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An谩lise De Obras Filos贸ficas


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Certo e errado Thomas Nagel Ilustrações: Cláudio Nestor

Coleção Estudo


QUEM É THOMAS NAGEL

T

homas Nagel nasceu na ex-Iugoslávia em 4 de julho de 1937. É professor de Filosofia e de Direito e um dos mais respeitados filósofos atuais. Estudou em Cornell, Oxford e Harvard. Ensinou em Princeton de 1966 a 1980 e, depois disso, na Universidade de

Nova Iorque. É membro da Academia Americana de Artes e Ciências e da Academia Britânica. As suas obras já foram traduzidas em dezoito línguas. É autor de várias obras da Filosofia contemporânea, como The Possibility of Altruism (1970), Mortal Questions (1979), The View From Nowhere (1986), What does it all Mean? (1987) e Equality and Partiality (1991). The last word (1997), obra traduzida e publicada pela Editora Unesp, foi agraciada com o prêmio “Outstanding Academic

Book

of

1997”

da

Current

Reviews

for

Academic

Libraries

(Choice).

Publicou ainda Other Minds: Critical Essays, 1969-1994 (1995), que recebe as mais interessantes críticas na atualidade. Já a tradução de What does it all Mean?, uma obra de introdução à Filosofia para adolescentes, que aqui no Brasil recebeu o nome de Uma breve introdução à filosofia, publicada pela Editora Martins Fontes em 2001 e reeditada em 2007, demonstra suas preocupações pedagógicas com a Filosofia. Nas primeiras páginas dessa obra, ele declara: As nossas capacidades analíticas estão muitas vezes já altamente desenvolvidas antes de termos aprendido muita coisa acerca do mundo, e por volta dos catorze anos muitas pessoas começam a pensar por si próprias em problemas filosóficos – sobre o que realmente existe, se nós podemos saber alguma coisa, se alguma coisa é realmente correta ou errada, se a vida faz sentido, se a morte é o fim. Escrevese acerca destes problemas há milhares de anos, mas a matéria-prima filosófica vem diretamente do mundo e da nossa relação com ele, e não de escritos do passado. É por isso que continuam a surgir uma e outra vez na cabeça de pessoas que não leram nada acerca deles (Nagel, 2007. p.1-2). De um modo geral, a sua obra centra-se na natureza da motivação humana e na possibilidade de uma teoria racional da adesão moral e política, tendo estimulado significativamente o interesse nas abordagens realistas e kantianas desses assuntos. Um dos seus artigos mais discutidos na moderna Filosofia da mente tem sido o “What is it like to be a Bat?”, no qual argumenta que, na experiência, existe um aspecto subjetivo irredutível que não pode ser apreendido pelos métodos objetivos das ciências naturais, ou por filosofias do tipo funcionalismo, que se limitam a esses métodos. Principalmente em função de “What is it Like to be a Bat?”, Nagel é classificado, no mundo acadêmico, como um filósofo da mente, e esse artigo é uma referência de cunho filosófico para os estudiosos da mente. Nele, Nagel supostamente prova a irredutibilidade definitiva da subjetividade ou fenomenologia ao fisicalismo, ou a irredutibilidade do ponto de vista de primeira pessoa a uma consciência ou fenomenologia em terceira pessoa, ou seja, eu, na condição de sujeito cognitivo, nunca terei acesso, em primeira pessoa, à fenomenologia de uma terceira pessoa. O influente jornal cultural britânico Times Literary Supplement chamou-lhe “o filósofo mais interessante dos nossos dias”.

Editora Bernoulli

Análise de obras filosóficas ufmg 2010

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10 O PENSAMENTO DE THOMAS NAGEL EM suas obras Nagel é kantiano e um entusiástico discípulo de John

a filosofia da linguagem, a lógica e a aritmética, as ciências

Rawls, cuja obra, Uma Teoria da Justiça, é uma espécie de

empíricas, a ética e a filosofia política. A argumentação de

Bíblia social-democrata. Segundo seus companheiros, possui

Nagel é clara, mas sutil, ostentando a marca de um dos

um estilo alternadamente fascinante, irritante e inacessível.

maiores filósofos contemporâneos.

Ele penetra, com ironia e profundidade, questões abstrusas

Uma breve introdução à filosofia, de Thomas Nagel,

de lógica, positivismo, relativismo e ciência física, facultando

é uma obra bem diferente da comentada anteriormente

uma compreensão do que está sendo debatido no ambiente

(The last word), citada apenas a título de lembrança

extremamente atual e intenso da universidade americana.

do problema do relativismo. Ela aborda as principais

Em The last word (KANT, 1997), critica o relativismo

questões da Filosofia, partindo de exemplos do cotidiano e

na sua pretensão de ser a última palavra no que diz respeito

analisando várias perspectivas e teorias. No capítulo “Certo

à justificação de todas as nossas crenças e perspectivas,

e errado”, o qual propomos analisar, a hipótese de roubo

afirmando não só que são todas fruto de contingências

de um livro raro de uma biblioteca serve de pretexto para

históricas, sociais e biológicas, mas que só são encaradas

perguntar qual critério permite distinguir o (que julgamos)

como verdadeiras por motivos, também eles, contingentes. Os

certo do errado (moralmente). É ainda abordada a questão

valores perdem-se numa diversidade em que tudo é aceitável

do caráter relativo / absoluto dos valores (morais, neste

porque tudo tem uma justificação histórica, social ou biológica

caso). No geral, ele procurará polemizar e exercitar a

e porque esse gênero de justificação é o único que existe.

reflexão, como deixa claro na introdução da obra:

Mas poderá o relativismo ser realmente a última palavra nessa matéria? Thomas Nagel procura mostrar que o

[...] Não discutirei os grandes escritos filosóficos do passado

relativismo não pode ter a última palavra – o relativismo tem

nem o contexto cultural desses escritos. O núcleo

de ser discutido como uma proposta entre outras, em vez de

da filosofia reside em certas questões que o espírito

ser acriticamente aceito como uma verdade incontornável.

reflexivo

Mas ,quando o relativismo é confrontado com propostas rivais,

e a melhor maneira de começar o estudo da filosofia é pensar

não consegue impor-se como inequivocamente verdadeiro,

diretamente sobre elas. Uma vez feito isso, encontramo-nos

mesmo nos poucos casos em que não é ininteligível.

numa posição melhor para apreciar o trabalho de outras

O relativismo é uma das tendências culturais do fim do século XX e tem assumido várias formas, em diversos

humano

acha

naturalmente

enigmáticas,

pessoas que tentaram solucionar os mesmos problemas (Nagel, 2007. p.2).

domínios, invadindo a sociologia, a antropologia, a crítica literária, a filosofia e até os meios políticos, a cultura de

Em dez capítulos escritos de forma clara e sucinta,

massas e o jornalismo. Essa posição tem sido, no entanto,

Nagel apresenta os principais problemas filosóficos da

uma tentação constante ao longo da história do pensamento

atualidade. Para ele, aprender filosofia é começar a

ocidental, estando presente de uma forma ou de outra em

refletir a partir de problemas que nossa própria razão

filósofos tão distintos quanto Hume, Kant e, numa leitura

nos coloca, um caminho que está aberto a todos. Em seus

frequente, Wittgenstein. Hoje em dia, os seus representantes

textos, em nenhum momento, o leitor é sobrecarregado

mais notáveis são W. V. Quine, Nelson Goodman, Hilary

com o peso das citações ou com erudição desnecessária.

Putnam, Bernard Williams e Richard Rorty, entre outros.

Como todos os filósofos autênticos, Nagel imprime

Em The last word (KANT, 1997), uma obra admirável

sutil e elegantemente a marca de seu ponto de vista

pela sua clareza, seriedade e sutileza, Thomas Nagel leva a

acerca dos problemas da Filosofia: a irredutibilidade da

sério as propostas relativistas e mostra por que razão elas

experiência subjetiva à linguagem da ciência e a rejeição

não podem ser verdadeiras nos seus domínios principais:

ao materialismo reducionista.

Coleção Estudo


Não poderíamos viver sem tomar como garantidas as

quer dizer?1 A partir dessa questão, o autor sensibiliza o

ideias de tempo, número, conhecimento, linguagem,

leitor para a importância da Filosofia, na medida em que esta

bem e mal, a maior parte do tempo; mas em filosofia

potencializa a formulação correta dos problemas filosóficos,

investigamos essas mesmas coisas. O objetivo é levar o

verificando se estamos perante um problema genuíno ou não.

conhecimento do mundo e de nós um pouco mais longe. É

Para essas questões, surgem respostas que são apresentadas

óbvio que não é fácil. Quanto mais básicas são as ideias

como uma tentativa de solução provisória; são dadas de

que tentamos investigar, menos instrumentos temos para

uma forma cuidada, através da defesa de argumentos claros.

nos ajudar. Não há muitas coisas que possamos assumir

Digo que as respostas são tentativas provisórias para os

como verdadeiras ou tomar como garantidas. Por isso,

problemas emergentes, porque o autor quer mostrar que, na

a filosofia é uma atividade de certa forma vertiginosa, e

maioria das vezes, as soluções mais óbvias podem falhar.

poucos dos seus resultados ficam por desafiar por muito tempo (Nagel, 2007. p.3-4).

Cabe ressaltar que todos os problemas abordados em Uma breve introdução à filosofia fazem parte dos programas do Ensino Médio, pelo que essa obra se reveste de uma

Nagel admite a relevância da razão sobre a ciência e sobre

importância significativa para aqueles que se encontram nesse

a história. Ele propõe que sejamos racionais sim, mas sem

nível de ensino. Contudo, pela forma como os problemas são

nos esquecer da reflexão filosófica. Estimular a reflexão é

colocados, a atenção dada à clarividência da argumentação e

o leitmotiv de Uma breve introdução à filosofia, uma obra

a pertinência dos temas tratados transformam-na em uma

simples e acessível ao leitor familiarizado com os problemas

leitura fundamental para o público interessado em conhecer

filosóficos. Por sua simplicidade, o livro é recomendado a

um pouco mais sobre os problemas da Filosofia.

estudantes universitários que nunca tiveram contato com

O livro de Thomas Nagel não tem a pretensão de nos

a Filosofia anteriormente, uma situação comum no Brasil e

ensinar a teoria de Platão, nem a de Aristóteles, nem a de

nos Estados Unidos.

Descartes, nem tão pouco a de Kant ou qualquer outro

O objetivo de Thomas Nagel, ao longo de todo o livro,

filósofo; seu propósito é o de nos proporcionar o que, a este

é levantar questões, traçar distinções e formular hipóteses,

respeito, é fundamental em Filosofia: o de incomodar as

exercendo assim a faculdade crítica da razão, que é, afinal, a

consciências, o de abalar as nossas convicções que são fruto

própria função da Filosofia.

de preconceitos, estereótipos, hábitos e convenções sociais,

O título da obra surge da pergunta que colocamos sempre que nos deparamos com uma situação ambígua para a qual não temos uma justificação imediata: o que é que isso tudo

para refletir sobre os problemas filosóficos. 1 Uma breve introdução à filosofia foi o título brasileiro escolhido pelos editores da obra para a tradução de What does it all mean?

CERTO E ERRADO No início do capítulo “Certo e errado”, no livro Uma breve introdução à filosofia, Nagel propõe o seguinte problema:

Mas pode ser também que aquilo que, na sua opinião, ele propõe, esteja errado – que ele não deveria fazer isso e que você não deveria ajudá-lo. Se é assim que você pensa,

Imagine que você trabalha numa biblioteca, verificando os

o que isso significa e por que seria verdade, se é que seria?

livros que as pessoas levam ao sair, e um amigo lhe pede que

Nagel, 2007. p.63. (Adaptação).

o deixe levar às escondidas uma obra de referência muito difícil de se encontrar, que ele deseja ter para si. Qual o seu julgamento sobre essa questão? O motivo em Você pode hesitar em concordar por várias razões. Talvez tenha medo de que ele seja pego e que ambos, você e ele, se metam em encrencas. Talvez queira que o livro continue na biblioteca para que você mesmo possa consultá-lo quando desejar.

não concordar com o amigo seria •

por medo de ser repreendido e de sofrer alguma punição; pela sua vontade de que o livro continue na biblioteca; Editora Bernoulli

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12 • •

por achar que é “injusto com os outros usuários da

ir para o não-ser, isto é, caminhar para o mal. Eis aí

biblioteca” (p.64);

o pecado, que não é necessário e deriva, unicamente,

por acreditar que é “uma traição aos seus patrões,

da vontade do homem, nunca de Deus. Caminhando

que lhe pagam justamente para impedir esse tipo de

para o pecado, a alma decai e não consegue salvar-se

coisa” (p.64);

sozinha – vem, então, a graça divina para dirigir o

por acreditar que seria um ato errado, porque Deus

homem para o bem, sem, no entanto, privá-lo do

proíbe esse tipo de ação. Você não concordaria com

livre-arbítrio. Que Deus te ilumine nesta hora de conflito

seu amigo por medo de ser punido por Deus, ou por-

(iluminação divina; orientação teológica).

que você obedece aos seus mandamentos por amor a

Maquiavel → Caro jovem e promissor bibliotecário, não

Ele e por respeito ao amor que Ele sente por você.

existe o certo e o errado. Esses valores morais são entulhos

Como prometera na introdução, Nagel não dá ao leitor uma

aos jovens promissores que desejam atingir o ápice da

resposta, uma moral. Sua estratégia é apenas a de discutir o tema

sua carreira. Procure analisar a situação e aja com virtú.

e de elencar argumentos para enriquecer o debate, no máximo

Aquele que, em suas ações práticas, desdenhar a eficácia,

provocar outras discussões, como neste trecho do livro:

que quiser manter as mãos limpas e a alma pura, não sabe o que quer. A vontade de manter a moral a qualquer preço

a ideia de que uma coisa é errada depende do impacto que ela

(não mentir, não roubar, abster-se do uso da violência)

tem não apenas sobre aqueles que a praticam, mas também

pode levar – e, de fato, quase sempre leva – a resultados

sobre outras pessoas (Nagel. 2007. p.64).

históricos catastróficos do ponto de vista da própria moral. Ajude ou não seu amigo, mas antes verifique o que seria

Vamos imaginar, por outro lado, contrariando Nagel, como responderiam a esse problema eminentes filósofos ao orientar a decisão do funcionário da biblioteca:

melhor para o seu futuro (moral pragmática). Kant → Você deve consultar a razão pura e incondicionada, e dela surgirá uma proposta de ação, ou melhor, o seu

Sócrates → Ora, meu caro auxiliar da biblioteca,

dever. Chamo isso de imperativo categórico, ou seja,

o Bem é o que atende aos fins do homem, em especial ao

a ação apenas de acordo com a máxima que possa ao mesmo

seu desejo de felicidade. A ação moral é, portanto, um

tempo desejar que ela se torne a lei geral para todos os seres

bem viver, consigo mesmo e com a pólis. Busque, em

racionais. Confie na natureza humana, no uso da razão e na

você mesmo, essa resposta, orientando-se para a melhor

sua intuição intelectual. É moral a ação que é executada por

ação, a ação virtuosa (eudaimonismo moral).

dever, e não em função dos seus efeitos (ética racionalista).

Aristóteles → De acordo com os fatos, seu amigo

Schopenhauer → Meu jovem senhor, a compaixão é a

não é um amigo de verdade. A verdadeira amizade

única motivação genuinamente moral. Aclareie sua cabeça,

é desinteressada e apenas procura o Bem praticando

instrua seu intelecto e busque a compreensão mais correta

ações virtuosas. A justiça e a amizade possuem os

e objetiva das verdadeiras relações de vida. Verifique

mesmos fins, e sabemos que a amizade é superior à

agora se nela estão ausentes os motivos egoístas. Agora

justiça, pois a justiça é utilizada para contornar nossos

siga essa recomendação: ajuda a todos quanto puderes.

atos em relação ao próximo que não conhecemos.

Se em você for despertado aquele contentamento íntimo

Com os nossos verdadeiros amigos, não precisamos

que chamamos de consciência boa, esteja certo de que você

de justiça, pois a natureza da amizade nos é completa,

agiu com valor moral (ética da compaixão).

como mais autêntica forma de justiça. Porém, neste caso,

Fizemos anteriormente algo que não foi proposto por

é diferente, e você deve se conduzir racionalmente e julgar

Thomas Nagel: discutir o pensamento de outros filósofos

o que é melhor para a pólis (eudaimonismo da pólis).

de acordo com seus fundamentos morais. Ao violar a

Santo Agostinho → Meu filho, saber o que é certo é

intenção do autor2, instruindo-nos nas correntes filosóficas

possível, porque as ideias, as verdades, estão presentes em nosso intelecto e Deus nos concede a graça de

2  “[...] ficaria muito satisfeito se o livro despertasse o

iluminá-las, para que possamos conhecê-las. Você está

interesse também de alunos inteligentes do ensino médio

sofrendo uma tentação, e sua vontade pode afastá-lo de

que apreciam ideias abstratas e argumentos teóricos [...]”

Deus, pelas escolhas erradas. Afastar-se de Deus significa

(Nagel, 2007. p.1).

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para esclarecer certos pontos do problema, explicitamos

parece, então, que não haverá um único certo e errado para

o oposto do objetivo do livro e deixamos aqui claro que

todo o mundo (Nagel, 2007. p.74).

respeitamos o que ele denominou de “o cerne da filosofia” (Nagel, 2007. p.2). Como Nagel, também acreditamos que, inicialmente, devemos experimentar a dúvida, por isso, sugerimos que

Pergunta 1: Somente podemos encontrar o certo e o errado? Trecho 2:

o restante do capítulo seja tratado na forma de um debate,

Por exemplo, algumas pessoas acreditam que, mesmo que

sem a análise da obra, apenas com declarações e com

consiga, neste mundo, escapar impune de crimes terríveis

reflexões de todos os envolvidos, sem as referências de

e não seja castigado pela lei dos homens, esses atos são

outros estudiosos ou pela interferência de nossa opinião.

proibidos por Deus, que te castigará após a morte (e que te

Para dar uma forma a esse debate, propomos um

recompensará se não tiveres agido mal quando foste tentado).

procedimento em que alguns trechos da obra são citados e

Portanto, mesmo que pareça que é do teu interesse agir de um

a seguir algumas perguntas são feitas para sua reflexão:

certo modo, na realidade não o é. Algumas pessoas chegam

Trecho 1:

mesmo a acreditar que, se não existisse Deus para sustentar

Se o fato de algo ser errado deveria ser uma razão para

os requisitos morais com a ameaça do castigo e a promessa da

não fazê-lo e suas razões para fazer as coisas dependem de

recompensa, a moral se tornaria uma ilusão: “Se Deus não

seus motivos, e os motivos das pessoas podem variar muito,

existe, tudo é permitido” (Nagel, 2007, p. 66).

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14 Pergunta 2: A moral é uma exclusividade da teologia? Trecho 3: Muitas coisas que você provavelmente considera erradas foram aceitas como moralmente corretas por grandes grupos de pessoas no passado: escravidão, servidão, sacrifício humano, segregação racial, negação de liberdade política e religiosa, sistemas de castas hereditárias (Nagel, 2007. p.76). Pergunta 3: Certo e errado são relativos a uma época, lugar ou contexto social específicos?

COMENTÁRIOS FINAIS A proposta de Thomas Nagel é fundamental para a educação filosófica, a partir do pressuposto de que todos nós possuímos crenças filosóficas, quer dizer, crenças fundamentais acerca de tudo, por exemplo, da natureza das coisas, da diferença entre o certo e o errado, da existência ou da inexistência de Deus, da justiça, etc. Mas todas essas crenças filosóficas são discutíveis mesmo que não percebamos. Como é inevitável possuir crenças filosóficas, também é inevitável problematizar a verdade dessas crenças. Ora, é justamente isso que os filósofos fazem. Poderá alguém legitimamente perguntar: para quê? Bem, para tentar encontrar a melhor resposta possível para as questões que não podem ser resolvidas pela ciência, pelo senso comum ou pela fé. Como dizia Sócrates, “uma vida não examinada não merece ser vivida”.

REFERÊNCIAS KANT, Immanuel. Crítica da razão prática. Tradução de Valério Rohden. São Paulo: Martins Fontes, 2003. KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes: 1785. Tradução de Paulo Quintela. São Paulo: Abril Cultural, 1980. (Coleção Os pensadores). KANT, Immanuel. The last world. New York: Oxford University Press, 1997. NAGEL, Thomas. Certo e errado. In: __.Uma breve introdução à filosofia. Tradução de Silvana Vieira. São Paulo: Martins Fontes, 2007. PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1980. SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre o Fundamento da Moral. Tradução de Maria Lúcia de Mello Cacciola. São Paulo: Martins Fontes, 1995. TEIXEIRA, J. de F. Assombrações da Pós-Modernidade. Folha de S.Paulo, 11 jun. 2001. Caderno Mais, p. 7.

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QUESTÕES 01.

Leia o trecho a seguir:

03.

Não há nenhum substituto para a preocupação direta

seguinte suposição: a exigência de fundamentação do

moral deve aplicar-se a todos: e poderemos pressu-

princípio moral não parece descabida na medida em

por que todos têm tal preocupação com os outros? É

que a toma como uma tarefa exequível e necessária.

óbvio que não: algumas pessoas são muito egoístas, e

REDIJA um texto sobre o fundamento da moral na

mesmo aquelas que não o são só podem preocupar-se

concepção cética.

com as pessoas que conhecem, e não com toda a gente. todas as pessoas a não prejudicarem os outros, mesmo aqueles que não conhecem? Bem, existe um argumento geral contra o ato de prejudicar outras pessoas que pode ser entendido seja por quem for que entenda nossa língua (ou outra língua qualquer) e que parece mostrar que qualquer pessoa tem alguma razão para se preocupar com os outros, mesmo que os seus motivos egoístas acabem por ser tão fortes que continue, de qualquer maneira, a maltratar os outros. Tenho a certeza de que é um argumento que já ouviste e que é este: “Você gostaria que alguém fizesse o mesmo com você?” NAGEL, Thomas. Certo e errado. In: __. Uma breve introdução à filosofia. Tradução de Silvana Vieira. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 68. Baseando-se no trecho apresentado e nos graus de valores morais que a pergunta possa invocar, REDIJA um texto explicativo sobre o funcionamento do argumento apresentado.

02.

(UFMG–2007) “Se Deus não existisse, tudo seria permitido.” Essa frase é um comentário de Sartre a uma passagem do romance Os irmãos Karamázovi, de Dostoievski, e diz respeito ao problema filosófico da relação entre moral e religião. REDIJA um texto argumentando a favor de ou contra a ideia expressa na frase destacada de Sartre.

moral, importa sublinhar que ela é recorrente em toda

história da filosofia. A maioria dos filósofos opera com a

com as outras pessoas como base na moral. Mas a

Portanto, onde iremos encontrar uma razão que leve

No que concerne à problemática da fundamentação da

04.

Leia a narrativa abaixo retirada da obra A república, de Platão, que conta a história de Giges. Era ele [Giges] um pastor que servia em casa do que era então soberano da Lídia. Devido a uma grande tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava o rebanho. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá dentro um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na mão. Arrancou-lho e saiu. Ora, como os pastores se tivessem reunido, da maneira habitual, a fim de comunicarem ao rei, todos os meses, o que dizia respeito aos rebanhos, Giges foi lá também, com o seu anel. Estando ele, pois, sentado no meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora o engaste. Assim que o fez, tornou-se visível. Tendo observado estes fatos, experimentou, a ver se o anel tinha aquele poder, e verificou que, se voltasse o engaste para dentro, se tornava invisível; se o voltasse para fora, ficava visível. Assim senhor de si, logo fez com que fosse um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim se assenhoreou do poder. PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1980, 359 d-360 a. Utilizando-se dos elementos da narrativa acima e da leitura do livro de Thomas Nagel, no capítulo intitulado “Certo e errado”, REDIJA um comentário sobre a natureza humana e o fundamento dos valores morais. Editora Bernoulli

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16 05.

A religião funda a moral sobre o dogma e a filosofia sobre a metafísica. Por que tanta insistência em fornecer um fundamento metafísico ao fenômeno ético? REDIJA um texto explicando esse fundamento.

06.

Leia o texto abaixo: Por exemplo, deves preocupar-te tanto com qualquer outra pessoa como te preocupas contigo? Por outras palavras, deves amar o teu próximo como a ti mesmo (mesmo que não te seja próximo)? Deves perguntar a ti mesmo, sempre que vais ao cinema, se o dinheiro do bilhete poderia dar mais felicidade se o desses a alguém ou o doasses às instituições que ajudam as vítimas da fome? Muito poucas pessoas são assim tão altruístas. E, se alguém fosse assim tão imparcial entre si próprio e os outros, sentiria, provavelmente, também que devia ser igualmente imparcial entre as outras pessoas. Isso impediria que se preocupasse mais com os seus amigos e familiares do que com os estranhos. Poderia ter sentimentos especiais por certas pessoas mais próximas, mas a imparcialidade total quereria dizer que não os favoreceria – se, por exemplo, tivesse de escolher entre ajudar um amigo ou um estranho para lhe evitar sofrimento ou entre levar os filhos ao cinema e doar o dinheiro às instituições que ajudam as vítimas da fome. Nagel, 2007. p.72-73. Conhecemos vários exemplos de atitudes altruístas e algumas vezes elas se tornam notícia jornalística. CITE um exemplo de uma atitude altruísta e REDIJA um texto respondendo às seguintes questões: por que nos espantamos com o altruísmo? Se todos tivéssemos uma parcela desse comportamento, nossa sociedade resolveria seus problemas sociais?

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SUGESTÕES DE RESPOSTAS 01. O

conforme as leis prescritas apenas com medo de sermos

argumento citado é muito usado na prática e, várias vezes, proporciona bom resultado. Seu objetivo é o de interromper uma determinada ação que julgamos prejudicial a outra pessoa e, ao mesmo tempo, requerer do agente uma reflexão, uma ponderação ou uma tomada de consciência de sua atitude. Muitos dos nossos erros são causados por nossas ações apressadas, emotivas e condicionadas aos nossos preconceitos imediatos. Esse argumento é relativamente forte e apela às nossas emoções, buscando, nas lembranças e nas perspectivas, subsídios para uma

punidos. Nagel, em seu livro, afirma que “o medo do castigo e a esperança de recompensa, e mesmo o amor de Deus, parecem não ser os motivos certos para a moral” (Nagel, 2007. p.67). Este é um genuíno problema filosófico que ainda está em aberto, apesar da longa história de discussões. Gosto de pensar em Platão, que uma pessoa que conheça a essência da bondade sabe que só pode ser feliz se agir corretamente, e assim, a posse do anel não fará diferença para ela. Mesmo intocável pelo longo braço da lei,

reavaliação da situação para evitar um erro.

02. “Ao contrário do que diz Sartre, eu acredito que entre os homens existe um senso moral que precede uma divindade.

O imperativo categórico de Kant e o superego de Freud

esse indivíduo que detém o conhecimento não se sentiria

05.

representam ideias muito parecidas: a de que a maior moral

fundamento da moralidade, são, no entanto, estruturas básicas indispensáveis para pensarmos a constituição do homem,

O homem tem a necessidade de viver em grupos e os grupos

suas perspectivas, e assim podermos discutir a vida moral e a

precisam de regras para funcionarem. As regras, muitas vezes, respeito à sociedade em que o indivíduo se encontra inserido. Culturas pagãs funcionaram bem por muito tempo e não se

interpretação das relações da vida.

06. Por

altruísmo, entendo não o autossacrifício abjeto, mas apenas a vontade para agir em consideração aos interesses das outras pessoas, sem necessidade de motivo qualquer. Por exemplo, podemos citar as ações dos voluntários em um hospital que trata pessoas com câncer. Há, nessas pessoas, um puro desprendimento3.

pode dizer que existem mais ateus do que crentes nas prisões.

03.

Existe sim uma moral religiosa, mas não é a única.” Para a visão cética, não há nenhuma moral natural independente do estatuto humano, mas esta é, em toda a sua extensão, um meio utilizado para melhor domesticação do egoísta e maldoso gênero humano. Os pirrônicos diziam: “não há por natureza nem bem nem mal, mas é a mente dos homens que os diferenciou” (Sexto Empírico, Adversus mathematicos II. 140). Para o cético, na incerteza, há uma moral provisória: a ordem jurídica e a opinião pública passam a ser o fundamento da obrigação moral.

04. A questão debatida em torno da história do anel de Giges é

que, se uma pessoa que pode se tornar invisível está além do alcance de qualquer atitude coercitiva para praticar o bem, ainda assim seria boa. Com outras palavras, tendemos a praticar ações corretas naturalmente e só erramos quando somos dominados pelas nossas fraquezas, ou agimos

necessidade de explicar o que são o mundo e a existência sejam de modo nenhum a fonte originária ou o primeiro

não é possível desobedecer.

são seguidas não por temor a um castigo divino e sim por

Na Filosofia, qualquer que seja seu fundamento ético, há uma em geral. Embora princípios e conhecimentos abstratos não

do homem é interna e não externa e que ela é a única à qual

tentado a agir de forma diferente.

Essas atitudes, geralmente, espantam-nos porque contrariam nosso modo egoísta de viver. Ficamos pasmos nos relatos desses casos e nos perguntamos: por quê? Onde ele arranjou tempo para isso? O que ele ganha ao ajudar os outros? O que ele quer dizer com essa ação?

Sim, é muito difícil explicar uma atitude altruísta, e isso nos incomoda, mas, se esse tipo de ação fosse feito com mais frequência, muitos problemas básicos poderiam ser amenizados, como a fome, a educação, a moradia, entre outros.

3  Outros exemplos de atitudes altruístas: os médicos de fronteira; os “anjos da noite” que levam um prato de sopa para os sem-teto; os voluntários da escola que vão às instituições pobres e ensinam gratuitamente, etc.

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