 1 Ts 5:23), ou, se um destino gentio para esta carta for favorecido, significaria que os endereçados crentes fortim conservados como um povo para a pos­ sessão do próprio Deus, herdando o lugar eleito de Israel (cf. Tg 1:1; 1 Pe 2:9, 10). Em terceiro lugar, são chamados. Este não é nenhum anticlí­ max. É uma das grandes descrições bíblicas dos crentes, e aqui é o substantivo ao qual se referem “ amados” e “guardados” . O autor do chamamento cristão é Deus, e sua natureza é a santidade (Rm 1:7; 1 Co 1:2; 1 Pe 1:15), i. e., o concretizar na vida e no caráter aquilo que Deus opera em nós (Fp 2:12, 13; 2 Pe 1:10; Àp 17:14). Este chama­ mento, que originou-se nos propósitos secretos do próprio Deus (Rm 8:28), e é suficientemente grande o céu (Ef 4:4; Hb 3:1), mesmo assim pode ser usado para aplicar-se ao estado conjugal do homem e ao seu trabalho diário (1 Co 7:20). Não há, pois, nada em nós ou em nosso destino que é irrelevante ao chamamento de Deus. Por aquela razão, o chamamento divino forma um clímax apropriado para esta tríade de descrições da posição privilegiada do cristão. Deus o ama; Cristo o guarda; Deus o chama. 2. Judas tem outra tríade de qualidades que, segundo a oração dele, devem vir para seus leitores. (Aliás, quão freqüentemente men­ cionamos em nossas correspondências as coisas pelas quais estamos orando em prol dos nossos amigos?) Judas quer que a misericórdia, a paz e o amor sejam multiplicados a eles; noutras palavras, quer que sejam ‘‘cheios até a capacidade ’’ (a mesma palavra que em 1 Pe 1:2 e 2 Pe 1:2) com estas três coisas. Por que misericórdia ? E rara numa saudação (cf. 2Jo3;lT m 1:2; 2 Tm 1:2) mas singularmente importante nestes quatro lugares onde ocorre num pano de fündo de falso ensino. E uma lembrança de que, não somente na sua regeneração (cf. 1 Pe 1:3), não somente no julga­ mento (2 Tm 1:16, 18), mas, sim, cada dia da sua vida, o cristão tem necessidade da misericórdia de Deus. Nada senão a misericórdia ime­ recida pode satisfazer as contantes necessidades de pecadores habi­ tuais. Quando um homem sabe que foi aceito com Deus, por menos merecimento que tenha, este fato lhe dá uma profunda paz na sua vi­ 150


JUDAS 2-3 da. E assim esta antiga saudação hebraica de “paz” (shãlôm) é pre­ enchida por Judas com um significado mais profundo. E isto não leva ao quietismo. A misericórdia graciosa de Deus não somente transforma a.vida de quem a recebeu, como também se estende através dele a outras pessoas. O amor de Deus é derramado até transbordar do nosso coração pelo Espírito Santo (Rm 5:5). A mi­ sericórdia da parte de Deus, a paz por dentro, e o amor ao próximo — todos na mais plena medida(plêthuntheiê). Alguém poderia imaginar uma oração mais compreensiva de saudação cristã? b. A carta que Judas não escreveu, e a carta que escreveu (3,4) 3. Judas não meramente fala acerca do amor; demonstra-o, tanto no trato afetuoso repetido de amados (3, 17, 20, cf. 2 Pe 3:1, 8, 14,17) quanto nas advertências sérias e repreensões severas que administra no decurso da Epístola. O amor cristão não é nenhuma aquiescência sentimental naquilo que os outros estão fazendo; não é nenhum subs­ tituto para a convicção. Pelo contrário, brota da convicção, e assim como o fogo consome as escórias, deve destruir todas as impurezas na pessoa amada. Judas nunca teve o propósito de escrever esta carta! Propondose a escrever (o presente do infinitivo graphein sugere ‘‘num estilo lento” ? acerca da nossa comum salvação6 foi forçado a pegar sua pena às pressas (o aoristo do infinitivo grapsai) por causa da notícia de uma heresia perigosa. Ao invés de escrever uma carta pastoral, viu-se escrevendo um volante. A fraseologia aqui sugere que não era uma tarefa muito grata, mas se sentia obrigado. O pastor verdadeiro é também um vigilante (At 20:28-30; Ez 3:17-19), embora esta parte do seu dever seja negligenciada em nossa geração, pleiteando-se a tole­ rância. Se Judas mais tarde chegou a escrever o tratado que original­ mente pretendeu, ou não, não sabemos. Sua diligência (spoudê) em defender a fé relembra 2 Pedro 1:5, onde os leitores devem revelar igual zelo ao crescerem na fé. Neste versículo a experiência cristã é resumida pela única pala­ vra, salvação, e crença cristã pela palavra/é. A salvação, para Judàs, não significava apenas o livramento passado (5), como também a ex­ periência presente (23-24) e o futuro desfrutamento da glória de Deus (25). “A fé ” aqui é um corpo de crença,fides quae creditur, em con­ traste com o significado mais usual depistis como ‘‘confiança, ’'fides 6. Comum, talvez, ao apóstolo e aos leitores, talvez aos judeus e gentios.

151


JUDAS 3 qua creditur. As vezes é considerado um sinal de data avançada que “ a fé ” fosse concebida desta maneira algo estática.7 Qual é este corpo de crenças? Judas não entra em detalhes, mas o designa como sendo a fé que uma vez por todas foi entregue aos san­ tos. Por ephapax, não quer dizer “ em certa ocasião” , mas, sim, uma vez por todas. Por santos quer dizer o povo de Deus (como freqüen­ temente no Antigo Testamento). Pela fé .,, entregue quer dizer o en­ sino e a pregação apostólicos que eram regulamentares para a igreja (AT 2:42). Na realidade neste versículo, chega muito perto de asseve­ rar a revelação proposicional, conceito este que é negado hoje em grande escala. Deus, segundo Judas dá a entender, entregou ao Seu povo um corpo reconhecível de ensino acerca do Seu Filho, e se se alimentarem dele, serão nutridos, mas se o rejeitarem! cairão. Paradidomai, entregar,8 é a palavra usada para transmitir tradição autori­ zada em Israel (cf. 1 Co 15:1-3; 2 Ts 3:6), e Judas, portanto, está di­ zendo que a tradição apostólica cristã é normativa para o povo de Deus. O ensino apostólico, e não qualquer moda teológica que atual­ mente esteja em voga, é a marca do cristianismo autêntico. A quali­ dade de uma vez por todas da “fé ” apostólica é inescapavelmente vinculada com a particularidade da encarnação, em que Deus falou aos homens através de Jesus de uma vez para sempre. E simples­ mente porque o cristianismo é uma religião histórica, o testemunho dos ouvintes originais e do seu círculo, os apóstolos, determina o que podemos saber acerca de Jesus. Não podemos chegar por detrás do ensino do Novo Testamento, nem podemos chegar além dele, embora devamos interpretá-lo a cada geração sucessiva. Judas concordaria com 2 João 9,10, que o homem cuja doutrina vá além do testemunho do Novo Testamento deve ser rejeitado, O teste do progresso é, para ele, a fidelidade ao ensino apostólico acerca de Cristo (cf. 1 Tm 6:20; 2 Tm 1:13, 14).9 Judas emprega a palavra e p a g õ n ize sth a ia fim de enfatizar que a defesa desta fé será custosa e agonizante; o custo de ir contra a mo­ 7. Ver, no entanto, a Introdução, págs. 45-46. 8. Sobre a paradosis cristã, em contraste com as tradições dos homens, ver O. Cullmann, “T heTradition” em The Early Church, 1956, págs. 59 ss. e Christianity Divided, 1962, págs. 7 ss. 9. Ver a Introdução, págs. 28-29, 45. 10. Paulo empregaagõttízesf/iaí para a privação, a dificuldade custosa de edificar cris­ tãos maduros, acerca da oração sempre mantida, da auto disciplina, de manter a fé cristã, e da luta inteira da vida cristã (Cl 1:29; 4:12; 1Co 9:25; lTm6:12;2Tm4:7).

152


JUDAS 3-4 da, a agonia de procurar expressar a fé de um modo que é realmente compreensível ao homem contemporâneo. Pois, reconhecida a quali­ dade de-uma-vez-por-todas da fé cristã, não devemos negligenciar o rogo apaixonado de Dietrich Bonhoeffer em The Cost o f Discipleship contra o barateamento do cristianismo até que venha a ser um con­ junto de proposições às quais se dá assentimento, de atos que se reali­ zam, de siboletes observados, ao invés de ser o relacionamento vi­ brante, vital e pessoal com Jesus que inflama, revigora, e permeia to­ dos os aspectos da vida política, social e pessoal. 4. Este é o perigo que levou Judas a escrever às pressas esta carta repentina e curta. Ouviu falar de certos homens que se introdu­ ziram com dissimulação ou “ se insinuaram” . A palavra rarapareisduõ (lit. “ introduzir-se secretamente”) é semelhante a o pareisagõ (“ introduzir dissimuladamente”) de 2 Pedro 2:1; Gálatas 2:4. É uma palavra sinistra e oculta. Diógenes Laércio11 a empregou para uma volta sigilosa para um país; Plutarco,n do declínio insidioso de boas leis e a substituição sub-reptícia de leis inferiores. Semelhante incur­ são por homens ímpios era séria exatamente porque era sutil (cf. G1 2:4; 2 Tm 3:6). Sempre é mais séria quando o perigo vem de dentro da igreja. Mas não deveria ter causado surpresa. O Antigo Testamento,11 os ensinos de Jesus e os dos apóstolos, todos contêm amplas ad­ vertências contra o advento de falsos mestres. Sempre haverá aque­ les no redil que não passaram pela porta, mas, sim, treparam por al­ gum outro caminho; e sempre serão uma ameaça às ovelhas (Jo 10:1). Antecipadamente pronunciados traduz progegramenoi, que significa “preditos por escrito” . A frase seguinte, porém, para esta condenação, é enigmática. Por enquanto, nada falara acerca de uma condenação. Pode estar fazendo referência à condenação que passará a descrever de modo tão eloqüente? Se Judas depende de 2 Pedro, Bigg pode muito bem ter razão ao supor que se refere à condenação tomada mais explícita em 2 Pedro 2:3. A falta de clareza surge do fato de ele ter escrito com pressa, tendo 2 Pedro ainda recente na sua me­ mória. Palai, desde muito, tem sido considerado uma prova de que 11. 12. 13. 14. 15.

ii. 142. Moral, 216 B. Dt 13:2-11; Is 28:7; Jr 23:14; Ez 13:9. P. e. Mc 13:22; Mt7:15. At 20:29, 30; 1 Tm 4:1 ss.; 2 Tm 3:1 ss; Pe 2:2, 3.

153


JUDAS 4 Judas não poderia estar pensando em 2 Pedro, mas se a palavra tem o sentido de “já” como em Marcos 6:47; 15:44, faria um sentido excelen­ te. Pedro já os marcara para o julgamento do qual Judas passa a es­ crever. Alternativamente, é possível que se esteja aludindo a uma frase no Livro de Enoque, ao qual certamente faz referência no v. 14. Para pormenores desta possibilidade, ver Mayor in loc. Mais atraente é a sugestão de BoReicke. “ Enquanto fala de ‘este julgamento’deixa de especificar qual julgamento, nem providencia mais pormenores. Aparentemente está fazendo uso de origens documentárias em que o julgamento foi descrito com mais pormenores (como em 2 Pedro 2:3). Um exemplo deste tipo de matéria acha-se em 1 QS iv. 9-14 onde os espíritos da iniqüidade são repreendidos em termos que relembram as acusações de Judas, sugerindo, destaforma, certa tradição por detrás das alusões de Judas. ” Há muita coisa a favor deste ponto de vista, o que explicaria tanto as semelhanças quanto as diferenças entre os modos de Pedro e Judas dos falsos mestres. A existência de matéria semelhante em Cunrã aumenta a probabilidade de que os líderes cris­ tãos primitivos tivessem a necessidade de concordarem acerca dal­ gum “ padrão de palavras sadias” para a condenação da heresia. Os intrometidos sutis são descritos ainda mais. São asebeis, ím­ pios. Esta parece ter sido uma palavra predileta de Judas. Refere-se à sua atitude de irreverência diante de Deus, no v. 15 às suàs ações ím­ pias, e no v. 18 às suas ímpias paixões; realmente, éasebeia compre­ ensiva! Além disto, estão tratando do fato de que Deus graciosamente aceita os pecadores como desculpa para seu pecado flagrante e desa* vergonhado. Aselgeia, libertinagem, significa na literatura grega, e especialmente na Ética de Aristóteles, o “vício irrefreado” . Destar­ te, aparece de modo apropriado como o clímax do catálogo imund.o em Gálatas 5:19. O libertinismo era encontradiço tanto nas igrejas paulinas quanto nas petrinas (Rm 13:13; 2 Co 12:21; G1 5:19; Ef 4:19; 1 Pe 4:3; 2 Pe 2:2, 7, 18) bem como no círculo de João na Asia (Ap 2: 20-24). Não é muito surpreendente que os homens aceitassem o indi­ cativo do perdão e se esquecessem do imperativo da santidade. Er» um risco inerente na proclamação do evangelho da livre graça, e sem­ pre tem sido desde então. A conclusão que muitos pregadores têm ti­ rado é cessar de pregar a livre graça; a conclusão apostólica era atacar a lascívia, mas continuar a pregar a graça de Deus que aceita o inacei­ tável. 154


JUDAS 4-5 Por meio de semelhante libertinagem irrefreada estes homens es­ tavam negando Cristo e Seu Pai. “No tocante a Deus professam conhecê-lo, entretanto o negam por suas obras” (Tl 1:16). Há muitos modos dé negar Cristo à parte do modo óbvio da apostasia. Estes fal­ sos mestres certamente eram culpáveis de uma negação prática da sua fé pela sua maneira de viver, e provavelmente de uma negação da Divindade e do Senhorio de Cristo pela forma do gnosticismo inci­ piente que seguiam. Destarte, como os gnósticos posteriores, podem ter dirigido uma ofensa contra o Pai ao insistir que o Deus Criador não era o único Deus, nem mesmo o mais elevado entre eles, e contra Cristo ao sustentar que Ele era um mero homem sobre quem o Espí­ rito divino desceu na ocasião do Seu batismo, mas que partiu antes da crucificação. A negação da unidade entre o Criador e o Redentor, en­ tre o Pai e o Filho, ficou sendo uma heresia muito séria, e seu resul­ tado era o antinominianismo e a arrogância. A frase, negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo, relembra 2 Pedro 2:1, e levanta a pergunta se o Pai bem como Jesus Cristo estão sendo aludidos aqui. Este é provavelmente o caso, visto que despotês, Soberano, no Novo Testamento sempre se refere a Deus Pai a não ser em 2 Pedro 2:1, especialmente porque o nosso único é acrescentado aqui.16Como em 1 João 2:22, a rejeição da filia­ ção sem igual de Jesus envolve uma negação do Pai que O enviou, e que, à parte de Jesus, forçosamente permaneceria sendo o Deus Des­ conhecido. c. Três lembranças de advertência (5-7). 5. Depois desta breve introdução dos seus oponentes, Judas pas­ sa a declarar em termos bem claros o que acontecerá a eles. Fá-lo ao fazer uso de três exemplos de julgamento divino com os quais certa vez tiveram familiaridade, mas que tinham, aparentemente, esqueci­ do. O julgamento, conforme ele os relembrou, foi primeiramente dis­ tribuído a Israel; em segundo lugar aos anjos que pecaram; e em ter­ ceiro lugar às cidades das planícies. Tudo isto ele o diz como lembrança: Quero, pois, lembrar-vos. Não tinha mencionado estas coisas antes na sua carta. Está pressu­ pondo um conhecimento da história bíblica? Esta dificilmente se es­ 16. Se for assim, será um pouco paralelo aEnoque xlviii. 10, “ negaram o Senhor dos Espíritos e Seu Ungido” .

155


JUDAS 5 tenderia à queda dos anjos. Pelo contrário, parece que se refere a al­ guma tradição apostólica em que eles, tais como os endereçados de 2 Pedro, tinham sido instruídos.17 Tais folhetos podem até mesmo ter — t8 sido chamados hypomnemata, “lembranças.” Certamente tanto Judas (aqui e no v. 17) quanto 2 Pedro (1:12, 13, 15; 3:1, 2, etc.) da­ vam muita ênfase às “lembranças” . O texto está em desarranjo, neste versículo. Entre as variantes, “embora anteriormente soubestes disto” (AV), embora já estejais cientes de uma vez por todas (ARA), e “embora anteriormente todos tivestes conhecimento” (P. 72, cf. 1 Jo 2:20), o segundo deles é o me­ lhor atestado. Mas quem é que fez os pronunciamentos e a destruição ? Era Deus, o Senhor, Jesus (possivelmente Josué; os nomes sâo os mesmos), ou alguma combinação delès? Os comentaristas geral­ mente são atraídos ao texto “Jesus” (i. e. Josué), seguindo Justino, Orígenes, e Jerônimo. Para a idéia tipológica por detrás deste texto, ver 1 Coríntios 10:4. Mas isto não,pode estar certo; aquele que des­ truiu òs israelitas no v. 5. também baniu os anjos no v. 6, e este fato exclui Josué. Provavelmente o Senhor foi o que Judas escreveu, e os demais textos são glosas de escriba para acrescentar precisão. E Deus <juem agé como Juiz em cada um dos incidentes que Judas menciona. E Deus quem julgará os falsos mestres. Esta alusão a Israel no deserto toma muito claro que os oponen­ tes de Judas tinham sido, certa vez, cristãos ortodoxos que delibera­ damente se desviaram para a heresia. Tinha tido a experiência da mão redentora de Deus que os tirou do Egito, a terra pagã da escravidão e da morte. Tinham conhecido a libertação, a nova vida envolvida em tomar-se o povo de Deus. Nos seus corações, porém, voltaram ao Egito. Reicke sugere que o pecado dos falsos mestres era a colabora­ ção com os poderes pagãos injustos, e que o Egito é o símbolo para o paganismo. É mais provável, tendo em vista o uso por Paulo do mesmo incidente em 1 Coríntios 10:1-11, que a idolatria e a imoralida­ de, ao invés da política, eram a atração, e que foram estas que trouxe­ ram no seu séquito a descrença, o tentar a Deus, e, finalmente, a apos­ tasia e o julgamento (cf. Hb 3:12-19). A referência de Judas parece ser a Números, onde o povo deixou de apropriar-se de sua oportunidade de 17. Ver a Introdução, págs. 48-54. 18. A palavra é empregada desta maneira por Tucídides iv. 126, e cf. a alusão de Jus­ tino às “memórias” dos apóstolos, “ta apomnêmoneumata tõn apostolõn" (Apol, i. 67).

156


JUDAS 5-6 entrar na Terra Prometida por causa das dificuldades que se avulta­ vam tão grandes no seu caminho (Nm 14:2-3; 32:10-13, e cf. também 11:4-34; 26:63-65). Neste exemplo de julgamento, Judas nos dá uma advertência terrível daquilo que pode acontecer ao povo de Deus. Até mesmo os redimidos podem apostatar até sofrer um fim como este. Bunyan não mostrou um atalho para o inferno, saindo das próprias portas da cidade celestial? O ensino severo de Judas aqui é muito se­ melhante ao de Paulo em 1 Coríntios 10:11, 12. Argumenta, partindo da ruína de Israel apóstata, até chegar à ruína que poderia sobrevir aos cristãos apóstatas. Deus salvará “um” povo (não “ o povo”) para Si mesmo, ainda que alguns pereçam através da descrença no decurso do processo. Deus é soberano, para salvar e para destruir (Tg 4:12). A palavra deuteron, traduzida depois, é tão estranha neste sen­ tido que levou, nalguns MSS, à transposição de hapax, uma vez, para a cláusula subseqüente, numa tentativa mal orientada de equilibrá-la. Deuteron, que literalmente significa “a segunda vez”, talvez tenha sido escolhido por Judas porque esteja pensando na segunda vinda de Jesus que selará o destino dos descrentes acerca dos quais escrevia (cf. Hb 9:28). E digno de nota que, a despeito da estreita semelhança entre 2 Pedro e Judas nesta seção, somente Judas fala da libertação do Egi­ to, e somente Pedro fala de Ló e do salvamento dele. Tal fato certa­ mente seria surpreendente se um tivesse copiado do outro. 6. O segundo exemplo de Judas diz respeito aos anjos. Eles, também, eram destinados para ser “um povo para a própria posses­ são de Deus”. Eles, também, tinham muitos privilégios dos quais po­ deriam ter dependido. Nos dois aspectos, eram como os falsos mes­ tres para os quais Judas se dirige. Judas aqui refere-se ao pecado e ao destino dos anjos caídos. Os judeus estavam muito interessados nos anjos durante os últimos pou­ cos séculos a.C ., e o Livro de Enoque registra algumas das suas espe­ culações sobre o assunto cerca deste período. O mito grego da destrui­ ção dos Titãs por Zeus, a lenda zoroastra da queda de Airimano e dos seus anjos, e a elaboração rabínica de Gênesis 6:119 todos demons­ tram quão generalizada era tal crença na religião popular,como ten­ tativa de explicar racionalmente as contradições e o mal que há no mundo. Judas não necessariamente endossa a verdade de tudo isto; o que faz, no entanto, como qualquer pregador sábio, é empregar a lin­ 19. Para os pormenores, ver a nota de Phimptre in loc. 157


JUDAS 6 guagem e formas de pensamento correntes nos dias deles para incul­ car nos seus leitores, em termos altamente significantes para eles, os perigos da concupiscência e do orgulho. Foram, pois, a concupiscência e o orgulho que levaram à queda destes anjos. O orgulho, porque não estavam satisfeitos em conservar o seu estado original (archên) que lhes foi dado por Deus; a palavra archên aqui provavelmente significa, conforme Wycliffe traduz, “principado”. Pensava-se que cada nação tinha um anjo governante (ver a LXX de Dt 32:8). O orgulho entre os anjos levou à guerra civil no céu, e os anjos maus foram expulsos (ver Is 14:12; 24:21-22) e sen­ tenciados por Deus ã condenação eterna. Não somente o conteúdo e assunto, como também a forma de expressão aqui é influenciada pelo Livro de Enoque. Destarte, ‘‘para o juízo do grande dia” aparece fre­ qüentemente emEnoque, com expressões associadas (p.e. x.6; xvi, 1; x x ii.4 ,10, II;xcvii. 5; ciii. 8), onde também lemos que os anjos “ de­ sertaram o céu altaneiro, e sua santa posição eterna’’ (xii. 4), e a sina de Azazel, um dos seus principais transgressores, é “Cobri-o de tre­ vas, e que ele habite ali para sempre” (x. 5). Os outros anjos maus devem ser presos com correntes grandes até o dia do julgamento deles (10:15, 16). É interessante que esta idéia de castigo presente que será finalizado no dia do julgamento também pode ser achada nos escritos de Cunrã (1 QS iv. 9-14). O orgulho, portanto, era uma das causas da sua queda. Mas a concupiscência era outra. Esta é a implicação da história em Gênesis 6:1-4, e é elaborada em Enoque (vii; ix.8; x .ll; xii. 4, etc.) e numa gama total de literatura intertestamental.21 Justino comenta: “ os an­ jos que transgrediram seu mandamento misturaram-se com mulhe­ res, e assim caíram” {Apol. ii. 5), e que este aspecto está presente na mente de Judas fica claro nas palavras que se seguem no versículo imediato, “ da mesma sorte” . Os falsos mestres eram arrogantes? Que se lembrem de que a ar­ rogância arruinara os anjos. Eram consumidos pela concupiscência? Esta, também, provocou a ruína dos anjos. A posição privilegiada e o pleno conhecimento não salvaram os anjos cuja fé se tornara fraca, e cujo egoísmo se tomara quente; que os leitores, portanto, não sejam presunçosos!Judas reforça sua lição com um toque de ironia mordaz. Os anjos maus tinham sido arrogantes demais para guardar sua posi20. Jubileus 4:15, 22; v .1-10; Test. Rúbem v; Test. Naft. iii; o Livro de Tobias; t çf, também Josefo, Antig. i. 3. 1.

158


JUDAS 6-7 ção — logo, Deus os guardou para o castigo. Judas claramente quer dizer que a lex talionis não pode ser extraída até mesmo dos lugares celestiais. 7 .0 terceiro paradigma de julgamento que Judas cita é a destrui­ ção das cidades da planície. Deixa de lado o dilúvio e Ló, diferente­ mente de 2 Pedro, e concentra sua atenção no exemplo mais vívido de julgamento que se pode achar no Antigo Testamento. Realmente, suas implicações são ouvidas em todas as partes da Bíblia.21As mes­ mas duas características de concupiscência e orgulho22 são achadas aqui, como nos dois exemplos anteriores que deu. Além disto, ressalta-se o aspecto desnaturado da sua conduta; òs homens de Sodoma e Gomorra entregavam-se à homossexualidade.21 Tàlvez esta nota do aspecto desnaturado da rebelião contra Deus não esteja au­ sente dos dois exemplos anteriores. Era desnaturado para os israélitas se rebelarem contra o Senhor que os redimira; era desnaturado, também, para os anjos ir atrás de mulheres humanas. Judas emprega o aspecto desnaturado, bem como a hediondez, da rebeldia contra Deus para conclamar seus leitores a não seguirem no exemplo dos fal­ sos mestres. A destruição destas cidades fez uma impressão indelével sobre a antigüidade. George Adam Smith24 explica como muito possivel­ mente poderia ter acontecido, quando o solo betuminoso explodiu. “Neste solo betuminoso ocorreu uma daquelas terríveis explosões que já irromperam na geologia semelhante dos distritos petrolíferos da América do Norte. Em solos deste tipo, formam-se reservatórios de petróleo e gás, e repentinamente são descarregados pela sua pres­ são ou por um terremoto. O gás explode, e carrega para as alturas grandes massas de petróleo, que caem de volta na forma de chuva de fogo, tão inextinguível que flutua na água, ainda em chamas. ” Destar­ te, Sodoma e Gomorra (e as cidades da circunvizinhança, Admá e Zeboim, ver Dt 29:23), “ pagaram a penalidade no fogo eterno, um 21. Dt 29:23; 32:32; Is 1:9; 3:9; 13:19; Jr 23:14; 49:18; 50:40; Ez 16:46 ss.; Am 4:11; Mt 10:15; 11:24; 25:41; Lc 10:12; 17:29; 2 Pe 2:6; Ap 11:8; 20:10 epassim. 22. Sobre a arrogância dos homens de Sodoma, ver Gn 19:4-6, 12. 23. O composto raro, ekporneuein, fornicação, talvez sugira pelo ek “ contra o curso da natureza” . 24. The Historical Geography ofthe Holy Land, 1931,pág. 508. Ver também J. P. Harland, “ Sodom and Gomorrah” em The Biblical Archaeologist Reader, ed. Wright e Freedman, 1961, págs. 41-74.

159


JUDAS 7-8 exemplo para todos verem” (NEB).25Judas talvez queira dizer que o mar Morto, a uma distância de apenas 48 km de Jerusalém, fosse um atestado permanente do fogo que destruiu aquelas cidades. Mas nor­ malmente na Escritura, fogo eterno significa o fogo do inferno; logo, o significado é provavelmente que sua destruição pelo fogo fosse um antegosto daquele fogo eterno que aguarda o diabo e todos os seus cúmplices (verEnoque lxvii. 4 ss.; Ap 19:20; 20:10; 21:8).26Represen­ tava uma advertência à posteridade.27 Era uma recordação perma­ nente de que o triunfo do mal não é definitivo. O julgamento divino, embora demore, certamente virá. d. Aplicadas as analogias do julgamento (8, 9). 8. Das três analogias anteriores Judas tira três lições claras. Aqueles falsos mestres são formalmente acusado de concupiscência, de rebeldia, e de irreverência. Estes homens são sonhadores; o particípio, enupniazomenoi, aplica-se às três ações que Judas passa a pormenorizar. Ao chamá-los sonhadores que contaminam a carne, talvez simplesmente se refira aos seus sonhos voluptuosos (cf. Is 56:10, LXX). Ou talvez queira dizer que estão mortos à decência, afundados no torpor do pecado; assim Calvino. Mas como a palavra ocorre noutro lugar do Novo Testamento somente em Atos 2:17, onde é empregadapara sonhos proféticos (cf. J12:28), provavelmente indica que os falsos mestres apoiavam seu antinomianismo ao alegarem ter revelações divinas nos sonhos. Em segundo lugar, rejeitam governo (“ desconsideram a autori­ dade” , NEB), demonstrando, destarte, a arrogânçia e o orgulho que já percorreu todos os três exemplos que Judas citou. A pergunta é: qual autoridade? Alguns entenderam que kuriotêta, governo (“ se­ nhorio”), é paralelo de doxas, autoridades superiores (“dignidades”), e referem as duas palavras a seres angelicais. Mesmo assim, emborakuriotês certamente se empregue assim em Efésios 1:21; Colossenses 1:16, bem comodoxai em 2 Pedro 2:10-11, mesmo assim, a forma da frase aqui (três cláusulas que denotam o que estes sonhado25. A área do mar Morto era muito fértil em certo tempo. Sabedoria x. 7 e Filo, dt Abrahamo 140 dizem que continuava a fumegar e queimar. 26. Em Enoque lxvii. 4 ss. os espíritos maus sáo aprisionados num vale ardente sulfüroso de grandes águas em movimento embaixo da terra — segundo a analogia do mar Morto. 27. Cf. 3 Mac 2:5.

160


JUDAS 8 resfazem) sugere uma distinção entre governo e autoridades superio­ res. É possível aplicar kuriotsta à autoridade humana, ou ao poder civil, aos líderes da igreja, ou à autoridade em geral. Qualquer uma destas aplicações faria sentido excelente aqui, mas tendo em vista aquilo que Judas tem para dizer acerca da sua negação do Senhorio de Jesus (v. 4), parece melhor entender a palavra no mesmo sentido aqui. Os hereges, assim como os israelitas, os anjos caídos e os sodo­ mitas, estavam deliberadamente virando as costas (athetein, rejeitar, “desprezar” , é uma palavra muito deliberada) ao Senhor, embora isto talvez tenha sido expressado na insubordinação civil ou eclesiás­ tica. Estes homens eram contrários à lei, üm estado de coisas bas­ tante comum quando as pessoas seguem suas próprias concupiscências e exultam no seu próprio conhecimento. Em terceiro lugar, difamam autoridades superiores (doxai). Isto claramente significa, como em 2 Pedro 2:10, “ seres angelicais” ; a alusão do versículo subseqüente confirma o fato. É mais difícil deci­ dir se anjos bons ou maus são pretendidos. Seria mais natural supor os primeiros; os aryos seriam chamados doxai (assim Çlemente da Alexandria)28 porque são, por assim dizer, raiós da Glória que é o próprio Jesus. Os falsos mestres seriam, portanto, culpados da irre­ verência para com os mensageiros de Deus, os anjos, assim como os homens de Sodoma tinham sido para com os anjos que os visitaram.29 Do outro lado, o paralelo com o v. 9, no que diz respeito ao conteúdo, favorece o ponto de vista de que aryos maus estão sendo referidos; o assunto é que, assim como Miguel não difamou o príncipe do mal, embora fosse duramente provocado, assim eles também não devem desprezar e denigrír os poderes angelicais do mal, de modo infunda­ do. Talvez a deferência indevida prestada a anjos nalgumas seções do judaísmo (ver Cl 2:18) produzisse essa revolta entre os cabeçudos mestres do erro, que ficaram desencantados com a totalidade da no­ ção dos aijjos, e consideravam que cristãos iluminados como eles próprios eram emancipados de tais idéias primitivas. Talvez até mesmo zombassem da própria existência de poderes transcendentes do mal. Talvez blasfemassem os anjos como agentes do Demiurgo (o deus inferior da criação) se tivessem avançado qualquer distância ao longo do caminho para o gnosticismo plenamente desenvolvido. É 28. Adumbrações 1008. 29. Gn 19:5; cf. Test Aser vii: “Não sejais como Sodoma que desprezou os anjos do Senhor, e pereceu.”

161


JUDAS 8-9 bem possível que tenham blasfemado ao aduzirem os anjos (caídos) como exemplos da fornicação e como encorajamentos a ela. Talvez os ortodoxos os repreeendessem por haverem caído, na sua imorali­ dade, sob o domínio de poderes diabólicos, e os falsos mestres res­ pondessem, com zombaria, dizendo que tais poderes, se existissem, não tinham poder algum sobre eles mesmos. 9 . 0 arcanjo Miguel não cometeu semelhante erro. Não tratou o diabo de modo frívolo, nem lhe deu uma resposta grosseira. Naquilo que se segue, parece que Judas está tirando matéria ilustrada do livro apócrifo Assunção de Moisés. Assim somos informados por Clemen­ te, Orígenes e Dídimo, embora os pormenores aqui citados não figu­ rem nas partes sobreviventes da Assunção. É uma história que obvia­ mente era muito corrente na tradição oral, e deriva-se da especulação sobre aquilo que aconteceu ao corpo de Moisés. Judas está usando um argumento eficaz ad hominem com homens que estavam mergu­ lhados na literatura apócrifa. Um escoliast^30 sobre Judas dá os por­ menores.3' Quando Moisés morreu, o arcanjo Miguel foi enviado por Deus para enterrá-lo. Mas o diabo disputou seu direito de assim fazer, pois Moisés tinha sido um assassino (Ex 2:12), e, portanto, seu corpo pertencia, por assim dizer, ao diabo. Além disto, o diabo alegou ter autoridade sobre toda a matéria, e o corpo de Moisés, naturalmente, encaixava-se nesta categoria. Mas mesmo sob tal provocação, con­ forme diz a história, Miguel não tratou o diabo com desrespeito, “Não se atreveu a condená-lo com palavras ofensivas” (NEB).1J Simplesmente deixou o caso com Deus, dizendo: O Senhor te repre~ enda.33 A lição da história acha-se exatamente aqui. Se um anjo era tão cuidadoso naquilo que dizia, quanto mais os homens mortais de­ vem vigiar suas palavras.34 Miguel aparece somente aqui e em Apocalipse 12:7 no Novo Tes­ tamento. O conceito dos arcanjos (somente aqui e em 1 Ts 4:16) en­ 30. Para o texto do escoliasta, ver Bigg, in loc. A data deste escritor é desconhecida. 31. A Sabedoria de Moisés eslavônica, 16, dá uma história semelhante àquela do esco­ liasta, com variações, assim como também o Targum deJonatã (sobre Dt 34:5,6). 32. O grego também poderia ser traduzido: “ acusá-lo de blasfêmia’’, mas este signifi­ cado é excluído pelo contexto. Pois é isto precisamente o que Miguel fez, ao apelar para o julgamento de Deus. 33. Esta expressão é, por sua vez, uma citação de Zc 3:2, aparentemente incluída n t Assunção por ser apropriada. 34. Sobre o uso feito por Judas da matéria apócrifa, ver Introdução, págs. 47-48.

162


JUDAS 9-10 trou tarde no judaísmo. Em Daniel 12:1 Miguel é mencionado como o defensor de Israel (cf. Dn 10:13,21). O Livro de Enoque tem uma hie­ rarquia desenvolvida de sete arcanjos. Com as três advertências dos vv. 5-7 diante deles, os leitores de Judas são conclamados a precaverem-se da decadência espiritual dos falsos mestres. Esta decadência permeava a totalidade das suas per­ sonalidades. Fisicamente, tornavam-se imorais. Intelectualmente, tornavam-se arrogantes. Espiritualmente, tomavam-se desobedien­ tes ao Senhor. A “ moralidade progressista” e o “pensamento pro­ gressista’’ freqüentemente vão de mãos dadas com a surdez progres­ siva à voz de Deus. Viver assim é habitar um mundo de sonhos, con­ forme Judas. Sua carta se constitui em chamada emocionante para despertar-se à integridade moral, à humildade intelectual, e à sensibi­ lidade espiritual. e. Diatribe contra os falsos mestres (10-13). 10. Em contraste com o arcanjo temperado, “estes homens” de um lado “derramam abuso sobre as coisas que não compreendem” , (NEB)— os poderes celestiais. O que compreendem mesmo (os apeti­ tes naturais que têm em comum com o mundo animal) é instrumental na queda deles. Pensam que possuem conhecimento superior, e que, por causa daquele conhecimento, podem se dar ao luxo de ofender os poderes celestiais. Mas não. A mente não-espiritual não pode enten­ der a verdade espiritual (cf. 1 Co 2 :7- 16), e Judas diz expressamente que não têm o Espírito ( 19), sendo Ele o único que pode outorgar sa­ bedoria divina. Logo, apesar de todo o conhecimento fingido deles, nada sabem. Aquilo que entendem mesmo é o apetite físico que com­ partilham com os animais que não participam da racionalidade daque­ les; são aloga, brutos sem razão. Como é irônico que quando os ho­ mens alegam ter conhecimento, realmente são ignorantes; quando se pensam superiores ao homem comum, realmente estão no mesmo ní­ vel que os animais, e estão corrompidos pelas próprias práticas em que buscam a liberdade e a auto-expressão Judas está declarando uma verdade profunda ao ligar estas duas características. Se um homem for persistentemente cego às coisas espirituais, surdo à chamada de Deus, e avalia a auto determinação como sendo o sumo bem, então virá a hora em que não poderá mais ouvir a chamada que desprezara, mas, sim, será abandonado aos instintos turbulentos para 163


JUDAS 10-11 os quais se voltara outrora à busca da liberdade. 35 E aqueles instintos, uma vez recebendo livre vazão, são implacáveis. A concupiscência, quando alguém se entrega a ela, torna-se mortífera. Para um comen­ tário moderno sobre este tema, ver a peça de teatro de Albert Camus, Calígula. 11. Judas, assim domo Pedro, volta-se a passagens sombrias do Antigo Testamento para ilustrar a condenação de tais homens. Só que acrescenta Caim e Coré à citação que Pedro faz de Balaão, e coloca como prefácio da sua tríade característica um Ai deles! conforme o estilo de Jesus nos Evangelhos. Primeiramente, são comparados com Caim. Caim foi o primeiro assassino, e Judas talvez queira dizer que assim como Caim assassi­ nou o corpo de Abel, assim também estes homens assassinam as al­ mas doutras pessoas. Mas, de modo mais sutil, Caim tipificava o ho­ mem que não tinha nenhum cuidado para com seu irmão,36 e o inveja­ va porque os atos de Abel eram bons, e seus próprios, maus (Gn 4:4, 5,9; 1 Jo 3:12). Além disto, de acordo com Hebreus 11:4, é represen­ tado como sendo o exato oposto do homem da fé, e este conceito dele reaparece em Filo e no Targum de Gênesis 4:7, onde é representado dizendo: ‘‘não hájulgamento, nem juiz, nem vidafutura; nenhumaboa recompensa será dada aos justos, nem a condenação será aplicada aos maus. ” Representa o caráter cínico e materialista que desafia a Deus e despreza aos homens. Está destituído de fé e amor. Como tal, é o protótipo dos homens com os quais Judas tem de lidar. Em segundo lugar, são comparados a Balaão. Mais uma vez, há uma lição óbvia: era excessivamente avarento. Este fato destaca-se claramente na narrativa de Números 22-24. Mas, como no caso de Caim, há mais coisa a ser dita. Foi Balaão que envolveu Israel na imoralidade e idolatria em Baal-Peor (Nm 31:16). Sem dúvida, contou aos israelitas, aos quais três vezes se achara incapacitado de amaldi­ çoar, que eles tinham posição tão firme no favor do Onipotente que 35. Sobre a natureza destrutiva da concupiscência, ver também 2 Pe 2:12; Ef 4:22; Fp 3:19, etc. 36. Bo Reicke cita 1 Ciem. iv. 1-7, onde Caim é citado como o protótipo daqueles in­ formadores que, através da inveja, da anarquia e da insatisfação social, forçaram seus irmãos cristãos à morte. Neste sentido, sejam eles realmente informadores ou não, os falsos mestres eram fratricidas e andavam nos caminhos de Caim, pois me­ diante seu comportamento anti-social despertavam Roma a tomar medidas ativas contra a Igreja.

164


JUDAS 11 nada poderia afetar seu relacionamento com Ele. Poderiam pecar com impunidade. Desta maneira, levou-os ao erro da fornicação e à negação dos direitos soberanos de Javé por meio da submissão a ou­ tras divindades, inferiores. Parece que é isto que os falsos mestres ti­ nham feito. Eram, como Balaão, cobiçosos pelo dinheiro, assim como os sofistas daqueles dias (dos quais Paulo se dissociava)38 es­ tavam interessados somente em cobrar seus honorários e em ganhar argumentos ao invés de descobrir a verdade.39 Em terceiro lugar, são comparados a Coré, infame por sua rebe­ lião contra Moisés e Arão, os líderes divinamente nomeados de Is1 rael (Nm 16:1 ss.). Estes homens,.como Ooré,4Utinham claramente desafiado a liderança devidamente constituída da igreja, recusandose a aceitar sua autoridade e colocando-se em oposição. A insubordi­ nação deste tipo não era desconhecida na Igreja Primitiva. Estava por detrás das injunções-de Tito 1:10, 11; 3:10, 11; ITimóteo l:20;2T im óteo3:l-9. Era representada pela revolta de Diótrefes (3 Jo 9, 10)e pelos rebeldes aos quais Clemente de Roma escreveu sua carta. Assim, nestes três retratos escritos, tirados do Antigo Testamen­ to, vemos três características principais dos mestres do erro. Como 37. A nota de Westcott sobre erro, plane, em 1 Jò 1:8 é valiosa. Escreve: ‘“a idéia de plans' é sempre aquela de desgarrar-se do único caminho; não de.falsos conceitos por si só, mas, sim, de conduta errada (como em Rm 1:27). Este desviar-se é que essencialmente leva à ruína. ” 38. 1 Ts 2:3 ss. 39. G. H. Boobyer (em NTS vol. 5, pág. 45) demonstra como na literatura intertestamental tanto Caim quanto Balaão ficaram sendo líderes representativos da malda­ de, e como é ressaltado que foram para a ruína, e que lhes seria negado um lugar no mundo do porvir (Jubileus iv. 31 ;Test. Benjamin vii. 3-5, Sanhedrin x. 2-3;Aboth v , 19). O Testamento de Benjamim contém uma referência especialmente aplicável à nossa carta: ‘‘para sempre os que são como Caim serão castigados com o mesmo julgamento. "E sta expressão bem poderia ter estado na mente de Judas enquainto escrevia, e reforçaria a convicção expressada no Comentário que todos os três verbos neste versículo visam expressar a condenação dos falsos mestres. Boobyer traduz: “ Vão para a morte no caminho de Caim; eles mesmos são lançados fora no erro de Balaão; e perecem na insubordinação de Coré. ” Os dativos, ele indica cor­ retamente, são instrumentais; os aoristos são futuristas. 40. Há outros fatores na história de Coré que talvez tenham estado na mente de Judas. A história em Números mostra que reuniu uma turba em derredor dele na sua rebe­ lião, que assumiu uma liberdade iqjustificada, que inventou sua própria maneira de adorar a Deus, e que tomou sobre si filnções às quais não tinha direito algum, ao passo que falsamente alegava santidade para si mesmo e para seus seguidores. De modo geral, aqui havia um homem que gostáva de exceder os limites impostos por Deus.

165


JUDAS 11-13 Caim, estavam destituídos do amor. Como Balaão, estavam dispos­ tos, em troca de dinheiro, a ensinar aos outros que o pecado não im­ portava. Como Coré, descuidavam das ordenanças de Deus e eram insubordinados aos líderes da igreja. Não é sem relevância para o propósito de Judas que cada uma das três personagens veterotestamentãria acabou na ruína. É igualmente óbvio que estas são as três características principais do gnosticismo do século II; claramente temos aqui em Judas os sinais precoces dos sistemas gnósticos espe­ cíficos que haveriam de ser a praga da igreja subapostólica. Reivindi­ cações de “conhecimento” especial tornavam os homens indiferen­ tes às exigências da moralidade (vocês foram, afinal das contas, sal­ vos pela gnõsis, não pelo comportamento), indiferentes às necessi­ dades dos seus irmãos (era essencialmente a iluminação pessoal, e isto fez você sentir-se superior ao povo comum), indiferentes, tam­ bém, aos ditames dos líderes eclesiásticos (pois, afinal das contas, foi você, e não eles, que tinha “chegado lá”). Aqueles que hoje alegam ter conhecimento direto e imediato da mente do Todo-Poderoso comumente caem nos mesmos perigos. 12, 13. Estes homens são como rochas submersas, em vossas festas de fraternidade, diz Judas numa diatribe veemente e brilhante. Agapais, “festas de caridade” ou “festas de amor cristão” é, sem dúvida alguma, o texto certo aqui (cf. a nota sobre 2 Pe 2:13), e vossas é preferível a “deles”. Pode haver "uma lição em estes homens são, pois a mesma frase volta a ocorrer nos vv. 16 e 19. É possível que Judas esteja pensando nas profecias acerca da apostasia, que se acham na literatura apócrifado Antigo Testamento, ou nas profecias cristãs primitivas, e dizendo que estes homens as cumprem. As festas de amor cristão forneciam o meio-ambiente para a Santa Ceia na Igreja Primitiva, e dentro de bem pouco tempo demonstraram-se pas­ síveis a abusos mediante a gula, a desordem e a imoralidade (1 Co 11:20 ss.). A imoralidade na festa de amor cristão irrompera na comu­ nidade à qual 2 Pedro éra endereçada, e parece que acontecerá aqui, também. Estes libertinos nas festas de amor cristão eram como reci­ fes submersos, esperando para naufragar os incautelosos. De fato, foi neste recife que a Agape realmente foi ao fundo no século II. Há al­ guma dúvida quanto ao significado de spilades, visto tratar-se de uma palavra rara, que ocorre somente aqui no Novo Testamento. No grego secular, significa “rochas” ou “rochas submersas” , mas no 166


JUDAS 12-13 quarto século já viera a significar “manchas” (ver ARC). Assim fica­ ria um paralelo estreito com spiloi, “nódoas” em 2 Pedro 2:13, mas o significado mais antigo deve ser preferido nesta passagem que está cheia de símiles notáveis.41 Se sem qualquer recato for interpretado com a cláusula anterior, o significado será “enquanto festejam temerariamente” ; se for com a cláusula seguinte, o significado será “ enquanto descaradamente cui­ dam de si mesmos ” . As duas interpretações oferecem um bom sentido. Em “ rochas submersas” vemos o perigo que esta gente repre­ senta; em “ festejando descaradamente” , vemos sua arrogância. A frase seguinte, a si mesmos se apascentam, sublinha seu egoísmo. Ficam sendo pastores para si mesmos, o que faz lembrar Ezequiel 34:8: “Os meus pastores... se apascentam a si mesmos, e não apas­ centam as minhas ovelhas. ” Ao invés de cuidar dos outros, os desvia­ ram. Ao invés de perder as suas vidas, e assim ganhá-las, procuraram salvar suas vidas — e assim as perderam (Mc 8:35). Judas continua amontoando a invectiva em quatro metáforas marcantes. São as nuvens, as árvores, as ondas, e as estrelas. ‘‘O céu, a terra e o mar são rebuscados à procura de ilustrações destes ho­ mens” (Moffatt). Em primeiro lugar, são como nuvens que trazem a promessa de chuva, mas não dão uma gota sequer à terra sedenta; meramente ser­ vem para.ocultar o sol. Estas nuvens são levadas adiante pelo vento, e a terra embaixo não recebe benefício algum (ver Pv 25:14). Aqui te­ mos um exemplo pitoresco da inutilidade do ensino que é suposta­ mente “ ayançado” e “ iluminado” mas nada tem para oferecer ao cristão comum para nutrir sua vida espiritual. Acho que esta é uma advertência solene para aqueles que, como eu mesmo, somos teólo­ gos profissionais. Devemos constantemente perguntar a nós mesmos se nossos estudos e o nosso conhecimento estão sendo de benefício para qualquer pessoa. Em segundo lugar, são como árvores frutíferas estéreis. Há muita discussão acerca do significado preciso de phthinopõrinos. Bigg favorece “do outono” , sendo que o significado literal dos com­ ponentes da palavra é o “fim da fruição” ; a estação em que o cresci­ mento cessou e os galhos são desnudos. Mayor queixa-se que, se este' 41. Bigg nota que o artigo masculino é empregado com o substantivo feminino. Au­ menta a possibilidade de que Judas está citando dalgum documento, que vê cum­ prido nos falsos mestres.

167


JUDAS 12-13 for o caso, como as árvores poderiam ser culpadas por não dar frutos? Pensa que significa “que dão frutos no outono” . Pode, na realidade, simplesmente significar isto,42 e a culpa ser concentrada na palayra akarpa — são desprovidas de frutos; embora também seja possível que a palávra signifique que seus frutos se secam antes de ficarem maduros. De qualquer maneira, estes mestres tinham vidas estéreis, quando deveriam ter sido frutíferos. Eram como a figueira estéril da parábola de Jesus (Lc 13:6-9).43 Tinham se esquecido das palavras de Jesus: “pelos seus frutos vós ps conhecereis” (Mt 7:20). Pedro tinha uma queixa semelhante para fazer acerca dos seus leitores. Cessaram de crescer (2 Pedro 1:8; 3:18). São chamados duplamente mortas44 e desarraigadas porque, no passado, tinham estado “ mortos nos deli­ tos e pecados” (Ef 2:1) e agora estavam mortos de novo, no sentido de terem sido cortados da sua raiz vivificante, Jesus Cristo (contras­ tar Cl 2:7). O conteúdo daquilo que Judas está dizendo foi além dos limites da metáfora, conforme parece; embora, com um pouco de in­ sistência, seja possível considerar a árvore uma vez morta por ser es­ téril, e duas vezes morta por ter sido desarraigada. O desarraigar das árvores é uma metáfora veterotestamentária predileta do julgamento (SI 52:5; Pv 2:22). Em terceiro lugar, são como ondas bravias do mar, que espu­ mam as suas próprias sujidades, i.e., suas ações vergonhosas. Sem dúvida, Isaías 57:20 está por detrás desta linguagem figurada, ao fazer pensar na inquietude dos ímpios e sua produção contínua de escuma suja, tal como se acha espalhada nas praias depois de a maré recuarse. A palavraepap/jnzõ (“espumejar”)é muito rara.O poeta Mosco a emprega acerca das algas e do lixo carregados na crista da onda, e depois depositados na praia. Finalmente, são como estrelas errantes, cuja condenação é serem aprisionadas nas trevas para sempre. Judas está pensando, não em planetas, mas, sim, em estrelas cadentes que caem do céu e estão en­ golfadas nas trevas — para o desgosto daqueles que as observam. 42. Píndaro, Pyth. v. 161 é um caso onde tem este significado. 43. Esta expressão figurada da árvore estéril tinha largada circulação na Igreja Primi­ tiva, e era aplicada de várias maneiras. Ver2Pe3:4; 1Ciem. xxiii; IClem. xi. Em 1 Clemente a videira mostra sinais da morte, revivifíca-se, e dá frutos. Em Judas, as árvores mostram sinais da morte, não se revivificam, e não dão frutos. 44. Clemente da Alexandria, nasAdumbrações, entendia que “ duplamente mortas” se referia ao julgamento futuro depois da morte. Judas, porém, está falando de uma condição que já prevalecé.

168


JUDAS 12-15 Para esta metáfora, ele volta mais uma vez ao Livro de Enoque (xviii. 14 ss.) onde o anjo mostra a Enoque “ uma prisão para as estrelas do céu” . Mais tarde, vê estrelas ligadas juntas, e é informado: “estas são as estrelas que transgrediram...e esta é a prisão dos anjos em que estão guardados para sempre” (xxi. 2,6,10). Sugere-se assim que Ju­ das está pensando na condenação dos anjos caídos (da qual falara no v. 6), quando fala da condenação reservada para as estrelas errantes. Esta conclusão é reforçada pelo fato de que passa a citar Enoque no versículo seguinte. Fingem ser luzes, mas se desviaram tristemente, e a condenação os aguarda (há provavelmente um jogo de palavras en­ tre planêtai, errantes e planê, erro, no v. 11). A alusão a Enoque é especialmente apropriada, conforme indicou Irineu45. Pois ao passo que os anjos maus perderam seu lar celestial por desobedece­ rem a Deus, e caíram para a destruição, Enoque conquistou o céu por meio de obedecer a Deus, e foi salvo. Nestes dois versículos, pois, Judas evocou um quadro rápido e marcante dos homens que está fustigando. São perigosos como ro­ chas submersas, egoístas como pastores perversos, inúteis como nu­ vens sem chuva, mortos como árvores estéreis, sujos como o mar que espumeja, e com condenação tão certa como a dos anjos caídos. f. A profecia de Enoque aplica-se a eles (14-16). 14,15. Judas agora confirma esta análise final dos seus oponentes com uma profecia de julgamento inescapável, o julgamento que acompa­ nhará a volta de Cristo. C itaoLivro de Enoque (i.9) para enfatizar seu argumento. Em nenhuma parte do AntigoTestamento, aliás, Enoqueé chamado o sétimo depois de Adão (embora isto pudesse ser inferido de Gn 5), mas é chamado assim em Enoque lx. 8; xciii. 3. Sétimo é impor­ tante, pois sete é o número perfeito no pensamento hebraico, e enfatiza a estatura deste homem Enoque que andava com Deus (Gn 5:24). Uma profecia, para Judas, decide o assunto. Nada mais há que possa ser dito acerca da condenação dos mestres do erro. É interessante que Judas aplica esta profecia de muito tempo antes à situação dos seus próprios dias, assim como os homens de Cunrã aplicavam os escritos de Habacuque ao seu próprio tempo e situação. Émbora só tenhamos uma terça parte do téxto deEnoque em grego, possuímos este fragmento, e Judas segue o original bem de perto. Ao passo que Enoque estavapen45. A. H. IV. 16. 2.

169


JUDAS 14-16 sando no Senhor como Deus vindo no julgamento, para Judas, natu­ ralmente o kurios é o Senhor Jesus, e Sua vinda é a parusia; os santos que O acompanham para o julgamento são os anjos (cf. Mt 25:31) e o julgamento é exercitado sobre os ímpios no que diz respeito tanto às suas palavras e às suas àções. Sobre a questão inteira do uso explícito de Judas dos Apócrifos, ver a Introdução, págs. 48 ss. Se ele considerava Enoque como sendo inspirado, ou não, está fora do assunto, pois está citando um livro que tanto ele quanto seus leitores decerto conheciam e respeitavam. Falalhes numa linguagem que facilmente entenderão, e este permanece sendo um dos elementos mais importantes na comunicação da verdade cristã. 16. Judas completa seu quadro dos hereges em termos que M. R. James pensa terem sido tirados do capítulo 7 (do texto latino) da A s­ sunção de M oisés, mas que Chaine, com maior probabilidade, vê como uma aplicação da profecia de Enoque. Destarte, murmuradores e descontentes dão mais pormenores dos pecados de palavras que ti­ nham cometido (“as palavras insolentes que... proferiram con­ tra ele”, 15), ao passo que andando segundo as suas paixões referese aos seus pecados de ação (“ todas as obras ímpias que impiamente praticaram” , 15). Depois, enlevado pela indignação, Judas acres­ centa mais uma frase em cada categoria para completai o versículo. Para murmuradores, Judas emprega a palavra deliciosamente onomatopéica, gongustês; Paulo a usara para descrever o desconten­ tamento ardente dos israelistas no deserto (1 Co 10:10). Sempre que um homem fica fora de contato com Deus a probabilidade é que ele começará a queixar-se dalguma coisa. Resmungar e lamentar-se é uma das marcas que distinguem o homem sem Deus (cf. Fp 2:14). No caso dos homens aqui descritos, provavelmente estava queixando-se tanto de Deus quanto dos líderes da igreja (ver supra). Esta resmungação estendia-se, também, à sua situação na vida. Sempre estavam amaldiçoando o seu azar (este é o significado literal de mempsimoiros, descontente). O mempsimoiros era uma personalidade grega pa­ dronizada, como Zé do Boné no Jornal da Tarde. “Não estais satis­ feitos com nada que vos acontece; vós, vos queixais de tudo. Não de­ sejais o que tendes, e anseias por aquilo que não tendes. No inverno, desejais que fosse verão, e no verão, que fosse inverno. Sois como os doentios, difíceis de agradar, e mempsimoiros!” (Luciano, Cínico, 170


JUDAS 16 xvii). Infelizmente, estas palavras se adaptam a muitos cristãos. Este espírito inteiro de queixumes é condenado severamente em Tiago 1:13. E insultar o Deus que nos dá todas as cóisas; é esquecer-nos que, seja o que nos acontece, nada pode nos separar do Seu amor, nem privar-nos daquele tesouro mais precioso de todos, a presença do Senhor em nossas vidas (Rm 8:34-39; Hb 13:5, 6). Depois, Judas reitera sua observação, que alguém poderia ser perdoado por sentir que já enfatizara demasiadamente, de que o com­ portamento dele é governado, não pela vontade de Deus, mas, sim, pelos seus próprios desejos, andando segundo as suas paixões. A autodisciplina e o altruísmo estão desvalorizados; o próprio-eu é o que conta. Recebe respeitabilidade intelectual da parte de Nietzsche, Sartre, Camus, e muitos dos teatrólogos modernos, e afetou o homem comum mais do que ele quer reconhecer, com sua expressão popular: “Eu estou bêm, João; você que se dane” — uma atitude de flagran­ te egocentrismo. “Basta pensarmos como o mundo seria se todos os homens fossem assim, para vermos que completo caos se resultaria” (Barclay). E lógico que na realidade estes falsos mestres eram dignos de dó. Olhe a estocada final de Judas: A sua boca vive propalando grandes arrogâncias; são aduladores dos outros, por motivos inte­ resseiros. São, ao mesmo tempo, bombásticos, barulhentos, cheios de si mesmos, entre aqueles que esperam impressionar; e também es­ tão dispostos a lisonjear aqueles que consideram importantes, de modo que obterão alguma vantagem disto! Sobre esta questão de ba­ julação, Mayor diz muito bem: “Assim como o temor a Deus expulsa o medo aos homens, assim também o desafio a Deus tende a colocar o homem no lugar dEle, como fonte principal do bem ou do mal aos seus companheiros.” No fim de todos os raios com trovão que Judas despencou do arsenal de Deus contra estas pessoas, descobrimos que estão à mercê dos seus próprios temores daquilo que os homens lhes farão. Realmente ficam podadas bem embaixo. Hitler, o grande va­ lentão, era um covarde no fim. Os comentaristas procuram achar paralelos para a expressão incomum thaumazein prosõpa, “ tendo as pessoas dos homens em ad­ miração ” (aduladores dos outros), na Assunção de Moisés v. 5 (“mi­ rantes personas locupletum et accipientes munera”) mas a idéia era comum no judaísmo (Gn 19:21 LXX; Dt 10:17, etc.), onde era odiado o favoritismo (Lv 19:15; Pv 24:23; Am 5:12). É interessante que tanto Judas como Tiago tenham achado necessário ecoar este ódio tra171


JUDAS 16-17 dicional judaico contra a praxe de lisonjear. g. As palavras dos apóstolos se aplicam a eles (17-19). 17. Judas aplicou as palavras de Enoque à situação; agora relem­ bra aos seus leitores as palavras dos apóstolos. Os falsos mestres (houtoi, “os tais, ” 16) se esquecem, Vós porém (humeis de), de­ veis lembrar-vos. O esquecimento do ensino e das advertências de Deus na Escritura é uma causa principal da deterioração espiritual. Há, na realidade, um estreito paralelo entre vv. 17-19 e vv. 5-16. Nos dois casos, há uma exortação à lembrança; nos dois casos, Judas começa dirigindo-se aos fiéis com advertências, e termina dirigindose aos hereges em condenação. Mas o teor das passagens é diferente. Vv. 5-16 desmascaram e condenam o pecado dos hereges, e a citação dt Enoque é aduzida para selar o destino deles; ao passo que vv. 17-19, embora desvendem mais uma vez o caráter da oposição, têm um propósito diferente, para encorajar e reassegurar os fiéis. Lembrai-vos! E o primeiro imperativo que Judas usou, e começa uma coletânea inteira deles nesta seção final. Sobre “lembrar-vos” ver sobre v. 5 e 2 Pedro 1:12, 13; 3:1. Judas ressalta que nada há na apostasia atual que não poderia ter sido esperado. Os apóstolos a ti­ nham predito. O emprego da palavra proeirêmenõn, anteriormente proferidas, não quer dizer que todos os apóstolos pertenciam a uma geração anterior, ao passo que Judas pensava que ele mesmo estava vivendo “ no último tempo” , ep’ eschatou tou chronou (18). Sim­ plesmente significa que a tinham predito antes de vir a acontecer. Os próprios apóstolos estavam conscientes de viverem “no último tem­ po” ;46 a vinda de Jesus no mundo introduzira o último capitulo da his­ tória do mundo, que continuaria até que a parusia levasse ao término todas as coisas. O apelo ao ensino apostólico seria muito justo e apro­ priado numa pessoa como Judas, que não era apóstolo, e que parece ter sido um homem muito modesto (ver sobre v. 1). É digno de nota que não diz, como 2 Pedro, “vossos apóstolos” , que muito bem po­ deria incluir o escritor, mas, sim, os apóstolos, que dificilmente pode­ ria incluí-lo. O sentimento inteiro é mais simples em Judas do que em 2 Pedro; os “ profetas” deste último são deixados de lado, e seus “mandamentos” ficam sendo “predições” . Para o relacionamento da frase com a questão da autoria, ver a Introdução, págs. 42, 45-46. 46. Cf. 2 Tm 3:1, 2; Hb 1:2; 1 Jo 2:18.

172


JUDAS 18 18. O tempo imperfeito de Os quais vos diziam ressalta a natu­ reza repetida das advertências apostólicas. Claramente, advertências tais como Atos 20:29, 30; 1 Timóteo 4:1-3; 2 Timóteo 3:1 ss. estão em mente, embora a questão de se os leitores de Judas as tinham em forma oral (conforme é sugerido por diziam), ou as tinham por escri­ to, não fica clara. A advertência específica que se segue, substan­ cialmente idêntica com 2 Pedro 3:3, não sobreviveu em qualquer forma independente. Se Pedro tomou emprestado de Judas, ou Judas de Pedro, ou ambos de origens documentárias em comum, não pode ser determinado com certeza, embora as cinco discrepâncias verbais entre este trecho e 2 Pedro 3:3 favoreçam a última destas hipóteses. É certamente difícil, conforme demonstra Bigg,47supor que Pedro pode­ ria ter tirado este versículo de Judas. A hipótese de uma origem docu­ mentária em comum, visando o uso geral contra falsos mestres, é apoiada pelo uso diferente que os dois escritos fazem desta citação. Pedro a aplica aos zombadores que estavam fazendo pouco caso da segunda vinda. Judas não dá sugestão alguma de que esta fosse o obje­ tivo da linguagem obscena deles. Parece claro, conforme o versículo seguinte, que riam-se daqueles que se recusavam a acompanhá-los no caminho das suas próprias concupiscências;homens que ainda tinham escrúpulos e padrões “ antiquados” ou “ puritanos” , diferentemente dos cristãos superiores e espirituais tais como eles mesmos, que esta­ vam explorando sua liberdade cristã! Os falsos mestres estavam ale­ gando que estavam tão cheios do Espírito que não havia lugar para leis na sua vida cristã. Alegavam que a graça era tão abundante que seu pecado (se é que devesse ser chamado assim) providenciava maior oportunidade para ela (cf. v. 4). Alegavam que a salvação da alma é o que importa, e que aquilo que o homem faz com seu corpo não vem ao caso, pois forçosamente há de perecer. Para eles, os que se preocupa­ vam com a pureza sexual pareciam estranhamente ingênuos. A palavra grega empaiktai, aqui traduzida escarnecedores, é ra­ ra, e aparece somente aqui e em 2 Pedro 3:3 na totalidade do Novo Testamento. A ênfase de Judas dada a ímpias é notável — a palavra está ausente da passagem petrina, e Judas realmente usara a palavra quatro vezes no v. 15, uma vez mais do que a profecia deEnoque que estava citando. Pode ser que esteja relembrando Enoque neste versí­ culo ; pode ser que esta ênfase repetida dada a asebeia (ver sobre v . 4) 47. Bigg, pág. 338.

173


ju d a s

18-19

revele a repugnância de um homem piedoso e sensível diante daque­ les que fazem pretensões piedosas mas que as desmentem totalmente no seu comportamento. A palavra pode ou ser tomada como genitivo objetivo depois de epithumias, “desejo de coisas más”, ou, senão, como um genitivo descritivo, ímpias paixões, e neste caso seria nota­ velmente semelhante ao genitivo atrasado em Tiago 2:1. No último tempo é equivalente a “ nos últimos dias” em 2 Timó­ teo 3:1; Tiago 5:3. Ver sobre 2 Pedro 3:3 para o significado. Entre os profetas do Antigo Testamento a frase é escatológica e freqüente­ mente messiânica (no sentido mais amplo). Para os escritores do Novo Testamento, é parcialmente realizado através da vinda de Je­ sus, e parcialmente está esperando a consumação. Logo, Paulo pode falar dos últimos dias como sendo futuros em 2 Timóteo 3:1, ao passo que o último tempo está presente em 1 Pedro 1:20 e Hebreus 1:2.

19. Pela terceira vez (cf. vv. 12,16) Judas irrompe com um houtoi, “ esta gente” de desprezo. E, como nos vv. .16, 17, contrasta a palavra com “ vós, porém, amados” , assim também aqui emprega a mesma frase no v. 20. Apesar de toda a sua denúncia franca, há um cuidadoso equilíbrio e inter relacionamento entre as diferentes partes desta Epístola curta, e uma profundidade real de afeição para os en­ dereçados. O que mais pode dizer acerca dos hereges? Este versículo revela muita coisa. Ghama-os de os que promovem divisões (que fazem dis­ tinções indevidas entre si mesmos e outras pessoas). A palavra, achada uma só vez na Bíblia, denota aquelas pessoas que se acham superiores, e se guardam separadas dos demais— os fariseus cristãos, Bigg sugere várias maneiras segundo as quais esta qualidade divisiva pode se ter mostrado. Provavelmente formavam um grupo fechado entre si na Ágape (?v. 12). Gertamente desprezavam os pastores singe­ los colocados sobre aigreja (v. 8), e se apegavam aos ricos (16). Ora, de modo geral, o s ricos devem ter sido os cultos. “ Foi a partir deste estado de coisas que surgiu o gnosticismo. O gnosticismo era a revolta da classe de burgueses, bem de vida, e com uma educação parcfal” (Bigg). É claro que é com um protótipo do gnosticismo que temos que ver aqui. Estes homens eram arrogantes porque tinham alcançado o sucesso, espiritual e intelectualmente. Eram a elite. E por isso que se conservavam reservados entre si. 174


JUDAS 19-20 Eram, realmente, muito semelhantes aos fariseus, e Judas trata com eles de modo muito semelhante àquele que Jesus adotara com os fariseus. A origem do nome “fariseu” provavelmente significa “ se­ parado” , e denota as pessoas exclusivas que se separavam das de­ mais. E Jesus lhes disse que realmente estavam separados— do Deus que alegavam conhecer! (Mc 3:23-26, gr.). Aqui, Judas faz o mesmo. Eles alegam estar separados. Ele concorda. Estão mesmo! A exclu­ sividade sempre fere o homem exclusivo mais do que aqueles dos quais se separa. Parece que desprezavam os cristãos comuns, e os chamavam de psuchikoi, sensuais (homens governados pela vida na­ tural, não dominados pelo Espírito). Alegavam serpneumatikoi, ter a plenitude do Espírito, e não estar restritos às limitações e inibições dos cristãos comuns.48 JEram a aristocracia espiritual, imunes às leis da conduta que prendiam o homem comum. Muito bem, parece que Judas está dizendo. Pedis que distinções sejam feitas. Vós as recebeis. Na realidade, sois vós que sois governados pela vida natural, pelos impulsos naturais. Vós sois os psuchikoi \ E longe de serem cheios do Espírito, é claro que não tendes o Espírito de modo algum. Sois cristãos falsificados.49 Os cultos de mistério, que por longo tempo se constituíam em ri­ vais sérios ao cristianismo, empregavam linguagem semelhante a es­ ta. Reitzenstein50 cita uma oração do culto a Mitras em que a “capa­ cidade humana natural (psuchikê)” é contrastada como o “ espírito santo” outorgado, no mistério. Não é de modo algum improvável que os falsos mestres tenham tomado suas distinções invejosas (e a lin­ guagem para acompanhá-las) emprestadas dos cultos de mistério. São, portanto, destramente explodidos com seu próprio petardo por Judas, que explora a mesma linguagem para finalidades ortodoxas. h. Exortações aos fiéis (20-23). 20. Judas já disse o que tinha de dizer acerca dos ímpios, e agora volta-se para ensino mais positivo. Pela segunda vez chama os fiéis de 48. Paulo emprega esta mesma distinção entre homens não espirituais e espirituais em 1 Co 2:14 ss., de uma maneira tão polêmica quanto Judas faz aqui. Tiago também faz a distinção (3:15). É digno de nota que 2 Pedro, como 1Pedro, não emprega esta linguagem. Para Pedro, psuchê representa “ pessoa” . 49. Irineu ataca homens tais como estes que consideram que somente eles são “ espiri­ tuais” no sentido de 1 Co 2:14 e que os demais membros da igreja são naturais (psuchikoi) e incapazes de. conhecerem a Deus (A. H .i. 6. 2-4). 50. Die Hellenistischen Mysterienreligionen, 1910, pág. 109.

175


JUDAS 20-21 amados (cf. v. 17), e em cada ocasião é em contraste com os falsos mestres. E agora inicia um trecho de instrução cristã altamente compressada, que, se for obedecida, preservaria seus leitores da conta­ minação pelos falsos mestres. Suafé santíssima é a revelação cristã, transmitida pelos apósto­ los (como no v. 3). Nisto devem edificar-se. Na base doutras referên­ cias neotestamentárias fica claro que isto requeria o estudo do ensino apostólico (cf. Atos 2:42; 20:32) ,510 cristão deve estudar as Escrituras se é para ele crescer na fé e ter qualquer utilidade para outras pessoas (Hb 5:12; 2 Tm 2:15). A féésantíssim a, porque é ‘‘totalmente diferen­ te ” , inteiramente colocada à parte de todas as demais. É sem igual na mensagem que ensina e na transformação moral que produz. Em segundo lugar, devem ficar orando no Espírito Santo. A ba­ talha contra os falsos ensinos, pois, não é ganha por argumentos. Ver 2 Coríntios 10:3-5 para o mais apto comentário sobre esta frase. É provável que os falsos mestres tivessem abandonado a oração. Mui­ tos cristãos “avançados” o fizeram hoje, conforme eles mesmos de­ claram. Mas declarar ultrapassadas as Escrituras e a oração é decla­ rar ultrapassada a totalidade do cristianismo. As vezes é sugerido que orar no Espírito Santo indica a oração em “línguas” . Se for assim, é sugerida de modo muito obscuro. O homem que tem o Espírito de í)eus dentro dele (ou seja, todo cristão, Rm 8:9), o homem que é dirigido pelo Espírito Santo nas suas orações como em tudo o mais (G1 5:18), certamente orará no Espírito. É Ele que pronuncia dentro de nós o modo distintivo cristão de chamar Deus de “ Aba” ou “ Pai” (Rm 8:15). 21. Em terceiro lugar, devem permanecer dentro da esfera do amor de Deus. Foi o amor dEle que primeiramente os atraiu a Ele mesmo (v. 1), mas, conforme os falsos mestres demonstraram, é pos­ sível para alguém virar as costas ao amor de Deus. Devem cultivar aquele relacionamento de amor para com Ele. É interessante que no v . 1 Judas os trata de homens que foram achados pelo amor de Deus, e no versículo seguinte ora que o amor divino, juntamente com a mise­ ricórdia e paz de Deus, os encha; aqui, porém, conclama-os a cumprir o lado deles da aliança do amor com Deus. A ênfase aqui é colocada na contribuição deles àquele relacionamento, quer o amor de Deus 51. Policarpo escreveu aos filipenses: ‘‘Se estudardes as Epístolas do bendito apóstolo Paulo, podereis ser edificados na fé que vos foi dada” (Ep. iii).

176


JUDAS 21 signifique o “ amor de Deus por eles” ou o “ amor deles por Deus” . A linguagem relembra as palavras de Jesus: “ Eu vos amei; permanecei no meu amor” (Jo 15:9). E Judas certamente teria ecoado as palavras seguintes de Jesus: “ Se guardardes os meus mandamentos, perma­ necereis no meu amor” (Jo 15:10). Foi pela desobediência flagrante que osfalsos mestres decaíram do amor dEle, e assim, inevitavelmen­ te, do amor aos homens também. Em quarto lugar, devem conservar viva a chama da esperança cristã. Se atenção demasiada for prestada ã esperança futura, o cris­ tão tende a ser tanto do outro mundo que não tem muita utilidade neste mundo. Se, porém, conforme é o perigo màior hoje, o elemento futuro for colocado na penumbra, o cristianismo ficará sendo um mero auxiliar religioso dos serviços sociais. O cristianismo verda­ deiro “ afirma o mundo” no sentido de regozijar-se no mundo de Deus, por ter sido feito por Ele, redimido por Ele, a ser desfrutado com Ele. Mas o cristianismo “nega o mundo” no sentido que viver como se este mundo fosse tudo quanto existe é total ilusão. Nestes dois versículos Judas reúne as três virtudes cristãs da fé (inclusive a oração), da esperança e do amor — um padrão equilibrado para o vi­ ver cristão. Hoje, a esperança cristã é freqüentemente esquecida, e o conteúdo da crença cristã é submetido a dúvidas generalizadas. Sepa­ rado desta maneira da história e da escatologia, o cristianismo nos é apresentado em termos do amor. Mas este amor, ao ser examinado, revela ser uma descrição de úma atitude, não, conforme poderíamos ter pensado, para com Deus, mas, sim, para com os homens. Dege­ nera facilmente em sentimentalidade insípida, ou na enérgica prática das obras de caridade, e está muito removido daquilo que os cristãos primitivos queriam dizer por agapê, “ amor” . Note a necessidade da misericórdia de Deus, não somente ini­ cialmente, como também diariamente; não somente diariamente como também no fim (Cf. 2 Tm 1:18). É por causa da misericórdia de Deus que não somos consumidos. E por causa da Sua misericórdia que recebemos a vida eterna. Até mesmo “o homem que atingiu a maioridade” não pode arriscar-se a passar sem a misericórdia de Deus. É interessante que é a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo que Judas se refere especialmente — uma alusão à expiação que Ele realizou na cruz. A misericórdia é possível para o homem pe­ caminoso somente por causa daquilo que Ele realizou ali. Por vidq eterna Judas quer dizer a parte ainda não realizada daquela “vida da 177


JUDAS 21-23 era (nova)” que já começou nos crentes. 22,23. A salvação não deve ser definida meramente nos termos já citados: a fé, a oração, o amor, e a esperança. Envolve o serviço, e para este aspecto Judas agora volta sua atenção (conforme faz 2 Pe 3:11-15). Os homens realmente são salvos para servir, e uma das me­ lhores maneiras de descobrir o valor verdadeiro de qualquer nova teo­ logia é testá-la no evangelismo cristão ativo. Infelizmente, embora o sentido geral destes versículos seja cla­ ro, o texto tem sido preservado em formas diferentes, e já não é mais possível ter certeza de qual é a forma original. As possibilidades são complicadas, mas são mais ou menos as seguintes. A divisão principal acha-se entre a maioria dos MSS, que registra três cláusulas, e o excelente uncia) B, que omite as palavras housde, “ e alguns” no começo do v. 23, e assim reduz a injunção de Judas a duas cláusulas. ARA segue este texto e traduz: E compadecei-vos de alguns que estão na dúvida—salvai-os, arrebatando-os do fo g o . Há, segundo este ponto de vista, “ dois grupos de pessoas em epígrafe, sendo que os dois devem ser tratados com compaixão, embora, no segundo caso, a compaixão deva ser em temor’’. 2Entre os MS S que apóiam o texto mais curto há o recém-descoberto papiro 72, que tal­ vez forneça o texto original, conforme Dr. J. N. Birdsall. Pensa queosdois sentidos em que se pode entender diakrinomai (i.e ., “ser julgado ” ou ‘‘duvidar ’’) esclarecem a origem das três cláusulas numa das versões do texto. Isto é possível, mas não somente vai contra a maioria das atestações pelos MSS como também se esquece do forte gosto que Judas tem pelas tríades. Destarte, creio ser mais provável que ARC tenha razão em ficar com três cláusulas, não duas. Mas ainda estamos longe de nos safar da floresta. Há bastante variedade entre os MSS que retêm as três cláusulas. Há três variantes para a primeira cláusula: eleate diakrinomenous (“ compadecei-vos dos que estão em dúvida”), eleate diakrinomenoi (“compadecei-vos com discernimento”) e elenchete diakrinomenous (“repreendei os 52. The Greek New Testament, being the text translated in the New English Bible, ed. R. V. G. Tasker, 1964, pág. 443. 53. JTS, outubro de 1963, págs. 396-399. Este MS diz hous men ek puros harpasate diakrinomenous de eleeite en phobõ, que pode significar “ salvai uns do fogo, e tende compaixão doutros que são julgados em temor” ou “ salvai uns do fogo, e tende compaixão doutras almas que duvidam com temor.”

178


JUDAS 22-23 que estão em dúvida”). Destas variantes, a segunda tem menos ates­ tação, e parece ser uma correção para formar um paralelo com os no­ minativos harpazontes (“ arrancando”) emisountes (“ odiando”) na cláusula subseqüente. O primeiro, embora seja bem atestado, parece suspeito tendo em vista outro eleate54 abaixo. O terceiro dá um sen­ tido excelente e tem ampla atestação: “ Argüi alguns para fora dos seus erros enquanto ainda estiverem na dúvida. ” Elenchein significa vencer o erro pela verdade. Quando os homens estão começando a vacilar, é esta a hora para um cristão bem doutrinado colocar-se ao lado deles e ajudar. Um homem que está flertando com falsos ensinos não deve ser ostracizado pelos seus amigos cristãos; devem convidálo para tomar um café e conversar com ele informalmente, com amor cristão. E devem conhecer a fé tão bem que possam convencê-lo en­ quanto ainda estiver hesitando. Uma abordagem com amor, um senso da ocasião apropriada, e uma posição cristã cuidadosamente excogitada— estas são as qualidades requeridas por esta primeira cláusula. O segundo grupo é composto por aqueles que precisam ser salvos do fogo. Precisam de uma abordagem direta e frontal. Estão no cami­ nho errado, e precisam ser informados disto, e depois, tirados de lá. Deus dá aos Seus servos o privilégio de cooperar com Ele na Sua obra salvífica (cf. Tg 5:20). Calvino apresenta este buquê ao evangelista de “fogo e enxofre” : “ Quando há o perigo do incêndio, não hesitamos em arrebatar com violência aquele a quem desejamos salvar; pois não seria suficiente chamar com um sinal do dedo, nem bondosamente es­ tender a mão.” Alguns MSS acrescentam, em várias posições, em temor. Esta é uma consideração importante, ainda se não constasse do texto original. Semelhante obra de salvamento nunca pode ser rea­ lizada em qualquer espírito de santidade fingida ou de superioridade. Deve ser feita com temor, reconhecendo que “ali, não fosse a graça de Deus, vou eu também. ” Os obreiros cristãos devem ter um senso de reverente temor diante do Deus que Se digna a usar-nos como Seus embaixadores. A fras e arrebatando-os do fogo nos lembrado “tição tirado do fogo ’’ em Zacarias 3:2, onde Josué recebe este título surpre­ endente. Aliás, esta frase em Zacarias segue imediatamente “O SE­ NHOR te repreende ’’, citado em Judas 9. Mas Judas também pode ter tido em mente Amós 4:11: “ Subverti alguns dentre vós, como Deus 54. A não ser que seja adotado o ponto de vista de que somente duas cláusulas são originais. Neste caso, a repetição de eleate (ou eleeite — uma mera questão de morfologia) está claramente certa.

179


JUDAS 22-23 subverteu a Sodoma e Gomorra, e vós fostes como um tição arreba­ tado da fogueira; contudo não vos convertestes a mim, disse o SE­ NHOR.” Este versículo estava na mente de Judas no v. 7, e talvez quisesse dizer que arrebatá-los do fogo importasse na conversão de­ les ao cristianismo; mas a despeito deste salvamento quando se torna­ ram cristãos, não voltaram ao Senhor mas, como no caso dos israeli­ tas mencionados por Amós, apostataram. Mais provavelmente Judas queira dizer com ‘‘fogo ” ou a paixão da lascívia à qual os falsps mes­ tres se entregaram (assim Clemente da Alexandria) ou o fogo do juízo do qual serão passíveis se não forem levados a uma atitude melhor.55 Este grupo é diferente do primeiro por já não hesitar; já cedeu diante as persuasões dos falsos mestres. O caso do terceiro grupo, supondo que tenhamos razão em ler o texto com três cláusulas, é mais sutil. Os leitores de Judas são convi­ dados a ser compassivos com eles (seguindo o texto ele ate com a grande maioria dos bons MSS) mas também a temê-los, detestando até a roupa contaminada pela carne. Isto quer dizer que devem ter compaixão até do mais abandonado dos hereges, mas que também devem exercer grande cuidado ao se colocarem ao lado dele, para eles mesmos não se contaminarem. Devem manter seu ódio do pecado as­ sim como amam o pecador. 2 Coríntios 7:1 fornece algum tipo de pa­ ralelo. O que Judas quer dizer com a roupa contaminada pela carne? Chitõn significa a roupa interior, usada contra a pèle. A idéia parece ser que são tão corruptos que suas próprias roupas são maculadas. Trata-se, naturalmente, de uma hipérbole, mas é uma que tem bas­ tante base na Escritura; na*verdade, instruções são dadas em Levítico 13:47-52 de que a roupa usada por um leproso deve ser queimada por­ que é impura. Isaías 64:6 diz:' ‘Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo de imundícia” , ao passo que a passagem predileta de Judas em Zacarias continua: “Ora, Josué, tra­ jado de vestes sujas, estava diante do anjo. Tomou este a palavra... Tirai-lhe as vestes sujas. A Josué disse: Eis que tenho feito que passe de ti a tua iniqüidade, e ie vestirei de finos trajes” (Zc 3:3-4). O obreiro cristão tem a oferta maravilhosa de uma troca de roupa para os contaminados, um manto de justiça para o homem vestido de tra­ 55. Assim Chaine entende o “fogo” como julgamento (cf. Mt 13:42, 50) e entende que diakrinomenous significa “enquaoto.hesitam” . Os vacilantes devem ser salvos do fogo em direção doqual estão se encaminhandojuntamente com os falsos mestres.

180


JUDAS 22-24 pos imundos (cf. Is 61:10X e deve oferecê-la com amor e misericórdia. Mas uma vez que começa a se deleitar com a veste suja, uma vez que a tolera e brinca com ela, cessa de ser um servo útil de Cristo, de modo algum. Uma-vez que-trata o pecado como sendo normal, um lugarcomum, está a caminho de trair o evangelho. Judas, pois, insiste tão fortemente como João no Apocalipse, que o homem aceito diante de Deus é aquele que não sujou as suas vestes (Ap 3:4); e estas vestes são consideradas como sendo a posição que Deus confere aos pecadores arrependidos que “lavaram suas vestiduras, e as alvejaram no sangue do Cordeiro ” (7:14), bem como aquela retidão de caráter que se segue nas vidas daqueles que verdadeiramente foram justificados (19:8). Judas empregasarjt, a carne, exatamente da mesma maneira que Paulo: significa a natureza humana feita por Deus e para Deus, mas que caiu vergonhosamente fora da harmonia com Deus, e ficou sendo uma agência ativa do mal. Este principio do mal deve ser resoluta­ mente enfrentado'e rejeitado, assim como, no batismo, o candidato tirava todas as suas roupas a fim de receber uma roupa nova quando emergia das águas para a nova vida. O meio-termo com o mal levará inevitavelmente à derrota.

i. Doxologia (24, 25). 24. É coisa perigosa viver çor Cristo numa atmosfera de falso ensino e de moralidade sedutora. E coisa arriscada procurar salvar homens para o evangelho, do meio de tal ambiente. Se você ficar perto demais do fogo, este o queimará; se você ficar perto demais da roupa conta­ minada pela carne, esta o maculará. A resposta é retirar-se, portanto? Não. Avance contra as forças do mal, enfrente os perigos envolvidos, posto que você está forte no poder do Senhor. Tal é o impacto, e o contexto, dos versículos finais de Judas. Esta doxologia emocionante nos faz lembrar o poder de Deus. Duas vezes Paulo fora guiado aos seus joelhos em louvor enquanto considerava o poder do seu Senhor. Em Romanos 16:25, atribui glória “ àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evange­ lho". Em Efésios 3:20, gloria-se nAquele “que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos, ou pensamos, con­ forme o seu poder que opera em nós” . Aqui, também, Judas termina sua carta com adoração sentida no fundo do coração, Aquele que é 181


JUDAS 24-25 poderoso para vos guardar de tropeços (não “ a eles” como nalguns MSS). É verdade que já lhes dissera que devem guardar-se no amor de Deus (21), mas aqui emprega uma palavra diferente para “guar­ dar” . Ali, têrein é empregado; significa “vigiar” . Aqui,phulassein é empregado; significa “guardar” . Há uma diferença. Devemos vigiar para permanecermos perto do Senhor, mas somente Ele pode guardar-nos de modo que não tropeçamos. Aptaistous, de tropeçar, não ocorre em qualquer outro lugar no Novo Testamento. Xenofonte emprega a palavra para um cavalo que anda seguro, sem tropeçar, Plutarco a emprega para o cair regular da neve, e Epicteto, para um homem bom que não cai em lapsos morais. No meio de convívios difí­ ceis, do pensar turbulento, e do questionar dos padrões morais, é so­ mente o Senhor que pode conservar-nos. Deus, porém, pode fazer ainda mais do que aquilo. Ele nos esta­ belecerá, ou nos colocará de pé, diante da Sua glória, da Sua própria presença desvendada no céu. E exultaremos, porque nenhuma falha será achada em nós. O cristão está em Cristo, e, portanto, amõmos, imaculado ou “ sem culpa” ; é incorporado no Inculpável (cf. 1 Pe 1:19). Am õm os56 é uma palavra sacrificial; Somente o imaculado era digno de Deus. Que conceito profundo do céu! Que coisa assombrosa que, em Cristo, podemos ser amõmoi, e ser constituídos em sacrifício totalmente aceitável ao Senhor! Deus pode nos apresentar de pé, em­ bora em nós mesmos recuaríamos diante da Sua presença. Deus nos coloca diante dEle (katenõpion, diante de, é uma palavra enfática), e qual conceito de bem-aventurança pode haver para os redimidos do que estar face a face com o Deus deles? Deus não tem acusação al­ guma a fazer contra aqueles que foram aceitos no Seu Filho imacula­ do; e se Deus for por nós, quem será contra nós?57 Esta é realmente uma grande causa para a agalliasis, exultação, uma palavra espe­ cialmente empregada para a exultação no banquete celestial, e paraseu antegozo na eucaristia. E essencialmente uma palavra que per­ tence ao céu. 25. Somente a Deus seja dada a glória! Esta é a nota final da Epístola de Judas. Há um único Deus e Ele é nosso Salvador. No An­ 56. Ver 2Pe 2:14 e a nota ali, e 1 Co 1:7, 8 para a mesma idéia. De fato, alguns MSS, notando o paralelo com 2 Pedro, importaram aspilous kai, “ imaculados e ” no texto aqui antes de amomous de 2 Pe 2:14. 57. Rm 8:31.

182


JUDAS 25 tigo Testamento enfatiza-se que Deus é o Salvador do Seu povo; não há nenhum outro (Is 45 : 15). A doutrina cristã da salvação vai de mãos dadas com a unidade de Deus. O único Deus pessoal, santo e amoro­ so, criou o mundo, o mantém (sózêin , “ salvar” , é freqüentemente usado neste sentido), redimiu-o mediante Jesus Cristo, e será glorifi­ cado nele. Longe de colocar o Deus supremo contra o Demiurgo (con­ forme alguns sistemas gnósticos logo haveriam de fazer), este versí­ culo insiste que há um só Deus. Longe de colocar a atitude do Pai con­ tra o Filho na redenção (conforme alguns cristãos têm feito na sua doutrina da expiação), este versículo dá glória ao único Deus Salva­ dor mediante Jesus Cristo. Para Deus como Salvador, ver 1 Timóteo 1: 1; 2 :3 ; Tito 1:3 ; 2 : 10; 3 :4 , etc. Talvez a analogia mais estreita com este versículo, insistindo na unidade e na atividade salvífica de Deus, seja 1 Timóteo 2 :5 , 6 . No Novo Testamento, Cristo é chamado Salva­ dor dezesseis vezes, em comparação com oito vezes para o Pai. No Antigo, Deus livra o Seu povo Israel se e quando clama a Ele. No Novo Testamento, livra aqueles que não têm nenhum direito a Ele, gentios no caminho para a perdição. Mediante Jesus Cristo pode referir-se ou ao fato de que é me­ diante Cristo que Deus salva os homens, ou ao fato de que a glória somente pode corretamente ser atribuída a Deus mediante Jesus (cf. 1 Pe 4 : 11). A primeira interpretação é preferível, pois embora haja um sentido em que Jesus era ‘‘o Cordeiro que foi morto, dçsde a fundação do mundo” (Ap 13:8), não parece haver motivo para dizer que a gló­ ria foi somente dada a Deus mediante Cristo antes de todas as eras, pro pantos tou aiõnos. Seu significado é, decerto, que a atribuição de glória, majestade, império e soberania pertence aDeus: éum adecla­ ração de fatos, não uma oração58 no sentido de que estas coisas sejam atribuídas ao Todo-Poderoso. Realmente pertencem a Ele, mediante a realização eterna do Jesus encarnado. Sempre pertenciam a Ele, e Lhe pertencem agora. Sempre Lhe pertencerão — daí a certeza do “Amém” final. Amém regularmente encerra doxologias (cf. Rm 1:25 ; 9 :5 ; 1 Pe 4 : 11), e coloca um selo sobre esta atribuição confiante de glória Aquele a quem pertence — o Deus que pode! Das quatro palavras aqui empregadas para denotar a grandeza de Deus,c/ojca significa esplendor, glória, como aradiância da luz,mega58. Fazer com que esta seja uma oração é tirar o sentido de “ antes de todas as eras ” , e estragar todo o clímax confiante da Epístola.

183


I

JUDAS 25 lõsunS denota a majestade real. Aparece na doxologia em 1 Crônicas 29:11, e é empregada duas vezes (nos dois casos, para Deus) no Novo Testamento fora desta passagem (Hb 1:3; 8:1). Kratos, domínio, su­ gere o controle que Deus tem sobre o mundo; é o mundo dEle, e re­ pousa nas Suas mãos poderosas; ao passo que exousia, “poder” , so­ berania, expressa Sua capacidade de fazer qualquer coisa que seja. A radiância eterna de Deus foi cristalizada em Jesus Cristo (Jo 1:14; Hb 1:3); assim também Sua majestade, a grandeza real que sofre sem queixar-se; assim também Seu controle, no Senhorio de Jesus; assim também era Sua capacidade de fazer qualquer coisa, pois em Jesus Cristo, Deus está pronto para satisfazer qualquer das necessidades do homem. Tal é o nosso Deus, tais são Suas qualidades eternas, des­ vendadas em Cristo. A Ele devemos vir um dia, e devemos prestar nossas contas. Ele mesmo nos levará para o Pai se O deixarmos, e Ele nos apresentará imaculados diante da Sua glória. A Ele pertencem a, glória, e a majestade, e o domínio, e o poder para sempre! Amém.

184


COM ENTÁRIOS BÍBLICOS DA SÉRIE CULTURA BÍBLICA

Estes comentários são feitos de modo a dar ao leitor uma compreensão do real significado do texto bíblico.

A Introdução de cada livro dá às questões de autoria e data, um tratamento conciso mas completo. Isso é de grande ajuda para o leitor em geral, pois mostra não só o propósito como as circunstâncias em que foi escrito o livro. Isso é, também, de inestimável valor para os professores e estudantes que desejam dar e requerem informações sobre pontos-chave, e aí se vêem combinados, com relação ao texto sagrado, o mais alto conhecimento e o mais profundo respeito.

Os Comentários propriamente ditos tomam respectivamente os livros estabelecendo-lhes as seções e ressaltando seus temas principais. O texto é comentado versículo por versículo sendo focalizados os problemas de interpretação. Em notas adicionais, são discutidas em profundidade as dificuldades específicas. O objetivo principal é de alcançar o verdadeiro significado do texto da Bíblia, e tornar sua mensagem plenamente compreensível.

EDIÇÕES V ID A NO VA ED ITO R A M UNDO CRISTÃO


2 Pedro e Judas - Introdução e Comentário (Michael Green)